summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/27276-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '27276-8.txt')
-rw-r--r--27276-8.txt5744
1 files changed, 5744 insertions, 0 deletions
diff --git a/27276-8.txt b/27276-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..365385e
--- /dev/null
+++ b/27276-8.txt
@@ -0,0 +1,5744 @@
+The Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Judas
+ Romance lirico em quatro jornadas
+
+Author: Augusto de Lacerda
+
+Release Date: November 16, 2008 [EBook #27276]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JUDAS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+
+JUDAS
+
+
+
+
+DO MESMO AUCTOR
+
+Theatro:
+
+_A Flôr dos Trigaes_, comedia original em um acto, em verso--Theatro de
+D. Maria II.
+
+_Aspasia_, drama original em quatro actos--Idem.
+
+_Samuel_, idem--Idem.
+
+_A Tesoura_, monologo--Idem.
+
+_A Charada_, sainete original--Theatro do Gymnasio.
+
+_Casados-Solteiros_, comedia original em tres actos--Idem.
+
+_O Vicio_, peça original em cinco actos--Theatro do Principe Real.
+
+Em livro--Edições esgotadas:
+
+_Religião do Amor_, versos.
+
+_O Padre_, romance intimo.
+
+_A Pança_, contos.
+
+_A Lei da Exauctoração Militar_, poemeto.
+
+_Cyrilleida_, analyse de uma critica á «Velhice do Padre Eterno.»
+
+_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia.
+
+A entrar no prélo:
+
+_O Rabbi da Galiléa_--(Vida de Jesus)--Romance.
+
+_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia--2.ª edição.
+
+Em preparação:
+
+_Consciencia Libertada_--Evangelho do Futuro.
+
+_Lendas de Israel._
+
+
+
+
+Augusto de Lacerda
+
+
+JUDAS
+
+ROMANCE LIRICO
+
+EM
+
+_QUATRO JORNADAS_
+
+
+LISBOA
+
+Antiga Casa Bertrand--JOSÉ BASTOS
+
+_73, Rua Garrett, 75_
+
+1901
+
+
+_Exemplar n.º_ 461
+
+
+Todos os direitos d'este livro são propriedade exclusiva e reservada do
+seu auctor.
+
+
+Ao Dr. Manoel Maria Bordallo Pinheiro
+
+ _Il n'y a guère de détails certains en histoire; les détails
+ cependant ont toujours quelque signification. Le talent de
+ l'historien consiste à faire un ensemble vrai avec des traits qui ne
+ sont vrais qu'à demi._
+
+ Ernest Renan--Vie de Jésus
+
+
+PRIMEIRA JORNADA
+
+
+EM 8 DE NISAN
+
+
+PRIMEIRA JORNADA
+
+
+EM 8 DE NISAN
+
+A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em
+que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a
+casa de Simão, o _Leproso_. Tem esta a forma tipica de uma piramide
+rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos
+canteiros roseiras de Jerichó.
+
+Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um
+pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores
+seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.
+
+A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae
+sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas
+cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...
+
+Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao
+descanso e á meditação.
+
+Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali serpeando
+por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, até que
+chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas
+entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das Oliveiras,
+de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois
+altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaça um
+bando de pombas brancas.
+
+Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o Monte do
+Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da
+encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de
+Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e
+patriarchas.
+
+Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a
+cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica,
+amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas
+estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.
+
+A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da encosta:--é
+ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a
+cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda,
+Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor.
+Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande
+Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: _Jehovat_. A Torre
+Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto
+vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta
+quietação.
+
+Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o
+carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas
+folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos
+longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando
+no firmamento azul e alegre.
+
+Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que
+entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o
+harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de
+mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um
+sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as
+cotovias.
+
+
+GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas
+doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:
+
+ Eleazar, meu caro, honrado ebionita,
+ Recebe de um amigo a cordeal visita.
+
+ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos
+annos, franzino e melancólico.
+
+ És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja
+ Teus passos dirigiu assim, para que eu veja
+ Á porta do modesto e humilde lavrador
+ Aquelle que possue o nome de doutor
+ Notavel e profundo?
+
+GAMALIEL
+
+ É pobre a moradia,
+ Amigo?--Não encerra a vil hypocrisia,
+ Ornamento dos maus e da nefanda casta,
+ Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.
+
+ELEAZAR
+
+ É que a virtude leva ás almas refrigerio
+ Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio;
+ Pranto suave, meigo e virginal e ardente,
+ Que uma estrella chorou silenciosamente...
+
+GAMALIEL
+
+ É que a bondade espalha a sua luz divina
+ E pura, como o Sol que a todos illumina...
+
+E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se
+conservou:
+
+ O que tenho a dizer-te é coisa de segredo.
+ Escuta-me portanto aqui.
+
+ELEAZAR
+
+ Porquê? Tens medo
+ De que minhas irmãs...?
+
+GAMALIEL
+
+ O assumpto é muito grave,
+ E receio que a dôr ainda mais se crave
+ Nas almas feminis do que na tua.
+
+Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de
+casa, accode logo ao secreto chamamento.
+
+ Amigo,
+ Uma nova cruel:--o Mestre...
+
+ELEAZAR, estremecendo
+
+ Algum perigo
+ É imminente?
+
+GAMALIEL
+
+ Aquella estupida gentalha
+ Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha
+ Prepara com misterio o plano vingador,
+ E está na posição terrivel do condôr,
+ Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora,
+ Em casa de Kaiapha...--É sabbado hoje? Embora!
+ --... O Conselho procura, extravasando o fel,
+ Garantir-se o poder no povo d'Israel.
+
+ELEAZAR
+
+ Prendendo o Mestre?
+
+GAMALIEL
+
+ Sim! Razões tem para tudo
+ O seu pensar feroz, indómito e agúdo!
+ Amor divino? Qual! Apenas o receio
+ De perder o logar no execravel meio:
+ D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma,
+ E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!
+
+N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e
+que se expande, emfim, n'uma invocação:
+
+ A Virgem de Sião suspira ha muito já!...
+ --Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat!
+ Que é feito do vigor da tua fala, Isaías?
+ E das lamentações sinceras, Jeremías?
+ Profeta Ezequiel, a tua voz potente
+ Jámais ribombará por todo o Oriente,
+ Fazendo estremecer o despota cezareo,
+ Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario,
+ Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma,
+ Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!
+
+ELEAZAR, com o olhar vago:
+
+ Vergonha! opprobrio!...
+
+GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de
+enthusiasmo civico:
+
+ Ai! desde que um idumeu
+ Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu,
+ E nos hombros depoz o manto purpurino...
+ Maldito! que deixaste um rasto viperino,
+ Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo,
+ O teu nome recorda o luto e um acervo
+ De horrores!--Certo dia, ousaste no portal
+ Da casa do Senhor dar poiso á _immortal_
+ Aguia romana!...--Vil, nascido de idumeus,
+ O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus!
+ ... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia!
+ --Do nome do tiranno o filho honra a memoria.
+ Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta...
+ Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?...
+ --Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros;
+ Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros,
+ Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia!
+ E ao passo que na morte o hebreu se contorcia,
+ E filhas e mulher's davam á luz o pranto,
+ O incendio voraz lavrava o Logar Santo!
+ --Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga,
+ Revolvendo o punhal na apodrecida chaga!
+ Seja procurador Coponio, ou seja Marco,
+ Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco
+ Onde vivem, senís, as rãs do servilismo...
+ É provincia romana; e viva o cezarismo!
+
+E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando,
+convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.
+
+ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:
+
+ Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor,
+ D'esta funda apathía e d'este grande horror!
+ Judéa, serás livre! Elias não morreu,
+ Porque revive n'um que tem o verbo seu,
+ E elle ha de trazer a guerra e o exterminio!
+ Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!...
+ Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia!
+ O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a
+ Sem minimo temor da colera dos ceus!
+
+GAMALIEL, n'um clarão de esperança:
+
+ Já temos o preciso: um _Homem_!
+
+MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras:
+
+ Não!--Um _Deus_!
+
+Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser
+tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens
+escuras, que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas regulares
+e castas como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e tranquillo; os
+seus gestos sempre em accordo com as serenas emoções da alma.
+
+ É bello o teu falar, mas como de cegueira
+ Pelo amor patrio estás vencido! De maneira
+ Que apenas bastaria um pulso valoroso
+ Para despedaçar o monstro ambicioso
+ De fausto e de poder que se revolve além,
+ N'aquella babylonia? Então, Jerusalem,
+ Movida por um braço, embora resoluto,
+ Poderia colher o ambicionado fructo
+ Da plena liberdade em meio da revolta?
+ --Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta!
+ A Judéa prefére a honra em mil pedaços,
+ Cheia de timidez, crusando inerme os braços,
+ Inhabil para a lucta e com horror á morte...
+ A tribu de Levy, aquella cujo porte,
+ Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria
+ Coragem ao vencido e alguma simpathia
+ Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo.
+ --Onde encontraste, irmão, o excitante novo,
+ Que possa dar alento a quem succumbe exangue,
+ Que os nervos fortaleça e retempére o sangue?
+
+GAMALIEL
+
+ Ha sempre em casos taes...
+
+ELEAZAR
+ a força d'um athleta!
+
+MARIA
+
+ Tem muito mais poder o verbo d'um profeta!
+ Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição
+ Das coisas divinaes a toda a multidão,
+ Que se contorce afflicta em negro paroxismo,
+ Descrente de Moysés, propensa ao paganismo.
+ Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra,
+ Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra,
+ Pesada, como o arado á terra bemfasejo,
+ Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!
+
+GAMALIEL
+
+ E quem te diz que não? Eu julgo indifferente
+ Que tenhamos no Mestre aquelle descendente
+ Do nome de David ao mundo promettido
+ Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido.
+ Porque bem vejo a força enorme, o poderío
+ Que exerce na cidade. É mais que prestadío
+ Á Patria um homem tal!
+
+ELEAZAR
+
+ A sua mão convulsa,
+ Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa
+ Para longe do sitio ás preces consagrado...
+
+MARIA
+
+ E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!...
+ --Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes
+ E que mercadejava as graças corporaes;
+ Ascende até o amor aos pobres, ás creanças,
+ Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças
+ N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...
+
+ELEAZAR
+
+ Quando, porem, troveja irado, mais parece
+ Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!
+
+MARIA
+ Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...
+
+ELEAZAR
+
+ Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...
+
+GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria,
+que foi sentar-se junto da fonte:
+
+ Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso,
+ E Deus pode morrer... quando fôr mais preciso.
+
+ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez
+opprime no intimo:
+
+ O Mestre não virá. Alegra-me a certeza
+ De que foge ao Conselho a ambicionada preza.
+ Começa em breve a Paschoa, e entre os forasteiros
+ Ainda não chegou nem um dos companheiros
+ Do Mestre.
+
+GAMALIEL
+
+ Vae o Sol no termo da viagem:
+ Torno para a cidade.
+
+E novamente em segredo:
+
+ Eleazar, coragem!
+ No teu silencio tens a minha vida e a tua.
+
+ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante:
+
+ Se te constar, porem, que o plano continúa
+ E mais se desenvolve...
+
+GAMALIEL
+ Hei de dizer-te, amigo.
+
+ELEAZAR, saúdando-o:
+
+ Que não te fuja Deus!
+
+GAMALIEL, saúdando-o:
+
+ Fique o Senhor comtigo!
+
+Saúda tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da
+estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordão
+no solo poeirento.
+
+ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos
+proprios pensamentos:
+
+ Ninguem pode roubal-o á proxima agonía.
+ Morrerá na cidade. A horrivel profecia
+ Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte...
+ Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte!
+
+
+Martha e Simão de Bethania saíram de casa. Ella é uma rapariguita de
+desoito annos, irrequieta, buliçosa, muito infantil; elle, um velho cujo
+cabello e barba ha muito branquearam; nas mãos o trabalho da lavoura
+poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra
+deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.
+
+MARTHA
+
+ No que pensa o meu irmão?
+
+ELEAZAR
+
+ Em nada penso.
+
+MARTHA
+
+ Duvido.
+ Ha n'esse olhar definido
+ Vislumbre d'inquietação.
+
+SIMÃO
+
+ Se tu pensas na lavoura,
+ Fazes mal, que o dia de hoje,
+ Emquanto o Sol não nos foge,
+ Prohibe que, scismadora,
+ A mente se occupe assim
+ De coisas que não respeitam
+ A Deus.
+
+MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:
+
+ Aquelles que engeitam
+ O pensar, mesmo o ruim,
+ São como as ondas brutaes,
+ Que lançam á rocha dura
+ A espuma de cuja alvura
+ Ellas são as mães e os paes...
+
+SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:
+
+ Sempre has de ser renitente
+ Em respeitar a doutrina
+ De Moysés!
+
+MARIA, com amargo sorriso:
+
+ O que ella ensina
+ É por vezes incoherente.
+ De ouvil-a já estou cançada,
+ E nem assim me convence.
+
+MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:
+
+ Não falas?
+
+SIMÃO
+
+ Deixa-o! Que pense,
+ Uma vez que isso lhe agrada!
+
+ELEAZAR
+
+ Mas como sois curiosos
+ Do que se passa por fóra
+ De vossas almas!
+
+MARTHA
+
+ Agora
+ Vem discursos lamentosos,
+ Recriminações, aposto!
+ Grande mau!
+
+ELEAZAR sorrindo contrafeito:
+
+ Grande creança!
+
+MARTHA picada no seu amor proprio:
+
+ Não te inspiro confiança?
+
+ELEAZAR condescendente:
+
+ Inspiras, sim.
+
+MARTHA
+
+ Pois não gosto
+ De segredos--Que tristeza!...
+ Não percebo! Porque, em summa,
+ Não vejo razão nenhuma
+ Para tal! Não ha riqueza?
+ A nossa vida, porem,
+ É feliz; a privação
+ Nunca nos veio affligir,
+ Nem ameaça o porvir,
+ Não é verdade? Simão,
+ Este bom velho leal,
+ Que tanto e tanto nos ama,
+ Dá-nos meza, casa, cama,
+ E conselho paternal;
+ Tu retribues a amizade,
+ Auxiliando-o na vida.
+ Achámos uma guarida
+ Nas trevas da orfandade:
+ Temos familia! Por isso
+ Para nós a vida é clara
+ Assim como a luz. A seara
+ É verdadeiro macisso
+ De pão; agua na fonte;
+ Lenha nas faldas do monte...
+ Nada vejo, d'importancia,
+ Que não tenhamos. Então,
+ Quero saber o motivo
+ Por que estás tão pensativo...
+
+E rindo muito:
+
+ E com cara de chorão!
+
+ELEAZAR
+
+ E tenho de que sorrir?
+
+MARIA em longa abstração, como se ninguem a ouvisse:
+
+ Quem pensa é como quem sonha...
+ E como a vida é risonha,
+ Quando se pode dormir!...
+
+ELEAZAR perseguido pelo olhar inquiridor de Martha:
+
+ A minha alma atribulada
+ Profundo misterio aninha...
+ Sê caridosa, irmãsinha,
+ Não me perguntes mais nada!
+
+MARTHA afastando-se logo com muito despeito:
+
+ Ai! não pergunto!
+
+SIMÃO que de parte estivera rindo dos dois:
+
+ Uma idéa,
+ Que talvez seja bem dita:
+ Vou fazer uma visita
+ Ao José d'Arimathéa.
+ Vem commigo. Pode ser
+ Que tenhas n'este passeio
+ O prompto e seguro meio
+ Da tristeza espairecer.
+
+ELEAZAR
+
+ Dizes bem.
+
+SIMÃO
+
+ Acceitas?
+
+ELEAZAR
+
+ Sim.
+
+SIMÃO
+
+ Afinal é sempre o velho
+ Quem dá o melhor conselho!
+
+ELEAZAR ás irmãs:
+
+ Adeus!
+
+E beijando Martha, que o evita d'arremeço:
+
+ Tu foges de mim?
+ Não vens beijar-me, teimosa!
+ É então uma vingança?
+
+MARTHA, deixando explodir o seu despeito:
+
+ São arrufos... de _creança_!
+
+ELEAZAR beijando-a á viva força:
+
+ São os espinhos da rosa!
+
+Vão-se Eleazar e Simão. Succede grande silencio.
+
+
+MARTHA foi á beira da estrada e segue-os com o olhar. Depois,
+appreensiva, com vago receio:
+
+ Nunca o vi assim como hoje...
+
+MARIA em longa abstracção, como se ninguem a ouvisse:
+
+ «Espairecer»... Puro engano!
+ O pensamento não sae...
+ É como a sombra que vae
+ Correndo atraz de quem foge...
+
+MARTHA que lançou para longe a tristeza, despertada pelo cantar mais
+proximo d'uma cotovia.
+
+ Como o tempo está formoso
+ E se prepara, amoroso,
+ Para a Paschoa d'este anno!
+
+N'uma corrida, eil-a junto da irmã que ficára sentada á beira da fonte.
+Um beijo resôa na face de Maria e logo aos pés d'esta se senta Martha.
+
+ Achamos isto um encanto!
+ Como elles acham, porem,
+ Que tudo é feio.
+
+MARIA
+
+ Elles, quem?
+
+MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido
+erguido para o olhar da irmã:
+
+ Os Dose, que gostam tanto
+ De dizer mal de Judá.
+ A Galiléa! Não ha
+ Para elles outro mundo!
+ Têem sincera affeição,
+ Tributam amor profundo
+ Ao paiz de Salomão!
+
+MARIA desculpando-os:
+
+ A sua terra natal...
+ --Todos dizem que em verdade
+ É um paiz ideal
+ A Galilêa.
+
+MARTHA
+
+ Quem ha de
+ Duvidar, se elle inspirou
+ Os galanteios doirados
+ D'aquelles apaixonados...
+ --Como elles, ninguem amou!
+
+Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e
+recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado
+de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com
+elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.
+
+ «É formoso o meu amante,
+ Formoso como nenhum,
+ E como o cédro elegante...
+ É formoso o meu amante,
+ Formoso como nenhum...
+
+ «São de perfumes e odores
+ Suas faces purpurinas,
+ Dois ramalhetes de flores...
+ E suas mãos dois primores
+ Das pedrarias mais finas.
