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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:34:30 -0700 |
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SANCHO II *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Nov. 2008) + + + + +BIBLIOTHECA + +DE + +Classicos Portuguezes + +Proprietario e fundador + +_MELLO D'AZEVEDO_ + + + + +Bibliotheca de Classicos Portuguezes + +Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo + + +(VOLUME LIII) + + +CHRONICA + +DE + +EL-REI D. SANCHO II + +POR + +RUY DE PINA + + +_ESCRIPTORIO_ +147--Rua dos Retrozeiros--147 +LISBOA + +1906 + + + + +CHRONICA +DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE +D. SANCHO II. +QUARTO REY DE PORTUGAL, +COMPOSTA +POR RUY DE PINA, +Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno. +FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL, +Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. +OFFERECIDA +Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY + +D. JOAÕ O V. + +NOSSO SENHOR + +LISBOA OCCIDENTAL. + +Na Officina FERREYRIANA. +M.DCC.XXVIII. + +_Com todas as licenças necessarias._ + + + + SENHOR + + +As desgraças do infelicissimo Rei D. Sancho II deste nome só se podem +dalgum modo fazer menos sensiveis vendo-se amparada esta sua brevissima +Chronica com o Augusto nome de V. Magestade se entre tantos infortunios +quantos foram os que tem padecido a posteridade da sua fama, póde haver +algum genero de diminuição, foi a brevidade, com que todos os +Historiadores trataram as acções da sua vida, porque até parece que +enfastia a memoria das infelicidades. Mas como é tanto o esplendor das +inimitaveis acções de V. Magestade, bastará a sua protecção Real para +que retrocedendo tres seculos encha de gloria aquelle Reinado. A Real +Pessoa de V. Magestade guarde Deos muitos annos como todos os seus +vassallos dezejamos. + + + _Miguel Lopes Ferreira._ + + + + +AO EXCELLENTISSIMO SENHOR + +D. Francisco Xavier de Menezes + + + _Quarto conde da Ericeira, do Concelho de Sua Magestade, Sargento + mór de Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres + Estados, Perpetuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de + Ancião, oitavo Senhor da Caza do Louriçal, Commendador das + Commendas de Santa Christina de Sarzedello, de S. Cipriano de + Angueyra, S. Martinho de Frazão, S. Payo de Fragoas, de S. Pedro de + Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas na Ordem de Christo, + Academico da Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco + Censores della &c._ + + +A benignidade com que V. Excellencia desculpou a minha confiança quando +procurei o seu amparo para offerecer a Sua Magestade a Chronica del-Rei +Dom Affonso III me anima agora a buscar segunda vez a V. Excellencia, +para que me faça a mercê de pôr aos pés del-Rei N. Senhor esta Chronica +de D. Sancho II de Portugal. Na pessoa de V. Excellencia concorrem todas +as circunstancias, que são necessarias para este beneficio, porque V. +Excellencia é dotado de uma condição tão propensa para os estudiosos, +que a immensa copia de livros, que com singular eleição tem juntos, mais +são dos que delles se querem servir, que de V. Excellencia mesmo. É +verdade que esta generosidade tem o seu principio na estopenda memoria +de que V. Excellencia é dotado, pois basta ler um livro, para lhe +escuzar outra vez a lição, mas tambem nace da particular satisfação que +V. Excellencia tem de que todos sejam imitadores dos seus estudos. A +ninguem melhor do que a V. Excellencia se devia dedicar esta Chronica, +porque só V. Excellencia tem meios na sua grande capacidade para +defender algumas materias, que nella se tratam, porque é certo que nem +tudo foi concedido a todos, mas na pessoa de V. Excellencia se acha tudo +o que dividido fez grandes a outros. Deos guarde a V. Excellencia muitos +annos. + + + Criado de Vossa Excellencia + + _Miguel Lopes Ferreira._ + + + + + +PROLOGO + + +Aqui tens Amigo Leitor a brevissima Chronica do desgraçado Rei de +Portugal D. Sancho II deste nome. Foi este Principe na vida, e na morte +o exemplo de toda a infelicidade humana, para que depois pelos +inscrutaveis juizos de Deos tivesse o premio de tantos infurtunios na +eternidade da Bemaventurança. Na vida foi como dizem, tão sogeito aos +validos, que não teve acção, que se podesse chamar sua, e na morte, foi +tão infeliz, que a não teve na Patria. Tudo o que escreveram os +Authores, foi duvidoso, porque uns o fazem cazado, e outros lhe negam o +cazamento; uns o fazem pusilanime, e outros valeroso. Seguiram as penas +dos Chronistas a inconstancia da sua fortuna, tudo deixáram em questões, +porque o seu descuido lhes não deixou averiguar a certeza do que +escreviam. O Doutor Fr. Antonio Brandão na Quarta parte da Monarchia +Lusitana desaggrava em muitas acções a este Principe das injurias dos +seus Chronistas, mostrando que fora valeroso, e que conquistara muitas +Praças aos Mouros, como o dizem as doações que fez dellas ás Ordens +Militares. Sem duvida que a administração do governo, que deram os povos +a seu irmão D. Affonso Conde de Bolonha em França, foi a cauza do muito +que tem padecido a Real opinião deste Principe, porque não ha quem senão +atreva a um desgraçado, ainda que lhe anime as veas um sangue soberano. +As parcialidades que naquelle tempo havia de introduzir necessariamente +na Corte a politica, deviam de ser o fundamento desta variedade, porque +uns para justificarem a acção, o deviam de condenar, e outros que seriam +os menos, o haviam de desculpar. Venceo com o tempo a felicidade de seu +irmão D. Affonso, e arrastada da lizonja gemeo a memoria de D. Sancho. O +que escreveram os antigos, é o que agora te dou a ler nesta brevissima +Chronica. Se quizeres ver resgatada de tanto descuido a fama deste +piissimo Rei, vê o Mestre Brandão, que em tudo mostrou a sua diligencia. + + + _Vale._ + + + + + +LICENÇAS DO SANTO OFFICIO + + + _Approvação do Reverendissimo Padre Mestre D. Antonio Caetano de + Souza, Clerigo Regular da Divina Providencia, Qualificador do Santo + Officio, e Academico da Academia Real da Historia Portugueza_ + + +EMINENTÍSSIMO SENHOR + + +Vi a Chronica de El-Rei D. Sancho o II, a quem os nossos Authores +antigos chamam o Capelo, que tambem anda em nome do Chronista Ruy de +Pina, como já disse na censura que fiz na de El-Rei D. Affonso II, seu +pai, e não contem couza alguma para que V. Eminencia não conceda a +licença que se pede para a imprimirem, este é o meu parecer. Lisboa +Occidental 8 de Março de 1726. + + + _D. Antonio Caetano de Souza C. R._ + + + + + _Approvação do Reverendissimo Padre Mestre Fr. Vicente das Chagas, + Religioso da Provincia de Santo Antonio dos Capuchos, Lente + jubilado na sagrada Theologia, Qualificador do Santo Officio, &c._ + + +EMINENTISSIMO SENHOR + + +A Chronica d'El-Rei Dom Sancho o II a quem os Authores antigos chamam o +Capelo, pelos vestidos honestos, de que sempre uzou, mais de feição de +Religioso, que de Rei, não tem cousa que se oponha aos dogmas da nossa +Santa Fé, ou bons costumes. Este Rei não teve exercicio de reinar todo o +tempo de sua vida, porque pelos seus erros foi posto por Regedor no +Reino seu irmão o Infante D. Affonso Conde de Bolonha, e errou o dito +Rei D. Sancho se cuidou que havia de reger sempre: «Errat, si quis +existimat tutum diu esse Regem». Diz Seneca «In sui Proverbiis in fine +positis lit. E.» Mas se lhe tiraram o Reino, ou a regencia delle pelos +seus erros, e culpas, não lhe podiam tirar o Reinar em o Ceo, morrendo +(como dizem morreo) com sinaes de bom Christão, e Catholico Rei, e cheio +de virtudes. Pelo que merece a licença que pede o Chronista para se +imprimir. V. Eminencia fará o que for servido. Santo Antonio dos +Capuchos de Lisboa Occidental 21 de Março de 1726. + + + _Fr. Vicente das Chagas._ + + + + + +Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica del-Rei D. Sancho II, +e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, +sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Março de 1726. + + + _Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira. Silva. Cabedo._ + + + + +DO ORDINARIO + + + _Approvação do Reverendissimo Padre Mestre Fr. João Baptista + Troyano, Religioso da Ordem de N. Senhora do Monte do Carmo, Mestre + na Sagrada Theologia, Consultor do Santo Officio, Definidor + perpetuo, e Provincial absoluto, Secretario que foi da Provincia, e + Prior do convento do Carmo de Lisboa Occidental, &c._ + + +ILLUSTRISSIMO E REVERENDISSIMO SENHOR + + +Por mandado de V. Illustrissima Reverendissima li a Chronica del-Rei D. +Sancho II no Nome, e quarto dos Reis de Portugal, vulgarmente chamado +Capelo, na fórma que a deixou escrita Ruy de Pina Chronista mór do +Reino, e como nella se não encontre couza que se opponha aos dogmas da +nossa Santa Fé Catholica, ou bons costumes, julgo se lhe póde conceder a +licença que se pede, salvo, &c. Carmo de Lisboa Occidental 4 de Outubro +de 1726. + + + _Fr. João Baptista Troyano, Prior do Carmo._ + + + +Pode-se imprimir vistas as informações, a Chronica del-Rei D. Sancho II, +e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença sem a qual +não correrá. Lisboa Occidental 1 de Junho de 1728. + + _Gouvea._ + + + + +DO PAÇO. + + + _Approvação do Excellentissimo Senhor D. Francisco Xavier de + Menezes, Conde da Ericeira, do Conselho de S. Magestade, Academico + da Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores + della, &c._ + + + SENHOR + + +Na censura que fiz por ordem de V. Magestade á Chronica del-Rei D. +Sebastião, ponderei largamente o juizo que fazia da utilidade que +resultava á Historia de Portugal, de que se publicassem as memorias mais +antigas, que se conservavam manuscritas na Torre do Tombo, e em muitas +livrarias, ainda que tivessem alguns defeitos, que nasceram da sincera +credulidade dos seus Authores, outros da corrupção das copias, e muitos +que os modernos suppõem, que foram erros, e que póde ser sejam verdades, +e que prevaleça a antiguidade de alguns seculos, que faz os Authores +melhor instruidos de tradição sucessiva, e então mais vezinha ao tempo +dos sucessos; á critica que fundada em documentos, e conjecturas, nem +sempre descobre as dezejadas demonstrações. A Chronica del-Rei D. Sancho +II sendo muito breve, merece maior exame, que as outras, porque era +precizo ao seu escritor defender o que fez todo o Reino para autorizar a +deposição daquelle Principe mais infelice, que culpado, e quanto mais +razões buscou este escritor para culpar o seu Rei, tanto mais seguio a +primeira errada maxima, continuada por muitos Historiadores, que se +convencem a si mesmos com a força da razão, celebrando a fidelidade dos +dous valerosos defensores de Coimbra, e Cerolico. Tambem se buscaram +outros principios, que as Monarchias independentes, como é a de Portugal +não admitem, nem acho inconveniente em que se imprimam as Historias do +que o mundo fazia, e hoje não observa, porque assim conhecemos o genio +dos seculos passados, e a parcialidade dos nossos Chronistas; sendo +poucos em todas as nações, os que se livraram deste perigo, e não sendo +o mesmo permetir V. Magestade a licença que se pede para sahirem a luz +os livros antigos, que aprovar tudo o que elles dizem, e copiáram os +outros, que o seguiram, e assim entendo que com esta censura que deve +imprimir-se nas mais Edições desta Chronica, se dê a faculdade que +pertende o seu curioso Collector, desta, e de todas as Historias antigas +de Portugal. Lisboa Occidental 7 de Junho de 1728. + + + _Conde da Ericeira._ + + +Que se possa imprimir, visto as licenças do Santo Officio, e Ordinario, +e depois de impresso tornará á Meza, para se conferir, e taxar, e sem +isso não correrá, com declaração, que no mesmo livro se imprima esta +censura do Conde da Ericeira. Lisboa Occidental 8 de Junho de 1728. + + _Marquez P. Pereira. Oliveira. Teixeira. Bonicho._ + + + + +_Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. Sancho II, quarto Rei +de Portugal a que vulgarmente chamavam o Capelo_ + + + + +CAPITULO I + + + _Como o Ifante D. Sancho Capelo, foi alevantado por Rei, e das + condições fracas que teve, e como cazou, e não como a sua honra e + estado Real compria, e se devia_ + + +El-Rei Dom Affonso deste nome o segundo, e dos Reis de Portugal o +terceiro, faleceo na era de mil duzentos e vinte e tres, (1223) como em +sua Coronica é declarado, e por seu falecimento foi logo alevantado, e +obedecido por Rei o Ifante Dom Sancho, seu filho maior legitimo, e +herdeiro, a que disseram Capelo, deste nome o segundo, e dos Reis de +Portugal o quarto, em idade de dezaseis annos, e a cauza porque este +sobrenome de Capelo lhe fosse posto, as lembranças antigas Despanha, e +de Portugal, que delle falam, e assi o nomeam, não o declaram, sómente +que lhe devia ser posto por sua maneira de vestidos honestos, que sempre +trouxe, mais de feição de Religioso, que de Rei, nem Cavaleiro, porque +foi Principe, que do começo de sua vida até que acabou em servir mais a +Deos, que haver respeito ás couzas, e pompas do mundo, em cujo coração +não houve a verdadeira fortaleza que pera Rei era mui necessaria, mas +houve nelle sua pura simpreza com que dezejou que seus Reinos, e +Vassalos fossem regidos por lei de natureza, e por regras, e concelhos +de boa condição, sem outra prema, nem contradição de Lei, nem de algum +direito positivo, e por esso na execução nas cousas da justiça era muito +brando, e as não provia nem ponia, com aquelle rigor, e escarmento, que +as culpas, e crimes de homens requeriam, e por esta sua natural, e fraca +incrinação, e juntamente com os máos, e desassolutos Conselheiros, que +de moço logo o recolheram, e porque não devidamente se regia o Reino de +Portugal, e todolos naturaes delle em todalas couzas, assi espirituaes, +como temporaes, durando o seu Reinado padeceram muitas perdas, e danos +incomportaveis, que depois com quebra de seu nome, e pera provizão de +seu Estado se remediaram, como ao diante se dirá. + +E ao tempo que este Rei Dom Sancho começou de Reinar em Portugal, +governava os Reinos de Castella, e de Lião sua tia, a Rainha Dona +Biringela, molher que foi del-Rei Dom Affonso de Lião, com El-Rei Dom +Fernando seu filho, a qual era tia deste Rei Dom Sancho, irmã da Rainha +Dona Orraca sua madre, e porque a Rainha Dona Biringela, a que este Rei +Dom Sancho ficou encomendado, era Princeza de mui singulares virtudes e +Reaes perfeições, e muita prudenia, doendo-se da governança de Portugal, +e de uma evidente sua perdição, a que decrinava, ella muitas vezes +enviou a conselhar a seu sobrinho assi bem, e verdadeiramente como a +elle, e ao Reino compria, e principalmente pera fundamento de sua maior +liança de o querer cazar, como seu Estado, e dinidade Real requeria. Ao +que El Rei D. Sancho por máos concelhos dalguns seus não fieis, e +danados conselheiros nunca obedeceo, antes por induzimento delles sem +dispensação, e muito contra sua honra, e com grande escandalo, e nojo +dos do Reino, cazou com Dona Mecia Lopes, Dona fermosa, e viuva, filha +de Dom Lopo, senhor de Biscaya, que era parenta sua dentro no quarto +gráu, a qual fôra já cazada com Dom Alvaro Pires de Castro, filho de Dom +Pedro Fernandes de Castro, o Castellão, e posto que El-Rei Dom Sancho +pelos Prelados, e povos, Senhores, e pessoas de titulo de seu Reino +muitas vezes fosse requerido, amoestado, e aconselhado, que se apartasse +desta molher, e recebesse outra qual, á sua honra, e conciencia +convinha, elle, ou por afeição não quiz, ou por feitiços, de que diziam +que era ligado, o não pôde nunca fazer, nem consentir, porque naquelle +tempo segundo as couzas passavam, mui clara, e geralmente se dizia, que +El-Rei andava em poder della enfeitiçado, e cego do juizo sem se poder +apartar, e que ajudavam muito o mao conselho daquelles, que sostinham a +parte da Rainha Dona Mecia, por cujo favor em que a este tempo havia o +poder, e authoridade com grande desolução elles tomavam, e destroiam do +Regno todolo que queriam, e assi o faziam, outros muitos grandes, e +pequenos por seu exemplo, os quaes males El-Rei por fraqueza de coração +não castigava, nem tornava a elles com aquella severidade, e rigor, que +se devia, e assi teve El-Rei D. Sancho esta molher algum tempo sem della +haver alguma geração, não cessando no Regno estes insultos, e +desoluções, antes crecendo cada vez mais. + + + + +CAPITULO II + + + _Do que o Papa a requerimento dos Prelados, e povo de Portugal + escreveo, e requereo a El-Rei Dom Sancho por sua Bulla_ + + +Pelo qual os Prelados, e povo de Portugal concirando a fealdade destas +couzas, que era em grande ofença de Deos e cançasso e destroição da +terra, e vendo que a continua, e perseverada aprezentação de suas +querelas ante El-Rei não aproveitavam, todos em uma concordia se +enviaram querelar ao Papa Honorio III na Igreja de Deos a esse tempo +Presidente, que como bom, e Sancto Pastor, por aconselhar a El-Rei, e +por verdadeiramente ao Regno, sabendo todas as cousas sobreditas, que +com verdadeira relação lhe foram senificadas, enviou a El-Rei seu Breve, +em que lhe vieram suas sanctas, e devidas amoestações, e nelle límitado +tempo, em que inteiramente emendasse os erros de sua pessoa, e +satisfizesse aos danos feitos por sua negligencia, em todo o Regno, e +passado o tempo, que pera a emenda destas cousas lhe era assinado, sendo +o Papa certificado, que em nada se satisfazia, enviou a elle de Roma por +Delegado o Bispo Sabenense, o qual pela dureza, e pouca obediencia que +nelle, e nos seus Conselheiros achou, poz condicionalmente em suas +pessoas sentença de Excommunhão, e de antredito, e em todo o Regno sem +outro devido, e peremptorio termo, que lhe assinou, se se não emendasse, +e satisfizesse. Das quaes sentenças ficou por mero executor, por mandado +especial do Papa, o Arcebispo de Braga, que por se não satisfazer aos +males, tomadias e roubos, que eram feitos especialmente ás Igrejas, nem +se leixavam de fazer tantos, o tornou a notificar ao Padre Santo, que +por uzar de mais clemencia, e piedade com El-Rei Dom Sancho, e lhe +afastar todalas couzas de sua essencia, lhe escreveo outra carta na +entrada da qual lhe tirou aquella solennidade de amor, e benção +Apostolica, que em outras escrevia aos outros Reis sempre costumada de +escrever, ca lhe não poz Carissimo em Christo filho, nem disse nella: +«Salutem & Apostolicam benedictionem». + +Com a Bulla, que a El-Rei Dom Sancho em sua pessoa, e em muitas partes +de seu Regno, foi pubricada, elle foi muito anojado, e vendo se apertado +de muitas necessidades, que nesta necessidade concorriam, aconselhado +dos seus que o seguiam, disse que em todo queria, e prometia de obedecer +ao Papa, e satisfazer inteiramente aos mandamentos da Sé Apostolica, e +que elle logo emendaria, e faria aos seus emendar todolos danos, e +perdas que eram feitos, e não consentiria, que dahi em diante em seu +Regno por elle, nem pelos seus, lhe fizessem outros alguns, assi por +suas cartas patentes, o segurou, e prometeo particularmente ao Papa, +pelo qual a esta cautella, e com condição de todo comprir a certo tempo, +foram todos absoltos da excommunhão, e levantado o antredito do Regno. + + + + +CAPITULO III + + + _Como El-Rei Dom Sancho por amoestações do Papa se não quiz apartar + de Dona Mecia Lopes sua molher, e como lhe foi tomada_ + + +Mas como El-Rei Dom Sancho da excommunhão, e antredito se vio livre, e +afrouxado, e os Delegados do Papa partidos do Regno, elle e os seus por +mao conselho, e induzimento de maos homens, que comsigo trazia, não +leixaram de proseguir, e uzar de todolos erros, e males, que dantes +faziam, e esto durou por muitos annos, ca foi no tempo do dito Papa +Honorio, e depois em vida do Papa Gregorio IX que a requerimento, e +sopricação dos Prelados, e povo de Portugal, lhe enviava continuas +amoestações, e sanctos conselhos, a que nunca quiz inteiramente +obedecer, quazi de sua boa, e fraca condição, era faze-lo logo, a Rainha +Dona Mecia sua molher, e aquelles que seguiam sua vontade o disviavam de +seu bom proposito, especialmente em a não querer nem poder leixar por +molher, sobre que muitas vezes, foi pelo Papa aconselhado, e amoestado, +e excommungado, por quanto ella era filha do Conde Dom Lopo de Biscaya, +como já disse, e era muito conjunto ao Real sangue dos Reis Despanha, de +que El-Rei