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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:36:51 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:36:51 -0700
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+++ b/27964-h/27964-h.htm
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+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Portugal e Brasil: emigração e colonização, por Gomes Pércheiro</title>
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-1">
+ <meta name="Author" content="Domingos António Gomes Pércheiro">
+ <meta name="Date" content="1878">
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+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Portugal e Brazil: emigração e colonisação, by
+Domingos Antonio Gomes Pércheiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Portugal e Brazil: emigração e colonisação
+
+Author: Domingos Antonio Gomes Pércheiro
+
+Release Date: February 2, 2009 [EBook #27964]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E BRAZIL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by Cornell
+University Digital Collections)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="text-align: center; font-size: 2em;">PORTUGAL E BRAZIL</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Obras do autor">
+
+<tr><th colspan="2">OBRAS DO MESMO AUCTOR</th></tr>
+
+<tr><td>QUESTÕES DO PARÁ, 1 vol:</td><td>500</td></tr>
+
+<tr><td>COISAS BRAZILEIRAS, opusculo</td><td>200</td></tr>
+
+<tr><td>COMMENDADOR E BARÃO, 1 vol:</td><td>600</td></tr>
+
+<tr><td>Elementos de Economia POLITICA(cartas a um estudante) traducção</td><td>160</td></tr>
+
+<tr><th colspan="2">EM VIA DE PUBLICAÇÃO</th></tr>
+
+<tr><td colspan="2">OS AVENTUREIROS, drama fundado em epysodios da emigração.</td></tr>
+
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 3em;">PORTUGAL E BRAZIL</p>
+
+
+<p style="font-size: 1.2em;">EMIGRAÇÃO E COLONISAÇÃO</p>
+
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(CRITICA)</p>
+
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+
+<p><b>D. A. GOMES PÉRCHEIRO</b></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1878<br>
+TYP. LUSO-HESPANHOLA<br>
+35&mdash;Travessa do Cabral&mdash;35<br>
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<div class="indice">
+<h3>INDICE</h3>
+
+<h4>CAPITULO I</h4>
+
+<p><a href="#pag_9">A emigração de trabalhadores para o Brazil e os salarios
+de cá e de lá. Os artistas e os salarios. O lado economico. O clima aos olhos
+do homem pratico e do homem de sciencia. O clima e a febre amarella. A
+mortalidade de Portugal e Brazil comparada. A ambição causante principal da
+emigração. Remedios ao mal. A escolla. Colonias no Alemtejo. A inspecção da
+emigração. A liberdade perante a emigração. Portugal, Belgica e Hollanda. A
+riqueza do solo e suas respectivas populações comparadas. Terrenos
+incultos.</a></p>
+
+<h4>CAPITULO II</h4>
+
+<p><a href="#pag_39">Os advogados da emigração e a companhia Transantlantica.
+Remuneração ao trabalho. O custo da escravatura preta e o custo da
+escravatura branca. O definhamento da agricultura no Brazil, por causa da
+falta de braços. Erros do jornalismo a respeito da emigração. O «Diario de
+Noticias» e o sr. Fernão Vaz e o drama «Os Aventureiros». Um livro a favor da
+emigração e o auctor das «Farpas». Elogios e sensuras. A praça do commercio
+do Porto e uma penna de ouro.</a></p>
+
+<h4>CAPITULO III</h4>
+
+<p><a href="#pag_62">As falsas doutrinas sobre emigração. A nova terra da
+promissão, ou o paiz de romanos. Rocha Pitta e Augusto de Carvalho. O escravo
+e a sua emancipação. As leis brazileiras sobre colonisação. A legislação
+n'outros paizes. A religião brazileira é contraria á emigração europea. A
+reforma religiosa nos seculos XVI e XVII concorreu para o engrandecimento dos
+Estados Unidos da America. Os jesuitas e a escravatura na America do Sul. Os
+jesuitas e os bandeirantes. Nobrega, Anchieta e os indios. Desmandos dos
+jesuitas. Contradicções. Os hollandezes em Pernambuco. Heroes, traidores e
+authomatos na restauração de 1643. Fernandes Vieira e André Vidal de
+Negreiros. Horrores historicos.</a></p>
+
+<h4>CAPITULO IV</h4>
+
+<p><a href="#pag_102">A pastoral do bispo de Braga e a emigração. A
+Beneficente e a Caixa de Soccorros de D. Pedro V. Prescripções hygienicas.
+Considerações do advogado do consulado no Rio de Janeiro. A commissão da
+emigração e os raciocinios estramboticos do auctor do «Brazil» a respeito dos
+crimes em Portugal. Os crimes no Brazil. Os nossos raciocinios. Affluencia de
+capitaes do Brazil nas praças portuguezas.</a></p>
+
+<h4>CAPITULO V</h4>
+
+<p><a href="#pag_136">Os relatorios dos consules e a emigração. Um pedido á
+imprensa. A colonisação no Brazil e a lei do trabalho de 11 de outubro de
+1837. Contractos de locação de serviço. Sevicias dos fazendeiros contra os
+escravos brancos. Ainda a febre amarella e a imprensa. Roceiros, engajadores
+e armadores de navios. A lei portugueza de 20 de julho de 1855 e a emigração
+clandestina. A diplomacia envolvida no assumpto. O regulamento brazileiro de
+1 de maio de 1858. Intrigas diplomatas. Serviços do conde de Thomar, nosso
+embaixador na côrte do Rio de Janeiro. O sr. José de Vasconcellos e as
+evasivas do governo brazileiro, a respeito da convenção sobre a emigração e
+propriedade litteraria.</a></p>
+
+<h4>CAPITULO VI</h4>
+
+<p><a href="#pag_223">Ainda as questões do Pará. Os pasquins de cá e os
+pasquins de lá. As «Farpas» e a «Tribuna». «Lo Spirito Folletto e o «Punch».
+Desforços da «Tribuna». A popularidade da «Tribuna». Pasquins
+brazileiros.</a></p>
+
+<h4>CAPITULO VII</h4>
+
+<p><a href="#pag_250">Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará. Uma
+boa recepção! As proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia
+Americana. Os officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do
+governo brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos
+excessos. Uma carta de além tumulo.</a></p>
+
+<h4>CAPITULO VIII</h4>
+
+<p><a href="#pag_290">O julgamento dos assassinos dos portuguezes em
+Jurupary. O tribunal da primeira instancia em Chaves e o da Relação no Pará.
+Desenlace providencial contra decisões horrorosas dos tribunaes brazileiros.
+Processo contra Marcelino Nery. Pasquins da «Tribuna» antes e depois da
+condemnação. Novos pasquins em 1876 chamando ás armas contra os portuguezes.
+O clero accusado de cumplice dos pasquineiros. Um portuguez condemnado
+irrisoriamente por um tribunal da primeira instancia e absolvido depois pela
+Relação no Pará. A diplomacia portugueza e a condemnação á morte de um
+portuguez na Bahia. Um benemerito defensor do portuguez.</a></p>
+
+<p><a href="#pag_353">Notas</a></p>
+
+<p><a href="#pag_377">Questões do Pará (critica)</a></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Aos meus illudidos compatriotas que vêem no Brazil uma nova terra da
+promissão.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>(<span style="font-variant: small-caps">Questões do Pará.</span>)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;"><span class="pagenum"><a
+id="pag_5" name="pag_5">[5]</a></span>AO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;"><i>Ill.<sup>mo</sup> e
+Ex.<sup>mo</sup> Sr.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">JOSÉ MARIA DOS SANTOS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">O PRINCIPAL COLONISADOR</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">DO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">ALEMTEJO<span
+class="pagenum"><a id="pag_6" name="pag_6">[6]</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;"><span class="pagenum"><a id="pag_7"
+name="pag_7">[7]</a></span><i>Aos distinctos compatriotas</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p> </p>
+
+<p><span style="font-variant: small-caps">Dr. José Rodrigues de Mattos,
+Manuel Alves Ferreira, José Guilherme Koopk Correia Pinto, Manuel Gaspar de
+Carvalho, J. Teixeira Basto, Bernardo Antonio d'Oliveira Braga e Manuel
+Joaquim Pereira de Sá.</span><span class="pagenum"><a id="pag_9"
+name="pag_9">[9]</a></span></p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>CAPITULO I</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0010001">A emigração de trabalhadores para o Brazil e os
+salarios de cá e de lá. Os artistas e os salarios. O lado economico. O clima
+aos olhos do homem pratico e do homem de sciencia. O clima e a febre
+amarella. A mortalidade de Portugal e Brazil comparada. A ambição causante
+principal da emigração. Remedios ao mal. A escolla. Colonias no Alemtejo. A
+inspecção da emigração. A liberdade perante a emigração. Portugal, Belgica e
+Hollanda. A riqueza do solo e suas respectivas populações comparadas.
+Terrenos incultos.</a></div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>A questão da emigração dos portuguezes para o Brazil, tem sido um
+labyrintho em que muitas intelligencias se têem perdido, sem que,
+infelizmente para Portugal, se tenha adiantado muito na descoberta do
+verdadeiro antidoto, que deve pôr termo ao mal, que parece querer definhar a
+patria; e com tudo suppõe-se que a ultima palavra já foi dita, e que
+desapparecerá por consequencia o nó gordio que prendia o fio d'esta questão
+transcendentissima; e a final as cousas estão no mesmo pé em que estavam.</p>
+
+<p>Sem querermos por fórma alguma accusar de inhabeis os grandes talentos,
+que tem sido chamados a este campo vastissimo, por demasiado complexo, não
+podemos ainda assim deixar de sentir, que o assumpto tenha sido apenas
+tratado no campo da theoria, onde a habil dialectica de sapientes escriptores
+caduca á vista<span class="pagenum"><a id="pag_10"
+name="pag_10">[10]</a></span> dos mais pequeninos argumentos produzidos pela
+prática.</p>
+
+<p>Mas a nossa questão, escrevendo sobre assumpto tão momentoso, não se cifra
+em demonstrar que os estudos baseados na theoria, em que vemos geralmente
+aconselhar aos governos o respeito pela liberdade do <i>cidadão</i>, mas á
+sombra da qual se commettem muitos abusos, são perniciosos ao paiz. Não que o
+nosso fim é outro. É, sem tentar romper o envoltorio do nosso espirito assaz
+humilde, e sem desejar ferir susceptibilidades, seguir caminho menos trilhado
+e menos escabroso, com o fim de achar a causa do mal e apontal-a aos
+verdadeiros medicos da nação, para que lhe appliquem um remedio energico e
+salutar.</p>
+
+<p>Estudemos, pois, a questão debaixo do ponto de vista da pratica, e
+começemos por fazer as seguintes proposições:</p>
+
+<p>&mdash;Quaes são as razões que induzem o portuguez a emigrar para o Brazil?</p>
+
+<p>&mdash;Será a necessidade de obter os meios de subsistencia?</p>
+
+<p>&mdash;E caso assim seja, não haverá em Portugal trabalho sufficiente para que
+o portuguez necessitado obtenha esses meios?</p>
+
+<p>&mdash;Ou será a ambição que o leva a dar esse passo?</p>
+
+<p>Quem responder ao primeiro quesito com a affirmativa do ultimo, parece-nos
+que terá respondido ao 2.º e ao 3.º; porque a quem tem precisão de trabalhar,
+não faltam em Portugal os meios necessarios á subsistencia; e esse trabalho é
+aqui mais bem remunerado do que no Brazil.</p>
+
+<p>Passemos a demonstrar esta asserção.</p>
+
+<p>Na actualidade o portuguez trabalhador ganha, em geral, nunca menos de 500
+réis diarios. Em qualquer parte do paiz se sustenta com 250. Resta-lhe, por
+tanto, 250 réis. Calculemos os lucros obtidos em 10 annos, a<span
+class="pagenum"><a id="pag_11" name="pag_11">[11]</a></span> 300 dias uteis
+por cada um, e teremos em 3:000 dias, 750$000 réis.</p>
+
+<p>O portuguez em eguaes condições, ganha no Brazil 2$000 réis fracos. Para
+sustentar-se precisa despender 1$500 réis. Resta-lhe a quarta parte do
+salario; isto é 500 réis diarios. Contrahiu, antes de sahir do paiz, para
+poder expatriar-se, uma divida de 200$000 réis. Chegado a terras brazileiras,
+não pôde logo encontrar trabalho; alem d'isso o clima inutilisára-o por algum
+tempo, se n'este comenos não vem a <i>febre amarella</i>, que sympathisa
+muito com os estrangeiros...</p>
+
+<p>Para estas demoras precisa contrahir mais um emprestimo de 100$000 réis.
+Esta divida de 300$000 réis, moeda fraca, hade amortisal-a em 2 annos, que
+representam justamente 600 dias uteis de trabalho. Calculados estes a 500
+réis, se souber economisar aquelle lucro, prefazem os 300$000 réis em
+questão. Restam-lhe por consequencia 8 annos, ou 2:400 dias uteis, que a 500
+réis importam em 1:200$000 réis, ou 600$000 réis, moeda portugueza.</p>
+
+<p>Differença contra o trabalhador do Brazil:&mdash;150$000 réis fortes!</p>
+
+<p>Aos que nos queiram observar, dizendo que estipulamos um salario
+extraordinario&mdash;o de 500 réis&mdash;ao trabalhador de cá, diremos que á maior
+parte dos trabalhadores, contractados aqui para as roças do Brazil, se
+estipula um salario muitissimo inferior ao mencionado acima&mdash;o de 2$000 réis
+fracos,&mdash;se não falham as informações consulares, que temos á vista; salario
+que costumam dar no Brazil ao trabalhador <i>livre</i>, áquelle que vai ao
+acaso, e que não se deixa illudir pelos aliciadores. E mais adiante
+provaremos tambem, que ha contractos feitos em Portugal pelos trabalhadores
+engajados, nos quaes se estipula, como recompensa ao trabalho no Brazil, a
+magra importancia de 80, 100 e 120 réis fracos, diarios!...<span
+class="pagenum"><a id="pag_12" name="pag_12">[12]</a></span></p>
+
+<p>Mas fallemos agora do artista, sem tratarmos das suas despezas, que para
+esta classe de operarios, é sempre muito superior, e o mesmo acontece entre
+nós.</p>
+
+<p>O artista, em geral, ganha no Brazil, de 3$000 a 5$000 réis, moeda fraca.
+Em Portugal variam entre 800, 1$000, 1$200, 1$500 e 2$000 réis, moeda
+forte!</p>
+
+<p>Quem quizer que se dê agora ao incommodo de orçar as despezas de
+sustentação, e diga-nos depois se ha compensação possivel.</p>
+
+<p>Diz um portuguez, que, como nós, examinou de perto o assumpto, que não
+conhecia no Brazil qualquer logar onde um homem, com pequena familia possa
+despender menos de um conto de réis por anno, tendo mesmo um viver de
+proletario: a razão é, accrescenta o nosso compatriota, que sendo o dinheiro
+barato, tudo o mais é caro, excepto os productos do paiz, como assucar, café,
+farinha de mandioca e carne, nos lugares de producção. Um par de botinas que
+em Portugal custa 2$000 réis, vende-se no Brazil por 14$000 réis; o feitio de
+umas calças, que em Portugal regula por 400 réis, no Brazil não se obtem por
+menos de 4$000 réis; uma duzia de ovos vende-se aqui por 160 réis, e lá custa
+1$000 réis; uma visita do medico custa 4$000 réis, e diz elle que viu pagar
+por uma operação e curativo de oito dias 1:600$000 réis, sendo esta quantia
+exigida pelo cirurgião!<a name="tex2html1"
+href="#foot425"><sup>[1]</sup></a></p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Se o preço dos salarios no Brazil e o custo da vida não compensa o
+sacrificio que o portuguez vae fazer, emigrando, o clima insupportavel dos
+tropicos deve desvanecer-lhe completamente as tentações ambiciosas de<span
+class="pagenum"><a id="pag_13" name="pag_13">[13]</a></span> ser rico n'um
+paiz onde o sol e a humidade inutilisa a saude do europeu.</p>
+
+<p>Soccorramo-nos de opiniões mais authorisadas do que a nossa, e encaremos a
+questão do clima brazileiro pelos dois pontos de vista, o da pratica e o da
+theoria, para assim satisfazermos aos espiritos mais exigentes.</p>
+
+<p>O pratico, aquelle que vio as cousas de perto, diz o seguinte:</p>
+
+<p>Demorei-me bastante tempo no sul do imperio e tive occasião de fazer as
+seguintes exactas observações: o thermometro centigrado não sóbe no estio a
+mais de 35 graus, assim como não desce no inverno a menos de 5, acima de
+zero. Mas o que ha de notavel é a variedade da temperatura na mesma estação.
+De um momento para o outro o thermometro marca a differença de 6 graus. Na
+quadra mais fria eu observei dias de 25 e na mais quente a de 16 graus.</p>
+
+<p>Para quem não possue uma natureza previligiada,  estas grandes e rapidas
+variações são muito sensiveis, principalmente emquanto se não está aclimado.
+Eu usei sempre na mesma quadra roupa de duas estações, que alternava segundo
+as alterações que se davam na atmosphera; e quem não tiver esta prevenção ha
+de forçosamente soffrer.<a name="tex2html2"
+href="#foot166"><sup>[2]</sup></a></p>
+
+<p>Não nos parece que o trabalhador possa ter d'estas prevenções, que
+custariam dez vezes mais o salario porque elle contracta o serviço que vae
+prestar no Brazil, admittindo ainda que ao trabalhador seja permittido usar
+de resguardos na lavoura.</p>
+
+<p>O homem de sciencia, que não é extranho ao viver dos tropicos, porque
+reside no Brazil, e d'ali nos alumia com a vastissima luz da sua profunda
+intelligencia, diz o seguinte a respeito do clima brasileiro:</p>
+
+<p>Bucener, Lind, Hunter, Zimmermam, etc, pelos resultados<span
+class="pagenum"><a id="pag_14" name="pag_14">[14]</a></span> das suas
+experiencias e observações, opinam quasi unanimes em que nos paizes situados
+entre os tropicos, ou seja na America, Africa, Asia, com poucas excepções, as
+raças que habitam a Europa, quando passam a viver entre os tropicos, declinam
+physica e moralmente na razão da maior latitude das suas naturalidades, para
+a menor latitude da localidade tropical. A calorificação do animal europeu
+perde quatro graus na temperatura do sangue; a respiração é mais frequente,
+as pulsações do coração mais rapidas, 15 systoles a 20 por minuto em todas as
+idades; o sangue, e as secreções e excreções alteram-se nas qualidades e
+propriedades, bem como a fibra alimentar, o figado e o apparelho gastico
+funccionam mal; a pelle fica laxa, excitada; permanentemente depauperam-se as
+forças organicas pela excessiva transpiração, que conduz ao estado de
+enfraquecimento geral de funcções animaes; effeitos causativos da fraqueza
+organica.</p>
+
+<p>Os diversos estados de accumulações electricas na atmosphera, as mudanças
+sensiveis da temperatura em um mesmo dia, a variedade dos ventos, as
+tempestades e chuvas, precedidas ou succedidas a um grau de calor ou vento
+fresco, occasionam e produzem as diversidades de molestias de pulmão, das
+vias gasticas, da pelle, das mucosas, das febres intermittentes e typhoides,
+das molestias ephemeras e de systema nervoso: sempre ameaçando a vida nos
+diversos estados mais ou menos agudos, mais ou menos chronicos. Os europeus
+que conseguem acostumar-se a estas alternativas estranhas á sua economia, nem
+por isso conseguem readquirir a mesma natureza organica e vital, como no paiz
+d'onde procederam; e transmittem ás suas gerações um germem enfraquecido,
+d'onde resulta a progressiva degeneração dos paes a filhos, que bem depressa
+conduzirá até á extincção da especie.<a name="tex2html3"
+href="#foot4251"><sup>[3]</sup></a></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_15" name="pag_15">[15]</a></span>N'esta
+meia duzia de linhas do distincto escriptor, firmadas nos estudos dos
+naturalistas citados e na sua propria observação vemos nós um grande antidoto
+contra a febre da emigração para o Brazil, se nós e o nosso compatriota
+Torres, ao trascrevel-as, tivessemos a felicidade de as ver lidas por
+aquelles a quem as destinamos.</p>
+
+<p>Esperemos comtudo pelo futuro.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Comparemos agora os effeitos terriveis do clima, a mortalidade dos dois
+paizes Portugal e Brazil.</p>
+
+<p>A mortalidade em Portugal é pouco mais ou menos de 2,59 por cento<a
+name="tex2html4" href="#foot171"><sup>[4]</sup></a>; em quanto que no imperio
+americano, com respeito aos emigrados portuguezes, é actualmente impossivel
+dizer se está de 90 a 99 por cento, se tomarmos na devida consideração a
+estatistica do primeiro semestre de 1876, que só no Rio de Janeiro nos mostra
+que o numero de obitos subiu a 2:600, <i>sendo o numero de fallecidos da
+febre amarella, de 1877</i>!<a name="tex2html5"
+href="#foot173"><sup>[5]</sup></a></p>
+
+<p>Ha quem diga que se se podesse fazer igual estatistica com respeito aos
+colonos residentes no sertão, reconhecer-se-ia que 90 por cento dos
+portuguezes que emigram para aquellas regiões não chegariam para satisfazer a
+contribuição exegida pelo terrivel flagello!</p>
+
+<p>Mas comparemos a entrada dos portuguezes em todo o anno de 1876, com o
+numero dos fallecidos.</p>
+
+<p>Diz o consul no relatorio indicado, que o numero de portuguezes entrados
+no porto do Rio de Janeiro foi, n'aquelle anno, de 8:523. A media é, por
+tanto, de 4:311,5.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_16" name="pag_16">[16]</a></span>Assim,
+pois, se o numero dos fallecidos, em um semestre, é de 2:600, veremos que
+restam apenas 1:711 colonos, ou 3:422, por cada anno.</p>
+
+<p>É horrivel!</p>
+
+<p>E note-se que este resultado apparece logo immediatamente á chegada dos
+emigrados; e os que morrem depois, ou os que ficam inutilisados?!...</p>
+
+<p>O nosso illustre compatriota doutor José Rodrigues de Mattos, medico pela
+universidade de Coimbra, residente na cidade do Rio de Janeiro, respondendo á
+carta do sr. Alexandre Herculano, dirigida em dezembro de 1873 á <i>Sociedade
+real da agricultura em Lisboa</i>, observa o seguinte, em sua nota n.º 5, a
+respeito do assumpto importantissimo da mortalidade no Rio de Janeiro:</p>
+
+<p>«Pois que fallei de miserias e o sr. Alexandre Herculano só encara a
+emigração pelo prisma das grandezas, apresentarei outros factos, que não se
+encontram nos <i>livros sobre colonisação portugueza</i>. A população da
+capital do Rio de Janeiro, pela estatistica official de 1873, conta 228:743
+habitantes incluidos 78:583 estrangeiros, dos quaes 53:213 são portuguezes.
+Na hypothese menos favoravel ao meu calculo, todos estes estrangeiros
+chegaram ao Rio de Janeiro entre as edades de 10 annos até aos 78 annos. Pela
+tabua da mortalidade de Duparcieux, desde o nascimento até á idade de 10
+annos, e desde os 78 até aos 94, morre um numero de individuos igual ao
+numero dos obitos comprehendidos desde a edade dos 10 até aos 78. A grande
+maioria da emigração compõe-se de individuos chegados na edade de 16 a 30
+annos; em que o termo medio de vida provavel é o maior. A mortalidade da
+população pelas estatisticas dos 3 ultimos annos revelava uma media superior
+a 10:000 obitos. A população de Lisboa pelo menos é igual, se não maior de
+228:743: a media da mortalidade em Lisboa é de 5:400 obitos por anno.
+Comparadas as populações das duas cidades, as<span class="pagenum"><a
+id="pag_17" name="pag_17">[17]</a></span> suas mortalidades, as respectivas
+populações dos subditos naturaes dos dois paizes e a dos estrangeiros
+habitadores desde os 10 annos por diante, o resultado é o seguinte na cidade
+de Lisboa, sobre 53:213 portuguezes desde a idade dos 10 até aos 78 annos,
+morrem cada anno 1:255 individuos: sobre igual numero de portuguezes entre as
+mesmas idades, morrem na cidade do Rio de Janeiro 3:125; ou melhor: a
+mortalidade dos portuguezes no Rio de Janeiro é maior de 149 por cento da
+mortalidade de Lisboa. Estes calculos podem ficar subordinados em relação ao
+numero dos habitantes da capital de Lisboa, que se diz maior de 228:743
+habitantes; bem como ao desconto dos estrangeiros domiciliados; numero que
+está estimado em diminutisima parcella. Não pode julgar-se estranha a maior
+mortalidade, quando em Lisboa se conta apenas 129 medicos e cirurgiões e 82
+pharmacias; em quanto que no Rio de Janeiro existem 418 medicos e 344
+pharmaceuticos domiciliados. No bienio de 1872 a 1873 trataram-se 5:000
+doentes no hospital da sociedade Portugueza de Beneficencia; a Caixa de
+seccorros de D. Pedro V tratou de molestias e deu esmolas a 18:530
+portuguezes; e nos hospitaes, das ordens Terceiras e da Misericordia ha 400
+leitos occupados constantemente por enfermos portuguezes; calcula-se que
+aproximadamente regula por 16:000 infilizes que annualmente povoam os
+hospitaes de caridade na população riquissima de pouco mais de 50:000
+emigrados. O hospital de S. José em Lisboa recebe apenas 12:000 de uma
+população calculada em 300:000 almas.»</p>
+
+<p>Mas continuemos a examinar outros dados que temos á vista.</p>
+
+<p>A mortalidade de Lisboa, segundo a estatistica publicada no <i>Diario do
+Governo</i> n.º 285, de 1872, é de 30,4 individuos para cada 1:000, um pouco
+mais do que a da cidade de Londres, que desce a 27, e um<span
+class="pagenum"><a id="pag_18" name="pag_18">[18]</a></span> pouco menos do
+que a de Roma, que sóbe a 35. No Cabo da Boa Esperança e na Serra Leoa, a
+mortalidade é de 200 individuos para cada 1:000, e a da população portugueza
+residente no Rio de Janeiro, segundo o relatorio do ministro do commercio,
+agricultura e obras publicas foi, em 1870, de 270 para 1:000!!!<a
+name="tex2html6" href="#foot4252"><sup>[6]</sup></a></p>
+
+<p>O ponto de Portugal onde a mortalidade é maior, chegando a dar ao
+cemiterio uma precentagem de 40,4 individuos para cada 1:000, é o districto
+de Beja; mas o termo medio é o que já deixamos mencionado, isto é, 2,59 para
+100.<a name="tex2html7" href="#foot181"><sup>[7]</sup></a></p>
+
+<p>No desenvolvimento da critica que mais adiante fazemos a um livro
+publicado ha pouco<a name="tex2html8" href="#foot4253"><sup>[8]</sup></a>,
+verão os leitores que não está dita ainda a ultima palavra sobre a
+mortalidade de portuguezes no Rio de Janeiro. Alli demonstraremos com as
+estatisticas das sociedades portuguezas beneficentes, que não foi arrojada a
+nossa proposição quando dissemos que a mortalidade na colonia poderia
+elevar-se até aos 90 casos para cada 100 individuos.</p>
+
+<p>O portuguez que emigra não vê isto; só pensa que ao fim de alguns annos
+hade vir rico do Brazil, e isso lhe basta; porque não ha quem lhe diga que,
+de cada milhar, vem de lá um remediado, verdade seja que vergando ao peso das
+molestias adequeridas em tão insalubre paiz.</p>
+
+<p>Este mal é já velho, e não vemos que os remedios vulgares o possam
+debellar; por que para nós, é ponto de fé que a ambição só poderia ter o
+curativo que entre nós nunca pensaram em applicar aos ambiciosos, a
+escolla.<span class="pagenum"><a id="pag_19" name="pag_19">[19]</a></span></p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>A ambição, inerente a todos os homens, o nosso genio naturalmente
+aventureiro, amante do desconhecido, que ainda assim não faz em nós esquecer
+o santo amor do trabalho, nos cega a tal ponto, e esta triste verdade vem já
+de seculos, que não nos deixa ver os desastres dos nossos antepassados, que
+igual motivo acarretára para longe da patria e da familia, onde, n'um
+momento, a terra preferida se transformava em abysmo para os tragar.</p>
+
+<p>E deixavam os que lhe sobreviviam, em tão remotas epocas, de cair no mesmo
+erro? Não, porque lá estavam os mesmos interessados (sempre houve
+engajadores) a apontar aos ambiciosos as minas inesgotaveis do Brazil!</p>
+
+<p>Pois qual seria o portuguez capaz de ficar indiciso, á vista da descripção
+dos brilhantes da mais fina agua, do oiro em pó, dos aljofares, dos coraes,
+das perolas, das esmeraldas e das amethystas, que os apologistas diziam andar
+aos pontapés n'este paiz de fadas? Quem seria capaz de resistir ao aroma das
+poeticas flores, da poesia das frondosas arvores, por entre as quaes se
+interlaçam os mais exquisitos cipós, aroma que aos incautos, parecia
+atravessar esse immenso lago de milhares de legoas, para chegar até elles?
+Quem não ficaria enthusiasmado com a descripção, não menos patetica, das
+nuvens de milhares de passarinhos com suas pennas de mil côres, que segundo
+os poetas adejam por cima d'esse bosque immenso que esconde os pantanos
+venenosos, a cascavel e a sucuriuba? Quem não escutaria de bom grado as
+descripções fantasticas d'esses rios gigantes e dos <i>igarapés</i>, das
+immensas cordilheiras e dos valles, das grutas mysteriosas e das cidades
+encantadas d'este paraizo terreal?<span class="pagenum"><a id="pag_20"
+name="pag_20">[20]</a></span></p>
+
+<p>Quem mostrava aos nossos antepassados o reverso da medalha? a poesia das
+flores, das mattas virgens, das esmeraldas e dos rubis transformada na poesia
+do tumulo, que algumas vezes era o oceano e outras o estomago do
+antropophago?!</p>
+
+<p>Dizem antigos escriptores, que os indios brazileiros eram mais difficeis
+de domar que os dos outros pontos da America meridional, sujeitos aos
+castelhanos; e que, primeiro que fundassemos ali povoações, perdemos muitas
+vidas e muito sangue. As viagens eram muito difficeis. Muitos galeões
+naufragavam antes de chegarem ao seu termo.</p>
+
+<p>Mas que importavam estas difficuldades escondidas a quem sonhava com o
+El-Dourado?</p>
+
+<p>Ora, a nossa questão é que as phantasias de hoje são as phantasias
+d'outr'ora; e que, para desfazel-as no espirito dos nossos illudidos
+compatriotas, não bastam os estudos theoricos de qualquer commissão de
+emigração. Faça-se mais. Combata-se o mal da ambição, pela escola,
+offerecendo aos ambiciosos as riquezas, ainda por explorar, dos nossos vastos
+dominios do continente. Nós que somos inimigo dos emprestimos para a
+consolidação da nossa divida publica, porque não vemos que ella se consolide,
+aprovariamos um emprestimo que tivesse por fim comprar os terrenos quasi
+virgens do Alemtejo, e que, depois de divididos em courellas, deveriam ser
+aforados aos trabalhadores, a exemplo do que está constantemente praticando o
+primeiro lavrador d'este paiz, o sr. José Maria dos Santos, na margem sul do
+Tejo, e em outros pontos d'aquela uberrima provincia; não esquecendo a
+vastissima herdade da Capella, no concelho do Redondo, dividida em courellas
+por aquele lavrador aos habitantes d'esta villa, herdade que hoje está
+completamente transformada em riquissimas e ao mesmo tempo pitorescas
+vinhaterias.</p>
+
+<p>Apregoam-se os males da febre amarella, e especialmente<span
+class="pagenum"><a id="pag_21" name="pag_21">[21]</a></span> os maus tratos
+que os indigenas do Brazil infligem aos emigrados portuguezes; e que
+resultado se tira do pregão?</p>
+
+<p>Aqui ha tempo, quando a imprensa portugueza se levantava indignada contra
+os morticinios do Pará, navios continuavam a ir cheios de emigrados para
+aquellas paragens! Esses mesmos navios conduziam para a Europa ou para a
+Africa os repatriados, que não podiam supportar os disturbios dos
+paraenses!!!</p>
+
+<p>Os portuguezes que em 1835 e 1848, poderam, a muito custo, escapar ao
+punhal dos <i>cabanos</i>, regressavam, pouco tempo depois, ás provincias do
+Pará e Pernambuco, theatros onde se representaram tão horriveis dramas!!!</p>
+
+<p>E que haviam elles de fazer? Quem os incitava aqui ao trabalho que traz a
+independencia?</p>
+
+<p>Os terrenos incultos estavam, ao tempo, na mão dos morgados. Extinctos
+estes, a missão dos governos não estava finda: era preciso que esses governos
+lançassem mão dos terrenos, reunil-os aos baldios e offerecel-os aos
+ambiciosos. Assim protegeria a agricultura, a nosso ver, a unica fonte de
+onde jorra a prosperidade dos paizes predestinados pela natureza a grandes
+emporios agricolas.</p>
+
+<p>Os portuguezes emigravam então, como emigram hoje, porque não tem havido
+ninguem que os attraia seriamente para as riquezas do nosso solo.</p>
+
+<p>Mas ainda é tempo. Que os males passados sirvam de exemplo para evitar os
+males futuros, e emquanto se não providenceia como é de urgente necessidade,
+prohiba-se a emigração para o Brazil, quando alli haja a febre amarella.</p>
+
+<p>Dizemos isto sem medo que nos alcunhem de anti-liberaes; e áquelles que
+nos replicarem que atacamos os direitos do cidadão, responderemos, que para a
+maior parte dos <i>cidadãos</i> que emigram comprehenderem bem<span
+class="pagenum"><a id="pag_22" name="pag_22">[22]</a></span> os seus deveres,
+precisam de ir para a escolla. Queremos dizer com isto que em Portugal se
+descura muito da escolla, o melhor antidoto contra a febre da emigração.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Se a instrucção do povo é o remedio infallivel que preferimos applicar ao
+mal da emigração, não é menos certo que esse remedio só pode curar com
+lentidão, o que desejariamos fosse curado rapidamente.</p>
+
+<p>Attrahir o trabalhador a novas fontes de riqueza no próprio paiz, era já
+um cauterio cujos effeitos não são tão lentos como os da escolla.
+Referimo-n'os ás colonias agricolas no sul de Portugal, Alemtejo e Algarve.
+Quem fundará essas colonias? O capital, desde que o capital encontre garantia
+no governo, garantia que se traduza em isenção de contribuições para as
+colonias que se estabeleçam com caracter de protecção ao trabalhador, que é
+ao mesmo tempo garantia para a agricultura do paiz e, por consequencia, para
+o proprio capital empatado.</p>
+
+<p>É assumpto vastissimo, o da fundação das colonias no Alemtejo, e as luzes
+de que dispomos não são sufficientes para dizermos o que baste para o
+desenlace d'uma questão demasiado complexa. Com tudo, parece-nos que aquelles
+que nestes ultimos tempos tem querido dar impulso á agricultura na provincia
+mais vasta e mais rica que possuimos, desconhecem um pouco a materia.</p>
+
+<p>Nós quizeramos vêr <i>retrogradar</i> os nossos habilissimos estadistas de
+hoje, até aos tempos primitivos da monarchia, em que se fundaram essas
+povoações que para ahi vemos medrar, cujos alicerces foram devidos unica e
+exclusivamente ao trabalho agricola de colonos nacionaes e
+estrangeiros&mdash;estes da região do norte; porque<span class="pagenum"><a
+id="pag_23" name="pag_23">[23]</a></span> nos tempos <i>retrogrados</i>, não
+se tinha em menos conta o cruzamento das vigorosissimas raças do norte da
+Europa com as semi-indulentes do meio dia: prova de que á testa dos negocios
+publicos não estavam uns certos miopes da actualidade, que entendem
+beneficiar o paiz colonisando o Alemtejo com familias italianas.</p>
+
+<p>Mas que se fazia então?</p>
+
+<p>Fazia-se o que se não faz hoje. Então como na actualidade, os governos do
+estado precisavam de dinheiro. Então julgavam, e julgavam bem, que a riqueza
+brotava do solo; e o solo era explorado para produzir essa riqueza que nós
+vimos empregar nas emprezas arrojadissimas, que fizeram grande este paiz que
+nascera pequenissimo.</p>
+
+<p>Hoje que a terra é a mesma&mdash;ainda immensamente rica;&mdash;pede-se ao visinho
+uma esmola, outra e outra (até fechar-nos a porta, desenlace que sempre deve
+esperar quem muito pede e muito gasta), para fazer face ás despezas do
+estado; em logar de nos prepararmos previamente para essas despezas,
+descobrindo com a enchada, no centro da provida terra como os nossos
+antepassados, as minas que alli deixa intactas a nossa imprevidencia.</p>
+
+<p>É que é mais facil pedir emprestado!</p>
+
+<p>Os que pedem emprestado podem saber muito de economia politica; porem não
+sabem ser bons lavradores&mdash;dos que semeam para colher, dos que amanhando a
+terra, dão que fazer a muitos braços, tornando-os independentes do visinho,
+que é avaro com os taes emprestimos.</p>
+
+<p>Mas se o nosso economista, estuda, estuda no gabinete; depois chega-lhe á
+porta uma alluvião de amigos, que o elevára á <i>proeminencia</i>... de estar
+encerrado no tal gabinete; acorda-o do lethargo que podia salvar-nos;
+mostra-lhe o estomago vasio; e o economista, que póde muito bem ser um
+<i>touro</i>, não tem mais remedio<span class="pagenum"><a id="pag_24"
+name="pag_24">[24]</a></span> senão ceder... porque a alluvião de amigos
+representa a <i>giboia</i> collosal da nossa politica!</p>
+
+<p>Que fazer?</p>
+
+<p>Pedir emprestado ao visinho; senão sujeita-se a ser engulido!</p>
+
+<p>E não digam que os nossos economistas não são mais previdentes do que o
+inexperiente viajante que, de mãos vasias, no meio da floresta, não pôde,
+para salvar-se, atirar com a posta ao reptil!...</p>
+
+<p>Haverá alguem que possa fazer de Hercules; que empunhe a massa e esmague a
+cabeça da serpente que para ahi se arrasta em volta do manso bezerro&mdash;o
+povo?</p>
+
+<p>Se ha, que venha e... faça um emprestimo, mas um emprestimo colossal. Com
+o dinheiro emprestado fundará colonias no Alemtejo e no Algarve; porém
+colonias perfeitamente montadas, convidando-se para as compor, não só as
+familias d'aquellas regiões, mas as das provincias do norte de Portugal, que
+costumam sair para o Brazil; e se lhe apparecerem pelo gabinete os taes
+senhores <i>giboias</i> de estomago elastico, metta-lhes uma enchada na mão,
+e ensine-lhes o caminho do campo em desbravamento, onde se converterão, de
+simples bichos, em optimos trabalhadores e uteis cidadãos.</p>
+
+<p>Não haverá para ahi quem se convença, que isto de estar continuadamente a
+pedir dinheiro emprestado para pagar emprestimos é um erro economico?</p>
+
+<p>Contraia-se, pois, um emprestimo para o fim indicado, que os lucros hão de
+chegar, não só para satisfazer essa divida, como as já contrahidas e que
+jámais poderão ser pagas pelo systema rotineiro; e até mesmo cremos que
+d'esses lucros sobejará para supprir algumas faltas dos golotões reptis... se
+por desventura nossa ainda os houver.</p>
+
+<p>Terminaremos estas observações dizendo, que conhecemos alguns cavalheiros,
+lavradores no Alemtejo, que,<span class="pagenum"><a id="pag_25"
+name="pag_25">[25]</a></span> tendo comprado algumas herdades lhes offereciam
+hoje, tres ou quatro annos depois do <i>amanho</i>, 200 e 300 por cento de
+lucro!</p>
+
+<p>Nós estamos convencidos que a isto se deve chamar lucro, se, como acontece
+a muitos pontos da lei social, não está tambem invertido este principio,
+sobre que assenta a lei economica.</p>
+
+<p>Venha um governo, que, proseguindo no caminho aberto pelo rei Diniz, se
+não envergonhe do cognome de&mdash;<i>lavrador</i>&mdash;com que a historia glorificára
+aquelle grande portuguez, mais amigo do seu paiz, na epocha do obscurantismo,
+do que o são todos os economistas presentes, que empunham o facho, d'onde
+dizem que brota a <i>luz</i>, mas que infelizmente nos encaminha para o
+abysmo da <i>destruição</i>.</p>
+
+<p>E haverá governo que queira <i>achincalhar-se</i> com o cognome
+de&mdash;<i>lavrador</i>?!</p>
+
+<p>Não será mais bonito appelidar-se antes <i>banqueiro</i>,
+<i>accionista</i>, <i>director de qualquer cousa</i>, <i>jornalista</i>,
+<i>litterato</i>, e até mesmo... <i>pastelleiro</i>?!</p>
+
+<p>Escolham, escolham... mas vejam que da escolha depende o futuro da patria.
+</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>As colonias não podiam prosperar, no nosso humilde entender, quando
+estivessem montadas, se o governo não lançasse mão de um meio energico&mdash;e
+liberal humanitario ao mesmo tempo, contra a emigração clandestina, meio que
+se nos afigura ser o mais prompto e decisivo para a cura do mal que definha
+as forças vitaes do paiz&mdash;a falta de braços: referimo-nos á inspeção da
+emigração, que pode, em parte, substituir a escolla, e auxiliar, desde já, e
+muito poderosamente, a pequena agricultura que luta com a falta de braços que
+se escoam para o Brazil.<span class="pagenum"><a id="pag_26"
+name="pag_26">[26]</a></span></p>
+
+<p>A inspecção da emigração não é cousa nova. Está estabelecida nos paizes
+mais adiantados e se o Brazil a não estabeleceu, como já fez a America do
+norte, é porque n'aquelle paiz como em Portugal não se estuda a serio estes
+assumptos economicos.</p>
+
+<p>Á America do norte não comvem o engajamento forçado, isto é, a illusão. Á
+America do norte comvem que a introducção dos colonos seja feita com a maxima
+liberdade, por que nos processos liberaes do engajamento está a riqueza dos
+grandes nucleos da emigração e por consequencia do paiz que acolhe os
+emigrantes.</p>
+
+<p>O projecto de lei apresentado na camara dos representantes dos Estados
+Unidos por mr. Conger, estabelece alem de outras medidas favoraveis aos
+emigrantes que procuram as terras do norte da America, que nos portos de
+partida os consules americanos deverão passar uma especie de inspecção aos
+emigrantes; que ao desembarque d'estes as queixas serão julgadas
+summariamente pelos commissarios dos Estados Unidos; estes commissarios serão
+nomeados pelo presidente dos Estados Unidos, de accordo com o senado, por um
+periodo de quatro annos; serão encarregados, debaixo da direcção do
+secretario do thesouro, da execução de todas as leis relativas á emigração, e
+authorisados a estabelecer regulamentos; o secretario do thesouro nomeará, um
+escrivão bem como addidos inspectores e outros agentes necessarios; os
+proprietarios, agentes ou capitães de navios que conduzem emigrantes aos
+Estados Unidos pagarão no momento do desembarque, um dollar por pessoa
+adulta, applicavel aos soccorros em caso de doença, ao aluguer ou construcção
+de embarcadouros, sempre em beneficio dos emigrantes; nos portos de
+Liverpool, Hamburgo, Breme e outros, onde annualmente se embarca mais de
+40:000 emigrantes, será estabelecido um agente <i>com commissão especial de
+inspeccionar os navios antes de partirem, examinar se a lei é executada, de
+dar<span class="pagenum"><a id="pag_27" name="pag_27">[27]</a></span></i>
+<i>as necesarias informações aos emigrantes</i>, etc; nos outros portos onde
+a emigração não exceda annualmente aquelle numero o consul substituirá o
+agente da emigração mediante um supplemento de 1:000 dollars por anno; quatro
+inspectores, fallando allemão, francez e sueco e outras linguas serão addidos
+ao porto de New-York, e um em cada um dos portos onde chegam os emigrantes em
+quantidade consideravel; a estes agentes cumpre acompanhar os empregados das
+alfandegas á chegada de cada navio commerciante, examinal-os, receber as
+queixas dos emigrantes, e quando as houver fazer um relatorio ao collector da
+alfandega e ao chefe do departamento da emigração; o superintendente
+intentará um processo por perdas e damnos em favor dos emigrantes; os
+commissarios nos Estados Unidos julgarão summariamente todos os casos de mau
+tratamento a bordo, insufficiencia ou má qualidade de alimentos, perjuizos na
+bagagem, roubos, fraudes, seja nos hoteis, no cambio da moeda, atraso nos
+caminhos de ferro, etc, etc; poderão condemnar o culpado a 100 dollars de
+multa por cada uma das culpas e tambem poderão reclamar a sua prisão até que
+o caso seja julgado; os deveres dos superintendentes, debaixo da direcção dos
+commissarios, serão prover a que os emigrantes sejam bem recebidos ao
+desembarque, de alugar para elles os necessarios terrenos, e mandar fazer as
+construcções indispensaveis, de cuidar nas suas bagagens, de tomar os seus
+nomes, idade, occupação e destino, de os proteger contra as fraudes,
+procurando-lhes occupação, quando a desejem, de prover ás mais urgentes
+necessidades dos recemchegados, de lhes prestar todas as informações
+relativas ao meio mais prompto e mais economico de se transportarem aos seus
+destinos, de lhes fazer obter das companhias de transporte as mais vantajosas
+condições, e emfim de prevenir tudo para a commodidade e segurança dos
+colonos, etc., etc.; os<span class="pagenum"><a id="pag_28"
+name="pag_28">[28]</a></span> contractos passados no estrangeiro para o
+transporte dos emigrantes a um ponto qualquer dos Estados Unidos serão
+illegaes e nullos, não tendo sido previamente approvados pelo superintendente
+da emigração.</p>
+
+<p>Mas se os paizes que recebem colonos precisam de inspectores que
+fiscalizem a emigração, aquelles de onde ella se escoa não precisa menos
+d'esses utilissimos agentes do governo. Assim o intendeu o conde de Thomar em
+1860, quando representava Portugal no Brazil, nomeando um commissario, o dr.
+Antonio José Coelho Louzada, para formular um projecto de regulamento para a
+emigração; projecto que, uma vez convertido em lei do estado, devia ser de
+grande utilidade para o nosso paiz.</p>
+
+<p>Referindo-se á creação dos logares de inspector, diz elle:</p>
+
+<p>Que a nomeação dos inspectores especiaes da colonisação não é cousa nova.
+Na França e na Belgica, por onde se escoa uma grande massa de emigrantes
+europeus, ha os inspectores especiaes e sem elles eu não julgo que o governo
+portuguez possa ter nenhum conhecimento exacto da população que emigra, nem a
+certeza de que a sahida dos emigrantes se faz sem o emprego da seducção e do
+engano a que é tão frequentemente sujeita. As authoridades administrativas da
+localidade respectiva, ás quaes o art. 5.º, n.º 1 (da lei de 20 de julho de
+1855), commetteu a fiscalisação d'este assumpto, não podia no meio de tão
+complicados encargos, como os que já tem pela legislação vigente, occupar-se
+detidamente de um negocio que para ser bem fiscalisado deverá começar de
+muito antes do emigrante embarcar, e somente acabar no acto da sua saida pela
+barra fóra. Como porem não seja para esperar que a deserção dos patrios lares
+vá, como até agora tem succedido, em grande progressão, e antes ao contrario
+d'isso eu tenha por infallivel que ella diminuirá com as providencias<span
+class="pagenum"><a id="pag_29" name="pag_29">[29]</a></span> que indico,
+entendi que os inspectores especiaes de colonisação não deveriam fazer parte
+de uma nova creação de empregados publicos, e que n'esse intuito
+procurando-se algum que estivesse menos sobrecarregado de trabalho ou
+inteiramente dispensado d'elle, possa á rigidez de caracter unir uma boa
+vontade para empregar-se em um serviço publico de tamanha importancia, como
+se reputa ser aquelle, que deverá ter por empreza não sómente desviar a
+seducção feita aos emigrantes, que precorrem paizes que não são possessões
+nossas, como o de ir explorando os meios mais efficazes a empregar, com o fim
+de fazer encaminhar uma semilhante tendencia para os dominios portuguezes
+d'alem-mar. Sem um similhante funccionario applicado a este ramo de serviço
+publico, nem a fiscalisação irá até aos ultimos momentos da partida do navio,
+nem as estatisticas do movimento emigratorio poderá obter fóros, se não de
+real, pelo menos de mui aproximado, por isso que todos os quadjuvantes que
+lhe são dados não podem occupar-se se não dos assumptos concernentes á sua
+especialidade, como são os capitães do porto, o delegado ou sub-delegado de
+saude e o empregado da alfandega, todos os quaes carecem de um centro de
+reunião para que possam marchar de accordo nas medidas a empregar.<a
+name="tex2html9" href="#foot4255"><sup>[9]</sup></a></p>
+
+<p>O projecto do regulamento, que era um complemento á doutrina do art. 12.º
+da lei do 20 de julho de 1855, e a que se refere a nota que acima
+reproduzimos, estabelece oito inspecções nos portos, de Lisboa, Porto, Vianna
+do Castello, Madeira, Ponta Delgada, Horta e Terceira com o encargo de
+superientender a emigração tanto dos portuguezes como dos estrangeiros que
+houverem de sair pelos portos acima indicados; estabelece<span
+class="pagenum"><a id="pag_30" name="pag_30">[30]</a></span> que o embarque
+de emigrantes em qualquer outro porto seja vedado; que os inspectores tomarão
+o logar das authoridades administrativas locaes no desempenho das obrigações
+consignadas na lei de 20 de julho de 1855; que os inspectores fiscalisem os
+passaportes dos emigrantes, etc. etc.</p>
+
+<p>Mas foi prégar no deserto. Já são passados 17 annos de somnolencia
+incomprehensivel; e desde então para cá, que de milhares de braços tem
+perdido a nossa agricultura!</p>
+
+<p>A commissão parlamentar nomeada ha annos para prover de remedio a tão
+grande mal, calculava que em 20 annos se perdiam 75 por cento dos portuguezes
+que emigram para o Brazil!</p>
+
+<p>Reduzindo a metal o que este trabalho representa, diz a commissão, e dando
+120$000 réis ao trabalho produzido por cada emigrado, annualmente, 34:000
+emigrados, representando 2:400$000 réis cada um, em 20 annos fazem
+81.600:000$000 réis.<a name="tex2html10"
+href="#foot4256"><sup>[10]</sup></a></p>
+
+<p>Foram igualmente baldados os estudos da commissão dos srs. deputados!</p>
+
+<p>E tudo isto: estes milhares de contos, e, o que é mais, os milhares de
+vidas preciosas que vão perder-se no Brazil, seriam aproveitadas em beneficio
+do paiz que tanto d'elles carece.</p>
+
+<p>Quando haverá um governo que trate seriamente de debellar o mal que nos
+prostra?</p>
+
+<p>Ah! mas a liberdade! Deixemos aos proletarios a vontade livre, a liberdade
+de emigrar, que é uma garantia do cidadão!</p>
+
+<p>Mas a esses que apregoam essa liberdade absurda respondem os grandes
+economistas, que não desrespeitam a liberdade, tal qual ella deve ser
+comprehendida pelos que dirigem os destinos das nações:</p>
+
+<p>«O<span class="pagenum"><a id="pag_31" name="pag_31">[31]</a></span> livre
+arbitrio, diz o nosso doutissimo compatriota, o sr. Rodrigues de Mattos, só
+pode ser admissivel no homem sabio e no caso extremo, em que por violencia
+extranha tem de actuar e lhe faltam conceitos por melhores, do que a
+reprovação conscenciosamente justificada; mas ainda assim o homem sabio
+condemna sempre o livre arbitrio e prefere dizer: ignoro; obedeço; não
+imponho.&mdash;O radicalismo que se apregoa nas doutrinas da <i>liberdade sem
+limites e da sciencia sem privilegio</i> traduz-se no charlatanismo dos mais
+ardilosos; na traição dos hypocritas insuflados de odios; na corrupção dos
+poderes do estado; no amalgama dos erros com as verdades; nas superfetações
+do pedantismo encyclopedico. Concordando nas doutrinas do sr. Alexandre
+Herculano e na intelligencia do principio <i>liberal e razoavel</i> applicado
+na inspecção dos processos de emigração, lembro tambem á Sociedade Real de
+Agricultura o seguinte expediente. Todo o portuguez que pretenda emigrar e
+esteja no caso de ser reputado na classe ou ordem&mdash;<i>Emigração socialmente
+legitima e economicamente boa</i>, procederá a um exame, em que pelo menos
+mostre saber ler, escrever e contar, sommando e diminuindo; que saiba
+conscenciosamente a posição de Portugal e da America no mappa geographico, as
+suas historias pelo menos as mais modernas, e alguma cousa de climas, raças
+humanas, producções, industrias e seus valores comparativos e utilisaveis; se
+tem algumas noções dos deveres de pai, de marido, de filho, de irmão, do que
+significam as palavras «sou portuguez da Europa e não <i>portuguez</i> da
+America». Se a Sociedade Real de Agricultura poder conseguir a pratica d'esta
+doutrina de <i>legitimidade de acção</i> e de <i>utilidade economica</i> não
+só Portugal se enriquecerá, porque o numero de emigrados ficará reduzido de
+12:000 a uns 200 até 300 emigrados, que honrarão no Brazil as tradições
+gloriosas dos seus antigos progenitores nos cinco continentes<span
+class="pagenum"><a id="pag_32" name="pag_32">[32]</a></span> da terra, como
+tambem fomentarão o commercio e as industrias das duas nações na Europa e na
+America. Homens, <i>coisas</i>, na America, serão talvez um elemento material
+destructivel por quem melhor o souber consumir para reproduzir-se em proveito
+total; menos os taes 3:000 contos de interesse por commissão e despezas de
+capitaes nos valores 108.000.000:000$000; commissão que nem ao menos chega
+para comprar opio e fazer dormir por 24 horas um paiz que desde dois seculos
+não passa do termo medio das 3.500:000 almas, quando poderia contar
+10.000:000, só na peninsula, e ter aproveitado as suas melhores colonias,
+disputadas hoje por quantos aventureiros apparecem, como lobos contra
+cordeiros. <i>Turbulentam mihi aquam fecisti.</i>»</p>
+
+<p>Discordamos um pouco da opinião do illustre escriptor, com respeito ás
+considerações que elle fez a respeito da instrucção, que no seu intender
+devia ser exigida pela Sociedade de Agricultura aos emigrantes. Nós
+contentavamo-nos com muito menos; isto é, que lhes fosse exigida a certidão
+de que sabiam ler correntemente.</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Portugal é um paiz pobre, dizem os que advogam a emigração para o Brazil;
+tem braços a mais, razão natural da procura de novos territorios, acrescentam
+ainda.</p>
+
+<p>Mas isto é um sophisma. Quem diz isto, quer esconder a verdade, a
+princípal causa da emigração portugueza para o Brazil e que nunca nos
+cansaremos de repetir&mdash;a ambição inconsciente dos emigrantes.</p>
+
+<p>Portugal é pobre? A Portugal sobejam braços?</p>
+
+<p>Comparemos Portugal á Belgica e á Hollanda, e vejamos se fallam verdade os
+alliciadores do imperio americano.<span class="pagenum"><a id="pag_33"
+name="pag_33">[33]</a></span></p>
+
+<p>Dizem os geographos, que em geral não são muito favoraveis nas
+appreciações que fazem ao nosso paiz:</p>
+
+<p>«<i>Belgica</i>.......................<br>
+O solo, esteril nas provincias de Liege e de Limbourg; é muito fertil nas
+Flandres e no Hainaut e bem cultivadas.»</p>
+
+<p>Nada mais com respeito ao solo.</p>
+
+<p>«<i>Hollanda</i>.......................<br>
+A Hollanda abunda sobre tudo em pastagens; cultiva-se com successo o trigo, o
+linho, a ruiva, o tabaco, fructas; a agricultura e a horticultura attingiram
+alli um alto grau de perfeição. O clima é brusco e humido; os habitantes das
+proximidades das lagoas (Polders) e das ilhas, estão expostos ás febres
+endemicas; entretanto o frio dos invernos e os ventos de éste, modificam a
+insalubridade do ar.»<a name="tex2html11"
+href="#foot4257"><sup>[11]</sup></a></p>
+
+<p>Vemos de notavel, apenas, que a agricultura e a horticultura attingiram
+alli o alto grau de perfeição, que não póde desfazer as nebrinas tristonhas
+do seu clima, nem tão pouco arredar para longe as febres que assolam grande
+parte dos habitantes da Hollanda.</p>
+
+<p>Para comparar veja-se o que diz o mesmo auctor com respeito a Portugal:
+</p>
+
+<p>«A temperatura é d'um calor importuno, <i>mais elevado</i> que em
+Hespanha; o solo é muito fertil (<i>très-fertil</i>), <i>mas geralmente mal
+cultivado</i>. Produz os famosos vinhos do Porto, Setubal, Carcavellos, etc.;
+azeitonas, figos, laranjas e outros fructos exquisitos; mel, cera, kermes.
+Aqui se encontra tambem as minas de ouro, prata, ferro, chumbo, estanho,
+antimonio, sal (marinho), carvão de pedra, turquezas e outras pedras
+preciosas, aguas mineraes e thermaes. Gado grosso, pouco; mas bastantes
+carneiros e excellentes muares.»</p>
+
+<p>Abramos um parenthesis:<span class="pagenum"><a id="pag_34"
+name="pag_34">[34]</a></span></p>
+
+<p>Assim como deixamos passar a appreciação justissima de que o nosso solo
+<i>está mal cultivado</i>, não deixaremos passar a affirmativa do illustre
+geographo, quando diz que a temperatura do nosso clima <i>é mais elevada</i>
+do que o da Hespanha. Esta não é a verdade. Se o calor que entre nós se
+supporta no estio é importuno&mdash;<i>accablant</i>&mdash;, na Hespanha não o é menos,
+se não superior. A experiencia de todos os dias ahi está corroborando esta
+asserção.</p>
+
+<p>Fechemos o parenthesis, e prosigamos.</p>
+
+<p>A culpa de estar o nosso solo&mdash;<i>très-fertil</i>&mdash;mal cultivado, não é de
+quem emigra, mas de quem, possuindo todos os meios de evitar o mal, não tem
+tomado a iniciativa de o cultivar:&mdash;é dos maus governos que tem tido a
+nação.</p>
+
+<p>Vejamos agora, comparando ainda Portugal ás tres nações citadas, se lhe
+sobejam braços.</p>
+
+<p>Portugal mede uma superficie de 576 kilometros, do sul ao norte, sobre 168
+de oeste a leste, ou 96.768 kilometros quadrados, que, divididos por 4
+milhões de habitantes, dá para cada um&mdash;24,192 metros quadrados.</p>
+
+<p>A Hollanda mede 240 kilometros sobre 230, ou 55.200 kilometros quadrados.
+A sua população é de 3 e meio milhões; dando por consequencia, 15,771 metros
+quadrados para cada habitante.</p>
+
+<p>A Belgica mede 270 por 200, ou 54.000 kilometros quadrados, que divididos
+por 4 e meio milhões de habitantes, dá para cada um 12 metros quadrados.</p>
+
+<p>Por estes simples calculos se conclue, que, para Portugal estar a par da
+Hollanda devia ter uma população de mais de 6 milhões de habitantes, e mais
+de 8 para estar a par da Belgica!</p>
+
+<p>Se os governos d'este paiz, que, nos seus excessos de patriotismo, tentam
+explorar a mina dos nossos certões envios d'Africa, olhassem para as minas
+que possuimos<span class="pagenum"><a id="pag_35"
+name="pag_35">[35]</a></span> no continente, a emigração seria annulada em
+pouco tempo.</p>
+
+<p>O governo que estabelecesse 20 colonias de 500 trabalhadores cada uma,
+entreteria na faina do trabalho agricola uns 10:000 trabalhadores, numero
+igual á população que emigrou para o Brazil em 1876.</p>
+
+<p>Por este systema contribuiria igualmente para a divisão proporcional da
+população portugueza, medida extremamente importante, cuja densidade em
+algumas provincias é de 164 habitantes para cada kilometro quadrado, em
+quanto que em outras partes do reino não passa de 12!</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>A commissão geodesica, encarregada por decreto de 21 de setembro de 1867,
+de proceder ao reconhecimento, determinação e estudo dos terrenos, cuja
+arborisação é necessaria e util, achou o seguinte assombroso resultado, na
+averiguação do arduo e substancioso trabalho que lhe incumbiram e que ella
+executou com admiravel proficiencia; o que não quer dizer que os taes estudos
+servissem para mais alguma cousa do que para mostrar ao mundo inteiro a nossa
+incuria:</p>
+
+<table border="0" align="center"
+summary="Superficie de cumiadas incultas e de charnecas">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="3">SUPERFICIE DE CUMIADAS INCULTAS E DE CHARNECAS</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="3"><small>PROVINCIA DO ALGARVE</small></th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right; width:5em;"><small>HECTARES</small></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Zona do litoral</td>
+ <td style="text-align:right; width:5em;">15.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Zona interior</td>
+ <td style="text-align:right;">294.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right;">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</td>
+ <td style="text-align:right;">309.000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="3"><small>PROVINCIA DO ALEMTEJO E A PARTE DA EXTREMADURA
+ AO SUL DO TEJO</small></th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Parte meridional</td>
+ <td style="text-align:right;">718.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="pagenum"><a id="pag_36"
+ name="pag_36">[36]</a></span>Parte central</td>
+ <td style="text-align:right;">516.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Parte septentrional</td>
+ <td style="text-align:right;">413.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right;">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</td>
+ <td style="text-align:right;">1.647.000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="3"><small>PROVINCIA DA BEIRA E A PARTE DA EXTREMADURA AO
+ NORTE DO TEJO</small></th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Região sul-occidental</td>
+ <td style="text-align:right;">240.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Região central</td>
+ <td style="text-align:right;">780.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Região septentrional</td>
+ <td style="text-align:right;">328.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:center;">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</td>
+ <td style="text-align:right;">1.348.000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="3"><small>PROVINCIA DE TRAZ-OS-MONTES</small></th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Tracto oriental</td>
+ <td style="text-align:right;">195.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Tracto central</td>
+ <td style="text-align:right;">240.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Tracto occidental</td>
+ <td style="text-align:right;"><span
+ style="text-align:right;">279.000</span></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right;">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</td>
+ <td style="text-align:right;">714.000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="3"><small>PROVINCIA DO MINHO</small></th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Tracto meridional</td>
+ <td style="text-align:right;">89.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Tracto septentrional</td>
+ <td style="text-align:right;">135.000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right;">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</td>
+ <td style="text-align:right;">224.000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="3"> </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="2">Areiaes incultos e médões da costa maritima</td>
+ <td style="text-align:right;">72.000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="2"></td>
+ <td
+ style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">4.314.000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="2">Calcula a referida commissão que a superficie de
+ terreno do continente é de</td>
+ <td style="text-align:right;">8.962.531</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="3">menos 714 hectares do que o calculo feito por alguns
+ geographos, pelos quaes nos regulámos mais atraz.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="3"> </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="2">Temos pois, terrenos cultivados</td>
+ <td
+ style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">4.648.531</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_37"
+name="pag_37">[37]</a></span>Accrescenta a commissão geodesica, no seu bem
+elaborado relatorio, que poderá subir a 5 milhões (!!!) o numero de hectares
+de terrenos incultos, porque muitos milhares de hectares estão
+permanentemente de matto, ou não recebem cultura senão com muito grandes
+intervallos; e tambem refere que ha uma immensa area sujeita «ao tradicional
+systema de alqueives.» Repartindo esta superficie por 3.829.618 habitantes,
+acha que corresponde a cada individuo 1 hectare, 30 ares e 56 centiares de
+solo inculto.</p>
+
+<p>A respeito da densidade da população portugueza no continente, publica a
+commissão os seguintes dados estatisticos, segundo o censo referido ao 1.º de
+janeiro de 1864:</p>
+
+<table align="center" border="0"
+summary="Densidade populacional de portugal em 1864">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td colspan="3"></td>
+ <td style="text-align:center;"><small>HABITANTES<br>
+ POR KIL.<br>
+ QUADRADO</small></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Districto</td>
+ <td style="text-align:center;">do</td>
+ <td>Porto</td>
+ <td style="text-align:center;">164</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">de</td>
+ <td>Braga</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">114</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Vianna do Castello</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">85</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Aveiro</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">76</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Vizeu</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">75</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Coimbra</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">74</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Lisboa</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">59</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Villa Real</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">49</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Leiria</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">46</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Guarda</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">36</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Faro</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">33</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Santarem</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">30</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Bragança</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">26</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Castello Branco</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">23</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Portalegre</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">15</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Evora</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">13</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td style="text-align:center;">»</td>
+ <td>Beja</td>
+ <td style="text-align:right; text-align:center;">12</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>Se o districto do Porto accolhe 164 habitantes, e o<span
+class="pagenum"><a id="pag_38" name="pag_38">[38]</a></span> de Braga 114,
+por cada kilometro quadrado, porque não procura a população do norte os
+districtos desertos do sul?</p>
+
+<p>A razão já ficou expendida mais atraz.</p>
+
+<p>Depois d'isto não se diga agora que a população portugueza sobeja, e por
+isso emigra para fóra do paiz.<span class="pagenum"><a id="pag_39"
+name="pag_39">[39]</a></span></p>
+
+<h1>CAPITULO II</h1>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0020001">Os advogados da emigração e a companhia
+Transantlantica. Remuneração ao trabalho. O custo da escravatura preta e o
+custo da escravatura branca. O definhamento da agricultura no Brazil, por
+causa da falta de braços. Erros do jornalismo a respeito da emigração. O
+«Diario de Noticias» e o sr. Fernão Vaz e o drama «Os Aventureiros». Um livro
+a favor da emigração e o auctor das «Farpas». Elogios e sensuras. A praça do
+commercio do Porto e uma penna de ouro.</a></div>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>O <i>Brazil</i>, jornal que advoga os interesses dos nossos compatriotas
+residentes no imperio, publicou um artigo que nos surprehendeu, por vir elle
+sustentar idéas tantas vezes combatidas no mesmo jornal. E a nossa surpreza
+ainda foi maior, porque esse artigo, que tem por epigraphe <i>A colonisação
+para o Brazil e a Companhia Transantlantica</i>, mais parece que fôra
+escripto com o fim de tratar de interesses particulares de um ou outro
+engajador de colonos portuguezes. O que muito folgamos, não obstante o
+referido artigo vir publicado no logar de honra, foi não ser elle assignado
+pelos seus illustres redactores effectivos, a quem temos visto atacar as
+idéas no mesmo contidas.</p>
+
+<p>Empenhados na lucta travada a respeito da emigração de portuguezes para o
+imperio brazileiro, não devemos ficar silenciosos á vista de certas
+proposições alli enunciadas.</p>
+
+<p>Entremos pois na questão e deixemos de parte a circumstancia<span
+class="pagenum"><a id="pag_40" name="pag_40">[40]</a></span> do articulista
+achar razoavel o facto dos colonos portuguezes preferirem o Brazil, pela
+«communidade de origem <i>e a facilidade que encontram no exercicio das suas
+industrias</i>, por ser a lingua commum a ambos os povos», etc., e entender
+por isso dever auxiliar a corrente da emigração, por via da companhia
+Transantlantica, por quem parece morrer de amores, já porque está
+<i>regularmente montada</i>, já porque <i>á testa d'ella vê nomes que lhe
+merecem garantia de seriedade e de moralidade</i>. Deixemos, portanto, este
+procedimento do articulista, que parece não mudará, emquanto o nosso governo
+não encaminhar os colonos para os terrenos incultos do Alemtejo, (o que já é
+muito!) ou para as nossas possessões ultramarinas (<i>cuja communidade de
+origem etc.</i>, é igual á do imperio), reservando-se para mais tarde emittir
+o seu parecer, quando appareça decidido o assumpto emigração, sujeito a uma
+commissão de deputados, o que equivale a dizer-nos que será sempre a favor da
+emigração, com tanto que os engajadores sejam sempre os agentes da tal
+companhia; porque para nós é ponto de fé, que as nossas commissões nada
+farão, embora as tenhamos no melhor conceito, e o nosso governo já mais
+tratará de desviar a emigração da America meridional, encaminhando-a para o
+Alemtejo ou para as nossas possessões ultramarinas.</p>
+
+<p>Deixemos tambem de parte a circumstancia de que o articulista leva em mira
+atacar a pessoa de um novo pretendente ao logar de engajador official de
+escravos brancos para as roças insalubres do Brazil, e a não sabemos que
+pequenas miserias de commendas, porque o tal pretendente parece querer ferir
+os interesses da poderosa e <i>protectora</i> companhia!</p>
+
+<p>Deixemos, finalmente, que o illustrado articulista se incommode sériamente
+com os ataques dirigidos pelo novo proponente aos caracteres honrados e
+dignos, representados nas pessoas do ministro das obras publicas<span
+class="pagenum"><a id="pag_41" name="pag_41">[41]</a></span> do imperio, do
+conselheiro da companhia <i>protectora</i> de escravos brancos e do distincto
+escriptor Augusto de Carvalho, que, em prejuizo da nossa patria, pretende
+illudir, com seus escriptos de phantasia, os nossos infelizes compatriotas;
+porque, caso o articulista venha a ser accusado de defensor da companhia
+Transantlantica, do seu conselheiro, dos estadistas brazileiros e do
+escriptor assalariado, ser-lhe-ha muito facil defender-se com o juizo dos
+jornalistas e dos particulares, que conhecem os actos publicos e politicos
+das pessoas aggredidas pelo endiabrado pretendente; podendo até escudar-se em
+abono d'este ultimo&mdash;do sr. Carvalho,&mdash;nas provas de consideração ultimamente
+apresentadas, em nome da colonia do Rio de Janeiro, pelo visconde de S.
+Salvador de Mathosinhos, o que bastaria para demonstrar não só a abnegação do
+articulista, como a de tão distinctos cavalheiros pelo bem da nossa patria!<a
+name="tex2html12" href="#foot426"><sup>[12]</sup></a></p>
+
+<p>Mas deixemos isto tudo de parte, visto que ao articulista pouco importam
+as doutrinas de hontem e as manifestas contradicções das doutrinas de hoje,
+sustentadas no mesmo jornal, onde o governo brazileiro tem sido accusado de
+menos fiel no cumprimento dos seus deveres para com os colonos portuguezes, e
+onde não vimos ainda a razão que dê aso a tantos elogios.</p>
+
+<p>Deixemos ainda que o articulista do <i>Brazil</i> viva em completa illusão
+a respeito da protecção que diz dispensa aos colonos portuguezes a companhia
+Transantlantica, que, a nosso ver, não é peor nem melhor do que a que
+costumam dispensar outros engajadores, ou ainda mesmo da que poderia
+dispensar o proponente Mattos,<a name="tex2html13"
+href="#foot532"><sup>[13]</sup></a> caso a sua proposta fosse acceita pelo
+governo do imperio como a mais lucrativa.<span class="pagenum"><a id="pag_42"
+name="pag_42">[42]</a></span></p>
+
+<p>Deixemos de parte estas questões pessoaes, que o nosso fim é outro.</p>
+
+<p>Nós, como acontece ao articulista do <i>Brazil</i>, não temos procuração
+de ninguem para defender este ou aquelle engajador, pelo simples motivo que a
+todos achamos maus. Não somos a favor das companhias poderosas nem tão pouco
+dos agricultores riquissimos do Brazil, quer sejam nossos compatriotas ou
+não, os quaes, diga-se aqui de passagem, só precisam de escravos, pretos ou
+brancos (é questão de nome) para lhes desbravar as terras, emquanto taes
+senhores se balouçam nas suas redes de pennas, sem se importarem se os
+colonos caem fulminados pelas febres ou pela intensidade do calor. Tambem não
+somos mais favoraveis aos engajadores clandestinos, que ainda assim, não
+merecem tanto a nossa particular attenção.</p>
+
+<p>Ha tudo a temer dos engajadores officiaes, d'esses por quem o articulista
+do <i>Brazil</i> parece querer quebrar lanças; d'esses, que, com o fim de
+chamar a si o maior numero de proselytos, têem a força sufficiente de illudir
+as leis do nosso paiz; d'esses, cuja influencia é sufficiente tambem para
+fazer demittir as nossas auctoridades subalternas, que oppõe a sua dignidade
+ás promessas e ás ameaças dos engajadores;<a name="tex2html14"
+href="#foot536"><sup>[14]</sup></a> d'esses, finalmente, que obtêem com
+facilidade dos nossos governos a approvação de tarifas especiaes dos caminhos
+de ferro, a preços reduzidos, para a conducção de colonos que, uma vez
+chegados a Lisboa, deverão immediatamente embarcar nos paquetes que se
+destinam aos portos do Brazil.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_43" name="pag_43">[43]</a></span>Mas
+comquanto reconheçamos as difficuldades que ha em evitar a emigração para uma
+região tão insalubre, porque de um lado temos os propagandistas que apregoam
+phantasias e do outro as companhias e os capitalistas a protegel-os,
+servindo-lhes de não pequeno auxilio a deficiencia das nossas leis, senão a
+propria connivencia das authoridades, ainda assim havemos de ser sempre leaes
+e acerrimos combatentes contra essa emigração, por ser a mais prejudicial aos
+portuguezes.</p>
+
+<p>A circunstancia de se haver illudido o articulista do <i>Brazil</i>, com
+respeito ao trabalho, que lhe parece ser mais bem remunerado no imperio do
+que em nossas terras, é assumpto para mais largo debate.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Diz-nos o illustrado articulista assim com uns modos sentimentaes, em que
+bem mostra o seu desejo de proteger a Companhia Transantlantica, e por
+consequencia a emigração, visto que não descobrira ainda o remedio que lhe
+deva por termo:&mdash;«Que não é para admirar que os nossos compatriotas <i>não
+encontrando trabalho bem remunerado</i> na sua patria, por isso que a
+<i>offerta é muito maior do que a procura</i>, busquem longe do seu torrão
+natal onde empregar a sua actividade e receber em troco <i>uma remuneração
+proporcional</i> aos seus esforços e á sua iniciativa, mais ou menos
+intelligente e que dêem a preferencia ao Brazil,» etc.</p>
+
+<p>Em vista d'isto vê-se claramente, que o articulista vive das taes
+phantasias, alimentadas pelos estudos theoricos, que cegam ás vezes as mais
+robustas intelligencias. O abalisado escriptor é dos taes que vêem um ataque
+á liberdade quando se escreve contra a emigração ainda quando nos termos em
+que nós escrevemos; é dos taes que offerecem contra esses ataques as
+milhares<span class="pagenum"><a id="pag_44" name="pag_44">[44]</a></span> de
+libras sterlinas com que contribue o Brazil para a prosperidade do
+Portugal.</p>
+
+<p>O articulista não sabe ou não quer discutir no campo da pratica, não só
+porque desconhece o grande prejuizo que está causando ao nosso paiz a falta
+de braços, como porque desconhece tambem a remuneração que se costuma dar ao
+trabalhador de Portugal e ao do Brazil. A remuneração que elle acha
+proporcional aos esforços do trabalhador de lá, é julgada apenas pelo
+principio natural de que os campos virgens da America são mais ferteis.
+Porém, contra esta verdade esquece outras, que inutilisam completamente os
+esforços do trabalhador europeu, no Brazil.</p>
+
+<p>A remuneração offerecida ao trabalhador, ao contrario do que avança o
+articulista, é mais proporcional entre nós do que no imperio, como já tivemos
+ensejo de demonstrar em outro logar; porque alem da impossibilidade de poder
+trabalhar debaixo d'um sol ardentissimo, se o colono portuguez tem a
+felicidade de resistir ás epidemias do Brazil, que costumam atacar o europeu
+recem-chegado, falta-lhe com tudo os meios de poder estabelecer-se na
+lavoura, meios indispensaveis, como são os instrumentos agricolas e um
+pequeno capital para a compra de terrenos. Alem d'isso, a protecção que o
+Brazil offerece aos colonos é ficticia, porque as leis sobre a agricultura
+são essencialmente vexatorias. O colono n'esta parte da America, ao contrario
+do colono estabelecido nos estados do norte, trabalha apenas por supprir as
+excessivas exigencias do governo. O producto devido á trabalhosa exploração
+do colono, e que custa maior numero de sacrificios que em qualquer outro
+paiz, fica ainda assim sujeito a um sem numero de taxas, quando precisa
+exportal-o.</p>
+
+<p>Essas leis que tinham a sua razão de ser no tempo da escravatura, porque
+então o trabalho era excessivamente mais barato, como mais adiante
+demonstraremos,<span class="pagenum"><a id="pag_45"
+name="pag_45">[45]</a></span> não podem mais existir para o trabalho lívre,
+que ha de necessariamente subir de valor, e assim reunido aos direitos de
+exportação, tornarão o genero tão caro, que jámais poderá competir com outros
+iguaes nos mercados consumidores.</p>
+
+<p>Já dissemos em outro logar, que o governo brazileiro pede pelas madeiras
+14 p. c. de exportação;<a name="tex2html15"
+href="#foot4261"><sup>[15]</sup></a> e este é, sem duvida, o maior obstaculo
+que o colono encontra nas terras brazileiras. Por outro lado o governo devia
+auxiliar o explorador, abrindo-lhe estradas por o sertão, e sendo possivel
+desimpedir os rios, as melhores vias de communicação para o interior.</p>
+
+<p>Mas os homens d'estado do Brazil nada mais enxergam a não ser a
+necessidade de dinheiro; e para obtel-o auxiliam os engajadores, na persuasão
+de que a muita quantidade de colonos europeus lh'o levará. Porém o engano é
+manifesto, porque o colono dos nossos paizes logo que chega ao Brazil, onde
+vê desenrolar-se o panorama de desgraças que os engajadores lhe esconderam,
+se a <i>febre amarella</i> lhe dá tempo para isso, só trata (e então o numero
+dos que escapam ao flagello é limitadissimo) de procurar o trabalho á sombra,
+despresando o que costumava ser desempenhado pelos filhos de Africa, trabalho
+que ainda assim não daria as riquezas que ahi vemos chegar quasi todos os
+dias do Brazil.</p>
+
+<p>Não querem ouvir estas verdades os utopistas de lá não obstante terem
+visto crescer fortunas fabulosas á sombra da escravatura. São tão ignorantes
+como os utopistas de cá, que vêem em cada ricasso vindo do Brazil, qualquer
+cavador ou ceifador da canna de assucar.</p>
+
+<p>Diz o articulista que a offerta do trabalho entre nós é maior do que a
+procura. Engano manifesto. Em qualquer<span class="pagenum"><a id="pag_46"
+name="pag_46">[46]</a></span> ponto de Portugal acontece justamente o inverso
+do que avança o protector da emigração. E no Alemtejo especialmente a procura
+é permanente.</p>
+
+<p>A viticultura, que n'esta vastissima provincia cresce de dia para dia, a
+cultivação de cereaes e de olivedo, entretem não só os alemtejanos, mas ainda
+muitas centenas de braços dos filhos das nossas provincias do norte. Não
+obstante, esta concorrencia é ainda muito diminuta, e por isso muito bacello
+ficou por plantar em 1876, em que os preços das cavas chegaram em muitos
+logares a 500 réis.</p>
+
+<p>As ceifas foram morosas n'este mesmo anno, como quasi sempre, pela falta
+de braços, empregando-se, como tivemos occasião de vêr, muitas mulheres em
+tão arduo serviço. Em alguns pontos d'esta provincia os jornaes subiram a
+500, 550 e 600 réis diarios e de comer!</p>
+
+<p>Toda a gente sabe, que no norte a propriedade está mais dividida, e que o
+trabalhador destina alguns dias para o amanho d'um bocado de terreno que
+possue e lhe costuma dar um pouco de milho, legumes, vinho e carne, productos
+estes, que, juntos á pequena recompensa pelo trabalho que executára fóra de
+casa, lhe fazem augmentar a féria que é sempre mais proporcional que no
+Brazil. Os filhos das provincias do norte, que não possuem estas
+<i>courellas</i>, são geralmente aquelles que no verão procuram o trabalho
+nas provincias da Extremadura e Alemtejo, onde os lavradores lhes pagam bem
+para passar o resto do anno, como já fica demonstrado.</p>
+
+<p>Por isso não vêmos qual é a desproporção apontada pelo articulista do
+<i>Brazil</i>.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>O colono trabalhador que antes de partir para a<span class="pagenum"><a
+id="pag_47" name="pag_47">[47]</a></span> America se occupava na cultura dos
+nossos fertilissimos campos, vae occupar no Brazil o logar de aguadeiro,
+carroceiro, catraeiro, ou na immensa deversidade de serviços que entre nós
+costumam fazer os filhos da Galliza. Estes colonos, cujo numero é
+limitadissimo, porque, como já dissemos, e nunca nos cansaremos de repetir,
+de 70 a 80 por cento não pódem resistir ao clíma pestilento d'aquella parte
+da America, ganham apenas para comer e vestir. E sendo economicos, isto é,
+mettendo na algibeira o que devem dar á barriga, podem juntar algumas dezenas
+de mil réis no fim de muitos annos. O dinheiro assim grangeado não se
+converte em letras de cambio, nem tão pouco faz subir os nossos fundos. Esses
+poucos haveres acompanham o expatriado quasi sempre exhausto de vida.</p>
+
+<p>Ha outro colono&mdash;o artista,&mdash;que reune mais algumas economias, porque os
+lucros são outros. Ainda assim o seu salario não só não compensa os
+sacrificios que soffre no Brazil, mas essa compensação é menos proporcional
+do que na Europa, especialmente na actualidade.</p>
+
+<p>Dir-nos-hão:&mdash;Mas o artista traz dinheiro.</p>
+
+<p>É isso verdade, porque o portuguez que volta á patria envergonha-se de vir
+com as algibeiras vazias. Porém, por quantas privações passou elle com o fim
+de sustentar esse capricho?! Ainda assim o facto do artista trazer dinheiro
+por similhante systema, não é razão para dizermos que o Brazil remunera mais
+esta especie de trabalho. Se no animo do artista que prefere a patria
+tivessem actuado as mesmas circumstancias, nós viriamos que as suas economias
+seriam, quando não superiores, pelo menos iguaes, acrescendo ainda a vantagem
+que não é para despresar, de viver mais descançado e no goso de mais perfeita
+saude.</p>
+
+<p>Este e aquelle outro colono, não são propriamente dito, os que induzem,
+quando voltam á patria, os nossos<span class="pagenum"><a id="pag_48"
+name="pag_48">[48]</a></span> ambiciosos compatriotas a procurar as riquezas
+ephemeras do Brazil. Aquella pobre gente raras vezes apparece na povoação que
+os vira nascer, e quando apparecem é de visita, e por tal fórma ataviados que
+mais incitam os novos aventureiros.</p>
+
+<p>É preciso notar que o trabalhador e o artista que vêem desilludidos do
+Brazil, procuram, longe do seu povoado, onde possam exercer a sua industria,
+sendo certo que o maior numero procura esconder o seu <i>crime</i> nas nossas
+possessões ultramarinas; porque é crime apparecer pobre na terra em que
+nascera!...</p>
+
+<p>Ha ainda outro colono, além do trabalhador e do artista&mdash;o
+commerciante&mdash;que sae da sua aldeia com a ideia de ser caixeiro no Brazil. É
+justamente d'estes que não veem lá com bons olhos, porque os naturaes querem
+o commercio para si. Outros colonos ha, sahidos do commercio, que se fizeram
+senhores de engenho ou agricultores, a quem a escravatura em poucos annos fez
+centuplicar os haveres.</p>
+
+<p>As fortunas trazidas para Portugal por estes colonos, tem sido em todas as
+epochas a varinha magica que tenta os trabalhadores. Esta pobre gente nunca
+pensou na diversidade de posição d'aquelles, posição que por circumstancias
+muito superiores ao entendimento do colono trabalhador, lhe traz os taes
+lucros fabulosos, que se não acham a cozer um sapato, a talhar uma calça, a
+construir um muro, a estucar uma sala, a carregar uma carroça ou a conduzir
+um passageiro a bordo d'um navio, ou mesmo a desbravar as terras brazileiras,
+caso o colono europeu podesse, como já dissemos, trabalhar debaixo do sol
+ardentissimo dos tropicos.</p>
+
+<p>Porém, d'essas riquezas é que será difficil arranjar de futuro, porque a
+agricultura no Brazil, a alma do seu prodigioso commercio, tende a
+definhar-se de anno para anno em vista da falta de braços escravos, os<span
+class="pagenum"><a id="pag_49" name="pag_49">[49]</a></span> unicos capazes
+de arrotear aquelles vastissimos campos.</p>
+
+<p>Mas é preciso demonstrarmos essa difficuldade, para que se desilludam os
+portuguezes, que procuram no Brazil este meio de vida.</p>
+
+<p>Eis o que vamos tentar em breves considerações.</p>
+
+<p>O negro foi em todos os tempos o unico ente capaz de resistir á humidade
+venenosa que sae das terras brazileiras e ao calor excessivo que ao mesmo
+tempo sobre ellas assenta. Os primeiros colonos que se estabeleceram no
+Brazil, viram logo a dificuldade de empregar o europeu no desbravamento
+d'aquelles terrenos insalubres; por isso chamaram a si, como os mais capazes
+de resistir ao clima, os habitantes de Angola, Benguella, Cabinda, Moçambique
+e Congo. Pouco tempo depois começou o commercio da escravatura.</p>
+
+<p>Os homens empregados n'este trafico, levavam os seus navios carregados de
+bijouterias, d'um valor puramente ficticio, com que na Africa illudiam os
+regulos. Estes davam em troca os seus <i>subditos</i>, que eram
+immediatamente mettidos nos porões dos navios. Das costas d'Africa seguiam
+para America, e não obstante morrerem 20 p. c. no transito! segundo a opinião
+de Ferdinand Diniz, ainda assim o escravo ficava por um preço excessivamente
+barato.</p>
+
+<p>Na primitiva o senhor d'engenho comprava o escravo a 150 e a 200 patacas
+(48$000 e 72$000 réis fracos), ficando-lhe muitas vezes mais barato, se entre
+elle e o negreiro se estabelecia a permuta de productos agricolas em troca do
+preto. Nos ultimos tempos em que a escravatura era permittida, chegaram a
+duplicar e ás vezes a triplicar de preço. Não obstante, o trabalho em que era
+empregado o negro ficava excessivamente barato. Os productos agricolas
+devidos a esse trabalho, davam o sufficiente para enriquecer os governos e os
+senhores da agricultura.<span class="pagenum"><a id="pag_50"
+name="pag_50">[50]</a></span></p>
+
+<p>Póde-se calcular, que o preto trabalha 20 anos para seu senhor.
+Custára-lhe 192$000 réis, quando muito. Junte-se-lhe as despezas que com elle
+fizera n'esse periodo de tempo&mdash;alimentação e vestuario;&mdash;aquella composta em
+geral de farinha de mandioca, carne secca e bacalhau, algumas aboboras e
+bananas para variar estes alimentos, não esquecendo a carne de baleia, a
+rapadura do açucar, feita em pão, etc; e este (o vestuario) de pano
+americano, e alguns riscados de algodão azul e branco, devidos á manufactura
+ingleza; despesas que podemos orçar em 20 vezes mais do que o custo do negro;
+isto é 3:840$000 réis, que reunidos áquela soma, prefaz 4:032$000 réis
+fracos. Estabelecidos assim os calculos, podemos ver quais eram os principais
+meios da riqueza passada, e quais são aquelles com que se póde contar para a
+riqueza futura.</p>
+
+<p>Mas para illucidar mais o leitor, comparemos o trabalho do escravo com o
+do homem livre.</p>
+
+<p>O homem livre não trabalha por menos de 2$000 réis fracos como já tivemos
+ocasião de dizer. Vinte anos de trabalho a 2$000 réis, representam 14.000$
+réis; isto é, mais 9.568$000 réis, por cada trabalhador, contra o
+proprietario das roças do Brazil!</p>
+
+<p>Havia roceiro que tinha 150 e 200 escravos e que vê em cada um que se
+liberta, e que vai substituindo pelo braço livre, o prejuizo d'aquela
+fabulosa soma e seus juros!</p>
+
+<p>A agricultura, por consequencia, ha-de cair infallivelmente, e o commercio
+e a industria, que vivem exclusivamente d'ella, já vão começando a sentir-lhe
+os effeitos. Eis a razão da affluencia de capitaes no nosso paiz; capitaes
+que já não encontram no Brazil conveniente emprego; eis a razão porque o
+governo brazileiro subsidia, mais do que nunca, as companhias engajadoras;
+eis a razão porque a maior parte do nosso inexperiente commercio de Portugal
+e Brazil, que<span class="pagenum"><a id="pag_51"
+name="pag_51">[51]</a></span> ainda não previu o seu futuro, auxilia tambem
+os engajadores; eis a razão, finalmente, porque combatemos a emigração para
+aquelle paiz, quer os colonos se dediquem ao trabalho braçal, ao commercio ou
+á industria.</p>
+
+<p>Iamos terminar este artigo, quando por acaso deparámos com o seguinte
+telegramma expedido do Rio de Janeiro pela agencia <i>Havas</i>:</p>
+
+<p>«As sessões das camaras serão prorogadas por mais 15 dias, a fim de se
+terminar a discussão do orçamento e da reforma da lei eleitoral, e sendo
+possivel, a da lei de soccorros á agricultura, que se resente da falta de
+braços e capitaes, e creação de engenhos a vapor centraes agricolas.»</p>
+
+<p>Este documento veiu a tempo de fortificar a nossa humilde opinião a
+respeito da falta de braços e da saida de capitaes d'aquelle paiz.</p>
+
+<p>O governo promette desde ha muito remediar o mal; mas nós é que não
+confiamos no seu auxilio, nem vemos que seja facil substituir o negro, ha
+pouco libertado pelo Brazil.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>No nosso paiz ha jornaes que defendem hoje o que atacavam hontem, o que
+não deixa de ser razoavel... até certo ponto; isto é quando da contradicção
+apparente d'hoje nasça a rectificação sincera aos erros commettidos hontem.
+Mas faz-se mais... queremos dizer:&mdash;faz-se menos; por que hoje se defende uma
+causa julgada má, que hontem fora classificada de optima e vice-versa, isto
+successivamente, conforme as conveniencias dos jornalistas que fazem do
+sublime invento de Guttemberg o ariete com que costumam atacar o reducto da
+moralidade. Outros ha, que, tendo começado a percorrer o bom caminho, recuam,
+ao mais pequenino assomo de desagrado dos optimistas.<span class="pagenum"><a
+id="pag_52" name="pag_52">[52]</a></span></p>
+
+<p>No primeiro caso está o jornalismo representado no jornal cujos escriptos
+sobre emigração acabamos de criticar; e no segundo está, por exemplo o
+<i>Diario de Noticias</i>, uma das folhas mais populares d'este paiz, e por
+isso mesmo aquella que ensina menos; porque, como diz o ditado, todos os
+dedos lhe parecem hospedes: porque de tudo tem medo.</p>
+
+<p>Dizia ha pouco um distincto litterato, que costuma encobrir o seu laureado
+nome com o pseudonymo de <i>Fernão Vaz</i>, a proposito de uma critica feita
+a um trabalho que destinamos ao theatro,<a name="tex2html16"
+href="#foot563"><sup>[16]</sup></a> que o referido <i>Diario</i>, por ter
+extractado dos relatorios dos consules o que alli ha de mais horroroso sobre
+a emigração para o Brazil, foi alcunhado de <i>impertinente</i>; dando a
+entender que a referida redacção suspendera a transcripção alludida&mdash;o mais
+assignalado serviço que ella poderia prestar ao paiz&mdash;para se livrar do
+anathema, que jámais iria ferir um collosso material creado e sustentado pelo
+publico a quem essa publicação deve defender, para pagar um diminuitissimo
+agio dos favores que lhe ha dispensado.</p>
+
+<p>Não fazemos accusações sem base, nem é nosso intuito offender ninguem; mas
+se á tal suspensão presidio o <i>medo</i>, como se deprehende das palavras do
+escriptor citado, e nós acreditamos&mdash;porque o director do referido jornal
+<i>prohibiu</i> a que a sua redacção fosse representada na leitura do nosso
+drama <i>Os Aventureiros</i>, fundado em epysodios da emigração&mdash;; o medo,
+repetimos, ou a conivencia, em assumpto de tanta magnitude, é um crime de
+lesa-imprensa que não póde deixar de ser fulminado com a maxima
+severidade.</p>
+
+<p>Nem a <i>diplomacia do senso real das cousas</i>, nem a <i>diplomacia
+hypocrita</i>, como diz algures o escriptor Fernão Vaz, a propósito das
+impertinencias (?) que elle viu,<span class="pagenum"><a id="pag_53"
+name="pag_53">[53]</a></span> póde ser adoptada como linha de conducta no
+decorrer da nossa humilde critica, porque aspiramos apenas a encomios
+firmados em justissimas apreciações aos nossos exforços e, sobretudo, a estar
+bem com a nossa consciencia. Eis porque não tememos o epiteto de
+impertinente.</p>
+
+<p>Nenhuma das diplomacias citadas, segundo os exforços que fizemos para as
+perceber&mdash;pode desculpar uns certos erros publicos, que por estarem ao
+alcance da imprensa digna e por que são essencialmente prejudiciaes ao paíz,
+devem ser combatidos sem tregoas e tão severamente quanto é a altura d'onde
+esses erros partem, quando não seja para corregil-os&mdash;porque ha infatuados
+que nunca se corrigem&mdash;ao menos para prevenir os incautos do precipicio para
+onde os podem encaminhar os apostolos do mal.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Temos que continuar a nossa critica severa, mas digna, a um trabalho sobre
+emigração, publicado ha pouco sob os auspicios do governo do Brazil e
+escripto por um litterato brazileiro, e para que não vão accusar-nos de
+systhematico na propaganda contra a emigração <i>e a tudo que é
+brazileiro</i>, entendemos dever começar pelos de casa.</p>
+
+<p>O livro a que nos queremos referir teve primeiro o seguinte
+titulo&mdash;<i>Estudo sobre a colonisação e emigração para o Brazil</i>&mdash;e o
+actual apparece com o de&mdash;<i>Brazil</i>&mdash;simplesmente. Não se lhe mudou
+apenas a capa; fez-se mais: antepôz-se ao texto&mdash;que é o mesmo&mdash;os elogios da
+imprensa portugueza, para que no imperio fosse mais facil a extracção do
+livro!</p>
+
+<p>Este systema de <i>recommendações</i> tem grande valor no Brazil; e o
+author do <i>Estudo</i> vio-lhe o alcance, o que<span class="pagenum"><a
+id="pag_54" name="pag_54">[54]</a></span> não quer dizer que os nossos
+<i>recommendadores</i> o vissem tambem: até cremos que usaram de boa fé; mas
+não póde isso obstar a nossa critica.</p>
+
+<p>O tal livro advoga a emigração dos portuguezes para o Brazil, e além
+d'isso offende os nossos brios, o que demonstraremos nos seguintes
+capitulos.</p>
+
+<p>O auctor das <i>Farpas</i>, tendo estudado profundamente o assumpto em
+dezembro de 1872, e tendo dado provas de que o estudára, mimoseando o publico
+com 37 brilhantissimas paginas no referido folheto, em que bem se revella o
+combatente convicto contra a emigração, <i>recommenda</i> pouco depois ao
+publico, o seu antagonista, no seguinte documento:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«.....O sr. Augusto de Carvalho é auctor de um livro importante ácerca da
+emigração e da colonisação do Brazil, assumpto utilissimo para os interesses
+portuguezes, do qual não póde deixar de occupar-se a imprensa que respeita a
+sua missão. Creio bem que v. estimará egualmente cultivar as relações d'este
+espirito conciliador»<a name="tex2html17"
+href="#foot4262"><sup>[17]</sup></a> etc. etc.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Este <i>espirito conciliador</i> respondendo á asserção da commissão de
+emigração de que «em Portugal não ha miseria nem falta de trabalho que a
+incite», diz o seguinte:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Permitta-nos a illustrada commissão que lhe façamos sentir que os factos
+prottestam contra similhante conclusão. Na ultima leva de degredados
+(portuguezes) em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados por furtos,
+roubos e falsificações. E ainda no mez de novembro ultimo (1873), de 40 que
+deram entrada no<span class="pagenum"><a id="pag_55"
+name="pag_55">[55]</a></span> Limoeiro para seguirem o mesmo destino, 31
+foram-n'o por crimes da mesma natureza.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Este desenlace <i>conciliatorio</i> do tal <i>recommendado</i> ás
+conclusões da commissão alludida, mostram mais alguma cousa do que a
+conciliação, mostram a falta de bom senso; porque nos paizes onde a riqueza
+anda a pontapés&mdash;para os que trabalham&mdash;tambem ha condemnados pelos crimes de
+furto, roubos e falsificação, porque os ratoneiros, ladrões e falsarios de
+<i>todas</i> as nações preferem tudo ao trabalho honrado. E havemos de provar
+esta asserção com respeito ao proprio Brazil&mdash;a nova terra da promissão.</p>
+
+<p>Mas não antecipemos a critica ao livro <i>recommendado</i>.</p>
+
+<p>Querendo naturalmente defender os assassinos dos nossos compatriotas
+residentes na sua patria, diz o auctor do <i>Estudo</i>, em tom
+<i>conciliatorio</i>, já se sabe:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Acaso, por se haver morto com um tiro em certo logar do Minho, um infeliz
+que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo d'aquella provincia
+seja deshumano?»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Será isto em desforço dos assassinatos de Jurupary e tantos outros?!</p>
+
+<p>O auctor das <i>Farpas</i> que responda.</p>
+
+<p>Defendendo os magistrados que prevaricam no imperio, commemora a seguinte
+futilidade, que não tem nada de conciliatoria:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes, a um
+mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo crime de
+<i>sorrir-se e piscar os olhos</i> para o delegado Duarte de Vasconcellos,
+segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Estes crimes sociaes commettidos no nosso paiz não<span class="pagenum"><a
+id="pag_56" name="pag_56">[56]</a></span> podem equiparar-se com os crimes
+sociaes commettidos no Brazil pelos naturaes contra a colonia portugueza. E
+não póde porque... «A roça no imperio do Brazil, segundo diz o author das
+<i>Farpas</i>, é como em Portugal o banco. É ella que faz a lei, a justiça e
+o direito. Com uma pequena differença nos resultados d'esta influencia do
+capital e da propriedade no Brazil e em Portugal: é que em Portugal é
+contrastada pelas beneficas rezistencias de alguns milhares de cidadãos que
+mantem a liberdade por meio da independencia facultada pelo trabalho; no
+Brazil não, porque no Brazil quem trabalha é o escravo, e a quantidade
+chamada povo não existe.»<a name="tex2html18"
+href="#foot4263"><sup>[18]</sup></a></p>
+
+<p>O Brazil, aos olhos do tal recommendado, é o paraiso terreal, a terra
+promettida, onde podem reunir-se os individuos de todas as nacionalidades,
+que alli queiram ter patria commum; e aos olhos do auctor das Farpas, no
+Brazil <i>tudo é hostil ao emigrado</i>; no Brazil <i>não respeitam a fé dos
+contractos com os miseraveis trabalhadores portuguezes</i>; e accrescenta:</p>
+
+<p>«O colono portuguez no Brazil nem tem os direitos dos nacionaes, nem os
+previlegios dos estrangeiros. Em uma nota do barão de Cotégipe, ministro
+brazileiro, a mr. George Bukley, ministro inglez, ácerca da deserção de
+marinheiros estrangeiros para a marinha brazileira, encontra-se consignada
+nos seguintes termos a condição dos individuos que compõem a tripulação dos
+navios do estado&mdash;escravos, portuguezes, nacionaes e estrangeiros.»</p>
+
+<p>Como teremos occasião de mostrar, o auctor do <i>Estudo</i> recommenda a
+conveniencia da colonisação portugueza; e o auctor das <i>Farpas</i>
+criticando habilmente o assumpto escreve estas terriveis verdades:<span
+class="pagenum"><a id="pag_57" name="pag_57">[57]</a></span></p>
+
+<p>«A primeira tentativa de colonisação com trabalhadores livres, data de
+1819, dois annos antes da independencia. Mil e setecentos aldeãos suissos do
+cantão de Fribourg estabelecem-se no Val de Parahiba do sul e fundam a Nova
+Friburgo no extremo limite meridional da zona torrida, perto de uma grande
+cidade. Dez annos depois a colonia suissa estava em dois terços do que
+primitivamente fôra. Actualmente a Nova Friburgo é uma cidade inteiramente
+brazileira, onde raras familias friburguezas se encontram ainda.</p>
+
+<p>«Em 1845, uma nova tentativa feita sob os auspicios do governo brazileiro,
+levou alguns milhares de trabalhadores de Baden e de bavaros do Palatinado ao
+Rio de Janeiro. Estabeleceram-se em Petropolis, perto do palacio imperial. Em
+1859&mdash;quatorze annos depois&mdash;de tres mil e dezeseis colonos que ainda
+habitavam Petropolis, rarissimos tinham passado de simples cavadores de
+enxada. Esta colonia tem-se concentrado cada vez mais em torno da residencia
+imperial, e vive quasi exclusivamente da actividade que o soberano e a côrte
+espalham necessariamente em torno de si.</p>
+
+<p>«O celebre naturalista suisso Tschudi, mandado pelo seu governo ao Brazil,
+como plenipotenciario, a fim de estudar a historia dos emigrados, fez uma
+viagem de muitos mezes atravez de differentes feitorias, e em um relatorio de
+9 de outubro de 1860, no qual consignou as suas impressões e as suas idéas,
+deixou um monumento historico pavoroso e indiscutivel contra a colonisação do
+Brazil.</p>
+
+<p>«A suissa prohibiu a emigração dos seus filhos para aquelle ponto do
+globo.</p>
+
+<p>«Avé-Lallemant, encarregado officialmente de visitar as colonias allemãs
+no imperio brazileiro, dá pormenores aterradores da sorte dos obreiros que
+encontrou nos estabelecimentos do Mucury, na provincia de Porto Seguro.<span
+class="pagenum"><a id="pag_58" name="pag_58">[58]</a></span></p>
+
+<p>«Dolorosamente penetrado da desgraça que presenceou, Avé-Lallemant,
+dirigiu-se pessoalmente ao imperador, expoz-lhe as condicções em que estavam
+vivendo os seus compatriotas no Mucury, e conseguiu de sua magestade que um
+navio fosse mandado áquella colonia, afim de trazer para os hospitaes do Rio
+de Janeiro os infelizes, os doentes e os <i>desesperados</i>.
+<i>Desesperados</i>, palavra que sobre a colonisação do Brazil se empregou
+então officialmente pela vez primeira e talvez unica no mundo!</p>
+
+<p>«A primeira leva dos emigrados recolhidos do Mucury ao Rio de Janeiro a
+bordo do alludido vapor do estado, foi composta sómente dos enfermos, e
+constou de oitenta e sete individuos.</p>
+
+<p>«A praça do Rio de Janeiro deve de recordar-se ainda do dia memoravel na
+historia da emigração em que se viu chegar esse tragico e funebre comboio.</p>
+
+<p>«Os possantes e valerosos mancebos allemães; que o Rio vira passar poucos
+mezes antes corajosos, esperançados e alegres para os trabalhos do Mucury,
+eram desembarcados em macas nos caes ruidosos da capital de um dos mais ricos
+paizes do mundo.</p>
+
+<p>«Vinham devorados pelas febres paludosas exhaladas de um rio podre,
+cobertos de lepra e de <i>vermine</i>, immundos de chagas e escalavrados de
+contusões.</p>
+
+<p>«Um tinha morrido no trajecto, a bordo. Outro expirou justamente no
+momento em que o collocavam em terra.</p>
+
+<p>«Poucos dias depois chegava do Mucury uma segunda leva de emigrados, com
+cerca de outros tantos enfermos e outros dois cadaveres.</p>
+
+<p>«A opinião no Rio de Janeiro tinha-se mostrado tão profundamente commovida
+com este espectaculo de uma barbaridade suprema e de uma miseria unica, os
+poderes publicos estavam tão evidentemente instruidos do que era a colonia do
+Mucury, que Avé-Lallemant,<span class="pagenum"><a id="pag_59"
+name="pag_59">[59]</a></span> tendo depositado nas mãos do governo o
+relatorio que fizera, entendeu que podia deixar o Rio de Janeiro e proseguir
+para o norte a viagem de exploração de que se incumbira, sem receio de que
+jámais se podessem repetir as calamidades que presenceara.</p>
+
+<p>«Apenas o viajante allemão deixou o Rio de Janeiro o director da colonia
+do Mucury publicou uma nota justificativa do seu procedimento. Um delegado
+imperial enviado ao Mucury para liquidar a verdade, expirou ao regressar ao
+Rio. De sorte que tudo ficou no estado em que se achava antes do relatorio de
+Lallemant. Com uma unica differença. Immediatamente depois do que acabava de
+se passar, o senado brazileiro votava á companhia do Mucury um credito de
+cerca de 500 contos com a garantia de um juro de 7 por cento! Era o applauso
+do governo e a gratidão nacional sanccionando um dos maiores vexames que teem
+sido impostos á civilisação e á humanidade.</p>
+
+<p>«Ha mais ainda: Os eleitores de Minas Geraes propozeram por duas vezes o
+nome do director da colonia do Mucury no primeiro logar da lista
+senatorial.</p>
+
+<p>«Dois unicos homens, honrados e benemeritos, protestaram nobremente contra
+este oprobrio da justiça&mdash;o imperador, que riscou da lista dos senadores o
+nome do eleito por Minas Geraes como inapto para representar os interesses de
+um povo, e o sr. Silva Ferraz, ministro da fazenda, o qual aboliu o credito
+votado á colonia que tal cidadão dirigia.<a name="tex2html19"
+href="#foot4264"><sup>[19]</sup></a>»</p>
+
+<p>Isto é a verdade.</p>
+
+<p>A carta antithesis ao que fica transcripto, devia ser classificada
+de&mdash;<i>diplomacia do senso real das cousas</i>, pelo meu amigo Fernão
+Vaz!<span class="pagenum"><a id="pag_60" name="pag_60">[60]</a></span></p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Mas não ficaram ainda aqui os encomios ao <i>Estudo sobre a colonisação e
+emigração para o Brazil</i>.</p>
+
+<p>O nosso presadissimo amigo e distincto litterato, o sr. Theophilo Braga
+tambem diz que o livro <i>Estudo, é uma necessidade!</i></p>
+
+<p>O <i>Jornal do Commercio</i> de Lisboa, diz que, <i>nós, os portuguezes
+nos devemos regosijar</i> com o tal livro.</p>
+
+<p>O <i>«Jornal do Porto», folga de ver que o distincto escriptor não faz
+côro com alguns espiritos estreitos, que d'alem mar olham superciliosa e
+desdenhosamente para as nossas coisas</i>, etc.</p>
+
+<p>O <i>Jornal da Manhã</i> diz que o citado auctor prodigalisa elogios a
+Portugal.</p>
+
+<p>O sr. Mendes Leal diz que é um <i>excellente trabalho sobre a
+emigração</i>.</p>
+
+<p>O sr. Camillo Castello Branco tambem elogia a obra, o <i>Commercio do
+Porto</i> faz outro tanto.</p>
+
+<p>A praça do Commercio do Porto, digna correligionaria da de Liverpool até
+aos annos de 1808, offerece uma penna de ouro ao escriptor que calca aos pés
+as nossas glorias e que induz o trabalhador inexperiente, convertido em
+escravo, a ir povoar os insalubres sertões de Brazil!</p>
+
+<p>O auctor do <i>Estudo</i> dedica-lhe o livro e a Praça responde-lhe com o
+seguinte <i>documento honroso</i>:</p>
+
+<p>«Nós abaixo assignados deliberamos, em nome dos commerciantes da Praça do
+Porto, offerecer ao sr. Augusto de Carvalho uma penna de ouro, como
+testemunho de sympathia pelo muito com que se nos recommenda o seu talento e
+exforços, tendentes a bem servir a causa da civilisação, em que cremos
+reservada para nós grande parte.</p>
+
+<p>«Não só pelo individuo, pelo caracter, senão tambem<span
+class="pagenum"><a id="pag_61" name="pag_61">[61]</a></span> pelos serviços
+que ha já prestado e continuará a prestar aos dous paizes irmãos&mdash;Portugal e
+Brazil&mdash;julgamos de nosso dever contribuir o mais possivel para que o sr.
+Augusto de Carvalho não affrouxe um instante na missão que se
+propôz&mdash;estreitar cada vez mais os laços que prendem portuguezes e
+brazileiros. E como o Brazil é quasi que exclusivamente commercial, para que
+ahi conste como costumamos, nós, interpretes do commercio do Porto, receber e
+affagar qualquer brazileiro que aqui aporte, e nos mereça a maxima
+consideração, já pelo seu caracter, já pelo seu talento, que não hostilise
+mas civilise, suppomos satisfazer d'este modo o velho sentimento de
+hospitalidade como portuguezes, e o dever em que nos constituiu o auctor do
+<i>Estudo sobre a colonisação e emigração para o Brazil</i>, de o animarmos a
+proseguir na santa idéa, no santo principio da maxima conciliação entre os
+dois povos.»</p>
+
+<p>Outros escriptores e outros jornaes mostram opinião adversa ao livro; e de
+uns e outros ficamos fazendo a seguinte opinião:&mdash;os que elogiaram não leram
+o livro os que o atacaram, leram-o; porque não podemos admittir que os bons
+economistas e os bons patriotas possam elogiar o <i>Estudo sobre colonisação
+e emigração para o Brazil</i>.</p>
+
+<p>Vamos demonstrar que fizemos o mesmo do que aquelles que condenaram o
+livro, dando provas de que o lemos, criticando-o.<span class="pagenum"><a
+id="pag_62" name="pag_62">[62]</a></span></p>
+
+<h1>CAPITULO III</h1>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0030001">As falsas doutrinas sobre emigração. A nova terra da
+promissão, ou o paiz de romanos. Rocha Pitta e Augusto de Carvalho. O escravo
+e a sua emancipação. As leis brazileiras sobre colonisação. A legislação
+n'outros paizes. A religião brazileira é contraria á emigração europea. A
+reforma religiosa nos seculos XVI e XVII concorreu para o engrandecimento dos
+Estados Unidos da America. Os jesuitas e a escravatura na America do Sul. Os
+jesuitas e os bandeirantes. Nobrega, Anchieta e os indios. Desmandos dos
+jesuitas. Contradicções. Os hollandezes em Pernambuco. Heroes, traidores e
+authomatos na restauração de 1643. Fernandes Vieira e André Vidal de
+Negreiros. Horrores historicos.</a></div>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Publicou-se ha pouco um livro intitulado o <i>Brazil</i>. Advogar a causa
+da colonisação e da emigração para o imperio americanno, eis o seu principal
+assumpto. Foi impresso no Porto em 1875, e é offerecido á praça do commercio
+d'aquella cidade. Seu auctor é o sr. Augusto de Carvalho, escriptor
+brazileiro, a quem a fama tem elevado ao apogeo de litterato distincto.</p>
+
+<p>Pode dizer-se, sem medo de errar, que a nova publicação, em substancia,
+pouco mais differe de uma outra, do mesmo auctor, publicada um anno antes,
+sob o titulo&mdash;<i>Estudo sobre a colonisação e a emigração para o Brazil</i>.
+Não é reimpressão por se ter esgotado a obra; mas o auctor, pelo que
+colligimos, esquecera-se de chamar <i>historia</i> á edição de 1874, e veio
+agora supprir essa falta.<span class="pagenum"><a id="pag_63"
+name="pag_63">[63]</a></span></p>
+
+<p>Eis ahi está um escrupulo bem entendido, que toda a gente levará a bem no
+sr. Augusto de Carvalho.</p>
+
+<p>Empenhado na luta em que o auctor do <i>Brazil</i> se mostra acerrimo, mas
+não habil combatente, porque mais de uma vez offerece ás balas do inimigo o
+peito descoberto, não devemos ensarilhar as nossas armas, visto que o reducto
+é de facil accesso.</p>
+
+<p>Veio um homem do Brazil para as nossas terras, com o fim de animar as
+consciencias aváras pelas riquezas do imperio. Esse homem encostado á
+diplomacia, mas litterato pouco consciencioso, embora as cornetas da fama o
+collocassem nas alturas, soube estudar a fraqueza d'aquelles a quem se
+dirige: d'ahi a supposta victoria! Os seus escriptos, adequados ás
+intelligencias fracas, que só pensam no oiro e no bem particular e que
+despresam o bem geral, que é a prosperidade d'este paiz; resumem-se nas
+doutrinas erroneas, tantas vezes repetidas, mostrando sempre o caminho
+phantastico, que já mais poderá conduzir o viajante incauto ao sonhado
+El-Dorado. Esses escriptos, alem de mentirem á historia, como havemos de
+provar, formam, por assim dizer, um compendio de instrucções pueris, que
+parte do nosso commercio abraça e premeia, sem lhe estudar a causa, que é a
+decadencia do imperio; e n'esta ignorancia, ou egoismo, serve de porta-voz ás
+illusões que taes escriptos encerram, para que os nossos infelizes
+trabalhadores abandonem a patria e a familia, e que, melhor aconselhados,
+deveriam com seus robustos braços, concorrer para o engrandecimento da nossa
+agricultura, que ha de vir a ser a riqueza de todos que para ella
+collaborarem.</p>
+
+<p>O livro de que vimos fallando defende e aconselha a emigração de
+portuguezes para o Brazil. A razão é forte:&mdash;o imperio precisa de braços,
+como o esfomeado precisa de alimentos, e o novel historiador, como bom filho,
+não quer ver morrer a sua patria.<span class="pagenum"><a id="pag_64"
+name="pag_64">[64]</a></span></p>
+
+<p>Honra lhe seja.</p>
+
+<p>Não condemnamos a emigração <i>expontanea</i>. Ella, até certo ponto, é
+necessaria, especialmente a que se encaminha para possessões nossas, onde o
+trabalho fica sendo riqueza da patria, quer os lucros permaneçam nas nossas
+colonias, quer se desviem para á metropole. Não a condemnariamos mesmo para o
+imperio, se se não dessem as circunstancias apontadas já e outras que faltam
+apontar ainda. Mas como filho d'este abençoado paiz, condemnaremos com todas
+as veras do coração as falsas doutrinas de que se servem os alliciadores,
+para arredarem de Portugal e seus dominios os nossos trabalhadores
+incautos.</p>
+
+<p>Nada de enganos. Pintem o Brazil tal qual elle é, e se depois de exhibirem
+o seu fiel retrato, apparecerem adoradores, la se avenham os descrentes do
+retratista.</p>
+
+<p>Não aconselhariamos ao auctor do livro que analysamos a que dissesse mal
+do seu paiz. O que não desejamos para nós não aconselhamos aos outros. Mas se
+a causa é má, cumpria dar-lhe de mão. O bom advogado, pelo menos, não tomaria
+conta d'ella.</p>
+
+<p>O auctor do <i>Brazil</i> não só se fez o advogado de uma causa má, mas, o
+que é mais, o seu escripto recente-se da falta de seriedade, depois que foi
+transformado em historia.</p>
+
+<p>O historiador é quasi profeta: elle deve estudar muito o passado e o
+presente para evitar os males futuros.</p>
+
+<p>Um habil operador corta a parte gangrenosa, para evitar a perca total do
+corpo. E o auctor do <i>Brazil</i>, não metteu o bisturi na chaga:&mdash;o mau
+systema da colonisação, as leis barbaras que a matam.</p>
+
+<p>O historiador não deve ser injusto.</p>
+
+<p>Thiers, antes da guerra assolar a França, previu os males da sua patria.
