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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Eucalyptos e Acacias + Vinte annos de experiencias + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: January 6, 2009 [EBook #27715] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK EUCALYPTOS E ACACIAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div style="text-align: center; border: solid 1px #000000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.5em;">LIVRARIA DO LAVRADOR</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">XXXII</p> + +<hr style="width: 80%; border: 0; border-top: solid 1px #000000; border-bottom: solid 1px #000000; height: 5px;"> + +<p style="font-size: 1.1em;">JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">EUCALYPTOS E ACACIAS</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">Vinte annos de experiencias</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">PUBLICAÇÃO DO «LAVRADOR»</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">(PROPRIEDADE REGISTADA)</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +Officinas do "Commercio do Porto"<br> +102—Rua do "Commercio do Porto"—112<br> +1920</p> +</div> + +<p> </p> +<div id="corpo"> +<p><span class="pagenum"><a name="pag_III" id="pag_III">[III]</a></span>«Avaliando os lucros da silvicultura, dois factos devemos ter em +conta: o consumo progressivo da madeira por cada habitante, em todo o mundo, +apesar da introducção de materiaes que a substituem; e mais a exploração, +destroço e destruição das florestas virgens pelo fogo, especialmente das que +continham as madeiras de construcção mais importantes. D'aqui resultou já uma +escassez apreciavel de offerta de madeira, como é manifesto pela firme subida +de preços em todos os mercados e pela baixa de qualidade. Não parece possivel +fugir á conclusão de que esta tendencia ha-de continuar a accentuar-se, e de +que por todo este seculo temos a contar com uma subida de preços certa e +muito consideravel. A segurança de collocação economica que a cultura +florestal offerece tem, por conseguinte, todas as probabilidades de ser +d'aquellas que vão melhorando com um augmento de lucros correspondente.»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_IV" id="pag_IV">[IV]</a></span>Isto dizia um interessantissimo relatorio apresentado, em 1909, ao +parlamento inglez, por uma commissão nomeada para dar parecer sobre varias +questões que se prendiam com o desenvolvimento da cultura florestal na +Inglaterra, de iniciativa e conta do Estado. E, se isto era uma verdade de +larguissimo alcance então, antes da guerra, e indiscutivelmente o era, agora, +depois do desperdicio colossal de madeiras a que acabamos de assistir, e +quando madeiras faltam para tudo, achamos o salutar aviso de homens +intelligentes e auctorisados já posto em termos de demonstração prática +eloquentissima, com que a calamidade confirmou a previsão e o conselho.</p> + +<p>Observa aquelle relatorio que as mattas, davam «um producto para o qual +parecia haver uma procura quasi illimitada». Mas hoje o problema aggravou-se, +a ponto de que não ha que discutir as possibilidades de procura que os +productos florestaes possam ter. Apenas teremos a cuidar de saber por que +modos se poderá attenuar a fome de madeiras que vai pelo mundo, e +particularmente na Europa, partindo do principio que a satisfação completa é +de todo impossivel, tratando-se de uma riqueza que na melhor hypothese leva +25 annos a criar e, em muitos casos,<span class="pagenum"><a name="pag_V" id="pag_V">[V]</a></span> aliás normaes, carece de 80 annos +para se constituir capazmente.</p> + +<p>Evidentemente, não ha caixa economica que, em segurança e rendimento, se +compare com a plantação d'uma arvore. É capital posto muitas vezes a 100, 200 +ou 300% ao anno. Meu pai vendeu a 4$500 réis <i>Eucalyptos</i> de 20 annos, +cuja plantação lhe havia custado a 40 réis cada um, ha muito tempo, quando +ainda em Portugal se usavam libras; e eu vendi agora a 18 escudos australias +plantadas ha 17 annos, e postas na terra a menos de tostão cada uma. Os +economistas costumam dizer que a exploração florestal é empreza a tão largo +praso que não ha que fiar na paciencia e tenacidade individual, e deve ser +confiada á administração do Estado e á sua persistencia. Mas, pois que muitas +coisas fazemos sómente <i>para deixar aos filhos</i>, eu diria a quem podésse +dispõr de um modestissimo peculio que comprasse uma leirita de bravio e a +arroteasse e plantasse de arvores, se queria estar certo de multiplicar seus +parcos bens e legar aos filhos um pé de meia em que não entra traça e que +durante a vida nos deu sombra e prazer, e esta inefavel delicia de criar.</p> + +<p>É n'estas circumstancias que por favor da natureza, e favor muito menos +vulgar do<span class="pagenum"><a name="pag_VI" id="pag_VI">[VI]</a></span> que geralmente se imagina, nos achamos senhores de largas +regiões onde é possivel a cultura do <i>Eucalypto</i>, com antecipada certeza +de sua prosperidade. Li algures que o <i>Eucalypto</i>, em igualdade de +situação, dá cinco vezes o producto do carvalho. Haverá casos de dar menos e +haverá tambem casos, infinitamente mais numerosos, de dar muito mais; mas, +sem muito nos prendermos com o rigor de numeros que a natureza nas suas +divagações e caprichos transgride de contínuo, podemos ter por averiguado e +fóra de duvida que não ha entre nós arvore florestal de maior rendimento em +volume e peso do que o <i>Eucalypto</i>.</p> + +<p>Por isso me convenci de que não seria totalmente inopportuna e esteril a +publicação d'estas notas da experiencia da cultura de algumas dezenas de +especies de <i>Eucalyptos</i>, a que ha vinte annos me dedico. Alguma coisa +n'ella haverá que possa aproveitar aos nossos lavradores. Sobretudo me parece +que, além do <i>E. globulus</i>, convém que, sem demora, plantemos mais meia +duzia, pelo menos, de outras especies que se distinguem, ou pela superior +qualidade da madeira, ou pela faculdade de adaptação a terrenos que o <i>E. +globulus</i> engeita e que nenhuma das nossas arvores acceita com promessa de +rendimento<span class="pagenum"><a name="pag_VII" id="pag_VII">[VII]</a></span> comparavel ao de certas variedades de <i>Eucalyptos</i>, +ás quaes uma tradicional preguiça não concedeu ainda logar dentro dos +vallados das suas mal povoadas mattas.</p> + +<p>O leitor talvez estranhe que eu aqui tomasse nota de muitas variedades por +diversos motivos condemnadas. Mas persuadi-me de que nem assim convinha +ignoral-as; os livros e os catalogos estrangeiros facilmente induzem em +esperanças e enthusiasmos que não raro e facilmente só a desenganos conduzem, +e imagino que onde eu desenganado me encontrasse em emprehendimentos que +custam algum dinheiro, muitos cuidados e grande perda de tempo, seria de +duvidosa camaradagem e rematado mau gosto ficar calado e pelo silencio deixar +que os companheiros corressem a precipitar-se em igual desastre.</p> + +<p>Eixo, 26 de Janeiro de 1920.<span class="pagenum"><a name="pag_9" id="pag_9">[9]</a></span></p> + + +<h1>Eucalyptos e Acacias</h1> + + +<h2>I<br> +<small class="SMALL">Do logar do Eucalypto na economia florestal do nosso +paiz e da apreciação do valor dos seus productos</small></h2> + +<p>Tem já historia a cultura do <i>Eucalypto</i> na Europa, embora não tão +remota como a data do descobrimento d'estas arvores soberbas nos auctorisaria +a suppôr. O primeiro registado nos annaes dos exploradores, o <i>Eucalyptus +obliqua</i>, foi visto na Australia por l'Héritier, em 1788, e por elle +annunciado então ao mundo scientifico; e onze annos depois, em 1799, achado +por Labillardière, vinha o <i>Eucalyptus globulus</i>, «o principe dos +Eucalyptos», no dizer do Barão de Mueller, por sua vez tambem principe no +estudo d'este genero de plantas. Sempre terão de recorrer aos seus preciosos +trabalhos quantos em similhante cultura se acharem interessados. Todavia, só +do meado do seculo XIX em diante começou a reconhecer-se a importancia do +<i>Eucalypto</i>, comquanto «o prolongado desprezo de arvores de tão +maravilhoso valor pareça agora quasi indizivel e enygmatico»,<span class="pagenum"><a name="pag_10" id="pag_10">[10]</a></span> segundo +tambem, e com toda a justiça, observa aquelle grande e illustre mestre.</p> + +<p>Para nós, apesar de possuirmos nas collecções scientificas alguns +exemplares antigos, de 1850 ou pouco depois, o tempo da passagem do +<i>Eucalypto</i> dos viveiros escolares para a cultura economica usual poderá +começar em 1870. É de 1870 a <i>Breve noticia sobre o Eucalypto globulus</i> +do illustre propagandista snr. Duarte de Oliveira, e de 1876 o <i>Eucalyptus +globulus</i> de Carlos de Souza Pimentel. Essas publicações, ainda hoje de +considerar na grande maioria das suas observações, marcam uma época, o inicio +intelligente e fecundo d'esta cultura florestal.</p> + +<p>A esse tempo, não havia virtude de que o <i>Eucalypto</i> não commungasse. +Crescia rapidamente, multiplicaria milagrosamente a riqueza florestal em +proporções descommunaes, povoava os desertos, soffria toda a inclemencia da +atmosphera e do sólo, purificava os logares insalubres, livrava das febres +paludosas, dava madeira excellente para todos os fins, rebelde á podridão, e +distillava oleos, essencias e medicamentos preciosos. N'esta fé se plantaram +muitos <i>Eucalyptos</i> pelas nossas provincias e por todo o littoral do +Mediterraneo. Plantaram-se bem e plantaram-se mal, onde vingavam e onde +morriam, n'uma variedade de condições infinita; e, por isso, houve plantações +que foram maravilha de prosperidade e opulencia, e outras houve tambem que se +tornaram exemplo tremendo de miseria e ruina. Não podia deixar de haver de +tudo isto n'uma experiencia feita em tão larga escala, em grande parte filha +de illusorias e arrebatadas esperanças, mal consideradas, de todo alheias a +uma sensata<span class="pagenum"><a name="pag_11" id="pag_11">[11]</a></span> observação das coisas, desde principio condemnadas a +naufragio por violação de leis impreteriveis da natureza.</p> + +<p>Seguiu-se a reacção contra os impulsos da primeira hora. Os que haviam +sido infelizes se encarregaram de a proclamar, pondo á conta da debilidade e +insignificancia da arvore o que frequentemente era apenas a consequencia da +mingua de reflexão de quem precipitadamente a havia plantado. Então, não +houve defeito de que não se accusasse o <i>Eucalypto</i>: não resistia nem ao +sol, nem ao frio, nem á pobreza da terra; onde crescesse, edificava um abrigo +temeroso para os passaros que devastavam as seáras; estragava os mattos e +logo de começo ficava caro pela despeza da plantação. A madeira não prestava +para nada; estalava por mil modos, torcia e rachava ao seccar, apodrecia +depressa, quando enterrada ou mesmo fóra da terra, e demais o córte das +arvores tornava-se dispendiosissimo em muitos casos pelo volume monstruoso +que ellas tinham attingido. Quanto a effeitos de saneamento, pura phantasia; +em vez de beneficios, o <i>Eucalypto</i> importava calamidades. Não só onde +havia plantação de <i>Eucalyptos</i> e as condições hygienicas haviam +melhorado, a melhoria provinha de outras causas; mas até acontecia que o +<i>Eucalypto</i> era nocivo, creando na casca e na sombra humida viveiros de +mosquitos, e assim se convertendo indirectamente em agente disseminador de +febres palustres.</p> + +<p>Tudo isto se dizia e se jurava.</p> + +<p>Como, porém, havia plantações que tinham medrado e offereciam bons córtes, +entrou no debate um elemento novo e resolveu a questão;<span class="pagenum"><a name="pag_12" id="pag_12">[12]</a></span> veio o +mercado e em termos do seu uso garantiu que os <i>Eucalyptos</i> eram +excelentes. Comprando-os, pagando-os por um preço altamente remunerador, +dando-lhes variadissimo destino, decidia com todo o desrespeito pelas +academias e seus libelos, que os <i>Eucalyptos</i> constituiam uma cultura, +pelo menos lucrativa. N'uma reacção contra a reacção, volta-se á primeira +fórma, e eis que aquella cultura começou a insinuar-se por todos os cantos, +entre as fagueiras esperanças dos que n'ella se empenhavam e as liquidações +vantajosas dos que, tendo ido á frente, começavam a arrecadar os proventos, +não raro avultados, da sua audacia.</p> + +<p>A verdade será que nem o <i>Eucalypto</i> tinha os poderes miraculosos de +resgate de esterilidade que o primitivo enthusiasmo de botanicos e de +iniciadores annunciou, nem tambem, e muito menos, era a nullidade economica e +o perturbador nocivo que o estouvamento e má sorte de alguns cultivadores +desastrados proclamava.</p> + +<p>A madeira do <i>Eucalypto</i> é magnifica, incontestavelmente, quando lhe +tivermos dado o tempo necessario para amadurecer capazmente. Cortaram-se +<i>Eucalyptos</i> com 10 ou 12 annos e não deram madeira que prestasse. Não +podia prestar. Pois se essas arvores eram herva!... D'essa idade, que +consistencia podiam ter! Uma arvore, seja de que especie fôr, não demanda +menos de 30 ou 40 annos para criar cerne e endurecer. Se está feita aos 25, e +isso não raro acontece com o <i>Eucalypto</i>, já foi grande fortuna.</p> + +<p>Demais, para apreciação da madeira de <i>Eucalypto</i>, fomos buscar um +padrão subido, dos mais subidos. Comparamol-o com o carvalho. Por<span class="pagenum"><a name="pag_13" id="pag_13">[13]</a></span> +pouco iriamos até ao mogno e ao pau santo. Não é d'isso que se trata; não se +pensa em trocar pelo <i>Eucalypto</i> essas madeiras que formam uma +aristocracia; apenas se procura auxiliar e engrandecer as plebes florestaes, +associando-lhes plantas novas da sua igualha. É ao choupo, ao amieiro, á +nogueira, ao ulmeiro, á cerejeira, sobretudo ao pinheiro, que temos de +referir o valor do <i>Eucalypto</i>. Com estas e outras madeiras da classe +das communs a que estas pertencem, temos de o comparar, e perante ellas +achar-lhe-hemos uma superiosidade indiscutivel a todos os respeitos—pela +rapidez do desenvolvimento e pelo volume dos troncos, pela duração, pela +belleza, (em obra confunde-se facilmente com o castanho), pela resistencia, +pela elasticidade e pela faculdade, aliás de summa importancia, de durar na +agua mais do que qualquer outra das nossas arvores. De que se trata é +unicamente de plantar <i>Eucalyptos</i> onde estavam pinheiros, e de tirar +das margens dos nossos rios e das areias dos seus campos um rendimento +florestal superior ao que actualmente d'alli podemos colher com as arvores +que lá temos. Pela minha parte, direi que não semearei mais um pinheiro onde +possa plantar um <i>Eucalypto</i>; todas as experiencias de comparação que +n'este sentido fiz durante 20 annos, e em terrenos, no geral, ruins, +pedregosos, frios e magros, me auctorisam sem discrepancia esta conclusão. +</p> + +<p>Muitas são as vantagens do <i>Eucalypto</i>, mas entre todas avulta a +facilidade e vigor com que rebenta dos troncos cortados. O mesmo terreno dá +dois e tres córtes de madeira, sem necessidade de renovar a plantação ou +sequer, a cultura, e advertindo—circumstancia devéras apreciavel e<span class="pagenum"><a name="pag_14" id="pag_14">[14]</a></span> +que muitos ignoram—que as segundas camadas, sem duvida porque a robustez do +raizame e a condição das seivas lh'o facultam, criam cerne immediatamente, ao +contrario do que é a regra com a primeira haste, prompta em crescer, mas +lenta em amadurecer. Assim, nas segundas camadas, as varas delgadas, de seis +ou oito annos não dão ordinariamente mais de 25 por cento de cerne. O Barão +de Mueller diz que a renovação do <i>Eucalypto</i> pelos rebentos das hastes +cortadas é sobretudo propria de arvores não muito antigas e não se opera com +igual força e promptidão nas differentes especies. Entre os mais faceis em +rebentar, menciona o <i>E. globulus</i> e o <i>E. amygdalina</i>, e acha o +<i>E. rostrata</i> dos menos inclinados a este modo de renovação. Mas nas +minhas plantações, provavelmente por serem recentes, todas as especies téem +rebentado admiravelmente. Foram rarissimos os <i>Eucalyptos</i> que não +rebentaram depois de cortados, e n'esses as baixas mostram ser accidentaes, +questão de condição individual e não commum á especie que n'outros exemplares +provou a sua faculdade de renovação.</p> + +<p>Como combustivel, as analyses do snr. C. Lepierre, publicadas pelo snr. W. +C. Tait, em 1915, mostram que a lenha de <i>Eucalypto</i> dá 4:353 calorias +onde a lenha do pinheiro não passa de 3:200—isto é, a lenha do +<i>Eucalypto</i> tem um terço a mais do poder calorifero da lenha de +pinheiro; e póde mesmo substituir o carvão, valendo um kilo de lenha de +<i>Eucalypto</i> por 550 grammas de hulha. De modo que, para este effeito, +quando, por exemplo, uma tonelada de pinheiro custar 12 escudos, a de +<i>Eucalypto</i> deve valer 16. E, se considerarmos que a mesma superficie +plantada de <i>Eucalyptos</i><span class="pagenum"><a name="pag_15" id="pag_15">[15]</a></span> ou semeiada de pinheiros dá no primeiro +caso um volume de madeira que é tres ou quatro vezes, pelo menos, aquelle que +póde produzir na segunda hypothese, por ahi se calculará quanto vale a +substituição do pinheiro pelo <i>Eucalypto</i>, ainda que não seja senão para +criar lenha.</p> + +<p>Secarão os <i>Eucalyptos</i> as fontes, segundo muitos crêem? Desconfio. +Ganharam essa fama e provavelmente continuarão a soffrel-a, se os que téem +minas e canalisações debaixo das raizes dos <i>Eucalyptos</i> não as limparem +assiduamente. As raizes dos <i>Eucalyptos</i>, no seu rapido desenvolvimento, +depressa obstruirão completamente essas minas e canalisações, +transviando-lhes e sumindo-lhes as aguas. Se, porém, houver os necessarios +cuidados de limpeza, creio que tal não acontecerá, pois sobre este quesito +posso dar testemunho de que, tendo ha quarenta annos um macisso colossal de +<i>Eucalyptos</i> sobre uma nascente, nunca esta deu signal de +enfraquecimento. É hoje o que sempre foi.