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+The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal á luz da Philosophia, by
+Angelina Vidal
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Marquez de Pombal á luz da Philosophia
+
+Author: Angelina Vidal
+
+Release Date: November 14, 2008 [EBook #27255]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+Á LUZ DA PHILOSOPHIA
+
+
+
+
+ANGELINA VIDAL
+
+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+Á LUZ DA PHILOSOPHIA
+
+
+
+
+LISBOA
+IMPRENSA DA VIUVA SOUSA NEVES
+65, Rua da Atalaia, 67
+1882
+
+
+
+
+A
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+
+
+ESCRIPTOR ILLUSTRE
+
+
+Estamos em pleno jubileo.
+
+Cada época traz o seu cunho caracteristico de exagero, e tristes dos que
+se affoutam a soltar qualquer nota discordante no concerto da lisonja
+publica.
+
+No meio d'este anemico paiz vibra ainda uma corda vocal, a ultima--é a
+maledicencia. Este facto pathologico é porém de modo tal inoffensivo,
+que minuciosamente estudada a sua etiologia, conclue-se que por unica
+therapeutica deve applicar-se-lhe o despreso.
+
+Insultar é uma necessidade tão inherente ao organismo patrio, que se o
+indigena não houvera a quem fazel-o, insultar-se-hia a si mesmo.
+
+Não se combatem principios; oppõem-se abusos a abusos; á communhão da
+Liberdade não se admittem cerebros livres; tem de annullar-se a
+consciencia, em honra do opportunismo.
+
+Para ser-se _immortal_ pedem-se as credenciaes aos monarchas da opinião,
+e inscreve-se o pretendente nos clubs do elogio mutuo; não é economico,
+porque importa a dignidade dos candidatos; mas custa menos do que
+fazer-se eleger deputado de qualquer partido.
+
+Eu porém affasto-me dos microscopicos fetiches, para venerar tão só os
+privilegiados do talento, e tenho bastante valor para arrostar com os
+desdens do enfatuamento ignaro. Democrata convicta, e evangelisadora do
+livre exame--em ethica, sciencia, e politica, manifesto amplamente as
+opiniões do meu espirito, com a altiva independencia de quem se habituou
+a superar os diques verminosos da sórdida mesquinhez.
+
+Por isso estendo fraternamente a mão ao glorioso mestre da patria
+lingua, e saudando o fecundo engenho do athleta da litteratura
+portugueza, offereço-lhe despretenciosamente estes humildes versos.
+
+Lisboa 30 de abril de 1882.
+
+ _Angelina Vidal._
+
+
+
+
+I
+
+ Um côro de ovações se eleva norte a sul;
+ No seio do paiz, palpita a festa ingente,
+ Mil eccos de alegria ondulam pelo azul,
+ E a vaga popular circula vivamente.
+
+ Que enorme vibração aos tristes galvanisa?
+ Que fado deslumbrante a Patria considera?
+ Una rasgo de valor que um mundo synthetisa?
+ Um estro que irradia a Gloria pela esphera?
+
+ Um Genio que assombrasse o coração do mundo?
+ Talvez Dante ou Camões, talvez um Diderot,
+ Ou Bacon, ou Voltaire o destructor profundo,
+ Feurbach ou Galileo, Danton, Goethe, Rousseau?
+
+ Oh não! A Patria canta o athleta da Realesa,
+ O Hercules pujante, o pulso sem rival
+ Que punha até por terra as leis da Naturesa,
+ Mas que tambem erguia a fama Nacional.
+
+ Thuribulisem pois o nome do gigante,
+ Incensem sem descanço o esteio da corôa,
+ O facho da instrucção, o genio penetrante,
+ Que de um montão de cinza ergueu nova Lisboa!
+
+ Cantae, Democracia; o espirito do bravo,
+ Que o nivel fez rolar por sobre a Sociedade,
+ Prostrando o jesuitismo, ou libertando o escravo,
+ Quebrando á inquisição as garras da maldade.
+
+ Lisonja, ergue a Pombal um hymno de louvores!
+ Realça o que é brilhante, esconde o que é medonho!
+ Cerrae a porta á Historia, ó novos pensadores!
+ O mal não existiu; é falsidade, é sonho!
+
+
+II
+
+ Nove horas; a cidade acorda sob um ceu
+ De christalino azul, de transparente veu;
+ Movimenta-se a pouco a gente nas viellas,
+ Adornam-se com arte as donas e donzellas,
+ E os sinos vão chamando os fervidos catholicos
+ Aos festejos do templo, e aos canticos symbolicos.
+
+ Entoa o padre a missa, e os crentes, com respeito
+ Se curvam brandamente; habita em cada peito
+ A prece fervorosa, os orgãos gemem notas
+ Que fazem palpitar as candidas devotas.
+ Ha como que um sereno e doce mysticismo
+ Que leva os corações, em nuvens de idealismo,
+ Aos páramos do ignoto, aos vagos paradisicos,
+ Onde a crença cultiva os lirios metaphisicos.
+
+ Nas praças, os peões, laboram tristemente,
+ E n'uma gelosia um vulto sorridente
+ Espreita cuidadoso ao longo dos caminhos.
+ Passa ás vezes um nobre envolto em bons arminhos,
+ E alinham-se na rua, á porta dos conventos,
+ Os novos com preguiça, e os velhos sem proventos.
+
+ De repente porém, um intimo ruido
+ Se escuta assustador na entranha da cidade!
+ Depressa lhe succede horrivel alarido,
+ E um turbido baquear, em toda a extensidade.
+
+ Oscilla cada predio, e cahem pelo sólo
+ Desfeitos como em pó os rijos edificios;
+ E a misera Lisboa, afflicta, pólo a pólo
+ Vomita o seu terror, por igneos orificios.
+
+ Fogem as mães tremendo, os filhos junto ao seio,
+ E correm a acolher-se aos templos do Senhor;
+ Mas eis que ao grande affan do seu materno anceio
+ Ahi se expõe um quadro escuro e aterrador.
+
+ Abobadas cahindo em cima dos altares,
+ E o padre surpreendido em meio dos cantares,
+ Sem voz, sem movimento, a par de uma madona
+ Que ha muito se ostentava em seu painel de lona.
+ Creanças a chorar, columnas em pedaços,
+ Soluços do estertor, e aqui e além uns braços
+ Sob as pedras surgindo e estrebuchando a custo!...
+
+ Nas ruas e jardins não é menor o susto.
+ Rodou rapidamente o nivel da desgraça!
+ Só resta enorme entulho onde era alegre praça,
+ E os tectos ao cahir nos crepitantes lumes,
+ Erguem linguas de fogo, em cálidos queixumes.
+
+ Estala o velho tronco ao cedro gigantesco,
+ E paira em tudo o horror mortifero e dantesco.
+ E para cumular o quadro de afflicções,
+ O Tejo, saccudindo os pardos turbilhões,
+ Devora febrilmente as ruinas rescaldantes,
+ E lambe o morto, e o vivo, em saltos delirantes,
+ E abrindo o coração, sedento de vingança,
+ Abysma o forte, o fraco, o velho, a mãe, a creança!
+
+ E como se o terror gerasse a crueldade,
+ Para opprobrio veraz da crúa humanidade,
+ No cahos tumulento anda essa immunda plebe
+ Que rouba, que assassina, e apenas se apercebe,
+ Sob as nuvens de fumo e pulsações do fogo.
+
+ E o rei e o seu ministro?
+ Accaso n'esse jogo
+ Da horrifica tormenta, o ceu de azul purissimo
+ Ousaria esquecer um rei que é _fidelissimo_?
+ Quem sabe se terão cahido do vaivem?
+
+ Salvou-o Jehovah--el-rei estava em Belem?
+ ...........................................
+
+ Depressa chega ali a nova deploravel;
+ Aterra-se a nobresa; o facto lamentavel
+ Envolve em lucto e pranto innumeros varões.
+ Entreolham-se a tremer, e logo as orações
+ Se elevam para o ceu como espiraes de dôr.
+ El-rei branco de susto, os filhos com pavor
+ Percorrem os salões, idiotas e perplexos.
+
+ Mas fulgem n'um olhar uns vividos reflexos,
+ E um vulto erecto e firme encara D. José;
+ «Marquez, murmura el-rei, castigo de Deus é
+ «O horrivel cataclysmo! E agora, que afflicção!
+ «Que havemos de fazer em tal destruição?
+ «Arde toda a cidade, e estão vasios os portos»
+ --Salvemos quem viver, demos á terra os mortos.--
+ Responde friamente o imigo da utopia.
+
+ E longe de invocar a Deus ou a Maria,
+ Expede ordens de cunho e toma arduas medidas,
+ Alenta sem delonga as perigadas vidas,
+ Corta os braços á chamma, e tolhe o passo á fome;
+ Liberta o infeliz da angustia que o consome,
+ E ahi onde o devasso um roubo perpetrava,
+ Ahi a forca bruta á morte o condemnava.
+ .........................................
+ Annos depois surgia a nova capital
+ N'um throno que assentava em bases de christal.
+
+
+III
+
+ Que borburinho é esse? O Porto anda revolto?
+ Que foi que se passou?
+ Como é que invade a praça o povo irado e solto,
+ Se tanto laborou
+ El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto?
+
+ Se ha tanto beneficio, exforços tão visiveis
+ Em prol da causa publica,
+ Como podem brotar reprovações sensiveis,
+ Como é que a ideia nublica
+ Não acha na Rasão um dique d'impossiveis?
+
+ «O povo é desgraçado,» affirma a humana Historia,
+ «Mataram-lhe o Direito,
+ «E forçara-n'o a seguir a negra sorte ingloria,
+ «Calado, contrafeito,
+ «Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria!»
+
+ Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar;
+ A ignara populaça.
+ O monopolio rouba-a, era mister luctar!
+ E logo, a plebea raça
+ Reclama valorosa, em vez de supplicar.