+Deixou por isso de ser o primeiro entre os francezes?</p>
+
+<p>O auctor do livro o <i>Brazil</i>, alem de tentar deslustrar-nos<span
+class="pagenum"><a id="pag_65" name="pag_65">[65]</a></span> não viu o mal
+que definha a sua patria, para applicar-lhe o curativo. Parece que só
+escrevera para exaltar os malevolos e, depremindo-nos, illudir os pobres
+d'espirito. Mas ainda mesmo que os incautos, seduzidos pelas phantasias
+deixem passar as excrecencias que o livro encerra, julgará o governo
+brazileiro, por conta de quem foi escripta a obra em questão, que alguns
+milhares de colonos do nosso paiz, poderão supprir a falta de alguns milhões
+de braços de que se resente a lavoura do imperio?</p>
+
+<p>Portugal possue uns quatro milhões de habitantes e pouco mais comporta o
+seu territorio. O Brazil deve possuir uns dez milhões, mas comporta duzentos!
+É impossivel que o nosso paiz possa supprir o imperio de tão grande falta;
+assim como não é razoavel que uma pequena fonte possa abastecer de agua uns
+poucos de mil hectares de terras sequiosas.</p>
+
+<p>Vejamos quaes são os paizes que mais podiam concorrer para a prosperidade
+do Brazil. Naturalmente a Inglaterra, a Allemanha, a França e a Italia; mas
+os governos d'estas tres ultimas potencias prohibem a emigração para o
+imperio, quando alli se manifesta a febre amarella, que produz os seus
+maleficos effeitos nos primeiros seis mezes de cada anno. E quando não
+existisse tal prohibição, seria facil aos estadistas do Brazil desviar a
+corrente da emigração d'aquelles povos para a America do Norte?</p>
+
+<p>Não, de certo: a isso se oppõem os costumes e as leis do povo
+brazileiro.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>«O Brazil, essa nova terra da promissão, onde de dia para dia se vae
+realisando a promessa de Christo de&mdash;<i>cento por um</i>&mdash;depois de attestar
+a sua virilidade em tantos combates illustres, pelejados nos campos do<span
+class="pagenum"><a id="pag_66" name="pag_66">[66]</a></span> Paraguay, despe,
+conscio da sua missão civilisadora e humanitaria, a farda do soldado da
+liberdade, e vestindo novamente a blusa do trabalhador, e empunhando alegre a
+rabiça do arado, volve, como o cidadão romano dos tempos da verdadeira
+grandeza de Roma, a retemperar-se de forças e virtudes nos abençoados labores
+da sua agricultura.»<a name="tex2html20"
+href="#foot4265"><sup>[20]</sup></a></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Sim, senhor. Estylo de poeta, saido do parnaso das mattas frondosas,
+deitado em maqueira de pennas de araras, embriagado pelo aroma das flôres
+pendentes dos cipós que do cimo das arvores seculares, vem interlaçar-se na
+cabeça escandecente do poeta: comendo aráçá e bebendo a saborosa agua de
+côco, transformada no maná do céo; adormecendo ao som mavioso do sabiá, que
+chilrea no cimo da palmeira; rodeado de beija-flôres e de tapuyas, os anjos
+d'aquelle paraizo deslumbrante, e ao mesmo tempo venenoso!</p>
+
+<p>Sim, senhor; sonhos de poeta transformados em historia!</p>
+
+<p>O Brazil, berço da indolencia, e tumulo da maior parte d'aquelles que têem
+querido sondar os seus intrincados labyrinthos, convertido, com uma pennada,
+em&mdash;<i>nova terra da promissão</i>&mdash;e... em paiz de romanos!</p>
+
+<p>O Brazil, morto emquanto se davam os combates illustres, revivendo depois
+para empunhar a rabiça do arado! como se fôra possivel admittir, sem replica,
+que os trabalhos agricolas paralisassem no tempo da guerra do Paraguay; como
+se fôra certo que o soldado viera do campo da batalha substituir a farda pela
+blusa do cidadão romano!</p>
+
+<p><i>Cento por um!</i> e no Brazil ha tanta miseria como em qualquer outro
+paiz da Europa!<span class="pagenum"><a id="pag_67"
+name="pag_67">[67]</a></span></p>
+
+<p>Dos que procuram aquellas inhospitas plagas, convertidas n'um momento de
+lyrismo, na <i>terra promettida</i>, escapa ou pode ser feliz <i>um por
+cento</i>.</p>
+
+<p>Nunca nos cançaremos de repetir esta verdade, por que sabemos por
+experiencia o que é o Brazil.</p>
+
+<p>É bom escudar com documentos de mui recente data as nossas palavras.</p>
+
+<p>Diz um que temos á vista:</p>
+
+<p>«Dos emigrantes, aquelles a quem cabe mais desgraçada e commovente sorte,
+são os que vem para fugir ao recrutamento; não os clandestinos, mas os
+menores de 14 annos, e infelizmente é avultado o numero d'estes; porque, como
+só depois dos 14 annos é que são obrigados a prestar fiança, os paes para os
+não verem soldados preferem arremessal-os para o Brazil, muitas vezes sem a
+mais leve recommendação, entregues completamente á sua inexperiencia, <i>se
+não acham a quem os vender!</i></p>
+
+<p>«É ignobil, mas é verdade.</p>
+
+<p>«Estes infelizes assim vendidos, vão para o interior do paiz ser
+barbaramente explorados pelos compradores, que os obrigam a todo o genero de
+serviços, muitas vezes superiores ás suas forças, tratando-os peor que aos
+seus escravos, porque estes representam um capital consideravel e aquelles
+sómente a importancia da passagem.</p>
+
+<p>«A acção dos funccionarios consulares fica inutilisada para os proteger na
+sua chegada a esta côrte, e a das auctoridades territoriaes é nulla no
+interior contra os fazendeiros» etc.<a name="tex2html21"
+href="#foot649"><sup>[21]</sup></a></p>
+
+<p>E accrescenta:</p>
+
+<p>«Todas estas coisas, que deixo expostas influem mais ou menos na
+emigração, mas realmente o que se póde dizer<span class="pagenum"><a
+id="pag_68" name="pag_68">[68]</a></span> que abertamente influe n'ella são
+os engajadores e a febre do ouro.</p>
+
+<p>«Os primeiros seduzindo essa pobre gente e abonando-lhes a importancia da
+passagem e mais arranjos, fazem recrudescer a febre que domina as populações
+e o delirio os impelle a entrar n'esse <i>fatal azar em que jogam familia,
+patria, saude e a propria vida contra uma fortuna que raros attingem</i>.»</p>
+
+<p>A divisa&mdash;<i>cento por um</i>&mdash;está bem patente n'este documento
+official.</p>
+
+<p>O consul do Maranhão é mais esplicito. Vejamos como elle distingue a
+<i>nova terra da promissão</i>:</p>
+
+<p>«Quem estudar as causas da grande torrente de emigração que todos os annos
+se estende para o Brazil, ha de confessar que ella assenta muito
+principalmente nas <i>falsas insinuações de alliciadores assalariados</i>
+que, sem consciencia e dominados sómente pelo seu proprio interesse,
+<i>arrastam essa parte da nossa sociedade menos esclarecida para a
+ruina</i>.»<a name="tex2html22" href="#foot656"><sup>[22]</sup></a> etc.</p>
+
+<p>E mais adiante:</p>
+
+<p>«De todas as emprezas fundadas, não póde haver seguramente nenhuma mais
+vil e ignominiosa do que seja esta (a dos engajadores), que tem por fim
+<i>seduzir</i> uma innumeravel multidão de portuguezes ignorantes, <i>e por
+isso facilmente se deixam dominar pelas ficticias narrações das abundantes
+minas de oiro, que se encontram por toda a parte</i>, pelas excellencias e
+fertilidade d'este solo!</p>
+
+<p>«Os miseros que ali trabalhavam (na colonia Arapapahy) debaixo d'um sol
+ardente e enterrados em lodo, acabaram pela maior parte no hospital; outros
+ainda doentes foram mandados por este consulado para a sua terra natal, posto
+que com algum sacrificio, e os restantes amarellos e inchados, vagueavam por
+essas ruas esmollando a caridade publica!»<span class="pagenum"><a
+id="pag_69" name="pag_69">[69]</a></span></p>
+
+<p>Que paraizo!...</p>
+
+<p>O consul de Pernambuco tambem não acredita no maná descoberto no Brazil
+pelo auctor do <i>Estudo historico</i>.</p>
+
+<p>Eis como elle se expressa:</p>
+
+<p>«Os emigrantes portuguezes estabelecem-se geralmente nas capitaes das
+provincias, ou em uma cidade ou villa do litoral, ou do interior, onde haja
+algum commercio de certa importancia, sendo mui raros os que se aventuram a
+internar-se no paiz, por não terem nem protecção de patricios, parentes ou de
+amigos, <i>e por estarem menos garantidos na sua segurança pessoal e de
+propriedade</i>!</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Poucos são os que se empregam na agricultura, tanto pela razão acima
+declarada, de pouca propensão que tem a internarem-se no paiz, como pelo
+rigor do clima dos tropicos» etc.<a name="tex2html23"
+href="#foot688"><sup>[23]</sup></a></p>
+
+<p>É a terra promettida... e um calor, que deixaria os colonos feitos em
+torresmos, se caissem na patetisse de se exporem ao sol!</p>
+
+<p>E encarando a cousa pelo ponto de vista social, accrescenta:</p>
+
+<p>«As relações em que vive a colonia portugueza com a população do paiz não
+são caracterisadas pelas attenções, obsequio e amisade cordeal que seria para
+desejar existisse entre os emigrantes portuguezes e os naturaes do paiz,
+sendo uns e outros da mesma origem, fallando o mesmo idioma e tendo a mesma
+religião.</p>
+
+<p>«Póde dizer-se em geral que os emigrantes portuguezes, que residem n'este
+districto consular, não são bemquistos da população nacional, que, além de
+tratal-os de modo grosseiro e offensivo, soffrem muitas vezes epithetos
+affrontosos, e são victimas do odio latente que os nacionaes nutrem contra
+elles!»<span class="pagenum"><a id="pag_70" name="pag_70">[70]</a></span></p>
+
+<p>É este o reverso da medalha.</p>
+
+<p>A promessa do author  do novo livro&mdash;não profanaremos Christo&mdash;de <i>cento
+por um</i>, com respeito ao Brazil, é o calor tropical e o lado pestifero;
+são as riquezas ephemeras, os horrores da miseria, a falta de protecção das
+authoridades e os maus tratos do gentio!</p>
+
+<p>Não é pouco!...</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>O que citamos do livro <i>Brazil</i> não é sufficiente para dar maiores
+proporções á nossa humilde critica. O seu auctor não levou a palma da
+victoria a outros apologistas do imperio americano. Nós já lemos cousas mais
+attrahentes ou seductoras, e, por isso mesmo, mais romanticas, que é o que
+convem para illudir os emigrados.</p>
+
+<p>As palavras que vamos transcrever deviam necessariamente surtir melhor
+effeito.</p>
+
+<p>Eil-as:</p>
+
+<p>«Do Novo Mundo, tantos seculos escondido, e de tantos sabios calumniado
+(sic), onde não chegaram Hannon com as suas navegações, Hercules Lybico com
+as suas columnas, nem Hercules Thebano com as suas emprezas, é a melhor
+porção o Brazil; vastissima região, fertilissimo terreno, em cuja superficie
+tudo são fructos, em cujo centro tudo são thesouros, em cujas montanhas e
+costas tudo são aromas; tributando os seus campos o seu mais util alimento,
+as suas minas o mais fino ouro, os seus troncos os mais suaves balsamos, e os
+seus mares o ambar mais selecto: admiravel paiz a todas as luzes rico, onde
+prodigamente profusa a natureza, se desentranha nas ferteis producções, que
+em opulencia da monarchia, e beneficio do mundo apura a arte, brotando as
+suas cannas espremido nectar, e dando as suas fructas sazonada ambrozia, de
+que foram<span class="pagenum"><a id="pag_71" name="pag_71">[71]</a></span>
+mentida sombra o licôr, e vianda, que aos seus falsos deuses attribuiu a
+culta gentilidade.</p>
+
+<p>«Em nenhuma outra região se mostra o ceu mais sereno, nem madruga mais
+bella a aurora: o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios tão dourados
+(nem é tão quente!) nem os reflexos nocturnos tão brilhantes; as estrellas
+são as mais benignas, e se mostram sempre alegres: os horisontes, ou nasça o
+sol, ou se sepulte, estão sempre claros: as aguas ou se tomem nas fontes
+pelos campos, ou dentro das povoações nos aqueductos, são as mais puras: é
+emfim o Brazil terreal paraiso descuberto, onde tem nascimento e curso os
+maiores rios; domina salutifero clima (sic); influem benignos astros, e
+respiram auras suavissimas, que o fazem fertil e povoado de innumeraveis
+habitantes, posto que por ficar debaixo da Torrida Zona, o desacreditassem, e
+dessem por inhabitavel Aristoteles, Plinio, e Cicero, e com gentios os padres
+da igreja santo Agostinho, e Beda, que a terem experiencia d'este feliz orbe,
+seria famoso assumpto das suas elevadas pennas, aonde a minha receia voar,
+posto que o amor da patria me dê azas, e a sua grandeza me dilate a
+esfera.»<a name="tex2html24" href="#foot4266"><sup>[24]</sup></a></p>
+
+<p>Aconselhamos aos alliciadores a conveniencia de mandarem acrescentar as
+palavras que ahi deixamos transcriptas nos cartazes que costumam affixar nos
+troncos dos carvalhos dispersos pela natureza nas proximidades das vivendas
+dos nossos proletarios do norte. Os capitães dos barcos conseguirão assim
+mais facilmente o <i>lastro</i> desejado!...</p>
+
+<p>Condemnamos o estylo empregado nos trechos citados de um e outro
+escriptor, ambos com pretenções a historiadores, porque esse estylo, segundo
+Lamartine, «é a magica de que o homem se serve, muitas vezes<span
+class="pagenum"><a id="pag_72" name="pag_72">[72]</a></span> com feliz
+successo, para fazer admittir paradoxos como verdades e sophismas como
+excellentes raciocinios.»</p>
+
+<p>A imparcialidade da historia, dizia o referido escriptor, não é como a do
+espelho que reflecte os objectos; é a do juiz que vê, escuta e julga. Para
+que ella mereça este nome, é-lhe mister uma consciencia. A narração
+vivificada pela imaginação, reflectida e julgada pela sabedoria, eis a
+historia.</p>
+
+<p>Quem não sabe escrever a historia assim, deve quebrar a penna antes de
+profanal-a.</p>
+
+<p>Mas aos agentes do Brazil, convem desvirtuar tudo, convencidos como estão,
+de que podem chegar mais facilmente a seus fins&mdash;o interesse particular.</p>
+
+<p>Que lhes importa a elles a historia?...</p>
+
+<p>É moda hoje erigirem-se estatuas aos pygmeos da actualidade! E que importa
+que a posteridade, que costuma erigil-as aos verdadeiros heroes, venha
+derrubal-as para cima dos tumulos da ignominia? que se afundam as estatuas na
+lama em que vegetavam os miseros animalucos, transformados, n'um momento de
+delirio, de hypocritas em Catões?</p>
+
+<p>Podereis acaso, mumias lodosas, fazer fallar o pó a que infallivelmente
+estarão reduzidos os vossos pergaminhos e as vossas lucubrações?</p>
+
+<p>Não, que a verdadeira historia, quando se demora um pouco para dar realce
+a qualquer vulto digno, se alguma vez lança mão d'esses pygmeus, é para os
+esmagar!</p>
+
+<p>O governo do Brazil deu o passo errado de libertar os escravos antes de
+criar as leis, que regulassem o trabalho no imperio.</p>
+
+<p>Devia, como já o dissemos em outro logar, ter educado os naturaes a
+desempenhar o papel, que outr'ora representava o trabalhador africano.
+Ninguem melhor do que o indigena podia substituir o escravo; mas a lei que
+libertára este mostrou ao mundo a inutilidade<span class="pagenum"><a
+id="pag_73" name="pag_73">[73]</a></span> d'aquelle. É o que hoje estamos
+vendo. A agricultura definha de dia para dia, á maneira que o antigo
+trabalhador se liberta; e o Brazil abre os braços suplices aos europeus, para
+que o livrem do abysmo em que pouco a pouco se vae precipitando. Por isso os
+seus homens d'estado lançam mão de qualquer meio, sem previamente lhe
+conhecer a utilidade. Similhante ao naufrago, em pleno oceano, a vaga que ha
+de matal-o, se lhe afigura a taboa da salvação. Não se contenta com a fama
+das riquezas ephemeras, fama que em todas as épocas assombrou o mundo.
+Destaca agentes para Portugal, onde as vozes descompassadas dos engajadores
+não pódem formar écho além das nossas fronteiras. Gasta fabulosas sommas, com
+esses engajadores que em troco, fazem transportar para o Brazil algumas
+centenas de braços, que, afinal, não compensam as despezas feitas; porque,
+além do numero de colonos ser limitadissimo; o europeu, uma vez chegado ás
+margens d'esse paiz de fadas, convertido no que realmente é&mdash;cemiterio do
+proletario&mdash;vê-se na impossibidade de empregar as suas já quebrantadas
+forças, por effeito do clima, no serviço arduo de arrotear aquellas terras,
+que por todos espalha o desanimo e a morte. E os homens do Brazil dormem á
+sombra dos combates illustres da guerra do Paraguay, esperando, sem duvida,
+que do ceu lhe cáia o orvalho vivificador, promettido pelo auctor do livro
+que analysamos!</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>«A emancipação do escravo, caminho resvaladio para a extincção definitiva
+d'esse abominavel cancro, que tanto tem afeiado os codigos das nações mais
+civilisadas, e as ultimas disposições da lei, tendentes a facilitar a
+naturalisação dos estrangeiros, ao passo que revelam<span class="pagenum"><a
+id="pag_74" name="pag_74">[74]</a></span> o cuidado, que põe o governo
+brazileiro em dar certo cunho de homogeneidade á legislação civil do imperio,
+acabam igualmente por convencer que o seu pensamento predominante é o de
+reunir, sob o céo esplendido do Cruzeiro, os individuos de todas as
+naturalidades, que alli quizerem ter por patria commum&mdash;<i>o trabalho</i>.»<a
+name="tex2html25" href="#foot4267"><sup>[25]</sup></a></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Analysemos a emancipação do escravo, quanto baste para demonstrar, que aos
+homens que collaboraram na lei do imperio, n.º 2040, não presidiam só as leis
+da humanidade, que, ainda assim, não devemos negar a outras nações mais
+cultas; mas tambem a ideia de se imporem ás outras nações, como quem tinha
+estudado, bem de perto, e com melhor exito, uma questão tão complexa;
+parecendo querer corrigil-as da sua morosidade, na destruição do cancro, e
+quiçá da creação d'elle, cancro que <i>talvez</i> o Brazil não creára se
+fosse dirigido pelos homens que em 1871 estavam á testa dos negocios do
+imperio!</p>
+
+<p>Não negamos as vantagens moraes da abolição da escravatura, mas negamos a
+apregoada phylantropia d'aquelles que ensinámos a ser humanos.</p>
+
+<p>Um conjuncto de circumstancias, que seria fastidioso enumerar, e que não
+comporta este trabalho concorreram para o commercio da escravatura no Brazil,
+levando a melhor parte n'esta deshumana ideia os jezuitas que, desde a
+primitiva, dominaram na America meridional. Fosse que elles reconhecessem a
+inutilidade de empregarem os naturaes&mdash;por demasiadamente indolentes&mdash;na
+exploração de tão feracissimo solo, fosse por sua demasiada ambição, o que é
+certo é que os governos de Portugal se insurgiram sempre contra tão
+abominavel commercio, dando provas as mais honrosas da sua humanidade pelas
+victimas.<span class="pagenum"><a id="pag_75"
+name="pag_75">[75]</a></span></p>
+
+<p>Foi Portugal uma das primeiras nações que deu o passo para a liberdade dos
+escravos; mas quando julgou dever dar esse passo, fel-o mais por humanidade
+do que por jactancia.</p>
+
+<p>Estudou a questão por todos os lados, e quando se convenceu que a
+destruição d'um mal lhe não accarretaria outro, deu o golpe com as cautellas
+aconselhadas pela prudencia dos verdadeiros homens d'estado.</p>
+
+<p>E o que fez o Brazil? Estudou a questão em toda a sua plenitude?
+Destruindo o mal da escravatura preta não crearia outro mal a escravatura
+branca?</p>
+
+<p>Era preciso estudar bem um assumpto tão milindroso, para que, com o bem
+moral, que infallivelmente havia de succeder a essa liberdade, não começassem
+a sentir-se os effeitos materiaes e horrorosos do prostramento da agricultura
+do imperio, pela falta de braços, e terem os homens de estado, para salval-a,
+que lançar mão d'um mal peior do que aquelle que haviam fulminado&mdash;a
+escravatura branca.</p>
+
+<p>Estudaram elles esta questão? Não.</p>
+
+<p>Na época em que a lei apontava aos escravos a sua liberdade, existiam
+quatro milhões d'aquelles infelizes; e os legisladores brazileiros
+calculavam, que, d'ahi a vinte annos, quando os escravos estivessem
+completamente forros, existiriam mais de 20 milhões de braços livres. A
+fecundidade do africano é superior á de outra qualquer raça, e d'ahi a
+extraordinaria multiplicidade de braços; mas o africano, geralmente fallando,
+uma vez livre, é tão inutil como qualquer indigena dos tropicos.</p>
+
+<p>O Brazil, com a sua apregoada falta de braços e com o definhamento da sua
+agricultura, corrobora a nossa asserção.</p>
+
+<p>Effectivamente, se no tempo da escravatura, se não precisava do braço
+europeu para o desbravamento das terras, como é que hoje que o Brazil deve
+abrigar em<span class="pagenum"><a id="pag_76" name="pag_76">[76]</a></span>
+seu seio maior numero de braços de origem africana, em quem tanto confiava,
+vem á Europa mendigal-os para a sua decadente agricultura?</p>
+
+<p>Sobre a situação do imperio com respeito ao elemento servil disiamos ha
+pouco:</p>
+
+<p>«D'aqui a dez ou quinze annos, quando estiver extincta a escravatura no
+Brazil, sem que o governo tenha remediado este grande mal e os lavradores,
+faltos de recursos materiaes liquidarem as suas fortunas e procurarem, como é
+natural, melhor emprego para o seu capital, chegará então o grande imperio
+americano ao ultimo grau da sua decadencia; porque, uma vez livre o elemento
+escravo, que no Brazil é e ha de ser sempre a alma da lavoura, ninguem mais
+poderá faser trabalhar o preto que com o salario de um dia, se julga
+habilitado para comer 15 ou 20.»<a name="tex2html26"
+href="#foot4268"><sup>[26]</sup></a></p>
+
+<p>Não eramos só nós que assim pensavamos. Ao tempo em que isto escreviamos,
+já estava tambem escripto, mas não publicado, o seguinte:</p>
+
+<p>«A moderna lei do elemento servil, que posto não minorasse os instrumentos
+do trabalho tende á sua progressiva diminuição, compelle o Brazil a empregar
+todos os exforços para adquirir braços que lhe substituam os que aquella lei
+inutilisou com a liberdade, pois que o escravo entendo que esta só consiste
+em não trabalhar.»<a name="tex2html27"
+href="#foot4269"><sup>[27]</sup></a></p>
+
+<p>Aniquilando o imperio, podem chamar-se humanos os seus aniquiladores?</p>
+
+<p>Consentindo o governo do Brazil na escravatura branca, que outra cousa não
+são os engajamantos que ora se fazem, não é ser tambem deshumano?</p>
+
+<p>Que nos respondam os homens conscienciosos.<span class="pagenum"><a
+id="pag_77" name="pag_77">[77]</a></span></p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Vejamos agora quaes são as vantagens que as leis brazileiras offerecem ao
+estrangeiro.</p>
+
+<p>Para qualquer se naturalizar cidadão brazileiro, terá que residir dois
+annos no imperio, declarando a intenção de continuar a residir alli ou a
+servil-o depois de naturalisado (absurdo); as cartas de naturalisação, serão
+isentas de qualquer imposto, <i>excepto</i> o de 25$000 réis de selo! Na
+occasião do individuo prestar juramento de fidelidade <i>declarará seus
+principios religiosos</i> (não sabemos para que.)</p>
+
+<p>O estrangeiro não poderá viajar dentro do imperio, (lei de 10 de janeiro
+de 1855) sem passaporte, que será visado pelas authoridades da provincia por
+onde passar!</p>
+
+<p>O regulamento de 30 de junho de 1855, garante aos colonisadores na
+provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul, as despezas da viagem e alimento
+desde a cidade do Rio Grande até ao logar do seu destino, e bem assim as
+despezas de accommodação até ter casa propria, <i>não excedendo o praso de 60
+dias</i>! Garante egualmente <i>aos mais necessitados</i> o subsidio de 3
+mezes na razão de 200 réis por dia aos solteiros, e de 160 réis a cada pessoa
+de familia de mais de 2 annos.</p>
+
+<p>Agora o reverso da medalha:</p>
+
+<p>«O preço minimo de cada braça quadrada de terras, diz o regulamento
+citado, é de 3 réis, <i>sendo augmentado segundo for sua qualidade e
+situação</i>.»</p>
+
+<p>O nosso distincto compatriota dr. H. Roberto Rodrigues, diz o seguinte a
+este respeito:</p>
+
+<p>«Se as terras pertencerem ás provincias ou municipios como suas dotações,
+não chegam ao emigrante senão atravez de um primeiro possuidor, que as não
+cultivou mas que lhes elevou o preço e com o encargo de<span
+class="pagenum"><a id="pag_78" name="pag_78">[78]</a></span> praso phanteuzim
+de laudemio de quarentena e fôro annual de 500 réis por braça linear da maior
+frente, alem das alcavalas tambem herdadas, da sisa da venda de 6 por cento,
+sello proporcional em millessimo por cento do preço e escriptura. As terras
+particulares não se podem obter se não por preços exorbitantes. Por meio de
+locação são peiores as condições em geral para o locatario. Os contractos
+mais favoraveis de que tenho tido conhecimento ainda assim nada deixam ao
+locatario. Darei um exemplo do mais favoravel.</p>
+
+<p>«O dono do terreno concede-o gratuitamente por tres annos (terreno de
+1:000 braças quadradas em matto), e n'esse periodo deve o locatario cercal-o
+(custo do cerco 1:320$000 réis), fazer casa de moradia (custo da mais barata
+500$000), arrotear o terreno (custo minimo 60$000), e cultival-o (custo
+minimo 100$000 réis). Total 1:980$000 réis, ou 1$980 réis por cada braça
+quadrada. Concede mais um anno a 240$000 réis de aluguer, e o seguinte a
+480$000 réis. N'este periodo de cinco annos, o locatario apenas tira o
+producto liquido de 580$000, medio annual, que lhe deixou além da sua
+alimentação, apenas o lucro de 200$000 réis em cinco annos!</p>
+
+<p>«Estes preços e condições são os das visinhanças das cidades (distancia de
+6 a 10 milhas). A distancias de 30 ou 40 leguas (com um ou dois dias de
+viagem a vapor), os preços e condições descem um decimo, mas os fretes dos
+productos quasi prefazem a differença com o preço mais alto dos objectos de
+importação.»<a name="tex2html28" href="#foot427"><sup>[28]</sup></a></p>
+
+<p>Admitamos que esse preço não augmenta; e estabeleçamos 125 mil braças
+quadradas para cada colono (seguindo as <i>instrucções de 23 de novembro
+1861</i>), que importam em 375$000 réis, e que o governo brazileiro embolsará
+no praso de 5 annos.<span class="pagenum"><a id="pag_79"
+name="pag_79">[79]</a></span></p>
+
+<p>Que capital empregará elle para lucrar aquella somma por cada colono?</p>
+
+<p>Vejamos:</p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Capital para suportar colono">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Subsidio de 200 réis dispensado a cada colono necessitado, por
+ espaço de 90 dias </td>
+ <td style="text-align:right;">18$000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Despezas do transporte e alimento, d'esde o Rio Grande até ao local
+ da colonia, calculemos </td>
+ <td style="text-align:right;">18$000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Accommodação por 60 dias </td>
+ <td style="text-align:right;">4$000</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="border-top: solid 1px #000000;text-align:right;">40$000</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>Ora emprestar 40$000 réis para lucrar 375$000, no fim de 5 annos, não é
+máu negocio. E os que não necessitam do emprestimo?</p>
+
+<p>E chama-se a isto proteger a emigração e a agricultura!</p>
+
+<p>Mas não fica aqui ainda o tal auxilio. O colono que nos prazos marcados
+não satisfizer os taes 3 réis por cada braça de terreno, e bem assím todas as
+despezas será obrigado a pagar um premio de 12 p. c. por cada anno!</p>
+
+<p>O Brazil que conta perto de 9 milhões de kilometros quadrados de
+supreficie, e que pode ter desbravado pouco mais da centessima parte, leva a
+sua avidez ao ponto de exigir por terrenos que nada lhe rendem a fabolosa
+importancia de 3 réis por cada braça, se a esses terrenos não for arbitrado
+maior preço! Mas não se julgue que é este só o lucro que o Brazil aufere com
+a sua apregoada protecção aos colonos. As madeiras extrahidas dos seus
+frondosos arvoredos, o maior obstaculo da agricultura, pagarão 14 p. c. da
+exportação. O algodão, o café e outros productos agriculas, não são isentos
+de taxas eguaes, se não superiores!...</p>
+
+<p>Os lucros seriam incalculaveis, se houvesse bastantes idiotas a auxiliar
+d'estes e quejandos disparates administrativos dos economistas
+brazileiros.<span class="pagenum"><a id="pag_80"
+name="pag_80">[80]</a></span></p>
+
+<p>Mas as instrucções de 23 de novembro de 1861 são mais simples, isto é,
+estende-se aos territorios das vastissimas provincias do Espirito Santo,
+Minas Geraes, St.ª Catharina e Paraná.</p>
+
+<p>Estabelece-se alli que os colonos serão recolhidos, na sua chegada ao Rio,
+á hospedaria da ilha do Bom Jesus, e alli <i>gratuitamente</i> sustentados e
+tractados em suas enfermidades, até partirem para o seu destino. O preço do
+terreno é que não baixou de tres réis por cada braça quadrada. Os auxilios,
+taes como ferramentas, sementes, e meios de subsistencia, <i>aos
+necessitados</i>, são superiores; por isso maior será a divida que ha de
+infallivelmente amortisar, não no prazo de cinco annos, como está estipulado
+nas instrucções de 10 de janeiro de 1855, mas no de seis, o que não deixa de
+ser logico!</p>
+
+<p>Com tudo, as novas e ultimas instrucções dispensadas em favor da
+colonisação, não obstante estarem seis annos no cadinho dos alchimistas
+escolhidos pelo Brazil para achar o elixir que ha de <i>aformosear</i> a
+decadente agricultura, não remedeiam o grande mal, e são um novo titulo
+votado á inepcia do governo que o sancionára.</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Vejamos agora o que faz um paiz lemitrophe do imperio americano a respeito
+da colonisação.</p>
+
+<p>A republica de Buenos Ayres, por decreto de 21 de outubro de 1855,
+authorisa a concessão, <i>em propriedade perpetua</i>, de cem leguas
+quadradas de terreno, em Bahia Blanca e Patagones, aos individuos, ou
+familias nacionaes ou estrangeiras que pertenderem povoal-as.</p>
+
+<p>A lei de 7 de junho de 1856, declára porto franco para os navios mercantes
+de todas as bandeiras, o da Bahia Blanca, sobre o occeano Atlantico;
+isentando de<span class="pagenum"><a id="pag_81"
+name="pag_81">[81]</a></span> todo o direito de porto, os navios do alto mar
+ou cabotagem, que alli concorrem de qualquer procedencia, o que nunca fez o
+Brazil, nem mesmo com respeito ao rio Amazonas, que, não obstante ter sido
+decretada a abertura, permanece fechado para os navios estrangeiros; mas, o
+que é mais importante, a referida lei da republica do Prata, declara em seu
+artigo 3.º, o seguinte:</p>
+
+<p>«São igualmente livres de todo o direito d'alfandega, por espaço de cinco
+annos, as importações e exportações de toda a classe que por aquelle porto se
+verificarem; bem entendido que esta franquia é limitada ao consumo exclusivo
+e producção propria d'aquelle districto.»</p>
+
+<p>Mirem-se n'este espelho os legisladores brazileiros.</p>
+
+<p>O Mexico, esse paiz riquissimo de solo, e de revoluções, tratava ha pouco
+de discutir uma lei importantissima sobre o assumpto que analysamos. A verba
+que destinava á imigração, era de 500:000 pesos.</p>
+
+<p>Eis como um jornal brazileiro<a name="tex2html29"
+href="#foot4271"><sup>[29]</sup></a> dá conta d'essa lei:</p>
+
+<p>«Os emigrados deverão ser transportados á custa do governo, desde o paiz
+de sua residencia até ao ponto do seu destino: durante a viagem lhes serão
+ministradas as necessarias provisões, e no primeiro anno receberão um auxilo
+de 90 pesos, e se ao expirar o segundo anno, desejarem voltar ao paiz de sua
+procedencia, o governo por sua conta lhes dará transporte.</p>
+
+<p>«Apenas uma colonia chegue a conter cincoenta familias, poderá constituir
+uma corporação municipal, eleger os seus empregados, e fazer os regulamentos
+que os seus interesses exigem, com tanto que não se opponham ás leis federaes
+e locaes.</p>
+
+<p>«Por espaço de cinco annos, não pesarão outras contribuições e impostos
+sobre as terras dos colonos, que não sejam os municipaes.<span
+class="pagenum"><a id="pag_82" name="pag_82">[82]</a></span></p>
+
+<p>«Os generos alimenticios, ferramentas e materiaes de construcção para os
+colonos, serão importados livres de direitos.</p>
+
+<p>«Qualquer navio que importar mais de dez emigrantes ficará isento de pagar
+os direitos de tonelagem, pharoes, ancoragem e pilotagem.</p>
+
+<p>«Todo o emigrante desde o momento da sua chegada será declarado cidadão e
+gosará desde logo dos direitos civis e politicos como se fosse cidadão
+nato.</p>
+
+<p>«Das terras publicas destinar-se-ha uma parte para emigrantes.</p>
+
+<p>«Os colonos que se destinarem á cultura do solo receberão uma quantidade
+de terras que não seja inferior a 110 geiras nem exceda a 1:100, podendo
+cultival-as por espaço de 10 annos gratuitamente; no fim d'este termo ficará
+á sua opção, ou pagar a dinheiro o seu valor integral, ou pagar annualmente
+uma decima parte do mesmo valor, até saldar a somma total em 10 annos.</p>
+
+<p>«Nas terras, que se medirem para fundar cidades, dar-se-ha um lote a cada
+emigrante.»</p>
+
+<p>É assim que se protege a emigração!</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Dissemos que Portugal, não é o paiz que mais colonos deve fornecer ao
+Brazil.</p>
+
+<p>Dissemos tambem que os filhos das outras nações da Europa, preferem os
+estados da America do norte; e que os governos da Allemanha, França e Italia,
+prohibem a emigração de seus subditos para o imperio brazileiro.</p>
+
+<p>Qual a causa d'esta preferencia e d'esta prohibição?</p>
+
+<p>A falta de leis protectoras para o emigrante, responde á preferencia dos
+estados do norte pelos do sul; e a<span class="pagenum"><a id="pag_83"
+name="pag_83">[83]</a></span> insalubridade do Brazil, e quiçá a falta do
+cumprimento das leis pouco liberaes que ali existem, responderá facilmente á
+medida adoptada por aquelles governos&mdash;a prohibição.</p>
+
+<p>Já vimos que as disposições brazileiras, tendentes a facilitar a
+naturalisação dos estrangeiros no Brazil, não são sufficientes, para que,
+debaixo do ceu do Cruzeiro, possam todos os individuos, com independencia,
+chamar-lhe a terra do trabalho.</p>
+
+<p>O sr. Augusto de Carvalho mostra alguns conhecimentos da vida dos povos
+subordinados aos estados do norte, e por isso mesmo devia apontar ao governo
+brazileiro as disposições liberaes das leis americanas, que fazem dos
+Estados-Unidos um paiz livre, dirigido por cidadãos e não por jesuitas.</p>
+
+<p>E não vá persuadir-se que é pequena cousa para o engrandecimento d'um povo
+o assumpto&mdash;religião.</p>
+
+<p>O artigo 5.º da carta constitucional do imperio, que faz da religião
+catholica apostolica romana, a religião do estado, é o maior obstaculo contra
+a emigração dos europeus.</p>
+
+<p>Os inglezes e especialmente os allemães, os unicos que podiam formar um
+grande nucleo de emigração, são protestantes; e os filhos dos outros paizes
+catholicos, ao deixarem a patria, suppõem que hão de ir encontrar, n'um paiz
+novo, uma sociedade nova, cujos principios liberaes sejam, quando não
+superiores, ao menos iguaes aos que se professam no paiz d'onde emigram. Mas
+o europeu, completamente illudido, vai encontrar o grande imperio dominado
+pelos jesuitas, impondo ao emigrante os seus principios reaccionarios, sob
+pena de serem apontados á população, como inimigos do imperio, servindo-se
+para isso dos pulpitos e dos jornaes, transformados em pasquins, que o
+governo tolera, desculpando-se em não querer tolher a liberdade do
+pensamento, mas espezinhando essa liberdade quando as manifestações<span
+class="pagenum"><a id="pag_84" name="pag_84">[84]</a></span> contra o
+jesuitismo, como justa represalia, partem dos estrangeiros!</p>
+
+<p>Despresando os sãos principios seguidos na America do norte, e por
+consequencia&mdash;<i>o pensamento de reunir sob o mesmo ceu todas as
+nacionalidades</i>&mdash;só falta ao governo admittir as <i>justas</i> exigencias
+do seu clero, que pede a forca e os horrores da inquisição, para os adeptos
+das outras seitas religiosas toleradas no Brazil! E ai dos homens de estado
+que não attenderem as reclamações da fradaria! Que o diga o gabinete 7 de
+março, presidido pelo visconde de Rio-Branco, fulminado pelo <i>ex-informate
+conscientia</i> dos bispos que, para amedrontal-o, haviam creado em todas as
+provincias o chamado&mdash;partido catholico&mdash;! a nação em peso a pedir cilicios e
+fogueiras contra meia duzia de herejes!...</p>
+
+<p>Eis-aqui está um paiz colonisador, entretido na pratica do trabalho...
+fazendo politica para <i>reunir, sob o ceu explendido do Cruzeiro</i>... os
+jesuitas de todas as nacionalidades!</p>
+
+<p>De que serviu ao sr. Augusto de Carvalho, a extemporanea defeza que fizera
+do seu Brazil, ha dois annos liberal, convertido n'um momento, pela simples
+vontade d'uma mulher em convento de frades?!</p>
+
+<p>É preciso que assignale na sua historia, quando fizer a terceira edicção,
+esta phrase do seu clero dominador em fins do seculo XIX.</p>
+
+<p>É provavel que com a forca e a inquisição venha o restabelecimento da
+escravatura. Isto feito, o governo, que presidir aos destinos do imperio,
+será pelo auctor do <i>Brazil</i> elevado ás honras de patriota!</p>
+
+<p>E poderá o sr. Augusto de Carvalho, como empregado-historiador do Brazil,
+negar as <i>virtudes</i> do celeberrimo gabinete que substituiu o do visconde
+Rio Branco?<span class="pagenum"><a id="pag_85"
+name="pag_85">[85]</a></span></p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Na primeira parte do seu livro, mostra-nos o snr. Augusto de Carvalho
+alguns conhecimentos sobre os principaes fundamentos das colonias, nos
+estados do norte da America, que vieram, passados dois seculos, pela bocca do
+seu primeiro cidadão, Washington, declarar livres os treze estados, que
+haviam de constituir uma das nações mais importantes do mundo.</p>
+
+<p>Concorreram muito para esse engrandecimento razões valiosissimas. Uma
+d'ellas foi, sem duvida, o desinteresse dos europeus emigrantes pelas
+dissensões politicas e religiosas dos seus paizes, nos XVI e XVII seculos. A
+superstição não lhes era peculiar. A politica, no seu entender, não devia
+adaptar-se á religião, nem esta áquella. Uma e outra deviam ser
+independentes; mas essa independencia fallecia nos paizes cansados. Os
+emigrantes, homens novos e liberaes, protestavam contra todas as seitas
+officiaes, como offensivas do direito natural; e porque os seus protestos não
+podiam ser ouvidos por quem se entretinha mais com a politica do que com o
+engrandecimento da patria, preferiram antes procurar novas terras, onde
+livremente podessem entregar-se de corpo e alma ao trabalho, que é a vida dos
+povos.</p>
+
+<p>As leis mais adequadas ás colonias foram estabelecidas entre si, chegados
+á America. A sua religião e a sua politica resumia-se apenas no
+engrandecimento da patria adoptiva. Esse amor, pela sua independencia,
+fôra-lhes sempre combatido, até que em 4 de julho de 1776, entenderam os
+colonos dever sacudir o jugo que os opprimia.</p>
+
+<p>Porém esses caracteres summamente independentes, que abalaram o mundo com
+o seu amor á liberdade, reconheceram a necessidade da escravatura; e não
+sabemos<span class="pagenum"><a id="pag_86" name="pag_86">[86]</a></span> se
+como nós accusamos os jesuitas, elles tambem accusariam os seus
+<i>priests</i> calvinistas, lutheranos, quakers, rhinoburguezes,
+conventicularios e arminianos, de introduzirem na America do norte o
+deshumano trafico.</p>
+
+<p>O que é facto é que&mdash;e diga-se isto, ao menos, para desculpa dos
+dominadores da America do sul&mdash;os differentes estados do norte, possuem ainda
+hoje, para cima, de tres milhões de escravos!</p>
+
+<p>É verdade que a sua população é superior a 30 milhões de habitantes, e que
+os 4 milhões de escravos, que possue o Brazil, estabelece uma grande
+desproporção, relativamente superior aos seus dez milhões de habitantes. Mas
+os Estados Unidos foi um dos primeiros povos que acceitou a divisa&mdash;igualdade
+e fraternidade&mdash;; e não só por esta circumstancia, como tambem porque a
+corrente da emigração europêa era e é fabulosa para o norte, já mais deveria,
+depois da proclamação da republica, consentir o horroroso commercio. E embora
+elle tivesse existido antes da independencia, não devia, passado quasi um
+seculo, apresentar-nos as suas estatisticas, em que figura, como gente
+escrava, a decima parte da sua população!</p>
+
+<p>Porque não baniu a escravatura dos seus dominios?</p>
+
+<p>Não faltava aos seus homens d'estado a razão que presidiu ao gabinete de 7
+de março, do imperio americano, e, antes d'este, á maior parte dos gabinetes
+europeus, em cujo numero figura Portugal. Porém, os americanos do norte, além
+da divisa&mdash;igualdade e fraternidade&mdash;que a todo o mundo apontam, tem outra,
+que a todos occultam&mdash;a conveniencia de salvaguardar os interesses da sua
+agricultura, que é o engrandecimento da republica.</p>
+
+<p>O que é um facto inquestionavel, é que a tolerancia religiosa dos
+inspirados pela côrte romana, intolerancia que ainda hoje domina os
+principaes estados do sul da<span class="pagenum"><a id="pag_87"
+name="pag_87">[87]</a></span> America, é que collocaram o governo do Brazil
+na coalisão de adoptar medidas urgentissimas, a fim de remediar o grande mal
+da falta de braços, que de dia para dia vai definhando a agricultura.</p>
+
+<p>O governo brazileiro não devêra ter libertado os escravos, sem primeiro
+ter creado as leis proficuas que regulam o trabalho. A abolição immediata do
+imposto de exportação, devia desde ha muito, ser lei do estado. Mas o que de
+fórma alguma deve existir é o artigo 5.º da sua constituição politica.</p>
+
+<p>Não foi com similhantes empecilhos que progrediram os Estados Unidos da
+America do norte.</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>A segunda parte do livro do snr. Augusto de Carvalho, leva-nos a demorar
+um pouco mais a nossa analyse sobre a escravatura.</p>
+
+<p>É incontestavel que este horroroso commercio, exercido mais largamente
+depois do descobrimento da America, tinha, até certo ponto, a sua razão de
+ser.</p>
+
+<p>Não desculparemos por fórma alguma o systema de alguns jesuitas, usado na
+catechese dos indigenas da America do sul, systema que no entender de alguns
+historiadores, escravisava os indios em logar de os chamar a luz da
+civilisação.</p>
+
+<p>Porém, se accusam a companhia de demasiadamente interessada no seu
+engrandecimento moral e material, como é crivel admittir que os seus filiados
+não usasem de todos os meios para aproveitar as povoações errantes da
+America, confiadas ao seu criterio religioso? Não lhes seria mais util esse
+aproveitamento, do que terem de lançar mão dos filhos de Africa, que, com
+mais razões do que os indios, aborreceriam os seus <i>senhores</i>, jesuitas
+ou não?<span class="pagenum"><a id="pag_88" name="pag_88">[88]</a></span></p>
+
+<p>Uma forte razão vem em favor da companhia: os indios das duas Americas,
+geralmente fallando, são indomaveis; inimigos da civilisação, a sua vida ha
+de ser sempre a dos povos errantes, até extinguirem-se. Não obstante, a
+catechese dos indigenas da America do sul, trouxe maior numero de seus filhos
+ao gremio da civilisação, do que os systemas usados no norte, onde os
+dominadores, convencidos da inutilidade de seus esforços, lhes dão caça, como
+se os indios fossem bichos de matto!</p>
+
+<p>O commercio da escravatura apparece no meado do seculo XVI. A sua
+existencia não póde deixar de attribuir-se ao mau systema dos governos, que
+dominavam a America meridional, em quererem catholisar os europeus, que por
+ventura entendessem dever procurar novas terras. Os jesuitas eram os fiscaes
+do catholicismo nos novos dominios de Portugal e Hespanha.</p>
+
+<p>Se não fosse a companhia era provavel que a corrente da emigração europêa
+se encaminhasse, em parte, para o sul. Se os jesuitas não dominassem as duas
+côrtes, era provavel que os governos de Portugal e Hespanha levantassem a
+redoma com que encobriam aos olhos dos profanos as suas joias preciosas. Mas
+os padres experientes comprehenderam que mais facil seria dominar uma nação
+de escravos do que uma nação de homens livres, porque a America do sul devia
+ser por mais alguns seculos, o sustentaculo de Roma; por isso é que, devido á
+sua influencia, os portos d'esta parte do novo mundo estiveram fechados aos
+estranhos, emquanto que se abriam aos africanos, mais faceis de sujeitar-se
+aos caprichos jesuiticos; por isso é que n'um estado novo, que nasceu talhado
+para moralisar os povos decadentes, se formaram umas poucas de nações
+rachiticas, que até hoje ainda não poderam levantar o jugo ferreo da
+indomavel companhia.</p>
+
+<p>Se o jesuita Anchieta dizia que os indios, mais por<span
+class="pagenum"><a id="pag_89" name="pag_89">[89]</a></span> medo do que por
+amor, se haviam de remir, quem nos prova o contrario d'esta asserção?</p>
+
+<p>O que é facto é que os colonos faziam e os indigenas desfaziam.</p>
+
+<p>Houve mais tarde desregramentos n'essas <i>entradas</i> ou
+<i>bandeiras</i> de que falla o sr. Carvalho, com o pretexto de salvar os
+captivos dos proprios indigenas. «Os governadores, segundo refere Mendes
+Leal, nos <i>Bandeirantes</i>, muitas vezes e por muitos modos quizeram pôr
+cobro n'estes desregramentos. Mas como vigiar, acrescenta o illustre
+escriptor, e colher em tão vastos e despovoados territorios os criminosos,
+que todos iam feitos, que mais de uma vez se entendiam com os mesmos
+capitães-móres, e não raras com os proprios habitantes?»</p>
+
+<p>Estas palavras respondem ás do sr. Augusto de Carvalho, quando quer tornar
+responsavel o governo da metropole de taes desregramentos.</p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Entendemos dever fazer algumas observações a respeito das
+<i>bandeiras</i>, a que se refere o sr. Augusto de Carvalho, no seguinte
+trecho do seu livro:</p>
+
+<p>«A exemplo dos padres, os colonos, já de si inclinados a este abuso
+(escravisar os indios), <i>e por que estranhavam os rigores d'um clima
+tropical que os extenuava nos rudes trabalhos da lavoura</i> (a estas
+palavras que assignalamos responderemos em especial), abriram largas
+ensanchas ás suas <i>bandeiras</i>, especie de caçadas de indios que lhes
+forneciam escravos, a quem commettiam as mais penosas funcções da vida
+agricola.»</p>
+
+<p>O sr. Augusto de Carvalho, com o fim de metter os portuguezes no
+torniquete, começára pela adulação.<span class="pagenum"><a id="pag_90"
+name="pag_90">[90]</a></span> Nós protestamos contra o estratagema porque não
+queremos elogios nem vituperios. Nós queremos a verdade, sem a qual se não
+póde escrever a historia.</p>
+
+<p>No entender do sr. Carvalho as <i>bandeiras</i> tinham por fim, unica e
+exclusivamente, escravisar os indigenas.</p>
+
+<p>Ayres do Cazal, um dos escriptores antigos mais conscienciosos, diz o
+seguinte a tal respeito:</p>
+
+<p>«Da-se no Brazil este nome&mdash;<i>bandeira</i>&mdash;a um numero indeterminado de
+muitos homens, que providos d'armas, munições e mantimentos, necessarios para
+a sua subsistencia e defeza, entram nas terras possuidas pelos indigenas com
+algum intuito, v. g. de <i>descobrir minas, reconhecer o paiz, ou castigar as
+hostilidades dos barbaros</i>.»</p>
+
+<p>Os escriptores mais abalisados são de opinião, que devido ás excursões dos
+<i>bandeirantes</i>, é que se tornou conhecido o immenso territorio
+brazileiro.</p>
+
+<p>Vejamos o que diz Ferdinand Diniz a tal respeito:</p>
+
+<p>«Intentámos, no começo d'esta noticia, escrever rapidamente a historia das
+expedições prodigiosas, devidas aos paulistas, durante o decimo setimo e o
+decimo oitavo seculo; fizemos ver que todas as grandes explorações que deram
+a conhecer o interior do Brazil, são resultado da sua perseverança (dos
+<i>bandeirantes</i>).»<a name="tex2html30"
+href="#foot4272"><sup>[30]</sup></a></p>
+
+<p>Os padres da companhia, com respeito ás <i>entradas</i>, são assim
+defendidos pelo citado historiador:</p>
+
+<p>«Grande injustiça haveria em julgar os jesuitas do decimo sexto seculo, e
+seus trabalhos, segundo as idéas, que póde inspirar o systema das missões.
+Ali possivel é vêr projectos ambiciosos conciliar-se com boas intenções: nos
+primeiros trabalhos executados pelos padres da companhia no Brazil, tudo foi
+desinteressado;<span class="pagenum"><a id="pag_91"
+name="pag_91">[91]</a></span> e, se necessario fosse, a relação de suas
+fadigas e padecimentos poderia proval-o. Nobrega mereceu o titulo
+de&mdash;<i>apostolo do Brazil</i>&mdash;que nos conferem todas as narrações; Anchieta,
+que trabalhou sem descanço por espaço de quarenta annos na conversão dos
+indigenas, e que não temia ficar só como refem entre as mãos dos Tamoyos para
+salvar a colonia, offerece ainda um caracter mais sublime; o padre João
+d'Aspicuelta, o padre Antonio Perez, o padre Leonardo Nunes, e tantos outros,
+os auxiliaram com um zelo, que só póde apreciar quem tem vivido nas
+florestas, ou repousado n'uma choupana india. Muito falta para que elles
+obtivessem os resultados, que no Paraguay se manifestaram» etc.</p>
+
+<p>Lacordaire, auctoridade insuspeita na questão vertente, accrescenta, com
+respeito ás expedições dos <i>bandeirantes</i>, que «se o padre era severo
+antes de absolver os <i>bandeirantes</i>, informava-se cuidadosamente do
+objecto da empreza, e só dava a absolvição <i>quando se tratava de descobrir
+minas</i>; porém o maior numero nada indagava a este respeito, e recommendava
+sómente, em termos geraes, que tratassem com affabilidade os indios, que no
+caminho encontrassem, para attrahil-os ao gremio da egreja.» etc.</p>
+
+<p>A <i>bandeira</i> punha-se a campo. «Então começava com toda a sua energia
+a lucta do homem com a natureza terrivel do deserto. Indispensavel era muitas
+vezes com o machado abrir caminho na espessura dos bosques, acampar por
+espaço de semanas inteiras em terras alagadas e pestiferas, desprezar os rios
+trasbordados, as cachoeiras, a frecha do indio emboscado, o ardor d'um sol
+vertical durante a estação calmosa, as chuvas abundantes da quadra opposta, a
+fome e as doenças; era, n'uma palavra, d'absoluta necessidade arrostar todos
+os perigos, que a imaginação póde conceber. <i>Em todo o logar em que a
+terra<span class="pagenum"><a id="pag_92" name="pag_92">[92]</a></span> era
+vermelha e offerecia certos indicios, que o chefe da expedição conhecia, este
+mandava examinar o solo; se encontravam algum ouro</i>, as passadas fadigas
+esqueciam, e trabalhos d'exploração sem demora começavam: <i>em caso
+contrario iam ávante</i>.»</p>
+
+<p>Houve <i>bandeirantes</i> (chefes das expedições do interior), que
+escravisavam os indios; mas de similhantes actos não póde ser accusada a
+maioria dos <i>bandeirantes</i>, os colonos e o governo da metropole, nem tão
+pouco os jesuitas do XVI seculo. Estes foram expulsos de S. Paulo, segundo
+affirma o historiador que viemos de referir, porque, obtendo um breve do
+papa, excommungavam os possuidores de indios!</p>
+
+<p>Até ali, como convinha a quem desejava chamar á obediencia de Roma novos
+proselytos, em substituição dos que tinham abraçado os principios d'uma
+philosophia mais racional, os padres da companhia, só levavam em mira um novo
+intento. Depois, quando viram que os seus esforços iam tendo bom exito, não
+tanto como desejavam, é que arrancaram a mascara da hypocrisia, que fez da
+America meridional um convento de frades fanaticos, que os governos do senhor
+D. Pedro II tem consentido no Brazil.</p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>Se Nobrega e Anchieta, depois de haverem esgotado a sua paciencia
+evangelica, entendiam, já no descanço, «que os colonos, como refere Rebello
+da Silva, só por meio da guerra poderiam alcançar do gentio o respeito, o
+socego e a segurança de suas propriedades», quem melhor estaria no caso de
+conhecer e remediar o mal?</p>
+
+<p>Não eram os colonos atacados em suas propriedades? Quando algumas
+<i>bandeiras</i> penetravam no sertão,<span class="pagenum"><a id="pag_93"
+name="pag_93">[93]</a></span> com o fim de reconhecer o paiz, não eram ellas
+rechaçadas pelos indios?</p>
+
+<p>«Em 1733, segundo o testemunho de Casal, uma frota de 50 canôas, que
+representava pelo menos 400 homens, fôra inteiramente destruida pelos
+gentios. De uma bandeira composta de 300 pessoas, que em 1725 saía de S.
+Paulo, bem provida de tudo, só haviam escapado dois brancos e tres negros. De
+outras expedições numerosas não houve uma só que voltasse.»</p>
+
+<p>São demasiadamente caricatas as desculpas de alguns escriptores a favor
+dos indios da America.</p>
+
+<p>Concordamos que não sejam muito evangelicas aquellas phrases de Nobrega e
+Anchieta; porém devemos notar que similhantes idéas nunca foram seguidas
+pelos primeiros missionarios. Depois de tantas fadigas era justo que fizessem
+as suas queixas contra o indomavel gentio. Taes queixas tinha de mau uma
+cousa só: o aproveitarem-se d'ellas os maus padres, que no futuro haviam de
+auctorisar os abusos que alguns escriptores lamentam.</p>
+
+<p>E nos principios do seculo XVII, que os jesuitas, com razão, podem ser
+accusados de escravisarem os indios.</p>
+
+<p>No meado do seculo XVIII eram elles, por assim dizer, os principaes
+senhores das vastissimas regiões brazileiras. O governo da metropole tinha
+sido até então impotente contra a força dos sectarios de Loyola.</p>
+
+<p>A provisão de 12 de setembro de 1663, que retirava aos jesuitas a
+jurisdicção temporal, que, como diz o sr. Mendes Leal, fôra illudida pela
+poderosa influencia do padre Vieira, mostra até certo ponto a boa vontade do
+governo da metropole em concorrer para a prosperidade do Brazil. A creação de
+companhias colonisadoras mostra tambem os seus louvaveis esforços.</p>
+
+<p>Essas companhias foram guerreadas pelos <i>santos</i> varões (seculo
+XVII).</p>
+
+<p>Vejamos como é que a respeito dos novos actos do<span class="pagenum"><a
+id="pag_94" name="pag_94">[94]</a></span> governo procediam os descendentes
+de Nobrega e Anchieta:</p>
+
+<p>«Uma das manifestações em que mais significativamente se patenteou o
+espirito e intuitos da companhia de Jesus, diz o sr. Mendes Leal, foi a
+guerra que do pulpito moveu contra as companhias commerciaes, que o ministro
+por este tempo fundava e protegia a fim de desenvolver a natural riqueza do
+paiz. Um jesuita, o padre Ballester, para affastar os povos de concorrerem a
+estas uteis associações e emprezas, vociferava:&mdash;<i>que todos os que
+entrassem n'essas companhias não estariam com a de Christo</i>.»</p>
+
+<p>Que remedio havia de dar o governo a este grande mal, que entorpecia a
+marcha progressiva do Brazil? Expulsar os jesuitas. E seria facil expulsal-os
+d'um estado que mais parecia dominio da companhia do que de Portugal?</p>
+
+<p>Era preciso preparar as cousas para d'ahi a quasi um seculo se realisar
+essa medida salutar.</p>
+
+<p>«... As consequencias d'essa expulsão, refere ainda o referido escriptor
+portuguez, foram iminentemente favoraveis e proveitosas aos povos.»</p>
+
+<p>E effectivamente, póde-se dizer, sem medo de errar, que desde então para
+cá (1759), é que começou a florescer o Brazil.</p>
+
+<p>As idéas liberaes proclamadas pela França, foram pouco a pouco fazendo
+echo nos differentes povos da Europa; e Portugal, um dos paizes mais livres,
+sendo um dos primeiros a tomar-lhe o exemplo, teria feito hoje dos seus
+antigos dominios brazileiros uma nação essencialmente liberal.</p>
+
+<p>Não o quiz assim o povo que se dizia escravisado; e Portugal, que em 1820
+tinha contribuido para tornar brilhante uma das paginas da sua historia,
+entendeu pouco tempo depois que não devia tolher a vontade d'esse<span
+class="pagenum"><a id="pag_95" name="pag_95">[95]</a></span> povo, quando se
+lhe apresentava em procura da carta de alforria.</p>
+
+<p>O que tem feito o Brazil desde então para cá?</p>
+
+<p>Promulgou leis protectoras á emigração?</p>
+
+<p>Baniu os jesuitas, que o marquez de Pombal, por inimigos do progresso da
+patria, expulsára de todos os dominios de Portugal?</p>
+
+<p>Não: que o diga o movimento <i>quebra-kilos</i> de Pernambuco, em 1874.</p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>N'um dos artigos antecedentes assignalámos, com respeito á vida dos
+colonos, as seguintes palavras do sr. Augusto de Carvalho:</p>
+
+<p>«... E porque estranhavam os rigores dum clima tropical que os extenuava
+nos rudes trabalhos da lavoura» etc.</p>
+
+<p>O illustre litterato refere-se ao Brazil; o que nos leva a perguntar, se
+um paiz, cujos <i>rigores d'um clima tropical</i>, onde os colonos ficam
+<i>extenuados</i> pelos <i>rudes trabalhos da lavoura</i>, póde ou deve
+agradar aos trabalhadores europeus? e se esta deverá ser a <i>terra da
+promissão</i>, onde, para esses trabalhadores, se possa realisar a
+<i>promessa de Christo de&mdash;cento por um&mdash;</i>?</p>
+
+<p>Mais adiante provaremos com documentos irrefutaveis, se não se acha já
+sufficientemente demonstrado, que semelhante paiz não enriquece os
+trabalhadores europeus, talvez que pela circumstancia apontada pelo sr.
+Carvalho, dos rigores climatericos.</p>
+
+<p>Convém entretanto tornar bem patentes as seguintes palavras do sr. Mendes
+Leal, que não deve ser suspeito ao sr. Augusto de Carvalho, visto que se
+escuda a uma carta do illustre escriptor, como se escuda a outras de muitos
+portuguezes, que em seus escriptos têem combatido a emigração para o
+Brazil.<span class="pagenum"><a id="pag_96" name="pag_96">[96]</a></span></p>
+
+<p>O auctor dos <i>Bandeirantes</i> refere-se á magestade do vasto imperio, e
+quiçá ao seu mortifero clima. São estas as palavras que elle collocou na
+bôcca de um dos heroes da chronica a que alludimos:</p>
+
+<p>«... Solemne é este silencio, magestosa a solidão, certamente. Acres
+perfumes rescendem nos ares, o ermo convida á meditação, ha n'este conjuncto
+harmonia e grandeza, concedo. Mas se tudo examinamos de perto, o que achamos?
+No fundo limoso d'essas aguas espelhentas esconde-se talvez a sucuriuba,
+espreitando o inexperiente que se aproxima sem cautela, para o ennovellar de
+subito nas roscas monstruosas! Essas moutas esmaltadas são ninhos de reptis
+mortiferos! Esses aromas inebriantes vêem carregados de emanações
+pestilentas! D'essa limpida superficie exhalam-se as febres implacaveis!...
+Não, o homem que realmente quer avantajar-se e avassallar o vulgo... o homem
+que nasceu para dominar homens!... nunca se ha de captivar da primeira
+impressão. Se é tão raro que nos não transvie o coração, e não nos enganem os
+sentidos!»</p>
+
+<p>Os aromas inebriantes dos seus jasmins e as pennas multicôres das suas
+aráras, pódem, de longe, convidar o poeta a fazer estrophes: porém, lá
+dentro, no sertão, ou mesmo no litoral, só em boas <i>chácaras</i>, e, ainda
+assim... havendo grande necessidade de fazer versos!</p>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<p>Um pouco mais adiante, a paginas 45 do livro que o sr. Augusto de Carvalho
+tão inconscientemente transformára em historia, lêmos as seguintes palavras,
+dignas dos mais severos reparos:</p>
+
+<p>«No choque entre o Brazil e a Hollanda vemos ao mesmo tempo, a par de
+muitos rasgos de heroismo portuguez,<span class="pagenum"><a id="pag_97"
+name="pag_97">[97]</a></span> o valor brazileiro recebendo nas insignes
+batalhas das Tabocas e dos Guarápes, o baptismo de fogo, a sagração da
+gloria. Os feitos guerreiros que exordiaram os fastos militares do imperio,
+se não deslumbram, egualam os mais illustres que exalçam a historia da mãe
+patria. Vidal de Negreiros, Philippe Camarão e Henrique Dias exemplos são, e
+bem claros, de que, em peitos brazileiros, o patriotismo e a honra pódem
+operar tambem prodigios de civismo e heroicidade.»</p>
+
+<p>A paginas 56:</p>
+
+<p>«A seu lado (ao lado do padre Vieira, que <i>nem sempre fôra isempto de
+interesse</i>) depara-se-nos egualmente, entrando portas a dentro da
+historia, com a fronte pejada de louros, e a consciencia illuminada de
+virtude e de santo desinteresse (sic), o insigne brazileiro André Vidal de
+Negreiros, por ventura o mais strenuo mantenedor da liberdade da raça
+americana.»</p>
+
+<p>A paginas 57:</p>
+
+<p>«Vidal tambem não escapou á vingança d'aquelles scelerados (dos jesuitas!)
+Tantas intrigas lhe urdiram no reino, que não tardou em ser demittido do
+cargo de governador.»</p>
+
+<p>Desculpe-nos o leitor estas transcripções; mas assim é preciso, para fazer
+triumphar a verdade, e apontar as contradicções do sr. Augusto de Carvalho,
+quando diz, que <i>confessava-se Vieira obrigado a Vidal pelo auxilio que lhe
+déra nas suas missões</i>, etc.</p>
+
+<p>Abramos o livro da verdadeira historia, justamente no logar onde
+historiadores conscienciosos nos apresentam as memoraveis batalhas das
+Tabocas e dos Guararápes.</p>
+
+<p>A paz ajustada entre o governo de D. João IV e a republica da Hollanda,
+depois da independencia de Portugal, levaram os patriotas portuguezes,
+residentes em<span class="pagenum"><a id="pag_98"
+name="pag_98">[98]</a></span> Pernambuco, a começar as hostilidades contra os
+hollandezes, em 1643.</p>
+
+<p>Foi n'esta época que o insigne portuguez, João Fernandes Vieira, tendo
+preparado o movimento com o seu genio e recursos, intendeu dever começar a
+guerra contra os inimigos da sua patria. Para isso precisava elle de braços
+amigos, que o ajudassem na sua gloriosa empreza. E não lhe faltavam elles,
+porque a população de Pernambuco estava cançada dos vexames do novo governo,
+que tinha substituido a paternal administração do principe Nassau.</p>
+
+<p>Fernandes Vieira participa esta resolução ao governador geral do Brazil,
+Antonio Telles da Silva, que incontinente lhe manda André Vidal de Negreiros,
+com ordem de cessar as hostilidades contra os hollandezes.</p>
+
+<p>Mas a influencia de Fernandes Vieira e o seu tacto politico destroem a
+frouxidão do governador e do seu interprete Negreiros.</p>
+
+<p>Este volta á Bahia a informar ao governador do occorrido. Então Vieira,
+sem mais ajuda do que os seus amigos de Pernambuco, offerece combate aos
+hollandezes no monte das Tabocas.</p>
+
+<p>Á primeira victoria, por elle alcançada em 1644, não assistem Camarão,
+Henrique Dias e Negreiros.</p>
+
+<p>Retratemos aqui, a leves traços, estes trez vultos:</p>
+
+<p>D. Antonio Filippe Camarão, indio convertido e fanatisado pelos jesuitas.
+Este homem era o terror dos indigenas; não póde, portanto, ser o symbolo da
+liberdade americana. Trabalhava a favor dos dominadores, e os indios que o
+seguiam, tão fanaticos como seu chefe, morriam a favor de qualquer causa, com
+os olhos nos <i>bentinhos</i> que lhes pendiam do pescoço.</p>
+
+<p>Henrique Dias, chefe dos pretos, e como elles, representante da raça
+africana. Trabalhava a favor dos portuguezes, seus dominadores. Não era
+tambem o motor da liberdade americana.<span class="pagenum"><a id="pag_99"
+name="pag_99">[99]</a></span></p>
+
+<p>André Vidal de Negreiros, natural da Parahyba, não póde ser biographado
+n'este logar, para não interrompermos as façanhas contra os hollandezes, nos
+montes denominados Guararápes.</p>
+
+<p>Fazem parte d'esta gloriosa batalha o portuguez João Fernandes Vieira,
+verdadeiro heroe da empreza, na opinião dos mais abalisados escriptores; e
+como auxiliares, Francisco Barreto de Menezes, portuguez; André Vidal de
+Negreiros, Filippe Camarão, Henrique Dias, e outros.</p>
+
+<p>Henrique Dias foi ferido n'esta batalha, de que morreu. Este como seu
+companheiro Camarão foram arrastados á guerra, sem o mais pequeno interesse
+politico.</p>
+
+<p>Eram felizes; porque sendo valentes, lhes fallecia a ambição que tanto
+assignalou Negreiros.</p>
+
+<p>Demoremo-nos um pouco perante este personagem.</p>
+
+<p>Depois do Fernandes Vieira ter realisado o seu belo sonho, apoz uma guerra
+de nove annos, parece que devia ambicionar qualquer recompensa; mas tal não
+succedeu. Vieira só tinha em mente a liberdade da sua querida patria e dos
+territorios conquistados por portuguezes. Nascera na ilha da Madeira, ao
+tempo em que eramos dominados pelos castelhanos. No berço aprendera elle a
+pronunciar a sublime phrase de&mdash;morte ou liberdade&mdash;; e refugiara-se mais
+tarde no Brazil, onde não se fazia sentir tanto o abominavel dominio de
+Castella. Foi em Pernambuco, que a sua nobre alma se engrandeceu, á vista dos
+novos dominadores enviados da Hollanda. Não podia elle perceber, como é que
+devia desobedecer á sua consciencia de portuguez, para, ao mesmo tempo, dar
+gasalho ás ordens de Hespanha e Hollanda: por que essas ordens confundiam-se,
+e em logar de auxiliarem aquella parte da America estancavam-lhe a
+prosperidade. Por isso poz termo ás contradicções politicas, salvando
+Pernambuco.<span class="pagenum"><a id="pag_100"
+name="pag_100">[100]</a></span></p>
+
+<p>O seu culto era a liberdade; por ella faria tudo, e por ella despresaria
+as recompensas mundanas, depois da gloria.</p>
+
+<p>Recusára vir a Lisboa dar a nova das victorias para que elle tanto
+contribuira. É que receava as offertas do governo da metropole, offertas que,
+sem resultado, o foram tentar no seu retiro.</p>
+
+<p>Não comprehendia Fernandes Vieira que fosse facil alliar o interesse
+mundano, que seduz muitos generaes, á independencia do seu caracter
+desinteressado. A sua maior satisfação era expulsar os hollandezes.
+Conseguiu-o, nada mais desejava.</p>
+
+<p>Vidal de Negreiros não tinha d'estes escrupulos; por isso se encarregou de
+vir a Lisboa, onde, com a influencia dos jesuitas, obteve mais tarde o
+governo de Pernambuco.</p>
+
+<p>É alli que o vamos encontrar, desobedecendo ás ordens do governador geral,
+commettendo violencias contra os seus administrados, negando justiça a uns,
+desterrando e prendendo a outros.</p>
+
+<p>Chamado por isso á Bahia, onde temia ser condemnado, confessa-se
+arrependido da desobediencia e dos vexames que havia imposto aos povos, que
+ajudára a libertar do jugo dos hollandezes.</p>
+
+<p>A desobediencia e a desordem continuaram; eis a causa da sua demissão.</p>
+
+<p>Se André Vidal de Negreiros trabalhava pela liberdade americana, como diz
+o sr. Augusto de Carvalho, para que combatia elle os indigenas, colligados
+com os hollandezes, nas differentes batalhas dadas em Pernambuco?</p>
+
+<p>Se elle foi um dos primeiros apostollos d'essa liberdade, para que acceita
+cargos publicos das mãos do governo portuguez.</p>
+
+<p>Os jesuitas são accusados pelo sr. Carvalho, de escravisarem e de
+exterminarem os indios, no que estamos<span class="pagenum"><a id="pag_101"
+name="pag_101">[101]</a></span> completamente de accôrdo, até ao seculo XVII;
+pois bem, como é que sendo Vidal de Negreiros <i>um auxiliar das missões
+jesuiticas</i>, como attesta o padre Antonio Vieira, nos vem dizer, que esse
+mesmo Negreiros fôra <i>o mais strenuo mantenedor da liberdade da raça
+americana</i>?!</p>
+
+<p>Eis aqui uma contradicção digna de ser recompensada com uma penna de
+ouro!</p>
+
+<p>Finalmente, se Negreiros era o mantenedor d'essa liberdade, para que
+acceitou o cargo de governador de Angola? Não seria mais vantajoso, para o
+bom exito da sua causa, retirar-se á vida privada, e preparar no sertão, como
+fizera Fernandes Vieira, com respeito aos hollandezes, uma conjuração
+tendente a libertar a America do jugo estrangeiro?</p>
+
+<p>Não fez isto, porque Negreiros era ambicioso, e aos ambiciosos não é
+permittido <i>entrar portas a dentro da historia com a fronte pejada de
+louros</i>.<span class="pagenum"><a id="pag_102"
+name="pag_102">[102]</a></span></p>
+
+<h1>CAPITULO IV</h1>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0040001">A pastoral do bispo de Braga e a emigração. A
+Beneficente e a Caixa de Soccorros de D. Pedro V. Prescripções hygienicas.
+Considerações do advogado do consulado no Rio de Janeiro. A commissão da
+emigração e os raciocinios estramboticos do auctor do «Brazil» a respeito dos
+crimes em Portugal. Os crimes no Brazil. Os nossos raciocinios. Affluencia de
+capitaes do Brazil nas praças portuguezas.</a></div>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Mereceram-nos especial attenção alguns pontos contradictorios insertos na
+parte quarta do livro o <i>Brazil</i>, e que julgámos não dever deixar passar
+sem reparo.</p>
+
+<p>Pretendendo o seu auctor apresentar-se como inimigo da emigração
+clandestina, não poucas vezes guerreia aquelles que a combatem.</p>
+
+<p>Está n'estes casos o reparo feito á pastoral do bispo de Braga.</p>
+
+<p>Esse documento precioso, em que bem se patenteiam os vastos conhecimentos
+do seu auctor sobre o resultado da emigração de portugueses para o Brazil,
+devêra ter passado desapercebido ao sr. A. Carvalho, não só para interesse do
+imperio, mas porque a analyse ridicula que lhe faz, dá mais valor, se é
+possivel, ás asserções no mesmo contidas.</p>
+
+<p>No documento referido diz-se a verdade, que o sr. Carvalho esconde, sobre
+a situação do trabalhador portuguez<span class="pagenum"><a id="pag_103"
+name="pag_103">[103]</a></span> no Brazil; e não vemos contradicção no
+seguinte trecho:</p>
+
+<p>«Seduzidos estes mancebos pelas fallazes esperanças, que arteiros e
+assalariados engajadores lhes sabem incutir, pintando-lhes aleivosamente sua
+independencia e colossal fortuna, que em pouco tempo pódem conseguir,
+empregando seus braços em trabalhos agricolas» etc.</p>
+
+<p>N'este, tampouco:</p>
+
+<p>«... pois que sempre houve engajadores, e ambição de melhoramento de
+fortuna, que, com quanto imaginaria e fallivel, não desvia os emigrantes dos
+gravissimos perigos» etc.</p>
+
+<p>Ainda n'este:</p>
+
+<p>«Se alguns d'estes (emigrantes) têem a fortuna de não encontrar sua
+sepultura n'aquellas mortiferas paragens, e pódem voltar ao seu paiz, de
+ordinario vêem mais pobres do que foram, e com suas saudes perdidas,
+perpetuamente inuteis e pesados á patria!»</p>
+
+<p>Nem mesmo combinado com o seguinte, aonde parece ter visto a
+contradicção:</p>
+
+<p>«E com quanto hajam <i>alguns conseguido alguma pequena fortuna</i>, não
+equivale nem compensa <i>a perda de sua saude, nem o sacrificio, e improbo
+trabalho</i>, que os proprios indigenas não podem supportar
+constantemente».</p>
+
+<p>Referia-se ao trabalhador, quando o illustre prelado fallava assim.</p>
+
+<p>Mas se lhe juntarmos o seguinte:</p>
+
+<p>«E com quanto muitos portuguezes, bafejados pela fortuna, hajam elevado
+seus cabedaes a maior ou menor escalla» etc.; não acharemos ainda
+contradicção, se completarmos a transcripção do periodo, que é do theor
+seguinte: «... <i>não é pelo emprego physico de seus braços em trabalhos
+agricolas</i>» etc., que o auctor do <i>Brazil</i> cavilosamente
+escondeu.<span class="pagenum"><a id="pag_104"
+name="pag_104">[104]</a></span></p>
+
+<p>O prelado bracarense não combate a emigração de portuguezes que se
+destinam a outros misteres, no que, até certo ponto, estamos de accordo;
+porque esses emigrados estão mais ou menos no caso de conhecer as vantagens
+que lhes offerecem os paizes novos e faltos de gente habilitada para exercer
+o commercio, as artes e até mesmo a litteratura, sendo esta ultima asserção
+do bispo a que mais cahiu no goto ao sr. Augusto de Carvalho, como se se
+podesse pôr em duvida a sua veracidade.</p>
+
+<p>Pretender chamar emigração expontanea a essa dos trabalhadores, que todos
+os dias saem das nossas terras, com destino ao Brazil, é negar a verdade que
+todo o historiador deve respeitar. E por isso mesmo que ella não é
+expontanea, nem mesmo quando exercida por portuguezes de maior edade, mas sem
+as luzes necessarias para conhecer as falsas illusões dos engajadores, é que
+nós a guerreamos, importando-se-nos pouco que este nosso procedimento tambem
+possa ser tachado de contradictorio.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>O auctor do livro o <i>Brazil</i>, ignora ou finge ignorar, que a maior
+parte dos portuguezes saidos de nossos portos, com destino ás terras de Santa
+Cruz, são alliciados com mentidas promessas e falsas illusões, incutidas por
+grande numero de especuladores, dos quaes, talvez sem o desejar parecer, o
+sr. Augusto de Carvalho seja o chefe.</p>
+
+<p>Já que chegámos a este ponto, permitta-nos que sejamos francos,
+dizendo-lhe que ha quem nos chame um pouco complacente por formularmos apenas
+uma hypothese sobre a melindrosa posição do sr. Carvalho.</p>
+
+<p>E, effectivamente, se o auctor da <i>moderna historia</i><span
+class="pagenum"><a id="pag_105" name="pag_105">[105]</a></span> do Brazil,
+não especula com a emigração, como se explica o seu procedimento de asseverar
+que o Brazil é manancial de riquezas para o trabalhador, quando documentos de
+maior valia nos dizem completamente o contrario?</p>
+
+<p>Vamos lançar mão da carta, escripta pelo presidente da <i>Caixa de
+Soccorros D. Pedro V</i>, dirigida ao consul geral de Portugal, no Rio de
+Janeiro, em 21 de julho de 1872.</p>
+
+<p>Este importantissimo documento, que o sr. Augusto de Carvalho
+<i>auctorisa</i> a paginas 283 do seu livro, e do qual se serviu transcrever
+alguns trechos, esquecendo os que não lhe faziam conta, não por os julgar
+menos auctorisados, porque então far-lhe-hia a necessaria critica, como
+fizera á pastoral, mas porque assim convinha á sua propaganda, diz mais o
+seguinte, que muito convém ser lido pelos admiradores do historiador
+brazileiro:</p>
+
+<p>«Descripto como fica o destino d'esta população (de emigrantes
+portuguezes), passemos sem mais detença á observação dos resultados colhidos
+pelos emigrantes, vejamos como se tornaram em realidades os sonhos dourados
+d'aquella possante juventude, que em demanda de tão cubiçada riqueza
+abandonou a patria e a familia.</p>
+
+<p>«Cessam aqui os conceitos geraes pela observação e modo de ver de cada um;
+logar aos factos que se levantam com toda a magestado de principios que não
+podem discutir-se.</p>
+
+<p>«V. ex.ª, que é portuguez, disponha o seu animo para contemplar desgraças
+e miserias taes e tamanhas, que a imaginação espavorida mal comprehende
+<i>como ainda tão severa illusão não bastou para pôr barreira a esta corrente
+de suicidios</i>.</p>
+
+<p>«Nos sete annos decorridos, desde 1864 a 1871, a <i>Caixa de Soccorros de
+D. Pedro V</i>, pagou a passagem para voltarem á patria, a 2:304 portuguezes,
+e o numero<span class="pagenum"><a id="pag_106"
+name="pag_106">[106]</a></span> dos que tem soccorrido eleva-se a 9:000
+inscriptos até hoje.»</p>
+
+<p>Convém dizer antes de proseguirmos na transcripção de tão preciosa carta e
+baseando-nos em documentos officiaes, que o numero de portuguezes entrados no
+Rio de Janeiro desde 1861 até</p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Nº de portugueses que entraram no Brasil">
+ <tr>
+ <td>1872, é de</td>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right;">49:610</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>        Deduzindo:</td>
+ <td></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Portuguezes que voltaram á patria, soccorridos pela <em>Caixa de
+ Soccorros D. Pedro V</em></td>
+ <td style="text-align:right;">2:304</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Ditos soccorridos em casa pela mesma</td>
+ <td style="text-align:right;">9:000</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Ditos soccorridos pela <i>Sociedade Beneficente</i><br>
+ <i>Portugueza</i>, nos dez annos findos em 31 de<br>
+ dezembro de 1871</td>
+ <td style="text-align:right;">18:405</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Ditos soccorridos pela <i>Sociedade Beneficente</i><br>
+ <i>Portugueza</i> para voltarem á patria</td>
+ <td style="text-align:right;">284</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Viuvas socorridas, idem</td>
+ <td style="text-align:right;">146</td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Enterros pagos, idem</td>
+ <td style="text-align:right;"><span
+ style="text-align:right;">502</span></td>
+ <td style="text-align:right;">30:641</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td> </td>
+ <td style="text-align:right;">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</td>
+ <td style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">18:969</td>
+ </tr>
+</table>
+
+<p>Devemos notar que a estatistica fornecida pela direcção da <i>Caixa de
+Soccorros de D. Pedro V</i>, só se refere ao periodo de tempo decorrido desde
+1864 a 1871, faltando-nos portanto, esclarecimentos sobre os soccorros que
+pela mesma poderiam ser prestados nos tres annos de 1861 a 1863 inclusive,
+cuja média não podia ser inferior a 4:844, que deduzidos ainda dos 18:969,
+faz baixar a 14:124 o numero dos mais felizes!</p>
+
+<p>«Estes algarismos, ex.<sup>mo</sup> sr., continúa o presidente da
+associação, representam homens inteiramente abandonados,<span
+class="pagenum"><a id="pag_107" name="pag_107">[107]</a></span> sem mais
+recursos alguns e que morreriam ao desamparo se esta associação não fôra»
+etc., etc.</p>
+
+<p>«Nos hospitaes das irmandades, refere a este mesmo respeito o consul
+geral, numerosas n'esta côrte, são recebidos individuos de todas as
+nacionalidades, sendo irmãos. Sobresahe o grande e explendido hospital da
+Santa Casa da Misericordia <i>que acolhe indistinctamente os indigentes
+nacionaes ou estrangeiros</i>,» etc.</p>
+
+<p>«Não acontece porém o mesmo nas povoações do interior, e muito menos nas
+fazendas onde o colono está entregue ás eventualidades do tratamento do
+locatario, nas quaes, não raro, acontecem factos como o que descreve o nosso
+intelligente compatriota dr. Domingos de Almeida», etc.</p>
+
+<p>Ora é claro que os emigrados portuguezes, entrados no porto do Rio de
+Janeiro, não permanecem na côrte; parte d'elles vão para o interior. Assim é
+que, se podessemos obter uma estatistica exacta dos portuguezes soccorridos
+pelas irmandades e pelo hospital da misericordia de que nos falla o consul,
+bem como dos miseraveis abandonados no interior pelos senhores de engenho,
+aquelle numero de 14:124 portuguezes, que reputamos <i>felizes</i>, abaixaria
+ainda consideravelmente!</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>«Não é, senhores, sem perigos e riscos mui dignos de attenção, que os
+emigrantes livres conseguem as fortunas, que o Brazil encerra e guarda com
+avarento sobresalto.»</p>
+
+<p>A estas palavras da commissão de emigração, responde o auctor do
+<i>Brazil</i>:</p>
+
+<p>«Mas de que natureza são esses perigos?» etc.</p>
+
+<p>E prosegue:</p>
+
+<p>«Affirma o relatorio (da commissão de emigração) que<span
+class="pagenum"><a id="pag_108" name="pag_108">[108]</a></span> <i>a fortuna
+teima em se mostrar adversa aos emigrantes livres que não têem no Brazil
+parentes, amigos ou protecção</i> (o grifo é do escriptor citado). Isto é
+quasi desconhecer o sentimento acrisolado de patriotismo, que distingue e
+honra sobremaneira a colonia portugueza no Brazil.»</p>
+
+<p>De maneira que, os trabalhadores portuguezes, fiados nas palavras do
+auctor d'estas linhas, e no acrisolado patriotismo dos portuguezes,
+residentes no imperio, devem seguir o conselho, <i>tão salutar</i>, de deixar
+a patria em troca de um paiz que os colloca na contigencia de ir pedir
+esmolla ás sociedades de soccorros, instituidas por alguns portuguezes mais
+afortunados!</p>
+
+<p>Bem lembrado!</p>
+
+<p>«Entre os emigrantes que formam este grupo, falla a commissão de
+emigração, ha uma parte que, não tendo no Brazil parentes, amigos ou
+protecção, confiam ao acaso o seu destino. A estes, principalmente, a fortuna
+teima em se mostrar adversa. Não tendo uns robustez physica para trabalhos
+severos, sendo outros inhabeis para os misteres a que se dedicam, esses pagam
+em soffrimentos e miseria a ventura dos mais felizes.»</p>
+
+<p>O sr. Carvalho, que a tudo mostra ter que dizer, faz ao trecho citado as
+seguintes reflexões, que nada adiantam:</p>
+
+<p>«Sentimos que a illustrada commissão não investigasse bem a causa de taes
+infortunios (!)......»</p>
+
+<p>E com uma logica de menino de escola continúa:</p>
+
+<p>«... Ninguem por certo os poderá negar. Concorre para isso, umas vezes, a
+rapida mudança de clima, <i>sem cuidado pela differença de estação de um para
+outro paiz</i>;...»</p>
+
+<p>Que cuidados deve ter o colono trabalhador para evitar os males que podem
+advir-lhe por causa da rapida mudança do clima?<span class="pagenum"><a
+id="pag_109" name="pag_109">[109]</a></span></p>
+
+<p>«... outras, os excessos (?) dos recem-chegados, muitos dos quaes são, por
+via de regra, <i>pouco respeitadores de certas prescripções
+hygienicas</i>;...»</p>
+
+<p>Vejamos o que é preciso fazer o europeu recem-chegado ao Brazil, <i>para
+respeitar certas prescripções hygienicas</i>:</p>
+
+<p>Não deve expôr-se aos raios do sol; deve procurar boa alimentação,
+despresando nos primeiros tempos os fructos indigenas, e procurar ter boa
+habitação.</p>
+
+<p>Perguntamos agora, qual é o europeu, nas condições do colono contratado em
+Portugal, para trabalhar em terras brazileiras, que póde satisfazer ás taes
+prescripções hygienicas?</p>
+
+<p>Vamos provar que nenhum trabalhador que se destina á agricultura póde
+deixar de viver miseravelmente em terras brazileiras.</p>
+
+<p>Primeiro que tudo, o trabalhador não póde deixar de expôr-se aos raios
+solares; do contrario morrerá de fome, se não tiver contratado o seu serviço,
+como acontece a quasi todos os portuguezes; e n'este ultimo caso, será preso,
+e em conformidade da lei brazileira de 1837, obrigado a expôr-se ao sol para
+satisfazer aos compromissos que se impozera em seu contracto.</p>
+
+<p>O colono portuguez contractado para trabalhar no Brazil, a razão de 2$000
+réis fracos, diarios, o maximo, e dizemos o maximo porque já demonstramos que
+em Portugal nunca se fizeram contratos de locação de serviço tão favoraveis
+ao colono; não póde, com tão modica quantia obter boa alimentação, ainda que
+o colono não tivesse que satisfazer a outras obrigações, como são o pagamento
+da passagem e <i>mais despezas indispensaveis</i><a name="tex2html31"
+href="#foot936"><sup>[31]</sup></a> a quem tem de fazer uma longa viagem e
+estar auzente da patria por illimitado tempo.<span class="pagenum"><a
+id="pag_110" name="pag_110">[110]</a></span></p>
+
+<p>Ora, quem não tem meios para alimentar-se regularmente, não póde deixar de
+ter má habitação; não póde deixar de comer algumas fructas, no começo,
+nocivas á saude dos colonos; não póde, além d'isso, deixar de vestir mal; e,
+finalmente, de despresar <i>certas prescripções hygienicas</i>, que nunca
+foram desprezadas, em tempo, por quem escreve estas linhas, e que, não
+obstante, foi atacado da terrivel epidemia a <i>febre amarella</i>.</p>
+
+<p>E continúa o auctor do livro o <i>Brazil</i>, nos seus considerandos:</p>
+
+<p>«...... outras, em fim, a cega ambição de alguns infelizes, que sacrificam
+todos os commodos (já está demonstrado que não póde ter commodos o
+trabalhador do Brazil), saude, e não raro as proprias vidas (por falta de
+recursos), para mais depressa accumularem um peculiosinho, que, quando
+repatriados, (dolorosa desillusão!) não chega muitas vezes para occorrer ás
+despezas, feitas então com o fim de recuperarem a saude, que perderam
+fatalmente em trabalhos superiores ás suas forças!»</p>
+
+<p>Completamente de accordo com respeito a este ultimo trecho, que,
+satisfeitos, registramos; porque é mais uma contradicção do sr. Augusto de
+Carvalho.</p>
+
+<p>Do documento citado por este sr., vamos transcrever mais alguns trechos em
+abono das nossas palavras; e preferimos este documento a qualquer outro, por
+lhe ter prestado a sua authoridade.</p>
+
+<p>Só sentimos, ainda uma vez o dizemos, que tivesse deixado de o transcrever
+na integra, na tal historia:</p>
+
+<p>«As causas a que mais directamente pódem attribuir-se estes desastrosos
+effeitos, continua o presidente da <i>Caixa de Soccorros D. Pedro V</i>, são,
+em relação aos homens que se empregam em trabalhos rudes, a pessima
+alimentação, aggravada pelas exigencias do clima, sob o qual o europeu
+carece, para sustentar a sua força, <i>de superior e muito cuidado
+alimento</i>.<span class="pagenum"><a id="pag_111"
+name="pag_111">[111]</a></span></p>
+
+<p>«A humidade do solo, origem de sua fecundidade assombrosa, os rigores
+tropicaes exercem sobre o europeu influencia tal, <i>que todos os cuidados
+hygienicos são poucos para precaver-se contra similhantes males</i>.»</p>
+
+<p>Esta é que é a verdade, que o auctor do livro que analisamos escondeu, por
+não se achar com forças de repelir accusações tão bem fundamentadas.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Não é só o distincto presidente da <i>Caixa de Soccorros de D. Pedro
+V</i>, que se revolta contra a emigração de portuguezes trabalhadores.</p>
+
+<p>Eis o que a respeito d'estes communica o consul geral, residente na
+capital do Brazil, em seu relatorio de 30 de julho de 1872:</p>
+
+<p>«É raro o caso de adquirirem, <i>mesmo durante largos annos, meios
+pecuniarios, com que possam pagar as despezas do regresso á sua patria</i>...
+Todos esses individuos começam por estar desde logo onerados com a divida do
+transporte para este paiz, a qual com as addicções de despezas <i>contadas a
+arbitrio dos engajadores</i> eleva-se á somma de 120$000 a 150$000 réis. No
+tempo do cumprimento do contracto, os colonos, em vez de amortisarem essa
+divida, augmentam-a, em geral, e findo o referido tempo, que ordinariamente é
+de dois ou tres annos, devem 400$000 a 600$000 réis, <i>conta ainda feita a
+arbitrio exclusivo dos proprietarios</i>. Para a solução de semilhante onus,
+vêem-se forçados a renovar os contractos, <i>até que perdida toda a esperança
+de resgate, fogem, não obstante o risco que correm de serem presos e
+condemnados a trabalhos publicos, na fórma da legislação que rege a
+materia</i> (a lei de 1837)»</p>
+
+<p>Um outro portuguez, o dr. Domingos José Bernardino<span class="pagenum"><a
+id="pag_112" name="pag_112">[112]</a></span> de Almeida, advogado do
+consulado geral de Portugal, no Rio de Janeiro, cavalheiro muito proficiente
+na materia, diz na sua consulta, de 29 de julho de 1872:</p>
+
+<p>«Os portuguezes que aportam ao Brazil e não ficam nas grandes cidades, são
+engajados a bordo e contractados para as fazendas do interior. Vem a
+proposito citar a respeito dos engajados, a opinião do ex.<sup>mo</sup> sr.
+conselheiro Mendes Leal, no jornal <i>America</i>: A emigração assalariada
+presta-se facilmente a abusos revoltantes, e pela sua propria natureza é
+menos productiva. Só impreterivel necessidade a explica e desculpa. (S. ex.ª
+é favorável á emigração).»</p>
+
+<p>«Chama ao engajamento:&mdash;«Escravidão simulada ou hypocrisia de liberdade».
+<i>Ora realmente é o unico systema de colonisação de portuguezes
+praticado</i> até hoje, esse que difine o ex.<sup>mo</sup> conselheiro.</p>
+
+<p>«Como disse, em vez de realisarem o que almejam todos os que emigram para
+o paiz, isto é, serem proprietarios, <i>ao contrario os nossos compatriotas
+emigrantes vem substituir os escravos nas fazendas</i>!</p>
+
+<p>«Os contratos de locação de serviços são pela maior parte longos, nunca
+por menos de tres annos.</p>
+
+<p>«Ahi vivem como viviam os escravos, com elles trabalham, etc.</p>
+
+<p>«Ora nenhum europeu supporta o clima dos tropicos no serviço em que até
+hoje tem sido empregados os escravos, e <i>no imperio é esse o unico para que
+são engajados os nossos compatriotas</i>.</p>
+
+<p>«Citarei um exemplo que presenciei, e que é, pouco mais ou menos, o que
+<i>em geral</i> se passa.</p>
+
+<p>«Para uma fazenda (em que fui medico um anno, <i>onde apezar de toda a
+minha hygiene, contrahi infecção paludosa, que só me abandonou no fim de dez
+annos</i>, com a residencia em Buenos Ayres durante cinco mezes) em 1856,
+foram engajados 5 compatriotas nossos,<span class="pagenum"><a id="pag_113"
+name="pag_113">[113]</a></span> 4 homens e uma mulher, recem-chegados, todos
+maiores de 30 annos, <i>de organisação forte e sadios</i>.</p>
+
+<p>«<i>Comiam, dormiam e trabalhavam, como os escravos</i>, quero dizer,
+<i>tinham a sua tamina</i> (ração) <i>de carne secca, feijão e farinha, que
+eram obrigados a coser para comer na hora do almoço e do jantar</i> (uma hora
+para cada refeição!)</p>
+
+<p>«Senzalas (casas de residencia dos pretos) eram as habitações que
+constavam de um pequeno quarto não soalhado, com porta e janella, <i>tendo
+por cama uma esteira, e por mobilia uma pedra para se sentarem. Trabalhavam a
+par dos escravos, commandados pelo feitor, tambem escravo e armado do
+competente relho</i> (vergalho do castigo!) <i>trabalho que principiava ao
+romper d'alva e terminava ás nove horas da noite</i>, apenas com a
+interrupção das refeições (!) De dia cavavam na terra, de noite lançavam ou
+tiravam tijolo do forno. Apesar da sua robustez, como fossem transportados
+bruscamente para logar insalubre, antes de aclimados na estação calmosa,
+sujeitos a trabalho insano e longo (mais de quinze horas por dia!) com a
+alimentação má e peior casa para dormir, <i>ficaram em dois mezes e meio
+reduzidos a pelle e ossos, verdadeiras mumias, e morreriam se não
+fugissem</i>!</p>
+
+<p>«Este quadro fiel é <i>com pequenas modificações o que se passa no
+interior do paiz</i>.»</p>
+
+<p>Áquellas verdades e a estas da commissão de emigração, fundadas em
+documentos insuspeitos:&mdash;«Deprehende-se, pois, sob o aspecto da emigração,
+que não ha miseria nem falta de trabalho que a incite»&mdash;responde o sr. A. de
+Carvalho, com a sua peculiar ingenuidade:</p>
+
+<p>«Permitta-nos a illustrada commissão, que lhe façamos sentir que os factos
+protestam contra similhante conclusão. Na ultima leva dos degredados, cremos
+nós, em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados por<span
+class="pagenum"><a id="pag_114" name="pag_114">[114]</a></span> furtos,
+roubos e falsificações. E ainda, no mez de novembro ultimo (1873), de 40 que
+deram entrada no Limoeiro para seguirem o mesmo destino, 31 foram-n'o por
+crimes da mesma natureza.»</p>
+
+<p>E accrescenta:</p>
+
+<p>«Dar-se-ha que taes vicios estejam na indole do povo portuguez? Quem tal o
+asseverasse commetteria uma infamia.</p>
+
+<p>«De que procedem então esses delictos?</p>
+
+<p>«Procedem da miseria, procedem da falta de remuneração proporcional,
+convençam-se d'isto.»</p>
+
+<p>Agradecemos, em nome do povo portuguez, as <i>boas</i> intenções do auctor
+das linhas que deixamos transcriptas, com quanto nos vejamos obrigados a
+discordar das suas conclusões e a censurar o desproposito da antithese.</p>
+
+<p>Nem o povo portuguez póde ser accusado de indole preversa, nem se póde
+attribuir só á miseria e falta de trabalho os crimes commettidos, pelos 52
+condemnados, referidos acima.</p>
+
+<p>E é tão admissivel este principio, que os 40 condemnados excedentes, não
+só não provam a miseria do povo portuguez, como ainda a sua indole.</p>
+
+<p>A que attribuirá então o sr. Carvalho os crimes d'aquelles 40
+condemnados?</p>
+
+<p>Em toda a parte se commettem crimes de falsificações, furtos, e roubos, e,
+da averiguação a que se procede, vê-se que não fôra só a necessidade o
+principal motor do crime. Até podiamos, n'este sentido, apresentar uma
+estatistica, em que provariamos não ficar o Brazil atraz de qualquer outra
+nação. Com tudo, se attendessemos ao principio estabelecido pelo sr.
+Carvalho&mdash;de que a miseria é a principal causa que move os humanos aos crimes
+mencionados&mdash;o Brazil, aonde a riqueza anda aos pontapés, devia estar isento
+d'esta pecha.<span class="pagenum"><a id="pag_115"
+name="pag_115">[115]</a></span></p>
+
+<p>Mas não pára ainda aqui a philosophia estrambotica do advogado da
+emigração.</p>
+
+<p>Contra a voz unanime dos nossos consules e dos mais respeitaveis
+entendedores, exclama o sr. Augusto de Carvalho:</p>
+
+<p>«Acaso, por se haver morto com um tiro, em certo logar do Minho, um
+infeliz que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo d'aquella
+provincia seja deshumano?»</p>
+
+<p>Não percebemos a que proposito veio esta parabola, nem tampouco
+est'outra:</p>
+
+<p>«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes a um
+mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo crime de
+<i>sorrir-se e piscar os olhos</i> para o delegado Duarte de Vasconcellos,
+segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»</p>
+
+<p>Ou o sr. Carvalho anda de má fé no assumpto, e n'este caso seria bom que
+não tocasse na ferida, aberta por assassinos brazileiros, d'onde ainda não
+deixou de correr sangue portuguez, ou então não percebeu as palavras e o
+sentido de quem as dictou.</p>
+
+<p>O sr. Augusto de Carvalho devia ter notado que a commissão de emigração,
+ao fazer-se echo de tantas verdades enunciadas em documentos de muita valia,
+para informar sobre o assumpto da emigração, que tantos males ha produzido a
+Portugal, não fallou nas injustas decisões dos tribunaes brazileiros, quando
+julgam colonos portuguezes; e mesmo que fallasse, não podia o sr. Carvalho,
+para ser coherente, usar d'aquelle desforço, que, ainda assim, seria injusto,
+se attendesse ás circumstancias de que um portuguez tinha assassinado outro
+portuguez, e um tribunal, tambem portuguez, condemnado um filho de
+Portugal.</p>
+
+<p>Era futil a razão do assassinato? Completamente de accordo. Mas quem sabe
+se outra razão mais forte existiria entre os dois personagens d'aquelle
+drama? Por<span class="pagenum"><a id="pag_116"
+name="pag_116">[116]</a></span> causa de 20 réis, já ouvimos dizer que um
+homem tinha assassinado outro: comtudo, o motivo principal não fôra esse.
+Porém, nós não admittimos o assassinato mesmo por outros motivos mais
+poderosos, com o que não parece estar de accordo o sr. Carvalho, por isso que
+só o horrorisou o facto do minhoto!</p>
+
+<p>Em Portugal, as faltas de respeito para com as auctoridades são castigadas
+com um mez de prisão. É futil a razão. Antes isso do que assimilharem-se os
+nossos tribunaes aos do Brazil, aonde as mais das vezes a corrupção toma o
+logar da justiça, para condemnarem os desgraçados portuguezes.</p>
+
+<p>Felizes as nacionalidades que dão os exemplos de moralidade da primeira, e
+desgraçadas aquellas que, como a segunda, se transformam em alvo, aonde as
+settas do motejo vão cravar-se.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Sentimos que o historiador se desviasse para este campo, mas visto que a
+elle nos chamou, ha de acceitar-nos a replica leal, baseada em factos e não
+em hypotheses.</p>
+
+<p>Para provar que não é só nos paizes <i>cansados</i> que se commettem
+crimes que o sr. Augusto de Carvalho leva á conta de falta do trabalho e da
+miseria; e para que se não diga que baseamos em factos isolados as nossas
+considerações, vamos transcrever o seguinte importantissimo artigo do
+<i>Diario do Rio de Janeiro</i>, publicado em julho de 1877:</p>
+
+<p>«Parece que o desenvolvimento das nossas vias rapidas de communicação tem
+sido fatal, debaixo d'um ponto de vista, para as principaes povoações que o
+vapor vae collocando em convivencia quasi diaria com a nossa cidade.<span
+class="pagenum"><a id="pag_117" name="pag_117">[117]</a></span></p>
+
+<p>«A consequencia immediata do movimento produzido pela rapidez das
+communicações que vão esclarecendo as novas linhas ferreas, naturalmente ha
+de tornar mais intima a nossa convivencia com os habitantes das localidades
+que se vão approximando da metropole, proporcionando-lhes ensejo de
+coparticipar de todos os melhoramentos da civilisação, que até aqui só se
+concentravam na capital.</p>
+
+<p>«Infelizmente o caminho de ferro, embora movido por um dos grandes motores
+do progresso, não exclue dos seus beneficios, as industrias pouco
+civilisadoras, e na sua rapida carreira tudo transporta e a todos favorece.
+Mas as cidades que vão ficando em rapida communicação com a capital, teem de
+tornar-se um vasto campo de operações para o exercicio das numerosas
+industrias, para as quaes, o theatro de uma só cidade começava a ser pequeno
+e a impertinente vigilancia das auctoridades a tornar-se incommoda.</p>
+
+<p>«O que é para sentir é que sejam estes os primeiros elementos de
+<i>civilisação</i>, que tratam de aproveitar-se dos beneficios das vias
+ferreas, para irem levar o terror e o desassocego ás pacificas povoações até
+agora livres da sua malefica influencia.</p>
+
+<p>«Com effeito, as cidades da provincia de S. Paulo, e particularmente a sua
+capital, já estão n'este momento a braços com um dos perniciosos elementos
+para ali transmittidos pela via ferrea.</p>
+
+<p>«Os jornaes d'aquella procedencia já veem cheios de narrações, pintando as
+façanhas que ali teem praticado os membros da corporação dos meliantes, que,
+como dissemos, para ali enviára, por occasião das festas, uma respeitavel
+guarda de honra.</p>
+
+<p>«Devemos acreditar que n'ella foram incorporados socios de todas as
+profissões, desde o simples gatuno até ao mais ousado salteador e assassino,
+porque as suas façanhas em S. Paulo não se teem limitado a pequenas<span
+class="pagenum"><a id="pag_118" name="pag_118">[118]</a></span>
+escamoteações; teem assaltado a propriedade e os viajantes e até levado o seu
+arrojo ao ponto de arrombarem casas habitadas e intentarem lucta com os
+moradores para os espoliarem.</p>
+
+<p>«Para nós, que temos aqui sido testemunhas e victimas do arrojo d'estes
+malvados, apesar de toda a vigilancia da policia e dos recursos de defeza que
+a população de uma grande cidade póde oppôr, é facil de julgar qual não será
+a perigosa situação em que se acham os habitantes das localidades da
+provincia de S. Paulo, que elles teem procurado para campo das suas
+criminosas operações.</p>
+
+<p>«O que, porém, é de crer, é que o caso venha a assumir um aspecto sério,
+se não forem tomadas as mais promptas e energicas providencias, a fim de
+impedir que os bandidos procedam socegadamente na sua campanha
+exploradora.</p>
+
+<p>«Poderá bem acontecer que os habitantes se resolvam a fazer justiça por
+suas mãos, como tem succedido nos Estados-Unidos, e em tal caso, embora fosse
+isso talvez um castigo bem merecido para os criminosos, veriam estabelecida
+no imperio uma pratica repulsiva, cujas consequencias ninguem póde prevêr.</p>
+
+<p>Convém, pois, applicar remedio para evitar estes meios extremos.»</p>
+
+<p>Ainda sobre o mesmo assumpto diz o <i>Diario de S. Paulo</i>:</p>
+
+<p>«Os industriosos avantajam-se no modo de tirar o alheio.</p>
+
+<p>«Um individuo chegou-se á estação telegraphica da estrada de ferro
+ingleza, na Luz, e passou para Santos o seguinte telegramma:</p>
+
+<p>«De Antonio Pereira Arruda a Albino Medon.</p>
+
+<p>«Mande-me ámanhã (7 do corrente) sem falta, cinco saccos de assucar crú e
+duas barricas do refinado.</p>
+
+<p>«Pague o frete, e remetta para a estação da Luz, que eu estou
+esperando».<span class="pagenum"><a id="pag_119"
+name="pag_119">[119]</a></span></p>
+
+<p>«O pobre negociante, amigo do sr. Arruda, satisfez completamente o pedido
+e remetteu os generos, que foram entregues na estação ao tal Arruda, que não
+podia ser o amigo e correspondente.</p>
+
+<p>«Mais tarde, remettendo pelo correio ao seu amigo a nota dos generos e
+seus preços, teve em resposta que não lhe passára telegramma algum e nada lhe
+pedira, e que até residindo em Jundiahy não viera á capital, e que tinha sido
+victima de algum ladrão, sabedor de suas relações.</p>
+
+<p>«Ora eis ahi um meio facil de nos provermos do necessario.</p>
+
+<p>«Acautele-se, pois, o commercio contra as artimanhas e recursos dos finos
+larapios.</p>
+
+<p>«O sr. Albino levou tudo ao conhecimento da policia, mas o homem que se
+abasteceu de assucar <i>crú e refinado</i>, usa de capa preta, e será
+difficil ser conhecido. Esta gente escapa sempre da acção da auctoridade,
+<i>mesmo por ser grande o seu numero</i>».</p>
+
+<p>Note-se que a companhia de ratoneiros, estabelecera para theatro de suas
+façanhas a riquissima provincia de S. Paulo, onde o clima é mais supportavel,
+e onde com mais facilidade os taes sugeitos poderiam encontrar trabalho, se
+fosse o trabalho que elles procurassem.</p>
+
+<p>E não se diga que a miseria no Brazil é já a consequencia das nossas
+previsões&mdash;a decadencia do imperio. Não, porque em 1860, o nosso embaixador,
+o sr. conde de Thomar, assim pintava <i>a terra promettida</i>:</p>
+
+<p>«Apresentam-se diariamente á porta da legação de sua magestade um grande
+numero de portuguezes infelizes, pedindo uns esmola, outros passagem para
+Portugal e alguns mesmo para Angola. Pertence a maxima parte d'estes
+infelizes a essa classe de illudidos com as fallazes promessas de grandes
+fortunas, apenas chegados a este imperio.<span class="pagenum"><a
+id="pag_120" name="pag_120">[120]</a></span></p>
+
+<p>«É sabido que os europeus em geral soffrem nos primeiros mezes depois do
+seu desembarque n'estas paragens, e não soffre a cobiça dos esploradores
+d'aquellas victimas, que estejam em curativo e descanso durante as suas
+molestias, antes geralmente se exige, que elles prestem em qualquer estado de
+saude os serviços a que se obrigaram.</p>
+
+<p>«Resulta d'este facto, como é natural, o aggravamento das molestias e
+confesso que por mais de uma vez se me tem coberto o coração de luto, vendo o
+estado desgraçado de alguns dos meus compatriotas.</p>
+
+<p>«Soccorro a alguns com a esmola, que comportam as minhas pequenas forças
+financeiras, mas declaro a v. ex.ª, que este estado é demasiado violento para
+um representante de sua magestade, porque ou ha de já por humanidade, já pelo
+cargo que occupa, dar esmola a estes infelizes, e terá por isso uma grande
+diminuição nos seus vencimentos, a qual não comportam as despezas diarias a
+que é obrigado, ou ha de recusal-a, e será infallivel resultado: primeiro, a
+maior desgraça e mesmo a fome d'esses desgraçados subditos de sua magestade;
+segundo: o descredito e desconsideração do seu representante.</p>
+
+<p>«No meio de muitos desgostos, de soffrimentos e difficuldades, a que se vê
+exposto o ministro de Portugal n'esta côrte, devo confessar a v. ex.ª, que
+nada produz em mim uma sensação tão forte, como o espectaculo que se
+representa diariamente e sem a menor interrupção á porta da legação de sua
+magestade.</p>
+
+<p>«São bem ardentes os desejos que me animam para valer a tantos infelizes,
+mas é superior a difficuldade em que me acho de remediar tão grande
+desgraça.</p>
+
+<p>«Não me atrevo a propor meio nenhum ao governo de sua magestade, mas
+reclamo uma providencia para fazer desapparecer dos olhos do publico este
+estado lamentoso, principalmente em um paiz que por ter sido<span
+class="pagenum"><a id="pag_121" name="pag_121">[121]</a></span> nossa
+colonia, não deve presenciar tão grandes miserias e desgraças,» etc.</p>
+
+<p>Mas não localisemos os crimes e miseria. Olhemos para outras provincias
+brazileiras.</p>
+
+<p>Um importantissimo jornal do imperio, o <i>Cearense</i>, trata em seu
+artigo de fundo, de 19 de agosto de 1875, do assumpto importantissimo
+<i>Segurança publica</i>.</p>
+
+<p>As suas palavras e a estatistica dos crimes, que no mesmo logar nos
+apresenta, horrorisam-nos.</p>
+
+<p>Para que nos não acusem de exaggerados, vamos copiar alguns trechos do
+alludido artigo da illustrada folha do Ceará.</p>
+
+<p>Oxalá aproveite a lição aos nossos compatriotas, que veem no imperio um
+manancial de riquezas e de felicidades futuras, e ao philosopho sr. A.
+Carvalho para não assentar proposições temerarias e inconsequentes.</p>
+
+<p>Falla o <i>Cearense</i>:</p>
+
+<p>«Não é licito duvidar mais do estado de anarchia moral, que substituiu ao
+regimen pacifico da legalidade por toda a estação do imperio, maxime nas
+provincias do norte, destinguindo-se ainda d'estas a do Ceará.</p>
+
+<p>«Contrista lançar-se os olhos sobre a estatistica criminal d'esta
+provincia, e possuir-se a certeza de que os costumes, em vez de seguirem o
+curso regular e bemfazejo da civilisação, vão-se encaminhando para o passado
+sombrio e desolador dos tempos barbaros da colonia (?).</p>
+
+<p>«Esse contraste entre o material, que progride, e a moral que recua, tem
+dado que pensar aos que se interessam pela prosperidade e melhoramento da
+patria com tal pertinacia, que ultimamente chegou a despertar a attenção
+distraida e indolente do poder governativo.</p>
+
+<p>«Na impotencia de prestar melhor e mais efficaz serviço á causa publica,
+tem a opposição se limitado a apontar os males e seus motivos, denunciando os
+criminosos<span class="pagenum"><a id="pag_122"
+name="pag_122">[122]</a></span> á acção da justiça, e a negligencia policial
+á acção da opinião do paiz.</p>
+
+<p>«Isto, que seria tomado por outros governos como serviço e dedicação ao
+interesse geral, tem valido apenas ao partido proscripto a pecha de
+antipatriotico, porque denuncia o crime com suas côres vivas e os despeitos e
+odios dos potentados da situação.</p>
+
+<p>«Felizmente parece que a verdade, a evidencia dos factos, o poder dos
+acontecimentos começam a pesar dolorosamente sobre a consciencia do governo,
+obrigando-o a volver os olhos sobre o estado desolador de quasi todas as
+provincias em materia de segurança publica e individual.» etc.</p>
+
+<p>Depois de mais algumas reflexões.</p>
+
+<p>«E para avaliar-se o incremento, que tem tido n'esses ultimos tempos a
+estatistica criminal no Ceará, transcrevemos para estas columnas uma pagina
+de sangue de nossos annaes.</p>
+
+<p>«Desde o dia 13 de dezembro de 1874 até hoje... a imprensa registrou os
+seguintes attentados perpetrados na provincia:</p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Crimes perpetrados">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Assassinatos</td>
+ <td style="text-align:right;">77</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Tentativas</td>
+ <td style="text-align:right;">23</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Infantecidios</td>
+ <td style="text-align:right;">3</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Ferimentos</td>
+ <td style="text-align:right;">148</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Offensas physicas</td>
+ <td style="text-align:right;">26</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Aborto</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Estupro</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Polygamia</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Furtos</td>
+ <td style="text-align:right;">18</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Fugas de presos</td>
+ <td style="text-align:right;">19</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td> </td>
+ <td style="text-align:right;border-top: solid 1px #000000;">317</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>«Por esse quadro vê-se que durante 252 dias commetteram-se<span
+class="pagenum"><a id="pag_123" name="pag_123">[123]</a></span> 317 crimes, o
+que dá mais de um attentado para cada dia!» etc.</p>
+
+<p>Effectivamente, é assombroso. Mas antes de proseguirmos no assumpto,
+cumpre dizer duas palavras ao illustrado articulista, em resposta á sua
+proposição:&mdash;<i>de que os costumes vão-se encaminhando para o passado sombrio
+e desolador dos tempos barbaros da colonia</i>. Acreditamos sinceramente que
+este trecho do seu artigo não leva em mira offender o regimen adiministrativo
+do governo portuguez, quando o Brazil era nossa colonia, regimen mau, de que
+nem todos os povos estavam isentos n'aquella época; mas que, ainda assim, já
+mais dará logar a ser julgado com justiça, como acabam de ser julgados os
+actos do governo brazileiro, por um jornal liberal, n'uma época tão adiantada
+do seculo XIX. Não será facil ao distincto jornalista apresentar-nos uma
+estatistica tão monstruosa de crimes praticados no Ceará, ou em outra
+qualquer cidade do imperio no longo periodo de 325 annos, que alli dominaram
+os portuguezes. A Cesar o que é de Cesar.</p>
+
+<p>A referida folha diz ainda o seguinte:</p>
+
+<p>«Não reputamos sómente um triumpho para a imprensa liberal as ultimas
+circulares do ministro da justiça sobre este assumpto; pensamos que ha ahí
+alguma coisa mais que o desejo de dar uma satisfação ás reclamações dos
+proscriptos, por que ha a tardia consciencia d'esses cataclismos moraes, que
+assolam a sociedade brazileira tão desapiedada e cruelmente.»</p>
+
+<p>Julgamos do nosso dever transcrever na integra uma das circulares a que se
+refere o articulista, porque esse documento comprova a verdade das suas
+allegações a respeito da criminalidade no Brazil, e corrobora as nossas
+affirmações contra a sua civilisação.</p>
+
+<p>«O augmento dos crimes, diz o ministro da justiça, especialmente contra a
+segurança individual, vae assumindo proporções elevadas. É urgente
+providenciar sobre<span class="pagenum"><a id="pag_124"
+name="pag_124">[124]</a></span> este estado de coisas, cujo melhoramento
+depende em grande parte da nomeação das auctoridades policiaes, promotores
+publicos e supplentes dos juizes municipaes. Para taes cargos convém que v.