+
+ «O seu corpo deslumbrante
+ Do marfim o brilho tem...
+ --Eu aqui... Elle distante...
+ Onde está o meu amante,
+ Filhas de Jerusalem?»
+
+Olhando de fito para a irmã:
+
+ Esta idéa é mesmo linda!
+
+MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae
+deslisando:
+
+ Amôres...
+
+MARTHA
+
+ Muito falados!
+ Olha que outros bem-amados
+ Como estes não houve ainda!
+ E quando elle se transporta,
+ Descrevendo a sua amante?
+ Não pode ser mais galante!
+ Queres ouvir?
+
+MARIA
+
+ Que m'importa!...
+
+MARTHA
+
+ «És formosa entre as formosas!
+ Como tu não ha nenhuma!
+ Tens no rosto duas rosas...
+ És formosa entre as formosas!
+ Como tu não ha nenhuma!
+
+ «Duas pombas tens no olhar
+ Onde transluz a bondade.
+ Os teus cabellos sem par
+ Fazem-me sempre lembrar
+ As cabrinhas de Galaad...
+
+ «Tua bocca é tão fagueira!
+ Quando sorrís com ternura,
+ Julgo vêr n'uma ribeira,
+ Unidinhas em fileira,
+ Ovelhas de casta alvura!
+
+ «Oh! que suaves martirios
+ Em tuas caricias francas!
+ São teus seios--que delirios!
+ --Como duas corças brancas
+ A pastarem entre os lirios!»
+
+Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu
+sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de
+Poncio Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da
+liteira; sem ser presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua
+escrava e confidente Geda.
+
+Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente,
+avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado
+em estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava,
+brilha o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.
+
+Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não
+enrugou, mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura
+e o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica
+do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de
+Tiberio, illustre messallina--_lassata, sed non satiata_. A tunica azul
+celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco
+esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na
+carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade olympica
+do perfil das medalhas de Agrippina.
+
+
+CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos
+triclinios de má nota da velha Roma:
+
+ Muito bem!
+
+Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio,
+dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta
+detem-se.
+
+ Que formosa poesia
+ Cheia de amor e de melancolia!
+ Ha quem diga no Lácio
+ Que é impossivel encontrar primores
+ Que não sejam de Ovidio nos «Amores»
+ Nos «Epodos» de Horacio...
+ --É que ninguem conhece quanto val'
+ A doce poesia oriental!
+ --Isso é de Salomão?
+
+MARTHA muito a mêdo:
+
+ Senhora...
+
+CLAUDIA
+
+ Pois eu sou tão lisongeira,
+ Para ouvir-te apeei-me da liteira...
+ E foges?--A razão?
+
+E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente:
+
+ Tambem me odeias, tu, gentil creança?
+ --Quando ha de fazer-se uma alliança
+ Entre Roma e Judéa?
+ Ganhariamos todos, com certeza:
+ Nós, simpathia; vós, delicadeza.
+ Darei a Poncio a idéa.
+
+Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios contraídos
+e os punhos cerrados:
+
+ Conheces-me tambem?
+
+MARIA por entre dentes:
+
+ Perfeitamente.
+
+CLAUDIA
+
+ Se não me engano, a tua alma sente
+ Por mim o mesmo affecto...
+ Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada
+ Com Poncio, devo estar acorrentada
+ A um odio tão directo?
+
+MARIA fitando-a resoluta, mas serena:
+
+ É que tu desconheces o rancor
+ Que tem toda a Judéa ao vencedor!
+ Fossem mil as nações
+ Caídas sobre nós! Odio profundo
+ Teriamos então a todo o mundo
+ E ás suas gerações!
+ --Ninguem pediu que ouvisses o falar
+ Da minha irmã. De mais, vindo escutar
+ Fizeste muito mal...
+ És Claudia; quer dizer: alguma coisa
+ Que nos merece tédio, e que repoisa
+ Sobre um vil pedestal
+ Todo feito de lama e impudicicia!
+ Justamente porque és uma patricia
+ Deves ter o criterio
+ De não brincar co'as cinzas ainda quentes,
+ Porque nós detestamos intendentes
+ E amantes de Tiberio!
+
+Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento impulsivo
+de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que não resiste. Martha
+soltou um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo
+murmurio da agua e pelo chôro suffocado de Martha, que não desamparou a
+irmã.
+
+CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gôtas de chumbo
+derretido:
+
+ Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo.
+ A todo o sentimento o da maldade encimo,
+ Se acaso á minha face o insulto e o desdem
+ Me forem arrojados por alguem!
+ Uma frase, um olhar--tanto me basta;
+ Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta,
+ Qual sanguineo brilhante, a fébre da matança,
+ Dos deuses o prazer dulcissimo: a Vingança!
+
+Mas em rapido movimento, como obedecendo a pensamento occulto, faz
+signal aos soldados, que logo abandonam Maria. Depois, com acerado
+sorriso de maldade:
+
+ Agradece, mulher, a mim e ao teu Deus
+ Esta disposição d'espirito, e os meus
+ Bons nervos hoje; e grava, em summa, na memoria
+ Que o insulto nem sempre é uma gloria!
+
+MARIA muito vexada pela insultante benevolencia de Claudia:
+
+ Eu não pedi perdão...
+
+CLAUDIA victoriosa pelo effeito que o perdão causou no animo
+independente da patriotica filha d'Israel:
+
+ E quem diz tal, judía?
+ Fui eu que perdoei...--Offendes-te?
+
+MARTHA supplicante ao ouvido da irmã, que ia responder:
+
+ Maria...
+
+CLAUDIA rindo, satisfeita, feliz:
+
+ _Maria_... Nome formoso,
+ Que tem um rythmo éoleo!
+ Merece logar honroso,
+ Por Jove, no Capitolio!
+
+E volta para a liteira.
+
+A ESCRAVA GEDA ajudando-a a accomodar-se nas almofadas da liteira:
+
+ Nunca te vi assim...
+
+CLAUDIA
+
+ Diverte me a bondade,
+ Ás vezes...
+
+O CENTURIÃO AMPÍO ao sequito:
+
+ A caminho!
+
+Os lecticarios põem a liteira aos hombros.
+
+CLAUDIA
+
+ Á porta da cidade
+ Haveremos de estar antes da noite. Anceio
+ Por que termine em bréve este infeliz passeio,
+ Sem novo encontro mau.--Ó palida judía,
+ Pode ser que eu te veja ainda... Até um dia
+ Tem saúde até lá, que o ferro vingador
+ Detesta a gente magra, e tem maior furor
+ Ao trespassar um cólo arredondado e terno...
+
+MARIA
+
+ Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno!
+
+Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela
+soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a
+comsigo para casa.
+
+
+Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar
+obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca
+da hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras
+de feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo
+dos braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um
+pouco alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o
+olhar para as coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario,
+conserva-os erguidos ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes.
+Claro é que de quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos
+manifestam-se.
+
+BENJAMIM
+
+ Não ha que duvidar: chegaram todos.
+
+JOSUÉ
+
+ Viste bem, Benjamim? seria engano...
+
+BENJAMIM
+
+ Engano o que? Se affirmo, se até juro
+ Ter visto o Mestre e os dose companheiros.
+ Tomaram pela horta do Simão,
+ E em bréve hão de estar n'aquella casa.
+
+E approxima-se da casa do _Leproso_. Detem-se; prestando attenção, ouve
+a distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com _Hossannas!_ a
+chegada do Rabbi da Galiléa.
+
+ Eu não te digo?... O povo já começa
+ A correr ao encontro. Dentro em pouco,
+ Vae por esta Bethania uma celeuma,
+ Que nem no Templo em dia de festejo!
+ Eis portanto o momento ambicionado
+ De cumprirmos as ordens recebidas...
+
+JOSUÉ, timido, covarde, circumvagando o olhar:
+
+ Mas Benjamim...
+
+BENJAMIM
+
+ O que é?
+
+JOSUÉ
+
+ Sinceramente,
+ Vou achando pesada esta incumbencia.
+ É que nós somos dois: elles são tantos!...
+
+BENJAMIM
+
+ Em verdade te digo; principío
+ A estar arrependido de indicar-te
+ Para meu ajudante n'esta empreza!
+ Hanan mandou que fossemos prudentes:
+ Devemos ter prudencia. Hanan mandou
+ Que tomassemos nota do que vissemos:
+ Tudo o que virmos lhe será contado.
+ Hanan mandou que fosse descoberto
+ O melhor paradeiro onde, em segredo,
+ Se podesse prender o Nazareno,
+ Muito em segredo, sim, para evitar
+ Protestos e tumultos: pois, meu caro,
+ Havemos de encontral-o!
+
+JOSUÉ
+
+ Estás bem certo?...
+
+BENJAMIM velhacamente, animando-o:
+
+ E não vejo que mal nos ameace.
+ O ex-Grande Sacerdote é simplesmente
+ Quem se entrega aos revezes d'este jogo.
+ Se perde ou ganha, o caso é lá com elle;
+ E nós de qualquer forma ganharemos
+ Não só a consciencia de homens probos,
+ Leaes respeitadores de Moysés...
+
+JOSUÉ unctuosamente:
+
+ O que á minha alma traz doce conforto...
+
+BENJAMIM
+
+ ... Mas tambem o dinheiro promettido,
+ Que não menos conforta as nossas bolsas.
+
+JOSUÉ com desinteresse hypocrita:
+
+ Tens um sistema de encarar a vida!...
+
+BENJAMIM
+
+ É forçoso que nós nos convençamos
+ De que, se os bons principios se defendem,
+ Tambem se deve garantir ao corpo
+ A delicia das bôas digestões...
+ Á custa do dinheiro do Conselho!
+ --Ouve portanto o que é mister cumprir:
+ Tu vaes para a cidade; a bréve trecho
+ Procurarás o ex-Sacerdote... E então
+ Dir-lhe-ás que o profeta e os companheiros
+ Chegaram a Bethania era sol-posto;
+ Que decerto aqui ficam toda a noite,
+ E que eu não deixarei de estar álerta.
+
+JOSUÉ
+
+ Perfeitamente.
+
+BENJAMIM
+
+ Espéra! De manhã,
+ Logo que vejas os clarões do dia,
+ Has de esperar por mim...
+
+JOSUÉ
+
+ Que sitio indicas?
+
+BENJAMIM
+
+ Não distante da entrada principal
+ Do Templo. Dado o caso que eu não chegue,
+ Commigo has de encontrar-te...
+
+JOSUÉ
+
+ E onde?
+
+BENJAMIM
+
+ Aqui.
+
+JOSUÉ
+
+ Muito bem!
+
+BENJAMIM
+
+ Percebeste?
+
+JOSUÉ
+
+ Que pergunta!
+ Como quem desenrola o «Pentateuco»
+ E passa a vista pelo que elle diz.
+ --A proposito: guarda-me estes rôlos.
+
+BENJAMIM acceitando-os e juntando-os aos seus:
+
+ Tens razão. As Sagradas Escripturas
+ Iriam pezar muito no caminho.
+ Mas deves ir com um, pois é preciso
+ Para te dar o aspecto d'homem sério.
+
+JOSUÉ
+
+ Ao romper da manhã...
+
+BENJAMIM
+
+ Vae-te! Vem gente!
+
+E tomam para lados oppostos, revestidos de sua compostura habitual.
+
+
+Quatro homens assomaram á porta do _Leproso_; são Eleazar acompanhado de
+João, Simão Pedra e Matheus.
+
+João é um bello tipo da raça judaica do norte. Alto, robusto, espadaúdo
+e ainda imberbe. Os louros cabellos de genuino galileu caem-lhe sobre os
+hombros em fartos anneis. Olhar azul, meigo; gesto largo e suave, na
+quietação d'alma; mas desordenado e brusco, se a colera o determina. Voz
+intensa, possante, cadenciada, de homem habituado a falar ao ar livre,
+na grande extensão da superficie das aguas.
+
+Mais velho do que elle, Simão Pedra deixa transparecer em toda a sua
+figura suavidade extranha em creatura humana. De Capharnaum, galileu
+tambem e tambem robusto homem do mar, o seu rosto é circumdado pelos
+annelados cabellos e pela barba comprida, bipartida, e tão loura, que
+mais parece branca. Olhar penetrante, mas bondoso e ligeiramente
+accentuado por um vinco entre os supercilios, o que torna a sua
+fisionomia um pouco severa. Gesto sempre sereno; voz protectora,
+paternal.
+
+Matheus é mais velho do que João e mais novo do que Simão Pedra. Baixo,
+de forte musculatura, barba ruiva bipartida; olhos meùdos e muito vivos
+de antigo publicano. Todavia o conjuncto da fisionomia é attrahente por
+uma expressão de rude franqueza que n'elle predomina. Voz quasi
+homofona, de homem metódico, que raras vezes se enthusiasma ou
+sensibilisa, e que tem da vida uma noção segura.
+
+Os trez trazem na cabeça turbante á moda egypcia, com as pontas caídas
+ao longo das costas. Os mantos e as tunicas empoeirados mostram que foi
+grande o percurso que fizeram os romeiros.
+
+JOÃO resfolegando:
+
+ Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!
+
+MATHEUS
+
+ E ficam bem á vista os muros da cidade...
+ Não sei o que adivinho!...
+
+JOÃO
+
+ Ao largo esse receio!
+ Muito mais me entristece a nuvem má que veio
+ Escurecer ao Mestre o doce olhar...
+
+SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma
+intimidade muito amiga:
+
+ Meu caro,
+ Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo
+ O tempo que passou a este em que hoje estamos:
+ O verbo illuminando a treva e os recamos
+ Do manto a que se abriga uma ambição enorme;
+ As contorsões finaes do animal disforme
+ Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés,
+ Rojando-se afinal vencido a nossos pés!
+
+ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae
+n'alma:
+
+ E julgas que não tarda em despontar o dia
+ Tão desejado?
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Eu?! Pois quem duvidaría?
+ --A doutrina do Mestre é como o grão de trigo,
+ Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo.
+ Que mais cuidados tem o bom do lavrador?
+ Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor,
+ Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão,
+ A força e o poder da multiplicação.
+ Se o lavrador depois no campo seu repára
+ E vê brilhar ao sol a refulgente seára,
+ Exclama, commovido: Abençoada terra,
+ Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!
+
+ELEAZAR, quasi a medo:
+
+ Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Quem passa pela estrada e attenta no crescer
+ Do risonho trigal, diz logo, reverente:
+ Bemdito quem dispoz na terra esta semente!
+
+ELEAZAR, depois de grande hesitação:
+
+ Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho
+ Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?...
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Nunca!
+
+ELEAZAR
+
+ Nem fugireis?
+
+JOÃO que se erguera, rapido e violento:
+
+ Nenhum de nós!
+
+Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte.
+Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e,
+dando ás palavras uma intenção reservada:
+
+ Nenhum...
+ Dos que têem do Mestre a patria por commum!
+ Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios
+ Nunca hão de vacilar perante os sacrificios.
+ Se acaso o Mestre fôr levado de vencida,
+ Qualquer de nós dará por elle a propria vida!
+ Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André,
+ Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé,
+ Iago, o publicano, ou Simão Pedra?--Não!
+ Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão?
+ --Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.
+
+JUDAS
+
+ Não falaste de mim...
+
+JOÃO muito secco e terminante:
+
+ Por méro esquecimento.
+
+E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação.
+
+ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra:
+
+ Pareceu-me o contrario...
+
+SIMÃO PEDRA triste e confidencial:
+
+ É sempre assim co'o Judas...
+
+Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força
+da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura
+regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus
+cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada;
+pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma
+notavel contrasta da rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham
+entre os labios vermelhos; e quando irado, o labio inferior que é
+grosso, sensual, estremece-lhe como o d'um touro em circo romano. É uma
+d'essas creaturas que não sabemos se devam inspirar-nos simpathia, se
+conservar no nosso espirito a idéa de repulsão que a principio nos
+dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mãos, braços e peito
+cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares; extremamente
+meiga e cariciosa na dôr, extremamente vibrante, herculea na cólera.
+
+JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:
+
+ Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas
+ As tuas aggressões áquelle que te présa!
+ Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa.
+ De injurias contra mim tu sempre estás faminto!
+ Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto...
+ (E crê que muita vez isto me vem á idéa)
+ ... Ter nascido em Judá e não na Galiléa?
+ Sou culpado de quê? De ter a pélle escura?
+ De ter cabello negro? Isto é para censura?
+
+MATHEUS conciliadôr:
+
+ Mas se elle já te disse...
+
+JUDAS
+
+ E eu digo que, em verdade,
+ Prefiro lealmente o odio a esta _amizade_!
+
+E volta aos seus pensamentos dominantes.
+
+MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:
+
+ Vinde ceiar, que são horas.
+ Não quereis?
+
+SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha
+
+ Nem se duvída!
+
+MARTHA
+
+ Pois deixae-vos de demoras,
+ Aliás vae-se a comida!
+ --Uma ceia improvisada
+ Mas nem por isso mesquinha,
+ Podeis crêr.
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ A caminhada
+ Que fizemos foi damninha...
+ Por aguçar o appetite.
+
+MARTHA intimativamente, retirando-se da janella:
+
+ Dize que venham depressa,
+ Porque, faltando ao convite,
+ Sem vós a ceia começa!
+
+JOÃO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um
+tom de voz inaudivel para Judas:
+
+ Dizeis que elle é honesto e probo e crente, em summa
+ Que para ser dos bons não falta a coisa alguma...
+ Talvez que seja assim como dizeis. No entanto,
+ Se para o seu olhar o meu olhar levanto...
+ --É tectrico e sombrio aquelle olhar revêsso!
+ Pensando sempre! Em quê?--Amigos, bem conheço
+ Que pode ser fatal este misterio vivo!
+ Qualquer de nós é meigo, alegre e expansivo...
+ --Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro:
+ Não procederam bem.
+
+SIMÃO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante:
+
+ Porquê?
+
+JOÃO em tom leviano:
+
+ O embusteiro
+ Apenas retribue a prova de amizade
+ Gastando em seu proveito o que é da sociedade.
+
+SIMÃO PEDRA, que não poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda
+mais severo:
+
+ Já não te quero ouvir nem mais uma palavra!
