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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:36:51 -0700 |
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LUSO-HESPANHOLA"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + a {text-decoration: none;} + h1, h2 { text-align: center;margin-top: 3em;} + h3, h4, h5, h6 {text-align: center;} + h6 {margin-top: 1em;} + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + .direita {position: absolute; right: 10%; vertical-align: bottom;} + .sinopse, .indice p {text-align:justify; font-size: 0.8em; text-indent: -1em; margin-left: 1em;} + td {vertical-align: bottom; padding-left: 1em; text-align: left;} + #mapa td {vertical-align: bottom; padding: 0.2em; font-size: 0.6em;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 1px #000000;} + .dotted {border-bottom: dotted 2px #000000;} + .indice p {text-indent: -1em; margin-left: 1em;} + .rodape { margin: 1.5em;padding: 0.5em; font-size: 0.8em; border:dotted 1px #cccccc;} + .rodape td {vertical-align: bottom; padding-left: 0;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Portugal e Brazil: emigração e colonisação, by +Domingos Antonio Gomes Pércheiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Portugal e Brazil: emigração e colonisação + +Author: Domingos Antonio Gomes Pércheiro + +Release Date: February 2, 2009 [EBook #27964] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E BRAZIL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by Cornell +University Digital Collections) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p style="text-align: center; font-size: 2em;">PORTUGAL E BRAZIL</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<table border="0" align="center" summary="Obras do autor"> + +<tr><th colspan="2">OBRAS DO MESMO AUCTOR</th></tr> + +<tr><td>QUESTÕES DO PARÁ, 1 vol:</td><td>500</td></tr> + +<tr><td>COISAS BRAZILEIRAS, opusculo</td><td>200</td></tr> + +<tr><td>COMMENDADOR E BARÃO, 1 vol:</td><td>600</td></tr> + +<tr><td>Elementos de Economia POLITICA(cartas a um estudante) traducção</td><td>160</td></tr> + +<tr><th colspan="2">EM VIA DE PUBLICAÇÃO</th></tr> + +<tr><td colspan="2">OS AVENTUREIROS, drama fundado em epysodios da emigração.</td></tr> + +</table> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 3em;">PORTUGAL E BRAZIL</p> + + +<p style="font-size: 1.2em;">EMIGRAÇÃO E COLONISAÇÃO</p> + + +<p style="font-size: 1.2em;">(CRITICA)</p> + + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + + +<p><b>D. A. GOMES PÉRCHEIRO</b></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>1878<br> +TYP. LUSO-HESPANHOLA<br> +35—Travessa do Cabral—35<br> +LISBOA</p> +</div> + +<div class="indice"> +<h3>INDICE</h3> + +<h4>CAPITULO I</h4> + +<p><a href="#pag_9">A emigração de trabalhadores para o Brazil e os salarios +de cá e de lá. Os artistas e os salarios. O lado economico. O clima aos olhos +do homem pratico e do homem de sciencia. O clima e a febre amarella. A +mortalidade de Portugal e Brazil comparada. A ambição causante principal da +emigração. Remedios ao mal. A escolla. Colonias no Alemtejo. A inspecção da +emigração. A liberdade perante a emigração. Portugal, Belgica e Hollanda. A +riqueza do solo e suas respectivas populações comparadas. Terrenos +incultos.</a></p> + +<h4>CAPITULO II</h4> + +<p><a href="#pag_39">Os advogados da emigração e a companhia Transantlantica. +Remuneração ao trabalho. O custo da escravatura preta e o custo da +escravatura branca. O definhamento da agricultura no Brazil, por causa da +falta de braços. Erros do jornalismo a respeito da emigração. O «Diario de +Noticias» e o sr. Fernão Vaz e o drama «Os Aventureiros». Um livro a favor da +emigração e o auctor das «Farpas». Elogios e sensuras. A praça do commercio +do Porto e uma penna de ouro.</a></p> + +<h4>CAPITULO III</h4> + +<p><a href="#pag_62">As falsas doutrinas sobre emigração. A nova terra da +promissão, ou o paiz de romanos. Rocha Pitta e Augusto de Carvalho. O escravo +e a sua emancipação. As leis brazileiras sobre colonisação. A legislação +n'outros paizes. A religião brazileira é contraria á emigração europea. A +reforma religiosa nos seculos XVI e XVII concorreu para o engrandecimento dos +Estados Unidos da America. Os jesuitas e a escravatura na America do Sul. Os +jesuitas e os bandeirantes. Nobrega, Anchieta e os indios. Desmandos dos +jesuitas. Contradicções. Os hollandezes em Pernambuco. Heroes, traidores e +authomatos na restauração de 1643. Fernandes Vieira e André Vidal de +Negreiros. Horrores historicos.</a></p> + +<h4>CAPITULO IV</h4> + +<p><a href="#pag_102">A pastoral do bispo de Braga e a emigração. A +Beneficente e a Caixa de Soccorros de D. Pedro V. Prescripções hygienicas. +Considerações do advogado do consulado no Rio de Janeiro. A commissão da +emigração e os raciocinios estramboticos do auctor do «Brazil» a respeito dos +crimes em Portugal. Os crimes no Brazil. Os nossos raciocinios. Affluencia de +capitaes do Brazil nas praças portuguezas.</a></p> + +<h4>CAPITULO V</h4> + +<p><a href="#pag_136">Os relatorios dos consules e a emigração. Um pedido á +imprensa. A colonisação no Brazil e a lei do trabalho de 11 de outubro de +1837. Contractos de locação de serviço. Sevicias dos fazendeiros contra os +escravos brancos. Ainda a febre amarella e a imprensa. Roceiros, engajadores +e armadores de navios. A lei portugueza de 20 de julho de 1855 e a emigração +clandestina. A diplomacia envolvida no assumpto. O regulamento brazileiro de +1 de maio de 1858. Intrigas diplomatas. Serviços do conde de Thomar, nosso +embaixador na côrte do Rio de Janeiro. O sr. José de Vasconcellos e as +evasivas do governo brazileiro, a respeito da convenção sobre a emigração e +propriedade litteraria.</a></p> + +<h4>CAPITULO VI</h4> + +<p><a href="#pag_223">Ainda as questões do Pará. Os pasquins de cá e os +pasquins de lá. As «Farpas» e a «Tribuna». «Lo Spirito Folletto e o «Punch». +Desforços da «Tribuna». A popularidade da «Tribuna». Pasquins +brazileiros.</a></p> + +<h4>CAPITULO VII</h4> + +<p><a href="#pag_250">Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará. Uma +boa recepção! As proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia +Americana. Os officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do +governo brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos +excessos. Uma carta de além tumulo.</a></p> + +<h4>CAPITULO VIII</h4> + +<p><a href="#pag_290">O julgamento dos assassinos dos portuguezes em +Jurupary. O tribunal da primeira instancia em Chaves e o da Relação no Pará. +Desenlace providencial contra decisões horrorosas dos tribunaes brazileiros. +Processo contra Marcelino Nery. Pasquins da «Tribuna» antes e depois da +condemnação. Novos pasquins em 1876 chamando ás armas contra os portuguezes. +O clero accusado de cumplice dos pasquineiros. Um portuguez condemnado +irrisoriamente por um tribunal da primeira instancia e absolvido depois pela +Relação no Pará. A diplomacia portugueza e a condemnação á morte de um +portuguez na Bahia. Um benemerito defensor do portuguez.</a></p> + +<p><a href="#pag_353">Notas</a></p> + +<p><a href="#pag_377">Questões do Pará (critica)</a></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Aos meus illudidos compatriotas que vêem no Brazil uma nova terra da +promissão.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>(<span style="font-variant: small-caps">Questões do Pará.</span>)</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;"><span class="pagenum"><a +id="pag_5" name="pag_5">[5]</a></span>AO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;"><i>Ill.<sup>mo</sup> e +Ex.<sup>mo</sup> Sr.</i></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">JOSÉ MARIA DOS SANTOS</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">O PRINCIPAL COLONISADOR</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">DO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">ALEMTEJO<span +class="pagenum"><a id="pag_6" name="pag_6">[6]</a></span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;"><span class="pagenum"><a id="pag_7" +name="pag_7">[7]</a></span><i>Aos distinctos compatriotas</i></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span style="font-variant: small-caps">Dr. José Rodrigues de Mattos, +Manuel Alves Ferreira, José Guilherme Koopk Correia Pinto, Manuel Gaspar de +Carvalho, J. Teixeira Basto, Bernardo Antonio d'Oliveira Braga e Manuel +Joaquim Pereira de Sá.</span><span class="pagenum"><a id="pag_9" +name="pag_9">[9]</a></span></p> + +<div id="corpo"> +<h1>CAPITULO I</h1> + +<p> </p> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0010001">A emigração de trabalhadores para o Brazil e os +salarios de cá e de lá. Os artistas e os salarios. O lado economico. O clima +aos olhos do homem pratico e do homem de sciencia. O clima e a febre +amarella. A mortalidade de Portugal e Brazil comparada. A ambição causante +principal da emigração. Remedios ao mal. A escolla. Colonias no Alemtejo. A +inspecção da emigração. A liberdade perante a emigração. Portugal, Belgica e +Hollanda. A riqueza do solo e suas respectivas populações comparadas. +Terrenos incultos.</a></div> + +<p> </p> + +<h2>I</h2> + +<p>A questão da emigração dos portuguezes para o Brazil, tem sido um +labyrintho em que muitas intelligencias se têem perdido, sem que, +infelizmente para Portugal, se tenha adiantado muito na descoberta do +verdadeiro antidoto, que deve pôr termo ao mal, que parece querer definhar a +patria; e com tudo suppõe-se que a ultima palavra já foi dita, e que +desapparecerá por consequencia o nó gordio que prendia o fio d'esta questão +transcendentissima; e a final as cousas estão no mesmo pé em que estavam.</p> + +<p>Sem querermos por fórma alguma accusar de inhabeis os grandes talentos, +que tem sido chamados a este campo vastissimo, por demasiado complexo, não +podemos ainda assim deixar de sentir, que o assumpto tenha sido apenas +tratado no campo da theoria, onde a habil dialectica de sapientes escriptores +caduca á vista<span class="pagenum"><a id="pag_10" +name="pag_10">[10]</a></span> dos mais pequeninos argumentos produzidos pela +prática.</p> + +<p>Mas a nossa questão, escrevendo sobre assumpto tão momentoso, não se cifra +em demonstrar que os estudos baseados na theoria, em que vemos geralmente +aconselhar aos governos o respeito pela liberdade do <i>cidadão</i>, mas á +sombra da qual se commettem muitos abusos, são perniciosos ao paiz. Não que o +nosso fim é outro. É, sem tentar romper o envoltorio do nosso espirito assaz +humilde, e sem desejar ferir susceptibilidades, seguir caminho menos trilhado +e menos escabroso, com o fim de achar a causa do mal e apontal-a aos +verdadeiros medicos da nação, para que lhe appliquem um remedio energico e +salutar.</p> + +<p>Estudemos, pois, a questão debaixo do ponto de vista da pratica, e +começemos por fazer as seguintes proposições:</p> + +<p>—Quaes são as razões que induzem o portuguez a emigrar para o Brazil?</p> + +<p>—Será a necessidade de obter os meios de subsistencia?</p> + +<p>—E caso assim seja, não haverá em Portugal trabalho sufficiente para que +o portuguez necessitado obtenha esses meios?</p> + +<p>—Ou será a ambição que o leva a dar esse passo?</p> + +<p>Quem responder ao primeiro quesito com a affirmativa do ultimo, parece-nos +que terá respondido ao 2.º e ao 3.º; porque a quem tem precisão de trabalhar, +não faltam em Portugal os meios necessarios á subsistencia; e esse trabalho é +aqui mais bem remunerado do que no Brazil.</p> + +<p>Passemos a demonstrar esta asserção.</p> + +<p>Na actualidade o portuguez trabalhador ganha, em geral, nunca menos de 500 +réis diarios. Em qualquer parte do paiz se sustenta com 250. Resta-lhe, por +tanto, 250 réis. Calculemos os lucros obtidos em 10 annos, a<span +class="pagenum"><a id="pag_11" name="pag_11">[11]</a></span> 300 dias uteis +por cada um, e teremos em 3:000 dias, 750$000 réis.</p> + +<p>O portuguez em eguaes condições, ganha no Brazil 2$000 réis fracos. Para +sustentar-se precisa despender 1$500 réis. Resta-lhe a quarta parte do +salario; isto é 500 réis diarios. Contrahiu, antes de sahir do paiz, para +poder expatriar-se, uma divida de 200$000 réis. Chegado a terras brazileiras, +não pôde logo encontrar trabalho; alem d'isso o clima inutilisára-o por algum +tempo, se n'este comenos não vem a <i>febre amarella</i>, que sympathisa +muito com os estrangeiros...</p> + +<p>Para estas demoras precisa contrahir mais um emprestimo de 100$000 réis. +Esta divida de 300$000 réis, moeda fraca, hade amortisal-a em 2 annos, que +representam justamente 600 dias uteis de trabalho. Calculados estes a 500 +réis, se souber economisar aquelle lucro, prefazem os 300$000 réis em +questão. Restam-lhe por consequencia 8 annos, ou 2:400 dias uteis, que a 500 +réis importam em 1:200$000 réis, ou 600$000 réis, moeda portugueza.</p> + +<p>Differença contra o trabalhador do Brazil:—150$000 réis fortes!</p> + +<p>Aos que nos queiram observar, dizendo que estipulamos um salario +extraordinario—o de 500 réis—ao trabalhador de cá, diremos que á maior +parte dos trabalhadores, contractados aqui para as roças do Brazil, se +estipula um salario muitissimo inferior ao mencionado acima—o de 2$000 réis +fracos,—se não falham as informações consulares, que temos á vista; salario +que costumam dar no Brazil ao trabalhador <i>livre</i>, áquelle que vai ao +acaso, e que não se deixa illudir pelos aliciadores. E mais adiante +provaremos tambem, que ha contractos feitos em Portugal pelos trabalhadores +engajados, nos quaes se estipula, como recompensa ao trabalho no Brazil, a +magra importancia de 80, 100 e 120 réis fracos, diarios!...<span +class="pagenum"><a id="pag_12" name="pag_12">[12]</a></span></p> + +<p>Mas fallemos agora do artista, sem tratarmos das suas despezas, que para +esta classe de operarios, é sempre muito superior, e o mesmo acontece entre +nós.</p> + +<p>O artista, em geral, ganha no Brazil, de 3$000 a 5$000 réis, moeda fraca. +Em Portugal variam entre 800, 1$000, 1$200, 1$500 e 2$000 réis, moeda +forte!</p> + +<p>Quem quizer que se dê agora ao incommodo de orçar as despezas de +sustentação, e diga-nos depois se ha compensação possivel.</p> + +<p>Diz um portuguez, que, como nós, examinou de perto o assumpto, que não +conhecia no Brazil qualquer logar onde um homem, com pequena familia possa +despender menos de um conto de réis por anno, tendo mesmo um viver de +proletario: a razão é, accrescenta o nosso compatriota, que sendo o dinheiro +barato, tudo o mais é caro, excepto os productos do paiz, como assucar, café, +farinha de mandioca e carne, nos lugares de producção. Um par de botinas que +em Portugal custa 2$000 réis, vende-se no Brazil por 14$000 réis; o feitio de +umas calças, que em Portugal regula por 400 réis, no Brazil não se obtem por +menos de 4$000 réis; uma duzia de ovos vende-se aqui por 160 réis, e lá custa +1$000 réis; uma visita do medico custa 4$000 réis, e diz elle que viu pagar +por uma operação e curativo de oito dias 1:600$000 réis, sendo esta quantia +exigida pelo cirurgião!<a name="tex2html1" +href="#foot425"><sup>[1]</sup></a></p> + +<h2>II</h2> + +<p>Se o preço dos salarios no Brazil e o custo da vida não compensa o +sacrificio que o portuguez vae fazer, emigrando, o clima insupportavel dos +tropicos deve desvanecer-lhe completamente as tentações ambiciosas de<span +class="pagenum"><a id="pag_13" name="pag_13">[13]</a></span> ser rico n'um +paiz onde o sol e a humidade inutilisa a saude do europeu.</p> + +<p>Soccorramo-nos de opiniões mais authorisadas do que a nossa, e encaremos a +questão do clima brazileiro pelos dois pontos de vista, o da pratica e o da +theoria, para assim satisfazermos aos espiritos mais exigentes.</p> + +<p>O pratico, aquelle que vio as cousas de perto, diz o seguinte:</p> + +<p>Demorei-me bastante tempo no sul do imperio e tive occasião de fazer as +seguintes exactas observações: o thermometro centigrado não sóbe no estio a +mais de 35 graus, assim como não desce no inverno a menos de 5, acima de +zero. Mas o que ha de notavel é a variedade da temperatura na mesma estação. +De um momento para o outro o thermometro marca a differença de 6 graus. Na +quadra mais fria eu observei dias de 25 e na mais quente a de 16 graus.</p> + +<p>Para quem não possue uma natureza previligiada, estas grandes e rapidas +variações são muito sensiveis, principalmente emquanto se não está aclimado. +Eu usei sempre na mesma quadra roupa de duas estações, que alternava segundo +as alterações que se davam na atmosphera; e quem não tiver esta prevenção ha +de forçosamente soffrer.<a name="tex2html2" +href="#foot166"><sup>[2]</sup></a></p> + +<p>Não nos parece que o trabalhador possa ter d'estas prevenções, que +custariam dez vezes mais o salario porque elle contracta o serviço que vae +prestar no Brazil, admittindo ainda que ao trabalhador seja permittido usar +de resguardos na lavoura.</p> + +<p>O homem de sciencia, que não é extranho ao viver dos tropicos, porque +reside no Brazil, e d'ali nos alumia com a vastissima luz da sua profunda +intelligencia, diz o seguinte a respeito do clima brasileiro:</p> + +<p>Bucener, Lind, Hunter, Zimmermam, etc, pelos resultados<span +class="pagenum"><a id="pag_14" name="pag_14">[14]</a></span> das suas +experiencias e observações, opinam quasi unanimes em que nos paizes situados +entre os tropicos, ou seja na America, Africa, Asia, com poucas excepções, as +raças que habitam a Europa, quando passam a viver entre os tropicos, declinam +physica e moralmente na razão da maior latitude das suas naturalidades, para +a menor latitude da localidade tropical. A calorificação do animal europeu +perde quatro graus na temperatura do sangue; a respiração é mais frequente, +as pulsações do coração mais rapidas, 15 systoles a 20 por minuto em todas as +idades; o sangue, e as secreções e excreções alteram-se nas qualidades e +propriedades, bem como a fibra alimentar, o figado e o apparelho gastico +funccionam mal; a pelle fica laxa, excitada; permanentemente depauperam-se as +forças organicas pela excessiva transpiração, que conduz ao estado de +enfraquecimento geral de funcções animaes; effeitos causativos da fraqueza +organica.</p> + +<p>Os diversos estados de accumulações electricas na atmosphera, as mudanças +sensiveis da temperatura em um mesmo dia, a variedade dos ventos, as +tempestades e chuvas, precedidas ou succedidas a um grau de calor ou vento +fresco, occasionam e produzem as diversidades de molestias de pulmão, das +vias gasticas, da pelle, das mucosas, das febres intermittentes e typhoides, +das molestias ephemeras e de systema nervoso: sempre ameaçando a vida nos +diversos estados mais ou menos agudos, mais ou menos chronicos. Os europeus +que conseguem acostumar-se a estas alternativas estranhas á sua economia, nem +por isso conseguem readquirir a mesma natureza organica e vital, como no paiz +d'onde procederam; e transmittem ás suas gerações um germem enfraquecido, +d'onde resulta a progressiva degeneração dos paes a filhos, que bem depressa +conduzirá até á extincção da especie.<a name="tex2html3" +href="#foot4251"><sup>[3]</sup></a></p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_15" name="pag_15">[15]</a></span>N'esta +meia duzia de linhas do distincto escriptor, firmadas nos estudos dos +naturalistas citados e na sua propria observação vemos nós um grande antidoto +contra a febre da emigração para o Brazil, se nós e o nosso compatriota +Torres, ao trascrevel-as, tivessemos a felicidade de as ver lidas por +aquelles a quem as destinamos.</p> + +<p>Esperemos comtudo pelo futuro.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Comparemos agora os effeitos terriveis do clima, a mortalidade dos dois +paizes Portugal e Brazil.</p> + +<p>A mortalidade em Portugal é pouco mais ou menos de 2,59 por cento<a +name="tex2html4" href="#foot171"><sup>[4]</sup></a>; em quanto que no imperio +americano, com respeito aos emigrados portuguezes, é actualmente impossivel +dizer se está de 90 a 99 por cento, se tomarmos na devida consideração a +estatistica do primeiro semestre de 1876, que só no Rio de Janeiro nos mostra +que o numero de obitos subiu a 2:600, <i>sendo o numero de fallecidos da +febre amarella, de 1877</i>!<a name="tex2html5" +href="#foot173"><sup>[5]</sup></a></p> + +<p>Ha quem diga que se se podesse fazer igual estatistica com respeito aos +colonos residentes no sertão, reconhecer-se-ia que 90 por cento dos +portuguezes que emigram para aquellas regiões não chegariam para satisfazer a +contribuição exegida pelo terrivel flagello!</p> + +<p>Mas comparemos a entrada dos portuguezes em todo o anno de 1876, com o +numero dos fallecidos.</p> + +<p>Diz o consul no relatorio indicado, que o numero de portuguezes entrados +no porto do Rio de Janeiro foi, n'aquelle anno, de 8:523. A media é, por +tanto, de 4:311,5.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_16" name="pag_16">[16]</a></span>Assim, +pois, se o numero dos fallecidos, em um semestre, é de 2:600, veremos que +restam apenas 1:711 colonos, ou 3:422, por cada anno.</p> + +<p>É horrivel!</p> + +<p>E note-se que este resultado apparece logo immediatamente á chegada dos +emigrados; e os que morrem depois, ou os que ficam inutilisados?!...</p> + +<p>O nosso illustre compatriota doutor José Rodrigues de Mattos, medico pela +universidade de Coimbra, residente na cidade do Rio de Janeiro, respondendo á +carta do sr. Alexandre Herculano, dirigida em dezembro de 1873 á <i>Sociedade +real da agricultura em Lisboa</i>, observa o seguinte, em sua nota n.º 5, a +respeito do assumpto importantissimo da mortalidade no Rio de Janeiro:</p> + +<p>«Pois que fallei de miserias e o sr. Alexandre Herculano só encara a +emigração pelo prisma das grandezas, apresentarei outros factos, que não se +encontram nos <i>livros sobre colonisação portugueza</i>. A população da +capital do Rio de Janeiro, pela estatistica official de 1873, conta 228:743 +habitantes incluidos 78:583 estrangeiros, dos quaes 53:213 são portuguezes. +Na hypothese menos favoravel ao meu calculo, todos estes estrangeiros +chegaram ao Rio de Janeiro entre as edades de 10 annos até aos 78 annos. Pela +tabua da mortalidade de Duparcieux, desde o nascimento até á idade de 10 +annos, e desde os 78 até aos 94, morre um numero de individuos igual ao +numero dos obitos comprehendidos desde a edade dos 10 até aos 78. A grande +maioria da emigração compõe-se de individuos chegados na edade de 16 a 30 +annos; em que o termo medio de vida provavel é o maior. A mortalidade da +população pelas estatisticas dos 3 ultimos annos revelava uma media superior +a 10:000 obitos. A população de Lisboa pelo menos é igual, se não maior de +228:743: a media da mortalidade em Lisboa é de 5:400 obitos por anno. +Comparadas as populações das duas cidades, as<span class="pagenum"><a +id="pag_17" name="pag_17">[17]</a></span> suas mortalidades, as respectivas +populações dos subditos naturaes dos dois paizes e a dos estrangeiros +habitadores desde os 10 annos por diante, o resultado é o seguinte na cidade +de Lisboa, sobre 53:213 portuguezes desde a idade dos 10 até aos 78 annos, +morrem cada anno 1:255 individuos: sobre igual numero de portuguezes entre as +mesmas idades, morrem na cidade do Rio de Janeiro 3:125; ou melhor: a +mortalidade dos portuguezes no Rio de Janeiro é maior de 149 por cento da +mortalidade de Lisboa. Estes calculos podem ficar subordinados em relação ao +numero dos habitantes da capital de Lisboa, que se diz maior de 228:743 +habitantes; bem como ao desconto dos estrangeiros domiciliados; numero que +está estimado em diminutisima parcella. Não pode julgar-se estranha a maior +mortalidade, quando em Lisboa se conta apenas 129 medicos e cirurgiões e 82 +pharmacias; em quanto que no Rio de Janeiro existem 418 medicos e 344 +pharmaceuticos domiciliados. No bienio de 1872 a 1873 trataram-se 5:000 +doentes no hospital da sociedade Portugueza de Beneficencia; a Caixa de +seccorros de D. Pedro V tratou de molestias e deu esmolas a 18:530 +portuguezes; e nos hospitaes, das ordens Terceiras e da Misericordia ha 400 +leitos occupados constantemente por enfermos portuguezes; calcula-se que +aproximadamente regula por 16:000 infilizes que annualmente povoam os +hospitaes de caridade na população riquissima de pouco mais de 50:000 +emigrados. O hospital de S. José em Lisboa recebe apenas 12:000 de uma +população calculada em 300:000 almas.»</p> + +<p>Mas continuemos a examinar outros dados que temos á vista.</p> + +<p>A mortalidade de Lisboa, segundo a estatistica publicada no <i>Diario do +Governo</i> n.º 285, de 1872, é de 30,4 individuos para cada 1:000, um pouco +mais do que a da cidade de Londres, que desce a 27, e um<span +class="pagenum"><a id="pag_18" name="pag_18">[18]</a></span> pouco menos do +que a de Roma, que sóbe a 35. No Cabo da Boa Esperança e na Serra Leoa, a +mortalidade é de 200 individuos para cada 1:000, e a da população portugueza +residente no Rio de Janeiro, segundo o relatorio do ministro do commercio, +agricultura e obras publicas foi, em 1870, de 270 para 1:000!!!<a +name="tex2html6" href="#foot4252"><sup>[6]</sup></a></p> + +<p>O ponto de Portugal onde a mortalidade é maior, chegando a dar ao +cemiterio uma precentagem de 40,4 individuos para cada 1:000, é o districto +de Beja; mas o termo medio é o que já deixamos mencionado, isto é, 2,59 para +100.<a name="tex2html7" href="#foot181"><sup>[7]</sup></a></p> + +<p>No desenvolvimento da critica que mais adiante fazemos a um livro +publicado ha pouco<a name="tex2html8" href="#foot4253"><sup>[8]</sup></a>, +verão os leitores que não está dita ainda a ultima palavra sobre a +mortalidade de portuguezes no Rio de Janeiro. Alli demonstraremos com as +estatisticas das sociedades portuguezas beneficentes, que não foi arrojada a +nossa proposição quando dissemos que a mortalidade na colonia poderia +elevar-se até aos 90 casos para cada 100 individuos.</p> + +<p>O portuguez que emigra não vê isto; só pensa que ao fim de alguns annos +hade vir rico do Brazil, e isso lhe basta; porque não ha quem lhe diga que, +de cada milhar, vem de lá um remediado, verdade seja que vergando ao peso das +molestias adequeridas em tão insalubre paiz.</p> + +<p>Este mal é já velho, e não vemos que os remedios vulgares o possam +debellar; por que para nós, é ponto de fé que a ambição só poderia ter o +curativo que entre nós nunca pensaram em applicar aos ambiciosos, a +escolla.<span class="pagenum"><a id="pag_19" name="pag_19">[19]</a></span></p> + +<h2>IV</h2> + +<p>A ambição, inerente a todos os homens, o nosso genio naturalmente +aventureiro, amante do desconhecido, que ainda assim não faz em nós esquecer +o santo amor do trabalho, nos cega a tal ponto, e esta triste verdade vem já +de seculos, que não nos deixa ver os desastres dos nossos antepassados, que +igual motivo acarretára para longe da patria e da familia, onde, n'um +momento, a terra preferida se transformava em abysmo para os tragar.</p> + +<p>E deixavam os que lhe sobreviviam, em tão remotas epocas, de cair no mesmo +erro? Não, porque lá estavam os mesmos interessados (sempre houve +engajadores) a apontar aos ambiciosos as minas inesgotaveis do Brazil!</p> + +<p>Pois qual seria o portuguez capaz de ficar indiciso, á vista da descripção +dos brilhantes da mais fina agua, do oiro em pó, dos aljofares, dos coraes, +das perolas, das esmeraldas e das amethystas, que os apologistas diziam andar +aos pontapés n'este paiz de fadas? Quem seria capaz de resistir ao aroma das +poeticas flores, da poesia das frondosas arvores, por entre as quaes se +interlaçam os mais exquisitos cipós, aroma que aos incautos, parecia +atravessar esse immenso lago de milhares de legoas, para chegar até elles? +Quem não ficaria enthusiasmado com a descripção, não menos patetica, das +nuvens de milhares de passarinhos com suas pennas de mil côres, que segundo +os poetas adejam por cima d'esse bosque immenso que esconde os pantanos +venenosos, a cascavel e a sucuriuba? Quem não escutaria de bom grado as +descripções fantasticas d'esses rios gigantes e dos <i>igarapés</i>, das +immensas cordilheiras e dos valles, das grutas mysteriosas e das cidades +encantadas d'este paraizo terreal?<span class="pagenum"><a id="pag_20" +name="pag_20">[20]</a></span></p> + +<p>Quem mostrava aos nossos antepassados o reverso da medalha? a poesia das +flores, das mattas virgens, das esmeraldas e dos rubis transformada na poesia +do tumulo, que algumas vezes era o oceano e outras o estomago do +antropophago?!</p> + +<p>Dizem antigos escriptores, que os indios brazileiros eram mais difficeis +de domar que os dos outros pontos da America meridional, sujeitos aos +castelhanos; e que, primeiro que fundassemos ali povoações, perdemos muitas +vidas e muito sangue. As viagens eram muito difficeis. Muitos galeões +naufragavam antes de chegarem ao seu termo.</p> + +<p>Mas que importavam estas difficuldades escondidas a quem sonhava com o +El-Dourado?</p> + +<p>Ora, a nossa questão é que as phantasias de hoje são as phantasias +d'outr'ora; e que, para desfazel-as no espirito dos nossos illudidos +compatriotas, não bastam os estudos theoricos de qualquer commissão de +emigração. Faça-se mais. Combata-se o mal da ambição, pela escola, +offerecendo aos ambiciosos as riquezas, ainda por explorar, dos nossos vastos +dominios do continente. Nós que somos inimigo dos emprestimos para a +consolidação da nossa divida publica, porque não vemos que ella se consolide, +aprovariamos um emprestimo que tivesse por fim comprar os terrenos quasi +virgens do Alemtejo, e que, depois de divididos em courellas, deveriam ser +aforados aos trabalhadores, a exemplo do que está constantemente praticando o +primeiro lavrador d'este paiz, o sr. José Maria dos Santos, na margem sul do +Tejo, e em outros pontos d'aquela uberrima provincia; não esquecendo a +vastissima herdade da Capella, no concelho do Redondo, dividida em courellas +por aquele lavrador aos habitantes d'esta villa, herdade que hoje está +completamente transformada em riquissimas e ao mesmo tempo pitorescas +vinhaterias.</p> + +<p>Apregoam-se os males da febre amarella, e especialmente<span +class="pagenum"><a id="pag_21" name="pag_21">[21]</a></span> os maus tratos +que os indigenas do Brazil infligem aos emigrados portuguezes; e que +resultado se tira do pregão?</p> + +<p>Aqui ha tempo, quando a imprensa portugueza se levantava indignada contra +os morticinios do Pará, navios continuavam a ir cheios de emigrados para +aquellas paragens! Esses mesmos navios conduziam para a Europa ou para a +Africa os repatriados, que não podiam supportar os disturbios dos +paraenses!!!</p> + +<p>Os portuguezes que em 1835 e 1848, poderam, a muito custo, escapar ao +punhal dos <i>cabanos</i>, regressavam, pouco tempo depois, ás provincias do +Pará e Pernambuco, theatros onde se representaram tão horriveis dramas!!!</p> + +<p>E que haviam elles de fazer? Quem os incitava aqui ao trabalho que traz a +independencia?</p> + +<p>Os terrenos incultos estavam, ao tempo, na mão dos morgados. Extinctos +estes, a missão dos governos não estava finda: era preciso que esses governos +lançassem mão dos terrenos, reunil-os aos baldios e offerecel-os aos +ambiciosos. Assim protegeria a agricultura, a nosso ver, a unica fonte de +onde jorra a prosperidade dos paizes predestinados pela natureza a grandes +emporios agricolas.</p> + +<p>Os portuguezes emigravam então, como emigram hoje, porque não tem havido +ninguem que os attraia seriamente para as riquezas do nosso solo.</p> + +<p>Mas ainda é tempo. Que os males passados sirvam de exemplo para evitar os +males futuros, e emquanto se não providenceia como é de urgente necessidade, +prohiba-se a emigração para o Brazil, quando alli haja a febre amarella.</p> + +<p>Dizemos isto sem medo que nos alcunhem de anti-liberaes; e áquelles que +nos replicarem que atacamos os direitos do cidadão, responderemos, que para a +maior parte dos <i>cidadãos</i> que emigram comprehenderem bem<span +class="pagenum"><a id="pag_22" name="pag_22">[22]</a></span> os seus deveres, +precisam de ir para a escolla. Queremos dizer com isto que em Portugal se +descura muito da escolla, o melhor antidoto contra a febre da emigração.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Se a instrucção do povo é o remedio infallivel que preferimos applicar ao +mal da emigração, não é menos certo que esse remedio só pode curar com +lentidão, o que desejariamos fosse curado rapidamente.</p> + +<p>Attrahir o trabalhador a novas fontes de riqueza no próprio paiz, era já +um cauterio cujos effeitos não são tão lentos como os da escolla. +Referimo-n'os ás colonias agricolas no sul de Portugal, Alemtejo e Algarve. +Quem fundará essas colonias? O capital, desde que o capital encontre garantia +no governo, garantia que se traduza em isenção de contribuições para as +colonias que se estabeleçam com caracter de protecção ao trabalhador, que é +ao mesmo tempo garantia para a agricultura do paiz e, por consequencia, para +o proprio capital empatado.</p> + +<p>É assumpto vastissimo, o da fundação das colonias no Alemtejo, e as luzes +de que dispomos não são sufficientes para dizermos o que baste para o +desenlace d'uma questão demasiado complexa. Com tudo, parece-nos que aquelles +que nestes ultimos tempos tem querido dar impulso á agricultura na provincia +mais vasta e mais rica que possuimos, desconhecem um pouco a materia.</p> + +<p>Nós quizeramos vêr <i>retrogradar</i> os nossos habilissimos estadistas de +hoje, até aos tempos primitivos da monarchia, em que se fundaram essas +povoações que para ahi vemos medrar, cujos alicerces foram devidos unica e +exclusivamente ao trabalho agricola de colonos nacionaes e +estrangeiros—estes da região do norte; porque<span class="pagenum"><a +id="pag_23" name="pag_23">[23]</a></span> nos tempos <i>retrogrados</i>, não +se tinha em menos conta o cruzamento das vigorosissimas raças do norte da +Europa com as semi-indulentes do meio dia: prova de que á testa dos negocios +publicos não estavam uns certos miopes da actualidade, que entendem +beneficiar o paiz colonisando o Alemtejo com familias italianas.</p> + +<p>Mas que se fazia então?</p> + +<p>Fazia-se o que se não faz hoje. Então como na actualidade, os governos do +estado precisavam de dinheiro. Então julgavam, e julgavam bem, que a riqueza +brotava do solo; e o solo era explorado para produzir essa riqueza que nós +vimos empregar nas emprezas arrojadissimas, que fizeram grande este paiz que +nascera pequenissimo.</p> + +<p>Hoje que a terra é a mesma—ainda immensamente rica;—pede-se ao visinho +uma esmola, outra e outra (até fechar-nos a porta, desenlace que sempre deve +esperar quem muito pede e muito gasta), para fazer face ás despezas do +estado; em logar de nos prepararmos previamente para essas despezas, +descobrindo com a enchada, no centro da provida terra como os nossos +antepassados, as minas que alli deixa intactas a nossa imprevidencia.</p> + +<p>É que é mais facil pedir emprestado!</p> + +<p>Os que pedem emprestado podem saber muito de economia politica; porem não +sabem ser bons lavradores—dos que semeam para colher, dos que amanhando a +terra, dão que fazer a muitos braços, tornando-os independentes do visinho, +que é avaro com os taes emprestimos.</p> + +<p>Mas se o nosso economista, estuda, estuda no gabinete; depois chega-lhe á +porta uma alluvião de amigos, que o elevára á <i>proeminencia</i>... de estar +encerrado no tal gabinete; acorda-o do lethargo que podia salvar-nos; +mostra-lhe o estomago vasio; e o economista, que póde muito bem ser um +<i>touro</i>, não tem mais remedio<span class="pagenum"><a id="pag_24" +name="pag_24">[24]</a></span> senão ceder... porque a alluvião de amigos +representa a <i>giboia</i> collosal da nossa politica!</p> + +<p>Que fazer?</p> + +<p>Pedir emprestado ao visinho; senão sujeita-se a ser engulido!</p> + +<p>E não digam que os nossos economistas não são mais previdentes do que o +inexperiente viajante que, de mãos vasias, no meio da floresta, não pôde, +para salvar-se, atirar com a posta ao reptil!...</p> + +<p>Haverá alguem que possa fazer de Hercules; que empunhe a massa e esmague a +cabeça da serpente que para ahi se arrasta em volta do manso bezerro—o +povo?</p> + +<p>Se ha, que venha e... faça um emprestimo, mas um emprestimo colossal. Com +o dinheiro emprestado fundará colonias no Alemtejo e no Algarve; porém +colonias perfeitamente montadas, convidando-se para as compor, não só as +familias d'aquellas regiões, mas as das provincias do norte de Portugal, que +costumam sair para o Brazil; e se lhe apparecerem pelo gabinete os taes +senhores <i>giboias</i> de estomago elastico, metta-lhes uma enchada na mão, +e ensine-lhes o caminho do campo em desbravamento, onde se converterão, de +simples bichos, em optimos trabalhadores e uteis cidadãos.</p> + +<p>Não haverá para ahi quem se convença, que isto de estar continuadamente a +pedir dinheiro emprestado para pagar emprestimos é um erro economico?</p> + +<p>Contraia-se, pois, um emprestimo para o fim indicado, que os lucros hão de +chegar, não só para satisfazer essa divida, como as já contrahidas e que +jámais poderão ser pagas pelo systema rotineiro; e até mesmo cremos que +d'esses lucros sobejará para supprir algumas faltas dos golotões reptis... se +por desventura nossa ainda os houver.</p> + +<p>Terminaremos estas observações dizendo, que conhecemos alguns cavalheiros, +lavradores no Alemtejo, que,<span class="pagenum"><a id="pag_25" +name="pag_25">[25]</a></span> tendo comprado algumas herdades lhes offereciam +hoje, tres ou quatro annos depois do <i>amanho</i>, 200 e 300 por cento de +lucro!</p> + +<p>Nós estamos convencidos que a isto se deve chamar lucro, se, como acontece +a muitos pontos da lei social, não está tambem invertido este principio, +sobre que assenta a lei economica.</p> + +<p>Venha um governo, que, proseguindo no caminho aberto pelo rei Diniz, se +não envergonhe do cognome de—<i>lavrador</i>—com que a historia glorificára +aquelle grande portuguez, mais amigo do seu paiz, na epocha do obscurantismo, +do que o são todos os economistas presentes, que empunham o facho, d'onde +dizem que brota a <i>luz</i>, mas que infelizmente nos encaminha para o +abysmo da <i>destruição</i>.</p> + +<p>E haverá governo que queira <i>achincalhar-se</i> com o cognome +de—<i>lavrador</i>?!</p> + +<p>Não será mais bonito appelidar-se antes <i>banqueiro</i>, +<i>accionista</i>, <i>director de qualquer cousa</i>, <i>jornalista</i>, +<i>litterato</i>, e até mesmo... <i>pastelleiro</i>?!</p> + +<p>Escolham, escolham... mas vejam que da escolha depende o futuro da patria. +</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>As colonias não podiam prosperar, no nosso humilde entender, quando +estivessem montadas, se o governo não lançasse mão de um meio energico—e +liberal humanitario ao mesmo tempo, contra a emigração clandestina, meio que +se nos afigura ser o mais prompto e decisivo para a cura do mal que definha +as forças vitaes do paiz—a falta de braços: referimo-nos á inspeção da +emigração, que pode, em parte, substituir a escolla, e auxiliar, desde já, e +muito poderosamente, a pequena agricultura que luta com a falta de braços que +se escoam para o Brazil.<span class="pagenum"><a id="pag_26" +name="pag_26">[26]</a></span></p> + +<p>A inspecção da emigração não é cousa nova. Está estabelecida nos paizes +mais adiantados e se o Brazil a não estabeleceu, como já fez a America do +norte, é porque n'aquelle paiz como em Portugal não se estuda a serio estes +assumptos economicos.</p> + +<p>Á America do norte não comvem o engajamento forçado, isto é, a illusão. Á +America do norte comvem que a introducção dos colonos seja feita com a maxima +liberdade, por que nos processos liberaes do engajamento está a riqueza dos +grandes nucleos da emigração e por consequencia do paiz que acolhe os +emigrantes.</p> + +<p>O projecto de lei apresentado na camara dos representantes dos Estados +Unidos por mr. Conger, estabelece alem de outras medidas favoraveis aos +emigrantes que procuram as terras do norte da America, que nos portos de +partida os consules americanos deverão passar uma especie de inspecção aos +emigrantes; que ao desembarque d'estes as queixas serão julgadas +summariamente pelos commissarios dos Estados Unidos; estes commissarios serão +nomeados pelo presidente dos Estados Unidos, de accordo com o senado, por um +periodo de quatro annos; serão encarregados, debaixo da direcção do +secretario do thesouro, da execução de todas as leis relativas á emigração, e +authorisados a estabelecer regulamentos; o secretario do thesouro nomeará, um +escrivão bem como addidos inspectores e outros agentes necessarios; os +proprietarios, agentes ou capitães de navios que conduzem emigrantes aos +Estados Unidos pagarão no momento do desembarque, um dollar por pessoa +adulta, applicavel aos soccorros em caso de doença, ao aluguer ou construcção +de embarcadouros, sempre em beneficio dos emigrantes; nos portos de +Liverpool, Hamburgo, Breme e outros, onde annualmente se embarca mais de +40:000 emigrantes, será estabelecido um agente <i>com commissão especial de +inspeccionar os navios antes de partirem, examinar se a lei é executada, de +dar<span class="pagenum"><a id="pag_27" name="pag_27">[27]</a></span></i> +<i>as necesarias informações aos emigrantes</i>, etc; nos outros portos onde +a emigração não exceda annualmente aquelle numero o consul substituirá o +agente da emigração mediante um supplemento de 1:000 dollars por anno; quatro +inspectores, fallando allemão, francez e sueco e outras linguas serão addidos +ao porto de New-York, e um em cada um dos portos onde chegam os emigrantes em +quantidade consideravel; a estes agentes cumpre acompanhar os empregados das +alfandegas á chegada de cada navio commerciante, examinal-os, receber as +queixas dos emigrantes, e quando as houver fazer um relatorio ao collector da +alfandega e ao chefe do departamento da emigração; o superintendente +intentará um processo por perdas e damnos em favor dos emigrantes; os +commissarios nos Estados Unidos julgarão summariamente todos os casos de mau +tratamento a bordo, insufficiencia ou má qualidade de alimentos, perjuizos na +bagagem, roubos, fraudes, seja nos hoteis, no cambio da moeda, atraso nos +caminhos de ferro, etc, etc; poderão condemnar o culpado a 100 dollars de +multa por cada uma das culpas e tambem poderão reclamar a sua prisão até que +o caso seja julgado; os deveres dos superintendentes, debaixo da direcção dos +commissarios, serão prover a que os emigrantes sejam bem recebidos ao +desembarque, de alugar para elles os necessarios terrenos, e mandar fazer as +construcções indispensaveis, de cuidar nas suas bagagens, de tomar os seus +nomes, idade, occupação e destino, de os proteger contra as fraudes, +procurando-lhes occupação, quando a desejem, de prover ás mais urgentes +necessidades dos recemchegados, de lhes prestar todas as informações +relativas ao meio mais prompto e mais economico de se transportarem aos seus +destinos, de lhes fazer obter das companhias de transporte as mais vantajosas +condições, e emfim de prevenir tudo para a commodidade e segurança dos +colonos, etc., etc.; os<span class="pagenum"><a id="pag_28" +name="pag_28">[28]</a></span> contractos passados no estrangeiro para o +transporte dos emigrantes a um ponto qualquer dos Estados Unidos serão +illegaes e nullos, não tendo sido previamente approvados pelo superintendente +da emigração.</p> + +<p>Mas se os paizes que recebem colonos precisam de inspectores que +fiscalizem a emigração, aquelles de onde ella se escoa não precisa menos +d'esses utilissimos agentes do governo. Assim o intendeu o conde de Thomar em +1860, quando representava Portugal no Brazil, nomeando um commissario, o dr. +Antonio José Coelho Louzada, para formular um projecto de regulamento para a +emigração; projecto que, uma vez convertido em lei do estado, devia ser de +grande utilidade para o nosso paiz.</p> + +<p>Referindo-se á creação dos logares de inspector, diz elle:</p> + +<p>Que a nomeação dos inspectores especiaes da colonisação não é cousa nova. +Na França e na Belgica, por onde se escoa uma grande massa de emigrantes +europeus, ha os inspectores especiaes e sem elles eu não julgo que o governo +portuguez possa ter nenhum conhecimento exacto da população que emigra, nem a +certeza de que a sahida dos emigrantes se faz sem o emprego da seducção e do +engano a que é tão frequentemente sujeita. As authoridades administrativas da +localidade respectiva, ás quaes o art. 5.º, n.º 1 (da lei de 20 de julho de +1855), commetteu a fiscalisação d'este assumpto, não podia no meio de tão +complicados encargos, como os que já tem pela legislação vigente, occupar-se +detidamente de um negocio que para ser bem fiscalisado deverá começar de +muito antes do emigrante embarcar, e somente acabar no acto da sua saida pela +barra fóra. Como porem não seja para esperar que a deserção dos patrios lares +vá, como até agora tem succedido, em grande progressão, e antes ao contrario +d'isso eu tenha por infallivel que ella diminuirá com as providencias<span +class="pagenum"><a id="pag_29" name="pag_29">[29]</a></span> que indico, +entendi que os inspectores especiaes de colonisação não deveriam fazer parte +de uma nova creação de empregados publicos, e que n'esse intuito +procurando-se algum que estivesse menos sobrecarregado de trabalho ou +inteiramente dispensado d'elle, possa á rigidez de caracter unir uma boa +vontade para empregar-se em um serviço publico de tamanha importancia, como +se reputa ser aquelle, que deverá ter por empreza não sómente desviar a +seducção feita aos emigrantes, que precorrem paizes que não são possessões +nossas, como o de ir explorando os meios mais efficazes a empregar, com o fim +de fazer encaminhar uma semilhante tendencia para os dominios portuguezes +d'alem-mar. Sem um similhante funccionario applicado a este ramo de serviço +publico, nem a fiscalisação irá até aos ultimos momentos da partida do navio, +nem as estatisticas do movimento emigratorio poderá obter fóros, se não de +real, pelo menos de mui aproximado, por isso que todos os quadjuvantes que +lhe são dados não podem occupar-se se não dos assumptos concernentes á sua +especialidade, como são os capitães do porto, o delegado ou sub-delegado de +saude e o empregado da alfandega, todos os quaes carecem de um centro de +reunião para que possam marchar de accordo nas medidas a empregar.<a +name="tex2html9" href="#foot4255"><sup>[9]</sup></a></p> + +<p>O projecto do regulamento, que era um complemento á doutrina do art. 12.º +da lei do 20 de julho de 1855, e a que se refere a nota que acima +reproduzimos, estabelece oito inspecções nos portos, de Lisboa, Porto, Vianna +do Castello, Madeira, Ponta Delgada, Horta e Terceira com o encargo de +superientender a emigração tanto dos portuguezes como dos estrangeiros que +houverem de sair pelos portos acima indicados; estabelece<span +class="pagenum"><a id="pag_30" name="pag_30">[30]</a></span> que o embarque +de emigrantes em qualquer outro porto seja vedado; que os inspectores tomarão +o logar das authoridades administrativas locaes no desempenho das obrigações +consignadas na lei de 20 de julho de 1855; que os inspectores fiscalisem os +passaportes dos emigrantes, etc. etc.</p> + +<p>Mas foi prégar no deserto. Já são passados 17 annos de somnolencia +incomprehensivel; e desde então para cá, que de milhares de braços tem +perdido a nossa agricultura!</p> + +<p>A commissão parlamentar nomeada ha annos para prover de remedio a tão +grande mal, calculava que em 20 annos se perdiam 75 por cento dos portuguezes +que emigram para o Brazil!</p> + +<p>Reduzindo a metal o que este trabalho representa, diz a commissão, e dando +120$000 réis ao trabalho produzido por cada emigrado, annualmente, 34:000 +emigrados, representando 2:400$000 réis cada um, em 20 annos fazem +81.600:000$000 réis.<a name="tex2html10" +href="#foot4256"><sup>[10]</sup></a></p> + +<p>Foram igualmente baldados os estudos da commissão dos srs. deputados!</p> + +<p>E tudo isto: estes milhares de contos, e, o que é mais, os milhares de +vidas preciosas que vão perder-se no Brazil, seriam aproveitadas em beneficio +do paiz que tanto d'elles carece.</p> + +<p>Quando haverá um governo que trate seriamente de debellar o mal que nos +prostra?</p> + +<p>Ah! mas a liberdade! Deixemos aos proletarios a vontade livre, a liberdade +de emigrar, que é uma garantia do cidadão!</p> + +<p>Mas a esses que apregoam essa liberdade absurda respondem os grandes +economistas, que não desrespeitam a liberdade, tal qual ella deve ser +comprehendida pelos que dirigem os destinos das nações:</p> + +<p>«O<span class="pagenum"><a id="pag_31" name="pag_31">[31]</a></span> livre +arbitrio, diz o nosso doutissimo compatriota, o sr. Rodrigues de Mattos, só +pode ser admissivel no homem sabio e no caso extremo, em que por violencia +extranha tem de actuar e lhe faltam conceitos por melhores, do que a +reprovação conscenciosamente justificada; mas ainda assim o homem sabio +condemna sempre o livre arbitrio e prefere dizer: ignoro; obedeço; não +imponho.—O radicalismo que se apregoa nas doutrinas da <i>liberdade sem +limites e da sciencia sem privilegio</i> traduz-se no charlatanismo dos mais +ardilosos; na traição dos hypocritas insuflados de odios; na corrupção dos +poderes do estado; no amalgama dos erros com as verdades; nas superfetações +do pedantismo encyclopedico. Concordando nas doutrinas do sr. Alexandre +Herculano e na intelligencia do principio <i>liberal e razoavel</i> applicado +na inspecção dos processos de emigração, lembro tambem á Sociedade Real de +Agricultura o seguinte expediente. Todo o portuguez que pretenda emigrar e +esteja no caso de ser reputado na classe ou ordem—<i>Emigração socialmente +legitima e economicamente boa</i>, procederá a um exame, em que pelo menos +mostre saber ler, escrever e contar, sommando e diminuindo; que saiba +conscenciosamente a posição de Portugal e da America no mappa geographico, as +suas historias pelo menos as mais modernas, e alguma cousa de climas, raças +humanas, producções, industrias e seus valores comparativos e utilisaveis; se +tem algumas noções dos deveres de pai, de marido, de filho, de irmão, do que +significam as palavras «sou portuguez da Europa e não <i>portuguez</i> da +America». Se a Sociedade Real de Agricultura poder conseguir a pratica d'esta +doutrina de <i>legitimidade de acção</i> e de <i>utilidade economica</i> não +só Portugal se enriquecerá, porque o numero de emigrados ficará reduzido de +12:000 a uns 200 até 300 emigrados, que honrarão no Brazil as tradições +gloriosas dos seus antigos progenitores nos cinco continentes<span +class="pagenum"><a id="pag_32" name="pag_32">[32]</a></span> da terra, como +tambem fomentarão o commercio e as industrias das duas nações na Europa e na +America. Homens, <i>coisas</i>, na America, serão talvez um elemento material +destructivel por quem melhor o souber consumir para reproduzir-se em proveito +total; menos os taes 3:000 contos de interesse por commissão e despezas de +capitaes nos valores 108.000.000:000$000; commissão que nem ao menos chega +para comprar opio e fazer dormir por 24 horas um paiz que desde dois seculos +não passa do termo medio das 3.500:000 almas, quando poderia contar +10.000:000, só na peninsula, e ter aproveitado as suas melhores colonias, +disputadas hoje por quantos aventureiros apparecem, como lobos contra +cordeiros. <i>Turbulentam mihi aquam fecisti.</i>»</p> + +<p>Discordamos um pouco da opinião do illustre escriptor, com respeito ás +considerações que elle fez a respeito da instrucção, que no seu intender +devia ser exigida pela Sociedade de Agricultura aos emigrantes. Nós +contentavamo-nos com muito menos; isto é, que lhes fosse exigida a certidão +de que sabiam ler correntemente.</p> + +<h2>VII</h2> + +<p>Portugal é um paiz pobre, dizem os que advogam a emigração para o Brazil; +tem braços a mais, razão natural da procura de novos territorios, acrescentam +ainda.</p> + +<p>Mas isto é um sophisma. Quem diz isto, quer esconder a verdade, a +princípal causa da emigração portugueza para o Brazil e que nunca nos +cansaremos de repetir—a ambição inconsciente dos emigrantes.</p> + +<p>Portugal é pobre? A Portugal sobejam braços?</p> + +<p>Comparemos Portugal á Belgica e á Hollanda, e vejamos se fallam verdade os +alliciadores do imperio americano.<span class="pagenum"><a id="pag_33" +name="pag_33">[33]</a></span></p> + +<p>Dizem os geographos, que em geral não são muito favoraveis nas +appreciações que fazem ao nosso paiz:</p> + +<p>«<i>Belgica</i>.......................<br> +O solo, esteril nas provincias de Liege e de Limbourg; é muito fertil nas +Flandres e no Hainaut e bem cultivadas.»</p> + +<p>Nada mais com respeito ao solo.</p> + +<p>«<i>Hollanda</i>.......................<br> +A Hollanda abunda sobre tudo em pastagens; cultiva-se com successo o trigo, o +linho, a ruiva, o tabaco, fructas; a agricultura e a horticultura attingiram +alli um alto grau de perfeição. O clima é brusco e humido; os habitantes das +proximidades das lagoas (Polders) e das ilhas, estão expostos ás febres +endemicas; entretanto o frio dos invernos e os ventos de éste, modificam a +insalubridade do ar.»<a name="tex2html11" +href="#foot4257"><sup>[11]</sup></a></p> + +<p>Vemos de notavel, apenas, que a agricultura e a horticultura attingiram +alli o alto grau de perfeição, que não póde desfazer as nebrinas tristonhas +do seu clima, nem tão pouco arredar para longe as febres que assolam grande +parte dos habitantes da Hollanda.</p> + +<p>Para comparar veja-se o que diz o mesmo auctor com respeito a Portugal: +</p> + +<p>«A temperatura é d'um calor importuno, <i>mais elevado</i> que em +Hespanha; o solo é muito fertil (<i>très-fertil</i>), <i>mas geralmente mal +cultivado</i>. Produz os famosos vinhos do Porto, Setubal, Carcavellos, etc.; +azeitonas, figos, laranjas e outros fructos exquisitos; mel, cera, kermes. +Aqui se encontra tambem as minas de ouro, prata, ferro, chumbo, estanho, +antimonio, sal (marinho), carvão de pedra, turquezas e outras pedras +preciosas, aguas mineraes e thermaes. Gado grosso, pouco; mas bastantes +carneiros e excellentes muares.»</p> + +<p>Abramos um parenthesis:<span class="pagenum"><a id="pag_34" +name="pag_34">[34]</a></span></p> + +<p>Assim como deixamos passar a appreciação justissima de que o nosso solo +<i>está mal cultivado</i>, não deixaremos passar a affirmativa do illustre +geographo, quando diz que a temperatura do nosso clima <i>é mais elevada</i> +do que o da Hespanha. Esta não é a verdade. Se o calor que entre nós se +supporta no estio é importuno—<i>accablant</i>—, na Hespanha não o é menos, +se não superior. A experiencia de todos os dias ahi está corroborando esta +asserção.</p> + +<p>Fechemos o parenthesis, e prosigamos.</p> + +<p>A culpa de estar o nosso solo—<i>très-fertil</i>—mal cultivado, não é de +quem emigra, mas de quem, possuindo todos os meios de evitar o mal, não tem +tomado a iniciativa de o cultivar:—é dos maus governos que tem tido a +nação.</p> + +<p>Vejamos agora, comparando ainda Portugal ás tres nações citadas, se lhe +sobejam braços.</p> + +<p>Portugal mede uma superficie de 576 kilometros, do sul ao norte, sobre 168 +de oeste a leste, ou 96.768 kilometros quadrados, que, divididos por 4 +milhões de habitantes, dá para cada um—24,192 metros quadrados.</p> + +<p>A Hollanda mede 240 kilometros sobre 230, ou 55.200 kilometros quadrados. +A sua população é de 3 e meio milhões; dando por consequencia, 15,771 metros +quadrados para cada habitante.</p> + +<p>A Belgica mede 270 por 200, ou 54.000 kilometros quadrados, que divididos +por 4 e meio milhões de habitantes, dá para cada um 12 metros quadrados.</p> + +<p>Por estes simples calculos se conclue, que, para Portugal estar a par da +Hollanda devia ter uma população de mais de 6 milhões de habitantes, e mais +de 8 para estar a par da Belgica!</p> + +<p>Se os governos d'este paiz, que, nos seus excessos de patriotismo, tentam +explorar a mina dos nossos certões envios d'Africa, olhassem para as minas +que possuimos<span class="pagenum"><a id="pag_35" +name="pag_35">[35]</a></span> no continente, a emigração seria annulada em +pouco tempo.</p> + +<p>O governo que estabelecesse 20 colonias de 500 trabalhadores cada uma, +entreteria na faina do trabalho agricola uns 10:000 trabalhadores, numero +igual á população que emigrou para o Brazil em 1876.</p> + +<p>Por este systema contribuiria igualmente para a divisão proporcional da +população portugueza, medida extremamente importante, cuja densidade em +algumas provincias é de 164 habitantes para cada kilometro quadrado, em +quanto que em outras partes do reino não passa de 12!</p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>A commissão geodesica, encarregada por decreto de 21 de setembro de 1867, +de proceder ao reconhecimento, determinação e estudo dos terrenos, cuja +arborisação é necessaria e util, achou o seguinte assombroso resultado, na +averiguação do arduo e substancioso trabalho que lhe incumbiram e que ella +executou com admiravel proficiencia; o que não quer dizer que os taes estudos +servissem para mais alguma cousa do que para mostrar ao mundo inteiro a nossa +incuria:</p> + +<table border="0" align="center" +summary="Superficie de cumiadas incultas e de charnecas"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="3">SUPERFICIE DE CUMIADAS INCULTAS E DE CHARNECAS</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="3"><small>PROVINCIA DO ALGARVE</small></th> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td></td> + <td style="text-align:right; width:5em;"><small>HECTARES</small></td> + </tr> + <tr> + <td>Zona do litoral</td> + <td style="text-align:right; width:5em;">15.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Zona interior</td> + <td style="text-align:right;">294.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">————</td> + <td style="text-align:right;">309.000</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="3"><small>PROVINCIA DO ALEMTEJO E A PARTE DA EXTREMADURA + AO SUL DO TEJO</small></th> + </tr> + <tr> + <td>Parte meridional</td> + <td style="text-align:right;">718.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="pagenum"><a id="pag_36" + name="pag_36">[36]</a></span>Parte central</td> + <td style="text-align:right;">516.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Parte septentrional</td> + <td style="text-align:right;">413.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">————</td> + <td style="text-align:right;">1.647.000</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="3"><small>PROVINCIA DA BEIRA E A PARTE DA EXTREMADURA AO + NORTE DO TEJO</small></th> + </tr> + <tr> + <td>Região sul-occidental</td> + <td style="text-align:right;">240.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Região central</td> + <td style="text-align:right;">780.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Região septentrional</td> + <td style="text-align:right;">328.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:center;">————</td> + <td style="text-align:right;">1.348.000</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="3"><small>PROVINCIA DE TRAZ-OS-MONTES</small></th> + </tr> + <tr> + <td>Tracto oriental</td> + <td style="text-align:right;">195.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Tracto central</td> + <td style="text-align:right;">240.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Tracto occidental</td> + <td style="text-align:right;"><span + style="text-align:right;">279.000</span></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">————</td> + <td style="text-align:right;">714.000</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="3"><small>PROVINCIA DO MINHO</small></th> + </tr> + <tr> + <td>Tracto meridional</td> + <td style="text-align:right;">89.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Tracto septentrional</td> + <td style="text-align:right;">135.000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">————</td> + <td style="text-align:right;">224.000</td> + </tr> + <tr> + <td colspan="3"> </td> + </tr> + <tr> + <td colspan="2">Areiaes incultos e médões da costa maritima</td> + <td style="text-align:right;">72.000</td> + </tr> + <tr> + <td colspan="2"></td> + <td + style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">4.314.000</td> + </tr> + <tr> + <td colspan="2">Calcula a referida commissão que a superficie de + terreno do continente é de</td> + <td style="text-align:right;">8.962.531</td> + </tr> + <tr> + <td colspan="3">menos 714 hectares do que o calculo feito por alguns + geographos, pelos quaes nos regulámos mais atraz.</td> + </tr> + <tr> + <td colspan="3"> </td> + </tr> + <tr> + <td colspan="2">Temos pois, terrenos cultivados</td> + <td + style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">4.648.531</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_37" +name="pag_37">[37]</a></span>Accrescenta a commissão geodesica, no seu bem +elaborado relatorio, que poderá subir a 5 milhões (!!!) o numero de hectares +de terrenos incultos, porque muitos milhares de hectares estão +permanentemente de matto, ou não recebem cultura senão com muito grandes +intervallos; e tambem refere que ha uma immensa area sujeita «ao tradicional +systema de alqueives.» Repartindo esta superficie por 3.829.618 habitantes, +acha que corresponde a cada individuo 1 hectare, 30 ares e 56 centiares de +solo inculto.</p> + +<p>A respeito da densidade da população portugueza no continente, publica a +commissão os seguintes dados estatisticos, segundo o censo referido ao 1.º de +janeiro de 1864:</p> + +<table align="center" border="0" +summary="Densidade populacional de portugal em 1864"> + <tbody> + <tr> + <td colspan="3"></td> + <td style="text-align:center;"><small>HABITANTES<br> + POR KIL.<br> + QUADRADO</small></td> + </tr> + <tr> + <td>Districto</td> + <td style="text-align:center;">do</td> + <td>Porto</td> + <td style="text-align:center;">164</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">de</td> + <td>Braga</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">114</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Vianna do Castello</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">85</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Aveiro</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">76</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Vizeu</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">75</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Coimbra</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">74</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Lisboa</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">59</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Villa Real</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">49</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Leiria</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">46</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Guarda</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">36</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Faro</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">33</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Santarem</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">30</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Bragança</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">26</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Castello Branco</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">23</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Portalegre</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">15</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Evora</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">13</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td style="text-align:center;">»</td> + <td>Beja</td> + <td style="text-align:right; text-align:center;">12</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>Se o districto do Porto accolhe 164 habitantes, e o<span +class="pagenum"><a id="pag_38" name="pag_38">[38]</a></span> de Braga 114, +por cada kilometro quadrado, porque não procura a população do norte os +districtos desertos do sul?</p> + +<p>A razão já ficou expendida mais atraz.</p> + +<p>Depois d'isto não se diga agora que a população portugueza sobeja, e por +isso emigra para fóra do paiz.<span class="pagenum"><a id="pag_39" +name="pag_39">[39]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO II</h1> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0020001">Os advogados da emigração e a companhia +Transantlantica. Remuneração ao trabalho. O custo da escravatura preta e o +custo da escravatura branca. O definhamento da agricultura no Brazil, por +causa da falta de braços. Erros do jornalismo a respeito da emigração. O +«Diario de Noticias» e o sr. Fernão Vaz e o drama «Os Aventureiros». Um livro +a favor da emigração e o auctor das «Farpas». Elogios e sensuras. A praça do +commercio do Porto e uma penna de ouro.</a></div> + +<h2>I</h2> + +<p>O <i>Brazil</i>, jornal que advoga os interesses dos nossos compatriotas +residentes no imperio, publicou um artigo que nos surprehendeu, por vir elle +sustentar idéas tantas vezes combatidas no mesmo jornal. E a nossa surpreza +ainda foi maior, porque esse artigo, que tem por epigraphe <i>A colonisação +para o Brazil e a Companhia Transantlantica</i>, mais parece que fôra +escripto com o fim de tratar de interesses particulares de um ou outro +engajador de colonos portuguezes. O que muito folgamos, não obstante o +referido artigo vir publicado no logar de honra, foi não ser elle assignado +pelos seus illustres redactores effectivos, a quem temos visto atacar as +idéas no mesmo contidas.</p> + +<p>Empenhados na lucta travada a respeito da emigração de portuguezes para o +imperio brazileiro, não devemos ficar silenciosos á vista de certas +proposições alli enunciadas.</p> + +<p>Entremos pois na questão e deixemos de parte a circumstancia<span +class="pagenum"><a id="pag_40" name="pag_40">[40]</a></span> do articulista +achar razoavel o facto dos colonos portuguezes preferirem o Brazil, pela +«communidade de origem <i>e a facilidade que encontram no exercicio das suas +industrias</i>, por ser a lingua commum a ambos os povos», etc., e entender +por isso dever auxiliar a corrente da emigração, por via da companhia +Transantlantica, por quem parece morrer de amores, já porque está +<i>regularmente montada</i>, já porque <i>á testa d'ella vê nomes que lhe +merecem garantia de seriedade e de moralidade</i>. Deixemos, portanto, este +procedimento do articulista, que parece não mudará, emquanto o nosso governo +não encaminhar os colonos para os terrenos incultos do Alemtejo, (o que já é +muito!) ou para as nossas possessões ultramarinas (<i>cuja communidade de +origem etc.</i>, é igual á do imperio), reservando-se para mais tarde emittir +o seu parecer, quando appareça decidido o assumpto emigração, sujeito a uma +commissão de deputados, o que equivale a dizer-nos que será sempre a favor da +emigração, com tanto que os engajadores sejam sempre os agentes da tal +companhia; porque para nós é ponto de fé, que as nossas commissões nada +farão, embora as tenhamos no melhor conceito, e o nosso governo já mais +tratará de desviar a emigração da America meridional, encaminhando-a para o +Alemtejo ou para as nossas possessões ultramarinas.</p> + +<p>Deixemos tambem de parte a circumstancia de que o articulista leva em mira +atacar a pessoa de um novo pretendente ao logar de engajador official de +escravos brancos para as roças insalubres do Brazil, e a não sabemos que +pequenas miserias de commendas, porque o tal pretendente parece querer ferir +os interesses da poderosa e <i>protectora</i> companhia!</p> + +<p>Deixemos, finalmente, que o illustrado articulista se incommode sériamente +com os ataques dirigidos pelo novo proponente aos caracteres honrados e +dignos, representados nas pessoas do ministro das obras publicas<span +class="pagenum"><a id="pag_41" name="pag_41">[41]</a></span> do imperio, do +conselheiro da companhia <i>protectora</i> de escravos brancos e do distincto +escriptor Augusto de Carvalho, que, em prejuizo da nossa patria, pretende +illudir, com seus escriptos de phantasia, os nossos infelizes compatriotas; +porque, caso o articulista venha a ser accusado de defensor da companhia +Transantlantica, do seu conselheiro, dos estadistas brazileiros e do +escriptor assalariado, ser-lhe-ha muito facil defender-se com o juizo dos +jornalistas e dos particulares, que conhecem os actos publicos e politicos +das pessoas aggredidas pelo endiabrado pretendente; podendo até escudar-se em +abono d'este ultimo—do sr. Carvalho,—nas provas de consideração ultimamente +apresentadas, em nome da colonia do Rio de Janeiro, pelo visconde de S. +Salvador de Mathosinhos, o que bastaria para demonstrar não só a abnegação do +articulista, como a de tão distinctos cavalheiros pelo bem da nossa patria!<a +name="tex2html12" href="#foot426"><sup>[12]</sup></a></p> + +<p>Mas deixemos isto tudo de parte, visto que ao articulista pouco importam +as doutrinas de hontem e as manifestas contradicções das doutrinas de hoje, +sustentadas no mesmo jornal, onde o governo brazileiro tem sido accusado de +menos fiel no cumprimento dos seus deveres para com os colonos portuguezes, e +onde não vimos ainda a razão que dê aso a tantos elogios.</p> + +<p>Deixemos ainda que o articulista do <i>Brazil</i> viva em completa illusão +a respeito da protecção que diz dispensa aos colonos portuguezes a companhia +Transantlantica, que, a nosso ver, não é peor nem melhor do que a que +costumam dispensar outros engajadores, ou ainda mesmo da que poderia +dispensar o proponente Mattos,<a name="tex2html13" +href="#foot532"><sup>[13]</sup></a> caso a sua proposta fosse acceita pelo +governo do imperio como a mais lucrativa.<span class="pagenum"><a id="pag_42" +name="pag_42">[42]</a></span></p> + +<p>Deixemos de parte estas questões pessoaes, que o nosso fim é outro.</p> + +<p>Nós, como acontece ao articulista do <i>Brazil</i>, não temos procuração +de ninguem para defender este ou aquelle engajador, pelo simples motivo que a +todos achamos maus. Não somos a favor das companhias poderosas nem tão pouco +dos agricultores riquissimos do Brazil, quer sejam nossos compatriotas ou +não, os quaes, diga-se aqui de passagem, só precisam de escravos, pretos ou +brancos (é questão de nome) para lhes desbravar as terras, emquanto taes +senhores se balouçam nas suas redes de pennas, sem se importarem se os +colonos caem fulminados pelas febres ou pela intensidade do calor. Tambem não +somos mais favoraveis aos engajadores clandestinos, que ainda assim, não +merecem tanto a nossa particular attenção.</p> + +<p>Ha tudo a temer dos engajadores officiaes, d'esses por quem o articulista +do <i>Brazil</i> parece querer quebrar lanças; d'esses, que, com o fim de +chamar a si o maior numero de proselytos, têem a força sufficiente de illudir +as leis do nosso paiz; d'esses, cuja influencia é sufficiente tambem para +fazer demittir as nossas auctoridades subalternas, que oppõe a sua dignidade +ás promessas e ás ameaças dos engajadores;<a name="tex2html14" +href="#foot536"><sup>[14]</sup></a> d'esses, finalmente, que obtêem com +facilidade dos nossos governos a approvação de tarifas especiaes dos caminhos +de ferro, a preços reduzidos, para a conducção de colonos que, uma vez +chegados a Lisboa, deverão immediatamente embarcar nos paquetes que se +destinam aos portos do Brazil.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_43" name="pag_43">[43]</a></span>Mas +comquanto reconheçamos as difficuldades que ha em evitar a emigração para uma +região tão insalubre, porque de um lado temos os propagandistas que apregoam +phantasias e do outro as companhias e os capitalistas a protegel-os, +servindo-lhes de não pequeno auxilio a deficiencia das nossas leis, senão a +propria connivencia das authoridades, ainda assim havemos de ser sempre leaes +e acerrimos combatentes contra essa emigração, por ser a mais prejudicial aos +portuguezes.</p> + +<p>A circunstancia de se haver illudido o articulista do <i>Brazil</i>, com +respeito ao trabalho, que lhe parece ser mais bem remunerado no imperio do +que em nossas terras, é assumpto para mais largo debate.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Diz-nos o illustrado articulista assim com uns modos sentimentaes, em que +bem mostra o seu desejo de proteger a Companhia Transantlantica, e por +consequencia a emigração, visto que não descobrira ainda o remedio que lhe +deva por termo:—«Que não é para admirar que os nossos compatriotas <i>não +encontrando trabalho bem remunerado</i> na sua patria, por isso que a +<i>offerta é muito maior do que a procura</i>, busquem longe do seu torrão +natal onde empregar a sua actividade e receber em troco <i>uma remuneração +proporcional</i> aos seus esforços e á sua iniciativa, mais ou menos +intelligente e que dêem a preferencia ao Brazil,» etc.</p> + +<p>Em vista d'isto vê-se claramente, que o articulista vive das taes +phantasias, alimentadas pelos estudos theoricos, que cegam ás vezes as mais +robustas intelligencias. O abalisado escriptor é dos taes que vêem um ataque +á liberdade quando se escreve contra a emigração ainda quando nos termos em +que nós escrevemos; é dos taes que offerecem contra esses ataques as +milhares<span class="pagenum"><a id="pag_44" name="pag_44">[44]</a></span> de +libras sterlinas com que contribue o Brazil para a prosperidade do +Portugal.</p> + +<p>O articulista não sabe ou não quer discutir no campo da pratica, não só +porque desconhece o grande prejuizo que está causando ao nosso paiz a falta +de braços, como porque desconhece tambem a remuneração que se costuma dar ao +trabalhador de Portugal e ao do Brazil. A remuneração que elle acha +proporcional aos esforços do trabalhador de lá, é julgada apenas pelo +principio natural de que os campos virgens da America são mais ferteis. +Porém, contra esta verdade esquece outras, que inutilisam completamente os +esforços do trabalhador europeu, no Brazil.</p> + +<p>A remuneração offerecida ao trabalhador, ao contrario do que avança o +articulista, é mais proporcional entre nós do que no imperio, como já tivemos +ensejo de demonstrar em outro logar; porque alem da impossibilidade de poder +trabalhar debaixo d'um sol ardentissimo, se o colono portuguez tem a +felicidade de resistir ás epidemias do Brazil, que costumam atacar o europeu +recem-chegado, falta-lhe com tudo os meios de poder estabelecer-se na +lavoura, meios indispensaveis, como são os instrumentos agricolas e um +pequeno capital para a compra de terrenos. Alem d'isso, a protecção que o +Brazil offerece aos colonos é ficticia, porque as leis sobre a agricultura +são essencialmente vexatorias. O colono n'esta parte da America, ao contrario +do colono estabelecido nos estados do norte, trabalha apenas por supprir as +excessivas exigencias do governo. O producto devido á trabalhosa exploração +do colono, e que custa maior numero de sacrificios que em qualquer outro +paiz, fica ainda assim sujeito a um sem numero de taxas, quando precisa +exportal-o.</p> + +<p>Essas leis que tinham a sua razão de ser no tempo da escravatura, porque +então o trabalho era excessivamente mais barato, como mais adiante +demonstraremos,<span class="pagenum"><a id="pag_45" +name="pag_45">[45]</a></span> não podem mais existir para o trabalho lívre, +que ha de necessariamente subir de valor, e assim reunido aos direitos de +exportação, tornarão o genero tão caro, que jámais poderá competir com outros +iguaes nos mercados consumidores.</p> + +<p>Já dissemos em outro logar, que o governo brazileiro pede pelas madeiras +14 p. c. de exportação;<a name="tex2html15" +href="#foot4261"><sup>[15]</sup></a> e este é, sem duvida, o maior obstaculo +que o colono encontra nas terras brazileiras. Por outro lado o governo devia +auxiliar o explorador, abrindo-lhe estradas por o sertão, e sendo possivel +desimpedir os rios, as melhores vias de communicação para o interior.</p> + +<p>Mas os homens d'estado do Brazil nada mais enxergam a não ser a +necessidade de dinheiro; e para obtel-o auxiliam os engajadores, na persuasão +de que a muita quantidade de colonos europeus lh'o levará. Porém o engano é +manifesto, porque o colono dos nossos paizes logo que chega ao Brazil, onde +vê desenrolar-se o panorama de desgraças que os engajadores lhe esconderam, +se a <i>febre amarella</i> lhe dá tempo para isso, só trata (e então o numero +dos que escapam ao flagello é limitadissimo) de procurar o trabalho á sombra, +despresando o que costumava ser desempenhado pelos filhos de Africa, trabalho +que ainda assim não daria as riquezas que ahi vemos chegar quasi todos os +dias do Brazil.</p> + +<p>Não querem ouvir estas verdades os utopistas de lá não obstante terem +visto crescer fortunas fabulosas á sombra da escravatura. São tão ignorantes +como os utopistas de cá, que vêem em cada ricasso vindo do Brazil, qualquer +cavador ou ceifador da canna de assucar.</p> + +<p>Diz o articulista que a offerta do trabalho entre nós é maior do que a +procura. Engano manifesto. Em qualquer<span class="pagenum"><a id="pag_46" +name="pag_46">[46]</a></span> ponto de Portugal acontece justamente o inverso +do que avança o protector da emigração. E no Alemtejo especialmente a procura +é permanente.</p> + +<p>A viticultura, que n'esta vastissima provincia cresce de dia para dia, a +cultivação de cereaes e de olivedo, entretem não só os alemtejanos, mas ainda +muitas centenas de braços dos filhos das nossas provincias do norte. Não +obstante, esta concorrencia é ainda muito diminuta, e por isso muito bacello +ficou por plantar em 1876, em que os preços das cavas chegaram em muitos +logares a 500 réis.</p> + +<p>As ceifas foram morosas n'este mesmo anno, como quasi sempre, pela falta +de braços, empregando-se, como tivemos occasião de vêr, muitas mulheres em +tão arduo serviço. Em alguns pontos d'esta provincia os jornaes subiram a +500, 550 e 600 réis diarios e de comer!</p> + +<p>Toda a gente sabe, que no norte a propriedade está mais dividida, e que o +trabalhador destina alguns dias para o amanho d'um bocado de terreno que +possue e lhe costuma dar um pouco de milho, legumes, vinho e carne, productos +estes, que, juntos á pequena recompensa pelo trabalho que executára fóra de +casa, lhe fazem augmentar a féria que é sempre mais proporcional que no +Brazil. Os filhos das provincias do norte, que não possuem estas +<i>courellas</i>, são geralmente aquelles que no verão procuram o trabalho +nas provincias da Extremadura e Alemtejo, onde os lavradores lhes pagam bem +para passar o resto do anno, como já fica demonstrado.</p> + +<p>Por isso não vêmos qual é a desproporção apontada pelo articulista do +<i>Brazil</i>.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>O colono trabalhador que antes de partir para a<span class="pagenum"><a +id="pag_47" name="pag_47">[47]</a></span> America se occupava na cultura dos +nossos fertilissimos campos, vae occupar no Brazil o logar de aguadeiro, +carroceiro, catraeiro, ou na immensa deversidade de serviços que entre nós +costumam fazer os filhos da Galliza. Estes colonos, cujo numero é +limitadissimo, porque, como já dissemos, e nunca nos cansaremos de repetir, +de 70 a 80 por cento não pódem resistir ao clíma pestilento d'aquella parte +da America, ganham apenas para comer e vestir. E sendo economicos, isto é, +mettendo na algibeira o que devem dar á barriga, podem juntar algumas dezenas +de mil réis no fim de muitos annos. O dinheiro assim grangeado não se +converte em letras de cambio, nem tão pouco faz subir os nossos fundos. Esses +poucos haveres acompanham o expatriado quasi sempre exhausto de vida.</p> + +<p>Ha outro colono—o artista,—que reune mais algumas economias, porque os +lucros são outros. Ainda assim o seu salario não só não compensa os +sacrificios que soffre no Brazil, mas essa compensação é menos proporcional +do que na Europa, especialmente na actualidade.</p> + +<p>Dir-nos-hão:—Mas o artista traz dinheiro.</p> + +<p>É isso verdade, porque o portuguez que volta á patria envergonha-se de vir +com as algibeiras vazias. Porém, por quantas privações passou elle com o fim +de sustentar esse capricho?! Ainda assim o facto do artista trazer dinheiro +por similhante systema, não é razão para dizermos que o Brazil remunera mais +esta especie de trabalho. Se no animo do artista que prefere a patria +tivessem actuado as mesmas circumstancias, nós viriamos que as suas economias +seriam, quando não superiores, pelo menos iguaes, acrescendo ainda a vantagem +que não é para despresar, de viver mais descançado e no goso de mais perfeita +saude.</p> + +<p>Este e aquelle outro colono, não são propriamente dito, os que induzem, +quando voltam á patria, os nossos<span class="pagenum"><a id="pag_48" +name="pag_48">[48]</a></span> ambiciosos compatriotas a procurar as riquezas +ephemeras do Brazil. Aquella pobre gente raras vezes apparece na povoação que +os vira nascer, e quando apparecem é de visita, e por tal fórma ataviados que +mais incitam os novos aventureiros.</p> + +<p>É preciso notar que o trabalhador e o artista que vêem desilludidos do +Brazil, procuram, longe do seu povoado, onde possam exercer a sua industria, +sendo certo que o maior numero procura esconder o seu <i>crime</i> nas nossas +possessões ultramarinas; porque é crime apparecer pobre na terra em que +nascera!...</p> + +<p>Ha ainda outro colono, além do trabalhador e do artista—o +commerciante—que sae da sua aldeia com a ideia de ser caixeiro no Brazil. É +justamente d'estes que não veem lá com bons olhos, porque os naturaes querem +o commercio para si. Outros colonos ha, sahidos do commercio, que se fizeram +senhores de engenho ou agricultores, a quem a escravatura em poucos annos fez +centuplicar os haveres.</p> + +<p>As fortunas trazidas para Portugal por estes colonos, tem sido em todas as +epochas a varinha magica que tenta os trabalhadores. Esta pobre gente nunca +pensou na diversidade de posição d'aquelles, posição que por circumstancias +muito superiores ao entendimento do colono trabalhador, lhe traz os taes +lucros fabulosos, que se não acham a cozer um sapato, a talhar uma calça, a +construir um muro, a estucar uma sala, a carregar uma carroça ou a conduzir +um passageiro a bordo d'um navio, ou mesmo a desbravar as terras brazileiras, +caso o colono europeu podesse, como já dissemos, trabalhar debaixo do sol +ardentissimo dos tropicos.</p> + +<p>Porém, d'essas riquezas é que será difficil arranjar de futuro, porque a +agricultura no Brazil, a alma do seu prodigioso commercio, tende a +definhar-se de anno para anno em vista da falta de braços escravos, os<span +class="pagenum"><a id="pag_49" name="pag_49">[49]</a></span> unicos capazes +de arrotear aquelles vastissimos campos.</p> + +<p>Mas é preciso demonstrarmos essa difficuldade, para que se desilludam os +portuguezes, que procuram no Brazil este meio de vida.</p> + +<p>Eis o que vamos tentar em breves considerações.</p> + +<p>O negro foi em todos os tempos o unico ente capaz de resistir á humidade +venenosa que sae das terras brazileiras e ao calor excessivo que ao mesmo +tempo sobre ellas assenta. Os primeiros colonos que se estabeleceram no +Brazil, viram logo a dificuldade de empregar o europeu no desbravamento +d'aquelles terrenos insalubres; por isso chamaram a si, como os mais capazes +de resistir ao clima, os habitantes de Angola, Benguella, Cabinda, Moçambique +e Congo. Pouco tempo depois começou o commercio da escravatura.</p> + +<p>Os homens empregados n'este trafico, levavam os seus navios carregados de +bijouterias, d'um valor puramente ficticio, com que na Africa illudiam os +regulos. Estes davam em troca os seus <i>subditos</i>, que eram +immediatamente mettidos nos porões dos navios. Das costas d'Africa seguiam +para America, e não obstante morrerem 20 p. c. no transito! segundo a opinião +de Ferdinand Diniz, ainda assim o escravo ficava por um preço excessivamente +barato.</p> + +<p>Na primitiva o senhor d'engenho comprava o escravo a 150 e a 200 patacas +(48$000 e 72$000 réis fracos), ficando-lhe muitas vezes mais barato, se entre +elle e o negreiro se estabelecia a permuta de productos agricolas em troca do +preto. Nos ultimos tempos em que a escravatura era permittida, chegaram a +duplicar e ás vezes a triplicar de preço. Não obstante, o trabalho em que era +empregado o negro ficava excessivamente barato. Os productos agricolas +devidos a esse trabalho, davam o sufficiente para enriquecer os governos e os +senhores da agricultura.<span class="pagenum"><a id="pag_50" +name="pag_50">[50]</a></span></p> + +<p>Póde-se calcular, que o preto trabalha 20 anos para seu senhor. +Custára-lhe 192$000 réis, quando muito. Junte-se-lhe as despezas que com elle +fizera n'esse periodo de tempo—alimentação e vestuario;—aquella composta em +geral de farinha de mandioca, carne secca e bacalhau, algumas aboboras e +bananas para variar estes alimentos, não esquecendo a carne de baleia, a +rapadura do açucar, feita em pão, etc; e este (o vestuario) de pano +americano, e alguns riscados de algodão azul e branco, devidos á manufactura +ingleza; despesas que podemos orçar em 20 vezes mais do que o custo do negro; +isto é 3:840$000 réis, que reunidos áquela soma, prefaz 4:032$000 réis +fracos. Estabelecidos assim os calculos, podemos ver quais eram os principais +meios da riqueza passada, e quais são aquelles com que se póde contar para a +riqueza futura.</p> + +<p>Mas para illucidar mais o leitor, comparemos o trabalho do escravo com o +do homem livre.</p> + +<p>O homem livre não trabalha por menos de 2$000 réis fracos como já tivemos +ocasião de dizer. Vinte anos de trabalho a 2$000 réis, representam 14.000$ +réis; isto é, mais 9.568$000 réis, por cada trabalhador, contra o +proprietario das roças do Brazil!</p> + +<p>Havia roceiro que tinha 150 e 200 escravos e que vê em cada um que se +liberta, e que vai substituindo pelo braço livre, o prejuizo d'aquela +fabulosa soma e seus juros!</p> + +<p>A agricultura, por consequencia, ha-de cair infallivelmente, e o commercio +e a industria, que vivem exclusivamente d'ella, já vão começando a sentir-lhe +os effeitos. Eis a razão da affluencia de capitaes no nosso paiz; capitaes +que já não encontram no Brazil conveniente emprego; eis a razão porque o +governo brazileiro subsidia, mais do que nunca, as companhias engajadoras; +eis a razão porque a maior parte do nosso inexperiente commercio de Portugal +e Brazil, que<span class="pagenum"><a id="pag_51" +name="pag_51">[51]</a></span> ainda não previu o seu futuro, auxilia tambem +os engajadores; eis a razão, finalmente, porque combatemos a emigração para +aquelle paiz, quer os colonos se dediquem ao trabalho braçal, ao commercio ou +á industria.</p> + +<p>Iamos terminar este artigo, quando por acaso deparámos com o seguinte +telegramma expedido do Rio de Janeiro pela agencia <i>Havas</i>:</p> + +<p>«As sessões das camaras serão prorogadas por mais 15 dias, a fim de se +terminar a discussão do orçamento e da reforma da lei eleitoral, e sendo +possivel, a da lei de soccorros á agricultura, que se resente da falta de +braços e capitaes, e creação de engenhos a vapor centraes agricolas.»</p> + +<p>Este documento veiu a tempo de fortificar a nossa humilde opinião a +respeito da falta de braços e da saida de capitaes d'aquelle paiz.</p> + +<p>O governo promette desde ha muito remediar o mal; mas nós é que não +confiamos no seu auxilio, nem vemos que seja facil substituir o negro, ha +pouco libertado pelo Brazil.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>No nosso paiz ha jornaes que defendem hoje o que atacavam hontem, o que +não deixa de ser razoavel... até certo ponto; isto é quando da contradicção +apparente d'hoje nasça a rectificação sincera aos erros commettidos hontem. +Mas faz-se mais... queremos dizer:—faz-se menos; por que hoje se defende uma +causa julgada má, que hontem fora classificada de optima e vice-versa, isto +successivamente, conforme as conveniencias dos jornalistas que fazem do +sublime invento de Guttemberg o ariete com que costumam atacar o reducto da +moralidade. Outros ha, que, tendo começado a percorrer o bom caminho, recuam, +ao mais pequenino assomo de desagrado dos optimistas.<span class="pagenum"><a +id="pag_52" name="pag_52">[52]</a></span></p> + +<p>No primeiro caso está o jornalismo representado no jornal cujos escriptos +sobre emigração acabamos de criticar; e no segundo está, por exemplo o +<i>Diario de Noticias</i>, uma das folhas mais populares d'este paiz, e por +isso mesmo aquella que ensina menos; porque, como diz o ditado, todos os +dedos lhe parecem hospedes: porque de tudo tem medo.</p> + +<p>Dizia ha pouco um distincto litterato, que costuma encobrir o seu laureado +nome com o pseudonymo de <i>Fernão Vaz</i>, a proposito de uma critica feita +a um trabalho que destinamos ao theatro,<a name="tex2html16" +href="#foot563"><sup>[16]</sup></a> que o referido <i>Diario</i>, por ter +extractado dos relatorios dos consules o que alli ha de mais horroroso sobre +a emigração para o Brazil, foi alcunhado de <i>impertinente</i>; dando a +entender que a referida redacção suspendera a transcripção alludida—o mais +assignalado serviço que ella poderia prestar ao paiz—para se livrar do +anathema, que jámais iria ferir um collosso material creado e sustentado pelo +publico a quem essa publicação deve defender, para pagar um diminuitissimo +agio dos favores que lhe ha dispensado.</p> + +<p>Não fazemos accusações sem base, nem é nosso intuito offender ninguem; mas +se á tal suspensão presidio o <i>medo</i>, como se deprehende das palavras do +escriptor citado, e nós acreditamos—porque o director do referido jornal +<i>prohibiu</i> a que a sua redacção fosse representada na leitura do nosso +drama <i>Os Aventureiros</i>, fundado em epysodios da emigração—; o medo, +repetimos, ou a conivencia, em assumpto de tanta magnitude, é um crime de +lesa-imprensa que não póde deixar de ser fulminado com a maxima +severidade.</p> + +<p>Nem a <i>diplomacia do senso real das cousas</i>, nem a <i>diplomacia +hypocrita</i>, como diz algures o escriptor Fernão Vaz, a propósito das +impertinencias (?) que elle viu,<span class="pagenum"><a id="pag_53" +name="pag_53">[53]</a></span> póde ser adoptada como linha de conducta no +decorrer da nossa humilde critica, porque aspiramos apenas a encomios +firmados em justissimas apreciações aos nossos exforços e, sobretudo, a estar +bem com a nossa consciencia. Eis porque não tememos o epiteto de +impertinente.</p> + +<p>Nenhuma das diplomacias citadas, segundo os exforços que fizemos para as +perceber—pode desculpar uns certos erros publicos, que por estarem ao +alcance da imprensa digna e por que são essencialmente prejudiciaes ao paíz, +devem ser combatidos sem tregoas e tão severamente quanto é a altura d'onde +esses erros partem, quando não seja para corregil-os—porque ha infatuados +que nunca se corrigem—ao menos para prevenir os incautos do precipicio para +onde os podem encaminhar os apostolos do mal.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Temos que continuar a nossa critica severa, mas digna, a um trabalho sobre +emigração, publicado ha pouco sob os auspicios do governo do Brazil e +escripto por um litterato brazileiro, e para que não vão accusar-nos de +systhematico na propaganda contra a emigração <i>e a tudo que é +brazileiro</i>, entendemos dever começar pelos de casa.</p> + +<p>O livro a que nos queremos referir teve primeiro o seguinte +titulo—<i>Estudo sobre a colonisação e emigração para o Brazil</i>—e o +actual apparece com o de—<i>Brazil</i>—simplesmente. Não se lhe mudou +apenas a capa; fez-se mais: antepôz-se ao texto—que é o mesmo—os elogios da +imprensa portugueza, para que no imperio fosse mais facil a extracção do +livro!</p> + +<p>Este systema de <i>recommendações</i> tem grande valor no Brazil; e o +author do <i>Estudo</i> vio-lhe o alcance, o que<span class="pagenum"><a +id="pag_54" name="pag_54">[54]</a></span> não quer dizer que os nossos +<i>recommendadores</i> o vissem tambem: até cremos que usaram de boa fé; mas +não póde isso obstar a nossa critica.</p> + +<p>O tal livro advoga a emigração dos portuguezes para o Brazil, e além +d'isso offende os nossos brios, o que demonstraremos nos seguintes +capitulos.</p> + +<p>O auctor das <i>Farpas</i>, tendo estudado profundamente o assumpto em +dezembro de 1872, e tendo dado provas de que o estudára, mimoseando o publico +com 37 brilhantissimas paginas no referido folheto, em que bem se revella o +combatente convicto contra a emigração, <i>recommenda</i> pouco depois ao +publico, o seu antagonista, no seguinte documento:</p> + +<p> </p> + +<p>«.....O sr. Augusto de Carvalho é auctor de um livro importante ácerca da +emigração e da colonisação do Brazil, assumpto utilissimo para os interesses +portuguezes, do qual não póde deixar de occupar-se a imprensa que respeita a +sua missão. Creio bem que v. estimará egualmente cultivar as relações d'este +espirito conciliador»<a name="tex2html17" +href="#foot4262"><sup>[17]</sup></a> etc. etc.</p> + +<p> </p> + +<p>Este <i>espirito conciliador</i> respondendo á asserção da commissão de +emigração de que «em Portugal não ha miseria nem falta de trabalho que a +incite», diz o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«Permitta-nos a illustrada commissão que lhe façamos sentir que os factos +prottestam contra similhante conclusão. Na ultima leva de degredados +(portuguezes) em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados por furtos, +roubos e falsificações. E ainda no mez de novembro ultimo (1873), de 40 que +deram entrada no<span class="pagenum"><a id="pag_55" +name="pag_55">[55]</a></span> Limoeiro para seguirem o mesmo destino, 31 +foram-n'o por crimes da mesma natureza.»</p> + +<p> </p> + +<p>Este desenlace <i>conciliatorio</i> do tal <i>recommendado</i> ás +conclusões da commissão alludida, mostram mais alguma cousa do que a +conciliação, mostram a falta de bom senso; porque nos paizes onde a riqueza +anda a pontapés—para os que trabalham—tambem ha condemnados pelos crimes de +furto, roubos e falsificação, porque os ratoneiros, ladrões e falsarios de +<i>todas</i> as nações preferem tudo ao trabalho honrado. E havemos de provar +esta asserção com respeito ao proprio Brazil—a nova terra da promissão.</p> + +<p>Mas não antecipemos a critica ao livro <i>recommendado</i>.</p> + +<p>Querendo naturalmente defender os assassinos dos nossos compatriotas +residentes na sua patria, diz o auctor do <i>Estudo</i>, em tom +<i>conciliatorio</i>, já se sabe:</p> + +<p> </p> + +<p>«Acaso, por se haver morto com um tiro em certo logar do Minho, um infeliz +que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo d'aquella provincia +seja deshumano?»</p> + +<p> </p> + +<p>Será isto em desforço dos assassinatos de Jurupary e tantos outros?!</p> + +<p>O auctor das <i>Farpas</i> que responda.</p> + +<p>Defendendo os magistrados que prevaricam no imperio, commemora a seguinte +futilidade, que não tem nada de conciliatoria:</p> + +<p> </p> + +<p>«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes, a um +mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo crime de +<i>sorrir-se e piscar os olhos</i> para o delegado Duarte de Vasconcellos, +segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»</p> + +<p> </p> + +<p>Estes crimes sociaes commettidos no nosso paiz não<span class="pagenum"><a +id="pag_56" name="pag_56">[56]</a></span> podem equiparar-se com os crimes +sociaes commettidos no Brazil pelos naturaes contra a colonia portugueza. E +não póde porque... «A roça no imperio do Brazil, segundo diz o author das +<i>Farpas</i>, é como em Portugal o banco. É ella que faz a lei, a justiça e +o direito. Com uma pequena differença nos resultados d'esta influencia do +capital e da propriedade no Brazil e em Portugal: é que em Portugal é +contrastada pelas beneficas rezistencias de alguns milhares de cidadãos que +mantem a liberdade por meio da independencia facultada pelo trabalho; no +Brazil não, porque no Brazil quem trabalha é o escravo, e a quantidade +chamada povo não existe.»<a name="tex2html18" +href="#foot4263"><sup>[18]</sup></a></p> + +<p>O Brazil, aos olhos do tal recommendado, é o paraiso terreal, a terra +promettida, onde podem reunir-se os individuos de todas as nacionalidades, +que alli queiram ter patria commum; e aos olhos do auctor das Farpas, no +Brazil <i>tudo é hostil ao emigrado</i>; no Brazil <i>não respeitam a fé dos +contractos com os miseraveis trabalhadores portuguezes</i>; e accrescenta:</p> + +<p>«O colono portuguez no Brazil nem tem os direitos dos nacionaes, nem os +previlegios dos estrangeiros. Em uma nota do barão de Cotégipe, ministro +brazileiro, a mr. George Bukley, ministro inglez, ácerca da deserção de +marinheiros estrangeiros para a marinha brazileira, encontra-se consignada +nos seguintes termos a condição dos individuos que compõem a tripulação dos +navios do estado—escravos, portuguezes, nacionaes e estrangeiros.»</p> + +<p>Como teremos occasião de mostrar, o auctor do <i>Estudo</i> recommenda a +conveniencia da colonisação portugueza; e o auctor das <i>Farpas</i> +criticando habilmente o assumpto escreve estas terriveis verdades:<span +class="pagenum"><a id="pag_57" name="pag_57">[57]</a></span></p> + +<p>«A primeira tentativa de colonisação com trabalhadores livres, data de +1819, dois annos antes da independencia. Mil e setecentos aldeãos suissos do +cantão de Fribourg estabelecem-se no Val de Parahiba do sul e fundam a Nova +Friburgo no extremo limite meridional da zona torrida, perto de uma grande +cidade. Dez annos depois a colonia suissa estava em dois terços do que +primitivamente fôra. Actualmente a Nova Friburgo é uma cidade inteiramente +brazileira, onde raras familias friburguezas se encontram ainda.</p> + +<p>«Em 1845, uma nova tentativa feita sob os auspicios do governo brazileiro, +levou alguns milhares de trabalhadores de Baden e de bavaros do Palatinado ao +Rio de Janeiro. Estabeleceram-se em Petropolis, perto do palacio imperial. Em +1859—quatorze annos depois—de tres mil e dezeseis colonos que ainda +habitavam Petropolis, rarissimos tinham passado de simples cavadores de +enxada. Esta colonia tem-se concentrado cada vez mais em torno da residencia +imperial, e vive quasi exclusivamente da actividade que o soberano e a côrte +espalham necessariamente em torno de si.</p> + +<p>«O celebre naturalista suisso Tschudi, mandado pelo seu governo ao Brazil, +como plenipotenciario, a fim de estudar a historia dos emigrados, fez uma +viagem de muitos mezes atravez de differentes feitorias, e em um relatorio de +9 de outubro de 1860, no qual consignou as suas impressões e as suas idéas, +deixou um monumento historico pavoroso e indiscutivel contra a colonisação do +Brazil.</p> + +<p>«A suissa prohibiu a emigração dos seus filhos para aquelle ponto do +globo.</p> + +<p>«Avé-Lallemant, encarregado officialmente de visitar as colonias allemãs +no imperio brazileiro, dá pormenores aterradores da sorte dos obreiros que +encontrou nos estabelecimentos do Mucury, na provincia de Porto Seguro.<span +class="pagenum"><a id="pag_58" name="pag_58">[58]</a></span></p> + +<p>«Dolorosamente penetrado da desgraça que presenceou, Avé-Lallemant, +dirigiu-se pessoalmente ao imperador, expoz-lhe as condicções em que estavam +vivendo os seus compatriotas no Mucury, e conseguiu de sua magestade que um +navio fosse mandado áquella colonia, afim de trazer para os hospitaes do Rio +de Janeiro os infelizes, os doentes e os <i>desesperados</i>. +<i>Desesperados</i>, palavra que sobre a colonisação do Brazil se empregou +então officialmente pela vez primeira e talvez unica no mundo!</p> + +<p>«A primeira leva dos emigrados recolhidos do Mucury ao Rio de Janeiro a +bordo do alludido vapor do estado, foi composta sómente dos enfermos, e +constou de oitenta e sete individuos.</p> + +<p>«A praça do Rio de Janeiro deve de recordar-se ainda do dia memoravel na +historia da emigração em que se viu chegar esse tragico e funebre comboio.</p> + +<p>«Os possantes e valerosos mancebos allemães; que o Rio vira passar poucos +mezes antes corajosos, esperançados e alegres para os trabalhos do Mucury, +eram desembarcados em macas nos caes ruidosos da capital de um dos mais ricos +paizes do mundo.</p> + +<p>«Vinham devorados pelas febres paludosas exhaladas de um rio podre, +cobertos de lepra e de <i>vermine</i>, immundos de chagas e escalavrados de +contusões.</p> + +<p>«Um tinha morrido no trajecto, a bordo. Outro expirou justamente no +momento em que o collocavam em terra.</p> + +<p>«Poucos dias depois chegava do Mucury uma segunda leva de emigrados, com +cerca de outros tantos enfermos e outros dois cadaveres.</p> + +<p>«A opinião no Rio de Janeiro tinha-se mostrado tão profundamente commovida +com este espectaculo de uma barbaridade suprema e de uma miseria unica, os +poderes publicos estavam tão evidentemente instruidos do que era a colonia do +Mucury, que Avé-Lallemant,<span class="pagenum"><a id="pag_59" +name="pag_59">[59]</a></span> tendo depositado nas mãos do governo o +relatorio que fizera, entendeu que podia deixar o Rio de Janeiro e proseguir +para o norte a viagem de exploração de que se incumbira, sem receio de que +jámais se podessem repetir as calamidades que presenceara.</p> + +<p>«Apenas o viajante allemão deixou o Rio de Janeiro o director da colonia +do Mucury publicou uma nota justificativa do seu procedimento. Um delegado +imperial enviado ao Mucury para liquidar a verdade, expirou ao regressar ao +Rio. De sorte que tudo ficou no estado em que se achava antes do relatorio de +Lallemant. Com uma unica differença. Immediatamente depois do que acabava de +se passar, o senado brazileiro votava á companhia do Mucury um credito de +cerca de 500 contos com a garantia de um juro de 7 por cento! Era o applauso +do governo e a gratidão nacional sanccionando um dos maiores vexames que teem +sido impostos á civilisação e á humanidade.</p> + +<p>«Ha mais ainda: Os eleitores de Minas Geraes propozeram por duas vezes o +nome do director da colonia do Mucury no primeiro logar da lista +senatorial.</p> + +<p>«Dois unicos homens, honrados e benemeritos, protestaram nobremente contra +este oprobrio da justiça—o imperador, que riscou da lista dos senadores o +nome do eleito por Minas Geraes como inapto para representar os interesses de +um povo, e o sr. Silva Ferraz, ministro da fazenda, o qual aboliu o credito +votado á colonia que tal cidadão dirigia.<a name="tex2html19" +href="#foot4264"><sup>[19]</sup></a>»</p> + +<p>Isto é a verdade.</p> + +<p>A carta antithesis ao que fica transcripto, devia ser classificada +de—<i>diplomacia do senso real das cousas</i>, pelo meu amigo Fernão +Vaz!<span class="pagenum"><a id="pag_60" name="pag_60">[60]</a></span></p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Mas não ficaram ainda aqui os encomios ao <i>Estudo sobre a colonisação e +emigração para o Brazil</i>.</p> + +<p>O nosso presadissimo amigo e distincto litterato, o sr. Theophilo Braga +tambem diz que o livro <i>Estudo, é uma necessidade!</i></p> + +<p>O <i>Jornal do Commercio</i> de Lisboa, diz que, <i>nós, os portuguezes +nos devemos regosijar</i> com o tal livro.</p> + +<p>O <i>«Jornal do Porto», folga de ver que o distincto escriptor não faz +côro com alguns espiritos estreitos, que d'alem mar olham superciliosa e +desdenhosamente para as nossas coisas</i>, etc.</p> + +<p>O <i>Jornal da Manhã</i> diz que o citado auctor prodigalisa elogios a +Portugal.</p> + +<p>O sr. Mendes Leal diz que é um <i>excellente trabalho sobre a +emigração</i>.</p> + +<p>O sr. Camillo Castello Branco tambem elogia a obra, o <i>Commercio do +Porto</i> faz outro tanto.</p> + +<p>A praça do Commercio do Porto, digna correligionaria da de Liverpool até +aos annos de 1808, offerece uma penna de ouro ao escriptor que calca aos pés +as nossas glorias e que induz o trabalhador inexperiente, convertido em +escravo, a ir povoar os insalubres sertões de Brazil!</p> + +<p>O auctor do <i>Estudo</i> dedica-lhe o livro e a Praça responde-lhe com o +seguinte <i>documento honroso</i>:</p> + +<p>«Nós abaixo assignados deliberamos, em nome dos commerciantes da Praça do +Porto, offerecer ao sr. Augusto de Carvalho uma penna de ouro, como +testemunho de sympathia pelo muito com que se nos recommenda o seu talento e +exforços, tendentes a bem servir a causa da civilisação, em que cremos +reservada para nós grande parte.</p> + +<p>«Não só pelo individuo, pelo caracter, senão tambem<span +class="pagenum"><a id="pag_61" name="pag_61">[61]</a></span> pelos serviços +que ha já prestado e continuará a prestar aos dous paizes irmãos—Portugal e +Brazil—julgamos de nosso dever contribuir o mais possivel para que o sr. +Augusto de Carvalho não affrouxe um instante na missão que se +propôz—estreitar cada vez mais os laços que prendem portuguezes e +brazileiros. E como o Brazil é quasi que exclusivamente commercial, para que +ahi conste como costumamos, nós, interpretes do commercio do Porto, receber e +affagar qualquer brazileiro que aqui aporte, e nos mereça a maxima +consideração, já pelo seu caracter, já pelo seu talento, que não hostilise +mas civilise, suppomos satisfazer d'este modo o velho sentimento de +hospitalidade como portuguezes, e o dever em que nos constituiu o auctor do +<i>Estudo sobre a colonisação e emigração para o Brazil</i>, de o animarmos a +proseguir na santa idéa, no santo principio da maxima conciliação entre os +dois povos.»</p> + +<p>Outros escriptores e outros jornaes mostram opinião adversa ao livro; e de +uns e outros ficamos fazendo a seguinte opinião:—os que elogiaram não leram +o livro os que o atacaram, leram-o; porque não podemos admittir que os bons +economistas e os bons patriotas possam elogiar o <i>Estudo sobre colonisação +e emigração para o Brazil</i>.</p> + +<p>Vamos demonstrar que fizemos o mesmo do que aquelles que condenaram o +livro, dando provas de que o lemos, criticando-o.