+ex.ª escolha as pessoas mais capazes, por seu merecimento e prestigio de
+captarem a confiança publica e manterem o respeito á lei. Na prevenção e
+repressão dos crimes deve haver a maior diligencia, dando v. ex.ª ás
+auctoridades a força necessaria, e não tolerando qualquer abuso ou excesso
+que commetterem.»</p>
+
+<p>Este documento encontrámol-o no <i>Jornal do Pará</i>, do dia 6 de agosto
+de 1875, a proposito do qual faz as seguintes considerações uma folha d'esta
+provincia:<a name="tex2html32" href="#foot4277"><sup>[32]</sup></a></p>
+
+<p>«Em nenhuma provincia do imperio talvez se tenha esquecido tanto que a
+escolha das auctoridades policiaes deve recair nas pessoas mais capazes por
+seu merecimento e prestigio, do que na do Pará.</p>
+
+<p>«Todos os dias nos vemos obrigados a registrar a nomeação de individuos
+analphabetos, turbulentos, mal intencionados e até réus de policia para os
+cargos policiaes.</p>
+
+<p>«Aqui mesmo na capital tem-se lançado mão de homens estupidos, de
+jogadores, de verdadeiros valdevinos para occupar os logares da policia, como
+se assim quizessem escarnecer dos bons costumes e da moralidade publica.</p>
+
+<p>«Pelo interior isso então é um Deus nos acuda.</p>
+
+<p>«Logares ha, onde occupam as subdelegacias os individuos mais ruins e
+despreziveis.</p>
+
+<p>«Não ha muito tempo um supplente de subdelegado acompanhou por muitas
+noites a um assassino na embuscada que fazia á sua victima, que mais tarde
+caiu traspassada por uma bala!</p>
+
+<p>«Os assassinos dos dois infelizes negociantes das ilhas<span
+class="pagenum"><a id="pag_125" name="pag_125">[125]</a></span> de Breves,
+(Jurupary) tiveram por cumplice um subdelegado de policia!</p>
+
+<p>«Ahi está a imprensa todos os dias a clamar contra os desaforos do
+primeiro supplente da sub-delegacia de Mapuá, que entretanto acha-se no
+exercicio do cargo a vexar e perseguir aos seus infelizes condistrictanos!</p>
+
+<p>«Oxalá que a recommendação do sr. ministro da justiça não fique sómente na
+sua publicação e que possa ser util a esta desditosa provincia.»</p>
+
+<p>No meio de todas estas coisas, o que é um facto inegavel é que as
+auctoridades superiores vêem-se em difficuldades para substituir os maus
+agentes.</p>
+
+<p>Contra a auctoridade de Mapuá, de que nos falla aquelle jornalista,
+appareceu o seguinte protesto na imprensa do Pará:</p>
+
+<p>«Nunca os mapuenses se persuadiram que o ill.<sup>mo</sup> sr. capitão
+Diocleciano Antero Pinheiro Lobato, muito digno subdelegado d'este districto,
+passasse a administração da subdelegacia ás mãos do 1.º supplente da mesma,
+Antonio Joaquim de Barros e Silva.</p>
+
+<p>«Bem sabemos que o motivo d'isso foi o mau estado de saude do sr. capitão
+Diocleciano; porém nós, nacionaes e estrangeiros, residentes n'este
+districto, que já soffremos as arbitrariedades do sr. Barros, na occasião em
+que esteve de posse da administração; sentimos bastante o sr. capitão
+Diocleciano entregar a administração ao sr. Barros, sabendo s. s. que este
+sr. é um dos adeptos da <i>Tribuna</i>, que ufana-se em espalhar ao povo
+ignorante as infames e degradantes doutrinas d'esse nojento pasquim.</p>
+
+<p>«Quantas vezes pedimos (e algumas d'ellas pelo amor de Deus) ao sr.
+Diocleciano que não passasse a administração d'esta subdelegacia ao sr.
+Barros e Silva citando a s. s. os actos que o sr. Barros e Silva praticou,
+quando esteve exercendo o cargo da subdelegacia<span class="pagenum"><a
+id="pag_126" name="pag_126">[126]</a></span> o anno passado, já afugentando
+os habitantes, outras vezes ameaçando-os com prisões.</p>
+
+<p>«Este sr. Barros e Silva tem por costume insinuar aos devedores da maior
+parte dos commerciantes d'este districto para que não paguem, e com
+especialidade quando os credores são portuguezes, por que este sr. jurou
+d'esde 1835 odio aos «gallegos» phrase do sr. Barros, quando quer dizer
+portuguez.</p>
+
+<p>«Á vista d'isto, sr. capitão Diocleciano, pedimos-lhes que, logo que o seu
+estado de saude permitta, assuma a administração de subdelegacia, a fim de
+evitar que o seu 1.º supplente ponha em execução os seus actos de verdadeiro
+despotismo, como é de costume».</p>
+
+<p>Esta queixa foi em parte attendida pelo governo da provincia. Eis como se
+expressa o <i>Liberal do Pará</i> de 8 de agosto:</p>
+
+<p>«Vimos no expediente do governo de 24 do passado um officio do sr.
+Benevides ao chefe de policia, exigindo informação sobre as accusações feitas
+em artigo d'este jornal contra o primeiro supplente da subdelegacia de Mapuá,
+actualmente em exercicio, Antonio Joaquim de Barros e Silva.</p>
+
+<p>«Como era de suppôr, o castigo d'essa auctoridade ficou no tal officio;
+pois consta-nos que, achando-se Barros na capital n'essa occasião, <i>desfez
+tudo</i>, continuando por tanto a gozar de inteira confiança da
+administração.</p>
+
+<p>«Veio-nos á idéa esta occorrencia ao recebermos uma carta d'aquelle
+districto, em que se nos diz o seguinte do dito 1.º supplente:</p>
+
+<p>«O nosso heroe, para destruir as accusações que pesam sobre si, apenas
+chegou, anda de porto em porto, revestido do caracter de auctoridade,
+exigindo dos moradores attestados para provar que é um santo homem, e que
+morre d'amores pelos portuguezes.<span class="pagenum"><a id="pag_127"
+name="pag_127">[127]</a></span></p>
+
+<p>«Aos que repugnam attestar o que elle dita, responde: Conte commigo!</p>
+
+<p>«Em 30 de dezembro publicou o <i>Liberal</i> um artigo d'aqui, acompanhado
+de attestados de brazileiros e portuguezes do districto, provando que essa
+auctoridade tem ameaçado aos subditos de Portugal, e esses attestados jámais
+foram contestados.</p>
+
+<p>«Em julho do passado foi o honrado commerciante portuguez José G. de Lemos
+victima das ameaças do mesmo sr., de que foram testemunhas os srs. capitão
+Diocleciano Lobato e João A. Lobato e outros brazileiros; assim como os
+portuguezes José Antonio Lopes e Theotonio Antão da Cruz.</p>
+
+<p>«Os brazileiros que contestarem que Barros é <i>tribuno</i>, fal o-hão com
+medo de sua vingança.</p>
+
+<p>«Tambem não duvidamos que encontre elle portuguezes que lhe passem
+attestados n'esse sentido, porque esses devem ter ainda mais a temer do seu
+odio do que os nacionaes!»</p>
+
+<p>Os portuguezes residentes no interior, com medo do odio das auctoridades
+brazileiras, passam attestados beneficos n'um dia a favor d'aquelles de quem
+receberam maus tratos em outro. A triste verdade é esta.</p>
+
+<p>O que é inegavel é que as auctoridades superiores do Brazil, ou se voltem
+para a direita ou para a esquerda, só encontrarão maus agentes de policia;
+ou, o que é peior, agentes que precisam ser policiados, segundo a phrase do
+<i>Liberal do Pará</i>.</p>
+
+<p>E a quem devemos nós attribuir tão grande mal?</p>
+
+<p>O <i>Cearence</i> responde assim:</p>
+
+<p>«Os habitos e costumes d'um povo, suas virtudes e vicios, são feituras de
+suas instituições politicas ou civis, d'um governo liberal ou despotico.»</p>
+
+<p>Concordamos: porém se o mal que assola a sociedade brazileira, é derivado
+do dominio despotico do tempo, em que era colonia Portugal, parece que
+50<span class="pagenum"><a id="pag_128" name="pag_128">[128]</a></span> annos
+d'uma administração de casa deveria ter salvo o imperio do abysmo, para onde
+o vemos precipitar-se.</p>
+
+<p>Nós, como acontecia ao povo brazileiro, tambem arcámos com o jugo de ferro
+do despotismo. Comtudo, atirámos com esse jugo para bem longe; e podemos
+dizer, sem jactancia, que Portugal é na actualidade um dos povos que goza de
+mais liberdade.</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Mas estas considerações feitas ao <i>Cearence</i>, a proposito dos crimes
+commettidos no Brazil, affastaram-nos um pouco de respondermos mais de perto
+ás affirmativas do auctor do livro o <i>Brazil</i>. Reatemos, pois, o fio da
+resposta; mas para isso assignalemos aquella phrase do ministro da justiça do
+imperio:</p>
+
+<p>«O augmento dos crimes, especialmente contra a segurança individual, vae
+assumindo proporções elevadas.» etc.</p>
+
+<p>Ora, queremos nós dizer, que, se deve attribuir-se á miseria e falta de
+trabalho os crimes commettidos em Portugal, no Brazil, onde não parece haver
+miseria e aonde não parece faltar trabalho, os crimes que viemos de
+descrevêr, devem ser levados á conta da má indole do povo.</p>
+
+<p>Mais claro:</p>
+
+<p>Os crimes commettidos em Jurupary, na riquissima provincia do Pará, em que
+portuguezes foram victimas, e assassinos e ladrões alguns subditos
+brazileiros, não podem ser levados á conta da miseria do povo brazileiro;
+porque o Brazil é apresentado aos portuguezes necessitados como o seu
+salvaterio contra os crimes de furto e roubo!</p>
+
+<p>A que devemos então attribuir aquelles crimes?</p>
+
+<p>Antonio Ferreira Gomes, brazileiro, accusado de<span class="pagenum"><a
+id="pag_129" name="pag_129">[129]</a></span> roubar 150 contos de réis, a
+seus patrões, em casa de quem occupava um dos primeiros logares, fôra
+incitado pela miseria a commetter tão grande crime?</p>
+
+<p>E fallamos de proposito n'este facto, para dizermos mais, que aquelle réu
+fôra absolvido pelos tribunaes do Rio de Janeiro, emquanto que um portuguez
+de menor edade, accusado de roubar 10$000 talvez que para matar a fome, fôra
+condemnado um dia antes, pelo mesmo tribunal, a dois annos de prisão com
+trabalhos!<a name="tex2html33" href="#foot4279"><sup>[33]</sup></a></p>
+
+<p>No Brazil praticam-se d'estas e não inferiores façanhas; os tribunaes em
+Portugal condemnam os Antonios Gomes, quando <i>piscam os olhos</i> ás
+authoridades!</p>
+
+<p>Eis aqui está um phenomeno que a alta capacidade do auctor do
+<i>Estudo</i> não poderá explicar facilmente.</p>
+
+<p>Outro phenomeno, não menos digno da attenção do illustre historiador, será
+aquelle, d'um brazileiro remediado e um portuguez adolescente, necessitado,
+commetter o mesmo crime&mdash;roubo&mdash;<i>na terra da promissão</i>!</p>
+
+<p>Que faria esta gente, se estivesse em Portugal?</p>
+
+<p>Quem sabe?... talvez fossem dois homens de bem!...</p>
+
+<p>A Inglaterra um dos paizes mais ricos, e que tem sempre á testa da
+administração do estado os politicos mais eminentes, conserva,
+premanentemente, nas ruas de Londres uma grande parte da sua população
+miserabilissima.</p>
+
+<p>Ora se a pobresa é o principal incentivo do crime, que seria dos
+habitantes abastados da grande cidade? O numero de portuguezes soccorridos,
+só no Rio de Janeiro, no periodo de 10 annos, desde de 1862 a 1871, foi de
+47:116! Ora, se se podesse estabelecer o tal principio, estes 47:116
+necessitados deviam pôr em serios embaraços a população do Rio!<span
+class="pagenum"><a id="pag_130" name="pag_130">[130]</a></span></p>
+
+<p>O auctor do livro o <i>Brazil</i>, além de outros argumentos obtusos,
+apresenta-nos, para os fazer vingar, a seguinte conclusão:</p>
+
+<p>«Quem está bem no seu paiz não emigra; esta é que é a verdade das
+verdades: ninguem o contestará.»</p>
+
+<p>Se a <i>emigração</i>, tomada n'um sentido muito restricto, se estabelece
+pela mudança dos animaes d'um logar que <i>julgam mau</i>, para outro que
+<i>suppozeram bom</i>, qual o motivo porque aquelles 47:116 portuguezes
+necessitados, não regressaram á patria, aonde já sabem que nunca poderão
+passar peior que no Brazil?</p>
+
+<p>É porque estavam n'uma posição muito mais miseravel do que quando
+emigraram: não têem os meios para repatriar-se, além de alguns acharem-se
+completamente impossibilitados.</p>
+
+<p>O facto de emigrarem muitos portuguezes para o Brazil, não é razão
+sufficiente para que digamos, que a emigração para esta região é conveniente
+para elles; nem tampouco prova que a necessidade impreterivel os obriga a dar
+tão errado passo.</p>
+
+<p>É isso que temos sustentado e sustentaremos, em quanto tivermos do nosso
+lado a razão.</p>
+
+<p>É provavel que n'um futuro, que não póde vir muito proximo, modifiquemos
+as nossas idéas; porque, emfim, <i>le monde marche</i>, e nós mui crentes no
+grande principio do philosopho, acreditamos que o Brazil se transformará,
+assim como acreditamos na transformação de outros povos semi-barbaros.</p>
+
+<p>Já o dissemos e nunca nos cansaremos de repetir:&mdash;emquanto o Brazil não
+reformar completamente as suas leis, por fórma que os povos emigrantes não
+vão esbarrar no imperio com o temeroso dilemma da controversia politica e
+religiosa, que tem n'estes ultimos tempos tomado demasiadas proporções no
+Brazil, a emigração europêa será uma ficção.</p>
+
+<p>Porque é preciso assentar bem n'esta verdade:&mdash;o<span class="pagenum"><a
+id="pag_131" name="pag_131">[131]</a></span> povo portuguez não é aquelle,
+que, por si só, póde supprir o Brazil de braços laboriosos para a cultivação
+das suas terras immensas. Nunca o pôde fazer, quando esta parte da America
+pertenceu a Portugal.</p>
+
+<p>É preciso lançar as vistas para outros povos europeus, cuja tendencia para
+a emigração não seja inferior á nossa.</p>
+
+<p>Ha difficuldade em alliciar hespanhoes ou italianos, porque estes preferem
+as republicas hespanholas, assim como nós preferimos o Brazil. Os francezes e
+os inglezes, povos essencialmente industriaes, teem as suas colonias ou os
+Estados-Unidos para receber a população que lhes sobeja. A Allemanha, esse
+grande paiz que n'estes ultimos annos tem fornecido á America do norte o seu
+maior nucleo de emigração, não poderia ser tentada pelos escriptos do sr.
+Augusto de Carvalho e outros?</p>
+
+<p>Não podia. E dizemos, não podia, não porque falte ao distincto
+historiador, applicando-se um pouco mais ao estudo, a intelligencia para
+poder vir a ser um optimo <i>engajador</i>; mas porque os allemães estudam o
+assumpto da emigração com toda a proficiencia e não precisam lá de quem lhes
+indique o paiz que devem preferir. No mesmo caso está a Inglaterra.</p>
+
+<p>Outra razão: Se os emigrados portuguezes, residentes no imperio, se
+sujeitam ao regimen brazileiro, em cujo paiz encontram as demasias do odio de
+raça e não poucas vezes a excessiva intolerancia religiosa; os allemães, além
+de não concordarem com as leis civis do imperio, descrêem completamente das
+leis que estabelecem a tolerancia religiosa, que ha de ser sempre uma ficção,
+emquanto a governação do Brazil estiver nas mãos do seu clero reaccionario;
+leis que esse clero poderia reformar, se não fôra o receio de descontentar os
+estrangeiros, na maioria conservadores, que, unidos aos brazileiros
+descontentes, e de idéas<span class="pagenum"><a id="pag_132"
+name="pag_132">[132]</a></span> mais avançadas, fariam grande resistencia a
+uma refórma tão retrógrada.</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>«Os portuguezes que de futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se
+dedicarem ao commercio, perderão infallivelmente o seu tempo; porque sendo a
+lavoura o seu unico sustentaculo, esta, como já demonstrei no capitulo
+precedente, ha de definhar-se á proporção que lhe forem faltando os braços
+escravos.»</p>
+
+<p>Escrevemos estas palavras em um livro que ahi corre impresso;<a
+name="tex2html34" href="#foot428"><sup>[34]</sup></a> e se as repetimos
+n'este logar, é para reforçal-as mais, respondendo ao mesmo tempo ás
+seguintes phrases de contentamento do auctor do <i>Brazil</i>:</p>
+
+<p>«Nem só á commissão (de emigração) devemos esta prova de lealdade e
+franqueza. Felizmente ainda ha n'esta terra de gloriosas tradições caracteres
+honrados e amigos da verdade.»</p>
+
+<p>Agora é preciso saber a razão d'este enthusiasmo e... d'este enigma,
+porque aquelle trecho respondia a este da commissão de emigração:</p>
+
+<p>«Não é de menor interesse para o commercio do reino (a emigração livre),
+ao qual, de preferencia, pedem todos os artigos a que estão habituados; e,
+desde os vinhos até ás cebolas nacionaes, a circumstancia de estar o Brazil
+povoado pelos portuguezes abre-nos extensissimo mercado, offerecendo
+igualmente Portugal numerosos consumidores aos productos brazileiros. Se
+ainda quizermos olhar com attenção para a agricultura nacional, encontraremos
+que os emigrantes repatriados teem dado em todo o reino, principalmente na
+provincia do Minho, auxilio importante, pelos capitaes que<span
+class="pagenum"><a id="pag_133" name="pag_133">[133]</a></span> teem
+importado, á industria agricola. Se lançamos a vista sobre as cidades, villas
+e aldeias, alli encontraremos palacios sumptuosos, casas elegantes, casaes
+commodos, tudo edificado com o dinheiro que os emigrados de hontem trouxeram
+da emigração.»</p>
+
+<p>Todas estas conveniencias apontadas pela commissão e que tanto alvoraçaram
+o auctor do livro o <i>Brazil</i>, são trazidas a Portugal por alguns de seus
+filhos, que, a tudo se dedicavam, menos aos trabalhos rudes do campo.</p>
+
+<p>Os generos alimenticios, que em grande escalla exportamos para o Brazil,
+toda a gente sabe que é para gasto de gente abastada. O portuguez
+trabalhador, dando-se-lhe ainda que ganhasse 2$000 réis fracos por cada dia,
+já mais poderia alimentar-se d'aquelles generos excessivamente caros alli;
+alem de que, como diz o sr. Carvalho, o colono é <i>ambicioso</i>, e quem
+padece de tal molestia despreza as despezas superfluas.</p>
+
+<p>Está provado, que o consumo dos taes generos, quer haja a emigração de
+trabalhadores, quer não, ha de existir em quanto o Brazil puder sustentar a
+sua prosperidade.</p>
+
+<p>E d'ahi não os esportamos nós tambem para os outros paizes da Europa?
+Pertender-se-ha affirmar que os emigrados portuguezes são só os seus
+consumidores?</p>
+
+<p>Vamos agora emittir a nossa humilde opinião a respeito de outras
+conveniencias.</p>
+
+<p>É certo que a affluencia de capitaes a este paiz, procedentes do Brazil,
+tem sido assombrosa n'estes ultimos tempos; pena é que elle em geral se
+empregue na agiotagem e desprese a agricultura e a industria, razão porque
+acreditamos muito pouco na prosperidade que para ahi dizem nos veio trazer o
+dinheiro vindo do Brazil.</p>
+
+<p>Mas se o portuguez é <i>ambicioso</i>, mal de que soffrem quasi todos os
+capitalistas de <i>todas</i> as nações do mundo,<span class="pagenum"><a
+id="pag_134" name="pag_134">[134]</a></span> excluindo talvez os brazileiros,
+razão por que as fortunas portuguezas são relativamente muito superiores no
+proprio imperio, por que é que affluem actualmente os capitaes a este paiz?
+</p>
+
+<p>A resposta é simples e muito logica:&mdash;é por que esses capitaes já não
+encontram no Brazil tão facil e lucrativo emprego.</p>
+
+<p>«D'aqui a 10 ou 15 annos, quando estiver extincta a escravatura no Brazil,
+sem que o governo tenha remediado este grande mal; e os lavradores, faltos de
+recursos materiaes, liquidarem as suas fortunas, e procurarem, como é
+natural, melhor emprego para o seu capital, chegará então o grande imperio
+americano ao ultimo gráu da sua decadencia; porque uma vez livre o elemento
+escravo, que no Brazil é e ha de ser sempre a alma da lavoura, ninguem mais
+poderá fazer trabalhar o preto que, (em geral), com o salario de um dia, se
+julga habilitado para comer 15 ou 20.»</p>
+
+<p>Estas palavras que em outro logar deixamos escriptas,<a name="tex2html35"
+href="#foot4281"><sup>[35]</sup></a> e que procuraremos auctorisar com a
+opinião de entendedores mais respeitaveis, provam até á evidencia que o
+commercio do Brazil vive da lavoura, e que decahindo esta, não mais poderá
+aquella aspirar á gloria alcançada por muitos portuguezes em épocas passadas.
+A prova da nossa asserção está em que os capitalistas residentes no Brazil,
+tratam n'este momento de procurar melhor emprego a seus capitaes.</p>
+
+<p>Mas julga o auctor do <i>Brazil</i> que o melhor meio de tentar os nossos
+compatriotas, é mostrar-lhe o resultado adquirido por outros portuguezes que
+foram mais felizes, por terem encontrado tempos melhores, e alem de tudo
+isto, porque se dedicavam a outros misteres, como nunca nos cançaremos de
+repetir?...</p>
+
+<p>Ás seguintes reflexões da commissão de emigração:<span class="pagenum"><a
+id="pag_135" name="pag_135">[135]</a></span></p>
+
+<p>«Temos por tanto 3 de cada 10 emigrantes perdidos no total da emigração.
+Em vinte annos 75 por cento d'este formoso capital terá desapparecido.
+Reduzindo a metal o que este trabalho representa, e dando 120$000 réis ao
+trabalho produzido por cada emigrado annualmente, 34:000 emigrados
+representando 4:080$000 réis cada um, em 20 annos fazem 81:600$000 réis. É
+egual a esta somma de trabalho perdido a somma de capital entrado pelos que
+voltam ricos? A commissão não póde investigar tão fundo».</p>
+
+<p>A isto, como diziamos, responde o illustre historiador, com uma
+simplicidade incrivel:</p>
+
+<p>«Nem era preciso, entendemos nós.»</p>
+
+<p>E depois transcreve da <i>Correspondencia de Portugal</i> um artigo que,
+se por um lado elogia o Brazil, por outro mostra até certo ponto a sua
+decadencia.</p>
+
+<p>«Do abençoado Brazil, diz o jornal citado, tem-nos vindo ultimamente
+cabedal e alguns homens activos e emprehendedores» etc.</p>
+
+<p>Para que desamparam o Brazil, este cabedal e os homens activos e
+emprehendedores?!</p>
+
+<p>Não é alli a fonte da riqueza, aonde a actividade humana póde mais
+facilmente encontrar o premio do seu trabalho?!<span class="pagenum"><a
+id="pag_136" name="pag_136">[136]</a></span></p>
+
+<h1>CAPITULO V</h1>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0050001">Os relatorios dos consules e a emigração. Um pedido
+á imprensa. A colonisação no Brazil e a lei do trabalho de 11 de outubro de
+1837. Contractos de locação de serviço. Sevicias dos fazendeiros contra os
+escravos brancos. Ainda a febre amarella e a imprensa. Roceiros, engajadores
+e armadores de navios. A lei portugueza de 20 de julho de 1855 e a emigração
+clandestina. A diplomacia envolvida no assumpto. O regulamento brazileiro de
+1 de maio de 1858. Intrigas diplomatas. Serviços do conde de Thomar, nosso
+embaixador na côrte do Rio de Janeiro. O sr. José de Vasconcellos e as
+evasivas do governo brazileiro, a respeito da convenção sobre a emigração e
+propriedade litteraria.</a></div>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Não nos sobeja espaço para fazermos uma analyse detida ao livro o
+<i>Brazil</i>, nem o encargo que nos impozemos mira a esse fim. Descrever os
+horrores da emigração, em linguagem que o povo entenda e ao qual
+especialmente destinamos este trabalho, eis o nosso principal intuito. Assim,
+pois, continuemos a examinar o que ha de mais proveitoso nos relatorios dos
+consules, reservando-nos para em capitulo especial fazermos algumas
+considerações a respeito dos tumultos do Pará, em 1874, a cujo assumpto
+igualmente se refere o auctor do livro em questão.</p>
+
+<p>Phrases ha que se deviam repetir todos os dias e a todas as horas; e por
+isso mesmo desejariamos que os nossos homens de estado déssem a maior
+publicidade<span class="pagenum"><a id="pag_137"
+name="pag_137">[137]</a></span> possivel aos documentos que, a respeito da
+emigração portugueza para o Brazil, todos os dias nos offerecem os consules
+alli residentes. Difficil será achar quem melhor possa informar sobre a
+verdadeira situação dos colonos no Brazil, quem livre de qualquer pressão, e
+perfeitamente independente, melhor possa sondar os horrores da emigração,
+effeito dos contractos ruinosos que os nossos compatriotas fazem com os
+engajadores, os maus tratos que os trabalhadores portuguezes quotidianamente
+recebem dos <i>senhores de engenho</i>, a ficticia protecção das auctoridades
+brazileiras, quando, para dominar abusos, os infelizes a ellas recorrem.</p>
+
+<p>Nos referidos relatorios trazidos a publico para auxiliar a commissão
+d'inquerito parlamentar, nomeada com o fim de pôr termo ao mal da emigração,
+apontam os consules o efficaz auxilio, que póde offerecer a imprensa,
+publicando os documentos que elles mandam para o governo.</p>
+
+<p>«É de urgente necessidade, diz o consul no Maranhão, instruir aos
+incautos, victimas da seducção, por meio da imprensa, pela tribuna, e impôr
+tambem este dever ás auctoridades, as quaes deverão esclarecer profundamente
+ao emigrante, as difficuldades que lhe offerece a lavoura, a
+incompatibilidade que existe entre o trabalho livre e servil, e de que
+inteiramente é impossivel dar-se uma fusão. Ao mesmo tempo scientifical-os,
+de que se os proprios nacionaes encontram todas as difficuldades na lavoura,
+e não podem alimentar-se por ella, por certo se tornarão mais embaraçosas
+para com os estrangeiros, por não se poderem estabelecer nem encontrarem
+recursos á sua disposição. Fazer-lhes ver que não existem regulamentos de
+trabalho, e d'este modo são forçados a trabalhar todo o dia debaixo do mais
+ardente sol.»<a name="tex2html36" href="#foot1207"><sup>[36]</sup></a><span
+class="pagenum"><a id="pag_138" name="pag_138">[138]</a></span></p>
+
+<p>Não disse a verdade o consul do Maranhão quando affirmou que não existiam
+regulamentos de trabalho. Ha regulamentos; e se não veja o que diz a tal
+respeito o seu illustrado collega do Rio de Janeiro:</p>
+
+<p>«Queria dar aqui a integra d'essa lei (de 11 de outubro de 1837), mas isso
+tornaria este trabalho mui extenso e fastidioso, além de que é facil
+encontral-a nas collecções; mas como estas collecções não chegam ás mãos do
+povo, parece-me que seria muito conveniente que o governo de sua magestade as
+mandasse publicar em todos os jornaes e mesmo em avulsos, que fossem
+affixados em todos os locaes onde costumam ser os annuncios da partida dos
+navios; parece-me ainda que ao mesmo governo assiste o incontestavel direito
+de prohibir emquanto no Brazil existir tal lei, a celebração de todo e
+qualquer contracto de locação de serviços, que aqui tenham de ser prestados,
+e fazer constar por todos os meios que os individuos que taes contractos
+assignarem, como locadores, não terão direito á protecção do governo nem dos
+seus representantes, mesmo porque estes quasi que absolutamente lh'a não
+pódem dar.»<a name="tex2html37" href="#foot1209"><sup>[37]</sup></a></p>
+
+<p>Examinemos essa barbaridade, que nem a diplomacia portugueza, nem alguns
+legisladores mais notaveis do Brazil tem podido derrogar, para beneficio dos
+colonos e da propria agricultura; mas para isso convem transcrever alguns
+trechos mais importantes.</p>
+
+<p>Diz a tal lei:</p>
+
+<p>«O locatario de serviços que, sem justa causa, despedir o locador antes de
+findar o tempo porque o tomou, pagar-lhe-ha todas as soldadas, que devêra
+ganhar, se o não despedira. <i>Será justa causa</i> para a despedida (note-se
+bem isto):</p>
+
+<p>«1.º&mdash;Doença do locador, por fórma que fique impossibilitado<span
+class="pagenum"><a id="pag_139" name="pag_139">[139]</a></span> de continuar
+a prestar os serviços para que foi ajustado;</p>
+
+<p>«2.º&mdash;Condemnação do locador á pena de prisão, ou qualquer outra que o
+impeça de prestar serviço;</p>
+
+<p>«3.º&mdash;Embriaguez habitual do mesmo;</p>
+
+<p>«4.º&mdash;Injuria feita pelo locador á dignidade, honra ou fazenda do
+locatario, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;</p>
+
+<p>«5.º&mdash;Se o locador, tendo-se ajustado para o serviço determinado, se
+mostrar imperito no desempenho do mesmo serviço.</p>
+
+<p>«Nos casos do n.º 1.º e 2.º do artigo antecedente, o locador despedido,
+logo que cesse de prestar o serviço, <i>será obrigado a indemnisar o
+locatario da quantia que lhe dever</i>. Em todos os outros pagar-lhe-ha tudo
+quanto dever, e se não pagar logo, será immediatamente preso e condemnado a
+trabalhar nas obras publicas por todo o tempo que fôr necessario, até
+satisfazer com o producto liquido de seus jornaes tudo quanto dever ao
+locatario, comprehendidas as custas a que tiver dado causa. Não havendo obras
+publicas, em que possa ser admittido a trabalhar por jornal, será condemnado
+a prisão com trabalho, por todo o tempo que faltar para completar o do seu
+contracto: não podendo todavia a condemnação exceder a dois annos.»</p>
+
+<p>Perguntamos nós, porque razão deverá ser condemnado o colono, <i>não
+havendo obras publicas</i>, á prisão com trabalho?</p>
+
+<p>Quem tem a culpa de não haver obras publicas no Brazil? Os seus homens de
+estado; mas nunca os colonos.</p>
+
+<p>Poderá o colono, dado ao uso das bebidas alcoolicas satisfazer por meio do
+trabalho nas obras publicas, os seus encargos? E caso não possa, <i>por causa
+da sua habitual embriaguez</i>, não será demasiada a pena de dois annos de
+prisão com trabalho?<span class="pagenum"><a id="pag_140"
+name="pag_140">[140]</a></span></p>
+
+<p>E que justiça é essa, que iguala a falta de pericia do colono, na execução
+de qualquer trabalho, com a falta de honra e dignidade, para as quaes
+estabelece as mesmas penalidades?</p>
+
+<p>E se o locatario fôr accusado de injuria feita á dignidade e honra do
+locador, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia, por que este póde estar
+nos mesmos casos d'aquelle, e não é dado aos legisladores brazileiros
+acentar, que o homem rico é mais susceptivel de córar na frente do seu
+injuriador do que o homem pobre, qual o castigo a que o sujeita?</p>
+
+<p>O colono doente, a que se refere o n.º 1.º, e o colono condemnado á pena
+de prisão, por qualquer falta commettida, de que falla o n.º 2.º, são
+equiparados no castigo, e por isso obrigados a indemnisar o locatario da
+quantia em divida!</p>
+
+<p>Á parte a desigualdade da pena, por que não pode equiparar-se o
+<i>delicto</i> de um colono cahir doente, com a falta que levára outro colono
+a ser julgado e condemnado a prisão, perguntamos nós, como poderá qualquer
+d'elles exonerar-se dos seus encargos, quando lhes faltem absolutamente os
+meios?</p>
+
+<p>O escravo era muito mais feliz. Pelo menos tinha a comida certa, quando
+impossibilitado de trabalhar. O senhor era o primeiro interessado na
+liberdade do escravo, quando este era preso por ter commettido algum delicto.
+</p>
+
+<p>«O locador, continua a celeberrima lei, que, sem justa causa, se despedir,
+ou ausentar antes de completar o tempo do contracto, <i>será preso</i> onde
+quer que fôr achado e não será solto <i>emquanto não pagar em dobro</i> (sic)
+<i>tudo quanto dever ao locatario</i>, com abatimento das soldadas vencidas:
+se não tiver com que pagar, <i>servirá ao locatario de graça todo o tempo que
+faltar para o complemento do contracto</i>. Se tornar a ausentar-se <i>será
+preso e condemnado</i> na conformidade do<span class="pagenum"><a
+id="pag_141" name="pag_141">[141]</a></span> artigo antecedente (prisão com
+trabalho por dois annos)»!</p>
+
+<p>Admire-se a logica d'este bocadinho de ouro:</p>
+
+<p>«O locatario, findo o tempo do contracto, ou antes rescindindo-se este por
+justa causa, é obrigado a dar ao locador um attestado de que está quite do
+seu serviço; se recusar passal-o, será compellido a fazel-o pelo juiz de paz
+do districto. A falta d'este titulo será razão sufficiente para
+<i>presumir-se</i> de que o locador se ausentou indevidamente.» (!!!)</p>
+
+<p>Toda a gente sabe qual é a influencia de que dispõe para com as
+auctoridades, os roceiros do Brazil. Veja-se pois, como será difficil a um
+pobre colono obter tão precioso documento das mãos do locatario quando este,
+por qualquer circumstancia, lh'o não queira dar. Imagine-se por exemplo, que
+ao locador não convem mais servir o locatario, e que a este, pelo contrario,
+convem que aquelle lhe preste serviço. Como poderá o colono, sem incorrer na
+pena de prisão com trabalhos, livrar-se do seu perseguidor?</p>
+
+<p>Ainda mais:</p>
+
+<p>«Toda a pessoa que admittir, ou consentir em sua casa, fazendas ou
+estabelecimentos, algum estrangeiro, obrigado a outrem por contracto de
+locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador lhe dever,
+<i>e não será admittido a allegar qualquer defeza em juizo</i> (sic), sem
+depositar a quantia a que fica obrigado, <i>competindo-lhe o direito de
+havel-a do locador</i>.»</p>
+
+<p>O locador é quem paga tudo.</p>
+
+<p>Ha só uma unica excepção á regra: o que alliciar o colono obrigado a
+outrem por contracto de locação de serviços, pagará ao locatario o dobro das
+dividas do colono, bem como as despezas e custas a que tiver dado causa. Caso
+não tenha dinheiro para pagar, ha de trabalhar nas obras publicas, se as
+houver, já se sabe, e se não a cadeia espera o delinquente! Verdade seja<span
+class="pagenum"><a id="pag_142" name="pag_142">[142]</a></span> que a pena de
+prisão é mais favoravel para o alliciador, a qual póde ser de dois mezes a um
+anno. Pois se elle não é colono!</p>
+
+<p>Eis os nomes dos illustres estadistas que subscreveram tão grande
+monstruosidade:&mdash;Pedro de Araujo Lima e Bernardo Pereira de Vasconcellos.<a
+name="tex2html38" href="#foot1227"><sup>[38]</sup></a></p>
+
+<p>Que a historia lhes reserve logar condigno em suas folhas indestrutiveis,
+não só para pagar-lhes o premio merecido, mas para desiludir uns certos
+optimistas, que costumam ver o argueiro nos olhos de estranhos, em quanto que
+nos proprios conservam enormes traves.</p>
+
+<p>Mas note-se que esta lei ainda não foi derrogada.</p>
+
+<p>Eis aqui está como o governo imperial <i>revela cuidado em reunir sob o
+ceu explendido do cruzeiro os individuos de todas as nacionalidades</i>!</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Mas não fica ainda aqui a tão apregoada protecção.</p>
+
+<p>O consul no Rio de Janeiro assim descreve os effeitos praticos da tal
+monstruosidade:</p>
+
+<p>«Debalde a lei de 20 julho de 1855 e varios regulamentos posteriores
+tomaram providencias sobre taes abusos; por que todas essas prescripções são
+letra morta no imperio.</p>
+
+<p>«Os magistrados não conhecem essas providencias legislativas, nem mesmo
+tomam d'ellas conhecimento, sendo-lhes apontadas.</p>
+
+<p>«Estes contractos são aqui regulados pela lei do imperio de 11 de outubro
+de 1837, que os seus collaboradores não quizeram para regular a locação de
+serviços de seus compatriotas, e só a destinaram a regular a locação de
+serviços dos estrangeiros.(!)<span class="pagenum"><a id="pag_143"
+name="pag_143">[143]</a></span></p>
+
+<p>«Em 1867, continúa o consul, percorri algumas cidades e villas da
+provincia de S. Paulo, onde são frequentes taes contractos.</p>
+
+<p>«Visitei varios cartorios de escrivães dos juizes de paz, que são os
+competentes para taes processos, examinei muitos d'elles, e em nenhum
+encontrei sentenças a favor do locador.(!!!)</p>
+
+<p>«Recentemente ainda se deu um facto aqui na provincia do Rio de Janeiro.
+Joaquim de Sequeira Pinto veiu com sua mulher, do Porto, justo para trabalhar
+na fabrica de Santo Aleixo, situada em Magé, pouco distante d'esta côrte.</p>
+
+<p>«O seu contracto era o seguinte:</p>
+
+<p>«Digo eu abaixo assignado que me acho justo e contractado com os srs.
+Bernardo José Machado &amp; C.ª a ir de passagem junto com minha mulher,
+Josepha de Jesus no vapor <i>Julio Diniz</i>, para trabalhar na fabrica de
+fiação, em S. Aleixo, imperio do Brazil, da qual são administradores os srs.
+Guerreiro Simas &amp; C.ª, a quem vamos dirigidos, e a estes nos obrigamos
+com os nossos serviços na mesma fabrica a pagar a quantia de cento e trinta e
+oito mil e nove centos réis, que nos foram abonados para as nossas passagens
+<i>e mais arranjos</i>, a cujo cumprimento nos obrigamos por nossas pessoas e
+bens&mdash;Porto 22 de outubro de 1873.&mdash;Joaquim Sequeira Pinto, por minha mulher
+Josepha de Jesus. Como testemunhas, Francisco Gomes Paes, Gaspar José Corrêa
+do Nascimento.»</p>
+
+<p>«Veio pois Sequeira, e chegado aqui com sua mulher foram para a tal
+fabrica que estava em construcção. Como não tinha ainda que fazer pelo seu
+officio empregaram-no em servente de pedreiro e a mulher a cosinhar. Como não
+quizessem sujeitar-se a estes serviços pediram licença ao administrador da
+fabrica para vir para a côrte trabalhar pelo seu officio, a vêr se arranjavam
+dinheiro para pagar o que deviam. Foi-lhe concedida<span class="pagenum"><a
+id="pag_144" name="pag_144">[144]</a></span> licença e vieram. A mulher
+adoeceu, obrigando o marido a despezas consideraveis.</p>
+
+<p>«Passaram-se dois ou tres mezes, portanto, sem que podessem ter arranjado
+dinheiro para pagar a divida. Começava o marido a trabalhar pelo officio,
+quando foi preso com a mulher, em virtude d'uma precatoria vinda do juiz de
+paz de Magé, e lá seguiram os dois infelizes com um filhinho, de cadeia em
+cadeia até á de Magé, para alli serem processados por quebra de contracto de
+locação de serviços.</p>
+
+<p>«Sabendo isto por um primo d'elles, tratei de vêr se melhorava a sorte
+d'estes infelizes, e fui procurar um advogado para fazer uma petição de
+recurso de <i>habeas corpus</i>. Fêl-a com effeito, ponderando a illegalidade
+da prisão, visto que sendo todo o procedimento, segundo aquella lei, baseado
+n'um contracto escripto, o documento apresentado não era realmente um
+contracto, por lhe faltarem clausulas essenciaes, taes como estipulação de
+salario, acquiescencia da mulher, por quem o marido se não podia obrigar, e
+ausencia de procuração dos representantes do locatario. Que mesmo como
+contracto seria nullo em face da legislação do paiz onde foi celebrado (lei
+de 20 de julho de 1855), por não conter expressa a clausula de não poderem os
+serviços ser cedidos.</p>
+
+<p>«E, finalmente, que era nullo á vista do artigo 208.º do decreto imperial
+do 11 de junho de 1847, que diz:&mdash;«Todo o documento a ser produzido em juizo,
+ou exhibido por qualquer fim legal, deve ser necessariamente assignado pelo
+consul e sellado com o sello do consulado, sem o que não fará fé.» etc.</p>
+
+<p>«Fiz outras allegações mais, como: novação de contracto pela licença dada
+e confessada pelo locatario ao locador para vir á côrte arranjar meios de lhe
+pagar, etc.<span class="pagenum"><a id="pag_145"
+name="pag_145">[145]</a></span></p>
+
+<p>«Tudo foi inutil, por que o <i>habeas corpus</i> foi negado pelo juiz de
+direito.»<a name="tex2html39" href="#foot1237"><sup>[39]</sup></a></p>
+
+<p>O consul conclue que o juiz de paz condemnára os infelizes a uma multa
+exorbitante; e que mandando appellar da sentença para o juiz de direito, este
+confirmára a condemnação.</p>
+
+<p>É mais uma prova de que o governo do Brazil protege os colonos!</p>
+
+<p>E ainda ha jornaes que teem <i>medo</i> de publicar isto!</p>
+
+<p>E ainda ha quem diga que o ouro dá a dignidade e a independencia!...</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Fallemos sobre os contractos lesivos, feitos entre os colonos e os
+engajadores, ha alguns annos a esta parte; e façamos igualmente mensão da
+protecção dispensada aos colonos pelos <i>senhores</i> de engenho.</p>
+
+<p>O consul do Maranhão examinou em dezembro de 1855 um contracto de locação,
+feito entre o engajador Izidoro Marques Rodrigues e 168 colonos das nossas
+provincias do norte. Não obstante estar já publicada a lei de 20 de julho de
+1855, a mesma auctoridade examinára que as clausulas expressas na referida
+lei não tinham sido attendidas, o que deu logar a alguns abusos quando a
+comitiva chegou ao porto do Maranhão.</p>
+
+<p>Os colonos mettidos no arsenal da Marinha «foram <i>cedidos</i> a
+differentes proprietarios, e como em seus primitivos contractos havia uma
+condição, que os colonos pagariam 10$000 réis, alem da passagem e <i>mais
+abonos</i> feitos pelo engajador, uma vez que não quizessem seguir para a
+colonia (Companhia de Colonisação do Codó); assim satisfariam os novos
+locatarios, ficando os infelizes colonos, subditos portuguezes,
+sobrecarregados<span class="pagenum"><a id="pag_146"
+name="pag_146">[146]</a></span> com este augmento de divida para pagar com
+seu trabalho.»</p>
+
+<p>Em 14 do dezembro de 1855, participava o consul no Rio, os inconvenientes
+de um contracto «summamente oneroso», celebrado entre vinte portuguezes e
+Augusto Cesar Pereira Soares, para uma colonia em Cantagalo; «summamente
+oneroso para similhante gente, que tendo mudado do seu paiz para o Brazil,
+sem onus algum, não podia comtudo trabalhar em terra estranha, por tres
+annos, por tão diminuto preço:&mdash;1.º anno 4$000 réis, 2.º 6$000 e 3.º 8$000,
+mensaes, moeda fraca! Com quanto o locador fosse obrigado a dar comedorias e
+remedios, como seria possivel, accrescenta o consul, trabalhar por tão
+diminuto preço?»</p>
+
+<p>A média do salario dado a estes desgraçados, como será facil de examinar,
+era de 100 réis fortes, de comer... e remedios!</p>
+
+<p>Meio dia de trabalho em Portugal excederá aquella somma.</p>
+
+<p>Oh, que abençoada terra da promissão!</p>
+
+<p>Para mais alguns fazendeiros de Cantagallo, chegára do Porto em 12 de
+janeiro de 1856, uma leva de 50 escravos brancos, contractados a 60$000 réis
+pelo primeiro anno, a 72$000 no segundo e a 96$000 no terceiro, moeda
+fraca!</p>
+
+<p>Os colonos pagaram á sua custa a passagem <i>e mais despezas</i>, na
+importancia de 120$000 réis, ficando por consequencia liquidos em todo este
+tempo 108$000 réis fracos, menor jornal do que 100 réis fracos por dia!</p>
+
+<p>«Estes engajadores, accrescenta o documento official que temos á vista,
+abusando da ignorancia d'esta gente, praticando o que fica referido, faziam
+ao mesmo tempo grande guerra á fiscalisação que se dava no consulado, para se
+oppôr a que os engajadores <i>escravizassem</i> seus patricios com contractos
+tão leoninos.»<span class="pagenum"><a id="pag_147"
+name="pag_147">[147]</a></span></p>
+
+<p>Em 18 de janeiro de 1856, informa o vice-consul em Ubatúba, districto do
+Rio de Janeiro, que indo examinar os tumultos occorridos na colonia creada em
+Taubaté, composta de 378 portuguezes, engajados no Minho, reconhecera, que os
+colonos haviam sido completamente illudidos e lesados em seus interesses,
+porque, sabendo-se que as passagens do Porto para o Rio de Janeiro eram de
+28$800 réis fortes e as d'aqui para Ubatúba, de 6$000 réis fracos, vinha a
+passagem de cada colono a importar até ali em 31$800 réis fortes; no entanto
+que pelos contractos assignados no Porto, os sujeitaram ao pagamento de
+100$000 réis fracos, ganhando por consequencia os engajadores 36$000 fortes
+por cada um!</p>
+
+<p>Aqui o engajador, só d'um jacto, lucrou, como é facil de conferir,
+13:608$000 réis.</p>
+
+<p>E devemos notar, que os colonos, assim ludibriados, estavam sujeitos a uma
+multa de 50$000 réis, se, sem o consentimento do roceiro, se retirassem da
+colonia! Reconhecera o consul que, se tal fizessem, teriam de sujeitar-se a
+quatro annos de captiveiro, em qualquer outra colonia, onde os não receberiam
+(os senhores de engenho entendem-se perfeitamente!) sem a promessa de
+satisfazer aos compromissos que se haviam imposto!</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>A falta de braços começava a sentir-se no imperio, por causa da repressão
+do commercio da escravatura.</p>
+
+<p>De 1822 a 1828, refere Ferdinand Diniz, os resultados do trafico da
+escravatura, só no Rio de Janeiro, era de 43:800 almas, e nos ultimos annos
+podia elevar-se a 90:000 em todo o imperio!<a name="tex2html40"
+href="#foot4282"><sup>[40]</sup></a><span class="pagenum"><a id="pag_148"
+name="pag_148">[148]</a></span></p>
+
+<p>A necessidade de supprir tão grande falta, levou o governo do imperio a
+fechar os olhos aos escandalos que todos os dias se praticavam com a
+acquisição dos colonos portuguezes...</p>
+
+<p>Continuemos, pois, na tarefa de esmerilhar os contractos ruinosos, e a
+<i>humanidade</i> do governo imperial em face de tantos abusos.</p>
+
+<p>Em 18 de junho de 1856 partíra do porto de Pernambuco a galera portugueza
+<i>Flôr do Porto</i>, com ordem de conduzir da ilha de S. Miguel uns trinta
+colonos, contractados a 10$000 réis por mez, pelo tempo de tres annos, sob
+pena de multas pelo não cumprimento do contracto. Isto é, o salario não devia
+ser superior a 120 réis fortes, a secco... fóra as multas!</p>
+
+<p>O consul respectivo declarava que o salario n'esta provincia regulava,
+para qualquer homem de trabalho, de 16$000 a 20$000 réis mensaes,
+independentes da matença, casa e curativo das molestias adquiridas em
+serviço!</p>
+
+<p>Em 19 de dezembro de 1856 apparecera no consulado do Rio de Janeiro um
+contracto firmado no Porto, estipulando ordenados mensaes de 6$000, 7$000 e
+10$000 réis fracos, pagando os colonos 120$000 réis, por passagens, e os
+salarios eram assim estipulados pelo referido consul:&mdash;de 16$000 a 20$000
+réis mensaes, cama e mesa, para os trabalhadores; de 1$600, 1$800, 2$000 e
+2$500 réis, diarios, para os pedreiros, calceteiros, carpinteiros,
+marceneiros, serradores, ferreiros e sapateiros, e sendo mais habeis em
+qualquer dos officios, de 3$000 a 4$000 réis diarios, a secco, preços que
+ainda regulam na actualidade.</p>
+
+<p>O vice-consul da cidade de Santos, tambem diz que os engajadores
+extorquiram a 90 passageiros, idos do Porto, 2:524$000 réis fracos, «porque
+tendo pago ao navio 2:808$000 réis moeda forte, a razão de 6 moedas e meia
+por cada um dos 90 passageiros, e carregando-se-lhes<span class="pagenum"><a
+id="pag_149" name="pag_149">[149]</a></span> 4:070$400 réis, resultado de 88
+passagens a 45$000 réis e duas a 110$400 réis, segue-se ser a lesão de
+1:262$400 réis, fortes»!</p>
+
+<p>«Com estes escandalosos factos, refere a authoridade consular no Rio ao
+nosso governo, se explica a razão porque os especuladores, não lhes convindo
+nenhuma fiscalisação nos respectivos consulados, procuram por todos os meios
+evitar o contacto d'elles com os colonos portuguezes, não se tendo por isso
+registado nenhum d'estes individuos n'aquelles dois vice-consulados, o que
+sem duvida será muito prejudicial para o futuro, porque jámais se poderá
+saber o destino que tiveram.»</p>
+
+<p>Em janeiro do referido anno, chegava ao Rio o patacho <i>Liberdade</i> (!)
+com mais 50 escravos brancos da ilha de S. Miguel, a quem o proprietario do
+navio obrigára a pagar as passagens ao preço de 100 patacões (200$000 réis),
+o dobro do preço que era costume pagar qualquer passageiro!</p>
+
+<p>Estes infelizes foram contractados por 10 e 12 mezes de serviço, recebendo
+2$000 réis mensaes para suas despezas! Mas sendo obrigados a pagar tão grande
+divida, não poderam encontrar patrões para servir por menos de 24 mezes!</p>
+
+<p>N'esta época o governo, tendo em vista as reclamações do nosso consul no
+Rio, sobre «os vexames que soffriam os colonos portuguezes no Brazil, em
+consequencia dos contractos lesivos que faziam em Portugal os agentes
+brazileiros», pedia ao governo do imperio providencias adequadas, a fim de
+evitar tão grande mal, providencias que, segundo a phrase do nosso
+representante na côrte do Rio de Janeiro, se não prestaria a dar o referido
+governo, visto que elle «o mais interessado na emigração para o imperio,
+<i>desejava facilital-a por todos os meios</i>»!</p>
+
+<p>E accrescentava, que os que não queriam contractar<span class="pagenum"><a
+id="pag_150" name="pag_150">[150]</a></span> no consulado o seu serviço por
+um tempo razoavel, iam ter com os juizes de paz «que não tinham empenho em
+olhar pelos interesses do locador e sim pelos dos locatarios, que procuravam
+vexar aquella pobre gente que queriam tomar ao seu serviço.»</p>
+
+<p>Se olharmos com attenção para tão exorbitante differença de salarios, os
+que eram offerecidos aqui pelos engajadores e os que eram estipulados no
+Brazil aos colonos, encontraremos a razão de existirem para ahi verdadeiros
+parasitas disfrutando fortunas colossaes.</p>
+
+<p>O commercio da escravatura tambem tinha d'estes phenomenos! Um negociante
+tomava conta de um carregamento de africanos, emquanto o navio ia em procura
+de nova remessa. A <i>consignação</i> era posta em almoeda, e o
+consignatario, em tres ou quatro dias, ganhava a bagatella de 40 ou 50 por
+cento!</p>
+
+<p>Na verdade, não havia <i>commercio mais licito e mais lucrativo</i>!</p>
+
+<p>Quaes seriam os lucros dos negociantes, que por sua propria conta e em
+navios seus importavam escravos das costas de Africa?!</p>
+
+<p>Nem é bom pensar n'isso.</p>
+
+<p>Os lucros provenientes do commercio de escravos brancos, importados das
+costas de Portugal, com o titulo <i>protector</i> de colonos, não são
+inferiores, convençam-se d'isso!</p>
+
+<p>Os portuguezes, como começamos a ver e não nos cansaremos de examinar são
+aqui contractados pelos engajadores, por um certo praso de tempo, o
+sufficiente para que os colonos paguem a passagem e <i>mais despezas</i>.
+Findo esse tempo, póde-se dizer que o portuguez exhausto não deve nada ao
+engajador, locatario, roceiro, negociante ou capitão do navio que o
+transportára para as plagas brazileiras; mas em <i>compensação</i>, é levado
+para o hospital beneficente portuguez; e d'alli, se melhora, é conduzido a
+Portugal, talvez que pelo<span class="pagenum"><a id="pag_151"
+name="pag_151">[151]</a></span> mesmo navio que outr'ora o conduzira; porém,
+d'esta vez, o capitão já não fia a passagem: o producto de uma subscripção
+publica satisfaz as suas exigencias de traficante!</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Falla o consul de Pernanbuco:</p>
+
+<p>«Ha nos contractos que aqui se me têem apresentado, não só falta de
+clareza, mas condições inexequiveis e até illegalidades.</p>
+
+<p>«Os ultimos contractos que aqui me appareceram foram os de uns sessenta
+colonos, vindos do Porto no brigue portuguez <i>Trovador</i>. Estes
+contractos vem em publica fórma e sem reconhecimento do respectivo consul.
+Não sei portanto se são falsos ou verdadeiros.</p>
+
+<p>«N'estes contractos vem incluidos alguns menores sem o consentimento de
+seus paes ou tutores. O escrivão commetteu um delicto por que deve
+responder.</p>
+
+<p>«São arduas algumas das condições, e que se não podem cumprir sem pôr em
+perigo a saude e vida dos colonos, e outras pouco explicitas e nada claras.
+Pela segunda condição, por exemplo, são os colonos obrigados a trabalhar nove
+horas por dia, sendo em descampado, e dez e meia sendo em logar abrigado.
+Aqui o dia tem regularmente doze horas, e não é possivel que um europeu ature
+n'este clima, exposto aos ardores do sol, o trabalho de nove horas no espaço
+de doze, sem que a saude se lhe deteriore, maximé com comidas a que não estão
+habituados. Expostos ao sol e chuva, não póde exceder o trabalho de sete a
+oito horas.</p>
+
+<p>«Tambem é excessivo o trabalho de dez horas e meia em logar abrigado,
+porque hora e meia não é tempo sufficiente para refeição e descanso. De oito
+a nove é o mais que se póde trabalhar. Se não melhorarem estas condições dos
+contractos, nunca irá por diante a colonisação e as victimas serão
+innumeras.<span class="pagenum"><a id="pag_152"
+name="pag_152">[152]</a></span></p>
+
+<p>«Pela sexta condição se estabelece que antes de terminado o praso poderá
+cada colono rescindir o contracto, pagando 120$000 réis, moeda fraca, como
+multa, custo da passagem e dinheiro despendido com o passaporte e
+preparativos para a viagem. Isto é muito vago, e póde ser muito injusto.</p>
+
+<p>«Uma passagem na prôa, do Porto para esta cidade, regula por 24$000 réis e
+o muito 28$800 réis; o passaporte não chega a 3$000 réis, o que reduzido a
+moeda fraca, não póde chegar a 61$000 réis. Como é pois que em preparativos,
+que bem mesquinhos são, e multa se inclue quasi outro tanto? De quanto é a
+multa? Seria bom que se declarasse a importancia de cada objecto; mesmo que
+seja levado em conta o tempo dos serviços prestados.</p>
+
+<p>«Um contracto contra que estou reclamando por maus tractos, celebrado pelo
+consul do Rio de Janeiro, entre um menor e um desembargador, estabelece que o
+locador se obriga a prestar os seus serviços por espaço de dezoito mezes,
+para satisfação do importe de sua passagem de S. Miguel para o Rio, ganhando
+2$000 rs. por mez! E o locatario se obriga a dar-lhe <i>educação</i>, bom
+sustento, lavar e <i>vestir</i>. Como é que o locador ha de exigir o
+cumprimento d'estas condições? Que se entende por educação? Que se entende
+por vestir?» etc.</p>
+
+<p>Esta <i>educação, bom sustento, lavar e vestir</i>, era naturalmente o
+tratamento que os senhores de escravos costumam dar aos seus
+<i>moleques</i>:&mdash;chicote e umas calças de ganga: da cintura para cima, a
+pelle branca tomava em poucos dias as côres <i>atapuyadas</i>!</p>
+
+<p>Este outro importantissimo documento é do nosso consul no Maranhão:</p>
+
+<p>«O objecto principal d'este meu officio é particularmente fazer conhecer a
+v. ex.ª o estado de colonisação n'esta provincia, afim de que o governo de
+sua<span class="pagenum"><a id="pag_153" name="pag_153">[153]</a></span>
+magestade fidellissima tome as providencias que julgar acertadas.</p>
+
+<p>«No geral todos os individuos que vem para colonias não sabem ler nem
+escrever, e isto faz que elles não possam adquirir outro modo de vida menos
+perigoso do que o trabalho nas terras, que ao norte d'este imperio está visto
+ser só proprio para os africanos, unicos que podem supportar o calor
+abrazador d'este clima e a humidade doa terrenos. Os mesmos salarios por que
+os colonos são engajados na Europa, onde lhes parece que dentro em pouco
+devem fazer aqui alguma fortuna, raras vezes é sufficiente para o seu
+alimento, visto que os generos de primeira necessidade são aqui
+excessivamente caros, e portanto não lhes chega para um alimento igual ao que
+têem na Europa, que seria o unico meio de poderem melhor affrontar a
+intemperie de um clima improprio dos filhos da Europa para o trabalho nos
+campos.</p>
+
+<p>«Por quanto acabo de dizer pode deprehender-se que os colonos andam aqui
+mal vestidos, e raras vezes tem recursos para attender á sua existencia, que
+dentro em pouco fica em perigo, como o attesta o limitado numero que existe,
+comparativamente com o que tem entrado. Diariamente se vêem d'estes nossos
+compatriotas desgraçados, andarem cheios de mollestias e privações,
+promovendo subscripções, de porta em porta, devendo porém n'esta parte
+esclarecer a v. ex.ª d'onde muitas vezes provém tal miseria. Alguns, com a
+ambição de em breve tempo juntar algum peculio, entregam-se emquanto teem
+saude a um excessivo trabalho, d'onde lhes resultam molestias, que mais se
+aggravam pelo desprezo em que as consideram, e sobretudo por fugirem aos
+gastos de um tratamento regular, que se só resolvem fazer quando estão
+proximos a entrar para a sepultura.</p>
+
+<p>«Se eu attendesse a quantas exigencias se me fazem,<span
+class="pagenum"><a id="pag_154" name="pag_154">[154]</a></span> poucos seriam
+os que por aqui ficariam, porque todos lamentam o engano em que cairam, e
+suspiram pela volta aos lares patrios. A expensas minhas, envio no patacho
+<i>Trovador</i> uma familia composta de quatro pessoas, que sem fallar no
+desvio de alguns de seus membros que por cá ficam, depois de dois annos de
+estada aqui, voltam naturalmente em peiores circumstancias do que vieram!»</p>
+
+<p>No excesso da cegueira poderá haver quem diga, que é uma ficção o
+commercio da escravatura branca. Se os documentos em que nos temos baseado
+não confirmam o dito, o que vamos extractar desilludirá os descrentes. É
+ainda do nosso consul em Pernambuco o seguinte trecho:</p>
+
+<p>«É revoltante que por uma passagem de prôa, com o tratamento de bacalhau,
+sardinha salgada e biscoito de milho, se esteja levando a estes degraçados,
+do Porto para aqui, 60$000 réis fortes ou 120$000 réis fracos, quando não ha
+navio que alli não tome um passageiro de prôa por 24$000 ou 28$800 réis.
+Muito bom seria que, tanto no Porto como nas ilhas açorianas, se podessem
+tomar algumas medidas que pozessem cobro a esta escandalosa agiotagem com a
+desgraça.</p>
+
+<p>«Acaba de chegar de S. Miguel o brigue portuguez <i>Oliveira</i>, com 56
+passageiros, e o governador da ilha (não satisfeito com me remetter todos os
+seus passaportes em regra, obrigações e recibos da passagem de cada um),
+depois de não ter consentido que ali se celebrassem contractos de locação de
+serviços, obrigou o capitão do navio a assignar um termo que me remette, no
+qual o capitão se responsabilisa a não deixar desembarcar os passageiros, sem
+que no consulado celebrem o contrato do modo do pagamento de suas passagens.
+N'estas passagens ha a mesma agiotagem que nas do Porto, pois todas vem a 60
+patacões ou 120$000 réis, dinheiro do Brazil.<span class="pagenum"><a
+id="pag_155" name="pag_155">[155]</a></span></p>
+
+<p>«Similhantes passagens importam uma lesão enormissima, a não serem
+consideradas como negocio de risco, e, considerando-as eu como taes, estou
+resolvido a não deixar passar nos novos contractos a obrigação do seu
+pagamento para os locatarios, mas sim conserval-a aos locadores; porque
+d'esta fórma pódem estes fazer mais vantajosos contractos, visto que o
+locatario não corre o risco de perder o importe da passagem que adianta, com
+a prematura morte do locador; e me parece mesmo mais justo e razoavel que lhe
+corra o risco o agiota, que foi levado a isso pelo excessivo lucro.</p>
+
+<p>«Os passageiros se obrigam em seus titulos a satisfazer a passagem dentro
+de oito dias depois da sua chegada a Pernambuco, ao que hypothecam suas
+pessoas e bens. As pessoas não podem ser retidas por dividas, e os bens são
+uma caixa vazia. Se portanto o dono ou consignatario do navio não quizer
+continuar a correr o risco, que obrigue o devedor pelos tribunaes, e ficará
+pago com suas caixas, que é quanto podem dar á penhora.</p>
+
+<p>«Eram estas obrigações das passagens satisfeitas dentro em oito dias
+depois da sua chegada, que tornavam os contractos aqui uma especie de venda
+de suas pessoas; porque, considerando-se obrigados a satisfazer uma somma que
+não tinham nem podiam ganhar em tão curto praso, se entregavam por uma
+bagatela a quem suppunham que os vinha resgatar.</p>
+
+<p>«Parece-me que da maneira que levo dito poderei indirectamente levar as
+cousas a que de futuro se contentem os agiotas com lucros menos excessivos,
+porque, sendo as passagens regulares, não faltará quem, com vantagem dos
+passageiros, lh'as satisfaça logo á sua chegada» etc.</p>
+
+<p>Nada conseguiu o consul, como mais tarde demonstraremos.<span
+class="pagenum"><a id="pag_156" name="pag_156">[156]</a></span></p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Antigamente quando os pretos escravisados desembarcavam no litoral do
+Brazil, os <i>senhores de engenho</i>, antes de entrarem em ajuste com os
+traficantes, procediam a uma rigorosa escolha dos negros que mais poderiam
+convir ao serviço da lavoura, assim como qualquer alquilador escolhe as
+bestas para o serviço dos alugueis.</p>
+
+<p>Pois bem, o que antigamente acontecia aos pretos, succede hoje com os
+brancos, nossos compatriotas.</p>
+
+<p>Em principios de 1857, foram <i>regeitados</i> 174 colonos, idos da cidade
+do Porto, na barca <i>Santa Clara</i>, para a colonia de Campos Junior &amp;
+Irmão, na cidade de Campinas, no Brazil.</p>
+
+<p>Mais alguns casos se haviam dado, e para evitar o escandalo, o governo
+portuguez, a pedido do consul geral na côrte do imperio, deu algumas
+providencias tendentes a estabelecer um accôrdo com o governo brazileiro.</p>
+
+<p>Vamos apresentar aos leitores alguns documentos que esclarecem a questão,
+bem como qual fôra o resultado das negociações entaboladas a este respeito
+entre os dois governos.</p>
+
+<p>É do nosso ministro acreditado na côrte do imperio, e alli residente em
+1858:</p>
+
+<p>«Respondendo ao despacho de v. ex.ª datado de 12 de março ultimo, direi
+com a devida submissão quanto ao seu conteúdo e ao da cópia do officio do
+ministerio do reino que o acompanha, sobre a conveniencia d'um accordo com
+este governo, tendente a prevenir a repetição da <i>regeição</i> de colonos
+mandados angariar no continente de Portugal e ilhas adjacentes por parte de
+qualquer individuo ou companhia no Brazil (como o que se deu ha pouco tempo
+em Santos), que pela circular<span class="pagenum"><a id="pag_157"
+name="pag_157">[157]</a></span> do mesmo ministerio do reino aos respectivos
+governadores civis, citada na dita cópia, foi sabiamente tomada a unica
+medida decisiva possivel na minha humilde opinião contra a má fé e abusos de
+tal ordem.</p>
+
+<p>«No entretanto disponho-me, como devo, estudar o modo de fazer a proposta
+do accordo por v. ex.ª determinado, comquanto me pareça á primeira vista não
+ter probabilidades de felicidade, por isso que no assumpto de que se trata,
+nós temos sómente a pedir, não temos que offerecer. Poderemos talvez chegar
+ao resultado justamente pretendido, ampliando e completando com certo
+apparato a medida acertadissima encetada já pelo ministerio do reino,»
+etc.</p>
+
+<p>Um mez depois escrevia o mesmo diplomata o seguinte:</p>
+
+<p>«Terminei o meu officio de 10 do mez proximo findo, quanto á conveniencia
+d'um accordo com o governo d'este imperio, tendente a evitar a rejeição de
+colonos mandados assalariar d'aqui n'esse reino e ilhas adjacentes,
+aventurando com o devido respeito o meu juizo sobre a pouca probabilidade de
+conseguir ajuste de tal ordem, e acrescentei que, para obedecer a v. ex.ª,
+estudaria comtudo o modo de fazer a respectiva proposta, comquanto me
+parecesse poder chegar-se ao resultado pretendido por meios de mais facil
+adopção por parte do Brazil.</p>
+
+<p>«No proprio interesse da sua colonisação reside a necessidade forçosa de
+moralisar todo e qualquer contracto de locação de serviços, cujo fim seja
+chamar ao imperio braços livres e gente branca, do que não póde prescindir
+sem comprometter a sua existencia, arriscadissima já pela incuria imperdoavel
+dos que com perfeito conhecimento de causa se não tem occupado como deviam e
+podiam de promover uma emigração util.</p>
+
+<p>«Assim o disse eu ha poucos dias ao sr. visconde de<span
+class="pagenum"><a id="pag_158" name="pag_158">[158]</a></span> Maranguape,
+ministro dos negocios estrangeiros, o qual procurei expressamente a fim de
+chamar a sua attenção para o facto verificado em Santos com os colonos
+portuguezes para ali conduzidos na barca <i>Santa Clara</i>, mandados ajustar
+no Porto, e <i>rejeitados</i> depois á sua chegada. E continuando disse que
+referia o occorrido a s. ex.ª, para pedir-lhe, como effectivamente lhe pedia,
+em nome do governo de sua magestade, providencias que evitassem repetições de
+similhante natureza, certo de que, se não fosse bastante, o que eu não punha
+em duvida, encarar o caso pelo lado da humanidade para dar-se-me razão
+inteira, viriam em apoio da minha representação as considerações moraes, as
+de conveniencia e de interesse, que bem sabia s. ex.ª não serem de modo algum
+indifferentes para a prosperidade actual e futura sorte do Brazil, dependente
+da maior ou menor affluencia de emigrantes.</p>
+
+<p>«Assim pois, conclui eu, «será v. ex.ª o primeiro a conhecer a necessidade
+de algum compromisso por parte do governo imperial, para tranquilisar o
+governo que represento, a respeito dos nossos compatriotas, os quaes fiados
+na fé dos contractos, deixam a patria, muito embora com vistas exclusivas de
+vantagem propria, e vem tão efficazmente, tão visivelmente concorrer para o
+engrandecimento do imperio».</p>
+
+<p>«Para estas considerações, aliás de primeira intuição, não ha resposta, e
+por conseguinte não fez o mesmo ministro outra cousa senão abundar nas minhas
+idéas, com expressões que me pareceram sinceras, e em perfeito accordo com os
+nossos desejos. E como eu lho havia declarado a clausula mandada inserir por
+circular do ministerio do reino nos contractos de locação de serviços para o
+Brazil, que de futuro hajam de fazer-se entre nós, disse-me s. ex.ª que em
+harmonia com aquella disposição, <i>mas sem allusão a ella</i>, proporia aos
+seus collegas uma disposição <i>com todo o caracter de<span
+class="pagenum"><a id="pag_159" name="pag_159">[159]</a></span></i>
+<i>espontanea</i>, por meio da qual ficaria satisfeito o governo de sua
+magestade, e acautelados os verdadeiros interesses do Brazil. O que comtudo
+não poderia ter logar desde já e emquanto não estivesse em andamento a actual
+sessão legislativa depois de apresentados os relatorios dos diversos
+ministerios, com os quaes elle e seus collegas se achavam muito occupados,»
+etc.</p>
+
+<p>Na serie de documentos que temos presente, não podemos encontrar as
+disposições <i>espontaneas</i>, que o governo brazileiro pretendia preparar,
+quando estivesse em andamento a tal sessão legislativa!</p>
+
+<p>Queremos dizer com isto, que as reclamações do governo de Portugal foram
+desattendidas, naturalmente, porque ao governo <i>humanitario</i> do Brazil,
+convinha, primeiro do que tudo, consultar os <i>roceiros</i> a respeito das
+nossas pretenções, que necessariamente haviam de offender os seus
+interesses!</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>O governo brazileiro a tudo promettia providencias; mas não lhe fazia
+conta maltratar os fazendeiros.</p>
+
+<p>Vamos apresentar mais uma prova d'esta nossa asserção.</p>
+
+<p>«Em virtude de certa denuncia, communica o nosso ministro na côrte do
+imperio ao governo portuguez, representou-me o vice-consul encarregado do
+consulado geral de Portugal, contra o procedimento havido com alguns colonos,
+subditos de sua magestade, em uma fazenda do municipio de Iguassú, não mui
+distante d'esta capital.</p>
+
+<p>«Não perdi tempo em solicitar do governo imperial pela nota da cópia junta
+as averiguações e providencias indespensaveis para remediar o mal verificado.
+E aproveitei a occasião <i>para instar pela quarta ou quinta<span
+class="pagenum"><a id="pag_160" name="pag_160">[160]</a></span> vez, pela
+solução de uma representação identica</i> em favor de outros colonos, tambem
+portuguezes, para ser dirigida a este governo em meado do anno preterito!!!»
+(1858)</p>
+
+<p>Este outro documento que vamos transcrever, é a nota a que se refere o
+nosso ministro na corte do imperio:</p>
+
+<p>«Não posso dispensar-me de levar ao conhecimento de v. exª, na cópia
+inclusa, o officio que ora me foi entregue por parte do consulado geral de
+Portugal, n'esta côrte. Da mesma cópia v. ex.ª verá o comportamento
+attribuido ao rendatario de certa fazenda no municipio de Iguassú, Francisco
+José de Freitas, para com os colonos portuguezes ao seu serviço, bem como a
+immoralidade com que, segundo alli se affirma, tem procedido o referido
+Freitas a respeito da filha de um dos ditos colonos, menor de 13 annos.</p>
+
+<p>«Não escaparão por certo a v. ex.ª as circunstancias, constantes do citado
+officio, de haver sido denunciado no dito consulado o facto acima exposto,
+por pessoas inteiramente desinteressadas, e do misero estado em que da dita
+fazenda se evadiram dois d'aquelles colonos, os quaes por isso mesmo tiveram
+de ser transportados em rede para o hospital.</p>
+
+<p>«Quanto a mim abstenho-me de qualquer reflexão sobre taes occorrencias,
+bem certo de que não podem ser senão sobremodo desagradaveis as que affluirão
+no animo de v. ex.ª, com a simples leitura do já referido documento junto.</p>
+
+<p>«Limito-me pois a pedir a v. ex.ª com a maior instancia, sem perda de
+tempo, as providencias promptas e energicas que o caso exige, permitta-me v.
+ex.ª que o diga, no proprio interesse do Brazil, comprovada a verdade da já
+alludida denúncia.</p>
+
+<p>«Contra factos identicos, não menos escandalosos, verificados em Taubaté,
+o anno proximo passado, tive<span class="pagenum"><a id="pag_161"
+name="pag_161">[161]</a></span> a honra de reclamar medidas de severidade por
+parte do governo imperial, e com quanto seja de 28 de julho preterito aquella
+minha representação, sobre a qual tomo a liberdade de chamar a séria attenção
+de v. ex.ª, <i>não recebi resposta d'ella até hoje</i>, decorridos perto de
+sete mezes. Lisonjeando-me de que serei mais feliz n'esta occasião,
+aproveito-a para renovar os protestos,» etc.</p>
+
+<p>A resposta do governo imperial é a que segue:</p>
+
+<p>«Tive a honra de receber a nota... pela qual o sr. José de Vasconcellos e
+Sousa, remetteu-me copia do officio que lhe dirigiu o consul geral de
+Portugal n'esta côrte, expondo-lhe os reprehensiveis actos attribuidos ao
+arrendamento de uma fazenda do municipio de Iguassú, Francisco José de
+Freitas, para com certos colonos portuguezes, que tem a seu serviço, e á
+filha menor de um d'elles.</p>
+
+<p>«Sciente das observações que a este respeito fez o sr. Vasconcellos e
+Sousa na sua citada nota, e convencido da urgente necessidade de verificar o
+fundamento de semelhantes accusações, cumpre-me prevenil-o de que pelo
+ministerio do imperio, ao qual n'esta data dirijo-me, se procederá aos
+precisos exames e se tomarão as medidas correccionaes e preventivas que o
+caso exigir, <i>sendo prudente não comdemnar desde já a parte accusada</i>
+(se elle é roceiro!)»</p>
+
+<p>«Quanto ao trecho da mesma nota, em que o sr. Vasconcellos se queixa da
+falta de resposta por parte d'esta secretaria d'estado á sua reclamação de 28
+de julho do anno proximo passado, em favor dos colonos de Taubaté, peço
+licença para observar-lhe que, dependendo essa resposta de informações que
+teem de ser enviadas por authoridades das provincias de S. Paulo é inevitavel
+a demora que nota o sr. de Vasconcellos, attendendo-se ás distancias e outras
+circumstancias bem conhecidas, proprias de um paiz tão extenso e pouco<span
+class="pagenum"><a id="pag_162" name="pag_162">[162]</a></span> povoado como
+o Brazil. Entretanto tornarei a chamar a attenção do sr. ministro do imperio
+sobre este objecto,» etc.</p>
+
+<p>Mas as providencias nunca se deram; pelo menos a esta crença nos induz o
+silencio usado pelo governo imperial a respeito da questão.</p>
+
+<p>A razão apresentada pelo ministro brazileiro da <i>extensão do paiz</i>,
+se não podia insentar o governo do imperio de culpabilidade, com respeito ao
+negocio de Taubaté, por quanto em dois ou tres mezes devia ter dado as
+explicações pedidas pelo representante de Portugal; menos poderia desculpal-o
+com relação ao conflicto de Iguassú, que, como vimos, fazia parte do
+districto do Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>O documento que passamos a transcrever não é menos interessante. É elle
+assignado pelo conde de Thomar, e tem a data de 27 de outubro de 1859:</p>
+
+<p>«Em 15 do corrente apresentou-se n'esta legação um rapaz de doze para
+treze annos, por nome José Fernandes, o qual disse ter vindo da ilha
+Terceira, acompanhado de um individuo, que se disse seu tio, chorando e
+mostrando alguns ferimentos nas pernas, os quaes o mesmo rapaz asseverou
+terem sido feitos com <i>chicote</i> mandado applicar por sua ama, pelo
+motivo de elle não poder fazer todo o serviço, que lhe era exigido, e que
+elle reputava seguramente superior ás suas forças. Vendo o estado em que se
+achava aquella creança, ordenei que se conservasse na legação, até que eu,
+colhendo as devidas informações, resolvesse o que fosse mais conveniente.</p>
+
+<p>«Mandei que o consul com a maior urgencia indagasse sobre aquelle facto, e
+me informasse devidamente. Convenci-me por tudo o que me foi presente, que o
+rapaz poderia ter commettido algum descuido no desempenho das suas
+obrigações, mas esse descuido nunca poderia auctorisar o emprego do
+<i>chicote</i> contra uma<span class="pagenum"><a id="pag_163"
+name="pag_163">[163]</a></span> creança d'aquella idade, castigo cruel
+reservado para os negros mais desmoralisados. Resolvi portanto fazer annullar
+o contracto da venda de serviços por dezoito mezes, feito pelo mencionado
+menor. Desembolsei para isso 100$000 réis fracos, e tenho aquella creança em
+minha casa até que lhe possa dar outro destino.</p>
+
+<p>«Aproveitei este acontecimento para entrar melhor no exame de todas as
+circumstancias, que acompanham o embarque de muitos portuguezes de todas as
+idades e differentes sexos para este imperio; e bem assim do modo por que são
+elaborados os contractos da locação de serviços dos subditos de sua
+magestade.</p>
+
+<p>«Ordenei portanto ao consul geral, que enviasse a esta legação o
+passaporte original d'aquelle rapaz, e copia do contracto de locação dos seus
+serviços, informando ao mesmo tempo de tudo que soubesse a tal respeito.</p>
+
+<p>«Verifiquei, pois, pelo dito passaporte original, passado no governo civil
+de Angra, que o dito menor é da ilha Terceira, e que veiu aggregado a seu
+cunhado Alexandre Gonçalves e sua mulher; no dito passaporte se declara que o
+dito rapaz é menor de 13 annos.</p>
+
+<p>«Sendo assim menor de 13 annos, e tendo pae como elle proprio declarou,
+podia dar-se um tal passaporte sem a declaração do expresso consentimento do
+pai?</p>
+
+<p>«Estando sujeito ao recrutamento, tomaram-se acaso as devidas precauções
+para que não deixasse de pagar o tributo de sangue, sendo em occasião
+opportuna chamado pela sorte?</p>
+
+<p>«Chegando aquelle menor a este imperio figura em um contrato de locação de
+serviços por desoito mezes, mediante a somma de 100$000 réis fracos,
+assignado pelo locador, o conselheiro João José de Carvalho, e pelo consul em
+nome e por parte do menor locatario. A referida quantia de 100$000 réis é a
+somma exigida pelo capitão da <i>Nova Rival</i>, que o conduziu, como
+importe<span class="pagenum"><a id="pag_164" name="pag_164">[164]</a></span>
+da passagem e comedorias! É assim que os capitães dos navios vendem
+temporariamente os subditos de sua magestade!» etc.</p>
+
+<p>Quando os nossos compatriotas não podem aturar os castigos corporaes que
+<i>seus senhores</i> lhes mandam infligir pelos negros, vem a miseria, a
+fome, n'este paiz onde o ouro anda aos pontapés, n'esse paiz onde jámais se
+realisará a promessa do sr. Augusto de Carvalho, de&mdash;<i>cento por um</i>.</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Não descurava o conde de Thomar tambem do horroroso flagello da febre
+amarella, que já em 1860 produzio os seus maleficos estragos; mas foi bradar
+no deserto.</p>
+
+<p>O remedio apontado, que é prohibir a emigração para os portos
+infeccionados, ainda não foi adoptado, naturalmente pela difficuldade que
+offerece a creação de qualquer taxa, a exemplo do que se pratica no Lazareto
+com os passageiros vindos dos portos infeccionados d'aquella terrivel
+molestia.</p>
+
+<p>É que os nossos legisladores deixariam de ser <i>verdadeiros
+patriotas</i>, se alguma vez cahissem na patetisse de fazer uma lei que não
+esbulhasse o pobre povo do que tanto lhe custa a ganhar.</p>
+
+<p>A lei que pozesse termo á emigração para o Brazil, especialmente na quadra
+de janeiro a junho, era uma lei humanitaria, que jámais poderia ser atacada
+pelos verdadeiros liberaes.</p>
+
+<p>A obrigação dos governos é desviar os administrados do precipicio, que os
+seus fracos conhecimentos do mundo lhes não deixam vêr.</p>
+
+<p>São insignificantes os resultados tirados da publicação das relações do
+obituario, que os nossos consules nos enviam do imperio. E a razão é simples:
+é que a nossa<span class="pagenum"><a id="pag_165"
+name="pag_165">[165]</a></span> população d'onde sahem os emigrados não sabe
+lêr; ou se sabe não está ao alcance de lêr os jornaes mais importantes, onde
+apparecem publicadas essas listas, que muito poderiam influir no animo dos
+que em tão horrorosa quadra entendem dever deixar a patria.</p>
+
+<p>A imprensa que mais se entranha no coração do povo, essa, com rarissimas
+excepções, pouco ou nenhum caso faz d'isto, por causa do <i>medo</i>...</p>
+
+<p>Comtudo publica em seu logar as noticias <i>importantes</i> do baile do
+sr. commendador Fulano, ou do feliz parto da esposa do sr. Sicrano!</p>
+
+<p>Esta medida de publicar as relações nominaes dos subditos portuguezes,
+fallecidos no Brazil, com a declaração da molestia de que tinham succumbido,
+fôra lembrada pelo conde de Thomar, em 1860, com o fim de evitar a
+emigração.</p>
+
+<p>Mas parece que tão bom alvitre não tivera a recepção que era para esperar.
+Mais uma razão da falta de vontade do nosso governo em querer auxiliar o
+conde em tão util propaganda.</p>
+
+<p>O seguinte trecho, que vamos extrahir do seu officio de 7 de maio de 1860,
+resente-se d'esta falta:</p>
+
+<p>«Sinto que o governo não julgasse aproveitavel a idéa que suggeri na minha
+correspondencia, fazendo publicar diariamente na folha official e nos jornaes
+sobre que podesse exercer alguma influencia, a relação dos portuguezes mortos
+n'este imperio, declarando-se sempre a molestia de que são victimas, e a sua
+edade.</p>
+
+<p>«É isto muito facil, pelo menos quanto ao Rio de Janeiro, porque nada mais
+haveria a fazer senão transcrevêr o obituario, que diariamente publicam os
+jornaes brazileiros, que mando para a secretaria a cargo de v. ex.ª.</p>
+
+<p>«Affigura-se-me que este systema seria preferivel ao de publicar em um só
+diario de Lisboa, uma longa lista de nomes. A circumstancia que se notaria,
+<i>de que a<span class="pagenum"><a id="pag_166"
+name="pag_166">[166]</a></span> maior parte morrem de febre amarella, e quasi
+todos na melhor e mais apropriada edade para fazer fortuna e para
+trabalhar</i>, seria, no meu entender, a cruzada mais poderosa que se poderia
+promover contra a emigração. Daria isto ainda logar a occupar-se
+frequentemente a imprensa portugueza de tão importante objecto, porque tinham
+sempre thema para discorrer; estou quasi certo de que algum bom resultado se
+havia de tirar d'este meio.</p>
+
+<p>«Aqui mesmo faz muita impressão a leitura diaria d'aquelle artigo
+(obituario) sendo talvez o primeiro que chama a attenção dos leitores.</p>
+
+<p>«Consta-me que muitos dos infelizes ultimamente chegados foram logo
+victimas da <i>febre amarella</i>; nem póde deixar de assim acontecer,
+porque, sendo a bahia do Rio de Janeiro o logar mais mortifero, é tambem
+aquelle aonde menos promptamente se póde acudir com os soccorros.</p>
+
+<p>«Parece incrivel que o governo d'este paiz, tão interessado na introducção
+de colonos, se não tenha lembrado de adoptar alguma medida para fazer com que
+os navios em que são transportados os colonos, cheguem aqui em estação mais
+propria, ou que ao menos se demorem os colonos pouco tempo na dita bahia,
+etc.</p>
+
+<p>«Reconheço que existe algum obstaculo, porque os capitães especuladores,
+altamente interessados na venda dos serviços dos ditos colonos, encontrarão
+maiores difficuldades para a verificarem, etc.</p>
+
+<p>«Mas a vida perdida de tantos homens na flôr da sua edade, não valerá a
+pena de pensar n'este importante objecto? É minha intenção chamar a attenção
+do governo imperial sobre este ponto, na occasião em que se discutir a
+respectiva convenção.»</p>
+
+<p>Nada se chegou a conseguir, porque o illustre diplomata pouco tempo depois
+retirava-se para Portugal.</p>
+
+<p>Sobre o mesmo assumpto já o referido ministro tinha<span
+class="pagenum"><a id="pag_167" name="pag_167">[167]</a></span> chamado a
+attenção do nosso governo, em seu officio de 30 de março de 1860, nos
+seguintes termos:</p>
+
+<p>«Por esta occasião chamarei de novo a attenção de v. ex.ª sobre os que
+morrem de <i>febre amarella</i>. São na maior parte portuguezes ultimamente
+chegados das ilhas e do reino.</p>
+
+<p>«Não é possivel conceber como se procura tão perigosa e doentia estação
+para desembarcar no Brazil gente transportada da Europa. É negocio que
+demanda uma providencia, pois exige a humanidade, que se não deixem assim
+correr ao matadouro moços pela maior parte de 15 a 25 annos.»</p>
+
+<p>Que providencias se têem tomado? Uma unica, a nosso ver, pouco
+proficua:&mdash;a de se publicar na folha official a lista dos subditos
+portuguezes fallecidos no Brazil. Mas perguntamos: Quem é que lê a folha
+official? A resposta é facil. Os empregados publicos, por obrigação, e os
+ricassos, que tendo requerido certas honrarias, assignam o <i>Diario</i>, que
+n'um momento os ha de transformar de pygmeus em ridiculos barões!</p>
+
+<p>Se os que podiam remediar o mal, curassem menos de futilidades,
+lembravamos-lhe o seguinte expediente:</p>
+
+<p>Mandar publicar diariamente por conta do governo, em todos os jornaes do
+paiz, um mappa circunstanciado da mortalidade dos subditos portuguezes
+fallecidos no imperio.</p>
+
+<p>Estamos certos que nenhum jornal deixaria de publicar gratuitamente tão
+importante documento, se directamente lhe fosse enviado pelo governo; porque
+é preciso dizer que, a maioria dos jornaes portuguezes guerreia a emigração,
+e se não lança mão d'este grande meio de combate, é porque nem todos possuem
+o <i>Diario do Governo</i>, especialmente os das provincias.</p>
+
+<p>Para essa minoria de jornalistas, que fazem da imprensa o ariete com que
+costumam remover as suas difficuldades financeiras; para esses que não vêem
+na imprensa<span class="pagenum"><a id="pag_168"
+name="pag_168">[168]</a></span> um meio de moralisar e ensinar os povos, mas
+um meio de especulação; para esses que substituem por annuncios de namorados,
+a 20 réis a linha, as noticias de factos importantissimos: para esses, a paga
+do espaço occupado pelos mappas de que vimos fallando.</p>
+
+<p>A despeza material não é muita, se attendermos á importancia moral da
+receita.</p>
+
+<p>E quando mesmo se pagasse a toda a imprensa este trabalho, que importancia
+tem estas despezas comparadas com as que os governos fazem na compra da
+opinião dos especuladores, que, tão inconscientemente, apregoam na tuba da
+fama, as glorias ficticias de seus patronos?!</p>
+
+<p>O governo inglez não prohibe nem aconselha a emigração; mas offerece
+gratuitamente aos editores os relatorios de exames a que manda proceder nos
+paizes indigitados pelos aliciadores aos filhos da Inglaterra.</p>
+
+<p>Estes relatorios que custam milhares de libras ao governo, e que, por
+terem sido elaborados por homens competentissimos, contam as verdades sobre a
+inconveniencia da emigração para certos e determinados territorios, são
+immediatamente impressos e distribuidos nos grandes centros da população
+ingleza, que assim fica inteirada das artimanhas dos aliciadores.</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>Os roceiros do Brazil, a quem faltam os mais comesinhos principios da
+humanidade, desde que no imperio, leis proficuas á humanidade, porém ruinosas
+para a sua prosperidade material, aboliram o commercio da escravatura,
+destacaram ignobeis agentes para a Europa, com o fim de encetarem o commercio
+da <i>escravatura branca</i>, se não mais horrivel, igual ao de negros que a
+lei recentemente libertára.<span class="pagenum"><a id="pag_169"
+name="pag_169">[169]</a></span></p>
+
+<p>Por seu turno o negociante tambem coadjuva os roceiros: animando a
+emigração, auxilia os engajadores; e se não representa o seu proprio papel,
+os porões de navios de que são proprietarios, vem lembrar o ominoso tempo da
+<i>escravatura preta</i>.</p>
+
+<p>Mas lancemos mão do bistori e descarnemos o corpo cangrenoso, para que
+nossos leitores, observando-lhe as pustulas venenosas, affastem de si o puz
+mortifero.</p>
+
+<p>Engajador é peor que negreiro; porque este, nas costas da barbarie, em
+troco de um ente quasi inerte, de fórmas humanas, entregava ao <i>regulo</i>,
+seu senhor, qualquer bugiaria. Os parentes, se os tinha, riam-se da
+traficancia com um riso selvagem, collocavam em pedestal o objecto offertado,
+dançavam e cantavam em de redor d'este idolo, emquanto outros selvagens
+acorrentavam seus proprios irmãos. Tudo isto era estupido e ao mesmo tempo
+tragico; da parte do negociador <i>civilisado</i> manifestava-se um cynismo
+que nem a todos os <i>civilisados</i> residentes no Brazil causaria asco; o
+negocio era simples, não levava muito tempo a fazer:&mdash;dá cá, toma lá&mdash;; eis
+as phrases trocadas entre o <i>selvagem</i> europeu e o selvagem africano.
+Não havia lucta de consciencia da parte do que vendia, nem tão pouco da parte
+dos que eram vendidos. O negreiro, o que comprava, amoldava os sentimentos,
+se é que os tinha, conforme as occasiões; comtudo, este não era peior que o
+roceiro a quem eram destinados os negros. Mas o engajador, que em nosso tempo
+veiu substituir o negreiro, é mais cynico. Assim como acontecia ao negreiro,
+o engajador leva em mira o mesmo fim&mdash;o interesse; mas emquanto que o
+negreiro supportava as fadigas das longas viagens e os rigores de um clima
+pestifero, o engajador, em nossas terras, é recebido nas salas, é protegido
+das influencias monetarias, chama-se-lhe cidadão prestante, offertam-se-lhe
+brindes valiosos, conferem-se-lhe commendas, etc. etc.<span
+class="pagenum"><a id="pag_170" name="pag_170">[170]</a></span></p>
+
+<p>O engajador não se afadiga muito. Um dia por semana, se tanto, lhe basta
+para o <i>seu negocio</i>. Esse dia que Deus déra para descanso, segundo as
+tradições biblicas, emprega-o elle em seduzir seus irmãos, por occasião da
+missa conventual, junto da ermida do aldeão do norte. É alli, junto do altar
+de Deus, ao pé do symbolo sacrosanto do martyr do Golgotha, sentinella
+silenciosa postada no adro transformado em mercado de gente humana, que o
+engajador encarece as riquezas ephemeras do Brazil, para em troca receber
+maior numero de adhesões. A lucta de consciencia estabelece-se então com
+todos os horrores. É aqui que o engajador se torna peior que o negreiro que
+vende gente a <i>civilisados</i>, na persuasão de que os negros são bichos; é
+aqui que o engajador faz ao mesmo tempo o papel de ladrão e assassino, porque
+os contractos de locação de serviços, que com os portuguezes estabelece, são
+extraordinariamente lesivos para estes; e do assassino, porque os
+portuguezes, seduzidos para trabalhar no Brazil, irão morrer lá
+infallivelmente.</p>
+
+<p>«São homens preversos (os engajadores), verdadeiros parasitas, refere o
+consul no Maranhão em seu relatorio de 7 de dezembro de 1874, que se
+entretêem em illudir com os mais gratos sorrisos de uma felicidade que é toda
+ephemera aos seus incautos irmãos, e não trepidam em commetter todos os
+desmandos, uma vez que aufiram o lucro estipulado; identificando-se assim com
+os proprietarios dos navios que hoje fazem commercio com a emigração e
+procuram tambem nutrir-se com a boa fé dos infelizes, avidos de serem ricos.
+Achando echo no remanso das familias o embuste, a mentira e os falsos
+testemunhos d'esses homens que lhe asseguram o mais facil e prompto alcance
+da sua cobiça, tem elles sabido prejudicar a fortuna domestica e a do seu
+proprio paiz.</p>
+
+<p>«De todas as emprezas fundadas não póde haver seguramente<span
+class="pagenum"><a id="pag_171" name="pag_171">[171]</a></span> nenhuma mais
+vil e ignominiosa do que seja esta, que tem por fim seduzir uma innumeravel
+multidão de portuguezes ignorantes, e por isso facilmente se deixam dominar
+pelas ficticias narrações das abundantes minas de oiro, que se encontram por
+toda a parte, pelas excellencias e fertilidades d'este solo!»</p>
+
+<p>O consul do Rio de Janeiro é de opinião que os armadores de navios, para
+conseguirem <i>lastro</i>, «dão-se tambem a tão barbara propaganda de
+arrancar á patria e á familia esses infelizes, enganados por vãs promessas,
+os quaes, ignorantes do alto preço dos objectos aqui, se deixam fascinar pela
+grandeza relativa dos salarios porque alli contractam seus serviços.»</p>
+
+<p>Em 1856 dizia a mesma auctoridade que «tendo-se construido muitos navios,
+tanto na cidade do Porto, como nos estaleiros ao norte do Douro, uma parte
+d'esses navios fôra destinada ao porto do Rio de Janeiro. Os negociantes
+proprietarios d'esses navios, buscaram todos os meios de lhes proporcionar
+<i>bons fretes</i>, e como um dos principaes, talvez o mais lucrativo, <i>é a
+importancia do que pagam os passageiros</i>, resolveram fiar a maior parte
+das passagens, para serem pagas no Rio de Janeiro, pelo meio ha muito em
+pratica da locação de serviços.»</p>
+
+<p>O carregamento d'estes navios, foi, em dois mezes, de 22 de setembro a 23
+de novembro do referido anno, de 3:114 colonos!</p>
+
+<p>O commerciante comprava navios. O dinheiro que havia de empregar nas
+emprezas lucrativas e honradas, era destinado a escravisar os seus proprios
+irmãos e compatriotas.</p>
+
+<p>Esses negociantes a quem podemos chamar <i>negreiros</i> de nova especie,
+bem sabem que o braço europeu não pode substituir nos tropicos o africano.
+Mas que lhes importa a elles isso?!</p>
+
+<p>O negociante de escravos brancos não deve atterrar<span class="pagenum"><a
+id="pag_172" name="pag_172">[172]</a></span> os infelizes, porque n'isso vae
+o seu interesse. Vinte mil portuguezes entrados, pouco mais ou menos, em cada
+anno, nos differentes portos do Brazil, representam a valiosissima somma
+<i>de mil contos de réis</i>, só de passagens, que os proprietarios de navios
+e os engajadores dividem entre si!</p>
+
+<p>A somma não é para rejeitar, e os senhores d'engenho, que vêem no futuro
+os seus lucros, garantem a uns e outros aquelle rendimento, por isso que o
+producto do trabalho dos colonos serve, em primeiro logar, para pagamento das
+passagens e <i>mais despezas</i>!</p>
+
+<p>Que importa aos traficantes que os pobres colonos subscrevam contractos
+lesivos? Chegam os lucros obtidos nos primeiros tempos de trabalho para pagar
+aos engajadores e aos donos dos navios? Nada mais é preciso!</p>
+
+<p>Que importa os maus tratos inflingidos pelos <i>senhores</i> aos nossos
+compatriotas? que a miseria prostre os que não podem sugeitar-se ao trabalho
+e a esses tratos?</p>
+
+<p>Lá estão as casas de benificencia, instituidas por portuguezes
+benemeritos, que, afinal, estão sempre promptas para receber em seu seio os
+desafortunados, e a reenviar á patria, com o auxilio dos seus rendimentos, os
+que sobrevivam a tanta miseria. E a fallar a verdade merece a pena ir ao
+Brazil, só fiado em taes auxilios: estes estabelecimentos não servem para
+outra cousa, segundo o modo de ver dos optimistas!</p>
+
+<p>E com quanto contribuem os <i>negreiros</i> para esses estabelecimentos
+(elles contribuem porque é preciso aparentar caridade!)? Com algumas cedulas
+de mil réis: uma migalha dos juros do dinheiro extorquido aos incredulos das
+miserias no Brazil!</p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Tratámos dos lucros materiaes do traficante da escravatura branca, e agora
+apresentaremos a leves traços<span class="pagenum"><a id="pag_173"
+name="pag_173">[173]</a></span> os lucros moraes que elles auferem do seu
+commercio.</p>
+
+<p>Um traficante de carne humana, em nossos tempos, tem mais influencia de
+que um principe, nas epocas passadas do chamado obscurantismo. E na verdade
+se de obscurantismo chamavam ás epocas em que se vendiam os negros, que
+chamarão á epoca presente em que livremente se exerce o trafico infame da
+venda de nossos compatriotas?...</p>
+
+<p>E não se diga que não; isto é, que o traficante não dispõe de influencia
+junto dos nossos governantes para que a empresa da escravatura branca produza
+os effeitos ambicionados.</p>
+
+<p>A proposito da emigração publicámos ha tempos uma serie de cartas no
+<i>Jornal da Noite</i>,<a name="tex2html41"
+href="#foot1341"><sup>[41]</sup></a> em que alem de outras proposições
+avançamos a seguinte:</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Affiançou-se-me mais: affiançaram-me que das repartições superiores,
+d'onde dizem que todos os dias baixam <i>providencias</i> contra a emigração
+clandestina, se ordenára á policia que evitasse, quanto podesse, ir a bordo
+na occasião da sahida dos paquetes para o Brazil!»</p>
+
+<p>Depois d'isto escripto foram-nos mostrados os documentos que provam a
+asserção: as taes influencias é que obrigaram os altos poderes do estado a
+obstar que as leis fossem cumpridas!...</p>
+
+<p>A portaria circular de 10 de agosto de 1870,<a name="tex2html42"
+href="#foot1369"><sup>[42]</sup></a> passada a favor de José Maria Gavião
+Peixoto, colonisador no imperio do Brazil, faz crer que interesses menos
+licitos lhe deram origem, porque Gavião Peixoto, tendo abusado da credulidade
+de alguns trabalhadores do Alemtejo, com os quaes contractára serviços para
+serem prestados no Brazil a razão de 150 réis, foram-lhe<span
+class="pagenum"><a id="pag_174" name="pag_174">[174]</a></span> relevadas as
+faltas commettidas no alliciamento da pobre gente!</p>
+
+<p>Um negociante de carne humana no Brazil telegrapha para o negociante de
+carne humana em Portugal, e previne-o que é de absoluta necessidade, para que
+haja bom exito na empresa de escravisar nossos irmãos, que o consul Sicrano
+ou Beltrano seja removido d'este ou d'aquelle ponto, pelo facto de repugnar á
+sua consciencia de homem de bem o horroroso trafico dos seus desventurados e
+illudidos compatriotas!</p>
+
+<p>Se o traficante não consegue a remoção pedida, consegue que os serviços do
+empregado digno sejam esquecidos, se não desconsiderados.</p>
+
+<p>Ha exemplo de remoções; ha desprezo dos poderes publicos aos serviços
+prestados a Portugal por empregados dignos; ha finalmente, recompensas dadas
+a quem devia ser castigado como indigno!</p>
+
+<p>Exemplos:</p>
+
+<p>Portugal fôra nobremente representado por um portuguez illustre e honrado,
+em Manáus, na provincia do Amazonas. O presidente respectivo despresava
+sempre as reclamações do vice-consul; desconsiderava Portugal, por palavras e
+acções, chegando os seus excessos até ao ponto de mandar espadeirar alguns
+portuguezes alli residentes; e por que o empregado digno protestasse contra
+as offensas praticadas a Portugal e seus filhos, teve em paga a demissão!
+Nomeou-se outro vice-consul, a contento do insultador! Mais tarde esse novo
+empregado attesta uns serviços ficticios prestados a Portugal, pelo tal
+presidente, falsidades reconhecidas hoje, e os poderes do estado dão-lhe um
+titulo nobliarchico, em paga dos insultos e das espadeiradas! Viemos á
+imprensa protestar contra o escandalo; quezemos isentar o governo, julgando-o
+illudido pelo vice-consul; mostramos-lhe a falsidade dos documentos passados
+por este empregado, aos quaes o governo se escudára<span class="pagenum"><a
+id="pag_175" name="pag_175">[175]</a></span> para dar ao indigno magistrado
+brazileiro immerecida honraria; levamos as nossas queixas ao parlamento;<a
+name="tex2html43" href="#foot4286"><sup>[43]</sup></a> mas nada se fez em
+favor da moralidade offendida!</p>
+
+<p>A nós que presamos a honra d'esta nação, chamaram-nos impertinente; aos
+portuguezes que prottestaram comnosco, mandou-se-lhes naturalmente dizer que
+mandassem para cá mais algum dinheiro, producto das subscrições alli
+permanentemente abertas, já para os monumentos, já para os asylos, já para os
+inundados, já para o armamento geral do paiz, por que os portuguezes
+residentes no Brazil são verdadeiros patriotas; mas em <i>compensação</i>
+conservou-se no logar de representante de Portugal aquelle que não fizera
+mais do que espesinhar-lhe as suas passadas glorias!</p>
+
+<p>É que o homem tinha cá das taes influencias, e nós chegámos a uma época,
+que se diz de progresso, em que valem mais as influencias deshonrosas do que
+a dignidade da nação e aquelles que por ella pugnam!</p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>Os traficantes tambem ameaçam os empregados dignos, que lá no imperio
+guerream a emigração.</p>
+
+<p>Aqui está um documento curioso que prova isso mesmo. Omitimos os nomes dos
+presonagens principaes, para que não soffra alguma tyrannia o seu honrado
+auctor. Estamos em tempo de liberdade de consciencia... mas toda a cautella é
+pouca!</p>
+
+<p>É este o documento:</p>
+
+<p>«Não obstante constar do referido relatorio, para o qual tomo a liberdade
+de chamar a attenção de v. ex.ª, todos os factos que deram logar ao delicto,
+communicava<span class="pagenum"><a id="pag_176"
+name="pag_176">[176]</a></span> um consul de Portugal residente no Brazil, a
+proposito das veniagas d'uma influencia de lá; ainda assim julgo do meu dever
+revestil-os das considerações que se lhe adherem e pelos quaes verá v. ex.ª
+quão arduo e espinhoso, se torna aqui o exercicio de funcções consulares,
+quando se quer ser um verdadeiro interprete da lei.»</p>
+
+<p>E começando por apontar os taes figurões, que tornavam arduo e espinhoso o
+cargo de consul no Brazil, continua:</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Não é esta a primeira vez que este meu gratuito, inimigo procura
+maguar-me indirectamente. Apesar da sua impotencia e da nenhuma sympathia que
+gosa na classe a que pertence tem tentado, colligado a mais tres ou quatro
+desafectos que aqui tenho, alienar o bom conceito que felizmente goso, e com
+prazer declaro a v. ex.ª, que a semelhante respeito nunca me senti tãobem,
+pois as suas invectivas, não merecendo a consideração de pessoas sensatas,
+passam como se não existissem, e elles, em vista d'isso, lemitam-se a dizer,
+como supremo desforço, <i>que iam pedir a minha demissão, que para isso tem
+muita influencia n'essa côrte, etc.</i></p>
+
+<p>«Já que fallei em desafectos seja-me licito dizer algumas palavras que se
+me offerecem se v. ex.ª m'o permittir.»</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Começarei pelo mais poderoso ............ Este homem, portuguez,
+naturalisou-se brazileiro ............... negociante antigo e rico d'esta
+cidade, foi um dos que mais me obsequiou logo que aqui cheguei, e por alguns
+annos.</p>
+
+<p>«Constituiu-se meu inimigo, por que tendo um sobrinho, rico fazendeiro a
+quem se metteu em cabeça estabelecer uma colonia de nova especie, por se lhe
+ter malogrado a outra ha alguns annos, começou de mandar<span
+class="pagenum"><a id="pag_177" name="pag_177">[177]</a></span> vir d'esse
+reino pobres e desprotigidas creanças de dez a quinze annos de edade para a
+colonia, as quaes de certo estariam hoje todas na eternidade se não fosse a
+opposição inergica que fiz aos seus deshumanos instinctos, arrancando-lh'as e
+empregando-as no commercio,» etc.</p>
+
+<p>O traficante ameaçava. Elle lá tinha as suas razões; assim como o consul
+tambem lá tinha as suas para prevenir o ministro; mas da doutrina da
+prevenção deprehende-se facilmente que o empregado zelloso temia que os
+desforços dos seus inimigos fossem attendidos. E se não fosse esse temor,
+para que era baixar a tantas minuciosidades?</p>
+
+<p>Podiamos sobre este mesmo ponto dizer mais alguma cousa, mas tememos
+affectar interesses de terceiros.</p>
+
+<p>Ponhamos, pois, ponto aqui, affirmando de novo a extraordinaria influencia
+dos traficantes da chamada escravatura branca, perante as auctoridades
+superiores do paiz.</p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>A lei portugueza de 20 de julho de 1855, tende a proteger por alguma fórma
+os nossos desafortunados compatriotas que, no engodo de melhor sorte, deixam
+a patria em troca de um paiz onde vão soffrer as mais horrorosas
+privações.</p>
+
+<p>Effectivamente, ha alli medidas, que, até certo periodo de tempo, deviam
+fazer conter em respeito os engajadores, se não fôra a protecção que as
+auctoridades brazileiras em todo o tempo lhes dispensou.</p>
+
+<p>Os contractos de locação de serviços entre os engajadores e os colonos
+deviam ser feitos perante as auctoridades do nosso paiz. Além d'outras
+providencias secundarias, estabelecia-se a medida rigorosa de auctorisar os
+consules a fiscalisar os navios chegados a qualquer<span class="pagenum"><a
+id="pag_178" name="pag_178">[178]</a></span> porto do Brazil, a fim de evitar
+o desembarque de qualquer colono portuguez, que não tivesse attendido áquella
+providencia do governo.</p>
+
+<p>Os capitães dos navios portuguezes são obrigados a apresentar perante as
+auctoridades uma relação dos colonos que conduzam a bordo, sob pena de
+infracção, e pagamento de multas exorbitantes.</p>
+
+<p>Porém esta lei repressiva, não evitando a emigração, deu aso a abusos
+inauditos. É de 1857 que os seus effeitos começam a sentir-se.</p>
+
+<p>Até alli alguem confundia o carregamento de colonos portuguezes com os que
+outr'ora se faziam dos colonos africanos. A lei de que vimos fallando, que o
+governo brazileiro <i>não quiz reconhecer</i>, veio estabelecer, em toda a
+sua plenitude, o commercio clandestino da escravatura branca.</p>
+
+<p>Os dados estatisticos, fornecidos pelos consules residentes no imperio,
+sobre o numero dos emigrantes portuguezes desembarcados nas costas do Brazil,
+falham muito desde a publicação da lei de 1855 em diante.</p>
+
+<p>Comtudo a corrente da emigração continuava por uma fórma assustadora.</p>
+
+<p>Alguns commandantes de navios sujeitavam-se a pagar as multas, e esses
+eram em pequeno numero; outros valiam-se de suas influencias para faltarem
+aos compromissos marcados por lei.</p>
+
+<p>Houve armadores de navios portuguezes que substituiam a nossa bandeira
+pela brazileira, para evitar a fiscalisação das nossas auctoridades
+consulares!</p>
+
+<p>Os colonos eram mettidos no porão dos navios como escravos; das praias do
+litoral eram conduzidos para as roças dos <i>senhores de engenho</i>: d'estes
+infelizes nem todos os consules davam noticia, porque a sua acção não podia
+chegar até lá!</p>
+
+<p>Vamos demonstrar que não elaboramos em erro:<span class="pagenum"><a
+id="pag_179" name="pag_179">[179]</a></span></p>
+
+<p>Em 29 de dezembro de 1856, foram presentes ao consul do Rio de Janeiro,
+pelo capitão do vapor <i>D. Pedro</i>, as cópias das relações de 297
+passageiros; mas não apresentava os passaportes, porque a visita da policia
+do porto lh'os tomára, segundo as ordens do governo imperial!</p>
+
+<p>Em 2 de março de 1857, dizia o referido consul ao ministro do reino, «que
+nos navios brazileiros havia mais ou menos irregularidades, porque os
+capitães contavam com a impunidade, visto que os consules não tinham a menor
+ingerencia n'estas embarcações.»</p>
+
+<p>Em principios do anno referido sahiram do Rio os seguintes navios
+brazileiros:&mdash;<i>Palmyra</i>, <i>Rufina</i>, <i>Indiana</i>, <i>Açoriana</i>
+e <i>Helena</i>, com destino ás ilhas dos Açores e Madeira, para d'este ponto
+transportarem colonos para o Brazil.</p>
+
+<p>O consul, prevenia por esta occasião o governo de S. M., a fim de que se
+déssem as ordens necessarias para serem obrigados os capitães a executar as
+determinações da lei de 20 do julho de 1855, em terras de Portugal, «visto
+que os consules pouca ingerencia tem a bordo dos navios portuguezes, depois
+de entrados nos portos do imperio, e <i>absolutamente nenhuma</i> a bordo dos
+navios brazileiros.»</p>
+
+<p>Mais tarde, em dezembro do referido anno, accrescentava sobre o mesmo
+assumpto:</p>
+
+<p>«Já tenho ponderado a v. ex.ª por vezes que esperando-se que os
+passageiros das ilhas que tiverem de embarcar venham agora em navios
+brazileiros, será sempre difficil que nos portos do Brazil os consules de S.
