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+ <title>Lendas dos Vegetais, por Eduardo Sequeira</title>
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+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Lendas dos Vegetaes, by
+Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Lendas dos Vegetaes
+
+Author: Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira
+
+Release Date: December 4, 2008 [EBook #27412]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS DOS VEGETAES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;text-align:center;">LENDAS DOS VEGETAES.</p>
+
+<p style="text-align: center;"></p>
+
+<div style="margin: auto; width: 20em; font-size: 0.8em;">
+<p>DO MESMO AUCTOR:<br>
+Os reptis em Portugal.<br>
+A fauna dos Lusiadas.<br>
+Guia do Naturalista.<br>
+Ninhos e ovos.<br>
+Á Beira mar.<br>
+Notavel transplantação de uma palmeira.<br>
+Esboço biographico de Adolpho Frederico Moller.<br>
+Jornal de Horticultura Pratica (1889, 1890, 1891, 1892).</p>
+</div>
+
+<p style="font-size: 0.8em; text-align: center;">Typ. de A. R. da Cruz
+Coutinho. Caldeireiros, 28 e 30.</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;"></p>
+
+<div id="capa">
+<p style="font-size: 1.8em;">LENDAS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DOS</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">VEGETAES,</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p>EDUARDO SEQUEIRA.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO&mdash;1892.</p>
+</div>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>AO AMIGO</p>
+
+<p>ALFREDO FERREIRA DIAS GUIMARÃES.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>TIRAGEM UNICA DE 70 EXEMPLARES.</p>
+
+<p>Ex. n.º 26</p>
+
+<p><em>offerecido</em></p>
+
+<p><em>por</em></p>
+</div>
+
+<h1>INDICE.</h1>
+<ul class="indice">
+ <li><a href="#SECTION00300">ABOBORA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0060">ABOBOREIRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0090">ACONITO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00160">AÇUCENA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00560">ALECRIM.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00230">ALGODÃO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00120">AMOREIRA NEGRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00100">APAMARGA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00310">ARROZ.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00210">CANNAS.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00260">CARDO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0020">CARVALHO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00130">CEDRO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00480">CENTEIO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0030">CHÁ.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0050">CHICÓRIA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00240">CHORÃO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0070">CHRISANTHEMO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00550">CIPRESTE.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00340">CLEMATIS
+ INTEGRIFOLIA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00600">ESPINHEIRO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00570">FETO MACHO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00540">FIGUEIRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00280">FIGUEIRA DA INDIA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00530">HERA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00250">LARANGEIRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00370">LEITUGA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00450">LINHO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00500">LOTUS.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00620">LOUREIRO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00270">MAÇÃ.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00290">MAIAS.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00440">MANGERONA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00140">MARMELLEIRO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00520">MELÃO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00200">MILHO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00350">MOSTARDA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00390">MYOSOTIS.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00580">MYRRHA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00400">MYRTHO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00220">NARCISO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00330">NOGUEIRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00380">OLIVEIRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00170">PALMEIRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0040">PAPOULA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00420">PILRITEIRO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00410">PINHEIRO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00460">PLATANO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00590">POLYPODIO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00180">RABANETE.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00150">ROMÃ.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0010">ROSA MUSGO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION0080">ROSAS.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00510">SENSITIVA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00430">SERRALHA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00490">SILVA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00190">TABACO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00360">TILIA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00490">TREMOÇOS.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00470">TREVO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00110">TRIGO.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00610">VIDEIRA.</a></li>
+ <li><a href="#SECTION00320">ZIMBRO.</a></li>
+</ul>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION0010">ROSA MUSGO.</a></h1>
+
+<p>O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus, mitigar o soffrimento
+d'uma pobre noiva cujo bem amado morrera na guerra, defendendo o solo sagrado
+da patria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam a immensa
+legião que Deus commanda, e o favorito querido do Senhor.</p>
+
+<p>Contente com o encargo que lhe fôra dado, Sible bateu as azitas da mais
+fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde
+morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a solidão e
+o abandono em que ficava depois de têr architectado tantos e tão risonhos
+projectos de felicidade.</p>
+
+<p>Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga,
+allucinada pela dôr, procurava pôr termo á existencia, e começou, para a
+consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes côres a morte gloriosa do noivo, o
+logar distincto que elle ia occupar no reino dos ceus, esperando que ella se
+lhe fosse juntar para se realisar o eterno e venturoso enlace patrocinado por
+Deus, que o desespero da rapariga abrandou como por encanto, e um sorriso,
+raio de sol após temporal desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto
+amargurado. Mas para que Amel merecesse uma felicidade tão extraordinaria,
+felicidade não sonhada por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que
+esquecesse a dôr mitigando o soffrimento alheio, indo em santa romagem do bem
+para a cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e
+de familia, e para junto das creancinhas que a guerra fizera orphãs, esperar
+que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem amado.</p>
+
+<p>Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noute começou a
+estender o escuro veu sobre a terra, contente por se ter satisfatoriamente
+desempenhado da tarefa que lhe era imposta, despediu-se da donzella e quiz
+tomar o caminho do ceu. Mas com o cahir da noute estendera-se sobre o bosque
+um espesso nevoeiro humido que desnorteou Sible, e molhando-lhe as pennas das
+azas o impossibilitou de voar. O anjo vendo que lhe era impossivel alcançar o
+ceu, tratou de procurar um retiro agradavel e seguro onde podesse
+socegadamente esperar a manhã.</p>
+
+<p>Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantissima roseira
+engrinaldada de formosissimas rosas brancas rescendendo os mais puros e
+divinaes aromas. Mais encantador abrigo, melhor docel não era possivel
+encontrar em todo o bosque.</p>
+
+<p>Sible foi á parede apanhar um montão de fôfo musgo e com elle fez sob a
+roseira um leito confortavel, onde, depois, envolvendo-se nas alvas azas de
+arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a madrugada.</p>
+
+<p>Porém o aroma que as rosas emittiam era tão embriagador, e o vento
+brandamente passando atravez a folhagem cantava melodias tão doces, que o
+anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente.</p>
+
+<p>Nunca no ceu Sible passara uma tão agradavel noite! Sonhou sonhos tão
+deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do sol,
+beijou reconhecido as rosas, e estas, córando de alegria e pejo, ficaram para
+sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca recompensa para quem
+tão agradavelmente o emballara toda a noite, e queria, antes de regressar ao
+ceu, dar-lhe recompensa maior.</p>
+
+<p>Porém como tornar mais bellas as rosas em que tudo, fórma, colorido e
+perfume tão distinctamente brilhavam?</p>
+
+<p>Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que lhe
+servira de leito, resguardou cuidadosamente com elle os botões das flores
+prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insectos lhes não
+causassem damno algum.</p>
+
+<p>E em seguida, batendo as azas, voou para o ceu a dar conta a Deus da
+missão de que fôra encarregado.</p>
+
+<p>E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo...</p>
+
+<h1><a name="SECTION0020">CARVALHO.</a></h1>
+
+<p>Hercules, o lendario gigante invencivel, regressando um dia de praticar
+uma d'aquellas suas tão memoraveis façanhas, deitou-se em pleno campo para
+dormir a sesta. Antes porém de se confiar aos braços de Morpheu, no sólo,
+junto a si, na previsão de qualquer repentino e inesperado ataque, espetou a
+pesada máça, mais forte que o ferro, e com que esmagava tudo quanto lhe
+oppunha obstaculo aos seus designios.</p>
+
+<p>Dormiu o bom do gigante por muito tempo e quando acordou era quasi noite;
+procurou logo a arma predilecta, e com assombro viu em lugar d'ella uma
+pujante e formosissima arvore! A máça, ao contacto do sólo, enraizara,
+desenvolvera tronco, lançara ramos, folhas e fructo.</p>
+
+<p>Hercules furioso arrancou o vegetal e, quebrando-lhe os ramos, fez do
+tronco uma nova e formidavel clava, mais sólida e forte que a que antes
+possuira.</p>
+
+<p>Porém, dos fructos esparsos pelo sólo, nasceram ao depois novas identicas
+arvores, que para sempre ficaram sendo o emblema da força e do vigor.</p>
+
+<p>Estas arvores são os carvalhos.</p>
+
+<h1><a name="SECTION0030">CHÁ.</a></h1>
+
+<p>Dakkar era um ardente devoto de Siva a cruel deusa indiana que só gosta de
+morticinio e de sangue, e que recebe as adorações mais submissas, profundas e
+completas d'uma legião de crentes que habitam nos misteriosos recessos das
+florestas da India, d'essa terra das lendas e das maravilhas. Havia annos que
+vivia n'uma gruta em ardente adoração; de estar sempre de joelhos creara
+calosidades que lhe não permittiam endireitar as pernas, e as unhas dos dedos
+das mãos, que conservava fechadas havia annos, tinham rompido os tecidos e
+appareciam do lado opposto.</p>
+
+<p>Não havia martirio a que se não sujeitasse, e as populações fanaticas
+consideravam-o Santo e vinham de longe render-lhe homenagem e pedir-lhe
+conselhos.</p>
+
+<p>Só uma nuvem negra, um pesar profundo perturbava o misticismo de Dakkar.
+Soffria sem custo o frio, a fome, a sede, as mais incommodas posições,
+dominando á vontade o organismo, só não podera ainda vencer o somno! Debalde
+se esforçava por resistir, debalde fazia despejar sobre si quantidades
+enormes de agua fria, debalde se sujeitava á applicação do ferro em brasa, ou
+fazia vibrar o tam-tam junto dos ouvidos. O somno como mais forte,
+subjugava-lhe a vontade e obrigava-o a dormir. No seu desespero chegou a
+fazer cortar as palpebras cuidando assim que espancaria para longe o somno,
+mas a tortura foi baldada. Os olhos permaneciam abertos mas Dakkar dormia!
+</p>
+
+<p>Uma tarde,&mdash;havia dias que estava sem comer&mdash;orava o fakir
+fervorosamente pedindo a Siva que se amerciasse d'elle e lhe permitisse antes
+de morrer a ultima e suprema felicidade de poder vencer o somno, quando
+começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do somno a
+dominal-o, tudo a dansar-lhe á volta...</p>
+
+<p>Seria fome? Seria somno? Oh, se apasiguando a fome vencesse o somno...</p>
+
+<p>Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fieis tinham-se esquecido de lh'os
+trazer... mas não havia mal... Fóra, perto da gruta, vegetavam variados
+arbustos, e a alimentação de tantos animaes tambem havia de convir ao homem.
+Seria mais um sacrificio... E Dakkar arrastando-se com difficuldade, quasi
+vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto d'um vegetal e começou a
+devorar-lhe as folhas.</p>
+
+<p>Mas, caso milagroso, á medida que ingeria as folhas do vegetal, o somno
+desapparecia e o fakir sentia-se mais fórte, fresco e vigoroso.</p>
+
+<p>Obrigado oh Siva, exclamou elle jubiloso, agora posso morrer, pois morro
+feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos meus
+esforços. Venci o somno!</p>
+
+<p>Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do
+vegetal, que deitava de infusão, e quando o somno fazia sentir os seus
+primeiros rebates bebia da agua milagrosa e elle desapparecia logo.</p>
+
+<p>O arbusto descoberto pelo fanatico fakir indiano, o vegetal dissipador do
+somno foi o chá.</p>
+
+<h1><a name="SECTION0040">PAPOULA.</a></h1>
+
+<p>N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a confraternizar
+com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que pela
+sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á cabeceira dos
+doentes era querido e estimado por todos.</p>
+
+<p>Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares saber
+adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes
+insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento só de
+descanso.</p>
+
+<p>Em qualquer adoecendo, a familia ia logo têr com o pobre rapaz, que não
+podendo resistir ás supplicas lá se installava junto dos doentes,
+emballando-os com as suaves melodias que chamam o somno e que elle sabia
+dizer como ninguem.</p>
+
+<p>Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas e
+vigilias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu ao
+caír da tarde, quando o sol morria no extremo horisonte...</p>
+
+<p>Então os deuses para premiarem as boas acções do que morrera praticando o
+bem, tornaram-o immortal, transformando-o n'uma planta, na papoula, a quem
+deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre junto a si,
+a de fazer esquecer o soffrimento por meio do somno.</p>
+
+<h1><a name="SECTION0050">CHICÓRIA.</a></h1>
+
+<p>Chicória era uma princeza tão formosa, que todos os homens ao vêl-a
+ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabellos mais
+finos que a mais fina sêda, o céo emprestara-lhe aos olhos o seu doce azul, e
+a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja á purissima alvura da sua
+cutis.</p>
+
+<p>Era um encanto.</p>
+
+<p>O rei, seu pae, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os
+caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslisava entre
+affagos e desejos satisfeitos, n'uma completa e intensa felicidade.</p>
+
+<p>Porém um dia o amor tudo transtornou.</p>
+
+<p>Um bello trovador, um d'aquelles gentis bohemios que percorriam o mundo de
+lyra no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, chegou ao
+palacio, onde foi recebido com todo o carinho que então se dispensava ao
+seguro depositario das antigas tradicções guerreiras e das castas e bellas
+lendas d'amor.</p>
+
+<p>Berengère se chamava elle, e nunca até então viéra ao palacio real quem
+melhor soubesse dedilhar a lyra, soltar ao vento os magoados queixumes d'uma
+alma amorosa ou attingir o apice do enthusiasmo na narrativa dos feitos
+audazes dos valentes guerreiros immortalisados em campanhas féramente
+medonhas.</p>
+
+<p>Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os caprichos,
+pediu ao pae que a casasse com o trovaor. O rei, que nada recusava á filha,
+accedeu constrangido, mas o bello trovador, que não queria perder a
+estremecida liberdade que tantas varias aventuras galantes lhe proporcionava
+e tantos constantes prazeres seguros lhe dava, ao saber dos desejos da
+formosa princeza fugiu do palacio para nunca mais voltar.</p>
+
+<p>A alegria de Chicória desappareceu desde então para sempre. Passava os
+dias sentada no varandim do palacio olhando pela estrada além a vêr se o
+trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, trazendo-lhe a
+ventura perdida.</p>
+
+<p>Mas debalde esperou.</p>
+
+<p>Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de
+neve, pouco a pouco desappareceu-lhe a luz dos olhos...</p>
+
+<p>Então, não podendo resistir a este ultimo golpe, a princeza morreu de
+paixão.</p>
+
+<p>Sepultaram-a perto do palacio, á beira da estrada, n'um local por ella
+designado, voltada para o sitio d'onde sempre esperara o regresso do amante;
+pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzella morta de amor, brotaram
+as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flôr que pelo bello azul
+que a tinge faz recordar os castos olhos da candidissima princeza.</p>
+
+<h1><a name="SECTION0060">ABOBOREIRA.</a></h1>
+
+<p>Quando Ninive, condemnada pelos seus maleficios, estava prestes a ser
+arrasada, Jonas, que queria ser espectador do facto tremendo que
+prophetisára, veio postar-se n'um local d'onde perfeitamente podia presencear
+o castigo da cidade maldita.</p>
+
+<p>Porém no posto de observação escolhido, não havia uma só arvore, e um sol
+de fogo, a prumo, tornava tão martyrisante a estada alli do propheta, que
+este, angustiado, pediu a Deus que o soccorresse, attenuando-lhe de alguma
+fórma a intoleravel ardencia dos raios solares. Ainda Jonas não tinha acabado
+a sua fervorosa prece, já uma planta se erguia do sólo, crescia rapidamente e
+envolvia-o tão bem, que o propheta, contentissimo e consolado, pensando que
+poderia gosar da bella frescura proporcionada pela folhagem do vegetal,
+terminou o pedido com um intenso agradecimento ao céo pelo beneficio
+prestado. Mas n'isto, tão repentinamente como brotára do sólo, a planta
+seccou e reduziu-se a pó, deitando assim n'um instante por terra as doces
+esperanças do santo propheta. Esta planta era a <i>aboboreira</i>.</p>
+
+<h1><a name="SECTION0070">CHRISANTHEMO.</a></h1>
+
+<p>Segundo resa a tradicção fielmente conservada atravez centenas e centenas
+de gerações, nunca houve nas ilhas do Sol Nascente princeza mais
+seductoramente formosa do que a companheira bem amada do principe Yoshimtsou.
