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diff --git a/27276-h/27276-h.htm b/27276-h/27276-h.htm new file mode 100644 index 0000000..4e034d7 --- /dev/null +++ b/27276-h/27276-h.htm @@ -0,0 +1,5631 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Judas: Romance Lirico, por Augusto de Lacerda</title> + <meta name="AUTHOR" content="Augusto de Lacerda"> + <meta name="Date" content="1901"> + <meta name="Editor" content="Antiga Casa Bertrand"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + .small-caps { font-variant: small-caps;} + blockquote {font-size: 0.8em; padding: 0em; margin: 0em; margin-top: 0.2em; margin-bottom: 0.2em;margin-left: 2em;} + #capa {padding: 1em; text-align: center; border: solid 1px #000000;} + #corpo p {margin:0em; text-indent: 0.9em;} + pre {margin:0em; margin-left: 1em;} + h1, h2, h3 {text-align: center;} + h4 {font-size: 0.8em; font-weight: normal; margin: 0em; margin-left: 1em; text-indent: -1em; padding: 0em; margin-top: 0.4em; margin-bottom: 0.4em;} + .footnote { margin: 1.5em;padding: 0.5em; font-size: 0.8em; border:dotted 1px #cccccc;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Judas + Romance lirico em quatro jornadas + +Author: Augusto de Lacerda + +Release Date: November 16, 2008 [EBook #27276] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JUDAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<p style="text-align: center;"><img src="images/capa.png" alt="Capa do Livro"></p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<h1 style="text-align:center;">JUDAS</h1> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="font-size: 0.8em;margin: 10%; text-indent: -1em;"> +<p style="text-align: center;">DO MESMO AUCTOR</p> + +<p> </p> + +<p style="margin-left: 10%;"><span class="small-caps">Theatro:</span></p> + +<p><i>A Flôr dos Trigaes</i>, comedia original em um acto, em +verso—Theatro de D. Maria II.</p> + +<p><i>Aspasia</i>, drama original em quatro actos—Idem.</p> + +<p><i>Samuel</i>, idem—Idem.</p> + +<p><i>A Tesoura</i>, monologo—Idem.</p> + +<p><i>A Charada</i>, sainete original—Theatro do Gymnasio.</p> + +<p><i>Casados-Solteiros</i>, comedia original em tres actos—Idem.</p> + +<p><i>O Vicio</i>, peça original em cinco actos—Theatro do Principe +Real.</p> + +<p style="margin-left: 10%;"><span class="small-caps">Em livro</span>—Edições esgotadas:</p> + +<p><i>Religião do Amor</i>, versos.</p> + +<p><i>O Padre</i>, romance intimo.</p> + +<p><i>A Pança</i>, contos.</p> + +<p><i>A Lei da Exauctoração Militar</i>, poemeto.</p> + +<p><i>Cyrilleida</i>, analyse de uma critica á «Velhice do Padre Eterno.»</p> + +<p><i>Juizo Final</i>—Evangelho da Consciencia.</p> + +<p style="margin-left: 10%;"><span class="small-caps">A entrar no prélo:</span></p> + +<p><i>O Rabbi da Galiléa</i>—(Vida de Jesus)—Romance.</p> + +<p><i>Juizo Final</i>—Evangelho da Consciencia—2.ª edição.</p> + +<p style="margin-left: 10%;"><span class="small-caps">Em preparação:</span></p> + +<p><i>Consciencia Libertada</i>—Evangelho do Futuro.</p> + +<p><i>Lendas de Israel.</i></p> +</div> + +<div id="capa"> +<p style="font-size: 1.2em; font-variant: small-caps;">Augusto de Lacerda</p> + +<hr style="border: solid 1px #000000; border-left: 0; border-right: 0;width: 70%; height: 3px;"> +<p style="font-size: 3em;">JUDAS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ROMANCE LIRICO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">EM</p> + +<p><i>QUATRO JORNADAS</i></p> +<p> </p> +<p> </p> +<p><img src="images/logo.png" alt="Logotipo da Casa Bertrand"></p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA +<br> +<span class="small-caps">Antiga Casa Bertrand</span>—JOSÉ BASTOS +<br> +<i>73, Rua Garrett, 75</i> +<br> +1901</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Todos os direitos d'este livro são propriedade exclusiva e reservada do +seu auctor.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">Ao Dr. Manoel Maria Bordallo Pinheiro</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 40%;"> + <p><i>Il n'y a guère de détails certains en histoire; les détails cependant + ont toujours quelque signification. Le talent de l'historien consiste à + faire un ensemble vrai avec des traits qui ne sont vrais qu'à demi.</i> </p> + + <p style="text-align:right;"><span class="small-caps">Ernest + Renan</span>—Vie de Jésus</p> + + <p> </p> +</blockquote> +<span class="pagenum"><a id="pag_1" name="pag_1">[1]</a></span> + +<div id="corpo"> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<h1>PRIMEIRA JORNADA</h1> + +<h2>EM 8 DE NISAN</h2> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<h2>PRIMEIRA JORNADA</h2> + +<h3>EM 8 DE NISAN </h3> + +<blockquote> + <p>A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em + que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a + casa de Simão, o <i>Leproso</i>. Tem esta a forma tipica de uma piramide + rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos + canteiros roseiras de Jerichó.</p> + + <p>Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um + pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores + seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.</p> + + <p>A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, + cae sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente + notas cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...</p> + + <p>Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao + descanso e á meditação.</p> + + <p>Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali + serpeando por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas + graciosas, até que chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as + papoulas entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das + Oliveiras, de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, + majestosos, dois altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos + quaes esvoaça um bando de pombas brancas.</p> + + <p>Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o <span + class="pagenum"><a id="pag_4" name="pag_4">[4]</a></span> Monte do + Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da + encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de + Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e + patriarchas.</p> + + <p>Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a + cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica, + amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas + estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.</p> + + <p>A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da + encosta:—é ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais + clara, vem descendo a cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, + segundo diz a lenda, Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em + sacrificio ao Senhor. Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um + misterio, o grande Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: + <i>Jehovat</i>. A Torre Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, + que fecha o recinto vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na + sua attenta quietação.</p> + + <p>Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde + o carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas + folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos + longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando + no firmamento azul e alegre.</p> + + <p>Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que + entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o + harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de + mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um + sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as + cotovias.</p> +</blockquote> + +<h4>GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas +doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:</h4> +<pre>Eleazar, meu caro, honrado ebionita, +Recebe de um amigo a cordeal visita.</pre> + +<h4>ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos +annos, franzino e melancólico.</h4> +<pre>És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja +Teus passos dirigiu assim, para que eu veja +Á porta do modesto e humilde lavrador +Aquelle que possue o nome de doutor +Notavel e profundo?<span class="pagenum"><a id="pag_5" name="pag_5">[5]</a></span></pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> É pobre a moradia, +Amigo?—Não encerra a vil hypocrisia, +Ornamento dos maus e da nefanda casta, +Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>É que a virtude leva ás almas refrigerio +Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio; +Pranto suave, meigo e virginal e ardente, +Que uma estrella chorou silenciosamente...</pre> + +<h4>GAMALIEL </h4> +<pre>É que a bondade espalha a sua luz divina +E pura, como o Sol que a todos illumina...</pre> + +<blockquote> + <p>E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se + conservou:</p> +</blockquote> +<pre>O que tenho a dizer-te é coisa de segredo. +Escuta-me portanto aqui.</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> Porquê? Tens medo +De que minhas irmãs...?</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> O assumpto é muito grave, +E receio que a dôr ainda mais se crave +Nas almas feminis do que na tua.</pre> + +<blockquote> + <p>Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de + casa, accode logo ao secreto chamamento.</p> +</blockquote> +<pre> Amigo, +Uma nova cruel:—o Mestre...</pre> + +<h4>ELEAZAR, estremecendo</h4> +<pre> Algum perigo +É imminente?</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Aquella estupida gentalha +Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha +Prepara com misterio o plano vingador,<span class="pagenum"><a id="pag_6" name="pag_6">[6]</a></span> </pre> +<pre>E está na posição terrivel do condôr, +Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora, +Em casa de Kaiapha...—É sabbado hoje? Embora! +—... O Conselho procura, extravasando o fel, +Garantir-se o poder no povo d'Israel.</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Prendendo o Mestre?</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Sim! Razões tem para tudo +O seu pensar feroz, indómito e agúdo! +Amor divino? Qual! Apenas o receio +De perder o logar no execravel meio: +D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma, +E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!</pre> + +<blockquote> + <p>N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e + que se expande, emfim, n'uma invocação:</p> +</blockquote> +<pre>A Virgem de Sião suspira ha muito já!... +—Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat! +Que é feito do vigor da tua fala, Isaías? +E das lamentações sinceras, Jeremías? +Profeta Ezequiel, a tua voz potente +Jámais ribombará por todo o Oriente, +Fazendo estremecer o despota cezareo, +Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario, +Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma, +Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!</pre> + +<h4>ELEAZAR, com o olhar vago:</h4> +<pre>Vergonha! opprobrio!...</pre> + +<h4>GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de enthusiasmo +civico: </h4> +<pre> Ai! desde que um idumeu +Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu, +E nos hombros depoz o manto purpurino... +Maldito! que deixaste um rasto viperino, +Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo,<span class="pagenum"><a id="pag_7" name="pag_7">[7]</a></span> +O teu nome recorda o luto e um acervo +De horrores!—Certo dia, ousaste no portal +Da casa do Senhor dar poiso á <i>immortal</i> +Aguia romana!...—Vil, nascido de idumeus, +O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus! +... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia! +—Do nome do tiranno o filho honra a memoria. +Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta... +Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?... +—Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros; +Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros, +Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia! +E ao passo que na morte o hebreu se contorcia, +E filhas e mulher's davam á luz o pranto, +O incendio voraz lavrava o Logar Santo! +—Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga, +Revolvendo o punhal na apodrecida chaga! +Seja procurador Coponio, ou seja Marco, +Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco +Onde vivem, senís, as rãs do servilismo... +É provincia romana; e viva o cezarismo!</pre> + +<blockquote> + <p>E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando, + convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.</p> +</blockquote> + +<h4>ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:</h4> +<pre>Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor, +D'esta funda apathía e d'este grande horror! +Judéa, serás livre! Elias não morreu, +Porque revive n'um que tem o verbo seu, +E elle ha de trazer a guerra e o exterminio! +Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!... +Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia! +O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a +Sem minimo temor da colera dos ceus!</pre> + +<h4>GAMALIEL, n'um clarão de esperança:</h4> +<pre>Já temos o preciso: um <i>Homem</i>!<span class="pagenum"><a id="pag_8" name="pag_8">[8]</a></span></pre> + +<h4>MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras:</h4> +<pre> Não!—Um <i>Deus</i>!</pre> + +<blockquote> + <p>Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser + tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens escuras, + que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas regulares e castas + como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e tranquillo; os seus gestos + sempre em accordo com as serenas emoções da alma.</p> +</blockquote> +<pre>É bello o teu falar, mas como de cegueira +Pelo amor patrio estás vencido! De maneira +Que apenas bastaria um pulso valoroso +Para despedaçar o monstro ambicioso +De fausto e de poder que se revolve além, +N'aquella babylonia? Então, Jerusalem, +Movida por um braço, embora resoluto, +Poderia colher o ambicionado fructo +Da plena liberdade em meio da revolta? +—Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta! +A Judéa prefére a honra em mil pedaços, +Cheia de timidez, crusando inerme os braços, +Inhabil para a lucta e com horror á morte... +A tribu de Levy, aquella cujo porte, +Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria +Coragem ao vencido e alguma simpathia +Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo. +—Onde encontraste, irmão, o excitante novo, +Que possa dar alento a quem succumbe exangue, +Que os nervos fortaleça e retempére o sangue?</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre>Ha sempre em casos taes...</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> a força d'um athleta!</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>Tem muito mais poder o verbo d'um profeta! +Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição +Das coisas divinaes a toda a multidão,<span class="pagenum"><a id="pag_9" name="pag_9">[9]</a></span> +Que se contorce afflicta em negro paroxismo, +Descrente de Moysés, propensa ao paganismo. +Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra, +Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra, +Pesada, como o arado á terra bemfasejo, +Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre>E quem te diz que não? Eu julgo indifferente +Que tenhamos no Mestre aquelle descendente +Do nome de David ao mundo promettido +Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido. +Porque bem vejo a força enorme, o poderío +Que exerce na cidade. É mais que prestadío +Á Patria um homem tal!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> A sua mão convulsa, +Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa +Para longe do sitio ás preces consagrado...</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!... +—Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes +E que mercadejava as graças corporaes; +Ascende até o amor aos pobres, ás creanças, +Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças +N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Quando, porem, troveja irado, mais parece +Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...</pre> + +<h4>GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria, que +foi sentar-se junto da fonte:</h4> +<pre>Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso, +E Deus pode morrer... quando fôr mais preciso.<span class="pagenum"><a id="pag_10" name="pag_10">[10]</a></span> </pre> + +<h4>ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez +opprime no intimo:</h4> +<pre>O Mestre não virá. Alegra-me a certeza +De que foge ao Conselho a ambicionada preza. +Começa em breve a Paschoa, e entre os forasteiros +Ainda não chegou nem um dos companheiros +Do Mestre.</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Vae o Sol no termo da viagem: +Torno para a cidade.</pre> + +<blockquote> + <p>E novamente em segredo:</p> +</blockquote> +<pre> Eleazar, coragem! +No teu silencio tens a minha vida e a tua.</pre> + +<h4>ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante:</h4> +<pre>Se te constar, porem, que o plano continúa +E mais se desenvolve...</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Hei de dizer-te, amigo.</pre> + +<h4>ELEAZAR, saúdando-o:</h4> +<pre>Que não te fuja Deus!</pre> + +<h4>GAMALIEL, saúdando-o:</h4> +<pre> Fique o Senhor comtigo!</pre> + +<blockquote> + <p>Saúda tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da + estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordão no + solo poeirento.</p> +</blockquote> + +<h4>ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos +proprios pensamentos:</h4> +<pre>Ninguem pode roubal-o á proxima agonía. +Morrerá na cidade. A horrivel profecia +Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte... +Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte!</pre> +<blockquote> +<p> </p> + <p>Martha e Simão de Bethania saíram de casa. Ella é uma rapariguita de + desoito annos, irrequieta, buliçosa, muito infantil; elle, um velho cujo + cabello e barba ha muito branquearam; nas mãos o trabalho da lavoura + poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra + deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.<span + class="pagenum"><a id="pag_11" name="pag_11">[11]</a></span> </p> +</blockquote> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre>No que pensa o meu irmão?</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Em nada penso.</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Duvido. +Ha n'esse olhar definido +Vislumbre d'inquietação.</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre>Se tu pensas na lavoura, +Fazes mal, que o dia de hoje, +Emquanto o Sol não nos foge, +Prohibe que, scismadora, +A mente se occupe assim +De coisas que não respeitam +A Deus.</pre> + +<h4>MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a +ouvisse:</h4> +<pre> Aquelles que engeitam +O pensar, mesmo o ruim, +São como as ondas brutaes, +Que lançam á rocha dura +A espuma de cuja alvura +Ellas são as mães e os paes...</pre> + +<h4>SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:</h4> +<pre>Sempre has de ser renitente +Em respeitar a doutrina +De Moysés!</pre> + +<h4>MARIA, com amargo sorriso:</h4> +<pre> O que ella ensina +É por vezes incoherente. +De ouvil-a já estou cançada, +E nem assim me convence.</pre> + +<h4>MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:</h4> +<pre>Não falas?<span class="pagenum"><a id="pag_12" name="pag_12">[12]</a></span></pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> Deixa-o! Que pense, +Uma vez que isso lhe agrada!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Mas como sois curiosos +Do que se passa por fóra +De vossas almas!</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Agora +Vem discursos lamentosos, +Recriminações, aposto! +Grande mau!</pre> + +<h4>ELEAZAR sorrindo contrafeito:</h4> +<pre> Grande creança!</pre> + +<h4>MARTHA picada no seu amor proprio:</h4> +<pre>Não te inspiro confiança?</pre> + +<h4>ELEAZAR condescendente:</h4> +<pre>Inspiras, sim.</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Pois não gosto +De segredos—Que tristeza!... +Não percebo! Porque, em summa, +Não vejo razão nenhuma +Para tal! Não ha riqueza? +A nossa vida, porem, +É feliz; a privação +Nunca nos veio affligir, +Nem ameaça o porvir, +Não é verdade? Simão, +Este bom velho leal, +Que tanto e tanto nos ama, +Dá-nos meza, casa, cama, +E conselho paternal; +Tu retribues a amizade, +Auxiliando-o na vida.<span class="pagenum"><a id="pag_13" name="pag_13">[13]</a></span> +Achámos uma guarida +Nas trevas da orfandade: +Temos familia! Por isso +Para nós a vida é clara +Assim como a luz. A seara +É verdadeiro macisso +De pão; agua na fonte; +Lenha nas faldas do monte... +Nada vejo, d'importancia, +Que não tenhamos. Então, +Quero saber o motivo +Por que estás tão pensativo...</pre> + +<blockquote> + <p>E rindo muito: </p> +</blockquote> +<pre>E com cara de chorão!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>E tenho de que sorrir?</pre> + +<h4>MARIA em longa abstração, como se ninguem a ouvisse:</h4> +<pre>Quem pensa é como quem sonha... +E como a vida é risonha, +Quando se pode dormir!...</pre> + +<h4>ELEAZAR perseguido pelo olhar inquiridor de Martha:</h4> +<pre>A minha alma atribulada +Profundo misterio aninha... +Sê caridosa, irmãsinha, +Não me perguntes mais nada!</pre> + +<h4>MARTHA afastando-se logo com muito despeito:</h4> +<pre>Ai! não pergunto!</pre> + +<h4>SIMÃO que de parte estivera rindo dos dois:</h4> +<pre> Uma idéa, +Que talvez seja bem dita: +Vou fazer uma visita +Ao José d'Arimathéa. +Vem commigo. Pode ser +Que tenhas n'este passeio +O prompto e seguro meio +Da tristeza espairecer.<span class="pagenum"><a id="pag_14" name="pag_14">[14]</a></span></pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Dizes bem.</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> Acceitas?</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> Sim.</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre>Afinal é sempre o velho +Quem dá o melhor conselho!