</p> + +<p>Dão abrigo aos passaros—evidentemente, como todo o arvoredo. Se isso +houvesse de ser motivo de depreciação do <i>Eucalypto</i>, importaria a +condemnação de todas as florestas. O que faltou dizer, quando se aduziu +semelhante prejuizo do <i>Eucalypto</i>, é se essas aves que elles abrigam +não valem bem o que pastam nos campos e se sem ellas não corre grave risco a +nossa saude e o nosso sustento, pela invasão de uma fauna bem mais +destruidora do que as aves, e da qual as aves são inimigos infatigaveis e +mortaes. Isto reduzindo a questão a termos meramente economicos, porque, se a +apreciassemos por considerações moraes e estheticas, não podia subsistir +um<span class="pagenum"><a name="pag_16" id="pag_16">[16]</a></span> instante. A belleza, o conforto e a protecção do arvoredo de +qualquer especie serão eternamente um regalo dos sentidos incomparavel e um +mysterioso mas efficaz elixir de paz de espirito.</p> + +<p>Mas os <i>Eucalyptos</i> dão cabo dos mattos, ou melhor, do tojo. É este +um dos artigos mais repetidos da excommunhão dos <i>Eucalyptos</i>.</p> + +<p>Sobre isso, não haja duvida. É muito certo. O <i>Eucalypto</i> é +absorvente, onde se planta, logo se apossa absolutamente da terra, como +inevitavelmente, sempre terá de acontecer com toda a especie vegetal de +natureza opulenta. O <i>Eucalypto</i> reclama tudo para si; necessidades +formidaveis de sustentação assim o determinam. Que eu saiba, apenas as +acacias, as hakeas e os sobreiros lhe supportam a vizinhança e apezar d'ella +se mantéem e medram. O que resta saber e aqui constitue todo o problema, é se +vale a pena conservar o matto onde podemos crear <i>Eucalyptos</i>. Ora, um +hectare com 1:000 <i>Eucalyptos</i> dará, ao fim de 25 annos, 5 contos, +calculando cada <i>Eucalypto</i> a 5 escudos, preço modesto. Serão 200 +escudos por anno. E quantas carradas de matto seriam necessarias para que +esse hectare produzisse rendimento semelhante? Haverá mesmo algum pedaço de +matto em Portugal dando rendimento que com aquella cifra se compare?</p> + +<p>O lavrador corre a affirmar que não póde dispensar os mattos para adubo +dos campos. Mas suspeito de que haverá agronomos que discordem, respondendo +que semelhante processo de adubação é tão antiquado como pobre. As adubações +em verde, com a sua riqueza de azote, barateza de applicação e mais vantagens +scientificamente demonstradas, e os adubos mineraes,<span class="pagenum"><a name="pag_17" id="pag_17">[17]</a></span> de uma efficacia +admiravel e de uma commodidade de transporte unica, vão deixando para um +derradeiro e pesado recurso as adubações pelo tojo, de proveito minguado e +lento e preparação dispendiosa, reclamando uma somma de trabalho que não está +em proporção da riqueza fertillisante do adubo, seriamente estorvada por +difficuldades de decomposição desanimadoras. Não, não será o tojo que +economicamente possa medir-se com o <i>Eucalypto</i>.</p> + +<p>Dar-se-ha, porém, o abstruso caso da insalubridade das mattas de +<i>Eucalypto</i>, por propicias á propagação dos mosquitos? Abrirão ellas uma +excepção na velha e incontestada crença pupular de que as arvores são +beneficas para a saude de quem entre ellas habita?</p> + +<p>Sobre esse ponto atrevo-me a ter opinião propria, com toda a arrogancia do +incompetente que não é medico nem homem de sciencia.</p> + +<p>O Barão de Mueller falla do «grande poder de exhalação» que os +<i>Eucalyptos</i> possuem, e na minha intimidade com essas arvores +casualmente vi demonstrada essa assombrosa capacidade de exhalação. Puz +flôres em diversos vasos de vidro, d'estes vulgarmente chamados «solitarios», +e entre elles ficou um contendo unicamente ramos e flôres do <i>Eucalyptus +gracilis</i>. Passadas vinte e quatro horas, vi quasi sem agua o vaso do +<i>Eucalypto</i>, emquanto os outros a conservavam aproximadamente na altura +em que na vespera a deixára, o que aliás era de esperar passando-se isto em +dezembro, mez em que a evaporação é frouxissima. Enchi de novo o vaso no qual +a agua baixára e, passadas as segundas vinte e quatro horas, de novo a agua +desapparecêra, como da<span class="pagenum"><a name="pag_18" id="pag_18">[18]</a></span> primeira vez. Seguidamente, repeti a +experiencia e o resultado foi invariavelmente o mesmo. Percebi então o que +era o extraordinario «poder de exhalação» do Eucalypto.</p> + +<p>Ora, sendo assim com os ramos cortados, cuja vitalidade necessariamente +terá abrandado pelo córte, pergunto que especie de atmosphera será a que +cobre uma floresta de <i>Eucalyptos</i> e a sua visinhança immediata, e não +posso deixar de suspeitar que essa atmosphera será permanentemente moderada +por uma evaporação que tanto ha-de quebrar a violencia do calor no estio, +como o rigor do frio no inverno. Será um manto precioso para a actividade do +corpo e uma fonte continua de suavidade para os sentidos. Se isso não é +salutar, não sei o que o seja nem o que deva buscar para ter saude.</p> + +<p>Quanto aos effeitos therapeuticos das essencias derivadas do +<i>Eucalypto</i>, especialmente das folhas e dos seus oleos, respondem os +formularios pharmaceuticos e o uso medico actual. Mas convem lembrar que esse +será um rendimento secundario, apenas subsidiario, nas plantações de +<i>Eucalyptos</i> em larga escala.</p> + +<p>Para preencher os pedidos da pharmacia, bastará uma quantidade de arvores +muito reduzida. Por ahi o lavrador não enriquece, e nem sequer achará mercado +sufficiente, se tem muitas arvores para vender.</p> + +<p>E, porventura, o mesmo se poderá dizer do <i>Eucalypto</i> como pasto das +abelhas. Sem duvida, não haverá melhor planta para este fim; a profusão de +flôres em cada especie e a diversidade de época em que as differentes +especies florescem, facultam sustento ás abelhas na maior parte<span class="pagenum"><a name="pag_19" id="pag_19">[19]</a></span> do +anno, senão mesmo durante todos os mezes do anno. Sobretudo o <i>Eucalyptus +cosmophylla</i> torna-se notavel sob este aspecto; vingando bem em terras +nossas, floresce no principio do inverno, quando a escassez de flôres nos +montes é extrema.</p> + +<p>Não tenho elementos para conjecturar até que ponto será remuneradora a +cultura do <i>Eucalypto</i> como planta melifera. Parece-me, todavia, que +alguma cousa ha ainda a experimentar e estudar n'este capitulo, +particularmente com a especie que acabo de apontar.</p> + + + +<h2>II<br> +Cultura do Eucalypto</h2> + +<p>A cultura do <i>Eucalypto</i> tornou-se facilima e corrente entre nós. +Hoje, o <i>Eucalypto</i> vende-se nas feiras á duzia e ao cento como as +couves, enterra-se depois pelo meio dos mattos em covachos abertos a esmo, e +n'esta barbarie, com estes cuidados elementares por demais resumidos, vinga, +se o terreno lhe agrada e a humidade atmospherica o favorece, ou se não +sobrevêm dois ou tres dias de nordeste que o mirram. Assim se téem criado +arvores magnificas.</p> + +<p>Sempre aconselharei, porém, mais algum esmero a quem quizér proceder com +segurança ou com minguado risco de perder o tempo e o dinheiro.</p> + +<p>De quantos processos de cultura experimentei, e creio ter percorrido a +escala toda ou pouco<span class="pagenum"><a name="pag_20" id="pag_20">[20]</a></span> menos, o que decididamente offerece mais +probabilidades de exito começa pela sementeira em vasos ou caixões, seguida +da transplantação de cada pé para seu vaso privativo—sementeira em abril ou +ainda mesmo na primeira quinzena de maio; transplantação para vasos de 8 e 10 +centimetros de bocca e altura correspondente, quando as plantas estão de 3 a +4 centimetros; plantação definitiva, logo no começo do outomno, de exemplares +não muito grandes, de cerca de palmo, tirados dos vasos antes que as raizes +comecem a enrodilhar-se, como sempre acontece se se prolonga a estação nos +vasos, determinando-lhes aquella fórma de desenvolvimento em espiral que +ulteriormente conservam e as prende mal á terra, sujeitando a arvore a cahir +quando o temporal a açoite. As transplantações para vasos deverão fazer-se +pela fresca, de manhã cedo ou á tardinha, onde o sol não toque a raiz; a +simples exposição da raiz a uma atmosphera secca e quente, por poucos minutos +que seja, bastará para inutilisar alguns pés e atrazar nos demais a renovação +do crescimento interrompido pela transplantação. Deverão os vasos ser postos +á sombra, durante quinze dias, e quer então, quer posteriormente, depois de +passados para o sol, convém regal-os abundantemente duas vezes por dia, de +manhã e á tarde. Em outubro e d'ahi por diante até aos primeiros dias de +março, abrindo apenas um parenthesis durante o tempo das geadas mais +rigorosas, poderá proceder-se á plantação definitiva. Para esta, será grande +vantagem cavar ou lavrar primeiro a eito o terreno da plantação, abrindo +depois de tres em tres metros covas de tres palmos em toda a direcção<span class="pagenum"><a name="pag_21" id="pag_21">[21]</a></span> +e tendo o cuidado de picar bem fundo o leito da cova. Bem sei que se +encontram bellissimos <i>Eucalyptos</i> plantados em covas sem arroteamento +prévio de toda a terra, e não é cousa que eu não tenha feito e repetido, +algumas vezes com resultado; mas para mim não soffrem duvidas as vantagens +incalculaveis do arroteamento prévio. É miraculoso.</p> + +<p>A sementeira em viveiros e a plantação definitiva immediata é o processo +vulgar, o mais usado, ficando contente o lavrador quando achou e comprou +exemplares bem desenvolvidos, frequentemente de um metro de altura e mesmo +mais. Mas, a não ser em terrenos cultivados e muito frescos, ainda não +observei factos que me demonstrem a vantagem de semelhante regra. Não só por +este systema as probabilidades de vingar serão largamente reduzidas porque na +transplantação se inutilisaram as raizes mais delicadas; simultaneamente e +tambem por effeito da perda d'essas raizes, os <i>Eucalyptos</i> grandes +levarão tanto tempo a pegar que os pequenos, não havendo soffrido igual perda +e trazendo intacto do viveiro todo o raizame, depressa alcançam e ultrapassam +os que foram plantados já grandes.</p> + +<p>Sementeiras de outomno nunca me deram boa prova. Não vingam tão facilmente +como as da primavera e prolongam inutilmente, e até prejudicialmente, o tempo +de viveiro; não crescem tanto que estejam em termos de plantação definitiva +na primavera immediata á sementeira, e ficarão demasiado desenvolvidas para +plantação ao fim de um anno, no outomno seguinte depois da sementeira.</p> + +<p>A melhor época para colher a semente é o<span class="pagenum"><a name="pag_22" id="pag_22">[22]</a></span> fim do inverno, quando as +capsulas só esperam o calor de março para expontaneamente se abrir e lançar á +terra a semente. Antes d'isso, as capsulas murcham muito, quando se colhem, e +téem certa difficuldade em largar a semente, o que indicará talvez um +amadurecimento imperfeito. Segundo o Barão de Mueller, a semente do +<i>Eucalyptus globulus</i> conservaria durante 4 annos o poder germinativo +que no <i>Eucalyptus amygdalina</i> vai até 6 annos e n'outras especies +alcança mesmo 13 annos, se a semente foi conservada em logar secco e frio. +Mas tenho-me dado mal com sementes velhas; em regra, poucas nasceram. Por +isso, direi:—Semente fresca, o mais possivel, de poucas semanas, e até de +poucos dias, podendo ser. Vai n'isso uma vantagem manifesta.</p> + +<p>Exceptuando as argilas e os calcareos, todo o terreno convém ao +<i>Eucalypto</i>, comtanto que não seja fundado em rocha a pequena +profundidade e dê ás raizes possibilidade de penetração. Tenho lido que o +<i>Eucalyptus gomphocephala</i> e o <i>cornuta</i> supportam os barros e os +calcareos; não vi, porém, ainda demonstração prática d'essa faculdade +auctorisando qualquer experiencia de certa latitude. O livrinho de Souza +Pimentel diz que o <i>Eucalypto</i> viverá onde o sobreiro viver, e +inclino-me a crêr que essa indicação será, em geral, segura. O certo é que o +<i>Eucalypto</i> é facil de contentar quanto a terreno e capaz de vestir e +enriquecer os mais ingratos, desde os seixos frios das charnecas até as +areias mais safaras.</p> + +<p>Outro tanto não se poderá dizer das exigencias do <i>Eucalypto</i> em +materia de clima. Na Australia supporta temperaturas de 70° centigrados ao +sol e algumas especies ha, como o <i>Eucalyptus largiflorens</i><span class="pagenum"><a name="pag_23" id="pag_23">[23]</a></span> e o +<i>polyanthema</i>, que affrontam impunemente as nossas estiagens mais duras. +Mas desenganemo-nos, tanto mais que os enganos poderão sahir caros ao +lavrador, como aconteceu na Argelia; o <i>Eucalypto</i> é arvore de climas +moderados, alegra-se na frescura e soffre deveras com o frio. Em temperaturas +inferiores a 4° centigradus abaixo de zero, dá logo signais de doença, e nas +especies mais melindrosas gela até ao colo da raiz, mesmo quando já está com +alguns metros de altura. Isto me aconteceu, por exemplo, com o <i>Eucalyptus +maculata</i>; perdi n'um só inverno quantos tinha, já muito crescidos e +lindos.</p> + +<p>Sobretudo, acabemos por uma vez com a illusão de que os <i>Eucalyptos</i> +podem formar abrigos contra o vento do mar. Tenhamos bem presente a preciosa +recommendação de Souza Pimentel, que, sendo de 1876, ainda hoje carece de ser +repetida, tão lenta é a diffusão dos conhecimentos agricolas:—«Apezar do +clima maritimo ser muito favoravel para os <i>Eucalyptos</i>, não devemos +fazer plantações d'esta arvore em sitios muito proximos do mar e que estejam +directamente expostos ás emanações salgadiças e aos ventos muito violentos do +littoral; ou então procederemos de modo que as plantas fiquem abrigadas por +alguma elevação natural, ou outra qualquer defeza, o que é facil encontrar.» +Quererá o <i>Eucalypto</i> sentir o alento das aguas do mar, mas onde lhe +chegue isento de toda a aspereza que é caracteristica da nossa costa +maritima.</p> + +<p>Sem embargo, a grande zona do <i>Eucalypto</i>, em Portugal, aquella que +admitte largo numero de especies e lhes assegura condições de desenvolvimento +perfeito, será essa que as brumas maritimas<span class="pagenum"><a name="pag_24" id="pag_24">[24]</a></span> de perto ou de longe e em +toda a estação bafejam. O fallecido e benemerito Bernardino Barros Gomes, nas +<i>Cartas elementares de Portugal</i> que, a meu vêr, continuam sendo um +documento fundamental no estudo da physiographia do nosso paiz, acha a linha +culminante que domina a vida physica do paiz na extensissima cordilheira que +com depressões de variada profundeza vai subindo lentamente do Cabo da Roca á +Estrella, pelas serras de Cintra, Aire e Louzã, e da Estrella vai a Larouco, +na fronteira da Galliza, pelas serras de Montemuro, Marão e Gerez. «Linha +seguida de condensação mais extensa e elevada não ha no paiz: 1:580, 1:206, +1:422, 1:389 1:993 e 1:202 são as alturas dos seus pontos culminantes, +marcados na carta geographica com os nomes de Larouco, Gerez, Marão, +Montemuro, Estrella e Louzã.» São essas as muralhas que os ventos do mar téem +a vencer na passagem para o interior da Peninsula, e por sua poderosa +influencia de condensação essas serras dividem o paiz ao norte do Tejo em +duas grandes zonas—littoral e interna.</p> + +<p>Ora, é esta zona littoral ao norte do Tejo que eu julgo ser a grande zona +da cultura do <i>Eucalypto</i> em Portugal—na faixa média, isto é, a +distancia sufficiente do mar, para não soffrer com o rigor da ventania, e +limitando-se na subida ás alturas, para não morrer victima dos gelos, devendo +todavia notar que a 600 metros de altitude tenho encontrado lindos exemplares +do <i>Eucalyptus globulus</i> e que, se o <i>Eucalyptus globulus</i> prospera +n'essas alturas, é de suppôr que o <i>Eucalyptus amygdalina</i>, o +<i>coriacea</i> e o <i>Gunnii</i> consentirão em crescer nos nossos montes a +700<span class="pagenum"><a name="pag_25" id="pag_25">[25]</a></span> ou mesmo 800 metros de altitude, se ahi lhes soubermos escolher +situação. Fóra d'essa extensissima região litoral do norte do paiz, quer no +sul, quer no interior do norte, haverá, sem duvida, muitissimos logares onde +o <i>Eucalypto</i> medre rapida e magestosamente, sobretudo nos valles e na +proximidade de ribeiros que alguma frescura lhe facultem. Mas, pois que não é +licito contar aqui como regra a abundante e permanente humidade da zona norte +que tracei, a cultura do <i>Eucalypto</i> passa a ser como accidental, o que +aliás não impede de apresentar muitas e valiosas manchas de explendor, +igualando as melhores da zona eleita.</p> + + + +<h2>III<br> +Póda dos Eucalyptos</h2> + +<p>Algum tempo, e muito longo, tive como regra invariavel que os +<i>Eucalyptos</i> não careciam de póda. Mais do que isso, a póda era-lhes +nociva. Isto me diziam os melhores livros que se occupavam da sua cultura; +isto me era confirmado pelo que observava nas minhas plantações e nas dos +visinhos; e isto tambem me era aconselhado pelo exame das proprias arvores +que, despojando-se expontaneamente dos ramos caducos, d'aquelles cuja acção +havia cessado, estavam em seu trabalho organico a mostrar-nos a indiscrição +de qualquer intervenção, que por certo nunca poderia exceder, ou sequer +emparelhar, a sua natural previdencia. Ellas, as arvores, é que<span class="pagenum"><a name="pag_26" id="pag_26">[26]</a></span> +sabiam, muito melhor do que nós, quando é que lhes convinha desfazer-se das +roupas velhas.</p> + +<p>As minhas observações então limitavam-se, porém, a uma só especie de +<i>Eucalyptos</i>, ao <i>globulus</i>. E para esse e para todos os afins no +modo de vegetar, isto é, para aquelles que crescem em haste direita e se +despojam expontaneamente dos ramos velhos, a regra prevalece:—não se lhes +deve tocar. A não ser, claro está, para cortar algum ramo muito baixo que por +acaso persista e se desenvolva, encurtando mais tarde o comprimento das +madeiras ou empecendo, no presente, o caminho ou passagem. E esta ultima +hypothese não é rara nos <i>Eucalyptos</i> plantados isoladamente, em +condições de bracejar com largueza, a seu capricho.</p> + +<p>Nas especies que não dão expontaneamente haste direita, e n'este numero se +tornam notaveis e predominantes o <i>polyanthema</i>, o <i>melliodora</i>, o +<i>Behriana</i> e o <i>bicolor</i> ou <i>largiflorens</i>, n'estas, se não +lhes acudimos a tempo encaminhando-as pelo córte dos ramos rasteiros, teremos +todas as probabilidades de as vêr convertidas em grandes arbustos, pendidos, +tortos e curvados por mil modos, sem dois palmos de madeira direita +aproveitavel. Ahi, a póda é essencial e tem sua arte, reclamando a attenção +de quem a faz, para que não seja tardia, nem excessiva, para que não deixe +engrossar demasiado os ramos e tambem para que por excesso de póda não +adelgace muito a haste e lhe prejudique a robustez.