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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/27255-8.txt b/27255-8.txt new file mode 100644 index 0000000..47bae21 --- /dev/null +++ b/27255-8.txt @@ -0,0 +1,1380 @@ +The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal á luz da Philosophia, by +Angelina Vidal + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Marquez de Pombal á luz da Philosophia + +Author: Angelina Vidal + +Release Date: November 14, 2008 [EBook #27255] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +O MARQUEZ DE POMBAL + +Á LUZ DA PHILOSOPHIA + + + + +ANGELINA VIDAL + +O MARQUEZ DE POMBAL + +Á LUZ DA PHILOSOPHIA + + + + +LISBOA +IMPRENSA DA VIUVA SOUSA NEVES +65, Rua da Atalaia, 67 +1882 + + + + +A + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + + + + +ESCRIPTOR ILLUSTRE + + +Estamos em pleno jubileo. + +Cada época traz o seu cunho caracteristico de exagero, e tristes dos que +se affoutam a soltar qualquer nota discordante no concerto da lisonja +publica. + +No meio d'este anemico paiz vibra ainda uma corda vocal, a ultima--é a +maledicencia. Este facto pathologico é porém de modo tal inoffensivo, +que minuciosamente estudada a sua etiologia, conclue-se que por unica +therapeutica deve applicar-se-lhe o despreso. + +Insultar é uma necessidade tão inherente ao organismo patrio, que se o +indigena não houvera a quem fazel-o, insultar-se-hia a si mesmo. + +Não se combatem principios; oppõem-se abusos a abusos; á communhão da +Liberdade não se admittem cerebros livres; tem de annullar-se a +consciencia, em honra do opportunismo. + +Para ser-se _immortal_ pedem-se as credenciaes aos monarchas da opinião, +e inscreve-se o pretendente nos clubs do elogio mutuo; não é economico, +porque importa a dignidade dos candidatos; mas custa menos do que +fazer-se eleger deputado de qualquer partido. + +Eu porém affasto-me dos microscopicos fetiches, para venerar tão só os +privilegiados do talento, e tenho bastante valor para arrostar com os +desdens do enfatuamento ignaro. Democrata convicta, e evangelisadora do +livre exame--em ethica, sciencia, e politica, manifesto amplamente as +opiniões do meu espirito, com a altiva independencia de quem se habituou +a superar os diques verminosos da sórdida mesquinhez. + +Por isso estendo fraternamente a mão ao glorioso mestre da patria +lingua, e saudando o fecundo engenho do athleta da litteratura +portugueza, offereço-lhe despretenciosamente estes humildes versos. + +Lisboa 30 de abril de 1882. + + _Angelina Vidal._ + + + + +I + + Um côro de ovações se eleva norte a sul; + No seio do paiz, palpita a festa ingente, + Mil eccos de alegria ondulam pelo azul, + E a vaga popular circula vivamente. + + Que enorme vibração aos tristes galvanisa? + Que fado deslumbrante a Patria considera? + Una rasgo de valor que um mundo synthetisa? + Um estro que irradia a Gloria pela esphera? + + Um Genio que assombrasse o coração do mundo? + Talvez Dante ou Camões, talvez um Diderot, + Ou Bacon, ou Voltaire o destructor profundo, + Feurbach ou Galileo, Danton, Goethe, Rousseau? + + Oh não! A Patria canta o athleta da Realesa, + O Hercules pujante, o pulso sem rival + Que punha até por terra as leis da Naturesa, + Mas que tambem erguia a fama Nacional. + + Thuribulisem pois o nome do gigante, + Incensem sem descanço o esteio da corôa, + O facho da instrucção, o genio penetrante, + Que de um montão de cinza ergueu nova Lisboa! + + Cantae, Democracia; o espirito do bravo, + Que o nivel fez rolar por sobre a Sociedade, + Prostrando o jesuitismo, ou libertando o escravo, + Quebrando á inquisição as garras da maldade. + + Lisonja, ergue a Pombal um hymno de louvores! + Realça o que é brilhante, esconde o que é medonho! + Cerrae a porta á Historia, ó novos pensadores! + O mal não existiu; é falsidade, é sonho! + + +II + + Nove horas; a cidade acorda sob um ceu + De christalino azul, de transparente veu; + Movimenta-se a pouco a gente nas viellas, + Adornam-se com arte as donas e donzellas, + E os sinos