</pre> + +<h4>ELEAZAR ás irmãs:</h4> +<pre>Adeus!</pre> + +<blockquote> + <p>E beijando Martha, que o evita d'arremeço:</p> +</blockquote> +<pre> Tu foges de mim? +Não vens beijar-me, teimosa! +É então uma vingança?</pre> + +<h4>MARTHA, deixando explodir o seu despeito:</h4> +<pre>São arrufos... de <i>creança</i>!</pre> + +<h4>ELEAZAR beijando-a á viva força:</h4> +<pre>São os espinhos da rosa!</pre> + +<blockquote> + <p>Vão-se Eleazar e Simão. Succede grande silencio.</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h4>MARTHA foi á beira da estrada e segue-os com o olhar. Depois, +appreensiva, com vago receio:</h4> +<pre>Nunca o vi assim como hoje...</pre> + +<h4>MARIA em longa abstracção, como se ninguem a ouvisse:</h4> +<pre>«Espairecer»... Puro engano! +O pensamento não sae... +É como a sombra que vae +Correndo atraz de quem foge...</pre> + +<h4>MARTHA que lançou para longe a tristeza, despertada pelo cantar mais +proximo d'uma cotovia.</h4> +<pre>Como o tempo está formoso +E se prepara, amoroso, +Para a Paschoa d'este anno!</pre> + +<blockquote> + <p>N'uma corrida, eil-a junto da irmã que ficára sentada á beira <span + class="pagenum"><a id="pag_15" name="pag_15">[15]</a></span> da fonte. Um + beijo resôa na face de Maria e logo aos pés d'esta se senta Martha. </p> +</blockquote> +<pre>Achamos isto um encanto! +Como elles acham, porem, +Que tudo é feio.</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Elles, quem?</pre> + +<h4>MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido +erguido para o olhar da irmã:</h4> +<pre>Os Dose, que gostam tanto +De dizer mal de Judá. +A Galiléa! Não ha +Para elles outro mundo! +Têem sincera affeição, +Tributam amor profundo +Ao paiz de Salomão!</pre> + +<h4>MARIA desculpando-os:</h4> +<pre>A sua terra natal... +—Todos dizem que em verdade +É um paiz ideal +A Galilêa.</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Quem ha de +Duvidar, se elle inspirou +Os galanteios doirados +D'aquelles apaixonados... +—Como elles, ninguem amou!</pre> + +<blockquote> + <p>Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e + recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado de + languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com elle, + deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.</p> +</blockquote> +<pre>«É formoso o meu amante, +Formoso como nenhum, +E como o cédro elegante... +É formoso o meu amante, +Formoso como nenhum...<span class="pagenum"><a id="pag_16" name="pag_16">[16]</a></span> + +«São de perfumes e odores +Suas faces purpurinas, +Dois ramalhetes de flores... +E suas mãos dois primores +Das pedrarias mais finas. + +«O seu corpo deslumbrante +Do marfim o brilho tem... +—Eu aqui... Elle distante... +Onde está o meu amante, +Filhas de Jerusalem?»</pre> + +<blockquote> + <p>Olhando de fito para a irmã:</p> +</blockquote> +<pre>Esta idéa é mesmo linda!</pre> + +<h4>MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae +deslisando:</h4> +<pre>Amôres...</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Muito falados! +Olha que outros bem-amados +Como estes não houve ainda! +E quando elle se transporta, +Descrevendo a sua amante? +Não pode ser mais galante! +Queres ouvir?</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Que m'importa!...</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre>«És formosa entre as formosas! +Como tu não ha nenhuma! +Tens no rosto duas rosas... +És formosa entre as formosas! +Como tu não ha nenhuma! + +«Duas pombas tens no olhar +Onde transluz a bondade. +Os teus cabellos sem par<span class="pagenum"><a id="pag_17" name="pag_17">[17]</a></span> +Fazem-me sempre lembrar +As cabrinhas de Galaad... + +«Tua bocca é tão fagueira! +Quando sorrís com ternura, +Julgo vêr n'uma ribeira, +Unidinhas em fileira, +Ovelhas de casta alvura! + +«Oh! que suaves martirios +Em tuas caricias francas! +São teus seios—que delirios! +—Como duas corças brancas +A pastarem entre os lirios!»</pre> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu + sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de Poncio + Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da liteira; sem ser + presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua escrava e confidente + Geda.</p> + + <p>Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente, + avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado em + estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava, brilha o + pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.</p> + + <p>Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não + enrugou, mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura e + o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica do + deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de + Tiberio, illustre messallina—<i>lassata, sed non satiata</i>. A + tunica azul celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base + do tronco esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe + enroscam na carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade + olympica do perfil das medalhas de Agrippina.</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h4>CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos +triclinios de má nota da velha Roma:</h4> +<pre>Muito bem!<span class="pagenum"><a id="pag_18" name="pag_18">[18]</a></span> </pre> + +<blockquote> + <p>Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio, + dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta + detem-se.</p> +</blockquote> +<pre> Que formosa poesia +Cheia de amor e de melancolia! + Ha quem diga no Lácio +Que é impossivel encontrar primores +Que não sejam de Ovidio nos «Amores» + Nos «Epodos» de Horacio... +—É que ninguem conhece quanto val' +A doce poesia oriental! + —Isso é de Salomão?</pre> + +<h4>MARTHA muito a mêdo:</h4> +<pre>Senhora...</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Pois eu sou tão lisongeira, +Para ouvir-te apeei-me da liteira... + E foges?—A razão?</pre> + +<blockquote> + <p>E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente:</p> +</blockquote> +<pre>Tambem me odeias, tu, gentil creança? +—Quando ha de fazer-se uma alliança + Entre Roma e Judéa? +Ganhariamos todos, com certeza: +Nós, simpathia; vós, delicadeza. + Darei a Poncio a idéa.</pre> + +<blockquote> + <p>Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios contraídos + e os punhos cerrados:</p> +</blockquote> +<pre>Conheces-me tambem?</pre> + +<h4>MARIA por entre dentes:</h4> +<pre> Perfeitamente.</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre>Se não me engano, a tua alma sente + Por mim o mesmo affecto... +Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada +Com Poncio, devo estar acorrentada + A um odio tão directo?<span class="pagenum"><a id="pag_19" name="pag_19">[19]</a></span></pre> + +<h4>MARIA fitando-a resoluta, mas serena:</h4> +<pre>É que tu desconheces o rancor +Que tem toda a Judéa ao vencedor! + Fossem mil as nações +Caídas sobre nós! Odio profundo +Teriamos então a todo o mundo + E ás suas gerações! +—Ninguem pediu que ouvisses o falar +Da minha irmã. De mais, vindo escutar + Fizeste muito mal... +És Claudia; quer dizer: alguma coisa +Que nos merece tédio, e que repoisa + Sobre um vil pedestal +Todo feito de lama e impudicicia! +Justamente porque és uma patricia + Deves ter o criterio +De não brincar co'as cinzas ainda quentes, +Porque nós detestamos intendentes + E amantes de Tiberio!</pre> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento impulsivo + de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que não resiste. Martha soltou + um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo murmurio da + agua e pelo chôro suffocado de Martha, que não desamparou a irmã.</p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gôtas de chumbo +derretido:</h4> +<pre>Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo. +A todo o sentimento o da maldade encimo, +Se acaso á minha face o insulto e o desdem + Me forem arrojados por alguem! + Uma frase, um olhar—tanto me basta; +Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta, +Qual sanguineo brilhante, a fébre da matança, +Dos deuses o prazer dulcissimo: a Vingança!</pre> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Mas em rapido movimento, como obedecendo a pensamento <span + class="pagenum"><a id="pag_20" name="pag_20">[20]</a></span> occulto, faz + signal aos soldados, que logo abandonam Maria. Depois, com acerado sorriso + de maldade:</p> +</blockquote> +<pre>Agradece, mulher, a mim e ao teu Deus +Esta disposição d'espirito, e os meus +Bons nervos hoje; e grava, em summa, na memoria + Que o insulto nem sempre é uma gloria!</pre> + +<h4>MARIA muito vexada pela insultante benevolencia de Claudia:</h4> +<pre>Eu não pedi perdão...</pre> + +<h4>CLAUDIA victoriosa pelo effeito que o perdão causou no animo independente +da patriotica filha d'Israel:</h4> +<pre> E quem diz tal, judía? +Fui eu que perdoei...—Offendes-te?</pre> + +<h4>MARTHA supplicante ao ouvido da irmã, que ia responder:</h4> +<pre> Maria...</pre> + +<h4>CLAUDIA rindo, satisfeita, feliz:</h4> +<pre> <i>Maria</i>... Nome formoso, + Que tem um rythmo éoleo! + Merece logar honroso, + Por Jove, no Capitolio!</pre> + +<blockquote> + <p>E volta para a liteira.</p> +</blockquote> + +<h4>A ESCRAVA GEDA ajudando-a a accomodar-se nas almofadas da liteira:</h4> +<pre>Nunca te vi assim...</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Diverte me a bondade, +Ás vezes...</pre> + +<h4>O CENTURIÃO AMPÍO ao sequito:</h4> +<pre> A caminho!</pre> + +<blockquote> + <p>Os lecticarios põem a liteira aos hombros.</p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Á porta da cidade +Haveremos de estar antes da noite. Anceio +Por que termine em bréve este infeliz passeio, +Sem novo encontro mau.—Ó palida judía, +Pode ser que eu te veja ainda... Até um dia +Tem saúde até lá, que o ferro vingador<span class="pagenum"><a id="pag_21" name="pag_21">[21]</a></span> +Detesta a gente magra, e tem maior furor +Ao trespassar um cólo arredondado e terno...</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno!</pre> + +<blockquote> + <p>Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela + soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a + comsigo para casa. </p> + + <p> </p> + + <p>Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar + obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca da + hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras de + feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo dos + braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um pouco + alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o olhar para as + coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario, conserva-os + erguidos ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes. Claro é que de + quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos manifestam-se. </p> +</blockquote> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre>Não ha que duvidar: chegaram todos.</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre>Viste bem, Benjamim? seria engano...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre>Engano o que? Se affirmo, se até juro +Ter visto o Mestre e os dose companheiros. +Tomaram pela horta do Simão, +E em bréve hão de estar n'aquella casa.</pre> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>E approxima-se da casa do <i>Leproso</i>. Detem-se; prestando attenção, + ouve a distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com + <i>Hossannas!</i> a chegada do Rabbi da Galiléa.</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<pre>Eu não te digo?... O povo já começa +A correr ao encontro. Dentro em pouco, +Vae por esta Bethania uma celeuma, +Que nem no Templo em dia de festejo! +Eis portanto o momento ambicionado +De cumprirmos as ordens recebidas...<span class="pagenum"><a id="pag_22" name="pag_22">[22]</a></span></pre> + +<h4>JOSUÉ, timido, covarde, circumvagando o olhar:</h4> +<pre>Mas Benjamim...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> O que é?</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre> Sinceramente, +Vou achando pesada esta incumbencia. +É que nós somos dois: elles são tantos!...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre>Em verdade te digo; principío +A estar arrependido de indicar-te +Para meu ajudante n'esta empreza! +Hanan mandou que fossemos prudentes: +Devemos ter prudencia. Hanan mandou +Que tomassemos nota do que vissemos: +Tudo o que virmos lhe será contado. +Hanan mandou que fosse descoberto +O melhor paradeiro onde, em segredo, +Se podesse prender o Nazareno, +Muito em segredo, sim, para evitar +Protestos e tumultos: pois, meu caro, +Havemos de encontral-o!</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre> Estás bem certo?...</pre> + +<h4>BENJAMIM velhacamente, animando-o:</h4> +<pre>E não vejo que mal nos ameace. +O ex-Grande Sacerdote é simplesmente +Quem se entrega aos revezes d'este jogo. +Se perde ou ganha, o caso é lá com elle; +E nós de qualquer forma ganharemos +Não só a consciencia de homens probos, +Leaes respeitadores de Moysés...</pre> + +<h4>JOSUÉ unctuosamente:</h4> +<pre>O que á minha alma traz doce conforto...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre>... Mas tambem o dinheiro promettido, +Que não menos conforta as nossas bolsas.<span class="pagenum"><a id="pag_23" name="pag_23">[23]</a></span></pre> + +<h4>JOSUÉ com desinteresse hypocrita:</h4> +<pre>Tens um sistema de encarar a vida!...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre>É forçoso que nós nos convençamos +De que, se os bons principios se defendem, +Tambem se deve garantir ao corpo +A delicia das bôas digestões... +Á custa do dinheiro do Conselho! +—Ouve portanto o que é mister cumprir: +Tu vaes para a cidade; a bréve trecho +Procurarás o ex-Sacerdote... E então +Dir-lhe-ás que o profeta e os companheiros +Chegaram a Bethania era sol-posto; +Que decerto aqui ficam toda a noite, +E que eu não deixarei de estar álerta.</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre>Perfeitamente.</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> Espéra! De manhã, +Logo que vejas os clarões do dia, +Has de esperar por mim...</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre> Que sitio indicas?</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre>Não distante da entrada principal +Do Templo. Dado o caso que eu não chegue, +Commigo has de encontrar-te...</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre> E onde?</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> Aqui.</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre>Muito bem!</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> Percebeste?<span class="pagenum"><a id="pag_24" name="pag_24">[24]</a></span></pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre> Que pergunta! +Como quem desenrola o «Pentateuco» +E passa a vista pelo que elle diz. +—A proposito: guarda-me estes rôlos.</pre> + +<h4>BENJAMIM acceitando-os e juntando-os aos seus:</h4> +<pre>Tens razão. As Sagradas Escripturas +Iriam pezar muito no caminho. +Mas deves ir com um, pois é preciso +Para te dar o aspecto d'homem sério.</pre> + +<h4>JOSUÉ</h4> +<pre>Ao romper da manhã...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> Vae-te! Vem gente!</pre> + +<blockquote> + <p>E tomam para lados oppostos, revestidos de sua compostura habitual.</p> + + <p> </p> + + <p>Quatro homens assomaram á porta do <i>Leproso</i>; são Eleazar + acompanhado de João, Simão Pedra e Matheus.</p> + + <p>João é um bello tipo da raça judaica do norte. Alto, robusto, espadaúdo + e ainda imberbe. Os louros cabellos de genuino galileu caem-lhe sobre os + hombros em fartos anneis. Olhar azul, meigo; gesto largo e suave, na + quietação d'alma; mas desordenado e brusco, se a colera o determina. Voz + intensa, possante, cadenciada, de homem habituado a falar ao ar livre, na + grande extensão da superficie das aguas.</p> + + <p>Mais velho do que elle, Simão Pedra deixa transparecer em toda a sua + figura suavidade extranha em creatura humana. De Capharnaum, galileu tambem + e tambem robusto homem do mar, o seu rosto é circumdado pelos annelados + cabellos e pela barba comprida, bipartida, e tão loura, que mais parece + branca. Olhar penetrante, mas bondoso e ligeiramente accentuado por um + vinco entre os supercilios, o que torna a sua fisionomia um pouco severa. + Gesto sempre sereno; voz protectora, paternal.</p> + + <p>Matheus é mais velho do que João e mais novo do que Simão Pedra. Baixo, + de forte musculatura, barba ruiva bipartida; olhos meùdos e muito vivos de + antigo publicano. Todavia o conjuncto da fisionomia é attrahente por uma + expressão de rude franqueza que n'elle predomina. Voz quasi homofona, de + homem metódico, que raras vezes se enthusiasma ou sensibilisa, e que tem da + vida uma noção segura.<span class="pagenum"><a id="pag_25" + name="pag_25">[25]</a></span></p> + + <p>Os trez trazem na cabeça turbante á moda egypcia, com as pontas caídas + ao longo das costas. Os mantos e as tunicas empoeirados mostram que foi + grande o percurso que fizeram os romeiros. </p> +</blockquote> + +<h4>JOÃO resfolegando:</h4> +<pre>Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre>E ficam bem á vista os muros da cidade... +Não sei o que adivinho!...</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Ao largo esse receio! +Muito mais me entristece a nuvem má que veio +Escurecer ao Mestre o doce olhar... +</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma +intimidade muito amiga:</h4> +<pre> Meu caro, +Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo +O tempo que passou a este em que hoje estamos: +O verbo illuminando a treva e os recamos +Do manto a que se abriga uma ambição enorme; +As contorsões finaes do animal disforme +Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés, +Rojando-se afinal vencido a nossos pés!</pre> + +<h4>ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae +n'alma:</h4> +<pre>E julgas que não tarda em despontar o dia +Tão desejado?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Eu?! Pois quem duvidaría? +—A doutrina do Mestre é como o grão de trigo, +Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo. +Que mais cuidados tem o bom do lavrador? +Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor, +Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão, +A força e o poder da multiplicação. +Se o lavrador depois no campo seu repára +E vê brilhar ao sol a refulgente seára,<span class="pagenum"><a id="pag_26" name="pag_26">[26]</a></span> +Exclama, commovido: Abençoada terra, +Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!</pre> + +<h4>ELEAZAR, quasi a medo:</h4> +<pre>Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Quem passa pela estrada e attenta no crescer +Do risonho trigal, diz logo, reverente: +Bemdito quem dispoz na terra esta semente!</pre> + +<h4>ELEAZAR, depois de grande hesitação:</h4> +<pre>Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho +Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?...</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Nunca!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> Nem fugireis?</pre> + +<h4>JOÃO que se erguera, rapido e violento:</h4> +<pre> Nenhum de nós!</pre> + +<blockquote> + <p>Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte. + Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e, dando + ás palavras uma intenção reservada: </p> +</blockquote> +<pre> Nenhum... +Dos que têem do Mestre a patria por commum! +Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios +Nunca hão de vacilar perante os sacrificios. +Se acaso o Mestre fôr levado de vencida, +Qualquer de nós dará por elle a propria vida! +Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André, +Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé, +Iago, o publicano, ou Simão Pedra?—Não! +Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão? +—Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre>Não falaste de mim...</pre> + +<h4>JOÃO muito secco e terminante:</h4> +<pre> Por méro esquecimento.</pre> + +<blockquote> + <p>E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação.</p> +</blockquote> + +<h4>ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra:</h4> +<pre><span class="pagenum"><a id="pag_27" name="pag_27">[27]</a></span>Pareceu-me o contrario...</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA triste e confidencial:</h4> +<pre> É sempre assim co'o Judas...</pre> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força + da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura + regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus + cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada; + pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma notavel + contrasta da rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham entre os + labios vermelhos; e quando irado, o labio inferior que é grosso, sensual, + estremece-lhe como o d'um touro em circo romano. É uma d'essas creaturas + que não sabemos se devam inspirar-nos simpathia, se conservar no nosso + espirito a idéa de repulsão que a principio nos dispertaram. Gestos + angulosos e rigidos; mãos, braços e peito cabelludos; andar pesado. Voz de + tonalidades irregulares; extremamente meiga e cariciosa na dôr, + extremamente vibrante, herculea na cólera. </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum +tempo:</h4> +<pre>Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas +As tuas aggressões áquelle que te présa! +Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa. +De injurias contra mim tu sempre estás faminto! +Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto... +(E crê que muita vez isto me vem á idéa) +... Ter nascido em Judá e não na Galiléa? +Sou culpado de quê? De ter a pélle escura? +De ter cabello negro? Isto é para censura?</pre> + +<h4>MATHEUS conciliadôr:</h4> +<pre>Mas se elle já te disse...</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> E eu digo que, em verdade, +Prefiro lealmente o odio a esta <i>amizade</i>!</pre> + +<blockquote> + <p>E volta aos seus pensamentos dominantes. </p> +</blockquote> + +<h4>MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:</h4> +<pre> Vinde ceiar, que são horas. + Não quereis?