Dom Sancho descendia, e porém nunca por direito, nem por sua +vontade a quiz de si apartar, ca por qualquer maneira que fosse, elle +lhe era muito afeiçoado, e porém acha-se, que neste tempo, tendo-a +El-Rei comsigo em Coimbra, um Reymão Viegas de Porto Carreiro, com +gentes de Dom Martim Gil de Soveroza, naturaes de Portugal, e Vassallos +del-Rei Dom Sancho, da frontaria de Galiza, donde eram, com multas +gentes, que comsigo trouxeram, tomaram a dita Dona Mecia, e a leváram ao +Castello Dourem, que ella tinha del-Rei por Arras de seu cazamento, +sobre o qual El-Rei logo foi armado, e com a gente que pode requerendo +lhes, que lhe entregassem sua molher, e elles o não quizeram fazer, +antes resistiram a El Rei com armas, e forças, com que se tornou, e +elles a levaram a Galiza, mas o que della se depois fez, ou com que +fundamento, e cauza certa foi assi tomada, e levada, eu o não achei, nem +soube, e porém até o tempo que o Papa Innocencio IV foi Prezidente na +Igreja de Roma, nunca por El-Rei Dom Sancho nos males, e danos passados, +se fez alguma emenda, nem deu satisfação, nem menos havia rigor de +justiça, por cujo temor elles se leixassem de fazer. + + + + +CAPITULO IV + + _Do Concilio que o Papa Innocencio IV fez em Lião de França, onde + os Prelados, e os Senhores de Portugal, se foram querelar del Rei + Dom Sancho, e lhe pediram novo Regedor para o Regno, que por mingoa + da justiça se perdia, e lhe outorgou o Ifante Dom Affonso, Conde de + Bolonha, irmão do dito Rei Dom Sancho_ + + +Sobre o qual sendo El-Rei por muitos, e muitas vezes aconselhado do +requerido, e pedido, que se emendasse, e castigasse os malfeitores, elle +não o querendo, ou não podendo fazer, os Prelados, e povo se enviaram +outra vez aggravar ao Papa Innocencio IV e pedir-lhe remedio, o qual por +algumas vezes escreveo a El-Rei cartas de mui sanctos concelhos, e +devidas amoestações, e assi outras ao Bispo de Coimbra, que em seu nome, +e da sua parte o aconselhasse para se privar dos erros, e males, que +consentia, e o esforçasse para castigo, e emenda daquelles, que os +cometiam, encomendando ao dito Bispo, que de todo o que em El-Rei sobre +esso achasse, e deste cazo lhe parecesse, lho fizesse saber por suas +cartas, as quaes enviaria ao Concilio, que se havia então de fazer, como +fez em Lião Solanova em França, para que foram convocados os Reis, e +Principes Christãos, e assi muitos Prelados, no qual Concilio se +acordaram muitas, e mui sanctas couzas por bem da universal Igreja, ante +as quaes El Rei S. Luis, por mortal doença de um fernezim, de que +escapou, tornando a seu entendimento, fez nelle voto de ir, como foi em +pessoa, por se recobrar á Caza Santa, e á conquista de ultra mar, e +levou em pessoa comsigo a Rainha Dona Margarida sua molher, filha do +Conde de Proença, e desta ida tomou por cerco a Cidade Damiata no +Egipto, que era de imigos, mas logo pelo grande poder do Soldão, El-Rei, +e dous seus irmãos, que com elle passaram, a saber, Dom Affonso, e Dom +Carlos em uma batalha foram tambem cativos, e resgatados pela mesma +Cidade de Damiata, e das muitas gentes de seu exercito, muitos foram +mortos, e os outros prezos, e cativos. + +E retornando El Rei S. Luis a França com esperança de vingar o mal +passado, logo com outro grande exercito, que refez, tornou a ir sobre a +Cidade de Tunes, com propozito de fazer o Rei della Christão, como lhe +enviara prometer, e de conquistar por hi a terra dos Infieis, ao longo +do mar até Alexandria pera dahi poder cobrar a Terra Sancta com menos +trabalhos das pessoas, e deficuldades, e estando neste cerco, e tendo +comsigo tres filhos, a saber Felippe Johane, e Pedro, elle faleceo de +fruxo, e o dito seu filho Dom Joham de peste, e por estes merecimentos, +e por outras muitas virtudes este Rei Luis foi pelo Papa Bonifacio +Canonizado, e era primo com irmão deste Rei Dom Sancho, filhos de duas +irmãs. + +E volvendo ao proposito de sua Istoria, El Rei Dom Sancho com todolos +conselhos, e amoestações de amor, e de rigor pelos Papas, e pelos de seu +Regno muitas vezes lhe foram feitos, nunca por sua natural fraqueza se +quiz, ou nem se pode emendar, nem dar ordem como se os malfeitores +emendassem, e castigassem, e privassem dos malificios que cometiam, pelo +qual os Prelados, e mais principaes do Regno com todo o povo, por +remediarem sua total perdição em que se viam, acordaram de enviar pedir +no dito Consilio ao sobredito Papa Innocencio IV que lhes desse auto, e +pertencente Regedor pera o Regno, pera o qual foram eleitos pera +Embaixadores, e Procuradores Dom Joham Arcebispo de Braga, que em todo o +Reinado del-Rei Dom Sancho tinha muitas perseguições, e perdas +padecidas, e Dom Tiburço Bispo de Coimbra, e Ruy Comes de Briteiros, e +Gomes Viegas, nobres Cavalleiros, e pessoas de muita authoridade no +Regno, os quaes chegando ao Consilio, propozeram ante o Papa todalas +querelas do Regno passadas, e a desesperação que havia pera se nunca +emendarem antes ao despois se fazerem peor, pera cuja prova prezentaram +aprovadas cartas, e verdadeiras inquirições, que pera esso levávam, e o +Papa, que claramente gostou da verdade depois de sobre esso haver sua +deliberação lhes respondeo que elles escolhessem, e tomassem por Regedor +do Regno de Portugal, quem quizessem, e entendessem, que o faria bem, +com tanto que fosse natural do Regno. + +E porque os ditos Prelados, e Cavalleiros, tinham já sobre este cazo +assás deliberado, e consultado depois de lhe beijarem por esso seus +santos pés, lhes disseram, que a pessoa natural que pera tal cargo +achavam era o Ifante Dom Affonso, Conde de Bolonha, irmão do mesmo Rei D +Sancho, e que este lhe pediam por mercê ques désse por Regedor, ca o +Papa aprouve, e lho outorgou. Sobre o qual mandou logo chamar o dito +Ifante Conde, que era em Bolonha de França, não longe do Papa, que era +na dita Cidade de Lião, ao qual Sua Santidade fez larga relação das +couzas de Portugal, que até aquelle tempo eram passadas, e com esso as +necessidades que hi havia pera com paz, e justiça se remediarem, e lhe +encomendou, e mandou que asseitasse o Regimento, defenção, e governação +do dito Rego, e fizesse como se delle confiava, e o Conde sem +contradição, nem escuza consentio no dito cargo, e o asseitou, e esto +foi em Lião a seis dias de Setembro de mil duzentos quorenta, e cinco +annos (1245). + + + + +CAPITULO V + + + _Como o Conde de Bolonha, depois de asseitar a governança de + Portugal fez sobre esso juramento com algumas condições declaradas_ + + +Tanto que o Conde pelo Papa foi dado por Regedor de Portugal, elle, e os +ditos Prelados, e Cavalleiros do Regno, por acordo que sobre esso antes +se tomou se vieram todos á Cidade de Pariz, onde dentro nas cazas do +Mestre Perochel da Cidade, sendo elle prezente, e Mestre Joham, Capelão +do Papa Adaião da Igreja da Carnota, e Soeiro Soares Chançarel, e +Estevão Annes Cavalleiro do Conde, e assi sendo prezentes os ditos +Arcebispos, e Bispo, e Cavalleiros, e outras muitas pessoas Religiozas +do Regno de Portugal, o dito Conde em prezença de todos, e tendo as mãos +sobre um livro dos Santos Evangelhos, fez solenne juramento nesta fórma. + +«Eu Dom Affonso, Conde de Bolonha, filho Del-Rei Dom Affonso de crara +memoria, Rei que foi de Portugal, prometo, e juro sobre estes Santos +Evangelhos de Deos, que por qualquer titulo, que eu aja o Regno de +Portugal, eu guarde, e faça guardar aos Concelhos, e todo o povo, e +Religiosos, e Clerezia de todo o Regno todolos bons costumes, e foros +escritos, e não escritos, os quaes houveram, e tiveram com meu avô, e +com meu visavô, e que tire todos os maos costumes, e abozões, que vieram +por algumas necessidades, ou que pozeram algumas pessoas em tempo do meu +padre, e de meu irmão, especialmente, que não leixe, nem consinta nenhum +mau costume, que ha no Regno de se com mudar a Justiça que ha de morte +de um homem em pena de dinheiro, e que eu faça, que os Juizes, onde quer +que os houver de poer, sejam justos, e sem cobiça, e amadores de fazer +justiça, e direito sem medo de nenhumas pessoas, e esto a quanto eu +puder, e entender segundo me Deos ajudar, e que sejam feitos por eleição +dos mesmos povos, que elles houverem de reger, e não por afeição, nem +rogo, nem pera oprimir, e despeitar o povo, que hão de julgar em +justiça, e em direito, e que este juramento me farão os Juizes quando +receberem os officios. + +«Item, que eu tire Inquirição por mi, ou por outrem se taes Juizes +cumprem o que juraram, e os que não fizerem o que devem que lhes mande +dar tal pena, que a elles seja escarmento, e a outros castigo. + +«Item, que aquelles, que forçarem quaesquer molheres, ou matarem +Clerigo, ou Frade, ou qualquer outra pessoa, que eu faça delles taes +justiças, que a sua pena castigue os outros. + +«Item, que defenda, e mantenha em seu estado quanto eu puder as Igrejas, +e Moesteiros, e Lugares Religiosos fazendo-lhes entregar qualquer couza, +que lhe foi tomada, e que quaesquer males, e sem razões, que alguns +sejam em posse de fazer des o tempo de meu irmão até agora que não lhe +valha alegança de tempo perlongado. + +«Item, que eu faça emendar segundo meu poder, com conselho dos Prelados, +e dos do Regno todolos males, que até qui foram feitos em elle, e +reformarei paz quanto poder não leixando sem pena taes couzas passar nem +as consentindo fazer no dito Regno. + +«Item, que segundo me Deos ministrar, e eu puder, que bem, e lealmente +reja, e aministre o dito Regno de Portugal desque em elle for, e faça +especialmente fazer justiça, dando a cada um segundo seu merecimento não +asseitando pessoas pobres, nem ricas. + +«Item, que reja todo bom estado da terra, e proveito do dito Regno com +conselho dos Prelados, e povos delle, e ser sempre obediente, e devoto á +Igreja de Roma, minha madre, e assi como fiel, e Catholico, e como todo +Principe Christão deve ser, e que guardarei estas couzas sobreditas +segundo meu poder, e e me Deos ministrar». + +E depois que o dito Conde jurou estas cousas, e outras mais a estas +conformes, todolos que eram prezentes assináram o juramento, e desso +passaram escrituras pubricas, que os Prelados trouxeram a Portugal. + + + + +CAPITULO VI + + + _Das Bullas e Provizões do Papa, que o Conde trouxe a Portugal pera + os do Regno sobre sua governança, e assi outra Bulla que sobre o + mesmo caso enviou aos Frades de S. Francisco_ + + +Como o Conde fez este juramento, procurou logo de aviar as couzas mais +necessarias pera a sua vinda, e álem de sua fazenda lhe compria a honra +de sua pessoa, e serviço, e repairo de sua caza, e familia. + +_A tradução destas Bullas andam muito viciadas nas copias desta +Chronica, e se acham em outros livros, e por esta, e outras cauzas senão +imprimem neste Capitulo._ + + + + +CAPITULO VII + + + _De como o Conde de Bolonha chegou a Portugal, e com elle um + delegado do Papa, e das notificações que logo fizeram a El-Rei D. + Sancho_ + + +Despedidas as Bulas do Papa, e aparelhadas as couzas, que ao Conde para +seu caminho mais cumpriam, se despedio da Condessa de Bolonha sua +molher, que havia nome Dona Matildes, a qual fora já outra vez cazada, e +era da linhagem dos Rex de França, e molher, em que havia singulares +bondades, e vertudes, e tinham muitas terras, e grande fazenda, e dahi +com os Prelados, e Cavalleiros Portuguezes, que o foram requerer, se +veio a este Reino, e com elle enviou mais o Papa por seu Delegado pera +estas couzas de Portugal Frei Desiderio, pessoa em que havia doutrina, e +sinaes de bom Religioso, pera que em nome do Papa, e da sua parte +requeresse, que entregassem ao Conde os Castellos do Regno, nos quaes +pozesse Alcaides, e as Villas, e terras, em que fizesse Juizes com que o +Regno se mantivesse em paz, e justiça, e por tal, que nas Fortalezas +principalmente se não acolhessem os mal feitoras, que nas pessoas, que +em todo lhe não obedecessem, pozesse sentença de excommunhão, e como +chegaram ao Estremo de Portugal, o Conde por suas cartas noteficou logo +sua vinda a todolo Regno, dizendo em seu titulo: «Dom Affonso, filho do +muito nobre Rei Dom Affonso por graça de Deos, Conde de Bolonha, e +Procurador, e defensor do Regno de Portugal». E assi noteficou a El Rei +Dom Sancho seu irmão, como a requerimento do Regno vinha, e não pera ser +Rei, mas pera lhe reger, e governar o Regno, e se fazer nelle direito, e +justiça, que se não fazia, e lhe conheceria senhorio, como a seu Rei, e +Senhor, salvo a cerca daquelles, em cujo poder, e mãos andava, e porque +tão mal aconselhado, e por cuja cauza tantos males no Regno eram feitos, +e com esto lhe enviou o Delegado um Breve do Papa. + + + + +CAPITULO VIII + + + _Como El Rei Dom Sancho mal aconselhado se foi com os de sua valia + pedir soccorro a Castella, e como veio em sua ajuda o Ifante Dom + Affonso de Molina com outros grandes, e gentes de Castella_ + + +El-Rei Dom Sancho a este tempo era em Coimbra, e como vio as cartas do +Papa, e de seu irmão, e soube que elle era entrado no Regno onde +inteiramente lhe obedeciam, elle de si mesmo foi muito trovado, e o +fizeram ser muito mais os homens maos, e perversos Conselheiros, que +consigo trazia, porque receáram executar-se nelles sem escuza as penas, +que por seus desmerecimentos, e grandes delitos mereciam, e estes lhe +fizeram que não cresse, nem obedecesse a couza, que o Papa, nem seu +irmão lhe escrevesse, nem outros por seu bem lhe dicessem, porque o bem, +nem asecego del-Rei, em cazo que depois o tivesse não asegurava, nem +descançava aos que o seguiam, pelo qual de seu parecer delles, e como +desesperado doutro bom conselho, sem receber dano de pessoa alguma, nem +lhe ser feita desobediencia, nem contradição, se foi logo a Castella com +fundamento de pedir soccorro contra seu irmão, a El-Rei Dom Fernando, +deste nome o segundo, que então nelle Regnava, que era seu primo com +irmão, filhos de duas irmãs da Rainha Dona Biringela, madre del-Rei Dom +Fernando, e Dona Orraca, madre del-Rei Dom Sancho, ou ao menos pedir +este soccorro e ajuda ao Ifante Dom Affonso, filho herdeiro do dito Rei +Dom Fernando, que em Castella e Lião, já tinha grande poder, e muita +autoridade. + +E com este proposito chegou a Toledo andando a era em mil e duzentos +quarenta e sete annos (1247) antes um anno que Sevilha fosse aos Mouros +tomada. A este tempo El-Rei Dom Fernando veo a Toledo, tendo tomado +Cordova, e já com dezejo, e fundamento de ir cercar, e tomar Sevilha, se +podesse, ao qual El-Rei Dom Sancho de Portugal seu primo, dice logo, que +a causa de sua ida a elle, era pera lhe fazer saber, o que elle teria +sabido, que seu irmão o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, entrára em +seu Regno de Portugal, e com ajuda e favor dalguns seus naturaes, se +alçara contra elle, e que o tinham recebido por Senhor, e que porém lhe +pedia, como a Rei tão poderoso, e que com elle era tão conjunto em +parentesco, que em tamanha força lhe desse ajuda e favor com que +inteiramente cobrasse seu Regno, e lançasse delle fóra seu irmão, que +individamente lho tinha tomado, e que pois não tinha filho que o +herdasse, que depois de sua morte ficasse Portugal a elle, ou a seu +filho herdeiro. + +Da qual couza prouve a El-Rei Dom Fernando, e pondo-a em obra ordenou +logo pera vir a Portugal o Ifante Dom Affonso de Molina, seu irmão, +filhos ambos del-Rei Dom Affonso de Lião, e da Rainha Dona Biringela, e +com elle Dom Diogo Lopes de Haro, Senhor de Biscaya, e Dom Nuno +Gonçalves de Lara, e Dom Ruy Gomes de Galiza, e Dom Ramilo Frole, e Dom +Rodrigo Froyas, bom Cavalleiro, e Dom Fernando Anes de Lima, e outros +grandes senhores, e com elles muitas gentes de pé, e de cavallo, com que +entráram em Portugal pela Comarca de Riba de Coa, que a este tempo ainda +era de Castella, e por elles fazerem sua entrada pela terra da Beira, +que toda estava á obediencia del-Rei Dom Sancho, não houveram no caminho +contradição, nem resistencia alguma, e assi chegaram ao lugar de Abiul, +que é a quatro legoas de Leiria. + +E o Conde Dom Affonso de Bolonha tanto que entrou no Regno, tanta +alegria receberam os Portuguezes com sua vinda, sabendo quem era, e como +vinha a seu requerimento, que os mais dos Lugares por as proprias +vontades dos moradores delles se lhe davam, e aquelles em que achava +alguma contradição logo por execuções que o Delegado sobre elles punha, +ou por combates, ou forças não tardou em os cobrar todos salvo Coimbra, +em que estava Martim de Freitas, e Celorico da Beira, em que estava Dom +Fernão Rodrigues Pacheco, que ambos as tinham por El-Rei Dom Sancho de +que ao diante direi. + + + + +CAPITULO IX + + + _Como pelas deligencias do Conde de Bolonha El-Rei Dom Sancho se + tornou a Castella, e do que se passou no caminho com os Cavalleiros + de Trancozo_ + + +E sabendo o Conde de Bolonha da entrada del-Rei seu irmão no Regno com o +Ifante Dom Affonso de Molina, e com os Cavalleiros, e gentes de +Castella, logo percebeo, e houve pera ter, e trazer comsigo por defenção +do Regno as mais gentes que pode, e com ellas se veio a Obidos, e avizou +a Dom João Arcebispo de Braga, e a Dom Domingos, que então era Bispo de +Coimbra, os quaes lhe disseram que elles pela comissão do Papa, haviam o +dito Ifante Dom Affonso de Molina com todolos Senhores, e gentes de +Castella por excomungados, e malditos, e desso tomáram estromentos, e +por esta cauza El Rei, e o Ifante não passáram de Abiul, e se tornaram +pera Castella sem no Regno, nem nas gentes, e couzas delle fazerem algum +mal, nem dano, e principalmente se tornaram, e não proseguiram adiante, +porque El Rei Dom Sancho pelas dezordens, e males passados, a que nunca +provera, era de todolos mais do Regno mui dezamado, e mal quisto, e o +Conde pelo contrairo álem desso era já das mais forças delle de todo +apoderado, e por esta cauza o Ifante Dom Affonso com outros Senhores, +que vieram em ajuda del-Rei, vendo o pouco que lhe podiam aproveitar, e +o muito dano, que se podia seguir, aconselharam ao dito Rei Dom Sancho, +que ou ficasse em seu Regno, segundo lhe era apontado, ou se fosse com +elles a Castella. + +Este derradeiro houve El-Rei por melhor, sendo pior conselho, e porém +El-Rei Dom Sancho tinha feitas doações ao Ifante Dom Pedro seu primo de +muitas Villas, e Castellos principaes de Portugal, em grande dano da +Coroa do Regno, as quaes por sua injusta concessão não houveram nunca +efeito, como quer que o dito Ifante depois o procurasse, e requeresse +aficadamente por intercessões do Papa, que sobre esso escreveo algumas +vezes ao Conde de Bolonha, que justamente sempre se escuzou. + +E acha-se, que em tornando El-Rei pera Castella, achegou ao Lugar de +Moreira, que é junto da Villa de Trancozo, na qual a esse tempo estava +Dom Gonçalo Garcia, e Dom Fernão Garcia de Souza, que diceram +Esgaravunha, que foi bom trovador, e Dom Fernando Lopes, e Dom Diogo +Lopes, todos quatro irmãos, filhos de Dom Garcia Mendes de Souza, filho +do Conde Dom Mendo o Souzão, e de Dona Elvira Gonçalves, filha de Dom +Gonçalo Paes de Toronho, que eram nobres homens, e mui principaes no +Regno, e Dom Fernão Garcia sabendo da vinda de Castella del Rei por +conselho de seus irmãos com um só Escudeiro, a que deram sua lança, e +sendo elle vestido de todalas outras suas armas se foi a Moreira, onde +estava El-Rei, e o Ifante, e os outros Senhores, e posto ante elles +tirou o Elmo da cabeça, e com os joelhos em terra beijou a mão a El-Rei, +e ao Ifante Dom Affonso, e como se levantou, fez reverencia a Dom Diogo, +e a todolos outros homens honrados, que eram prezentes, salvo a Dom +Martim Gil de Soverosa, que era o principal homem; porque El-Rei Dom +Sancho com quebra de seu Estado se regia. + +E perguntando Dom Fernão Garcia a El-Rei se o conhecia? Elle dice que +si, e que era seu natural vassallo, e D. Fernão Garcia lhe tornou +dizendo: «Senhor meus irmãos, que estão em Trancozo, e por cujo mandado +venho como vossos vassallos, e naturaes, vos mandam pedir, e requerer, +por ante o Ifante vosso primo, e estes Senhores que aqui estão, que vos +vades pera aquella Villa, na qual, e em seu Castello vos receberão como +a seu Rei, e Senhor, e assi em todolos outros de redor, que são a seu +cargo, com tanto que não leveis com vosco Martim Gil, que aqui está, nem +os seus, que destruiram vossa terra, e elle matou, e leixou os que quiz, +sem