+ No teu peito leal um sentimento lavra
+ Improprio de quem és! Lá dentro direi tudo.
+ Depois do que te ouvi, não posso ficar mudo!
+
+ELEAZAR conciliador:
+
+ Então!
+
+MATHEUS detendo Simão Pedra, que ia para entrar em casa do _Leproso_:
+
+ Menos calor!
+
+JOÃO repêso, meigo, supplicante:
+
+ Oh! cala-te, por Deus!
+ Não vás exacerbar ao nosso Mestre os seus
+ Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano...
+ Proveio o que me ouviste apenas de um engano...
+ Simão Pedra, desculpa!
+
+Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão
+Pedra, aguardando o desenlace.
+
+SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:
+
+ Eu sei que és razoavel.
+ Já tinha como certa a confissão louvavel,
+ Que logo surgiria á simples ameaça...
+
+JOÃO abraçando-o effusivamente:
+
+ Devemos collocar ao longe o que a desgraça
+ Procura intrometter no nosso coração!
+
+MATHEUS
+
+ O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão,
+ Mas tens dentro do peito os risos da bonança!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Não voltes a magoal-o.
+
+JOÃO
+
+ Hei de mudar, descansa.
+
+Encaminha-se para casa, mas
+
+SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se
+passára:
+
+ E fala-lhe, João: não vês como ficou?
+
+JOÃO com bonhomía:
+
+ Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!
+
+JUDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:
+
+ Eu vou.
+
+
+Mas fica, e só os quatro entram para casa.
+
+Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente
+immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando
+toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme
+reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos;
+apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém,
+distinguem-se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos
+romeiros, que veem para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e
+pandeiro. É um himno melancólico, dolente, ao pausado compasso da
+andadura. Pouco a pouco os sons definem-se, approximam-se. A aragem
+fresca e perfumada balouça docemente o arvoredo.
+
+JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:
+
+ Porque motivo, ó Deus, esta injustiça?
+ Desegualdade sem razão, medonha!
+ Uma alma pura, virginal, submissa;
+ Outra, vertendo em lagrimas peçonha!
+ --Ah! fatal e profundo sentimento,
+ Que tens do abismo a attracção e o horror!
+ És para mim dulcissimo tormento,
+ E sendo um grande amor... não és amor!
+ Um desejo voraz, ardente, furia,
+ Que a força da vontade não arranca!
+ Tem sonhos de volupia, de luxuria,
+ Com as palpitações da carne branca!
+ Transforma o ideal em verdadeiro
+ E a minha alma timida conduz
+ A seductor e vago paradeiro,
+ Onde eu estreito um cólo e uns braços nús!
+ Não morrerás? não has de ter um fim,
+ Ó tenebrosa e infernal tortura,
+ Que pareces viver dentro de mim
+ A construir a minha sepultura?
+ --Quem te ordena que leves a maldade
+ A fazer-me avançar para o impossivel?
+ Porque segrédas tu que a castidade
+ Nem sempre pode ser irresistivel
+ Ás seducções frenéticas do amor?
+ E porque vens mostrar-me, sensual,
+ Certa nudez, e em todo o seu fulgor
+ Um monte de oiro junto d'um punhal?
+ --Como és infame! Sim! Com violencia
+ Levas minh'alma fraca aos empurrões.
+ E, como a Daniel, a Consciencia
+ Queres deitar á cova dos leões!
+ --Oh! nunca! Podes crêr que te resisto!
+ Hei de salvar minh'alma moribunda,
+ Arrancar-te de mim, e, depois d'isto,
+ Escarrar-te no corpo, besta immunda!
+
+
+E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta
+o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do
+interior da casa.
+
+Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo
+traz apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma
+coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria,
+como animada de forte resolução, encaminha-se para a fonte, passando
+pela frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e
+quedou-se a contemplal-a. Maria põe a amphora sob a corrente d'agua, e
+espera que encha.
+
+Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente.
+
+Dir-se-ía que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar está
+agora fito no chão. Mas, por fim, com expressão de resignado, eil-o que
+se dirige para casa, onde entra a passos lentos.
+
+A amphora transborda. Maria põe-na sobre o quadril e dá alguns passos.
+Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da
+cidade com expressão de temor, como se d'ali podesse vir desgraça para
+algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a
+porta.
+
+Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus
+instrumentos, e vão-se afastando, afastando gradualmente, os sons
+sumindo-se pouco a pouco na distancia. A lua sobe com lentidão; paira em
+todo o quadro a quietação muda da Natureza adormecida...
+
+Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-ía que
+esse vulto é Benjamim.
+
+
+
+
+SEGUNDA JORNADA
+
+EM 9 DE _NISAN_
+
+
+
+
+SEGUNDA JORNADA
+
+EM 9 DE _NISAN_
+
+
+Estamos em casa de Simão de Bethania.
+
+A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas
+tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso
+conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á
+direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade
+conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação
+para o interior.
+
+Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial,
+onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida
+domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela;
+pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria,
+pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira
+á cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a
+influencia do triclinio nos costumes da Judéa.
+
+A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos
+os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro,
+festivamente bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.
+
+No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o
+_Leproso_. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco
+temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo
+graal collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços
+de pão levedo em frente de cada commensal.
+
+Não distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas
+sob a tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento
+as Sagradas Escripturas.
+
+João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por
+uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,--medita e
+lança de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam
+Judas.
+
+MATHEUS
+
+ De ha muito que não como, e sem lisonja o digo,
+ Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo!
+ Não achas?
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Fabricado em casa do Simão...
+
+SIMÃO
+
+ Obrigado. Outro copo?
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ O vinho é de Ascalão.
+ Conhece-se a distancia apenas pelo aroma.
+
+SIMÃO
+
+ Continuam a dar-lhe enorme apreço em Roma
+ Para onde vão toneis sobre toneis!
+
+MATHEUS que n'um movimento de cabeça concordára e que bebera depois
+d'aspirar o bom perfume:
+
+ Pudera!
+ O amor entre os pagãos á embriaguez prospéra.
+
+SIMÃO apresentando outra infusa:
+
+ Temos agora aqui magnifica cerveja.
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ De cevada?
+
+SIMÃO
+
+ Não é.
+
+MATHEUS
+
+ De peros?
+
+SIMÃO
+
+ De cereja
+ Cultivada em Ramá.
+
+Com sorriso amigo, Simão Pedra e Matheus estendem os copos para Simão
+que n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez
+em silencio e com recolhimento.
+
+SIMÃO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo está fixando:
+
+ Olhae como é profundo
+ Este segredo!
+
+MATHEUS
+
+ Qual?
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Por um processo immundo,
+ Pela fermentação, consegue-se tirar
+ Da materia um licor tão grato ao paladar.
+
+JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em
+Judas, que continúa lendo:
+
+ Não acontece o mesmo a tudo que fermenta.
+ Ha certas podridões que geram peçonhenta
+ Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma.
+ Entrando pela vista, é digirida na alma!
+ E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila
+ Provem d'esse veneno horrivel que distila
+ Muito perto de mim com lugubre misterio.
+ Inutil procurar um doce refrigerio,
+ Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae
+ Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!
+
+Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para
+alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros
+pensamentos.
+
+Judas voltou á leitura sempre silencioso.
+
+SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:
+
+ Nunca ouvi tal falar da bôca do João.
+
+SIMÃO PEDRA tristemente:
+
+ E o caso é que tambem começo a achar razão
+ A tudo que elle diz.
+
+Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde
+conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.
+
+MATHEUS
+
+ O Judas, francamente,
+ No que hontem se passou, deu prova de demente,
+ Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!
+
+SIMÃO
+
+ Hontem?
+
+MATHEUS
+
+ Á noite.
+
+SIMÃO
+
+ O quê? Dizei-me, por favor.
+ Não sei do que falaes.
+
+MATHEUS
+
+ Passou-se tudo aqui.
+ Durante a ceia. Não ouviste?
+
+SIMÃO
+
+ Não; sahi,
+ Mas foi por pouco tempo.
+
+SIMÃO PEDRA muito confidencial:
+
+ Então eis o motivo...
+ --Durante toda a noite esteve pensativo
+ E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa
+ Com palavras banaes e frias. Tão submersa
+ Tinha em meditações a alma, que ninguem
+ Deixou de perceber...
+
+SIMÃO
+
+ Percebi eu tambem
+ Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto
+ A fiel expressão d'um intimo desgosto.
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Maria, aquella honesta e bôa rapariga,
+ Desejando seguir a usança muito antiga
+ No povo do Senhor, a de render um preito
+ De sincera amizade e natural respeito
+ Ao viajante illustre a quem se dá guarida,
+ Abeirou-se da mesa, e, muito commovida,
+ Derramou sobre o Mestre um perfumado unguento
+ De nardo puro. Então, infame sentimento
+ De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro
+ E alegre como nós, aquelle companheiro
+ Reputado fiel, só tem uma censura
+ Para galardoar a prova de ternura:
+ --«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo
+ Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo,
+ Saberia guardar tambem zelosamente
+ A importancia da venda a todos pertencente,
+ Entregando-a depois em meu e vosso nome
+ Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.»
+
+SIMÃO como assombrado:
+
+ Mas isso foi um insulto! E o mestre?
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Respondeu
+ Brandamente, como é velho costume seu.
+
+SIMÃO
+
+ Nem siquer suspeitaes a causa?
+
+MATHEUS
+
+ Tarde ou cedo,
+ Alguem desvendará por certo este segredo.
+
+E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando,
+encaminhando-se por fim para mais distante.
+
+JOÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre
+Judas. Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de
+estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno,
+como procurando dominar-se:
+
+ O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho.
+ Reparo em que lhe dás toda a attenção.
+
+JUDAS
+
+ Medonho!
+ --A infamia de Caím.
+
+JOÃO
+
+ É proveitoso, e muito!
+ Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito,
+ No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã,
+ De falar d'esse crime o qual desde manhã
+ Tanto me preoccupa.
+
+Muito ironico:
+
+ Á tua consciencia
+ Não pode causar damno esta coincidencia...
+ És tão sincero, és tão leal e virtuoso!...
+ --Mas devo confessar-te...
+
+JUDAS sereno e sempre sentado:
+
+ O quê?
+
+JOÃO
+
+ Que estou ancioso
+ De ha muito por que tu expliques o motivo,
+ Que te obrigou a ser cruel e offensivo
+ Para quem te consagra uma affeição fraterna.
+
+Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:
+
+ O que possues em ti, Judas, que assim governa
+ O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo
+ No misterio que abriu na tua frente um abismo
+ Cercado de fataes e nús despenhadeiros,
+ Affastando-te assim dos nossos companheiros,
+ Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.
+
+E indicando a corda com que prende a tunica á cintura:
+
+ Somos na união eguaes a esta corda,
+ Que as estrigas de linho unidas fortemente
+ Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente.
+ Na sólida affeição, unificados, somos
+ Assim como n'um fructo os solidarios gommos.
+ --Desfia-se, porem, a corda, ao que parece;
+ E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...
+
+JUDAS com affectada bonhomía:
+
+ Chiméras, illusões...
+
+JOÃO
+
+ Talvez.--Mas quando penso
+ Que o teu profundo mal pode tornar immenso
+ O crime, e que será depois intempestivo
+ O arrependimento... Em summa, não me esquivo
+ A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha:
+ Nunca simpathisei comtigo; não se amanha
+ Com a tua frieza a ardencia do meu peito.
+ É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito
+ A observar-te.
+
+JUDAS
+
+ A mim?!
+
+JOÃO
+
+ E sabes o que vejo?
+ Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!
+
+JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença:
+
+ Chiméras, illusões...
+
+JOÃO
+
+ Talvez.--Mas quem nasceu,
+ Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu
+ Por vasto cortinado; aquelle que na infancia
+ Aprendeu a olhar com summa repugnancia
+ Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre,
+ Muito melhor que tu ha de entender o Mestre.
+ Não podem comprehendel-o os rudes corações
+ Selvagens como o teu!
+
+JUDAS
+
+ Chiméras, illusões...
+
+JOÃO
+
+ Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres
+ Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres
+ Supplícas com aspecto humilde uma parcella
+ P'ra o Mestre!--Na verdade, é preciosa e bella
+ Tanta dedicação! Provoca o elogío!
+ --Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío
+ O teu olhar matreiro, o brilho da avareza
+ A dar-lhe um tom sinistro?--Odeias a pobreza!
+ Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas
+ Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!
+
+JUDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o
+olhar ameaçador:
+
+ João!
+
+JOÃO cruza os braços e sereno:
+
+ Podes bater, amigo! Por que esperas?
+
+Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E
+João, agora ainda mais excitado:
+
+ E chamas illusões! e vens chamar chiméras
+ Ao que é verdade núa e positiva?!--Agora
+ Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora;
+ No actual momento em que até eu vacílo,
+ Presentindo que não poderá ser tranquillo
+ O futuro do Mestre e de nós todos, mudas
+ Em odio declarado essa frieza, Judas?!
+ Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso?
+ Confessa que proveito, ou que terrivel goso
+ Encontras n'essa infamia abjecta!
+
+Desesperado pela indifferença apparente de Judas:
+
+ Que supplicio!
+ Não poder arrancar-te ao menos um indicio!
+ Não poder descobrir a causa que assim léva
+ O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva!
+ Ah! não poder, depois do que disseste aqui,
+ Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!
+
+E senta-se, febril, n'uma das camilhas.
+
+JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente,
+diz-lhe emfim com muita ironía:
+
+ Está bem! muito bem! Ao menos, esperava
+ Que soubesses deter a incandescente lava,
+ Que todo me queimou, transformando em carvão
+ A minha consciencia... embora de _ladrão_.
+
+Resoluto, firme, altivo:
+
+ Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino;
+ Mas isso que te importa? Um ser tão viperino,
+ Como eu, só tem logar no meio da ralé,
+ E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!
+
+JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:
+
+ Acalma a excitação, Judas. O principal
+ Resume-se, ao presente, em confessares qual
+ A origem do teu odio. É isto o que eu te peço,
+ É isto o que eu desejo.
+
+JUDAS n'um brusco impulso de independencia:
+
+ Isso é que não! Confesso
+ Á minha consciencia o que me vae no peito!
+ Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito
+ De desvendar em mim reconditos misterios?
+ Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios!
+ --Pediste por acaso ao mar em que nasceste
+ Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste
+ A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo?
+ Pois o meu coração como elle é tão profundo,
+ Que se alguem pretendesse abrir uma passagem,
+ Teria de morrer submerso na voragem!
+
+João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem,
+detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas
+verdadeiras intenções:
+
+ Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça
+ Conseguirei vergar esta alma tão submissa.
+ Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis...
+ Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis,
+ Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos,
+ Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos...
+ Depois quando vier o derradeiro instante,
+ Desamparado, nú, febril, agonisante,
+ Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas,
+ Em vez de maldições, tem palavras bemditas,
+ Para quem desprezou teu pobre coração,
+ Deixando-o succumbir como se fosse um cão!
+ --Adeus e para sempre.
+
+Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:
+
+ Acceita em pensamento
+ O que d'aqui te envio: em tão cruel momento,
+ Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo
+ Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo
+ Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha!
+ --Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.
+
+E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:
+
+ Canalha!
+
+JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria
+consciencia:
+
+ Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se
+ Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse
+ Pedir ao exagero o auxilio necessario
+ Para augmentar de vulto o crime involuntario,
+ Ou a leviandade alheia á malvadez.
+ Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez
+ Arrastar pelo mundo uma existencia nua
+ De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...
+
+Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de
+Bethania.
+
+ELEAZAR indicando João aos companheiros:
+
+ Eil-o aqui está! E nós á tua espera!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ São horas de partir para a cidade.
+
+JOÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu
+pensamento entregue ao Mestre:
+
+ Não deve ser pequena a caravana!
+
+MATHEUS
+
+ Junto do Mestre, o povo delibera
+ Acompanhal-o.
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ O que é grande imprudencia!
+
+JOÃO
+
+ Grande imprudencia?!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Os nossos companheiros
+ Em vão procuram com docilidade
+ Suster o passo á gente leviana...
+
+JOÃO
+
+ E porquê? Não são elles verdadeiros
+ Defensores do Mestre?
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Mas reflecte...
+
+JOÃO
+
+ O povo quer seguir-nos? Pois que venha!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Mas pode provocar algum tumulto.
+ É preciso que a dentro da muralha
+ Evitemos qualquer indisciplina.
+
+JOÃO
+
+ Tu que dizes? Que pensamento occulto
+ Encerram taes palavras? Será crivel
+ Que te arreceies da imbecil gentalha,
+ Que anda a rosnar as suas ameaças
+ Contra a força que temos, invencivel,
+ Justiceira e tremenda?!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ E porque não?
+ Onde possues algemas e mordaças
+ Para conter as furias imminentes?
+ Pode acaso fugir-se a uma traição?
+ Reflecte bem: devemos ser prudentes,
+ Evitando que Hanan tenha pretexto
+ Para exercer emfim uma vingança,
+ Roubando ao Mestre a preciosa vida.
+
+JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:
+
+ Não tens portanto uma unica esperança
+ Em ver surgir a aurora promettida?
+ --Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto
+ Do Profeta, que vamos afinal
+ Assistir ao enorme vendaval,
+ Que ha de causar a todo o mundo espanto!
+ Da Lei não ficará nem uma linha,
+ E as pedras do Templo hão de cahir!
+ Eu antevejo, amigos, o porvir,
+ Que de instante a instante se avisinha!
+ Como cães a ulular, de toda a parte
+ Hão de saír as abominações!
+ Entre espadas de fogo e maldições,
+ Vae tremular um sólido estandarte!
+ Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus
+ Ribombará como um trovão gigante,
+ E o vento ha de levar para distante,
+ Onde não haja terra, mar, ou ceus,
+ As ultimas parcellas do monturo
+ A que chamamos hoje humanidade!
+ Álerta! vae rugir a tempestade!
+ --Confia em Deus! Espera no futuro!
+
+Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:
+
+ Gamaliel?!
+
+GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João.
+Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova
+terrivel.
+
+ Eu proprio. E vejo que cheguei
+ A tempo de lembrar que existe de uma Lei
+ A rispida crueza, a inquebrantavel força,
+ E que por mais que a tua exaltação retorça
+ O positivo, elle ha de emfim prevalecer!
+ Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder.
+ --O perigo é enorme.
+
+Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:
+
+ Ouvide: Nicodemo,
+ Um homem de honradez e que respeita em estremo
+ O vosso Mestre, não me occulta o que se passa
+ A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça,
+ Fazendo-se abortar o plano vingador!
+
+TODOS em sobresalto:
+
+ Um plano?!
+
+JOÃO
+
+ Como?!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Dize!
+
+MATHEUS
+
+ É de grande valor
+ O que disséres.
+
+JOÃO
+
+ Sim! deves dizer-nos tudo!
+
+E acercam-se d'elle ainda mais:
+
+GAMALIEL pausada e custosamente:
+
+ Hanan possue no genro o seu melhor escudo.
+ Se transformou Kaíapha em Grande Sacerdote,
+ Foi para ter alguem que cegamente vote
+ Na sua opinião. Mais do que o genro, alcança
+ Dos homens do Conselho estima e confiança.
+
+E custando-lhe a despegar dos labios as palavras:
+
+ Eis por que hontem á noite, e em sessão secreta,
+ Por elles foi votada a morte do Profeta!
+
+SIMÃO PEDRA, erguendo as mãos aos ceus:
+
+ O meu presentimento!
+
+MATHEUS, convulsamente:
+
+ Infamia!
+
+JOÃO, n'um grito:
+
+ Cobardia!
+
+ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso:
+
+ É tempo de calcar aos pés a tirannía!
+
+Todos, excepto Gamaliel, estão nervosos, irrequietos, consultam-se,
+animam-se, invectivam Jerusalem. João foi á janella, e com os dentes
+cerrados, o braço erguido, ameaça-a de esterminio.
+
+GAMALIEL
+
+ Tende serenidade!
+
+JOÃO
+
+ Oh! não, Gamaliel!
+
+ELEAZAR
+
+ Liberte-se de vez o reino d'Israel!
+
+GAMALIEL
+
+ Que poderá tornar-se em grande mar vermelho,
+ Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!
+
+JOÃO
+
+ As espadas de Roma, as furias de Tiberio,
+ Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio!
+ O povo ha de gritar, raivoso, leonino,
+ Rasgando a face impura ao despota assassino!
+
+GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos
+olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas:
+
+ Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto
+ No livro da experiencia, amigos, que é de pranto
+ A minha pobre offerta á causa alevantada!
+ Vós não podeis brandir a rutilante espada;
+ Nem elle, todo amor, consentiria nunca
+ Na transfiguração do verbo em garra adunca.
+ Parti, pois que é preciso apparecer ao povo,
+ Mas fugide a que venha um incidente novo
+ Aguçar ao tiranno o sanguinario intento.
+ Entrae com desassombro a porta do aposento
+ Onde finge dormir, silencioso, o crime;
+ Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime
+ O seu rancor feroz!
+
+SIMÃO PEDRA tambem resoluto:
+
+ Seja o que Deus quizer!
+
+JOÃO
+
+ Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher,
+ Pode esfriar em mim a indignação!
+
+GAMALIEL
+
+ Piedade!
+
+ELEAZAR
+
+ Vamos!
+
+MATHEUS
+
+ Jerusalem!
+
+SIMÃO
+
+ Coragem!
+
+JOÃO
+
+ Na cidade
+ Havemos de formar com os nossos companheiros
+ Possante legião d'impávidos guerreiros!
+
+E vão-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldão o velho
+Gamaliel.
+
+
+Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simão ficou abandonada,
+Maria e Martha veem de fóra. Martha sempre alegre; a irmã sempre absorta
+em grande melancolía. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se á
+janella, seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vão a caminho de
+Jerusalem.
+
+MARTHA
+
+ E uma vez que partiram
+ Para a cidade, afinal,
+ Entreguemo-nos agora
+ Ao que julgo essencial:
+ Tratemos da nossa casa.
+
+MARIA, indolente:
+
+ Espera. Não tenhas pressa...
+
+MARTHA
+
+ É que está tudo em desordem,
+ E o nosso irmão começa
+ Dentro em breve a murmurar
+ Que ninguem aqui trabalha!...
+
+MARIA
+
+ Martha, vae tu repoisar,
+ Que eu tratarei do preciso.
+
+MARTHA
+
+ Não teimes, que me aproveito
+ Do teu conselho.
+
+MARIA
+
+ Careces
+ De alguns momentos no leito;
+ Deves estar fatigada.
+
+MARTHA
+
+ E não te enganas. Ergui-me
+ Ao romper da madrugada...
+
+MARIA
+
+ E foste uma das primeiras
+ Que se juntaram co'os Dôse
+ No Monte das Oliveiras,
+ Onde passaram a noite,
+ Como é costume.
+
+MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:
+
+ E não ficas
+ De mal comigo?
+
+MARIA
+
+ Porquê?
+ Se em nada me prejudicas...
+
+E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:
+
+ O que ha de novo, Judas?
+
+JUDAS
+
+ Nada sei...
+
+MARTHA muito admirada:
+
+ Não quizeste partir para a cidade?
+
+JUDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:
+
+ Como vês, não parti... pois que fiquei.
+
+MARIA
+
+ E porquê?
+
+JUDAS
+
+ Porque o somno que me invade
+ Exige para o corpo algum repouso.
+ Vae alto o Sol; de ha muito manifesta
+ Que brilha no seu ponto mais radioso,
+ E que são horas de dormir a sesta.
+
+MARIA, sem o fitar, serena:
+
+ E vaes dormir?
+
+JUDAS cerrando as palpebras:
+
+ O Livro dos Proverbios
+ Alguma coisa diz... «Quem se julgar
+ Com pequenos desgostos, exacerbe-os
+ A dormir, a dormir... e a sonhar...»
+ --Se durmo, para onde é que foge a vida?
+ Para fóra de mim quem a conduz?
+ Encontrará descanso na guarida
+ Para onde, ao apagar-se, vae a luz?
+ Ao despertar depois, quem reacende
+ No cerebro o fulgor que relampeja?
+ Quem é que nos dá vida ou que a suspende
+ A seu prazer?
+
+MARTHA com muita convicção:
+
+ É Deus...
+
+JUDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:
+
+ Talvez que seja.
+
+MARTHA surpreza:
+
+ Talvez?!
+
+Muito baixinho ao ouvido da irmã:
+
+ Extranho o Judas!
+
+JUDAS
+
+ Sim, talvez;
+ Porque não julgo prova de criterio,
+ Antes se me affigura insensatez,
+ Explicar um segredo co'um misterio.
+
+MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção,
+melodiosamente:
+
+ Anda a tua alma fugida
+ Ao bom caminho da crença...
+ Quem foi que d'elle a affastou
+ E que dentro em ti deixou
+ Uma escuridão immensa?
+ Hontem á noite... (Desculpa
+ Se acaso te contrarío
+ Ao falar agora d'isto)
+ Por todos nós foi mal visto,
+ Judas, o teu desvarío.
+ De tão modesta homenagem
+ Não era merecedor
+ Aquelle Mestre sublime
+ Em cujo rosto se exprime
+ A bondade e o amor?
+ --Anda a tua alma fugida
+ Ao bom caminho da crença.
+ Que Deus de novo a conduza
+ E o brilho reproduza
+ Na tua alma, treva immensa!
+
+Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o
+convencido, diz então baixinho á irmã:
+
+ Não responde. Pode ser
+ Que facilmente consigas
+ Descobrir toda a verdade.
+
+MARIA, querendo esquivar-se:
+
+ Eu?
+
+MARTHA
+
+ Com palavras amigas
+ Interroga-o, porque, em summa,
+ Custa ver n'um coração,
+ Que deveria ser meigo,
+ Semelhante ingratidão.
+
+E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado.
+Judas e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas,
+observa-a.
+
+MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo
+a si propria:
+
+ É mais prudente...
+
+E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:
+
+JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:
+
+ Maria,
+ Pareces que vaes fugindo...
+
+MARIA baixando o olhar:
+
+ Para não te incommodar,
+ Quando estiveres dormindo.
+
+E retira-se tambem, fechando a porta castamente:
+
+
+JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se,
+perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por
+onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos
+joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:
+
+ É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa...
+ Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa,
+ Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim.
+ Provem este rancor, que ella sente por mim,
+ Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala,
+ Do ente extraordinario a que nenhum se eguala,
+ Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito.
+ Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito!
+ --Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo,
+ Ainda que me sinta a resvalar no lodo!
+
+E erguendo-se, impetuoso:
+
+ E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços!
+ Quando o trovão ribomba altivo nos espaços,
+ Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho!
+ Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho!
+ --... Mas quem me diz não ser este sinistro plano
+ Improficuo, ou então summamente leviano!
+ Se elle fugir á morte, ao estertor final,
+ Por um processo occulto e sobrenatural,
+ Contra mim lançará todo o furor do ceu,
+ Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!
+
+Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:
+
+ Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz,
+ O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz,
+ Ó Deus, entoaria, agradecido a ti,
+ Uma canção igual aos psalmos de David,
+ Transformando o meu peito em grande tabernaculo!
+ --Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!
+
+Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um
+sorriso malevolo, animando-se:
+
+ E se, como se diz, elle não fôr divino?
+ Se obedecer, como eu, á força do destino?...
+ --Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso
+ E possante vigor d'um corajoso pulso!
+
+Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente,
+Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de
+Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma
+das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa,
+agora acobardado:
+
+ Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime.
+ E como poderei matar, sem ver o crime?
+ Armando um braço vil? comprando uma consciencia?
+ É pouco, é muito pouco... e é tudo!--Que demencia!
+ Quem poderá saber onde reside a féra,
+ Que tenha peito humano e garras de pantéra?
+
+Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca
+espumando:
+
+ --Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha,
+ Que vive silenciosa em tua negra entranha,
+ Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo,
+ Enorme como Deus, mesquinha como um sapo!
+ Genio amante do crime e á virtude adverso,
+ Que mora num covil... e zomba do Universo!
+ Eu quero conhecer o amigo dos devassos:
+ Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços!
+
+Com grande desanimo:
+
+ Nem elle me protege! E eu preciso, emfim,
+ D'um ser bastante infame!
+
+BENJAMIM com muita humildade:
+
+ Aqui me tens, a mim...
+
+JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca:
+
+ Quem és tu?
+
+BENJAMIM avergado, mas sempre humilde:
+
+ Sou alguem que te escutava.
+ O tempo, como vês, não desperdiço...
+ Não perguntes quem sou. Aqui me tens,
+ Amigo, ao teu serviço.
+
+JUDAS sem o largar:
+
+ Ignoro quem tu sejas, mas se acaso
+ Divulgar o meu odio tencionas,
+ Juro que em curto praso
+ No fio de uma lamina abandonas
+ Co'o meu segredo a vida!
+
+BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa:
+
+ Cala a bôca!
+ Não blasfemes de coisas respeitaveis.
+ Venho fazer propostas acceitaveis,
+ Dizer tudo o que sinto,
+ E só respondes co'uma furia louca!
+ Se me has de receber com effusão,
+ Achando em mim o teu melhor amigo,
+ Alevantas a mão,
+ Ameaçador como um guerreiro antigo!
+ É ser ingrato!
+
+JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um braço:
+
+ Dize-me o que sabes!
+
+BENJAMIM sinceramente:
+
+ Ora! sei que a tua alma se abalança,
+ Depois do que houve aqui hontem á noite,
+ A seguir o caminho da vingança.
+ Naturalmente, sentes-te offendido
+ Co'a resposta que teve o teu reparo
+ Tão justo e merecido...
+
+JUDAS como comsigo, satisfeito:
+
+ Portanto, ignora...
+
+BENJAMIM
+
+ É isto amigo?
+
+JUDAS, rapido:
+
+ É isso!
+
+BENJAMIM explicando:
+
+ Eu hontem ouvi tudo junto á porta...
+ --Manda, que eu te obedeço. Aqui me tens,
+ Humilde, ao teu serviço.
+
+JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes
+com Josué.
+
+ Mas se eu não sei...
+
+BENJAMIM agora senhor de si:
+
+ Não sabes? Pois sei eu.
+ O Mestre será morto, em poucos dias;
+ Depende só de ti, fica sabendo!
+
+JUDAS nervosamente:
+
+ Que dizes, fariseu?
+
+BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que
+parece devorar-lhe as palavras:
+
+ Ouve: É tremendo
+ O odio que lhe tem todo o Conselho,
+ O qual procura o instante mais propicio
+ De pôr em exercicio
+ O plano da prisão, do julgamento...
+
+JUDAS
+
+ E da morte?
+
+BENJAMIM
+
+ E da morte! O que, porem,
+ No actual momento
+ Ao sacerdote Hanan muito convem
+ É prendel-o em segredo,
+ Á noite, em sitio obscuro. Hanan tem medo
+ De que o povo alevante alguns protestos...
+ Á prudencia conforme,
+ Assim procederá.
+
+JUDAS animado, satisfeito:
+
+ Dize-me então...
+
+BENJAMIM
+
+ É urgente saber onde elle dorme.
+ Tu sabes com certeza!
+
+JUDAS hesitando, vagamente acobardado:
+
+ Mas...
+
+BENJAMIM
+
+ O quê?
+ Não queres a vingança, Judas?
+
+JUDAS
+
+ Quero...
+
+BENJAMIM
+
+ N'esse caso, aproveita o bello ensejo,
+ Que outro não tens melhor. Sendo sincero
+ E grande, como julgo, o teu desejo,
+ Não deves recusar o que proponho.
+ --Ouviste? Muito bem! Reflecte agora,
+ Este sitio não é muito seguro...
+ Aguardo te lá fóra!
+
+Vae-se; Josué segue-o, e os dois desapparecem.
+
+JUDAS ficou perplexo ainda, como medindo a gravidade da proposta. Mas
+depois:
+
+ De que serve hesitar, se me apresentam
+ Como satisfazer o meu anceio?
+ Basta que eu seja um cumplice d'Hanan,
+ Um traidor simplesmente... Nada mais...
+
+Com rude franqueza:
+
+ --Na mão direita a Infamia,
+ A Consciencia na esquerda. Eu de permeio!
+
+Com funda ironia:
+
+ A sentença fixei:
+ «Não saiba a esquerda o que pratíca a irmã.»
+ --Não saberá, que eu nada lhe direi!
+
+Vae sair, mas a porta que dá communicação para o interior da casa
+abre-se, e Maria apparece no cimo dos degraus. Judas quedou-se.
+
+MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa:
+
+ Julguei ouvir falar...
+
+JUDAS
+
+ Aqui? Foi puro engano.
+
+E notando um movimento esquivo de Maria:
+
+ Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno
+ Com a minha presença?
+
+MARIA condescendente:
+
+ Oh! não...
+
+JUDAS caricioso:
+
+ Deixa-te pois
+ Ficar junto de mim, que facilmente os dois
+ Teremos na conversa um passatempo. Fica.
+
+E mentalmente:
+
+ Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.
+
+Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do
+primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do
+corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a,
+apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a
+paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se
+nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez
+mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...
+
+JUDAS
+
+ Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar,
+ Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar,
+ Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto,
+ E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.
+
+MARIA com simplicidade, avançando um pouco:
+
+ Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa
+ Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença.
+ Ao passo que me opprime este cruel receio
+ De vêr barafustar o nosso Mestre em meio
+ Dos inimigos seus, mais frio do que a neve
+ Se torna o meu olhar.
+
+JUDAS tôrvamente:
+
+ Deve ser isso, deve...
+
+E depois de algum silencio, ironico:
+
+ Costumado a subir nos estos d'esse amor
+ Aos mundos do Ideal, o candido fulgor
+ Transforma-se em desdem, e apenas se descerra
+ Perante a mesquinhez que roja pela terra!
+
+O olhar bem fito n'ella, animando-se:
+
+ Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo,
+ Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo,
+ Brilha sinistramente e vem caír direito
+ N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!
+
+N'um arranco d'alma:
+
+ Em verdade te digo, ó mulher altaneira,
+ Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira,
+ Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama,
+ Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!
+
+Crescendo em furia:
+
+ Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós
+ Para que emfim termine este supplicio atroz!
+ Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda,
+ E vae saír de mim, como em torpel a onda,
+ Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido!
+ --Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido,
+ E deixa de cuidar n'essa paixão agora,
+ Que é maior a paixão que todo me devora!
+
+Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto:
+
+ Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar:
+ É puro o teu amor, não é amor vulgar...
+ Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida,
+ No centro da minha alma em sangue e dolorída
+ Existe uma paixão tambem que me envenena,
+ Podendo ser mortal, assim como a gangrena...
+
+Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a
+roupagem:
+
+ Ah! no supremo arranco um peito esfacelado
+ Como este, não receia o que haja mais sagrado,
+ E julga-se capaz, co'o seu valor enorme,
+ De luctar e vencer o ente mais disforme,
+ Terrivel como Deus, gigante como Adão,
+ Possuindo na voz as frases do trovão!
+ E porque sinto aqui as contorsões finaes,
+ Espando francamente as máculas brutaes,
+ Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo:
+ Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!
+
+Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.
+
+MARIA que não se moveu, serenamente:
+
+ Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas;
+ Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.
+
+JUDAS n'um rugido:
+
+ Maria!
+
+MARIA sempre immovel:
+
+ Com franqueza, eu disse-te por vezes:
+ Em castidade egual ás innocentes rezes
+ No Templo do Senhor dadas em sacrificio,
+ Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio,
+ Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha
+ Acrisolado amor, amor... como de filha.
+ Na terra nada mais preciso que uma coisa:
+ A Crença.
+
+Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal:
+
+ O meu amor longe d'aqui repoisa,
+ Estrella que não teme as nuvens tempestuosas.
+ Brando como o dormir das aguas silenciosas,
+ Vago como o misterio enorme do futuro,
+ Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro,
+ Nos espaços do azul vive risonho e inerme.
+ A estrella é sempre estrella...
+
+Descendo o olhar para Judas:
+
+ e o verme é sempre verme.
+
+JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:
+
+ Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor,
+ Fugindo á grande lei do grande Creador,
+ Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre
+ Para tornar assim fecundo o estéril ventre!
+
+MARIA sem se perturbar:
+
+ Enlouqueceste!