<span class="pagenum"><a id="pag_28" name="pag_28">[28]</a></span></pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha</h4> +<pre> Nem se duvída!</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Pois deixae-vos de demoras, + Aliás vae-se a comida! + —Uma ceia improvisada + Mas nem por isso mesquinha, + Podeis crêr.</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> A caminhada + Que fizemos foi damninha... + Por aguçar o appetite.</pre> + +<h4>MARTHA intimativamente, retirando-se da janella:</h4> +<pre> Dize que venham depressa, + Porque, faltando ao convite, + Sem vós a ceia começa!</pre> + +<h4>JOÃO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um +tom de voz inaudivel para Judas:</h4> +<pre>Dizeis que elle é honesto e probo e crente, em summa +Que para ser dos bons não falta a coisa alguma... +Talvez que seja assim como dizeis. No entanto, +Se para o seu olhar o meu olhar levanto... +—É tectrico e sombrio aquelle olhar revêsso! +Pensando sempre! Em quê?—Amigos, bem conheço +Que pode ser fatal este misterio vivo! +Qualquer de nós é meigo, alegre e expansivo... +—Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro: +Não procederam bem.</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante:</h4> +<pre> Porquê?</pre> + +<h4>JOÃO em tom leviano:</h4> +<pre> O embusteiro +Apenas retribue a prova de amizade +Gastando em seu proveito o que é da sociedade.</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA, que não poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda mais +severo:</h4> +<pre>Já não te quero ouvir nem mais uma palavra!<span class="pagenum"><a id="pag_29" name="pag_29">[29]</a></span> +No teu peito leal um sentimento lavra +Improprio de quem és! Lá dentro direi tudo. +Depois do que te ouvi, não posso ficar mudo!</pre> + +<h4>ELEAZAR conciliador:</h4> +<pre>Então!</pre> + +<h4>MATHEUS detendo Simão Pedra, que ia para entrar em casa do +<i>Leproso</i>:</h4> +<pre> Menos calor!</pre> + +<h4>JOÃO repêso, meigo, supplicante:</h4> +<pre> Oh! cala-te, por Deus! +Não vás exacerbar ao nosso Mestre os seus +Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano... +Proveio o que me ouviste apenas de um engano... +Simão Pedra, desculpa!</pre> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão + Pedra, aguardando o desenlace.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<h4>SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:</h4> +<pre> Eu sei que és razoavel. +Já tinha como certa a confissão louvavel, +Que logo surgiria á simples ameaça...</pre> + +<h4>JOÃO abraçando-o effusivamente:</h4> +<pre>Devemos collocar ao longe o que a desgraça +Procura intrometter no nosso coração!</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre>O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão, +Mas tens dentro do peito os risos da bonança!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Não voltes a magoal-o.</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Hei de mudar, descansa.</pre> + +<blockquote> + <p>Encaminha-se para casa, mas </p> +</blockquote> + +<h4>SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se +passára:</h4> +<pre>E fala-lhe, João: não vês como ficou?<span class="pagenum"><a id="pag_30" name="pag_30">[30]</a></span></pre> + +<h4>JOÃO com bonhomía:</h4> +<pre>Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!</pre> + +<h4>JUDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:</h4> +<pre> Eu vou.</pre> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>Mas fica, e só os quatro entram para casa.</p> + + <p>Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente + immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando + toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme reina + em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos; apenas os + ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém, distinguem-se os + sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos romeiros, que veem para a + festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e pandeiro. É um himno + melancólico, dolente, ao pausado compasso da andadura. Pouco a pouco os + sons definem-se, approximam-se. A aragem fresca e perfumada balouça + docemente o arvoredo.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:</h4> +<pre> Porque motivo, ó Deus, esta injustiça? + Desegualdade sem razão, medonha! + Uma alma pura, virginal, submissa; + Outra, vertendo em lagrimas peçonha! + —Ah! fatal e profundo sentimento, + Que tens do abismo a attracção e o horror! + És para mim dulcissimo tormento, + E sendo um grande amor... não és amor! + Um desejo voraz, ardente, furia, + Que a força da vontade não arranca! + Tem sonhos de volupia, de luxuria, + Com as palpitações da carne branca! + Transforma o ideal em verdadeiro + E a minha alma timida conduz + A seductor e vago paradeiro, + Onde eu estreito um cólo e uns braços nús! + Não morrerás? não has de ter um fim, + Ó tenebrosa e infernal tortura,<span class="pagenum"><a id="pag_31" name="pag_31">[31]</a></span> + Que pareces viver dentro de mim + A construir a minha sepultura? + —Quem te ordena que leves a maldade + A fazer-me avançar para o impossivel? + Porque segrédas tu que a castidade + Nem sempre pode ser irresistivel + Ás seducções frenéticas do amor? + E porque vens mostrar-me, sensual, + Certa nudez, e em todo o seu fulgor + Um monte de oiro junto d'um punhal? + —Como és infame! Sim! Com violencia + Levas minh'alma fraca aos empurrões. + E, como a Daniel, a Consciencia + Queres deitar á cova dos leões! + —Oh! nunca! Podes crêr que te resisto! + Hei de salvar minh'alma moribunda, + Arrancar-te de mim, e, depois d'isto, + Escarrar-te no corpo, besta immunda!</pre> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta + o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do + interior da casa.</p> + + <p>Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo + traz apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma + coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria, + como animada de forte resolução, encaminha-se para a fonte, passando pela + frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e quedou-se a + contemplal-a. Maria põe a amphora sob a corrente d'agua, e espera que + encha.</p> + + <p>Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente.</p> + + <p>Dir-se-ía que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar está + agora fito no chão. Mas, por fim, com expressão de resignado, eil-o que se + dirige para casa, onde entra a passos lentos.</p> + + <p>A amphora transborda. Maria põe-na sobre o quadril e dá alguns passos. + Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da + cidade com expressão de temor, como se d'ali podesse vir desgraça para + algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a + porta.</p> + + <p>Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus <span + class="pagenum"><a id="pag_32" name="pag_32">[32]</a></span>instrumentos, e + vão-se afastando, afastando gradualmente, os sons sumindo-se pouco a pouco + na distancia. A lua sobe com lentidão; paira em todo o quadro a quietação + muda da Natureza adormecida...</p> + + <p>Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-ía que + esse vulto é Benjamim.</p> +</blockquote> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_33" name="pag_33">[33]</a></span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<h1>SEGUNDA JORNADA</h1> + +<h2>EM 9 DE <i>NISAN</i></h2> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p><span class="pagenum"><a id="pag_34" +name="pag_34">[34]</a></span></p> + +<h2>SEGUNDA JORNADA</h2> + +<h3>EM 9 DE <em>NISAN</em> </h3> + +<blockquote> + <p>Estamos em casa de Simão de Bethania.</p> + + <p>A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas + tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso + conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á + direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade + conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação para + o interior.</p> + + <p>Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial, + onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida + domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela; + pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria, + pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira á + cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a + influencia do triclinio nos costumes da Judéa.</p> + + <p>A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos + os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro, festivamente + bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.</p> + + <p>No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o + <i>Leproso</i>. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco + temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo graal + collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços de pão + levedo em frente de cada commensal.</p> + + <p><span class="pagenum"><a id="pag_36" name="pag_36">[36]</a></span>Não + distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas sob a + tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento as + Sagradas Escripturas.</p> + + <p>João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por + uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,—medita e + lança de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam + Judas. </p> +</blockquote> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre>De ha muito que não como, e sem lisonja o digo, +Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo! +Não achas?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Fabricado em casa do Simão...</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre>Obrigado. Outro copo?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> O vinho é de Ascalão. +Conhece-se a distancia apenas pelo aroma.</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre>Continuam a dar-lhe enorme apreço em Roma +Para onde vão toneis sobre toneis!</pre> + +<h4>MATHEUS que n'um movimento de cabeça concordára e que bebera depois +d'aspirar o bom perfume:</h4> +<pre> Pudera! +O amor entre os pagãos á embriaguez prospéra.</pre> + +<h4>SIMÃO apresentando outra infusa:</h4> +<pre>Temos agora aqui magnifica cerveja.</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>De cevada?</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> Não é. +</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> De peros?</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> De cereja +Cultivada em Ramá.</pre> + +<blockquote> + <p>Com sorriso amigo, Simão Pedra e Matheus estendem os copos <span + class="pagenum"><a id="pag_37" name="pag_37">[37]</a></span> para Simão que + n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez em + silencio e com recolhimento.</p> +</blockquote> + +<h4>SIMÃO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo está fixando:</h4> +<pre> Olhae como é profundo +Este segredo!</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> Qual?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Por um processo immundo, +Pela fermentação, consegue-se tirar +Da materia um licor tão grato ao paladar.</pre> + +<h4>JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em +Judas, que continúa lendo:</h4> +<pre>Não acontece o mesmo a tudo que fermenta. +Ha certas podridões que geram peçonhenta +Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma. +Entrando pela vista, é digirida na alma! +E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila +Provem d'esse veneno horrivel que distila +Muito perto de mim com lugubre misterio. +Inutil procurar um doce refrigerio, +Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae +Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!</pre> + +<blockquote> + <p>Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para + alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros + pensamentos.</p> + + <p>Judas voltou á leitura sempre silencioso. </p> +</blockquote> + +<h4>SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:</h4> +<pre>Nunca ouvi tal falar da bôca do João.</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA tristemente:</h4> +<pre>E o caso é que tambem começo a achar razão +A tudo que elle diz.</pre> + +<blockquote> + <p>Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde + conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os. </p> +</blockquote> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> O Judas, francamente,<span class="pagenum"><a id="pag_38" name="pag_38">[38]</a></span> +No que hontem se passou, deu prova de demente, +Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre>Hontem?</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> Á noite. +</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> O quê? Dizei-me, por favor. +Não sei do que falaes.</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> Passou-se tudo aqui. +Durante a ceia. Não ouviste?</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> Não; sahi, +Mas foi por pouco tempo.</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA muito confidencial:</h4> +<pre> Então eis o motivo... +—Durante toda a noite esteve pensativo +E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa +Com palavras banaes e frias. Tão submersa +Tinha em meditações a alma, que ninguem +Deixou de perceber...</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> Percebi eu tambem +Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto +A fiel expressão d'um intimo desgosto. +</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Maria, aquella honesta e bôa rapariga, +Desejando seguir a usança muito antiga +No povo do Senhor, a de render um preito +De sincera amizade e natural respeito +Ao viajante illustre a quem se dá guarida, +Abeirou-se da mesa, e, muito commovida, +Derramou sobre o Mestre um perfumado unguento<span class="pagenum"><a id="pag_39" name="pag_39">[39]</a></span> +De nardo puro. Então, infame sentimento +De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro +E alegre como nós, aquelle companheiro +Reputado fiel, só tem uma censura +Para galardoar a prova de ternura: +—«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo +Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo, +Saberia guardar tambem zelosamente +A importancia da venda a todos pertencente, +Entregando-a depois em meu e vosso nome +Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.»</pre> + +<h4>SIMÃO como assombrado:</h4> +<pre>Mas isso foi um insulto! E o mestre?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Respondeu +Brandamente, como é velho costume seu.</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre>Nem siquer suspeitaes a causa?</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> Tarde ou cedo, +Alguem desvendará por certo este segredo.</pre> + +<blockquote> + <p>E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando, + encaminhando-se por fim para mais distante. </p> +</blockquote> + <p> </p> + +<h4>JOÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre +Judas. Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de estar a +sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno, como procurando +dominar-se:</h4> +<pre>O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho. +Reparo em que lhe dás toda a attenção.</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Medonho! +—A infamia de Caím.</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> É proveitoso, e muito! +Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito,<span class="pagenum"><a id="pag_40" name="pag_40">[40]</a></span> +No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã, +De falar d'esse crime o qual desde manhã +Tanto me preoccupa.</pre> + +<blockquote> + <p>Muito ironico: </p> +</blockquote> +<pre> Á tua consciencia +Não pode causar damno esta coincidencia... +És tão sincero, és tão leal e virtuoso!... +—Mas devo confessar-te...</pre> + +<h4>JUDAS sereno e sempre sentado:</h4> +<pre> O quê?</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Que estou ancioso +De ha muito por que tu expliques o motivo, +Que te obrigou a ser cruel e offensivo +Para quem te consagra uma affeição fraterna.</pre> + +<blockquote> + <p>Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu: </p> +</blockquote> +<pre>O que possues em ti, Judas, que assim governa +O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo +No misterio que abriu na tua frente um abismo +Cercado de fataes e nús despenhadeiros, +Affastando-te assim dos nossos companheiros, +Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.</pre> + +<blockquote> + <p>E indicando a corda com que prende a tunica á cintura: </p> +</blockquote> +<pre>Somos na união eguaes a esta corda, +Que as estrigas de linho unidas fortemente +Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente. +Na sólida affeição, unificados, somos +Assim como n'um fructo os solidarios gommos. +—Desfia-se, porem, a corda, ao que parece; +E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...</pre> + +<h4>JUDAS com affectada bonhomía:</h4> +<pre>Chiméras, illusões...</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Talvez.—Mas quando penso +Que o teu profundo mal pode tornar immenso<span class="pagenum"><a id="pag_41" name="pag_41">[41]</a></span> +O crime, e que será depois intempestivo +O arrependimento... Em summa, não me esquivo +A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha: +Nunca simpathisei comtigo; não se amanha +Com a tua frieza a ardencia do meu peito. +É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito +A observar-te. +</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> A mim?!</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> E sabes o que vejo? +Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!</pre> + +<h4>JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo +indifferença:</h4> +<pre>Chiméras, illusões...</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Talvez.—Mas quem nasceu, +Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu +Por vasto cortinado; aquelle que na infancia +Aprendeu a olhar com summa repugnancia +Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre, +Muito melhor que tu ha de entender o Mestre. +Não podem comprehendel-o os rudes corações +Selvagens como o teu!</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Chiméras, illusões...</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre>Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres +Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres +Supplícas com aspecto humilde uma parcella +P'ra o Mestre!—Na verdade, é preciosa e bella +Tanta dedicação! Provoca o elogío! +—Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío +O teu olhar matreiro, o brilho da avareza +A dar-lhe um tom sinistro?—Odeias a pobreza!<span class="pagenum"><a id="pag_42" name="pag_42">[42]</a></span> </pre> +<pre>Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas +Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!</pre> + +<h4>JUDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o +olhar ameaçador:</h4> +<pre>João!</pre> + +<h4>JOÃO cruza os braços e sereno:</h4> +<pre> Podes bater, amigo! Por que esperas?</pre> + +<blockquote> + <p>Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E + João, agora ainda mais excitado:</p> +</blockquote> +<pre>E chamas illusões! e vens chamar chiméras +Ao que é verdade núa e positiva?!—Agora +Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora; +No actual momento em que até eu vacílo, +Presentindo que não poderá ser tranquillo +O futuro do Mestre e de nós todos, mudas +Em odio declarado essa frieza, Judas?! +Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso? +Confessa que proveito, ou que terrivel goso +Encontras n'essa infamia abjecta!</pre> + +<blockquote> + <p>Desesperado pela indifferença apparente de Judas:</p> +</blockquote> +<pre> Que supplicio! +Não poder arrancar-te ao menos um indicio! +Não poder descobrir a causa que assim léva +O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva! +Ah! não poder, depois do que disseste aqui, +Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!</pre> + +<blockquote> + <p>E senta-se, febril, n'uma das camilhas. </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente, diz-lhe +emfim com muita ironía:</h4> +<pre>Está bem! muito bem! Ao menos, esperava +Que soubesses deter a incandescente lava, +Que todo me queimou, transformando em carvão +A minha consciencia... embora de <i>ladrão</i>.<span class="pagenum"><a id="pag_43" name="pag_43">[43]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>Resoluto, firme, altivo: </p> +</blockquote> +<pre>Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino; +Mas isso que te importa? Um ser tão viperino, +Como eu, só tem logar no meio da ralé, +E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!</pre> + +<h4>JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:</h4> +<pre>Acalma a excitação, Judas. O principal +Resume-se, ao presente, em confessares qual +A origem do teu odio. É isto o que eu te peço, +É isto o que eu desejo.</pre> + +<h4>JUDAS n'um brusco impulso de independencia:</h4> +<pre> Isso é que não! Confesso +Á minha consciencia o que me vae no peito! +Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito +De desvendar em mim reconditos misterios? +Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios! +—Pediste por acaso ao mar em que nasceste +Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste +A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo? +Pois o meu coração como elle é tão profundo, +Que se alguem pretendesse abrir uma passagem, +Teria de morrer submerso na voragem!