+</p>
+
+<p>Pintor algum por mais talento que possua, não será nunca capaz de, com as
+côres mais finas e custosas, crear imagem mais graciosa do que a da bella
+japoneza.</p>
+
+<p>Ella era mais fresca que as alvoradas, mais alegre que as searas maduras,
+mais formosa que o sol e mais sabia que o mais sabio bonzo.</p>
+
+<p>A justiça vacillava em dar sentença em negocio intrincado, dous esposos
+desharmonizavam-se, pleiteavam visinhos em encarniçada questão que nada
+parecia poder sanar, era só fazer a princeza Tou-Ki sabedora do caso e ella
+tudo resolvia com a mais imparcial justiça tudo aplanava e o que mais era
+digno de nota, a contento de ambas as partes que ficavam abençoando a
+Providencia das ilhas do Sol Nascente, a boa, a doce, a justa e a santa
+princeza Tou-Ki.</p>
+
+<p>Por isso todo o mundo a adorava, todas a bemdisiam desde o miseravel
+habitante das tristes choupanas até ao opulento morador dos labirinticos
+palacios construidos de porcellana e forrados de custosa sêda de mil côres
+diversas.</p>
+
+<p>Um dia porém o imperio onde só parecia residir a felicidade foi assolado
+por um terrivel flagello, uma medonha peste que dizimou espantosamente a
+população. Tudo era dôr, lagrimas e luto.</p>
+
+<p>A gente atterrada, perdia a cabeça e a nada attendia. Agglomerava-se ante
+os templos, pedindo aos Deuses, em altos gritos, o termo da praga cruel para
+que não sabiam remedio.</p>
+
+<p>Quem lhes valeu porém no afflitivo transe foi a boa princeza Tou-Ki.
+Corria de casa em casa tractando dos doentes, amortalhando os mortos de quem
+todos fugiam com horror, tomando conta dos pobres orphãos abandonados,
+consolando e animando os tristes. E a sua popularidade cresceu tão
+espantosamente que, quando apparecia, todos se lhe lançavam aos pés, e era
+adorada com fanatismo, como nenhum Deus até então o fôra.</p>
+
+<p>Mas&mdash;crueldade da sorte!&mdash;quando a peste terminava, quando já
+todos, applacado o pavor, rendiam graças ao ceu por terem escapado ao mal
+dizimador, a princeza atacada pela doença cruel que desbastara o seu povo
+estremecido, foi instantaneamente arrebatada pela morte, como se esta
+receiasse que demorando-se alguns minutos o amor dos subditos lhe não
+deixasse empolgar a bella presa preciosa.</p>
+
+<p>Então o luto foi geral, e todos, velhos e novos, choravam doidamente a
+perda da sua bondosa protectora, da sua amiga, da sua providencia, do seu
+bem.</p>
+
+<p>O enterro da santa princesa foi a coisa mais maravilhosa que sonhar-se
+póde. Toda a nação a acompanhou até junto da sepultura aberta no centro de um
+extenso e alegre campo de arroz.</p>
+
+<p>Poucos dias depois&mdash;caso estranho!&mdash;o local onde jasia o corpo
+da gentil princeza assignalava-se por uma profusão de flores estranhas,
+desconhecidas de todos, que espontaneamente brotaram do sólo, com as petalas
+graciosamente encaracoladas como o fôra o cabello da morta gentil, e de mil
+coloridos diversos desde o negro como os seus olhos negros, vermelho tão vivo
+como o que em vida lhe tingia os labios, e amarello intenso como o oiro dos
+seus cabellos até ao branco impeccavel da sua alma purissima.</p>
+
+<p>De toda a parte, desde os mais remotos confins do imperio, o povo,
+celebrando o milagre, corria a visitar o tumulo milagroso para colher hastes
+das plantas sagradas que se tornaram logo as predilectas de todos,
+espalhando-se rapidamente por todo o paiz.</p>
+
+<h1><a name="SECTION0080">ROSAS.</a></h1>
+
+<p>As rosas attrahiram desde a mais alta antiguidade a attenção de todos os
+povos e por isso não é de estranhar o grande numero de lendas que correm a
+seu respeito.</p>
+
+<p>Os Egypcios tinham-as em grande valor, ornando-se com ellas, uso que
+passou aos romanos e d'estes a todos os povos modernos. Ainda não ha muito
+que appareceram em varios tumulos egypcios restos reconheciveis de rosas.</p>
+
+<p>Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas antigos
+asseveram que as rosas eram todas brancas ao principio tomando a côr vermelha
+do sangue de Adonis, segundo uns, de Venus, segundo outros.</p>
+
+<p>A Aurora era representada outr'óra sob a forma de uma grinalda de rosas, a
+rosa deu o nome ás festas da primavera (<i>rusalija</i>), a Virgem christã
+que substituiu no culto a Venus antiga adoptou como seu o mez das rosas e tem
+tambem o nome de <i>rosario</i> o cordão com contas, primitivamente composto
+com tractos da <i>Rosa canina</i>, com que as mulheres piedosas marcam as
+suas rezas.</p>
+
+<p>Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa, dando
+annualmente na Paschoa uma rosa d'oiro aos principes mais religiosos da
+christandade.</p>
+
+<p>Na Idade media, reminiscencia sem duvida do costume das dissolutas da Roma
+antiga se ornarem de rosas na festa da Venus Erycina, condemnavam as mulheres
+publicas, as raparigas deshonradas e os judeus, a trazerem como signal
+distinctivo uma rosa.</p>
+
+<p>Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça e ornavam com
+ellas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas bellas flores
+preservavam da embriaguez.</p>
+
+<p>A rosa foi não só simbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas tambem
+simbolo funerario. Nas lendas persas as rosas e os cyprestes andam unidos;
+junto dos tumulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos cyprestes.
+</p>
+
+<p>Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma rosa é signal e
+morte.</p>
+
+<p>Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Mahomet, os Indianos fazem-a
+apparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galiano é filha do
+orvalho, e a crêr-se no que affirma Justin de Mieckow brotou do suor de uma
+mulher chamada Jone, suor que por um phenomeno singular era branco de manhã e
+vermelho ao meio dia. D'ahi as rosas brancas e as vermelhas.</p>
+
+<p>Anacréonte ensina-nos que Cybéle, para se vingar de Venus, creou a rosa
+com o fim de pôr em parallelo a belleza de Venus com a belleza da rosa.</p>
+
+<p>Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua
+historia:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua
+ bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais
+ distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as mais
+ illustres allianças.</p>
+
+ <p>O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que se
+ orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses por
+ possuir dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas depoz tambem os
+ seus louros aos pés da joven princeza possuido dos sentimentos affectivos
+ de todos os outros adoradores. Mas a altiva belleza respondeu aos amantes
+ que a importunavam: <i>Não é facil obter um coração como o meu, nem
+ julgueis que vos é possivel seduzir-me. Quem me quizer ha-de
+ vencer-me.</i></p>
+
+ <p>Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado a
+ Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha
+ approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade. N'isto os
+ amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e travou-se um combate
+ encarniçado; a joven rainha sustentou o choque com firmesa, e defendeu-se
+ com tanto vigor que expulsou para longe os ferozes amantes, cujo
+ procedimento pouco delicado a ultrajava.</p>
+
+ <p>Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a
+ victoria a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um esplendor tão
+ divino que o povo deslumbrado exclamou em côro:</p>
+
+ <p><i>Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este templo.
+ Tiremos Diana do altar.</i></p>
+
+ <p>A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado por
+ este cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e com um raio
+ luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que tinha a Rhodante, e
+ logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes fórtemente ao altar, raizes
+ alongaram-se e, privada repentinamente de todo o sentimento, ficou immovel,
+ tornando-se-lhe duros os incantos vencedores. Os braços estenderam-se e
+ transformaram-se em ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a bella
+ Rhodante, a orgulhosa rainha, mas uma arvore.</p>
+
+ <p>Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma
+ conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante.</p>
+
+ <p>Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos olhos
+ dos adoradores que a amaram.</p>
+
+ <p>Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e
+ esforçou-se pola vingar.</p>
+
+ <p>Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a prejudicar
+ lhe serviram de defesa.</p>
+
+ <p>Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi
+ transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob esta
+ forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a metamorphose não
+ mudou».</p>
+</blockquote>
+
+<p>O marquez de Chesnel dá-nos noticia da seguinte lenda grega:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana,
+ Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro.</p>
+
+ <p>Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava de
+ pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados, uma flecha
+ despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro com a cabeça perdida
+ lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh prodigio! em lugar das formas
+ seductoras da noiva só estreita de encontro ao peito um arbusto coberto de
+ espinhos e flores odoriferas que recebeu depois o nome da infeliz
+ Rosalia».</p>
+</blockquote>
+
+<p>Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi transmittida por
+Joseph Balmont:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir em
+ cada dia um novo sêr.</p>
+
+ <p>N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha
+ brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre no
+ mesmo estado.</p>
+
+ <p>Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e cantando
+ melodiosamente, approximou-se da planta.</p>
+
+ <p>Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o
+ vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou seiva e
+ brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e rosadas como as
+ faces da formosa cantora.</p>
+
+ <p>Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em belleza
+ e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer».</p>
+</blockquote>
+
+<p>Angelo de Gubernatis conta-nos da seguinte fórma a lenda da roseira
+brava:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«A <i>rosa canina</i> passa na Allemanha por sinistra e diabolica.</p>
+
+ <p>Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do ceu,
+ afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com os espinhos
+ da roseira brava.</p>
+
+ <p>Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se mas
+ só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo voltou-lhe para o
+ sólo a ponta dos espinhos.</p>
+
+ <p>Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na occasião
+ em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este facto que ainda hoje
+ chamam aos fructos, <i>Judas-beeren</i> (bagas de judas).</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION0090">ACONITO.</a></h1>
+
+<p>O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta antiguidade.
+Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim d'Hécate da baba do cão
+Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada do Averno. O cão, ao contacto
+com a luz diurna, que pela primeira vez via, sentiu-se fortemente
+incommodado, expellindo pela negra e suja bocca torrentes de baba, que, ao
+tocarem o sólo, se transformaram em vegetaes venenosos como o liquido que
+lhes déra origem.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00100">APAMARGA.</a></h1>
+
+<p>Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (<i>Achyrantes
+aspera</i>), uma vulgar planta indiana.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Segundo uma lenda do <i>Yagúrveda negro</i> (II, 95), Indra tinha matado
+ Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e luctou com
+ elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de não o matar nunca,
+ nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de dia, nem de noite.</p>
+
+ <p>Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio durante
+ a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas o dia ainda
+ não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da cabeça de Namuc'i nasceu
+ então a herba <i>apamarga</i>, e Indra em seguida, com ajuda d'esta herba,
+ destruiu todos os outros monstros.</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00110">TRIGO.</a></h1>
+
+<p>Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que
+metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde o
+facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi a que
+o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio reclamar o que lhe
+pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que estava debaixo da terra,
+emquanto que a do ar era do lavrador, deixou este só com a rama, sem ter
+alimento para todo o anno. O pobre do homem ludibriado por Satanaz, lastimava
+a sua sorte, chorando á beira do caminho que passava por junto do campo,
+quando appareceu um santo monge que inquirindo a causa do pezar do lavrador,
+resolveu pregar uma peça ao diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e,
+chegado ao mosteiro a que pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe
+como se semeava e como d'elle se fabricava pão.</p>
+
+<p>O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o tempo
+da colheita, chamou Satanaz que, como no anno anterior, reclamou o que estava
+sob a terra, mas d'aquella vez ficou logrado pois só teve as raizes emquanto
+o lavrador se regalava com a magnifica colheita de trigo que lhe forneceu um
+saborosissimo pão.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00120">AMOREIRA NEGRA.</a></h1>
+
+<p>Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome scientifico de <i>Morus
+nigra</i>, tem uma commovente e celebre historia de amor.</p>
+
+<p>Thisbe tinha marcado uma entrevista a Pyramo sob a copada folhagem de uma
+amoreira. Thisbe chegou primeiro, e emquanto esperava o bem amado appareceu
+uma leôa com a bocca ainda tincta do sangue da presa que acabara de devorar.
+A donzella cheia de medo, fugiu correndo, e o vento arrancando-lhe o veu, que
+lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leôa, que o despedaçou, tingindo-o
+de sangue.</p>
+
+<p>Pyramo, ao chegar, vê o veu, e julgando que a amante fôra devorada pelas
+féras, cheio de desespero, suicida-se junto da arvore que por tanto tempo
+lhes abrigara os bellos e deliciosos sonhos de amor.</p>
+
+<p>Thisbe, volta pouco depois, e, dando com Pyramo moribundo, trespassa o
+coração com o mesmo ferro de que elle se servira e cáe morta sobre o corpo do
+amante.</p>
+
+<p>Os fructos da arvore brancos até então ficaram depois, para sempre,
+negros.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00130">CEDRO.</a></h1>
+
+<p>O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi elle tambem que
+forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Christo morreu.</p>
+
+<p>Salomão cantou os cedros do Libano, os symbolos da immortalidade, e todos
+os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração.</p>
+
+<p>Uma arvore, considerada sempre pelo homem como arvore protectora por
+excellencia, não podia deixar de ser tambem divinisada pelas lendas. Entre as
+muitas que correm por todo o Oriente duas ha verdadeiramente deliciosas, uma
+chinesa e outra egypcia.</p>
+
+<p>Hanpang secretario do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa Ho.
+A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que,
+enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que assim a
+pobre esposa cederia aos seus infames desejos.</p>
+
+<p>Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa, desesperado,
+suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se d'uma alta torre
+onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao removerem o corpo da
+desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta dirigida ao rei em que pedia que
+lhe mandasse sepultar o corpo junto do do marido.</p>
+
+<p>O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos
+fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite brotaram
+dous cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram tanto, que,
+apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram fortemente os ramos e as
+raizes, conseguindo assim os dois esposos, eternisar transformado o seu amor.