+M. possam bem fiscalisar o que diz respeito á exactidão do numero que
+conduziram, e bem assim sobre a realisação dos contractos, conforme as ordens
+do governo de S. M., e isto porque os consules estrangeiros não pódem exercer
+jurisdicção a seu bordo, por ser isso<span class="pagenum"><a id="pag_180"
+name="pag_180">[180]</a></span> contrario ás leis do paiz e regulamentos em
+vigor (do imperio).»</p>
+
+<p>O sr. José Henriques Ferreira, consul em Pernambuco, assim se expressava
+em seu officio de 6 de junho de 1857, com respeito a colonos transportados
+para o interior sem sua sciencia:</p>
+
+<p>«A maior parte dos colonos que abordam a esta provincia procede da cidade
+do Porto e ilhas açorianas. Os capitães dos navios, chegados aqui, embarcam
+geralmente os colonos, mesmo de bordo, para os engenhos do interior, sem lhes
+permittirem que pisem em terra.</p>
+
+<p>«Uma das primeiras cousas pois que cumpre prevenir são os
+<i>engajamentos</i> feitos em Portugal para o interior do Brazil, porque alli
+não ha para os colonos garantia possivel, ainda que o governo do paiz tenha
+os melhores desejos. Collocados os engenhos a grandes distancias, e em terras
+pouco povoadas, não chega alli a acção do governo. As auctoridades locaes
+estão concentradas, ou n'um individuo ou n'uma familia, que de tudo dispõem a
+bel-prazer, sem que o governo tenha meios de poder obstar á sua vontade e
+prepotencia, porque todas as avenidas estão occupadas pela sua clientella, e
+assim põem e dispõem da fazenda e vida de suas victimas, sem receio. Obstar
+portanto a que semelhantes contractos se celebrem em Portugal é, como tenho a
+honra de dizer a v. ex.ª, uma das primeiras medidas a tomar.»</p>
+
+<p>O brigue <i>Trovador</i>, sahido do Porto, com destino a Pernambuco, além
+de conduzir maior numero de passageiros do que os manifestados, foram
+egualmente conduzidos de bordo para os engenhos, sem que a tão grande
+irregularidade podesse obstar o consul.</p>
+
+<p>O bergantim portuguez <i>Alegre</i> entrado em dezembro de 1857 no porto
+do rio de Janeiro, conduzia tambem colonos a mais do que os
+manifestados.<span class="pagenum"><a id="pag_181"
+name="pag_181">[181]</a></span></p>
+
+<p>Em março d'aquelle anno, entrava no porto do Rio do Janeiro, procedente de
+Vianna do Castello, o patacho <i>Constante</i>, com um carregamento de 233
+colonos. D'este numero só 46 levavam passaporte!</p>
+
+<p>Dos navios brazileiros, a que já nos referimos, chamados <i>Palmyra</i>,
+<i>Rufina</i>, <i>Indiana</i>, <i>Açoriana</i> e <i>Helena</i>, sahidos da
+bahia do Rio de Janeiro, em 1857, com o fim de conduzirem colonos das nossas
+ilhas para o imperio, só consta officialmente ter regressado um&mdash;o
+<i>Helena</i>&mdash;: e, ainda assim, pela impossibilidade que havia em esconder
+os colonos a bordo de qualquer navio fundeado no porto, onde grassava com
+intensidade a febre amarella.</p>
+
+<p>Este navio conduzia 94 passageiros; mas o capitão só mencionára na relação
+fornecida ao consulado, 33 individuos com passaporte. Os outros colonos
+tinham sido apanhados a gancho!</p>
+
+<p>Eis como a respeito dos engajamentos clandestinos se expressa o nosso
+consul residente em Pernambuco, em 21 de janeiro de 1858:</p>
+
+<p>«Tenho a honra de remetter a v. ex.ª o auto de investigação, a que procedi
+n'este consulado contra o capitão do brigue <i>Trovador</i>, Antonio Theodoro
+da Silva, aqui chegado em 28 de novembro com uma carregação de passageiros
+engajados. Por esta occasião cumpre-me dizer a v. ex.ª, que o mesmo capitão
+já em sua penultima viagem não satisfez as obrigações que lhe são impostas,
+porque desembarcou seus passageiros de bordo para os engenhos sem que os
+apresentasse n'este consulado. Que da mesma investigação e mais documentos
+que a acompanham se vê a irregularidade dos passaportes, maxime os passados
+no governo civil do Porto e illegalidade dos contractos. Que o escrivão Megre
+Restier, reconheceu signaes e assignaturas de contractos feitos contra as
+disposições da lei de 20 de julho de 1855. Que o navio conduziu maior numero
+de passageiros<span class="pagenum"><a id="pag_182"
+name="pag_182">[182]</a></span> do que comportava a sua tonelagem. Que a
+relação dos passageiros dada pelo capitão á sua chegada a este porto, não
+confere com a que foi remettida a este consulado pela intendencia da marinha
+do porto. Que o capitão tendo conduzido 95 passageiros, apenas apresentou
+n'este consulado 81, e que além do mau passadio exerceu sobre elles
+violencias, e os trazia pessimamente accommodados, em razão do grande numero
+e do grande carregamento de varias mercadorias.»</p>
+
+<p>A galera brazileira <i>Josephina</i>, entrada no porto do Rio de Janeiro,
+em dezembro do mesmo anno, conduzira das ilhas 130 passageiros sem
+passaporte; e se nos fiarmos no que dizem os jornaes d'esse tempo, o seu
+numero seria elevado a 500!</p>
+
+<p>O patacho portuguez <i>Sousa &amp; Companhia</i>, fundeou no porto do Rio
+de Janeiro, em 6 de novembro do mesmo anno, com 259 colonos procedentes da
+ilha de S. Miguel. De tão excessivo numero só 73 apresentaram passaporte!</p>
+
+<p>Em 24 de fevereiro de 1859, communicava o encarregado dos negocios
+consulares no Rio, ao representante do governo portuguez:</p>
+
+<p>«Apresso-me em fazer sciente a v. ex.ª de que tendo o governo civil do
+Porto officiado a este consulado geral, em data do 10 de janeiro do corrente
+anno, que por denuncia alli recebida, participava que nas barcas portuguezas
+<i>Duarte 4.º</i> e <i>Monteiro 2.º</i>, vinham alguns colonos que se
+declaravam passageiros livres, talvez insinuados pelos caixas e capitães de
+navios, para não serem compellidos a prestarem a fiança exigida pela carta de
+lei de 20 de julho de 1855, pedindo por consequencia toda a fiscalisação na
+chegada d'estas embarcações, procedendo ao respectivo auto, caso fosse
+verdade, para lhe ser enviado e os culpados á acção da justiça.</p>
+
+<p>«Em consequencia do que, e para melhor poder averiguar<span
+class="pagenum"><a id="pag_183" name="pag_183">[183]</a></span> este facto,
+afim de dar o devido cumprimento á communicação que aquelle governo fez,
+officiei logo ao chefe de policia, pedindo-lhe de dar as suas ordens aos
+encarregados das visitas do porto, para que no acto da entrada intimassem aos
+capitães d'aquellas duas embarcações, que não desembarcassem os passageiros
+sem que eu me apresentasse a seu bordo.</p>
+
+<p>«Emquanto ao <i>Duarte 4.º</i>, este navio entrou a barra quando ainda os
+referidos encarregados das visitas não haviam recebido do chefe de policia as
+ordens a respeito, e por consequencia os passageiros desembarcaram a seu
+salvo, e não foi possivel poder entrar nas precisas indagações.</p>
+
+<p>«Emquanto porém ao <i>Monteiro 2.º</i>, apresentei-me hontem a seu bordo e
+de 110 passageiros que esta barca conduziu 36 são colonos, e segundo o
+interrogatorio a que procedi, estes declararam que haviam sido
+clandestinamente engajados, como v. ex.ª verá do auto de inquerito que junto
+tenho a honra de enviar-lhe.</p>
+
+<p>«Á vista d'este depoimento intimei o capitão que nenhum d'estes colonos
+desembarcasse até segunda ordem. Estes colonos foram arranjados no Porto para
+o barão de Friburgo, e comquanto contra este barão nenhuma queixa aqui ainda
+apparecesse de mau trato que porventura elle tenha dado aos que tem ao seu
+serviço, todavia são obrigados a servirem nas suas fazendas por tres annos! É
+muito tempo por insignificantes vantagens&mdash;30$000 réis no primeiro anno! Devo
+dizer a v. ex.ª que poucos são os navios que deixam de trazer colonos para o
+barão de Friburgo, tal qual estes vem, mas estava-me reservado o entrar
+n'estas investigações para merecer talvez as iras do mesmo barão, que todavia
+saberei desprezar, quando tenha a consciencia de ter cumprido com o meu
+dever.»</p>
+
+<p>Pouco tempo depois, communicava ainda o mesmo consul, que o brigue
+portuguez <i>Esperança</i>, de que era<span class="pagenum"><a id="pag_184"
+name="pag_184">[184]</a></span> capitão José Pereira Rezende, manifestára
+apenas 49 passageiros, quando a bordo conduzira 283 colonos!</p>
+
+<p>O patacho <i>Panoma</i>, capitão Manuel Pereira Dias, manifestára 68 em
+logar de 372!</p>
+
+<p>«D'estas duas embarcações, humanamente fallando, diz o consul, os
+interessados n'esta especulação assás lucrativa, excederam dos limites.»</p>
+
+<p>E accrescentava:</p>
+
+<p>«A bordo d'estes navios, além da inpossibilidade do arrolamento dos
+passageiros, é difficil fazer-se um registro exacto d'elles, isto é, nomes,
+naturalidades, filiação, idade, freguezias, etc.; por que juntam-se logo os
+visitadores e engajadores, que agglomerados no navio difficultam um rigoroso
+registo, o qual só na chancellaria d'este consulado é possivel fazer-se, como
+effectivamente se faz, <i>d'aquelles passageiros que não são desviados</i> de
+n'elle se apresentarem.»</p>
+
+<p>Com os navios do Porto militam iguaes circumstancias e acontece o mesmo
+que com os das ilhas, porque todos trazem mais ou menos passageiros sem
+passaporte e alguns clandestinamente engajados, como succedeu com a barca
+<i>Monteiro 2.º</i>» etc.</p>
+
+<p>«D'estes engajamentos clandestinos feitos no Porto, os capitães muitas
+vezes ignoram, porque dizem elles, os donos dos navios mettem-lhe a bordo os
+engajados como passageiros que pagaram lá ou veem pagar cá as suas passagens,
+combinando com o engajador para escrever com antecedencia á pessoa que n'esta
+côrte deve recebel-os, a fim de que, logo que chegar o navio se apresente a
+bordo, <i>obtendo para isso previamente licença da alfandega para o prompto
+desembarque</i> dos referidos colonos, como effectivamente acontece.»!</p>
+
+<p>Se as clausulas expressas na lei de 20 de julho de 1855, não foram desde
+logo despresadas, é certo que a fiscalisação rigorosa que ella mandava
+exercer, veio dar grande curso á emigração clandestina.<span
+class="pagenum"><a id="pag_185" name="pag_185">[185]</a></span></p>
+
+<p>Acontecera o mesmo com relação ao trafico da escravatura. A lei que
+prohibira tal commercio, fôra por muitos annos despresada; e se a rigorosa
+fiscalisação por parte do governo imperial, veio por fim a banir
+completamente o horroroso trafico, não confiamos na boa vontade d'esse
+governo com relação á repressão da emigração clandestina; porque o empenho
+dos homens de estado do Brazil era banir de seus codigos o trafico da
+escravatura, para demonstrar ás outras nações uma virilidade ficticia, e
+apoiar clandestinamente outro commercio mais horroroso&mdash;o da <i>escravatura
+branca</i>&mdash;; na persuasão de que sendo este exercido em toda a sua
+plenitude, viria a preencher a lacuna aberta pela abolição do commercio
+da&mdash;<i>escravatura preta</i>.</p>
+
+<p>Dissemos que a lei de 20 de julho de 1855, viera, por um lado, proteger os
+emigrados portuguezes; porque, além de outras providencias salutares,
+estabelecia a clausula de não serem válidos os contractos de locação de
+serviços, que não fossem feitos perante as nossas auctoridades. Demonstrámos
+tambem, que essa lei viera dar maior curso á emigração clandestina, porque
+aos engajadores ou roceiros do Brazil não convinha que os colonos tivessem
+como protectores os agentes do nosso governo, que são, para assim dizermos,
+os procuradores de tão infeliz gente. E que o governo imperial protegia os
+engajadores e os roceiros, que, mancommunados com os capitães e proprietarios
+de navios, pretendiam illudir a vigilancia dos consules, ao fazerem o
+desembarque dos colonos.</p>
+
+<p>As providencias pedidas pelo governo ás auctoridades administrativas do
+continente e ilhas, exaradas na portaria de 27 de julho de 1857, com o fim de
+evitar a emigração clandestina, não podiam sortir o effeito desejado,
+especialmente nas ilhas, como se póde vêr pelo seguinte documento:</p>
+
+<p>«Representando o governador civil do districto da<span class="pagenum"><a
+id="pag_186" name="pag_186">[186]</a></span> Horta, segundo me foi
+communicado pelo ministerio do reino, que, apesar das providencias adoptadas
+pelas auctoridades administrativas do archipelago dos Açores, e de se haver
+dado conhecimento ao poder judicial, sempre que ha motivo, de alguma
+infracção da lei de 20 de julho de 1855, ou dos regulamentos de policia em
+vigor, assim mesmo é frequente ali a emigração clandestina para o Brazil, não
+só por causa da tendencia dos habitantes para a dita emigração, mas tambem
+por ser impossivel guardar o immenso litoral de todas as ilhas para obstar á
+fuga, recommendo a vossa mercê que, dando cumprimento ás diversas circulares
+que sobre este assumpto teem sido dirigidas a esse consulado, haja de
+empregar a mais assidua vigilancia á chegada dos navios com colonos aos
+portos do districto consular a seu cargo, averiguando os que vão sem
+passaporte, o modo porque se evadiram, quem lhes deu coadjuvação para a fuga
+ou quem os seduziu, tomando nota dos seus nomes, naturalidades, residencia,
+filiação e empregados, e bem assim instaurar o competente inquerito e
+processo consular, que deverá ser logo remettido ao governo civil a cujo
+districto pertencer o porto de procedencia do navio, dando finalmente parte a
+esta secretaria d'estado de tudo que houver praticado a similhante
+respeito.»</p>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<p>Os proprios commandantes de navios portuguezes, fiados na protecção do
+governo brazileiro, reagiam contra as nossas leis e os agentes da auctoridade
+que se esforçavam para fazel-as cumprir.</p>
+
+<p>O documento que vamos transcrever, mostra até que ponto chegára o abuso da
+emigração clandestina.</p>
+
+<p>Tem a data de 8 de novembro de 1859, e é firmado<span class="pagenum"><a
+id="pag_187" name="pag_187">[187]</a></span> pelo conde de Thomar, nosso
+ministro, então residente na côrte do Rio de Janeiro:</p>
+
+<p>«Acabo de chegar de bordo da barca <i>Nova Lima</i>, acompanhado do consul
+geral e de um empregado do consulado. Para grande mal grande remedio. Assumi
+uma grave responsabilidade: sujeito-me ás suas consequencias se o meu
+procedimento não merecer a approvação de sua magestade.</p>
+
+<p>«Depois de interrogar um grande numero dos subditos de sua magestade a
+bordo do dito navio, sem passaporte, embarcados clandestinamente em
+differentes pontos da costa, e principalmente para o lado da villa do
+nordeste da ilha de S. Miguel, convenci-me da culpabilidade do capitão e do
+dono do navio, e julguei que não devendo lucupletar-se com prejuizo de
+terceiro, e contra as determinações expressas da lei, ordenei que o consul
+intimasse á minha ordem, como representante de sua magestade, para não deixar
+desembarcar de bordo do seu navio, portuguez algum que não estivesse munido
+do passaporte, e em nome de El-Rei declarei a todos que haviam sido
+seduzidos, que estavam livres, e que nada deviam ao capitão.</p>
+
+<p>«Não faz v. ex.ª ideia da satisfação que mostraram os risonhos semblantes
+d'estes infelizes, até ali abatidos e tristes.</p>
+
+<p>«Para não deixar esta pobre gente em desgraça, passei á secretaria da
+marinha e requisitei um navio de guerra desarmado para os accommodar emquanto
+não tomar o serviço que mais lhes agradar, debaixo da tutela do consul
+geral.</p>
+
+<p>«Ha de fazer-se alguma despeza com o sustento de estes infelizes, durante
+alguns dias, mas creio que se adoptou a unica medida, que será efficaz para
+reprimir este trafico de escravatura branca.</p>
+
+<p>«Nenhum capitão, de futuro, ha de embarcar a bordo do seu navio colonos
+sem passaporte, porque não ha<span class="pagenum"><a id="pag_188"
+name="pag_188">[188]</a></span> de querer correr o risco da perda da
+importancia da passagem e comedorias. Livramo-nos sobre tudo do nojento
+espectaculo de ver os que foram nossos colonos a comprar temporariamente os
+subditos de sua magestade em leilão, no navio, como se tem feito.</p>
+
+<p>«Espero as resoluções de sua magestade sobre este importantissimo
+assumpto. Não dará este acontecimento logar a pensar se será conveniente ter
+n'este paiz um navio de guerra nacional? Se aqui existisse um tal navio teria
+dado logo á minha disposição meios de obrar com energia contra os que tão
+escandalosamente transgridem as leis do paiz e as beneficas e humanitarias
+ordens do governo de sua magestade, para reprimir tão infame trafico, etc.</p>
+
+<p>«Lancei em rosto ao capitão e mais empregados da barca a hediondez do seu
+procedimento; em resposta só me disseram, que elles eram punidos pelo que a
+outros tinha sido tolerado, tirando d'ahi grandes lucros.</p>
+
+<p>«No embarque de tanta gente houve seguramente ou connivencia, ou pelo
+menos grande omissão das auctoridades administrativas de S. Miguel. É minha
+opinião que o governo deve dar um grande exemplo; sem elle é muito de receiar
+que continue o trafico para outras provincias, porque eu não posso estar em
+toda a parte, e os consules por certo não terão força, nem quererão assumir
+uma grande responsabilidade.»</p>
+
+<p>O que effectivamente acontecia, e o que não podia deixar de acontecer
+mesmo com relação ao porto do Rio de Janeiro, onde a nobre energia do
+illustre diplomata seria improficua, desde que os navios não fossem
+portuguezes, o que elle proprio confessa ao governo de sua magestade, alguns
+dias depois, no seguinte trecho de um documento que temos á vista:</p>
+
+<p>«Se os actos de energia se repetirem, como pretendo repetir com outros
+navios que se esperam dos nossos mares insulanos, eu tenho algum receio de
+que não só<span class="pagenum"><a id="pag_189"
+name="pag_189">[189]</a></span> se venham a suscitar algumas reclamações por
+parte do governo do Brazil, como de que a navegação que ora é feita das ilhas
+dos Açores para o Brazil em navios portuguezes, venha a ser feita em navios
+d'outras nações, contra os commandantes dos quaes toda a minha energia e boa
+vontade para fazer executar a lei portugueza será inefficaz.»</p>
+
+<p>É preciso que se diga, para honra do nobre representante de sua magestade,
+que a importancia das passagens dos colonos transportados na barca <i>Nova
+Lima</i>, fôra garantida ao dono do navio, como se vê em seu officio dirigido
+pouco depois ao nosso governo.</p>
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<p>O governo brazileiro, atemorisado, ao que parece, com o acto de energia
+praticado pelo nosso representante na côrte do Rio de Janeiro, tentou dar
+todas as satisfações; mas não fez mais do que illudir-nos ainda uma vez.</p>
+
+<p>Assim é que devendo dar um exemplo de moralidade, contra a emigração
+clandestina, condemnando o commandante ou proprietario da barca <i>Nova
+Lima</i>, seguindo as disposições do regulamento brazileiro, de 1 de maio de
+1858, que no seu artigo 7.º estipula que «o capitão ou mestre que trouxer até
+20 passageiros mais do que determinam os artigos 1.º, 3.º e 4.º, soffrerá por
+cada um a multa igual ao importe da passagem, se transportar mais de 20, a
+multa será do dobro do importe da mesma passagem», devendo por consequencia o
+capitão da <i>Nova Lima</i> pagar 56:858$ réis, moeda brazileira, só pagou
+7:478$000 réis!</p>
+
+<p>Mas não ficou ainda aqui a questão. Deu-se pouco depois um grave conflicto
+diplomatico, entre o nosso<span class="pagenum"><a id="pag_190"
+name="pag_190">[190]</a></span> ministro e o governo brazileiro, por causa do
+acto energico que já mencionámos.</p>
+
+<p>«Este meu procedimento, dizia pouco depois o conde de Thomar, com relação
+aos colonos da <i>Nova Lima</i>, tão altamente elogiado pelos nossos
+compatriotas, e que já mereceu a plena approvação de sua magestade, não podia
+agradar, nem ao governo imperial, nem aos brazileiros interessados na
+importação dos colonos.»</p>
+
+<p>Era, portanto, necessario, custasse o que custasse, evitar que as nossas
+auctoridades residentes no imperio, communicassem com os navios,
+immediatamente á sua chegada a qualquer porto brazileiro.</p>
+
+<p>D'isso se encarregou o governo imperial, como vamos demonstrar, com o fim
+de provar ainda mais uma vez, que as auctoridades brazileiras, auxiliam
+escandalosamente o horroroso trafico da escravatura branca:</p>
+
+<p>«Cumpre-me chamar a mais séria attenção de v. ex.ª sobre o objecto das
+notas juntas, communicava o conde de Thomar ao governo, que mostram a
+discussão que fui obrigado a sustentar, e ainda continuo sobre um objecto da
+maior gravidade, pelas consequencias que no futuro póde ter.</p>
+
+<p>«Permitta-me v. ex.ª chamar á sua memoria tudo o que se passou a respeito
+da barca <i>Nova Lima</i>. Como v. ex.ª verá das referidas notas, foi mister,
+para conhecer bem o pensamento do governo imperial, levantar uma questão de
+direito internacional e sobre elle exigir cathegoricas explicações.</p>
+
+<p>«Pódem afinal julgar-se satisfactorias quanto ao representante de S. M.,
+mas uma certa reserva quanto aos consules, e a limitação quanto aos
+commandantes dos navios de guerra de Portugal induziram-me a augmentar as
+minhas suspeitas. <i>A pretenção que teve o governo em querer fazer applicar
+aos navios carregados com colonos os regulamentos da alfandega, para
+assim<span class="pagenum"><a id="pag_191" name="pag_191">[191]</a></span>
+impedir a entrada dos consules, antes das visitas de saude e policia, e da
+alfandega</i>, tende a dar logar que, na fórma do § 2.º do artigo 145.º, do
+regulamento de 22 de junho de 1836, transcripto na minha nota de 31 de
+janeiro, os colonos portuguezes possam desembarcar depois da visita de saude,
+<i>sem que os consules portuguezes possam constatar o numero de passageiros e
+a legalidade do passaporte e titulo que os auctorisou a sahir de Portugal, e
+ao mesmo tempo a legalidade ou illegalidade do procedimento dos capitães dos
+navios portuguezes</i>.»</p>
+
+<p>Dera aso ás reclamações do conde de Thomar e ás quaes se refere no
+documento que deixamos transcripto, as seguintes informações do ministerio da
+fazenda do imperio:</p>
+
+<p>«Ao ministerio dos negocios estrangeiros, declarando á vista do parecer da
+directoria geral das rendas, que <i>não é permittido ao ministro de S. M. F.,
+nem aos consules portuguezes, ou aos commandantes de navios da marinha de
+guerra de Portugal</i>, não estando embarcados em escaler da marinha de
+guerra do imperio, <i>o ingresso sem licença</i> da alfandega nos navios do
+commercio portuguez, surtos nos portos do Brazil, <i>mesmo quando o julgarem
+urgente e necessario para fiscalisar as leis do seu paiz ou ordens do seu
+governo</i> (sic); mas a licença será sempre facilitada a esses funccionarios
+da nação portugueza independente de minuciosas formalidades, e logo que
+aquelle ministro o exija por si, por qualquer terceiro ou empregado
+verbalmente, ou por escripto, ao inspector da alfandega ou quem suas vezes
+fizer; ficando assim respondido o aviso do mencionado ministerio, de 28 de
+novembro ultimo.»</p>
+
+<p>Uma das notas a que o nosso ministro se refere, e que passamos a
+transcrever, illucidará mais a questão, do que as palavras que por ventura
+escrevessemos.</p>
+
+<p>É esta a nota:<span class="pagenum"><a id="pag_192"
+name="pag_192">[192]</a></span></p>
+
+<p>«O abaixo assignado, enviado extraordinario e ministro plenipotenciario de
+sua magestade fidelissima, dirigiu a s. ex.ª o sr. João Lino Vieira Cansansão
+de Sinimbú, ministro dos negocios estrangeiros de sua magestade o imperador,
+a sua nota de 25 de novembro ultimo, rogando ser informado pelo governo
+imperial dos casos em que a elle ministro, aos consules de Portugal e
+commandantes de navios de guerra da sua nação, não embarcados em escaler da
+marinha imperial, era vedado o ingresso nos navios do commercio portuguez,
+surtos nos portos do Brazil, quando assim o julgassem urgente e necessario
+para fiscalisar a execução das leis do seu paiz e as ordens do seu
+governo.</p>
+
+<p>«Não respondeu, nem mesmo accusou até hoje a recepção da mencionada nota
+s. ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros, mas assegurou em
+conferencia verbal ter dado conhecimento do conteúdo da dita nota ao ministro
+da fazenda, para ser habilitado a responder, o que faria logo que taes
+esclarecimentos lhe fossem presentes.</p>
+
+<p>«Em taes circumstancias não pôde deixar de causar grande surpreza ao
+abaixo assignado vêr devolvido pelo ministerio da fazenda, com a data de 27
+do dezembro ultimo, o objecto da supracitada sua nota, sendo uma tal
+resolução publicada no <i>Jornal de Commercio</i>, parte official do
+ministerio da fazenda de 13 do corrente, sem que na conformidade dos estylos,
+usos e conveniencias diplomaticas, e sobretudo em virtude das intimas
+relações de amisade que existem entre os dois governos, e das que tão
+cordealmente teem sido mantidas entre o abaixo assignado e s. ex.ª o sr.
+Sinimbú, se désse á legação de sua magestade fidelissima a menor noticia de
+tal resolução. Quer o abaixo assignado lisongear-se de que nos extractos
+publicados pelo <i>Jornal do Commercio</i> haja algum equivoco ou omissão,
+porque não póde acreditar-se que as pretenções<span class="pagenum"><a
+id="pag_193" name="pag_193">[193]</a></span> do governo imperial subam ao
+ponto de querer que o direito internacional e das gentes, a que se soccorrem
+os representantes do Brazil na Europa para sustentar as suas reclamações,
+tenha de receber modificações ou alterações quando se trata da sua applicação
+no imperio do Brazil. É tanto mais fundamentada esta esperança do abaixo
+assignado, quanto nota uma grande differença entre a acto official, que
+respeita ao ministro de sua magestade fidellissima, os consules de Portugal e
+commandantes de navios de guerra da mesma nação, e o que respeita aos
+ministros de outras nações alliadas.</p>
+
+<p>«Para obter pois a certeza a tal respeito, roga o abaixo assignado a s.
+ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros, que tenha a bondade de
+responder em termos cathegoricos á sua nota de 25 de novembro ultimo, e bem
+assim que se digne mandar o texto da lei, decreto, aviso, de qualquer acto
+emfim, em virtude do qual nem o ministro de sua magestade fidelissima, nem os
+consules de Portugal e os commandantes dos navios de guerra da mesma nação
+(não embarcados em escaler da marinha imperial) pódem ter ingresso nas
+embarcações de commercio portuguezas, sem licença das alfandegas do
+imperio.</p>
+
+<p>«Por fim pede o abaixo assignado a s. ex.ª o sr. ministro dos negocios
+estrangeiros haja de mandar-lhe copia do officio dirigido á alfandega da
+côrte em data de 27 do mez proximo passado sobre este grave e importante
+assumpto» etc.</p>
+
+<p>O ministro dos negocios estrangeiros do imperio, respondendo ao
+representante de Portugal, dizia que tendo dado o conteúdo da nota de 25 de
+novembro ao seu collega da fazenda, a fim de sobre o assumpto, obter
+informações indispensaveis, resultára que este ministro, segundo a pratica
+adoptada de publicar todos os seus actos, incluira na parte official do dia
+13 as referidas<span class="pagenum"><a id="pag_194"
+name="pag_194">[194]</a></span> informações, que suprehenderam o conde de
+Thomar. E declarava mais, com uma ingenuidade impropria de um ministro de
+estado, que lhe parecia, que as informações do ministerio da fazenda, sobre
+assumptos diplomaticos, publicadas na parte official do <i>Jornal do
+Commercio, não deviam importar aos olhos da legação de s. m.</i> pelo simples
+facto de serem informações!</p>
+
+<p>Dizia mais que não é permittido a pessoa alguma o ingresso em navio
+mercante dentro do porto antes das visitas de saude e policia.</p>
+
+<p>«Essa prohibição continúa até verificar-se a visita da descarga, que é
+quando se concede aos navios livre pratica.</p>
+
+<p>«Que verificada a visita de saude póde o ingresso a bordo ter logar,
+<i>mas sómente</i> com licença da alfandega. Sem licença, só é elle
+permittido nos casos de agua aberta repentina, etc: aos officiaes que, na
+conformidade dos regulamentos de marinha, forem nos escaleres dos navios de
+guerra nacionaes que estiverem de registo no porto; aos officiaes das
+estações estrangeiras; e que nos referidos regulamentos <i>não consagram a
+hypothese de virem os agentes diplomaticos a bordo dos navios mercantes das
+suas respectivas nações</i>.»</p>
+
+<p>D'esta maneira procedia o <i>humanitario</i> governo do Brazil, com o fim
+de evitar que o representante de Portugal oppozesse de futuro a sua energia
+contra os traficantes da escravatura branca!</p>
+
+<p>Mas é preciso dizermos, que o nosso illustrado representante replicára
+nobremente, derrubando com inexcedivel habilidade o castello de cartas tão
+inconscientemente architectado pelo ministro brazileiro.</p>
+
+<p>Sentimos não poder dar na integra tão precioso documento, por ser muito
+extenso. Comtudo, copiaremos alguns dos principaes trechos que mais illucidam
+a questão:</p>
+
+<p>«Recebidas na secretaria dos negocios estrangeiros<span class="pagenum"><a
+id="pag_195" name="pag_195">[195]</a></span> em 27 de dezembro do anno findo
+as mencionadas informações, replica o conde de Thomar, não se dirigiu o sr.
+ministro dos negocios estrangeiros ao abaixo assignado por julgar s. ex.ª
+conveniente proceder a mais algumas averiguações, em ordem a dar uma
+explicação tão completa como era para desejar.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Obtidos os esclarecimentos procedentes das novas investigações, julgou-se
+habilitado s. ex.ª o sr. ministro a dar as explicações pedidas, e depois de
+passar em revista a legislação do imperio sobre o ponto em questão, conclue
+s. ex.ª que os respectivos regulamentos são omissos quanto aos agentes
+diplomaticos, mas querendo mostrar quanto no imperio se attende aos
+privilegios e prerogativas d'aquelles altos funccionarios, explica s. ex.ª a
+verdadeira <i>permissão</i> que elles precisam ter da alfandega, para ir a
+bordo dos navios do commercio das suas respectivas nações.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Antes de passar ávante, julga o abaixo assignado chamar á memoria de s.
+ex.ª o pedido feito na sua nota de 25 de novembro; dizia o abaixo assignado o
+seguinte: «Sendo, como é, a missão do abaixo assignado, manter e estreitar
+cada vez mais as relações de amizade, que felizmente existem entre as duas
+corôas e os dois povos, deseja e roga o abaixo assignado a s. ex.ª o sr.
+ministro, que haja de dar-lhe a verdadeira significação do periodo da sua
+nota supra transcripta, designando claramente quaes os casos em que o governo
+imperial entende que o representante de sua magestade fidelissima e os
+consules portuguezes, não estando embarcados em escaler da marinha de guerra
+do imperio, ou no do commandante do navio da marinha de guerra de Portugal,
+que possa estacionar nas aguas do imperio, são impedidos de ir a bordo dos
+navios do commercio portuguezes, surtos nos portos do Brazil, sempre que
+assim o julgarem<span class="pagenum"><a id="pag_196"
+name="pag_196">[196]</a></span> urgente e necessario para fiscalisar as leis
+do seu paiz ou as ordens do governo de S. M. F.»</p>
+
+<p>«Parece ao abaixo assignado, que nenhuma prova maior podia dar da sua
+lealdade e do desejo que tem de evitar questões entre os dois governos, do
+que a de rogar fossem designados pelo governo imperial os casos de
+impedimento para o ingresso das auctoridades portuguezas, nos navios do
+commercio da sua nação, surtos nos portos do Brazil.</p>
+
+<p>«Tambem parece ao abaixo assignado que não havia a menor necessidade da
+publicação dos actos do ministerio da fazenda de 27 de dezembro ultimo, sobre
+negocio diplomatico pendente, sendo que veio uma tal publicação de alguma
+fórma confirmar suspeitas e receios de que as informações do conhecimento do
+abaixo assignado não deixavam de ter fundamento.</p>
+
+<p>«Em opposição ás francas e leaes declarações de s. ex.ª o sr. ministro,
+cujas rectas intenções o abaixo assignado se compraz de ter reconhecido em
+todas as occasiões, constava ao abaixo assignado, que os empregados da
+fiscalisação, <i>prottestaram que não se repetiriam procedimentos eguaes aos
+que tiveram logar contra a barca «Nova Lima»</i>, porque tinham nas suas
+attribuições meios de impedir que as auctoridades portuguezas fossem a bordo
+verificar o numero e qualidade dos passageiros, conduzidos em navios do
+commercio portuguezes.»</p>
+
+<p>Restava ás auctoridades portuguezas residentes no imperio, o poderem
+fiscalisar os navios portuguezes chegados a qualquer porto brazileiro; mas o
+governo do imperio calcava aos pés os tractados, e não tinha duvida em criar
+uma situação anomala entre as duas nações, para que se não repetissem casos
+identicos ao da <i>Nova Lima</i>. Assim podia muito bem exercer-se o
+commercio da escravatura branca, que o governo do Brazil, sómente para
+guardar apparencias, dizia combater<span class="pagenum"><a id="pag_197"
+name="pag_197">[197]</a></span>. Não lhe valeu de nada a esperteza, devido
+isso á nobre energia do conde de Thomar.</p>
+
+<p>Mas não fica ainda aqui a questão. O illustre diplomata estranhou que a
+publicação dos actos officiaes, feita pelo ministerio da fazenda,
+occupando-se singularmente das auctoridades portuguezas, não podia deixar de
+ser aproveitada para rogar ao ministro dos negocios estrangeiros uma resposta
+cathegorica sobre o ponto alludido; por quanto devia ter reconhecido quanto
+era melindroso em assumptos internacionaes faltar áquellas conveniencias que
+era mister guardar entre as nações e os governos alliados, em modo a não
+praticar actos que podessem ser traduzidos em menor consideração e como
+importando a não concessão de direitos ou prerogativas que a outros se
+concediam.</p>
+
+<p>Cumpria-lhe mais dizer, que acceitava as explicações dadas com o fim de
+justificar-se o ministro brazileiro da demora da resposta á nota de 25 de
+novembro.</p>
+
+<p>«Pede comtudo o abaixo assignado licença a s. ex.ª para observar que a
+segunda sua nota, com data de 14 do corrente, não teve por fim mostrar
+surpresa pela falta de resposta á mencionada primeira sua nota de 25 de
+novembro ultimo, mas sim mostrar surpreza, e muito grande de que achando-se
+pendente uma reclamação diplomatica sobre um assumpto de direito
+internacional, fossem publicados por outro ministerio, que não o dos negocios
+estrangeiros, actos officiaes resolvendo esse assumpto internacional, sem que
+ao menos pelo ministerio competente tal resolução fosse transmittida á
+legação de S. M. F., d'onde partira a reclamação, como aliás exigem os
+estylos, usos e conveniencias diplomaticas.»</p>
+
+<p>E accrescentava:</p>
+
+<p>«......... E se acontece que essa publicação é feita a cargo do presidente
+do conselho, que representa o pensamento do gabinete, não deixará s. ex.ª o
+sr. ministro<span class="pagenum"><a id="pag_198"
+name="pag_198">[198]</a></span> dos negocios estrangeiros de convir que esta
+circumstancia ganha e dá grande força para justificar a sorpreza que causou
+ao abaixo assignado ver a alludida publicação antes de ser a resolução
+devidamente participada á legação de S. M. F. pelo ministerio dos negocios
+estrangeiros, conforme os usos, estylos e conveniencias diplomaticas
+invocadas por s. ex.ª o sr. ministro.</p>
+
+<p>«Pareceu ao abaixo assignado que, feita tal publicação pelo ministerio a
+cargo do presidente do conselho, o qual sobre o parecer da dictoria geral das
+rendas declarava, que nem ao ministro de S. M. F., nem aos consules de
+Portugal, nem aos commandantes de navios de guerra da mesma nação, não
+estando embarcados em escaler da marinha de guerra do imperio, era permittido
+o ingresso, sem licença da alfandega, nos navios de commercio portuguezes
+surtos nos portos do Brazil, mesmo quando o julgarem urgente e neccessario
+para fiscalisar as leis do seu paiz ou as ordens do seu governo; vendo além
+d'isto que, para tornar effectiva aquella resolução, se expediram ordens á
+alfandega, recommendando a bem das relações que existem entre o governo do
+Brazil e os das diversas nações alliadas, que facilite aos ministros
+estrangeiros n'esta côrte, sempre que a requisitarem, entrada nos navios de
+commercio das suas nações, que tiverem chegado a este porto, independente de
+minuciosas formalidades; pareceu, repete o abaixo assignado, que uma tal
+publicação continha uma resolução definitiva; muito embora ficasse desde logo
+convencido de que a proposição absoluta e nos termos em que estava concebida
+era insustentavel e mesmo contraria aos regulamentos do imperio. Pareceu
+outro tanto n'esta ultima parte s. ex.ª o sr. ministro dos negocios
+estrangeiros, e por isso não se dando por satisfeito com a doutrina expendida
+nos actos officiaes publicados pelo ministerio da fazenda,<span
+class="pagenum"><a id="pag_199" name="pag_199">[199]</a></span> julgou não os
+dever aproveitar nos rigorosos termos em que estavam concebidos, para
+responder á nota da legação de sua magestade fidelissima de 25 de novembro do
+anno proximo passado, tendo a bem proceder a outras investigações que o
+habilitassem a dar a explicação pedida, tão completa como era para desejar;
+mas pareceu ao mesmo tempo a s. ex.ª que os mencionados actos officiaes só
+deviam ser considerados como informações, e traduzindo agora na sua nota o
+resultado das novas investigações, como resolução difinitiva, dignou-se
+transmittil-a á legação de sua magestade fidellissima.</p>
+
+<p>«Effectivamente em resultado das novas investigações a que se procedeu,
+começa o sr. ministro dos negocios estrangeiros a dar as explicações pedidas,
+e referindo a legislação do imperio, entende que, segundo as suas
+disposições, não é só o ministro de sua magestade fidelissima, nem os
+consules portuguezes, ou os commandantes de navios de guerra de Portugal, não
+embarcados em escaler da marinha de guerra imperial, mas que todos os
+ministros, todos os consules das nações alliadas e os commandantes dos navios
+de guerra das mesmas nações, todo e qualquer individuo emfim, são vedados de
+entrar nos navios mercantes surtos nos portos do Brazil antes da visita de
+saude e da policia. Accrescenta o sr. ministro dos negocios estrangeiros que
+essa prohibição de ingresso, antes da visita de saude, continúa até
+verificar-se a visita de descarga, que é quando se concede aos navios a livre
+pratica.</p>
+
+<p>«Antes do continuar no desenvolvimento do objecto principal em questão,
+permitia v. ex.ª que o abaixo assignado chame a sua attenção sobre o que
+dispõe o artigo 145.º § 2.º do regulamento de 22 de junho de 1836. Diz
+assim:</p>
+
+<p>«Os passageiros porém poderão desembarcar logo que se conclua a visita da
+saude, dirigindo-se em direitura<span class="pagenum"><a id="pag_200"
+name="pag_200">[200]</a></span> á barca de vigia do ancoradouro, havendo-a,
+ou ao ponto para isto destinado pelo inspector para serem examinados, ficando
+n'elles retidos, quando tragam algum objecto sujeito a direitos.»</p>
+
+<p>«Affigura-se ao abaixo assignado, que a continuação da prohibição do
+ingresso até á visita da descarga, depois da qual sómente se concede aos
+navios a livre pratica, sómente é applicavel ao navio cujo carregamento
+esteja sujeito a pagamento de direitos, e que possa dar objectos para
+contrabando.</p>
+
+<p>«Não espera o abaixo assignado que os emigrantes portuguezes conduzidos a
+bordo de um navio portuguez possam ser excluidos do favor concedido pelo
+citado artigo aos passageiros em geral, e que em logar de serem considerados
+como pessoas, sejam considerados como cousas ou mercadorias. Em tal caso
+podendo, como não podem os emigrantes portuguezes deixar de ser considerados
+como passageiros, tem o abaixo assignado fundados receios de que a exigencia
+do governo imperial tenda a estabelecer um impedimento indirecto ao exercicio
+da soberania da corôa de Portugal a bordo de um navio portuguez.</p>
+
+<p>«Segundo os regulamentos portuguezes nenhum capitão de navio portuguez
+póde conduzir mais passageiros ou differentes d'aquelles que constarem da
+relação que sob o sello real é remettida pelas respectivas auctoridades aos
+consules de Portugal, e com ella deve necessariamente conferir outra relação
+feita pelo capitão do navio, e o effectivo dos passageiros a bordo.</p>
+
+<p>«Se o consul de Portugal fôr impedido de ir a bordo (porque a licença é
+facultativa) antes da visita da saude e da policia, e antes da descarga, os
+passageiros, em virtude do § 2.º do artigo 145.º citado, verificada apenas a
+visita de saude, podem desembarcar, ficando assim o consul de Portugal
+impedido pelas resoluções do governo imperial de executar a lei de Portugal a
+bordo<span class="pagenum"><a id="pag_201" name="pag_201">[201]</a></span> de
+um navio portuguez, o qual não póde deixar de ser considerado territorio de
+Portugal, porque, não obstante estar surto nos portos do imperio, sómente
+fica sujeito á jurisdicção local no que respeita ás relações internas.</p>
+
+<p>«Não póde o abaixo assignado, em vista da boa intelligencia e intima
+amizade que existe, e convem estreitar cada vez mais entre os dois governos e
+entre os dois povos, presumir que se queira procurar um meio indirecto de
+promover a emigração de Portugal clandestinamente, impedindo-se por tal forma
+as auctoridades portuguezas de em tempo devido constatar a legalidade do
+procedimento dos capitães de navio.</p>
+
+<p>«Não póde o abaixo assignado convencer-se de que um tal rigor tenha por
+fim salvar das penas comminadas pelas leis do reino aos capitães subditos de
+sua magestade fidelissima, que porventura as tenham infringido.</p>
+
+<p>«É tal a confiança que o abaixo assignado tem nas rectas intenções do
+governo imperial, que está plenamente convencido que nenhum obstaculo
+apparecerá da parte do mesmo governo e das auctoridades do imperio, que possa
+justificar os receios do abaixo assignado.</p>
+
+<p>«Voltando á questão principal, reconhece tambem o sr. ministro dos
+negocios estrangeiros na sua nota, que os regulamentos do imperio estabelecem
+excepções para ter logar o ingresso nos navios mercantes sem licença da
+alfandega, sendo muito singular que entre essas excepções se encontre a dos
+commandantes dos navios de guerra, muito embora limitada a uma vez
+sómente.</p>
+
+<p>«Appella o abaixo assignado para resolver, se, em vista do exposto na sua
+nota, é sustentavel a generalidade em que se acha concebido o acto official
+do ministerio da fazenda, com relação ás auctoridades portuguezas<span
+class="pagenum"><a id="pag_202" name="pag_202">[202]</a></span> alli
+mencionadas. Para mostrar ainda as grandes omissões que no sobredito acto se
+conteem, e que s. ex.ª o sr. ministro dos negocios estrangeiros se propoz
+supprimir na sua nota, bastaria attender ás seguintes palavras: «não é
+permittido... o ingresso sem licença da alfandega nos navios de commercio
+portuguez, surtos nos portos do Brazil.» Estas phrases dispensam toda a
+demonstração.</p>
+
+<p>«Em objectos de tanta gravidade e que involvem assumptos de direito
+internacional, parece ao abaixo assignado não deverem publicar-se por
+extracto os actos officiaes. Quer o abaixo assignado persuadir-se que no
+original a que se referem os mencionados extractos se encontrará o que não
+podia por certo escapar á fina penetração do sr. presidente do conselho,
+sentindo o abaixo assignado que s. ex.ª o sr. ministro dos negocios
+estrangeiros não quizesse ter a bondade de mandar copias das instrucções ou
+aviso expedido á alfandega, porque haveria assim occasião de verificar com
+muita satisfação o fundamento ou persuasão e crença do abaixo assignado.</p>
+
+<p>«Reconhece o sr. ministro dos negocios estrangeiros que os regulamentos
+citados por s. ex.ª são omissos quanto aos agentes diplomaticos. Não deseja o
+abaixo assignado discutir com s. ex.ª sobre os motivos porque os mencionados
+regulamentos foram omissos a tal respeito: não póde com tudo dispensar-se de
+dizer que aos motivos excogitados por s. ex.ª se poderia oppor o de julgar-se
+inadmissivel vedar o ingresso ao representante da nação a que pertence o
+navio depois da visita de saude e da policia, não podendo ser-lhes
+applicaveis, por summamente injuriosas e offensivas ao caracter d'esses
+mesmos representantes junto de S. M. o imperador e do seu governo, as
+precauções e medidas rigorosas, que os regulamentos estabelecem para segurar
+os direitos do fisco e evitar os contrabandos.<span class="pagenum"><a
+id="pag_203" name="pag_203">[203]</a></span></p>
+
+<p>«Foi tudo isto reconhecido e a tudo isto quiz attender o governo imperial,
+quando, resolvendo comprehender os agentes diplomaticos na prohibição da ida
+a bordo sem licença da alfandega, apesar da reconhecida omissão dos
+regulamentos, suavisou a sua resolução declarando que a permissão da
+alfandega quanto aos agentes diplomaticos não importa quebra de privilegio,
+nem desattenção ás prerogativas de que gozam aquelles altos empregados, sendo
+que uma similhante permissão, segundo entende o governo imperial, não é outra
+cousa mais que a annunciação da intenção do agente diplomatico ir a bordo.</p>
+
+<p>«Se o abaixo assignado comprehende bem o pensamento da resolução do
+governo imperial, o agente diplomatico tem de prevenir o inspector da
+alfandega, sempre que quizer transportar-se a bordo de um navio impedido da
+sua nação, pela demonstrada necessidade que tem o dito inspector de remover
+ou fazer remover todos os embaraços que os agentes diplomaticos poderiam
+encontrar da parte dos guardas da fiscalisação e das rondas do mar, e de lhes
+serem prestadas todas as devidas attenções, em conformidade dos privilegios e
+altas prerogativas de que gosam os agentes diplomaticos.</p>
+
+<p>«Se a exigencia do governo imperial tem este fim, felicita-se o abaixo
+assignado de estar de accordo com a resolução agora annunciada, porque está
+convencido de que o abaixo assignado nem agente algum diplomatico terão
+jámais em vista concorrer para que os empregados do imperio deixem de cumprir
+os seus deveres» etc.</p>
+
+<p>Como pódem observar os leitores, a lição dada n'este ponto pelo
+representante de Portugal ao governo brazileiro, era habil e ao mesmo tempo
+severa. Não merecia outra resposta a evasiva do inhabil diplomata
+brazileiro.<span class="pagenum"><a id="pag_204"
+name="pag_204">[204]</a></span></p>
+
+<h2>XV</h2>
+
+<p>O conde de Thomar terminava a sua nota reclamando, que a resolução
+imperial communicada á legação de S. M. F., fosse publicada na parte official
+do ministerio dos negocios estrangeiros, ou como o governo imperial julgasse
+mais conveniente, <i>em termos geraes e comprehendendo os representantes e
+mais auctoridades de todas as nações, a fim de supprir as ommissões, que
+existiam na denominada informação do ministerio da fazenda, a má impressão
+que causara tal publicação, attenta a singularidade da applicação</i>, etc;
+não annuindo o governo brazileiro a que fosse publicada na parte official,
+por isso que tal annuencia importava o desdouro do ministerio dos negocios
+estrangeiros do imperio: prestar em publico as mãos á palmatória do nosso
+esclarecido ministro; mas consentiu que o conde de Thomar mandasse fazer a
+seguinte publicação pela legação portugueza, em qualquer jornal, o que elle
+fez:</p>
+
+<p>«Pela legação de S. M. se faz saber a todas as auctoridades portuguezas,
+residentes no imperio do Brazil, que, em vista das reclamações e discussão
+entre a mesma legação e o governo imperial, se accordou que os <i>actos
+officiaes</i> publicados pelo ministerio da fazenda com data de 27 de
+dezembro do anno findo (1859) sobre a ida do ministro de S. M. F., dos
+consules de Portugal e commandantes de navios de guerra da mesma nação, a
+bordo dos navios de commercio portuguezes, surtos nos portos do Brazil,
+sómente devem ser considerados, como <i>informações</i> do ministerio dos
+negocios da fazenda ao ministerio dos negocios estrangeiros, e não como
+resoluções difinitivas; devendo unicamente considerar-se como taes as que
+pelo referido ministerio dos negocios estrangeiros foram communicadas á
+legação de S. M. F.; as quaes serão publicadas<span class="pagenum"><a
+id="pag_205" name="pag_205">[205]</a></span> pelo governo imperial na fórma
+do estylo seguido pelo ministerio dos negocios estrangeiros do imperio, e de
+que se dará opportunamente conhecimento em circular.» etc.</p>
+
+<p>O aviso que devia ser publicado pelo governo brazileiro, na parte
+official, aviso obrigado pela energica conducta do conde de Thomar, bem como
+as <i>resoluções definitivas</i>, que só podiam ser publicadas pelo governo
+imperial, segundo confessa o respectivo ministro dos negocios estrangeiros,
+<i>depois de apresentada textualmente tal pendencia ao corpo legislativo</i>,
+dois mezes depois, <i>cuja publicação solemne e official lhe parecia não só
+sufficiente, como a mais apropriada para preencher as vistas do conde de
+Thomar</i>, são estas:</p>
+
+<p>«Á alfandega recommendando, a bem das boas relações (<i>sic</i>) que
+existem entre o governo do Brazil e os das diversas nações alliadas, que
+facilite aos ministros das mesmas nações residentes n'esta côrte, sempre que
+o requisitarem por si ou por qualquer terceiro ou empregado, a entrada nos
+navios de commercio de suas nações que tiverem chegado a este porto,
+independente de minuciosas formalidades.»</p>
+
+<p>É facil de comprehender que a <i>informação</i>, que atraz deixamos
+transcripta, é uma resolução definitiva. E se o não era, que segnificação
+dariamos então ao aviso que ahi fica.</p>
+
+<p>Este novo systema de estylos diplomaticos, que nós cognominaremos&mdash;<i>á
+brazileira</i>&mdash;, estariam ainda hoje em uso, se, em logar de um portuguez
+illustre e corajoso, estivesse n'aquelle tempo encarregado dos negocios de
+Portugal qualquer compadre diplomata!</p>
+
+<p>Transcrevamos agora as taes <i>resoluções definitivas</i>:</p>
+
+<p>«... A publicação alludida (as taes informações) occupou-se singularmente
+das auctoridades portuguezas, assim respondia o ministro brazileiro, porque
+foi sobre<span class="pagenum"><a id="pag_206"
+name="pag_206">[206]</a></span> a questão suscitada por estas que se
+requisitaram informações do ministerio da fazenda.</p>
+
+<p>«Se a duvida houvesse sido levantada collectivamente por todos os agentes
+estrangeiros acreditados no imperio, de certo que não só as informações
+mencionadas a todos comprehenderiam, como tambem seria a todos opportunamente
+communicada a resolução, que tomou o governo imperial.»</p>
+
+<p>A resolução <i>definitiva</i> que o governo brazileiro tomára, de prohibir
+que os agentes diplomaticos podessem ir a bordo dos navios de commercio
+portuguezes, é assim explicada pelo ministro dos negocios estrangeiros:</p>
+
+<p>«... Se ao commandante da estação naval d'uma potencia amiga se permitte,
+na hypothese figurada (depois das visitas da saude e policia, e antes da
+descarga), mandar um official a bordo do navio mercante d'uma nação, é certo
+que não só esta faculdade lhe é concedida, pela natureza das funcções
+policiaes que tem sobre os navios mercantes da sua nacionalidade, como porque
+de exercel-a não resulta o menor inconveniente.</p>
+
+<p>«Um official de marinha tem uniforme que indica a sua graduação, escaler
+em que leva o distinctivo do seu pavilhão, e pois não ha receio de que se lhe
+faltem ás attenções devidas. No mesmo caso porém, não está o agente
+diplomatico, que, embarcado em um escaler mercante, e não levando comsigo o
+distinctivo do alto cargo que occupa, expõe-se á contingencia de supportar
+exames e investigações» etc.</p>
+
+<p>A questão era de continencias. Não havia, pois, motivo para
+reclamações!</p>
+
+<p>O governo imperial, com as suas <i>resoluções definitivas</i>, prestava
+culto á etiqueta: era cortezão!</p>
+
+<p>Aquellas <i>informações</i> prestadas pelo ministerio da fazenda ao dos
+estrangeiros, bem como o aviso dirigido<span class="pagenum"><a id="pag_207"
+name="pag_207">[207]</a></span> á alfandega, nada tinha com a emigração
+clandestina! Era negocio de algumas descargas de artilheria, vivorio e outras
+attenções devidas aos altos cargos dos agentes diplomaticos!</p>
+
+<h2>XVI</h2>
+
+<p>O procedimento do conde de Thomar, com relação á questão da barca <i>Nova
+Lima</i>, fez com que as auctoridades brazileiras começassem a fazer executar
+o regulamento do 1.º de maio de 1858, que era letra morta no imperio. Mas
+durou pouco tempo o seu afan.</p>
+
+<p>Passado o tempo estrictamente necessario para que as nossas auctoridades
+fossem illudidas, as cousas tornariam ao mesmo estado em que se achavam.
+Comtudo, é preciso darmos noticia d'um acto justo, praticado pelas
+auctoridades brazileiras, no illusorio interregno. Assim cumpriremos o dever
+que nos impozemos de ser justo na apreciação de todos os factos que dizem
+respeito ao assumpto que discutimos, e apresentaremos mais uma vez á vindicta
+publica o miseravel procedimento dos traficantes.</p>
+
+<p>«Tendo em 17 de dezembro do anno findo (1859) o delegado da repartição das
+terras publicas, endereçado o officio, que por cópia respeitosamente levo ás
+mãos de v. ex.ª, communicava o nosso consul na Bahia ao ministro dos negocios
+estrangeiros, em 12 de março de 1860, enviou-me tambem o regulamento de 1.º
+de maio de 1858, exarado na gazeta denominada <i>Gazeta da Bahia</i>, e a
+cujo officio respondi nos termos da cópia junta.</p>
+
+<p>«Na hypothese de que os agentes consulares brazileiros, residentes em
+Portugal, inteirassem os capitães de navios que se destinam aos portos do
+Brazil d'aquellas disposições, deixei de opportunamente occupar a attenção de
+v. ex.ª com o assumpto do citado regulamento,<span class="pagenum"><a
+id="pag_208" name="pag_208">[208]</a></span> em virtude do qual, <i>nada se
+havia obrado n'esta provincia, senão até quasi ignorada a sua existencia</i>
+(sic): occorre porém que, em 8 de fevereiro findo, (passados quasi dois annos
+depois da sua publicação), se recolhera a este porto o brigue portuguez
+<i>Athenas</i>, procedente da cidade do Porto, trazendo a seu bordo quinze
+passageiros; fôra por este facto o navio visitado, segundo as disposições do
+mesmo regulamento, e o respectivo capitão Antonio Ferreira Guimarães Freitas,
+processado e condemnado por haver deixado de as cumprir.»</p>
+
+<p>Vamos transcrever o extracto d'este documento, para provarmos tambem, que
+se não fôra a intervenção do nosso ministro, residente na côrte do imperio, a
+respeito da importante questão que divulgamos, o regulamento brazileiro de
+1.º de maio de 1858, jámais começaria a ter vigor.</p>
+
+<p>É preciso combinar as datas para serem mais justas as apreciações sobre o
+que temos avançado. Devendo aquelle regulamento começar a vigorar logo
+immediatamente á sua publicação, meados de 1858, só d'elle se lança mão em
+fins de 1859, na questão <i>Nova Lima</i>, e ainda assim por temor do
+energico diplomata conde de Thomar; e em fevereiro de 1860, na questão do
+brigue portuguez <i>Athenas</i>.</p>
+
+<p>Devemos notar que a execução do referido regulamento era só contra os
+navios portuguezes, não obstante a infracção dos commandantes de navios de
+outras nacionalidades contra as leis que regulavam o assumpto.</p>
+
+<p>Mas o commandante do navio <i>Athenas</i> fôra obrigado a pagar a multa de
+metade do importe das passagens (453$600 réis), porque sendo obrigado a dar a
+cada colono o espaço de 30 palmos quadrados, apenas lhe dera 21; por não ter
+dado camas ou macas aos passageiros; porque a altura da coberta do navio,
+embora fosse de 9 palmos, este espaço era tomado pela bagagem que devia estar
+no porão; porque as bandejas<span class="pagenum"><a id="pag_209"
+name="pag_209">[209]</a></span> ou tinas pequenas de madeira em pessimo
+estado não podiam ser consideradas utensilios da mesa; porque o capitão não
+apresentára as relações determinadas pelos §§ 1.º e 2.º do artigo 25 do
+citado regulamento; e, finalmente, porque as condições hygienicas não foram
+convenientemente observadas.</p>
+
+<p>É um facto innegavel que as condições de transporte de colonos para o
+Brazil, na actualidade, nada tem melhorado, não obstante os regulamentos
+portuguezes e brazileiros; o que prova até á evidencia a falta de força dos
+nossos governos em fazer cumprir as leis, e a connivencia do governo
+brazileiro com os aliciadores, porque está provado que, se fossem tambem
+cumpridas as suas leis, a emigração de portuguezes para o Brazil, já teria
+deixado de existir.</p>
+
+<p>Mas é preciso concluir as informações sobre a questão do brigue
+<i>Athenas</i>.</p>
+
+<p>O consul residente na Bahia, julgára excessivo o castigo inflingido ao
+capitão, e o conde de Thomar expressa-se da seguinte fórma, em seu officio de
+2 de abril de 1860, dirigido ao duque da Terceira:</p>
+
+<p>«Em officio n.º 3 de 9 de março findo, participou o consul na Bahia, que
+em 8 de fevereiro chegára áquelle porto o brigue portuguez <i>Athenas</i>,
+procedente da cidade do Porto, trazendo a seu bordo 15 passageiros, e que
+sendo competentemente visitado, e verificando-se que estavam por muitos
+motivos infringidas as disposições do regulamento do 1.º do maio de 1858,
+fôra o capitão do referido brigue, Antonio Ferreira Guimarães Freitas,
+condemnado pela respectiva commissão a pagar metade do valor da passagem de
+cada um emigrante, regulando cada um a 60$480 réis, moeda brazileira.</p>
+
+<p>«Accrescenta o consul, que aconselhára ao mencionado capitão e
+consignatario de por si recorrerem á presidencia da provincia, reservando-se
+para com acerto<span class="pagenum"><a id="pag_210"
+name="pag_210">[210]</a></span> obrar n'este assumpto, segundo as minhas
+instrucções, que solicitava.</p>
+
+<p>«Tendo eu a inteira convicção de que todo o rigor que as auctoridades
+brazileiras mostram contra os capitães de navios portuguezes pelo facto de
+infringirem os regulamentos sobre transporte de colonos, só póde dar em
+resultado <i>mostrarem-se mais humanos aquelles capitães e ser tambem mais
+difficil e menor o numero dos nossos compatriotas, que pela mais completa
+illusão, correm ao matadouro</i>, julguei dever responder ao consul da Bahia
+que, visto os legaes fundamentos da condemnação, não interpozesse a sua
+authoridade e bons officios, e que declarasse sómente ao capitão e
+consignatario, que poderão usar de per si dos recursos legaes, não devendo
+tambem contar com a protecção da legação de s. m., visto que pelo facto de
+conduzir compatriotas seus contra as disposições da lei se tornavam indignos
+de tal protecção.</p>
+
+<p>«Devo prevenir a v. ex.ª de que é esta a minha resolução a respeito de
+todos os capitães que se acharem em eguaes circumstancias. Não póde realmente
+dar-se protecção a capitães de navios portuguezes, <i>que se tornam assim os
+verdugos da humanidade, e ainda dos seus proprios concidadãos</i>.»</p>
+
+<p>São desnecessarios os commentarios a documentos como este tão cheios de
+dignidade. Elles por si dizem tudo.</p>
+
+<p>O conde de Thomar devia ser altamente guerreado, porque ao governo
+brazileiro não convinha alli tão grande difficuldade á emigração clandestina.
+E effectivamente, os seus desgostos manifestados em mais de um documento, que
+em seguida examinaremos, mostram até certo ponto, que podiam mais do que o
+seu nobre intento de ser util á patria. E não vão taxar-nos de
+contradictorios; porque deve comprehender-se que motivo algum ha que possa
+demover um patriota illustre<span class="pagenum"><a id="pag_211"
+name="pag_211">[211]</a></span> a deixar de ser util ao seu paiz. Mas que
+faria o nosso ministro residente no imperio, desacompanhado das auctoridades,
+que só elogiavam o seu procedimento, descurando de applicar ao mal o
+verdadeiro antidoto, que esse ministro, como homem competentissimo,
+aconselhára para debelar a emigração clandestina, molestia chronica que tanto
+ha arruinado a patria?</p>
+
+<p>Havemos de provar se o não está já, que as auctoridades do nosso paiz,
+pódem, mais ou menos, ser tambem accusadas de negligencia e conniventes com
+os aliciadores. Ora, contra tão reprovado procedimento, era completamente
+inutil a boa vontade de um só homem.</p>
+
+<h2>XVII</h2>
+
+<p>Os governos do nosso paiz, pódem, mais ou menos, ser accusados de
+negligencia, com respeito ao assumpto que tanto nos interessa.</p>
+
+<p>Quando o nosso ministro residente no imperio tratava, desde 1859 a 1860,
+de combater, por todos os meios ao seu alcance, a emigração clandestina,
+usando dos actos energicos de que temos dado noticia aos leitores, dirigia
+elle o seguinte officio ao nosso ministro dos negocios estrangeiros, em data
+de 23 de junho de 1860:</p>
+
+<p>«Tenho a honra de passar ás mãos de v. ex.ª o relatorio da repartição dos
+negocios do imperio, apresentado ás camaras na presente sessão
+legislativa.</p>
+
+<p>«É um interesssante documento, que habilita o leitor a conhecer o estado
+de organisação d'este paiz. Chamo sobretudo a attenção de v. ex.ª sobre o
+artigo <i>Emigração</i>, pag. 56; n'este artigo encontrará v. ex.ª a
+estatistica que mostra o numero total de emigrantes entrados no Brazil,
+durante o anno passado.<span class="pagenum"><a id="pag_212"
+name="pag_212">[212]</a></span></p>
+
+<p>«Eleva-se o dito numero a 19:675<a name="tex2html44"
+href="#foot1548"><sup>[44]</sup></a>, sendo 9:342 portuguezes; 3:165
+allemães; e 7:188 de diversas nacionalidades.</p>
+
+<p>«Julgo desnecessario repetir agora as muitas considerações que por vezes
+tenho feito sobre este importante objecto.</p>
+
+<p>«<i>Devo persuadir-me de que tenho encarado mal esta questão</i>, porque o
+ministro do imperio se <i>julga auctorisado</i> a communicar ás camaras
+legislativas, <i>que o governo portuguez já não cria embaraços á
+emigração</i>, como ainda ha pouco acontecera, <i>levado por informações
+inexactas, que felizmente se acham hoje desvanecidas</i>.</p>
+
+<p>«Não comprehendo realmente este modo de avaliar a questão; por um lado
+está em opposição com tudo o que me tem sido dirigido pela secretaria dos
+negocios estrangeiros, hoje a cargo de v. ex.ª; por outro lado parece
+incomprehensivel que o ministro do imperio faça referencia a factos do
+governo portuguez, não existindo similhantes factos.</p>
+
+<p>«Quaes foram as informações inexactas, que felizmente se acham hoje
+desvanecidas, deixando por isso o governo portuguez de crear embaraços á
+emigração?</p>
+
+<p>«Convirá v. ex.ª que para manter a minha dignidade careço de ser
+devidamente informado a tal respeito.»</p>
+
+<p>A questão era muito importante para deixar de ter o seguinte desmentido
+official, que não utilisaria muito ao governo brazileiro, já porque elle era
+useiro e vezeiro em trapassas similhantes, já porque effectivamente o governo
+portuguez era muito amigo de palavras e verdadeiro inimigo de obras.<span
+class="pagenum"><a id="pag_213" name="pag_213">[213]</a></span></p>
+
+<p>O desmentido é este, e tem a data de 1 de agosto de 1860:</p>
+
+<p>«Li com a necessaria attenção o que v. ex.ª refere no seu officio de 23 de
+junho ultimo, ácerca da asserção feita pelo ministro do imperio, no relatorio
+da sua repartição, em que diz que o governo portuguez já não cria embaraços á
+emigração, como ha pouco acontecera, levado por informações inexactas que
+elle pretende acharem-se hoje desvanecidas.</p>
+
+<p>«Não me surprehendeu menos do que a v. ex.ª este modo de avaliar os
+factos, tanto mais que não consta n'esta secretaria d'estado que por ordem do
+governo se tenha facilitado a emigração, mas antes se cuida em evital-a pelos
+meios possiveis» etc., etc.</p>
+
+<p>E concluia:</p>
+
+<p>«Á vista pois de tudo isto já v. ex.ª póde vêr que o ministro foi inexacto
+no que expendeu no seu relatorio com referencia ao assumpto.»</p>
+
+<p>Parece, com tudo, que havia alguem que, communicando-se com o governo
+portuguez, pretendia, n'essas communicações, taxar de inexacto o conde de
+Thomar.</p>
+
+<p>Vejamos se podemos descobrir o culpado.</p>
+
+<p>Em 12 de junho de 1860, officiava o nosso ministro dos negocios
+estrangeiros ao representante de Portugal na côrte do imperio, pedindo
+reclamasse do governo brazileiro a punição do commandante da galera
+<i>Harmonia</i>, por ter recebido clandestinamente a seu bordo, colonos para
+o Brazil, nas aguas de S. Miguel.</p>
+
+<p>O conde de Thomar fizera a reclamação immediatamente, e o ministro dos
+negocios estrangeiros do imperio respondera em 17 de junho do referido anno,
+promettendo providencias que não dera.</p>
+
+<p>Mas a nossa questão é conhecer um dos culpados de connivencia na emigração
+clandestina.<span class="pagenum"><a id="pag_214"
+name="pag_214">[214]</a></span></p>
+
+<p>«Pareceu-me na verdade extraordinario que, tendo eu recebido ordem de S.
+M. para reclamar contra o procedimento do capitão da sobredita galera
+brazileira <i>Harmonia</i>, referia o conde de Thomar, pelo facto de se ter
+recusado a dar entrada no porto de Ponta Delgada, e a manifestar se na
+conformidade dos regulamentos fiscaes e da policia, com o premeditado fim de
+embarcar, como embarcou clandestinadamente colonos, <i>recebesse eu do consul
+geral a informação de que os passageiros transportadas na dita galera, em
+numero de 209 pessoas de ambos os sexos, vinham incluidas em 128
+passaportes</i>, passados pelos governadores civis das ilhas do Faial e S.
+Miguel» etc.</p>
+
+<p>Parece que transcrevemos já o sufficiente para desconfiarmos da lisura do
+nosso consul geral; mas continuemos:</p>
+
+<p>«Convença-se v. ex.ª, acerescentava o nobre diplomata, de que n'este
+negocio de transporte de colonos para o Brazil, <i>tudo conspira contra o
+pensamento do governo e da legação de S. M. n'esta côrte</i>. Os interesses
+de varias repartições e empregados publicos, os interesses individuaes de
+portuguezes e brazileiros, e por, fim o interesse do governo d'este imperio,
+<i>teem grande força para deixar continuar e até proteger um trafico que se
+vai mostrando altamente nocivo ás vidas dos subditos de S. M. e aos
+interesses da nossa patria</i>.»</p>
+
+<p>Teria o nosso consul algum interesse menos honroso em auxiliar o trafico
+infame?</p>
+
+<p>Falle mais este documento da mesma origem d'aquelle outro que acabamos de
+transcrever:</p>
+
+<p>«Em additamento ao meu officio de 24 do mez proximo passado, cumpre-me
+levar á presença de v. ex.ª a resposta dada pelo consul geral ao que lhe foi
+ordenado em data de 17 do proximo passado, com o fim de explicar a discordia
+notavel entre as suas informações a respeito dos passageiros transportados na
+galera brazileira<span class="pagenum"><a id="pag_215"
+name="pag_215">[215]</a></span> <i>Harmonia</i>, e as que tinham chegado a
+esta legação por parte do governo com ordem de reclamar contra o capitão da
+sobredita galera pelo escandaloso procedimento de sobre a véla embarcar
+clandestinamente passageiros em frente de Ponta Delgada, e não obedecer ás
+intimações que pela auctoridade competente lhe haviam sido feitas.</p>
+
+<p>«Como sempre previ, o consul geral não devia encontrar a menor
+difficuldade em munir-se de documentos officiaes para provar a exactidão das
+suas informações e para ficarem tidas como inexactas as que pelo governo de
+S. M. foram mandadas a esta legação, e que serviram de fundamento á
+reclamação perante o governo imperial contra o capitão da galera
+<i>Harmonia</i>.</p>
+
+<p>«Em todo este negocio vigoram os motivos que tenho expendido em muitos dos
+meus anteriores officios, e que se reduzem a estarem os interesses de todos
+contra o pensamento do governo e da legação de S. M.</p>
+
+<p>«Do officio do consul geral, junto, se deprehendem muitos factos que não
+escaparão á fina penetração de v. ex.ª, para entrar, se quizer, no fundo da
+questão da colonisação» etc.</p>
+
+<p>O facto dos escandalos praticados pelo governo brazileiro, a respeito da
+barca <i>Harmonia</i>, foi, sem duvida, a principal razão da sua retirada do
+imperio, em fins do anno de 1860.</p>
+
+<p>«Verifica-se tudo o que eu tinha previsto nos meus antecedentes officios,
+communicava o conde em 6 de setembro de 1860. <i>Vão de accordo as respostas
+do governo imperial com as que me foram dadas pelo consul geral</i>, etc.</p>
+
+<p>«É negocio este, em que me parece desnecessario insistir, a não me
+habilitar o governo de sua magestade» etc. etc.</p>
+
+<p>Foram estas as ultimas palavras proferidas pelo conde de Thomar, na
+qualidade de nosso representante no<span class="pagenum"><a id="pag_216"
+name="pag_216">[216]</a></span> Brazil, a respeito do assumpto
+importantissimo da emigração; porque, escusado será dizer, que o governo de
+sua magestade, jámais habilitaria o seu delegado a pôr termo ao commercio
+horroroso da escravatura branca.</p>
+
+<p>Seria falta de energia ou connivencia?</p>
+
+<p>Eis ahi está uma pergunta a que não será difficil responder.</p>
+
+<h2>XVIII</h2>
+
+<p>Em paiz algum se tem descurado mais do que no nosso o importantissimo
+assumpto que nos occupa. Com tudo parcerá áquelles que olham superficialmente
+para estas cousas, que os nossos estadistas já tem feito muito, e que se os
+remedios applicados não tem produzido o effeito desejado, não é por culpa
+d'aquelles a quem compete remediar o mal.</p>
+
+<p>Effectivamente, ninguem ha com maiores tendencias para fazer projectos, ás
+vezes bem deliniados; mas tambem não haverá, de certo, quem mais depressa se
+esqueça d'elles.</p>
+
+<p>Com respeito á emigração não se póde dizer que os nossos governos se
+tenham esquecido. Unicamente podemos accusal-os de fallarem muito,
+demasiadamente, sobre o assumpto... e de não terem feito nada, absolutamente
+nada, para evitar o mal que nos prostra.</p>
+
+<p>Vem já de longe este afan de se querer regular a emigração para o
+Brazil.</p>
+
+<p>A lei de 20 de julho de 1855 estabelece medidas salutares a favor dos
+emigrados; mas para que as disposições d'essa lei possam ser effectivas,
+falta-lhe o respectivo regulamento. Fallou-se muito da necessidade de
+organisar esse regulamento, em vista das instantes reclamações dos nossos
+consules residentes no imperio, que quasi diariamente se queixavam dos
+horrores da<span class="pagenum"><a id="pag_217"
+name="pag_217">[217]</a></span> emigração. Mas os nossos governos ouviam as
+queixas, lacrimosos, e respondiam com bonitas phrases de consolação, que já
+mais remediariam tão grande mal... mal que, cada dia que passa, augmenta de
+intensidade, e já nos assombra hoje. Essas queixas tem-se repetido desde ha
+20 annos, o que equivale a dizer que os homens d'estado d'este bello paiz tem
+ensopado muitos lenços e escripto phrases recheadas de sentimento,
+verdadeiramente liberaes, phrases que consolam quem as lê, mas que nada
+significam para quem estuda seriamente esta questão.</p>
+
+<p>Desde a sua instalação na côrte do Rio de Janeiro instára o conde de
+Thomar pela conveniencia de se formular um tratado ou regulamento da
+emigração; e formulou-o. Esse projecto foi incumbido ao conselheiro da
+legação, o dr. Antonio José Coelho Louzada, ao qual já em outro logar nos
+referimos.</p>
+
+<p>Eis o que o benemerito representante de Portugal na côrte do Rio de
+Janeiro, communicava ao nosso governo, a tal respeito:</p>
+
+<p>«É possivel que o governo de sua magestade, não classifique de perfeito
+aquelle trabalho, e que obra humana póde ser classificada assim? Mas asseguro
+a v. ex.ª que o conselheiro Lousada, por um lado se conformou com os
+verdadeiros principios reguladores de tal assumpto nos paizes mais
+civilisados, por outro lado aproveitou a especialidade da posição dos dois
+paizes e dos seus subditos, não deixando jámais de ter em vista as lições da
+experiencia diaria, a qual, na minha opinião, cumpre principalmente ter em
+vista n'este delicado objecto. Assim é minha opinião tambem que o conselheiro
+Lousada é digno dos maiores louvores pela coadjuvação que me prestou, e que
+muito ha de concorrer para facilitar as ultimas resoluções do governo de sua
+magestade, as quaes eu sollicito com a maior urgencia.»<span
+class="pagenum"><a id="pag_218" name="pag_218">[218]</a></span></p>
+
+<p>O projecto subio á approvação do governo, mas, n'esses intrincados
+labyrinthos chamados secretarias d'estado, foi completamente retalhado pelos
+inexperientes conselheiros-amanuenses, naturalmente de accordo com a
+diplomacia, porque a diplomacia é sempre consultada n'estes casos; e o que é
+para admirar, é que não obstante o trabalho do dr. Lousada sahir desmantelado
+dos cadinhos officiaes, o governo brazileiro ou os homens d'estado que então
+dirigiam os destinos do imperio, com aquelle tacto politico-economico que
+todos lhe conhecemos, ainda acharam extemporaneas as diligencias empregadas
+pelo conde do Thomar, e quiçá do governo portuguez, a respeito do regulamento
+em questão!</p>
+
+<p>E se não vejamos.</p>
+
+<h2>XIX</h2>
+
+<p>São passados tres annos (1860 a 1863) depois das diligencias do conde de
+Thomar, e o sr. José de Vasconcellos e Sousa que substituiu aquelle diplomata
+recebia plenos poderes do governo portuguez, para entrar em negociações com o
+governo do Brazil, afim de se regular de vez a emigração.</p>
+
+<p>O resultado d'essas negociações são assim explicadas pelo sr. Vasconcellos
+e Sousa:</p>
+
+<p>«A disposição do governo imperial para com o de sua magestade, para com
+Portugal, e ousarei dizer para comigo individualmente, não póde ser mais
+favoravel. Isto, não obstante, não prescinde o mesmo governo de attender
+sériamento com affinco ao que considera necessidade imperiosa, satisfazendo
+ao mesmo tempo á opinião manifestada, já do proprio partido, já da opposição;
+e insta comigo, por meio de todos os seus membros, para que seja regulada,
+quanto antes, e primeiro que tudo, a questão da emigração e o modo d'ella,
+de<span class="pagenum"><a id="pag_219" name="pag_219">[219]</a></span> tal
+sorte que cesse de ser duvida, por demais assustadora para o Brazil, a vinda
+de gente portugueza para este imperio» etc.</p>
+
+<p>O officio datado do 8 de janeiro de 1863, expedido pelo ministro dos
+negocios estrangeiros, ao representante de Portugal no Brazil, tirava todas
+as duvidas, que por ventura houvesse contra o nosso governo, de pretender
+demorar a discussão de um assumpto tão importante para os dois paizes.</p>
+
+<p>Não tinha, pois, de que se queixar o governo do Brazil. O projecto de
+convenção ia ser-lhe presente pelo nosso delegado.</p>
+
+<p>O sr. José de Vasconcellos communicava pouco depois ao nosso governo:</p>
+
+<p>«Tenho a honra de passar ás mãos de v. ex.ª a inclusa copia da nota
+confidencial, que n'esta data entreguei em mão propria ao marquez de
+Abrantes, ministro e secretario d'estado dos negocios estrangeiros de S. M. o
+imperador do Brazil, acompanhada do projecto da convenção dos colonos,
+convidando-o para a respectiva discussão e ajuste definitivo, etc.</p>
+
+<p>«Das mãos do marquez de Abrantes tem de passar o dito projecto ás mãos do
+ministro da agricultura e da justiça, e sómente depois de ouvidas e accordes
+as suas opiniões sobre elle, entraremos, o dito marquez e eu na respectiva
+discussão.</p>
+
+<p>«Depois de um longo preambulo, declarou-me que o resultado do exame da
+materia o tinha convencido de que antes do revogada certa lei de colonisação
+(a de 11 de outubro de 1837), era impossivel negociar uma convenção de
+emigração, a cujos principios de liberdade, e mesmo de rigorosa justiça, se
+oppunham formalmente as disposições da dita lei, etc.</p>
+
+<p>«A final, e depois, de muito boas palavras, affirmou-me que o governo
+imperial não havia mudado de principios nem de intenções, que havia de fazer
+a convenção,<span class="pagenum"><a id="pag_220"
+name="pag_220">[220]</a></span> e que o seu primeiro cuidado seria apresentar
+ás camaras, em janeiro proximo futuro, um projecto de lei que revogasse a que
+fica citada, e habilitasse o governo a entrar n'uma negociação franca de
+emigração, garantida pela nova lei.</p>
+
+<p>«Assim o espero devéras, mas não encubro a v. ex.ª o meu desapontamento
+grandissimo, e sério desgosto, tanto mais natural e profundamente sentido,
+quanto, em minha consciencia o digo, e v. ex.ª não ignora, que fiz o que era
+humanamente possivel para evitar similhante demora! Digne-se v. ex.ª notar,
+que o unico embaraço para a emigração desde já, é justamente a citada lei de
+1837, sobre a qual eu chamei sempre a attenção do marquez de Abrantes, e a do
+sr. ministro da agricultura e commercio, todas as vezes que fallamos em
+colonisação, que não tem sido poucas.</p>
+
+<p>«<i>Em tudo isto ha uma prova notavel de boa fé</i>, e de desejo sincero
+de estabelecer a emigração em base solida, sustentada em principios que não
+possam ser destruidos com as peias das leis <i>barbaras</i> de outra
+epocha.»<a name="tex2html45" href="#foot1574"><sup>[45]</sup></a></p>
+
+<p>Parece-nos demasiadamente ingenua a boa fé do sr. José de Vasconcellos e
+Sousa, com respeito ao assumpto, se attendermos ao seguinte trecho do seu
+citado officio:</p>
+
+<p>«... Disse-me mais, que assegurasse a v. ex.ª que, tanto esta convenção
+(de emigração), como a de propriedade litteraria, esta dependente d'aquella,
+seriam concluidas logo depois da proxima reunião do corpo legislativo (em
+1864).»</p>
+
+<p>Perguntamos porque razão estava uma dependente da outra? Que tinha que vêr
+a convenção litteraria com a que regulava a emigração de colonos portuguezes
+para o Brazil? Acaso a lei referida, de 1837, serviria tambem de obstaculo á
+conclusão d'este tratado?<span class="pagenum"><a id="pag_221"
+name="pag_221">[221]</a></span></p>
+
+<p>Não. Eram tudo evasivas, evasivas que não podiam ser tachadas de
+<i>notavel boa fé e de desejo sincero</i> em estabelecer os principios do
+direito de propriedade litteraria, de que temos sido e continuaremos a ser
+esbulhados.</p>
+
+<h2>XX</h2>
+
+<p>Escusado será dizer que no anno de 1864 não foi presente ao corpo
+legislativo brazileiro, como se havia promettido, o projecto de lei que,
+segundo a opinião dos ministros do imperio, devia derrogar essa outra de
+1837, que impedia a negociação de uma convenção sobre emigrados, <i>a cujos
+principios de liberdade, e mesmo de rigorosa justiça, se oppunham formalmente
+as disposições de tão barbara lei</i>!</p>
+
+<p>E o que é mais notavel, é que que essa lei estupida e deshumana,
+reconhecida como tal pelos primeiros homens d'estado do Brazil, ainda não foi
+derrogada. É ainda a lei que regula o trabalho dos pobres emigrados alli
+residentes!</p>
+
+<p>A eliminação da lei de 11 de outubro de 1837 organisada por assim dizermos
+debaixo da influencia de legisladores que mais pensavam na continuação do
+horroso trafico da escravatura africana, escapou aos legisladores de 1871,
+que decretavam livre o ventre da mulher escrava!</p>
+
+<p>E o que é mais, é que estamos em 1878, e as leis de que fallamos
+continuam, uma, fazendo do preto um cidadão, e a outra fazendo do branco um
+escravo!</p>
+
+<p>É assim o mundo; e o Brazil, especialmente, ainda nos apresenta d'estes
+phenomenos!</p>
+
+<p>Dar-se-ha caso que os economistas brazileiros conservem ainda a lei de
+1837 com o fim de evitar que se discuta o tratado de emigração proposto por
+Portugal<span class="pagenum"><a id="pag_222" name="pag_222">[222]</a></span>
+em 1863, e a tão fallada convenção da propriedade litteraria?!</p>
+
+<p>Se assim é, como o demonstra a irrefutavel logica dos factos que
+analysamos, não digam que o Brazil protege a emigração.</p>
+
+<p>Mas que tem que ver Portugal com a teimosia dos estadistas brazileiros?
+</p>
+
+<p>Será necessario pedir licença ao Brazil para publicarmos qualquer lei
+tendente a evitar o horroroso commercio da escravatura branca?</p>
+
+<p>Parece que sim, porque o governo imperial não ficou satisfeito com a
+publicação da lei de 1855, e, talvez que por essa circumstancia, o governo
+portuguez, para não descontentar mais o governo brasileiro, descurou
+completamente a approvação d'um regulamento tão indespensavel como o exigido
+no artigo 12.º.</p>
+
+<p>Por outra fórma se não póde deixar de considerar o seu procedimento, se
+attendermos ao addiamento da questão, censurado pela imprensa em meados de
+1872 e immediatamente considerada pelo governo, para guardar apparencias;
+porque foi outra vez despresada até fins de 1874, em que de novo fôra
+lembrada, para tornar a ser esquecida, como é facil de prever, se attendermos
+a que as medidas propostas na legislatura de 1876, pelos membros da commissão
+nomeada em 1873, não tiveram echo no parlamento, preterindo-se a discussão
+d'este assumpto gravissimo por outros de uma importancia secundaria, e quem
+sabe mesmo se essencialmente prejudiciaes aos interesses do paiz.<span
+class="pagenum"><a id="pag_223" name="pag_223">[223]</a></span></p>
+
+<h1>CAPITULO VI</h1>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0060001">Ainda as questões do Pará. Os pasquins de cá e os
+pasquins de lá. As «Farpas» e a «Tribuna». «Lo Spirito Folletto» e o «Punch».
+Desforços da «Tribuna». A popularidade da «Tribuna». Pasquins
+brazileiros.</a></div>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Os acontecimentos do Pará, em 1874, a que como já dissemos, tambem se
+refere o auctor do livro o <i>Brazil</i>, obriga-nos a entrar de novo no
+assumpto.</p>
+
+<p>Mas antes de o profundarmos cumpre-nos declarar que se não publicámos,
+como prometteramos, o segundo livro annunciado no final das <i>Questões do
+Pará</i>, foi por que tendo nós pedido documentos que julgamos indispensaveis
+para fazer a historia d'aquella horrorosa tragedia, a um amigo nosso
+residente no Pará, e tendo elle accedido do melhor grado ao convite, o
+portador a quem os confiára, chegado que foi a Lisboa, entendeu dever
+exonerar-se do compromisso que voluntariamente se impozéra, ou, o que é mais
+extranhavel, subtrahio-os!</p>
+
+<p>Ó heróico poeta, como tú conhecias o mundo quando assim pensavas:</p>
+
+<blockquote>
+ <small>Dizei-lhe que tambem dos portuguezes<br>
+ Alguns traidores houve algumas vezes.</small></blockquote>
+
+<p>Mas... prescindamos dos documentos e examinemos as considerações que aos
+referidos tumultos fez o auctor<span class="pagenum"><a id="pag_224"
+name="pag_224">[224]</a></span> do livro o <i>Brazil</i>; e para que com
+conhecimento de causa sejam julgadas as nossas palavras, citaremos d'esse
+livro os trechos sobre que entendemos dever fazer alguns reparos.</p>
+
+<p>Um jornal do Porto escrevera opportunamente a respeito das desordens do
+Pará:</p>
+
+<p>«A colonia portugueza do Pará, é continuamente insultada por alguns
+jornaes d'aquella terra, insultos quasi sempre acompanhados de improperios
+soezes e estultos á nossa bandeira nacional, sem se lembrarem sequer, esses
+desgraçados! que foi á sombra d'ella que os seus avoengos viveram por tres
+seculos!»</p>
+
+<p>O sr. Carvalho responde o seguinte no seu livro:</p>
+
+<p>«Ao escriptor portuense confessamos que assistem razões muito ponderosas
+para se pronunciar por este modo. Peza-nos sómente, devéras o dizemos, que ao
+traçar tão bem cabidos reparos, <i>não carregasse um pouco mais a
+mão</i>...</p>
+
+<p>E continúa logo:</p>
+
+<p>«...... Ainda assim pedimos-lhe que nos conceda estendel-os tambem a uns
+certos hydrophobos de cá, que, ha tempos a esta parte, se deixam tomar da
+mania de vomitar doestos e calumnias contra o Brazil.»</p>
+
+<p>O que é logico é que se o escriptor portuense seguisse o conselho do snr.
+Carvalho, de <i>carregar um pouco mais a mão</i>, como tantos jornalistas
+fizeram, quando appreciaram á luz d'este seculo os actos de selvageria
+praticados no Pará, não poderia deixar de ser cognomisado de hydrophobo!</p>
+
+<p>O auctor do <i>Brazil</i> assim desculpa os nossos insultadores:</p>
+
+<p>«Este imperdoavel abuso da liberdade de imprensa no Brazil, explica até
+certo ponto a razão de ser dos seguintes pasquins&mdash;<i>O Alabama</i>, da
+Bahia&mdash;<i>O Commercio a retalho</i> (digno sucessor do <i>Tribuno</i>), de
+Pernambuco&mdash;e <i>A Tribuna</i>, do Pará.<span class="pagenum"><a id="pag_225"
+name="pag_225">[225]</a></span></p>
+
+<p>«Em Portugal, vá-se dizendo tambem para desconto de peccados, surgem a
+espaços no seio do jornalismo uns dignissimos émulos d'aquelles leprosos
+d'além-mar. Exemplos:&mdash;<i>O Raio</i>&mdash;<i>O trinta mil diabos</i>&mdash;<i>O
+chicote dos ladrões</i>, etc., etc.</p>
+
+<p>«Lá e cá o publico sustenta-os e folga com elles. Esta a verdade, tal qual
+é.»</p>
+
+<p>Não é isto exacto.</p>
+
+<p>Resumamos os acontecimentos horrorosos de que tem sido alvo a colonia
+portugueza no imperio de Santa Cruz, e que tem dado justa causa a declarar-se
+a <i>hydrophobia</i> na imprensa de Portugal.</p>
+
+<p>Entre os hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá, ha, com effeito, muita
+differença.</p>
+
+<p>Alguns brazileiros, não satisfeitos com os insultos que nos dirigem,
+lançam mão do punhal e do trabuco homicida, para satisfazer o odio de raça
+que os devora; os portuguezes, só depois dos insultos é que usam do direito
+de represalia, pedindo á imprensa o que lhes nega o governo brazileiro.</p>
+
+<p>No que os brazileiros enchergam calumnias, não ha mais do que factos
+verdadeiros, que, por serem ás vezes tão extraordinarios, não parecem o que
+effectivamente são.</p>
+
+<p>É preciso illucidar um pouco mais isto.</p>
+
+<p>Houve exaltação da parte da imprensa portugueza, exaltação
+justificadissima, em face do espesinhamento do nosso pavilhão, por subditos
+brazileiros, n'uma das praças publicas da cidade do Pará, em principios de
+1873. Essa exaltação recrudesceu quando as auctoridades brazileiras deixaram
+impune o acto vandalico dos desordeiros. Esta impunidade armava contra nós os
+paraenses. O seu jornal, a <i>Tribuna</i>, já não se contentava só com
+insultos, publicava proclamações incendiarias, chamando o povo ás armas
+contra os portuguezes residentes na provincia. Da cidade do Pará eram
+destacados<span class="pagenum"><a id="pag_226"
+name="pag_226">[226]</a></span> para o sertão alguns agentes d'aquelle infame
+papel, para lerem aos <i>tapuyas</i> o grito de guerra; outros dirigiam-se ás
+praias do Guajará, junto da cidade de Belem, aonde ha sempre grande movimento
+de <i>canoas</i> vindas do interior, e alli, no meio dos tripulantes e dos
+passageiros, todos indigenas, eram lidos infamantes libellos contra os
+<i>marinheiros</i> ou <i>gallegos</i>, epithetos com que em todo o imperio
+distinguem os filhos de Portugal! Estas doutrinas subversivas da ordem
+publica, apregoadas por espaço de dois annos consecutivos, á luz do dia e na
+presença das indifferentes auctoridades do Pará, produziram a explosão de
+setembro de 1874, que podia ter produzido resultados mais funestos, se não
+fôra a <i>Agencia Americana Telegraphica</i>, de que eramos representante na
+referida cidade. Com tudo, muitos portuguezes foram assassinados, e outros
+gravemente feridos, ignorando-se hoje ainda qual o verdadeiro numero das
+victimas. E note-se que tudo isto era devido á propaganda da <i>Tribuna</i>:
+eis em que davam os risos!</p>
+
+<p>Em Pernambuco e no Ceará davam-se casos quasi identicos.<a
+name="tex2html46" href="#foot161"><sup>[46]</sup></a></p>
+
+<p>Não podia a imprensa de Portugal deixar de occupar-se de um assumpto tão
+grave, invectivando as auctoridades brazileiras de conniventes nos attentados
+praticados contra os filhos d'uma nação que conservava com o Brazil as
+relações mais intimas; e dizemos conniventes porque á propaganda nada se
+oppoz.</p>
+
+<p>Não satisfeitos os desordeiros com o sangue das victimas, que já tingira
+as terras brazileiras, não contentes porque ainda achavam que era pouco,
+começaram por insultar a guarnição da corveta <i>Sagres</i>, que n'este tempo
+largava ferro na bahia do Pará.</p>
+
+<p>O nosso homem do mar, acostumado a ser bem recebido<span
+class="pagenum"><a id="pag_227" name="pag_227">[227]</a></span> em todos os
+paizes do mundo, e illudido a respeito da colonia residente no Brazil, de
+quem se dizia «que o portuguez era insultado porque insultava»; pesaroso
+pelos proprios insultos, <i>que não podiam ser levados á conta de
+represalia</i>, procurou os insultadores, a quem infligiu o merecido
+castigo.</p>
+
+<p>Novas proclamações incendiarias pozeram em sobresalto os habitantes do
+Pará.</p>
+
+<p>Mais tres portuguezes caem feridos de morte, ás mãos dos <i>soldados</i>
+assassinos do imperio de Santa Cruz.</p>
+
+<p>Espalha-se o terror, em vista d'este facto assombroso, de serem os agentes
+da auctoridade publica os assassinos mais convictos, porque apoz o crime, iam
+declarar aos seus superiores, <i>que acabavam de prestar um serviço á patria
+assassinando gallegos</i>.<a name="tex2html47"
+href="#foot1616"><sup>[47]</sup></a></p>
+
+<p>E a <i>Tribuna</i> continuava impunemente a incitar os animos á
+chacina!</p>
+
+<p>Os destroços que ella faz são incalculaveis; do interior da provincia
+chegam á cidade noticias atterradoras.</p>
+
+<p>O presidente da provincia, que por excepção á regra se condoeu da sorte
+dos colonos, não confiando na força publica, que elle bem sabia estar do lado
+dos desordeiros, pede providencias ao governo central, que nada attende!</p>
+
+<p>O promotor publico, a quem o presidente recommenda a querella da
+<i>Tribuna</i>, nunca acha motivo para a processar; e os adeptos do pasquim,
+enthusiasmados pelo procedimento do seu patrono; vão em massa, na frente das
+musicas e deitando foguetes, agradecer-lhe <i>tão relevante</i> serviço. Esta
+auctoridade que representa os sentimentos do governo central, porque jámais
+lhe retirára a sua confiança, ufana-se com a manifestação e vem á janella
+expressar os seus agradecimentos aos perturbadores da ordem publica!<span
+class="pagenum"><a id="pag_228" name="pag_228">[228]</a></span></p>
+
+<p>Na mesma cidade e ao mesmo tempo que alguns de seus habitantes chegavam ao
+apogeu do delirio, ao grito de&mdash;<i>mata gallegos</i>&mdash;a colonia portugueza
+prepara-se para a catastrophe. Os mais fortes aguardam resolutos os
+desordeiros e os mais fracos refugiam-se nos barcos fundeados na bahia do
+Pará.</p>
+
+<p>Um negociante recebe refugiados em casa, e intrincheira-se; outro, fecha o
+seu estabelecimento, sóbe com sua mulher e filhos para o pavimento superior
+da propria habitação, prepara o rastilho que havia de conduzir a uma barrica
+de polvora o incendio e logo a destruição de tudo que era seu&mdash;vidas e
+cabedal&mdash;, destruição que elle prefere á que a si e aos seus preparavam os
+communistas d'esta parte da America.</p>
+
+<p>E o jornal infame continuava as suas proclamações.</p>
+
+<p>Este terror é levado pelo telegrapho e pela imprensa a todos os cantos do
+mundo civilisado, e Portugal, a quem mais doía tanta desgraça, condemnou em
+phrases sentidas que nunca poderiam abonar a civilisação do Brazil, a
+repetição das scenas barbaras, que desde a noite de 6 de setembro até fins de
+novembro de 1874, faziam lembrar o sangrento dia de S. Bartholomeu, em
+França, ou os repetidos massacres antropophagos dos <i>botocudos</i>, contra
+as primitivas colonias do imperio americano.</p>
+
+<p>Depois reunem os tribunaes brazileiros, para julgarem os crimes
+commettidos contra os portuguezes, residentes no Brazil. Esses tribunaes
+condemnam a penas irrisorias, que importam uma absolvição, os assassinos de
+nossos irmãos: mais uma razão para a imprensa portugueza se sentir da
+indifferença do governo brazileiro.</p>
+
+<p>O tribunal que devia julgar os assassinos de Jurupary, em cuja causa se
+achava compromettida a honra do Brazil, não se constitue, porque os cidadãos
+independentes, note-se que não é a plébe, preferem pagar<span
+class="pagenum"><a id="pag_229" name="pag_229">[229]</a></span> a multa de
+relaxado, a ser juizes n'uma causa em que infallivelmente deviam condemnar os
+seus compatriotas assassinos de estrangeiros inermes!<a name="tex2html48"
+href="#foot4288"><sup>[48]</sup></a></p>
+
+<p>A imprensa portugueza vê isto, e não póde soffrer o impulso de firmar bem,
+ainda mais uma vez, a sua opinião, a respeito de tanta selvageria. Mas
+note-se que a tal <i>hidrophobia</i> propagou-se a toda a imprensa de
+Portugal, sem excepção do <i>Trinta mil diabos</i> e outros, o que não podia
+deixar de ser.</p>
+
+<p>O governo do imperio não póde ser culpado de tantos desmandos, porque
+estava longe do theatro dos acontecimentos. Dizem-nos isto com toda a
+irrisão, e ainda mais:&mdash;Uma prova da sua innocencia, e de que reprova os
+actos vandalicos de alguns dos seus administrados, está no seu procedimento,
+expresso no seguinte telegramma do Rio de Janeiro, reproduzido no livro do
+sr. Augusto de Carvalho:</p>
+
+<p>«O governo imperial accedeu, auctorisando-o, ao pedido de indemnisações
+pecuniarias, para as familias dos subditos portuguezes assassinados no
+Pará.</p>
+
+<p>«O presidente da provincia procede com todo o rigor contra a
+<i>Tribuna</i>.»</p>
+
+<p>Mas a imprensa de Portuga! continuou a fazer justissimas accusações ao
+governo do Brazil, porque as promettidas indemnisações pecuniarias não foram
+dadas, e porque a <i>Tribuna</i>, não obstante o <i>rigor</i> com que segundo
+se dizia, tinha sido tratada, continuou por muito tempo o seu fadario
+infame.</p>
+
+<p>Os hydrophobos de cá, na phrase do escriptor brazileiro, vomitam doestos e
+calumnias contra o Brazil, quando não pódem soffrer silenciosos tanta
+barbaridade.</p>
+
+<p>Esses hydrophobos, especializados pelo sr. Carvalho, <i>O Raio</i>, o
+<i>Trinta mil Diabos</i>, o <i>Chicote dos Ladrões</i>, jornaes satyricos, de
+que ninguem faz caso, foram creados<span class="pagenum"><a id="pag_230"
+name="pag_230">[230]</a></span> <i>unicamente</i> para ridicularisar, e ás
+vezes infamar, as cousas portuguezas.</p>
+
+<p>Mas o <i>Alabama</i>, da Bahia; O <i>Commercio a retalho</i>, de
+Pernambuco; e a <i>Tribuna</i> do Pará, e tantos outros só foram creados para
+insultar a colonia portugueza residente no Brazil e chamar ás armas contra
+ella.</p>
+
+<p>Não póde haver termo de comparação entre uns e outros pasquins.</p>
+
+<p>Com os de cá, folga a nossa ralé; a gente séria condemna-os, e por isso a
+sua apparição é passageira e sem importancia.</p>
+
+<p>Com os de lá, não acontece o mesmo; a ralé e até as pessoas mais gradas,
+crêem nas doutrinas subversivas que esses apostolos do mal apregôam.</p>
+
+<p>A prova da importancia d'esses pasquins, está na duração d'elles, e ás
+vezes na proficiencia com que são elaborados os seus artigos principaes. Que
+o diga o presidente da provincia do Pará na sua proclamação.<a
+name="tex2html49" href="#foot4289"><sup>[49]</sup></a></p>
+
+<p>O <i>Alabama</i>, póde dizer-se que é o orgão da mocidade estudiosa que se
+demora na academia da Bahia!</p>
+
+<p>A <i>Tribuna</i> e o <i>Alabama</i>, calumniavam-nos ao mesmo tempo que
+diziam aos seus compatriotas, ser uma virtude civica matar um
+<i>marinheiro</i>!</p>
+
+<p>A differença é muito grande.</p>
+
+<p>Tambem se póde deprehender das palavras do sr. Carvalho, que os
+<i>hydrophobos</i> de cá, são outros, que não os pasquineiros especialisados
+acima.</p>
+
+<p>Se a invectiva se refere a nós declaramos terminantemente que a nossa
+<i>hydrophobia</i> se declarou no meio do alarido das victimas que nós vimos
+cahir á acção do punhal e do trabuco dos assassinos revolucionados n'essa
+terra da promissão, e dos quaes nos livrámos, por mercê de Deus, sem
+desamparar nunca o nosso posto da honra.<span class="pagenum"><a id="pag_231"
+name="pag_231">[231]</a></span></p>
+
+<p>Se a invectiva se refere a outros, por exemplo, ao auctor das
+<i>Farpas</i>, a unica publicação poupada pelo auctor do livro que
+analysamos, e a unica que mais tem rediculisado o imperio e as suas cousas,
+para que é que foi pedir ao auctor do folheto uma carta de recommendação para
+o seu livro?</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>A stulticia de quererem defender os excessos dos pasquins brazilheiros e
+cumparal-os com os de cá não é só do auctor do livro o <i>Brazil</i>. Já a
+<i>Tribuna</i> do Pará e outros jornaes brazileiros, desculpavam os seus
+injustos desforços d'uma fórma um pouco comica. O sr. Augusto de Carvalho não
+fez mais do que seguir-lhes as pisadas. Assim falla a <i>Tribuna</i> do Pará:
+</p>
+
+<p>«Não sabendo, não tendo mesmo com que dessimular o seu embaraço, despeito
+e confusão, enxergou na expressão&mdash;<small>VIL PEDRO PRIMEIRO</small>&mdash;(a
+<i>Tribuna</i> chamava-lhe assim por ser portuguez!) com a qual acoudindo a
+uma justa represalia, fulminámos a <i>Tribuna</i> de Lisboa,&mdash;<i>um attentado
+contra a familia imperial</i>, entretanto que não tem visto os insultos
+affrontosos, que todos os dias recebe o povo brazileiro na pessoa de D. Pedro
+II.</p>
+
+<p>«O que disestes a Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, sobre as
+<i>Farpas</i>, etc.?»</p>
+
+<p>É preciso que a verdade seja dita sem rebuço: as <i>Farpas</i>, é a
+publicação portugueza, que mais feriu os brios da nacionalidade brazileira,
+<i>na pessoa do seu imperador</i>; verdade seja que os que mais se queixavam,
+escreviam <i>vil Pedro primeiro</i> ao pae do segundo imperador, e o que é
+sobre tudo mais irrisorio, os <i>imperialistas</i> do <i>segundo</i> e os
+calumninadores do <i>primeiro</i> intitulavam-se <i>republicanos</i>!...</p>
+
+<p>Mas republicanos ou imperialistas condemnaram a<span class="pagenum"><a
+id="pag_232" name="pag_232">[232]</a></span> critica mordaz do auctor das
+<i>Farpas</i>: nós os ouvimos; rindo-nos do desgosto ridiculo de tal combáda
+que não se lembrava de certos papeis comicos representados em Coimbra,
+perante a universidade, e no Porto, em face dos esplendorosos festejos
+promovidos por seus hospitaleiros habitantes, a sua magestade o imperador.</p>
+
+<p>E são por ventura isoladas as ironias innosentissimas dos criticos
+europeus, na passagem de sua magestade imperial pelos differentes estados da
+Europa?</p>
+
+<p>Não. Nem os desgostos manifestados pelos brazileiros, nem as conveniencias
+puramente mercantis, tem actualmente podido influir no animo d'aquelles que
+veem em todos os movimentos do illustre imperador uns motivos para rir. E não
+somos só nós que assim pensamos; e para o que vejamos:</p>
+
+<p>O jornal humoristico illustrado, de Milão, <i>Lo Spirito Folletto</i>, do
+dia 15 de março, de 1877, um dos mais importantes, no seu genero, em toda a
+Europa, traz a caricatura do imperador vestido de gibão, com uma penna
+atravessada na cinta que o singe, e á cabeça uma porção de alfarrabios. Atraz
+do illustre viajante vae um negro, empurrando um carrinho de mão, carregado
+de todos os emblemas das sciencias e das artes. Por baixo da caricatura está
+a seguinte inscripção:</p>
+
+<p>«<i>Una volta un imperatore, per fare une ingresso in una cittá, «si
+faceva precedere» de una buona batteria di cannoni. Don Pedro invece «se fa
+seguire» dagli arnesi della scienza. Evviva dunque... il progresso.</i>»</p>
+
+<p>E mais adiante no <i>Spiritelli</i>!</p>
+
+<p>«&mdash;Sapete perchè viaggia tanto all'estero l'imperatore del Brasile,
+abbandonando per mesi e mesi il suo trono?</p>
+
+<p>«&mdash;Per fare propaganda repubblicana!</p>
+
+<p>«&mdash;Oh bella!... Ma come, in che modo?</p>
+
+<p>«&mdash;Provando come due e due fanno quattro, che dal<span class="pagenum"><a
+id="pag_233" name="pag_233">[233]</a></span> momento che il Brasile sta in
+piedi durante le sue lunghe assenze, starebbe in piedi anche se d'imperatore
+non ce ne fosse. É vero, o no?»</p>
+
+<p>Em outro numero apresenta o imperial viajante a dormir, n'um camarote do
+theatro da Scalla, ironia pungente ao facto de sua magestade se deixar
+adormecer como qualquer mortal, numa funcção de gala para que tinha sido
+convidado.</p>
+
+<p>Tem d'estes espinhos a realeza. Ella não sabe que é preciso aturar tudo e
+todos, os festejos e aquelles que os fazem?</p>
+
+<p>E não se diga que são insignificantes taes actos. Estas manifestações,
+dadas por um povo ao representante do outro povo, reflectem-se em um e outro;
+mas se esse representante é indifferente a essas manifestações de respeito, e
+os que as promovem se escandalisam do indifferentismo, louvae estes, porque
+tal desgoto representa ainda concideração ao povo representado pelo
+indifferente.</p>
+
+<p>Na Italia usaram da satyra para fulminar a indifferença. Hade por isto
+revolucionar-se o povo brazileiro contra os colonos italianos residentes no
+imperio?</p>
+
+<p>Não. A força da logica manda que no Brazil se <i>revolucionem</i> contra
+sua magestade o imperador.</p>
+
+<p>Não era, nem nunca foi intento nosso discutir o viajante imperial; mas
+desde que no Brazil se fazem revoluções contra portuguezes por motivo de sua
+magestade ser recebido em Portugal nas <i>palminhas das mãos</i>, não devemos
+deixar passar em claro a dupla offensa que o povo amigo e irmão nos faz.</p>
+
+<p>Mas não fica ainda aqui a satyra. Da Italia passou á Inglaterra... com sua
+magestade imperial.</p>
+
+<p>O <i>Punch</i>, de Londres, que não desejava ver abalados os seus creditos
+de ironico, descreveu assim uma digressão do senhor D. Pedro d'Alcantara:</p>
+
+<p>«<i>Extractos de um diario imperial.</i>&mdash;4. h. da manhã.&mdash;Muito<span
+class="pagenum"><a id="pag_234" name="pag_234">[234]</a></span> zangado por
+ver que dormi de mais. Levantei-me, vesti-me á pressa, banhei-me na
+Serpentine, e fui dar um passeio ao Parque.&mdash;5 h.&mdash;Fui a Alexandra-Palace, e
+apanhei os empregados de sorpreza, apezar de lhe ter mandado dizer que havia
+de lá ir hoje. Zangado por ver que não tinham uma opera prompta.&mdash;6 h.&mdash;Tomei
+uma chavena de café, e fui ao Jardim Zoologico. Acordei os leões, montei a
+cavallo nos elephantes e assisti ao banho matinal dos hippopotamos. N. B.
+Ufanei-me de me ter anticipado a elles.&mdash;7 h.&mdash;Fui procurar o principe, e
+estive de cavaco ao lado da cama de sua alteza real. Depois fui á
+Polytechnica, e, como os empregados ainda não estavam a pé desci eu sózinho
+dentro do sino de mergulhador.&mdash;8 h.&mdash;Fui a Kew, e almocei com o dr. Hooker.
+Durante a nossa refeição um celebrado botanico teve a bondade de fazer uma
+leitura.&mdash;9 h.&mdash;Fui ao hospital de S. Thomaz, puz em polvorosa todos os
+enfermeiros, visitei o Museu etc. Não tive tempo de esperar uma allocução dos
+directores.&mdash;10h.&mdash;Fui á City, e vesitei a casa da camara, o Stock-Exchange,
+Billingsgate, e a Torre. Tive uma longa conversação com mr. Punch, <i>Fleet
+Street</i>, 85.&mdash;11 h.&mdash;Fui a Albert Hall e toquei orgão. Depois fui ao Museu
+de South-Kensington e assisti a leituras sobre desenho, cosinha, e trabalhos
+de agulha. Meio dia&mdash;Fui ao Palacio de Crystal, e vi os peixes. Em attenção
+aos meus variados compromissos, os directores mostraram-me os fogos de vista
+de dia.&mdash;1h.&mdash;da tarde. Fui a Orleans-Club, e subi o rio. 2h. Fui á moeda e
+vi o machinismo do correio&mdash;3 h.&mdash;Fui á camara dos pares e assisti a uma
+partida de <i>cricket</i>.&mdash;4 h.&mdash;Corri ao Aquario de Westminster. Um pouco
+fatigado, mas restaurei-me com um <i>lunch</i> em Grosvenor Gallery.&mdash;5
+h.&mdash;Depois de visitar a Real Academia assisti a um «chá das 5 horas» em
+Belgravia-South-Kensington.&mdash;6h.&mdash;Visitei a abbadia de Westminster,<span
+class="pagenum"><a id="pag_235" name="pag_235">[235]</a></span> a cathedral
+de S. Paulo, e o oratorio de Brompton.&mdash;7 h.&mdash;Jantei no hotel, e tomei café
+em Battersea-Park&mdash;8 h.&mdash;Fui a Egyptian-Hall ver Zoè, e estive alguns minutos
+na camara dos communs.&mdash;9 h.&mdash;Vi o que pude de Convent-Garden, Lyceu, e
+Her-Magesty, e regalei-me com o artistico representar de m. Jefferson em
+Haymarket.&mdash;10 h.&mdash;Telegraphei inscripções aos meus ministros no Brazil,
+dancei uma quadrilha em Willis-Rooms, e recusou-se-me respeitosamente entrada
+no Beefsteack-Club, onde soube com muito pezar que não entravam
+estrangeiros.&mdash;11 h.&mdash;Ciei em Albion e depois fui a um baile em Carlton
+Gardens.&mdash;Meia noite&mdash;Procurei os srs. Gladstone, Tennyson e Thomaz Carlyle,
+e depois de gozar tres deleitosos cavacos, voltei para o hotel&mdash;1 h. da
+manhã&mdash;Escrevi umas poucas de cartas, li o <i>Times</i>, arranjei o meu
+despertador para as tres, e fui-me deitar.»<a name="tex2html50"
+href="#foot429"><sup>[50]</sup></a></p>
+
+<p>A fina ironia das <i>Farpas</i> não é superior á que deixámos
+transcripta.</p>
+
+<p>Ponham os criticos de parte os preconceitos de nacionalidade, e hão de
+concordar comnosco.</p>
+
+<p>Pois bem, em paga da hilaridade singella, que não importa desconsideração
+aos brazileiros, dizem os <i>hydrophobos de lá</i>, em resposta ás ironias
+dos inglezes, dos italianos e dos portuguezes.</p>
+
+<p>«Vinde colonisar as nossas terras, ó inglezes civilisados e italianos, que
+vós sois mais uteis do que os portuguezes assassinos e ladrões!»</p>
+
+<p>Ás finas ironias das <i>Farpas</i>, onde especialmente se distingue a mala
+inseparavel de D. Pedro de Alcantara respondem:&mdash;<i>O vosso rei é um bebado e
+um devasso!</i> E querendo responsabilisar os colonos pelos escriptos de
+Ramalho Ortigão, escrevem:</p>
+
+<p>«A emigração é um direito baseado na phylosophia, sustentado pelo
+progresso da humanidade.<span class="pagenum"><a id="pag_236"
+name="pag_236">[236]</a></span></p>
+
+<p>«Sim, senhor, não vamos ao contrario d'esse principio eterno do
+desenvolvimento da arte e da sciencia, da civilisação por tanto.</p>
+
+<p>«Mas não ha direito que não tenha por espelho o dever em seu fiel
+cumprimento.</p>
+
+<p>«O emigrado suppõe a idéa de utilidades. É um axioma.</p>
+
+<p>«O emigrado é um individuo, e como tal, para fazer valer seus direitos,
+corre-lhe a obrigação de não faltar aos seus deveres.</p>
+
+<p>«Ora, desde que esquece estes perde aquelles.</p>
+
+<p>«O direito suppõe a justiça, o dever suppõe a moral.</p>
+
+<p>«Desprezada a moral pelo individuo temos um ente perdido e perigoso, que
+despreza da mesma forma a justiça por meio de um crime.</p>
+
+<p>«Um criminoso não póde ser util a sociedade alguma.</p>
+
+<p>«Assim, pois, o emigrado immoral e affeito ao crime é um individuo
+inutil.</p>
+
+<p>«Isto posto, indaguemos qual a utilidade, que nos póde sobrevir da colonia
+portugueza.</p>
+
+<p>«Estudemos pela theoria dos factos apoiados nos grandes mestres, a
+historia e o tempo.</p>
+
+<p>«Em que consiste o merecimento do braço portuguez?</p>
+
+<p>«Somos forçados a retirar os olhos cobrindo o rosto; pois o quadro que nos
+offerecem a lavoura, a arte e a industria de nossa terra, é o mais digno de
+lastima, por mercê da <i>actividade</i> portugueza.</p>
+
+<p>«Como causa, quaes os effeitos da intelligencia d'essa colonia?</p>
+
+<p>«Entre nós, provavelmente, ás sciencias, á litteratura, ás bellas artes
+nada tem aproveitado; antes as letras, os verdadeiros talentos de nossa
+patria teem soffrido atroz violencia (<i>sic</i>), indigna opposição da parte
+d'ella.<span class="pagenum"><a id="pag_237"
+name="pag_237">[237]</a></span></p>
+
+<p>«E quaes teem sido as provas da grandeza d'alma portugueza?</p>
+
+<p>«As provas do sentimento, da moral, da virtude, da honestidade do cidadão
+portuguez temol-as de sobejo ainda que esqueçamos o quanto sabe ser elle
+ingrato; porque iremos encontral-o em toda a parte&mdash;como um ente dissoluto;
+em todas as situações&mdash;como um hypocrita; na mais infima á mais elevada
+posição&mdash;como um cynico perante a lei, diante de Deus um atheu e dos homens
+uma vibora.</p>
+
+<p>«Não se presta o colono portuguez ás luctas da agricultura nem sua cabeça
+percebe o hymno que se entoa nas officinas, nos templos do trabalho honesto,
+porque fecha os olhos, cerra os ouvidos á voz da consciencia, aos gritos da
+virtude e aos arrojos da concepção humana.</p>
+
+<p>«São portanto colonos estupidos, immoraes, por conseguinte inimigos do
+dever, que aberrando de um direito perdido aggridem a justiça e exaltam
+o&mdash;crime.</p>
+
+<p>«Incontestavelmente é uma raça inutil.</p>
+
+<p>«Por ventura nos póde convir uma colonia, que, em vez de alimentar, serve
+de tropeço ao desenvolvimento material de nosso vasto paiz».<a
+name="tex2html51" href="#foot4291"><sup>[51]</sup></a></p>
+
+<p>Nós não queremos discutir este amontoado de disparates, mas respondemos
+com o seguinte documento official aos taes <i>hydrophobos</i> de lá que em
+nada se parecem com os de cá:</p>
+
+<p>«Do relatorio do ministerio da fazenda do imperio do Brazil, apresentado
+este anno (1877) á assembléa geral legislativa, extraimos a seguinte nota do
+numero dos contribuintes sujeitos ao imposto industrial no Rio, regulado alli
+por lei de 15 de julho de 1874, excluidos os estabelecimentos taxados com
+relação aos meios de producção e os de sociedades anonymas&mdash;isto no exercicio
+de 1875-1876.<span class="pagenum"><a id="pag_238"
+name="pag_238">[238]</a></span></p>
+
+<p>«Os contribuintes são:</p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Contribuintes do Rio de Janeiro">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Portuguezes</td>
+ <td style="text-align:right;">7:394</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Brazileiros</td>
+ <td style="text-align:right;">1:791</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Francezes</td>
+ <td style="text-align:right;">466</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Inglezes</td>
+ <td style="text-align:right;">127</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Allemães</td>
+ <td style="text-align:right;">127</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Italianos</td>
+ <td style="text-align:right;">214</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Hespanhoes</td>
+ <td style="text-align:right;">58</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Belgas</td>
+ <td style="text-align:right;">13</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Hollandezes</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Suissos</td>
+ <td style="text-align:right;">23</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Americanos</td>
+ <td style="text-align:right;">17</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Orientaes</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Chins</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Africanos</td>
+ <td style="text-align:right;">16</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Gregos</td>
+ <td style="text-align:right;">4</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Dinamarquezes</td>
+ <td style="text-align:right;">7</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Cubanos</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Suecos</td>
+ <td style="text-align:right;">3</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right; border-top: solid 1px #000000;">10:264</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>«O valor locativo em moeda do Brazil, do local que servia para o exercicio
+da industria era de réis 6.052:661$198, e o valor total do imposto foi de
+réis 1.010:090$359, tudo moeda fraca.</p>
+
+<p>«As sociedades anonymas sujeitas ao imposto de industria e profissões, no
+dito exercicio de 1875-1876, foram 36, sendo 15 brazileiras, 15 portuguezas,
+5 inglezas e 1 americana, cujos dividendos subiram a réis 8.553:000$000,
+pagando de imposto 1,5 por cento, ou 128:000$000 réis.</p>
+
+<p>«O numero de estabelecimentos industriaes (note-se
+bem&mdash;<i>industriaes</i>) sujeito ao referido imposto, no mesmo anno, foi de
+182, sendo:<span class="pagenum"><a id="pag_239"
+name="pag_239">[239]</a></span></p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Estabelecimentos contribuintes">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Brazileiros</td>
+ <td style="text-align:right;">45</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Portuguezes</td>
+ <td style="text-align:right;">109</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Francezes</td>
+ <td style="text-align:right;">11</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Inglezes</td>
+ <td style="text-align:right;">3</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Allemães</td>
+ <td style="text-align:right;">5</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Hespanhoes</td>
+ <td style="text-align:right;">5</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Suissos</td>
+ <td style="text-align:right;">3</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Italianos</td>
+ <td style="text-align:right;">1</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>«Estes estabelecimentos empregavam 976 operarios, e d'elles 100 eram
+laborados á força humana, 7 por meio de força irracional, 66 pela do vapor e
+9 pela da agua. O imposto que pagaram foi de 18:637$436 réis.</p>
+
+<p>Vê-se por estes dados qual é a parte importante que a nacionalidade
+portugueza tem na industria e commercio do Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>«Note-se, no entanto, que em todo o Brazil o imposto das industrias e
+profissões é avaliado em 2:600:000$000 para o exercicio corrente de
+1877-1878.»<a name="tex2html52" href="#foot4292"><sup>[52]</sup></a></p>
+
+<p>Elles, os hydrophobos, ignoram isto, coitados! Nós fazemos-lhes esta
+justiça.</p>
+
+<p>É por causa d'essa ignorancia que os desgraçados afinam por este
+diapasão.</p>
+
+<p>«<i>Deus já nos vae ajudando.</i>&mdash;A bordo do vapor inglez <i>Jerome</i>
+sahido d'este porto no dia 26 do corrente mez, escafederam-se para a
+<i>terrinha</i> trinta e tres gallegos, qual d'elles o mais estupido e
+vilhaco.</p>
+
+<p>«Por emquanto está o Pará livre d'estes trinta e tres canalhas que nos
+favorecem com a sua ausencia!</p>
+
+<p>«Oxalá que arribassem todos os <i>ladrões</i> e aventureiros, que chegando
+aqui sem vintem, sem officio nem beneficio, compram logo fiado uma taberna,
+assignam muitas vezes letras, sem saberem o que assignam e depois para
+pagarem, andam roubando aqui acolá, commettendo<span class="pagenum"><a
+id="pag_240" name="pag_240">[240]</a></span> quanta infamia e praticando toda
+a sorte de escandalo e desacatos; e quando vêem os gallegos infames que não
+podem com a carga, atiçam fogo na bodega e raspam-se para a <i>terrinha</i>
+roubando e desgraçando a muita gente!</p>
+
+<p>«É d'esta <i>escoria</i>, d'este <i>povoléo</i> ordinario que veem de
+Portugal! Gente boa não vem de lá.</p>
+
+<p>«Desengane-se quem quizer, cada um bicudo que chega ao Brazil ou é um
+refinado vadio troca tintas, ou um calceta fugido do Limoeiro, ou das
+enxovias do Carmo. A canalha bicudal tem mais medo das solitarias do Carmo do
+que do diabo.</p>
+
+<p>«Nós queremos estrangeiros civilisados, laboriosos e honestos, emigrados
+amigos do trabalho; o que não podemos supportar são <i>portugallegos</i> que
+veem aos centos, todos <i>ladrões, infames, desatinados, salteadores,
+assassinos e moedeiros falsos, etc. etc.</i></p>
+
+<p>«Contra estes <i>ladrões</i> todo o rigor das nossas leis e a maldição do
+povo brazileiro caia sobre elles.</p>
+
+<p>«Longe, bem longe de nós e de tudo quanto é honesto e civilisado está
+<i>esta tróça estupida de gallegos</i>. Deixem-nos, vão para o inferno, para
+a costa d'Africa, para as zonas torridas e humidas de Pedro Botelho, comtudo
+que favoreçam-nos com a sua ausencia.</p>
+
+<p>«O que querem estes malvados e faccinoras <i>gallegos</i> n'uma terra,
+onde ninguem os póde vêr?!...»<a name="tex2html53"
+href="#foot4293"><sup>[53]</sup></a></p>
+
+<p>O que deixamos trascripto, como se pode deprehender, refere-se a
+portuguezes que sahiam do Brazil, contra quem, ainda que sem motivo, podiam
+allegar represalias; mas o que vamos transcrever é uma amostra das recepções
+que n'aquelle paiz hospitaleiro costumam fazer aos colonos que pela primeira
+vez pisam o solo brazileiro, contra quem parece que não devia haver razão de
+queixa:<span class="pagenum"><a id="pag_241"
+name="pag_241">[241]</a></span></p>
+
+<p>«<i>Pilha de ladrões e velhacos.</i>&mdash;A bordo da barca portugueza
+<i>Camponeza</i>, vinda da <i>terrinha</i> e aqui ancorada no dia 8 do
+corrente, chegaram 26 badamecos gallegos e velhacos, sujos e réos de policia.