</pre> + +<blockquote> + <p>João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem, + detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas + verdadeiras intenções: </p> +</blockquote> + +<pre>Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça +Conseguirei vergar esta alma tão submissa. +Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis... +Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis, +Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos, +Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos... +Depois quando vier o derradeiro instante, +Desamparado, nú, febril, agonisante, +Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas, +Em vez de maldições, tem palavras bemditas,<span class="pagenum"><a id="pag_44" name="pag_44">[44]</a></span> +Para quem desprezou teu pobre coração, +Deixando-o succumbir como se fosse um cão! +—Adeus e para sempre.</pre> + +<blockquote> + <p>Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:</p> +</blockquote> +<pre> Acceita em pensamento +O que d'aqui te envio: em tão cruel momento, +Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo +Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo +Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha! +—Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.</pre> + +<blockquote> + <p>E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:</p> +</blockquote> +<pre> Canalha!</pre> + +<h4>JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria +consciencia:</h4> +<pre>Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se +Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse +Pedir ao exagero o auxilio necessario +Para augmentar de vulto o crime involuntario, +Ou a leviandade alheia á malvadez. +Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez +Arrastar pelo mundo uma existencia nua +De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...</pre> +<blockquote> + <p> </p> + + <p>Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de + Bethania.</p> +</blockquote> + +<h4>ELEAZAR indicando João aos companheiros:</h4> +<pre> Eil-o aqui está! E nós á tua espera!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> São horas de partir para a cidade.</pre> + +<h4>JOÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu +pensamento entregue ao Mestre:</h4> +<pre> Não deve ser pequena a caravana!</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> Junto do Mestre, o povo delibera + Acompanhal-o.<span class="pagenum"><a id="pag_45" name="pag_45">[45]</a></span></pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> O que é grande imprudencia!</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre>Grande imprudencia?!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Os nossos companheiros +Em vão procuram com docilidade +Suster o passo á gente leviana...</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre>E porquê? Não são elles verdadeiros +Defensores do Mestre?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Mas reflecte...</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre>O povo quer seguir-nos? Pois que venha!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Mas pode provocar algum tumulto. +É preciso que a dentro da muralha +Evitemos qualquer indisciplina.</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre>Tu que dizes? Que pensamento occulto +Encerram taes palavras? Será crivel +Que te arreceies da imbecil gentalha, +Que anda a rosnar as suas ameaças +Contra a força que temos, invencivel, +Justiceira e tremenda?!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> E porque não? +Onde possues algemas e mordaças +Para conter as furias imminentes? +Pode acaso fugir-se a uma traição? +Reflecte bem: devemos ser prudentes, +Evitando que Hanan tenha pretexto +Para exercer emfim uma vingança, +Roubando ao Mestre a preciosa vida.<span class="pagenum"><a id="pag_46" name="pag_46">[46]</a></span></pre> + +<h4>JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:</h4> +<pre> Não tens portanto uma unica esperança + Em ver surgir a aurora promettida? + —Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto + Do Profeta, que vamos afinal + Assistir ao enorme vendaval, + Que ha de causar a todo o mundo espanto! + Da Lei não ficará nem uma linha, + E as pedras do Templo hão de cahir! + Eu antevejo, amigos, o porvir, + Que de instante a instante se avisinha! + Como cães a ulular, de toda a parte + Hão de saír as abominações! + Entre espadas de fogo e maldições, + Vae tremular um sólido estandarte! + Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus + Ribombará como um trovão gigante, + E o vento ha de levar para distante, + Onde não haja terra, mar, ou ceus, + As ultimas parcellas do monturo + A que chamamos hoje humanidade! + Álerta! vae rugir a tempestade! + —Confia em Deus! Espera no futuro!</pre> + +<blockquote> + <p>Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:</p> +</blockquote> +<pre>Gamaliel?!</pre> + +<h4>GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. +Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova +terrivel.</h4> +<pre> Eu proprio. E vejo que cheguei +A tempo de lembrar que existe de uma Lei +A rispida crueza, a inquebrantavel força, +E que por mais que a tua exaltação retorça +O positivo, elle ha de emfim prevalecer! +Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder. +—O perigo é enorme.<span class="pagenum"><a id="pag_47" name="pag_47">[47]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:</p> +</blockquote> +<pre> Ouvide: Nicodemo, +Um homem de honradez e que respeita em estremo +O vosso Mestre, não me occulta o que se passa +A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça, +Fazendo-se abortar o plano vingador!</pre> + +<h4>TODOS em sobresalto:</h4> +<pre>Um plano?!</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Como?!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Dize!</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> É de grande valor +O que disséres.</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Sim! deves dizer-nos tudo!</pre> + +<blockquote> + <p>E acercam-se d'elle ainda mais:</p> +</blockquote> + +<h4>GAMALIEL pausada e custosamente:</h4> +<pre>Hanan possue no genro o seu melhor escudo. +Se transformou Kaíapha em Grande Sacerdote, +Foi para ter alguem que cegamente vote +Na sua opinião. Mais do que o genro, alcança +Dos homens do Conselho estima e confiança.</pre> + +<blockquote> + <p>E custando-lhe a despegar dos labios as palavras:</p> +</blockquote> +<pre>Eis por que hontem á noite, e em sessão secreta, +Por elles foi votada a morte do Profeta!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA, erguendo as mãos aos ceus:</h4> +<pre>O meu presentimento!</pre> + +<h4>MATHEUS, convulsamente:</h4> +<pre> Infamia!</pre> + +<h4>JOÃO, n'um grito:</h4> +<pre> Cobardia!</pre> + +<h4>ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso:</h4> +<pre>É tempo de calcar aos pés a tirannía!<span class="pagenum"><a id="pag_48" name="pag_48">[48]</a></span> </pre> + +<blockquote> + <p>Todos, excepto Gamaliel, estão nervosos, irrequietos, consultam-se, + animam-se, invectivam Jerusalem. João foi á janella, e com os dentes + cerrados, o braço erguido, ameaça-a de esterminio. </p> +</blockquote> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre>Tende serenidade!</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Oh! não, Gamaliel!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Liberte-se de vez o reino d'Israel!</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre>Que poderá tornar-se em grande mar vermelho, +Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre>As espadas de Roma, as furias de Tiberio, +Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio! +O povo ha de gritar, raivoso, leonino, +Rasgando a face impura ao despota assassino!</pre> + +<h4>GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos olhos +e cahindo-lhe pelas barbas brancas:</h4> +<pre>Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto +No livro da experiencia, amigos, que é de pranto +A minha pobre offerta á causa alevantada! +Vós não podeis brandir a rutilante espada; +Nem elle, todo amor, consentiria nunca +Na transfiguração do verbo em garra adunca. +Parti, pois que é preciso apparecer ao povo, +Mas fugide a que venha um incidente novo +Aguçar ao tiranno o sanguinario intento. +Entrae com desassombro a porta do aposento +Onde finge dormir, silencioso, o crime; +Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime +O seu rancor feroz!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA tambem resoluto:</h4> +<pre> Seja o que Deus quizer!</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre>Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher, +Pode esfriar em mim a indignação!<span class="pagenum"><a id="pag_49" name="pag_49">[49]</a></span></pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Piedade!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Vamos!</pre> + +<h4>MATHEUS</h4> +<pre> Jerusalem!</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> Coragem!</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> Na cidade +Havemos de formar com os nossos companheiros +Possante legião d'impávidos guerreiros!</pre> + +<blockquote> + <p>E vão-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldão o velho + Gamaliel.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simão ficou abandonada, + Maria e Martha veem de fóra. Martha sempre alegre; a irmã sempre absorta em + grande melancolía. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se á janella, + seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vão a caminho de Jerusalem.</p> +</blockquote> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> E uma vez que partiram + Para a cidade, afinal, + Entreguemo-nos agora + Ao que julgo essencial: + Tratemos da nossa casa.</pre> + +<h4>MARIA, indolente:</h4> +<pre> Espera. Não tenhas pressa... +</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> É que está tudo em desordem, + E o nosso irmão começa + Dentro em breve a murmurar + Que ninguem aqui trabalha!...</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Martha, vae tu repoisar, + Que eu tratarei do preciso.<span class="pagenum"><a id="pag_50" name="pag_50">[50]</a></span></pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Não teimes, que me aproveito + Do teu conselho.</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Careces + De alguns momentos no leito; + Deves estar fatigada.</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> E não te enganas. Ergui-me + Ao romper da madrugada... +</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> E foste uma das primeiras + Que se juntaram co'os Dôse + No Monte das Oliveiras, + Onde passaram a noite, + Como é costume.</pre> + +<h4>MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:</h4> +<pre> E não ficas + De mal comigo?</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Porquê? + Se em nada me prejudicas...</pre> + +<blockquote> + <p>E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar: </p> +</blockquote> +<pre>O que ha de novo, Judas?</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Nada sei...</pre> + +<h4>MARTHA muito admirada:</h4> +<pre>Não quizeste partir para a cidade?</pre> + +<h4>JUDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:</h4> +<pre>Como vês, não parti... pois que fiquei.</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>E porquê?</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Porque o somno que me invade +Exige para o corpo algum repouso.<span class="pagenum"><a id="pag_51" name="pag_51">[51]</a></span> +Vae alto o Sol; de ha muito manifesta +Que brilha no seu ponto mais radioso, +E que são horas de dormir a sesta.</pre> + +<h4>MARIA, sem o fitar, serena:</h4> +<pre>E vaes dormir?</pre> + +<h4>JUDAS cerrando as palpebras:</h4> +<pre> O Livro dos Proverbios +Alguma coisa diz... «Quem se julgar +Com pequenos desgostos, exacerbe-os +A dormir, a dormir... e a sonhar...» +—Se durmo, para onde é que foge a vida? +Para fóra de mim quem a conduz? +Encontrará descanso na guarida +Para onde, ao apagar-se, vae a luz? +Ao despertar depois, quem reacende +No cerebro o fulgor que relampeja? +Quem é que nos dá vida ou que a suspende +A seu prazer?</pre> + +<h4>MARTHA com muita convicção:</h4> +<pre> É Deus...</pre> + +<h4>JUDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:</h4> +<pre> Talvez que seja.</pre> + +<h4>MARTHA surpreza:</h4> +<pre>Talvez?!</pre> + +<blockquote> + <p>Muito baixinho ao ouvido da irmã: </p> +</blockquote> +<pre> Extranho o Judas!</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Sim, talvez; +Porque não julgo prova de criterio, +Antes se me affigura insensatez, +Explicar um segredo co'um misterio.</pre> + +<h4>MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção, +melodiosamente:</h4> +<pre> Anda a tua alma fugida + Ao bom caminho da crença...<span class="pagenum"><a id="pag_52" name="pag_52">[52]</a></span> + Quem foi que d'elle a affastou + E que dentro em ti deixou + Uma escuridão immensa? + Hontem á noite... (Desculpa + Se acaso te contrarío + Ao falar agora d'isto) + Por todos nós foi mal visto, + Judas, o teu desvarío. + De tão modesta homenagem + Não era merecedor + Aquelle Mestre sublime + Em cujo rosto se exprime + A bondade e o amor? + —Anda a tua alma fugida + Ao bom caminho da crença. + Que Deus de novo a conduza + E o brilho reproduza + Na tua alma, treva immensa!</pre> + +<blockquote> + <p>Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o + convencido, diz então baixinho á irmã:</p> +</blockquote> +<pre> Não responde. Pode ser + Que facilmente consigas + Descobrir toda a verdade.</pre> + +<h4>MARIA, querendo esquivar-se:</h4> +<pre> Eu?</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Com palavras amigas + Interroga-o, porque, em summa, + Custa ver n'um coração, + Que deveria ser meigo, + Semelhante ingratidão.</pre> + +<blockquote> + <p>E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado. + Judas e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas, + observa-a.</p> +</blockquote> + +<h4>MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo +a si propria: </h4> +<pre> É mais prudente...<span class="pagenum"><a id="pag_53" name="pag_53">[53]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:</p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:</h4> +<pre> Maria, + Pareces que vaes fugindo...</pre> + +<h4>MARIA baixando o olhar:</h4> +<pre> Para não te incommodar, + Quando estiveres dormindo.</pre> + +<blockquote> + <p>E retira-se tambem, fechando a porta castamente: </p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, +perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por onde +Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos joelhos. Ao +cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:</h4> +<pre>É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa... +Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa, +Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim. +Provem este rancor, que ella sente por mim, +Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala, +Do ente extraordinario a que nenhum se eguala, +Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito. +Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito! +—Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo, +Ainda que me sinta a resvalar no lodo!</pre> + +<blockquote> + <p>E erguendo-se, impetuoso: </p> +</blockquote> +<pre>E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços! +Quando o trovão ribomba altivo nos espaços, +Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho! +Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho! +—... Mas quem me diz não ser este sinistro plano +Improficuo, ou então summamente leviano! +Se elle fugir á morte, ao estertor final, +Por um processo occulto e sobrenatural,<span class="pagenum"><a id="pag_54" name="pag_54">[54]</a></span> +Contra mim lançará todo o furor do ceu, +Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!</pre> + +<blockquote> + <p>Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:</p> +</blockquote> +<pre>Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz, +O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz, +Ó Deus, entoaria, agradecido a ti, +Uma canção igual aos psalmos de David, +Transformando o meu peito em grande tabernaculo! +—Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!</pre> + +<blockquote> + <p>Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um + sorriso malevolo, animando-se:</p> +</blockquote> +<pre>E se, como se diz, elle não fôr divino? +Se obedecer, como eu, á força do destino?... +—Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso +E possante vigor d'um corajoso pulso!</pre> + +<blockquote> + <p>Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente, + Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de Judas, + relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma das + janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, agora + acobardado:</p> +</blockquote> +<pre>Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime. +E como poderei matar, sem ver o crime? +Armando um braço vil? comprando uma consciencia? +É pouco, é muito pouco... e é tudo!—Que demencia! +Quem poderá saber onde reside a féra, +Que tenha peito humano e garras de pantéra?</pre> + +<blockquote> + <p>Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca + espumando:</p> +</blockquote> +<pre>—Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha, +Que vive silenciosa em tua negra entranha, +Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo, +Enorme como Deus, mesquinha como um sapo! +Genio amante do crime e á virtude adverso, +Que mora num covil... e zomba do Universo!<span class="pagenum"><a id="pag_55" name="pag_55">[55]</a></span> +Eu quero conhecer o amigo dos devassos: +Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços!</pre> + +<blockquote> + <p>Com grande desanimo:</p> +</blockquote> +<pre>Nem elle me protege! E eu preciso, emfim, +D'um ser bastante infame!</pre> + +<h4>BENJAMIM com muita humildade:</h4> +<pre> Aqui me tens, a mim...</pre> + +<h4>JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca:</h4> +<pre> Quem és tu? +</pre> + +<h4>BENJAMIM avergado, mas sempre humilde:</h4> +<pre> Sou alguem que te escutava. + O tempo, como vês, não desperdiço... + Não perguntes quem sou. Aqui me tens, + Amigo, ao teu serviço.</pre> + +<h4>JUDAS sem o largar:</h4> +<pre> Ignoro quem tu sejas, mas se acaso + Divulgar o meu odio tencionas, + Juro que em curto praso + No fio de uma lamina abandonas + Co'o meu segredo a vida!</pre> + +<h4>BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa:</h4> +<pre> Cala a bôca! + Não blasfemes de coisas respeitaveis. + Venho fazer propostas acceitaveis, + Dizer tudo o que sinto, + E só respondes co'uma furia louca! + Se me has de receber com effusão, + Achando em mim o teu melhor amigo, + Alevantas a mão, + Ameaçador como um guerreiro antigo! + É ser ingrato!</pre> + +<h4>JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um braço:</h4> +<pre> Dize-me o que sabes!</pre> + +<h4>BENJAMIM sinceramente:</h4> +<pre> Ora! sei que a tua alma se abalança,<span class="pagenum"><a id="pag_56" name="pag_56">[56]</a></span> + Depois do que houve aqui hontem á noite, + A seguir o caminho da vingança. + Naturalmente, sentes-te offendido + Co'a resposta que teve o teu reparo + Tão justo e merecido...</pre> + +<h4>JUDAS como comsigo, satisfeito:</h4> +<pre> Portanto, ignora...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> É isto amigo?</pre> + +<h4>JUDAS, rapido:</h4> +<pre> É isso! +</pre> + +<h4>BENJAMIM explicando:</h4> +<pre> Eu hontem ouvi tudo junto á porta... + —Manda, que eu te obedeço. Aqui me tens, + Humilde, ao teu serviço.</pre> + +<h4>JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes com +Josué.</h4> +<pre> Mas se eu não sei...</pre> + +<h4>BENJAMIM agora senhor de si:</h4> +<pre> Não sabes? Pois sei eu. + O Mestre será morto, em poucos dias; + Depende só de ti, fica sabendo!</pre> + +<h4>JUDAS nervosamente:</h4> +<pre> Que dizes, fariseu?</pre> + +<h4>BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que +parece devorar-lhe as palavras:</h4> +<pre> Ouve: É tremendo + O odio que lhe tem todo o Conselho, + O qual procura o instante mais propicio + De pôr em exercicio + O plano da prisão, do julgamento...</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> E da morte?</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> E da morte! O que, porem,<span class="pagenum"><a id="pag_57" name="pag_57">[57]</a></span> + No actual momento + Ao sacerdote Hanan muito convem + É prendel-o em segredo, + Á noite, em sitio obscuro. Hanan tem medo + De que o povo alevante alguns protestos... + Á prudencia conforme, + Assim procederá.</pre> + +<h4>JUDAS animado, satisfeito:</h4> +<pre> Dize-me então...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> É urgente saber onde elle dorme. + Tu sabes com certeza!</pre> + +<h4>JUDAS hesitando, vagamente acobardado:</h4> +<pre> Mas...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> O quê? + Não queres a vingança, Judas?</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Quero...</pre> + +<h4>BENJAMIM</h4> +<pre> N'esse caso, aproveita o bello ensejo, + Que outro não tens melhor. Sendo sincero + E grande, como julgo, o teu desejo, + Não deves recusar o que proponho. + —Ouviste? Muito bem! Reflecte agora, + Este sitio não é muito seguro... + Aguardo te lá fóra!</pre> + +<blockquote> + <p>Vae-se; Josué segue-o, e os dois desapparecem. </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS ficou perplexo ainda, como medindo a gravidade da proposta. Mas +depois:</h4> +<pre> De que serve hesitar, se me apresentam + Como satisfazer o meu anceio? + Basta que eu seja um cumplice d'Hanan, + Um traidor simplesmente... Nada mais...<span class="pagenum"><a id="pag_58" name="pag_58">[58]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>Com rude franqueza: </p> +</blockquote> +<pre> —Na mão direita a Infamia, + A Consciencia na esquerda. Eu de permeio!</pre> + +<blockquote> + <p>Com funda ironia: </p> +</blockquote> +<pre> A sentença fixei: + «Não saiba a esquerda o que pratíca a irmã.» + —Não saberá, que eu nada lhe direi!</pre> + +<blockquote> + <p>Vae sair, mas a porta que dá communicação para o interior da casa + abre-se, e Maria apparece no cimo dos degraus. Judas quedou-se.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<h4>MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa:</h4> +<pre>Julguei ouvir falar...</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Aqui? Foi puro engano.