+</p>
+
+<p>A lenda egypcia differente na fórma, no fundo é quasi a mesma.</p>
+
+<p>Batou, um heroe egypcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu
+coração está no centro da arvore junto á qual vive. Cortando a arvore o heroe
+morrerá. Porém dado esse caso, ainda póde vir a resuscitar se antes de sete
+annos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que o encontrar, o
+mergulhar n'um certo e especial liquido sagrado.</p>
+
+<p>Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que elle
+vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração, dão-lhe
+por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e que é a mais
+formosa que até então existira.</p>
+
+<p>Batou, perdido de amor pela mulher, cuja belleza é funesta, revela-lhe o
+segredo da sua existencia fatalmente ligada á do cedro.</p>
+
+<p>Um rio que passava atravez o bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e
+este, para aplacar as aguas, vê-se obrigado a cortar á esposa uma trança de
+cabello e dal-a ao rio. O rio orgulhoso com o bello penhor recebido leva-o ao
+sabor da corrente, emballando-o com melodias estranhas e embriagando-se com o
+delicioso aroma que o cabello emittia.</p>
+
+<p>A lavadeira do rei d'aquelle pais, que estava lavando roupa nas aguas do
+rio, vê a formosa trança, apanha-a e vae-a entregar ao rei, que vendo
+cabellos tão bellos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo
+apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do
+cedro, com o fim de se apoderarem da cubiçada presa, mas Batou mata-os a
+todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosissimo exercito e com
+elle consegue vencer Batou e obter a mulher.</p>
+
+<p>Porém esta não podia casar com o rei emquanto Batou fosse vivo; preferindo
+porém ser rainha a mulher de um heroe revela ao rei o segredo da vida de
+Batou.</p>
+
+<p>O cedro então é cortado e Batou morre.</p>
+
+<p>Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte á busca do
+coração para o fazer resuscitar, e só ao fim de quatro annos é que consegue
+descobrir no interior de um cedro o coração do irmão.</p>
+
+<p>Depõe-o logo n'um vaso cheio de liquido sagrado e passado um dia o coração
+começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o liquido e o coração e
+Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se n'um touro que todo o
+Egypto venera.</p>
+
+<p>A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que
+este o mande matar, porém quando o animal era immolado as suas primeiras
+gotas de sangue logo que tocaram no sólo deram nascimento a dous cedros, nova
+transformação de Batou.</p>
+
+<p>O rei a pedido da mulher, faz cortar as arvores, trabalho a que ella
+assiste jubilosa.</p>
+
+<p>Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela bocca, sem
+que lhe seja possivel expellil-o. Passados dias vê a rainha que está gravida
+e no fim do tempo proprio, dá á luz um formoso rapaz, nova incarnação de
+Batou.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00140">MARMELLEIRO.</a></h1>
+
+<p>O marmelleiro foi na antiguidade consagrado a Venus, e o seu fructo
+considerado como um penhor de amor.</p>
+
+<p>Outr'ora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmellos, para lhes tornar
+agradavel a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos
+varões. Porém a verdadeira consagração do marmelleiro e do marmello a Venus,
+isto é ao amor, vem de um facto astucioso que a antiguidade altamente
+celebrou.</p>
+
+<p>Akontius apaixonou-se doidamente pela formosa Cydippe de Delos. Não se
+atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de Diana,
+junto do local onde Cydippe costumava fazer as suas orações á deusa, um
+marmello com a seguinte inscripção: <i>Pela divindade de Diana, juro que
+serei esposa de Akontius.</i></p>
+
+<p>A rapariga entrando no templo e vendo o fructo apanhou-o e leu em voz alta
+a inscripção fazendo por isso, inconscientemente o juramento sagrado de
+esposar Akontios, o que religiosamente cumpriu.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00150">ROMÃ.</a></h1>
+
+<p>A romã simbolisa a fecundidade e a riqueza pelo grande numero de sementes
+que em si contém. Foi um fructo muito apreciado pelos antigos que o tinham em
+especial estima.</p>
+
+<p>Dario, o grande rei asiatico, repetia frequentemente que só desejava
+possuir tantos amigos fieis como de sementes tem uma romã.</p>
+
+<p>Era tambem frequente, n'aquelles bons remotos tempos os povos presentearem
+os reis que os visitavam com romãs, significando assim que lhes desejavam tão
+numerosos e felizes annos de vida, como as sementes contidas nos fructos.</p>
+
+<p>Na Turquia, as noivas, após a ceremonia do casamento, atiram violentamente
+com uma romã ao chão; se o fructo não rebentar é signal que não terão filhos,
+e rebentando terão tantos quantas forem as sementes que d'elle se espalharem
+pelo sólo.</p>
+
+<p>A romanzeira era tambem arvore phallica por excellencia, facto confirmado
+pela seguinte e antiquissima lenda narrada por Oppiano.</p>
+
+<p>Um homem viuvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida, que
+esta teve de suicidar-se para escapar á infame perseguição do pae. Os deuses
+condoídos transformaram Sida em romanzeira e o pae em falcão, e é por
+isso&mdash;diz Oppiano&mdash;que estas aves nunca pousam na romanzeira,
+evitando-a cuidadosamente.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00160">AÇUCENA.</a></h1>
+
+<p>Foi na Grecia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos
+chamavam a <i>flôr das flores</i>.</p>
+
+<p>Héraclés, uma creança, por ordem de seu pae Zeus, sugou o leite dos peitos
+de Héra, emquanto esta dormia, afim de participar da immortalidade que ella
+possuia. A creança porém, fel-o com tal força, e o leite era tão abundante,
+que lhe sahiu em borbotões pela bocca e correndo pelo sólo além deu origem á
+<i>via lactea</i> e á açucena.</p>
+
+<p>A deusa Aphrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava de
+uma alvura sem egual, ao vêr a candidez da açucena ficou furiosa de despeito
+e, para se vingar da flôr, fez-lhe brotar do centro um enorme e feiissimo
+pistillo.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00170">PALMEIRA.</a></h1>
+
+<p>Simbolisa a palmeira a victoria, a riqueza, a força, a resistencia e a
+belleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os braços
+das formosas indianas ás hastes flexiveis e elegantes das palmeiras.</p>
+
+<p>A arvore divina de todos os povos não podia tambem deixar de ser
+santificada pelo christianismo.</p>
+
+<p>Foi-o na seguinte e deliciosa lenda christã.</p>
+
+<p>Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua
+primeira e dolorosa viagem, descançou um dia á sombra de uma palmeira. Ao vêr
+os tentadores fructos da arvore, desejou-os ardentemente, porém estavam tão
+altos que lhe não era possivel chegar-lhe. S. José esforçava-se por subir á
+arvore, quando esta se inclinou e veio collocar-se ao alcance da Virgem que
+colheu os fructos que quiz, e só depois d'isso é que a arvore retomou a
+primitiva posição vertical.</p>
+
+<p>Jesus Christo, que estava ao cólo da mãe, reconhecido pela dedicação da
+palmeira, abençoou-a dizendo que ella ficaria sendo o simbolo da salvação
+eterna para os moribundos e que havia de fazer&mdash;como mais tarde
+fez&mdash;a sua entrada triumphal em Jerusalem, com uma palma na mão.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00180">RABANETE.</a></h1>
+
+<p>A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda allemã.</p>
+
+<p>O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei
+do paiz do Sol, roubou-a, encerrando-a em reconditos jardins situados entre
+altas montanhas.</p>
+
+<p>Como a princesa chorasse constantemente por se vêr só, o diabo deu-lhe uma
+vara magica e disse-lhe que quando quizesse companhia tocasse com ella um
+rabanete que elle logo se animaria transformando-se em uma mulher. Porém as
+companheiras que a princesa obtinha d'esta fórma só viviam emquanto os
+rabanetes tinham succo. Logo que seccavam as donzellas morriam.</p>
+
+<p>A princeza desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe désse uma vara
+magica com a qual podésse transformar os rabanetes nos animaes que quisesse.
+O espirito das trévas imaginando que d'esta fórma obteria as boas graças da
+princeza accedeu gostoso. Esta, obtida a vara magica, transformou um rabanete
+em abelha que mandou como mensageira ao esposo. A abelha não voltou e ella
+transformou outro rabanete em grillo que faz seguir o mesmo caminho. Como o
+grillo não regressasse tocou um terceiro rabanete que transformou em cegonha
+e esta traz-lhe o esposo. N'isto o diabo, desconfiando que estava sendo
+ludibriado foi contar os rabanetes mas, emquanto se entretinha com este
+serviço, a princesa transformou um rabanete, que já tinha escondido de
+prevenção, em fogoso cavallo e, montado n'elle, juntamente com o esposo,
+fugiu para sempre do poder do diabo.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00190">TABACO.</a></h1>
+
+<p>Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portuguezes
+n'essa bella epocha em que audaciosos e fortes dictavam leis ao mundo
+submisso e absorto ante as suas façanhas sobrehumanas.</p>
+
+<p>Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e
+crúa guerra.</p>
+
+<p>Para uns era a <i>herva santa</i>, o remedio certo e seguro de todas as
+doenças, para outros a <i>herva do diabo</i>, a herva maldita, a origem de
+todos os males.</p>
+
+<p>A egreja lançou-lhe excommunhão, os monarchas açoutaram-a com os seus
+odios, e leis severissimas prohibiram o uso do tabaco. Pois apesar de tudo
+elle foi-se espalhando de tal fórma, que por todo o mundo é raro agora o
+homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O tabaco hoje é
+quasi um alimento, e o producto querido dos principaes governos civilisados
+que d'elle extrahem as suas melhores e mais seguras receitas.</p>
+
+<p>Medicos e hygienistas notaveis téem-se ultimamente esforçado em mostrar os
+inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto elle concorre para o
+enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento; todos
+reconhecem o mal mas ninguem tem forças de o cortar pela raiz.</p>
+
+<p>O vicio alastra cada vez mais, do homem vae passando para a mulher e
+d'esta para a creança. É uma praga universal.</p>
+
+<p>Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia
+deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais
+curiosa é a dos Tchumaches.</p>
+
+<p>Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma
+mulher idolatra que, com os seus propositos libertinos, esteve quasi a fazer
+naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao vêr em perigo os
+homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa, que matassem a
+seductora, e a enterrassem em seguida no centro de um escuro bosque.</p>
+
+<p>O marido d'esta mulher, industriado pelo diabo, que não podia vêr com bons
+olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma vara que
+aquelle lhe deu, vara que com o tempo se transformou n'um bello arbusto de
+largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde por alli viram o
+idolatra cortar ao arbusto as folhas seccas, encher com ellas um cachimbo,
+pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromatico fumo que ellas
+desenvolviam.</p>
+
+<p>Admirados com o facto, imitaram o manejo do idolatra, e sentiram tal
+prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo,
+assim as boas graças de Deus, e cahindo sob o dominio do diabo, pois a planta
+não era mais que uma nova incarnação de Satanaz o qual assignala a sua
+passagem por qualquer logar com fumo intenso e um cheiro nauseante,
+embriagador, egual ao do tabaco.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00200">MILHO.</a></h1>
+
+<p>As espigas dos cereaes foram sempre o simbolo da abundancia, e a do milho,
+pela côr dourada da semente era mais particularmente o simbolo da riquesa.
+</p>
+
+<p>Na Africa, entre os selvagens, a espiga do milho representa a propriedade
+do sólo.</p>
+
+<p>Conta o Dr. Schweinfurth, n'um dos seus livros de viagens, que na Africa,
+as tribus depois da respectiva declaração de guerra, collocam no extremo dos
+seus dominios, em local bem exposto, de modo a poder facilmente ser visto por
+todos, uma espiga de milho, uma mólhada de pennas d'ave e uma flecha, o que
+quer significar que quem cortar uma espiga de milho ou agarrar uma ave, será
+morto por uma flecha.</p>
+
+<p>Na Calabria ha a seguinte e graciosissima lenda relativa ao milho, que
+seguindo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob fórma moderna, do
+antigo conto mytologico de Midas que mudava em oiro todo o trigo que tocava.
+</p>
+
+<p>Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a setima
+preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa entre
+as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a confeccionar bellos
+vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.</p>
+
+<p>Um domingo as irmãs mais velhas foram á missa e deixaram a coser sob a
+vigilancia da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais nova
+foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs regressaram da
+egreja não restava nenhum.</p>
+
+<p>As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir
+para as apasiguar um dos mais ricos mercadores da cidade que n'aquelle
+momento passava por acaso na rua.</p>
+
+<p>As irmãs fallando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia por
+sete, mas o homem comprehendendo que o barulho era motivado por inveja das
+outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de se casar com
+ella.</p>
+
+<p>Realisado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando á
+mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.</p>
+
+<p>Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado
+nada. Por mais que quizesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam e
+troçavam-a, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não
+deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.</p>
+
+<p>A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo
+com lagrimas, mas nada, nada obtinha.</p>
+
+<p>Um dia que estava á janella a lastimar a sua sorte passaram umas boas
+fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em logar de
+passar os dedos pelos labios, os passasse por farinha de milho.</p>
+
+<p>A fiandeira assim fez, e d'ahi por deante, com grande jubilo, não só podia
+fiar quanto queria mas tambem o fio, ao contacto da farinha de milho,
+transformava-se logo em rico fio de puro oiro.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00210">CANNAS.</a></h1>
+
+<p>Leite de Vasconcellos, dá-nos relativamente ás cannas a seguinte lenda
+colhida em Rebordinhos, Bragança:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de ouro, e
+ os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e enterraram-no n'um
+ monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um
+ pastor que cortou um pedaço da canna para fazer uma flauta; começou a
+ tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia:</p>
+
+ <blockquote>
+ Toca, toca, ó pastor,<br>
+ Os meus irmãos me mataram<br>
+ Por tres maçãsinhas de ouro,<br>
+ E ao cabo não as levaram.</blockquote>
+
+ <p>O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O
+ carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro
+ passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão em mão, até que
+ chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda o mesmo. Chamaram o
+ pastor que disse onde tinha cortado a canna. Foram lá e encontraram o
+ cadaver com as tres maçãs de ouro.</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00220">NARCISO.</a></h1>
+
+<p>Narciso era um mancebo de uma formosura sem igual, formosura de que se
+orgulhava em extremo.</p>
+
+<p>Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto com a frescura
+e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior em belleza a
+todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo, transformaram-o na flôr que em
+memoria do facto ainda hoje lhe conserva o nome.</p>
+
+<p>Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde o seu rosto
+se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada.</p>
+
+<p>Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que contempla no
+espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00230">ALGODÃO.</a></h1>
+
+<p>Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem profundamente
+odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra, cóva
+que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco apenas com
+a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho que lhe trouxesse
+o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal agarrou a cauda, ficou
+com as mãos presas e foi arrastado pelo animal para o fundo do poço, d'onde
+só pôde sahir á custa de innumeras fadigas. Chegado á terra, correu a contar
+ao pae que no interior do sólo existiam muitos homens e mulheres que poderiam
+ir buscar e fazer d'elles escravos que os auxiliassem nos seus trabalhos de
+cultura. Sacaibu então semeou pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus
+lhe déra, e com elle teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os
+primeiros homens que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais
+formosos e de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até
+que por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois
+d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão pelo
+que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição aos homens
+brancos.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00240">CHORÃO.</a></h1>
+
+<p>N'outros tempos era o chorão uma magestosa arvore levantando nos ares a
+bella e finissima ramagem. Orgulhoso do seu extraordinario crescimento
+protestou que havia de chegar ao céo e Deus, em castigo da ousadia,
+condemnou-o a não poder erguer para o céo os ramos, pois quanto mais
+crescessem mais haviam de virar para o sólo.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00250">LARANGEIRA.</a></h1>
+
+<p>É assaz conhecido o emprego nupcial das flores de laranjeira, como emblema
+da castidade, da puresa absoluta e completa.</p>
+
+<p>Este vegetal é celebrado desde tempos immemoriaes, não só pelo aroma sem
+rival das suas formosas flores, mas tambem pelos seus bellos e deliciosos
+fructos.</p>
+
+<p>Gubernatis escreve o seguinte relativamente á laranjeira:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino
+ rico, maravilhoso, é o reino de <i>Portugal</i>; e no Piemonte chamam
+ sempre <i>portogallotti</i> ás laranjas. Portugal é a região mais
+ occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o sol se
+ esconde, que acreditam estar situado o reino dos bemaventurados, o paraizo.