+<i>Elles</i> que de lá vem é porque fizeram alguma... Ou fugindo do serviço
+das armas, deixando o pae e a mãe compromettidos, ou arrombando as prisões do
+Limoeiro e as enxovias do Carmo, onde é a vivenda continua da matúla indigna
+e safada.</p>
+
+<p>«Pelo ról dos passageiros não consta que viesse um só, entre tantos
+ladrões, um habil pintor, um perito dentista, um intelligente agricultor, um
+laborioso agronomo, um engenheiro, emfim, um homem de educação e de bons
+instinctos. Veiu sim, uma matúla estupida de ladrões, assassinos, vagabundos,
+jogadores, não bastando ainda os muitos que por aqui estão!</p>
+
+<p>«E não se envergonha a estupida colonia portugueza de apresentar em uma
+terra estranha patricios seus, filhos do <i>decantado</i> Portugal, como os
+que vieram agora na barca <i>Camponeza</i> e outros muitos que constantemente
+vêem baldeados nos porões dos navios!</p>
+
+<p>«E ainda dizem que os portuguezes são nossos <i>civilisadores</i>...</p>
+
+<p>«Barbaridade! affronta!...</p>
+
+<p>«Desengane-se a negra gallegada que aqui como em toda a parte ella não
+passará de uma <i>gentinha</i> miseravel, estupida, dedicada ao roubo, ao
+assassinato e á introdução da moeda falsa.»</p>
+
+<p>Finalmente, não chegava navio algum da Europa que transportasse colonos
+portuguezes, que ficassem isentos d'uma recepção tão delicada e...
+hospitaleira!</p>
+
+<p>Transcrever taes artigos seria, alem de fastidioso, impossivel, ainda
+mesmo em meia duzia de grossos volumes.</p>
+
+<p>A represalia contra as <i>Farpas</i>, não podia ser mais
+inconsequente.<span class="pagenum"><a id="pag_242"
+name="pag_242">[242]</a></span></p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Para salvarem da responsabilidade, que tão justamente cabia á sociedade
+paraense, diziam os optimistas, e entre estes o auctor do <i>Brazil</i>, que
+a <i>Tribuna</i> não era bem acolhida por aquelle povo; mas o pasquim assim
+respondia aos calumniadores:</p>
+
+<p>«Conhecedores como somos, d'este estado morbido da nossa sociedade,
+exultamos de prazer quando recebemos o nome de algumas senhoras paraenses que
+mandaram inscrever-se entre os assignantes da <i>Tribuna</i>.</p>
+
+<p>«Este passo certifica-nos que o patriotismo existe mesmo no coração
+d'aquellas que se acham unidas por laços indissoluveis aos subditos da terra,
+cuja pressão combatemos.</p>
+
+<p>«Essas corajosas senhoras, que lêem e applaudem a <i>Tribuna</i>, tão mal
+vista pelos&mdash;<i>namorados dos Portuguezes</i> (os paes brazileiros que
+desejam casar as filhas com compatriotas nossos), abriram um exemplo que, é
+de suppôr, despertará o patriotismo do seu sexo, que faz os nossos encantos,
+e a quem deveras desejamos maiores venturas que as gosadas hoje.</p>
+
+<p>«A <i>Tribuna</i> não póde deixar de agradecer-lhes essa honra, de que
+sempre nos ensoberbeceremos, servindo-nos de estimulo para proseguirmos no
+caminho que tomamos sobre nossos hombros.</p>
+
+<p>«Agora, que rendemos o preito devido ás nossas formosas e patrioticas
+assignantes, o leitor nos permitta tratemos de alguns factos.»</p>
+
+<p>Na data em que isto se publicava&mdash;20 de maio de 1872&mdash;, a <i>Tribuna</i>
+fazia uma tiragem de 1:000 exemplares, e para mostrar que o apello fôra
+attendido pelos <i>patriotas</i>, aquelle numero subiu a 3:000, passado
+apenas um anno!<span class="pagenum"><a id="pag_243"
+name="pag_243">[243]</a></span></p>
+
+<p>Tambem diziam:&mdash;o jornalismo do imperio não faz caso do pasquim; e a
+<i>Tribuna</i> fulminava assim os insultadores da sua <i>dignidade</i>:</p>
+
+<p>«Estranha o bandido d'além mar, em um aranzel publicado no <i>Diario da
+Bahia</i>, que o <i>Jornal do Pão de Assucar</i> tenha tido a honra de
+permutar com o nosso periodico.</p>
+
+<p>«Estes labregos não se conhecem!</p>
+
+<p>«O <i>Jornal do Pão de Assucar</i>, por ser redigido por um homem de bem,
+<i>foi que pediu a permuta á Tribuna</i>, e ella acceitou. <i>Nós permuttamos
+com quasi todos os jornaes do imperio</i>, dos logares os mais longiquos, e
+de todos estes jornaes só ao <i>Globo</i> foi que da nossa parte pedimos
+permuta; quanto aos mais nós não fazemos mais que acceital-o se o jornal é
+digno d'essa consideração (<i>sic</i>), se não é damos-lhe um pontapé como
+fizemos ao <i>Imparcial</i> de Guimarães, porque aqui não jogamos perolas a
+porcos, nem damos esmolas aos cães.»</p>
+
+<p>Se não fôra demasiado extenso publicariamos n'este logar a lista dos
+jornaes do imperio que trocavam com o pasquim incendiario do Pará.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Alguns de nossos leitores terão reparado já na insistencia de só querermos
+apresentar á vindicta publica a <i>Tribuna</i>, deixando incolumes os
+pasquins <i>Regeneração</i> e <i>Constituição</i>, que tambem se publicam na
+cidade do Pará; aquelle, orgão official do clero, e este do partido
+conservador. Não é esse o nosso intento, assim como o não é de isentarmos os
+pasquins que se publicam nas outras capitaes das provincias, ao sul da do
+Pará.</p>
+
+<p>Assim, pois, vamos apresentar ao leitor <i>O Argus</i>, <i>O<span
+class="pagenum"><a id="pag_244" name="pag_244">[244]</a></span></i>
+<i>Estandarte</i>, <i>O Progresso</i>, <i>A Malagueta</i>, <i>A Voz do
+Bacange</i><a name="tex2html54" href="#foot4295"><sup>[54]</sup></a> e o
+<i>Publicador Maranhense</i> do Maranhão.<a name="tex2html55"
+href="#foot4296"><sup>[55]</sup></a></p>
+
+<p>Do Ceará a <i>Tribuna Popular</i>. De Pernambuco, o <i>Commercio a
+retalho</i> e a <i>Luz</i>; e antes de mencionarmos os das outras provincias,
+transcreveremos alguns especimens hospitaleiros d'estes pasquins... com os
+quaes se não ri a população.</p>
+
+<p>Falla o <i>Commercio a retalho</i>:</p>
+
+<p>«Vive o povo brazileiro sobre a pressão do mais horroroso pauperismo!</p>
+
+<p>«Certamente causa espanto, que o povo brazileiro viva na miseria, sendo,
+entretanto, o Brazil tão rico!</p>
+
+<p>«O que contribue directamente para que o povo, habitando n'um paiz tão
+fertil, viva opprimido pela miseria, são duas causas&mdash;a estupida,
+anti-patriota gestão dos negocios publicos, e o commercio a retalho ser
+exclusivo dos portuguezes!</p>
+
+<p>«Se desde que organisou-se o governo brazileiro, este tivesse tratado de
+preparar o paiz, por meio de reformas liberrimas e economicas, por certo que
+hoje não teriamos de lamentar tantas vexações e desgraças: não teriamos de
+ver só portuguezes no commercio.</p>
+
+<p>«Se desde que chegamos ao numero de poder tratar dos negocios da patria,
+nossos antigos não fossem cedendo o campo commercial aos portuguezes,
+incontestavelmente não veriamos hoje uma mocidade activa, intelligente, sem
+occupação em demanda de empregos publicos, não achando um logar no commercio,
+prestando-se a imposições do governo.</p>
+
+<p>«Em condições tão excepcionaes, resta aos brazileiros conquistar a todo o
+transe o commercio a retalho.<span class="pagenum"><a id="pag_245"
+name="pag_245">[245]</a></span></p>
+
+<p>«Continuar a testemunhar o espectaculo pungente de uma mocidade entregue á
+triste condição de andar pelas secretarias, subir incessantemente escadas de
+influentes do governo, para adquirir empregos, é impossivel.</p>
+
+<p>«Quando um povo chega ao deploravel estado de ver o primeiro ramo da
+riqueza do seu paiz entregue a estrangeiros, que escarnecem d'elle, como os
+portuguezes dos brazileiros, não póde conter-se.</p>
+
+<p>«E, para conquistarmos o commercio, não é preciso desatinos, conquistemos
+sublime e francamente por meio da união, da associação, concorrendo para as
+casas dos nacionaes e esquecendo as espeluncas dos passadores de cedulas
+falsas» etc. etc.</p>
+
+<p>E conclue:</p>
+
+<p>«Escolha o povo: ou nacionalisar o commercio a retalho para salvar-se
+d'esta miseria, ou succumbir sendo victima d'ella, tendo sobre a campa o
+vergonhoso epitaphio&mdash;covardes! Povo de escravos!»</p>
+
+<p>Nós cá não somos tão máus como o <i>patriota</i> João Cancio e
+Romualdo&mdash;redactores da asneira; nós cá bradaremos aos pasquineiros e a quem
+lhe dá trella:&mdash;ó mandriões! agarrai na enchada e desbravai a terra! e quando
+ella vos der ouro, vinde então estabelecer o commercio a retalho brazileiro
+ao lado do commercio a retalho portuguez!...</p>
+
+<p>Mas não ha gastar cera com tão ruins defuntos. Vamos ao que importa.</p>
+
+<p>Na Bahia publica-se o <i>Alabama</i> e o <i>Labaro Academico</i>.</p>
+
+<p>A sua irmã <i>Tribuna</i> expressa-se n'estes termos a respeito do
+<i>orgão</i> dos estudantes da academia em S. Salvador:</p>
+
+<p>«<i>Labaro Academico</i>».&mdash;Pelo paquete do sul entrado no dia 15 do
+corrente em nosso porto, recebemos o n.º 8 d'esse illustre periodico,
+redigido por abalisadas pennas.<span class="pagenum"><a id="pag_246"
+name="pag_246">[246]</a></span></p>
+
+<p>«A illustre redacção do <i>Labaro Academico</i> sobremodo nos penhorou,
+que não podemos deixar passar desapercebidas as phrases lisongeiras, que com
+profusão nos dirige, com as quaes illustramos as columnas do nosso
+periodico.</p>
+
+<p>«Diz elle que <i>dois elementos nos esmagam, dois elementos nos
+aviltam</i>.</p>
+
+<p>«Pois bem! Unamo-nos em um amplexo fraterno, e trabalhemos para o nosso
+<i>desideratum</i>, isto é, regeneremos o nosso paiz&mdash;a nossa liberdade.</p>
+
+<p>«O <i>Labaro</i> que trate de expellir o <i>primeiro</i> de nossas
+ridentes plagas, emquanto nós nos esforçamos para exterminar completamente o
+<i>segundo</i> da nossa sociedade, isto é, a colonia portugueza, esse cancro
+que corroe as nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que
+temos de mais caro&mdash;a familia.</p>
+
+<p>«Seja o nosso grito o mesmo que o do bardo de Albion:&mdash;<i>Away,
+away!</i></p>
+
+<p>«Assim se expressa o <i>Labaro</i> acerca da nossa <i>Tribuna</i>:</p>
+
+<p>«A <i>Tribuna</i> periodico popular que se publica em Belem, capital da
+provincia do Pará, assim se exprime a nosso respeito:</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Agradecendo as palavras lisongeiras que nos dirigem os illustrados
+redactores da <i>Tribuna</i>, cumpre-nos dizer que como vós, nós tambem temos
+um <i>desideratum</i> a realisar; é a regeneração do nosso paiz&mdash;a nossa
+liberdade.</p>
+
+<p>«Dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam.</p>
+
+<p>«Nós tratamos de expellir o primeiro das nossas ridentes plagas,
+procuramos quebrar as cadeias que jungem este colosso Americano ao poste da
+servidão e degradação a que nos tem arrastado a realeza.</p>
+
+<p>«Vós procuraes arrancar da nossa sociedade um<span class="pagenum"><a
+id="pag_247" name="pag_247">[247]</a></span> cancro que corroe as nossas
+riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que temos do mais caro&mdash;a
+familia.</p>
+
+<p>«Trabalhai, que o povo brazileiro vos abençôa e applaude, porque sois os
+defensores de seus direitos, e a posteridade registrará na historia os vossos
+nomes.</p>
+
+<p>«Nós tambem trabalharemos sempre e sempre, e se pararmos extenuados pelo
+cansaço, outros tomarão o nosso logar. Away, away.»</p>
+
+<p>No Rio de Janeiro, finalmente, o jornal a <i>Republica</i>, que fôra
+redigido por uma pleiada de escriptores celebres no Brazil, comprehendia os
+principios democraticos ataçalhando a colonia portugueza e oppondo-lhe a
+barreira de preconceitos mal entendidos, quando a sublime idéa manda derrubar
+as barreiras que ante si construiram os despotas das nacionalidades!</p>
+
+<p>Não temos presente nenhum exemplar d'este periodico, mas a <i>Tribuna</i>
+paraense, accusando a recepção, da <i>Republica</i> assim se exprime a seu
+respeito, em 6 de janeiro de 1874:</p>
+
+<p>«Já não estamos sós:&mdash;Pernambuco tem o <i>Commercio a Retalho</i>, e no
+Rio, a <i>Republica</i> trata de despertar a attenção publica sobre o
+elemento portuguez tão numeroso e hostil á nacionalidade brazileira.»</p>
+
+<p>A <i>Nação</i>, do Rio de Janeiro, jornal semi-official do <i>governo</i>
+presidido pelo visconde do Rio Branco, álem de outros artiguinhos capciosos,
+publicou o seguinte, que o pasquim paraense transcreveu:</p>
+
+<p>«<i>Guita! Guita!</i>... Segundo os diccionarios portuguezes significa
+esta palavra&mdash;<i>barbante cordelinho de linha</i>.&mdash;Os <i>gaiatos</i> de
+Lisboa, porém, conhecem pelo nome de <i>guitas</i>&mdash;os soldados de policia. É
+esse o termo que se pretende hoje popularisar entre nós!</p>
+
+<p>«E são esses estrangeiros (os portuguezes) os que procuram animar
+desordens, aconselhar o desrespeito<span class="pagenum"><a id="pag_248"
+name="pag_248">[248]</a></span> á auctoridade, justificar quanto excesso e
+escandalo se pratica!</p>
+
+<p>«O grande <i>Jornal do Commercio</i> tambem toma parte n'essas brilhantes
+manifestações, embora com a manha que lhe é habitual. Deixa de fallar nos
+attentados dos seus queridos compatriotas, e vem dizer que os agentes de
+policia estão praticando excessos condemnaveis e promovendo desordens, quando
+toda esta cidade sabe que a prudencia da policia tem ido até á fraqueza.</p>
+
+<p>«O que é certo é que os brazileiros que servem na guarda urbana têm sido
+aggredidos, insultados e espancados por estrangeiros turbulentos e sem
+educação; e o que é certo tambem é que esse estado de cousas não póde
+continuar.</p>
+
+<p>«Estamos muito atrazados ainda, mas regeitamos a civilisação dos
+carroceiros do lixo.<a name="tex2html56"
+href="#foot4297"><sup>[56]</sup></a></p>
+
+<p>«Ah! se a centessima parte d'esses factos se desse em qualquer das
+provincias do norte, no Pará, por exemplo!...»</p>
+
+<p>Agora vejamos quem são os taes <i>guitas</i> do Rio, que a <i>Nação</i>
+parecia defender.</p>
+
+<p>Falla um correspondente da <i>Tribuna</i>, estabelecido na côrte do
+imperio:</p>
+
+<p>«Amigos&mdash;não sei o que escrever, ou para melhor dizer, não ha novidades a
+não ser chuva, e muita chuva, que tem sido causa de graves e lamentaveis
+desgraças, mas sempre a <i>maldita e vil gentalha gallega</i> aproveitando-se
+das desgraças alheias para o seu nefando fim&mdash;o roubo!</p>
+
+<p>«Como verão das noticias que abaixo seguem extrahidas do <i>Jornal do
+Commercio</i> e do <i>Diario do Rio</i>, um soldado de policia (seja dito de
+passagem que <i>dois terços dos soldados do corpo de policia d'esta triste e
+desgraçada côrte é gallegada</i>!!!) aproveitando-se da occasião<span
+class="pagenum"><a id="pag_249" name="pag_249">[249]</a></span> em que fazia
+guarda á casa do conselheiro Menezes <i>guardou</i> um relogio com corrente
+de ouro e um paliteiro de prata! Foi preso, encontrando-se-lhe o roubo!!»</p>
+
+<p>Conclusão:</p>
+
+<p>Se a policia era insultada pelos <i>estrangeiros carroceiros do lixo</i>,
+a <i>Nação</i> tirava a desforra, defendendo os <i>seus</i> compatriotas; mas
+se a policia roubava os relogios e os paliteiros de prata, o correspondente
+da <i>Tribuna</i> dizia <i>de passagem</i>, que dois terços de soldados do
+corpo de policia era <i>gallegada</i>!</p>
+
+<p>Isto não se commenta.</p>
+
+<p>Assim, pois, ahi fica demonstrada a differença que existe entre os
+hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá.<span class="pagenum"><a
+id="pag_250" name="pag_250">[250]</a></span></p>
+
+<h1>CAPITULO VII</h1>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0070001">Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará.
+Uma boa recepção! As proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia
+Americana. Os officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do
+governo brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos
+excessos. Uma carta de além tumulo.</a></div>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Para que seja fiel a historia dos tumultos no Pará, em 1874, e para que
+não haja quem venha negar factos consummados, é preciso dar noticia de alguns
+documentos que para ahi existem dispersos, e que desappareceriam se não fôra
+o nosso cuidado de esclarecer a verdade; dando logar o desapparecimento a que
+futuros historiadores, a titulo d'um patriotismo inconcebivel, desvirtuassem,
+com seus falsos raciocinios, os lamentaveis acontecimentos occorridos no
+ultimo semestre d'aquelle anno, n'uma das provincias mais ricas do imperio
+americano.</p>
+
+<p>Quantos haverá ahi que nos censurarão o vasculharmos esses documentos,
+que, no entender dos optimistas deveriam ficar esquecidos, para salvaguardar
+conveniencias mercantís!</p>
+
+<p>E deverá o homem digno esquecer a verdade, para attender a essas
+conveniencias?</p>
+
+<p>Não, responderão aquelles que, como nós, só vêem no futuro o juiz
+imparcial de seus actos.<span class="pagenum"><a id="pag_251"
+name="pag_251">[251]</a></span></p>
+
+<p>«Sabel-o-ia a historia, se os aios e confessores de principes e de reis,
+em vez de serem bonzos, fakires e derviches de um credo intolerante e
+sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total
+aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das idéas, e
+das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do desenvolvimento
+da humanidade».<a name="tex2html57" href="#foot4298"><sup>[57]</sup></a></p>
+
+<p>É assim que o illustre escriptor que vimos de citar condemna os melindres
+dos optimistas systematicos; e nós somos da mesma opinião. Embora se diga que
+já não existem esses bonzos, fakires, e derviches, o que é certo, é que no
+referir da historia, ainda ha condescendencias improprias de historiadores
+imparciaes, e por consequencia d'esta época de liberdade, condescendencias
+que hão de concorrer poderosamente para que á historia do presente, que
+devera ser um edificio mais solido do que a historia do passado, faltem os
+alicerces que a tornariam indestructivel.</p>
+
+<p>Se os receios de que se acercam os que se dizem auxiliares da historia do
+presente, que ha de ser coordenada no futuro, tivessem por base o temor dos
+principes e dos reis, escudados na força clerical, que n'outras épocas
+exercia o seu poderoso influxo, á força dos martyrios da polé, a que não
+poderam resistir os Galileos da sciencia; era até certo ponto razoavel a
+condescendencia filha do medo; mas que os receios tenham a sua origem nas
+contemplações inconfessaveis, isso é que é imperdoavel a quem faz a apologia
+da liberdade, que veio em auxilio da razão, sem a qual não póde ser escripta
+a verdadeira historia.</p>
+
+<p>Concordando plenamente com o illustre litterato, que viemos de referir, é
+preciso provar tambem que não somos bonzos nem derviches do
+mercantilismo,<span class="pagenum"><a id="pag_252"
+name="pag_252">[252]</a></span> que, como os reis e principes de antigas
+épocas, pertende, na actualidade, avassalar a razão.</p>
+
+<p>Eis o que temos feito e continuaremos a fazer. Pena é que nem todos nos
+sigam o exemplo.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Ás noticias atterradoras do Pará em outubro de 1874 que fizemos
+transmittir pelo telegrapho, responde o governo portuguez, mandando para as
+aguas do Tocantins, o aviso de guerra <i>Sagres</i>.</p>
+
+<p>O governo brazileiro, tambem reforçava, com a canhoneira <i>Mearim</i> e a
+corveta <i>Trajano</i>, a sua esquadrilha do norte.</p>
+
+<p>A Allemanha mandava a corveta <i>Victoria</i>.</p>
+
+<p>Vejamos como a <i>Tribuna</i> recebe a <i>Sagres</i>, em seu numero de 17
+de novembro, e quaes as calumnias que proclama sobre a sua guarnição.</p>
+
+<p>Transcrevemos na integra a recepção por que ella déra causa ao conflicto
+entre um dignissimo official da nossa armada e a redacção do pasquim,
+conflicto que não deve ficar no escuro para bem da historia.</p>
+
+<p>Falla o papel incendiario:</p>
+
+<p>«Amanheceu ancorada em nosso porto no dia 11 do corrente, esta immunda
+esterqueira da marinha de guerra portugallega.</p>
+
+<p>«No dia seguinte, ao da chegada os jornaes da nossa imprensa, que seguem o
+triste e desgraçado fadario de especular com a colonia portugallega,
+bajulando-a por todos os lados, davam essa noticia da forma seguinte:</p>
+
+<p>«<i>O Liberal do Pará.</i></p>
+
+<p>«<i>Corveta Sagres.</i>&mdash;Amanheceu hontem ancorado em nosso porto este
+elegante vaso de guerra da marinha portugueza.</p>
+
+<p>«<i>Diario do Gram-Pará.</i><span class="pagenum"><a id="pag_253"
+name="pag_253">[253]</a></span></p>
+
+<p>«<i>Corveta Portugueza</i>:&mdash;Está desde ante-hontem á noite ancorada em
+nosso porto a corveta <i>Sagres</i>, da armada real portugueza. O gentil
+navio trouxe 19 dias de viagem de Lisboa, tocando em Cabo-Verde. Commmanda-o
+o sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva considerado pelos seus
+honrissimos precedentes como um ornamento de sua classe. A <i>Sagres</i>
+arquêa 813 tonelladas, tem machina de vapor da força de 300 cavallos
+dynamicos, é armada com 4 canhões e tripulada por 138 praças.</p>
+
+<p>Seja bemvinda ás aguas do Amazonas a gentil corveta.»</p>
+
+<p>«<i>Diario de Belem</i>:</p>
+
+<p>«<i>A corveta Sagres.</i>&mdash;Esta corveta da marinha de guerra portugueza,
+amanheceu hontem fundeada em nosso porto. Trouxe de Lisboa por S. Vicente 13
+dias de viagem.</p>
+
+<p>«É do porte de 813 toneladas, da força de 300 cavallos, monta 6 peças e
+traz 138 praças de guarnição.</p>
+
+<p>«É commandada pelo sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva, um dos
+ornamentos da marinha portugueza, e vem estacionar em nosso porto com o fim
+de proteger os seus compatriotas, aqui expostos ao furor de uma horda de
+canibaes.»</p>
+
+<p>«Ora, será a colonia portugallega tão bruta, não haverá no meio d'ella, ao
+menos um portugallego, que tenha um pouco de senso, para vêr n'aquellas
+palavras a mais negra irrisão?</p>
+
+<p>«Ora digam-nos agora, portugallegos, não será uma grande caçoada, uma
+negra irrisão, chamarem a vossa corveta <i>Sagres</i>:&mdash;<i>gentil</i>,
+<i>elegante</i>, <i>protectora etc.</i>, <i>etc.</i>?</p>
+
+<p>«Safa! que ser-se cego assim já é demais, e fazer-se tanto assim dos
+outros tolos é abusar-se muito!</p>
+
+<p>«Pobres portugallegos!</p>
+
+<p>«Ficae certos, que nós somos vossos inimigos, havemos contra vós queimar
+até o ultimo cartucho, e derramar<span class="pagenum"><a id="pag_254"
+name="pag_254">[254]</a></span> até a ultima pinga de sangue, porque nos
+fazeis todo o mal possivel; mas não vos illudimos, de vizeira alçada fallamos
+a linguagem da franqueza e do positivismo, não nos encobrimos com o manto
+infame da hypocrisia e falsidade sómente para vos sugar os cobres, como esses
+miseraveis especuladores do <i>Diario de Belem</i>, <i>Gram-Pará</i> e
+<i>Liberal do Pará</i>.</p>
+
+<p>«Ficae certos, que quando chegar a hora tremenda da revolução, estes
+vossos <i>amigos</i> de hoje serão os vossos mais cruentos inimigos, para que
+elles não sejam victimas da indignação de seus proprios patricios. Elles, os
+vossos <i>amigos</i> hão de querer rehabilitar-se perante o povo brazileiro,
+e para isso mais depressa que nós vos mandarão <i>cear com Belzebuth</i>!</p>
+
+<p>«Esperem, esperem e verão como os factos e os tempos se encarregarão de
+corroborar estas nossas opiniões.</p>
+
+<p>«Crêde-nos que, quando cahir entre nós o raio flammejante da revolução é
+para fazer uma unica e nobre divisão: de um lado&mdash;brazileiros, do outro
+lado&mdash;portugallegos.»</p>
+
+<p>No mesmo numero, a proposito de um baile no <i>Cassino</i>:</p>
+
+<p>«<i>Sympathicas leitoras.</i>&mdash;Na carencia de divertimentos, festas e
+prazeres bateu-vos á porta a festa do glorioso prelado de Sebaste, S. Braz, o
+milagroso advogado das molestias da garganta.</p>
+
+<p>«Bailes não houve... Alto lá, musa: olha que já me fizeste pregar uma
+mentira ás benignas leitoras!</p>
+
+<p>«É verdade que eu bem podia vender este <i>peixinho</i> ás minhas
+delicadas leitoras, porque eu não vi nenhuma nos salões do <i>Cassino</i>,
+mas em descargo de minha consciencia e respeito ás minhas caras leitoras, não
+quero, não posso, não devo mentir.</p>
+
+<p>«Portanto, houve no sabbado baile no <i>Cassino</i>; baile, que os seus
+maiores <i>dilectantis</i> esperavam ser de...<span class="pagenum"><a
+id="pag_255" name="pag_255">[255]</a></span> <i>grande gala</i>, pois para
+isso foi convidada toda a officialidade da <i>Sagres</i>.</p>
+
+<p>«Mas oh! bellas leitoras, grandissimo <i>fiasco</i>! Só vi alli meia duzia
+de moças e outro tanto de moços brazileiros que retiraram-se logo, onde entre
+elles veiu-se escorregando o vosso chronista, porque a <i>coisa</i> não
+cheirava lá muito bem.</p>
+
+<p>«Gostei, leitoras, gostei de não vos ver alli n'aquelles agallegados
+salões do <i>Cassino</i>.</p>
+
+<p>«Pois não! Quem mais dignos de dançar comvosco se não os vossos patricios,
+creaturas de corpos leves e ageitados, limpos e aceiados?</p>
+
+<p>«Haveis trocal-os pelos corpos dos portuguezes immundos, insupportaveis e
+pezados como um cêpo?</p>
+
+<p>«Ora essa é o que faltava!</p>
+
+<p>«Arranjem-se p'ra lá... como poderem, comtanto que as nossas amaveis
+leitoras não estão resolvidas a dançar um <i>fado</i> em lugar d'uma polka, e
+aguentarem com esses alarves desenfreados.</p>
+
+<p>«E depois de termos os brilhantes salões do <i>Club Militar</i>, o que
+irão fazer as queridas e patrioticas leitoras nos agallegados salões do
+<i>Cassino</i>?</p>
+
+<p>«Quem é que troca ouro por couro?</p>
+
+<p>«Gostei, leitoras, crêde-me que vós me enchestes as medidas, gostei de ver
+a prova de patriotismo que déstes não comparecendo no lusitano baile do
+<i>Cassino</i>. Os portuguezes quando vos pódem metter as botas não vos
+guardam deferencia&mdash;é bastante sêrdes brazileiras para elles vos calumniarem.
+Compenetrae-vos d'isto e procedei sempre como agora, que o vosso chronista
+agradecido e <i>cahido</i> vos beijará respeitosamente as setinosas mãos.»</p>
+
+<p>Este artigo é demasiadamente comico, para dever merecer os nossos reparos;
+comtudo acceitamos a prova de patriotismo das leitoras de <i>setinosas
+mãos</i>!<span class="pagenum"><a id="pag_256"
+name="pag_256">[256]</a></span></p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Agora venha a calumnia. Tem a palavra ainda a <i>Tribuna</i>:</p>
+
+<p>«Hontem fôra apprehendida pelo patrão do escaller da alfandega, dous
+saccos com carne secca que segundo ouvimos dizer iam com destino á taberna do
+Pechincha (portuguez) ao largo das Mercês.</p>
+
+<p>«Não teriam desembarcado da <i>Sagres</i>?»</p>
+
+<p>Ainda mais:</p>
+
+<p>«Como mudam os tempos! Outr'ora os ventos do largo nos traziam os aromas
+exquisitos, os perfumes inebriantes das flôres silvestres, d'essas ilhas
+virgens que nos demoram ao N.</p>
+
+<p>«Hoje, trazem-nos o halito impestado d'essa gente portugallega, as
+emanações putridas e abafadas d'esse fóco de peste que se chama
+<i>Sagres</i>, os miasmas d'esse trapo bicolor impregnado de sangue africano
+e coberto de maldições horrendas!»</p>
+
+<p>Mais:</p>
+
+<p>«<i>Visita presidencial.</i>&mdash;Sabbado pela uma hora da tarde, o
+ex.<sup>mo</sup> sr. presidente da provincia, acompanhado do chefe do mar,
+inspector do arsenal de marinha, chefe de policia, guarda-mór da alfandega e
+o consul portuguez, foi fazer uma visita ao chaveco <i>Xagres</i>, ora
+ancorado em nosso porto, estupidamente appellidado de <i>crubêta</i> pelos
+estupidos portuguezes. Não sabemos porque não lhe chamam <i>náo</i>.</p>
+
+<p>«Ao atracar o escaller em que ia o presidente, o commandante da alambasada
+maruja deu signal a esta que subisse ás <i>biergas</i>, e logo, á guisa de
+preguiça quando se arrasta por algum cipó, eil-os se agarrando pelas
+enxarcias, meia duzia de gallegos sabujos, que são os de que se compõem <i>a
+crubêta belha e remendada</i>.</p>
+
+<p>«Logo que chegaram ás <i>gabias</i>, começaram a dar<span
+class="pagenum"><a id="pag_257" name="pag_257">[257]</a></span>
+<i>bibas</i> ao <i>pabilhão auri-berde</i>, ao <i>imperadore</i> do
+<i>Vrasile</i> e não sabemos que mais...</p>
+
+<p>«D'est'arte fizeram uma parodia burlesca e mais ridicula do que as outras
+nações, em caso identico, costumam fazer.</p>
+
+<p>«Ao retirar-se o presidente, como é estyllo em taes circumstancias,
+salvaram o castello e a canhoneira <i>Mearim</i>, ficando (oh! vergonha das
+vergonhas!) recolhida ao profundo silencio a <i>crubêta Xagres</i>, por
+achar-se impossibilitada...<a name="tex2html58"
+href="#foot43"><sup>[58]</sup></a></p>
+
+<p>«Que fiasco, portuguezes!</p>
+
+<p>«Comquanto tivessemos Portugal como a nação mais miseravel da Europa, não
+lhe dispensando a minima importancia, todavia não tinhamos ainda formado uma
+idéa tão exacta da sua impotencia e nullidade na ordem das cousas.»</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>O artigo que vamos transcrever deu causa ao conflicto do dia 21 de
+novembro de 1874:</p>
+
+<p>«Apesar do desapontamento da colonia portugueza, que esperava um navio de
+guerra de primeira classe para metter-nos medo, em vez da falua
+<i>Sagres</i>, que só tem servido para ridiculos, consta-nos que o commercio
+já nomeou uma commissão, afim de promoverem uma subscripção para os bailes
+que pretendem dar no salão do <i>Albino</i>, ao largo da Trindade, e no
+<i>Hotel Central</i>, á estrada de Nazareth.</p>
+
+<p>«Tiveram a honra da nomeação para a commissão os honrados negociantes José
+Solambada, Joaquim Gallinheiro, Bento de La-Rocque, Alivio Ladrão, José<span
+class="pagenum"><a id="pag_258" name="pag_258">[258]</a></span> Coelho, (o
+balão) e Manuel dos Tomates, com os quaes nos congratulamos á vista de tão
+acertada escolha.</p>
+
+<p>«Medeiros Branco, Frias e o <i>compadre</i> Antonio Muchila foram
+encarregados para fazerem as poesias analogas ao acto, nas quaes cantarão as
+<i>Glorias de Alcacer Quibir</i> e as do <i>Rei chegou</i>, depois do que o
+<i>Club Philarmonico</i> tocará a <i>caninha bierde</i>.</p>
+
+<p>«Ai! que folia! que pagode!</p>
+
+<p>«<i>Sagres</i>, é o gentil buque-luso com quatro canhões, dois por banda,
+montados em rodisios de cana da India, fundeada em nosso porto, hasteando
+galhardamente <i>el pavilhon</i> das <i>gloriosas quinas portuguezas</i>,
+tendo attrahido á flôr d'agua até os <i>bacus</i>, <i>tralhôtos</i> e
+<i>candirus</i> para a admirarem! Caramba!</p>
+
+<p>«Os canhões são tão grandes como aquelles que os argentinos mandaram
+fundir, os quaes não cabendo nos seus arsenaes, tiveram de metter os arsenaes
+dentro dos canhões! Pumpum!</p>
+
+<p>«Veiu a bordo da <i>Sagres gentil</i>, um grosso tonel de azeitonas
+arvorado em <i>mestre</i>, assemelhando-se muito pela figura grutesca a um
+d'esses patrões de falua do Tejo.</p>
+
+<p>«Quem sabe se não mandaram esse <i>loup de mer</i> para cá com o unico fim
+de amedrontar-nos com sua figura obesa e ratona?</p>
+
+<p>«Portugal tem garbo em presentear-nos com <i>salchichões</i> d'esses!</p>
+
+<p>«Pedimos ao sr. Furman que não se esqueça de phothographar essa raridade,
+pois todas as vezes que vem á terra faz a população morrer de riso.</p>
+
+<p>«Os janotas de pince-nez la <i>del buque</i> com effeito nada arranjarão
+aqui, porque já são mortos Villarés e Chicos Ruivos... restando apenas o
+Caleijão.<a name="tex2html59" href="#foot224"><sup>[59]</sup></a></p>
+
+<p>«Consta-nos mais que a guarnição tem-se agradado<span class="pagenum"><a
+id="pag_259" name="pag_259">[259]</a></span> tanto da terra, que toda ella
+quer desertar para aqui reforçar o trafico das carroças e pipas d'agua»
+etc.</p>
+
+<p>Isto e muito mais foi publicado no n.º 259 da <i>Tribuna</i>, já referido;
+mas esta ultima parte dos insultos á guarnição da corveta, e especialmente
+aos <i>janotas de pince-nez</i>, os segundos tenentes da armada real, Carlos
+Krusse e Marques Costa, deu aso aos novos tumultos do dia 21 que ainda a
+moderação mais evangelica não poderia evitar.</p>
+
+<p>Carlos Krusse, explica assim as novas occorrencias, em uma carta enviada
+do Pará á <i>Democracia</i> de Lisboa com a data de 28 de novembro de
+1874:</p>
+
+<p>«<i>Sr. redactor.</i>&mdash;Depois de commigo se haver dado um caso, que os
+jornaes da localidade occultam, e que o papel <i>Tribuna</i> procura
+deturpar, não ficarei silencioso á partida de noticias para ahi. Devo aos
+portuguezes a narração verdadeira do facto commigo dado. Para os da nossa
+colonia do Pará é trabalho inutil expôr o que todos elles sabem. Para
+Portugal são precisas algumas palavras.</p>
+
+<p>«Li um artigo que, com a epigraphe <i>Projectos de baile em honra del
+buque Sagres</i>, vem publicado no jornal a <i>Tribuna</i> de 17 de novembro
+do corrente, e vendo o periodo&mdash;Os janotas de pince-nez&mdash;procurei no
+escriptorio da redacção um tal homem, ou cousa que o valha, que se
+responsabilisa pela folha.</p>
+
+<p>«Mandou-me entrar esta repugnante creatura, e depois de lhe pedir com a
+maior prudencia o ultimo numero do jornal que publicou (o que me queria
+offerecer, e que, não acceitando, paguei por 800 réis) mostrei-lhe o artigo
+que ambiguamente me podia dizer respeito.</p>
+
+<p>«Leu, e ao terminar, pedi-lhe me declarasse se era de mim que tratava,
+para lhe exigir prompta satisfação. Declarou-me terminantemente por duas
+vezes, (tantas por mim exigidas) defronte dos seus empregados,<span
+class="pagenum"><a id="pag_260" name="pag_260">[260]</a></span> que nada
+comigo tinha relação, e que mesmo a palavra <i>mestre</i>, no artigo
+empregada, se não referia a official algum da corveta, mas sim a alguem da
+prôa.</p>
+
+<p>«Agora este ente repugnante, vergonha da classe militar (ex-capitão
+paraguayo) e dos homens de bem, quer, em seus covardes escriptos, mascarar de
+prudencia o que n'elle foi falta de coragem, para sustentar o que havia
+escripto e desafrontar-se, quando pouco depois de eu ter entrado na redacção,
+justifiquei a minha tardança em ali ir, na falta de leitura d'um papel, que
+lhe disse ter «por unico programma a calumnia e a infamia, contra um povo,
+contra uma nação de que supponho não conhece a posição geographica».</p>
+
+<p>«A colera reprimida d'essa abjecta creatura obrigou-a a mentir perante o
+presidente da provincia, queixando-se de que eu lhe havia assaltado a
+casa!</p>
+
+<p>«Um unico homem, não manejando arma alguma, usando de todo o
+cavalheirismo, assalta a espelunca de um negro, dentro da qual estão mais
+cinco ou seis?</p>
+
+<p>«Isto faria rir, se não provocasse dó.</p>
+
+<p>«Na occasião em que procurei esta cousa de fórma humana, este menino da
+<i>Tribuna</i>, confesso-lhe sr. redactor, que imaginei que ao encontrar um
+testa de ferro acharia tambem n'elle os brios de homem.</p>
+
+<p>«Reconheço hoje que tratei com um garoto de praça publica, que nos faz
+caretas ao voltarmos-lhe as costas, e a quem devolvo os epithetos, calumnias
+e infamias, que me dirigiu e que ahi leram.</p>
+
+<p>«Que precisaria um homem que declara agora uma coisa, e que logo publica
+um pasquim negando os factos passados na sua officina, presenceado pelos
+«seus dignos empregados e ouvidos pelos muitos grupos que fóra escutavam e
+que na minha saída vi?»</p>
+
+<p>«Poder-se-ha usar com homem de tal caracter os meios empregados entre
+cavalheiros, entre homens de bem?<span class="pagenum"><a id="pag_261"
+name="pag_261">[261]</a></span></p>
+
+<p>«Não.&mdash;Disse-m'o uma grande parte da colonia portugueza aqui,
+aconselharam-me todos os meus camaradas.</p>
+
+<p>«Que resta? O desprezo, a entrega de tal procedimento á apreciação do
+publico e o desforço que se toma para com um garoto quando o acaso depare
+occasião.</p>
+
+<p>«Não responderei mais, como fazem todos os officiaes da <i>Sagres</i>, ao
+que diga de futuro a tal <i>Tribuna</i>, e só peço com fervor a chegada de
+uma occasião propria para o ultimo e unico desforço.</p>
+
+<p>«Convença-se Portugal, de uma vez para sempre, que o seu apreciado
+Revalescière <i>Prudencia!</i> não serve, quando os acontecimentos chegaram a
+tomar o corpo que attingiram os do Pará.</p>
+
+<p>«Uma satisfação das affrontas dirigidas ao soberano e á nação, exigida, se
+preciso fôr, com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de Janeiro,
+affigura-se-me ser a ultima, mas necessaria solução!</p>
+
+<p>«Desculpe, sr. redactor, o apressado d'estas linhas, que teem tanto de mal
+escriptas quanto de verdadeiras, e creia no respeito que merece a quem é&mdash;De
+v. etc. <i>C. Krusse</i>.»</p>
+
+<p>Marcelino Nery que se humilhára perante o bravo official, levantou a
+caricata grimpa pela seguinte forma, n'um avulso&mdash;<i>Boletim da Tribuna</i>,
+quando o portuguez digno lhe dera as costas como a vil sicario:</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">AOS BRAZILEIROS</p>
+
+<p>«Acabamos de soffrer a mais revoltante affronta, que não foi, como devera
+ser, punida para não darmos logar a que ignobeis detractores da honra
+nacional cuspissem infamias cruelissimas á face d'este povo nobre e heroe na
+paciencia com que tolera os ultrages da colonia portugueza.<span
+class="pagenum"><a id="pag_262" name="pag_262">[262]</a></span></p>
+
+<p>«Povo paraense! Ao meio dia de hoje foi a nossa officina invadida por um
+individuo, cujo nome, occupação e qualidade não indagamos, nem desejamos
+saber e que cheio da mais sôez prosapia e pela forma porque achava-se
+ajaezado, disse e acreditamos ser official da carveta <i>Sagres</i>.</p>
+
+<p>«Armado sem duvida e no firme proposito de pôr em pratica um crime
+hediondo, e na louca persuasão de pratical-o e ficar impune, esse individuo,
+depois de invadir a nossa officina e encontrar da parte de seu proprietario
+um cavalheirismo a toda a prova, recuou de sua tentativa e tomou o expediente
+de proromper, n'uma grita crapulosa, em insultos e injurias contra a honra
+nacional, contra os brios paraenses, a ver, se arrastando ao extremo da
+indignação ao capitão Nery, o provocava a um desforço legal que desse-lhe
+brecha a converter-se de bebado em audacioso malfeitor.</p>
+
+<p>«Foi preciso que o capitão Nery se revestisse da maior prudencia e em
+termos habeis repellir de dentro de sua propriedade um insolentissimo e
+arrojado lacaio com fumaças de nobre... que procurava ser castigado a
+vergalho, se por ventura em outro paiz se desse semelhante affronta.</p>
+
+<p>«Saibam os portuguezes e o mundo inteiro&mdash;que se não fossemos generosos,
+se não tivessemos nobresa de alma, se fossemos selvagens, o infame deixaria
+os miolos ao estampido do revolwer sobre o chão que pisamos: só a tiro se
+poderia castigar a selvageria de um javardo agaloado, que teve a suprema
+audacia de invadir a nossa officina.</p>
+
+<p>«Ninguem dirá que, dentro d'ella um bandido ou bebado pagou com a
+existencia atrevimentos escarrados em nosssa honra e patria.</p>
+
+<p>«O facto, que expomos, foi levado ao conhecimento do ex.<sup>mo</sup> sr.
+presidente da provincia, que prometteu immediatas e energicas providencias
+com que contamos.<span class="pagenum"><a id="pag_263"
+name="pag_263">[263]</a></span></p>
+
+<p>«<i>Percheiro</i> que transmitta esta noticia invertendo a acção e os
+actores.»</p>
+
+<p>A consciencia dizia-lhe que no <i>boletim</i> deturpára a verdade dos
+factos; por isso nos impunha aquella especie de ameaça, para que os não
+illucidacemos em nossas partes telegraphicas, o que já mais elle ou qualquer
+<i>tribuno</i> façanhudo conseguiriam.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Por isso e por obrigação do nosso cargo fizemos passar para o sul as
+seguintes partes telegraphicas:</p>
+
+<p>«(21-11-74) <i>Tribuna</i> violentissima contra guarnição corveta;
+official mais offendido pedio satisfação á redacção. Opinião publica reclama
+termo estado cousas póde ter graves resultados.»</p>
+
+<p>Antes de proseguirmos vamos dar uma explicação:</p>
+
+<p>O official da Sagres só pedio satisfação quatro dias depois, por que só
+então lhe constára o insulto. E se não demos parte, no dia 7, da linguagem
+indecente da <i>Tribuna</i>, era por que nunca faziamos caso d'ella, mas se
+n'este momento a destinguimos foi pela necessidade que tinhamos de noticiar
+os acontecimentos gravissimos que se annunciavam.</p>
+
+<p>Aquelle telegramma passou pelo cabo ás 2 h. da tarde, pouco mais ou menos.
+Marcelino Nery, fôra-se queixar ao presidente, da supposta affronta do
+official portuguez; e como aquella auctoridade o recebera indifferentemente,
+o capitão paraguayo, para amedrontar o presidente e a população fez publicar
+o tal boletim que reproduzimos, ao anoitecer d'esse mesmo dia.</p>
+
+<p>Eis o telegramma em que davamos parte d'esta publicação:</p>
+
+<p>«(21-11-74) <i>Tribuna</i> publica boletim aos brazileiros contra official
+fôra pedir satisfação. Reina panico.»<span class="pagenum"><a id="pag_264"
+name="pag_264">[264]</a></span></p>
+
+<p>«(22-11-74) Mercado falta dinheiro. Espere serviço.»</p>
+
+<p>No dia 22 de tarde, á hora a que expediamos esta parte, dizia-se que os
+<i>tribunos</i> fariam reunião na praça de D. Pedro II. Foi este boato que
+deu aso áquella prevenção, para sul, de&mdash;<i>espere serviço</i>; e a prova
+eil-a:</p>
+
+<p>«(23-11-74) Constava <i>tribunos</i> fariam <i>meeting</i>. Chuva
+continuada evitaria? Policia estava a postos.»</p>
+
+<p>A chuva foi torrencial durante toda a noite; não obstante, nós e a policia
+estavamos a postos.</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Foi no dia 21 de novembro que o presidente Azevedo expedira para o seu
+governo o importantissimo telegramma que mencionámos a paginas 7 das
+<i>Questões do Pará</i>, dia em que egualmente fôra expedida para Londres a
+não menos importante parte, que egualmente transcrevemos no referido livro a
+pag. 10.</p>
+
+<p>Mas não ficou aqui a questão. Ainda fizemos expedir mais telegrammas, que,
+julgamos indespensavel transcrever aqui.</p>
+
+<p>E se os não publicámos ha mais tempo, foi porque esperavamos fazer sahir á
+luz um outro livro, que não publicámos, por que como já dissemos, nos
+subtrairam a collecção de todos os jornaes que se publicaram no Pará, no
+ultimo semestre de 1874, em cujos artigos, de origem brazileira, escudariamos
+as nossas proposições; collecção que pode ser examinada a todo o tempo por
+escriptores brazileiros, que mais tarde pretendam escrever a historia dos
+tumultos do Pará n'aquelle anno.</p>
+
+<p>Mas vamos á historia dos telegrammas.</p>
+
+<p>Os espiritos conservavam-se agitados, especialmente, desde o dia 21 de
+novembro.</p>
+
+<p>Esperavam-se, a toda a hora, providencias do governo<span
+class="pagenum"><a id="pag_265" name="pag_265">[265]</a></span> central, com
+respeito ao telegramma do presidente. Até que afinal, o governo deu um ar da
+sua graça, declarando ao seu representante no Pará, que <i>procedesse dentro
+dos limites da lei</i>!</p>
+
+<p>Os <i>tribunos</i> que até alli tinham zombado de tudo e de todos,
+continuaram a zombar, não só da lei, como da decisão do governo, cuja noticia
+correra logo de bocca em bocca, não obstante a tal decisão ser <i>secreta</i>
+como <i>secreto</i> tinha sido o telegramma do dia 21 de novembro, que nós
+devassamos!</p>
+
+<p>Quem padecia mais com as indicisões do governo central era o commercio;
+por isso expedimos, no dia 25, a seguinte parte telegraphica, resultado das
+repetidas conferencias que tivemos com seus representantes:</p>
+
+<p>«Bancos restringiram operações. <i>Tribuna</i> sahida hoje mesma
+linguagem.»</p>
+
+<p>A <i>Tribuna</i> não podia deixar de se mostrar fanfarona, á vista dos
+medos do governo.</p>
+
+<p>O presidente, não podendo fazer cousa alguma <i>dentro dos limites da
+lei</i>, foi para o jornal official proclamar ao povo contra os excessos da
+<i>Tribuna</i> e seus apaniguados.</p>
+
+<p>Compare-se esse documento publicado nas <i>Questões do Pará</i>, com o
+extracto que d'elle fizemos em nosso despacho telegraphico expedido para o
+sul em 26 de novembro, e ver-se-ha que a consciencia e não o <i>espirito de
+nacionalidade</i>, presidira sempre aos nossos actos de agente fiel da
+companhia Americana.</p>
+
+<p>É este o despacho:</p>
+
+<p>«<i>Jornal Official</i> diz chegou occasião lamentar estado provincia que
+retrograda gigantescamente. Japão civilisa-se, Pará passa terra selvagens.
+Ideias tríbunicias defendidas por influencias. Edificações paralisadas,
+decrescimento rendas, commercio desanimado, telegrammas para Europa
+suspendendo pedidos. <i>Tribuna</i> cessaria publicação, mas agenciaram
+subscripções;<span class="pagenum"><a id="pag_266"
+name="pag_266">[266]</a></span> emissarios foram intimar publicação.
+Conclue&mdash;governo disposto manter tranquilidade. Não tolera empregados devem
+ser ordem, estejam collocados á testa movimentos tribunicios. Fez sensação
+artigo. Reuniões influentes casa <i>Tribuna</i>.»</p>
+
+<p>Por aqui póde vêr o sr. Augusto de Carvalho e os seus dignos
+correligionarios optimistas, que com a propaganda da <i>Tribuna</i> do Pará,
+não riam nem folgavam os leitores, como riem e folgam com a leitura dos
+nossos jornaes burlescos.</p>
+
+<p>Em 27 de novembro ainda não tinham socegado os espiritos. A prova d'isso
+está nos telegrammas do presidente do Pará, publicados na folha official do
+Rio de Janeiro, e que já transcrevemos em outro logar.<a name="tex2html60"
+href="#foot4302"><sup>[60]</sup></a></p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Já viram os leitores, que, comnosco estavam interessados na questão: o
+presidente, os jornaes de todos os partidos, exceptuando a
+<i>Constituição</i> e a <i>Tribuna</i>, o corpo commercial e por ultimo, os
+officiaes da <i>Sagres</i>, que expediram pela agencia americana para o
+<i>Diario Popular</i>, o seguinte telegramma que não chegou ao seu destino, e
+para cuja publicação estamos auctorisado:</p>
+
+<p>«(27-11-74.) <i>Diario Popular.</i>&mdash;Lisboa. <i>Tribuna</i>
+insolentissima. Officiaes <i>Sagres</i> prohibidos ir terra. Humilhantissima
+posição. Providencias immediatas.&mdash;<i>Maia.</i>»</p>
+
+<p>O seguinte despacho fôra expedido por nós em 28 de novembro:</p>
+
+<p>«<i>Constituição</i> responde ao <i>Jornal Official</i>, refutando.<span
+class="pagenum"><a id="pag_267" name="pag_267">[267]</a></span> Opina
+publicação <i>Tribuna</i>, mudando linguagem. <i>Gran-Pará</i> acompanha
+<i>Jornal Official</i>.»</p>
+
+<p>E, effectivamcnte, a <i>Tribuna</i> acceitou os conselhos da
+<i>Constituição</i>!...</p>
+
+<p>Eis como o deputado, Wilkens de Mattos, esclarece a questão, no <i>Diario
+de Belem</i> de 2 d'agosto de 1874.</p>
+
+<p>E preferimos esta á nossa opinião, porque em summa...somos portuguez!</p>
+
+<p>Falle o sr. Mattos:</p>
+
+<p>«O estylo é o homem, e os artigos da <i>Constituição</i> photographam
+fielmente a indole de seus redactores.</p>
+
+<p>«Provocado por ella de um modo improprio de cavalheiros, insultado em uma
+linguagem que só se depara nos vocabularios dos homens da mais infeliz camada
+da sociedade, corri á imprensa para lançar de sobre mim a responsabilidade
+que a <i>Constituição</i> me emprestava, e para externar minha opinião a
+respeito da questão, que tanto tem agitado e prejudicado a sociedade
+paraense, e levantado grande celeuma contra nós no extrangeiro. Era um dever
+imprescindivel, a quem, como eu, presa sua terra natal, respeita a opinião
+publica e quer manter um caracter illibado; mas a <i>Constituição</i> por
+motivos que me são estranhos, surprehendeu-me mais uma vez com a sua
+linguagem, que me furto ao desprazer de qualificar. Ninguem, que não esteja
+dominado de um odio brutal e de prevenções irracionaes, deixará de lastimar a
+linguaguem de que, a meu respeito, fez uso o jornal, que se diz orgão do
+partido conservador d'esta provincia, jornal que foi creado tambem para
+regenerar a imprensa paraense, cuja linguagem, classificada de polluta, elle
+tanto censurou e condemnou no começo de sua estrêa.</p>
+
+<p>«A <i>Constituição</i> pensou que me abateria e me faria recolher ao
+silencio, ou provocaria de minha parte represalias na mesma phraseologia com
+que me aggredio. Enganou-se. Os seus insultos servirão para provar<span
+class="pagenum"><a id="pag_268" name="pag_268">[268]</a></span> contra ella,
+que não occulta o seu rancor, o seu espirito abocanhador sempre que tem de
+derigir-se a quem <i>ousa</i> decahir de suas graças.</p>
+
+<p>«A <i>Constituição</i> mente assim ao seu programma, compromette o seu
+presente e cava a ruina de seu futuro.</p>
+
+<p>«Devia ella manter-se em terreno decente, usar de linguagem intelligente e
+circumspecta, propria de cavalheiros, ainda mesmo combatendo seus adversarios
+politicos, ou aquelles que, sendo conservadores, não concordam com a sua
+politica. Se a <i>Constituição</i> não respeita as opiniões de seus
+adversarios ou divergentes, se ella não a procura vencer por meio da
+intelligencia, empregando a linguagem comedida e decente, como quer ser
+tratada e considerada?</p>
+
+<p>«Não pense que o insulto lhe dará nunca ganho de causa. Esse meio é
+reprovado nas sociedades cultas, e só lhe pode attrahir o despreso.</p>
+
+<p>«Lastimo, pois, mais uma vez a trilha errada que procurou a
+<i>Constituição</i>, e apesar de gravemente offendido por ella, faço cordeaes
+votos para que seja a sua redacção mais feliz nas suas inspirações, afim de
+não prejudicar a sociedade em que milita.</p>
+
+<p>«A <i>Constituição</i> sabe bellamente, que na camara temporaria, de que
+tenho a honra de fazer parte, nunca se tratou de discutir os males que a
+propaganda e lingoagem da <i>Tribuna</i> teem causado a esta provincia. Se
+alí se tivesse tratado d'isso, póde estar a <i>Constituição</i> certa, de que
+externaria eu com toda a franqueza a mesma opinião, que já externei pela
+imprensa, no meu ultimo artigo. Esperaria, é verdade, e unicamente por um
+rasgo de cortesia, que os meus collegas, representantes do Pará, primeiro se
+manifestassem a respeito; mas quer elles o fizessem, quer não, não ficaria
+occulto nas dobras do silencio, muitas vezes conveniente áquelle que não tem
+a coragem de seus actos, e que prefere jogar em perpetuo carnaval.<span
+class="pagenum"><a id="pag_269" name="pag_269">[269]</a></span></p>
+
+<p>«Não ha consideração alguma que me inhiba de manifestar-me com a isenção
+d'espirito e com a franqueza a que tem direito os mais caros interesses desta
+abençoada terra em que tive o berço, e de suas relações com uma nação amiga,
+da qual descendem os brazileiros, e com a qual se acham estreitamente ligados
+pelos laços mais estimaveis.</p>
+
+<p>«Os augustos chefes das duas nações são parentes mui proximos. Portugal
+exercita com o Brazil avultado commercio; envia-nos os seus productos em
+troca dos nossos. A mesma religião, a mesma lingua; os mesmos costumes.
+Porque hesitar diante da propaganda que nos faz passar como um povo que vae
+perdendo a civilisação e ensaia actos barbarescos? Não vejo rasão.</p>
+
+<p>«A <i>Constituição</i> convida-me a declinar os nomes dos seus redactores
+que cultivam relações pessoaes e exercem influencia sobre o proprietario da
+<i>Tribuna</i>. Para que esse convite?</p>
+
+<p>«A <i>Constituição</i>, de certo, não quererá que eu me constitua delator.
+Nunca o conseguirá. Deve ella ter consciencia de que eu estou de posse de
+muitos de seus segredos, e deve fazer-me a justiça de crêr-me incapaz de
+fazer publico uso d'aquillo que outr'ora me foi informado. Negar é um
+impossivel, que alguns de seus actuaes redactores fizeram publicar na
+<i>Tribuna</i> escriptos seus. Alludo apenas a esta circumstancia, porque não
+ha quem a ignore.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Não é em um artigo escripto ao correr da pena, que o deverei fazer.</p>
+
+<p>«Não tenho embaraço algum a pronunciar-me clara, sincera e positivamente,
+não só contra a propaganda da <i>Tribuna</i>, mas ainda e sobretudo contra a
+linguagem de que tem sido victimas muitos dos subditos de S. M. Fidelissima,
+que são honrados negociantes e ricos proprietarios n'esta capital; propaganda
+e linguagem que<span class="pagenum"><a id="pag_270"
+name="pag_270">[270]</a></span> teem mareado o bello conceito que já
+gosavamos, nós os paraenses, na Europa e nos Estados-Unidos.</p>
+
+<p>«Eu que caminho para o ultimo quartel da vida, que não estou atado ao
+orçamento da provincia, que nada pretendo d'ella, que tenho procurado servir
+ao paiz com o zelo e capacidade, que Deus me concede, lastimo do fundo do
+coração, que ainda haja paraense que não queira reconhecer o immenso mal
+moral, economico e politico, que será aggravado de dia em dia, causado á
+provincia pelas doutrinas erroneas, e linguagem condemnaveis do
+<i>obscurantismo</i>, do inimigo da paz e socego das familias, e do progresso
+desta estrella, cujo brilho se procura embaciar! Lamento isto do fundo
+d'alma.</p>
+
+<p>«Meus sinceros parabens á <i>Constituição</i> pela <i>lisongeira e
+expontanea</i> defeza que a <i>Tribuna</i> lhe faz em seu ultimo numero.</p>
+
+<p>«Não leve ella (<i>a Constituição</i>) a mal que eu lhe diga: quem póde o
+mais, póde o menos.</p>
+
+<p>«Quem teve forças para obter que a <i>Tribuna</i> moderasse a sua
+linguagem, poderia, se tivesse querido, conseguir ou tolerar, que esse
+periodico deixasse de apparecer, ainda que fosse temporariamente.</p>
+
+<p>«Não veja n'isto uma insinuação, ha franqueza, e firme convicção.</p>
+
+<p>«Desde que a <i>Constituição</i> aberrando do seu programma primordial,
+acha prazer em jogar-me doestos e injurias, devo declarar-lhe: que não sei
+esgrimir com <i>mascarados</i>, nem usar de armas que infamam a quem as
+emprega.</p>
+
+<p>«Na arena em que o homem educado deve sempre encontrar-se, no uso do
+raciocinio, na applicação honesta dos factos, respeitando-se a verdade, não
+hesitarei em encarar a <i>Constituição</i>; mas, diante do insulto e do trato
+indigno de cavalheiros, não me encontrará.<span class="pagenum"><a
+id="pag_271" name="pag_271">[271]</a></span></p>
+
+<p>«Fica ao seu sabor escolher; prosiga, porem, como quizer, que, de uma vez
+para sempre deve convencer-se, que não responderei ás injurias nem aos
+insultos: porque quem insulta á sombra de anonymo é só digno de despreso.»</p>
+
+<p style="text-align:right;">«<i>Wilkens de Mattos.</i>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Depois d'isto digam os optimistas que somos pessimista systematico contra
+as cousas brazileiras.</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Se aos brazileiros se concede a liberdade de condemnar os excessos
+commettidos na sua patria, aos portuguezes que soffreram e continuam a
+soffrer as consequencias d'esses excessos, não deve ser negada essa
+liberdade.</p>
+
+<p>Assim pois, continuemos a transcripção dos despachos telegraphicos que
+fizemos expedir do Pará para conhecimento do mundo inteiro, que então
+desejava estar inteirado do incremento da revolução contra portuguezes:</p>
+
+<p>«(2&mdash;12&mdash;74) Commissão, praça composta de brazileiros, portuguezes,
+inglezes, allemães e francezes em nome do commercio do Pará, officiaram
+hontem ao presidente da provincia, confirmando decadencia, crise medonha,
+sobresalto, devido a propaganda injusta, criminosa contra nação amiga. Louvam
+procedimento do presidente da provincia. Firmeza, linguagem energica, artigos
+na <i>Folha Official</i>, renascerá confiança.»</p>
+
+<p>O original de onde extrahimos este telegramma vem publicado nas
+<i>Questões do Pará</i>. Por haver quem diga que fomos exaggerado nos
+despachos é que os transcrevemos, para que sejam comparados com os documentos
+que lhes deram origem.<span class="pagenum"><a id="pag_272"
+name="pag_272">[272]</a></span></p>
+
+<p>Est'outro, é de 5 do referido mez:</p>
+
+<p>«O <i>Jornal Official</i> publica hoje manifestação commissão da praça.
+Traz resposta do presidente da provincia. Mesmas idéas, 26 de novembro.
+Publíca portarias, suspensão, contracto conego (Sequeira Mendes) quatro
+contos collegio Cametá. Demissão dos empregados que professam idéas da
+<i>Tribuna</i>. Esta continúa.»</p>
+
+<p>Quando o presidente por estes actos, tocára no estomago repleto, os
+revolucionarios anemicos recuaram um pouco.</p>
+
+<p>Tirar quatro contos de réis ao chefe da propaganda só de uma vez, era
+cousa seria!</p>
+
+<p>E afinal, tinham razão. A propaganda em logar de lhes dar, aos
+revolucionarios, alguma cousa <i>de peso</i> tirava-lhes; é verdade que lhes
+crescia a popularidade; mas isto de popularidade em troca de uns estomagos
+vasios, não era muito para agradar.</p>
+
+<p>Eis a principal razão porque o <i>orgão popular</i> moderou a sua
+linguagem até á retirada da <i>Sagres</i>.</p>
+
+<p>N'esta occasião publicára-se a carta do sr. Krusse, em Portugal, e o
+governo portuguez mandava immediatamente retirar aquelle navio de guerra da
+bahia da Guajará.</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>Estavamos então em fins de janeiro de 1875.</p>
+
+<p>A corveta devia partir do Pará para Lisboa, com escalla pelo Rio de
+Janeiro, na madrugada do dia 3 de fevereiro do referido anno.</p>
+
+<p>Aqui está a despedida <i>Tribuna</i> em seu <i>boletim</i> do dia 2:</p>
+
+<p>«Foi o vapor inglez <i>Ambroze</i>, de proximo ancorado em nosso porto,
+que nos fez chegar ás mãos o n.º 80 do immundo pasquim, <i>Brazil</i>, onde
+vêm transcripta uma carta d'aqui enviada pelo fétido lapuz <i>Krusse</i>,
+o<span class="pagenum"><a id="pag_273" name="pag_273">[273]</a></span>
+javardo de <i>pince-nez</i> de bordo da nauseabunda <i>Sagres</i>.</p>
+
+<p>«Não lê o povo brazileiro o infamissimo pasquim <i>Brazil</i>, por isso
+nós vamos fazel-o ouvir, com attenção, o que dizia, <i>ipsis verbis</i>
+n'essa carta.</p>
+
+<p>«Falla, nojento gallego <i>Krusse</i>:</p>
+
+<p>(Segue a carta que atraz reproduzimos.)</p>
+
+<p>«Está sciente o povo brazileiro, do que dizia na tal carta, não é
+assim?...</p>
+
+<p>«Ora bem, pois agora fallemos nós.</p>
+
+<p>«Antes que do porto de Belem desferre a immunda esterqueira portugueza
+<i>Sagres</i>, onde chafurdando-se em putridas materias engorda e vive o
+fétido e asqueroso gallego <i>Krusse</i>, cumpre-nos, em consideração ao
+nobre e heroico povo brazileiro, dizer duas palavras sobre a carta acima, que
+esse cynico bandido e miseravel assassino da honra alheia mandou publicar na
+degradante imprensa portugueza.</p>
+
+<p>«Hoje, que está no dominio publico o quanto val Portugal, o que é a
+<i>Sagres</i>, o que são os seus officiaes, principalmente esse garoto de
+<i>pince-nez</i>, bebado e ladrão <i>Krusse</i>, relativamente a esta magna
+questão de nacionalidades&mdash;não podemos, por certo, temer que nos apanhem os
+seus infamantes insultos.</p>
+
+<p>«Não. Não nos insulta esse aborto da natureza, essa podre excrescencia,
+essa massa informe de sebo e de chulé, esse monturo de percevejos, essa larva
+hedionda podridão dos excrementos humanos a que deram o nome de
+<i>Krusse</i>. Não! Como um vil, covarde, infame e miseravel cão que é, nem
+ao menos lhe poderiamos dar a honra de lamber-nos o fim da espinha dorsal.</p>
+
+<p>«Já viram todos, o que dissemos a respeito de ter esse salteador invadido
+a nossa officina com louco intento de extorquir-nos uma satisfação, não só em
+um boletim como em um numero do nosso periodico, relatando com a nossa
+proverbial franqueza, imparcialidade<span class="pagenum"><a id="pag_274"
+name="pag_274">[274]</a></span> e justiça tudo aquillo que em abono de fé e
+verdade se passou entre mim e o asqueroso biltre <i>Krusse</i>.</p>
+
+<p>«E era isso uma satisfação que tinhamos de dever dar ao povo brazileiro.
+Demol-a, e os nossos dignos compatriotas conscios da nossa conducta e
+reputação que ha cinco annos teem sabido estudar, não trepidaram em lançar
+sobre esse gallego bebado e safado todo o pezo da mais justa odiosidade.
+Principalmente quando esse garoto de <i>pince-nez</i> tentou contestar-nos,
+debalde adulterando a verdade e invertendo o facto, em um artigo que mandou
+publicar no <i>Jornal do Pará</i> numero 274.</p>
+
+<p>«Ahi porém, não poude elle á vontade vasar o seu venenoso pús. Escreveu
+então para a infamissima imprensa portugueza, e ahi está elle no seu elemento
+como em um fétido corpo está o percevejo.</p>
+
+<p>«Pois, se esse grutesco bobo de <i>pince-nez</i>, tão cynica e infamemente
+faltou a verdade na imprensa brazileira, como podia deixar tambem de mentir e
+insultar na torpe imprensa de sua terra? Por acaso pode elle lembrar-se
+d'aquillo que realmente se deu em nossa officina! Póde elle dizer a
+verdade?</p>
+
+<p>«Não, nunca. O bandido que assalta de dia a nossa officina offuscado pelos
+vapores intensos da <i>jeropiga</i>; o ladrão que assalta de noite uma outra
+casa de uma pobre e indefeza senhora, travessa das Gaivotas, e d'ahi é como
+um vil e pirento caxorro lançado na rua a pezo de cabo de vassoura, mesmo por
+um seu patricio;<a name="tex2html61" href="#foot4303"><sup>[61]</sup></a> um
+homem, emfim, como <i>Krusse</i> miseravel, mais vil e repugnante que a podre
+lama de um charco,&mdash;é capaz para tudo, maxime para faltar tão descaradamente
+á verdade de um facto, que depõe altamente contra o seu caracter de sabujo
+lacaio de <i>pince-nez</i> da <i>Sagres</i>.</p>
+
+<p>«Por isso, a carta d'esse patife gallego não nos demoveria<span
+class="pagenum"><a id="pag_275" name="pag_275">[275]</a></span> a traçar em
+tempo estas linhas, se n'ella não deparassemos com alguns trechos acremente
+offensivos e provocadores á nossa dignidade e caracter, ao governo brazileiro
+e á integridade do imperio.</p>
+
+<p>«Primeiro, porque queremos mostrar ao governo brazileiro, a que ponto
+chegou entre nós a louca e insensata audacia dos portuguezes bandalhos como o
+tal <i>Krusse</i>, quando se arroja a dizer, que Portugal <i>necessitava
+exigir uma satisfação com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de
+Janeiro</i>!</p>
+
+<p>«Segundo, porque queremos provar ao publico em geral, que não fazemos
+<i>carêtas pelas costas</i> a homens de bem, quanto mais á gente da casta do
+estupido, boçal e mariola <i>Krusse</i>.</p>
+
+<p>«Terceiro, porque queremos bradar alto e bom som a esse mais vil e infame
+canalha da canalha portugueza:&mdash;Gallego <i>Krusse</i>, se é que <i>pedias com
+fervor a chegada d'uma occasião propria para o ultimo e unico desforço</i>,
+eil-a que se offerece, anda cá vil sicario, não percas tempo.&mdash;</p>
+
+<p>«Quarto, finalmente, porque queremos que fique publico e notorio ao mundo
+inteiro, qual de nós merece o negro estygma de covarde; porque, para quem
+como o faccinora <i>Krusse</i>, <i>pede com fervor a chegada d'uma occasião
+propria para o ultimo e unico desforço</i>,&mdash;ainda é tempo e tempo assás
+opportuno e de sobra para tomal-o.</p>
+
+<p>«Portanto, vem, miseravel sodomita <i>Krusse</i>, gatuno de
+<i>pince-nez</i>, burlesco e caricato truão agaloado da <i>praça d'armas</i>,
+cynico, immoral e nefando <i>official</i> dos immundos beliches dos
+marinheiros da <i>Sagres</i>, escoria das escorias portuguezas, vem,
+salafrario.</p>
+
+<p>«Vem, se tens amor a esse trapo nojento das quinas, pendurado no penol
+d'esse carro da lama que se chama <i>Sagres</i>; vem, se não queres vêl-o
+mais vilipendiado do que tem sido por todas as mais nações que n'elle
+escarram,<span class="pagenum"><a id="pag_276"
+name="pag_276">[276]</a></span> com o teu negro titulo de covarde infame;
+vem, <i>janota pé de chumbo</i>, vem, se te não gira nas veias ignobeis o
+sangue ignominoso dos cafres européos, vem tomar o teu <i>ultimo e unico
+desforço</i>.</p>
+
+<p>«Vem, lazarento gallego, não para luctares comnosco, porque és tão
+miseravel e despresivel, que a arma ou a mão mais indigna que te batesse
+ainda seria nobre de mais para ti.</p>
+
+<p>«Temos porém, uma unica arma, que é a que mais se aproxima ao merecimento
+de tua baixeza:&mdash;é um chicote para cavallo, com o qual te mandaremos fustigar
+as ancas, sem que traga isso pezar algum ao braço que te castiga e ao
+instrumento que te imprime seus degradantes e indeleveis sulcos.</p>
+
+<p>«Vem, descarado canalha, cigano d'uma figa! tomar o teu <i>ultimo e unico
+desforço</i>.</p>
+
+<p>«Se não vieres, então, tu, infimo bisborria, serás entregue á vindicta
+publica e á execração do futuro que te bradarão incessante:</p>
+
+<p>«&mdash;Maldito! covarde! infame! desgraçado! és portuguez e basta, miseravel!
+escarneo da humanidade! vergonha eterna dos homens, não da tua raça vil, mas
+das outras, que na mesma classe que tu, sabem presar a nobreza da farda, a
+immaculação da honra, brios e dignidade do pavilhão glorioso e heroico que
+defendem.»</p>
+
+<p style="text-align:right;">«<i>Marcellino Nery.</i>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>É a bilis de mais de dois mezes, que a premanencia do sr. Krusse no Pará
+evitára que sahisse do nauseabundo esofago <i>tribunicio</i>.</p>
+
+<p>Expliquemos a peripecia:</p>
+
+<p>Acompanhavamos quasi sempre os officiaes, nos seus passeios pela cidade do
+Pará, e passavamos muitas vezes, occasionalmente, pela praça de D. Pedro II,
+onde era o escriptorio da <i>Tribuna</i>.<span class="pagenum"><a
+id="pag_277" name="pag_277">[277]</a></span></p>
+
+<p>O hydrophobo Marcelino Nery, desde os acontecimentos de 21 de novembro,
+nunca mais sahira á rua! e, de binoculo em punho, observava da sua janella,
+pela extensa praça, se para o seu escriptorio se dirigia algum official da
+corveta. Não eram estas as intenções da officialidade; mas Nery que não
+estava d'isso ao facto, e temendo alguma desafronta, serrava a janella no
+momento em que os officiaes por alli passavam!</p>
+
+<p>O <i>boletim</i> acima transcripto tem, alem da data&mdash;2 de fevereiro&mdash;as
+seguintes palavras&mdash;<i>ás 7 horas da manhã</i>&mdash;, para que quem o lesse
+ficasse sabendo, pelo que estava escripto, que o papel tinha sido destribuido
+vinte e quatro horas antes, ainda quando o sr. Krusse podia <i>acceder</i> ao
+pedido do <i>bravo</i> anti-paraguayo encerrado; mas a verdade é que o tal
+<i>boletim</i> só foi destribuido na cidade quando já a hora adiantada da
+noite do dia 2, havia recolhido toda a guarnição para bordo da corveta!</p>
+
+<p>E não vá dizer a historia para o futuro, que o sr. capitão Marcelino Nery,
+não era um digno heroe do exercito brazileiro que nos sertões envios das
+margens de Riachoello combatera com denodo pela cara patria!</p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Foi naturalmente n'esta epocha que o sr. Augusto de Carvalho, escrevera na
+sua historia o <i>Brazil</i>, aquella affirmativa, de que a <i>Tribuna</i>
+suspendera a publicação; mas dos trechos transcriptos d'este periodico em
+outro logar d'este livro, verá o leitor que em 1876, isto é um anno depois da
+publicação do <i>Brazil</i>, ainda o papel incendiario se publicava; e só
+suspendeu a sua publicação, quando o governo de S. M. Imperial, como
+<i>recompensa</i> dos relevantes serviços prestados á civilisação do Brazil,
+dava ao denodado capitão Nery, a directoria<span class="pagenum"><a
+id="pag_278" name="pag_278">[278]</a></span> de uma colonia militar ao sul do
+imperio, com o fim, naturalmente, de incitar os pamphletarios a novos
+commettimentos contra a colonia portugueza!</p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>Alguem ha que nos accusa de exaggerado no nosso livro <i>Questões do
+Pará</i>, por termos avançado proposições da mais alta gravidade contra o
+imperio brazileiro. Essa gente não acha sufficientes os documentos que
+comprovam as nossas verdades. Talvez que até mesmo continuassem na sua
+incredulidade em presença dos factos. Não admira. O publico é ás vezes
+inconsequente; porque acredita nos bruchedos, nas pantomimas das mulheres que
+deitam cartas, ou nas artimanhas dos jesuitas. Quando se trata de cousas tão
+importantes, despresa o proloquio&mdash;<i>ver e crer...</i>; e só faria uso
+d'elle, se algum ratão se lembrasse de dizer, que ia atravessar o Tejo com
+umas botas de cortiça.</p>
+
+<p>Houve incredulos em todas as épochas. Muita gente tem morrido com a
+esperança de que o sr. rei D. Sebastião hade voltar ainda a estes reinos em
+manhã de nevoeiro. Não ha tambem quem acredite que a agua de Lourdes fizera o
+milagre da Misericordia e quejandos? E que importa aos sebastianistas e aos
+devotos da nova <i>Revalescière</i> as risadas do publico sensato? Não será,
+de certo, por causa d'isso que deixará de haver quem espere pelos sapatos do
+defunto rei e quem se recuse a tomar o seu banho na agua milagrosa!</p>
+
+<p>Ha factos extraordinarios na vida de todos os povos; mas nenhum haverá de
+certo que se assemelhe em phenomenos ao povo brazileiro.</p>
+
+<p>Hade haver pouco mais de 50 annos, quando o imperio, pela bocca do seu
+primeiro <i>defensor perpetuo</i>, declarava a todo o mundo, que tendo os
+brazileiros<span class="pagenum"><a id="pag_279"
+name="pag_279">[279]</a></span> chegado á sua maior edade, pedia a
+emancipação; diziam os paraenses, tambem pela bocca dos seus escolhidos:</p>
+
+<p>&mdash;Nós somos portuguezes! Portugal é a nossa patria!</p>
+
+<p>Não conveio muito este protesto aos libertadores do Ypiranga; por isso
+alguns navios de guerra foram incumbidos de incender no coração d'este povo o
+amor á liberdade que lhe promettia a nova patria!</p>
+
+<p>Em 1825 reconhecera Portugal a independencia do Brazil, e o Pará, todo
+lacrimoso, entregava-se, com medo das palmatoadas, nos braços da risonha
+deusa!</p>
+
+<p>De 1833 a 1842 mudaram completamente as scenas. O povo que alguns annos
+antes sacrificaria a vida pela metropole, assassinava e roubava os
+portuguezes no meio da rua, á luz esplendida d'este seculo, que lhe dera a
+liberdade!<a name="tex2html62" href="#foot245"><sup>[62]</sup></a></p>
+
+<p>Estas scenas, repetidas mais de uma vez depois d'aquella epocha fatal, não
+foram ensinadas pelos portuguezes, no longo periodo do seu dominio. Os
+selvagens, que outr'ora vagueavam por estas paragens, horrorisar-se-iam de
+semelhantes barbaridades, commettidas por quem já se dizia civilisado.
+Reconhecera então o governo do Brazil, que os seus agentes haviam exorbitado
+as ordens da propaganda, sustentada no <i>Paraense</i> e outros pasquins, em
+que tambem um conego incitava os naturaes á matança dos portuguezes. Por isso
+lançou mão de um meio extremo, esmagando aquelle povo, que tão mal havia
+comprehendido o grito dado nas margens do historico ribeiro. Centenas de
+paraenses foram desde logo mettidos nos porões dos navios e alli assassinados
+barbaramente.</p>
+
+<p>O governo brazileiro foi sempre amigo dos extremos. Depois de observar
+attentamente, e na maior paz de<span class="pagenum"><a id="pag_280"
+name="pag_280">[280]</a></span> espirito, os assassinatos commettidos á
+sombra d'uma impunidade ridicula, chega-lhe a vez de representar o seu papel
+de barbaro. Não é de meias medidas. Os seus administrados, á semelhança de
+certo rei da França, inventam ou modificam uma machina de exterminio. E o
+governo, quando se cansa de ver correr sangue innocente, manda chegar os
+assassinos ao terrivel instrumento, e assim lhes rouba com a vida o terrivel
+papel de carrasco. O resultado é ficar o Brazil sem colonos e sem selvagens
+que podiam ser civilisados, o que é mau!</p>
+
+<p>Mas depois d'aquelles horrorosos acontecimentos pareceram socegar os
+animos; porém lá estava a ferida aberta. Os descendentes das victimas do
+governo brazileiro tinham ouvido por entre as juntas das cobertas dos navios
+um terrivel anathema, que era ao mesmo tempo a morte da provincia mais rica
+do imperio. Esse anathema de exterminio contra os colonos tinha sido ouvido
+tambem pelos portuguezes, que entenderam desde logo dever explorar a
+industria extractiva de certos productos riquissimos, que, até ha bem poucos
+annos, parecia no Pará uma mina inexgotavel.</p>
+
+<p>A agricultura que nos paizes virgens offerece sempre um lucro mais
+duradouro e mais proporcional ao capital e ao trabalho empregado, porque a
+exploração dos productos extractivos é mais eventual e retarda por
+consequencia a prosperidade do territorio onde ella se exerce; a agricultura,
+repetimos, foi desde logo desprezada. O facto era logico. Uma revolução, em
+qualquer dia de expansão paraense, era facil, e a borracha, a castanha, o
+cacau e muitos outros productos podiam fazer uma viagem até á Europa, na
+companhia de seus donos, sem que a estes desse muito cuidado as terras e as
+arvores que costumam dar semelhantes fructos. Outro tanto não aconteceria com
+os terrenos comprados pelos colonos, com os productos agricolas ainda por
+colher ou com os engenhos montados para a sua fabricação,<span
+class="pagenum"><a id="pag_281" name="pag_281">[281]</a></span> que cairiam
+irremediavelmente nas mãos dos communistas.</p>
+
+<p>No Pará, depois da sua famosa independencia, houve sempre revolucionarios
+a incitar os animos, já propensos á desordem, contra portuguezes. E o que é
+extraordinario é que esta gente, que não quer admittir em seu seio os colonos
+que mais podem concorrer para o seu engrandecimento, é apologista da
+republica!</p>
+
+<p>Em 1873, por occasião da prisão dos revolucionarios que no Pará pizaram a
+nossa bandeira, andavam os apologistas da sublime idéa ameaçando os
+estrangeiros e promettendo lançar fogo aos estabelecimentos! A musica, que
+marchava na vanguarda dos communistas tocava o hymno da marselhesa, e do meio
+d'aquella bachanal saía ao mesmo tempo o grito de&mdash;viva o sr. D. Pedro II! e
+tocava o hymno imperial!</p>
+
+<p>E note-se que são sempre assim os que sonham com a republica no Brazil.
+Quanto mais republicanos mais inimigos dos estrangeiros. Esta gente, salvas
+mui raras excepções, que já mais poderão fazer do imperio uma republica, não
+dá ás palavras e ás cousas a mesma significação que nós lhes damos. As suas
+idéas estão sempre em manifesta contradição. Ha povos no Brazil, que podemos
+comparar a um collegio de rapazes a quem a palmatoria muitas vezes não faz
+conter nos limites da ordem.</p>
+
+<p>O que é facto inquestionavel, é que muito ha que dizer ainda a respeito do
+odio selvagem que aos portuguezes votam os brazileiros. A conveniencia mal
+entendida da maior parte dos portuguezes calar os soffrimentos recebidos no
+imperio, é em parte a origem de tantos males, que, divulgados, serviriam de
+correctivo salutar. O portuguez soffre ha seculos o barbarismo d'aquelle
+povo, e não só se resigna com o martyrio que lhe infligem, mas até procura
+viver no meio d'elle, pugnando ao mesmo tempo pela prosperidade d'um paiz tão
+despresado<span class="pagenum"><a id="pag_282"
+name="pag_282">[282]</a></span> pela maioria de seus naturaes. O francez, o
+inglez, o allemão que reside no Brazil, não tem rebuço em formular as suas
+queixas contra os indigenas. Estes colonos não são, comtudo, os que mais
+soffrem. A prudencia do portuguez chega ao ponto de dizer bem do imperio,
+pouco depois de haver recebido d'elle os mais acerbos desgostos. As excepções
+são rarissimas, e nós orgulhamo-nos de não pertencer á regra geral.</p>
+
+<p>Pouco tempo depois de havermos publicado as <i>Questões do Pará</i>
+recebemos uma carta de um subdito francez, nosso particular amigo, o qual foi
+muitos annos negociante no Pará, e ainda hoje pertence a uma firma
+respeitabilissima, que assim se expressa a respeito das verdades no mesmo
+livro contidas:</p>
+
+<p>«<i>Amigo</i>:&mdash;Tenho recebido os jornaes, que já emittiram opinião a
+respeito do seu livro. Admira-me que houvesse um<a name="tex2html63"
+href="#foot4304"><sup>[63]</sup></a> que o taxasse de exagerado,
+principalmente no que diz respeito ao caixeiro da casa ingleza. Bem se vê,
+que o jornalista conhece pouco o Pará. Vou contar-lhe alguns casos que alli
+se deram commigo.</p>
+
+<p>«Quando pela primeira vez appareceu a <i>febre amarella</i> na provincia
+do Pará, os habitantes da cidade de Cametá amedrontaram-se por tal fórma, que
+influiram com a camara municipal para que fosse collocada uma guarda na bocca
+do Tocantins, com o fim de não deixar passar os barcos e as canôas
+procedentes da cidade de Belem. Constando ao sub-delegado, que eu tinha
+mandado um bote ao Pará apresentar ao presidente da provincia uma queixa
+contra tão grande escandalo, expediu logo aquella auctoridade uma ordem de
+prisão contra mim. O delegado da policia, logo que soube do facto, mandou
+chamar o sub-delegado a quem perguntou o que havia feito, ao que respondeu
+confirmando o<span class="pagenum"><a id="pag_283"
+name="pag_283">[283]</a></span> mandado de prisão. Então aquella outra
+auctoridade policial lhe fez ver, que seria prudente cassar a ordem, quanto
+antes, dizendo que eu não era portuguez, mas sim francez, com que se podesse
+zombar. Sabe que fallei sempre perfeitamente o portuguez e d'ahi a illusão. O
+subdelegado foi logo a correr a fim de ver se era tempo de cassar a ordem de
+prisão, o que felizmente poude conseguir. Sabendo eu o occorido mandei logo
+outro bote ao Pará, com a noticia a meu..., o qual representou ao mesmo
+consul. Este apresentou-se ao presidente da provincia, na companhia do
+commandante d'um navio de guerra francez que então estacionava nas aguas do
+Pará. A auctoridade superior da provincia depois de ouvir attentamente o
+consul, disse que ia dar as suas ordens e que desde já lhe dava sua palavra
+de honra, que se eu estivesse preso, mandaria ir em ferros o subdelegado.
+Então o presidente fez um officio á camara municipal, ordenando-lhe em termos
+muito severos, que desse entrada franca ás embarcações do Pará e que não
+tornasse a acontecer outra similhante arbitrariedade. Este officio foi
+mandado distribuir depois de impresso, aos habitantes da cidade de Cametá!</p>
+
+<p>«Mas outro caso lhe vou contar. Sahia do porto do Pará uma escuna
+americana, que nos fora consignada. O capitão, por esquecimento, tinha
+deixado ficar a matricula no consulado. O consul pediu ao guarda-mór para
+fazer voltar a escuna. Este quiz primeiro consultar o presidente que ficou
+d'accordo. Passado uma hora, mandou-me o presidente chamar, e disse-me o
+seguinte:&mdash;«Mandei-o chamar, por que tenho estado a pensar no que acabei de
+fazer, que foi annuir a mandar chamar a escuna americana para receber os
+papeis que lhe esqueceram. Desejava saber o que pensa v. a tal respeito,
+porque estou a receiar de ter alguma responsabilidade n'este acto que acabo
+de praticar.» Respondi-lhe<span class="pagenum"><a id="pag_284"
+name="pag_284">[284]</a></span> que a responsabilidade era toda do consul,
+porquanto o navio tinha sido chamado a requesição sua. Esta resposta deixou o
+presidente muito satisfeito, porque dizia elle <i>que o ministerio brazileiro
+recommendava muito ás presidencias para não origínarem questões com as tres
+potencias</i>:&mdash;Estados-Unidos, Inglaterra e França! Isto que eu lhe digo é a
+pura verdade; mas com tudo ainda pode haver quem duvide, assim como duvidam
+do seu livro.» etc.</p>
+
+<p>Como se vê, estas tristes verdades depoem tanto contra a civilisação de um
+povo, que effectivamente é preciso estar prevenido para as acreditar.</p>
+
+<p>Ha tempo escreveu um correspondente do Pará para um jornal da capital<a
+name="tex2html64" href="#foot4305"><sup>[64]</sup></a>, o seguinte:&mdash;«O
+auctor das <i>Questões do Pará</i>, ou por não querer tornar o livro
+volumoso, <i>ou por ignorar muita cousa</i>, em razão de ter aqui residido
+pouco tempo, <i>diz muito menos do que podia e devia dizer</i>.»</p>
+
+<p>Valha-nos ao menos estas demonstrações sinceras dos que ainda soffrem.</p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>Um jornal paraense a&mdash;<i>Regeneração</i>&mdash;accusa-nos de calumniador das
+senhoras paraenses no que escrevemos em outro logar<a name="tex2html65"
+href="#foot4306"><sup>[65]</sup></a>. É uma falsidade o que se pertende
+affirmar com visos de verdade.</p>
+
+<p>Calumnia é o que segue, publicado na <i>Tribuna</i> do Pará:</p>
+
+<p>«<i>Que fecundidade espantosa!</i>&mdash;Na Correspondencia de Portugal,
+transcripta no <i>Diario de Belem</i> de 7 do mez passado, se lê esta
+noticia:</p>
+
+<p>«Foi publicado o relatorio da Santa Casa da Misericordia,<span
+class="pagenum"><a id="pag_285" name="pag_285">[285]</a></span> e por elle se
+vê que no fim do anno economico de 1872-1873, estavam a cargo da misericordia
+13:370 <i>expostos</i>, dos quaes apenas pouco mais de 100 na casa dos
+<i>expostos</i>.»</p>
+
+<p>«Com effeito, 13:370 <i>engeitados</i> no anno de 1873 estavam a cargo da
+misericordia de Portugal!</p>
+
+<p>«É mais um documento, que offerecemos aos nossos leitores, para com elle
+provarmos a perversidade de que é dotado o coração portuguez, que expõe os
+filhos á miseria, á desgraça e á morte!</p>
+
+<p>«Os povos barbaros por certo que não procedem com tanta deshumanidade para
+com os seus, como a raça portugueza procede para com os proprios filhos,
+negando-lhes um nome, e preferindo uma morte desgraçada, ou uma educação
+errante e infame, do que sugeitar-se á creação!</p>
+
+<p>«Mulheres malvadas, corruptas e endemoninhadas, ainda não conhecemos
+segundas! Soffram muito embora o rigor da miseria e da deshonra, mas por
+caridade, não exponham á morte os filhos, que não tem culpa da mais
+abominavel depravação.»</p>
+
+<p>O pobre redactor d'este jornal, ignora a razão porque em Portugal, e em
+quasi todos os paizes civilisados, as mulheres infelizes engeitam os filhos.
+Engeitam-os, porque... não são <i>escravas</i>, e porque não teem
+<i>senhores</i> que as deshonrem, com a mira no lucro proveniente da
+<i>cria</i>, que, como as bestas, devia ser posta em almoeda no mercado de
+carne humana!</p>
+
+<p>Cá, as mulheres illudidas, e não <i>malvadas</i>, <i>corruptas</i> e
+<i>endemoninhadas</i> escondem da familia o fructo da sua deshonra nos asylos
+que os previdentes governos instituem, a bem da humanidade e da moral
+publica.</p>
+
+<p>Lá, a escrava deshonrada e aquelle que a deshonrou, fazem gala da deshonra
+perante a familia que devia ignorar a infamia.</p>
+
+<p>Nós estivemos em casa de uma familia brazileira,<span class="pagenum"><a
+id="pag_286" name="pag_286">[286]</a></span> onde havia tres mulatas pejadas,
+que ostentavam diante de uma <i>sinhá e uma sinhasinha</i> o seu estado
+interessante; e ha quem diga que as ingenuas creanças não ignoravam que o seu
+proprio <i>papai</i> era o auctor dos futuros <i>moleques</i>!</p>
+
+<p>Mas ninguem ignora que no Brazil, dão-se casos d'estes aos milhares; e que
+as <i>sinhás</i> no meio d'esta escola immoralissima sabem os segredos mais
+intimos, que as proprias mulheres deshonradas, entre nós, ignoram muitas
+vezes.</p>
+
+<p>Á sociedade que, como a nossa, institue hospicios especiaes para os
+engeitados, chamam-lhe moralisada. Á que faz da casa de familia
+bordel-hospicio, chamam-lhe corrupta.</p>
+
+<p>Mas... passemos adiante, não vão para ali dizer, que a resposta ao imbecil
+que escreveu aquellas linhas, <i>antes das nossas injurias</i>, é
+represalia.</p>
+
+<p>O periodico citado dizia mais, «que havia dois principios que soffriam
+guerra de morte dos portuguezes no Brazil: um é a dignidade nacional, outro é
+a religião catholica e apostolica romana representada em seus ministros. O
+pamphleto do <i>Percheiro</i><a name="tex2html66"
+href="#foot4307"><sup>[66]</sup></a> põe isto á evidencia. Tal é o ponto de
+contacto que nos aproxima da <i>Tribuna, cujos excessos de linguagem estão
+plenamente justificados pelo atrevimento de Percheiro e seus adeptos</i><a
+name="tex2html67" href="#foot4308"><sup>[67]</sup></a>» etc.</p>
+
+<p>A quem tiver lido os <i>excessos de linguagem</i>, empregados por nós nas
+<i>Questões do Pará</i>, recommendamos este topico publicado na
+<i>Tribuna</i>, em 17 de novembro de 1874; isto é, no mesmo numero em que era
+insultada a officialidade da corveta <i>Sagres</i>; e, note-se bem, <i>quasi
+um anno</i> antes da publicação d'aquelle livro:</p>
+
+<p>«Cemiterio em Lisboa, 12 de outubro de 1874.<span class="pagenum"><a
+id="pag_287" name="pag_287">[287]</a></span></p>
+
+<p>«Miseravel Percheiro.</p>
+<hr class="dotted">
+<hr class="dotted">
+
+<p>«As tuas proezas e infamias teem echoado até n'esta fria morada dos
+mortos!</p>
+
+<p>«Estás pondo tudo em pratica, teus crimes e vicios, n'essa terra abençoada
+para onde fostes ganhar o pão... o pão para ti e <i>para tuas duas
+filhas</i>...</p>
+
+<p>«O que tens feito para essas infelizes? Nada! Fizeste-te <i>corretor de
+infamias</i>... apenas!</p>
+
+<p>«Julgava-te regenerado e enganei-me!</p>
+
+<p>«Julgava que teu coração de marmore ou de sangrento tigre tivesse sido
+tocado pelas lagrimas ardentes d'essas duas innocentes, de quem és,
+desgraçadamente, pae!</p>
+
+<p>«Julgava que ao pungir ferrenho do remorso, tu te houvesses abraçado ao pé
+da cruz da Redempção! e envolto no lábaro sagrado do arrependimento,
+banhasses a fronte maldita nas aguas lustraes da salvação!</p>
+
+<p>«Julgava que, na terra hospitaleira da Santa Cruz, tu te tivesses tornado
+homem de bem... enganei-me... hoje como outr'ora és o mesmo, sempre
+<i>ladrão</i>, sempre <i>assassino</i>! és maldito!</p>
+
+<p>«Sim, <i>assassino</i>!</p>
+
+<p>«Tu fizeste por longos annos a desgraça da vida feliz que
+consagrei-te&mdash;perante o altar do Senhor:</p>
+
+<p>«Fizeste-me derramar lagrimas de sangue á toda a hora do dia e da noite em
+quanto folgavas no deboche e no jogo.</p>
+
+<p>«Sacrificastes durante minha existencia os deveres, que a nossa união
+sagrada te impozera, e sacrificaste-os aos pés das mais torpes meretrizes nos
+antros da crapula, nas urgias.</p>
+
+<p>«Converteste cada momento de minha existencia em seculos de martyrios
+insanos, até esse momento em que quizeste pôr termo aos meus soffrimentos;
+até esse momento<span class="pagenum"><a id="pag_288"
+name="pag_288">[288]</a></span> em que, barbaro, arrancaste dos meus braços
+minhas e tuas filhas; até esse momento em que finalmente... me
+assassinaste!</p>
+
+<p>«Assassino!... tuas filhas e meu sangue innocente em que ensopaste as
+mãos, são os remorsos vivos que sempre te hão de perseguir, quer durmas, quer
+véles e eu te juro, que d'aqui mesmo, d'esta campa aberta por tuas proprias
+mãos, te farei sentir que não me esqueço de ti... assassino! e de tuas
+infamias...</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Generosos brazileiros! uma esmola pelo amor de Deus para as filhas do
+<i>corrector de infamias</i> Percheiro, que morrem á fome em Lisboa!</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Adeus! recebe a maldição d'aquella que entre os vivos foi&mdash;</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Tua esposa</i>...»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Agora digam-nos, se depois de devassado o tumulo e desrespeitada a nossa
+dôr, a mais profunda que havemos soffrido, em 35 annos d'uma existencia
+attribuladissima, e, por mercê de Deus, honrada; haverá quem, com justiça,
+possa dizer, que <i>os excessos de linguagem da «Tribuna» estão plenamente
+justificados pelo atrevimento</i> de havermos publicado as <i>Questões</i>...
+um anno depois de tanta infamia?!</p>
+
+<p>Ah! como sois inconsequentes!</p>
+
+<p>Depois do nosso livro, é que o governo brazileiro se lembrou de comprar a
+consciencia do capitão Nery. Pena foi que essa transacção se não <i>fizesse
+antes</i> de <i>começar a tragedia do Pará</i>. Preferiamos isso á gloria que
+nos assiste de havermos contribuido, <i>com os nossos excessos</i>, para a
+pacificação dos animos em tão uberrima provincia.</p>
+
+<p>E olhae que vos não pedimos mais do que a continuação<span
+class="pagenum"><a id="pag_289" name="pag_289">[289]</a></span> do vosso
+desprezo, em paga do nosso serviço, ó illustres optimistas!</p>
+
+<p>Se á vil calumnia e á detracção raivosa, não póde escapar quem diz
+verdades, não deve esperar recompensa dos homens quem pratica o summo
+bem.<span class="pagenum"><a id="pag_290" name="pag_290">[290]</a></span></p>
+
+<h1>CAPITULO VIII</h1>
+
+<div class="sinopse">
+<a name="SECTION0080001">O julgamento dos assassinos dos portuguezes em
+Jurupary. O tribunal da primeira instancia em Chaves e o da Relação no Pará.
+Desenlace providencial contra decisões horrorosas dos tribunaes brazileiros.
+Processo contra Marcelino Nery. Pasquins da «Tribuna» antes e depois da
+condemnação. Novos pasquins em 1876 chamando ás armas contra os portuguezes.
+O clero accusado de cumplice dos pasquineiros. Um portuguez condemnado
+irrisoriamente por um tribunal da primeira instancia e absolvido depois pela
+Relação no Pará. A diplomacia portugueza e a condemnação á morte de um
+portuguez na Bahia. Um benemerito defensor do portuguez.</a></div>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Na sessão do jury do termo de Chaves, comarca de Marajó, inaugurada em 24
+e encerrada em 28 de agosto de 1875, foram julgados Severo Antonio de Farias,
+José Antonio de Magalhães, Bertholdo José Florindo, Manuel Ricardo de Faria,
+Americo Valentim Barbosa e Pedro Augusto Cardoso, auctores e cumplices do
+assassinato na ilha do Jurupary, em a noite de 6 de setembro de 1874, dos
+desventurados subditos portuguezes Zeferino Manuel Pereira de Araujo e José
+Antonio Pereira Rodrigues. Severo Farias e José de Magalhães foram
+condemnados no gráu maximo do artigo 271 do codigo criminal, pena de morte; e
+Manuel de Faria e Bertholdo Florindo, incursos no art. 35 do mesmo codigo, 13
+annos de galés; Americo Barbosa e Pedro Cardoso foram absolvidos.<span
+class="pagenum"><a id="pag_291" name="pag_291">[291]</a></span></p>
+
+<p>O presidente do jury, obedecendo ao preceito do art. 79 § 2; da lei de 3
+de dezembro de 1841, appellou do <i>veredictum</i> do jury para o tribunal da
+Relação do Pará.</p>
+
+<p>Presidiu o jury o dr. juiz municipal e de orphãos do termo de Soure,
+Raymundo Theotonio de Brito, 1.º supplente do juizo de direito da comarca de
+Marajó, e um dos illustrados membros da magistratura brazileira. Serviu de
+promotor publico o cidadão João Anselmo Pacifico de Cantuaria e de escrivão o
+serventuario vitalicio Manuel Pio de Sousa e Silva.</p>
+
+<p>A sessão começou ás 10 horas da manhã de 25 e terminou no dia seguinte ás
+8.</p>
+
+<p>Não se tendo apresentado defensor aos reus, o presidente do tribunal
+nomeára para este fim o cidadão Emygdio Antonio Coelho.</p>
+
+<p>Foi isto pouco mais ou menos o que nos transmittiu o <i>Diario de
+Belem</i>, do Pará.</p>
+
+<p>Agora algumas palavras nossas para illucidar os leitores sobre o assumpto.