<span class="pagenum"><a +id="pag_62" name="pag_62">[62]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO III</h1> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0030001">As falsas doutrinas sobre emigração. A nova terra da +promissão, ou o paiz de romanos. Rocha Pitta e Augusto de Carvalho. O escravo +e a sua emancipação. As leis brazileiras sobre colonisação. A legislação +n'outros paizes. A religião brazileira é contraria á emigração europea. A +reforma religiosa nos seculos XVI e XVII concorreu para o engrandecimento dos +Estados Unidos da America. Os jesuitas e a escravatura na America do Sul. Os +jesuitas e os bandeirantes. Nobrega, Anchieta e os indios. Desmandos dos +jesuitas. Contradicções. Os hollandezes em Pernambuco. Heroes, traidores e +authomatos na restauração de 1643. Fernandes Vieira e André Vidal de +Negreiros. Horrores historicos.</a></div> + +<h2>I</h2> + +<p>Publicou-se ha pouco um livro intitulado o <i>Brazil</i>. Advogar a causa +da colonisação e da emigração para o imperio americanno, eis o seu principal +assumpto. Foi impresso no Porto em 1875, e é offerecido á praça do commercio +d'aquella cidade. Seu auctor é o sr. Augusto de Carvalho, escriptor +brazileiro, a quem a fama tem elevado ao apogeo de litterato distincto.</p> + +<p>Pode dizer-se, sem medo de errar, que a nova publicação, em substancia, +pouco mais differe de uma outra, do mesmo auctor, publicada um anno antes, +sob o titulo—<i>Estudo sobre a colonisação e a emigração para o Brazil</i>. +Não é reimpressão por se ter esgotado a obra; mas o auctor, pelo que +colligimos, esquecera-se de chamar <i>historia</i> á edição de 1874, e veio +agora supprir essa falta.<span class="pagenum"><a id="pag_63" +name="pag_63">[63]</a></span></p> + +<p>Eis ahi está um escrupulo bem entendido, que toda a gente levará a bem no +sr. Augusto de Carvalho.</p> + +<p>Empenhado na luta em que o auctor do <i>Brazil</i> se mostra acerrimo, mas +não habil combatente, porque mais de uma vez offerece ás balas do inimigo o +peito descoberto, não devemos ensarilhar as nossas armas, visto que o reducto +é de facil accesso.</p> + +<p>Veio um homem do Brazil para as nossas terras, com o fim de animar as +consciencias aváras pelas riquezas do imperio. Esse homem encostado á +diplomacia, mas litterato pouco consciencioso, embora as cornetas da fama o +collocassem nas alturas, soube estudar a fraqueza d'aquelles a quem se +dirige: d'ahi a supposta victoria! Os seus escriptos, adequados ás +intelligencias fracas, que só pensam no oiro e no bem particular e que +despresam o bem geral, que é a prosperidade d'este paiz; resumem-se nas +doutrinas erroneas, tantas vezes repetidas, mostrando sempre o caminho +phantastico, que já mais poderá conduzir o viajante incauto ao sonhado +El-Dorado. Esses escriptos, alem de mentirem á historia, como havemos de +provar, formam, por assim dizer, um compendio de instrucções pueris, que +parte do nosso commercio abraça e premeia, sem lhe estudar a causa, que é a +decadencia do imperio; e n'esta ignorancia, ou egoismo, serve de porta-voz ás +illusões que taes escriptos encerram, para que os nossos infelizes +trabalhadores abandonem a patria e a familia, e que, melhor aconselhados, +deveriam com seus robustos braços, concorrer para o engrandecimento da nossa +agricultura, que ha de vir a ser a riqueza de todos que para ella +collaborarem.</p> + +<p>O livro de que vimos fallando defende e aconselha a emigração de +portuguezes para o Brazil. A razão é forte:—o imperio precisa de braços, +como o esfomeado precisa de alimentos, e o novel historiador, como bom filho, +não quer ver morrer a sua patria.<span class="pagenum"><a id="pag_64" +name="pag_64">[64]</a></span></p> + +<p>Honra lhe seja.</p> + +<p>Não condemnamos a emigração <i>expontanea</i>. Ella, até certo ponto, é +necessaria, especialmente a que se encaminha para possessões nossas, onde o +trabalho fica sendo riqueza da patria, quer os lucros permaneçam nas nossas +colonias, quer se desviem para á metropole. Não a condemnariamos mesmo para o +imperio, se se não dessem as circunstancias apontadas já e outras que faltam +apontar ainda. Mas como filho d'este abençoado paiz, condemnaremos com todas +as veras do coração as falsas doutrinas de que se servem os alliciadores, +para arredarem de Portugal e seus dominios os nossos trabalhadores +incautos.</p> + +<p>Nada de enganos. Pintem o Brazil tal qual elle é, e se depois de exhibirem +o seu fiel retrato, apparecerem adoradores, la se avenham os descrentes do +retratista.</p> + +<p>Não aconselhariamos ao auctor do livro que analysamos a que dissesse mal +do seu paiz. O que não desejamos para nós não aconselhamos aos outros. Mas se +a causa é má, cumpria dar-lhe de mão. O bom advogado, pelo menos, não tomaria +conta d'ella.</p> + +<p>O auctor do <i>Brazil</i> não só se fez o advogado de uma causa má, mas, o +que é mais, o seu escripto recente-se da falta de seriedade, depois que foi +transformado em historia.</p> + +<p>O historiador é quasi profeta: elle deve estudar muito o passado e o +presente para evitar os males futuros.</p> + +<p>Um habil operador corta a parte gangrenosa, para evitar a perca total do +corpo. E o auctor do <i>Brazil</i>, não metteu o bisturi na chaga:—o mau +systema da colonisação, as leis barbaras que a matam.</p> + +<p>O historiador não deve ser injusto.</p> + +<p>Thiers, antes da guerra assolar a França, previu os males da sua patria. +Deixou por isso de ser o primeiro entre os francezes?</p> + +<p>O auctor do livro o <i>Brazil</i>, alem de tentar deslustrar-nos<span +class="pagenum"><a id="pag_65" name="pag_65">[65]</a></span> não viu o mal +que definha a sua patria, para applicar-lhe o curativo. Parece que só +escrevera para exaltar os malevolos e, depremindo-nos, illudir os pobres +d'espirito. Mas ainda mesmo que os incautos, seduzidos pelas phantasias +deixem passar as excrecencias que o livro encerra, julgará o governo +brazileiro, por conta de quem foi escripta a obra em questão, que alguns +milhares de colonos do nosso paiz, poderão supprir a falta de alguns milhões +de braços de que se resente a lavoura do imperio?</p> + +<p>Portugal possue uns quatro milhões de habitantes e pouco mais comporta o +seu territorio. O Brazil deve possuir uns dez milhões, mas comporta duzentos! +É impossivel que o nosso paiz possa supprir o imperio de tão grande falta; +assim como não é razoavel que uma pequena fonte possa abastecer de agua uns +poucos de mil hectares de terras sequiosas.</p> + +<p>Vejamos quaes são os paizes que mais podiam concorrer para a prosperidade +do Brazil. Naturalmente a Inglaterra, a Allemanha, a França e a Italia; mas +os governos d'estas tres ultimas potencias prohibem a emigração para o +imperio, quando alli se manifesta a febre amarella, que produz os seus +maleficos effeitos nos primeiros seis mezes de cada anno. E quando não +existisse tal prohibição, seria facil aos estadistas do Brazil desviar a +corrente da emigração d'aquelles povos para a America do Norte?</p> + +<p>Não, de certo: a isso se oppõem os costumes e as leis do povo +brazileiro.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>«O Brazil, essa nova terra da promissão, onde de dia para dia se vae +realisando a promessa de Christo de—<i>cento por um</i>—depois de attestar +a sua virilidade em tantos combates illustres, pelejados nos campos do<span +class="pagenum"><a id="pag_66" name="pag_66">[66]</a></span> Paraguay, despe, +conscio da sua missão civilisadora e humanitaria, a farda do soldado da +liberdade, e vestindo novamente a blusa do trabalhador, e empunhando alegre a +rabiça do arado, volve, como o cidadão romano dos tempos da verdadeira +grandeza de Roma, a retemperar-se de forças e virtudes nos abençoados labores +da sua agricultura.»<a name="tex2html20" +href="#foot4265"><sup>[20]</sup></a></p> + +<p> </p> + +<p>Sim, senhor. Estylo de poeta, saido do parnaso das mattas frondosas, +deitado em maqueira de pennas de araras, embriagado pelo aroma das flôres +pendentes dos cipós que do cimo das arvores seculares, vem interlaçar-se na +cabeça escandecente do poeta: comendo aráçá e bebendo a saborosa agua de +côco, transformada no maná do céo; adormecendo ao som mavioso do sabiá, que +chilrea no cimo da palmeira; rodeado de beija-flôres e de tapuyas, os anjos +d'aquelle paraizo deslumbrante, e ao mesmo tempo venenoso!</p> + +<p>Sim, senhor; sonhos de poeta transformados em historia!</p> + +<p>O Brazil, berço da indolencia, e tumulo da maior parte d'aquelles que têem +querido sondar os seus intrincados labyrinthos, convertido, com uma pennada, +em—<i>nova terra da promissão</i>—e... em paiz de romanos!</p> + +<p>O Brazil, morto emquanto se davam os combates illustres, revivendo depois +para empunhar a rabiça do arado! como se fôra possivel admittir, sem replica, +que os trabalhos agricolas paralisassem no tempo da guerra do Paraguay; como +se fôra certo que o soldado viera do campo da batalha substituir a farda pela +blusa do cidadão romano!</p> + +<p><i>Cento por um!</i> e no Brazil ha tanta miseria como em qualquer outro +paiz da Europa!<span class="pagenum"><a id="pag_67" +name="pag_67">[67]</a></span></p> + +<p>Dos que procuram aquellas inhospitas plagas, convertidas n'um momento de +lyrismo, na <i>terra promettida</i>, escapa ou pode ser feliz <i>um por +cento</i>.</p> + +<p>Nunca nos cançaremos de repetir esta verdade, por que sabemos por +experiencia o que é o Brazil.</p> + +<p>É bom escudar com documentos de mui recente data as nossas palavras.</p> + +<p>Diz um que temos á vista:</p> + +<p>«Dos emigrantes, aquelles a quem cabe mais desgraçada e commovente sorte, +são os que vem para fugir ao recrutamento; não os clandestinos, mas os +menores de 14 annos, e infelizmente é avultado o numero d'estes; porque, como +só depois dos 14 annos é que são obrigados a prestar fiança, os paes para os +não verem soldados preferem arremessal-os para o Brazil, muitas vezes sem a +mais leve recommendação, entregues completamente á sua inexperiencia, <i>se +não acham a quem os vender!</i></p> + +<p>«É ignobil, mas é verdade.</p> + +<p>«Estes infelizes assim vendidos, vão para o interior do paiz ser +barbaramente explorados pelos compradores, que os obrigam a todo o genero de +serviços, muitas vezes superiores ás suas forças, tratando-os peor que aos +seus escravos, porque estes representam um capital consideravel e aquelles +sómente a importancia da passagem.</p> + +<p>«A acção dos funccionarios consulares fica inutilisada para os proteger na +sua chegada a esta côrte, e a das auctoridades territoriaes é nulla no +interior contra os fazendeiros» etc.<a name="tex2html21" +href="#foot649"><sup>[21]</sup></a></p> + +<p>E accrescenta:</p> + +<p>«Todas estas coisas, que deixo expostas influem mais ou menos na +emigração, mas realmente o que se póde dizer<span class="pagenum"><a +id="pag_68" name="pag_68">[68]</a></span> que abertamente influe n'ella são +os engajadores e a febre do ouro.</p> + +<p>«Os primeiros seduzindo essa pobre gente e abonando-lhes a importancia da +passagem e mais arranjos, fazem recrudescer a febre que domina as populações +e o delirio os impelle a entrar n'esse <i>fatal azar em que jogam familia, +patria, saude e a propria vida contra uma fortuna que raros attingem</i>.»</p> + +<p>A divisa—<i>cento por um</i>—está bem patente n'este documento +official.</p> + +<p>O consul do Maranhão é mais esplicito. Vejamos como elle distingue a +<i>nova terra da promissão</i>:</p> + +<p>«Quem estudar as causas da grande torrente de emigração que todos os annos +se estende para o Brazil, ha de confessar que ella assenta muito +principalmente nas <i>falsas insinuações de alliciadores assalariados</i> +que, sem consciencia e dominados sómente pelo seu proprio interesse, +<i>arrastam essa parte da nossa sociedade menos esclarecida para a +ruina</i>.»<a name="tex2html22" href="#foot656"><sup>[22]</sup></a> etc.</p> + +<p>E mais adiante:</p> + +<p>«De todas as emprezas fundadas, não póde haver seguramente nenhuma mais +vil e ignominiosa do que seja esta (a dos engajadores), que tem por fim +<i>seduzir</i> uma innumeravel multidão de portuguezes ignorantes, <i>e por +isso facilmente se deixam dominar pelas ficticias narrações das abundantes +minas de oiro, que se encontram por toda a parte</i>, pelas excellencias e +fertilidade d'este solo!</p> + +<p>«Os miseros que ali trabalhavam (na colonia Arapapahy) debaixo d'um sol +ardente e enterrados em lodo, acabaram pela maior parte no hospital; outros +ainda doentes foram mandados por este consulado para a sua terra natal, posto +que com algum sacrificio, e os restantes amarellos e inchados, vagueavam por +essas ruas esmollando a caridade publica!»<span class="pagenum"><a +id="pag_69" name="pag_69">[69]</a></span></p> + +<p>Que paraizo!...</p> + +<p>O consul de Pernambuco tambem não acredita no maná descoberto no Brazil +pelo auctor do <i>Estudo historico</i>.</p> + +<p>Eis como elle se expressa:</p> + +<p>«Os emigrantes portuguezes estabelecem-se geralmente nas capitaes das +provincias, ou em uma cidade ou villa do litoral, ou do interior, onde haja +algum commercio de certa importancia, sendo mui raros os que se aventuram a +internar-se no paiz, por não terem nem protecção de patricios, parentes ou de +amigos, <i>e por estarem menos garantidos na sua segurança pessoal e de +propriedade</i>!</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Poucos são os que se empregam na agricultura, tanto pela razão acima +declarada, de pouca propensão que tem a internarem-se no paiz, como pelo +rigor do clima dos tropicos» etc.<a name="tex2html23" +href="#foot688"><sup>[23]</sup></a></p> + +<p>É a terra promettida... e um calor, que deixaria os colonos feitos em +torresmos, se caissem na patetisse de se exporem ao sol!</p> + +<p>E encarando a cousa pelo ponto de vista social, accrescenta:</p> + +<p>«As relações em que vive a colonia portugueza com a população do paiz não +são caracterisadas pelas attenções, obsequio e amisade cordeal que seria para +desejar existisse entre os emigrantes portuguezes e os naturaes do paiz, +sendo uns e outros da mesma origem, fallando o mesmo idioma e tendo a mesma +religião.</p> + +<p>«Póde dizer-se em geral que os emigrantes portuguezes, que residem n'este +districto consular, não são bemquistos da população nacional, que, além de +tratal-os de modo grosseiro e offensivo, soffrem muitas vezes epithetos +affrontosos, e são victimas do odio latente que os nacionaes nutrem contra +elles!»<span class="pagenum"><a id="pag_70" name="pag_70">[70]</a></span></p> + +<p>É este o reverso da medalha.</p> + +<p>A promessa do author do novo livro—não profanaremos Christo—de <i>cento +por um</i>, com respeito ao Brazil, é o calor tropical e o lado pestifero; +são as riquezas ephemeras, os horrores da miseria, a falta de protecção das +authoridades e os maus tratos do gentio!</p> + +<p>Não é pouco!...</p> + +<h2>III</h2> + +<p>O que citamos do livro <i>Brazil</i> não é sufficiente para dar maiores +proporções á nossa humilde critica. O seu auctor não levou a palma da +victoria a outros apologistas do imperio americano. Nós já lemos cousas mais +attrahentes ou seductoras, e, por isso mesmo, mais romanticas, que é o que +convem para illudir os emigrados.</p> + +<p>As palavras que vamos transcrever deviam necessariamente surtir melhor +effeito.</p> + +<p>Eil-as:</p> + +<p>«Do Novo Mundo, tantos seculos escondido, e de tantos sabios calumniado +(sic), onde não chegaram Hannon com as suas navegações, Hercules Lybico com +as suas columnas, nem Hercules Thebano com as suas emprezas, é a melhor +porção o Brazil; vastissima região, fertilissimo terreno, em cuja superficie +tudo são fructos, em cujo centro tudo são thesouros, em cujas montanhas e +costas tudo são aromas; tributando os seus campos o seu mais util alimento, +as suas minas o mais fino ouro, os seus troncos os mais suaves balsamos, e os +seus mares o ambar mais selecto: admiravel paiz a todas as luzes rico, onde +prodigamente profusa a natureza, se desentranha nas ferteis producções, que +em opulencia da monarchia, e beneficio do mundo apura a arte, brotando as +suas cannas espremido nectar, e dando as suas fructas sazonada ambrozia, de +que foram<span class="pagenum"><a id="pag_71" name="pag_71">[71]</a></span> +mentida sombra o licôr, e vianda, que aos seus falsos deuses attribuiu a +culta gentilidade.</p> + +<p>«Em nenhuma outra região se mostra o ceu mais sereno, nem madruga mais +bella a aurora: o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios tão dourados +(nem é tão quente!) nem os reflexos nocturnos tão brilhantes; as estrellas +são as mais benignas, e se mostram sempre alegres: os horisontes, ou nasça o +sol, ou se sepulte, estão sempre claros: as aguas ou se tomem nas fontes +pelos campos, ou dentro das povoações nos aqueductos, são as mais puras: é +emfim o Brazil terreal paraiso descuberto, onde tem nascimento e curso os +maiores rios; domina salutifero clima (sic); influem benignos astros, e +respiram auras suavissimas, que o fazem fertil e povoado de innumeraveis +habitantes, posto que por ficar debaixo da Torrida Zona, o desacreditassem, e +dessem por inhabitavel Aristoteles, Plinio, e Cicero, e com gentios os padres +da igreja santo Agostinho, e Beda, que a terem experiencia d'este feliz orbe, +seria famoso assumpto das suas elevadas pennas, aonde a minha receia voar, +posto que o amor da patria me dê azas, e a sua grandeza me dilate a +esfera.»<a name="tex2html24" href="#foot4266"><sup>[24]</sup></a></p> + +<p>Aconselhamos aos alliciadores a conveniencia de mandarem acrescentar as +palavras que ahi deixamos transcriptas nos cartazes que costumam affixar nos +troncos dos carvalhos dispersos pela natureza nas proximidades das vivendas +dos nossos proletarios do norte. Os capitães dos barcos conseguirão assim +mais facilmente o <i>lastro</i> desejado!...</p> + +<p>Condemnamos o estylo empregado nos trechos citados de um e outro +escriptor, ambos com pretenções a historiadores, porque esse estylo, segundo +Lamartine, «é a magica de que o homem se serve, muitas vezes<span +class="pagenum"><a id="pag_72" name="pag_72">[72]</a></span> com feliz +successo, para fazer admittir paradoxos como verdades e sophismas como +excellentes raciocinios.»</p> + +<p>A imparcialidade da historia, dizia o referido escriptor, não é como a do +espelho que reflecte os objectos; é a do juiz que vê, escuta e julga. Para +que ella mereça este nome, é-lhe mister uma consciencia. A narração +vivificada pela imaginação, reflectida e julgada pela sabedoria, eis a +historia.</p> + +<p>Quem não sabe escrever a historia assim, deve quebrar a penna antes de +profanal-a.</p> + +<p>Mas aos agentes do Brazil, convem desvirtuar tudo, convencidos como estão, +de que podem chegar mais facilmente a seus fins—o interesse particular.</p> + +<p>Que lhes importa a elles a historia?...</p> + +<p>É moda hoje erigirem-se estatuas aos pygmeos da actualidade! E que importa +que a posteridade, que costuma erigil-as aos verdadeiros heroes, venha +derrubal-as para cima dos tumulos da ignominia? que se afundam as estatuas na +lama em que vegetavam os miseros animalucos, transformados, n'um momento de +delirio, de hypocritas em Catões?</p> + +<p>Podereis acaso, mumias lodosas, fazer fallar o pó a que infallivelmente +estarão reduzidos os vossos pergaminhos e as vossas lucubrações?</p> + +<p>Não, que a verdadeira historia, quando se demora um pouco para dar realce +a qualquer vulto digno, se alguma vez lança mão d'esses pygmeus, é para os +esmagar!</p> + +<p>O governo do Brazil deu o passo errado de libertar os escravos antes de +criar as leis, que regulassem o trabalho no imperio.</p> + +<p>Devia, como já o dissemos em outro logar, ter educado os naturaes a +desempenhar o papel, que outr'ora representava o trabalhador africano. +Ninguem melhor do que o indigena podia substituir o escravo; mas a lei que +libertára este mostrou ao mundo a inutilidade<span class="pagenum"><a +id="pag_73" name="pag_73">[73]</a></span> d'aquelle. É o que hoje estamos +vendo. A agricultura definha de dia para dia, á maneira que o antigo +trabalhador se liberta; e o Brazil abre os braços suplices aos europeus, para +que o livrem do abysmo em que pouco a pouco se vae precipitando. Por isso os +seus homens d'estado lançam mão de qualquer meio, sem previamente lhe +conhecer a utilidade. Similhante ao naufrago, em pleno oceano, a vaga que ha +de matal-o, se lhe afigura a taboa da salvação. Não se contenta com a fama +das riquezas ephemeras, fama que em todas as épocas assombrou o mundo. +Destaca agentes para Portugal, onde as vozes descompassadas dos engajadores +não pódem formar écho além das nossas fronteiras. Gasta fabulosas sommas, com +esses engajadores que em troco, fazem transportar para o Brazil algumas +centenas de braços, que, afinal, não compensam as despezas feitas; porque, +além do numero de colonos ser limitadissimo; o europeu, uma vez chegado ás +margens d'esse paiz de fadas, convertido no que realmente é—cemiterio do +proletario—vê-se na impossibidade de empregar as suas já quebrantadas +forças, por effeito do clima, no serviço arduo de arrotear aquellas terras, +que por todos espalha o desanimo e a morte. E os homens do Brazil dormem á +sombra dos combates illustres da guerra do Paraguay, esperando, sem duvida, +que do ceu lhe cáia o orvalho vivificador, promettido pelo auctor do livro +que analysamos!</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>«A emancipação do escravo, caminho resvaladio para a extincção definitiva +d'esse abominavel cancro, que tanto tem afeiado os codigos das nações mais +civilisadas, e as ultimas disposições da lei, tendentes a facilitar a +naturalisação dos estrangeiros, ao passo que revelam<span class="pagenum"><a +id="pag_74" name="pag_74">[74]</a></span> o cuidado, que põe o governo +brazileiro em dar certo cunho de homogeneidade á legislação civil do imperio, +acabam igualmente por convencer que o seu pensamento predominante é o de +reunir, sob o céo esplendido do Cruzeiro, os individuos de todas as +naturalidades, que alli quizerem ter por patria commum—<i>o trabalho</i>.»<a +name="tex2html25" href="#foot4267"><sup>[25]</sup></a></p> + +<p> </p> + +<p>Analysemos a emancipação do escravo, quanto baste para demonstrar, que aos +homens que collaboraram na lei do imperio, n.º 2040, não presidiam só as leis +da humanidade, que, ainda assim, não devemos negar a outras nações mais +cultas; mas tambem a ideia de se imporem ás outras nações, como quem tinha +estudado, bem de perto, e com melhor exito, uma questão tão complexa; +parecendo querer corrigil-as da sua morosidade, na destruição do cancro, e +quiçá da creação d'elle, cancro que <i>talvez</i> o Brazil não creára se +fosse dirigido pelos homens que em 1871 estavam á testa dos negocios do +imperio!</p> + +<p>Não negamos as vantagens moraes da abolição da escravatura, mas negamos a +apregoada phylantropia d'aquelles que ensinámos a ser humanos.</p> + +<p>Um conjuncto de circumstancias, que seria fastidioso enumerar, e que não +comporta este trabalho concorreram para o commercio da escravatura no Brazil, +levando a melhor parte n'esta deshumana ideia os jezuitas que, desde a +primitiva, dominaram na America meridional. Fosse que elles reconhecessem a +inutilidade de empregarem os naturaes—por demasiadamente indolentes—na +exploração de tão feracissimo solo, fosse por sua demasiada ambição, o que é +certo é que os governos de Portugal se insurgiram sempre contra tão +abominavel commercio, dando provas as mais honrosas da sua humanidade pelas +victimas.<span class="pagenum"><a id="pag_75" +name="pag_75">[75]</a></span></p> + +<p>Foi Portugal uma das primeiras nações que deu o passo para a liberdade dos +escravos; mas quando julgou dever dar esse passo, fel-o mais por humanidade +do que por jactancia.</p> + +<p>Estudou a questão por todos os lados, e quando se convenceu que a +destruição d'um mal lhe não accarretaria outro, deu o golpe com as cautellas +aconselhadas pela prudencia dos verdadeiros homens d'estado.</p> + +<p>E o que fez o Brazil? Estudou a questão em toda a sua plenitude? +Destruindo o mal da escravatura preta não crearia outro mal a escravatura +branca?</p> + +<p>Era preciso estudar bem um assumpto tão milindroso, para que, com o bem +moral, que infallivelmente havia de succeder a essa liberdade, não começassem +a sentir-se os effeitos materiaes e horrorosos do prostramento da agricultura +do imperio, pela falta de braços, e terem os homens de estado, para salval-a, +que lançar mão d'um mal peior do que aquelle que haviam fulminado—a +escravatura branca.</p> + +<p>Estudaram elles esta questão? Não.</p> + +<p>Na época em que a lei apontava aos escravos a sua liberdade, existiam +quatro milhões d'aquelles infelizes; e os legisladores brazileiros +calculavam, que, d'ahi a vinte annos, quando os escravos estivessem +completamente forros, existiriam mais de 20 milhões de braços livres. A +fecundidade do africano é superior á de outra qualquer raça, e d'ahi a +extraordinaria multiplicidade de braços; mas o africano, geralmente fallando, +uma vez livre, é tão inutil como qualquer indigena dos tropicos.</p> + +<p>O Brazil, com a sua apregoada falta de braços e com o definhamento da sua +agricultura, corrobora a nossa asserção.</p> + +<p>Effectivamente, se no tempo da escravatura, se não precisava do braço +europeu para o desbravamento das terras, como é que hoje que o Brazil deve +abrigar em<span class="pagenum"><a id="pag_76" name="pag_76">[76]</a></span> +seu seio maior numero de braços de origem africana, em quem tanto confiava, +vem á Europa mendigal-os para a sua decadente agricultura?</p> + +<p>Sobre a situação do imperio com respeito ao elemento servil disiamos ha +pouco:</p> + +<p>«D'aqui a dez ou quinze annos, quando estiver extincta a escravatura no +Brazil, sem que o governo tenha remediado este grande mal e os lavradores, +faltos de recursos materiaes liquidarem as suas fortunas e procurarem, como é +natural, melhor emprego para o seu capital, chegará então o grande imperio +americano ao ultimo grau da sua decadencia; porque, uma vez livre o elemento +escravo, que no Brazil é e ha de ser sempre a alma da lavoura, ninguem mais +poderá faser trabalhar o preto que com o salario de um dia, se julga +habilitado para comer 15 ou 20.»<a name="tex2html26" +href="#foot4268"><sup>[26]</sup></a></p> + +<p>Não eramos só nós que assim pensavamos. Ao tempo em que isto escreviamos, +já estava tambem escripto, mas não publicado, o seguinte:</p> + +<p>«A moderna lei do elemento servil, que posto não minorasse os instrumentos +do trabalho tende á sua progressiva diminuição, compelle o Brazil a empregar +todos os exforços para adquirir braços que lhe substituam os que aquella lei +inutilisou com a liberdade, pois que o escravo entendo que esta só consiste +em não trabalhar.»<a name="tex2html27" +href="#foot4269"><sup>[27]</sup></a></p> + +<p>Aniquilando o imperio, podem chamar-se humanos os seus aniquiladores?</p> + +<p>Consentindo o governo do Brazil na escravatura branca, que outra cousa não +são os engajamantos que ora se fazem, não é ser tambem deshumano?</p> + +<p>Que nos respondam os homens conscienciosos.<span class="pagenum"><a +id="pag_77" name="pag_77">[77]</a></span></p> + +<h2>V</h2> + +<p>Vejamos agora quaes são as vantagens que as leis brazileiras offerecem ao +estrangeiro.</p> + +<p>Para qualquer se naturalizar cidadão brazileiro, terá que residir dois +annos no imperio, declarando a intenção de continuar a residir alli ou a +servil-o depois de naturalisado (absurdo); as cartas de naturalisação, serão +isentas de qualquer imposto, <i>excepto</i> o de 25$000 réis de selo! Na +occasião do individuo prestar juramento de fidelidade <i>declarará seus +principios religiosos</i> (não sabemos para que.)</p> + +<p>O estrangeiro não poderá viajar dentro do imperio, (lei de 10 de janeiro +de 1855) sem passaporte, que será visado pelas authoridades da provincia por +onde passar!</p> + +<p>O regulamento de 30 de junho de 1855, garante aos colonisadores na +provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul, as despezas da viagem e alimento +desde a cidade do Rio Grande até ao logar do seu destino, e bem assim as +despezas de accommodação até ter casa propria, <i>não excedendo o praso de 60 +dias</i>! Garante egualmente <i>aos mais necessitados</i> o subsidio de 3 +mezes na razão de 200 réis por dia aos solteiros, e de 160 réis a cada pessoa +de familia de mais de 2 annos.</p> + +<p>Agora o reverso da medalha:</p> + +<p>«O preço minimo de cada braça quadrada de terras, diz o regulamento +citado, é de 3 réis, <i>sendo augmentado segundo for sua qualidade e +situação</i>.»</p> + +<p>O nosso distincto compatriota dr. H. Roberto Rodrigues, diz o seguinte a +este respeito:</p> + +<p>«Se as terras pertencerem ás provincias ou municipios como suas dotações, +não chegam ao emigrante senão atravez de um primeiro possuidor, que as não +cultivou mas que lhes elevou o preço e com o encargo de<span +class="pagenum"><a id="pag_78" name="pag_78">[78]</a></span> praso phanteuzim +de laudemio de quarentena e fôro annual de 500 réis por braça linear da maior +frente, alem das alcavalas tambem herdadas, da sisa da venda de 6 por cento, +sello proporcional em millessimo por cento do preço e escriptura. As terras +particulares não se podem obter se não por preços exorbitantes. Por meio de +locação são peiores as condições em geral para o locatario. Os contractos +mais favoraveis de que tenho tido conhecimento ainda assim nada deixam ao +locatario. Darei um exemplo do mais favoravel.</p> + +<p>«O dono do terreno concede-o gratuitamente por tres annos (terreno de +1:000 braças quadradas em matto), e n'esse periodo deve o locatario cercal-o +(custo do cerco 1:320$000 réis), fazer casa de moradia (custo da mais barata +500$000), arrotear o terreno (custo minimo 60$000), e cultival-o (custo +minimo 100$000 réis). Total 1:980$000 réis, ou 1$980 réis por cada braça +quadrada. Concede mais um anno a 240$000 réis de aluguer, e o seguinte a +480$000 réis. N'este periodo de cinco annos, o locatario apenas tira o +producto liquido de 580$000, medio annual, que lhe deixou além da sua +alimentação, apenas o lucro de 200$000 réis em cinco annos!</p> + +<p>«Estes preços e condições são os das visinhanças das cidades (distancia de +6 a 10 milhas). A distancias de 30 ou 40 leguas (com um ou dois dias de +viagem a vapor), os preços e condições descem um decimo, mas os fretes dos +productos quasi prefazem a differença com o preço mais alto dos objectos de +importação.»<a name="tex2html28" href="#foot427"><sup>[28]</sup></a></p> + +<p>Admitamos que esse preço não augmenta; e estabeleçamos 125 mil braças +quadradas para cada colono (seguindo as <i>instrucções de 23 de novembro +1861</i>), que importam em 375$000 réis, e que o governo brazileiro embolsará +no praso de 5 annos.<span class="pagenum"><a id="pag_79" +name="pag_79">[79]</a></span></p> + +<p>Que capital empregará elle para lucrar aquella somma por cada colono?</p> + +<p>Vejamos:</p> + +<table border="0" align="center" summary="Capital para suportar colono"> + <tbody> + <tr> + <td>Subsidio de 200 réis dispensado a cada colono necessitado, por + espaço de 90 dias </td> + <td style="text-align:right;">18$000</td> + </tr> + <tr> + <td>Despezas do transporte e alimento, d'esde o Rio Grande até ao local + da colonia, calculemos </td> + <td style="text-align:right;">18$000</td> + </tr> + <tr> + <td>Accommodação por 60 dias </td> + <td style="text-align:right;">4$000</td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="border-top: solid 1px #000000;text-align:right;">40$000</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>Ora emprestar 40$000 réis para lucrar 375$000, no fim de 5 annos, não é +máu negocio. E os que não necessitam do emprestimo?</p> + +<p>E chama-se a isto proteger a emigração e a agricultura!</p> + +<p>Mas não fica aqui ainda o tal auxilio. O colono que nos prazos marcados +não satisfizer os taes 3 réis por cada braça de terreno, e bem assím todas as +despezas será obrigado a pagar um premio de 12 p. c. por cada anno!</p> + +<p>O Brazil que conta perto de 9 milhões de kilometros quadrados de +supreficie, e que pode ter desbravado pouco mais da centessima parte, leva a +sua avidez ao ponto de exigir por terrenos que nada lhe rendem a fabolosa +importancia de 3 réis por cada braça, se a esses terrenos não for arbitrado +maior preço! Mas não se julgue que é este só o lucro que o Brazil aufere com +a sua apregoada protecção aos colonos. As madeiras extrahidas dos seus +frondosos arvoredos, o maior obstaculo da agricultura, pagarão 14 p. c. da +exportação. O algodão, o café e outros productos agriculas, não são isentos +de taxas eguaes, se não superiores!...</p> + +<p>Os lucros seriam incalculaveis, se houvesse bastantes idiotas a auxiliar +d'estes e quejandos disparates administrativos dos economistas +brazileiros.<span class="pagenum"><a id="pag_80" +name="pag_80">[80]</a></span></p> + +<p>Mas as instrucções de 23 de novembro de 1861 são mais simples, isto é, +estende-se aos territorios das vastissimas provincias do Espirito Santo, +Minas Geraes, St.ª Catharina e Paraná.</p> + +<p>Estabelece-se alli que os colonos serão recolhidos, na sua chegada ao Rio, +á hospedaria da ilha do Bom Jesus, e alli <i>gratuitamente</i> sustentados e +tractados em suas enfermidades, até partirem para o seu destino. O preço do +terreno é que não baixou de tres réis por cada braça quadrada. Os auxilios, +taes como ferramentas, sementes, e meios de subsistencia, <i>aos +necessitados</i>, são superiores; por isso maior será a divida que ha de +infallivelmente amortisar, não no prazo de cinco annos, como está estipulado +nas instrucções de 10 de janeiro de 1855, mas no de seis, o que não deixa de +ser logico!</p> + +<p>Com tudo, as novas e ultimas instrucções dispensadas em favor da +colonisação, não obstante estarem seis annos no cadinho dos alchimistas +escolhidos pelo Brazil para achar o elixir que ha de <i>aformosear</i> a +decadente agricultura, não remedeiam o grande mal, e são um novo titulo +votado á inepcia do governo que o sancionára.</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Vejamos agora o que faz um paiz lemitrophe do imperio americano a respeito +da colonisação.</p> + +<p>A republica de Buenos Ayres, por decreto de 21 de outubro de 1855, +authorisa a concessão, <i>em propriedade perpetua</i>, de cem leguas +quadradas de terreno, em Bahia Blanca e Patagones, aos individuos, ou +familias nacionaes ou estrangeiras que pertenderem povoal-as.</p> + +<p>A lei de 7 de junho de 1856, declára porto franco para os navios mercantes +de todas as bandeiras, o da Bahia Blanca, sobre o occeano Atlantico; +isentando de<span class="pagenum"><a id="pag_81" +name="pag_81">[81]</a></span> todo o direito de porto, os navios do alto mar +ou cabotagem, que alli concorrem de qualquer procedencia, o que nunca fez o +Brazil, nem mesmo com respeito ao rio Amazonas, que, não obstante ter sido +decretada a abertura, permanece fechado para os navios estrangeiros; mas, o +que é mais importante, a referida lei da republica do Prata, declara em seu +artigo 3.º, o seguinte:</p> + +<p>«São igualmente livres de todo o direito d'alfandega, por espaço de cinco +annos, as importações e exportações de toda a classe que por aquelle porto se +verificarem; bem entendido que esta franquia é limitada ao consumo exclusivo +e producção propria d'aquelle districto.»</p> + +<p>Mirem-se n'este espelho os legisladores brazileiros.</p> + +<p>O Mexico, esse paiz riquissimo de solo, e de revoluções, tratava ha pouco +de discutir uma lei importantissima sobre o assumpto que analysamos. A verba +que destinava á imigração, era de 500:000 pesos.</p> + +<p>Eis como um jornal brazileiro<a name="tex2html29" +href="#foot4271"><sup>[29]</sup></a> dá conta d'essa lei:</p> + +<p>«Os emigrados deverão ser transportados á custa do governo, desde o paiz +de sua residencia até ao ponto do seu destino: durante a viagem lhes serão +ministradas as necessarias provisões, e no primeiro anno receberão um auxilo +de 90 pesos, e se ao expirar o segundo anno, desejarem voltar ao paiz de sua +procedencia, o governo por sua conta lhes dará transporte.</p> + +<p>«Apenas uma colonia chegue a conter cincoenta familias, poderá constituir +uma corporação municipal, eleger os seus empregados, e fazer os regulamentos +que os seus interesses exigem, com tanto que não se opponham ás leis federaes +e locaes.</p> + +<p>«Por espaço de cinco annos, não pesarão outras contribuições e impostos +sobre as terras dos colonos, que não sejam os municipaes.<span +class="pagenum"><a id="pag_82" name="pag_82">[82]</a></span></p> + +<p>«Os generos alimenticios, ferramentas e materiaes de construcção para os +colonos, serão importados livres de direitos.</p> + +<p>«Qualquer navio que importar mais de dez emigrantes ficará isento de pagar +os direitos de tonelagem, pharoes, ancoragem e pilotagem.</p> + +<p>«Todo o emigrante desde o momento da sua chegada será declarado cidadão e +gosará desde logo dos direitos civis e politicos como se fosse cidadão +nato.</p> + +<p>«Das terras publicas destinar-se-ha uma parte para emigrantes.</p> + +<p>«Os colonos que se destinarem á cultura do solo receberão uma quantidade +de terras que não seja inferior a 110 geiras nem exceda a 1:100, podendo +cultival-as por espaço de 10 annos gratuitamente; no fim d'este termo ficará +á sua opção, ou pagar a dinheiro o seu valor integral, ou pagar annualmente +uma decima parte do mesmo valor, até saldar a somma total em 10 annos.</p> + +<p>«Nas terras, que se medirem para fundar cidades, dar-se-ha um lote a cada +emigrante.»</p> + +<p>É assim que se protege a emigração!</p> + +<h2>VII</h2> + +<p>Dissemos que Portugal, não é o paiz que mais colonos deve fornecer ao +Brazil.</p> + +<p>Dissemos tambem que os filhos das outras nações da Europa, preferem os +estados da America do norte; e que os governos da Allemanha, França e Italia, +prohibem a emigração de seus subditos para o imperio brazileiro.</p> + +<p>Qual a causa d'esta preferencia e d'esta prohibição?</p> + +<p>A falta de leis protectoras para o emigrante, responde á preferencia dos +estados do norte pelos do sul; e a<span class="pagenum"><a id="pag_83" +name="pag_83">[83]</a></span> insalubridade do Brazil, e quiçá a falta do +cumprimento das leis pouco liberaes que ali existem, responderá facilmente á +medida adoptada por aquelles governos—a prohibição.</p> + +<p>Já vimos que as disposições brazileiras, tendentes a facilitar a +naturalisação dos estrangeiros no Brazil, não são sufficientes, para que, +debaixo do ceu do Cruzeiro, possam todos os individuos, com independencia, +chamar-lhe a terra do trabalho.</p> + +<p>O sr. Augusto de Carvalho mostra alguns conhecimentos da vida dos povos +subordinados aos estados do norte, e por isso mesmo devia apontar ao governo +brazileiro as disposições liberaes das leis americanas, que fazem dos +Estados-Unidos um paiz livre, dirigido por cidadãos e não por jesuitas.</p> + +<p>E não vá persuadir-se que é pequena cousa para o engrandecimento d'um povo +o assumpto—religião.</p> + +<p>O artigo 5.º da carta constitucional do imperio, que faz da religião +catholica apostolica romana, a religião do estado, é o maior obstaculo contra +a emigração dos europeus.</p> + +<p>Os inglezes e especialmente os allemães, os unicos que podiam formar um +grande nucleo de emigração, são protestantes; e os filhos dos outros paizes +catholicos, ao deixarem a patria, suppõem que hão de ir encontrar, n'um paiz +novo, uma sociedade nova, cujos principios liberaes sejam, quando não +superiores, ao menos iguaes aos que se professam no paiz d'onde emigram. Mas +o europeu, completamente illudido, vai encontrar o grande imperio dominado +pelos jesuitas, impondo ao emigrante os seus principios reaccionarios, sob +pena de serem apontados á população, como inimigos do imperio, servindo-se +para isso dos pulpitos e dos jornaes, transformados em pasquins, que o +governo tolera, desculpando-se em não querer tolher a liberdade do +pensamento, mas espezinhando essa liberdade quando as manifestações<span +class="pagenum"><a id="pag_84" name="pag_84">[84]</a></span> contra o +jesuitismo, como justa represalia, partem dos estrangeiros!</p> + +<p>Despresando os sãos principios seguidos na America do norte, e por +consequencia—<i>o pensamento de reunir sob o mesmo ceu todas as +nacionalidades</i>—só falta ao governo admittir as <i>justas</i> exigencias +do seu clero, que pede a forca e os horrores da inquisição, para os adeptos +das outras seitas religiosas toleradas no Brazil! E ai dos homens de estado +que não attenderem as reclamações da fradaria! Que o diga o gabinete 7 de +março, presidido pelo visconde de Rio-Branco, fulminado pelo <i>ex-informate +conscientia</i> dos bispos que, para amedrontal-o, haviam creado em todas as +provincias o chamado—partido catholico—! a nação em peso a pedir cilicios e +fogueiras contra meia duzia de herejes!...</p> + +<p>Eis-aqui está um paiz colonisador, entretido na pratica do trabalho... +fazendo politica para <i>reunir, sob o ceu explendido do Cruzeiro</i>... os +jesuitas de todas as nacionalidades!</p> + +<p>De que serviu ao sr. Augusto de Carvalho, a extemporanea defeza que fizera +do seu Brazil, ha dois annos liberal, convertido n'um momento, pela simples +vontade d'uma mulher em convento de frades?!</p> + +<p>É preciso que assignale na sua historia, quando fizer a terceira edicção, +esta phrase do seu clero dominador em fins do seculo XIX.</p> + +<p>É provavel que com a forca e a inquisição venha o restabelecimento da +escravatura. Isto feito, o governo, que presidir aos destinos do imperio, +será pelo auctor do <i>Brazil</i> elevado ás honras de patriota!</p> + +<p>E poderá o sr. Augusto de Carvalho, como empregado-historiador do Brazil, +negar as <i>virtudes</i> do celeberrimo gabinete que substituiu o do visconde +Rio Branco?<span class="pagenum"><a id="pag_85" +name="pag_85">[85]</a></span></p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>Na primeira parte do seu livro, mostra-nos o snr. Augusto de Carvalho +alguns conhecimentos sobre os principaes fundamentos das colonias, nos +estados do norte da America, que vieram, passados dois seculos, pela bocca do +seu primeiro cidadão, Washington, declarar livres os treze estados, que +haviam de constituir uma das nações mais importantes do mundo.</p> + +<p>Concorreram muito para esse engrandecimento razões valiosissimas. Uma +d'ellas foi, sem duvida, o desinteresse dos europeus emigrantes pelas +dissensões politicas e religiosas dos seus paizes, nos XVI e XVII seculos. A +superstição não lhes era peculiar. A politica, no seu entender, não devia +adaptar-se á religião, nem esta áquella. Uma e outra deviam ser +independentes; mas essa independencia fallecia nos paizes cansados. Os +emigrantes, homens novos e liberaes, protestavam contra todas as seitas +officiaes, como offensivas do direito natural; e porque os seus protestos não +podiam ser ouvidos por quem se entretinha mais com a politica do que com o +engrandecimento da patria, preferiram antes procurar novas terras, onde +livremente podessem entregar-se de corpo e alma ao trabalho, que é a vida dos +povos.</p> + +<p>As leis mais adequadas ás colonias foram estabelecidas entre si, chegados +á America. A sua religião e a sua politica resumia-se apenas no +engrandecimento da patria adoptiva. Esse amor, pela sua independencia, +fôra-lhes sempre combatido, até que em 4 de julho de 1776, entenderam os +colonos dever sacudir o jugo que os opprimia.</p> + +<p>Porém esses caracteres summamente independentes, que abalaram o mundo com +o seu amor á liberdade, reconheceram a necessidade da escravatura; e não +sabemos<span class="pagenum"><a id="pag_86" name="pag_86">[86]</a></span> se +como nós accusamos os jesuitas, elles tambem accusariam os seus +<i>priests</i> calvinistas, lutheranos, quakers, rhinoburguezes, +conventicularios e arminianos, de introduzirem na America do norte o +deshumano trafico.</p> + +<p>O que é facto é que—e diga-se isto, ao menos, para desculpa dos +dominadores da America do sul—os differentes estados do norte, possuem ainda +hoje, para cima, de tres milhões de escravos!</p> + +<p>É verdade que a sua população é superior a 30 milhões de habitantes, e que +os 4 milhões de escravos, que possue o Brazil, estabelece uma grande +desproporção, relativamente superior aos seus dez milhões de habitantes. Mas +os Estados Unidos foi um dos primeiros povos que acceitou a divisa—igualdade +e fraternidade—; e não só por esta circumstancia, como tambem porque a +corrente da emigração europêa era e é fabulosa para o norte, já mais deveria, +depois da proclamação da republica, consentir o horroroso commercio. E embora +elle tivesse existido antes da independencia, não devia, passado quasi um +seculo, apresentar-nos as suas estatisticas, em que figura, como gente +escrava, a decima parte da sua população!</p> + +<p>Porque não baniu a escravatura dos seus dominios?</p> + +<p>Não faltava aos seus homens d'estado a razão que presidiu ao gabinete de 7 +de março, do imperio americano, e, antes d'este, á maior parte dos gabinetes +europeus, em cujo numero figura Portugal. Porém, os americanos do norte, além +da divisa—igualdade e fraternidade—que a todo o mundo apontam, tem outra, +que a todos occultam—a conveniencia de salvaguardar os interesses da sua +agricultura, que é o engrandecimento da republica.</p> + +<p>O que é um facto inquestionavel, é que a tolerancia religiosa dos +inspirados pela côrte romana, intolerancia que ainda hoje domina os +principaes estados do sul da<span class="pagenum"><a id="pag_87" +name="pag_87">[87]</a></span> America, é que collocaram o governo do Brazil +na coalisão de adoptar medidas urgentissimas, a fim de remediar o grande mal +da falta de braços, que de dia para dia vai definhando a agricultura.</p> + +<p>O governo brazileiro não devêra ter libertado os escravos, sem primeiro +ter creado as leis proficuas que regulam o trabalho. A abolição immediata do +imposto de exportação, devia desde ha muito, ser lei do estado. Mas o que de +fórma alguma deve existir é o artigo 5.º da sua constituição politica.</p> + +<p>Não foi com similhantes empecilhos que progrediram os Estados Unidos da +America do norte.</p> + +<h2>IX</h2> + +<p>A segunda parte do livro do snr. Augusto de Carvalho, leva-nos a demorar +um pouco mais a nossa analyse sobre a escravatura.</p> + +<p>É incontestavel que este horroroso commercio, exercido mais largamente +depois do descobrimento da America, tinha, até certo ponto, a sua razão de +ser.</p> + +<p>Não desculparemos por fórma alguma o systema de alguns jesuitas, usado na +catechese dos indigenas da America do sul, systema que no entender de alguns +historiadores, escravisava os indios em logar de os chamar a luz da +civilisação.</p> + +<p>Porém, se accusam a companhia de demasiadamente interessada no seu +engrandecimento moral e material, como é crivel admittir que os seus filiados +não usasem de todos os meios para aproveitar as povoações errantes da +America, confiadas ao seu criterio religioso? Não lhes seria mais util esse +aproveitamento, do que terem de lançar mão dos filhos de Africa, que, com +mais razões do que os indios, aborreceriam os seus <i>senhores</i>, jesuitas +ou não?<span class="pagenum"><a id="pag_88" name="pag_88">[88]</a></span></p> + +<p>Uma forte razão vem em favor da companhia: os indios das duas Americas, +geralmente fallando, são indomaveis; inimigos da civilisação, a sua vida ha +de ser sempre a dos povos errantes, até extinguirem-se. Não obstante, a +catechese dos indigenas da America do sul, trouxe maior numero de seus filhos +ao gremio da civilisação, do que os systemas usados no norte, onde os +dominadores, convencidos da inutilidade de seus esforços, lhes dão caça, como +se os indios fossem bichos de matto!</p> + +<p>O commercio da escravatura apparece no meado do seculo XVI. A sua +existencia não póde deixar de attribuir-se ao mau systema dos governos, que +dominavam a America meridional, em quererem catholisar os europeus, que por +ventura entendessem dever procurar novas terras. Os jesuitas eram os fiscaes +do catholicismo nos novos dominios de Portugal e Hespanha.</p> + +<p>Se não fosse a companhia era provavel que a corrente da emigração europêa +se encaminhasse, em parte, para o sul. Se os jesuitas não dominassem as duas +côrtes, era provavel que os governos de Portugal e Hespanha levantassem a +redoma com que encobriam aos olhos dos profanos as suas joias preciosas. Mas +os padres experientes comprehenderam que mais facil seria dominar uma nação +de escravos do que uma nação de homens livres, porque a America do sul devia +ser por mais alguns seculos, o sustentaculo de Roma; por isso é que, devido á +sua influencia, os portos d'esta parte do novo mundo estiveram fechados aos +estranhos, emquanto que se abriam aos africanos, mais faceis de sujeitar-se +aos caprichos jesuiticos; por isso é que n'um estado novo, que nasceu talhado +para moralisar os povos decadentes, se formaram umas poucas de nações +rachiticas, que até hoje ainda não poderam levantar o jugo ferreo da +indomavel companhia.</p> + +<p>Se o jesuita Anchieta dizia que os indios, mais por<span +class="pagenum"><a id="pag_89" name="pag_89">[89]</a></span> medo do que por +amor, se haviam de remir, quem nos prova o contrario d'esta asserção?</p> + +<p>O que é facto é que os colonos faziam e os indigenas desfaziam.</p> + +<p>Houve mais tarde desregramentos n'essas <i>entradas</i> ou +<i>bandeiras</i> de que falla o sr. Carvalho, com o pretexto de salvar os +captivos dos proprios indigenas. «Os governadores, segundo refere Mendes +Leal, nos <i>Bandeirantes</i>, muitas vezes e por muitos modos quizeram pôr +cobro n'estes desregramentos. Mas como vigiar, acrescenta o illustre +escriptor, e colher em tão vastos e despovoados territorios os criminosos, +que todos iam feitos, que mais de uma vez se entendiam com os mesmos +capitães-móres, e não raras com os proprios habitantes?»</p> + +<p>Estas palavras respondem ás do sr. Augusto de Carvalho, quando quer tornar +responsavel o governo da metropole de taes desregramentos.</p> + +<h2>X</h2> + +<p>Entendemos dever fazer algumas observações a respeito das +<i>bandeiras</i>, a que se refere o sr. Augusto de Carvalho, no seguinte +trecho do seu livro:</p> + +<p>«A exemplo dos padres, os colonos, já de si inclinados a este abuso +(escravisar os indios), <i>e por que estranhavam os rigores d'um clima +tropical que os extenuava nos rudes trabalhos da lavoura</i> (a estas +palavras que assignalamos responderemos em especial), abriram largas +ensanchas ás suas <i>bandeiras</i>, especie de caçadas de indios que lhes +forneciam escravos, a quem commettiam as mais penosas funcções da vida +agricola.»</p> + +<p>O sr. Augusto de Carvalho, com o fim de metter os portuguezes no +torniquete, começára pela adulação.<span class="pagenum"><a id="pag_90" +name="pag_90">[90]</a></span> Nós protestamos contra o estratagema porque não +queremos elogios nem vituperios. Nós queremos a verdade, sem a qual se não +póde escrever a historia.</p> + +<p>No entender do sr. Carvalho as <i>bandeiras</i> tinham por fim, unica e +exclusivamente, escravisar os indigenas.</p> + +<p>Ayres do Cazal, um dos escriptores antigos mais conscienciosos, diz o +seguinte a tal respeito:</p> + +<p>«Da-se no Brazil este nome—<i>bandeira</i>—a um numero indeterminado de +muitos homens, que providos d'armas, munições e mantimentos, necessarios para +a sua subsistencia e defeza, entram nas terras possuidas pelos indigenas com +algum intuito, v. g. de <i>descobrir minas, reconhecer o paiz, ou castigar as +hostilidades dos barbaros</i>.»</p> + +<p>Os escriptores mais abalisados são de opinião, que devido ás excursões dos +<i>bandeirantes</i>, é que se tornou conhecido o immenso territorio +brazileiro.</p> + +<p>Vejamos o que diz Ferdinand Diniz a tal respeito:</p> + +<p>«Intentámos, no começo d'esta noticia, escrever rapidamente a historia das +expedições prodigiosas, devidas aos paulistas, durante o decimo setimo e o +decimo oitavo seculo; fizemos ver que todas as grandes explorações que deram +a conhecer o interior do Brazil, são resultado da sua perseverança (dos +<i>bandeirantes</i>).»<a name="tex2html30" +href="#foot4272"><sup>[30]</sup></a></p> + +<p>Os padres da companhia, com respeito ás <i>entradas</i>, são assim +defendidos pelo citado historiador:</p> + +<p>«Grande injustiça haveria em julgar os jesuitas do decimo sexto seculo, e +seus trabalhos, segundo as idéas, que póde inspirar o systema das missões. +Ali possivel é vêr projectos ambiciosos conciliar-se com boas intenções: nos +primeiros trabalhos executados pelos padres da companhia no Brazil, tudo foi +desinteressado;<span class="pagenum"><a id="pag_91" +name="pag_91">[91]</a></span> e, se necessario fosse, a relação de suas +fadigas e padecimentos poderia proval-o. Nobrega mereceu o titulo +de—<i>apostolo do Brazil</i>—que nos conferem todas as narrações; Anchieta, +que trabalhou sem descanço por espaço de quarenta annos na conversão dos +indigenas, e que não temia ficar só como refem entre as mãos dos Tamoyos para +salvar a colonia, offerece ainda um caracter mais sublime; o padre João +d'Aspicuelta, o padre Antonio Perez, o padre Leonardo Nunes, e tantos outros, +os auxiliaram com um zelo, que só póde apreciar quem tem vivido nas +florestas, ou repousado n'uma choupana india. Muito falta para que elles +obtivessem os resultados, que no Paraguay se manifestaram» etc.</p> + +<p>Lacordaire, auctoridade insuspeita na questão vertente, accrescenta, com +respeito ás expedições dos <i>bandeirantes</i>, que «se o padre era severo +antes de absolver os <i>bandeirantes</i>, informava-se cuidadosamente do +objecto da empreza, e só dava a absolvição <i>quando se tratava de descobrir +minas</i>; porém o maior numero nada indagava a este respeito, e recommendava +sómente, em termos geraes, que tratassem com affabilidade os indios, que no +caminho encontrassem, para attrahil-os ao gremio da egreja.» etc.</p> + +<p>A <i>bandeira</i> punha-se a campo. «Então começava com toda a sua energia +a lucta do homem com a natureza terrivel do deserto. Indispensavel era muitas +vezes com o machado abrir caminho na espessura dos bosques, acampar por +espaço de semanas inteiras em terras alagadas e pestiferas, desprezar os rios +trasbordados, as cachoeiras, a frecha do indio emboscado, o ardor d'um sol +vertical durante a estação calmosa, as chuvas abundantes da quadra opposta, a +fome e as doenças; era, n'uma palavra, d'absoluta necessidade arrostar todos +os perigos, que a imaginação póde conceber. <i>Em todo o logar em que a +terra<span class="pagenum"><a id="pag_92" name="pag_92">[92]</a></span> era +vermelha e offerecia certos indicios, que o chefe da expedição conhecia, este +mandava examinar o solo; se encontravam algum ouro</i>, as passadas fadigas +esqueciam, e trabalhos d'exploração sem demora começavam: <i>em caso +contrario iam ávante</i>.»</p> + +<p>Houve <i>bandeirantes</i> (chefes das expedições do interior), que +escravisavam os indios; mas de similhantes actos não póde ser accusada a +maioria dos <i>bandeirantes</i>, os colonos e o governo da metropole, nem tão +pouco os jesuitas do XVI seculo. Estes foram expulsos de S. Paulo, segundo +affirma o historiador que viemos de referir, porque, obtendo um breve do +papa, excommungavam os possuidores de indios!</p> + +<p>Até ali, como convinha a quem desejava chamar á obediencia de Roma novos +proselytos, em substituição dos que tinham abraçado os principios d'uma +philosophia mais racional, os padres da companhia, só levavam em mira um novo +intento. Depois, quando viram que os seus esforços iam tendo bom exito, não +tanto como desejavam, é que arrancaram a mascara da hypocrisia, que fez da +America meridional um convento de frades fanaticos, que os governos do senhor +D. Pedro II tem consentido no Brazil.</p> + +<h2>XI</h2> + +<p>Se Nobrega e Anchieta, depois de haverem esgotado a sua paciencia +evangelica, entendiam, já no descanço, «que os colonos, como refere Rebello +da Silva, só por meio da guerra poderiam alcançar do gentio o respeito, o +socego e a segurança de suas propriedades», quem melhor estaria no caso de +conhecer e remediar o mal?</p> + +<p>Não eram os colonos atacados em suas propriedades? Quando algumas +<i>bandeiras</i> penetravam no sertão,<span class="pagenum"><a id="pag_93" +name="pag_93">[93]</a></span> com o fim de reconhecer o paiz, não eram ellas +rechaçadas pelos indios?</p> + +<p>«Em 1733, segundo o testemunho de Casal, uma frota de 50 canôas, que +representava pelo menos 400 homens, fôra inteiramente destruida pelos +gentios. De uma bandeira composta de 300 pessoas, que em 1725 saía de S. +Paulo, bem provida de tudo, só haviam escapado dois brancos e tres negros. De +outras expedições numerosas não houve uma só que voltasse.»</p> + +<p>São demasiadamente caricatas as desculpas de alguns escriptores a favor +dos indios da America.</p> + +<p>Concordamos que não sejam muito evangelicas aquellas phrases de Nobrega e +Anchieta; porém devemos notar que similhantes idéas nunca foram seguidas +pelos primeiros missionarios. Depois de tantas fadigas era justo que fizessem +as suas queixas contra o indomavel gentio. Taes queixas tinha de mau uma +cousa só: o aproveitarem-se d'ellas os maus padres, que no futuro haviam de +auctorisar os abusos que alguns escriptores lamentam.</p> + +<p>E nos principios do seculo XVII, que os jesuitas, com razão, podem ser +accusados de escravisarem os indios.</p> + +<p>No meado do seculo XVIII eram elles, por assim dizer, os principaes +senhores das vastissimas regiões brazileiras. O governo da metropole tinha +sido até então impotente contra a força dos sectarios de Loyola.</p> + +<p>A provisão de 12 de setembro de 1663, que retirava aos jesuitas a +jurisdicção temporal, que, como diz o sr. Mendes Leal, fôra illudida pela +poderosa influencia do padre Vieira, mostra até certo ponto a boa vontade do +governo da metropole em concorrer para a prosperidade do Brazil. A creação de +companhias colonisadoras mostra tambem os seus louvaveis esforços.</p> + +<p>Essas companhias foram guerreadas pelos <i>santos</i> varões (seculo +XVII).</p> + +<p>Vejamos como é que a respeito dos novos actos do<span class="pagenum"><a +id="pag_94" name="pag_94">[94]</a></span> governo procediam os descendentes +de Nobrega e Anchieta:</p> + +<p>«Uma das manifestações em que mais significativamente se patenteou o +espirito e intuitos da companhia de Jesus, diz o sr. Mendes Leal, foi a +guerra que do pulpito moveu contra as companhias commerciaes, que o ministro +por este tempo fundava e protegia a fim de desenvolver a natural riqueza do +paiz. Um jesuita, o padre Ballester, para affastar os povos de concorrerem a +estas uteis associações e emprezas, vociferava:—<i>que todos os que +entrassem n'essas companhias não estariam com a de Christo</i>.»</p> + +<p>Que remedio havia de dar o governo a este grande mal, que entorpecia a +marcha progressiva do Brazil? Expulsar os jesuitas. E seria facil expulsal-os +d'um estado que mais parecia dominio da companhia do que de Portugal?</p> + +<p>Era preciso preparar as cousas para d'ahi a quasi um seculo se realisar +essa medida salutar.</p> + +<p>«... As consequencias d'essa expulsão, refere ainda o referido escriptor +portuguez, foram iminentemente favoraveis e proveitosas aos povos.»</p> + +<p>E effectivamente, póde-se dizer, sem medo de errar, que desde então para +cá (1759), é que começou a florescer o Brazil.</p> + +<p>As idéas liberaes proclamadas pela França, foram pouco a pouco fazendo +echo nos differentes povos da Europa; e Portugal, um dos paizes mais livres, +sendo um dos primeiros a tomar-lhe o exemplo, teria feito hoje dos seus +antigos dominios brazileiros uma nação essencialmente liberal.</p> + +<p>Não o quiz assim o povo que se dizia escravisado; e Portugal, que em 1820 +tinha contribuido para tornar brilhante uma das paginas da sua historia, +entendeu pouco tempo depois que não devia tolher a vontade d'esse<span +class="pagenum"><a id="pag_95" name="pag_95">[95]</a></span> povo, quando se +lhe apresentava em procura da carta de alforria.</p> + +<p>O que tem feito o Brazil desde então para cá?</p> + +<p>Promulgou leis protectoras á emigração?</p> + +<p>Baniu os jesuitas, que o marquez de Pombal, por inimigos do progresso da +patria, expulsára de todos os dominios de Portugal?</p> + +<p>Não: que o diga o movimento <i>quebra-kilos</i> de Pernambuco, em 1874.</p> + +<h2>XII</h2> + +<p>N'um dos artigos antecedentes assignalámos, com respeito á vida dos +colonos, as seguintes palavras do sr. Augusto de Carvalho:</p> + +<p>«... E porque estranhavam os rigores dum clima tropical que os extenuava +nos rudes trabalhos da lavoura» etc.</p> + +<p>O illustre litterato refere-se ao Brazil; o que nos leva a perguntar, se +um paiz, cujos <i>rigores d'um clima tropical</i>, onde os colonos ficam +<i>extenuados</i> pelos <i>rudes trabalhos da lavoura</i>, póde ou deve +agradar aos trabalhadores europeus? e se esta deverá ser a <i>terra da +promissão</i>, onde, para esses trabalhadores, se possa realisar a +<i>promessa de Christo de—cento por um—</i>?</p> + +<p>Mais adiante provaremos com documentos irrefutaveis, se não se acha já +sufficientemente demonstrado, que semelhante paiz não enriquece os +trabalhadores europeus, talvez que pela circumstancia apontada pelo sr. +Carvalho, dos rigores climatericos.</p> + +<p>Convém entretanto tornar bem patentes as seguintes palavras do sr. Mendes +Leal, que não deve ser suspeito ao sr. Augusto de Carvalho, visto que se +escuda a uma carta do illustre escriptor, como se escuda a outras de muitos +portuguezes, que em seus escriptos têem combatido a emigração para o +Brazil.<span class="pagenum"><a id="pag_96" name="pag_96">[96]</a></span></p> + +<p>O auctor dos <i>Bandeirantes</i> refere-se á magestade do vasto imperio, e +quiçá ao seu mortifero clima. São estas as palavras que elle collocou na +bôcca de um dos heroes da chronica a que alludimos:</p> + +<p>«... Solemne é este silencio, magestosa a solidão, certamente. Acres +perfumes rescendem nos ares, o ermo convida á meditação, ha n'este conjuncto +harmonia e grandeza, concedo. Mas se tudo examinamos de perto, o que achamos? +No fundo limoso d'essas aguas espelhentas esconde-se talvez a sucuriuba, +espreitando o inexperiente que se aproxima sem cautela, para o ennovellar de +subito nas roscas monstruosas! Essas moutas esmaltadas são ninhos de reptis +mortiferos! Esses aromas inebriantes vêem carregados de emanações +pestilentas! D'essa limpida superficie exhalam-se as febres implacaveis!... +Não, o homem que realmente quer avantajar-se e avassallar o vulgo... o homem +que nasceu para dominar homens!... nunca se ha de captivar da primeira +impressão. Se é tão raro que nos não transvie o coração, e não nos enganem os +sentidos!»</p> + +<p>Os aromas inebriantes dos seus jasmins e as pennas multicôres das suas +aráras, pódem, de longe, convidar o poeta a fazer estrophes: porém, lá +dentro, no sertão, ou mesmo no litoral, só em boas <i>chácaras</i>, e, ainda +assim... havendo grande necessidade de fazer versos!</p> + +<h2>XIII</h2> + +<p>Um pouco mais adiante, a paginas 45 do livro que o sr. Augusto de Carvalho +tão inconscientemente transformára em historia, lêmos as seguintes palavras, +dignas dos mais severos reparos:</p> + +<p>«No choque entre o Brazil e a Hollanda vemos ao mesmo tempo, a par de +muitos rasgos de heroismo portuguez,<span class="pagenum"><a id="pag_97" +name="pag_97">[97]</a></span> o valor brazileiro recebendo nas insignes +batalhas das Tabocas e dos Guarápes, o baptismo de fogo, a sagração da +gloria. Os feitos guerreiros que exordiaram os fastos militares do imperio, +se não deslumbram, egualam os mais illustres que exalçam a historia da mãe +patria. Vidal de Negreiros, Philippe Camarão e Henrique Dias exemplos são, e +bem claros, de que, em peitos brazileiros, o patriotismo e a honra pódem +operar tambem prodigios de civismo e heroicidade.»</p> + +<p>A paginas 56:</p> + +<p>«A seu lado (ao lado do padre Vieira, que <i>nem sempre fôra isempto de +interesse</i>) depara-se-nos egualmente, entrando portas a dentro da +historia, com a fronte pejada de louros, e a consciencia illuminada de +virtude e de santo desinteresse (sic), o insigne brazileiro André Vidal de +Negreiros, por ventura o mais strenuo mantenedor da liberdade da raça +americana.»</p> + +<p>A paginas 57:</p> + +<p>«Vidal tambem não escapou á vingança d'aquelles scelerados (dos jesuitas!) +Tantas intrigas lhe urdiram no reino, que não tardou em ser demittido do +cargo de governador.»</p> + +<p>Desculpe-nos o leitor estas transcripções; mas assim é preciso, para fazer +triumphar a verdade, e apontar as contradicções do sr. Augusto de Carvalho, +quando diz, que <i>confessava-se Vieira obrigado a Vidal pelo auxilio que lhe +déra nas suas missões</i>, etc.</p> + +<p>Abramos o livro da verdadeira historia, justamente no logar onde +historiadores conscienciosos nos apresentam as memoraveis batalhas das +Tabocas e dos Guararápes.</p> + +<p>A paz ajustada entre o governo de D. João IV e a republica da Hollanda, +depois da independencia de Portugal, levaram os patriotas portuguezes, +residentes em<span class="pagenum"><a id="pag_98" +name="pag_98">[98]</a></span> Pernambuco, a começar as hostilidades contra os +hollandezes, em 1643.</p> + +<p>Foi n'esta época que o insigne portuguez, João Fernandes Vieira, tendo +preparado o movimento com o seu genio e recursos, intendeu dever começar a +guerra contra os inimigos da sua patria. Para isso precisava elle de braços +amigos, que o ajudassem na sua gloriosa empreza. E não lhe faltavam elles, +porque a população de Pernambuco estava cançada dos vexames do novo governo, +que tinha substituido a paternal administração do principe Nassau.</p> + +<p>Fernandes Vieira participa esta resolução ao governador geral do Brazil, +Antonio Telles da Silva, que incontinente lhe manda André Vidal de Negreiros, +com ordem de cessar as hostilidades contra os hollandezes.</p> + +<p>Mas a influencia de Fernandes Vieira e o seu tacto politico destroem a +frouxidão do governador e do seu interprete Negreiros.</p> + +<p>Este volta á Bahia a informar ao governador do occorrido. Então Vieira, +sem mais ajuda do que os seus amigos de Pernambuco, offerece combate aos +hollandezes no monte das Tabocas.</p> + +<p>Á primeira victoria, por elle alcançada em 1644, não assistem Camarão, +Henrique Dias e Negreiros.</p> + +<p>Retratemos aqui, a leves traços, estes trez vultos:</p> + +<p>D. Antonio Filippe Camarão, indio convertido e fanatisado pelos jesuitas. +Este homem era o terror dos indigenas; não póde, portanto, ser o symbolo da +liberdade americana. Trabalhava a favor dos dominadores, e os indios que o +seguiam, tão fanaticos como seu chefe, morriam a favor de qualquer causa, com +os olhos nos <i>bentinhos</i> que lhes pendiam do pescoço.</p> + +<p>Henrique Dias, chefe dos pretos, e como elles, representante da raça +africana. Trabalhava a favor dos portuguezes, seus dominadores. Não era +tambem o motor da liberdade americana.<span class="pagenum"><a id="pag_99" +name="pag_99">[99]</a></span></p> + +<p>André Vidal de Negreiros, natural da Parahyba, não póde ser biographado +n'este logar, para não interrompermos as façanhas contra os hollandezes, nos +montes denominados Guararápes.</p> + +<p>Fazem parte d'esta gloriosa batalha o portuguez João Fernandes Vieira, +verdadeiro heroe da empreza, na opinião dos mais abalisados escriptores; e +como auxiliares, Francisco Barreto de Menezes, portuguez; André Vidal de +Negreiros, Filippe Camarão, Henrique Dias, e outros.</p> + +<p>Henrique Dias foi ferido n'esta batalha, de que morreu. Este como seu +companheiro Camarão foram arrastados á guerra, sem o mais pequeno interesse +politico.</p> + +<p>Eram felizes; porque sendo valentes, lhes fallecia a ambição que tanto +assignalou Negreiros.</p> + +<p>Demoremo-nos um pouco perante este personagem.</p> + +<p>Depois do Fernandes Vieira ter realisado o seu belo sonho, apoz uma guerra +de nove annos, parece que devia ambicionar qualquer recompensa; mas tal não +succedeu. Vieira só tinha em mente a liberdade da sua querida patria e dos +territorios conquistados por portuguezes. Nascera na ilha da Madeira, ao +tempo em que eramos dominados pelos castelhanos. No berço aprendera elle a +pronunciar a sublime phrase de—morte ou liberdade—; e refugiara-se mais +tarde no Brazil, onde não se fazia sentir tanto o abominavel dominio de +Castella. Foi em Pernambuco, que a sua nobre alma se engrandeceu, á vista dos +novos dominadores enviados da Hollanda. Não podia elle perceber, como é que +devia desobedecer á sua consciencia de portuguez, para, ao mesmo tempo, dar +gasalho ás ordens de Hespanha e Hollanda: por que essas ordens confundiam-se, +e em logar de auxiliarem aquella parte da America estancavam-lhe a +prosperidade. Por isso poz termo ás contradicções politicas, salvando +Pernambuco.<span class="pagenum"><a id="pag_100" +name="pag_100">[100]</a></span></p> + +<p>O seu culto era a liberdade; por ella faria tudo, e por ella despresaria +as recompensas mundanas, depois da gloria.</p> + +<p>Recusára vir a Lisboa dar a nova das victorias para que elle tanto +contribuira. É que receava as offertas do governo da metropole, offertas que, +sem resultado, o foram tentar no seu retiro.</p> + +<p>Não comprehendia Fernandes Vieira que fosse facil alliar o interesse +mundano, que seduz muitos generaes, á independencia do seu caracter +desinteressado. A sua maior satisfação era expulsar os hollandezes. +Conseguiu-o, nada mais desejava.</p> + +<p>Vidal de Negreiros não tinha d'estes escrupulos; por isso se encarregou de +vir a Lisboa, onde, com a influencia dos jesuitas, obteve mais tarde o +governo de Pernambuco.</p> + +<p>É alli que o vamos encontrar, desobedecendo ás ordens do governador geral, +commettendo violencias contra os seus administrados, negando justiça a uns, +desterrando e prendendo a outros.</p> + +<p>Chamado por isso á Bahia, onde temia ser condemnado, confessa-se +arrependido da desobediencia e dos vexames que havia imposto aos povos, que +ajudára a libertar do jugo dos hollandezes.</p> + +<p>A desobediencia e a desordem continuaram; eis a causa da sua demissão.</p> + +<p>Se André Vidal de Negreiros trabalhava pela liberdade americana, como diz +o sr. Augusto de Carvalho, para que combatia elle os indigenas, colligados +com os hollandezes, nas differentes batalhas dadas em Pernambuco?</p> + +<p>Se elle foi um dos primeiros apostollos d'essa liberdade, para que acceita +cargos publicos das mãos do governo portuguez.</p> + +<p>Os jesuitas são accusados pelo sr. Carvalho, de escravisarem e de +exterminarem os indios, no que estamos<span class="pagenum"><a id="pag_101" +name="pag_101">[101]</a></span> completamente de accôrdo, até ao seculo XVII; +pois bem, como é que sendo Vidal de Negreiros <i>um auxiliar das missões +jesuiticas</i>, como attesta o padre Antonio Vieira, nos vem dizer, que esse +mesmo Negreiros fôra <i>o mais strenuo mantenedor da liberdade da raça +americana</i>?!</p> + +<p>Eis aqui uma contradicção digna de ser recompensada com uma penna de +ouro!</p> + +<p>Finalmente, se Negreiros era o mantenedor d'essa liberdade, para que +acceitou o cargo de governador de Angola? Não seria mais vantajoso, para o +bom exito da sua causa, retirar-se á vida privada, e preparar no sertão, como +fizera Fernandes Vieira, com respeito aos hollandezes, uma conjuração +tendente a libertar a America do jugo estrangeiro?</p> + +<p>Não fez isto, porque Negreiros era ambicioso, e aos ambiciosos não é +permittido <i>entrar portas a dentro da historia com a fronte pejada de +louros</i>.<span class="pagenum"><a id="pag_102" +name="pag_102">[102]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO IV</h1> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0040001">A pastoral do bispo de Braga e a emigração. A +Beneficente e a Caixa de Soccorros de D. Pedro V. Prescripções hygienicas. +Considerações do advogado do consulado no Rio de Janeiro. A commissão da +emigração e os raciocinios estramboticos do auctor do «Brazil» a respeito dos +crimes em Portugal. Os crimes no Brazil. Os nossos raciocinios. Affluencia de +capitaes do Brazil nas praças portuguezas.</a></div> + +<h2>I</h2> + +<p>Mereceram-nos especial attenção alguns pontos contradictorios insertos na +parte quarta do livro o <i>Brazil</i>, e que julgámos não dever deixar passar +sem reparo.</p> + +<p>Pretendendo o seu auctor apresentar-se como inimigo da emigração +clandestina, não poucas vezes guerreia aquelles que a combatem.</p> + +<p>Está n'estes casos o reparo feito á pastoral do bispo de Braga.</p> + +<p>Esse documento precioso, em que bem se patenteiam os vastos conhecimentos +do seu auctor sobre o resultado da emigração de portugueses para o Brazil, +devêra ter passado desapercebido ao sr. A. Carvalho, não só para interesse do +imperio, mas porque a analyse ridicula que lhe faz, dá mais valor, se é +possivel, ás asserções no mesmo contidas.</p> + +<p>No documento referido diz-se a verdade, que o sr. Carvalho esconde, sobre +a situação do trabalhador portuguez<span class="pagenum"><a id="pag_103" +name="pag_103">[103]</a></span> no Brazil; e não vemos contradicção no +seguinte trecho:</p> + +<p>«Seduzidos estes mancebos pelas fallazes esperanças, que arteiros e +assalariados engajadores lhes sabem incutir, pintando-lhes aleivosamente sua +independencia e colossal fortuna, que em pouco tempo pódem conseguir, +empregando seus braços em trabalhos agricolas» etc.</p> + +<p>N'este, tampouco:</p> + +<p>«... pois que sempre houve engajadores, e ambição de melhoramento de +fortuna, que, com quanto imaginaria e fallivel, não desvia os emigrantes dos +gravissimos perigos» etc.</p> + +<p>Ainda n'este:</p> + +<p>«Se alguns d'estes (emigrantes) têem a fortuna de não encontrar sua +sepultura n'aquellas mortiferas paragens, e pódem voltar ao seu paiz, de +ordinario vêem mais pobres do que foram, e com suas saudes perdidas, +perpetuamente inuteis e pesados á patria!»</p> + +<p>Nem mesmo combinado com o seguinte, aonde parece ter visto a +contradicção:</p> + +<p>«E com quanto hajam <i>alguns conseguido alguma pequena fortuna</i>, não +equivale nem compensa <i>a perda de sua saude, nem o sacrificio, e improbo +trabalho</i>, que os proprios indigenas não podem supportar +constantemente».</p> + +<p>Referia-se ao trabalhador, quando o illustre prelado fallava assim.</p> + +<p>Mas se lhe juntarmos o seguinte:</p> + +<p>«E com quanto muitos portuguezes, bafejados pela fortuna, hajam elevado +seus cabedaes a maior ou menor escalla» etc.; não acharemos ainda +contradicção, se completarmos a transcripção do periodo, que é do theor +seguinte: «... <i>não é pelo emprego physico de seus braços em trabalhos +agricolas</i>» etc., que o auctor do <i>Brazil</i> cavilosamente +escondeu.<span class="pagenum"><a id="pag_104" +name="pag_104">[104]</a></span></p> + +<p>O prelado bracarense não combate a emigração de portuguezes que se +destinam a outros misteres, no que, até certo ponto, estamos de accordo; +porque esses emigrados estão mais ou menos no caso de conhecer as vantagens +que lhes offerecem os paizes novos e faltos de gente habilitada para exercer +o commercio, as artes e até mesmo a litteratura, sendo esta ultima asserção +do bispo a que mais cahiu no goto ao sr. Augusto de Carvalho, como se se +podesse pôr em duvida a sua veracidade.</p> + +<p>Pretender chamar emigração expontanea a essa dos trabalhadores, que todos +os dias saem das nossas terras, com destino ao Brazil, é negar a verdade que +todo o historiador deve respeitar. E por isso mesmo que ella não é +expontanea, nem mesmo quando exercida por portuguezes de maior edade, mas sem +as luzes necessarias para conhecer as falsas illusões dos engajadores, é que +nós a guerreamos, importando-se-nos pouco que este nosso procedimento tambem +possa ser tachado de contradictorio.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>O auctor do livro o <i>Brazil</i>, ignora ou finge ignorar, que a maior +parte dos portuguezes saidos de nossos portos, com destino ás terras de Santa +Cruz, são alliciados com mentidas promessas e falsas illusões, incutidas por +grande numero de especuladores, dos quaes, talvez sem o desejar parecer, o +sr. Augusto de Carvalho seja o chefe.</p> + +<p>Já que chegámos a este ponto, permitta-nos que sejamos francos, +dizendo-lhe que ha quem nos chame um pouco complacente por formularmos apenas +uma hypothese sobre a melindrosa posição do sr. Carvalho.</p> + +<p>E, effectivamente, se o auctor da <i>moderna historia</i><span +class="pagenum"><a id="pag_105" name="pag_105">[105]</a></span> do Brazil, +não especula com a emigração, como se explica o seu procedimento de asseverar +que o Brazil é manancial de riquezas para o trabalhador, quando documentos de +maior valia nos dizem completamente o contrario?</p> + +<p>Vamos lançar mão da carta, escripta pelo presidente da <i>Caixa de +Soccorros D. Pedro V</i>, dirigida ao consul geral de Portugal, no Rio de +Janeiro, em 21 de julho de 1872.</p> + +<p>Este importantissimo documento, que o sr. Augusto de Carvalho +<i>auctorisa</i> a paginas 283 do seu livro, e do qual se serviu transcrever +alguns trechos, esquecendo os que não lhe faziam conta, não por os julgar +menos auctorisados, porque então far-lhe-hia a necessaria critica, como +fizera á pastoral, mas porque assim convinha á sua propaganda, diz mais o +seguinte, que muito convém ser lido pelos admiradores do historiador +brazileiro:</p> + +<p>«Descripto como fica o destino d'esta população (de emigrantes +portuguezes), passemos sem mais detença á observação dos resultados colhidos +pelos emigrantes, vejamos como se tornaram em realidades os sonhos dourados +d'aquella possante juventude, que em demanda de tão cubiçada riqueza +abandonou a patria e a familia.</p> + +<p>«Cessam aqui os conceitos geraes pela observação e modo de ver de cada um; +logar aos factos que se levantam com toda a magestado de principios que não +podem discutir-se.</p> + +<p>«V. ex.ª, que é portuguez, disponha o seu animo para contemplar desgraças +e miserias taes e tamanhas, que a imaginação espavorida mal comprehende +<i>como ainda tão severa illusão não bastou para pôr barreira a esta corrente +de suicidios</i>.</p> + +<p>«Nos sete annos decorridos, desde 1864 a 1871, a <i>Caixa de Soccorros de +D. Pedro V</i>, pagou a passagem para voltarem á patria, a 2:304 portuguezes, +e o numero<span class="pagenum"><a id="pag_106" +name="pag_106">[106]</a></span> dos que tem soccorrido eleva-se a 9:000 +inscriptos até hoje.»</p> + +<p>Convém dizer antes de proseguirmos na transcripção de tão preciosa carta e +baseando-nos em documentos officiaes, que o numero de portuguezes entrados no +Rio de Janeiro desde 1861 até</p> + +<table border="0" align="center" summary="Nº de portugueses que entraram no Brasil"> + <tr> + <td>1872, é de</td> + <td></td> + <td style="text-align:right;">49:610</td> + </tr> + <tr> + <td> Deduzindo:</td> + <td></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Portuguezes que voltaram á patria, soccorridos pela <em>Caixa de + Soccorros D. Pedro V</em></td> + <td style="text-align:right;">2:304</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Ditos soccorridos em casa pela mesma</td> + <td style="text-align:right;">9:000</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Ditos soccorridos pela <i>Sociedade Beneficente</i><br> + <i>Portugueza</i>, nos dez annos findos em 31 de<br> + dezembro de 1871</td> + <td style="text-align:right;">18:405</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Ditos soccorridos pela <i>Sociedade Beneficente</i><br> + <i>Portugueza</i> para voltarem á patria</td> + <td style="text-align:right;">284</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Viuvas socorridas, idem</td> + <td style="text-align:right;">146</td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td>Enterros pagos, idem</td> + <td style="text-align:right;"><span + style="text-align:right;">502</span></td> + <td style="text-align:right;">30:641</td> + </tr> + <tr> + <td> </td> + <td style="text-align:right;">————</td> + <td style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">18:969</td> + </tr> +</table> + +<p>Devemos notar que a estatistica fornecida pela direcção da <i>Caixa de +Soccorros de D. Pedro V</i>, só se refere ao periodo de tempo decorrido desde +1864 a 1871, faltando-nos portanto, esclarecimentos sobre os soccorros que +pela mesma poderiam ser prestados nos tres annos de 1861 a 1863 inclusive, +cuja média não podia ser inferior a 4:844, que deduzidos ainda dos 18:969, +faz baixar a 14:124 o numero dos mais felizes!</p> + +<p>«Estes algarismos, ex.<sup>mo</sup> sr., continúa o presidente da +associação, representam homens inteiramente abandonados,<span +class="pagenum"><a id="pag_107" name="pag_107">[107]</a></span> sem mais +recursos alguns e que morreriam ao desamparo se esta associação não fôra» +etc., etc.</p> + +<p>«Nos hospitaes das irmandades, refere a este mesmo respeito o consul +geral, numerosas n'esta côrte, são recebidos individuos de todas as +nacionalidades, sendo irmãos. Sobresahe o grande e explendido hospital da +Santa Casa da Misericordia <i>que acolhe indistinctamente os indigentes +nacionaes ou estrangeiros</i>,» etc.</p> + +<p>«Não acontece porém o mesmo nas povoações do interior, e muito menos nas +fazendas onde o colono está entregue ás eventualidades do tratamento do +locatario, nas quaes, não raro, acontecem factos como o que descreve o nosso +intelligente compatriota dr. Domingos de Almeida», etc.</p> + +<p>Ora é claro que os emigrados portuguezes, entrados no porto do Rio de +Janeiro, não permanecem na côrte; parte d'elles vão para o interior. Assim é +que, se podessemos obter uma estatistica exacta dos portuguezes soccorridos +pelas irmandades e pelo hospital da misericordia de que nos falla o consul, +bem como dos miseraveis abandonados no interior pelos senhores de engenho, +aquelle numero de 14:124 portuguezes, que reputamos <i>felizes</i>, abaixaria +ainda consideravelmente!</p> + +<h2>III</h2> + +<p>«Não é, senhores, sem perigos e riscos mui dignos de attenção, que os +emigrantes livres conseguem as fortunas, que o Brazil encerra e guarda com +avarento sobresalto.»</p> + +<p>A estas palavras da commissão de emigração, responde o auctor do +<i>Brazil</i>:</p> + +<p>«Mas de que natureza são esses perigos?» etc.</p> + +<p>E prosegue:</p> + +<p>«Affirma o relatorio (da commissão de emigração) que<span +class="pagenum"><a id="pag_108" name="pag_108">[108]</a></span> <i>a fortuna +teima em se mostrar adversa aos emigrantes livres que não têem no Brazil +parentes, amigos ou protecção</i> (o grifo é do escriptor citado). Isto é +quasi desconhecer o sentimento acrisolado de patriotismo, que distingue e +honra sobremaneira a colonia portugueza no Brazil.»</p> + +<p>De maneira que, os trabalhadores portuguezes, fiados nas palavras do +auctor d'estas linhas, e no acrisolado patriotismo dos portuguezes, +residentes no imperio, devem seguir o conselho, <i>tão salutar</i>, de deixar +a patria em troca de um paiz que os colloca na contigencia de ir pedir +esmolla ás sociedades de soccorros, instituidas por alguns portuguezes mais +afortunados!</p> + +<p>Bem lembrado!</p> + +<p>«Entre os emigrantes que formam este grupo, falla a commissão de +emigração, ha uma parte que, não tendo no Brazil parentes, amigos ou +protecção, confiam ao acaso o seu destino. A estes, principalmente, a fortuna +teima em se mostrar adversa. Não tendo uns robustez physica para trabalhos +severos, sendo outros inhabeis para os misteres a que se dedicam, esses pagam +em soffrimentos e miseria a ventura dos mais felizes.»</p> + +<p>O sr. Carvalho, que a tudo mostra ter que dizer, faz ao trecho citado as +seguintes reflexões, que nada adiantam:</p> + +<p>«Sentimos que a illustrada commissão não investigasse bem a causa de taes +infortunios (!)......»</p> + +<p>E com uma logica de menino de escola continúa:</p> + +<p>«... Ninguem por certo os poderá negar. Concorre para isso, umas vezes, a +rapida mudança de clima, <i>sem cuidado pela differença de estação de um para +outro paiz</i>;...»</p> + +<p>Que cuidados deve ter o colono trabalhador para evitar os males que podem +advir-lhe por causa da rapida mudança do clima?<span class="pagenum"><a +id="pag_109" name="pag_109">[109]</a></span></p> + +<p>«... outras, os excessos (?) dos recem-chegados, muitos dos quaes são, por +via de regra, <i>pouco respeitadores de certas prescripções +hygienicas</i>;...»</p> + +<p>Vejamos o que é preciso fazer o europeu recem-chegado ao Brazil, <i>para +respeitar certas prescripções hygienicas</i>:</p> + +<p>Não deve expôr-se aos raios do sol; deve procurar boa alimentação, +despresando nos primeiros tempos os fructos indigenas, e procurar ter boa +habitação.</p> + +<p>Perguntamos agora, qual é o europeu, nas condições do colono contratado em +Portugal, para trabalhar em terras brazileiras, que póde satisfazer ás taes +prescripções hygienicas?</p> + +<p>Vamos provar que nenhum trabalhador que se destina á agricultura póde +deixar de viver miseravelmente em terras brazileiras.</p> + +<p>Primeiro que tudo, o trabalhador não póde deixar de expôr-se aos raios +solares; do contrario morrerá de fome, se não tiver contratado o seu serviço, +como acontece a quasi todos os portuguezes; e n'este ultimo caso, será preso, +e em conformidade da lei brazileira de 1837, obrigado a expôr-se ao sol para +satisfazer aos compromissos que se impozera em seu contracto.</p> + +<p>O colono portuguez contractado para trabalhar no Brazil, a razão de 2$000 +réis fracos, diarios, o maximo, e dizemos o maximo porque já demonstramos que +em Portugal nunca se fizeram contratos de locação de serviço tão favoraveis +ao colono; não póde, com tão modica quantia obter boa alimentação, ainda que +o colono não tivesse que satisfazer a outras obrigações, como são o pagamento +da passagem e <i>mais despezas indispensaveis</i><a name="tex2html31" +href="#foot936"><sup>[31]</sup></a> a quem tem de fazer uma longa viagem e +estar auzente da patria por illimitado tempo.<span class="pagenum"><a +id="pag_110" name="pag_110">[110]</a></span></p> + +<p>Ora, quem não tem meios para alimentar-se regularmente, não póde deixar de +ter má habitação; não póde deixar de comer algumas fructas, no começo, +nocivas á saude dos colonos; não póde, além d'isso, deixar de vestir mal; e, +finalmente, de despresar <i>certas prescripções hygienicas</i>, que nunca +foram desprezadas, em tempo, por quem escreve estas linhas, e que, não +obstante, foi atacado da terrivel epidemia a <i>febre amarella</i>.</p> + +<p>E continúa o auctor do livro o <i>Brazil</i>, nos seus considerandos:</p> + +<p>«...... outras, em fim, a cega ambição de alguns infelizes, que sacrificam +todos os commodos (já está demonstrado que não póde ter commodos o +trabalhador do Brazil), saude, e não raro as proprias vidas (por falta de +recursos), para mais depressa accumularem um peculiosinho, que, quando +repatriados, (dolorosa desillusão!) não chega muitas vezes para occorrer ás +despezas, feitas então com o fim de recuperarem a saude, que perderam +fatalmente em trabalhos superiores ás suas forças!»</p> + +<p>Completamente de accordo com respeito a este ultimo trecho, que, +satisfeitos, registramos; porque é mais uma contradicção do sr. Augusto de +Carvalho.</p> + +<p>Do documento citado por este sr., vamos transcrever mais alguns trechos em +abono das nossas palavras; e preferimos este documento a qualquer outro, por +lhe ter prestado a sua authoridade.</p> + +<p>Só sentimos, ainda uma vez o dizemos, que tivesse deixado de o transcrever +na integra, na tal historia:</p> + +<p>«As causas a que mais directamente pódem attribuir-se estes desastrosos +effeitos, continua o presidente da <i>Caixa de Soccorros D. Pedro V</i>, são, +em relação aos homens que se empregam em trabalhos rudes, a pessima +alimentação, aggravada pelas exigencias do clima, sob o qual o europeu +carece, para sustentar a sua força, <i>de superior e muito cuidado +alimento</i>.<span class="pagenum"><a id="pag_111" +name="pag_111">[111]</a></span></p> + +<p>«A humidade do solo, origem de sua fecundidade assombrosa, os rigores +tropicaes exercem sobre o europeu influencia tal, <i>que todos os cuidados +hygienicos são poucos para precaver-se contra similhantes males</i>.»</p> + +<p>Esta é que é a verdade, que o auctor do livro que analisamos escondeu, por +não se achar com forças de repelir accusações tão bem fundamentadas.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Não é só o distincto presidente da <i>Caixa de Soccorros de D. Pedro +V</i>, que se revolta contra a emigração de portuguezes trabalhadores.</p> + +<p>Eis o que a respeito d'estes communica o consul geral, residente na +capital do Brazil, em seu relatorio de 30 de julho de 1872:</p> + +<p>«É raro o caso de adquirirem, <i>mesmo durante largos annos, meios +pecuniarios, com que possam pagar as despezas do regresso á sua patria</i>... +Todos esses individuos começam por estar desde logo onerados com a divida do +transporte para este paiz, a qual com as addicções de despezas <i>contadas a +arbitrio dos engajadores</i> eleva-se á somma de 120$000 a 150$000 réis. No +tempo do cumprimento do contracto, os colonos, em vez de amortisarem essa +divida, augmentam-a, em geral, e findo o referido tempo, que ordinariamente é +de dois ou tres annos, devem 400$000 a 600$000 réis, <i>conta ainda feita a +arbitrio exclusivo dos proprietarios</i>. Para a solução de semilhante onus, +vêem-se forçados a renovar os contractos, <i>até que perdida toda a esperança +de resgate, fogem, não obstante o risco que correm de serem presos e +condemnados a trabalhos publicos, na fórma da legislação que rege a +materia</i> (a lei de 1837)»</p> + +<p>Um outro portuguez, o dr. Domingos José Bernardino<span class="pagenum"><a +id="pag_112" name="pag_112">[112]</a></span> de Almeida, advogado do +consulado geral de Portugal, no Rio de Janeiro, cavalheiro muito proficiente +na materia, diz na sua consulta, de 29 de julho de 1872:</p> + +<p>«Os portuguezes que aportam ao Brazil e não ficam nas grandes cidades, são +engajados a bordo e contractados para as fazendas do interior. Vem a +proposito citar a respeito dos engajados, a opinião do ex.<sup>mo</sup> sr. +conselheiro Mendes Leal, no jornal <i>America</i>: A emigração assalariada +presta-se facilmente a abusos revoltantes, e pela sua propria natureza é +menos productiva. Só impreterivel necessidade a explica e desculpa. (S. ex.ª +é favorável á emigração).»</p> + +<p>«Chama ao engajamento:—«Escravidão simulada ou hypocrisia de liberdade». +<i>Ora realmente é o unico systema de colonisação de portuguezes +praticado</i> até hoje, esse que difine o ex.<sup>mo</sup> conselheiro.</p> + +<p>«Como disse, em vez de realisarem o que almejam todos os que emigram para +o paiz, isto é, serem proprietarios, <i>ao contrario os nossos compatriotas +emigrantes vem substituir os escravos nas fazendas</i>!</p> + +<p>«Os contratos de locação de serviços são pela maior parte longos, nunca +por menos de tres annos.</p> + +<p>«Ahi vivem como viviam os escravos, com elles trabalham, etc.</p> + +<p>«Ora nenhum europeu supporta o clima dos tropicos no serviço em que até +hoje tem sido empregados os escravos, e <i>no imperio é esse o unico para que +são engajados os nossos compatriotas</i>.</p> + +<p>«Citarei um exemplo que presenciei, e que é, pouco mais ou menos, o que +<i>em geral</i> se passa.</p> + +<p>«Para uma fazenda (em que fui medico um anno, <i>onde apezar de toda a +minha hygiene, contrahi infecção paludosa, que só me abandonou no fim de dez +annos</i>, com a residencia em Buenos Ayres durante cinco mezes) em 1856, +foram engajados 5 compatriotas nossos,<span class="pagenum"><a id="pag_113" +name="pag_113">[113]</a></span> 4 homens e uma mulher, recem-chegados, todos +maiores de 30 annos, <i>de organisação forte e sadios</i>.</p> + +<p>«<i>Comiam, dormiam e trabalhavam, como os escravos</i>, quero dizer, +<i>tinham a sua tamina</i> (ração) <i>de carne secca, feijão e farinha, que +eram obrigados a coser para comer na hora do almoço e do jantar</i> (uma hora +para cada refeição!)</p> + +<p>«Senzalas (casas de residencia dos pretos) eram as habitações que +constavam de um pequeno quarto não soalhado, com porta e janella, <i>tendo +por cama uma esteira, e por mobilia uma pedra para se sentarem. Trabalhavam a +par dos escravos, commandados pelo feitor, tambem escravo e armado do +competente relho</i> (vergalho do castigo!) <i>trabalho que principiava ao +romper d'alva e terminava ás nove horas da noite</i>, apenas com a +interrupção das refeições (!) De dia cavavam na terra, de noite lançavam ou +tiravam tijolo do forno. Apesar da sua robustez, como fossem transportados +bruscamente para logar insalubre, antes de aclimados na estação calmosa, +sujeitos a trabalho insano e longo (mais de quinze horas por dia!) com a +alimentação má e peior casa para dormir, <i>ficaram em dois mezes e meio +reduzidos a pelle e ossos, verdadeiras mumias, e morreriam se não +fugissem</i>!</p> + +<p>«Este quadro fiel é <i>com pequenas modificações o que se passa no +interior do paiz</i>.»</p> + +<p>Áquellas verdades e a estas da commissão de emigração, fundadas em +documentos insuspeitos:—«Deprehende-se, pois, sob o aspecto da emigração, +que não ha miseria nem falta de trabalho que a incite»—responde o sr. A. de +Carvalho, com a sua peculiar ingenuidade:</p> + +<p>«Permitta-nos a illustrada commissão, que lhe façamos sentir que os factos +protestam contra similhante conclusão. Na ultima leva dos degredados, cremos +nós, em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados por<span +class="pagenum"><a id="pag_114" name="pag_114">[114]</a></span> furtos, +roubos e falsificações. E ainda, no mez de novembro ultimo (1873), de 40 que +deram entrada no Limoeiro para seguirem o mesmo destino, 31 foram-n'o por +crimes da mesma natureza.»</p> + +<p>E accrescenta:</p> + +<p>«Dar-se-ha que taes vicios estejam na indole do povo portuguez? Quem tal o +asseverasse commetteria uma infamia.</p> + +<p>«De que procedem então esses delictos?</p> + +<p>«Procedem da miseria, procedem da falta de remuneração proporcional, +convençam-se d'isto.»</p> + +<p>Agradecemos, em nome do povo portuguez, as <i>boas</i> intenções do auctor +das linhas que deixamos transcriptas, com quanto nos vejamos obrigados a +discordar das suas conclusões e a censurar o desproposito da antithese.</p> + +<p>Nem o povo portuguez póde ser accusado de indole preversa, nem se póde +attribuir só á miseria e falta de trabalho os crimes commettidos, pelos 52 +condemnados, referidos acima.</p> + +<p>E é tão admissivel este principio, que os 40 condemnados excedentes, não +só não provam a miseria do povo portuguez, como ainda a sua indole.</p> + +<p>A que attribuirá então o sr. Carvalho os crimes d'aquelles 40 +condemnados?</p> + +<p>Em toda a parte se commettem crimes de falsificações, furtos, e roubos, e, +da averiguação a que se procede, vê-se que não fôra só a necessidade o +principal motor do crime. Até podiamos, n'este sentido, apresentar uma +estatistica, em que provariamos não ficar o Brazil atraz de qualquer outra +nação. Com tudo, se attendessemos ao principio estabelecido pelo sr. +Carvalho—de que a miseria é a principal causa que move os humanos aos crimes +mencionados—o Brazil, aonde a riqueza anda aos pontapés, devia estar isento +d'esta pecha.<span class="pagenum"><a id="pag_115" +name="pag_115">[115]</a></span></p> + +<p>Mas não pára ainda aqui a philosophia estrambotica do advogado da +emigração.</p> + +<p>Contra a voz unanime dos nossos consules e dos mais respeitaveis +entendedores, exclama o sr. Augusto de Carvalho:</p> + +<p>«Acaso, por se haver morto com um tiro, em certo logar do Minho, um +infeliz que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo d'aquella +provincia seja deshumano?»</p> + +<p>Não percebemos a que proposito veio esta parabola, nem tampouco +est'outra:</p> + +<p>«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes a um +mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo crime de +<i>sorrir-se e piscar os olhos</i> para o delegado Duarte de Vasconcellos, +segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»</p> + +<p>Ou o sr. Carvalho anda de má fé no assumpto, e n'este caso seria bom que +não tocasse na ferida, aberta por assassinos brazileiros, d'onde ainda não +deixou de correr sangue portuguez, ou então não percebeu as palavras e o +sentido de quem as dictou.</p> + +<p>O sr. Augusto de Carvalho devia ter notado que a commissão de emigração, +ao fazer-se echo de tantas verdades enunciadas em documentos de muita valia, +para informar sobre o assumpto da emigração, que tantos males ha produzido a +Portugal, não fallou nas injustas decisões dos tribunaes brazileiros, quando +julgam colonos portuguezes; e mesmo que fallasse, não podia o sr. Carvalho, +para ser coherente, usar d'aquelle desforço, que, ainda assim, seria injusto, +se attendesse ás circumstancias de que um portuguez tinha assassinado outro +portuguez, e um tribunal, tambem portuguez, condemnado um filho de +Portugal.</p> + +<p>Era futil a razão do assassinato? Completamente de accordo. Mas quem sabe +se outra razão mais forte existiria entre os dois personagens d'aquelle +drama? Por<span class="pagenum"><a id="pag_116" +name="pag_116">[116]</a></span> causa de 20 réis, já ouvimos dizer que um +homem tinha assassinado outro: comtudo, o motivo principal não fôra esse. +Porém, nós não admittimos o assassinato mesmo por outros motivos mais +poderosos, com o que não parece estar de accordo o sr. Carvalho, por isso que +só o horrorisou o facto do minhoto!</p> + +<p>Em Portugal, as faltas de respeito para com as auctoridades são castigadas +com um mez de prisão. É futil a razão. Antes isso do que assimilharem-se os +nossos tribunaes aos do Brazil, aonde as mais das vezes a corrupção toma o +logar da justiça, para condemnarem os desgraçados portuguezes.</p> + +<p>Felizes as nacionalidades que dão os exemplos de moralidade da primeira, e +desgraçadas aquellas que, como a segunda, se transformam em alvo, aonde as +settas do motejo vão cravar-se.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Sentimos que o historiador se desviasse para este campo, mas visto que a +elle nos chamou, ha de acceitar-nos a replica leal, baseada em factos e não +em hypotheses.</p> + +<p>Para provar que não é só nos paizes <i>cansados</i> que se commettem +crimes que o sr. Augusto de Carvalho leva á conta de falta do trabalho e da +miseria; e para que se não diga que baseamos em factos isolados as nossas +considerações, vamos transcrever o seguinte importantissimo artigo do +<i>Diario do Rio de Janeiro</i>, publicado em julho de 1877:</p> + +<p>«Parece que o desenvolvimento das nossas vias rapidas de communicação tem +sido fatal, debaixo d'um ponto de vista, para as principaes povoações que o +vapor vae collocando em convivencia quasi diaria com a nossa cidade.<span +class="pagenum"><a id="pag_117" name="pag_117">[117]</a></span></p> + +<p>«A consequencia immediata do movimento produzido pela rapidez das +communicações que vão esclarecendo as novas linhas ferreas, naturalmente ha +de tornar mais intima a nossa convivencia com os habitantes das localidades +que se vão approximando da metropole, proporcionando-lhes ensejo de +coparticipar de todos os melhoramentos da civilisação, que até aqui só se +concentravam na capital.</p> + +<p>«Infelizmente o caminho de ferro, embora movido por um dos grandes motores +do progresso, não exclue dos seus beneficios, as industrias pouco +civilisadoras, e na sua rapida carreira tudo transporta e a todos favorece. +Mas as cidades que vão ficando em rapida communicação com a capital, teem de +tornar-se um vasto campo de operações para o exercicio das numerosas +industrias, para as quaes, o theatro de uma só cidade começava a ser pequeno +e a impertinente vigilancia das auctoridades a tornar-se incommoda.</p> + +<p>«O que é para sentir é que sejam estes os primeiros elementos de +<i>civilisação</i>, que tratam de aproveitar-se dos beneficios das vias +ferreas, para irem levar o terror e o desassocego ás pacificas povoações até +agora livres da sua malefica influencia.</p> + +<p>«Com effeito, as cidades da provincia de S. Paulo, e particularmente a sua +capital, já estão n'este momento a braços com um dos perniciosos elementos +para ali transmittidos pela via ferrea.</p> + +<p>«Os jornaes d'aquella procedencia já veem cheios de narrações, pintando as +façanhas que ali teem praticado os membros da corporação dos meliantes, que, +como dissemos, para ali enviára, por occasião das festas, uma respeitavel +guarda de honra.</p> + +<p>«Devemos acreditar que n'ella foram incorporados socios de todas as +profissões, desde o simples gatuno até ao mais ousado salteador e assassino, +porque as suas façanhas em S. Paulo não se teem limitado a pequenas<span +class="pagenum"><a id="pag_118" name="pag_118">[118]</a></span> +escamoteações; teem assaltado a propriedade e os viajantes e até levado o seu +arrojo ao ponto de arrombarem casas habitadas e intentarem lucta com os +moradores para os espoliarem.</p> + +<p>«Para nós, que temos aqui sido testemunhas e victimas do arrojo d'estes +malvados, apesar de toda a vigilancia da policia e dos recursos de defeza que +a população de uma grande cidade póde oppôr, é facil de julgar qual não será +a perigosa situação em que se acham os habitantes das localidades da +provincia de S. Paulo, que elles teem procurado para campo das suas +criminosas operações.</p> + +<p>«O que, porém, é de crer, é que o caso venha a assumir um aspecto sério, +se não forem tomadas as mais promptas e energicas providencias, a fim de +impedir que os bandidos procedam socegadamente na sua campanha +exploradora.</p> + +<p>«Poderá bem acontecer que os habitantes se resolvam a fazer justiça por +suas mãos, como tem succedido nos Estados-Unidos, e em tal caso, embora fosse +isso talvez um castigo bem merecido para os criminosos, veriam estabelecida +no imperio uma pratica repulsiva, cujas consequencias ninguem póde prevêr.</p> + +<p>Convém, pois, applicar remedio para evitar estes meios extremos.»</p> + +<p>Ainda sobre o mesmo assumpto diz o <i>Diario de S. Paulo</i>:</p> + +<p>«Os industriosos avantajam-se no modo de tirar o alheio.</p> + +<p>«Um individuo chegou-se á estação telegraphica da estrada de ferro +ingleza, na Luz, e passou para Santos o seguinte telegramma:</p> + +<p>«De Antonio Pereira Arruda a Albino Medon.</p> + +<p>«Mande-me ámanhã (7 do corrente) sem falta, cinco saccos de assucar crú e +duas barricas do refinado.</p> + +<p>«Pague o frete, e remetta para a estação da Luz, que eu estou +esperando».<span class="pagenum"><a id="pag_119" +name="pag_119">[119]</a></span></p> + +<p>«O pobre negociante, amigo do sr. Arruda, satisfez completamente o pedido +e remetteu os generos, que foram entregues na estação ao tal Arruda, que não +podia ser o amigo e correspondente.</p> + +<p>«Mais tarde, remettendo pelo correio ao seu amigo a nota dos generos e +seus preços, teve em resposta que não lhe passára telegramma algum e nada lhe +pedira, e que até residindo em Jundiahy não viera á capital, e que tinha sido +victima de algum ladrão, sabedor de suas relações.</p> + +<p>«Ora eis ahi um meio facil de nos provermos do necessario.</p> + +<p>«Acautele-se, pois, o commercio contra as artimanhas e recursos dos finos +larapios.</p> + +<p>«O sr. Albino levou tudo ao conhecimento da policia, mas o homem que se +abasteceu de assucar <i>crú e refinado</i>, usa de capa preta, e será +difficil ser conhecido. Esta gente escapa sempre da acção da auctoridade, +<i>mesmo por ser grande o seu numero</i>».</p> + +<p>Note-se que a companhia de ratoneiros, estabelecera para theatro de suas +façanhas a riquissima provincia de S. Paulo, onde o clima é mais supportavel, +e onde com mais facilidade os taes sugeitos poderiam encontrar trabalho, se +fosse o trabalho que elles procurassem.</p> + +<p>E não se diga que a miseria no Brazil é já a consequencia das nossas +previsões—a decadencia do imperio. Não, porque em 1860, o nosso embaixador, +o sr. conde de Thomar, assim pintava <i>a terra promettida</i>:</p> + +<p>«Apresentam-se diariamente á porta da legação de sua magestade um grande +numero de portuguezes infelizes, pedindo uns esmola, outros passagem para +Portugal e alguns mesmo para Angola. Pertence a maxima parte d'estes +infelizes a essa classe de illudidos com as fallazes promessas de grandes +fortunas, apenas chegados a este imperio.<span class="pagenum"><a +id="pag_120" name="pag_120">[120]</a></span></p> + +<p>«É sabido que os europeus em geral soffrem nos primeiros mezes depois do +seu desembarque n'estas paragens, e não soffre a cobiça dos esploradores +d'aquellas victimas, que estejam em curativo e descanso durante as suas +molestias, antes geralmente se exige, que elles prestem em qualquer estado de +saude os serviços a que se obrigaram.</p> + +<p>«Resulta d'este facto, como é natural, o aggravamento das molestias e +confesso que por mais de uma vez se me tem coberto o coração de luto, vendo o +estado desgraçado de alguns dos meus compatriotas.</p> + +<p>«Soccorro a alguns com a esmola, que comportam as minhas pequenas forças +financeiras, mas declaro a v. ex.ª, que este estado é demasiado violento para +um representante de sua magestade, porque ou ha de já por humanidade, já pelo +cargo que occupa, dar esmola a estes infelizes, e terá por isso uma grande +diminuição nos seus vencimentos, a qual não comportam as despezas diarias a +que é obrigado, ou ha de recusal-a, e será infallivel resultado: primeiro, a +maior desgraça e mesmo a fome d'esses desgraçados subditos de sua magestade; +segundo: o descredito e desconsideração do seu representante.</p> + +<p>«No meio de muitos desgostos, de soffrimentos e difficuldades, a que se vê +exposto o ministro de Portugal n'esta côrte, devo confessar a v. ex.ª, que +nada produz em mim uma sensação tão forte, como o espectaculo que se +representa diariamente e sem a menor interrupção á porta da legação de sua +magestade.</p> + +<p>«São bem ardentes os desejos que me animam para valer a tantos infelizes, +mas é superior a difficuldade em que me acho de remediar tão grande +desgraça.</p> + +<p>«Não me atrevo a propor meio nenhum ao governo de sua magestade, mas +reclamo uma providencia para fazer desapparecer dos olhos do publico este +estado lamentoso, principalmente em um paiz que por ter sido<span +class="pagenum"><a id="pag_121" name="pag_121">[121]</a></span> nossa +colonia, não deve presenciar tão grandes miserias e desgraças,» etc.</p> + +<p>Mas não localisemos os crimes e miseria. Olhemos para outras provincias +brazileiras.</p> + +<p>Um importantissimo jornal do imperio, o <i>Cearense</i>, trata em seu +artigo de fundo, de 19 de agosto de 1875, do assumpto importantissimo +<i>Segurança publica</i>.