+
+ Mas o ministro excelso havia já disposto
+ Das cousas do alto-Douro;
+ Vivesse embora a Patria em noute de desgosto.
+ Os cofres tinham ouro...
+ Que importa se a Rasão traz lagrimas no rosto?
+
+ Por isso se indignou o esteio da Realesa,
+ E os raios da vingança
+ Fabrica muito á pressa, e envia com prestesa
+ Á popular esp'rança
+ Fundada na intuição das leis da Naturesa.
+
+ E após, hórrido insulto á crença humanitaria!
+ Por um delicto falso
+ Estende-se no Porto a rede sanguinaria,
+ E o torpe cadafalso
+ Arranca friamente a vida ao triste paria!
+
+ Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua,
+ Forçaram-se a seguir
+ O sacrificio immano, onde o valor recua,
+ E a ver a mãe subir
+ A via da amargura, e escarnecida e nua!
+
+ E um homem venerando, um martyr impolluto
+ Que a Consciencia chora,
+ O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto,
+ Sereno como a aurora,
+ Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto!
+
+ O que ha que justifique o horror de taes supplicios?
+ Que espirito medonho,
+ Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios?
+ Não julga quasi um sonho
+ Que um homem só, profunde infindos precipicios?
+
+ Quem ha que não palpite em plena indignação
+ Olhando um nobre velho
+ Manchado pela affronta, exposto á impia acção.
+ Pondo um lastro vermelho,
+ Na terra onde semeia a intima afflicção.
+
+ Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta,
+ Violada em seu pudor,
+ Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta
+ Nas ancias do terror,
+ Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta?
+
+ Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto,
+ Comquanto fôra filho,
+ Havia de exprobar ao potentado morto
+ O mortuario trilho
+ Que abriu com turvo affan no coração de Porto!
+
+ Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa,
+ Comquanto fosse Mãe,
+ Havia de olvidar o astro de Lisboa,
+ Para escutar além,
+ O brado perennal que pólo a pólo sôa!
+
+ Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas;
+ Proclama-o democrata!
+ Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças
+ E dize se arrebata
+ Um nome que traduz as mais crueis offensas!
+ ............................................
+
+ E o titan que esmagava assim, rude e febril,
+ Os braços da nação, os braços productores,
+ Os ferros destruia ao escravo no Brasil,
+ E baixava ao commercio os olhos protectores!
+
+ Infando laborar! Contradicção tamanha,
+ Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo,
+ E nos traz á memoria a flórida montanha
+ Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo!
+
+ Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo
+ Quando és synthese só das leis da creação!
+ És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso,
+ Proclamas o Progresso, e dás a Destruição!
+
+ Exhaures toda a força em busca da Verdade,
+ Penetras com valor nos seculos remotos,
+ E quando julgas ver a eterna claridade
+ Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos!
+
+ Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja!
+ Que infrene marulhar na logica dos factos!
+ E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja,
+ Ha de chegar emfim aos desenganos latos.
+
+ Buscae por toda a esphera a perfeição preclara;
+ O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo;
+ A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara,
+ A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto!
+
+ A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra,
+ E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento;
+ Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra,
+ E põe um muro espesso em face ao Pensamento.
+
+ Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro,
+ Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade;
+ E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro
+ Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade!
+
+ Nos dramas do Universo ha sempre imitações
+ O fado é perennal, a fórma é transitoria;
+ Cada época produz idoneas mutações
+ E ha pontos de contacto a escurecer a Historia.
+
+ Se um dia a raça humana attinge os lisos portos
+ De seus nobres ideaes, então, forte e sublime,
+ Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos,
+ Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime.
+
+ E então, em vez de honrar ministros, generaes,
+ Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos,
+ Dará seu preito eterno ás leis universaes,
+ E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos!
+
+
+IV
+
+ Vem rompendo a manhã, dizem as aves
+ Seus canticos tranquillos e suaves.
+ As perolas da aurora, sobre as flôres,
+ Parecem lamentar ignotas dôres;
+ E a voz do pegureiro, nas collinas,
+ De envolta com as phrases purpurinas
+ Com que o espaço saúda a Humanidade,
+ Tem um cunho supremo de saudade,
+ Tem um ecco de angustia tão sentida,
+ Como a corda de uma harpa, que, partida
+ Expande pelo ether seus lamentos.
+
+ Vem rompendo a manhã, nos movimentos
+ Dos multiplos anceios luminosos
+ Que agitam sem cessar a humana arteria,
+ E transformam as lides da Materia,
+ Parecem destacar-se uns sons dolosos,
+ Que a Naturesa arranca das entranhas,
+ E que vibram no valle e nas montanhas.
+
+ E comtudo nos floridos caminhos
+ Balouçam brandamente os doces ninhos,
+ E reflectem nas limpidas correntes
+ As nuvens azuladas, transparentes,
+ Como um espelho brilhante da Consciencia,
+ E as varzeas em virente florescencia
+ Espalham pelo ambiente seus perfumes.
+
+ Mas escutam-se ao longe alguns queixumes,
+ Mas um grande alvoroto se aproxima,
+ E parece que a aurora desanima,
+ Que os doces rouxinoes tremem de susto,
+ E pende a Naturesa o roseo busto!
+
+ Quem é que vem então por essa estrada,
+ Quando apenas desperta a madrugada?
+ Que significa pois tanto tropel,
+ Que quer dizer a angustia tão cruel
+ Que pulsa ahi no seio universal?
+
+ É talvez um factor do negro mal,
+ Algum gigante audaz, filho da noute,
+ Algum Attila ou Nero, rijo açoute
+ Das coleras divinas, e illusorias,
+ Que vem correndo as turvas trajectorias
+ Do vicio, do rancor, do odio insano,
+ Até rasgar o peito ao ser humano!
+ .................................
+ É um cortejo que segue... quem será!?
+ Já passam muito perto...
+ Que numerosos são! Que vejo!... Ah!
+ Com passo frouxo e incerto
+ Caminha uma mulher, em desalinho,
+ Mais pallida que arminho.
+
+ De um lado traz o padre, e de outro o algoz
+ De ventas dilatadas
+ E a estupida expressão de um ser feroz.
+ As brancas mãos ligadas,
+ Veem roxas das auras matutinas,
+ E das correntes finas.
+
+ Cinge-lhe o corpo esvelto a alva infamante
+ Dos tristes condemnados,
+ E ás vezes solta um ai tão lancinante,
+ Que tremem magoados
+ Os proprios corações mais rancorosos,
+ E os monstros mais odiosos.
+
+ Vem seguida dos filhos e do esposo,
+ Santissima cohorte
+ Que vae cahir tambem no seio iroso
+ Da vingativa morte,
+ Que o ministro do rei, fero e iracundo,
+ Arroja sobre o mundo.
+
+ Chegam junto do poste; ahi pára tudo.
+ O algoz, sem mais respeito
+ Bate no hombro á martyr; fica mudo
+ O feminino peito,
+ Varado pela intima agonia
+ Da infrene tyrannia.
+
+ «Levanta essa cabeça, infiel traidora!
+ Ordena-lhe o carrasco;
+ «Tu serás a primeira, que és senhora!
+ E com medonho chasco
+ Procura, um por um, os instrumentos
+ Que servem aos tormentos.
+
+ «Vê marqueza de Tavora--era a triste!
+ «Que esplendidas tenazes!
+ «Sabes quanta virtude aqui persiste?
+ «São para os teus rapazes.
+ «Applico-lh'as na cara, mesmo em braza,
+ «E faço--taboa raza!
+
+ «E as torquezes? São rijas de uma vez!
+ «Agarram como o brêo!
+ «Hão de arrancar os olhos ao marquez,
+ «_Meu amo e senhor meu;_
+ «E emquanto lhe correr o pranto amargo
+ Protesto que o não largo!
+
+ «Fidalga sem vergonha, olha os cutellos
+ «Com que eu lhe parto as pernas.
+ «Agarro-lhes depois pelos cabellos,
+ «E, lanço-os nas cisternas.
+ «Porém seu coração traidor, e infausto,
+ «Dos corvos será pasto.
+
+ «Vá! Morre descançada, morre em paz,
+ «Que eu mato os teus tambem!
+ «Vão todos para o monstro Satanaz!
+ «E tu, que és boa mãe,
+ «Deves nutrir os jubilos eternos
+ «Por vel-os nos infernos!
+
+ «Mas ouve, ouve mais; teu corpo amado,
+ «Sou eu que o amortalho
+ «Nos farrapos do opprobrio e do peccado,
+ «E em cinzas o retalho.
+ «E para mór despreso demonstrar
+ «Atiro-as logo ao mar.
+
+ «Recae-a em tua fronte todo mal,
+ «Infamia e maldição!
+ «Sepulte-se n'um torpe lodaçal
+ «Teu limpido brazão,
+ «E fique para sempre o nome teu
+ «Mais vil que o de um judeu!»
+
+ A martyr, com a vista erguida ao espaço
+ Soffria silenciosa.
+ Rodeia-lhe o pescoço o frio laço
+ E a victima formosa
+ E ao ver fugir da vida os aureos brilhos
+ Só diz «Filhos, meus filhos!...»
+
+ Ó mães! Que dôr suprema isto traduz!
+ Que turbida epopeia!
+ Ó povo soffredor, fóco de luz
+ De onde irradia a Ideia,
+ Medita; o que ha de mais cruento e féro
+ No coração de um Nero?!
+
+ Como é que desce tanto a raça humana?
+ Como é que um Povo culto
+ Supporta resignado a mão tyranna
+ Que lhe arremessa o insulto,
+ E deixa ir esmagando sob as lousas
+ As filhas, mães, e esposas?
+ ....................................
+
+ Horas depois os martyres morriam
+ Ás mãos do indigno algoz;
+ Boatos na cidade percorriam
+ Porém a plebea voz
+ Produz-se eternamente no vazio...
+ Por isso... não se ouviu!
+
+ El-rei dava audiencia; ao seu ministro
+ Fel-o marquez e conde;
+ O premio era brilhante mas sinistro,
+ E a Historia ainda esconde
+ Os prantos que verteu, porque o terror
+ Suffoca os ais á Dôr!