+
+JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto
+dolorido, n'um queixume:
+
+ Mas se eu nunca fui amado!
+ Assim como o terreno a que não chega o arado,
+ Semelhante em mudez ás pedras do caminho,
+ Era o meu coração. Via-me tão sósinho,
+ Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus,
+ Interrogava o Espaço, interrogava Deus,
+ Procurava arrancar ás trevas o motivo
+ De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.
+
+Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido, como
+revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em curvas
+graciosas, languidas:
+
+ Mas desde que no teu o meu olhar depuz,
+ Enxerguei o brilhar d'uma divina luz
+ Na immensa escuridão d'este viver amargo
+ E senti-me surgir do fundo do lethargo.
+ Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem,
+ Adorada Maria, envolta na roupagem
+ Tão alva como o arminho, immaculada e honesta:
+ No prado sorridente, em meio da floresta,
+ Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros,
+ No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros...
+ Por toda a parte, em summa!--Adoro-te, Maria!
+ No caminho da vida o teu olhar me guia...
+ Vem dar uma esperança ao pobre coração
+ Que vive para ti, que te pertence...
+
+MARIA com ligeiro movimento de cabeça:
+
+ Não.
+
+JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:
+
+ Oh! que negra palavra, amarga como fel!
+
+MARIA com a voz tranquilla:
+
+ Á doutrina do Mestre...
+
+JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz:
+
+ O Mestre!...
+
+MARIA
+
+ ... és infiel.
+ Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro
+ Do que seja o dever, e que se torna avaro,
+ Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista!
+ Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista!
+ Se não queres viver do amor pela virtude,
+ Se á pureza é rebelde essa tua alma rude,
+ Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte:
+ Foge para distante, ou foge para a Morte.
+
+JUDAS allucinado, avançando para ella:
+
+ Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala!
+ Fica sabendo pois que isto que me avassala,
+ O que por fim se espande e que ha de ser funesto,
+ Nunca foi do amor um sentimento honesto!
+
+MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:
+
+ Maldito sejas tu, se acaso me tocares!
+
+JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos,
+agarrando-a:
+
+ Que importam maldições inuteis e vulgares?
+ Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os,
+ Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!
+
+E tenta beijal-a, soffrego:
+
+MARIA evitando-lhe os beijos:
+
+ Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!
+
+JUDAS arrastando-a para o triclinio:
+
+ Chamaste muito bem á minha ardente furia,
+ Como o fogo voraz, cruel e deshumana,
+ Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.
+
+MARIA com a voz estrangulada, luctando:
+
+ Soccorro! Eleazar!
+
+JUDAS pondo-lhe a mão na bôca:
+
+ Oh! cala-te!
+
+MARIA já sem forças:
+
+ Meu Deus!
+
+JUDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:
+
+ Ah! como são gentis assim os olhos teus!
+ Como é rosada e fina a tua debil mão!
+ Vaes ser minha, afinal!
+
+Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade,
+abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas,
+diz n'um murmurio de desespero:
+
+ Desfallecida?!...
+
+Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem
+em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção,
+com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o
+contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza
+lhe désse um grito na alma:
+
+ Não!!
+
+E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos
+campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um
+lirio d'Issachar...
+
+
+
+
+TERCEIRA JORNADA
+
+EM 13 DE _NISAN_
+
+
+
+
+TERCEIRA JORNADA
+
+EM 13 DE _NISAN_
+
+
+Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio
+Pilado, tudo é silencioso, embora a noite só agora acabe de tombar.
+
+Assenta o elevado tecto em dez columnas não distantes das paredes; é de
+mosaico branco e preto o chão marmoreo. Duas portas fronteiras
+communicam, uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as
+diversas dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente,
+achegado um pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que dá
+para um terraço resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria
+d'ali conduz ao andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da
+quadra, ergue-se um busto de guerreiro: é de marmore branco o pedestal;
+de roseo o busto, em cuja base lêmos, em caracteres romanos esculpida, a
+legenda: _Tiberius Claudius Nero, Imp_. Das portas ha pendentes
+reposteiros de azul e oiro. É da mesma fazenda o reposteiro que está
+ornando o arco e repuxado junto ao angulo. Fitando nós o busto de
+Tiberio, temos sobre a direita larga meza de citrus, onde ardem n'um
+bronzeo candalabro trez vellas de cêra e pez; e perto d'ella vemos uma
+cadeira d'estofado, de braços longos, costas amplas e recurvas; á nossa
+esquerda, perto das columnas, coxim de bronze com embutidos de tartaruga
+e trez almofadas de lavor riquissimo; não distante, no chão, está
+estendida grande pelle de leão do Atlas. Um armario de ébano macisso
+alonga-se na parede junto ao arco e sobre elle se ostenta graciosa
+clepsydra de bronze, onde um Éros aponta com a flécha a escala das horas
+que decorrem.
+
+Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraças, capacetes,
+escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o pilo de
+oiro cinzelado.
+
+Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas
+espargem frouxamente, côr de prata a que o chão do terraço reenvia e que
+a Lua derrama das alturas. A cidade dormita lá em baixo; e o luar,
+banhando as casarías, dir-se-ía illuminar uma necropole.
+
+
+No coxim do terraço está Claudia reclinada. A tunica é de lã; escura e
+longa a estóla. Tem os braços cobertos pelas mangas da segunda tunica, e
+é branca a facha que os cabellos lhe prende em élos brandos. Perto de
+Claudia a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar cançado o por
+demais conhecido panorama.
+
+CLAUDIA solta emfim um suspiro.
+
+ Dorme tudo na cidade.
+ Que silencio e que tristeza!...
+
+GEDA
+
+ Tens então grande saúdade
+ De Roma?
+
+CLAUDIA
+
+ Sim. Dizes bem:
+ É saúdade esta amargura,
+ Pois outro nome não tem
+ O que sinto na Judéa
+ Onde Poncio me exilou.
+ --Que horas podem ser? Vê lá.
+
+GEDA vae ligeira ao candalabro; d'elle tira uma vella e dirige-se á
+clépsydra. Repõe depois no seu logar a vella, e voltando para junto de
+Claudia:
+
+ Salvo engano, gottejou
+ A segunda hora de prima...
+
+CLAUDIA
+
+ Por Saturno, é muito cedo,
+ Pois não é?
+
+GEDA
+
+ Tambem eu cria
+ Ser mais tarde.
+
+CLAUDIA boceja largamente.
+
+ Agora, em Roma,
+ Ouve-se ainda a folia
+ Da multidão buliçosa,
+ Que de toda a parte assoma,
+ Soltando ao vento a harmonía
+ Da sua voz descuidosa...
+
+Vem Poncio, taciturno, e para a meza se encaminha, trazendo na mão
+direita um escripto em papyro. É homem d'estatura mais do que regular, e
+de idade viril. Rosto livre de pellos; o nariz aquilino; bôca breve,
+olhos negros e vivos; curto cabello em curvas de frisados, testa larga
+onde as rugas bem se ageitam. Alva a tunica e alvo o manto farto;
+sandalhas amarellas; mãos carnudas. Sentou-se junto da meza, e o papyro
+consulta.
+
+CLAUDIA indolente, para Geda:
+
+ Ali tens quem me trouxe para o _exilio_!
+ Se não dormem Plutão nem Proserpina,
+ Hão de cedo chamal-o ao domicilio
+ Onde cáem as victimas da Morte!
+
+Muito ironica:
+
+ Que inspiração divina
+ Eu tive ao escolher este consorte!
+
+Com um gesto ordena a Geda que se retire. Ergue-se do coxim, e
+adiantando-se para Poncio, que não a viu:
+
+ Que novas trazes, Poncio?
+
+PONCIO sem se voltar, continuando a lêr:
+
+ É de Tiberio
+ Foi-me enviado este papyro honroso.
+
+CLAUDIA em sobresalto infantil:
+
+ O quê?! Novas de Roma?
+
+PONCIO
+
+ O grande imperio
+ Continúa radiante e venturoso.
+ Foi porém necessario reprimir,
+ No principio do anno,
+ Certa conspiração que fôra urdida
+ Pelos amigos do traidor Sejano.
+ A mensagem termina
+ Aconselhando a que use da violencia.
+
+E lê pausadamente, accentuando muito as palavras:
+
+ «Aprende em mim como o poder se eleva
+ E como se elimina
+ Todo aquelle que tenha a impudencia
+ De attentar contra a posse d'este manto.
+ Faze como eu tambem:
+ Reprime a todo o custo a rebeldia.
+ Talvez no Templo se conspire. Emquanto
+ Mostres sabedoria,
+ Espirito sensato, forte e agudo,
+ Podes contar comigo.
+ Recommenda a Claudia, Poncio amigo.
+ Por Jove, te saúdo».
+
+Põe de parte o papyro e reclina a fronte na mão.
+
+CLAUDIA que em silencio ficára appreensiva:
+
+ O que vaes responder?
+
+PONCIO sem se mover:
+
+ Já respondi.
+
+CLAUDIA apoiando-se nas costas da cadeira por detraz d'elle:
+
+ Permaneces?
+
+PONCIO
+
+ Decerto, pois me cumpre.
+
+Na perna esquerda sobrepõe a direita, fazendo-a oscillar por longo
+tempo.
+
+CLAUDIA não podendo conter a intima revolta:
+
+ Bella esperança! Hei de viver aqui,
+ Segundo me parece, eternamente!
+ --Casou Venus com Marte e foi o Amor
+ O que nasceu da conhecida união;
+ Casei comtigo, audaz procurador,
+ A principio amoroso, bom, cortez...
+ O que nasceu, por fim, d'este consorcio?
+ Nasceu a Insipidez!
+
+PONCIO enrugando a testa e sem olhar para Claudia:
+
+ Pela divina _Isis_ que estás louca,
+ Ou requintas de véras em maldade!
+
+CLAUDIA
+
+ Talvez seja melhor
+ Não despertar do Nilo a divindade!
+ --N'estes ultimos annos tenho sido
+ Verdadeiro modelo de matrona...
+ Sabes que ambiciona
+ A minha alma fugir a tal desterro,
+ E não queres pedir a demissão!
+ Imaginas talvez ser este o meio
+ De garantir a minha honestidade?
+ Pois olha, estás em erro!
+ Não me curvo a pressões tão aviltantes.
+ Se não fôr satisfeito o meu desejo,
+ Perderei todo o pejo...
+ --Inda possuo algum, valha a verdade!--
+ E para me vingar bem cruelmente
+ Serei mais leviana do que d'antes!
+
+PONCIO que se voltára, encarando n'ella, e em tom suasorio:
+
+ Tu não vês que deixarmos a Judéa
+ Não seria prudente?
+ Tiberio é para nós inexcedivel
+ Em attenções, e dá-me como prémio
+ A confiança. Bastaria a idéa
+ Da minha demissão, para de vez
+ Nos expulsar do resumido grémio
+ Dos seus affeiçoados, e talvez
+ Depois se transformasse em vingador...
+ --Pede outra coisa, Claudia; nunca peças
+ O que julgo insensato.
+ Somos grandes aqui; nenhum valor
+ Teriamos na côrte. Não te esqueças
+ Da sorte de Coponio, Rufo e Grato,
+ Ao voltarem a Roma.
+ Pede outra coisa, Claudia, que por certo
+ Has de ser attendida.
+ Não me digas, porém, que vá trocar
+ Aquillo que é seguro pelo incerto.
+
+CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece:
+
+ Mas que m'importa, a mim, o teu logar,
+ Se eu desejo viver onde se viva?
+ Em Roma, na cidade portentosa,
+ Onde qualquer escrava é mais altiva
+ Que uma nobre judía virtuosa!
+ Onde Gelanio, o deus das gargalhadas,
+ Desinfecta as emmanações palustres
+ Da tristeza! onde as pedras das calçadas
+ Falam até de tradições illustres!
+ Quero fugir d'este mortal supplicio
+ Para onde o meu ser se espanda e vibre;
+ Participar no seductor bulicio,
+ E ver á tarde o Sol beijar o Tibre!
+ Assistir como outr'ora aos festivaes
+ No grande circo onde o valor impéra;
+ Vêr athletas sanguineos, triunfaes
+ E ouvir os rugidos d'uma féra!
+ Beber o doce vinho de Falerno,
+ Ser cortezã, de novo rir e amar...
+ Dêem-me vida longe d'este Averno,
+ E que m'importa, a mim, o teu logar!
+
+PONCIO resoluto, imperioso, deixando caír na meza a mão espalmada:
+
+ O que uma vez escrevo, escripto fica!
+
+Depois, mais brando:
+
+ Não fugirei ás ordens de Tiberio.
+ De mais, coisa nenhuma justifica
+ Em solidas razões o que me pédes.
+
+E volta á primitiva posição.
+
+CLAUDIA decorridos alguns instantes, refreando a cólera:
+
+ Disseste?
+
+PONCIO indifferente:
+
+ Disse.
+
+CLAUDIA
+
+ É caso firme e assente
+ Permanecer?
+
+PONCIO
+
+ Que dúvida!
+
+CLAUDIA
+
+ Não cédes
+ Nem aos meus rogos?
+
+PONCIO
+
+ Não.
+
+CLAUDIA muito a sério:
+
+ És imprudente...
+ --Sabes que fui amante de Tiberio?
+
+PONCIO bamboleando a perna e sem mudar de expressão:
+
+ Tenho ouvido dizer.
+
+CLAUDIA
+
+ Não desconheces
+ Que se é meigo, tambem é vingativo
+ O meu caracter. Pois talvez um dia
+ Desappareça o teu falar altivo.
+ Tiberio, com certeza,
+ Muito embora já tenha algumas cans,
+ Ha de ainda lembrar-se da belleza
+ Das suas cortezãs...
+
+PONCIO franzindo lévemente o sobr'olho:
+
+ Não comprehendo bem. Com isso tudo
+ O que vens a dizer?
+
+CLAUDIA sorrindo, palaciana e misteriosa:
+
+ Que te saúdo...
+
+E recolhe em silencio aos seus aposentos, deixando tombar atraz de si as
+prégas do reposteiro.
+
+
+Poncio ficou sósinho, meditando. Logo apparece no terraço o Ostiario que
+veio do andar terreo pela escada exterior.
+
+O OSTIARIO
+
+ Poncio, recebes agora?
+
+PONCIO erguendo-se:
+
+ E quem é que me procura?
+
+O OSTIARIO
+
+ O sacerdote judeu
+ Hanan.
+
+PONCIO surprezo, como comsigo:
+
+ Hanan procurar-me
+ Na Torre Antonia, a esta hora?
+ --Ostiario, succedeu
+ Alguma coisa?...
+
+O OSTIARIO
+
+ Não sei.
+ O povo está socegado.
+
+PONCIO depois de reflectir:
+
+ Manda entrar o sacerdote
+ Para aqui mesmo.
+
+Retira-se para o terraço o Ostiario. Poncio, que ficára preoccupado, diz
+como comsigo:
+
+ Cuidado!...
+
+Vae buscar uma adaga á panoplia mais proxima e mette-a no cinturão; pôe
+em cima da meza o pilo de ouro que estava encostado ao busto de Tiberio.
+Senta-se novamente na cadeira.
+
+
+A um gesto do Ostiario, dois vultos subiram a escada, e a breve trecho
+appareceram no terraço; são dois homens, cujos semblantes o luar
+illumina. Um é Judas; o outro um velho de setenta annos, mas válido e
+robusto--o ex-Grande Sacerdote Hanan, sogro do Grande Sacerdote Kaíapha.
+Meão d'estatura, barba cerrada e não comprida onde abundam as brancas,
+assim como no bigode hirsuto e no longo cabello descuidado; nariz
+adunco, olhos azues e penetrantes. E seu trajar egual ao do mais humilde
+filho d'Israel: tunica e manto, mitra redonda no alto da cabeça;
+chinellos muito usados. Dir-se-ía que tal modestia d'aspecto foi um
+calculo, um disfarce... Ha porem na sua fisionomia e na voz resoluta e
+aspera a expressão da velhacaria e do mando.
+
+O Ostiario retirou-se pela escada. Judas foi postar-se junto do busto de
+Tiberio, com ar matreiro, e d'ali segue attento as fases do dialogo a
+que vamos assistir.
+
+HANAN que se adiantou até á presença de Poncio, curvando-se perante
+elle:
+
+ Tenho intima alegria, ao ver que no teu rosto
+ Amavel transparece um juvenil composto
+ De puro entendimento e de vigor e saúde.
+ No falar respeitoso, humilde na attitude,
+ O sacerdote Hanan ao grande Poncio envia
+ Protestos de leal e eterna simpathia.
+
+PONCIO que nem para elle olhou, desdenhoso:
+
+ O alamo gigante, ao estender os braços
+ Como para cingir Apollo, que os espaços
+ Domína, mostra quanto é grande na affeição,
+ Mas fructos não produz: É como a adulação.
+ --Hanan, ouvir-te-ei attentamente.
+
+HANAN fingindo não ter percebido:
+
+ Vim
+ Para que tu me dês auxilio.
+
+PONCIO ironico:
+
+ Como assim?
+ De noite? acompanhado?
+
+HANAN
+
+ Este homem ouve, e cala
+ Tudo o que ouvir. Demais, é-nos preciso.
+
+PONCIO voltou-se um pouco, lançou um rapido olhar a Judas, e depois,
+encostando o braço á meza e com a cabeça reclinada na mão:
+
+ Fala.
+
+HANAN muito submisso de começo:
+
+ Embora nos vencesse a furia dos romanos
+ Em tempos que lá vão; embora muitos damnos
+ Haja soffrido o povo heroico d'Israel,
+ Ás suas tradições conserva-se fiel,
+ Na crença do seu Deus respeito manifesta.
+ Religião sómente é hoje o que lhe resta,
+ Porque tudo entregou ás mãos do vencedor;
+ Por isso ha de manter, altivo e com fervor,
+ O que elle considera um virginal trofeu!
+ --Dize-me então se é justo ou não é justo que eu
+ Procure lealmente ao povo garantir
+ A crença de Moysés, agora e no porvir.