</p> + +<p>As suas palavras e a estatistica dos crimes, que no mesmo logar nos +apresenta, horrorisam-nos.</p> + +<p>Para que nos não acusem de exaggerados, vamos copiar alguns trechos do +alludido artigo da illustrada folha do Ceará.</p> + +<p>Oxalá aproveite a lição aos nossos compatriotas, que veem no imperio um +manancial de riquezas e de felicidades futuras, e ao philosopho sr. A. +Carvalho para não assentar proposições temerarias e inconsequentes.</p> + +<p>Falla o <i>Cearense</i>:</p> + +<p>«Não é licito duvidar mais do estado de anarchia moral, que substituiu ao +regimen pacifico da legalidade por toda a estação do imperio, maxime nas +provincias do norte, destinguindo-se ainda d'estas a do Ceará.</p> + +<p>«Contrista lançar-se os olhos sobre a estatistica criminal d'esta +provincia, e possuir-se a certeza de que os costumes, em vez de seguirem o +curso regular e bemfazejo da civilisação, vão-se encaminhando para o passado +sombrio e desolador dos tempos barbaros da colonia (?).</p> + +<p>«Esse contraste entre o material, que progride, e a moral que recua, tem +dado que pensar aos que se interessam pela prosperidade e melhoramento da +patria com tal pertinacia, que ultimamente chegou a despertar a attenção +distraida e indolente do poder governativo.</p> + +<p>«Na impotencia de prestar melhor e mais efficaz serviço á causa publica, +tem a opposição se limitado a apontar os males e seus motivos, denunciando os +criminosos<span class="pagenum"><a id="pag_122" +name="pag_122">[122]</a></span> á acção da justiça, e a negligencia policial +á acção da opinião do paiz.</p> + +<p>«Isto, que seria tomado por outros governos como serviço e dedicação ao +interesse geral, tem valido apenas ao partido proscripto a pecha de +antipatriotico, porque denuncia o crime com suas côres vivas e os despeitos e +odios dos potentados da situação.</p> + +<p>«Felizmente parece que a verdade, a evidencia dos factos, o poder dos +acontecimentos começam a pesar dolorosamente sobre a consciencia do governo, +obrigando-o a volver os olhos sobre o estado desolador de quasi todas as +provincias em materia de segurança publica e individual.» etc.</p> + +<p>Depois de mais algumas reflexões.</p> + +<p>«E para avaliar-se o incremento, que tem tido n'esses ultimos tempos a +estatistica criminal no Ceará, transcrevemos para estas columnas uma pagina +de sangue de nossos annaes.</p> + +<p>«Desde o dia 13 de dezembro de 1874 até hoje... a imprensa registrou os +seguintes attentados perpetrados na provincia:</p> + +<table border="0" align="center" summary="Crimes perpetrados"> + <tbody> + <tr> + <td>Assassinatos</td> + <td style="text-align:right;">77</td> + </tr> + <tr> + <td>Tentativas</td> + <td style="text-align:right;">23</td> + </tr> + <tr> + <td>Infantecidios</td> + <td style="text-align:right;">3</td> + </tr> + <tr> + <td>Ferimentos</td> + <td style="text-align:right;">148</td> + </tr> + <tr> + <td>Offensas physicas</td> + <td style="text-align:right;">26</td> + </tr> + <tr> + <td>Aborto</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + <tr> + <td>Estupro</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + <tr> + <td>Polygamia</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + <tr> + <td>Furtos</td> + <td style="text-align:right;">18</td> + </tr> + <tr> + <td>Fugas de presos</td> + <td style="text-align:right;">19</td> + </tr> + <tr> + <td> </td> + <td style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">317</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>«Por esse quadro vê-se que durante 252 dias commetteram-se<span +class="pagenum"><a id="pag_123" name="pag_123">[123]</a></span> 317 crimes, o +que dá mais de um attentado para cada dia!» etc.</p> + +<p>Effectivamente, é assombroso. Mas antes de proseguirmos no assumpto, +cumpre dizer duas palavras ao illustrado articulista, em resposta á sua +proposição:—<i>de que os costumes vão-se encaminhando para o passado sombrio +e desolador dos tempos barbaros da colonia</i>. Acreditamos sinceramente que +este trecho do seu artigo não leva em mira offender o regimen adiministrativo +do governo portuguez, quando o Brazil era nossa colonia, regimen mau, de que +nem todos os povos estavam isentos n'aquella época; mas que, ainda assim, já +mais dará logar a ser julgado com justiça, como acabam de ser julgados os +actos do governo brazileiro, por um jornal liberal, n'uma época tão adiantada +do seculo XIX. Não será facil ao distincto jornalista apresentar-nos uma +estatistica tão monstruosa de crimes praticados no Ceará, ou em outra +qualquer cidade do imperio no longo periodo de 325 annos, que alli dominaram +os portuguezes. A Cesar o que é de Cesar.</p> + +<p>A referida folha diz ainda o seguinte:</p> + +<p>«Não reputamos sómente um triumpho para a imprensa liberal as ultimas +circulares do ministro da justiça sobre este assumpto; pensamos que ha ahí +alguma coisa mais que o desejo de dar uma satisfação ás reclamações dos +proscriptos, por que ha a tardia consciencia d'esses cataclismos moraes, que +assolam a sociedade brazileira tão desapiedada e cruelmente.»</p> + +<p>Julgamos do nosso dever transcrever na integra uma das circulares a que se +refere o articulista, porque esse documento comprova a verdade das suas +allegações a respeito da criminalidade no Brazil, e corrobora as nossas +affirmações contra a sua civilisação.</p> + +<p>«O augmento dos crimes, diz o ministro da justiça, especialmente contra a +segurança individual, vae assumindo proporções elevadas. É urgente +providenciar sobre<span class="pagenum"><a id="pag_124" +name="pag_124">[124]</a></span> este estado de coisas, cujo melhoramento +depende em grande parte da nomeação das auctoridades policiaes, promotores +publicos e supplentes dos juizes municipaes. Para taes cargos convém que v. +ex.ª escolha as pessoas mais capazes, por seu merecimento e prestigio de +captarem a confiança publica e manterem o respeito á lei. Na prevenção e +repressão dos crimes deve haver a maior diligencia, dando v. ex.ª ás +auctoridades a força necessaria, e não tolerando qualquer abuso ou excesso +que commetterem.»</p> + +<p>Este documento encontrámol-o no <i>Jornal do Pará</i>, do dia 6 de agosto +de 1875, a proposito do qual faz as seguintes considerações uma folha d'esta +provincia:<a name="tex2html32" href="#foot4277"><sup>[32]</sup></a></p> + +<p>«Em nenhuma provincia do imperio talvez se tenha esquecido tanto que a +escolha das auctoridades policiaes deve recair nas pessoas mais capazes por +seu merecimento e prestigio, do que na do Pará.</p> + +<p>«Todos os dias nos vemos obrigados a registrar a nomeação de individuos +analphabetos, turbulentos, mal intencionados e até réus de policia para os +cargos policiaes.</p> + +<p>«Aqui mesmo na capital tem-se lançado mão de homens estupidos, de +jogadores, de verdadeiros valdevinos para occupar os logares da policia, como +se assim quizessem escarnecer dos bons costumes e da moralidade publica.</p> + +<p>«Pelo interior isso então é um Deus nos acuda.</p> + +<p>«Logares ha, onde occupam as subdelegacias os individuos mais ruins e +despreziveis.</p> + +<p>«Não ha muito tempo um supplente de subdelegado acompanhou por muitas +noites a um assassino na embuscada que fazia á sua victima, que mais tarde +caiu traspassada por uma bala!</p> + +<p>«Os assassinos dos dois infelizes negociantes das ilhas<span +class="pagenum"><a id="pag_125" name="pag_125">[125]</a></span> de Breves, +(Jurupary) tiveram por cumplice um subdelegado de policia!</p> + +<p>«Ahi está a imprensa todos os dias a clamar contra os desaforos do +primeiro supplente da sub-delegacia de Mapuá, que entretanto acha-se no +exercicio do cargo a vexar e perseguir aos seus infelizes condistrictanos!</p> + +<p>«Oxalá que a recommendação do sr. ministro da justiça não fique sómente na +sua publicação e que possa ser util a esta desditosa provincia.»</p> + +<p>No meio de todas estas coisas, o que é um facto inegavel é que as +auctoridades superiores vêem-se em difficuldades para substituir os maus +agentes.</p> + +<p>Contra a auctoridade de Mapuá, de que nos falla aquelle jornalista, +appareceu o seguinte protesto na imprensa do Pará:</p> + +<p>«Nunca os mapuenses se persuadiram que o ill.<sup>mo</sup> sr. capitão +Diocleciano Antero Pinheiro Lobato, muito digno subdelegado d'este districto, +passasse a administração da subdelegacia ás mãos do 1.º supplente da mesma, +Antonio Joaquim de Barros e Silva.</p> + +<p>«Bem sabemos que o motivo d'isso foi o mau estado de saude do sr. capitão +Diocleciano; porém nós, nacionaes e estrangeiros, residentes n'este +districto, que já soffremos as arbitrariedades do sr. Barros, na occasião em +que esteve de posse da administração; sentimos bastante o sr. capitão +Diocleciano entregar a administração ao sr. Barros, sabendo s. s. que este +sr. é um dos adeptos da <i>Tribuna</i>, que ufana-se em espalhar ao povo +ignorante as infames e degradantes doutrinas d'esse nojento pasquim.</p> + +<p>«Quantas vezes pedimos (e algumas d'ellas pelo amor de Deus) ao sr. +Diocleciano que não passasse a administração d'esta subdelegacia ao sr. +Barros e Silva citando a s. s. os actos que o sr. Barros e Silva praticou, +quando esteve exercendo o cargo da subdelegacia<span class="pagenum"><a +id="pag_126" name="pag_126">[126]</a></span> o anno passado, já afugentando +os habitantes, outras vezes ameaçando-os com prisões.</p> + +<p>«Este sr. Barros e Silva tem por costume insinuar aos devedores da maior +parte dos commerciantes d'este districto para que não paguem, e com +especialidade quando os credores são portuguezes, por que este sr. jurou +d'esde 1835 odio aos «gallegos» phrase do sr. Barros, quando quer dizer +portuguez.</p> + +<p>«Á vista d'isto, sr. capitão Diocleciano, pedimos-lhes que, logo que o seu +estado de saude permitta, assuma a administração de subdelegacia, a fim de +evitar que o seu 1.º supplente ponha em execução os seus actos de verdadeiro +despotismo, como é de costume».</p> + +<p>Esta queixa foi em parte attendida pelo governo da provincia. Eis como se +expressa o <i>Liberal do Pará</i> de 8 de agosto:</p> + +<p>«Vimos no expediente do governo de 24 do passado um officio do sr. +Benevides ao chefe de policia, exigindo informação sobre as accusações feitas +em artigo d'este jornal contra o primeiro supplente da subdelegacia de Mapuá, +actualmente em exercicio, Antonio Joaquim de Barros e Silva.</p> + +<p>«Como era de suppôr, o castigo d'essa auctoridade ficou no tal officio; +pois consta-nos que, achando-se Barros na capital n'essa occasião, <i>desfez +tudo</i>, continuando por tanto a gozar de inteira confiança da +administração.</p> + +<p>«Veio-nos á idéa esta occorrencia ao recebermos uma carta d'aquelle +districto, em que se nos diz o seguinte do dito 1.º supplente:</p> + +<p>«O nosso heroe, para destruir as accusações que pesam sobre si, apenas +chegou, anda de porto em porto, revestido do caracter de auctoridade, +exigindo dos moradores attestados para provar que é um santo homem, e que +morre d'amores pelos portuguezes.<span class="pagenum"><a id="pag_127" +name="pag_127">[127]</a></span></p> + +<p>«Aos que repugnam attestar o que elle dita, responde: Conte commigo!</p> + +<p>«Em 30 de dezembro publicou o <i>Liberal</i> um artigo d'aqui, acompanhado +de attestados de brazileiros e portuguezes do districto, provando que essa +auctoridade tem ameaçado aos subditos de Portugal, e esses attestados jámais +foram contestados.</p> + +<p>«Em julho do passado foi o honrado commerciante portuguez José G. de Lemos +victima das ameaças do mesmo sr., de que foram testemunhas os srs. capitão +Diocleciano Lobato e João A. Lobato e outros brazileiros; assim como os +portuguezes José Antonio Lopes e Theotonio Antão da Cruz.</p> + +<p>«Os brazileiros que contestarem que Barros é <i>tribuno</i>, fal o-hão com +medo de sua vingança.</p> + +<p>«Tambem não duvidamos que encontre elle portuguezes que lhe passem +attestados n'esse sentido, porque esses devem ter ainda mais a temer do seu +odio do que os nacionaes!»</p> + +<p>Os portuguezes residentes no interior, com medo do odio das auctoridades +brazileiras, passam attestados beneficos n'um dia a favor d'aquelles de quem +receberam maus tratos em outro. A triste verdade é esta.</p> + +<p>O que é inegavel é que as auctoridades superiores do Brazil, ou se voltem +para a direita ou para a esquerda, só encontrarão maus agentes de policia; +ou, o que é peior, agentes que precisam ser policiados, segundo a phrase do +<i>Liberal do Pará</i>.</p> + +<p>E a quem devemos nós attribuir tão grande mal?</p> + +<p>O <i>Cearence</i> responde assim:</p> + +<p>«Os habitos e costumes d'um povo, suas virtudes e vicios, são feituras de +suas instituições politicas ou civis, d'um governo liberal ou despotico.»</p> + +<p>Concordamos: porém se o mal que assola a sociedade brazileira, é derivado +do dominio despotico do tempo, em que era colonia Portugal, parece que +50<span class="pagenum"><a id="pag_128" name="pag_128">[128]</a></span> annos +d'uma administração de casa deveria ter salvo o imperio do abysmo, para onde +o vemos precipitar-se.</p> + +<p>Nós, como acontecia ao povo brazileiro, tambem arcámos com o jugo de ferro +do despotismo. Comtudo, atirámos com esse jugo para bem longe; e podemos +dizer, sem jactancia, que Portugal é na actualidade um dos povos que goza de +mais liberdade.</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Mas estas considerações feitas ao <i>Cearence</i>, a proposito dos crimes +commettidos no Brazil, affastaram-nos um pouco de respondermos mais de perto +ás affirmativas do auctor do livro o <i>Brazil</i>. Reatemos, pois, o fio da +resposta; mas para isso assignalemos aquella phrase do ministro da justiça do +imperio:</p> + +<p>«O augmento dos crimes, especialmente contra a segurança individual, vae +assumindo proporções elevadas.» etc.</p> + +<p>Ora, queremos nós dizer, que, se deve attribuir-se á miseria e falta de +trabalho os crimes commettidos em Portugal, no Brazil, onde não parece haver +miseria e aonde não parece faltar trabalho, os crimes que viemos de +descrevêr, devem ser levados á conta da má indole do povo.</p> + +<p>Mais claro:</p> + +<p>Os crimes commettidos em Jurupary, na riquissima provincia do Pará, em que +portuguezes foram victimas, e assassinos e ladrões alguns subditos +brazileiros, não podem ser levados á conta da miseria do povo brazileiro; +porque o Brazil é apresentado aos portuguezes necessitados como o seu +salvaterio contra os crimes de furto e roubo!</p> + +<p>A que devemos então attribuir aquelles crimes?</p> + +<p>Antonio Ferreira Gomes, brazileiro, accusado de<span class="pagenum"><a +id="pag_129" name="pag_129">[129]</a></span> roubar 150 contos de réis, a +seus patrões, em casa de quem occupava um dos primeiros logares, fôra +incitado pela miseria a commetter tão grande crime?</p> + +<p>E fallamos de proposito n'este facto, para dizermos mais, que aquelle réu +fôra absolvido pelos tribunaes do Rio de Janeiro, emquanto que um portuguez +de menor edade, accusado de roubar 10$000 talvez que para matar a fome, fôra +condemnado um dia antes, pelo mesmo tribunal, a dois annos de prisão com +trabalhos!<a name="tex2html33" href="#foot4279"><sup>[33]</sup></a></p> + +<p>No Brazil praticam-se d'estas e não inferiores façanhas; os tribunaes em +Portugal condemnam os Antonios Gomes, quando <i>piscam os olhos</i> ás +authoridades!</p> + +<p>Eis aqui está um phenomeno que a alta capacidade do auctor do +<i>Estudo</i> não poderá explicar facilmente.</p> + +<p>Outro phenomeno, não menos digno da attenção do illustre historiador, será +aquelle, d'um brazileiro remediado e um portuguez adolescente, necessitado, +commetter o mesmo crime—roubo—<i>na terra da promissão</i>!</p> + +<p>Que faria esta gente, se estivesse em Portugal?</p> + +<p>Quem sabe?... talvez fossem dois homens de bem!...</p> + +<p>A Inglaterra um dos paizes mais ricos, e que tem sempre á testa da +administração do estado os politicos mais eminentes, conserva, +premanentemente, nas ruas de Londres uma grande parte da sua população +miserabilissima.</p> + +<p>Ora se a pobresa é o principal incentivo do crime, que seria dos +habitantes abastados da grande cidade? O numero de portuguezes soccorridos, +só no Rio de Janeiro, no periodo de 10 annos, desde de 1862 a 1871, foi de +47:116! Ora, se se podesse estabelecer o tal principio, estes 47:116 +necessitados deviam pôr em serios embaraços a população do Rio!<span +class="pagenum"><a id="pag_130" name="pag_130">[130]</a></span></p> + +<p>O auctor do livro o <i>Brazil</i>, além de outros argumentos obtusos, +apresenta-nos, para os fazer vingar, a seguinte conclusão:</p> + +<p>«Quem está bem no seu paiz não emigra; esta é que é a verdade das +verdades: ninguem o contestará.»</p> + +<p>Se a <i>emigração</i>, tomada n'um sentido muito restricto, se estabelece +pela mudança dos animaes d'um logar que <i>julgam mau</i>, para outro que +<i>suppozeram bom</i>, qual o motivo porque aquelles 47:116 portuguezes +necessitados, não regressaram á patria, aonde já sabem que nunca poderão +passar peior que no Brazil?</p> + +<p>É porque estavam n'uma posição muito mais miseravel do que quando +emigraram: não têem os meios para repatriar-se, além de alguns acharem-se +completamente impossibilitados.</p> + +<p>O facto de emigrarem muitos portuguezes para o Brazil, não é razão +sufficiente para que digamos, que a emigração para esta região é conveniente +para elles; nem tampouco prova que a necessidade impreterivel os obriga a dar +tão errado passo.</p> + +<p>É isso que temos sustentado e sustentaremos, em quanto tivermos do nosso +lado a razão.</p> + +<p>É provavel que n'um futuro, que não póde vir muito proximo, modifiquemos +as nossas idéas; porque, emfim, <i>le monde marche</i>, e nós mui crentes no +grande principio do philosopho, acreditamos que o Brazil se transformará, +assim como acreditamos na transformação de outros povos semi-barbaros.</p> + +<p>Já o dissemos e nunca nos cansaremos de repetir:—emquanto o Brazil não +reformar completamente as suas leis, por fórma que os povos emigrantes não +vão esbarrar no imperio com o temeroso dilemma da controversia politica e +religiosa, que tem n'estes ultimos tempos tomado demasiadas proporções no +Brazil, a emigração europêa será uma ficção.</p> + +<p>Porque é preciso assentar bem n'esta verdade:—o<span class="pagenum"><a +id="pag_131" name="pag_131">[131]</a></span> povo portuguez não é aquelle, +que, por si só, póde supprir o Brazil de braços laboriosos para a cultivação +das suas terras immensas. Nunca o pôde fazer, quando esta parte da America +pertenceu a Portugal.</p> + +<p>É preciso lançar as vistas para outros povos europeus, cuja tendencia para +a emigração não seja inferior á nossa.</p> + +<p>Ha difficuldade em alliciar hespanhoes ou italianos, porque estes preferem +as republicas hespanholas, assim como nós preferimos o Brazil. Os francezes e +os inglezes, povos essencialmente industriaes, teem as suas colonias ou os +Estados-Unidos para receber a população que lhes sobeja. A Allemanha, esse +grande paiz que n'estes ultimos annos tem fornecido á America do norte o seu +maior nucleo de emigração, não poderia ser tentada pelos escriptos do sr. +Augusto de Carvalho e outros?</p> + +<p>Não podia. E dizemos, não podia, não porque falte ao distincto +historiador, applicando-se um pouco mais ao estudo, a intelligencia para +poder vir a ser um optimo <i>engajador</i>; mas porque os allemães estudam o +assumpto da emigração com toda a proficiencia e não precisam lá de quem lhes +indique o paiz que devem preferir. No mesmo caso está a Inglaterra.</p> + +<p>Outra razão: Se os emigrados portuguezes, residentes no imperio, se +sujeitam ao regimen brazileiro, em cujo paiz encontram as demasias do odio de +raça e não poucas vezes a excessiva intolerancia religiosa; os allemães, além +de não concordarem com as leis civis do imperio, descrêem completamente das +leis que estabelecem a tolerancia religiosa, que ha de ser sempre uma ficção, +emquanto a governação do Brazil estiver nas mãos do seu clero reaccionario; +leis que esse clero poderia reformar, se não fôra o receio de descontentar os +estrangeiros, na maioria conservadores, que, unidos aos brazileiros +descontentes, e de idéas<span class="pagenum"><a id="pag_132" +name="pag_132">[132]</a></span> mais avançadas, fariam grande resistencia a +uma refórma tão retrógrada.</p> + +<h2>VII</h2> + +<p>«Os portuguezes que de futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se +dedicarem ao commercio, perderão infallivelmente o seu tempo; porque sendo a +lavoura o seu unico sustentaculo, esta, como já demonstrei no capitulo +precedente, ha de definhar-se á proporção que lhe forem faltando os braços +escravos.»</p> + +<p>Escrevemos estas palavras em um livro que ahi corre impresso;<a +name="tex2html34" href="#foot428"><sup>[34]</sup></a> e se as repetimos +n'este logar, é para reforçal-as mais, respondendo ao mesmo tempo ás +seguintes phrases de contentamento do auctor do <i>Brazil</i>:</p> + +<p>«Nem só á commissão (de emigração) devemos esta prova de lealdade e +franqueza. Felizmente ainda ha n'esta terra de gloriosas tradições caracteres +honrados e amigos da verdade.»</p> + +<p>Agora é preciso saber a razão d'este enthusiasmo e... d'este enigma, +porque aquelle trecho respondia a este da commissão de emigração:</p> + +<p>«Não é de menor interesse para o commercio do reino (a emigração livre), +ao qual, de preferencia, pedem todos os artigos a que estão habituados; e, +desde os vinhos até ás cebolas nacionaes, a circumstancia de estar o Brazil +povoado pelos portuguezes abre-nos extensissimo mercado, offerecendo +igualmente Portugal numerosos consumidores aos productos brazileiros. Se +ainda quizermos olhar com attenção para a agricultura nacional, encontraremos +que os emigrantes repatriados teem dado em todo o reino, principalmente na +provincia do Minho, auxilio importante, pelos capitaes que<span +class="pagenum"><a id="pag_133" name="pag_133">[133]</a></span> teem +importado, á industria agricola. Se lançamos a vista sobre as cidades, villas +e aldeias, alli encontraremos palacios sumptuosos, casas elegantes, casaes +commodos, tudo edificado com o dinheiro que os emigrados de hontem trouxeram +da emigração.»</p> + +<p>Todas estas conveniencias apontadas pela commissão e que tanto alvoraçaram +o auctor do livro o <i>Brazil</i>, são trazidas a Portugal por alguns de seus +filhos, que, a tudo se dedicavam, menos aos trabalhos rudes do campo.</p> + +<p>Os generos alimenticios, que em grande escalla exportamos para o Brazil, +toda a gente sabe que é para gasto de gente abastada. O portuguez +trabalhador, dando-se-lhe ainda que ganhasse 2$000 réis fracos por cada dia, +já mais poderia alimentar-se d'aquelles generos excessivamente caros alli; +alem de que, como diz o sr. Carvalho, o colono é <i>ambicioso</i>, e quem +padece de tal molestia despreza as despezas superfluas.</p> + +<p>Está provado, que o consumo dos taes generos, quer haja a emigração de +trabalhadores, quer não, ha de existir em quanto o Brazil puder sustentar a +sua prosperidade.</p> + +<p>E d'ahi não os esportamos nós tambem para os outros paizes da Europa? +Pertender-se-ha affirmar que os emigrados portuguezes são só os seus +consumidores?</p> + +<p>Vamos agora emittir a nossa humilde opinião a respeito de outras +conveniencias.</p> + +<p>É certo que a affluencia de capitaes a este paiz, procedentes do Brazil, +tem sido assombrosa n'estes ultimos tempos; pena é que elle em geral se +empregue na agiotagem e desprese a agricultura e a industria, razão porque +acreditamos muito pouco na prosperidade que para ahi dizem nos veio trazer o +dinheiro vindo do Brazil.</p> + +<p>Mas se o portuguez é <i>ambicioso</i>, mal de que soffrem quasi todos os +capitalistas de <i>todas</i> as nações do mundo,<span class="pagenum"><a +id="pag_134" name="pag_134">[134]</a></span> excluindo talvez os brazileiros, +razão por que as fortunas portuguezas são relativamente muito superiores no +proprio imperio, por que é que affluem actualmente os capitaes a este paiz? +</p> + +<p>A resposta é simples e muito logica:—é por que esses capitaes já não +encontram no Brazil tão facil e lucrativo emprego.</p> + +<p>«D'aqui a 10 ou 15 annos, quando estiver extincta a escravatura no Brazil, +sem que o governo tenha remediado este grande mal; e os lavradores, faltos de +recursos materiaes, liquidarem as suas fortunas, e procurarem, como é +natural, melhor emprego para o seu capital, chegará então o grande imperio +americano ao ultimo gráu da sua decadencia; porque uma vez livre o elemento +escravo, que no Brazil é e ha de ser sempre a alma da lavoura, ninguem mais +poderá fazer trabalhar o preto que, (em geral), com o salario de um dia, se +julga habilitado para comer 15 ou 20.»</p> + +<p>Estas palavras que em outro logar deixamos escriptas,<a name="tex2html35" +href="#foot4281"><sup>[35]</sup></a> e que procuraremos auctorisar com a +opinião de entendedores mais respeitaveis, provam até á evidencia que o +commercio do Brazil vive da lavoura, e que decahindo esta, não mais poderá +aquella aspirar á gloria alcançada por muitos portuguezes em épocas passadas. +A prova da nossa asserção está em que os capitalistas residentes no Brazil, +tratam n'este momento de procurar melhor emprego a seus capitaes.</p> + +<p>Mas julga o auctor do <i>Brazil</i> que o melhor meio de tentar os nossos +compatriotas, é mostrar-lhe o resultado adquirido por outros portuguezes que +foram mais felizes, por terem encontrado tempos melhores, e alem de tudo +isto, porque se dedicavam a outros misteres, como nunca nos cançaremos de +repetir?...</p> + +<p>Ás seguintes reflexões da commissão de emigração:<span class="pagenum"><a +id="pag_135" name="pag_135">[135]</a></span></p> + +<p>«Temos por tanto 3 de cada 10 emigrantes perdidos no total da emigração. +Em vinte annos 75 por cento d'este formoso capital terá desapparecido. +Reduzindo a metal o que este trabalho representa, e dando 120$000 réis ao +trabalho produzido por cada emigrado annualmente, 34:000 emigrados +representando 4:080$000 réis cada um, em 20 annos fazem 81:600$000 réis. É +egual a esta somma de trabalho perdido a somma de capital entrado pelos que +voltam ricos? A commissão não póde investigar tão fundo».</p> + +<p>A isto, como diziamos, responde o illustre historiador, com uma +simplicidade incrivel:</p> + +<p>«Nem era preciso, entendemos nós.»</p> + +<p>E depois transcreve da <i>Correspondencia de Portugal</i> um artigo que, +se por um lado elogia o Brazil, por outro mostra até certo ponto a sua +decadencia.</p> + +<p>«Do abençoado Brazil, diz o jornal citado, tem-nos vindo ultimamente +cabedal e alguns homens activos e emprehendedores» etc.</p> + +<p>Para que desamparam o Brazil, este cabedal e os homens activos e +emprehendedores?!</p> + +<p>Não é alli a fonte da riqueza, aonde a actividade humana póde mais +facilmente encontrar o premio do seu trabalho?!<span class="pagenum"><a +id="pag_136" name="pag_136">[136]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO V</h1> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0050001">Os relatorios dos consules e a emigração. Um pedido +á imprensa. A colonisação no Brazil e a lei do trabalho de 11 de outubro de +1837. Contractos de locação de serviço. Sevicias dos fazendeiros contra os +escravos brancos. Ainda a febre amarella e a imprensa. Roceiros, engajadores +e armadores de navios. A lei portugueza de 20 de julho de 1855 e a emigração +clandestina. A diplomacia envolvida no assumpto. O regulamento brazileiro de +1 de maio de 1858. Intrigas diplomatas. Serviços do conde de Thomar, nosso +embaixador na côrte do Rio de Janeiro. O sr. José de Vasconcellos e as +evasivas do governo brazileiro, a respeito da convenção sobre a emigração e +propriedade litteraria.</a></div> + +<h2>I</h2> + +<p>Não nos sobeja espaço para fazermos uma analyse detida ao livro o +<i>Brazil</i>, nem o encargo que nos impozemos mira a esse fim. Descrever os +horrores da emigração, em linguagem que o povo entenda e ao qual +especialmente destinamos este trabalho, eis o nosso principal intuito. Assim, +pois, continuemos a examinar o que ha de mais proveitoso nos relatorios dos +consules, reservando-nos para em capitulo especial fazermos algumas +considerações a respeito dos tumultos do Pará, em 1874, a cujo assumpto +igualmente se refere o auctor do livro em questão.</p> + +<p>Phrases ha que se deviam repetir todos os dias e a todas as horas; e por +isso mesmo desejariamos que os nossos homens de estado déssem a maior +publicidade<span class="pagenum"><a id="pag_137" +name="pag_137">[137]</a></span> possivel aos documentos que, a respeito da +emigração portugueza para o Brazil, todos os dias nos offerecem os consules +alli residentes. Difficil será achar quem melhor possa informar sobre a +verdadeira situação dos colonos no Brazil, quem livre de qualquer pressão, e +perfeitamente independente, melhor possa sondar os horrores da emigração, +effeito dos contractos ruinosos que os nossos compatriotas fazem com os +engajadores, os maus tratos que os trabalhadores portuguezes quotidianamente +recebem dos <i>senhores de engenho</i>, a ficticia protecção das auctoridades +brazileiras, quando, para dominar abusos, os infelizes a ellas recorrem.</p> + +<p>Nos referidos relatorios trazidos a publico para auxiliar a commissão +d'inquerito parlamentar, nomeada com o fim de pôr termo ao mal da emigração, +apontam os consules o efficaz auxilio, que póde offerecer a imprensa, +publicando os documentos que elles mandam para o governo.</p> + +<p>«É de urgente necessidade, diz o consul no Maranhão, instruir aos +incautos, victimas da seducção, por meio da imprensa, pela tribuna, e impôr +tambem este dever ás auctoridades, as quaes deverão esclarecer profundamente +ao emigrante, as difficuldades que lhe offerece a lavoura, a +incompatibilidade que existe entre o trabalho livre e servil, e de que +inteiramente é impossivel dar-se uma fusão. Ao mesmo tempo scientifical-os, +de que se os proprios nacionaes encontram todas as difficuldades na lavoura, +e não podem alimentar-se por ella, por certo se tornarão mais embaraçosas +para com os estrangeiros, por não se poderem estabelecer nem encontrarem +recursos á sua disposição. Fazer-lhes ver que não existem regulamentos de +trabalho, e d'este modo são forçados a trabalhar todo o dia debaixo do mais +ardente sol.»<a name="tex2html36" href="#foot1207"><sup>[36]</sup></a><span +class="pagenum"><a id="pag_138" name="pag_138">[138]</a></span></p> + +<p>Não disse a verdade o consul do Maranhão quando affirmou que não existiam +regulamentos de trabalho. Ha regulamentos; e se não veja o que diz a tal +respeito o seu illustrado collega do Rio de Janeiro:</p> + +<p>«Queria dar aqui a integra d'essa lei (de 11 de outubro de 1837), mas isso +tornaria este trabalho mui extenso e fastidioso, além de que é facil +encontral-a nas collecções; mas como estas collecções não chegam ás mãos do +povo, parece-me que seria muito conveniente que o governo de sua magestade as +mandasse publicar em todos os jornaes e mesmo em avulsos, que fossem +affixados em todos os locaes onde costumam ser os annuncios da partida dos +navios; parece-me ainda que ao mesmo governo assiste o incontestavel direito +de prohibir emquanto no Brazil existir tal lei, a celebração de todo e +qualquer contracto de locação de serviços, que aqui tenham de ser prestados, +e fazer constar por todos os meios que os individuos que taes contractos +assignarem, como locadores, não terão direito á protecção do governo nem dos +seus representantes, mesmo porque estes quasi que absolutamente lh'a não +pódem dar.»<a name="tex2html37" href="#foot1209"><sup>[37]</sup></a></p> + +<p>Examinemos essa barbaridade, que nem a diplomacia portugueza, nem alguns +legisladores mais notaveis do Brazil tem podido derrogar, para beneficio dos +colonos e da propria agricultura; mas para isso convem transcrever alguns +trechos mais importantes.</p> + +<p>Diz a tal lei:</p> + +<p>«O locatario de serviços que, sem justa causa, despedir o locador antes de +findar o tempo porque o tomou, pagar-lhe-ha todas as soldadas, que devêra +ganhar, se o não despedira. <i>Será justa causa</i> para a despedida (note-se +bem isto):</p> + +<p>«1.º—Doença do locador, por fórma que fique impossibilitado<span +class="pagenum"><a id="pag_139" name="pag_139">[139]</a></span> de continuar +a prestar os serviços para que foi ajustado;</p> + +<p>«2.º—Condemnação do locador á pena de prisão, ou qualquer outra que o +impeça de prestar serviço;</p> + +<p>«3.º—Embriaguez habitual do mesmo;</p> + +<p>«4.º—Injuria feita pelo locador á dignidade, honra ou fazenda do +locatario, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;</p> + +<p>«5.º—Se o locador, tendo-se ajustado para o serviço determinado, se +mostrar imperito no desempenho do mesmo serviço.</p> + +<p>«Nos casos do n.º 1.º e 2.º do artigo antecedente, o locador despedido, +logo que cesse de prestar o serviço, <i>será obrigado a indemnisar o +locatario da quantia que lhe dever</i>. Em todos os outros pagar-lhe-ha tudo +quanto dever, e se não pagar logo, será immediatamente preso e condemnado a +trabalhar nas obras publicas por todo o tempo que fôr necessario, até +satisfazer com o producto liquido de seus jornaes tudo quanto dever ao +locatario, comprehendidas as custas a que tiver dado causa. Não havendo obras +publicas, em que possa ser admittido a trabalhar por jornal, será condemnado +a prisão com trabalho, por todo o tempo que faltar para completar o do seu +contracto: não podendo todavia a condemnação exceder a dois annos.»</p> + +<p>Perguntamos nós, porque razão deverá ser condemnado o colono, <i>não +havendo obras publicas</i>, á prisão com trabalho?</p> + +<p>Quem tem a culpa de não haver obras publicas no Brazil? Os seus homens de +estado; mas nunca os colonos.</p> + +<p>Poderá o colono, dado ao uso das bebidas alcoolicas satisfazer por meio do +trabalho nas obras publicas, os seus encargos? E caso não possa, <i>por causa +da sua habitual embriaguez</i>, não será demasiada a pena de dois annos de +prisão com trabalho?<span class="pagenum"><a id="pag_140" +name="pag_140">[140]</a></span></p> + +<p>E que justiça é essa, que iguala a falta de pericia do colono, na execução +de qualquer trabalho, com a falta de honra e dignidade, para as quaes +estabelece as mesmas penalidades?</p> + +<p>E se o locatario fôr accusado de injuria feita á dignidade e honra do +locador, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia, por que este póde estar +nos mesmos casos d'aquelle, e não é dado aos legisladores brazileiros +acentar, que o homem rico é mais susceptivel de córar na frente do seu +injuriador do que o homem pobre, qual o castigo a que o sujeita?</p> + +<p>O colono doente, a que se refere o n.º 1.º, e o colono condemnado á pena +de prisão, por qualquer falta commettida, de que falla o n.º 2.º, são +equiparados no castigo, e por isso obrigados a indemnisar o locatario da +quantia em divida!</p> + +<p>Á parte a desigualdade da pena, por que não pode equiparar-se o +<i>delicto</i> de um colono cahir doente, com a falta que levára outro colono +a ser julgado e condemnado a prisão, perguntamos nós, como poderá qualquer +d'elles exonerar-se dos seus encargos, quando lhes faltem absolutamente os +meios?</p> + +<p>O escravo era muito mais feliz. Pelo menos tinha a comida certa, quando +impossibilitado de trabalhar. O senhor era o primeiro interessado na +liberdade do escravo, quando este era preso por ter commettido algum delicto. +</p> + +<p>«O locador, continua a celeberrima lei, que, sem justa causa, se despedir, +ou ausentar antes de completar o tempo do contracto, <i>será preso</i> onde +quer que fôr achado e não será solto <i>emquanto não pagar em dobro</i> (sic) +<i>tudo quanto dever ao locatario</i>, com abatimento das soldadas vencidas: +se não tiver com que pagar, <i>servirá ao locatario de graça todo o tempo que +faltar para o complemento do contracto</i>. Se tornar a ausentar-se <i>será +preso e condemnado</i> na conformidade do<span class="pagenum"><a +id="pag_141" name="pag_141">[141]</a></span> artigo antecedente (prisão com +trabalho por dois annos)»!</p> + +<p>Admire-se a logica d'este bocadinho de ouro:</p> + +<p>«O locatario, findo o tempo do contracto, ou antes rescindindo-se este por +justa causa, é obrigado a dar ao locador um attestado de que está quite do +seu serviço; se recusar passal-o, será compellido a fazel-o pelo juiz de paz +do districto. A falta d'este titulo será razão sufficiente para +<i>presumir-se</i> de que o locador se ausentou indevidamente.» (!!!)</p> + +<p>Toda a gente sabe qual é a influencia de que dispõe para com as +auctoridades, os roceiros do Brazil. Veja-se pois, como será difficil a um +pobre colono obter tão precioso documento das mãos do locatario quando este, +por qualquer circumstancia, lh'o não queira dar. Imagine-se por exemplo, que +ao locador não convem mais servir o locatario, e que a este, pelo contrario, +convem que aquelle lhe preste serviço. Como poderá o colono, sem incorrer na +pena de prisão com trabalhos, livrar-se do seu perseguidor?</p> + +<p>Ainda mais:</p> + +<p>«Toda a pessoa que admittir, ou consentir em sua casa, fazendas ou +estabelecimentos, algum estrangeiro, obrigado a outrem por contracto de +locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador lhe dever, +<i>e não será admittido a allegar qualquer defeza em juizo</i> (sic), sem +depositar a quantia a que fica obrigado, <i>competindo-lhe o direito de +havel-a do locador</i>.»</p> + +<p>O locador é quem paga tudo.</p> + +<p>Ha só uma unica excepção á regra: o que alliciar o colono obrigado a +outrem por contracto de locação de serviços, pagará ao locatario o dobro das +dividas do colono, bem como as despezas e custas a que tiver dado causa. Caso +não tenha dinheiro para pagar, ha de trabalhar nas obras publicas, se as +houver, já se sabe, e se não a cadeia espera o delinquente! Verdade seja<span +class="pagenum"><a id="pag_142" name="pag_142">[142]</a></span> que a pena de +prisão é mais favoravel para o alliciador, a qual póde ser de dois mezes a um +anno. Pois se elle não é colono!</p> + +<p>Eis os nomes dos illustres estadistas que subscreveram tão grande +monstruosidade:—Pedro de Araujo Lima e Bernardo Pereira de Vasconcellos.<a +name="tex2html38" href="#foot1227"><sup>[38]</sup></a></p> + +<p>Que a historia lhes reserve logar condigno em suas folhas indestrutiveis, +não só para pagar-lhes o premio merecido, mas para desiludir uns certos +optimistas, que costumam ver o argueiro nos olhos de estranhos, em quanto que +nos proprios conservam enormes traves.</p> + +<p>Mas note-se que esta lei ainda não foi derrogada.</p> + +<p>Eis aqui está como o governo imperial <i>revela cuidado em reunir sob o +ceu explendido do cruzeiro os individuos de todas as nacionalidades</i>!</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Mas não fica ainda aqui a tão apregoada protecção.</p> + +<p>O consul no Rio de Janeiro assim descreve os effeitos praticos da tal +monstruosidade:</p> + +<p>«Debalde a lei de 20 julho de 1855 e varios regulamentos posteriores +tomaram providencias sobre taes abusos; por que todas essas prescripções são +letra morta no imperio.</p> + +<p>«Os magistrados não conhecem essas providencias legislativas, nem mesmo +tomam d'ellas conhecimento, sendo-lhes apontadas.</p> + +<p>«Estes contractos são aqui regulados pela lei do imperio de 11 de outubro +de 1837, que os seus collaboradores não quizeram para regular a locação de +serviços de seus compatriotas, e só a destinaram a regular a locação de +serviços dos estrangeiros.(!)<span class="pagenum"><a id="pag_143" +name="pag_143">[143]</a></span></p> + +<p>«Em 1867, continúa o consul, percorri algumas cidades e villas da +provincia de S. Paulo, onde são frequentes taes contractos.</p> + +<p>«Visitei varios cartorios de escrivães dos juizes de paz, que são os +competentes para taes processos, examinei muitos d'elles, e em nenhum +encontrei sentenças a favor do locador.(!!!)</p> + +<p>«Recentemente ainda se deu um facto aqui na provincia do Rio de Janeiro. +Joaquim de Sequeira Pinto veiu com sua mulher, do Porto, justo para trabalhar +na fabrica de Santo Aleixo, situada em Magé, pouco distante d'esta côrte.</p> + +<p>«O seu contracto era o seguinte:</p> + +<p>«Digo eu abaixo assignado que me acho justo e contractado com os srs. +Bernardo José Machado & C.ª a ir de passagem junto com minha mulher, +Josepha de Jesus no vapor <i>Julio Diniz</i>, para trabalhar na fabrica de +fiação, em S. Aleixo, imperio do Brazil, da qual são administradores os srs. +Guerreiro Simas & C.ª, a quem vamos dirigidos, e a estes nos obrigamos +com os nossos serviços na mesma fabrica a pagar a quantia de cento e trinta e +oito mil e nove centos réis, que nos foram abonados para as nossas passagens +<i>e mais arranjos</i>, a cujo cumprimento nos obrigamos por nossas pessoas e +bens—Porto 22 de outubro de 1873.—Joaquim Sequeira Pinto, por minha mulher +Josepha de Jesus. Como testemunhas, Francisco Gomes Paes, Gaspar José Corrêa +do Nascimento.»</p> + +<p>«Veio pois Sequeira, e chegado aqui com sua mulher foram para a tal +fabrica que estava em construcção. Como não tinha ainda que fazer pelo seu +officio empregaram-no em servente de pedreiro e a mulher a cosinhar. Como não +quizessem sujeitar-se a estes serviços pediram licença ao administrador da +fabrica para vir para a côrte trabalhar pelo seu officio, a vêr se arranjavam +dinheiro para pagar o que deviam. Foi-lhe concedida<span class="pagenum"><a +id="pag_144" name="pag_144">[144]</a></span> licença e vieram. A mulher +adoeceu, obrigando o marido a despezas consideraveis.</p> + +<p>«Passaram-se dois ou tres mezes, portanto, sem que podessem ter arranjado +dinheiro para pagar a divida. Começava o marido a trabalhar pelo officio, +quando foi preso com a mulher, em virtude d'uma precatoria vinda do juiz de +paz de Magé, e lá seguiram os dois infelizes com um filhinho, de cadeia em +cadeia até á de Magé, para alli serem processados por quebra de contracto de +locação de serviços.</p> + +<p>«Sabendo isto por um primo d'elles, tratei de vêr se melhorava a sorte +d'estes infelizes, e fui procurar um advogado para fazer uma petição de +recurso de <i>habeas corpus</i>. Fêl-a com effeito, ponderando a illegalidade +da prisão, visto que sendo todo o procedimento, segundo aquella lei, baseado +n'um contracto escripto, o documento apresentado não era realmente um +contracto, por lhe faltarem clausulas essenciaes, taes como estipulação de +salario, acquiescencia da mulher, por quem o marido se não podia obrigar, e +ausencia de procuração dos representantes do locatario. Que mesmo como +contracto seria nullo em face da legislação do paiz onde foi celebrado (lei +de 20 de julho de 1855), por não conter expressa a clausula de não poderem os +serviços ser cedidos.</p> + +<p>«E, finalmente, que era nullo á vista do artigo 208.º do decreto imperial +do 11 de junho de 1847, que diz:—«Todo o documento a ser produzido em juizo, +ou exhibido por qualquer fim legal, deve ser necessariamente assignado pelo +consul e sellado com o sello do consulado, sem o que não fará fé.» etc.</p> + +<p>«Fiz outras allegações mais, como: novação de contracto pela licença dada +e confessada pelo locatario ao locador para vir á côrte arranjar meios de lhe +pagar, etc.<span class="pagenum"><a id="pag_145" +name="pag_145">[145]</a></span></p> + +<p>«Tudo foi inutil, por que o <i>habeas corpus</i> foi negado pelo juiz de +direito.»<a name="tex2html39" href="#foot1237"><sup>[39]</sup></a></p> + +<p>O consul conclue que o juiz de paz condemnára os infelizes a uma multa +exorbitante; e que mandando appellar da sentença para o juiz de direito, este +confirmára a condemnação.</p> + +<p>É mais uma prova de que o governo do Brazil protege os colonos!</p> + +<p>E ainda ha jornaes que teem <i>medo</i> de publicar isto!</p> + +<p>E ainda ha quem diga que o ouro dá a dignidade e a independencia!...</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Fallemos sobre os contractos lesivos, feitos entre os colonos e os +engajadores, ha alguns annos a esta parte; e façamos igualmente mensão da +protecção dispensada aos colonos pelos <i>senhores</i> de engenho.</p> + +<p>O consul do Maranhão examinou em dezembro de 1855 um contracto de locação, +feito entre o engajador Izidoro Marques Rodrigues e 168 colonos das nossas +provincias do norte. Não obstante estar já publicada a lei de 20 de julho de +1855, a mesma auctoridade examinára que as clausulas expressas na referida +lei não tinham sido attendidas, o que deu logar a alguns abusos quando a +comitiva chegou ao porto do Maranhão.</p> + +<p>Os colonos mettidos no arsenal da Marinha «foram <i>cedidos</i> a +differentes proprietarios, e como em seus primitivos contractos havia uma +condição, que os colonos pagariam 10$000 réis, alem da passagem e <i>mais +abonos</i> feitos pelo engajador, uma vez que não quizessem seguir para a +colonia (Companhia de Colonisação do Codó); assim satisfariam os novos +locatarios, ficando os infelizes colonos, subditos portuguezes, +sobrecarregados<span class="pagenum"><a id="pag_146" +name="pag_146">[146]</a></span> com este augmento de divida para pagar com +seu trabalho.»</p> + +<p>Em 14 do dezembro de 1855, participava o consul no Rio, os inconvenientes +de um contracto «summamente oneroso», celebrado entre vinte portuguezes e +Augusto Cesar Pereira Soares, para uma colonia em Cantagalo; «summamente +oneroso para similhante gente, que tendo mudado do seu paiz para o Brazil, +sem onus algum, não podia comtudo trabalhar em terra estranha, por tres +annos, por tão diminuto preço:—1.º anno 4$000 réis, 2.º 6$000 e 3.º 8$000, +mensaes, moeda fraca! Com quanto o locador fosse obrigado a dar comedorias e +remedios, como seria possivel, accrescenta o consul, trabalhar por tão +diminuto preço?»</p> + +<p>A média do salario dado a estes desgraçados, como será facil de examinar, +era de 100 réis fortes, de comer... e remedios!</p> + +<p>Meio dia de trabalho em Portugal excederá aquella somma.</p> + +<p>Oh, que abençoada terra da promissão!</p> + +<p>Para mais alguns fazendeiros de Cantagallo, chegára do Porto em 12 de +janeiro de 1856, uma leva de 50 escravos brancos, contractados a 60$000 réis +pelo primeiro anno, a 72$000 no segundo e a 96$000 no terceiro, moeda +fraca!</p> + +<p>Os colonos pagaram á sua custa a passagem <i>e mais despezas</i>, na +importancia de 120$000 réis, ficando por consequencia liquidos em todo este +tempo 108$000 réis fracos, menor jornal do que 100 réis fracos por dia!</p> + +<p>«Estes engajadores, accrescenta o documento official que temos á vista, +abusando da ignorancia d'esta gente, praticando o que fica referido, faziam +ao mesmo tempo grande guerra á fiscalisação que se dava no consulado, para se +oppôr a que os engajadores <i>escravizassem</i> seus patricios com contractos +tão leoninos.»<span class="pagenum"><a id="pag_147" +name="pag_147">[147]</a></span></p> + +<p>Em 18 de janeiro de 1856, informa o vice-consul em Ubatúba, districto do +Rio de Janeiro, que indo examinar os tumultos occorridos na colonia creada em +Taubaté, composta de 378 portuguezes, engajados no Minho, reconhecera, que os +colonos haviam sido completamente illudidos e lesados em seus interesses, +porque, sabendo-se que as passagens do Porto para o Rio de Janeiro eram de +28$800 réis fortes e as d'aqui para Ubatúba, de 6$000 réis fracos, vinha a +passagem de cada colono a importar até ali em 31$800 réis fortes; no entanto +que pelos contractos assignados no Porto, os sujeitaram ao pagamento de +100$000 réis fracos, ganhando por consequencia os engajadores 36$000 fortes +por cada um!</p> + +<p>Aqui o engajador, só d'um jacto, lucrou, como é facil de conferir, +13:608$000 réis.</p> + +<p>E devemos notar, que os colonos, assim ludibriados, estavam sujeitos a uma +multa de 50$000 réis, se, sem o consentimento do roceiro, se retirassem da +colonia! Reconhecera o consul que, se tal fizessem, teriam de sujeitar-se a +quatro annos de captiveiro, em qualquer outra colonia, onde os não receberiam +(os senhores de engenho entendem-se perfeitamente!) sem a promessa de +satisfazer aos compromissos que se haviam imposto!</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>A falta de braços começava a sentir-se no imperio, por causa da repressão +do commercio da escravatura.</p> + +<p>De 1822 a 1828, refere Ferdinand Diniz, os resultados do trafico da +escravatura, só no Rio de Janeiro, era de 43:800 almas, e nos ultimos annos +podia elevar-se a 90:000 em todo o imperio!<a name="tex2html40" +href="#foot4282"><sup>[40]</sup></a><span class="pagenum"><a id="pag_148" +name="pag_148">[148]</a></span></p> + +<p>A necessidade de supprir tão grande falta, levou o governo do imperio a +fechar os olhos aos escandalos que todos os dias se praticavam com a +acquisição dos colonos portuguezes...</p> + +<p>Continuemos, pois, na tarefa de esmerilhar os contractos ruinosos, e a +<i>humanidade</i> do governo imperial em face de tantos abusos.</p> + +<p>Em 18 de junho de 1856 partíra do porto de Pernambuco a galera portugueza +<i>Flôr do Porto</i>, com ordem de conduzir da ilha de S. Miguel uns trinta +colonos, contractados a 10$000 réis por mez, pelo tempo de tres annos, sob +pena de multas pelo não cumprimento do contracto. Isto é, o salario não devia +ser superior a 120 réis fortes, a secco... fóra as multas!</p> + +<p>O consul respectivo declarava que o salario n'esta provincia regulava, +para qualquer homem de trabalho, de 16$000 a 20$000 réis mensaes, +independentes da matença, casa e curativo das molestias adquiridas em +serviço!</p> + +<p>Em 19 de dezembro de 1856 apparecera no consulado do Rio de Janeiro um +contracto firmado no Porto, estipulando ordenados mensaes de 6$000, 7$000 e +10$000 réis fracos, pagando os colonos 120$000 réis, por passagens, e os +salarios eram assim estipulados pelo referido consul:—de 16$000 a 20$000 +réis mensaes, cama e mesa, para os trabalhadores; de 1$600, 1$800, 2$000 e +2$500 réis, diarios, para os pedreiros, calceteiros, carpinteiros, +marceneiros, serradores, ferreiros e sapateiros, e sendo mais habeis em +qualquer dos officios, de 3$000 a 4$000 réis diarios, a secco, preços que +ainda regulam na actualidade.</p> + +<p>O vice-consul da cidade de Santos, tambem diz que os engajadores +extorquiram a 90 passageiros, idos do Porto, 2:524$000 réis fracos, «porque +tendo pago ao navio 2:808$000 réis moeda forte, a razão de 6 moedas e meia +por cada um dos 90 passageiros, e carregando-se-lhes<span class="pagenum"><a +id="pag_149" name="pag_149">[149]</a></span> 4:070$400 réis, resultado de 88 +passagens a 45$000 réis e duas a 110$400 réis, segue-se ser a lesão de +1:262$400 réis, fortes»!</p> + +<p>«Com estes escandalosos factos, refere a authoridade consular no Rio ao +nosso governo, se explica a razão porque os especuladores, não lhes convindo +nenhuma fiscalisação nos respectivos consulados, procuram por todos os meios +evitar o contacto d'elles com os colonos portuguezes, não se tendo por isso +registado nenhum d'estes individuos n'aquelles dois vice-consulados, o que +sem duvida será muito prejudicial para o futuro, porque jámais se poderá +saber o destino que tiveram.»</p> + +<p>Em janeiro do referido anno, chegava ao Rio o patacho <i>Liberdade</i> (!) +com mais 50 escravos brancos da ilha de S. Miguel, a quem o proprietario do +navio obrigára a pagar as passagens ao preço de 100 patacões (200$000 réis), +o dobro do preço que era costume pagar qualquer passageiro!</p> + +<p>Estes infelizes foram contractados por 10 e 12 mezes de serviço, recebendo +2$000 réis mensaes para suas despezas! Mas sendo obrigados a pagar tão grande +divida, não poderam encontrar patrões para servir por menos de 24 mezes!</p> + +<p>N'esta época o governo, tendo em vista as reclamações do nosso consul no +Rio, sobre «os vexames que soffriam os colonos portuguezes no Brazil, em +consequencia dos contractos lesivos que faziam em Portugal os agentes +brazileiros», pedia ao governo do imperio providencias adequadas, a fim de +evitar tão grande mal, providencias que, segundo a phrase do nosso +representante na côrte do Rio de Janeiro, se não prestaria a dar o referido +governo, visto que elle «o mais interessado na emigração para o imperio, +<i>desejava facilital-a por todos os meios</i>»!</p> + +<p>E accrescentava, que os que não queriam contractar<span class="pagenum"><a +id="pag_150" name="pag_150">[150]</a></span> no consulado o seu serviço por +um tempo razoavel, iam ter com os juizes de paz «que não tinham empenho em +olhar pelos interesses do locador e sim pelos dos locatarios, que procuravam +vexar aquella pobre gente que queriam tomar ao seu serviço.»</p> + +<p>Se olharmos com attenção para tão exorbitante differença de salarios, os +que eram offerecidos aqui pelos engajadores e os que eram estipulados no +Brazil aos colonos, encontraremos a razão de existirem para ahi verdadeiros +parasitas disfrutando fortunas colossaes.</p> + +<p>O commercio da escravatura tambem tinha d'estes phenomenos! Um negociante +tomava conta de um carregamento de africanos, emquanto o navio ia em procura +de nova remessa. A <i>consignação</i> era posta em almoeda, e o +consignatario, em tres ou quatro dias, ganhava a bagatella de 40 ou 50 por +cento!</p> + +<p>Na verdade, não havia <i>commercio mais licito e mais lucrativo</i>!</p> + +<p>Quaes seriam os lucros dos negociantes, que por sua propria conta e em +navios seus importavam escravos das costas de Africa?!</p> + +<p>Nem é bom pensar n'isso.</p> + +<p>Os lucros provenientes do commercio de escravos brancos, importados das +costas de Portugal, com o titulo <i>protector</i> de colonos, não são +inferiores, convençam-se d'isso!</p> + +<p>Os portuguezes, como começamos a ver e não nos cansaremos de examinar são +aqui contractados pelos engajadores, por um certo praso de tempo, o +sufficiente para que os colonos paguem a passagem e <i>mais despezas</i>. +Findo esse tempo, póde-se dizer que o portuguez exhausto não deve nada ao +engajador, locatario, roceiro, negociante ou capitão do navio que o +transportára para as plagas brazileiras; mas em <i>compensação</i>, é levado +para o hospital beneficente portuguez; e d'alli, se melhora, é conduzido a +Portugal, talvez que pelo<span class="pagenum"><a id="pag_151" +name="pag_151">[151]</a></span> mesmo navio que outr'ora o conduzira; porém, +d'esta vez, o capitão já não fia a passagem: o producto de uma subscripção +publica satisfaz as suas exigencias de traficante!</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Falla o consul de Pernanbuco:</p> + +<p>«Ha nos contractos que aqui se me têem apresentado, não só falta de +clareza, mas condições inexequiveis e até illegalidades.</p> + +<p>«Os ultimos contractos que aqui me appareceram foram os de uns sessenta +colonos, vindos do Porto no brigue portuguez <i>Trovador</i>. Estes +contractos vem em publica fórma e sem reconhecimento do respectivo consul. +Não sei portanto se são falsos ou verdadeiros.</p> + +<p>«N'estes contractos vem incluidos alguns menores sem o consentimento de +seus paes ou tutores. O escrivão commetteu um delicto por que deve +responder.</p> + +<p>«São arduas algumas das condições, e que se não podem cumprir sem pôr em +perigo a saude e vida dos colonos, e outras pouco explicitas e nada claras. +Pela segunda condição, por exemplo, são os colonos obrigados a trabalhar nove +horas por dia, sendo em descampado, e dez e meia sendo em logar abrigado. +Aqui o dia tem regularmente doze horas, e não é possivel que um europeu ature +n'este clima, exposto aos ardores do sol, o trabalho de nove horas no espaço +de doze, sem que a saude se lhe deteriore, maximé com comidas a que não estão +habituados. Expostos ao sol e chuva, não póde exceder o trabalho de sete a +oito horas.</p> + +<p>«Tambem é excessivo o trabalho de dez horas e meia em logar abrigado, +porque hora e meia não é tempo sufficiente para refeição e descanso. De oito +a nove é o mais que se póde trabalhar. Se não melhorarem estas condições dos +contractos, nunca irá por diante a colonisação e as victimas serão +innumeras.<span class="pagenum"><a id="pag_152" +name="pag_152">[152]</a></span></p> + +<p>«Pela sexta condição se estabelece que antes de terminado o praso poderá +cada colono rescindir o contracto, pagando 120$000 réis, moeda fraca, como +multa, custo da passagem e dinheiro despendido com o passaporte e +preparativos para a viagem. Isto é muito vago, e póde ser muito injusto.</p> + +<p>«Uma passagem na prôa, do Porto para esta cidade, regula por 24$000 réis e +o muito 28$800 réis; o passaporte não chega a 3$000 réis, o que reduzido a +moeda fraca, não póde chegar a 61$000 réis. Como é pois que em preparativos, +que bem mesquinhos são, e multa se inclue quasi outro tanto? De quanto é a +multa? Seria bom que se declarasse a importancia de cada objecto; mesmo que +seja levado em conta o tempo dos serviços prestados.</p> + +<p>«Um contracto contra que estou reclamando por maus tractos, celebrado pelo +consul do Rio de Janeiro, entre um menor e um desembargador, estabelece que o +locador se obriga a prestar os seus serviços por espaço de dezoito mezes, +para satisfação do importe de sua passagem de S. Miguel para o Rio, ganhando +2$000 rs. por mez! E o locatario se obriga a dar-lhe <i>educação</i>, bom +sustento, lavar e <i>vestir</i>. Como é que o locador ha de exigir o +cumprimento d'estas condições? Que se entende por educação? Que se entende +por vestir?» etc.</p> + +<p>Esta <i>educação, bom sustento, lavar e vestir</i>, era naturalmente o +tratamento que os senhores de escravos costumam dar aos seus +<i>moleques</i>:—chicote e umas calças de ganga: da cintura para cima, a +pelle branca tomava em poucos dias as côres <i>atapuyadas</i>!</p> + +<p>Este outro importantissimo documento é do nosso consul no Maranhão:</p> + +<p>«O objecto principal d'este meu officio é particularmente fazer conhecer a +v. ex.ª o estado de colonisação n'esta provincia, afim de que o governo de +sua<span class="pagenum"><a id="pag_153" name="pag_153">[153]</a></span> +magestade fidellissima tome as providencias que julgar acertadas.</p> + +<p>«No geral todos os individuos que vem para colonias não sabem ler nem +escrever, e isto faz que elles não possam adquirir outro modo de vida menos +perigoso do que o trabalho nas terras, que ao norte d'este imperio está visto +ser só proprio para os africanos, unicos que podem supportar o calor +abrazador d'este clima e a humidade doa terrenos. Os mesmos salarios por que +os colonos são engajados na Europa, onde lhes parece que dentro em pouco +devem fazer aqui alguma fortuna, raras vezes é sufficiente para o seu +alimento, visto que os generos de primeira necessidade são aqui +excessivamente caros, e portanto não lhes chega para um alimento igual ao que +têem na Europa, que seria o unico meio de poderem melhor affrontar a +intemperie de um clima improprio dos filhos da Europa para o trabalho nos +campos.</p> + +<p>«Por quanto acabo de dizer pode deprehender-se que os colonos andam aqui +mal vestidos, e raras vezes tem recursos para attender á sua existencia, que +dentro em pouco fica em perigo, como o attesta o limitado numero que existe, +comparativamente com o que tem entrado. Diariamente se vêem d'estes nossos +compatriotas desgraçados, andarem cheios de mollestias e privações, +promovendo subscripções, de porta em porta, devendo porém n'esta parte +esclarecer a v. ex.ª d'onde muitas vezes provém tal miseria. Alguns, com a +ambição de em breve tempo juntar algum peculio, entregam-se emquanto teem +saude a um excessivo trabalho, d'onde lhes resultam molestias, que mais se +aggravam pelo desprezo em que as consideram, e sobretudo por fugirem aos +gastos de um tratamento regular, que se só resolvem fazer quando estão +proximos a entrar para a sepultura.</p> + +<p>«Se eu attendesse a quantas exigencias se me fazem,<span +class="pagenum"><a id="pag_154" name="pag_154">[154]</a></span> poucos seriam +os que por aqui ficariam, porque todos lamentam o engano em que cairam, e +suspiram pela volta aos lares patrios. A expensas minhas, envio no patacho +<i>Trovador</i> uma familia composta de quatro pessoas, que sem fallar no +desvio de alguns de seus membros que por cá ficam, depois de dois annos de +estada aqui, voltam naturalmente em peiores circumstancias do que vieram!»</p> + +<p>No excesso da cegueira poderá haver quem diga, que é uma ficção o +commercio da escravatura branca. Se os documentos em que nos temos baseado +não confirmam o dito, o que vamos extractar desilludirá os descrentes. É +ainda do nosso consul em Pernambuco o seguinte trecho:</p> + +<p>«É revoltante que por uma passagem de prôa, com o tratamento de bacalhau, +sardinha salgada e biscoito de milho, se esteja levando a estes degraçados, +do Porto para aqui, 60$000 réis fortes ou 120$000 réis fracos, quando não ha +navio que alli não tome um passageiro de prôa por 24$000 ou 28$800 réis. +Muito bom seria que, tanto no Porto como nas ilhas açorianas, se podessem +tomar algumas medidas que pozessem cobro a esta escandalosa agiotagem com a +desgraça.</p> + +<p>«Acaba de chegar de S. Miguel o brigue portuguez <i>Oliveira</i>, com 56 +passageiros, e o governador da ilha (não satisfeito com me remetter todos os +seus passaportes em regra, obrigações e recibos da passagem de cada um), +depois de não ter consentido que ali se celebrassem contractos de locação de +serviços, obrigou o capitão do navio a assignar um termo que me remette, no +qual o capitão se responsabilisa a não deixar desembarcar os passageiros, sem +que no consulado celebrem o contrato do modo do pagamento de suas passagens. +N'estas passagens ha a mesma agiotagem que nas do Porto, pois todas vem a 60 +patacões ou 120$000 réis, dinheiro do Brazil.<span class="pagenum"><a +id="pag_155" name="pag_155">[155]</a></span></p> + +<p>«Similhantes passagens importam uma lesão enormissima, a não serem +consideradas como negocio de risco, e, considerando-as eu como taes, estou +resolvido a não deixar passar nos novos contractos a obrigação do seu +pagamento para os locatarios, mas sim conserval-a aos locadores; porque +d'esta fórma pódem estes fazer mais vantajosos contractos, visto que o +locatario não corre o risco de perder o importe da passagem que adianta, com +a prematura morte do locador; e me parece mesmo mais justo e razoavel que lhe +corra o risco o agiota, que foi levado a isso pelo excessivo lucro.</p> + +<p>«Os passageiros se obrigam em seus titulos a satisfazer a passagem dentro +de oito dias depois da sua chegada a Pernambuco, ao que hypothecam suas +pessoas e bens. As pessoas não podem ser retidas por dividas, e os bens são +uma caixa vazia. Se portanto o dono ou consignatario do navio não quizer +continuar a correr o risco, que obrigue o devedor pelos tribunaes, e ficará +pago com suas caixas, que é quanto podem dar á penhora.</p> + +<p>«Eram estas obrigações das passagens satisfeitas dentro em oito dias +depois da sua chegada, que tornavam os contractos aqui uma especie de venda +de suas pessoas; porque, considerando-se obrigados a satisfazer uma somma que +não tinham nem podiam ganhar em tão curto praso, se entregavam por uma +bagatela a quem suppunham que os vinha resgatar.</p> + +<p>«Parece-me que da maneira que levo dito poderei indirectamente levar as +cousas a que de futuro se contentem os agiotas com lucros menos excessivos, +porque, sendo as passagens regulares, não faltará quem, com vantagem dos +passageiros, lh'as satisfaça logo á sua chegada» etc.</p> + +<p>Nada conseguiu o consul, como mais tarde demonstraremos.<span +class="pagenum"><a id="pag_156" name="pag_156">[156]</a></span></p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Antigamente quando os pretos escravisados desembarcavam no litoral do +Brazil, os <i>senhores de engenho</i>, antes de entrarem em ajuste com os +traficantes, procediam a uma rigorosa escolha dos negros que mais poderiam +convir ao serviço da lavoura, assim como qualquer alquilador escolhe as +bestas para o serviço dos alugueis.</p> + +<p>Pois bem, o que antigamente acontecia aos pretos, succede hoje com os +brancos, nossos compatriotas.</p> + +<p>Em principios de 1857, foram <i>regeitados</i> 174 colonos, idos da cidade +do Porto, na barca <i>Santa Clara</i>, para a colonia de Campos Junior & +Irmão, na cidade de Campinas, no Brazil.</p> + +<p>Mais alguns casos se haviam dado, e para evitar o escandalo, o governo +portuguez, a pedido do consul geral na côrte do imperio, deu algumas +providencias tendentes a estabelecer um accôrdo com o governo brazileiro.</p> + +<p>Vamos apresentar aos leitores alguns documentos que esclarecem a questão, +bem como qual fôra o resultado das negociações entaboladas a este respeito +entre os dois governos.</p> + +<p>É do nosso ministro acreditado na côrte do imperio, e alli residente em +1858:</p> + +<p>«Respondendo ao despacho de v. ex.ª datado de 12 de março ultimo, direi +com a devida submissão quanto ao seu conteúdo e ao da cópia do officio do +ministerio do reino que o acompanha, sobre a conveniencia d'um accordo com +este governo, tendente a prevenir a repetição da <i>regeição</i> de colonos +mandados angariar no continente de Portugal e ilhas adjacentes por parte de +qualquer individuo ou companhia no Brazil (como o que se deu ha pouco tempo +em Santos), que pela circular<span class="pagenum"><a id="pag_157" +name="pag_157">[157]</a></span> do mesmo ministerio do reino aos respectivos +governadores civis, citada na dita cópia, foi sabiamente tomada a unica +medida decisiva possivel na minha humilde opinião contra a má fé e abusos de +tal ordem.</p> + +<p>«No entretanto disponho-me, como devo, estudar o modo de fazer a proposta +do accordo por v. ex.ª determinado, comquanto me pareça á primeira vista não +ter probabilidades de felicidade, por isso que no assumpto de que se trata, +nós temos sómente a pedir, não temos que offerecer. Poderemos talvez chegar +ao resultado justamente pretendido, ampliando e completando com certo +apparato a medida acertadissima encetada já pelo ministerio do reino,» +etc.</p> + +<p>Um mez depois escrevia o mesmo diplomata o seguinte:</p> + +<p>«Terminei o meu officio de 10 do mez proximo findo, quanto á conveniencia +d'um accordo com o governo d'este imperio, tendente a evitar a rejeição de +colonos mandados assalariar d'aqui n'esse reino e ilhas adjacentes, +aventurando com o devido respeito o meu juizo sobre a pouca probabilidade de +conseguir ajuste de tal ordem, e acrescentei que, para obedecer a v. ex.ª, +estudaria comtudo o modo de fazer a respectiva proposta, comquanto me +parecesse poder chegar-se ao resultado pretendido por meios de mais facil +adopção por parte do Brazil.</p> + +<p>«No proprio interesse da sua colonisação reside a necessidade forçosa de +moralisar todo e qualquer contracto de locação de serviços, cujo fim seja +chamar ao imperio braços livres e gente branca, do que não póde prescindir +sem comprometter a sua existencia, arriscadissima já pela incuria imperdoavel +dos que com perfeito conhecimento de causa se não tem occupado como deviam e +podiam de promover uma emigração util.</p> + +<p>«Assim o disse eu ha poucos dias ao sr. visconde de<span +class="pagenum"><a id="pag_158" name="pag_158">[158]</a></span> Maranguape, +ministro dos negocios estrangeiros, o qual procurei expressamente a fim de +chamar a sua attenção para o facto verificado em Santos com os colonos +portuguezes para ali conduzidos na barca <i>Santa Clara</i>, mandados ajustar +no Porto, e <i>rejeitados</i> depois á sua chegada. E continuando disse que +referia o occorrido a s. ex.ª, para pedir-lhe, como effectivamente lhe pedia, +em nome do governo de sua magestade, providencias que evitassem repetições de +similhante natureza, certo de que, se não fosse bastante, o que eu não punha +em duvida, encarar o caso pelo lado da humanidade para dar-se-me razão +inteira, viriam em apoio da minha representação as considerações moraes, as +de conveniencia e de interesse, que bem sabia s. ex.ª não serem de modo algum +indifferentes para a prosperidade actual e futura sorte do Brazil, dependente +da maior ou menor affluencia de emigrantes.</p> + +<p>«Assim pois, conclui eu, «será v. ex.ª o primeiro a conhecer a necessidade +de algum compromisso por parte do governo imperial, para tranquilisar o +governo que represento, a respeito dos nossos compatriotas, os quaes fiados +na fé dos contractos, deixam a patria, muito embora com vistas exclusivas de +vantagem propria, e vem tão efficazmente, tão visivelmente concorrer para o +engrandecimento do imperio».</p> + +<p>«Para estas considerações, aliás de primeira intuição, não ha resposta, e +por conseguinte não fez o mesmo ministro outra cousa senão abundar nas minhas +idéas, com expressões que me pareceram sinceras, e em perfeito accordo com os +nossos desejos. E como eu lho havia declarado a clausula mandada inserir por +circular do ministerio do reino nos contractos de locação de serviços para o +Brazil, que de futuro hajam de fazer-se entre nós, disse-me s. ex.ª que em +harmonia com aquella disposição, <i>mas sem allusão a ella</i>, proporia aos +seus collegas uma disposição <i>com todo o caracter de<span +class="pagenum"><a id="pag_159" name="pag_159">[159]</a></span></i> +<i>espontanea</i>, por meio da qual ficaria satisfeito o governo de sua +magestade, e acautelados os verdadeiros interesses do Brazil. O que comtudo +não poderia ter logar desde já e emquanto não estivesse em andamento a actual +sessão legislativa depois de apresentados os relatorios dos diversos +ministerios, com os quaes elle e seus collegas se achavam muito occupados,» +etc.</p> + +<p>Na serie de documentos que temos presente, não podemos encontrar as +disposições <i>espontaneas</i>, que o governo brazileiro pretendia preparar, +quando estivesse em andamento a tal sessão legislativa!</p> + +<p>Queremos dizer com isto, que as reclamações do governo de Portugal foram +desattendidas, naturalmente, porque ao governo <i>humanitario</i> do Brazil, +convinha, primeiro do que tudo, consultar os <i>roceiros</i> a respeito das +nossas pretenções, que necessariamente haviam de offender os seus +interesses!</p> + +<h2>VII</h2> + +<p>O governo brazileiro a tudo promettia providencias; mas não lhe fazia +conta maltratar os fazendeiros.</p> + +<p>Vamos apresentar mais uma prova d'esta nossa asserção.</p> + +<p>«Em virtude de certa denuncia, communica o nosso ministro na côrte do +imperio ao governo portuguez, representou-me o vice-consul encarregado do +consulado geral de Portugal, contra o procedimento havido com alguns colonos, +subditos de sua magestade, em uma fazenda do municipio de Iguassú, não mui +distante d'esta capital.</p> + +<p>«Não perdi tempo em solicitar do governo imperial pela nota da cópia junta +as averiguações e providencias indespensaveis para remediar o mal verificado. +E aproveitei a occasião <i>para instar pela quarta ou quinta<span +class="pagenum"><a id="pag_160" name="pag_160">[160]</a></span> vez, pela +solução de uma representação identica</i> em favor de outros colonos, tambem +portuguezes, para ser dirigida a este governo em meado do anno preterito!!!» +(1858)</p> + +<p>Este outro documento que vamos transcrever, é a nota a que se refere o +nosso ministro na corte do imperio:</p> + +<p>«Não posso dispensar-me de levar ao conhecimento de v. exª, na cópia +inclusa, o officio que ora me foi entregue por parte do consulado geral de +Portugal, n'esta côrte. Da mesma cópia v. ex.ª verá o comportamento +attribuido ao rendatario de certa fazenda no municipio de Iguassú, Francisco +José de Freitas, para com os colonos portuguezes ao seu serviço, bem como a +immoralidade com que, segundo alli se affirma, tem procedido o referido +Freitas a respeito da filha de um dos ditos colonos, menor de 13 annos.</p> + +<p>«Não escaparão por certo a v. ex.ª as circunstancias, constantes do citado +officio, de haver sido denunciado no dito consulado o facto acima exposto, +por pessoas inteiramente desinteressadas, e do misero estado em que da dita +fazenda se evadiram dois d'aquelles colonos, os quaes por isso mesmo tiveram +de ser transportados em rede para o hospital.</p> + +<p>«Quanto a mim abstenho-me de qualquer reflexão sobre taes occorrencias, +bem certo de que não podem ser senão sobremodo desagradaveis as que affluirão +no animo de v. ex.ª, com a simples leitura do já referido documento junto.</p> + +<p>«Limito-me pois a pedir a v. ex.ª com a maior instancia, sem perda de +tempo, as providencias promptas e energicas que o caso exige, permitta-me v. +ex.ª que o diga, no proprio interesse do Brazil, comprovada a verdade da já +alludida denúncia.</p> + +<p>«Contra factos identicos, não menos escandalosos, verificados em Taubaté, +o anno proximo passado, tive<span class="pagenum"><a id="pag_161" +name="pag_161">[161]</a></span> a honra de reclamar medidas de severidade por +parte do governo imperial, e com quanto seja de 28 de julho preterito aquella +minha representação, sobre a qual tomo a liberdade de chamar a séria attenção +de v. ex.ª, <i>não recebi resposta d'ella até hoje</i>, decorridos perto de +sete mezes. Lisonjeando-me de que serei mais feliz n'esta occasião, +aproveito-a para renovar os protestos,» etc.</p> + +<p>A resposta do governo imperial é a que segue:</p> + +<p>«Tive a honra de receber a nota... pela qual o sr. José de Vasconcellos e +Sousa, remetteu-me copia do officio que lhe dirigiu o consul geral de +Portugal n'esta côrte, expondo-lhe os reprehensiveis actos attribuidos ao +arrendamento de uma fazenda do municipio de Iguassú, Francisco José de +Freitas, para com certos colonos portuguezes, que tem a seu serviço, e á +filha menor de um d'elles.</p> + +<p>«Sciente das observações que a este respeito fez o sr. Vasconcellos e +Sousa na sua citada nota, e convencido da urgente necessidade de verificar o +fundamento de semelhantes accusações, cumpre-me prevenil-o de que pelo +ministerio do imperio, ao qual n'esta data dirijo-me, se procederá aos +precisos exames e se tomarão as medidas correccionaes e preventivas que o +caso exigir, <i>sendo prudente não comdemnar desde já a parte accusada</i> +(se elle é roceiro!)»</p> + +<p>«Quanto ao trecho da mesma nota, em que o sr. Vasconcellos se queixa da +falta de resposta por parte d'esta secretaria d'estado á sua reclamação de 28 +de julho do anno proximo passado, em favor dos colonos de Taubaté, peço +licença para observar-lhe que, dependendo essa resposta de informações que +teem de ser enviadas por authoridades das provincias de S. Paulo é inevitavel +a demora que nota o sr. de Vasconcellos, attendendo-se ás distancias e outras +circumstancias bem conhecidas, proprias de um paiz tão extenso e pouco<span +class="pagenum"><a id="pag_162" name="pag_162">[162]</a></span> povoado como +o Brazil. Entretanto tornarei a chamar a attenção do sr. ministro do imperio +sobre este objecto,» etc.</p> + +<p>Mas as providencias nunca se deram; pelo menos a esta crença nos induz o +silencio usado pelo governo imperial a respeito da questão.</p> + +<p>A razão apresentada pelo ministro brazileiro da <i>extensão do paiz</i>, +se não podia insentar o governo do imperio de culpabilidade, com respeito ao +negocio de Taubaté, por quanto em dois ou tres mezes devia ter dado as +explicações pedidas pelo representante de Portugal; menos poderia desculpal-o +com relação ao conflicto de Iguassú, que, como vimos, fazia parte do +districto do Rio de Janeiro.</p> + +<p>O documento que passamos a transcrever não é menos interessante. É elle +assignado pelo conde de Thomar, e tem a data de 27 de outubro de 1859:</p> + +<p>«Em 15 do corrente apresentou-se n'esta legação um rapaz de doze para +treze annos, por nome José Fernandes, o qual disse ter vindo da ilha +Terceira, acompanhado de um individuo, que se disse seu tio, chorando e +mostrando alguns ferimentos nas pernas, os quaes o mesmo rapaz asseverou +terem sido feitos com <i>chicote</i> mandado applicar por sua ama, pelo +motivo de elle não poder fazer todo o serviço, que lhe era exigido, e que +elle reputava seguramente superior ás suas forças. Vendo o estado em que se +achava aquella creança, ordenei que se conservasse na legação, até que eu, +colhendo as devidas informações, resolvesse o que fosse mais conveniente.</p> + +<p>«Mandei que o consul com a maior urgencia indagasse sobre aquelle facto, e +me informasse devidamente. Convenci-me por tudo o que me foi presente, que o +rapaz poderia ter commettido algum descuido no desempenho das suas +obrigações, mas esse descuido nunca poderia auctorisar o emprego do +<i>chicote</i> contra uma<span class="pagenum"><a id="pag_163" +name="pag_163">[163]</a></span> creança d'aquella idade, castigo cruel +reservado para os negros mais desmoralisados. Resolvi portanto fazer annullar +o contracto da venda de serviços por dezoito mezes, feito pelo mencionado +menor. Desembolsei para isso 100$000 réis fracos, e tenho aquella creança em +minha casa até que lhe possa dar outro destino.</p> + +<p>«Aproveitei este acontecimento para entrar melhor no exame de todas as +circumstancias, que acompanham o embarque de muitos portuguezes de todas as +idades e differentes sexos para este imperio; e bem assim do modo por que são +elaborados os contractos da locação de serviços dos subditos de sua +magestade.</p> + +<p>«Ordenei portanto ao consul geral, que enviasse a esta legação o +passaporte original d'aquelle rapaz, e copia do contracto de locação dos seus +serviços, informando ao mesmo tempo de tudo que soubesse a tal respeito.</p> + +<p>«Verifiquei, pois, pelo dito passaporte original, passado no governo civil +de Angra, que o dito menor é da ilha Terceira, e que veiu aggregado a seu +cunhado Alexandre Gonçalves e sua mulher; no dito passaporte se declara que o +dito rapaz é menor de 13 annos.</p> + +<p>«Sendo assim menor de 13 annos, e tendo pae como elle proprio declarou, +podia dar-se um tal passaporte sem a declaração do expresso consentimento do +pai?</p> + +<p>«Estando sujeito ao recrutamento, tomaram-se acaso as devidas precauções +para que não deixasse de pagar o tributo de sangue, sendo em occasião +opportuna chamado pela sorte?</p> + +<p>«Chegando aquelle menor a este imperio figura em um contrato de locação de +serviços por desoito mezes, mediante a somma de 100$000 réis fracos, +assignado pelo locador, o conselheiro João José de Carvalho, e pelo consul em +nome e por parte do menor locatario. A referida quantia de 100$000 réis é a +somma exigida pelo capitão da <i>Nova Rival</i>, que o conduziu, como +importe<span class="pagenum"><a id="pag_164" name="pag_164">[164]</a></span> +da passagem e comedorias! É assim que os capitães dos navios vendem +temporariamente os subditos de sua magestade!» etc.</p> + +<p>Quando os nossos compatriotas não podem aturar os castigos corporaes que +<i>seus senhores</i> lhes mandam infligir pelos negros, vem a miseria, a +fome, n'este paiz onde o ouro anda aos pontapés, n'esse paiz onde jámais se +realisará a promessa do sr. Augusto de Carvalho, de—<i>cento por um</i>.</p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>Não descurava o conde de Thomar tambem do horroroso flagello da febre +amarella, que já em 1860 produzio os seus maleficos estragos; mas foi bradar +no deserto.</p> + +<p>O remedio apontado, que é prohibir a emigração para os portos +infeccionados, ainda não foi adoptado, naturalmente pela difficuldade que +offerece a creação de qualquer taxa, a exemplo do que se pratica no Lazareto +com os passageiros vindos dos portos infeccionados d'aquella terrivel +molestia.</p> + +<p>É que os nossos legisladores deixariam de ser <i>verdadeiros +patriotas</i>, se alguma vez cahissem na patetisse de fazer uma lei que não +esbulhasse o pobre povo do que tanto lhe custa a ganhar.</p> + +<p>A lei que pozesse termo á emigração para o Brazil, especialmente na quadra +de janeiro a junho, era uma lei humanitaria, que jámais poderia ser atacada +pelos verdadeiros liberaes.</p> + +<p>A obrigação dos governos é desviar os administrados do precipicio, que os +seus fracos conhecimentos do mundo lhes não deixam vêr.</p> + +<p>São insignificantes os resultados tirados da publicação das relações do +obituario, que os nossos consules nos enviam do imperio. E a razão é simples: +é que a nossa<span class="pagenum"><a id="pag_165" +name="pag_165">[165]</a></span> população d'onde sahem os emigrados não sabe +lêr; ou se sabe não está ao alcance de lêr os jornaes mais importantes, onde +apparecem publicadas essas listas, que muito poderiam influir no animo dos +que em tão horrorosa quadra entendem dever deixar a patria.</p> + +<p>A imprensa que mais se entranha no coração do povo, essa, com rarissimas +excepções, pouco ou nenhum caso faz d'isto, por causa do <i>medo</i>...</p> + +<p>Comtudo publica em seu logar as noticias <i>importantes</i> do baile do +sr. commendador Fulano, ou do feliz parto da esposa do sr. Sicrano!</p> + +<p>Esta medida de publicar as relações nominaes dos subditos portuguezes, +fallecidos no Brazil, com a declaração da molestia de que tinham succumbido, +fôra lembrada pelo conde de Thomar, em 1860, com o fim de evitar a +emigração.</p> + +<p>Mas parece que tão bom alvitre não tivera a recepção que era para esperar. +Mais uma razão da falta de vontade do nosso governo em querer auxiliar o +conde em tão util propaganda.</p> + +<p>O seguinte trecho, que vamos extrahir do seu officio de 7 de maio de 1860, +resente-se d'esta falta:</p> + +<p>«Sinto que o governo não julgasse aproveitavel a idéa que suggeri na minha +correspondencia, fazendo publicar diariamente na folha official e nos jornaes +sobre que podesse exercer alguma influencia, a relação dos portuguezes mortos +n'este imperio, declarando-se sempre a molestia de que são victimas, e a sua +edade.</p> + +<p>«É isto muito facil, pelo menos quanto ao Rio de Janeiro, porque nada mais +haveria a fazer senão transcrevêr o obituario, que diariamente publicam os +jornaes brazileiros, que mando para a secretaria a cargo de v. ex.ª.</p> + +<p>«Affigura-se-me que este systema seria preferivel ao de publicar em um só +diario de Lisboa, uma longa lista de nomes. A circumstancia que se notaria, +<i>de que a<span class="pagenum"><a id="pag_166" +name="pag_166">[166]</a></span> maior parte morrem de febre amarella, e quasi +todos na melhor e mais apropriada edade para fazer fortuna e para +trabalhar</i>, seria, no meu entender, a cruzada mais poderosa que se poderia +promover contra a emigração. Daria isto ainda logar a occupar-se +frequentemente a imprensa portugueza de tão importante objecto, porque tinham +sempre thema para discorrer; estou quasi certo de que algum bom resultado se +havia de tirar d'este meio.</p> + +<p>«Aqui mesmo faz muita impressão a leitura diaria d'aquelle artigo +(obituario) sendo talvez o primeiro que chama a attenção dos leitores.</p> + +<p>«Consta-me que muitos dos infelizes ultimamente chegados foram logo +victimas da <i>febre amarella</i>; nem póde deixar de assim acontecer, +porque, sendo a bahia do Rio de Janeiro o logar mais mortifero, é tambem +aquelle aonde menos promptamente se póde acudir com os soccorros.</p> + +<p>«Parece incrivel que o governo d'este paiz, tão interessado na introducção +de colonos, se não tenha lembrado de adoptar alguma medida para fazer com que +os navios em que são transportados os colonos, cheguem aqui em estação mais +propria, ou que ao menos se demorem os colonos pouco tempo na dita bahia, +etc.</p> + +<p>«Reconheço que existe algum obstaculo, porque os capitães especuladores, +altamente interessados na venda dos serviços dos ditos colonos, encontrarão +maiores difficuldades para a verificarem, etc.</p> + +<p>«Mas a vida perdida de tantos homens na flôr da sua edade, não valerá a +pena de pensar n'este importante objecto? É minha intenção chamar a attenção +do governo imperial sobre este ponto, na occasião em que se discutir a +respectiva convenção.»</p> + +<p>Nada se chegou a conseguir, porque o illustre diplomata pouco tempo depois +retirava-se para Portugal.</p> + +<p>Sobre o mesmo assumpto já o referido ministro tinha<span +class="pagenum"><a id="pag_167" name="pag_167">[167]</a></span> chamado a +attenção do nosso governo, em seu officio de 30 de março de 1860, nos +seguintes termos:</p> + +<p>«Por esta occasião chamarei de novo a attenção de v. ex.ª sobre os que +morrem de <i>febre amarella</i>. São na maior parte portuguezes ultimamente +chegados das ilhas e do reino.</p> + +<p>«Não é possivel conceber como se procura tão perigosa e doentia estação +para desembarcar no Brazil gente transportada da Europa. É negocio que +demanda uma providencia, pois exige a humanidade, que se não deixem assim +correr ao matadouro moços pela maior parte de 15 a 25 annos.»</p> + +<p>Que providencias se têem tomado? Uma unica, a nosso ver, pouco +proficua:—a de se publicar na folha official a lista dos subditos +portuguezes fallecidos no Brazil. Mas perguntamos: Quem é que lê a folha +official? A resposta é facil. Os empregados publicos, por obrigação, e os +ricassos, que tendo requerido certas honrarias, assignam o <i>Diario</i>, que +n'um momento os ha de transformar de pygmeus em ridiculos barões!</p> + +<p>Se os que podiam remediar o mal, curassem menos de futilidades, +lembravamos-lhe o seguinte expediente:</p> + +<p>Mandar publicar diariamente por conta do governo, em todos os jornaes do +paiz, um mappa circunstanciado da mortalidade dos subditos portuguezes +fallecidos no imperio.</p> + +<p>Estamos certos que nenhum jornal deixaria de publicar gratuitamente tão +importante documento, se directamente lhe fosse enviado pelo governo; porque +é preciso dizer que, a maioria dos jornaes portuguezes guerreia a emigração, +e se não lança mão d'este grande meio de combate, é porque nem todos possuem +o <i>Diario do Governo</i>, especialmente os das provincias.</p> + +<p>Para essa minoria de jornalistas, que fazem da imprensa o ariete com que +costumam remover as suas difficuldades financeiras; para esses que não vêem +na imprensa<span class="pagenum"><a id="pag_168" +name="pag_168">[168]</a></span> um meio de moralisar e ensinar os povos, mas +um meio de especulação; para esses que substituem por annuncios de namorados, +a 20 réis a linha, as noticias de factos importantissimos: para esses, a paga +do espaço occupado pelos mappas de que vimos fallando.</p> + +<p>A despeza material não é muita, se attendermos á importancia moral da +receita.</p> + +<p>E quando mesmo se pagasse a toda a imprensa este trabalho, que importancia +tem estas despezas comparadas com as que os governos fazem na compra da +opinião dos especuladores, que, tão inconscientemente, apregoam na tuba da +fama, as glorias ficticias de seus patronos?!</p> + +<p>O governo inglez não prohibe nem aconselha a emigração; mas offerece +gratuitamente aos editores os relatorios de exames a que manda proceder nos +paizes indigitados pelos aliciadores aos filhos da Inglaterra.</p> + +<p>Estes relatorios que custam milhares de libras ao governo, e que, por +terem sido elaborados por homens competentissimos, contam as verdades sobre a +inconveniencia da emigração para certos e determinados territorios, são +immediatamente impressos e distribuidos nos grandes centros da população +ingleza, que assim fica inteirada das artimanhas dos aliciadores.</p> + +<h2>IX</h2> + +<p>Os roceiros do Brazil, a quem faltam os mais comesinhos principios da +humanidade, desde que no imperio, leis proficuas á humanidade, porém ruinosas +para a sua prosperidade material, aboliram o commercio da escravatura, +destacaram ignobeis agentes para a Europa, com o fim de encetarem o commercio +da <i>escravatura branca</i>, se não mais horrivel, igual ao de negros que a +lei recentemente libertára.<span class="pagenum"><a id="pag_169" +name="pag_169">[169]</a></span></p> + +<p>Por seu turno o negociante tambem coadjuva os roceiros: animando a +emigração, auxilia os engajadores; e se não representa o seu proprio papel, +os porões de navios de que são proprietarios, vem lembrar o ominoso tempo da +<i>escravatura preta</i>.</p> + +<p>Mas lancemos mão do bistori e descarnemos o corpo cangrenoso, para que +nossos leitores, observando-lhe as pustulas venenosas, affastem de si o puz +mortifero.</p> + +<p>Engajador é peor que negreiro; porque este, nas costas da barbarie, em +troco de um ente quasi inerte, de fórmas humanas, entregava ao <i>regulo</i>, +seu senhor, qualquer bugiaria. Os parentes, se os tinha, riam-se da +traficancia com um riso selvagem, collocavam em pedestal o objecto offertado, +dançavam e cantavam em de redor d'este idolo, emquanto outros selvagens +acorrentavam seus proprios irmãos. Tudo isto era estupido e ao mesmo tempo +tragico; da parte do negociador <i>civilisado</i> manifestava-se um cynismo +que nem a todos os <i>civilisados</i> residentes no Brazil causaria asco; o +negocio era simples, não levava muito tempo a fazer:—dá cá, toma lá—; eis +as phrases trocadas entre o <i>selvagem</i> europeu e o selvagem africano. +Não havia lucta de consciencia da parte do que vendia, nem tão pouco da parte +dos que eram vendidos. O negreiro, o que comprava, amoldava os sentimentos, +se é que os tinha, conforme as occasiões; comtudo, este não era peior que o +roceiro a quem eram destinados os negros. Mas o engajador, que em nosso tempo +veiu substituir o negreiro, é mais cynico. Assim como acontecia ao negreiro, +o engajador leva em mira o mesmo fim—o interesse; mas emquanto que o +negreiro supportava as fadigas das longas viagens e os rigores de um clima +pestifero, o engajador, em nossas terras, é recebido nas salas, é protegido +das influencias monetarias, chama-se-lhe cidadão prestante, offertam-se-lhe +brindes valiosos, conferem-se-lhe commendas, etc. etc.<span +class="pagenum"><a id="pag_170" name="pag_170">[170]</a></span></p> + +<p>O engajador não se afadiga muito. Um dia por semana, se tanto, lhe basta +para o <i>seu negocio</i>. Esse dia que Deus déra para descanso, segundo as +tradições biblicas, emprega-o elle em seduzir seus irmãos, por occasião da +missa conventual, junto da ermida do aldeão do norte. É alli, junto do altar +de Deus, ao pé do symbolo sacrosanto do martyr do Golgotha, sentinella +silenciosa postada no adro transformado em mercado de gente humana, que o +engajador encarece as riquezas ephemeras do Brazil, para em troca receber +maior numero de adhesões. A lucta de consciencia estabelece-se então com +todos os horrores. É aqui que o engajador se torna peior que o negreiro que +vende gente a <i>civilisados</i>, na persuasão de que os negros são bichos; é +aqui que o engajador faz ao mesmo tempo o papel de ladrão e assassino, porque +os contractos de locação de serviços, que com os portuguezes estabelece, são +extraordinariamente lesivos para estes; e do assassino, porque os +portuguezes, seduzidos para trabalhar no Brazil, irão morrer lá +infallivelmente.</p> + +<p>«São homens preversos (os engajadores), verdadeiros parasitas, refere o +consul no Maranhão em seu relatorio de 7 de dezembro de 1874, que se +entretêem em illudir com os mais gratos sorrisos de uma felicidade que é toda +ephemera aos seus incautos irmãos, e não trepidam em commetter todos os +desmandos, uma vez que aufiram o lucro estipulado; identificando-se assim com +os proprietarios dos navios que hoje fazem commercio com a emigração e +procuram tambem nutrir-se com a boa fé dos infelizes, avidos de serem ricos. +Achando echo no remanso das familias o embuste, a mentira e os falsos +testemunhos d'esses homens que lhe asseguram o mais facil e prompto alcance +da sua cobiça, tem elles sabido prejudicar a fortuna domestica e a do seu +proprio paiz.</p> + +<p>«De todas as emprezas fundadas não póde haver seguramente<span +class="pagenum"><a id="pag_171" name="pag_171">[171]</a></span> nenhuma mais +vil e ignominiosa do que seja esta, que tem por fim seduzir uma innumeravel +multidão de portuguezes ignorantes, e por isso facilmente se deixam dominar +pelas ficticias narrações das abundantes minas de oiro, que se encontram por +toda a parte, pelas excellencias e fertilidades d'este solo!»</p> + +<p>O consul do Rio de Janeiro é de opinião que os armadores de navios, para +conseguirem <i>lastro</i>, «dão-se tambem a tão barbara propaganda de +arrancar á patria e á familia esses infelizes, enganados por vãs promessas, +os quaes, ignorantes do alto preço dos objectos aqui, se deixam fascinar pela +grandeza relativa dos salarios porque alli contractam seus serviços.»</p> + +<p>Em 1856 dizia a mesma auctoridade que «tendo-se construido muitos navios, +tanto na cidade do Porto, como nos estaleiros ao norte do Douro, uma parte +d'esses navios fôra destinada ao porto do Rio de Janeiro. Os negociantes +proprietarios d'esses navios, buscaram todos os meios de lhes proporcionar +<i>bons fretes</i>, e como um dos principaes, talvez o mais lucrativo, <i>é a +importancia do que pagam os passageiros</i>, resolveram fiar a maior parte +das passagens, para serem pagas no Rio de Janeiro, pelo meio ha muito em +pratica da locação de serviços.»</p> + +<p>O carregamento d'estes navios, foi, em dois mezes, de 22 de setembro a 23 +de novembro do referido anno, de 3:114 colonos!</p> + +<p>O commerciante comprava navios. O dinheiro que havia de empregar nas +emprezas lucrativas e honradas, era destinado a escravisar os seus proprios +irmãos e compatriotas.</p> + +<p>Esses negociantes a quem podemos chamar <i>negreiros</i> de nova especie, +bem sabem que o braço europeu não pode substituir nos tropicos o africano. +Mas que lhes importa a elles isso?!</p> + +<p>O negociante de escravos brancos não deve atterrar<span class="pagenum"><a +id="pag_172" name="pag_172">[172]</a></span> os infelizes, porque n'isso vae +o seu interesse. Vinte mil portuguezes entrados, pouco mais ou menos, em cada +anno, nos differentes portos do Brazil, representam a valiosissima somma +<i>de mil contos de réis</i>, só de passagens, que os proprietarios de navios +e os engajadores dividem entre si!</p> + +<p>A somma não é para rejeitar, e os senhores d'engenho, que vêem no futuro +os seus lucros, garantem a uns e outros aquelle rendimento, por isso que o +producto do trabalho dos colonos serve, em primeiro logar, para pagamento das +passagens e <i>mais despezas</i>!</p> + +<p>Que importa aos traficantes que os pobres colonos subscrevam contractos +lesivos? Chegam os lucros obtidos nos primeiros tempos de trabalho para pagar +aos engajadores e aos donos dos navios? Nada mais é preciso!</p> + +<p>Que importa os maus tratos inflingidos pelos <i>senhores</i> aos nossos +compatriotas? que a miseria prostre os que não podem sugeitar-se ao trabalho +e a esses tratos?</p> + +<p>Lá estão as casas de benificencia, instituidas por portuguezes +benemeritos, que, afinal, estão sempre promptas para receber em seu seio os +desafortunados, e a reenviar á patria, com o auxilio dos seus rendimentos, os +que sobrevivam a tanta miseria. E a fallar a verdade merece a pena ir ao +Brazil, só fiado em taes auxilios: estes estabelecimentos não servem para +outra cousa, segundo o modo de ver dos optimistas!</p> + +<p>E com quanto contribuem os <i>negreiros</i> para esses estabelecimentos +(elles contribuem porque é preciso aparentar caridade!)? Com algumas cedulas +de mil réis: uma migalha dos juros do dinheiro extorquido aos incredulos das +miserias no Brazil!</p> + +<h2>X</h2> + +<p>Tratámos dos lucros materiaes do traficante da escravatura branca, e agora +apresentaremos a leves traços<span class="pagenum"><a id="pag_173" +name="pag_173">[173]</a></span> os lucros moraes que elles auferem do seu +commercio.</p> + +<p>Um traficante de carne humana, em nossos tempos, tem mais influencia de +que um principe, nas epocas passadas do chamado obscurantismo. E na verdade +se de obscurantismo chamavam ás epocas em que se vendiam os negros, que +chamarão á epoca presente em que livremente se exerce o trafico infame da +venda de nossos compatriotas?...</p> + +<p>E não se diga que não; isto é, que o traficante não dispõe de influencia +junto dos nossos governantes para que a empresa da escravatura branca produza +os effeitos ambicionados.</p> + +<p>A proposito da emigração publicámos ha tempos uma serie de cartas no +<i>Jornal da Noite</i>,<a name="tex2html41" +href="#foot1341"><sup>[41]</sup></a> em que alem de outras proposições +avançamos a seguinte:</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Affiançou-se-me mais: affiançaram-me que das repartições superiores, +d'onde dizem que todos os dias baixam <i>providencias</i> contra a emigração +clandestina, se ordenára á policia que evitasse, quanto podesse, ir a bordo +na occasião da sahida dos paquetes para o Brazil!»</p> + +<p>Depois d'isto escripto foram-nos mostrados os documentos que provam a +asserção: as taes influencias é que obrigaram os altos poderes do estado a +obstar que as leis fossem cumpridas!...</p> + +<p>A portaria circular de 10 de agosto de 1870,<a name="tex2html42" +href="#foot1369"><sup>[42]</sup></a> passada a favor de José Maria Gavião +Peixoto, colonisador no imperio do Brazil, faz crer que interesses menos +licitos lhe deram origem, porque Gavião Peixoto, tendo abusado da credulidade +de alguns trabalhadores do Alemtejo, com os quaes contractára serviços para +serem prestados no Brazil a razão de 150 réis, foram-lhe<span +class="pagenum"><a id="pag_174" name="pag_174">[174]</a></span> relevadas as +faltas commettidas no alliciamento da pobre gente!</p> + +<p>Um negociante de carne humana no Brazil telegrapha para o negociante de +carne humana em Portugal, e previne-o que é de absoluta necessidade, para que +haja bom exito na empresa de escravisar nossos irmãos, que o consul Sicrano +ou Beltrano seja removido d'este ou d'aquelle ponto, pelo facto de repugnar á +sua consciencia de homem de bem o horroroso trafico dos seus desventurados e +illudidos compatriotas!</p> + +<p>Se o traficante não consegue a remoção pedida, consegue que os serviços do +empregado digno sejam esquecidos, se não desconsiderados.</p> + +<p>Ha exemplo de remoções; ha desprezo dos poderes publicos aos serviços +prestados a Portugal por empregados dignos; ha finalmente, recompensas dadas +a quem devia ser castigado como indigno!</p> + +<p>Exemplos:</p> + +<p>Portugal fôra nobremente representado por um portuguez illustre e honrado, +em Manáus, na provincia do Amazonas. O presidente respectivo despresava +sempre as reclamações do vice-consul; desconsiderava Portugal, por palavras e +acções, chegando os seus excessos até ao ponto de mandar espadeirar alguns +portuguezes alli residentes; e por que o empregado digno protestasse contra +as offensas praticadas a Portugal e seus filhos, teve em paga a demissão! +Nomeou-se outro vice-consul, a contento do insultador! Mais tarde esse novo +empregado attesta uns serviços ficticios prestados a Portugal, pelo tal +presidente, falsidades reconhecidas hoje, e os poderes do estado dão-lhe um +titulo nobliarchico, em paga dos insultos e das espadeiradas! Viemos á +imprensa protestar contra o escandalo; quezemos isentar o governo, julgando-o +illudido pelo vice-consul; mostramos-lhe a falsidade dos documentos passados +por este empregado, aos quaes o governo se escudára<span class="pagenum"><a +id="pag_175" name="pag_175">[175]</a></span> para dar ao indigno magistrado +brazileiro immerecida honraria; levamos as nossas queixas ao parlamento;<a +name="tex2html43" href="#foot4286"><sup>[43]</sup></a> mas nada se fez em +favor da moralidade offendida!</p> + +<p>A nós que presamos a honra d'esta nação, chamaram-nos impertinente; aos +portuguezes que prottestaram comnosco, mandou-se-lhes naturalmente dizer que +mandassem para cá mais algum dinheiro, producto das subscrições alli +permanentemente abertas, já para os monumentos, já para os asylos, já para os +inundados, já para o armamento geral do paiz, por que os portuguezes +residentes no Brazil são verdadeiros patriotas; mas em <i>compensação</i> +conservou-se no logar de representante de Portugal aquelle que não fizera +mais do que espesinhar-lhe as suas passadas glorias!</p> + +<p>É que o homem tinha cá das taes influencias, e nós chegámos a uma época, +que se diz de progresso, em que valem mais as influencias deshonrosas do que +a dignidade da nação e aquelles que por ella pugnam!</p> + +<h2>XI</h2> + +<p>Os traficantes tambem ameaçam os empregados dignos, que lá no imperio +guerream a emigração.</p> + +<p>Aqui está um documento curioso que prova isso mesmo. Omitimos os nomes dos +presonagens principaes, para que não soffra alguma tyrannia o seu honrado +auctor. Estamos em tempo de liberdade de consciencia... mas toda a cautella é +pouca!</p> + +<p>É este o documento:</p> + +<p>«Não obstante constar do referido relatorio, para o qual tomo a liberdade +de chamar a attenção de v. ex.ª, todos os factos que deram logar ao delicto, +communicava<span class="pagenum"><a id="pag_176" +name="pag_176">[176]</a></span> um consul de Portugal residente no Brazil, a +proposito das veniagas d'uma influencia de lá; ainda assim julgo do meu dever +revestil-os das considerações que se lhe adherem e pelos quaes verá v. ex.ª +quão arduo e espinhoso, se torna aqui o exercicio de funcções consulares, +quando se quer ser um verdadeiro interprete da lei.»</p> + +<p>E começando por apontar os taes figurões, que tornavam arduo e espinhoso o +cargo de consul no Brazil, continua:</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Não é esta a primeira vez que este meu gratuito, inimigo procura +maguar-me indirectamente. Apesar da sua impotencia e da nenhuma sympathia que +gosa na classe a que pertence tem tentado, colligado a mais tres ou quatro +desafectos que aqui tenho, alienar o bom conceito que felizmente goso, e com +prazer declaro a v. ex.ª, que a semelhante respeito nunca me senti tãobem, +pois as suas invectivas, não merecendo a consideração de pessoas sensatas, +passam como se não existissem, e elles, em vista d'isso, lemitam-se a dizer, +como supremo desforço, <i>que iam pedir a minha demissão, que para isso tem +muita influencia n'essa côrte, etc.</i></p> + +<p>«Já que fallei em desafectos seja-me licito dizer algumas palavras que se +me offerecem se v. ex.ª m'o permittir.»</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Começarei pelo mais poderoso ............ Este homem, portuguez, +naturalisou-se brazileiro ............... negociante antigo e rico d'esta +cidade, foi um dos que mais me obsequiou logo que aqui cheguei, e por alguns +annos.</p> + +<p>«Constituiu-se meu inimigo, por que tendo um sobrinho, rico fazendeiro a +quem se metteu em cabeça estabelecer uma colonia de nova especie, por se lhe +ter malogrado a outra ha alguns annos, começou de mandar<span +class="pagenum"><a id="pag_177" name="pag_177">[177]</a></span> vir d'esse +reino pobres e desprotigidas creanças de dez a quinze annos de edade para a +colonia, as quaes de certo estariam hoje todas na eternidade se não fosse a +opposição inergica que fiz aos seus deshumanos instinctos, arrancando-lh'as e +empregando-as no commercio,» etc.</p> + +<p>O traficante ameaçava. Elle lá tinha as suas razões; assim como o consul +tambem lá tinha as suas para prevenir o ministro; mas da doutrina da +prevenção deprehende-se facilmente que o empregado zelloso temia que os +desforços dos seus inimigos fossem attendidos. E se não fosse esse temor, +para que era baixar a tantas minuciosidades?</p> + +<p>Podiamos sobre este mesmo ponto dizer mais alguma cousa, mas tememos +affectar interesses de terceiros.</p> + +<p>Ponhamos, pois, ponto aqui, affirmando de novo a extraordinaria influencia +dos traficantes da chamada escravatura branca, perante as auctoridades +superiores do paiz.</p> + +<h2>XII</h2> + +<p>A lei portugueza de 20 de julho de 1855, tende a proteger por alguma fórma +os nossos desafortunados compatriotas que, no engodo de melhor sorte, deixam +a patria em troca de um paiz onde vão soffrer as mais horrorosas +privações.</p> + +<p>Effectivamente, ha alli medidas, que, até certo periodo de tempo, deviam +fazer conter em respeito os engajadores, se não fôra a protecção que as +auctoridades brazileiras em todo o tempo lhes dispensou.</p> + +<p>Os contractos de locação de serviços entre os engajadores e os colonos +deviam ser feitos perante as auctoridades do nosso paiz. Além d'outras +providencias secundarias, estabelecia-se a medida rigorosa de auctorisar os +consules a fiscalisar os navios chegados a qualquer<span class="pagenum"><a +id="pag_178" name="pag_178">[178]</a></span> porto do Brazil, a fim de evitar +o desembarque de qualquer colono portuguez, que não tivesse attendido áquella +providencia do governo.</p> + +<p>Os capitães dos navios portuguezes são obrigados a apresentar perante as +auctoridades uma relação dos colonos que conduzam a bordo, sob pena de +infracção, e pagamento de multas exorbitantes.</p> + +<p>Porém esta lei repressiva, não evitando a emigração, deu aso a abusos +inauditos. É de 1857 que os seus effeitos começam a sentir-se.</p> + +<p>Até alli alguem confundia o carregamento de colonos portuguezes com os que +outr'ora se faziam dos colonos africanos. A lei de que vimos fallando, que o +governo brazileiro <i>não quiz reconhecer</i>, veio estabelecer, em toda a +sua plenitude, o commercio clandestino da escravatura branca.</p> + +<p>Os dados estatisticos, fornecidos pelos consules residentes no imperio, +sobre o numero dos emigrantes portuguezes desembarcados nas costas do Brazil, +falham muito desde a publicação da lei de 1855 em diante.</p> + +<p>Comtudo a corrente da emigração continuava por uma fórma assustadora.</p> + +<p>Alguns commandantes de navios sujeitavam-se a pagar as multas, e esses +eram em pequeno numero; outros valiam-se de suas influencias para faltarem +aos compromissos marcados por lei.</p> + +<p>Houve armadores de navios portuguezes que substituiam a nossa bandeira +pela brazileira, para evitar a fiscalisação das nossas auctoridades +consulares!</p> + +<p>Os colonos eram mettidos no porão dos navios como escravos; das praias do +litoral eram conduzidos para as roças dos <i>senhores de engenho</i>: d'estes +infelizes nem todos os consules davam noticia, porque a sua acção não podia +chegar até lá!</p> + +<p>Vamos demonstrar que não elaboramos em erro:<span class="pagenum"><a +id="pag_179" name="pag_179">[179]</a></span></p> + +<p>Em 29 de dezembro de 1856, foram presentes ao consul do Rio de Janeiro, +pelo capitão do vapor <i>D. Pedro</i>, as cópias das relações de 297 +passageiros; mas não apresentava os passaportes, porque a visita da policia +do porto lh'os tomára, segundo as ordens do governo imperial!