+
+ Comtudo alguma cousa se levanta
+ A protestar com ancia;
+ Alguma aspiração sublime e santa,
+ Em firme reluctancia
+ Descobre ás gerações os negros rastros
+ Dos portentosos astros.
+
+ E chama-se Consciencia á eterna força,
+ Que os seculos correndo,
+ Sem que a linha traçada alguem contorça,
+ Pharoes vae accendendo
+ Nos angulos do turvo precipicio,
+ Onde faz ninho o vicio.
+
+ Em nome d'essa força que defende
+ O fraco, o pobre, a creança,
+ Gigante luminoso que se estende
+ Da morte á loura esp'rança,
+ É que eu reprovo a impia atrocidade
+ Da velha sociedade.
+
+ Sou democrata e mãe; procuro um norte
+ De Liberdade e Gloria;
+ Acceito essa revolta ardente e forte
+ Que faz tremer a Historia,
+ Porém condemno o immano desvario
+ Que mata a sangue frio!
+ ...........................................
+
+ Que a lei arvóre o facho augusto do Direito,
+ E vá depois cravar nos intimos do peito
+ As garras da Inclemencia,
+ Que a Lei fulmine a infamia e seja mais infame
+ Que avilte e prostitua, e contra a ignavia clame,
+ Revolta a sã Consciencia!
+
+ Se o misero infeliz que pelas praças dorme
+ Calcado pela dôr, medita o _crime enorme_
+ De procurar viver;
+ Se presa da afflicção divaga pelas ruas,
+ Sem casa nem familia, ao frio, as costas nuas,
+ E os prantos a correr;
+
+ Se a esposa que implorou á sociedade honesta
+ Um meio de vencer a fome, e a sorte infesta,
+ Se encontra repellida;
+ E para alimentar um filho, irmão ou pae,
+ Arranca o seu diadema, e sobre as lamas vae
+ Manchar-se, prostituida.
+
+ Se o orphão que vegeta a par do vicio ignobil,
+ Mais tarde é para o vicio o nauseabundo mobil,
+ Se rouba e prostitue,
+ Como ousa revoltar-se a sociedade vil,
+ Se é ella quem provoca, e desbragada e hostil,
+ Perverte e não instrue?
+
+ Que pensamento assiste aos monstruosos codigos?
+ Se os papas, deuses, reis, no crime hão de ser prodigos,
+ Como é que a lei castiga
+ Um ser vidente e bom, que aclara a escuridão
+ Com o facho viril da leal Revolução?
+ Como é que a Lei intriga?
+
+ Como é que ella protege o roubador agiota,
+ E arrasta na enxovia o desgraçado illota
+ Que a fome fez baquear
+ Nos pelagos do mal? Ó sociedade absurda!
+ Á voz da Naturesa, a lei ha de ser surda
+ E o odio ha de julgar!
+
+ .........................................
+
+ Matar uma mulher que é mãe, que é democrata,
+ Assassinar sem dó a esposa aristocrata,
+ Junto dos filhos seus,
+ É por egual cruel, é por egual maldito!
+ E havia de fazer chorar todo o infinito,
+ Se acaso houvera um Deus!
+
+ Por mim, que offerto o culto ao que é sereno e puro,
+ Que adoro o Bem sublime, e odeio quanto é duro,
+ Que não conheço a fé,
+ Protesto contra a morte infausta de Antonietta,
+ De Sophia, Leonor, Rolland, gentil athleta,
+ De Tavora e Corday!
+
+ A mão que referenda o crime da injustiça,
+ Quando podia erguer da deleteria liça
+ Um sol ou um jasmim,
+ Assigna, sem pensar, o perennal deslustre
+ De um seculo, de um nome, ou de um paiz illustre,
+ Da Humanidade emfim!
+
+
+V
+
+ Como ha de pois a Historia olhar esse Gigante,
+ Que tinha em si a morte, o Bem, a luz e o crime?
+ Que ora se eleva a um mundo altivo e coruscante
+ E logo gera um mal que a Gloria não redime?
+ Elle era um diplomata, um patriota, um merito,
+ Podia ser tambem um nobre benemerito
+ Levando o Povo Luso ás concepções do Justo,
+ Se em vez de ser feroz, de ter um genio adusto
+ Voltasse ao sentimento um coração suave.
+
+ Julgou que ser tyranno era o mister mais grave
+ Do ministro de um rei!
+ Fez um docel de sangue ao tribunal da Lei,
+ Poz um manto de lucto aos hombros da Justiça,
+ Pisou raivoso o clero, e foi ouvir-lhe a missa,
+ E como affirmação da ideia monarchista
+ Dos nobres ao plebeu traçou a rubra lista.
+
+ Como ha de pois a Historia olhar o athleta ousado?
+
+ Pesando com criterio os factos do passado,
+ Seguindo passo a passo o luminoso accesso
+ Da Sciencia e do Progresso.
+ ........................................
+
+ Ha muito que na Europa o sopro percorria
+ Da clara discussão da sã philosophia.
+ Desde o seculo doze, a duvida christã,
+ Buscava escalpellar o craneo de Satan.
+ Pierre d'Abelard examinara a crença,
+ E via já na fé uma utopia immensa.
+ Breve, Thomaz d'Aquino, imigo da Rasão,
+ Antepunha ao Progresso a fera inquisição.
+ Mas Bacon, um titan, repelle a fé-cahotica,
+ E dando luz á Optica
+ Recebe uma intuição da Sciencia positiva.
+ Então larga a rotina, e só na lide activa
+ Depoz a base firme á ideia demonstravel.
+ Foi elle um ser vidente, e concebeu provavel,
+ Toda a gloria vindoura; em seu nobre labor
+ Meditava o progresso enorme do vapor;
+ Mas como em sua frente a infamia não assoma,
+ Foi um martyr da Sciencia, e victima de Roma,
+ A eterna desbragada, a eterna prostituta
+ Que as gerações enlucta.
+
+ Mas o germen vingou; surgiu em breve a imprensa,
+ Excelso meteoro, a realidade immensa
+ Que faz de Guttemberg um centro luminoso!
+ Ia baquear em terra um deus medonho e iroso;
+ Ia a Ideia pulsar na mente e força do Homem!
+ E como as trevas somem
+ Os raios de um bom sol, assim o novo invento
+ Abria par em par a estrada ao Pensamento!
+
+ O Genio eternisava em breve a Pomponace,
+ E o forte Rabelais batia face a face
+ A escolastica, e a lei theocratica e politica,
+ Bem como o abuso annexo á concepção juridica.
+
+ A Patria lusitana, a joia do Occidente
+ Á Europa mostra então o poeta Gil Vicente,
+ Que açouta o clero hostil com látegos de risos,
+ E nem sequer poupando os _santos paraisos_.
+ Na praça era o judeu sujeito a atrocidades;
+ Na côrte, D. Manuel escarnecia os frades.
+
+ Havia pois de um lado a força da rotina
+ E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina.
+
+ Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode,
+ Roma chega raivosa, e vê que nada póde.
+ Copernico affirmava a terrea rotação,
+ Perdia o seu prestigio a _santa_ religião!
+ Forçoso era impedir a affronta d'essa Idéa!
+ O sabio ponderou, que outr'ora na Chaldéa
+ Se havia já mostrado o movimento á Terra;
+ Porém a Curia segue em furibunda guerra,
+ E condemnou-lhe a obra.
+
+ Mas eis um luctador que a força audaz redobra,
+ E com coragem fria
+ Procura no infinito as leis da astronomia.
+ Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu.
+
+ E o mundo olha assombrado o insigne Galileu,
+ Que segue passo a passo
+ O trajecto eternal dos mundos pelo espaço.
+
+ Se ha nome que de Gloria esplenda no universo,
+ É o d'esse velho nobre
+ Que o clero punge e arrasta, em dôr, e pranto immerso,
+ Mas que ao Genio descobre
+ A esteira do futuro, a via dos heroes
+ Que põem no Progresso os rubidos pharoes!
+
+ A quéda do Oriente, estremecer convulso
+ Havia dado á Ideia um vigoroso impulso,
+ Civilisando a mente e pondo em toda a parte
+ O gosto da Poesia, e pelos brilhos da arte.
+ Então o aureo paiz dos inclitos varões
+ Produz um sol gigante o esplendido CAMÕES,
+ A synthese do Genio, um estro democrata
+ Assombro dos Ideaes, talento que arrebata!
+
+ Que bella actividade! Um cyclo era uma escola
+ De sublimado intento!...
+ Porém vê-se descer o manto de Loyola
+ Por cima d'esse advento,
+ E logo a aurora cae nas garras do terror,
+ E logo a humana gloria exprime no estertor
+ Que a prostra um assassino!
+
+ Comtudo avança o Bem! Luthero, Huss e Calvino
+ Feriram mortalmente
+ O abuso, a tyrannia e o repugnante agente
+ Das penas infernaes,
+ Geradas no rancor das hyenas clericaes.
+
+ A lucta assim travada é turbulenta e audaz!
+ De um lado impera altivo o monstro Satanaz.
+ E do outro a aspiração das comprovadas cousas.
+ A aurora veste lucto, a terra veste lousas,
+ E o sangue corre a flux no precipicio escuro...
+
+ Mas elle fecundou os germens do Futuro!
+ .......................................
+
+ Keppler, Newton, Brahé, tinham desfeito o mytho
+ Da creação divina; os livros do infinito
+ Já tinham revelado, em phrases de planetas
+ Da grande lei sidérea as deslumbrantes metas.
+
+ Descartes ampliára as lucidas conquistas
+ E profundára o abysmo ás vãs ficções deistas;
+ E como o jesuitismo erguesse um throno ao mal,
+ Surgiu-lhe o valoroso e hostil Blaise Pascal,
+ Com satyra cortante e lucido criterio,
+ Traçando-lhe no Tempo o eterno cemiterio.