vão chamando os fervidos catholicos + Aos festejos do templo, e aos canticos symbolicos. + + Entoa o padre a missa, e os crentes, com respeito + Se curvam brandamente; habita em cada peito + A prece fervorosa, os orgãos gemem notas + Que fazem palpitar as candidas devotas. + Ha como que um sereno e doce mysticismo + Que leva os corações, em nuvens de idealismo, + Aos páramos do ignoto, aos vagos paradisicos, + Onde a crença cultiva os lirios metaphisicos. + + Nas praças, os peões, laboram tristemente, + E n'uma gelosia um vulto sorridente + Espreita cuidadoso ao longo dos caminhos. + Passa ás vezes um nobre envolto em bons arminhos, + E alinham-se na rua, á porta dos conventos, + Os novos com preguiça, e os velhos sem proventos. + + De repente porém, um intimo ruido + Se escuta assustador na entranha da cidade! + Depressa lhe succede horrivel alarido, + E um turbido baquear, em toda a extensidade. + + Oscilla cada predio, e cahem pelo sólo + Desfeitos como em pó os rijos edificios; + E a misera Lisboa, afflicta, pólo a pólo + Vomita o seu terror, por igneos orificios. + + Fogem as mães tremendo, os filhos junto ao seio, + E correm a acolher-se aos templos do Senhor; + Mas eis que ao grande affan do seu materno anceio + Ahi se expõe um quadro escuro e aterrador. + + Abobadas cahindo em cima dos altares, + E o padre surpreendido em meio dos cantares, + Sem voz, sem movimento, a par de uma madona + Que ha muito se ostentava em seu painel de lona. + Creanças a chorar, columnas em pedaços, + Soluços do estertor, e aqui e além uns braços + Sob as pedras surgindo e estrebuchando a custo!... + + Nas ruas e jardins não é menor o susto. + Rodou rapidamente o nivel da desgraça! + Só resta enorme entulho onde era alegre praça, + E os tectos ao cahir nos crepitantes lumes, + Erguem linguas de fogo, em cálidos queixumes. + + Estala o velho tronco ao cedro gigantesco, + E paira em tudo o horror mortifero e dantesco. + E para cumular o quadro de afflicções, + O Tejo, saccudindo os pardos turbilhões, + Devora febrilmente as ruinas rescaldantes, + E lambe o morto, e o vivo, em saltos delirantes, + E abrindo o coração, sedento de vingança, + Abysma o forte, o fraco, o velho, a mãe, a creança! + + E como se o terror gerasse a crueldade, + Para opprobrio veraz da crúa humanidade, + No cahos tumulento anda essa immunda plebe + Que rouba, que assassina, e apenas se apercebe, + Sob as nuvens de fumo e pulsações do fogo. + + E o rei e o seu ministro? + Accaso n'esse jogo + Da horrifica tormenta, o ceu de azul purissimo + Ousaria esquecer um rei que é _fidelissimo_? + Quem sabe se terão cahido do vaivem? + + Salvou-o Jehovah--el-rei estava em Belem? + ........................................... + + Depressa chega ali a nova deploravel; + Aterra-se a nobresa; o facto lamentavel + Envolve em lucto e pranto innumeros varões. + Entreolham-se a tremer, e logo as orações + Se elevam para o ceu como espiraes de dôr. + El-rei branco de susto, os filhos com pavor + Percorrem os salões, idiotas e perplexos. + + Mas fulgem n'um olhar uns vividos reflexos, + E um vulto erecto e firme encara D. José; + «Marquez, murmura el-rei, castigo de Deus é + «O horrivel cataclysmo! E agora, que afflicção! + «Que havemos de fazer em tal destruição? + «Arde toda a cidade, e estão vasios os portos» + --Salvemos quem viver, demos á terra os mortos.-- + Responde friamente o imigo da utopia. + + E longe de invocar a Deus ou a Maria, + Expede ordens de cunho e toma arduas medidas, + Alenta sem delonga as perigadas vidas, + Corta os braços á chamma, e tolhe o passo á fome; + Liberta o infeliz da angustia que o consome, + E ahi onde o devasso um roubo perpetrava, + Ahi a forca bruta á morte o condemnava. + ......................................... + Annos depois surgia a nova capital + N'um throno que assentava em bases de christal. + + +III + + Que borburinho é esse? O Porto anda revolto? + Que foi que se passou? + Como é que invade a praça o povo irado e solto, + Se tanto laborou + El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto? + + Se ha tanto beneficio, exforços tão visiveis + Em prol da causa publica, + Como podem brotar reprovações sensiveis, + Como é que a ideia nublica + Não acha na Rasão um dique d'impossiveis? + + «O povo é desgraçado,» affirma a humana Historia, + «Mataram-lhe o Direito, + «E forçara-n'o a seguir a negra sorte ingloria, + «Calado, contrafeito, + «Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria!» + + Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar; + A ignara populaça. + O monopolio rouba-a, era mister luctar! + E logo, a plebea raça + Reclama valorosa, em vez de supplicar. + + Mas o ministro excelso havia já disposto + Das cousas do alto-Douro; + Vivesse embora a Patria em noute de desgosto. + Os cofres tinham ouro... + Que importa se a Rasão traz lagrimas no rosto? + + Por isso se indignou o esteio da Realesa, + E os raios da vingança + Fabrica muito á pressa, e envia com prestesa + Á popular esp'rança + Fundada na intuição das leis da Naturesa. + + E após, hórrido insulto á crença humanitaria! + Por um delicto falso + Estende-se no Porto a rede sanguinaria, + E o torpe cadafalso + Arranca friamente a vida ao triste paria! + + Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua, + Forçaram-se a seguir + O sacrificio immano, onde o valor recua, + E a ver a mãe subir + A via da amargura, e escarnecida e nua! + + E um homem venerando, um martyr impolluto + Que a Consciencia chora, + O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto, + Sereno como a aurora, + Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto! + + O que ha que justifique o horror de taes supplicios? + Que espirito medonho, + Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios? + Não julga quasi um sonho + Que um homem só, profunde infindos precipicios? + + Quem ha que não palpite em plena indignação + Olhando um nobre velho + Manchado pela affronta, exposto á impia acção. + Pondo um lastro vermelho, + Na terra onde semeia a intima afflicção. + + Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta, + Violada em seu pudor, + Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta + Nas ancias do terror, + Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta? + + Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto, + Comquanto fôra filho, + Havia de exprobar ao potentado morto + O mortuario trilho + Que abriu com turvo affan no coração de Porto! + + Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa, + Comquanto fosse Mãe, + Havia de olvidar o astro de Lisboa, + Para escutar além, + O brado perennal que pólo a pólo sôa! + + Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas; + Proclama-o democrata! + Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças + E dize se arrebata + Um nome que traduz as mais crueis offensas! + ............................................ + + E o titan que esmagava assim, rude e febril, + Os braços da nação, os braços productores, + Os ferros destruia ao escravo no Brasil, + E baixava ao commercio os olhos protectores! + + Infando laborar! Contradicção tamanha, + Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo, + E nos traz á memoria a flórida montanha + Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo! + + Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo + Quando és synthese só das leis da creação! + És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso, + Proclamas o Progresso, e dás a Destruição! + + Exhaures toda a força em busca da Verdade, + Penetras com valor nos seculos remotos, + E quando julgas ver a eterna claridade + Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos! + + Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja! + Que infrene marulhar na logica dos factos! + E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja, + Ha de chegar emfim aos desenganos latos. + + Buscae por toda a esphera a perfeição