</p> + +<p>Mas ha mais: em certos casos, e mesmo para <i>Eucalyptos</i> que +naturalmente crescem em haste direita, poderá haver vantagem no córte +das<span class="pagenum"><a name="pag_27" id="pag_27">[27]</a></span> pontas terminaes a quatro ou cinco metros do chão. Em Roma, +encontrei frequentemente <i>Eucalyptus rostrata</i>, assim degolados, com +troncos magnificos na base e bem vestidos de frondosos braços no cimo. E +aqui, nas minhas plantações, aconteceu que, havendo sido cortadas (por +malvadez) as pontas de oito <i>Eucalyptus macrorrynchas</i>, crearam outras +que soldaram perfeitamente no tronco, e este engrossou bem, e até mais do que +o dos <i>Eucalyptos</i> da mesma especie que estavam proximos e foram +poupados pelo vandalismo.</p> + +<p>Por isso me inclino a crêr que, n'esta materia, a regra é, na verdade, não +podar; mas tem muitas excepções, a que convém attender. E não me tenho dado +mal, muito pelo contrario, admittindo-as no meu uso.</p> + +<p>A proposito, acrescentarei que o <i>Eucalypto</i> que comece a crescer +inclinado, seja de que especie fôr, não só d'aquellas que acima aponto como +tendo invariavelmente esta tendencia, mas tambem de outras que +accidentalmente a revelam, como, por exemplo, o <i>Gunnii</i> e o +<i>Stuartiana</i>, <i>Eucalypto</i> que assim cresça deve ser cortado a meio +palmo do chão, logo que o tronco chegue a robustez bastante, de ordinario no +quarto ou quinto anno. É o unico modo de obter boas hastes d'essa cêpa; véem +depressa, direitas e vigorosas. Algumas tenho que subiram mais de dois metros +logo no primeiro anno depois do córte. E, se considerarmos que os rebentos +são mais promptos em crear cerne do que as mães, convencer-nos-hemos de que +similhante operação é de todo o ponto vantajosa. Muitas vezes a tenho feito e +nunca me arrependi.<span class="pagenum"><a name="pag_28" id="pag_28">[28]</a></span></p> + + + +<h2>IV<br> +Escolha das variedades</h2> + +<p>Evidentemente, em mais de oitenta especies e variedades de +<i>Eucalyptos</i> que tenho experimentado, o <i>globulus</i> mantém o seu +logar de primazia, quanto á rapidez de desenvolvimento. Quem procurar o +volume maximo de madeira a crear em determinado tempo e espaço, não tem que +hesitar: plante o <i>globulus</i>. E, se nos lembrarmos de que a sua madeira +é excellente, propria para innumeraveis applicações, teremos por seguro e +certo que, quem assim resolver, procede com as maiores probabilidades de +haver feito um magnifico negocio, rendoso como os melhores.</p> + +<p>Mas, se o <i>Eucalyptus globulus</i> conta a seu favor a vantagem do mais +rapido desenvolvimento, outras especies o preterem, quanto á resistencia a +doenças parasitarias, e quanto a belleza e quanto á capacidade de supportar +as vicissitudes climatericas e a pobreza do sólo, e quanto á qualidade da +madeira.</p> + +<p>Não ha plantação de <i>Eucalyptus globulus</i> que se mostre viçosa por +igual. Aqui e além apparecem sempre exemplares rachiticos, e tenho para mim +que esses, em geral, definham por doenças cryptogamicas, sobretudo se a +exposição é ao norte e batida do vento d'esse lado. O <i>Eucalyptus</i> +<i>Risdoni</i> partilha com o <i>globulus</i> d'essa susceptibilidade; adoece +tambem muito facilmente. Mas, exceptuando este, julgo que, em grande +maioria,<span class="pagenum"><a name="pag_29" id="pag_29">[29]</a></span> as outras especies de <i>Eucalyptos</i> são, em geral, muito +menos sensiveis ás invasões cryptogamicas do que o <i>Eucalyptus +globulus</i>.</p> + +<p>Quanto a belleza, se queremos formar avenidas copadas, ou vestir de +folhagem abundante um pedaço de terra, se procuramos sombra e frescura, o +<i>Eucalyptus botryoides</i>, aliás facil de contentar em riqueza do sólo e +favor do clima, excede todos os demais. Em seguida, para este effeito, virá o +<i>Eucalyptus Andreana</i>, uma especie de chorão, de folhas delgadas, um +pouco esguio, na verdade, mas lindo, sem embargo, principalmente quando se +cobre de flôr. Por ventura o <i>Eucalyptus virgata</i>, ou <i>Sieberiana</i>, +segundo outra classificação, tem de ser incluido n'esta cathegoria. Ramifica +copiosamente. Mas os exemplares que possuo estão ainda muito novos para que +me auctorizem juizo definitivo. É possivel que com a idade se tornem mais +despidos.</p> + +<p>Para os terrenos humidos e frios, a solução não offerece duvida. O +<i>Eucalyptus amygdalina</i>, o <i>coriacea</i> e o <i>Gunnii</i> téem de ser +os redemptores d'esses brejos miseraveis das nossas florestas, assim como nos +terrenos sêccos o <i>Eucalyptus polyanthema</i>, o <i>melliodora</i>, o +<i>bicolor</i> ou <i>largiflorens</i> (são synonimos) e o <i>Behriana</i> e +o <i>hemiphloia</i>—de crescimento lento, note-se—excedem em coragem para +supportar a estiagem todos os demais. Sobretudo, o <i>Eucalyptus +polyanthema</i>, quando plantado basto e bem guiado, porque facilmente +entorta e deixa engrossar os ramos rasteiros com prejuizo da haste +principal—é muito de cultivar, tanto mais que a madeira é rija como ferro. O +<i>Eucalyptus melliodora</i> cresce mais depressa e dá troncos mais direitos; +mas pelo que<span class="pagenum"><a name="pag_30" id="pag_30">[30]</a></span> tenho visto e lido, supponho que a madeira, embora boa +seja, é inferior à do <i>polyanthema</i>.</p> + +<p>Pela qualidade da madeira é que muitos <i>Eucalyptus</i> se antepõem ao +<i>globulus</i>, coincidindo a superioridade da madeira com uma celeridade de +desenvolvimento e aptidões de cultura inteiramente satisfatorias e mesmo +comparaveis ás d'aquelle gigante das nossas florestas. Aqui seria longa a +lista das especies de <i>Eucalyptos</i> do meu conhecimento e experiencia que +convém preferir ao <i>globulus</i>, embora este jámais deixe de ser +excellente. Outros o vencem, é incontestavel: e para abreviar, mesmo porque +ha vantagem prática em abreviar e não dispersar o nosso esforço em incertezas +e caprichos, eu recommendaria, a quem quizesse produzir madeiras de +excepcional valor, todos os <i>Iron-bark</i> (casca de ferro), como é, por +exemplo, o <i>crebra</i>, de que facilmente conseguiremos bons exemplares, e +poria na cabeça do ról o <i>Eucalyptus corynocalyx</i> ou <i>cladocalyx</i>, +que não torce depois de sêcco, o <i>marginata</i>, de uma dureza maravilhosa, +e ainda o <i>resinifera</i> que não dispensa logar favoravel; mas que, cemo o +<i>crebra</i>, não é tão esquivo que não vegete bem em muitissimos valles e +encostas do nosso paiz e possa formar florestas esplendidas.</p> + + + +<h2>V<br> +Do córte dos Eucalyptos</h2> + +<p>Sobre o córte dos <i>Eucalyptos</i>, a <i>Eucalyptographia</i> do Barão de +Mueller reproduz as recommendações de George Simpson, o qual, na +opinião<span class="pagenum"><a name="pag_31" id="pag_31">[31]</a></span> de Mueller, «falla em resultado d'uma longa experiencia e com +auctoridade»; e porque essas recommendações se me afiguram de uma importancia +capital, aqui as reproduzo.</p> + +<p>Dizem assim:</p> + +<p>«Por causa da sua densidade, a madeira do <i>Eucalypto</i> não póde seccar +nos cêpos; troncos de 12 pés de comprimento por 12 polegadas de espessura, +deixados durante 7 annos no logar onde foram cortados, empenaram, quando +depois foram serrados em pranchões, quasi tanto como se houvessem sido +cortados recentemente. D'aqui vem que a exposição dos cêpos a influencias +proprias a effectuar a séca alcança apenas a parte externa e com prejuizo, +pelo menos, d'essas camadas que attinge. Por isso, G. Simpson insiste, com +razão, na conveniencia de serrar os troncos nas dimensões que se quizerem, +logo que são derrubados. A madeira serrada deve depois ser empilhada, e, para +obstar a que se fenda e torça, convem cobril-a levemente com serradura, sendo +esta substancia a mais facil de obter e applicar para evitar uma evaporação +demasiado rapida da humidade da madeira. A serradura é um mau conductor do +calor. A madeira do <i>Eucalypto</i> (pelo menos do <i>Jarrah</i>, +<i>Eucalyptus marginata</i>) requer para seccar por este processo cerca de 3 +mezes, se é feita em pranchões de 3X2 polegadas; para pranchões de 12X12 +polegadas demandará, aproximadamente, um anno. Quanto á occasião do córte, o +snr. Simpson está de accôrdo com todos os observadores sensatos, insistindo +em que as arvores devem ser cortadas quando o movimento da seiva é menos +activo; por conseguinte, ahi pelo fim do estio, antes que as chuvas<span class="pagenum"><a name="pag_32" id="pag_32">[32]</a></span> +pesadas dos mezes mais frios venham despertar uma circulação mais vigorosa da +seiva. Mais nota ainda G. Simpson que os ramos de <i>Eucalyptos</i>, quando +cortados na estação humida, fendem muito mais do que quando o córte se faz +nas épocas mais sêccas do anno. Deve haver tambem muito cuidado em livrar as +arvores de grande abalo ao cair. De outra fórma, a madeira apresentará +defeitos, embora algumas vezes estes só se revelem muito tempo depois de a +empregarmos. Poder-se-ha evitar muito esmagamento inclinando a quéda para +onde haja ramada e afastando-a dos terrenos pedregosos e das rochas.»</p> + + + +<h2>VI<br> +Eucalyptos hybridos</h2> + +<p>Desde que, em 1902 comecei a fazer sementeiras de <i>Eucalyptos</i> com +maior assiduidade e experimentando largo numero de especies, achei entre +exemplares que inteiramente se conformavam com a descripção que d'elles tinha +nos livros proprios do seu estudo, alguns que eram uma aberração manifesta do +typo especifico. A principio julguei que essas divergencias, então raras, +proviessem de menos cuidado no apartamento das sementes; seriam resultado de +qualquer mistura casual. Mas, havendo plantado algumas dezenas de especies +n'um espaço relativamente estreito, verifiquei, á medida que comecei a colher +sementes das arvores por mim plantadas, a progressiva frequencia dos +exemplares extravagentes,<span class="pagenum"><a name="pag_33" id="pag_33">[33]</a></span> e tive por indubitavel a hybridação. Até +que, ultimamente, me veio ás mãos a obra do illustre botanico e professor +Maiden, <i>A Critical Revision of the genus Eucalyptus</i>; e ahi vi o facto +da hybridação dos <i>Eucalyptos</i> confirmado por uma das mais subidas +auctoridades contemporaneas em materia de flora australiana.</p> + +<p>Maiden considera «absolutamente provada» a hybridação dos +<i>Eucalyptos</i>, e acha que d'esse facto abundam provas. Segundo as suas +observações, o <i>Eucalyptus Boormanii</i> é um hybrido do +<i>siderophloia</i> e do <i>hemiphloia</i>; o <i>affinis</i> vem do +cruzamento do <i>sideroxylon</i> e do <i>hemiphloia</i> e o +<i>consideneana</i> será talvez um hybrido do <i>piperita</i> e do +<i>Sieberiana</i>.</p> + +<p>Nas minhas sementeiras, os <i>Eucalyptos</i> que se mostraram mais +facilmente susceptiveis de cruzamento foram o <i>Gunnii</i> e o +<i>leucoxylon</i>. De quinze exemplares provenientes de uma sementeira d'este +ultimo, não havia talvez dois perfeitamente iguaes. O <i>robusta</i>, o +<i>botryoides</i> e mais acentuadamente o <i>Stuartiana</i> tambem não eram +dos mais esquivos em apresentar exemplares divergindo das mães, não sei se +por hybridação, se por tendencia ingenita a variar, a qual é igualmente fóra +de duvida para grande parte das especies d'este genero. Em compensação, ha +outras que não variam. Do <i>globulus</i> nunca encontrei um só hybrido. No +<i>amygdalina</i> são rarissimos os exemplares divergentes; n'uma sementeira +que produziu mais de quatrocentos pés, apenas encontrei um que não se +conformava inteiramente com o typo commum.</p> + +<p>Dado este facto da hybridação e começando nós a conhecer as especies em +que se manifesta,<span class="pagenum"><a name="pag_34" id="pag_34">[34]</a></span> convém saber se d'ella poderemos tirar proveito +economico e não teremos antes de a considerar no ról das meras curiosidades +da cultura florestal.</p> + +<p>N'este ponto é que a obra de Maiden nos dá, se não me engano, uma +indicação de valor, onde diz que as especies e variedades de +<i>Eucalyptos</i> agrupadas na designação vulgar sob o nome de +<i>box-trees</i> (arvores de buxo) e entre as quaes se encontram o +<i>melliodora</i>, o <i>polyanthema</i>, o <i>largiflorens</i> e outros, +mostram «uma particular tendencia para cruzar com aquellas outras especies +chamadas <i>iron-barks</i> (casca de ferro) das quaes o <i>crebra</i> é muito +nosso conhecido e a todos os respeitos justamente famoso.</p> + +<p>Esta affirmação do sabio director do Jardim Botanico de Sydney porventura +envolverá para nós uma indicação preciosa. O <i>polyanthema</i>, um +<i>box-tree</i>, é muito provavelmente o <i>Eucalypto</i> que entre nós +melhor supporta o calor do estio, emquanto resiste perfeitamente aos nossos +invernos; mas é lento, muito lento no desenvolvimento. Entretanto, o +<i>crebra</i>, um <i>iron-bark</i>, mais sensivel ás vicissitudes +climatericas, prosperando, todavia, sob temperaturas elevadas e supportando +sem maior mal frios rigorosos, tem um desenvolvimento mediano, em termos +manifestos de aproveitamento economico. Em ambos a madeira é excellente. +Seria possivel pelo cruzamento do <i>polyanthema</i> e do <i>crebra</i> obter +hybridos que tendo as notabilissimas qualidades de resistencia do +<i>polyanthema</i> lhes juntassem uma maior celeridade de desenvolvimento? E +o <i>Gunnii</i> tão prompto em cruzar e tão proprio para povoar as encostas +frias, não poderia ser melhorado pela insinuação de elementos novos, trazendo +á sua madeira qualidades<span class="pagenum"><a name="pag_35" id="pag_35">[35]</a></span> superiores a essas, devéras aproveitaveis, +que já possue, e fazendo-a tão boa para construcções como magnifica é para +lenha?</p> + +<p>A experiencia é tentadora para os lavradores moços e confiados que queiram +juntar a uma justa ambição de lucros uma intelligente applicação dos seus +ocios e um sympathico esforço para legar aos filhos e aos filhos dos seus +filhos uma riqueza nacional.</p> + +<p>Todavia, convém notar que as experiencias d'esta natureza mais pertencem +ao Estado e ás suas estações do que aos particulares e ás suas minguadas +forças. Experiencias florestaes demandam longos annos e extensos campos; nem +podem fazer-se em pouco espaço, nem pódem concluir em pouco tempo, como +acontece com as hervas e ainda com os arbustos. Tenho <i>Eucalyptos</i> com +dezeseis annos de que ainda não colhi semente; tenho, por exemplo, um +<i>urnigera</i>, já feito e com não menos de doze annos, magnifico e bello, +que ainda não deu flôr. O que, devo acrescentar, não me desanima; antes me +prende. Quanto mais os fructos tardarem, mais se alongará a esperança e os +seus cuidados e prazeres. Tal qual como com os nossos filhos: quanto mais +crescidos são e mais trabalhos deram, mais os amamos.</p> + + + +<h2>VII<br> +A côrte dos gigantes</h2> + +<p>Para corrigir a nudez habitual das mattas de <i>Eucalyptos</i>, de +ordinario esqueleticas, apezar da robustez dos troncos, para lhes dar +espessura,<span class="pagenum"><a name="pag_36" id="pag_36">[36]</a></span> misturei-lhes em diversos logares grande cópia de +<i>Acacias</i>, espalhadas a trôxe-moche, muito bastas e de variadissimas +especies. Verifico, porém, ao fim de alguns annos, que se tornou uma +exploração economica rendosa aquillo que havia sido feito por méra +preoccupação de belleza. Plantando os <i>Eucalyptos</i> a tres metros de +distancia e intercalando-lhes, em igual compasso, as <i>Acacias</i>, mais +conhecidas pela designação popular de <i>mimosas</i>, conseguiremos vestir a +terra, abundantemente, de folhagem e flôres, e conjunctamente fabricaremos +alguma lenha e madeira nos espaços livres nos primeiros tempos, emquanto os +<i>Eucalyptos</i> pelo seu desenvolvimento não os tomam e cobrem +inteiramente.</p> + +<p>O effeito de belleza é grande—o que tambem representa valor. Nem só de +pão vive o homem; a vida não se resume em operações arithemeticas de sommar e +multiplicar. Disseminando entre os <i>Eucalyptos</i> <i>Acacias +podalyriaefolia</i>, <i>Baileyana</i>, <i>dealbata</i>, <i>mollissima</i>, +<i>longifolia</i>, <i>pycnantha</i>, <i>cyanophylla</i>, <i>decurrens</i>, +<i>melanoxilon</i> e todas a demais d'este genero, possuiremos quanto baste +para termos flôres, de um perfume leve e delicioso, desde os fins de novembro +até maio, quasi ininterrompidamente. Por momentos, quando a estação lhes +corre favoravel, dão um deslumbramento, de que o lavrador, se bom lavrador +quizer ser, alguma coisa colhe e traz ao mercado para engordar o mealheiro. +</p> + +<p>Entretando, criou-se muita ramagem que aquece o forno da brôa e poupa o +córte de arvores adultas, e criou-se tambem, além de muita lenha, uma +avultada somma de madeira preciosa, com diversos usos, sobretudo convindo á +marcenaria e<span class="pagenum"><a name="pag_37" id="pag_37">[37]</a></span> á tanoaria. Para estes ultimos fins, a <i>Acacia +melanoxilon</i> tem hoje os creditos feitos; facilmente se pagará por 20 +escudos uma arvore de 20 annos, se foi convenientemente tratada—isto é, +rendeu 1 escudo por anno e, calculando que um hectare comporta 1:000, rendeu +um conto por hectare e por anno. Mesmo suppondo que os preços baixarão algum +dia d'aquelles exageros em que a guerra os pôz, a plantação da <i>Acacia +melanoxilon</i>, ou da <i>australia</i>, como no vulgo é chamada, ficará em +toda a hypothese uma cultura altamente lucrativa.</p> + +<p>Immediatamente, como productores de madeira, vém a <i>Acacia decurrens</i> +e as suas variedades, entre as quaes póde contar-se a <i>Acacia dealbata</i>, +recentemente em uso para fabrico de tamancos e dando casca excellente para +cortumes, de uma elevada percentagem de tanino. Muito proxima, senão igual +n'esta ultima applicação, segue-se a <i>Acacia pycnantha</i>, de uma rijeza +de madeira notabilissima e «uma das cascas taninosas mais ricas que ha no +mundo», segundo Maiden diz, o qual acrescenta que «outra mais rica poderá +haver, mas não do seu conhecimento.»