+
+ Desfibrava-se a pouco a lenda theologica,
+ E punha-se a attenção na historia geologica,
+ Gognel, Jussieu, Buffon, tinham rasgado a entranha
+ No valle, e na montanha,
+ Á esphera onde se agita o Genio e o desatino.
+ Seguiram-lhe o trajecto um Pallas e Arduino,
+ E todos, sem sentir,
+ Fizeram o passado esmorecer, ruir.
+
+ A antiga historia china oppunha-se á utopia
+ Da lenda de Moysés; a sciencia cada dia
+ Os cerebros levava á nova experiencia,
+ Que em breve provaria á forte intelligencia
+ A historia da Materia
+ No mar, na vida, e morte, e sons, e luz etherea.
+ ................................................
+ Brotava na Consciencia a aspiração politica;
+ Deixara a Inglaterra a fórmula mephitica,
+ E em todos os sentidos
+ Se pressentiam já os turbidos ruidos.
+ Voltaire e Diderot entravam no futuro.
+ Desmoronando o muro
+ Que ainda protegia a treva e o fanatismo.
+ Ficou pois fulminada a crença e o mysticismo!
+ Nenhum abrigo havia aos golpes do alvião
+ Vibrados pela firme e rija Evolução.
+ Os reis, mesmo a sorrir abriam o jazigo,
+ Onde ia sepultar-se o clero, o seu amigo,
+ Sem verem que aluida a base do edificio
+ Que tem por cima o odio, e em baixo o precipicio,
+ Desaba fatalmente em multiplas bastilhas.
+
+ Tinham sulcado o oceano as portuguezas quilhas,
+ E o genio dos heroes deixara esteiras certas
+ Á bella exploração das ricas descobertas.
+ No clima luxuriante, e terras do Equador
+ Eram a flóra e fauna os ninhos do esplendor,
+ E o Homem que estudava, o Homem já sabia
+ Que Deus era ignorante, e muito, em Geographia.
+ ..............................................
+ N'este mar revoltoso é que se eleva o homem
+ Que uns coroam de luz, outros na campa somem!
+
+
+VI
+
+ O marquez de Pombal, producto do seu meio,
+ Trazia na Consciencia o salutar anceio
+ Das santas cousas bellas.
+ Mas um facto mental, o facto do attavismo,
+ Acorrentava-o sempre ao velho despotismo
+ Dos thronos e das cellas.
+
+ A corrente soprada além, da heroica França,
+ Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança
+ Das creações mais caras;
+ Porém n'esse combate imigo do Direito,
+ Cedia tristemente á voz do Preconceito,
+ E ás perversões ignaras.
+
+ Demonstra-o fartamente o proceder confuso
+ Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso
+ De mortes e afflicção,
+ Curando juntamente, e com visivel gloria,
+ De lhe aplainar a rude e fria trajectoria,
+ Por meio da instrucção.
+
+ Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho
+ Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho
+ Do seculo passado,
+ Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas,
+ Expostos com vigor, e com profundas vistas
+ De um espirito avançado.
+
+ Comprova-o a friesa usada com Fylinto
+ Que longe do seu ninho, o doce riso extincto,
+ Chorava, em lyra de ouro,
+ As ruinas da ventura, o azul do patrio lar,
+ As aguas do Mondego, e as vibrações do luar
+ Entre os jasmins e o louro.
+
+ A ethopéa social dos seculos transactos,
+ Reflecte-se e vigora em seus funestos actos.
+ Fluctua sem cessar seu espirito viril,
+ Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil.
+ Mas n'elle transparece uma tendencia rude
+ Que punge a leal Virtude!
+
+ A statica mental aperta-a pelos pulsos;
+ E a dynamica então imprime-lhe os impulsos
+ Da progressiva lida;
+ E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida.
+
+ Porém quando abordou á estancia derradeira
+ Deixava atraz de si a sanguinosa esteira,
+ Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança
+ Reclamam com vigor criterio e segurança
+ Ao tribunal da Historia, onde serão julgados
+ Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados.
+ ..............................................
+ Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz,
+ Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus
+ O affecto que daria a irmão, se irmão tivera,
+ Venero o positivo, e nunca a van chimera.
+
+ Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso,
+ Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso,
+ As heras infantis que enleio na Consciencia,
+ A força que me impelle á lucta da inclemencia
+ Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas
+ Odeia a quem cultiva as rosas christalinas
+ No coração do Bem, Progresso e Liberdade,
+ Seguem a religião do Justo e da Verdade,
+ É a sua crença ideal,
+ Resume-se no amor do seu sentir filial.
+
+ Mas tendo a mente forte e despresando os idolos,
+ E combatendo firme os monumentos frivolos,
+ Politico-sociaes,
+ Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes
+ Da vida do marquez,
+ E vejo com tristesa o nome portuguez
+ Coberto pelo horror,
+ Quando podia ser um foco de explendor.
+
+ A queda do jesuita é justa, é rasoavel;
+ Expulsa essa barreira imiga insuperavel,
+ Podia a sociedade erguer-se da ignorancia,
+ Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia
+ Ao Pensamento novo, a santa aspiração!
+
+ É digno de louvor quebrar á inquisição
+ Os braços da vingança a ira da torpesa.
+
+ Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa,
+ Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente,
+ Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente,
+ Rojado pelo chão, manchado pela lama!
+ E pelas nações clama
+ A Ideia humanitaria, amena, e justiceira,
+ Vendo arrojar um ente á estupida fogueira!
+
+ E embora fosse um padre, embora um jesuita,
+ Embora fosse irmão da raça atroz, precita,
+ A minha voz sentida
+ Protesta contra a morte imposta a Malagrida!
+ Protesto! E emquanto houver
+ Um coração de luz em peito de mulher,
+ Meu brado ha de correr nos angulos do mundo,
+ E em todo o mar fecundo!
+
+
+VII
+
+ Que se ha de então fazer aos grandes luctadores,
+ Que lançam sobre a Historia as olorosas flores,
+ E regam com seu sangue os fructos do porvir?
+ Que fontes de esplendor iremos nós abrir
+ Ao vidente Danton, a Lincoln, a Blanqui,
+ O martyr que sorri
+ Por entre a cerração da noute do tormento?
+ Que havemos de offertar aos soes do Pensamento?
+
+ Nunca apoiei Thiers, nem o chacal da Russia!
+ Detesto a immanidade, e a vingativa astucia...
+ O sangue da Communa, as lagrimas de Jessa,
+ Formaram no silencio a fulgida cabeça
+ Da indomavel revolta!
+
+ O monstro que commanda, em meio de uma escolta
+ As manobras crueis que geram a orphandade,
+ É mais feroz que um tigre, e avilta a Humanidade,
+ E deve ter na mente
+ A infamia de Javheh, e os odios da serpente.
+
+ Como hei de eu incensar a monarchista treva?
+ Como hei de então louvar um ser de fronte seva?
+ Pombal beijou a patria, e espedaçou-lhe o seio;
+ Fez guerra ao Preconceito, e prostergou o anceio
+ Dos crentes do porvir!
+ Levou seu nome á Gloria, e fel-o após cahir.
+
+ No sangue inda escorrega
+ Quem segue a lusa historia. A sã Justiça nega
+ Um preito, a quem desdenha a humanitaria via,
+ E lança a Liberdade ás palhas da enxovia.
+
+ Fique acima de tudo o limpido criterio;
+ Formar uma cidade onde era um cemiterio
+ Seria expôr a vida aos morbidos prejuizos.
+ Vasar em molde infiel historicos juizos
+ Será viciar tambem o pensamento ao Povo.
+
+ Justiça! Ha de o vindouro escalpellar de novo
+ A nossa actividade; e então... tremendo encargo!
+ Ou ha de ter no peito um sentimento amargo
+ Ou ha de achar mesquinha a obra dos avós!
+
+ Salvemos o Futuro, e que elle creia em nós!