+ Foi tambem no extremo occidente que Héraclés descobriu o jardim das
+ Hespérides com a arvore de fructos d'oiro. Por isso assim como o Portugal,
+ a região occidental, o paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um
+ mesmo e unico paix, assim tambem a laranja, o <i>portogallotto</i> e a maçã
+ das Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os gregos
+ como os piemonteses, chamam ás laranjas
+ <i>&pi;&omicron;&rho;&tau;&omicron;&gamma;&alpha;&lambda;&iota;&#x3ac;</i> os
+ albaneses <i>protokale</i> e os proprios kurdos <i>portoghal</i>.</p>
+
+ <p>Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores e
+ mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não, mas é
+ porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou na
+ Europa.</p>
+
+ <p>O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda edição
+ das suas <i>Nouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine</i> (Paris,
+ 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa informação:
+ «<i>Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que vimos pela
+ primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e unica laranjeira da
+ qual dizem provieram todas, existe ainda em Lisboa na casa do conde de S.
+ Lourenço; é aos portuguezes que devemos um fructo tão excellente</i>».</p>
+</blockquote>
+
+<p>A longa e angustiosa peregrinação da Virgem para fugir com o divino filho
+aos que o queriam assassinar deu origem a grande numero de lendas, muitas das
+quaes se referem aos vegetaes, pertencendo a esse numero a que apresentamos
+relativa á laranjeira.</p>
+
+<p>A sagrada familia veio descançar uma tarde á sombra de uma laranjeira
+guardada por um cego. A Virgem pediu ao cego uma laranja para dar ao filho e
+aquelle respondeu-lhe que colhesse quantas quizesse pois todas eram d'ella.
+Então a Virgem colheu tres, uma para o Christo, outra para si e a terceira
+para S. José. E em paga da caridade do cego restituiu-lhe a vista.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00260">CARDO.</a></h1>
+
+<p>Os escoceses fizeram do cardo planta nacional em virtude do seguinte e
+lendario facto:</p>
+
+<p>Nas cruas guerras que em tempos immemoriaes a Escocia sustentou com a
+Dinamarca, uma noite, em que o exercito escocez fatigadissimo dos combates
+diurnos dormia descansadamente proximo da mar, os dinamarqueses desembarcaram
+e, caminhando cautelosamente, estavam prestes a surprehendel-os quando um
+soldado dinamarquez, tendo inadvertidamente calcado um cardo, picou-se tão
+valentemente que não pôde deixar de soltar agudo grito, que fez acordar os
+escocezes e permittir-lhes que podessem derrotar o inimigo obrigando-o a
+reembarcar em fuga desordenada.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00270">MAÇÃ.</a></h1>
+
+<p>A maçã é um simbolo da geração e da immortalidade.</p>
+
+<p>Sapho compara a virgem á maçã a quem todos desejam emquanto está na
+arvore, mas que já ninguem a quer quando cae ao sólo velha e pôdre.</p>
+
+<p>Na Sicilia, no dia de S. João, cada rapariga casadoira atira para a rua
+uma maçã e fica á espreita a ver quem a apanha. Se fôr um homem é signal de
+que casará dentro de um anno, sendo uma mulher só d'ahi a mais de um anno, um
+padre então morrerá virgem, e se os viandantes passarem sem fazer caso do
+fructo é prova evidente de que casando enviuvará.</p>
+
+<p>No Montenegro as noivas antes de entrarem para a nova casa que vão
+habitar, atiram-lhe para o telhado uma maçã; se esta ficar no telhado o
+casamento será abençoado com muitos filhos e se rolar vindo caír no sólo é
+porque a felicidade não sorrirá á noiva nem ella terá filhos.</p>
+
+<p>A lenda da maçã colhida por Eva e comida de sociedade com Adão, e que foi
+causa da perda da immortalidade, dando-lhe o conhecimento do bem e do mal e
+com elle o trabalho e a fadiga, é uma lenda puramente phallica, simbolisando
+a geração origem dos maximos praseres e das maiores amarguras.</p>
+
+<p>Na lenda biblica Eva colhe a maçã, mas nas lendas indianas, d'onde
+claramente foi aproveitada, o fructo colhido pela primeira mulher e
+compartilhado pelo primeiro homem, é um fructo rico em sementes, ora a romã,
+ora a laranja, o figo e a maçã.</p>
+
+<p>Relativamente á maçã ha tambem uma lindissima lenda christã. A Virgem
+Maria procurava adormecer o seu divino filho que, chorando, não lhe queria
+socegar no cólo. Então a Virgem, para o entreter, dá-lhe duas maçãs que Jesus
+brincando atirou aos ares, transformando-se logo uma na lua e outra no sol
+que nos alumia e aquece.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00280">FIGUEIRA DA INDIA.</a></h1>
+
+<p>A figueira da India (<i>Ficus religiosa</i>) é venerada na India
+principalmente pelos sectarios de Buddha, não a cortando nem lhe tocando
+nunca com ferro, para não offender o Deus n'ella occulto.</p>
+
+<p>Não só a arvore é adorada mas tambem o local onde alguma viveu é
+considerado local sagrado. A veneração dos indios pelo <i>ficus
+religiosa</i>, é devida á seguinte lenda:</p>
+
+<p>Buddha, apóz a conversão, ia sempre orar sob aquelle vegetal; a rainha,
+sua esposa, despeitada por aquelle facto, mandou cortar a arvore, e Buddha,
+quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a arvore não
+tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir cem bilhas de
+leite e regar com elle o tronco do vegetal, donde logo brotaram ramos, que
+cresceram rapidamente, attingindo a altura que hoje téem.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00290">MAIAS.</a></h1>
+
+<p>No numero 4, vol. VI, outubro de 1889 da <i>Revista de Guimarães</i>, o
+dr. Abilio de Magalhães Brandão descreve-nos assim a poetica lenda das maias:
+</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha
+ nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte, chamava o rei
+ dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou immediatamente aos seus soldados
+ que degolassem todas as creanças menores de dous annos, que encontrassem em
+ Belem.</p>
+
+ <p>Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta
+ carnificina,&mdash;tal era o odio de morte que votava ao menino&mdash;que
+ os prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de
+ abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela madrugada
+ do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás ordens do malvado
+ rei. Apesar de todas as providencias e cautelas, ainda receiavam os judeus
+ que lhes escapasse o menino e por isso se informaram logo da sua
+ morada&mdash;que tinha á porta um <i>ramo de maias</i> como
+ signal,&mdash;mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas
+ appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta.</p>
+
+ <p>Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e
+ degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só escapou o que
+ procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham fugido com elle, ainda
+ de noute, para o Egypto.</p>
+
+ <p>Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma jumentinha,
+ ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no manto com que se
+ cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!» mas o judeu retorquiu: «Se
+ o levasses não o dirias». E d'este modo, e pelo milagre das <i>maias</i>,
+ salvou-se milagrosamente o rei dos judeus».</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00300">ABOBORA.</a></h1>
+
+<p>Os povos orientaes consideram a abobora como o imperador dos vegetaes; é
+tambem para elles o emblema da saude pelo seu bello e rotundo aspecto e da
+fecundidade pelo numero extraordinario de sementes que possue.</p>
+
+<p>A abobora tem dado origem a muitas lendas, e d'entre aquellas de que temos
+conhecimento, aproveitamos as duas mais curiosas e principaes, de que as
+restantes não são mais que incorrectas variantes.</p>
+
+<p>Houve tempo em que os lobos não eram carnivoros, mas sim se sustentavam de
+fructos. Um dia uma porca, procurando alimento, encontrou uma enorme abobora
+e fazendo-lhe um pequeno orificio, começou a comer-lhe o interior. N'isto vê
+ao longe um corpulento lobo, e cheia de susto, pois aquelle animal andava em
+guerra aberta com ella, e sempre que a encontrava, não deixava de a mimosear
+com uma dentada, escondeu-se dentro da abobora. O lobo encontrando tão bello
+manjar dispoz-se a devoral-o sem mais cerimonia, mas a porca que estava
+escondida dentro, cheia de susto, fez desenvolver com os excrementos que
+expelliu um tão insupportavel fetido, que o lobo, julgando a abobora pôdre,
+fugiu a toda a pressa e tão nauseado ficou que desde então não mais quiz os
+vegetaes começando a regalar-se com a carne dos animais que podia caçar.</p>
+
+<p>A segunda lenda&mdash;lenda americana&mdash;explica assim o diluvio.</p>
+
+<p>Jaià um homem muito poderoso e forte tinha um filho unico que lhe morreu
+de repente. O pae, querendo dar-lhe uma sepultura differente da de todos os
+outros humanos, metteu-o dentro de uma enormissima abobora que foi depor no
+cimo de elevado monte. Dias depois, cheio de saudades pelo filho estremecido,
+quiz contemplal-o mais uma vez e partiu para o local onde depozera a abobora,
+mas ao tocar-lhe saíram-lhe de dentro enorme quantidade de peixes e diversos
+monstros marinhos. Jaià fugiu aterrado e veio narrar o caso para a sua
+aldeia. Quatro irmãos gemeos quizeram verificar o facto, e quando estavam a
+procurar mover a colossal abobora a fim de lhe examinar o conteúdo, chegou
+Jaià tão furioso pela violação a que ia ser sujeito o tumulo do filho que os
+quatro rapazes, aterrados, deixaram rolar a abobora pelo monte abaixo, e
+esta, batendo de encontro ás pedras que encontrou no caminho, fendeu-se
+sahindo-lhe do interior tal quantidade d'agua que toda a terra ficou
+inundada.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00310">ARROZ.</a></h1>
+
+<p>É o arroz symbolo da vida, da geração e da abundancia, representando por
+isso nas ceremonias nupciaes da India um grande e importante papel. Lá lançam
+o arroz sobre a cabeça dos nubentes, como entre nós se deitam flores e
+confeitos; é um prato de arroz o primeiro alimento que os esposos comem
+juntos, e é com arroz humedecido em manteiga e lançado ao fogo que, finda a
+ceremonia nupcial, impetram a protecção dos deuses para que os façam felizes
+e lhes dêem muitos e muitos filhos.</p>
+
+<p>Logo que uma creança nasce, collocam-a em cima de um sacco cheio de arroz
+para a livrar dos maus olhados, e nenhum indiano tóca no arroz sem antes ter
+feito as suas abluções.</p>
+
+<p>Para todos os sectarios de Buhdha é elle planta sagrada, destinada ás
+offerendas á divindade, e a ser servida nos banquetes religiosos e nas
+ceremonias funerarias.</p>
+
+<p>A sementeira do arroz é feita na India com grande ceremonial religioso,
+com musicas e bençãos dos brahmanes.</p>
+
+<p>Na China, por occasião das sementeiras, os padres fazem sacrificios ao
+fogo para que permitta que o anno seja fertil. Para isso andam com resas á
+volta de uma fogueira, tendo nas mãos um vaso cheio de arroz e sal de que
+lançam de tempos a tempos um punhado ao fogo. Aqui o fogo symbolisa o sol,
+que com o seu excessivo calor póde prejudicar inteiramente a producção do
+arroz que só se dá bem com um excesso de humidade, e é por isso que lhe
+imploram a sua protecção, o beneficio de uma menor intensidade dos seus raios
+seccadores.</p>
+
+<p>Para os arabes tambem o arroz é sagrado. Crêem que elle nasceu de uma
+gotta de suor de Mahomet e que o <i>Kuskussú</i>, o querido manjar nacional
+fabricado com arroz, foi revelado a Mahomet por o anjo Gabriel. Mahomet,
+sempre que partia para a guerra ou tinha relações com qualquer mulher, comia
+antes um pouco de <i>Kuskussú</i>.</p>
+
+<p>A mais curiosa das lendas do arroz é, porém, a lenda japoneza.</p>
+
+<p>Conta-se no paiz do sol nascente que outr'ora, o unico alimento alli
+conhecido, era as raizes e as hervas. Porém um dia um bonzo viu um minusculo
+e formosissimo rato entrar n'uma cavidade proxima da sua habitação,
+arrastando uma pequenina espiga d'um cereal para elle desconhecido. Querendo
+saber d'onde viria aquella preciosidade, seguiu o rato, que o levou muito
+longe, a um paiz ignorado, onde todos os campos estavam cobertos de arroz e
+onde o bonzo aprendeu a cultival-o, introduzindo-o depois no seu paiz.</p>
+
+<p>Foi d'aqui que nasceu a adoração das populações japonezas pobres, pelo
+rato, que conservam em casa mumificado, considerando-o como symbolo da
+abundancia.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00320">ZIMBRO.</a></h1>
+
+<p>Na Italia, assim como em França, Suissa e nos paizes do norte é o zimbro
+planta obrigatoria para a ornamentação das mezas de jantar, no santo dia do
+Natal.</p>
+
+<p>A causa d'este antiquissimo uso vem da seguinte lenda:</p>
+
+<p>Quando a Virgem fugia com o Filho aos crueis soldados de Herodes, esteve
+um dia quasi a ser agarrada, e deveu a salvação a um zimbro que os escondeu,
+cobrindo-os com os ramos, de fórma que os perseguidores passaram proximo sem
+os descobrirem. A virgem abençoou então o zimbro e disse-lhe que em
+recompensa do beneficio que lhe prestára, seria para sempre querido e
+estimado por toda a christandade, que o associaria annualmente á sua mais
+doce e sympathica festa.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00330">NOGUEIRA.</a></h1>
+
+<p>A nogueira foi considerada pelos antigos como arvore sinistra e funeraria,
+sob a qual se reunem as feiticeiras, especialmente na noite de S. João, para
+celebrarem os seus horridos festins, ao passo que o fructo de tão má arvore
+foi sempre symbolo da abundancia e da geração.</p>
+
+<p>Foi em cascas de nozes que, segundo uma lenda slava, escaparam ao diluvio
+os homens que depois repovoaram o mundo. Eram cascas de nozes os maravilhosos
+trens das boas fadas protectoras de nossos antepassados que&mdash;ai de
+nós!&mdash;para sempre desappareceram do mundo, e eram estes saborosos
+fructos os que se distribuiam outr'ora nas bodas como de feliz e prolifico
+agouro para os noivos.</p>
+
+<p>Na Belgica, no dia de S. Miguel, as donzellas casadoiras abrem
+cuidadosamente algumas nozes, tiram-lhe o conteudo o collam depois as duas
+cascas vazias com todo o cuidado, de modo a parecerem intactas, e deitam n'um
+sacco um numero egual de nozes vazias e nozes cheias. Misturam-as bem, e
+depois, fechando os olhos, mettem a mão no sacco e tiram uma noz. Se acertam
+tirar uma cheia é signal de que casarão dentro de um anno, mas se acontece
+vir uma das vazias, então ainda téem que esperar muito pelo anciado marido...