</p> + +<p>Supponho todavia que o principal valor economico das <i>Acacias</i>, +sobrelevando áquelle muito subido que possam ter para madeira, lenha e +cortumes, estará porventura na sua prodigiosa capacidade de criar vegetação +nos terrenos áridos, terrenos que, na expressão de Maiden, «nem herva dão», +nem para pastagem servem. D'isso tenho na minha experiencia provas +concludentes.</p> + +<p>Pelos residuos de materia organica que n'essas terras deixam, as +<i>Acacias</i> são o baptismo milagroso pelo qual a esterilidade se converte +á cultura.<span class="pagenum"><a name="pag_38" id="pag_38">[38]</a></span> Para este effeito, a <i>Acacia</i> é reputada superior ao +<i>Eucalypto</i>, e creio mesmo que é superior a qualquer outra planta, +embora tenha conseguido cobrir gandaras frias e miserrimas com o apertado +manto de verdura que a <i>Hakea saligna</i> lhes prodigalisa em poucos annos, +enriquecendo essas gandaras, preparando-as para melhores destinos com boas +camas de folhido. Mas as <i>Hakeas</i>, se depressa medram, cedo morrem e dos +seus troncos só nos deixam uma lenha que me parece muito pobre. As +<i>Acacias</i> levam-lhes, evidentemente, grande vantagem na missão de +fertilisadores: a sua qualidade de leguminosas e o poder fecundante que +d'essa qualidade lhes vém, juntando-se a uma incomparavel resistencia ás +violencias da estiagem e á avareza nativa do sólo, attribue-lhes um logar +unico no desbravamento das nossas charnecas, tanto mais que parece averiguado +que a cultura das <i>Acacias</i> se póde prolongar no mesmo terreno sem +prejuizo da sua fertilidade. Os cultivadores e botanicos australianos são de +opinião que por esse lado não ha inconveniente na repetição immediata de tres +ou quatro plantações sucessivas de <i>Acacias</i> na mesma terra. Note-se que +a <i>Acacia</i> é uma arvore que se faz depressa e envelhece cedo, mostrando +exemplares de 10 e 12 annos com uma boa percentagem de cerne, e este facto, +acrescentando-se aos demais que acabo de apontar, legitíma a esperança de +melhorar um terreno fazendo tres cortes de madeira boa em 60 annos.</p> + +<p>A cultura da <i>Acacia</i> é em tudo igual a do <i>Eucalypto</i>, +modificada apenas em dois pontos: a sementeira e a póda.</p> + +<p>A semente da <i>Acacia</i> tem um invólucro muito<span class="pagenum"><a name="pag_39" id="pag_39">[39]</a></span> rijo; ha +exemplos de sementes enterradas fundo, durante muitos annos, que depois +d'isso germinaram, quando o acaso da cultura as trouxe de novo á superficie +da terra. Por isso, agradece preparo que facilite a germinação; convém +lançar-lhe em cima agua a ferver e n'essa agua a conservar antes de a lançar +á terra. Isto tenho feito com bom resultado. E ha até quem recommende que se +ferva a semente por um instante, advertindo todavia que a temperatura não +deve exceder 75° centigrados. Tenho para mim que a melhor sementeira das +<i>Acacias</i> é a que se faz com as sementes frescas logo que se colhem. +Então germinam quasi todas, mesmo sem prévia immersão na agua quente; e como +essas sementeiras são antes do fim do estio, época em que a semente +amadurece, habilitam-nos a ter plantas em estado de collocação definitiva na +primavera seguinte; o que, afinal, significa o adiantamento de um anno.</p> + +<p>A póda é indispensavel, a <i>Acacia</i> facilmente alastra e rasteja, se +se encontra abandonada e á larga. Para obter troncos bons, altos, lisos e +aprumados, teremos de os guiar com cuidado, limpando os ramos lateraes e +decapitando a arvore, para lhe engrossar a haste principal, se ella vai muito +delgada, com o risco de se tornar curva pelo peso da folhagem.</p> + +<p>O melhor processo, particularmente para a <i>Acacia melanoxylon</i>, é a +plantação basta; assim, a falta de luz, determinando a inanição dos ramos +lateraes, atrophia-os e secca-os, ao mesmo que promove a elevação do tronco. +Considere-se, porém, que póda ha-de ser feita com discernimento e paciencia, +pouco a pouco, de modo que<span class="pagenum"><a name="pag_40" id="pag_40">[40]</a></span> a arvore se forme bem equilibrada, sem +nunca se achar demasiado despida, o que a enfraquece e atraza, quando não a +inutilisa.</p> + +<p>Maiden é de parecer que as <i>Acacias</i> se devem dividir em dois grupos: +as das terras sêccas, que medram com pouca chuva, e d'essas a <i>Acacia +pycnantha</i> é o typo; e as das terras frescas e dos climas maritimos, +demandando mais agua e florescendo em temperaturas inferiores d'estas, o typo +é <i>a Acacia decurrens</i>.</p> + +<p>Esta distincção, que tenho por fundamental, bastaria para a selecção das +variedades conforme as circumstancias da cultura que emprehendessemos; mas +entretanto não será ocioso, para mais segura apreciação, tomar conhecimento +de certas qualidades peculiares a cada uma das especies que passo a apontar, +e que julgo as principaes:</p> + +<p><b>Acacia Baileyana.</b>—Lindissima, como planta ornamental, pela +profusão das flôres; mas especie pouco firme, degenerando com frequencia, e +das menos rusticas. Quer abrigo, boa terra e, ainda assim, não raro morre +nova.</p> + +<p><b>Acacia cyanophylla.</b>—Arvore robusta. Bellas flôres, das mais +tardias. Excellente para logares sêccos. Teme a geada. Comparavel á <i>Acacia +pycnantha</i>, manifestamente.</p> + +<p><b>Acacia dealbata.</b>—A mais conhecida das mimosas. Flôres já muito +apreciadas nos mercados. Como arvore florestal, aproxima-se da <i>Acacia +decurrens</i>, sendo-lhe um pouco inferior no volume dos troncos, na +percentagem taninosa da casca, e talvez na dureza da madeira. O Barão de +Mueller, no excellente <i>Diccionario das plantas uteis extra-tropicaes</i>, +traduzido para a nossa lingua pelo illustre professor da Universidade de +Coimbra<span class="pagenum"><a name="pag_41" id="pag_41">[41]</a></span> o snr. dr. Julio Henriques, recommenda a <i>Acacia +dealbata</i>, «principalmente como combustivel, por ter grande poder +calorifero.»</p> + +<p><b>Acacia decurrens.</b>—D'esta, diz o Barão de Mueller que «é mais +resistente do que o <i>Eucalyptus globulus</i>, podendo ser cultivada a +altitudes mesmo muito notaveis.» Riqueza taninosa superior, boa madeira, +contentando-se com terrenos pobres, e, como a <i>Australia</i>, com maior +tendencia a crescer direita do que as congeneres.</p> + +<p><b>Acacia longifolia.</b>—Boa flôr para o córte, crescimento rapido, +valor baixo em madeira e tanino, acentuada propensão a rastejar, preciosa +como povoador e fixador das areias da costa maritima. É esta a sua qualidade +por excellencia, provada entre nós em algumas localidades.</p> + +<p><b>Acacia melanoxylon.</b>—Dispensa commentarios. Conhecida e +experimentada em todo o nosso paiz que d'ella ostenta exemplares soberbos, em +grande variedade de situacões. Madeira magnifica para innumeraveis +applicações. Não ha, porém, que fiar na sua generosidade, quanto a qualidade +do terreno; nem todos lhe servem. Tenho d'esta especie plantações atrophiadas +por não terem gostado de terrenos, onde aliás o <i>Eucalyptus globulus</i> +medra bem. Por isso, passei a reservar-lhe algum pedaço de terra mais fresca, +leve e penetravel. Encontra-se em grande variedade de situações; é sabido e +certo. Mas, até onde a minha experiencia alcança, inclino-me a incluir a +<i>Acacia melanoxylon</i> nas <i>Acacias</i> do typo da <i>decurrens</i>, +para os effeitos da cultura e da escolha do local da plantação.</p> + +<p><b>Acacia mollissima.</b>—Maiden julga que a <i>Acacia mollissima</i>, +como a <i>dealbata</i>, é uma variedade<span class="pagenum"><a name="pag_42" id="pag_42">[42]</a></span> da <i>decurrens</i>. Por esta +poderiamos, pois, aferir o valor economico da <i>Acacia mollissima</i>. Das +plantações que tenho feito, inclino-me a concluir que a <i>Acacia +mollissima</i> não prospera em terrenos agrestes pela seccura ou pela pobreza +do fundo. Deixa-la-hia, portanto, na cathegoria das <i>Acacias +ornamentaes</i>, porque as flôres são realmente opulentas, brilhantes, e de +um amarelo de oiro. Degenera e cruza com uma frequencia extrema.</p> + +<p><b>Acacia podalyriaefolia.</b>—Cultivo-a ha poucos annos; faltam-me +elementos para lhe apreciar o valor da madeira e o desenvolvimento, que +entretanto me parece mediano. Supporta terras magras e estiagens aturadas. +Como productor de flôres para a venda, é incomparavel, não só pela sua côr, +de um amarelo leve, mas sobretudo pela época em que ellas véem, em novembro, +logo após os ultimos chrysanthemos, quando as flôres muito escasseiam.</p> + +<p><b>Acacia pycnantha.</b>—Os naturalistas australianos reputam-lhe a casca +immediata á da <i>Acacia decurrens</i>, em riqueza de tanino. O Barão de +Mueller diz que «é de rapido crescimento, contentando-se com quasi toda a +terra, mas encontrando-se geralmente em terrenos arenosos pobres, proximo á +costa maritima.»</p> + +<p>Maiden acha-lhe uma casca esplendida, densa e nada fibrosa, +pulverisando-se completamente, o que porventura não será indifferente quando +se empregue em cortumes. Não é das mais promptas em enraizar na primeira +transplantação para vaso; mas depois, na plantação definitiva, vinga bem e +atura grandes estiagens. Madeira rigissima, troncos grossos; um exemplar de +20 annos, tinha 30 centimetros de diametro quando<span class="pagenum"><a name="pag_43" id="pag_43">[43]</a></span> o cortei. Passa por +ser das mais sensiveis ao frio; mas as que plantei nas encostas e entre outro +arvoredo, soffreram temperaturas de 2° centigrados abaixo de zero, sem maior +mal. Flôres grandes e magnificas, facilidade em dar á arvore boa fórma por +uma póda conveniente.<span class="pagenum"><a name="pag_44" id="pag_44">[44]</a></span></p> + + + +<h1>Notas sobre as principaes especies de Eucalyptos que tenho cultivado</h1> + +<p><b>Eucalyptus acervula.</b>—Uma variedade do <i>Eucalyptus Gunnii</i>, +sem vantagem alguma sobre a especie typo, quanto a crescimento e resistencia +ou qualquer outra qualidade.</p> + +<p><b>Eucalyptus acmenoides.</b>—Da Nova Galles do Sul. Boa madeira, sem +duvida, na opinião unanime dos que se lhe referem. Desenvolvimento mediocre +nos exemplares que experimentei. Macclatchie aponta-o como «conveniente para o +littoral das regiões tropicaes», o que, acrescido ao acanhado desenvolvimento +que na experiencia mostrou, o deve excluir das nossas plantações.</p> + +<p><b>Eucalyptus affinis.</b>—É um hybrido do <i>Eucalyptus sideroxylon</i> +e do <i>Eucalyptus hemiphloia</i>, segundo as indicações de Maiden, que o +reputa de boa madeira. São muito novos os exemplares que possuo, para que +possa concluir o quer que seja sobre a conveniencia da sua cultura. Cresceram +bem no vaso, nos primeiros mezes; mas na plantação definitiva amuaram a tal +ponto que não farei nova tentativa. Creio que d'alli nada ha a esperar.</p> + +<p><b>Eucalyptus amygdalina.</b>—Da Tasmania e muitas outras regiões da +Australia. Gigantesca e preciosa arvore, de que se encontraram +exemplares<span class="pagenum"><a name="pag_45" id="pag_45">[45]</a></span> com 120 metros de altura e 20 de circumferencia na base. A +sua madeira é leve, propria para muito genero de carpintaria; habitualmente +não torce ao seccar, e fende em estacas com facilidade; mas não é muito +duradoura, quando enterrada, nem tão pouco dá combustivel de primeira ordem. +</p> + +<p>Tenho d'este <i>Eucalypto</i> muitos exemplares e em muito diversas +condições, e apezar da qualidade da madeira que apodrece quando enterrada e +dá uma lenha de valor mediano, afoita e calorosamente o aconselho, sobretudo +nas encostas frias e humidas, onde em desenvolvimento excede algumas vezes o +<i>Eucalyptus coriacea</i> e o <i>Eucalyptus Gunnii</i>, generosos e os +melhores povoadores d'essas terras. O <i>Eucalyptus amygdalina</i> passa por +ser ávido de humidade; mas nunca, porém, me morreu nenhum de estiagens, +embora alguns as soffressem e das mais severas. Em terrenos bons, attinge +rapidamente proporções magnificas, e em terrenos pobrissimos, nos quaes o +<i>Eucalyptus globulus</i> adoeceu e se tornou rachitico, o <i>Eucalyptus +amygdalina</i> cresceu devagar, muito devagar, mas sempre sadio.</p> + +<p>É positivamente um criador de vegetação notabilissimo; merece ser +disseminado com prodigalidade, podendo subir a grandes elevações, pois +supporta temperaturas baixissimas, parecendo sob este aspecto mais robusto +que os seus companheiros da frialdade, o <i>Eucalyptus coriacea</i> e o +<i>Eucalyptus Gunnii</i>. Nem nos prenda a limitada applicação da madeira; +não servindo para muita coisa em que outras especies se distinguem, ainda +assim lhe ficam qualidades de sobra para ser classificada em alto apreço.</p> + +<p>O <i>Eucalyptus coccifera</i>, o <i>dives</i>, o <i>fissilis</i>, o +melanophloia,<span class="pagenum"><a name="pag_46" id="pag_46">[46]</a></span> o <i>regnans</i> e o <i>Risdoni</i>, todos téem com o +<i>Eucalyptus amygdalina</i> parentesco, quando não são apenas um estado +acidental d'essa especie, determinado pela situação em que vegetam, convindo +considerar n'este ponto que, segundo o Barão de Mueller, o <i>Eucalyptus +amygdalina</i>, mesmo ordinariamente, varía bastante de aspecto, conforme as +condições geologicas e climatericas a que fôr sujeito. A essas variedades do +<i>Eucalyptus amygdalina</i> me referirei em sua altura; mas desde já será +bom fixar que para as nossas culturas florestaes nenhuma d'essas variedades +offerece qualquer vantagem comparada com a especie de que derivam.</p> + +<p><b>Eucalyptus Andreana.</b>—Naudin julga que provavelmente, será uma das +especies a que se deu o nome de <i>Eucalyptus amygdalina</i>, e achou-lhe +caracteres que d'esta especie o aproximam, emquanto na fórma juvenil parece +mostrar parentesco com o <i>Eucalyptus viminalis</i>. Sejam, porém, quaes +forem as suas affinidades especificas, que aliás não auctorisam a presumpção +de grande resistencia de madeira—«resistencia», note-se, não se confunda com +«utilidade», a qual não só na resistencia se funda—seja qual fôr o seu logar +na classificação botanica, o certo é que o <i>Eucalyptus Andreana</i> dá uma +linda arvore, com a folhagem miuda e os ramos delgados e pendentes, tronco +direito e grande abundancia de flôres na época propria.</p> + +<p>Tenho exemplares de 17 annos com 90 centimetros de circumferencia, +prosperando em terrenos mediocres e nunca se havendo mostrado muito captivos +do frio. Ainda não decapitei nenhum; por isso, ignoro se tem facilidade +em<span class="pagenum"><a name="pag_47" id="pag_47">[47]</a></span> ramificar e formar arvores baixas e copadas que seriam bellas. É +uma experiencia a fazer, com probabilidades de bom exito, a julgar pelo +parentesco. Tanto o <i>Eucalyptus amygdalina</i> como o <i>Eucalyptus +viminalis</i> podem sem maior difficuldade sujeitar-se a fórmas ramificadas. +</p> + +<p><b>Eucalyptus Behriana.</b>—Pequeno e vagaroso no desenvolvimento. Na +opinião dos botanicos, talvez uma variedade do <i>Eucalyptus largiflorens</i> +(ou <i>Eucalyptus bicolor</i>). O Barão de Mueller diz que «as qualidades +technicas da madeira estão ainda por experimentar.» Os exemplares que tenho +d'esta especie, semeados em 1903, estão bons e téem mostrado grande +resistencia ás estiagens. Mas cresceram anchamente, são de casca persistente, +e por estas qualidades supponho que houve erro na classificação e são do +<i>Eucalyptus hemiphtoia</i>, especie da qual o <i>Eucalyptus Behriana</i> se +distingue a custo.</p> + +<p><b>Eucalyptus Boormannii.</b>—Maiden tem-no por hybrido do <i>Eucalyptus +siderophloia</i> e do <i>Eucalyptus hemiphloia</i>, dando madeira de duração. +Por este lado, é de boa origem; qualquer das especies de que provém dá +madeira rigissima. Acresce que o <i>Eucalyptus hemiphloia</i> é oriundo de +regiões sêccas.</p> + +<p>Do <i>Eucalyptus Boormannii</i> tenho um só exemplar. Cresceu devagar e +não está grande, em terreno de segunda ordem; mas sempre se mostrou sadio. +Por isto e attendendo á qualidade da madeira, convém persistir na +experiencia, a meu vêr.</p> + +<p><b>Eucalyptus bosistoana.</b>—Encontro-o indicado nos livros estrangeiros +como de boa madeira e proprio para regiões humidas. O unico exemplar<span class="pagenum"><a name="pag_48" id="pag_48">[48]</a></span> +que d'elle tenho, sendo muito novo, e é nos primeiros tempos que mais +costumam crescer, e estando em excellentes condições, não mostra pressa de +ser grande, e desanima-me de novas tentativas.</p> + +<p><b>Eucalyptus botryoides.</b>—Abunda na Nova Galles do Sul e ainda na +colonia de Victoria; e tornou-se vulgar no sul da França, na Italia e na +Argelia. É, portanto, uma especie experimentada em climas muito parentes do +nosso, da qual já se sabe alguma coisa provada.</p> + +<p>Mueller apresenta-o como arvore mediana, raro excedendo 40 metros de +altura, de casca permanente e madeira sólida, escura na côr, similhando +mogno, boa para carpintaria e marcenaria. Acha esta especie uma das mais +proprias para cultura á beira-mar, presumpção justificada pelo facto de se +encontrar indigena em localidades humidas e arenosas. Naudin tambem a +recommenda, «pela fórma pyramidal e pela folhagem abundante e umbrosa» +capazes de «a converter n'uma bella arvore de estrada».</p> + +<p>Da excellencia da madeira do <i>Eucalyptus botryoides</i> ha, porém, quem +duvide; Macclatchie, no seu precioso livro sobre <i>Os Eucalyptus cultivados +nos Estados-Unidos</i>, muito avisadamente aponta as divergencias, embora +previamente confirme as vantagens da cultura. Pois diz: «Esta especie +prospera á beira-mar; mas não convém a regiões de clima sêcco. Na Australia +prefere as situações arenosas e humidas, junto á costa maritima, e, segundo o +Barão de Mueller, vinga bem em terras contendo agua estagnada. Na California +dá-se bem em grande variedade de situações que vão até 50 milhas da costa.» +Esta arvore é<span class="pagenum"><a name="pag_49" id="pag_49">[49]</a></span> das que se pódem usar para plantação florestal em +terras baixas de regiões moderadamente humidas, onde não ha a temer grandes +geadas. Pela folhagem é util como arvore de sombra, em muitos sitios. Na +Australia, onde os colonos de differentes sitios estimam diversamente a sua +madeira, chamam-lhe «mogno dos brejos» e «mogno bastardo». Maiden julga que +este ultimo nome deve ser devido a confusão. Bailey e o Barão de Mueller +ambos reputam boa a madeira, emquanto Maiden se lhe refere como «inferior, +tanto pela resistencia como pela duração». Mueller e Bailey indicam a madeira +como dura, rija e duradoura, util para travejamentos nas grandes edificações, +cavernas de embarcações, postes, carros e ripado. A madeira é avermelhada e +de fibra apertada. Mueller diz que os postes d'esta qualidade são muito +duradouros, não lhes havendo notado signaes de decadencia, ao fim de quatorze +annos de uso.