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal á luz da
+Philosophia, by Angelina Vidal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
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+ <title>O marquez de Pombal á luz da philosophia, por Angelina Vidal</title>
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+The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal á luz da Philosophia, by
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
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+Title: O Marquez de Pombal á luz da Philosophia
+
+Author: Angelina Vidal
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+Release Date: November 14, 2008 [EBook #27255]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
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+
+<div align="center">
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="font-size: 2em; font-weight: bold;">O MARQUEZ DE POMBAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">Á LUZ DA PHILOSOPHIA</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="capa">
+<p style="font-size: 1.1em; font-weight: bold;">ANGELINA VIDAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">O MARQUEZ DE POMBAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">Á LUZ DA PHILOSOPHIA</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br>
+
+IMPRENSA DA VIUVA SOUSA NEVES<br>
+
+65, Rua da Atalaia, 67<br>
+
+1882</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div align="center">
+<p style="font-size: 1.3em;">A</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<h1>ESCRIPTOR ILLUSTRE</h1>
+
+<p>Estamos em pleno jubileo.</p>
+
+<p>Cada época traz o seu cunho caracteristico de exagero, e tristes dos que
+se affoutam a soltar qualquer nota discordante no concerto da lisonja
+publica.</p>
+
+<p>No meio d'este anemico paiz vibra ainda uma corda vocal, a ultima--é a
+maledicencia. Este facto pathologico é porém de modo tal inoffensivo, que
+minuciosamente estudada a sua etiologia, conclue-se que por unica
+therapeutica deve applicar-se-lhe o despreso.</p>
+
+<p>Insultar é uma necessidade tão inherente ao organismo patrio, que se o
+indigena não houvera a quem fazel-o, insultar-se-hia a si mesmo.</p>
+
+<p>Não se combatem principios; oppõem-se abusos a abusos; á communhão da
+Liberdade não se admittem cerebros livres; tem de annullar-se a consciencia,
+em honra do opportunismo.</p>
+
+<p>Para ser-se <i>immortal</i> pedem-se as credenciaes aos monarchas da
+opinião, e inscreve-se o pretendente nos clubs do elogio
+mutuo; não é economico, porque importa a dignidade dos candidatos; mas custa
+menos do que fazer-se eleger deputado de qualquer partido.</p>
+
+<p>Eu porém affasto-me dos microscopicos fetiches, para venerar tão só os
+privilegiados do talento, e tenho bastante valor para arrostar com os desdens
+do enfatuamento ignaro. Democrata convicta, e evangelisadora do livre
+exame--em ethica, sciencia, e politica, manifesto amplamente as opiniões do
+meu espirito, com a altiva independencia de quem se habituou a superar os
+diques verminosos da sórdida mesquinhez. </p>
+
+<p>Por isso estendo fraternamente a mão ao glorioso mestre da patria lingua,
+e saudando o fecundo engenho do athleta da litteratura portugueza,
+offereço-lhe despretenciosamente estes humildes versos.</p>
+
+<p><small>Lisboa 30 de abril de 1882.</small></p>
+
+<p class="direita"><i>Angelina Vidal.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>I</h2>
+
+<blockquote>
+ Um côro de ovações se eleva norte a sul;<br>
+ No seio do paiz, palpita a festa ingente,<br>
+ Mil eccos de alegria ondulam pelo azul,<br>
+ E a vaga popular circula vivamente.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que enorme vibração aos tristes galvanisa?<br>
+ Que fado deslumbrante a Patria considera?<br>
+ Una rasgo de valor que um mundo synthetisa?<br>
+ Um estro que irradia a Gloria pela esphera?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Um Genio que assombrasse o coração do mundo?<br>
+ Talvez Dante ou Camões, talvez um Diderot,<br>
+ Ou Bacon, ou Voltaire o destructor profundo,<br>
+ Feurbach ou Galileo, Danton, Goethe, Rousseau?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Oh não! A Patria canta o athleta da Realesa,<br>
+ O Hercules pujante, o pulso sem rival<br>
+ Que punha até por terra as leis da Naturesa,<br>
+ Mas que tambem erguia a fama Nacional.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Thuribulisem pois o nome do gigante,<br>
+ Incensem sem descanço o esteio da corôa,<br>
+ O facho da instrucção, o genio penetrante,<br>
+ Que de um montão de cinza ergueu nova Lisboa!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Cantae, Democracia; o espirito do bravo,<br>
+ Que o nivel fez rolar por sobre a Sociedade,<br>
+ Prostrando o jesuitismo, ou libertando o escravo,<br>
+ Quebrando á inquisição as garras da maldade. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Lisonja, ergue a Pombal um hymno de louvores!<br>
+ Realça o que é brilhante, esconde o que é medonho!<br>
+ Cerrae a porta á Historia, ó novos pensadores!<br>
+ O mal não existiu; é falsidade, é sonho!</blockquote>
+
+<h2>II</h2>
+
+<blockquote>
+ Nove horas; a cidade acorda sob um ceu<br>
+ De christalino azul, de transparente veu;<br>
+ Movimenta-se a pouco a gente nas viellas,<br>
+ Adornam-se com arte as donas e donzellas,<br>
+ E os sinos vão chamando os fervidos catholicos<br>
+ Aos festejos do templo, e aos canticos symbolicos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Entoa o padre a missa, e os crentes, com respeito<br>
+ Se curvam brandamente; habita em cada peito<br>
+ A prece fervorosa, os orgãos gemem notas<br>
+ Que fazem palpitar as candidas devotas.<br>
+ Ha como que um sereno e doce mysticismo<br>
+ Que leva os corações, em nuvens de idealismo,<br>
+ Aos páramos do ignoto, aos vagos paradisicos,<br>
+ Onde a crença cultiva os lirios metaphisicos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Nas praças, os peões, laboram tristemente,<br>
+ E n'uma gelosia um vulto sorridente<br>
+ Espreita cuidadoso ao longo dos caminhos.<br>
+ Passa ás vezes um nobre envolto em bons arminhos,<br>
+ E alinham-se na rua, á porta dos conventos,<br>
+ Os novos com preguiça, e os velhos sem proventos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ De repente porém, um intimo ruido<br>
+ Se escuta assustador na entranha da cidade!<br>
+ Depressa lhe succede horrivel alarido,<br>
+ E um turbido baquear, em toda a extensidade.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Oscilla cada predio, e cahem pelo sólo<br>
+ Desfeitos como em pó os rijos edificios;<br>
+ E a misera Lisboa, afflicta, pólo a pólo<br>
+ Vomita o seu terror, por igneos orificios.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Fogem as mães tremendo, os filhos junto ao seio,<br>
+ E correm a acolher-se aos templos do Senhor;<br>
+ Mas eis que ao grande affan do seu materno anceio<br>
+ Ahi se expõe um quadro escuro e aterrador.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Abobadas cahindo em cima dos altares,<br>
+ E o padre surpreendido em meio dos cantares,<br>
+ Sem voz, sem movimento, a par de uma madona<br>
+ Que ha muito se ostentava em seu painel de lona.<br>
+ Creanças a chorar, columnas em pedaços,<br>
+ Soluços do estertor, e aqui e além uns braços<br>
+ Sob as pedras surgindo e estrebuchando a custo!...</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Nas ruas e jardins não é menor o susto.<br>
+ Rodou rapidamente o nivel da desgraça!<br>
+ Só resta enorme entulho onde era alegre praça,<br>
+ E os tectos ao cahir nos crepitantes lumes,<br>
+ Erguem linguas de fogo, em cálidos queixumes.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Estala o velho tronco ao cedro gigantesco,<br>
+ E paira em tudo o horror mortifero e dantesco.<br>
+ E para cumular o quadro de afflicções,<br>
+ O Tejo, saccudindo os pardos turbilhões,<br>
+ Devora febrilmente as ruinas rescaldantes,<br>
+ E lambe o morto, e o vivo, em saltos delirantes,<br>
+ E abrindo o coração, sedento de vingança,<br>
+ Abysma o forte, o fraco, o velho, a mãe, a creança! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ E como se o terror gerasse a crueldade,<br>
+ Para opprobrio veraz da crúa humanidade,<br>
+ No cahos tumulento anda essa immunda plebe<br>
+ Que rouba, que assassina, e apenas se apercebe,<br>
+ Sob as nuvens de fumo e pulsações do fogo.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E o rei e o seu ministro?<br>
+                          Accaso n'esse jogo<br>
+ Da horrifica tormenta, o ceu de azul purissimo<br>
+ Ousaria esquecer um rei que é <i>fidelissimo</i>?<br>
+ Quem sabe se terão cahido do vaivem?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Salvou-o Jehovah--el-rei estava em Belem?<br>
+ ...........................................</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Depressa chega ali a nova deploravel;<br>
+ Aterra-se a nobresa; o facto lamentavel<br>
+ Envolve em lucto e pranto innumeros varões.<br>
+ Entreolham-se a tremer, e logo as orações<br>
+ Se elevam para o ceu como espiraes de dôr.<br>
+ El-rei branco de susto, os filhos com pavor<br>
+ Percorrem os salões, idiotas e perplexos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas fulgem n'um olhar uns vividos reflexos,<br>
+ E um vulto erecto e firme encara D. José;<br>
+ «Marquez, murmura el-rei, castigo de Deus é<br>
+ «O horrivel cataclysmo! E agora, que afflicção!<br>
+ «Que havemos de fazer em tal destruição?<br>
+ «Arde toda a cidade, e estão vasios os portos»<br>
+ --Salvemos quem viver, demos á terra os mortos.--<br>
+ Responde friamente o imigo da utopia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E longe de invocar a Deus ou a Maria,<br>
+ Expede ordens de cunho e toma arduas medidas,<br>
+ Alenta sem delonga as perigadas vidas,<br>
+ Corta os braços á chamma, e tolhe o passo á fome;<br>
+ Liberta o infeliz da angustia que o consome,<br>
+ E ahi onde o devasso um roubo perpetrava,<br>
+ Ahi a forca bruta á morte o condemnava.<br>
+ .........................................<br>
+ Annos depois surgia a nova capital<br>
+ N'um throno que assentava em bases de christal.