+</p>
+
+<p>Entre nós, especialmente no Porto, ha uns leves vestigios d'esta tradição.
+No dia de S. Miguel é costume, na cidade invicta, comer-se nozes com trigo, o
+que, dizem, dá a felicidade e a abundancia em casa. E á gente nova, á gente
+solteira, temos nós ouvido repetidas vezes dizer que «no dia de S. Miguel,
+nozes com regueifa sabe a casar»...</p>
+
+<p>No sul de França creem que o meio infallivel de conhecer um feiticeiro é
+collocar-lhe uma noz debaixo da cadeira quando elle estiver sentado, pois não
+se poderá mais erguer do logar onde estiver emquanto não retirarem a noz. É
+d'aqui que os camponezes de Bolonha penduram uma noz ao pescoço dos filhos
+para os livrar de maus olhados. Tem para elles a noz o mesmo valor da nossa
+figa.</p>
+
+<p>Para os judeus a arvore do bem e do mal era uma nogueira, e o fructo que
+Deus prohibira a Adão que comesse, uma noz.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00340">CLEMATIS INTEGRIFOLIA.</a></h1>
+
+<p>Gubernatis conta-nos assim esta formosa lenda:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta é
+ <i>Tziganca</i> (planta dos Bohemios) ou <i>Zabii kruéa</i> ou <i>Sinii
+ lomonos</i>. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que
+ outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os
+ primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal terror, que
+ começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos chefes, que os
+ incitavam á resistencia. O <i>hetman</i>, não os podendo conter,
+ desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto desencadeou-se
+ uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos cobardes e traidores, os
+ desfez em mil pedaços, misturando-os com a terra dos tartaros.</p>
+
+ <p>Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou a <i>Clematis
+ integrifolia</i>. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço por os
+ corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto pediram a Deus, que
+ este mandou semear a <i>Clematis</i> na Ukranie. E desde então, em memoria
+ do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se com grinaldas da
+ <i>Tziganka</i>, que passou a ser uma planta nacional».</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00350">MOSTARDA.</a></h1>
+
+<p>Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre os povos
+orientaes symbolo da geração.</p>
+
+<p>Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das feiticeiras. Para
+isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e
+derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da quéda de
+cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da quéda da gotta a
+agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra de mulher, aquella
+cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua é, sem a menor duvida,
+uma grande feiticeira.</p>
+
+<p>A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada Bakanali,
+onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.</p>
+
+<p>O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em
+estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no
+templo de Ceylão.</p>
+
+<p>O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas vezes
+estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó.
+Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma
+planta até então desconhecida.</p>
+
+<p>Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo
+tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal
+porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente
+gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada
+Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00360">TILIA.</a></h1>
+
+<p>D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal
+portuense <i>Diario do Commercio</i>, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda
+sobre a tilia:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso!
+ Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na
+ maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores
+ doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os
+ senhores conselheiros municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e
+ combinando, em fazer da nossa querida terra o foco de pestilencias,
+ cubiçadas pelo microbio (o microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina
+ providencia, singelamente, n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem
+ lagrimas, sem phrases, sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das
+ mais bellas cidades da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro,
+ a frescura salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos
+ e de flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.</p>
+
+ <p>Ah! como são bellas as tilias portuenses!</p>
+
+ <p>Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D.
+ Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e&mdash;confessem!
+ confessem!&mdash;nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de
+ folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante
+ toilette <i>pompadour</i>, na Praça de D. Pedro&mdash;é o cumulo da audacia
+ e do protesto contra o <i>meio</i>, mesmo em face do <i>domus
+ municipalis</i>, que é o grande laboratorio das coisas sujas.</p>
+
+ <p>Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos
+ avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á
+ João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.</p>
+
+ <p>Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore
+ graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca,
+ em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro
+ da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que, como
+ morriam de mais alto, viam até mais longe.</p>
+
+ <p>Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que
+ tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio
+ palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei
+ de Portugal.</p>
+
+ <p>Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois
+ de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma
+ gotta de sangue.</p>
+
+ <p>Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer,
+ florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de lagrimas
+ doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra vida, em noites
+ de luar.</p>
+
+ <p>Ah! como eu amo as tilias».</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00370">LEITUGA.</a></h1>
+
+<p>A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta,
+apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.</p>
+
+<p>Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel
+dissabôr.</p>
+
+<p>Alberto o Grande, no seu curioso livro <i>De secretis mulierum</i> diz que
+a leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não
+virgem: <i>Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est
+corrupta, statim mingit</i>.</p>
+
+<p>Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da morte
+do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia.</p>
+
+<p>Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do
+incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente amado
+por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina. Estando
+Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que por alli
+passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos ardores do sol, um
+massiço de leitugas.</p>
+
+<p>Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as
+sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle morreu
+pouco tempo depois.</p>
+
+<p>Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a
+vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto com a
+condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia e outros
+seis na de Venus.</p>
+
+<p>Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o que
+originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou que Adonis
+pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e ficasse livre os
+restantes quatro.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00380">OLIVEIRA.</a></h1>
+
+<p>A oliveira representou sempre importante papel nas crenças populares
+antigas. A oliveira era o simbolo da paz e da abundancia. Foi um ramo de
+oliveira que a pomba trouxe para a arca, a Noé, em signal de as aguas já se
+terem afastado da terra, e a paz estar feita entre Deus e os homens. Era com
+corôas feitas de ramos de oliveiras e de louro que se enfeitavam os
+vencedores dos jogos olimpicos e os guerreiros victoriosos.</p>
+
+<p>Em quasi toda a Europa meridional substituem no domingo de Ramos as folhas
+de palmeira por ramos de oliveira, e crêem que estes, queimados em occasião
+de temporal, abrandam a furia dos elementos desencadeados e livram do raio.
+Nos Abruzzos, no dia de S. Marcos, vão plantar no meio dos campos um ramo de
+oliveira, na esperança de boa colheita e de os livrar do granizo e das
+inundações.</p>
+
+<p>Diziam os antigos que as feiticeiras e o diabo não podiam entrar na casa
+onde houvesse ramo de oliveira abençoado pelos padres.</p>
+
+<p>As leis athenienses castigavam severamente todo aquelle que fizesse mal ás
+oliveiras, ou se servisse da sua madeira para o lume.</p>
+
+<p>Em Ombria e na Terra de Otranto as raparigas que querem saber se chegarão
+a casar vão, no dia de Pascoella, nuas, colher um ramo de oliveira. Chegadas
+a casa tiram uma folha, humedecem-a com saliva e lançam-a ao fogo
+pronunciando o seguinte:</p>
+
+<blockquote>
+ <i>Si me vuo' bene, salta salticchia,</i><br>
+ <i>Si me vuo' male stá fissa fissa.</i></blockquote>
+
+<p>Se a folha saltar tres vezes ou se voltar no fogo é signal de que hão-de
+casar. Se a folha arder sem fazer o menor movimento podem perder
+completamente a esperança de encontrar marido.</p>
+
+<p>Na Italia meridional as noivas, no dia do casamento, quando recolhidas no
+quarto, batem levemente no marido com um ramo de oliveira em signal de que no
+quarto de cama quem manda é a mulher.</p>
+
+<p>Na Grecia antiga acreditava-se que a oliveira devia o nascimento a Minerva
+a deusa da sabedoria.</p>
+
+<p>Discutindo Neptuno e Minerva qual daria o nome a uma cidade fundada por
+Cecrops, os deuses chamados para resolver a questão, determinaram que seria
+aquelle que fizesse a mais util creação para os humanos. Neptuno batendo na
+terra com o tridente, fez d'ella sahir um cavallo e Minerva, ferindo o sólo
+com a lança, fez apparecer uma oliveira carregada de fructo. Os deuses
+decidiram a contenda em favor de Minerva que deu á cidade o nome de Athenas.
+</p>
+
+<p>Uma lenda allemã diz que a oliveira brotou da sepultura do primeiro homem,
+de Adão, e que foi do tronco da oliveira que os hebreus fabricaram a cruz em
+que pregaram Christo.</p>
+
+<p>Tambem ha uma lenda grega que diz que foi da oliveira e não do carvalho
+que nasceu da maça de Hercules, e uma lenda hebraica narra que procurando as
+arvores um rei dirigiram-se primeiro á oliveira que não acceitou, por isso
+que não queria perder os seus bellos fructos sacrificados ás canceiras da
+realeza, depois á vide e á figueira que por motivo identico recusaram tambem,
+e por ultimo ao carvalho, que acceitou.</p>
+
+<p>O azeite, extrahido do fructo da oliveira era venerado pelos antigos. Os
+athenienses esfregavam o corpo com azeite para conservar a belleza da pelle,
+e os christãos fizeram d'elle o oleo santo que applicam aos moribundos como
+simbolo da vida eterna.</p>
+
+<p>A oliveira era para os antigos a arvore da vida por isso que produzia o
+azeite, que arde nas lampadas, conservando a luz durante a noite, a luz a
+origem de toda a vida terrestre.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00390">MYOSOTIS.</a></h1>
+
+<p>O myosotis (<i>Hieracium pilosella</i>) a deliciosa florsinha das margens
+dos regatos, a <i>Nontiscordar di me</i> dos italianos, a
+<i>Vergissmeinnicht</i> dos allemães, e a <i>Oreja de raton</i> dos
+hespanhoes, tem sido cantada pelos poetas de todos os tempos e apreciada por
+todos os povos, que lhe dedicam particular e especial estima.</p>
+
+<p>E na verdade a bella flôr de um azul tão doce e tão suave, de uma côr de
+que ella quasi que guarda o exclusivo em todo o reino vegetal, merece o
+apreço em que é tida pela sua excepcional formosura, que modestamente esconde
+entre a larga vegetação das margens dos regatos.</p>
+
+<p>É a flôr dos namorados, que como ella procuram a solidão, os logares
+cheios de sombras e de serenidade para trocarem as suas intimas confidencias,
+as suas apaixonadas caricias amorosas.</p>
+
+<p>Uma antiga ballada italiana narra da seguinte fórma o apparecimento do
+myosotis no nosso globo.</p>
+
+<p>Um pobre camponez ao vêr-se atraiçoado pela noiva que o trocou por outro
+mais rico e que mais lhe podia proporcionar os gosos que ambicionava,
+afogou-se de pezar.</p>
+
+<p>As aguas do rio balouçaram durante dias o corpo do desditoso e as nimphas
+condoídas da sorte do infeliz, tão novo e tão formoso, imploraram para elle a
+protecção dos deuses. Levantou-se então enorme temporal e as aguas
+arremessaram para longe de si o cadaver retido, que ao tocar na margem, foi
+immediatamente metamorphoseado nas bellas flores com que as nymphas depois
+constantemente se enfeitaram.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00400">MYRTHO.</a></h1>
+
+<p>O myrtho foi consagrado a Venus e a Minerva. Venus, após o nascimento,
+tendo-se na ilha de Chypre envergonhado da sua nudez, escondeu-se atraz de um
+myrtho, adoptando-o depois em signal de reconhecimento, como planta bem
+amada.</p>
+
+<p>Minerva e a nympha Myrsiné desafiaram-se um dia a vêr qual era mais veloz
+na carreira. Venceu Myrsiné e Minerva despeitada, transformou-a em myrtho,
+planta com que em seguida se enfeitou para constantemente recordar o ultrage
+de que fôra victima.</p>
+
+<p>Na Grecia e em Roma antiga coroavam com myrtho os recem-casados, por isso
+que na sua qualidade de planta dedicada a Venus, a deusa do amor, não só
+tinha a virtude de fazer nascer um violento amor no coração dos esposos mas
+tambem de o conservar constante por toda a vida.</p>
+
+<p>Este uso ainda está ao presente em vigor em algumas localidades da Europa
+central, especialmente na Allemanha.</p>
+
+<p>Em todo o imperio romano era prohibido, sob severas penas, colocar ramos
+de myrtho nos altares da <i>Bona Dea</i>, por isso que o myrtho fazia
+recordar aos fieis os gosos materiaes que no logar sagrado deviam ser
+completamente esquecidos.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00410">PINHEIRO.</a></h1>
+
+<p>O pinheiro é simbolo da geração e da immortalidade.</p>
+
+<p>Da geração pela fórma do fructo que os antigos pensavam representar uma
+parte do corpo de Atys, sacerdote de Cybele, que violando o voto de castidade
+feito á deusa, mutilara-se, sendo em seguida transformado por Cybele em
+pinheiro.</p>
+
+<p>Da vida eterna por causa da folhagem sempre verde, mesmo sob as maiores
+neves, da solidez da madeira e por fructificar em pleno inverno.</p>
+
+<p>Na Russia enfeitam as mesas dos banquetes nupciaes com ramos de pinheiro e
+no Japão os noivos bebem tres pequenas taças de <i>saké</i> diante de um
+pinheiro, que significa a fidelidade conjugal e a perpetuidade do genero
+humano, a imagem de um grou simbolo tambem da fidelidade, a de uma tartaruga
+como desejo de longa vida, pois os orientaes acreditam que este chelonio vive
+dous mil annos, e de um grupo representando um velho e uma velha,
+secularmente celebres por causa do intenso amor e da harmonia em que vireram
+durante toda a longa vida.</p>
+
+<p>A resina do pinheiro é empregada desde tempos immemoriaes como o melhor
+remedio para as doenças pulmonares, e dos fructos do pinheiro extrahiam
+tambem os gregos e os romanos um remedio afamado para o mesmo fim.</p>
+
+<p>Os vinhos eram outr'ora conservados por meio de resina e de pinhas que
+deitavam de infusão nas vasilhas onde elle era guardado.</p>
+
+<p>Ha na Roumania uma lenda que diz que morrendo de pesar dois amantes
+violentamente separados pelas respectivas familias, e sendo sepultados no
+mesmo cemiterio foram transformados um em pinheiro e outro em vide,
+continuando a enlaçar-se ternamente mesmo depois da morte.</p>
+
+<p>O christianismo consagrou tambem o pinheiro. É a arvore empregada de
+preferencia na noite de Natal, a arvore querida e amada pelos povos do norte
+que a vêem verdejante e cheia de fructo na epocha em que as neves fazem
+desapparecer a vegetação da superficie da terra.</p>
+
+<p>Parece que o uso do pinheiro como arvore do Natal vem da seguinte e
+poetica lenda:</p>
+
+<p>Quando a sagrada familia fugia á perseguição de Herodes, apertada de perto
+pela soldadesca, chegou a um descampado onde havia apenas um pinheiro de quem
+a Virgem, chorosa, supplicou protecção.</p>
+
+<p>A arvore, compadecida, curvou os ramos até ao sólo e escondendo Jesus no
+centro de uma larga pinha retomou a primitiva posição natural. Passado o
+perigo Jesus abençoou a boa arvore, dando-lhe não só a particularidade de
+vegetar em todos os terrenos e resistir a todas as intemperies, mas tambem
+permittindo-lhe que em recordação da sua demorada estada na pinha esta
+conservasse, para sempre, no interior o signal da divina mão que a abençoara.
