diff options
Diffstat (limited to '27276-8.txt')
| -rw-r--r-- | 27276-8.txt | 5744 |
1 files changed, 5744 insertions, 0 deletions
diff --git a/27276-8.txt b/27276-8.txt new file mode 100644 index 0000000..365385e --- /dev/null +++ b/27276-8.txt @@ -0,0 +1,5744 @@ +The Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Judas + Romance lirico em quatro jornadas + +Author: Augusto de Lacerda + +Release Date: November 16, 2008 [EBook #27276] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JUDAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + + +JUDAS + + + + +DO MESMO AUCTOR + +Theatro: + +_A Flôr dos Trigaes_, comedia original em um acto, em verso--Theatro de +D. Maria II. + +_Aspasia_, drama original em quatro actos--Idem. + +_Samuel_, idem--Idem. + +_A Tesoura_, monologo--Idem. + +_A Charada_, sainete original--Theatro do Gymnasio. + +_Casados-Solteiros_, comedia original em tres actos--Idem. + +_O Vicio_, peça original em cinco actos--Theatro do Principe Real. + +Em livro--Edições esgotadas: + +_Religião do Amor_, versos. + +_O Padre_, romance intimo. + +_A Pança_, contos. + +_A Lei da Exauctoração Militar_, poemeto. + +_Cyrilleida_, analyse de uma critica á «Velhice do Padre Eterno.» + +_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia. + +A entrar no prélo: + +_O Rabbi da Galiléa_--(Vida de Jesus)--Romance. + +_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia--2.ª edição. + +Em preparação: + +_Consciencia Libertada_--Evangelho do Futuro. + +_Lendas de Israel._ + + + + +Augusto de Lacerda + + +JUDAS + +ROMANCE LIRICO + +EM + +_QUATRO JORNADAS_ + + +LISBOA + +Antiga Casa Bertrand--JOSÉ BASTOS + +_73, Rua Garrett, 75_ + +1901 + + +_Exemplar n.º_ 461 + + +Todos os direitos d'este livro são propriedade exclusiva e reservada do +seu auctor. + + +Ao Dr. Manoel Maria Bordallo Pinheiro + + _Il n'y a guère de détails certains en histoire; les détails + cependant ont toujours quelque signification. Le talent de + l'historien consiste à faire un ensemble vrai avec des traits qui ne + sont vrais qu'à demi._ + + Ernest Renan--Vie de Jésus + + +PRIMEIRA JORNADA + + +EM 8 DE NISAN + + +PRIMEIRA JORNADA + + +EM 8 DE NISAN + +A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em +que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a +casa de Simão, o _Leproso_. Tem esta a forma tipica de uma piramide +rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos +canteiros roseiras de Jerichó. + +Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um +pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores +seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas. + +A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae +sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas +cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda... + +Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao +descanso e á meditação. + +Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali serpeando +por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, até que +chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas +entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das Oliveiras, +de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois +altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaça um +bando de pombas brancas. + +Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o Monte do +Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da +encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de +Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e +patriarchas. + +Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a +cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica, +amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas +estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias. + +A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da encosta:--é +ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a +cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda, +Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor. +Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande +Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: _Jehovat_. A Torre +Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto +vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta +quietação. + +Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o +carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas +folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos +longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando +no firmamento azul e alegre. + +Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que +entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o +harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de +mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um +sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as +cotovias. + + +GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas +doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando: + + Eleazar, meu caro, honrado ebionita, + Recebe de um amigo a cordeal visita. + +ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos +annos, franzino e melancólico. + + És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja + Teus passos dirigiu assim, para que eu veja + Á porta do modesto e humilde lavrador + Aquelle que possue o nome de doutor + Notavel e profundo? + +GAMALIEL + + É pobre a moradia, + Amigo?--Não encerra a vil hypocrisia, + Ornamento dos maus e da nefanda casta, + Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta. + +ELEAZAR + + É que a virtude leva ás almas refrigerio + Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio; + Pranto suave, meigo e virginal e ardente, + Que uma estrella chorou silenciosamente... + +GAMALIEL + + É que a bondade espalha a sua luz divina + E pura, como o Sol que a todos illumina... + +E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se +conservou: + + O que tenho a dizer-te é coisa de segredo. + Escuta-me portanto aqui. + +ELEAZAR + + Porquê? Tens medo + De que minhas irmãs...? + +GAMALIEL + + O assumpto é muito grave, + E receio que a dôr ainda mais se crave + Nas almas feminis do que na tua. + +Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de +casa, accode logo ao secreto chamamento. + + Amigo, + Uma nova cruel:--o Mestre... + +ELEAZAR, estremecendo + + Algum perigo + É imminente? + +GAMALIEL + + Aquella estupida gentalha + Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha + Prepara com misterio o plano vingador, + E está na posição terrivel do condôr, + Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora, + Em casa de Kaiapha...--É sabbado hoje? Embora! + --... O Conselho procura, extravasando o fel, + Garantir-se o poder no povo d'Israel. + +ELEAZAR + + Prendendo o Mestre? + +GAMALIEL + + Sim! Razões tem para tudo + O seu pensar feroz, indómito e agúdo! + Amor divino? Qual! Apenas o receio + De perder o logar no execravel meio: + D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma, + E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma! + +N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e +que se expande, emfim, n'uma invocação: + + A Virgem de Sião suspira ha muito já!... + --Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat! + Que é feito do vigor da tua fala, Isaías? + E das lamentações sinceras, Jeremías? + Profeta Ezequiel, a tua voz potente + Jámais ribombará por todo o Oriente, + Fazendo estremecer o despota cezareo, + Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario, + Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma, + Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?! + +ELEAZAR, com o olhar vago: + + Vergonha! opprobrio!... + +GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de +enthusiasmo civico: + + Ai! desde que um idumeu + Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu, + E nos hombros depoz o manto purpurino... + Maldito! que deixaste um rasto viperino, + Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo, + O teu nome recorda o luto e um acervo + De horrores!--Certo dia, ousaste no portal + Da casa do Senhor dar poiso á _immortal_ + Aguia romana!...--Vil, nascido de idumeus, + O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus! + ... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia! + --Do nome do tiranno o filho honra a memoria. + Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta... + Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?... + --Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros; + Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros, + Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia! + E ao passo que na morte o hebreu se contorcia, + E filhas e mulher's davam á luz o pranto, + O incendio voraz lavrava o Logar Santo! + --Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga, + Revolvendo o punhal na apodrecida chaga! + Seja procurador Coponio, ou seja Marco, + Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco + Onde vivem, senís, as rãs do servilismo... + É provincia romana; e viva o cezarismo! + +E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando, +convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam. + +ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho: + + Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor, + D'esta funda apathía e d'este grande horror! + Judéa, serás livre! Elias não morreu, + Porque revive n'um que tem o verbo seu, + E elle ha de trazer a guerra e o exterminio! + Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!... + Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia! + O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a + Sem minimo temor da colera dos ceus! + +GAMALIEL, n'um clarão de esperança: + + Já temos o preciso: um _Homem_! + +MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras: + + Não!--Um _Deus_! + +Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser +tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens +escuras, que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas regulares +e castas como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e tranquillo; os +seus gestos sempre em accordo com as serenas emoções da alma. + + É bello o teu falar, mas como de cegueira + Pelo amor patrio estás vencido! De maneira + Que apenas bastaria um pulso valoroso + Para despedaçar o monstro ambicioso + De fausto e de poder que se revolve além, + N'aquella babylonia? Então, Jerusalem, + Movida por um braço, embora resoluto, + Poderia colher o ambicionado fructo + Da plena liberdade em meio da revolta? + --Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta! + A Judéa prefére a honra em mil pedaços, + Cheia de timidez, crusando inerme os braços, + Inhabil para a lucta e com horror á morte... + A tribu de Levy, aquella cujo porte, + Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria + Coragem ao vencido e alguma simpathia + Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo. + --Onde encontraste, irmão, o excitante novo, + Que possa dar alento a quem succumbe exangue, + Que os nervos fortaleça e retempére o sangue? + +GAMALIEL + + Ha sempre em casos taes... + +ELEAZAR + a força d'um athleta! + +MARIA + + Tem muito mais poder o verbo d'um profeta! + Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição + Das coisas divinaes a toda a multidão, + Que se contorce afflicta em negro paroxismo, + Descrente de Moysés, propensa ao paganismo. + Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra, + Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra, + Pesada, como o arado á terra bemfasejo, + Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo! + +GAMALIEL + + E quem te diz que não? Eu julgo indifferente + Que tenhamos no Mestre aquelle descendente + Do nome de David ao mundo promettido + Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido. + Porque bem vejo a força enorme, o poderío + Que exerce na cidade. É mais que prestadío + Á Patria um homem tal! + +ELEAZAR + + A sua mão convulsa, + Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa + Para longe do sitio ás preces consagrado... + +MARIA + + E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!... + --Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes + E que mercadejava as graças corporaes; + Ascende até o amor aos pobres, ás creanças, + Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças + N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece... + +ELEAZAR + + Quando, porem, troveja irado, mais parece + Que vibra no seu peito a propria voz de Deus! + +MARIA + Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!... + +ELEAZAR + + Que deixa em seu caminho um profundo vestigio... + +GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria, +que foi sentar-se junto da fonte: + + Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso, + E Deus pode morrer... quando fôr mais preciso. + +ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez +opprime no intimo: + + O Mestre não virá. Alegra-me a certeza + De que foge ao Conselho a ambicionada preza. + Começa em breve a Paschoa, e entre os forasteiros + Ainda não chegou nem um dos companheiros + Do Mestre. + +GAMALIEL + + Vae o Sol no termo da viagem: + Torno para a cidade. + +E novamente em segredo: + + Eleazar, coragem! + No teu silencio tens a minha vida e a tua. + +ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante: + + Se te constar, porem, que o plano continúa + E mais se desenvolve... + +GAMALIEL + Hei de dizer-te, amigo. + +ELEAZAR, saúdando-o: + + Que não te fuja Deus! + +GAMALIEL, saúdando-o: + + Fique o Senhor comtigo! + +Saúda tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da +estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordão +no solo poeirento. + +ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos +proprios pensamentos: + + Ninguem pode roubal-o á proxima agonía. + Morrerá na cidade. A horrivel profecia + Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte... + Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte! + + +Martha e Simão de Bethania saíram de casa. Ella é uma rapariguita de +desoito annos, irrequieta, buliçosa, muito infantil; elle, um velho cujo +cabello e barba ha muito branquearam; nas mãos o trabalho da lavoura +poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra +deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas. + +MARTHA + + No que pensa o meu irmão? + +ELEAZAR + + Em nada penso. + +MARTHA + + Duvido. + Ha n'esse olhar definido + Vislumbre d'inquietação. + +SIMÃO + + Se tu pensas na lavoura, + Fazes mal, que o dia de hoje, + Emquanto o Sol não nos foge, + Prohibe que, scismadora, + A mente se occupe assim + De coisas que não respeitam + A Deus. + +MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse: + + Aquelles que engeitam + O pensar, mesmo o ruim, + São como as ondas brutaes, + Que lançam á rocha dura + A espuma de cuja alvura + Ellas são as mães e os paes... + +SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice: + + Sempre has de ser renitente + Em respeitar a doutrina + De Moysés! + +MARIA, com amargo sorriso: + + O que ella ensina + É por vezes incoherente. + De ouvil-a já estou cançada, + E nem assim me convence. + +MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado: + + Não falas? + +SIMÃO + + Deixa-o! Que pense, + Uma vez que isso lhe agrada! + +ELEAZAR + + Mas como sois curiosos + Do que se passa por fóra + De vossas almas! + +MARTHA + + Agora + Vem discursos lamentosos, + Recriminações, aposto! + Grande mau! + +ELEAZAR sorrindo contrafeito: + + Grande creança! + +MARTHA picada no seu amor proprio: + + Não te inspiro confiança? + +ELEAZAR condescendente: + + Inspiras, sim. + +MARTHA + + Pois não gosto + De segredos--Que tristeza!... + Não percebo! Porque, em summa, + Não vejo razão nenhuma + Para tal! Não ha riqueza? + A nossa vida, porem, + É feliz; a privação + Nunca nos veio affligir, + Nem ameaça o porvir, + Não é verdade? Simão, + Este bom velho leal, + Que tanto e tanto nos ama, + Dá-nos meza, casa, cama, + E conselho paternal; + Tu retribues a amizade, + Auxiliando-o na vida. + Achámos uma guarida + Nas trevas da orfandade: + Temos familia! Por isso + Para nós a vida é clara + Assim como a luz. A seara + É verdadeiro macisso + De pão; agua na fonte; + Lenha nas faldas do monte... + Nada vejo, d'importancia, + Que não tenhamos. Então, + Quero saber o motivo + Por que estás tão pensativo... + +E rindo muito: + + E com cara de chorão! + +ELEAZAR + + E tenho de que sorrir? + +MARIA em longa abstração, como se ninguem a ouvisse: + + Quem pensa é como quem sonha... + E como a vida é risonha, + Quando se pode dormir!... + +ELEAZAR perseguido pelo olhar inquiridor de Martha: + + A minha alma atribulada + Profundo misterio aninha... + Sê caridosa, irmãsinha, + Não me perguntes mais nada! + +MARTHA afastando-se logo com muito despeito: + + Ai! não pergunto! + +SIMÃO que de parte estivera rindo dos dois: + + Uma idéa, + Que talvez seja bem dita: + Vou fazer uma visita + Ao José d'Arimathéa. + Vem commigo. Pode ser + Que tenhas n'este passeio + O prompto e seguro meio + Da tristeza espairecer. + +ELEAZAR + + Dizes bem. + +SIMÃO + + Acceitas? + +ELEAZAR + + Sim. + +SIMÃO + + Afinal é sempre o velho + Quem dá o melhor conselho! + +ELEAZAR ás irmãs: + + Adeus! + +E beijando Martha, que o evita d'arremeço: + + Tu foges de mim? + Não vens beijar-me, teimosa! + É então uma vingança? + +MARTHA, deixando explodir o seu despeito: + + São arrufos... de _creança_! + +ELEAZAR beijando-a á viva força: + + São os espinhos da rosa! + +Vão-se Eleazar e Simão. Succede grande silencio. + + +MARTHA foi á beira da estrada e segue-os com o olhar. Depois, +appreensiva, com vago receio: + + Nunca o vi assim como hoje... + +MARIA em longa abstracção, como se ninguem a ouvisse: + + «Espairecer»... Puro engano! + O pensamento não sae... + É como a sombra que vae + Correndo atraz de quem foge... + +MARTHA que lançou para longe a tristeza, despertada pelo cantar mais +proximo d'uma cotovia. + + Como o tempo está formoso + E se prepara, amoroso, + Para a Paschoa d'este anno! + +N'uma corrida, eil-a junto da irmã que ficára sentada á beira da fonte. +Um beijo resôa na face de Maria e logo aos pés d'esta se senta Martha. + + Achamos isto