</p> + +<p>Em 2 de março de 1857, dizia o referido consul ao ministro do reino, «que +nos navios brazileiros havia mais ou menos irregularidades, porque os +capitães contavam com a impunidade, visto que os consules não tinham a menor +ingerencia n'estas embarcações.»</p> + +<p>Em principios do anno referido sahiram do Rio os seguintes navios +brazileiros:—<i>Palmyra</i>, <i>Rufina</i>, <i>Indiana</i>, <i>Açoriana</i> +e <i>Helena</i>, com destino ás ilhas dos Açores e Madeira, para d'este ponto +transportarem colonos para o Brazil.</p> + +<p>O consul, prevenia por esta occasião o governo de S. M., a fim de que se +déssem as ordens necessarias para serem obrigados os capitães a executar as +determinações da lei de 20 do julho de 1855, em terras de Portugal, «visto +que os consules pouca ingerencia tem a bordo dos navios portuguezes, depois +de entrados nos portos do imperio, e <i>absolutamente nenhuma</i> a bordo dos +navios brazileiros.»</p> + +<p>Mais tarde, em dezembro do referido anno, accrescentava sobre o mesmo +assumpto:</p> + +<p>«Já tenho ponderado a v. ex.ª por vezes que esperando-se que os +passageiros das ilhas que tiverem de embarcar venham agora em navios +brazileiros, será sempre difficil que nos portos do Brazil os consules de S. +M. possam bem fiscalisar o que diz respeito á exactidão do numero que +conduziram, e bem assim sobre a realisação dos contractos, conforme as ordens +do governo de S. M., e isto porque os consules estrangeiros não pódem exercer +jurisdicção a seu bordo, por ser isso<span class="pagenum"><a id="pag_180" +name="pag_180">[180]</a></span> contrario ás leis do paiz e regulamentos em +vigor (do imperio).»</p> + +<p>O sr. José Henriques Ferreira, consul em Pernambuco, assim se expressava +em seu officio de 6 de junho de 1857, com respeito a colonos transportados +para o interior sem sua sciencia:</p> + +<p>«A maior parte dos colonos que abordam a esta provincia procede da cidade +do Porto e ilhas açorianas. Os capitães dos navios, chegados aqui, embarcam +geralmente os colonos, mesmo de bordo, para os engenhos do interior, sem lhes +permittirem que pisem em terra.</p> + +<p>«Uma das primeiras cousas pois que cumpre prevenir são os +<i>engajamentos</i> feitos em Portugal para o interior do Brazil, porque alli +não ha para os colonos garantia possivel, ainda que o governo do paiz tenha +os melhores desejos. Collocados os engenhos a grandes distancias, e em terras +pouco povoadas, não chega alli a acção do governo. As auctoridades locaes +estão concentradas, ou n'um individuo ou n'uma familia, que de tudo dispõem a +bel-prazer, sem que o governo tenha meios de poder obstar á sua vontade e +prepotencia, porque todas as avenidas estão occupadas pela sua clientella, e +assim põem e dispõem da fazenda e vida de suas victimas, sem receio. Obstar +portanto a que semelhantes contractos se celebrem em Portugal é, como tenho a +honra de dizer a v. ex.ª, uma das primeiras medidas a tomar.»</p> + +<p>O brigue <i>Trovador</i>, sahido do Porto, com destino a Pernambuco, além +de conduzir maior numero de passageiros do que os manifestados, foram +egualmente conduzidos de bordo para os engenhos, sem que a tão grande +irregularidade podesse obstar o consul.</p> + +<p>O bergantim portuguez <i>Alegre</i> entrado em dezembro de 1857 no porto +do rio de Janeiro, conduzia tambem colonos a mais do que os +manifestados.<span class="pagenum"><a id="pag_181" +name="pag_181">[181]</a></span></p> + +<p>Em março d'aquelle anno, entrava no porto do Rio do Janeiro, procedente de +Vianna do Castello, o patacho <i>Constante</i>, com um carregamento de 233 +colonos. D'este numero só 46 levavam passaporte!</p> + +<p>Dos navios brazileiros, a que já nos referimos, chamados <i>Palmyra</i>, +<i>Rufina</i>, <i>Indiana</i>, <i>Açoriana</i> e <i>Helena</i>, sahidos da +bahia do Rio de Janeiro, em 1857, com o fim de conduzirem colonos das nossas +ilhas para o imperio, só consta officialmente ter regressado um—o +<i>Helena</i>—: e, ainda assim, pela impossibilidade que havia em esconder +os colonos a bordo de qualquer navio fundeado no porto, onde grassava com +intensidade a febre amarella.</p> + +<p>Este navio conduzia 94 passageiros; mas o capitão só mencionára na relação +fornecida ao consulado, 33 individuos com passaporte. Os outros colonos +tinham sido apanhados a gancho!</p> + +<p>Eis como a respeito dos engajamentos clandestinos se expressa o nosso +consul residente em Pernambuco, em 21 de janeiro de 1858:</p> + +<p>«Tenho a honra de remetter a v. ex.ª o auto de investigação, a que procedi +n'este consulado contra o capitão do brigue <i>Trovador</i>, Antonio Theodoro +da Silva, aqui chegado em 28 de novembro com uma carregação de passageiros +engajados. Por esta occasião cumpre-me dizer a v. ex.ª, que o mesmo capitão +já em sua penultima viagem não satisfez as obrigações que lhe são impostas, +porque desembarcou seus passageiros de bordo para os engenhos sem que os +apresentasse n'este consulado. Que da mesma investigação e mais documentos +que a acompanham se vê a irregularidade dos passaportes, maxime os passados +no governo civil do Porto e illegalidade dos contractos. Que o escrivão Megre +Restier, reconheceu signaes e assignaturas de contractos feitos contra as +disposições da lei de 20 de julho de 1855. Que o navio conduziu maior numero +de passageiros<span class="pagenum"><a id="pag_182" +name="pag_182">[182]</a></span> do que comportava a sua tonelagem. Que a +relação dos passageiros dada pelo capitão á sua chegada a este porto, não +confere com a que foi remettida a este consulado pela intendencia da marinha +do porto. Que o capitão tendo conduzido 95 passageiros, apenas apresentou +n'este consulado 81, e que além do mau passadio exerceu sobre elles +violencias, e os trazia pessimamente accommodados, em razão do grande numero +e do grande carregamento de varias mercadorias.»</p> + +<p>A galera brazileira <i>Josephina</i>, entrada no porto do Rio de Janeiro, +em dezembro do mesmo anno, conduzira das ilhas 130 passageiros sem +passaporte; e se nos fiarmos no que dizem os jornaes d'esse tempo, o seu +numero seria elevado a 500!</p> + +<p>O patacho portuguez <i>Sousa & Companhia</i>, fundeou no porto do Rio +de Janeiro, em 6 de novembro do mesmo anno, com 259 colonos procedentes da +ilha de S. Miguel. De tão excessivo numero só 73 apresentaram passaporte!</p> + +<p>Em 24 de fevereiro de 1859, communicava o encarregado dos negocios +consulares no Rio, ao representante do governo portuguez:</p> + +<p>«Apresso-me em fazer sciente a v. ex.ª de que tendo o governo civil do +Porto officiado a este consulado geral, em data do 10 de janeiro do corrente +anno, que por denuncia alli recebida, participava que nas barcas portuguezas +<i>Duarte 4.º</i> e <i>Monteiro 2.º</i>, vinham alguns colonos que se +declaravam passageiros livres, talvez insinuados pelos caixas e capitães de +navios, para não serem compellidos a prestarem a fiança exigida pela carta de +lei de 20 de julho de 1855, pedindo por consequencia toda a fiscalisação na +chegada d'estas embarcações, procedendo ao respectivo auto, caso fosse +verdade, para lhe ser enviado e os culpados á acção da justiça.</p> + +<p>«Em consequencia do que, e para melhor poder averiguar<span +class="pagenum"><a id="pag_183" name="pag_183">[183]</a></span> este facto, +afim de dar o devido cumprimento á communicação que aquelle governo fez, +officiei logo ao chefe de policia, pedindo-lhe de dar as suas ordens aos +encarregados das visitas do porto, para que no acto da entrada intimassem aos +capitães d'aquellas duas embarcações, que não desembarcassem os passageiros +sem que eu me apresentasse a seu bordo.</p> + +<p>«Emquanto ao <i>Duarte 4.º</i>, este navio entrou a barra quando ainda os +referidos encarregados das visitas não haviam recebido do chefe de policia as +ordens a respeito, e por consequencia os passageiros desembarcaram a seu +salvo, e não foi possivel poder entrar nas precisas indagações.</p> + +<p>«Emquanto porém ao <i>Monteiro 2.º</i>, apresentei-me hontem a seu bordo e +de 110 passageiros que esta barca conduziu 36 são colonos, e segundo o +interrogatorio a que procedi, estes declararam que haviam sido +clandestinamente engajados, como v. ex.ª verá do auto de inquerito que junto +tenho a honra de enviar-lhe.</p> + +<p>«Á vista d'este depoimento intimei o capitão que nenhum d'estes colonos +desembarcasse até segunda ordem. Estes colonos foram arranjados no Porto para +o barão de Friburgo, e comquanto contra este barão nenhuma queixa aqui ainda +apparecesse de mau trato que porventura elle tenha dado aos que tem ao seu +serviço, todavia são obrigados a servirem nas suas fazendas por tres annos! É +muito tempo por insignificantes vantagens—30$000 réis no primeiro anno! Devo +dizer a v. ex.ª que poucos são os navios que deixam de trazer colonos para o +barão de Friburgo, tal qual estes vem, mas estava-me reservado o entrar +n'estas investigações para merecer talvez as iras do mesmo barão, que todavia +saberei desprezar, quando tenha a consciencia de ter cumprido com o meu +dever.»</p> + +<p>Pouco tempo depois, communicava ainda o mesmo consul, que o brigue +portuguez <i>Esperança</i>, de que era<span class="pagenum"><a id="pag_184" +name="pag_184">[184]</a></span> capitão José Pereira Rezende, manifestára +apenas 49 passageiros, quando a bordo conduzira 283 colonos!</p> + +<p>O patacho <i>Panoma</i>, capitão Manuel Pereira Dias, manifestára 68 em +logar de 372!</p> + +<p>«D'estas duas embarcações, humanamente fallando, diz o consul, os +interessados n'esta especulação assás lucrativa, excederam dos limites.»</p> + +<p>E accrescentava:</p> + +<p>«A bordo d'estes navios, além da inpossibilidade do arrolamento dos +passageiros, é difficil fazer-se um registro exacto d'elles, isto é, nomes, +naturalidades, filiação, idade, freguezias, etc.; por que juntam-se logo os +visitadores e engajadores, que agglomerados no navio difficultam um rigoroso +registo, o qual só na chancellaria d'este consulado é possivel fazer-se, como +effectivamente se faz, <i>d'aquelles passageiros que não são desviados</i> de +n'elle se apresentarem.»</p> + +<p>Com os navios do Porto militam iguaes circumstancias e acontece o mesmo +que com os das ilhas, porque todos trazem mais ou menos passageiros sem +passaporte e alguns clandestinamente engajados, como succedeu com a barca +<i>Monteiro 2.º</i>» etc.</p> + +<p>«D'estes engajamentos clandestinos feitos no Porto, os capitães muitas +vezes ignoram, porque dizem elles, os donos dos navios mettem-lhe a bordo os +engajados como passageiros que pagaram lá ou veem pagar cá as suas passagens, +combinando com o engajador para escrever com antecedencia á pessoa que n'esta +côrte deve recebel-os, a fim de que, logo que chegar o navio se apresente a +bordo, <i>obtendo para isso previamente licença da alfandega para o prompto +desembarque</i> dos referidos colonos, como effectivamente acontece.»!</p> + +<p>Se as clausulas expressas na lei de 20 de julho de 1855, não foram desde +logo despresadas, é certo que a fiscalisação rigorosa que ella mandava +exercer, veio dar grande curso á emigração clandestina.<span +class="pagenum"><a id="pag_185" name="pag_185">[185]</a></span></p> + +<p>Acontecera o mesmo com relação ao trafico da escravatura. A lei que +prohibira tal commercio, fôra por muitos annos despresada; e se a rigorosa +fiscalisação por parte do governo imperial, veio por fim a banir +completamente o horroroso trafico, não confiamos na boa vontade d'esse +governo com relação á repressão da emigração clandestina; porque o empenho +dos homens de estado do Brazil era banir de seus codigos o trafico da +escravatura, para demonstrar ás outras nações uma virilidade ficticia, e +apoiar clandestinamente outro commercio mais horroroso—o da <i>escravatura +branca</i>—; na persuasão de que sendo este exercido em toda a sua +plenitude, viria a preencher a lacuna aberta pela abolição do commercio +da—<i>escravatura preta</i>.</p> + +<p>Dissemos que a lei de 20 de julho de 1855, viera, por um lado, proteger os +emigrados portuguezes; porque, além de outras providencias salutares, +estabelecia a clausula de não serem válidos os contractos de locação de +serviços, que não fossem feitos perante as nossas auctoridades. Demonstrámos +tambem, que essa lei viera dar maior curso á emigração clandestina, porque +aos engajadores ou roceiros do Brazil não convinha que os colonos tivessem +como protectores os agentes do nosso governo, que são, para assim dizermos, +os procuradores de tão infeliz gente. E que o governo imperial protegia os +engajadores e os roceiros, que, mancommunados com os capitães e proprietarios +de navios, pretendiam illudir a vigilancia dos consules, ao fazerem o +desembarque dos colonos.</p> + +<p>As providencias pedidas pelo governo ás auctoridades administrativas do +continente e ilhas, exaradas na portaria de 27 de julho de 1857, com o fim de +evitar a emigração clandestina, não podiam sortir o effeito desejado, +especialmente nas ilhas, como se póde vêr pelo seguinte documento:</p> + +<p>«Representando o governador civil do districto da<span class="pagenum"><a +id="pag_186" name="pag_186">[186]</a></span> Horta, segundo me foi +communicado pelo ministerio do reino, que, apesar das providencias adoptadas +pelas auctoridades administrativas do archipelago dos Açores, e de se haver +dado conhecimento ao poder judicial, sempre que ha motivo, de alguma +infracção da lei de 20 de julho de 1855, ou dos regulamentos de policia em +vigor, assim mesmo é frequente ali a emigração clandestina para o Brazil, não +só por causa da tendencia dos habitantes para a dita emigração, mas tambem +por ser impossivel guardar o immenso litoral de todas as ilhas para obstar á +fuga, recommendo a vossa mercê que, dando cumprimento ás diversas circulares +que sobre este assumpto teem sido dirigidas a esse consulado, haja de +empregar a mais assidua vigilancia á chegada dos navios com colonos aos +portos do districto consular a seu cargo, averiguando os que vão sem +passaporte, o modo porque se evadiram, quem lhes deu coadjuvação para a fuga +ou quem os seduziu, tomando nota dos seus nomes, naturalidades, residencia, +filiação e empregados, e bem assim instaurar o competente inquerito e +processo consular, que deverá ser logo remettido ao governo civil a cujo +districto pertencer o porto de procedencia do navio, dando finalmente parte a +esta secretaria d'estado de tudo que houver praticado a similhante +respeito.»</p> + +<h2>XIII</h2> + +<p>Os proprios commandantes de navios portuguezes, fiados na protecção do +governo brazileiro, reagiam contra as nossas leis e os agentes da auctoridade +que se esforçavam para fazel-as cumprir.</p> + +<p>O documento que vamos transcrever, mostra até que ponto chegára o abuso da +emigração clandestina.</p> + +<p>Tem a data de 8 de novembro de 1859, e é firmado<span class="pagenum"><a +id="pag_187" name="pag_187">[187]</a></span> pelo conde de Thomar, nosso +ministro, então residente na côrte do Rio de Janeiro:</p> + +<p>«Acabo de chegar de bordo da barca <i>Nova Lima</i>, acompanhado do consul +geral e de um empregado do consulado. Para grande mal grande remedio. Assumi +uma grave responsabilidade: sujeito-me ás suas consequencias se o meu +procedimento não merecer a approvação de sua magestade.</p> + +<p>«Depois de interrogar um grande numero dos subditos de sua magestade a +bordo do dito navio, sem passaporte, embarcados clandestinamente em +differentes pontos da costa, e principalmente para o lado da villa do +nordeste da ilha de S. Miguel, convenci-me da culpabilidade do capitão e do +dono do navio, e julguei que não devendo lucupletar-se com prejuizo de +terceiro, e contra as determinações expressas da lei, ordenei que o consul +intimasse á minha ordem, como representante de sua magestade, para não deixar +desembarcar de bordo do seu navio, portuguez algum que não estivesse munido +do passaporte, e em nome de El-Rei declarei a todos que haviam sido +seduzidos, que estavam livres, e que nada deviam ao capitão.</p> + +<p>«Não faz v. ex.ª ideia da satisfação que mostraram os risonhos semblantes +d'estes infelizes, até ali abatidos e tristes.</p> + +<p>«Para não deixar esta pobre gente em desgraça, passei á secretaria da +marinha e requisitei um navio de guerra desarmado para os accommodar emquanto +não tomar o serviço que mais lhes agradar, debaixo da tutela do consul +geral.</p> + +<p>«Ha de fazer-se alguma despeza com o sustento de estes infelizes, durante +alguns dias, mas creio que se adoptou a unica medida, que será efficaz para +reprimir este trafico de escravatura branca.</p> + +<p>«Nenhum capitão, de futuro, ha de embarcar a bordo do seu navio colonos +sem passaporte, porque não ha<span class="pagenum"><a id="pag_188" +name="pag_188">[188]</a></span> de querer correr o risco da perda da +importancia da passagem e comedorias. Livramo-nos sobre tudo do nojento +espectaculo de ver os que foram nossos colonos a comprar temporariamente os +subditos de sua magestade em leilão, no navio, como se tem feito.</p> + +<p>«Espero as resoluções de sua magestade sobre este importantissimo +assumpto. Não dará este acontecimento logar a pensar se será conveniente ter +n'este paiz um navio de guerra nacional? Se aqui existisse um tal navio teria +dado logo á minha disposição meios de obrar com energia contra os que tão +escandalosamente transgridem as leis do paiz e as beneficas e humanitarias +ordens do governo de sua magestade, para reprimir tão infame trafico, etc.</p> + +<p>«Lancei em rosto ao capitão e mais empregados da barca a hediondez do seu +procedimento; em resposta só me disseram, que elles eram punidos pelo que a +outros tinha sido tolerado, tirando d'ahi grandes lucros.</p> + +<p>«No embarque de tanta gente houve seguramente ou connivencia, ou pelo +menos grande omissão das auctoridades administrativas de S. Miguel. É minha +opinião que o governo deve dar um grande exemplo; sem elle é muito de receiar +que continue o trafico para outras provincias, porque eu não posso estar em +toda a parte, e os consules por certo não terão força, nem quererão assumir +uma grande responsabilidade.»</p> + +<p>O que effectivamente acontecia, e o que não podia deixar de acontecer +mesmo com relação ao porto do Rio de Janeiro, onde a nobre energia do +illustre diplomata seria improficua, desde que os navios não fossem +portuguezes, o que elle proprio confessa ao governo de sua magestade, alguns +dias depois, no seguinte trecho de um documento que temos á vista:</p> + +<p>«Se os actos de energia se repetirem, como pretendo repetir com outros +navios que se esperam dos nossos mares insulanos, eu tenho algum receio de +que não só<span class="pagenum"><a id="pag_189" +name="pag_189">[189]</a></span> se venham a suscitar algumas reclamações por +parte do governo do Brazil, como de que a navegação que ora é feita das ilhas +dos Açores para o Brazil em navios portuguezes, venha a ser feita em navios +d'outras nações, contra os commandantes dos quaes toda a minha energia e boa +vontade para fazer executar a lei portugueza será inefficaz.»</p> + +<p>É preciso que se diga, para honra do nobre representante de sua magestade, +que a importancia das passagens dos colonos transportados na barca <i>Nova +Lima</i>, fôra garantida ao dono do navio, como se vê em seu officio dirigido +pouco depois ao nosso governo.</p> + +<h2>XIV</h2> + +<p>O governo brazileiro, atemorisado, ao que parece, com o acto de energia +praticado pelo nosso representante na côrte do Rio de Janeiro, tentou dar +todas as satisfações; mas não fez mais do que illudir-nos ainda uma vez.</p> + +<p>Assim é que devendo dar um exemplo de moralidade, contra a emigração +clandestina, condemnando o commandante ou proprietario da barca <i>Nova +Lima</i>, seguindo as disposições do regulamento brazileiro, de 1 de maio de +1858, que no seu artigo 7.º estipula que «o capitão ou mestre que trouxer até +20 passageiros mais do que determinam os artigos 1.º, 3.º e 4.º, soffrerá por +cada um a multa igual ao importe da passagem, se transportar mais de 20, a +multa será do dobro do importe da mesma passagem», devendo por consequencia o +capitão da <i>Nova Lima</i> pagar 56:858$ réis, moeda brazileira, só pagou +7:478$000 réis!</p> + +<p>Mas não ficou ainda aqui a questão. Deu-se pouco depois um grave conflicto +diplomatico, entre o nosso<span class="pagenum"><a id="pag_190" +name="pag_190">[190]</a></span> ministro e o governo brazileiro, por causa do +acto energico que já mencionámos.</p> + +<p>«Este meu procedimento, dizia pouco depois o conde de Thomar, com relação +aos colonos da <i>Nova Lima</i>, tão altamente elogiado pelos nossos +compatriotas, e que já mereceu a plena approvação de sua magestade, não podia +agradar, nem ao governo imperial, nem aos brazileiros interessados na +importação dos colonos.»</p> + +<p>Era, portanto, necessario, custasse o que custasse, evitar que as nossas +auctoridades residentes no imperio, communicassem com os navios, +immediatamente á sua chegada a qualquer porto brazileiro.</p> + +<p>D'isso se encarregou o governo imperial, como vamos demonstrar, com o fim +de provar ainda mais uma vez, que as auctoridades brazileiras, auxiliam +escandalosamente o horroroso trafico da escravatura branca:</p> + +<p>«Cumpre-me chamar a mais séria attenção de v. ex.ª sobre o objecto das +notas juntas, communicava o conde de Thomar ao governo, que mostram a +discussão que fui obrigado a sustentar, e ainda continuo sobre um objecto da +maior gravidade, pelas consequencias que no futuro póde ter.</p> + +<p>«Permitta-me v. ex.ª chamar á sua memoria tudo o que se passou a respeito +da barca <i>Nova Lima</i>. Como v. ex.ª verá das referidas notas, foi mister, +para conhecer bem o pensamento do governo imperial, levantar uma questão de +direito internacional e sobre elle exigir cathegoricas explicações.</p> + +<p>«Pódem afinal julgar-se satisfactorias quanto ao representante de S. M., +mas uma certa reserva quanto aos consules, e a limitação quanto aos +commandantes dos navios de guerra de Portugal induziram-me a augmentar as +minhas suspeitas. <i>A pretenção que teve o governo em querer fazer applicar +aos navios carregados com colonos os regulamentos da alfandega, para +assim<span class="pagenum"><a id="pag_191" name="pag_191">[191]</a></span> +impedir a entrada dos consules, antes das visitas de saude e policia, e da +alfandega</i>, tende a dar logar que, na fórma do § 2.º do artigo 145.º, do +regulamento de 22 de junho de 1836, transcripto na minha nota de 31 de +janeiro, os colonos portuguezes possam desembarcar depois da visita de saude, +<i>sem que os consules portuguezes possam constatar o numero de passageiros e +a legalidade do passaporte e titulo que os auctorisou a sahir de Portugal, e +ao mesmo tempo a legalidade ou illegalidade do procedimento dos capitães dos +navios portuguezes</i>.»</p> + +<p>Dera aso ás reclamações do conde de Thomar e ás quaes se refere no +documento que deixamos transcripto, as seguintes informações do ministerio da +fazenda do imperio:</p> + +<p>«Ao ministerio dos negocios estrangeiros, declarando á vista do parecer da +directoria geral das rendas, que <i>não é permittido ao ministro de S. M. F., +nem aos consules portuguezes, ou aos commandantes de navios da marinha de +guerra de Portugal</i>, não estando embarcados em escaler da marinha de +guerra do imperio, <i>o ingresso sem licença</i> da alfandega nos navios do +commercio portuguez, surtos nos portos do Brazil, <i>mesmo quando o julgarem +urgente e necessario para fiscalisar as leis do seu paiz ou ordens do seu +governo</i> (sic); mas a licença será sempre facilitada a esses funccionarios +da nação portugueza independente de minuciosas formalidades, e logo que +aquelle ministro o exija por si, por qualquer terceiro ou empregado +verbalmente, ou por escripto, ao inspector da alfandega ou quem suas vezes +fizer; ficando assim respondido o aviso do mencionado ministerio, de 28 de +novembro ultimo.»</p> + +<p>Uma das notas a que o nosso ministro se refere, e que passamos a +transcrever, illucidará mais a questão, do que as palavras que por ventura +escrevessemos.</p> + +<p>É esta a nota:<span class="pagenum"><a id="pag_192" +name="pag_192">[192]</a></span></p> + +<p>«O abaixo assignado, enviado extraordinario e ministro plenipotenciario de +sua magestade fidelissima, dirigiu a s. ex.ª o sr. João Lino Vieira Cansansão +de Sinimbú, ministro dos negocios estrangeiros de sua magestade o imperador, +a sua nota de 25 de novembro ultimo, rogando ser informado pelo governo +imperial dos casos em que a elle ministro, aos consules de Portugal e +commandantes de navios de guerra da sua nação, não embarcados em escaler da +marinha imperial, era vedado o ingresso nos navios do commercio portuguez, +surtos nos portos do Brazil, quando assim o julgassem urgente e necessario +para fiscalisar a execução das leis do seu paiz e as ordens do seu +governo.</p> + +<p>«Não respondeu, nem mesmo accusou até hoje a recepção da mencionada nota +s. ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros, mas assegurou em +conferencia verbal ter dado conhecimento do conteúdo da dita nota ao ministro +da fazenda, para ser habilitado a responder, o que faria logo que taes +esclarecimentos lhe fossem presentes.</p> + +<p>«Em taes circumstancias não pôde deixar de causar grande surpreza ao +abaixo assignado vêr devolvido pelo ministerio da fazenda, com a data de 27 +do dezembro ultimo, o objecto da supracitada sua nota, sendo uma tal +resolução publicada no <i>Jornal de Commercio</i>, parte official do +ministerio da fazenda de 13 do corrente, sem que na conformidade dos estylos, +usos e conveniencias diplomaticas, e sobretudo em virtude das intimas +relações de amisade que existem entre os dois governos, e das que tão +cordealmente teem sido mantidas entre o abaixo assignado e s. ex.ª o sr. +Sinimbú, se désse á legação de sua magestade fidelissima a menor noticia de +tal resolução. Quer o abaixo assignado lisongear-se de que nos extractos +publicados pelo <i>Jornal do Commercio</i> haja algum equivoco ou omissão, +porque não póde acreditar-se que as pretenções<span class="pagenum"><a +id="pag_193" name="pag_193">[193]</a></span> do governo imperial subam ao +ponto de querer que o direito internacional e das gentes, a que se soccorrem +os representantes do Brazil na Europa para sustentar as suas reclamações, +tenha de receber modificações ou alterações quando se trata da sua applicação +no imperio do Brazil. É tanto mais fundamentada esta esperança do abaixo +assignado, quanto nota uma grande differença entre a acto official, que +respeita ao ministro de sua magestade fidellissima, os consules de Portugal e +commandantes de navios de guerra da mesma nação, e o que respeita aos +ministros de outras nações alliadas.</p> + +<p>«Para obter pois a certeza a tal respeito, roga o abaixo assignado a s. +ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros, que tenha a bondade de +responder em termos cathegoricos á sua nota de 25 de novembro ultimo, e bem +assim que se digne mandar o texto da lei, decreto, aviso, de qualquer acto +emfim, em virtude do qual nem o ministro de sua magestade fidelissima, nem os +consules de Portugal e os commandantes dos navios de guerra da mesma nação +(não embarcados em escaler da marinha imperial) pódem ter ingresso nas +embarcações de commercio portuguezas, sem licença das alfandegas do +imperio.</p> + +<p>«Por fim pede o abaixo assignado a s. ex.ª o sr. ministro dos negocios +estrangeiros haja de mandar-lhe copia do officio dirigido á alfandega da +côrte em data de 27 do mez proximo passado sobre este grave e importante +assumpto» etc.</p> + +<p>O ministro dos negocios estrangeiros do imperio, respondendo ao +representante de Portugal, dizia que tendo dado o conteúdo da nota de 25 de +novembro ao seu collega da fazenda, a fim de sobre o assumpto, obter +informações indispensaveis, resultára que este ministro, segundo a pratica +adoptada de publicar todos os seus actos, incluira na parte official do dia +13 as referidas<span class="pagenum"><a id="pag_194" +name="pag_194">[194]</a></span> informações, que suprehenderam o conde de +Thomar. E declarava mais, com uma ingenuidade impropria de um ministro de +estado, que lhe parecia, que as informações do ministerio da fazenda, sobre +assumptos diplomaticos, publicadas na parte official do <i>Jornal do +Commercio, não deviam importar aos olhos da legação de s. m.</i> pelo simples +facto de serem informações!</p> + +<p>Dizia mais que não é permittido a pessoa alguma o ingresso em navio +mercante dentro do porto antes das visitas de saude e policia.</p> + +<p>«Essa prohibição continúa até verificar-se a visita da descarga, que é +quando se concede aos navios livre pratica.</p> + +<p>«Que verificada a visita de saude póde o ingresso a bordo ter logar, +<i>mas sómente</i> com licença da alfandega. Sem licença, só é elle +permittido nos casos de agua aberta repentina, etc: aos officiaes que, na +conformidade dos regulamentos de marinha, forem nos escaleres dos navios de +guerra nacionaes que estiverem de registo no porto; aos officiaes das +estações estrangeiras; e que nos referidos regulamentos <i>não consagram a +hypothese de virem os agentes diplomaticos a bordo dos navios mercantes das +suas respectivas nações</i>.»</p> + +<p>D'esta maneira procedia o <i>humanitario</i> governo do Brazil, com o fim +de evitar que o representante de Portugal oppozesse de futuro a sua energia +contra os traficantes da escravatura branca!</p> + +<p>Mas é preciso dizermos, que o nosso illustrado representante replicára +nobremente, derrubando com inexcedivel habilidade o castello de cartas tão +inconscientemente architectado pelo ministro brazileiro.</p> + +<p>Sentimos não poder dar na integra tão precioso documento, por ser muito +extenso. Comtudo, copiaremos alguns dos principaes trechos que mais illucidam +a questão:</p> + +<p>«Recebidas na secretaria dos negocios estrangeiros<span class="pagenum"><a +id="pag_195" name="pag_195">[195]</a></span> em 27 de dezembro do anno findo +as mencionadas informações, replica o conde de Thomar, não se dirigiu o sr. +ministro dos negocios estrangeiros ao abaixo assignado por julgar s. ex.ª +conveniente proceder a mais algumas averiguações, em ordem a dar uma +explicação tão completa como era para desejar.</p> + +<p> </p> + +<p>«Obtidos os esclarecimentos procedentes das novas investigações, julgou-se +habilitado s. ex.ª o sr. ministro a dar as explicações pedidas, e depois de +passar em revista a legislação do imperio sobre o ponto em questão, conclue +s. ex.ª que os respectivos regulamentos são omissos quanto aos agentes +diplomaticos, mas querendo mostrar quanto no imperio se attende aos +privilegios e prerogativas d'aquelles altos funccionarios, explica s. ex.ª a +verdadeira <i>permissão</i> que elles precisam ter da alfandega, para ir a +bordo dos navios do commercio das suas respectivas nações.</p> + +<p> </p> + +<p>«Antes de passar ávante, julga o abaixo assignado chamar á memoria de s. +ex.ª o pedido feito na sua nota de 25 de novembro; dizia o abaixo assignado o +seguinte: «Sendo, como é, a missão do abaixo assignado, manter e estreitar +cada vez mais as relações de amizade, que felizmente existem entre as duas +corôas e os dois povos, deseja e roga o abaixo assignado a s. ex.ª o sr. +ministro, que haja de dar-lhe a verdadeira significação do periodo da sua +nota supra transcripta, designando claramente quaes os casos em que o governo +imperial entende que o representante de sua magestade fidelissima e os +consules portuguezes, não estando embarcados em escaler da marinha de guerra +do imperio, ou no do commandante do navio da marinha de guerra de Portugal, +que possa estacionar nas aguas do imperio, são impedidos de ir a bordo dos +navios do commercio portuguezes, surtos nos portos do Brazil, sempre que +assim o julgarem<span class="pagenum"><a id="pag_196" +name="pag_196">[196]</a></span> urgente e necessario para fiscalisar as leis +do seu paiz ou as ordens do governo de S. M. F.»</p> + +<p>«Parece ao abaixo assignado, que nenhuma prova maior podia dar da sua +lealdade e do desejo que tem de evitar questões entre os dois governos, do +que a de rogar fossem designados pelo governo imperial os casos de +impedimento para o ingresso das auctoridades portuguezas, nos navios do +commercio da sua nação, surtos nos portos do Brazil.</p> + +<p>«Tambem parece ao abaixo assignado que não havia a menor necessidade da +publicação dos actos do ministerio da fazenda de 27 de dezembro ultimo, sobre +negocio diplomatico pendente, sendo que veio uma tal publicação de alguma +fórma confirmar suspeitas e receios de que as informações do conhecimento do +abaixo assignado não deixavam de ter fundamento.</p> + +<p>«Em opposição ás francas e leaes declarações de s. ex.ª o sr. ministro, +cujas rectas intenções o abaixo assignado se compraz de ter reconhecido em +todas as occasiões, constava ao abaixo assignado, que os empregados da +fiscalisação, <i>prottestaram que não se repetiriam procedimentos eguaes aos +que tiveram logar contra a barca «Nova Lima»</i>, porque tinham nas suas +attribuições meios de impedir que as auctoridades portuguezas fossem a bordo +verificar o numero e qualidade dos passageiros, conduzidos em navios do +commercio portuguezes.»</p> + +<p>Restava ás auctoridades portuguezas residentes no imperio, o poderem +fiscalisar os navios portuguezes chegados a qualquer porto brazileiro; mas o +governo do imperio calcava aos pés os tractados, e não tinha duvida em criar +uma situação anomala entre as duas nações, para que se não repetissem casos +identicos ao da <i>Nova Lima</i>. Assim podia muito bem exercer-se o +commercio da escravatura branca, que o governo do Brazil, sómente para +guardar apparencias, dizia combater<span class="pagenum"><a id="pag_197" +name="pag_197">[197]</a></span>. Não lhe valeu de nada a esperteza, devido +isso á nobre energia do conde de Thomar.</p> + +<p>Mas não fica ainda aqui a questão. O illustre diplomata estranhou que a +publicação dos actos officiaes, feita pelo ministerio da fazenda, +occupando-se singularmente das auctoridades portuguezas, não podia deixar de +ser aproveitada para rogar ao ministro dos negocios estrangeiros uma resposta +cathegorica sobre o ponto alludido; por quanto devia ter reconhecido quanto +era melindroso em assumptos internacionaes faltar áquellas conveniencias que +era mister guardar entre as nações e os governos alliados, em modo a não +praticar actos que podessem ser traduzidos em menor consideração e como +importando a não concessão de direitos ou prerogativas que a outros se +concediam.</p> + +<p>Cumpria-lhe mais dizer, que acceitava as explicações dadas com o fim de +justificar-se o ministro brazileiro da demora da resposta á nota de 25 de +novembro.</p> + +<p>«Pede comtudo o abaixo assignado licença a s. ex.ª para observar que a +segunda sua nota, com data de 14 do corrente, não teve por fim mostrar +surpresa pela falta de resposta á mencionada primeira sua nota de 25 de +novembro ultimo, mas sim mostrar surpreza, e muito grande de que achando-se +pendente uma reclamação diplomatica sobre um assumpto de direito +internacional, fossem publicados por outro ministerio, que não o dos negocios +estrangeiros, actos officiaes resolvendo esse assumpto internacional, sem que +ao menos pelo ministerio competente tal resolução fosse transmittida á +legação de S. M. F., d'onde partira a reclamação, como aliás exigem os +estylos, usos e conveniencias diplomaticas.»</p> + +<p>E accrescentava:</p> + +<p>«......... E se acontece que essa publicação é feita a cargo do presidente +do conselho, que representa o pensamento do gabinete, não deixará s. ex.ª o +sr. ministro<span class="pagenum"><a id="pag_198" +name="pag_198">[198]</a></span> dos negocios estrangeiros de convir que esta +circumstancia ganha e dá grande força para justificar a sorpreza que causou +ao abaixo assignado ver a alludida publicação antes de ser a resolução +devidamente participada á legação de S. M. F. pelo ministerio dos negocios +estrangeiros, conforme os usos, estylos e conveniencias diplomaticas +invocadas por s. ex.ª o sr. ministro.</p> + +<p>«Pareceu ao abaixo assignado que, feita tal publicação pelo ministerio a +cargo do presidente do conselho, o qual sobre o parecer da dictoria geral das +rendas declarava, que nem ao ministro de S. M. F., nem aos consules de +Portugal, nem aos commandantes de navios de guerra da mesma nação, não +estando embarcados em escaler da marinha de guerra do imperio, era permittido +o ingresso, sem licença da alfandega, nos navios de commercio portuguezes +surtos nos portos do Brazil, mesmo quando o julgarem urgente e neccessario +para fiscalisar as leis do seu paiz ou as ordens do seu governo; vendo além +d'isto que, para tornar effectiva aquella resolução, se expediram ordens á +alfandega, recommendando a bem das relações que existem entre o governo do +Brazil e os das diversas nações alliadas, que facilite aos ministros +estrangeiros n'esta côrte, sempre que a requisitarem, entrada nos navios de +commercio das suas nações, que tiverem chegado a este porto, independente de +minuciosas formalidades; pareceu, repete o abaixo assignado, que uma tal +publicação continha uma resolução definitiva; muito embora ficasse desde logo +convencido de que a proposição absoluta e nos termos em que estava concebida +era insustentavel e mesmo contraria aos regulamentos do imperio. Pareceu +outro tanto n'esta ultima parte s. ex.ª o sr. ministro dos negocios +estrangeiros, e por isso não se dando por satisfeito com a doutrina expendida +nos actos officiaes publicados pelo ministerio da fazenda,<span +class="pagenum"><a id="pag_199" name="pag_199">[199]</a></span> julgou não os +dever aproveitar nos rigorosos termos em que estavam concebidos, para +responder á nota da legação de sua magestade fidelissima de 25 de novembro do +anno proximo passado, tendo a bem proceder a outras investigações que o +habilitassem a dar a explicação pedida, tão completa como era para desejar; +mas pareceu ao mesmo tempo a s. ex.ª que os mencionados actos officiaes só +deviam ser considerados como informações, e traduzindo agora na sua nota o +resultado das novas investigações, como resolução difinitiva, dignou-se +transmittil-a á legação de sua magestade fidellissima.</p> + +<p>«Effectivamente em resultado das novas investigações a que se procedeu, +começa o sr. ministro dos negocios estrangeiros a dar as explicações pedidas, +e referindo a legislação do imperio, entende que, segundo as suas +disposições, não é só o ministro de sua magestade fidelissima, nem os +consules portuguezes, ou os commandantes de navios de guerra de Portugal, não +embarcados em escaler da marinha de guerra imperial, mas que todos os +ministros, todos os consules das nações alliadas e os commandantes dos navios +de guerra das mesmas nações, todo e qualquer individuo emfim, são vedados de +entrar nos navios mercantes surtos nos portos do Brazil antes da visita de +saude e da policia. Accrescenta o sr. ministro dos negocios estrangeiros que +essa prohibição de ingresso, antes da visita de saude, continúa até +verificar-se a visita de descarga, que é quando se concede aos navios a livre +pratica.</p> + +<p>«Antes do continuar no desenvolvimento do objecto principal em questão, +permitia v. ex.ª que o abaixo assignado chame a sua attenção sobre o que +dispõe o artigo 145.º § 2.º do regulamento de 22 de junho de 1836. Diz +assim:</p> + +<p>«Os passageiros porém poderão desembarcar logo que se conclua a visita da +saude, dirigindo-se em direitura<span class="pagenum"><a id="pag_200" +name="pag_200">[200]</a></span> á barca de vigia do ancoradouro, havendo-a, +ou ao ponto para isto destinado pelo inspector para serem examinados, ficando +n'elles retidos, quando tragam algum objecto sujeito a direitos.»</p> + +<p>«Affigura-se ao abaixo assignado, que a continuação da prohibição do +ingresso até á visita da descarga, depois da qual sómente se concede aos +navios a livre pratica, sómente é applicavel ao navio cujo carregamento +esteja sujeito a pagamento de direitos, e que possa dar objectos para +contrabando.</p> + +<p>«Não espera o abaixo assignado que os emigrantes portuguezes conduzidos a +bordo de um navio portuguez possam ser excluidos do favor concedido pelo +citado artigo aos passageiros em geral, e que em logar de serem considerados +como pessoas, sejam considerados como cousas ou mercadorias. Em tal caso +podendo, como não podem os emigrantes portuguezes deixar de ser considerados +como passageiros, tem o abaixo assignado fundados receios de que a exigencia +do governo imperial tenda a estabelecer um impedimento indirecto ao exercicio +da soberania da corôa de Portugal a bordo de um navio portuguez.</p> + +<p>«Segundo os regulamentos portuguezes nenhum capitão de navio portuguez +póde conduzir mais passageiros ou differentes d'aquelles que constarem da +relação que sob o sello real é remettida pelas respectivas auctoridades aos +consules de Portugal, e com ella deve necessariamente conferir outra relação +feita pelo capitão do navio, e o effectivo dos passageiros a bordo.</p> + +<p>«Se o consul de Portugal fôr impedido de ir a bordo (porque a licença é +facultativa) antes da visita da saude e da policia, e antes da descarga, os +passageiros, em virtude do § 2.º do artigo 145.º citado, verificada apenas a +visita de saude, podem desembarcar, ficando assim o consul de Portugal +impedido pelas resoluções do governo imperial de executar a lei de Portugal a +bordo<span class="pagenum"><a id="pag_201" name="pag_201">[201]</a></span> de +um navio portuguez, o qual não póde deixar de ser considerado territorio de +Portugal, porque, não obstante estar surto nos portos do imperio, sómente +fica sujeito á jurisdicção local no que respeita ás relações internas.</p> + +<p>«Não póde o abaixo assignado, em vista da boa intelligencia e intima +amizade que existe, e convem estreitar cada vez mais entre os dois governos e +entre os dois povos, presumir que se queira procurar um meio indirecto de +promover a emigração de Portugal clandestinamente, impedindo-se por tal forma +as auctoridades portuguezas de em tempo devido constatar a legalidade do +procedimento dos capitães de navio.</p> + +<p>«Não póde o abaixo assignado convencer-se de que um tal rigor tenha por +fim salvar das penas comminadas pelas leis do reino aos capitães subditos de +sua magestade fidelissima, que porventura as tenham infringido.</p> + +<p>«É tal a confiança que o abaixo assignado tem nas rectas intenções do +governo imperial, que está plenamente convencido que nenhum obstaculo +apparecerá da parte do mesmo governo e das auctoridades do imperio, que possa +justificar os receios do abaixo assignado.</p> + +<p>«Voltando á questão principal, reconhece tambem o sr. ministro dos +negocios estrangeiros na sua nota, que os regulamentos do imperio estabelecem +excepções para ter logar o ingresso nos navios mercantes sem licença da +alfandega, sendo muito singular que entre essas excepções se encontre a dos +commandantes dos navios de guerra, muito embora limitada a uma vez +sómente.</p> + +<p>«Appella o abaixo assignado para resolver, se, em vista do exposto na sua +nota, é sustentavel a generalidade em que se acha concebido o acto official +do ministerio da fazenda, com relação ás auctoridades portuguezas<span +class="pagenum"><a id="pag_202" name="pag_202">[202]</a></span> alli +mencionadas. Para mostrar ainda as grandes omissões que no sobredito acto se +conteem, e que s. ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros se propoz +supprimir na sua nota, bastaria attender ás seguintes palavras: «não é +permittido... o ingresso sem licença da alfandega nos navios de commercio +portuguez, surtos nos portos do Brazil.» Estas phrases dispensam toda a +demonstração.</p> + +<p>«Em objectos de tanta gravidade e que involvem assumptos de direito +internacional, parece ao abaixo assignado não deverem publicar-se por +extracto os actos officiaes. Quer o abaixo assignado persuadir-se que no +original a que se referem os mencionados extractos se encontrará o que não +podia por certo escapar á fina penetração do sr. presidente do conselho, +sentindo o abaixo assignado que s. ex.ª o sr. ministro dos negocios +estrangeiros não quizesse ter a bondade de mandar copias das instrucções ou +aviso expedido á alfandega, porque haveria assim occasião de verificar com +muita satisfação o fundamento ou persuasão e crença do abaixo assignado.</p> + +<p>«Reconhece o sr. ministro dos negocios estrangeiros que os regulamentos +citados por s. ex.ª são omissos quanto aos agentes diplomaticos. Não deseja o +abaixo assignado discutir com s. ex.ª sobre os motivos porque os mencionados +regulamentos foram omissos a tal respeito: não póde com tudo dispensar-se de +dizer que aos motivos excogitados por s. ex.ª se poderia oppor o de julgar-se +inadmissivel vedar o ingresso ao representante da nação a que pertence o +navio depois da visita de saude e da policia, não podendo ser-lhes +applicaveis, por summamente injuriosas e offensivas ao caracter d'esses +mesmos representantes junto de S. M. o imperador e do seu governo, as +precauções e medidas rigorosas, que os regulamentos estabelecem para segurar +os direitos do fisco e evitar os contrabandos.<span class="pagenum"><a +id="pag_203" name="pag_203">[203]</a></span></p> + +<p>«Foi tudo isto reconhecido e a tudo isto quiz attender o governo imperial, +quando, resolvendo comprehender os agentes diplomaticos na prohibição da ida +a bordo sem licença da alfandega, apesar da reconhecida omissão dos +regulamentos, suavisou a sua resolução declarando que a permissão da +alfandega quanto aos agentes diplomaticos não importa quebra de privilegio, +nem desattenção ás prerogativas de que gozam aquelles altos empregados, sendo +que uma similhante permissão, segundo entende o governo imperial, não é outra +cousa mais que a annunciação da intenção do agente diplomatico ir a bordo.</p> + +<p>«Se o abaixo assignado comprehende bem o pensamento da resolução do +governo imperial, o agente diplomatico tem de prevenir o inspector da +alfandega, sempre que quizer transportar-se a bordo de um navio impedido da +sua nação, pela demonstrada necessidade que tem o dito inspector de remover +ou fazer remover todos os embaraços que os agentes diplomaticos poderiam +encontrar da parte dos guardas da fiscalisação e das rondas do mar, e de lhes +serem prestadas todas as devidas attenções, em conformidade dos privilegios e +altas prerogativas de que gosam os agentes diplomaticos.</p> + +<p>«Se a exigencia do governo imperial tem este fim, felicita-se o abaixo +assignado de estar de accordo com a resolução agora annunciada, porque está +convencido de que o abaixo assignado nem agente algum diplomatico terão +jámais em vista concorrer para que os empregados do imperio deixem de cumprir +os seus deveres» etc.</p> + +<p>Como pódem observar os leitores, a lição dada n'este ponto pelo +representante de Portugal ao governo brazileiro, era habil e ao mesmo tempo +severa. Não merecia outra resposta a evasiva do inhabil diplomata +brazileiro.<span class="pagenum"><a id="pag_204" +name="pag_204">[204]</a></span></p> + +<h2>XV</h2> + +<p>O conde de Thomar terminava a sua nota reclamando, que a resolução +imperial communicada á legação de S. M. F., fosse publicada na parte official +do ministerio dos negocios estrangeiros, ou como o governo imperial julgasse +mais conveniente, <i>em termos geraes e comprehendendo os representantes e +mais auctoridades de todas as nações, a fim de supprir as ommissões, que +existiam na denominada informação do ministerio da fazenda, a má impressão +que causara tal publicação, attenta a singularidade da applicação</i>, etc; +não annuindo o governo brazileiro a que fosse publicada na parte official, +por isso que tal annuencia importava o desdouro do ministerio dos negocios +estrangeiros do imperio: prestar em publico as mãos á palmatória do nosso +esclarecido ministro; mas consentiu que o conde de Thomar mandasse fazer a +seguinte publicação pela legação portugueza, em qualquer jornal, o que elle +fez:</p> + +<p>«Pela legação de S. M. se faz saber a todas as auctoridades portuguezas, +residentes no imperio do Brazil, que, em vista das reclamações e discussão +entre a mesma legação e o governo imperial, se accordou que os <i>actos +officiaes</i> publicados pelo ministerio da fazenda com data de 27 de +dezembro do anno findo (1859) sobre a ida do ministro de S. M. F., dos +consules de Portugal e commandantes de navios de guerra da mesma nação, a +bordo dos navios de commercio portuguezes, surtos nos portos do Brazil, +sómente devem ser considerados, como <i>informações</i> do ministerio dos +negocios da fazenda ao ministerio dos negocios estrangeiros, e não como +resoluções difinitivas; devendo unicamente considerar-se como taes as que +pelo referido ministerio dos negocios estrangeiros foram communicadas á +legação de S. M. F.; as quaes serão publicadas<span class="pagenum"><a +id="pag_205" name="pag_205">[205]</a></span> pelo governo imperial na fórma +do estylo seguido pelo ministerio dos negocios estrangeiros do imperio, e de +que se dará opportunamente conhecimento em circular.» etc.</p> + +<p>O aviso que devia ser publicado pelo governo brazileiro, na parte +official, aviso obrigado pela energica conducta do conde de Thomar, bem como +as <i>resoluções definitivas</i>, que só podiam ser publicadas pelo governo +imperial, segundo confessa o respectivo ministro dos negocios estrangeiros, +<i>depois de apresentada textualmente tal pendencia ao corpo legislativo</i>, +dois mezes depois, <i>cuja publicação solemne e official lhe parecia não só +sufficiente, como a mais apropriada para preencher as vistas do conde de +Thomar</i>, são estas:</p> + +<p>«Á alfandega recommendando, a bem das boas relações (<i>sic</i>) que +existem entre o governo do Brazil e os das diversas nações alliadas, que +facilite aos ministros das mesmas nações residentes n'esta côrte, sempre que +o requisitarem por si ou por qualquer terceiro ou empregado, a entrada nos +navios de commercio de suas nações que tiverem chegado a este porto, +independente de minuciosas formalidades.»</p> + +<p>É facil de comprehender que a <i>informação</i>, que atraz deixamos +transcripta, é uma resolução definitiva. E se o não era, que segnificação +dariamos então ao aviso que ahi fica.</p> + +<p>Este novo systema de estylos diplomaticos, que nós cognominaremos—<i>á +brazileira</i>—, estariam ainda hoje em uso, se, em logar de um portuguez +illustre e corajoso, estivesse n'aquelle tempo encarregado dos negocios de +Portugal qualquer compadre diplomata!</p> + +<p>Transcrevamos agora as taes <i>resoluções definitivas</i>:</p> + +<p>«... A publicação alludida (as taes informações) occupou-se singularmente +das auctoridades portuguezas, assim respondia o ministro brazileiro, porque +foi sobre<span class="pagenum"><a id="pag_206" +name="pag_206">[206]</a></span> a questão suscitada por estas que se +requisitaram informações do ministerio da fazenda.</p> + +<p>«Se a duvida houvesse sido levantada collectivamente por todos os agentes +estrangeiros acreditados no imperio, de certo que não só as informações +mencionadas a todos comprehenderiam, como tambem seria a todos opportunamente +communicada a resolução, que tomou o governo imperial.»</p> + +<p>A resolução <i>definitiva</i> que o governo brazileiro tomára, de prohibir +que os agentes diplomaticos podessem ir a bordo dos navios de commercio +portuguezes, é assim explicada pelo ministro dos negocios estrangeiros:</p> + +<p>«... Se ao commandante da estação naval d'uma potencia amiga se permitte, +na hypothese figurada (depois das visitas da saude e policia, e antes da +descarga), mandar um official a bordo do navio mercante d'uma nação, é certo +que não só esta faculdade lhe é concedida, pela natureza das funcções +policiaes que tem sobre os navios mercantes da sua nacionalidade, como porque +de exercel-a não resulta o menor inconveniente.</p> + +<p>«Um official de marinha tem uniforme que indica a sua graduação, escaler +em que leva o distinctivo do seu pavilhão, e pois não ha receio de que se lhe +faltem ás attenções devidas. No mesmo caso porém, não está o agente +diplomatico, que, embarcado em um escaler mercante, e não levando comsigo o +distinctivo do alto cargo que occupa, expõe-se á contingencia de supportar +exames e investigações» etc.</p> + +<p>A questão era de continencias. Não havia, pois, motivo para +reclamações!</p> + +<p>O governo imperial, com as suas <i>resoluções definitivas</i>, prestava +culto á etiqueta: era cortezão!</p> + +<p>Aquellas <i>informações</i> prestadas pelo ministerio da fazenda ao dos +estrangeiros, bem como o aviso dirigido<span class="pagenum"><a id="pag_207" +name="pag_207">[207]</a></span> á alfandega, nada tinha com a emigração +clandestina! Era negocio de algumas descargas de artilheria, vivorio e outras +attenções devidas aos altos cargos dos agentes diplomaticos!</p> + +<h2>XVI</h2> + +<p>O procedimento do conde de Thomar, com relação á questão da barca <i>Nova +Lima</i>, fez com que as auctoridades brazileiras começassem a fazer executar +o regulamento do 1.º de maio de 1858, que era letra morta no imperio. Mas +durou pouco tempo o seu afan.</p> + +<p>Passado o tempo estrictamente necessario para que as nossas auctoridades +fossem illudidas, as cousas tornariam ao mesmo estado em que se achavam. +Comtudo, é preciso darmos noticia d'um acto justo, praticado pelas +auctoridades brazileiras, no illusorio interregno. Assim cumpriremos o dever +que nos impozemos de ser justo na apreciação de todos os factos que dizem +respeito ao assumpto que discutimos, e apresentaremos mais uma vez á vindicta +publica o miseravel procedimento dos traficantes.</p> + +<p>«Tendo em 17 de dezembro do anno findo (1859) o delegado da repartição das +terras publicas, endereçado o officio, que por cópia respeitosamente levo ás +mãos de v. ex.ª, communicava o nosso consul na Bahia ao ministro dos negocios +estrangeiros, em 12 de março de 1860, enviou-me tambem o regulamento de 1.º +de maio de 1858, exarado na gazeta denominada <i>Gazeta da Bahia</i>, e a +cujo officio respondi nos termos da cópia junta.</p> + +<p>«Na hypothese de que os agentes consulares brazileiros, residentes em +Portugal, inteirassem os capitães de navios que se destinam aos portos do +Brazil d'aquellas disposições, deixei de opportunamente occupar a attenção de +v. ex.ª com o assumpto do citado regulamento,<span class="pagenum"><a +id="pag_208" name="pag_208">[208]</a></span> em virtude do qual, <i>nada se +havia obrado n'esta provincia, senão até quasi ignorada a sua existencia</i> +(sic): occorre porém que, em 8 de fevereiro findo, (passados quasi dois annos +depois da sua publicação), se recolhera a este porto o brigue portuguez +<i>Athenas</i>, procedente da cidade do Porto, trazendo a seu bordo quinze +passageiros; fôra por este facto o navio visitado, segundo as disposições do +mesmo regulamento, e o respectivo capitão Antonio Ferreira Guimarães Freitas, +processado e condemnado por haver deixado de as cumprir.»</p> + +<p>Vamos transcrever o extracto d'este documento, para provarmos tambem, que +se não fôra a intervenção do nosso ministro, residente na côrte do imperio, a +respeito da importante questão que divulgamos, o regulamento brazileiro de +1.º de maio de 1858, jámais começaria a ter vigor.</p> + +<p>É preciso combinar as datas para serem mais justas as apreciações sobre o +que temos avançado. Devendo aquelle regulamento começar a vigorar logo +immediatamente á sua publicação, meados de 1858, só d'elle se lança mão em +fins de 1859, na questão <i>Nova Lima</i>, e ainda assim por temor do +energico diplomata conde de Thomar; e em fevereiro de 1860, na questão do +brigue portuguez <i>Athenas</i>.</p> + +<p>Devemos notar que a execução do referido regulamento era só contra os +navios portuguezes, não obstante a infracção dos commandantes de navios de +outras nacionalidades contra as leis que regulavam o assumpto.</p> + +<p>Mas o commandante do navio <i>Athenas</i> fôra obrigado a pagar a multa de +metade do importe das passagens (453$600 réis), porque sendo obrigado a dar a +cada colono o espaço de 30 palmos quadrados, apenas lhe dera 21; por não ter +dado camas ou macas aos passageiros; porque a altura da coberta do navio, +embora fosse de 9 palmos, este espaço era tomado pela bagagem que devia estar +no porão; porque as bandejas<span class="pagenum"><a id="pag_209" +name="pag_209">[209]</a></span> ou tinas pequenas de madeira em pessimo +estado não podiam ser consideradas utensilios da mesa; porque o capitão não +apresentára as relações determinadas pelos §§ 1.º e 2.º do artigo 25 do +citado regulamento; e, finalmente, porque as condições hygienicas não foram +convenientemente observadas.</p> + +<p>É um facto innegavel que as condições de transporte de colonos para o +Brazil, na actualidade, nada tem melhorado, não obstante os regulamentos +portuguezes e brazileiros; o que prova até á evidencia a falta de força dos +nossos governos em fazer cumprir as leis, e a connivencia do governo +brazileiro com os aliciadores, porque está provado que, se fossem tambem +cumpridas as suas leis, a emigração de portuguezes para o Brazil, já teria +deixado de existir.</p> + +<p>Mas é preciso concluir as informações sobre a questão do brigue +<i>Athenas</i>.</p> + +<p>O consul residente na Bahia, julgára excessivo o castigo inflingido ao +capitão, e o conde de Thomar expressa-se da seguinte fórma, em seu officio de +2 de abril de 1860, dirigido ao duque da Terceira:</p> + +<p>«Em officio n.º 3 de 9 de março findo, participou o consul na Bahia, que +em 8 de fevereiro chegára áquelle porto o brigue portuguez <i>Athenas</i>, +procedente da cidade do Porto, trazendo a seu bordo 15 passageiros, e que +sendo competentemente visitado, e verificando-se que estavam por muitos +motivos infringidas as disposições do regulamento do 1.º do maio de 1858, +fôra o capitão do referido brigue, Antonio Ferreira Guimarães Freitas, +condemnado pela respectiva commissão a pagar metade do valor da passagem de +cada um emigrante, regulando cada um a 60$480 réis, moeda brazileira.</p> + +<p>«Accrescenta o consul, que aconselhára ao mencionado capitão e +consignatario de por si recorrerem á presidencia da provincia, reservando-se +para com acerto<span class="pagenum"><a id="pag_210" +name="pag_210">[210]</a></span> obrar n'este assumpto, segundo as minhas +instrucções, que solicitava.</p> + +<p>«Tendo eu a inteira convicção de que todo o rigor que as auctoridades +brazileiras mostram contra os capitães de navios portuguezes pelo facto de +infringirem os regulamentos sobre transporte de colonos, só póde dar em +resultado <i>mostrarem-se mais humanos aquelles capitães e ser tambem mais +difficil e menor o numero dos nossos compatriotas, que pela mais completa +illusão, correm ao matadouro</i>, julguei dever responder ao consul da Bahia +que, visto os legaes fundamentos da condemnação, não interpozesse a sua +authoridade e bons officios, e que declarasse sómente ao capitão e +consignatario, que poderão usar de per si dos recursos legaes, não devendo +tambem contar com a protecção da legação de s. m., visto que pelo facto de +conduzir compatriotas seus contra as disposições da lei se tornavam indignos +de tal protecção.</p> + +<p>«Devo prevenir a v. ex.ª de que é esta a minha resolução a respeito de +todos os capitães que se acharem em eguaes circumstancias. Não póde realmente +dar-se protecção a capitães de navios portuguezes, <i>que se tornam assim os +verdugos da humanidade, e ainda dos seus proprios concidadãos</i>.»</p> + +<p>São desnecessarios os commentarios a documentos como este tão cheios de +dignidade. Elles por si dizem tudo.</p> + +<p>O conde de Thomar devia ser altamente guerreado, porque ao governo +brazileiro não convinha alli tão grande difficuldade á emigração clandestina. +E effectivamente, os seus desgostos manifestados em mais de um documento, que +em seguida examinaremos, mostram até certo ponto, que podiam mais do que o +seu nobre intento de ser util á patria. E não vão taxar-nos de +contradictorios; porque deve comprehender-se que motivo algum ha que possa +demover um patriota illustre<span class="pagenum"><a id="pag_211" +name="pag_211">[211]</a></span> a deixar de ser util ao seu paiz. Mas que +faria o nosso ministro residente no imperio, desacompanhado das auctoridades, +que só elogiavam o seu procedimento, descurando de applicar ao mal o +verdadeiro antidoto, que esse ministro, como homem competentissimo, +aconselhára para debelar a emigração clandestina, molestia chronica que tanto +ha arruinado a patria?</p> + +<p>Havemos de provar se o não está já, que as auctoridades do nosso paiz, +pódem, mais ou menos, ser tambem accusadas de negligencia e conniventes com +os aliciadores. Ora, contra tão reprovado procedimento, era completamente +inutil a boa vontade de um só homem.</p> + +<h2>XVII</h2> + +<p>Os governos do nosso paiz, pódem, mais ou menos, ser accusados de +negligencia, com respeito ao assumpto que tanto nos interessa.</p> + +<p>Quando o nosso ministro residente no imperio tratava, desde 1859 a 1860, +de combater, por todos os meios ao seu alcance, a emigração clandestina, +usando dos actos energicos de que temos dado noticia aos leitores, dirigia +elle o seguinte officio ao nosso ministro dos negocios estrangeiros, em data +de 23 de junho de 1860:</p> + +<p>«Tenho a honra de passar ás mãos de v. ex.ª o relatorio da repartição dos +negocios do imperio, apresentado ás camaras na presente sessão +legislativa.</p> + +<p>«É um interesssante documento, que habilita o leitor a conhecer o estado +de organisação d'este paiz. Chamo sobretudo a attenção de v. ex.ª sobre o +artigo <i>Emigração</i>, pag. 56; n'este artigo encontrará v. ex.ª a +estatistica que mostra o numero total de emigrantes entrados no Brazil, +durante o anno passado.<span class="pagenum"><a id="pag_212" +name="pag_212">[212]</a></span></p> + +<p>«Eleva-se o dito numero a 19:675<a name="tex2html44" +href="#foot1548"><sup>[44]</sup></a>, sendo 9:342 portuguezes; 3:165 +allemães; e 7:188 de diversas nacionalidades.</p> + +<p>«Julgo desnecessario repetir agora as muitas considerações que por vezes +tenho feito sobre este importante objecto.</p> + +<p>«<i>Devo persuadir-me de que tenho encarado mal esta questão</i>, porque o +ministro do imperio se <i>julga auctorisado</i> a communicar ás camaras +legislativas, <i>que o governo portuguez já não cria embaraços á +emigração</i>, como ainda ha pouco acontecera, <i>levado por informações +inexactas, que felizmente se acham hoje desvanecidas</i>.</p> + +<p>«Não comprehendo realmente este modo de avaliar a questão; por um lado +está em opposição com tudo o que me tem sido dirigido pela secretaria dos +negocios estrangeiros, hoje a cargo de v. ex.ª; por outro lado parece +incomprehensivel que o ministro do imperio faça referencia a factos do +governo portuguez, não existindo similhantes factos.</p> + +<p>«Quaes foram as informações inexactas, que felizmente se acham hoje +desvanecidas, deixando por isso o governo portuguez de crear embaraços á +emigração?</p> + +<p>«Convirá v. ex.ª que para manter a minha dignidade careço de ser +devidamente informado a tal respeito.»</p> + +<p>A questão era muito importante para deixar de ter o seguinte desmentido +official, que não utilisaria muito ao governo brazileiro, já porque elle era +useiro e vezeiro em trapassas similhantes, já porque effectivamente o governo +portuguez era muito amigo de palavras e verdadeiro inimigo de obras.<span +class="pagenum"><a id="pag_213" name="pag_213">[213]</a></span></p> + +<p>O desmentido é este, e tem a data de 1 de agosto de 1860:</p> + +<p>«Li com a necessaria attenção o que v. ex.ª refere no seu officio de 23 de +junho ultimo, ácerca da asserção feita pelo ministro do imperio, no relatorio +da sua repartição, em que diz que o governo portuguez já não cria embaraços á +emigração, como ha pouco acontecera, levado por informações inexactas que +elle pretende acharem-se hoje desvanecidas.</p> + +<p>«Não me surprehendeu menos do que a v. ex.ª este modo de avaliar os +factos, tanto mais que não consta n'esta secretaria d'estado que por ordem do +governo se tenha facilitado a emigração, mas antes se cuida em evital-a pelos +meios possiveis» etc., etc.</p> + +<p>E concluia:</p> + +<p>«Á vista pois de tudo isto já v. ex.ª póde vêr que o ministro foi inexacto +no que expendeu no seu relatorio com referencia ao assumpto.»</p> + +<p>Parece, com tudo, que havia alguem que, communicando-se com o governo +portuguez, pretendia, n'essas communicações, taxar de inexacto o conde de +Thomar.</p> + +<p>Vejamos se podemos descobrir o culpado.</p> + +<p>Em 12 de junho de 1860, officiava o nosso ministro dos negocios +estrangeiros ao representante de Portugal na côrte do imperio, pedindo +reclamasse do governo brazileiro a punição do commandante da galera +<i>Harmonia</i>, por ter recebido clandestinamente a seu bordo, colonos para +o Brazil, nas aguas de S. Miguel.</p> + +<p>O conde de Thomar fizera a reclamação immediatamente, e o ministro dos +negocios estrangeiros do imperio respondera em 17 de junho do referido anno, +promettendo providencias que não dera.</p> + +<p>Mas a nossa questão é conhecer um dos culpados de connivencia na emigração +clandestina.<span class="pagenum"><a id="pag_214" +name="pag_214">[214]</a></span></p> + +<p>«Pareceu-me na verdade extraordinario que, tendo eu recebido ordem de S. +M. para reclamar contra o procedimento do capitão da sobredita galera +brazileira <i>Harmonia</i>, referia o conde de Thomar, pelo facto de se ter +recusado a dar entrada no porto de Ponta Delgada, e a manifestar se na +conformidade dos regulamentos fiscaes e da policia, com o premeditado fim de +embarcar, como embarcou clandestinadamente colonos, <i>recebesse eu do consul +geral a informação de que os passageiros transportadas na dita galera, em +numero de 209 pessoas de ambos os sexos, vinham incluidas em 128 +passaportes</i>, passados pelos governadores civis das ilhas do Faial e S. +Miguel» etc.</p> + +<p>Parece que transcrevemos já o sufficiente para desconfiarmos da lisura do +nosso consul geral; mas continuemos:</p> + +<p>«Convença-se v. ex.ª, acerescentava o nobre diplomata, de que n'este +negocio de transporte de colonos para o Brazil, <i>tudo conspira contra o +pensamento do governo e da legação de S. M. n'esta côrte</i>. Os interesses +de varias repartições e empregados publicos, os interesses individuaes de +portuguezes e brazileiros, e por, fim o interesse do governo d'este imperio, +<i>teem grande força para deixar continuar e até proteger um trafico que se +vai mostrando altamente nocivo ás vidas dos subditos de S. M. e aos +interesses da nossa patria</i>.»</p> + +<p>Teria o nosso consul algum interesse menos honroso em auxiliar o trafico +infame?</p> + +<p>Falle mais este documento da mesma origem d'aquelle outro que acabamos de +transcrever:</p> + +<p>«Em additamento ao meu officio de 24 do mez proximo passado, cumpre-me +levar á presença de v. ex.ª a resposta dada pelo consul geral ao que lhe foi +ordenado em data de 17 do proximo passado, com o fim de explicar a discordia +notavel entre as suas informações a respeito dos passageiros transportados na +galera brazileira<span class="pagenum"><a id="pag_215" +name="pag_215">[215]</a></span> <i>Harmonia</i>, e as que tinham chegado a +esta legação por parte do governo com ordem de reclamar contra o capitão da +sobredita galera pelo escandaloso procedimento de sobre a véla embarcar +clandestinamente passageiros em frente de Ponta Delgada, e não obedecer ás +intimações que pela auctoridade competente lhe haviam sido feitas.</p> + +<p>«Como sempre previ, o consul geral não devia encontrar a menor +difficuldade em munir-se de documentos officiaes para provar a exactidão das +suas informações e para ficarem tidas como inexactas as que pelo governo de +S. M. foram mandadas a esta legação, e que serviram de fundamento á +reclamação perante o governo imperial contra o capitão da galera +<i>Harmonia</i>.</p> + +<p>«Em todo este negocio vigoram os motivos que tenho expendido em muitos dos +meus anteriores officios, e que se reduzem a estarem os interesses de todos +contra o pensamento do governo e da legação de S. M.</p> + +<p>«Do officio do consul geral, junto, se deprehendem muitos factos que não +escaparão á fina penetração de v. ex.ª, para entrar, se quizer, no fundo da +questão da colonisação» etc.</p> + +<p>O facto dos escandalos praticados pelo governo brazileiro, a respeito da +barca <i>Harmonia</i>, foi, sem duvida, a principal razão da sua retirada do +imperio, em fins do anno de 1860.</p> + +<p>«Verifica-se tudo o que eu tinha previsto nos meus antecedentes officios, +communicava o conde em 6 de setembro de 1860. <i>Vão de accordo as respostas +do governo imperial com as que me foram dadas pelo consul geral</i>, etc.</p> + +<p>«É negocio este, em que me parece desnecessario insistir, a não me +habilitar o governo de sua magestade» etc. etc.</p> + +<p>Foram estas as ultimas palavras proferidas pelo conde de Thomar, na +qualidade de nosso representante no<span class="pagenum"><a id="pag_216" +name="pag_216">[216]</a></span> Brazil, a respeito do assumpto +importantissimo da emigração; porque, escusado será dizer, que o governo de +sua magestade, jámais habilitaria o seu delegado a pôr termo ao commercio +horroroso da escravatura branca.</p> + +<p>Seria falta de energia ou connivencia?</p> + +<p>Eis ahi está uma pergunta a que não será difficil responder.</p> + +<h2>XVIII</h2> + +<p>Em paiz algum se tem descurado mais do que no nosso o importantissimo +assumpto que nos occupa. Com tudo parcerá áquelles que olham superficialmente +para estas cousas, que os nossos estadistas já tem feito muito, e que se os +remedios applicados não tem produzido o effeito desejado, não é por culpa +d'aquelles a quem compete remediar o mal.</p> + +<p>Effectivamente, ninguem ha com maiores tendencias para fazer projectos, ás +vezes bem deliniados; mas tambem não haverá, de certo, quem mais depressa se +esqueça d'elles.</p> + +<p>Com respeito á emigração não se póde dizer que os nossos governos se +tenham esquecido. Unicamente podemos accusal-os de fallarem muito, +demasiadamente, sobre o assumpto... e de não terem feito nada, absolutamente +nada, para evitar o mal que nos prostra.</p> + +<p>Vem já de longe este afan de se querer regular a emigração para o +Brazil.</p> + +<p>A lei de 20 de julho de 1855 estabelece medidas salutares a favor dos +emigrados; mas para que as disposições d'essa lei possam ser effectivas, +falta-lhe o respectivo regulamento. Fallou-se muito da necessidade de +organisar esse regulamento, em vista das instantes reclamações dos nossos +consules residentes no imperio, que quasi diariamente se queixavam dos +horrores da<span class="pagenum"><a id="pag_217" +name="pag_217">[217]</a></span> emigração. Mas os nossos governos ouviam as +queixas, lacrimosos, e respondiam com bonitas phrases de consolação, que já +mais remediariam tão grande mal... mal que, cada dia que passa, augmenta de +intensidade, e já nos assombra hoje. Essas queixas tem-se repetido desde ha +20 annos, o que equivale a dizer que os homens d'estado d'este bello paiz tem +ensopado muitos lenços e escripto phrases recheadas de sentimento, +verdadeiramente liberaes, phrases que consolam quem as lê, mas que nada +significam para quem estuda seriamente esta questão.</p> + +<p>Desde a sua instalação na côrte do Rio de Janeiro instára o conde de +Thomar pela conveniencia de se formular um tratado ou regulamento da +emigração; e formulou-o. Esse projecto foi incumbido ao conselheiro da +legação, o dr. Antonio José Coelho Louzada, ao qual já em outro logar nos +referimos.</p> + +<p>Eis o que o benemerito representante de Portugal na côrte do Rio de +Janeiro, communicava ao nosso governo, a tal respeito:</p> + +<p>«É possivel que o governo de sua magestade, não classifique de perfeito +aquelle trabalho, e que obra humana póde ser classificada assim? Mas asseguro +a v. ex.ª que o conselheiro Lousada, por um lado se conformou com os +verdadeiros principios reguladores de tal assumpto nos paizes mais +civilisados, por outro lado aproveitou a especialidade da posição dos dois +paizes e dos seus subditos, não deixando jámais de ter em vista as lições da +experiencia diaria, a qual, na minha opinião, cumpre principalmente ter em +vista n'este delicado objecto. Assim é minha opinião tambem que o conselheiro +Lousada é digno dos maiores louvores pela coadjuvação que me prestou, e que +muito ha de concorrer para facilitar as ultimas resoluções do governo de sua +magestade, as quaes eu sollicito com a maior urgencia.»<span +class="pagenum"><a id="pag_218" name="pag_218">[218]</a></span></p> + +<p>O projecto subio á approvação do governo, mas, n'esses intrincados +labyrinthos chamados secretarias d'estado, foi completamente retalhado pelos +inexperientes conselheiros-amanuenses, naturalmente de accordo com a +diplomacia, porque a diplomacia é sempre consultada n'estes casos; e o que é +para admirar, é que não obstante o trabalho do dr. Lousada sahir desmantelado +dos cadinhos officiaes, o governo brazileiro ou os homens d'estado que então +dirigiam os destinos do imperio, com aquelle tacto politico-economico que +todos lhe conhecemos, ainda acharam extemporaneas as diligencias empregadas +pelo conde do Thomar, e quiçá do governo portuguez, a respeito do regulamento +em questão!</p> + +<p>E se não vejamos.</p> + +<h2>XIX</h2> + +<p>São passados tres annos (1860 a 1863) depois das diligencias do conde de +Thomar, e o sr. José de Vasconcellos e Sousa que substituiu aquelle diplomata +recebia plenos poderes do governo portuguez, para entrar em negociações com o +governo do Brazil, afim de se regular de vez a emigração.</p> + +<p>O resultado d'essas negociações são assim explicadas pelo sr. Vasconcellos +e Sousa:</p> + +<p>«A disposição do governo imperial para com o de sua magestade, para com +Portugal, e ousarei dizer para comigo individualmente, não póde ser mais +favoravel. Isto, não obstante, não prescinde o mesmo governo de attender +sériamento com affinco ao que considera necessidade imperiosa, satisfazendo +ao mesmo tempo á opinião manifestada, já do proprio partido, já da opposição; +e insta comigo, por meio de todos os seus membros, para que seja regulada, +quanto antes, e primeiro que tudo, a questão da emigração e o modo d'ella, +de<span class="pagenum"><a id="pag_219" name="pag_219">[219]</a></span> tal +sorte que cesse de ser duvida, por demais assustadora para o Brazil, a vinda +de gente portugueza para este imperio» etc.</p> + +<p>O officio datado do 8 de janeiro de 1863, expedido pelo ministro dos +negocios estrangeiros, ao representante de Portugal no Brazil, tirava todas +as duvidas, que por ventura houvesse contra o nosso governo, de pretender +demorar a discussão de um assumpto tão importante para os dois paizes.</p> + +<p>Não tinha, pois, de que se queixar o governo do Brazil. O projecto de +convenção ia ser-lhe presente pelo nosso delegado.</p> + +<p>O sr. José de Vasconcellos communicava pouco depois ao nosso governo:</p> + +<p>«Tenho a honra de passar ás mãos de v. ex.ª a inclusa copia da nota +confidencial, que n'esta data entreguei em mão propria ao marquez de +Abrantes, ministro e secretario d'estado dos negocios estrangeiros de S. M. o +imperador do Brazil, acompanhada do projecto da convenção dos colonos, +convidando-o para a respectiva discussão e ajuste definitivo, etc.</p> + +<p>«Das mãos do marquez de Abrantes tem de passar o dito projecto ás mãos do +ministro da agricultura e da justiça, e sómente depois de ouvidas e accordes +as suas opiniões sobre elle, entraremos, o dito marquez e eu na respectiva +discussão.</p> + +<p>«Depois de um longo preambulo, declarou-me que o resultado do exame da +materia o tinha convencido de que antes do revogada certa lei de colonisação +(a de 11 de outubro de 1837), era impossivel negociar uma convenção de +emigração, a cujos principios de liberdade, e mesmo de rigorosa justiça, se +oppunham formalmente as disposições da dita lei, etc.</p> + +<p>«A final, e depois, de muito boas palavras, affirmou-me que o governo +imperial não havia mudado de principios nem de intenções, que havia de fazer +a convenção,<span class="pagenum"><a id="pag_220" +name="pag_220">[220]</a></span> e que o seu primeiro cuidado seria apresentar +ás camaras, em janeiro proximo futuro, um projecto de lei que revogasse a que +fica citada, e habilitasse o governo a entrar n'uma negociação franca de +emigração, garantida pela nova lei.</p> + +<p>«Assim o espero devéras, mas não encubro a v. ex.ª o meu desapontamento +grandissimo, e sério desgosto, tanto mais natural e profundamente sentido, +quanto, em minha consciencia o digo, e v. ex.ª não ignora, que fiz o que era +humanamente possivel para evitar similhante demora! Digne-se v. ex.ª notar, +que o unico embaraço para a emigração desde já, é justamente a citada lei de +1837, sobre a qual eu chamei sempre a attenção do marquez de Abrantes, e a do +sr. ministro da agricultura e commercio, todas as vezes que fallamos em +colonisação, que não tem sido poucas.</p> + +<p>«<i>Em tudo isto ha uma prova notavel de boa fé</i>, e de desejo sincero +de estabelecer a emigração em base solida, sustentada em principios que não +possam ser destruidos com as peias das leis <i>barbaras</i> de outra +epocha.»<a name="tex2html45" href="#foot1574"><sup>[45]</sup></a></p> + +<p>Parece-nos demasiadamente ingenua a boa fé do sr. José de Vasconcellos e +Sousa, com respeito ao assumpto, se attendermos ao seguinte trecho do seu +citado officio:</p> + +<p>«... Disse-me mais, que assegurasse a v. ex.ª que, tanto esta convenção +(de emigração), como a de propriedade litteraria, esta dependente d'aquella, +seriam concluidas logo depois da proxima reunião do corpo legislativo (em +1864).»</p> + +<p>Perguntamos porque razão estava uma dependente da outra? Que tinha que vêr +a convenção litteraria com a que regulava a emigração de colonos portuguezes +para o Brazil? Acaso a lei referida, de 1837, serviria tambem de obstaculo á +conclusão d'este tratado?<span class="pagenum"><a id="pag_221" +name="pag_221">[221]</a></span></p> + +<p>Não. Eram tudo evasivas, evasivas que não podiam ser tachadas de +<i>notavel boa fé e de desejo sincero</i> em estabelecer os principios do +direito de propriedade litteraria, de que temos sido e continuaremos a ser +esbulhados.</p> + +<h2>XX</h2> + +<p>Escusado será dizer que no anno de 1864 não foi presente ao corpo +legislativo brazileiro, como se havia promettido, o projecto de lei que, +segundo a opinião dos ministros do imperio, devia derrogar essa outra de +1837, que impedia a negociação de uma convenção sobre emigrados, <i>a cujos +principios de liberdade, e mesmo de rigorosa justiça, se oppunham formalmente +as disposições de tão barbara lei</i>!</p> + +<p>E o que é mais notavel, é que que essa lei estupida e deshumana, +reconhecida como tal pelos primeiros homens d'estado do Brazil, ainda não foi +derrogada. É ainda a lei que regula o trabalho dos pobres emigrados alli +residentes!</p> + +<p>A eliminação da lei de 11 de outubro de 1837 organisada por assim dizermos +debaixo da influencia de legisladores que mais pensavam na continuação do +horroso trafico da escravatura africana, escapou aos legisladores de 1871, +que decretavam livre o ventre da mulher escrava!</p> + +<p>E o que é mais, é que estamos em 1878, e as leis de que fallamos +continuam, uma, fazendo do preto um cidadão, e a outra fazendo do branco um +escravo!</p> + +<p>É assim o mundo; e o Brazil, especialmente, ainda nos apresenta d'estes +phenomenos!</p> + +<p>Dar-se-ha caso que os economistas brazileiros conservem ainda a lei de +1837 com o fim de evitar que se discuta o tratado de emigração proposto por +Portugal<span class="pagenum"><a id="pag_222" name="pag_222">[222]</a></span> +em 1863, e a tão fallada convenção da propriedade litteraria?!</p> + +<p>Se assim é, como o demonstra a irrefutavel logica dos factos que +analysamos, não digam que o Brazil protege a emigração.</p> + +<p>Mas que tem que ver Portugal com a teimosia dos estadistas brazileiros? +</p> + +<p>Será necessario pedir licença ao Brazil para publicarmos qualquer lei +tendente a evitar o horroroso commercio da escravatura branca?</p> + +<p>Parece que sim, porque o governo imperial não ficou satisfeito com a +publicação da lei de 1855, e, talvez que por essa circumstancia, o governo +portuguez, para não descontentar mais o governo brasileiro, descurou +completamente a approvação d'um regulamento tão indespensavel como o exigido +no artigo 12.º.</p> + +<p>Por outra fórma se não póde deixar de considerar o seu procedimento, se +attendermos ao addiamento da questão, censurado pela imprensa em meados de +1872 e immediatamente considerada pelo governo, para guardar apparencias; +porque foi outra vez despresada até fins de 1874, em que de novo fôra +lembrada, para tornar a ser esquecida, como é facil de prever, se attendermos +a que as medidas propostas na legislatura de 1876, pelos membros da commissão +nomeada em 1873, não tiveram echo no parlamento, preterindo-se a discussão +d'este assumpto gravissimo por outros de uma importancia secundaria, e quem +sabe mesmo se essencialmente prejudiciaes aos interesses do paiz.<span +class="pagenum"><a id="pag_223" name="pag_223">[223]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO VI</h1> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0060001">Ainda as questões do Pará. Os pasquins de cá e os +pasquins de lá. As «Farpas» e a «Tribuna». «Lo Spirito Folletto» e o «Punch». +Desforços da «Tribuna». A popularidade da «Tribuna». Pasquins +brazileiros.</a></div> + +<h2>I</h2> + +<p>Os acontecimentos do Pará, em 1874, a que como já dissemos, tambem se +refere o auctor do livro o <i>Brazil</i>, obriga-nos a entrar de novo no +assumpto.</p> + +<p>Mas antes de o profundarmos cumpre-nos declarar que se não publicámos, +como prometteramos, o segundo livro annunciado no final das <i>Questões do +Pará</i>, foi por que tendo nós pedido documentos que julgamos indispensaveis +para fazer a historia d'aquella horrorosa tragedia, a um amigo nosso +residente no Pará, e tendo elle accedido do melhor grado ao convite, o +portador a quem os confiára, chegado que foi a Lisboa, entendeu dever +exonerar-se do compromisso que voluntariamente se impozéra, ou, o que é mais +extranhavel, subtrahio-os!</p> + +<p>Ó heróico poeta, como tú conhecias o mundo quando assim pensavas:</p> + +<blockquote> + <small>Dizei-lhe que tambem dos portuguezes<br> + Alguns traidores houve algumas vezes.</small></blockquote> + +<p>Mas... prescindamos dos documentos e examinemos as considerações que aos +referidos tumultos fez o auctor<span class="pagenum"><a id="pag_224" +name="pag_224">[224]</a></span> do livro o <i>Brazil</i>; e para que com +conhecimento de causa sejam julgadas as nossas palavras, citaremos d'esse +livro os trechos sobre que entendemos dever fazer alguns reparos.</p> + +<p>Um jornal do Porto escrevera opportunamente a respeito das desordens do +Pará:</p> + +<p>«A colonia portugueza do Pará, é continuamente insultada por alguns +jornaes d'aquella terra, insultos quasi sempre acompanhados de improperios +soezes e estultos á nossa bandeira nacional, sem se lembrarem sequer, esses +desgraçados! que foi á sombra d'ella que os seus avoengos viveram por tres +seculos!»</p> + +<p>O sr. Carvalho responde o seguinte no seu livro:</p> + +<p>«Ao escriptor portuense confessamos que assistem razões muito ponderosas +para se pronunciar por este modo. Peza-nos sómente, devéras o dizemos, que ao +traçar tão bem cabidos reparos, <i>não carregasse um pouco mais a +mão</i>...</p> + +<p>E continúa logo:</p> + +<p>«...... Ainda assim pedimos-lhe que nos conceda estendel-os tambem a uns +certos hydrophobos de cá, que, ha tempos a esta parte, se deixam tomar da +mania de vomitar doestos e calumnias contra o Brazil.»</p> + +<p>O que é logico é que se o escriptor portuense seguisse o conselho do snr. +Carvalho, de <i>carregar um pouco mais a mão</i>, como tantos jornalistas +fizeram, quando appreciaram á luz d'este seculo os actos de selvageria +praticados no Pará, não poderia deixar de ser cognomisado de hydrophobo!</p> + +<p>O auctor do <i>Brazil</i> assim desculpa os nossos insultadores:</p> + +<p>«Este imperdoavel abuso da liberdade de imprensa no Brazil, explica até +certo ponto a razão de ser dos seguintes pasquins—<i>O Alabama</i>, da +Bahia—<i>O Commercio a retalho</i> (digno sucessor do <i>Tribuno</i>), de +Pernambuco—e <i>A Tribuna</i>, do Pará.<span class="pagenum"><a id="pag_225" +name="pag_225">[225]</a></span></p> + +<p>«Em Portugal, vá-se dizendo tambem para desconto de peccados, surgem a +espaços no seio do jornalismo uns dignissimos émulos d'aquelles leprosos +d'além-mar. Exemplos:—<i>O Raio</i>—<i>O trinta mil diabos</i>—<i>O +chicote dos ladrões</i>, etc., etc.</p> + +<p>«Lá e cá o publico sustenta-os e folga com elles. Esta a verdade, tal qual +é.»</p> + +<p>Não é isto exacto.</p> + +<p>Resumamos os acontecimentos horrorosos de que tem sido alvo a colonia +portugueza no imperio de Santa Cruz, e que tem dado justa causa a declarar-se +a <i>hydrophobia</i> na imprensa de Portugal.</p> + +<p>Entre os hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá, ha, com effeito, muita +differença.</p> + +<p>Alguns brazileiros, não satisfeitos com os insultos que nos dirigem, +lançam mão do punhal e do trabuco homicida, para satisfazer o odio de raça +que os devora; os portuguezes, só depois dos insultos é que usam do direito +de represalia, pedindo á imprensa o que lhes nega o governo brazileiro.</p> + +<p>No que os brazileiros enchergam calumnias, não ha mais do que factos +verdadeiros, que, por serem ás vezes tão extraordinarios, não parecem o que +effectivamente são.</p> + +<p>É preciso illucidar um pouco mais isto.</p> + +<p>Houve exaltação da parte da imprensa portugueza, exaltação +justificadissima, em face do espesinhamento do nosso pavilhão, por subditos +brazileiros, n'uma das praças publicas da cidade do Pará, em principios de +1873. Essa exaltação recrudesceu quando as auctoridades brazileiras deixaram +impune o acto vandalico dos desordeiros. Esta impunidade armava contra nós os +paraenses. O seu jornal, a <i>Tribuna</i>, já não se contentava só com +insultos, publicava proclamações incendiarias, chamando o povo ás armas +contra os portuguezes residentes na provincia. Da cidade do Pará eram +destacados<span class="pagenum"><a id="pag_226" +name="pag_226">[226]</a></span> para o sertão alguns agentes d'aquelle infame +papel, para lerem aos <i>tapuyas</i> o grito de guerra; outros dirigiam-se ás +praias do Guajará, junto da cidade de Belem, aonde ha sempre grande movimento +de <i>canoas</i> vindas do interior, e alli, no meio dos tripulantes e dos +passageiros, todos indigenas, eram lidos infamantes libellos contra os +<i>marinheiros</i> ou <i>gallegos</i>, epithetos com que em todo o imperio +distinguem os filhos de Portugal! Estas doutrinas subversivas da ordem +publica, apregoadas por espaço de dois annos consecutivos, á luz do dia e na +presença das indifferentes auctoridades do Pará, produziram a explosão de +setembro de 1874, que podia ter produzido resultados mais funestos, se não +fôra a <i>Agencia Americana Telegraphica</i>, de que eramos representante na +referida cidade. Com tudo, muitos portuguezes foram assassinados, e outros +gravemente feridos, ignorando-se hoje ainda qual o verdadeiro numero das +victimas. E note-se que tudo isto era devido á propaganda da <i>Tribuna</i>: +eis em que davam os risos!</p> + +<p>Em Pernambuco e no Ceará davam-se casos quasi identicos.<a +name="tex2html46" href="#foot161"><sup>[46]</sup></a></p> + +<p>Não podia a imprensa de Portugal deixar de occupar-se de um assumpto tão +grave, invectivando as auctoridades brazileiras de conniventes nos attentados +praticados contra os filhos d'uma nação que conservava com o Brazil as +relações mais intimas; e dizemos conniventes porque á propaganda nada se +oppoz.</p> + +<p>Não satisfeitos os desordeiros com o sangue das victimas, que já tingira +as terras brazileiras, não contentes porque ainda achavam que era pouco, +começaram por insultar a guarnição da corveta <i>Sagres</i>, que n'este tempo +largava ferro na bahia do Pará.</p> + +<p>O nosso homem do mar, acostumado a ser bem recebido<span +class="pagenum"><a id="pag_227" name="pag_227">[227]</a></span> em todos os +paizes do mundo, e illudido a respeito da colonia residente no Brazil, de +quem se dizia «que o portuguez era insultado porque insultava»; pesaroso +pelos proprios insultos, <i>que não podiam ser levados á conta de +represalia</i>, procurou os insultadores, a quem infligiu o merecido +castigo.</p> + +<p>Novas proclamações incendiarias pozeram em sobresalto os habitantes do +Pará.</p> + +<p>Mais tres portuguezes caem feridos de morte, ás mãos dos <i>soldados</i> +assassinos do imperio de Santa Cruz.</p> + +<p>Espalha-se o terror, em vista d'este facto assombroso, de serem os agentes +da auctoridade publica os assassinos mais convictos, porque apoz o crime, iam +declarar aos seus superiores, <i>que acabavam de prestar um serviço á patria +assassinando gallegos</i>.<a name="tex2html47" +href="#foot1616"><sup>[47]</sup></a></p> + +<p>E a <i>Tribuna</i> continuava impunemente a incitar os animos á +chacina!</p> + +<p>Os destroços que ella faz são incalculaveis; do interior da provincia +chegam á cidade noticias atterradoras.</p> + +<p>O presidente da provincia, que por excepção á regra se condoeu da sorte +dos colonos, não confiando na força publica, que elle bem sabia estar do lado +dos desordeiros, pede providencias ao governo central, que nada attende!</p> + +<p>O promotor publico, a quem o presidente recommenda a querella da +<i>Tribuna</i>, nunca acha motivo para a processar; e os adeptos do pasquim, +enthusiasmados pelo procedimento do seu patrono; vão em massa, na frente das +musicas e deitando foguetes, agradecer-lhe <i>tão relevante</i> serviço. Esta +auctoridade que representa os sentimentos do governo central, porque jámais +lhe retirára a sua confiança, ufana-se com a manifestação e vem á janella +expressar os seus agradecimentos aos perturbadores da ordem publica!<span +class="pagenum"><a id="pag_228" name="pag_228">[228]</a></span></p> + +<p>Na mesma cidade e ao mesmo tempo que alguns de seus habitantes chegavam ao +apogeu do delirio, ao grito de—<i>mata gallegos</i>—a colonia portugueza +prepara-se para a catastrophe. Os mais fortes aguardam resolutos os +desordeiros e os mais fracos refugiam-se nos barcos fundeados na bahia do +Pará.</p> + +<p>Um negociante recebe refugiados em casa, e intrincheira-se; outro, fecha o +seu estabelecimento, sóbe com sua mulher e filhos para o pavimento superior +da propria habitação, prepara o rastilho que havia de conduzir a uma barrica +de polvora o incendio e logo a destruição de tudo que era seu—vidas e +cabedal—, destruição que elle prefere á que a si e aos seus preparavam os +communistas d'esta parte da America.</p> + +<p>E o jornal infame continuava as suas proclamações.</p> + +<p>Este terror é levado pelo telegrapho e pela imprensa a todos os cantos do +mundo civilisado, e Portugal, a quem mais doía tanta desgraça, condemnou em +phrases sentidas que nunca poderiam abonar a civilisação do Brazil, a +repetição das scenas barbaras, que desde a noite de 6 de setembro até fins de +novembro de 1874, faziam lembrar o sangrento dia de S. Bartholomeu, em +França, ou os repetidos massacres antropophagos dos <i>botocudos</i>, contra +as primitivas colonias do imperio americano.</p> + +<p>Depois reunem os tribunaes brazileiros, para julgarem os crimes +commettidos contra os portuguezes, residentes no Brazil. Esses tribunaes +condemnam a penas irrisorias, que importam uma absolvição, os assassinos de +nossos irmãos: mais uma razão para a imprensa portugueza se sentir da +indifferença do governo brazileiro.</p> + +<p>O tribunal que devia julgar os assassinos de Jurupary, em cuja causa se +achava compromettida a honra do Brazil, não se constitue, porque os cidadãos +independentes, note-se que não é a plébe, preferem pagar<span +class="pagenum"><a id="pag_229" name="pag_229">[229]</a></span> a multa de +relaxado, a ser juizes n'uma causa em que infallivelmente deviam condemnar os +seus compatriotas assassinos de estrangeiros inermes!<a name="tex2html48" +href="#foot4288"><sup>[48]</sup></a></p> + +<p>A imprensa portugueza vê isto, e não póde soffrer o impulso de firmar bem, +ainda mais uma vez, a sua opinião, a respeito de tanta selvageria. Mas +note-se que a tal <i>hidrophobia</i> propagou-se a toda a imprensa de +Portugal, sem excepção do <i>Trinta mil diabos</i> e outros, o que não podia +deixar de ser.</p> + +<p>O governo do imperio não póde ser culpado de tantos desmandos, porque +estava longe do theatro dos acontecimentos. Dizem-nos isto com toda a +irrisão, e ainda mais:—Uma prova da sua innocencia, e de que reprova os +actos vandalicos de alguns dos seus administrados, está no seu procedimento, +expresso no seguinte telegramma do Rio de Janeiro, reproduzido no livro do +sr. Augusto de Carvalho:</p> + +<p>«O governo imperial accedeu, auctorisando-o, ao pedido de indemnisações +pecuniarias, para as familias dos subditos portuguezes assassinados no +Pará.</p> + +<p>«O presidente da provincia procede com todo o rigor contra a +<i>Tribuna</i>.»</p> + +<p>Mas a imprensa de Portuga! continuou a fazer justissimas accusações ao +governo do Brazil, porque as promettidas indemnisações pecuniarias não foram +dadas, e porque a <i>Tribuna</i>, não obstante o <i>rigor</i> com que segundo +se dizia, tinha sido tratada, continuou por muito tempo o seu fadario +infame.</p> + +<p>Os hydrophobos de cá, na phrase do escriptor brazileiro, vomitam doestos e +calumnias contra o Brazil, quando não pódem soffrer silenciosos tanta +barbaridade.</p> + +<p>Esses hydrophobos, especializados pelo sr. Carvalho, <i>O Raio</i>, o +<i>Trinta mil Diabos</i>, o <i>Chicote dos Ladrões</i>, jornaes satyricos, de +que ninguem faz caso, foram creados<span class="pagenum"><a id="pag_230" +name="pag_230">[230]</a></span> <i>unicamente</i> para ridicularisar, e ás +vezes infamar, as cousas portuguezas.</p> + +<p>Mas o <i>Alabama</i>, da Bahia; O <i>Commercio a retalho</i>, de +Pernambuco; e a <i>Tribuna</i> do Pará, e tantos outros só foram creados para +insultar a colonia portugueza residente no Brazil e chamar ás armas contra +ella.</p> + +<p>Não póde haver termo de comparação entre uns e outros pasquins.</p> + +<p>Com os de cá, folga a nossa ralé; a gente séria condemna-os, e por isso a +sua apparição é passageira e sem importancia.</p> + +<p>Com os de lá, não acontece o mesmo; a ralé e até as pessoas mais gradas, +crêem nas doutrinas subversivas que esses apostolos do mal apregôam.</p> + +<p>A prova da importancia d'esses pasquins, está na duração d'elles, e ás +vezes na proficiencia com que são elaborados os seus artigos principaes. Que +o diga o presidente da provincia do Pará na sua proclamação.<a +name="tex2html49" href="#foot4289"><sup>[49]</sup></a></p> + +<p>O <i>Alabama</i>, póde dizer-se que é o orgão da mocidade estudiosa que se +demora na academia da Bahia!</p> + +<p>A <i>Tribuna</i> e o <i>Alabama</i>, calumniavam-nos ao mesmo tempo que +diziam aos seus compatriotas, ser uma virtude civica matar um +<i>marinheiro</i>!</p> + +<p>A differença é muito grande.</p> + +<p>Tambem se póde deprehender das palavras do sr. Carvalho, que os +<i>hydrophobos</i> de cá, são outros, que não os pasquineiros especialisados +acima.</p> + +<p>Se a invectiva se refere a nós declaramos terminantemente que a nossa +<i>hydrophobia</i> se declarou no meio do alarido das victimas que nós vimos +cahir á acção do punhal e do trabuco dos assassinos revolucionados n'essa +terra da promissão, e dos quaes nos livrámos, por mercê de Deus, sem +desamparar nunca o nosso posto da honra.<span class="pagenum"><a id="pag_231" +name="pag_231">[231]</a></span></p> + +<p>Se a invectiva se refere a outros, por exemplo, ao auctor das +<i>Farpas</i>, a unica publicação poupada pelo auctor do livro que +analysamos, e a unica que mais tem rediculisado o imperio e as suas cousas, +para que é que foi pedir ao auctor do folheto uma carta de recommendação para +o seu livro?</p> + +<h2>II</h2> + +<p>A stulticia de quererem defender os excessos dos pasquins brazilheiros e +cumparal-os com os de cá não é só do auctor do livro o <i>Brazil</i>. Já a +<i>Tribuna</i> do Pará e outros jornaes brazileiros, desculpavam os seus +injustos desforços d'uma fórma um pouco comica. O sr. Augusto de Carvalho não +fez mais do que seguir-lhes as pisadas. Assim falla a <i>Tribuna</i> do Pará: +</p> + +<p>«Não sabendo, não tendo mesmo com que dessimular o seu embaraço, despeito +e confusão, enxergou na expressão—<small>VIL PEDRO PRIMEIRO</small>—(a +<i>Tribuna</i> chamava-lhe assim por ser portuguez!) com a qual acoudindo a +uma justa represalia, fulminámos a <i>Tribuna</i> de Lisboa,—<i>um attentado +contra a familia imperial</i>, entretanto que não tem visto os insultos +affrontosos, que todos os dias recebe o povo brazileiro na pessoa de D. Pedro +II.</p> + +<p>«O que disestes a Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, sobre as +<i>Farpas</i>, etc.?»</p> + +<p>É preciso que a verdade seja dita sem rebuço: as <i>Farpas</i>, é a +publicação portugueza, que mais feriu os brios da nacionalidade brazileira, +<i>na pessoa do seu imperador</i>; verdade seja que os que mais se queixavam, +escreviam <i>vil Pedro primeiro</i> ao pae do segundo imperador, e o que é +sobre tudo mais irrisorio, os <i>imperialistas</i> do <i>segundo</i> e os +calumninadores do <i>primeiro</i> intitulavam-se <i>republicanos</i>!...</p> + +<p>Mas republicanos ou imperialistas condemnaram a<span class="pagenum"><a +id="pag_232" name="pag_232">[232]</a></span> critica mordaz do auctor das +<i>Farpas</i>: nós os ouvimos; rindo-nos do desgosto ridiculo de tal combáda +que não se lembrava de certos papeis comicos representados em Coimbra, +perante a universidade, e no Porto, em face dos esplendorosos festejos +promovidos por seus hospitaleiros habitantes, a sua magestade o imperador.</p> + +<p>E são por ventura isoladas as ironias innosentissimas dos criticos +europeus, na passagem de sua magestade imperial pelos differentes estados da +Europa?</p> + +<p>Não. Nem os desgostos manifestados pelos brazileiros, nem as conveniencias +puramente mercantis, tem actualmente podido influir no animo d'aquelles que +veem em todos os movimentos do illustre imperador uns motivos para rir. E não +somos só nós que assim pensamos; e para o que vejamos:</p> + +<p>O jornal humoristico illustrado, de Milão, <i>Lo Spirito Folletto</i>, do +dia 15 de março, de 1877, um dos mais importantes, no seu genero, em toda a +Europa, traz a caricatura do imperador vestido de gibão, com uma penna +atravessada na cinta que o singe, e á cabeça uma porção de alfarrabios. Atraz +do illustre viajante vae um negro, empurrando um carrinho de mão, carregado +de todos os emblemas das sciencias e das artes. Por baixo da caricatura está +a seguinte inscripção:</p> + +<p>«<i>Una volta un imperatore, per fare une ingresso in una cittá, «si +faceva precedere» de una buona batteria di cannoni. Don Pedro invece «se fa +seguire» dagli arnesi della scienza. Evviva dunque... il progresso.</i>»</p> + +<p>E mais adiante no <i>Spiritelli</i>!</p> + +<p>«—Sapete perchè viaggia tanto all'estero l'imperatore del Brasile, +abbandonando per mesi e mesi il suo trono?</p> + +<p>«—Per fare propaganda repubblicana!</p> + +<p>«—Oh bella!... Ma come, in che modo?</p> + +<p>«—Provando come due e due fanno quattro, che dal<span class="pagenum"><a +id="pag_233" name="pag_233">[233]</a></span> momento che il Brasile sta in +piedi durante le sue lunghe assenze, starebbe in piedi anche se d'imperatore +non ce ne fosse. É vero, o no?»</p> + +<p>Em outro numero apresenta o imperial viajante a dormir, n'um camarote do +theatro da Scalla, ironia pungente ao facto de sua magestade se deixar +adormecer como qualquer mortal, numa funcção de gala para que tinha sido +convidado.</p> + +<p>Tem d'estes espinhos a realeza. Ella não sabe que é preciso aturar tudo e +todos, os festejos e aquelles que os fazem?</p> + +<p>E não se diga que são insignificantes taes actos. Estas manifestações, +dadas por um povo ao representante do outro povo, reflectem-se em um e outro; +mas se esse representante é indifferente a essas manifestações de respeito, e +os que as promovem se escandalisam do indifferentismo, louvae estes, porque +tal desgoto representa ainda concideração ao povo representado pelo +indifferente.</p> + +<p>Na Italia usaram da satyra para fulminar a indifferença. Hade por isto +revolucionar-se o povo brazileiro contra os colonos italianos residentes no +imperio?</p> + +<p>Não. A força da logica manda que no Brazil se <i>revolucionem</i> contra +sua magestade o imperador.</p> + +<p>Não era, nem nunca foi intento nosso discutir o viajante imperial; mas +desde que no Brazil se fazem revoluções contra portuguezes por motivo de sua +magestade ser recebido em Portugal nas <i>palminhas das mãos</i>, não devemos +deixar passar em claro a dupla offensa que o povo amigo e irmão nos faz.</p> + +<p>Mas não fica ainda aqui a satyra. Da Italia passou á Inglaterra... com sua +magestade imperial.</p> + +<p>O <i>Punch</i>, de Londres, que não desejava ver abalados os seus creditos +de ironico, descreveu assim uma digressão do senhor D. Pedro d'Alcantara:</p> + +<p>«<i>Extractos de um diario imperial.</i>—4. h. da manhã.—Muito<span +class="pagenum"><a id="pag_234" name="pag_234">[234]</a></span> zangado por +ver que dormi de mais. Levantei-me, vesti-me á pressa, banhei-me na +Serpentine, e fui dar um passeio ao Parque.—5 h.—Fui a Alexandra-Palace, e +apanhei os empregados de sorpreza, apezar de lhe ter mandado dizer que havia +de lá ir hoje. Zangado por ver que não tinham uma opera prompta.—6 h.—Tomei +uma chavena de café, e fui ao Jardim Zoologico. Acordei os leões, montei a +cavallo nos elephantes e assisti ao banho matinal dos hippopotamos. N. B. +Ufanei-me de me ter anticipado a elles.—7 h.—Fui procurar o principe, e +estive de cavaco ao lado da cama de sua alteza real. Depois fui á +Polytechnica, e, como os empregados ainda não estavam a pé desci eu sózinho +dentro do sino de mergulhador.—8 h.—Fui a Kew, e almocei com o dr. Hooker. +Durante a nossa refeição um celebrado botanico teve a bondade de fazer uma +leitura.—9 h.—Fui ao hospital de S. Thomaz, puz em polvorosa todos os +enfermeiros, visitei o Museu etc. Não tive tempo de esperar uma allocução dos +directores.—10h.—Fui á City, e vesitei a casa da camara, o Stock-Exchange, +Billingsgate, e a Torre. Tive uma longa conversação com mr. Punch, <i>Fleet +Street</i>, 85.—11 h.—Fui a Albert Hall e toquei orgão. Depois fui ao Museu +de South-Kensington e assisti a leituras sobre desenho, cosinha, e trabalhos +de agulha. Meio dia—Fui ao Palacio de Crystal, e vi os peixes. Em attenção +aos meus variados compromissos, os directores mostraram-me os fogos de vista +de dia.—1h.—da tarde. Fui a Orleans-Club, e subi o rio. 2h. Fui á moeda e +vi o machinismo do correio—3 h.—Fui á camara dos pares e assisti a uma +partida de <i>cricket</i>.—4 h.—Corri ao Aquario de Westminster. Um pouco +fatigado, mas restaurei-me com um <i>lunch</i> em Grosvenor Gallery.—5 +h.—Depois de visitar a Real Academia assisti a um «chá das 5 horas» em +Belgravia-South-Kensington.—6h.—Visitei a abbadia de Westminster,<span +class="pagenum"><a id="pag_235" name="pag_235">[235]</a></span> a cathedral +de S. Paulo, e o oratorio de Brompton.—7 h.—Jantei no hotel, e tomei café +em Battersea-Park—8 h.—Fui a Egyptian-Hall ver Zoè, e estive alguns minutos +na camara dos communs.—9 h.—Vi o que pude de Convent-Garden, Lyceu, e +Her-Magesty, e regalei-me com o artistico representar de m. Jefferson em +Haymarket.—10 h.—Telegraphei inscripções aos meus ministros no Brazil, +dancei uma quadrilha em Willis-Rooms, e recusou-se-me respeitosamente entrada +no Beefsteack-Club, onde soube com muito pezar que não entravam +estrangeiros.—11 h.—Ciei em Albion e depois fui a um baile em Carlton +Gardens.—Meia noite—Procurei os srs. Gladstone, Tennyson e Thomaz Carlyle, +e depois de gozar tres deleitosos cavacos, voltei para o hotel—1 h. da +manhã—Escrevi umas poucas de cartas, li o <i>Times</i>, arranjei o meu +despertador para as tres, e fui-me deitar.»<a name="tex2html50" +href="#foot429"><sup>[50]</sup></a></p> + +<p>A fina ironia das <i>Farpas</i> não é superior á que deixámos +transcripta.</p> + +<p>Ponham os criticos de parte os preconceitos de nacionalidade, e hão de +concordar comnosco.</p> + +<p>Pois bem, em paga da hilaridade singella, que não importa desconsideração +aos brazileiros, dizem os <i>hydrophobos de lá</i>, em resposta ás ironias +dos inglezes, dos italianos e dos portuguezes.</p> + +<p>«Vinde colonisar as nossas terras, ó inglezes civilisados e italianos, que +vós sois mais uteis do que os portuguezes assassinos e ladrões!»</p> + +<p>Ás finas ironias das <i>Farpas</i>, onde especialmente se distingue a mala +inseparavel de D. Pedro de Alcantara respondem:—<i>O vosso rei é um bebado e +um devasso!</i> E querendo responsabilisar os colonos pelos escriptos de +Ramalho Ortigão, escrevem:</p> + +<p>«A emigração é um direito baseado na phylosophia, sustentado pelo +progresso da humanidade.<span class="pagenum"><a id="pag_236" +name="pag_236">[236]</a></span></p> + +<p>«Sim, senhor, não vamos ao contrario d'esse principio eterno do +desenvolvimento da arte e da sciencia, da civilisação por tanto.</p> + +<p>«Mas não ha direito que não tenha por espelho o dever em seu fiel +cumprimento.</p> + +<p>«O emigrado suppõe a idéa de utilidades. É um axioma.</p> + +<p>«O emigrado é um individuo, e como tal, para fazer valer seus direitos, +corre-lhe a obrigação de não faltar aos seus deveres.</p> + +<p>«Ora, desde que esquece estes perde aquelles.</p> + +<p>«O direito suppõe a justiça, o dever suppõe a moral.</p> + +<p>«Desprezada a moral pelo individuo temos um ente perdido e perigoso, que +despreza da mesma forma a justiça por meio de um crime.</p> + +<p>«Um criminoso não póde ser util a sociedade alguma.</p> + +<p>«Assim, pois, o emigrado immoral e affeito ao crime é um individuo +inutil.