+
+PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle
+desdem dos romanos pelos povos vencidos:
+
+ Não sei do que se trata, Hanan; mas sempre digo
+ Uma coisa que eu penso ha muito a sós comigo:
+ Do leito has de saír com mais celeridade
+ Para zelar melhor a tua propriedade,
+ E com menos se alguem te fôr dizer, de rastros,
+ Que descobriu no ceu ladrões roubando os astros.
+
+HANAN offendido, elevando a voz:
+
+ Duvídas de que seja o meu falar sincero?
+ Julgas que estou mentindo, e em nada considero
+ A minha crença?
+
+PONCIO olhando para elle de fito, severamente:
+
+ Olá!...
+
+HANAN matreiro:
+
+ Desculpa-me. Prometto
+ Não me exaltar de novo, ó Poncio.
+
+PONCIO sem desviar d'elle o olhar:
+
+ O mel do Hymetto
+ Agrada a toda a gente... e fica bem na fala.
+
+HANAN muito submisso:
+
+ Dou-te razão; mas vê que dôr nenhuma eguala
+ A dôr que sinto. E não terei motivo? Escuta:
+ Aquella sã doutrina, a doutrina impoluta
+ Que nos deixou Moysés, o grande fundador
+ Da nação, que livrou das garras do oppressor
+ O povo escravisado, e que á ditosa grei
+ Legou, depois da Fuga, um Deus e Patria e Lei!
+ A doutrina sublime, erario de virtudes,
+ Que tem ficado illesa ainda nas mais rudes
+ Provações...
+
+PONCIO cortando a harenga, novamente em tom sarcastico:
+
+ Vaes falar d'alguem profeta novo,
+ Que anda por'hi talvez a amotinar o povo
+ Contra os amigos teus?--Pois hei de protegel-o.
+ Apraz-me não tocar nem siquer n'um cabello
+ D'esse homem.
+
+HANAN refreando a cólera:
+
+ Mas porquê? Terás razões secretas?
+
+PONCIO
+
+ Quem as tem não sou eu: são elles, os profetas,
+ Ao falarem de ti.
+
+HANAN com ironia e falsa humildade:
+
+ Então! sê razoavel
+ E mostra coherencia, ó tiranno implacavel!
+ Um cadaver de mais, um cadaver de menos,
+ É coisa que não leva aos teus dias serenos
+ Nenhuma inquietação, nenhum remorso.
+
+Animando-se pouco a pouco:
+
+ E quando
+ Um sacerdote probo e honesto e venerando
+ Em nome da Judéa a morte solicíta
+ Para um vil criminoso, o teu rancor hesíta?!
+
+Esplodindo, francamente:
+
+ De cumprir o dever percebo o que te afasta:
+ Quem te fala sou eu, que tu odeias!
+
+PONCIO fitando-o enfurecido, dá um murro na meza; e erguendo-se:
+
+ Basta!
+ Sabes que essas razões não oiço, nem toléro,
+ E que digo uma vez que não, quando não quero!
+ --Como o poder de Roma aos homens do Conselho
+ Tirou todo o poder de tingir de vermelho
+ N'um banho sanguinario os corpos fraternaes,
+ Privados de lavrar sentenças capitaes
+ Sem que eu lhes dê meu voto, imaginaste, Hanan,
+ Que eu poderia, qual infame barregã,
+ Despejar a vergonha á rua, como o lixo,
+ Para satisfazer depois o teu capricho?
+ Porque uma voz protesta e clama contra o vil
+ Conselho que assoberba o povo e que, febril,
+ Anda a espiar na sombra, a procurar o instante
+ Em que ha de ser traidor ao Cezar triunfante;
+ Porque um homem possue a civica ousadia
+ De guerrear talvez a tua hipocrisia,
+ Venerando ancião, tiveste uma lembrança:
+ Transformar o meu voto em arma de vingança
+ Cobarde! Sim! Bem vejo a idéa que te inflamma!
+
+Agarrando no pilo:
+
+ Pois digo-te que nunca has de caír na lama
+ Co'o pilo de oiro! Não! D'Oriente a Occidente,
+ A aguia de Roma é grande, e nunca foi serpente!
+
+E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se.
+
+HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz:
+
+ Eu não falo por mim; eu falo por Moysés,
+ Cuja doutrina tem sido calcada aos pés
+ D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha
+ Ao direito e á lei; que os pobres arrebanha
+ Só para dizer mal dos grandes e dos ricos;
+ Que dirige a palavra aos seres impudícos,
+ Ás mulheres venaes, aos infimos ladrões;
+ Que anda em nome de Deus a conceder perdões
+ A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino,
+ Se atreve a inculcar como um ente divino!
+
+PONCIO tranquillo, sorrindo:
+
+ Quem sabe?... Pode ser...
+
+HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia:
+
+ O quê?!
+
+PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras:
+
+ Se te reféres
+ Ao Nazareno em vão me falas. Nunca espéres
+ Que eu ponha ao teu serviço a minha autoridade
+ Para o matar. Não mato uma celebridade.
+ Conheço-o muito bem. Inda ha trez dias teve
+ Uma grande ovação. De resto, não se atreve
+ A suscitar no povo o odio contra o Império:
+ Deseja que se entregue a Deus e a Tibério
+ O que pertence a Deus e o que pertence a Roma.
+ Agrada-me o desejo. É o melhor diploma
+ Que lhe ha de garantir a minha protecção.
+
+HANAN ao ouvido de Judas:
+
+ Ficou tudo perdido, ó Judas.
+
+JUDAS reservadamente:
+
+ Ainda não.
+ Péde para eu falar.
+
+HANAN
+
+ Duvído...
+
+JUDAS
+
+ Experimenta.
+
+HANAN muito supplicante a Poncio:
+
+ Senhor, ouve as razões que este homem apresenta:
+ Conhece o Nazareno, e sabe tudo...
+
+PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:
+
+ Vá.
+ Pode falar, mas bréve.
+
+JUDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si,
+firme, resoluto, assim começa:
+
+ Eu nasci em Judá.
+ Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso,
+ Me curvei de Tibério ao vulto majestoso.
+ --Engana-te, senhor, aquelle que disser
+ Que o profeta de quem falou Hanan requer,
+ Como acabei de ouvir, as attenções do povo
+ Para o império de Roma.
+
+PONCIO estremeceu, carregou o semblante:
+
+ O quê?
+
+JUDAS com sinceridade hypocrita:
+
+ Não me demôvo
+ De dizer a verdade, inda que soffra o peso
+ Do remorso, indicando um amigo indefeso
+ Á justiça de Roma e do Conselho! Brado
+ Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado!
+ O Profeta conspira, em intimo rancor,
+ Contra a lei de Moysés e contra o vencedor!
+ --De tal conspiração confio-te o segredo...
+
+Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora,
+insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á
+curva da cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e
+fixo em um ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem
+dos labios de Judas como subtil veneno.
+
+ Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo
+ Austero, alcantilado, enorme?--Toda a gente
+ Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente,
+ Que do seu dormitar ninguem o accordaria,
+ Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria
+ Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu...
+ Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu,
+ Barafustou no espaço, e com fragor medonho
+ Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho!
+ --Que forças colossaes, que forças imprevistas
+ O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas
+ Majestosas, assim que despontava ao largo;
+ A Lua namorada, em languido lethargo,
+ Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio,
+ Que as lagrimas do ceu tornavam tão macío
+ Como um peito de cisne ou face de mulher...
+ O proprio Creador do Mundo nem siquer
+ Lhe causava receio. Em doidas convulsões,
+ Um raio desabou das vastas amplidões
+ Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada,
+ Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada!
+ --Que forças colossaes, que forças imprevistas,
+ Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas?
+ Que forças?--Perguntae-o áquella massa informe,
+ Que por vezes murmúra e que por outras dorme
+ Em profundo silencio; interrogae o Mar,
+ Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar
+ Do horisonte sem fim, da solidão distante,
+ Para oscular os pés do impávido gigante!
+ Interrogae o vil hipocrita, que ao passo
+ Que era meigo e humilde, em fraternal abraço,
+ Tratava de roer, silenciosamente,
+ As bases do colosso athletico e indiff'rente,
+ Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho,
+ No abismo tombou com fragor tão medonho,
+ Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito,
+ Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!
+
+PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços
+alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da
+vasta quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.
+
+ Ha colossos que teem gigantes nas entranhas,
+ Féros como leões, grandes como as montanhas!
+ Possuem dos clarins as frases inspiradas,
+ E fusilam do olhar relampagos d'espadas!
+ Ó mares da perfidia, andaes a carcomer
+ As bases do colosso herculeo do poder?
+ Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes!
+ Ondas que assim correis, que vindes em galopes,
+ Apressadas, servís, infames... Para traz!
+ Que para reprimir a vossa furia audaz,
+ Para que o vosso dente ao monstro não carcoma,
+ Basta um simples olhar dos hercules de Roma!
+
+E passeiando agitado, raciocinando e resolvendo de prompto:
+
+ Prefiro debelar de prompto a crise. Ignoro
+ Se falaste verdade, ou se acaso labóro
+ Em uma vil intriga! A dúvida me envolve...
+ Mas n'esta situação o meu poder resolve
+ O que julga efficaz. Esse traidor proféta
+ Ha de attingir ainda hoje a tenebrosa méta
+ Da existencia. Vou dar a ordem da prisão
+ Do Zéfiro subtil com furias d'Aquilão!
+
+HANAN detendo-o, supplicante, receioso:
+
+ Sê prudente, senhor. O sangue d'innocentes
+ Não deverá correr. Escuta os meus prudentes
+ Conselhos, bom amigo. Ai! poupa-me a Judéa!...
+ Escuta-me, por Deus! e a indignação refreia!
+ Tenho medo do povo... elle é tão leviano!...
+ Será muito melhor seguir o nosso plano.
+
+PONCIO sem querer ouvil-o:
+
+ Que poderá falhar!
+
+HANAN n'um protesto:
+
+ Que é firme!
+
+JUDAS
+
+ Que é seguro!
+
+HANAN matreiramente:
+
+ Uma escolta romana ao meu dispôr, e juro
+ Por Moysés que ámanhã de noite será preso
+ O Nazareno.
+
+E em tom de muita confiança, como velha autoridade que bem conhece os
+seus governados:
+
+ O povo ha de ficar surpreso,
+ Ao saber no outro dia a grande nova. Embora!
+ Não deve protestar, porque elle não ignora
+ Que é depois d'ámanhã o dia consagrado
+ Ao festejo da Paschoa. Assim, manietado
+ E mudo, ha de assistir ao julgamento e morte
+ Do Proféta.--Senhor, bem vês que d'esta sorte
+ Moysés perde um rival, Tibério um inimigo.
+ --Este homem prometteu que ha de ensinar o abrigo
+ Onde fica de noite o Nazareno occulto
+ E os discipulos...
+
+JUDAS
+
+ Que hão de fugir ao tumulto...
+
+PONCIO que os ouviu taciturno, balbucia, como falando a si proprio:
+
+ «Um cadaver de mais, um cadaver de menos
+ É coisa que não traz aos meus dias serenos
+ Nenhuma inquietação, nenhum remorso...»--Hanan,
+ Dás-me a tua palavra...?
+
+HANAN
+
+ O Proféta, ámanhã
+ Por esta hora, se Deus não se mostrar contrário,
+ Ha de estar preso.
+
+PONCIO
+
+ Bem! Pois n'esse caso...
+
+Dirige-se ao terraço e batendo as palmas, chamando:
+
+ Ostiario!
+
+HANAN radiante de alegria, ao ouvido de Judas:
+
+ Ganhámos, afinal! Serás recompensado
+ Pelo teu grande zelo, ó Judas.
+
+JUDAS soturno:
+
+ Obrigado...
+
+HANAN
+
+ Um prémio te darei. Trinta moedas; queres?
+ De prata!
+
+JUDAS indifferente:
+
+ Sim, Hanan... Acceito o que me deres.
+
+O OSTIARIO que appareceu no terraço:
+
+ Chamaste-me?
+
+PONCIO
+
+ É de crêr que no Pretorio esteja
+ Algum centurião. É Poncio quem deseja
+ Que se dê cumprimento a tudo que estes dois
+ Homens disserem.
+
+O OSTIARIO
+
+ Bem.
+
+PONCIO
+
+ Fique entendido pois.
+ Ao Pretorio tu mesmo agora os encaminha.
+
+E passando pela frente de Judas e de Hanan, sem para elles olhar,
+retira-se para os seus aposentos.
+
+HANAN que se curvára muito á passagem de Poncio, murmúra:
+
+ Moysés ha de vencer!...
+
+JUDAS tambem n'um murmurio, quasi inaudivel:
+
+ Maria ha de ser minha!...
+
+Vão-se com o Ostiario pela outra porta.
+
+
+Apparece então a escrava Geda, que se encaminha para o terraço.
+
+GEDA affasta o coxim, trazendo-o para o interior da quadra e faz correr
+parte do reposteiro que pende do arco.
+
+ Vae repoisar a minha ama...
+ Como a noite é calma e linda!
+ Mas ninguem ha que prescinda
+ Das indolencias da cama!
+ Muito ingrata a Humanidade,
+ Que acha as trévas de Morpheu
+ Preferiveis a este ceu
+ De risonha castidade!
+ Talvez seja por vingança
+ Que a mostrar-nos a outra face
+ A Lua não se abalança!
+ Seja lá pelo que fôr,
+ Que sem protesto não passe,
+ Diana, o teu desamor!
+
+Acaba de fazer correr brandamente o reposteiro. Depois vae buscar o
+candalabro e dispõe-se a leval-o comsigo.
+
+Mas o reposteiro agita-se, é corrido pela parte exterior por mão nervosa
+e resoluta, e uma mulher d'Israel apparece offegante, com o rosto
+occulto por espesso veu de lã negra.
+
+A MULHER adiantando-se como procurando alguem:
+
+ Claudia?
+
+GEDA admirada e insolente:
+
+ Quem te deu a livre entrada?
+ Que vens fazer aqui, judía?
+
+A MULHER
+
+ Venho
+ Para falar a Claudia, unicamente
+ É este o meu empenho.
+
+GEDA
+
+ E que importa o motivo, se é costume
+ Não entrar sem licença do Ostiario?
+
+A MULHER
+
+ Em pouco a minha falta se resume:
+ Vi tudo solitario...
+
+GEDA
+
+ Esperasses.
+
+A MULHER
+
+ Desculpa-me...
+
+GEDA
+
+ Duvído
+ De que a minha ama te receba. É tarde.
+ A menos que a tivesses prevenido
+ De vir, e que te aguarde.
+
+A MULHER assumindo attitude imperiosa:
+
+ Urge que eu fale a Claudia. É muito sério
+ O que me traz!
+
+GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na
+meza.
+
+ Eu vou...--Temos misterio!
+
+E entra nos aposentos de Claudia.
+
+A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á
+fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral.
+
+MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma
+préce:
+
+ Ó essencia do Bem! ó divinal encanto,
+ Que fazes do Amor a tua crença unica!
+ Presinto que a Desgraça estende o negro manto
+ E deixa a descoberto a sanguinaria tunica,
+ Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora
+ Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura,
+ Em breve deixará de ser como é a aurora,
+ Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura!
+ Mostra-te para mim bondoso e esmoler:
+ Escuta-me, Senhor! E que seja bastante,
+ Para fazer da noite aurora triunfante,
+ Uma lagrima ardente e pura de mulher.
+
+E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio.
+
+CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu
+assombro.
+
+ Maria de Bethania?! O quê? Pois tu
+ Ousaste vir aqui? Pois desafías
+ Com a tua presença o meu rancor?
+ Tens a loucura, a falta de criterio,
+ _De brincar com as cinzas inda quentes_?
+
+MARIA baixou a fronte; e a meia voz:
+
+ Perdôa-me, Senhora...
+
+CLAUDIA
+
+ O que fizeste
+ Da altivez soberana e do teu odio?
+
+MARIA
+
+ Perdôa-me, senhora. Quem se humilha,
+ É porque tudo esquece, e quem supplíca
+ O perdão d'uma offensa, tem direito
+ A ser ouvida...
+
+CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua
+figura:
+
+ Apraz-me isso que dizes.
+ Tu propria te encarregas de vingar-me.
+ Optimamente!--O que é que tu me queres?
+
+MARIA com meiguice:
+
+ Nunca viste, depois da tempestade,
+ Quando vem a bonança,
+ Resplandecer de luz na immensidade
+ O Arco da Alliança?
+ Pois que venha, senhora, em tal momento,
+ Um meigo olhar bondoso
+ Alegrar do teu rosto o firmamento
+ Como o divino traço luminoso.
+
+CLAUDIA com uma risada:
+
+ Não faças poesia, que Virgilio
+ Mandou lançar a sua Eneida ao fogo!
+ Começas muito mal. Por um idilio!...
+ Do teu poema a sorte pões em jogo...
+
+MARIA docemente:
+
+ Na ironia cruel quanta amargura!
+ Esta hora é suprema.
+ Vou falar-te d'um ser todo candura...
+
+CLAUDIA zombeteira, petulante:
+
+ O heroe do teu poema?
+
+MARIA animando-se pouco a pouco:
+
+ Heroe, disseste bem, mas que regeita
+ O gladio vingador,
+ E que tem na palavra uma arma affeita
+ Á bondade, ao amor...
+ Ouvindo-lhe o falar tão meigo e doce
+ Que de manso deslisa,
+ Perfumado, subtil, como se fosse
+ O perpassar da brisa,
+ As almas estremecem, de sentidas,
+ E ficam-se amorosas,
+ Desabrochando trémulas, florídas,
+ Como botões de rosas!
+ Ha já trez dias, Claudia, que o terror
+ É para mim veneno!
+ Querem matal-o! Ai! salva o meu amor!
+ Ai! salva o Nazareno!
+ Não deixes que lhe roubem a existencia,
+ E termina o martirio
+ D'esta paixão que tem do Sol a ardencia,
+ E a pureza d'um lirio!
+ Ordena que o não matem, Claudia! acalma
+ Os monstros malfasejos,
+ Que eu a teus pés arrojarei minh'alma
+ N'um effluvio de beijos!
+
+E cáe de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril,
+os braços estendidos, supplicante.