+</p>
+
+<h1><a name="SECTION00420">PILRITEIRO.</a></h1>
+
+<p>Polydoro, filho de Priamo e de Hecuba, foi morto após o cerco de Troya por
+Polymnestor, ancioso de se apoderar das immensas riquezas que Polydoro
+possuia.</p>
+
+<p>Depois de morto, Polydoro foi transformado em pilriteiro, e quando se
+cortava algum ramo ao vegetal corria logo sangue da parte contundida em
+signal do triste facto que elle simbolisava.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00430">SERRALHA.</a></h1>
+
+<p>O diabo queixou-se um dia a Christo de que tendo ajudado Deus a crear o
+mundo nada recebera em paga dos seus trabalhos.</p>
+
+<p>A queixa sendo achada justa, Christo deu-lhe em paga o milho e a aveia.
+</p>
+
+<p>O diabo partiu saltando de contente, porém no caminho, com a alegria,
+esqueceu-se do nome das plantas que lhe tinham sido dadas.</p>
+
+<p>S. Pedro e S. Paulo a saberem da liberalidade de Christo lastimaram que
+tivesse feito ao diabo uma tão importante dadiva.</p>
+
+<p>&mdash;Agora o que dei, está dado, não o posso tornar a tirar, disse
+Christo. </p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, replicou S. Paulo, vou fazer com que o diabo fique sem os
+bons vegetaes em troca de outros maus.</p>
+
+<p>E partindo a toda a pressa sahiu ao encontro do diabo. Este ia triste e
+cabisbaixo procurando lembrar-se das plantas que Christo lhe déra.</p>
+
+<p>&mdash;Que tendes, perguntou S. Paulo?</p>
+
+<p>&mdash;Christo deu-me dous vegetaes e eu não me lembro quaes são.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei, replicou S. Paulo, um é a canna...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, é a canna, atalhou o diabo esfregando as mãs de
+contente, mas o outro?</p>
+
+<p>&mdash;O outro é a serralha.</p>
+
+<p>&mdash;A serralha, a serralha, uivou o diabo, que fugiu sem dar os
+agradecimentos a S. Paulo, que d'esta fórma conseguiu livrar do poder do
+diabo dous dos mais uteis vegetaes dando-lhe em troca outros de
+insignificante valor.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00440">MANGERONA.</a></h1>
+
+<p>A mangerona (<i>Origanum majorana</i> L.) é a <i>amarakos</i> dos gregos.
+Os romanos serviam-se da mangerona para tecer corôas aos recem-casados e em
+Creta esta planta é ainda hoje o simbolo da honra, tendo a virtude de
+afugentar das mulheres os mal intencionados seductores.</p>
+
+<p>A lenda da mangerona é uma lenda grega. Amaracus era um favorito do rei de
+Chypre que este estimava immenso e a quem confiava serviços da maior
+confiança e da mais alta responsabilidade.</p>
+
+<p>Um dia encarregando-o o rei de lhe trazer um precioso vaso cheio de
+perfumes, Amaracus deixou-o cahir no sólo onde se fez em pedaços.</p>
+
+<p>Cheio de pesar e de susto pelo mal causado, cahiu com uma violenta sincope
+e então os deuses amerciados da sua grande e irremediavel dôr transformaram-o
+n'uma planta odorifera que ficou tendo o nome do desastrado Amaracus.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00450">LINHO.</a></h1>
+
+<p>Gubernatis escreve o seguinte do linho:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia
+ luminosa; a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o vestido do
+ esposo divino, o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste luminosa, d'um
+ tecido branco ou vermelho, de prata ou de oiro. Os padres, na terra,
+ adoptaram o mesmo costume branco na India, no Egypto, na Asia Menor, em
+ Roma e nos paizes christãos, chamando-se ainda hoje <i>alva</i> á camisa
+ branca dos padres e dos meninos de côro.</p>
+
+ <p>O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII, na
+ ilha de Rugen, servia de moeda.</p>
+
+ <p>«<i>Apud Ranos</i>, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn
+ (<i>Kulturpflanzen u. Hausthiere</i>, Berlin, 1874) <i>non habetur maneta,
+ nec est in comparandis rebus consuetudo nummorum, sed quidquid in foro
+ mercari volueris, panno lineo comparabis</i>».</p>
+
+ <p>Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no
+ Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou vestidos
+ tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam ser guardadas
+ dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio mencionam um linho enviado da
+ Grecia por o rei Amasis, cujo fio era composto de 360 ou 365 fios, allusão
+ evidente aos dias do anno.</p>
+
+ <p>Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia linho e
+ a formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a fiar, pois os dois
+ animaes figuram na mitologia zoologica em estações differentes. Os fios de
+ linho são tidos como representando os raios do sol, e segundo uma
+ superstição popular siciliana, attrahem-os tambem.</p>
+
+ <p>Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer desapparecer
+ as dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam, com acompanhamento
+ de imprecações, estopa de linho n'um copo onde depois se deita agua;
+ colocam em seguida o vidro n'um prato branco e este sobre a cabeça do
+ doente; pretendem que, d'este modo, fazem desapparecer da cabeça e passar
+ para o linho toda a doença causada pelo sol.</p>
+
+ <p>No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho
+ mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno.</p>
+
+ <p>O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por isso
+ que na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou lhe custa a
+ andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no sólo, semeando-lhe
+ linho em redor, e logo que o linho principiar a rebentar deve a creança
+ começar a crescer e a andar».</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00460">PLATANO.</a></h1>
+
+<p>O platano era particularmente venerado na Grecia, sendo consagrado ao
+genio. Era sob os platanos que se reuniam os sabios gregos para discutirem os
+mais transcendentes assumptos, e sob elles que especialmente se abrigavam da
+chuva.</p>
+
+<p>A formosa Europa, dormia sob um platano quando foi roubada por Jupiter
+metamorphoseado em touro.</p>
+
+<p>Xerxes atravessando a Lydia, apaixonou-se tanto por um corpulento platano
+que o fez ornamentar de custosos collares e braceletes d'ouro.</p>
+
+<p>Na Grecia quando alguns noivos se separam trocam, em signal de fidelidade,
+duas metades de uma mesma folha de platano, e quando se tornam a encontrar
+apresentam-as, devendo as duas partes formar perfeitamente a primitiva folha.
+Se isto se não dér é porque aquelle cuja metade estiver defeituosa foi infiel
+durante a ausencia.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00470">TREVO.</a></h1>
+
+<p>Diz Gubernatis que os druídas tinham o trevo em grande veneração, e que S.
+Patricio para explicar o misterio da Trindade aos irlandezes se servia de
+trevo, mostrando-lhes as tres folhas do vegetal n'uma mesma haste.</p>
+
+<p>Em França, Italia, Hespanha, e mesmo entre nós, o povo estima e venera
+particularmente o trevo de quatro folhas e crê que a pessoa que encontrar uma
+d'estas plantas, sendo mulher, casará dentro de um anno e, sendo homem, terá
+no mesmo espaço de tempo grandes felicidades.</p>
+
+<p>Aproveitamos do distincto sabio inglez, Brueyre a seguinte e deliciosa
+lenda metereologica relativa ao trevo:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde que
+ o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento, quando ella
+ terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a unica que faltava para
+ mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a rapariga deixou-a sem lhe
+ tirar o leite.</p>
+
+ <p>Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de hervas
+ differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez uma almofada
+ para levar mais commodamente o cantaro.</p>
+
+ <p>Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares de
+ pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que estava
+ deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em flores de
+ trevo, sugando-as depois com delicia. As hervas que estavam junto as têtas
+ de Daisy cresciam a olhos vistos, cercando por todos os lados a corpulenta
+ vacca, e os trasgos corriam por entre ellas, levando bem-me-queres,
+ verdeselhas, flores de digitalis e flores de trevo onde recolhiam o leite
+ que corria das quatro têtas ao mesmo tempo, como abundante chuva da
+ primavera. Sob uma das têtas a rapariga viu um trasgo maior que os outros,
+ que, para se banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando
+ os pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava
+ avidamente.</p>
+
+ <p>Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram
+ concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as hervas
+ que collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na verdade tinha
+ acontecido».</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00480">CENTEIO.</a></h1>
+
+<p>A vida de Jesus e principalmente a sua perseguida infancia deram origem a
+um grande numero de lendas de uma doce poesia cheia de belleza e de encanto.
+</p>
+
+<p>Já demos conta de algumas, e as que agora apresentamos, verdadeiramente
+encantadoras, são inspiradas pelo mesmo assumpto&mdash;a fuga da Virgem á
+perseguição das gentes de Herodes.</p>
+
+<p>A Virgem e S. José fugindo com o filho á matança dos innocentes, passou
+por um campo onde muitos lavradores estavam atarefados a semear centeio.</p>
+
+<p>Que semeaes, perguntou a mãe de Jesus?</p>
+
+<p>Pedras, responderam elles.</p>
+
+<p>Pois pedras vos nasçam; d'aqui a tres dias vinde quebral-as.</p>
+
+<p>Mais adeante encontrou novo grupo de aldeãos na mesma faina.</p>
+
+<p>Que semeaes?</p>
+
+<p>Semeamos centeio para nosso sustento.</p>
+
+<p>Pois centeio vos nasça, replicou a Virgem, d'aqui a tres dias vinde
+segal-o.</p>
+
+<p>Passados tres dias estava o campo dos maus lavradores transformado em
+enorme penedia e o dos que tinham sinceramente respondido ás perguntas da
+Virgem, coberto de louras messes. Cheios de jubilo pelo milagre, que
+reconheciam, os lavradores segavam atarefadamente o centeio, quando chegaram
+os soldados de Herodes, que andavam em perseguição de Jesus, e perguntaram
+aos ceifadores te tinham visto passar por alli uma mulher a cavallo n'uma
+jumenta, com um menino ao colo e acompanhada de um homem já velho.</p>
+
+<p>Passou, responderam os segadores, quando estavamos a semear o centeio
+n'este campo.</p>
+
+<p>Então os soldados, imaginando que o centeio tinha crescido naturalmente,
+desanimaram, e deixaram de continuar a perseguição, pelo que Jesus pôde
+escapar á furia dos seus perseguidores.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00490">SILVA E TREMOÇOS.</a></h1>
+
+<p>Liga-se ao mesmo facto da lenda anterior&mdash;a perseguição de Jesus
+pelos soldados de Herodes&mdash;a lenda da silva e dos tremoços, lenda muito
+conhecida no norte do paiz, onde a ouvimos a grande numero de pessoas.</p>
+
+<p>A Virgem acossada de perto pela soldadesca, chegou proximo de um campo de
+tremoços em frutificação. Atravessando-o rapidamente, os tremoços, ao
+contacto dos corpos, fizeram um grande ruido que denunciou aos perseguidores
+o caminho seguido pela desolada mãe.</p>
+
+<p>No fim do campo estendia-se um enorme silvado, uma insuperavel barreira
+que ia sem duvida reter os fugitivos e fazel-os cahir em poder dos judeus.
+</p>
+
+<p>Porém as silvas ante as lagrimas e o desespero da mãe de Deus,
+desviaram-se abrindo caminho á sagrada familia, e logo que todos passaram
+tornaram a unir-se entretecendo-se mais fortemente, de modo que ao chegarem
+os soldados junto d'ellas, voltaram para traz e seguiram outro caminho,
+acreditando que a Virgem não podéra transpor o emmaranhado silvedo que os
+retinha.</p>
+
+<p>A Virgem passado o perigo abençoou as silvas a quem deu a faculdade de
+vegetarem em todos os terrenos, produzirem fructos saborosos, ficarem
+defendidas por agudos espinhos dos ataques de todos os inimigos, e amaldiçoou
+os tremoços dando-lhes um travor semelhante ás amarguras que elles com o seu
+indiscreto barulho lhe tinham causado, e condemnando-os a nunca podêrem
+saciar pessoa alguma.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00500">LOTUS.</a></h1>
+
+<p>O lotus é uma planta sagrada para os indianos e para os egypcios.</p>
+
+<p>No Egypto chamam á flôr do lotus flôr do Nilo, por isso que, quando o rio
+trasborda, nas cheias periodicas que são a fertilidade d'aquellas regiões, a
+superficie das aguas cobre-se completamente de lotus em flôr.</p>
+
+<p>É por isso que os egypcios representam a creação por uma immensa
+superficie de agua sobre a qual fluctua um lotus collossal. Creem elles que
+no principio o mundo esteve todo coberto d'agua, d'onde brotou um lotus que,
+estendendo-se sobre o liquido, o cobriu completamente; dando a tudo a luz e a
+vida.</p>
+
+<p>É tambem, portanto, o lotus um simbolo da geração espontanea.</p>
+
+<p>A flôr de lotus é dedicada a Osiris, Wishnou e sobretudo a Brahma.</p>
+
+<p>Conta uma lenda indiana que Brahma sahiu de um lotus nascido sobre o
+umbigo de Wishnou.</p>
+
+<p>A mulher de Wishnou, a formosa das formosas, a maravilhosa belleza
+oriental, é sempre representada nos templos, sentada sobre uma flor de lotus.
+</p>
+
+<p>A poesia oriental está cheia de referencias ao lotus, comparando-o a todas
+as partes do corpo humano. Um poeta indiano referindo-se aos olhos da sua
+amada que lhe realçam a belleza do rosto, <i>diz que sobre uma flôr de lotus
+brotaram outras duas bellas flores eguaes</i>.</p>
+
+<p>As indianas adoram apaixonadamente a flôr de lotus apesar da
+particularidade que lhe attribuem de fazer acalmar o ardor das paixões.</p>
+
+<p>Parece que esta mesma crença era corrente no Egypto antigo, e que é devido
+a ella o terem sido encontradas flores de lotus cobrindo as partes sexuaes
+das mumias.</p>
+
+<p>Outr'ora, nos sacrificios indianos, o sangue do sacrificado era sempre
+recolhido sobre petalas de lotus; os primeiros christãos dedicaram tambem o
+lotus á Virgem ornamentando-lhe os altares exclusivamente com estas flores.