</p> + +<p>«Isto posto, indaguemos qual a utilidade, que nos póde sobrevir da colonia +portugueza.</p> + +<p>«Estudemos pela theoria dos factos apoiados nos grandes mestres, a +historia e o tempo.</p> + +<p>«Em que consiste o merecimento do braço portuguez?</p> + +<p>«Somos forçados a retirar os olhos cobrindo o rosto; pois o quadro que nos +offerecem a lavoura, a arte e a industria de nossa terra, é o mais digno de +lastima, por mercê da <i>actividade</i> portugueza.</p> + +<p>«Como causa, quaes os effeitos da intelligencia d'essa colonia?</p> + +<p>«Entre nós, provavelmente, ás sciencias, á litteratura, ás bellas artes +nada tem aproveitado; antes as letras, os verdadeiros talentos de nossa +patria teem soffrido atroz violencia (<i>sic</i>), indigna opposição da parte +d'ella.<span class="pagenum"><a id="pag_237" +name="pag_237">[237]</a></span></p> + +<p>«E quaes teem sido as provas da grandeza d'alma portugueza?</p> + +<p>«As provas do sentimento, da moral, da virtude, da honestidade do cidadão +portuguez temol-as de sobejo ainda que esqueçamos o quanto sabe ser elle +ingrato; porque iremos encontral-o em toda a parte—como um ente dissoluto; +em todas as situações—como um hypocrita; na mais infima á mais elevada +posição—como um cynico perante a lei, diante de Deus um atheu e dos homens +uma vibora.</p> + +<p>«Não se presta o colono portuguez ás luctas da agricultura nem sua cabeça +percebe o hymno que se entoa nas officinas, nos templos do trabalho honesto, +porque fecha os olhos, cerra os ouvidos á voz da consciencia, aos gritos da +virtude e aos arrojos da concepção humana.</p> + +<p>«São portanto colonos estupidos, immoraes, por conseguinte inimigos do +dever, que aberrando de um direito perdido aggridem a justiça e exaltam +o—crime.</p> + +<p>«Incontestavelmente é uma raça inutil.</p> + +<p>«Por ventura nos póde convir uma colonia, que, em vez de alimentar, serve +de tropeço ao desenvolvimento material de nosso vasto paiz».<a +name="tex2html51" href="#foot4291"><sup>[51]</sup></a></p> + +<p>Nós não queremos discutir este amontoado de disparates, mas respondemos +com o seguinte documento official aos taes <i>hydrophobos</i> de lá que em +nada se parecem com os de cá:</p> + +<p>«Do relatorio do ministerio da fazenda do imperio do Brazil, apresentado +este anno (1877) á assembléa geral legislativa, extraimos a seguinte nota do +numero dos contribuintes sujeitos ao imposto industrial no Rio, regulado alli +por lei de 15 de julho de 1874, excluidos os estabelecimentos taxados com +relação aos meios de producção e os de sociedades anonymas—isto no exercicio +de 1875-1876.<span class="pagenum"><a id="pag_238" +name="pag_238">[238]</a></span></p> + +<p>«Os contribuintes são:</p> + +<table border="0" align="center" summary="Contribuintes do Rio de Janeiro"> + <tbody> + <tr> + <td>Portuguezes</td> + <td style="text-align:right;">7:394</td> + </tr> + <tr> + <td>Brazileiros</td> + <td style="text-align:right;">1:791</td> + </tr> + <tr> + <td>Francezes</td> + <td style="text-align:right;">466</td> + </tr> + <tr> + <td>Inglezes</td> + <td style="text-align:right;">127</td> + </tr> + <tr> + <td>Allemães</td> + <td style="text-align:right;">127</td> + </tr> + <tr> + <td>Italianos</td> + <td style="text-align:right;">214</td> + </tr> + <tr> + <td>Hespanhoes</td> + <td style="text-align:right;">58</td> + </tr> + <tr> + <td>Belgas</td> + <td style="text-align:right;">13</td> + </tr> + <tr> + <td>Hollandezes</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + <tr> + <td>Suissos</td> + <td style="text-align:right;">23</td> + </tr> + <tr> + <td>Americanos</td> + <td style="text-align:right;">17</td> + </tr> + <tr> + <td>Orientaes</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + <tr> + <td>Chins</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + <tr> + <td>Africanos</td> + <td style="text-align:right;">16</td> + </tr> + <tr> + <td>Gregos</td> + <td style="text-align:right;">4</td> + </tr> + <tr> + <td>Dinamarquezes</td> + <td style="text-align:right;">7</td> + </tr> + <tr> + <td>Cubanos</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + <tr> + <td>Suecos</td> + <td style="text-align:right;">3</td> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right; border-top: solid 1px #000000;">10:264</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>«O valor locativo em moeda do Brazil, do local que servia para o exercicio +da industria era de réis 6.052:661$198, e o valor total do imposto foi de +réis 1.010:090$359, tudo moeda fraca.</p> + +<p>«As sociedades anonymas sujeitas ao imposto de industria e profissões, no +dito exercicio de 1875-1876, foram 36, sendo 15 brazileiras, 15 portuguezas, +5 inglezas e 1 americana, cujos dividendos subiram a réis 8.553:000$000, +pagando de imposto 1,5 por cento, ou 128:000$000 réis.</p> + +<p>«O numero de estabelecimentos industriaes (note-se +bem—<i>industriaes</i>) sujeito ao referido imposto, no mesmo anno, foi de +182, sendo:<span class="pagenum"><a id="pag_239" +name="pag_239">[239]</a></span></p> + +<table border="0" align="center" summary="Estabelecimentos contribuintes"> + <tbody> + <tr> + <td>Brazileiros</td> + <td style="text-align:right;">45</td> + </tr> + <tr> + <td>Portuguezes</td> + <td style="text-align:right;">109</td> + </tr> + <tr> + <td>Francezes</td> + <td style="text-align:right;">11</td> + </tr> + <tr> + <td>Inglezes</td> + <td style="text-align:right;">3</td> + </tr> + <tr> + <td>Allemães</td> + <td style="text-align:right;">5</td> + </tr> + <tr> + <td>Hespanhoes</td> + <td style="text-align:right;">5</td> + </tr> + <tr> + <td>Suissos</td> + <td style="text-align:right;">3</td> + </tr> + <tr> + <td>Italianos</td> + <td style="text-align:right;">1</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>«Estes estabelecimentos empregavam 976 operarios, e d'elles 100 eram +laborados á força humana, 7 por meio de força irracional, 66 pela do vapor e +9 pela da agua. O imposto que pagaram foi de 18:637$436 réis.</p> + +<p>Vê-se por estes dados qual é a parte importante que a nacionalidade +portugueza tem na industria e commercio do Rio de Janeiro.</p> + +<p>«Note-se, no entanto, que em todo o Brazil o imposto das industrias e +profissões é avaliado em 2:600:000$000 para o exercicio corrente de +1877-1878.»<a name="tex2html52" href="#foot4292"><sup>[52]</sup></a></p> + +<p>Elles, os hydrophobos, ignoram isto, coitados! Nós fazemos-lhes esta +justiça.</p> + +<p>É por causa d'essa ignorancia que os desgraçados afinam por este +diapasão.</p> + +<p>«<i>Deus já nos vae ajudando.</i>—A bordo do vapor inglez <i>Jerome</i> +sahido d'este porto no dia 26 do corrente mez, escafederam-se para a +<i>terrinha</i> trinta e tres gallegos, qual d'elles o mais estupido e +vilhaco.</p> + +<p>«Por emquanto está o Pará livre d'estes trinta e tres canalhas que nos +favorecem com a sua ausencia!</p> + +<p>«Oxalá que arribassem todos os <i>ladrões</i> e aventureiros, que chegando +aqui sem vintem, sem officio nem beneficio, compram logo fiado uma taberna, +assignam muitas vezes letras, sem saberem o que assignam e depois para +pagarem, andam roubando aqui acolá, commettendo<span class="pagenum"><a +id="pag_240" name="pag_240">[240]</a></span> quanta infamia e praticando toda +a sorte de escandalo e desacatos; e quando vêem os gallegos infames que não +podem com a carga, atiçam fogo na bodega e raspam-se para a <i>terrinha</i> +roubando e desgraçando a muita gente!</p> + +<p>«É d'esta <i>escoria</i>, d'este <i>povoléo</i> ordinario que veem de +Portugal! Gente boa não vem de lá.</p> + +<p>«Desengane-se quem quizer, cada um bicudo que chega ao Brazil ou é um +refinado vadio troca tintas, ou um calceta fugido do Limoeiro, ou das +enxovias do Carmo. A canalha bicudal tem mais medo das solitarias do Carmo do +que do diabo.</p> + +<p>«Nós queremos estrangeiros civilisados, laboriosos e honestos, emigrados +amigos do trabalho; o que não podemos supportar são <i>portugallegos</i> que +veem aos centos, todos <i>ladrões, infames, desatinados, salteadores, +assassinos e moedeiros falsos, etc. etc.</i></p> + +<p>«Contra estes <i>ladrões</i> todo o rigor das nossas leis e a maldição do +povo brazileiro caia sobre elles.</p> + +<p>«Longe, bem longe de nós e de tudo quanto é honesto e civilisado está +<i>esta tróça estupida de gallegos</i>. Deixem-nos, vão para o inferno, para +a costa d'Africa, para as zonas torridas e humidas de Pedro Botelho, comtudo +que favoreçam-nos com a sua ausencia.</p> + +<p>«O que querem estes malvados e faccinoras <i>gallegos</i> n'uma terra, +onde ninguem os póde vêr?!...»<a name="tex2html53" +href="#foot4293"><sup>[53]</sup></a></p> + +<p>O que deixamos trascripto, como se pode deprehender, refere-se a +portuguezes que sahiam do Brazil, contra quem, ainda que sem motivo, podiam +allegar represalias; mas o que vamos transcrever é uma amostra das recepções +que n'aquelle paiz hospitaleiro costumam fazer aos colonos que pela primeira +vez pisam o solo brazileiro, contra quem parece que não devia haver razão de +queixa:<span class="pagenum"><a id="pag_241" +name="pag_241">[241]</a></span></p> + +<p>«<i>Pilha de ladrões e velhacos.</i>—A bordo da barca portugueza +<i>Camponeza</i>, vinda da <i>terrinha</i> e aqui ancorada no dia 8 do +corrente, chegaram 26 badamecos gallegos e velhacos, sujos e réos de policia. +<i>Elles</i> que de lá vem é porque fizeram alguma... Ou fugindo do serviço +das armas, deixando o pae e a mãe compromettidos, ou arrombando as prisões do +Limoeiro e as enxovias do Carmo, onde é a vivenda continua da matúla indigna +e safada.</p> + +<p>«Pelo ról dos passageiros não consta que viesse um só, entre tantos +ladrões, um habil pintor, um perito dentista, um intelligente agricultor, um +laborioso agronomo, um engenheiro, emfim, um homem de educação e de bons +instinctos. Veiu sim, uma matúla estupida de ladrões, assassinos, vagabundos, +jogadores, não bastando ainda os muitos que por aqui estão!</p> + +<p>«E não se envergonha a estupida colonia portugueza de apresentar em uma +terra estranha patricios seus, filhos do <i>decantado</i> Portugal, como os +que vieram agora na barca <i>Camponeza</i> e outros muitos que constantemente +vêem baldeados nos porões dos navios!</p> + +<p>«E ainda dizem que os portuguezes são nossos <i>civilisadores</i>...</p> + +<p>«Barbaridade! affronta!...</p> + +<p>«Desengane-se a negra gallegada que aqui como em toda a parte ella não +passará de uma <i>gentinha</i> miseravel, estupida, dedicada ao roubo, ao +assassinato e á introdução da moeda falsa.»</p> + +<p>Finalmente, não chegava navio algum da Europa que transportasse colonos +portuguezes, que ficassem isentos d'uma recepção tão delicada e... +hospitaleira!</p> + +<p>Transcrever taes artigos seria, alem de fastidioso, impossivel, ainda +mesmo em meia duzia de grossos volumes.</p> + +<p>A represalia contra as <i>Farpas</i>, não podia ser mais +inconsequente.<span class="pagenum"><a id="pag_242" +name="pag_242">[242]</a></span></p> + +<h2>III</h2> + +<p>Para salvarem da responsabilidade, que tão justamente cabia á sociedade +paraense, diziam os optimistas, e entre estes o auctor do <i>Brazil</i>, que +a <i>Tribuna</i> não era bem acolhida por aquelle povo; mas o pasquim assim +respondia aos calumniadores:</p> + +<p>«Conhecedores como somos, d'este estado morbido da nossa sociedade, +exultamos de prazer quando recebemos o nome de algumas senhoras paraenses que +mandaram inscrever-se entre os assignantes da <i>Tribuna</i>.</p> + +<p>«Este passo certifica-nos que o patriotismo existe mesmo no coração +d'aquellas que se acham unidas por laços indissoluveis aos subditos da terra, +cuja pressão combatemos.</p> + +<p>«Essas corajosas senhoras, que lêem e applaudem a <i>Tribuna</i>, tão mal +vista pelos—<i>namorados dos Portuguezes</i> (os paes brazileiros que +desejam casar as filhas com compatriotas nossos), abriram um exemplo que, é +de suppôr, despertará o patriotismo do seu sexo, que faz os nossos encantos, +e a quem deveras desejamos maiores venturas que as gosadas hoje.</p> + +<p>«A <i>Tribuna</i> não póde deixar de agradecer-lhes essa honra, de que +sempre nos ensoberbeceremos, servindo-nos de estimulo para proseguirmos no +caminho que tomamos sobre nossos hombros.</p> + +<p>«Agora, que rendemos o preito devido ás nossas formosas e patrioticas +assignantes, o leitor nos permitta tratemos de alguns factos.»</p> + +<p>Na data em que isto se publicava—20 de maio de 1872—, a <i>Tribuna</i> +fazia uma tiragem de 1:000 exemplares, e para mostrar que o apello fôra +attendido pelos <i>patriotas</i>, aquelle numero subiu a 3:000, passado +apenas um anno!<span class="pagenum"><a id="pag_243" +name="pag_243">[243]</a></span></p> + +<p>Tambem diziam:—o jornalismo do imperio não faz caso do pasquim; e a +<i>Tribuna</i> fulminava assim os insultadores da sua <i>dignidade</i>:</p> + +<p>«Estranha o bandido d'além mar, em um aranzel publicado no <i>Diario da +Bahia</i>, que o <i>Jornal do Pão de Assucar</i> tenha tido a honra de +permutar com o nosso periodico.</p> + +<p>«Estes labregos não se conhecem!</p> + +<p>«O <i>Jornal do Pão de Assucar</i>, por ser redigido por um homem de bem, +<i>foi que pediu a permuta á Tribuna</i>, e ella acceitou. <i>Nós permuttamos +com quasi todos os jornaes do imperio</i>, dos logares os mais longiquos, e +de todos estes jornaes só ao <i>Globo</i> foi que da nossa parte pedimos +permuta; quanto aos mais nós não fazemos mais que acceital-o se o jornal é +digno d'essa consideração (<i>sic</i>), se não é damos-lhe um pontapé como +fizemos ao <i>Imparcial</i> de Guimarães, porque aqui não jogamos perolas a +porcos, nem damos esmolas aos cães.»</p> + +<p>Se não fôra demasiado extenso publicariamos n'este logar a lista dos +jornaes do imperio que trocavam com o pasquim incendiario do Pará.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Alguns de nossos leitores terão reparado já na insistencia de só querermos +apresentar á vindicta publica a <i>Tribuna</i>, deixando incolumes os +pasquins <i>Regeneração</i> e <i>Constituição</i>, que tambem se publicam na +cidade do Pará; aquelle, orgão official do clero, e este do partido +conservador. Não é esse o nosso intento, assim como o não é de isentarmos os +pasquins que se publicam nas outras capitaes das provincias, ao sul da do +Pará.</p> + +<p>Assim, pois, vamos apresentar ao leitor <i>O Argus</i>, <i>O<span +class="pagenum"><a id="pag_244" name="pag_244">[244]</a></span></i> +<i>Estandarte</i>, <i>O Progresso</i>, <i>A Malagueta</i>, <i>A Voz do +Bacange</i><a name="tex2html54" href="#foot4295"><sup>[54]</sup></a> e o +<i>Publicador Maranhense</i> do Maranhão.<a name="tex2html55" +href="#foot4296"><sup>[55]</sup></a></p> + +<p>Do Ceará a <i>Tribuna Popular</i>. De Pernambuco, o <i>Commercio a +retalho</i> e a <i>Luz</i>; e antes de mencionarmos os das outras provincias, +transcreveremos alguns especimens hospitaleiros d'estes pasquins... com os +quaes se não ri a população.</p> + +<p>Falla o <i>Commercio a retalho</i>:</p> + +<p>«Vive o povo brazileiro sobre a pressão do mais horroroso pauperismo!</p> + +<p>«Certamente causa espanto, que o povo brazileiro viva na miseria, sendo, +entretanto, o Brazil tão rico!</p> + +<p>«O que contribue directamente para que o povo, habitando n'um paiz tão +fertil, viva opprimido pela miseria, são duas causas—a estupida, +anti-patriota gestão dos negocios publicos, e o commercio a retalho ser +exclusivo dos portuguezes!</p> + +<p>«Se desde que organisou-se o governo brazileiro, este tivesse tratado de +preparar o paiz, por meio de reformas liberrimas e economicas, por certo que +hoje não teriamos de lamentar tantas vexações e desgraças: não teriamos de +ver só portuguezes no commercio.</p> + +<p>«Se desde que chegamos ao numero de poder tratar dos negocios da patria, +nossos antigos não fossem cedendo o campo commercial aos portuguezes, +incontestavelmente não veriamos hoje uma mocidade activa, intelligente, sem +occupação em demanda de empregos publicos, não achando um logar no commercio, +prestando-se a imposições do governo.</p> + +<p>«Em condições tão excepcionaes, resta aos brazileiros conquistar a todo o +transe o commercio a retalho.<span class="pagenum"><a id="pag_245" +name="pag_245">[245]</a></span></p> + +<p>«Continuar a testemunhar o espectaculo pungente de uma mocidade entregue á +triste condição de andar pelas secretarias, subir incessantemente escadas de +influentes do governo, para adquirir empregos, é impossivel.</p> + +<p>«Quando um povo chega ao deploravel estado de ver o primeiro ramo da +riqueza do seu paiz entregue a estrangeiros, que escarnecem d'elle, como os +portuguezes dos brazileiros, não póde conter-se.</p> + +<p>«E, para conquistarmos o commercio, não é preciso desatinos, conquistemos +sublime e francamente por meio da união, da associação, concorrendo para as +casas dos nacionaes e esquecendo as espeluncas dos passadores de cedulas +falsas» etc. etc.</p> + +<p>E conclue:</p> + +<p>«Escolha o povo: ou nacionalisar o commercio a retalho para salvar-se +d'esta miseria, ou succumbir sendo victima d'ella, tendo sobre a campa o +vergonhoso epitaphio—covardes! Povo de escravos!»</p> + +<p>Nós cá não somos tão máus como o <i>patriota</i> João Cancio e +Romualdo—redactores da asneira; nós cá bradaremos aos pasquineiros e a quem +lhe dá trella:—ó mandriões! agarrai na enchada e desbravai a terra! e quando +ella vos der ouro, vinde então estabelecer o commercio a retalho brazileiro +ao lado do commercio a retalho portuguez!...</p> + +<p>Mas não ha gastar cera com tão ruins defuntos. Vamos ao que importa.</p> + +<p>Na Bahia publica-se o <i>Alabama</i> e o <i>Labaro Academico</i>.</p> + +<p>A sua irmã <i>Tribuna</i> expressa-se n'estes termos a respeito do +<i>orgão</i> dos estudantes da academia em S. Salvador:</p> + +<p>«<i>Labaro Academico</i>».—Pelo paquete do sul entrado no dia 15 do +corrente em nosso porto, recebemos o n.º 8 d'esse illustre periodico, +redigido por abalisadas pennas.<span class="pagenum"><a id="pag_246" +name="pag_246">[246]</a></span></p> + +<p>«A illustre redacção do <i>Labaro Academico</i> sobremodo nos penhorou, +que não podemos deixar passar desapercebidas as phrases lisongeiras, que com +profusão nos dirige, com as quaes illustramos as columnas do nosso +periodico.</p> + +<p>«Diz elle que <i>dois elementos nos esmagam, dois elementos nos +aviltam</i>.</p> + +<p>«Pois bem! Unamo-nos em um amplexo fraterno, e trabalhemos para o nosso +<i>desideratum</i>, isto é, regeneremos o nosso paiz—a nossa liberdade.</p> + +<p>«O <i>Labaro</i> que trate de expellir o <i>primeiro</i> de nossas +ridentes plagas, emquanto nós nos esforçamos para exterminar completamente o +<i>segundo</i> da nossa sociedade, isto é, a colonia portugueza, esse cancro +que corroe as nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que +temos de mais caro—a familia.</p> + +<p>«Seja o nosso grito o mesmo que o do bardo de Albion:—<i>Away, +away!</i></p> + +<p>«Assim se expressa o <i>Labaro</i> acerca da nossa <i>Tribuna</i>:</p> + +<p>«A <i>Tribuna</i> periodico popular que se publica em Belem, capital da +provincia do Pará, assim se exprime a nosso respeito:</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Agradecendo as palavras lisongeiras que nos dirigem os illustrados +redactores da <i>Tribuna</i>, cumpre-nos dizer que como vós, nós tambem temos +um <i>desideratum</i> a realisar; é a regeneração do nosso paiz—a nossa +liberdade.</p> + +<p>«Dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam.</p> + +<p>«Nós tratamos de expellir o primeiro das nossas ridentes plagas, +procuramos quebrar as cadeias que jungem este colosso Americano ao poste da +servidão e degradação a que nos tem arrastado a realeza.</p> + +<p>«Vós procuraes arrancar da nossa sociedade um<span class="pagenum"><a +id="pag_247" name="pag_247">[247]</a></span> cancro que corroe as nossas +riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que temos do mais caro—a +familia.</p> + +<p>«Trabalhai, que o povo brazileiro vos abençôa e applaude, porque sois os +defensores de seus direitos, e a posteridade registrará na historia os vossos +nomes.</p> + +<p>«Nós tambem trabalharemos sempre e sempre, e se pararmos extenuados pelo +cansaço, outros tomarão o nosso logar. Away, away.»</p> + +<p>No Rio de Janeiro, finalmente, o jornal a <i>Republica</i>, que fôra +redigido por uma pleiada de escriptores celebres no Brazil, comprehendia os +principios democraticos ataçalhando a colonia portugueza e oppondo-lhe a +barreira de preconceitos mal entendidos, quando a sublime idéa manda derrubar +as barreiras que ante si construiram os despotas das nacionalidades!</p> + +<p>Não temos presente nenhum exemplar d'este periodico, mas a <i>Tribuna</i> +paraense, accusando a recepção, da <i>Republica</i> assim se exprime a seu +respeito, em 6 de janeiro de 1874:</p> + +<p>«Já não estamos sós:—Pernambuco tem o <i>Commercio a Retalho</i>, e no +Rio, a <i>Republica</i> trata de despertar a attenção publica sobre o +elemento portuguez tão numeroso e hostil á nacionalidade brazileira.»</p> + +<p>A <i>Nação</i>, do Rio de Janeiro, jornal semi-official do <i>governo</i> +presidido pelo visconde do Rio Branco, álem de outros artiguinhos capciosos, +publicou o seguinte, que o pasquim paraense transcreveu:</p> + +<p>«<i>Guita! Guita!</i>... Segundo os diccionarios portuguezes significa +esta palavra—<i>barbante cordelinho de linha</i>.—Os <i>gaiatos</i> de +Lisboa, porém, conhecem pelo nome de <i>guitas</i>—os soldados de policia. É +esse o termo que se pretende hoje popularisar entre nós!</p> + +<p>«E são esses estrangeiros (os portuguezes) os que procuram animar +desordens, aconselhar o desrespeito<span class="pagenum"><a id="pag_248" +name="pag_248">[248]</a></span> á auctoridade, justificar quanto excesso e +escandalo se pratica!</p> + +<p>«O grande <i>Jornal do Commercio</i> tambem toma parte n'essas brilhantes +manifestações, embora com a manha que lhe é habitual. Deixa de fallar nos +attentados dos seus queridos compatriotas, e vem dizer que os agentes de +policia estão praticando excessos condemnaveis e promovendo desordens, quando +toda esta cidade sabe que a prudencia da policia tem ido até á fraqueza.</p> + +<p>«O que é certo é que os brazileiros que servem na guarda urbana têm sido +aggredidos, insultados e espancados por estrangeiros turbulentos e sem +educação; e o que é certo tambem é que esse estado de cousas não póde +continuar.</p> + +<p>«Estamos muito atrazados ainda, mas regeitamos a civilisação dos +carroceiros do lixo.<a name="tex2html56" +href="#foot4297"><sup>[56]</sup></a></p> + +<p>«Ah! se a centessima parte d'esses factos se desse em qualquer das +provincias do norte, no Pará, por exemplo!...»</p> + +<p>Agora vejamos quem são os taes <i>guitas</i> do Rio, que a <i>Nação</i> +parecia defender.</p> + +<p>Falla um correspondente da <i>Tribuna</i>, estabelecido na côrte do +imperio:</p> + +<p>«Amigos—não sei o que escrever, ou para melhor dizer, não ha novidades a +não ser chuva, e muita chuva, que tem sido causa de graves e lamentaveis +desgraças, mas sempre a <i>maldita e vil gentalha gallega</i> aproveitando-se +das desgraças alheias para o seu nefando fim—o roubo!</p> + +<p>«Como verão das noticias que abaixo seguem extrahidas do <i>Jornal do +Commercio</i> e do <i>Diario do Rio</i>, um soldado de policia (seja dito de +passagem que <i>dois terços dos soldados do corpo de policia d'esta triste e +desgraçada côrte é gallegada</i>!!!) aproveitando-se da occasião<span +class="pagenum"><a id="pag_249" name="pag_249">[249]</a></span> em que fazia +guarda á casa do conselheiro Menezes <i>guardou</i> um relogio com corrente +de ouro e um paliteiro de prata! Foi preso, encontrando-se-lhe o roubo!!»</p> + +<p>Conclusão:</p> + +<p>Se a policia era insultada pelos <i>estrangeiros carroceiros do lixo</i>, +a <i>Nação</i> tirava a desforra, defendendo os <i>seus</i> compatriotas; mas +se a policia roubava os relogios e os paliteiros de prata, o correspondente +da <i>Tribuna</i> dizia <i>de passagem</i>, que dois terços de soldados do +corpo de policia era <i>gallegada</i>!</p> + +<p>Isto não se commenta.</p> + +<p>Assim, pois, ahi fica demonstrada a differença que existe entre os +hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá.<span class="pagenum"><a +id="pag_250" name="pag_250">[250]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO VII</h1> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0070001">Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará. +Uma boa recepção! As proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia +Americana. Os officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do +governo brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos +excessos. Uma carta de além tumulo.</a></div> + +<h2>I</h2> + +<p>Para que seja fiel a historia dos tumultos no Pará, em 1874, e para que +não haja quem venha negar factos consummados, é preciso dar noticia de alguns +documentos que para ahi existem dispersos, e que desappareceriam se não fôra +o nosso cuidado de esclarecer a verdade; dando logar o desapparecimento a que +futuros historiadores, a titulo d'um patriotismo inconcebivel, desvirtuassem, +com seus falsos raciocinios, os lamentaveis acontecimentos occorridos no +ultimo semestre d'aquelle anno, n'uma das provincias mais ricas do imperio +americano.</p> + +<p>Quantos haverá ahi que nos censurarão o vasculharmos esses documentos, +que, no entender dos optimistas deveriam ficar esquecidos, para salvaguardar +conveniencias mercantís!</p> + +<p>E deverá o homem digno esquecer a verdade, para attender a essas +conveniencias?</p> + +<p>Não, responderão aquelles que, como nós, só vêem no futuro o juiz +imparcial de seus actos.<span class="pagenum"><a id="pag_251" +name="pag_251">[251]</a></span></p> + +<p>«Sabel-o-ia a historia, se os aios e confessores de principes e de reis, +em vez de serem bonzos, fakires e derviches de um credo intolerante e +sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total +aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das idéas, e +das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do desenvolvimento +da humanidade».<a name="tex2html57" href="#foot4298"><sup>[57]</sup></a></p> + +<p>É assim que o illustre escriptor que vimos de citar condemna os melindres +dos optimistas systematicos; e nós somos da mesma opinião. Embora se diga que +já não existem esses bonzos, fakires, e derviches, o que é certo, é que no +referir da historia, ainda ha condescendencias improprias de historiadores +imparciaes, e por consequencia d'esta época de liberdade, condescendencias +que hão de concorrer poderosamente para que á historia do presente, que +devera ser um edificio mais solido do que a historia do passado, faltem os +alicerces que a tornariam indestructivel.</p> + +<p>Se os receios de que se acercam os que se dizem auxiliares da historia do +presente, que ha de ser coordenada no futuro, tivessem por base o temor dos +principes e dos reis, escudados na força clerical, que n'outras épocas +exercia o seu poderoso influxo, á força dos martyrios da polé, a que não +poderam resistir os Galileos da sciencia; era até certo ponto razoavel a +condescendencia filha do medo; mas que os receios tenham a sua origem nas +contemplações inconfessaveis, isso é que é imperdoavel a quem faz a apologia +da liberdade, que veio em auxilio da razão, sem a qual não póde ser escripta +a verdadeira historia.</p> + +<p>Concordando plenamente com o illustre litterato, que viemos de referir, é +preciso provar tambem que não somos bonzos nem derviches do +mercantilismo,<span class="pagenum"><a id="pag_252" +name="pag_252">[252]</a></span> que, como os reis e principes de antigas +épocas, pertende, na actualidade, avassalar a razão.</p> + +<p>Eis o que temos feito e continuaremos a fazer. Pena é que nem todos nos +sigam o exemplo.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Ás noticias atterradoras do Pará em outubro de 1874 que fizemos +transmittir pelo telegrapho, responde o governo portuguez, mandando para as +aguas do Tocantins, o aviso de guerra <i>Sagres</i>.</p> + +<p>O governo brazileiro, tambem reforçava, com a canhoneira <i>Mearim</i> e a +corveta <i>Trajano</i>, a sua esquadrilha do norte.</p> + +<p>A Allemanha mandava a corveta <i>Victoria</i>.</p> + +<p>Vejamos como a <i>Tribuna</i> recebe a <i>Sagres</i>, em seu numero de 17 +de novembro, e quaes as calumnias que proclama sobre a sua guarnição.</p> + +<p>Transcrevemos na integra a recepção por que ella déra causa ao conflicto +entre um dignissimo official da nossa armada e a redacção do pasquim, +conflicto que não deve ficar no escuro para bem da historia.</p> + +<p>Falla o papel incendiario:</p> + +<p>«Amanheceu ancorada em nosso porto no dia 11 do corrente, esta immunda +esterqueira da marinha de guerra portugallega.</p> + +<p>«No dia seguinte, ao da chegada os jornaes da nossa imprensa, que seguem o +triste e desgraçado fadario de especular com a colonia portugallega, +bajulando-a por todos os lados, davam essa noticia da forma seguinte:</p> + +<p>«<i>O Liberal do Pará.</i></p> + +<p>«<i>Corveta Sagres.</i>—Amanheceu hontem ancorado em nosso porto este +elegante vaso de guerra da marinha portugueza.</p> + +<p>«<i>Diario do Gram-Pará.</i><span class="pagenum"><a id="pag_253" +name="pag_253">[253]</a></span></p> + +<p>«<i>Corveta Portugueza</i>:—Está desde ante-hontem á noite ancorada em +nosso porto a corveta <i>Sagres</i>, da armada real portugueza. O gentil +navio trouxe 19 dias de viagem de Lisboa, tocando em Cabo-Verde. Commmanda-o +o sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva considerado pelos seus +honrissimos precedentes como um ornamento de sua classe. A <i>Sagres</i> +arquêa 813 tonelladas, tem machina de vapor da força de 300 cavallos +dynamicos, é armada com 4 canhões e tripulada por 138 praças.</p> + +<p>Seja bemvinda ás aguas do Amazonas a gentil corveta.»</p> + +<p>«<i>Diario de Belem</i>:</p> + +<p>«<i>A corveta Sagres.</i>—Esta corveta da marinha de guerra portugueza, +amanheceu hontem fundeada em nosso porto. Trouxe de Lisboa por S. Vicente 13 +dias de viagem.</p> + +<p>«É do porte de 813 toneladas, da força de 300 cavallos, monta 6 peças e +traz 138 praças de guarnição.</p> + +<p>«É commandada pelo sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva, um dos +ornamentos da marinha portugueza, e vem estacionar em nosso porto com o fim +de proteger os seus compatriotas, aqui expostos ao furor de uma horda de +canibaes.»</p> + +<p>«Ora, será a colonia portugallega tão bruta, não haverá no meio d'ella, ao +menos um portugallego, que tenha um pouco de senso, para vêr n'aquellas +palavras a mais negra irrisão?</p> + +<p>«Ora digam-nos agora, portugallegos, não será uma grande caçoada, uma +negra irrisão, chamarem a vossa corveta <i>Sagres</i>:—<i>gentil</i>, +<i>elegante</i>, <i>protectora etc.</i>, <i>etc.</i>?</p> + +<p>«Safa! que ser-se cego assim já é demais, e fazer-se tanto assim dos +outros tolos é abusar-se muito!</p> + +<p>«Pobres portugallegos!</p> + +<p>«Ficae certos, que nós somos vossos inimigos, havemos contra vós queimar +até o ultimo cartucho, e derramar<span class="pagenum"><a id="pag_254" +name="pag_254">[254]</a></span> até a ultima pinga de sangue, porque nos +fazeis todo o mal possivel; mas não vos illudimos, de vizeira alçada fallamos +a linguagem da franqueza e do positivismo, não nos encobrimos com o manto +infame da hypocrisia e falsidade sómente para vos sugar os cobres, como esses +miseraveis especuladores do <i>Diario de Belem</i>, <i>Gram-Pará</i> e +<i>Liberal do Pará</i>.</p> + +<p>«Ficae certos, que quando chegar a hora tremenda da revolução, estes +vossos <i>amigos</i> de hoje serão os vossos mais cruentos inimigos, para que +elles não sejam victimas da indignação de seus proprios patricios. Elles, os +vossos <i>amigos</i> hão de querer rehabilitar-se perante o povo brazileiro, +e para isso mais depressa que nós vos mandarão <i>cear com Belzebuth</i>!</p> + +<p>«Esperem, esperem e verão como os factos e os tempos se encarregarão de +corroborar estas nossas opiniões.</p> + +<p>«Crêde-nos que, quando cahir entre nós o raio flammejante da revolução é +para fazer uma unica e nobre divisão: de um lado—brazileiros, do outro +lado—portugallegos.»</p> + +<p>No mesmo numero, a proposito de um baile no <i>Cassino</i>:</p> + +<p>«<i>Sympathicas leitoras.</i>—Na carencia de divertimentos, festas e +prazeres bateu-vos á porta a festa do glorioso prelado de Sebaste, S. Braz, o +milagroso advogado das molestias da garganta.</p> + +<p>«Bailes não houve... Alto lá, musa: olha que já me fizeste pregar uma +mentira ás benignas leitoras!</p> + +<p>«É verdade que eu bem podia vender este <i>peixinho</i> ás minhas +delicadas leitoras, porque eu não vi nenhuma nos salões do <i>Cassino</i>, +mas em descargo de minha consciencia e respeito ás minhas caras leitoras, não +quero, não posso, não devo mentir.</p> + +<p>«Portanto, houve no sabbado baile no <i>Cassino</i>; baile, que os seus +maiores <i>dilectantis</i> esperavam ser de...<span class="pagenum"><a +id="pag_255" name="pag_255">[255]</a></span> <i>grande gala</i>, pois para +isso foi convidada toda a officialidade da <i>Sagres</i>.</p> + +<p>«Mas oh! bellas leitoras, grandissimo <i>fiasco</i>! Só vi alli meia duzia +de moças e outro tanto de moços brazileiros que retiraram-se logo, onde entre +elles veiu-se escorregando o vosso chronista, porque a <i>coisa</i> não +cheirava lá muito bem.</p> + +<p>«Gostei, leitoras, gostei de não vos ver alli n'aquelles agallegados +salões do <i>Cassino</i>.</p> + +<p>«Pois não! Quem mais dignos de dançar comvosco se não os vossos patricios, +creaturas de corpos leves e ageitados, limpos e aceiados?</p> + +<p>«Haveis trocal-os pelos corpos dos portuguezes immundos, insupportaveis e +pezados como um cêpo?</p> + +<p>«Ora essa é o que faltava!</p> + +<p>«Arranjem-se p'ra lá... como poderem, comtanto que as nossas amaveis +leitoras não estão resolvidas a dançar um <i>fado</i> em lugar d'uma polka, e +aguentarem com esses alarves desenfreados.</p> + +<p>«E depois de termos os brilhantes salões do <i>Club Militar</i>, o que +irão fazer as queridas e patrioticas leitoras nos agallegados salões do +<i>Cassino</i>?</p> + +<p>«Quem é que troca ouro por couro?</p> + +<p>«Gostei, leitoras, crêde-me que vós me enchestes as medidas, gostei de ver +a prova de patriotismo que déstes não comparecendo no lusitano baile do +<i>Cassino</i>. Os portuguezes quando vos pódem metter as botas não vos +guardam deferencia—é bastante sêrdes brazileiras para elles vos calumniarem. +Compenetrae-vos d'isto e procedei sempre como agora, que o vosso chronista +agradecido e <i>cahido</i> vos beijará respeitosamente as setinosas mãos.»</p> + +<p>Este artigo é demasiadamente comico, para dever merecer os nossos reparos; +comtudo acceitamos a prova de patriotismo das leitoras de <i>setinosas +mãos</i>!<span class="pagenum"><a id="pag_256" +name="pag_256">[256]</a></span></p> + +<h2>III</h2> + +<p>Agora venha a calumnia. Tem a palavra ainda a <i>Tribuna</i>:</p> + +<p>«Hontem fôra apprehendida pelo patrão do escaller da alfandega, dous +saccos com carne secca que segundo ouvimos dizer iam com destino á taberna do +Pechincha (portuguez) ao largo das Mercês.</p> + +<p>«Não teriam desembarcado da <i>Sagres</i>?»</p> + +<p>Ainda mais:</p> + +<p>«Como mudam os tempos! Outr'ora os ventos do largo nos traziam os aromas +exquisitos, os perfumes inebriantes das flôres silvestres, d'essas ilhas +virgens que nos demoram ao N.</p> + +<p>«Hoje, trazem-nos o halito impestado d'essa gente portugallega, as +emanações putridas e abafadas d'esse fóco de peste que se chama +<i>Sagres</i>, os miasmas d'esse trapo bicolor impregnado de sangue africano +e coberto de maldições horrendas!»</p> + +<p>Mais:</p> + +<p>«<i>Visita presidencial.</i>—Sabbado pela uma hora da tarde, o +ex.<sup>mo</sup> sr. presidente da provincia, acompanhado do chefe do mar, +inspector do arsenal de marinha, chefe de policia, guarda-mór da alfandega e +o consul portuguez, foi fazer uma visita ao chaveco <i>Xagres</i>, ora +ancorado em nosso porto, estupidamente appellidado de <i>crubêta</i> pelos +estupidos portuguezes. Não sabemos porque não lhe chamam <i>náo</i>.</p> + +<p>«Ao atracar o escaller em que ia o presidente, o commandante da alambasada +maruja deu signal a esta que subisse ás <i>biergas</i>, e logo, á guisa de +preguiça quando se arrasta por algum cipó, eil-os se agarrando pelas +enxarcias, meia duzia de gallegos sabujos, que são os de que se compõem <i>a +crubêta belha e remendada</i>.</p> + +<p>«Logo que chegaram ás <i>gabias</i>, começaram a dar<span +class="pagenum"><a id="pag_257" name="pag_257">[257]</a></span> +<i>bibas</i> ao <i>pabilhão auri-berde</i>, ao <i>imperadore</i> do +<i>Vrasile</i> e não sabemos que mais...</p> + +<p>«D'est'arte fizeram uma parodia burlesca e mais ridicula do que as outras +nações, em caso identico, costumam fazer.</p> + +<p>«Ao retirar-se o presidente, como é estyllo em taes circumstancias, +salvaram o castello e a canhoneira <i>Mearim</i>, ficando (oh! vergonha das +vergonhas!) recolhida ao profundo silencio a <i>crubêta Xagres</i>, por +achar-se impossibilitada...<a name="tex2html58" +href="#foot43"><sup>[58]</sup></a></p> + +<p>«Que fiasco, portuguezes!</p> + +<p>«Comquanto tivessemos Portugal como a nação mais miseravel da Europa, não +lhe dispensando a minima importancia, todavia não tinhamos ainda formado uma +idéa tão exacta da sua impotencia e nullidade na ordem das cousas.»</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>O artigo que vamos transcrever deu causa ao conflicto do dia 21 de +novembro de 1874:</p> + +<p>«Apesar do desapontamento da colonia portugueza, que esperava um navio de +guerra de primeira classe para metter-nos medo, em vez da falua +<i>Sagres</i>, que só tem servido para ridiculos, consta-nos que o commercio +já nomeou uma commissão, afim de promoverem uma subscripção para os bailes +que pretendem dar no salão do <i>Albino</i>, ao largo da Trindade, e no +<i>Hotel Central</i>, á estrada de Nazareth.</p> + +<p>«Tiveram a honra da nomeação para a commissão os honrados negociantes José +Solambada, Joaquim Gallinheiro, Bento de La-Rocque, Alivio Ladrão, José<span +class="pagenum"><a id="pag_258" name="pag_258">[258]</a></span> Coelho, (o +balão) e Manuel dos Tomates, com os quaes nos congratulamos á vista de tão +acertada escolha.</p> + +<p>«Medeiros Branco, Frias e o <i>compadre</i> Antonio Muchila foram +encarregados para fazerem as poesias analogas ao acto, nas quaes cantarão as +<i>Glorias de Alcacer Quibir</i> e as do <i>Rei chegou</i>, depois do que o +<i>Club Philarmonico</i> tocará a <i>caninha bierde</i>.</p> + +<p>«Ai! que folia! que pagode!</p> + +<p>«<i>Sagres</i>, é o gentil buque-luso com quatro canhões, dois por banda, +montados em rodisios de cana da India, fundeada em nosso porto, hasteando +galhardamente <i>el pavilhon</i> das <i>gloriosas quinas portuguezas</i>, +tendo attrahido á flôr d'agua até os <i>bacus</i>, <i>tralhôtos</i> e +<i>candirus</i> para a admirarem! Caramba!</p> + +<p>«Os canhões são tão grandes como aquelles que os argentinos mandaram +fundir, os quaes não cabendo nos seus arsenaes, tiveram de metter os arsenaes +dentro dos canhões! Pumpum!</p> + +<p>«Veiu a bordo da <i>Sagres gentil</i>, um grosso tonel de azeitonas +arvorado em <i>mestre</i>, assemelhando-se muito pela figura grutesca a um +d'esses patrões de falua do Tejo.</p> + +<p>«Quem sabe se não mandaram esse <i>loup de mer</i> para cá com o unico fim +de amedrontar-nos com sua figura obesa e ratona?</p> + +<p>«Portugal tem garbo em presentear-nos com <i>salchichões</i> d'esses!</p> + +<p>«Pedimos ao sr. Furman que não se esqueça de phothographar essa raridade, +pois todas as vezes que vem á terra faz a população morrer de riso.</p> + +<p>«Os janotas de pince-nez la <i>del buque</i> com effeito nada arranjarão +aqui, porque já são mortos Villarés e Chicos Ruivos... restando apenas o +Caleijão.<a name="tex2html59" href="#foot224"><sup>[59]</sup></a></p> + +<p>«Consta-nos mais que a guarnição tem-se agradado<span class="pagenum"><a +id="pag_259" name="pag_259">[259]</a></span> tanto da terra, que toda ella +quer desertar para aqui reforçar o trafico das carroças e pipas d'agua» +etc.</p> + +<p>Isto e muito mais foi publicado no n.º 259 da <i>Tribuna</i>, já referido; +mas esta ultima parte dos insultos á guarnição da corveta, e especialmente +aos <i>janotas de pince-nez</i>, os segundos tenentes da armada real, Carlos +Krusse e Marques Costa, deu aso aos novos tumultos do dia 21 que ainda a +moderação mais evangelica não poderia evitar.</p> + +<p>Carlos Krusse, explica assim as novas occorrencias, em uma carta enviada +do Pará á <i>Democracia</i> de Lisboa com a data de 28 de novembro de +1874:</p> + +<p>«<i>Sr. redactor.</i>—Depois de commigo se haver dado um caso, que os +jornaes da localidade occultam, e que o papel <i>Tribuna</i> procura +deturpar, não ficarei silencioso á partida de noticias para ahi. Devo aos +portuguezes a narração verdadeira do facto commigo dado. Para os da nossa +colonia do Pará é trabalho inutil expôr o que todos elles sabem. Para +Portugal são precisas algumas palavras.</p> + +<p>«Li um artigo que, com a epigraphe <i>Projectos de baile em honra del +buque Sagres</i>, vem publicado no jornal a <i>Tribuna</i> de 17 de novembro +do corrente, e vendo o periodo—Os janotas de pince-nez—procurei no +escriptorio da redacção um tal homem, ou cousa que o valha, que se +responsabilisa pela folha.</p> + +<p>«Mandou-me entrar esta repugnante creatura, e depois de lhe pedir com a +maior prudencia o ultimo numero do jornal que publicou (o que me queria +offerecer, e que, não acceitando, paguei por 800 réis) mostrei-lhe o artigo +que ambiguamente me podia dizer respeito.</p> + +<p>«Leu, e ao terminar, pedi-lhe me declarasse se era de mim que tratava, +para lhe exigir prompta satisfação. Declarou-me terminantemente por duas +vezes, (tantas por mim exigidas) defronte dos seus empregados,<span +class="pagenum"><a id="pag_260" name="pag_260">[260]</a></span> que nada +comigo tinha relação, e que mesmo a palavra <i>mestre</i>, no artigo +empregada, se não referia a official algum da corveta, mas sim a alguem da +prôa.</p> + +<p>«Agora este ente repugnante, vergonha da classe militar (ex-capitão +paraguayo) e dos homens de bem, quer, em seus covardes escriptos, mascarar de +prudencia o que n'elle foi falta de coragem, para sustentar o que havia +escripto e desafrontar-se, quando pouco depois de eu ter entrado na redacção, +justifiquei a minha tardança em ali ir, na falta de leitura d'um papel, que +lhe disse ter «por unico programma a calumnia e a infamia, contra um povo, +contra uma nação de que supponho não conhece a posição geographica».</p> + +<p>«A colera reprimida d'essa abjecta creatura obrigou-a a mentir perante o +presidente da provincia, queixando-se de que eu lhe havia assaltado a +casa!</p> + +<p>«Um unico homem, não manejando arma alguma, usando de todo o +cavalheirismo, assalta a espelunca de um negro, dentro da qual estão mais +cinco ou seis?</p> + +<p>«Isto faria rir, se não provocasse dó.</p> + +<p>«Na occasião em que procurei esta cousa de fórma humana, este menino da +<i>Tribuna</i>, confesso-lhe sr. redactor, que imaginei que ao encontrar um +testa de ferro acharia tambem n'elle os brios de homem.</p> + +<p>«Reconheço hoje que tratei com um garoto de praça publica, que nos faz +caretas ao voltarmos-lhe as costas, e a quem devolvo os epithetos, calumnias +e infamias, que me dirigiu e que ahi leram.</p> + +<p>«Que precisaria um homem que declara agora uma coisa, e que logo publica +um pasquim negando os factos passados na sua officina, presenceado pelos +«seus dignos empregados e ouvidos pelos muitos grupos que fóra escutavam e +que na minha saída vi?»</p> + +<p>«Poder-se-ha usar com homem de tal caracter os meios empregados entre +cavalheiros, entre homens de bem?<span class="pagenum"><a id="pag_261" +name="pag_261">[261]</a></span></p> + +<p>«Não.—Disse-m'o uma grande parte da colonia portugueza aqui, +aconselharam-me todos os meus camaradas.</p> + +<p>«Que resta? O desprezo, a entrega de tal procedimento á apreciação do +publico e o desforço que se toma para com um garoto quando o acaso depare +occasião.</p> + +<p>«Não responderei mais, como fazem todos os officiaes da <i>Sagres</i>, ao +que diga de futuro a tal <i>Tribuna</i>, e só peço com fervor a chegada de +uma occasião propria para o ultimo e unico desforço.</p> + +<p>«Convença-se Portugal, de uma vez para sempre, que o seu apreciado +Revalescière <i>Prudencia!</i> não serve, quando os acontecimentos chegaram a +tomar o corpo que attingiram os do Pará.</p> + +<p>«Uma satisfação das affrontas dirigidas ao soberano e á nação, exigida, se +preciso fôr, com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de Janeiro, +affigura-se-me ser a ultima, mas necessaria solução!</p> + +<p>«Desculpe, sr. redactor, o apressado d'estas linhas, que teem tanto de mal +escriptas quanto de verdadeiras, e creia no respeito que merece a quem é—De +v. etc. <i>C. Krusse</i>.»</p> + +<p>Marcelino Nery que se humilhára perante o bravo official, levantou a +caricata grimpa pela seguinte forma, n'um avulso—<i>Boletim da Tribuna</i>, +quando o portuguez digno lhe dera as costas como a vil sicario:</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">AOS BRAZILEIROS</p> + +<p>«Acabamos de soffrer a mais revoltante affronta, que não foi, como devera +ser, punida para não darmos logar a que ignobeis detractores da honra +nacional cuspissem infamias cruelissimas á face d'este povo nobre e heroe na +paciencia com que tolera os ultrages da colonia portugueza.<span +class="pagenum"><a id="pag_262" name="pag_262">[262]</a></span></p> + +<p>«Povo paraense! Ao meio dia de hoje foi a nossa officina invadida por um +individuo, cujo nome, occupação e qualidade não indagamos, nem desejamos +saber e que cheio da mais sôez prosapia e pela forma porque achava-se +ajaezado, disse e acreditamos ser official da carveta <i>Sagres</i>.</p> + +<p>«Armado sem duvida e no firme proposito de pôr em pratica um crime +hediondo, e na louca persuasão de pratical-o e ficar impune, esse individuo, +depois de invadir a nossa officina e encontrar da parte de seu proprietario +um cavalheirismo a toda a prova, recuou de sua tentativa e tomou o expediente +de proromper, n'uma grita crapulosa, em insultos e injurias contra a honra +nacional, contra os brios paraenses, a ver, se arrastando ao extremo da +indignação ao capitão Nery, o provocava a um desforço legal que desse-lhe +brecha a converter-se de bebado em audacioso malfeitor.</p> + +<p>«Foi preciso que o capitão Nery se revestisse da maior prudencia e em +termos habeis repellir de dentro de sua propriedade um insolentissimo e +arrojado lacaio com fumaças de nobre... que procurava ser castigado a +vergalho, se por ventura em outro paiz se desse semelhante affronta.</p> + +<p>«Saibam os portuguezes e o mundo inteiro—que se não fossemos generosos, +se não tivessemos nobresa de alma, se fossemos selvagens, o infame deixaria +os miolos ao estampido do revolwer sobre o chão que pisamos: só a tiro se +poderia castigar a selvageria de um javardo agaloado, que teve a suprema +audacia de invadir a nossa officina.</p> + +<p>«Ninguem dirá que, dentro d'ella um bandido ou bebado pagou com a +existencia atrevimentos escarrados em nosssa honra e patria.</p> + +<p>«O facto, que expomos, foi levado ao conhecimento do ex.<sup>mo</sup> sr. +presidente da provincia, que prometteu immediatas e energicas providencias +com que contamos.<span class="pagenum"><a id="pag_263" +name="pag_263">[263]</a></span></p> + +<p>«<i>Percheiro</i> que transmitta esta noticia invertendo a acção e os +actores.»</p> + +<p>A consciencia dizia-lhe que no <i>boletim</i> deturpára a verdade dos +factos; por isso nos impunha aquella especie de ameaça, para que os não +illucidacemos em nossas partes telegraphicas, o que já mais elle ou qualquer +<i>tribuno</i> façanhudo conseguiriam.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Por isso e por obrigação do nosso cargo fizemos passar para o sul as +seguintes partes telegraphicas:</p> + +<p>«(21-11-74) <i>Tribuna</i> violentissima contra guarnição corveta; +official mais offendido pedio satisfação á redacção. Opinião publica reclama +termo estado cousas póde ter graves resultados.»</p> + +<p>Antes de proseguirmos vamos dar uma explicação:</p> + +<p>O official da Sagres só pedio satisfação quatro dias depois, por que só +então lhe constára o insulto. E se não demos parte, no dia 7, da linguagem +indecente da <i>Tribuna</i>, era por que nunca faziamos caso d'ella, mas se +n'este momento a destinguimos foi pela necessidade que tinhamos de noticiar +os acontecimentos gravissimos que se annunciavam.</p> + +<p>Aquelle telegramma passou pelo cabo ás 2 h. da tarde, pouco mais ou menos. +Marcelino Nery, fôra-se queixar ao presidente, da supposta affronta do +official portuguez; e como aquella auctoridade o recebera indifferentemente, +o capitão paraguayo, para amedrontar o presidente e a população fez publicar +o tal boletim que reproduzimos, ao anoitecer d'esse mesmo dia.</p> + +<p>Eis o telegramma em que davamos parte d'esta publicação:</p> + +<p>«(21-11-74) <i>Tribuna</i> publica boletim aos brazileiros contra official +fôra pedir satisfação. Reina panico.»<span class="pagenum"><a id="pag_264" +name="pag_264">[264]</a></span></p> + +<p>«(22-11-74) Mercado falta dinheiro. Espere serviço.»</p> + +<p>No dia 22 de tarde, á hora a que expediamos esta parte, dizia-se que os +<i>tribunos</i> fariam reunião na praça de D. Pedro II. Foi este boato que +deu aso áquella prevenção, para sul, de—<i>espere serviço</i>; e a prova +eil-a:</p> + +<p>«(23-11-74) Constava <i>tribunos</i> fariam <i>meeting</i>. Chuva +continuada evitaria? Policia estava a postos.»</p> + +<p>A chuva foi torrencial durante toda a noite; não obstante, nós e a policia +estavamos a postos.</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Foi no dia 21 de novembro que o presidente Azevedo expedira para o seu +governo o importantissimo telegramma que mencionámos a paginas 7 das +<i>Questões do Pará</i>, dia em que egualmente fôra expedida para Londres a +não menos importante parte, que egualmente transcrevemos no referido livro a +pag. 10.</p> + +<p>Mas não ficou aqui a questão. Ainda fizemos expedir mais telegrammas, que, +julgamos indespensavel transcrever aqui.</p> + +<p>E se os não publicámos ha mais tempo, foi porque esperavamos fazer sahir á +luz um outro livro, que não publicámos, por que como já dissemos, nos +subtrairam a collecção de todos os jornaes que se publicaram no Pará, no +ultimo semestre de 1874, em cujos artigos, de origem brazileira, escudariamos +as nossas proposições; collecção que pode ser examinada a todo o tempo por +escriptores brazileiros, que mais tarde pretendam escrever a historia dos +tumultos do Pará n'aquelle anno.</p> + +<p>Mas vamos á historia dos telegrammas.</p> + +<p>Os espiritos conservavam-se agitados, especialmente, desde o dia 21 de +novembro.</p> + +<p>Esperavam-se, a toda a hora, providencias do governo<span +class="pagenum"><a id="pag_265" name="pag_265">[265]</a></span> central, com +respeito ao telegramma do presidente. Até que afinal, o governo deu um ar da +sua graça, declarando ao seu representante no Pará, que <i>procedesse dentro +dos limites da lei</i>!</p> + +<p>Os <i>tribunos</i> que até alli tinham zombado de tudo e de todos, +continuaram a zombar, não só da lei, como da decisão do governo, cuja noticia +correra logo de bocca em bocca, não obstante a tal decisão ser <i>secreta</i> +como <i>secreto</i> tinha sido o telegramma do dia 21 de novembro, que nós +devassamos!</p> + +<p>Quem padecia mais com as indicisões do governo central era o commercio; +por isso expedimos, no dia 25, a seguinte parte telegraphica, resultado das +repetidas conferencias que tivemos com seus representantes:</p> + +<p>«Bancos restringiram operações. <i>Tribuna</i> sahida hoje mesma +linguagem.»</p> + +<p>A <i>Tribuna</i> não podia deixar de se mostrar fanfarona, á vista dos +medos do governo.</p> + +<p>O presidente, não podendo fazer cousa alguma <i>dentro dos limites da +lei</i>, foi para o jornal official proclamar ao povo contra os excessos da +<i>Tribuna</i> e seus apaniguados.</p> + +<p>Compare-se esse documento publicado nas <i>Questões do Pará</i>, com o +extracto que d'elle fizemos em nosso despacho telegraphico expedido para o +sul em 26 de novembro, e ver-se-ha que a consciencia e não o <i>espirito de +nacionalidade</i>, presidira sempre aos nossos actos de agente fiel da +companhia Americana.</p> + +<p>É este o despacho:</p> + +<p>«<i>Jornal Official</i> diz chegou occasião lamentar estado provincia que +retrograda gigantescamente. Japão civilisa-se, Pará passa terra selvagens. +Ideias tríbunicias defendidas por influencias. Edificações paralisadas, +decrescimento rendas, commercio desanimado, telegrammas para Europa +suspendendo pedidos. <i>Tribuna</i> cessaria publicação, mas agenciaram +subscripções;<span class="pagenum"><a id="pag_266" +name="pag_266">[266]</a></span> emissarios foram intimar publicação. +Conclue—governo disposto manter tranquilidade. Não tolera empregados devem +ser ordem, estejam collocados á testa movimentos tribunicios. Fez sensação +artigo. Reuniões influentes casa <i>Tribuna</i>.»</p> + +<p>Por aqui póde vêr o sr. Augusto de Carvalho e os seus dignos +correligionarios optimistas, que com a propaganda da <i>Tribuna</i> do Pará, +não riam nem folgavam os leitores, como riem e folgam com a leitura dos +nossos jornaes burlescos.</p> + +<p>Em 27 de novembro ainda não tinham socegado os espiritos. A prova d'isso +está nos telegrammas do presidente do Pará, publicados na folha official do +Rio de Janeiro, e que já transcrevemos em outro logar.<a name="tex2html60" +href="#foot4302"><sup>[60]</sup></a></p> + +<h2>VII</h2> + +<p>Já viram os leitores, que, comnosco estavam interessados na questão: o +presidente, os jornaes de todos os partidos, exceptuando a +<i>Constituição</i> e a <i>Tribuna</i>, o corpo commercial e por ultimo, os +officiaes da <i>Sagres</i>, que expediram pela agencia americana para o +<i>Diario Popular</i>, o seguinte telegramma que não chegou ao seu destino, e +para cuja publicação estamos auctorisado:</p> + +<p>«(27-11-74.) <i>Diario Popular.</i>—Lisboa. <i>Tribuna</i> +insolentissima. Officiaes <i>Sagres</i> prohibidos ir terra. Humilhantissima +posição. Providencias immediatas.—<i>Maia.</i>»</p> + +<p>O seguinte despacho fôra expedido por nós em 28 de novembro:</p> + +<p>«<i>Constituição</i> responde ao <i>Jornal Official</i>, refutando.<span +class="pagenum"><a id="pag_267" name="pag_267">[267]</a></span> Opina +publicação <i>Tribuna</i>, mudando linguagem. <i>Gran-Pará</i> acompanha +<i>Jornal Official</i>.»</p> + +<p>E, effectivamcnte, a <i>Tribuna</i> acceitou os conselhos da +<i>Constituição</i>!...</p> + +<p>Eis como o deputado, Wilkens de Mattos, esclarece a questão, no <i>Diario +de Belem</i> de 2 d'agosto de 1874.</p> + +<p>E preferimos esta á nossa opinião, porque em summa...somos portuguez!</p> + +<p>Falle o sr. Mattos:</p> + +<p>«O estylo é o homem, e os artigos da <i>Constituição</i> photographam +fielmente a indole de seus redactores.</p> + +<p>«Provocado por ella de um modo improprio de cavalheiros, insultado em uma +linguagem que só se depara nos vocabularios dos homens da mais infeliz camada +da sociedade, corri á imprensa para lançar de sobre mim a responsabilidade +que a <i>Constituição</i> me emprestava, e para externar minha opinião a +respeito da questão, que tanto tem agitado e prejudicado a sociedade +paraense, e levantado grande celeuma contra nós no extrangeiro. Era um dever +imprescindivel, a quem, como eu, presa sua terra natal, respeita a opinião +publica e quer manter um caracter illibado; mas a <i>Constituição</i> por +motivos que me são estranhos, surprehendeu-me mais uma vez com a sua +linguagem, que me furto ao desprazer de qualificar. Ninguem, que não esteja +dominado de um odio brutal e de prevenções irracionaes, deixará de lastimar a +linguaguem de que, a meu respeito, fez uso o jornal, que se diz orgão do +partido conservador d'esta provincia, jornal que foi creado tambem para +regenerar a imprensa paraense, cuja linguagem, classificada de polluta, elle +tanto censurou e condemnou no começo de sua estrêa.</p> + +<p>«A <i>Constituição</i> pensou que me abateria e me faria recolher ao +silencio, ou provocaria de minha parte represalias na mesma phraseologia com +que me aggredio. Enganou-se. Os seus insultos servirão para provar<span +class="pagenum"><a id="pag_268" name="pag_268">[268]</a></span> contra ella, +que não occulta o seu rancor, o seu espirito abocanhador sempre que tem de +derigir-se a quem <i>ousa</i> decahir de suas graças.</p> + +<p>«A <i>Constituição</i> mente assim ao seu programma, compromette o seu +presente e cava a ruina de seu futuro.</p> + +<p>«Devia ella manter-se em terreno decente, usar de linguagem intelligente e +circumspecta, propria de cavalheiros, ainda mesmo combatendo seus adversarios +politicos, ou aquelles que, sendo conservadores, não concordam com a sua +politica. Se a <i>Constituição</i> não respeita as opiniões de seus +adversarios ou divergentes, se ella não a procura vencer por meio da +intelligencia, empregando a linguagem comedida e decente, como quer ser +tratada e considerada?</p> + +<p>«Não pense que o insulto lhe dará nunca ganho de causa. Esse meio é +reprovado nas sociedades cultas, e só lhe pode attrahir o despreso.</p> + +<p>«Lastimo, pois, mais uma vez a trilha errada que procurou a +<i>Constituição</i>, e apesar de gravemente offendido por ella, faço cordeaes +votos para que seja a sua redacção mais feliz nas suas inspirações, afim de +não prejudicar a sociedade em que milita.</p> + +<p>«A <i>Constituição</i> sabe bellamente, que na camara temporaria, de que +tenho a honra de fazer parte, nunca se tratou de discutir os males que a +propaganda e lingoagem da <i>Tribuna</i> teem causado a esta provincia. Se +alí se tivesse tratado d'isso, póde estar a <i>Constituição</i> certa, de que +externaria eu com toda a franqueza a mesma opinião, que já externei pela +imprensa, no meu ultimo artigo. Esperaria, é verdade, e unicamente por um +rasgo de cortesia, que os meus collegas, representantes do Pará, primeiro se +manifestassem a respeito; mas quer elles o fizessem, quer não, não ficaria +occulto nas dobras do silencio, muitas vezes conveniente áquelle que não tem +a coragem de seus actos, e que prefere jogar em perpetuo carnaval.<span +class="pagenum"><a id="pag_269" name="pag_269">[269]</a></span></p> + +<p>«Não ha consideração alguma que me inhiba de manifestar-me com a isenção +d'espirito e com a franqueza a que tem direito os mais caros interesses desta +abençoada terra em que tive o berço, e de suas relações com uma nação amiga, +da qual descendem os brazileiros, e com a qual se acham estreitamente ligados +pelos laços mais estimaveis.</p> + +<p>«Os augustos chefes das duas nações são parentes mui proximos. Portugal +exercita com o Brazil avultado commercio; envia-nos os seus productos em +troca dos nossos. A mesma religião, a mesma lingua; os mesmos costumes. +Porque hesitar diante da propaganda que nos faz passar como um povo que vae +perdendo a civilisação e ensaia actos barbarescos? Não vejo rasão.</p> + +<p>«A <i>Constituição</i> convida-me a declinar os nomes dos seus redactores +que cultivam relações pessoaes e exercem influencia sobre o proprietario da +<i>Tribuna</i>. Para que esse convite?</p> + +<p>«A <i>Constituição</i>, de certo, não quererá que eu me constitua delator. +Nunca o conseguirá. Deve ella ter consciencia de que eu estou de posse de +muitos de seus segredos, e deve fazer-me a justiça de crêr-me incapaz de +fazer publico uso d'aquillo que outr'ora me foi informado. Negar é um +impossivel, que alguns de seus actuaes redactores fizeram publicar na +<i>Tribuna</i> escriptos seus. Alludo apenas a esta circumstancia, porque não +ha quem a ignore.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Não é em um artigo escripto ao correr da pena, que o deverei fazer.</p> + +<p>«Não tenho embaraço algum a pronunciar-me clara, sincera e positivamente, +não só contra a propaganda da <i>Tribuna</i>, mas ainda e sobretudo contra a +linguagem de que tem sido victimas muitos dos subditos de S. M. Fidelissima, +que são honrados negociantes e ricos proprietarios n'esta capital; propaganda +e linguagem que<span class="pagenum"><a id="pag_270" +name="pag_270">[270]</a></span> teem mareado o bello conceito que já +gosavamos, nós os paraenses, na Europa e nos Estados-Unidos.</p> + +<p>«Eu que caminho para o ultimo quartel da vida, que não estou atado ao +orçamento da provincia, que nada pretendo d'ella, que tenho procurado servir +ao paiz com o zelo e capacidade, que Deus me concede, lastimo do fundo do +coração, que ainda haja paraense que não queira reconhecer o immenso mal +moral, economico e politico, que será aggravado de dia em dia, causado á +provincia pelas doutrinas erroneas, e linguagem condemnaveis do +<i>obscurantismo</i>, do inimigo da paz e socego das familias, e do progresso +desta estrella, cujo brilho se procura embaciar! Lamento isto do fundo +d'alma.</p> + +<p>«Meus sinceros parabens á <i>Constituição</i> pela <i>lisongeira e +expontanea</i> defeza que a <i>Tribuna</i> lhe faz em seu ultimo numero.</p> + +<p>«Não leve ella (<i>a Constituição</i>) a mal que eu lhe diga: quem póde o +mais, póde o menos.</p> + +<p>«Quem teve forças para obter que a <i>Tribuna</i> moderasse a sua +linguagem, poderia, se tivesse querido, conseguir ou tolerar, que esse +periodico deixasse de apparecer, ainda que fosse temporariamente.</p> + +<p>«Não veja n'isto uma insinuação, ha franqueza, e firme convicção.</p> + +<p>«Desde que a <i>Constituição</i> aberrando do seu programma primordial, +acha prazer em jogar-me doestos e injurias, devo declarar-lhe: que não sei +esgrimir com <i>mascarados</i>, nem usar de armas que infamam a quem as +emprega.</p> + +<p>«Na arena em que o homem educado deve sempre encontrar-se, no uso do +raciocinio, na applicação honesta dos factos, respeitando-se a verdade, não +hesitarei em encarar a <i>Constituição</i>; mas, diante do insulto e do trato +indigno de cavalheiros, não me encontrará.<span class="pagenum"><a +id="pag_271" name="pag_271">[271]</a></span></p> + +<p>«Fica ao seu sabor escolher; prosiga, porem, como quizer, que, de uma vez +para sempre deve convencer-se, que não responderei ás injurias nem aos +insultos: porque quem insulta á sombra de anonymo é só digno de despreso.»</p> + +<p style="text-align:right;">«<i>Wilkens de Mattos.</i>»</p> + +<p> </p> + +<p>Depois d'isto digam os optimistas que somos pessimista systematico contra +as cousas brazileiras.</p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>Se aos brazileiros se concede a liberdade de condemnar os excessos +commettidos na sua patria, aos portuguezes que soffreram e continuam a +soffrer as consequencias d'esses excessos, não deve ser negada essa +liberdade.</p> + +<p>Assim pois, continuemos a transcripção dos despachos telegraphicos que +fizemos expedir do Pará para conhecimento do mundo inteiro, que então +desejava estar inteirado do incremento da revolução contra portuguezes:</p> + +<p>«(2—12—74) Commissão, praça composta de brazileiros, portuguezes, +inglezes, allemães e francezes em nome do commercio do Pará, officiaram +hontem ao presidente da provincia, confirmando decadencia, crise medonha, +sobresalto, devido a propaganda injusta, criminosa contra nação amiga. Louvam +procedimento do presidente da provincia. Firmeza, linguagem energica, artigos +na <i>Folha Official</i>, renascerá confiança.»</p> + +<p>O original de onde extrahimos este telegramma vem publicado nas +<i>Questões do Pará</i>. Por haver quem diga que fomos exaggerado nos +despachos é que os transcrevemos, para que sejam comparados com os documentos +que lhes deram origem.<span class="pagenum"><a id="pag_272" +name="pag_272">[272]</a></span></p> + +<p>Est'outro, é de 5 do referido mez:</p> + +<p>«O <i>Jornal Official</i> publica hoje manifestação commissão da praça. +Traz resposta do presidente da provincia. Mesmas idéas, 26 de novembro. +Publíca portarias, suspensão, contracto conego (Sequeira Mendes) quatro +contos collegio Cametá. Demissão dos empregados que professam idéas da +<i>Tribuna</i>. Esta continúa.»</p> + +<p>Quando o presidente por estes actos, tocára no estomago repleto, os +revolucionarios anemicos recuaram um pouco.</p> + +<p>Tirar quatro contos de réis ao chefe da propaganda só de uma vez, era +cousa seria!</p> + +<p>E afinal, tinham razão. A propaganda em logar de lhes dar, aos +revolucionarios, alguma cousa <i>de peso</i> tirava-lhes; é verdade que lhes +crescia a popularidade; mas isto de popularidade em troca de uns estomagos +vasios, não era muito para agradar.</p> + +<p>Eis a principal razão porque o <i>orgão popular</i> moderou a sua +linguagem até á retirada da <i>Sagres</i>.</p> + +<p>N'esta occasião publicára-se a carta do sr. Krusse, em Portugal, e o +governo portuguez mandava immediatamente retirar aquelle navio de guerra da +bahia da Guajará.</p> + +<h2>IX</h2> + +<p>Estavamos então em fins de janeiro de 1875.</p> + +<p>A corveta devia partir do Pará para Lisboa, com escalla pelo Rio de +Janeiro, na madrugada do dia 3 de fevereiro do referido anno.</p> + +<p>Aqui está a despedida <i>Tribuna</i> em seu <i>boletim</i> do dia 2:</p> + +<p>«Foi o vapor inglez <i>Ambroze</i>, de proximo ancorado em nosso porto, +que nos fez chegar ás mãos o n.º 80 do immundo pasquim, <i>Brazil</i>, onde +vêm transcripta uma carta d'aqui enviada pelo fétido lapuz <i>Krusse</i>, +o<span class="pagenum"><a id="pag_273" name="pag_273">[273]</a></span> +javardo de <i>pince-nez</i> de bordo da nauseabunda <i>Sagres</i>.</p> + +<p>«Não lê o povo brazileiro o infamissimo pasquim <i>Brazil</i>, por isso +nós vamos fazel-o ouvir, com attenção, o que dizia, <i>ipsis verbis</i> +n'essa carta.</p> + +<p>«Falla, nojento gallego <i>Krusse</i>:</p> + +<p>(Segue a carta que atraz reproduzimos.)</p> + +<p>«Está sciente o povo brazileiro, do que dizia na tal carta, não é +assim?...</p> + +<p>«Ora bem, pois agora fallemos nós.</p> + +<p>«Antes que do porto de Belem desferre a immunda esterqueira portugueza +<i>Sagres</i>, onde chafurdando-se em putridas materias engorda e vive o +fétido e asqueroso gallego <i>Krusse</i>, cumpre-nos, em consideração ao +nobre e heroico povo brazileiro, dizer duas palavras sobre a carta acima, que +esse cynico bandido e miseravel assassino da honra alheia mandou publicar na +degradante imprensa portugueza.</p> + +<p>«Hoje, que está no dominio publico o quanto val Portugal, o que é a +<i>Sagres</i>, o que são os seus officiaes, principalmente esse garoto de +<i>pince-nez</i>, bebado e ladrão <i>Krusse</i>, relativamente a esta magna +questão de nacionalidades—não podemos, por certo, temer que nos apanhem os +seus infamantes insultos.</p> + +<p>«Não. Não nos insulta esse aborto da natureza, essa podre excrescencia, +essa massa informe de sebo e de chulé, esse monturo de percevejos, essa larva +hedionda podridão dos excrementos humanos a que deram o nome de +<i>Krusse</i>. Não! Como um vil, covarde, infame e miseravel cão que é, nem +ao menos lhe poderiamos dar a honra de lamber-nos o fim da espinha dorsal.</p> + +<p>«Já viram todos, o que dissemos a respeito de ter esse salteador invadido +a nossa officina com louco intento de extorquir-nos uma satisfação, não só em +um boletim como em um numero do nosso periodico, relatando com a nossa +proverbial franqueza, imparcialidade<span class="pagenum"><a id="pag_274" +name="pag_274">[274]</a></span> e justiça tudo aquillo que em abono de fé e +verdade se passou entre mim e o asqueroso biltre <i>Krusse</i>.</p> + +<p>«E era isso uma satisfação que tinhamos de dever dar ao povo brazileiro. +Demol-a, e os nossos dignos compatriotas conscios da nossa conducta e +reputação que ha cinco annos teem sabido estudar, não trepidaram em lançar +sobre esse gallego bebado e safado todo o pezo da mais justa odiosidade. +Principalmente quando esse garoto de <i>pince-nez</i> tentou contestar-nos, +debalde adulterando a verdade e invertendo o facto, em um artigo que mandou +publicar no <i>Jornal do Pará</i> numero 274.</p> + +<p>«Ahi porém, não poude elle á vontade vasar o seu venenoso pús. Escreveu +então para a infamissima imprensa portugueza, e ahi está elle no seu elemento +como em um fétido corpo está o percevejo.</p> + +<p>«Pois, se esse grutesco bobo de <i>pince-nez</i>, tão cynica e infamemente +faltou a verdade na imprensa brazileira, como podia deixar tambem de mentir e +insultar na torpe imprensa de sua terra? Por acaso pode elle lembrar-se +d'aquillo que realmente se deu em nossa officina! Póde elle dizer a +verdade?</p> + +<p>«Não, nunca. O bandido que assalta de dia a nossa officina offuscado pelos +vapores intensos da <i>jeropiga</i>; o ladrão que assalta de noite uma outra +casa de uma pobre e indefeza senhora, travessa das Gaivotas, e d'ahi é como +um vil e pirento caxorro lançado na rua a pezo de cabo de vassoura, mesmo por +um seu patricio;<a name="tex2html61" href="#foot4303"><sup>[61]</sup></a> um +homem, emfim, como <i>Krusse</i> miseravel, mais vil e repugnante que a podre +lama de um charco,—é capaz para tudo, maxime para faltar tão descaradamente +á verdade de um facto, que depõe altamente contra o seu caracter de sabujo +lacaio de <i>pince-nez</i> da <i>Sagres</i>.</p> + +<p>«Por isso, a carta d'esse patife gallego não nos demoveria<span +class="pagenum"><a id="pag_275" name="pag_275">[275]</a></span> a traçar em +tempo estas linhas, se n'ella não deparassemos com alguns trechos acremente +offensivos e provocadores á nossa dignidade e caracter, ao governo brazileiro +e á integridade do imperio.</p> + +<p>«Primeiro, porque queremos mostrar ao governo brazileiro, a que ponto +chegou entre nós a louca e insensata audacia dos portuguezes bandalhos como o +tal <i>Krusse</i>, quando se arroja a dizer, que Portugal <i>necessitava +exigir uma satisfação com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de +Janeiro</i>!</p> + +<p>«Segundo, porque queremos provar ao publico em geral, que não fazemos +<i>carêtas pelas costas</i> a homens de bem, quanto mais á gente da casta do +estupido, boçal e mariola <i>Krusse</i>.</p> + +<p>«Terceiro, porque queremos bradar alto e bom som a esse mais vil e infame +canalha da canalha portugueza:—Gallego <i>Krusse</i>, se é que <i>pedias com +fervor a chegada d'uma occasião propria para o ultimo e unico desforço</i>, +eil-a que se offerece, anda cá vil sicario, não percas tempo.—</p> + +<p>«Quarto, finalmente, porque queremos que fique publico e notorio ao mundo +inteiro, qual de nós merece o negro estygma de covarde; porque, para quem +como o faccinora <i>Krusse</i>, <i>pede com fervor a chegada d'uma occasião +propria para o ultimo e unico desforço</i>,—ainda é tempo e tempo assás +opportuno e de sobra para tomal-o.</p> + +<p>«Portanto, vem, miseravel sodomita <i>Krusse</i>, gatuno de +<i>pince-nez</i>, burlesco e caricato truão agaloado da <i>praça d'armas</i>, +cynico, immoral e nefando <i>official</i> dos immundos beliches dos +marinheiros da <i>Sagres</i>, escoria das escorias portuguezas, vem, +salafrario.</p> + +<p>«Vem, se tens amor a esse trapo nojento das quinas, pendurado no penol +d'esse carro da lama que se chama <i>Sagres</i>; vem, se não queres vêl-o +mais vilipendiado do que tem sido por todas as mais nações que n'elle +escarram,<span class="pagenum"><a id="pag_276" +name="pag_276">[276]</a></span> com o teu negro titulo de covarde infame; +vem, <i>janota pé de chumbo</i>, vem, se te não gira nas veias ignobeis o +sangue ignominoso dos cafres européos, vem tomar o teu <i>ultimo e unico +desforço</i>.</p> + +<p>«Vem, lazarento gallego, não para luctares comnosco, porque és tão +miseravel e despresivel, que a arma ou a mão mais indigna que te batesse +ainda seria nobre de mais para ti.</p> + +<p>«Temos porém, uma unica arma, que é a que mais se aproxima ao merecimento +de tua baixeza:—é um chicote para cavallo, com o qual te mandaremos fustigar +as ancas, sem que traga isso pezar algum ao braço que te castiga e ao +instrumento que te imprime seus degradantes e indeleveis sulcos.</p> + +<p>«Vem, descarado canalha, cigano d'uma figa! tomar o teu <i>ultimo e unico +desforço</i>.</p> + +<p>«Se não vieres, então, tu, infimo bisborria, serás entregue á vindicta +publica e á execração do futuro que te bradarão incessante:</p> + +<p>«—Maldito! covarde! infame! desgraçado! és portuguez e basta, miseravel! +escarneo da humanidade! vergonha eterna dos homens, não da tua raça vil, mas +das outras, que na mesma classe que tu, sabem presar a nobreza da farda, a +immaculação da honra, brios e dignidade do pavilhão glorioso e heroico que +defendem.»</p> + +<p style="text-align:right;">«<i>Marcellino Nery.</i>»</p> + +<p> </p> + +<p>É a bilis de mais de dois mezes, que a premanencia do sr. Krusse no Pará +evitára que sahisse do nauseabundo esofago <i>tribunicio</i>.</p> + +<p>Expliquemos a peripecia:</p> + +<p>Acompanhavamos quasi sempre os officiaes, nos seus passeios pela cidade do +Pará, e passavamos muitas vezes, occasionalmente, pela praça de D. Pedro II, +onde era o escriptorio da <i>Tribuna</i>.<span class="pagenum"><a +id="pag_277" name="pag_277">[277]</a></span></p> + +<p>O hydrophobo Marcelino Nery, desde os acontecimentos de 21 de novembro, +nunca mais sahira á rua! e, de binoculo em punho, observava da sua janella, +pela extensa praça, se para o seu escriptorio se dirigia algum official da +corveta. Não eram estas as intenções da officialidade; mas Nery que não +estava d'isso ao facto, e temendo alguma desafronta, serrava a janella no +momento em que os officiaes por alli passavam!</p> + +<p>O <i>boletim</i> acima transcripto tem, alem da data—2 de fevereiro—as +seguintes palavras—<i>ás 7 horas da manhã</i>—, para que quem o lesse +ficasse sabendo, pelo que estava escripto, que o papel tinha sido destribuido +vinte e quatro horas antes, ainda quando o sr. Krusse podia <i>acceder</i> ao +pedido do <i>bravo</i> anti-paraguayo encerrado; mas a verdade é que o tal +<i>boletim</i> só foi destribuido na cidade quando já a hora adiantada da +noite do dia 2, havia recolhido toda a guarnição para bordo da corveta!</p> + +<p>E não vá dizer a historia para o futuro, que o sr. capitão Marcelino Nery, +não era um digno heroe do exercito brazileiro que nos sertões envios das +margens de Riachoello combatera com denodo pela cara patria!</p> + +<h2>X</h2> + +<p>Foi naturalmente n'esta epocha que o sr. Augusto de Carvalho, escrevera na +sua historia o <i>Brazil</i>, aquella affirmativa, de que a <i>Tribuna</i> +suspendera a publicação; mas dos trechos transcriptos d'este periodico em +outro logar d'este livro, verá o leitor que em 1876, isto é um anno depois da +publicação do <i>Brazil</i>, ainda o papel incendiario se publicava; e só +suspendeu a sua publicação, quando o governo de S. M. Imperial, como +<i>recompensa</i> dos relevantes serviços prestados á civilisação do Brazil, +dava ao denodado capitão Nery, a directoria<span class="pagenum"><a +id="pag_278" name="pag_278">[278]</a></span> de uma colonia militar ao sul do +imperio, com o fim, naturalmente, de incitar os pamphletarios a novos +commettimentos contra a colonia portugueza!</p> + +<h2>XI</h2> + +<p>Alguem ha que nos accusa de exaggerado no nosso livro <i>Questões do +Pará</i>, por termos avançado proposições da mais alta gravidade contra o +imperio brazileiro. Essa gente não acha sufficientes os documentos que +comprovam as nossas verdades. Talvez que até mesmo continuassem na sua +incredulidade em presença dos factos. Não admira. O publico é ás vezes +inconsequente; porque acredita nos bruchedos, nas pantomimas das mulheres que +deitam cartas, ou nas artimanhas dos jesuitas. Quando se trata de cousas tão +importantes, despresa o proloquio—<i>ver e crer...</i>; e só faria uso +d'elle, se algum ratão se lembrasse de dizer, que ia atravessar o Tejo com +umas botas de cortiça.</p> + +<p>Houve incredulos em todas as épochas. Muita gente tem morrido com a +esperança de que o sr. rei D. Sebastião hade voltar ainda a estes reinos em +manhã de nevoeiro. Não ha tambem quem acredite que a agua de Lourdes fizera o +milagre da Misericordia e quejandos? E que importa aos sebastianistas e aos +devotos da nova <i>Revalescière</i> as risadas do publico sensato? Não será, +de certo, por causa d'isso que deixará de haver quem espere pelos sapatos do +defunto rei e quem se recuse a tomar o seu banho na agua milagrosa!</p> + +<p>Ha factos extraordinarios na vida de todos os povos; mas nenhum haverá de +certo que se assemelhe em phenomenos ao povo brazileiro.</p> + +<p>Hade haver pouco mais de 50 annos, quando o imperio, pela bocca do seu +primeiro <i>defensor perpetuo</i>, declarava a todo o mundo, que tendo os +brazileiros<span class="pagenum"><a id="pag_279" +name="pag_279">[279]</a></span> chegado á sua maior edade, pedia a +emancipação; diziam os paraenses, tambem pela bocca dos seus escolhidos:</p> + +<p>—Nós somos portuguezes! Portugal é a nossa patria!</p> + +<p>Não conveio muito este protesto aos libertadores do Ypiranga; por isso +alguns navios de guerra foram incumbidos de incender no coração d'este povo o +amor á liberdade que lhe promettia a nova patria!</p> + +<p>Em 1825 reconhecera Portugal a independencia do Brazil, e o Pará, todo +lacrimoso, entregava-se, com medo das palmatoadas, nos braços da risonha +deusa!</p> + +<p>De 1833 a 1842 mudaram completamente as scenas. O povo que alguns annos +antes sacrificaria a vida pela metropole, assassinava e roubava os +portuguezes no meio da rua, á luz esplendida d'este seculo, que lhe dera a +liberdade!<a name="tex2html62" href="#foot245"><sup>[62]</sup></a></p> + +<p>Estas scenas, repetidas mais de uma vez depois d'aquella epocha fatal, não +foram ensinadas pelos portuguezes, no longo periodo do seu dominio. Os +selvagens, que outr'ora vagueavam por estas paragens, horrorisar-se-iam de +semelhantes barbaridades, commettidas por quem já se dizia civilisado. +Reconhecera então o governo do Brazil, que os seus agentes haviam exorbitado +as ordens da propaganda, sustentada no <i>Paraense</i> e outros pasquins, em +que tambem um conego incitava os naturaes á matança dos portuguezes. Por isso +lançou mão de um meio extremo, esmagando aquelle povo, que tão mal havia +comprehendido o grito dado nas margens do historico ribeiro. Centenas de +paraenses foram desde logo mettidos nos porões dos navios e alli assassinados +barbaramente.</p> + +<p>O governo brazileiro foi sempre amigo dos extremos. Depois de observar +attentamente, e na maior paz de<span class="pagenum"><a id="pag_280" +name="pag_280">[280]</a></span> espirito, os assassinatos commettidos á +sombra d'uma impunidade ridicula, chega-lhe a vez de representar o seu papel +de barbaro. Não é de meias medidas. Os seus administrados, á semelhança de +certo rei da França, inventam ou modificam uma machina de exterminio. E o +governo, quando se cansa de ver correr sangue innocente, manda chegar os +assassinos ao terrivel instrumento, e assim lhes rouba com a vida o terrivel +papel de carrasco. O resultado é ficar o Brazil sem colonos e sem selvagens +que podiam ser civilisados, o que é mau!</p> + +<p>Mas depois d'aquelles horrorosos acontecimentos pareceram socegar os +animos; porém lá estava a ferida aberta. Os descendentes das victimas do +governo brazileiro tinham ouvido por entre as juntas das cobertas dos navios +um terrivel anathema, que era ao mesmo tempo a morte da provincia mais rica +do imperio. Esse anathema de exterminio contra os colonos tinha sido ouvido +tambem pelos portuguezes, que entenderam desde logo dever explorar a +industria extractiva de certos productos riquissimos, que, até ha bem poucos +annos, parecia no Pará uma mina inexgotavel.</p> + +<p>A agricultura que nos paizes virgens offerece sempre um lucro mais +duradouro e mais proporcional ao capital e ao trabalho empregado, porque a +exploração dos productos extractivos é mais eventual e retarda por +consequencia a prosperidade do territorio onde ella se exerce; a agricultura, +repetimos, foi desde logo desprezada. O facto era logico. Uma revolução, em +qualquer dia de expansão paraense, era facil, e a borracha, a castanha, o +cacau e muitos outros productos podiam fazer uma viagem até á Europa, na +companhia de seus donos, sem que a estes desse muito cuidado as terras e as +arvores que costumam dar semelhantes fructos. Outro tanto não aconteceria com +os terrenos comprados pelos colonos, com os productos agricolas ainda por +colher ou com os engenhos montados para a sua fabricação,<span +class="pagenum"><a id="pag_281" name="pag_281">[281]</a></span> que cairiam +irremediavelmente nas mãos dos communistas.</p> + +<p>No Pará, depois da sua famosa independencia, houve sempre revolucionarios +a incitar os animos, já propensos á desordem, contra portuguezes. E o que é +extraordinario é que esta gente, que não quer admittir em seu seio os colonos +que mais podem concorrer para o seu engrandecimento, é apologista da +republica!</p> + +<p>Em 1873, por occasião da prisão dos revolucionarios que no Pará pizaram a +nossa bandeira, andavam os apologistas da sublime idéa ameaçando os +estrangeiros e promettendo lançar fogo aos estabelecimentos! A musica, que +marchava na vanguarda dos communistas tocava o hymno da marselhesa, e do meio +d'aquella bachanal saía ao mesmo tempo o grito de—viva o sr. D. Pedro II! e +tocava o hymno imperial!</p> + +<p>E note-se que são sempre assim os que sonham com a republica no Brazil. +Quanto mais republicanos mais inimigos dos estrangeiros. Esta gente, salvas +mui raras excepções, que já mais poderão fazer do imperio uma republica, não +dá ás palavras e ás cousas a mesma significação que nós lhes damos. As suas +idéas estão sempre em manifesta contradição. Ha povos no Brazil, que podemos +comparar a um collegio de rapazes a quem a palmatoria muitas vezes não faz +conter nos limites da ordem.</p> + +<p>O que é facto inquestionavel, é que muito ha que dizer ainda a respeito do +odio selvagem que aos portuguezes votam os brazileiros. A conveniencia mal +entendida da maior parte dos portuguezes calar os soffrimentos recebidos no +imperio, é em parte a origem de tantos males, que, divulgados, serviriam de +correctivo salutar. O portuguez soffre ha seculos o barbarismo d'aquelle +povo, e não só se resigna com o martyrio que lhe infligem, mas até procura +viver no meio d'elle, pugnando ao mesmo tempo pela prosperidade d'um paiz tão +despresado<span class="pagenum"><a id="pag_282" +name="pag_282">[282]</a></span> pela maioria de seus naturaes. O francez, o +inglez, o allemão que reside no Brazil, não tem rebuço em formular as suas +queixas contra os indigenas. Estes colonos não são, comtudo, os que mais +soffrem. A prudencia do portuguez chega ao ponto de dizer bem do imperio, +pouco depois de haver recebido d'elle os mais acerbos desgostos. As excepções +são rarissimas, e nós orgulhamo-nos de não pertencer á regra geral.</p> + +<p>Pouco tempo depois de havermos publicado as <i>Questões do Pará</i> +recebemos uma carta de um subdito francez, nosso particular amigo, o qual foi +muitos annos negociante no Pará, e ainda hoje pertence a uma firma +respeitabilissima, que assim se expressa a respeito das verdades no mesmo +livro contidas:</p> + +<p>«<i>Amigo</i>:—Tenho recebido os jornaes, que já emittiram opinião a +respeito do seu livro. Admira-me que houvesse um<a name="tex2html63" +href="#foot4304"><sup>[63]</sup></a> que o taxasse de exagerado, +principalmente no que diz respeito ao caixeiro da casa ingleza. Bem se vê, +que o jornalista conhece pouco o Pará. Vou contar-lhe alguns casos que alli +se deram commigo.</p> + +<p>«Quando pela primeira vez appareceu a <i>febre amarella</i> na provincia +do Pará, os habitantes da cidade de Cametá amedrontaram-se por tal fórma, que +influiram com a camara municipal para que fosse collocada uma guarda na bocca +do Tocantins, com o fim de não deixar passar os barcos e as canôas +procedentes da cidade de Belem. Constando ao sub-delegado, que eu tinha +mandado um bote ao Pará apresentar ao presidente da provincia uma queixa +contra tão grande escandalo, expediu logo aquella auctoridade uma ordem de +prisão contra mim. O delegado da policia, logo que soube do facto, mandou +chamar o sub-delegado a quem perguntou o que havia feito, ao que respondeu +confirmando o<span class="pagenum"><a id="pag_283" +name="pag_283">[283]</a></span> mandado de prisão. Então aquella outra +auctoridade policial lhe fez ver, que seria prudente cassar a ordem, quanto +antes, dizendo que eu não era portuguez, mas sim francez, com que se podesse +zombar. Sabe que fallei sempre perfeitamente o portuguez e d'ahi a illusão. O +subdelegado foi logo a correr a fim de ver se era tempo de cassar a ordem de +prisão, o que felizmente poude conseguir. Sabendo eu o occorido mandei logo +outro bote ao Pará, com a noticia a meu..., o qual representou ao mesmo +consul. Este apresentou-se ao presidente da provincia, na companhia do +commandante d'um navio de guerra francez que então estacionava nas aguas do +Pará. A auctoridade superior da provincia depois de ouvir attentamente o +consul, disse que ia dar as suas ordens e que desde já lhe dava sua palavra +de honra, que se eu estivesse preso, mandaria ir em ferros o subdelegado. +Então o presidente fez um officio á camara municipal, ordenando-lhe em termos +muito severos, que desse entrada franca ás embarcações do Pará e que não +tornasse a acontecer outra similhante arbitrariedade. Este officio foi +mandado distribuir depois de impresso, aos habitantes da cidade de Cametá!</p> + +<p>«Mas outro caso lhe vou contar. Sahia do porto do Pará uma escuna +americana, que nos fora consignada. O capitão, por esquecimento, tinha +deixado ficar a matricula no consulado. O consul pediu ao guarda-mór para +fazer voltar a escuna. Este quiz primeiro consultar o presidente que ficou +d'accordo. Passado uma hora, mandou-me o presidente chamar, e disse-me o +seguinte:—«Mandei-o chamar, por que tenho estado a pensar no que acabei de +fazer, que foi annuir a mandar chamar a escuna americana para receber os +papeis que lhe esqueceram. Desejava saber o que pensa v. a tal respeito, +porque estou a receiar de ter alguma responsabilidade n'este acto que acabo +de praticar.» Respondi-lhe<span class="pagenum"><a id="pag_284" +name="pag_284">[284]</a></span> que a responsabilidade era toda do consul, +porquanto o navio tinha sido chamado a requesição sua. Esta resposta deixou o +presidente muito satisfeito, porque dizia elle <i>que o ministerio brazileiro +recommendava muito ás presidencias para não origínarem questões com as tres +potencias</i>:—Estados-Unidos, Inglaterra e França! Isto que eu lhe digo é a +pura verdade; mas com tudo ainda pode haver quem duvide, assim como duvidam +do seu livro.» etc.</p> + +<p>Como se vê, estas tristes verdades depoem tanto contra a civilisação de um +povo, que effectivamente é preciso estar prevenido para as acreditar.</p> + +<p>Ha tempo escreveu um correspondente do Pará para um jornal da capital<a +name="tex2html64" href="#foot4305"><sup>[64]</sup></a>, o seguinte:—«O +auctor das <i>Questões do Pará</i>, ou por não querer tornar o livro +volumoso, <i>ou por ignorar muita cousa</i>, em razão de ter aqui residido +pouco tempo, <i>diz muito menos do que podia e devia dizer</i>.»</p> + +<p>Valha-nos ao menos estas demonstrações sinceras dos que ainda soffrem.</p> + +<h2>XII</h2> + +<p>Um jornal paraense a—<i>Regeneração</i>—accusa-nos de calumniador das +senhoras paraenses no que escrevemos em outro logar<a name="tex2html65" +href="#foot4306"><sup>[65]</sup></a>. É uma falsidade o que se pertende +affirmar com visos de verdade.</p> + +<p>Calumnia é o que segue, publicado na <i>Tribuna</i> do Pará:</p> + +<p>«<i>Que fecundidade espantosa!</i>—Na Correspondencia de Portugal, +transcripta no <i>Diario de Belem</i> de 7 do mez passado, se lê esta +noticia:</p> + +<p>«Foi publicado o relatorio da Santa Casa da Misericordia,<span +class="pagenum"><a id="pag_285" name="pag_285">[285]</a></span> e por elle se +vê que no fim do anno economico de 1872-1873, estavam a cargo da misericordia +13:370 <i>expostos</i>, dos quaes apenas pouco mais de 100 na casa dos +<i>expostos</i>.»</p> + +<p>«Com effeito, 13:370 <i>engeitados</i> no anno de 1873 estavam a cargo da +misericordia de Portugal!</p> + +<p>«É mais um documento, que offerecemos aos nossos leitores, para com elle +provarmos a perversidade de que é dotado o coração portuguez, que expõe os +filhos á miseria, á desgraça e á morte!</p> + +<p>«Os povos barbaros por certo que não procedem com tanta deshumanidade para +com os seus, como a raça portugueza procede para com os proprios filhos, +negando-lhes um nome, e preferindo uma morte desgraçada, ou uma educação +errante e infame, do que sugeitar-se á creação!</p> + +<p>«Mulheres malvadas, corruptas e endemoninhadas, ainda não conhecemos +segundas! Soffram muito embora o rigor da miseria e da deshonra, mas por +caridade, não exponham á morte os filhos, que não tem culpa da mais +abominavel depravação.»</p> + +<p>O pobre redactor d'este jornal, ignora a razão porque em Portugal, e em +quasi todos os paizes civilisados, as mulheres infelizes engeitam os filhos. +Engeitam-os, porque... não são <i>escravas</i>, e porque não teem +<i>senhores</i> que as deshonrem, com a mira no lucro proveniente da +<i>cria</i>, que, como as bestas, devia ser posta em almoeda no mercado de +carne humana!</p> + +<p>Cá, as mulheres illudidas, e não <i>malvadas</i>, <i>corruptas</i> e +<i>endemoninhadas</i> escondem da familia o fructo da sua deshonra nos asylos +que os previdentes governos instituem, a bem da humanidade e da moral +publica.</p> + +<p>Lá, a escrava deshonrada e aquelle que a deshonrou, fazem gala da deshonra +perante a familia que devia ignorar a infamia.</p> + +<p>Nós estivemos em casa de uma familia brazileira,<span class="pagenum"><a +id="pag_286" name="pag_286">[286]</a></span> onde havia tres mulatas pejadas, +que ostentavam diante de uma <i>sinhá e uma sinhasinha</i> o seu estado +interessante; e ha quem diga que as ingenuas creanças não ignoravam que o seu +proprio <i>papai</i> era o auctor dos futuros <i>moleques</i>!</p> + +<p>Mas ninguem ignora que no Brazil, dão-se casos d'estes aos milhares; e que +as <i>sinhás</i> no meio d'esta escola immoralissima sabem os segredos mais +intimos, que as proprias mulheres deshonradas, entre nós, ignoram muitas +vezes.</p> + +<p>Á sociedade que, como a nossa, institue hospicios especiaes para os +engeitados, chamam-lhe moralisada. Á que faz da casa de familia +bordel-hospicio, chamam-lhe corrupta.</p> + +<p>Mas... passemos adiante, não vão para ali dizer, que a resposta ao imbecil +que escreveu aquellas linhas, <i>antes das nossas injurias</i>, é +represalia.</p> + +<p>O periodico citado dizia mais, «que havia dois principios que soffriam +guerra de morte dos portuguezes no Brazil: um é a dignidade nacional, outro é +a religião catholica e apostolica romana representada em seus ministros. O +pamphleto do <i>Percheiro</i><a name="tex2html66" +href="#foot4307"><sup>[66]</sup></a> põe isto á evidencia. Tal é o ponto de +contacto que nos aproxima da <i>Tribuna, cujos excessos de linguagem estão +plenamente justificados pelo atrevimento de Percheiro e seus adeptos</i><a +name="tex2html67" href="#foot4308"><sup>[67]</sup></a>» etc.</p> + +<p>A quem tiver lido os <i>excessos de linguagem</i>, empregados por nós nas +<i>Questões do Pará</i>, recommendamos este topico publicado na +<i>Tribuna</i>, em 17 de novembro de 1874; isto é, no mesmo numero em que era +insultada a officialidade da corveta <i>Sagres</i>; e, note-se bem, <i>quasi +um anno</i> antes da publicação d'aquelle livro:</p> + +<p>«Cemiterio em Lisboa, 12 de outubro de 1874.<span class="pagenum"><a +id="pag_287" name="pag_287">[287]</a></span></p> + +<p>«Miseravel Percheiro.</p> +<hr class="dotted"> +<hr class="dotted"> + +<p>«As tuas proezas e infamias teem echoado até n'esta fria morada dos +mortos!</p> + +<p>«Estás pondo tudo em pratica, teus crimes e vicios, n'essa terra abençoada +para onde fostes ganhar o pão... o pão para ti e <i>para tuas duas +filhas</i>...</p> + +<p>«O que tens feito para essas infelizes? Nada! Fizeste-te <i>corretor de +infamias</i>... apenas!</p> + +<p>«Julgava-te regenerado e enganei-me!</p> + +<p>«Julgava que teu coração de marmore ou de sangrento tigre tivesse sido +tocado pelas lagrimas ardentes d'essas duas innocentes, de quem és, +desgraçadamente, pae!</p> + +<p>«Julgava que ao pungir ferrenho do remorso, tu te houvesses abraçado ao pé +da cruz da Redempção! e envolto no lábaro sagrado do arrependimento, +banhasses a fronte maldita nas aguas lustraes da salvação!</p> + +<p>«Julgava que, na terra hospitaleira da Santa Cruz, tu te tivesses tornado +homem de bem... enganei-me... hoje como outr'ora és o mesmo, sempre +<i>ladrão</i>, sempre <i>assassino</i>! és maldito!</p> + +<p>«Sim, <i>assassino</i>!</p> + +<p>«Tu fizeste por longos annos a desgraça da vida feliz que +consagrei-te—perante o altar do Senhor:</p> + +<p>«Fizeste-me derramar lagrimas de sangue á toda a hora do dia e da noite em +quanto folgavas no deboche e no jogo.</p> + +<p>«Sacrificastes durante minha existencia os deveres, que a nossa união +sagrada te impozera, e sacrificaste-os aos pés das mais torpes meretrizes nos +antros da crapula, nas urgias.</p> + +<p>«Converteste cada momento de minha existencia em seculos de martyrios +insanos, até esse momento em que quizeste pôr termo aos meus soffrimentos; +até esse momento<span class="pagenum"><a id="pag_288" +name="pag_288">[288]</a></span> em que, barbaro, arrancaste dos meus braços +minhas e tuas filhas; até esse momento em que finalmente... me +assassinaste!</p> + +<p>«Assassino!... tuas filhas e meu sangue innocente em que ensopaste as +mãos, são os remorsos vivos que sempre te hão de perseguir, quer durmas, quer +véles e eu te juro, que d'aqui mesmo, d'esta campa aberta por tuas proprias +mãos, te farei sentir que não me esqueço de ti... assassino! e de tuas +infamias...</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Generosos brazileiros! uma esmola pelo amor de Deus para as filhas do +<i>corrector de infamias</i> Percheiro, que morrem á fome em Lisboa!</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Adeus! recebe a maldição d'aquella que entre os vivos foi—</p> + +<p style="text-align:right;"><i>Tua esposa</i>...»</p> + +<p> </p> + +<p>Agora digam-nos, se depois de devassado o tumulo e desrespeitada a nossa +dôr, a mais profunda que havemos soffrido, em 35 annos d'uma existencia +attribuladissima, e, por mercê de Deus, honrada; haverá quem, com justiça, +possa dizer, que <i>os excessos de linguagem da «Tribuna» estão plenamente +justificados pelo atrevimento</i> de havermos publicado as <i>Questões</i>... +um anno depois de tanta infamia?!</p> + +<p>Ah! como sois inconsequentes!</p> + +<p>Depois do nosso livro, é que o governo brazileiro se lembrou de comprar a +consciencia do capitão Nery. Pena foi que essa transacção se não <i>fizesse +antes</i> de <i>começar a tragedia do Pará</i>. Preferiamos isso á gloria que +nos assiste de havermos contribuido, <i>com os nossos excessos</i>, para a +pacificação dos animos em tão uberrima provincia.</p> + +<p>E olhae que vos não pedimos mais do que a continuação<span +class="pagenum"><a id="pag_289" name="pag_289">[289]</a></span> do vosso +desprezo, em paga do nosso serviço, ó illustres optimistas!</p> + +<p>Se á vil calumnia e á detracção raivosa, não póde escapar quem diz +verdades, não deve esperar recompensa dos homens quem pratica o summo +bem.<span class="pagenum"><a id="pag_290" name="pag_290">[290]</a></span></p> + +<h1>CAPITULO VIII</h1> + +<div class="sinopse"> +<a name="SECTION0080001">O julgamento dos assassinos dos portuguezes em +Jurupary. O tribunal da primeira instancia em Chaves e o da Relação no Pará. +Desenlace providencial contra decisões horrorosas dos tribunaes brazileiros. +Processo contra Marcelino Nery. Pasquins da «Tribuna» antes e depois da +condemnação. Novos pasquins em 1876 chamando ás armas contra os portuguezes. +O clero accusado de cumplice dos pasquineiros. Um portuguez condemnado +irrisoriamente por um tribunal da primeira instancia e absolvido depois pela +Relação no Pará. A diplomacia portugueza e a condemnação á morte de um +portuguez na Bahia. Um benemerito defensor do portuguez.</a></div> + +<h2>I</h2> + +<p>Na sessão do jury do termo de Chaves, comarca de Marajó, inaugurada em 24 +e encerrada em 28 de agosto de 1875, foram julgados Severo Antonio de Farias, +José Antonio de Magalhães, Bertholdo José Florindo, Manuel Ricardo de Faria, +Americo Valentim Barbosa e Pedro Augusto Cardoso, auctores e cumplices do +assassinato na ilha do Jurupary, em a noite de 6 de setembro de 1874, dos +desventurados subditos portuguezes Zeferino Manuel Pereira de Araujo e José +Antonio Pereira Rodrigues. Severo Farias e José de Magalhães foram +condemnados no gráu maximo do artigo 271 do codigo criminal, pena de morte; e +Manuel de Faria e Bertholdo Florindo, incursos no art. 35 do mesmo codigo, 13 +annos de galés; Americo Barbosa e Pedro Cardoso foram absolvidos.<span +class="pagenum"><a id="pag_291" name="pag_291">[291]</a></span></p> + +<p>O presidente do jury, obedecendo ao preceito do art. 79 § 2; da lei de 3 +de dezembro de 1841, appellou do <i>veredictum</i> do jury para o tribunal da +Relação do Pará.</p> + +<p>Presidiu o jury o dr. juiz municipal e de orphãos do termo de Soure, +Raymundo Theotonio de Brito, 1.º supplente do juizo de direito da comarca de +Marajó, e um dos illustrados membros da magistratura brazileira. Serviu de +promotor publico o cidadão João Anselmo Pacifico de Cantuaria e de escrivão o +serventuario vitalicio Manuel Pio de Sousa e Silva.</p> + +<p>A sessão começou ás 10 horas da manhã de 25 e terminou no dia seguinte ás +8.</p> + +<p>Não se tendo apresentado defensor aos reus, o presidente do tribunal +nomeára para este fim o cidadão Emygdio Antonio Coelho.</p> + +<p>Foi isto pouco mais ou menos o que nos transmittiu o <i>Diario de +Belem</i>, do Pará.</p> + +<p>Agora algumas palavras nossas para illucidar os leitores sobre o assumpto. +</p> + +<p>Severo Antonio de Farias, Americo Valentim Barbosa e José Antonio de +Magalhães foram assim pronunciados pelo chefe de policia:</p> + +<p>«Considerando que a confissão dos reus, sendo como foi espontanea, sem +constrangimento algum, clara, e de harmonia com o mais constante dos autos, +prova o delicto nos termos do artigo 94 do codigo do processo criminal, +etc.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Considerando portanto, que para verificação do roubo foi que se +commetteram os homicidios, é fóra de duvida que os tres reus mencionados +praticaram o crime previsto no art. 271 do codigo criminal.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Em vista do exposto, pronuncio os tres primeiramente<span +class="pagenum"><a id="pag_292" name="pag_292">[292]</a></span> indicados, +como incursos no artigo 271 com referencia ao artigo 269 do cod. crim.<a +name="tex2html68" href="#foot4309"><sup>[68]</sup></a>» etc.</p> + +<p>Ouçamos agora a confissão de Americo Valentim Barbosa:</p> + +<p>«Perguntado seu nome, idade, naturalidade, etc.</p> + +<p>«Respondeu chamar-se Americo Valentim Barbosa, de 26 annos de idade, +solteiro, natural d'esta provincia (Pará), sapateiro, residente no districto +de Affuá, e que não sabia lêr nem escrever.</p> + +<p>«Perguntado se no dia 6 de setembro esteve na ilha de Jurupary em +companhia de Severo e de José Magalhães e o que ali fizeram?</p> + +<p>«Respondeu que, estando em casa de Manuel Ricardo na ilha dos Porquinhos, +foi notificado pelo inspector do quarteirão Severo Antonio de Farias para uma +diligencia que elle interrogado ignorava, e obedecendo á intimação embarcou +em uma canôa de Coelho juntamente com Severo e José de Magalhães, conhecido +por <i>calangro</i>, e em caminho no largo avisaram a elle interrogado que a +diligencia consistia em matar e roubar os negociantes portuguezes Zeferino e +seu socio, estabelecidos na ilha de Jerupary, para onde seguiram, visto como +elle interrogado não pôde mais fugir(!). Disse mais que ali chegando, foram a +casa dos mencionados portuguezes e depois de beberem vinho sem a menor +alteração e traiçoeiramente esfaquearam aquelles portuguezes, um dos quaes, +de nome Zeferino, ainda usando de uma arma, disparou n'elle interrogado<a +name="tex2html69" href="#foot2682"><sup>[69]</sup></a>» etc.</p> + +<p>Este réo considerado como auctor, pelo juiz formador do processo, por isso +que as provas o fazem incurso no artigo 271 com referencia ao artigo 269 do +cod. crim., foi absolvido pelo jury de Chaves!<span class="pagenum"><a +id="pag_293" name="pag_293">[293]</a></span></p> + +<p>Não fallaremos mais de Severo e Magalhães, visto que estes réos foram +julgados segundo as leis que regulam a justiça.</p> + +<p>Tratemos, pois, de Manuel Ricardo de Farias e Bertholdo José Florindo, +condemnados a 13 annos de prisão.</p> + +<p>«Considerando ainda, falla o chefe da policia na pronuncia, que o réo +Bertholdo José Florindo tinha occultos em sua casa, e no matto visinho a +elle, varios objectos roubados, como se vê do auto de busca a folhas vinte +tres, não ignorando que foram obtidos criminosamente, tanto que os escondeu, +manifestando por esta fórma sua má fé e cumplicidade em um delicto tão +grave;</p> + +<p>«Considerando que o mesmo Bertholdo confessa em seu interrogatorio a +folhas setenta e uma, e auto de perguntas a folhas vinte, corroborado pela +declaração de sua mulher, a folhas dezoito, que alguns d'aquelles objectos +lhe foram offerecidos por Americo, e outros, elle os entregou para guardar, +pedindo-lhe que não descubrisse que elle havia commettido os crimes de +Jurupary, e nem que se achava occulto ou homiciado na ilha dos Porquinhos;</p> + +<p>«Considerando, portanto, que o reo Bertholdo não só recebeu como occultou +objectos que sabia serem roubados, como confessou;</p> + +<p>«Considerando que em casa do réo Manuel Ricardo de Farias tambem foi +encontrada parte dos objectos apprehendidos, como se vê a folhas vinte e +tres, além de que deu asylo em casa ao <i>homicida</i> Americo, sabendo dos +crimes que elle havia commettido, como se vê a folhas trinta e duas da sua +propria declaração, impedindo ainda que Americo se entregasse á prisão, como +se vê a folhas trinta e uma, o que tudo bem mostra sua manifesta +cumplicidade;</p> + +<p>«Considerando ainda que o réo Manuel Ricardo Farias<span +class="pagenum"><a id="pag_294" name="pag_294">[294]</a></span> em companhia +do proprio <i>assassino</i> Americo fôra occultar parte dos objectos, que +conservava na visinhança de casa, no igarapé Chato, para que se tornasse +impossivel descobril-os, folhas trinta e dois v.» etc.</p> + +<p>Acabamos de ver que Manuel Farias e Bertholdo Florindo não são mais do que +cumplices dos tres auctores do crime praticado contra os dois infelizes +portuguezes. As suas proprias declarações estão d'accordo com o depoimento +das testemunhas e com a confissão dos assassinos.</p> + +<p>Não ha provas de que estes desgraçados acompanhassem na expedição a +Jurupary os tres réos Severo, Magalhães e Americo.</p> + +<p>Como é então que o jury, sendo justo na classificação do +crime—cumplicidade—em que achou incursos os réos M. Farias e B. Florindo, +absolve Americo, que, com quanto o não quizessem classificar de assassino, +visto que lhe foi acceita a confissão de ter sido <i>obrigado</i> a matar os +portuguezes, é inquestionavelmente mais cumplice do que aquelles, se +attendermos a que Americo acompanhou a Jurupary os reus Severo e Magalhães, +em quanto que Farias e Florindo estavam em casa á espera do resultado da +empreza de matar os portuguezes?!</p> + +<p>É que o jury attendeu á circumstancia <i>muito</i> plausivel de Americo +ter sido o alvo escolhido pelo infeliz portuguez Zeferino, que, quasi +exanime, teve a força precisa para disparar a arma contra o seu matador! O +tiro não acertou, mas o pobre Americo ficou atordoado, e o jury levou-lhe +esta attenuante á conta da sua absolvição!</p> + +<p>Pedro Augusto Cardoso estava incurso no artigo duzentos setenta e um do +codigo criminal, contra o qual existem no processo todas as provas da sua +cumplicidade. Comtudo a verdade deve dizer-se: Cardoso é o<span +class="pagenum"><a id="pag_295" name="pag_295">[295]</a></span> menos +cumplice; mas o jury igualou-a a Americo, absolvendo-o!</p> + +<p>A toda esta mascarada dizia uma folha da capital:<a name="tex2html70" +href="#foot431"><sup>[70]</sup></a></p> + +<p>«A desafronta foi plena e terrivel!»</p> + +<p>E o juiz que presidiu ao jury, como vimos no começo d'este artigo, +appellou da decisão arbitraria, e o tribunal da Relação do Pará impoz aos +cumplices que o jury absolvera, a pena de treze annos de prisão com +trabalhos!</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Com a epygraphe <i>Tribunaes brazileiros</i> publicamos nas <i>Questões do +Pará</i> o seguinte:</p> + +<p>«No interior campêa a immoralidade a tal ponto, preparam a +<i>nacionalisação do commercio a retalho</i> por tal fórma, que causa horror +pensar em semelhante labyrintho.</p> + +<p>«João Lopes d'Oliveira e seu irmão Narciso, moços portuguezes, +commerciantes, foram accusados de ter assassinado um <i>cabouco</i>, com dois +tiros de espingarda, na comarca de Serpa (no Amazonas).</p> + +<p>«Instaurou-se-lhes o competente processo, e chamados a julgamento, o jury +condenou-os na pena de galés perpetuas.</p> + +<p>«A base para tal condemnação foi terem deposto 16 ou 18 testemunhas, que, +por unanimidade, <i>confirmaram</i> o crime dos accusados, simplesmente por +terem <i>ouvido dizer</i>, que aquelles portuguezes tinham assassinado o seu +compatriota brazileiro!</p> + +<p>«Não ha só uma testemunha de vista.</p> + +<p>«A decisão do jury foi annullada pelo tribunal superior, que mandou reunir +novos jurados. Reunidos estes a decisão foi em tudo igual á primeira!!!<span +class="pagenum"><a id="pag_296" name="pag_296">[296]</a></span></p> + +<p>«Esta causa está affecta ao tribunal superior, que decidirá sobre tão +grave occorrencia; por isso reservar-me-hei para mais tarde dizer as ultimas +palavras sobre esta questão...»</p> + +<p>É chegada a occasião de cumprirmos a nossa promessa.