+</p>
+
+<p>Severo Antonio de Farias, Americo Valentim Barbosa e José Antonio de
+Magalhães foram assim pronunciados pelo chefe de policia:</p>
+
+<p>«Considerando que a confissão dos reus, sendo como foi espontanea, sem
+constrangimento algum, clara, e de harmonia com o mais constante dos autos,
+prova o delicto nos termos do artigo 94 do codigo do processo criminal,
+etc.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Considerando portanto, que para verificação do roubo foi que se
+commetteram os homicidios, é fóra de duvida que os tres reus mencionados
+praticaram o crime previsto no art. 271 do codigo criminal.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Em vista do exposto, pronuncio os tres primeiramente<span
+class="pagenum"><a id="pag_292" name="pag_292">[292]</a></span> indicados,
+como incursos no artigo 271 com referencia ao artigo 269 do cod. crim.<a
+name="tex2html68" href="#foot4309"><sup>[68]</sup></a>» etc.</p>
+
+<p>Ouçamos agora a confissão de Americo Valentim Barbosa:</p>
+
+<p>«Perguntado seu nome, idade, naturalidade, etc.</p>
+
+<p>«Respondeu chamar-se Americo Valentim Barbosa, de 26 annos de idade,
+solteiro, natural d'esta provincia (Pará), sapateiro, residente no districto
+de Affuá, e que não sabia lêr nem escrever.</p>
+
+<p>«Perguntado se no dia 6 de setembro esteve na ilha de Jurupary em
+companhia de Severo e de José Magalhães e o que ali fizeram?</p>
+
+<p>«Respondeu que, estando em casa de Manuel Ricardo na ilha dos Porquinhos,
+foi notificado pelo inspector do quarteirão Severo Antonio de Farias para uma
+diligencia que elle interrogado ignorava, e obedecendo á intimação embarcou
+em uma canôa de Coelho juntamente com Severo e José de Magalhães, conhecido
+por <i>calangro</i>, e em caminho no largo avisaram a elle interrogado que a
+diligencia consistia em matar e roubar os negociantes portuguezes Zeferino e
+seu socio, estabelecidos na ilha de Jerupary, para onde seguiram, visto como
+elle interrogado não pôde mais fugir(!). Disse mais que ali chegando, foram a
+casa dos mencionados portuguezes e depois de beberem vinho sem a menor
+alteração e traiçoeiramente esfaquearam aquelles portuguezes, um dos quaes,
+de nome Zeferino, ainda usando de uma arma, disparou n'elle interrogado<a
+name="tex2html69" href="#foot2682"><sup>[69]</sup></a>» etc.</p>
+
+<p>Este réo considerado como auctor, pelo juiz formador do processo, por isso
+que as provas o fazem incurso no artigo 271 com referencia ao artigo 269 do
+cod. crim., foi absolvido pelo jury de Chaves!<span class="pagenum"><a
+id="pag_293" name="pag_293">[293]</a></span></p>
+
+<p>Não fallaremos mais de Severo e Magalhães, visto que estes réos foram
+julgados segundo as leis que regulam a justiça.</p>
+
+<p>Tratemos, pois, de Manuel Ricardo de Farias e Bertholdo José Florindo,
+condemnados a 13 annos de prisão.</p>
+
+<p>«Considerando ainda, falla o chefe da policia na pronuncia, que o réo
+Bertholdo José Florindo tinha occultos em sua casa, e no matto visinho a
+elle, varios objectos roubados, como se vê do auto de busca a folhas vinte
+tres, não ignorando que foram obtidos criminosamente, tanto que os escondeu,
+manifestando por esta fórma sua má fé e cumplicidade em um delicto tão
+grave;</p>
+
+<p>«Considerando que o mesmo Bertholdo confessa em seu interrogatorio a
+folhas setenta e uma, e auto de perguntas a folhas vinte, corroborado pela
+declaração de sua mulher, a folhas dezoito, que alguns d'aquelles objectos
+lhe foram offerecidos por Americo, e outros, elle os entregou para guardar,
+pedindo-lhe que não descubrisse que elle havia commettido os crimes de
+Jurupary, e nem que se achava occulto ou homiciado na ilha dos Porquinhos;</p>
+
+<p>«Considerando, portanto, que o reo Bertholdo não só recebeu como occultou
+objectos que sabia serem roubados, como confessou;</p>
+
+<p>«Considerando que em casa do réo Manuel Ricardo de Farias tambem foi
+encontrada parte dos objectos apprehendidos, como se vê a folhas vinte e
+tres, além de que deu asylo em casa ao <i>homicida</i> Americo, sabendo dos
+crimes que elle havia commettido, como se vê a folhas trinta e duas da sua
+propria declaração, impedindo ainda que Americo se entregasse á prisão, como
+se vê a folhas trinta e uma, o que tudo bem mostra sua manifesta
+cumplicidade;</p>
+
+<p>«Considerando ainda que o réo Manuel Ricardo Farias<span
+class="pagenum"><a id="pag_294" name="pag_294">[294]</a></span> em companhia
+do proprio <i>assassino</i> Americo fôra occultar parte dos objectos, que
+conservava na visinhança de casa, no igarapé Chato, para que se tornasse
+impossivel descobril-os, folhas trinta e dois v.» etc.</p>
+
+<p>Acabamos de ver que Manuel Farias e Bertholdo Florindo não são mais do que
+cumplices dos tres auctores do crime praticado contra os dois infelizes
+portuguezes. As suas proprias declarações estão d'accordo com o depoimento
+das testemunhas e com a confissão dos assassinos.</p>
+
+<p>Não ha provas de que estes desgraçados acompanhassem na expedição a
+Jurupary os tres réos Severo, Magalhães e Americo.</p>
+
+<p>Como é então que o jury, sendo justo na classificação do
+crime&mdash;cumplicidade&mdash;em que achou incursos os réos M. Farias e B. Florindo,
+absolve Americo, que, com quanto o não quizessem classificar de assassino,
+visto que lhe foi acceita a confissão de ter sido <i>obrigado</i> a matar os
+portuguezes, é inquestionavelmente mais cumplice do que aquelles, se
+attendermos a que Americo acompanhou a Jurupary os reus Severo e Magalhães,
+em quanto que Farias e Florindo estavam em casa á espera do resultado da
+empreza de matar os portuguezes?!</p>
+
+<p>É que o jury attendeu á circumstancia <i>muito</i> plausivel de Americo
+ter sido o alvo escolhido pelo infeliz portuguez Zeferino, que, quasi
+exanime, teve a força precisa para disparar a arma contra o seu matador! O
+tiro não acertou, mas o pobre Americo ficou atordoado, e o jury levou-lhe
+esta attenuante á conta da sua absolvição!</p>
+
+<p>Pedro Augusto Cardoso estava incurso no artigo duzentos setenta e um do
+codigo criminal, contra o qual existem no processo todas as provas da sua
+cumplicidade. Comtudo a verdade deve dizer-se: Cardoso é o<span
+class="pagenum"><a id="pag_295" name="pag_295">[295]</a></span> menos
+cumplice; mas o jury igualou-a a Americo, absolvendo-o!</p>
+
+<p>A toda esta mascarada dizia uma folha da capital:<a name="tex2html70"
+href="#foot431"><sup>[70]</sup></a></p>
+
+<p>«A desafronta foi plena e terrivel!»</p>
+
+<p>E o juiz que presidiu ao jury, como vimos no começo d'este artigo,
+appellou da decisão arbitraria, e o tribunal da Relação do Pará impoz aos
+cumplices que o jury absolvera, a pena de treze annos de prisão com
+trabalhos!</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Com a epygraphe <i>Tribunaes brazileiros</i> publicamos nas <i>Questões do
+Pará</i> o seguinte:</p>
+
+<p>«No interior campêa a immoralidade a tal ponto, preparam a
+<i>nacionalisação do commercio a retalho</i> por tal fórma, que causa horror
+pensar em semelhante labyrintho.</p>
+
+<p>«João Lopes d'Oliveira e seu irmão Narciso, moços portuguezes,
+commerciantes, foram accusados de ter assassinado um <i>cabouco</i>, com dois
+tiros de espingarda, na comarca de Serpa (no Amazonas).</p>
+
+<p>«Instaurou-se-lhes o competente processo, e chamados a julgamento, o jury
+condenou-os na pena de galés perpetuas.</p>
+
+<p>«A base para tal condemnação foi terem deposto 16 ou 18 testemunhas, que,
+por unanimidade, <i>confirmaram</i> o crime dos accusados, simplesmente por
+terem <i>ouvido dizer</i>, que aquelles portuguezes tinham assassinado o seu
+compatriota brazileiro!</p>
+
+<p>«Não ha só uma testemunha de vista.</p>
+
+<p>«A decisão do jury foi annullada pelo tribunal superior, que mandou reunir
+novos jurados. Reunidos estes a decisão foi em tudo igual á primeira!!!<span
+class="pagenum"><a id="pag_296" name="pag_296">[296]</a></span></p>
+
+<p>«Esta causa está affecta ao tribunal superior, que decidirá sobre tão
+grave occorrencia; por isso reservar-me-hei para mais tarde dizer as ultimas
+palavras sobre esta questão...»</p>
+
+<p>É chegada a occasião de cumprirmos a nossa promessa.</p>
+
+<p>Ultimamente o verdadeiro assassino do <i>cabouco</i>, minado talvez pelos
+remorsos, e sentindo apertar-lhe a garganta a mão fria e descarnada da morte,
+chamou um padre que o ouvisse de confissão, e declarou-lhe o seu crime. O
+assassinado era compatriota do assassino. Morto o miseravel, o confessor,
+cumprindo um dos sagrados deveres do seu ministerio, communicou este
+acontecimento ás justiças brazileiras, que, a final se resolveram a por em
+liberdade os dois innocentes portuguezes, que ha dois annos estavam
+presos!</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Poucos dias antes da nossa retirada do Pará, julgára-se em primeira
+instancia o processo por injurias publicadas na <i>Tribuna</i> paraense, em
+que figuravam como auctor o negociante portuguez, Manuel Augusto Valente
+d'Andrade e réu, o capitão do exercito brazileiro, Marcellino Nery,
+proprietario d'aquelle pasquim e já bastante conhecido dos leitores.</p>
+
+<p>O juiz de direito, doutor Quintino, sentenciára o infame pamphletario a
+quatro mezes de prisão.</p>
+
+<p>Tinha o heroe do <i>commercio a retalho</i>, publicado, além d'outros
+epithetos injuriosos contra o commerciante Andrade, o de ladrão, moedeiro
+falso, assassino, etc.; injurias que sustentára, sem provas, em pleno
+tribunal, tendo antes allegado, para esquivar-se ao julgamento, a
+incompetencia do juizo, que não lhe foi aceite.</p>
+
+<p>Mas suppunha-se que o processo seria annullado pelo<span
+class="pagenum"><a id="pag_297" name="pag_297">[297]</a></span> tribunal
+superior, para onde, segundo o direito que lhe conferiam as leis, ia appellar
+o condemnado, como effectivamente appellou. Portanto, em vista d'este
+recurso, podia o pasquineiro passear livremente por alguns mezes na presença
+dos injuriados e o seu periodico continuaria a insultar os caracteres mais
+probos residentes na provincia. Foi justamente o que aconteceu, porque a
+Relação poz uma pedra em cima do processo.</p>
+
+<p>Mas antes d'isso os interessados pelo credito do Brazil, se não o proprio
+governo do imperio, faziam espalhar por todo o mundo, a noticia da suspensão
+do pasquim incendiario e a condemnação do seu proprietario. A nossa imprensa
+então exultou de alegria por tão fausta nova, que era quasi que como uma
+satisfação devida pelo Brazil ao velho Portugal insultado.</p>
+
+<p>Porém, era tudo uma ficção. A <i>Tríbuna</i> continuava com os seus
+improperios, rindo-se do magistrado que no Pará tem sabido fulminar o clero
+irrascivel, e, ainda que com menos exito, os <i>tribunos</i> descomedidos. E
+desgraçadamente o cabo submarino estava n'esse tempo interrompido entre o
+Pará e Pernambuco e nós não podiamos dizer á Europa que tinha sido mais uma
+vez ludibriada a justiça.</p>
+
+<p>Passaram-se seis mezes de provações, até que a Relação accordou do
+lethargo em que parecia envolta, e no dia 9 de julho de 1876, confirmou a
+sentença da primeira instancia. A este caso applicaremos aqui, para honra e
+gloria d'aquelle tribunal, o seguinte annexim popular:&mdash;<i>Mais vale tarde do
+que nunca</i>.</p>
+
+<p>O testa de ferro do conego Sequeira Mendes, queixava-se de que a Relação
+não soubera <i>limpar o escarro que Percheiro lhe imprimira nas faces</i>,
+querendo fazer suppor aos incautos, que fôra devido ao nosso livro a
+confirmação da sentença; mas cremos que é mais uma<span class="pagenum"><a
+id="pag_298" name="pag_298">[298]</a></span> injustiça irrogada aos anciãos,
+que decidiram contra a causa dos communistas.</p>
+
+<p>Esclareçamos este negocio da mais alta transcendencia para os nossos
+compatriotas residentes no imperio e quiçá do proprio Portugal, no intuito de
+apresentarmos ao nosso publico dois documentos curiosissimos, que mais tarde
+hão de fazer parte da historia do Brazil. Mas antes de transcrevel-os é
+preciso prevenir os leitores contra as phrases n'elles contidas, em que se
+accusam <i>manifestas nullidades do processo</i> ou <i>ultrages contra
+manifestas disposições da lei, por suppostas injurias</i> publicadas na
+<i>Tribuna</i> paraense contra o portuguez Andrade, phrases mentidas, alli
+postas com o fim de illudir os incautos, as quaes já mais poderão desmentir
+as provas constantes no processo. O que se allegava, repetimos, era unica e
+simplesmente a incompetencia do juizo. O réu não queria ser julgado pelo juiz
+do 2.º districto criminal (Quintino) e sim pelo do 1.º (Meira de
+Vasconcellos). O homem lá tinha as suas razões...</p>
+
+<p>Um dia antes da confirmação da sentença, distribuia-se na praça publica,
+em avulsos, o seguinte aviso, que é d'uma ingenuidade a toda a prova, para
+não dizermos outra cousa:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">AO BRIOSO POVO BRASILEIRO</p>
+
+<p>«Prevenimos aos nossos dignos compatriotas, que, em sessão de 6 do
+corrente do Egrégio Tribunal da Relação, foi marcado o primeiro dia util, que
+é ámanhã, sexta-feira (9 de julho de 1875) para o julgamento de appellação
+que para o mesmo tribunal fizera o sr. capitão Marcellino Nery, do processo
+de responsabilidade de imprensa, que lhe movera o portuguez Manuel Augusto
+Valente de Andrade.</p>
+
+<p>«Confiamos sobremaneira nos venerandos desembargadores do Tribunal da
+Relação, que perante as manifestas<span class="pagenum"><a id="pag_299"
+name="pag_299">[299]</a></span> nullidades do processo, não farão mais do que
+justiça.</p>
+
+<p>«O povo brazileiro deve correr a essa sessão, para com a sua presença
+assistir ao julgamento de appellação d'um brazileiro digno processado
+infelizmente por um audacioso portuguez.</p>
+
+<p>«Haja mais amor e patriotismo entre os brazileiros e corramos a assistir á
+sessão do julgamento, ámanhã ás 11 horas da manhã.»</p>
+
+<p>Esta ordem dada aos adeptos do communismo no Pará, surtira optimo effeito;
+porque, segundo fomos informado, o recinto do tribunal enchera-se de
+curiosos, mais ou menos interessados no assumpto, que havia de ser decidido
+n'aquelle dia. E, ainda uma vez para honra do tribunal da Relação do Pará,
+devemos dizer, que a multidão de <i>tribunos</i> alli reunida, com o estudado
+fim de impôr medo, não produziu o effeito desejado, por quanto, os juizes se
+elevaram á altura dos seus deveres.</p>
+
+<p>Nós somos justo, e por isso, quando se nos proporcione o ensejo, havemos
+de dar a Cezar o que é de Cezar.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Registemos agora o segundo documento.</p>
+
+<p>Vae fallar o representante, <i>in nomine</i>, do papel incendiario, em
+avulsos distribuidos com profusão pelas ruas do Pará, poucas horas depois da
+sua condemnação, á luz do dia, na presença das auctoridades, em pleno seculo
+19.º:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">PROTESTO</p>
+
+<p>«Hontem a <i>Tribuna</i> fez circular um avulso em que vinha o recurso,
+feito por meu illustre advogado á Relação do districto, da sentença contra
+mim proferida<span class="pagenum"><a id="pag_300"
+name="pag_300">[300]</a></span> pelo juiz de direito bacharel Quintino,
+procedido d'um artigo que assim começava:</p>
+
+<p>«Hoje terá logar o julgamento do processo, em grau de appellação,
+promovido contra o nosso prestimoso amigo capitão Nery, por um vilissimo
+portuguez e por suppostas injurias publicadas na <i>Tribuna</i> ácerca d'um
+irmão do auctor que se acha em Portugal.</p>
+
+<p>«Esse processo, que é um montão de ultrages contra manifestas disposições
+da lei, estamos intimamente convencidos que cahirá ante a indefectivel
+justiça dos provectos e venerandos juizes, que o tem de julgar.</p>
+
+<p>«Essas nullidades immoraes não resistirão á sabedoria do Egregio Tribunal
+da Relação, unico baluarte erguido entre a lei e o arbitrio, entre a moral e
+a corrupção, entre os potentados do dinheiro e os que soffrem fome e sêde de
+justiça na sociedade paraense.»</p>
+
+<p>«Quanto se enganou a redacção da <i>Tribuna</i>!</p>
+
+<p>«O julgamento teve com effeito logar, e aquella monstruosidade juridica,
+que dá a mais triste cópia da <i>moralidade</i>, <i>justiça</i> e
+<i>conhecimentos</i> theoricos e praticos do <i>jurisconsulto</i> formador do
+processo e culpa, resistiu á <i>sabedoria</i> dos <i>provectos</i> juizes!</p>
+
+<p>«Hoje deve a sociedade paraense estar desenganada, pois que a lei entre
+nós não tem sacerdotes, mas sim, com honrosas excepções, vis
+mercenarios...</p>
+
+<p>«Entre o direito e o arbitrio, entre a moral e a depravação, entre a
+prepotencia e os que soffrem fome de justiça não existe barreira, por isso
+que até na Relação esses principios oppostos confundem-se e acima de todos os
+preceitos da lei alli se eleva a subserviencia, a paixão mesquinha e a
+vingança miseravel!</p>
+
+<p>«Que desgraçado espectaculo!</p>
+
+<p>«Apezar de todas as nullidades e absurdos a pronuncia foi sustentada!</p>
+
+<p>«Até onde te quererão arrastar, oh! minha querida terra!<span
+class="pagenum"><a id="pag_301" name="pag_301">[301]</a></span></p>
+
+<p>«Desgraçados! não veem que cada um d'esses actos, que só tem qualificativo
+na brutalidade dos juizes selvaticamente iniquios, é um barril de petroleo
+com que alimentam um incendio sinistro!...</p>
+
+<p>«Jámais me persuadi, que magistrados encanecidos no serviço da justiça e
+collocados n'uma posição independente tivessem a inaudita leviandade de
+renunciar a dignidade e a consideração publica e manchassem as mãos n'uma
+sentença odiosa, que os submette á indignação do povo, porque este vê n'essas
+togas, maculas hediondas...</p>
+
+<p>«Inspirados por paixões ruins não mediram o alcance da sancção que
+proferiam a um escandalo impudente!...</p>
+
+<p>«O juiz que põe a preço a consciencia é tão prejudicial ou peior ainda que
+ladrão de estrada...</p>
+
+<p>«Demais, a corrupção que désce dos tribunaes para o seio do povo é mais
+perigosa ainda que o odio que ferve na immensa caldeira aos gritos da
+<i>populaça</i> espalhada pelas praças publicas.</p>
+
+<p>«São os espectaculos repugnantes, que os magistrados offerecem ao
+desespero do povo, que forçam ao povo a pôr em scena tragedias de
+sangue...</p>
+
+<p>«Estas considerações, porém, não couberam na comprehensão d'aquelles, que
+por uma sentença immoral <i>legalisaram</i> um ultrage vergonhosissimo feito
+á justiça e ás expressas disposições da lei!</p>
+
+<p>«Assim, pois, ninguem póde mais contar com a lei nem com a justiça n'esta
+terra!! a depravação está superior a tudo!!</p>
+
+<p>«E, que coincidencia singular! no mesmo dia e no mesmo logar em que
+immoralmente saltava-se por sobre a lei para ferir-me como victima d'uma
+imprensa livre e independente (sic), era tambem desmoralisado o acto d'um
+juiz, cuja beca jámais se emporcalhou no charco immundo em que tripudiara o
+ex-juiz de Bragança,<span class="pagenum"><a id="pag_302"
+name="pag_302">[302]</a></span> onde miseravelmente prostituiu uma infeliz,
+cuja cegueira não impediu o libinidinoso monstro, apparentado d'um faccinora,
+e que com exemplos abominandos estimula a perversidade de dous filhos
+libertinos, bebados e jogadores.</p>
+
+<p>«Sim! no mesmo dia e logar em que sem o minimo respeito nem ao publico nem
+ao veneravel presidente do tribunal, o hospede d'um ladrão da praça applaudia
+e secundava a odienta e crapulosa opinião d'um gratuito e vilissimo inimigo,
+ha pouco tempo fornecedor de artigos para o meu periodico, n'esse mesmo dia o
+sr. dr. Meira de Vasconcellos (sic) era estupidamente ludibriado pelos
+vendilhões da lei, por tógas com <i>honras</i> de <small>LIBRÉ</small> da
+casa Mauá e dos <i>nobres</i> <small>LATROCRATAS</small> da praça do Pará (Os
+portuguezes).</p>
+
+<p>«Debalde procuram limpar o escarro que Percheiro imprimia-lhes nas faces
+impudentes!...<a name="tex2html71" href="#foot2738"><sup>[71]</sup></a></p>
+
+<p>«Confesso pia e publicamente que até o ultimo instante nunca me faltou a
+confiança em semelhantes juizes, pois nunca, até então, nem havia atravessado
+o pensamento a idéa de que elles desceriam a tamanha abjecção... (de
+condemnar pela primeira vez o infame... depois da publicação das
+<i>Questões</i>!).</p>
+
+<p>«Animou-me sempre a esperança de encontrar na Relação provectos e
+venerandos apostolos da justiça; enganei-me, porém, e enganei-me
+redondamente: alli a especulação é a lei, a depravação um culto exercido ha
+longos annos.</p>
+
+<p>«Já houve quem dissesse que o ladrão é mais nobre ainda que o juiz
+mercenario; porque aquelle arrisca a vida, e este põe em risco a vida dos que
+julga e a propriedade dos que ficam por julgar.</p>
+
+<p>«Na realidade assim é.<span class="pagenum"><a id="pag_303"
+name="pag_303">[303]</a></span></p>
+
+<p>«Por Deus! quando me chegou a noticia d'essa decisão degradante, que
+annulla todo o respeito e consideração, devidas a juizes probos, tive impetos
+de entrar n'aquelle templo, desgraçadamente profano, e correr a vergalho
+esses mercenarios, que o transformam em scenario de comedias obscenas,
+desempenhadas por ciganos...</p>
+
+<p>«Ordens arbitrarias não se cumprem; no entretanto cumprem-se sentenças
+absurdas e brutaes!...</p>
+
+<p>«Rasguem, bohemios, raça nomada! rasguem a lei, mas rasguem que o povo
+veja! rasguem, mas não mintam! rasguem, mas rasguem em publico, e toquem fogo
+nas tiras e com ella, vão por ahi além em busca de dinheiro, ou de
+vergonha!... Rasguem, que ella para nada serve, rolando sob vossos pés!...
+Rasguem, mas que o povo veja!...</p>
+
+<p>«A <i>Tribuna</i> é communista!</p>
+
+<p>«Ai! dos mercenarios se ella o fosse (sic).</p>
+
+<p>«Está lavrada a sentença?</p>
+
+<p>«Pois bem! vou cumpril-a e com coragem e orgulho, porque taes miserias não
+abatem o homem de bem; ao contrario cria-lhes sympathias, ao passo que cobrem
+de infamia e opprobrio aquelles que as proferem.</p>
+
+<p>«Querem matar a <i>Tribuna</i>?!</p>
+
+<p>«Pois não! todo o dinheiro, que ahi por ventura corra, é pouco, e sois
+pequenos demais!... ella continuará sempre; e quando acaso venha a succumbir
+na lucta, a idéa resistirá, e de suas cinzas surgirá a revolução do nobre
+pensamento que pleiteamos, eu e meus amigos, na imprensa do Pará.</p>
+
+<p>«O que a <i>Tribuna</i> tem escripto, o que hontem escreveu, o que
+continuar a escrever, é todo para a historia, para cuja justiça eu appello,
+instruindo o meu appello com a sentença que meus inimigos (os portuguezes)
+compraram a um tribunal de meu paiz e contra<span class="pagenum"><a
+id="pag_304" name="pag_304">[304]</a></span> a qual servirá este de protesto
+solemne, pois protesto soberanamente contra tamanha iniquidade e formidavel
+objecção.<a name="tex2html72" href="#foot2745"><sup>[72]</sup></a>»</p>
+
+<p>O celebre dr. Samuel Mac-Dowal, (redactor da <i>Regeneração</i>), foi o
+advogado do réu. E quem fez o protesto que para ahi deixamos transcripto, e
+que o intelligente capitão assignou de cruz, o qual, diga-se a verdade, faria
+chorar as pedras, se as pedras podessem vêr as lagrimas do crocodilo
+paraense, foi tambem o sr. Samuel, orador da associação catholica e acerrimo
+defensor dos jesuitas do Pará!<a name="tex2html73"
+href="#foot2747"><sup>[73]</sup></a></p>
+
+<p>Mas não obstante a condemnação a <i>Tribuna</i> continuava a publicar-se e
+a dirigir os mesmos insultos á colonia portugueza e aos tribunaes; e na testa
+do pasquim figurava ainda como responsavel o mesmo Marcellino Nery, capitão
+do exercito. As auctoridades cruzavam os braços, sem terem força para
+repellir os insultos dos pasquineiros, que, julgando-se mais fortes,
+preparavam scenas peiores do que as presenceadas por nós em fevereiro de 1872
+e setembro de 1874. E o clero parece que lhe não era estranho.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>O <i>Diario de Belem</i>, accusado de defensor do bispo D. Antonio e do
+seu clero, e portanto, insuspeito na questão gravissima, que de novo se
+levantava contra a colonia portugueza residente no Pará, assim fallava em 30
+de maio de 1876, a respeito de uns pasquins destribuidos por este tempo na
+cidade de Belem, chamando o povo á revolta contra os colonos:<span
+class="pagenum"><a id="pag_305" name="pag_305">[305]</a></span></p>
+
+<p>«A ordem publica póde achar-se compromettida de um dia para o outro, se a
+policia continuar o somno de indifferença em que se refocilla: com o fogo não
+se brinca.</p>
+
+<p>«Na semana ultima quasi não houve dia em que se não derramassem no seio
+d'esta capital os mais asquerosos pasquins, primando uns pela descarada
+impudicicia que ostentam, emquanto proclamam outros o assassinato em massa
+dos portuguezes e dos mações.</p>
+
+<p>«Se não acreditamos, com o <i>Liberal</i> e com a <i>Provincia</i>, que
+para estygmatisar tão grandes monstruosidades, seja necessario dar-lhes
+<i>curso forçado</i> estampando-os nas columnas da imprensa diaria para
+estender a sua circulação e perpetuar a nossa vergonha, é do nosso primeiro
+dever perguntar á policia se&mdash;de <i>tantos pasquins que se distribuiam até no
+theatro e no largo da Cathedral</i> (!) conforme nos asseguram pessoas de
+confiança, se de um só não pôde descobrir os auctores ou distribuidores? É
+muita cegueira!</p>
+
+<p>«Não vamos até ao ponto de fazer insinuações<a name="tex2html74"
+href="#foot2756"><sup>[74]</sup></a>; mas da natureza d'esses documentos, dos
+interesses que elles procuram servir, da linguagem que empregam, de tudo isto
+se manifesta que não teria a policia grande trabalho para conhecer-lhes a
+procedencia.</p>
+
+<p>«São publicações essas, prohibidas pelas nossas leis e constituem crimes
+policiaes ao alcance e da esphera da policia. O que faz portanto o sr. dr.
+chefe da policia, magistrado aliaz sizudo e circumspecto?</p>
+
+<p>«Não queremos especular com assumptos d'esta natureza, nem é nosso intuito
+doestar pura e simplesmente ao honrado sr. Caldas Barreto, ou fazer
+insinuações desairosas a este ou aquelle individuo; mas só cegos não verão
+que esse que corre estampado nas columnas do <i>Liberal</i> e da
+<i>Provincia</i>, traz bem caracterizada a linguagem da <i>Tribuna</i> e
+nutre os mesmos intuitos...<span class="pagenum"><a id="pag_306"
+name="pag_306">[306]</a></span></p>
+
+<p>«Estude-se depois o caracter d'essa impressão, compare-se-a com a dos
+differentes jornaes que se publicam n'esta capital, e se reconhecerá que o
+typo é o mesmo que servio em alguns editaes das juntas da qualificação!<a
+name="tex2html75" href="#foot4311"><sup>[75]</sup></a></p>
+
+<p>«Nós chamamos pois a attenção da policia para estes pasquins, que formigam
+principalmente no theatro, onde se presume que a policia está, sempre que ha
+representações.</p>
+
+<p>«Queremos ser hoje, como sempre, justo. E pois nos dirigimos á policia,
+concitando-a para que interrompa o somno que a prostra desde tanto tempo e
+vele pela ordem publica, que ahi anda á matroca e á mercê dos interesses de
+occasião.</p>
+
+<p>«Temos a maior sympathia pelo sr. Caldas Barreto; mas fazemos do dever uma
+religião, e elle antes de tudo.</p>
+
+<p>«Póde a policia continuar indifferente a tantos abusos?»</p>
+
+<p>Como os leitores vêem o <i>Belem</i> não defende o bispo, porque,
+jornalista sizudo, <i>faz do dever uma religião</i>; e por isso chamava a
+attenção das somnolentas auctoridades contra os pasquineiros desenfreados,
+que a todo o transe proclamavam o exterminio dos portuguezes e maçons.</p>
+
+<p>Era, pois, mais grave do que os optimistas suppunham a situação dos nossos
+compatriotas residentes no Pará. Decididamente o governo do Brazil protegia
+os desordeiros, e o governo de Portugal recebia tudo isto como a devida
+satisfação promettida por aquelle a este paiz na gravissima questão do
+Jurupary. E não contente ainda, decretava mercês honorificas a esses<span
+class="pagenum"><a id="pag_307" name="pag_307">[307]</a></span> que no Brazil
+assulavam a populaça contra nossos irmãos!</p>
+
+<p>Nunca a corrupção subira tão alto!</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Eis como o <i>Liberal do Pará</i> fulminava o pasquim, transcrevendo-o no
+seu numero de 20 de maio de 1876:</p>
+
+<p>«Os jesuitas querem a todo o transe perturbar a ordem publica, açulando os
+odios de raça e o fanatismo das classes ignaras, para vêr se conseguem
+arrastal-as a scenas de carnificina, que nos degradem perante o mundo
+civilisado.</p>
+
+<p>«A gente da <i>Boa Nova</i><a name="tex2html76"
+href="#foot2768"><sup>[76]</sup></a>, fez hontem distribuir uma segunda
+edição do <i>Brado ao Povo</i>.<a name="tex2html77"
+href="#foot4312"><sup>[77]</sup></a></p>
+
+<p>«Evocam-se as recordações de um passado infame e vergonhoso, appella-se
+para a faca, e grita-se com toda a força:</p>
+
+<p>«Á arma branca!</p>
+
+<p>«Ou a igreja ou a maçonaria!</p>
+
+<p>«Alerta! Renove-se o 35! mas purifique-se o povo no sangue d'esta raça
+maldita!»</p>
+
+<p>«É especialmente contra os maçons e os portuguezes que se levanta o grito
+sanguinario, echo das paixões ferozes, de que os jesuitas se acham
+dominados.</p>
+
+<p>«A seita maldita quer sangue: impelle-a a mão occulta d'aquelle, que
+devera ser o exemplo da caridade e do amor do proximo.</p>
+
+<p>«Todas as noutes distribuem-se pasquins infamissimos, que tem o cunho
+jesuitico.</p>
+
+<p>«A policia não póde nem deve ser indifferente a esses meios anarchicos, de
+que estão-se servindo os roupetas<span class="pagenum"><a id="pag_308"
+name="pag_308">[308]</a></span> para espalhar o terror nas familias e nos
+estrangeiros, que descançam tranquillos á sombra da nossa hospitalidade e das
+nossas leis.</p>
+
+<p>«Em nome do povo paraense protestamos contra essa infamia, e exigimos a
+punição dos seus sanguisedentos auctores.</p>
+
+<p>«Leia o publico o pasquim, e veja de quanto é capaz a sanha dos que fazem
+da religião um instrumento de odio e vinganças:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">AO POVO BRAZILEIRO</p>
+
+<p>«Desperta! gigante e alerta!</p>
+
+<p>«Que estupida somnolencia é essa que te esmaga?</p>
+
+<p>«Onde estão os teus brios?</p>
+
+<p>«Que tens feito do teu heroismo?</p>
+
+<p>«Por ventura já não te bate no seio um coração educado nas idéas dos
+nobres sentimentos?</p>
+
+<p>«Por ventura descreste de tua liberdade e de tua força?</p>
+
+<p>«Em summa, não vês a execração a que te arrasta a indifferença?</p>
+
+<p>«Duvidas de ti? ou a lepra dos homens grandes communicou-se tambem aos
+teus musculos de gigante?</p>
+
+<p>«Não! não é possivel!</p>
+
+<p>«Tu has-de ser sempre um povo brioso e heroico!</p>
+
+<p>«Volve os olhos ao passado e interroga o 35 e decide-te no que te cumpre
+fazer.</p>
+
+<p>«Quem te tem negado o meio de subsistencia?</p>
+
+<p>«Quem te impede de obteres o pão para tua mulher e filhos?</p>
+
+<p>«Quem tem levado a miseria ao seio da tua familia?</p>
+
+<p>«Quem tem escarnecido da tua liberdade?</p>
+
+<p>«Quem tem vilependiado teus brios?</p>
+
+<p>«Quem tem escarrado infamias á face dos teus?<span class="pagenum"><a
+id="pag_309" name="pag_309">[309]</a></span></p>
+
+<p>«Quem tem com a mão sacrilega revolvido as cinzas de nossos paes para
+melhor vomitar injurias?</p>
+
+<p>«Quem tem corrompido a nossa sociedade fazendo que n'ella substitua-se a
+virtude pela depravação?</p>
+
+<p>«Quem, finalmente, tem, depois de estrangular-nos á fome, despojar-nos de
+nossos direitos e reduzir nossa familia a penuria e a mendicidade, deshonra o
+nosso nome, o nome de nossos paes e o de nossas irmãs?</p>
+
+<p>«Interroga a tua consciencia que ella te dirá:</p>
+
+<p>«&mdash;Que são aquelles mesmos que deram lugar as scenas sinistras de 1835.</p>
+
+<p>«Interroga aquella época que ella te responderá:</p>
+
+<p>«&mdash;São esses malfeitores que Portugal exporta para o Brazil.</p>
+
+<p>«Pergunta ao teu brio o que deves fazer: pede conselhos ao 35: e te
+decide, ó gigante!</p>
+
+<p>«E são elles hoje que, estreitando o circulo de bronze com um circulo de
+fogo, ameaçam destruir-te para sempre.</p>
+
+<p>«O primeiro passo que deram para levar ao cabo o seu canibalismo foi
+insultar a religião que bebemos com o leite dos seios de nossas mães.</p>
+
+<p>«Depois de insultarem a Deus e a sua igreja, a esposa de Jesus Christo,
+esses bandidos infamam os seus sacerdotes porque estes são nossos irmãos, e
+superior a impiedade cynica d'essas bestas féras collocam a liberdade, a
+patria e a familia.</p>
+
+<p>«Abandonar a causa de nossa santa religião á furia d'esses impios
+scelerados é descurar e despresar a propria liberdade, é vender a patria, é
+renegar a honra e a familia.</p>
+
+<p>«E ha brazileiro, por mais infimo que seja, que tenha a covardia de
+deixar-se escravisar, de vender sua patria, de renegar a honra de sua
+familia?</p>
+
+<p>«Oh! jámais!</p>
+
+<p>«E, pois ergue-te gigante! e pede ao 35 que te dê<span class="pagenum"><a
+id="pag_310" name="pag_310">[310]</a></span> coragem para a um por um d'esses
+bandidos agarrares pelo pescoço e esmagal-os sob os pés.</p>
+
+<p>«Álerta!</p>
+
+<p>«Queres conhecel-os? queres saber quem são os facinoras que te insultam e
+imfamam, insultando e infamando a religião de teus paes e seus sacerdotes,
+nossos irmãos, brazileiros como nós?</p>
+
+<p>«Queres conhecel-os, ó povo? ou saber onde é que elles se infurnam e
+tramam contra ti, tua familia, tua patria, tua religião, tua honra e teu
+Deus?</p>
+
+<p>«Em nome do 1835 te respondo:</p>
+
+<p>«&mdash;É na maçonaria.</p>
+
+<p>«Sim, é ahi.</p>
+
+<p>«É ahi que elles tramam contra liberdade, honra, familia e crenças do povo
+brazileiro.</p>
+
+<p>«É ahi, porque a maçonaria é o receptaculo e valhacouto:</p>
+
+<p>«&mdash;dos incendiarios;</p>
+
+<p>«&mdash;dos ladrões,</p>
+
+<p>«&mdash;dos assassinos<br>
+«que Portugal exporta para a nossa terra.</p>
+
+<p>«&mdash;Eram e são maçons os quadrilheiros presos em S. José.</p>
+
+<p>«Foi da maçonaria que saiu o assassino de Barraquim:</p>
+
+<p>«Foi da maçonaria que saiu o estrangulador de Balthazar;</p>
+
+<p>«Foi a maçonaria que afastou a policia dos estranguladores do porto do
+Cantão.</p>
+
+<p>«É a maçonaria que tem protegido os incendiarios, bancarroteiros e
+moedeiros falsos.</p>
+
+<p>«É na maçonaria que se tem combinado a perseguição ao prelado e os
+insultos ao clero paraense.</p>
+
+<p>«Porque é ella o baluarte erguido contra a justiça publica para proteger
+os facinoras, malfeitores e scelerados<span class="pagenum"><a id="pag_311"
+name="pag_311">[311]</a></span> que nos vem de Portugal para realisarem o
+pensamento arrojado do famigerado Jalles.</p>
+
+<p>«E pois, ó povo, álerta.</p>
+
+<p>«1835 te ordena que tomes a tua faca, e opponhas resistencia contra esses
+impios salteadores, commissionados pela maçonaria e reunidos no theatro para
+ultrajar a tua religião, porque estão fartos de ultrajar a tua familia, tua
+honra, tua patria e escarnecer de tua liberdade.</p>
+
+<p>«Ergue-te e sê heroico!</p>
+
+<p>«Ao punhal d'esses sicarios, ao arcabuz d'esses bandidos, á gritaria
+obscena e injuriosa, para a qual tem sido impotente a policia e o governo,
+oppõe a tua faca de mato.</p>
+
+<p>«Lava o insulto que a Deus é feito em teu nome, teu nome, ó povo, que
+elles odeiam!</p>
+
+<p>«Percheiro e Carvalho tambem são agentes da maçonaria (?); e são maçons
+Pinheiro Chagas e Castilho.</p>
+
+<p>«Alerta! renove-se o 35! mas purifique-se o povo no sangue d'essa raça
+maldita!</p>
+
+<p>«Aos pés de cabra e rabo de macaco!</p>
+
+<p>«Á arma branca!</p>
+
+<p>«Eia povo! coragem!</p>
+
+<p>«Decida-se d'esta lucta: ou ser brazileiro, ou venda-se a familia, a honra
+e a patria.</p>
+
+<p>«Ou a igreja ou a maçonaria; ou ser independente ou escravo, nacional ou
+portuguez.</p>
+
+<p>«Viva o 1835!»</p>
+
+<p>Viva a civilisação! diremos nós, em pleno 1878.</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>No pasquim ha uma referencia a respeito da estrangulação de Balthazar,
+nosso compatriota. A este infeliz nos referimos nas <i>Questões do Pará</i>,
+e a proposito<span class="pagenum"><a id="pag_312"
+name="pag_312">[312]</a></span> da condemnação de um innocente, supposto
+criminoso, publicámos o seguinte artigo, ha tempo:</p>
+
+<p>«Ha dias, quando um pobre doido, filho do Brazil, procurou a morte, sem
+duvida, em algum momento mais lucido, para pôr termo aos seus soffrimentos,
+quiz-se tornar responsavel de tão grande desastre a dois pobres enfermeiros,
+que, estando encarregados de guardar o doente, talvez se tivessem descuidado
+um pouco no cumprimento de seus deveres.</p>
+
+<p>Parte da nossa imprensa fez a justiça de dar ingresso em suas columnas a
+uma carta queixosa do inconsolavel irmão da supposta victima, e um jornal se
+recusou acceitar explicações dos accusados! Em presença de tão
+<i>horroroso</i> crime tomára o ministro brazileiro todas as providencias
+perante o nosso governo, quando já as auctoridades do logar onde se dera o
+facto haviam cumprido os seus deveres.</p>
+
+<p>N'este ponto, hade o nobre diplomata permittir que lhe digamos, que
+Portugal em nada se parece com o governo do imperio, que s. ex.ª tão
+dignamente representa.</p>
+
+<p>Não sabemos ainda qual será o desenlace d'esta <i>tenebrosa tragedia</i>;
+mas promettemos esclarecer os nossos leitores quando for tempo opportuno.</p>
+
+<p>Fallamos n'isto a proposito de um verdadeiro drama, que acaba de
+representar-se da outra parte de lá do oceano, em terras brazileiras.</p>
+
+<p>Compare o leitor as providencias das nossas auctoridades, a favor da
+hospitalidade devida aos estrangeiros, com a que costumam dispensar-nos as
+auctoridades do Brazil.</p>
+
+<p>Ahi vae a historia.</p>
+
+<p>Ha pouco tempo assassinaram no imperio um infeliz portuguez. A policia
+brazileira, composta de cidadãos que devem comprehender a hospitalidade,
+tratou de<span class="pagenum"><a id="pag_313"
+name="pag_313">[313]</a></span> averiguar o caso pela forma mais
+extraordinaria que é possivel imaginar-se.</p>
+
+<p>Antes de tudo é preciso que se saiba, que a tal policia só sabe
+<i>descobrir</i> os criminosos, quando o crime é commettido em pleno dia, na
+presença de muitas testemunhas. Dado o caso, porém, de ser perpetrado no meio
+das sombras da noite, se a victima é um portuguez, trata a policia de arredar
+de cima do seu patricio qualquer suspeita. As suas vistas voltam-se logo para
+os <i>gallegos</i>. Um brazileiro é incapaz de ser criminoso, embora proteste
+contra isto o <i>Cearense</i>. Foi justamente o que aconteceu no caso em
+questão.</p>
+
+<p>No logar do delicto encontrara-se apenas um indicio que não sabemos se
+seria o sufficiente para o verdadeiro descobrimento dos criminosos. Esse
+indicio era um lenço marcado com um M. Este lenço foi levado immediatamente
+para o quartel de policia; mas d'ali a 3 ou 4 horas sabia-se em toda a cidade
+d'aquelle precioso achado!</p>
+
+<p>Vejamos agora as outras diligencias a que as auctoridades procederam.</p>
+
+<p>Em primeiro logar mandou-se intimar para que comparecessem no
+commissariado todos aquelles cujo nome ou appelido começasse por aquella
+inicial. O systema, além de ser arbitrario, não podia produzir o effeito
+desejado, porque a policia tinha sido a primeira a divulgar o segredo de tão
+optima descoberta.</p>
+
+<p>A experiencia cremos que levou oito dias, porque foram chamados todos os
+Manueis! e, o que é notavel, é que nenhum cahiu na patetice de dizer que o
+lenço era seu!</p>
+
+<p>Mas como no meio de tanta barafunda podia ter escapado algum Manuel, um
+jornal incendiario se lembrou de accusar Manuel Saldanha, commerciante e...
+portuguez. Foi chamado o homem, não obstante as auctoridades brazileiras
+darem pouca importancia aos<span class="pagenum"><a id="pag_314"
+name="pag_314">[314]</a></span> pasquins! E para que se não dissesse, que as
+mesmas davam menos importancia a um portuguez, foi este desde logo recebido
+com a maior deferencia... pelo carcereiro!... O motivo d'uma recepção tão
+desigual, fora <i>simplesmente</i> porque o portuguez se chamava Manuel como
+qualquer brazileiro. Mas ao cabo de dois dias saira da prizão o nosso
+compatriota, declarando como todos os outros, que o lenço fatal lhe não
+pertencia, accrescentando que desde ha muito cheirava rapé e que uzava lenços
+riscadinhos de Alcobaça!</p>
+
+<p>O proprietario do jornal accusador, do jornal incendiario, que ha quatro
+annos consecutivos advogava o exterminio da colonia portugueza, e a cuja
+sombra se commettiam tantos crimes, chama-se Marcelino Nery; e dois dos seus
+principaes redactores chamam-se, um, Manuel Cantuaria, e outro, Manuel José
+de Sequeira Mendes; com tudo foram poupados á experiencia policial. Pois não
+deviam ser dispensados das suspeitas da policia; porque, além d'esta gente
+fazer uso do lenço branco e do almiscar, de cujo olor se achava impregnado o
+delicado <i>marotinho</i>, bastantes provas tem dado da sua capacidade para
+taes commettimentos.</p>
+
+<p>Mas a questão era mais séria do que julgára Manuel Saldanha: porque, para
+evitar que a policia, contra a sua vontade, fosse, por qualquer acaso,
+encontrar os verdadeiros criminosos nas fileiras communistas, encarregou-se a
+<i>Tribuna</i> (a comedia passava-se no Pará) de assestar as suas baterias
+contra o pobre <i>marinheiro</i>. E o promotor publico do Pará, para fazer a
+vontade aos seus predilectos do <i>orgão popular</i>, processou o portuguez,
+que foi immediatamente mettido na cadeia.</p>
+
+<p>Pouco tempo depois constituia-se o tribunal que não tem querido julgar os
+assassinos de Jurupary, e Manuel Saldanha apparece sentado no banco dos
+assassinos. A unica prova, que consta de tão monstruoso processo, é um lenço
+cujo dono se ignora.<span class="pagenum"><a id="pag_315"
+name="pag_315">[315]</a></span></p>
+
+<p>O juiz presidente desenrola-o, e em pleno tribunal assoa-se a elle. Pouco
+depois os jurados seguem-lhe o exemplo. A <i>prova</i> fatal foi afinal cair
+nas mãos do orgão da justiça publica, que se serviu exclamar, apontando para
+o lenço e para a fatidica letra:</p>
+
+<p>&mdash;Srs. jurados! vêde e ouvi... (dirigindo-se para o supposto réu) Como se
+chama?</p>
+
+<p>&mdash;Manuel...</p>
+
+<p>&mdash;Basta, não precisamos de mais provas...</p>
+
+<p>E o portuguez foi sentenciado a galés perpetuas para a ilha de Fernando de
+Noronha!</p>
+
+<p>O jury que, alguns mezes antes, absolvera dois soldados do exercito
+brazileiro, assassinos confessos de dois compatriotas nossos, procedia assim
+contra uma pobre victima, cujo crime foi ter nascido em Portugal e chamar-se
+Manuel!</p>
+
+<p>O que infelizmente está reconhecido, é que o odio de raça passou dos
+Tapuyas e dos Tomayos aos Tupinambas e aos Botocudos; e que estes o
+transmittiram aos brazileiros, que hoje predominam n'aquella parte da
+America. A unica differença a favor da raça predominante; é não fazer uso da
+antropophagia; mas em compensação assassina os portuguezes, e quando algum se
+livra do punhal e do trabuco, não escapa á sanha dos tribunaes.</p>
+
+<p>Mirem-se n'este espelho os nossos compatriotas que veem no imperio um
+manancial de riquezas e uma terra civilisada e hospitaleira.»<a
+name="tex2html78" href="#foot4313"><sup>[78]</sup></a></p>
+
+<p>Agora illucidemos a questão que o tempo, magnifico juiz de nossas acções,
+poz nos devidos termos:</p>
+
+<p>O portuguez Manuel Saldanha, appellou da injusta sentença para o tribunal
+da Relação do Pará, que annulou o processo e mandou pôr em liberdade a
+victima!</p>
+
+<p>O brazileiro doido, que tentou suicidar-se, era unico<span
+class="pagenum"><a id="pag_316" name="pag_316">[316]</a></span> irmão de um
+barão ou visconde, e senhor de uma fortuna avultadissima.</p>
+
+<p>Logo que a este titular <i>chegára</i> a noticia do desastre succedido ao
+irmão, escreveu uma carta sentimentalissima a um jornal de Lisboa em que
+accusava de cumplicidade os enfermeiros; e o tal jornal, ao mesmo tempo que
+consolava o <i>desventurado</i> aristocrata, negava as suas columnnas á
+defeza dos enfermeiros que tencionavam provar a sua innocencia!</p>
+
+<p>Começou o processo, e quando elle ia esclarecer a tragedia, o illustre
+titular sahia immediatamente d'este paiz!...</p>
+
+<p>Sobre o processo poz-se a pedra do esquecimento, que, por
+<i>conveniencias</i>, negaram ao infeliz Vieira de Castro!</p>
+
+<p>Altos mysterios da justiça!...</p>
+
+<p>Vejam os nossos inimigos de alem-mar como nós cá tratamos os seus
+compatriotas.</p>
+
+<p>Nós é que não concordamos com a protecção escandalosa; e desde já
+protestamos contra os previlegios: o sancto principio da hospitalidade não
+manda proteger os calumniadores de nossos irmãos, por que os calumniadores
+são opulentos e quem sabe se criminosos.</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Manuel Soares Pereira, é um emigrado portuguez, residente ha muito tempo
+no imperio do Brazil, e que assistiu como voluntario, á lucta travada entre
+esta nação e o Paraguay, prestando por essa occasião relevantes serviços aos
+feridos nas refregas; porque Soares tivera a sublime idéa de se inscrever na
+legião dos irmãos da caridade&mdash;que nos acampamentos da guerra aspiram a dar
+vida e consolações aos moribundos,<span class="pagenum"><a id="pag_317"
+name="pag_317">[317]</a></span> emquanto que os soldados d'outras legiões
+apontam ao peito da humanidade os <i>Chassepots</i> da destruição.</p>
+
+<p>Aos soldados de todas as legiões&mdash;aos que ferem e matam e aos que
+curam&mdash;costumam dar os governos que promovem os ferimentos, a matança e os
+curativos, uns <i>pendericalhos</i> em paga d'esses serviços, que os mandões
+da guerra igualam, mas que a humanidade separa, como sendo a arte dos que
+ferem e matam uma perfeita antithesis á que exercem os que consolam e
+curam.</p>
+
+<p>Soares Pereira, não obstante, como já vimos, pertencer a esta ultima
+legião, foi sentenceado á morte, pelos tribunaes do Brazil, porque tendo elle
+exercido um cargo humanitario, que os taes mandões da guerra não retribuiam,
+entendeu dever <i>desertar</i> da legião, onde por muito tempo servira
+voluntariamente, e onde o deixariam morrer de fome, em paga de uma pratica
+assidua de acções meritorias.</p>
+
+<p>Desertar dissemos, porque como deserção é que se qualificára a sahida
+voluntaria de Soares Pereira, do exercito do Paraguay, sahida nunca impedida
+pelas auctoridades guerreiras do Brazil, estacionadas n'aquella região, em
+1867, e por aquelles que lhe visaram depois o seu passaporte de subdito da
+nação portugueza, documento este que o nosso compatriota apresentára, no seu
+transito, sem receios, e conscio de que era um cidadão no goso pleno dos seus
+direitos.</p>
+
+<p>Passaram-se sete annos depois d'aquella data. Isto é, em 1874, o supposto
+desertor, estabelecido então na cidade da Bahia, requereu uma certidão á
+repartição competente, para mostrar onde lhe conviesse, os serviços prestados
+ao Brazil, como enfermeiro na guerra do Paraguay.</p>
+
+<p>A resposta foi ser preso o requerente, <i>para averiguações</i>. Feitas as
+taes averiguações, concluiu-se que Soares Pereira fôra considerado desertor
+do exercito, no<span class="pagenum"><a id="pag_318"
+name="pag_318">[318]</a></span> qual já mais se alistára como soldado, do que
+são sufficientes provas os documentos que temos á vista e que fazem parte do
+<i>Livro Branco</i>, apresentado ás côrtes em 1877. Não obstante, é Pereira
+mettido <i>na mais terrivel masmorra do forte de S. Pedro, da Bahia, onde
+esteve cinco dias sem alimentos, e de onde o faziam sahir depois para os
+trabalhos forçados, durante 18 mezes, antes de ser julgado</i>,<a
+name="tex2html79" href="#foot4314"><sup>[79]</sup></a> e só depois d'este
+periodo é que foi sentenceado á morte!</p>
+
+<p>A 26 de março de 1876, é que foi proferida a sentença, pelo conselho de
+guerra reunido na cidade da Bahia.</p>
+
+<p>A diplomacia portugueza, começou no imperio, em fevereiro de 1875, a sua
+lucta; e pelo desenlace de 26 de março, acabamos de vêr que ella não pôde
+evitar mais aquella vergonha para os tribunaes do Brazil, quando julgam
+portuguezes.</p>
+
+<p>E porque nada conseguiu a diplomacia até este momento? Porque o nosso
+vice-consul na Bahia, o sr. Gregorio Anselmo Ribeiro Marques, que já em
+fevereiro de 1875, cinco mezes depois da prisão, começára a apontar o
+monumental escandalo, não viu secundados os seus esforços pelo nosso
+embaixador na côrte do Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>Vamos demonstrar esta asserção com os documentos que temos á vista.</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>Já notámos que passados cinco mezes depois da prisão de Manuel Soares
+Pereira, isto é, em 4 de fevereiro de 1875, é que começaram as providencias
+da diplomacia.</p>
+
+<p>Expedindo o nosso vice-consul na Bahia a sua primeira nota ao presidente
+d'esta provincia brazileira,<span class="pagenum"><a id="pag_319"
+name="pag_319">[319]</a></span> em que pedia «esclarecimentos dos motivos que
+determinaram a prisão do referido individuo<a name="tex2html80"
+href="#foot2812"><sup>[80]</sup></a>», não remediava que a prisão illegal
+continuasse; porquanto, o presidente allegava era seu officio de 11 do mesmo
+mez e anno, que aquelle subdito de Portugal <i>sentára</i> praça no 16.º
+batalhão de infanteria de linha, escudando-se este magistrado, para fazer
+valer a sua affirmativa, á <i>certidão de assentamento</i>, que o general das
+armas d'aquella provincia lhe remetteu, na qual nada notava com respeito ao
+acto importantissimo do juramento de bandeira, que era indespensavel para
+tornar legal o assentamento; o que não impediria, ainda assim, quando o
+fosse, de que taxassemos de inconsequente o prolongamento da prisão, sem
+julgamento, de um subdito de nação <i>irmã e amiga</i>; e de barbara, a
+obrigação imposta arbitrariamente a esse mesmo subdito, de ser levado aos
+trabalhos <i>forçados</i>, a que a justiça condemna os criminosos
+convictos.</p>
+
+<p>Não satisfeito com a resposta e com a tal certidão, tudo desconforme, á
+vista das mais comesinhas noções do direito, o nosso vice-consul, expedindo
+segunda nota em data de 4 de março do referido anno, não só accusava a falta
+de juramento de bandeira, que se não exigia dos voluntarios nacionaes (para a
+guerra do Paraguay) e menos se exigiria de um estrangeiro; mas o que era para
+notar, não se provava, que o nosso compatriota estivesse «desembaraçado pelo
+consulado para levar a effeito aquelle juramento, documento de que se não
+poderia prescindir, em vista da doutrina consignada na resolução do governo
+imperial, expedida pelo ministerio dos negocios estrangeiros, na data de 4 de
+julho de 1852», e de outras noções do direito internacional, muito bem
+apontadas nas notas expedidas, mais tarde, pelo sr. Andrade Corvo.<span
+class="pagenum"><a id="pag_320" name="pag_320">[320]</a></span></p>
+
+<p>Á vista d'isto, o presidente replicou immediatamente, que submetteria á
+consideração do governo imperial o expendido pelo vice-consul.</p>
+
+<p>E o governo imperial respondeu assim, <i>pela bocca do nosso ministro</i>,
+na côrte do Rio de Janeiro:</p>
+
+<p>«Legação de Sua Magestade Fidelissima, Rio de Janeiro, em 12 de abril de
+1875.&mdash;Ill.<sup>mo</sup> sr.&mdash;Em resposta ao officio que v. s.ª me dirigiu em
+data de 8 de março ultimo, cumpre-me dizer-lhe que, em vista das disposições
+da lei brazileira, de 20 de setembro de 1860, e do que foi declarado pela de
+20 de junho de 1865, não póde ser attendida a pretenção de Manuel Soares
+Pereira, a que se refere o citado officio de v. s.ª Isto mesmo acaba de ser
+decidido pelo governo imperial em deliberação tomada sobre o referido
+assumpto, etc., etc.&mdash;<i>Mathias de Carvalho e Vasconcellos</i>.»</p>
+
+<p>Teria o vice-consul exorbitado? ou enganar-se-ia o governo imperial?</p>
+
+<p>Parece que sim, que este se enganou, e com elle o nosso illustre
+diplomata, o sr. Mathias de Carvalho e Vasconcellos, que sem protesto,
+acolhera a decisão injusta do governo, junto do qual estava acreditado, para
+tratar de proteger os interesses da nação portugueza, sua patria.</p>
+
+<p>Vejamos se sae ou não exacta a nossa asserção.</p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>A informação do ajudante general, a que recorrera o ministro da guerra
+brazileiro, para negar a justiça que requeria Manuel Soares Pereira, por via
+do consul, diz que os corpos de voluntarios da patria, organisados de
+conformidade com as disposições do decreto de 7 de janeiro de 1865, para a
+guerra do Paraguay, estiveram sempre sujeitos ás leis militares, etc.;
+etc.,<span class="pagenum"><a id="pag_321" name="pag_321">[321]</a></span> e
+que a lei de 20 de setembro de 1860 comprehende os engajados e voluntarios de
+qualquer natureza, como praças do exercito, e por consequencia sujeitos ao
+julgamento pelo crime de deserção, etc. Que o juramento de bandeira, era uma
+mera formalidade, que não podia impedir o assentamento de praça, o que a
+nosso ver, não impediria tambem que nos assentassem praça lá no Brazil, sem o
+previo consentimento, para sermos julgado desertor, e depois sentenciado á
+morte, se por desventura lá apparecessemos!...</p>
+
+<p>Mas com respeito á proposição do vice-consul, de que não se deveria julgar
+a praça assente ao portuguez, sem que este apresentasse documento do
+consulado, com o qual se provasse estar desembaraçado, para então poder
+alistar-se no exercito estrangeiro, não disse nada o ajudante do general.</p>
+
+<p>Foi lapso, naturalmente!</p>
+
+<p>O vice consul é que não se conformou com a informação do tal ajudante, nem
+com a decisão que á vista da mesma dera á causa o ministro brazileiro
+respectivo; e despresando o systema adoptado pelo representante de Portugal,
+de não metter <i>prego nem estopa</i> no batel escavacado da nossa dignidade,
+novo protesto elevou até junto do sr. Mathias de Carvalho, para ver se
+livrava o desgraçado portuguez das garras aduncas da tal <i>justiça</i>, que,
+como a dos <i>tugs</i> levava em mira <i>engordar</i> a sua presa, para ser
+mais agradavel á deusa Kaly o supplicio final da <i>laçada</i>!</p>
+
+<p>É a 16 de abril de 1876, que o vice-consul expede terceira nota ao
+presidente da Bahia, rebatendo as doutrinas erroneas da informação do
+ajudante do general, doutrinas que o sr. Mathias de Carvalho, como já vimos,
+deixára passar, sem a devida replica.</p>
+
+<p>Em 19 responde-lhe o presidente; e a 20 submette o vice-consul, nota e
+resposta, á legação de Portugal no Rio de Janeiro.<span class="pagenum"><a
+id="pag_322" name="pag_322">[322]</a></span></p>
+
+<p>Examinemos estes documentos, para, a seu turno, fulminarmos a systematica
+abstensão do embaixador de Portugal em face d'esta questão gravissima.</p>
+
+<p>«A legislação citada pela repartição do ajudante general, diz o
+vice-consul, é toda applicavel aos subditos do paiz, que tendo servido na
+armada ou no exercito, quer como voluntarios, quer como guardas nacionaes; e
+quando as disposições do artigo 5.º da lei n.º 1:101, podessem ser extensivas
+a estrangeiros, só seriam applicaveis áquelles que fossem legalmente
+admittidos, exhibindo o desembaraçado do consulado de sua nação; por quanto é
+essa a opportunidade que tem o respectivo agente consular para lhes fazer
+sentir, não só as obrigações a que se tem de sujeitar, como averiguar se o
+subdito de sua nação tem para com essa algum compromisso que o inhiba de sua
+protecção; este principio, sendo universalmente reconhecido, o foi tambem
+pelo governo imperial na sua resolução expedida pelo ministerio dos negocios
+estrangeiros na data de 4 de junho de 1852, e jámais controvertido por
+nenhuma das disposições da legislação invocada pela repartição do ajudante
+general; principio este ainda recentemente firmado pelas disposições do
+artigo 66.º, do regulamento annexo ao decreto imperial, n.º 5881.»</p>
+
+<p>E n'esta conformidade, pedia o relaxamento da prisão de Manuel Soares
+Pereira, e insistia na reclamação encetada; «e que na nota alludida resalvava
+os direitos que lhe podessem competir pela reclamação que houvesse de fazer
+dos damnos e prejuizos soffridos por aquelle seu compatriota, desde o dia da
+sua prisão até áquelle em que fosse posto em plena liberdade.»</p>
+
+<p>O presidente da provincia nada podia decidir, visto que o assumpto já
+havia sido submetido ao governo central. Portanto a resposta d'este
+magistrado ao vice-consul foi:&mdash;«que levaria ao conhecimento do ministro a
+nova reclamação».<span class="pagenum"><a id="pag_323"
+name="pag_323">[323]</a></span></p>
+
+<p>Conservaremos a ordem dos documentos, estabelecida no <i>Livro Branco</i>;
+por isso vamos transcrever o que segue, emquanto o governo brazileiro não
+replica á 3.ª nota consular:</p>
+
+<p>«Legação de Sua Magestade Fidelissima. Rio de Janeiro, 17 de novembro de
+1875.&mdash;Ill.<sup>mo</sup> sr.&mdash;Remetto a v. s.ª o incluso requerimento de
+Manuel Soares Pereira, a fim de que me imforme sobre a verdade do seu
+conteúdo. Quanto á petição que o acompanha, convém que v. s.ª aconselhe ao
+peticionario o meio legal que deve observar para que o recurso de que se
+trata chegue competentemente ao seu alto destino.&mdash;Deus guarde,
+etc.&mdash;<i>Mathias de Carvalho e Vasconcellos.</i>==Ill.<sup>mo</sup> sr.
+Gregorio Anselmo Ribeiro Marques, encarregado do consulado de Portugal na
+Bahia.»</p>
+
+<p>Transcrevemos na integra os documentos assignados pelo nosso embaixador a
+respeito de tão desgraçada questão, para que todos julguem da justiça das
+nossas appreciações.</p>
+
+<p>Antes de mais nada examinemos a data d'aquelle documento,&mdash;17 de novembro
+de 1875&mdash;e a do ultimo oficcio do vice-consul,&mdash;20 de abril de 1875&mdash;em que
+este funccionario remettia a sr. Mathias de Carvalho a copia da 3.ª nota a
+favor de Soares Pereira, e signifiquemos o nosso assombro por vêrmos que o
+embaixador do Portugal não deu, n'aquelle extensissimo periodo&mdash;<i>oito
+mezes</i>&mdash;, a mais insignificante providencia a respeito da questão; é
+verdade, que, findo esse tempo, reenviava o requerimento e a petição do
+desgraçado portuguez, em que se pedia ao ministro o salvasse do martyrio da
+<i>prisão</i> e dos <i>trabalhos forçados</i>, a que, contra todos os
+principios do direito, o obrigavam as <i>humanas</i> auctoridades da Bahia...
+porque esse requerimento não ia pela via <i>legal</i>, que o infeliz <i>não
+sabia observar</i>! E o que é mais assombroso ainda, é vir o nosso
+embaixador, depois de estar informado<span class="pagenum"><a id="pag_324"
+name="pag_324">[324]</a></span> dos acontecimentos, pedir esclarecimentos
+sobre <i>a verdade do conteúdo</i> do requerimento e petição!</p>
+
+<p>Isto não se commenta.</p>
+
+<p>Mas o portuguez Manuel Soares Pereira, que permanecia na prisão <i>havia
+já 13 mezes!</i> quando o não mandavam trabalhar para um logar, na distancia
+de 40 kilometros, naturalmente «porque estando preso no humido xadrez, podia
+adquirir a terrivel molestia de <i>beriberi</i>, que tanto ataca as mulheres
+paridas e os homens de vida sedentaria», desculpa ironica e ao mesmo tempo
+pittoresca, que á barbaridade dava o seu magnanimo salvador, o sr. Manuel
+Alves Ferreira, o portuguez Soares Pereira diziamos, tinha obrigação de
+esperar pelas providencias da diplomacia!</p>
+
+<p>Que importava que essas providencias viessem depois da sentença injusta,
+passados uns poucos de mezes de supplicios, peores que a morte, já quando o
+infeliz estivesse em marcha para a forca?!</p>
+
+<p>Mais vale tarde do que nunca!</p>
+
+<p>Um portuguez desprotegido não vale tanto como qualquer compadre de sua
+magestade o imperador do Brazil, ou de outra qualquer real personagem!...</p>
+
+<p>Um portuguez pobre, sempre é um portuguez pobre; e os embaixadores de
+Portugal junto dos governos das nações estrangeiras, não devem importar-se
+<i>com esta qualidade de gente</i>!</p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>O ministerio da guerra só respondeu á nota do vice-consul, datada de 16 de
+abril de 1845, em 25 de setembro; isto é, cinco mezes depois! não obstante
+julgar aquella repartição, que ao consul não assistia razão plausivel para
+reclamar justiça do governo brazileiro a favor do subdito portuguez,
+despoticamente encarcerado na enxovia, desde 22 d'outubro de 1874,<span
+class="pagenum"><a id="pag_325" name="pag_325">[325]</a></span> contra as
+expressas determinações dos codigos militares e civis.</p>
+
+<p>O governo, conformando-se na sua replica, com a letra da circular de 4 de
+junho de 1852, confirmada pelas disposições do artigo 66.º do regulamento
+annexo ao decreto n.º 5.881, lembrados pelo vice-consul, concordava com a
+opinião d'este nosso representante na Bahia, que julgára indispensavel a
+apresentação do <i>desembaraçado</i>, para Soares Ferreira poder assentar
+praça.</p>
+
+<p>Mas como era preciso achar um ponto de discordancia, porque o facto da
+prisão do portuguez estava consumado, e planeado o julgamento imbecil, que o
+havia de sentencear á morte, e porque as auctoridades brazileiras nunca
+costumam reconsiderar quando se trata de <i>marotos</i>,<a name="tex2html81"
+href="#foot2849"><sup>[81]</sup></a> era preciso que o sophisma viesse
+enredar a razão.</p>
+
+<p>Procuremos as proprias palavras do governo imperial.</p>
+
+<p>Diz elle, na sua replica:</p>
+
+<p>«Ora a hypothese do aviso do ministerio dos estrangeiros (circular de 4 de
+junho de 1863) é figurada para o caso de engajamento, em que a parte se
+apresenta realmente como estrangeiro; entretanto que no caso de que se trata,
+o individuo occultando a sua qualidade de estrangeiro, assentou praça de
+voluntario da patria como se brazileiro fosse: não ha por tanto paridade, e
+fica por terra o argumento que o encarregado do consulado quiz d'ali
+tirar.»</p>
+
+<p>Antes de desmentirmos a supposta affirmativa, de que o portuguez
+<i>sentára praça de voluntario como se brazileiro fosse</i>, devemos dizer
+que nos assombra a ingenuidade do governo imperial em acreditar que se
+fizessem assentamentos de praça, sem as devidas formalidades,<span
+class="pagenum"><a id="pag_326" name="pag_326">[326]</a></span> que, se
+fossem observadas, dariam em resultado conhecer-se a nacionalidade do que se
+offerecia para o serviço do exercito.</p>
+
+<p>E que razão haveria para o portuguez occultar a nacionalidade?</p>
+
+<p>A negação do <i>desembaraçado</i> da parte do consulado?</p>
+
+<p>E qual seria o consul que negaria esse documento na occasião da guerra do
+Paraguay, em que brazileiros e portuguezes se auxiliavam mutuamente, como se
+a causa fôra commum?</p>
+
+<p>Mas se Soares Pereira se apresenta como enfermeiro para que é teimar em
+chamar-se-lhe praça do exercito?</p>
+
+<p>Por que foi <i>segundo sargento do 14.º corpo de voluntarios da
+patria</i>, dizem.</p>
+
+<p>Venha o documento em que se prove que elle sentára praça no referido
+corpo.</p>
+
+<p>Não ha, por que esse corpo foi dissolvido, dizem.</p>
+
+<p>Mas isso não é razão.</p>
+
+<p>É, replicam os sabios brazileiros!</p>
+
+<p>Então <i>suppõe-se</i> que Soares Pereira sentára praça, e com essa
+supposição levam o <i>maroto</i> ao tribunal, depois de 16 mezes de prisão e
+de trabalhos forçados, com a grilheta aos pés!...</p>
+
+<p>«Quanto ao artigo 66.º do regulamento ultimamente expedido para o
+recrutamento, dizem do ministerio da guerra, na já alludida resposta, <i>alem
+de não poder ter effeito retroactivo</i>, refere-se tambem ao caso em que o
+estrangeiro se apresenta como tal para assentar praça de voluntario no nosso
+exercito.»</p>
+
+<p>Comprehende-se á vista d'isto, que o governo brazileiro castigava o
+portuguez, por não ter declarado que era estrangeiro, e ao qual esse governo
+considerava desde então como naturalisado cidadão brazileiro, contra as
+formalidades exigidas pelas leis que regulam o assumpto, de 23 de junho de
+1855 e de 12 de julho de 1871!<span class="pagenum"><a id="pag_327"
+name="pag_327">[327]</a></span></p>
+
+<p>Isto regista-se e não se commenta.</p>
+
+<p>Aquella tirada de que o artigo 66.º não podia ter effeito retroactivo,
+quando se tratava de esclarecer determinações ambiguas de datas anteriores,
+e, o que é mais, quando se tratava de proteger o subdito de uma nação <i>irmã
+e amiga</i>, é... digamos a verdade sem rebuço, é irracional; porque faz
+lembrar aquella passagem da fabula em que o leão, por se julgar o rei da
+força, trocidava a presa, emquanto os pequeninos, ávidos de fome, se
+affastavam do bruto para não terem a sorte do veado!</p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>Em resposta ao officio da legação, com data de 17 de novembro, que atraz
+deixamos transcripto, e no qual se pedia informação ao vice-consul sobre o
+requerimento incluso, escreve o seguinte este empregado do governo, em seu
+officio de 29 de novembro do referido anno:</p>
+
+<p>«1.º Que em resposta á contestação de que a v. ex.ª dei conhecimento em
+meu officio de 20 de abril proximo passado (sic), recebi da presidencia
+d'esta provincia o officio datado de 14 de outubro ultimo, transmittindo
+copia do aviso do ministerio da guerra, datado de 7 d'aquelle mez, e não
+obstante a doutrina do citado aviso referir-se a que o individuo em questão
+occultava a sua nacionalidade, assentando praça como voluntario, esse facto
+só se poderia verificar do primitivo assentamento da praça no 14.º corpo de
+voluntarios, em que o mencionado individuo diz ter-se inscripto como
+enfermeiro; <i>entendi pois não treplicar sobre o assumpto, em vista do que
+v. ex.ª se dignou communicar-me<span class="pagenum"><a id="pag_328"
+name="pag_328">[328]</a></span> em officio de 12 de abril do corrente
+anno</i>,<a name="tex2html82" href="#foot4319"><sup>[82]</sup></a> o qual só
+me veio parar á mão posteriormente ao meu citado officio de 20 do referido
+mez.</p>
+
+<p>«2.º Que tendo feito noticiar verbalmente ao peticionario a resolução do
+ministerio da guerra, e recommendando-lhe que, quando tivesse de responder ao
+conselho de guerra, me avisasse para dar-lhe defeza, presisto n'esse intento,
+não obstante o peticionario parecer não haver confiado nos meus melhores
+desejos, o que desculpo, em vista da situação em que se collocára.</p>
+
+<p>«Que já em tempo fiz ver ao peticionario que o seu recurso para a
+munificencia imperial me parecia inopportuno, se por ventura tivesse de
+responder ao conselho de guerra.</p>
+
+<p>«Concluo, ponderando a v. ex.ª, que o peticionario nenhuns meios tem, e
+que o advogado já me preveniu de que, para a defeza do peticionario, o que
+convinha essencialmente era obter uma certidão do primitivo assentamento de
+praça no 14.º corpo de voluntarios; se, pois, v. ex.ª approvar o meu intento,
+muito conveniente seria obter-se no ministerio da guerra aquella certidão»,
+etc. etc.</p>
+
+<p>O vice consul não devia estranhar que o desgraçado tivesse pouca confiança
+nas diligencias officiaes, se attendesse a que essas diligencias a nada
+obstavam, naturalmente pelo pouco ou nenhum interesse que lhe prestava o
+embaixador portuguez na côrte do Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>Assim, pois, Soares Pereira não teria mais remedio se não recorrer a
+outros meios, unicos que o salvaram, como havemos de demonstrar.<span
+class="pagenum"><a id="pag_329" name="pag_329">[329]</a></span></p>
+
+<p>Mas continuemos a transcripção dos documentos para provarmos o desmazelo
+do embaixador, e a insaciavel vontade das auctoridades brazileiras em
+prejudicar-nos, ainda nas causas mais justas.</p>
+
+<p>Em resposta ás informações do vice-consul, de 29 de novembro, acima
+transcriptas, communicava a legação de Portugal no Rio de Janeiro o
+seguinte:</p>
+
+<p>«Remetto a v. s.ª a certidão do que consta no archivo da repartição fiscal
+de guerra ácerca do subdito portuguez Manuel Soares Pereira.</p>
+
+<p>«Quanto á petição por este dirigida a sua magestade o imperador <i>que
+remetto</i> junta, reporto-me ao que já disse a v. s.ª no meu officio de 17
+do referido mez de novembro, etc. <i>Mathias de Carvalho e
+Vasconcellos</i>.»</p>
+
+<p>E mais nada. Nem um conselho sequer para encaminhar a questão a um
+desenlace feliz e justo! Nem um conselho sequer, não: o embaixador portuguez,
+com o seu desprezo manifesto em todos os seus officios, dá-nos a prova
+desconsoladora de que pugnava mais pela desgraçadissima causa sustentada tão
+infelizmente pelas auctoridades do Brazil contra um subdito da nação
+portugueza, aconselhando sempre o vice-consul... ao desprezo da causa que
+importava a salvação de um homem e a dignidade de Portugal! E dizemos que
+aconselhava ao desprezo, porque outra cousa não é devolver o requerimento que
+Soares Pereira lhe endereçára, afim de que o vice-consul informasse a legação
+de uma cousa sobre que a mesma legação já estava informada havia <i>oito
+mezes</i>; e outra cousa não é senão desprezo devolver a petição que ao
+imperador fizera a victima, lá porque a petição <i>não ia pelos tramites
+legaes</i>!</p>
+
+<p>Pois, para que mais servem os embaixadores juntos dos governos das nações
+amigas, se não para tratar de advogar os interesses de seus
+compatriotas?<span class="pagenum"><a id="pag_330"
+name="pag_330">[330]</a></span></p>
+
+<p>Venha pelos tramites legaes; isto é: metta na caixa o requerimento!</p>
+
+<p>E quando chegaria o requerimento ao seu destino?</p>
+
+<p>Naturalmente depois da fuzilaria ter feito o serviço que lhe incumbira o
+justiceiro tribunal da Bahia!</p>
+
+<p>Se a um facto quasi identico, succedido ha pouco na India, em que a causa
+de um portuguez era menos justa, o peticionario recorresse pelos tramites
+legaes, ou se el-rei D. Luiz apontasse ao peticionario os taes tramites, para
+se não sujar com o acto nobilissimo que praticou salvando-o; o portuguez
+estaria naturalmente a esta hora com a cabeça de menos... á espera do decreto
+que lh'a poupasse!</p>
+
+<p>Apontar a via dos tramites legaes a quem tinha sede de justiça, n'uma
+epoca de depravação, que se assimelha á que predominava no imperio dos
+Caligulas e dos Neros era desenganar o padecente de que justiça não seria
+feita. Foi justamente o que Soares Pereira pensou, recorrendo aos meios da
+reacção energica pela imprensa, contra os actos de selvageria dos tribunaes
+brazileiros; e foi isto que o salvou, como vamos demonstrar.</p>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<p>É chegado o dia 27 de março de 1876, em que o tribunal militar da Bahia
+condemna Manuel Soares Pereira á pena de morte pelo supposto crime de
+deserção.</p>
+
+<p>Perante o tribunal não se apresenta defensor para o réo, e sim um
+procurador que levava uma defesa escripta para ser lida!</p>
+
+<p>O auditor de guerra vendo a defesa sem assignatura, disse que não
+produziria seus effeitos, porque não estava em termos, visto que devia
+terminar por artigos, etc. etc.<span class="pagenum"><a id="pag_331"
+name="pag_331">[331]</a></span></p>
+
+<p>Depois de algumas observações foi admittida a defesa, assignando o
+procurador que a tinha levado.</p>
+
+<p>Esta não foi lida, nem o procurador <i>arvorado em advogado</i>, disse uma
+palavra em defesa da victima.</p>
+
+<p>Seguiu-se o conselho, e o auditor de guerra, conhecendo a critica posição
+do reu, que se achava sem defensor, offereceu o encargo da defesa ao sr.
+Manuel Alves Ferreira, negociante portuguez residente na Bahia, auctor dos
+avulsos&mdash;<i>Ás nações civilisadas do universo</i>, em que desmascara a
+inepcia da diplomacia e a barbaridade das auctoridades brazileiras contra um
+subdito de nação amiga e irmã, e de cujos avulsos extraimos os
+esclarecimentos que vamos indicando, avulsos que salvaram o condemnado.</p>
+
+<p>Manuel Alves Ferreira não póde acceitar o encargo «porque não se achava
+preparado para esse fim.»</p>
+
+<p>Os cuidados promettidos pelo vice-consul eram assim postos em practica! A
+promessa que elle fizera n'um officio que para ahi deixámos transcripto não
+podia ser mais fielmente executada!</p>
+
+<p>Eis como esta auctoridade informa do succedido em 27 de março á legação do
+Rio de Janeiro, em seu officio de 6 de abril, dez dias depois da condemnação
+de Soares Pereira:</p>
+
+<p>«Corre-me o dever de participar a v. ex.ª que não obstante a defesa
+escripta (sic) conforme a copia junta, que promoví em favor do subdito de s.
+m. f..., ao qual se refere o officio de v. ex.ª de 25 de janeiro ultimo, foi
+o dito individuo condemnado á pena capital a 27 de março ultimo.</p>
+
+<p>«Em 28 do mesmo mez solicitei da presidencia desta provincia copia da
+respectiva sentença, a respeito da qual me foi respondido o que consta dos
+officios datados de 31 de março e de 5 do corrente mez, etc. (de que não se
+passaria a certidão pedida!).</p>
+
+<p>«Dignando-se v. ex.ª no citado officio reportar-se ao<span
+class="pagenum"><a id="pag_332" name="pag_332">[332]</a></span> que me havia
+dirigido em 17 de novembro, ácerca da petição de graça, vou solicitar de v.
+ex.ª o favor (sic) de instruir-me se deverá elle ser encaminhado pela legação
+a cargo de v. ex.ª, e se se deverá aguardar a decisão definitiva do tribunal
+superior.</p>
+
+<p>«Devo igualmente certificar a v. ex.ª que sobre o facto da condemnação
+foi, em 29 de março ultimo, publicado aqui um escripto na gazeta denominada
+<i>Diario da Bahia</i><a name="tex2html83"
+href="#foot432"><sup>[83]</sup></a>, além de outros; tudo isto tem servido
+para commentarios que se tornam desagradaveis, e, a meu ver, de nenhuma
+utilidade para o paciente.» etc.</p>
+
+<p>N'este ultimo ponto se enganava o vice-consul, porque foi devido
+unicamente aos escriptos de energica defesa, publicados por Alves Ferreira,
+que a diplomacia acordára do lethargo que a deshonrava, salvando assim o
+nosso infeliz compatriota Soares Pereira das selvaticas garras da justiça
+brazileira. É o que havemos de provar.</p>
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<p>Mas antes d'isso cumpre transcrever o officio do embaixador portuguez,
+datado de 24 de abril, em resposta ao do vice-consul, que acima deixámos
+apontado, com a data de 6 de abril, o qual é concebido nos seguintes
+termos:</p>
+
+<p>«Se a sentença que condemnou o subdito portuguez Manuel Soares Pereira
+deve ser submettida ao tribunal superior, é preciso aguardar a decisão d'esta
+instancia antes de recorrer a uma petição de graça.</p>
+
+<p>«<i>Não é por intermedio da legação</i> de s. m. que se apresentam taes
+recursos, <i>ainda quando se trate de subditos portuguezes que tenham direito
+á protecção das suas auctoridades</i> (sic). Esses recursos <i>tem regras
+de<span class="pagenum"><a id="pag_333" name="pag_333">[333]</a></span>
+processo que cumpre observar e vias competentes</i> por onde devem ser
+encaminhados ao seu alto destino.</p>
+
+<p>«<i>No caso</i> em que Soares Pereira apresente <i>em occasião propria</i>
+(?) a sua petição de graça, espero que v. s.ª me dará então conhecimento
+d'este facto, etc. (assignado) <i>Mathias de Carvalho e Vasconcellos</i>.»</p>
+
+<p>Isto é de mais!...</p>
+
+<p>Mas não nos desconsolemos com o procedimento do nobre embaixador: porque
+se elle não deu grande attenção ás sollicitações justissimas de mais de um
+anno, que lhe eram dirigidas pelo vice-consul na Bahia, prestou melhor
+attenção ao energico avulso a que já nos referimos.</p>
+
+<p>Eis como a legação o encaminha para junto do governo de s. m. imperial:</p>
+
+<p>«Legação de sua magestade fidelissima. Illm.º e exm.º sr. duque de
+Caxias.&mdash;Tenho a honra de passar ás mãos de vossa magestade um impresso,
+publicado na Bahia, referente ao procedimento havido com o subdito portuguez
+Manuel Soares Pereira.</p>
+
+<p>«Solicitando a esclarecida attenção de v. ex.ª para o que se allega na
+dita publicação, estou certo que v. ex.ª se servirá ordenar as providencias
+que a natureza do assumpto reclama, etc., (assignado) <i>Mathias de Carvalho
+e Vasconcellos</i>.»</p>
+
+<p>E mais nada. Depois d'isto s. ex.ª o embaixador portuguez fazia as malas e
+retirava-se para a Europa!</p>
+
+<h2>XV</h2>
+
+<p>Para na actualidade se conseguir qualquer cousa dos poderes publicos é
+preciso empregar dois meios, bem dissimilhantes entre si: um d'elles é o
+favoritismo de que lança mão a venalidade, em prol da propria venalidade;
+outro é a reacção energica, empregada por<span class="pagenum"><a
+id="pag_334" name="pag_334">[334]</a></span> gente digna contra os actos de
+flagrantissima injustiça dos potentados.</p>
+
+<p>São mais felizes aquelles, quando campea a corrupção que nos avassalla; e
+não deixam de ser considerados, ainda que com menos exito, os actos de
+reacção que deixamos indicados.</p>
+
+<p>No caso sujeito, o portuguez illustre, cujo nome nos honramos muito de
+inscrever n'este logar, o sr. Manuel Alves Ferreira, conseguiu com os seus
+protestos&mdash;<i>Ás nações civilisadas do universo</i>, que o governo portuguez
+tomasse a peito a defeza do nosso compatriota, condemnado injustamente pelas
+justiças brazileiras, e que havia sido desprezado pela legação de Portugal no
+Rio de Janeiro como já vimos.</p>
+
+<p>Foi o seu primeiro protesto publicado em quasi todos os jornaes
+portuguezes, e entregue ao imperador e aos passageiros do vapor
+<i>Hevelius</i>, em viagem para a Europa; protesto que chegou ás mãos do
+ministro dos negocios estrangeiros de Portugal, e que deu origem ao
+telegramma d'este alto funccionario do estado, ao então encarregado da
+legação portugueza no Rio de Janeiro, no qual se participava que o governo de
+sua magestade não se conformára com as circumstancias do julgamento de Manuel
+Soares Pereira, despacho que dera igualmente logar á reclamação diplomatica
+da embaixada, que não vemos extractada no <i>Livro Branco</i>, apresentado ás
+côrtes em 1877, do qual extrahimos os documentos officiaes aqui mencionados,
+mas á qual se refere o officio do encarregado dos negocios de Portugal, com
+data de 9 de junho de 1876.</p>
+
+<p>O acto mencionado&mdash;de reacção&mdash;, secundado de mais alguns protestos de
+Alves Ferreira, deu em resultado a reforma, em ultima instancia, da sentença
+do conselho de guerra da Bahia, modificando a pena capital, em que tinha sido
+condemnado Soares Pereira, a cinco annos de prisão com trabalhos!<span
+class="pagenum"><a id="pag_335" name="pag_335">[335]</a></span></p>
+
+<p>Já não era pouco; mas era preciso mais.</p>
+
+<p>As bem elaboradas notas diplomaticas do sr. Andrade Corvo, e os avulsos de
+Alves Ferreira, fizeram o resto: isto é, conseguiram o <i>perdão</i> da
+munificencia imperial.</p>
+
+<p>Já era muito!... e já era muito, porque aos innocentes tambem... se
+perdoa!</p>
+
+<h2>XVI</h2>
+
+<p>Mencionemos agora as providencias empregadas por Alves Ferreira, nos seus
+avulsos; e extratemos para aqui as informações que a respeito dos
+soffrimentos impostos pelas auctoridades do Brazil ao nosso compatriota
+Soares Pereira, aquelle dignissimo portuguez divulgou no imperio, para
+vergonha do proprio imperio.</p>
+
+<p>Primeiro protesta Alves Ferreira nos jornaes da Bahia contra a selvageria
+do tribunal militar; e não contente com isto, faz imprimir o seu primeiro
+avulso, apello <i>As nações civilisadas do universo</i>, que distribue com
+profusão.</p>
+
+<p>Neste avulso relata o seguinte:</p>
+
+<p>«Em janeiro proximo passado, escreveu o <i>Diario da Bahia</i>, dizendo
+que no quartel do forte de S. Pedro, d'esta cidade, achava-se preso ha 15
+mezes um portuguez sem ter commettido crime algum.</p>
+
+<p>«Á vista da noticia dirigi-me ao dito quartel e ahi encontrei Manuel
+Soares Pereira, portuguez, ao qual perguntei o motivo de sua prisão.</p>
+
+<p>«Respondeu o seguinte:</p>
+
+<p>«No principio da guerra do Paraguay, formou-se na cidade da Cachoeira,
+onde me achava um batalhão de voluntarios; seu coronel convidou-me a
+acompanhar o mesmo batalhão na qualidade de enfermeiro, offerecendo-me
+vantajosa remuneração.<span class="pagenum"><a id="pag_336"
+name="pag_336">[336]</a></span></p>
+
+<p>«Seduzido pelo que me prometteu de viva voz, sem fazermos contracto algum
+nem me mostrar a lei em que ia viver, acompanhei o batalhão até ao Rio de
+Janeiro. Ali cahiram muitos soldados de bexigas, a quem assisti com
+dedicação, tanto que, sendo visitada a enfermaria por S. M. o Imperador, elle
+mesmo me louvou e animou, ordenando-me a pedir o que fosse preciso para os
+enfermos. Pedi leite e agua, que era do que mais falta se sentia, sendo tudo
+fornecido immediatamente. Em seguida marchou o batalhão para os campos do
+Paraguay, onde servi sempre com dedicação na qualidade em que embarquei.
+Dissolvido o batalhão, por ter morrido muita gente, passei para outro, que
+teve o mesmo fim, pelo mesmo motivo, e assim por diante, até que me
+encostaram ao 16 de linha, de cujo batalhão me ausentei pelos seguintes
+motivos:</p>
+
+<p>«O coronel que me convidou a acompanhar o batalhão, não tendo cumprido o
+que verbalmente me prometteu, nunca me pagou o ordenado de enfermeiro mas sim
+de sargento.</p>
+
+<p>«Os que lhe succederam fizeram o mesmo, até que um dia appareceu uma ordem
+no campo para que fossem rebaixados a soldados razos todos os estrangeiros
+que tivessem qualquer posto no exercito; (!) fui eu incluido n'esta ordem,
+sendo rebaixado a soldado raso, continuando sempre como enfermeiro.</p>
+
+<p>«Quiz retirar-me, não consentiram; dizendo eu que não era engajado, não me
+attenderam; tive pois de me sujeitar á força.</p>
+
+<p>«Os meus soffrimentos aggravaram-se; o soldo que me prometteram de
+enfermeiro nunca me pagaram; foi reduzido ao de sargento; deste ainda
+reduziram para o de soldado, e nem este me pagavam; ficaram-me devendo nove
+mezes.</p>
+
+<p>«Recebi cartas de minha familia, que reside n'esta<span class="pagenum"><a
+id="pag_337" name="pag_337">[337]</a></span> provincia, dizendo-me que estava
+reduzida á ultima miseria, que a viesse soccorrer para não morrer de fome.</p>
+
+<p>«Larguei tudo, embarquei para o Rio de Janeiro, tomei passaporte de meu
+consul e vim cuidar dos meios de subsistencia de minha familia.</p>
+
+<p>«Aqui vivi alguns annos de negocio, comprando a credito a pessoas que em
+mim se confiavam.</p>
+
+<p>«Um dia mostraram-me um decreto em que o governo convidava a vir receber o
+soldo e a gratificação a todos que, tendo servido na guerra do Paraguay, não
+estivessem quites com o governo.</p>
+
+<p>«Apresentei-me no quartel, procurei receber o que me deviam de soldo e
+gratificação; mas o que encontrei foi esta prisão, onde estou ha quinze mezes
+e onde sou tratado como galé ou sentenciado, fazendo todo o serviço que é
+imposto aos maiores criminosos já sentenciados.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Fiz dous memoriaes ao imperador, que não sei qual o caminho que tomaram
+nem que despacho tiveram.</p>
+
+<p>«Já vê V. que estou aqui na terra alheia inteiramente desamparado!!»</p>
+
+<p>«Á vista disto dirigi-me ao encarregado do consulado, o sr. Gregorio
+Anselmo Ribeiro Marques, para saber o que havia a tal respeito.</p>
+
+<p>«Elle disse-me que tinha reclamado do ministro da guerra a soltura do
+subdito de S. M. Fidelissima; mas que, <i>julgando-o</i> s. ex.ª desertor, o
+mandára submetter a conselho de guerra e que este seria breve.</p>
+
+<p>«Estranhei-lhe o tempo de prisão que tinha soffrido um subdito de S. M.
+Fidelissima, sem ser julgado.</p>
+
+<p>«Appareceram varios escriptos no <i>Diario da Bahia</i> de 1, 9, 17 e 18
+de fevereiro do corrente anno, e 19 e 23 de março corrente, todos em relação
+a esta desgraçada questão.</p>
+
+<p>«Custaram-me estes escriptos um insulto por uma<span class="pagenum"><a
+id="pag_338" name="pag_338">[338]</a></span> gazeta de 22 de março, na qual
+me chamavam parasita e o mais que o despeito e pouca educação costumam
+dar.</p>
+
+<p>«Resignei-me, porém, dizendo commigo que o autor do tal escripto queria-se
+despir para me enfeitar.</p>
+
+<p>«Em 22 do corrente fui avisado, por pedido do pobre desgraçado, que
+responderia a conselho a 23.</p>
+
+<p>«Avisei d'isso o encarregado do consulado de Portugal, o qual me mandou
+dizer que tanto o advogado como o procurador do consulado estavam avisados
+para darem as providencias.</p>
+
+<p>«Apresentei-me no conselho de guerra, esperando pelo advogado, mas qual, o
+advogado nunca appareceu.</p>
+
+<p>«Correu o processo na quinta-feira, que não poude ser terminado, sendo-o
+hoje com a condemnação de <i>pena de morte</i> para este infeliz
+portuguez.</p>
+
+<p>«Em todo o tempo que este infeliz se acha preso no quartel, ainda não
+recebeu soccorro de <i>quem quer que seja</i>, nem o receberá, pois actos que
+não são vistos por todos, que não <i>pescam commendas e cruzes</i>, não são
+dignos de serem feitos pelos <i>grandes homens</i>.</p>
+
+<p>«V. V. S. S., porém, que parecem pensar de outra maneira, darão a esta
+questão a publicidade que entenderem; para que no mundo inteiro se conheça
+este caso.</p>
+
+<p>«Vou publicar esta carta no <i>Diario da Bahia</i>, não só para que S. M.
+o imperador veja e se recorde das promessas feitas ao infeliz, como para vêr
+se ha alguem que conteste as verdades que esta encerra» etc.</p>
+
+<p>E á ultima hora do dia 28 de março de 1876:</p>
+
+<p>«Acabo de chegar da prisão onde se acha o infeliz Manuel Soares Pereira.
+Quando me viu, perguntou-me se o conselho havia reunido e qual a
+deliberação.</p>
+
+<p>«Estranhei a pergunta, pois entendia que deveria ter assistido á
+continuação do julgamento, e que lhe teriam lido a sentença.<span
+class="pagenum"><a id="pag_339" name="pag_339">[339]</a></span></p>
+
+<p>«É verdade, que, chegando eu hontem ao logar onde funccionava o conselho,
+só alli encontrei o pessoal do mesmo; entendendo eu que já se deveriam ter
+retirado o réu e o procurador advogado, pois á hora que lá cheguei se
+levantava o mesmo conselho.</p>
+
+<p>«Pude unicamente saber por dois officiaes do mesmo, da deliberação que
+tomaram.</p>
+
+<p>«Quem commentará isto?</p>
+
+<p>«A carta dirigida aos senhores redactores do <i>Brazil</i>, aqui
+publicada, foi tambem no <i>Diario da Bahia</i> de 29 de março de 1876, e
+entregue o mesmo <i>Diario</i> no mesmo dia, a S. M. o imperador, no porto da
+Bahia de S. Salvador.</p>
+
+<p>«Depois de preso, esteve o infeliz cinco dias sem receber ração. Se não
+morreu de fome, deve-o aos companheiros de prisão, que lhe deram por esmola
+um boccado da escassa comida.</p>
+
+<p>«Passados cinco dias, aos gritos que a fome incitava no desgraçado, foi
+este posto em custodia, ou encostado para receber o alimento.</p>
+
+<p>«Depois de tres mezes, abriram-lhe praça em uma companhia, e como tal
+recebe a ração no <i>Xadrez</i>.</p>
+
+<p>«Tudo isto me foi asseverado pelo padecente; mas os interessados em
+encubrir o occorrido, podem negar o que affirma o estrangeiro; elles têm
+<i>testemunhas do quartel</i>, como as que deram para condemnar á morte o
+desgraçado:&mdash;quem poderá <i>provar</i> o contrario?»</p>
+
+<h2>XVII</h2>
+
+<p>No segundo avulso que temos presente, conta Alves Ferreira mais alguns
+pormenores a respeito do infeliz condemnado, e publica a carta que expedia
+aos directores da Caixa de Soccorros de D. Pedro V, afim de que o ajudassem a
+salvar o desgraçado.</p>
+
+<p>O seu magnanimo coração leva-o ao ponto de despender<span
+class="pagenum"><a id="pag_340" name="pag_340">[340]</a></span> grossas
+quantias na publicação dos protestos, que elle offerecia gratuitamente ás
+pessoas que desejassem orientar-se das occorrencias.</p>
+
+<p>Ouçamos o que elle conta no referido avulso, datado de 11 de abril de
+1876:</p>
+
+<p>«Nos ultimos dias do mez passado requereu o infeliz portuguez Manuel
+Soares Pereira ao ex.<sup>mo</sup> sr. general das armas certidão da sentença
+proferida pelo conselho de guerra.</p>
+
+<p>«Teve o seguinte despacho:&mdash;</p>
+
+<p>«<i>Requeira pelos tramites legaes.</i></p>
+
+<p>«Em principio do corrente fui ao quartel do Forte de S. Pedro e pedi em
+nome do condemnado licença ao sr. commandante da companhia para que o homem
+pudesse pedir certidão de algumas peças do processo.</p>
+
+<p>«Concedeu licença o sr. commandante da companhia.</p>
+
+<p>«Sahi, fiz o requerimento; voltando levei-o ao desgraçado, este o
+assignou.</p>
+
+<p>«Entreguei-o immediatamente ao sargento, para este o entregar ao
+commandante da companhia, para depois ao commandante do batalhão e depois ao
+general das armas, etc.</p>
+
+<p>«Voltei em outro dia, fui saber do condemnado o que havia a respeito.</p>
+
+<p>«Disse-me que lhe haviam apresentado de novo o requerimento para que elle
+escrevesse por baixo da assignatura esta palavra&mdash;Soldado&mdash;para lhe darem as
+certidões pedidas.</p>
+
+<p>«Negou-se o negociante, dizendo que tal não faria, pois é negociante e não
+soldado.</p>
+
+<p>«Em seguida, procurei o sr. tenente-coronel commandante do batalhão,
+pedindo a s. s.ª que me fizesse o favor de encaminhar o requerimento, afim de
+se extrairem as certidões n'elle pedidas.</p>
+
+<p>«S. s. disse-me que não daria certidão alguma, que<span class="pagenum"><a
+id="pag_341" name="pag_341">[341]</a></span> o homem tinha sido condemnado e
+que <i>ninguem pode obter certidão de uma sentença depois de proferida</i>:
+disse-me ainda outras coisas <i>muito bonitas</i>, que virão a luz logo que
+as circunstancias o permittam: por ora não; <i>elles tem em seu poder o meu
+protegido</i>...</p>
+
+<p>«Á vista das propostas do sr. commandante fiquei n'uma luta comigo mesmo;
+ora duvidando da minha razão, ora da de <i>muita gente</i>.</p>
+
+<p>«Dizia assim: o ex.<sup>mo</sup> sr. general das armas não saberia que não
+era premittido dar as certidões pedidas? Se o sabia porque despachou:
+Requeira pelos tramites legaes?</p>
+
+<p>«Se não podiam dar as certidões de maneira alguma para que foram dizer ao
+homem, que se queria as certidões escrevesse por baixo do nome a
+palavra&mdash;soldado?</p>
+
+<p>«Não posso ser mais extenso; este é pago a tanto por linha; meu dinheiro é
+pouco, e temo que haja muitos outros infelizes nacionaes e estrangeiros, que
+precisem de meu auxilio.</p>
+
+<p>«As pessoas de qualquer parte do mundo que quizerem ler um impresso a
+respeito d'esta desgraçada questão podem mandar pedir, que lhe será fornecido
+gratuitamente pelo correio, dirigindo-se para esse fim a <i>Manuel Alves
+Ferreira</i>, 65, Grades de Ferro&mdash;Bahia.»</p>
+
+<p>Isto é nobillissimo. Regista-se e pede-se aos poderes do estado não
+premiem estes serviços, para que se não confundam com <i>outros</i> que para
+ahi vemos galardear.</p>
+
+<h2>XVIII</h2>
+
+<p>É esta a carta que elle dirige á directoria da caixa de Soccorros de D.
+Pedro V:</p>
+
+<p>«<i>Ill.<sup>mos</sup> srs. directores</i>&mdash;A esta hora devem estar vossas
+senhorias e todas as mais sociedades portuguezas d'essa cidade da posse de um
+escripto que dirigi<span class="pagenum"><a id="pag_342"
+name="pag_342">[342]</a></span> ás nações civilisadas do universo, no qual
+exponho o que <i>posso dizer</i> ácerca da condemnação á pena de morte do
+infeliz negociante portuguez Manuel Soares Pereira.</p>
+
+<p>«Por elle terão julgado do procedimento do homem que o governo portuguez
+tem n'esta terra para velar pelos subditos de S. M. Fidelissima, das obras de
+muita gente fina e dos trabalhos que tem passado um desgraçado portuguez.</p>
+
+<p>«Tenho acompanhado a questão, diversos outros casos se tem dado, os quaes
+vv. ss. podem vêr relatados no <i>Diario da Bahia</i> e <i>Diario de
+Noticias</i> de hoje.</p>
+
+<p>«Peço a vv. ss. e a todos os amigos da humanidade para lerem e meditarem
+sobre todos estes escriptos. Além do que n'aquelles jornaes e avulsos
+escrevi, ha o seguinte:</p>
+
+<p>«Soube ás 5 e meia horas da tarde de hoje, que tinham retirado o
+condemnado da prisão do quartel do Forte de S. Pedro: não sei para onde o
+levaram, nem que fim lhe deram.</p>
+
+<p>«Como tenha saido hoje d'este porto para essa cidade um vapor nacional, é
+possivel que tenham embarcado o homem para o affastar d'aquelle que pelo
+infeliz se interessa.</p>
+
+<p>«Seja qual fôr a razão pela qual o tiraram da prisão, <i>seja para que
+fim</i>; o que eu peço a vv. ss. é que velem pela sorte do desgraçado, se
+para ahi o levarem, já que eu não posso mais velar.</p>
+
+<p>«Se eu verificar que embarcaram o pobre negociante, avisarei
+immediatamente pelo telegrapho, para que vv. ss. tenham dado as providencias,
+quando esta ahi possa chegar.</p>
+
+<p>«Animo-me a fazer este pedido confiado no titulo da vossa sociedade: pois
+se é dedicada a soccorrer os infelizes portuguezes não poderão em tempo algum
+achar uma melhor occasião de o fazer.</p>
+
+<p>«Não deixem que prevaleça o mal se mal ha: para<span class="pagenum"><a
+id="pag_343" name="pag_343">[343]</a></span> que não venha a soffrer mais
+aquelle que tanto tem soffrido e que muita gente o julga digno de recompensa
+e não de castigo.</p>
+
+<p>«Os accusadores d'este infeliz hão de dizer a vv. ss. que elle é desertor
+do exercito brazileiro.</p>
+
+<p>«Se vv. ss. quizerem verificar o valor d'essa accusação, peçam ao governo
+imperial o contracto de engajamento feito entre este estrangeiro e o mesmo
+governo, e verão se apresentam algum contracto.</p>
+
+<p>«Peçam mais o termo do juramento de bandeira e verão se lhes mostram esse
+termo.</p>
+
+<p>«Não o mostrarão por certo, pois não ha contracto lavrado nem termo de
+juramento de bandeira.</p>
+
+<p>«Dirão vv. ss. e dirá todo o homem sensato: «Como condemnaram á morte um
+estrangeiro por falta de cumprimento de contracto feito com o governo quando
+não apresentam o mesmo contracto?»</p>
+
+<p>«Eu, meus senhores, não posso responder; vv. ss. sabem que nem tudo se
+póde fallar na terra alheia...</p>
+
+<p>«Agora, que o infeliz se acha longe de mim e dos pequenos soccorros que
+lhe poderia prestar, preciso de uma mão poderosa que lhe assista, e essa será
+a mão da caritativa e patriotica sociedade Caixa de Soccorros D. Pedro V.</p>
+
+<p>«Se não tiverem embarcado o infeliz, continuarei a protegel-o.</p>
+
+<p>«Vou pois ver se <i>descubro</i> o logar em que o metteram.</p>
+
+<p>«Peço a vv. ss. licença para publicar esta carta e desculpa da pobreza da
+linguagem.</p>
+
+<p>«No mais sou de vv. ss. amigo e obrigado.</p>
+
+<p style="text-align:right;">«<i>Manuel Alves Ferreira.</i>»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Omittamos os nossos elogios a estes actos de verdadeira<span
+class="pagenum"><a id="pag_344" name="pag_344">[344]</a></span> philantropia,
+porque o melhor elogio está traçado pelo proprio nas linhas que ahi
+deixamos.</p>
+
+<h2>XIX</h2>
+
+<p>Vejamos o que Alves Ferreira informa sobre o paradeiro da desgraçada
+victima do insano odio de raça das auctoridades da Bahia.</p>
+
+<p>São estas as palavras do seu nobilissimo defensor:</p>
+
+<p>«Foi retirado da prisão do forte de S. Pedro e levado para as horriveis
+masmorras da fortaleza do Barbalho o desgraçado portuguez Manuel Soares
+Pereira. Quereis vel-o, tendes animo?</p>
+
+<p>«Entrae, mas devagar; cuidado com os precipicios abertos na ponte, que vos
+pódem devorar...</p>
+
+<p>«Que vêdes? Uma horrivel masmorra, suja, fria e humida, e lá no fundo um
+desgraçado que largou patria e familia em busca da felicidade!... da
+felicidade!...</p>
+
+<p>«Olhae para o infeliz; que vêdes? A figura do desespero, o homem
+angustiado!</p>
+
+<p>«Vêde o fato que o cobre:&mdash;farrapos immundos!</p>
+
+<p>«Escutae-o: parece delirar...</p>
+
+<p>«O que diz?&mdash;Meus filhos... meus filhos... quem velará por vós?</p>
+
+<p>«Vou morrer, vou já, já... agora, elles ahi vem; é aqui no Barbalho que se
+executam os sentenciados...</p>
+
+<p>«Meus filhos, meus filhos, quem velará por vós?</p>
+
+<p>«Eu morro: mas qual é o meu crime, qual o meu peccado?»</p>
+
+<p>«Socega irmão; teus olhos são duas postas de sangue, teus soffrimentos
+horriveis; mas não ha remedio; tem paciencia, soffre!</p>
+
+<p>«Socega irmão, socega infeliz, Deus vela por ti; não morrerás de bala, nem
+de corda: para te matar basta o ar que respiras n'essa immunda masmorra.</p>
+
+<p>«Socega irmão, não morrerás de bala; homens como<span class="pagenum"><a
+id="pag_345" name="pag_345">[345]</a></span> tu que se sacrificam para salvar
+a vida aos desgraçados que se expõem, como tu, entre centenares de pestiados,
+não terão uma morte infamante...</p>
+
+<p>«Não morrerás de bala; teus filhos são brazileiros, filho de um honrado
+portuguez, de um homem da caridade, que expôz a vida para salvar seus irmãos,
+os brazileiros, no leito da dôr...</p>
+
+<p>«Descança, irmão, Deus vela por ti.</p>
+
+<p>«Dá-me esse livro que te emprestei; toma esta obra, se podéres lê; has de
+alliviar teus soffrimentos, é esta que devem lêr os desgraçados como tu.</p>
+
+<p>«Lê; vês o titulo? é o martyr do Golgotha.</p>
+
+<p>«Se morreres vae em paz para a patria onde todas as obras tem o seu
+premio.</p>
+
+<p>«Morre, amigo, pois morres para viveres; homens como tu não morrem, tuas
+virtudes são conhecidas, a posteridade te louvará.</p>
+
+<p>«Vae em paz, recebe o premio de teus sacrificios das proprias mãos de
+Deus.»</p>
+
+<p>Vacilla a penna que empunhamos, ao transcrever o que ahi fica. Dá de mão a
+este livro, optimista systematico; não leias isto que entristece: procura as
+leituras que deleitam, que nós não procuramos seduzir-te. Nós queremos o teu
+despreso que é a nossa gloria. Nós queremos que tu rias e saltes o
+<i>cancan</i> desenfreado, que a devassidão te aconselha, como o unico
+remedio contra a anemia que te definha o corpo e a alma. Salta que a
+corrupção te dará em premio os meios de que precisas para a boa execução das
+pantomimas na praça publica. Sustentai bem o vosso papel, que lucrareis
+melhor recompensa. Nós cá, sentimos, soffremos com os vossos risos; e por que
+nos convencemos da quasi inutilidade dos nossos exforços, escrevemos mais
+para a historia os factos dignos d'ella do que para vóz, ó <i>grandes</i>
+pygmeus!<span class="pagenum"><a id="pag_346"
+name="pag_346">[346]</a></span></p>
+
+<h2>XX</h2>
+
+<p>Continua Alves Ferreira a dar conta dos pormenores a respeito do seu
+protegido, no terceiro avulso <i>Ás nações civilisadas do universo</i>,
+datado de 10 de maio de 1876:</p>
+
+<p>«Foi tirado em uma padiola das horriveis masmôrras da fortaleza do
+Barbalho, em estado grave de saude, e conduzido para o hospital militar, o
+honrado negociante portuguez Manuel Soares Pereira.</p>
+
+<p>«Hoje em companhia do sr. dr. José Barbosa Nunes Pereira, redactor do
+<i>Jornal do Commercio</i> que se publica n'esta cidade, visitamos,
+escoltados por um alferes e varias praças, este infeliz estrangeiro, havendo
+bastante difficuldade para conseguirmos este fim.</p>
+
+<p>«Qual será o motivo da molestia?...</p>
+
+<p>«Será o pessimo <i>ar</i> que tem respirado nas horriveis masmorras que
+lhe tem feito correr!...</p>
+
+<p>«Serão <i>pezados serviços</i> a que tenham obrigado o desgraçado?...</p>
+
+<p>«Serão os tratos que lhe possam ter dado?...</p>
+
+<p>«Será dos <i>alimentos</i>?</p>
+
+<p>«Será <i>tambem</i> de alguma <i>bebida alcoolica</i>, que lhe dessem em
+<i>demasiada quantidade</i>?...</p>
+
+<p>«Ah! posteridade... posteridade, como julgarás esta questão?...</p>
+
+<p>«Perante a fria historia, quem será réu n'este malfadado proccesso?...»</p>
+
+<p>O Brazil: é preciso repetir o anathema em quanto houver folego de vida.</p>
+
+<p>Não ha conveniencias que possam obscurecer a verdade terrivel.</p>
+
+<p>Continua Alves Ferreira:</p>
+
+<p>«Hoje vesitei o infeliz negociante estrangeiro Manuel Soares Pereira n'uma
+das horriveis masmorras da<span class="pagenum"><a id="pag_347"
+name="pag_347">[347]</a></span> fortaleza do Barbalho. Perguntei o que se
+havia passado ultimamente com o desgraçado, e este respondeu-me o
+seguinte:</p>
+
+<p>«Tendo-me conduzido d'aqui em uma padiola para o hospital militar, estive
+ali sempre, de sentinella ao lado! não me mexia que não fosse presentido por
+ella.</p>
+
+<p>«Um dia, na occasião em que mudavam a sentinella, disse um cabo a nova
+sentinella: «Vê lá; este homem vai morrer no sabbado de alleluia, se elle
+fugir vaes tu em seu lugar.</p>
+
+<p>«No hospital não me quiseram dar medicamentos, e, como o mal não cessasse,
+pedi ao sr. doutor que me mandasse dar um purgante, o qual me foi dado no
+outro dia, e no mesmo dia em que o tomei, quando estava produzindo os seus
+effeitos, fui expellido do mesmo hospital e devolvido para esta prisão....</p>
+
+<p>«Aqui, n'esta prizão, não me dão alimento de qualidade alguma, nem eu
+tenho dinheiro para o comprar; se não tenho morrido á fome, devo-o á
+verdadeira caridade, que me tem valido n'esta desgraça.</p>
+
+<p>«Meu negocio evaporou-se, não possuo um real: n'estes dezoito mezes de
+prizão tudo se perdeu; não só o que era meu, como o de meus credores, que de
+tão boa bontade de mim se confiaram: elles sabem porém, que eu não sou
+velhaco, que se lhes não paguei a culpa não foi minha, foi da desgraça que
+tanto me tem perseguido.»</p>
+
+<p>«Será verdade, meu Deus, que queiram matar o homem desgraçado á
+fome?....</p>
+
+<p>«Será esta a sentença imposta pelo conselho de guerra?....</p>
+
+<p>«No caso affirmativo, poderiam pol-a em execução antes que subisse ao
+tribunal superior!...</p>
+
+<p>«Haverá tal pena no codigo ou lei militar do Brazil?...<span
+class="pagenum"><a id="pag_348" name="pag_348">[348]</a></span></p>
+
+<p>«E vós nações civilisadas, tereis esta penna em vossos codigos?....</p>
+
+<p>«Dever-se-ha esperar que a caridade publica sustente aquelle a quem as
+auctoridades do paiz chamam soldado e como tal o tem preso?....</p>
+
+<p>«Será soldado aquelle que nunca jurou bandeira?....</p>
+
+<p>«Poderá o governo brazileiro engajar subditos de outra nação para fazer a
+guerra a uma terceira, sem licença previa do governo do paiz do qual queira
+engajar tropa?....</p>
+
+<p>«Será cidadão brazileiro, o estrangeiro que nunca se naturalizou no
+paiz?....</p>
+
+<p>«Se o homem não podesse perante a lei soffrer as penas que lhe tem sido
+impostas, quem serão os responsaveis pelos horriveis trabalhos por que tem
+passado este desgraçado estrangeiro e pelos perjuizos que na saude e
+propriedade tem soffrido?....</p>
+
+<p>«Infeliz estrangeiro!... que sorte desgraçada te esperava na terra da
+Santa Cruz?!....</p>
+
+<p>«A vós, almas caridosas de qualquer parte do mundo, pede um boccadinho de
+pão, para não morrer de fome, o desgraçado portuguez preso nas masmorras da
+fortaleza do Barbalho!»</p>
+
+<p>As esmolas vieram minorar um pouco os soffrimentos do desgraçado; mas este
+apello á caridade publica não soára bem aos ouvidos da officialidade que
+condemnára o desgraçado á morte!</p>
+
+<h2>XXI</h2>
+
+<p>Vão terminar os soffrimentos de Soares Pereira, e com a noticia
+circumstanciada d'elles, por mercê dos esclarecimentos prestados pelo seu
+benemerito protector, o livro que contra a emigração de portuguezes para o
+Brazil nos propozemos escrever.</p>
+
+<p>Como já dissemos, a pena de morte fora-lhe modificada<span
+class="pagenum"><a id="pag_349" name="pag_349">[349]</a></span> em cinco
+annos de prisão com trabalhos. Deu-se isto em 31 de maio de 1876.</p>
+
+<p>Depois de dez mezes de galés; isto é, em 28 de março de 1877, foi perdoada
+a Manuel Soares Pereira esta pena, sendo ao mesmo tempo <i>dispensado</i> do
+serviço do exercito!</p>
+
+<p>Vamos transcrever a ultima peça desse processo escandaloso&mdash;o protesto do
+supposto desertor; e terminaremos esta questão que nos fastidia.</p>
+
+<p>Eis o documento, publicado no setimo avulso de Alves Ferreira&mdash;<i>Ás
+nações civilisadas do universo</i>:</p>
+
+<p>«Diz Manuel Soares Pereira, que tendo sido preso como desertor do 16.º
+batalhão de infanteria, em outubro de 1874, condemnado á morte em 26 de março
+de 1876, e a cinco annos de galés em 31 de maio do mesmo anno de 1876, sendo
+perdoada esta pena em 28 de março do corrente anno, fôra afinal em 31 do
+mesmo mez dispensado do serviço do exercito;</p>
+
+<p>«Que estando preso e sem meios de se defender, recebera todo o castigo que
+lhe quizeram impor, e o fardamento e etapa que lhe quizeram dar;</p>
+
+<p>«Que achando-se actualmente em liberdade, sabia que pelos livros do mesmo
+batalhão é credor de certa quantia de fardamento e soldo, e que não se
+julgando nunca soldado no Brazil, não pode, em consciencia receber hoje essa
+quantia.</p>
+
+<p>«E portanto, se continuarem a julgal-o credor d'ella offerece-a para uma
+obra pia, isto é, para o hospicio Pedro II, o qual é no Brazil um asylo de
+alienados.</p>
+
+<p>«Reserva, porem, para si o direito, se o tiver, de haver do governo
+brazileiro os seus ordenados como enfermeiro, os quaes nunca lhe foram pagos,
+pelo que lhe prometeu de bocca o sr. commandante do 14.º batalhão de
+voluntarios cachoeiranos.</p>
+
+<p>«Reserva mais o direito que possa ter pela sua dedicação, provada por
+irrefutaveis documentos de dedicação,<span class="pagenum"><a id="pag_350"
+name="pag_350">[350]</a></span> que mostrou nos hospitaes da Cachoeira, Rio
+de Janeiro e na esquadra, no dia da batalha naval, e nos hospitaes e campos
+de batalha no Paraguay, como enfermeiro voluntario, e sem contracto.</p>
+
+<p>«Reserva ainda, para si, o direito d'uma indemnisação pelos perjuizos
+causados ao seu commercio, pois sendo na occasião em que fora preso,
+estabelecido na Baixa Grande, povoação d'esta provincia, perdera todos os
+generos do seu commercio, parte do que lhe deviam do mesmo negocio, tudo
+causado pela longa prisão que soffrera, e pela noticia que no logar correra,
+de ter sido executado n'esta cidade.</p>
+
+<p>«Guarda mais, para si, o direito a uma indemnisação pelos prejuisos
+causados na sua saude, em consequencia da fome, maus tratos e pesados
+serviços a que o obrigaram.</p>
+
+<p>«Guarda tambem para si o direito a uma indemnisação pela injuria de lhe
+botarem o ferrete dos galés, fazel-o n'este estado correr toda a cidade e
+parte da provincia, dando-lhe por companheiros assassinos sentenciados.</p>
+
+<p>«Reserva mais o direito a uma indemnisação pelo que n'esta occasião não
+lembra, mas que de direito seja.</p>
+
+<p>«Appella, pois, para os altos poderes do estado, aos quaes apresentará a
+sua petição em fórma, logo que suas circumstancias o permittam.»</p>
+
+<p>Hade ter igual resultado ao obtido pela familia dos desgraçados
+negociantes portuguezes, assassinados na noite de 6 para 7 de setembro de
+1874, na ilha de Jurupary.</p>
+
+<p>É assim que o governo brazileiro mostra empenho em reunir debaixo do
+explendido céu do Cruzeiro, os individuos de todas as nacionalidades, que
+queiram alli encontrar patria commum!<span class="pagenum"><a id="pag_351"
+name="pag_351">[351]</a></span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ponhamos ponto final aqui; mas antes d'isto permitta-nos o leitor que
+façamos a seguinte declaração, que é ao mesmo tempo um protesto contra a
+propaganda dos optimistas&mdash;de que somos inimigo figadal do imperio
+brazileiro:</p>
+
+<p>Não somos inimigo do Brazil. Nós somos tão amigos d'esta nação, como o
+pode ser o medico consciencioso, junto do amigo, gravemente enfermo, a quem
+tenta salvar, applicando ao mal os meios que a sciencia aconselha... não
+excluindo o energico visicatorio.</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">FIM<span class="pagenum"><a
+id="pag_352" name="pag_352">[352]</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot425"></a><a
+href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <i>Duas Palavras a Brazileiros e
+Portuguezes</i>, por J. A. Torres.</p>
+
+<p><a name="foot166"></a><a href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a>
+Auctor citado.</p>
+
+<p><a name="foot4251"></a><a
+href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> <i>Interesses portuguezes</i>, por J. R.