+</p>
+
+<p>Para os gregos o lotus é o simbolo da belleza e as donzellas de Athenas,
+nos dias de festa, enfeitam-se de preferencia com flores de lotus.</p>
+
+<p>Segundo uma antiga lenda grega, uma nimpha apaixonou-se doidamente por
+Hercules. Vendo que não podia alcançar ser correspondida pelo grande heroe,
+atirou-se a um rio, onde morreu afogada.</p>
+
+<p>Jupiter, compadecido das desditas da enamorada nimpha, transformou-a na
+brilhante flôr do lotus.</p>
+
+<p>Diz uma lenda buddhica que o rei Pandu, n'uma guerra que sustentou com
+vassalos seus adoradores de Buddha, que se tinham revoltado contra a sua
+soberania, se apoderou do templo principal onde era preciosamente guardado,
+em luxuoso altar, um dente do grande deus indiano. Pandu, para provar o seu
+poderio, mandou triturar o dente e lançar os fragmentos a uma grande
+fogueira, para que ficassem completamente consumidos. Porém, mal os restos do
+dente cahiram sobre o fogo, este extinguiu-se completamente, brotando logo do
+centro da fogueira uma enorme flôr de lotus, no interior da qual foi
+encontrado intacto o dente de Buddha.</p>
+
+<p>Pandu, assombrado por este milagre, converteu-se a buddhismo sendo depois
+um dos mais fieis e ardentes sectarios da magestosa divindade indiana.</p>
+
+<p>A mitologia conta-nos tambem que a nimpha Lotis, sendo perseguida por
+Priapo, foi transformada em Lotus, escapando assim ao dissoluto deus.</p>
+
+<p>Esta lenda parece ter sido imitada da seguinte antiquissima lenda indiana,
+que encontramos publicada no <i>Jornal de Viagens</i>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Havia em Ellora um sabio brahmane que tinha uma formosa filha, a gentil
+ Hevah, a dos olhos de esmeralda.</p>
+
+ <p>Um dia que ella tinha ido ao templo subterraneo, onde se adora o senhor
+ dos mundos, o divino Brahma, e que estava em oração com os olhos fitos na
+ imagem do auctor dos dias, fallou-lhe assim o divino Brahma:</p>
+
+ <p>«Ó minha bem amada. As meninas dos teus olhos são como duas flores de
+ lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».</p>
+
+ <p>Do rosto do deus jorrava uma claridade divina; Hevah tocou a terra com a
+ fronte, e não se atrevia a olhar.</p>
+
+ <p>E Brahma repetiu:</p>
+
+ <p>«As meninas dos teus olhos são como duas flores de lotus que se abrem na
+ superficie esmeraldada dos lagos».</p>
+
+ <p>E Hevah que nunca ouvira a ninguem aquellas frases, continuava, pudica,
+ de rojo, ante o divino senhor dos mundos.</p>
+
+ <p>Porém, eis que Brahma repete terceira vez aquella phrase de amor.</p>
+
+ <p>Hevah, então, levantou a fronte do pó, cobriu o rosto com o veu e fugiu
+ do templo; e foi mirar-se na superficie do lago; e entrou pelo remanso das
+ verdes aguas.</p>
+
+ <p>Dormiam os saurios o somno da sesta. E as garças reaes, dormitavam n'um
+ pé só, sobre o dorso dos grandes reptis.</p>
+
+ <p>E eis que de repente ella sentiu que os seus pés tomavam raiz; e que os
+ seus braços se lhe tornavam duas enormes folhas verdes; e que os olhos se
+ lhe desabrochavam em dous formosos nenuphares; e ouvia-se a voz de
+ Brahma:</p>
+
+ <p>«Os teus olhos, ó minha bem amada, são como duas flores de lotus que se
+ abrem na superficie esmeraldada dos lagos».</p>
+</blockquote>
+
+<h1><a name="SECTION00510">SENSITIVA.</a></h1>
+
+<p>A sensitiva, a <i>Mimosa pudica</i> dos botanicos, é uma das plantas que
+mais téem sido discutidas e das que até hoje mais despertaram a attenção não
+só dos homens da sciencia mas tambem de todos os profanos, pelos curiosos
+movimentos das suas folhas.</p>
+
+<p>As sensitivas são dotadas de movimentos espontaneos e movimentos
+provocados.</p>
+
+<p>Ao cahir da tarde os foliolos começam a pender a unirem-se uns aos outros,
+dispondo-se para o somno nocturno.</p>
+
+<p>São os movimentos espontaneos.</p>
+
+<p>Este <i>somno</i> póde ser provocado artificialmente colocando a planta na
+obscuridade. A falta de luz faz com que o phenomeno acima apontado se produza
+logo nas suas folhas.</p>
+
+<p>Os movimentos provocados são porém de todos os mais curiosos e os que
+deram o nome e fama á planta. Basta que um pequenino insecto pouse em
+qualquer dos foliolos da sensitiva, ou que se toque n'elle com um corpo
+estranho, para o foliolo se comprimir immediatamente e apoz elle os outros
+proximos, movimento que se propaga ás folhas de todo o ramo e até ás de todo
+o vegetal, se o contacto do corpo estranho fôr violento ou demorado.</p>
+
+<p>Estes movimentos estão em relação directa com o desenvolvimento e vigor da
+planta.</p>
+
+<p>Quanto mais a planta é forte e robusta tanto mais os movimentos são
+accentuados e demorados.</p>
+
+<p>Uma forte corrente d'ar, uma violenta trepidação do sólo, uma obscuridade
+repentina do sol é o bastante para o apparecimento d'estes movimentos.</p>
+
+<p>As excitações muito frequentes desorganisam porém o sistema nervoso da
+sensitiva e fazem-a rapidamente morrer.</p>
+
+<p>A <i>Mimosa pudica</i> foi conhecida dos antigos, a quem muito
+impressionou a sua mobilidade. Escriptores gregos e romanos trataram
+repetidas vezes d'esta interessante leguminosa, e poetas varios cantaram-a
+enthusiasticamente.</p>
+
+<p>É de um d'elles que aproveitamos a lenda que segue:</p>
+
+<p>A nimpha <i>Mimosa</i> era tão casta e tão pura que apesar de estar para
+casar com o pastor Iphis nunca consentira que elle lhe tocasse com os dedos
+sequer. Na vespera do dia em que devia ser para sempre unida ao eleito do seu
+coração, encontrou-se por acaso com elle no centro de um copado bosque. Iphis
+ao vêl-a tão seductoramente bella perdeu a cabeça, e quiz estreitamente
+unil-a de encontro ao coração. Mimosa conhecendo que não podia fugir ao doce
+amplexo do seu apaixonado, ficou tão tremula e aterrada, e implorou tão
+desesperadamente o deus Hymineu, que, este, compadecido, a transformou logo
+na planta que ainda hoje ao ser tocada por mão profana reproduz a extrema
+sensibilidade da casta nimpha.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00520">MELÃO.</a></h1>
+
+<p>O melão em virtude das suas numerosas sementes e por se multiplicar com
+extrema facilidade, era tido pelos antigos como simbolo da geração. Segundo
+uma lenda arabe vegeta no paraizo onde significa que Deus é um só e Ali o seu
+propheta. Esta significação vem-lhe de n'um só todo reunir sementes
+innumeraveis que vão depois reproduzil-o por toda a eternidade. É como o
+propheta Ali que em si encerra toda a sabedoria e doutrina religiosa que lhe
+foi inspirada por Deus, para que por toda a eternidade a transmittisse aos
+miseros mortaes.</p>
+
+<p>A mais formosa lenda relativa a este saborosissimo fructo, por nós
+conhecida, é a seguinte, muito popular ainda hoje na Toscana:</p>
+
+<p>Em tempos remotos, quando os reis casavam com simples pastoras, havia
+n'uma pequena povoação da Toscana uma casa habitada por tres irmãs que
+pobremente viviam da tecelagem. Uma tarde, passando o rei proximo da modesta
+habitação, e ouvindo dentro animada conversação, quedou-se a escutar.</p>
+
+<p>«Todo o meu desejo, dizia uma das irmãs, era casar com o padeiro do rei.
+Teria ao menos pão magnifico e tanto quanto desejasse.</p>
+
+<p>«Pois eu, replicou outra, preferia antes casar com o cosinheiro. Então o
+que me havia de regalar de comer bons petiscos.</p>
+
+<p>A mais nova das tres, formosa a mais não ser, disse suspirando:</p>
+
+<p>«As minhas aspirações são mais altas. Só me contentava casando com o rei a
+quem havia de dar tres filhos lindos como o sol e com cabellos de oiro e
+dentes de prata».</p>
+
+<p>O rei, de regresso ao palacio, fez chamar as tres irmãs, e satisfez as
+aspirações de todas ellas, realisando-se em poucos dias os tres casamentos.
+</p>
+
+<p>As irmãs mais velhas, ao verem a fortuna e felicidade da mais nova,
+encheram-se de inveja e juraram desde logo a sua perda.</p>
+
+<p>Um anno depois a rainha tinha um filho. Era uma soberba creança de
+cabellos do mais puro ouro e dentes de uma alvura deslumbrante. As irmãs,
+esconderam porém a creança e fizeram crêr ao rei que o que nascera fôra um
+gato morto.</p>
+
+<p>No segundo anno de casada a rainha teve novo filho, tão seductor como o
+primeiro.</p>
+
+<p>As irmãs disseram ao rei que o que ella dera á luz fôra apenas um informe
+pedaço de pau.</p>
+
+<p>No terceiro anno nasceu terceiro rapaz, lindo como os amores, porém as
+irmãs capacitaram o rei de que fôra uma serpente o que a irmã tivera.</p>
+
+<p>O rei furioso, com a cabeça perdida, fez encerrar a esposa em medonha
+prisão a regimen de pão e agua.</p>
+
+<p>Obtido isto, as duas irmãs, que até então tinham tido as creanças
+escondidas para o que désse e viesse, deitaram-as ao mar dentro de um pequeno
+bote.</p>
+
+<p>O jardineiro do rei andando a passear na praia vê o bote fluctuando ao
+sabôr das aguas e indo apanhal-o depara com as tres creanças, que
+compassivamente recolhe.</p>
+
+<p>Com o tempo o pae adoptivo ensina-lhes o officio e fez d'ellas tres
+notaveis jardineiros, que tinham os jardins reaes, como até então nunca se
+vira.</p>
+
+<p>Uma tarde, merendavam os rapazes á sombra de uma copada arvore quando
+appareceu uma andrajosa velha, que lhes pediu uma esmola. Repartiram com ella
+da merenda, e, finda a refeição, a velha disse-lhe que os jardins estavam um
+primor reunindo tudo quanto havia de raro, faltando-lhe só, para serem uma
+maravilha, a agua que dansa, a arvore que toca e a ave que falla.</p>
+
+<p>Os rapazes enthusiasmados, sob indicação da velha, partem á busca dos tres
+prodigios.</p>
+
+<p>No caminho encontram o rei que ia á caça para se distrahir, e que
+simpathisa tanto com os rapazes que se queda esquecido a conversar com elles,
+abraçando-os e beijando-os ao separar-se. Mais adeante apparece-lhes a velha
+que lhes indica como devem encontrar a agua que dansa, o que elles afinal
+obtéem, continuando o caminho á busca da arvore que toca. Debalde a
+procuraram e já iam para regressar desanimados, quando a velha, surgindo, lhe
+diz onde a poderão encontrar e que basta trazer d'ella uma folha, a qual,
+plantada no jardim, dará uma arvore corpulenta, que fará ouvir doces melodias
+estranhas.</p>
+
+<p>Na arvore que toca acharam tambem empoleirada a ave que falla. Recolheram
+jubilosos ao palacio e plantaram a folha que logo no dia seguinte appareceu
+transformada em enorme arvore, que fazia a delicia dos visitantes com as
+musicas divinaes, nunca até então executadas por humana orchestra.</p>
+
+<p>O rei, ao saber do facto, correu a vêr a maravilha, e os tres rapazes, sob
+indicação da velha, brindaram-o com o melhor melão dos produzidos por um
+extenso meloal que cultivavam. O rei quiz servir-se logo do fructo, e ao
+partil-o encontrou-o, em vez de sementes, cheio de pedras preciosas.</p>
+
+<p>&mdash;Como póde ser dar um melão pedras preciosas?</p>
+
+<p>&mdash;E como póde ser, respondeu a ave que falla, que estava pousada na
+arvore que toca, uma mulher parir um gato morto, um pedaço de madeira e uma
+cobra. Estas creanças são teus filhos, e tu foste enganado pelas tuas
+cunhadas, castigando a esposa innocente.</p>
+
+<p>Fez-se então a luz no espirito do rei que, arrependido, mandou soltar a
+esposa, implorando-lhe humildemente perdão, e enchendo-a de mimos e prendas
+riquissimas.</p>
+
+<p>Ás más cunhadas, a essas, para exemplo futuro, fel-as queimar na principal
+praça publica do reino.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00530">HERA.</a></h1>
+
+<p>Pela forte adherencia ás paredes e arvores com que está em contacto, é a
+hera simbolo do amor concupiscente, do amor ardente, pois faz seccar a arvore
+a que se une, como o delirio amoroso esmaga o coração onde uma vez dominou.
+</p>
+
+<p>A semelhança da hera com a vinha, o serem ambas plantas trepadoras fez com
+que os antigos acreditassem que a hera tinha a particularidade de atenuar os
+effeitos do vinho. Para isso os bebedores enfeitavam-se com corôas de hera,
+ornamentando tambem com ellas as estatuas e o thyrso de Baccho.</p>
+
+<p>Antigamente usava-se á porta das tabernas ramos de hera ou de carvalho. Os
+dois vegetaes tinham n'aquelles locaes, a mesma identica significação;
+recordavam o amor, a voluptuosidade, a força e a alegria que o vinho dá
+áquelles que o bebem.</p>
+
+<p>É a hera tambem simbolo da ambição por subir mais alto que todas as outras
+plantas, aproveitando tudo o que a póde ajudar a subir, e terminando por
+aniquilar e deitar por terra o que lhe serviu de apoio.</p>
+
+<p>Na Allemanha, ainda hoje, entre as classes populares existe a crença de
+que quem trouxer uma corôa de hera na cabeça, tem o entendimento mais lucido
+e gosa da propriedade de descobrir as feiticerias.</p>
+
+<p>Segundo a mythologia, um filho de Baccho, por nome Kisso, indo a dançar
+deante do carro triumphal do pae cahiu por terra, e as rodas do vehiculo
+passando-lhe por cima mataram-o. A deusa Cybele compadecida do triste fim do
+infeliz moço, transformou-o em hera.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00540">FIGUEIRA.</a></h1>
+
+<p>A figueira é uma das arvores que mais figura na legenda biblica.</p>
+
+<p>É com as folhas d'esta arvore que Adão e Eva, após o peccado original,
+cobrem a nudez que desde então começara a envergonhal-os, e é tambem n'esta
+arvore maldita que, segundo alguns auctores, Judas se enforcou após a venda
+do divino Mestre!</p>
+
+<p>É antiquissimo o caracter diabolico da figueira, a arvore onde se
+acoutavam os demonios e os mais horrendos e maleficos monstros.</p>
+
+<p>Os doutores mahometanos dizem que foi o figo o fructo que Deus prohibiu
+que Adão e Eva comessem, por excitar os sentidos, e logo que elles
+transgrediram a ordem, conheceram a nudez, cobrindo-se com as folhas da mesma
+arvore que os fizera peccar.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00550">CIPRESTE.</a></h1>
+
+<p>Adão, vendo-se velhissimo, com 900 annos, mas, cheio de vigor e saude,
+gabou-se deante de Deus de ser forte e immortal. Deus para lhe castigar o
+orgulho paralisou-lhe os membros inferiores, fez-lhe cahir os dentes e
+tirou-lhe a luz dos olhos, dizendo-lhe que eram os signaes precursores da
+morte. Adão não quiz acreditar na palavra do Senhor e mandou o filho mais
+velho ao Paraizo buscar um fructo da arvore da vida, afim de recuperar as
+forças perdidas. O filho em vez do fructo trouxe a vara com que Adão foi
+expulso do Paraizo. Adão partiu-a em tres pedaços que plantou no sólo, mas
+logo que as arvores nasceram Adão morreu.</p>
+
+<p>As arvores nascidas da vara plantada por Adão foram a oliveira, o cedro e
+o cipreste. Desta ultima é que depois sahiu a madeira com que fabricaram a
+cruz em que Christo morreu.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00560">ALECRIM.</a></h1>
+
+<p>O alecrim é uma planta funeraria. Os antigos acreditavam que o aroma do
+alecrim conservava os cadaveres, e sob esta crença, queimavam nas ceremonias
+funebres quantidades enormes d'esta planta aromatica.</p>
+
+<p>No norte, os que acompanham os mortos á ultima morada, levam comsigo um
+ramo de alecrim por ser em virtude da folhagem sempre verde simbolo da
+immortalidade.</p>
+
+<p>Os romanos ornamentavam os Lares com alecrim e empregavam-o como meio de
+purificação após as festas phallicas, crendo que elle tinha a propriedade de
+dar uma mocidade eterna.</p>
+
+<p>Em algumas provincias de França é vulgar a crença de que as flores de
+alecrim em contacto com o corpo dão a alegria e felicidade a quem as traz.