</p> + +<p>Pela minha parte, confessarei grande predilecção por esta especie. Ha +bastantes annos que a tenho plantado em grande variedade de terrenos, alguns +assaz sêccos e sáfaros, e em todos elles encontro exemplares perfeitos, senão +pela rapidez do desenvolvimento, alguns medram devagar, ao menos pela +conformação e saude. O melhor de todos, da primeira plantação, ha dezesete +annos, tem hoje 1<sup>m</sup>,50 de circumferencia no tronco, um metro acima +do sólo. Note-se que estas plantações sentem ainda o ar do mar; ficam a menos +de vinte kilometros da costa, e sem montes de permeio que embaracem a visita +das brizas maritimas. Nada posso dizer da madeira, senão que é maravilha o +aprumo das hastes quando a plantação<span class="pagenum"><a name="pag_50" id="pag_50">[50]</a></span> é basta; e crescendo este +<i>Eucalypto</i> rapidamente, é de crer que a madeira amadureça tarde, e só +em exemplares de quarenta annos, pelo menos, attinja aquella firmeza de trama +que lhe dá todo o seu valor. Cortada cêdo, achando-se tenra, tanto mais tenra +quanto mais depressa cresceu, ha-de por força torcer e rachar, tal qual as +congeneres em iguaes condições.</p> + +<p>Para arvore decorativa e de sombra, o <i>Eucalyptus botryoides</i> é +manifestamente magnifico, o mais bello do seu genero.</p> + +<p>Achando-se desafrontado, ramifica abundantemente, sem prejuizo do aprumo +do tronco, sendo frequentemente necessario cortar-lhe os ramos inferiores, +dos quaes não tem tendencia a desfazer-se espontaneamente, como acontece com +muitas especies, sobretudo, com o <i>globulus</i>. A folhagem expande-se +horisontal, bella de côr e de fórma, e assim fórma uma copa opulenta.</p> + +<p>Advirta-se que, apezar de agradecer e preferir a humidade, até hoje ainda +nenhum <i>Eucalypto</i> d'esta especie me morreu por effeito da estiagem, o +que aliás me tem acontecido com muitos outros, especialmente com o +<i>Eucalyptus capitellata</i>, com o <i>Eucalyptus obliqua</i>, com o +<i>Eucalyptus Stuartiana</i> e mais alguns de importancia secundaria.</p> + +<p><b>Eucalyptus calophylla.</b>—Uma curiosidade de jardim. Flôres grandes, +folhagem bella, lusidia, lauriforme; mas muito melindroso, tanto que nem vale +a pena pensarmos na qualidade da sua madeira, embora não falte quem a gabe. +</p> + +<p><b>Eucalyptus capitellata.</b>—D'esta especie, geralmente reputada de boa +madeira, tenho bons exemplares. O melhor, plantado em 1903, mede agora 80 +centimetros de circumferencia. Mas é<span class="pagenum"><a name="pag_51" id="pag_51">[51]</a></span> uma <i>Stringybark</i> (de casca +encordoada) e, como as parceiras, facil em povoar terras pobres, mas exigente +quanto a humidade. Alguns exemplares perdi já com as estiagens.</p> + +<p><b>Eucalyptus citriodora.</b>—Folhagem de um delicioso aroma, lembrando o +do limão, unica, por este lado, entre as congeneres. Madeira linda e +excellente, sem contestação dos que se lhe referem. Extremamente exigente, +quanto a clima. Emquanto novo, qualquer geada o mata. Deve, todavia, notar-se +que em Portugal se conhecem exemplares crescidos d'este <i>Eucalypto</i>, com +bastantes annos e grande desenvolvimento.</p> + +<p><b>Eucalyptus coccifera.</b>—De Tasmania. Verdadeiramente um arbusto, +resistindo bem ao frio e sem valor algum florestal ou decorativo.</p> + +<p><b>Eucalyptus colossea.</b>—Vide <i>Eucalyptus diversicolor</i>, do qual +é synonimo.</p> + +<p><b>Eucalyptus Consideneana.</b>—Segundo Maiden, é talvez um hybrido do +<i>Eucalyptus piperita</i> e do <i>Sieberiana</i>, de madeira descorada e +macia, proprio do littoral.</p> + +<p>Os exemplares que d'elle tenho são poucos e muito novos. Entre elles está +um de magnifico desenvolvimento e em exposição assaz fresca, voltada ao +norte. Apesar d'isso, julgaria imprudencia confiar, por emquanto, em grandes +plantações d'esta especie. Parece demandar humidade, e n'essas condições +haverá especies que se lhe avantagem, tanto mais que a qualidade da madeira +não é tal que mereça maior risco em experiencias.</p> + +<p><b>Eucalyptus cordata.</b>—Da Tasmania, apparecendo em altitudes de 500 +metros acima do nivel do mar. Interesse meramente botanico. Embora<span class="pagenum"><a name="pag_52" id="pag_52">[52]</a></span> +supporte bem o frio e a pobreza do sólo, como verifico no magnifico exemplar +que tenho na minha collecção, nada vejo que me auctorise a recommendar-lhe a +madeira. Conserva sempre as folhas oppostas, sesseis, azuladas, cobertas de +goma, o que para as outras especies, como no <i>Eucalyptus globulus</i>, é +transitorio.</p> + +<p><b>Eucalyptus coriacea.</b>—Magnifica especie, a aproveitar em muita +terra portugueza, humida e fria.</p> + +<p>Muito conhecido em algumas classificações por <i>Eucalyptus +pauciflora</i>, encontra-se desde as mais pequenas elevações até ás mais +altas montanhas, tanto nos terrenos graniticos como em formações de outro +genero. Apparece na colonia de Victoria, Nova Gales do Sul e Tasmania, +estendendo-se por muitas outras regiões.</p> + +<p>Arvore mediana, chegando a 30 metros de alto, de bello aspecto, ramos +pendentes, tira o seu principal interesse da resistencia a frios severos. Nos +Alpes Australianos constitue com o <i>Eucalyptus Gunnii</i> florestas em +miniatura a 1:500 metros de altitude, até proximo das geleiras. Na Europa +houve um exemplar em Pau (Pyrineus) que viveu durante alguns annos, chegando +a florir; só morreu com o frio excepcional do inverno de 1881-1882. Proximo +de Montpellier, supportou uma tempestade de 11 graus abaixo de zero, onde o +<i>Eucalyptus amygdalina</i>, que é dos mais resistentes, gelava.</p> + +<p>Madeira relativamente macia, facil de cortar, mais descorada que a maior +parte dos <i>Eucalyptos</i>, fendendo bem; excellente lenha. Não convém para +enterrar; assim, apodrece facilmente.</p> + +<p>Não se esqueça que teme muito as estiagens.<span class="pagenum"><a name="pag_53" id="pag_53">[53]</a></span> Macclatchie diz que na +California não supporta a atmosphera sêcca, nem mesmo regado.</p> + +<p>A principio não me captivei muito d'esta especie. É lenta em germinar, +pega mal na primeira transplantação e medra muito a medo nos primeiros annos. +Mas depois mostrou o que era. Distingue-se entre as companheiras pela +robustez nas encostas frias. Os melhores exemplares, de 17 annos, téem agora +1 metro de circumferencia.</p> + +<p><b>Eucalyptus cornuta.</b>—Da Australia occidental do Sul, nas +proximidades de Geographe-Bay e nos massiços montanhosos de Sterling. Na +Europa, é já vulgar nas margens de todo o Mediterraneo, principalmente na +Provença, na Argelia e em Genova.</p> + +<p>Arvore de mediana grandeza, chegando excepcionalmente a 30 metros, +supporta um sólo arido, mas prefere os logares humidos, apparecendo +(circumstancia importante por não ser vulgar nos <i>Eucalyptos</i>) nos +terrenos calcareos.</p> + +<p>A madeira, rija e elastica, convém para lanças de carros, instrumentos +agricolas e embarcações, sendo para este fim de valor aproximado ao do +freixo. É a mais pesada de todas as madeiras do occidente australiano, +afundando-se na agua, ainda mesmo depois de bem sêcca.</p> + +<p>Macclatchie dá informações da cultura d'esta especie na California, que são +muito de considerar em nosso uso:</p> + +<p>«Resiste a temperaturas elevadas, soffrendo, todavia, muito com as geadas. +Não sucumbe com cerca de 50° centigrados positivos; mas ficará rijamente +molestado com 5° abaixo de 0. Prefere terra rica e lenta, nem por isso +deixando de crescer bem em terra pobre. Pelo modo de crescer e<span class="pagenum"><a name="pag_54" id="pag_54">[54]</a></span> pela +densidade da folhagem, é uma arvore de sombra, havendo poucos +<i>Eucalyptos</i> que ramifiquem a tão pequena altura como este. Na +California tem sido empregado quasi unicamente como arvore de sombra.»</p> + +<p>Apezar de recommendado para as regiões tropicaes e adjacentes, tenho +achado que o <i>Eucalyptus cornuta</i> póde servir a vastas regiões do nosso +paiz. Em Moreira da Maia encontrei-o viçoso e excellente entre o matto, sem +nenhuns cuidados, e tenho exemplares em condições bem pouco favoraveis que no +primeiro anno se desenvolveram a par dos <i>Eucalyptus globulus</i> e, de +1902 até hoje, crearam um tronco de 0<sup>m</sup>,60 de circumferencia.</p> + +<p><b>Eucalyptus corymbosa.</b>—Não é para desprezar, se não me engano. Os +dois unicos exemplares que possuo, plantados em 1902, passaram já duros +invernos e violentos estios, ao fim mostrando dois troncos medianos em +grossura, mas aprumados e perfeitos. Sobre a qualidade da madeira não ha +duvida; facil de apparelhar em verde, durissima depois de sêcca, fraca lenha, +por virtude de excessiva quantidade de <i>kino</i>, e, por isso mesmo, +impenetravel ás termitas. D'este, diz Maiden:</p> + +<p>«Para postes enterrados e para canalisações subterraneas é quasi +imperecivel.»</p> + +<p><b>Eucalyptus corynocalyx.</b>—Da Australia do Sul. Já experimentado em +varias localidades do sul da França. Boa madeira para estacas de vedação e +travessas do caminho de ferro; postes de quinze annos não mostravam signaes +de decadencia.</p> + +<p>De uma grande elasticidade, quanto ás vicissitudes<span class="pagenum"><a name="pag_55" id="pag_55">[55]</a></span> atmosphericas, +dizem os que se lhe téem referido, que supporta temperaturas que vão de 8° +centigrados abaixo de 0 até 45° positivos. A folhagem é adocicada, qualidade +que partilha com o <i>Eucalyptus Gunnii</i>; os gados roem-na, +differentemente do que em regra acontece com a quasi totalidade dos +<i>Eucalyptos</i>, em que os animaes não costumam tocar—o que não deverá +esquecer a quem os plantar em terras onde persista o mau costume de +apascentar os gados soltos nas mattas.</p> + +<p>Torna-se, porém, notabilissima esta especie, porque a sua madeira não +fende nem torce ao seccar. Só o <i>Eucalyptus resinifera</i> encontro +indicado com igual boa prenda e, como este não supporta tão bem o nosso +clima, o <i>Eucalyptus corynocalyx</i> tem, por aquella sua virtude, um logar +de primazia.</p> + +<p>Mueller diz que o crescimento não é de maior celeridade, segundo observou, +cultivando-o por muito tempo; e Naudin calcula esse crescimento em cerca de +um metro por anno. Os melhores exemplares que eu tenho, com 17 annos, téem, +em média, 60 centimetros de circumferencia.</p> + +<p>Mueller aconselhou este <i>Eucalypto</i> para a Argelia, como resistindo á +maior aridez e a estiagens prolongadas, e indifferente á natureza +mineralogica do terreno. Eu, sem querer ensinar o mestre, mas traduzindo-lhe +para portuguez os conselhos em dezesete annos de experiencias, direi apenas, +e para portuguezes que vivam em sitios similhantes a estas colinas proximas +de Aveiro, não em extremo sêccas no verão nem demasiado agrestes no +inverno:—Bella arvore, na verdade, o <i>Eucalyptus corynocalyx</i>. Mas ao +abrigo,<span class="pagenum"><a name="pag_56" id="pag_56">[56]</a></span> ainda que quente seja. Nunca nenhum dos meus soffreu com as +estiagens e muitas téem passado incolumes, assim como rijos janeiros. Mas +detesta o norte e o frio dos brejos desarmados do sol. Exemplares plantados +no mesmo dia, em terreno da mesma natureza, e a 50 metros de distancia, téem +hoje um palmo de diametro ou duas polegadas, conforme estejam ao abrigo do +vento e bafejados do sol, ou sepultados na sombra e açoitados do norte.</p> + +<p><b>Eucalyptus cosmophylla.</b>—Não tem valor industrial apreciavel; mas +goza da singularidade de dar flôr no inverno—em Eixo floresce em dezembro—e +assim offerece bom pasto ás abelhas, em tempo no qual o pasto escasseia. +Fórma uma arvore pequena, de folhagem espessa, prosperando em situações muito +diversas, sem grandes exigencias, quanto a terra e clima. Na Australia occupa +logares sêccos e pedregosos.</p> + +<p><b>Eucalyptus crebra.</b>—Este é um dos meus preferidos. Quereria vêl-o +disseminado largamente; e, pelo que tenho observado, são de todo applicaveis +em nossas terras as indicações com que Macclatchie o recommenda para a +America. «A <i>iron-bark</i> (casca de ferro) de folha estreita, diz, +supporta uma maior variedade de condições climatericas do que as outras +<i>iron-bark</i>. É a unica d'este grupo que supporta valles sêccos e quentes +do interior», com temperaturas minimas de 7° centigrados negativos e maximas +de 50° positivos, aproximadamente. «Pela madeira dura, rija e elastica, serve +para grande numero de applicações. É uma das madeiras da Australia mais +altamente apreciadas; duradoura debaixo do chão e, por isso, muito usada para +postes<span class="pagenum"><a name="pag_57" id="pag_57">[57]</a></span> e travessas de caminho de ferro; é tambem material bom para +pontes, carros e grande variedade de applicações.»</p> + +<p>Está com 80 centimetros de circumferencia o maioral dos <i>Eucalyptus +crebra</i> que plantei, e todos são de uma resistencia notavel, teimando em +não morrer muitos que ficaram perdidos, sem luz nem espaço, entre as +plantações de outros mais apressados em tomar conta do terreno.</p> + +<p><b>Eucalyptus Deanmaiden.</b>—Deste tenho apenas dois exemplares e novos. +Não são feios, com a sua folhagem horisontal. Em crescimento estão, porém, +muito distantes de muitos outros companheiros da mesma idade e differente +especie. Creio que não convirá ás nossas terras.</p> + +<p><b>Eucalyptus decipiens.</b>—Arvore pequena. Da sua madeira diz o Barão +de Mueller que «é pouco conhecida e não parece ter qualquer valor capital.» +E, ainda que assim não fosse, não nos serviria, porque cresce devagar e não +chega a tamanho que valha o quer que seja.</p> + +<p><b>Eucalyptus delegatensis.</b>—O viveirista onde comprei a semente +apresentou-o no catalogo como o menos exigente dos <i>Eucalyptos</i>, +crescendo entre a neve a 1:500 ou 1:800 metros de altitude e dando boa +madeira. Mas a obra de Maiden indica-o como uma variedade alpina do +<i>Eucalyptus obliqua</i>, e eu que tenho medo do <i>Eucalyptus obliqua</i>, +como de todos os <i>stringybarks</i>, tão faceis em seccar com a estiagem, +deixal-o-hei de remissa, embora d'elle possua um lindissimo exemplar.</p> + +<p><b>Eucalyptus diversicolor.</b>—É o afamado <i>karri</i> dos +australianos, cantado e celebrado como rival do <i>Eucalyptus globulus</i>, e +presentemente<span class="pagenum"><a name="pag_58" id="pag_58">[58]</a></span> apregoado na Europa como capaz de curar a diabetes com +a infusão das suas folhas.</p> + +<p>Muito conhecido sob a designação de <i>Eucalyptus colossea</i>. Da sua +estatura contam-se maravilhas, chegaria a 120 metros de altura e n'um +crescimento rapido; e sobre a qualidade da madeira não divergem as opiniões: +é excellente, de resistencia superior ao carvalho e apresentando casos de +conservação na agua durante 26 annos.</p> + +<p>Quanto a terreno e clima, é que lhe porei grandes duvidas. Não se póde +comparar com o <i>Eucalyptus globulus</i>. Gelou até ao colo da raiz onde o +<i>Eucalyptus globulus</i> nada soffreu, e de todo estacionou, emquanto os +companheiros erguiam bellos lançamentos. E parece que não serei o unico a +queixar-me, porque Macclatchie diz: «Esta especie prospéra nas regiões +moderadamente humidas, junto á costa; mas não supporta bem o calor sêcco do +interior. Os melhores exemplares que observei cresceram entre Los Angeles e +Pasadena, da California, onde a atmosphera é moderadamente humida e as geadas +leves.»</p> + +<p>Por conseguinte, é bom, e será mesmo optimo para quem lhe puder offerecer +terras profundas e valles abrigados, não muito longe do mar, para respirar +frescura, entre Douro e Minho, segundo me palpita.</p> + +<p><b>Eucalyptus dives.</b>—Um arbusto, fórma aberrativa do <i>Eucalyptus +amygdalina</i>, sem importancia alguma.</p> + +<p><b>Eucalyptus eximia.</b>—Boa lenha e fraca madeira, segundo os mestres +affirmam. Acrescentando a isto que se tem mostrado acanhado no crescer, desde +que o tenho, ha 17 annos,<span class="pagenum"><a name="pag_59" id="pag_59">[59]</a></span> posto que sempre sadio, não mais pensarei +em repetir a experiencia.</p> + +<p><b>Eucalyptus erythronema.</b>—Os horticultores gabam-lhe as flôres, +vermelhas e com sua graça, na verdade. Mas é um arbusto pobrissimo de +folhagem, em toda a situação, pondo uma nota de mingua, constrangimento e +desharmonia.</p> + +<p><b>Eucalyptus ficifolia.</b>—Arvore de bastante sombra, casca +persistente, raras vezes excedendo na Australia 15 metros de altura, +aproximando-se apenas do <i>Eucalyptus calophylla</i> e differindo muito das +outras especies. Do valor da madeira nada se sabe. Como planta decorativa, +notabilissima; são maravilha os feixes esplendidos das suas flôres côr de +fogo, de um vermelho singular. Por esse lado, é o unico <i>Eucalypto</i> +francamente decorativo.</p> + +<p>Melindroso, quer boa terra, abrigo e frescura; é verdadeiramente uma +arvore de jardim. Devo, porém, advertir que o tenho achado menos sensivel ás +geadas do que o <i>Eucalyptus citriodora</i> e o <i>Eucalyptus maculata</i>. +Facto curioso:—varía extraordinariamente na côr das flôres, provavelmente +por hybridação. Direi mesmo que nunca achei dois exemplares com flôres +exactamente do mesmo tom.</p> + +<p><b>Eucalyptus fissilis.