um encanto! + Como elles acham, porem, + Que tudo é feio. + +MARIA + + Elles, quem? + +MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido +erguido para o olhar da irmã: + + Os Dose, que gostam tanto + De dizer mal de Judá. + A Galiléa! Não ha + Para elles outro mundo! + Têem sincera affeição, + Tributam amor profundo + Ao paiz de Salomão! + +MARIA desculpando-os: + + A sua terra natal... + --Todos dizem que em verdade + É um paiz ideal + A Galilêa. + +MARTHA + + Quem ha de + Duvidar, se elle inspirou + Os galanteios doirados + D'aquelles apaixonados... + --Como elles, ninguem amou! + +Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e +recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado +de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com +elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados. + + «É formoso o meu amante, + Formoso como nenhum, + E como o cédro elegante... + É formoso o meu amante, + Formoso como nenhum... + + «São de perfumes e odores + Suas faces purpurinas, + Dois ramalhetes de flores... + E suas mãos dois primores + Das pedrarias mais finas. + + «O seu corpo deslumbrante + Do marfim o brilho tem... + --Eu aqui... Elle distante... + Onde está o meu amante, + Filhas de Jerusalem?» + +Olhando de fito para a irmã: + + Esta idéa é mesmo linda! + +MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae +deslisando: + + Amôres... + +MARTHA + + Muito falados! + Olha que outros bem-amados + Como estes não houve ainda! + E quando elle se transporta, + Descrevendo a sua amante? + Não pode ser mais galante! + Queres ouvir? + +MARIA + + Que m'importa!... + +MARTHA + + «És formosa entre as formosas! + Como tu não ha nenhuma! + Tens no rosto duas rosas... + És formosa entre as formosas! + Como tu não ha nenhuma! + + «Duas pombas tens no olhar + Onde transluz a bondade. + Os teus cabellos sem par + Fazem-me sempre lembrar + As cabrinhas de Galaad... + + «Tua bocca é tão fagueira! + Quando sorrís com ternura, + Julgo vêr n'uma ribeira, + Unidinhas em fileira, + Ovelhas de casta alvura! + + «Oh! que suaves martirios + Em tuas caricias francas! + São teus seios--que delirios! + --Como duas corças brancas + A pastarem entre os lirios!» + +Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu +sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de +Poncio Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da +liteira; sem ser presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua +escrava e confidente Geda. + +Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente, +avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado +em estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava, +brilha o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio. + +Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não +enrugou, mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura +e o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica +do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de +Tiberio, illustre messallina--_lassata, sed non satiata_. A tunica azul +celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco +esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na +carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade olympica +do perfil das medalhas de Agrippina. + + +CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos +triclinios de má nota da velha Roma: + + Muito bem! + +Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio, +dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta +detem-se. + + Que formosa poesia + Cheia de amor e de melancolia! + Ha quem diga no Lácio + Que é impossivel encontrar primores + Que não sejam de Ovidio nos «Amores» + Nos «Epodos» de Horacio... + --É que ninguem conhece quanto val' + A doce poesia oriental! + --Isso é de Salomão? + +MARTHA muito a mêdo: + + Senhora... + +CLAUDIA + + Pois eu sou tão lisongeira, + Para ouvir-te apeei-me da liteira... + E foges?--A razão? + +E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente: + + Tambem me odeias, tu, gentil creança? + --Quando ha de fazer-se uma alliança + Entre Roma e Judéa? + Ganhariamos todos, com certeza: + Nós, simpathia; vós, delicadeza. + Darei a Poncio a idéa. + +Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios contraídos +e os punhos cerrados: + + Conheces-me tambem? + +MARIA por entre dentes: + + Perfeitamente. + +CLAUDIA + + Se não me engano, a tua alma sente + Por mim o mesmo affecto... + Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada + Com Poncio, devo estar acorrentada + A um odio tão directo? + +MARIA fitando-a resoluta, mas serena: + + É que tu desconheces o rancor + Que tem toda a Judéa ao vencedor! + Fossem mil as nações + Caídas sobre nós! Odio profundo + Teriamos então a todo o mundo + E ás suas gerações! + --Ninguem pediu que ouvisses o falar + Da minha irmã. De mais, vindo escutar + Fizeste muito mal... + És Claudia; quer dizer: alguma coisa + Que nos merece tédio, e que repoisa + Sobre um vil pedestal + Todo feito de lama e impudicicia! + Justamente porque és uma patricia + Deves ter o criterio + De não brincar co'as cinzas ainda quentes, + Porque nós detestamos intendentes + E amantes de Tiberio! + +Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento impulsivo +de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que não resiste. Martha +soltou um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo +murmurio da agua e pelo chôro suffocado de Martha, que não desamparou a +irmã. + +CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gôtas de chumbo +derretido: + + Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo. + A todo o sentimento o da maldade encimo, + Se acaso á minha face o insulto e o desdem + Me forem arrojados por alguem! + Uma frase, um olhar--tanto me basta; + Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta, + Qual sanguineo brilhante, a fébre da matança, + Dos deuses o prazer dulcissimo: a Vingança! + +Mas em rapido movimento, como obedecendo a pensamento occulto, faz +signal aos soldados, que logo abandonam Maria. Depois, com acerado +sorriso de maldade: + + Agradece, mulher, a mim e ao teu Deus + Esta disposição d'espirito, e os meus + Bons nervos hoje; e grava, em summa, na memoria + Que o insulto nem sempre é uma gloria! + +MARIA muito vexada pela insultante benevolencia de Claudia: + + Eu não pedi perdão... + +CLAUDIA victoriosa pelo effeito que o perdão causou no animo +independente da patriotica filha d'Israel: + + E quem diz tal, judía? + Fui eu que perdoei...--Offendes-te? + +MARTHA supplicante ao ouvido da irmã, que ia responder: + + Maria... + +CLAUDIA rindo, satisfeita, feliz: + + _Maria_... Nome formoso, + Que tem um rythmo éoleo! + Merece logar honroso, + Por Jove, no Capitolio! + +E volta para a liteira. + +A ESCRAVA GEDA ajudando-a a accomodar-se nas almofadas da liteira: + + Nunca te vi assim... + +CLAUDIA + + Diverte me a bondade, + Ás vezes... + +O CENTURIÃO AMPÍO ao sequito: + + A caminho! + +Os lecticarios põem a liteira aos hombros. + +CLAUDIA + + Á porta da cidade + Haveremos de estar antes da noite. Anceio + Por que termine em bréve este infeliz passeio, + Sem novo encontro mau.--Ó palida judía, + Pode ser que eu te veja ainda... Até um dia + Tem saúde até lá, que o ferro vingador + Detesta a gente magra, e tem maior furor + Ao trespassar um cólo arredondado e terno... + +MARIA + + Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno! + +Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela +soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a +comsigo para casa. + + +Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar +obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca +da hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras +de feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo +dos braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um +pouco alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o +olhar para as coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario, +conserva-os erguidos ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes. +Claro é que de quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos +manifestam-se. + +BENJAMIM + + Não ha que duvidar: chegaram todos. + +JOSUÉ + + Viste bem, Benjamim? seria engano... + +BENJAMIM + + Engano o que? Se affirmo, se até juro + Ter visto o Mestre e os dose companheiros. + Tomaram pela horta do Simão, + E em bréve hão de estar n'aquella casa. + +E approxima-se da casa do _Leproso_. Detem-se; prestando attenção, ouve +a distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com _Hossannas!_ a +chegada do Rabbi da Galiléa. + + Eu não te digo?... O povo já começa + A correr ao encontro. Dentro em pouco, + Vae por esta Bethania uma celeuma, + Que nem no Templo em dia de festejo! + Eis portanto o momento ambicionado + De cumprirmos as ordens recebidas... + +JOSUÉ, timido, covarde, circumvagando o olhar: + + Mas Benjamim... + +BENJAMIM + + O que é? + +JOSUÉ + + Sinceramente, + Vou achando pesada esta incumbencia. + É que nós somos dois: elles são tantos!... + +BENJAMIM + + Em verdade te digo; principío + A estar arrependido de indicar-te + Para meu ajudante n'esta empreza! + Hanan mandou que fossemos prudentes: + Devemos ter prudencia. Hanan mandou + Que tomassemos nota do que vissemos: + Tudo o que virmos lhe será contado. + Hanan mandou que fosse descoberto + O melhor paradeiro onde, em segredo, + Se podesse prender o Nazareno, + Muito em segredo, sim, para evitar + Protestos e tumultos: pois, meu caro, + Havemos de encontral-o! + +JOSUÉ + + Estás bem certo?... + +BENJAMIM velhacamente, animando-o: + + E não vejo que mal nos ameace. + O ex-Grande Sacerdote é simplesmente + Quem se entrega aos revezes d'este jogo. + Se perde ou ganha, o caso é lá com elle; + E nós de qualquer forma ganharemos + Não só a consciencia de homens probos, + Leaes respeitadores de Moysés... + +JOSUÉ unctuosamente: + + O que á minha alma traz doce conforto... + +BENJAMIM + + ... Mas tambem o dinheiro promettido, + Que não menos conforta as nossas bolsas. + +JOSUÉ com desinteresse hypocrita: + + Tens um sistema de encarar a vida!... + +BENJAMIM + + É forçoso que nós nos convençamos + De que, se os bons principios se defendem, + Tambem se deve garantir ao corpo + A delicia das bôas digestões... + Á custa do dinheiro do Conselho! + --Ouve portanto o que é mister cumprir: + Tu vaes para a cidade; a bréve trecho + Procurarás o ex-Sacerdote... E então + Dir-lhe-ás que o profeta e os companheiros + Chegaram a Bethania era sol-posto; + Que decerto aqui ficam toda a noite, + E que eu não deixarei de estar álerta. + +JOSUÉ + + Perfeitamente. + +BENJAMIM + + Espéra! De manhã, + Logo que vejas os clarões do dia, + Has de esperar por mim... + +JOSUÉ + + Que sitio indicas? + +BENJAMIM + + Não distante da entrada principal + Do Templo. Dado o caso que eu não chegue, + Commigo has de encontrar-te... + +JOSUÉ + + E onde? + +BENJAMIM + + Aqui. + +JOSUÉ + + Muito bem! + +BENJAMIM + + Percebeste? + +JOSUÉ + + Que pergunta! + Como quem desenrola o «Pentateuco» + E passa a vista pelo que elle diz. + --A proposito: guarda-me estes rôlos. + +BENJAMIM acceitando-os e juntando-os aos seus: + + Tens razão. As Sagradas Escripturas + Iriam pezar muito no caminho. + Mas deves ir com um, pois é preciso + Para te dar o aspecto d'homem sério. + +JOSUÉ + + Ao romper da manhã... + +BENJAMIM + + Vae-te! Vem gente! + +E tomam para lados oppostos, revestidos de sua compostura habitual. + + +Quatro homens assomaram á porta do _Leproso_; são Eleazar acompanhado de +João, Simão Pedra e Matheus. + +João é um bello tipo da raça judaica do norte. Alto, robusto, espadaúdo +e ainda imberbe. Os louros cabellos de genuino galileu caem-lhe sobre os +hombros em fartos anneis. Olhar azul, meigo; gesto largo e suave, na +quietação d'alma; mas desordenado e brusco, se a colera o determina. Voz +intensa, possante, cadenciada, de homem habituado a falar ao ar livre, +na grande extensão da superficie das aguas. + +Mais velho do que elle, Simão Pedra deixa transparecer em toda a sua +figura suavidade extranha em creatura humana. De Capharnaum, galileu +tambem e tambem robusto homem do mar, o seu rosto é circumdado pelos +annelados cabellos e pela barba comprida, bipartida, e tão loura, que +mais parece branca. Olhar penetrante, mas bondoso e ligeiramente +accentuado por um vinco entre os supercilios, o que torna a sua +fisionomia um pouco severa. Gesto sempre sereno; voz protectora, +paternal. + +Matheus é mais velho do que João e mais novo do que Simão Pedra. Baixo, +de forte musculatura, barba ruiva bipartida; olhos meùdos e muito vivos +de antigo publicano. Todavia o conjuncto da fisionomia é attrahente por +uma expressão de rude franqueza que n'elle predomina. Voz quasi +homofona, de homem metódico, que raras vezes se enthusiasma ou +sensibilisa, e que tem da vida uma noção segura. + +Os trez trazem na cabeça turbante á moda egypcia, com as pontas caídas +ao longo das costas. Os mantos e as tunicas empoeirados mostram que foi +grande o percurso que fizeram os romeiros. + +JOÃO resfolegando: + + Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade! + +MATHEUS + + E ficam bem á vista os muros da cidade... + Não sei o que adivinho!... + +JOÃO + + Ao largo esse receio! + Muito mais me entristece a nuvem má que veio + Escurecer ao Mestre o doce olhar... + +SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma +intimidade muito amiga: + + Meu caro, + Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo + O tempo que passou a este em que hoje estamos: + O verbo illuminando a treva e os recamos + Do manto a que se abriga uma ambição enorme; + As contorsões finaes do animal disforme + Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés, + Rojando-se afinal vencido a nossos pés! + +ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae +n'alma: + + E julgas que não tarda em despontar o dia + Tão desejado? + +SIMÃO PEDRA + + Eu?! Pois quem duvidaría? + --A doutrina do Mestre é como o grão de trigo, + Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo. + Que mais cuidados tem o bom do lavrador? + Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor, + Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão, + A força e o poder da multiplicação. + Se o lavrador depois no campo seu repára + E vê brilhar ao sol a refulgente seára, + Exclama, commovido: Abençoada terra, + Que assim tanta bondade e tanto amor encerra! + +ELEAZAR, quasi a medo: + + Mas se acaso acontece o lavrador morrer...? + +SIMÃO PEDRA + + Quem passa pela estrada e attenta no crescer + Do risonho trigal, diz logo, reverente: + Bemdito quem dispoz na terra esta semente! + +ELEAZAR, depois de grande hesitação: + + Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho + Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?... + +SIMÃO PEDRA + + Nunca! + +ELEAZAR + + Nem fugireis? + +JOÃO que se erguera, rapido e violento: + + Nenhum de nós! + +Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte. +Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e, +dando ás palavras uma intenção reservada: + + Nenhum... + Dos que têem do Mestre a patria por commum! + Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios + Nunca hão de vacilar perante os sacrificios. + Se acaso o Mestre fôr levado de vencida, + Qualquer de nós dará por elle a propria vida! + Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André, + Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé, + Iago, o publicano, ou Simão Pedra?--Não! + Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão? + --Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento. + +JUDAS + + Não falaste de mim... + +JOÃO muito secco e terminante: + + Por méro esquecimento. + +E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação. + +ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra: + + Pareceu-me o contrario... + +SIMÃO PEDRA triste e confidencial: + + É sempre assim co'o Judas... + +Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força +da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura +regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus +cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada; +pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma +notavel contrasta da rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham +entre os labios vermelhos; e quando irado, o labio inferior que é +grosso, sensual, estremece-lhe como o d'um touro em circo romano. É uma +d'essas creaturas que não sabemos se devam inspirar-nos simpathia, se +conservar no nosso espirito a idéa de repulsão que a principio nos +dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mãos, braços e peito +cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares; extremamente +meiga e cariciosa na dôr, extremamente vibrante, herculea na cólera. + +JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo: + + Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas + As tuas aggressões áquelle que te présa! + Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa. + De injurias contra mim tu sempre estás faminto! + Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto... + (E crê que muita vez isto me vem á idéa) + ... Ter nascido em Judá e não na Galiléa? + Sou culpado de quê? De ter a pélle escura? + De ter cabello negro? Isto é para censura? + +MATHEUS conciliadôr: + + Mas se elle já te disse... + +JUDAS + + E eu digo que, em verdade, + Prefiro lealmente o odio a esta _amizade_! + +E volta aos seus pensamentos dominantes. + +MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil: + + Vinde ceiar, que são horas. + Não quereis? + +SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha + + Nem se duvída! + +MARTHA + + Pois deixae-vos de demoras, + Aliás vae-se a comida! + --Uma ceia improvisada + Mas nem por isso mesquinha, + Podeis crêr. + +SIMÃO PEDRA + + A caminhada + Que fizemos foi damninha... + Por aguçar o appetite. + +MARTHA intimativamente, retirando-se da janella: + + Dize que venham depressa, + Porque, faltando ao convite, + Sem vós a ceia começa! + +JOÃO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um +tom de voz inaudivel para Judas: + + Dizeis que elle é honesto e probo e crente, em summa + Que para ser dos bons não falta a coisa alguma... + Talvez que seja assim como dizeis. No entanto, + Se para o seu olhar o meu olhar levanto... + --É tectrico e sombrio aquelle olhar revêsso! + Pensando sempre! Em quê?