querer que dos seus e doutros mal feitores se fizesse alguma +justiça, ca certamente vós não tinheis de Rei mais que o nome, e a muito +alta linhagem, e Real sangue de que decendeis, porque no efeito elle era +Rei, e com este tamanho credito que lhe destes vos teem mui mal servido, +em especial por seu mao conselho, por cuja cauza vós viestes ao estado +em que agora estaes. E se elle dicer que não é assi eu por minha +verdade, e por sua confuzão me combaterei com elle, e lhe porei as mãos, +e o corpo, ca por esso venho aqui armado, e alli á porta tenho o +cavallo, e sobresso espero em Deos, que eu o matarei, ou por sua boca +lhe farei confeçar que mui mal, e como não devia vos teem aconselhado, e +com grande quebra e mingoa de vosso Estado, e de vossa terra». + +Este Martim Gil era Cavalleiro, e de honrada caza, e de grande esforço, +porque este foi o que com grande e bom nome seu, venceo a lide do Porto. +E ouvindo estas palavras a Dom Fernão Garcia, ficou muito injuriado, e +abatido especialmente, porque áquella hora não lhe respondeo como a sua +honra compria porque sómente lhe dice: «Dom Fernão Garcia dizeis mal, e +do que dicestes vos não deveis de achar bem, se eu não morro». Polo qual +Dom Martim Gil, fez logo mostrança a alguns dos seus que alli estavam +que lhe fossem ter ao caminho, e o matassem, e Dom Fernão Garcia que os +vio, e entendeo bem a má tenção com que sahiam, antes doutra couza dice +a El-Rei: «Senhor, vós quereis ir pera Trancozo, como vos tenho +requerido?» E El-Rei lhe respondeo, que não, e então tornou D. Fernão +Garcia, e dice ao Ifante D. Affonso: «Senhor, sereis testemunha vós, e +esses Senhores que aqui estades da oferta, que por meus irmãos, e por mi +vim fazer a El-Rei». + +E com dito esto volveo o rosto contra Dom Diogo Lopes, e a Dom Nuno de +Lara, e dice-lhes: «Bem vistes Senhores a offerta, que por limpeza, e +lealdade minha, e de meus irmãos fiz com El-Rei, e assi ouvistes o que +tambem dice a Dom Martim Gil, que aqui está, e não querendo por seu +corpo tornar a esso, como por sua honra devia, mandou aquelles seus, que +daqui partiram, que me vão ter ao caminho pera desacompanhado me +matarem, porque vos peço, como a nobres, e honrados Cavalleiros, que por +boa mezura me mandeis poer em salvo em Trancozo». E logo Dom Affonso se +levantou, e dice: «Martim Gil vós não atentaste no que Dom Fernão Garcia +vos dice? o que deveres de fazer, ca me parece que vos toca por maneira +de traição, e não lhe quereis poer as mãos, como deveis, e vos elle +requer?» + +E Dom Martim Gil brevemente dice, que dava pouco por suas palavras vãs, +pelo qual estes Senhores diceram a El-Rei, que Dom Fernão Garcia, e os +nobres homens que eram em Trancozo não podiam fazer melhor comprimento, +porque com elle compriam, como bons vassallos quanto deviam, e que dahi +por diante qualquer culpa que hi ouvesse, que era del-Rei, e não delles, +e logo Dom Diogo, e Dom Nuno com esses bons homens que hi eram +cavalgaram, e foram-se com Dom Fernão Garcia até Trancozo, donde sahiram +seus irmãos e outra boa, e nobre gente, que hi eram, e lhe tiveram em +mercê sua vinda, e depois de praticarem sobre as couzas que pendiam, Dom +Diogo, e Dom Nuno se tornaram pera o Ifante Dom Affonso, que juntos com +El-Rei Dom Sancho se foram todos pera Castella, e com elles este Dom +Martim Gil, que era Portuguez, e homem muito honrado, o que com medo do +Conde Dom Affonso não ouzou de ficar, e se foi tambem a Castella com +El-Rei Dom Sancho, e lá faleceo, e foi del-Rei D. Affonso Decimo, com +quem viveo havido por Rico homem, e em grande estima, e por tál está +posto por testamenteiro, com outros no testamento del-Rei, quando por +desagardecimentos do Ifante Dom Sancho seu filho, o deserdou de +Castella, ainda que seu deserdamento não houve efeito. + + + + +CAPITULO X + + + _Como o Conde cercou em Celorico da Beira a Dom Fernão Rodrigues + Pacheco, que lhe não quiz obedecer, e como por causa de uma truita + se alevantou o cerco_ + + +O Conde de Bolonha governador como entrou no Regno segundo atraz já +dice, logo por força, ou por vontade, ou a sua obediencia todalas +Cidades, Villas, e Castellos do Regno, em que entraram todalas que +El-Rei Dom Sancho tinha dado em Portugal ao Ifante Dom Affonso de Molina +por entrar com elle, e em sua ajuda no Regno, do que o dito Ifante se +mandou queixar ao Papa, e assi com elle outros Cavalleiros, e Alcaides +de Portugal, pelo Conde de Bolonha lhes tomar contra suas vontades os +Castellos que tinham por suas menagens, e destes o Papa se escuzou +havendo que o Conde pera asecego, e boa governança do Regno fazia o que +devia, mas sómente escreveo ao Conde rogando-lhe pelos Castellos, que +por El-Rei Dom Sancho eram dados ao Ifante Dom Affonso de Molina, ao que +não satisfez pelos grandes inconvenientes que nesto havia, e porque +soube que eram cartas, e rogos de comprimento. + +Neste tempo depois del-Rei D. Sancho ser em Castella, porque o Castello +de Celorico da Beira, que tinha Dom Fernão Rodrigues Pacheco, e o de +Coimbra, que tinha Dom Martim de Freitas, ficaram sómente por El-Rei, +como atrás dice, o Conde depois de sua partida lhes mandou dizer, e +rogar que lhos quizessem entregar, como os outros tinham já feito em +todo o Regno, prometendo-lhe por esso além de fazerem o que deviam +mercê, e bom galardão. E cada um por si lhe respondeo: «Que elles tinham +feita menagem a El-Rei Dom Sancho, seu Rei e Senhor, e que em quanto +elle fosse vivo, posto que andasse em Castella, não deviam de entregar +seus Castellos, se não a elle, de cuja mão os receberam, ou por seu +especial mandado, e do Papa, nem por outro algum temor, os não haviam de +entregar, em cazo, que sobresso fossem excommungados, e padecessem +cercos, e quaesquer outras fadigas, e tormentos». + +Pelo qual vendo o Conde sua tão firme determinação, e que pera o que +dezejava não aproveitavam muito suas repricas brandas, que fez, +detreminou cerca-los, e poz logo cerco em pessoa sobre Celorico, ca este +por ser mais junto á frontaria de Castella houve por melhor cobrar-se +logo, e este mandou combater muitas vezes, mas por sua fortaleza, e por +a boa gente que o defendia, não se podia cobrar por força, e durou o +cerco tanto tempo, que por o Castello não ter soccorro, nem lhe poder +vir provizão de mantimentos de fóra, foram os de dentro postos em tanta +estreiteza de fome, e doutras necessidades que por não morrerem, tão +cruas e dezesperadas mortes, como se lhes ofereciam, estavam pera se +dar, e entregar o Castello, e não sofrer mais apertos de tão perversa +lealdade. + +E estando nesta afronta se diz, que Dom Fernão Rodrigues Pacheco se +alevantou um dia muito cedo, e andando pelo muro cuidando na preça, em +que estava, e sobresso posto em desvairados pensamentos sem +determinadamente saber o que faria, lembrando-se de Deos, lhe pedia +muito de coração, que por sua misericordia por alguma maneira lhe +socorresse, por tal, que não cahisse em tamanha mingoa de sua honra, +como seria dar aquelle Castello se não a El-Rei, que lho dera, e porque +lhe tinha feita menagem, e que durando nesta maginação, e oração, que +vio vir contra a ribeira do Mondego, que é ahi junto, uma Aguia, que +trazia nas unhas uma grande truita, e que voando por sima do Castello +lhe cahio dentro, ainda mui fresca, com que algum tanto logo se alegrou, +e que a mesma truita, e com desse melhor pão, que no Castello se pode +haver, e aparelhar, mandou todo em prezente ao Conde no arraial, que +tinha cercado, e lhe mandou dizer: «Que bem o poderia ter cercado quanto +fosse sua mercê, mas que se por fome o esperava tomar, que visse se os +homens, que daquella vianda eram bem bastecidos, se teriam rezão de +entregar-lhe contra suas honras o Castello». Da qual couza o Conde, e +estes a que do prezente deu parte, foram assás maravilhados, e vendo, +que por longar mais o cerco alli, não aproveitava, e em outras muitas +partes danaria, alevantou o cerco sobre Celorico, e o foi pôr sobre +Coimbra. + + + + +CAPITULO XI + + + _Como o Conde foi cercar o Castello de Coimbra, que tinha Martim de + Freitas, por El Rei Dom Sancho, e das afrontas que passou no cerco_ + + +O Conde como chegou a Coimbra antes de fazer grandes aparelhos pera o +cerco e combates mandou dizer a Dom Martim de Freitas: «Que lhe +entregasse a Cidade, e o Castello, como por muitas vezes já lhe mandara +requerer, e por esso lhe faria muita mercê, porque se o assi não +fizesse, que o combateria, e o cobraria tudo com sua perda, e dano». E +Dom Martim de Freitas lhe respondeo: «Que sua mercê poderia comprir sua +vontade, e fazer o que quizesse, porém que fosse certo, que em quanto +soubesse que El-Rei Dom Sancho seu Rei, e Senhor, era vivo, que lho não +entregaria sem seu mandado, ou sabendo, que era morto, e que o não +ameaçasse com morte, nem perigos, porque tudo padeceria com bom coração +por inteiramente comprir com sua lealdade». Pelo qual o Conde assentou +seu cerco sobre o Castello, e ordenou seus combates, com que logo, e +depois o combateo muitas vezes, em que de uma parte, e da outra houve +mortos e feridos. + +Mas o alcaide, e os que por sua defenção comsigo tinha eram taes, que os +cometimentos do Conde não aproveitavam pera cobrar o Castello por força, +da qual cauza anojado o Conde fez juramento a Deos de nunca se alevantar +de sobre elle até o tomar por força, ou por fome, e assi o fez porque o +cerco foi tão porlongado, que os de dentro por falecimento dagoa, e de +provizões, que já não tinham, como desesperados comiam, e bebiam couzas +mui contrairas, e descostumadas da natureza humana, que não ficáram +bestas, cães, gatos vivos, nem os couros das alimarias mortas. E sendo o +Conde desto certificado os mandava afrontar, e requerer cada dia: «Que +se dessem, e não padecessem sem cauza, e por contumacia tão asperas +cruezas, que a sua tal façanha era vã, que não podia, nem devia levar ao +diante». + +Ao que Dom Martim de Freitas por sua honra, e fama não queria obedecer, +e dice, que durando este cerco, padecendo já de dentro grande, e mortal +necessidade de sede, que porque viram um Cavalleiro do Conde cavalgado +pelo rio do Mondego passar, e que o cavallo de farto não provou agoa, e +que os de dentro magoados por sua mingoa, e envejozos da bemaventurança +da alimaria, fizeram sobresso grandes lamentações, com que alguns +parentes, e amigos do Alcaide lhe aconselhavam: «Que pois os +padecimentos incomportaveis que sofriam sem esperança de ajuda, nem +soccorro estranho eram taes, que já se não podiam comportar, e elle no +Regno era só o que sostinha tal profia, que por dar a elle, e aos seus +as vidas, désse o Castello ao Conde». + +Dom Martim de Freitas lhes respondeo: «Parentes, e meus amigos, que aqui +estaes, nunca Deos queira, que obedecendo a esse vosso concelho eu ponha +tão grande magoa sobre minha limpeza, nem consinta tamanha traição sobre +minha honra, e lealdade, nas quaes todas encorreria se desse este +Castello senão a quem por minha menagem mo deu, em quanto elle for vivo, +e ami não fica por ver, e conhecer craramente as grandes tribulações que +vós, e eu, e todos aqui padecemos, mas se vós quizerdes trazer a vossas +memorias, e poer ante estas vossas necessidades outras muito maiores +fomes, e males, que muitos sendo cercados já padeceram, achareis que por +manterem suas lealdades depois que todalas couzas lhe faleciam a comerem +as raizes das viz ervas, se sostiveram, pelo qual deste temor e afronta +prazerá a Deos por sua piedade, que bom nome, e segurança nossa sedo nos +livrará, e em algum tempo vos alegrareis contardes a vossos filhos e +amigos estes males que padeceis, com que não acrecentareis pouco em +vosso louvor e merecimento, e obrigação de bondade, e lealdade, que a +outros em semelhantes cazos confrangeo, e essa mesma neste cazo nosso +nos não desobriga, ca em outra maneira as vidas, que salvamos, durarão +poucos dias, e a infamia, e deshonra, que por esso recebemos, durarão +pera sempre, pelo qual vos rogo, que em quanto poderdes não faleçais, e +me ajudeis, ca Deos nos acorrerá, e este mal prazendo a elle não durará +muito, e por ventura se algum de vós pera seu serviço, ou pera outra sua +deleitação tiverem dezejos de molheres dizei-mo, que aqui está minha +filha, que é boa donzella, e que muito amo a que eu mandarei que em tudo +vos sirva de boamente, porque com melhor vontade consentirei, e menos me +doerá, que ella perca a vertude de sua virgindade, que por mingoa de vós +outros, perder eu minha lealdade, e ser constrangido a fazer tamanha +traição, como seria dar como não devo este Castello a quem mo não deu». + +Com estas palavras, que Dom Martim de Freitas dice, ficaram todos muito +maravilhados, e louvando muito sua bondade, se esforçaram, e lhe +prometeram, que ora fosse com rezão, ou sem ella, elles por satisfazer a +seu dezejo por algum cazo, e afronta, que sobreviesse, o não leixariam, +antes todos morreriam primeiro com elle. + + + + +CAPITULO XII + + + _Como pela morte del Rei Dom Sancho, Dom Martim de Freitas entregou + o Castello de Coimbra, e das deligencias e exames que primeiro fez + por limpeza de sua rigorosa lealdade_ + + +Estando Dom Martim de Freitas nesta afronta com El-Rei, e havendo já um +anno e quatro mezes, que El-Rei Dom Sancho fora pera Castella, prouve a +Deos de o levar deste mundo, e faleceo em Toledo, como adiante direi, e +sendo de sua morte certificado o Conde seu irmão, tendo ainda o cerco +sobre Coimbra, como Principe em que havia muita prudencia, e grande +piedade, mandou logo ajuntar muito pão, e vinho, e carnes, e pescados, e +outras maneiras de refrescos, e mandou levar tudo ao Castello, enviando +dizer ao Alcaide: «Que fosse certo, que El Rei Dom Sancho seu irmão era +já falecido, e que lhe daria tempo, em que por elle em pessoa, ou por +outrem, podesse haver desso verdadeira certidão, com a qual entregasse o +Castello». + +Dom Martim escolheo certificar-se por si mesmo. E o Conde o segurou da +hida e estada, e ser livre até tornar ao dito Castello, que então se não +combateria. Dom Martim de Freitas chegou a Toledo, e como quer que por +muitos fosse certificado da morte del-Rei Dom Sancho, que no Moimento +que mostraram o viram sepultar, elle o não quiz crer, mas por mór +certeza fez tirar a campa que o cobria, e como o vio, e achou que em +certo era aquelle, se diz, que prezente muitas testemunhas, que trouxe +por comprir com sua menagem poz as chaves do Castello de Coimbra, que +levava, no proprio braço direito del-Rei Dom Sancho, e depois de lhe +fazer por ellas entrega do dito Castello lhas tirou, e trouxe comsigo a +Portugal, e desso tomou escrituras pubricas, e fez cerrar o Moimento, e +se tornou a Coimbra, e dentro entrou secretamente no Castello, e ao +outro dia mandou logo dizer ao Conde que o fosse receber, porque já lho +podia entregar, e lhe devia obedecer: e que a elle, e não a outro algum +o entregaria com boa vontade. + +O Conde foi logo ao Castello, e o Alcaide abrio logo as portas delle, e +tomou a molher, e a filha, e as poz fóra dizendo: «Leixemos este +Castello a cujo é». E com esso se poz de joelhos diante o Conde, e com +as chaves delle nas mãos alevantadas lhe dice: «Senhor, pois a Deos +prouve que El-Rei Dom Sancho, vosso irmão falecesse tomai vossas chaves, +e vosso Castello, e daqui por diante eu vos servirei, e haverei por Rei, +e Senhor». E logo amostrou ao Conde, e á nobre gente que era com elle as +escrituras das deligencias, que em Toledo por sua honra, e descargo +fizera, e acertou-se que um Cavalleiro do Conde, que era prezente dice a +Dom Martim de Freitas: «Que porque não pedia perdão ao Conde, por quanto +nojo e desserviço lhe fizera, e por lhe ferir, e matar tanta gente, +denegando-lhe tanto tempo a entrega e obediencia do Castello, que era +seu». + +E Dom Martim em se querendo escuzar pera não dever de pedir tal perdão, +acudio mui prestes o Conde, e dice ao fidalgo, que o reprendia: «Que +semelhante perdão em tal cazo Dom Martim não era obrigado de pedir, +porque elle não fizera erro, mas tinha feita boa façanha dina de bom +Cavalleiro, e leal fidalgo». E por ella lhe tornava a dar o dito +Castello pera elle, e pera todos os que delle decendessem, fazendo +menagem a elle, e a todos seus herdeiros. E Dom Martim lhe respondeo: +«Que lho tinha muito em mercê; mas que elle por alguma maneira não +tomaria o dito Castello, antes lançava maldição a seus filhos, e netos, +e a todolos que delle descendessem até o quarto grao se por Castello +fizessem menagem a Rei, nem a outra pessoa de qualquer condição que +fosse». + +E com esto assi concertado o Conde leixou o Castello de Coimbra, como +devia, e se tornou outra vez a Celorico, onde Dom Fernão Rodrigues +estava, porque da morte del-Rei Dom Sancho era já bem certificado, e +assi sabia que o Castello de Coimbra já era entregue, deu logo ao Conde +o Castello sem mais resistencia, nem cautella. Estes dous foram os +derradeiros Castellos de Portugal que ao Conde obedeceram. + + + + +CAPITULO XIII + + + _Da morte del-Rei Dom Sancho, e onde jaz, e de algumas couzas que + se em seu tempo passaram_ + + +El-Rei Dom Sancho depois da segunda vez que tornou a Toledo nunca dahi +mais se partio onde com sua vida, e costumes passados em grandes +virtudes, e com sinaes de bom, e Catholico Christão acabou sua vida em +idade de quarenta annos, na era de mil duzentos quarenta e sete annos +(1247) que dos quaes Reinou vinte e quatro, a saber vinte e dous em +Portugal, e dous estando em Castella, e seu corpo foi sepultado na +Capella dos Rex da Sé de Toledo, que elle mandou fazer á sua propria +custa, e assi deu grandes ajudas pera o acabamento da dita Sé, que se +então fazia por El Rei Dom Fernando, que de mesquita, que era a mandou +refazer em fórma das outras Igrejas, como agora está, porque quando +El-Rei Dom Sancho se foi pera Castella, levou comsigo muitas joias, e +grandes riquezas, que ficaram del-Rei Dom Affonso seu padre, e del-Rei +Dom Sancho seu avô; das quaes algumas não tornaram a Portugal, e todas +se gastáram em Castella. + +Este Rei Dom Sancho no começo de seu Regnado deu á Ordem de San Tiago em +desvairados tempos, e por apertadas doações, as Villas de Mertola e +Daljustrel, as quaes Villas tomou aos Mouros Dom Payo Correa, Mestre de +San Tiago de Castella, e porque eram da conquista de Portugal as tornou +a El-Rei Dom Sancho, que dellas fez as ditas doações á dita Ordem. E +como estas Villas se ganharam, na Coronica del-Rei Dom Affonso Conde de +Bolonha, se dirá mais largo, e El Rei Dom Sancho povorou de fogo morto a +Cidade da Idanha a velha, sendo de todo destroida dos Mouros, e depois +que El-Rei Dom Sancho seu avô a leixou á Ordem do Templo, e o dito Rei +Dom Sancho faleceo sem filho, nem filha legitimos, nem bastardos, que se +soubesse. + +E dahi a um anno, em dia de São Clemente a vinte e tres dias de Novembro +do anno de mil duzentos e quarenta e oito annos, El-Rei Dom Fernando +tomou por cerco a Cidade de Sevilha aos Mouros, e dahi a tres annos e +meio, nella faleceo, e ahi jaz sepultado, e havia treze annos que tambem +tomára Cordova salteada primeiro, e entrada por certos Christãos +Almogaveis, e foi socorrida, e mantida por o mesmo Rei Dom Fernando. + +E em Regnando este Rei Dom Sancho faleceram de suas vidas por muitos, e +grandes milagres São Domingos, que faleceo em Bolonha, no anno de mil +duzentos e vinte sete (1227) e Sancto Antonio, natural da Cidade de +Lisboa, em Padua, os quaes suas mui sanctas vidas foram em seu tempo +deste Rei Dom Sancho, todos Canonizados, e referidos ao numero dos +Sanctos, por o Papa Gregorio IX, o qual Canonizou Sancto Antonio na +Cidade Despoleto em Italia anno de mil duzentos trinta e um (1231). + +DEO GRATIAS + + + + +INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS + + +A + +Affonso II (El Rei D.) de Portugal, em que anno morreo, pag. 19 + +Affonso (D.) Conde de Bolonha é nomeado pelo Papa Innocencio IV para +Governador do Reino de Portugal, pela incapacidade de seu irmão D. +Sancho II, pag. 28. Na Cidade de Pariz na prezença de muitos Prelados e +Cavalleiros, toma o juramento do Governo do Reino, e de que forma o fez, +pag. 28. Deixa sua mulher a Condessa Dona Matilde em França, e parte +para Portugal, e do modo como se intitulava pag. 32. Cerca o Castello de +Celorico, que governava Fernão Rodrigues Pacheco, e o levanta