+
+CLAUDIA depois de nova risada:
+
+ Isto é completamente um caso novo,
+ E agrada-me de véras
+ Que sejas tu, mulher, em vez do povo,
+ Quem venha interceder pelo Profeta
+ Com lagrimas sinceras!
+ É bello!
+
+MARIA
+
+ Tem piedade!
+
+CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:
+
+ Honra o teu sexo
+ O platonico amor que te inquieta;
+ E n'elle vejo mais do que um reflexo
+ Do feminil civismo d'outras eras.
+ Tu excedes Cornelia,
+ E de Coriolano a mãe Veturia!
+ --Tenho notado haver n'esta Judéa
+ Mais valor nas mulheres que nos homens,
+ O que toma o aspecto d'uma injuria
+ Ás patricias de Rhéa!
+ Judith a Holofernes rouba a vida,
+ Para salvar o povo seu amante,
+ Ao vêr que elle agonisa;
+ Esther, em patrio amor toda incendida,
+ De Assuéro affronta a crueldade e insânia;
+ Debóra, a profetisa,
+ Entra na lucta e sae-se triunfante...
+ Agora vem Maria de Bethania!
+ --Palavra, que a Judéa é divertida!
+
+Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois
+de ageitar-lhe as almofadas.
+
+MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação:
+
+ Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime!
+ Quando uma alma se dobra e tanto se deprime,
+ Quando um peito soluça, a compaixão ordena
+ Que a ironia que esmaga e o riso que envena...
+
+A um olhar severo de Claudia, humildemente:
+
+ Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo
+ Que não seja o tormento indómito e agudo,
+ Que me offusca a razão e o peito me lacéra!
+ Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera
+ Que soubesses tambem como é risonha a vida,
+ Que toda se consagra a uma entidade querida:
+ Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora;
+ Respirar o subtil perfume que evapora;
+ Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama;
+ Silenciosamente, amar tudo o que ella ama;
+ Ouvir-lhe da palavra a doce melodía
+ Tão limpida, tão casta e pura, que enebría,
+ Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal,
+ Semelhante, no brilho, ao riso divinal
+ Da estrella que, tremente, em candidez scintilla,
+ Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla.
+
+Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se
+impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.
+
+ Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido:
+ Tu poderás talvez, pedindo a teu marido...
+ Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana
+ Quando te respondi com altivez soberana.
+ Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor
+ E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr...
+ --Mas fala, mas responde a isto que eu te peço!
+ Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!
+
+E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos
+fincados no coxim.
+
+Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar.
+
+Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando
+de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos
+enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:
+
+ Não me resta uma esperança,
+ Pois não me escuta ninguem!
+ Dorme a eterna Divindade
+ No azul da Immensidade,
+ Nos horisontes d'além,
+ Onde não chega um suspiro,
+ Onde o silencio é profundo.
+ Ha de ser bom tal dormir,
+ Descuidoso do porvir,
+ Descuidoso d'este mundo,
+ N'aquelle reino divino
+ Tecido por andorinhas,
+ Feito só para os honrados,
+ Para os bons e desprezados,
+ Para as meigas creancinhas...
+ Tão sereno como o lago
+ Da Galiléa florída,
+ Que se formou por encanto
+ Do arrependido pranto
+ Da mãe Eva arrependida...
+ --Parece mesmo que o vejo
+ No seu manto azul. Dir-se-ia
+ Que o firmamento amoroso
+ Teve a alegre fantasía
+ De enviar á terra um beijo
+ Puro, suave, bondoso...
+ Parece mesmo que o vejo.
+ --É seu olhar calmo e doce;
+ A tudo o mais fica estranho,
+ Quando distingue o fulgor
+ Dos astros, como se fosse
+ O cuidadoso pastor
+ Do scintillante rebanho...
+
+CLAUDIA adormecida, vagamente:
+
+ É seu olhar calmo e doce...
+
+MARIA continuando alheiada a tudo:
+
+ Tem o brilho das seáras
+ O cabello perfumado,
+ Que nos hombros lhe descansa
+ E lhe cerca as faces claras.
+ É tão formoso e doirado
+ Como um sorrir de creança...
+
+CLAUDIA adormecida, vagamente:
+
+ Tem o brilho das searas
+ Seu cabello perfumado...
+
+MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:
+
+ Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir
+ E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir.
+ Reconheço por fim que era a esperança fátua.
+ É inutil chorar em frente d'uma estátua...
+ --Retiro-me vencida, assim como o pagão,
+ Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão,
+ Os gritos da sua alma e os canticos do amor.
+ Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr!
+
+E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em
+passos vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo
+pendente ao longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida
+escadaria.
+
+O somno de Claudia é agora profundo. Tudo ficou silencioso. Estinguem-se
+uma a uma, com lentidão, as véllas no candalabro; e o luar, a que o arco
+sem peias dá passagem, faz projectar o busto de Tiberio na parede
+fronteira, como um enorme phantasma negro...
+
+
+
+
+QUARTA JORNADA
+
+EM 15 DE _NISAN_
+
+
+
+
+QUARTA JORNADA
+
+EM 15 DE _NISAN_
+
+
+Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de
+Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á
+indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam
+mansamente.
+
+Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas
+parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz,
+corpos sem vida de suppliciados.
+
+Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural
+caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro.
+Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde
+os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas.
+Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.
+
+Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os
+penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco,
+argiloso e triste.
+
+Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de
+quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.
+
+A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.
+
+
+O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que é
+Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são
+Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram
+reforçadas na vespera por ordem de Poncio.
+
+AMPÍO, tocando com o pé no corpo de um dos que dormem:
+
+ Erguei-vos, camaradas, pois não deve
+ O negro deus do somno tal imperio
+ Exercer sobre vós, quando do Olympo
+ Cáem com furia as cóleras de Jove.
+
+LAUSO accordando:
+
+ Novamente começa a tempestade?
+
+FÁBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento:
+
+ Foi aquelle patife do Vulcano,
+ Que lhe enviou fornecimento novo.
+
+LAUSO erguendo-se:
+
+ Pois ainda troveja?
+
+AMPÍO
+
+ Muito ao longe.
+
+FÁBIO
+
+ O peior é que Phébo, com certeza,
+ Não vem tão cedo.
+
+AMPÍO
+
+ Os galos já cantaram
+ Das bandas do Levante, amigo Fábio.
+
+LAUSO
+
+ Olha! alguem se dirige para aqui.
+
+FÁBIO rindo:
+
+ Talvez seja Noctifer, deus das trevas.
+
+E os trez esperam, encostados ás lanças. São seis miseros mercadores
+avergados ao peso de seus fardos. Quando chegaram em frente dos
+soldados.
+
+UM MERCADOR em tom submisso:
+
+ É permittida a entrada aos mercadores?
+
+AMPÍO
+
+ A dúvida, meu velho, está sómente
+ Em pagarem tributo ao publicano.
+
+O MERCADOR
+
+ Decerto que pagamos, como é de uso;
+ Mas quando vi trez guardas junto á porta.
+ Fiquei suppondo alguma novidade...
+
+AMPÍO
+
+ Pois quê! não morreu hontem o profeta?
+ Nada mais facil do que haver rebeldes...
+ Conhecemos a vossa grande astucia
+ E o vosso rancor, judeus malditos!
+
+O MERCADOR por entre dentes:
+
+ Maldita Roma!...
+
+FÁBIO com uma risada alvar:
+
+ Eh! lá! Vê como falas,
+ Que o _teu rei_ já não vive!
+
+O MERCADOR muito seccamente:
+
+ Da Judéa
+ Ha muito que fugiu a realeza!
+
+E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que
+d'elles chasqueiam.
+
+
+A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um
+vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra
+um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer,
+os membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente,
+esfarrapada e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés
+descalsos.
+
+JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a
+voz muito enfraquecida:
+
+ Vem o dia a nascer das regiões eternas.
+ Depois de ter lançado as iras justiceiras,
+ O grande firmamento agora é mudo e quedo.
+ Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas,
+ E vão pedir a noite ás fendas do rochedo
+ As aves agoureiras.
+
+E olhando para a caverna d'onde saíu:
+
+ Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,
+ Ó treva de amargura e negras maldições!
+ Ó antro, que animei co'o halito do crime,
+ Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro
+ Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime,
+ Das tectricas visões!
+
+Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se com
+passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois,
+como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:
+
+ Estavam a dormir ao pé das oliveiras,
+ E a Lua derramava em cheio nas clareiras
+ O argentino olhar, o seu formoso pranto.
+ Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto,
+ Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu...
+ Mas ficou-se indeciso apenas descobriu
+ Dos archotes a luz na solidão campestre.
+ --Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.»
+ Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo,
+ Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo
+ Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai!
+ Co'um latido feroz toda a matilha sae
+ Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento!
+ Aos amigos leaes occorre o pensamento
+ Heroico de empregar a força. A gritaria
+ Desperta o olival da funda lethargia.
+ Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador...
+ Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror.
+ Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja
+ Espavorida vae dizendo-me que fuja.
+
+E erguendo-se de chofre, animando-se:
+
+ Percorro velozmente os grandes olivaes;
+ Quando abandono a sombra, entro nos matagaes;
+ O manto esfarrapado o rasto meu indica,
+ Depois a propria carne! A alma, porem, não fica,
+ Pois se olho para traz, sobre a verdura espessa
+ Persegue-me, a rolar em sangue, uma cabeça.
+ Termina de repente o estenso matagal,
+ Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal
+ Onde tenho uma lucta encarniçada e louca:
+ A lama em borbotões entra-me pela bocca,
+ Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos,
+ Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos,
+ Fogem nuvens de rãs para logares occultos,
+ E o seu coaxar parece arremetter insultos!
+ Mas saio vencedor e a terra firme alcanço;
+ Então quero parar... mas corro sem descanso.
+ As forças vão fugindo, e julgo que do peito
+ O coração rebenta exanime e desfeito!
+ Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto
+ Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto,
+ Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando
+ Sinistramente ao longe um lobo fica uivando.
+ Chego á margem; depois entro por um atalho
+ Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho...
+ Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo
+ Descobrir de repente o mais seguro abrigo!
+
+Abeirando-se da caverna:
+
+ Sem saber onde estou, a estremecer d'horror,
+ Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor,
+ Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura,
+ Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura,
+ Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas,
+ A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!
+
+Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna
+responde-lhe longamente...
+
+Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços
+pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:
+
+ Eliminei a causa, e agora nem procura
+ A minh'alma saber se existe ou já não dura
+ O effeito. Um assassino é o que vejo em ti,
+ Judas!
+
+Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava.
+
+ O coração refugiou-se aqui
+ Transformado em dinheiro. É prata reluzente,
+ Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente!
+ E falas de ambição, tu que possues a marca
+ Das filhas sem pudor do velho patriarcha!...
+ Relembras o incesto horrendo de Thamar,
+ E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar
+ A honra de seu pae no leito da madrasta!...
+ E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta
+ Em de redor de mim o grande amontoado
+ Das velhas podridões da carne e do peccado!
+
+Ferido por um rapido pensamento:
+
+ --Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame,
+ E talvez que o Senhor o seu perdão derrame...
+
+Mas detendo-se, hesitante:
+
+ Tenho medo... não sei...
+
+E supersticioso:
+
+ Era de madrugada
+ E eu ia caminhando em terras d'Ephraím
+ Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse
+ Para vir espreitar meus passos junto á estrada.
+ Esmaguei o!--Se alguem agora me fizesse
+ A mesma cousa, a mim?
+
+Compadecído:
+
+ Meus olhos, vêde a luz que o firmamento inunda,
+ Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente!
+ Rasteja para longe, ó animal mesquinho,
+ Deixando atraz de ti a escuridão profunda...
+ Rasteja para longe... e ségue o teu caminho
+ Silenciosamente...
+
+A passos lentos, vae-se, costeando a muralha até dobrar o angulo que
+ella fórma.
+
+
+Duas mulheres, com os rostos occultos por densos véos, sáem da cidade.
+Alguns passos dados, páram como avergadas pelo cansaço ou pela dôr. São
+Maria de Bethania e sua irmã Martha.
+
+
+MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito
+resignada:
+
+ Fica perto da cidade
+ O sepulcro: é no jardim
+ Do José d'Arimathéa.
+ Ao aroma do jasmim
+ Casa-me o aroma da rosa...
+ É tudo meigo e silente
+ N'aquelle triste remanso
+ Onde elle dorme. A corrente,
+ Que vae regar os pomares,
+ Tem uns murmurios tão doces
+ E tão cheios de misterio...
+
+MARTHA
+
+ Maria, irmã, se tu fosses
+ Contaminar o teu corpo?
+ É prohibido na Lei
+ Ir a um sepulcro...
+
+MARIA
+
+ Decerto...
+
+MARTHA
+
+ É um crime.
+
+MARIA
+
+ Sim; bem sei.
+ Mas devo eu conjecturar
+ Que os negros vermes da terra
+ Contaminem moradia
+ Que tanto perfume encerra?
+ As borboletas sómente,
+ Aereos beijos de amor,
+ Hão de poisar junto d'elle
+ Como poisam n'uma flôr,
+ Indo contar em seguida
+ Aos espinhos do balseiro
+ Quanta fragancia divina
+ Exhala aquelle canteiro.
+ ... Ao passo que eu viverei
+ Na grande dôr do meu pranto,
+ Como a aranha silenciosa
+ Que fez a teia n'um canto.
+ --No ceu da minha existencia
+ Pairavam tranquillamente
+ Dois flócos de nuvem, que era
+ Como o fumo transparente...
+ Andavam pairando assim
+ Despreoccupados os dois,
+ Para ao sopro d'uma aragem
+ Se desfazerem depois...
+ Fumo illusorio que sobe
+ Mansamente pelo ar
+ E que se esvae n'um instante
+ P'ra nunca mais se juntar...
+
+MARTHA
+
+ Ó minha irmã!...
+
+E abraçadas, com as frontes reclinadas no hombro uma da outra, soluçam
+longamente.
+
+Vem então da cidade outra mulher, que pelo trajar romano logo se
+reconhece ser Claudia.
+
+CLAUDIA chegando junto de Maria e Martha, cujos rostos se conservam
+occultos, pára; e depois, poisando a mão no hombro de Maria, diz com voz
+muito meiga:
+
+ Porque choras?
+
+MARIA que se voltou, reconhecendo-a e baixinho á irmã:
+
+ Ella?!
+
+MARTHA receiosa:
+
+ Claudia!...
+
+CLAUDIA
+
+ Que motivo
+ Gerou no teu seio a Dôr,
+ A negra mãe do gemido?
+ Conta-me tudo, mulher.
+ --Morreu-te um filho, o esposo,
+ Ou um irmão...
+
+MARTHA ao ouvido de Maria:
+
+ Oh! meu Deus!
+ Como o seu falar é outro!
+
+CLAUDIA
+
+ Tambem eu soffro ha trez dias
+ D'um enorme soffrimento,
+ E quero que na cidade
+ Fiquem todos conhecendo
+ Quanto Claudia é bondosa,
+ Claudia, que o povo despreza,
+ E quanto chora tambem
+ Pela morte do Profeta.
+
+MARIA absôrta:
+
+ O que oiço!
+
+CLAUDIA
+
+ D'uma mulher
+ Taes lamentos recebi,
+ Que um novo ser despertou
+ De chofre dentro de mim.
+ Sonhei depois, e que sonho!
+ Nem mesmo o posso contar...
+ Tão cheio de quietação,
+ De suavidade e de paz,
+ Que fiquei por muito tempo
+ Absorta, de madrugada,
+ Ao construir na memoria
+ Todo o sonho que sonhara.
+ --Eu fugira para longe,
+ Para um paiz tão distante,
+ Que este mundo em que vivemos
+ Não me ficava ao alcance;
+ E alguem cercado de luz
+ E de meigas creancinhas
+ Veio alegre ao meu encontro
+ Nas paragens infinitas...
+
+MARIA
+
+ O que te disse?
+
+CLAUDIA
+
+ Não sei...
+ Apenas sei que, accordando,
+ Não conheci a minh'alma
+ Transformada por encanto;
+ E por que um plano de morte
+ Estava urdido em segredo
+ Contra o bondoso Profeta,
+ Logo intentei desfazel-o,
+ Supplicando a meu marido
+ Que em seu favor empregasse
+ Todo o auxilio. Impossivel!
+ A suprema divindade
+ Caíra em somno profundo
+ No seu grande leito azul,
+ Deixando que o Nazareno
+ Expirasse n'uma cruz!...
+
+MARIA baixinho á irmã:
+
+ E eu que ainda a accusava!...
+
+CLAUDIA
+
+ A minha dôr reparti
+ Comtigo; deves portanto
+ Confiar tudo de mim...
+
+MARIA espansiva:
+
+ Para quê, se tudo sabes?
+
+CLAUDIA
+
+ Tudo sei?...
+
+MARIA
+
+ Pois que em Judá
+ Nenhum rosto de mulher
+ Por mais ninguem chorará
+ N'este momento.
+
+CLAUDIA
+
+ Por Elle?
+
+MARIA animando-se:
+
+ Sim, por Elle, Homem-Misterio,
+ Que voou, como o aroma
+ Da pobre rosa pendida
+ Sobre a haste, dolorida
+ Pela mágua da saúdade...
+ --Vinde comigo, mulheres,
+ Orvalhar co'o vosso pranto
+ A boceta em que dormita
+ Aquelle celeste encanto.
+ Ide colher á campina
+ Braçados de malmequeres,
+ D'alfazema e rosmaninho,
+ E vinde, vinde comigo
+ Dispol-os naquelle ninho...
+ E vós, ó mães, que trazeis
+ No ventre o fructo do amor,
+ Purificae-o aspirando
+ O perfume e o calor,
+ Que se evolam brandamente
+ Do sepulcro sorridente,
+ Como as nuvens que perpassam...
+ ... Fumo illusorio, que sobe
+ Com lentidão pelo ar,
+ E que se esvae n'um instante,
+ P'ra nunca mais se juntar...
+
+E cala-se, a voz estrangulada pelas lagrimas.
+
+CLAUDIA suspeitosa:
+
+ Estas palavras?... Judía,
+ Impossivel existirem
+ Dois corações como o teu!
+
+MARIA
+
+ Já não o tenho: morreu.