</pre> + +<blockquote> + <p>E notando um movimento esquivo de Maria: </p> +</blockquote> +<pre>Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno +Com a minha presença?</pre> + +<h4>MARIA condescendente:</h4> +<pre> Oh! não...</pre> + +<h4>JUDAS caricioso:</h4> +<pre> Deixa-te pois +Ficar junto de mim, que facilmente os dois +Teremos na conversa um passatempo. Fica.</pre> + +<blockquote> + <p>E mentalmente: </p> +</blockquote> +<pre>Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.</pre> + +<blockquote> + <p>Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do + primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do + corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a, + apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a + paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se nitidamente + o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez mais intensas e + estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos... </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre><span class="pagenum"><a id="pag_59" name="pag_59">[59]</a></span>Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar, +Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar, +Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto, +E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.</pre> + +<h4>MARIA com simplicidade, avançando um pouco:</h4> +<pre>Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa +Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença. +Ao passo que me opprime este cruel receio +De vêr barafustar o nosso Mestre em meio +Dos inimigos seus, mais frio do que a neve +Se torna o meu olhar.</pre> + +<h4>JUDAS tôrvamente:</h4> +<pre> Deve ser isso, deve...</pre> + +<blockquote> + <p>E depois de algum silencio, ironico: </p> +</blockquote> +<pre>Costumado a subir nos estos d'esse amor +Aos mundos do Ideal, o candido fulgor +Transforma-se em desdem, e apenas se descerra +Perante a mesquinhez que roja pela terra!</pre> + +<blockquote> + <p>O olhar bem fito n'ella, animando-se: </p> +</blockquote> +<pre>Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo, +Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo, +Brilha sinistramente e vem caír direito +N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!</pre> + +<blockquote> + <p>N'um arranco d'alma: </p> +</blockquote> +<pre>Em verdade te digo, ó mulher altaneira, +Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira, +Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama, +Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!</pre> + +<blockquote> + <p>Crescendo em furia: </p> +</blockquote> +<pre>Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós +Para que emfim termine este supplicio atroz! +Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda,<span class="pagenum"><a id="pag_60" name="pag_60">[60]</a></span> +E vae saír de mim, como em torpel a onda, +Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido! +—Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido, +E deixa de cuidar n'essa paixão agora, +Que é maior a paixão que todo me devora!</pre> + +<blockquote> + <p>Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto: </p> +</blockquote> +<pre>Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar: +É puro o teu amor, não é amor vulgar... +Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida, +No centro da minha alma em sangue e dolorída +Existe uma paixão tambem que me envenena, +Podendo ser mortal, assim como a gangrena...</pre> + +<blockquote> + <p>Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a + roupagem: </p> +</blockquote> +<pre>Ah! no supremo arranco um peito esfacelado +Como este, não receia o que haja mais sagrado, +E julga-se capaz, co'o seu valor enorme, +De luctar e vencer o ente mais disforme, +Terrivel como Deus, gigante como Adão, +Possuindo na voz as frases do trovão! +E porque sinto aqui as contorsões finaes, +Espando francamente as máculas brutaes, +Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo: +Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!</pre> + +<blockquote> + <p>Grande e soberbo, de braços abertos, espéra. </p> +</blockquote> + +<h4>MARIA que não se moveu, serenamente:</h4> +<pre>Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas; +Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.</pre> + +<h4>JUDAS n'um rugido:</h4> +<pre>Maria!</pre> + +<h4>MARIA sempre immovel:</h4> +<pre> Com franqueza, eu disse-te por vezes:<span class="pagenum"><a id="pag_61" name="pag_61">[61]</a></span> +Em castidade egual ás innocentes rezes +No Templo do Senhor dadas em sacrificio, +Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio, +Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha +Acrisolado amor, amor... como de filha. +Na terra nada mais preciso que uma coisa: +A Crença.</pre> + +<blockquote> + <p>Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal: </p> +</blockquote> +<pre> O meu amor longe d'aqui repoisa, +Estrella que não teme as nuvens tempestuosas. +Brando como o dormir das aguas silenciosas, +Vago como o misterio enorme do futuro, +Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro, +Nos espaços do azul vive risonho e inerme. +A estrella é sempre estrella...</pre> + +<blockquote> + <p>Descendo o olhar para Judas: </p> +</blockquote> +<pre> e o verme é sempre verme.</pre> + +<h4>JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:</h4> +<pre>Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor, +Fugindo á grande lei do grande Creador, +Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre +Para tornar assim fecundo o estéril ventre!</pre> + +<h4>MARIA sem se perturbar:</h4> +<pre>Enlouqueceste!</pre> + +<h4>JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto +dolorido, n'um queixume:</h4> +<pre> Mas se eu nunca fui amado! +Assim como o terreno a que não chega o arado, +Semelhante em mudez ás pedras do caminho, +Era o meu coração. Via-me tão sósinho, +Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus, +Interrogava o Espaço, interrogava Deus, +Procurava arrancar ás trevas o motivo +De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.<span class="pagenum"><a id="pag_62" name="pag_62">[62]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido, como + revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em curvas + graciosas, languidas: </p> +</blockquote> +<pre>Mas desde que no teu o meu olhar depuz, +Enxerguei o brilhar d'uma divina luz +Na immensa escuridão d'este viver amargo +E senti-me surgir do fundo do lethargo. +Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem, +Adorada Maria, envolta na roupagem +Tão alva como o arminho, immaculada e honesta: +No prado sorridente, em meio da floresta, +Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros, +No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros... +Por toda a parte, em summa!—Adoro-te, Maria! +No caminho da vida o teu olhar me guia... +Vem dar uma esperança ao pobre coração +Que vive para ti, que te pertence...</pre> + +<h4>MARIA com ligeiro movimento de cabeça:</h4> +<pre> Não.</pre> + +<h4>JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:</h4> +<pre>Oh! que negra palavra, amarga como fel!</pre> + +<h4>MARIA com a voz tranquilla:</h4> +<pre>Á doutrina do Mestre...</pre> + +<h4>JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz:</h4> +<pre> O Mestre!...</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> ... és infiel. +Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro +Do que seja o dever, e que se torna avaro, +Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista! +Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista! +Se não queres viver do amor pela virtude, +Se á pureza é rebelde essa tua alma rude, +Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte: +Foge para distante, ou foge para a Morte.<span class="pagenum"><a id="pag_63" name="pag_63">[63]</a></span></pre> + +<h4>JUDAS allucinado, avançando para ella:</h4> +<pre>Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala! +Fica sabendo pois que isto que me avassala, +O que por fim se espande e que ha de ser funesto, +Nunca foi do amor um sentimento honesto!</pre> + +<h4>MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:</h4> +<pre>Maldito sejas tu, se acaso me tocares!</pre> + +<h4>JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos, +agarrando-a:</h4> +<pre>Que importam maldições inuteis e vulgares? +Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os, +Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!</pre> + +<blockquote> + <p>E tenta beijal-a, soffrego: </p> +</blockquote> + +<h4>MARIA evitando-lhe os beijos:</h4> +<pre>Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!</pre> + +<h4>JUDAS arrastando-a para o triclinio:</h4> +<pre>Chamaste muito bem á minha ardente furia, +Como o fogo voraz, cruel e deshumana, +Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.</pre> + +<h4>MARIA com a voz estrangulada, luctando:</h4> +<pre>Soccorro! Eleazar!</pre> + +<h4>JUDAS pondo-lhe a mão na bôca:</h4> +<pre> Oh! cala-te!</pre> + +<h4>MARIA já sem forças:</h4> +<pre> Meu Deus!</pre> + +<h4>JUDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:</h4> +<pre>Ah! como são gentis assim os olhos teus! +Como é rosada e fina a tua debil mão! +Vaes ser minha, afinal!</pre> + +<blockquote> + <p>Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade, + abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas, + diz n'um murmurio de desespero:</p> +</blockquote> +<pre> Desfallecida?!...</pre> + +<blockquote> + <p>Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem + em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel <span + class="pagenum"><a id="pag_64" name="pag_64">[64]</a></span>attracção, com + o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o contra si... + Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza lhe désse um + grito na alma: </p> +</blockquote> +<pre> Não!!</pre> + +<blockquote> + <p>E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos + campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um lirio + d'Issachar... </p> +</blockquote> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_65" name="pag_65">[65]</a></span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<h1>TERCEIRA JORNADA</h1> + +<h2>EM 13 DE <i>NISAN</i></h2> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_66" +name="pag_66">[66]</a></span></p> + +<h2>TERCEIRA JORNADA</h2> + +<h3>EM 13 DE <i>NISAN</i></h3> + +<blockquote> + <p>Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio + Pilado, tudo é silencioso, embora a noite só agora acabe de tombar.</p> + + <p>Assenta o elevado tecto em dez columnas não distantes das paredes; é de + mosaico branco e preto o chão marmoreo. Duas portas fronteiras communicam, + uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as diversas + dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente, achegado um + pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que dá para um terraço + resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria d'ali conduz ao + andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da quadra, ergue-se um + busto de guerreiro: é de marmore branco o pedestal; de roseo o busto, em + cuja base lêmos, em caracteres romanos esculpida, a legenda: <i>Tiberius + Claudius Nero, Imp</i>. Das portas ha pendentes reposteiros de azul e oiro. + É da mesma fazenda o reposteiro que está ornando o arco e repuxado junto ao + angulo. Fitando nós o busto de Tiberio, temos sobre a direita larga meza de + citrus, onde ardem n'um bronzeo candalabro trez vellas de cêra e pez; e + perto d'ella vemos uma cadeira d'estofado, de braços longos, costas amplas + e recurvas; á nossa esquerda, perto das columnas, coxim de bronze com + embutidos de tartaruga e trez almofadas de lavor riquissimo; não distante, + no chão, está estendida grande pelle de leão do Atlas. Um armario de ébano + macisso alonga-se na parede junto ao arco e <span class="pagenum"><a + id="pag_68" name="pag_68">[68]</a></span>sobre elle se ostenta graciosa + clepsydra de bronze, onde um Éros aponta com a flécha a escala das horas + que decorrem.</p> + + <p>Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraças, capacetes, + escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o pilo de oiro + cinzelado.</p> + + <p>Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas + espargem frouxamente, côr de prata a que o chão do terraço reenvia e que a + Lua derrama das alturas. A cidade dormita lá em baixo; e o luar, banhando + as casarías, dir-se-ía illuminar uma necropole.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>No coxim do terraço está Claudia reclinada. A tunica é de lã; escura e + longa a estóla. Tem os braços cobertos pelas mangas da segunda tunica, e é + branca a facha que os cabellos lhe prende em élos brandos. Perto de Claudia + a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar cançado o por demais + conhecido panorama. </p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA solta emfim um suspiro.</h4> +<pre> Dorme tudo na cidade. + Que silencio e que tristeza!...</pre> + +<h4>GEDA</h4> +<pre> Tens então grande saúdade + De Roma?</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Sim. Dizes bem: + É saúdade esta amargura, + Pois outro nome não tem + O que sinto na Judéa + Onde Poncio me exilou. + —Que horas podem ser? Vê lá.</pre> + +<h4>GEDA vae ligeira ao candalabro; d'elle tira uma vella e dirige-se á +clépsydra. Repõe depois no seu logar a vella, e voltando para junto de +Claudia:</h4> +<pre> Salvo engano, gottejou + A segunda hora de prima...</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Por Saturno, é muito cedo, + Pois não é?<span class="pagenum"><a id="pag_69" name="pag_69">[69]</a></span></pre> + +<h4>GEDA</h4> +<pre> Tambem eu cria + Ser mais tarde.</pre> + +<h4>CLAUDIA boceja largamente.</h4> +<pre> Agora, em Roma, + Ouve-se ainda a folia + Da multidão buliçosa, + Que de toda a parte assoma, + Soltando ao vento a harmonía + Da sua voz descuidosa...</pre> + +<blockquote> + <p>Vem Poncio, taciturno, e para a meza se encaminha, trazendo na mão + direita um escripto em papyro. É homem d'estatura mais do que regular, e de + idade viril. Rosto livre de pellos; o nariz aquilino; bôca breve, olhos + negros e vivos; curto cabello em curvas de frisados, testa larga onde as + rugas bem se ageitam. Alva a tunica e alvo o manto farto; sandalhas + amarellas; mãos carnudas. Sentou-se junto da meza, e o papyro consulta. </p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA indolente, para Geda:</h4> +<pre> Ali tens quem me trouxe para o <i>exilio</i>! + Se não dormem Plutão nem Proserpina, + Hão de cedo chamal-o ao domicilio + Onde cáem as victimas da Morte!</pre> + +<blockquote> + <p>Muito ironica:</p> +</blockquote> +<pre> Que inspiração divina + Eu tive ao escolher este consorte!</pre> + +<blockquote> + <p>Com um gesto ordena a Geda que se retire. Ergue-se do coxim, e + adiantando-se para Poncio, que não a viu:</p> +</blockquote> +<pre> Que novas trazes, Poncio?</pre> + +<h4>PONCIO sem se voltar, continuando a lêr:</h4> +<pre> É de Tiberio + Foi-me enviado este papyro honroso.</pre> + +<h4>CLAUDIA em sobresalto infantil:</h4> +<pre> O quê?! Novas de Roma?</pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre> O grande imperio<span class="pagenum"><a id="pag_70" name="pag_70">[70]</a></span></pre> +<pre> Continúa radiante e venturoso. + Foi porém necessario reprimir, + No principio do anno, + Certa conspiração que fôra urdida + Pelos amigos do traidor Sejano. + A mensagem termina + Aconselhando a que use da violencia.</pre> + +<blockquote> + <p>E lê pausadamente, accentuando muito as palavras:</p> +</blockquote> +<pre> «Aprende em mim como o poder se eleva + E como se elimina + Todo aquelle que tenha a impudencia + De attentar contra a posse d'este manto. + Faze como eu tambem: + Reprime a todo o custo a rebeldia. + Talvez no Templo se conspire. Emquanto + Mostres sabedoria, + Espirito sensato, forte e agudo, + Podes contar comigo. + Recommenda a Claudia, Poncio amigo. + Por Jove, te saúdo».</pre> + +<blockquote> + <p>Põe de parte o papyro e reclina a fronte na mão.</p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA que em silencio ficára appreensiva:</h4> +<pre> O que vaes responder?</pre> + +<h4>PONCIO sem se mover:</h4> +<pre> Já respondi.</pre> + +<h4>CLAUDIA apoiando-se nas costas da cadeira por detraz d'elle:</h4> +<pre> Permaneces?</pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre> Decerto, pois me cumpre.</pre> + +<blockquote> + <p>Na perna esquerda sobrepõe a direita, fazendo-a oscillar por longo + tempo.</p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA não podendo conter a intima revolta:</h4> +<pre> Bella esperança! Hei de viver aqui, + Segundo me parece, eternamente! + —Casou Venus com Marte e foi o Amor<span class="pagenum"><a id="pag_71" name="pag_71">[71]</a></span> + O que nasceu da conhecida união; + Casei comtigo, audaz procurador, + A principio amoroso, bom, cortez... + O que nasceu, por fim, d'este consorcio? + Nasceu a Insipidez!</pre> + +<h4>PONCIO enrugando a testa e sem olhar para Claudia:</h4> +<pre> Pela divina <i>Isis</i> que estás louca, + Ou requintas de véras em maldade!</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Talvez seja melhor + Não despertar do Nilo a divindade! + —N'estes ultimos annos tenho sido + Verdadeiro modelo de matrona... + Sabes que ambiciona + A minha alma fugir a tal desterro, + E não queres pedir a demissão! + Imaginas talvez ser este o meio + De garantir a minha honestidade? + Pois olha, estás em erro! + Não me curvo a pressões tão aviltantes. + Se não fôr satisfeito o meu desejo, + Perderei todo o pejo... + —Inda possuo algum, valha a verdade!— + E para me vingar bem cruelmente + Serei mais leviana do que d'antes!</pre> + +<h4>PONCIO que se voltára, encarando n'ella, e em tom suasorio:</h4> +<pre> Tu não vês que deixarmos a Judéa + Não seria prudente? + Tiberio é para nós inexcedivel + Em attenções, e dá-me como prémio + A confiança. Bastaria a idéa + Da minha demissão, para de vez + Nos expulsar do resumido grémio + Dos seus affeiçoados, e talvez<span class="pagenum"><a id="pag_72" name="pag_72">[72]</a></span> + Depois se transformasse em vingador... + —Pede outra coisa, Claudia; nunca peças + O que julgo insensato. + Somos grandes aqui; nenhum valor + Teriamos na côrte. Não te esqueças + Da sorte de Coponio, Rufo e Grato, + Ao voltarem a Roma. + Pede outra coisa, Claudia, que por certo + Has de ser attendida. + Não me digas, porém, que vá trocar + Aquillo que é seguro pelo incerto.</pre> + +<h4>CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece:</h4> +<pre> Mas que m'importa, a mim, o teu logar, + Se eu desejo viver onde se viva? + Em Roma, na cidade portentosa, + Onde qualquer escrava é mais altiva + Que uma nobre judía virtuosa! + Onde Gelanio, o deus das gargalhadas, + Desinfecta as emmanações palustres + Da tristeza! onde as pedras das calçadas + Falam até de tradições illustres! + Quero fugir d'este mortal supplicio + Para onde o meu ser se espanda e vibre; + Participar no seductor bulicio, + E ver á tarde o Sol beijar o Tibre! + Assistir como outr'ora aos festivaes + No grande circo onde o valor impéra; + Vêr athletas sanguineos, triunfaes + E ouvir os rugidos d'uma féra! + Beber o doce vinho de Falerno, + Ser cortezã, de novo rir e amar... + Dêem-me vida longe d'este Averno, + E que m'importa, a mim, o teu logar!</pre> + +<h4>PONCIO resoluto, imperioso, deixando caír na meza a mão espalmada:</h4> +<pre> O que uma vez escrevo, escripto fica!<span class="pagenum"><a id="pag_73" name="pag_73">[73]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>Depois, mais brando: </p> +</blockquote> +<pre> Não fugirei ás ordens de Tiberio. + De mais, coisa nenhuma justifica + Em solidas razões o que me pédes.</pre> + +<blockquote> + <p>E volta á primitiva posição. </p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA decorridos alguns instantes, refreando a cólera:</h4> +<pre> Disseste?</pre> + +<h4>PONCIO indifferente:</h4> +<pre> Disse.</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> É caso firme e assente + Permanecer?</pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre> Que dúvida!</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Não cédes + Nem aos meus rogos?</pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre> Não.</pre> + +<h4>CLAUDIA muito a sério:</h4> +<pre> És imprudente... + —Sabes que fui amante de Tiberio?</pre> + +<h4>PONCIO bamboleando a perna e sem mudar de expressão:</h4> +<pre> Tenho ouvido dizer.</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Não desconheces + Que se é meigo, tambem é vingativo + O meu caracter. Pois talvez um dia + Desappareça o teu falar altivo. + Tiberio, com certeza, + Muito embora já tenha algumas cans, + Ha de ainda lembrar-se da belleza + Das suas cortezãs...</pre> + +<h4>PONCIO franzindo lévemente o sobr'olho:</h4> +<pre> Não comprehendo bem. Com isso tudo + O que vens a dizer?<span class="pagenum"><a id="pag_74" name="pag_74">[74]</a></span></pre> + +<h4>CLAUDIA sorrindo, palaciana e misteriosa:</h4> +<pre> Que te saúdo...</pre> + +<blockquote> + <p>E recolhe em silencio aos seus aposentos, deixando tombar atraz de si as + prégas do reposteiro. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>Poncio ficou sósinho, meditando. Logo apparece no terraço o Ostiario que + veio do andar terreo pela escada exterior. </p> +</blockquote> + +<h4>O OSTIARIO</h4> +<pre> Poncio, recebes agora?</pre> + +<h4>PONCIO erguendo-se:</h4> +<pre> E quem é que me procura?</pre> + +<h4>O OSTIARIO</h4> +<pre> O sacerdote judeu + Hanan.</pre> + +<h4>PONCIO surprezo, como comsigo:</h4> +<pre> Hanan procurar-me + Na Torre Antonia, a esta hora? + —Ostiario, succedeu + Alguma coisa?...</pre> + +<h4>O OSTIARIO</h4> +<pre> Não sei. + O povo está socegado.</pre> + +<h4>PONCIO depois de reflectir:</h4> +<pre> Manda entrar o sacerdote + Para aqui mesmo.</pre> + +<blockquote> + <p>Retira-se para o terraço o Ostiario. Poncio, que ficára preoccupado, diz + como comsigo: </p> +</blockquote> +<pre> Cuidado!...