</p> + +<p>Ultimamente o verdadeiro assassino do <i>cabouco</i>, minado talvez pelos +remorsos, e sentindo apertar-lhe a garganta a mão fria e descarnada da morte, +chamou um padre que o ouvisse de confissão, e declarou-lhe o seu crime. O +assassinado era compatriota do assassino. Morto o miseravel, o confessor, +cumprindo um dos sagrados deveres do seu ministerio, communicou este +acontecimento ás justiças brazileiras, que, a final se resolveram a por em +liberdade os dois innocentes portuguezes, que ha dois annos estavam +presos!</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Poucos dias antes da nossa retirada do Pará, julgára-se em primeira +instancia o processo por injurias publicadas na <i>Tribuna</i> paraense, em +que figuravam como auctor o negociante portuguez, Manuel Augusto Valente +d'Andrade e réu, o capitão do exercito brazileiro, Marcellino Nery, +proprietario d'aquelle pasquim e já bastante conhecido dos leitores.</p> + +<p>O juiz de direito, doutor Quintino, sentenciára o infame pamphletario a +quatro mezes de prisão.</p> + +<p>Tinha o heroe do <i>commercio a retalho</i>, publicado, além d'outros +epithetos injuriosos contra o commerciante Andrade, o de ladrão, moedeiro +falso, assassino, etc.; injurias que sustentára, sem provas, em pleno +tribunal, tendo antes allegado, para esquivar-se ao julgamento, a +incompetencia do juizo, que não lhe foi aceite.</p> + +<p>Mas suppunha-se que o processo seria annullado pelo<span +class="pagenum"><a id="pag_297" name="pag_297">[297]</a></span> tribunal +superior, para onde, segundo o direito que lhe conferiam as leis, ia appellar +o condemnado, como effectivamente appellou. Portanto, em vista d'este +recurso, podia o pasquineiro passear livremente por alguns mezes na presença +dos injuriados e o seu periodico continuaria a insultar os caracteres mais +probos residentes na provincia. Foi justamente o que aconteceu, porque a +Relação poz uma pedra em cima do processo.</p> + +<p>Mas antes d'isso os interessados pelo credito do Brazil, se não o proprio +governo do imperio, faziam espalhar por todo o mundo, a noticia da suspensão +do pasquim incendiario e a condemnação do seu proprietario. A nossa imprensa +então exultou de alegria por tão fausta nova, que era quasi que como uma +satisfação devida pelo Brazil ao velho Portugal insultado.</p> + +<p>Porém, era tudo uma ficção. A <i>Tríbuna</i> continuava com os seus +improperios, rindo-se do magistrado que no Pará tem sabido fulminar o clero +irrascivel, e, ainda que com menos exito, os <i>tribunos</i> descomedidos. E +desgraçadamente o cabo submarino estava n'esse tempo interrompido entre o +Pará e Pernambuco e nós não podiamos dizer á Europa que tinha sido mais uma +vez ludibriada a justiça.</p> + +<p>Passaram-se seis mezes de provações, até que a Relação accordou do +lethargo em que parecia envolta, e no dia 9 de julho de 1876, confirmou a +sentença da primeira instancia. A este caso applicaremos aqui, para honra e +gloria d'aquelle tribunal, o seguinte annexim popular:—<i>Mais vale tarde do +que nunca</i>.</p> + +<p>O testa de ferro do conego Sequeira Mendes, queixava-se de que a Relação +não soubera <i>limpar o escarro que Percheiro lhe imprimira nas faces</i>, +querendo fazer suppor aos incautos, que fôra devido ao nosso livro a +confirmação da sentença; mas cremos que é mais uma<span class="pagenum"><a +id="pag_298" name="pag_298">[298]</a></span> injustiça irrogada aos anciãos, +que decidiram contra a causa dos communistas.</p> + +<p>Esclareçamos este negocio da mais alta transcendencia para os nossos +compatriotas residentes no imperio e quiçá do proprio Portugal, no intuito de +apresentarmos ao nosso publico dois documentos curiosissimos, que mais tarde +hão de fazer parte da historia do Brazil. Mas antes de transcrevel-os é +preciso prevenir os leitores contra as phrases n'elles contidas, em que se +accusam <i>manifestas nullidades do processo</i> ou <i>ultrages contra +manifestas disposições da lei, por suppostas injurias</i> publicadas na +<i>Tribuna</i> paraense contra o portuguez Andrade, phrases mentidas, alli +postas com o fim de illudir os incautos, as quaes já mais poderão desmentir +as provas constantes no processo. O que se allegava, repetimos, era unica e +simplesmente a incompetencia do juizo. O réu não queria ser julgado pelo juiz +do 2.º districto criminal (Quintino) e sim pelo do 1.º (Meira de +Vasconcellos). O homem lá tinha as suas razões...</p> + +<p>Um dia antes da confirmação da sentença, distribuia-se na praça publica, +em avulsos, o seguinte aviso, que é d'uma ingenuidade a toda a prova, para +não dizermos outra cousa:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">AO BRIOSO POVO BRASILEIRO</p> + +<p>«Prevenimos aos nossos dignos compatriotas, que, em sessão de 6 do +corrente do Egrégio Tribunal da Relação, foi marcado o primeiro dia util, que +é ámanhã, sexta-feira (9 de julho de 1875) para o julgamento de appellação +que para o mesmo tribunal fizera o sr. capitão Marcellino Nery, do processo +de responsabilidade de imprensa, que lhe movera o portuguez Manuel Augusto +Valente de Andrade.</p> + +<p>«Confiamos sobremaneira nos venerandos desembargadores do Tribunal da +Relação, que perante as manifestas<span class="pagenum"><a id="pag_299" +name="pag_299">[299]</a></span> nullidades do processo, não farão mais do que +justiça.</p> + +<p>«O povo brazileiro deve correr a essa sessão, para com a sua presença +assistir ao julgamento de appellação d'um brazileiro digno processado +infelizmente por um audacioso portuguez.</p> + +<p>«Haja mais amor e patriotismo entre os brazileiros e corramos a assistir á +sessão do julgamento, ámanhã ás 11 horas da manhã.»</p> + +<p>Esta ordem dada aos adeptos do communismo no Pará, surtira optimo effeito; +porque, segundo fomos informado, o recinto do tribunal enchera-se de +curiosos, mais ou menos interessados no assumpto, que havia de ser decidido +n'aquelle dia. E, ainda uma vez para honra do tribunal da Relação do Pará, +devemos dizer, que a multidão de <i>tribunos</i> alli reunida, com o estudado +fim de impôr medo, não produziu o effeito desejado, por quanto, os juizes se +elevaram á altura dos seus deveres.</p> + +<p>Nós somos justo, e por isso, quando se nos proporcione o ensejo, havemos +de dar a Cezar o que é de Cezar.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Registemos agora o segundo documento.</p> + +<p>Vae fallar o representante, <i>in nomine</i>, do papel incendiario, em +avulsos distribuidos com profusão pelas ruas do Pará, poucas horas depois da +sua condemnação, á luz do dia, na presença das auctoridades, em pleno seculo +19.º:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">PROTESTO</p> + +<p>«Hontem a <i>Tribuna</i> fez circular um avulso em que vinha o recurso, +feito por meu illustre advogado á Relação do districto, da sentença contra +mim proferida<span class="pagenum"><a id="pag_300" +name="pag_300">[300]</a></span> pelo juiz de direito bacharel Quintino, +procedido d'um artigo que assim começava:</p> + +<p>«Hoje terá logar o julgamento do processo, em grau de appellação, +promovido contra o nosso prestimoso amigo capitão Nery, por um vilissimo +portuguez e por suppostas injurias publicadas na <i>Tribuna</i> ácerca d'um +irmão do auctor que se acha em Portugal.</p> + +<p>«Esse processo, que é um montão de ultrages contra manifestas disposições +da lei, estamos intimamente convencidos que cahirá ante a indefectivel +justiça dos provectos e venerandos juizes, que o tem de julgar.</p> + +<p>«Essas nullidades immoraes não resistirão á sabedoria do Egregio Tribunal +da Relação, unico baluarte erguido entre a lei e o arbitrio, entre a moral e +a corrupção, entre os potentados do dinheiro e os que soffrem fome e sêde de +justiça na sociedade paraense.»</p> + +<p>«Quanto se enganou a redacção da <i>Tribuna</i>!</p> + +<p>«O julgamento teve com effeito logar, e aquella monstruosidade juridica, +que dá a mais triste cópia da <i>moralidade</i>, <i>justiça</i> e +<i>conhecimentos</i> theoricos e praticos do <i>jurisconsulto</i> formador do +processo e culpa, resistiu á <i>sabedoria</i> dos <i>provectos</i> juizes!</p> + +<p>«Hoje deve a sociedade paraense estar desenganada, pois que a lei entre +nós não tem sacerdotes, mas sim, com honrosas excepções, vis +mercenarios...</p> + +<p>«Entre o direito e o arbitrio, entre a moral e a depravação, entre a +prepotencia e os que soffrem fome de justiça não existe barreira, por isso +que até na Relação esses principios oppostos confundem-se e acima de todos os +preceitos da lei alli se eleva a subserviencia, a paixão mesquinha e a +vingança miseravel!</p> + +<p>«Que desgraçado espectaculo!</p> + +<p>«Apezar de todas as nullidades e absurdos a pronuncia foi sustentada!</p> + +<p>«Até onde te quererão arrastar, oh! minha querida terra!<span +class="pagenum"><a id="pag_301" name="pag_301">[301]</a></span></p> + +<p>«Desgraçados! não veem que cada um d'esses actos, que só tem qualificativo +na brutalidade dos juizes selvaticamente iniquios, é um barril de petroleo +com que alimentam um incendio sinistro!...</p> + +<p>«Jámais me persuadi, que magistrados encanecidos no serviço da justiça e +collocados n'uma posição independente tivessem a inaudita leviandade de +renunciar a dignidade e a consideração publica e manchassem as mãos n'uma +sentença odiosa, que os submette á indignação do povo, porque este vê n'essas +togas, maculas hediondas...</p> + +<p>«Inspirados por paixões ruins não mediram o alcance da sancção que +proferiam a um escandalo impudente!...</p> + +<p>«O juiz que põe a preço a consciencia é tão prejudicial ou peior ainda que +ladrão de estrada...</p> + +<p>«Demais, a corrupção que désce dos tribunaes para o seio do povo é mais +perigosa ainda que o odio que ferve na immensa caldeira aos gritos da +<i>populaça</i> espalhada pelas praças publicas.</p> + +<p>«São os espectaculos repugnantes, que os magistrados offerecem ao +desespero do povo, que forçam ao povo a pôr em scena tragedias de +sangue...</p> + +<p>«Estas considerações, porém, não couberam na comprehensão d'aquelles, que +por uma sentença immoral <i>legalisaram</i> um ultrage vergonhosissimo feito +á justiça e ás expressas disposições da lei!</p> + +<p>«Assim, pois, ninguem póde mais contar com a lei nem com a justiça n'esta +terra!! a depravação está superior a tudo!!</p> + +<p>«E, que coincidencia singular! no mesmo dia e no mesmo logar em que +immoralmente saltava-se por sobre a lei para ferir-me como victima d'uma +imprensa livre e independente (sic), era tambem desmoralisado o acto d'um +juiz, cuja beca jámais se emporcalhou no charco immundo em que tripudiara o +ex-juiz de Bragança,<span class="pagenum"><a id="pag_302" +name="pag_302">[302]</a></span> onde miseravelmente prostituiu uma infeliz, +cuja cegueira não impediu o libinidinoso monstro, apparentado d'um faccinora, +e que com exemplos abominandos estimula a perversidade de dous filhos +libertinos, bebados e jogadores.</p> + +<p>«Sim! no mesmo dia e logar em que sem o minimo respeito nem ao publico nem +ao veneravel presidente do tribunal, o hospede d'um ladrão da praça applaudia +e secundava a odienta e crapulosa opinião d'um gratuito e vilissimo inimigo, +ha pouco tempo fornecedor de artigos para o meu periodico, n'esse mesmo dia o +sr. dr. Meira de Vasconcellos (sic) era estupidamente ludibriado pelos +vendilhões da lei, por tógas com <i>honras</i> de <small>LIBRÉ</small> da +casa Mauá e dos <i>nobres</i> <small>LATROCRATAS</small> da praça do Pará (Os +portuguezes).</p> + +<p>«Debalde procuram limpar o escarro que Percheiro imprimia-lhes nas faces +impudentes!...<a name="tex2html71" href="#foot2738"><sup>[71]</sup></a></p> + +<p>«Confesso pia e publicamente que até o ultimo instante nunca me faltou a +confiança em semelhantes juizes, pois nunca, até então, nem havia atravessado +o pensamento a idéa de que elles desceriam a tamanha abjecção... (de +condemnar pela primeira vez o infame... depois da publicação das +<i>Questões</i>!).</p> + +<p>«Animou-me sempre a esperança de encontrar na Relação provectos e +venerandos apostolos da justiça; enganei-me, porém, e enganei-me +redondamente: alli a especulação é a lei, a depravação um culto exercido ha +longos annos.</p> + +<p>«Já houve quem dissesse que o ladrão é mais nobre ainda que o juiz +mercenario; porque aquelle arrisca a vida, e este põe em risco a vida dos que +julga e a propriedade dos que ficam por julgar.</p> + +<p>«Na realidade assim é.<span class="pagenum"><a id="pag_303" +name="pag_303">[303]</a></span></p> + +<p>«Por Deus! quando me chegou a noticia d'essa decisão degradante, que +annulla todo o respeito e consideração, devidas a juizes probos, tive impetos +de entrar n'aquelle templo, desgraçadamente profano, e correr a vergalho +esses mercenarios, que o transformam em scenario de comedias obscenas, +desempenhadas por ciganos...</p> + +<p>«Ordens arbitrarias não se cumprem; no entretanto cumprem-se sentenças +absurdas e brutaes!...</p> + +<p>«Rasguem, bohemios, raça nomada! rasguem a lei, mas rasguem que o povo +veja! rasguem, mas não mintam! rasguem, mas rasguem em publico, e toquem fogo +nas tiras e com ella, vão por ahi além em busca de dinheiro, ou de +vergonha!... Rasguem, que ella para nada serve, rolando sob vossos pés!... +Rasguem, mas que o povo veja!...</p> + +<p>«A <i>Tribuna</i> é communista!</p> + +<p>«Ai! dos mercenarios se ella o fosse (sic).</p> + +<p>«Está lavrada a sentença?</p> + +<p>«Pois bem! vou cumpril-a e com coragem e orgulho, porque taes miserias não +abatem o homem de bem; ao contrario cria-lhes sympathias, ao passo que cobrem +de infamia e opprobrio aquelles que as proferem.</p> + +<p>«Querem matar a <i>Tribuna</i>?!</p> + +<p>«Pois não! todo o dinheiro, que ahi por ventura corra, é pouco, e sois +pequenos demais!... ella continuará sempre; e quando acaso venha a succumbir +na lucta, a idéa resistirá, e de suas cinzas surgirá a revolução do nobre +pensamento que pleiteamos, eu e meus amigos, na imprensa do Pará.</p> + +<p>«O que a <i>Tribuna</i> tem escripto, o que hontem escreveu, o que +continuar a escrever, é todo para a historia, para cuja justiça eu appello, +instruindo o meu appello com a sentença que meus inimigos (os portuguezes) +compraram a um tribunal de meu paiz e contra<span class="pagenum"><a +id="pag_304" name="pag_304">[304]</a></span> a qual servirá este de protesto +solemne, pois protesto soberanamente contra tamanha iniquidade e formidavel +objecção.<a name="tex2html72" href="#foot2745"><sup>[72]</sup></a>»</p> + +<p>O celebre dr. Samuel Mac-Dowal, (redactor da <i>Regeneração</i>), foi o +advogado do réu. E quem fez o protesto que para ahi deixamos transcripto, e +que o intelligente capitão assignou de cruz, o qual, diga-se a verdade, faria +chorar as pedras, se as pedras podessem vêr as lagrimas do crocodilo +paraense, foi tambem o sr. Samuel, orador da associação catholica e acerrimo +defensor dos jesuitas do Pará!<a name="tex2html73" +href="#foot2747"><sup>[73]</sup></a></p> + +<p>Mas não obstante a condemnação a <i>Tribuna</i> continuava a publicar-se e +a dirigir os mesmos insultos á colonia portugueza e aos tribunaes; e na testa +do pasquim figurava ainda como responsavel o mesmo Marcellino Nery, capitão +do exercito. As auctoridades cruzavam os braços, sem terem força para +repellir os insultos dos pasquineiros, que, julgando-se mais fortes, +preparavam scenas peiores do que as presenceadas por nós em fevereiro de 1872 +e setembro de 1874. E o clero parece que lhe não era estranho.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>O <i>Diario de Belem</i>, accusado de defensor do bispo D. Antonio e do +seu clero, e portanto, insuspeito na questão gravissima, que de novo se +levantava contra a colonia portugueza residente no Pará, assim fallava em 30 +de maio de 1876, a respeito de uns pasquins destribuidos por este tempo na +cidade de Belem, chamando o povo á revolta contra os colonos:<span +class="pagenum"><a id="pag_305" name="pag_305">[305]</a></span></p> + +<p>«A ordem publica póde achar-se compromettida de um dia para o outro, se a +policia continuar o somno de indifferença em que se refocilla: com o fogo não +se brinca.</p> + +<p>«Na semana ultima quasi não houve dia em que se não derramassem no seio +d'esta capital os mais asquerosos pasquins, primando uns pela descarada +impudicicia que ostentam, emquanto proclamam outros o assassinato em massa +dos portuguezes e dos mações.</p> + +<p>«Se não acreditamos, com o <i>Liberal</i> e com a <i>Provincia</i>, que +para estygmatisar tão grandes monstruosidades, seja necessario dar-lhes +<i>curso forçado</i> estampando-os nas columnas da imprensa diaria para +estender a sua circulação e perpetuar a nossa vergonha, é do nosso primeiro +dever perguntar á policia se—de <i>tantos pasquins que se distribuiam até no +theatro e no largo da Cathedral</i> (!) conforme nos asseguram pessoas de +confiança, se de um só não pôde descobrir os auctores ou distribuidores? É +muita cegueira!</p> + +<p>«Não vamos até ao ponto de fazer insinuações<a name="tex2html74" +href="#foot2756"><sup>[74]</sup></a>; mas da natureza d'esses documentos, dos +interesses que elles procuram servir, da linguagem que empregam, de tudo isto +se manifesta que não teria a policia grande trabalho para conhecer-lhes a +procedencia.</p> + +<p>«São publicações essas, prohibidas pelas nossas leis e constituem crimes +policiaes ao alcance e da esphera da policia. O que faz portanto o sr. dr. +chefe da policia, magistrado aliaz sizudo e circumspecto?</p> + +<p>«Não queremos especular com assumptos d'esta natureza, nem é nosso intuito +doestar pura e simplesmente ao honrado sr. Caldas Barreto, ou fazer +insinuações desairosas a este ou aquelle individuo; mas só cegos não verão +que esse que corre estampado nas columnas do <i>Liberal</i> e da +<i>Provincia</i>, traz bem caracterizada a linguagem da <i>Tribuna</i> e +nutre os mesmos intuitos...<span class="pagenum"><a id="pag_306" +name="pag_306">[306]</a></span></p> + +<p>«Estude-se depois o caracter d'essa impressão, compare-se-a com a dos +differentes jornaes que se publicam n'esta capital, e se reconhecerá que o +typo é o mesmo que servio em alguns editaes das juntas da qualificação!<a +name="tex2html75" href="#foot4311"><sup>[75]</sup></a></p> + +<p>«Nós chamamos pois a attenção da policia para estes pasquins, que formigam +principalmente no theatro, onde se presume que a policia está, sempre que ha +representações.</p> + +<p>«Queremos ser hoje, como sempre, justo. E pois nos dirigimos á policia, +concitando-a para que interrompa o somno que a prostra desde tanto tempo e +vele pela ordem publica, que ahi anda á matroca e á mercê dos interesses de +occasião.</p> + +<p>«Temos a maior sympathia pelo sr. Caldas Barreto; mas fazemos do dever uma +religião, e elle antes de tudo.</p> + +<p>«Póde a policia continuar indifferente a tantos abusos?»</p> + +<p>Como os leitores vêem o <i>Belem</i> não defende o bispo, porque, +jornalista sizudo, <i>faz do dever uma religião</i>; e por isso chamava a +attenção das somnolentas auctoridades contra os pasquineiros desenfreados, +que a todo o transe proclamavam o exterminio dos portuguezes e maçons.</p> + +<p>Era, pois, mais grave do que os optimistas suppunham a situação dos nossos +compatriotas residentes no Pará. Decididamente o governo do Brazil protegia +os desordeiros, e o governo de Portugal recebia tudo isto como a devida +satisfação promettida por aquelle a este paiz na gravissima questão do +Jurupary. E não contente ainda, decretava mercês honorificas a esses<span +class="pagenum"><a id="pag_307" name="pag_307">[307]</a></span> que no Brazil +assulavam a populaça contra nossos irmãos!</p> + +<p>Nunca a corrupção subira tão alto!</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Eis como o <i>Liberal do Pará</i> fulminava o pasquim, transcrevendo-o no +seu numero de 20 de maio de 1876:</p> + +<p>«Os jesuitas querem a todo o transe perturbar a ordem publica, açulando os +odios de raça e o fanatismo das classes ignaras, para vêr se conseguem +arrastal-as a scenas de carnificina, que nos degradem perante o mundo +civilisado.</p> + +<p>«A gente da <i>Boa Nova</i><a name="tex2html76" +href="#foot2768"><sup>[76]</sup></a>, fez hontem distribuir uma segunda +edição do <i>Brado ao Povo</i>.<a name="tex2html77" +href="#foot4312"><sup>[77]</sup></a></p> + +<p>«Evocam-se as recordações de um passado infame e vergonhoso, appella-se +para a faca, e grita-se com toda a força:</p> + +<p>«Á arma branca!</p> + +<p>«Ou a igreja ou a maçonaria!</p> + +<p>«Alerta! Renove-se o 35! mas purifique-se o povo no sangue d'esta raça +maldita!»</p> + +<p>«É especialmente contra os maçons e os portuguezes que se levanta o grito +sanguinario, echo das paixões ferozes, de que os jesuitas se acham +dominados.</p> + +<p>«A seita maldita quer sangue: impelle-a a mão occulta d'aquelle, que +devera ser o exemplo da caridade e do amor do proximo.</p> + +<p>«Todas as noutes distribuem-se pasquins infamissimos, que tem o cunho +jesuitico.</p> + +<p>«A policia não póde nem deve ser indifferente a esses meios anarchicos, de +que estão-se servindo os roupetas<span class="pagenum"><a id="pag_308" +name="pag_308">[308]</a></span> para espalhar o terror nas familias e nos +estrangeiros, que descançam tranquillos á sombra da nossa hospitalidade e das +nossas leis.</p> + +<p>«Em nome do povo paraense protestamos contra essa infamia, e exigimos a +punição dos seus sanguisedentos auctores.</p> + +<p>«Leia o publico o pasquim, e veja de quanto é capaz a sanha dos que fazem +da religião um instrumento de odio e vinganças:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">AO POVO BRAZILEIRO</p> + +<p>«Desperta! gigante e alerta!</p> + +<p>«Que estupida somnolencia é essa que te esmaga?</p> + +<p>«Onde estão os teus brios?</p> + +<p>«Que tens feito do teu heroismo?</p> + +<p>«Por ventura já não te bate no seio um coração educado nas idéas dos +nobres sentimentos?</p> + +<p>«Por ventura descreste de tua liberdade e de tua força?</p> + +<p>«Em summa, não vês a execração a que te arrasta a indifferença?</p> + +<p>«Duvidas de ti? ou a lepra dos homens grandes communicou-se tambem aos +teus musculos de gigante?</p> + +<p>«Não! não é possivel!</p> + +<p>«Tu has-de ser sempre um povo brioso e heroico!</p> + +<p>«Volve os olhos ao passado e interroga o 35 e decide-te no que te cumpre +fazer.</p> + +<p>«Quem te tem negado o meio de subsistencia?</p> + +<p>«Quem te impede de obteres o pão para tua mulher e filhos?</p> + +<p>«Quem tem levado a miseria ao seio da tua familia?</p> + +<p>«Quem tem escarnecido da tua liberdade?</p> + +<p>«Quem tem vilependiado teus brios?</p> + +<p>«Quem tem escarrado infamias á face dos teus?<span class="pagenum"><a +id="pag_309" name="pag_309">[309]</a></span></p> + +<p>«Quem tem com a mão sacrilega revolvido as cinzas de nossos paes para +melhor vomitar injurias?</p> + +<p>«Quem tem corrompido a nossa sociedade fazendo que n'ella substitua-se a +virtude pela depravação?</p> + +<p>«Quem, finalmente, tem, depois de estrangular-nos á fome, despojar-nos de +nossos direitos e reduzir nossa familia a penuria e a mendicidade, deshonra o +nosso nome, o nome de nossos paes e o de nossas irmãs?</p> + +<p>«Interroga a tua consciencia que ella te dirá:</p> + +<p>«—Que são aquelles mesmos que deram lugar as scenas sinistras de 1835.</p> + +<p>«Interroga aquella época que ella te responderá:</p> + +<p>«—São esses malfeitores que Portugal exporta para o Brazil.</p> + +<p>«Pergunta ao teu brio o que deves fazer: pede conselhos ao 35: e te +decide, ó gigante!</p> + +<p>«E são elles hoje que, estreitando o circulo de bronze com um circulo de +fogo, ameaçam destruir-te para sempre.</p> + +<p>«O primeiro passo que deram para levar ao cabo o seu canibalismo foi +insultar a religião que bebemos com o leite dos seios de nossas mães.</p> + +<p>«Depois de insultarem a Deus e a sua igreja, a esposa de Jesus Christo, +esses bandidos infamam os seus sacerdotes porque estes são nossos irmãos, e +superior a impiedade cynica d'essas bestas féras collocam a liberdade, a +patria e a familia.</p> + +<p>«Abandonar a causa de nossa santa religião á furia d'esses impios +scelerados é descurar e despresar a propria liberdade, é vender a patria, é +renegar a honra e a familia.</p> + +<p>«E ha brazileiro, por mais infimo que seja, que tenha a covardia de +deixar-se escravisar, de vender sua patria, de renegar a honra de sua +familia?</p> + +<p>«Oh! jámais!</p> + +<p>«E, pois ergue-te gigante! e pede ao 35 que te dê<span class="pagenum"><a +id="pag_310" name="pag_310">[310]</a></span> coragem para a um por um d'esses +bandidos agarrares pelo pescoço e esmagal-os sob os pés.</p> + +<p>«Álerta!</p> + +<p>«Queres conhecel-os? queres saber quem são os facinoras que te insultam e +imfamam, insultando e infamando a religião de teus paes e seus sacerdotes, +nossos irmãos, brazileiros como nós?</p> + +<p>«Queres conhecel-os, ó povo? ou saber onde é que elles se infurnam e +tramam contra ti, tua familia, tua patria, tua religião, tua honra e teu +Deus?</p> + +<p>«Em nome do 1835 te respondo:</p> + +<p>«—É na maçonaria.</p> + +<p>«Sim, é ahi.</p> + +<p>«É ahi que elles tramam contra liberdade, honra, familia e crenças do povo +brazileiro.</p> + +<p>«É ahi, porque a maçonaria é o receptaculo e valhacouto:</p> + +<p>«—dos incendiarios;</p> + +<p>«—dos ladrões,</p> + +<p>«—dos assassinos<br> +«que Portugal exporta para a nossa terra.</p> + +<p>«—Eram e são maçons os quadrilheiros presos em S. José.</p> + +<p>«Foi da maçonaria que saiu o assassino de Barraquim:</p> + +<p>«Foi da maçonaria que saiu o estrangulador de Balthazar;</p> + +<p>«Foi a maçonaria que afastou a policia dos estranguladores do porto do +Cantão.</p> + +<p>«É a maçonaria que tem protegido os incendiarios, bancarroteiros e +moedeiros falsos.</p> + +<p>«É na maçonaria que se tem combinado a perseguição ao prelado e os +insultos ao clero paraense.</p> + +<p>«Porque é ella o baluarte erguido contra a justiça publica para proteger +os facinoras, malfeitores e scelerados<span class="pagenum"><a id="pag_311" +name="pag_311">[311]</a></span> que nos vem de Portugal para realisarem o +pensamento arrojado do famigerado Jalles.</p> + +<p>«E pois, ó povo, álerta.</p> + +<p>«1835 te ordena que tomes a tua faca, e opponhas resistencia contra esses +impios salteadores, commissionados pela maçonaria e reunidos no theatro para +ultrajar a tua religião, porque estão fartos de ultrajar a tua familia, tua +honra, tua patria e escarnecer de tua liberdade.</p> + +<p>«Ergue-te e sê heroico!</p> + +<p>«Ao punhal d'esses sicarios, ao arcabuz d'esses bandidos, á gritaria +obscena e injuriosa, para a qual tem sido impotente a policia e o governo, +oppõe a tua faca de mato.</p> + +<p>«Lava o insulto que a Deus é feito em teu nome, teu nome, ó povo, que +elles odeiam!</p> + +<p>«Percheiro e Carvalho tambem são agentes da maçonaria (?); e são maçons +Pinheiro Chagas e Castilho.</p> + +<p>«Alerta! renove-se o 35! mas purifique-se o povo no sangue d'essa raça +maldita!</p> + +<p>«Aos pés de cabra e rabo de macaco!</p> + +<p>«Á arma branca!</p> + +<p>«Eia povo! coragem!</p> + +<p>«Decida-se d'esta lucta: ou ser brazileiro, ou venda-se a familia, a honra +e a patria.</p> + +<p>«Ou a igreja ou a maçonaria; ou ser independente ou escravo, nacional ou +portuguez.</p> + +<p>«Viva o 1835!»</p> + +<p>Viva a civilisação! diremos nós, em pleno 1878.</p> + +<h2>VII</h2> + +<p>No pasquim ha uma referencia a respeito da estrangulação de Balthazar, +nosso compatriota. A este infeliz nos referimos nas <i>Questões do Pará</i>, +e a proposito<span class="pagenum"><a id="pag_312" +name="pag_312">[312]</a></span> da condemnação de um innocente, supposto +criminoso, publicámos o seguinte artigo, ha tempo:</p> + +<p>«Ha dias, quando um pobre doido, filho do Brazil, procurou a morte, sem +duvida, em algum momento mais lucido, para pôr termo aos seus soffrimentos, +quiz-se tornar responsavel de tão grande desastre a dois pobres enfermeiros, +que, estando encarregados de guardar o doente, talvez se tivessem descuidado +um pouco no cumprimento de seus deveres.</p> + +<p>Parte da nossa imprensa fez a justiça de dar ingresso em suas columnas a +uma carta queixosa do inconsolavel irmão da supposta victima, e um jornal se +recusou acceitar explicações dos accusados! Em presença de tão +<i>horroroso</i> crime tomára o ministro brazileiro todas as providencias +perante o nosso governo, quando já as auctoridades do logar onde se dera o +facto haviam cumprido os seus deveres.</p> + +<p>N'este ponto, hade o nobre diplomata permittir que lhe digamos, que +Portugal em nada se parece com o governo do imperio, que s. ex.ª tão +dignamente representa.</p> + +<p>Não sabemos ainda qual será o desenlace d'esta <i>tenebrosa tragedia</i>; +mas promettemos esclarecer os nossos leitores quando for tempo opportuno.</p> + +<p>Fallamos n'isto a proposito de um verdadeiro drama, que acaba de +representar-se da outra parte de lá do oceano, em terras brazileiras.</p> + +<p>Compare o leitor as providencias das nossas auctoridades, a favor da +hospitalidade devida aos estrangeiros, com a que costumam dispensar-nos as +auctoridades do Brazil.</p> + +<p>Ahi vae a historia.</p> + +<p>Ha pouco tempo assassinaram no imperio um infeliz portuguez. A policia +brazileira, composta de cidadãos que devem comprehender a hospitalidade, +tratou de<span class="pagenum"><a id="pag_313" +name="pag_313">[313]</a></span> averiguar o caso pela forma mais +extraordinaria que é possivel imaginar-se.</p> + +<p>Antes de tudo é preciso que se saiba, que a tal policia só sabe +<i>descobrir</i> os criminosos, quando o crime é commettido em pleno dia, na +presença de muitas testemunhas. Dado o caso, porém, de ser perpetrado no meio +das sombras da noite, se a victima é um portuguez, trata a policia de arredar +de cima do seu patricio qualquer suspeita. As suas vistas voltam-se logo para +os <i>gallegos</i>. Um brazileiro é incapaz de ser criminoso, embora proteste +contra isto o <i>Cearense</i>. Foi justamente o que aconteceu no caso em +questão.</p> + +<p>No logar do delicto encontrara-se apenas um indicio que não sabemos se +seria o sufficiente para o verdadeiro descobrimento dos criminosos. Esse +indicio era um lenço marcado com um M. Este lenço foi levado immediatamente +para o quartel de policia; mas d'ali a 3 ou 4 horas sabia-se em toda a cidade +d'aquelle precioso achado!</p> + +<p>Vejamos agora as outras diligencias a que as auctoridades procederam.</p> + +<p>Em primeiro logar mandou-se intimar para que comparecessem no +commissariado todos aquelles cujo nome ou appelido começasse por aquella +inicial. O systema, além de ser arbitrario, não podia produzir o effeito +desejado, porque a policia tinha sido a primeira a divulgar o segredo de tão +optima descoberta.</p> + +<p>A experiencia cremos que levou oito dias, porque foram chamados todos os +Manueis! e, o que é notavel, é que nenhum cahiu na patetice de dizer que o +lenço era seu!</p> + +<p>Mas como no meio de tanta barafunda podia ter escapado algum Manuel, um +jornal incendiario se lembrou de accusar Manuel Saldanha, commerciante e... +portuguez. Foi chamado o homem, não obstante as auctoridades brazileiras +darem pouca importancia aos<span class="pagenum"><a id="pag_314" +name="pag_314">[314]</a></span> pasquins! E para que se não dissesse, que as +mesmas davam menos importancia a um portuguez, foi este desde logo recebido +com a maior deferencia... pelo carcereiro!... O motivo d'uma recepção tão +desigual, fora <i>simplesmente</i> porque o portuguez se chamava Manuel como +qualquer brazileiro. Mas ao cabo de dois dias saira da prizão o nosso +compatriota, declarando como todos os outros, que o lenço fatal lhe não +pertencia, accrescentando que desde ha muito cheirava rapé e que uzava lenços +riscadinhos de Alcobaça!</p> + +<p>O proprietario do jornal accusador, do jornal incendiario, que ha quatro +annos consecutivos advogava o exterminio da colonia portugueza, e a cuja +sombra se commettiam tantos crimes, chama-se Marcelino Nery; e dois dos seus +principaes redactores chamam-se, um, Manuel Cantuaria, e outro, Manuel José +de Sequeira Mendes; com tudo foram poupados á experiencia policial. Pois não +deviam ser dispensados das suspeitas da policia; porque, além d'esta gente +fazer uso do lenço branco e do almiscar, de cujo olor se achava impregnado o +delicado <i>marotinho</i>, bastantes provas tem dado da sua capacidade para +taes commettimentos.</p> + +<p>Mas a questão era mais séria do que julgára Manuel Saldanha: porque, para +evitar que a policia, contra a sua vontade, fosse, por qualquer acaso, +encontrar os verdadeiros criminosos nas fileiras communistas, encarregou-se a +<i>Tribuna</i> (a comedia passava-se no Pará) de assestar as suas baterias +contra o pobre <i>marinheiro</i>. E o promotor publico do Pará, para fazer a +vontade aos seus predilectos do <i>orgão popular</i>, processou o portuguez, +que foi immediatamente mettido na cadeia.</p> + +<p>Pouco tempo depois constituia-se o tribunal que não tem querido julgar os +assassinos de Jurupary, e Manuel Saldanha apparece sentado no banco dos +assassinos. A unica prova, que consta de tão monstruoso processo, é um lenço +cujo dono se ignora.<span class="pagenum"><a id="pag_315" +name="pag_315">[315]</a></span></p> + +<p>O juiz presidente desenrola-o, e em pleno tribunal assoa-se a elle. Pouco +depois os jurados seguem-lhe o exemplo. A <i>prova</i> fatal foi afinal cair +nas mãos do orgão da justiça publica, que se serviu exclamar, apontando para +o lenço e para a fatidica letra:</p> + +<p>—Srs. jurados! vêde e ouvi... (dirigindo-se para o supposto réu) Como se +chama?</p> + +<p>—Manuel...</p> + +<p>—Basta, não precisamos de mais provas...</p> + +<p>E o portuguez foi sentenciado a galés perpetuas para a ilha de Fernando de +Noronha!</p> + +<p>O jury que, alguns mezes antes, absolvera dois soldados do exercito +brazileiro, assassinos confessos de dois compatriotas nossos, procedia assim +contra uma pobre victima, cujo crime foi ter nascido em Portugal e chamar-se +Manuel!</p> + +<p>O que infelizmente está reconhecido, é que o odio de raça passou dos +Tapuyas e dos Tomayos aos Tupinambas e aos Botocudos; e que estes o +transmittiram aos brazileiros, que hoje predominam n'aquella parte da +America. A unica differença a favor da raça predominante; é não fazer uso da +antropophagia; mas em compensação assassina os portuguezes, e quando algum se +livra do punhal e do trabuco, não escapa á sanha dos tribunaes.</p> + +<p>Mirem-se n'este espelho os nossos compatriotas que veem no imperio um +manancial de riquezas e uma terra civilisada e hospitaleira.»<a +name="tex2html78" href="#foot4313"><sup>[78]</sup></a></p> + +<p>Agora illucidemos a questão que o tempo, magnifico juiz de nossas acções, +poz nos devidos termos:</p> + +<p>O portuguez Manuel Saldanha, appellou da injusta sentença para o tribunal +da Relação do Pará, que annulou o processo e mandou pôr em liberdade a +victima!</p> + +<p>O brazileiro doido, que tentou suicidar-se, era unico<span +class="pagenum"><a id="pag_316" name="pag_316">[316]</a></span> irmão de um +barão ou visconde, e senhor de uma fortuna avultadissima.</p> + +<p>Logo que a este titular <i>chegára</i> a noticia do desastre succedido ao +irmão, escreveu uma carta sentimentalissima a um jornal de Lisboa em que +accusava de cumplicidade os enfermeiros; e o tal jornal, ao mesmo tempo que +consolava o <i>desventurado</i> aristocrata, negava as suas columnnas á +defeza dos enfermeiros que tencionavam provar a sua innocencia!</p> + +<p>Começou o processo, e quando elle ia esclarecer a tragedia, o illustre +titular sahia immediatamente d'este paiz!...</p> + +<p>Sobre o processo poz-se a pedra do esquecimento, que, por +<i>conveniencias</i>, negaram ao infeliz Vieira de Castro!</p> + +<p>Altos mysterios da justiça!...</p> + +<p>Vejam os nossos inimigos de alem-mar como nós cá tratamos os seus +compatriotas.</p> + +<p>Nós é que não concordamos com a protecção escandalosa; e desde já +protestamos contra os previlegios: o sancto principio da hospitalidade não +manda proteger os calumniadores de nossos irmãos, por que os calumniadores +são opulentos e quem sabe se criminosos.</p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>Manuel Soares Pereira, é um emigrado portuguez, residente ha muito tempo +no imperio do Brazil, e que assistiu como voluntario, á lucta travada entre +esta nação e o Paraguay, prestando por essa occasião relevantes serviços aos +feridos nas refregas; porque Soares tivera a sublime idéa de se inscrever na +legião dos irmãos da caridade—que nos acampamentos da guerra aspiram a dar +vida e consolações aos moribundos,<span class="pagenum"><a id="pag_317" +name="pag_317">[317]</a></span> emquanto que os soldados d'outras legiões +apontam ao peito da humanidade os <i>Chassepots</i> da destruição.</p> + +<p>Aos soldados de todas as legiões—aos que ferem e matam e aos que +curam—costumam dar os governos que promovem os ferimentos, a matança e os +curativos, uns <i>pendericalhos</i> em paga d'esses serviços, que os mandões +da guerra igualam, mas que a humanidade separa, como sendo a arte dos que +ferem e matam uma perfeita antithesis á que exercem os que consolam e +curam.</p> + +<p>Soares Pereira, não obstante, como já vimos, pertencer a esta ultima +legião, foi sentenceado á morte, pelos tribunaes do Brazil, porque tendo elle +exercido um cargo humanitario, que os taes mandões da guerra não retribuiam, +entendeu dever <i>desertar</i> da legião, onde por muito tempo servira +voluntariamente, e onde o deixariam morrer de fome, em paga de uma pratica +assidua de acções meritorias.</p> + +<p>Desertar dissemos, porque como deserção é que se qualificára a sahida +voluntaria de Soares Pereira, do exercito do Paraguay, sahida nunca impedida +pelas auctoridades guerreiras do Brazil, estacionadas n'aquella região, em +1867, e por aquelles que lhe visaram depois o seu passaporte de subdito da +nação portugueza, documento este que o nosso compatriota apresentára, no seu +transito, sem receios, e conscio de que era um cidadão no goso pleno dos seus +direitos.</p> + +<p>Passaram-se sete annos depois d'aquella data. Isto é, em 1874, o supposto +desertor, estabelecido então na cidade da Bahia, requereu uma certidão á +repartição competente, para mostrar onde lhe conviesse, os serviços prestados +ao Brazil, como enfermeiro na guerra do Paraguay.</p> + +<p>A resposta foi ser preso o requerente, <i>para averiguações</i>. Feitas as +taes averiguações, concluiu-se que Soares Pereira fôra considerado desertor +do exercito, no<span class="pagenum"><a id="pag_318" +name="pag_318">[318]</a></span> qual já mais se alistára como soldado, do que +são sufficientes provas os documentos que temos á vista e que fazem parte do +<i>Livro Branco</i>, apresentado ás côrtes em 1877. Não obstante, é Pereira +mettido <i>na mais terrivel masmorra do forte de S. Pedro, da Bahia, onde +esteve cinco dias sem alimentos, e de onde o faziam sahir depois para os +trabalhos forçados, durante 18 mezes, antes de ser julgado</i>,<a +name="tex2html79" href="#foot4314"><sup>[79]</sup></a> e só depois d'este +periodo é que foi sentenceado á morte!</p> + +<p>A 26 de março de 1876, é que foi proferida a sentença, pelo conselho de +guerra reunido na cidade da Bahia.</p> + +<p>A diplomacia portugueza, começou no imperio, em fevereiro de 1875, a sua +lucta; e pelo desenlace de 26 de março, acabamos de vêr que ella não pôde +evitar mais aquella vergonha para os tribunaes do Brazil, quando julgam +portuguezes.</p> + +<p>E porque nada conseguiu a diplomacia até este momento? Porque o nosso +vice-consul na Bahia, o sr. Gregorio Anselmo Ribeiro Marques, que já em +fevereiro de 1875, cinco mezes depois da prisão, começára a apontar o +monumental escandalo, não viu secundados os seus esforços pelo nosso +embaixador na côrte do Rio de Janeiro.</p> + +<p>Vamos demonstrar esta asserção com os documentos que temos á vista.</p> + +<h2>IX</h2> + +<p>Já notámos que passados cinco mezes depois da prisão de Manuel Soares +Pereira, isto é, em 4 de fevereiro de 1875, é que começaram as providencias +da diplomacia.</p> + +<p>Expedindo o nosso vice-consul na Bahia a sua primeira nota ao presidente +d'esta provincia brazileira,<span class="pagenum"><a id="pag_319" +name="pag_319">[319]</a></span> em que pedia «esclarecimentos dos motivos que +determinaram a prisão do referido individuo<a name="tex2html80" +href="#foot2812"><sup>[80]</sup></a>», não remediava que a prisão illegal +continuasse; porquanto, o presidente allegava era seu officio de 11 do mesmo +mez e anno, que aquelle subdito de Portugal <i>sentára</i> praça no 16.º +batalhão de infanteria de linha, escudando-se este magistrado, para fazer +valer a sua affirmativa, á <i>certidão de assentamento</i>, que o general das +armas d'aquella provincia lhe remetteu, na qual nada notava com respeito ao +acto importantissimo do juramento de bandeira, que era indespensavel para +tornar legal o assentamento; o que não impediria, ainda assim, quando o +fosse, de que taxassemos de inconsequente o prolongamento da prisão, sem +julgamento, de um subdito de nação <i>irmã e amiga</i>; e de barbara, a +obrigação imposta arbitrariamente a esse mesmo subdito, de ser levado aos +trabalhos <i>forçados</i>, a que a justiça condemna os criminosos +convictos.</p> + +<p>Não satisfeito com a resposta e com a tal certidão, tudo desconforme, á +vista das mais comesinhas noções do direito, o nosso vice-consul, expedindo +segunda nota em data de 4 de março do referido anno, não só accusava a falta +de juramento de bandeira, que se não exigia dos voluntarios nacionaes (para a +guerra do Paraguay) e menos se exigiria de um estrangeiro; mas o que era para +notar, não se provava, que o nosso compatriota estivesse «desembaraçado pelo +consulado para levar a effeito aquelle juramento, documento de que se não +poderia prescindir, em vista da doutrina consignada na resolução do governo +imperial, expedida pelo ministerio dos negocios estrangeiros, na data de 4 de +julho de 1852», e de outras noções do direito internacional, muito bem +apontadas nas notas expedidas, mais tarde, pelo sr. Andrade Corvo.<span +class="pagenum"><a id="pag_320" name="pag_320">[320]</a></span></p> + +<p>Á vista d'isto, o presidente replicou immediatamente, que submetteria á +consideração do governo imperial o expendido pelo vice-consul.</p> + +<p>E o governo imperial respondeu assim, <i>pela bocca do nosso ministro</i>, +na côrte do Rio de Janeiro:</p> + +<p>«Legação de Sua Magestade Fidelissima, Rio de Janeiro, em 12 de abril de +1875.—Ill.<sup>mo</sup> sr.—Em resposta ao officio que v. s.ª me dirigiu em +data de 8 de março ultimo, cumpre-me dizer-lhe que, em vista das disposições +da lei brazileira, de 20 de setembro de 1860, e do que foi declarado pela de +20 de junho de 1865, não póde ser attendida a pretenção de Manuel Soares +Pereira, a que se refere o citado officio de v. s.ª Isto mesmo acaba de ser +decidido pelo governo imperial em deliberação tomada sobre o referido +assumpto, etc., etc.—<i>Mathias de Carvalho e Vasconcellos</i>.»</p> + +<p>Teria o vice-consul exorbitado? ou enganar-se-ia o governo imperial?</p> + +<p>Parece que sim, que este se enganou, e com elle o nosso illustre +diplomata, o sr. Mathias de Carvalho e Vasconcellos, que sem protesto, +acolhera a decisão injusta do governo, junto do qual estava acreditado, para +tratar de proteger os interesses da nação portugueza, sua patria.</p> + +<p>Vejamos se sae ou não exacta a nossa asserção.</p> + +<h2>X</h2> + +<p>A informação do ajudante general, a que recorrera o ministro da guerra +brazileiro, para negar a justiça que requeria Manuel Soares Pereira, por via +do consul, diz que os corpos de voluntarios da patria, organisados de +conformidade com as disposições do decreto de 7 de janeiro de 1865, para a +guerra do Paraguay, estiveram sempre sujeitos ás leis militares, etc.; +etc.,<span class="pagenum"><a id="pag_321" name="pag_321">[321]</a></span> e +que a lei de 20 de setembro de 1860 comprehende os engajados e voluntarios de +qualquer natureza, como praças do exercito, e por consequencia sujeitos ao +julgamento pelo crime de deserção, etc. Que o juramento de bandeira, era uma +mera formalidade, que não podia impedir o assentamento de praça, o que a +nosso ver, não impediria tambem que nos assentassem praça lá no Brazil, sem o +previo consentimento, para sermos julgado desertor, e depois sentenciado á +morte, se por desventura lá apparecessemos!...</p> + +<p>Mas com respeito á proposição do vice-consul, de que não se deveria julgar +a praça assente ao portuguez, sem que este apresentasse documento do +consulado, com o qual se provasse estar desembaraçado, para então poder +alistar-se no exercito estrangeiro, não disse nada o ajudante do general.</p> + +<p>Foi lapso, naturalmente!</p> + +<p>O vice consul é que não se conformou com a informação do tal ajudante, nem +com a decisão que á vista da mesma dera á causa o ministro brazileiro +respectivo; e despresando o systema adoptado pelo representante de Portugal, +de não metter <i>prego nem estopa</i> no batel escavacado da nossa dignidade, +novo protesto elevou até junto do sr. Mathias de Carvalho, para ver se +livrava o desgraçado portuguez das garras aduncas da tal <i>justiça</i>, que, +como a dos <i>tugs</i> levava em mira <i>engordar</i> a sua presa, para ser +mais agradavel á deusa Kaly o supplicio final da <i>laçada</i>!</p> + +<p>É a 16 de abril de 1876, que o vice-consul expede terceira nota ao +presidente da Bahia, rebatendo as doutrinas erroneas da informação do +ajudante do general, doutrinas que o sr. Mathias de Carvalho, como já vimos, +deixára passar, sem a devida replica.</p> + +<p>Em 19 responde-lhe o presidente; e a 20 submette o vice-consul, nota e +resposta, á legação de Portugal no Rio de Janeiro.<span class="pagenum"><a +id="pag_322" name="pag_322">[322]</a></span></p> + +<p>Examinemos estes documentos, para, a seu turno, fulminarmos a systematica +abstensão do embaixador de Portugal em face d'esta questão gravissima.</p> + +<p>«A legislação citada pela repartição do ajudante general, diz o +vice-consul, é toda applicavel aos subditos do paiz, que tendo servido na +armada ou no exercito, quer como voluntarios, quer como guardas nacionaes; e +quando as disposições do artigo 5.º da lei n.º 1:101, podessem ser extensivas +a estrangeiros, só seriam applicaveis áquelles que fossem legalmente +admittidos, exhibindo o desembaraçado do consulado de sua nação; por quanto é +essa a opportunidade que tem o respectivo agente consular para lhes fazer +sentir, não só as obrigações a que se tem de sujeitar, como averiguar se o +subdito de sua nação tem para com essa algum compromisso que o inhiba de sua +protecção; este principio, sendo universalmente reconhecido, o foi tambem +pelo governo imperial na sua resolução expedida pelo ministerio dos negocios +estrangeiros na data de 4 de junho de 1852, e jámais controvertido por +nenhuma das disposições da legislação invocada pela repartição do ajudante +general; principio este ainda recentemente firmado pelas disposições do +artigo 66.º, do regulamento annexo ao decreto imperial, n.º 5881.»</p> + +<p>E n'esta conformidade, pedia o relaxamento da prisão de Manuel Soares +Pereira, e insistia na reclamação encetada; «e que na nota alludida resalvava +os direitos que lhe podessem competir pela reclamação que houvesse de fazer +dos damnos e prejuizos soffridos por aquelle seu compatriota, desde o dia da +sua prisão até áquelle em que fosse posto em plena liberdade.»</p> + +<p>O presidente da provincia nada podia decidir, visto que o assumpto já +havia sido submetido ao governo central. Portanto a resposta d'este +magistrado ao vice-consul foi:—«que levaria ao conhecimento do ministro a +nova reclamação».<span class="pagenum"><a id="pag_323" +name="pag_323">[323]</a></span></p> + +<p>Conservaremos a ordem dos documentos, estabelecida no <i>Livro Branco</i>; +por isso vamos transcrever o que segue, emquanto o governo brazileiro não +replica á 3.ª nota consular:</p> + +<p>«Legação de Sua Magestade Fidelissima. Rio de Janeiro, 17 de novembro de +1875.—Ill.<sup>mo</sup> sr.—Remetto a v. s.ª o incluso requerimento de +Manuel Soares Pereira, a fim de que me imforme sobre a verdade do seu +conteúdo. Quanto á petição que o acompanha, convém que v. s.ª aconselhe ao +peticionario o meio legal que deve observar para que o recurso de que se +trata chegue competentemente ao seu alto destino.—Deus guarde, +etc.—<i>Mathias de Carvalho e Vasconcellos.</i>==Ill.<sup>mo</sup> sr. +Gregorio Anselmo Ribeiro Marques, encarregado do consulado de Portugal na +Bahia.»</p> + +<p>Transcrevemos na integra os documentos assignados pelo nosso embaixador a +respeito de tão desgraçada questão, para que todos julguem da justiça das +nossas appreciações.</p> + +<p>Antes de mais nada examinemos a data d'aquelle documento,—17 de novembro +de 1875—e a do ultimo oficcio do vice-consul,—20 de abril de 1875—em que +este funccionario remettia a sr. Mathias de Carvalho a copia da 3.ª nota a +favor de Soares Pereira, e signifiquemos o nosso assombro por vêrmos que o +embaixador do Portugal não deu, n'aquelle extensissimo periodo—<i>oito +mezes</i>—, a mais insignificante providencia a respeito da questão; é +verdade, que, findo esse tempo, reenviava o requerimento e a petição do +desgraçado portuguez, em que se pedia ao ministro o salvasse do martyrio da +<i>prisão</i> e dos <i>trabalhos forçados</i>, a que, contra todos os +principios do direito, o obrigavam as <i>humanas</i> auctoridades da Bahia... +porque esse requerimento não ia pela via <i>legal</i>, que o infeliz <i>não +sabia observar</i>! E o que é mais assombroso ainda, é vir o nosso +embaixador, depois de estar informado<span class="pagenum"><a id="pag_324" +name="pag_324">[324]</a></span> dos acontecimentos, pedir esclarecimentos +sobre <i>a verdade do conteúdo</i> do requerimento e petição!</p> + +<p>Isto não se commenta.</p> + +<p>Mas o portuguez Manuel Soares Pereira, que permanecia na prisão <i>havia +já 13 mezes!</i> quando o não mandavam trabalhar para um logar, na distancia +de 40 kilometros, naturalmente «porque estando preso no humido xadrez, podia +adquirir a terrivel molestia de <i>beriberi</i>, que tanto ataca as mulheres +paridas e os homens de vida sedentaria», desculpa ironica e ao mesmo tempo +pittoresca, que á barbaridade dava o seu magnanimo salvador, o sr. Manuel +Alves Ferreira, o portuguez Soares Pereira diziamos, tinha obrigação de +esperar pelas providencias da diplomacia!</p> + +<p>Que importava que essas providencias viessem depois da sentença injusta, +passados uns poucos de mezes de supplicios, peores que a morte, já quando o +infeliz estivesse em marcha para a forca?!</p> + +<p>Mais vale tarde do que nunca!</p> + +<p>Um portuguez desprotegido não vale tanto como qualquer compadre de sua +magestade o imperador do Brazil, ou de outra qualquer real personagem!...</p> + +<p>Um portuguez pobre, sempre é um portuguez pobre; e os embaixadores de +Portugal junto dos governos das nações estrangeiras, não devem importar-se +<i>com esta qualidade de gente</i>!</p> + +<h2>XI</h2> + +<p>O ministerio da guerra só respondeu á nota do vice-consul, datada de 16 de +abril de 1845, em 25 de setembro; isto é, cinco mezes depois! não obstante +julgar aquella repartição, que ao consul não assistia razão plausivel para +reclamar justiça do governo brazileiro a favor do subdito portuguez, +despoticamente encarcerado na enxovia, desde 22 d'outubro de 1874,<span +class="pagenum"><a id="pag_325" name="pag_325">[325]</a></span> contra as +expressas determinações dos codigos militares e civis.</p> + +<p>O governo, conformando-se na sua replica, com a letra da circular de 4 de +junho de 1852, confirmada pelas disposições do artigo 66.º do regulamento +annexo ao decreto n.º 5.881, lembrados pelo vice-consul, concordava com a +opinião d'este nosso representante na Bahia, que julgára indispensavel a +apresentação do <i>desembaraçado</i>, para Soares Ferreira poder assentar +praça.</p> + +<p>Mas como era preciso achar um ponto de discordancia, porque o facto da +prisão do portuguez estava consumado, e planeado o julgamento imbecil, que o +havia de sentencear á morte, e porque as auctoridades brazileiras nunca +costumam reconsiderar quando se trata de <i>marotos</i>,<a name="tex2html81" +href="#foot2849"><sup>[81]</sup></a> era preciso que o sophisma viesse +enredar a razão.</p> + +<p>Procuremos as proprias palavras do governo imperial.</p> + +<p>Diz elle, na sua replica:</p> + +<p>«Ora a hypothese do aviso do ministerio dos estrangeiros (circular de 4 de +junho de 1863) é figurada para o caso de engajamento, em que a parte se +apresenta realmente como estrangeiro; entretanto que no caso de que se trata, +o individuo occultando a sua qualidade de estrangeiro, assentou praça de +voluntario da patria como se brazileiro fosse: não ha por tanto paridade, e +fica por terra o argumento que o encarregado do consulado quiz d'ali +tirar.»</p> + +<p>Antes de desmentirmos a supposta affirmativa, de que o portuguez +<i>sentára praça de voluntario como se brazileiro fosse</i>, devemos dizer +que nos assombra a ingenuidade do governo imperial em acreditar que se +fizessem assentamentos de praça, sem as devidas formalidades,<span +class="pagenum"><a id="pag_326" name="pag_326">[326]</a></span> que, se +fossem observadas, dariam em resultado conhecer-se a nacionalidade do que se +offerecia para o serviço do exercito.</p> + +<p>E que razão haveria para o portuguez occultar a nacionalidade?</p> + +<p>A negação do <i>desembaraçado</i> da parte do consulado?</p> + +<p>E qual seria o consul que negaria esse documento na occasião da guerra do +Paraguay, em que brazileiros e portuguezes se auxiliavam mutuamente, como se +a causa fôra commum?</p> + +<p>Mas se Soares Pereira se apresenta como enfermeiro para que é teimar em +chamar-se-lhe praça do exercito?</p> + +<p>Por que foi <i>segundo sargento do 14.º corpo de voluntarios da +patria</i>, dizem.</p> + +<p>Venha o documento em que se prove que elle sentára praça no referido +corpo.</p> + +<p>Não ha, por que esse corpo foi dissolvido, dizem.</p> + +<p>Mas isso não é razão.</p> + +<p>É, replicam os sabios brazileiros!</p> + +<p>Então <i>suppõe-se</i> que Soares Pereira sentára praça, e com essa +supposição levam o <i>maroto</i> ao tribunal, depois de 16 mezes de prisão e +de trabalhos forçados, com a grilheta aos pés!...</p> + +<p>«Quanto ao artigo 66.º do regulamento ultimamente expedido para o +recrutamento, dizem do ministerio da guerra, na já alludida resposta, <i>alem +de não poder ter effeito retroactivo</i>, refere-se tambem ao caso em que o +estrangeiro se apresenta como tal para assentar praça de voluntario no nosso +exercito.»</p> + +<p>Comprehende-se á vista d'isto, que o governo brazileiro castigava o +portuguez, por não ter declarado que era estrangeiro, e ao qual esse governo +considerava desde então como naturalisado cidadão brazileiro, contra as +formalidades exigidas pelas leis que regulam o assumpto, de 23 de junho de +1855 e de 12 de julho de 1871!<span class="pagenum"><a id="pag_327" +name="pag_327">[327]</a></span></p> + +<p>Isto regista-se e não se commenta.</p> + +<p>Aquella tirada de que o artigo 66.º não podia ter effeito retroactivo, +quando se tratava de esclarecer determinações ambiguas de datas anteriores, +e, o que é mais, quando se tratava de proteger o subdito de uma nação <i>irmã +e amiga</i>, é... digamos a verdade sem rebuço, é irracional; porque faz +lembrar aquella passagem da fabula em que o leão, por se julgar o rei da +força, trocidava a presa, emquanto os pequeninos, ávidos de fome, se +affastavam do bruto para não terem a sorte do veado!</p> + +<h2>XII</h2> + +<p>Em resposta ao officio da legação, com data de 17 de novembro, que atraz +deixamos transcripto, e no qual se pedia informação ao vice-consul sobre o +requerimento incluso, escreve o seguinte este empregado do governo, em seu +officio de 29 de novembro do referido anno:</p> + +<p>«1.º Que em resposta á contestação de que a v. ex.ª dei conhecimento em +meu officio de 20 de abril proximo passado (sic), recebi da presidencia +d'esta provincia o officio datado de 14 de outubro ultimo, transmittindo +copia do aviso do ministerio da guerra, datado de 7 d'aquelle mez, e não +obstante a doutrina do citado aviso referir-se a que o individuo em questão +occultava a sua nacionalidade, assentando praça como voluntario, esse facto +só se poderia verificar do primitivo assentamento da praça no 14.º corpo de +voluntarios, em que o mencionado individuo diz ter-se inscripto como +enfermeiro; <i>entendi pois não treplicar sobre o assumpto, em vista do que +v. ex.ª se dignou communicar-me<span class="pagenum"><a id="pag_328" +name="pag_328">[328]</a></span> em officio de 12 de abril do corrente +anno</i>,<a name="tex2html82" href="#foot4319"><sup>[82]</sup></a> o qual só +me veio parar á mão posteriormente ao meu citado officio de 20 do referido +mez.</p> + +<p>«2.º Que tendo feito noticiar verbalmente ao peticionario a resolução do +ministerio da guerra, e recommendando-lhe que, quando tivesse de responder ao +conselho de guerra, me avisasse para dar-lhe defeza, presisto n'esse intento, +não obstante o peticionario parecer não haver confiado nos meus melhores +desejos, o que desculpo, em vista da situação em que se collocára.</p> + +<p>«Que já em tempo fiz ver ao peticionario que o seu recurso para a +munificencia imperial me parecia inopportuno, se por ventura tivesse de +responder ao conselho de guerra.</p> + +<p>«Concluo, ponderando a v. ex.ª, que o peticionario nenhuns meios tem, e +que o advogado já me preveniu de que, para a defeza do peticionario, o que +convinha essencialmente era obter uma certidão do primitivo assentamento de +praça no 14.º corpo de voluntarios; se, pois, v. ex.ª approvar o meu intento, +muito conveniente seria obter-se no ministerio da guerra aquella certidão», +etc. etc.</p> + +<p>O vice consul não devia estranhar que o desgraçado tivesse pouca confiança +nas diligencias officiaes, se attendesse a que essas diligencias a nada +obstavam, naturalmente pelo pouco ou nenhum interesse que lhe prestava o +embaixador portuguez na côrte do Rio de Janeiro.</p> + +<p>Assim, pois, Soares Pereira não teria mais remedio se não recorrer a +outros meios, unicos que o salvaram, como havemos de demonstrar.<span +class="pagenum"><a id="pag_329" name="pag_329">[329]</a></span></p> + +<p>Mas continuemos a transcripção dos documentos para provarmos o desmazelo +do embaixador, e a insaciavel vontade das auctoridades brazileiras em +prejudicar-nos, ainda nas causas mais justas.</p> + +<p>Em resposta ás informações do vice-consul, de 29 de novembro, acima +transcriptas, communicava a legação de Portugal no Rio de Janeiro o +seguinte:</p> + +<p>«Remetto a v. s.ª a certidão do que consta no archivo da repartição fiscal +de guerra ácerca do subdito portuguez Manuel Soares Pereira.</p> + +<p>«Quanto á petição por este dirigida a sua magestade o imperador <i>que +remetto</i> junta, reporto-me ao que já disse a v. s.ª no meu officio de 17 +do referido mez de novembro, etc. <i>Mathias de Carvalho e +Vasconcellos</i>.»</p> + +<p>E mais nada. Nem um conselho sequer para encaminhar a questão a um +desenlace feliz e justo! Nem um conselho sequer, não: o embaixador portuguez, +com o seu desprezo manifesto em todos os seus officios, dá-nos a prova +desconsoladora de que pugnava mais pela desgraçadissima causa sustentada tão +infelizmente pelas auctoridades do Brazil contra um subdito da nação +portugueza, aconselhando sempre o vice-consul... ao desprezo da causa que +importava a salvação de um homem e a dignidade de Portugal! E dizemos que +aconselhava ao desprezo, porque outra cousa não é devolver o requerimento que +Soares Pereira lhe endereçára, afim de que o vice-consul informasse a legação +de uma cousa sobre que a mesma legação já estava informada havia <i>oito +mezes</i>; e outra cousa não é senão desprezo devolver a petição que ao +imperador fizera a victima, lá porque a petição <i>não ia pelos tramites +legaes</i>!</p> + +<p>Pois, para que mais servem os embaixadores juntos dos governos das nações +amigas, se não para tratar de advogar os interesses de seus +compatriotas?<span class="pagenum"><a id="pag_330" +name="pag_330">[330]</a></span></p> + +<p>Venha pelos tramites legaes; isto é: metta na caixa o requerimento!</p> + +<p>E quando chegaria o requerimento ao seu destino?</p> + +<p>Naturalmente depois da fuzilaria ter feito o serviço que lhe incumbira o +justiceiro tribunal da Bahia!</p> + +<p>Se a um facto quasi identico, succedido ha pouco na India, em que a causa +de um portuguez era menos justa, o peticionario recorresse pelos tramites +legaes, ou se el-rei D. Luiz apontasse ao peticionario os taes tramites, para +se não sujar com o acto nobilissimo que praticou salvando-o; o portuguez +estaria naturalmente a esta hora com a cabeça de menos... á espera do decreto +que lh'a poupasse!</p> + +<p>Apontar a via dos tramites legaes a quem tinha sede de justiça, n'uma +epoca de depravação, que se assimelha á que predominava no imperio dos +Caligulas e dos Neros era desenganar o padecente de que justiça não seria +feita. Foi justamente o que Soares Pereira pensou, recorrendo aos meios da +reacção energica pela imprensa, contra os actos de selvageria dos tribunaes +brazileiros; e foi isto que o salvou, como vamos demonstrar.</p> + +<h2>XIII</h2> + +<p>É chegado o dia 27 de março de 1876, em que o tribunal militar da Bahia +condemna Manuel Soares Pereira á pena de morte pelo supposto crime de +deserção.</p> + +<p>Perante o tribunal não se apresenta defensor para o réo, e sim um +procurador que levava uma defesa escripta para ser lida!</p> + +<p>O auditor de guerra vendo a defesa sem assignatura, disse que não +produziria seus effeitos, porque não estava em termos, visto que devia +terminar por artigos, etc. etc.<span class="pagenum"><a id="pag_331" +name="pag_331">[331]</a></span></p> + +<p>Depois de algumas observações foi admittida a defesa, assignando o +procurador que a tinha levado.</p> + +<p>Esta não foi lida, nem o procurador <i>arvorado em advogado</i>, disse uma +palavra em defesa da victima.</p> + +<p>Seguiu-se o conselho, e o auditor de guerra, conhecendo a critica posição +do reu, que se achava sem defensor, offereceu o encargo da defesa ao sr. +Manuel Alves Ferreira, negociante portuguez residente na Bahia, auctor dos +avulsos—<i>Ás nações civilisadas do universo</i>, em que desmascara a +inepcia da diplomacia e a barbaridade das auctoridades brazileiras contra um +subdito de nação amiga e irmã, e de cujos avulsos extraimos os +esclarecimentos que vamos indicando, avulsos que salvaram o condemnado.</p> + +<p>Manuel Alves Ferreira não póde acceitar o encargo «porque não se achava +preparado para esse fim.»</p> + +<p>Os cuidados promettidos pelo vice-consul eram assim postos em practica! A +promessa que elle fizera n'um officio que para ahi deixámos transcripto não +podia ser mais fielmente executada!</p> + +<p>Eis como esta auctoridade informa do succedido em 27 de março á legação do +Rio de Janeiro, em seu officio de 6 de abril, dez dias depois da condemnação +de Soares Pereira:</p> + +<p>«Corre-me o dever de participar a v. ex.ª que não obstante a defesa +escripta (sic) conforme a copia junta, que promoví em favor do subdito de s. +m. f..., ao qual se refere o officio de v. ex.ª de 25 de janeiro ultimo, foi +o dito individuo condemnado á pena capital a 27 de março ultimo.</p> + +<p>«Em 28 do mesmo mez solicitei da presidencia desta provincia copia da +respectiva sentença, a respeito da qual me foi respondido o que consta dos +officios datados de 31 de março e de 5 do corrente mez, etc. (de que não se +passaria a certidão pedida!).</p> + +<p>«Dignando-se v. ex.ª no citado officio reportar-se ao<span +class="pagenum"><a id="pag_332" name="pag_332">[332]</a></span> que me havia +dirigido em 17 de novembro, ácerca da petição de graça, vou solicitar de v. +ex.ª o favor (sic) de instruir-me se deverá elle ser encaminhado pela legação +a cargo de v. ex.ª, e se se deverá aguardar a decisão definitiva do tribunal +superior.</p> + +<p>«Devo igualmente certificar a v. ex.ª que sobre o facto da condemnação +foi, em 29 de março ultimo, publicado aqui um escripto na gazeta denominada +<i>Diario da Bahia</i><a name="tex2html83" +href="#foot432"><sup>[83]</sup></a>, além de outros; tudo isto tem servido +para commentarios que se tornam desagradaveis, e, a meu ver, de nenhuma +utilidade para o paciente.» etc.</p> + +<p>N'este ultimo ponto se enganava o vice-consul, porque foi devido +unicamente aos escriptos de energica defesa, publicados por Alves Ferreira, +que a diplomacia acordára do lethargo que a deshonrava, salvando assim o +nosso infeliz compatriota Soares Pereira das selvaticas garras da justiça +brazileira. É o que havemos de provar.</p> + +<h2>XIV</h2> + +<p>Mas antes d'isso cumpre transcrever o officio do embaixador portuguez, +datado de 24 de abril, em resposta ao do vice-consul, que acima deixámos +apontado, com a data de 6 de abril, o qual é concebido nos seguintes +termos:</p> + +<p>«Se a sentença que condemnou o subdito portuguez Manuel Soares Pereira +deve ser submettida ao tribunal superior, é preciso aguardar a decisão d'esta +instancia antes de recorrer a uma petição de graça.</p> + +<p>«<i>Não é por intermedio da legação</i> de s. m. que se apresentam taes +recursos, <i>ainda quando se trate de subditos portuguezes que tenham direito +á protecção das suas auctoridades</i> (sic). Esses recursos <i>tem regras +de<span class="pagenum"><a id="pag_333" name="pag_333">[333]</a></span> +processo que cumpre observar e vias competentes</i> por onde devem ser +encaminhados ao seu alto destino.</p> + +<p>«<i>No caso</i> em que Soares Pereira apresente <i>em occasião propria</i> +(?) a sua petição de graça, espero que v. s.ª me dará então conhecimento +d'este facto, etc. (assignado) <i>Mathias de Carvalho e Vasconcellos</i>.»</p> + +<p>Isto é de mais!...</p> + +<p>Mas não nos desconsolemos com o procedimento do nobre embaixador: porque +se elle não deu grande attenção ás sollicitações justissimas de mais de um +anno, que lhe eram dirigidas pelo vice-consul na Bahia, prestou melhor +attenção ao energico avulso a que já nos referimos.</p> + +<p>Eis como a legação o encaminha para junto do governo de s. m. imperial:</p> + +<p>«Legação de sua magestade fidelissima. Illm.º e exm.º sr. duque de +Caxias.—Tenho a honra de passar ás mãos de vossa magestade um impresso, +publicado na Bahia, referente ao procedimento havido com o subdito portuguez +Manuel Soares Pereira.</p> + +<p>«Solicitando a esclarecida attenção de v. ex.ª para o que se allega na +dita publicação, estou certo que v. ex.ª se servirá ordenar as providencias +que a natureza do assumpto reclama, etc., (assignado) <i>Mathias de Carvalho +e Vasconcellos</i>.»</p> + +<p>E mais nada. Depois d'isto s. ex.ª o embaixador portuguez fazia as malas e +retirava-se para a Europa!</p> + +<h2>XV</h2> + +<p>Para na actualidade se conseguir qualquer cousa dos poderes publicos é +preciso empregar dois meios, bem dissimilhantes entre si: um d'elles é o +favoritismo de que lança mão a venalidade, em prol da propria venalidade; +outro é a reacção energica, empregada por<span class="pagenum"><a +id="pag_334" name="pag_334">[334]</a></span> gente digna contra os actos de +flagrantissima injustiça dos potentados.</p> + +<p>São mais felizes aquelles, quando campea a corrupção que nos avassalla; e +não deixam de ser considerados, ainda que com menos exito, os actos de +reacção que deixamos indicados.</p> + +<p>No caso sujeito, o portuguez illustre, cujo nome nos honramos muito de +inscrever n'este logar, o sr. Manuel Alves Ferreira, conseguiu com os seus +protestos—<i>Ás nações civilisadas do universo</i>, que o governo portuguez +tomasse a peito a defeza do nosso compatriota, condemnado injustamente pelas +justiças brazileiras, e que havia sido desprezado pela legação de Portugal no +Rio de Janeiro como já vimos.</p> + +<p>Foi o seu primeiro protesto publicado em quasi todos os jornaes +portuguezes, e entregue ao imperador e aos passageiros do vapor +<i>Hevelius</i>, em viagem para a Europa; protesto que chegou ás mãos do +ministro dos negocios estrangeiros de Portugal, e que deu origem ao +telegramma d'este alto funccionario do estado, ao então encarregado da +legação portugueza no Rio de Janeiro, no qual se participava que o governo de +sua magestade não se conformára com as circumstancias do julgamento de Manuel +Soares Pereira, despacho que dera igualmente logar á reclamação diplomatica +da embaixada, que não vemos extractada no <i>Livro Branco</i>, apresentado ás +côrtes em 1877, do qual extrahimos os documentos officiaes aqui mencionados, +mas á qual se refere o officio do encarregado dos negocios de Portugal, com +data de 9 de junho de 1876.</p> + +<p>O acto mencionado—de reacção—, secundado de mais alguns protestos de +Alves Ferreira, deu em resultado a reforma, em ultima instancia, da sentença +do conselho de guerra da Bahia, modificando a pena capital, em que tinha sido +condemnado Soares Pereira, a cinco annos de prisão com trabalhos!<span +class="pagenum"><a id="pag_335" name="pag_335">[335]</a></span></p> + +<p>Já não era pouco; mas era preciso mais.</p> + +<p>As bem elaboradas notas diplomaticas do sr. Andrade Corvo, e os avulsos de +Alves Ferreira, fizeram o resto: isto é, conseguiram o <i>perdão</i> da +munificencia imperial.</p> + +<p>Já era muito!... e já era muito, porque aos innocentes tambem... se +perdoa!</p> + +<h2>XVI</h2> + +<p>Mencionemos agora as providencias empregadas por Alves Ferreira, nos seus +avulsos; e extratemos para aqui as informações que a respeito dos +soffrimentos impostos pelas auctoridades do Brazil ao nosso compatriota +Soares Pereira, aquelle dignissimo portuguez divulgou no imperio, para +vergonha do proprio imperio.</p> + +<p>Primeiro protesta Alves Ferreira nos jornaes da Bahia contra a selvageria +do tribunal militar; e não contente com isto, faz imprimir o seu primeiro +avulso, apello <i>As nações civilisadas do universo</i>, que distribue com +profusão.</p> + +<p>Neste avulso relata o seguinte:</p> + +<p>«Em janeiro proximo passado, escreveu o <i>Diario da Bahia</i>, dizendo +que no quartel do forte de S. Pedro, d'esta cidade, achava-se preso ha 15 +mezes um portuguez sem ter commettido crime algum.</p> + +<p>«Á vista da noticia dirigi-me ao dito quartel e ahi encontrei Manuel +Soares Pereira, portuguez, ao qual perguntei o motivo de sua prisão.</p> + +<p>«Respondeu o seguinte:</p> + +<p>«No principio da guerra do Paraguay, formou-se na cidade da Cachoeira, +onde me achava um batalhão de voluntarios; seu coronel convidou-me a +acompanhar o mesmo batalhão na qualidade de enfermeiro, offerecendo-me +vantajosa remuneração.<span class="pagenum"><a id="pag_336" +name="pag_336">[336]</a></span></p> + +<p>«Seduzido pelo que me prometteu de viva voz, sem fazermos contracto algum +nem me mostrar a lei em que ia viver, acompanhei o batalhão até ao Rio de +Janeiro. Ali cahiram muitos soldados de bexigas, a quem assisti com +dedicação, tanto que, sendo visitada a enfermaria por S. M. o Imperador, elle +mesmo me louvou e animou, ordenando-me a pedir o que fosse preciso para os +enfermos. Pedi leite e agua, que era do que mais falta se sentia, sendo tudo +fornecido immediatamente. Em seguida marchou o batalhão para os campos do +Paraguay, onde servi sempre com dedicação na qualidade em que embarquei. +Dissolvido o batalhão, por ter morrido muita gente, passei para outro, que +teve o mesmo fim, pelo mesmo motivo, e assim por diante, até que me +encostaram ao 16 de linha, de cujo batalhão me ausentei pelos seguintes +motivos:</p> + +<p>«O coronel que me convidou a acompanhar o batalhão, não tendo cumprido o +que verbalmente me prometteu, nunca me pagou o ordenado de enfermeiro mas sim +de sargento.</p> + +<p>«Os que lhe succederam fizeram o mesmo, até que um dia appareceu uma ordem +no campo para que fossem rebaixados a soldados razos todos os estrangeiros +que tivessem qualquer posto no exercito; (!) fui eu incluido n'esta ordem, +sendo rebaixado a soldado raso, continuando sempre como enfermeiro.</p> + +<p>«Quiz retirar-me, não consentiram; dizendo eu que não era engajado, não me +attenderam; tive pois de me sujeitar á força.</p> + +<p>«Os meus soffrimentos aggravaram-se; o soldo que me prometteram de +enfermeiro nunca me pagaram; foi reduzido ao de sargento; deste ainda +reduziram para o de soldado, e nem este me pagavam; ficaram-me devendo nove +mezes.</p> + +<p>«Recebi cartas de minha familia, que reside n'esta<span class="pagenum"><a +id="pag_337" name="pag_337">[337]</a></span> provincia, dizendo-me que estava +reduzida á ultima miseria, que a viesse soccorrer para não morrer de fome.</p> + +<p>«Larguei tudo, embarquei para o Rio de Janeiro, tomei passaporte de meu +consul e vim cuidar dos meios de subsistencia de minha familia.</p> + +<p>«Aqui vivi alguns annos de negocio, comprando a credito a pessoas que em +mim se confiavam.</p> + +<p>«Um dia mostraram-me um decreto em que o governo convidava a vir receber o +soldo e a gratificação a todos que, tendo servido na guerra do Paraguay, não +estivessem quites com o governo.</p> + +<p>«Apresentei-me no quartel, procurei receber o que me deviam de soldo e +gratificação; mas o que encontrei foi esta prisão, onde estou ha quinze mezes +e onde sou tratado como galé ou sentenciado, fazendo todo o serviço que é +imposto aos maiores criminosos já sentenciados.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Fiz dous memoriaes ao imperador, que não sei qual o caminho que tomaram +nem que despacho tiveram.</p> + +<p>«Já vê V. que estou aqui na terra alheia inteiramente desamparado!!»</p> + +<p>«Á vista disto dirigi-me ao encarregado do consulado, o sr. Gregorio +Anselmo Ribeiro Marques, para saber o que havia a tal respeito.</p> + +<p>«Elle disse-me que tinha reclamado do ministro da guerra a soltura do +subdito de S. M. Fidelissima; mas que, <i>julgando-o</i> s. ex.ª desertor, o +mandára submetter a conselho de guerra e que este seria breve.</p> + +<p>«Estranhei-lhe o tempo de prisão que tinha soffrido um subdito de S. M. +Fidelissima, sem ser julgado.</p> + +<p>«Appareceram varios escriptos no <i>Diario da Bahia</i> de 1, 9, 17 e 18 +de fevereiro do corrente anno, e 19 e 23 de março corrente, todos em relação +a esta desgraçada questão.</p> + +<p>«Custaram-me estes escriptos um insulto por uma<span class="pagenum"><a +id="pag_338" name="pag_338">[338]</a></span> gazeta de 22 de março, na qual +me chamavam parasita e o mais que o despeito e pouca educação costumam +dar.</p> + +<p>«Resignei-me, porém, dizendo commigo que o autor do tal escripto queria-se +despir para me enfeitar.</p> + +<p>«Em 22 do corrente fui avisado, por pedido do pobre desgraçado, que +responderia a conselho a 23.</p> + +<p>«Avisei d'isso o encarregado do consulado de Portugal, o qual me mandou +dizer que tanto o advogado como o procurador do consulado estavam avisados +para darem as providencias.</p> + +<p>«Apresentei-me no conselho de guerra, esperando pelo advogado, mas qual, o +advogado nunca appareceu.</p> + +<p>«Correu o processo na quinta-feira, que não poude ser terminado, sendo-o +hoje com a condemnação de <i>pena de morte</i> para este infeliz +portuguez.</p> + +<p>«Em todo o tempo que este infeliz se acha preso no quartel, ainda não +recebeu soccorro de <i>quem quer que seja</i>, nem o receberá, pois actos que +não são vistos por todos, que não <i>pescam commendas e cruzes</i>, não são +dignos de serem feitos pelos <i>grandes homens</i>.</p> + +<p>«V. V. S. S., porém, que parecem pensar de outra maneira, darão a esta +questão a publicidade que entenderem; para que no mundo inteiro se conheça +este caso.</p> + +<p>«Vou publicar esta carta no <i>Diario da Bahia</i>, não só para que S. M. +o imperador veja e se recorde das promessas feitas ao infeliz, como para vêr +se ha alguem que conteste as verdades que esta encerra» etc.</p> + +<p>E á ultima hora do dia 28 de março de 1876:</p> + +<p>«Acabo de chegar da prisão onde se acha o infeliz Manuel Soares Pereira. +Quando me viu, perguntou-me se o conselho havia reunido e qual a +deliberação.</p> + +<p>«Estranhei a pergunta, pois entendia que deveria ter assistido á +continuação do julgamento, e que lhe teriam lido a sentença.<span +class="pagenum"><a id="pag_339" name="pag_339">[339]</a></span></p> + +<p>«É verdade, que, chegando eu hontem ao logar onde funccionava o conselho, +só alli encontrei o pessoal do mesmo; entendendo eu que já se deveriam ter +retirado o réu e o procurador advogado, pois á hora que lá cheguei se +levantava o mesmo conselho.</p> + +<p>«Pude unicamente saber por dois officiaes do mesmo, da deliberação que +tomaram.</p> + +<p>«Quem commentará isto?</p> + +<p>«A carta dirigida aos senhores redactores do <i>Brazil</i>, aqui +publicada, foi tambem no <i>Diario da Bahia</i> de 29 de março de 1876, e +entregue o mesmo <i>Diario</i> no mesmo dia, a S. M. o imperador, no porto da +Bahia de S. Salvador.</p> + +<p>«Depois de preso, esteve o infeliz cinco dias sem receber ração. Se não +morreu de fome, deve-o aos companheiros de prisão, que lhe deram por esmola +um boccado da escassa comida.</p> + +<p>«Passados cinco dias, aos gritos que a fome incitava no desgraçado, foi +este posto em custodia, ou encostado para receber o alimento.</p> + +<p>«Depois de tres mezes, abriram-lhe praça em uma companhia, e como tal +recebe a ração no <i>Xadrez</i>.</p> + +<p>«Tudo isto me foi asseverado pelo padecente; mas os interessados em +encubrir o occorrido, podem negar o que affirma o estrangeiro; elles têm +<i>testemunhas do quartel</i>, como as que deram para condemnar á morte o +desgraçado:—quem poderá <i>provar</i> o contrario?»</p> + +<h2>XVII</h2> + +<p>No segundo avulso que temos presente, conta Alves Ferreira mais alguns +pormenores a respeito do infeliz condemnado, e publica a carta que expedia +aos directores da Caixa de Soccorros de D. Pedro V, afim de que o ajudassem a +salvar o desgraçado.</p> + +<p>O seu magnanimo coração leva-o ao ponto de despender<span +class="pagenum"><a id="pag_340" name="pag_340">[340]</a></span> grossas +quantias na publicação dos protestos, que elle offerecia gratuitamente ás +pessoas que desejassem orientar-se das occorrencias.</p> + +<p>Ouçamos o que elle conta no referido avulso, datado de 11 de abril de +1876:</p> + +<p>«Nos ultimos dias do mez passado requereu o infeliz portuguez Manuel +Soares Pereira ao ex.<sup>mo</sup> sr. general das armas certidão da sentença +proferida pelo conselho de guerra.</p> + +<p>«Teve o seguinte despacho:—</p> + +<p>«<i>Requeira pelos tramites legaes.</i></p> + +<p>«Em principio do corrente fui ao quartel do Forte de S. Pedro e pedi em +nome do condemnado licença ao sr. commandante da companhia para que o homem +pudesse pedir certidão de algumas peças do processo.</p> + +<p>«Concedeu licença o sr. commandante da companhia.</p> + +<p>«Sahi, fiz o requerimento; voltando levei-o ao desgraçado, este o +assignou.</p> + +<p>«Entreguei-o immediatamente ao sargento, para este o entregar ao +commandante da companhia, para depois ao commandante do batalhão e depois ao +general das armas, etc.</p> + +<p>«Voltei em outro dia, fui saber do condemnado o que havia a respeito.</p> + +<p>«Disse-me que lhe haviam apresentado de novo o requerimento para que elle +escrevesse por baixo da assignatura esta palavra—Soldado—para lhe darem as +certidões pedidas.</p> + +<p>«Negou-se o negociante, dizendo que tal não faria, pois é negociante e não +soldado.</p> + +<p>«Em seguida, procurei o sr. tenente-coronel commandante do batalhão, +pedindo a s. s.ª que me fizesse o favor de encaminhar o requerimento, afim de +se extrairem as certidões n'elle pedidas.</p> + +<p>«S. s. disse-me que não daria certidão alguma, que<span class="pagenum"><a +id="pag_341" name="pag_341">[341]</a></span> o homem tinha sido condemnado e +que <i>ninguem pode obter certidão de uma sentença depois de proferida</i>: +disse-me ainda outras coisas <i>muito bonitas</i>, que virão a luz logo que +as circunstancias o permittam: por ora não; <i>elles tem em seu poder o meu +protegido</i>...</p> + +<p>«Á vista das propostas do sr. commandante fiquei n'uma luta comigo mesmo; +ora duvidando da minha razão, ora da de <i>muita gente</i>.</p> + +<p>«Dizia assim: o ex.<sup>mo</sup> sr. general das armas não saberia que não +era premittido dar as certidões pedidas? Se o sabia porque despachou: +Requeira pelos tramites legaes?</p> + +<p>«Se não podiam dar as certidões de maneira alguma para que foram dizer ao +homem, que se queria as certidões escrevesse por baixo do nome a +palavra—soldado?</p> + +<p>«Não posso ser mais extenso; este é pago a tanto por linha; meu dinheiro é +pouco, e temo que haja muitos outros infelizes nacionaes e estrangeiros, que +precisem de meu auxilio.</p> + +<p>«As pessoas de qualquer parte do mundo que quizerem ler um impresso a +respeito d'esta desgraçada questão podem mandar pedir, que lhe será fornecido +gratuitamente pelo correio, dirigindo-se para esse fim a <i>Manuel Alves +Ferreira</i>, 65, Grades de Ferro—Bahia.»</p> + +<p>Isto é nobillissimo. Regista-se e pede-se aos poderes do estado não +premiem estes serviços, para que se não confundam com <i>outros</i> que para +ahi vemos galardear.</p> + +<h2>XVIII</h2> + +<p>É esta a carta que elle dirige á directoria da caixa de Soccorros de D. +Pedro V:</p> + +<p>«<i>Ill.<sup>mos</sup> srs. directores</i>—A esta hora devem estar vossas +senhorias e todas as mais sociedades portuguezas d'essa cidade da posse de um +escripto que dirigi<span class="pagenum"><a id="pag_342" +name="pag_342">[342]</a></span> ás nações civilisadas do universo, no qual +exponho o que <i>posso dizer</i> ácerca da condemnação á pena de morte do +infeliz negociante portuguez Manuel Soares Pereira.</p> + +<p>«Por elle terão julgado do procedimento do homem que o governo portuguez +tem n'esta terra para velar pelos subditos de S. M. Fidelissima, das obras de +muita gente fina e dos trabalhos que tem passado um desgraçado portuguez.</p> + +<p>«Tenho acompanhado a questão, diversos outros casos se tem dado, os quaes +vv. ss. podem vêr relatados no <i>Diario da Bahia</i> e <i>Diario de +Noticias</i> de hoje.</p> + +<p>«Peço a vv. ss. e a todos os amigos da humanidade para lerem e meditarem +sobre todos estes escriptos. Além do que n'aquelles jornaes e avulsos +escrevi, ha o seguinte:</p> + +<p>«Soube ás 5 e meia horas da tarde de hoje, que tinham retirado o +condemnado da prisão do quartel do Forte de S. Pedro: não sei para onde o +levaram, nem que fim lhe deram.</p> + +<p>«Como tenha saido hoje d'este porto para essa cidade um vapor nacional, é +possivel que tenham embarcado o homem para o affastar d'aquelle que pelo +infeliz se interessa.</p> + +<p>«Seja qual fôr a razão pela qual o tiraram da prisão, <i>seja para que +fim</i>; o que eu peço a vv. ss. é que velem pela sorte do desgraçado, se +para ahi o levarem, já que eu não posso mais velar.</p> + +<p>«Se eu verificar que embarcaram o pobre negociante, avisarei +immediatamente pelo telegrapho, para que vv. ss. tenham dado as providencias, +quando esta ahi possa chegar.</p> + +<p>«Animo-me a fazer este pedido confiado no titulo da vossa sociedade: pois +se é dedicada a soccorrer os infelizes portuguezes não poderão em tempo algum +achar uma melhor occasião de o fazer.</p> + +<p>«Não deixem que prevaleça o mal se mal ha: para<span class="pagenum"><a +id="pag_343" name="pag_343">[343]</a></span> que não venha a soffrer mais +aquelle que tanto tem soffrido e que muita gente o julga digno de recompensa +e não de castigo.</p> + +<p>«Os accusadores d'este infeliz hão de dizer a vv. ss. que elle é desertor +do exercito brazileiro.</p> + +<p>«Se vv. ss. quizerem verificar o valor d'essa accusação, peçam ao governo +imperial o contracto de engajamento feito entre este estrangeiro e o mesmo +governo, e verão se apresentam algum contracto.</p> + +<p>«Peçam mais o termo do juramento de bandeira e verão se lhes mostram esse +termo.</p> + +<p>«Não o mostrarão por certo, pois não ha contracto lavrado nem termo de +juramento de bandeira.</p> + +<p>«Dirão vv. ss. e dirá todo o homem sensato: «Como condemnaram á morte um +estrangeiro por falta de cumprimento de contracto feito com o governo quando +não apresentam o mesmo contracto?»</p> + +<p>«Eu, meus senhores, não posso responder; vv. ss. sabem que nem tudo se +póde fallar na terra alheia...</p> + +<p>«Agora, que o infeliz se acha longe de mim e dos pequenos soccorros que +lhe poderia prestar, preciso de uma mão poderosa que lhe assista, e essa será +a mão da caritativa e patriotica sociedade Caixa de Soccorros D. Pedro V.</p> + +<p>«Se não tiverem embarcado o infeliz, continuarei a protegel-o.</p> + +<p>«Vou pois ver se <i>descubro</i> o logar em que o metteram.</p> + +<p>«Peço a vv. ss. licença para publicar esta carta e desculpa da pobreza da +linguagem.</p> + +<p>«No mais sou de vv. ss. amigo e obrigado.</p> + +<p style="text-align:right;">«<i>Manuel Alves Ferreira.</i>»</p> + +<p> </p> + +<p>Omittamos os nossos elogios a estes actos de verdadeira<span +class="pagenum"><a id="pag_344" name="pag_344">[344]</a></span> philantropia, +porque o melhor elogio está traçado pelo proprio nas linhas que ahi +deixamos.</p> + +<h2>XIX</h2> + +<p>Vejamos o que Alves Ferreira informa sobre o paradeiro da desgraçada +victima do insano odio de raça das auctoridades da Bahia.</p> + +<p>São estas as palavras do seu nobilissimo defensor:</p> + +<p>«Foi retirado da prisão do forte de S. Pedro e levado para as horriveis +masmorras da fortaleza do Barbalho o desgraçado portuguez Manuel Soares +Pereira. Quereis vel-o, tendes animo?</p> + +<p>«Entrae, mas devagar; cuidado com os precipicios abertos na ponte, que vos +pódem devorar...</p> + +<p>«Que vêdes? Uma horrivel masmorra, suja, fria e humida, e lá no fundo um +desgraçado que largou patria e familia em busca da felicidade!... da +felicidade!...</p> + +<p>«Olhae para o infeliz; que vêdes? A figura do desespero, o homem +angustiado!</p> + +<p>«Vêde o fato que o cobre:—farrapos immundos!</p> + +<p>«Escutae-o: parece delirar...</p> + +<p>«O que diz?—Meus filhos... meus filhos... quem velará por vós?</p> + +<p>«Vou morrer, vou já, já... agora, elles ahi vem; é aqui no Barbalho que se +executam os sentenciados...</p> + +<p>«Meus filhos, meus filhos, quem velará por vós?</p> + +<p>«Eu morro: mas qual é o meu crime, qual o meu peccado?»</p> + +<p>«Socega irmão; teus olhos são duas postas de sangue, teus soffrimentos +horriveis; mas não ha remedio; tem paciencia, soffre!</p> + +<p>«Socega irmão, socega infeliz, Deus vela por ti; não morrerás de bala, nem +de corda: para te matar basta o ar que respiras n'essa immunda masmorra.</p> + +<p>«Socega irmão, não morrerás de bala; homens como<span class="pagenum"><a +id="pag_345" name="pag_345">[345]</a></span> tu que se sacrificam para salvar +a vida aos desgraçados que se expõem, como tu, entre centenares de pestiados, +não terão uma morte infamante...</p> + +<p>«Não morrerás de bala; teus filhos são brazileiros, filho de um honrado +portuguez, de um homem da caridade, que expôz a vida para salvar seus irmãos, +os brazileiros, no leito da dôr...</p> + +<p>«Descança, irmão, Deus vela por ti.</p> + +<p>«Dá-me esse livro que te emprestei; toma esta obra, se podéres lê; has de +alliviar teus soffrimentos, é esta que devem lêr os desgraçados como tu.</p> + +<p>«Lê; vês o titulo? é o martyr do Golgotha.</p> + +<p>«Se morreres vae em paz para a patria onde todas as obras tem o seu +premio.</p> + +<p>«Morre, amigo, pois morres para viveres; homens como tu não morrem, tuas +virtudes são conhecidas, a posteridade te louvará.</p> + +<p>«Vae em paz, recebe o premio de teus sacrificios das proprias mãos de +Deus.»</p> + +<p>Vacilla a penna que empunhamos, ao transcrever o que ahi fica. Dá de mão a +este livro, optimista systematico; não leias isto que entristece: procura as +leituras que deleitam, que nós não procuramos seduzir-te. Nós queremos o teu +despreso que é a nossa gloria. Nós queremos que tu rias e saltes o +<i>cancan</i> desenfreado, que a devassidão te aconselha, como o unico +remedio contra a anemia que te definha o corpo e a alma. Salta que a +corrupção te dará em premio os meios de que precisas para a boa execução das +pantomimas na praça publica. Sustentai bem o vosso papel, que lucrareis +melhor recompensa. Nós cá, sentimos, soffremos com os vossos risos; e por que +nos convencemos da quasi inutilidade dos nossos exforços, escrevemos mais +para a historia os factos dignos d'ella do que para vóz, ó <i>grandes</i> +pygmeus!<span class="pagenum"><a id="pag_346" +name="pag_346">[346]</a></span></p> + +<h2>XX</h2> + +<p>Continua Alves Ferreira a dar conta dos pormenores a respeito do seu +protegido, no terceiro avulso <i>Ás nações civilisadas do universo</i>, +datado de 10 de maio de 1876:</p> + +<p>«Foi tirado em uma padiola das horriveis masmôrras da fortaleza do +Barbalho, em estado grave de saude, e conduzido para o hospital militar, o +honrado negociante portuguez Manuel Soares Pereira.</p> + +<p>«Hoje em companhia do sr. dr. José Barbosa Nunes Pereira, redactor do +<i>Jornal do Commercio</i> que se publica n'esta cidade, visitamos, +escoltados por um alferes e varias praças, este infeliz estrangeiro, havendo +bastante difficuldade para conseguirmos este fim.</p> + +<p>«Qual será o motivo da molestia?...</p> + +<p>«Será o pessimo <i>ar</i> que tem respirado nas horriveis masmorras que +lhe tem feito correr!...</p> + +<p>«Serão <i>pezados serviços</i> a que tenham obrigado o desgraçado?...</p> + +<p>«Serão os tratos que lhe possam ter dado?...</p> + +<p>«Será dos <i>alimentos</i>?</p> + +<p>«Será <i>tambem</i> de alguma <i>bebida alcoolica</i>, que lhe dessem em +<i>demasiada quantidade</i>?...</p> + +<p>«Ah! posteridade... posteridade, como julgarás esta questão?...</p> + +<p>«Perante a fria historia, quem será réu n'este malfadado proccesso?...»</p> + +<p>O Brazil: é preciso repetir o anathema em quanto houver folego de vida.</p> + +<p>Não ha conveniencias que possam obscurecer a verdade terrivel.</p> + +<p>Continua Alves Ferreira:</p> + +<p>«Hoje vesitei o infeliz negociante estrangeiro Manuel Soares Pereira n'uma +das horriveis masmorras da<span class="pagenum"><a id="pag_347" +name="pag_347">[347]</a></span> fortaleza do Barbalho. Perguntei o que se +havia passado ultimamente com o desgraçado, e este respondeu-me o +seguinte:</p> + +<p>«Tendo-me conduzido d'aqui em uma padiola para o hospital militar, estive +ali sempre, de sentinella ao lado! não me mexia que não fosse presentido por +ella.</p> + +<p>«Um dia, na occasião em que mudavam a sentinella, disse um cabo a nova +sentinella: «Vê lá; este homem vai morrer no sabbado de alleluia, se elle +fugir vaes tu em seu lugar.</p> + +<p>«No hospital não me quiseram dar medicamentos, e, como o mal não cessasse, +pedi ao sr. doutor que me mandasse dar um purgante, o qual me foi dado no +outro dia, e no mesmo dia em que o tomei, quando estava produzindo os seus +effeitos, fui expellido do mesmo hospital e devolvido para esta prisão....</p> + +<p>«Aqui, n'esta prizão, não me dão alimento de qualidade alguma, nem eu +tenho dinheiro para o comprar; se não tenho morrido á fome, devo-o á +verdadeira caridade, que me tem valido n'esta desgraça.</p> + +<p>«Meu negocio evaporou-se, não possuo um real: n'estes dezoito mezes de +prizão tudo se perdeu; não só o que era meu, como o de meus credores, que de +tão boa bontade de mim se confiaram: elles sabem porém, que eu não sou +velhaco, que se lhes não paguei a culpa não foi minha, foi da desgraça que +tanto me tem perseguido.»</p> + +<p>«Será verdade, meu Deus, que queiram matar o homem desgraçado á +fome?....</p> + +<p>«Será esta a sentença imposta pelo conselho de guerra?....</p> + +<p>«No caso affirmativo, poderiam pol-a em execução antes que subisse ao +tribunal superior!...</p> + +<p>«Haverá tal pena no codigo ou lei militar do Brazil?...<span +class="pagenum"><a id="pag_348" name="pag_348">[348]</a></span></p> + +<p>«E vós nações civilisadas, tereis esta penna em vossos codigos?....</p> + +<p>«Dever-se-ha esperar que a caridade publica sustente aquelle a quem as +auctoridades do paiz chamam soldado e como tal o tem preso?....</p> + +<p>«Será soldado aquelle que nunca jurou bandeira?....</p> + +<p>«Poderá o governo brazileiro engajar subditos de outra nação para fazer a +guerra a uma terceira, sem licença previa do governo do paiz do qual queira +engajar tropa?....</p> + +<p>«Será cidadão brazileiro, o estrangeiro que nunca se naturalizou no +paiz?....</p> + +<p>«Se o homem não podesse perante a lei soffrer as penas que lhe tem sido +impostas, quem serão os responsaveis pelos horriveis trabalhos por que tem +passado este desgraçado estrangeiro e pelos perjuizos que na saude e +propriedade tem soffrido?....</p> + +<p>«Infeliz estrangeiro!... que sorte desgraçada te esperava na terra da +Santa Cruz?!....</p> + +<p>«A vós, almas caridosas de qualquer parte do mundo, pede um boccadinho de +pão, para não morrer de fome, o desgraçado portuguez preso nas masmorras da +fortaleza do Barbalho!»</p> + +<p>As esmolas vieram minorar um pouco os soffrimentos do desgraçado; mas este +apello á caridade publica não soára bem aos ouvidos da officialidade que +condemnára o desgraçado á morte!</p> + +<h2>XXI</h2> + +<p>Vão terminar os soffrimentos de Soares Pereira, e com a noticia +circumstanciada d'elles, por mercê dos esclarecimentos prestados pelo seu +benemerito protector, o livro que contra a emigração de portuguezes para o +Brazil nos propozemos escrever.</p> + +<p>Como já dissemos, a pena de morte fora-lhe modificada<span +class="pagenum"><a id="pag_349" name="pag_349">[349]</a></span> em cinco +annos de prisão com trabalhos. Deu-se isto em 31 de maio de 1876.</p> + +<p>Depois de dez mezes de galés; isto é, em 28 de março de 1877, foi perdoada +a Manuel Soares Pereira esta pena, sendo ao mesmo tempo <i>dispensado</i> do +serviço do exercito!</p> + +<p>Vamos transcrever a ultima peça desse processo escandaloso—o protesto do +supposto desertor; e terminaremos esta questão que nos fastidia.</p> + +<p>Eis o documento, publicado no setimo avulso de Alves Ferreira—<i>Ás +nações civilisadas do universo</i>:</p> + +<p>«Diz Manuel Soares Pereira, que tendo sido preso como desertor do 16.º +batalhão de infanteria, em outubro de 1874, condemnado á morte em 26 de março +de 1876, e a cinco annos de galés em 31 de maio do mesmo anno de 1876, sendo +perdoada esta pena em 28 de março do corrente anno, fôra afinal em 31 do +mesmo mez dispensado do serviço do exercito;</p> + +<p>«Que estando preso e sem meios de se defender, recebera todo o castigo que +lhe quizeram impor, e o fardamento e etapa que lhe quizeram dar;</p> + +<p>«Que achando-se actualmente em liberdade, sabia que pelos livros do mesmo +batalhão é credor de certa quantia de fardamento e soldo, e que não se +julgando nunca soldado no Brazil, não pode, em consciencia receber hoje essa +quantia.</p> + +<p>«E portanto, se continuarem a julgal-o credor d'ella offerece-a para uma +obra pia, isto é, para o hospicio Pedro II, o qual é no Brazil um asylo de +alienados.</p> + +<p>«Reserva, porem, para si o direito, se o tiver, de haver do governo +brazileiro os seus ordenados como enfermeiro, os quaes nunca lhe foram pagos, +pelo que lhe prometeu de bocca o sr. commandante do 14.º batalhão de +voluntarios cachoeiranos.</p> + +<p>«Reserva mais o direito que possa ter pela sua dedicação, provada por +irrefutaveis documentos de dedicação,<span class="pagenum"><a id="pag_350" +name="pag_350">[350]</a></span> que mostrou nos hospitaes da Cachoeira, Rio +de Janeiro e na esquadra, no dia da batalha naval, e nos hospitaes e campos +de batalha no Paraguay, como enfermeiro voluntario, e sem contracto.</p> + +<p>«Reserva ainda, para si, o direito d'uma indemnisação pelos perjuizos +causados ao seu commercio, pois sendo na occasião em que fora preso, +estabelecido na Baixa Grande, povoação d'esta provincia, perdera todos os +generos do seu commercio, parte do que lhe deviam do mesmo negocio, tudo +causado pela longa prisão que soffrera, e pela noticia que no logar correra, +de ter sido executado n'esta cidade.</p> + +<p>«Guarda mais, para si, o direito a uma indemnisação pelos prejuisos +causados na sua saude, em consequencia da fome, maus tratos e pesados +serviços a que o obrigaram.</p> + +<p>«Guarda tambem para si o direito a uma indemnisação pela injuria de lhe +botarem o ferrete dos galés, fazel-o n'este estado correr toda a cidade e +parte da provincia, dando-lhe por companheiros assassinos sentenciados.</p> + +<p>«Reserva mais o direito a uma indemnisação pelo que n'esta occasião não +lembra, mas que de direito seja.</p> + +<p>«Appella, pois, para os altos poderes do estado, aos quaes apresentará a +sua petição em fórma, logo que suas circumstancias o permittam.»</p> + +<p>Hade ter igual resultado ao obtido pela familia dos desgraçados +negociantes portuguezes, assassinados na noite de 6 para 7 de setembro de +1874, na ilha de Jurupary.</p> + +<p>É assim que o governo brazileiro mostra empenho em reunir debaixo do +explendido céu do Cruzeiro, os individuos de todas as nacionalidades, que +queiram alli encontrar patria commum!<span class="pagenum"><a id="pag_351" +name="pag_351">[351]</a></span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>Ponhamos ponto final aqui; mas antes d'isto permitta-nos o leitor que +façamos a seguinte declaração, que é ao mesmo tempo um protesto contra a +propaganda dos optimistas—de que somos inimigo figadal do imperio +brazileiro:</p> + +<p>Não somos inimigo do Brazil. Nós somos tão amigos d'esta nação, como o +pode ser o medico consciencioso, junto do amigo, gravemente enfermo, a quem +tenta salvar, applicando ao mal os meios que a sciencia aconselha... não +excluindo o energico visicatorio.</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">FIM<span class="pagenum"><a +id="pag_352" name="pag_352">[352]</a></span></p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot425"></a><a +href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <i>Duas Palavras a Brazileiros e +Portuguezes</i>, por J. A. Torres.</p> + +<p><a name="foot166"></a><a href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> +Auctor citado.</p> + +<p><a name="foot4251"></a><a +href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> <i>Interesses portuguezes</i>, por J. R. +de Mattos.</p> + +<p><a name="foot171"></a><a href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Veja-se a +<a href="#nota1">nota n.º 1</a> no fim do volume.</p> + +<p><a name="foot173"></a><a href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Relatorio do +consul geral de Portugal no Rio, de 28 de maio de 1877.</p> + +<p><a name="foot4252"></a><a href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Veja-se +<i>Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração portugueza</i>. 1873.</p> + +<p><a name="foot181"></a><a href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Veja-se <a href="#nota1">nota +n.º 1</a> no fim do vol.</p> + +<p><a name="foot4253"></a><a href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>O +Brazil</i>, por Augusto de Carvalho.</p> + +<p><a name="foot4255"></a><a href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> <i>Negocios +externos</i>, documentos apresentados ás cortes em 1874.</p> + +<p><a name="foot4256"></a><a href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Veja-se +<i>Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração portugueza</i>.</p> + +<p><a name="foot4257"></a><a href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Buillet, +<i>Dictionaire de l'Histoire et geographie</i>.</p> + +<p><a name="foot426"></a><a href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Consta-nos +que os roceiros do Brazil mandaram um presente de cem libras ao auctor do +<i>Estudo sobre a colonisação e a emigração para o Brazil</i>.</p> + +<p><a name="foot532"></a><a href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> +Considerado, actualmente, engajador official.</p> + +<p><a name="foot536"></a><a href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Deu-se um +facto d'estes com um administrador de concelho do districto de Coimbra, e mal +pensavamos nós que, passados apenas alguns mezes, haviamos de ouvir fazer +accusações gravissimas a respeito da emigração clandestina, no parlamento +portuguez, sem que houvesse uma voz que as refutasse. (Veja-se a <a href="#nota2">nota n.º 2</a> +no fim do volume.)</p> + +<p><a name="foot4261"></a><a href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> Veja-se +<i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot563"></a><a href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Veja-se a +<a href="#nota3">nota n.º 3</a>.</p> + +<p><a name="foot4262"></a><a href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> Carta +dirigida ao sr. Cruz Coutinho pelo auctor das <i>Farpas</i>, publicada no +prefacio do livro—<i>Brazil</i>.</p> + +<p><a name="foot4263"></a><a href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> Veja-se o +numero das <i>Farpas</i>, correspondente a dezembro de 1872.</p> + +<p><a name="foot4264"></a><a href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> Veja-se o +n.º das <i>Farpas</i>, já citado.</p> + +<p><a name="foot4265"></a><a href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> <i>O +Brazil</i>, por Augusto de Carvalho.</p> + +<p><a name="foot649"></a><a href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Relatorio +do consul geral de Portugal no Rio de Janeiro, de 1875.</p> + +<p><a name="foot656"></a><a href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Relatorio +de 7 de dezembro de 1874.</p> + +<p><a name="foot688"></a><a href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> Relatorio +de 17 de dezembro de 1874.</p> + +<p><a name="foot4266"></a><a href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> <i>America +Portugueza</i>—Rocha Pitta.</p> + +<p><a name="foot4267"></a><a +href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> <i>O Brazil</i>, pag. 2.</p> + +<p><a name="foot4268"></a><a +href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> <i>Questões do Pará.</i></p> + +<p><a name="foot4269"></a><a +href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> <i>Negocios Externos.</i></p> + +<p><a name="foot427"></a><a href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> <i>Negocios +externos.</i> Sobre este mesmo assumpto, veja-se <i>Questões do Pará.</i> +Cap. XI.<br> +</p> + +<p><a name="foot4271"></a><a href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> <i>Diario +de Belem.</i></p> + +<p><a name="foot4272"></a><a href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> <i>Le +Bresil.</i></p> + +<p><a name="foot936"></a><a href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> A phrase +em gripho é a empregada pelos alliciadores, nos contractos de locação de +serviços e com a qual encobrem muitas extorções feitas aos collonos.</p> + +<p><a name="foot4277"></a><a href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> <i>Liberal +do Pará.</i></p> + +<p><a name="foot4279"></a><a href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> Veja-se +<i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot428"></a><a href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> Veja-se +<i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot4281"></a><a href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> Veja-se +<i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot1207"></a><a href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> Relatorio +de 7 de dezembro de 1874.</p> + +<p><a name="foot1209"></a><a href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> Relatorio +de 4 de janeiro de 1875.</p> + +<p><a name="foot1227"></a><a href="#tex2html38"><sup>[38]</sup></a> Veja-se a +<a href="#nota4">nota n.º 4</a>.</p> + +<p><a name="foot1237"></a><a href="#tex2html39"><sup>[39]</sup></a> Relatorio +citado.</p> + +<p><a name="foot4282"></a><a href="#tex2html40"><sup>[40]</sup></a> <i>Le +Brezil.</i></p> + +<p><a name="foot1341"></a><a href="#tex2html41"><sup>[41]</sup></a> Veja-se a +<a href="#nota5">nota n.º 5</a>.</p> + +<p><a name="foot1369"></a><a href="#tex2html42"><sup>[42]</sup></a> Veja-se a +<a href="#nota6">nota n.º 6</a>.</p> + +<p><a name="foot4286"></a><a href="#tex2html43"><sup>[43]</sup></a> Tudo +historico. Veja-se—<i>Commendador Barão</i>.</p> + +<p><a name="foot1548"></a><a href="#tex2html44"><sup>[44]</sup></a> A +colonisação por meio da escravatura, era de 43:000 negros para o Rio de +Janeiro, e de 90:000 para todo o imperio, annualmente. A desproporção é +manifesta.</p> + +<p><a name="foot1574"></a><a href="#tex2html45"><sup>[45]</sup></a> Officio +de 8 de junho de 1863.</p> + +<p><a name="foot161"></a><a href="#tex2html46"><sup>[46]</sup></a> Veja-se a +<a href="#nota7">nota n.º 7</a> no fim do volume.</p> + +<p><a name="foot1616"></a><a href="#tex2html47"><sup>[47]</sup></a> +Historico.</p> + +<p><a name="foot4288"></a><a href="#tex2html48"><sup>[48]</sup></a> +Historico. Veja-se <i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot4289"></a><a href="#tex2html49"><sup>[49]</sup></a> Veja-se +<i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot429"></a><a href="#tex2html50"><sup>[50]</sup></a> Traducção +do <i>Diario da Manhã</i>.</p> + +<p><a name="foot4291"></a><a href="#tex2html51"><sup>[51]</sup></a> A +<i>Tribuna</i>, do Pará.</p> + +<p><a name="foot4292"></a><a href="#tex2html52"><sup>[52]</sup></a> <i>Jornal +do Commercio</i>, de Lisboa, de 19 de julho de 1877.</p> + +<p><a name="foot4293"></a><a href="#tex2html53"><sup>[53]</sup></a> <i>A +Tribuna</i> do Pará.</p> + +<p><a name="foot4295"></a><a href="#tex2html54"><sup>[54]</sup></a> «Em +remotas épocas foram aqui atrozmente insultados os portuguezes, por alguns +jornaes, taes como (segue os nomes citados).» <i>Relatorio do consul do +Maranhão</i>, de 7 de dezembro de 1874.</p> + +<p><a name="foot4296"></a><a href="#tex2html55"><sup>[55]</sup></a> Dos +jornaes mencionados só existe hoje o <i>Publicador Maranhense</i>, jornal +official do governo da provincia!</p> + +<p><a name="foot4297"></a><a href="#tex2html56"><sup>[56]</sup></a> +Portuguezes ou <i>gallegos</i>, é claro!