preclara; + O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo; + A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara, + A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto! + + A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra, + E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento; + Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra, + E põe um muro espesso em face ao Pensamento. + + Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro, + Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade; + E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro + Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade! + + Nos dramas do Universo ha sempre imitações + O fado é perennal, a fórma é transitoria; + Cada época produz idoneas mutações + E ha pontos de contacto a escurecer a Historia. + + Se um dia a raça humana attinge os lisos portos + De seus nobres ideaes, então, forte e sublime, + Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos, + Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime. + + E então, em vez de honrar ministros, generaes, + Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos, + Dará seu preito eterno ás leis universaes, + E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos! + + +IV + + Vem rompendo a manhã, dizem as aves + Seus canticos tranquillos e suaves. + As perolas da aurora, sobre as flôres, + Parecem lamentar ignotas dôres; + E a voz do pegureiro, nas collinas, + De envolta com as phrases purpurinas + Com que o espaço saúda a Humanidade, + Tem um cunho supremo de saudade, + Tem um ecco de angustia tão sentida, + Como a corda de uma harpa, que, partida + Expande pelo ether seus lamentos. + + Vem rompendo a manhã, nos movimentos + Dos multiplos anceios luminosos + Que agitam sem cessar a humana arteria, + E transformam as lides da Materia, + Parecem destacar-se uns sons dolosos, + Que a Naturesa arranca das entranhas, + E que vibram no valle e nas montanhas. + + E comtudo nos floridos caminhos + Balouçam brandamente os doces ninhos, + E reflectem nas limpidas correntes + As nuvens azuladas, transparentes, + Como um espelho brilhante da Consciencia, + E as varzeas em virente florescencia + Espalham pelo ambiente seus perfumes. + + Mas escutam-se ao longe alguns queixumes, + Mas um grande alvoroto se aproxima, + E parece que a aurora desanima, + Que os doces rouxinoes tremem de susto, + E pende a Naturesa o roseo busto! + + Quem é que vem então por essa estrada, + Quando apenas desperta a madrugada? + Que significa pois tanto tropel, + Que quer dizer a angustia tão cruel + Que pulsa ahi no seio universal? + + É talvez um factor do negro mal, + Algum gigante audaz, filho da noute, + Algum Attila ou Nero, rijo açoute + Das coleras divinas, e illusorias, + Que vem correndo as turvas trajectorias + Do vicio, do rancor, do odio insano, + Até rasgar o peito ao ser humano! + ................................. + É um cortejo que segue... quem será!? + Já passam muito perto... + Que numerosos são! Que vejo!... Ah! + Com passo frouxo e incerto + Caminha uma mulher, em desalinho, + Mais pallida que arminho. + + De um lado traz o padre, e de outro o algoz + De ventas dilatadas + E a estupida expressão de um ser feroz. + As brancas mãos ligadas, + Veem roxas das auras matutinas, + E das correntes finas. + + Cinge-lhe o corpo esvelto a alva infamante + Dos tristes condemnados, + E ás vezes solta um ai tão lancinante, + Que tremem magoados + Os proprios corações mais rancorosos, + E os monstros mais odiosos. + + Vem seguida dos filhos e do esposo, + Santissima cohorte + Que vae cahir tambem no seio iroso + Da vingativa morte, + Que o ministro do rei, fero e iracundo, + Arroja sobre o mundo. + + Chegam junto do poste; ahi pára tudo. + O algoz, sem mais respeito + Bate no hombro á martyr; fica mudo + O feminino peito, + Varado pela intima agonia + Da infrene tyrannia. + + «Levanta essa cabeça, infiel traidora! + Ordena-lhe o carrasco; + «Tu serás a primeira, que és senhora! + E com medonho chasco + Procura, um por um, os instrumentos + Que servem aos tormentos. + + «Vê marqueza de Tavora--era a triste! + «Que esplendidas tenazes! + «Sabes