+</blockquote>
+
+<h2>III</h2>
+
+<blockquote>
+ Que borburinho é esse? O Porto anda revolto?<br>
+         Que foi que se passou?<br>
+ Como é que invade a praça o povo irado e solto,<br>
+         Se tanto laborou<br>
+ El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se ha tanto beneficio, exforços tão visiveis<br>
+         Em prol da causa publica, <br>
+ Como podem brotar reprovações sensiveis,<br>
+         Como é que a ideia nublica<br>
+ Não acha na Rasão um dique d'impossiveis?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «O povo é desgraçado,» affirma a humana Historia, <br>
+         «Mataram-lhe o Direito,<br>
+ «E forçara-n'o a seguir a negra sorte ingloria,<br>
+         «Calado, contrafeito, <br>
+ «Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria!»</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar;<br>
+         A ignara populaça. <br>
+ O monopolio rouba-a, era mister luctar!<br>
+         E logo, a plebea raça<br>
+ Reclama valorosa, em vez de supplicar.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas o ministro excelso havia já disposto<br>
+         Das cousas do alto-Douro; <br>
+ Vivesse embora a Patria em noute de desgosto.<br>
+         Os cofres tinham ouro... <br>
+ Que importa se a Rasão traz lagrimas no rosto?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Por isso se indignou o esteio da Realesa,<br>
+         E os raios da vingança<br>
+ Fabrica muito á pressa, e envia com prestesa<br>
+         Á popular esp'rança<br>
+ Fundada na intuição das leis da Naturesa.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E após, hórrido insulto á crença humanitaria! <br>
+         Por um delicto falso<br>
+ Estende-se no Porto a rede sanguinaria,<br>
+         E o torpe cadafalso<br>
+ Arranca friamente a vida ao triste paria!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua,<br>
+         Forçaram-se a seguir <br>
+ O sacrificio immano, onde o valor recua,<br>
+         E a ver a mãe subir <br>
+ A via da amargura, e escarnecida e nua!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E um homem venerando, um martyr impolluto<br>
+         Que a Consciencia chora, <br>
+ O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto,<br>
+         Sereno como a aurora,<br>
+ Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ O que ha que justifique o horror de taes supplicios?<br>
+         Que espirito medonho,<br>
+ Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios?<br>
+         Não julga quasi um sonho<br>
+ Que um homem só, profunde infindos precipicios?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quem ha que não palpite em plena indignação<br>
+         Olhando um nobre velho<br>
+ Manchado pela affronta, exposto á impia acção.<br>
+         Pondo um lastro vermelho, <br>
+ Na terra onde semeia a intima afflicção.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta,<br>
+         Violada em seu pudor,<br>
+ Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta<br>
+         Nas ancias do terror,<br>
+ Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto,<br>
+         Comquanto fôra filho, <br>
+ Havia de exprobar ao potentado morto<br>
+         O mortuario trilho<br>
+ Que abriu com turvo affan no coração de Porto!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa,<br>
+         Comquanto fosse Mãe, <br>
+ Havia de olvidar o astro de Lisboa,<br>
+         Para escutar além, <br>
+ O brado perennal que pólo a pólo sôa!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas;<br>
+         Proclama-o democrata!<br>
+ Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças<br>
+         E dize se arrebata<br>
+ Um nome que traduz as mais crueis offensas!<br>
+ ............................................</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E o titan que esmagava assim, rude e febril,<br>
+ Os braços da nação, os braços productores,<br>
+ Os ferros destruia ao escravo no Brasil,<br>
+ E baixava ao commercio os olhos protectores!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Infando laborar! Contradicção tamanha,<br>
+ Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo,<br>
+ E nos traz á memoria a flórida montanha<br>
+ Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo<br>
+ Quando és synthese só das leis da creação!<br>
+ És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso,<br>
+ Proclamas o Progresso, e dás a Destruição! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Exhaures toda a força em busca da Verdade,<br>
+ Penetras com valor nos seculos remotos,<br>
+ E quando julgas ver a eterna claridade<br>
+ Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja!<br>
+ Que infrene marulhar na logica dos factos!<br>
+ E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja,<br>
+ Ha de chegar emfim aos desenganos latos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Buscae por toda a esphera a perfeição preclara;<br>
+ O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo;<br>
+ A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara,<br>
+ A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra,<br>
+ E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento;<br>
+ Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra,<br>
+ E põe um muro espesso em face ao Pensamento.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro,<br>
+ Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade;<br>
+ E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro<br>
+ Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Nos dramas do Universo ha sempre imitações<br>
+ O fado é perennal, a fórma é transitoria;<br>
+ Cada época produz idoneas mutações<br>
+ E ha pontos de contacto a escurecer a Historia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se um dia a raça humana attinge os lisos portos<br>
+ De seus nobres ideaes, então, forte e sublime,<br>
+ Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos,<br>
+ Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E então, em vez de honrar ministros, generaes,<br>
+ Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos,<br>
+ Dará seu preito eterno ás leis universaes,<br>
+ E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos!</blockquote>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<blockquote>
+ Vem rompendo a manhã, dizem as aves<br>
+ Seus canticos tranquillos e suaves.<br>
+ As perolas da aurora, sobre as flôres,<br>
+ Parecem lamentar ignotas dôres;<br>
+ E a voz do pegureiro, nas collinas,<br>
+ De envolta com as phrases purpurinas<br>
+ Com que o espaço saúda a Humanidade,<br>
+ Tem um cunho supremo de saudade,<br>
+ Tem um ecco de angustia tão sentida,<br>
+ Como a corda de uma harpa, que, partida<br>
+ Expande pelo ether seus lamentos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Vem rompendo a manhã, nos movimentos<br>
+ Dos multiplos anceios luminosos<br>
+ Que agitam sem cessar a humana arteria,<br>
+ E transformam as lides da Materia,<br>
+ Parecem destacar-se uns sons dolosos,<br>
+ Que a Naturesa arranca das entranhas,<br>
+ E que vibram no valle e nas montanhas.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E comtudo nos floridos caminhos<br>
+ Balouçam brandamente os doces ninhos,<br>
+ E reflectem nas limpidas correntes<br>
+ As nuvens azuladas, transparentes,<br>
+ Como um espelho brilhante da Consciencia,<br>
+ E as varzeas em virente florescencia<br>
+ Espalham pelo ambiente seus perfumes.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas escutam-se ao longe alguns queixumes,<br>
+ Mas um grande alvoroto se aproxima,<br>
+ E parece que a aurora desanima,<br>
+ Que os doces rouxinoes tremem de susto,<br>
+ E pende a Naturesa o roseo busto!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quem é que vem então por essa estrada,<br>
+ Quando apenas desperta a madrugada?<br>
+ Que significa pois tanto tropel,<br>
+ Que quer dizer a angustia tão cruel<br>
+ Que pulsa ahi no seio universal?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ É talvez um factor do negro mal,<br>
+ Algum gigante audaz, filho da noute,<br>
+ Algum Attila ou Nero, rijo açoute<br>
+ Das coleras divinas, e illusorias,<br>
+ Que vem correndo as turvas trajectorias<br>
+ Do vicio, do rancor, do odio insano,<br>
+ Até rasgar o peito ao ser humano!<br>
+ .................................<br>
+ É um cortejo que segue... quem será!?<br>
+         Já passam muito perto...<br>
+ Que numerosos são! Que vejo!... Ah!<br>
+         Com passo frouxo e incerto <br>
+ Caminha uma mulher, em desalinho,<br>
+         Mais pallida que arminho.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ De um lado traz o padre, e de outro o algoz<br>
+         De ventas dilatadas<br>
+ E a estupida expressão de um ser feroz.<br>
+         As brancas mãos ligadas,<br>
+ Veem roxas das auras matutinas,<br>
+         E das correntes finas. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Cinge-lhe o corpo esvelto a alva infamante<br>
+         Dos tristes condemnados, <br>
+ E ás vezes solta um ai tão lancinante,<br>
+         Que tremem magoados<br>
+ Os proprios corações mais rancorosos,<br>
+         E os monstros mais odiosos. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Vem seguida dos filhos e do esposo,<br>
+         Santissima cohorte<br>
+ Que vae cahir tambem no seio iroso<br>
+         Da vingativa morte,<br>
+ Que o ministro do rei, fero e iracundo,<br>
+         Arroja sobre o mundo. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Chegam junto do poste; ahi pára tudo.<br>
+         O algoz, sem mais respeito <br>
+ Bate no hombro á martyr; fica mudo<br>
+         O feminino peito,<br>
+ Varado pela intima agonia<br>
+         Da infrene tyrannia. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Levanta essa cabeça, infiel traidora!<br>
+         Ordena-lhe o carrasco;<br>
+ «Tu serás a primeira, que és senhora!<br>
+         E com medonho chasco<br>
+ Procura, um por um, os instrumentos<br>
+         Que servem aos tormentos. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Vê marqueza de Tavora--era a triste!<br>
+         «Que esplendidas tenazes!<br>
+ «Sabes quanta virtude aqui persiste?<br>
+         «São para os teus rapazes.<br>
+ «Applico-lh'as na cara, mesmo em braza,<br>
+         «E faço--taboa raza!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «E as torquezes? São rijas de uma vez!<br>
+         «Agarram como o brêo!<br>
+ «Hão de arrancar os olhos ao marquez,<br>
+         «<i>Meu amo e senhor meu;</i><br>
+ «E emquanto lhe correr o pranto amargo<br>
+         Protesto que o não largo!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Fidalga sem vergonha, olha os cutellos<br>
+         «Com que eu lhe parto as pernas.<br>
+ «Agarro-lhes depois pelos cabellos,<br>
+         «E, lanço-os nas cisternas.<br>
+ «Porém seu coração traidor, e infausto,<br>
+         «Dos corvos será pasto.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Vá! Morre descançada, morre em paz,<br>
+         «Que eu mato os teus tambem!<br>
+ «Vão todos para o monstro Satanaz!<br>
+         «E tu, que és boa mãe,<br>