--Amigos, bem conheço + Que pode ser fatal este misterio vivo! + Qualquer de nós é meigo, alegre e expansivo... + --Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro: + Não procederam bem. + +SIMÃO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante: + + Porquê? + +JOÃO em tom leviano: + + O embusteiro + Apenas retribue a prova de amizade + Gastando em seu proveito o que é da sociedade. + +SIMÃO PEDRA, que não poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda +mais severo: + + Já não te quero ouvir nem mais uma palavra! + No teu peito leal um sentimento lavra + Improprio de quem és! Lá dentro direi tudo. + Depois do que te ouvi, não posso ficar mudo! + +ELEAZAR conciliador: + + Então! + +MATHEUS detendo Simão Pedra, que ia para entrar em casa do _Leproso_: + + Menos calor! + +JOÃO repêso, meigo, supplicante: + + Oh! cala-te, por Deus! + Não vás exacerbar ao nosso Mestre os seus + Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano... + Proveio o que me ouviste apenas de um engano... + Simão Pedra, desculpa! + +Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão +Pedra, aguardando o desenlace. + +SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo: + + Eu sei que és razoavel. + Já tinha como certa a confissão louvavel, + Que logo surgiria á simples ameaça... + +JOÃO abraçando-o effusivamente: + + Devemos collocar ao longe o que a desgraça + Procura intrometter no nosso coração! + +MATHEUS + + O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão, + Mas tens dentro do peito os risos da bonança! + +SIMÃO PEDRA + + Não voltes a magoal-o. + +JOÃO + + Hei de mudar, descansa. + +Encaminha-se para casa, mas + +SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se +passára: + + E fala-lhe, João: não vês como ficou? + +JOÃO com bonhomía: + + Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi! + +JUDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado: + + Eu vou. + + +Mas fica, e só os quatro entram para casa. + +Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente +immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando +toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme +reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos; +apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém, +distinguem-se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos +romeiros, que veem para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e +pandeiro. É um himno melancólico, dolente, ao pausado compasso da +andadura. Pouco a pouco os sons definem-se, approximam-se. A aragem +fresca e perfumada balouça docemente o arvoredo. + +JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma: + + Porque motivo, ó Deus, esta injustiça? + Desegualdade sem razão, medonha! + Uma alma pura, virginal, submissa; + Outra, vertendo em lagrimas peçonha! + --Ah! fatal e profundo sentimento, + Que tens do abismo a attracção e o horror! + És para mim dulcissimo tormento, + E sendo um grande amor... não és amor! + Um desejo voraz, ardente, furia, + Que a força da vontade não arranca! + Tem sonhos de volupia, de luxuria, + Com as palpitações da carne branca! + Transforma o ideal em verdadeiro + E a minha alma timida conduz + A seductor e vago paradeiro, + Onde eu estreito um cólo e uns braços nús! + Não morrerás? não has de ter um fim, + Ó tenebrosa e infernal tortura, + Que pareces viver dentro de mim + A construir a minha sepultura? + --Quem te ordena que leves a maldade + A fazer-me avançar para o impossivel? + Porque segrédas tu que a castidade + Nem sempre pode ser irresistivel + Ás seducções frenéticas do amor? + E porque vens mostrar-me, sensual, + Certa nudez, e em todo o seu fulgor + Um monte de oiro junto d'um punhal? + --Como és infame! Sim! Com violencia + Levas minh'alma fraca aos empurrões. + E, como a Daniel, a Consciencia + Queres deitar á cova dos leões! + --Oh! nunca! Podes crêr que te resisto! + Hei de salvar minh'alma moribunda, + Arrancar-te de mim, e, depois d'isto, + Escarrar-te no corpo, besta immunda! + + +E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta +o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do +interior da casa. + +Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo +traz apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma +coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria, +como animada de forte resolução, encaminha-se para a fonte, passando +pela frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e +quedou-se a contemplal-a. Maria põe a amphora sob a corrente d'agua, e +espera que encha. + +Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente. + +Dir-se-ía que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar está +agora fito no chão. Mas, por fim, com expressão de resignado, eil-o que +se dirige para casa, onde entra a passos lentos. + +A amphora transborda. Maria põe-na sobre o quadril e dá alguns passos. +Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da +cidade com expressão de temor, como se d'ali podesse vir desgraça para +algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a +porta. + +Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus +instrumentos, e vão-se afastando, afastando gradualmente, os sons +sumindo-se pouco a pouco na distancia. A lua sobe com lentidão; paira em +todo o quadro a quietação muda da Natureza adormecida... + +Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-ía que +esse vulto é Benjamim. + + + + +SEGUNDA JORNADA + +EM 9 DE _NISAN_ + + + + +SEGUNDA JORNADA + +EM 9 DE _NISAN_ + + +Estamos em casa de Simão de Bethania. + +A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas +tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso +conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á +direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade +conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação +para o interior. + +Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial, +onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida +domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela; +pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria, +pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira +á cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a +influencia do triclinio nos costumes da Judéa. + +A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos +os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro, +festivamente bello; o sol dardeja e as cigarras vibram. + +No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o +_Leproso_. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco +temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo +graal collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços +de pão levedo em frente de cada commensal. + +Não distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas +sob a tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento +as Sagradas Escripturas. + +João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por +uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,--medita e +lança de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam +Judas. + +MATHEUS + + De ha muito que não como, e sem lisonja o digo, + Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo! + Não achas? + +SIMÃO PEDRA + + Fabricado em casa do Simão... + +SIMÃO + + Obrigado. Outro copo? + +SIMÃO PEDRA + + O vinho é de Ascalão. + Conhece-se a distancia apenas pelo aroma. + +SIMÃO + + Continuam a dar-lhe enorme apreço em Roma + Para onde vão toneis sobre toneis! + +MATHEUS que n'um movimento de cabeça concordára e que bebera depois +d'aspirar o bom perfume: + + Pudera! + O amor entre os pagãos á embriaguez prospéra. + +SIMÃO apresentando outra infusa: + + Temos agora aqui magnifica cerveja. + +SIMÃO PEDRA + + De cevada? + +SIMÃO + + Não é. + +MATHEUS + + De peros? + +SIMÃO + + De cereja + Cultivada em Ramá. + +Com sorriso amigo, Simão Pedra e Matheus estendem os copos para Simão +que n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez +em silencio e com recolhimento. + +SIMÃO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo está fixando: + + Olhae como é profundo + Este segredo! + +MATHEUS + + Qual? + +SIMÃO PEDRA + + Por um processo immundo, + Pela fermentação, consegue-se tirar + Da materia um licor tão grato ao paladar. + +JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em +Judas, que continúa lendo: + + Não acontece o mesmo a tudo que fermenta. + Ha certas podridões que geram peçonhenta + Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma. + Entrando pela vista, é digirida na alma! + E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila + Provem d'esse veneno horrivel que distila + Muito perto de mim com lugubre misterio. + Inutil procurar um doce refrigerio, + Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae + Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae! + +Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para +alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros +pensamentos. + +Judas voltou á leitura sempre silencioso. + +SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes: + + Nunca ouvi tal falar da bôca do João. + +SIMÃO PEDRA tristemente: + + E o caso é que tambem começo a achar razão + A tudo que elle diz. + +Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde +conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os. + +MATHEUS + + O Judas, francamente, + No que hontem se passou, deu prova de demente, + Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor! + +SIMÃO + + Hontem? + +MATHEUS + + Á noite. + +SIMÃO + + O quê? Dizei-me, por favor. + Não sei do que falaes. + +MATHEUS + + Passou-se tudo aqui. + Durante a ceia. Não ouviste? + +SIMÃO + + Não; sahi, + Mas foi por pouco tempo. + +SIMÃO PEDRA muito confidencial: + + Então eis o motivo... + --Durante toda a noite esteve pensativo + E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa + Com palavras banaes e frias. Tão submersa + Tinha em meditações a alma, que ninguem + Deixou de perceber... + +SIMÃO + + Percebi eu tambem + Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto + A fiel expressão d'um intimo desgosto. + +SIMÃO PEDRA + + Maria, aquella honesta e bôa rapariga, + Desejando seguir a usança muito antiga + No povo do Senhor, a de render um preito + De sincera amizade e natural respeito + Ao viajante illustre a quem se dá guarida, + Abeirou-se da mesa, e, muito commovida, + Derramou sobre o Mestre um perfumado unguento + De nardo puro. Então, infame sentimento + De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro + E alegre como nós, aquelle companheiro + Reputado fiel, só tem uma censura + Para galardoar a prova de ternura: + --«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo + Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo, + Saberia guardar tambem zelosamente + A importancia da venda a todos pertencente, + Entregando-a depois em meu e vosso nome + Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.» + +SIMÃO como assombrado: + + Mas isso foi um insulto! E o mestre? + +SIMÃO PEDRA + + Respondeu + Brandamente, como é velho costume seu. + +SIMÃO + + Nem siquer suspeitaes a causa? + +MATHEUS + + Tarde ou cedo, + Alguem desvendará por certo este segredo. + +E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando, +encaminhando-se por fim para mais distante. + +JOÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre +Judas. Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de +estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno, +como procurando dominar-se: + + O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho. + Reparo em que lhe dás toda a attenção. + +JUDAS + + Medonho! + --A infamia de Caím. + +JOÃO + + É proveitoso, e muito! + Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito, + No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã, + De falar d'esse crime o qual desde manhã + Tanto me preoccupa. + +Muito ironico: + + Á tua consciencia + Não pode causar damno esta coincidencia... + És tão sincero, és tão leal e virtuoso!... + --Mas devo confessar-te... + +JUDAS sereno e sempre sentado: + + O quê? + +JOÃO + + Que estou ancioso + De ha muito por que tu expliques o motivo, + Que te obrigou a ser cruel e offensivo + Para quem te consagra uma affeição fraterna. + +Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu: + + O que possues em ti, Judas, que assim governa + O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo + No misterio que abriu na tua frente um abismo + Cercado de fataes e nús despenhadeiros, + Affastando-te assim dos nossos companheiros, + Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda. + +E indicando a corda com que prende a tunica á cintura: + + Somos na união eguaes a esta corda, + Que as estrigas de linho unidas fortemente + Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente. + Na sólida affeição, unificados, somos + Assim como n'um fructo os solidarios gommos. + --Desfia-se, porem, a corda, ao que parece; + E julgo ver no fructo um gommo que apodrece... + +JUDAS com affectada bonhomía: + + Chiméras, illusões... + +JOÃO + + Talvez.--Mas quando penso + Que o teu profundo mal pode tornar immenso + O crime, e que será depois intempestivo + O arrependimento... Em summa, não me esquivo + A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha: + Nunca simpathisei comtigo; não se amanha + Com a tua frieza a ardencia do meu peito. + É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito + A observar-te. + +JUDAS + + A mim?! + +JOÃO + + E sabes o que vejo? + Que tens uma alma rude e instincto malfasejo! + +JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença: + + Chiméras, illusões... + +JOÃO + + Talvez.--Mas quem nasceu, + Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu + Por vasto cortinado; aquelle que na infancia + Aprendeu a olhar com summa repugnancia + Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre, + Muito melhor que tu ha de entender o Mestre. + Não podem comprehendel-o os rudes corações + Selvagens como o teu! + +JUDAS + + Chiméras, illusões... + +JOÃO + + Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres + Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres + Supplícas com aspecto humilde uma parcella + P'ra o Mestre!--Na verdade, é preciosa e bella + Tanta dedicação! Provoca o elogío! + --Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío + O teu olhar matreiro, o brilho da avareza + A dar-lhe um tom sinistro?--Odeias a pobreza! + Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas + Como atraz do rebanho os lobos e as hienas! + +JUDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o +olhar ameaçador: + + João! + +JOÃO cruza os braços e sereno: + + Podes bater, amigo! Por que esperas? + +Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E +João, agora ainda mais excitado: + + E chamas illusões! e vens chamar chiméras + Ao que é verdade núa e positiva?!--Agora + Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora; + No actual momento em que até eu vacílo, + Presentindo que não poderá ser tranquillo + O futuro do Mestre e de nós todos, mudas + Em odio declarado essa frieza, Judas?! + Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso? + Confessa que proveito, ou que terrivel goso + Encontras n'essa infamia abjecta! + +Desesperado pela indifferença apparente de Judas: + + Que supplicio! + Não poder arrancar-te ao menos um indicio! + Não poder descobrir a causa que assim léva + O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva! + Ah! não poder, depois do que disseste aqui, + Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti! + +E senta-se, febril, n'uma das camilhas. + +JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente, +diz-lhe emfim com muita ironía: + + Está bem! muito bem! Ao menos, esperava + Que soubesses deter a incandescente lava, + Que todo me queimou, transformando em carvão + A minha consciencia... embora de _ladrão_. + +Resoluto, firme, altivo: + + Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino; + Mas isso que te importa? Um ser tão viperino, + Como eu, só tem logar no meio da ralé, + E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé! + +JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo: + + Acalma a excitação, Judas. O principal + Resume-se, ao presente, em confessares qual + A origem do teu odio. É isto o que eu te peço, + É isto o que eu desejo. + +JUDAS n'um brusco impulso de independencia: + + Isso é que não! Confesso + Á minha consciencia o que me vae no peito! + Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito + De desvendar em mim reconditos misterios? + Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios! + --Pediste por acaso ao mar em que nasceste + Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste + A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo? + Pois o meu coração como elle é tão profundo, + Que se alguem pretendesse abrir uma passagem, + Teria de morrer submerso na voragem! + +João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem, +detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas +verdadeiras intenções: + + Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça + Conseguirei vergar esta alma tão submissa. + Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis... + Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis, + Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos, + Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos... + Depois quando vier o derradeiro instante, + Desamparado, nú, febril, agonisante, + Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas, + Em vez de maldições, tem palavras bemditas, + Para quem desprezou teu pobre coração, + Deixando-o succumbir como se fosse um cão! + --Adeus e para sempre. + +Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta: + + Acceita em pensamento + O que d'aqui te envio: em tão cruel momento, + Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo + Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo + Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha! + --Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João. + +E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta: + + Canalha! + +JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria +consciencia: + + Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se + Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse + Pedir ao exagero o auxilio necessario + Para augmentar de vulto o crime involuntario, + Ou a leviandade alheia á malvadez. + Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez + Arrastar pelo mundo uma existencia nua + De affectos, desgraçada... E não por culpa sua... + +Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de +Bethania. + +ELEAZAR indicando João aos companheiros: + + Eil-o aqui está! E nós á tua espera! + +SIMÃO PEDRA + + São horas de partir para a cidade. + +JOÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu +pensamento entregue ao Mestre: + + Não deve ser pequena a caravana! + +MATHEUS + + Junto do Mestre, o povo delibera + Acompanhal-o. + +SIMÃO PEDRA + + O que é grande imprudencia! + +JOÃO + + Grande imprudencia?! + +SIMÃO PEDRA + + Os nossos companheiros + Em vão procuram com docilidade + Suster o passo á gente leviana... + +JOÃO + + E porquê? Não são elles verdadeiros + Defensores do Mestre? + +SIMÃO PEDRA + + Mas reflecte... + +JOÃO + + O povo quer seguir-nos? Pois que venha! + +SIMÃO PEDRA + + Mas pode provocar algum tumulto. + É preciso que a dentro da muralha + Evitemos qualquer indisciplina. + +JOÃO + + Tu que dizes? Que pensamento occulto + Encerram taes palavras? Será crivel + Que te arreceies da imbecil gentalha, + Que anda a rosnar as suas ameaças + Contra a força que temos, invencivel, + Justiceira e tremenda?! + +SIMÃO PEDRA + + E porque não? + Onde possues algemas e mordaças + Para conter as furias imminentes? + Pode acaso fugir-se a uma traição? + Reflecte bem: devemos ser prudentes, + Evitando que Hanan tenha pretexto + Para exercer emfim uma vingança, + Roubando ao Mestre a preciosa vida. + +JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico: + + Não tens portanto uma unica esperança + Em ver surgir a aurora promettida? + --Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto + Do Profeta, que vamos afinal + Assistir ao enorme vendaval, + Que ha de causar a todo o mundo espanto! + Da Lei não ficará nem uma linha, + E as pedras do Templo hão de cahir! + Eu antevejo, amigos, o porvir, + Que de instante a instante se avisinha! + Como cães a ulular, de toda a parte + Hão de saír as abominações! + Entre espadas de fogo e maldições, + Vae tremular um sólido estandarte! + Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus + Ribombará como um trovão gigante, + E o vento ha de levar para distante, + Onde não haja terra, mar, ou ceus, + As ultimas parcellas do monturo + A que chamamos hoje humanidade! + Álerta! vae rugir a tempestade! + --Confia em Deus! Espera no futuro! + +Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza: + + Gamaliel?! + +GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. +Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova +terrivel. + + Eu proprio. E vejo que cheguei + A tempo de lembrar que existe de uma Lei + A rispida crueza, a inquebrantavel força, + E que por mais que a tua exaltação retorça + O positivo, elle ha de emfim prevalecer! + Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder. + --O perigo é enorme. + +Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade: + + Ouvide: Nicodemo, + Um homem de honradez e que respeita em estremo + O vosso Mestre, não me occulta o que se passa + A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça, + Fazendo-se abortar o plano vingador! + +TODOS em sobresalto: + + Um plano?! + +JOÃO + + Como?! + +SIMÃO PEDRA + + Dize! + +MATHEUS + + É de grande valor + O que disséres. + +JOÃO + + Sim! deves dizer-nos tudo! + +E acercam-se d'elle ainda mais: + +GAMALIEL pausada e custosamente: + + Hanan possue no genro o seu melhor escudo. + Se transformou Kaíapha em Grande Sacerdote, + Foi para ter alguem que cegamente vote + Na sua opinião. Mais do que o genro, alcança + Dos homens do Conselho estima e confiança. + +E custando-lhe a despegar dos labios as palavras: + + Eis por que hontem á noite, e em sessão secreta, + Por elles foi votada a morte do Profeta! + +SIMÃO PEDRA, erguendo as mãos aos ceus: + + O meu presentimento! + +MATHEUS, convulsamente: + + Infamia! + +JOÃO, n'um grito: + + Cobardia! + +ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso: + + É tempo de calcar aos pés a tirannía! + +Todos, excepto Gamaliel, estão nervosos, irrequietos, consultam-se, +animam-se, invectivam Jerusalem. João foi á janella, e com os dentes +cerrados, o braço erguido, ameaça-a de esterminio. + +GAMALIEL + + Tende serenidade! + +JOÃO + + Oh! não, Gamaliel! + +ELEAZAR + + Liberte-se de vez o reino d'Israel! + +GAMALIEL + + Que poderá tornar-se em grande mar vermelho, + Se Poncio perfilhar o voto do Conselho! + +JOÃO + + As espadas de Roma, as furias de Tiberio, + Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio! + O povo ha de gritar, raivoso, leonino, + Rasgando a face impura ao despota assassino! + +GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos +olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas: + + Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto + No livro da experiencia, amigos, que é de pranto + A minha pobre offerta á causa alevantada! + Vós não podeis brandir a rutilante espada; + Nem elle, todo amor, consentiria nunca + Na transfiguração do verbo em garra adunca. + Parti, pois que é preciso apparecer ao povo, + Mas fugide a que venha um incidente novo + Aguçar ao tiranno o sanguinario intento. + Entrae com desassombro a porta do aposento + Onde finge dormir, silencioso, o crime; + Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime + O seu rancor feroz! + +SIMÃO PEDRA tambem resoluto: + + Seja o que Deus quizer! + +JOÃO + + Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher, + Pode esfriar em mim a indignação! + +GAMALIEL + + Piedade! + +ELEAZAR + + Vamos! + +MATHEUS + + Jerusalem! + +SIMÃO + + Coragem! + +JOÃO + + Na cidade + Havemos de formar com os nossos companheiros + Possante legião d'impávidos guerreiros! + +E vão-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldão o velho +Gamaliel. + + +Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simão ficou abandonada, +Maria e Martha veem de fóra. Martha sempre alegre; a irmã sempre absorta +em grande melancolía. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se á +janella, seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vão a caminho de +Jerusalem. + +MARTHA + + E uma vez que partiram + Para a cidade, afinal, + Entreguemo-nos agora + Ao que julgo essencial: + Tratemos da nossa casa. + +MARIA, indolente: + + Espera. Não tenhas pressa... + +MARTHA + + É que está tudo em desordem, + E o nosso irmão começa + Dentro em breve a murmurar + Que ninguem aqui trabalha!... + +MARIA + + Martha, vae tu repoisar, + Que eu tratarei do preciso. + +MARTHA + + Não teimes, que me aproveito + Do teu conselho. + +MARIA + + Careces + De alguns momentos no leito; + Deves estar fatigada. + +MARTHA + + E não te enganas. Ergui-me + Ao romper da madrugada... + +MARIA + + E foste uma das primeiras + Que se juntaram co'os Dôse + No Monte das Oliveiras, + Onde passaram a noite, + Como é costume. + +MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga: + + E não ficas + De mal comigo? + +MARIA + + Porquê? + Se em nada me prejudicas... + +E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar: + + O que ha de novo, Judas? + +JUDAS + + Nada sei... + +MARTHA muito admirada: + + Não quizeste partir para a cidade? + +JUDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio: + + Como vês, não parti... pois que fiquei. + +MARIA + + E porquê? + +JUDAS + + Porque o somno que me invade + Exige para o corpo algum repouso. + Vae alto o Sol; de ha muito manifesta + Que brilha no seu ponto mais radioso, + E que são horas de dormir a sesta. + +MARIA, sem o fitar, serena: + + E vaes dormir? + +JUDAS cerrando as palpebras: + + O Livro dos Proverbios + Alguma coisa diz... «Quem se julgar + Com pequenos desgostos, exacerbe-os + A dormir, a dormir... e a sonhar...» + --Se durmo, para onde é que foge a vida? + Para fóra de mim quem a conduz? + Encontrará descanso na guarida + Para onde, ao apagar-se, vae a luz? + Ao despertar depois, quem reacende + No cerebro o fulgor que relampeja? + Quem é que nos dá vida ou que a suspende + A seu prazer? + +MARTHA com muita convicção: + + É Deus... + +JUDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo: + + Talvez que seja. + +MARTHA surpreza: + + Talvez?! + +Muito baixinho ao ouvido da irmã: + + Extranho o Judas! + +JUDAS + + Sim, talvez; + Porque não julgo prova de criterio, + Antes se me affigura insensatez, + Explicar um segredo co'um misterio. + +MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção, +melodiosamente: + + Anda a tua alma fugida + Ao bom caminho da crença... + Quem foi que d'elle a affastou + E que dentro em ti deixou + Uma escuridão immensa? + Hontem á noite... (Desculpa + Se acaso te contrarío + Ao falar agora d'isto) + Por todos nós foi mal visto, + Judas, o teu desvarío. + De tão modesta homenagem + Não era merecedor + Aquelle Mestre sublime + Em cujo rosto se exprime + A bondade e o amor? + --Anda a tua alma fugida + Ao bom caminho da crença. + Que Deus de novo a conduza + E o brilho reproduza + Na tua alma, treva immensa! + +Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o +convencido, diz então baixinho á irmã: + + Não responde. Pode ser + Que facilmente consigas + Descobrir toda a verdade. + +MARIA, querendo esquivar-se: + + Eu? + +MARTHA + + Com palavras amigas + Interroga-o, porque, em summa, + Custa ver n'um coração, + Que deveria ser meigo, + Semelhante ingratidão. + +E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado. +Judas e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas, +observa-a. + +MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo +a si propria: + + É mais prudente... + +E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu: + +JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello: + + Maria, + Pareces que vaes fugindo... + +MARIA baixando o olhar: + + Para não te incommodar, + Quando estiveres dormindo. + +E retira-se tambem, fechando a porta castamente: + + +JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, +perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por +onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos +joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz: + + É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa... + Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa, + Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim. + Provem este rancor, que ella sente por mim, + Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala, + Do ente extraordinario a que nenhum se eguala, + Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito. + Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito! + --Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo, + Ainda que me sinta a resvalar no lodo! + +E erguendo-se, impetuoso: + + E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços! + Quando o trovão ribomba altivo nos espaços, + Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho! + Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho! + --... Mas quem me diz não ser este sinistro plano + Improficuo, ou então summamente leviano! + Se elle fugir á morte, ao estertor final, + Por um processo occulto e sobrenatural, + Contra mim lançará todo o furor do ceu, + Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu! + +Com a alma a contorcer-se n'um supplicio: + + Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz, + O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz, + Ó Deus, entoaria, agradecido a ti, + Uma canção igual aos psalmos de David, + Transformando o meu peito em grande tabernaculo! + --Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo! + +Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um +sorriso malevolo, animando-se: + + E se, como se diz, elle não fôr divino? + Se obedecer, como eu, á força do destino?... + --Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso + E possante vigor d'um corajoso pulso! + +Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente, +Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de +Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma +das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, +agora acobardado: + + Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime. + E como poderei matar, sem ver o crime? + Armando um braço vil? comprando uma consciencia? + É pouco, é muito pouco... e é tudo!--Que demencia! + Quem poderá saber onde reside a féra, + Que tenha peito humano e garras de pantéra? + +Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca +espumando: + + --Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha, + Que vive silenciosa em tua negra entranha, + Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo, + Enorme como Deus, mesquinha como um sapo! + Genio amante do crime e á virtude adverso, + Que mora num covil... e zomba do Universo! + Eu quero conhecer o amigo dos devassos: + Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços! + +Com grande desanimo: + + Nem elle me protege! E eu preciso, emfim, + D'um ser bastante infame! + +BENJAMIM com muita humildade: + + Aqui me tens, a mim... + +JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca: + + Quem és tu? + +BENJAMIM avergado, mas sempre humilde: + + Sou alguem que te escutava. + O tempo, como vês, não desperdiço... + Não perguntes quem sou. Aqui me tens, + Amigo, ao teu serviço. + +JUDAS sem o largar: + + Ignoro quem tu sejas, mas se acaso + Divulgar o meu odio tencionas, + Juro que em curto praso + No fio de uma lamina abandonas + Co'o meu segredo a vida! + +BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa: + + Cala a bôca! + Não blasfemes de coisas respeitaveis. + Venho fazer propostas acceitaveis, + Dizer tudo o que sinto, + E só respondes co'uma furia louca! + Se me has de receber com effusão, + Achando em mim o teu melhor amigo, + Alevantas a mão, + Ameaçador como um guerreiro antigo! + É ser ingrato! + +JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um braço: + + Dize-me o que sabes! + +BENJAMIM sinceramente: + + Ora! sei que a tua alma se abalança, + Depois do que houve aqui hontem á noite, + A seguir o caminho da vingança. + Naturalmente, sentes-te offendido + Co'a resposta que teve o teu reparo + Tão justo e merecido... + +JUDAS como comsigo, satisfeito: + + Portanto, ignora... + +BENJAMIM + + É isto amigo? + +JUDAS, rapido: + + É isso! + +BENJAMIM explicando: + + Eu hontem ouvi tudo junto á porta... + --Manda, que eu te obedeço. Aqui me tens, + Humilde, ao teu serviço. + +JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes +com Josué. + + Mas se eu não sei... + +BENJAMIM agora senhor de si: + + Não sabes? Pois sei eu. + O Mestre será morto, em poucos dias; + Depende só de ti, fica sabendo! + +JUDAS nervosamente: + + Que dizes, fariseu? + +BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que +parece devorar-lhe as palavras: + + Ouve: É tremendo + O odio que lhe tem todo o Conselho, + O qual procura o instante mais propicio + De pôr em exercicio + O plano da prisão, do julgamento... + +JUDAS + + E da morte? + +BENJAMIM + + E da morte! O que, porem, + No actual momento + Ao sacerdote Hanan muito convem + É prendel-o em segredo, + Á noite, em sitio obscuro. Hanan tem medo + De que o povo alevante alguns protestos... + Á prudencia conforme, + Assim procederá. + +JUDAS animado, satisfeito: + + Dize-me então... + +BENJAMIM + + É urgente saber onde elle dorme. + Tu sabes com certeza! + +JUDAS hesitando, vagamente acobardado: + + Mas... + +BENJAMIM + + O quê? + Não queres a vingança, Judas? + +JUDAS + + Quero... + +BENJAMIM + + N'esse caso, aproveita o bello ensejo, + Que outro não tens melhor. Sendo sincero + E grande, como julgo, o teu desejo, + Não deves recusar o que proponho. + --Ouviste? Muito bem! Reflecte agora, + Este sitio não é muito seguro... + Aguardo te lá fóra! + +Vae-se; Josué segue-o, e os dois desapparecem. + +JUDAS ficou perplexo ainda, como medindo a gravidade da proposta. Mas +depois: + + De que serve hesitar, se me apresentam + Como satisfazer o meu anceio? + Basta que eu seja um cumplice d'Hanan, + Um traidor simplesmente... Nada mais... + +Com rude franqueza: + + --Na mão direita a Infamia, + A Consciencia na esquerda. Eu de permeio! + +Com funda ironia: + + A sentença fixei: + «Não saiba a esquerda o que pratíca a irmã.» + --Não saberá, que eu nada lhe direi! + +Vae sair, mas a porta que dá communicação para o interior da casa +abre-se, e Maria apparece no cimo dos degraus. Judas quedou-se. + +MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa: + + Julguei ouvir falar... + +JUDAS + + Aqui? Foi puro engano. + +E notando um movimento esquivo de Maria: + + Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno + Com a minha presença? + +MARIA condescendente: + + Oh! não... + +JUDAS caricioso: + + Deixa-te pois + Ficar junto de mim, que facilmente os dois + Teremos na conversa um passatempo. Fica. + +E mentalmente: + + Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca. + +Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do +primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do +corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a, +apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a +paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se +nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez +mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos... + +JUDAS + + Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar, + Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar, + Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto, + E em nuvens de tristeza agora anda encoberto. + +MARIA com simplicidade, avançando um pouco: + + Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa + Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença. + Ao passo que me opprime este cruel receio + De vêr barafustar o nosso Mestre em meio + Dos inimigos seus, mais frio do que a neve + Se torna o meu olhar. + +JUDAS tôrvamente: + + Deve ser isso, deve... + +E depois de algum silencio, ironico: + + Costumado a subir nos estos d'esse amor + Aos mundos do Ideal, o candido fulgor + Transforma-se em desdem, e apenas se descerra + Perante a mesquinhez que roja pela terra! + +O olhar bem fito n'ella, animando-se: + + Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo, + Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo, + Brilha sinistramente e vem caír direito + N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito! + +N'um arranco d'alma: + + Em verdade te digo, ó mulher altaneira, + Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira, + Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama, + Que olhas para esse alguem, como se fosse lama! + +Crescendo em furia: + + Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós + Para que emfim termine este supplicio atroz! + Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda, + E vae saír de mim, como em torpel a onda, + Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido! + --Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido, + E deixa de cuidar n'essa paixão agora, + Que é maior a paixão que todo me devora! + +Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto: + + Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar: + É puro o teu amor, não é amor vulgar... + Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida, + No centro da minha alma em sangue e dolorída + Existe uma paixão tambem que me envenena, + Podendo ser mortal, assim como a gangrena... + +Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a +roupagem: + + Ah! no supremo arranco um peito esfacelado + Como este, não receia o que haja mais sagrado, + E julga-se capaz, co'o seu valor enorme, + De luctar e vencer o ente mais disforme, + Terrivel como Deus, gigante como Adão, + Possuindo na voz as frases do trovão! + E porque sinto aqui as contorsões finaes, + Espando francamente as máculas brutaes, + Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo: + Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo! + +Grande e soberbo, de braços abertos, espéra. + +MARIA que não se moveu, serenamente: + + Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas; + Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas. + +JUDAS n'um rugido: + + Maria! + +MARIA sempre immovel: + + Com franqueza, eu disse-te por vezes: + Em castidade egual ás innocentes rezes + No Templo do Senhor dadas em sacrificio, + Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio, + Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha + Acrisolado amor, amor... como de filha. + Na terra nada mais preciso que uma coisa: + A Crença. + +Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal: + + O meu amor longe d'aqui repoisa, + Estrella que não teme as nuvens tempestuosas. + Brando como o dormir das aguas silenciosas, + Vago como o misterio enorme do futuro, + Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro, + Nos espaços do azul vive risonho e inerme. + A estrella é sempre estrella... + +Descendo o olhar para Judas: + + e o verme é sempre verme. + +JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes: + + Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor, + Fugindo á grande lei do grande Creador, + Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre + Para tornar assim fecundo o estéril ventre! + +MARIA sem se perturbar: + + Enlouqueceste! + +JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto +dolorido, n'um queixume: + + Mas se eu nunca fui amado! + Assim como o terreno a que não chega o arado, + Semelhante em mudez ás pedras do caminho, + Era o meu coração. Via-me tão sósinho, + Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus, + Interrogava o Espaço, interrogava Deus, + Procurava arrancar ás trevas o motivo + De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo. + +Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido, como +revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em curvas +graciosas, languidas: + + Mas desde que no teu o meu olhar depuz, + Enxerguei o brilhar d'uma divina luz + Na immensa escuridão d'este viver amargo + E senti-me surgir do fundo do lethargo. + Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem, + Adorada Maria, envolta na roupagem + Tão alva como o arminho, immaculada e honesta: + No prado sorridente, em meio da floresta, + Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros, + No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros... + Por toda a parte, em summa!--Adoro-te, Maria! + No caminho da vida o teu olhar me guia... + Vem dar uma esperança ao pobre coração + Que vive para ti, que te pertence... + +MARIA com ligeiro movimento de cabeça: + + Não. + +JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso: + + Oh! que negra palavra, amarga como fel! + +MARIA com a voz tranquilla: + + Á doutrina do Mestre... + +JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz: + + O Mestre!... + +MARIA + + ... és infiel. + Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro + Do que seja o dever, e que se torna avaro, + Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista! + Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista! + Se não queres viver do amor pela virtude, + Se á pureza é rebelde essa tua alma rude, + Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte: + Foge para distante, ou foge para a Morte. + +JUDAS allucinado, avançando para ella: + + Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala! + Fica sabendo pois que isto que me avassala, + O que por fim se espande e que ha de ser funesto, + Nunca foi do amor um sentimento honesto! + +MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios: + + Maldito sejas tu, se acaso me tocares! + +JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos, +agarrando-a: + + Que importam maldições inuteis e vulgares? + Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os, + Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios! + +E tenta beijal-a, soffrego: + +MARIA evitando-lhe os beijos: + + Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria! + +JUDAS arrastando-a para o triclinio: + + Chamaste muito bem á minha ardente furia, + Como o fogo voraz, cruel e deshumana, + Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna. + +MARIA com a voz estrangulada, luctando: + + Soccorro! Eleazar! + +JUDAS pondo-lhe a mão na bôca: + + Oh! cala-te! + +MARIA já sem forças: + + Meu Deus! + +JUDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse: + + Ah! como são gentis assim os olhos teus! + Como é rosada e fina a tua debil mão! + Vaes ser minha, afinal! + +Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade, +abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas, +diz n'um murmurio de desespero: + + Desfallecida?!... + +Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem +em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção, +com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o +contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza +lhe désse um grito na alma: + + Não!! + +E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos +campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um +lirio d'Issachar... + + + + +TERCEIRA JORNADA + +EM 13 DE _NISAN_ + + + + +TERCEIRA JORNADA + +EM 13 DE _NISAN_ + + +Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio +Pilado, tudo é silencioso, embora a noite só agora acabe de tombar. + +Assenta o elevado tecto em dez columnas não distantes das paredes; é de +mosaico branco e preto o chão marmoreo. Duas portas fronteiras +communicam, uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as +diversas dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente, +achegado um pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que dá +para um terraço resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria +d'ali conduz ao andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da +quadra, ergue-se um busto de guerreiro: é de marmore branco o pedestal; +de roseo o busto, em cuja base lêmos, em caracteres romanos esculpida, a +legenda: _Tiberius Claudius Nero, Imp_. Das portas ha pendentes +reposteiros de azul e oiro. É da mesma fazenda o reposteiro que está +ornando o arco e repuxado junto ao angulo. Fitando nós o busto de +Tiberio, temos sobre a direita larga meza de citrus, onde ardem n'um +bronzeo candalabro trez vellas de cêra e pez; e perto d'ella vemos uma +cadeira d'estofado, de braços longos, costas amplas e recurvas; á nossa +esquerda, perto das columnas, coxim de bronze com embutidos de tartaruga +e trez almofadas de lavor riquissimo; não distante, no chão, está +estendida grande pelle de leão do Atlas. Um armario de ébano macisso +alonga-se na parede junto ao arco e sobre elle se ostenta graciosa +clepsydra de bronze, onde um Éros aponta com a flécha a escala das horas +que decorrem. + +Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraças, capacetes, +escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o pilo de +oiro cinzelado. + +Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas +espargem frouxamente, côr de prata a que o chão do terraço reenvia e que +a Lua derrama das alturas. A cidade dormita lá em baixo; e o luar, +banhando as casarías, dir-se-ía illuminar uma necropole. + + +No coxim do terraço está Claudia reclinada. A tunica é de lã; escura e +longa a estóla. Tem os braços cobertos pelas mangas da segunda tunica, e +é branca a facha que os cabellos lhe prende em élos brandos. Perto de +Claudia a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar cançado o por +demais conhecido panorama. + +CLAUDIA solta emfim um suspiro. + + Dorme tudo na cidade. + Que silencio e que tristeza!... + +GEDA + + Tens então grande saúdade + De Roma? + +CLAUDIA + + Sim. Dizes bem: + É saúdade esta amargura, + Pois outro nome não tem + O que sinto na Judéa + Onde Poncio me exilou. + --Que horas podem ser? Vê lá. + +GEDA vae ligeira ao candalabro; d'elle tira uma vella e dirige-se á +clépsydra. Repõe depois no seu logar a vella, e voltando para junto de +Claudia: + + Salvo engano, gottejou + A segunda hora de prima... + +CLAUDIA + + Por Saturno, é muito cedo, + Pois não é? + +GEDA + + Tambem eu cria + Ser mais tarde. + +CLAUDIA boceja largamente. + + Agora, em Roma, + Ouve-se ainda a folia + Da multidão buliçosa, + Que de toda a parte assoma, + Soltando ao vento a harmonía + Da sua voz descuidosa... + +Vem Poncio, taciturno, e para a meza se encaminha, trazendo na mão +direita um escripto em papyro. É homem d'estatura mais do que regular, e +de idade viril. Rosto livre de pellos; o nariz aquilino; bôca breve, +olhos negros e vivos; curto cabello em curvas de frisados, testa larga +onde as rugas bem se ageitam. Alva a tunica e alvo o manto farto; +sandalhas amarellas; mãos carnudas. Sentou-se junto da meza, e o papyro +consulta. + +CLAUDIA indolente, para Geda: + + Ali tens quem me trouxe para o _exilio_! + Se não dormem Plutão nem Proserpina, + Hão de cedo chamal-o ao domicilio + Onde cáem as victimas da Morte! + +Muito ironica: + + Que inspiração divina + Eu tive ao escolher este consorte! + +Com um gesto ordena a Geda que se retire. Ergue-se do coxim, e +adiantando-se para Poncio, que não a viu: + + Que novas trazes, Poncio? + +PONCIO sem se voltar, continuando a lêr: + + É de Tiberio + Foi-me enviado este papyro honroso. + +CLAUDIA em sobresalto infantil: + + O quê?! Novas de Roma? + +PONCIO + + O grande imperio + Continúa radiante e venturoso. + Foi porém necessario reprimir, + No principio do anno, + Certa conspiração que fôra urdida + Pelos amigos do traidor Sejano. + A mensagem termina + Aconselhando a que use da violencia. + +E lê pausadamente, accentuando muito as palavras: + + «Aprende em mim como o poder se eleva + E como se elimina + Todo aquelle que tenha a impudencia + De attentar contra a posse d'este manto. + Faze como eu tambem: + Reprime a todo o custo a rebeldia. + Talvez no Templo se conspire. Emquanto + Mostres sabedoria, + Espirito sensato, forte e agudo, + Podes contar comigo. + Recommenda a Claudia, Poncio amigo. + Por Jove, te saúdo». + +Põe de parte o papyro e reclina a fronte na mão. + +CLAUDIA que em silencio ficára appreensiva: + + O que vaes responder? + +PONCIO sem se mover: + + Já respondi. + +CLAUDIA apoiando-se nas costas da cadeira por detraz d'elle: + + Permaneces? + +PONCIO + + Decerto, pois me cumpre. + +Na perna esquerda sobrepõe a direita, fazendo-a oscillar por longo +tempo. + +CLAUDIA não podendo conter a intima revolta: + + Bella esperança! Hei de viver aqui, + Segundo me parece, eternamente! + --Casou Venus com Marte e foi o Amor + O que nasceu da conhecida união; + Casei comtigo, audaz procurador, + A principio amoroso, bom, cortez... + O que nasceu, por fim, d'este consorcio? + Nasceu a Insipidez! + +PONCIO enrugando a testa e sem olhar para Claudia: + + Pela divina _Isis_ que estás louca, + Ou requintas de véras em maldade! + +CLAUDIA + + Talvez seja melhor + Não despertar do Nilo a divindade! + --N'estes ultimos annos tenho sido + Verdadeiro modelo de matrona... + Sabes que ambiciona + A minha alma fugir a tal desterro, + E não queres pedir a demissão! + Imaginas talvez ser este o meio + De garantir a minha honestidade? + Pois olha, estás em erro! + Não me curvo a pressões tão aviltantes. + Se não fôr satisfeito o meu desejo, + Perderei todo o pejo... + --Inda possuo algum, valha a verdade!-- + E para me vingar bem cruelmente + Serei mais leviana do que d'antes! + +PONCIO que se voltára, encarando n'ella, e em tom suasorio: + + Tu não vês que deixarmos a Judéa + Não seria prudente? + Tiberio é para nós inexcedivel + Em attenções, e dá-me como prémio + A confiança. Bastaria a idéa + Da minha demissão, para de vez + Nos expulsar do resumido grémio + Dos seus affeiçoados, e talvez + Depois se transformasse em vingador... + --Pede outra coisa, Claudia; nunca peças + O que julgo insensato. + Somos grandes aqui; nenhum valor + Teriamos na côrte. Não te esqueças + Da sorte de Coponio, Rufo e Grato, + Ao voltarem a Roma. + Pede outra coisa, Claudia, que por certo + Has de ser attendida. + Não me digas, porém, que vá trocar + Aquillo que é seguro pelo incerto. + +CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece: + + Mas que m'importa, a mim, o teu logar, + Se eu desejo viver onde se viva? + Em Roma, na cidade portentosa, + Onde qualquer escrava é mais altiva + Que uma nobre judía virtuosa! + Onde Gelanio, o deus das gargalhadas, + Desinfecta as emmanações palustres + Da tristeza! onde as pedras das calçadas + Falam até de tradições illustres! + Quero fugir d'este mortal supplicio + Para onde o meu ser se espanda e vibre; + Participar no seductor bulicio, + E ver á tarde o Sol beijar o Tibre! + Assistir como outr'ora aos festivaes + No grande circo onde o valor impéra; + Vêr athletas sanguineos, triunfaes + E ouvir os rugidos d'uma féra! + Beber o doce vinho de Falerno, + Ser cortezã, de novo rir e amar... + Dêem-me vida longe d'este Averno, + E que m'importa, a mim, o teu logar! + +PONCIO resoluto, imperioso, deixando caír na meza a mão espalmada: + + O que uma vez escrevo, escripto fica! + +Depois, mais brando: + + Não fugirei ás ordens de Tiberio. + De mais, coisa nenhuma justifica + Em solidas razões o que me pédes. + +E volta á primitiva posição. + +CLAUDIA decorridos alguns instantes, refreando a cólera: + + Disseste? + +PONCIO indifferente: + + Disse. + +CLAUDIA + + É caso firme e assente + Permanecer? + +PONCIO + + Que dúvida! + +CLAUDIA + + Não cédes + Nem aos meus rogos? + +PONCIO + + Não. + +CLAUDIA muito a sério: + + És imprudente... + --Sabes que fui amante de Tiberio? + +PONCIO bamboleando a perna e sem mudar de expressão: + + Tenho ouvido dizer. + +CLAUDIA + + Não desconheces + Que se é meigo, tambem é vingativo + O meu caracter. Pois talvez um dia + Desappareça o teu falar altivo. + Tiberio, com certeza, + Muito embora já tenha algumas cans, + Ha de ainda lembrar-se da belleza + Das suas cortezãs... + +PONCIO franzindo lévemente o sobr'olho: + + Não comprehendo bem. Com isso tudo + O que vens a dizer? + +CLAUDIA sorrindo, palaciana e misteriosa: + + Que te saúdo... + +E recolhe em silencio aos seus aposentos, deixando tombar atraz de si as +prégas do reposteiro. + + +Poncio ficou sósinho, meditando. Logo apparece no terraço o Ostiario que +veio do andar terreo pela escada exterior. + +O OSTIARIO + + Poncio, recebes agora? + +PONCIO erguendo-se: + + E quem é que me procura? + +O OSTIARIO + + O sacerdote judeu + Hanan. + +PONCIO surprezo, como comsigo: + + Hanan procurar-me + Na Torre Antonia, a esta hora? + --Ostiario, succedeu + Alguma coisa?... + +O OSTIARIO + + Não sei. + O povo está socegado. + +PONCIO depois de reflectir: + + Manda entrar o sacerdote + Para aqui mesmo. + +Retira-se para o terraço o Ostiario. Poncio, que ficára preoccupado, diz +como comsigo: + + Cuidado!... + +Vae buscar uma adaga á panoplia mais proxima e mette-a no cinturão; pôe +em cima da meza o pilo de ouro que estava encostado ao busto de Tiberio. +Senta-se novamente na cadeira. + + +A um gesto do Ostiario, dois vultos subiram a escada, e a breve trecho +appareceram no terraço; são dois homens, cujos semblantes o luar +illumina. Um é Judas; o outro um velho de setenta annos, mas válido e +robusto--o ex-Grande Sacerdote Hanan, sogro do Grande Sacerdote Kaíapha. +Meão d'estatura, barba cerrada e não comprida onde abundam as brancas, +assim como no bigode hirsuto e no longo cabello descuidado; nariz +adunco, olhos azues e penetrantes. E seu trajar egual ao do mais humilde +filho d'Israel: tunica e manto, mitra redonda no alto da cabeça; +chinellos muito usados. Dir-se-ía que tal modestia d'aspecto foi um +calculo, um disfarce... Ha porem na sua fisionomia e na voz resoluta e +aspera a expressão da velhacaria e do mando. + +O Ostiario retirou-se pela escada. Judas foi postar-se junto do busto de +Tiberio, com ar matreiro, e d'ali segue attento as fases do dialogo a +que vamos assistir. + +HANAN que se adiantou até á presença de Poncio, curvando-se perante +elle: + + Tenho intima alegria, ao ver que no teu rosto + Amavel transparece um juvenil composto + De puro entendimento e de vigor e saúde. + No falar respeitoso, humilde na attitude, + O sacerdote Hanan ao grande Poncio envia + Protestos de leal e eterna simpathia. + +PONCIO que nem para elle olhou, desdenhoso: + + O alamo gigante, ao estender os braços + Como para cingir Apollo, que os espaços + Domína, mostra quanto é grande na affeição, + Mas fructos não produz: É como a adulação. + --Hanan, ouvir-te-ei attentamente. + +HANAN fingindo não ter percebido: + + Vim + Para que tu me dês auxilio. + +PONCIO ironico: + + Como assim? + De noite? acompanhado? + +HANAN + + Este homem ouve, e cala + Tudo o que ouvir. Demais, é-nos preciso. + +PONCIO voltou-se um pouco, lançou um rapido olhar a Judas, e depois, +encostando o braço á meza e com a cabeça reclinada na mão: + + Fala. + +HANAN muito submisso de começo: + + Embora nos vencesse a furia dos romanos + Em tempos que lá vão; embora muitos damnos + Haja soffrido o povo heroico d'Israel, + Ás suas tradições conserva-se fiel, + Na crença do seu Deus respeito manifesta. + Religião sómente é hoje o que lhe resta, + Porque tudo entregou ás mãos do vencedor; + Por isso ha de manter, altivo e com fervor, + O que elle considera um virginal trofeu! + --Dize-me então se é justo ou não é justo que eu + Procure lealmente ao povo garantir + A crença de Moysés, agora e no porvir. + +PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle +desdem dos romanos pelos povos vencidos: + + Não sei do que se trata, Hanan; mas sempre digo + Uma coisa que eu penso ha muito a sós comigo: + Do leito has de saír com mais celeridade + Para zelar melhor a tua propriedade, + E com menos se alguem te fôr dizer, de rastros, + Que descobriu no ceu ladrões roubando os astros. + +HANAN offendido, elevando a voz: + + Duvídas de que seja o meu falar sincero? + Julgas que estou mentindo, e em nada considero + A minha crença? + +PONCIO olhando para elle de fito, severamente: + + Olá!... + +HANAN matreiro: + + Desculpa-me. Prometto + Não me exaltar de novo, ó Poncio. + +PONCIO sem desviar d'elle o olhar: + + O mel do Hymetto + Agrada a toda a gente... e fica bem na fala. + +HANAN muito submisso: + + Dou-te razão; mas vê que dôr nenhuma eguala + A dôr que sinto. E não terei motivo? Escuta: + Aquella sã doutrina, a doutrina impoluta + Que nos deixou Moysés, o grande fundador + Da nação, que livrou das garras do oppressor + O povo escravisado, e que á ditosa grei + Legou, depois da Fuga, um Deus e Patria e Lei! + A doutrina sublime, erario de virtudes, + Que tem ficado illesa ainda nas mais rudes + Provações... + +PONCIO cortando a harenga, novamente em tom sarcastico: + + Vaes falar d'alguem profeta novo, + Que anda por'hi talvez a amotinar o povo + Contra os amigos teus?