</b>—Maiden julgou a principio que o <i>Eucalyptus +fissilis</i>, do Barão de Mueller, devia ser considerado synonimo do +<i>Eucalyptus amygdalina</i>, de Labillardière. Ultimamente, porém, diz que +Luehmann o convenceu de que o <i>Eucalyptus fissilis</i> se deve ligar ao +<i>Eucalyptus obliqua</i>. O catalogo de Vilmorin diz que se aproxima do +<i>Eucalyptus goniocalyx</i>. Com isto coincide que diversas sementes que +pude haver com o rotulo<span class="pagenum"><a name="pag_60" id="pag_60">[60]</a></span> de <i>Eucalyptus fissilis</i>, deram arvores +muito differentes. De tudo o que concluo que é especie assaz incerta na +classificação, e não será sensato plantal-a em similhantes condições, embora +eu possa mostrar um exemplar soberbo, nascido e creado sob esta invocação, e +havendo dado ao fim dos seus 17 annos de existencia um tronco com +1<sup>m</sup>,3 de circumferencia. Demais, se o <i>Eucalyptus fissilis</i> é +um <i>Eucalyptus amygdalina</i>, teremos este para o substituir com menos +incertezas; e, se é um <i>Eucalyptus obliqua</i> ou um <i>Eucalyptus +goniocalyx</i>, não será de confiança para grandes plantações, pelos motivos +a que me refiro nas minhas notas sobre estas duas ultimas especies.</p> + +<p><b>Eucalyptus fœcunda.</b>—Um arbusto, que pouco se me desenvolveu e +vive em grande miseria.</p> + +<p><b>Eucalyptus Fœld-Bay.</b>—Em livro algum sobre a flora australiana +encontrei referencia a qualquer <i>Eucalypto</i> sob esta designação; nem tão +pouco achei nas cartas geographicas <i>Fœld-Bay</i>. O que lá está é +<i>Twofold Bay</i>, ao sul, no extremo da Nova Galles do Sul. Porventura +houve equivoco; será d'aqui o <i>Eucalyptus Fœld-Bay</i> que o catalogo da +casa Vilmorin offerecia em 1901, quando ahi comprei a semente. Por isso, nada +sei do valor da madeira d'esse Eucalypto; emquanto da sua robustez e aspecto +decorativo, só posso dizer bem. É uma bella arvore, ramificando com largueza, +de ramos pendentes como o chorão, prosperando em situações frias e ainda +n'outras onde o calor aperta, e reproduzindo-se espontaneamente com uma certa +facilidade. Pelo fructo, pela folhagem e pela casca, lembra muito o +<i>Eucalyptus viminalis</i><span class="pagenum"><a name="pag_61" id="pag_61">[61]</a></span> e ainda, bastante, o <i>Eucalyptus +rostrata</i>.</p> + +<p><b>Eucalyptus gigantea.</b>—Synonimo do <i>Eucalyptus obliqua</i>, a que +em sua altura me referirei.</p> + +<p><b>Eucalyptus globulus.</b>—Dispensa commentario. Do que é e vale dizem +já as nossas mattas e estradas, e tambem, largamente, as nossas officinas. O +que sobre elle se tem escripto formaria uma bibliotheca; mas a pujança em que +a cada passo se ostenta, substitue-a com vantagem. O seu rendimento florestal +e a excellencia da madeira são casos julgados em sua honra. De passagem, +apenas quero notar que Naudin escreve que o <i>Eucalyptus globulus</i> +supporta no sul da França frios de 6° centigrados abaixo de zero, e que o +tenho encontrado viçoso, robusto e já com muitos annos e tronco formidavel, +em elevações de 500 e 600 metros acima do nivel do mar, nas serras do +Caramulo e S. Macario.</p> + +<p><b>Eucalyptus gomphocephala.</b>—Nunca d'esta especie me foi possivel +crear coisa que se visse. Sempre se me mostrou por diversos modos +inteiramente esquiva. Todavia, talvez não seja ocioso que outros e em outras +circunstancias repitam a experiencia, pois leio que convém aos terrenos +calcareos, qualidade rarissima nos <i>Eucalyptos</i>, e que dá madeira +durissima. Não irá muito alto, apenas a uns 30 metros, mas engrossa bem. +Note-se, quer, segundo leio, terrenos frescos.</p> + +<p><b>Eucalyptus goniocalyx.</b>—A julgar pelos exemplares que possuo d'este +<i>Eucalypto</i>, inclinar-me-hia a excluil-o, desde já, das nossas +plantações; cresceram bem nos primeiros annos, emquanto encontraram terra +cavada, e depois passaram<span class="pagenum"><a name="pag_62" id="pag_62">[62]</a></span> a medrar muito devagar. Em geral, não são +propensos a dar hastes direitas, tendo a seu favor uma facilidade notavel em +rebentar da cepa quando cortados e d'ahi dar rapidamente lançamentos +elevados. Apesar d'esse balanço pouco favoravel, talvez não seja desacerto +insistir na tentativa; os botanicos attribuem ao <i>Eucalyptus goniocalyx</i> +qualidades de alto valor. A madeira é boa, duradoura, mesmo que enterrada +esteja, e um combustivel excellente. Demais, esta especie iria a altitudes de +900 ou mesmo 1:000 metros e, segundo Sahut, prestar-se-hia maravilhosamente +para a distillação, produzindo, como outras congeneres, uma essencia que os +colonos australianos empregam sobretudo para a illuminação, e acrescendo que +a essencia derivada das folhas do <i>Eucalyptus goniocalyx</i> seria +preferida a qualquer outra por sua chamma brilhante, sem fumo nem cheiro.</p> + +<p><b>Eucalyptus Gunnii.</b>—É de certeza, um dos poucos que merecem ser +propagados para aproveitar terrenos e situações em que o <i>globulus</i> vai +mal e o proprio pinheiro cresce miseravelmente.</p> + +<p>Frequente nas montanhas da Tasmania, é a especie mais vulgar dos Alpes +australianos da colonia de Victoria, onde se encontra a 1:800 metros de +altitude; por estas circumstancias de origem, legitima é a supposição de que +ha-de prosperar em muitos dos nossos montes mais sáfaros. Associado com o +<i>coriacea</i>, fórma na Australia as florestas miniaturas dos Alpes +d'aquelle continente, e ahi floresce em estado arbustivo, qualidade que entre +nós conserva, havendo produzido sementes fecundas em arvores de quatro +annos<span class="pagenum"><a name="pag_63" id="pag_63">[63]</a></span> de idade. Na Europa, apparece em França; na Africa, tem sido +experimentado; na Argelia, e na Inglaterra, em Kew, proximo de Londres, ha um +exemplar que ha muitos annos resiste aos invernos, embora plantado ao ar +livre.</p> + +<p>Da sua resistencia ao frio, não ha a menor duvida. Os muitos exemplares +que d'elle tenho, alguns já com dezeseis annos, nunca soffreram com o frio, +havendo passado invernos rigorosissimos. N'este ponto, leva grande vantagem +ao <i>globulus</i>.</p> + +<p>Quanto a terreno, contenta-se com os mais pobres. Mostra-se são e com um +desenvolvimento normal em terras expostas ao norte, frias, pedregosas e muito +humidas no inverno, emquanto, ao mesmo tempo, tem vencido estios prolongados +em terras de areia, muito sêccas, sendo de notar, todavia, que, para terras +sêccas, outras especies lhe são inferiores e devem ser preferidas.</p> + +<p>Não é feio. A massa da folhagem é mais escura e sombria do que em grande +parte de outras especies, sem o cheiro particular de nenhuma d'ellas. D'ahi +vem que os gados a roem, circumstancia rara nos <i>Eucalyptos</i>, apontada +tambem como particularidade do <i>corynocalix</i>.</p> + +<p>Sobre as qualidades da madeira, divergem um pouco os que a téem examinado. +O barão de Mueller acha-a uma «bella madeira, igual em dureza á do +<i>macrorryncha</i>, <i>rostrata</i> e <i>globulus</i>; muito boa para +diversa obra, se se poderem conseguir hastes direitas, em regra fendendo mal, +mas excellente para lenha.» Porém, Macclatchie, repetindo a informação de +Mueller, diz que «esta arvore não fornece uma madeira especialmente util», +sem embargo de acrescentar que «é especie<span class="pagenum"><a name="pag_64" id="pag_64">[64]</a></span> muito promettedora como +revestimento florestal nas situações montanhosas, não sujeitas a temperaturas +estivaes muito altas.»</p> + +<p>Esta conclusão, a que se chegou nos Estados-Unidos da America, está para +mim absolutamente confirmada pela experiencia, já não muito breve, que tenho +da cultura d'esta especie. Verifica-se que varía muito nas proporções do seu +desenvolvimento; alcançando 60 ou 70 metros de altura, quando encontra +condições favoraveis de terra e abrigo, decresce em differentes graus e chega +mesmo a reduzir-se a um arbusto rasteiro, á medida que essas condições se vão +tornando menos propicias. Mas é incontestavel a sua pujança, que quasi a +isenta por completo das doenças cryptogamicas, amiudadas vezes fataes ao +<i>globulus</i>; a sua rudeza, que lhe permitte um desenvolvimento superior +ao do pinheiro em terrenos de gandara magrissimos; e, finalmente, a boa +qualidade de madeira que, ainda mesmo acceitando como subsistentes todas as +duvidas que a depreciem, conservaria a virtude de um magnifico combustivel. +</p> + +<p>N'estes termos, o <i>Eucalyptus Gunnii</i>, plantado basto, a um metro de +distancia, é uma arvore preciosa para o aproveitamento de muita charneca fria +e ao presente abandonada, povoando-a e adornando-a de uma vegetação por +diversos titulos vantajosa.</p> + +<p>Convém notar que esta especie cresce frequentemente torta, com tendencia a +arrastar-se pelo chão.</p> + +<p>N'este caso, não ha que hesitar. A haste corta-se a meio palmo de altura; +invariavelmente dá origem a diversos rebentos, de ordinario direitos;<span class="pagenum"><a name="pag_65" id="pag_65">[65]</a></span> +e d'estes deixam-se os dois ou tres mais aprumados, que em breve estarão da +grossura do ramo que se cortou—o que, aliás, deve ter-se como regra geral +para os <i>Eucalyptos</i> que comecem a crescer inclinados. É assim que eu +tenho usado, com os melhores resultados, até mesmo com o <i>globulus</i>.</p> + +<p>Admitta-se mais que a plantação, para ser bem feita, deverá ser precedida +da cava ou da lavoura de todo o terreno, no qual depois se abrem as covas. É +uma despeza de manifesta importancia; mas, como uma plantação d'estas não se +faz para dez ou vinte annos, mas sim para sessenta ou oitenta, porque os +<i>Eucalyptos</i>, dando successivos córtes, povoam um pedaço de terra por +dilatados annos, essa despeza torna-se minima pela duração da sua utilidade e +rendimento.</p> + +<p><b>Eucalyptus hemiphloia.</b>—Já por um exemplar authentico d'esta +especie que possuo, já por outros exemplares, cujas sementes me vieram como +do <i>Eucalyptus Behriana</i>, parente muito proximo do <i>Eucalyptus +hemiphloia</i>, e que muito mais se conformam com a descripção d'este do que +com os caracteres d'aquelle, estou em dizer que o <i>Eucalyptus +hemiphloia</i> é muito de aproveitar e propagar. Em primeiro logar, o +<i>Eucalyptus hemiphloia</i> pertence áquella secção dos <i>box-tree</i> +(arvore do buxo) em que se encorporam os <i>Eucalyptus polyanthema</i>, +<i>melliodora</i>, <i>largiflorens</i> e outros, todos notaveis pela boa +qualidade da madeira e pela resistencia ás estiagens. Depois, em fontes +auctorisadas leio que o <i>Eucalyptus hemiphloia</i> prospéra tanto junto da +costa maritima como nos outeiros e valles sêccos do interior, supportando +temperaturas minimas de 5° e 7°<span class="pagenum"><a name="pag_66" id="pag_66">[66]</a></span> centigrados abaixo de zero e maximas +de 43° a 48°, e não temendo nem geadas pesadas nem o vento quente. Depois +ainda, produz madeira de notavel resistencia. O Barão de Mueller diz que os +postes d'este <i>Eucalypto</i> cravados na terra foram achados quasi +perfeitamente sãos, ao fim de 16 annos, e Maiden refere que elle dá uma das +melhores lenhas da Nova Galles do Sul. E, finalmente, pelas informações que +de longe véem e a minha experiencia confirma, é uma arvore de folhagem densa, +qualidade rara em <i>Eucalyptos</i>, e, a meu vêr, prosperando mesmo nos +terrenos argilosos, qualidade tambem não menos excepcional n'este genero de +plantas, tudo o que é precioso num paiz como o nosso, onde ha muitos barros +sêccos carecidos de sombra e com poucas probabilidades de achar arvore que +lh'a dê.</p> + +<p><b>Eucalyptus yugalis.</b>—Um arbusto, de todo sem importancia para o +lavrador.</p> + +<p><b>Eucalyptus largiflorens.</b>—Synonimo do <i>Eucalyptus bicolor</i>. +</p> + +<p>D'este direi o que fica dito do <i>Eucalyptus hemiphloia</i>. +Adoptal-o-hia para os logares sêccos. Sómente acrescentarei que não leva +grande vantagem áquelle seu companheiro na rapidez de desenvolvimento e no +volume dos troncos, e muito menos na espessura da folhagem, e que, sendo +muito propenso a entortar e rastejar, convém guial-o,—o que, não se esqueça, +é mais a regra do que a excepção em todos os <i>Eucalyptos</i> que formam a +classe dos <i>box-tree</i>.</p> + +<p><b>Eucalyptus Lehmani.</b>—Botanicamente «inseparavel» do <i>Eucalyptus +cornuta</i>, segundo a expressão do Barão de Mueller, e apontado pelos +horticultores como admissivel nos jardins.<span class="pagenum"><a name="pag_67" id="pag_67">[67]</a></span></p> + +<p>Qualidades decorativas e mediocres, a meu vêr, e valor florestal nullo, +porque, circumstancia decisiva, é arvore pequena e assaz melindrosa, +extremamente sensivel ás geadas.</p> + +<p><b>Eucalyptus leucoxylon.</b>—Aqui de todo me perco. Emquanto o Barão de +Mueller recommenda calorosamente o <i>Eucalyptus leucoxylon</i> e lhe acha +muitas virtudes, Maiden reputa-o de nenhum valor. Demais, enganou-me; cresceu +bem nos primeiros dois annos, e em seguida passou á cathegoria dos +retardatarios. Entre tantas incertezas deixaria de contar com elle, +absolutamente, para o quer que fosse, se não tivesse mostrado uma excepcional +facilidade de cruzamento. D'esses hybridos do <i>Eucalyptus leucoxylon</i> +tenho um bonito exemplar, viçoso, crescendo bem e aprumado. O futuro, porém, +dirá se traz no ventre qualquer coisa aproveitavel.</p> + +<p><b>Eucalyptus longifolia.</b>—Não se illudam os que o encontrarem viçoso +em terrenos frescos, que só n'esses sabe prosperar. É dos que menos vale pela +madeira e conjunctamente é de robustez muito limitada.</p> + +<p><b>Eucalyptus Mac-Arthuri.</b>—É tentador! Quando o logar lhe agrada, +desenvolve-se esplendidamente, ramificando com largueza; e onde o terreno +deixa de o favorecer, ainda ahi resiste e vai medrando devagarinho. Mas +Maiden reputa inferior a sua madeira e, n'esta deficiencia, junta-o com o +<i>Eucalyptus Stuartiana</i> e semelhantes. Por conseguinte, não será muito +avisado quem, seduzido pela belleza do aspecto, se alargar na plantação.</p> + +<p><b>Eucalyptus macrandra.</b>—Insignificante a todos os respeitos.<span class="pagenum"><a name="pag_68" id="pag_68">[68]</a></span> +</p> + +<p><b>Eucalyptus macrocarpa.</b>—Como o precedente, um arbusto +insignificante. Não me deu trabalho. Morreu ás primeiras geadas que lhe +tocaram.</p> + +<p><b>Eucalyptus macrorryncha.</b>—Na verdade, os livros não mentiram onde +dizem que o <i>Eucalyptus macrorryncha</i> é maravilha para medrar em +terrenos pobres. Vejo-o crescer um metro em terras miseraveis, emquanto os +pinheiros a par crescem um palmo. A madeira é boa e a casca aproveitavel para +cobertura de choupanas e curraes, podendo em semelhante uso durar cerca de 20 +annos. Mas... um terrivel mas o persegue; é um <i>stringybark</i>, parente +proximo do <i>Eucalyptus capitellata</i> e não muito distante do +<i>Eucalyptus obliqua</i>, e, como elles, sujeito a morrer da estiagem, o que +aliás todas estas especies já ampla e praticamente me provaram nas minhas +experiencias.</p> + +<p><b>Eucalyptus maculata.</b>—Visinho do <i>Eucalyptus citriodora</i>, e de +menos confiança do que este. Não teremos que discutir-lhe qualidades da +madeira, quando em materia de clima é de todo esquivo. Exemplares magnificos, +com mais de 5 metros de altura, gelaram até ao colo da raiz desde que +sentiram um inverno rigoroso. Depois d'isso, rebentam e crescem; mas, quando +de novo vem um inverno em que a geada abunda, voltam á primeira fórma, ao +rez-do-chão.</p> + +<p><b>Eucalyptus Maideni.</b>—Uma variedade do <i>Eucalyptus globulus</i>, +annunciada como de mais vigor... onde o terreno fôr de primeira ordem, +acrescentarei eu. Nos outros, nos terrenos mediocres, parece-me mesmo muito +menos robusto do que o <i>Eucalyptus globulus</i>.</p> + +<p><b>Eucalyptus marginata.</b>—Da Australia<span class="pagenum"><a name="pag_69" id="pag_69">[69]</a></span> Occidental. Casca +persistente; altura mediana, 30 metros, de ordinario, indo, por excepção, até +45.</p> + +<p>É o famoso <i>Jarrah</i> dos australianos. Originario das terras humidas, +parece um pouco mais indifferente á situação e ao sólo do que outras especies +congeneres; mas foge dos logares quentes e sêccos. O seu maior +desenvolvimento é nos sitios que recebem humidade do mar.</p> + +<p>Na opinião unanime de britanicos, silvicultores, engenheiros e homens +práticos, o <i>Jarrah</i> é de uma robustez verdadeiramente sem igual. +Exposta ao ar ou submergida, ao sol, á chuva ou debaixo da terra, a sua +madeira apparece intacta, ao fim de uma prova de cincoenta annos. Como foi +usada desde a fundação da colonia da Australia Occidental, em 1829, +encontram-se exemplos numerosos a demonstrar a sua duração inexcedivel. Em +certas circumstancias, essa duração excede a do ferro. Para construcções +navaes está a par ou muito proxima da teca, e é invulneravel ao teredo e ás +termitas; os barcos d'essa madeira dispensam cobertura de cobre. Além d'isso, +é uma das madeiras menos inflammaveis, qualidade muito de apreciar onde se +usarem construcções de madeira, e, por certo, em virtude d'essa mesma +qualidade, dá excellente carvão. A madeira das planicies arenosas á beira do +mar é de qualidade inferior; a melhor é a que se cria nos terrenos +montanhosos, particularmente a dos terrenos ferruginosos e dos graniticos—do +que, confiadamente o lembro, o nosso Minho deve tomar boa nota para seu uso. +Não faltam lá nem terrenos frescos, nem montes, nem granitos, nem a frescura +maritima que frequentemente alcança<span class="pagenum"><a name="pag_70" id="pag_70">[70]</a></span> até ás maiores alturas das serras +entre o Mondego e Minho.</p> + +<p>Nas minhas experiencias, comecei por ser infeliz com esta especie; nasceu +mal, soffreu muitas baixas na primeira transplantação, e cresceu muito +devagar na plantação definitiva. Mas insisti, e com a boa fortuna mudei de +ideias. O melhor exemplar que possuo, em terreno mediocre e algo sêcco, tem +hoje 16 annos e mede 75 centimetros de circumferencia, um metro acima do +sólo. Os outros que plantei em terreno aliás bem pobre e alto, assás exposto +ao norte, vão devagar, é certo, mas sadios, com lindas hastes aprumadas.</p> + +<p>Tudo o que, bem considerado, e acrescentando-lhe ainda que a madeira do +<i>Eucalyptus marginata</i> é mais docil á ferramenta do que as madeiras de +outras especies de <i>Eucalyptos</i>, posto que menos forte seja em +resistencia ás pressões—tudo o que me leva a crêr que temos todo o interesse +em plantar o <i>Eucalyptus marginata</i> onde lhe acharmos condições +proprias. A riqueza das suas qualidades colloca-o em logar privilegiado e a +marcenaria rural tem alli uma grande esperança de moveis seguros, bellos e +duradouros.