+de Mattos.</p>
+
+<p><a name="foot171"></a><a href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Veja-se a
+<a href="#nota1">nota n.º 1</a> no fim do volume.</p>
+
+<p><a name="foot173"></a><a href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Relatorio do
+consul geral de Portugal no Rio, de 28 de maio de 1877.</p>
+
+<p><a name="foot4252"></a><a href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Veja-se
+<i>Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração portugueza</i>. 1873.</p>
+
+<p><a name="foot181"></a><a href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Veja-se <a href="#nota1">nota
+n.º 1</a> no fim do vol.</p>
+
+<p><a name="foot4253"></a><a href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>O
+Brazil</i>, por Augusto de Carvalho.</p>
+
+<p><a name="foot4255"></a><a href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> <i>Negocios
+externos</i>, documentos apresentados ás cortes em 1874.</p>
+
+<p><a name="foot4256"></a><a href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Veja-se
+<i>Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração portugueza</i>.</p>
+
+<p><a name="foot4257"></a><a href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Buillet,
+<i>Dictionaire de l'Histoire et geographie</i>.</p>
+
+<p><a name="foot426"></a><a href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Consta-nos
+que os roceiros do Brazil mandaram um presente de cem libras ao auctor do
+<i>Estudo sobre a colonisação e a emigração para o Brazil</i>.</p>
+
+<p><a name="foot532"></a><a href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a>
+Considerado, actualmente, engajador official.</p>
+
+<p><a name="foot536"></a><a href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Deu-se um
+facto d'estes com um administrador de concelho do districto de Coimbra, e mal
+pensavamos nós que, passados apenas alguns mezes, haviamos de ouvir fazer
+accusações gravissimas a respeito da emigração clandestina, no parlamento
+portuguez, sem que houvesse uma voz que as refutasse. (Veja-se a <a href="#nota2">nota n.º 2</a>
+no fim do volume.)</p>
+
+<p><a name="foot4261"></a><a href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> Veja-se
+<i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot563"></a><a href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Veja-se a
+<a href="#nota3">nota n.º 3</a>.</p>
+
+<p><a name="foot4262"></a><a href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> Carta
+dirigida ao sr. Cruz Coutinho pelo auctor das <i>Farpas</i>, publicada no
+prefacio do livro&mdash;<i>Brazil</i>.</p>
+
+<p><a name="foot4263"></a><a href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> Veja-se o
+numero das <i>Farpas</i>, correspondente a dezembro de 1872.</p>
+
+<p><a name="foot4264"></a><a href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> Veja-se o
+n.º das <i>Farpas</i>, já citado.</p>
+
+<p><a name="foot4265"></a><a href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> <i>O
+Brazil</i>, por Augusto de Carvalho.</p>
+
+<p><a name="foot649"></a><a href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Relatorio
+do consul geral de Portugal no Rio de Janeiro, de 1875.</p>
+
+<p><a name="foot656"></a><a href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Relatorio
+de 7 de dezembro de 1874.</p>
+
+<p><a name="foot688"></a><a href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> Relatorio
+de 17 de dezembro de 1874.</p>
+
+<p><a name="foot4266"></a><a href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> <i>America
+Portugueza</i>&mdash;Rocha Pitta.</p>
+
+<p><a name="foot4267"></a><a
+href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> <i>O Brazil</i>, pag. 2.</p>
+
+<p><a name="foot4268"></a><a
+href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> <i>Questões do Pará.</i></p>
+
+<p><a name="foot4269"></a><a
+href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> <i>Negocios Externos.</i></p>
+
+<p><a name="foot427"></a><a href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> <i>Negocios
+externos.</i> Sobre este mesmo assumpto, veja-se <i>Questões do Pará.</i>
+Cap. XI.<br>
+</p>
+
+<p><a name="foot4271"></a><a href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> <i>Diario
+de Belem.</i></p>
+
+<p><a name="foot4272"></a><a href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> <i>Le
+Bresil.</i></p>
+
+<p><a name="foot936"></a><a href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> A phrase
+em gripho é a empregada pelos alliciadores, nos contractos de locação de
+serviços e com a qual encobrem muitas extorções feitas aos collonos.</p>
+
+<p><a name="foot4277"></a><a href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> <i>Liberal
+do Pará.</i></p>
+
+<p><a name="foot4279"></a><a href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> Veja-se
+<i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot428"></a><a href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> Veja-se
+<i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot4281"></a><a href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> Veja-se
+<i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot1207"></a><a href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> Relatorio
+de 7 de dezembro de 1874.</p>
+
+<p><a name="foot1209"></a><a href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> Relatorio
+de 4 de janeiro de 1875.</p>
+
+<p><a name="foot1227"></a><a href="#tex2html38"><sup>[38]</sup></a> Veja-se a
+<a href="#nota4">nota n.º 4</a>.</p>
+
+<p><a name="foot1237"></a><a href="#tex2html39"><sup>[39]</sup></a> Relatorio
+citado.</p>
+
+<p><a name="foot4282"></a><a href="#tex2html40"><sup>[40]</sup></a> <i>Le
+Brezil.</i></p>
+
+<p><a name="foot1341"></a><a href="#tex2html41"><sup>[41]</sup></a> Veja-se a
+<a href="#nota5">nota n.º 5</a>.</p>
+
+<p><a name="foot1369"></a><a href="#tex2html42"><sup>[42]</sup></a> Veja-se a
+<a href="#nota6">nota n.º 6</a>.</p>
+
+<p><a name="foot4286"></a><a href="#tex2html43"><sup>[43]</sup></a> Tudo
+historico. Veja-se&mdash;<i>Commendador Barão</i>.</p>
+
+<p><a name="foot1548"></a><a href="#tex2html44"><sup>[44]</sup></a> A
+colonisação por meio da escravatura, era de 43:000 negros para o Rio de
+Janeiro, e de 90:000 para todo o imperio, annualmente. A desproporção é
+manifesta.</p>
+
+<p><a name="foot1574"></a><a href="#tex2html45"><sup>[45]</sup></a> Officio
+de 8 de junho de 1863.</p>
+
+<p><a name="foot161"></a><a href="#tex2html46"><sup>[46]</sup></a> Veja-se a
+<a href="#nota7">nota n.º 7</a> no fim do volume.</p>
+
+<p><a name="foot1616"></a><a href="#tex2html47"><sup>[47]</sup></a>
+Historico.</p>
+
+<p><a name="foot4288"></a><a href="#tex2html48"><sup>[48]</sup></a>
+Historico. Veja-se <i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot4289"></a><a href="#tex2html49"><sup>[49]</sup></a> Veja-se
+<i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot429"></a><a href="#tex2html50"><sup>[50]</sup></a> Traducção
+do <i>Diario da Manhã</i>.</p>
+
+<p><a name="foot4291"></a><a href="#tex2html51"><sup>[51]</sup></a> A
+<i>Tribuna</i>, do Pará.</p>
+
+<p><a name="foot4292"></a><a href="#tex2html52"><sup>[52]</sup></a> <i>Jornal
+do Commercio</i>, de Lisboa, de 19 de julho de 1877.</p>
+
+<p><a name="foot4293"></a><a href="#tex2html53"><sup>[53]</sup></a> <i>A
+Tribuna</i> do Pará.</p>
+
+<p><a name="foot4295"></a><a href="#tex2html54"><sup>[54]</sup></a> «Em
+remotas épocas foram aqui atrozmente insultados os portuguezes, por alguns
+jornaes, taes como (segue os nomes citados).» <i>Relatorio do consul do
+Maranhão</i>, de 7 de dezembro de 1874.</p>
+
+<p><a name="foot4296"></a><a href="#tex2html55"><sup>[55]</sup></a> Dos
+jornaes mencionados só existe hoje o <i>Publicador Maranhense</i>, jornal
+official do governo da provincia!</p>
+
+<p><a name="foot4297"></a><a href="#tex2html56"><sup>[56]</sup></a>
+Portuguezes ou <i>gallegos</i>, é claro!</p>
+
+<p><a name="foot4298"></a><a href="#tex2html57"><sup>[57]</sup></a> <i>Os
+salões</i> do sr. visconde de Ouguella.</p>
+
+<p><a name="foot43"></a><a href="#tex2html58"><sup>[58]</sup></a> Não salvou
+porque o regulamento não manda salvar quando hajam só quatro boccas de
+fogo.&mdash;A <i>Mearim</i> não salvou pela mesma razão.</p>
+
+<p><a name="foot224"></a><a href="#tex2html59"><sup>[59]</sup></a>
+Sodomitas.</p>
+
+<p><a name="foot4302"></a><a href="#tex2html60"><sup>[60]</sup></a> Veja-se o
+opusculo <i>Coisas Brazileiras</i>.</p>
+
+<p><a name="foot4303"></a><a href="#tex2html61"><sup>[61]</sup></a> Invenções
+calumniosas da <i>Tribuna</i>, invenções que ella dava a estampa repetidas
+vezes contra os portuguezes.</p>
+
+<p><a name="foot245"></a><a href="#tex2html62"><sup>[62]</sup></a> Revolução
+de 1835 contra portuguezes.</p>
+
+<p><a name="foot4304" id="foot4304"></a><a
+href="#tex2html63"><sup>[63]</sup></a> <i>O Districto d'Aveiro.</i> Veja-se a
+critica ás <i>Questões do Pará</i>, no fim do volume.</p>
+
+<p><a name="foot4305"></a><a href="#tex2html64"><sup>[64]</sup></a> <i>A
+Democracia</i>, de 14 de julho de 1875.</p>
+
+<p><a name="foot4306"></a><a
+href="#tex2html65"><sup>[65]</sup></a> <i>Questões do Pará.</i></p>
+
+<p><a name="foot4307"></a><a
+href="#tex2html66"><sup>[66]</sup></a> <i>Questões do Pará.</i></p>
+
+<p><a name="foot4308"></a><a href="#tex2html67"><sup>[67]</sup></a> Veja-se a
+<i>Regeneração</i> de 6 de junho de 1875.</p>
+
+<p><a name="foot4309"></a><a href="#tex2html68"><sup>[68]</sup></a> Veja-se o
+processo no <i>apendice</i> ás <i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot2682"></a><a href="#tex2html69"><sup>[69]</sup></a> Obra
+citada.</p>
+
+<p><a name="foot431"></a><a href="#tex2html70"><sup>[70]</sup></a> <i>Diario
+de Noticias.</i></p>
+
+<p><a name="foot2738"></a><a href="#tex2html71"><sup>[71]</sup></a> Nunca
+fomos injusto para com o tribunal da Relação do Pará.</p>
+
+<p><a name="foot2745"></a><a href="#tex2html72"><sup>[72]</sup></a> Este
+documento tem a data de 10 de julho de 1875 e é assignado por Marcelino
+Nery.</p>
+
+<p><a name="foot2747"></a><a href="#tex2html73"><sup>[73]</sup></a>
+Consta-nos á ultima hora que este sujeito deixou já o partido catholico e se
+fez... liberal!</p>
+
+<p><a name="foot2756"></a><a href="#tex2html74"><sup>[74]</sup></a> Nem as
+deveria fazer porque faria mal ao bispo.</p>
+
+<p><a name="foot4311"></a><a href="#tex2html75"><sup>[75]</sup></a> A
+typographia do conego Sequeira Mendes e da <i>Constituição</i>, orgão do
+partido conservador da provincia, era a que fornecia os impressos ao
+governo!</p>
+
+<p><a name="foot2768"></a><a href="#tex2html76"><sup>[76]</sup></a> Jornal
+do bispo.</p>
+
+<p><a name="foot4312"></a><a href="#tex2html77"><sup>[77]</sup></a> Veja-se
+<i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p><a name="foot4313"></a><a href="#tex2html78"><sup>[78]</sup></a> A
+<i>Tribuna</i>, de Lisboa.</p>
+
+<p><a name="foot4314"></a><a href="#tex2html79"><sup>[79]</sup></a> <i>As
+Nações Civilisadas do Universo</i>, por M. A. Ferreira, da Bahia.</p>
+
+<p><a name="foot2812"></a><a href="#tex2html80"><sup>[80]</sup></a> Nota de 4
+de fevereiro de 1875.</p>
+
+<p><a name="foot2849"></a><a href="#tex2html81"><sup>[81]</sup></a> Maroto,
+na Bahia, significa portuguez!</p>
+
+<p><a name="foot4319"></a><a href="#tex2html82"><sup>[82]</sup></a> No qual,
+como já vimos, o embaixador portuguez, sem estudar a questão, por que n'isso
+não tinha o minimo interesse, escrevia as seguintes phrases:&mdash;«que em vista
+das disposições das leis brazileiras etc., <i>não póde ser attendida a
+pertenção</i> de Manuel Soares Pereira» etc.!!!</p>
+
+<p><a name="foot432"></a><a href="#tex2html83"><sup>[83]</sup></a> 1.º
+avulso&mdash;<i>Ás nações civilisadas do universo</i>.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>NOTAS</h2>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_353"
+name="pag_353">[353]</a></span></p>
+
+<h2><a id="nota1" name="nota1">N.º 1</a><br>
+MAPPA DO MOVIMENTO DA POPULAÇÃO NO REINO E ILHAS</h2>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<table border="1" cellpadding="0" cellspacing="0" id="mapa" summary="Mapa da população portyguesa em 1870">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td colspan="22" align="center">Mappa da população e seu movimento no
+ continente do reino e ilhas adjacentes no anno de 1870</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td rowspan="4" align="left">Districtos</td>
+ <td rowspan="4" align="center">Concelhos</td>
+ <td rowspan="4" align="center">Freguezias</td>
+ <td rowspan="4" align="center">Fogos</td>
+ <td colspan="3" align="center">População</td>
+ <td colspan="15" align="center">Movimento da população</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td rowspan="3" align="center">Sexo Masculino</td>
+ <td rowspan="3" align="center">Sexo Feminino</td>
+ <td rowspan="3" align="center">Total</td>
+ <td colspan="7" align="center">Nascimentos</td>
+ <td rowspan="3" align="center">Casamentos</td>
+ <td colspan="3" rowspan=2 align="center">Obitos</td>
+ <td rowspan=3 align="center">Nascimentos excedentes aos obitos</td>
+ <td rowspan=3 align="center">Obitos excedentes aos nascimentos</td>
+ <td rowspan=2 colspan="2" align="center">Por cada 100 habitantes</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="3" align="center">Sexo Masculino</td>
+ <td colspan="3" align="center">Sexo Feminino</td>
+ <td rowspan=2 align="center">Total</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="center">Legitimos</td>
+ <td align="center">Illegitimos</td>
+ <td align="center">Total</td>
+ <td align="center">Legitimos</td>
+ <td align="center">Illegitimos</td>
+ <td align="center">Total</td>
+ <td align="center">Sexo Masculino</td>
+ <td align="center">Sexo Feminino</td>
+ <td align="center">Total</td>
+ <td align="center">Nascimentos</td>
+ <td align="center">Obitos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Angra</td>
+ <td align="center">5</td>
+ <td align="center">38</td>
+ <td align="center">18:008</td>
+ <td align="center">31:541</td>
+ <td align="center">40:325</td>
+ <td align="center">71:866</td>
+ <td align="center">878</td>
+ <td align="center">245</td>
+ <td align="center">1:123</td>
+ <td align="center">815</td>
+ <td align="center">215</td>
+ <td align="center">1:030</td>
+ <td align="center">2:153</td>
+ <td align="center">451</td>
+ <td align="center">835</td>
+ <td align="center">886</td>
+ <td align="center">1:721</td>
+ <td align="center">432</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2,99</td>
+ <td align="center">2,39</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Aveiro</td>
+ <td align="center">16</td>
+ <td align="center">180</td>
+ <td align="center">69:411</td>
+ <td align="center">119:945</td>
+ <td align="center">137:499</td>
+ <td align="center">257:444</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">4:029</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3:825</td>
+ <td align="center">7:854</td>
+ <td align="center">1:617</td>
+ <td align="center">2:453</td>
+ <td align="center">2:563</td>
+ <td align="center">5:016</td>
+ <td align="center">2:838</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,05</td>
+ <td align="center">1,95</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Beja</td>
+ <td align="center">14</td>
+ <td align="center">102</td>
+ <td align="center">35:721</td>
+ <td align="center">69:692</td>
+ <td align="center">68:376</td>
+ <td align="center">138:068</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:514</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:412</td>
+ <td align="center">4:926</td>
+ <td align="center">1:122</td>
+ <td align="center">2:828</td>
+ <td align="center">2:755</td>
+ <td align="center">5:583</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">657</td>
+ <td align="center">3,57</td>
+ <td align="center">4,04</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Braga</td>
+ <td align="center">12</td>
+ <td align="center">519</td>
+ <td align="center">81:691</td>
+ <td align="center">145:259</td>
+ <td align="center">178:051</td>
+ <td align="center">323:310</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">4:650</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">4:436</td>
+ <td align="center">9:086</td>
+ <td align="center">1:822</td>
+ <td align="center">3:490</td>
+ <td align="center">3:791</td>
+ <td align="center">7:281</td>
+ <td align="center">1:805</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2,81</td>
+ <td align="center">2,25</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Bragança</td>
+ <td align="center">12</td>
+ <td align="center">313</td>
+ <td align="center">39:894</td>
+ <td align="center">76:467</td>
+ <td align="center">77:093</td>
+ <td align="center">153:560</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:846</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:685</td>
+ <td align="center">5:531</td>
+ <td align="center">1:042</td>
+ <td align="center">2:822</td>
+ <td align="center">2:684</td>
+ <td align="center">5:506</td>
+ <td align="center">25</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,60</td>
+ <td align="center">3,59</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Castello Branco</td>
+ <td align="center">12</td>
+ <td align="center">147</td>
+ <td align="center">41:513</td>
+ <td align="center">80:368</td>
+ <td align="center">85:047</td>
+ <td align="center">165:415</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:754</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:716</td>
+ <td align="center">5:470</td>
+ <td align="center">1:209</td>
+ <td align="center">2:472</td>
+ <td align="center">2:519</td>
+ <td align="center">4:991</td>
+ <td align="center">479</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,31</td>
+ <td align="center">3,02</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Coimbra</td>
+ <td align="center">17</td>
+ <td align="center">186</td>
+ <td align="center">74:144</td>
+ <td align="center">135:268</td>
+ <td align="center">151:257</td>
+ <td align="center">286:525</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">4:199</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3:893</td>
+ <td align="center">8:092</td>
+ <td align="center">1:675</td>
+ <td align="center">2:988</td>
+ <td align="center">3:143</td>
+ <td align="center">6:131</td>
+ <td align="center">1:961</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2,82</td>
+ <td align="center">2,14</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Evora</td>
+ <td align="center">13</td>
+ <td align="center">109</td>
+ <td align="center">25:622</td>
+ <td align="center">50:105</td>
+ <td align="center">48:354</td>
+ <td align="center">98:459</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">1:771</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">1:693</td>
+ <td align="center">3:464</td>
+ <td align="center">662</td>
+ <td align="center">1:755</td>
+ <td align="center">1:615</td>
+ <td align="center">3:370</td>
+ <td align="center">94</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,50</td>
+ <td align="center">3,42</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Faro</td>
+ <td align="center">15</td>
+ <td align="center">66</td>
+ <td align="center">46:975</td>
+ <td align="center">93:827</td>
+ <td align="center">91:485</td>
+ <td align="center">185:312</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3:592</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3:275</td>
+ <td align="center">6:867</td>
+ <td align="center">1:385</td>
+ <td align="center">2:605</td>
+ <td align="center">2:624</td>
+ <td align="center">5:229</td>
+ <td align="center">1:638</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,71</td>
+ <td align="center">2,82</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Funchal</td>
+ <td align="center">10</td>
+ <td align="center">52</td>
+ <td align="center">28:482</td>
+ <td align="center">55:186</td>
+ <td align="center">61:277</td>
+ <td align="center">116:463</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:392</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:281</td>
+ <td align="center">4:673</td>
+ <td align="center">952</td>
+ <td align="center">1:478</td>
+ <td align="center">1:455</td>
+ <td align="center">2:933</td>
+ <td align="center">1:740</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">4,01</td>
+ <td align="center">2,52</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Guarda</td>
+ <td align="center">14</td>
+ <td align="center">337</td>
+ <td align="center">55:685</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">216:735</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">7:568</td>
+ <td align="center">1:509</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">5:983</td>
+ <td align="center">1:585</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,49</td>
+ <td align="center">2,76</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Horta</td>
+ <td align="center">7</td>
+ <td align="center">39</td>
+ <td align="center">16:436</td>
+ <td align="center">26:802</td>
+ <td align="center">36:295</td>
+ <td align="center">63:097</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">860</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">867</td>
+ <td align="center">1:727</td>
+ <td align="center">318</td>
+ <td align="center">520</td>
+ <td align="center">658</td>
+ <td align="center">1:178</td>
+ <td align="center">549</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2,74</td>
+ <td align="center">1,87</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Leiria</td>
+ <td align="center">12</td>
+ <td align="center">116</td>
+ <td align="center">43:748</td>
+ <td align="center">89:675</td>
+ <td align="center">91:436</td>
+ <td align="center">181:111</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:650</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:460</td>
+ <td align="center">5:110</td>
+ <td align="center">1:028</td>
+ <td align="center">2:289</td>
+ <td align="center">2:327</td>
+ <td align="center">4:616</td>
+ <td align="center">494</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2,82</td>
+ <td align="center">2,55</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Lisboa</td>
+ <td align="center">25</td>
+ <td align="center">207</td>
+ <td align="center">111:151<a name="tex2html84"
+ href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td>
+ <td align="center">236:957<a name="tex2html85"
+ href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td>
+ <td align="center">217:734<a name="tex2html86"
+ href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td>
+ <td align="center">454:691<a name="tex2html87"
+ href="#foot3352"><sup>[84]</sup></a></td>
+ <td align="center">5:484</td>
+ <td align="center">2:227</td>
+ <td align="center">7:771</td>
+ <td align="center">5:290</td>
+ <td align="center">2:087</td>
+ <td align="center">7:377</td>
+ <td align="center">15:088</td>
+ <td align="center">2:837</td>
+ <td align="center">7:026</td>
+ <td align="center">6:815</td>
+ <td align="center">13:841</td>
+ <td align="center">1:247</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,32</td>
+ <td align="center">3,04</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Ponta Delgada</td>
+ <td align="center">7</td>
+ <td align="center">44</td>
+ <td align="center">28:805</td>
+ <td align="center">57:062</td>
+ <td align="center">65:336</td>
+ <td align="center">122:398</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:422</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:170</td>
+ <td align="center">4:592</td>
+ <td align="center">817</td>
+ <td align="center">1:413</td>
+ <td align="center">1:385</td>
+ <td align="center">2:798</td>
+ <td align="center">1:794</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,75</td>
+ <td align="center">2,20</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Portalegre</td>
+ <td align="center">15</td>
+ <td align="center">95</td>
+ <td align="center">26:600</td>
+ <td align="center">47:758</td>
+ <td align="center">48:049</td>
+ <td align="center">95:807</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">1:806</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">1:689</td>
+ <td align="center">3:495</td>
+ <td align="center">635</td>
+ <td align="center">1:723</td>
+ <td align="center">1:614</td>
+ <td align="center">3:337</td>
+ <td align="center">158</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,65</td>
+ <td align="center">3,48</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Porto</td>
+ <td align="center">17</td>
+ <td align="center">361</td>
+ <td align="center">113:060</td>
+ <td align="center">199:747</td>
+ <td align="center">237:903</td>
+ <td align="center">437:650</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">7:102</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">6:840</td>
+ <td align="center">13:942</td>
+ <td align="center">2:923</td>
+ <td align="center">4:701</td>
+ <td align="center">5:095</td>
+ <td align="center">9:796</td>
+ <td align="center">4:146</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,19</td>
+ <td align="center">2,24</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Santarem</td>
+ <td align="center">18</td>
+ <td align="center">141</td>
+ <td align="center">51:706</td>
+ <td align="center">99:514</td>
+ <td align="center">103:647</td>
+ <td align="center">203:161</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:936</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:850</td>
+ <td align="center">5:786</td>
+ <td align="center">1:087</td>
+ <td align="center">3:032</td>
+ <td align="center">2:677</td>
+ <td align="center">5:709</td>
+ <td align="center">77</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2,85</td>
+ <td align="center">2,81</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Vianna do Castello</td>
+ <td align="center">10</td>
+ <td align="center">288</td>
+ <td align="center">55:773</td>
+ <td align="center">96:353</td>
+ <td align="center">113:143</td>
+ <td align="center">209:496</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:601</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2:592</td>
+ <td align="center">5:193</td>
+ <td align="center">1:243</td>
+ <td align="center">1:945</td>
+ <td align="center">2:114</td>
+ <td align="center">4:059</td>
+ <td align="center">1:134</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">2,48</td>
+ <td align="center">1,94</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Villa Real</td>
+ <td align="center">14</td>
+ <td align="center">256</td>
+ <td align="center">55:350</td>
+ <td align="center">101:915</td>
+ <td align="center">109:650</td>
+ <td align="center">211:565</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3:684</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3:671</td>
+ <td align="center">7:355</td>
+ <td align="center">1:366</td>
+ <td align="center">2:547</td>
+ <td align="center">2:444</td>
+ <td align="center">4:991</td>
+ <td align="center">2:364</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,48</td>
+ <td align="center">2,36</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left">Vizeu</td>
+ <td align="center">26</td>
+ <td align="center">365</td>
+ <td align="center">92:721</td>
+ <td align="center">176:285</td>
+ <td align="center">193:593</td>
+ <td align="center">239:878</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">5:960</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">5:858</td>
+ <td align="center">11:818</td>
+ <td align="center">2:105</td>
+ <td align="center">3:911</td>
+ <td align="center">4:181</td>
+ <td align="center">8:092</td>
+ <td align="center">3:726</td>
+ <td align="center">&mdash;</td>
+ <td align="center">3,20</td>
+ <td align="center">2,19</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td align="left"> </td>
+ <td align="center">292</td>
+ <td align="center">3:961</td>
+ <td align="center">1.111:496</td>
+ <td align="center">1.989:726</td>
+ <td align="center">2.155:550</td>
+ <td align="center">4.362:011</td>
+ <td align="center">6:362</td>
+ <td align="center">2:472</td>
+ <td align="center">67:602</td>
+ <td align="center">6:105</td>
+ <td align="center">2:302</td>
+ <td align="center">64:620</td>
+ <td align="center">139:790</td>
+ <td align="center">27:805</td>
+ <td align="center">52:833</td>
+ <td align="center">53:345</td>
+ <td align="center">112:161</td>
+ <td align="center">27:629</td>
+ <td align="center">657</td>
+ <td align="center">3,20</td>
+ <td align="center">2,59</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td colspan="22" align="center" style="font-size: 0.8em;"><p><a
+ name="foot3352"></a><a href="#tex2html84"><sup>[84]</sup></a> Estes
+ algarismos foram tirados do censo de 1 de janeiro de 1864, por isso
+ que o mappa do respectivo governo civil sómente trazia o movimento da
+ população.</p>
+
+ <p>Secretaria d'estado dos negocios do reino, em 29 de novembro de
+ 1872.==<i>Luiz Antonio Nogueira</i>.<span class="pagenum"><a
+ id="pag_354" name="pag_354">[354]</a></span></p>
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>&nbsp;<span class="pagenum"><a id="pag_355"
+name="pag_355">[355]</a></span></p>
+
+<h2><a id="nota2" name="nota2">N.º 2</a></h2>
+
+<h3>Diario das Camaras dos senhores deputados</h3>
+
+<p>O sr. <small>PIRES DE LIMA</small>:&mdash;Desejava conversar em boa paz com
+alguns dos srs. ministros, que infelizmente não estão presentes, mas como o
+governo está representado por dois membros do gabinete, isso me basta. S.
+ex.<sup>as</sup> não deixarão, por certo, de informar os seus collegas do que
+eu vou dizer.</p>
+
+<p>São assumptos importantes aquelles sobre que tenho o proposito de
+discorrer, e parecem-me dignos da attenção da camara.</p>
+
+<p>A emigração dos portuguezes para o Brazil tem nos ultimos tempos attingido
+proporções verdadeiramente collossaes e gigantescas, o que é uma grande
+calamidade, calamidade assustadora especialmente para a industria agricola,
+que é a principal fonte da nossa riqueza. (<i>Apoiados.</i>)</p>
+
+<p>No districto administrativo de Aveiro, que eu conheço um pouco, ha
+freguezias onde os trabalhos dos campos estão exclusivamente entregues ás
+mulheres, porque os homens todos, com excepção das creanças e dos velhos,
+têem saido para a America.</p>
+
+<p>Ainda não ha muitos dias que um collega nosso me disse haver recebido do
+seu circulo uma carta, na qual se lhe pedia instantemente, que interpozesse a
+sua influencia junto do governo, para se suspenderem todas as obras publicas!
+O signatario da carta, agricultor importante, queria que por algum tempo se
+interrompessem os trabalhos das estradas reaes, districtaes e municipaes, e
+julgava que só d'este modo poderiam os proprietarios ter braços para cultivar
+as terras.</p>
+
+<p>Este facto é significativo. Quando os lavradores chegam a esquecer o
+grande amor que têem ao desenvolvimento de viação publica, póde-se
+conjecturar que taes são as difficuldades que os assoberbam, quão grande é a
+falta de trabalhadores, e excessivamente elevado o preço dos salarios.</p>
+
+<p>Eu desejando muito que antes fossem para o Alemtejo e para as nossas
+possessões ultramarinas os homens validos que vão tentar fortuna no
+Brazil...</p>
+
+<p>É grande a corrente da emigração, e para a engrossar não<span
+class="pagenum"><a id="pag_356" name="pag_356">[356]</a></span> concorrem
+pouco algumas das nossas leis, <i>e mais ainda o modo por que se lhes dá
+cumprimento</i>.</p>
+
+<p>E estas causas podem ser combatidas facil e vantajosamente pelos poderes
+publicos.</p>
+
+<p>É necessario que fallemos com franqueza.</p>
+
+<p>A lei do recrutamento é pessima, <i>a sua execução é detestavel</i>.</p>
+
+<p>Ha muita gente que foge para o Brazil para não ser soldado.
+(<i>Apoiados.</i>)</p>
+
+<p>O governo póde e deve propor a emenda das disposições absurdissimas da lei
+do recrutamento, e o governo póde <i>e deve corregir os abusos e demazias
+escandalosissimas que os empregados publicos commettem todos os dias na
+execução d'esta lei</i>. (<i>Apoiados.</i>)</p>
+
+<p>Enxameam as provincias engajadores convidando colonos a ir para o Brazil,
+e a troco de dez ou quatorze libras facilitam-lhes passagem para os portos
+d'aquelle imperio, arranjando-lhes todos os papeis necessarios para a viagem
+e inclusivamente <i>passaportes falsos</i>.</p>
+
+<p>Isto sei-o eu e sabemol-o nós todos. (<i>Apoiados.</i>)</p>
+
+<p>É grande este mal, mas para o combater não é necessario addicionar nenhum
+artigo ao codigo penal, basta que o governo faça aos empregados admoestações,
+e aos agentes do ministerio publico recommendações severas, e obrigue uns e
+outros a cumprir os seus deveres.</p>
+
+<p>Acabou com a nossa diligencia a escravatura dos pretos na Africa, não
+cresça com a nossa preguiça a escravatura dos brancos na Europa.</p>
+
+<p>Extinguiu-se a industria da moeda falsa, extinga-se tambem a industria dos
+passaportes falsos, tão deshonrosa como aquella, e incomparavelmente mais
+damninha e prejudicial do que ella.</p>
+
+<p>Lembre-se o governo de que os passaportes falsos não só facilitam a
+passagem para o Brazil aos mancebos sujeitos á lei do recrutamento, mas
+auxiliam a evasão de criminosos, cuja impunidade é quasi certa nos vastos
+sertões do novo mundo, etc., etc.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(<em>Sessão de 26 de março de 1877.</em>)</p>
+
+<h2><a id="nota3" name="nota3">N.º 3</a></h2>
+
+<h3>O DRAMA «OS AVENTUREIROS» E A CRITICA</h3>
+
+<p>Tivemos a satisfação de ouvir lêr ao sr. Gomes Pércheiro algumas scenas do
+seu drama os <i>Aventureiros</i>, que nos revelariam um esplendido engenho,
+se nós não soubessemos de ha muito quanto elle é vantajosamente
+conhecido.<span class="pagenum"><a id="pag_357"
+name="pag_357">[357]</a></span></p>
+
+<p>O drama do sr. Gomes Pércheiro é o fructo das suas mais aturadas
+lucubrações, um trabalho consciencioso, uma these philosophico-social, que
+combate habilmente a emigração que está roubando ao nosso fertilissimo solo
+braços robustos.</p>
+
+<p>Os <i>Aventureiros</i> estão escriptos por mão de mestre, n'um estylo
+fluente e brilhante, e n'uma dicção pura e vernacula. Este drama terá um
+notavel exito pelos episodios que constituem o seu enredo, e porque é
+portuguez de lei.</p>
+
+<p>Não é nosso mister sermos louva-minheiros; nem jámais o seriamos do sr.
+Gomes Pércheiro, moço illustrado, e cuja reputação não carece de elogios
+banaes para a nobilitarem.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(<i>Diario do Commercio</i>, de 5 de dezembro
+1877.)</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Hoje pela 1 hora da tarde, na presença de numeroso e selecto auditorio, o
+escriptor que se tem assignalado na imprensa pela sua propaganda constante e
+por vezes energica contra a emigração, leu um drama seu, original em 5 actos,
+intitulado <i>Os Aventureiros</i>, e cuja idéa fundamental é ainda a activa
+propaganda contra as illusões que arrastam tantos portuguezes a abandonar a
+patria, em procura de fementidas miragens de riqueza, que tão frequentes
+vezes se convertem nas tristes realidades da miseria, da doença, da saudade,
+do abandono, do desespero e da morte.</p>
+
+<p>Não é n'uma simples audição que se póde julgar d'um trabalho d'aquelles,
+que comtudo se nos afigurou de notavel merecimento, indo direito e seguro ao
+seu fim, atravez da ficção da acção dramatica, a qual tem scenas e lances de
+muito interesse e de muita verdade, comquanto no ultimo acto, escolho de
+todos os dramaturgos, que se estreiam, enfraqueçam um pouco os dotes scenicos
+da peça, e no conduzir do enredo e no desenho dos diversos typos haja
+hesitações, que muito insignificantes são para uma primeira tentativa em
+genero litterario tão difficil. Seguramente Gomes Pércheiro corrigirá alguns
+dos pequenos senões da sua obra, que o publico admirará e applaudirá então,
+colhendo d'ella muito proveitoso ensinamento, n'uma questão que preoccupa
+hoje tanto as attenções dos que pensam e dos que sentem um dos grandes males
+do nosso paiz.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(<i>Revolução de Setembro</i>, de 21 de dezembro
+de 1877).<span class="pagenum"><a id="pag_358"
+name="pag_358">[358]</a></span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>D. M<small>ARIA</small> II.&mdash;Lêu-se hontem no salão d'este theatro, como
+tinhamos annunciado, o drama do sr. Gomes Pércheiro, <i>Os Aventureiros</i>.
+Encargos do serviço publico obstaram a que o director d'esta folha
+assistisse; os trabalhos do jornal que são todos durante o dia, impediram
+tambem outro dos nossos redactores.</p>
+
+<p>D<small>O</small> D<small>IARIO DE</small> P<small>ORTUGAL</small> que
+mais extensamente dá conta do caso, extrahimos com a devida venia o
+seguinte:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«O assumpto do drama é a emigração.</p>
+
+<p>Não é possivel com uma só audição fazer completa idéa das qualidades
+scenicas do drama, o que porém se nos affigura como certo, é que abunda em
+todo elle a verdade, e que é escripto com profundo conhecimento do
+assumpto.</p>
+
+<p>A emigração figura-se para o sr. Pércheiro um vicio social, que elle
+combate do modo mais energico.</p>
+
+<p>O assumpto é difficilimo de tratar, não obstante parece-nos que o auctor
+esteve á altura d'elle.</p>
+
+<p>Feita a leitura, alguns dos cavalheiros presentes exposeram com a mais
+notavel franqueza, a sua opinião extremamente lisongeira para o sr.
+Pércheiro.</p>
+
+<p>Pela nossa parte felicitamol-o pelo seu trabalho.</p>
+
+<p>Assistiram á leitura os srs: E. Biester, dr. Cunha Belem, Rodrigues da
+Costa, Luciano Cordeiro, Hermenegildo d'Alcantara, padre Seabra, Cró Ferreri,
+dr. Loureiro, Salvador Marques e Thomaz Sequeira.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Folgamos de que tanto agradasse a obra do sr. Pércheiro, e damos-lhe os
+nossos parabens.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(<i>Revolução de Setembro</i>, de 21 de dezembro
+de 1877).</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>A transcendencia do assumpto e a extremada delicadeza do convite do sr.
+Gomes Pércheiro levaram-nos ao salão do theatro normal para assistirmos á
+leitura do drama&mdash;<i>Os Aventureiros</i>...</p>
+
+<p>O illustre dramaturgo, lidador incansavel nos grandes torneios da
+civilisação, homem d'um só rosto e d'uma só vontade, tem em vista combater no
+palco, como já tem combatido no livro e no<span class="pagenum"><a
+id="pag_359" name="pag_359">[359]</a></span> jornal, a funesta tendencia da
+emigração para o Brazil e a especulação torpe dos <i>engajadores</i>, que,
+fazendo mentidas promessas, mostram aos incautos&mdash;atravez d'um prisma côr de
+rosa&mdash;um futuro mais ou menos longinquo em que a blusa do operario se ha de
+trocar pela casaca do commendador.</p>
+
+<p>E, forçoso será dizel-o, o sr. Gomes Pércheiro tracta gentilmente o
+assumpto: o novo drama, primicias scenicas do auctor, divide-se em cinco
+actos.</p>
+
+<p>Os dois primeiros passam-se n'uma aldeia do Minho, o terceiro a bordo d'um
+paquete inglez e os restantes na terra de Santa Cruz.</p>
+
+<p>Os vultos mais salientes do drama são&mdash;um abbade, typo paternal que,
+comprehendendo a sua missão sublime, sem esquecer o cuidado que lhe merece a
+vida espiritual das suas ovelhas, envida todos os esforços para curar o
+cancro da emigração, que rouba tantos cidadãos á patria, tantos braços á
+agricultura e tantos homens á vida. A figura está desenhada magistralmente.
+Após este vulto sympathico surge um outro egualmente gracioso: uma menina da
+alta sociedade, educada com todo o esmero christão, escondendo a esmola no
+seio do pobre, sem que a esquerda tome conhecimento do que a direita deu,
+tendo em menos conta as honrarias da terra e sacrificando as suas joias para
+salvar o pae de difficuldades financeiras. Os traços são vigorosos e
+correctos.</p>
+
+<p>Em meio d'este Eden apparece a antiga serpe encadernada no commendador
+<i>Manquitó</i>, typo repugnante, fugido d'um presidio do Brasil,
+<i>engajador</i>, ou o que vale o mesmo, negociante de carne humana.&mdash;A scena
+entre o abbade e este vampiro, que esconde a sua preversidade e o seu punhal
+nas dobras da capa da hypocrisia, é muito para se ver.</p>
+
+<p>A scena a bordo é copiada <i>aprés nature</i>. Os colonos vendo succumbir
+uma companheira d'infortunio, não podendo supportar os incommodos da viagem e
+o alimento grosseiro que lhes é ministrado, o capitão inglez dizendo&mdash;<i>I
+speak portuguese very well</i>&mdash;e continuando a dar o mesmo bacalhau com
+batatas, é um quadro deslumbrante de verdade.</p>
+
+<p>Se nos perguntarem pelo <i>ensemble</i> do drama, emittiremos a nossa
+humilde opinião: é uma bella estatua que saiu da fundição com algumas
+pequeninas arestas que devem ser cuidadosamente limadas. Os primeiros quatro
+actos têem scenas de grande effeito: o quinto talvez tenha das taes arestas,
+o que não admira, porque <i>aliquando bonus dormitat Homerus</i>. Além
+d'estes insignificantes senões que desapparecem ao terceiro ensaio, tem a
+peça os seguintes <i>defeitos</i>:</p>
+
+<p><i>Inspira-se n'um sentimento nobre, patriotico, humanitario e
+economico;&mdash;fere<span class="pagenum"><a id="pag_360"
+name="pag_360">[360]</a></span> os interesses de certos argentarios que
+adquiriram fortuna, Deus sabe como; não blasphema de Christo, ou do seu
+Vigario, nem, ao menos, dá dois piparotes n'um <small>ABUTRE DE
+SOTAINA</small>!</i></p>
+
+<p>Felicitamos o sr. Gomes Pércheiro, mas pedimos vénia para lhe dizermos: o
+drama <i>Aventureiros</i> não vae á scena, pelas circumstancias apontadas,<a
+name="tex2html88" href="#foot3608"><sup>[85]</sup></a> e s. parece ignorar
+que vive no moderno Portugal, onde o theatro tem enchentes com os
+<i>Lazaristas</i> do sr. Ennes e está ás moscas com a <i>Caridade</i> do sr.
+Cascaes. É esta a nossa opinião, <i>salvo simper meliori judicio</i>.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(A <i>Nação</i> de 22 de dezembro de 1877.)</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Estamos em divida para com o estimavel escriptor, que teve a penhorante
+amabilidade de convidar-nos para assistir á leitura da sua peça no theatro de
+D. Maria.</p>
+
+<p>Circumstancias estranhas á nossa vontade inhibiram-nos de agradecer no
+numero anterior essa prova de deferencia e de dar conta das impressões que
+nos produziu a leitura do drama do sr. Pércheiro.</p>
+
+<p>Não é facil, n'uma rapida audição, apreciar devidamente um trabalho
+d'aquella ordem, e analysal-o com minudencia, apontando todas as bellezas,
+que n'elle sobresaem ou os senões que, n'um ponto ou outro, lhe possam
+ensombrar o merecimento.</p>
+
+<p>Serve de these ao drama a emigração, considerada sob o ponto de vista
+social e economico, e o sr. Gomes Pércheiro, que já na imprensa tinha larga e
+proficientemente tratado o assumpto,&mdash;levando-o para o theatro, como meio
+efficassissimo de propaganda, dota a scena nacional com um excellente drama e
+presta ao paiz um relevante serviço.</p>
+
+<p><i>Os Aventureiros</i> são antes de tudo uma peça de propaganda, escripta
+com profundo conhecimento do assumpto e aturadissima observação.</p>
+
+<p>Os infames manejos que se empregam para o engajamento dos colonos, os
+soffrimentos d'estes durante a viagem para a America,<span class="pagenum"><a
+id="pag_361" name="pag_361">[361]</a></span> as tristes e dolorosas
+realidades que substituem as miragens fascinadoras com que lhes embalaram a
+phantasia e a cubiça, a vida do colono no sertão com todos os seus traços
+dessoladores e crueis, são ali postos em relevo, com as mais vivas côres, a
+maior verdade e desassombro. O 3.º e 4.º actos, excellentes quadros de
+genero, copiados <i>d'aprés nature</i>, devem produzir funda sensação, porque
+ao vigor das situações dramaticas, alliam o interesse de scenas perfeitamente
+desconhecidas do nosso publico, e accentuam com a maior naturalidade os
+horrores porque passam os miseros expatriados.</p>
+
+<p>Pelo lado litterario a peça do sr. Gomes Pércheiro parece-nos digna do
+applauso de critica. A linguagem sempre correcta e facil, aquece-se de
+enthusiasmo nos lances que assim o pedem e obedece em geral ás condições de
+naturalidade e observação que predominam no drama. Os dialogos estão bem
+travados, os caracteres bem sustentados e descriptos com traços frisantes.</p>
+
+<p>O drama do sr. Gomes Pércheiro deverá ser representado n'algum dos nossos
+primeiros theatros, porque a isso tem incontestavel direito e para então
+rezervamos mais demorada apreciação d'esse excellente trabalho, pelo qual
+desde já enviamos ao auctor as nossas sinceras felicitações.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(<i>O Contemporaneo</i> n.º 45.)</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Tivemos ha dias a leitura d'um novo drama por um escriptor novo que se
+propõe a trazer para o theatro a these da emigração para o Brazil, dos seus
+estimulos, dos seus vicios e dos seus resultados, que tem tratado na
+imprensa.</p>
+
+<p>A these é delicada, perigosa, irritante. Levada até á condemnação geral da
+emigração, é uma vasta, uma complexa, uma difficilima these.</p>
+
+<p>A questão da emigração prende-se a uma infinidade dos mais elevados
+problemas das sciencias economicas e da philosophia politica.</p>
+
+<p>Em Portugal está por estudar inteiramente. Os estudos sociologicos tem
+pouquissimos cultores sérios porque são pouquissimos os que por uma larga
+disciplina scientifica, desafogada de paixões de escolla ou dos banaes
+sentimentalismos do criterio romantico e revolucionario, podem entrar com
+serena firmeza na revisão delicada das leis e dos phenomenos do organismo
+social.<span class="pagenum"><a id="pag_362"
+name="pag_362">[362]</a></span></p>
+
+<p>A economia politica não ganhou ainda aqui os direitos de cidade... e as
+sympathias dos editores, apesar da graciosa concessão de duas ou tres escolas
+onde se lê Baudrillat e Garnier.</p>
+
+<p>Sem offensa para os respectivos professores, que não são os culpados dos
+desdens d'uma administração superior perfeitamente alheia e hostil ao
+progresso e ao espirito scientifico, e da indifferença d'um publico que não
+percebeu ainda muito claramente as vantagens de saber lêr escrevêr e contar,
+ser economista em Portugal é não querer ser cousa alguma.</p>
+
+<p>Não é por esse caminho que a gente se faz nomear amanuense de secretaria
+nem membro correspondente da Academia das Sciencias. Ora todos nós mais ou
+menos precisamos ser amanuenses.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro, porém tem-se contentado com o esforço de lançar alguma
+luz ácerca do que é a emigração para o Brazil, nas cabeças rudes e ingenuas
+do nosso povo e nas cabeças rudes mas não egualmente ingenuas, dos nossos
+politicos e governantes.</p>
+
+<p>Baldado, mas generoso empenho.</p>
+
+<p>Elle viu as cousas de perto; teve occasião de as ver e não se tem cançado
+de nos dizer o que viu.</p>
+
+<p>É um horror.</p>
+
+<p>Uma parte d'este horror podia contemplal-a e estudal-a toda a gente nos
+relatorios officiaes dos nossos consules do Brazil, mas os relatorios servem
+só para dar que fazer á imprensa nacional.</p>
+
+<p>Não se fazem, evidentemente para serem lidos e estudados pelos nossos
+homens publicos, pelos nossos politicos, pelos nossos deputados, pelos nossos
+governos.</p>
+
+<p>Lembra-me que ha tempos teve o meu amigo Eduardo Coelho a patriotica ideia
+de os fazer ingerir suavemente, em pequenas doses, com toda a prudencia, pelo
+publico.</p>
+
+<p>Entregou este processo therapeutico a um seu intelligentissimo
+collaborador o sr. Leite Bastos.</p>
+
+<p>Durante muitos dias o <i>Diario de Noticias</i> extractou brilhantemente
+aquelles documentos. Liam-se cousas medonhas e absurdas alli: concussões
+d'auctoridade, cruesas das leis, gritos d'infelizes, infamias de
+contractadores de colonias, etc. etc.</p>
+
+<p>Os emproados collegas da politica militante conservaram-se mudos e
+indifferentes.</p>
+
+<p>E toda a gente achou massador o <i>Diario de Noticias</i>!</p>
+
+<p><i>Ditosa condição, ditosa gente.</i></p>
+
+<p>Como agora toda a gente acha impertinente o sr. Pércheiro.</p>
+
+<p>Que, diga-se a verdade, o sr. Pércheiro tem umas certas culpas.<span
+class="pagenum"><a id="pag_363" name="pag_363">[363]</a></span></p>
+
+<p>Se é impertinente ou não, importa-me pouco.</p>
+
+<p>O que eu queria, era que sr. disciplinasse melhor pelo estudo detido, pela
+serena observação da realidade contemporanea, pela modesta revisão dos
+elementos de critica e de sciencia que o assumpto exige, as suas aptidões e a
+sua propaganda.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro é todo paixão. Não se domina; não tempera a tensão
+violenta e absorvente a que os seus sentimentos certamente generosos, em
+revolta contra as miserias e vergonhas do dia, lhe arrastam a intelligencia e
+a palavra.</p>
+
+<p>Esta invasão das faculdades reflexivas pelo tumulto das paixões, ou pela
+excitação absorvente do sentimento da propria personalidade, perde muitas
+intelligencias e muitas propagandas boas. Quem propaga, lucta, e quem lucta
+precisa não dar aos adversarios o flanco do amor proprio para que elles o
+irritem e desnorteem.</p>
+
+<p>Para tudo é preciso n'esta vida uma pouca de diplomacia.</p>
+
+<p>Não a diplomacia hypocrita, mas a diplomacia do senso real das cousas.</p>
+
+<p>Vamos porem ao drama.</p>
+
+<p>Intitula-se os <i>Aventureiros</i>, e, agrupando certos episodios&mdash;e
+certos caracteres, que pódem dizer-se descolados da lenda sinistra do
+recrutamento de colonos e da negociação e exploração d'elles, procura e póde
+affoitamente dizer-se que consegue imprimir nos espiritos dos ouvintes o
+quanto essa lenda tem de monstruosa e cruelissima realidade.</p>
+
+<p>Dadas as premissas, e essas são attestadas pelos processos d'esse
+recrutamento e pela mais rudimentar observação d'elles, as conclusões saltam
+expontaneas e irrecusaveis.</p>
+
+<p>Francamente, o drama lido pelo sr. Pércheiro no theatro de D. Maria
+excedeu a espectativa mais exigente. Ha scenas vigorosamente traçadas;
+formosos caracteres; insinuações dramaticas e scenicas muito habeis e
+valentes que podia não se esperar d'um principiante. A peça tem um tom geral
+de verdade sentida e de consciencia fartamente revolta, que se impõe facil e
+despretenciosamente.</p>
+
+<p>Tem varios defeitos: está claro. Precisa certas correcções,
+indiscutivelmente.</p>
+
+<p>Ha arestas sumidas que é necessario avivar; traços que convém acentuar
+melhor; quadros que devem retocar-se severamente ou para apagar asperesas ou
+para remodelar figuras importantes que se apagam e escondem, no
+desenvolvimento da acção. Esta não está firme e segura. Affrouxa aqui ou ali,
+denuncia-se prematuramente além; quebra-se n'um ou n'outro ponto.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro não é um escriptor feito e largamente educado<span
+class="pagenum"><a id="pag_364" name="pag_364">[364]</a></span> pelo estudo,
+pela leitura e pela experiencia nos segredos e exigencias da arte.</p>
+
+<p>Não é um litterato. A fórma resente-se, mas antes fique no que é do que se
+lance em artificios triviaes. Em summa, o drama é viavel e a estreia
+auspiciosa.</p>
+
+<p>«Ha de dar dinheiro», que é o criterio supremo dos empresarios, e ha de
+dal-o sem ser uma exploração de escandalos obscenos; sendo uma obra de
+intenções discutiveis na doutrina, mas incontestavelmente honestas e
+sympathicas na inspiração. Eu sou tanto mais insuspeito n'este juizo ao
+correr da penna e ao impulso das impressões primeiras, que não gosto de
+dramas de propaganda, porque a paixão da propaganda vicia e supplanta a
+verdade do drama, isto é a verdade da arte.</p>
+
+<p>A arte não é tribuna. É altar ou é throno. Não discute; cria.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>Commercio Portuguez</i>, de 22 de dezembro.)</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Fernão Vaz.</i></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Examinemos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>A respeito da emigração diz o critico, que «a these é delicada, perigosa,
+irritante. Levada até á condemnação geral da emigração, é uma vasta, uma
+complexa, uma difficilima these.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>E accrescenta:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«A questão da emigração prende-se a uma infinidade dos mais elevados
+problemas das sciencias economicas e da philosophia politica.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Agora vejamos o que elle diz a respeito do drama:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Francamente, o drama lido pelo sr. Gomes Pércheiro excedeu a espectativa
+mais exigente. Ha scenas vigorosamente traçadas; famosos caracteres;
+insinuações dramaticas e scenas muito habeis e valentes que podia não se
+esperar d'um principiante. A peça tem um tom geral de verdade sentida e
+consciencia fartamente revolta, que se impõe facil e despertenciosamente.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Se se attender a laudatoria que ahi deixamos transcripta, vê-se que nós
+comprehendemos o papel que o acaso nos distribuira para bem tratarmos <i>a
+vasta, complexa e difficilima these que se prende a uma infinidade dos mais
+elevados problemas das sciencias economicas e da philosophia politica</i>.
+Pela logica racional do critico ninguem pode chegar a colher estes resultados
+(do drama?) sem estudar muito e muito.<span class="pagenum"><a id="pag_365"
+name="pag_365">[365]</a></span></p>
+
+<p>Nós sabemos isto melhor do que o sr. Fernão Vaz; permitta-nos a
+franqueza... e se quizer, a jactancia.</p>
+
+<p>Mas se é claro que para produzir um trabalho que <i>excedeu a expectativa
+mais exigente</i>, foi preciso empregar o estudo, para que é dizer, «que era
+preciso que nós disciplinassemos melhor pelo estudo detido, pela serena
+observação da realidade contemporanea, pela modesta revisão dos elementos da
+critica e da sciencia que o assumpto exige» as nossas aptidões e a nossa
+propaganda?!</p>
+
+<p>Se o drama <i>Os Aventureiros</i> é tudo quanto o sr. Fernão Vaz diz&mdash;uma
+cousa por ahi alem&mdash;um conjuncto de tanta cousa boa, <i>que só se obtem</i>
+pelo largo estudo; para que vem dizer-nos:&mdash;o sr. Pércheiro não é um
+escriptor feito e largamente educado pelo estudo?</p>
+
+<p>O que faz o homem largamente educado pelo estudo?</p>
+
+<p>Faz pilulas e... critica como a costuma fazer o sr. Fernão Vaz.</p>
+
+<p>Vamos dar logar á critica de um moderno Juvenal, e reservar-nos-hemos para
+dizermos alguma cousa a respeito do Altar-throno, da arte e da tribuna.</p>
+
+<p>Falla o critico ao sr. Vaz:</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<h3>Fernão Vaz e o drama de Gomes Pércheiro</h3>
+
+<p>Hoje, quinta feira, dia do <i>high-life</i>, abro a minha sala humilde,
+ignorada&mdash;sala <i>au rez-de-la-chaussée</i>, está dito tudo,&mdash;para cavaquear
+com os meus amigos.</p>
+
+<p>&mdash;Já leste um folhetim de Fernão Vaz? perguntou-me um amigo velho.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não.</p>
+
+<p>&mdash;Pois lê; e deu-me uma folha portuense.</p>
+
+<p>&mdash;Isto é <i>porto</i>, disse eu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois enganas-te de meio a meio.</p>
+
+<p>Torno a ler o nome do jornal, soletro-o ao meu amigo, e insisto&mdash;é
+<i>porto</i>,&mdash;já te disse.</p>
+
+<p>&mdash;Já vejo que tens o paladar estragado, retorquiu-me,&mdash;isso não é
+<i>porto</i> é <i>mata ratos</i> d'esse que se vende, a toda a hora, na
+cidade do burrié e da fava torrada.</p>
+
+<p>Como o tal meu amigo tem uma linguinha de prata, calei-me e li o folhetim
+de cabo a rabo ou, como diria o meu mestre de latim, <i>ab initio ad finem
+usque</i>.</p>
+
+<p>&mdash;Que tal?<span class="pagenum"><a id="pag_366"
+name="pag_366">[366]</a></span></p>
+
+<p>Eu que queria desviar qualquer conversa desagradavel ao sr. Fernão Vaz,
+respondi-lhe: a folha é bem escripta.</p>
+
+<p>&mdash;Não te faças Ignez d'horta; que a folha é bem escripta sei eu&mdash;tracta-se
+do folhetim.&mdash;Aposto que não sabes de quem me lembrei, quando li essa
+estopada folhetinista? D'Antonio Feliciano de Castilho.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi vaes tu desenterrar um morto. A que vem Castilho, quando se tracta
+d'um folhetim?</p>
+
+<p>&mdash;A que vem!? eu t'o digo.&mdash;Um dia, certo jornalista fallava, diante
+d'esse cego que via mais que todos os videntes, de um litteratiço como muitos
+que por ahi enxameiam a cada canto, e, fiel ás leis do elogio mutuo, dizia
+todo ancho: Fulano é inquestionavelmente um moço de merecimento, é o <i>Janin
+portuguez</i>. Castilho, que era dotado d'aquelle espirito mordaz que todos
+lhe conheciamos, com um surriso epigrammatico, volta-se para o tagarella e
+pespega-lhe com esta nas bochechas: «Tem razão; fulano é um moço de
+esperanças, é o <i>já-nem portuguez</i>.» Agora applico: o folhetim de que
+tanto gostas ou finges gostar, é uma desinteria palavrosa e nada mais.</p>
+
+<p>Ao ouvir taes cousas, confesso: <i>vox faucibus haesit</i>. Tive medo:
+metti a viola no sacco e deixei-o fallar.</p>
+
+<p>&mdash;O teu homemsinho dá quatro piparotes na grammatica; faz quatro figas ao
+senso commum e não te conto nada. Falla-nos em estudos sociologicos, nos mais
+elevados problemas das sciencias economicas e da philosophia politica,
+atira-nos á cara com Baudrillat, que nunca viu; com Garnier, que não conhece
+e passa carta de tolo a tudo que é portuguez.</p>
+
+<p>Vendo que a indignação do meu amigo subia n'um <i>crescendo</i>
+vertiginoso, não me atrevi a interrompel-o.</p>
+
+<p>&mdash;Gomes Pércheiro, rapaz sympathico e estudioso, cujos sentimentos
+patrioticos ninguem póde contestar, que em assumptos sobre emigração é&mdash;um
+especialista&mdash;tem escripto muito e muito bem e ultimamente fez um drama, ou
+antes um cauterio para curar a chaga da emigração. Queres agora saber o que
+diz o tal folhetinista? «O sr. Pércheiro, porém, tem-se contentado com o
+esforço de lançar <i>alguma luz</i> ácerca do que é a emigração.» Isto não se
+tolera. Pois um homem que, no dizer do teu folhetinista, «viu as cousas de
+perto; <i>teve occasião de as ver</i>» (que novidade! viu porque teve
+occasião) «e não se tem <i>cansado</i> de nos dizer o que viu» só lança
+<i>alguma luz</i>? Que me dizes?</p>
+
+<p>&mdash;Que tens uma linguinha...</p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho linguinha?... Ouve: o teu homem, depois de fazer os seus
+salamaleques aos redactores do <i>Diario de Noticias</i>, á conta do tal
+elogio mutuo, sae-se com esta: «Que, diga-se a verdade, o sr. Pércheiro tem
+umas certas culpas.» Pois o Pércheiro<span class="pagenum"><a id="pag_367"
+name="pag_367">[367]</a></span> tem culpa das <i>concussões d'auctoridade,
+cruezas das leis, gritos d'infelizes, infamias de contractadores de
+colonos</i>, de que falla o citado auctor?!</p>
+
+<p>&mdash;Mas que tenho eu com isso?</p>
+
+<p>&mdash;Não me interrompas; ouve até ao fim.&mdash;O aristarco, depois de dizer que
+Pércheiro é todo paixão e de lhe dar a entender que tem uma grande dóse
+d'amor proprio, falla na <i>diplomacia do senso real das
+cousas</i>&mdash;palavrões que ninguem percebe&mdash;e diz: «Vamos ao drama.
+Intitula-se os <i>Aventureiros</i>, e agrupando... certos caracteres, que
+podem dizer-se descolados da lenda sinistra de recrutamento de colonos,
+etc.»&mdash;Como não assististe á leitura do drama, quero dar-te uma ideia dos
+<i>caracteres descolados</i>&mdash;Um abbade que préga contra a emigração; o
+sobrinho que arranca da porta da egreja um annuncio pomposo, convidando os
+pobres camponezes a abandonarem a patria e o lar; um celebre commendador
+<i>Manquitó</i>, typo repugnante que negoceia em escravatura branca; uma
+mulher infame que seduz com mentidas promessas inexperientes donzellas,
+fazendo-lhes ver um futuro brilhante longe dos seus e da terra que lhes foi
+berço, etc. etc.; eis os personagens que preparam o entrecho do drama, que
+lhe servem de prologo: chamar a estes personagens <i>caracteres
+descolados</i> é caso para estourar de riso!</p>
+
+<p>«Francamente, continúa o crítico, o drama lido pelo sr. Pércheiro,
+<i>excedeu</i> a expectativa mais <i>exigente</i>. Ha scenas vigorosamente
+traçadas, formosos caracteres... tem varios defeitos: está claro.» Não me
+dirás porque está claro? perguntou-me o meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Porque vae rompendo a manhã, respondi-lhe eu.</p>
+
+<p>&mdash;Não zombes: já ouviste que o drama excedeu a expectativa mais exigente,
+pois agora ouve lá esta: «O sr. Pércheiro não é um escriptor feito e
+largamente educado pelo estudo, pela leitura e pela experiencia, nos segredos
+e exigencias da arte.» Se isto não é um desconchavo, não ha desconchavos no
+mundo.</p>
+
+<p><i>Simul esse et non esse!</i>&mdash;<i>To be and not be!</i> «Em summa» nota
+bem, «o drama é viavel» quer dizer, atura-se «ha-de dar dinheiro... sem ser
+uma exploração de escandalos obscenos.» O que aqui vae! Agora vaes ver o
+gosto do critico: «Não gosto de dramas de propaganda, porque a paixão da
+propaganda vicia e suplanta a verdade do drama.» Se o theatro não é
+propaganda; se a rir, ou mesmo a chorar, não se castigam na scena os
+costumes, não se infiltra o sentimento do bem e do amor da patria, etc., de
+que serve o theatro?</p>
+
+<p><i>Finis coronat opus</i> e regista mais esta: «A arte não é tribuna. É
+altar ou é throno. Não discute; cria.»</p>
+
+<p>Entendeste? Nem eu.<span class="pagenum"><a id="pag_368"
+name="pag_368">[368]</a></span></p>
+
+<p>E, pegando no chapéu, retirou-se aquelle zoilo da gloria critica do sr.
+Fernão Vaz e eu fui-me deitar.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(A <i>Nação</i> de 10 de janeiro.)</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Fulano d'Anzoes.</i></p>
+
+<p>O sr. Fulano d'Anzoes, parece que não comprehendeu a significação do
+dito&mdash;<i>diplomacia do senso real das cousas.</i></p>
+
+<p>Nós lh'o explicamos.</p>
+
+<p>O sr. Fernão Vaz, como o sr. d'Anzoes terá reparado, ama a Deus e ao démo.
+O Deus que o sr. Vaz ama é uma <i>troup</i> de... nem nós sabemos como a
+havemos de qualifical-a...</p>
+
+<p>No baixo imperio romano houve uns sujeitos que á emitação dos grandes
+mestres, tambem faziam em publico, nos saraus <i>litterarios</i>, as suas
+leituras de coisas, abórtos de rethorica e adjectivos, sem arte, sem súco
+algum.</p>
+
+<p>A estes sujeitos chamavam palhaços ou pantomimos da litteratura do tempo.
+Na actualidade, em Portugal, tambem ha d'isto. È este o Deus que o sr. Fernão
+Vaz adora; porque é este que faz o reclame á <i>proficiencia</i>, á
+<i>capacidade</i> ou ao <i>intellecto</i> dos proselytos da <i>troup</i>.</p>
+
+<p>O démo somos nós, que nos orgulhamos de não pertencer á tal... tropa; e
+ella... a tropa faz-nos a pirraça de nos não querer lá, por causa das
+<i>nossas culpas</i> e das <i>nossas impertinencias</i>... de que ainda não
+começamos a penitenciar-nos nem nos penitenciaremos.</p>
+
+<p>Mas por que, pertencendo Fernão á tal <i>troup</i>, nos diz que o nosso
+drama <i>escedeu a espectativa mais exigente</i>? Pela mesma razão que diz
+que não <i>somos litterato</i>, que o nosso drama <i>tem defeitos</i>, que
+elle é <i>viavel</i>, (assim como quem não quer a cousa) e que elle
+finalmente, <i>ha de dar dinheiro</i>, assim como poude dar... a <i>Filha da
+senhora Angot</i> e quejandos.</p>
+
+<p>Chama-se a isto acender uma vela a Deus e outra ao démo, ou mais
+claro:&mdash;chama-se a isto a <i>diplomacia do senso real das cousas</i>!</p>
+
+<p>Nós desculpamos o sr. Fernão Vaz. Não se cria popularidade impunemente.
+Fallar assim do nosso drama e a proposito d'elle (sic) dirigir dois ou trez
+salamaleques ao seu amigo Eduardo, que por causa de uma tola popularidade
+embirra com as <i>Questões do Pará</i>, <i>Coisas Brazileiras</i>,
+<i>Commendador e Barão</i>, <i>Questão dos Chouriços</i> ou <i>photographias
+politicas</i> e outras obras que custam dinheiro e que o tal coisa costuma
+receber e não pagar com uma simples cortezia jornalistica, assim como embirra
+com os pobres <i>Aventureiros</i>; fallar assim, repetimos, perante a
+<i>troup</i> dos <i>réclames</i> e de mais a mais n'um jornal, cujos
+fundadores vivem,<span class="pagenum"><a id="pag_369"
+name="pag_369">[369]</a></span> mais ou menos, interessados no commercio da
+escravatura branca, é conveniente, é contemporisar com a cousa, e quem não
+contemporisar hoje em dia não apanha popularidade e não fica sabendo o que
+seja&mdash;<i>diplomacia do senso real das cousas</i>.</p>
+
+<p>O sr. Fulano d'Anzoes faz uma offensa ao sr. Fernão Vaz, quando lhe põe em
+duvida a vastidão dos seus conhecimentos economicos e o seu contacto com
+Baudrillat e outros economistas, não esquecendo Montesquieu, Say, Smith, Otho
+e... e Garnier, tudo lá de fóra. É injusto, porque o dono do pseudonimo
+Fernão Vaz está em contacto com a commissão de economistas, nomeada ha pouco
+pelo sr. Carlos Bento... cá de dentro!</p>
+
+<p>Punhamos ponto final na questão, tratada da nossa parte com simplicidade,
+isto é, pobresinha de estylo, de rethoricas e de adejectivos; mas antes
+d'isso façamos uma pergunta ao sr. Vaz, sobre o que entende elle por
+<i>theatro altar</i> e <i>theatro tribuna</i>? isto é, qual a conveniencia de
+um e a inconveniencia do outro, no templo, que pode admittir uma e outra
+cousa, sem prejuiso da arte?</p>
+
+<p>Os homens que <i>estudam</i> lá fóra, e que, com a <i>sua sciencia</i>
+desejam resolver este problema complexo, não fixam as suas largas vistas
+n'uma sociedade que desconhecem, por exemplo, na nossa. Estudam o meio em que
+vivem e por elle <i>fazem</i> obra. Victor Hugo leva ao <i>altar</i> do
+theatro o seu Ruy Blaz, para que o adorem; e Alexandre Dumas filho manda a
+sua Margarida Gauthier para a <i>tribuna</i> do theatro prégar ás turbas a
+regeneração da mulher.</p>
+
+<p>Ambos estes <i>vultos da sciencia</i> podiam ter dito:</p>
+
+<p>Victor Hugo:&mdash;o publico francez tem escollas em abundancia, onde aprende a
+ler, para depois vir cá fóra beber a moral nos milhares de livros que nós
+escrevemos. O theatro deve ser <i>altar</i> e não <i>tribuna</i>. Dumas
+replicaria:&mdash;a instrucção não chegou ainda onde devia chegar; mas ainda que
+chegasse, o livro não convence tanto como a tribuna (esteja ella aonde
+estiver), isto é, como a palavra fallada. Assim pois regeneremos a sociedade
+no theatro, façamos do theatro <i>tribuna</i>.</p>
+
+<p>O sr. Fernão Vaz <i>estudou</i> o meio em que vive ou <i>estudou</i> o
+meio em que vivem Hugo, Dumas e outros?</p>
+
+<p>Se estudou o nosso meio encontra uma sociedade que não sabe cousa alguma,
+por que não sabe ler, e a quem não sabe ler diz-se-lhe <i>por todas as
+fórmas, com a palavra fallada</i>, o que é necessario que ella aprenda; isto
+emquanto a nossa sociedade não souber o A B C e mais alguma cousa. É verdade
+que ainda depois encontrará a opinião dos mais sensatos, dos <i>mestres</i>,
+a dizer sempre:&mdash;<i>o theatro deve ser tribuna</i>.</p>
+
+<p>Mas nós não queremos tal exclusivismo: assim pois, que o theatro <i>seja
+templo</i> onde haja <i>tribuna</i> e <i>altar</i>.<span class="pagenum"><a
+id="pag_370" name="pag_370">[370]</a></span></p>
+
+<h2><a id="nota4" name="nota4">N.º 4</a></h2>
+
+<h3>Lei brazileira n.º 108 de 11 de outubro de 1837, dando varias
+providencias sobre os contratos de locação de serviços dos colonos</h3>
+
+<p>O Regente interino em nome do Imperador, o senhor D. Pedro II, faz saber a
+todos os subditos do imperio que a assembléa geral legislativa decretou e
+elle sanccionou a lei seguinte:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>A<small>RTIGO</small> 1.º&mdash;O contrato de locação de serviços celebrado no
+imperio ou fóra, para se verificar dentro d'elle, pelo qual algum estrangeiro
+se obrigar como locador, só póde provar-se por escripto se o ajuste fôr
+tratado com interferencia de alguma sociedade de colonisação reconhecida pelo
+governo no municipio da côrte, e pelos presidentes nas provincias. Os titulos
+por ellas passados, e as certidões extrahidas dos seus livros terão fé
+publica para prova do contrato.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 2.º&mdash;Sendo os estrangeiros menores de vinte um annos
+perfeitos, que não tenham presentes seus paes, tutores ou curadores, com os
+quaes se possa validamente tratar, serão os contratos auctorisados, pena de
+nullidade, com assistencia de um curador, o qual será igualmente ouvido em
+todas as duvidas e acções que dos mesmos contratos se originarem, e em que
+algum locador menor fôr parte, debaixo da expressada pena.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 3.º&mdash;Para este fim em todos os municipios onde houver
+sociedades de colonisação haverá um curador geral dos colonos, nomeado pelo
+governo na côrte e pelos presidentes nas provincias, sob proposta das mesas
+da direcção das mesmas sociedades.</p>
+
+<p>Nos outros municipios servirão os curadores geraes dos orphãos. Nas
+faltas, ou impedimentos de uns e outros, nomearão as sobreditas mesas de
+direcção para auctorisação dos contratos e os juizes respectivos para os
+casos das acções que se moverem, pessoa idonea que o substitua.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 4.º&mdash;Não apresentando os menores documento legal da
+sua idade será esta estimada no acto do contrato á vista da que elles
+declararem e parecer que podem ter, e ainda que depois o apresentem este não
+valerá para annullar o contrato, mas se estará pela idade que no acto d'este
+se houver estimado para os effeitos sómente da validade do mesmo
+contrato.<span class="pagenum"><a id="pag_371"
+name="pag_371">[371]</a></span></p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 5.º&mdash;É livre aos estrangeiros de maior idade ajustarem
+seus serviços pelos annos que bem lhes parecerem, mas os menores não poderão
+contratar-se por tempo que exceda á sua menoridade, excepto se fôr necessario
+que se obriguem por maior praso para indemnisação das despezas com elles
+feitas, ou se forem condemnados a servir por mais tempo em pena de terem
+faltado ás condições do contrato.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 6.º&mdash;Em todos os contratos de locação de serviços, que
+se celebrarem com os mesmos menores, se designará a parte da soldada que
+elles devam receber para suas despezas, que não poderá nunca exceder da
+metade: a outra parte, depois de satisfeitas quaesquer quantias adiantadas
+pelo locatario, ficará guardada em deposito na mão d'este, se fôr pessoa
+notoriamente abonada, ou não sendo, prestará fiança idonea para ser entregue
+ao menor, logo que acabar o tempo de serviço a que estiver obrigado, e houver
+saido da menoridade. Fóra d'estes casos será recolhido no cofre dos orphãos
+do municipio respectivo.</p>
+
+<p>Nos municipios onde houver sociedades de colonisação reconhecidas pelo
+governo, serão taes dinheiros guardados nos cofres das mesmas sociedades.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 7.º&mdash;O locatario de serviços que, sem justa causa,
+despedir o locador antes de se findar o tempo por que o tomou, pagar-lhe-ha
+todas as soldadas, que devêra ganhar, se o não despedira. Será justa causa
+para a despedida:</p>
+
+<p>1.º Doença do locador, por fórma que fique impossibilitado de continuar a
+prestar os serviços para que fôr ajustado;</p>
+
+<p>2.º Condemnação do locador á pena de prisão, ou qualquer outra que o
+impeça de prestar serviço;</p>
+
+<p>3.º Embriaguez habitual do mesmo;</p>
+
+<p>4.º Injuria feita pelo locador á dignidade, honra, ou fazenda do
+locatario, sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;</p>
+
+<p>5.º Se o locador, tendo-se ajustado para o serviço determinado, se mostrar
+imperito no desempenho do mesmo serviço.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 8.º&mdash;Nos casos do n.º 1.º e 2.º do artigo antecedente,
+o locador despedido, logo que cesse de prestar o serviço, será obrigado a
+indemnisar o locatario da quantia que lhe dever. Em todos os outros
+pagar-lhe-ha tudo quanto dever, e se não pagar logo, será immediatamente
+preso e condemnado a trabalhar nas obras publicas por todo o tempo que fôr
+necessario, até satisfazer com o producto liquido de seus jornaes tudo quanto
+dever ao locatario, comprehendidas as custas a que tiver dado causa.</p>
+
+<p>Não havendo obras publicas, em que possa ser admittido a trabalhar por
+jornal, será condemnado a prisão com trabalho, por todo o tempo que faltar
+para completar o do seu contrato: não podendo todavia a condemnação exceder a
+dois annos.<span class="pagenum"><a id="pag_372"
+name="pag_372">[372]</a></span></p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 9.º&mdash;O locador, que, sem justa causa, se despedir, ou
+ausentar antes de completar o tempo do contrato, será preso onde quer que fôr
+achado, e não será solto emquanto não pagar em dobro tudo quanto dever ao
+locatario, com abatimento das soldadas vencidas: se não tiver com que pagar,
+servirá ao locatario de graça todo o tempo que faltar para o complemento do
+contrato. Se tornar a ausentar-se será preso e condemnado na conformidade do
+artigo antecedente.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 10.º&mdash;Será causa justa para rescisão do contrato por
+parte do locador:</p>
+
+<p>1.º Faltando o locatario ao cumprimento das condições estipuladas no
+contrato;</p>
+
+<p>2.º Se o mesmo fizer algum ferimento na pessoa do locador, ou o injuriar
+na honra de sua mulher, filhos ou pessoa de sua familia;</p>
+
+<p>3.º Exigindo o locatario, do locador, serviços não comprehendidos no
+contrato.</p>
+
+<p>Rescindindo-se o contrato por alguma das tres sobreditas causas, o locador
+não será obrigado a pagar ao locatario qualquer quantia de que possa ser-lhe
+devedor.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 11.º&mdash;O locatario, findo o tempo do contrato, ou antes
+rescindindo-se este por justa causa, é obrigado a dar ao locador um attestado
+de que está quite do seu serviço; se recusar passal-o será compellido a
+fazel-o pelo juiz de paz do districto. A falta d'este titulo será rasão
+sufficiente para presumir-se de que o locador se ausentou indevidamente.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 12.º&mdash;Toda a pessoa que admittir, ou consentir em sua
+casa, fazendas ou estabelecimentos, algum estrangeiro, obrigado a outrem por
+contrato de locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador
+lhe dever, e não será admittido a allegar qualquer defeza em juizo, sem
+depositar a quantia a que fica obrigado, competindo-lhe o direito de havel-a
+do locador.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 13.º&mdash;Se alguem alliciar para si indirectamente, ou
+por interposta pessoa, algum estrangeiro obrigado a outrem por contrato de
+locação de serviços, pagará ao locatario o dobro do que o locador lhe fôr
+devedor, com todas as despezas e custas a que tiver dado causa; não sendo
+admittido em juizo a allegar sua defeza sem deposito. Se não depositar, e não
+tiver bens, será logo preso e condemnado a trabalhar nas obras publicas por
+todo o tempo que fôr necessario, até satisfazer ao locatario com o producto
+liquido dos seus jornaes. Não havendo obras publicas em que possa ser
+empregado a jornal, será condemnado a prisão com trabalho por dois mezes a um
+anno.</p>
+
+<p>Os que alliciarem para outrem, serão condemnados a prisão com trabalho,
+por todo o tempo que faltar para cumprimento<span class="pagenum"><a
+id="pag_373" name="pag_373">[373]</a></span> do contrato do alliciado, com
+tanto porém que a condemnação nunca seja por menos de seis mezes, nem exceda
+a dois annos.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 14.º&mdash;O conhecimento de todas as acções derivadas dos
+contratos de locação de serviços, celebrados na conformidade da presente lei,
+será da privativa competencia dos juizes de paz do fôro do locatario, que as
+decidirão summariamente em audiencia geral, ou particular para o caso, sem
+outra fórma regular de processo, que não seja a indispensavelmente necessaria
+para que as partes possam allegar, e provar em termo breve o seu direito;
+admittindo a decisão por arbitros na sua presença, quando alguma das partes a
+requerer, ou elles a julgarem necessaria por não serem liquidas as provas.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 15.º&mdash;Das sentenças dos juizes de paz haverá
+unicamente recurso de appellação para o juiz de direito respectivo. Onde
+houver mais de um juiz de direito, o recurso será para o da primeira vara, e
+na falta d'este para o da segunda, e successivamente para os que se
+seguirem.</p>
+
+<p>O de revista só terá logar n'aquelles casos, em que os reus forem
+condemnados a trabalhos nas obras publicas para indemnisação dos locatarios,
+ou a prisão com trabalho.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 16.º&mdash;Nenhuma acção derivada de locação de serviços
+será admittida em juizo, se não fôr logo acompanhada do titulo do contrato.
+Se fôr de petição de soldadas, o locatario não será ouvido, sem que tenha
+depositado a quantia pedida, a qual todavia não será entregue ao locador,
+ainda mesmo que preste fiança, senão depois de sentença passada em
+julgado.</p>
+
+<p>A<small>RT.</small> 17.º&mdash;Ficam revogadas as leis em contrario.</p>
+
+<p>Mando portanto a todas as auctoridades, a quem o conhecimento e execução
+da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão
+inteiramente como n'ella se contém. O secretario d'estado dos negocios da
+justiça, encarregado interinamente dos do imperio, a faça imprimir, publicar
+e correr. Dada no palacio do Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1837, 16.º
+da independencia do imperio.&mdash;<i>Pedro de Araujo Lima</i>&mdash;<i>Bernardo
+Pereira de Vasconcellos</i>.</p>
+
+<h2><a id="nota5" name="nota5">N.º 5</a></h2>
+
+<p>Não podem ir n'este logar as cartas que publicámos no <i>Jornal da
+Noite</i>; porque a questão que alli tratámos está pendente ainda do
+tribunal. Brevemente as publicaremos em opusculo ou nas notas ao drama os
+<i>Aventureiros</i>, visto que parte do assumpto das mesmas são a base de um
+episodio que no mesmo drama romantisámos.<span class="pagenum"><a
+id="pag_374" name="pag_374">[374]</a></span></p>
+
+<h2><a id="nota6" name="nota6">N.º 6</a></h2>
+
+<h3>Portaria-circular de 10 de agosto de 1870</h3>
+
+<p>Sua magestade El-Rei viu o officio do governador civil de Lisboa, de 12 de
+julho ultimo, acompanhando as informações do delegado de policia do porto de
+Lisboa e differentes documentos com relação ás transgressões dos preceitos da
+lei de 20 de julho de 1855, que se dizem praticadas por José Maria Gavião
+Peixoto.</p>
+
+<p>E sendo-lhe tambem presentes os requerimentos em que o referido José Maria
+Gavião Peixoto pretende mostrar, que a rejeição no governo civil dos
+contratos por elle celebrados com subditos portuguezes por serviços de
+locação, não só é injusta, mas ainda prejudicial aos seus interesses:</p>
+
+<p>Houve por bem mandar declarar ao governador civil que não ha motivo
+sufficiente para rejeitar os contratos celebrados nos termos dos que remetteu
+por copia no seu indicado officio, pois que n'esses documentos se acham em
+geral satisfeitas as prescripções das leis e regulamentos de policia, e nos
+pontos em que d'elles se afastam, não se contrariam o intuito das leis
+represivas da emigração; que cumpre ter muito em vista, que a pretexto de
+fiscalisação dos contratos e da proteção aos contratados se não tolha a
+liberdade individual garantida pelas leis de cada um poder dispor de sua
+pessoa e bens conforme lhe aprouver; e que do rigor exagerado na fiscalisação
+póde resultar o que os factos acabam de mostrar, o empenho e cuidado de
+illudir a lei e os regulamentos policiaes, fazendo-se passar como simples
+passageiros ou emigrantes os que na realidade são contratados, circumstancias
+estas que nem sempre será facil descobrir, porque nem todos os contratados
+terão a sinceridade de confessar a transgressão como succedeu com os
+individuos que se dirigiam para o Brazil no vapor <i>Talisman</i>, que foram
+detidos pelo delegado de policia do porto de Lisboa; e finalmente, que sendo
+de reconhecida conveniencia que o governo saiba por informações officiaes
+quem sejam os proprietarios no imperio do Brazil que melhor cumpram os seus
+contratos e mais vantagens offereçam aos colonos, a fim de se usar de mais ou
+menos rigor, segundo as informações e circumstancias aconselharem, por este
+ministerio se vae solicitar do dos negocios estrangeiros a expedição das
+ordens necessarias aos agentes consulares no referido imperio,<span
+class="pagenum"><a id="pag_375" name="pag_375">[375]</a></span> a fim de
+prestarem por esta secretaria informações periodicas e escrupulosas sobre
+este importante assumpto.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Paço, em 10 de agosto de 1870.==<i>José Dias Ferreira.</i></p>
+
+<h2><a id="nota7" name="nota7">N.º 7</a></h2>
+
+<p>«<i>Cidade de Goyanna.</i>&mdash;Consta que nos dias 1 e 2 do corrente fôra
+distribuido na cidade de Goyanna um manifesto chamando os goyannenses ás
+armas, para expellirem os subditos portuguezes alli domiciliados.»</p>
+
+<p style="text-align:right;">(Redacção do <i>Jornal do Recife</i>.)</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>«É assombroso o caracter de que se revestem os negocios da Goyanna contra
+os portuguezes ali estabelecidos. Já não é o cacête, nem o punhal, nem o
+chumbo, nem a garrafa as armas d'estes reis que tentam, procurando por este
+motivo, saquear os seus estabelecimentos, são ainda mais incendiarios,
+incendiarios sim, porque assim o fizeram no estabelecimento do portuguez
+Antonio Garcia, trazendo d'este modo a perturbação e a confusão ao seio das
+familias.</p>
+
+<p>«Tudo annuncia funestas consequencias e estes brazileiros, vis algozes da
+honra e esbanjadores da fortuna alheia, nem ao menos respeitam as suas
+patricias, a quem esses portuguezes juraram perante o altar de Deus ser seus
+esposos, nem aos filhos d'estes, brazileiros legitimos, querendo fazer de
+seus esposos e paes, victimas da mais horrenda atrocidade.</p>
+
+<p>«Em breve armarão na praça publica o patibulo para onde, se o governo não
+der promptamente energicas providencias, têem de subir os pacatos portuguezes
+ali residentes, tornando-se isto delicias para os seus inimigos.</p>
+
+<p>«E o governo dirá, por mais que tenha sabido: Não tive noticias.</p>
+
+<p>«Ha bem pouco, foram pronunciados os auctores de taes attentados e estes
+mesmos que se acham foragidos cruzam as ruas ao meio dia em ponto, porque
+assim o governo quer.</p>
+
+<p>«O proprio jornal <i>Democrata</i>, que d'antes defendia a causa
+portugueza, hoje á imposição de homens a quem o povo considera como chefes
+d'estes motins, se converteu em pasquim, para, dilacerando as vestes da deusa
+de Guttemberg, injuriar aos portuguezes.</p>
+
+<p>«Mizeria do Brazil! O aprecie o paíz estrangeiro.<span class="pagenum"><a
+id="pag_376" name="pag_376">[376]</a></span></p>
+
+<p>«Hoje chega-nos a noticia de que nos dias 1 e 2 d'este mez soltaram fogo;
+distribuiram um manifesto, chamando os goyannenses ás armas para expellir os
+portuguezes, querendo repetir as barbaras scenas de 1872.</p>
+
+<p>«Triste estado!</p>
+
+<p>«Por ora ficaremos por aqui.»</p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>Um amigo da familia.</em></p>
+
+<p>(No mesmo numero do <i>Jornal do Recife</i>.)<span class="pagenum"><a
+id="pag_377" name="pag_377">[377]</a></span></p>
+
+<h1>QUESTÕES DO PARÁ</h1>
+
+<h2>(1875)<br>
+CRITICA</h2>
+
+<h3>DIARIO ILLUSTRADO</h3>
+
+<p>«O nosso amigo o sr. D. A. Gomes Pércheiro, moço intelligentissimo, acaba
+de chegar do Pará e vae, como testemunha presencial dos ultimos
+acontecimentos que alli se têem passado, publicar um livro intitulado
+<i>Questões do Pará</i>, que deve lançar muita luz sobre este assumpto, como
+póde ver-se dos seguintes capitulos de que o livro se compõe:</p>
+
+<p>Verdades da Agencia Americana, sobre os acontecimentos do Pará em
+1874.&mdash;Prova-se que o conego Manuel José de Sequeira Mendes é tribuno.&mdash;A
+educação dos paraenses.&mdash;Verdades amargas sobre a educação.&mdash;Os tribunaes do
+Pará.&mdash;Como são julgados os assassinos dos portuguezes.&mdash;O <i>Diario de
+Belem</i>.&mdash;O chefe de policia do Pará.&mdash;A religião dos paraenses.&mdash;A
+maçonaria.&mdash;O funccionalismo publico do Pará.&mdash;A salubridade e os medicos do
+Pará.&mdash;Como os brazileiros tratam os colonos agricultores.</p>
+
+<p><i>Apendice</i>:&mdash;Relatorio do chefe de policia sobre os assassinatos de
+Jurupary.&mdash;Inquerito das testemunhas.&mdash;Pronuncia dos assassinos dos
+portuguezes.</p>
+
+<p>Acabamos de assistir á leitura d'este importantissimo trabalho e podemos
+assegurar ao auctor que a sua publicação ha de ter um exito felicissimo.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>(<i>13 de abril.</i>)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«A sociedade compõe-se, na sua maxima parte, de pobretões. É um principio
+incontestavel, que eu quizera que não fosse o fim dos meus amigos.</p>
+
+<p>E os pobretões podem abrigar n'alma tantos desejos como os ricassos.</p>
+
+<p>Ha só um ponto em que necessariamente divergem d'aquelles. Se, desde que
+Horacio versejou, sabemos que ninguem está contente<span class="pagenum"><a
+id="pag_378" name="pag_378">[378]</a></span> com a sua sorte, o ponto de
+divergencia salta a todos os olhos: o ricasso deseja soltar-se da riqueza; o
+pobretão deseja prender-se n'ella.</p>
+
+<p>Outro gallo cantára a todos se <i>não ter onde cahir morto</i> assegurasse
+a immortalidade; porém não ha tal; pódem todos não ter onde cahir mortos, mas
+para esse fim, que é em verdade fim, o municipio não nega um pedaço de rua, o
+amigo não recusa uma nesga de quintal, e o senhorio não furta quatro taboas
+do sobrado que arrendou.</p>
+
+<p>Mas é sem duvida triste que um ser pensador venha ao mundo sem mais
+propriedade do que o seu nariz.</p>
+
+<p>E louvor merece portanto qualquer esforço que elle empregue para alargar
+essa propriedade; o que não quer dizer&mdash;alargar as ventas.</p>
+
+<p>Quando alguem pensa em empregar esse esforço, passa-lhe diante dos olhos,
+em exhibição seductora, uma ala de sujeitos que estiveram alguns annos no
+Brazil e trouxeram de lá mundos e fundos.</p>
+
+<p>Está logo despertado o desejo de partir para as terras de Santa Cruz.</p>
+
+<p>E o homem embarca.</p>
+
+<p>Diante está uma rota de 1:500 leguas, não é verdade? Embora.</p>
+
+<p>O navio que o conduz abalrôa com outro, a meio caminho; e o viajante tem a
+sorte da faca de matto do sr. Raphael Zacharias da Costa. Tambem aqui ha uma
+differença: as companhias de seguros deram pela faca 31:500$000 réis e não
+darão 30 réis pelo ex-viajante, que só poderá tornar a fazer figura em algum
+quadro de peça magica, ao lado de conchas e buzios. Nem se lhe póde desejar
+«a terra lhe seja leve»!</p>
+
+<p>Não abalrôa o navio com outro, mas bate em um rochedo, e as consequencias
+são as mesmas.</p>
+
+<p>Não succede nem uma nem outra coisa, mas um temporal varre o homem da
+tolda da embarcação, e o resultado continúa a ser o mesmo. Só se alguma
+baleia tiver a condescendencia que teve no Mediterraneo a de Jonas, e lhe
+facultar o bandulho para o transportar durante tres dias; ou algum golfinho
+tiver a amabilidade de o levar ás cabritas como succedeu a Melicerto nos
+mares de Corintho.</p>
+
+<p>Vencem-se porém todos esses perigos, e o homem chega são como um pero ás
+praias do novo mundo, que diga-se a verdade, é mais velho do que todos
+nós.</p>
+
+<p>O espectaculo é para embasbacar. A natureza sorri. Ciciam as florestas. Os
+papagaios seduzem-nos com as suas variegadas côres. E as araras!...</p>
+
+<p>O nosso ambicioso desembarca.<span class="pagenum"><a id="pag_379"
+name="pag_379">[379]</a></span></p>
+
+<p>Trata elle da vida; ganha o dobro, o triplo, o quadrupulo do que podia
+ganhar na Europa; e dispõe-se a amontoar dinheiro sobre dinheiro.</p>
+
+<p>O peior é que todos os que vivem têem necessidades. O estomago é
+imperativo; e a pelle não lhe fica atraz. Aquelle manda que o encham, não com
+o pomo da arvore da sciencia do bem e do mal, mas com um bife. A pelle
+determina que a tapem, não com a folha da figueira, mas com um casaco. E no
+Brazil todas as cousas tem um preço exagerado: exemplo&mdash;uma barbeadella
+10$000 réis, um biscouto 10$000 réis, um cochicho 10$000 réis. Não ha preço
+inferior. Este é o minimo, os outros são multiplos de 10$000 réis.</p>
+
+<p>Chega um dia e com o dia chega uma febre. Ali tudo tem côr; e essa febre é
+amarella. E era uma vez um homem.</p>
+
+<p>Os castellos de fortuna baquearam. Os sonhos de riqueza abalaram.</p>
+
+<p>Succede com o arrojo emprehendedor o que succedeu, mal comparado, com
+certo commerciante de ovos.</p>
+
+<p>Estava elle sentado no chão, tendo junto de si um cesto carregado de
+exemplares do genero do seu commercio. Phantasiava, e dizia: «Vou vender
+estes ovos e com o producto d'elles compro isto; duplico. Vendo depois isto e
+compro aquillo; quadruplico. Vendo depois aquillo e compro aquell'outro;
+octoplico o capital... Em tantos annos estou rico, tenho um grande
+rendimento, moro em palacio, ando de carruagem, recebo zumbaias de toda a
+gente, eu quero lá ouvir mais fallar em ovos!» Na força do seu enthusiasmo, e
+no excesso do seu desprezo pelos ovos dá um encontrão no cesto, e lá se vae o
+alicerce da sua futura grandeza! Nem poude aproveital-o em <i>omelette</i>,
+porque não tinha lume e frigideira á mão.</p>
+
+<p>Mas consegue o pobre diabo, que foi tentar fortuna para a America,
+resistir á febre amarella e ás febres de outras côres; e, com muitos
+trabalhos, muitos sacrificios, muitas privações, chega a augmentar o seu
+cabedal? Está do mesmo modo perdido.</p>
+
+<p>Se os fados o conduziram á provincia do Pará, atiram-lhe com os diplomas
+de <i>marinheiro</i>, <i>galego</i>, <i>bicudo</i>, e <i>pé de boi</i>.</p>
+
+<p>Nas outras provincias é muito de suppôr que não haja menos liberalidade na
+concessão d'estas mercês.</p>
+
+<p>Um livro intitulado <i>Questões do Pará</i>, publicado ha pouco pelo sr.
+Gomes Pércheiro, instrue muito a este respeito.</p>
+
+<p>Ao stygma que se julga lançar nos portuguezes com aquelles nomes,
+addicionam-se a nenhuma segurança da vida de cada um, a falta de protecção
+das leis, e a indifferença dos poderes publicos para tudo o que é
+portuguez.<span class="pagenum"><a id="pag_380"
+name="pag_380">[380]</a></span></p>
+
+<p>Esquecem ali que é o nosso sangue que lhes gira nas veias!</p>
+
+<p>No Pará, ao sopro pestilento da <i>Tribuna</i>, movem-se os braços dos
+assassinos e cravam o punhal no coração do artista honrado e do negociante
+laborioso, que teve o seu berço em Portugal e foi áquellas paragens
+contribuir para o progresso e engrandecimento do imperio brazileiro!</p>
+
+<p>E são de individuos que constituem a força publica, são de soldados, as
+mais das vezes esses braços.</p>
+
+<p>É ali espancado um cidadão portuguez por cousa nenhuma.</p>
+
+<p>Não ha muito que um logista esteve ás portas da morte, porque não satisfez
+a correr a um soldado a exigencia de um phosphoro para acender o cigarro.</p>
+
+<p>E mata-se um europeu no Pará por qualquer cousa.</p>
+
+<p>Ha tempos appareceu afogado em um rio um portuguez por nome Antonio. Não
+se averiguou convenientemente a causa da sua morte. Houve entretanto processo
+e o juiz d'elle saiu-se com a seguinte sentença:</p>
+
+<p>«Sendo a sentença do infeliz portuguez Antonio dada por um juiz superior a
+todos os juizes, nenhum recurso existe mais; e por nada mais poder fazer,
+condemno a todos que trabalharam no presente processo a pagar as custas em
+<i>Padre Nossos</i> e <i>Ave Marias</i> por alma do finado, entrando n'este
+numero eu, que já resei o meu, etc.»</p>
+
+<p>O governo do imperio deve olhar seriamente por este estado de cousas, para
+que se não torne a dizer, como a respeito do Pará disse o jornal francez a
+<i>Liberté</i>:&mdash;é necessario que a Europa volte a civilisar aquella parte do
+Brazil.</p>
+
+<p>Á vista do exposto, vamos para o Brazil?</p>
+
+<p>Os que tiverem essa tentação, devem, antes de partir, lêr o livro do sr.
+Gomes Pércheiro, que dá muito ensinamento.</p>
+
+<p>E se, depois de o lerem, não tiverem forças para fazer cruzes á tentação,
+sua alma, sua palma!</p>
+
+<p>Podem ainda ter uma esperança&mdash;voltar á patria embalsamados.</p>
+
+<p style="text-align:right;">G<small>ASTÃO DA</small>
+F<small>ONSECA</small></p>
+
+<p>(<i>Folhetim de 9 de junho de 1875</i>).</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>JORNAL DO PORTO</h3>
+
+<p>Já saiu á luz o livro do sr. Gomes Pércheiro intitulado <i>Questões do
+Pará</i>, que ha tempos lhes annunciei.</p>
+
+<p>É um livro valioso para o conhecimento da importante questão de que se
+occupa. Não é uma obra litteraria, e para o não<span class="pagenum"><a
+id="pag_381" name="pag_381">[381]</a></span> ser, bastava o escassez do tempo
+em que foi escripta, visto que o auctor tinha mais por empenho esclarecer a
+questão do que primar pelo estylo.</p>
+
+<p>Comtudo estão colligidos esclarecimentos muito dignos de ser conhecidos e
+estudados, e os que teem a peito saber a verdade dos factos deverão percorrer
+aquellas paginas, escriptas uma ou outra vez com paixão, mas encerrando
+muitas informações verdadeiras e interessantes.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>8 de maio</i>&mdash;<i>do correspondente</i>).</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Eis o titulo de um livro saído ultimamente dos prelos lisbonenses e do
+qual é auctor o sr. Domingos Gomes Pércheiro.</p>
+
+<p>N'este livro procura o sr. Gomes Pércheiro narrar singela e
+despretenciosamente os factos ainda não mui remotos, occorridos na provincia
+do Pará e estigmatisados pela imprensa séria e imparcial no Brasil e
+Portugal.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro, na sua qualidade de testemunha occular de muitos dos
+factos compendiados no seu livro, adduz documentos e procura comproval-os com
+transcripções feitas de varios periodicos paraenses. Derrama por este modo
+muita luz sobre tão deploraveis occorrencias, tornando-se por essa
+circunstancia muito interessante a sua leitura.</p>
+
+<p>Precede o citado livro uma extensa carta do sr. Ferreira Lobo, escriptor
+lisbonense.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>2 de junho</i>).</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>DEMOCRACIA</h3>
+
+<p>Tem tido grande extracção o livro do sr. Domingos Gomes Pércheiro ácerca
+das questões do Pará.</p>
+
+<p>De facto, n'aquelle excellente livro repleto de muitos conhecimentos e de
+considerações do mais alto interesse social, a questão do Pará está
+perfeitamente elucidada sob todos os pontos de vista.</p>
+
+<p>Quem lêr o livro ficará sabedor de todas as circunstancias que imprimiram
+e ainda estão imprimindo n'aquella questão um caracter de generalidade, que
+muito interessa, attendendo a que a colonia portugueza no Brazil é não só a
+mais numerosa, mas a ella se prendem os destinos e o bem estar de muitas
+familias e commercio de Portugal.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>24 de junho</i>).<span class="pagenum"><a id="pag_382"
+name="pag_382">[382]</a></span></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>CAMPEÃO DAS PROVINCIAS</h3>
+
+<p>Esteve ante-hontem n'esta cidade, vindo do Porto em regresso para Lisboa o
+sr. D. A. Gomes Pércheiro que fôra no Pará director da Agencia Americana, que
+presenceara ali todos os attentados de que foram victimas os portuguezes, e
+que muito conhecedor das circunstancias actuaes do imperio, procura desviar
+d'ali a nossa emigração procurando encaminhal-a para a nova Africa, manancial
+riquissimo de valiosos productos, mas descurado completamente do auxilio e
+dos esforços dos governos.</p>
+
+<p>O serviço que o sr. Pércheiro está fazendo ao paiz é muito valioso, e
+ninguem haverá ahi que o não considere devidamente. Sobre a obra do sr.
+Pércheiro&mdash;<i>Questões do Pará</i>, publicaremos dentro de pouco o nosso
+juizo.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>2 de junho</i>).</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Com esta epigraphe publicou o sr. D. A. Gomes Pércheiro um livro, narrando
+os acontecimentos do Pará, e attribuindo-os em grande parte á inacção e
+desmazello dos governos portuguez e brazileiro. Nota o auctor que é ainda
+grave o estado da provincia, e que urge acudir-lhe com os antidotos
+aconselhados pela experiencia, para que a enfermidade não ganhe forças e não
+seja depois impossivel obstar a conflagração geral, que ali ameaça
+rebentar.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro não faz só considerações sobre o flagello que assola o
+Pará. Não se basea em rumores vagos. Não architectou hypotheses devidas á sua
+imaginação de portuguez amante do seu paiz. Fez mais. Exhibiu documentos
+officiaes de grande valia, e mostrou com a imprensa séria do Brazil, que se
+senão oppozer um dique á onda das vinganças que devasta aquella parte do
+imperio, os portuguezes terão de evacuar o territorio, onde exercem uma
+actividade proveitosa para a colonia e para a nação brazileira, rompendo
+antigas ligações, e cavando um abysmo infranqueavel entre dois povos, que
+deviam estremecer-se como irmãos. É que a cupidez e o desvario vão accendendo
+no peito da escoria as chama de Cain.</p>
+
+<p>Teve o sr. Pércheiro uma posição difinida no Pará. Foi ali o encarregado
+da <i>Agencia Americana Telegraphica</i> encerrada por haver communicado para
+a Europa as occorrencias que se davam na provincia, embora a verdade dos
+factos não podesse lisongear os poderes publicos superiores de Portugal e do
+Brazil. É portanto o seu depoimento auctorisado, por que presenceou<span
+class="pagenum"><a id="pag_383" name="pag_383">[383]</a></span> uma parte dos
+acontecimentos que a imprensa portuguesa registrou com entranhado sentimento,
+ao reclamar dos dois governos providencias energicas, que pozessem cobro ao
+morticinio de nossos compatriotas, verificado a mais de duas mil leguas de
+distancia.</p>
+
+<p>Foi portanto o sr. Pércheiro testemunha presencial de bastantes factos,
+que o levaram fatalmente ás conclusões que se conteem na sua excellente
+publicação, que nós aqui mencionamos como um titulo de capacidade para o
+auctor, que foi para o Brazil a fim de ganhar fortuna, e que regressou á
+patria com a alma cheia de nobre indignação, mas sem ter logrado realisar o
+seu esperançoso intento.</p>
+
+<p>Houve no Pará um caracter grave e amante da ordem, que se propunha a
+conter os discolos e a trazel-os a bom caminho. Desejava porém que o governo
+o auctorisasse a usar de poderes descripcionarios, que elle promettia
+temperar, com a moderação inherente aos seus habitos e ás faculdades do cargo
+que exercia. Foi o dr. Pedro Vicente d'Azevedo, antigo presidente da
+provincia, quem dirigiu ao governo geral o seguinte telegramma:</p>
+
+<p>«Os negocios da <i>Tribuna</i> aggravam-se; posso acabar este estado de
+coisas se me dá <i>carta branca</i>. Serei prudente. Espero resposta
+hoje.»</p>
+
+<p>Pois este convite directo promettendo esmagar a conspiração tenebrosa
+urdida contra os que honradamente trabalham teve a resposta que se segue:</p>
+
+<p>«Proceda dentro dos <i>limites da lei</i>.»</p>
+
+<p>Mas a lei era letra morta no Pará. Os assassinos reuniam publicamente
+contra os portuguezes inermes, porque os nossos compatriotas exerciam o
+commercio, e não se desviavam do trafego honrado, por o qual tinham
+abandonado a patria e a familia. E como a sua applicação era mais proveitosa
+que a dos naturaes da provincia, reunia-se a ralé da população, não para
+exceder o estrangeiro em actividade, não estimulada pelo exemplo, mas para
+cevar paixões ignobeis, para dar a morte aos que se lhes avantajavam na
+preserverança de suadas canseiras!</p>
+
+<p>Assim o governo geral quebrava a vara do poder nas mãos do seu agente,
+ordenando-lhe que se houvesse com legalidade, quando para salvar a gente
+séria, a vida e a propriedade de pessoas respeitaveis, era mister declarar a
+provincia em estado de sitio! Não comprehendemos como n'um caso desesperado o
+poder central senão abalançou aos meios heroicos, indicados pelas
+circunstancias. Teria expurgado aquelle territorio dos vandalos que o
+infestam, e teria provado á Europa, que no Brazil se conhecem e applicam as
+leis da verdadeira hospitalidade.</p>
+
+<p>(<i>5 de junho.</i>)<span class="pagenum"><a id="pag_384"
+name="pag_384">[384]</a></span></p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Recordando as <i>lindezas</i> e importancias da minha terra natal, sahe-me
+dos bicos da penna, o nome de um livro, e o nome do seu auctor que este solo
+viu nascer e acalentou. O livro é: <i>Questões do Pará</i>; o nome do seu
+auctor, bem conhecido, escusava-o a sua reputação; mas orgulhoso das glorias
+da minha terra não desejo omittil-o:</p>
+
+<p>Domingos Antonio Gomes Pércheiro.</p>
+
+<p>Se estas pobres linhas, sem pertenção a escripto, lhe chegarem ás mãos,
+peço venia para que a sua modestia me perdôe e consinta que eu apresente o
+meu parecer sobre o seu livro. O meu parecer humilde, como humilde é quem o
+faz. <i>Questões do Pará</i> é um livro bem raro, que falla e defende a
+patria; não trata de frivolidades, não faz grimpa de philosophias, não
+ostenta empoladas utopias, molestia de que a nossa literatura moderna está
+contagiada. Occupa-se de Portugal e de seu irmão o Brazil. Individualisa-se e
+soffre com as nossas desgraças.</p>
+
+<p>Historia essas scenas de canibalismo americano, contra os desgraçados
+portuguezes, que, tendo em vista o trabalho santo, vão procurar uma vida
+n'aquellas plagas inhospitas. Indigna-se contra taes horrores, e reverbera
+então o latego sobre os novos Cains.</p>
+
+<p>É um livro verdadeiro, um auxilio para a historia contemporanea.</p>
+
+<p>É um pregão que fará convergir a indignação dos povos cultos contra taes
+selvagerias. Uma consolação para os desgraçados portuguezes que ainda luctam
+com o clima, insuperaveis difficuldades e guerra dos brazileiros. Não tem
+arrendados de estylo, e menos ainda bellezas poeticas, porque lh'as não
+consentiu a brevidade, nem a gravidade do assumpto. Digne-se o distincto
+auctor acceitar os meus emboras e felicitações, que, sendo verdadeiras, só
+peccam pela pequenez do nome que assigna.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>(3-5-76)</p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>J. Martins M. da Silva.</em></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>JORNAL DA NOITE</h3>
+
+<p>Hontem démos noticia do livro publicado pelo prelado da diocese<span
+class="pagenum"><a id="pag_385" name="pag_385">[385]</a></span> do Pará, e
+por o não termos podido ler ainda, só referimos o que no prefacio escrevera o
+reverendo auctor. Hoje temos de fazer outro tanto com o livro do sr.
+Pércheiro, cujo texto nos é desconhecido. Quanto sabemos a respeito d'elle, o
+aprendemos na carta do sr. Ferreira Lobo que precede o livro.</p>
+
+<p>O volume do sr. Pércheiro é offerecido aos seus illudidos compatriotas que
+vêem no Brazil uma nova terra da promissão. Mais nada. Esta dedicatoria só
+valle um livro porque está recommendando aos mancebos o trabalho na patria
+onde a remuneração poderá ser modesta, mas é perto do lar domestico, em plena
+liberdade, com a benevolencia dos nossos affectuosos costumes a affoitar o
+animo, sem epidemias frequentes, e sempre com a certesa de não morrer de
+fome, porque não fallece ninguem entre portuguezes, seja natural ou
+estranho.</p>
+
+<p>E depois em Portugal tambem os humildes enriquecem. Ha exemplos e
+numerosos. Muitos d'esses negociantes, senhores de estabelecimentos
+consideraveis, partiram da terra pobrissimos, foram caixeiros de outros
+commerciantes, e pelo trabalho é que mereceram consideração, pelo zelo
+estima, pela probidade respeito e auxilio de toda a gente. Depois veiu a
+riqueza, isto é, a cupula do edificio.</p>
+
+<p>Se na patria havia emprego para a actividade de muita gente, d'aqui por
+diante ainda deve ser mais facil encontrar meio de adquirir fortuna. Basta
+observar a abundancia de capitaes, o seu movimento e direcção, a grande
+quantidade de emprezas que se vão formando por cooperação e interesse de
+todas as classes, e as facilidades de communicação por mar e terra, para
+transporte de pessoas e de mercadorias, ou para transmissão de ordens e de
+avisos...</p>
+
+<p>Emfim... Mas o nosso proposito não é escrever ácerca da emigração.
+Desviou-nos para este assumpto interessantissimo a dedicatoria do livro.
+Desculpe o leitor a digressão. Ha, porém, coisas que seria conveniente dizer
+a todos e repetil-as quotidianamente.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro, segundo informa o esmerado escriptor já referido, foi ha
+tres annos para o Pará, e voltou ao cabo d'elles de cabeça levantada e mãos
+vasias. Tendo, porém, observado como por lá eram tratados os portuguezes,
+ergueu n'este livro um brado de indignação contra a prepotencia de que são
+victima os nossos irmãos do Brazil.</p>
+
+<p>Accrescenta o sr. Ferreira Lobo, nosso estimado collega na imprensa, que
+este volume não é primor litterario; que o proprio auctor lhe conhece os
+defeitos de fórma; que foi escripto na viagem e sem auxilio de livros, e por
+isso saiu agitado, revolto e caprichoso como as vagas que baloiçavam a mesa
+sobre <span class="pagenum"><a id="pag_386" name="pag_386">[386]</a></span> a
+qual foi delineado; que finalmente foi inspirado por sentimento de
+patriotismo, de independencia, de dedicação, e de coragem.</p>
+
+<p>As questões do Pará que dão o titulo ao livro, não são as mesmas que
+inspiraram o livro do prelado d'aquella diocese. Referem-se principalmente á
+luta entre portuguezes e brazileiros, á campanha do commercio a retalho, mas,
+segundo vimos folheando o volume, não deixou de alludir a essas discordias o
+auctor. E assim devia ser porque as questões entre o bispo e o governo do
+Brazil tem ligação com o odio de certos brazileiros aos portuguezes.</p>
+
+<p>Vamos ler com muita curiosidade a obra do sr. Pércheiro, e agradecemos-lhe
+o favor de offerecer um volume á nossa redacção.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>12 de maio.</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>JORNAL DO COMMERCIO</h3>
+
+<p>Por todos os portuguezes deveria ser lido este livro, a proposito do que
+fez o <i>Jornal da Noite</i> as seguintes sensatas ponderações: (Transcreve o
+artigo do <i>Jornal da Noite</i>.)</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>14 de maio.</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p>O livro subordinado a esta epigraphe, devido á pena do sr. Gomes
+Pércheiro, tem tido extraordinaria extracção. Não podia deixar de assim ser,
+porque é um trabalho utilissimo e de muito ensinamento para aquelles que
+teimam, com prejuiso para as nossas colonias, em ver no Brazil actual,
+exausto e quasi cadaverico, o antigo emporio de riquezas agricolas, que era a
+alma do commercio e da industria ainda nascente, e que á porfia pareciam
+querer fazer do imperio o maior collosso da civilisação americana.</p>
+
+<p>A lei que no Brazil estabelecera a egualdade de nascimento, fazendo de
+todos os homens uma só familia, surtiu optimos effeitos moraes no mundo
+liberal, por ver-se que uma nação ainda adolescente comprehendia já a
+sublimidade da idéa que começára a robustecer-se com as glorias obtidas no
+Paraguay. A carta da emancipação dos escravos veiu dar ao Brazil facil
+accesso para sentar-se á mesa do progresso, junto das nações mais velhas que
+lhe tinham sido mãe.</p>
+
+<p>Mas depois d'isto faltava fazer muito ainda. Era preciso não adormecer ao
+som dos hymnos inebriantes das glorias passadas;<span class="pagenum"><a
+id="pag_387" name="pag_387">[387]</a></span> era preciso que governantes e
+governados estudassem pelo seu passado qual havia de ser o futuro do seu
+imperio. Era preciso que esse immenso territorio fosse devastado,
+permitta-se-nos a expressão, pela immensa tempestade do progresso, que se lhe
+abeirava, para dar-lhe o seu quinhão civilisador; e que leis protectoras se
+fizessem com o fim de dar livre accesso ao explorador, que mais tarde havia
+de ceifar as suas mattas insondaveis e poeticas, mas cuja poesia fará
+retrogradar o Brazil para os seus primitivos tempos. Era preciso substituir
+no trabalho esse ente, que ainda não estava educado para ser livre, mas que
+uma idéa humana fizera egual aos outros homens; e não deixar oxidar a
+roçadoura, a enxada e a pá, e amortecer os animos febris pelo desbravamento
+das terras incultas, que, como estão, não podem servir de engrandecimento
+para o imperio. Era preciso que governos e governados, de norte a sul,
+attraissem, com seus bons tratos o estrangeiro ávido pelas riquezas do seu
+feracissimo solo.</p>
+
+<p>Leis, filhas de um aturado estudo philosophico, sobre as condições
+religiosas do imperio, deviam ter substituido as que existem, e que não podem
+mais servir para uma sociedade nova, e muito especialmente para um paiz que
+precisa recolher em seu seio homens de todas as crenças. A questão religiosa,
+que ainda não terminou no imperio, e que tanto mal tem feito ao seu
+progresso, não teria existido.</p>
+
+<p>Os homens talentosos do Brazil, á similhança do que se faz nos paizes
+cansados, estudam apenas o incomprehensivel problema da politica e parece
+quererem contemporisar com o movimento jesuitico.</p>
+
+<p>A par d'isto retraem-se os capitaes, os colonos portuguezes, no norte do
+imperio, repatriam-se. A falta de braços, faz-se sentir. A lavoura
+definha-se; por que além da falta de braços, os terrenos limitrophes das
+povoações estão explorados e os governos não tomam a iniciativa de abrir
+tunneis, permitta-se-nos a phrase, n'essas immensas montanhas de matta
+virgem, cujos troncos seculares com sua immensa folhagem nos não deixam ver
+tão grande manancial de riquesas. As estradas que existem para o interior dos
+sertões são apenas os carreirinhos do indio, da onça, do veado, da paca e do
+tatù.</p>
+
+<p>No valle do Amazonas vive-se da industria extractiva. A agricultura foi
+despresada. Mas a industria extractiva vae morrer, por que os governos não
+desimpedem as immensas vias de communicação&mdash;os rios&mdash;que cortam em todas as
+direcções aquelles immensos territorios, tambem cobertos de plantas.</p>
+
+<p>Que se faz para attrair o estrangeiro? Que pensam os homens eminentes do
+Brazil?<span class="pagenum"><a id="pag_388"
+name="pag_388">[388]</a></span></p>
+
+<p>Nada vemos. E contudo, o mais simples observador nota que o grande imperio
+está passando por uma crise assustadora.</p>
+
+<p>Suggeriu-nos estas phrases, ao lermos o livro <i>Questões do Pará</i>,
+cuja leitura recommendamos, a idéa do engrandecimento do imperio do
+Brazil.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>26 de junho)</i></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>JORNAL DE LISBOA</h3>
+
+<p>É notavel este livro pela questão importantissima de que se occupa, e
+pelos esclarecimentos que presta, fundados em documentos, e nas palavras do
+auctor testemunha presenceal dos factos.</p>
+
+<p>Dotado de grande energia e independencia o sr. Pércheiro apresentou as
+questões do Pará como as viu e entendeu, e as suas palavras, por vezes duras
+como as verdades amargas, hão de molestar muitos dos que as lerem.</p>
+
+<p>O auctor trata de justificar as verdades das noticias que transmittiu como
+agente da Agencia Americana.</p>
+
+<p>Interessa-nos muito a questão do Pará, e sobre ella escrevemos
+modernamente o nosso pensamento n'um artigo que vimos reproduzido no jornal
+o&mdash;<i>Brazil</i>, destinado ao novo mundo.</p>
+
+<p>Inutil é pois repetir n'este jornal as ideias que elle publicou; d'outra
+sorte escreveriamos detidamente ácerca do livro que annunciamos, e cuja
+leitura recommendamos aos nossos leitores.</p>
+
+<p>Ao sr. Pércheiro agradecemos a offerta do seu livro.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>15 de maio</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>A TRIBUNA</h3>
+
+<p><i>Questões do Pará.</i>&mdash;Publicou-se e acha-se á venda nas differentes
+livrarias uma brochura com o titulo <i>Questões do Pará</i>, de que é auctor
+o sr. D. A. Gomes Pércheiro.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro era o representante da <i>Agencia telegraphica
+americana</i> no Pará, e por ella foram enviados os telegrammas que nos
+informam dos assassinatos de Jurupary, e de outras occorrencias, que se lhes
+seguiram. Notaremos que, depois d'isso foi fechada a succursal d'aquella
+agencia no Pará, certamente porque o governo brazileiro entendeu ser mais
+commodo continuar a perseguição e a chacina, sem que nós, e o resto da
+Europa<span class="pagenum"><a id="pag_389" name="pag_389">[389]</a></span>
+podessemos ser informados das façanhas da selvageria.</p>
+
+<p>Agora só de longe em longe, e passado tempo, nos chega noticia do que vae
+por aquella provincia brazileira.</p>
+
+<p>A brochura do sr. Pércheiro contem esclarecimentos minuciosos, e é um
+excellente commentario aos documentos publicados no <i>Livro Branco</i>. Logo
+se vê que o sr. Mathias de Carvalho tem carradas de razão em dar louvores ao
+governo do seu imperial compadre, pelo zelo, diligencia e sollicitude com que
+vela pela ordem publica e pela segurança dos portuguezes no Pará.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>n.º 71, de maio</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>CORRESPONDENCIA DE COIMBRA</h3>
+
+<p>Este livro deve ser estudado e meditado. É a historia circumstanciada
+d'essas desgraçadas questões do Pará, entre portuguezes e brazileiros,
+incitados estes ao odio e á matança de nossos irmãos pelo pasquim da imprensa
+chamado <i>Tribuna</i>.</p>
+
+<p>Como quem de perto conhece a vida brazileira, mostra com argumentos os
+perigos da emigração, e achamos util que este livro se colloque ao lado dos
+escriptos do sr. Augusto de Carvalho que outro fim não tem senão desinvolver
+a propaganda de emigração de portuguezes para o imperio brazileiro.</p>
+
+<p>Já o dissemos e repetimos: a emigração é um acto de liberdade que ninguem
+contesta, mas impossivel no estado actual das circumstancias de Portugal e
+Brazil.</p>
+
+<p>O livro do sr. Pércheiro é obra de um bom coração portuguez que colloca ao
+serviço da patria e da verdade a sua voz auctorisada.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>16 de maio</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p>Sabeis o que foi a America?</p>
+
+<p>Ha pouco mais de tres seculos era um mundo escondido pelos mares. Vivia
+entregue ás leis da natureza e em quanto a civilisação viera do oriente ao
+occidente em marcha continua, derribando e elevando, sempre vencedora, sempre
+triumphante, a America nem sequer a olhava pelo cimo das aguas, e nem as
+correntes dos mares lhe levavam os eccos alegres dos nossos festins ao
+progresso!</p>
+
+<p>Lá vivia, entregue ás leis dos sentidos, ao codigo do mais forçado, á
+vontade do mais prepotente.</p>
+
+<p>Os seus habitantes afundavam-se nas matas gigantescas, que<span
+class="pagenum"><a id="pag_390" name="pag_390">[390]</a></span> similhavam os
+alicerces dos ceus. Tinham a quina, o café, o assucar, a canella; sentavam-se
+á sombra do cedro, do secular palisandro e da alta palmeira. Pesava sobre
+elles o mysterio das grandes florestas virgens, que fazem suppor maiores
+mysterios; encantava-os o trinado do sabiá, mas, quando se abeiravam das
+costas, não sabiam cortar um tronco de cedro, e atirando com o fraco lenho
+sobre o dorso do mar, que rugia, não sabiam collocar-se sobre elle, e domando
+as ondas, os obstaculos, a desesperança vir até onde, pelo menos os devia
+incitar a phantasia.</p>
+
+<p>Olhavam com medo e terror o Amazonas, e como os pomos das arvores lhe
+satisfizessem as primeiras necessidades da vida dormiam em somnolencia
+permanente os dias da existencia.</p>
+
+<p>A terra era fertil; os naturaes indolentes.</p>
+
+<p>Mas a velha Europa tinha caminhado muito. As loucuras, os gozos, os
+prazeres que a Asia lhe havia enviado como despojos da conquista pediam novos
+manciaes de oiro, novos thesouros inexgotaveis, que saciassem a libertinagem
+da matrona.</p>
+
+<p>A Europa já tinha arrancado perolas dos seios das ondas; sonhou com
+diamantes.</p>
+
+<p>E quando os sabios, curvados sobre os problemas das sciencias physicas,
+apontavam para paragens longiquas, os aventureiros lançavam-se logo a
+procurar a nova terra.</p>
+
+<p>O navegador chegou a ser um poeta.</p>
+
+<p>Faltava-lhe a sciencia, mas tinha a <i>inspiração</i>.</p>
+
+<p>E a inspiração bastava, e foi guiado por ella que Colombo deixou o porto
+de Palos em 3 de agosto de 1492.</p>
+
+<p>Pouco depois vinha Colombo depor um mundo aos pés do rei Fernando e da
+rainha Isabel.</p>
+
+<p style="text-align:center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Os portuguezes foram tambem á conquista. O acaso impelliu Pedro Alvares
+Cabral a descobrir o Brazil, e o rei D. Manuel podia dar mais luzimento á
+corôa e mais brilhantismo ao seu reinado.</p>
+
+<p>Começava então o seculo XVI; e iniciava-se pelo descubrimento do Brazil o
+gigante da Reforma e da Renascença.</p>
+
+<p>D. Manuel não deu grande importancia ao facto: tantas eram as descobertas
+do seu reinado, que a dependencia de metade de um mundo nem o fazia
+estremecer!</p>
+
+<p>Mas quando as caravellas chegavam carregadas de oiro e pedrarias, e se
+buscava ahi o peculio para satisfazer ás sumptuosidades religiosas do rei D.