+ «Deves nutrir os jubilos eternos<br>
+         «Por vel-os nos infernos!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Mas ouve, ouve mais; teu corpo amado,<br>
+         «Sou eu que o amortalho<br>
+ «Nos farrapos do opprobrio e do peccado,<br>
+         «E em cinzas o retalho.<br>
+ «E para mór despreso demonstrar<br>
+         «Atiro-as logo ao mar.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Recae-a em tua fronte todo mal,<br>
+         «Infamia e maldição!<br>
+ «Sepulte-se n'um torpe lodaçal<br>
+         «Teu limpido brazão,<br>
+ «E fique para sempre o nome teu<br>
+         «Mais vil que o de um judeu!»</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A martyr, com a vista erguida ao espaço<br>
+         Soffria silenciosa.<br>
+ Rodeia-lhe o pescoço o frio laço<br>
+         E a victima formosa<br>
+ E ao ver fugir da vida os aureos brilhos<br>
+         Só diz «Filhos, meus filhos!...»</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ó mães! Que dôr suprema isto traduz!<br>
+         Que turbida epopeia!<br>
+ Ó povo soffredor, fóco de luz<br>
+         De onde irradia a Ideia, <br>
+ Medita; o que ha de mais cruento e féro<br>
+         No coração de um Nero?!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Como é que desce tanto a raça humana?<br>
+         Como é que um Povo culto<br>
+ Supporta resignado a mão tyranna<br>
+         Que lhe arremessa o insulto,<br>
+ E deixa ir esmagando sob as lousas<br>
+         As filhas, mães, e esposas?<br>
+ ....................................</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Horas depois os martyres morriam<br>
+         Ás mãos do indigno algoz;<br>
+ Boatos na cidade percorriam<br>
+         Porém a plebea voz <br>
+ Produz-se eternamente no vazio...<br>
+         Por isso... não se ouviu!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ El-rei dava audiencia; ao seu ministro<br>
+         Fel-o marquez e conde;<br>
+ O premio era brilhante mas sinistro,<br>
+         E a Historia ainda esconde <br>
+ Os prantos que verteu, porque o terror<br>
+         Suffoca os ais á Dôr!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Comtudo alguma cousa se levanta<br>
+         A protestar com ancia;<br>
+ Alguma aspiração sublime e santa,<br>
+         Em firme reluctancia<br>
+ Descobre ás gerações os negros rastros<br>
+         Dos portentosos astros. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ E chama-se Consciencia á eterna força,<br>
+         Que os seculos correndo, <br>
+ Sem que a linha traçada alguem contorça,<br>
+         Pharoes vae accendendo<br>
+ Nos angulos do turvo precipicio,<br>
+         Onde faz ninho o vicio.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Em nome d'essa força que defende<br>
+         O fraco, o pobre, a creança,<br>
+ Gigante luminoso que se estende<br>
+         Da morte á loura esp'rança,<br>
+ É que eu reprovo a impia atrocidade<br>
+         Da velha sociedade. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Sou democrata e mãe; procuro um norte<br>
+         De Liberdade e Gloria;<br>
+ Acceito essa revolta ardente e forte<br>
+         Que faz tremer a Historia, <br>
+ Porém condemno o immano desvario<br>
+         Que mata a sangue frio!<br>
+ ...........................................</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que a lei arvóre o facho augusto do Direito,<br>
+ E vá depois cravar nos intimos do peito<br>
+         As garras da Inclemencia, <br>
+ Que a Lei fulmine a infamia e seja mais infame<br>
+ Que avilte e prostitua, e contra a ignavia clame,<br>
+         Revolta a sã Consciencia!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se o misero infeliz que pelas praças dorme<br>
+ Calcado pela dôr, medita o <i>crime enorme</i><br>
+         De procurar viver;<br>
+ Se presa da afflicção divaga pelas ruas,<br>
+ Sem casa nem familia, ao frio, as costas nuas,<br>
+         E os prantos a correr; </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se a esposa que implorou á sociedade honesta<br>
+ Um meio de vencer a fome, e a sorte infesta,<br>
+         Se encontra repellida;<br>
+ E para alimentar um filho, irmão ou pae,<br>
+ Arranca o seu diadema, e sobre as lamas vae<br>
+         Manchar-se, prostituida. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se o orphão que vegeta a par do vicio ignobil,<br>
+ Mais tarde é para o vicio o nauseabundo mobil,<br>
+         Se rouba e prostitue,<br>
+ Como ousa revoltar-se a sociedade vil,<br>
+ Se é ella quem provoca, e desbragada e hostil,<br>
+         Perverte e não instrue?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que pensamento assiste aos monstruosos codigos?<br>
+ Se os papas, deuses, reis, no crime hão de ser prodigos,<br>
+         Como é que a lei castiga<br>
+ Um ser vidente e bom, que aclara a escuridão<br>
+ Com o facho viril da leal Revolução?<br>
+         Como é que a Lei intriga?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Como é que ella protege o roubador agiota,<br>
+ E arrasta na enxovia o desgraçado illota<br>
+         Que a fome fez baquear<br>
+ Nos pelagos do mal? Ó sociedade absurda!<br>
+ Á voz da Naturesa, a lei ha de ser surda<br>
+         E o odio ha de julgar! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ .........................................</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Matar uma mulher que é mãe, que é democrata,<br>
+ Assassinar sem dó a esposa aristocrata,<br>
+         Junto dos filhos seus,<br>
+ É por egual cruel, é por egual maldito!<br>
+ E havia de fazer chorar todo o infinito,<br>
+         Se acaso houvera um Deus! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Por mim, que offerto o culto ao que é sereno e puro,<br>
+ Que adoro o Bem sublime, e odeio quanto é duro,<br>
+         Que não conheço a fé,<br>
+ Protesto contra a morte infausta de Antonietta,<br>
+ De Sophia, Leonor, Rolland, gentil athleta,<br>
+         De Tavora e Corday! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ A mão que referenda o crime da injustiça,<br>
+ Quando podia erguer da deleteria liça<br>
+         Um sol ou um jasmim,<br>
+ Assigna, sem pensar, o perennal deslustre<br>
+ De um seculo, de um nome, ou de um paiz illustre,<br>
+         Da Humanidade emfim!</blockquote>
+
+<h2>V</h2>
+
+<blockquote>
+ Como ha de pois a Historia olhar esse Gigante,<br>
+ Que tinha em si a morte, o Bem, a luz e o crime?<br>
+ Que ora se eleva a um mundo altivo e coruscante<br>
+ E logo gera um mal que a Gloria não redime?<br>
+ Elle era um diplomata, um patriota, um merito,<br>
+ Podia ser tambem um nobre benemerito<br>
+ Levando o Povo Luso ás concepções do Justo,<br>
+ Se em vez de ser feroz, de ter um genio adusto<br>
+ Voltasse ao sentimento um coração suave.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Julgou que ser tyranno era o mister mais grave<br>
+         Do ministro de um rei!<br>
+ Fez um docel de sangue ao tribunal da Lei,<br>
+ Poz um manto de lucto aos hombros da Justiça,<br>
+ Pisou raivoso o clero, e foi ouvir-lhe a missa,<br>
+ E como affirmação da ideia monarchista<br>
+ Dos nobres ao plebeu traçou a rubra lista.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Como ha de pois a Historia olhar o athleta ousado?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Pesando com criterio os factos do passado,<br>
+ Seguindo passo a passo o luminoso accesso<br>
+         Da Sciencia e do Progresso.<br>
+ ........................................</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ha muito que na Europa o sopro percorria<br>
+ Da clara discussão da sã philosophia.<br>
+ Desde o seculo doze, a duvida christã,<br>
+ Buscava escalpellar o craneo de Satan.<br>
+ Pierre d'Abelard examinara a crença,<br>
+ E via já na fé uma utopia immensa.<br>
+ Breve, Thomaz d'Aquino, imigo da Rasão,<br>
+ Antepunha ao Progresso a fera inquisição.<br>
+ Mas Bacon, um titan, repelle a fé-cahotica,<br>
+         E dando luz á Optica <br>
+ Recebe uma intuição da Sciencia positiva.<br>
+ Então larga a rotina, e só na lide activa <br>
+ Depoz a base firme á ideia demonstravel.<br>
+ Foi elle um ser vidente, e concebeu provavel,<br>
+ Toda a gloria vindoura; em seu nobre labor<br>
+ Meditava o progresso enorme do vapor;<br>
+ Mas como em sua frente a infamia não assoma,<br>
+ Foi um martyr da Sciencia, e victima de Roma,<br>
+ A eterna desbragada, a eterna prostituta<br>
+         Que as gerações enlucta.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas o germen vingou; surgiu em breve a imprensa,<br>
+ Excelso meteoro, a realidade immensa<br>
+ Que faz de Guttemberg um centro luminoso!<br>
+ Ia baquear em terra um deus medonho e iroso;<br>
+ Ia a Ideia pulsar na mente e força do Homem!<br>
+         E como as trevas somem<br>
+ Os raios de um bom sol, assim o novo invento<br>
+ Abria par em par a estrada ao Pensamento!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ O Genio eternisava em breve a Pomponace,<br>
+ E o forte Rabelais batia face a face<br>
+ A escolastica, e a lei theocratica e politica,<br>
+ Bem como o abuso annexo á concepção juridica. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ A Patria lusitana, a joia do Occidente<br>
+ Á Europa mostra então o poeta Gil Vicente,<br>
+ Que açouta o clero hostil com látegos de risos,<br>
+ E nem sequer poupando os <i>santos paraisos</i>.<br>
+ Na praça era o judeu sujeito a atrocidades;<br>
+ Na côrte, D. Manuel escarnecia os frades.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Havia pois de um lado a força da rotina<br>
+ E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode,<br>
+ Roma chega raivosa, e vê que nada póde.<br>
+ Copernico affirmava a terrea rotação,<br>
+ Perdia o seu prestigio a <i>santa</i> religião!<br>
+ Forçoso era impedir a affronta d'essa Idéa!<br>
+ O sabio ponderou, que outr'ora na Chaldéa<br>
+ Se havia já mostrado o movimento á Terra;<br>
+ Porém a Curia segue em furibunda guerra,<br>
+         E condemnou-lhe a obra.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas eis um luctador que a força audaz redobra,<br>
+         E com coragem fria<br>
+ Procura no infinito as leis da astronomia.<br>
+ Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E o mundo olha assombrado o insigne Galileu,<br>
+         Que segue passo a passo<br>
+ O trajecto eternal dos mundos pelo espaço.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se ha nome que de Gloria esplenda no universo,<br>
+         É o d'esse velho nobre<br>
+ Que o clero punge e arrasta, em dôr, e pranto immerso,<br>
+         Mas que ao Genio descobre <br>
+ A esteira do futuro, a via dos heroes<br>
+ Que põem no Progresso os rubidos pharoes!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A quéda do Oriente, estremecer convulso<br>
+ Havia dado á Ideia um vigoroso impulso,<br>
+ Civilisando a mente e pondo em toda a parte<br>
+ O gosto da Poesia, e pelos brilhos da arte.<br>
+ Então o aureo paiz dos inclitos varões<br>
+ Produz um sol gigante o esplendido CAMÕES,<br>
+ A synthese do Genio, um estro democrata<br>