+Para os cretenses é simbolo da sinceridade.</p>
+
+<p>Dizem que foi sobre elle que a Virgem Maria estendeu a seccar as primeiras
+roupas que vestiu a Jesus.</p>
+
+<p>Na Andaluzia é tambem o alecrim muito estimado, pelo motivo de ter
+escondido a Virgem quando com o divino filho fugia á perseguição dos soldados
+de Herodes.</p>
+
+<p>Na Sicilia corre que é no alecrim que se escondem as fadas disfarçadas em
+serpentes.</p>
+
+<p>É tambem originaria d'aquelle pittoresco recanto d'Italia a seguinte lenda
+relativa ao alecrim:</p>
+
+<p>&mdash;Uma rainha esteril tanto contemplou os numerosos ramos e as verdes
+folhas de um copado alecrim que concebeu d'elle, tendo um pequenino alecrim,
+que plantou em luxuoso vaso regando-o quatro vezes ao dia com leite. Um
+sobrinho da rainha, intrigado com o caso, roubou o vaso e conservou a planta,
+regando-a com leite de cabra. Um dia, que estava tocando deliciosamente
+flauta, viu sahir do centro do alecrim uma formosa princesa, de quem ficou
+logo apaixonado.</p>
+
+<p>Obrigado, porém, a partir para a guerra, recommendou instantemente a
+planta ao jardineiro do palacio, para que olhasse por ella com todo o
+cuidado. As irmãs do principe encontrando a flauta foram tocar para junto do
+vaso, e vendo sahir do alecrim a formosa princeza, ficaram tão cheias de
+inveja que a agarraram e desapiedadamente a moeram com pancada. A princeza
+desappareceu e o alecrim começou logo a murchar. O jardineiro escondeu-se
+para fugir ao castigo que receava, mas indo uma noite inexperadamente a casa,
+vê a mulher em colloquio intimo com um dragão, que lhe dizia que no alecrim
+estava encantada uma princeza, que morreria com a planta, se esta não fosse
+regada com gordura humana.</p>
+
+<p>O jardineiro, então, entra de improviso, mata o dragão e a esposa culpada,
+derrete-os e com a gordura rega o alecrim. O encanto foi desfeito e a
+princeza readquiriu a liberdade e a saude desposando pouco depois o principe,
+a quem amava.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00570">FETO MACHO.</a></h1>
+
+<p>O feto <i>Aspidium filix max</i> representa um papel importante nas lendas
+das fadas. É com o feto macho que ellas fazem os seus mais importantes
+maleficios, servindo-se tambem d'esta planta para adevinhar o futuro. Diz a
+lenda que o feto macho só dá flôr na noite de S. João, e que aquelle que
+poder colher a flôr d'esta preciosa criptogamica tem a particularidade de
+adevinhar o futuro e descobrir todos os thesouros occultos.</p>
+
+<p>Segundo uma lenda Russiana um pastor perdeu uns bois na vespera de S.
+João. Debalde os procurou, e recolhia a casa, chorando e lastimando a sua
+desgraça, quando ao passar perto de um feto&mdash;era meia noute
+exacta&mdash;a flôr d'este lhe cahiu dentro de um dos sapatos. Viu logo onde
+estavam os bois com os quaes se encaminhou para casa. Na estrada porém
+descobre um opulento thesouro, montões de joias e pedrarias que o deixaram
+deslumbrado. Corre a chamar a mulher para o auxiliar no transporte d'aquellas
+riquezas. A mulher vendo-lhe os sapatos todos molhados e enlameados
+aconselha-o, por inspiração do demonio, a mudal-os por outros seccos. O homem
+attende-a, tira os sapatos, a flôr de feto cáe no chão e elle immediatamente
+esquece tudo.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00580">MYRRHA.</a></h1>
+
+<p>Myrrha&mdash;conta a fabula&mdash;apaixonou-se pelo pae, o rei Cyniras, de
+quem teve Adonis, avô de Priapo.</p>
+
+<p>Envergonhada porém, do repellente incesto que praticara, rogou aos deuses
+que a transformassem em coisa que não fosse viva nem morta. Estes então
+transformaram-a no arbusto que produz a Myrrha.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00590">POLYPODIO.</a></h1>
+
+<p>Uma lenda muito espalhada na Allemanha, narra que estando uma vez a Virgem
+a amamentar o seu divino filho, sentada n'umas pedras, ao erguer-se,
+cahiu-lhe uma gotta de leite na rocha, gotta de que logo nasceu o Polypodio
+vulgar. É em recordação d'este facto memoravel que os allemães dão a este
+feto o nome de <i>Unser Frauenmilck</i>, isto é, <i>Leite de Nossa
+Senhora</i>.</p>
+
+<p>Entre nós é o Polypodio conhecido pelos nomes vulgares de: <i>Feto
+centopeia</i>, <i>Riços</i>, <i>Feto dos carvalhos</i>, <i>Feto doce</i>,
+etc.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00600">ESPINHEIRO.</a></h1>
+
+<p>Quando a Virgem fugia com o filho á violenta perseguição dos seus
+inimigos, chegou junto de um espesso bosque de espinheiros, que lhe abriu
+passagem, fechando-se depois á chegada dos soldados romanos.</p>
+
+<p>A Virgem abençoou então os espinheiros que se compadeceram da sua dôr e,
+Christo, fallando pela primeira vez, disse que em memoria d'aquelle facto, a
+corôa com que o adornariam no dia do martirio, havia de ser de espinheiro. E
+assim foi, pois a corôa que os judeus, para o ridicularisar, lhe forneceram,
+era d'aquelle vegetal.</p>
+
+<p>Conta mais a lenda que um pisco, vendo que os espinhos do espinheiro
+feriam a fronte do Salvador, veio pousar-lhe na cabeça e com o bico os
+quebrou um a um. Molhando n'essa occasião o peito no sangue de Christo, ficou
+a ave, para sempre, com aquella sagrada mancha, recordação eterna do caridoso
+acto que praticara.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00610">VIDEIRA.</a></h1>
+
+<p>É a videira uma das plantas mais celebradas pelos antigos. A sua cultura
+desenvolveu-se outr'ora muito na Grecia, Persia e Asia menor.</p>
+
+<p>Era com pampanos que se enfeitavam Baccho, as Bacchantes, Silene, Rhea,
+Bona Dea, as Graças, a deusa Lætitia, etc. Narra a Biblia que Noé se dedicou
+cuidadosamente á sua cultura, sendo o primeiro mortal que fabricou vinho da
+uva.</p>
+
+<p>Diz Santo Ambrosio, referindo-se á enorme embriaguez que a primeira
+absorpção do liquido extrahido da uva produziu em Noé, que não foram
+bastantes todas as aguas do diluvio para fazerem com que Noé ficasse nú, mas
+que o vinho o fez ficar fóra de si, sem juizo e vergonhosamente decomposto.
+</p>
+
+<p>O philosopho Anacarsis tratando da videira relata que este vegetal tem
+tres varas, a primeira das quaes produz gosto, a segunda delirio e a terceira
+a loucura.</p>
+
+<p>Para a mytologia a videira nasceu do sangue dos Gigantes, derramado na
+terra, quando, dementados, pretenderam escalar o ceu. É por isto que o vinho
+tem a propriedade de causar furor, uma enorme excitação a quem o bebe em
+demazia.</p>
+
+<p>Uma lenda arabe conta que o diabo regou o primeiro pé de videira com o
+sangue do macaco, do tigre e do porco.</p>
+
+<p>Por isso ao primeiro vinho bebido, o homem fica alegre, agitado, bulhento
+e brincalhão como o macaco; continuando a beber a alegria transforma-se em
+violentas arremetidas de tigre, para por ultimo, cahir, roncando, no somno
+bestialisador do porco.</p>
+
+<p>Segundo os Persas foi uma mulher no feliz reinado de Djemschid, que,
+querendo matar-se, bebeu o succo das uvas, pensando ser veneno. O somno que
+elle e causou, foi porém tão agradavel que continuou depois a fazer vinho e a
+bebel-o, espalhando-se em breve o uso por todo o paiz.</p>
+
+<p>O mitho hellenico sintethisa a vinha n'um companheiro e amigo de Baccho,
+no pastor Staphylo. Staphylo era um pastor do rei da Grecia Oenêo, que
+reparando que uma cabra do rebanho, a mais gorda e bem tratada de todas,
+recolhia sempre mais tarde que as outras, e não comia nunca do alimento
+fornecido ao resto do rebanho, a seguiu, indo ter a um bosque espesso, onde a
+viu a comer soffregamente uvas, fructo até então completamente desconhecido.
+Staphylo colheu grande porção de cachos com que brindou o rei Oenêo o qual
+fez d'elles vinho. Em recordação d'este facto, deram depois os gregos o nome
+de <i>Oinos</i>, ao saboroso licôr das uvas.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00620">LOUREIRO.</a></h1>
+
+<p>Apollo apaixonando-se doidamente por Daphne, filha do rei Penêo, moveu-lhe
+uma tão intensa perseguição, que esta, para lhe poder fugir, conseguiu que os
+deuses a transformassem em loureiro.</p>
+
+<p>Apollo quiz que o loureiro lhe fosse consagrado tecendo com elle uma
+corôa, que, depois, sempre trouxe comsigo; significava a referida corôa, que
+se a donzella não lhe pertenceu em vida, possuia porém o vegetal em que fôra
+transformada.</p>
+
+<p>Baccho, em seguida ás gloriosas victorias na India adornou-se com o louro,
+e Esculapio fez o mesmo depois das maravilhosas curas que realisou e que lhe
+deram fama eterna.</p>
+
+<p>Os romanos adoptaram o louro como simbolo da victoria.</p>
+
+<h1><a name="SECTION00630">INDICE.</a></h1>
+<ul class="indice">
+ <li><a name="tex2html96" href="#SECTION00300">ABOBORA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html72" href="#SECTION0060">ABOBOREIRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html75" href="#SECTION0090">ACONITO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html82" href="#SECTION00160">AÇUCENA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html122" href="#SECTION00560">ALECRIM.</a></li>
+ <li><a name="tex2html89" href="#SECTION00230">ALGODÃO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html78" href="#SECTION00120">AMOREIRA NEGRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html76" href="#SECTION00100">APAMARGA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html97" href="#SECTION00310">ARROZ.</a></li>
+ <li><a name="tex2html87" href="#SECTION00210">CANNAS.</a></li>
+ <li><a name="tex2html92" href="#SECTION00260">CARDO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html68" href="#SECTION0020">CARVALHO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html79" href="#SECTION00130">CEDRO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html114" href="#SECTION00480">CENTEIO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html69" href="#SECTION0030">CHÁ.</a></li>
+ <li><a name="tex2html71" href="#SECTION0050">CHICÓRIA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html90" href="#SECTION00240">CHORÃO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html73" href="#SECTION0070">CHRISANTHEMO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html121" href="#SECTION00550">CIPRESTE.</a></li>
+ <li><a name="tex2html100" href="#SECTION00340">CLEMATIS
+ INTEGRIFOLIA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html126" href="#SECTION00600">ESPINHEIRO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html123" href="#SECTION00570">FETO MACHO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html120" href="#SECTION00540">FIGUEIRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html94" href="#SECTION00280">FIGUEIRA DA INDIA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html119" href="#SECTION00530">HERA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html91" href="#SECTION00250">LARANGEIRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html103" href="#SECTION00370">LEITUGA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html111" href="#SECTION00450">LINHO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html116" href="#SECTION00500">LOTUS.</a></li>
+ <li><a name="tex2html128" href="#SECTION00620">LOUREIRO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html93" href="#SECTION00270">MAÇÃ.</a></li>
+ <li><a name="tex2html95" href="#SECTION00290">MAIAS.</a></li>
+ <li><a name="tex2html110" href="#SECTION00440">MANGERONA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html80" href="#SECTION00140">MARMELLEIRO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html118" href="#SECTION00520">MELÃO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html86" href="#SECTION00200">MILHO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html101" href="#SECTION00350">MOSTARDA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html105" href="#SECTION00390">MYOSOTIS.</a></li>
+ <li><a name="tex2html124" href="#SECTION00580">MYRRHA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html106" href="#SECTION00400">MYRTHO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html88" href="#SECTION00220">NARCISO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html99" href="#SECTION00330">NOGUEIRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html104" href="#SECTION00380">OLIVEIRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html83" href="#SECTION00170">PALMEIRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html70" href="#SECTION0040">PAPOULA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html108" href="#SECTION00420">PILRITEIRO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html107" href="#SECTION00410">PINHEIRO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html112" href="#SECTION00460">PLATANO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html125" href="#SECTION00590">POLYPODIO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html84" href="#SECTION00180">RABANETE.</a></li>
+ <li><a name="tex2html81" href="#SECTION00150">ROMÃ.</a></li>
+ <li><a name="tex2html67" href="#SECTION0010">ROSA MUSGO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html74" href="#SECTION0080">ROSAS.</a></li>
+ <li><a name="tex2html117" href="#SECTION00510">SENSITIVA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html109" href="#SECTION00430">SERRALHA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html115a" href="#SECTION00490">SILVA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html85" href="#SECTION00190">TABACO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html102" href="#SECTION00360">TILIA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html115b" href="#SECTION00490">TREMOÇOS.</a></li>
+ <li><a name="tex2html113" href="#SECTION00470">TREVO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html77" href="#SECTION00110">TRIGO.</a></li>
+ <li><a name="tex2html127" href="#SECTION00610">VIDEIRA.</a></li>
+ <li><a name="tex2html98" href="#SECTION00320">ZIMBRO.</a></li>
+</ul>
+
+<h1><a name="SECTION00641">NOTA AO INDICE.</a></h1>
+
+<p>Os vegetaes a que se referem as lendas publicadas no presente volume, não
+estão por ordem scientifica, nem mesmo alphabetica, por isso que o livro foi
+impresso á medida que o auctor colleccionou as lendas que o compõem.</p>
+
+<p>Para remediar em parte esta falta, foi o indice organizado
+alphabeticamente.</p>
+
+<div class="rodape">
+<h2>Notas de transcrição:</h2>
+
+<p>Foram corrigidos alguns erros tipográficos óbvios.</p>
+
+<p>Para facilitar a navegação, nesta versão html o índice foi duplicado no
+inicio do texto.</p>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Lendas dos Vegetaes, by
+Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS DOS VEGETAES ***
+
+***** This file should be named 27412-h.htm or 27412-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/7/4/1/27412/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
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+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
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