por cauza +de um celebre estratagema de que este uzou, pag. 42. Põe cerco ao +Castello de Coimbra, e da resistencia que lhe fez Martim de Freitas, que +o governava, até que sabendo da morte del-Rei D. Sancho II lho entregou, +pag. 42 a 47. + +Affonso de Molina (D.) irmão de D. Fernando Rei de Lião, acompanhado de +muitos Cavalleiros, e Soldados, entram por Portugal á petição del-Rei D. +Sancho II para lançar fóra delle a seu irmão o Conde de Bolonha, pag. +34. Volta com os que o acompanhavam para Castella temerozo das censuras +da Igreja, pag. 36. + +Aljustrel. Foi tomada aos Mouros por D. Payo Correa, e dada por El-Rei +D. Sancho II á Ordem de San-Tiago, pag. 48. + +Alvaro Pires de Castro, (D.) filho de D. Pedro Fernandes de Castro o +Castelão, foi cazado com D. Mecia Lopes, que depois cazou com El-Rei Dom +Sancho II, pag. 21. + +Antonio, (Santo) em que anno foi Canonizado por Gregorio IX, pag. 49. + + +B + +Beringella (D.) mulher del-Rei D. Affonso de Lião. tia del-Rei D. Sancho +II, de Portugal, o aconselha muitas vezes a que caze, por ser muito +conveniente ao seu Reino, e elle o não executa, pag. 20. + + +C + +Celorico. É cercado o seu Castello por D. Affonso Conde de Bolonha, e +levanta o sitio por um estratagema de que uzou D. Fernão Rodrigues +Pacheco, que o governava, pag. 42. + + +D + +Desiderio (Fr.) é delegado do Papa Innocencio IV, para que entregue os +Castellos, e Fortalezas de Portugal á obediencia de D. Affonso Conde de +Bolonha, pag. 32. + +Domingos, (S.) donde, e quando falleceo, pag. 49. + + +F + +Fernando (D.) Rei de Lião, em que dia, e anno conquistou Sevilha, pag. +49. Faleceo nesta Cidade ibi. + +Fernão Garcia de Souza, filho de D. Garcia Mendes de Souza, e neto do +Conde D. Mendo o Souzão, offerece a El-Rei D. Sancho II, quando voltava +para Castella sem esperança de governar em Portugal, que se recolhe-se a +Trancozo, e da pratica que fez a El-Rei em Moreira contra Martim Gil, +pag. 36 e 37. + +Fernão Rodrigues Pacheco, governando Celorico, e sendo sitiado por D. +Affonso Conde de Bolonha levanta o sitio por cauza de um celebre +estratagema de que uzou, pag. 42. + + +H + +Honorio III expede uma Bulla a Sancho II de Portugal, em que lhe adverte +queira emendar os absurdos que se cometem no seu Reino, e o excomunga se +não obedecer, sendo executor destas censuras o Arcebispo de Braga, pag. +22. Segunda vez o notifica com palavras de maior severidade, e rigor, +até que El-Rei obedece, pag. 23. + + +I + +Idanha a Velha foi povoada por Sancho II. pag. 49. + +Innocencio IV convoca Concilio em Lião, e nelle á petição dos Prelados e +Conselheiros de Portugal nomea por Governador do Reino a D. Affonso +Conde de Bolonha pela incapacidade de seu irmão D. Sancho II, pag. 25 e +26. + +João (D.) Arcebispo de Braga com D. Tiburço Bispo de Coimbra, e outros +Cavalleiros Portuguezes, vão ao Concilio de Lião onde reprezentam a +Innocencio IV, que lhe nomeie Governador do Reino pela incapacidade de +D. Sancho II, pag. 27. + + +L + +Lopo (D.) senhor de Biscaia, foi pai de D. Mecia Lopes mulher de D. +Sancho II, de Portugal, pag. 21. + +Luis (S.), rei de França primo del-Rei D. Sancho II, de Portugal +assistio no Concilio de Lião, que convocou Innocencio IV, pag. 26. Foi +conquistar a Terra Santa, levando comsigo sua espoza a Rainha Dona +Margarida, ibi. Conquista a Cidade de Damiata, ibi. Morre no sitio da +Cidade de Tunes, e seu filho D. João e é Canonizado pelo Papa Bonifacio +VIII, pag. 27. + + +M + +Martim de Freitas Governando o Castello de Coimbra, e sendo cercado por +D. Affonso Conde de Bolonha animosamente o defende, pag. 43 a 45. Parte +a Toledo para se certificar da morte del-Rei Dom Sancho II e achando ser +certa lhe entregou as chaves do Castello de Coimbra, e depois voltando a +ella o entrega a D. Affonso irmão do dito Rei defunto, pag. 46 e 47. + +Martim Gil, cavalleiro honrado teve tenção de matar a D. Fernão Garcia +de Souza, pelo que disse da sua pessoa a D. Sancho II em Moreira, pag. +38. + +Mecia Lopes (D.) filha de D. Lopo Senhor de Biscaia, viuva de D. Alvaro +Pires de Castro caza com D. Sancho II, pag. 21. É separada violentamente +del Rei, e levada ao Castello de Ourem por estar nullamente cazada com +elle, pag. 25. + +Mertola foi conquistada dos Mouros por D. Payo Correa, e dada á Ordem de +San-Tiago por Sancho II, pag. 48. + + +O + +Orraca (D.) mãi del-Rei Dom Sancho II de Portugal, foi irmã de D. +Beringela Rainha de Lião, pag. 20. + + +R + +Reymão Viegas de Porto Carreiro, em companhia de D. Martim Gil de +Soveroza, e de outros Cavalleiros levaram para o Castello de Ourem a D. +Mecia, contra a vontade del-Rei D. Sancho II, pag. 25. + + +S + +Sancho II, (D.) de Portugal em que idade foi levantado Rei, pag. 19. +Porque lhe chamáram Capello não se sabe certamente, mas infere-se, ibi. +Pela sua enercia padeceo o Reino repetidas perdas no tempo, que o +governou, pag. 20. Caza com D. Mecia Lopes, filha de D. Lopo Senhor de +Biscaya, ibi. É admoestado pelos Prelados, e povos do Reino a que se +aparte de D. Mecia, e o não executa, ibi. O Papa Honorio III, o exorta a +que emende os absurdos de que é author, aliás que o excomungará, pag. +22. É advertido por Gregorio IX a que largue a D. Mecia por estar +nullamente cazado com ella, pag. 23. Tendo noticia de que seu irmão D. +Affonso entrara no Reino para o governar parte a Castella para pedir +soccorro a seu primo D. Fernando, pera que o lançasse fóra, e lho +concede, pag. 33 e 34. Donde morreo, em que idade, e onde está +enterrado, pag. 48. Deu á Ordem de San-Tiago as Villas de Mertola, e +Aljustrel, que conquistára D. Payo Correa, pag. 48. + +Sevilha. Em que dia e anno foi conquistada por El-Rei D. Fernando de +Lião, pag. 49. Nella morreo, e está sepultado o mesmo Rei ibi. + + +T + +Tiburço (D.) bispo de Coimbra com D. João Arcebispo de Braga, e outros +Cavalleiros Portuguezes vão ao Concilio de Lião, onde representam a +Innocencio IV a necessidade que tem de que lhes nomeie Governador do +Reino por ser incapaz D. Sancho II, pag. 25 e 26. + +FIM + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + +I--Como o Ifante D. Sancho Capelo, foi alevantado por Rei, e das +condições fracas que teve, e como cazou, e não como a sua honra e estado +Real compria e se devia 19 + +II--Do que o Papa a requerimento dos Prelados, e povo de Portugal +escreveo, e requereo a El-Rei Dom Sancho por sua Bulla 22 + +III--Como El-Rei Dom Sancho por amoestações do Papa se não quiz apartar +de Dona Mecia Lopes sua molher, e como lhe foi tomada 24 + +IV--Do Concilio que o Papa Innocencio IV fez em Lião de França, onde os +Prelados, e os Senhores de Portugal, se foram querelar del-Rei Dom +Sancho, e lhe pediram novo Regedor para o Regno, que por mingoa da +justiça se perdia, e lhe outorgou o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, +irmão do dito Rei Dom Sancho 25 + +V--Como o Conde de Bolonha, depois de asseitar a governança de Portugal +fez sobre esso juramento com algumas condições declaradas 28 + +VI--Das Bullas e Provizões do Papa, que o Conde trouxe a Portugal pera +os do Regno sobre sua governança, e assi outra Bulla que sobre o mesmo +caso enviou aos Frades de S. Francisco 31 + +VII--De como o Conde de Bolonha chegou a Portugal, e com elle um +delegado do Papa, e das notificações que logo fizeram a El-Rei D. Sancho + 31 + +VIII--Como El-Rei Dom Sancho mal aconselhado se foi com os de sua valia +pedir soccorro a Castella, e como veio em sua ajuda o Ifante Dom Affonso +de Molina com outros grandes, e gentes de Castella 33 + +IX---Como pelas deligencias do Conde de Bolonha El-Rei D. Sancho se +tornou a Castella, e do que se passou no caminho com os cavalleiros de +Trancozo 35 + +X--Como o Conde cercou em Celorico da Beira a Dom Fernão Rodrigues +Pacheco, que lhe não quiz obedecer, e como por causa de uma truita se +alevantou o cerco 40 + +XI--Como o Conde foi cercar o Castello de Coimbra, que tinha Martim de +Freitas, por El-Rei D. Sancho, e das afrontas que passou no cerco 42 + +XII--Como pela morte del Rei Dom Sancho, Dom Martim de Freitas entregou +o Castello de Coimbra, e das deligencias e exames que primeiro fez por +limpeza de sua rigoroza lealdade 45 + +XIII--Da morte del-Rei Dom Sancho, e onde jaz, e de algumas couzas que +se em seu tempo passaram 48 + + + + +OBRAS PUBLICADAS + + +I--Historia do Cerco de Diu, por _Lope de Sousa Coutinho_, 1 volume +(esgotada) 400 + +II--Historia do Cerco de Mazagão, por _Agostinho Gavy de Mendonça_, 1 +volume (esgotada) 400 + +III--Ethiopia Oriental, por _Fr. João dos Santos_, 2 grossos volumes +(esgotada) 1$500 + +IV--O Infante D. Pedro, chronica inédita por _Gaspar Dias de Landim_, 3 +volumes 700 + +V--Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justiceiro) por _Fernão +Lopes_, 1 volume 400 + +VI--Chronica d'El-Rei D. Fernando, por _Fernão Lopes_, 3 volumes 1$200 + +VII--Chronica d'El-Rei D. João I, por _Fernão Lopes_, 7 volumes 2$800 + +VIII--Chronica d'El-Rei D. João I, _por Gomes Eannes d'Azurara_, vol. I, +II e III (VIII, IX e X). 1$200 + +IX--Dois Capitães da India, por _Luciano Cordeiro_, 1 volume 400 + +X--Arte da Caça de Altenaria, por _Diogo Fernandes Ferreira_, 2 volumes + 800 + +XI--Apologos Dialogaes, por _D. Francisco Manuel de Mello_, 3 volumes + 1$200 + +XII--Chronica d'El-Rei D. Duarte, por _Ruy de Pina_, 1 volume 400 + +XIII--Chronica d'El-Rei D. Affonse V, por _Ruy de Pina_, 3 volumes 1$200 + +XIV--Chronica d'El-Rei D. João II, por _Garcia de Resende_, 3 volumes + 1$500 + +XV--Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por _Diogo do Couto_, 1 volume 500 + +XVI--Chronica d'El-Rei D. Sebastião, por _Fr. Bernardo da Cruz_, 2 +volumes. 1$000 + +XVII--Jornada de Africa, por _Jeronymo de Mendoça_, 2 volumes 800 + +XVIII--Historia Tragico-Maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, vol. I +a X 3$800 + +XIX--Jornada de Antonio d'Albuquerque Coelho, por _João Tavares de Vellez +Guerreiro_, 1 volume 600 + +XX--Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, por _Duarte Galvão_, 1 +volume 600 + +XXI--Chronica D'el-Rei D. Sancho I, por _Ruy de Pina_, 1 volume 400 + +XXII--Chronica d'El-Rei D. Affonso II e de El-Rei D. Sancho II, por Ruy +de Pina, 1 volume 400 + + +EM PUBLICAÇÃO + +Historia Tragico-Maritima, _por Bernardo Gomes de Brito_, vol. XI. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 15| _Theogia_ | _Theologia_ | + |#pág. 16| cencura | censura | + |#pág. 16| ontros | outros | + |#pág. 23| Apostoilcam | Apostolicam | + |#pág. 23| parttcularmente | particularmente | + |#pág. 32| sm que | em que | + |#pág. 50| Convernador | Governador | + |#pág. 50| Coudessa | Condessa | + |#pág. 51| Saucho | Sancho | + |#pág. 51| Affonos | Affonso | + |#pág. 51| doPapa | do Papa | + |#pág. 52| palaras | palavras | + |#pág. 52| Saneho | Sancho | + +----------+---------------------+----------------------+ + + + + + +End of Project Gutenberg's Chronica de El-Rei D. Sancho II, by Rui de Pina + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. SANCHO II *** + +***** This file should be named 27311-8.txt or 27311-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/7/3/1/27311/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/27311-8.zip b/27311-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..9648e32 --- /dev/null +++ b/27311-8.zip diff --git a/27311-h.zip b/27311-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..058ad60 --- /dev/null +++ b/27311-h.zip diff --git a/27311-h/27311-h.htm b/27311-h/27311-h.htm new file mode 100644 index 0000000..8bbbd2c --- /dev/null +++ b/27311-h/27311-h.htm @@ -0,0 +1,3559 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Chronica de El-Rei D. Sancho II</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Ruy de Pina" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%; text-align: center;} +.tinyl {font-size: 95%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic;} +.intro1 {margin-left:20%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:20%; font-size: 95%;} +.quote1 {margin-left:10%; font-style: italic;} +.quote2 {margin-left:50%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 80%; +margin-left:10%;} +.note {font-size: 75%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:10%;} +.poetry2 {margin-left:30%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +<link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> +</head> + + + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Chronica de El-Rei D. Sancho II, by Rui de Pina + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Chronica de El-Rei D. Sancho II + +Author: Rui de Pina + +Release Date: November 22, 2008 [EBook #27311] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. SANCHO II *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Nov. 2008) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +BIBLIOTHECA<br /> + +<br /> + +DE<br /> + +<br /> + +Classicos Portuguezes<br /> + +<br /> + +Proprietario e fundador<br /> + +<br /> + +<em>MELLO D'AZEVEDO</em></h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h4><span class="smallcaps">Bibliotheca de Classicos +Portuguezes</span><br /> + +Proprietario e fundador―<span class="smallcaps">Mello +d'Azevedo</span><br /> + +</h4> + +<h4>(VOLUME LIII) <br /> + +</h4> + +<h2>CHRONICA<br /> + +<br /> + +DE<br /> + +<br /> + +EL-REI D. SANCHO II </h2> + +<h4> +POR </h4> + +<h3> +RUY DE PINA </h3> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 94px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4><em>ESCRIPTORIO</em><br /> + +147―<span class="smallcaps">Rua +dos Retrozeiros―</span>147<br /> + +LISBOA<br /> + +<br /> + +1906 +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">CHRONICA <br /> + +<br /> + +DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE <br /> + +<br /> + +D. SANCHO II. <br /> + +<br /> + +QUARTO REY DE PORTUGAL, <br /> + +<br /> + +COMPOSTA <br /> + +<br /> + +POR RUY DE PINA, <br /> + +<br /> + +Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno. <br /> + +<br /> + +FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL, <br /> + +<br /> + +Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. <br /> + +<br /> + +OFFERECIDA <br /> + +<br /> + +Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY <br /> + +<br /> + +D. JOAÕ O V. <br /> + +<br /> + +NOSSO SENHOR <br /> + +<br /> + +<img style="width: 150px; height: 74px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +<br /> + +<br /> + +LISBOA OCCIDENTAL. <br /> + +<br /> + +Na Officina FERREYRIANA. <br /> + +<br /> + +M.DCC.XXVIII. <br /> + +<br /> + +<em>Com todas as licenças +necessarias.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><b>SENHOR</b></div> + +<br /> + +<br /> + +As desgraças do infelicissimo Rei D. Sancho II deste nome +só se podem dalgum modo fazer menos sensiveis vendo-se +amparada esta sua brevissima Chronica com o Augusto nome de V. +Magestade se entre tantos infortunios quantos foram os que tem padecido +a posteridade da sua fama, póde haver algum genero de +diminuição, foi a +brevidade, com que todos os Historiadores trataram as +acções +da sua vida, porque até parece que enfastia a memoria das +infelicidades. Mas como é tanto o esplendor das inimitaveis +acções de V. Magestade, +bastará a sua protecção Real para que +retrocedendo tres +seculos encha de gloria aquelle Reinado. A Real Pessoa de V. Magestade +guarde Deos muitos annos como todos os seus vassallos dezejamos. <br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Miguel Lopes Ferreira.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>AO EXCELLENTISSIMO SENHOR </h4> + +<h3> +D. Francisco Xavier de Menezes </h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">Quarto conde da Ericeira, do Concelho +de Sua +Magestade, Sargento mór de Batalha dos seus Exercitos, +Deputado da Junta dos Tres Estados, Perpetuo Senhor da Villa da +Ericeira, e Senhor da de Ancião, oitavo Senhor da Caza do +Louriçal, +Commendador das Commendas de Santa Christina de Sarzedello, de S. +Cipriano de Angueyra, S. Martinho de Frazão, S. Payo de +Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de +Covilhã todas na Ordem de Christo, Academico da Academia +Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores della &c.</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">A benignidade</span> com que +V. Excellencia desculpou a minha +confiança quando procurei o seu amparo para offerecer a Sua +Magestade a Chronica del-Rei Dom Affonso III me anima agora a buscar +segunda vez a V. Excellencia, para que me faça a +mercê de pôr aos pés +del-Rei N. Senhor esta +<span class="pagenum">[9]</span> +Chronica de D. Sancho II +de Portugal. Na pessoa de V. Excellencia concorrem todas as +circunstancias, que são necessarias para este beneficio, +porque V. +Excellencia é dotado de uma condição +tão propensa para os estudiosos, que a immensa copia de +livros, que com singular eleição tem juntos, mais +são +dos que delles se querem servir, que de V. Excellencia mesmo. +É verdade que esta generosidade tem o seu principio na +estopenda memoria de que V. Excellencia é dotado, pois basta +ler um livro, para lhe escuzar outra vez a lição, +mas tambem nace da particular +satisfação que V. Excellencia tem de que todos +sejam imitadores dos seus estudos. A ninguem melhor do que a V. +Excellencia se devia dedicar esta Chronica, porque só V. +Excellencia tem meios na sua grande capacidade para defender algumas +materias, que nella se tratam, porque é certo que nem tudo +foi concedido a todos, mas na pessoa de V. Excellencia se acha tudo o +que dividido fez grandes a outros. Deos guarde a V. Excellencia muitos +annos. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Criado de Vossa +Excellencia <br /> + +</div> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Miguel Lopes Ferreira</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>PROLOGO</h2> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Aqui</span> tens Amigo +Leitor a brevissima Chronica do desgraçado +Rei de Portugal D. Sancho II deste nome. Foi este Principe na vida, e +na morte o exemplo de toda a infelicidade humana, para que depois pelos +inscrutaveis juizos de Deos tivesse o premio de tantos infurtunios na +eternidade da +Bemaventurança. Na vida foi como dizem, tão +sogeito aos validos, que não teve +acção, que se +podesse chamar sua, e na morte, foi tão infeliz, que a +não teve +na Patria. Tudo o que escreveram os Authores, foi duvidoso, porque uns +o fazem cazado, e outros lhe negam o cazamento; uns o fazem pusilanime, +e outros valeroso. Seguiram as penas dos Chronistas a inconstancia da +sua fortuna, tudo deixáram em questões, porque +o seu descuido lhes não deixou averiguar a certeza do que +escreviam. O Doutor Fr. Antonio Brandão na Quarta parte da +Monarchia Lusitana desaggrava em muitas acções a +este Principe das injurias dos +<span class="pagenum">[11]</span> +seus Chronistas, mostrando que fora +valeroso, e que conquistara muitas Praças aos Mouros, como o +dizem as doações que fez dellas ás +Ordens +Militares. Sem duvida que a administração do +governo, que deram os povos a seu irmão D. Affonso Conde de +Bolonha em França, foi a cauza do muito que tem padecido a +Real opinião deste Principe, porque não ha quem +senão atreva a um desgraçado, ainda que lhe anime +as veas um sangue soberano. As parcialidades que naquelle tempo havia +de introduzir necessariamente na Corte a politica, deviam de ser o +fundamento desta variedade, porque uns para justificarem a +acção, o deviam de condenar, e outros que seriam +os menos, o haviam de desculpar. Venceo com o tempo a felicidade de seu +irmão D. Affonso, e arrastada da lizonja gemeo a memoria de +D. Sancho. O que escreveram os antigos, é o que agora te dou +a ler nesta brevissima Chronica. Se quizeres ver resgatada de tanto +descuido a fama deste piissimo Rei, vê o Mestre +Brandão, que em tudo +mostrou a sua diligencia. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Vale.