</p> + +<p>O <i>Eucalyptus marginata</i> é um dos <i>Eucalyptos</i> que com mais +facilidade se propaga expontaneamente. Tenho isso por um signal de vigor e +tendencia a acclimação. Como processo de reproducção, a ninguem o +aconselharia. Os <i>Eucalyptos</i> nascidos expontaneamente crescem sempre +muito devagar, quando crescem. A cova e o esboroamento da gleba é um começo +de vida essencial n'esta cultura.</p> + +<p><b>Eucalyptus megacarpa.</b>—Pequeno, crescendo<span class="pagenum"><a name="pag_71" id="pag_71">[71]</a></span> devagar, e de +duvidosa qualidade de madeira. Não ha que perder tempo com elle.</p> + +<p><b>Eucalyptus melanophloia.</b>—Boa madeira, segundo o Barão de Mueller. +Mas não é para as nossas terras, onde vegeta mal. Assáz o experimentei para +não pensar mais n'elle.</p> + +<p><b>Eucalyptus melliodora.</b>—Um <i>box-tree</i>, e tanto lhe basta para +carta de admissão; d'esta cathegoria todos são bons e proprios para as nossas +terras.</p> + +<p>Da colonia de Victoria e Nova Galles do Sul, onde apparece principalmente +nos outeiros, não subindo, porém, a grandes elevações. Arvore mediana, chega, +por excepção, a 70 metros, com um diametro superior a dois metros na base. +Madeira amarellada, extremamente rija depois de sêcca, duradoura e pezada, +d'uma flexibilidade notavel, mas, em regra, difficil de obrar e fender. Na +textura, muito semelhante ao <i>Eucalyptus rostrata</i>. Não convém para +cortar em pranchas, por apresentar frequentemente largas fendas +perpendiculares entre as camadas. Excellente combustivel. Na Australia vive +em terras pobres e é de crescimento lento.</p> + +<p>Naudin diz:—«Conhece-se facilmente ao longe, pelos ramos longos, delgados +e pendentes, que lhe dão certa semelhança com o chorão. Abundante de folhagem +e flôres, recommenda-se como arvore decorativa.» Sahut julga-o «muito +resistente e interessante pelos ramos pendentes e pelas flôres odoriferas que +as abelhas procuram avidamente».</p> + +<p>Merece propagar-se; é manifesto. Sempre se me mostrou resistente, até +mesmo em situações ardentes e em terrenos com larga dose de argila.<span class="pagenum"><a name="pag_72" id="pag_72">[72]</a></span> +</p> + +<p>E convenço-me de que não ficaria mal á beira das estradas e em volta da +casa dos nossos vinhateiros. Tem belleza, vigor e utilidade que o abonem para +isso.</p> + +<p><b>Eucalyptus microcorys.</b>—Não devemos contar com elle. A madeira é +excellente; mas pressente a geada, quando nós ainda mal a enxergamos. +Macclatchie acha-o «proprio para as regiões humidas semitropicaes.» E assim +deve ser, porque é um <i>stringybark</i>, ávido de humidade por conseguinte. +</p> + +<p>Apezar d'isto, tenho d'este <i>Eucalypto</i> alguns exemplares bem +desenvolvidos n'uma encosta ao sul, abrigados entre pinheiros.</p> + +<p><b>Eucalyptus microphylla.</b>—O catalogo de Vilmorin, de cuja casa me +veio a semente, indica o <i>Eucalyptus microphylla</i>, ou <i>stricta</i>, +como uma variedade dos <i>Iron-bark</i> (casca de ferro) que chega a attingir +40 metros de altura, e dando boa madeira e um combustivel de primeira +qualidade. Os exemplares provenientes d'essas sementes confirmaram a +informação. Porém, a <i>Eucalyptographia</i> do Barão de Mueller acceitando a +synonimia do <i>Eucalyptus microphylla</i> e do <i>Eucalyptus stricta</i>, +quando este ultimo descreve, não condiz no resto com a noticia de Vilmorin. +Pela minha parte, direi que os <i>Eucalyptos</i> que tenho sob a designação +de <i>microphylla</i> são <i>Iron-bark</i>, por certo de excellente madeira, +como todos os d'essa classe, com um desenvolvimento a par do <i>Eucalyptus +crebra</i>, ao qual o juntaria para todos os effeitos. Desconfio que o +<i>Eucalyptus microphylla</i> da minha collecção será o <i>Eucalyptus +paniculata</i>.</p> + +<p><b>Eucalyptus microtheca.</b>—Nas minhas mãos negou toda a fama com que +da Australia passou<span class="pagenum"><a name="pag_73" id="pag_73">[73]</a></span> para a Europa. Invariavelmente ficou rachitico, +embora lhe houvesse offerecido logar não de todo agreste. Segundo lia, +supportava temperaturas minimas de perto de 8° centigrados abaixo de 0° e +maximas de mais de 50°; encontrar-se-hia nas regiões mais áridas da Australia +e já se desenvolvia admiravelmente na França e na Argelia. Nada d'isto +encontrei. Dou-me por desenganado, de tal fórma que não reincidirei na +tentativa.</p> + +<p><b>Eucalyptus Mulleri.</b>—Não me afoita, posto que d'elle possua +exemplares bonitos. Ha duvidas quanto á excellencia da madeira; e não será +especie tão firmemente caracterisada, que esteja isenta do risco de variar na +reproducção. Muitos o poderão substituir com segurança e vantagem.</p> + +<p><b>Eucalyptus obliqua.</b>—É o <i>Eucalyptus gigantea</i> da +classificação de J. Hooker, e foi a especie que primeiro se conheceu e sobre +a qual l'Héritier fundou este genero. Frequente na Tasmania, isso basta para +estabelecer probabilidades de adaptação ao nosso clima. Em regra, são as +especies de <i>Eucalyptos</i> d'essa latitude aquellas em que mais +seguramente podemos confiar.</p> + +<p>Mueller descreveu o <i>Eucalyptus obliqua</i> como arvore muito aprumada, +de crescimento rapido, chegando a uma altura de noventa metros, embora +floresça muito nova, e encontrando-se em elevações medianas, «não alpestres.» +Casca persistente, muito fibrosa, ardendo facilmente, macia e fragil. «É uma +das mais importantes de todas as arvores da Australia pela sua grande +abundancia e tambem pela facilidade com que a madeira se presta a diverso +trabalho.» Serve para construcções, travessas de caminho de ferro e<span class="pagenum"><a name="pag_74" id="pag_74">[74]</a></span> +vedações, e para isso é muito usada, mas «apodrece depressa, quando +enterrada.» A casca emprega-se em larga escala para cobertura de edificações +ruraes primitivas, e convém tambem para o fabrico de papel, quer ordinario, +de empacotamento, quer de impressão, e até de escrever.</p> + +<p>Cultivo esta especie ha dezesete annos; d'ella tenho muitos exemplares +bons e um esplendido, possuindo todas as qualidades que Mueller lhe attribue. +Todavia, não a aconselho.</p> + +<p>O <i>Eucalyptus obliqua</i> é nas minhas plantações a especie que com o +<i>Eucalyptus rostrata</i> me tem atraiçoado maior numero de vezes. Morre +facilmente com as estiagens; exemplares de oito metros de altura e outros +tantos annos de prosperidade seccaram com o calor, plantados entre muitas +outras especies que todas o supportaram e resistiram. Já não téem conta os +que perdi por este motivo, mesmo quando pela estatura a que haviam chegado +era de esperar que estivessem para afrontar todos os rigores do sol e do +frio.</p> + +<p>O <i>Eucalyptus obliqua</i> só é aproveitavel em terrenos frescos, e para +terrenos frescos não faltam especies de superior madeira que lhe devem ser +preferidas.</p> + +<p>Note-se—pertence este <i>Eucalypto</i> ao grupo dos que na Australia +chamam <i>stringybark</i>, isto é, de casca encordoada, e tenho como regra, +por effeito de dilatada experiencia, que todos os <i>Eucalyptos</i> d'esse +grupo, alguns dos quaes vegetam em terrenos pobrissimos, carecem de humidade +na terra. Se não a encontram, facilmente morrem, apenas se acham expostos a +quatro ou cinco dias consecutivos de calor mais forte. Todos elles enganam, e +com tanto maior risco, para<span class="pagenum"><a name="pag_75" id="pag_75">[75]</a></span> quem os planta, quanto é certo que não +raro a sua fraqueza só se mostra e nos surprehende ao fim de alguns annos de +plantação.</p> + +<p><b>Eucalyptus obtusiflora.</b>—Uma variedade do <i>Eucalyptus +obliqua</i>, segundo creio, partilhando, por isso, de todo o seu bem e de +todo o seu mal, e não mostrando qualquer superioridade sobre este ultimo nos +exemplares que tenho plantado.</p> + +<p><b>Eucalyptus occidentalis.</b>—D'este, aliás gabado pela qualidade da +madeira, repetirei o que d'outros tenho dito:—Na minha mão, nunca deu nada +que prestasse. Supponho que sente frio; Macclatchie nota que elle soffre com +temperaturas de 4° centigrados abaixo de zero, e em terras portuguezas fica +muito sujeito a essas inclemencias para poder prosperar.</p> + +<p><b>Eucalyptus paniculata.</b>—Se é o que tenho com o rotulo de +<i>Eucalyptus microphylla</i>, estamos bem. Vai a par do <i>Eucalyptus +crebra</i> e não será desacerto semeial-o e plantal-o de mistura com este. +Mas os exemplares authenticos que tenho d'esta especie estão apenas de 4 +annos, tempo insufficiente para ajuizar da sua resistencia.</p> + +<p>Por emquanto, mostram-se viçosos e crescem regularmente. Teme as +estiagens, segundo os livros estrangeiros indicam, e, por conseguinte, convém +pensar n'isto ao plantal-o e guardar-lhe alguma quebrada mais fresca. Da +qualidade da madeira é que não ha duvida; é um <i>Iron-bark</i> (casca de +ferro), e isso por si o garante.</p> + +<p><b>Eucalyptus pilularis.</b>—Não virá mal a ninguem, se fôr plantando +alguns exemplares d'este <i>Eucalypto</i> onde houver bom terreno e clima +dôce, porque é menos resistente do que o <i>Eucalyptus globulus</i>, cresce +mais devagar e teme sobretudo<span class="pagenum"><a name="pag_76" id="pag_76">[76]</a></span> a mingua de frescura, que o desterra +dos valles e outeiros do interior. Tanto na opinião do Barão de Mueller, como +na de Maiden, dá madeira de superior qualidade em todas as suas variedades. +Macclatchie diz: «Este é considerado como produzindo uma das melhores +madeiras entre todas as de qualquer outra especie de <i>Eucalypto</i>. De +postes de vedações d'esta madeira se conta que duraram mais de 20 annos. +Excellente como productor de mel, dizendo-se que o mel que d'elle provém é de +uma qualidade especialmente boa.» E deu-me já bons exemplares.</p> + +<p><b>Eucalyptus Planchoniana.</b>—Vão vivendo, sadios, mas acanhados no +crescer, os exemplares que tenho d'esta especie. E, por isso, e porque a vejo +indicada para regiões sêccas, livres de geada, a ninguem darei de conselho +que se aventure a plantal-a, tanto mais que a madeira é boa, mas não superior +á de outras especies que pódem bem com os rigores do nosso clima.</p> + +<p><b>Eucalyptus platypus.</b>—Synonimo de <i>Eucalyptus obcordata</i>, e +apontado como planta decorativa. É, a meu vêr, um engano, como o +<i>Eucalyptus erythronema</i>. As flôres, tambem vermelhas, téem alguma +graça; mas a planta é de tão misero aspecto, que a limitada belleza da flôr +não compensa o desgosto da presença durante todo o anno de uma vida +semi-tysica.</p> + +<p><b>Eucalyptus pleurocarpa.</b>—Um arbusto que é bom lembrar, como os +outros <i>Eucalyptos</i> arbustivos, para que, por equivoco, não gastemos +tempo e dinheiro a experimental-o.</p> + +<p><b>Eucalyptus polyanthema.</b>—Preciosa arvore que eu desejaria vêr +disseminada pelas nossas mattas; tem todas as condições para isso. O<span class="pagenum"><a name="pag_77" id="pag_77">[77]</a></span> +Barão de Mueller encontrou-a na Australia nos «outeiros e cumiadas sêccas»; +acha-a «inexcedivel» como combustivel, e mais forte na madeira do que o +carvalho e o freixo; nas suas affinidades especificas o <i>Eucalyptus +polyanthema</i> estaria muito proximo do <i>Eucalyptus melliodora</i>, +acontecendo todavia que «ambos se encontram nos mesmos logares, +promiscuamente, e cada um parece manter nas mesmas circumstancias de sólo e +clima as suas caracteristicas distinctivas; mas, em geral, o <i>Eucalyptus +polyanthema</i> prefere mais o cimo das elevações, emquanto o <i>Eucalyptus +melliodora</i> desce antes para as terras mais ricas dos valles.» E, pelo seu +lado, Macclatchie diz «que esta especie prospéra em grande diversidade de +condições climatericas, crescendo na costa e proximo da costa, nos outeiros, +na encosta dos montes e nos valles sêccos e quentes do interior.» «É uma das +especies experimentadas na Estação Agricola das proximidades de Phoenix, que +inteiramente passa incolume, quer com as geadas do inverno, quer com o calor +do estio.» Além d'isso, «pela profusão de flôres, vindo n'um tempo em que as +fontes de mel são restrictas, é uma arvore util para pasto das abelhas.»</p> + +<p>Muitos exemplares d'esta especie tenho plantado, e em variadissimas +situações, e todos, sem excepção, confirmam as virtudes que os silvicultores +da Australia e da America lhe attribuem. Dos <i>Box-tree</i> (arvore do +buxo), a cuja classe pertence, seria, juntamente com o <i>Eucalyptus +melliodora</i>, aquelle <i>Eucalypto</i>, que eu preferiria para os terrenos +sêccos. Mas, advirta-se, não é para os apressados ou impacientes; cresce +devagar, o melhor<span class="pagenum"><a name="pag_78" id="pag_78">[78]</a></span> exemplar que eu tenho, está agora com 17 annos de +plantação e 50 centimetros de circumferencia. Nem tão pouco será para os +descuidados; facilmente rasteja e entorta; é necessario visital-o, podal-o e +guial-o com arte. Tudo merece; a robustez da madeira e a resistencia ás +intemperies e a toda a violencia climaterica pagarão anchamente a paciencia e +zelo que na cultura empregarmos.</p> + +<p><b>Eucalyptus pulverulenta.</b>—A custo o distingo do <i>Eucalyptus +cordata</i>, sendo certo que os botanicos lhe acham differenças apreciaveis. +Creio que economicamente não vale mais nem menos do que o <i>Eucalyptus +cordata</i>, e o reduzido logar que occupa nos livros dos auctores +estrangeiros fortalece-me n'este juizo.</p> + +<p><b>Eucalyptus punctata.</b>—Aqui ponho um ponto de interrogação e boas +esperanças. De madeira magnifica, crescimento rapido e modesta exigencia +quanto a fertilidade do terreno, o <i>Eucalyptus punctata</i> não dispensaria +a frescura das regiões costeiras, e não se sujeitaria á seccura das regiões +do interior. O certo é que os exemplares que plantei ha quatro annos, estão +lindissimos, com lançamentos pujantes e ramificação abundante; e um outro +exemplar mais antigo tem já um bello tronco. Serão, porém, necessarios mais +alguns annos para uma conclusão prática fundada.</p> + +<p>Entretanto, não será erro propagal-o nas localidades menos desfavorecidas. +Outros indicados como mais melindrosos considero eu já absolutamente proprios +para as nossas terras.</p> + +<p><b>Eucalyptus Raveretiana.</b>—Aconselhado para climas tropicaes humidos. +E assim deverá<span class="pagenum"><a name="pag_79" id="pag_79">[79]</a></span> ser, porque na minha collecção morreu das geadas, logo +no primeiro anno.</p> + +<p><b>Eucalyptus redunca.</b>—Este foi tambem dos que viveu sómente emquanto +a geada não lhe tocou.</p> + +<p><b>Eucalyptus regnans.</b>—Uma variedade do <i>Eucalyptus amygdalina</i>, +de mais rapido crescimento, maior estatura e melhor madeira—o que tudo creio +ser verdade, onde o terreno fôr bom e não faltar a frescura. Sem isto, cada +estio será para elle uma doença grave, e para o proprietario o risco da perda +de uma arvore muitas vezes já crescida. Foi o que por experiencia verifiquei, +d'ahi resultando que o risquei do rol dos que reputo proprios para povoar as +nossas encostas. Quando muito, servirá para as terras profundas dos valles, e +para estas não faltam especies infinitamente mais meritorias pela qualidade +da madeira.</p> + +<p><b>Eucalyptus resinifera.</b>—Este foi dos poucos que me deu muito mais +do que promettia. Annunciado como proprio para as regiões tropicaes, +planteio-o a medo, sempre á espera de um inverno que o matasse. Afinal, os +invernos vão correndo e um exemplar plantado em 1903 tem agora 90 centimetros +de circumferencia.</p> + +<p>Todavia, não seja isto razão bastante para que deixe de observar a regra +quem tiver de o plantar; parta do principio que não deverá expôl-o a frios +muito severos, nem tão pouco a temperaturas muito elevadas, n'uma atmosphera +sêcca. Guarde-lhe sitio ameno.</p> + +<p>Merece-o. Porque a madeira é «esplendida e tão duradoura como qualquer dos +<i>Iron-bark</i>», segundo um botanico que estudou a flora +australiana<span class="pagenum"><a name="pag_80" id="pag_80">[80]</a></span> e é citado para este effeito pelo Barão de Mueller—o que +Maiden confirma, dizendo por sua vez:—«É esta uma das madeiras rijas de mais +valor da Nova Galles do Sul. De um vermelho intenso, muito se assemelha no +aspecto ao mogno verdadeiro. É grande madeira para moveis onde o peso não fôr +obstaculo... Uma das mais duradouras madeiras que nós temos, altamente +resistente á humidade e ao ataque da formiga branca.»</p> + +<p>Junte-se a isto que o <i>Eucalyptus resinifera</i> é com o <i>Eucalyptus +goniocalyx</i> um dos poucos que não torce nem fende expontaneamente ao +seccar; relembre-se a rapidez do seu desenvolvimento; e teremos quanto baste +para lhe reservar bom logar na silvicultura nacional e não perdermos ensejo +de o aproveitar.</p> + +<p><b>Eucalyptus Risdoni.</b>—Segundo todas as probabilidades, será uma +variedade ou fórma erradia do <i>Eucalyptus amygdalina</i>, mas ainda aqui, +como com todas as demais derivações ou aberrações do <i>Eucalyptus +amygdalina</i>, eu preferiria á extravagante a especie typo. Obtive bons +exemplares do <i>Eucalyptus Risdoni</i>; tenho mesmo um, das plantações de +1902, com 1<sup>m</sup>,80 de circumferencia. É magnifico. Mas vinga com +muito menos facilidade do que o <i>Eucalyptus amygdalina</i> nos primeiros +tempos, é talvez mais exigente em humidade do que este ultimo, tem accentuada +tendencia a ramificar em fórmas arbustivas e torna-se necessario guial-o, se +pretendemos criar troncos direitos, e, finalmente, não sei de qualidade +alguma singular que lhe distinga a madeira e por esse facto recommende em +especial a sua cultura.<span class="pagenum"><a name="pag_81" id="pag_81">[81]</a></span></p> + +<p><b>Eucalyptus robusta.