quanta virtude aqui persiste? + «São para os teus rapazes. + «Applico-lh'as na cara, mesmo em braza, + «E faço--taboa raza! + + «E as torquezes? São rijas de uma vez! + «Agarram como o brêo! + «Hão de arrancar os olhos ao marquez, + «_Meu amo e senhor meu;_ + «E emquanto lhe correr o pranto amargo + Protesto que o não largo! + + «Fidalga sem vergonha, olha os cutellos + «Com que eu lhe parto as pernas. + «Agarro-lhes depois pelos cabellos, + «E, lanço-os nas cisternas. + «Porém seu coração traidor, e infausto, + «Dos corvos será pasto. + + «Vá! Morre descançada, morre em paz, + «Que eu mato os teus tambem! + «Vão todos para o monstro Satanaz! + «E tu, que és boa mãe, + «Deves nutrir os jubilos eternos + «Por vel-os nos infernos! + + «Mas ouve, ouve mais; teu corpo amado, + «Sou eu que o amortalho + «Nos farrapos do opprobrio e do peccado, + «E em cinzas o retalho. + «E para mór despreso demonstrar + «Atiro-as logo ao mar. + + «Recae-a em tua fronte todo mal, + «Infamia e maldição! + «Sepulte-se n'um torpe lodaçal + «Teu limpido brazão, + «E fique para sempre o nome teu + «Mais vil que o de um judeu!» + + A martyr, com a vista erguida ao espaço + Soffria silenciosa. + Rodeia-lhe o pescoço o frio laço + E a victima formosa + E ao ver fugir da vida os aureos brilhos + Só diz «Filhos, meus filhos!...» + + Ó mães! Que dôr suprema isto traduz! + Que turbida epopeia! + Ó povo soffredor, fóco de luz + De onde irradia a Ideia, + Medita; o que ha de mais cruento e féro + No coração de um Nero?! + + Como é que desce tanto a raça humana? + Como é que um Povo culto + Supporta resignado a mão tyranna + Que lhe arremessa o insulto, + E deixa ir esmagando sob as lousas + As filhas, mães, e esposas? + .................................... + + Horas depois os martyres morriam + Ás mãos do indigno algoz; + Boatos na cidade percorriam + Porém a plebea voz + Produz-se eternamente no vazio... + Por isso... não se ouviu! + + El-rei dava audiencia; ao seu ministro + Fel-o marquez e conde; + O premio era brilhante mas sinistro, + E a Historia ainda esconde + Os prantos que verteu, porque o terror + Suffoca os ais á Dôr! + + Comtudo alguma cousa se levanta + A protestar com ancia; + Alguma aspiração sublime e santa, + Em firme reluctancia + Descobre ás gerações os negros rastros + Dos portentosos astros. + + E chama-se Consciencia á eterna força, + Que os seculos correndo, + Sem que a linha traçada alguem contorça, + Pharoes vae accendendo + Nos angulos do turvo precipicio, + Onde faz ninho o vicio. + + Em nome d'essa força que defende + O fraco, o pobre, a creança, + Gigante luminoso que se estende + Da morte á loura esp'rança, + É que eu reprovo a impia atrocidade + Da velha sociedade. + + Sou democrata e mãe; procuro um norte + De Liberdade e Gloria; + Acceito essa revolta ardente e forte + Que faz tremer a Historia, + Porém condemno o immano desvario + Que mata a sangue frio! + ........................................... + + Que a lei arvóre o facho augusto do Direito, + E vá depois cravar nos intimos do peito + As garras da Inclemencia, + Que a Lei fulmine a infamia e seja mais infame + Que avilte e prostitua, e contra a ignavia clame, + Revolta a sã Consciencia! + + Se o misero infeliz que pelas praças dorme + Calcado pela dôr, medita o _crime enorme_ + De procurar viver; + Se presa da afflicção divaga pelas ruas, + Sem casa nem familia, ao frio, as costas nuas, + E os prantos a correr; + + Se a esposa que implorou á sociedade honesta + Um meio de vencer a fome, e a sorte infesta, + Se encontra repellida; + E para alimentar um filho, irmão ou pae, + Arranca o seu diadema, e sobre as lamas vae + Manchar-se, prostituida. + + Se o orphão que vegeta a par do vicio ignobil, + Mais tarde é para o vicio o nauseabundo mobil, + Se rouba e prostitue, + Como ousa revoltar-se a sociedade vil, + Se é ella quem provoca, e desbragada e hostil, + Perverte e não instrue? + + Que pensamento assiste aos monstruosos codigos? + Se os papas, deuses, reis, no crime hão de ser prodigos, + Como é