</pre> + +<blockquote> + <p>Vae buscar uma adaga á panoplia mais proxima e mette-a no cinturão; pôe + em cima da meza o pilo de ouro que estava encostado ao busto de Tiberio. + Senta-se novamente na cadeira. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>A um gesto do Ostiario, dois vultos subiram a escada, e a breve trecho + appareceram no terraço; são dois homens, cujos semblantes o luar illumina. + Um é Judas; o outro um velho de setenta annos, mas válido e robusto—o + ex-Grande Sacerdote Hanan, sogro do Grande Sacerdote Kaíapha. Meão + d'estatura, barba cerrada e não <span class="pagenum"><a id="pag_75" + name="pag_75">[75]</a></span>comprida onde abundam as brancas, assim como + no bigode hirsuto e no longo cabello descuidado; nariz adunco, olhos azues + e penetrantes. E seu trajar egual ao do mais humilde filho d'Israel: tunica + e manto, mitra redonda no alto da cabeça; chinellos muito usados. Dir-se-ía + que tal modestia d'aspecto foi um calculo, um disfarce... Ha porem na sua + fisionomia e na voz resoluta e aspera a expressão da velhacaria e do + mando.</p> + + <p>O Ostiario retirou-se pela escada. Judas foi postar-se junto do busto de + Tiberio, com ar matreiro, e d'ali segue attento as fases do dialogo a que + vamos assistir.</p> +</blockquote> + +<h4>HANAN que se adiantou até á presença de Poncio, curvando-se perante +elle:</h4> +<pre>Tenho intima alegria, ao ver que no teu rosto +Amavel transparece um juvenil composto +De puro entendimento e de vigor e saúde. +No falar respeitoso, humilde na attitude, +O sacerdote Hanan ao grande Poncio envia +Protestos de leal e eterna simpathia.</pre> + +<h4>PONCIO que nem para elle olhou, desdenhoso:</h4> +<pre>O alamo gigante, ao estender os braços +Como para cingir Apollo, que os espaços +Domína, mostra quanto é grande na affeição, +Mas fructos não produz: É como a adulação. +—Hanan, ouvir-te-ei attentamente.</pre> + +<h4>HANAN fingindo não ter percebido:</h4> +<pre> Vim +Para que tu me dês auxilio.</pre> + +<h4>PONCIO ironico:</h4> +<pre> Como assim? +De noite? acompanhado?</pre> + +<h4>HANAN</h4> +<pre> Este homem ouve, e cala +Tudo o que ouvir. Demais, é-nos preciso.</pre> + +<h4>PONCIO voltou-se um pouco, lançou um rapido olhar a Judas, e depois, +encostando o braço á meza e com a cabeça reclinada na mão:</h4> +<pre> Fala.</pre> + +<h4>HANAN muito submisso de começo:</h4> +<pre>Embora nos vencesse a furia dos romanos<span class="pagenum"><a id="pag_76" name="pag_76">[76]</a></span> +Em tempos que lá vão; embora muitos damnos +Haja soffrido o povo heroico d'Israel, +Ás suas tradições conserva-se fiel, +Na crença do seu Deus respeito manifesta. +Religião sómente é hoje o que lhe resta, +Porque tudo entregou ás mãos do vencedor; +Por isso ha de manter, altivo e com fervor, +O que elle considera um virginal trofeu! +—Dize-me então se é justo ou não é justo que eu +Procure lealmente ao povo garantir +A crença de Moysés, agora e no porvir.</pre> + +<h4>PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle desdem +dos romanos pelos povos vencidos:</h4> +<pre>Não sei do que se trata, Hanan; mas sempre digo +Uma coisa que eu penso ha muito a sós comigo: +Do leito has de saír com mais celeridade +Para zelar melhor a tua propriedade, +E com menos se alguem te fôr dizer, de rastros, +Que descobriu no ceu ladrões roubando os astros.</pre> + +<h4>HANAN offendido, elevando a voz:</h4> +<pre>Duvídas de que seja o meu falar sincero? +Julgas que estou mentindo, e em nada considero +A minha crença?</pre> + +<h4>PONCIO olhando para elle de fito, severamente:</h4> +<pre> Olá!...</pre> + +<h4>HANAN matreiro:</h4> +<pre> Desculpa-me. Prometto +Não me exaltar de novo, ó Poncio.</pre> + +<h4>PONCIO sem desviar d'elle o olhar:</h4> +<pre> O mel do Hymetto +Agrada a toda a gente... e fica bem na fala.</pre> + +<h4>HANAN muito submisso:</h4> +<pre>Dou-te razão; mas vê que dôr nenhuma eguala +A dôr que sinto. E não terei motivo? Escuta: +Aquella sã doutrina, a doutrina impoluta<span class="pagenum"><a id="pag_77" name="pag_77">[77]</a></span> +Que nos deixou Moysés, o grande fundador +Da nação, que livrou das garras do oppressor +O povo escravisado, e que á ditosa grei +Legou, depois da Fuga, um Deus e Patria e Lei! +A doutrina sublime, erario de virtudes, +Que tem ficado illesa ainda nas mais rudes +Provações...</pre> + +<h4>PONCIO cortando a harenga, novamente em tom sarcastico:</h4> +<pre> Vaes falar d'alguem profeta novo, +Que anda por'hi talvez a amotinar o povo +Contra os amigos teus?—Pois hei de protegel-o. +Apraz-me não tocar nem siquer n'um cabello +D'esse homem.</pre> + +<h4>HANAN refreando a cólera:</h4> +<pre> Mas porquê? Terás razões secretas?</pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre>Quem as tem não sou eu: são elles, os profetas, +Ao falarem de ti.</pre> + +<h4>HANAN com ironia e falsa humildade:</h4> +<pre> Então! sê razoavel +E mostra coherencia, ó tiranno implacavel! +Um cadaver de mais, um cadaver de menos, +É coisa que não leva aos teus dias serenos +Nenhuma inquietação, nenhum remorso.</pre> + +<blockquote> + <p>Animando-se pouco a pouco:</p> +</blockquote> +<pre> E quando +Um sacerdote probo e honesto e venerando +Em nome da Judéa a morte solicíta +Para um vil criminoso, o teu rancor hesíta?!</pre> + +<blockquote> + <p>Esplodindo, francamente: </p> +</blockquote> +<pre>De cumprir o dever percebo o que te afasta: +Quem te fala sou eu, que tu odeias!</pre> + +<h4>PONCIO fitando-o enfurecido, dá um murro na meza; e erguendo-se:</h4> +<pre> Basta! +Sabes que essas razões não oiço, nem toléro,<span class="pagenum"><a id="pag_78" name="pag_78">[78]</a></span> +E que digo uma vez que não, quando não quero! +—Como o poder de Roma aos homens do Conselho +Tirou todo o poder de tingir de vermelho +N'um banho sanguinario os corpos fraternaes, +Privados de lavrar sentenças capitaes +Sem que eu lhes dê meu voto, imaginaste, Hanan, +Que eu poderia, qual infame barregã, +Despejar a vergonha á rua, como o lixo, +Para satisfazer depois o teu capricho? +Porque uma voz protesta e clama contra o vil +Conselho que assoberba o povo e que, febril, +Anda a espiar na sombra, a procurar o instante +Em que ha de ser traidor ao Cezar triunfante; +Porque um homem possue a civica ousadia +De guerrear talvez a tua hipocrisia, +Venerando ancião, tiveste uma lembrança: +Transformar o meu voto em arma de vingança +Cobarde! Sim! Bem vejo a idéa que te inflamma!</pre> + +<blockquote> + <p>Agarrando no pilo: </p> +</blockquote> +<pre>Pois digo-te que nunca has de caír na lama +Co'o pilo de oiro! Não! D'Oriente a Occidente, +A aguia de Roma é grande, e nunca foi serpente!</pre> + +<blockquote> + <p>E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se. </p> +</blockquote> + +<h4>HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz:</h4> +<pre>Eu não falo por mim; eu falo por Moysés, +Cuja doutrina tem sido calcada aos pés +D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha +Ao direito e á lei; que os pobres arrebanha +Só para dizer mal dos grandes e dos ricos; +Que dirige a palavra aos seres impudícos, +Ás mulheres venaes, aos infimos ladrões; +Que anda em nome de Deus a conceder perdões +A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino, +Se atreve a inculcar como um ente divino!<span class="pagenum"><a id="pag_79" name="pag_79">[79]</a></span></pre> + +<h4>PONCIO tranquillo, sorrindo:</h4> +<pre>Quem sabe?... Pode ser...</pre> + +<h4>HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia:</h4> +<pre> O quê?!</pre> + +<h4>PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras:</h4> +<pre> Se te reféres +Ao Nazareno em vão me falas. Nunca espéres +Que eu ponha ao teu serviço a minha autoridade +Para o matar. Não mato uma celebridade. +Conheço-o muito bem. Inda ha trez dias teve +Uma grande ovação. De resto, não se atreve +A suscitar no povo o odio contra o Império: +Deseja que se entregue a Deus e a Tibério +O que pertence a Deus e o que pertence a Roma. +Agrada-me o desejo. É o melhor diploma +Que lhe ha de garantir a minha protecção.</pre> + +<h4>HANAN ao ouvido de Judas:</h4> +<pre>Ficou tudo perdido, ó Judas.</pre> + +<h4>JUDAS reservadamente:</h4> +<pre> Ainda não. +Péde para eu falar.</pre> + +<h4>HANAN</h4> +<pre> Duvído...</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Experimenta.</pre> + +<h4>HANAN muito supplicante a Poncio:</h4> +<pre>Senhor, ouve as razões que este homem apresenta: +Conhece o Nazareno, e sabe tudo...</pre> + +<h4>PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:</h4> +<pre> Vá. +Pode falar, mas bréve.</pre> + +<h4>JUDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si, +firme, resoluto, assim começa:</h4> +<pre> Eu nasci em Judá. +Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso,<span class="pagenum"><a id="pag_80" name="pag_80">[80]</a></span> +Me curvei de Tibério ao vulto majestoso. +—Engana-te, senhor, aquelle que disser +Que o profeta de quem falou Hanan requer, +Como acabei de ouvir, as attenções do povo +Para o império de Roma.</pre> + +<h4>PONCIO estremeceu, carregou o semblante:</h4> +<pre> O quê?</pre> + +<h4>JUDAS com sinceridade hypocrita:</h4> +<pre> Não me demôvo +De dizer a verdade, inda que soffra o peso +Do remorso, indicando um amigo indefeso +Á justiça de Roma e do Conselho! Brado +Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado! +O Profeta conspira, em intimo rancor, +Contra a lei de Moysés e contra o vencedor! +—De tal conspiração confio-te o segredo...</pre> + +<blockquote> + <p>Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora, + insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á curva + da cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e fixo em um + ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem dos labios de + Judas como subtil veneno. </p> +</blockquote> +<pre>Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo +Austero, alcantilado, enorme?—Toda a gente +Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente, +Que do seu dormitar ninguem o accordaria, +Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria +Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu... +Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu, +Barafustou no espaço, e com fragor medonho +Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho! +—Que forças colossaes, que forças imprevistas +O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas +Majestosas, assim que despontava ao largo; +A Lua namorada, em languido lethargo, +Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio,<span class="pagenum"><a id="pag_81" name="pag_81">[81]</a></span> +Que as lagrimas do ceu tornavam tão macío +Como um peito de cisne ou face de mulher... +O proprio Creador do Mundo nem siquer +Lhe causava receio. Em doidas convulsões, +Um raio desabou das vastas amplidões +Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada, +Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada! +—Que forças colossaes, que forças imprevistas, +Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas? +Que forças?—Perguntae-o áquella massa informe, +Que por vezes murmúra e que por outras dorme +Em profundo silencio; interrogae o Mar, +Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar +Do horisonte sem fim, da solidão distante, +Para oscular os pés do impávido gigante! +Interrogae o vil hipocrita, que ao passo +Que era meigo e humilde, em fraternal abraço, +Tratava de roer, silenciosamente, +As bases do colosso athletico e indiff'rente, +Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho, +No abismo tombou com fragor tão medonho, +Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito, +Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!</pre> + +<h4>PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços +alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da vasta +quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.</h4> +<pre>Ha colossos que teem gigantes nas entranhas, +Féros como leões, grandes como as montanhas! +Possuem dos clarins as frases inspiradas, +E fusilam do olhar relampagos d'espadas! +Ó mares da perfidia, andaes a carcomer +As bases do colosso herculeo do poder? +Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes! +Ondas que assim correis, que vindes em galopes, +Apressadas, servís, infames... Para traz!<span class="pagenum"><a id="pag_82" name="pag_82">[82]</a></span></pre> +<pre>Que para reprimir a vossa furia audaz, +Para que o vosso dente ao monstro não carcoma, +Basta um simples olhar dos hercules de Roma!</pre> + +<blockquote> + <p>E passeiando agitado, raciocinando e resolvendo de prompto: </p> +</blockquote> +<pre>Prefiro debelar de prompto a crise. Ignoro +Se falaste verdade, ou se acaso labóro +Em uma vil intriga! A dúvida me envolve... +Mas n'esta situação o meu poder resolve +O que julga efficaz. Esse traidor proféta +Ha de attingir ainda hoje a tenebrosa méta +Da existencia. Vou dar a ordem da prisão +Do Zéfiro subtil com furias d'Aquilão!</pre> + +<h4>HANAN detendo-o, supplicante, receioso:</h4> +<pre>Sê prudente, senhor. O sangue d'innocentes +Não deverá correr. Escuta os meus prudentes +Conselhos, bom amigo. Ai! poupa-me a Judéa!... +Escuta-me, por Deus! e a indignação refreia! +Tenho medo do povo... elle é tão leviano!... +Será muito melhor seguir o nosso plano.</pre> + +<h4>PONCIO sem querer ouvil-o:</h4> +<pre>Que poderá falhar!</pre> + +<h4>HANAN n'um protesto:</h4> +<pre> Que é firme!</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Que é seguro!</pre> + +<h4>HANAN matreiramente:</h4> +<pre>Uma escolta romana ao meu dispôr, e juro +Por Moysés que ámanhã de noite será preso +O Nazareno.</pre> + +<blockquote> + <p>E em tom de muita confiança, como velha autoridade que bem conhece os + seus governados:</p> +</blockquote> +<pre> O povo ha de ficar surpreso, +Ao saber no outro dia a grande nova. Embora! +Não deve protestar, porque elle não ignora +Que é depois d'ámanhã o dia consagrado<span class="pagenum"><a id="pag_83" name="pag_83">[83]</a></span> +Ao festejo da Paschoa. Assim, manietado +E mudo, ha de assistir ao julgamento e morte +Do Proféta.—Senhor, bem vês que d'esta sorte +Moysés perde um rival, Tibério um inimigo. +—Este homem prometteu que ha de ensinar o abrigo +Onde fica de noite o Nazareno occulto +E os discipulos...</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Que hão de fugir ao tumulto...</pre> + +<h4>PONCIO que os ouviu taciturno, balbucia, como falando a si proprio:</h4> +<pre>«Um cadaver de mais, um cadaver de menos +É coisa que não traz aos meus dias serenos +Nenhuma inquietação, nenhum remorso...»—Hanan, +Dás-me a tua palavra...?</pre> + +<h4>HANAN</h4> +<pre> O Proféta, ámanhã +Por esta hora, se Deus não se mostrar contrário, +Ha de estar preso.</pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre> Bem! Pois n'esse caso...</pre> + +<blockquote> + <p>Dirige-se ao terraço e batendo as palmas, chamando: </p> +</blockquote> +<pre> Ostiario!</pre> + +<h4>HANAN radiante de alegria, ao ouvido de Judas:</h4> +<pre>Ganhámos, afinal! Serás recompensado +Pelo teu grande zelo, ó Judas.</pre> + +<h4>JUDAS soturno:</h4> +<pre> Obrigado...</pre> + +<h4>HANAN</h4> +<pre>Um prémio te darei. Trinta moedas; queres? +De prata!</pre> + +<h4>JUDAS indifferente:</h4> +<pre> Sim, Hanan... Acceito o que me deres.</pre> + +<h4>O OSTIARIO que appareceu no terraço:</h4> +<pre>Chamaste-me?<span class="pagenum"><a id="pag_84" name="pag_84">[84]</a></span></pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre> É de crêr que no Pretorio esteja +Algum centurião. É Poncio quem deseja +Que se dê cumprimento a tudo que estes dois +Homens disserem.</pre> + +<h4>O OSTIARIO</h4> +<pre> Bem.</pre> + +<h4>PONCIO</h4> +<pre> Fique entendido pois. +Ao Pretorio tu mesmo agora os encaminha.</pre> + +<blockquote> + <p>E passando pela frente de Judas e de Hanan, sem para elles olhar, + retira-se para os seus aposentos. </p> +</blockquote> + +<h4>HANAN que se curvára muito á passagem de Poncio, murmúra:</h4> +<pre>Moysés ha de vencer!...</pre> + +<h4>JUDAS tambem n'um murmurio, quasi inaudivel:</h4> +<pre> Maria ha de ser minha!...</pre> + +<blockquote> + <p>Vão-se com o Ostiario pela outra porta. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>Apparece então a escrava Geda, que se encaminha para o terraço. </p> +</blockquote> + +<h4>GEDA affasta o coxim, trazendo-o para o interior da quadra e faz correr +parte do reposteiro que pende do arco.</h4> +<pre> Vae repoisar a minha ama... + Como a noite é calma e linda! + Mas ninguem ha que prescinda + Das indolencias da cama! + Muito ingrata a Humanidade, + Que acha as trévas de Morpheu + Preferiveis a este ceu + De risonha castidade! + Talvez seja por vingança + Que a mostrar-nos a outra face + A Lua não se abalança! + Seja lá pelo que fôr,<span class="pagenum"><a id="pag_85" name="pag_85">[85]</a></span> + Que sem protesto não passe, + Diana, o teu desamor!</pre> + +<blockquote> + <p>Acaba de fazer correr brandamente o reposteiro. Depois vae buscar o + candalabro e dispõe-se a leval-o comsigo.</p> + + <p>Mas o reposteiro agita-se, é corrido pela parte exterior por mão nervosa + e resoluta, e uma mulher d'Israel apparece offegante, com o rosto occulto + por espesso veu de lã negra.</p> +</blockquote> + +<h4>A MULHER adiantando-se como procurando alguem:</h4> +<pre> Claudia?</pre> + +<h4>GEDA admirada e insolente:</h4> +<pre> Quem te deu a livre entrada? + Que vens fazer aqui, judía?</pre> + +<h4>A MULHER</h4> +<pre> Venho + Para falar a Claudia, unicamente + É este o meu empenho.</pre> + +<h4>GEDA</h4> +<pre> E que importa o motivo, se é costume + Não entrar sem licença do Ostiario?</pre> + +<h4>A MULHER</h4> +<pre> Em pouco a minha falta se resume: + Vi tudo solitario...</pre> + +<h4>GEDA</h4> +<pre> Esperasses.</pre> + +<h4>A MULHER</h4> +<pre> Desculpa-me...</pre> + +<h4>GEDA</h4> +<pre> Duvído + De que a minha ama te receba. É tarde. + A menos que a tivesses prevenido + De vir, e que te aguarde.</pre> + +<h4>A MULHER assumindo attitude imperiosa:</h4> +<pre> Urge que eu fale a Claudia. É muito sério + O que me traz!</pre> + +<h4>GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na +meza.</h4> +<pre> Eu vou...—Temos misterio!</pre> + +<blockquote> + <p>E entra nos aposentos de Claudia. <span class="pagenum"><a id="pag_86" + name="pag_86">[86]</a></span> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á + fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral. </p> +</blockquote> + +<h4>MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma +préce:</h4> +<pre>Ó essencia do Bem! ó divinal encanto, +Que fazes do Amor a tua crença unica! +Presinto que a Desgraça estende o negro manto +E deixa a descoberto a sanguinaria tunica, +Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora +Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura, +Em breve deixará de ser como é a aurora, +Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura! +Mostra-te para mim bondoso e esmoler: +Escuta-me, Senhor! E que seja bastante, +Para fazer da noite aurora triunfante, +Uma lagrima ardente e pura de mulher.</pre> + +<blockquote> + <p>E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio. + </p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu +assombro.</h4> +<pre> Maria de Bethania?! O quê? Pois tu + Ousaste vir aqui? Pois desafías + Com a tua presença o meu rancor? + Tens a loucura, a falta de criterio, +<i> De brincar com as cinzas inda quentes</i>?</pre> + +<h4>MARIA baixou a fronte; e a meia voz:</h4> +<pre> Perdôa-me, Senhora...</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> O que fizeste + Da altivez soberana e do teu odio?</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Perdôa-me, senhora. Quem se humilha, + É porque tudo esquece, e quem supplíca + O perdão d'uma offensa, tem direito + A ser ouvida...<span class="pagenum"><a id="pag_87" name="pag_87">[87]</a></span></pre> + +<h4>CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua +figura:</h4> +<pre> Apraz-me isso que dizes. + Tu propria te encarregas de vingar-me. + Optimamente!—O que é que tu me queres?</pre> + +<h4>MARIA com meiguice:</h4> +<pre> Nunca viste, depois da tempestade, + Quando vem a bonança, + Resplandecer de luz na immensidade + O Arco da Alliança? + Pois que venha, senhora, em tal momento, + Um meigo olhar bondoso + Alegrar do teu rosto o firmamento + Como o divino traço luminoso.</pre> + +<h4>CLAUDIA com uma risada:</h4> +<pre> Não faças poesia, que Virgilio + Mandou lançar a sua Eneida ao fogo! + Começas muito mal. Por um idilio!... + Do teu poema a sorte pões em jogo...</pre> + +<h4>MARIA docemente:</h4> +<pre> Na ironia cruel quanta amargura! + Esta hora é suprema. + Vou falar-te d'um ser todo candura...</pre> + +<h4>CLAUDIA zombeteira, petulante:</h4> +<pre> O heroe do teu poema?</pre> + +<h4>MARIA animando-se pouco a pouco:</h4> +<pre> Heroe, disseste bem, mas que regeita + O gladio vingador, + E que tem na palavra uma arma affeita + Á bondade, ao amor... + Ouvindo-lhe o falar tão meigo e doce + Que de manso deslisa, + Perfumado, subtil, como se fosse + O perpassar da brisa, + As almas estremecem, de sentidas, + E ficam-se amorosas,<span class="pagenum"><a id="pag_88" name="pag_88">[88]</a></span> + Desabrochando trémulas, florídas, + Como botões de rosas! + Ha já trez dias, Claudia, que o terror + É para mim veneno! + Querem matal-o! Ai! salva o meu amor! + Ai! salva o Nazareno! + Não deixes que lhe roubem a existencia, + E termina o martirio + D'esta paixão que tem do Sol a ardencia, + E a pureza d'um lirio! + Ordena que o não matem, Claudia! acalma + Os monstros malfasejos, + Que eu a teus pés arrojarei minh'alma + N'um effluvio de beijos!</pre> + +<blockquote> + <p>E cáe de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril, + os braços estendidos, supplicante. </p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA depois de nova risada:</h4> +<pre> Isto é completamente um caso novo, + E agrada-me de véras + Que sejas tu, mulher, em vez do povo, + Quem venha interceder pelo Profeta + Com lagrimas sinceras! + É bello!</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Tem piedade!