--Pois hei de protegel-o. + Apraz-me não tocar nem siquer n'um cabello + D'esse homem. + +HANAN refreando a cólera: + + Mas porquê? Terás razões secretas? + +PONCIO + + Quem as tem não sou eu: são elles, os profetas, + Ao falarem de ti. + +HANAN com ironia e falsa humildade: + + Então! sê razoavel + E mostra coherencia, ó tiranno implacavel! + Um cadaver de mais, um cadaver de menos, + É coisa que não leva aos teus dias serenos + Nenhuma inquietação, nenhum remorso. + +Animando-se pouco a pouco: + + E quando + Um sacerdote probo e honesto e venerando + Em nome da Judéa a morte solicíta + Para um vil criminoso, o teu rancor hesíta?! + +Esplodindo, francamente: + + De cumprir o dever percebo o que te afasta: + Quem te fala sou eu, que tu odeias! + +PONCIO fitando-o enfurecido, dá um murro na meza; e erguendo-se: + + Basta! + Sabes que essas razões não oiço, nem toléro, + E que digo uma vez que não, quando não quero! + --Como o poder de Roma aos homens do Conselho + Tirou todo o poder de tingir de vermelho + N'um banho sanguinario os corpos fraternaes, + Privados de lavrar sentenças capitaes + Sem que eu lhes dê meu voto, imaginaste, Hanan, + Que eu poderia, qual infame barregã, + Despejar a vergonha á rua, como o lixo, + Para satisfazer depois o teu capricho? + Porque uma voz protesta e clama contra o vil + Conselho que assoberba o povo e que, febril, + Anda a espiar na sombra, a procurar o instante + Em que ha de ser traidor ao Cezar triunfante; + Porque um homem possue a civica ousadia + De guerrear talvez a tua hipocrisia, + Venerando ancião, tiveste uma lembrança: + Transformar o meu voto em arma de vingança + Cobarde! Sim! Bem vejo a idéa que te inflamma! + +Agarrando no pilo: + + Pois digo-te que nunca has de caír na lama + Co'o pilo de oiro! Não! D'Oriente a Occidente, + A aguia de Roma é grande, e nunca foi serpente! + +E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se. + +HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz: + + Eu não falo por mim; eu falo por Moysés, + Cuja doutrina tem sido calcada aos pés + D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha + Ao direito e á lei; que os pobres arrebanha + Só para dizer mal dos grandes e dos ricos; + Que dirige a palavra aos seres impudícos, + Ás mulheres venaes, aos infimos ladrões; + Que anda em nome de Deus a conceder perdões + A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino, + Se atreve a inculcar como um ente divino! + +PONCIO tranquillo, sorrindo: + + Quem sabe?... Pode ser... + +HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia: + + O quê?! + +PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras: + + Se te reféres + Ao Nazareno em vão me falas. Nunca espéres + Que eu ponha ao teu serviço a minha autoridade + Para o matar. Não mato uma celebridade. + Conheço-o muito bem. Inda ha trez dias teve + Uma grande ovação. De resto, não se atreve + A suscitar no povo o odio contra o Império: + Deseja que se entregue a Deus e a Tibério + O que pertence a Deus e o que pertence a Roma. + Agrada-me o desejo. É o melhor diploma + Que lhe ha de garantir a minha protecção. + +HANAN ao ouvido de Judas: + + Ficou tudo perdido, ó Judas. + +JUDAS reservadamente: + + Ainda não. + Péde para eu falar. + +HANAN + + Duvído... + +JUDAS + + Experimenta. + +HANAN muito supplicante a Poncio: + + Senhor, ouve as razões que este homem apresenta: + Conhece o Nazareno, e sabe tudo... + +PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia: + + Vá. + Pode falar, mas bréve. + +JUDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si, +firme, resoluto, assim começa: + + Eu nasci em Judá. + Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso, + Me curvei de Tibério ao vulto majestoso. + --Engana-te, senhor, aquelle que disser + Que o profeta de quem falou Hanan requer, + Como acabei de ouvir, as attenções do povo + Para o império de Roma. + +PONCIO estremeceu, carregou o semblante: + + O quê? + +JUDAS com sinceridade hypocrita: + + Não me demôvo + De dizer a verdade, inda que soffra o peso + Do remorso, indicando um amigo indefeso + Á justiça de Roma e do Conselho! Brado + Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado! + O Profeta conspira, em intimo rancor, + Contra a lei de Moysés e contra o vencedor! + --De tal conspiração confio-te o segredo... + +Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora, +insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á +curva da cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e +fixo em um ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem +dos labios de Judas como subtil veneno. + + Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo + Austero, alcantilado, enorme?--Toda a gente + Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente, + Que do seu dormitar ninguem o accordaria, + Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria + Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu... + Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu, + Barafustou no espaço, e com fragor medonho + Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho! + --Que forças colossaes, que forças imprevistas + O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas + Majestosas, assim que despontava ao largo; + A Lua namorada, em languido lethargo, + Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio, + Que as lagrimas do ceu tornavam tão macío + Como um peito de cisne ou face de mulher... + O proprio Creador do Mundo nem siquer + Lhe causava receio. Em doidas convulsões, + Um raio desabou das vastas amplidões + Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada, + Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada! + --Que forças colossaes, que forças imprevistas, + Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas? + Que forças?--Perguntae-o áquella massa informe, + Que por vezes murmúra e que por outras dorme + Em profundo silencio; interrogae o Mar, + Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar + Do horisonte sem fim, da solidão distante, + Para oscular os pés do impávido gigante! + Interrogae o vil hipocrita, que ao passo + Que era meigo e humilde, em fraternal abraço, + Tratava de roer, silenciosamente, + As bases do colosso athletico e indiff'rente, + Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho, + No abismo tombou com fragor tão medonho, + Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito, + Sentiram-se tremer d'horror no Infinito! + +PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços +alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da +vasta quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição. + + Ha colossos que teem gigantes nas entranhas, + Féros como leões, grandes como as montanhas! + Possuem dos clarins as frases inspiradas, + E fusilam do olhar relampagos d'espadas! + Ó mares da perfidia, andaes a carcomer + As bases do colosso herculeo do poder? + Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes! + Ondas que assim correis, que vindes em galopes, + Apressadas, servís, infames... Para traz! + Que para reprimir a vossa furia audaz, + Para que o vosso dente ao monstro não carcoma, + Basta um simples olhar dos hercules de Roma! + +E passeiando agitado, raciocinando e resolvendo de prompto: + + Prefiro debelar de prompto a crise. Ignoro + Se falaste verdade, ou se acaso labóro + Em uma vil intriga! A dúvida me envolve... + Mas n'esta situação o meu poder resolve + O que julga efficaz. Esse traidor proféta + Ha de attingir ainda hoje a tenebrosa méta + Da existencia. Vou dar a ordem da prisão + Do Zéfiro subtil com furias d'Aquilão! + +HANAN detendo-o, supplicante, receioso: + + Sê prudente, senhor. O sangue d'innocentes + Não deverá correr. Escuta os meus prudentes + Conselhos, bom amigo. Ai! poupa-me a Judéa!... + Escuta-me, por Deus! e a indignação refreia! + Tenho medo do povo... elle é tão leviano!... + Será muito melhor seguir o nosso plano. + +PONCIO sem querer ouvil-o: + + Que poderá falhar! + +HANAN n'um protesto: + + Que é firme! + +JUDAS + + Que é seguro! + +HANAN matreiramente: + + Uma escolta romana ao meu dispôr, e juro + Por Moysés que ámanhã de noite será preso + O Nazareno. + +E em tom de muita confiança, como velha autoridade que bem conhece os +seus governados: + + O povo ha de ficar surpreso, + Ao saber no outro dia a grande nova. Embora! + Não deve protestar, porque elle não ignora + Que é depois d'ámanhã o dia consagrado + Ao festejo da Paschoa. Assim, manietado + E mudo, ha de assistir ao julgamento e morte + Do Proféta.--Senhor, bem vês que d'esta sorte + Moysés perde um rival, Tibério um inimigo. + --Este homem prometteu que ha de ensinar o abrigo + Onde fica de noite o Nazareno occulto + E os discipulos... + +JUDAS + + Que hão de fugir ao tumulto... + +PONCIO que os ouviu taciturno, balbucia, como falando a si proprio: + + «Um cadaver de mais, um cadaver de menos + É coisa que não traz aos meus dias serenos + Nenhuma inquietação, nenhum remorso...»--Hanan, + Dás-me a tua palavra...? + +HANAN + + O Proféta, ámanhã + Por esta hora, se Deus não se mostrar contrário, + Ha de estar preso. + +PONCIO + + Bem! Pois n'esse caso... + +Dirige-se ao terraço e batendo as palmas, chamando: + + Ostiario! + +HANAN radiante de alegria, ao ouvido de Judas: + + Ganhámos, afinal! Serás recompensado + Pelo teu grande zelo, ó Judas. + +JUDAS soturno: + + Obrigado... + +HANAN + + Um prémio te darei. Trinta moedas; queres? + De prata! + +JUDAS indifferente: + + Sim, Hanan... Acceito o que me deres. + +O OSTIARIO que appareceu no terraço: + + Chamaste-me? + +PONCIO + + É de crêr que no Pretorio esteja + Algum centurião. É Poncio quem deseja + Que se dê cumprimento a tudo que estes dois + Homens disserem. + +O OSTIARIO + + Bem. + +PONCIO + + Fique entendido pois. + Ao Pretorio tu mesmo agora os encaminha. + +E passando pela frente de Judas e de Hanan, sem para elles olhar, +retira-se para os seus aposentos. + +HANAN que se curvára muito á passagem de Poncio, murmúra: + + Moysés ha de vencer!... + +JUDAS tambem n'um murmurio, quasi inaudivel: + + Maria ha de ser minha!... + +Vão-se com o Ostiario pela outra porta. + + +Apparece então a escrava Geda, que se encaminha para o terraço. + +GEDA affasta o coxim, trazendo-o para o interior da quadra e faz correr +parte do reposteiro que pende do arco. + + Vae repoisar a minha ama... + Como a noite é calma e linda! + Mas ninguem ha que prescinda + Das indolencias da cama! + Muito ingrata a Humanidade, + Que acha as trévas de Morpheu + Preferiveis a este ceu + De risonha castidade! + Talvez seja por vingança + Que a mostrar-nos a outra face + A Lua não se abalança! + Seja lá pelo que fôr, + Que sem protesto não passe, + Diana, o teu desamor! + +Acaba de fazer correr brandamente o reposteiro. Depois vae buscar o +candalabro e dispõe-se a leval-o comsigo. + +Mas o reposteiro agita-se, é corrido pela parte exterior por mão nervosa +e resoluta, e uma mulher d'Israel apparece offegante, com o rosto +occulto por espesso veu de lã negra. + +A MULHER adiantando-se como procurando alguem: + + Claudia? + +GEDA admirada e insolente: + + Quem te deu a livre entrada? + Que vens fazer aqui, judía? + +A MULHER + + Venho + Para falar a Claudia, unicamente + É este o meu empenho. + +GEDA + + E que importa o motivo, se é costume + Não entrar sem licença do Ostiario? + +A MULHER + + Em pouco a minha falta se resume: + Vi tudo solitario... + +GEDA + + Esperasses. + +A MULHER + + Desculpa-me... + +GEDA + + Duvído + De que a minha ama te receba. É tarde. + A menos que a tivesses prevenido + De vir, e que te aguarde. + +A MULHER assumindo attitude imperiosa: + + Urge que eu fale a Claudia. É muito sério + O que me traz! + +GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na +meza. + + Eu vou...--Temos misterio! + +E entra nos aposentos de Claudia. + +A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á +fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral. + +MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma +préce: + + Ó essencia do Bem! ó divinal encanto, + Que fazes do Amor a tua crença unica! + Presinto que a Desgraça estende o negro manto + E deixa a descoberto a sanguinaria tunica, + Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora + Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura, + Em breve deixará de ser como é a aurora, + Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura! + Mostra-te para mim bondoso e esmoler: + Escuta-me, Senhor! E que seja bastante, + Para fazer da noite aurora triunfante, + Uma lagrima ardente e pura de mulher. + +E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio. + +CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu +assombro. + + Maria de Bethania?! O quê? Pois tu + Ousaste vir aqui? Pois desafías + Com a tua presença o meu rancor? + Tens a loucura, a falta de criterio, + _De brincar com as cinzas inda quentes_? + +MARIA baixou a fronte; e a meia voz: + + Perdôa-me, Senhora... + +CLAUDIA + + O que fizeste + Da altivez soberana e do teu odio? + +MARIA + + Perdôa-me, senhora. Quem se humilha, + É porque tudo esquece, e quem supplíca + O perdão d'uma offensa, tem direito + A ser ouvida... + +CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua +figura: + + Apraz-me isso que dizes. + Tu propria te encarregas de vingar-me. + Optimamente!