+João V e á sequiosidade de dinheiro da curia romana, começou a estremecer-se
+o Brazil.<span class="pagenum"><a id="pag_391"
+name="pag_391">[391]</a></span></p>
+
+<p>Praticámos o nosso dever de povos civilisados. Aquelle povo ignorante, que
+nada conhecia, mandamos-lhe atravez dos mares as nossas industrias, as nossas
+sciencias, as nossas artes.</p>
+
+<p>A emigração era uma cruzada abençoada. Os emigrantes iam prégar a religião
+do trabalho e a sciencia da vida do progresso. Tomaram o livro, e ensinaram a
+ler o selvagem; agarraram na enchada, e instruiram o natural em cavar a
+terra.</p>
+
+<p>Ensinaram-lhe a construir lanchas, e a lançal-as sobre as aguas dos
+rios.</p>
+
+<p>Crearam-lhe novas necessidades, mas deram-lhe meios de as satisfazer.</p>
+
+<p>Derribaram-lhe as choças, e edificaram-lhe habitações firmes e solidas.</p>
+
+<p>Ensinaram-lhe o commercio; arrotearam-lhe os terrenos; secaram-lhe os
+pantanos; duplicaram-lhe a agricultura; exploraram-lhe o minerio.</p>
+
+<p>Deram-lhe instituições, codigos, leis; mostraram-lhe a associação;
+prégaram-lhe a liberdade e a beneficencia.</p>
+
+<p>Depois fizemos a nossa primeira revolução liberal. Marchámos contra o
+despotismo e mostramos-lhe os direitos do povo em 1820.</p>
+
+<p>O gigante do seculo estranhou a audacia, mas temeu a força popular.</p>
+
+<p>Transigiu, ou por outra transigimos.</p>
+
+<p>Mas da liberdade conquistada fizemos participante a colonia brazilica.
+Estendemos até lá as idéas que a França nos havia ensinado, e quando em
+Ypiranga o regente soltou a primeira phrase de indepencia, quasi que
+voluntariamente lhe levantámos a tutella.</p>
+
+<p>Queria governar-se... Muito bem; em 1825 reconhecemos-lhe o direito,
+demos-lhe a emancipação, e um rei, filho dos soberanos portuguezes, para que
+a dirigisse.</p>
+
+<p>Não lhe oppozemos grandes obstaculos, nem tentamos sujeital-a pela
+força.</p>
+
+<p>Ficou livre, e ficámos livres; mas n'esta mutua liberdade que nós
+reconheciamos, parece que nos deviamos estreitar em amisade de irmãos, em
+desenvolvimento de interesses, em aspirações de idéas.</p>
+
+<p>Assim não acontece.</p>
+
+<p style="text-align:center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O povo brazileiro declara guerra de exterminio ao povo portuguez.<span
+class="pagenum"><a id="pag_392" name="pag_392">[392]</a></span></p>
+
+<p>A indolencia teme a concorrencia da actividade; o homem perguiçoso e
+somnolento aborrece o homem trabalhador.</p>
+
+<p>No Pará é que se dá o combate sem treguas. O negociante, o artista, o
+industrial, o trabalhador, que vão das nossas terras, abandonando a patria e
+a familia, affrontando todos os perigos, em busca de pão, veem-se odiados,
+espesinhados e assassinados pela horda de infames, que querem recuar quatro
+seculos, voltando á selvajaria primitiva.</p>
+
+<p>Incita-os á vingança um pasquim jornalistico, que todos os dias manda de
+caza em caza, de animo de espirito em espirito o odio contra nossos
+irmãos.</p>
+
+<p>Em 1875, ainda o fanatismo de braços com o interesse incita as turbas á
+matança. Os portuguezes são os christãos novos, os judeus e os albigenses em
+que cevam rancores os parasitas e ociosos.</p>
+
+<p>Senhores homens da <i>Tribuna</i>: expulsae os portuguezes, como á colonia
+hebrêa faziam os reis catholicos de Hespanha. Confiscae-lhes mesmo as
+riquesas; chamae a vós as suas propriedades; roubae-lhes o commercio que
+elles souberam elevar e desenvolver, que assim tereis condignamente
+satisfeito ao fim da missão jornalistica de assalariados vendilhões.</p>
+
+<p style="text-align:center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Os portuguezes residentes no Pará estão sujeitos ao afiado da faca
+assassina. São seguidos na sombra e mortos cobardemente nas encruzilhadas.</p>
+
+<p>É crime ser commerciante; o trabalho é um delicto. Assim o entendem os
+<i>tribunos</i>.</p>
+
+<p>Ganhar honradamente o pão de cada dia, é uma atrocidade; a industria é uma
+infamia; o homem que trabalha é um <i>gallego</i>.</p>
+
+<p>E, oh supremo desaforo! se os portuguezes se reunem em associação, os
+<i>tribunos</i> só comprehendem as sociedades de bandidos!</p>
+
+<p>As portas dos nossos compatriotas são marcadas com signaes, para que o
+punhal possa entrar sem receio de errar o golpe.</p>
+
+<p>A justiça verga-se; é egual para os naturaes, a quem absolve os crimes:
+esmagadora, despotica e tyrannica para com o portuguez que commetteu a menor
+transgressão á lei.</p>
+
+<p>No seio das familias ensinam-se as creanças a odiar os filhos de Portugal.
+As imaginações infantis apresentam-se quadros horrorosos, em que se incute
+esse odio, em que elle se perpetúa sempre, e cada vez produzindo mais
+funestas consequencias e terriveis episodios.<span class="pagenum"><a
+id="pag_393" name="pag_393">[393]</a></span></p>
+
+<p>O lar é escola de malquerenças; e em vez de ensinarem aos filhos a
+veneração e o amor pelos portuguezes, que lhes conquistaram a liberdade e a
+civilisação que estão gosando, educam-nos nos principios repellentes da
+inveja e do despreso.</p>
+
+<p>E a colonia portugueza, laboriosa, activa, trabalhadora, soffre resignada
+todos os ataques, todas as injurias e todos os doestos.</p>
+
+<p>O imperio está imperturbavel, e contemporisa.</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Houve um portuguez que presenciou todos estes factos, e que os lançou em
+livro, contando-os com todas as particularidades.</p>
+
+<p>Foi o sr. Gomes Pércheiro, agente no Pará da <i>Agencia americana
+telegraphica</i>.</p>
+
+<p>É um cidadão benemerito, que não trepidou diante de obstaculos, para abrir
+os olhos aos nossos compatriotas, que, indo em procura de trabalho e fortuna,
+encontraram o punhal do assassino.</p>
+
+<p>Accusado o auctor d'este livro de falso e exagerado nos seus despachos
+telegraphicos, veio deffender-se á imprensa, provando á evidencia, com
+documentos incontestaveis, que não mentia ao seu dever nem faltou á verdade
+dos acontecimentos.</p>
+
+<p>Não fez estylo: escreveu os factos, simplesmente, e pediu sobre elles o
+<i>veredictum</i> da opinião. Mostra-nos o que é e o que vale o Brazil na
+actualidade; desmascara muitos hypocritas e farçantes; ensina-nos o que
+representa a educação brazileira; conta-nos o que significa a sua justiça.</p>
+
+<p>É um livro bom, que todos deviam lêr, para se não deixarem possuir de
+falsas illusões e de miragens mentirosas.</p>
+
+<p>O portuguez não tem só a vencer a intemperie do clima; tem a luctar com a
+traição dos naturaes. Quando escapa á febre, nem sempre pode fugir ao
+punhal.</p>
+
+<p>Portugal não pode dar braços, porque necessita d'elles; como não pode
+prohibir que cada qual procure a região que lhe aprouver, deve persuadir pelo
+conselho e vencer pelo exemplo.</p>
+
+<p>O livro do sr. Gomes Pércheiro é exemplo, e bem palpitante e provativo.</p>
+
+<p>É a historia desinvolvida de todos os acontecimentos do Pará, de todos os
+assassinatos, roubos e torpezas da <i>Tribuna</i>.</p>
+
+<p>Toda a nossa imprensa se tem empenhado n'esta questão, e condemnado os
+mercenarios jornalistas que além-mar estão fazendo propaganda traiçoeira e
+vil.</p>
+
+<p>Aquelle farrapo de banalidades só insere calumnias e infamias<span
+class="pagenum"><a id="pag_394" name="pag_394">[394]</a></span> contra a
+colonia portugueza, mas o livro <i>Questões do Pará</i> vem desfazer todas
+essas calumnias, e com pleno conhecimento de facto desarma os <i>tribunos</i>
+e os que lhe pagam a escripta.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro, publicando o seu livro, prestou um bom serviço a
+Portugal, e oxalá que da sua leitura se colham os devidos resultados.</p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>Sergio de Castro</em></p>
+
+<p>(<i>20 de junho</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>DIARIO POPULAR</h3>
+
+<p>Este livro trata de questões em que todos nós os portuguezes somos mais ou
+menos interessados. Todos os annos vão de Portugal, seduzidos por pomposas
+promessas, e na crença de que o Brazil é um paiz onde o ouro anda aos
+pontapés, e que basta uma pessoa abaixar-se para ficar rica de um dia para o
+outro, centenas e centenas de portuguezes, deixando os nossos campos incultos
+e trocando por lucros, quasi sempre inferiores aos promettidos e sempre
+arriscados e falliveis, a modesta remuneração na sua patria, junto dos
+parentes e amigos, debaixo do ceu a cuja luz abriram os olhos e do meio das
+arvores a cuja sombra brincaram quando meninos. Dissipar as illusões dos
+credulos, abrir os olhos aos incautos, prevenir os desavisados, é um dos
+propositos que teve em vista o sr. Gomes Pércheiro escrevendo este livro. Sob
+o ponto de vista, o capitulo de <i>como os brazileiros protegem os colonos
+portuguezes</i> é digno de ser lido e meditado.</p>
+
+<p>O livro, escripto em linguagem clara e corrente, offerece larga copia de
+esclarecimentos sobre a maneira por que são acolhidos e tratados os
+portuguezes no Pará e contém documentos mui curiosos a este e outros
+respeitos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>17 de maio</i>).</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>O PAIZ</h3>
+
+<p>Foi publicado ha poucos dias um livro em 8.º, de 272 paginas, intitulado
+<i>Questões do Pará</i>. É escripto pelo sr. D. A. Gomes Pércheiro, que viveu
+alguns annos na indicada cidade do imperio do Brazil, e precedido de uma
+carta do sr. Ferreira Lobo, contador do tribunal de contas, e auctor de mui
+importantes trabalhos em assumptos de organisação de fazenda.</p>
+
+<p>O livro de que nos occupamos foi escripto ao correr de penna,<span
+class="pagenum"><a id="pag_395" name="pag_395">[395]</a></span> mas relata
+com bem vivas côres a serie de vexames por que passam os nossos compatriotas
+que a sede do ganho tem levado áquella região do Brazil.</p>
+
+<p>O auctor mostra o viver dos nossos patricios em todas as situações, sempre
+objecto de exploração por parte dos naturaes, que andam dominados do falso
+principio da <i>nacionalisação do commercio a retalho</i>.</p>
+
+<p>O portuguez, ou antes o <i>marinheiro</i> ou o <i>gallego</i>, como ali
+denominam o filho de Portugal, é sempre o bode expiatorio nas questões de
+policia, de impostos, de administração de justiça, de contractos, etc.
+Prejudicar o portuguez por qualquer fórma é acto meritorio para os naturaes
+do Pará!</p>
+
+<p>Não são gratuitas as asserções do sr. Pércheiro, porquanto, no <i>livro
+branco</i> apresentado ás côrtes, encontra-se a confirmação official de tudo
+quanto parecer exaggerado no livro de que fallamos.</p>
+
+<p>É conveniente que todos leiam a obra do sr. Pércheiro: muitos sonhos
+dourados hão de desvanecer-se, e as tendencias emigratorias tomarão outra
+direcção. É lastimavel que offerecendo a nossa Africa occidental localidades
+salubres, por exemplo, e bem perto, nas ilhas de Santo Antão e Brava, do
+archipelago de Cabo Verde, os nossos emigrantes despresem o territorio
+portuguez, onde encontram protecção da auctoridade, segurança das vidas e da
+propriedade e recompensa dos seus esforços, vão sacrificar-se do outro lado
+do occeano aos tratos que os proprios brazileiros ostensivamente condemnam, e
+em terras bem menos salubres que algumas das nossas provincias
+ultramarinas.</p>
+
+<p>É necessario desvendar os olhos d'esses infelizes, que abandonam patria e
+familia, por suppostas riquezas que se traduzem em dissabores, attentados
+pessoaes, oppressões, e, as mais das vezes, doenças cujo resultado se não é a
+morte é o soffrimento chronico.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro prestou um bom serviço com o seu livro, cuja leitura muito
+recommendamos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>30 de maio</i>).</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>O PORTO</h3>
+
+<p><i>Questões do Pará</i>, por D. A. Gomes Pércheiro. Já no penultimo numero
+d'esta folha alludimos a este livro. A leitura forçadamente rapida a que
+procedemos arranca-nos uma doce illusão: o sr. Gomes Pércheiro
+convence-nos,&mdash;mercê de serios documentos,&mdash;de que «os nossos irmãos de além
+mar» não encontram<span class="pagenum"><a id="pag_396"
+name="pag_396">[396]</a></span> nas terras de Santa Cruz os fraternaes
+carinhos, nem ainda a hospitalidade, que seria licito esperar de um povo a
+quem demos a mão para arrancar ás trevas da ignorancia e fazel-o compartilhar
+dos guizados, bem ou mal temperados, que hoje se servem na meza da
+Civilisação.</p>
+
+<p>Aos incautos por demasias de concupiscencia, que lhes sobrepujam a
+reflexão e o proprio instincto conservador, offerecemos em artigo especial um
+excerpto do livro&mdash;<i>A emigração para o Brazil</i> a que alludimos e que do
+coração a todos recomendamos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>3 de junho</i>).</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>O PRIMEIRO DE JANEIRO</h3>
+
+<p>Com este titulo recebemos um volume, de que é auctor o sr. D. A. Gomes
+Pércheiro, com uma carta do distincto escriptor o sr. J. J. Ferreira Lobo.</p>
+
+<p>O novo livro não é obra para recreiar o espirito, mas tem a rara virtude
+de ensinar muito e dizer verdades que nenhum portuguez deveria ignorar. Tendo
+residido algum tempo no Pará, o auctor diz sem pretenção e em linguagem
+fluente de que modo os nossos compatriotas ali são tratados, tanto na vida
+particular como pelas auctoridades e perante os tribunaes. Cada asserção que
+avança, comprova-se com o testemunho de pessoas, cujos nomes aponta e com o
+extracto dos jornaes da localidade. Não é pois uma verrina sem base, é a
+exposição de factos de cuja veracidade todos se pódem certificar, além de que
+no <i>livro branco</i> apresentado ás côrtes, se confirma quanto o sr.
+Pércheiro assevera.</p>
+
+<p>Os que levados pela sede do oiro, abandonam familia e patria, para se
+dirigirem áquella região, quizeramos nós que compulsassem antes o livro de
+que vimos fallando, e bem póde ser que a corrente da emigração que hoje toma
+rumo para ali, derivasse para as nossas possessões onde não faltam riquezas a
+explorar, onde a segurança individual é milhor garantia, e onde finalmente
+perante a justiça todos são portuguezes.</p>
+
+<p>Agradecemos o exemplar com que fomos obsequiados.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>2 de junho</i>).</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>A LUCTA</h3>
+
+<p>Temos sobre a mesa um volume de 272 paginas, escripto pelo<span
+class="pagenum"><a id="pag_397" name="pag_397">[397]</a></span> sr. Gomes
+Pércheiro, que foi agente da <i>Americana telegraphica</i>, no Pará, as quaes
+paginas são precedidas por uma introducção do sr. Ferreira Lobo, que felicita
+o auctor «pelo seu brado de indignação contra a prepotencia de que estão
+sendo victimas no Brazil os nossos irmãos pela patria».</p>
+
+<p>Vê-se já que se não trata de um romance, mas sim de uma questão
+importantissima para os interesses e dignidade nacional.</p>
+
+<p>Recommendamos a sua leitura aos que desejarem ser instruidos sobre os
+successos do Pará, resultantes de causa que ainda não cessou, e que encheram
+Portugal de receio pelos seus filhos e o mundo de horror pelos assassinatos e
+pilhagem commettida contra as leis da hospitalidade, ou antes contra o
+direito das gentes.</p>
+
+<p>Rogamos ao auctor que mande um exemplar á commissão de emigração; póde ser
+que ella o leia, e d'ahi lhe resulte vontade de fazer mais alguma coisa, se é
+que este <i>mais</i> se póde applicar a quem ainda não fez nada.</p>
+
+<p>O livro do sr. Pércheiro tem mais outro merecimento; é mostrar o atrazo
+d'aquelles povos, a sua pouca instrucção, a sua pessima organisação politica
+e judicial, e emfim a corrupção que por lá vae n'aquelle corpo ainda branco,
+de modo que póde dizer-se fructo apodrecido antes de sasonado.</p>
+
+<p>D'estes e que taes livros desejavamos nós que se propagassem bastantes em
+Portugal, e quizeramos tambem que os srs. parochos das aldeias dessem d'elles
+lição aos povos, para lhe debellar a mania ambiciosa que os leva á humilhação
+em terra estranha.</p>
+
+<p>Felicitamos o sr. Pércheiro pelo bom serviço que prestou ao seu paiz.</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>A AURORA DE LIMA</h3>
+
+<p><i>Questões do Pará</i>&mdash;Precedidas de uma carta do distincto escriptor o
+sr. Ferreira Lobo. É um livro de 272 paginas, nitidamente impresso, cujo
+auctor é o sr. D. A. Gomes Pércheiro.</p>
+
+<p>O livro foi escripto ao correr da penna, mas relata com bem vivas côres a
+serie de vexames por que passam os nossos compatriotas residentes no
+Brazil.</p>
+
+<p>É digna de lér-se a obra do sr. Pércheiro.<span class="pagenum"><a
+id="pag_398" name="pag_398">[398]</a></span></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>JORNAL DE COIMBRA</h3>
+
+<p>Quando sua magestade el-rei no seu discurso por occasião da abertura das
+camaras dizia em poucas palavras que o remedio aplicado pelo seu governo na
+questão dos insultos e maus tractamentos praticados pelos brazileiros nas
+pessoas dos nossos portuguezes fora energico e que o estado de coisas
+caminhava para melhor, ficou todo o paiz persuadido que realmente o governo
+brazileiro por instancias do nosso tractara energicamente d'obstar aos maus
+tratamentos que os nossos patricios recebiam em todo o paiz, particularmente
+no Pará.</p>
+
+<p>Infelizmente sua magestade, se não foi illudido pelo governo portuguez,
+foi-o de certo pelo governo brazileiro, pois que as perseguições contra os
+nossos patricios continuam, e não vemos que o procedimento do governo tenha
+evitado tão grande mal.</p>
+
+<p>E não são de pequena importancia os sucessos naquellas longinquas
+paragens, pois que os nossos irmãos não só se vêem oprimidos pelos homens de
+baixa esphera e pela <i>ralé</i> da sociedade, mas os proprios tribunaes
+judiciaes mostram-se benevolos contra os assassinos dos portuguezes. A
+justiça, que n'um paiz liberal está sempre superior a todas as influencias
+mesquinhas, ali acha-se eivada d'um exclusivismo condemnavel, perseguindo com
+o maior rigôr alguns crimes practicados pelos portuguezes, ao passo que
+absolve sem o menor escrupulo os indigenas que matam os nossos patricios.</p>
+
+<p>Não são gratuitas as nossas asserções, pois que no livro do sr. Pércheiro
+encontramos os seus documentos justificativos.</p>
+
+<p>O clero debaixo d'uma capa hedionda, que só elle sabe envergar,
+manifesta-se inimigo terrivel dos portuguezes; e infelizmente não succede
+isso só no baixo, mas no alto clero.</p>
+
+<p>Os tribunaes não são de certo os que menos revelam a sanha contra os
+portuguezes. Artigos auctorisados d'alguns jornaes illustrados e que
+reconhecem esta grande perseguição manifestam claramente a sua opinião
+fazendo o parallelo entre o castigo aplicado aos delinquentes portuguezes e
+brazileiros.</p>
+
+<p>E d'este modo emquanto o governo portuguez descança á sombra da sua
+<i>popularidade</i> os nossos irmãos são martyrisados no Brazil!</p>
+
+<p>Não fazemos extractos d'este livro, porque se os fizessemos teriamos de
+transcrevel-o todo, pois que em cada pagina se exemplificam as nossas
+asserções.</p>
+
+<p>Effecttivamente cada facto ali mencionado é um exemplo claro<span
+class="pagenum"><a id="pag_399" name="pag_399">[399]</a></span> e manifesto
+do modo cruel por que os nossos patricios ali estão sendo tractados; e cada
+audiencia que tenha em mira julgar um caso qualquer em que o infeliz
+portuguez represente, é um novo escandalo de que os proprios brazileiros
+illustrados se envergonham.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro fez por tanto ao paiz um grande serviço, patenteando aos
+olhos de todos as perseguições que os portuguezes ali soffrem, por culpa do
+nosso governo, por culpa do nosso representante n'aquelle selvagem paiz, e
+por culpa do governo brazileiro que ou não se sente com força d'evitar os
+grandes malles que ainda hoje se repetem como lemos no <i>Brazil</i>, ou não
+quer acabar de vez com aquella infame montaria.</p>
+
+<p>Chamamos portanto mais uma vez a attenção do nosso governo para uma
+questão de tal magnitude, e esperamos que sua magestade el-rei para se não
+ver obrigado a repetir as palavras que proferiu no seu primitivo discurso,
+mas que infelizmente não foram confirmadas, será o primeiro, como o primeiro
+cidadão que é, em acabar de vez com as desgraças por que estão passando os
+nossos patricios.</p>
+
+<p>O livro do sr. Pércheiro é, pois um livro importantissimo e de certo fez
+um grande serviço a Portugal, publicando-o.</p>
+
+<p>Resta-nos agradecer em nome do paiz os grandes serviços prestados aos
+nossos irmãos, e em nome da redacção a preciosa offerta com que aquelle
+cavalheiro a acaba de brindar.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>8 de junho</i>).</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>TRIBUNO POPULAR</h3>
+
+<p>Segundo vae referido na secção de livros, o sr. D. A. Gomes Pércheiro,
+agente que foi no Pará da <i>Agencia americana</i>, publicou um livro, que
+tem por titulo&mdash;<i>Questões do Pará</i>, e teve a bondade de nos offerecer um
+exemplar, que muito lhe agradecemos por vir fortalecer as opiniões sempre
+aqui manifestadas ácerca dos tristes acontecimentos do Pará.</p>
+
+<p>Abrimol-o e lêmol-o com a anciedade a que nenhum portuguez poderá
+furtar-se quando ouve fallar nas questões do Pará, e topa com um livro
+dedicado a este deploravel assumpto.</p>
+
+<p>Muito se tem escripto nos jornaes portuguezes, e o que estes não teem
+podido referir, conhecem-n'o os que lêem as folhas e correspondencias
+brazileiras. Pois tudo isso é nada, em presença do que o sr. Pércheiro conta
+no seu livro.</p>
+
+<p>Dos desacatos, assassinatos, roubos, insulto e outras tantas tentativas
+praticadas contra os nossos compatriotas sabemos nós<span class="pagenum"><a
+id="pag_400" name="pag_400">[400]</a></span> e sabe toda a gente; que á testa
+d'esta cruzada selvagem se achava um jornal infame, tambem não era ignorado;
+que emfim as justiças eram conniventes ou impotentes contra aquelle estado,
+via-se pela impunidade dos criminosos, pela repetição dos crimes e pela
+emigração dos nossos compatriotas, que em massa deixavam aquellas paragens,
+onde á sombra de uma bandeira, que por antonomasia se diz amiga, se deixava
+correr desenfreada a mais infame violação de todas as leis, de todos os
+deveres e de todas as praticas de reciproca hospitalidade.</p>
+
+<p>Pois em vista dos factos, dos documentos que se encontram n'este livro,
+pasma-se da horrorosa desigualdade com que os portuguezes e seus assassinos e
+roubadores são tratados pelas auctoridades e justiças publicas, sendo victima
+do rigor demissorio quem assim não procedesse!</p>
+
+<p>Se a desigualdade consistisse no castigo dos portuguezes delinquentes, de
+agradecer era, para que o exemplo aproveitasse como lição de que só a
+probidade suscita respeito entre estranhos. Mas quasi se chegam a premiar os
+crimes commettidos contra portuguezes, vendo-se que havia cruzada de
+destruição organisada contra elles, á qual não eram indifferentes as proprias
+justiças.</p>
+
+<p>D'aqui deduzimos nós, e como nós em parte o auctor, que da vigilancia dos
+nossos governos, da culposa e indesculpavel indifferença do ministro
+portuguez na côrte do Brazil, e da quasi connivencia d'esta procede todo o
+mal.</p>
+
+<p>É muito recente o procedimento da Allemanha por causa de um subdito seu,
+maltratado pelos carlistas, e depois por causa dos acontecimentos de
+Guetaria. Pois os crimes praticados pelos paraenses contra os portuguezes,
+incitados publicamente por um periodico, são infinitamente mais do que o
+preciso para, se houvesse patriotismo n'este paiz, termos rompido as relações
+com o imperio brazileiro, se elle não désse as satisfações indispensaveis,
+garantindo a segurança dos nossos compatriotas, e punindo os crimes
+praticados contra elles.</p>
+
+<p>Mas o ministro de Portugal actualmente no Rio de Janeiro, desde que se
+enlaçou com uma poderosa familia brazileira, tornou-se incompativel para
+proceder com energia n'estes conflictos.</p>
+
+<p>O auctor era agente no Pará da <i>Agencia telegraphica americana</i>;
+presenceou os factos, e pelos narrar com fidelidade foi arguida a
+<i>Agencia</i> de parcial.</p>
+
+<p>Mas pelos documentos officiaes, que pública, conhece-se que as
+auctoridades eram conniventes, e se alguma apparecia com desejos de fazer
+justiça, tinha por premio a prompta demissão, ou não encontrava força para
+desempenhar os seus deveres,<span class="pagenum"><a id="pag_401"
+name="pag_401">[401]</a></span> como succedeu com o presidente dr. Pedro
+Vicente de Azevedo, e com o chefe de policia Samuel Uchôa.</p>
+
+<p>Dos mesmos documentos officiaes constam declarações dos proprios
+assassinos, pelas quaes se vê que as incitações da <i>Tribuna</i> os demoviam
+áquelles crimes.</p>
+
+<p>Emfim as cousas chegaram a tal ponto, que um soldado, que assassinou
+publicamente um portuguez, esperando-o de dia e dando-lhe um tiro, apesar de
+o confessar, e o crime estar provado, foi condemnado a sete annos de prisão
+simples, tendo o advogado circumscripto a sua conclusão a pedir que a pena de
+morte fosse reduzida a vinte annos de degredo com trabalhos!</p>
+
+<p>Em 1857 appareceu afogado um portuguez. Querem ver a sentença que deu o
+juiz municipal ácerca do desaparecimento do cadaver? Ahi vae:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Sendo a sentença do infeliz portuguez Antonio, dada por um juiz superior
+a todos os juizes, nenhum recurso existe mais; e por nada mais poder fazer,
+condemno a todos os que trabalharam no presente processo a pagar as custas em
+<i>Padre Nossos</i> e <i>Ave Marias</i> por alma do finado, entrando n'este
+numero eu que já rezei o meu; e cabendo o maior numero ao sub-delegado, e ao
+escrivão para não processarem os mortos. O escrivão devolva este ao
+sub-delegado, deixando traslado no cartorio do despacho de fl. 4, a 14 verso,
+e d'esta para ser remettida ao bispo, quando elles não paguem as custas.</p>
+
+<p>Cametá, 26 de julho de 1857.&mdash;<i>Lourenço José de Figueiredo</i>.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Não é preciso dizer mais.</p>
+
+<p>O livro do sr. Pércheiro presta um bom serviço aos portuguezes, que antes
+de irem para o Brazil quizerem ver a triste sorte que os espera.</p>
+
+<p>Diz mais o sr. Pércheiro que o clero do Pará, ou o jezuitismo, que é o
+mesmo, se associa aos inimigos dos portuguezes, por causa da maçonaria, onde
+elles estão quasi todos filiados. Isto não é novo.</p>
+
+<p>Por fim aconselha os portuguezes a emigrarem para a Africa, aonde ha
+grandes riquezas a explorar, e a justiça se administra egual para todos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>5 de junho</i>).<span class="pagenum"><a id="pag_402"
+name="pag_402">[402]</a></span></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>GAZETA DO DIA</h3>
+
+<p>É um livro ousado, atrevido, abertamente, francamente verdadeiro, como não
+estamos costumados a ler muitos na nossa terra. As cousas mais graves e
+melindrosas dizem-se ali sem reticencias equivocas, sem rodeios covardes: os
+factos são narrados na sua cruel nudez, as pessoas apontadas com desusada e
+corajosa valentia.</p>
+
+<p>Em todo o livro respira-se a franqueza rude dos tempos primitivos. Nem
+mesmo os caracteres mais abjectos são ligeiramente mascarados. O sr.
+Pércheiro não os deixa adivinhar, mostra-os, com toda a energia, com toda a
+vehemencia, e ao mesmo tempo com toda a confiança e sangue frio que dá a
+consciencia da verdade. Muitos censurar-lhe-hão a excessiva franqueza em nome
+d'um <i>savoirvivre</i> que se baseia no proloquio&mdash;«nem todas as verdades se
+dizem.»&mdash;Que nunca o intrepido auctor d'esse livro se arrependa de as ter
+dito. É condição humana o procurar a verdade, e dever de todos o dizel-a.
+Além d'isso as verdades enunciadas pelo sr. Pércheiro, proveitosas para
+todos, só para elle poderão ser nocivas. Honra pois ao amor da verdade que
+vence o egoismo, á coragem que supéra o interesse individual á indignação que
+esquece as conveniencias triviaes. O livro do sr. Gomes Pércheiro é o maior
+protesto contra a alliciação exploradora dos engajadores, é o mais efficaz
+antidoto á febre da emigração que arranca quotidianamente a Portugal milhares
+dos seus mais robustos filhos, para se estiolarem miseravelmente nas terras
+doentias e quasi selvagens do norte do Brazil. Tem esse protesto a eloquencia
+grandiosa dos factos e da verdade. Mostre-se bem ao homem que vae deixar a
+sua patria para no sólo brazileiro ir consumir a sua vida, o thesouro
+precioso da sua actividade, os annos floridos da sua adolescencia, em busca
+de riquezas maravilhosas que lhe sorriem em sonhos; o que é a terra para onde
+vae; o que soffrem lá os seus irmãos; o modo porque são reconhecidos e pagos
+os seus trabalhos sem treguas, a sua dedicação sem limites.</p>
+
+<p>Os martyres catholicos acabaram no dia em que a sciencia arrancou do
+espirito moderno as crenças do maravilhoso, que ali se aninhavam nas trevas
+da ignorancia, com todo o brilho seductor dos contos de fadas.</p>
+
+<p>Tirem do espirito do emigrante a miragem fascinadora que d'essas ardentes
+plagas os chama pela boca dos alliciadores; façam-lhes vêr em toda a sua
+verdade, em que se resume o paraizo<span class="pagenum"><a id="pag_403"
+name="pag_403">[403]</a></span> que de longe tão seductor é; que a emigração
+para o Brazil terminará immediatamente e os milhares de braços que para ali
+vão cavar a terra que muitas vezes lhes é sepultura, empregar-se-hão na
+cultura do nosso fertil sólo, ou irão explorar outro sólo, tanto mais rico
+que o Brazil, mais hospitaleiro e civilisado do que elle, que é nosso, e que
+por nós tão descurado está: os terrenos de Africa. Ha de ferir muitas
+susceptibilidades, levantar muitos odios o livro <i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p>Bem o sabia o seu auctor, e mais gloria lhe cabe sabendo-o, não ter
+recuado. Vendo de perto a tempestade, vivendo no meio d'aquelles tumultos
+continuos, que tantas vezes teem feito correr o sangue portuguez, sem que as
+auctoridades brazileiras tenham força, energia, ou vontade para obstar
+áquelles crimes quasi quotidianos. Soldado d'essa campanha cruenta, que no
+Pará os portuguezes teem a toda a hora de sustentar, contra o indigena
+selvagem assalariado pelos tribunos ignobeis, que erguem n'aquellas paragens
+a esfarrapada bandeira da reacção, o sr. Gomes Pércheiro viu, sentiu e
+soffreu todas as infamias que aponta, todas as abjecções que castiga, n'um
+estylo incorrecto ás vezes mas sempre vigoroso, fustigante como o chicote,
+lacinante como o bistori. Foi mais do que espectador, foi actor tambem n'essa
+terrivel tragedia.</p>
+
+<p>As <i>Questões do Pará</i> são paginas cruamente verdadeiras á historia do
+Brazil. Talvez o sr. Pércheiro se deixe ás vezes levar pelo justo rancor que
+lhe despertaram os crimes que presenceou, a indolencia que viu da parte dos
+governos em os prevenir, prejudicando assim um pouco a imparcialidade do
+historiador. Talvez a serenidade do narrador seja ás vezes supplantada pela
+vehemencia do pamphletario. Não lh'o podemos, porém, censurar, ao vermos que
+essa vehemencia nasce da indignação santa contra os implacaveis inimigos dos
+nossos desgraçados compatriotas, que nas terras do Pará morrem assassinados
+covardemente, vilmente, por um bando de selvagens postos ao serviço do
+egoismo, da ignorancia, da malvadez e da reacção.</p>
+
+<p>O livro do sr. Pércheiro é de salutar lição para aquelles que no canto
+placido e benefico da sua patria, se sentirem aguilhoados pela febre da
+ambição de thesouros imaginarios; é de santo conforto para aquelles que
+empenhando a vida nas luctas sanguinolentas de que o Pará tem sido theatro,
+ouvem a voz energica de uma consciencia sã, bradando eloquentemente o pró da
+sua causa, combatendo energicamente, até ás ultimas trincheiras os seus
+terriveis inimigos.</p>
+
+<p>Nas <i>Questões do Pará</i>, arrancam-se muitas mascaras, põem-se a nu
+muitas chagas, desvedam-se muitas infamias que até<span class="pagenum"><a
+id="pag_404" name="pag_404">[404]</a></span> hoje estavam envoltas nas mais
+amplas trevas. É grande pois o serviço por esse livro prestado, e nós que
+acima de tudo prezamos a verdade, a sinceridade e a justiça, aguardando o
+seguimento das <i>Questões do Pará</i> que o sr. Pércheiro nos promette,
+louvamol-o hoje pela corajosa franqueza do seu livro, livro que ha de ficar
+como documento interessante, curioso, e mesmo indispensavel para a historia
+da emigração portugueza para o Brazil no meiado do seculo XIX, e que mais que
+é um bom livro, é uma boa acção.</p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>Gervasio Lobato.</em></p>
+
+<p>(<i>25 de junho.</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>Questões do Pará</h3>
+
+<p>Com este titulo acaba o sr. Gomes Pércheiro de publicar um livro, que hade
+ser lido com soffreguidão em Portugal e no Brazil. Chegado recentemente do
+Pará, onde esteve envolto na lucta que ali se trava, o sr. Gomes Pércheiro
+conhece perfeitamente a historia das questões, que trazem acceso o animo dos
+paraenses. Delegado de uma agencia telegraphica, tinha, por obrigação de
+officio, de investigar os successos, de lhes averiguar as causas, de penetrar
+emfim nos segredos d'essa guerra cruenta e infame que um grupo de brazileiros
+está movendo aos portuguezes que vão ás terras de Santa Cruz procurar
+hospitalidade e trabalho.</p>
+
+<p>As suas revelações não pódem portanto deixar de ser curiosas, e nós lemos
+o livro com o maior interesse. Empenhados ha muito n'uma lucta energica
+contra os propagandistas da nacionalisação do commercio, tendo seguido ha
+dois annos as peripecias da guerra movida no Pará aos portuguezes, muitas
+vezes lamentámos não conhecer os fios secretos dos tramas, cujas
+manifestações exteriores de longe presenciavamos e condemnavamos. Era tão
+desnatural aquella guerra, eram tão oppostas aos principios hoje admittidos
+geralmente em todo o mundo civilisado as idéas apresentadas pela
+<i>Tribuna</i>, que muitas vezes procurámos ler nas entre linhas do ignobil
+pasquim uma indicação que nos revelasse qual era o motor secreto da sua
+propaganda, quaes os verdadeiros intuitos d'essa cruzada absurda e ridicula.
+</p>
+
+<p>O livro do sr. Pércheiro conduz-nos aos bastidores d'esse theatro, onde
+infelizmente não se representa só a farça em que Arlequino e Pulcinella e
+Pantalon são Marcellino Nery, João Cancio e Romualdo, onde tambem se
+representa a tragedia de Jurupary, onde o sangue inunda o tablado, onde
+scenas de deploravel<span class="pagenum"><a id="pag_405"
+name="pag_405">[405]</a></span> selvajeria espantam quem das praias do velho
+mundo contempla ao longe esse estranho e imprevisto espectaculo.</p>
+
+<p>No livro do sr. Pércheiro fructo de rapida e febril improvisação, sente-se
+ainda todo o ardor do combate, o vigoroso resentimento de quem não conta só
+infortunios e aggravos alheios, mas que sabe tambem por experiencia propria
+quanto doem a calumnia e o insulto, vibrados por quem devia acolher o
+estrangeiro que trabalha com a hospitalidade que hoje em parte nenhuma se lhe
+recusa. O sr. Pércheiro foi effectivamente uma das victimas da
+<i>Tribuna</i>. Contra elle teve sempre engatilhados o orgão dos
+nacionalisadores os seus mais torpes improperios. O seu nome era um dos que
+voltavam em todos os numeros do jornal de Marcelino Nery lardeados de
+injurias. Deve honrar-se com isso o sr. Pércheiro; uma verrina da
+<i>Tribuna</i> vale mais do que trinta attestados de bom procedimento moral,
+civil e religioso.</p>
+
+<p>Historiando as questões do Pará, o sr. Pércheiro, se não póde evitar que o
+seu livro cheire a polvora, por assim dizermos, se não póde cohibir
+violencias de estylo, que a sua situação amplamente desculpa, mostra comtudo
+o desejo de ser imparcial, e verdadeiro, porque esteia a cada passo a sua
+narrativa em documentos que a comprovam, e os capitulos puramente historicos
+do livro quasi que se compõem de extractos dos jornaes paraenses, onde
+podemos seguir, dia a dia, o desenvolvimento dos successos.</p>
+
+<p>Nos capitulos em que trata de analysar a situação dos portugueses e a
+attitude dos brazileiros, é certo que por mais de uma vez se sentem as
+represalias de um espirito ulcerado pelas injustiças de que foi victima, as
+coleras de uma alma patriotica offendida no que ella tem de mais caro, o bom
+nome, o pundonor e os brios da sua terra natal. Os jornalistas insultadores
+que escrevem á solta no Pará não atacam esta ou aquella parte da população
+portugueza, aggridem collectivamente o nosso paiz, no seu presente, no seu
+passado, nas suas instituições, no seu caracter nacional.</p>
+
+<p>Difficil seria portanto a um escriptor portuguez, que esteve no Pará
+envolto na lucta e que recebeu em cheio esses insultos vibrados á sua patria,
+responder com a moderação á violencia, e pagar os vituperios a Portugal com
+os louvores ao Brazil. A propria injustiça era desculpavel, e comtudo o sr.
+Pércheiro procura não ser injusto. Não sabemos o que haverá de exageração
+apaixonada no que o sr. Pércheiro diz da educação dos brazileiros.</p>
+
+<p>Nós não desejamos acompanhal-o a esse terreno, nós que sempre procurámos
+marcar bem a distincção entre a população brazileira,<span class="pagenum"><a
+id="pag_406" name="pag_406">[406]</a></span> generosa, fraternal para nós,
+ainda que nem sempre isenta de antigos preconceitos, da tribu de insultadores
+e de assassinos que formam a escoria do Brazil, e que não pódem com justiça
+ser considerados como os representes de um nobre paiz.</p>
+
+<p>Mas ainda que admittamos que haja n'esses capitulos a apaixonada
+exaggeração, que é ainda como que um echo da pugna a todo o transe, em que o
+sr. Pércheiro esteve envolto, não podemos deixar de reconhecer que ha ali
+revelações que teem um grande cunho de verdade, e que explicam muitos factos
+que aliás seriam incomprehensiveis. O odio aos portuguezes é tradicional no
+Pará. Ha mestres que o incutem no animo das crianças. Ha familias que o legam
+aos seus filhos como um deposito sagrado, e assim se inocula no animo das
+gerações novas um sentimento absurdo e vil, que prepara os leitores fanaticos
+da <i>Tribuna</i>, e os assassinos de Jurupary.</p>
+
+<p>Em resumo o livro do sr. Pércheiro respira todo o ardor da lucta, sente-se
+n'elle impresso o cunho dos resentimentos, ouve-se ainda o echo das
+violencias do combate, mas é no fim de tudo um livro fluentemente escripto, e
+que não póde deixar de ser consultado por todos os que desejarem conhecer a
+historia d'essas deploraveis questões, que tem sido fataes aos nossos
+compatriotas, fataes tambem á prosperidade do Brazil. São por assim dizer as
+memorias de um combatente, que foi testemunha occular, testemunha bem
+informada dos factos que narra, e que em Portugal só são muito
+perfuntoriamente conhecidos.</p>
+
+<p>Se essas revelações impedirem muitos dos nossos compatriotas de ir
+procurar fortuna em tão inhospito paiz, terá o sr. Pércheiro prestado a
+Portugal e aos portuguezes um verdadeiro serviço.</p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>Pinheiro Chagas.</em></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>ACTUALIDADE</h3>
+
+<p><i>Questões do Pará</i> por D. A. G. Pércheiro. N'este livro que temos á
+vista e que seu auctor nos offertou, procura-se, em linguagem correcta e por
+vezes elevada, tornar conhecida a indole dos factos desastrosos que
+ultimamente tem desacreditado aos olhos do mundo civilisado uma das mais
+ricas e importantes provincias do Brazil.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro foi agente da Agencia Telegraphica Americana, no Pará e
+por isso, teve, pela sua posição, de acompanhar todos os movimentos da
+opinião publica.<span class="pagenum"><a id="pag_407"
+name="pag_407">[407]</a></span></p>
+
+<p>A sua narração é serena e conscienciosa, apesar de ter vivido n'aquelle
+meio de encontradas paixões.</p>
+
+<p>Os partidos não conseguiram cegal-o com a grandeza apparente de suas
+promessas, e por isso o seu livro tem muita importancia e a sua leitura é de
+grande utilidade para aquelles que quizerem imparcialmente avaliar a lucta
+travada no Pará.</p>
+
+<p>Ahi encontra o leitor esclarecimentos de toda a ordem: actos officiaes,
+artigos da imprensa brazileira, manifestos, documentos judiciaes, etc.</p>
+
+<p>Recommendando a sua leitura não fazemos mais do que praticar um acto de
+justiça.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>23 de junho.</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>COMMERCIO DO PORTO</h3>
+
+<p>Esta obra, sahida ha pouco tempo dos prelos d'uma typographia da capital,
+trata das questões que ultimamente se deram na provincia do Pará, questões
+que os leitores muito bem conhecem, e que não carecem agora dos nossos
+commentarios, pois que já sobejamente os fez a imprensa digna e séria dos
+dois paizes interessados.</p>
+
+<p>A obra do sr. D. A. Gomes Pércheiro, analysando factos mais ou menos
+importantes, revela muito patriotismo, muito interesse e dedicação pelas
+coisas do nosso paiz. O sr. Pércheiro parece-nos um combatente energico, leal
+e corajoso. Este é, por sem duvida, o seu mais bello titulo de gloria.</p>
+
+<p>Terminamos agradecendo o exemplar com que fomos brindados.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>26 de junho.</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>DIARIO ILLUSTRADO</h3>
+
+<p>Realisou-se no domingo, em Bemfica, uma festa verdadeiramente esplendida.
+Por iniciativa do reverendo prior celebrou-se pela vez primeira, n'aquella
+freguezia a solemnidade de <i>Corpus Christi</i>. O professor de instrucção
+primaria da localidade, escolheu o mesmo dia para a distribuição dos premios
+aos seus alumnos mais distinctos. A distribuição effectuou-se na egreja
+parochial, antes da festa. Assistiram os srs. administrador e camara
+municipal do concelho, inspector dos estudos, professores<span
+class="pagenum"><a id="pag_408" name="pag_408">[408]</a></span> das povoações
+circumvisinhas e algumas das pessoas mais gradas da terra.</p>
+
+<p>A concorrencia foi numerosissima. Os estudantinhos sairam da escola á
+frente do seu professor e acompanhados pela philarmonica Euterpe. Os
+convidados distribuiram os premios. Os alumnos premiados foram onze. Os
+premios foram comprados a expensas do professor.</p>
+
+<p>O nosso amigo, o sr. Gomes Pércheiro, offereceu a cada um dos onze alumnos
+um exemplar da sua obra&mdash;<i>Questões do Pará</i>&mdash;com esta dedicatoria:
+«<i>Aos meninos que estudam e foram approvados na escola de Bemfica, em 1875.
+Este modesto trabalho ensina um pouco a saber o que é o amor da patria, por
+isso o offerece o auctor.</i>»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>30 de junho.</i>)</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3><a name="SECTION001022110">Juizo critico do «Districto de Aveiro»,
+seguido de duas cartas do auctor das «Questões do Pará»</a></h3>
+
+<p>Temos aberto diante de nós um livro, que nos fizeram ha tempos a honra de
+remetter, e que tem por titulo&mdash;<i>Questões do Pará</i> por D. A. Gomes
+Pércheiro. É uma interessante exposição de factos, que lança muita luz sobre
+a situação em que se acha a colonia portugueza na provincia do Pará, e desfaz
+algumas illusões espalhadas geralmente sobre a protecção de que alli gosam os
+nossos compatriotas.</p>
+
+<p>Entristece-se o espirito ao ler o livro a que nos referimos. Dando mesmo
+de barato que a paixão entrasse em algumas apreciações, exageradas
+evidentemente, pondo ainda de parte o estylo declamatorio de alguns periodos
+que se nos figuram deslocados, e resumindo unicamente a analise aos factos
+que os documentos citados comprovam, vê-se claramente que no Pará se move
+crua guerra aos portuguezes, e se desconsidera estranhamente a nação a que
+pertenceram os antigos descobridores do Brazil.</p>
+
+<p>E o mais desconsolador é que se a guerra existe principalmente nas mais
+baixas camadas sociaes, estimuladas pela inveja torpe dos lucros que aufere a
+actividade do commercio portuguez, é nas classes inferiores que a
+desconsideração mais se revela, não faltando testemunhos a apregoal-a, nem
+havendo peijo em que ella se declare por actos publicos e significativos.</p>
+
+<p>Os actos praticados pelos afiliados nas idéas d'um papel incendiario e
+nojento que, para vergonha do jornalismo, pretende no Pará tomar as fórmas de
+jornal, seriam apenas crimes vulgares,<span class="pagenum"><a id="pag_409"
+name="pag_409">[409]</a></span> como os de qualquer José do Telhado que nós
+costumamos deportar para as nossas possessões africanas, se os não
+revestissem circumstancias que lhes alteram substancialmente a
+significação.</p>
+
+<p>Ha um homem, que parece que se chama Sequeira Mendes, que é conego, pessoa
+importante da provincia, proprietario de um jornal, deputado provincial,
+grande influente politico, que não duvida, ostensivamente mesmo, declarar-se
+protector d'essa horda de malvados. Provavelmente precisa d'elles para os
+seus manejos partidarios. E por isso trata de affastar d'elles o castigo que
+a justiça,&mdash;não nos atrevemos a dizer a lei, porque nem sempre a lei é a
+expressão da justiça,&mdash;lhes devia já ter applicado.</p>
+
+<p>Isto prova tambem que a opinião publica é adversa aos portuguezes, e que
+uma revalidade de nação para nação substituiu o affecto que devia ligar por
+todos os titulos o Brazil a Portugal. Até a exploração partidaria, dá
+testemunho de que essa revalidade existe, e produz as suas ominosas
+consequencias. Um dos factos que mais incontestavelmente attestam este
+deploravel estado de coisas é a indulgencia criminosa com que o jury
+brazileiro absolve os que attentam contra os haveres e contra a vida dos
+portuguezes, e, em opposição, a severidade que desenvolve sempre que o
+culpado é um portuguez. Isto prova-o o sr. Pércheiro com trechos copiados dos
+proprios jornaes brazileiros. Não é pois uma simples allegação, caso em que
+nos recusariamos a acceital-o. Demonstra-o o que se passou com o assassinato
+do calafate portuguez Antonio Candido Valle por um soldado de infanteria n.º
+11, igualmente o demonstra o que se passou com a condemnação do portuguez
+Domingos dos Santos Coelho.</p>
+
+<p>N'um artigo do jornal brazileiro <i>America do Sul</i>, citado pelo sr.
+Pércheiro, apresentam-se os factos a esta luz, e não se desfarça mesmo a
+significação que elles tem. Depois de referir e analysar os dois julgamentos,
+concilie por esta fórma: «<i>Esperemos: O que nos parece&mdash;dizemol-o «ab imo
+pectores»&mdash;é que actualmente, no sanctuario da justiça, não se julgam crimes
+mas sim nacionalidades. Pois é mau, muito mau, se assim acontece.</i>»</p>
+
+<p>Ora isto é muito grave. Quando nem a serenidade da justiça escapa á
+influencia d'um odio assim pronunciado, se elle tem já tanta força que faz
+dobrar a inflexibilidade da lei, é porque o seu poder é grande, enorme.</p>
+
+<p>Outro facto cita o sr. Pércheiro que causa a mais desgraçada impressão,
+porque mostra que nas proprias repartições do estado se revela a maxima
+desconsideração por tudo o que é portuguez. Citamos as proprias palavras do
+auctor do livro:<span class="pagenum"><a id="pag_410"
+name="pag_410">[410]</a></span></p>
+
+<p>«Ha já alguns annos, o caixeiro d'uma casa ingleza, moço portuguez,
+apresentou-se na secretaria do governo e entregou ao continuo um documento,
+que, depois de assignado pelo official maior, daria livre pratica a um navio,
+que tinha annunciado a sua sahida para as quatro horas da tarde. Era uma hora
+quando o empregado portuguez fez a entrega, promettendo voltar ás tres horas.
+Chegado ali a esta hora, pouco mais ou menos, o continuo recebeu-o mal, e
+demorou o nosso amigo até fechar-se o expediente. Vinha sahindo o empregado
+superior, a quem o empregado da casa commercial se dirigiu, e em termos finos
+lhe communicou o fim da sua ida ali. O official maior, fez ver que estava
+fechado o expediente, não attendendo ás razões culpaveis do seu subordinado,
+e á circumstancia de que um navio não devia demorar a sua viagem pela falta
+de uma simples assignatura.</p>
+
+<p>«Não fez caso o empregado. Estava tratando com um portuguez e isso
+bastava!</p>
+
+<p>«Não se conformou com isto o pretendente, e sabendo que o presidente e
+outros empregados d'alta cathegoria estavam reunidos n'uma sala proxima,
+entrou e fez ver tudo que acabava de acontecer-lhe, não lhe esquecendo dizer
+que elle era caixeiro da respeitavel casa ingleza de F. e que seus patrões
+fariam, com toda a certeza, sahir n'aquella mesma tarde o navio que se
+pretendia despachar.</p>
+
+<p>«Coisa admiravel! o presidente apenas ouviu as palavras&mdash;<i>casa
+ingleza</i>&mdash;deu um pulo na cadeira, tocou com estrondo a campainha, ao som
+da qual acudiu o continuo, que recebeu ordem para chamar o tal official
+maior. O presidente chegou mesmo a levantar-se da sua cadeira, e dirigindo-se
+para a janella, fez d'ali signal ao empregado superior.</p>
+
+<p>«Na volta o presidente fez ver a este empregado, que o caso que acabava de
+dar-se era estranhavel, por quanto ainda ha pouco tempo lhe tinha mostrado um
+officio confidencial do ministerio competente, no qual se recommendava a
+maior attenção com todos os negocios trocados entre as differentes
+repartições do estado e as altas potencias, como a Inglaterra, a França, os
+Estados Unidos, etc!... O alto funccionario respondeu simplesmente, que o
+caixeiro pretendente era portuguez, e por isso pensava que a casa commercial
+era tambem portugueza!!»</p>
+
+<p>Este facto parece incrivel. Recusa-se o nosso espirito a acceital-o. Mas
+devemos confessar que elle desgraçadamente está d'accordo com outros de que
+não é licito duvidar, e que se não são tão explicitos, revelam a mesma
+tendencia. Devendo os portuguezes ser no Brazil os primeiros, vê-se que são
+os ultimos. E não lh'o merecem decerto, nem pelo passado nem pelo
+presente.<span class="pagenum"><a id="pag_411"
+name="pag_411">[411]</a></span> Em toda a parte da monarchia portugueza, onde
+o brazileiro se apresenta é recebido com mais que deferencia, ás vezes até
+com favor.</p>
+
+<p>Temos pena de que o sr. Pércheiro dominado por uma paixão, cujo fundamento
+ignoramos, fosse tantas vezes d'uma critica tão irritada, que obrigue o animo
+imparcial a dar ás suas palavras, quando as não comprovam testemunhos
+insuspeitos, certo desconto. A boa critica não póde aceitar como proposições
+geraes o que deve apenas admittir-se como limitada excepção, quando existe. E
+seria mesmo mais vantajoso para o credito que deve merecer o seu livro, que
+moderasse um pouco mais a sua linguagem. Os vicios, os abusos não dão direito
+a quem os censura de ser... quando menos exaggerados. E perdoe-nos o sr.
+Pércheiro, cremos que em alguma parte o foi. A verdade não é decerto aquella.
+Não citamos senão um logar em que esta reflexão nos accudiu, mas podiamos
+citar outros. É a paginas 181.</p>
+
+<p>Afora isto, era util que o livro do sr. Pércheiro se vulgarisasse, que a
+população illudida, que deserta para as praias de Santa Cruz, tivesse
+conhecimento verdadeiro do que por lá se passa, que, quanto a nós, é este o
+melhor meio d'ella crear mais amor á terra em que nasceu, e não a abandonar
+tão desassisadamente, arrastada pela sêde insoffrida de uma opulencia
+rapidamente adquirida.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(<i>Districto de Aveiro</i>, de 5 de julho.)</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p><i>Sr. redactor do «Districto de Aveiro».</i>&mdash;Só hoje me veiu parar ás
+mãos o n.º 360 do seu importantissimo jornal, no qual sob o titulo&mdash;<i>Nova
+publicação</i>, vem publicado um extenso artigo de appreciação ao meu pobre
+trabalho&mdash;<i>Questões do Pará</i>, appreciação que não devo deixar passar em
+claro sem os devidos reparos, embora humildes.</p>
+
+<p>Perdoe-me v. ex.ª que com a minha modestia, que o auctor do referido
+artigo não quiz ver na carta&mdash;prologo feito ao meu livro, lhe diga, que tão
+abalisado critico me faz algumas injustiças, contradizendo-se mais de uma vez
+na sua appreciação, por fórma a querer sustentar ao mesmo tempo&mdash;o preto e o
+branco&mdash;dos escriptores sem consciencia.</p>
+
+<p>A circumstancia de ter sido tal appreciação publicada em jornal portuguez
+e de não trazer o nome do seu auctor, me inhibe de collocal-a ao lado dos
+escriptos parciaes, que sobre o<span class="pagenum"><a id="pag_412"
+name="pag_412">[412]</a></span> meu insignificante trabalho, hão-de mais
+tarde apparecer na imprensa brazileira.</p>
+
+<p>Foi o meu livro escripto no corrente anno, desde 6 de março até 8 de
+abril, dia em que sahi do Lazareto. A 12 d'este mez, apresentei o
+manuscripto ao meu amigo Ferreira Lobo, ainda na incerteza de que similhante
+trabalho visse a luz publica: taes eram os defeitos da fórma, que, d'antemão,
+lhe reconhecera. Animou-me o distincto escriptor, que venho de referir, com a
+sua carta que antecede as <i>Questões do Pará</i>. Reconheceu-lhe, mais
+abalisado do que eu, esses defeitos, filhos da exiguidade do tempo e da
+occasião em que fôra delineado o meu trabalho, das nenhumas aspirações da
+minha parte ás honras de litterato e ainda menos ás de historiador, para o
+que sempre reconhecera faltar-me o estylo atreito aos homens talhados pela
+natureza, como o meu illustre critico, para escrever livros de tão alto
+merecimento.</p>
+
+<p>Provo ainda n'este logar, que não aspirava eu a tão elevadas honras, com a
+minha annuencia ás idéas do auctor do prologo, no seguinte:</p>
+
+<p>«Pede comtudo a sinceridade e a franqueza de que me preso que lhe diga,
+antes de terminar, que não é o seu trabalho um primor litterario. O amigo foi
+o primeiro a apontar-lhe os defeitos da fórma. Mas não se desconsole com
+isto. No desordenado da phrase e no descuidado da exposição transparece muito
+claramente a verdade de tudo que o amigo assevera. Não ha artificios nem
+arrebiques. O seu escripto foi traçado quasi todo durante a viagem, sem
+auxilio de livros. É agitado, revolto, caprichoso como as vagas que
+balouçavam a mesa sobre que foi delineado», etc.</p>
+
+<p>As minhas idéas, quando tratava de publicar o livro, eram outras.</p>
+
+<p>Era meu intento unicamente protestar sem perda de tempo, na esperança de
+obter do nosso governo remedio salutifero, embora energico, contra a tyrania
+de que continuavam a ser victimas os nossos irmãos em terras brazileiras.</p>
+
+<p>Eis porque aproveitei para melhor coisa o tempo que me poderia levar a
+rever a obra ou a fazer-lhe o prologo, onde, com as minhas proprias palavras,
+apontasse os defeitos litterarios, que ella encerra, satisfazendo assim as
+justas exigencias dos homens de lettras, em cujo numero conto o meu sapiente
+sensor.</p>
+
+<p>Tratava-se, pois, n'aquelle momento, de coisas mais importantes para mim
+do que fazer estylo; por isso, a 15 do referido mez de abril, era o meu
+trabalho entregue na typographia Lallemant, que, passados apenas 15 dias, me
+apresentava a 17.ª<span class="pagenum"><a id="pag_413"
+name="pag_413">[413]</a></span> folha, a ultima, com a qual fechava uma
+impressão de 3:000 livros! Mas é preciso que eu aponte as contradições em que
+cahiu o distincto articulista do <i>Districto de Aveiro</i>.</p>
+
+<p>Não cabe bem a quem não aspira ás honras de litterato fazer critica; mas
+perdoe-me v. ex.ª a liberdade. Digne-se levar estes meus reparos á conta dos
+que não sabem, e que milhor illucidados, podem aprender mais alguma cousa com
+outras lições.</p>
+
+<p>Diz o abalisado articulista sobre o meu livro:</p>
+
+<p>«É uma <i>interessante</i> exposição de factos, que lança muita luz sobre
+a situação em que se acha a colonia portugueza na provincia do Pará, e desfaz
+algumas illusões espalhadas geralmente sobre a protecção de que ali gosam os
+nossos compatriotas.</p>
+
+<p>«Entristece-se o espirito ao ler o livro a que nos referimos. Dando mesmo
+de barato que a paixão entrasse em algumas apreciações, <i>exaggeradas
+evidentemente</i>. (No torniquete em que eu me vi não quizera eu ver s. ex.ª,
+a não ser para me dar rasão), pondo ainda de parte o estylo declamatorio de
+alguns periodos que se nos figuram deslocados. (Nada tem com o caso da
+veracidade dos factos. Os defeitos já foram reconhecidos pelo auctor, antes
+de se lhe fazer critica); e resumindo unicamente a analyse aos documentos que
+os factos comprovam, vê-se claramente», etc.</p>
+
+<p>N'este trecho vê-se que a minha exposição deixou de ser
+<i>interessante</i>... Mas continuemos:</p>
+
+<p>«E o mais desconsolador é que se a guerra existe principalmente nas mais
+baixas camadas sociaes, estimuladas pela inveja torpe dos lucros que aufere a
+actividade do commercio portuguez, é nas classes inferiores que a
+desconsideração mais se revela, <i>não faltando testemunhos</i> a apregoal-a,
+etc».</p>
+
+<p>Aqui muda de diapasão. A minha exposição torna a ser <i>interessante</i>,
+porque <i>esses testemunhos</i> forneço-os eu, sem apresentar documentos que
+os comprovem. São simples allegações da minha parte, postas no meu livro,
+talvez que com o fim de fazer melhor venda ao meu peixe!...</p>
+
+<p>Mas o abalisado crítico crê e não crê nas minhas allegações! Recusa-se
+acceital-as em alguns pontos, não obstante confiar n'ellas quando trato do
+conego Sequeira Mendes, já no meu livro, já em artigos que n'elle transcrevo,
+artigos por mim publicados nos jornaes do Pará. E mais se fia ainda no que
+digo com respeito ao facto do caixeiro da casa ingleza, chegando a honrar-me
+com as seguintes phrases antes de transcrever para o seu artigo a parte do
+meu livro onde conto o occorrido:</p>
+
+<p>«Outro facto cita o sr. Pércheiro que causa a mais desgraçada impressão
+porque mostra que nas proprias repartições do estado se revela a maxima
+desconsideração por tudo o que é<span class="pagenum"><a id="pag_414"
+name="pag_414">[414]</a></span> portuguez. Citamos as proprias palavras do
+auctor do livro» etc.</p>
+
+<p>Depois do meu contendor transcrever o que eu digo ser&mdash;facto&mdash;mas ao qual
+não junto documento algum que o <i>comprove</i>, termina com o seguinte,
+ainda em meu abono: «Este facto parece incrivel. Recusa-se o nosso espirito
+acceital-o. <i>Mas desgraçadamente está de accordo com outros</i> (que não
+comprovo com documentos), <i>de que não é licito duvidar» etc.!</i></p>
+
+<p>Conclue-se, que a minha exposição foi <i>interessantissima</i>.</p>
+
+<p>Mas com respeito aos tribunaes, deixou de o ser: as provas que allego
+encontra-as s. ex.ª nos trechos dos jornaes que cito. <i>As minhas simples
+allegações recusa-se a acceital-as.</i> A exposição do jornalista Carvalho,
+redactor da <i>America do Sul, nosso digno compatriota</i>, o qual não
+compareceu, como eu, na audiencia onde se julgava o assassino do infeliz
+portuguez calafate, mereceu-lhe mais credito, porque aquelle cavalheiro é
+habil e soube fazer estylo!...</p>
+
+<p>A descarga geral é no fim. Ali não ha mais contemplações. O valente
+guerreiro arranca, uma a uma, todas as folhas de louro, que já começára a
+arrancar, da corôa que logo no principio da batalha me conferira, e,
+desapiedado, até pisa a haste em que ellas se prendiam!</p>
+
+<p>Oiçamol-o:</p>
+
+<p>«Temos pena que o sr. Pércheiro, <i>dominado por uma paixão, cujo
+fundamento ignoramos</i>, fosse tantas vezes d'uma critica tão irritada, que
+obrigue o animo imparcial a dar ás suas palavras, <i>quando as não comprovam
+testemunhos insuspeitos</i>, certo desconto.»</p>
+
+<p>Queria o illustrado articulista que eu estivesse a rir e a dispensar
+zumbaias aos brazileiros, em presença dos portuguezes assassinados, dos
+tribunaes que absolviam os assassinos e do povo que se ria d'estas
+absolvições!</p>
+
+<p>Já disse atraz, e agora repito, que as contradicções do articulista são
+manifestas; porque deixei provado que s. ex.ª acceita as minhas revelações,
+completamente despidas dos taes <i>testemunhos insuspeitos</i>, que fantasiou
+sem duvida para ter occasião de fazer estylo.</p>
+
+<p>Mas continuemos:</p>
+
+<p>A boa critica não póde acceitar como proposições geraes, o que deve apenas
+admittir-se como limitada excepção, quando existe.»</p>
+
+<p>Aqui confesso que não comprehendo o meu sensor: tal é a minha
+ignorancia!... Porque eu não quero por um momento suppor, que seja possivel
+ao meu illustre contendor fazer ainda hypotheses sobre as <i>limitadas
+excepções</i>, que vê na gente brazileira,<span class="pagenum"><a
+id="pag_415" name="pag_415">[415]</a></span> que eu digo nos odeia em sua
+maioria, e sobre a qual eu jámais deixarei de sobrecarregar as culpas, que os
+inconscientes querem levar á conta da ralé.</p>
+
+<p>Vejam como são as coisas. Suppunha eu que tinha sido demasiadamente
+liberal nas excepções que fiz no meu livro; mas enganei-me!</p>
+
+<p>Alguns portuguezes, para desiludirem-se, precisam ir passar alguns annos
+na <i>amavel</i> companhia dos <i>tribunos</i> em terras brazileiras.</p>
+
+<p>Convido o illustre crítico a dar um passeio até Jurupary e mais terras do
+civilisado Pará e outras provincias. Na volta me dirá se eu tenho razão para
+ser apaixonado, e julgará da exactidão das minhas affirmações de paginas 181
+e outros pontos do meu livro, que não rectifico, porque com ellas desejo
+evitar que os portuguezes incautos procurem mulheres brazileiras, que, salvas
+mui poucas e honrosas excepções (permitta-se-me a repetição, eu sou
+incorregivel!) não pódem ser as esposas, nem tão pouco as mães que
+ambicionamos para nossos filhos. Muitas razões poderia eu adduzir para
+comprovar esta minha asserção; mas falta-me o tempo e o espaço.</p>
+
+<p>Finalmente, é preciso fazer comprehender aos portuguezes que emigram para
+o Brazil, que a sua desgraça está no cruzamento das raças lusitana com a
+brazileira, que tanto nos odeia; assim como está tambem no fausto que lá
+ostentamos, tão dessimilhantemente dos outros colonos europeus.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Bemfica 19 de julho de 1875</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Gomes Pércheiro.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Breves palavras apenas. Queixa-se, ou antes argue-nos o sr. Pércheiro de
+sermos contradictorios na apreciação do seu livro, porque n'uma parte o
+elogiamos, e n'outra fomos menos benevolos com elle,&mdash;por julgarmos algumas
+das suas apreciações verdadeiras, e a outras não acceitamos sem attestação de
+documento.</p>
+
+<p>Somos então sempre contradictorios, e d'este modo a contradicção é
+inseparavel da nossa pobre crítica, porque temos por costume invariavel
+elogiar o que nos agrada, e censurar o que nos não parece bom. E o peior é
+que não nos arrependemos, nem pretendemos emendar-nos de tão feio peccado.
+Quando nos obrigarem a sahir da nossa obscuridade, ha de ser assim. Tenha-nos
+embora o sr. Pércheiro por impenitentes. Não nos queixaremos.</p>
+
+<p>Não o supposemos embusteiro, pareceu-nos exaggerado, pelo<span
+class="pagenum"><a id="pag_416" name="pag_416">[416]</a></span> menos em
+alguns periodos. A paixão desvaira ás vezes os milhores e mais rectos
+entendimentos. O sr. Pércheiro, no nosso modo de vêr, estava apaixonado
+quando escreveu o seu livro. Nós é o que não podiamos estar quando o lêmos, a
+não ser em favor do sr. Pércheiro, que, na unica vez que tivemos a honra de o
+receber, nos pareceu um cavalheiro amabilissimo.</p>
+
+<p>Ora o que é escripto com paixão precisa de certo desconto. É o que nós
+dissemos e dizemos, a respeito das <i>Questões do Pará</i>. E nem por isso
+deixa o livro de ser uma interessante exposição de factos, pelos documentos
+que contém, pelo que a boa crítica póde d'elle receber sem escrupulo, pelas
+noticias que dá com respeito a algumas questões pouco conhecidas entre
+nós.</p>
+
+<p>Dizemos isto a medo de sermos novamente arguidos de contradicção, visto
+insistirmos na nota de apaixonado, que melindrosamente repelle.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro diz que não rectifica o que a pag. 181 escreveu a respeito
+das senhoras brazileiras. Nem nós lh'o pedimos. É uma questão de consciencia.
+Ha de permittir-nos porêm que continuemos a suppor excepção o que apresenta
+como regra. Como excepção ha d'isso em toda a parte. Tambem por cá... Como
+regra, temos o testemunho em contrario de muitas familias vindas de lá, que
+logramos a fortuna de conhecer.</p>
+
+<p>Nós partimos em tudo isto d'um principio; que para affirmar nos nossos
+compatriotas a convicção de que se não devem aventurar loucamente aos azares
+da emigração americana, não é preciso representar-lhe o Brazil como um paiz
+de selvagens ou pouco menos; e que d'outra sorte, não fazemos mais que
+corresponder á denominação rusticamente injuriosa de <i>galegos</i>, com que
+alguns brazileiros julgam affrontar-nos, affrontando-se ao mesmo tempo a
+si.</p>
+
+<p>Se isso é realmente offensa, preferimos ficar offendidos, a parecer-nos
+com elles, offendendo-os pela mesma fórma, e com egual justiça. Lisongeia-nos
+mais o papel de victimas. É questão de gosto talvez.</p>
+
+<p>Podiamos assegurar ao sr. Pércheiro que nos foi desagradavel a certeza de
+o havermos molestado sem querer. É porém sestro nosso e de muita gente. Ainda
+ha pouco o nosso antigo amigo, o sr. Teixeira de Vasconcellos, n'um caso
+identico, se queixava de que todos os auctores lhe pediam que fosse franco a
+respeito do que escreviam, e todos se julgavam depois offendidos quando elle
+tomava o pedido ao pé da letra. Acontece sempre isto.</p>
+
+<p>Por isso nós costumamos, e cada vez estamos mais firmes n'este
+proposito&mdash;deixar á redacção d'outros jornaes a noticia das novas publicações
+com aquellas palavras sacramentaes de<span class="pagenum"><a id="pag_417"
+name="pag_417">[417]</a></span> louvor, que afinal nada significam. Com isso
+ninguem se offende. Alguns acham pouco o incenso. Mas d'ordinario todos
+gostam.</p>
+
+<p>Resta dizer ao sr Pércheiro que o redactor principal do <i>Districto de
+Aveiro</i>, não costuma assignar os artigos d'esta secção. Esta pratica, que
+é de muitos outros jornaes do paiz, equivale a uma assignatura.</p>
+
+<p>E faremos uma rectificação, visto ser necessaria. Nós não escrevemos: «é
+nas classes <i>inferiores</i> que a desconsideração mais se revela;»
+escrevemos: «é nas classes <i>superiores</i> que a desconsideração mais se
+revela.» No entretanto foi como o sr. Pércheiro cita que o periodo sahiu á
+luz. Travessuras dos compositores e descuidos da revisão, a que estamos
+habituados. Nem d'ordinario já rectificamos. Deixamos esse cuidado ao bom
+senso de quem lê.</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Districto de Aveiro</i></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p><i>Sr. redactor.</i>&mdash;Antes de entrar na apreciação da resposta com que v.
+exª me honrou em o n.º 366 do seu enteressantissimo jornal, permitta que lhe
+agradeça o favor da publicação da minha carta, que motivou esta resposta.
+Dito isto, peço egual favor para a inserção d'esta. Perdoe-me v. ex.ª o
+abuso. É que eu com a alludida resposta, e outras que se lhe possam seguir,
+ficarei <i>vencido</i>, mas nunca <i>convencido</i>: tal é o meu
+obscurantismo a respeito das coisas do Brazil. Para demonstrar a v. ex.ª que
+não fico convencido, é que escrevo mais estas desconcertadas linhas. Creia
+que, se não fôra esta razão, deporia a minha penna de chumbo, que jámais
+poderá vencer a de ouro, tão habilmente dirigida por mão de um digno
+contendedor como v. ex.ª</p>
+
+<p>N'essa resposta a que eu alludo, e á qual vou fazer algumas considerações,
+suppõe v. ex.ª que me escandalizam as opiniões contrarias ao meu livro e que
+me agradam as palavras <i>sacramentaes</i> dos jornalistas sem consciencia.
+Permitta que lhe diga, que, ainda mais uma vez tornou a ser injusto comigo,
+injustiça que se estendeu a litteratos mui distinctos, que se serviram
+apreciar o meu modesto trabalho.</p>
+
+<p>Eu não me escandaliso com a opinião de criticos tão abalisados como v.
+ex.ª; poderei escandalisar-me com as injustiças e apontar as contradicções. E
+v. ex.ª foi injusto comigo e contradisse-se em alguns pontos da sua
+apreciação ao meu livro. Desculpe a teimosia. Eu tambem sou peccador como v.
+ex.ª Acredite-me com franqueza, que não dispenso as palavras
+<i>sacramentaes</i> de que falla, nem tão pouco as de censura com que me
+distingiu, visto que, para umas e outras eu já estava prevenido, ainda
+antes<span class="pagenum"><a id="pag_418" name="pag_418">[418]</a></span> do
+meu trabalho ter saido a lume. Antes do apparecimento do artigo de v. ex.ª já
+eu tinha recebido os jornaes do Pará, onde, a par das injustiças, vi
+publicados alguns artigos bastante insultuosos. Já vê v. exª que eu esperava
+flores e espinhos ao mesmo tempo. Mas eu sou tão differente dos outros homens
+(e sinto que v. ex.ª me não tivesse ainda comprehendido), que julgo
+importarem em pouco as palmas e as pateadas a quem tem a consciencia
+tranquilla. E a minha, mercê do Altissimo, não o póde estar mais. Comtudo
+agradeço umas e outras.</p>
+
+<p>Folgo devéras, que não tenha visto em mim um embusteiro e apenas as
+parecensas com quem foi exaggerado e apaixonado, isto com referencia a alguns
+periodos do meu livro. Esta confissão agrada-me; mas é perciso desfazer no
+animo de v. ex.ª essas ideas, que tão injustamante me arroga. Eis o que ainda
+vou tentar.</p>
+
+<p>Não ha exaggeração da minha parte, quando digo que a maioria dos paraenses
+nos odea; porque, para comprovar esta minha asserção, me sirvo das proprias
+palavras da <i>folha official</i>:</p>
+
+<p>«Ao passo que o Japão se vae civilisando, o Pará, em vista dos ultimos
+acontecimentos, está passando no estrangeiro como terra de selvagens!</p>
+
+<p>«Pena é que as ideas intituladas <i>patrioticas</i> (o exterminio dos
+portuguezes), não tenham encontrado apoio sómente em meia duzia de moços
+inexperientes.»</p>
+
+<p>E basta. Isto significa um mundo de desgraças, que justificariam os meus
+<i>exaggeros</i> e a minha <i>paixão</i>.</p>
+
+<p>O governo, representante do povo brazileiro, odeia-nos tambem porque
+despresa a nossa causa, que é justa. Tomando o seu exemplo, os tribunaes são
+quasi sempre facciosos, quando julgam o portuguez delinquente. Mil factos o
+comprovam. E no nosso paiz não ha exemplo que os juizes julguem
+nacionalidades. Haja vista ao processo do infeliz Vieira de Castro!...</p>
+
+<p>Não se póde pôr em duvida a minha proposição:&mdash;<i>é ephemera a civilisação
+no Brazil</i>; porque qualquer paiz civilisado levantar-se-hia contra a
+propotencia sem egual, se parte d'esse paiz como acontece no norte d'aquelle
+imperio, quizesse em pleno seculo XIX, repetir um novo S. Berthelemy. E o
+povo brazileiro, permitta-me a repetição, é responsavel pelos desmandos dos
+paraenses, porque até hoje ainda não vimos que os seus representantes
+tomassem medidas energicas contra o estado de effervescencia revolucionaria,
+que existe no Pará, ha mais de tres annos. Nenhuma voz soou ainda no
+parlamento brazileiro, interpelando o governo a respeito dos acontecimentos
+dos dias 6 e 7 de setembro do anno findo; voz que ao mesmo tempo fulminasse
+um dos seus membros, accusado com bastante fundamento,<span
+class="pagenum"><a id="pag_419" name="pag_419">[419]</a></span> de estar á
+testa dos disculos. Este silencio anima os desordeiros, que, contando com a
+impunidade, preparam novos desacatos para d'aqui a pouco mais de um mez. E se
+elles se repetirem, o que é muito provavel, porque as proclamações da
+<i>Tribuna</i>, sempre attendida, cada vez são mais incendiarias, não terei
+razão de dizer que o Brazil é um paiz de selvagens, porque á testa dos
+communistas vemos a indifferença das auctoridades, os deputados do imperio, o
+clero e muitas outras influencias?</p>
+
+<p>Por muito menos que as barbaridades dos paraenses, não vimos nós, hade
+haver 4 annos, um dos actuaes ministros, então deputado, interpelar o governo
+por causa da pastoral do actual patriarcha de Lisboa? Não foi ha dias
+censurado um prégador que, segundo se diz, insultára, em termos mais
+convenientes do que os dos <i>tribunos</i>, algumas nações amigas? Não me
+poderá v. ex.ª responder que os actos de repressão d'estes homens foram
+ditados pelo meio da força, e sim pelo cumprimento do dever, que todo o homem
+publico deve ter em vista. E o que fazem os deputados ou os senadores
+brazileiros? Alguns, em pleno parlamento, já nos têem insultado.</p>
+
+<p>As doutrinas do jornal <i>A Tribuna</i>, que segundo dizem os defensores
+do Brazil, não é acceite pela maioria dos paraenses, echoam livremente em
+toda a parte: e desgraça é dizel-o:&mdash;semilhante jornal é o mais lido na
+provincia, e mais de cem jornaes brazileiros trocam com este pasquim, insulto
+permanente a tudo quanto é portuguez!</p>
+
+<p>E desapprova v. ex.ª o epiteto de selvagem com que distingo aquella gente;
+epiteto que, a fallar a verdade, será um pouco mais insultoso que o de
+<i>gallego</i> com que os brazileiros nos distinguem, porque <i>gallego</i>,
+a meu simples entender, é synonimo de trabalhador, que mais honra do que o do
+indolente. Mas de certo que o epiteto de selvagem não é mais insultuoso que o
+de <i>ladrão</i>, <i>assasino</i>, <i>falsario</i> e muitos outros com que
+egualmente nos mimoseiam. Saiba v. ex.ª que, pelo ultimo paquete, recebi eu
+muitas d'estas distinções! Pretenderá esta gente, com semelhantes
+blasphemias, arredar-nos do banquete da civilisação? Mas eu, chamando-lhes
+selvagens, não os prohibo de se civilisarem; com esta distincção já mais os
+affastarei dos paizes cultos, onde em todas as épocas têem apparecido, sem
+serem repudiados, alguns d'esses entes, no meio da admiração e do rogosijo
+publico!</p>
+
+<p>Não chamei ás mulheres brazileiras, adulteras e prostitutas; não digo que
+o seu imperador é bebado e devasso; não distingo com os epitetos mais
+infamantes o seu exercito e a sua marinha, cujas forças eu apenas digo serem
+ephemeras, porque, effectivamente<span class="pagenum"><a id="pag_420"
+name="pag_420">[420]</a></span> um pequeno exercito europeu, faria do Brazil
+independente uma colonia de qualquer nação da Europa.</p>
+
+<p>Inflama-se v. ex.ª porque chamei selvagem á maioria dos paraenses, epiteto
+que se poderá estender á maioria dos brazileiros, se elles de futuro não
+protestarem contra o insulto de que temos sido e continuaremos a ser alvo! O
+serem selvagens não lhes tira a honra de serem respeitadores da vida e da
+propriedade alheia. Dizia Thevet, que os <i>Tupinambas</i> morreriam de pejo
+se vissem um seu visinho ou o seu proximo carecendo d'aquillo que elles
+possuissem. Os delinquentes eram castigados. Muitos selvagens se distinguiam
+pelo seu genio guerreiro. Outros havia, antropophagos, que apresionavam as
+victimas, que afinal eram os roubadores do seu paiz, e as comiam, depois de
+assadas nos espetos de <i>marapinima</i>!</p>
+
+<p>Já vê o meu illustre contendor, que nem a todos chamo <i>botocudos</i>,
+titulo que bem podia caber aos assassinos de Jurupary. No Brazil ha homens
+civilisados, especialmente no sul, que se horrorisam com os actos de
+selvageria praticados pelos paraenses, a quem não distinguem com o doce nome
+de compatriotas. Mas o que é quasi geral, especialmente desde o Rio de
+Janeiro para o norte, é que os brazileiros, como acontecia ás raças que
+antigamente predominavam na America do sul, odeiam os portuguezes. Isto é que
+é irrefutavel. É uma verdade bastante amarga, eu sei; mas... <i>quem não quer
+ser lobo</i>...</p>
+
+<p>Insiste v. ex.ª sem duvida, por causa das boas relações que entertem com
+<i>muitas</i> familias brazileiras, em fazer <i>excepção</i> do que, a
+respeito do aceio das senhoras d'esse paiz, eu sustento ser <i>regra</i>; e
+para contrapor a sua á minha opinião, diz que isto é questão de
+<i>consciencia</i>. E eu, permitta-me que lhe diga, que é tambem questão de
+<i>experiencia</i>; e no caso sujeito, parece-me que não vale menos uma do
+que a outra. Para confirmar o que digo a tal respeito a pag. 181 do meu
+livro, não irei, de certo, em procura de algumas familias, que ambos
+conhecemos, as quaes exceptuarei sempre, mas que continuarão, por causa da
+<i>experiencia</i>, que me faz <i>consciencioso</i>, a ficar em minoria.</p>
+
+<p>Dizia M. de Tullenere, citado mais de uma vez por Ferdinand Diniz, no seu
+livro <i>Le Brezil</i>, o seguinte respeito das brazileiras:</p>
+
+<p>«Uma senhora vae á missa acompanhada por numerosos escravos adornados com
+riqueza; e muitas vezes, em voltando para casa assenta-se n'uma esteira, onde
+come com a mão, peixe salgado e mandioca.»</p>
+
+<p>Ora, eu não creio que fique limpa quem, ataviada assim da festa, come o
+peixe por similhante systema.</p>
+
+<p>Aos francezes, inglezes e allemães, quando fallam assim dos<span
+class="pagenum"><a id="pag_421" name="pag_421">[421]</a></span> outros povos,
+respeita-se-lhes a linguagem, talvez porque são poderosos. Ás mais pequenas
+exigencias, ás vezes injustas, segue-se-lhes a força dos canhões! E nós,
+somos tão miseraveis, tão pequeninos, que nem ao menos podemos dizer as
+verdades, como justo desforço contra tanta tyrania! É assim o mundo. Quanto
+tens, quanto vales. Sacrifique-se a consciencia, porque dizem ser forte o
+Brazil, que nos insulta! sacrifique-se a consciencia, porque a familia
+brazileira, mais do que qualquer outra, está relacionada com a portugueza!</p>
+
+<p>Disse na minha primeira carta, que o meu illustre critico tinha sido
+injusto comigo, e essa injustiça eu já a demonstrei. Disse mais que tinha
+sido contradictorio, e o que ainda vou transcrever da sua apreciação ás
+minhas <i>Questões do Pará</i>, corroborará mais o que já disséra.
+Transcreverei apenas o primeiro e o ultimo paragraphos do seu referido
+artigo, e assim juntos, é mais facil a apreciação.</p>
+
+<p>Diz o 1.º:</p>
+
+<p>«É uma interessante exposição de factos, que ministra muita luz,» etc.</p>
+
+<p>Aqui o meu livro é recommendado aos leitores do <i>Districto de
+Aveiro</i>.</p>
+
+<p>Resa assim o final:</p>
+
+<p>«Afora isto, (as pag. 181 e outros logares?), era util que o livro do sr.
+Pércheiro se vulgarisasse» etc.</p>
+
+<p>As pag. 181 e <i>outros logares</i> que o leitor do jornal ignora, porque
+v. ex.ª não se dignou apontal-as, não devem ser lidas.</p>
+
+<p>Conclusão logica:</p>
+
+<p><i>Afora o livro do sr. Pércheiro, era bom que o livro se
+vulgarisassse!</i></p>
+
+<p>Aponte v. ex.ª os taes logares, que eu e o paiz lhe agradeceremos tão
+elevado serviço. Então, o leitor prevenido inutilisará as paginas sobre que
+v. ex.ª fulminou o anathema, e poderá ler, sem escrupulo de peccar, o restante
+das minhas <i>Questões do Pará</i>.</p>
+
+<p>Era esta a obrigação do bom critico, que, como o historiador, tem que ser
+muito minucioso para não ser injusto.</p>
+
+<p>Terminarei agradecendo antecipadamente a inserção d'esta, pedindo ao mesmo
+tempo mil desculpas pela divergencia da minha humilde opinião, o que jámais
+me impedirá de ser.</p>
+
+<p style="text-align:right;">De v. etc.</p>
+
+<p>30 de julho de 1875.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Gomes Pércheiro.</i><span class="pagenum"><a
+id="pag_422" name="pag_422">[422]</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A declaração que faz o sr. Pércheiro logo ao principiar a sua carta: «que
+com a resposta que demos á sua primeira carta, e <i>outras que se lhe possam
+seguir</i>, ficará vencido mas não convencido,» dispensa-nos de continuar
+n'esta amigavel controversia. O nosso fim nunca foi vencer. Poderia ser, se
+tanto, convencer.</p>
+
+<p>Seria pois inconveniente, e por demais inutil, toda a insistencia em
+qualquer opinião que ao sr. Pércheiro desagrade, não se achando interessado o
+nosso amor proprio em justificar o que escrevemos, nem pondo nós empenho em
+nos resalvar das contradicções que o illustre escriptor tão lucidamente
+descortinou logo no nosso primeiro artigo, e que nós temos a infelicidade de
+ainda não perceber.</p>
+
+<p>Affirmando que as <i>Questões do Pará</i> era uma publicação interessante,
+será incontestavel que não podiamos sem incorrer em contradicção, pôr-lhe
+deffeitos; e escrevendo: «<i>afora isto</i>, o livro merece vulgarisar-se,»
+talvez dissessemos uma inepcia, porque <i>isto</i> não deverá referir-se só
+aos defeitos que notamos, mas a todo o livro! Isso porém é que nós não
+queremos averiguar.</p>
+
+<p>Com relação á civilisação do Brazil estamos n'uma situação de espirito
+muito analoga áquella que nos collocou a leitura do trabalho do sr.
+Pércheiro. É possivel que nos achemos tambem n'isto em flagrante
+contradicção. Concordamos que, não só a população inconsciente e
+irresponsavel, mas tambem os homens que pela illustração devem encaminhar a
+opinião, sejam injustos, apaixonados, malevolentes mesmo com relação a
+Portugal: todavia não deduzimos d'ahi argumento para provar a selvageria do
+paiz. Vemos n'isso uma deploravel aberração, dictada por uma animosidade sem
+motivo. Nada mais. E isto parece pouco ao sr. Pércheiro. E será talvez.</p>
+
+<p>Não importa. Separemo-nos em bons amigos. Cada um fica na sua opinião, e
+fica bem visto que ambos estamos tranquillos da nossa consciencia.</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Districto de Aveiro</i></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>JORNAL DE HORTICULTURA PRATICA.</h3>
+
+<p>Chegou-nos ha dias um livro que acabamos de percorrer e que trata de um
+assumpto que realmente precisava de ser tratado seriamente e por penna
+imparcial e sabedora dos factos.</p>
+
+<p>Não vae decorrido muito tempo que o telegrapho communicava aos diversos
+jornaes do paiz os insultos de que estavam sendo alvo os portuguezes
+residentes no Pará, objecto de que então toda a imprensa do paiz se occupou,
+pedindo ao governo<span class="pagenum"><a id="pag_423"
+name="pag_423">[423]</a></span> para providenciar e fazer respeitar
+n'aquellas paragens o pavilhão das quinas que, segundo se affiançava, os
+paraenses intentavam enxovalhar em pleno dia.</p>
+
+<p>Suscitaram-se todavia algumas duvidas sobre a veracidade dos factos
+relatados e portanto foi muito bem vinda uma publicação devida a um
+cavalheiro que residiu no Pará durante tres annos e que por conseguinte teve
+occasião de estudar e prescutar todos os factos escandalosos que diariamente
+ali se repetiam.</p>
+
+<p>O livro a que alludimos é subordinado ao titulo <i>Questões do Pará</i> e
+é seu auctor o sr. D. A. Gomes Pércheiro.</p>
+
+<p>O sr. Pércheiro tomando o seu escapello, anatomisa minuciosamente os
+<i>prós</i> e os <i>contras</i> que alli vão encontrar aquelles que vêem no
+Brazil um novo <i>El dorado</i> e se ligarmos credito, como devemos, ás suas
+palavras é certo que não se lhes antolha um futuro muito risonho.</p>
+
+<p>Uma grande parte dos trabalhadores succumbem logo ao abordar aquelles
+portos insalubres em que predominam quasi constantemente as febres, o cholera
+e outras molestias que desapiedadamente desvastam a humanidade, e os que por
+ventura logram a felicidade de escapar ás garras da morte, depois de muitos
+annos de privações que nunca soffreriam na sua terra, conseguem reunir no
+cantinho do bahú uns 400 ou 500 mil réis, que o tratamento das molestias
+adquiridas no Brazil lhes absorve, quando exhaustos de forças e na
+decrepitude da vida, regressam á sua terra natal.</p>
+
+<p>Oh! como é miseravel a vida do artista e do trabalhador portuguez no
+Brazil! exclama o sr. Gomes Pércheiro e accrescenta; «Os portuguezes que de
+futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se dedicarem ao commercio,
+perderão infallivelmente o seu precioso tempo...», o que o auctor demonstra
+com razões bastante acceitaveis sendo uma das principaes o definhamento que
+de dia para dia vae tendo ali a agricultura em consequencia da falta do braço
+escravo que as leis libertaram.</p>
+
+<p>O livro do sr. Gomes Pércheiro precisa de ser estudado; uma simples
+leitura não é o bastante e o nosso governo prestaria bom serviço mandando
+pela sua parte tambem estudar o assumpto no campo da pratica. As estatisticas
+da mortalidade e a descripção minuciosa das privações que sofrrem os nossos
+irmãos que vão em busca da fortuna, seriam talvez o verdadeiro dique a
+oppôr-se á emigração.</p>
+
+<p>O clero tambem podia cooperar para isso, porque a sua missão não é só a de
+rezar padre-nossos e ave-marias.</p>
+
+<p>Nós julgamos necessario que se evite quanto possivel a emigração, mas por
+meios licitos e sem menosprezar a liberdade do paiz. Não queremos que se
+apregoe a mentira; queremos que<span class="pagenum"><a id="pag_424"
+name="pag_424">[424]</a></span> se diga a verdade e que se colham algarismos
+exactos que fallem com toda a sua eloquencia.</p>
+
+<p>Dito isto cumpre-nos agradecer ao sr. Gomes Pércheiro o delicado
+offerecimento que nos fez da sua obra, a que toda a imprensa tem dispensado o
+mais lisongeiro acolhimento e congratulamol-o porque é a mais valiosa
+recompensa a que um escriptor póde aspirar.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>(<i>Agosto</i>)</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Duarte de Oliveira Junior.</i></p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>O PROGRESSISTA</h3>
+
+<p>Quando uma fila de carruagens pesadissimas atravessou pela primeira vez os
+campos ao empuchão violento do fogo e da agua, a poesia assustou-se e chorou
+como perdido o encanto das viagens. Soberbas de serras e montes, amenidades e
+melancholias de longas e incultas planiceis tudo isto se perdia para os olhos
+e para o coração de quem viaja; perdiam-se além d'isso os sobresaltos, que dá
+uma floresta com fama de ser um abrigo de salteadores, perdiam-se os mesmos
+salteadores, os seus roubos e assassinatos.</p>
+
+<p>A poesia não tinha razão; filha do genio e do enthusiasmo, o seu pranto
+era um delirio.</p>
+
+<p>Gostaes de contemplar as serras, de subir aos montes? Tomae o cavallo ou o
+bordão; ide lá. Quereis ter sensações, julgaes que um susto ou mesmo um
+roubo, em meio do desmaiar das damas e do brigar dos homens, é uma cousa
+bella para soffrer e recordar? Pois escrevei aos salteadores de que tiverdes
+noticia, dizei-lhes quando passaes que dinheiro levaes, e será satisfeita a
+vossa vontade. Os wagons não teem mãos que vos prendam e vos puchem para
+dentro; sois vós que pondes o pé no estribo e subis.</p>
+
+<p>O viajar pelos caminho de ferro não será poetico, mas é commodo, e ás
+vezes instructivo, o caminho de ferro é ás vezes a torre de Babel a andar;
+são as cinco partes do mundo a conversarem sentadas n'um banco.</p>
+
+<p>Senão vêde:</p>
+
+<p>Uma noite de maio ia eu no caminho de ferro para Coimbra, tinha a um lado
+um brazileiro ainda novo, e do outro um homem alto e grosso, com o cabello e
+a barba já a branquearem-lhe; o brazileiro esperguiçava-se de quando em
+quando, tirava as botas, e para que o viesse acalentar, promettia dinheiro ao
+somno.</p>
+
+<p>O meu outro companheiro encostava a cabeça, que abafara<span
+class="pagenum"><a id="pag_425" name="pag_425">[425]</a></span> n'um bonet de
+pelle de lontra, ao estofo da carruagem, e erguia e descahia compassadamente
+as mãos sobre um dos joelhos.</p>
+
+<p>«Está visto, disse-me o brazileiro, não posso dormir.</p>
+
+<p>&mdash;Folgo muito, respondi eu, porque poderemos conversar. O sr. vae para
+Coimbra?</p>
+
+<p>«Para o Porto. O sr. é de Coimbra?</p>
+
+<p>&mdash;Sou estudante.</p>
+
+<p>«Oh! estudante; dizem que os estudantes é muito má gente.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado pelo elogio; mas olhe, são mais as vozes que as nozes.</p>
+
+<p>«Que fazem muita troça. Até fizeram troça ao imperador do Brazil, é
+verdade? Pode dizer o que quizer, a mim não me importa o imperador, eu não
+gosto do imperador, ainda que é o primeiro sabio do mundo. Não sei se é, que
+eu não entendo d'estas cousas, sou negociante e ando a viajar para me
+divertir, tenho gasto muito dinheiro: agora é gastar. Mas viu o imperador
+gostou d'elle?</p>
+
+<p>&mdash;Pouco. No Porto parece-me que não andou bem; era uma terra...</p>
+
+<p>«Fez isso de proposito&mdash;interrompeu o meu companheiro de viagem. Se o
+imperador tratasse cá bem os portuguezes, os brazileiros deitavam-n'o a voar.
+Foi para agradar. O imperador anda a tremer de medo.»</p>
+
+<p>A resposta indignou-me.&mdash;Não posso acreditar, repliquei eu: e o que
+affirma seria, se assim fosse, uma acre censura para os brazileiros; mas,
+repito, o que diz não póde ser.</p>
+
+<p>«Pois póde, exclamou de repente o meu outro visinho. Póde e assim mesmo é
+que é; o sr. é um idealista, que julga que os reis têem parentes, idéas e
+sentimentos; está enganado, os reis têem um throno e nada mais; percebe? Foi
+para agradar aos brazileiros, pois que duvida?</p>
+
+<p>&mdash;O sr. é brazileiro? perguntei eu.</p>
+
+<p>«Não sr. sou portuguez, mas tenho estado muitas vezes no Pará e vim de lá
+ha seis mezes. Ora ouça...</p>
+
+<p>Fiquei curioso e attento.</p>
+
+<p>«Ha no Brazil dois partidos, começou o meu visinho, liberal e conservador;
+as coisas prosperavam sob o governo do partido liberal, mas algumas
+provincias começaram a pensar em se constituirem em republica; o imperador
+chamou ao poder o visconde de Rio Branco, chefe do partido conservador, e
+este para onerar as provincias que sonhavam com a republica, mandou-lhes
+presidentes com instrucções para destruirem por todos os modos o thesouro da
+provincia; tinham uma grande recompensa por isso, e em breve tempo se
+desempenharam do encargo.<span class="pagenum"><a id="pag_426"
+name="pag_426">[426]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Honrosissimo encargo!</p>
+
+<p>«No Pará manifestou-se com grande força, sob o dominio do partido
+conservador, um odio violento e tenaz contra os portuguezes, e este odio, que
+está em todos os naturaes, achou um orgão n'um jornal de que deve ter ouvido
+fallar <i>A Tribuna</i>.</p>
+
+<p>«Esta <i>Tribuna</i> é uma tribuna d'onde se prega o morticinio contra os
+portuguezes. E quer saber quem é o redactor d'este jornal, e o chefe da
+perseguição? é o conego Manuel José de Sequeira Mendes.</p>
+
+<p>&mdash;Bello padre! exclamei eu.</p>
+
+<p>«Por lá quasi todos são assim, crueis e devassos; o Brazil é uma nação
+nova, mas corrompida até á medulla dos ossos. No parlamento todos os
+deputados se vendem, e vendem-se a dinheiro de contado. Um francez que tem no
+Pará uma fortuna collossal, (disse-me o nome) escreveu um dia que dentro d'um
+certo numero de annos todos os deputados do Pará se lhe tinham vendido. A
+asserção ficou sem resposta.</p>
+
+<p>&mdash;Não imaginava tanto, mas fallemos do conego, chefe da perseguição.</p>
+
+<p>«E deputado ministerial. O visconde de Rio Branco não combate a
+<i>Tribuna</i>, não contradiz o grito&mdash;Mata gallegos&mdash;para não levantarem
+outro&mdash;Republica.</p>
+
+<p>&mdash;Mas porque é que no Rio de Janeiro não succede o mesmo?</p>
+
+<p>«No Rio de Janeiro dominam os capitaes portuguezes.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não auxiliam os portuguezes do Rio os do Pará?</p>
+
+<p>«Pela distancia. Umas provincias não podem ali influir sobre as outras.
+Mas o estado dos portuguezes no Pará é terrivel. Ha tempo um escravo matou um
+caixeiro portuguez; as leis do Brazil consignam para isto pena de morte sem
+possibilidade de intervenção do poder moderador; pois o jury absolveu o reu
+dizendo que o assassino tinha feito um acto meritorio; que matar um
+portuguez, um gallego, era ser benemerito da humanidade, etc. Esta inpunidade
+convida ao assassinato, e os portuguezes são roubados e garrotados na rua e
+em casa sem que a justiça proceda; ou se procede, termina pela absolvição, ou
+por penalidades, que são um novo insulto. O governo...</p>
+
+<p>&mdash;E a causa d'este odio?</p>
+
+<p>«Olhe, nós não comprehendemos o que tinhamos a fazer no Brazil, como o
+comprehendem os inglezes, os allemães e os francezes. Todos estes trabalham,
+accumulam e retiram-se; não fazem no Brazil uma casa, não fazem uma festa,
+não dão um jantar, não casam com uma brazileira; em ajuntando, retiram-se,
+edificam palacios na sua nação, dão banquetes e festas na sua nação, casam
+com as mulheres da sua nação, por isso não<span class="pagenum"><a
+id="pag_427" name="pag_427">[427]</a></span> dão na vista aos brazileiros;
+nós edificamos ali palacios, damos ali banquetes e festas, ali casamos,
+etc...</p>
+
+<p>Mas isso é conveniente ao Brazil; nós, dirigindo-nos assim,
+enriquecemol-o; fazer o que me diz que fazem os inglezes, francezes,
+allemães, é devastal-o.</p>
+
+<p>É verdade. Mas aquella gente não tem razão, tem só olhos. De quem é este
+palacio? E d'um marinheiro, ainda outro dia para ahi veio descalço. Ah! estes
+gallegos não se matam d'uma vez! etc.</p>
+
+<p>«E se os não matam d'uma vez, vão-os matando pouco a pouco.</p>
+
+<p>«A imprensa toca todos os dias a rebate....................</p>
+
+<p>&mdash;Que estado de coisas!</p>
+
+<p>«Olhe foi denunciado á Europa por um portuguez de valor, ainda rapaz,
+director da Agencia americana no Pará. A imprensa do Brazil accusou-o de
+faltar á verdade; e dinheiro, mulheres, tudo foi tentado para o fazer calar;
+elle deixou o Brazil, e veio para Portugal para responder d'aqui á imprensa
+brazileira; verá dentro em breve um livro repleto de factos, e Portugal
+poderá ver o que é o Brazil.</p>
+
+<p>&mdash;A terra da promissão com que sonham os nossos desherdados da fortuna.</p>
+
+<p>«Convertido em inferno pela mais baixa de todas as paixões&mdash;a inveja.»</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Passaram poucos dias, e, entrando no seminario de Coimbra, vi sobre uma
+meza de estudo um livro intitulado&mdash;<i>Questões do Pará</i>, por D. A. Gomes
+Pércheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Que livro é este? perguntei.</p>
+
+<p>Leve e leia.</p>
+
+<p>É d'este livro que vou dizer duas palavras ao leitor.</p>
+
+<p>O livro d'hoje e o livro d'hontem não se parecem em nada, como tambem se
+não parecem o homem d'hoje e o homem d'hontem. O livro d'hontem era pesado,
+mas solida espada para o ataque, ou escudo para a defesa; o livro d'hoje é
+liviano, innutil, a figura d'um <i>petit-maitre</i>, que tem palavras sem ter
+idéas, que, como a velha de Nicolau Tolentino, aprende a brir as risadas
+diante de um espelho; o livro d'hontem escrevia-se depois do estudo e no
+impulso d'uma crença; o d'hoje escreve-se antes do estudo e sob o dominio
+d'uma vaidade, que se quer vêr em letra redonda: o livro d'hontem era um
+facto, o d'hoje um fato.</p>
+
+<p>O livro do sr. D. A. Gomes Pércheiro não é o livro d'hoje, é<span
+class="pagenum"><a id="pag_428" name="pag_428">[428]</a></span> um livro
+excepcional, e, nos tempos do egoismo que correm, um milagre de
+patriotismo.</p>
+
+<p>A historia da litteratura não tem que inscrever nas suas paginas o nome do
+auctor porque, escrevendo no decurso de uma viagem, e todo occupado com o
+assumpto, o livro sahiu sem estylo, e mesmo menos ordenado do que devia ser e
+do que convinha que fosse; mas fazer a historia do livro, e resumir o que
+elle é, é traçar um elogio seguro e grandioso do auctor, declaral-o
+benemerito da nação, digno do respeito e da gratidão de todos os que forem
+portuguezes.</p>
+
+<p>A historia do livro é esta.</p>
+
+<p>Desenvolveram-se no Brazil violencias de odio contra os portuguezes; o
+governo, a administração, o poder judicial, sempre o ultimo a corromper-se,
+pozeram-se em affinidade com a bruteza d'estes rancores, que se têem
+resolvido em roubos e assassinatos n'umas vesperas sicilianas, lentas, mas de
+todos os dias e em que um padre prega do alto da imprensa, como evangelho
+d'uma nação, o morticinio dos alliados naturaes d'essa mesma nação, os unicos
+que podem enriquecel-a, fecundal-a e fazel-a grande.</p>
+
+<p>O sr. Gomes Pércheiro era empregado na Agencia americana do Pará; como
+portuguez, e como homem, indignou-o a perseguição que se movia aos seus
+patricios, e denunciou-a a Portugal e á Europa.</p>
+
+<p>Foi de coragem, e foi heroico o acto, porque os interesses, coisa a que
+tudo se sacrifica, foram sacrificados pelo sr. Pércheiro ao sentimento da
+humanidade e do amor da patria, que pedia a expressão da verdade a brados e
+repetida.</p>
+
+<p>Como Rousseau, o sr. Pércheiro tomou a divisa&mdash;<i>vitam impendere
+vero</i>&mdash;e a Agencia americana contou á Europa o que estava sendo o Pará.</p>
+
+<p>A imprensa brazileira levantou-se e desmentiu as asserções do sr.
+Pércheiro; sabemos mesmo, e permitta-nos o auctor das <i>Questões do Pará</i>
+que o digamos, que estando para casar com uma rica herdeira do Brazil, se
+empregou o credito da noiva para o dissuadir de dizer a verdade do que se
+passava no Pará com os portuguezes.</p>
+
+<p>Para poder dizer a verdade sem rebuço e sem melindre, o sr. Pércheiro
+quebrou o ajuste de consorcio: para responder á imprensa que o desmentia, o
+sr. Pércheiro fez-se á vela para Portugal, e no caminho veiu escrevendo o seu
+livro.</p>
+
+<p>Quantas são as obras que têem uma historia como esta? quantos os
+escriptores que, quebrando por affeições e por interesses, atravessam o
+occeano para virem dizer uma verdade?</p>
+
+<p>Ha no sr. Pércheiro uma individualidade nobre e digna de<span
+class="pagenum"><a id="pag_429" name="pag_429">[429]</a></span> respeito; o
+seu livro não é, como já dissemos, um livro d'estylo, é um livro de factos;
+conta-nos o triste estado dos portuguezes no Pará, documenta e prova o que
+diz; o seu livro é uma lição para Portugal, devia ser um desengano para os
+illudidos que vêem no Brazil uma nova terra da promissão. É tambem a estes
+que o auctor o dedica.</p>
+
+<p>Investigando as causas da emigração portugueza encontram-se talvez duas, a
+idéa que o povo ignorante e pobre faz do Brazil, e o facto de ser Portugal
+uma nação em que as industrias manufactoras não estão em proporção
+sufficiente com a industria agricola. Ora a miragem, que é construida de
+ignorancia, póde contribuir para destruir e esvaecer o livro do sr.
+Pércheiro. A França teve um ministro de coração e de genio que approveitava o
+clero para o fazer ensinar ao povo tudo o que podia concorrer para a
+felicidade d'elle. O ministro chamava-se Turgot. O governo portuguez podia, á
+similhança de Turgot, mandar distribuir o livro do sr. Pércheiro pelas
+parochias e escolas ruraes em que a emigração recruta mais gente, pedindo que
+o lessem e o dessem a ler, e que fizessem sobre o assumpto predicas e
+conferencias, que dissuadissem da emigração.</p>
+
+<p>Mas o que fazia Turgot, que era um genio, seria uma utopia ridicula para
+quem o não é: não sabendo já o que ha de fazer, para viver, o governo
+portuguez manda vir do estrangeiro o Espirito Santo, disfarçado em pombos, e
+bebe a inspiração nos arrulhos que elles soltam.</p>
+
+<p>Seja como fôr, o livro do sr. Pércheiro não será perdido; irá dar a luz a
+muitos espiritos, e mesmo quando assim não fosse, ficava de lição o
+desprendimento generoso e nobre com que o seu auctor atravessou o occeano e
+sacrificou interesses para proclamar a verdade.</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>J. F. L.</i></p>
+
+<p>(<i>19 e 20 de agosto.</i>)</p>
+<br>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot3608"></a><a href="#tex2html88"><sup>[85]</sup></a> Se, á
+similhança do que fizemos á policia, aqui ha mezes, fizermos o mesmo á
+empreza do theatro de D. Maria II, obrigando-a a cumprir á risca o contracto
+que manda fazer do nosso primeiro theatro normal um templo e não uma
+espelunca, onde, se assim continuarem as cousas, não tarda que a opera comica
+indecente substitua a comedia ou o drama que moralisa; se nós lhe desfiarmos
+um a um os artigos do contracto feito com o governo, é provavel que então nos
+venham pedir o drama para o representar, sem as condições vergonhosas que
+fazem d'aquelle estabelecimento uma casa de prego... já se sabe. Deixemos
+approximar a época de 1878-1879, e fallaremos a proposito em logar mais
+apropriado.</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<h4>Notas de Transcrição</h4>
+
+<p>O índice da obra aparecia no fim do original. Nesta versão electrónica o
+índice foi movido para o inicio para facilitar a navegação e consulta.</p>
+
+<p>O livro original tinha uma errata no fim, que apresentamos de seguida:</p>
+
+<h4>Errata original:</h4>
+
+<table border="0" align="center" summary="Errata original">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Pag.</td>
+ <td>Lin.</td>
+ <td>Erros</td>
+ <td>Emendas</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>19</td>
+ <td>17</td>
+ <td>algofares</td>
+ <td>aljofares</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>19</td>
+ <td>28</td>
+ <td>venenos</td>
+ <td>venenosos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>21</td>
+ <td>20</td>
+ <td>reunii-os</td>
+ <td>reunil-os</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>63</td>
+ <td>11</td>
+ <td>conscencioso</td>
+ <td>consciencioso</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>74</td>
+ <td>33</td>
+ <td>honrosa das</td>
+ <td>honrosas da</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>76</td>
+ <td>16</td>
+ <td>commer</td>
+ <td>comer</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>76</td>
+ <td>32</td>
+ <td>conscenciosos</td>
+ <td>conscienciosos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>78</td>
+ <td>8</td>
+ <td>contrastes</td>
+ <td>contractos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>79</td>
+ <td>34</td>
+ <td>auciliar</td>
+ <td>auxiliar</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>97</td>
+ <td>30</td>
+ <td>conscenciosos</td>
+ <td>conscienciosos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>161</td>
+ <td>17</td>
+ <td>menos</td>
+ <td>menor</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>161</td>
+ <td>26</td>
+ <td>(se elle roceiro!)</td>
+ <td>(se elle é roceiro!)</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>173</td>
+ <td>18</td>
+ <td>as repartições</td>
+ <td>das repartições</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>232</td>
+ <td>5</td>
+ <td>axplendorosos</td>
+ <td>esplendorosos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>251</td>
+ <td>21</td>
+ <td>condemnada</td>
+ <td>coordenada</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>268</td>
+ <td>25</td>
+ <td>trotou</td>
+ <td>tratou</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>272</td>
+ <td>28</td>
+ <td>despendida</td>
+ <td>despedida</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>276</td>
+ <td>32</td>
+ <td>Acompanhavam-os</td>
+ <td>Acompanhavamos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>276</td>
+ <td>33</td>
+ <td>passavam-os</td>
+ <td>passavamos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>320</td>
+ <td>7</td>
+ <td>1775</td>
+ <td>1875</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p><em>Outros erros ha de somenos importancia, que o leitor facilmente
+corrigirá.</em></p>
+
+<h4>Erros corrigidos nesta transcrição:</h4>
+
+<p>Durante a transcrição foram encontrados outros erros, não constantes na
+errata. Todos os que foram detectados foram corrigidos, sendo que os mais
+significativos são apresentados na lista abaixo, e os outros, menores, foram
+alterados sem qualquer indicação.</p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Errata de transcrição">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Pag.</td>
+ <td>Erro</td>
+ <td>Correcção</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>16</td>
+ <td>até aos 94</td>
+ <td>até aos 78</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>18</td>
+ <td>menciado</td>
+ <td>mencionado</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>25</td>
+ <td>energico&mdash;o liberal</td>
+ <td>energico&mdash;e liberal</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>35</td>
+ <td>VII (nº da secção)</td>
+ <td>VIII</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>36</td>
+ <td>AO SUL DO TEJO</td>
+ <td>AO NORTE DO TEJO</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>77</td>
+ <td>viagem d'esde</td>
+ <td>viagem desde</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>116</td>
+ <td>VI (nº da secção)</td>
+ <td>V</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>164</td>
+ <td>publição</td>
+ <td>publicação</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>165</td>
+ <td>declação</td>
+ <td>declaração</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>240</td>
+ <td>esta esta tróça</td>
+ <td>está esta tróça</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>241</td>
+ <td>Componeza</td>
+ <td>Camponeza</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>241</td>
+ <td>Caponeza</td>
+ <td>Camponeza</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>257</td>
+ <td>V (nº da secção)</td>
+ <td>IV</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>263</td>
+ <td>VI (nº da secção)</td>
+ <td>V</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>264</td>
+ <td>VII (nº da secção)</td>
+ <td>VI</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>266</td>
+ <td>VIII (nº da secção)</td>
+ <td>VII</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>271</td>
+ <td>IX (nº da secção)</td>
+ <td>VIII</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>272</td>
+ <td>X (nº da secção)</td>
+ <td>IX</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>277</td>
+ <td>XI (nº da secção)</td>
+ <td>X</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>278</td>
+ <td>XII (nº da secção)</td>
+ <td>XI</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>278</td>
+ <td>Questões Pará</td>
+ <td>Questões do Pará</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>280</td>
+ <td>borracha a castanha</td>
+ <td>borracha, a castanha</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>280</td>
+ <td>compra pelos colonos</td>
+ <td>comprados pelos colonos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>284</td>
+ <td>XIII (nº da secção)</td>
+ <td>XII</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>309</td>
+ <td>mencidade</td>
+ <td>mendicidade</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>317</td>
+ <td>em 1847</td>
+ <td>em 1874</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>320</td>
+ <td>em de 12 de abril</td>
+ <td>em 12 de abril</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>332</td>
+ <td>XVI (nº da secção)</td>
+ <td>XIV</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>374</td>
+ <td>pretende mostra,</td>
+ <td>pretende mostrar,</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>389</td>
+ <td>que este, livro</td>
+ <td>que este livro</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>395</td>
+ <td>parecer exagerando</td>
+ <td>parecer exagerado</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>429</td>
+ <td>d'estylo, um livro</td>
+ <td>d'estylo, é um livro</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Portugal e Brazil: emigração e
+colonisação, by Domingos Antonio Gomes Pércheiro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PORTUGAL E BRAZIL ***
+
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
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+
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+
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+License as specified in paragraph 1.E.1.
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+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
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+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ http://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
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