</p> + +<p><a name="foot4298"></a><a href="#tex2html57"><sup>[57]</sup></a> <i>Os +salões</i> do sr. visconde de Ouguella.</p> + +<p><a name="foot43"></a><a href="#tex2html58"><sup>[58]</sup></a> Não salvou +porque o regulamento não manda salvar quando hajam só quatro boccas de +fogo.—A <i>Mearim</i> não salvou pela mesma razão.</p> + +<p><a name="foot224"></a><a href="#tex2html59"><sup>[59]</sup></a> +Sodomitas.</p> + +<p><a name="foot4302"></a><a href="#tex2html60"><sup>[60]</sup></a> Veja-se o +opusculo <i>Coisas Brazileiras</i>.</p> + +<p><a name="foot4303"></a><a href="#tex2html61"><sup>[61]</sup></a> Invenções +calumniosas da <i>Tribuna</i>, invenções que ella dava a estampa repetidas +vezes contra os portuguezes.</p> + +<p><a name="foot245"></a><a href="#tex2html62"><sup>[62]</sup></a> Revolução +de 1835 contra portuguezes.</p> + +<p><a name="foot4304" id="foot4304"></a><a +href="#tex2html63"><sup>[63]</sup></a> <i>O Districto d'Aveiro.</i> Veja-se a +critica ás <i>Questões do Pará</i>, no fim do volume.</p> + +<p><a name="foot4305"></a><a href="#tex2html64"><sup>[64]</sup></a> <i>A +Democracia</i>, de 14 de julho de 1875.</p> + +<p><a name="foot4306"></a><a +href="#tex2html65"><sup>[65]</sup></a> <i>Questões do Pará.</i></p> + +<p><a name="foot4307"></a><a +href="#tex2html66"><sup>[66]</sup></a> <i>Questões do Pará.</i></p> + +<p><a name="foot4308"></a><a href="#tex2html67"><sup>[67]</sup></a> Veja-se a +<i>Regeneração</i> de 6 de junho de 1875.</p> + +<p><a name="foot4309"></a><a href="#tex2html68"><sup>[68]</sup></a> Veja-se o +processo no <i>apendice</i> ás <i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot2682"></a><a href="#tex2html69"><sup>[69]</sup></a> Obra +citada.</p> + +<p><a name="foot431"></a><a href="#tex2html70"><sup>[70]</sup></a> <i>Diario +de Noticias.</i></p> + +<p><a name="foot2738"></a><a href="#tex2html71"><sup>[71]</sup></a> Nunca +fomos injusto para com o tribunal da Relação do Pará.</p> + +<p><a name="foot2745"></a><a href="#tex2html72"><sup>[72]</sup></a> Este +documento tem a data de 10 de julho de 1875 e é assignado por Marcelino +Nery.</p> + +<p><a name="foot2747"></a><a href="#tex2html73"><sup>[73]</sup></a> +Consta-nos á ultima hora que este sujeito deixou já o partido catholico e se +fez... liberal!</p> + +<p><a name="foot2756"></a><a href="#tex2html74"><sup>[74]</sup></a> Nem as +deveria fazer porque faria mal ao bispo.</p> + +<p><a name="foot4311"></a><a href="#tex2html75"><sup>[75]</sup></a> A +typographia do conego Sequeira Mendes e da <i>Constituição</i>, orgão do +partido conservador da provincia, era a que fornecia os impressos ao +governo!</p> + +<p><a name="foot2768"></a><a href="#tex2html76"><sup>[76]</sup></a> Jornal +do bispo.</p> + +<p><a name="foot4312"></a><a href="#tex2html77"><sup>[77]</sup></a> Veja-se +<i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p><a name="foot4313"></a><a href="#tex2html78"><sup>[78]</sup></a> A +<i>Tribuna</i>, de Lisboa.</p> + +<p><a name="foot4314"></a><a href="#tex2html79"><sup>[79]</sup></a> <i>As +Nações Civilisadas do Universo</i>, por M. A. Ferreira, da Bahia.</p> + +<p><a name="foot2812"></a><a href="#tex2html80"><sup>[80]</sup></a> Nota de 4 +de fevereiro de 1875.</p> + +<p><a name="foot2849"></a><a href="#tex2html81"><sup>[81]</sup></a> Maroto, +na Bahia, significa portuguez!</p> + +<p><a name="foot4319"></a><a href="#tex2html82"><sup>[82]</sup></a> No qual, +como já vimos, o embaixador portuguez, sem estudar a questão, por que n'isso +não tinha o minimo interesse, escrevia as seguintes phrases:—«que em vista +das disposições das leis brazileiras etc., <i>não póde ser attendida a +pertenção</i> de Manuel Soares Pereira» etc.!!!</p> + +<p><a name="foot432"></a><a href="#tex2html83"><sup>[83]</sup></a> 1.º +avulso—<i>Ás nações civilisadas do universo</i>.</p> +</div> + +<p> </p> + +<h2>NOTAS</h2> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_353" +name="pag_353">[353]</a></span></p> + +<h2><a id="nota1" name="nota1">N.º 1</a><br> +MAPPA DO MOVIMENTO DA POPULAÇÃO NO REINO E ILHAS</h2> + +<p> </p> + +<table border="1" cellpadding="0" cellspacing="0" id="mapa" summary="Mapa da população portyguesa em 1870"> + <tbody> + <tr> + <td colspan="22" align="center">Mappa da população e seu movimento no + continente do reino e ilhas adjacentes no anno de 1870</td> + </tr> + <tr> + <td rowspan="4" align="left">Districtos</td> + <td rowspan="4" align="center">Concelhos</td> + <td rowspan="4" align="center">Freguezias</td> + <td rowspan="4" align="center">Fogos</td> + <td colspan="3" align="center">População</td> + <td colspan="15" align="center">Movimento da população</td> + </tr> + <tr> + <td rowspan="3" align="center">Sexo Masculino</td> + <td rowspan="3" align="center">Sexo Feminino</td> + <td rowspan="3" align="center">Total</td> + <td colspan="7" align="center">Nascimentos</td> + <td rowspan="3" align="center">Casamentos</td> + <td colspan="3" rowspan=2 align="center">Obitos</td> + <td rowspan=3 align="center">Nascimentos excedentes aos obitos</td> + <td rowspan=3 align="center">Obitos excedentes aos nascimentos</td> + <td rowspan=2 colspan="2" align="center">Por cada 100 habitantes</td> + </tr> + <tr> + <td colspan="3" align="center">Sexo Masculino</td> + <td colspan="3" align="center">Sexo Feminino</td> + <td rowspan=2 align="center">Total</td> + </tr> + <tr> + <td align="center">Legitimos</td> + <td align="center">Illegitimos</td> + <td align="center">Total</td> + <td align="center">Legitimos</td> + <td align="center">Illegitimos</td> + <td align="center">Total</td> + <td align="center">Sexo Masculino</td> + <td align="center">Sexo Feminino</td> + <td align="center">Total</td> + <td align="center">Nascimentos</td> + <td align="center">Obitos</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Angra</td> + <td align="center">5</td> + <td align="center">38</td> + <td align="center">18:008</td> + <td align="center">31:541</td> + <td align="center">40:325</td> + <td align="center">71:866</td> + <td align="center">878</td> + <td align="center">245</td> + <td align="center">1:123</td> + <td align="center">815</td> + <td align="center">215</td> + <td align="center">1:030</td> + <td align="center">2:153</td> + <td align="center">451</td> + <td align="center">835</td> + <td align="center">886</td> + <td align="center">1:721</td> + <td align="center">432</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2,99</td> + <td align="center">2,39</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Aveiro</td> + <td align="center">16</td> + <td align="center">180</td> + <td align="center">69:411</td> + <td align="center">119:945</td> + <td align="center">137:499</td> + <td align="center">257:444</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">4:029</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3:825</td> + <td align="center">7:854</td> + <td align="center">1:617</td> + <td align="center">2:453</td> + <td align="center">2:563</td> + <td align="center">5:016</td> + <td align="center">2:838</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,05</td> + <td align="center">1,95</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Beja</td> + <td align="center">14</td> + <td align="center">102</td> + <td align="center">35:721</td> + <td align="center">69:692</td> + <td align="center">68:376</td> + <td align="center">138:068</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:514</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:412</td> + <td align="center">4:926</td> + <td align="center">1:122</td> + <td align="center">2:828</td> + <td align="center">2:755</td> + <td align="center">5:583</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">657</td> + <td align="center">3,57</td> + <td align="center">4,04</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Braga</td> + <td align="center">12</td> + <td align="center">519</td> + <td align="center">81:691</td> + <td align="center">145:259</td> + <td align="center">178:051</td> + <td align="center">323:310</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">4:650</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">4:436</td> + <td align="center">9:086</td> + <td align="center">1:822</td> + <td align="center">3:490</td> + <td align="center">3:791</td> + <td align="center">7:281</td> + <td align="center">1:805</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2,81</td> + <td align="center">2,25</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Bragança</td> + <td align="center">12</td> + <td align="center">313</td> + <td align="center">39:894</td> + <td align="center">76:467</td> + <td align="center">77:093</td> + <td align="center">153:560</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:846</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:685</td> + <td align="center">5:531</td> + <td align="center">1:042</td> + <td align="center">2:822</td> + <td align="center">2:684</td> + <td align="center">5:506</td> + <td align="center">25</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,60</td> + <td align="center">3,59</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Castello Branco</td> + <td align="center">12</td> + <td align="center">147</td> + <td align="center">41:513</td> + <td align="center">80:368</td> + <td align="center">85:047</td> + <td align="center">165:415</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:754</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:716</td> + <td align="center">5:470</td> + <td align="center">1:209</td> + <td align="center">2:472</td> + <td align="center">2:519</td> + <td align="center">4:991</td> + <td align="center">479</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,31</td> + <td align="center">3,02</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Coimbra</td> + <td align="center">17</td> + <td align="center">186</td> + <td align="center">74:144</td> + <td align="center">135:268</td> + <td align="center">151:257</td> + <td align="center">286:525</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">4:199</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3:893</td> + <td align="center">8:092</td> + <td align="center">1:675</td> + <td align="center">2:988</td> + <td align="center">3:143</td> + <td align="center">6:131</td> + <td align="center">1:961</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2,82</td> + <td align="center">2,14</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Evora</td> + <td align="center">13</td> + <td align="center">109</td> + <td align="center">25:622</td> + <td align="center">50:105</td> + <td align="center">48:354</td> + <td align="center">98:459</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">1:771</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">1:693</td> + <td align="center">3:464</td> + <td align="center">662</td> + <td align="center">1:755</td> + <td align="center">1:615</td> + <td align="center">3:370</td> + <td align="center">94</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,50</td> + <td align="center">3,42</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Faro</td> + <td align="center">15</td> + <td align="center">66</td> + <td align="center">46:975</td> + <td align="center">93:827</td> + <td align="center">91:485</td> + <td align="center">185:312</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3:592</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3:275</td> + <td align="center">6:867</td> + <td align="center">1:385</td> + <td align="center">2:605</td> + <td align="center">2:624</td> + <td align="center">5:229</td> + <td align="center">1:638</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,71</td> + <td align="center">2,82</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Funchal</td> + <td align="center">10</td> + <td align="center">52</td> + <td align="center">28:482</td> + <td align="center">55:186</td> + <td align="center">61:277</td> + <td align="center">116:463</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:392</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:281</td> + <td align="center">4:673</td> + <td align="center">952</td> + <td align="center">1:478</td> + <td align="center">1:455</td> + <td align="center">2:933</td> + <td align="center">1:740</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">4,01</td> + <td align="center">2,52</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Guarda</td> + <td align="center">14</td> + <td align="center">337</td> + <td align="center">55:685</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">216:735</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">7:568</td> + <td align="center">1:509</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">5:983</td> + <td align="center">1:585</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,49</td> + <td align="center">2,76</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Horta</td> + <td align="center">7</td> + <td align="center">39</td> + <td align="center">16:436</td> + <td align="center">26:802</td> + <td align="center">36:295</td> + <td align="center">63:097</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">860</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">867</td> + <td align="center">1:727</td> + <td align="center">318</td> + <td align="center">520</td> + <td align="center">658</td> + <td align="center">1:178</td> + <td align="center">549</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2,74</td> + <td align="center">1,87</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Leiria</td> + <td align="center">12</td> + <td align="center">116</td> + <td align="center">43:748</td> + <td align="center">89:675</td> + <td align="center">91:436</td> + <td align="center">181:111</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:650</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:460</td> + <td align="center">5:110</td> + <td align="center">1:028</td> + <td align="center">2:289</td> + <td align="center">2:327</td> + <td align="center">4:616</td> + <td align="center">494</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2,82</td> + <td align="center">2,55</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Lisboa</td> + <td align="center">25</td> + <td align="center">207</td> + <td align="center">111:151<a name="tex2html84" + href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td> + <td align="center">236:957<a name="tex2html85" + href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td> + <td align="center">217:734<a name="tex2html86" + href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td> + <td align="center">454:691<a name="tex2html87" + href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td> + <td align="center">5:484</td> + <td align="center">2:227</td> + <td align="center">7:771</td> + <td align="center">5:290</td> + <td align="center">2:087</td> + <td align="center">7:377</td> + <td align="center">15:088</td> + <td align="center">2:837</td> + <td align="center">7:026</td> + <td align="center">6:815</td> + <td align="center">13:841</td> + <td align="center">1:247</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,32</td> + <td align="center">3,04</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Ponta Delgada</td> + <td align="center">7</td> + <td align="center">44</td> + <td align="center">28:805</td> + <td align="center">57:062</td> + <td align="center">65:336</td> + <td align="center">122:398</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:422</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:170</td> + <td align="center">4:592</td> + <td align="center">817</td> + <td align="center">1:413</td> + <td align="center">1:385</td> + <td align="center">2:798</td> + <td align="center">1:794</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,75</td> + <td align="center">2,20</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Portalegre</td> + <td align="center">15</td> + <td align="center">95</td> + <td align="center">26:600</td> + <td align="center">47:758</td> + <td align="center">48:049</td> + <td align="center">95:807</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">1:806</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">1:689</td> + <td align="center">3:495</td> + <td align="center">635</td> + <td align="center">1:723</td> + <td align="center">1:614</td> + <td align="center">3:337</td> + <td align="center">158</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,65</td> + <td align="center">3,48</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Porto</td> + <td align="center">17</td> + <td align="center">361</td> + <td align="center">113:060</td> + <td align="center">199:747</td> + <td align="center">237:903</td> + <td align="center">437:650</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">7:102</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">6:840</td> + <td align="center">13:942</td> + <td align="center">2:923</td> + <td align="center">4:701</td> + <td align="center">5:095</td> + <td align="center">9:796</td> + <td align="center">4:146</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,19</td> + <td align="center">2,24</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Santarem</td> + <td align="center">18</td> + <td align="center">141</td> + <td align="center">51:706</td> + <td align="center">99:514</td> + <td align="center">103:647</td> + <td align="center">203:161</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:936</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:850</td> + <td align="center">5:786</td> + <td align="center">1:087</td> + <td align="center">3:032</td> + <td align="center">2:677</td> + <td align="center">5:709</td> + <td align="center">77</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2,85</td> + <td align="center">2,81</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Vianna do Castello</td> + <td align="center">10</td> + <td align="center">288</td> + <td align="center">55:773</td> + <td align="center">96:353</td> + <td align="center">113:143</td> + <td align="center">209:496</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:601</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2:592</td> + <td align="center">5:193</td> + <td align="center">1:243</td> + <td align="center">1:945</td> + <td align="center">2:114</td> + <td align="center">4:059</td> + <td align="center">1:134</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">2,48</td> + <td align="center">1,94</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Villa Real</td> + <td align="center">14</td> + <td align="center">256</td> + <td align="center">55:350</td> + <td align="center">101:915</td> + <td align="center">109:650</td> + <td align="center">211:565</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3:684</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3:671</td> + <td align="center">7:355</td> + <td align="center">1:366</td> + <td align="center">2:547</td> + <td align="center">2:444</td> + <td align="center">4:991</td> + <td align="center">2:364</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,48</td> + <td align="center">2,36</td> + </tr> + <tr> + <td align="left">Vizeu</td> + <td align="center">26</td> + <td align="center">365</td> + <td align="center">92:721</td> + <td align="center">176:285</td> + <td align="center">193:593</td> + <td align="center">239:878</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">5:960</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">5:858</td> + <td align="center">11:818</td> + <td align="center">2:105</td> + <td align="center">3:911</td> + <td align="center">4:181</td> + <td align="center">8:092</td> + <td align="center">3:726</td> + <td align="center">—</td> + <td align="center">3,20</td> + <td align="center">2,19</td> + </tr> + <tr> + <td align="left"> </td> + <td align="center">292</td> + <td align="center">3:961</td> + <td align="center">1.111:496</td> + <td align="center">1.989:726</td> + <td align="center">2.155:550</td> + <td align="center">4.362:011</td> + <td align="center">6:362</td> + <td align="center">2:472</td> + <td align="center">67:602</td> + <td align="center">6:105</td> + <td align="center">2:302</td> + <td align="center">64:620</td> + <td align="center">139:790</td> + <td align="center">27:805</td> + <td align="center">52:833</td> + <td align="center">53:345</td> + <td align="center">112:161</td> + <td align="center">27:629</td> + <td align="center">657</td> + <td align="center">3,20</td> + <td align="center">2,59</td> + </tr> + <tr> + <td colspan="22" align="center" style="font-size: 0.8em;"><p><a + name="foot3352"></a><a href="#tex2html84"><sup>[84]</sup></a> Estes + algarismos foram tirados do censo de 1 de janeiro de 1864, por isso + que o mappa do respectivo governo civil sómente trazia o movimento da + população.</p> + + <p>Secretaria d'estado dos negocios do reino, em 29 de novembro de + 1872.==<i>Luiz Antonio Nogueira</i>.<span class="pagenum"><a + id="pag_354" name="pag_354">[354]</a></span></p> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p> <span class="pagenum"><a id="pag_355" +name="pag_355">[355]</a></span></p> + +<h2><a id="nota2" name="nota2">N.º 2</a></h2> + +<h3>Diario das Camaras dos senhores deputados</h3> + +<p>O sr. <small>PIRES DE LIMA</small>:—Desejava conversar em boa paz com +alguns dos srs. ministros, que infelizmente não estão presentes, mas como o +governo está representado por dois membros do gabinete, isso me basta. S. +ex.<sup>as</sup> não deixarão, por certo, de informar os seus collegas do que +eu vou dizer.</p> + +<p>São assumptos importantes aquelles sobre que tenho o proposito de +discorrer, e parecem-me dignos da attenção da camara.</p> + +<p>A emigração dos portuguezes para o Brazil tem nos ultimos tempos attingido +proporções verdadeiramente collossaes e gigantescas, o que é uma grande +calamidade, calamidade assustadora especialmente para a industria agricola, +que é a principal fonte da nossa riqueza. (<i>Apoiados.</i>)</p> + +<p>No districto administrativo de Aveiro, que eu conheço um pouco, ha +freguezias onde os trabalhos dos campos estão exclusivamente entregues ás +mulheres, porque os homens todos, com excepção das creanças e dos velhos, +têem saido para a America.</p> + +<p>Ainda não ha muitos dias que um collega nosso me disse haver recebido do +seu circulo uma carta, na qual se lhe pedia instantemente, que interpozesse a +sua influencia junto do governo, para se suspenderem todas as obras publicas! +O signatario da carta, agricultor importante, queria que por algum tempo se +interrompessem os trabalhos das estradas reaes, districtaes e municipaes, e +julgava que só d'este modo poderiam os proprietarios ter braços para cultivar +as terras.</p> + +<p>Este facto é significativo. Quando os lavradores chegam a esquecer o +grande amor que têem ao desenvolvimento de viação publica, póde-se +conjecturar que taes são as difficuldades que os assoberbam, quão grande é a +falta de trabalhadores, e excessivamente elevado o preço dos salarios.</p> + +<p>Eu desejando muito que antes fossem para o Alemtejo e para as nossas +possessões ultramarinas os homens validos que vão tentar fortuna no +Brazil...</p> + +<p>É grande a corrente da emigração, e para a engrossar não<span +class="pagenum"><a id="pag_356" name="pag_356">[356]</a></span> concorrem +pouco algumas das nossas leis, <i>e mais ainda o modo por que se lhes dá +cumprimento</i>.</p> + +<p>E estas causas podem ser combatidas facil e vantajosamente pelos poderes +publicos.</p> + +<p>É necessario que fallemos com franqueza.</p> + +<p>A lei do recrutamento é pessima, <i>a sua execução é detestavel</i>.</p> + +<p>Ha muita gente que foge para o Brazil para não ser soldado. +(<i>Apoiados.</i>)</p> + +<p>O governo póde e deve propor a emenda das disposições absurdissimas da lei +do recrutamento, e o governo póde <i>e deve corregir os abusos e demazias +escandalosissimas que os empregados publicos commettem todos os dias na +execução d'esta lei</i>. (<i>Apoiados.</i>)</p> + +<p>Enxameam as provincias engajadores convidando colonos a ir para o Brazil, +e a troco de dez ou quatorze libras facilitam-lhes passagem para os portos +d'aquelle imperio, arranjando-lhes todos os papeis necessarios para a viagem +e inclusivamente <i>passaportes falsos</i>.</p> + +<p>Isto sei-o eu e sabemol-o nós todos. (<i>Apoiados.</i>)</p> + +<p>É grande este mal, mas para o combater não é necessario addicionar nenhum +artigo ao codigo penal, basta que o governo faça aos empregados admoestações, +e aos agentes do ministerio publico recommendações severas, e obrigue uns e +outros a cumprir os seus deveres.</p> + +<p>Acabou com a nossa diligencia a escravatura dos pretos na Africa, não +cresça com a nossa preguiça a escravatura dos brancos na Europa.</p> + +<p>Extinguiu-se a industria da moeda falsa, extinga-se tambem a industria dos +passaportes falsos, tão deshonrosa como aquella, e incomparavelmente mais +damninha e prejudicial do que ella.</p> + +<p>Lembre-se o governo de que os passaportes falsos não só facilitam a +passagem para o Brazil aos mancebos sujeitos á lei do recrutamento, mas +auxiliam a evasão de criminosos, cuja impunidade é quasi certa nos vastos +sertões do novo mundo, etc., etc.</p> + +<p style="text-align:right;">(<em>Sessão de 26 de março de 1877.</em>)</p> + +<h2><a id="nota3" name="nota3">N.º 3</a></h2> + +<h3>O DRAMA «OS AVENTUREIROS» E A CRITICA</h3> + +<p>Tivemos a satisfação de ouvir lêr ao sr. Gomes Pércheiro algumas scenas do +seu drama os <i>Aventureiros</i>, que nos revelariam um esplendido engenho, +se nós não soubessemos de ha muito quanto elle é vantajosamente +conhecido.<span class="pagenum"><a id="pag_357" +name="pag_357">[357]</a></span></p> + +<p>O drama do sr. Gomes Pércheiro é o fructo das suas mais aturadas +lucubrações, um trabalho consciencioso, uma these philosophico-social, que +combate habilmente a emigração que está roubando ao nosso fertilissimo solo +braços robustos.</p> + +<p>Os <i>Aventureiros</i> estão escriptos por mão de mestre, n'um estylo +fluente e brilhante, e n'uma dicção pura e vernacula. Este drama terá um +notavel exito pelos episodios que constituem o seu enredo, e porque é +portuguez de lei.</p> + +<p>Não é nosso mister sermos louva-minheiros; nem jámais o seriamos do sr. +Gomes Pércheiro, moço illustrado, e cuja reputação não carece de elogios +banaes para a nobilitarem.</p> + +<p style="text-align:right;">(<i>Diario do Commercio</i>, de 5 de dezembro +1877.)</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Hoje pela 1 hora da tarde, na presença de numeroso e selecto auditorio, o +escriptor que se tem assignalado na imprensa pela sua propaganda constante e +por vezes energica contra a emigração, leu um drama seu, original em 5 actos, +intitulado <i>Os Aventureiros</i>, e cuja idéa fundamental é ainda a activa +propaganda contra as illusões que arrastam tantos portuguezes a abandonar a +patria, em procura de fementidas miragens de riqueza, que tão frequentes +vezes se convertem nas tristes realidades da miseria, da doença, da saudade, +do abandono, do desespero e da morte.</p> + +<p>Não é n'uma simples audição que se póde julgar d'um trabalho d'aquelles, +que comtudo se nos afigurou de notavel merecimento, indo direito e seguro ao +seu fim, atravez da ficção da acção dramatica, a qual tem scenas e lances de +muito interesse e de muita verdade, comquanto no ultimo acto, escolho de +todos os dramaturgos, que se estreiam, enfraqueçam um pouco os dotes scenicos +da peça, e no conduzir do enredo e no desenho dos diversos typos haja +hesitações, que muito insignificantes são para uma primeira tentativa em +genero litterario tão difficil. Seguramente Gomes Pércheiro corrigirá alguns +dos pequenos senões da sua obra, que o publico admirará e applaudirá então, +colhendo d'ella muito proveitoso ensinamento, n'uma questão que preoccupa +hoje tanto as attenções dos que pensam e dos que sentem um dos grandes males +do nosso paiz.</p> + +<p style="text-align:right;">(<i>Revolução de Setembro</i>, de 21 de dezembro +de 1877).<span class="pagenum"><a id="pag_358" +name="pag_358">[358]</a></span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p> </p> + +<p>D. M<small>ARIA</small> II.—Lêu-se hontem no salão d'este theatro, como +tinhamos annunciado, o drama do sr. Gomes Pércheiro, <i>Os Aventureiros</i>. +Encargos do serviço publico obstaram a que o director d'esta folha +assistisse; os trabalhos do jornal que são todos durante o dia, impediram +tambem outro dos nossos redactores.</p> + +<p>D<small>O</small> D<small>IARIO DE</small> P<small>ORTUGAL</small> que +mais extensamente dá conta do caso, extrahimos com a devida venia o +seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«O assumpto do drama é a emigração.</p> + +<p>Não é possivel com uma só audição fazer completa idéa das qualidades +scenicas do drama, o que porém se nos affigura como certo, é que abunda em +todo elle a verdade, e que é escripto com profundo conhecimento do +assumpto.</p> + +<p>A emigração figura-se para o sr. Pércheiro um vicio social, que elle +combate do modo mais energico.</p> + +<p>O assumpto é difficilimo de tratar, não obstante parece-nos que o auctor +esteve á altura d'elle.</p> + +<p>Feita a leitura, alguns dos cavalheiros presentes exposeram com a mais +notavel franqueza, a sua opinião extremamente lisongeira para o sr. +Pércheiro.</p> + +<p>Pela nossa parte felicitamol-o pelo seu trabalho.</p> + +<p>Assistiram á leitura os srs: E. Biester, dr. Cunha Belem, Rodrigues da +Costa, Luciano Cordeiro, Hermenegildo d'Alcantara, padre Seabra, Cró Ferreri, +dr. Loureiro, Salvador Marques e Thomaz Sequeira.»</p> + +<p> </p> + +<p>Folgamos de que tanto agradasse a obra do sr. Pércheiro, e damos-lhe os +nossos parabens.</p> + +<p style="text-align:right;">(<i>Revolução de Setembro</i>, de 21 de dezembro +de 1877).</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>A transcendencia do assumpto e a extremada delicadeza do convite do sr. +Gomes Pércheiro levaram-nos ao salão do theatro normal para assistirmos á +leitura do drama—<i>Os Aventureiros</i>...</p> + +<p>O illustre dramaturgo, lidador incansavel nos grandes torneios da +civilisação, homem d'um só rosto e d'uma só vontade, tem em vista combater no +palco, como já tem combatido no livro e no<span class="pagenum"><a +id="pag_359" name="pag_359">[359]</a></span> jornal, a funesta tendencia da +emigração para o Brazil e a especulação torpe dos <i>engajadores</i>, que, +fazendo mentidas promessas, mostram aos incautos—atravez d'um prisma côr de +rosa—um futuro mais ou menos longinquo em que a blusa do operario se ha de +trocar pela casaca do commendador.</p> + +<p>E, forçoso será dizel-o, o sr. Gomes Pércheiro tracta gentilmente o +assumpto: o novo drama, primicias scenicas do auctor, divide-se em cinco +actos.</p> + +<p>Os dois primeiros passam-se n'uma aldeia do Minho, o terceiro a bordo d'um +paquete inglez e os restantes na terra de Santa Cruz.</p> + +<p>Os vultos mais salientes do drama são—um abbade, typo paternal que, +comprehendendo a sua missão sublime, sem esquecer o cuidado que lhe merece a +vida espiritual das suas ovelhas, envida todos os esforços para curar o +cancro da emigração, que rouba tantos cidadãos á patria, tantos braços á +agricultura e tantos homens á vida. A figura está desenhada magistralmente. +Após este vulto sympathico surge um outro egualmente gracioso: uma menina da +alta sociedade, educada com todo o esmero christão, escondendo a esmola no +seio do pobre, sem que a esquerda tome conhecimento do que a direita deu, +tendo em menos conta as honrarias da terra e sacrificando as suas joias para +salvar o pae de difficuldades financeiras. Os traços são vigorosos e +correctos.</p> + +<p>Em meio d'este Eden apparece a antiga serpe encadernada no commendador +<i>Manquitó</i>, typo repugnante, fugido d'um presidio do Brasil, +<i>engajador</i>, ou o que vale o mesmo, negociante de carne humana.—A scena +entre o abbade e este vampiro, que esconde a sua preversidade e o seu punhal +nas dobras da capa da hypocrisia, é muito para se ver.</p> + +<p>A scena a bordo é copiada <i>aprés nature</i>. Os colonos vendo succumbir +uma companheira d'infortunio, não podendo supportar os incommodos da viagem e +o alimento grosseiro que lhes é ministrado, o capitão inglez dizendo—<i>I +speak portuguese very well</i>—e continuando a dar o mesmo bacalhau com +batatas, é um quadro deslumbrante de verdade.</p> + +<p>Se nos perguntarem pelo <i>ensemble</i> do drama, emittiremos a nossa +humilde opinião: é uma bella estatua que saiu da fundição com algumas +pequeninas arestas que devem ser cuidadosamente limadas. Os primeiros quatro +actos têem scenas de grande effeito: o quinto talvez tenha das taes arestas, +o que não admira, porque <i>aliquando bonus dormitat Homerus</i>. Além +d'estes insignificantes senões que desapparecem ao terceiro ensaio, tem a +peça os seguintes <i>defeitos</i>:</p> + +<p><i>Inspira-se n'um sentimento nobre, patriotico, humanitario e +economico;—fere<span class="pagenum"><a id="pag_360" +name="pag_360">[360]</a></span> os interesses de certos argentarios que +adquiriram fortuna, Deus sabe como; não blasphema de Christo, ou do seu +Vigario, nem, ao menos, dá dois piparotes n'um <small>ABUTRE DE +SOTAINA</small>!</i></p> + +<p>Felicitamos o sr. Gomes Pércheiro, mas pedimos vénia para lhe dizermos: o +drama <i>Aventureiros</i> não vae á scena, pelas circumstancias apontadas,<a +name="tex2html88" href="#foot3608"><sup>[85]</sup></a> e s. parece ignorar +que vive no moderno Portugal, onde o theatro tem enchentes com os +<i>Lazaristas</i> do sr. Ennes e está ás moscas com a <i>Caridade</i> do sr. +Cascaes. É esta a nossa opinião, <i>salvo simper meliori judicio</i>.</p> + +<p style="text-align:right;">(A <i>Nação</i> de 22 de dezembro de 1877.)</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Estamos em divida para com o estimavel escriptor, que teve a penhorante +amabilidade de convidar-nos para assistir á leitura da sua peça no theatro de +D. Maria.</p> + +<p>Circumstancias estranhas á nossa vontade inhibiram-nos de agradecer no +numero anterior essa prova de deferencia e de dar conta das impressões que +nos produziu a leitura do drama do sr. Pércheiro.</p> + +<p>Não é facil, n'uma rapida audição, apreciar devidamente um trabalho +d'aquella ordem, e analysal-o com minudencia, apontando todas as bellezas, +que n'elle sobresaem ou os senões que, n'um ponto ou outro, lhe possam +ensombrar o merecimento.</p> + +<p>Serve de these ao drama a emigração, considerada sob o ponto de vista +social e economico, e o sr. Gomes Pércheiro, que já na imprensa tinha larga e +proficientemente tratado o assumpto,—levando-o para o theatro, como meio +efficassissimo de propaganda, dota a scena nacional com um excellente drama e +presta ao paiz um relevante serviço.</p> + +<p><i>Os Aventureiros</i> são antes de tudo uma peça de propaganda, escripta +com profundo conhecimento do assumpto e aturadissima observação.</p> + +<p>Os infames manejos que se empregam para o engajamento dos colonos, os +soffrimentos d'estes durante a viagem para a America,<span class="pagenum"><a +id="pag_361" name="pag_361">[361]</a></span> as tristes e dolorosas +realidades que substituem as miragens fascinadoras com que lhes embalaram a +phantasia e a cubiça, a vida do colono no sertão com todos os seus traços +dessoladores e crueis, são ali postos em relevo, com as mais vivas côres, a +maior verdade e desassombro. O 3.º e 4.º actos, excellentes quadros de +genero, copiados <i>d'aprés nature</i>, devem produzir funda sensação, porque +ao vigor das situações dramaticas, alliam o interesse de scenas perfeitamente +desconhecidas do nosso publico, e accentuam com a maior naturalidade os +horrores porque passam os miseros expatriados.</p> + +<p>Pelo lado litterario a peça do sr. Gomes Pércheiro parece-nos digna do +applauso de critica. A linguagem sempre correcta e facil, aquece-se de +enthusiasmo nos lances que assim o pedem e obedece em geral ás condições de +naturalidade e observação que predominam no drama. Os dialogos estão bem +travados, os caracteres bem sustentados e descriptos com traços frisantes.</p> + +<p>O drama do sr. Gomes Pércheiro deverá ser representado n'algum dos nossos +primeiros theatros, porque a isso tem incontestavel direito e para então +rezervamos mais demorada apreciação d'esse excellente trabalho, pelo qual +desde já enviamos ao auctor as nossas sinceras felicitações.</p> + +<p style="text-align:right;">(<i>O Contemporaneo</i> n.º 45.)</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Tivemos ha dias a leitura d'um novo drama por um escriptor novo que se +propõe a trazer para o theatro a these da emigração para o Brazil, dos seus +estimulos, dos seus vicios e dos seus resultados, que tem tratado na +imprensa.</p> + +<p>A these é delicada, perigosa, irritante. Levada até á condemnação geral da +emigração, é uma vasta, uma complexa, uma difficilima these.</p> + +<p>A questão da emigração prende-se a uma infinidade dos mais elevados +problemas das sciencias economicas e da philosophia politica.</p> + +<p>Em Portugal está por estudar inteiramente. Os estudos sociologicos tem +pouquissimos cultores sérios porque são pouquissimos os que por uma larga +disciplina scientifica, desafogada de paixões de escolla ou dos banaes +sentimentalismos do criterio romantico e revolucionario, podem entrar com +serena firmeza na revisão delicada das leis e dos phenomenos do organismo +social.<span class="pagenum"><a id="pag_362" +name="pag_362">[362]</a></span></p> + +<p>A economia politica não ganhou ainda aqui os direitos de cidade... e as +sympathias dos editores, apesar da graciosa concessão de duas ou tres escolas +onde se lê Baudrillat e Garnier.</p> + +<p>Sem offensa para os respectivos professores, que não são os culpados dos +desdens d'uma administração superior perfeitamente alheia e hostil ao +progresso e ao espirito scientifico, e da indifferença d'um publico que não +percebeu ainda muito claramente as vantagens de saber lêr escrevêr e contar, +ser economista em Portugal é não querer ser cousa alguma.</p> + +<p>Não é por esse caminho que a gente se faz nomear amanuense de secretaria +nem membro correspondente da Academia das Sciencias. Ora todos nós mais ou +menos precisamos ser amanuenses.</p> + +<p>O sr. Pércheiro, porém tem-se contentado com o esforço de lançar alguma +luz ácerca do que é a emigração para o Brazil, nas cabeças rudes e ingenuas +do nosso povo e nas cabeças rudes mas não egualmente ingenuas, dos nossos +politicos e governantes.</p> + +<p>Baldado, mas generoso empenho.</p> + +<p>Elle viu as cousas de perto; teve occasião de as ver e não se tem cançado +de nos dizer o que viu.</p> + +<p>É um horror.</p> + +<p>Uma parte d'este horror podia contemplal-a e estudal-a toda a gente nos +relatorios officiaes dos nossos consules do Brazil, mas os relatorios servem +só para dar que fazer á imprensa nacional.</p> + +<p>Não se fazem, evidentemente para serem lidos e estudados pelos nossos +homens publicos, pelos nossos politicos, pelos nossos deputados, pelos nossos +governos.</p> + +<p>Lembra-me que ha tempos teve o meu amigo Eduardo Coelho a patriotica ideia +de os fazer ingerir suavemente, em pequenas doses, com toda a prudencia, pelo +publico.</p> + +<p>Entregou este processo therapeutico a um seu intelligentissimo +collaborador o sr. Leite Bastos.</p> + +<p>Durante muitos dias o <i>Diario de Noticias</i> extractou brilhantemente +aquelles documentos. Liam-se cousas medonhas e absurdas alli: concussões +d'auctoridade, cruesas das leis, gritos d'infelizes, infamias de +contractadores de colonias, etc. etc.</p> + +<p>Os emproados collegas da politica militante conservaram-se mudos e +indifferentes.</p> + +<p>E toda a gente achou massador o <i>Diario de Noticias</i>!</p> + +<p><i>Ditosa condição, ditosa gente.</i></p> + +<p>Como agora toda a gente acha impertinente o sr. Pércheiro.</p> + +<p>Que, diga-se a verdade, o sr. Pércheiro tem umas certas culpas.<span +class="pagenum"><a id="pag_363" name="pag_363">[363]</a></span></p> + +<p>Se é impertinente ou não, importa-me pouco.</p> + +<p>O que eu queria, era que sr. disciplinasse melhor pelo estudo detido, pela +serena observação da realidade contemporanea, pela modesta revisão dos +elementos de critica e de sciencia que o assumpto exige, as suas aptidões e a +sua propaganda.</p> + +<p>O sr. Pércheiro é todo paixão. Não se domina; não tempera a tensão +violenta e absorvente a que os seus sentimentos certamente generosos, em +revolta contra as miserias e vergonhas do dia, lhe arrastam a intelligencia e +a palavra.</p> + +<p>Esta invasão das faculdades reflexivas pelo tumulto das paixões, ou pela +excitação absorvente do sentimento da propria personalidade, perde muitas +intelligencias e muitas propagandas boas. Quem propaga, lucta, e quem lucta +precisa não dar aos adversarios o flanco do amor proprio para que elles o +irritem e desnorteem.</p> + +<p>Para tudo é preciso n'esta vida uma pouca de diplomacia.</p> + +<p>Não a diplomacia hypocrita, mas a diplomacia do senso real das cousas.</p> + +<p>Vamos porem ao drama.</p> + +<p>Intitula-se os <i>Aventureiros</i>, e, agrupando certos episodios—e +certos caracteres, que pódem dizer-se descolados da lenda sinistra do +recrutamento de colonos e da negociação e exploração d'elles, procura e póde +affoitamente dizer-se que consegue imprimir nos espiritos dos ouvintes o +quanto essa lenda tem de monstruosa e cruelissima realidade.</p> + +<p>Dadas as premissas, e essas são attestadas pelos processos d'esse +recrutamento e pela mais rudimentar observação d'elles, as conclusões saltam +expontaneas e irrecusaveis.</p> + +<p>Francamente, o drama lido pelo sr. Pércheiro no theatro de D. Maria +excedeu a espectativa mais exigente. Ha scenas vigorosamente traçadas; +formosos caracteres; insinuações dramaticas e scenicas muito habeis e +valentes que podia não se esperar d'um principiante. A peça tem um tom geral +de verdade sentida e de consciencia fartamente revolta, que se impõe facil e +despretenciosamente.</p> + +<p>Tem varios defeitos: está claro. Precisa certas correcções, +indiscutivelmente.</p> + +<p>Ha arestas sumidas que é necessario avivar; traços que convém acentuar +melhor; quadros que devem retocar-se severamente ou para apagar asperesas ou +para remodelar figuras importantes que se apagam e escondem, no +desenvolvimento da acção. Esta não está firme e segura. Affrouxa aqui ou ali, +denuncia-se prematuramente além; quebra-se n'um ou n'outro ponto.</p> + +<p>O sr. Pércheiro não é um escriptor feito e largamente educado<span +class="pagenum"><a id="pag_364" name="pag_364">[364]</a></span> pelo estudo, +pela leitura e pela experiencia nos segredos e exigencias da arte.</p> + +<p>Não é um litterato. A fórma resente-se, mas antes fique no que é do que se +lance em artificios triviaes. Em summa, o drama é viavel e a estreia +auspiciosa.</p> + +<p>«Ha de dar dinheiro», que é o criterio supremo dos empresarios, e ha de +dal-o sem ser uma exploração de escandalos obscenos; sendo uma obra de +intenções discutiveis na doutrina, mas incontestavelmente honestas e +sympathicas na inspiração. Eu sou tanto mais insuspeito n'este juizo ao +correr da penna e ao impulso das impressões primeiras, que não gosto de +dramas de propaganda, porque a paixão da propaganda vicia e supplanta a +verdade do drama, isto é a verdade da arte.</p> + +<p>A arte não é tribuna. É altar ou é throno. Não discute; cria.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>Commercio Portuguez</i>, de 22 de dezembro.)</p> + +<p style="text-align:right;"><i>Fernão Vaz.</i></p> + +<p> </p> + +<p>Examinemos.</p> + +<p> </p> + +<p>A respeito da emigração diz o critico, que «a these é delicada, perigosa, +irritante. Levada até á condemnação geral da emigração, é uma vasta, uma +complexa, uma difficilima these.»</p> + +<p> </p> + +<p>E accrescenta:</p> + +<p> </p> + +<p>«A questão da emigração prende-se a uma infinidade dos mais elevados +problemas das sciencias economicas e da philosophia politica.»</p> + +<p> </p> + +<p>Agora vejamos o que elle diz a respeito do drama:</p> + +<p> </p> + +<p>«Francamente, o drama lido pelo sr. Gomes Pércheiro excedeu a espectativa +mais exigente. Ha scenas vigorosamente traçadas; famosos caracteres; +insinuações dramaticas e scenas muito habeis e valentes que podia não se +esperar d'um principiante. A peça tem um tom geral de verdade sentida e +consciencia fartamente revolta, que se impõe facil e despertenciosamente.»</p> + +<p> </p> + +<p>Se se attender a laudatoria que ahi deixamos transcripta, vê-se que nós +comprehendemos o papel que o acaso nos distribuira para bem tratarmos <i>a +vasta, complexa e difficilima these que se prende a uma infinidade dos mais +elevados problemas das sciencias economicas e da philosophia politica</i>. +Pela logica racional do critico ninguem pode chegar a colher estes resultados +(do drama?) sem estudar muito e muito.<span class="pagenum"><a id="pag_365" +name="pag_365">[365]</a></span></p> + +<p>Nós sabemos isto melhor do que o sr. Fernão Vaz; permitta-nos a +franqueza... e se quizer, a jactancia.</p> + +<p>Mas se é claro que para produzir um trabalho que <i>excedeu a expectativa +mais exigente</i>, foi preciso empregar o estudo, para que é dizer, «que era +preciso que nós disciplinassemos melhor pelo estudo detido, pela serena +observação da realidade contemporanea, pela modesta revisão dos elementos da +critica e da sciencia que o assumpto exige» as nossas aptidões e a nossa +propaganda?!</p> + +<p>Se o drama <i>Os Aventureiros</i> é tudo quanto o sr. Fernão Vaz diz—uma +cousa por ahi alem—um conjuncto de tanta cousa boa, <i>que só se obtem</i> +pelo largo estudo; para que vem dizer-nos:—o sr. Pércheiro não é um +escriptor feito e largamente educado pelo estudo?</p> + +<p>O que faz o homem largamente educado pelo estudo?</p> + +<p>Faz pilulas e... critica como a costuma fazer o sr. Fernão Vaz.</p> + +<p>Vamos dar logar á critica de um moderno Juvenal, e reservar-nos-hemos para +dizermos alguma cousa a respeito do Altar-throno, da arte e da tribuna.</p> + +<p>Falla o critico ao sr. Vaz:</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<h3>Fernão Vaz e o drama de Gomes Pércheiro</h3> + +<p>Hoje, quinta feira, dia do <i>high-life</i>, abro a minha sala humilde, +ignorada—sala <i>au rez-de-la-chaussée</i>, está dito tudo,—para cavaquear +com os meus amigos.</p> + +<p>—Já leste um folhetim de Fernão Vaz? perguntou-me um amigo velho.</p> + +<p>—Ainda não.</p> + +<p>—Pois lê; e deu-me uma folha portuense.</p> + +<p>—Isto é <i>porto</i>, disse eu.</p> + +<p>—Pois enganas-te de meio a meio.</p> + +<p>Torno a ler o nome do jornal, soletro-o ao meu amigo, e insisto—é +<i>porto</i>,—já te disse.</p> + +<p>—Já vejo que tens o paladar estragado, retorquiu-me,—isso não é +<i>porto</i> é <i>mata ratos</i> d'esse que se vende, a toda a hora, na +cidade do burrié e da fava torrada.</p> + +<p>Como o tal meu amigo tem uma linguinha de prata, calei-me e li o folhetim +de cabo a rabo ou, como diria o meu mestre de latim, <i>ab initio ad finem +usque</i>.</p> + +<p>—Que tal?<span class="pagenum"><a id="pag_366" +name="pag_366">[366]</a></span></p> + +<p>Eu que queria desviar qualquer conversa desagradavel ao sr. Fernão Vaz, +respondi-lhe: a folha é bem escripta.</p> + +<p>—Não te faças Ignez d'horta; que a folha é bem escripta sei eu—tracta-se +do folhetim.—Aposto que não sabes de quem me lembrei, quando li essa +estopada folhetinista? D'Antonio Feliciano de Castilho.</p> + +<p>—Ahi vaes tu desenterrar um morto. A que vem Castilho, quando se tracta +d'um folhetim?</p> + +<p>—A que vem!? eu t'o digo.—Um dia, certo jornalista fallava, diante +d'esse cego que via mais que todos os videntes, de um litteratiço como muitos +que por ahi enxameiam a cada canto, e, fiel ás leis do elogio mutuo, dizia +todo ancho: Fulano é inquestionavelmente um moço de merecimento, é o <i>Janin +portuguez</i>. Castilho, que era dotado d'aquelle espirito mordaz que todos +lhe conheciamos, com um surriso epigrammatico, volta-se para o tagarella e +pespega-lhe com esta nas bochechas: «Tem razão; fulano é um moço de +esperanças, é o <i>já-nem portuguez</i>.» Agora applico: o folhetim de que +tanto gostas ou finges gostar, é uma desinteria palavrosa e nada mais.</p> + +<p>Ao ouvir taes cousas, confesso: <i>vox faucibus haesit</i>. Tive medo: +metti a viola no sacco e deixei-o fallar.</p> + +<p>—O teu homemsinho dá quatro piparotes na grammatica; faz quatro figas ao +senso commum e não te conto nada. Falla-nos em estudos sociologicos, nos mais +elevados problemas das sciencias economicas e da philosophia politica, +atira-nos á cara com Baudrillat, que nunca viu; com Garnier, que não conhece +e passa carta de tolo a tudo que é portuguez.</p> + +<p>Vendo que a indignação do meu amigo subia n'um <i>crescendo</i> +vertiginoso, não me atrevi a interrompel-o.</p> + +<p>—Gomes Pércheiro, rapaz sympathico e estudioso, cujos sentimentos +patrioticos ninguem póde contestar, que em assumptos sobre emigração é—um +especialista—tem escripto muito e muito bem e ultimamente fez um drama, ou +antes um cauterio para curar a chaga da emigração. Queres agora saber o que +diz o tal folhetinista? «O sr. Pércheiro, porém, tem-se contentado com o +esforço de lançar <i>alguma luz</i> ácerca do que é a emigração.» Isto não se +tolera. Pois um homem que, no dizer do teu folhetinista, «viu as cousas de +perto; <i>teve occasião de as ver</i>» (que novidade! viu porque teve +occasião) «e não se tem <i>cansado</i> de nos dizer o que viu» só lança +<i>alguma luz</i>? Que me dizes?</p> + +<p>—Que tens uma linguinha...</p> + +<p>—Eu tenho linguinha?... Ouve: o teu homem, depois de fazer os seus +salamaleques aos redactores do <i>Diario de Noticias</i>, á conta do tal +elogio mutuo, sae-se com esta: «Que, diga-se a verdade, o sr. Pércheiro tem +umas certas culpas.» Pois o Pércheiro<span class="pagenum"><a id="pag_367" +name="pag_367">[367]</a></span> tem culpa das <i>concussões d'auctoridade, +cruezas das leis, gritos d'infelizes, infamias de contractadores de +colonos</i>, de que falla o citado auctor?!</p> + +<p>—Mas que tenho eu com isso?</p> + +<p>—Não me interrompas; ouve até ao fim.—O aristarco, depois de dizer que +Pércheiro é todo paixão e de lhe dar a entender que tem uma grande dóse +d'amor proprio, falla na <i>diplomacia do senso real das +cousas</i>—palavrões que ninguem percebe—e diz: «Vamos ao drama. +Intitula-se os <i>Aventureiros</i>, e agrupando... certos caracteres, que +podem dizer-se descolados da lenda sinistra de recrutamento de colonos, +etc.»—Como não assististe á leitura do drama, quero dar-te uma ideia dos +<i>caracteres descolados</i>—Um abbade que préga contra a emigração; o +sobrinho que arranca da porta da egreja um annuncio pomposo, convidando os +pobres camponezes a abandonarem a patria e o lar; um celebre commendador +<i>Manquitó</i>, typo repugnante que negoceia em escravatura branca; uma +mulher infame que seduz com mentidas promessas inexperientes donzellas, +fazendo-lhes ver um futuro brilhante longe dos seus e da terra que lhes foi +berço, etc. etc.; eis os personagens que preparam o entrecho do drama, que +lhe servem de prologo: chamar a estes personagens <i>caracteres +descolados</i> é caso para estourar de riso!</p> + +<p>«Francamente, continúa o crítico, o drama lido pelo sr. Pércheiro, +<i>excedeu</i> a expectativa mais <i>exigente</i>. Ha scenas vigorosamente +traçadas, formosos caracteres... tem varios defeitos: está claro.» Não me +dirás porque está claro? perguntou-me o meu amigo.</p> + +<p>—Porque vae rompendo a manhã, respondi-lhe eu.</p> + +<p>—Não zombes: já ouviste que o drama excedeu a expectativa mais exigente, +pois agora ouve lá esta: «O sr. Pércheiro não é um escriptor feito e +largamente educado pelo estudo, pela leitura e pela experiencia, nos segredos +e exigencias da arte.» Se isto não é um desconchavo, não ha desconchavos no +mundo.</p> + +<p><i>Simul esse et non esse!</i>—<i>To be and not be!</i> «Em summa» nota +bem, «o drama é viavel» quer dizer, atura-se «ha-de dar dinheiro... sem ser +uma exploração de escandalos obscenos.» O que aqui vae! Agora vaes ver o +gosto do critico: «Não gosto de dramas de propaganda, porque a paixão da +propaganda vicia e suplanta a verdade do drama.» Se o theatro não é +propaganda; se a rir, ou mesmo a chorar, não se castigam na scena os +costumes, não se infiltra o sentimento do bem e do amor da patria, etc., de +que serve o theatro?</p> + +<p><i>Finis coronat opus</i> e regista mais esta: «A arte não é tribuna. É +altar ou é throno. Não discute; cria.»</p> + +<p>Entendeste? Nem eu.<span class="pagenum"><a id="pag_368" +name="pag_368">[368]</a></span></p> + +<p>E, pegando no chapéu, retirou-se aquelle zoilo da gloria critica do sr. +Fernão Vaz e eu fui-me deitar.</p> + +<p> </p> + +<p>(A <i>Nação</i> de 10 de janeiro.)</p> + +<p style="text-align:right;"><i>Fulano d'Anzoes.</i></p> + +<p>O sr. Fulano d'Anzoes, parece que não comprehendeu a significação do +dito—<i>diplomacia do senso real das cousas.</i></p> + +<p>Nós lh'o explicamos.</p> + +<p>O sr. Fernão Vaz, como o sr. d'Anzoes terá reparado, ama a Deus e ao démo. +O Deus que o sr. Vaz ama é uma <i>troup</i> de... nem nós sabemos como a +havemos de qualifical-a...</p> + +<p>No baixo imperio romano houve uns sujeitos que á emitação dos grandes +mestres, tambem faziam em publico, nos saraus <i>litterarios</i>, as suas +leituras de coisas, abórtos de rethorica e adjectivos, sem arte, sem súco +algum.</p> + +<p>A estes sujeitos chamavam palhaços ou pantomimos da litteratura do tempo. +Na actualidade, em Portugal, tambem ha d'isto. È este o Deus que o sr. Fernão +Vaz adora; porque é este que faz o reclame á <i>proficiencia</i>, á +<i>capacidade</i> ou ao <i>intellecto</i> dos proselytos da <i>troup</i>.</p> + +<p>O démo somos nós, que nos orgulhamos de não pertencer á tal... tropa; e +ella... a tropa faz-nos a pirraça de nos não querer lá, por causa das +<i>nossas culpas</i> e das <i>nossas impertinencias</i>... de que ainda não +começamos a penitenciar-nos nem nos penitenciaremos.</p> + +<p>Mas por que, pertencendo Fernão á tal <i>troup</i>, nos diz que o nosso +drama <i>escedeu a espectativa mais exigente</i>? Pela mesma razão que diz +que não <i>somos litterato</i>, que o nosso drama <i>tem defeitos</i>, que +elle é <i>viavel</i>, (assim como quem não quer a cousa) e que elle +finalmente, <i>ha de dar dinheiro</i>, assim como poude dar... a <i>Filha da +senhora Angot</i> e quejandos.</p> + +<p>Chama-se a isto acender uma vela a Deus e outra ao démo, ou mais +claro:—chama-se a isto a <i>diplomacia do senso real das cousas</i>!</p> + +<p>Nós desculpamos o sr. Fernão Vaz. Não se cria popularidade impunemente. +Fallar assim do nosso drama e a proposito d'elle (sic) dirigir dois ou trez +salamaleques ao seu amigo Eduardo, que por causa de uma tola popularidade +embirra com as <i>Questões do Pará</i>, <i>Coisas Brazileiras</i>, +<i>Commendador e Barão</i>, <i>Questão dos Chouriços</i> ou <i>photographias +politicas</i> e outras obras que custam dinheiro e que o tal coisa costuma +receber e não pagar com uma simples cortezia jornalistica, assim como embirra +com os pobres <i>Aventureiros</i>; fallar assim, repetimos, perante a +<i>troup</i> dos <i>réclames</i> e de mais a mais n'um jornal, cujos +fundadores vivem,<span class="pagenum"><a id="pag_369" +name="pag_369">[369]</a></span> mais ou menos, interessados no commercio da +escravatura branca, é conveniente, é contemporisar com a cousa, e quem não +contemporisar hoje em dia não apanha popularidade e não fica sabendo o que +seja—<i>diplomacia do senso real das cousas</i>.</p> + +<p>O sr. Fulano d'Anzoes faz uma offensa ao sr. Fernão Vaz, quando lhe põe em +duvida a vastidão dos seus conhecimentos economicos e o seu contacto com +Baudrillat e outros economistas, não esquecendo Montesquieu, Say, Smith, Otho +e... e Garnier, tudo lá de fóra. É injusto, porque o dono do pseudonimo +Fernão Vaz está em contacto com a commissão de economistas, nomeada ha pouco +pelo sr. Carlos Bento... cá de dentro!</p> + +<p>Punhamos ponto final na questão, tratada da nossa parte com simplicidade, +isto é, pobresinha de estylo, de rethoricas e de adejectivos; mas antes +d'isso façamos uma pergunta ao sr. Vaz, sobre o que entende elle por +<i>theatro altar</i> e <i>theatro tribuna</i>? isto é, qual a conveniencia de +um e a inconveniencia do outro, no templo, que pode admittir uma e outra +cousa, sem prejuiso da arte?</p> + +<p>Os homens que <i>estudam</i> lá fóra, e que, com a <i>sua sciencia</i> +desejam resolver este problema complexo, não fixam as suas largas vistas +n'uma sociedade que desconhecem, por exemplo, na nossa. Estudam o meio em que +vivem e por elle <i>fazem</i> obra. Victor Hugo leva ao <i>altar</i> do +theatro o seu Ruy Blaz, para que o adorem; e Alexandre Dumas filho manda a +sua Margarida Gauthier para a <i>tribuna</i> do theatro prégar ás turbas a +regeneração da mulher.</p> + +<p>Ambos estes <i>vultos da sciencia</i> podiam ter dito:</p> + +<p>Victor Hugo:—o publico francez tem escollas em abundancia, onde aprende a +ler, para depois vir cá fóra beber a moral nos milhares de livros que nós +escrevemos. O theatro deve ser <i>altar</i> e não <i>tribuna</i>. Dumas +replicaria:—a instrucção não chegou ainda onde devia chegar; mas ainda que +chegasse, o livro não convence tanto como a tribuna (esteja ella aonde +estiver), isto é, como a palavra fallada. Assim pois regeneremos a sociedade +no theatro, façamos do theatro <i>tribuna</i>.</p> + +<p>O sr. Fernão Vaz <i>estudou</i> o meio em que vive ou <i>estudou</i> o +meio em que vivem Hugo, Dumas e outros?</p> + +<p>Se estudou o nosso meio encontra uma sociedade que não sabe cousa alguma, +por que não sabe ler, e a quem não sabe ler diz-se-lhe <i>por todas as +fórmas, com a palavra fallada</i>, o que é necessario que ella aprenda; isto +emquanto a nossa sociedade não souber o A B C e mais alguma cousa. É verdade +que ainda depois encontrará a opinião dos mais sensatos, dos <i>mestres</i>, +a dizer sempre:—<i>o theatro deve ser tribuna</i>.</p> + +<p>Mas nós não queremos tal exclusivismo: assim pois, que o theatro <i>seja +templo</i> onde haja <i>tribuna</i> e <i>altar</i>.<span class="pagenum"><a +id="pag_370" name="pag_370">[370]</a></span></p> + +<h2><a id="nota4" name="nota4">N.º 4</a></h2> + +<h3>Lei brazileira n.º 108 de 11 de outubro de 1837, dando varias +providencias sobre os contratos de locação de serviços dos colonos</h3> + +<p>O Regente interino em nome do Imperador, o senhor D. Pedro II, faz saber a +todos os subditos do imperio que a assembléa geral legislativa decretou e +elle sanccionou a lei seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>A<small>RTIGO</small> 1.º—O contrato de locação de serviços celebrado no +imperio ou fóra, para se verificar dentro d'elle, pelo qual algum estrangeiro +se obrigar como locador, só póde provar-se por escripto se o ajuste fôr +tratado com interferencia de alguma sociedade de colonisação reconhecida pelo +governo no municipio da côrte, e pelos presidentes nas provincias. Os titulos +por ellas passados, e as certidões extrahidas dos seus livros terão fé +publica para prova do contrato.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 2.º—Sendo os estrangeiros menores de vinte um annos +perfeitos, que não tenham presentes seus paes, tutores ou curadores, com os +quaes se possa validamente tratar, serão os contratos auctorisados, pena de +nullidade, com assistencia de um curador, o qual será igualmente ouvido em +todas as duvidas e acções que dos mesmos contratos se originarem, e em que +algum locador menor fôr parte, debaixo da expressada pena.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 3.º—Para este fim em todos os municipios onde houver +sociedades de colonisação haverá um curador geral dos colonos, nomeado pelo +governo na côrte e pelos presidentes nas provincias, sob proposta das mesas +da direcção das mesmas sociedades.</p> + +<p>Nos outros municipios servirão os curadores geraes dos orphãos. Nas +faltas, ou impedimentos de uns e outros, nomearão as sobreditas mesas de +direcção para auctorisação dos contratos e os juizes respectivos para os +casos das acções que se moverem, pessoa idonea que o substitua.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 4.º—Não apresentando os menores documento legal da +sua idade será esta estimada no acto do contrato á vista da que elles +declararem e parecer que podem ter, e ainda que depois o apresentem este não +valerá para annullar o contrato, mas se estará pela idade que no acto d'este +se houver estimado para os effeitos sómente da validade do mesmo +contrato.<span class="pagenum"><a id="pag_371" +name="pag_371">[371]</a></span></p> + +<p>A<small>RT.</small> 5.º—É livre aos estrangeiros de maior idade ajustarem +seus serviços pelos annos que bem lhes parecerem, mas os menores não poderão +contratar-se por tempo que exceda á sua menoridade, excepto se fôr necessario +que se obriguem por maior praso para indemnisação das despezas com elles +feitas, ou se forem condemnados a servir por mais tempo em pena de terem +faltado ás condições do contrato.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 6.º—Em todos os contratos de locação de serviços, que +se celebrarem com os mesmos menores, se designará a parte da soldada que +elles devam receber para suas despezas, que não poderá nunca exceder da +metade: a outra parte, depois de satisfeitas quaesquer quantias adiantadas +pelo locatario, ficará guardada em deposito na mão d'este, se fôr pessoa +notoriamente abonada, ou não sendo, prestará fiança idonea para ser entregue +ao menor, logo que acabar o tempo de serviço a que estiver obrigado, e houver +saido da menoridade. Fóra d'estes casos será recolhido no cofre dos orphãos +do municipio respectivo.</p> + +<p>Nos municipios onde houver sociedades de colonisação reconhecidas pelo +governo, serão taes dinheiros guardados nos cofres das mesmas sociedades.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 7.º—O locatario de serviços que, sem justa causa, +despedir o locador antes de se findar o tempo por que o tomou, pagar-lhe-ha +todas as soldadas, que devêra ganhar, se o não despedira. Será justa causa +para a despedida:</p> + +<p>1.º Doença do locador, por fórma que fique impossibilitado de continuar a +prestar os serviços para que fôr ajustado;</p> + +<p>2.º Condemnação do locador á pena de prisão, ou qualquer outra que o +impeça de prestar serviço;</p> + +<p>3.º Embriaguez habitual do mesmo;</p> + +<p>4.º Injuria feita pelo locador á dignidade, honra, ou fazenda do +locatario, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;</p> + +<p>5.º Se o locador, tendo-se ajustado para o serviço determinado, se mostrar +imperito no desempenho do mesmo serviço.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 8.º—Nos casos do n.º 1.º e 2.º do artigo antecedente, +o locador despedido, logo que cesse de prestar o serviço, será obrigado a +indemnisar o locatario da quantia que lhe dever. Em todos os outros +pagar-lhe-ha tudo quanto dever, e se não pagar logo, será immediatamente +preso e condemnado a trabalhar nas obras publicas por todo o tempo que fôr +necessario, até satisfazer com o producto liquido de seus jornaes tudo quanto +dever ao locatario, comprehendidas as custas a que tiver dado causa.</p> + +<p>Não havendo obras publicas, em que possa ser admittido a trabalhar por +jornal, será condemnado a prisão com trabalho, por todo o tempo que faltar +para completar o do seu contrato: não podendo todavia a condemnação exceder a +dois annos.<span class="pagenum"><a id="pag_372" +name="pag_372">[372]</a></span></p> + +<p>A<small>RT.</small> 9.º—O locador, que, sem justa causa, se despedir, ou +ausentar antes de completar o tempo do contrato, será preso onde quer que fôr +achado, e não será solto emquanto não pagar em dobro tudo quanto dever ao +locatario, com abatimento das soldadas vencidas: se não tiver com que pagar, +servirá ao locatario de graça todo o tempo que faltar para o complemento do +contrato. Se tornar a ausentar-se será preso e condemnado na conformidade do +artigo antecedente.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 10.º—Será causa justa para rescisão do contrato por +parte do locador:</p> + +<p>1.º Faltando o locatario ao cumprimento das condições estipuladas no +contrato;</p> + +<p>2.º Se o mesmo fizer algum ferimento na pessoa do locador, ou o injuriar +na honra de sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;</p> + +<p>3.º Exigindo o locatario, do locador, serviços não comprehendidos no +contrato.</p> + +<p>Rescindindo-se o contrato por alguma das tres sobreditas causas, o locador +não será obrigado a pagar ao locatario qualquer quantia de que possa ser-lhe +devedor.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 11.º—O locatario, findo o tempo do contrato, ou antes +rescindindo-se este por justa causa, é obrigado a dar ao locador um attestado +de que está quite do seu serviço; se recusar passal-o será compellido a +fazel-o pelo juiz de paz do districto. A falta d'este titulo será rasão +sufficiente para presumir-se de que o locador se ausentou indevidamente.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 12.º—Toda a pessoa que admittir, ou consentir em sua +casa, fazendas ou estabelecimentos, algum estrangeiro, obrigado a outrem por +contrato de locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador +lhe dever, e não será admittido a allegar qualquer defeza em juizo, sem +depositar a quantia a que fica obrigado, competindo-lhe o direito de havel-a +do locador.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 13.º—Se alguem alliciar para si indirectamente, ou +por interposta pessoa, algum estrangeiro obrigado a outrem por contrato de +locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador lhe fôr +devedor, com todas as despezas e custas a que tiver dado causa; não sendo +admittido em juizo a allegar sua defeza sem deposito. Se não depositar, e não +tiver bens, será logo preso e condemnado a trabalhar nas obras publicas por +todo o tempo que fôr necessario, até satisfazer ao locatario com o producto +liquido dos seus jornaes. Não havendo obras publicas em que possa ser +empregado a jornal, será condemnado a prisão com trabalho por dois mezes a um +anno.</p> + +<p>Os que alliciarem para outrem, serão condemnados a prisão com trabalho, +por todo o tempo que faltar para cumprimento<span class="pagenum"><a +id="pag_373" name="pag_373">[373]</a></span> do contrato do alliciado, com +tanto porém que a condemnação nunca seja por menos de seis mezes, nem exceda +a dois annos.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 14.º—O conhecimento de todas as acções derivadas dos +contratos de locação de serviços, celebrados na conformidade da presente lei, +será da privativa competencia dos juizes de paz do fôro do locatario, que as +decidirão summariamente em audiencia geral, ou particular para o caso, sem +outra fórma regular de processo, que não seja a indispensavelmente necessaria +para que as partes possam allegar, e provar em termo breve o seu direito; +admittindo a decisão por arbitros na sua presença, quando alguma das partes a +requerer, ou elles a julgarem necessaria por não serem liquidas as provas.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 15.º—Das sentenças dos juizes de paz haverá +unicamente recurso de appellação para o juiz de direito respectivo. Onde +houver mais de um juiz de direito, o recurso será para o da primeira vara, e +na falta d'este para o da segunda, e successivamente para os que se +seguirem.</p> + +<p>O de revista só terá logar n'aquelles casos, em que os reus forem +condemnados a trabalhos nas obras publicas para indemnisação dos locatarios, +ou a prisão com trabalho.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 16.º—Nenhuma acção derivada de locação de serviços +será admittida em juizo, se não fôr logo acompanhada do titulo do contrato. +Se fôr de petição de soldadas, o locatario não será ouvido, sem que tenha +depositado a quantia pedida, a qual todavia não será entregue ao locador, +ainda mesmo que preste fiança, senão depois de sentença passada em +julgado.</p> + +<p>A<small>RT.</small> 17.º—Ficam revogadas as leis em contrario.</p> + +<p>Mando portanto a todas as auctoridades, a quem o conhecimento e execução +da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão +inteiramente como n'ella se contém. O secretario d'estado dos negocios da +justiça, encarregado interinamente dos do imperio, a faça imprimir, publicar +e correr. Dada no palacio do Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1837, 16.º +da independencia do imperio.—<i>Pedro de Araujo Lima</i>—<i>Bernardo +Pereira de Vasconcellos</i>.</p> + +<h2><a id="nota5" name="nota5">N.º 5</a></h2> + +<p>Não podem ir n'este logar as cartas que publicámos no <i>Jornal da +Noite</i>; porque a questão que alli tratámos está pendente ainda do +tribunal. Brevemente as publicaremos em opusculo ou nas notas ao drama os +<i>Aventureiros</i>, visto que parte do assumpto das mesmas são a base de um +episodio que no mesmo drama romantisámos.<span class="pagenum"><a +id="pag_374" name="pag_374">[374]</a></span></p> + +<h2><a id="nota6" name="nota6">N.º 6</a></h2> + +<h3>Portaria-circular de 10 de agosto de 1870</h3> + +<p>Sua magestade El-Rei viu o officio do governador civil de Lisboa, de 12 de +julho ultimo, acompanhando as informações do delegado de policia do porto de +Lisboa e differentes documentos com relação ás transgressões dos preceitos da +lei de 20 de julho de 1855, que se dizem praticadas por José Maria Gavião +Peixoto.</p> + +<p>E sendo-lhe tambem presentes os requerimentos em que o referido José Maria +Gavião Peixoto pretende mostrar, que a rejeição no governo civil dos +contratos por elle celebrados com subditos portuguezes por serviços de +locação, não só é injusta, mas ainda prejudicial aos seus interesses:</p> + +<p>Houve por bem mandar declarar ao governador civil que não ha motivo +sufficiente para rejeitar os contratos celebrados nos termos dos que remetteu +por copia no seu indicado officio, pois que n'esses documentos se acham em +geral satisfeitas as prescripções das leis e regulamentos de policia, e nos +pontos em que d'elles se afastam, não se contrariam o intuito das leis +represivas da emigração; que cumpre ter muito em vista, que a pretexto de +fiscalisação dos contratos e da proteção aos contratados se não tolha a +liberdade individual garantida pelas leis de cada um poder dispor de sua +pessoa e bens conforme lhe aprouver; e que do rigor exagerado na fiscalisação +póde resultar o que os factos acabam de mostrar, o empenho e cuidado de +illudir a lei e os regulamentos policiaes, fazendo-se passar como simples +passageiros ou emigrantes os que na realidade são contratados, circumstancias +estas que nem sempre será facil descobrir, porque nem todos os contratados +terão a sinceridade de confessar a transgressão como succedeu com os +individuos que se dirigiam para o Brazil no vapor <i>Talisman</i>, que foram +detidos pelo delegado de policia do porto de Lisboa; e finalmente, que sendo +de reconhecida conveniencia que o governo saiba por informações officiaes +quem sejam os proprietarios no imperio do Brazil que melhor cumpram os seus +contratos e mais vantagens offereçam aos colonos, a fim de se usar de mais ou +menos rigor, segundo as informações e circumstancias aconselharem, por este +ministerio se vae solicitar do dos negocios estrangeiros a expedição das +ordens necessarias aos agentes consulares no referido imperio,<span +class="pagenum"><a id="pag_375" name="pag_375">[375]</a></span> a fim de +prestarem por esta secretaria informações periodicas e escrupulosas sobre +este importante assumpto.</p> + +<p> </p> + +<p>Paço, em 10 de agosto de 1870.==<i>José Dias Ferreira.</i></p> + +<h2><a id="nota7" name="nota7">N.º 7</a></h2> + +<p>«<i>Cidade de Goyanna.</i>—Consta que nos dias 1 e 2 do corrente fôra +distribuido na cidade de Goyanna um manifesto chamando os goyannenses ás +armas, para expellirem os subditos portuguezes alli domiciliados.»</p> + +<p style="text-align:right;">(Redacção do <i>Jornal do Recife</i>.)</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>«É assombroso o caracter de que se revestem os negocios da Goyanna contra +os portuguezes ali estabelecidos. Já não é o cacête, nem o punhal, nem o +chumbo, nem a garrafa as armas d'estes reis que tentam, procurando por este +motivo, saquear os seus estabelecimentos, são ainda mais incendiarios, +incendiarios sim, porque assim o fizeram no estabelecimento do portuguez +Antonio Garcia, trazendo d'este modo a perturbação e a confusão ao seio das +familias.</p> + +<p>«Tudo annuncia funestas consequencias e estes brazileiros, vis algozes da +honra e esbanjadores da fortuna alheia, nem ao menos respeitam as suas +patricias, a quem esses portuguezes juraram perante o altar de Deus ser seus +esposos, nem aos filhos d'estes, brazileiros legitimos, querendo fazer de +seus esposos e paes, victimas da mais horrenda atrocidade.</p> + +<p>«Em breve armarão na praça publica o patibulo para onde, se o governo não +der promptamente energicas providencias, têem de subir os pacatos portuguezes +ali residentes, tornando-se isto delicias para os seus inimigos.</p> + +<p>«E o governo dirá, por mais que tenha sabido: Não tive noticias.</p> + +<p>«Ha bem pouco, foram pronunciados os auctores de taes attentados e estes +mesmos que se acham foragidos cruzam as ruas ao meio dia em ponto, porque +assim o governo quer.</p> + +<p>«O proprio jornal <i>Democrata</i>, que d'antes defendia a causa +portugueza, hoje á imposição de homens a quem o povo considera como chefes +d'estes motins, se converteu em pasquim, para, dilacerando as vestes da deusa +de Guttemberg, injuriar aos portuguezes.</p> + +<p>«Mizeria do Brazil! O aprecie o paíz estrangeiro.<span class="pagenum"><a +id="pag_376" name="pag_376">[376]</a></span></p> + +<p>«Hoje chega-nos a noticia de que nos dias 1 e 2 d'este mez soltaram fogo; +distribuiram um manifesto, chamando os goyannenses ás armas para expellir os +portuguezes, querendo repetir as barbaras scenas de 1872.</p> + +<p>«Triste estado!</p> + +<p>«Por ora ficaremos por aqui.»</p> + +<p style="text-align:right;"><em>Um amigo da familia.</em></p> + +<p>(No mesmo numero do <i>Jornal do Recife</i>.)<span class="pagenum"><a +id="pag_377" name="pag_377">[377]</a></span></p> + +<h1>QUESTÕES DO PARÁ</h1> + +<h2>(1875)<br> +CRITICA</h2> + +<h3>DIARIO ILLUSTRADO</h3> + +<p>«O nosso amigo o sr. D. A. Gomes Pércheiro, moço intelligentissimo, acaba +de chegar do Pará e vae, como testemunha presencial dos ultimos +acontecimentos que alli se têem passado, publicar um livro intitulado +<i>Questões do Pará</i>, que deve lançar muita luz sobre este assumpto, como +póde ver-se dos seguintes capitulos de que o livro se compõe:</p> + +<p>Verdades da Agencia Americana, sobre os acontecimentos do Pará em +1874.—Prova-se que o conego Manuel José de Sequeira Mendes é tribuno.—A +educação dos paraenses.—Verdades amargas sobre a educação.—Os tribunaes do +Pará.—Como são julgados os assassinos dos portuguezes.—O <i>Diario de +Belem</i>.—O chefe de policia do Pará.—A religião dos paraenses.—A +maçonaria.—O funccionalismo publico do Pará.—A salubridade e os medicos do +Pará.—Como os brazileiros tratam os colonos agricultores.</p> + +<p><i>Apendice</i>:—Relatorio do chefe de policia sobre os assassinatos de +Jurupary.—Inquerito das testemunhas.—Pronuncia dos assassinos dos +portuguezes.</p> + +<p>Acabamos de assistir á leitura d'este importantissimo trabalho e podemos +assegurar ao auctor que a sua publicação ha de ter um exito felicissimo.»</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>13 de abril.</i>)</p> + +<p> </p> + +<p>«A sociedade compõe-se, na sua maxima parte, de pobretões. É um principio +incontestavel, que eu quizera que não fosse o fim dos meus amigos.</p> + +<p>E os pobretões podem abrigar n'alma tantos desejos como os ricassos.</p> + +<p>Ha só um ponto em que necessariamente divergem d'aquelles. Se, desde que +Horacio versejou, sabemos que ninguem está contente<span class="pagenum"><a +id="pag_378" name="pag_378">[378]</a></span> com a sua sorte, o ponto de +divergencia salta a todos os olhos: o ricasso deseja soltar-se da riqueza; o +pobretão deseja prender-se n'ella.</p> + +<p>Outro gallo cantára a todos se <i>não ter onde cahir morto</i> assegurasse +a immortalidade; porém não ha tal; pódem todos não ter onde cahir mortos, mas +para esse fim, que é em verdade fim, o municipio não nega um pedaço de rua, o +amigo não recusa uma nesga de quintal, e o senhorio não furta quatro taboas +do sobrado que arrendou.</p> + +<p>Mas é sem duvida triste que um ser pensador venha ao mundo sem mais +propriedade do que o seu nariz.</p> + +<p>E louvor merece portanto qualquer esforço que elle empregue para alargar +essa propriedade; o que não quer dizer—alargar as ventas.</p> + +<p>Quando alguem pensa em empregar esse esforço, passa-lhe diante dos olhos, +em exhibição seductora, uma ala de sujeitos que estiveram alguns annos no +Brazil e trouxeram de lá mundos e fundos.</p> + +<p>Está logo despertado o desejo de partir para as terras de Santa Cruz.</p> + +<p>E o homem embarca.</p> + +<p>Diante está uma rota de 1:500 leguas, não é verdade? Embora.</p> + +<p>O navio que o conduz abalrôa com outro, a meio caminho; e o viajante tem a +sorte da faca de matto do sr. Raphael Zacharias da Costa. Tambem aqui ha uma +differença: as companhias de seguros deram pela faca 31:500$000 réis e não +darão 30 réis pelo ex-viajante, que só poderá tornar a fazer figura em algum +quadro de peça magica, ao lado de conchas e buzios. Nem se lhe póde desejar +«a terra lhe seja leve»!</p> + +<p>Não abalrôa o navio com outro, mas bate em um rochedo, e as consequencias +são as mesmas.</p> + +<p>Não succede nem uma nem outra coisa, mas um temporal varre o homem da +tolda da embarcação, e o resultado continúa a ser o mesmo. Só se alguma +baleia tiver a condescendencia que teve no Mediterraneo a de Jonas, e lhe +facultar o bandulho para o transportar durante tres dias; ou algum golfinho +tiver a amabilidade de o levar ás cabritas como succedeu a Melicerto nos +mares de Corintho.</p> + +<p>Vencem-se porém todos esses perigos, e o homem chega são como um pero ás +praias do novo mundo, que diga-se a verdade, é mais velho do que todos +nós.</p> + +<p>O espectaculo é para embasbacar. A natureza sorri. Ciciam as florestas. Os +papagaios seduzem-nos com as suas variegadas côres. E as araras!...</p> + +<p>O nosso ambicioso desembarca.<span class="pagenum"><a id="pag_379" +name="pag_379">[379]</a></span></p> + +<p>Trata elle da vida; ganha o dobro, o triplo, o quadrupulo do que podia +ganhar na Europa; e dispõe-se a amontoar dinheiro sobre dinheiro.</p> + +<p>O peior é que todos os que vivem têem necessidades. O estomago é +imperativo; e a pelle não lhe fica atraz. Aquelle manda que o encham, não com +o pomo da arvore da sciencia do bem e do mal, mas com um bife. A pelle +determina que a tapem, não com a folha da figueira, mas com um casaco. E no +Brazil todas as cousas tem um preço exagerado: exemplo—uma barbeadella +10$000 réis, um biscouto 10$000 réis, um cochicho 10$000 réis. Não ha preço +inferior. Este é o minimo, os outros são multiplos de 10$000 réis.</p> + +<p>Chega um dia e com o dia chega uma febre. Ali tudo tem côr; e essa febre é +amarella. E era uma vez um homem.</p> + +<p>Os castellos de fortuna baquearam. Os sonhos de riqueza abalaram.</p> + +<p>Succede com o arrojo emprehendedor o que succedeu, mal comparado, com +certo commerciante de ovos.</p> + +<p>Estava elle sentado no chão, tendo junto de si um cesto carregado de +exemplares do genero do seu commercio. Phantasiava, e dizia: «Vou vender +estes ovos e com o producto d'elles compro isto; duplico. Vendo depois isto e +compro aquillo; quadruplico. Vendo depois aquillo e compro aquell'outro; +octoplico o capital... Em tantos annos estou rico, tenho um grande +rendimento, moro em palacio, ando de carruagem, recebo zumbaias de toda a +gente, eu quero lá ouvir mais fallar em ovos!» Na força do seu enthusiasmo, e +no excesso do seu desprezo pelos ovos dá um encontrão no cesto, e lá se vae o +alicerce da sua futura grandeza! Nem poude aproveital-o em <i>omelette</i>, +porque não tinha lume e frigideira á mão.</p> + +<p>Mas consegue o pobre diabo, que foi tentar fortuna para a America, +resistir á febre amarella e ás febres de outras côres; e, com muitos +trabalhos, muitos sacrificios, muitas privações, chega a augmentar o seu +cabedal? Está do mesmo modo perdido.</p> + +<p>Se os fados o conduziram á provincia do Pará, atiram-lhe com os diplomas +de <i>marinheiro</i>, <i>galego</i>, <i>bicudo</i>, e <i>pé de boi</i>.</p> + +<p>Nas outras provincias é muito de suppôr que não haja menos liberalidade na +concessão d'estas mercês.</p> + +<p>Um livro intitulado <i>Questões do Pará</i>, publicado ha pouco pelo sr. +Gomes Pércheiro, instrue muito a este respeito.</p> + +<p>Ao stygma que se julga lançar nos portuguezes com aquelles nomes, +addicionam-se a nenhuma segurança da vida de cada um, a falta de protecção +das leis, e a indifferença dos poderes publicos para tudo o que é +portuguez.<span class="pagenum"><a id="pag_380" +name="pag_380">[380]</a></span></p> + +<p>Esquecem ali que é o nosso sangue que lhes gira nas veias!</p> + +<p>No Pará, ao sopro pestilento da <i>Tribuna</i>, movem-se os braços dos +assassinos e cravam o punhal no coração do artista honrado e do negociante +laborioso, que teve o seu berço em Portugal e foi áquellas paragens +contribuir para o progresso e engrandecimento do imperio brazileiro!</p> + +<p>E são de individuos que constituem a força publica, são de soldados, as +mais das vezes esses braços.</p> + +<p>É ali espancado um cidadão portuguez por cousa nenhuma.</p> + +<p>Não ha muito que um logista esteve ás portas da morte, porque não satisfez +a correr a um soldado a exigencia de um phosphoro para acender o cigarro.</p> + +<p>E mata-se um europeu no Pará por qualquer cousa.</p> + +<p>Ha tempos appareceu afogado em um rio um portuguez por nome Antonio. Não +se averiguou convenientemente a causa da sua morte. Houve entretanto processo +e o juiz d'elle saiu-se com a seguinte sentença:</p> + +<p>«Sendo a sentença do infeliz portuguez Antonio dada por um juiz superior a +todos os juizes, nenhum recurso existe mais; e por nada mais poder fazer, +condemno a todos que trabalharam no presente processo a pagar as custas em +<i>Padre Nossos</i> e <i>Ave Marias</i> por alma do finado, entrando n'este +numero eu, que já resei o meu, etc.»</p> + +<p>O governo do imperio deve olhar seriamente por este estado de cousas, para +que se não torne a dizer, como a respeito do Pará disse o jornal francez a +<i>Liberté</i>:—é necessario que a Europa volte a civilisar aquella parte do +Brazil.</p> + +<p>Á vista do exposto, vamos para o Brazil?</p> + +<p>Os que tiverem essa tentação, devem, antes de partir, lêr o livro do sr. +Gomes Pércheiro, que dá muito ensinamento.</p> + +<p>E se, depois de o lerem, não tiverem forças para fazer cruzes á tentação, +sua alma, sua palma!</p> + +<p>Podem ainda ter uma esperança—voltar á patria embalsamados.</p> + +<p style="text-align:right;">G<small>ASTÃO DA</small> +F<small>ONSECA</small></p> + +<p>(<i>Folhetim de 9 de junho de 1875</i>).</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>JORNAL DO PORTO</h3> + +<p>Já saiu á luz o livro do sr. Gomes Pércheiro intitulado <i>Questões do +Pará</i>, que ha tempos lhes annunciei.</p> + +<p>É um livro valioso para o conhecimento da importante questão de que se +occupa. Não é uma obra litteraria, e para o não<span class="pagenum"><a +id="pag_381" name="pag_381">[381]</a></span> ser, bastava o escassez do tempo +em que foi escripta, visto que o auctor tinha mais por empenho esclarecer a +questão do que primar pelo estylo.</p> + +<p>Comtudo estão colligidos esclarecimentos muito dignos de ser conhecidos e +estudados, e os que teem a peito saber a verdade dos factos deverão percorrer +aquellas paginas, escriptas uma ou outra vez com paixão, mas encerrando +muitas informações verdadeiras e interessantes.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>8 de maio</i>—<i>do correspondente</i>).</p> + +<p> </p> + +<p>Eis o titulo de um livro saído ultimamente dos prelos lisbonenses e do +qual é auctor o sr. Domingos Gomes Pércheiro.</p> + +<p>N'este livro procura o sr. Gomes Pércheiro narrar singela e +despretenciosamente os factos ainda não mui remotos, occorridos na provincia +do Pará e estigmatisados pela imprensa séria e imparcial no Brasil e +Portugal.</p> + +<p>O sr. Pércheiro, na sua qualidade de testemunha occular de muitos dos +factos compendiados no seu livro, adduz documentos e procura comproval-os com +transcripções feitas de varios periodicos paraenses. Derrama por este modo +muita luz sobre tão deploraveis occorrencias, tornando-se por essa +circunstancia muito interessante a sua leitura.</p> + +<p>Precede o citado livro uma extensa carta do sr. Ferreira Lobo, escriptor +lisbonense.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>2 de junho</i>).</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>DEMOCRACIA</h3> + +<p>Tem tido grande extracção o livro do sr. Domingos Gomes Pércheiro ácerca +das questões do Pará.</p> + +<p>De facto, n'aquelle excellente livro repleto de muitos conhecimentos e de +considerações do mais alto interesse social, a questão do Pará está +perfeitamente elucidada sob todos os pontos de vista.</p> + +<p>Quem lêr o livro ficará sabedor de todas as circunstancias que imprimiram +e ainda estão imprimindo n'aquella questão um caracter de generalidade, que +muito interessa, attendendo a que a colonia portugueza no Brazil é não só a +mais numerosa, mas a ella se prendem os destinos e o bem estar de muitas +familias e commercio de Portugal.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>24 de junho</i>).<span class="pagenum"><a id="pag_382" +name="pag_382">[382]</a></span></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>CAMPEÃO DAS PROVINCIAS</h3> + +<p>Esteve ante-hontem n'esta cidade, vindo do Porto em regresso para Lisboa o +sr. D. A. Gomes Pércheiro que fôra no Pará director da Agencia Americana, que +presenceara ali todos os attentados de que foram victimas os portuguezes, e +que muito conhecedor das circunstancias actuaes do imperio, procura desviar +d'ali a nossa emigração procurando encaminhal-a para a nova Africa, manancial +riquissimo de valiosos productos, mas descurado completamente do auxilio e +dos esforços dos governos.</p> + +<p>O serviço que o sr. Pércheiro está fazendo ao paiz é muito valioso, e +ninguem haverá ahi que o não considere devidamente. Sobre a obra do sr. +Pércheiro—<i>Questões do Pará</i>, publicaremos dentro de pouco o nosso +juizo.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>2 de junho</i>).</p> + +<p> </p> + +<p>Com esta epigraphe publicou o sr. D. A. Gomes Pércheiro um livro, narrando +os acontecimentos do Pará, e attribuindo-os em grande parte á inacção e +desmazello dos governos portuguez e brazileiro. Nota o auctor que é ainda +grave o estado da provincia, e que urge acudir-lhe com os antidotos +aconselhados pela experiencia, para que a enfermidade não ganhe forças e não +seja depois impossivel obstar a conflagração geral, que ali ameaça +rebentar.</p> + +<p>O sr. Pércheiro não faz só considerações sobre o flagello que assola o +Pará. Não se basea em rumores vagos. Não architectou hypotheses devidas á sua +imaginação de portuguez amante do seu paiz. Fez mais. Exhibiu documentos +officiaes de grande valia, e mostrou com a imprensa séria do Brazil, que se +senão oppozer um dique á onda das vinganças que devasta aquella parte do +imperio, os portuguezes terão de evacuar o territorio, onde exercem uma +actividade proveitosa para a colonia e para a nação brazileira, rompendo +antigas ligações, e cavando um abysmo infranqueavel entre dois povos, que +deviam estremecer-se como irmãos. É que a cupidez e o desvario vão accendendo +no peito da escoria as chama de Cain.</p> + +<p>Teve o sr. Pércheiro uma posição difinida no Pará. Foi ali o encarregado +da <i>Agencia Americana Telegraphica</i> encerrada por haver communicado para +a Europa as occorrencias que se davam na provincia, embora a verdade dos +factos não podesse lisongear os poderes publicos superiores de Portugal e do +Brazil. É portanto o seu depoimento auctorisado, por que presenceou<span +class="pagenum"><a id="pag_383" name="pag_383">[383]</a></span> uma parte dos +acontecimentos que a imprensa portuguesa registrou com entranhado sentimento, +ao reclamar dos dois governos providencias energicas, que pozessem cobro ao +morticinio de nossos compatriotas, verificado a mais de duas mil leguas de +distancia.</p> + +<p>Foi portanto o sr. Pércheiro testemunha presencial de bastantes factos, +que o levaram fatalmente ás conclusões que se conteem na sua excellente +publicação, que nós aqui mencionamos como um titulo de capacidade para o +auctor, que foi para o Brazil a fim de ganhar fortuna, e que regressou á +patria com a alma cheia de nobre indignação, mas sem ter logrado realisar o +seu esperançoso intento.</p> + +<p>Houve no Pará um caracter grave e amante da ordem, que se propunha a +conter os discolos e a trazel-os a bom caminho. Desejava porém que o governo +o auctorisasse a usar de poderes descripcionarios, que elle promettia +temperar, com a moderação inherente aos seus habitos e ás faculdades do cargo +que exercia. Foi o dr. Pedro Vicente d'Azevedo, antigo presidente da +provincia, quem dirigiu ao governo geral o seguinte telegramma:</p> + +<p>«Os negocios da <i>Tribuna</i> aggravam-se; posso acabar este estado de +coisas se me dá <i>carta branca</i>. Serei prudente. Espero resposta +hoje.»</p> + +<p>Pois este convite directo promettendo esmagar a conspiração tenebrosa +urdida contra os que honradamente trabalham teve a resposta que se segue:</p> + +<p>«Proceda dentro dos <i>limites da lei</i>.»</p> + +<p>Mas a lei era letra morta no Pará. Os assassinos reuniam publicamente +contra os portuguezes inermes, porque os nossos compatriotas exerciam o +commercio, e não se desviavam do trafego honrado, por o qual tinham +abandonado a patria e a familia. E como a sua applicação era mais proveitosa +que a dos naturaes da provincia, reunia-se a ralé da população, não para +exceder o estrangeiro em actividade, não estimulada pelo exemplo, mas para +cevar paixões ignobeis, para dar a morte aos que se lhes avantajavam na +preserverança de suadas canseiras!</p> + +<p>Assim o governo geral quebrava a vara do poder nas mãos do seu agente, +ordenando-lhe que se houvesse com legalidade, quando para salvar a gente +séria, a vida e a propriedade de pessoas respeitaveis, era mister declarar a +provincia em estado de sitio! Não comprehendemos como n'um caso desesperado o +poder central senão abalançou aos meios heroicos, indicados pelas +circunstancias. Teria expurgado aquelle territorio dos vandalos que o +infestam, e teria provado á Europa, que no Brazil se conhecem e applicam as +leis da verdadeira hospitalidade.</p> + +<p>(<i>5 de junho.</i>)<span class="pagenum"><a id="pag_384" +name="pag_384">[384]</a></span></p> +<hr class="dotted"> + +<p>Recordando as <i>lindezas</i> e importancias da minha terra natal, sahe-me +dos bicos da penna, o nome de um livro, e o nome do seu auctor que este solo +viu nascer e acalentou. O livro é: <i>Questões do Pará</i>; o nome do seu +auctor, bem conhecido, escusava-o a sua reputação; mas orgulhoso das glorias +da minha terra não desejo omittil-o:</p> + +<p>Domingos Antonio Gomes Pércheiro.</p> + +<p>Se estas pobres linhas, sem pertenção a escripto, lhe chegarem ás mãos, +peço venia para que a sua modestia me perdôe e consinta que eu apresente o +meu parecer sobre o seu livro. O meu parecer humilde, como humilde é quem o +faz. <i>Questões do Pará</i> é um livro bem raro, que falla e defende a +patria; não trata de frivolidades, não faz grimpa de philosophias, não +ostenta empoladas utopias, molestia de que a nossa literatura moderna está +contagiada. Occupa-se de Portugal e de seu irmão o Brazil. Individualisa-se e +soffre com as nossas desgraças.</p> + +<p>Historia essas scenas de canibalismo americano, contra os desgraçados +portuguezes, que, tendo em vista o trabalho santo, vão procurar uma vida +n'aquellas plagas inhospitas. Indigna-se contra taes horrores, e reverbera +então o latego sobre os novos Cains.</p> + +<p>É um livro verdadeiro, um auxilio para a historia contemporanea.</p> + +<p>É um pregão que fará convergir a indignação dos povos cultos contra taes +selvagerias. Uma consolação para os desgraçados portuguezes que ainda luctam +com o clima, insuperaveis difficuldades e guerra dos brazileiros. Não tem +arrendados de estylo, e menos ainda bellezas poeticas, porque lh'as não +consentiu a brevidade, nem a gravidade do assumpto. Digne-se o distincto +auctor acceitar os meus emboras e felicitações, que, sendo verdadeiras, só +peccam pela pequenez do nome que assigna.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>(3-5-76)</p> + +<p style="text-align:right;"><em>J. Martins M. da Silva.</em></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>JORNAL DA NOITE</h3> + +<p>Hontem démos noticia do livro publicado pelo prelado da diocese<span +class="pagenum"><a id="pag_385" name="pag_385">[385]</a></span> do Pará, e +por o não termos podido ler ainda, só referimos o que no prefacio escrevera o +reverendo auctor. Hoje temos de fazer outro tanto com o livro do sr. +Pércheiro, cujo texto nos é desconhecido. Quanto sabemos a respeito d'elle, o +aprendemos na carta do sr. Ferreira Lobo que precede o livro.</p> + +<p>O volume do sr. Pércheiro é offerecido aos seus illudidos compatriotas que +vêem no Brazil uma nova terra da promissão. Mais nada. Esta dedicatoria só +valle um livro porque está recommendando aos mancebos o trabalho na patria +onde a remuneração poderá ser modesta, mas é perto do lar domestico, em plena +liberdade, com a benevolencia dos nossos affectuosos costumes a affoitar o +animo, sem epidemias frequentes, e sempre com a certesa de não morrer de +fome, porque não fallece ninguem entre portuguezes, seja natural ou +estranho.</p> + +<p>E depois em Portugal tambem os humildes enriquecem. Ha exemplos e +numerosos. Muitos d'esses negociantes, senhores de estabelecimentos +consideraveis, partiram da terra pobrissimos, foram caixeiros de outros +commerciantes, e pelo trabalho é que mereceram consideração, pelo zelo +estima, pela probidade respeito e auxilio de toda a gente. Depois veiu a +riqueza, isto é, a cupula do edificio.</p> + +<p>Se na patria havia emprego para a actividade de muita gente, d'aqui por +diante ainda deve ser mais facil encontrar meio de adquirir fortuna. Basta +observar a abundancia de capitaes, o seu movimento e direcção, a grande +quantidade de emprezas que se vão formando por cooperação e interesse de +todas as classes, e as facilidades de communicação por mar e terra, para +transporte de pessoas e de mercadorias, ou para transmissão de ordens e de +avisos...</p> + +<p>Emfim... Mas o nosso proposito não é escrever ácerca da emigração. +Desviou-nos para este assumpto interessantissimo a dedicatoria do livro. +Desculpe o leitor a digressão. Ha, porém, coisas que seria conveniente dizer +a todos e repetil-as quotidianamente.</p> + +<p>O sr. Pércheiro, segundo informa o esmerado escriptor já referido, foi ha +tres annos para o Pará, e voltou ao cabo d'elles de cabeça levantada e mãos +vasias. Tendo, porém, observado como por lá eram tratados os portuguezes, +ergueu n'este livro um brado de indignação contra a prepotencia de que são +victima os nossos irmãos do Brazil.</p> + +<p>Accrescenta o sr. Ferreira Lobo, nosso estimado collega na imprensa, que +este volume não é primor litterario; que o proprio auctor lhe conhece os +defeitos de fórma; que foi escripto na viagem e sem auxilio de livros, e por +isso saiu agitado, revolto e caprichoso como as vagas que baloiçavam a mesa +sobre <span class="pagenum"><a id="pag_386" name="pag_386">[386]</a></span> a +qual foi delineado; que finalmente foi inspirado por sentimento de +patriotismo, de independencia, de dedicação, e de coragem.</p> + +<p>As questões do Pará que dão o titulo ao livro, não são as mesmas que +inspiraram o livro do prelado d'aquella diocese. Referem-se principalmente á +luta entre portuguezes e brazileiros, á campanha do commercio a retalho, mas, +segundo vimos folheando o volume, não deixou de alludir a essas discordias o +auctor. E assim devia ser porque as questões entre o bispo e o governo do +Brazil tem ligação com o odio de certos brazileiros aos portuguezes.</p> + +<p>Vamos ler com muita curiosidade a obra do sr. Pércheiro, e agradecemos-lhe +o favor de offerecer um volume á nossa redacção.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>12 de maio.</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>JORNAL DO COMMERCIO</h3> + +<p>Por todos os portuguezes deveria ser lido este livro, a proposito do que +fez o <i>Jornal da Noite</i> as seguintes sensatas ponderações: (Transcreve o +artigo do <i>Jornal da Noite</i>.)</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>14 de maio.</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<p>O livro subordinado a esta epigraphe, devido á pena do sr. Gomes +Pércheiro, tem tido extraordinaria extracção. Não podia deixar de assim ser, +porque é um trabalho utilissimo e de muito ensinamento para aquelles que +teimam, com prejuiso para as nossas colonias, em ver no Brazil actual, +exausto e quasi cadaverico, o antigo emporio de riquezas agricolas, que era a +alma do commercio e da industria ainda nascente, e que á porfia pareciam +querer fazer do imperio o maior collosso da civilisação americana.</p> + +<p>A lei que no Brazil estabelecera a egualdade de nascimento, fazendo de +todos os homens uma só familia, surtiu optimos effeitos moraes no mundo +liberal, por ver-se que uma nação ainda adolescente comprehendia já a +sublimidade da idéa que começára a robustecer-se com as glorias obtidas no +Paraguay. A carta da emancipação dos escravos veiu dar ao Brazil facil +accesso para sentar-se á mesa do progresso, junto das nações mais velhas que +lhe tinham sido mãe.</p> + +<p>Mas depois d'isto faltava fazer muito ainda. Era preciso não adormecer ao +som dos hymnos inebriantes das glorias passadas;<span class="pagenum"><a +id="pag_387" name="pag_387">[387]</a></span> era preciso que governantes e +governados estudassem pelo seu passado qual havia de ser o futuro do seu +imperio. Era preciso que esse immenso territorio fosse devastado, +permitta-se-nos a expressão, pela immensa tempestade do progresso, que se lhe +abeirava, para dar-lhe o seu quinhão civilisador; e que leis protectoras se +fizessem com o fim de dar livre accesso ao explorador, que mais tarde havia +de ceifar as suas mattas insondaveis e poeticas, mas cuja poesia fará +retrogradar o Brazil para os seus primitivos tempos. Era preciso substituir +no trabalho esse ente, que ainda não estava educado para ser livre, mas que +uma idéa humana fizera egual aos outros homens; e não deixar oxidar a +roçadoura, a enxada e a pá, e amortecer os animos febris pelo desbravamento +das terras incultas, que, como estão, não podem servir de engrandecimento +para o imperio. Era preciso que governos e governados, de norte a sul, +attraissem, com seus bons tratos o estrangeiro ávido pelas riquezas do seu +feracissimo solo.</p> + +<p>Leis, filhas de um aturado estudo philosophico, sobre as condições +religiosas do imperio, deviam ter substituido as que existem, e que não podem +mais servir para uma sociedade nova, e muito especialmente para um paiz que +precisa recolher em seu seio homens de todas as crenças. A questão religiosa, +que ainda não terminou no imperio, e que tanto mal tem feito ao seu +progresso, não teria existido.</p> + +<p>Os homens talentosos do Brazil, á similhança do que se faz nos paizes +cansados, estudam apenas o incomprehensivel problema da politica e parece +quererem contemporisar com o movimento jesuitico.</p> + +<p>A par d'isto retraem-se os capitaes, os colonos portuguezes, no norte do +imperio, repatriam-se. A falta de braços, faz-se sentir. A lavoura +definha-se; por que além da falta de braços, os terrenos limitrophes das +povoações estão explorados e os governos não tomam a iniciativa de abrir +tunneis, permitta-se-nos a phrase, n'essas immensas montanhas de matta +virgem, cujos troncos seculares com sua immensa folhagem nos não deixam ver +tão grande manancial de riquesas. As estradas que existem para o interior dos +sertões são apenas os carreirinhos do indio, da onça, do veado, da paca e do +tatù.</p> + +<p>No valle do Amazonas vive-se da industria extractiva. A agricultura foi +despresada. Mas a industria extractiva vae morrer, por que os governos não +desimpedem as immensas vias de communicação—os rios—que cortam em todas as +direcções aquelles immensos territorios, tambem cobertos de plantas.</p> + +<p>Que se faz para attrair o estrangeiro? Que pensam os homens eminentes do +Brazil?<span class="pagenum"><a id="pag_388" +name="pag_388">[388]</a></span></p> + +<p>Nada vemos. E contudo, o mais simples observador nota que o grande imperio +está passando por uma crise assustadora.</p> + +<p>Suggeriu-nos estas phrases, ao lermos o livro <i>Questões do Pará</i>, +cuja leitura recommendamos, a idéa do engrandecimento do imperio do +Brazil.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>26 de junho)</i></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>JORNAL DE LISBOA</h3> + +<p>É notavel este livro pela questão importantissima de que se occupa, e +pelos esclarecimentos que presta, fundados em documentos, e nas palavras do +auctor testemunha presenceal dos factos.</p> + +<p>Dotado de grande energia e independencia o sr. Pércheiro apresentou as +questões do Pará como as viu e entendeu, e as suas palavras, por vezes duras +como as verdades amargas, hão de molestar muitos dos que as lerem.</p> + +<p>O auctor trata de justificar as verdades das noticias que transmittiu como +agente da Agencia Americana.</p> + +<p>Interessa-nos muito a questão do Pará, e sobre ella escrevemos +modernamente o nosso pensamento n'um artigo que vimos reproduzido no jornal +o—<i>Brazil</i>, destinado ao novo mundo.</p> + +<p>Inutil é pois repetir n'este jornal as ideias que elle publicou; d'outra +sorte escreveriamos detidamente ácerca do livro que annunciamos, e cuja +leitura recommendamos aos nossos leitores.</p> + +<p>Ao sr. Pércheiro agradecemos a offerta do seu livro.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>15 de maio</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>A TRIBUNA</h3> + +<p><i>Questões do Pará.</i>—Publicou-se e acha-se á venda nas differentes +livrarias uma brochura com o titulo <i>Questões do Pará</i>, de que é auctor +o sr. D. A. Gomes Pércheiro.</p> + +<p>O sr. Pércheiro era o representante da <i>Agencia telegraphica +americana</i> no Pará, e por ella foram enviados os telegrammas que nos +informam dos assassinatos de Jurupary, e de outras occorrencias, que se lhes +seguiram. Notaremos que, depois d'isso foi fechada a succursal d'aquella +agencia no Pará, certamente porque o governo brazileiro entendeu ser mais +commodo continuar a perseguição e a chacina, sem que nós, e o resto da +Europa<span class="pagenum"><a id="pag_389" name="pag_389">[389]</a></span> +podessemos ser informados das façanhas da selvageria.</p> + +<p>Agora só de longe em longe, e passado tempo, nos chega noticia do que vae +por aquella provincia brazileira.</p> + +<p>A brochura do sr. Pércheiro contem esclarecimentos minuciosos, e é um +excellente commentario aos documentos publicados no <i>Livro Branco</i>. Logo +se vê que o sr. Mathias de Carvalho tem carradas de razão em dar louvores ao +governo do seu imperial compadre, pelo zelo, diligencia e sollicitude com que +vela pela ordem publica e pela segurança dos portuguezes no Pará.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>n.º 71, de maio</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>CORRESPONDENCIA DE COIMBRA</h3> + +<p>Este livro deve ser estudado e meditado. É a historia circumstanciada +d'essas desgraçadas questões do Pará, entre portuguezes e brazileiros, +incitados estes ao odio e á matança de nossos irmãos pelo pasquim da imprensa +chamado <i>Tribuna</i>.</p> + +<p>Como quem de perto conhece a vida brazileira, mostra com argumentos os +perigos da emigração, e achamos util que este livro se colloque ao lado dos +escriptos do sr. Augusto de Carvalho que outro fim não tem senão desinvolver +a propaganda de emigração de portuguezes para o imperio brazileiro.</p> + +<p>Já o dissemos e repetimos: a emigração é um acto de liberdade que ninguem +contesta, mas impossivel no estado actual das circumstancias de Portugal e +Brazil.</p> + +<p>O livro do sr. Pércheiro é obra de um bom coração portuguez que colloca ao +serviço da patria e da verdade a sua voz auctorisada.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>16 de maio</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<p>Sabeis o que foi a America?</p> + +<p>Ha pouco mais de tres seculos era um mundo escondido pelos mares. Vivia +entregue ás leis da natureza e em quanto a civilisação viera do oriente ao +occidente em marcha continua, derribando e elevando, sempre vencedora, sempre +triumphante, a America nem sequer a olhava pelo cimo das aguas, e nem as +correntes dos mares lhe levavam os eccos alegres dos nossos festins ao +progresso!</p> + +<p>Lá vivia, entregue ás leis dos sentidos, ao codigo do mais forçado, á +vontade do mais prepotente.</p> + +<p>Os seus habitantes afundavam-se nas matas gigantescas, que<span +class="pagenum"><a id="pag_390" name="pag_390">[390]</a></span> similhavam os +alicerces dos ceus. Tinham a quina, o café, o assucar, a canella; sentavam-se +á sombra do cedro, do secular palisandro e da alta palmeira. Pesava sobre +elles o mysterio das grandes florestas virgens, que fazem suppor maiores +mysterios; encantava-os o trinado do sabiá, mas, quando se abeiravam das +costas, não sabiam cortar um tronco de cedro, e atirando com o fraco lenho +sobre o dorso do mar, que rugia, não sabiam collocar-se sobre elle, e domando +as ondas, os obstaculos, a desesperança vir até onde, pelo menos os devia +incitar a phantasia.</p> + +<p>Olhavam com medo e terror o Amazonas, e como os pomos das arvores lhe +satisfizessem as primeiras necessidades da vida dormiam em somnolencia +permanente os dias da existencia.</p> + +<p>A terra era fertil; os naturaes indolentes.