--O que é que tu me queres? + +MARIA com meiguice: + + Nunca viste, depois da tempestade, + Quando vem a bonança, + Resplandecer de luz na immensidade + O Arco da Alliança? + Pois que venha, senhora, em tal momento, + Um meigo olhar bondoso + Alegrar do teu rosto o firmamento + Como o divino traço luminoso. + +CLAUDIA com uma risada: + + Não faças poesia, que Virgilio + Mandou lançar a sua Eneida ao fogo! + Começas muito mal. Por um idilio!... + Do teu poema a sorte pões em jogo... + +MARIA docemente: + + Na ironia cruel quanta amargura! + Esta hora é suprema. + Vou falar-te d'um ser todo candura... + +CLAUDIA zombeteira, petulante: + + O heroe do teu poema? + +MARIA animando-se pouco a pouco: + + Heroe, disseste bem, mas que regeita + O gladio vingador, + E que tem na palavra uma arma affeita + Á bondade, ao amor... + Ouvindo-lhe o falar tão meigo e doce + Que de manso deslisa, + Perfumado, subtil, como se fosse + O perpassar da brisa, + As almas estremecem, de sentidas, + E ficam-se amorosas, + Desabrochando trémulas, florídas, + Como botões de rosas! + Ha já trez dias, Claudia, que o terror + É para mim veneno! + Querem matal-o! Ai! salva o meu amor! + Ai! salva o Nazareno! + Não deixes que lhe roubem a existencia, + E termina o martirio + D'esta paixão que tem do Sol a ardencia, + E a pureza d'um lirio! + Ordena que o não matem, Claudia! acalma + Os monstros malfasejos, + Que eu a teus pés arrojarei minh'alma + N'um effluvio de beijos! + +E cáe de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril, +os braços estendidos, supplicante. + +CLAUDIA depois de nova risada: + + Isto é completamente um caso novo, + E agrada-me de véras + Que sejas tu, mulher, em vez do povo, + Quem venha interceder pelo Profeta + Com lagrimas sinceras! + É bello! + +MARIA + + Tem piedade! + +CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia: + + Honra o teu sexo + O platonico amor que te inquieta; + E n'elle vejo mais do que um reflexo + Do feminil civismo d'outras eras. + Tu excedes Cornelia, + E de Coriolano a mãe Veturia! + --Tenho notado haver n'esta Judéa + Mais valor nas mulheres que nos homens, + O que toma o aspecto d'uma injuria + Ás patricias de Rhéa! + Judith a Holofernes rouba a vida, + Para salvar o povo seu amante, + Ao vêr que elle agonisa; + Esther, em patrio amor toda incendida, + De Assuéro affronta a crueldade e insânia; + Debóra, a profetisa, + Entra na lucta e sae-se triunfante... + Agora vem Maria de Bethania! + --Palavra, que a Judéa é divertida! + +Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois +de ageitar-lhe as almofadas. + +MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação: + + Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime! + Quando uma alma se dobra e tanto se deprime, + Quando um peito soluça, a compaixão ordena + Que a ironia que esmaga e o riso que envena... + +A um olhar severo de Claudia, humildemente: + + Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo + Que não seja o tormento indómito e agudo, + Que me offusca a razão e o peito me lacéra! + Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera + Que soubesses tambem como é risonha a vida, + Que toda se consagra a uma entidade querida: + Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora; + Respirar o subtil perfume que evapora; + Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama; + Silenciosamente, amar tudo o que ella ama; + Ouvir-lhe da palavra a doce melodía + Tão limpida, tão casta e pura, que enebría, + Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal, + Semelhante, no brilho, ao riso divinal + Da estrella que, tremente, em candidez scintilla, + Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla. + +Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se +impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella. + + Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido: + Tu poderás talvez, pedindo a teu marido... + Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana + Quando te respondi com altivez soberana. + Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor + E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr... + --Mas fala, mas responde a isto que eu te peço! + Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço! + +E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos +fincados no coxim. + +Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar. + +Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando +de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos +enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente: + + Não me resta uma esperança, + Pois não me escuta ninguem! + Dorme a eterna Divindade + No azul da Immensidade, + Nos horisontes d'além, + Onde não chega um suspiro, + Onde o silencio é profundo. + Ha de ser bom tal dormir, + Descuidoso do porvir, + Descuidoso d'este mundo, + N'aquelle reino divino + Tecido por andorinhas, + Feito só para os honrados, + Para os bons e desprezados, + Para as meigas creancinhas... + Tão sereno como o lago + Da Galiléa florída, + Que se formou por encanto + Do arrependido pranto + Da mãe Eva arrependida... + --Parece mesmo que o vejo + No seu manto azul. Dir-se-ia + Que o firmamento amoroso + Teve a alegre fantasía + De enviar á terra um beijo + Puro, suave, bondoso... + Parece mesmo que o vejo. + --É seu olhar calmo e doce; + A tudo o mais fica estranho, + Quando distingue o fulgor + Dos astros, como se fosse + O cuidadoso pastor + Do scintillante rebanho... + +CLAUDIA adormecida, vagamente: + + É seu olhar calmo e doce... + +MARIA continuando alheiada a tudo: + + Tem o brilho das seáras + O cabello perfumado, + Que nos hombros lhe descansa + E lhe cerca as faces claras. + É tão formoso e doirado + Como um sorrir de creança... + +CLAUDIA adormecida, vagamente: + + Tem o brilho das searas + Seu cabello perfumado... + +MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada: + + Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir + E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir. + Reconheço por fim que era a esperança fátua. + É inutil chorar em frente d'uma estátua... + --Retiro-me vencida, assim como o pagão, + Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão, + Os gritos da sua alma e os canticos do amor. + Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr! + +E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em +passos vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo +pendente ao longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida +escadaria. + +O somno de Claudia é agora profundo. Tudo ficou silencioso. Estinguem-se +uma a uma, com lentidão, as véllas no candalabro; e o luar, a que o arco +sem peias dá passagem, faz projectar o busto de Tiberio na parede +fronteira, como um enorme phantasma negro... + + + + +QUARTA JORNADA + +EM 15 DE _NISAN_ + + + + +QUARTA JORNADA + +EM 15 DE _NISAN_ + + +Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de +Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á +indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam +mansamente. + +Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas +parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz, +corpos sem vida de suppliciados. + +Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural +caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro. +Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde +os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas. +Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa. + +Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os +penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco, +argiloso e triste. + +Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de +quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente. + +A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio. + + +O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que é +Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são +Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram +reforçadas na vespera por ordem de Poncio. + +AMPÍO, tocando com o pé no corpo de um dos que dormem: + + Erguei-vos, camaradas, pois não deve + O negro deus do somno tal imperio + Exercer sobre vós, quando do Olympo + Cáem com furia as cóleras de Jove. + +LAUSO accordando: + + Novamente começa a tempestade? + +FÁBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento: + + Foi aquelle patife do Vulcano, + Que lhe enviou fornecimento novo. + +LAUSO erguendo-se: + + Pois ainda troveja? + +AMPÍO + + Muito ao longe. + +FÁBIO + + O peior é que Phébo, com certeza, + Não vem tão cedo. + +AMPÍO + + Os galos já cantaram + Das bandas do Levante, amigo Fábio. + +LAUSO + + Olha! alguem se dirige para aqui. + +FÁBIO rindo: + + Talvez seja Noctifer, deus das trevas. + +E os trez esperam, encostados ás lanças. São seis miseros mercadores +avergados ao peso de seus fardos. Quando chegaram em frente dos +soldados. + +UM MERCADOR em tom submisso: + + É permittida a entrada aos mercadores? + +AMPÍO + + A dúvida, meu velho, está sómente + Em pagarem tributo ao publicano. + +O MERCADOR + + Decerto que pagamos, como é de uso; + Mas quando vi trez guardas junto á porta. + Fiquei suppondo alguma novidade... + +AMPÍO + + Pois quê! não morreu hontem o profeta? + Nada mais facil do que haver rebeldes... + Conhecemos a vossa grande astucia + E o vosso rancor, judeus malditos! + +O MERCADOR por entre dentes: + + Maldita Roma!... + +FÁBIO com uma risada alvar: + + Eh! lá! Vê como falas, + Que o _teu rei_ já não vive! + +O MERCADOR muito seccamente: + + Da Judéa + Ha muito que fugiu a realeza! + +E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que +d'elles chasqueiam. + + +A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um +vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra +um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer, +os membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente, +esfarrapada e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés +descalsos. + +JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a +voz muito enfraquecida: + + Vem o dia a nascer das regiões eternas. + Depois de ter lançado as iras justiceiras, + O grande firmamento agora é mudo e quedo. + Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas, + E vão pedir a noite ás fendas do rochedo + As aves agoureiras. + +E olhando para a caverna d'onde saíu: + + Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro, + Ó treva de amargura e negras maldições! + Ó antro, que animei co'o halito do crime, + Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro + Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime, + Das tectricas visões! + +Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se com +passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois, +como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera: + + Estavam a dormir ao pé das oliveiras, + E a Lua derramava em cheio nas clareiras + O argentino olhar, o seu formoso pranto. + Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto, + Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu... + Mas ficou-se indeciso apenas descobriu + Dos archotes a luz na solidão campestre. + --Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.» + Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo, + Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo + Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai! + Co'um latido feroz toda a matilha sae + Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento! + Aos amigos leaes occorre o pensamento + Heroico de empregar a força. A gritaria + Desperta o olival da funda lethargia. + Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador... + Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror. + Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja + Espavorida vae dizendo-me que fuja. + +E erguendo-se de chofre, animando-se: + + Percorro velozmente os grandes olivaes; + Quando abandono a sombra, entro nos matagaes; + O manto esfarrapado o rasto meu indica, + Depois a propria carne! A alma, porem, não fica, + Pois se olho para traz, sobre a verdura espessa + Persegue-me, a rolar em sangue, uma cabeça. + Termina de repente o estenso matagal, + Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal + Onde tenho uma lucta encarniçada e louca: + A lama em borbotões entra-me pela bocca, + Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos, + Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos, + Fogem nuvens de rãs para logares occultos, + E o seu coaxar parece arremetter insultos! + Mas saio vencedor e a terra firme alcanço; + Então quero parar... mas corro sem descanso. + As forças vão fugindo, e julgo que do peito + O coração rebenta exanime e desfeito! + Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto + Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto, + Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando + Sinistramente ao longe um lobo fica uivando. + Chego á margem; depois entro por um atalho + Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho... + Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo + Descobrir de repente o mais seguro abrigo! + +Abeirando-se da caverna: + + Sem saber onde estou, a estremecer d'horror, + Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor, + Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura, + Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura, + Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas, + A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas! + +Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna +responde-lhe longamente... + +Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços +pendentes, a cabeça descaída sobre o peito: + + Eliminei a causa, e agora nem procura + A minh'alma saber se existe ou já não dura + O effeito. Um assassino é o que vejo em ti, + Judas! + +Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava. + + O coração refugiou-se aqui + Transformado em dinheiro. É prata reluzente, + Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente! + E falas de ambição, tu que possues a marca + Das filhas sem pudor do velho patriarcha!... + Relembras o incesto horrendo de Thamar, + E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar + A honra de seu pae no leito da madrasta!... + E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta + Em de redor de mim o grande amontoado + Das velhas podridões da carne e do peccado! + +Ferido por um rapido pensamento: + + --Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame, + E talvez que o Senhor o seu perdão derrame... + +Mas detendo-se, hesitante: + + Tenho medo... não sei... + +E supersticioso: + + Era de madrugada + E eu ia caminhando em terras d'Ephraím + Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse + Para vir espreitar meus passos junto á estrada. + Esmaguei o!--Se alguem agora me fizesse + A mesma cousa, a mim? + +Compadecído: + + Meus olhos, vêde a luz que o firmamento inunda, + Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente! + Rasteja para longe, ó animal mesquinho, + Deixando atraz de ti a escuridão profunda... + Rasteja para longe... e ségue o teu caminho + Silenciosamente... + +A passos lentos, vae-se, costeando a muralha até dobrar o angulo que +ella fórma. + + +Duas mulheres, com os rostos occultos por densos véos, sáem da cidade. +Alguns passos dados, páram como avergadas pelo cansaço ou pela dôr. São +Maria de Bethania e sua irmã Martha. + + +MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito +resignada: + + Fica perto da cidade + O sepulcro: é no jardim + Do José d'Arimathéa. + Ao aroma do jasmim + Casa-me o aroma da rosa... + É tudo meigo e silente + N'aquelle triste remanso + Onde elle dorme. A corrente, + Que vae regar os pomares, + Tem uns murmurios tão doces + E tão cheios de misterio... + +MARTHA + + Maria, irmã, se tu fosses + Contaminar o teu corpo? + É prohibido na Lei + Ir a um sepulcro... + +MARIA + + Decerto... + +MARTHA + + É um crime. + +MARIA + + Sim; bem sei. + Mas devo eu conjecturar + Que os negros vermes da terra + Contaminem moradia + Que tanto perfume encerra? + As borboletas sómente, + Aereos beijos de amor, + Hão de poisar junto d'elle + Como poisam n'uma flôr, + Indo contar em seguida + Aos espinhos do balseiro + Quanta fragancia divina + Exhala aquelle canteiro. + ... Ao passo que eu viverei + Na grande dôr do meu pranto, + Como a aranha silenciosa + Que fez a teia n'um canto. + --No ceu da minha existencia + Pairavam tranquillamente + Dois flócos de nuvem, que era + Como o fumo transparente... + Andavam pairando assim + Despreoccupados os dois, + Para ao sopro d'uma aragem + Se desfazerem depois... + Fumo illusorio que sobe + Mansamente pelo ar + E que se esvae n'um instante + P'ra nunca mais se juntar... + +MARTHA + + Ó minha irmã!... + +E abraçadas, com as frontes reclinadas no hombro uma da outra, soluçam +longamente. + +Vem então da cidade outra mulher, que pelo trajar romano logo se +reconhece ser Claudia. + +CLAUDIA chegando junto de Maria e Martha, cujos rostos se conservam +occultos, pára; e depois, poisando a mão no hombro de Maria, diz com voz +muito meiga: + + Porque choras? + +MARIA que se voltou, reconhecendo-a e baixinho á irmã: + + Ella?! + +MARTHA receiosa: + + Claudia!... + +CLAUDIA + + Que motivo + Gerou no teu seio a Dôr, + A negra mãe do gemido? + Conta-me tudo, mulher. + --Morreu-te um filho, o esposo, + Ou um irmão... + +MARTHA ao ouvido de Maria: + + Oh! meu Deus! + Como o seu falar é outro! + +CLAUDIA + + Tambem eu soffro ha trez dias + D'um enorme soffrimento, + E quero que na cidade + Fiquem todos conhecendo + Quanto Claudia é bondosa, + Claudia, que o povo despreza, + E quanto chora tambem + Pela morte do Profeta. + +MARIA absôrta: + + O que oiço! + +CLAUDIA + + D'uma mulher + Taes lamentos recebi, + Que um novo ser despertou + De chofre dentro de mim. + Sonhei depois, e que sonho! + Nem mesmo o posso contar... + Tão cheio de quietação, + De suavidade e de paz, + Que fiquei por muito tempo + Absorta, de madrugada, + Ao construir na memoria + Todo o sonho que sonhara. + --Eu fugira para longe, + Para um paiz tão distante, + Que este mundo em que vivemos + Não me ficava ao alcance; + E alguem cercado de luz + E de meigas creancinhas + Veio alegre ao meu encontro + Nas paragens infinitas... + +MARIA + + O que te disse? + +CLAUDIA + + Não sei... + Apenas sei que, accordando, + Não conheci a minh'alma + Transformada por encanto; + E por que um plano de morte + Estava urdido em segredo + Contra o bondoso Profeta, + Logo intentei desfazel-o, + Supplicando a meu marido + Que em seu favor empregasse + Todo o auxilio. Impossivel! + A suprema divindade + Caíra em somno profundo + No seu grande leito azul, + Deixando que o Nazareno + Expirasse n'uma cruz!... + +MARIA baixinho á irmã: + + E eu que ainda a accusava!... + +CLAUDIA + + A minha dôr reparti + Comtigo; deves portanto + Confiar tudo de mim... + +MARIA espansiva: + + Para quê, se tudo sabes? + +CLAUDIA + + Tudo sei?... + +MARIA + + Pois que em Judá + Nenhum rosto de mulher + Por mais ninguem chorará + N'este momento. + +CLAUDIA + + Por Elle? + +MARIA animando-se: + + Sim, por Elle, Homem-Misterio, + Que voou, como o aroma + Da pobre rosa pendida + Sobre a haste, dolorida + Pela mágua da saúdade... + --Vinde comigo, mulheres, + Orvalhar co'o vosso pranto + A boceta em que dormita + Aquelle celeste encanto. + Ide colher á campina + Braçados de malmequeres, + D'alfazema e rosmaninho, + E vinde, vinde comigo + Dispol-os naquelle ninho... + E vós, ó mães, que trazeis + No ventre o fructo do amor, + Purificae-o aspirando + O perfume e o calor, + Que se evolam brandamente + Do sepulcro sorridente, + Como as nuvens que perpassam... + ... Fumo illusorio, que sobe + Com lentidão pelo ar, + E que se esvae n'um instante, + P'ra nunca mais se juntar... + +E cala-se, a voz estrangulada pelas lagrimas. + +CLAUDIA suspeitosa: + + Estas palavras?... Judía, + Impossivel existirem + Dois corações como o teu! + +MARIA + + Já não o tenho: morreu. + +CLAUDIA + + Como te chamas? + +E vendo o rosto de Maria que se desvelára: + + Maria! + +MARIA caíndo de joelhos e beijando-lhe as mãos: + + Sim! que se roja a teus pés + Humildemente contricta, + Para dizer-te: mulher, + Sê bemdita, sê bemdita! + +CLAUDIA com a voz cheia de bondade, obrigando Maria a erguer-se e +abraçando-a: + + Ergue-te, ó alma sublime, + Que encheste de luz a treva + E que tiveste o condão + De abafar a voz do crime + Co'o soluço do perdão. + --Tambem eu ia levar-lhe + O meu pranto dolorido + Como nunca tive igual. + És a mulher que fugiu + Para o reino do Ideal... + A terra é muito mesquinha, + E o vôo da andorinha + Convida a voar tambem... + +Cingindo com os braços Maria e Martha: + + Partamos, sim, pela estrada + Que nos conduz ao misterio. + Sorri ao longe a alvorada... + Vamos tranquillas, serenas, + Bater a cada poisada, + E sejam nossas palavras: + +Levando-as comsigo docemente: + + Vinde comnosco, mulheres, + Orvalhar co'o vosso pranto + A boceta em que dormita + Aquelle celeste encanto. + Ide colher á campina + Braçados de malmequeres, + De alfazema e rosmaninho... + +E vão-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro. + + +O firmamento agora é limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da +madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de +Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avançam para a cidade: +João, Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar e Simão de Bethania. Todos +denunciam no andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a +irresolução, o receio. Chegados em frente da muralha: + +SIMÃO PEDRA que viera junto de João: + + Não entres na cidade... + +ELEAZAR + + És muito conhecido. + O Conselho não tem desviado o sentido + Dos amigos do Mestre. + +SIMÃO + + Olha que talvez pense + Em prender-te, e depois nada ha que recompense + O inutil sacrificio. + +SIMÃO PEDRA + + Ao teu valor opponho + Todo o meu raciocinio. + +JOÃO que ficára immovel olhando para a muralha da cidade: + + Ainda julgo um sonho!... + +GAMALIEL encostado ao bordão, a meia voz, rancoroso: + + Sobre a cruz aviltante, assim como o homicida, + Como o escravo traidor, como o ladrão!... + +JOÃO irrompendo: + + Ó Vida, + E continúas tu dando vigor a quem, + Depois de infamia tal, dorme em Jerusalem! + Profetas de Sião, da campa alevantae-vos + Para escrever ali com sanguinarios laivos + Esta nefanda historia, este inarravel crime! + Dobrae Jerusalem, como se dobra um vime, + E que a mão do Senhor, terrivel, iracundo, + Em látegos crueis com ella açoite o Mundo! + +SIMÃO PEDRA + + Co'a doutrina do Mestre o odio não se casa... + +GAMALIEL por entre dentes: + + Mas tambem cicatriza a f'rida o ferro em braza! + +JOÃO desalentado: + + E assim tudo acabou!...