</pre> + +<h4>CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:</h4> +<pre> Honra o teu sexo + O platonico amor que te inquieta; + E n'elle vejo mais do que um reflexo + Do feminil civismo d'outras eras. + Tu excedes Cornelia, + E de Coriolano a mãe Veturia! + —Tenho notado haver n'esta Judéa + Mais valor nas mulheres que nos homens, + O que toma o aspecto d'uma injuria<span class="pagenum"><a id="pag_89" name="pag_89">[89]</a></span> + Ás patricias de Rhéa! + Judith a Holofernes rouba a vida, + Para salvar o povo seu amante, + Ao vêr que elle agonisa; + Esther, em patrio amor toda incendida, + De Assuéro affronta a crueldade e insânia; + Debóra, a profetisa, + Entra na lucta e sae-se triunfante... + Agora vem Maria de Bethania! + —Palavra, que a Judéa é divertida!</pre> + +<blockquote> + <p>Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois + de ageitar-lhe as almofadas. </p> +</blockquote> + +<h4>MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação:</h4> +<pre>Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime! +Quando uma alma se dobra e tanto se deprime, +Quando um peito soluça, a compaixão ordena +Que a ironia que esmaga e o riso que envena...</pre> + +<blockquote> + <p>A um olhar severo de Claudia, humildemente: </p> +</blockquote> +<pre>Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo +Que não seja o tormento indómito e agudo, +Que me offusca a razão e o peito me lacéra! +Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera +Que soubesses tambem como é risonha a vida, +Que toda se consagra a uma entidade querida: +Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora; +Respirar o subtil perfume que evapora; +Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama; +Silenciosamente, amar tudo o que ella ama; +Ouvir-lhe da palavra a doce melodía +Tão limpida, tão casta e pura, que enebría, +Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal, +Semelhante, no brilho, ao riso divinal +Da estrella que, tremente, em candidez scintilla, +Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla.<span class="pagenum"><a id="pag_90" name="pag_90">[90]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se + impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.</p> +</blockquote> +<pre>Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido: +Tu poderás talvez, pedindo a teu marido... +Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana +Quando te respondi com altivez soberana. +Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor +E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr... +—Mas fala, mas responde a isto que eu te peço! +Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!</pre> + +<blockquote> + <p>E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos + fincados no coxim.</p> + + <p>Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar.</p> + + <p>Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando + de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos + enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:</p> +</blockquote> +<pre> Não me resta uma esperança, + Pois não me escuta ninguem! + Dorme a eterna Divindade + No azul da Immensidade, + Nos horisontes d'além, + Onde não chega um suspiro, + Onde o silencio é profundo. + Ha de ser bom tal dormir, + Descuidoso do porvir, + Descuidoso d'este mundo, + N'aquelle reino divino + Tecido por andorinhas, + Feito só para os honrados, + Para os bons e desprezados, + Para as meigas creancinhas... + Tão sereno como o lago + Da Galiléa florída, + Que se formou por encanto + Do arrependido pranto<span class="pagenum"><a id="pag_91" name="pag_91">[91]</a></span></pre> +<pre> Da mãe Eva arrependida... + —Parece mesmo que o vejo + No seu manto azul. Dir-se-ia + Que o firmamento amoroso + Teve a alegre fantasía + De enviar á terra um beijo + Puro, suave, bondoso... + Parece mesmo que o vejo. + —É seu olhar calmo e doce; + A tudo o mais fica estranho, + Quando distingue o fulgor + Dos astros, como se fosse + O cuidadoso pastor + Do scintillante rebanho...</pre> + +<h4>CLAUDIA adormecida, vagamente:</h4> +<pre> É seu olhar calmo e doce...</pre> + +<h4>MARIA continuando alheiada a tudo:</h4> +<pre> Tem o brilho das seáras + O cabello perfumado, + Que nos hombros lhe descansa + E lhe cerca as faces claras. + É tão formoso e doirado + Como um sorrir de creança...</pre> + +<h4>CLAUDIA adormecida, vagamente:</h4> +<pre> Tem o brilho das searas + Seu cabello perfumado...</pre> + +<h4>MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:</h4> +<pre>Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir +E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir. +Reconheço por fim que era a esperança fátua. +É inutil chorar em frente d'uma estátua... +—Retiro-me vencida, assim como o pagão, +Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão, +Os gritos da sua alma e os canticos do amor. +Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr!<span class="pagenum"><a id="pag_92" name="pag_92">[92]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em + passos vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo pendente + ao longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida + escadaria.</p> + + <p>O somno de Claudia é agora profundo. Tudo ficou silencioso. Estinguem-se + uma a uma, com lentidão, as véllas no candalabro; e o luar, a que o arco + sem peias dá passagem, faz projectar o busto de Tiberio na parede + fronteira, como um enorme phantasma negro...</p> +</blockquote> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_93" name="pag_93">[93]</a></span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<h1>QUARTA JORNADA</h1> + +<h2>EM 15 DE <i>NISAN</i></h2> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_94" +name="pag_94">[94]</a></span></p> + +<h3>QUARTA JORNADA</h3> + +<h3>EM 15 DE <i>NISAN</i></h3> + +<blockquote> + <p>Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de + Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á + indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam + mansamente.</p> + + <p>Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas + parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz, corpos + sem vida de suppliciados.</p> + + <p>Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural + caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro. + Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde os + cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas. Junto + ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.</p> + + <p>Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os + penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco, argiloso + e triste.</p> + + <p>Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de + quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.</p> + + <p>A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.</p> + + <p> </p> + + <p>O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado <span + class="pagenum"><a id="pag_96" name="pag_96">[96]</a></span>romano que é + Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são + Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram + reforçadas na vespera por ordem de Poncio. </p> +</blockquote> + +<h4>AMPÍO, tocando com o pé no corpo de um dos que dormem:</h4> +<pre> Erguei-vos, camaradas, pois não deve + O negro deus do somno tal imperio + Exercer sobre vós, quando do Olympo + Cáem com furia as cóleras de Jove.</pre> + +<h4>LAUSO accordando:</h4> +<pre> Novamente começa a tempestade?</pre> + +<h4>FÁBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento:</h4> +<pre> Foi aquelle patife do Vulcano, + Que lhe enviou fornecimento novo.</pre> + +<h4>LAUSO erguendo-se:</h4> +<pre> Pois ainda troveja?</pre> + +<h4>AMPÍO</h4> +<pre> Muito ao longe.</pre> + +<h4>FÁBIO</h4> +<pre> O peior é que Phébo, com certeza, + Não vem tão cedo.</pre> + +<h4>AMPÍO</h4> +<pre> Os galos já cantaram + Das bandas do Levante, amigo Fábio.</pre> + +<h4>LAUSO</h4> +<pre> Olha! alguem se dirige para aqui.</pre> + +<h4>FÁBIO rindo:</h4> +<pre> Talvez seja Noctifer, deus das trevas.</pre> + +<blockquote> + <p>E os trez esperam, encostados ás lanças. São seis miseros mercadores + avergados ao peso de seus fardos. Quando chegaram em frente dos soldados. + </p> +</blockquote> + +<h4>UM MERCADOR em tom submisso:</h4> +<pre> É permittida a entrada aos mercadores?</pre> + +<h4>AMPÍO </h4> +<pre> A dúvida, meu velho, está sómente + Em pagarem tributo ao publicano.<span class="pagenum"><a id="pag_97" name="pag_97">[97]</a></span></pre> + +<h4>O MERCADOR</h4> +<pre> Decerto que pagamos, como é de uso; + Mas quando vi trez guardas junto á porta. + Fiquei suppondo alguma novidade...</pre> + +<h4>AMPÍO </h4> +<pre> Pois quê! não morreu hontem o profeta? + Nada mais facil do que haver rebeldes... + Conhecemos a vossa grande astucia + E o vosso rancor, judeus malditos!</pre> + +<h4>O MERCADOR por entre dentes: </h4> +<pre> Maldita Roma!...</pre> + +<h4>FÁBIO com uma risada alvar: </h4> +<pre> Eh! lá! Vê como falas, + Que o <i>teu rei</i> já não vive!</pre> + +<h4>O MERCADOR muito seccamente: </h4> +<pre> Da Judéa +Ha muito que fugiu a realeza!</pre> + +<blockquote> + <p>E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que + d'elles chasqueiam.</p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> </p> + + <p>A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um + vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra um + animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer, os + membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente, esfarrapada + e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés descalsos. </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a +voz muito enfraquecida:</h4> +<pre>Vem o dia a nascer das regiões eternas. +Depois de ter lançado as iras justiceiras, +O grande firmamento agora é mudo e quedo. +Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas, +E vão pedir a noite ás fendas do rochedo + As aves agoureiras.</pre> + +<blockquote> + <p>E olhando para a caverna d'onde saíu: </p> +</blockquote> +<pre>Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,<span class="pagenum"><a id="pag_98" name="pag_98">[98]</a></span> +Ó treva de amargura e negras maldições! +Ó antro, que animei co'o halito do crime, +Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro +Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime, + Das tectricas visões!</pre> + +<blockquote> + <p>Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se com + passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois, + como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:</p> +</blockquote> +<pre>Estavam a dormir ao pé das oliveiras, +E a Lua derramava em cheio nas clareiras +O argentino olhar, o seu formoso pranto. +Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto, +Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu... +Mas ficou-se indeciso apenas descobriu +Dos archotes a luz na solidão campestre. +—Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.» +Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo, +Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo +Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai! +Co'um latido feroz toda a matilha sae +Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento! +Aos amigos leaes occorre o pensamento +Heroico de empregar a força. A gritaria +Desperta o olival da funda lethargia. +Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador... +Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror. +Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja +Espavorida vae dizendo-me que fuja.</pre> + +<blockquote> + <p>E erguendo-se de chofre, animando-se: </p> +</blockquote> +<pre>Percorro velozmente os grandes olivaes; +Quando abandono a sombra, entro nos matagaes; +O manto esfarrapado o rasto meu indica, +Depois a propria carne! A alma, porem, não fica, +Pois se olho para traz, sobre a verdura espessa<span class="pagenum"><a id="pag_99" name="pag_99">[99]</a></span> +Persegue-me, a rolar em sangue, uma cabeça. +Termina de repente o estenso matagal, +Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal +Onde tenho uma lucta encarniçada e louca: +A lama em borbotões entra-me pela bocca, +Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos, +Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos, +Fogem nuvens de rãs para logares occultos, +E o seu coaxar parece arremetter insultos! +Mas saio vencedor e a terra firme alcanço; +Então quero parar... mas corro sem descanso. +As forças vão fugindo, e julgo que do peito +O coração rebenta exanime e desfeito! +Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto +Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto, +Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando +Sinistramente ao longe um lobo fica uivando. +Chego á margem; depois entro por um atalho +Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho... +Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo +Descobrir de repente o mais seguro abrigo!</pre> + +<blockquote> + <p>Abeirando-se da caverna: </p> +</blockquote> +<pre>Sem saber onde estou, a estremecer d'horror, +Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor, +Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura, +Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura, +Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas, +A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!</pre> + +<blockquote> + <p>Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna + responde-lhe longamente...</p> + + <p>Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços + pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:</p> +</blockquote> +<pre>Eliminei a causa, e agora nem procura +A minh'alma saber se existe ou já não dura<span class="pagenum"><a id="pag_100" name="pag_100">[100]</a></span> +O effeito. Um assassino é o que vejo em ti, +Judas!</pre> + +<blockquote> + <p>Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava. </p> +</blockquote> +<pre> O coração refugiou-se aqui +Transformado em dinheiro. É prata reluzente, +Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente! +E falas de ambição, tu que possues a marca +Das filhas sem pudor do velho patriarcha!... +Relembras o incesto horrendo de Thamar, +E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar +A honra de seu pae no leito da madrasta!... +E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta +Em de redor de mim o grande amontoado +Das velhas podridões da carne e do peccado!</pre> + +<blockquote> + <p>Ferido por um rapido pensamento: </p> +</blockquote> +<pre>—Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame, +E talvez que o Senhor o seu perdão derrame...</pre> + +<blockquote> + <p>Mas detendo-se, hesitante: </p> +</blockquote> +<pre>Tenho medo... não sei...</pre> + +<blockquote> + <p>E supersticioso: </p> +</blockquote> +<pre> Era de madrugada +E eu ia caminhando em terras d'Ephraím +Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse +Para vir espreitar meus passos junto á estrada. +Esmaguei o!—Se alguem agora me fizesse + A mesma cousa, a mim?</pre> + +<blockquote> + <p>Compadecído: </p> +</blockquote> +<pre>Meus olhos, vêde a luz que o firmamento inunda, +Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente! +Rasteja para longe, ó animal mesquinho, +Deixando atraz de ti a escuridão profunda...<span class="pagenum"><a id="pag_101" name="pag_101">[101]</a></span> +Rasteja para longe... e ségue o teu caminho + Silenciosamente...</pre> + +<blockquote> + <p>A passos lentos, vae-se, costeando a muralha até dobrar o angulo que + ella fórma.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Duas mulheres, com os rostos occultos por densos véos, sáem da cidade. + Alguns passos dados, páram como avergadas pelo cansaço ou pela dôr. São + Maria de Bethania e sua irmã Martha. </p> +</blockquote> + +<h4>MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito +resignada:</h4> +<pre> Fica perto da cidade + O sepulcro: é no jardim + Do José d'Arimathéa. + Ao aroma do jasmim + Casa-me o aroma da rosa... + É tudo meigo e silente + N'aquelle triste remanso + Onde elle dorme. A corrente, + Que vae regar os pomares, + Tem uns murmurios tão doces + E tão cheios de misterio...</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Maria, irmã, se tu fosses + Contaminar o teu corpo? + É prohibido na Lei + Ir a um sepulcro...</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Decerto...</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> É um crime.</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Sim; bem sei. + Mas devo eu conjecturar + Que os negros vermes da terra + Contaminem moradia + Que tanto perfume encerra?<span class="pagenum"><a id="pag_102" name="pag_102">[102]</a></span> + As borboletas sómente, + Aereos beijos de amor, + Hão de poisar junto d'elle + Como poisam n'uma flôr, + Indo contar em seguida + Aos espinhos do balseiro + Quanta fragancia divina + Exhala aquelle canteiro. + ... Ao passo que eu viverei + Na grande dôr do meu pranto, + Como a aranha silenciosa + Que fez a teia n'um canto. + —No ceu da minha existencia + Pairavam tranquillamente + Dois flócos de nuvem, que era + Como o fumo transparente... + Andavam pairando assim + Despreoccupados os dois, + Para ao sopro d'uma aragem + Se desfazerem depois... + Fumo illusorio que sobe + Mansamente pelo ar + E que se esvae n'um instante + P'ra nunca mais se juntar...</pre> + +<h4>MARTHA</h4> +<pre> Ó minha irmã!...</pre> + +<blockquote> + <p>E abraçadas, com as frontes reclinadas no hombro uma da outra, soluçam + longamente.</p> + + <p>Vem então da cidade outra mulher, que pelo trajar romano logo se + reconhece ser Claudia.</p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA chegando junto de Maria e Martha, cujos rostos se conservam +occultos, pára; e depois, poisando a mão no hombro de Maria, diz com voz +muito meiga:</h4> +<pre> Porque choras?</pre> + +<h4>MARIA que se voltou, reconhecendo-a e baixinho á irmã:</h4> +<pre> Ella?!<span class="pagenum"><a id="pag_103" name="pag_103">[103]</a></span></pre> + +<h4>MARTHA receiosa:</h4> +<pre> Claudia!...</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Que motivo + Gerou no teu seio a Dôr, + A negra mãe do gemido? + Conta-me tudo, mulher. + —Morreu-te um filho, o esposo, + Ou um irmão...</pre> + +<h4>MARTHA ao ouvido de Maria:</h4> +<pre> Oh! meu Deus! + Como o seu falar é outro!</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Tambem eu soffro ha trez dias + D'um enorme soffrimento, + E quero que na cidade + Fiquem todos conhecendo + Quanto Claudia é bondosa, + Claudia, que o povo despreza, + E quanto chora tambem + Pela morte do Profeta.</pre> + +<h4>MARIA absôrta:</h4> +<pre> O que oiço!</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> D'uma mulher + Taes lamentos recebi, + Que um novo ser despertou + De chofre dentro de mim. + Sonhei depois, e que sonho! + Nem mesmo o posso contar... + Tão cheio de quietação, + De suavidade e de paz, + Que fiquei por muito tempo + Absorta, de madrugada, + Ao construir na memoria<span class="pagenum"><a id="pag_104" name="pag_104">[104]</a></span> + Todo o sonho que sonhara. + —Eu fugira para longe, + Para um paiz tão distante, + Que este mundo em que vivemos + Não me ficava ao alcance; + E alguem cercado de luz + E de meigas creancinhas + Veio alegre ao meu encontro + Nas paragens infinitas...</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> O que te disse?</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Não sei... + Apenas sei que, accordando, + Não conheci a minh'alma + Transformada por encanto; + E por que um plano de morte + Estava urdido em segredo + Contra o bondoso Profeta, + Logo intentei desfazel-o, + Supplicando a meu marido + Que em seu favor empregasse + Todo o auxilio. Impossivel! + A suprema divindade + Caíra em somno profundo + No seu grande leito azul, + Deixando que o Nazareno + Expirasse n'uma cruz!...</pre> + +<h4>MARIA baixinho á irmã:</h4> +<pre> E eu que ainda a accusava!...</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> A minha dôr reparti + Comtigo; deves portanto + Confiar tudo de mim...<span class="pagenum"><a id="pag_105" name="pag_105">[105]</a></span></pre> + +<h4>MARIA espansiva:</h4> +<pre> Para quê, se tudo sabes?</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Tudo sei?...</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Pois que em Judá + Nenhum rosto de mulher + Por mais ninguem chorará + N'este momento.</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Por Elle?</pre> + +<h4>MARIA animando-se:</h4> +<pre> Sim, por Elle, Homem-Misterio, + Que voou, como o aroma + Da pobre rosa pendida + Sobre a haste, dolorida + Pela mágua da saúdade... + —Vinde comigo, mulheres, + Orvalhar co'o vosso pranto + A boceta em que dormita + Aquelle celeste encanto. + Ide colher á campina + Braçados de malmequeres, + D'alfazema e rosmaninho, + E vinde, vinde comigo + Dispol-os naquelle ninho... + E vós, ó mães, que trazeis + No ventre o fructo do amor, + Purificae-o aspirando + O perfume e o calor, + Que se evolam brandamente + Do sepulcro sorridente, + Como as nuvens que perpassam... + ... Fumo illusorio, que sobe + Com lentidão pelo ar,<span class="pagenum"><a id="pag_106" name="pag_106">[106]</a></span> + E que se esvae n'um instante, + P'ra nunca mais se juntar...</pre> + +<blockquote> + <p>E cala-se, a voz estrangulada pelas lagrimas. </p> +</blockquote> + +<h4>CLAUDIA suspeitosa:</h4> +<pre> Estas palavras?... Judía, + Impossivel existirem + Dois corações como o teu!</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Já não o tenho: morreu.</pre> + +<h4>CLAUDIA</h4> +<pre> Como te chamas?</pre> + +<blockquote> + <p>E vendo o rosto de Maria que se desvelára: </p> +</blockquote> +<pre> Maria!</pre> + +<h4>MARIA caíndo de joelhos e beijando-lhe as mãos:</h4> +<pre> Sim! que se roja a teus pés + Humildemente contricta, + Para dizer-te: mulher, + Sê bemdita, sê bemdita!</pre> + +<h4>CLAUDIA com a voz cheia de bondade, obrigando Maria a erguer-se e +abraçando-a:</h4> +<pre> Ergue-te, ó alma sublime, + Que encheste de luz a treva + E que tiveste o condão + De abafar a voz do crime + Co'o soluço do perdão. + —Tambem eu ia levar-lhe + O meu pranto dolorido + Como nunca tive igual. + És a mulher que fugiu + Para o reino do Ideal... + A terra é muito mesquinha, + E o vôo da andorinha + Convida a voar tambem...