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>LICENÇAS<br /> + +</h2> + +<h3>DO<br /> + +SANTO OFFICIO </h3> + +<br /> + +<div class="quote1">Approvação do +Reverendissimo +Padre Mestre D. Antonio Caetano de Souza, Clerigo Regular da Divina +Providencia, Qualificador do Santo Officio, e Academico da Academia +Real da Historia Portugueza</div> + +<h4>EMINENTÍSSIMO SENHOR </h4> + +<br /> + +Vi a Chronica de El-Rei D. Sancho o II, a quem os nossos Authores +antigos chamam o Capelo, que tambem anda em nome do Chronista Ruy de +Pina, como já disse na censura que fiz na de El-Rei D. +Affonso II, seu pai, e não contem couza alguma para que V. +Eminencia não conceda a licença que se pede para +a imprimirem, este é o meu parecer. Lisboa Occidental 8 de +Março de 1726.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>D. Antonio Caetano de +Souza C. R.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">Approvação do +Reverendissimo +Padre Mestre Fr. Vicente das Chagas, Religioso da Provincia de Santo +Antonio dos Capuchos, Lente jubilado na sagrada Theologia, Qualificador +do Santo Officio, &c.</div> + +<h4>EMINENTISSIMO SENHOR</h4> + +<br /> + +A Chronica d'El-Rei Dom Sancho o II a quem os Authores antigos chamam o +Capelo, pelos vestidos honestos, de que sempre uzou, mais de +feição de Religioso, que de Rei, não +tem cousa que se oponha aos dogmas da nossa Santa Fé, ou +bons costumes. Este Rei não teve exercicio de reinar todo o +tempo de sua vida, porque pelos seus erros foi posto por Regedor no +Reino seu irmão o Infante D. Affonso Conde de Bolonha, e +errou o dito Rei D. Sancho se cuidou que havia de reger sempre: +«Errat, si quis existimat tutum diu esse Regem». +Diz Seneca «In sui +Proverbiis in fine positis lit. E.» Mas se lhe tiraram o +Reino, ou a regencia delle pelos seus erros, e culpas, não +lhe podiam tirar o Reinar em o Ceo, morrendo (como dizem morreo) com +sinaes de bom Christão, e Catholico Rei, e cheio de +virtudes. Pelo que merece a licença que pede o Chronista +para se imprimir. V. Eminencia fará o que for servido. Santo +Antonio dos Capuchos de Lisboa Occidental 21 de Março de +1726.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Fr. Vicente das Chagas.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +<span class="smallcaps">Vistas</span> as +informações, pode-se imprimir a +Chronica del-Rei D. Sancho II, e depois de impressa tornará +para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual +não correrá. Lisboa Occidental, +22 de Março de 1726. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Rocha, Fr. Lancastre. +Teixeira. Silva. +Cabedo.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="p15"></a>DO ORDINARIO </h3> + +<br /> + +<div class="quote1">Approvação do +Reverendissimo +Padre Mestre Fr. João Baptista Troyano, Religioso da Ordem +de N. Senhora do Monte do Carmo, Mestre na Sagrada <a href="#e1">Theologia</a>, +Consultor do Santo Officio, Definidor perpetuo, e +Provincial absoluto, Secretario que foi da Provincia, e Prior do +convento do Carmo de Lisboa Occidental, &c.</div> + +<h4> +ILLUSTRISSIMO E REVERENDISSIMO SENHOR </h4> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Por</span> mandado de V. +Illustrissima Reverendissima li a Chronica del-Rei D. +Sancho II no Nome, e quarto dos Reis de Portugal, vulgarmente chamado +Capelo, na fórma que a deixou escrita Ruy de Pina Chronista +mór do Reino, e como nella se +não encontre couza que se opponha aos dogmas da nossa Santa +Fé Catholica, ou bons costumes, julgo se lhe póde +conceder a licença que se pede, salvo, +&c. Carmo de Lisboa Occidental 4 de Outubro de 1726. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Fr. João +Baptista Troyano, Prior do +Carmo.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Pode-se</span> imprimir +vistas as +informações, a Chronica del-Rei D. Sancho II, e +depois de impressa tornará para se conferir, e dar +licença sem a qual não correrá. Lisboa +Occidental 1 de Junho de +1728. <br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Gouvea.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="p16"></a>DO PAÇO. </h3> + +<br /> + +<div class="quote1">Approvação do +Excellentissimo +Senhor D. Francisco Xavier de Menezes, Conde da Ericeira, do Conselho +de S. Magestade, Academico da Academia Real da Historia Portugueza, e +um dos cinco Censores della, &c.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><b>SENHOR</b></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Na</span> <a href="#e2">censura</a> +que fiz +por ordem de V. Magestade +á Chronica del-Rei D. Sebastião, ponderei +largamente o juizo que fazia da utilidade que resultava á +Historia de Portugal, de que se publicassem as memorias mais antigas, +que se conservavam manuscritas na Torre do Tombo, e em muitas +livrarias, ainda que tivessem alguns defeitos, que nasceram da sincera +credulidade dos seus Authores, <a href="#e3">outros</a> +da corrupção das copias, e muitos +que os modernos suppõem, +<span class="pagenum">[17]</span> +que foram erros, e que póde ser sejam +verdades, e que prevaleça a antiguidade de alguns seculos, +que faz os Authores melhor instruidos de tradição +sucessiva, e então mais vezinha ao tempo dos sucessos; +á critica que fundada em documentos, e conjecturas, nem +sempre descobre as dezejadas demonstrações. A +Chronica del-Rei D. Sancho II sendo muito breve, merece maior exame, +que as outras, porque era precizo ao seu escritor defender o que fez +todo o Reino para autorizar a deposição daquelle +Principe mais +infelice, que culpado, e quanto mais razões buscou este +escritor para culpar o seu Rei, tanto mais seguio a primeira errada +maxima, continuada por muitos Historiadores, que se convencem a si +mesmos com a força da razão, celebrando a +fidelidade dos dous valerosos defensores +de Coimbra, e Cerolico. Tambem se buscaram outros principios, que as +Monarchias independentes, como é a de Portugal +não admitem, nem acho +inconveniente em que se imprimam as Historias do que o mundo fazia, e +hoje não observa, porque assim conhecemos o genio dos +seculos passados, e a parcialidade dos nossos Chronistas; sendo poucos +em todas as +nações, os que se livraram deste perigo, e +não sendo o mesmo permetir V. Magestade a licença +que se pede para sahirem a luz os livros antigos, que aprovar tudo o +que elles dizem, e copiáram os outros, que o seguiram, e +assim entendo que com esta censura que deve imprimir-se nas mais +Edições desta Chronica, +se dê a faculdade que pertende o seu curioso Collector, +desta, e de todas as Historias antigas de Portugal. Lisboa Occidental 7 +de Junho de 1728. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Conde da Ericeira.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[18]</span> +<span class="smallcaps">Que</span> se possa +imprimir, visto as licenças do Santo Officio, e +Ordinario, e depois de impresso tornará á Meza, +para se conferir, e taxar, e sem isso não +correrá, com +declaração, que no mesmo livro se imprima esta +censura do Conde da Ericeira. Lisboa Occidental 8 de Junho de 1728.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Marquez P. Pereira. +Oliveira. Teixeira. +Bonicho.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><em>Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. +Sancho II, +quarto Rei de Portugal a que vulgarmente chamavam o Capelo</em> </h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c1"></a>CAPITULO I </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como o Ifante D. Sancho Capelo, foi +alevantado por Rei, e +das condições fracas que teve, e como +cazou, e não como a sua honra e estado Real compria, e se +devia</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">El-Rei</span> Dom Affonso +deste nome o +segundo, e dos Reis de Portugal o +terceiro, faleceo na era de mil duzentos e vinte e tres, (1223) como em +sua Coronica é declarado, e por seu falecimento foi logo +alevantado, e obedecido por Rei o Ifante Dom Sancho, seu filho maior +legitimo, e herdeiro, a que disseram Capelo, deste nome o segundo, e +dos Reis de Portugal o quarto, em idade de dezaseis annos, e a cauza +porque este sobrenome de Capelo lhe fosse posto, as +lembranças antigas Despanha, e de Portugal, que delle falam, +e assi o nomeam, não o declaram, sómente que lhe +devia ser posto por sua maneira +<span class="pagenum"><a name="p20">[20]</a></span> +de vestidos honestos, que sempre trouxe, mais de +feição de Religioso, que de Rei, nem Cavaleiro, +porque foi Principe, que do começo de sua vida +até que acabou em servir mais a Deos, que haver respeito +ás couzas, e pompas do mundo, em cujo +coração +não houve a verdadeira fortaleza que pera Rei era mui +necessaria, mas houve nelle sua pura simpreza com que dezejou que seus +Reinos, e Vassalos fossem regidos por lei de natureza, e por regras, e +concelhos de boa condição, sem outra prema, nem +contradição de Lei, nem de algum direito +positivo, e por esso na +execução nas cousas da justiça era +muito brando, e as não provia nem ponia, com aquelle rigor, +e escarmento, que as culpas, e crimes de homens requeriam, e por esta +sua natural, e fraca incrinação, e +juntamente com os máos, e desassolutos Conselheiros, que de +moço +logo o recolheram, e porque não devidamente se regia o Reino +de Portugal, e todolos naturaes delle em todalas couzas, assi +espirituaes, como temporaes, durando o seu Reinado padeceram muitas +perdas, e danos incomportaveis, que depois com quebra de seu nome, e +pera provizão de seu Estado se remediaram, como ao diante se +dirá. <br /> + +<br /> + +E ao tempo que este Rei Dom Sancho começou de Reinar em +Portugal, governava os Reinos de Castella, e de Lião sua +tia, a Rainha Dona Biringela, molher que foi del-Rei Dom Affonso de +Lião, com El-Rei Dom Fernando seu filho, a qual era tia +deste Rei Dom Sancho, irmã da Rainha Dona Orraca sua madre, +e porque a Rainha Dona Biringela, a que este Rei Dom Sancho ficou +encomendado, era Princeza de mui singulares virtudes e Reaes +perfeições, e +muita prudenia, doendo-se da +governança de Portugal, e de uma evidente sua +perdição, a que decrinava, ella +muitas vezes enviou a conselhar a seu sobrinho assi bem, +<span class="pagenum"><a name="p21">[21]</a></span> +e verdadeiramente como a elle, e ao Reino compria, e +principalmente pera fundamento de sua maior liança de o +querer cazar, como seu Estado, e dinidade Real requeria. Ao que El Rei +D. Sancho por máos concelhos dalguns seus não +fieis, e danados conselheiros nunca obedeceo, antes por induzimento +delles sem dispensação, e muito contra sua honra, +e com +grande escandalo, e nojo dos do Reino, cazou com Dona Mecia Lopes, Dona +fermosa, e viuva, filha de Dom Lopo, senhor de Biscaya, que era parenta +sua dentro no quarto gráu, a qual fôra +já cazada +com Dom Alvaro Pires de Castro, filho de Dom Pedro Fernandes de Castro, +o Castellão, e posto que El-Rei Dom Sancho pelos Prelados, e +povos, Senhores, e pessoas de titulo de seu Reino muitas vezes fosse +requerido, amoestado, e aconselhado, que se apartasse desta molher, e +recebesse outra qual, á sua honra, e conciencia convinha, +elle, ou por afeição não +quiz, ou por feitiços, de que diziam que era ligado, o +não pôde nunca fazer, nem consentir, porque +naquelle tempo segundo as couzas passavam, mui clara, e geralmente se +dizia, que El-Rei andava em poder della enfeitiçado, e cego +do juizo sem se poder apartar, e que ajudavam muito o mao conselho +daquelles, que sostinham a parte da Rainha Dona Mecia, por cujo favor +em que a este tempo havia o poder, e authoridade com grande +desolução elles tomavam, e destroiam do Regno +todolo que queriam, e assi o faziam, outros muitos grandes, e pequenos +por seu exemplo, os quaes males El-Rei por fraqueza de +coração não castigava, +nem tornava a elles com aquella severidade, e rigor, que se devia, e +assi teve El-Rei D. Sancho esta molher algum tempo sem della haver +alguma geração, +não cessando no Regno estes insultos, e +desoluções, antes +crecendo cada vez mais.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p22">[22]</a></span> +<h2><a name="c2"></a>CAPITULO II </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Do que o Papa a requerimento dos +Prelados, e povo de +Portugal escreveo, e requereo a El-Rei Dom Sancho por sua Bulla</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Pelo</span> qual os +Prelados, e povo de Portugal concirando a fealdade destas couzas, que +era em grande +ofença de Deos e cançasso e +destroição da terra, e vendo que a continua, +e perseverada +aprezentação de suas querelas ante El-Rei +não aproveitavam, todos em uma concordia se enviaram +querelar ao Papa Honorio III na Igreja de Deos a esse tempo Presidente, +que como bom, e Sancto Pastor, por aconselhar a El-Rei, e por +verdadeiramente ao Regno, sabendo todas as cousas sobreditas, que com +verdadeira relação lhe foram senificadas, enviou +a El-Rei +seu Breve, em que lhe vieram suas sanctas, e devidas +amoestações, e nelle límitado tempo, +em que inteiramente emendasse os erros de sua pessoa, e satisfizesse +aos danos feitos por sua negligencia, em todo o Regno, e passado o +tempo, que pera a emenda destas cousas lhe era assinado, sendo o Papa +certificado, que em nada se satisfazia, enviou a elle de Roma por +Delegado o Bispo Sabenense, o qual pela dureza, e pouca obediencia que +nelle, e nos seus Conselheiros achou, poz condicionalmente em suas +pessoas sentença de +Excommunhão, e de antredito, e em todo o Regno sem outro +devido, e peremptorio termo, que lhe assinou, se se não +emendasse, e satisfizesse. Das quaes +sentenças ficou por mero executor, por mandado especial do +Papa, o Arcebispo de Braga, que por se não satisfazer aos +males, tomadias e roubos, que eram feitos especialmente +<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span> +ás Igrejas, nem se leixavam de +fazer tantos, o tornou a notificar ao Padre Santo, que por uzar de mais +clemencia, e piedade com El-Rei Dom Sancho, e lhe afastar todalas +couzas de sua essencia, lhe escreveo outra carta na entrada da qual lhe +tirou aquella solennidade de amor, e benção +Apostolica, que em outras escrevia aos outros Reis sempre costumada de +escrever, ca lhe não poz Carissimo em Christo filho, nem +disse nella: «Salutem & <a href="#e4">Apostolicam</a> +benedictionem». <br /> + +<br /> + +Com a Bulla, que a El-Rei Dom Sancho em sua pessoa, e em muitas partes +de seu Regno, foi pubricada, elle foi muito anojado, e vendo se +apertado de muitas necessidades, que +nesta necessidade concorriam, aconselhado dos seus que o seguiam, disse +que em todo queria, e prometia de obedecer ao Papa, e satisfazer +inteiramente aos mandamentos da Sé Apostolica, e que elle +logo emendaria, e faria aos seus emendar todolos danos, e perdas que +eram feitos, e não consentiria, que dahi em diante em seu +Regno por elle, nem pelos seus, lhe fizessem outros alguns, assi por +suas cartas patentes, o segurou, e prometeo +<a href="#e5">particularmente</a> ao Papa, pelo qual +a esta +cautella, e com +condição de todo comprir a certo tempo, foram +todos absoltos da excommunhão, e levantado o antredito do +Regno. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +<h2><a name="c3"></a>CAPITULO III </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como El-Rei Dom Sancho por +amoestações do Papa se não quiz +apartar de Dona Mecia Lopes sua molher, e como lhe foi tomada</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Mas</span> como El-Rei Dom +Sancho da excommunhão, e antredito se +vio livre, e afrouxado, e os Delegados do Papa partidos do Regno, elle +e os seus por mao conselho, e induzimento de maos homens, que comsigo +trazia, não leixaram de proseguir, e uzar de todolos erros, +e males, que dantes faziam, e esto durou por muitos annos, ca foi no +tempo do dito Papa Honorio, e depois em vida do Papa Gregorio IX que a +requerimento, e sopricação dos Prelados, e povo +de Portugal, lhe enviava continuas amoestações, e +sanctos conselhos, a que nunca +quiz inteiramente obedecer, quazi de sua boa, e fraca +condição, era faze-lo logo, a Rainha Dona Mecia +sua molher, e aquelles que seguiam sua vontade o disviavam de seu bom +proposito, especialmente em a não querer nem poder leixar +por molher, sobre que muitas vezes, foi pelo Papa aconselhado, e +amoestado, e excommungado, por quanto ella era filha do Conde Dom Lopo +de Biscaya, como já disse, e era muito conjunto ao Real +sangue dos Reis Despanha, de que El-Rei Dom Sancho descendia, e +porém nunca por direito, nem por sua vontade a quiz de si +apartar, ca por qualquer maneira que fosse, elle lhe era muito +afeiçoado, e porém +acha-se, que neste tempo, tendo-a El-Rei comsigo em Coimbra, um +Reymão Viegas de Porto Carreiro, com gentes de Dom Martim +Gil de Soveroza, naturaes de Portugal, e Vassallos del-Rei Dom Sancho, +da frontaria +<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span> +de Galiza, donde eram, com multas +gentes, que comsigo trouxeram, tomaram a dita Dona Mecia, e a +leváram ao Castello Dourem, que ella tinha del-Rei por Arras +de seu cazamento, sobre o qual El-Rei logo foi armado, e com a gente +que pode requerendo lhes, +que lhe entregassem sua molher, e elles o não quizeram +fazer, antes resistiram a El Rei com armas, e forças, com +que se tornou, e elles a levaram a Galiza, mas o que della se depois +fez, ou com que fundamento, e cauza certa foi assi tomada, e levada, eu +o não achei, nem soube, e porém até o +tempo que o Papa +Innocencio IV foi Prezidente na Igreja de Roma, nunca por El-Rei Dom +Sancho nos males, e danos passados, se fez alguma emenda, nem deu +satisfação, nem menos havia rigor de +justiça, por cujo temor elles se leixassem de fazer. +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c4"></a>CAPITULO IV </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Do Concilio que o Papa Innocencio IV +fez em +Lião de França, onde os Prelados, e os Senhores +de Portugal, se foram querelar del Rei Dom Sancho, e lhe pediram novo +Regedor para o Regno, que por mingoa da justiça se perdia, e +lhe outorgou o Ifante Dom Affonso, Conde de Bolonha, irmão +do dito Rei Dom Sancho</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Sobre</span> o qual sendo +El-Rei por muitos, e muitas vezes aconselhado do +requerido, e pedido, que se emendasse, e castigasse os malfeitores, +elle não o querendo, ou não podendo fazer, os +Prelados, e povo se enviaram outra vez aggravar ao Papa Innocencio IV e +pedir-lhe remedio, o qual por algumas +<span class="pagenum"><a name="p26">[26]</a></span> +vezes escreveo a El-Rei cartas de mui sanctos concelhos, e devidas +amoestações, e assi outras +ao Bispo de Coimbra, que em seu nome, e da sua parte o aconselhasse +para se privar dos erros, e males, que consentia, e o +esforçasse para castigo, e emenda daquelles, que os +cometiam, encomendando ao dito Bispo, que de todo o que em El-Rei sobre +esso achasse, e deste cazo lhe parecesse, lho fizesse saber por suas +cartas, as quaes enviaria ao Concilio, que se havia então de +fazer, como fez em Lião Solanova em França, para +que foram convocados os Reis, e Principes Christãos, e assi +muitos Prelados, no qual Concilio se acordaram muitas, e mui sanctas +couzas por bem da universal Igreja, ante as quaes El Rei S. Luis, por +mortal doença de um fernezim, de que escapou, tornando a seu +entendimento, fez nelle voto de ir, como foi em pessoa, por se recobrar +á Caza Santa, e á conquista de ultra mar, e levou +em pessoa comsigo a Rainha Dona Margarida sua molher, filha do Conde de +Proença, e desta ida tomou por cerco a Cidade Damiata no +Egipto, que era de imigos, mas logo pelo grande poder do +Soldão, El-Rei, e dous seus irmãos, que com elle +passaram, a saber, Dom Affonso, e Dom Carlos em uma batalha foram +tambem cativos, e resgatados pela mesma Cidade de Damiata, e das muitas +gentes de seu exercito, muitos foram mortos, e os outros prezos, e +cativos. <br /> + +<br /> + +E retornando El Rei S. Luis a França com +esperança de vingar o mal passado, logo com outro grande +exercito, que refez, tornou a ir sobre a Cidade de Tunes, com propozito +de fazer o Rei della Christão, como lhe enviara prometer, e +de conquistar por hi a terra dos Infieis, ao longo do mar +até Alexandria pera dahi poder cobrar a Terra Sancta com +menos trabalhos das pessoas, e deficuldades, e estando neste cerco, +<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span> +e tendo comsigo tres filhos, a saber +Felippe Johane, e Pedro, elle faleceo de fruxo, e o dito seu filho Dom +Joham de peste, e por estes merecimentos, e por outras muitas virtudes +este Rei Luis foi pelo Papa Bonifacio Canonizado, e era primo com +irmão