--Saúdosa Galilea, + Onde sorris tranquilla, ó minha pobre aldeia!... + Quantas recordações do teu ceu, do teu ar, + Dos dias que passei no teu sereno mar, + Das noites que dormi na relva da campina, + Tão descuidoso! Mãe da excepcional doutrina, + Que encheu d'enthusiasmo e risos seductores + As almas infantis d'ingénuos pescadores, + Fazendo-os caminhar atraz d'uma visão, + Confiados, como vae por entre a cerração + A barquinha velleira ao descobrir farol! + Prados, que sois jardins, e onde o rouxinol + Canta serenamente em noites estivaes; + Macieiras em flôr; regatos que passaes, + Ondeando, como ondeia á brisa, levemente, + Da aldeã virginal a trança refulgente... + Montanhas de Nain; e tu, ó grande monte, + Que te elevas no fundo azul do horisonte, + Redondo como um seio a amamentar os astros... + Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros, + Rochedos, alcantís, seáras e pastagens, + Que bordam a primor tuas alegres margens... + --Eis aqui finalmente a horrivel derrocada! + A solida affeição dos Dôse feita em nada; + A cegueira vencendo; a Luz amortecida; + A tripudiar em nós um ladrão homicida; + E eu, no meio de tudo, extactico e absôrto, + Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!... + --E assim tudo acabou! + +GAMALIEL avançando para elle nervosamente: + + Quem fala de acabar? + O fogo ainda não se extinguiu no altar + Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos + Onde fomos depôr as almas ainda exhaustos + Não deixaram de todo os nossos corações! + +JOÃO desanimado: + + Que havemos de fazer?... + +GAMALIEL animando-se e animando-o: + + Povos, religiões, + Autoridades, leis, é tudo movediço + E débil como ao sôpro um tímido aranhiço! + +SIMÃO PEDRA + + Queres dizer então... + +ELEAZAR + + A lucta?! + +GAMALIEL + + Braço a braço, + Não se deve luctar. Seria um erro crasso + Instituir o Bem co'o ferro. Não! Deixae + Esse erroneo principio aos filhos de Schammai! + +JOÃO erguendo-se: + + O que pensas? + +GAMALIEL + + Que chega a ser um attentado + Á memoria do Mestre abandonar o arado + Com que elle andou lavrando a consciencia humana! + Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana, + Que esfria os corações e purpurisa as ruas! + Não quero vêr brilhar ao sol espadas nuas! + Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as! + +SIMÃO PEDRA + + Mas faláste de lucta. + +GAMALIEL + + Humilde, mas sem trégoas; + Branda, mas incisiva; humana... mas divina! + Como arma, aquelle dom secreto que extermina, + Ferindo os corações sem que haja soffrimento. + Ruge, como o trovão e géme como o vento, + Murmúra como a fonte e estála como o raio, + Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio; + Dolente, acaricía; em furias, escalavra! + Esta arma triunfante, esta arma... + +JOÃO com o olhar brilhante: + + É a palavra! + +Mas logo receioso: + + Falar ás multidões...? + +SIMÃO PEDRA tambem receioso: + + Continuar...? + +GAMALIEL + + Decerto! + Entrando no porvir que Elle deixou aberto. + Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir + O caminho traçado entrando no porvir, + E esse alguem és tu! + +JOÃO n'um sobresalto: + + Eu? + +ELEAZAR abraçando-se n'elle, espansivo: + + Sim, João! + +SIMÃO incitando-o: + + Ninguem + Melhor que tu! + +SIMÃO PEDRA secundando já agora Gamaliel: + + Qual é de nós o que mais tem + O verbo inspirador, altivo e fulgorante? + +JOÃO indeciso: + + Simão, Gamaliel, amigos... Ai! + +GAMALIEL + + Ávante! + +ELEAZAR + + Para gloria do Mestre! + +SIMÃO + + E gloria tua! + +SIMÃO PEDRA + + E nossa! + +GAMALIEL + + É bella a occasião... + +JOÃO + + E quem vos diz que eu possa?... + +SIMÃO PEDRA + + Serás novo profeta, aproveitando o exemplo... + +GAMALIEL agarrando João por um braço: + + Vão começar agora os canticos no Templo. + Anda comnosco! + +ELEAZAR + + Vem! + +SIMÃO PEDRA + + Sê forte! + +GAMALIEL querendo arrastal-o comsigo: + + N'um instante, + De povo te verás cercado... + +JOÃO n'uma grande espansão: + + Ávante! Ávante! + É preciso arrancar ao morbido lethargo. + A doutrina do Mestre! + +GAMALIEL em doida alegria: + + Emfim! + +JOÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico: + + É meu o encargo! + O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora + A escada de Jacob á luz da meiga aurora. + Por ella vae subindo um côro triunfal + Proclamando no Espaço o amor universal + E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio. + Ávante! Não desabe o sólido edificio + De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro + Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro, + Enriqueça de novo a consciencia humana! + Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana! + Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia, + Uma scentelha só do genio teu envia + Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria + Que torne a minha voz da tua a emissaria! + --Vamos, Gamaliel! + +GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade: + + Gloria ao profeta novo! + +JOÃO vibrantemente: + + Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo! + +Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de + +GAMALIEL bradando: + + Negra Jerusalem, escuta, ó assassina, + D'aquelle que morreu a divinal doutrina! + +E depois, mais distante: + + Ouve, Jerusalem, que matas os profetas, + As palavras que são do teu Senhor dilétas! + +E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez +menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e +tortuosas ruas da cidade. + + +No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o +dinheiro da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo. +D'ali ouvira as ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel. + +JUDAS com desdem: + + «Gloria ao profeta novo!»--Insensatos! João, + Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação! + +Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo +alguem que se approxima, recúa e estáca. + + Maria?! + +MARIA parando tambem: + + Judas! + +JUDAS, desvairado: + + Ah! cobarde salteador + D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor? + O olhar, que seduzia, infunde repugnancia! + O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia, + Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar, + Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar + A carne do meu crime! Odeio-te! + +MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente: + + Não vim + Trazer o meu amor. + +JUDAS + + Que queres tu de mim? + Trazes-me o teu perdão? + +Solta uma risada nervosa. + +MARIA + + O riso da demencia + Nunca ha de suffocar a tua consciencia, + Que géme e se revolve em negro torvelinho. + Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho. + +JUDAS impedindo-lhe a passagem: + + E a maldição ha de ir seguindo-te as pisadas! + +MARIA + + A tua maldição... as tuas gargalhadas!... + --Como o teu odio é bom! + +JUDAS + + Inda não é bastante + Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante, + Como eu satisfaria este voraz desejo: + Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo! + Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois, + Fruir o teu amor, e arrojar depois + O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres + Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres! + --Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!... + +MARIA muito calma: + + P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo: + O mundo é tão cruel que aleives não reprime, + Se junto da virtude elle descobre o crime. + Mas entretanto... foge! + +JUDAS rindo febril: + + Acaso me suppões + Tão cobarde que vá fugir sem ter razões + Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia? + +MARIA + + E se o Mestre voltar? + +JUDAS rindo: + + Que doida fantasía! + +MARIA + + Se o visses novamente? + +JUDAS de subito receioso: + + Eu? vêl-o? + +MARIA + + Sim! + +JUDAS + + Não creio! + A morte é vasto abismo... + +MARIA, dogmatica: + + Abismo, cujo seio + Não poderá conter o que era illimitado! + +JUDAS acobardado: + + Que dizes tu, mulher?! + +MARIA em tom profetico: + + Que dorme inanimado + O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio + Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio, + Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário, + Como o trabalhador que não requer salário + E que só tem por fim realisar o plano + De ha muito concebido. Em vão o olhar humano + Procura descobrir o que existe no centro + Do casúlo: o misterio é silencioso dentro. + Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto, + Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto! + +JUDAS tomado de vago terror: + + Justos ceus! + +MARIA animando-se: + + Has de vêr, com a tua alma inquieta, + Saír do seu casúlo a enorme borboleta, + Que n'esta hora talvez as palpebras descerra, + Encher de luz o espaço e de pavôr a terra, + Da grandeza de Deus ser vivo testemunho... + +JUDAS trémulo: + + E caír sobre mim co'o azorrague em punho! + +MARIA terrivelmente: + + Emquanto não voltar, os olhos do covarde + Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde: + Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro, + Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro! + +JUDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado: + + Não pode ser, não creio... + +MARIA perseguindo-o: + + Ha de falar-te, Judas, + Á tua consciencia abjecta! + +JUDAS tentando occultar o rosto: + + Não me illudas, + Que eu nada vejo! + +MARIA erguendo o braço: + + Vês pairando sobre ti + O Remorso, o fantasma eterno!... + +JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e +apontando tambem, trémulo, allucinado: + + Ali! ali! + Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria! + Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia + Que vae falar-me!--Oh! cala-te! Fui eu + Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu! + Não me accuses, que sinto em mim a accusação; + Tem os dentes da cobra e as garras do leão! + Anda aqui dentro--ouviste?--a esfarrapar-me todo! + Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo, + Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome, + Que nem os proprios cães matem comigo a fome! + +E apontando de novo, como um vidente: + + O respirar opprésso... o corpo no madeiro... + Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro... + Exactamente!--Eléva os olhos para os ceus; + A agonia final chegou: fala com Deus... + A cabeça descae no peito: vae morrer... + +E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna: + + Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr! + +E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o +rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante. + +MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade: + + Insultáste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquéço. + Tenho a razão bem clara, e tu és um possésso. + Quanto ao Mestre, lá tens em ti a accusação... + A tua alma está sendo, ó torpe vendilhão, + Passiva e sem vigor n'este fatal momento + Assim como o enforcado a baloiçar ao vento... + --Adeus. + +E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz. + + +Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados +de Judas. Pouco a pouco, vão-lhe voltando as forças, e então + +JUDAS erguendo a cabeça e como acordado pela impressão que no seu +espirito deixaram as ultimas palavras de Maria: + + «O enforcado?...» + +E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia: + + Emfim para que existo? + +Pensa. Tendo apoiado a mão direita na cintura, o contacto da corda com +que cinge a tunica desperta-lhe a attenção e aviva-lhe na memoria +aquellas palavras de João que elle repéte machinalmente: + + «As estrigas de linho...» + +E prevendo o effeito: + + Um laço... um nó... + +Resoluto: + + --É isto! + +Então, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um nó corredio, +vae monologando, febríl, nervosa, sêccamente: + + Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante + Correr atraz de mim um grito retumbante + E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus + Quem pode combater a cólera de Deus? + Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo, + Porque é fugir do Eterno o mesmo que estar quedo! + Não fugirei!--Se fico, atrocidades cruas... + Hei de ser arrastado ahi por essas ruas, + Padecerei do povo horríficos flagellos: + Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos, + E transformar em lama o corpo do homicida! + --Não! Prefiro morrer... por ter amor á vida! + +De súbito, n'um grito de independencia, muito egoista: + + Eu prefiro morrer! Que se escancáre o espaço + Da treva! Sim, ó Morte, eu quero o teu abraço! + A maldição eterna o Eterno em mim derrame-a! + Que importa! Serei grande até na propria infamia! + +Allucinado novamente: + + Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade! + Renego do respeito e amor á Divindade! + Eu creio só na Morte... e basta-me esta corda! + +E ri, ri convulso. Batendo com a mão no peito: + + Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda, + Para insultar a Vida, essa madrasta bruta, + Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta! + E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme, + Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme! + +E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente. + + +É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam +passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as +vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida +melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente +grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando. + +João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra, +Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham +todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem +João apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os +braços cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno +oiteiro, João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com +os filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a +direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no +chão, já secco pelo vento, formando um semi-circulo em frente do profeta +novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de João, destaca-se +fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, triunfal. + +E é então que + +JOÃO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e +vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem: + + Quem tem ouvidos, oiça o que Elle manifesta! + Elle é o Omnipotente; Elle o principio e o fim; + Elle quem libertou da escravidão funesta + O povo d'Israel... Elle descansa em mim. + Elle é o Omnipotente! Elle o principio e o fim! + + Seja bemdito quem ouvir e conservar + As palavras que encerra a minha profecia! + Quem tem ouvidos, oiça! e purifique o olhar, + Porque já não vem longe o tenebroso dia + Em que todos vereis a minha profecia! + + --Despenham se na terra os astros refulgentes; + O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue; + Varíam de logar ilhas e continentes; + A Grandeza estremece e vem caír exangue... + O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue... + + .............................................. + + + + +Escripto em 1888-1890 + +Acabado de imprimir +aos 5 dias do mez d'Outubro de 1901 +na Imprensa de Libanio da Silva +Rua do Norte, 87 a 103 + +Lisboa + + +Nota do transcritor: + +Foram corrigidos diversos erros tipográficos. Na lista que segue estão as alterações mais importantes. + + Pág. Original Corrigido + 20 abnadonam Maria abandonam Maria + 18 Pois eu sou tou Pois eu sou tão + 25 JÕAO PEDRA, com o braço direito SIMÃO PEDRA, com o braço direito + 30 a aragem fresca e permada a aragem fresca e perfumada + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JUDAS *** + +***** This file should be named 27276-8.txt or 27276-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/2/7/27276/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