</pre> + +<blockquote> + <p>Cingindo com os braços Maria e Martha: </p> +</blockquote> +<pre> Partamos, sim, pela estrada<span class="pagenum"><a id="pag_107" name="pag_107">[107]</a></span> + Que nos conduz ao misterio. + Sorri ao longe a alvorada... + Vamos tranquillas, serenas, + Bater a cada poisada, + E sejam nossas palavras:</pre> + +<blockquote> + <p>Levando-as comsigo docemente: </p> +</blockquote> +<pre> Vinde comnosco, mulheres, + Orvalhar co'o vosso pranto + A boceta em que dormita + Aquelle celeste encanto. + Ide colher á campina + Braçados de malmequeres, + De alfazema e rosmaninho...</pre> + +<blockquote> + <p>E vão-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>O firmamento agora é limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da + madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de + Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avançam para a cidade: João, + Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar e Simão de Bethania. Todos denunciam no + andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a irresolução, o + receio. Chegados em frente da muralha: </p> +</blockquote> + +<h4>SIMÃO PEDRA que viera junto de João:</h4> +<pre>Não entres na cidade...</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> És muito conhecido. +O Conselho não tem desviado o sentido +Dos amigos do Mestre.</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> Olha que talvez pense +Em prender-te, e depois nada ha que recompense +O inutil sacrificio.</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Ao teu valor opponho +Todo o meu raciocinio.<span class="pagenum"><a id="pag_108" name="pag_108">[108]</a></span></pre> + +<h4>JOÃO que ficára immovel olhando para a muralha da cidade:</h4> +<pre> Ainda julgo um sonho!...</pre> + +<h4>GAMALIEL encostado ao bordão, a meia voz, rancoroso:</h4> +<pre>Sobre a cruz aviltante, assim como o homicida, +Como o escravo traidor, como o ladrão!...</pre> + +<h4>JOÃO irrompendo:</h4> +<pre> Ó Vida, +E continúas tu dando vigor a quem, +Depois de infamia tal, dorme em Jerusalem! +Profetas de Sião, da campa alevantae-vos +Para escrever ali com sanguinarios laivos +Esta nefanda historia, este inarravel crime! +Dobrae Jerusalem, como se dobra um vime, +E que a mão do Senhor, terrivel, iracundo, +Em látegos crueis com ella açoite o Mundo!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Co'a doutrina do Mestre o odio não se casa...</pre> + +<h4>GAMALIEL por entre dentes:</h4> +<pre>Mas tambem cicatriza a f'rida o ferro em braza!</pre> + +<h4>JOÃO desalentado:</h4> +<pre>E assim tudo acabou!...—Saúdosa Galilea, +Onde sorris tranquilla, ó minha pobre aldeia!... +Quantas recordações do teu ceu, do teu ar, +Dos dias que passei no teu sereno mar, +Das noites que dormi na relva da campina, +Tão descuidoso! Mãe da excepcional doutrina, +Que encheu d'enthusiasmo e risos seductores +As almas infantis d'ingénuos pescadores, +Fazendo-os caminhar atraz d'uma visão, +Confiados, como vae por entre a cerração +A barquinha velleira ao descobrir farol! +Prados, que sois jardins, e onde o rouxinol +Canta serenamente em noites estivaes; +Macieiras em flôr; regatos que passaes, +Ondeando, como ondeia á brisa, levemente,<span class="pagenum"><a id="pag_109" name="pag_109">[109]</a></span> +Da aldeã virginal a trança refulgente... +Montanhas de Nain; e tu, ó grande monte, +Que te elevas no fundo azul do horisonte, +Redondo como um seio a amamentar os astros... +Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros, +Rochedos, alcantís, seáras e pastagens, +Que bordam a primor tuas alegres margens... +—Eis aqui finalmente a horrivel derrocada! +A solida affeição dos Dôse feita em nada; +A cegueira vencendo; a Luz amortecida; +A tripudiar em nós um ladrão homicida; +E eu, no meio de tudo, extactico e absôrto, +Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!... +—E assim tudo acabou!</pre> + +<h4>GAMALIEL avançando para elle nervosamente:</h4> +<pre> Quem fala de acabar? +O fogo ainda não se extinguiu no altar +Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos +Onde fomos depôr as almas ainda exhaustos +Não deixaram de todo os nossos corações!</pre> + +<h4>JOÃO desanimado:</h4> +<pre>Que havemos de fazer?...</pre> + +<h4>GAMALIEL animando-se e animando-o:</h4> +<pre> Povos, religiões, +Autoridades, leis, é tudo movediço +E débil como ao sôpro um tímido aranhiço!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Queres dizer então...</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> A lucta?!</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Braço a braço, +Não se deve luctar. Seria um erro crasso +Instituir o Bem co'o ferro. Não! Deixae +Esse erroneo principio aos filhos de Schammai!<span class="pagenum"><a id="pag_110" name="pag_110">[110]</a></span></pre> + +<h4>JOÃO erguendo-se:</h4> +<pre>O que pensas?</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Que chega a ser um attentado +Á memoria do Mestre abandonar o arado +Com que elle andou lavrando a consciencia humana! +Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana, +Que esfria os corações e purpurisa as ruas! +Não quero vêr brilhar ao sol espadas nuas! +Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Mas faláste de lucta.</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Humilde, mas sem trégoas; +Branda, mas incisiva; humana... mas divina! +Como arma, aquelle dom secreto que extermina, +Ferindo os corações sem que haja soffrimento. +Ruge, como o trovão e géme como o vento, +Murmúra como a fonte e estála como o raio, +Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio; +Dolente, acaricía; em furias, escalavra! +Esta arma triunfante, esta arma...</pre> + +<h4>JOÃO com o olhar brilhante:</h4> +<pre> É a palavra!</pre> + +<blockquote> + <p>Mas logo receioso: </p> +</blockquote> +<pre>Falar ás multidões...?</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA tambem receioso:</h4> +<pre> Continuar...?</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Decerto! +Entrando no porvir que Elle deixou aberto. +Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir +O caminho traçado entrando no porvir, +E esse alguem és tu!<span class="pagenum"><a id="pag_111" name="pag_111">[111]</a></span></pre> + +<h4>JOÃO n'um sobresalto:</h4> +<pre> Eu?</pre> + +<h4>ELEAZAR abraçando-se n'elle, espansivo:</h4> +<pre> Sim, João!</pre> + +<h4>SIMÃO incitando-o:</h4> +<pre> Ninguem +Melhor que tu!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA secundando já agora Gamaliel:</h4> +<pre> Qual é de nós o que mais tem +O verbo inspirador, altivo e fulgorante?</pre> + +<h4>JOÃO indeciso:</h4> +<pre>Simão, Gamaliel, amigos... Ai!</pre> + +<h4>GAMALIEL</h4> +<pre> Ávante!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre>Para gloria do Mestre!</pre> + +<h4>SIMÃO</h4> +<pre> E gloria tua!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> E nossa!</pre> + +<h4>GAMALIEL </h4> +<pre>É bella a occasião...</pre> + +<h4>JOÃO</h4> +<pre> E quem vos diz que eu possa?...</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre>Serás novo profeta, aproveitando o exemplo...</pre> + +<h4>GAMALIEL agarrando João por um braço:</h4> +<pre>Vão começar agora os canticos no Templo. +Anda comnosco!</pre> + +<h4>ELEAZAR</h4> +<pre> Vem!</pre> + +<h4>SIMÃO PEDRA</h4> +<pre> Sê forte!</pre> + +<h4>GAMALIEL querendo arrastal-o comsigo:</h4> +<pre> N'um instante, +De povo te verás cercado...<span class="pagenum"><a id="pag_112" name="pag_112">[112]</a></span></pre> + +<h4>JOÃO n'uma grande espansão:</h4> +<pre> Ávante! Ávante! +É preciso arrancar ao morbido lethargo. +A doutrina do Mestre!</pre> + +<h4>GAMALIEL em doida alegria:</h4> +<pre> Emfim!</pre> + +<h4>JOÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico:</h4> +<pre> É meu o encargo! +O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora +A escada de Jacob á luz da meiga aurora. +Por ella vae subindo um côro triunfal +Proclamando no Espaço o amor universal +E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio. +Ávante! Não desabe o sólido edificio +De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro +Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro, +Enriqueça de novo a consciencia humana! +Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana! +Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia, +Uma scentelha só do genio teu envia +Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria +Que torne a minha voz da tua a emissaria! +—Vamos, Gamaliel!</pre> + +<h4>GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade:</h4> +<pre> Gloria ao profeta novo!</pre> + +<h4>JOÃO vibrantemente:</h4> +<pre>Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!</pre> + +<blockquote> + <p>Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de </p> +</blockquote> + +<h4>GAMALIEL bradando:</h4> +<pre>Negra Jerusalem, escuta, ó assassina, +D'aquelle que morreu a divinal doutrina!</pre> + +<blockquote> + <p>E depois, mais distante: </p> +</blockquote> +<pre>Ouve, Jerusalem, que matas os profetas, +As palavras que são do teu Senhor dilétas!</pre> + +<blockquote> + <p>E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo <span + class="pagenum"><a id="pag_113" name="pag_113">[113]</a></span>cada vez + menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e + tortuosas ruas da cidade.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o + dinheiro da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo. D'ali + ouvira as ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel. </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS com desdem:</h4> +<pre>«Gloria ao profeta novo!»—Insensatos! João, +Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação!</pre> + +<blockquote> + <p>Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo + alguem que se approxima, recúa e estáca. </p> +</blockquote> +<pre>Maria?!</pre> + +<h4>MARIA parando tambem:</h4> +<pre> Judas!</pre> + +<h4>JUDAS, desvairado:</h4> +<pre> Ah! cobarde salteador +D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor? +O olhar, que seduzia, infunde repugnancia! +O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia, +Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar, +Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar +A carne do meu crime! Odeio-te!</pre> + +<h4>MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente:</h4> +<pre> Não vim +Trazer o meu amor.</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Que queres tu de mim? +Trazes-me o teu perdão?</pre> + +<blockquote> + <p>Solta uma risada nervosa. </p> +</blockquote> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> O riso da demencia +Nunca ha de suffocar a tua consciencia, +Que géme e se revolve em negro torvelinho. +Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho.<span class="pagenum"><a id="pag_114" name="pag_114">[114]</a></span></pre> + +<h4>JUDAS impedindo-lhe a passagem:</h4> +<pre>E a maldição ha de ir seguindo-te as pisadas!</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>A tua maldição... as tuas gargalhadas!... +—Como o teu odio é bom!</pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Inda não é bastante +Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante, +Como eu satisfaria este voraz desejo: +Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo! +Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois, +Fruir o teu amor, e arrojar depois +O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres +Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres! +—Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...</pre> + +<h4>MARIA muito calma:</h4> +<pre>P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo: +O mundo é tão cruel que aleives não reprime, +Se junto da virtude elle descobre o crime. +Mas entretanto... foge!</pre> + +<h4>JUDAS rindo febril:</h4> +<pre> Acaso me suppões +Tão cobarde que vá fugir sem ter razões +Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>E se o Mestre voltar?</pre> + +<h4>JUDAS rindo:</h4> +<pre> Que doida fantasía!</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre>Se o visses novamente?</pre> + +<h4>JUDAS de subito receioso:</h4> +<pre> Eu? vêl-o?</pre> + +<h4>MARIA</h4> +<pre> Sim!<span class="pagenum"><a id="pag_115" name="pag_115">[115]</a></span></pre> + +<h4>JUDAS</h4> +<pre> Não creio! +A morte é vasto abismo...</pre> + +<h4>MARIA, dogmatica:</h4> +<pre> Abismo, cujo seio +Não poderá conter o que era illimitado!</pre> + +<h4>JUDAS acobardado:</h4> +<pre>Que dizes tu, mulher?!</pre> + +<h4>MARIA em tom profetico:</h4> +<pre> Que dorme inanimado +O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio +Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio, +Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário, +Como o trabalhador que não requer salário +E que só tem por fim realisar o plano +De ha muito concebido. Em vão o olhar humano +Procura descobrir o que existe no centro +Do casúlo: o misterio é silencioso dentro. +Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto, +Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!</pre> + +<h4>JUDAS tomado de vago terror:</h4> +<pre>Justos ceus!</pre> + +<h4>MARIA animando-se:</h4> +<pre> Has de vêr, com a tua alma inquieta, +Saír do seu casúlo a enorme borboleta, +Que n'esta hora talvez as palpebras descerra, +Encher de luz o espaço e de pavôr a terra, +Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...</pre> + +<h4>JUDAS trémulo:</h4> +<pre>E caír sobre mim co'o azorrague em punho!</pre> + +<h4>MARIA terrivelmente:</h4> +<pre>Emquanto não voltar, os olhos do covarde +Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde: +Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro, +Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!<span class="pagenum"><a id="pag_116" name="pag_116">[116]</a></span></pre> + +<h4>JUDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:</h4> +<pre>Não pode ser, não creio...</pre> + +<h4>MARIA perseguindo-o:</h4> +<pre> Ha de falar-te, Judas, +Á tua consciencia abjecta!</pre> + +<h4>JUDAS tentando occultar o rosto:</h4> +<pre> Não me illudas, +Que eu nada vejo!</pre> + +<h4>MARIA erguendo o braço:</h4> +<pre> Vês pairando sobre ti +O Remorso, o fantasma eterno!...</pre> + +<h4>JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e +apontando tambem, trémulo, allucinado:</h4> +<pre> Ali! ali! +Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria! +Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia +Que vae falar-me!—Oh! cala-te! Fui eu +Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu! +Não me accuses, que sinto em mim a accusação; +Tem os dentes da cobra e as garras do leão! +Anda aqui dentro—ouviste?—a esfarrapar-me todo! +Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo, +Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome, +Que nem os proprios cães matem comigo a fome!</pre> + +<blockquote> + <p>E apontando de novo, como um vidente: </p> +</blockquote> +<pre>O respirar opprésso... o corpo no madeiro... +Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro... +Exactamente!—Eléva os olhos para os ceus; +A agonia final chegou: fala com Deus... +A cabeça descae no peito: vae morrer...</pre> + +<blockquote> + <p>E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna: </p> +</blockquote> +<pre>Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr!<span class="pagenum"><a id="pag_117" name="pag_117">[117]</a></span></pre> + +<blockquote> + <p>E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o + rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante.</p> +</blockquote> + +<h4>MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:</h4> +<pre>Insultáste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquéço. +Tenho a razão bem clara, e tu és um possésso. +Quanto ao Mestre, lá tens em ti a accusação... +A tua alma está sendo, ó torpe vendilhão, +Passiva e sem vigor n'este fatal momento +Assim como o enforcado a baloiçar ao vento... +—Adeus.</pre> + +<blockquote> + <p>E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados + de Judas. Pouco a pouco, vão-lhe voltando as forças, e então </p> +</blockquote> + +<h4>JUDAS erguendo a cabeça e como acordado pela impressão que no seu +espirito deixaram as ultimas palavras de Maria:</h4> +<pre> «O enforcado?...»</pre> + +<blockquote> + <p>E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia: </p> +</blockquote> +<pre> Emfim para que existo?</pre> + +<blockquote> + <p>Pensa. Tendo apoiado a mão direita na cintura, o contacto da corda com + que cinge a tunica desperta-lhe a attenção e aviva-lhe na memoria aquellas + palavras de João que elle repéte machinalmente: </p> +</blockquote> +<pre>«As estrigas de linho...»</pre> + +<blockquote> + <p>E prevendo o effeito: </p> +</blockquote> +<pre> Um laço... um nó...</pre> + +<blockquote> + <p>Resoluto:</p> +</blockquote> +<pre> —É isto!</pre> + +<blockquote> + <p>Então, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um nó corredio, + vae monologando, febríl, nervosa, sêccamente:</p> +</blockquote> +<pre>Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante +Correr atraz de mim um grito retumbante +E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus +Quem pode combater a cólera de Deus? +Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo, +Porque é fugir do Eterno o mesmo que estar quedo! +Não fugirei!—Se fico, atrocidades cruas...<span class="pagenum"><a id="pag_118" name="pag_118">[118]</a></span> +Hei de ser arrastado ahi por essas ruas, +Padecerei do povo horríficos flagellos: +Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos, +E transformar em lama o corpo do homicida! +—Não! Prefiro morrer... por ter amor á vida!</pre> + +<blockquote> + <p>De súbito, n'um grito de independencia, muito egoista: </p> +</blockquote> +<pre>Eu prefiro morrer! Que se escancáre o espaço +Da treva! Sim, ó Morte, eu quero o teu abraço! +A maldição eterna o Eterno em mim derrame-a! +Que importa! Serei grande até na propria infamia!</pre> + +<blockquote> + <p>Allucinado novamente: </p> +</blockquote> +<pre>Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade! +Renego do respeito e amor á Divindade! +Eu creio só na Morte... e basta-me esta corda!</pre> + +<blockquote> + <p>E ri, ri convulso. Batendo com a mão no peito: </p> +</blockquote> +<pre>Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda, +Para insultar a Vida, essa madrasta bruta, +Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta! +E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme, +Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme!</pre> + +<blockquote> + <p>E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.</p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam + passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as + vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida + melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente grande + serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.</p> + + <p>João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra, + Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham + todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem João + apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os braços + cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno oiteiro, + João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com os + filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a + direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no + chão, já secco <span class="pagenum"><a id="pag_119" + name="pag_119">[119]</a></span>pelo vento, formando um semi-circulo em + frente do profeta novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de + João, destaca-se fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, + triunfal.</p> + + <p>E é então que</p> +</blockquote> + +<h4>JOÃO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e +vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem:</h4> +<pre>Quem tem ouvidos, oiça o que Elle manifesta! +Elle é o Omnipotente; Elle o principio e o fim; +Elle quem libertou da escravidão funesta +O povo d'Israel... Elle descansa em mim. +Elle é o Omnipotente! Elle o principio e o fim! + +Seja bemdito quem ouvir e conservar +As palavras que encerra a minha profecia! +Quem tem ouvidos, oiça! e purifique o olhar, +Porque já não vem longe o tenebroso dia +Em que todos vereis a minha profecia! + +—Despenham se na terra os astros refulgentes; +O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue; +Varíam de logar ilhas e continentes; +A Grandeza estremece e vem caír exangue... +O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue... + +..............................................</pre> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><span class="small-caps">Escripto em +1888-1890</span></p> + +<p style="text-align:center;"><span class="small-caps">Acabado de imprimir +aos 5 dias do mez d'Outubro de 1901 na Imprensa de Libanio da Silva Rua do +Norte, 87 a 103</span></p> + +<p style="text-align:center;"><span class="small-caps">Lisboa</span></p> + +<div class="footnote"> +<p><b>Nota do transcritor:</b></p> + +<p>Foram corrigidos diversos erros tipográficos. +Na lista que segue estão as alterações mais importantes.</p> + +<table width="100%" summary="Lista de erros corrigidos."> +<tr><td>Pág.</td><td>Original</td><td>Corrigido</td></tr> +<tr><td>20</td><td>abnadonam Maria</td><td>abandonam Maria</td></tr> +<tr><td>18</td><td>Pois eu sou tou</td><td>Pois eu sou tão</td></tr> +<tr><td>25</td><td>JÕAO PEDRA, com o braço direito</td><td>SIMÃO PEDRA, com o braço direito</td></tr> +<tr><td>30</td><td>a aragem fresca e permada</td><td>a aragem fresca e perfumada</td></tr> +</table> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JUDAS *** + +***** This file should be named 27276-h.htm or 27276-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/2/7/27276/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/27276-h/images/capa.png b/27276-h/images/capa.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..16dbf74 --- /dev/null +++ b/27276-h/images/capa.png diff --git a/27276-h/images/logo.png b/27276-h/images/logo.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e812a61 --- /dev/null +++ b/27276-h/images/logo.png |