deste Rei Dom Sancho, filhos de duas irmãs. +<br /> + +<br /> + +E volvendo ao proposito de sua Istoria, El Rei Dom Sancho com todolos +conselhos, e amoestações de +amor, e de rigor pelos Papas, e pelos de seu Regno muitas vezes lhe +foram feitos, nunca por sua natural fraqueza se quiz, ou nem se pode +emendar, nem dar ordem como se os malfeitores emendassem, e +castigassem, e privassem dos malificios que cometiam, pelo qual os +Prelados, e mais principaes do Regno com todo o povo, por remediarem +sua total perdição em que se viam, +acordaram de enviar pedir no dito Consilio ao sobredito Papa Innocencio +IV que lhes desse auto, e pertencente Regedor pera o Regno, pera o qual +foram eleitos pera Embaixadores, e Procuradores Dom Joham Arcebispo de +Braga, que em todo o Reinado del­­-Rei Dom Sancho tinha +muitas perseguições, e perdas +padecidas, e Dom Tiburço Bispo de Coimbra, e Ruy Comes de +Briteiros, e Gomes Viegas, nobres Cavalleiros, e pessoas de muita +authoridade no Regno, os quaes chegando ao Consilio, propozeram ante o +Papa todalas querelas do Regno passadas, e a +desesperação que +havia pera se nunca emendarem antes ao despois se fazerem peor, pera +cuja prova prezentaram aprovadas cartas, e verdadeiras +inquirições, que pera esso +levávam, e o Papa, que claramente gostou da verdade depois +de sobre esso haver sua deliberação lhes +respondeo que elles escolhessem, e tomassem por Regedor do Regno de +Portugal, quem quizessem, e entendessem, que o faria bem, com tanto que +fosse natural do Regno. <br /> + +<br /> + +E porque os ditos Prelados, e Cavalleiros, tinham +<span class="pagenum"><a name="p28">[28]</a></span> +já sobre este cazo assás deliberado, +e consultado +depois de lhe beijarem por esso seus santos pés, lhes +disseram, que a pessoa natural que pera tal cargo achavam era o Ifante +Dom Affonso, Conde de Bolonha, irmão do mesmo Rei D Sancho, +e que este lhe pediam por mercê ques désse +por Regedor, ca o Papa aprouve, e lho outorgou. Sobre o qual mandou +logo chamar o dito Ifante Conde, que era em Bolonha de +França, não +longe do Papa, que era na dita Cidade de Lião, ao qual Sua +Santidade fez larga relação das couzas de +Portugal, que até aquelle tempo eram passadas, e com esso as +necessidades que hi havia pera com paz, e justiça se +remediarem, e lhe encomendou, e mandou que asseitasse o Regimento, +defenção, e +governação do dito Rego, e fizesse como se delle +confiava, e o Conde sem contradição, nem escuza +consentio no dito +cargo, e o asseitou, e esto foi em Lião a seis dias de +Setembro de mil duzentos quorenta, e cinco +annos (1245). +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c5"></a>CAPITULO V </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como o Conde de Bolonha, depois de +asseitar a +governança de Portugal fez sobre esso juramento com algumas +condições declaradas</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Tanto</span> que o Conde +pelo Papa foi dado por Regedor de Portugal, elle, e +os ditos Prelados, e Cavalleiros do Regno, por acordo que sobre esso +antes se tomou se vieram todos á Cidade de Pariz, onde +dentro nas cazas do Mestre Perochel da Cidade, sendo elle prezente, e +Mestre Joham, Capelão do Papa Adaião da Igreja da +Carnota, e Soeiro Soares Chançarel, e Estevão +Annes Cavalleiro do Conde, e +<span class="pagenum">[29]</span> +assi sendo prezentes os ditos Arcebispos, e +Bispo, e Cavalleiros, e outras muitas pessoas Religiozas do Regno de +Portugal, o dito Conde em prezença de todos, e tendo as +mãos sobre um livro dos Santos Evangelhos, fez solenne +juramento nesta fórma. <br /> + +<br /> + +«Eu Dom Affonso, Conde de Bolonha, filho Del-Rei Dom Affonso +de crara memoria, Rei que foi de Portugal, prometo, e juro sobre estes +Santos Evangelhos de Deos, que por qualquer titulo, que eu aja o Regno +de Portugal, eu guarde, e faça guardar aos Concelhos, e todo +o povo, e Religiosos, e Clerezia de todo o Regno todolos bons costumes, +e foros escritos, e não escritos, os quaes houveram, e +tiveram com meu avô, e com meu visavô, e que tire +todos os maos costumes, e abozões, que vieram por algumas +necessidades, ou que pozeram algumas pessoas em tempo do meu padre, e +de meu irmão, +especialmente, que não leixe, nem consinta nenhum mau +costume, que ha no Regno de se com mudar a Justiça que ha de +morte de um homem em pena de dinheiro, e que eu faça, que os +Juizes, onde quer que os houver de poer, sejam justos, e sem +cobiça, e amadores de fazer justiça, e direito +sem medo de nenhumas pessoas, e esto a quanto eu puder, e entender +segundo me Deos ajudar, e que sejam feitos por +eleição +dos mesmos povos, que elles houverem de reger, e não por +afeição, nem rogo, nem pera oprimir, e +despeitar o povo, que hão de julgar em justiça, e +em +direito, e que este juramento me farão os Juizes quando +receberem os officios. <br /> + +<br /> + +«Item, que eu tire Inquirição por mi, +ou por outrem se taes Juizes cumprem o que juraram, e os que +não fizerem o que devem que lhes mande dar tal pena, que a +elles seja escarmento, e a outros castigo. <br /> + +<br /> + +«Item, que aquelles, que forçarem quaesquer +molheres, +<span class="pagenum">[30]</span> +ou matarem Clerigo, ou Frade, +ou qualquer outra pessoa, que eu faça delles taes +justiças, que a +sua pena castigue os outros. <br /> + +<br /> + +«Item, que defenda, e mantenha em seu estado quanto eu puder +as Igrejas, e Moesteiros, e Lugares Religiosos fazendo-lhes entregar +qualquer couza, que lhe foi tomada, e que quaesquer males, e sem +razões, que alguns sejam em posse de fazer des o tempo de +meu irmão até agora que não lhe +valha alegança de tempo perlongado. <br /> + +<br /> + +«Item, que eu faça emendar segundo meu poder, com +conselho dos Prelados, e dos do Regno todolos males, que até +qui foram feitos em elle, e reformarei paz quanto poder não +leixando sem pena taes couzas passar nem as consentindo fazer no dito +Regno. <br /> + +<br /> + +«Item, que segundo me Deos ministrar, e eu puder, que bem, e +lealmente reja, e aministre o dito Regno de Portugal desque em elle +for, e faça especialmente fazer justiça, dando a +cada um segundo seu merecimento não asseitando pessoas +pobres, nem ricas. <br /> + +<br /> + +«Item, que reja todo bom estado da terra, e proveito do dito +Regno com conselho dos Prelados, e povos delle, e ser sempre obediente, +e devoto á Igreja de Roma, minha madre, e assi como fiel, e +Catholico, e como todo Principe Christão deve ser, e que +guardarei estas couzas sobreditas segundo meu poder, e e me Deos +ministrar». <br /> + +<br /> + +E depois que o dito Conde jurou estas cousas, e outras mais a estas +conformes, todolos que eram prezentes assináram o juramento, +e desso passaram escrituras pubricas, que os Prelados trouxeram a +Portugal. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> +<h2><a name="c6"></a>CAPITULO VI</h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Das Bullas e Provizões do +Papa, que o Conde +trouxe a Portugal pera os do Regno sobre sua governança, e +assi outra Bulla que sobre o mesmo caso enviou aos Frades de S. +Francisco</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Como</span> o Conde fez este +juramento, procurou logo de aviar as couzas mais +necessarias pera a sua vinda, e álem de sua fazenda lhe +compria a honra de sua pessoa, e serviço, e repairo de sua +caza, e familia. <br /> + +<br /> + +<em>A tradução destas Bullas andam +muito viciadas nas copias desta Chronica, e se acham em outros livros, +e por esta, e outras cauzas senão imprimem neste Capitulo.</em> +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c7"></a>CAPITULO VII </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">De como o Conde de Bolonha chegou a +Portugal, e com elle +um delegado do Papa, e das notificações que logo +fizeram a El-Rei D. Sancho</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Despedidas</span> as Bulas +do Papa, e aparelhadas as couzas, que ao Conde para +seu caminho mais cumpriam, se despedio da Condessa de Bolonha sua +molher, que havia nome Dona Matildes, a qual fora já outra +vez cazada, e era da linhagem dos Rex de França, e molher, +em que havia singulares +<span class="pagenum"><a name="p32">[32]</a></span> +bondades, e +vertudes, e tinham muitas terras, e grande fazenda, e dahi com os +Prelados, e Cavalleiros Portuguezes, que o foram requerer, se veio a +este Reino, e com elle enviou mais o Papa por seu Delegado pera estas +couzas de Portugal Frei Desiderio, pessoa <a href="#e6">em +que</a> havia doutrina, e +sinaes de bom Religioso, pera que em nome do Papa, e da sua parte +requeresse, que entregassem ao Conde os Castellos do Regno, nos quaes +pozesse Alcaides, e as Villas, e terras, em que fizesse Juizes com que +o Regno se mantivesse em paz, e justiça, e por tal, que nas +Fortalezas principalmente se não acolhessem os mal feitoras, +que nas pessoas, que em todo lhe não obedecessem, pozesse +sentença de excommunhão, e como chegaram ao +Estremo de Portugal, o Conde por suas cartas noteficou logo sua vinda a +todolo Regno, dizendo em seu titulo: «Dom Affonso, filho do +muito nobre Rei Dom Affonso por graça de Deos, Conde de +Bolonha, e Procurador, e defensor do Regno de Portugal». E +assi noteficou a El Rei Dom Sancho seu irmão, como a +requerimento do Regno vinha, e não pera ser Rei, mas pera +lhe reger, e governar o Regno, e se fazer nelle direito, e +justiça, que se não fazia, e lhe +conheceria senhorio, como a seu Rei, e Senhor, salvo a cerca daquelles, +em cujo poder, e mãos andava, e porque tão mal +aconselhado, e por cuja cauza tantos males no Regno eram feitos, e com +esto lhe enviou o Delegado um Breve do Papa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p33">[33]</a></span> +<h2><a name="c8"></a>CAPITULO VIII </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como El Rei Dom Sancho mal aconselhado +se foi com os de +sua valia pedir soccorro a Castella, e como veio em sua ajuda o Ifante +Dom Affonso de Molina com outros grandes, e gentes de Castella</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">El-Rei</span> Dom Sancho a +este tempo era em Coimbra, e como vio as cartas do +Papa, e de seu irmão, e soube que elle era entrado no Regno +onde inteiramente lhe obedeciam, elle de si mesmo foi muito trovado, e +o fizeram ser muito mais os homens maos, e perversos Conselheiros, que +consigo trazia, porque receáram executar-se nelles sem +escuza as penas, que por seus desmerecimentos, e grandes delitos +mereciam, e estes lhe fizeram que não cresse, nem obedecesse +a couza, que o Papa, nem seu irmão lhe escrevesse, nem +outros por seu bem lhe dicessem, porque o bem, nem asecego del-Rei, em +cazo que depois o tivesse não asegurava, nem +descançava aos que o +seguiam, pelo qual de seu parecer delles, e como desesperado doutro bom +conselho, sem receber dano de pessoa alguma, nem lhe ser feita +desobediencia, nem contradição, se foi logo a +Castella com +fundamento de pedir soccorro contra seu irmão, a El-Rei Dom +Fernando, deste nome o segundo, que então nelle Regnava, que +era seu primo com irmão, filhos de duas irmãs +da Rainha Dona Biringela, madre del-Rei Dom Fernando, e Dona Orra Dom +Sancho a este tempo era em Coimbra, e como vio as cartas do +Papa, e de seu irmão, e soube que elle era entrado no Regno +onde inteiramente lhe obedeciam, elle de si mesmo foi muito trovado, e +o fizeram ser muito mais os homens maos, e perversos Conselheiros, que +consigo trazia, porque receáram executar-se nelles sem +escuza as penas, que por seus desmerecimentos, e grandes delitos +mereciam, e estes lhe fizeram que não cresse, nem obedecesse +a couza, que o Papa, nem seu irmão lhe escrevesse, nem +outros por seu bem lhe dicessem, porque o bem, nem asecego del-Rei, em +cazo que depois o tivesse não asegurava, nem +descançava aos que o +seguiam, pelo qual de seu parecer delles, e como desesperado doutro bom +conselho, sem receber dano de pessoa alguma, nem lhe ser feita +desobediencia, nem contradição, se foi logo a +Castella com +fundamento de pedir soccorro contra seu irmão, a El-Rei Dom +Fernando, deste nome o segundo, que então nelle Regnava, que +era seu primo com irmão, filhos de duas irmãs +da Rainha Dona Biringela, madre del-Rei Dom Fernando, e Dona Orraca, +madre del-Rei Dom Sancho, ou ao menos pedir este soccorro e ajuda ao +Ifante Dom Affonso, filho herdeiro do dito Rei Dom Fernando, +<span class="pagenum"><a name="p34">[34]</a></span> +que em Castella e Lião, já +tinha grande +poder, e muita autoridade. <br /> + +<br /> + +E com este proposito chegou a Toledo andando a era em mil e duzentos +quarenta e sete annos (1247) antes um anno que Sevilha fosse aos Mouros +tomada. A este tempo El-Rei Dom Fernando veo a Toledo, tendo tomado +Cordova, e já com dezejo, e fundamento de ir cercar, e tomar +Sevilha, se podesse, ao qual El-Rei Dom Sancho de Portugal seu primo, +dice logo, que a causa de sua ida a elle, era pera lhe fazer saber, o +que elle teria sabido, que seu irmão o Ifante Dom Affonso +Conde de Bolonha, entrára em seu Regno de Portugal, e com +ajuda e favor dalguns seus naturaes, se alçara contra elle, +e que o tinham recebido por Senhor, e que porém lhe pedia, +como a Rei tão +poderoso, e que com elle era tão conjunto em parentesco, que +em tamanha força lhe desse ajuda e favor com que +inteiramente cobrasse seu Regno, e lançasse delle +fóra seu irmão, que individamente lho tinha +tomado, e que pois não tinha filho que o herdasse, que +depois de sua morte ficasse Portugal a elle, ou a seu filho herdeiro. <br /> + +<br /> + +Da qual couza prouve a El-Rei Dom Fernando, e pondo-a em obra ordenou +logo pera vir a Portugal o Ifante Dom Affonso de Molina, seu +irmão, filhos ambos del-Rei Dom Affonso de Lião, +e da Rainha Dona Biringela, e com elle Dom Diogo Lopes de Haro, Senhor +de Biscaya, e Dom Nuno Gonçalves de Lara, e Dom Ruy Gomes de +Galiza, e Dom Ramilo Frole, e Dom Rodrigo Froyas, bom Cavalleiro, e Dom +Fernando Anes de Lima, e outros grandes senhores, e com elles muitas +gentes de pé, e de cavallo, com que +entráram em Portugal pela Comarca de Riba de Coa, que a este +tempo ainda era de Castella, e por elles fazerem sua entrada pela terra +da Beira, que toda estava á +<span class="pagenum">[35]</span> +obediencia del-Rei Dom Sancho, não houveram no caminho +contradição, nem resistencia alguma, e assi +chegaram ao lugar de Abiul, que é a quatro legoas de Leiria. +<br /> + +<br /> + +E o Conde Dom Affonso de Bolonha tanto que entrou no Regno, tanta +alegria receberam os Portuguezes com sua vinda, sabendo quem era, e +como vinha a seu requerimento, que os mais dos Lugares por as proprias +vontades dos moradores delles se lhe davam, e aquelles em que achava +alguma contradição logo +por execuções que o Delegado sobre elles punha, +ou +por combates, ou forças não tardou em os cobrar +todos +salvo Coimbra, em que estava Martim de Freitas, e Celorico da Beira, em +que estava Dom Fernão Rodrigues Pacheco, que ambos as tinham +por El-Rei Dom Sancho de que ao diante direi. <br /> + +<br /> + +<h2><a name="c9"></a>CAPITULO IX </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como pelas deligencias do Conde de +Bolonha El-Rei Dom +Sancho se tornou a Castella, e do que se passou no caminho com os +Cavalleiros de Trancozo</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">E sabendo</span> o Conde de +Bolonha da entrada del-Rei seu irmão no +Regno com o Ifante Dom Affonso de Molina, e com os Cavalleiros, e +gentes +de Castella, logo percebeo, e houve pera ter, e trazer comsigo por +defenção do Regno as mais gentes que pode, e com +ellas se veio a Obidos, e avizou a Dom João Arcebispo de +Braga, e a Dom Domingos, que então era Bispo de Coimbra, os +quaes lhe disseram que elles pela comissão do Papa, haviam o +dito Ifante Dom +<span class="pagenum"><a name="p36">[36]</a></span> +Affonso de Molina com todolos +Senhores, e gentes de Castella por excomungados, e malditos, e desso +tomáram estromentos, e por esta cauza El Rei, e o Ifante +não passáram de Abiul, e se +tornaram pera +Castella sem no Regno, nem nas gentes, e couzas delle fazerem algum +mal, nem dano, e principalmente se tornaram, e não +proseguiram adiante, porque El Rei Dom Sancho pelas dezordens, e males +passados, a que nunca provera, era de todolos mais do Regno mui +dezamado, e mal quisto, e o Conde pelo contrairo álem desso +era já das mais forças delle de todo apoderado, e +por esta cauza o Ifante Dom Affonso com outros Senhores, que vieram em +ajuda del-Rei, vendo o pouco que lhe podiam aproveitar, e o muito dano, +que se podia seguir, aconselharam ao dito Rei Dom Sancho, que ou +ficasse em seu Regno, segundo lhe era apontado, ou se fosse com elles a +Castella. <br /> + +<br /> + +Este derradeiro houve El-Rei por melhor, sendo pior conselho, e +porém El-Rei Dom Sancho tinha feitas +doações ao Ifante Dom Pedro seu primo de muitas +Villas, e Castellos principaes de Portugal, em grande dano da Coroa do +Regno, as quaes por sua injusta concessão não +houveram nunca efeito, como quer que o dito Ifante depois o procurasse, +e requeresse aficadamente por intercessões do Papa, que +sobre esso escreveo algumas vezes ao Conde de Bolonha, que justamente +sempre se escuzou. <br /> + +<br /> + +E acha-se, que em tornando El-Rei pera Castella, achegou ao Lugar de +Moreira, que é junto da Villa de Trancozo, na qual a esse +tempo estava Dom Gonçalo Garcia, e Dom Fernão +Garcia de Souza, que diceram Esgaravunha, que foi bom trovador, e Dom +Fernando Lopes, e Dom Diogo Lopes, todos quatro irmãos, +filhos de Dom Garcia Mendes de Souza, filho do Conde Dom Mendo o +Souzão, e de Dona Elvira +<span class="pagenum"><a name="p37">[37]</a></span> +Gonçalves, filha de Dom Gonçalo Paes de Toronho, +que eram nobres homens, e mui principaes no Regno, e Dom +Fernão Garcia sabendo da vinda de Castella del Rei por +conselho de seus irmãos com um só Escudeiro, a +que deram sua lança, e sendo elle vestido de todalas outras +suas armas se foi a Moreira, onde estava El-Rei, e o Ifante, e os +outros Senhores, e posto ante elles tirou o Elmo da cabeça, +e com os joelhos em terra beijou a mão a El-Rei, e ao Ifante +Dom Affonso, e como se levantou, fez reverencia a Dom Diogo, e a +todolos outros homens honrados, que eram prezentes, salvo a Dom Martim +Gil de Soverosa, que era o principal homem; porque El-Rei Dom Sancho +com quebra de seu Estado se regia. <br /> + +<br /> + +E perguntando Dom Fernão Garcia a El-Rei se o conhecia? Elle +dice que si, e que era seu natural vassallo, e D. Fernão +Garcia lhe tornou dizendo: «Senhor meus irmãos, +que estão em Trancozo, e por cujo mandado venho como vossos +vassallos, e naturaes, vos mandam pedir, e requerer, por ante o Ifante +vosso primo, e estes Senhores que aqui estão, que vos vades +pera aquella Villa, na qual, e em seu Castello vos receberão +como a seu Rei, e Senhor, e assi em todolos outros de redor, que +são a seu cargo, com tanto que não leveis com +vosco Martim Gil, que aqui +está, nem os seus, que destruiram vossa terra, e elle matou, +e leixou os que quiz, sem querer que dos seus e doutros mal feitores se +fizesse alguma justiça, ca +certamente vós não tinheis de Rei mais que o +nome, e a muito alta linhagem, e Real sangue de que decendeis, porque +no efeito elle era Rei, e com este tamanho credito que lhe destes vos +teem mui mal servido, em especial por seu mao conselho, por cuja cauza +vós viestes ao estado em que agora estaes. E se elle dicer +que não é assi eu por minha verdade, e por sua +confuzão +<span class="pagenum"><a name="p38">[38]</a></span> +me combaterei com +elle, e lhe porei as mãos, e o corpo, ca por esso venho aqui +armado, e alli á porta tenho o cavallo, e sobresso espero em +Deos, que eu o matarei, ou por sua boca lhe farei confeçar +que mui mal, e como não devia vos teem aconselhado, e com +grande quebra e mingoa de vosso Estado, e de vossa terra». <br /> + +<br /> + +Este Martim Gil era Cavalleiro, e de honrada caza, e de grande +esforço, porque este foi o que com grande e bom nome seu, +venceo a lide do Porto. E ouvindo estas palavras a Dom +Fernão Garcia, ficou muito injuriado, e abatido +especialmente, porque áquella hora não lhe +respondeo como a sua honra compria porque sómente lhe dice: +«Dom Fernão Garcia +dizeis mal, e do que dicestes vos não deveis de achar bem, +se eu não morro». Polo qual Dom Martim Gil, fez +logo mostrança a alguns dos seus que alli estavam que lhe +fossem ter ao caminho, e o matassem, e Dom Fernão Garcia que +os vio, e entendeo bem a má +tenção com que sahiam, antes doutra couza dice a +El-Rei: «Senhor, vós quereis ir pera Trancozo, +como vos +tenho requerido?» E El-Rei lhe respondeo, que não, +e +então tornou D. Fernão Garcia, e dice ao Ifante +D. Affonso: «Senhor, sereis testemunha vós, e +esses Senhores que aqui estades da oferta, que por meus +irmãos, e por mi vim fazer a El-Rei». <br /> + +<br /> + +E com dito esto volveo o rosto contra Dom Diogo Lopes, e a Dom Nuno de +Lara, e dice-lhes: «Bem vistes Senhores a offerta, que por +limpeza, e lealdade minha, e de meus irmãos fiz com El-Rei, +e assi ouvistes o que tambem dice a Dom Martim Gil, que aqui +está, e não querendo por seu corpo tornar a esso, +como por sua honra devia, mandou aquelles seus, que daqui partiram, que +me vão ter ao caminho pera desacompanhado me matarem, porque +vos peço, como a nobres, e honrados Cavalleiros, que por boa +mezura me mandeis +<span class="pagenum">[39]</span> +poer em salvo em +Trancozo». E logo Dom Affonso se levantou, e dice: +«Martim Gil vós +não atentaste no que Dom Fernão Garcia vos dice? +o que deveres de fazer, ca me parece que vos toca por maneira de +traição, e não lhe quereis poer as +mãos, como deveis, e vos elle requer?» <br /> + +<br /> + +E Dom Martim Gil brevemente dice, que dava pouco por suas palavras +vãs, pelo qual estes Senhores diceram a El-Rei, que Dom +Fernão Garcia, e os nobres homens que eram em Trancozo +não podiam fazer melhor comprimento, porque com elle +compriam, como bons vassallos quanto deviam, e que dahi por diante +qualquer culpa que hi ouvesse, que era del-Rei, e não +delles, e logo Dom Diogo, e Dom Nuno com esses bons homens que hi eram +cavalgaram, e foram-se com Dom Fernão Garcia até +Trancozo, donde sahiram +seus irmãos e outra boa, e nobre gente, que hi eram, e lhe +tiveram em mercê sua vinda, e depois de praticarem sobre as +couzas que pendiam, Dom Diogo, e Dom Nuno se tornaram pera o Ifante Dom +Affonso, que juntos com El-Rei Dom Sancho se foram todos pera Castella, +e com elles este Dom Martim Gil, que era Portuguez, e homem muito +honrado, o que com medo do Conde Dom Affonso não ouzou de +ficar, e se foi tambem a Castella com El-Rei Dom Sancho, e +lá faleceo, e foi del-Rei D. Affonso Decimo, com quem viveo +havido por Rico homem, e em grande estima, e por tál +está posto por testamenteiro, +com outros no testamento del-Rei, quando por desagardecimentos do +Ifante Dom Sancho seu filho, o deserdou de Castella, ainda que seu +deserdamento não houve efeito. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[40]</span> +<h2><a name="c10"></a>CAPITULO X </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como o Conde cercou em Celorico da +Beira a Dom +Fernão Rodrigues Pacheco, que lhe não quiz +obedecer, e como por causa de uma truita se alevantou o cerco</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Conde</span> de Bolonha +governador como entrou no Regno segundo atraz +já dice, logo por força, ou por vontade, ou a sua +obediencia todalas Cidades, Villas, e Castellos do Regno, em que +entraram todalas que El-Rei Dom Sancho tinha dado em Portugal ao Ifante +Dom Affonso de Molina por entrar com elle, e em sua ajuda no Regno, do +que o dito Ifante se mandou queixar ao Papa, e assi com elle outros +Cavalleiros, e Alcaides de Portugal, pelo Conde de Bolonha lhes tomar +contra suas vontades os Castellos que tinham por suas menagens, e +destes o Papa se escuzou +havendo +que o Conde pera asecego, e boa governança do Regno fazia o +que devia, mas sómente escreveo ao Conde rogando-lhe pelos +Castellos, que por El-Rei Dom Sancho eram dados ao Ifante Dom Affonso +de Molina, ao que não satisfez pelos grandes inconvenientes +que nesto havia, e porque soube que eram cartas, e rogos de +comprimento. <br /> + +<br /> + +Neste tempo depois del-Rei D. Sancho ser em Castella, porque o Castello +de Celorico da Beira, que tinha Dom Fernão Rodrigues +Pacheco, e o de Coimbra, que tinha Dom Martim de Freitas, ficaram +sómente por El-Rei, como atrás dice, o Conde +depois de sua partida lhes mandou dizer, e rogar que lhos quizessem +entregar, como os outros tinham já feito em +<span class="pagenum">[41]</span> +todo o Regno, prometendo-lhe por esso além de +fazerem o que deviam mercê, e bom galardão. E cada +um por si lhe respondeo: «Que elles tinham feita menagem a +El-Rei Dom Sancho, seu Rei e Senhor, e que em quanto elle fosse vivo, +posto que andasse em Castella, não deviam de entregar seus +Castellos, se não a elle, de cuja mão os +receberam, ou por seu especial mandado, e do Papa, nem por outro algum +temor, os não haviam de entregar, em cazo, que sobresso +fossem excommungados, e padecessem cercos, e quaesquer outras fadigas, +e tormentos». <br /> + +<br /> + +Pelo qual vendo o Conde sua tão firme +determinação, e que pera o que dezejava +não aproveitavam muito suas repricas brandas, que fez, +detreminou cerca-los, e poz logo cerco em pessoa sobre Celorico, ca +este por ser mais junto á frontaria de Castella houve por +melhor cobrar-se logo, e este mandou combater muitas vezes, mas por sua +fortaleza, e por a boa gente que o defendia, não se podia +cobrar por força, e +durou o cerco tanto tempo, que por o Castello não ter +soccorro, nem lhe poder vir provizão de mantimentos de +fóra, foram os de dentro postos em tanta estreiteza de fome, +e doutras necessidades que por não morrerem, tão +cruas e dezesperadas mortes, como se lhes ofereciam, estavam pera se +dar, e entregar o Castello, e não sofrer mais apertos de +tão perversa +lealdade. <br /> + +<br /> + +E estando nesta afronta se diz, que Dom Fernão Rodrigues +Pacheco se alevantou um dia muito cedo, e andando pelo muro cuidando na +preça, em que estava, e sobresso posto em desvairados +pensamentos sem determinadamente saber o que faria, lembrando-se de +Deos, lhe pedia muito de coração, que por sua +misericordia por alguma maneira lhe socorresse, por tal, que +não cahisse em tamanha mingoa de sua honra, como seria dar +aquelle Castello se não a El-Rei, +<span class="pagenum"><a name="p42">[42]</a></span> +que lho dera, e porque lhe tinha feita menagem, e que +durando nesta maginação, e +oração, que vio vir contra a ribeira do Mondego, +que é ahi junto, uma Aguia, que trazia nas unhas uma grande +truita, e que voando por sima do Castello lhe cahio dentro, ainda mui +fresca, com que algum tanto logo se alegrou, e que a mesma truita, e +com desse melhor pão, que no Castello se pode haver, e +aparelhar, mandou todo em prezente ao Conde no arraial, que tinha +cercado, e lhe mandou dizer: «Que bem o poderia ter cercado +quanto fosse sua mercê, mas que se por fome o esperava tomar, +que visse se os homens, que daquella vianda eram bem bastecidos, se +teriam rezão de entregar-lhe contra suas honras o +Castello». Da qual couza o Conde, e estes a que do prezente +deu parte, foram assás maravilhados, e vendo, que por longar +mais o cerco alli, não aproveitava, e em outras muitas +partes danaria, alevantou o cerco sobre Celorico, e o foi pôr +sobre Coimbra. <br /> + +<br /> + +<h2><a name="c11"></a>CAPITULO XI </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como o Conde foi cercar o Castello de +Coimbra, que tinha +Martim de Freitas, por El Rei Dom Sancho, e das afrontas que passou no +cerco</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Conde</span> como chegou a +Coimbra antes de fazer grandes aparelhos pera o +cerco e combates mandou dizer a Dom Martim de Freitas: «Que +lhe entregasse a Cidade, e o Castello, como por muitas vezes +já lhe mandara requerer, e por esso lhe faria muita +mercê, porque se o assi não fizesse, que o +combateria, e o cobraria tudo com sua perda, e dano». E +<span class="pagenum"><a name="p43">[43]</a></span> +Dom Martim de Freitas lhe respondeo: +«Que sua mercê +poderia comprir sua vontade, e fazer o que quizesse, porém +que fosse certo, que em quanto soubesse que El-Rei Dom Sancho seu Rei, +e Senhor, era vivo, que lho não entregaria sem seu mandado, +ou sabendo, que era morto, e que o não ameaçasse +com morte, nem perigos, porque tudo padeceria com bom +coração por inteiramente comprir com sua +lealdade». Pelo qual o Conde assentou seu cerco sobre o +Castello, e ordenou seus combates, com que logo, e depois o combateo +muitas vezes, em que de uma parte, e da outra houve mortos e feridos. <br /> + +<br /> + +Mas o alcaide, e os que por sua defenção comsigo +tinha eram taes, que os cometimentos do Conde não +aproveitavam pera cobrar o Castello por força, da qual cauza +anojado o Conde fez juramento a Deos de nunca se alevantar de sobre +elle até o tomar por força, +ou por fome, e assi o fez porque o cerco foi tão porlongado, +que os de dentro por falecimento dagoa, e de provizões, que +já não tinham, como +desesperados comiam, e bebiam couzas mui contrairas, e descostumadas da +natureza humana, que não ficáram bestas, +cães, gatos vivos, nem os couros das alimarias mortas. E +sendo o Conde desto certificado os mandava afrontar, e requerer cada +dia: «Que se dessem, e +não padecessem sem cauza, e por contumacia tão +asperas cruezas, que a sua tal façanha era vã, +que +não podia, nem devia levar ao diante». <br /> + +<br /> + +Ao que Dom Martim de Freitas por sua honra, e fama não +queria obedecer, e dice, que durando este cerco, padecendo +já de dentro grande, e mortal necessidade de sede, que +porque viram um Cavalleiro do Conde cavalgado pelo rio do Mondego +passar, e que o cavallo de farto não provou agoa, e que os +de dentro magoados por sua mingoa, e envejozos da +bemaventurança +<span class="pagenum">[44]</span> +da alimaria, fizeram sobresso grandes +lamentações, com que alguns parentes, e amigos do +Alcaide lhe aconselhavam: «Que pois os padecimentos +incomportaveis que sofriam sem esperança de ajuda, nem +soccorro estranho eram taes, que já se não +podiam comportar, e elle no Regno era só o que sostinha tal +profia, que por dar a elle, e aos seus as vidas, désse o +Castello ao +Conde». <br /> + +<br /> + +Dom Martim de Freitas lhes respondeo: «Parentes, e meus +amigos, que aqui estaes, nunca Deos queira, que obedecendo a esse vosso +concelho eu ponha tão grande magoa sobre minha limpeza, nem +consinta tamanha traição sobre minha honra, e +lealdade, nas quaes todas encorreria se desse este Castello +senão a quem por minha menagem mo deu, em quanto elle for +vivo, e ami não fica por ver, e conhecer craramente as +grandes tribulações que vós, e eu, e +todos +aqui padecemos, mas se vós quizerdes trazer a vossas +memorias, e poer ante estas vossas necessidades outras muito maiores +fomes, e males, que muitos sendo cercados já padeceram, +achareis que por manterem suas lealdades depois que todalas couzas lhe +faleciam a comerem as raizes das viz ervas, se sostiveram, pelo qual +deste temor e afronta prazerá a Deos por sua piedade, que +bom nome, e segurança nossa sedo nos livrará, e +em algum tempo vos alegrareis contardes a vossos filhos e amigos estes +males que padeceis, com que não acrecentareis +pouco em vosso louvor e merecimento, e obrigação +de bondade, e lealdade, que a outros em +semelhantes cazos confrangeo, e essa mesma neste cazo nosso nos +não desobriga, ca em outra maneira as vidas, que salvamos, +durarão poucos dias, e a infamia, e deshonra, que por esso +recebemos, durarão pera sempre, pelo qual vos rogo, que em +quanto poderdes não faleçais, e me ajudeis, ca +Deos nos +acorrerá, e este +<span class="pagenum"><a name="p45">[45]</a></span> +mal prazendo a +elle não durará muito, e por +ventura se algum de vós pera seu serviço, ou pera +outra sua deleitação tiverem dezejos de molheres +dizei-mo, que aqui está minha filha, que é boa +donzella, e +que muito amo a que eu mandarei que em tudo vos sirva de boamente, +porque com melhor vontade consentirei, e menos me doerá, que +ella perca a vertude de sua virgindade, que por mingoa de +vós outros, perder eu minha lealdade, e ser constrangido a +fazer tamanha traição, como seria dar como +não devo +este Castello a quem mo não deu». <br /> + +<br /> + +Com estas palavras, que Dom Martim de Freitas dice, ficaram todos muito +maravilhados, e louvando muito sua bondade, se esforçaram, e +lhe prometeram, que ora fosse com rezão, ou sem ella, elles +por satisfazer a seu dezejo por algum cazo, e afronta, que sobreviesse, +o não leixariam, antes todos morreriam primeiro com elle. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c12"></a>CAPITULO XII </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Como pela morte del Rei Dom Sancho, +Dom Martim de Freitas +entregou o Castello de Coimbra, e das deligencias e exames que primeiro +fez por limpeza de sua rigorosa lealdade</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Estando</span> Dom Martim de +Freitas nesta afronta com El-Rei, e havendo +já um anno e quatro mezes, que El-Rei Dom Sancho fora pera +Castella, prouve a Deos de o levar deste mundo, e faleceo em Toledo, +como adiante direi, e sendo de sua morte certificado o Conde seu +irmão, tendo ainda o cerco sobre Coimbra, como Principe em +que havia +<span class="pagenum"><a name="p46">[46]</a></span> +muita prudencia, e grande piedade, +mandou logo ajuntar muito pão, e vinho, e carnes, e +pescados, e outras maneiras de refrescos, e mandou levar tudo ao +Castello, enviando dizer ao Alcaide: «Que fosse certo, que El +Rei Dom Sancho seu irmão era já falecido, +e que lhe daria tempo, em que por elle em pessoa, ou por outrem, +podesse haver desso verdadeira certidão, com a qual +entregasse o Castello». <br /> + +<br /> + +Dom Martim escolheo certificar-se por si mesmo. E o Conde o segurou da +hida e estada, e ser livre até tornar ao dito Castello, que +então se não +combateria. Dom Martim de Freitas chegou a Toledo, e como quer que por +muitos fosse certificado da morte del-Rei Dom Sancho, que no Moimento +que mostraram o viram sepultar, elle o não quiz crer, mas +por mór +certeza fez tirar a campa que o cobria, e como o vio, e achou que em +certo era aquelle, se diz, que prezente muitas testemunhas, que trouxe +por comprir com sua menagem poz as chaves do Castello de Coimbra, que +levava, no proprio braço direito del-Rei Dom Sancho, e +depois de lhe fazer por ellas entrega do dito Castello lhas tirou, e +trouxe comsigo a Portugal, e desso tomou escrituras pubricas, e fez +cerrar o Moimento, e se tornou a Coimbra, e dentro entrou secretamente +no Castello, e ao outro dia mandou logo dizer ao Conde que o fosse +receber, porque já lho podia entregar, e lhe devia obedecer: +e que a elle, e não a outro algum o entregaria com boa +vontade. <br /> + +<br /> + +O Conde foi logo ao Castello, e o Alcaide abrio logo as portas delle, e +tomou a molher, e a filha, e as poz fóra dizendo: +«Leixemos este Castello a cujo +é». E com esso se poz de joelhos diante o Conde, e +com as chaves delle nas mãos alevantadas lhe dice: +«Senhor, pois a Deos prouve que El-Rei Dom Sancho, vosso +irmão falecesse tomai vossas chaves, e vosso +<span class="pagenum"><a name="p47">[47]</a></span> +Castello, e daqui por diante eu vos servirei, e haverei por +Rei, e Senhor». E logo amostrou ao Conde, e á +nobre gente que era com elle as escrituras das deligencias, que em +Toledo por sua honra, e descargo fizera, e acertou-se que um Cavalleiro +do Conde, que era prezente dice a Dom Martim de Freitas: «Que +porque não pedia perdão ao Conde, por quanto nojo +e desserviço lhe fizera, e por lhe ferir, e matar tanta +gente, denegando-lhe tanto tempo a entrega e obediencia do Castello, +que era seu». <br /> + +<br /> + +E Dom Martim em se querendo escuzar pera não dever de pedir +tal perdão, acudio mui prestes o Conde, e dice ao fidalgo, +que o reprendia: «Que semelhante perdão em tal +cazo Dom Martim não era obrigado de pedir, porque elle +não fizera erro, mas tinha feita boa façanha dina +de bom Cavalleiro, e leal +fidalgo». E por ella lhe tornava a dar o dito Castello pera +elle, e pera todos os que delle decendessem, fazendo menagem a elle, e +a todos seus herdeiros. E Dom Martim lhe respondeo: «Que lho +tinha muito em mercê; mas que elle por alguma maneira +não tomaria o dito Castello, antes lançava +maldição a +seus filhos, e netos, e a todolos que delle descendessem até +o quarto grao se por Castello fizessem menagem a Rei, nem a outra +pessoa de qualquer condição que +fosse». <br /> + +<br /> + +E com esto assi concertado o Conde leixou o Castello de Coimbra, como +devia, e se tornou outra vez a Celorico, onde Dom Fernão +Rodrigues estava, porque da morte del-Rei Dom Sancho era já +bem certificado, e assi sabia que o Castello de Coimbra já +era entregue, deu logo ao Conde o Castello sem mais resistencia, nem +cautella. Estes dous foram os derradeiros Castellos de Portugal que ao +Conde obedeceram. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p48">[48]</a></span> +<h2><a name="c13"></a>CAPITULO XIII </h2> + +<br /> + +<div class="quote1">Da morte del-Rei Dom Sancho, e onde +jaz, e de algumas +couzas que se em seu tempo passaram</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">El-Rei</span> Dom Sancho +depois da segunda vez que tornou a Toledo nunca dahi +mais se partio onde com sua vida, e costumes passados em grandes +virtudes, e com sinaes de bom, e Catholico Christão acabou +sua vida em idade de quarenta annos, na era de mil duzentos quarenta e +sete annos (1247) que dos quaes Reinou vinte e quatro, a saber vinte e +dous em Portugal, e dous estando em Castella, e seu corpo foi sepultado +na Capella dos Rex da Sé de Toledo, que elle mandou fazer +á sua propria custa, e assi deu grandes ajudas pera o +acabamento da dita Sé, que se então +fazia por El Rei Dom Fernando, que de mesquita, que era a mandou +refazer em fórma das outras Igrejas, como agora +está, porque quando El-Rei Dom Sancho se foi pera Castella, +levou comsigo muitas joias, e grandes riquezas, que ficaram del-Rei Dom +Affonso seu padre, e del-Rei Dom Sancho seu avô; das quaes +algumas não tornaram a Portugal, e todas se +gastáram em Castella. <br /> + +<br /> + +Este Rei Dom Sancho no começo de seu Regnado deu +á Ordem de San Tiago em desvairados tempos, e por apertadas +doações, as Villas de Mertola e +Daljustrel, as quaes Villas tomou aos Mouros Dom Payo Correa, Mestre de +San Tiago de Castella, e porque eram da conquista de Portugal as tornou +a El-Rei Dom Sancho, que dellas fez as ditas +doações +á dita Ordem. E como estas Villas se ganharam, na Coronica +del-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, se dirá mais +<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span> +largo, e El Rei Dom Sancho povorou de fogo morto +a Cidade da Idanha a velha, sendo de todo destroida dos Mouros, e +depois que El-Rei Dom Sancho seu avô a leixou á +Ordem do Templo, e o dito Rei Dom Sancho faleceo sem filho, nem filha +legitimos, nem bastardos, que se soubesse. <br /> + +<br /> + +E dahi a um anno, em dia de São Clemente a vinte e tres dias +de Novembro do anno de mil duzentos e quarenta e oito annos, El-Rei Dom +Fernando tomou por cerco a Cidade de Sevilha aos Mouros, e dahi a tres +annos e meio, nella faleceo, e ahi jaz sepultado, e havia treze annos +que tambem tomára Cordova salteada primeiro, e entrada por +certos Christãos Almogaveis, e foi socorrida, e mantida por +o mesmo Rei Dom Fernando. <br /> + +<br /> + +E em Regnando este Rei Dom Sancho faleceram de suas vidas por muitos, e +grandes milagres São Domingos, que faleceo em Bolonha, no +anno de mil duzentos e vinte sete (1227) e Sancto Antonio, natural da +Cidade de Lisboa, em Padua, os quaes suas mui sanctas vidas foram em +seu tempo deste Rei Dom Sancho, todos Canonizados, e referidos ao +numero dos Sanctos, por o Papa Gregorio IX, o qual Canonizou Sancto +Antonio na Cidade Despoleto em Italia anno de mil duzentos trinta e um +(1231). <br /> + +<br /> + +<h4>DEO GRATIAS</h4> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="p50"></a>INDEX<br /> + +<br /> + +DAS COUSAS NOTAVEIS </h2> + +<br /> + +<h3>A </h3> + +<br /> + +Affonso II (El Rei D.) de Portugal, em que anno morreo, <a href="#c1">pag. 19</a> <br /> + +<br /> + +Affonso (D.) Conde de Bolonha é nomeado pelo Papa Innocencio +IV para <a href="#e7">Governador</a> do Reino de +Portugal, pela incapacidade de seu +irmão D. Sancho II, <a href="#p28">pag. 28</a>. +Na Cidade de Pariz na +prezença de muitos Prelados e Cavalleiros, toma o juramento +do Governo do Reino, e de que forma o fez, <a href="#p28">pag. +28</a>. Deixa sua mulher a +<a href="#e8">Condessa</a> +Dona Matilde em França, e parte para Portugal, e do modo +como se intitulava <a href="#p32">pag. 32</a>. +Cerca o Castello de Celorico, que governava +Fernão Rodrigues Pacheco, e o levanta por cauza de um +celebre estratagema de que este uzou, <a href="#p42">pag. +42</a>. Põe cerco ao +Castello de Coimbra, e da resistencia que lhe fez Martim de Freitas, +que o governava, até que sabendo da morte del-Rei D. Sancho +II lho entregou, <a href="#p42">pag. 42</a> a <a href="#p47">47</a>. <br /> + +<br /> + +Affonso de Molina (D.) irmão de D. Fernando Rei de +Lião, acompanhado de muitos Cavalleiros, e Soldados, entram +por Portugal á +petição del-Rei D. Sancho II para +lançar fóra delle a seu +irmão o Conde de Bolonha, <a href="#p34">pag. +34</a>. Volta com os que o +acompanhavam para Castella temerozo das censuras da Igreja, <a href="#p36">pag. 36</a>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p51">[51]</a></span> +Aljustrel. Foi tomada aos Mouros por D. Payo Correa, e dada por El-Rei +D. Sancho II á Ordem de San-Tiago, <a href="#p48">pag. +48</a>. <br /> + +<br /> + +Alvaro Pires de Castro, (D.) filho de D. Pedro Fernandes de Castro o +Castelão, foi cazado com D. Mecia Lopes, que depois cazou +com El-Rei Dom Sancho II, <a href="#p21">pag. 21</a>. +<br /> + +<br /> + +Antonio, (Santo) em que anno foi Canonizado por Gregorio IX, <a href="#p49">pag. 49</a>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>B </h3> + +<br /> + +Beringella (D.) mulher del-Rei D. Affonso de Lião. tia +del-Rei D. <a href="#e9">Sancho</a> II, de +Portugal, o +aconselha muitas vezes a que caze, por ser muito conveniente ao seu +Reino, e elle o não executa, <a href="#p20">pag. +20</a>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>C </h3> + +<br /> + +Celorico. É cercado o seu Castello por D. <a href="#e10">Affonso</a> +Conde de Bolonha, e levanta o sitio por um estratagema +de que uzou D. Fernão Rodrigues Pacheco, que o governava, +<a href="#p42">pag. 42</a>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>D </h3> + +<br /> + +Desiderio (Fr.) é delegado <a href="#e11">do +Papa</a> +Innocencio IV, para que entregue os Castellos, e Fortalezas de Portugal +á obediencia de D. Affonso Conde de Bolonha, <a href="#p32">pag. 32</a>. <br /> + +<br /> + +Domingos, (S.) donde, e quando falleceo, <a href="#p49">pag. +49</a>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>F </h3> + +<br /> + +Fernando (D.) Rei de Lião, em que dia, e anno conquistou +Sevilha, <a href="#p49">pag. 49</a>. Faleceo nesta +Cidade ibi. <br /> + +<br /> + +Fernão Garcia de Souza, filho de D. Garcia Mendes de Souza, +e neto do Conde D. Mendo o Souzão, offerece +<span class="pagenum"><a name="p52">[52]</a></span> +a El-Rei D. Sancho II, quando voltava para Castella +sem esperança de governar em Portugal, que se recolhe-se a +Trancozo, e da pratica que fez a El-Rei em Moreira contra Martim Gil, +<a href="#p36">pag. 36</a> e <a href="#p37">37</a>. +<br /> + +<br /> + +Fernão Rodrigues Pacheco, governando Celorico, e sendo +sitiado por D. Affonso Conde de Bolonha levanta o sitio por cauza de um +celebre estratagema de que uzou, <a href="#p42">pag. 42</a>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>H </h3> + +<br /> + +Honorio III expede uma Bulla a Sancho II de Portugal, em que lhe +adverte queira emendar os absurdos que se cometem no seu Reino, e o +excomunga se não obedecer, sendo executor destas censuras o +Arcebispo de Braga, <a href="#p22">pag. 22</a>. +Segunda vez o notifica com <a href="#e12">palavras</a> +de maior +severidade, e rigor, até que El-Rei obedece, <a href="#p23">pag. 23</a>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>I </h3> + +<br /> + +Idanha a Velha foi povoada por Sancho II. <a href="#p49">pag. +49</a>. <br /> + +<br /> + +Innocencio IV convoca Concilio em Lião, e nelle á +petição dos Prelados e Conselheiros de Portugal +nomea por Governador do Reino a D. Affonso Conde de Bolonha pela +incapacidade de seu irmão D. Sancho II, <a href="#p25">pag. +25</a> e <a href="#p26">26</a>. <br /> + +<br /> + +João (D.) Arcebispo de Braga com D. Tiburço Bispo +de Coimbra, e outros Cavalleiros Portuguezes, vão ao +Concilio de Lião onde reprezentam a Innocencio IV, que lhe +nomeie Governador do Reino pela incapacidade de D. <a href="#e13">Sancho</a> +II, <a href="#p27">pag. 27</a>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>L </h3> + +<br /> + +Lopo (D.) senhor de Biscaia, foi pai de D. Mecia Lopes mulher de D. +Sancho II, de Portugal, <a href="#p21">pag. 21</a>. +<br /> + +<br /> + +Luis (S.), rei de França primo del-Rei D. Sancho II, de +Portugal assistio no Concilio de Lião, que convocou +<span class="pagenum">[53]</span> +Innocencio IV, <a href="#p26">pag. 26</a>. Foi +conquistar a Terra +Santa, levando comsigo sua espoza a Rainha Dona Margarida, ibi. +Conquista a Cidade de Damiata, ibi. Morre no sitio da Cidade de Tunes, +e seu filho D. João e é Canonizado pelo Papa +Bonifacio VIII, +<a href="#p27">pag. 27</a>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>M </h3> + +<br /> + +Martim de Freitas Governando o Castello de Coimbra, e sendo cercado por +D. Affonso Conde de Bolonha animosamente o defende, <a href="#p43">pag. +43</a> a <a href="#p45">45</a>. Parte +a Toledo para se certificar da morte del-Rei Dom Sancho II e achando +ser certa lhe entregou as chaves do Castello de Coimbra, e depois +voltando a ella o entrega a D. Affonso irmão do dito Rei +defunto, <a href="#p46">pag. 46</a> e <a href="#p47">47</a>. <br /> + +<br /> + +Martim Gil, cavalleiro honrado teve tenção de +matar a D. Fernão Garcia de Souza, pelo que disse da sua +pessoa a D. Sancho II em Moreira, <a href="#p38">pag. 38</a>.<br /> + +<br /> + +Mecia Lopes (D.) filha de D. Lopo Senhor de Biscaia, viuva de D. Alvaro +Pires de Castro caza com D. Sancho II, <a href="#p21">pag. +21</a>. É separada +violentamente del Rei, e levada ao Castello de Ourem por estar +nullamente cazada com elle, <a href="#p25">pag. 25</a>. +<br /> + +<br /> + +Mertola foi conquistada dos Mouros por D. Payo Correa, e dada +á Ordem de San-Tiago por Sancho II, <a href="#p48">pag. +48</a>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>O </h3> + +<br /> + +Orraca (D.) mãi del-Rei Dom Sancho II de Portugal, foi +irmã de D. Beringela Rainha de Lião, <a href="#p20">pag. 20</a>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>R </h3> + +<br /> + +Reymão Viegas de Porto Carreiro, em companhia de D. Martim +Gil de Soveroza, e de outros Cavalleiros levaram para o Castello de +Ourem a D. Mecia, contra a vontade del-Rei D. Sancho II, <a href="#p25">pag. 25</a>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[54]</span> +<h3>S </h3> + +<br /> + +Sancho II, (D.) de Portugal em que idade foi levantado Rei, <a href="#c1">pag. 19</a>. +Porque lhe chamáram Capello não se sabe +certamente, mas infere-se, ibi. Pela sua enercia padeceo o Reino +repetidas perdas no tempo, que o governou, <a href="#p20">pag. +20</a>. Caza com D. Mecia +Lopes, filha de D. Lopo Senhor de Biscaya, ibi. É admoestado +pelos Prelados, e povos do Reino a que se aparte de D. Mecia, e o +não executa, ibi. O Papa Honorio III, o exorta a que emende +os absurdos de que é author, aliás que o +excomungará, <a href="#p22">pag. 22</a>. +É advertido por +Gregorio IX a que largue a D. Mecia por estar nullamente cazado com +ella, <a href="#p23">pag. 23</a>. Tendo noticia de +que seu irmão D. Affonso +entrara no Reino para o governar parte a Castella para pedir soccorro a +seu primo D. Fernando, pera que o lançasse fóra, +e lho +concede, <a href="#p33">pag. 33</a> e <a href="#p34">34</a>. Donde morreo, em que idade, e onde +está enterrado, <a href="#p48">pag. 48</a>. +Deu á Ordem de San-Tiago +as Villas de Mertola, e Aljustrel, que conquistára D. Payo +Correa, <a href="#p48">pag. 48</a>. <br /> + +<br /> + +Sevilha. Em que dia e anno foi conquistada por El-Rei D. Fernando de +Lião, <a href="#p49">pag. 49</a>. Nella +morreo, e +está sepultado o mesmo Rei ibi. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>T </h3> + +<br /> + +Tiburço (D.) bispo de Coimbra com D. João +Arcebispo de Braga, e outros Cavalleiros Portuguezes vão ao +Concilio de Lião, onde representam a Innocencio IV a +necessidade que tem de que lhes nomeie Governador do Reino por ser +incapaz D. Sancho II, <a href="#p25">pag. 25</a> e <a href="#p26">26</a>. <br /> + +<br /> + +<h4>FIM</h4> + +<br /> + +<h2><br /> + +INDICE DOS CAPITULOS </h2> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">I―Como o Ifante D. +Sancho Capelo, foi alevantado por Rei, e das +condições fracas que teve, e como cazou, e +não como a sua honra e estado Real compria e se +devia</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c1">19</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">II―Do que o Papa a +requerimento dos Prelados, e povo de Portugal +escreveo, e requereo a El-Rei Dom Sancho por sua +Bulla</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c2">22</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">III―Como El-Rei +Dom Sancho por amoestações do +Papa se não quiz apartar de Dona Mecia Lopes sua molher, e +como lhe foi +tomada</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c3">24</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">IV―Do Concilio que +o Papa Innocencio IV fez em Lião de +França, onde os Prelados, e os Senhores de Portugal, se +foram querelar del-Rei Dom Sancho, e lhe pediram novo Regedor para o +Regno, que por mingoa da justiça se perdia, e lhe outorgou o +Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, irmão do dito Rei Dom +Sancho</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c4">25</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">V―Como o Conde de +Bolonha, depois de asseitar a governança +de Portugal fez sobre esso juramento com algumas +condições declaradas</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c5">28</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[56]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"> +VI―Das Bullas e Provizões do Papa, que o Conde trouxe a +Portugal pera os do Regno sobre sua governança, e assi outra +Bulla que sobre o mesmo caso enviou aos Frades de S. +Francisco</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c6">31</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"> +VII―De como o Conde de Bolonha chegou a Portugal, e com elle um +delegado do Papa, e das notificações que logo +fizeram a El-Rei D. +Sancho</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c7">31</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"> +VIII―Como El-Rei Dom Sancho mal aconselhado se foi com os de sua valia +pedir soccorro a Castella, e como veio em sua ajuda o Ifante Dom +Affonso de Molina com outros grandes, e gentes de +Castella</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c8">33</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"> +IX―Como pelas deligencias do Conde de Bolonha El-Rei D. Sancho se +tornou a Castella, e do que se passou no caminho com os cavalleiros de +Trancozo</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c9">35</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"> +X―Como o Conde cercou em Celorico da Beira a Dom Fernão +Rodrigues Pacheco, que lhe não quiz obedecer, e como por +causa de uma truita se alevantou o +cerco</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c10">40</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">XI―Como o Conde +foi cercar o Castello de Coimbra, que tinha Martim de +Freitas, por El-Rei D. Sancho, e das afrontas que passou no +cerco</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c11">42</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">XII―Como pela +morte del Rei Dom Sancho, Dom Martim de +Freitas entregou o Castello de Coimbra, e das deligencias e exames que +primeiro fez por limpeza de sua rigoroza +lealdade</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c12">45</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">XIII―Da morte +del-Rei Dom Sancho, e onde jaz, e de algumas couzas que +se em seu tempo +passaram</td> + + <td></td> + + <td style="vertical-align: bottom;"><a href="#c13">48</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>OBRAS PUBLICADAS </h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">I</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Historia +do Cerco +de Diu</span>, por <em>Lope de Sousa Coutinho</em>, +1 volume +(esgotada)</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">II</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Historia +do Cerco de +Mazagão</span>, por <em>Agostinho Gavy +de Mendonça</em>, 1 volume +(esgotada)</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">III</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Ethiopia Oriental</span>, +por <em>Fr. João dos Santos</em>, +2 +grossos volumes +(esgotada)</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">IV</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">O Infante +D. +Pedro</span>, chronica inédita por + <em>Gaspar +Dias de Landim</em>, +3 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">700</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">V</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica +d'El-Rei +D. Pedro I</span>, (<span class="smallcaps">o Cru ou +Justiceiro</span>) por <em>Fernão Lopes</em>, +1 +volume</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">VI</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica +d'El-Rei D. +Fernando</span>, por <em>Fernão +Lopes</em>, +3 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">VII</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica d'El-Rei +D. João +I</span>, por <em>Fernão +Lopes</em>, 7 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">VIII</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica d'El-Rei +D. João +I</span>, <em>por Gomes +Eannes d'Azurara</em>, <span class="smallcaps">vol. +I, II e III (VIII, IX e +X)</span>. </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">IX</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Dois +Capitães da +India</span>, por <em>Luciano +Cordeiro</em>, +1 +volume </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">X</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Arte da +Caça de +Altenaria</span>, por <em>Diogo Fernandes Ferreira</em>, +2 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XI</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Apologos Dialogaes</span>, +por <em>D. Francisco Manuel de Mello</em>, +3 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XII</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica d'El-Rei +D. +Duarte</span>, por <em>Ruy de +Pina</em>, +1 +volume </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XIII</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica d'El-Rei D. Affonse +V</span>, por <em>Ruy de Pina</em>, +3 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XIV</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica d'El-Rei +D. João +II</span>, por <em>Garcia de +Resende</em>, +3 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XV</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Vida de +D. Paulo de Lima +Pereira</span>, por <em>Diogo +do Couto</em>, +1 +volume</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XVI</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica d'El-Rei +D. +Sebastião</span>, por <em>Fr. +Bernardo da Cruz</em>, +2 +volumes. </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XVII</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Jornada de Africa</span>, +por <em>Jeronymo de Mendoça</em>, 2 +volumes</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XVIII</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Historia Tragico-Maritima</span>, +por <em>Bernardo +Gomes de Brito</em>, + <span class="smallcaps">vol.</span> I a +X</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">3$800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XIX</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Jornada de Antonio +d'Albuquerque +Coelho</span>, por <em>João Tavares de Vellez +Guerreiro</em>, 1 +volume</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XX</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica +d'El-Rei D. Affonso +Henriques</span>, por <em>Duarte Galvão</em>, +1 +volume</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XXI</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica D'el-Rei +D. Sancho +I</span>, por <em>Ruy de +Pina</em>, +1 +volume</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;">XXII</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">―</td> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Chronica d'El-Rei +D. Affonso II e de +El-Rei +D. Sancho II</span>, por <span class="smallcaps">Ruy +de +Pina</span>, 1 +volume</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<h4>EM PUBLICAÇÃO </h4> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Historia Tragico-Maritima</span>, +<em>por Bernardo Gomes de +Brito</em>, <span class="smallcaps">vol. +XI.</span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#p15">#pag. 15</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>Theogia</em></td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>Theologia</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p16">#pág. +16</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">cencura</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">censura</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p16">#pág. 16</a></td> + + <td style="text-align: center;">ontros</td> + + <td>...</td> + + <td style="text-align: center;">outros</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p23">#pág. +23</a></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">Apostoilcam</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">Apostolicam</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p23">#pág. 23</a></td> + + <td style="text-align: center;">parttcularmente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">particularmente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p32">#pág. 32</a></td> + + <td style="text-align: center;">sm que</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">em que</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e7"></a><a href="#p50">#pág. +50</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">Covernador</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Governador</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p50">#pág. 50</a></td> + + <td style="text-align: center;">Coudessa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Condessa</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p51">#pág. 51</a></td> + + <td style="text-align: center;">Saucho</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Sancho</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p51">#pág. 51</a></td> + + <td style="text-align: center;">Affonos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Affonso</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p51">#pág. 51</a></td> + + <td style="text-align: center;">doPapa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">do Papa</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p52">#pág. 52</a></td> + + <td style="text-align: center;">palaras</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">palavras</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p52">#pág. 52</a></td> + + <td style="text-align: center;">Saneho</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Sancho</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Chronica de El-Rei D. Sancho II, by Rui de Pina + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. SANCHO II *** + +***** This file should be named 27311-h.htm or 27311-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/7/3/1/27311/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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