</b>—Segundo o Barão de Mueller, «como arvore para +lenha e para madeira que não demande grande resistencia, o <i>Eucalyptus +robusta</i> é evidentemente mais importante do que até aqui se suppunha, +especialmente quando consideramos a faculdade de se adaptar aos brejos e ás +localidades apauladas—as quaes convém sómente a uma muito limitada classe de +plantas florestaes; mas este <i>Eucalypto</i> parece requerer para seu +superior desenvolvimento o accesso do ar do mar.» No <i>Diccionario das +Plantas Uteis</i>, diz mais este mesmo illustre mestre que o <i>Eucalyptus +robusta</i> «resiste aos cyclones melhor do que as outras especies.» Na +qualidade da madeira, que é avermelhada, ha a considerar que é quebradiça, +difficil de rachar e, por isso, pouco querida dos carpinteiros; porém +duradoura debaixo da terra, o que, por certo, lhe dará valor nos telegraphos, +nos caminhos de ferro e entre lavradores que procurem estacaria.</p> + +<p>Tambem encontro o <i>Eucalyptus robusta</i> aconselhado para ensombrar +avenidas—no que porei os meus reparos. Nos primeiros annos é realmente +bello, com a sua folhagem larga e ramagem espessa. Mas, quando Deus quer, +foge para as alturas, despojando-se espontaneamente dos ramos inferiores e +deixando a estrada assás desprotegida.</p> + +<p>Rebenta muito bem, quando cortado, e dá feixes de lançamentos lindos e +pujantes.</p> + +<p>Plantei muitos exemplares d'esta especie e, pelo seu exame, tenho por +certo que é o melhor para as proximidades do mar. Onde o ar fôr sêcco, não se +canse ninguem a plantal-o.</p> + +<p><b>Eucalyptus rostrata.</b>—Foi com este que<span class="pagenum"><a name="pag_82" id="pag_82">[82]</a></span> fabriquei os meus +maiores desastres. Devo-lhe as manchas de maior miseria das minhas +plantações, tanto mais sensiveis quanto maior foi a largueza com que o +disseminei, incitado pelo elogio caloroso que de outras terras o acompanhava. +Grande culpa, na verdade; nada d'isso me aconteceria, se houvesse lido com +attenção o livro de Sahut, onde diz: «O <i>Eucalyptus rostrata</i> é muito +resistente, supportando grandes calores e frios devéras rigorosos, segundo os +logares em que se encontra. O crescimento é rapido; mas, em contrario do +<i>Eucalyptus resinifera</i>, gosta de <i>terras ferteis</i> e da borda da +agua, e resiste muito menos do que este á estiagem.» O sublinhado é +meu—«terras ferteis.» Fóra d'isso, não vale um caracol; vegeta emquanto tem +a terra solta da cova, e depois não passa d'ahi, torna-se absolutamente +rachitico. Mesmo em terras ferteis, desenvolvendo-se bem, ficará por este +lado abaixo de muitas outras especies, aliás magnificas.</p> + +<p>Quanto a qualidade da madeira, quasi não ha virtude que se lhe recuse. Mas +ainda n'este capitulo proponho certo desconto. Maiden, diz; «Quasi tão rija +como o ferro, quando bem sêcca.» E o Barão de Mueller, citado por +Macclatchie, é um pouco mais explicito; acha que as arvores, <i>bem +maduras</i>, d'esta especie, cortadas na estação em que a circulação da seiva +é menos activa, e <i>cuidadosamente postas a secar</i>, produziram uma das +mais duradouras das madeiras de todo o mundo.» «Bem maduras» e +«cuidadosamente postas a seccar», note-se; tambem aqui os sublinhados foram +meus, porque tenho cortado bastantes <i>Eucalyptus rostrata</i> e, se não me +engano, é uma das especies que mais tarde amadurece, e por isso<span class="pagenum"><a name="pag_83" id="pag_83">[83]</a></span> uma +das que mais fende e torce ao seccar, se a arvore não é velha.</p> + +<p>Salvo o devido respeito a auctorisados mestres, direi que só por excepção +e curiosidade guardaria logar para o <i>Eucalyptus rostrata</i> em mattas de +terras nossas. Se em qualquer arvore de semelhante caracter me sentisse +disposto a gastar tempo e dinheiro, então empregal-os-hia com o <i>Eucalyptus +tereticornis</i> que vale o <i>Eucalyptus rostrata</i> como madeira e +altamente se lhe avantaja em modestia de exigencias.</p> + +<p><b>Eucalyptus rudis.</b>—Sabe-se pouco das qualidades da sua madeira; +será, porém, evidentemente e para todos os effeitos, superior ao pinheiro, +cujo logar haja de tomar. Dá bellos troncos, aprumados, não muito altos, não +indo ordinariamente a mais de 25 metros, e engrossando bem. Vigoroso e de +crescimento rapido, capaz de descer a povoar terrenos mediocres. Mediocres, +note-se; para os ruins não será de confiança. Na America mostrou-se +«notavelmente resistente ao calor e ao frio» (Macclatchie); Naudin +considera-o «naturalisado» na Europa. A fórma do fructo, proxima da do +<i>rostrata</i>, promette que será dos que se prestam a cruzamentos, e +parece-me mesmo que das sementes que colhi, tenho já exemplares hybridos.</p> + +<p>O que tudo visto, e sendo certo que os numerosos <i>Eucalyptos</i> d'esta +especie que possuo confirmam a informação dos livros estrangeiros a seu +respeito, creio que é de propagar com franqueza e estudar com attenção e com +probabilidades de proveito.</p> + +<p><b>Eucalyptus saligna.</b>—As noticias que encontro sobre este +<i>Eucalypto</i> divergem.<span class="pagenum"><a name="pag_84" id="pag_84">[84]</a></span></p> + +<p>Aqui, leio que a madeira é «esplendida» e que os carpinteiros a estimam +muito; além me acautelam contra a sua «inferior» qualidade. Talvez questão de +terreno, o que nos <i>Eucalyptos</i> muitas vezes determina a boa e má +qualidade da madeira. Quanto a exigencias climatericas, não é maior a +conformidade: na America, não sobreviveu a estiagens intensas, e na Australia +habita apenas as regiões mais quentes do littoral; mas o <i>Diccionario das +Plantas Uteis</i> diz que «é mais rustico do que o <i>Eucalyptus +globulus</i>». Sobre terreno é que não ha duvida; o apparecimento d'esta +especie é uma «indicação de terreno bom», diz a <i>Eucalyptographia</i>.</p> + +<p>Os exemplares que eu tenho, já não são novos e estão magnificos, em boa +exposição e boa terra; mas, não obstante esta demonstração favoravel, correrá +talvez a desenganos quem se aventurar á plantação fóra de iguaes condições, e +as reservas sobre a qualidade da madeira não auctorisam aventuras.</p> + +<p><b>Eucalyptus salubris.</b>—Boa fama; promettedor para as regiões áridas, +supportando temperaturas elevadas e geadas consideraveis, e afinal dando boa +madeira. E d'estas virtudes nenhuma subsistiu nos poucos exemplares que +d'elle obtive. Desde o viveiro foram muito pobresinhos, e, depois, nunca +tiveram nem um momento de crescenças francas nem estatura apreciavel.</p> + +<p><b>Eucalyptus santalifolia.</b>—Um arbusto. Perdi quantos tinha no +primeiro inverno; morreram de frio.</p> + +<p><b>Eucalyptus siderophloia.</b>—Um <i>Iron-bark</i> (casca de ferro), de +excellente madeira, como todos os da sua classe. Parente proximo do<span class="pagenum"><a name="pag_85" id="pag_85">[85]</a></span> +<i>Eucalyptus</i> <i>crebra</i>, será talvez menos resistente do que este, o +que aliás não foi estorvo a que me desse um exemplar que, da mesma idade do +<i>Eucalyptus crebra</i>, não lhe está muito inferior nem em desenvolvimento +nem em saude. Porventura não será erro, na cultura meramente florestal, +plantar conjunctamente, em mistura, o <i>Eucalyptus crebra</i>, o +<i>Eucalyptus paniculata</i> e o <i>Eucalyptus siderophloia</i>.</p> + +<p><b>Eucalyptus Smithiana.</b>—D'esta especie pouco pude averiguar. Os +exemplares que possuo, de sementeiras de 1913, ainda não passaram invernos +bastantes para dizer claramente ao que vem. Alguma cousa dizem já; é certo. O +desenvolvimento é magnifico em qualquer exposição, preferindo a frescura, +manifestamente; mas tambem sem temer a terra ingrata e ardente onde vejo um +exemplar sadio e com um desenvolvimento mediano. Aspecto lindo, folhagem +abundante, delicada e pendente. Madeira... parece que é parente do +<i>Eucalyptus viminalis</i>, ao qual muito se assemelha, realmente, á +primeira vista; e, n'esse caso, teremos a contar com uma madeira clara, +inferior em dureza á das especies congeneres mais notaveis, mas de muitas e +utilissimas applicações apezar d'isso.</p> + +<p><b>Eucalyptus stellulata.</b>—Arvore pequena, que não será talvez para +desprezar em encostas voltadas ao norte, pois supporta grandes frios e dá boa +lenha. Sem grandes esperanças, claro está; em Portugal serão mais de apreciar +<i>Eucalyptos</i> que resistam ao calor do que os que supportam grandes +frios. Abrigos não faltam em nossos montes; a humidade é que nem sempre será +bastante, e sem alguns dias ardentes ninguem<span class="pagenum"><a name="pag_86" id="pag_86">[86]</a></span> passa no estio, quer +more á beira do mar, quer paire nas alturas da Estrella.</p> + +<p><b>Eucalyptus Stuartiana.</b>—São de 1902 os que eu tenho. Muito me +animaram nos primeiros dez annos; depois afrouxaram no crescer, e entretanto +moderavam-me o enthusiasmo. Resiste bem ao frio mas teme a falta de humidade; +por este lado muito me lembra o <i>Eucalyptus obliqua</i>, o <i>Eucalyptus +capitellata</i> e os demais <i>Stringybark</i>, seccando quando elles seccam +e nunca se lhes assemelhando nas proporções quando elles medram. Juntando a +isso que o <i>Eucalyptus</i> <i>Stuartiana</i> não dá nada especial quanto a +madeira, embora muito aproveitavel seja e faça boa lenha, inclino-me a crêr +que não ha vantagem em insistir na sua disseminação.</p> + +<p><b>Eucalyptus tereticornis.</b>—Convém não o perder de vista. Agradece a +frescura das proximidades do littoral, emquanto ao mesmo tempo não succumbe +com a estiagem e a seccura dos valles do interior; e, quanto a madeira, é o +rival do <i>Eucalyptus rostrata</i> na opinião do maior numero, e até lhe +será superior na opinião de alguns outros. «O snr. Maiden, diz Macclatchie, +conta que um poste d'esta madeira se conservou inteiramente são durante 55 +annos; e, segundo o mesmo auctor, o snr. Howitt, eminente auctoridade sobre +as arvores da colonia de Victoria, põe o <i>Eucalyptus</i> +<i>tereticornis</i> na cabeça do rol das madeiras d'aquella colonia proprias +para commercio.»</p> + +<p>Vão bem os dois exemplares mais antigos que d'esta especie possuo; o +maior, de 1902, tem 85 centimetros de circumferencia. Note-se: cresceram +devagar nos primeiros annos e, no<span class="pagenum"><a name="pag_87" id="pag_87">[87]</a></span> geral, não terão tendencia a dar +troncos muito aprumados,—o que se corrige, já vigiando-os e guiando-os, já +plantando basto e assim mantendo direitas as hastes que sobem á procura da +luz.</p> + +<p><b>Eucalyptus uncinnata.</b>—Um pobre arbusto, que nem sequer pelo vigor +se faz valer.</p> + +<p><b>Eucalyptus urnigera.</b>—Não fica pequeno; tenho, entre outros, um +exemplar com 15 annos e 1<sup>m</sup>,10 de circumferencia. Talvez o +<i>Eucalypto</i> que mais baixas temperaturas supporta; vem das regiões mais +frias da Tasmania. Affigura-se-me, porém, assás amigo de humidade, e não +tenho podido achar informações algumas sobre a qualidade da madeira. Se é +certo o seu proximo parentesco com o <i>Eucalyptus</i> <i>cordata</i>, +conforme o Barão de Mueller tem por probabilisimo, o <i>Eucalyptus +urnigera</i> não nos promette madeira melhor do que a de muitos outros de +cultura igualmente facil, senão mesmo mais segura e rendosa.</p> + +<p><b>Eucalyptus viminalis.</b>—Um colosso; dos meus, o mais alentado, com +20 annos, mede de circumferencia 2<sup>m</sup>,20. Cultura facil; até os +encontrei nascidos e crescidos expontaneamente em terra de uma vinha +abandonada, argilosa e de todo exposta ao sol. Na Italia supportou +temperatura de 9° e 10° centigrados abaixo de zero. Além d'isto, uma bella +arvore de sombra, melhor do que qualquer outra especie.</p> + +<p>A madeira é que não tem muito credito; julga-se inferior á da maior parte +das outras especies, pouco duradoura em contacto com a terra e fraca para +lenha.</p> + +<p>Talvez que o juizo que mais exactamente resume<span class="pagenum"><a name="pag_88" id="pag_88">[88]</a></span> as qualidades e +deficiencias d'esta arvore seja o de Naudin, dizendo que o <i>Eucalyptus +viminalis</i> é uma bella arvore de ornamento ou de avenida, chegando a mais +de 30 metros de altura, sem crescer tão depressa como o <i>Eucalyptus</i> +<i>globulus</i>. A sua madeira não tem nem a mesma densidade nem a mesma +duração da madeira do <i>Eucalyptus</i> <i>globulus</i>, o que não a impede +de servir para numerosas applicações em obras do interior da casa.</p> + +<p><b>Eucalyptus virgata.</b>—Ou <i>Eucalyptus</i> <i>Sieberiana</i>, na +classificação do Barão de Mueller, que d'elle diz muito bem. É o +<i>Iron-bark</i> da Tasmania, frequente nas cumiadas graniticas da costa, nos +valles arenosos e pedregosos do interior, assim como nos outeiros de +lousinho, e indo até 1:200 metros de altitude. Boa madeira para serrar, dura +depois de sêcca, leve e elastica, ardendo bem mesmo em verde, fraca para +enterrar, muito superior á do <i>Eucalyptus hoemastoma</i>, do qual o +<i>Eucalyptus Sieberiana</i> é parente muito proximo. De casca aspera e +persistente, ramifica mais copiosamente do que qualquer outra especie de +<i>Eucalyptos</i> da Tasmania.</p> + +<p>Téem apenas tres annos os exemplares que possuo d'esta especie, +provenientes de sementes enviadas para o Jardim Botanico da Universidade de +Coimbra pelo professor Maiden, e, por isso, com todas as garantias de +authenticidade. Mas estão promettedores, com mais de 2 metros de altura, +viçosos, amplamente ramificados e já com fructos, segundo a precocidade +sabida e caracteristica da especie. Tudo me anima aqui a novas sementeiras e +a insistir na cultura.</p> + +<p><b>Eucalyptus Wabtoniana.</b>—De incerta qualidade<span class="pagenum"><a name="pag_89" id="pag_89">[89]</a></span> de madeira e +parente do <i>Eucalyptus maculata</i>, por extrema susceptibilidade ao frio +excluido das nossas culturas, o <i>Eucalyptus Wabtoniana</i> não resistiu á +geada, nem mesmo com certo abrigo. Entre nós será quasi uma planta de +estufa.<span class="pagenum"><a name="pag_91" id="pag_91">[91]</a></span></p> + + + +<h1>BIBLIOGRAPHIA</h1> + +<p>As publicações sobre descripção e cultura dos <i>Eucalyptos</i> já não +téem conta; o que sobre o assumpto nos offereceu a França, a Australia e a +Italia, formaria uma bibliotheca. E, mesmo entre nós, haverá muito a colher e +a aproveitar em innumeraveis e utilissimas noticias espalhadas pelas +publicações agricolas periodicas, dando conta da experiencia da cultura de +varias especies de <i>Eucalyptos</i> em terras portuguezas.</p> + +<p>Creio, porém, que com os poucos volumes abaixo indicados se constituirá +livraria sufficiente para quem se sentir tentado a proseguir no estudo de +similhantes missionarios de abastança das nossas florestas, tão carecidas de +renovação:</p> + +<p>Em primeiro logar, as obras do Barão de Mueller. Sobretudo a +<i>Eucalyptographia</i>, publicada em Melbourne, de 1874 a 1884, e o +<i>Diccionario das Plantas Uteis</i>, edição da <i>Gazeta das Aldeias</i>, +traduzido em portuguez, em 1905, pelo illustre professor da Universidade de +Coimbra, o snr. dr. Julio A. Henriques.</p> + +<p>Depois, as obras de Maiden, o eminente naturalista e director do Jardim +Botanico de Sydney, particularmente <i>The Useful Plants of Australia</i> e +<i>A Critical Revision of the Genus Eucalyptus</i>, ainda não concluida.</p> + +<p>Em seguida e, finalmente: o livro de A. James Macclatchie <i>Eucalypts +cultivated in the United States</i>, boletim n.º 35 da repartição de +agricultura d'aquelle paiz, publicado em Washington em 1902 (livro +excellente, talvez de todos o mais prático); <i>Description et Emploi des +Eucalyptus introduits en Europe</i>, de C. Naudin (Antibes, 1891); <i>Les +Eucalyptus</i>, de Felix Sahut (Delahaye & Lecrosnier, Pariz, +1888).<span class="pagenum"><a name="pag_93" id="pag_93">[93]</a></span></p> +</div> + + + +<div style="width: 80%; margin: auto;"> +<h2>INDICE</h2> + +<p><b>Eucalyptos e Acacias</b></p> + +<p><a href="#pag_9">Do logar do Eucalypto na economia florestal do nosso paiz e da apreciação do valor dos seus productos</a></p> + +<p><a href="#pag_19">Cultura do Eucalypto</a></p> + +<p><a href="#pag_25">Póda dos Eucalyptos</a></p> + +<p><a href="#pag_28">Escolha das variedades</a></p> + +<p><a href="#pag_30">Do córte dos Eucalyptos</a></p> + +<p><a href="#pag_32">Eucalyptos hybridos</a></p> + +<p><a href="#pag_35">A côrte dos gigantes</a></p> + +<p><a href="#pag_44">Notas sobre as principaes especies de Eucalyptos que tenho cultivado</a></p> + +<p><a href="#pag_91">Bibliographia</a></p> +</div> + +<div style="margin: auto; width: 80%;"> +<p style="text-align: center; font-size: 2em;">Livraria do «Lavrador»</p> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.1em;">LIVRINHOS JÁ PUBLICADOS:</p> + +<p>I—Manual do podador (2.ª edição), 90 réis</p> + +<p>II—Doenças das videiras (3.ª edição), 100 réis</p> + +<p>III—Doenças das fructeiras (2.ª edição), 160 réis</p> + +<p>IV—O vinho: como se faz e conserva (2.ª edição), 140 réis</p> + +<p>V—O desengace, 280 réis</p> + +<p>VI—Adubações (2.ª edição), 130 réis</p> + +<p>VII—Manual do enxertador (2.ª edição), 230 réis</p> + +<p>VIII—Cultura da batata (3.ª edição), 140 réis</p> + +<p>IX—Oliveira, 140 réis</p> + +<p>X—O Azeite, 140 réis</p> + +<p>XI—O Milho; cultura aperfeiçoada (2.ª ed.) 200 réis</p> + +<p>XII—Animaes uteis ao lavrador, 140 réis</p> + +<p>XIII—Animaes nocivos ao lavrador, 340 réis</p> + +<p>XIV—As hortas; sua cultura racional (2.ª ed.) 250 réis</p> + +<p>XV—Os pomares, 280 réis</p> + +<p>XVI—A capoeira, 280 réis</p> + +<p>XVII—O gado, 230 réis</p> + +<p>XVIII—Guia do lavrador, 90 réis</p> + +<p>XIX—Botanica e Agricultura, 280 réis</p> + +<p>XX—Prados e Pastagens, 250 réis</p> + +<p>XXI—Doenças internas, não contagiosas, dos animaes domesticos, 350 réis</p> + +<p>XXII—Doenças externas, não contagiosas, dos animaes domesticos, 510 réis</p> + +<p>XXIII—Doenças contagiosas e parasitarias dos animaes domesticos, 510 réis +</p> + +<p>XXIV—O bicho da sêda, 280 réis</p> + +<p>XXV—A Agua—Como se procura nos terrenos, 310 réis</p> + +<p>XXVI—Construcções agricolas, 420 réis</p> + +<p>XXVII—O Trigo—Como se obtém grande rendimemto, 350 réis</p> + +<p>XXVIII—Os Pinhaes—Como se conservam; como se augmentam, 350 réis</p> + +<p>XXIX—As Abelhas, 350 réis</p> + +<p>XXX—Ervas más, 340 réis</p> + +<p>XXXI—Jardinagem, 350 réis</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Eucalyptos e Acacias, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK EUCALYPTOS E ACACIAS *** + +***** This file should be named 27715-h.htm or 27715-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/7/1/27715/ + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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