+ Assombro dos Ideaes, talento que arrebata!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que bella actividade! Um cyclo era uma escola<br>
+         De sublimado intento!... <br>
+ Porém vê-se descer o manto de Loyola<br>
+         Por cima d'esse advento, <br>
+ E logo a aurora cae nas garras do terror,<br>
+ E logo a humana gloria exprime no estertor<br>
+         Que a prostra um assassino! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ Comtudo avança o Bem! Luthero, Huss e Calvino<br>
+         Feriram mortalmente<br>
+ O abuso, a tyrannia e o repugnante agente<br>
+         Das penas infernaes,<br>
+ Geradas no rancor das hyenas clericaes.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A lucta assim travada é turbulenta e audaz!<br>
+ De um lado impera altivo o monstro Satanaz.<br>
+ E do outro a aspiração das comprovadas cousas.<br>
+ A aurora veste lucto, a terra veste lousas,<br>
+ E o sangue corre a flux no precipicio escuro...</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas elle fecundou os germens do Futuro!<br>
+ .......................................</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Keppler, Newton, Brahé, tinham desfeito o mytho<br>
+ Da creação divina; os livros do infinito<br>
+ Já tinham revelado, em phrases de planetas<br>
+ Da grande lei sidérea as deslumbrantes metas.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Descartes ampliára as lucidas conquistas<br>
+ E profundára o abysmo ás vãs ficções deistas;<br>
+ E como o jesuitismo erguesse um throno ao mal,<br>
+ Surgiu-lhe o valoroso e hostil Blaise Pascal,<br>
+ Com satyra cortante e lucido criterio,<br>
+ Traçando-lhe no Tempo o eterno cemiterio.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Desfibrava-se a pouco a lenda theologica,<br>
+ E punha-se a attenção na historia geologica,<br>
+ Gognel, Jussieu, Buffon, tinham rasgado a entranha<br>
+         No valle, e na montanha, <br>
+ Á esphera onde se agita o Genio e o desatino.<br>
+ Seguiram-lhe o trajecto um Pallas e Arduino,<br>
+         E todos, sem sentir,<br>
+ Fizeram o passado esmorecer, ruir.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A antiga historia china oppunha-se á utopia<br>
+ Da lenda de Moysés; a sciencia cada dia<br>
+ Os cerebros levava á nova experiencia,<br>
+ Que em breve provaria á forte intelligencia<br>
+         A historia da Materia<br>
+ No mar, na vida, e morte, e sons, e luz etherea.<br>
+ ................................................<br>
+ Brotava na Consciencia a aspiração politica;<br>
+ Deixara a Inglaterra a fórmula mephitica,<br>
+         E em todos os sentidos<br>
+ Se pressentiam já os turbidos ruidos.<br>
+ Voltaire e Diderot entravam no futuro.<br>
+         Desmoronando o muro<br>
+ Que ainda protegia a treva e o fanatismo.<br>
+ Ficou pois fulminada a crença e o mysticismo!<br>
+ Nenhum abrigo havia aos golpes do alvião<br>
+ Vibrados pela firme e rija Evolução.<br>
+ Os reis, mesmo a sorrir abriam o jazigo,<br>
+ Onde ia sepultar-se o clero, o seu amigo,<br>
+ Sem verem que aluida a base do edificio<br>
+ Que tem por cima o odio, e em baixo o precipicio,<br>
+ Desaba fatalmente em multiplas bastilhas.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Tinham sulcado o oceano as portuguezas quilhas,<br>
+ E o genio dos heroes deixara esteiras certas<br>
+ Á bella exploração das ricas descobertas.<br>
+ No clima luxuriante, e terras do Equador<br>
+ Eram a flóra e fauna os ninhos do esplendor,<br>
+ E o Homem que estudava, o Homem já sabia<br>
+ Que Deus era ignorante, e muito, em Geographia.<br>
+ ..............................................<br>
+ N'este mar revoltoso é que se eleva o homem<br>
+ Que uns coroam de luz, outros na campa somem!</blockquote>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<blockquote>
+ O marquez de Pombal, producto do seu meio,<br>
+ Trazia na Consciencia o salutar anceio<br>
+         Das santas cousas bellas. <br>
+ Mas um facto mental, o facto do attavismo,<br>
+ Acorrentava-o sempre ao velho despotismo<br>
+         Dos thronos e das cellas. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ A corrente soprada além, da heroica França,<br>
+ Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança<br>
+         Das creações mais caras;<br>
+ Porém n'esse combate imigo do Direito,<br>
+ Cedia tristemente á voz do Preconceito,<br>
+         E ás perversões ignaras.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Demonstra-o fartamente o proceder confuso<br>
+ Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso<br>
+         De mortes e afflicção,<br>
+ Curando juntamente, e com visivel gloria,<br>
+ De lhe aplainar a rude e fria trajectoria,<br>
+         Por meio da instrucção.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho<br>
+ Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho<br>
+         Do seculo passado,<br>
+ Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas,<br>
+ Expostos com vigor, e com profundas vistas<br>
+         De um espirito avançado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Comprova-o a friesa usada com Fylinto<br>
+ Que longe do seu ninho, o doce riso extincto,<br>
+         Chorava, em lyra de ouro, <br>
+ As ruinas da ventura, o azul do patrio lar,<br>
+ As aguas do Mondego, e as vibrações do luar<br>
+         Entre os jasmins e o louro. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ A ethopéa social dos seculos transactos,<br>
+ Reflecte-se e vigora em seus funestos actos.<br>
+ Fluctua sem cessar seu espirito viril,<br>
+ Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil.<br>
+ Mas n'elle transparece uma tendencia rude<br>
+         Que punge a leal Virtude! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ A statica mental aperta-a pelos pulsos;<br>
+ E a dynamica então imprime-lhe os impulsos<br>
+         Da progressiva lida;<br>
+ E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Porém quando abordou á estancia derradeira<br>
+ Deixava atraz de si a sanguinosa esteira,<br>
+ Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança<br>
+ Reclamam com vigor criterio e segurança<br>
+ Ao tribunal da Historia, onde serão julgados<br>
+ Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados.<br>
+ ..............................................<br>
+ Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz,<br>
+ Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus<br>
+ O affecto que daria a irmão, se irmão tivera,<br>
+ Venero o positivo, e nunca a van chimera.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso,<br>
+ Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso,<br>
+ As heras infantis que enleio na Consciencia,<br>
+ A força que me impelle á lucta da inclemencia<br>
+ Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas<br>
+ Odeia a quem cultiva as rosas christalinas<br>
+ No coração do Bem, Progresso e Liberdade,<br>
+ Seguem a religião do Justo e da Verdade,<br>
+         É a sua crença ideal,<br>
+ Resume-se no amor do seu sentir filial.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas tendo a mente forte e despresando os idolos,<br>
+ E combatendo firme os monumentos frivolos,<br>
+         Politico-sociaes,<br>
+ Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes<br>
+         Da vida do marquez,<br>
+ E vejo com tristesa o nome portuguez<br>
+         Coberto pelo horror,<br>
+ Quando podia ser um foco de explendor.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A queda do jesuita é justa, é rasoavel;<br>
+ Expulsa essa barreira imiga insuperavel,<br>
+ Podia a sociedade erguer-se da ignorancia,<br>
+ Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia<br>
+ Ao Pensamento novo, a santa aspiração!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ É digno de louvor quebrar á inquisição<br>
+ Os braços da vingança a ira da torpesa.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa,<br>
+ Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente,<br>
+ Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente,<br>
+ Rojado pelo chão, manchado pela lama!<br>
+         E pelas nações clama<br>
+ A Ideia humanitaria, amena, e justiceira,<br>
+ Vendo arrojar um ente á estupida fogueira!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E embora fosse um padre, embora um jesuita,<br>
+ Embora fosse irmão da raça atroz, precita,<br>
+         A minha voz sentida<br>
+ Protesta contra a morte imposta a Malagrida!<br>
+         Protesto! E emquanto houver <br>
+ Um coração de luz em peito de mulher,<br>
+ Meu brado ha de correr nos angulos do mundo,<br>
+         E em todo o mar fecundo! </blockquote>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<blockquote>
+ Que se ha de então fazer aos grandes luctadores,<br>
+ Que lançam sobre a Historia as olorosas flores,<br>
+ E regam com seu sangue os fructos do porvir?<br>
+ Que fontes de esplendor iremos nós abrir<br>
+ Ao vidente Danton, a Lincoln, a Blanqui,<br>
+         O martyr que sorri<br>
+ Por entre a cerração da noute do tormento?<br>
+ Que havemos de offertar aos soes do Pensamento?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Nunca apoiei Thiers, nem o chacal da Russia!<br>
+ Detesto a immanidade, e a vingativa astucia...<br>
+ O sangue da Communa, as lagrimas de Jessa,<br>
+ Formaram no silencio a fulgida cabeça<br>
+         Da indomavel revolta! </blockquote>
+
+<blockquote>
+ O monstro que commanda, em meio de uma escolta<br>
+ As manobras crueis que geram a orphandade,<br>
+ É mais feroz que um tigre, e avilta a Humanidade,<br>
+         E deve ter na mente<br>
+ A infamia de Javheh, e os odios da serpente.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Como hei de eu incensar a monarchista treva?<br>
+ Como hei de então louvar um ser de fronte seva?<br>
+ Pombal beijou a patria, e espedaçou-lhe o seio;<br>
+ Fez guerra ao Preconceito, e prostergou o anceio<br>
+         Dos crentes do porvir!<br>
+ Levou seu nome á Gloria, e fel-o após cahir.</blockquote>
+
+<blockquote>
+         No sangue inda escorrega <br>
+ Quem segue a lusa historia. A sã Justiça nega<br>
+ Um preito, a quem desdenha a humanitaria via,<br>
+ E lança a Liberdade ás palhas da enxovia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Fique acima de tudo o limpido criterio;<br>
+ Formar uma cidade onde era um cemiterio<br>
+ Seria expôr a vida aos morbidos prejuizos.<br>
+ Vasar em molde infiel historicos juizos<br>
+ Será viciar tambem o pensamento ao Povo.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Justiça! Ha de o vindouro escalpellar de novo<br>
+ A nossa actividade; e então... tremendo encargo!<br>
+ Ou ha de ter no peito um sentimento amargo<br>
+ Ou ha de achar mesquinha a obra dos avós!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Salvemos o Futuro, e que elle creia em nós!</blockquote>
+
+<h2>FIM</h2>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal á luz da
+Philosophia, by Angelina Vidal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
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+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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