</p> + +<p>Mas a velha Europa tinha caminhado muito. As loucuras, os gozos, os +prazeres que a Asia lhe havia enviado como despojos da conquista pediam novos +manciaes de oiro, novos thesouros inexgotaveis, que saciassem a libertinagem +da matrona.</p> + +<p>A Europa já tinha arrancado perolas dos seios das ondas; sonhou com +diamantes.</p> + +<p>E quando os sabios, curvados sobre os problemas das sciencias physicas, +apontavam para paragens longiquas, os aventureiros lançavam-se logo a +procurar a nova terra.</p> + +<p>O navegador chegou a ser um poeta.</p> + +<p>Faltava-lhe a sciencia, mas tinha a <i>inspiração</i>.</p> + +<p>E a inspiração bastava, e foi guiado por ella que Colombo deixou o porto +de Palos em 3 de agosto de 1492.</p> + +<p>Pouco depois vinha Colombo depor um mundo aos pés do rei Fernando e da +rainha Isabel.</p> + +<p style="text-align:center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Os portuguezes foram tambem á conquista. O acaso impelliu Pedro Alvares +Cabral a descobrir o Brazil, e o rei D. Manuel podia dar mais luzimento á +corôa e mais brilhantismo ao seu reinado.</p> + +<p>Começava então o seculo XVI; e iniciava-se pelo descubrimento do Brazil o +gigante da Reforma e da Renascença.</p> + +<p>D. Manuel não deu grande importancia ao facto: tantas eram as descobertas +do seu reinado, que a dependencia de metade de um mundo nem o fazia +estremecer!</p> + +<p>Mas quando as caravellas chegavam carregadas de oiro e pedrarias, e se +buscava ahi o peculio para satisfazer ás sumptuosidades religiosas do rei D. +João V e á sequiosidade de dinheiro da curia romana, começou a estremecer-se +o Brazil.<span class="pagenum"><a id="pag_391" +name="pag_391">[391]</a></span></p> + +<p>Praticámos o nosso dever de povos civilisados. Aquelle povo ignorante, que +nada conhecia, mandamos-lhe atravez dos mares as nossas industrias, as nossas +sciencias, as nossas artes.</p> + +<p>A emigração era uma cruzada abençoada. Os emigrantes iam prégar a religião +do trabalho e a sciencia da vida do progresso. Tomaram o livro, e ensinaram a +ler o selvagem; agarraram na enchada, e instruiram o natural em cavar a +terra.</p> + +<p>Ensinaram-lhe a construir lanchas, e a lançal-as sobre as aguas dos +rios.</p> + +<p>Crearam-lhe novas necessidades, mas deram-lhe meios de as satisfazer.</p> + +<p>Derribaram-lhe as choças, e edificaram-lhe habitações firmes e solidas.</p> + +<p>Ensinaram-lhe o commercio; arrotearam-lhe os terrenos; secaram-lhe os +pantanos; duplicaram-lhe a agricultura; exploraram-lhe o minerio.</p> + +<p>Deram-lhe instituições, codigos, leis; mostraram-lhe a associação; +prégaram-lhe a liberdade e a beneficencia.</p> + +<p>Depois fizemos a nossa primeira revolução liberal. Marchámos contra o +despotismo e mostramos-lhe os direitos do povo em 1820.</p> + +<p>O gigante do seculo estranhou a audacia, mas temeu a força popular.</p> + +<p>Transigiu, ou por outra transigimos.</p> + +<p>Mas da liberdade conquistada fizemos participante a colonia brazilica. +Estendemos até lá as idéas que a França nos havia ensinado, e quando em +Ypiranga o regente soltou a primeira phrase de indepencia, quasi que +voluntariamente lhe levantámos a tutella.</p> + +<p>Queria governar-se... Muito bem; em 1825 reconhecemos-lhe o direito, +demos-lhe a emancipação, e um rei, filho dos soberanos portuguezes, para que +a dirigisse.</p> + +<p>Não lhe oppozemos grandes obstaculos, nem tentamos sujeital-a pela +força.</p> + +<p>Ficou livre, e ficámos livres; mas n'esta mutua liberdade que nós +reconheciamos, parece que nos deviamos estreitar em amisade de irmãos, em +desenvolvimento de interesses, em aspirações de idéas.</p> + +<p>Assim não acontece.</p> + +<p style="text-align:center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>O povo brazileiro declara guerra de exterminio ao povo portuguez.<span +class="pagenum"><a id="pag_392" name="pag_392">[392]</a></span></p> + +<p>A indolencia teme a concorrencia da actividade; o homem perguiçoso e +somnolento aborrece o homem trabalhador.</p> + +<p>No Pará é que se dá o combate sem treguas. O negociante, o artista, o +industrial, o trabalhador, que vão das nossas terras, abandonando a patria e +a familia, affrontando todos os perigos, em busca de pão, veem-se odiados, +espesinhados e assassinados pela horda de infames, que querem recuar quatro +seculos, voltando á selvajaria primitiva.</p> + +<p>Incita-os á vingança um pasquim jornalistico, que todos os dias manda de +caza em caza, de animo de espirito em espirito o odio contra nossos +irmãos.</p> + +<p>Em 1875, ainda o fanatismo de braços com o interesse incita as turbas á +matança. Os portuguezes são os christãos novos, os judeus e os albigenses em +que cevam rancores os parasitas e ociosos.</p> + +<p>Senhores homens da <i>Tribuna</i>: expulsae os portuguezes, como á colonia +hebrêa faziam os reis catholicos de Hespanha. Confiscae-lhes mesmo as +riquesas; chamae a vós as suas propriedades; roubae-lhes o commercio que +elles souberam elevar e desenvolver, que assim tereis condignamente +satisfeito ao fim da missão jornalistica de assalariados vendilhões.</p> + +<p style="text-align:center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Os portuguezes residentes no Pará estão sujeitos ao afiado da faca +assassina. São seguidos na sombra e mortos cobardemente nas encruzilhadas.</p> + +<p>É crime ser commerciante; o trabalho é um delicto. Assim o entendem os +<i>tribunos</i>.</p> + +<p>Ganhar honradamente o pão de cada dia, é uma atrocidade; a industria é uma +infamia; o homem que trabalha é um <i>gallego</i>.</p> + +<p>E, oh supremo desaforo! se os portuguezes se reunem em associação, os +<i>tribunos</i> só comprehendem as sociedades de bandidos!</p> + +<p>As portas dos nossos compatriotas são marcadas com signaes, para que o +punhal possa entrar sem receio de errar o golpe.</p> + +<p>A justiça verga-se; é egual para os naturaes, a quem absolve os crimes: +esmagadora, despotica e tyrannica para com o portuguez que commetteu a menor +transgressão á lei.</p> + +<p>No seio das familias ensinam-se as creanças a odiar os filhos de Portugal. +As imaginações infantis apresentam-se quadros horrorosos, em que se incute +esse odio, em que elle se perpetúa sempre, e cada vez produzindo mais +funestas consequencias e terriveis episodios.<span class="pagenum"><a +id="pag_393" name="pag_393">[393]</a></span></p> + +<p>O lar é escola de malquerenças; e em vez de ensinarem aos filhos a +veneração e o amor pelos portuguezes, que lhes conquistaram a liberdade e a +civilisação que estão gosando, educam-nos nos principios repellentes da +inveja e do despreso.</p> + +<p>E a colonia portugueza, laboriosa, activa, trabalhadora, soffre resignada +todos os ataques, todas as injurias e todos os doestos.</p> + +<p>O imperio está imperturbavel, e contemporisa.</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Houve um portuguez que presenciou todos estes factos, e que os lançou em +livro, contando-os com todas as particularidades.</p> + +<p>Foi o sr. Gomes Pércheiro, agente no Pará da <i>Agencia americana +telegraphica</i>.</p> + +<p>É um cidadão benemerito, que não trepidou diante de obstaculos, para abrir +os olhos aos nossos compatriotas, que, indo em procura de trabalho e fortuna, +encontraram o punhal do assassino.</p> + +<p>Accusado o auctor d'este livro de falso e exagerado nos seus despachos +telegraphicos, veio deffender-se á imprensa, provando á evidencia, com +documentos incontestaveis, que não mentia ao seu dever nem faltou á verdade +dos acontecimentos.</p> + +<p>Não fez estylo: escreveu os factos, simplesmente, e pediu sobre elles o +<i>veredictum</i> da opinião. Mostra-nos o que é e o que vale o Brazil na +actualidade; desmascara muitos hypocritas e farçantes; ensina-nos o que +representa a educação brazileira; conta-nos o que significa a sua justiça.</p> + +<p>É um livro bom, que todos deviam lêr, para se não deixarem possuir de +falsas illusões e de miragens mentirosas.</p> + +<p>O portuguez não tem só a vencer a intemperie do clima; tem a luctar com a +traição dos naturaes. Quando escapa á febre, nem sempre pode fugir ao +punhal.</p> + +<p>Portugal não pode dar braços, porque necessita d'elles; como não pode +prohibir que cada qual procure a região que lhe aprouver, deve persuadir pelo +conselho e vencer pelo exemplo.</p> + +<p>O livro do sr. Gomes Pércheiro é exemplo, e bem palpitante e provativo.</p> + +<p>É a historia desinvolvida de todos os acontecimentos do Pará, de todos os +assassinatos, roubos e torpezas da <i>Tribuna</i>.</p> + +<p>Toda a nossa imprensa se tem empenhado n'esta questão, e condemnado os +mercenarios jornalistas que além-mar estão fazendo propaganda traiçoeira e +vil.</p> + +<p>Aquelle farrapo de banalidades só insere calumnias e infamias<span +class="pagenum"><a id="pag_394" name="pag_394">[394]</a></span> contra a +colonia portugueza, mas o livro <i>Questões do Pará</i> vem desfazer todas +essas calumnias, e com pleno conhecimento de facto desarma os <i>tribunos</i> +e os que lhe pagam a escripta.</p> + +<p>O sr. Pércheiro, publicando o seu livro, prestou um bom serviço a +Portugal, e oxalá que da sua leitura se colham os devidos resultados.</p> + +<p style="text-align:right;"><em>Sergio de Castro</em></p> + +<p>(<i>20 de junho</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>DIARIO POPULAR</h3> + +<p>Este livro trata de questões em que todos nós os portuguezes somos mais ou +menos interessados. Todos os annos vão de Portugal, seduzidos por pomposas +promessas, e na crença de que o Brazil é um paiz onde o ouro anda aos +pontapés, e que basta uma pessoa abaixar-se para ficar rica de um dia para o +outro, centenas e centenas de portuguezes, deixando os nossos campos incultos +e trocando por lucros, quasi sempre inferiores aos promettidos e sempre +arriscados e falliveis, a modesta remuneração na sua patria, junto dos +parentes e amigos, debaixo do ceu a cuja luz abriram os olhos e do meio das +arvores a cuja sombra brincaram quando meninos. Dissipar as illusões dos +credulos, abrir os olhos aos incautos, prevenir os desavisados, é um dos +propositos que teve em vista o sr. Gomes Pércheiro escrevendo este livro. Sob +o ponto de vista, o capitulo de <i>como os brazileiros protegem os colonos +portuguezes</i> é digno de ser lido e meditado.</p> + +<p>O livro, escripto em linguagem clara e corrente, offerece larga copia de +esclarecimentos sobre a maneira por que são acolhidos e tratados os +portuguezes no Pará e contém documentos mui curiosos a este e outros +respeitos.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>17 de maio</i>).</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>O PAIZ</h3> + +<p>Foi publicado ha poucos dias um livro em 8.º, de 272 paginas, intitulado +<i>Questões do Pará</i>. É escripto pelo sr. D. A. Gomes Pércheiro, que viveu +alguns annos na indicada cidade do imperio do Brazil, e precedido de uma +carta do sr. Ferreira Lobo, contador do tribunal de contas, e auctor de mui +importantes trabalhos em assumptos de organisação de fazenda.</p> + +<p>O livro de que nos occupamos foi escripto ao correr de penna,<span +class="pagenum"><a id="pag_395" name="pag_395">[395]</a></span> mas relata +com bem vivas côres a serie de vexames por que passam os nossos compatriotas +que a sede do ganho tem levado áquella região do Brazil.</p> + +<p>O auctor mostra o viver dos nossos patricios em todas as situações, sempre +objecto de exploração por parte dos naturaes, que andam dominados do falso +principio da <i>nacionalisação do commercio a retalho</i>.</p> + +<p>O portuguez, ou antes o <i>marinheiro</i> ou o <i>gallego</i>, como ali +denominam o filho de Portugal, é sempre o bode expiatorio nas questões de +policia, de impostos, de administração de justiça, de contractos, etc. +Prejudicar o portuguez por qualquer fórma é acto meritorio para os naturaes +do Pará!</p> + +<p>Não são gratuitas as asserções do sr. Pércheiro, porquanto, no <i>livro +branco</i> apresentado ás côrtes, encontra-se a confirmação official de tudo +quanto parecer exaggerado no livro de que fallamos.</p> + +<p>É conveniente que todos leiam a obra do sr. Pércheiro: muitos sonhos +dourados hão de desvanecer-se, e as tendencias emigratorias tomarão outra +direcção. É lastimavel que offerecendo a nossa Africa occidental localidades +salubres, por exemplo, e bem perto, nas ilhas de Santo Antão e Brava, do +archipelago de Cabo Verde, os nossos emigrantes despresem o territorio +portuguez, onde encontram protecção da auctoridade, segurança das vidas e da +propriedade e recompensa dos seus esforços, vão sacrificar-se do outro lado +do occeano aos tratos que os proprios brazileiros ostensivamente condemnam, e +em terras bem menos salubres que algumas das nossas provincias +ultramarinas.</p> + +<p>É necessario desvendar os olhos d'esses infelizes, que abandonam patria e +familia, por suppostas riquezas que se traduzem em dissabores, attentados +pessoaes, oppressões, e, as mais das vezes, doenças cujo resultado se não é a +morte é o soffrimento chronico.</p> + +<p>O sr. Pércheiro prestou um bom serviço com o seu livro, cuja leitura muito +recommendamos.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>30 de maio</i>).</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>O PORTO</h3> + +<p><i>Questões do Pará</i>, por D. A. Gomes Pércheiro. Já no penultimo numero +d'esta folha alludimos a este livro. A leitura forçadamente rapida a que +procedemos arranca-nos uma doce illusão: o sr. Gomes Pércheiro +convence-nos,—mercê de serios documentos,—de que «os nossos irmãos de além +mar» não encontram<span class="pagenum"><a id="pag_396" +name="pag_396">[396]</a></span> nas terras de Santa Cruz os fraternaes +carinhos, nem ainda a hospitalidade, que seria licito esperar de um povo a +quem demos a mão para arrancar ás trevas da ignorancia e fazel-o compartilhar +dos guizados, bem ou mal temperados, que hoje se servem na meza da +Civilisação.</p> + +<p>Aos incautos por demasias de concupiscencia, que lhes sobrepujam a +reflexão e o proprio instincto conservador, offerecemos em artigo especial um +excerpto do livro—<i>A emigração para o Brazil</i> a que alludimos e que do +coração a todos recomendamos.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>3 de junho</i>).</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>O PRIMEIRO DE JANEIRO</h3> + +<p>Com este titulo recebemos um volume, de que é auctor o sr. D. A. Gomes +Pércheiro, com uma carta do distincto escriptor o sr. J. J. Ferreira Lobo.</p> + +<p>O novo livro não é obra para recreiar o espirito, mas tem a rara virtude +de ensinar muito e dizer verdades que nenhum portuguez deveria ignorar. Tendo +residido algum tempo no Pará, o auctor diz sem pretenção e em linguagem +fluente de que modo os nossos compatriotas ali são tratados, tanto na vida +particular como pelas auctoridades e perante os tribunaes. Cada asserção que +avança, comprova-se com o testemunho de pessoas, cujos nomes aponta e com o +extracto dos jornaes da localidade. Não é pois uma verrina sem base, é a +exposição de factos de cuja veracidade todos se pódem certificar, além de que +no <i>livro branco</i> apresentado ás côrtes, se confirma quanto o sr. +Pércheiro assevera.</p> + +<p>Os que levados pela sede do oiro, abandonam familia e patria, para se +dirigirem áquella região, quizeramos nós que compulsassem antes o livro de +que vimos fallando, e bem póde ser que a corrente da emigração que hoje toma +rumo para ali, derivasse para as nossas possessões onde não faltam riquezas a +explorar, onde a segurança individual é milhor garantia, e onde finalmente +perante a justiça todos são portuguezes.</p> + +<p>Agradecemos o exemplar com que fomos obsequiados.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>2 de junho</i>).</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>A LUCTA</h3> + +<p>Temos sobre a mesa um volume de 272 paginas, escripto pelo<span +class="pagenum"><a id="pag_397" name="pag_397">[397]</a></span> sr. Gomes +Pércheiro, que foi agente da <i>Americana telegraphica</i>, no Pará, as quaes +paginas são precedidas por uma introducção do sr. Ferreira Lobo, que felicita +o auctor «pelo seu brado de indignação contra a prepotencia de que estão +sendo victimas no Brazil os nossos irmãos pela patria».</p> + +<p>Vê-se já que se não trata de um romance, mas sim de uma questão +importantissima para os interesses e dignidade nacional.</p> + +<p>Recommendamos a sua leitura aos que desejarem ser instruidos sobre os +successos do Pará, resultantes de causa que ainda não cessou, e que encheram +Portugal de receio pelos seus filhos e o mundo de horror pelos assassinatos e +pilhagem commettida contra as leis da hospitalidade, ou antes contra o +direito das gentes.</p> + +<p>Rogamos ao auctor que mande um exemplar á commissão de emigração; póde ser +que ella o leia, e d'ahi lhe resulte vontade de fazer mais alguma coisa, se é +que este <i>mais</i> se póde applicar a quem ainda não fez nada.</p> + +<p>O livro do sr. Pércheiro tem mais outro merecimento; é mostrar o atrazo +d'aquelles povos, a sua pouca instrucção, a sua pessima organisação politica +e judicial, e emfim a corrupção que por lá vae n'aquelle corpo ainda branco, +de modo que póde dizer-se fructo apodrecido antes de sasonado.</p> + +<p>D'estes e que taes livros desejavamos nós que se propagassem bastantes em +Portugal, e quizeramos tambem que os srs. parochos das aldeias dessem d'elles +lição aos povos, para lhe debellar a mania ambiciosa que os leva á humilhação +em terra estranha.</p> + +<p>Felicitamos o sr. Pércheiro pelo bom serviço que prestou ao seu paiz.</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>A AURORA DE LIMA</h3> + +<p><i>Questões do Pará</i>—Precedidas de uma carta do distincto escriptor o +sr. Ferreira Lobo. É um livro de 272 paginas, nitidamente impresso, cujo +auctor é o sr. D. A. Gomes Pércheiro.</p> + +<p>O livro foi escripto ao correr da penna, mas relata com bem vivas côres a +serie de vexames por que passam os nossos compatriotas residentes no +Brazil.</p> + +<p>É digna de lér-se a obra do sr. Pércheiro.<span class="pagenum"><a +id="pag_398" name="pag_398">[398]</a></span></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>JORNAL DE COIMBRA</h3> + +<p>Quando sua magestade el-rei no seu discurso por occasião da abertura das +camaras dizia em poucas palavras que o remedio aplicado pelo seu governo na +questão dos insultos e maus tractamentos praticados pelos brazileiros nas +pessoas dos nossos portuguezes fora energico e que o estado de coisas +caminhava para melhor, ficou todo o paiz persuadido que realmente o governo +brazileiro por instancias do nosso tractara energicamente d'obstar aos maus +tratamentos que os nossos patricios recebiam em todo o paiz, particularmente +no Pará.</p> + +<p>Infelizmente sua magestade, se não foi illudido pelo governo portuguez, +foi-o de certo pelo governo brazileiro, pois que as perseguições contra os +nossos patricios continuam, e não vemos que o procedimento do governo tenha +evitado tão grande mal.</p> + +<p>E não são de pequena importancia os sucessos naquellas longinquas +paragens, pois que os nossos irmãos não só se vêem oprimidos pelos homens de +baixa esphera e pela <i>ralé</i> da sociedade, mas os proprios tribunaes +judiciaes mostram-se benevolos contra os assassinos dos portuguezes. A +justiça, que n'um paiz liberal está sempre superior a todas as influencias +mesquinhas, ali acha-se eivada d'um exclusivismo condemnavel, perseguindo com +o maior rigôr alguns crimes practicados pelos portuguezes, ao passo que +absolve sem o menor escrupulo os indigenas que matam os nossos patricios.</p> + +<p>Não são gratuitas as nossas asserções, pois que no livro do sr. Pércheiro +encontramos os seus documentos justificativos.</p> + +<p>O clero debaixo d'uma capa hedionda, que só elle sabe envergar, +manifesta-se inimigo terrivel dos portuguezes; e infelizmente não succede +isso só no baixo, mas no alto clero.</p> + +<p>Os tribunaes não são de certo os que menos revelam a sanha contra os +portuguezes. Artigos auctorisados d'alguns jornaes illustrados e que +reconhecem esta grande perseguição manifestam claramente a sua opinião +fazendo o parallelo entre o castigo aplicado aos delinquentes portuguezes e +brazileiros.</p> + +<p>E d'este modo emquanto o governo portuguez descança á sombra da sua +<i>popularidade</i> os nossos irmãos são martyrisados no Brazil!</p> + +<p>Não fazemos extractos d'este livro, porque se os fizessemos teriamos de +transcrevel-o todo, pois que em cada pagina se exemplificam as nossas +asserções.</p> + +<p>Effecttivamente cada facto ali mencionado é um exemplo claro<span +class="pagenum"><a id="pag_399" name="pag_399">[399]</a></span> e manifesto +do modo cruel por que os nossos patricios ali estão sendo tractados; e cada +audiencia que tenha em mira julgar um caso qualquer em que o infeliz +portuguez represente, é um novo escandalo de que os proprios brazileiros +illustrados se envergonham.</p> + +<p>O sr. Pércheiro fez por tanto ao paiz um grande serviço, patenteando aos +olhos de todos as perseguições que os portuguezes ali soffrem, por culpa do +nosso governo, por culpa do nosso representante n'aquelle selvagem paiz, e +por culpa do governo brazileiro que ou não se sente com força d'evitar os +grandes malles que ainda hoje se repetem como lemos no <i>Brazil</i>, ou não +quer acabar de vez com aquella infame montaria.</p> + +<p>Chamamos portanto mais uma vez a attenção do nosso governo para uma +questão de tal magnitude, e esperamos que sua magestade el-rei para se não +ver obrigado a repetir as palavras que proferiu no seu primitivo discurso, +mas que infelizmente não foram confirmadas, será o primeiro, como o primeiro +cidadão que é, em acabar de vez com as desgraças por que estão passando os +nossos patricios.</p> + +<p>O livro do sr. Pércheiro é, pois um livro importantissimo e de certo fez +um grande serviço a Portugal, publicando-o.</p> + +<p>Resta-nos agradecer em nome do paiz os grandes serviços prestados aos +nossos irmãos, e em nome da redacção a preciosa offerta com que aquelle +cavalheiro a acaba de brindar.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>8 de junho</i>).</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>TRIBUNO POPULAR</h3> + +<p>Segundo vae referido na secção de livros, o sr. D. A. Gomes Pércheiro, +agente que foi no Pará da <i>Agencia americana</i>, publicou um livro, que +tem por titulo—<i>Questões do Pará</i>, e teve a bondade de nos offerecer um +exemplar, que muito lhe agradecemos por vir fortalecer as opiniões sempre +aqui manifestadas ácerca dos tristes acontecimentos do Pará.</p> + +<p>Abrimol-o e lêmol-o com a anciedade a que nenhum portuguez poderá +furtar-se quando ouve fallar nas questões do Pará, e topa com um livro +dedicado a este deploravel assumpto.</p> + +<p>Muito se tem escripto nos jornaes portuguezes, e o que estes não teem +podido referir, conhecem-n'o os que lêem as folhas e correspondencias +brazileiras. Pois tudo isso é nada, em presença do que o sr. Pércheiro conta +no seu livro.</p> + +<p>Dos desacatos, assassinatos, roubos, insulto e outras tantas tentativas +praticadas contra os nossos compatriotas sabemos nós<span class="pagenum"><a +id="pag_400" name="pag_400">[400]</a></span> e sabe toda a gente; que á testa +d'esta cruzada selvagem se achava um jornal infame, tambem não era ignorado; +que emfim as justiças eram conniventes ou impotentes contra aquelle estado, +via-se pela impunidade dos criminosos, pela repetição dos crimes e pela +emigração dos nossos compatriotas, que em massa deixavam aquellas paragens, +onde á sombra de uma bandeira, que por antonomasia se diz amiga, se deixava +correr desenfreada a mais infame violação de todas as leis, de todos os +deveres e de todas as praticas de reciproca hospitalidade.</p> + +<p>Pois em vista dos factos, dos documentos que se encontram n'este livro, +pasma-se da horrorosa desigualdade com que os portuguezes e seus assassinos e +roubadores são tratados pelas auctoridades e justiças publicas, sendo victima +do rigor demissorio quem assim não procedesse!</p> + +<p>Se a desigualdade consistisse no castigo dos portuguezes delinquentes, de +agradecer era, para que o exemplo aproveitasse como lição de que só a +probidade suscita respeito entre estranhos. Mas quasi se chegam a premiar os +crimes commettidos contra portuguezes, vendo-se que havia cruzada de +destruição organisada contra elles, á qual não eram indifferentes as proprias +justiças.</p> + +<p>D'aqui deduzimos nós, e como nós em parte o auctor, que da vigilancia dos +nossos governos, da culposa e indesculpavel indifferença do ministro +portuguez na côrte do Brazil, e da quasi connivencia d'esta procede todo o +mal.</p> + +<p>É muito recente o procedimento da Allemanha por causa de um subdito seu, +maltratado pelos carlistas, e depois por causa dos acontecimentos de +Guetaria. Pois os crimes praticados pelos paraenses contra os portuguezes, +incitados publicamente por um periodico, são infinitamente mais do que o +preciso para, se houvesse patriotismo n'este paiz, termos rompido as relações +com o imperio brazileiro, se elle não désse as satisfações indispensaveis, +garantindo a segurança dos nossos compatriotas, e punindo os crimes +praticados contra elles.</p> + +<p>Mas o ministro de Portugal actualmente no Rio de Janeiro, desde que se +enlaçou com uma poderosa familia brazileira, tornou-se incompativel para +proceder com energia n'estes conflictos.</p> + +<p>O auctor era agente no Pará da <i>Agencia telegraphica americana</i>; +presenceou os factos, e pelos narrar com fidelidade foi arguida a +<i>Agencia</i> de parcial.</p> + +<p>Mas pelos documentos officiaes, que pública, conhece-se que as +auctoridades eram conniventes, e se alguma apparecia com desejos de fazer +justiça, tinha por premio a prompta demissão, ou não encontrava força para +desempenhar os seus deveres,<span class="pagenum"><a id="pag_401" +name="pag_401">[401]</a></span> como succedeu com o presidente dr. Pedro +Vicente de Azevedo, e com o chefe de policia Samuel Uchôa.</p> + +<p>Dos mesmos documentos officiaes constam declarações dos proprios +assassinos, pelas quaes se vê que as incitações da <i>Tribuna</i> os demoviam +áquelles crimes.</p> + +<p>Emfim as cousas chegaram a tal ponto, que um soldado, que assassinou +publicamente um portuguez, esperando-o de dia e dando-lhe um tiro, apesar de +o confessar, e o crime estar provado, foi condemnado a sete annos de prisão +simples, tendo o advogado circumscripto a sua conclusão a pedir que a pena de +morte fosse reduzida a vinte annos de degredo com trabalhos!</p> + +<p>Em 1857 appareceu afogado um portuguez. Querem ver a sentença que deu o +juiz municipal ácerca do desaparecimento do cadaver? Ahi vae:</p> + +<p> </p> + +<p>«Sendo a sentença do infeliz portuguez Antonio, dada por um juiz superior +a todos os juizes, nenhum recurso existe mais; e por nada mais poder fazer, +condemno a todos os que trabalharam no presente processo a pagar as custas em +<i>Padre Nossos</i> e <i>Ave Marias</i> por alma do finado, entrando n'este +numero eu que já rezei o meu; e cabendo o maior numero ao sub-delegado, e ao +escrivão para não processarem os mortos. O escrivão devolva este ao +sub-delegado, deixando traslado no cartorio do despacho de fl. 4, a 14 verso, +e d'esta para ser remettida ao bispo, quando elles não paguem as custas.</p> + +<p>Cametá, 26 de julho de 1857.—<i>Lourenço José de Figueiredo</i>.»</p> + +<p> </p> + +<p>Não é preciso dizer mais.</p> + +<p>O livro do sr. Pércheiro presta um bom serviço aos portuguezes, que antes +de irem para o Brazil quizerem ver a triste sorte que os espera.</p> + +<p>Diz mais o sr. Pércheiro que o clero do Pará, ou o jezuitismo, que é o +mesmo, se associa aos inimigos dos portuguezes, por causa da maçonaria, onde +elles estão quasi todos filiados. Isto não é novo.</p> + +<p>Por fim aconselha os portuguezes a emigrarem para a Africa, aonde ha +grandes riquezas a explorar, e a justiça se administra egual para todos.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>5 de junho</i>).<span class="pagenum"><a id="pag_402" +name="pag_402">[402]</a></span></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>GAZETA DO DIA</h3> + +<p>É um livro ousado, atrevido, abertamente, francamente verdadeiro, como não +estamos costumados a ler muitos na nossa terra. As cousas mais graves e +melindrosas dizem-se ali sem reticencias equivocas, sem rodeios covardes: os +factos são narrados na sua cruel nudez, as pessoas apontadas com desusada e +corajosa valentia.</p> + +<p>Em todo o livro respira-se a franqueza rude dos tempos primitivos. Nem +mesmo os caracteres mais abjectos são ligeiramente mascarados. O sr. +Pércheiro não os deixa adivinhar, mostra-os, com toda a energia, com toda a +vehemencia, e ao mesmo tempo com toda a confiança e sangue frio que dá a +consciencia da verdade. Muitos censurar-lhe-hão a excessiva franqueza em nome +d'um <i>savoirvivre</i> que se baseia no proloquio—«nem todas as verdades se +dizem.»—Que nunca o intrepido auctor d'esse livro se arrependa de as ter +dito. É condição humana o procurar a verdade, e dever de todos o dizel-a. +Além d'isso as verdades enunciadas pelo sr. Pércheiro, proveitosas para +todos, só para elle poderão ser nocivas. Honra pois ao amor da verdade que +vence o egoismo, á coragem que supéra o interesse individual á indignação que +esquece as conveniencias triviaes. O livro do sr. Gomes Pércheiro é o maior +protesto contra a alliciação exploradora dos engajadores, é o mais efficaz +antidoto á febre da emigração que arranca quotidianamente a Portugal milhares +dos seus mais robustos filhos, para se estiolarem miseravelmente nas terras +doentias e quasi selvagens do norte do Brazil. Tem esse protesto a eloquencia +grandiosa dos factos e da verdade. Mostre-se bem ao homem que vae deixar a +sua patria para no sólo brazileiro ir consumir a sua vida, o thesouro +precioso da sua actividade, os annos floridos da sua adolescencia, em busca +de riquezas maravilhosas que lhe sorriem em sonhos; o que é a terra para onde +vae; o que soffrem lá os seus irmãos; o modo porque são reconhecidos e pagos +os seus trabalhos sem treguas, a sua dedicação sem limites.</p> + +<p>Os martyres catholicos acabaram no dia em que a sciencia arrancou do +espirito moderno as crenças do maravilhoso, que ali se aninhavam nas trevas +da ignorancia, com todo o brilho seductor dos contos de fadas.</p> + +<p>Tirem do espirito do emigrante a miragem fascinadora que d'essas ardentes +plagas os chama pela boca dos alliciadores; façam-lhes vêr em toda a sua +verdade, em que se resume o paraizo<span class="pagenum"><a id="pag_403" +name="pag_403">[403]</a></span> que de longe tão seductor é; que a emigração +para o Brazil terminará immediatamente e os milhares de braços que para ali +vão cavar a terra que muitas vezes lhes é sepultura, empregar-se-hão na +cultura do nosso fertil sólo, ou irão explorar outro sólo, tanto mais rico +que o Brazil, mais hospitaleiro e civilisado do que elle, que é nosso, e que +por nós tão descurado está: os terrenos de Africa. Ha de ferir muitas +susceptibilidades, levantar muitos odios o livro <i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p>Bem o sabia o seu auctor, e mais gloria lhe cabe sabendo-o, não ter +recuado. Vendo de perto a tempestade, vivendo no meio d'aquelles tumultos +continuos, que tantas vezes teem feito correr o sangue portuguez, sem que as +auctoridades brazileiras tenham força, energia, ou vontade para obstar +áquelles crimes quasi quotidianos. Soldado d'essa campanha cruenta, que no +Pará os portuguezes teem a toda a hora de sustentar, contra o indigena +selvagem assalariado pelos tribunos ignobeis, que erguem n'aquellas paragens +a esfarrapada bandeira da reacção, o sr. Gomes Pércheiro viu, sentiu e +soffreu todas as infamias que aponta, todas as abjecções que castiga, n'um +estylo incorrecto ás vezes mas sempre vigoroso, fustigante como o chicote, +lacinante como o bistori. Foi mais do que espectador, foi actor tambem n'essa +terrivel tragedia.</p> + +<p>As <i>Questões do Pará</i> são paginas cruamente verdadeiras á historia do +Brazil. Talvez o sr. Pércheiro se deixe ás vezes levar pelo justo rancor que +lhe despertaram os crimes que presenceou, a indolencia que viu da parte dos +governos em os prevenir, prejudicando assim um pouco a imparcialidade do +historiador. Talvez a serenidade do narrador seja ás vezes supplantada pela +vehemencia do pamphletario. Não lh'o podemos, porém, censurar, ao vermos que +essa vehemencia nasce da indignação santa contra os implacaveis inimigos dos +nossos desgraçados compatriotas, que nas terras do Pará morrem assassinados +covardemente, vilmente, por um bando de selvagens postos ao serviço do +egoismo, da ignorancia, da malvadez e da reacção.</p> + +<p>O livro do sr. Pércheiro é de salutar lição para aquelles que no canto +placido e benefico da sua patria, se sentirem aguilhoados pela febre da +ambição de thesouros imaginarios; é de santo conforto para aquelles que +empenhando a vida nas luctas sanguinolentas de que o Pará tem sido theatro, +ouvem a voz energica de uma consciencia sã, bradando eloquentemente o pró da +sua causa, combatendo energicamente, até ás ultimas trincheiras os seus +terriveis inimigos.</p> + +<p>Nas <i>Questões do Pará</i>, arrancam-se muitas mascaras, põem-se a nu +muitas chagas, desvedam-se muitas infamias que até<span class="pagenum"><a +id="pag_404" name="pag_404">[404]</a></span> hoje estavam envoltas nas mais +amplas trevas. É grande pois o serviço por esse livro prestado, e nós que +acima de tudo prezamos a verdade, a sinceridade e a justiça, aguardando o +seguimento das <i>Questões do Pará</i> que o sr. Pércheiro nos promette, +louvamol-o hoje pela corajosa franqueza do seu livro, livro que ha de ficar +como documento interessante, curioso, e mesmo indispensavel para a historia +da emigração portugueza para o Brazil no meiado do seculo XIX, e que mais que +é um bom livro, é uma boa acção.</p> + +<p style="text-align:right;"><em>Gervasio Lobato.</em></p> + +<p>(<i>25 de junho.</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>Questões do Pará</h3> + +<p>Com este titulo acaba o sr. Gomes Pércheiro de publicar um livro, que hade +ser lido com soffreguidão em Portugal e no Brazil. Chegado recentemente do +Pará, onde esteve envolto na lucta que ali se trava, o sr. Gomes Pércheiro +conhece perfeitamente a historia das questões, que trazem acceso o animo dos +paraenses. Delegado de uma agencia telegraphica, tinha, por obrigação de +officio, de investigar os successos, de lhes averiguar as causas, de penetrar +emfim nos segredos d'essa guerra cruenta e infame que um grupo de brazileiros +está movendo aos portuguezes que vão ás terras de Santa Cruz procurar +hospitalidade e trabalho.</p> + +<p>As suas revelações não pódem portanto deixar de ser curiosas, e nós lemos +o livro com o maior interesse. Empenhados ha muito n'uma lucta energica +contra os propagandistas da nacionalisação do commercio, tendo seguido ha +dois annos as peripecias da guerra movida no Pará aos portuguezes, muitas +vezes lamentámos não conhecer os fios secretos dos tramas, cujas +manifestações exteriores de longe presenciavamos e condemnavamos. Era tão +desnatural aquella guerra, eram tão oppostas aos principios hoje admittidos +geralmente em todo o mundo civilisado as idéas apresentadas pela +<i>Tribuna</i>, que muitas vezes procurámos ler nas entre linhas do ignobil +pasquim uma indicação que nos revelasse qual era o motor secreto da sua +propaganda, quaes os verdadeiros intuitos d'essa cruzada absurda e ridicula. +</p> + +<p>O livro do sr. Pércheiro conduz-nos aos bastidores d'esse theatro, onde +infelizmente não se representa só a farça em que Arlequino e Pulcinella e +Pantalon são Marcellino Nery, João Cancio e Romualdo, onde tambem se +representa a tragedia de Jurupary, onde o sangue inunda o tablado, onde +scenas de deploravel<span class="pagenum"><a id="pag_405" +name="pag_405">[405]</a></span> selvajeria espantam quem das praias do velho +mundo contempla ao longe esse estranho e imprevisto espectaculo.</p> + +<p>No livro do sr. Pércheiro fructo de rapida e febril improvisação, sente-se +ainda todo o ardor do combate, o vigoroso resentimento de quem não conta só +infortunios e aggravos alheios, mas que sabe tambem por experiencia propria +quanto doem a calumnia e o insulto, vibrados por quem devia acolher o +estrangeiro que trabalha com a hospitalidade que hoje em parte nenhuma se lhe +recusa. O sr. Pércheiro foi effectivamente uma das victimas da +<i>Tribuna</i>. Contra elle teve sempre engatilhados o orgão dos +nacionalisadores os seus mais torpes improperios. O seu nome era um dos que +voltavam em todos os numeros do jornal de Marcelino Nery lardeados de +injurias. Deve honrar-se com isso o sr. Pércheiro; uma verrina da +<i>Tribuna</i> vale mais do que trinta attestados de bom procedimento moral, +civil e religioso.</p> + +<p>Historiando as questões do Pará, o sr. Pércheiro, se não póde evitar que o +seu livro cheire a polvora, por assim dizermos, se não póde cohibir +violencias de estylo, que a sua situação amplamente desculpa, mostra comtudo +o desejo de ser imparcial, e verdadeiro, porque esteia a cada passo a sua +narrativa em documentos que a comprovam, e os capitulos puramente historicos +do livro quasi que se compõem de extractos dos jornaes paraenses, onde +podemos seguir, dia a dia, o desenvolvimento dos successos.</p> + +<p>Nos capitulos em que trata de analysar a situação dos portugueses e a +attitude dos brazileiros, é certo que por mais de uma vez se sentem as +represalias de um espirito ulcerado pelas injustiças de que foi victima, as +coleras de uma alma patriotica offendida no que ella tem de mais caro, o bom +nome, o pundonor e os brios da sua terra natal. Os jornalistas insultadores +que escrevem á solta no Pará não atacam esta ou aquella parte da população +portugueza, aggridem collectivamente o nosso paiz, no seu presente, no seu +passado, nas suas instituições, no seu caracter nacional.</p> + +<p>Difficil seria portanto a um escriptor portuguez, que esteve no Pará +envolto na lucta e que recebeu em cheio esses insultos vibrados á sua patria, +responder com a moderação á violencia, e pagar os vituperios a Portugal com +os louvores ao Brazil. A propria injustiça era desculpavel, e comtudo o sr. +Pércheiro procura não ser injusto. Não sabemos o que haverá de exageração +apaixonada no que o sr. Pércheiro diz da educação dos brazileiros.</p> + +<p>Nós não desejamos acompanhal-o a esse terreno, nós que sempre procurámos +marcar bem a distincção entre a população brazileira,<span class="pagenum"><a +id="pag_406" name="pag_406">[406]</a></span> generosa, fraternal para nós, +ainda que nem sempre isenta de antigos preconceitos, da tribu de insultadores +e de assassinos que formam a escoria do Brazil, e que não pódem com justiça +ser considerados como os representes de um nobre paiz.</p> + +<p>Mas ainda que admittamos que haja n'esses capitulos a apaixonada +exaggeração, que é ainda como que um echo da pugna a todo o transe, em que o +sr. Pércheiro esteve envolto, não podemos deixar de reconhecer que ha ali +revelações que teem um grande cunho de verdade, e que explicam muitos factos +que aliás seriam incomprehensiveis. O odio aos portuguezes é tradicional no +Pará. Ha mestres que o incutem no animo das crianças. Ha familias que o legam +aos seus filhos como um deposito sagrado, e assim se inocula no animo das +gerações novas um sentimento absurdo e vil, que prepara os leitores fanaticos +da <i>Tribuna</i>, e os assassinos de Jurupary.</p> + +<p>Em resumo o livro do sr. Pércheiro respira todo o ardor da lucta, sente-se +n'elle impresso o cunho dos resentimentos, ouve-se ainda o echo das +violencias do combate, mas é no fim de tudo um livro fluentemente escripto, e +que não póde deixar de ser consultado por todos os que desejarem conhecer a +historia d'essas deploraveis questões, que tem sido fataes aos nossos +compatriotas, fataes tambem á prosperidade do Brazil. São por assim dizer as +memorias de um combatente, que foi testemunha occular, testemunha bem +informada dos factos que narra, e que em Portugal só são muito +perfuntoriamente conhecidos.</p> + +<p>Se essas revelações impedirem muitos dos nossos compatriotas de ir +procurar fortuna em tão inhospito paiz, terá o sr. Pércheiro prestado a +Portugal e aos portuguezes um verdadeiro serviço.</p> + +<p style="text-align:right;"><em>Pinheiro Chagas.</em></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>ACTUALIDADE</h3> + +<p><i>Questões do Pará</i> por D. A. G. Pércheiro. N'este livro que temos á +vista e que seu auctor nos offertou, procura-se, em linguagem correcta e por +vezes elevada, tornar conhecida a indole dos factos desastrosos que +ultimamente tem desacreditado aos olhos do mundo civilisado uma das mais +ricas e importantes provincias do Brazil.</p> + +<p>O sr. Pércheiro foi agente da Agencia Telegraphica Americana, no Pará e +por isso, teve, pela sua posição, de acompanhar todos os movimentos da +opinião publica.<span class="pagenum"><a id="pag_407" +name="pag_407">[407]</a></span></p> + +<p>A sua narração é serena e conscienciosa, apesar de ter vivido n'aquelle +meio de encontradas paixões.</p> + +<p>Os partidos não conseguiram cegal-o com a grandeza apparente de suas +promessas, e por isso o seu livro tem muita importancia e a sua leitura é de +grande utilidade para aquelles que quizerem imparcialmente avaliar a lucta +travada no Pará.</p> + +<p>Ahi encontra o leitor esclarecimentos de toda a ordem: actos officiaes, +artigos da imprensa brazileira, manifestos, documentos judiciaes, etc.</p> + +<p>Recommendando a sua leitura não fazemos mais do que praticar um acto de +justiça.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>23 de junho.</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>COMMERCIO DO PORTO</h3> + +<p>Esta obra, sahida ha pouco tempo dos prelos d'uma typographia da capital, +trata das questões que ultimamente se deram na provincia do Pará, questões +que os leitores muito bem conhecem, e que não carecem agora dos nossos +commentarios, pois que já sobejamente os fez a imprensa digna e séria dos +dois paizes interessados.</p> + +<p>A obra do sr. D. A. Gomes Pércheiro, analysando factos mais ou menos +importantes, revela muito patriotismo, muito interesse e dedicação pelas +coisas do nosso paiz. O sr. Pércheiro parece-nos um combatente energico, leal +e corajoso. Este é, por sem duvida, o seu mais bello titulo de gloria.</p> + +<p>Terminamos agradecendo o exemplar com que fomos brindados.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>26 de junho.</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>DIARIO ILLUSTRADO</h3> + +<p>Realisou-se no domingo, em Bemfica, uma festa verdadeiramente esplendida. +Por iniciativa do reverendo prior celebrou-se pela vez primeira, n'aquella +freguezia a solemnidade de <i>Corpus Christi</i>. O professor de instrucção +primaria da localidade, escolheu o mesmo dia para a distribuição dos premios +aos seus alumnos mais distinctos. A distribuição effectuou-se na egreja +parochial, antes da festa. Assistiram os srs. administrador e camara +municipal do concelho, inspector dos estudos, professores<span +class="pagenum"><a id="pag_408" name="pag_408">[408]</a></span> das povoações +circumvisinhas e algumas das pessoas mais gradas da terra.</p> + +<p>A concorrencia foi numerosissima. Os estudantinhos sairam da escola á +frente do seu professor e acompanhados pela philarmonica Euterpe. Os +convidados distribuiram os premios. Os alumnos premiados foram onze. Os +premios foram comprados a expensas do professor.</p> + +<p>O nosso amigo, o sr. Gomes Pércheiro, offereceu a cada um dos onze alumnos +um exemplar da sua obra—<i>Questões do Pará</i>—com esta dedicatoria: +«<i>Aos meninos que estudam e foram approvados na escola de Bemfica, em 1875. +Este modesto trabalho ensina um pouco a saber o que é o amor da patria, por +isso o offerece o auctor.</i>»</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>30 de junho.</i>)</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3><a name="SECTION001022110">Juizo critico do «Districto de Aveiro», +seguido de duas cartas do auctor das «Questões do Pará»</a></h3> + +<p>Temos aberto diante de nós um livro, que nos fizeram ha tempos a honra de +remetter, e que tem por titulo—<i>Questões do Pará</i> por D. A. Gomes +Pércheiro. É uma interessante exposição de factos, que lança muita luz sobre +a situação em que se acha a colonia portugueza na provincia do Pará, e desfaz +algumas illusões espalhadas geralmente sobre a protecção de que alli gosam os +nossos compatriotas.</p> + +<p>Entristece-se o espirito ao ler o livro a que nos referimos. Dando mesmo +de barato que a paixão entrasse em algumas apreciações, exageradas +evidentemente, pondo ainda de parte o estylo declamatorio de alguns periodos +que se nos figuram deslocados, e resumindo unicamente a analise aos factos +que os documentos citados comprovam, vê-se claramente que no Pará se move +crua guerra aos portuguezes, e se desconsidera estranhamente a nação a que +pertenceram os antigos descobridores do Brazil.</p> + +<p>E o mais desconsolador é que se a guerra existe principalmente nas mais +baixas camadas sociaes, estimuladas pela inveja torpe dos lucros que aufere a +actividade do commercio portuguez, é nas classes inferiores que a +desconsideração mais se revela, não faltando testemunhos a apregoal-a, nem +havendo peijo em que ella se declare por actos publicos e significativos.</p> + +<p>Os actos praticados pelos afiliados nas idéas d'um papel incendiario e +nojento que, para vergonha do jornalismo, pretende no Pará tomar as fórmas de +jornal, seriam apenas crimes vulgares,<span class="pagenum"><a id="pag_409" +name="pag_409">[409]</a></span> como os de qualquer José do Telhado que nós +costumamos deportar para as nossas possessões africanas, se os não +revestissem circumstancias que lhes alteram substancialmente a +significação.</p> + +<p>Ha um homem, que parece que se chama Sequeira Mendes, que é conego, pessoa +importante da provincia, proprietario de um jornal, deputado provincial, +grande influente politico, que não duvida, ostensivamente mesmo, declarar-se +protector d'essa horda de malvados. Provavelmente precisa d'elles para os +seus manejos partidarios. E por isso trata de affastar d'elles o castigo que +a justiça,—não nos atrevemos a dizer a lei, porque nem sempre a lei é a +expressão da justiça,—lhes devia já ter applicado.</p> + +<p>Isto prova tambem que a opinião publica é adversa aos portuguezes, e que +uma revalidade de nação para nação substituiu o affecto que devia ligar por +todos os titulos o Brazil a Portugal. Até a exploração partidaria, dá +testemunho de que essa revalidade existe, e produz as suas ominosas +consequencias. Um dos factos que mais incontestavelmente attestam este +deploravel estado de coisas é a indulgencia criminosa com que o jury +brazileiro absolve os que attentam contra os haveres e contra a vida dos +portuguezes, e, em opposição, a severidade que desenvolve sempre que o +culpado é um portuguez. Isto prova-o o sr. Pércheiro com trechos copiados dos +proprios jornaes brazileiros. Não é pois uma simples allegação, caso em que +nos recusariamos a acceital-o. Demonstra-o o que se passou com o assassinato +do calafate portuguez Antonio Candido Valle por um soldado de infanteria n.º +11, igualmente o demonstra o que se passou com a condemnação do portuguez +Domingos dos Santos Coelho.</p> + +<p>N'um artigo do jornal brazileiro <i>America do Sul</i>, citado pelo sr. +Pércheiro, apresentam-se os factos a esta luz, e não se desfarça mesmo a +significação que elles tem. Depois de referir e analysar os dois julgamentos, +concilie por esta fórma: «<i>Esperemos: O que nos parece—dizemol-o «ab imo +pectores»—é que actualmente, no sanctuario da justiça, não se julgam crimes +mas sim nacionalidades. Pois é mau, muito mau, se assim acontece.</i>»</p> + +<p>Ora isto é muito grave. Quando nem a serenidade da justiça escapa á +influencia d'um odio assim pronunciado, se elle tem já tanta força que faz +dobrar a inflexibilidade da lei, é porque o seu poder é grande, enorme.</p> + +<p>Outro facto cita o sr. Pércheiro que causa a mais desgraçada impressão, +porque mostra que nas proprias repartições do estado se revela a maxima +desconsideração por tudo o que é portuguez. Citamos as proprias palavras do +auctor do livro:<span class="pagenum"><a id="pag_410" +name="pag_410">[410]</a></span></p> + +<p>«Ha já alguns annos, o caixeiro d'uma casa ingleza, moço portuguez, +apresentou-se na secretaria do governo e entregou ao continuo um documento, +que, depois de assignado pelo official maior, daria livre pratica a um navio, +que tinha annunciado a sua sahida para as quatro horas da tarde. Era uma hora +quando o empregado portuguez fez a entrega, promettendo voltar ás tres horas. +Chegado ali a esta hora, pouco mais ou menos, o continuo recebeu-o mal, e +demorou o nosso amigo até fechar-se o expediente. Vinha sahindo o empregado +superior, a quem o empregado da casa commercial se dirigiu, e em termos finos +lhe communicou o fim da sua ida ali. O official maior, fez ver que estava +fechado o expediente, não attendendo ás razões culpaveis do seu subordinado, +e á circumstancia de que um navio não devia demorar a sua viagem pela falta +de uma simples assignatura.</p> + +<p>«Não fez caso o empregado. Estava tratando com um portuguez e isso +bastava!</p> + +<p>«Não se conformou com isto o pretendente, e sabendo que o presidente e +outros empregados d'alta cathegoria estavam reunidos n'uma sala proxima, +entrou e fez ver tudo que acabava de acontecer-lhe, não lhe esquecendo dizer +que elle era caixeiro da respeitavel casa ingleza de F. e que seus patrões +fariam, com toda a certeza, sahir n'aquella mesma tarde o navio que se +pretendia despachar.</p> + +<p>«Coisa admiravel! o presidente apenas ouviu as palavras—<i>casa +ingleza</i>—deu um pulo na cadeira, tocou com estrondo a campainha, ao som +da qual acudiu o continuo, que recebeu ordem para chamar o tal official +maior. O presidente chegou mesmo a levantar-se da sua cadeira, e dirigindo-se +para a janella, fez d'ali signal ao empregado superior.</p> + +<p>«Na volta o presidente fez ver a este empregado, que o caso que acabava de +dar-se era estranhavel, por quanto ainda ha pouco tempo lhe tinha mostrado um +officio confidencial do ministerio competente, no qual se recommendava a +maior attenção com todos os negocios trocados entre as differentes +repartições do estado e as altas potencias, como a Inglaterra, a França, os +Estados Unidos, etc!... O alto funccionario respondeu simplesmente, que o +caixeiro pretendente era portuguez, e por isso pensava que a casa commercial +era tambem portugueza!!»</p> + +<p>Este facto parece incrivel. Recusa-se o nosso espirito a acceital-o. Mas +devemos confessar que elle desgraçadamente está d'accordo com outros de que +não é licito duvidar, e que se não são tão explicitos, revelam a mesma +tendencia. Devendo os portuguezes ser no Brazil os primeiros, vê-se que são +os ultimos. E não lh'o merecem decerto, nem pelo passado nem pelo +presente.<span class="pagenum"><a id="pag_411" +name="pag_411">[411]</a></span> Em toda a parte da monarchia portugueza, onde +o brazileiro se apresenta é recebido com mais que deferencia, ás vezes até +com favor.</p> + +<p>Temos pena de que o sr. Pércheiro dominado por uma paixão, cujo fundamento +ignoramos, fosse tantas vezes d'uma critica tão irritada, que obrigue o animo +imparcial a dar ás suas palavras, quando as não comprovam testemunhos +insuspeitos, certo desconto. A boa critica não póde aceitar como proposições +geraes o que deve apenas admittir-se como limitada excepção, quando existe. E +seria mesmo mais vantajoso para o credito que deve merecer o seu livro, que +moderasse um pouco mais a sua linguagem. Os vicios, os abusos não dão direito +a quem os censura de ser... quando menos exaggerados. E perdoe-nos o sr. +Pércheiro, cremos que em alguma parte o foi. A verdade não é decerto aquella. +Não citamos senão um logar em que esta reflexão nos accudiu, mas podiamos +citar outros. É a paginas 181.</p> + +<p>Afora isto, era util que o livro do sr. Pércheiro se vulgarisasse, que a +população illudida, que deserta para as praias de Santa Cruz, tivesse +conhecimento verdadeiro do que por lá se passa, que, quanto a nós, é este o +melhor meio d'ella crear mais amor á terra em que nasceu, e não a abandonar +tão desassisadamente, arrastada pela sêde insoffrida de uma opulencia +rapidamente adquirida.</p> + +<p style="text-align:right;">(<i>Districto de Aveiro</i>, de 5 de julho.)</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p><i>Sr. redactor do «Districto de Aveiro».</i>—Só hoje me veiu parar ás +mãos o n.º 360 do seu importantissimo jornal, no qual sob o titulo—<i>Nova +publicação</i>, vem publicado um extenso artigo de appreciação ao meu pobre +trabalho—<i>Questões do Pará</i>, appreciação que não devo deixar passar em +claro sem os devidos reparos, embora humildes.</p> + +<p>Perdoe-me v. ex.ª que com a minha modestia, que o auctor do referido +artigo não quiz ver na carta—prologo feito ao meu livro, lhe diga, que tão +abalisado critico me faz algumas injustiças, contradizendo-se mais de uma vez +na sua appreciação, por fórma a querer sustentar ao mesmo tempo—o preto e o +branco—dos escriptores sem consciencia.</p> + +<p>A circumstancia de ter sido tal appreciação publicada em jornal portuguez +e de não trazer o nome do seu auctor, me inhibe de collocal-a ao lado dos +escriptos parciaes, que sobre o<span class="pagenum"><a id="pag_412" +name="pag_412">[412]</a></span> meu insignificante trabalho, hão-de mais +tarde apparecer na imprensa brazileira.</p> + +<p>Foi o meu livro escripto no corrente anno, desde 6 de março até 8 de +abril, dia em que sahi do Lazareto. A 12 d'este mez, apresentei o +manuscripto ao meu amigo Ferreira Lobo, ainda na incerteza de que similhante +trabalho visse a luz publica: taes eram os defeitos da fórma, que, d'antemão, +lhe reconhecera. Animou-me o distincto escriptor, que venho de referir, com a +sua carta que antecede as <i>Questões do Pará</i>. Reconheceu-lhe, mais +abalisado do que eu, esses defeitos, filhos da exiguidade do tempo e da +occasião em que fôra delineado o meu trabalho, das nenhumas aspirações da +minha parte ás honras de litterato e ainda menos ás de historiador, para o +que sempre reconhecera faltar-me o estylo atreito aos homens talhados pela +natureza, como o meu illustre critico, para escrever livros de tão alto +merecimento.</p> + +<p>Provo ainda n'este logar, que não aspirava eu a tão elevadas honras, com a +minha annuencia ás idéas do auctor do prologo, no seguinte:</p> + +<p>«Pede comtudo a sinceridade e a franqueza de que me preso que lhe diga, +antes de terminar, que não é o seu trabalho um primor litterario. O amigo foi +o primeiro a apontar-lhe os defeitos da fórma. Mas não se desconsole com +isto. No desordenado da phrase e no descuidado da exposição transparece muito +claramente a verdade de tudo que o amigo assevera. Não ha artificios nem +arrebiques. O seu escripto foi traçado quasi todo durante a viagem, sem +auxilio de livros. É agitado, revolto, caprichoso como as vagas que +balouçavam a mesa sobre que foi delineado», etc.</p> + +<p>As minhas idéas, quando tratava de publicar o livro, eram outras.</p> + +<p>Era meu intento unicamente protestar sem perda de tempo, na esperança de +obter do nosso governo remedio salutifero, embora energico, contra a tyrania +de que continuavam a ser victimas os nossos irmãos em terras brazileiras.</p> + +<p>Eis porque aproveitei para melhor coisa o tempo que me poderia levar a +rever a obra ou a fazer-lhe o prologo, onde, com as minhas proprias palavras, +apontasse os defeitos litterarios, que ella encerra, satisfazendo assim as +justas exigencias dos homens de lettras, em cujo numero conto o meu sapiente +sensor.</p> + +<p>Tratava-se, pois, n'aquelle momento, de coisas mais importantes para mim +do que fazer estylo; por isso, a 15 do referido mez de abril, era o meu +trabalho entregue na typographia Lallemant, que, passados apenas 15 dias, me +apresentava a 17.ª<span class="pagenum"><a id="pag_413" +name="pag_413">[413]</a></span> folha, a ultima, com a qual fechava uma +impressão de 3:000 livros! Mas é preciso que eu aponte as contradições em que +cahiu o distincto articulista do <i>Districto de Aveiro</i>.</p> + +<p>Não cabe bem a quem não aspira ás honras de litterato fazer critica; mas +perdoe-me v. ex.ª a liberdade. Digne-se levar estes meus reparos á conta dos +que não sabem, e que milhor illucidados, podem aprender mais alguma cousa com +outras lições.</p> + +<p>Diz o abalisado articulista sobre o meu livro:</p> + +<p>«É uma <i>interessante</i> exposição de factos, que lança muita luz sobre +a situação em que se acha a colonia portugueza na provincia do Pará, e desfaz +algumas illusões espalhadas geralmente sobre a protecção de que ali gosam os +nossos compatriotas.</p> + +<p>«Entristece-se o espirito ao ler o livro a que nos referimos. Dando mesmo +de barato que a paixão entrasse em algumas apreciações, <i>exaggeradas +evidentemente</i>. (No torniquete em que eu me vi não quizera eu ver s. ex.ª, +a não ser para me dar rasão), pondo ainda de parte o estylo declamatorio de +alguns periodos que se nos figuram deslocados. (Nada tem com o caso da +veracidade dos factos. Os defeitos já foram reconhecidos pelo auctor, antes +de se lhe fazer critica); e resumindo unicamente a analyse aos documentos que +os factos comprovam, vê-se claramente», etc.</p> + +<p>N'este trecho vê-se que a minha exposição deixou de ser +<i>interessante</i>... Mas continuemos:</p> + +<p>«E o mais desconsolador é que se a guerra existe principalmente nas mais +baixas camadas sociaes, estimuladas pela inveja torpe dos lucros que aufere a +actividade do commercio portuguez, é nas classes inferiores que a +desconsideração mais se revela, <i>não faltando testemunhos</i> a apregoal-a, +etc».</p> + +<p>Aqui muda de diapasão. A minha exposição torna a ser <i>interessante</i>, +porque <i>esses testemunhos</i> forneço-os eu, sem apresentar documentos que +os comprovem. São simples allegações da minha parte, postas no meu livro, +talvez que com o fim de fazer melhor venda ao meu peixe!...</p> + +<p>Mas o abalisado crítico crê e não crê nas minhas allegações! Recusa-se +acceital-as em alguns pontos, não obstante confiar n'ellas quando trato do +conego Sequeira Mendes, já no meu livro, já em artigos que n'elle transcrevo, +artigos por mim publicados nos jornaes do Pará. E mais se fia ainda no que +digo com respeito ao facto do caixeiro da casa ingleza, chegando a honrar-me +com as seguintes phrases antes de transcrever para o seu artigo a parte do +meu livro onde conto o occorrido:</p> + +<p>«Outro facto cita o sr. Pércheiro que causa a mais desgraçada impressão +porque mostra que nas proprias repartições do estado se revela a maxima +desconsideração por tudo o que é<span class="pagenum"><a id="pag_414" +name="pag_414">[414]</a></span> portuguez. Citamos as proprias palavras do +auctor do livro» etc.</p> + +<p>Depois do meu contendor transcrever o que eu digo ser—facto—mas ao qual +não junto documento algum que o <i>comprove</i>, termina com o seguinte, +ainda em meu abono: «Este facto parece incrivel. Recusa-se o nosso espirito +acceital-o. <i>Mas desgraçadamente está de accordo com outros</i> (que não +comprovo com documentos), <i>de que não é licito duvidar» etc.!</i></p> + +<p>Conclue-se, que a minha exposição foi <i>interessantissima</i>.</p> + +<p>Mas com respeito aos tribunaes, deixou de o ser: as provas que allego +encontra-as s. ex.ª nos trechos dos jornaes que cito. <i>As minhas simples +allegações recusa-se a acceital-as.</i> A exposição do jornalista Carvalho, +redactor da <i>America do Sul, nosso digno compatriota</i>, o qual não +compareceu, como eu, na audiencia onde se julgava o assassino do infeliz +portuguez calafate, mereceu-lhe mais credito, porque aquelle cavalheiro é +habil e soube fazer estylo!...</p> + +<p>A descarga geral é no fim. Ali não ha mais contemplações. O valente +guerreiro arranca, uma a uma, todas as folhas de louro, que já começára a +arrancar, da corôa que logo no principio da batalha me conferira, e, +desapiedado, até pisa a haste em que ellas se prendiam!</p> + +<p>Oiçamol-o:</p> + +<p>«Temos pena que o sr. Pércheiro, <i>dominado por uma paixão, cujo +fundamento ignoramos</i>, fosse tantas vezes d'uma critica tão irritada, que +obrigue o animo imparcial a dar ás suas palavras, <i>quando as não comprovam +testemunhos insuspeitos</i>, certo desconto.»</p> + +<p>Queria o illustrado articulista que eu estivesse a rir e a dispensar +zumbaias aos brazileiros, em presença dos portuguezes assassinados, dos +tribunaes que absolviam os assassinos e do povo que se ria d'estas +absolvições!</p> + +<p>Já disse atraz, e agora repito, que as contradicções do articulista são +manifestas; porque deixei provado que s. ex.ª acceita as minhas revelações, +completamente despidas dos taes <i>testemunhos insuspeitos</i>, que fantasiou +sem duvida para ter occasião de fazer estylo.</p> + +<p>Mas continuemos:</p> + +<p>A boa critica não póde acceitar como proposições geraes, o que deve apenas +admittir-se como limitada excepção, quando existe.»</p> + +<p>Aqui confesso que não comprehendo o meu sensor: tal é a minha +ignorancia!... Porque eu não quero por um momento suppor, que seja possivel +ao meu illustre contendor fazer ainda hypotheses sobre as <i>limitadas +excepções</i>, que vê na gente brazileira,<span class="pagenum"><a +id="pag_415" name="pag_415">[415]</a></span> que eu digo nos odeia em sua +maioria, e sobre a qual eu jámais deixarei de sobrecarregar as culpas, que os +inconscientes querem levar á conta da ralé.</p> + +<p>Vejam como são as coisas. Suppunha eu que tinha sido demasiadamente +liberal nas excepções que fiz no meu livro; mas enganei-me!</p> + +<p>Alguns portuguezes, para desiludirem-se, precisam ir passar alguns annos +na <i>amavel</i> companhia dos <i>tribunos</i> em terras brazileiras.</p> + +<p>Convido o illustre crítico a dar um passeio até Jurupary e mais terras do +civilisado Pará e outras provincias. Na volta me dirá se eu tenho razão para +ser apaixonado, e julgará da exactidão das minhas affirmações de paginas 181 +e outros pontos do meu livro, que não rectifico, porque com ellas desejo +evitar que os portuguezes incautos procurem mulheres brazileiras, que, salvas +mui poucas e honrosas excepções (permitta-se-me a repetição, eu sou +incorregivel!) não pódem ser as esposas, nem tão pouco as mães que +ambicionamos para nossos filhos. Muitas razões poderia eu adduzir para +comprovar esta minha asserção; mas falta-me o tempo e o espaço.</p> + +<p>Finalmente, é preciso fazer comprehender aos portuguezes que emigram para +o Brazil, que a sua desgraça está no cruzamento das raças lusitana com a +brazileira, que tanto nos odeia; assim como está tambem no fausto que lá +ostentamos, tão dessimilhantemente dos outros colonos europeus.</p> + +<p> </p> + +<p>Bemfica 19 de julho de 1875</p> + +<p style="text-align:right;"><i>Gomes Pércheiro.</i></p> + +<p> </p> + +<p>Breves palavras apenas. Queixa-se, ou antes argue-nos o sr. Pércheiro de +sermos contradictorios na apreciação do seu livro, porque n'uma parte o +elogiamos, e n'outra fomos menos benevolos com elle,—por julgarmos algumas +das suas apreciações verdadeiras, e a outras não acceitamos sem attestação de +documento.</p> + +<p>Somos então sempre contradictorios, e d'este modo a contradicção é +inseparavel da nossa pobre crítica, porque temos por costume invariavel +elogiar o que nos agrada, e censurar o que nos não parece bom. E o peior é +que não nos arrependemos, nem pretendemos emendar-nos de tão feio peccado. +Quando nos obrigarem a sahir da nossa obscuridade, ha de ser assim. Tenha-nos +embora o sr. Pércheiro por impenitentes. Não nos queixaremos.</p> + +<p>Não o supposemos embusteiro, pareceu-nos exaggerado, pelo<span +class="pagenum"><a id="pag_416" name="pag_416">[416]</a></span> menos em +alguns periodos. A paixão desvaira ás vezes os milhores e mais rectos +entendimentos. O sr. Pércheiro, no nosso modo de vêr, estava apaixonado +quando escreveu o seu livro. Nós é o que não podiamos estar quando o lêmos, a +não ser em favor do sr. Pércheiro, que, na unica vez que tivemos a honra de o +receber, nos pareceu um cavalheiro amabilissimo.</p> + +<p>Ora o que é escripto com paixão precisa de certo desconto. É o que nós +dissemos e dizemos, a respeito das <i>Questões do Pará</i>. E nem por isso +deixa o livro de ser uma interessante exposição de factos, pelos documentos +que contém, pelo que a boa crítica póde d'elle receber sem escrupulo, pelas +noticias que dá com respeito a algumas questões pouco conhecidas entre +nós.</p> + +<p>Dizemos isto a medo de sermos novamente arguidos de contradicção, visto +insistirmos na nota de apaixonado, que melindrosamente repelle.</p> + +<p>O sr. Pércheiro diz que não rectifica o que a pag. 181 escreveu a respeito +das senhoras brazileiras. Nem nós lh'o pedimos. É uma questão de consciencia. +Ha de permittir-nos porêm que continuemos a suppor excepção o que apresenta +como regra. Como excepção ha d'isso em toda a parte. Tambem por cá... Como +regra, temos o testemunho em contrario de muitas familias vindas de lá, que +logramos a fortuna de conhecer.</p> + +<p>Nós partimos em tudo isto d'um principio; que para affirmar nos nossos +compatriotas a convicção de que se não devem aventurar loucamente aos azares +da emigração americana, não é preciso representar-lhe o Brazil como um paiz +de selvagens ou pouco menos; e que d'outra sorte, não fazemos mais que +corresponder á denominação rusticamente injuriosa de <i>galegos</i>, com que +alguns brazileiros julgam affrontar-nos, affrontando-se ao mesmo tempo a +si.</p> + +<p>Se isso é realmente offensa, preferimos ficar offendidos, a parecer-nos +com elles, offendendo-os pela mesma fórma, e com egual justiça. Lisongeia-nos +mais o papel de victimas. É questão de gosto talvez.</p> + +<p>Podiamos assegurar ao sr. Pércheiro que nos foi desagradavel a certeza de +o havermos molestado sem querer. É porém sestro nosso e de muita gente. Ainda +ha pouco o nosso antigo amigo, o sr. Teixeira de Vasconcellos, n'um caso +identico, se queixava de que todos os auctores lhe pediam que fosse franco a +respeito do que escreviam, e todos se julgavam depois offendidos quando elle +tomava o pedido ao pé da letra. Acontece sempre isto.</p> + +<p>Por isso nós costumamos, e cada vez estamos mais firmes n'este +proposito—deixar á redacção d'outros jornaes a noticia das novas publicações +com aquellas palavras sacramentaes de<span class="pagenum"><a id="pag_417" +name="pag_417">[417]</a></span> louvor, que afinal nada significam. Com isso +ninguem se offende. Alguns acham pouco o incenso. Mas d'ordinario todos +gostam.</p> + +<p>Resta dizer ao sr Pércheiro que o redactor principal do <i>Districto de +Aveiro</i>, não costuma assignar os artigos d'esta secção. Esta pratica, que +é de muitos outros jornaes do paiz, equivale a uma assignatura.</p> + +<p>E faremos uma rectificação, visto ser necessaria. Nós não escrevemos: «é +nas classes <i>inferiores</i> que a desconsideração mais se revela;» +escrevemos: «é nas classes <i>superiores</i> que a desconsideração mais se +revela.» No entretanto foi como o sr. Pércheiro cita que o periodo sahiu á +luz. Travessuras dos compositores e descuidos da revisão, a que estamos +habituados. Nem d'ordinario já rectificamos. Deixamos esse cuidado ao bom +senso de quem lê.</p> + +<p style="text-align:right;"><i>Districto de Aveiro</i></p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p><i>Sr. redactor.</i>—Antes de entrar na apreciação da resposta com que v. +exª me honrou em o n.º 366 do seu enteressantissimo jornal, permitta que lhe +agradeça o favor da publicação da minha carta, que motivou esta resposta. +Dito isto, peço egual favor para a inserção d'esta. Perdoe-me v. ex.ª o +abuso. É que eu com a alludida resposta, e outras que se lhe possam seguir, +ficarei <i>vencido</i>, mas nunca <i>convencido</i>: tal é o meu +obscurantismo a respeito das coisas do Brazil. Para demonstrar a v. ex.ª que +não fico convencido, é que escrevo mais estas desconcertadas linhas. Creia +que, se não fôra esta razão, deporia a minha penna de chumbo, que jámais +poderá vencer a de ouro, tão habilmente dirigida por mão de um digno +contendedor como v. ex.ª</p> + +<p>N'essa resposta a que eu alludo, e á qual vou fazer algumas considerações, +suppõe v. ex.ª que me escandalizam as opiniões contrarias ao meu livro e que +me agradam as palavras <i>sacramentaes</i> dos jornalistas sem consciencia. +Permitta que lhe diga, que, ainda mais uma vez tornou a ser injusto comigo, +injustiça que se estendeu a litteratos mui distinctos, que se serviram +apreciar o meu modesto trabalho.</p> + +<p>Eu não me escandaliso com a opinião de criticos tão abalisados como v. +ex.ª; poderei escandalisar-me com as injustiças e apontar as contradicções. E +v. ex.ª foi injusto comigo e contradisse-se em alguns pontos da sua +apreciação ao meu livro. Desculpe a teimosia. Eu tambem sou peccador como v. +ex.ª Acredite-me com franqueza, que não dispenso as palavras +<i>sacramentaes</i> de que falla, nem tão pouco as de censura com que me +distingiu, visto que, para umas e outras eu já estava prevenido, ainda +antes<span class="pagenum"><a id="pag_418" name="pag_418">[418]</a></span> do +meu trabalho ter saido a lume. Antes do apparecimento do artigo de v. ex.ª já +eu tinha recebido os jornaes do Pará, onde, a par das injustiças, vi +publicados alguns artigos bastante insultuosos. Já vê v. exª que eu esperava +flores e espinhos ao mesmo tempo. Mas eu sou tão differente dos outros homens +(e sinto que v. ex.ª me não tivesse ainda comprehendido), que julgo +importarem em pouco as palmas e as pateadas a quem tem a consciencia +tranquilla. E a minha, mercê do Altissimo, não o póde estar mais. Comtudo +agradeço umas e outras.</p> + +<p>Folgo devéras, que não tenha visto em mim um embusteiro e apenas as +parecensas com quem foi exaggerado e apaixonado, isto com referencia a alguns +periodos do meu livro. Esta confissão agrada-me; mas é perciso desfazer no +animo de v. ex.ª essas ideas, que tão injustamante me arroga. Eis o que ainda +vou tentar.</p> + +<p>Não ha exaggeração da minha parte, quando digo que a maioria dos paraenses +nos odea; porque, para comprovar esta minha asserção, me sirvo das proprias +palavras da <i>folha official</i>:</p> + +<p>«Ao passo que o Japão se vae civilisando, o Pará, em vista dos ultimos +acontecimentos, está passando no estrangeiro como terra de selvagens!</p> + +<p>«Pena é que as ideas intituladas <i>patrioticas</i> (o exterminio dos +portuguezes), não tenham encontrado apoio sómente em meia duzia de moços +inexperientes.»</p> + +<p>E basta. Isto significa um mundo de desgraças, que justificariam os meus +<i>exaggeros</i> e a minha <i>paixão</i>.</p> + +<p>O governo, representante do povo brazileiro, odeia-nos tambem porque +despresa a nossa causa, que é justa. Tomando o seu exemplo, os tribunaes são +quasi sempre facciosos, quando julgam o portuguez delinquente. Mil factos o +comprovam. E no nosso paiz não ha exemplo que os juizes julguem +nacionalidades. Haja vista ao processo do infeliz Vieira de Castro!...</p> + +<p>Não se póde pôr em duvida a minha proposição:—<i>é ephemera a civilisação +no Brazil</i>; porque qualquer paiz civilisado levantar-se-hia contra a +propotencia sem egual, se parte d'esse paiz como acontece no norte d'aquelle +imperio, quizesse em pleno seculo XIX, repetir um novo S. Berthelemy. E o +povo brazileiro, permitta-me a repetição, é responsavel pelos desmandos dos +paraenses, porque até hoje ainda não vimos que os seus representantes +tomassem medidas energicas contra o estado de effervescencia revolucionaria, +que existe no Pará, ha mais de tres annos. Nenhuma voz soou ainda no +parlamento brazileiro, interpelando o governo a respeito dos acontecimentos +dos dias 6 e 7 de setembro do anno findo; voz que ao mesmo tempo fulminasse +um dos seus membros, accusado com bastante fundamento,<span +class="pagenum"><a id="pag_419" name="pag_419">[419]</a></span> de estar á +testa dos disculos. Este silencio anima os desordeiros, que, contando com a +impunidade, preparam novos desacatos para d'aqui a pouco mais de um mez. E se +elles se repetirem, o que é muito provavel, porque as proclamações da +<i>Tribuna</i>, sempre attendida, cada vez são mais incendiarias, não terei +razão de dizer que o Brazil é um paiz de selvagens, porque á testa dos +communistas vemos a indifferença das auctoridades, os deputados do imperio, o +clero e muitas outras influencias?</p> + +<p>Por muito menos que as barbaridades dos paraenses, não vimos nós, hade +haver 4 annos, um dos actuaes ministros, então deputado, interpelar o governo +por causa da pastoral do actual patriarcha de Lisboa? Não foi ha dias +censurado um prégador que, segundo se diz, insultára, em termos mais +convenientes do que os dos <i>tribunos</i>, algumas nações amigas? Não me +poderá v. ex.ª responder que os actos de repressão d'estes homens foram +ditados pelo meio da força, e sim pelo cumprimento do dever, que todo o homem +publico deve ter em vista. E o que fazem os deputados ou os senadores +brazileiros? Alguns, em pleno parlamento, já nos têem insultado.</p> + +<p>As doutrinas do jornal <i>A Tribuna</i>, que segundo dizem os defensores +do Brazil, não é acceite pela maioria dos paraenses, echoam livremente em +toda a parte: e desgraça é dizel-o:—semilhante jornal é o mais lido na +provincia, e mais de cem jornaes brazileiros trocam com este pasquim, insulto +permanente a tudo quanto é portuguez!</p> + +<p>E desapprova v. ex.ª o epiteto de selvagem com que distingo aquella gente; +epiteto que, a fallar a verdade, será um pouco mais insultoso que o de +<i>gallego</i> com que os brazileiros nos distinguem, porque <i>gallego</i>, +a meu simples entender, é synonimo de trabalhador, que mais honra do que o do +indolente. Mas de certo que o epiteto de selvagem não é mais insultuoso que o +de <i>ladrão</i>, <i>assasino</i>, <i>falsario</i> e muitos outros com que +egualmente nos mimoseiam. Saiba v. ex.ª que, pelo ultimo paquete, recebi eu +muitas d'estas distinções! Pretenderá esta gente, com semelhantes +blasphemias, arredar-nos do banquete da civilisação? Mas eu, chamando-lhes +selvagens, não os prohibo de se civilisarem; com esta distincção já mais os +affastarei dos paizes cultos, onde em todas as épocas têem apparecido, sem +serem repudiados, alguns d'esses entes, no meio da admiração e do rogosijo +publico!</p> + +<p>Não chamei ás mulheres brazileiras, adulteras e prostitutas; não digo que +o seu imperador é bebado e devasso; não distingo com os epitetos mais +infamantes o seu exercito e a sua marinha, cujas forças eu apenas digo serem +ephemeras, porque, effectivamente<span class="pagenum"><a id="pag_420" +name="pag_420">[420]</a></span> um pequeno exercito europeu, faria do Brazil +independente uma colonia de qualquer nação da Europa.</p> + +<p>Inflama-se v. ex.ª porque chamei selvagem á maioria dos paraenses, epiteto +que se poderá estender á maioria dos brazileiros, se elles de futuro não +protestarem contra o insulto de que temos sido e continuaremos a ser alvo! O +serem selvagens não lhes tira a honra de serem respeitadores da vida e da +propriedade alheia. Dizia Thevet, que os <i>Tupinambas</i> morreriam de pejo +se vissem um seu visinho ou o seu proximo carecendo d'aquillo que elles +possuissem. Os delinquentes eram castigados. Muitos selvagens se distinguiam +pelo seu genio guerreiro. Outros havia, antropophagos, que apresionavam as +victimas, que afinal eram os roubadores do seu paiz, e as comiam, depois de +assadas nos espetos de <i>marapinima</i>!</p> + +<p>Já vê o meu illustre contendor, que nem a todos chamo <i>botocudos</i>, +titulo que bem podia caber aos assassinos de Jurupary. No Brazil ha homens +civilisados, especialmente no sul, que se horrorisam com os actos de +selvageria praticados pelos paraenses, a quem não distinguem com o doce nome +de compatriotas. Mas o que é quasi geral, especialmente desde o Rio de +Janeiro para o norte, é que os brazileiros, como acontecia ás raças que +antigamente predominavam na America do sul, odeiam os portuguezes. Isto é que +é irrefutavel. É uma verdade bastante amarga, eu sei; mas... <i>quem não quer +ser lobo</i>...</p> + +<p>Insiste v. ex.ª sem duvida, por causa das boas relações que entertem com +<i>muitas</i> familias brazileiras, em fazer <i>excepção</i> do que, a +respeito do aceio das senhoras d'esse paiz, eu sustento ser <i>regra</i>; e +para contrapor a sua á minha opinião, diz que isto é questão de +<i>consciencia</i>. E eu, permitta-me que lhe diga, que é tambem questão de +<i>experiencia</i>; e no caso sujeito, parece-me que não vale menos uma do +que a outra. Para confirmar o que digo a tal respeito a pag. 181 do meu +livro, não irei, de certo, em procura de algumas familias, que ambos +conhecemos, as quaes exceptuarei sempre, mas que continuarão, por causa da +<i>experiencia</i>, que me faz <i>consciencioso</i>, a ficar em minoria.</p> + +<p>Dizia M. de Tullenere, citado mais de uma vez por Ferdinand Diniz, no seu +livro <i>Le Brezil</i>, o seguinte respeito das brazileiras:</p> + +<p>«Uma senhora vae á missa acompanhada por numerosos escravos adornados com +riqueza; e muitas vezes, em voltando para casa assenta-se n'uma esteira, onde +come com a mão, peixe salgado e mandioca.»</p> + +<p>Ora, eu não creio que fique limpa quem, ataviada assim da festa, come o +peixe por similhante systema.</p> + +<p>Aos francezes, inglezes e allemães, quando fallam assim dos<span +class="pagenum"><a id="pag_421" name="pag_421">[421]</a></span> outros povos, +respeita-se-lhes a linguagem, talvez porque são poderosos. Ás mais pequenas +exigencias, ás vezes injustas, segue-se-lhes a força dos canhões! E nós, +somos tão miseraveis, tão pequeninos, que nem ao menos podemos dizer as +verdades, como justo desforço contra tanta tyrania! É assim o mundo. Quanto +tens, quanto vales. Sacrifique-se a consciencia, porque dizem ser forte o +Brazil, que nos insulta! sacrifique-se a consciencia, porque a familia +brazileira, mais do que qualquer outra, está relacionada com a portugueza!</p> + +<p>Disse na minha primeira carta, que o meu illustre critico tinha sido +injusto comigo, e essa injustiça eu já a demonstrei. Disse mais que tinha +sido contradictorio, e o que ainda vou transcrever da sua apreciação ás +minhas <i>Questões do Pará</i>, corroborará mais o que já disséra. +Transcreverei apenas o primeiro e o ultimo paragraphos do seu referido +artigo, e assim juntos, é mais facil a apreciação.</p> + +<p>Diz o 1.º:</p> + +<p>«É uma interessante exposição de factos, que ministra muita luz,» etc.</p> + +<p>Aqui o meu livro é recommendado aos leitores do <i>Districto de +Aveiro</i>.</p> + +<p>Resa assim o final:</p> + +<p>«Afora isto, (as pag. 181 e outros logares?), era util que o livro do sr. +Pércheiro se vulgarisasse» etc.</p> + +<p>As pag. 181 e <i>outros logares</i> que o leitor do jornal ignora, porque +v. ex.ª não se dignou apontal-as, não devem ser lidas.</p> + +<p>Conclusão logica:</p> + +<p><i>Afora o livro do sr. Pércheiro, era bom que o livro se +vulgarisassse!</i></p> + +<p>Aponte v. ex.ª os taes logares, que eu e o paiz lhe agradeceremos tão +elevado serviço. Então, o leitor prevenido inutilisará as paginas sobre que +v. ex.ª fulminou o anathema, e poderá ler, sem escrupulo de peccar, o restante +das minhas <i>Questões do Pará</i>.</p> + +<p>Era esta a obrigação do bom critico, que, como o historiador, tem que ser +muito minucioso para não ser injusto.</p> + +<p>Terminarei agradecendo antecipadamente a inserção d'esta, pedindo ao mesmo +tempo mil desculpas pela divergencia da minha humilde opinião, o que jámais +me impedirá de ser.</p> + +<p style="text-align:right;">De v. etc.</p> + +<p>30 de julho de 1875.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;"><i>Gomes Pércheiro.</i><span class="pagenum"><a +id="pag_422" name="pag_422">[422]</a></span></p> + +<p> </p> + +<p>A declaração que faz o sr. Pércheiro logo ao principiar a sua carta: «que +com a resposta que demos á sua primeira carta, e <i>outras que se lhe possam +seguir</i>, ficará vencido mas não convencido,» dispensa-nos de continuar +n'esta amigavel controversia. O nosso fim nunca foi vencer. Poderia ser, se +tanto, convencer.</p> + +<p>Seria pois inconveniente, e por demais inutil, toda a insistencia em +qualquer opinião que ao sr. Pércheiro desagrade, não se achando interessado o +nosso amor proprio em justificar o que escrevemos, nem pondo nós empenho em +nos resalvar das contradicções que o illustre escriptor tão lucidamente +descortinou logo no nosso primeiro artigo, e que nós temos a infelicidade de +ainda não perceber.</p> + +<p>Affirmando que as <i>Questões do Pará</i> era uma publicação interessante, +será incontestavel que não podiamos sem incorrer em contradicção, pôr-lhe +deffeitos; e escrevendo: «<i>afora isto</i>, o livro merece vulgarisar-se,» +talvez dissessemos uma inepcia, porque <i>isto</i> não deverá referir-se só +aos defeitos que notamos, mas a todo o livro! Isso porém é que nós não +queremos averiguar.</p> + +<p>Com relação á civilisação do Brazil estamos n'uma situação de espirito +muito analoga áquella que nos collocou a leitura do trabalho do sr. +Pércheiro. É possivel que nos achemos tambem n'isto em flagrante +contradicção. Concordamos que, não só a população inconsciente e +irresponsavel, mas tambem os homens que pela illustração devem encaminhar a +opinião, sejam injustos, apaixonados, malevolentes mesmo com relação a +Portugal: todavia não deduzimos d'ahi argumento para provar a selvageria do +paiz. Vemos n'isso uma deploravel aberração, dictada por uma animosidade sem +motivo. Nada mais. E isto parece pouco ao sr. Pércheiro. E será talvez.</p> + +<p>Não importa. Separemo-nos em bons amigos. Cada um fica na sua opinião, e +fica bem visto que ambos estamos tranquillos da nossa consciencia.</p> + +<p style="text-align:right;"><i>Districto de Aveiro</i></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>JORNAL DE HORTICULTURA PRATICA.</h3> + +<p>Chegou-nos ha dias um livro que acabamos de percorrer e que trata de um +assumpto que realmente precisava de ser tratado seriamente e por penna +imparcial e sabedora dos factos.</p> + +<p>Não vae decorrido muito tempo que o telegrapho communicava aos diversos +jornaes do paiz os insultos de que estavam sendo alvo os portuguezes +residentes no Pará, objecto de que então toda a imprensa do paiz se occupou, +pedindo ao governo<span class="pagenum"><a id="pag_423" +name="pag_423">[423]</a></span> para providenciar e fazer respeitar +n'aquellas paragens o pavilhão das quinas que, segundo se affiançava, os +paraenses intentavam enxovalhar em pleno dia.</p> + +<p>Suscitaram-se todavia algumas duvidas sobre a veracidade dos factos +relatados e portanto foi muito bem vinda uma publicação devida a um +cavalheiro que residiu no Pará durante tres annos e que por conseguinte teve +occasião de estudar e prescutar todos os factos escandalosos que diariamente +ali se repetiam.</p> + +<p>O livro a que alludimos é subordinado ao titulo <i>Questões do Pará</i> e +é seu auctor o sr. D. A. Gomes Pércheiro.</p> + +<p>O sr. Pércheiro tomando o seu escapello, anatomisa minuciosamente os +<i>prós</i> e os <i>contras</i> que alli vão encontrar aquelles que vêem no +Brazil um novo <i>El dorado</i> e se ligarmos credito, como devemos, ás suas +palavras é certo que não se lhes antolha um futuro muito risonho.</p> + +<p>Uma grande parte dos trabalhadores succumbem logo ao abordar aquelles +portos insalubres em que predominam quasi constantemente as febres, o cholera +e outras molestias que desapiedadamente desvastam a humanidade, e os que por +ventura logram a felicidade de escapar ás garras da morte, depois de muitos +annos de privações que nunca soffreriam na sua terra, conseguem reunir no +cantinho do bahú uns 400 ou 500 mil réis, que o tratamento das molestias +adquiridas no Brazil lhes absorve, quando exhaustos de forças e na +decrepitude da vida, regressam á sua terra natal.</p> + +<p>Oh! como é miseravel a vida do artista e do trabalhador portuguez no +Brazil! exclama o sr. Gomes Pércheiro e accrescenta; «Os portuguezes que de +futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se dedicarem ao commercio, +perderão infallivelmente o seu precioso tempo...», o que o auctor demonstra +com razões bastante acceitaveis sendo uma das principaes o definhamento que +de dia para dia vae tendo ali a agricultura em consequencia da falta do braço +escravo que as leis libertaram.</p> + +<p>O livro do sr. Gomes Pércheiro precisa de ser estudado; uma simples +leitura não é o bastante e o nosso governo prestaria bom serviço mandando +pela sua parte tambem estudar o assumpto no campo da pratica. As estatisticas +da mortalidade e a descripção minuciosa das privações que sofrrem os nossos +irmãos que vão em busca da fortuna, seriam talvez o verdadeiro dique a +oppôr-se á emigração.</p> + +<p>O clero tambem podia cooperar para isso, porque a sua missão não é só a de +rezar padre-nossos e ave-marias.</p> + +<p>Nós julgamos necessario que se evite quanto possivel a emigração, mas por +meios licitos e sem menosprezar a liberdade do paiz. Não queremos que se +apregoe a mentira; queremos que<span class="pagenum"><a id="pag_424" +name="pag_424">[424]</a></span> se diga a verdade e que se colham algarismos +exactos que fallem com toda a sua eloquencia.</p> + +<p>Dito isto cumpre-nos agradecer ao sr. Gomes Pércheiro o delicado +offerecimento que nos fez da sua obra, a que toda a imprensa tem dispensado o +mais lisongeiro acolhimento e congratulamol-o porque é a mais valiosa +recompensa a que um escriptor póde aspirar.</p> + +<p> </p> + +<p>(<i>Agosto</i>)</p> + +<p style="text-align:right;"><i>Duarte de Oliveira Junior.</i></p> +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>O PROGRESSISTA</h3> + +<p>Quando uma fila de carruagens pesadissimas atravessou pela primeira vez os +campos ao empuchão violento do fogo e da agua, a poesia assustou-se e chorou +como perdido o encanto das viagens. Soberbas de serras e montes, amenidades e +melancholias de longas e incultas planiceis tudo isto se perdia para os olhos +e para o coração de quem viaja; perdiam-se além d'isso os sobresaltos, que dá +uma floresta com fama de ser um abrigo de salteadores, perdiam-se os mesmos +salteadores, os seus roubos e assassinatos.</p> + +<p>A poesia não tinha razão; filha do genio e do enthusiasmo, o seu pranto +era um delirio.</p> + +<p>Gostaes de contemplar as serras, de subir aos montes? Tomae o cavallo ou o +bordão; ide lá. Quereis ter sensações, julgaes que um susto ou mesmo um +roubo, em meio do desmaiar das damas e do brigar dos homens, é uma cousa +bella para soffrer e recordar? Pois escrevei aos salteadores de que tiverdes +noticia, dizei-lhes quando passaes que dinheiro levaes, e será satisfeita a +vossa vontade. Os wagons não teem mãos que vos prendam e vos puchem para +dentro; sois vós que pondes o pé no estribo e subis.</p> + +<p>O viajar pelos caminho de ferro não será poetico, mas é commodo, e ás +vezes instructivo, o caminho de ferro é ás vezes a torre de Babel a andar; +são as cinco partes do mundo a conversarem sentadas n'um banco.</p> + +<p>Senão vêde:</p> + +<p>Uma noite de maio ia eu no caminho de ferro para Coimbra, tinha a um lado +um brazileiro ainda novo, e do outro um homem alto e grosso, com o cabello e +a barba já a branquearem-lhe; o brazileiro esperguiçava-se de quando em +quando, tirava as botas, e para que o viesse acalentar, promettia dinheiro ao +somno.</p> + +<p>O meu outro companheiro encostava a cabeça, que abafara<span +class="pagenum"><a id="pag_425" name="pag_425">[425]</a></span> n'um bonet de +pelle de lontra, ao estofo da carruagem, e erguia e descahia compassadamente +as mãos sobre um dos joelhos.</p> + +<p>«Está visto, disse-me o brazileiro, não posso dormir.</p> + +<p>—Folgo muito, respondi eu, porque poderemos conversar. O sr. vae para +Coimbra?</p> + +<p>«Para o Porto. O sr. é de Coimbra?</p> + +<p>—Sou estudante.</p> + +<p>«Oh! estudante; dizem que os estudantes é muito má gente.</p> + +<p>—Muito obrigado pelo elogio; mas olhe, são mais as vozes que as nozes.</p> + +<p>«Que fazem muita troça. Até fizeram troça ao imperador do Brazil, é +verdade? Pode dizer o que quizer, a mim não me importa o imperador, eu não +gosto do imperador, ainda que é o primeiro sabio do mundo. Não sei se é, que +eu não entendo d'estas cousas, sou negociante e ando a viajar para me +divertir, tenho gasto muito dinheiro: agora é gastar. Mas viu o imperador +gostou d'elle?</p> + +<p>—Pouco. No Porto parece-me que não andou bem; era uma terra...</p> + +<p>«Fez isso de proposito—interrompeu o meu companheiro de viagem. Se o +imperador tratasse cá bem os portuguezes, os brazileiros deitavam-n'o a voar. +Foi para agradar. O imperador anda a tremer de medo.»</p> + +<p>A resposta indignou-me.—Não posso acreditar, repliquei eu: e o que +affirma seria, se assim fosse, uma acre censura para os brazileiros; mas, +repito, o que diz não póde ser.</p> + +<p>«Pois póde, exclamou de repente o meu outro visinho. Póde e assim mesmo é +que é; o sr. é um idealista, que julga que os reis têem parentes, idéas e +sentimentos; está enganado, os reis têem um throno e nada mais; percebe? Foi +para agradar aos brazileiros, pois que duvida?</p> + +<p>—O sr. é brazileiro? perguntei eu.</p> + +<p>«Não sr. sou portuguez, mas tenho estado muitas vezes no Pará e vim de lá +ha seis mezes. Ora ouça...</p> + +<p>Fiquei curioso e attento.</p> + +<p>«Ha no Brazil dois partidos, começou o meu visinho, liberal e conservador; +as coisas prosperavam sob o governo do partido liberal, mas algumas +provincias começaram a pensar em se constituirem em republica; o imperador +chamou ao poder o visconde de Rio Branco, chefe do partido conservador, e +este para onerar as provincias que sonhavam com a republica, mandou-lhes +presidentes com instrucções para destruirem por todos os modos o thesouro da +provincia; tinham uma grande recompensa por isso, e em breve tempo se +desempenharam do encargo.<span class="pagenum"><a id="pag_426" +name="pag_426">[426]</a></span></p> + +<p>—Honrosissimo encargo!</p> + +<p>«No Pará manifestou-se com grande força, sob o dominio do partido +conservador, um odio violento e tenaz contra os portuguezes, e este odio, que +está em todos os naturaes, achou um orgão n'um jornal de que deve ter ouvido +fallar <i>A Tribuna</i>.</p> + +<p>«Esta <i>Tribuna</i> é uma tribuna d'onde se prega o morticinio contra os +portuguezes. E quer saber quem é o redactor d'este jornal, e o chefe da +perseguição? é o conego Manuel José de Sequeira Mendes.</p> + +<p>—Bello padre! exclamei eu.</p> + +<p>«Por lá quasi todos são assim, crueis e devassos; o Brazil é uma nação +nova, mas corrompida até á medulla dos ossos. No parlamento todos os +deputados se vendem, e vendem-se a dinheiro de contado. Um francez que tem no +Pará uma fortuna collossal, (disse-me o nome) escreveu um dia que dentro d'um +certo numero de annos todos os deputados do Pará se lhe tinham vendido. A +asserção ficou sem resposta.</p> + +<p>—Não imaginava tanto, mas fallemos do conego, chefe da perseguição.</p> + +<p>«E deputado ministerial. O visconde de Rio Branco não combate a +<i>Tribuna</i>, não contradiz o grito—Mata gallegos—para não levantarem +outro—Republica.</p> + +<p>—Mas porque é que no Rio de Janeiro não succede o mesmo?</p> + +<p>«No Rio de Janeiro dominam os capitaes portuguezes.</p> + +<p>—Porque não auxiliam os portuguezes do Rio os do Pará?</p> + +<p>«Pela distancia. Umas provincias não podem ali influir sobre as outras. +Mas o estado dos portuguezes no Pará é terrivel. Ha tempo um escravo matou um +caixeiro portuguez; as leis do Brazil consignam para isto pena de morte sem +possibilidade de intervenção do poder moderador; pois o jury absolveu o reu +dizendo que o assassino tinha feito um acto meritorio; que matar um +portuguez, um gallego, era ser benemerito da humanidade, etc. Esta inpunidade +convida ao assassinato, e os portuguezes são roubados e garrotados na rua e +em casa sem que a justiça proceda; ou se procede, termina pela absolvição, ou +por penalidades, que são um novo insulto. O governo...</p> + +<p>—E a causa d'este odio?</p> + +<p>«Olhe, nós não comprehendemos o que tinhamos a fazer no Brazil, como o +comprehendem os inglezes, os allemães e os francezes. Todos estes trabalham, +accumulam e retiram-se; não fazem no Brazil uma casa, não fazem uma festa, +não dão um jantar, não casam com uma brazileira; em ajuntando, retiram-se, +edificam palacios na sua nação, dão banquetes e festas na sua nação, casam +com as mulheres da sua nação, por isso não<span class="pagenum"><a +id="pag_427" name="pag_427">[427]</a></span> dão na vista aos brazileiros; +nós edificamos ali palacios, damos ali banquetes e festas, ali casamos, +etc...</p> + +<p>Mas isso é conveniente ao Brazil; nós, dirigindo-nos assim, +enriquecemol-o; fazer o que me diz que fazem os inglezes, francezes, +allemães, é devastal-o.</p> + +<p>É verdade. Mas aquella gente não tem razão, tem só olhos. De quem é este +palacio? E d'um marinheiro, ainda outro dia para ahi veio descalço. Ah! estes +gallegos não se matam d'uma vez! etc.</p> + +<p>«E se os não matam d'uma vez, vão-os matando pouco a pouco.</p> + +<p>«A imprensa toca todos os dias a rebate....................</p> + +<p>—Que estado de coisas!</p> + +<p>«Olhe foi denunciado á Europa por um portuguez de valor, ainda rapaz, +director da Agencia americana no Pará. A imprensa do Brazil accusou-o de +faltar á verdade; e dinheiro, mulheres, tudo foi tentado para o fazer calar; +elle deixou o Brazil, e veio para Portugal para responder d'aqui á imprensa +brazileira; verá dentro em breve um livro repleto de factos, e Portugal +poderá ver o que é o Brazil.</p> + +<p>—A terra da promissão com que sonham os nossos desherdados da fortuna.</p> + +<p>«Convertido em inferno pela mais baixa de todas as paixões—a inveja.»</p> + +<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br> +* *</p> + +<p>Passaram poucos dias, e, entrando no seminario de Coimbra, vi sobre uma +meza de estudo um livro intitulado—<i>Questões do Pará</i>, por D. A. Gomes +Pércheiro.</p> + +<p>—Que livro é este? perguntei.</p> + +<p>Leve e leia.</p> + +<p>É d'este livro que vou dizer duas palavras ao leitor.</p> + +<p>O livro d'hoje e o livro d'hontem não se parecem em nada, como tambem se +não parecem o homem d'hoje e o homem d'hontem. O livro d'hontem era pesado, +mas solida espada para o ataque, ou escudo para a defesa; o livro d'hoje é +liviano, innutil, a figura d'um <i>petit-maitre</i>, que tem palavras sem ter +idéas, que, como a velha de Nicolau Tolentino, aprende a brir as risadas +diante de um espelho; o livro d'hontem escrevia-se depois do estudo e no +impulso d'uma crença; o d'hoje escreve-se antes do estudo e sob o dominio +d'uma vaidade, que se quer vêr em letra redonda: o livro d'hontem era um +facto, o d'hoje um fato.</p> + +<p>O livro do sr. D. A. Gomes Pércheiro não é o livro d'hoje, é<span +class="pagenum"><a id="pag_428" name="pag_428">[428]</a></span> um livro +excepcional, e, nos tempos do egoismo que correm, um milagre de +patriotismo.</p> + +<p>A historia da litteratura não tem que inscrever nas suas paginas o nome do +auctor porque, escrevendo no decurso de uma viagem, e todo occupado com o +assumpto, o livro sahiu sem estylo, e mesmo menos ordenado do que devia ser e +do que convinha que fosse; mas fazer a historia do livro, e resumir o que +elle é, é traçar um elogio seguro e grandioso do auctor, declaral-o +benemerito da nação, digno do respeito e da gratidão de todos os que forem +portuguezes.</p> + +<p>A historia do livro é esta.</p> + +<p>Desenvolveram-se no Brazil violencias de odio contra os portuguezes; o +governo, a administração, o poder judicial, sempre o ultimo a corromper-se, +pozeram-se em affinidade com a bruteza d'estes rancores, que se têem +resolvido em roubos e assassinatos n'umas vesperas sicilianas, lentas, mas de +todos os dias e em que um padre prega do alto da imprensa, como evangelho +d'uma nação, o morticinio dos alliados naturaes d'essa mesma nação, os unicos +que podem enriquecel-a, fecundal-a e fazel-a grande.</p> + +<p>O sr. Gomes Pércheiro era empregado na Agencia americana do Pará; como +portuguez, e como homem, indignou-o a perseguição que se movia aos seus +patricios, e denunciou-a a Portugal e á Europa.</p> + +<p>Foi de coragem, e foi heroico o acto, porque os interesses, coisa a que +tudo se sacrifica, foram sacrificados pelo sr. Pércheiro ao sentimento da +humanidade e do amor da patria, que pedia a expressão da verdade a brados e +repetida.</p> + +<p>Como Rousseau, o sr. Pércheiro tomou a divisa—<i>vitam impendere +vero</i>—e a Agencia americana contou á Europa o que estava sendo o Pará.</p> + +<p>A imprensa brazileira levantou-se e desmentiu as asserções do sr. +Pércheiro; sabemos mesmo, e permitta-nos o auctor das <i>Questões do Pará</i> +que o digamos, que estando para casar com uma rica herdeira do Brazil, se +empregou o credito da noiva para o dissuadir de dizer a verdade do que se +passava no Pará com os portuguezes.</p> + +<p>Para poder dizer a verdade sem rebuço e sem melindre, o sr. Pércheiro +quebrou o ajuste de consorcio: para responder á imprensa que o desmentia, o +sr. Pércheiro fez-se á vela para Portugal, e no caminho veiu escrevendo o seu +livro.</p> + +<p>Quantas são as obras que têem uma historia como esta? quantos os +escriptores que, quebrando por affeições e por interesses, atravessam o +occeano para virem dizer uma verdade?</p> + +<p>Ha no sr. Pércheiro uma individualidade nobre e digna de<span +class="pagenum"><a id="pag_429" name="pag_429">[429]</a></span> respeito; o +seu livro não é, como já dissemos, um livro d'estylo, é um livro de factos; +conta-nos o triste estado dos portuguezes no Pará, documenta e prova o que +diz; o seu livro é uma lição para Portugal, devia ser um desengano para os +illudidos que vêem no Brazil uma nova terra da promissão. É tambem a estes +que o auctor o dedica.</p> + +<p>Investigando as causas da emigração portugueza encontram-se talvez duas, a +idéa que o povo ignorante e pobre faz do Brazil, e o facto de ser Portugal +uma nação em que as industrias manufactoras não estão em proporção +sufficiente com a industria agricola. Ora a miragem, que é construida de +ignorancia, póde contribuir para destruir e esvaecer o livro do sr. +Pércheiro. A França teve um ministro de coração e de genio que approveitava o +clero para o fazer ensinar ao povo tudo o que podia concorrer para a +felicidade d'elle. O ministro chamava-se Turgot. O governo portuguez podia, á +similhança de Turgot, mandar distribuir o livro do sr. Pércheiro pelas +parochias e escolas ruraes em que a emigração recruta mais gente, pedindo que +o lessem e o dessem a ler, e que fizessem sobre o assumpto predicas e +conferencias, que dissuadissem da emigração.</p> + +<p>Mas o que fazia Turgot, que era um genio, seria uma utopia ridicula para +quem o não é: não sabendo já o que ha de fazer, para viver, o governo +portuguez manda vir do estrangeiro o Espirito Santo, disfarçado em pombos, e +bebe a inspiração nos arrulhos que elles soltam.</p> + +<p>Seja como fôr, o livro do sr. Pércheiro não será perdido; irá dar a luz a +muitos espiritos, e mesmo quando assim não fosse, ficava de lição o +desprendimento generoso e nobre com que o seu auctor atravessou o occeano e +sacrificou interesses para proclamar a verdade.</p> + +<p style="text-align:right;"><i>J. F. L.</i></p> + +<p>(<i>19 e 20 de agosto.</i>)</p> +<br> + + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot3608"></a><a href="#tex2html88"><sup>[85]</sup></a> Se, á +similhança do que fizemos á policia, aqui ha mezes, fizermos o mesmo á +empreza do theatro de D. Maria II, obrigando-a a cumprir á risca o contracto +que manda fazer do nosso primeiro theatro normal um templo e não uma +espelunca, onde, se assim continuarem as cousas, não tarda que a opera comica +indecente substitua a comedia ou o drama que moralisa; se nós lhe desfiarmos +um a um os artigos do contracto feito com o governo, é provavel que então nos +venham pedir o drama para o representar, sem as condições vergonhosas que +fazem d'aquelle estabelecimento uma casa de prego... já se sabe. Deixemos +approximar a época de 1878-1879, e fallaremos a proposito em logar mais +apropriado.</p> +</div> + +<div class="rodape"> +<h4>Notas de Transcrição</h4> + +<p>O índice da obra aparecia no fim do original. Nesta versão electrónica o +índice foi movido para o inicio para facilitar a navegação e consulta.</p> + +<p>O livro original tinha uma errata no fim, que apresentamos de seguida:</p> + +<h4>Errata original:</h4> + +<table border="0" align="center" summary="Errata original"> + <tbody> + <tr> + <td>Pag.</td> + <td>Lin.</td> + <td>Erros</td> + <td>Emendas</td> + </tr> + <tr> + <td>19</td> + <td>17</td> + <td>algofares</td> + <td>aljofares</td> + </tr> + <tr> + <td>19</td> + <td>28</td> + <td>venenos</td> + <td>venenosos</td> + </tr> + <tr> + <td>21</td> + <td>20</td> + <td>reunii-os</td> + <td>reunil-os</td> + </tr> + <tr> + <td>63</td> + <td>11</td> + <td>conscencioso</td> + <td>consciencioso</td> + </tr> + <tr> + <td>74</td> + <td>33</td> + <td>honrosa das</td> + <td>honrosas da</td> + </tr> + <tr> + <td>76</td> + <td>16</td> + <td>commer</td> + <td>comer</td> + </tr> + <tr> + <td>76</td> + <td>32</td> + <td>conscenciosos</td> + <td>conscienciosos</td> + </tr> + <tr> + <td>78</td> + <td>8</td> + <td>contrastes</td> + <td>contractos</td> + </tr> + <tr> + <td>79</td> + <td>34</td> + <td>auciliar</td> + <td>auxiliar</td> + </tr> + <tr> + <td>97</td> + <td>30</td> + <td>conscenciosos</td> + <td>conscienciosos</td> + </tr> + <tr> + <td>161</td> + <td>17</td> + <td>menos</td> + <td>menor</td> + </tr> + <tr> + <td>161</td> + <td>26</td> + <td>(se elle roceiro!)</td> + <td>(se elle é roceiro!)</td> + </tr> + <tr> + <td>173</td> + <td>18</td> + <td>as repartições</td> + <td>das repartições</td> + </tr> + <tr> + <td>232</td> + <td>5</td> + <td>axplendorosos</td> + <td>esplendorosos</td> + </tr> + <tr> + <td>251</td> + <td>21</td> + <td>condemnada</td> + <td>coordenada</td> + </tr> + <tr> + <td>268</td> + <td>25</td> + <td>trotou</td> + <td>tratou</td> + </tr> + <tr> + <td>272</td> + <td>28</td> + <td>despendida</td> + <td>despedida</td> + </tr> + <tr> + <td>276</td> + <td>32</td> + <td>Acompanhavam-os</td> + <td>Acompanhavamos</td> + </tr> + <tr> + <td>276</td> + <td>33</td> + <td>passavam-os</td> + <td>passavamos</td> + </tr> + <tr> + <td>320</td> + <td>7</td> + <td>1775</td> + <td>1875</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p><em>Outros erros ha de somenos importancia, que o leitor facilmente +corrigirá.</em></p> + +<h4>Erros corrigidos nesta transcrição:</h4> + +<p>Durante a transcrição foram encontrados outros erros, não constantes na +errata. Todos os que foram detectados foram corrigidos, sendo que os mais +significativos são apresentados na lista abaixo, e os outros, menores, foram +alterados sem qualquer indicação.</p> + +<table border="0" align="center" summary="Errata de transcrição"> + <tbody> + <tr> + <td>Pag.</td> + <td>Erro</td> + <td>Correcção</td> + </tr> + <tr> + <td>16</td> + <td>até aos 94</td> + <td>até aos 78</td> + </tr> + <tr> + <td>18</td> + <td>menciado</td> + <td>mencionado</td> + </tr> + <tr> + <td>25</td> + <td>energico—o liberal</td> + <td>energico—e liberal</td> + </tr> + <tr> + <td>35</td> + <td>VII (nº da secção)</td> + <td>VIII</td> + </tr> + <tr> + <td>36</td> + <td>AO SUL DO TEJO</td> + <td>AO NORTE DO TEJO</td> + </tr> + <tr> + <td>77</td> + <td>viagem d'esde</td> + <td>viagem desde</td> + </tr> + <tr> + <td>116</td> + <td>VI (nº da secção)</td> + <td>V</td> + </tr> + <tr> + <td>164</td> + <td>publição</td> + <td>publicação</td> + </tr> + <tr> + <td>165</td> + <td>declação</td> + <td>declaração</td> + </tr> + <tr> + <td>240</td> + <td>esta esta tróça</td> + <td>está esta tróça</td> + </tr> + <tr> + <td>241</td> + <td>Componeza</td> + <td>Camponeza</td> + </tr> + <tr> + <td>241</td> + <td>Caponeza</td> + <td>Camponeza</td> + </tr> + <tr> + <td>257</td> + <td>V (nº da secção)</td> + <td>IV</td> + </tr> + <tr> + <td>263</td> + <td>VI (nº da secção)</td> + <td>V</td> + </tr> + <tr> + <td>264</td> + <td>VII (nº da secção)</td> + <td>VI</td> + </tr> + <tr> + <td>266</td> + <td>VIII (nº da secção)</td> + <td>VII</td> + </tr> + <tr> + <td>271</td> + <td>IX (nº da secção)</td> + <td>VIII</td> + </tr> + <tr> + <td>272</td> + <td>X (nº da secção)</td> + <td>IX</td> + </tr> + <tr> + <td>277</td> + <td>XI (nº da secção)</td> + <td>X</td> + </tr> + <tr> + <td>278</td> + <td>XII (nº da secção)</td> + <td>XI</td> + </tr> + <tr> + <td>278</td> + <td>Questões Pará</td> + <td>Questões do Pará</td> + </tr> + <tr> + <td>280</td> + <td>borracha a castanha</td> + <td>borracha, a castanha</td> + </tr> + <tr> + <td>280</td> + <td>compra pelos colonos</td> + <td>comprados pelos colonos</td> + </tr> + <tr> + <td>284</td> + <td>XIII (nº da secção)</td> + <td>XII</td> + </tr> + <tr> + <td>309</td> + <td>mencidade</td> + <td>mendicidade</td> + </tr> + <tr> + <td>317</td> + <td>em 1847</td> + <td>em 1874</td> + </tr> + <tr> + <td>320</td> + <td>em de 12 de abril</td> + <td>em 12 de abril</td> + </tr> + <tr> + <td>332</td> + <td>XVI (nº da secção)</td> + <td>XIV</td> + </tr> + <tr> + <td>374</td> + <td>pretende mostra,</td> + <td>pretende mostrar,</td> + </tr> + <tr> + <td>389</td> + <td>que este, livro</td> + <td>que este livro</td> + </tr> + <tr> + <td>395</td> + <td>parecer exagerando</td> + <td>parecer exagerado</td> + </tr> + <tr> + <td>429</td> + <td>d'estylo, um livro</td> + <td>d'estylo, é um livro</td> + </tr> + </tbody> +</table> +</div> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Portugal e Brazil: emigração e +colonisação, by Domingos Antonio Gomes Pércheiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E BRAZIL *** + +***** This file should be named 27964-h.htm or 27964-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/7/9/6/27964/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by Cornell +University Digital Collections) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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