+
+CLAUDIA
+
+ Como te chamas?
+
+E vendo o rosto de Maria que se desvelára:
+
+ Maria!
+
+MARIA caíndo de joelhos e beijando-lhe as mãos:
+
+ Sim! que se roja a teus pés
+ Humildemente contricta,
+ Para dizer-te: mulher,
+ Sê bemdita, sê bemdita!
+
+CLAUDIA com a voz cheia de bondade, obrigando Maria a erguer-se e
+abraçando-a:
+
+ Ergue-te, ó alma sublime,
+ Que encheste de luz a treva
+ E que tiveste o condão
+ De abafar a voz do crime
+ Co'o soluço do perdão.
+ --Tambem eu ia levar-lhe
+ O meu pranto dolorido
+ Como nunca tive igual.
+ És a mulher que fugiu
+ Para o reino do Ideal...
+ A terra é muito mesquinha,
+ E o vôo da andorinha
+ Convida a voar tambem...
+
+Cingindo com os braços Maria e Martha:
+
+ Partamos, sim, pela estrada
+ Que nos conduz ao misterio.
+ Sorri ao longe a alvorada...
+ Vamos tranquillas, serenas,
+ Bater a cada poisada,
+ E sejam nossas palavras:
+
+Levando-as comsigo docemente:
+
+ Vinde comnosco, mulheres,
+ Orvalhar co'o vosso pranto
+ A boceta em que dormita
+ Aquelle celeste encanto.
+ Ide colher á campina
+ Braçados de malmequeres,
+ De alfazema e rosmaninho...
+
+E vão-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro.
+
+
+O firmamento agora é limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da
+madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de
+Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avançam para a cidade:
+João, Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar e Simão de Bethania. Todos
+denunciam no andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a
+irresolução, o receio. Chegados em frente da muralha:
+
+SIMÃO PEDRA que viera junto de João:
+
+ Não entres na cidade...
+
+ELEAZAR
+
+ És muito conhecido.
+ O Conselho não tem desviado o sentido
+ Dos amigos do Mestre.
+
+SIMÃO
+
+ Olha que talvez pense
+ Em prender-te, e depois nada ha que recompense
+ O inutil sacrificio.
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Ao teu valor opponho
+ Todo o meu raciocinio.
+
+JOÃO que ficára immovel olhando para a muralha da cidade:
+
+ Ainda julgo um sonho!...
+
+GAMALIEL encostado ao bordão, a meia voz, rancoroso:
+
+ Sobre a cruz aviltante, assim como o homicida,
+ Como o escravo traidor, como o ladrão!...
+
+JOÃO irrompendo:
+
+ Ó Vida,
+ E continúas tu dando vigor a quem,
+ Depois de infamia tal, dorme em Jerusalem!
+ Profetas de Sião, da campa alevantae-vos
+ Para escrever ali com sanguinarios laivos
+ Esta nefanda historia, este inarravel crime!
+ Dobrae Jerusalem, como se dobra um vime,
+ E que a mão do Senhor, terrivel, iracundo,
+ Em látegos crueis com ella açoite o Mundo!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Co'a doutrina do Mestre o odio não se casa...
+
+GAMALIEL por entre dentes:
+
+ Mas tambem cicatriza a f'rida o ferro em braza!
+
+JOÃO desalentado:
+
+ E assim tudo acabou!...--Saúdosa Galilea,
+ Onde sorris tranquilla, ó minha pobre aldeia!...
+ Quantas recordações do teu ceu, do teu ar,
+ Dos dias que passei no teu sereno mar,
+ Das noites que dormi na relva da campina,
+ Tão descuidoso! Mãe da excepcional doutrina,
+ Que encheu d'enthusiasmo e risos seductores
+ As almas infantis d'ingénuos pescadores,
+ Fazendo-os caminhar atraz d'uma visão,
+ Confiados, como vae por entre a cerração
+ A barquinha velleira ao descobrir farol!
+ Prados, que sois jardins, e onde o rouxinol
+ Canta serenamente em noites estivaes;
+ Macieiras em flôr; regatos que passaes,
+ Ondeando, como ondeia á brisa, levemente,
+ Da aldeã virginal a trança refulgente...
+ Montanhas de Nain; e tu, ó grande monte,
+ Que te elevas no fundo azul do horisonte,
+ Redondo como um seio a amamentar os astros...
+ Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros,
+ Rochedos, alcantís, seáras e pastagens,
+ Que bordam a primor tuas alegres margens...
+ --Eis aqui finalmente a horrivel derrocada!
+ A solida affeição dos Dôse feita em nada;
+ A cegueira vencendo; a Luz amortecida;
+ A tripudiar em nós um ladrão homicida;
+ E eu, no meio de tudo, extactico e absôrto,
+ Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!...
+ --E assim tudo acabou!
+
+GAMALIEL avançando para elle nervosamente:
+
+ Quem fala de acabar?
+ O fogo ainda não se extinguiu no altar
+ Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos
+ Onde fomos depôr as almas ainda exhaustos
+ Não deixaram de todo os nossos corações!
+
+JOÃO desanimado:
+
+ Que havemos de fazer?...
+
+GAMALIEL animando-se e animando-o:
+
+ Povos, religiões,
+ Autoridades, leis, é tudo movediço
+ E débil como ao sôpro um tímido aranhiço!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Queres dizer então...
+
+ELEAZAR
+
+ A lucta?!
+
+GAMALIEL
+
+ Braço a braço,
+ Não se deve luctar. Seria um erro crasso
+ Instituir o Bem co'o ferro. Não! Deixae
+ Esse erroneo principio aos filhos de Schammai!
+
+JOÃO erguendo-se:
+
+ O que pensas?
+
+GAMALIEL
+
+ Que chega a ser um attentado
+ Á memoria do Mestre abandonar o arado
+ Com que elle andou lavrando a consciencia humana!
+ Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana,
+ Que esfria os corações e purpurisa as ruas!
+ Não quero vêr brilhar ao sol espadas nuas!
+ Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Mas faláste de lucta.
+
+GAMALIEL
+
+ Humilde, mas sem trégoas;
+ Branda, mas incisiva; humana... mas divina!
+ Como arma, aquelle dom secreto que extermina,
+ Ferindo os corações sem que haja soffrimento.
+ Ruge, como o trovão e géme como o vento,
+ Murmúra como a fonte e estála como o raio,
+ Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio;
+ Dolente, acaricía; em furias, escalavra!
+ Esta arma triunfante, esta arma...
+
+JOÃO com o olhar brilhante:
+
+ É a palavra!
+
+Mas logo receioso:
+
+ Falar ás multidões...?
+
+SIMÃO PEDRA tambem receioso:
+
+ Continuar...?
+
+GAMALIEL
+
+ Decerto!
+ Entrando no porvir que Elle deixou aberto.
+ Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir
+ O caminho traçado entrando no porvir,
+ E esse alguem és tu!
+
+JOÃO n'um sobresalto:
+
+ Eu?
+
+ELEAZAR abraçando-se n'elle, espansivo:
+
+ Sim, João!
+
+SIMÃO incitando-o:
+
+ Ninguem
+ Melhor que tu!
+
+SIMÃO PEDRA secundando já agora Gamaliel:
+
+ Qual é de nós o que mais tem
+ O verbo inspirador, altivo e fulgorante?
+
+JOÃO indeciso:
+
+ Simão, Gamaliel, amigos... Ai!
+
+GAMALIEL
+
+ Ávante!
+
+ELEAZAR
+
+ Para gloria do Mestre!
+
+SIMÃO
+
+ E gloria tua!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ E nossa!
+
+GAMALIEL
+
+ É bella a occasião...
+
+JOÃO
+
+ E quem vos diz que eu possa?...
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Serás novo profeta, aproveitando o exemplo...
+
+GAMALIEL agarrando João por um braço:
+
+ Vão começar agora os canticos no Templo.
+ Anda comnosco!
+
+ELEAZAR
+
+ Vem!
+
+SIMÃO PEDRA
+
+ Sê forte!
+
+GAMALIEL querendo arrastal-o comsigo:
+
+ N'um instante,
+ De povo te verás cercado...
+
+JOÃO n'uma grande espansão:
+
+ Ávante! Ávante!
+ É preciso arrancar ao morbido lethargo.
+ A doutrina do Mestre!
+
+GAMALIEL em doida alegria:
+
+ Emfim!
+
+JOÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico:
+
+ É meu o encargo!
+ O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora
+ A escada de Jacob á luz da meiga aurora.
+ Por ella vae subindo um côro triunfal
+ Proclamando no Espaço o amor universal
+ E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio.
+ Ávante! Não desabe o sólido edificio
+ De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro
+ Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro,
+ Enriqueça de novo a consciencia humana!
+ Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana!
+ Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia,
+ Uma scentelha só do genio teu envia
+ Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria
+ Que torne a minha voz da tua a emissaria!
+ --Vamos, Gamaliel!
+
+GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade:
+
+ Gloria ao profeta novo!
+
+JOÃO vibrantemente:
+
+ Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!
+
+Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de
+
+GAMALIEL bradando:
+
+ Negra Jerusalem, escuta, ó assassina,
+ D'aquelle que morreu a divinal doutrina!
+
+E depois, mais distante:
+
+ Ouve, Jerusalem, que matas os profetas,
+ As palavras que são do teu Senhor dilétas!
+
+E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez
+menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e
+tortuosas ruas da cidade.
+
+
+No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o
+dinheiro da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo.
+D'ali ouvira as ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel.
+
+JUDAS com desdem:
+
+ «Gloria ao profeta novo!»--Insensatos! João,
+ Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação!
+
+Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo
+alguem que se approxima, recúa e estáca.
+
+ Maria?!
+
+MARIA parando tambem:
+
+ Judas!
+
+JUDAS, desvairado:
+
+ Ah! cobarde salteador
+ D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor?
+ O olhar, que seduzia, infunde repugnancia!
+ O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia,
+ Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar,
+ Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar
+ A carne do meu crime! Odeio-te!
+
+MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente:
+
+ Não vim
+ Trazer o meu amor.
+
+JUDAS
+
+ Que queres tu de mim?
+ Trazes-me o teu perdão?
+
+Solta uma risada nervosa.
+
+MARIA
+
+ O riso da demencia
+ Nunca ha de suffocar a tua consciencia,
+ Que géme e se revolve em negro torvelinho.
+ Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho.
+
+JUDAS impedindo-lhe a passagem:
+
+ E a maldição ha de ir seguindo-te as pisadas!
+
+MARIA
+
+ A tua maldição... as tuas gargalhadas!...
+ --Como o teu odio é bom!
+
+JUDAS
+
+ Inda não é bastante
+ Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante,
+ Como eu satisfaria este voraz desejo:
+ Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo!
+ Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois,
+ Fruir o teu amor, e arrojar depois
+ O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres
+ Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres!
+ --Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...
+
+MARIA muito calma:
+
+ P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo:
+ O mundo é tão cruel que aleives não reprime,
+ Se junto da virtude elle descobre o crime.
+ Mas entretanto... foge!
+
+JUDAS rindo febril:
+
+ Acaso me suppões
+ Tão cobarde que vá fugir sem ter razões
+ Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?
+
+MARIA
+
+ E se o Mestre voltar?
+
+JUDAS rindo:
+
+ Que doida fantasía!
+
+MARIA
+
+ Se o visses novamente?
+
+JUDAS de subito receioso:
+
+ Eu? vêl-o?
+
+MARIA
+
+ Sim!
+
+JUDAS
+
+ Não creio!
+ A morte é vasto abismo...
+
+MARIA, dogmatica:
+
+ Abismo, cujo seio
+ Não poderá conter o que era illimitado!
+
+JUDAS acobardado:
+
+ Que dizes tu, mulher?!
+
+MARIA em tom profetico:
+
+ Que dorme inanimado
+ O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio
+ Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio,
+ Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário,
+ Como o trabalhador que não requer salário
+ E que só tem por fim realisar o plano
+ De ha muito concebido. Em vão o olhar humano
+ Procura descobrir o que existe no centro
+ Do casúlo: o misterio é silencioso dentro.
+ Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto,
+ Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!
+
+JUDAS tomado de vago terror:
+
+ Justos ceus!
+
+MARIA animando-se:
+
+ Has de vêr, com a tua alma inquieta,
+ Saír do seu casúlo a enorme borboleta,
+ Que n'esta hora talvez as palpebras descerra,
+ Encher de luz o espaço e de pavôr a terra,
+ Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...
+
+JUDAS trémulo:
+
+ E caír sobre mim co'o azorrague em punho!
+
+MARIA terrivelmente:
+
+ Emquanto não voltar, os olhos do covarde
+ Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde:
+ Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro,
+ Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!
+
+JUDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:
+
+ Não pode ser, não creio...
+
+MARIA perseguindo-o:
+
+ Ha de falar-te, Judas,
+ Á tua consciencia abjecta!
+
+JUDAS tentando occultar o rosto:
+
+ Não me illudas,
+ Que eu nada vejo!
+
+MARIA erguendo o braço:
+
+ Vês pairando sobre ti
+ O Remorso, o fantasma eterno!...
+
+JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e
+apontando tambem, trémulo, allucinado:
+
+ Ali! ali!
+ Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria!
+ Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia
+ Que vae falar-me!--Oh! cala-te! Fui eu
+ Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu!
+ Não me accuses, que sinto em mim a accusação;
+ Tem os dentes da cobra e as garras do leão!
+ Anda aqui dentro--ouviste?--a esfarrapar-me todo!
+ Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo,
+ Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome,
+ Que nem os proprios cães matem comigo a fome!
+
+E apontando de novo, como um vidente:
+
+ O respirar opprésso... o corpo no madeiro...
+ Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro...
+ Exactamente!--Eléva os olhos para os ceus;
+ A agonia final chegou: fala com Deus...
+ A cabeça descae no peito: vae morrer...
+
+E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna:
+
+ Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr!
+
+E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o
+rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante.
+
+MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:
+
+ Insultáste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquéço.
+ Tenho a razão bem clara, e tu és um possésso.
+ Quanto ao Mestre, lá tens em ti a accusação...
+ A tua alma está sendo, ó torpe vendilhão,
+ Passiva e sem vigor n'este fatal momento
+ Assim como o enforcado a baloiçar ao vento...
+ --Adeus.
+
+E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz.
+
+
+Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados
+de Judas. Pouco a pouco, vão-lhe voltando as forças, e então
+
+JUDAS erguendo a cabeça e como acordado pela impressão que no seu
+espirito deixaram as ultimas palavras de Maria:
+
+ «O enforcado?...»
+
+E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia:
+
+ Emfim para que existo?
+
+Pensa. Tendo apoiado a mão direita na cintura, o contacto da corda com
+que cinge a tunica desperta-lhe a attenção e aviva-lhe na memoria
+aquellas palavras de João que elle repéte machinalmente:
+
+ «As estrigas de linho...»
+
+E prevendo o effeito:
+
+ Um laço... um nó...
+
+Resoluto:
+
+ --É isto!
+
+Então, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um nó corredio,
+vae monologando, febríl, nervosa, sêccamente:
+
+ Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante
+ Correr atraz de mim um grito retumbante
+ E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus
+ Quem pode combater a cólera de Deus?
+ Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo,
+ Porque é fugir do Eterno o mesmo que estar quedo!
+ Não fugirei!--Se fico, atrocidades cruas...
+ Hei de ser arrastado ahi por essas ruas,
+ Padecerei do povo horríficos flagellos:
+ Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos,
+ E transformar em lama o corpo do homicida!
+ --Não! Prefiro morrer... por ter amor á vida!
+
+De súbito, n'um grito de independencia, muito egoista:
+
+ Eu prefiro morrer! Que se escancáre o espaço
+ Da treva! Sim, ó Morte, eu quero o teu abraço!
+ A maldição eterna o Eterno em mim derrame-a!
+ Que importa! Serei grande até na propria infamia!
+
+Allucinado novamente:
+
+ Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade!
+ Renego do respeito e amor á Divindade!
+ Eu creio só na Morte... e basta-me esta corda!
+
+E ri, ri convulso. Batendo com a mão no peito:
+
+ Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda,
+ Para insultar a Vida, essa madrasta bruta,
+ Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta!
+ E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme,
+ Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme!
+
+E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.
+
+
+É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam
+passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as
+vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida
+melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente
+grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.
+
+João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra,
+Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham
+todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem
+João apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os
+braços cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno
+oiteiro, João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com
+os filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a
+direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no
+chão, já secco pelo vento, formando um semi-circulo em frente do profeta
+novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de João, destaca-se
+fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, triunfal.
+
+E é então que
+
+JOÃO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e
+vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem:
+
+ Quem tem ouvidos, oiça o que Elle manifesta!
+ Elle é o Omnipotente; Elle o principio e o fim;
+ Elle quem libertou da escravidão funesta
+ O povo d'Israel... Elle descansa em mim.
+ Elle é o Omnipotente! Elle o principio e o fim!
+
+ Seja bemdito quem ouvir e conservar
+ As palavras que encerra a minha profecia!
+ Quem tem ouvidos, oiça! e purifique o olhar,
+ Porque já não vem longe o tenebroso dia
+ Em que todos vereis a minha profecia!
+
+ --Despenham se na terra os astros refulgentes;
+ O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue;
+ Varíam de logar ilhas e continentes;
+ A Grandeza estremece e vem caír exangue...
+ O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue...
+
+ ..............................................
+
+
+
+
+Escripto em 1888-1890
+
+Acabado de imprimir
+aos 5 dias do mez d'Outubro de 1901
+na Imprensa de Libanio da Silva
+Rua do Norte, 87 a 103
+
+Lisboa
+
+
+Nota do transcritor:
+
+Foram corrigidos diversos erros tipográficos. Na lista que segue estão as alterações mais importantes.
+
+ Pág. Original Corrigido
+ 20 abnadonam Maria abandonam Maria
+ 18 Pois eu sou tou Pois eu sou tão
+ 25 JÕAO PEDRA, com o braço direito SIMÃO PEDRA, com o braço direito
+ 30 a aragem fresca e permada a aragem fresca e perfumada
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JUDAS ***
+
+***** This file should be named 27276-8.txt or 27276-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/7/2/7/27276/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.