que a lei castiga + Um ser vidente e bom, que aclara a escuridão + Com o facho viril da leal Revolução? + Como é que a Lei intriga? + + Como é que ella protege o roubador agiota, + E arrasta na enxovia o desgraçado illota + Que a fome fez baquear + Nos pelagos do mal? Ó sociedade absurda! + Á voz da Naturesa, a lei ha de ser surda + E o odio ha de julgar! + + ......................................... + + Matar uma mulher que é mãe, que é democrata, + Assassinar sem dó a esposa aristocrata, + Junto dos filhos seus, + É por egual cruel, é por egual maldito! + E havia de fazer chorar todo o infinito, + Se acaso houvera um Deus! + + Por mim, que offerto o culto ao que é sereno e puro, + Que adoro o Bem sublime, e odeio quanto é duro, + Que não conheço a fé, + Protesto contra a morte infausta de Antonietta, + De Sophia, Leonor, Rolland, gentil athleta, + De Tavora e Corday! + + A mão que referenda o crime da injustiça, + Quando podia erguer da deleteria liça + Um sol ou um jasmim, + Assigna, sem pensar, o perennal deslustre + De um seculo, de um nome, ou de um paiz illustre, + Da Humanidade emfim! + + +V + + Como ha de pois a Historia olhar esse Gigante, + Que tinha em si a morte, o Bem, a luz e o crime? + Que ora se eleva a um mundo altivo e coruscante + E logo gera um mal que a Gloria não redime? + Elle era um diplomata, um patriota, um merito, + Podia ser tambem um nobre benemerito + Levando o Povo Luso ás concepções do Justo, + Se em vez de ser feroz, de ter um genio adusto + Voltasse ao sentimento um coração suave. + + Julgou que ser tyranno era o mister mais grave + Do ministro de um rei! + Fez um docel de sangue ao tribunal da Lei, + Poz um manto de lucto aos hombros da Justiça, + Pisou raivoso o clero, e foi ouvir-lhe a missa, + E como affirmação da ideia monarchista + Dos nobres ao plebeu traçou a rubra lista. + + Como ha de pois a Historia olhar o athleta ousado? + + Pesando com criterio os factos do passado, + Seguindo passo a passo o luminoso accesso + Da Sciencia e do Progresso. + ........................................ + + Ha muito que na Europa o sopro percorria + Da clara discussão da sã philosophia. + Desde o seculo doze, a duvida christã, + Buscava escalpellar o craneo de Satan. + Pierre d'Abelard examinara a crença, + E via já na fé uma utopia immensa. + Breve, Thomaz d'Aquino, imigo da Rasão, + Antepunha ao Progresso a fera inquisição. + Mas Bacon, um titan, repelle a fé-cahotica, + E dando luz á Optica + Recebe uma intuição da Sciencia positiva. + Então larga a rotina, e só na lide activa + Depoz a base firme á ideia demonstravel. + Foi elle um ser vidente, e concebeu provavel, + Toda a gloria vindoura; em seu nobre labor + Meditava o progresso enorme do vapor; + Mas como em sua frente a infamia não assoma, + Foi um martyr da Sciencia, e victima de Roma, + A eterna desbragada, a eterna prostituta + Que as gerações enlucta. + + Mas o germen vingou; surgiu em breve a imprensa, + Excelso meteoro, a realidade immensa + Que faz de Guttemberg um centro luminoso! + Ia baquear em terra um deus medonho e iroso; + Ia a Ideia pulsar na mente e força do Homem! + E como as trevas somem + Os raios de um bom sol, assim o novo invento + Abria par em par a estrada ao Pensamento! + + O Genio eternisava em breve a Pomponace, + E o forte Rabelais batia face a face + A escolastica, e a lei theocratica e politica, + Bem como o abuso annexo á concepção juridica. + + A Patria lusitana, a joia do Occidente + Á Europa mostra então o poeta Gil Vicente, + Que açouta o clero hostil com látegos de risos, + E nem sequer poupando os _santos paraisos_. + Na praça era o judeu sujeito a atrocidades; + Na côrte, D. Manuel escarnecia os frades. + + Havia pois de um lado a força da rotina + E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina. + + Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode, + Roma chega raivosa, e vê que nada póde. + Copernico affirmava a terrea rotação, + Perdia o seu prestigio a _santa_ religião! + Forçoso era impedir a affronta d'essa Idéa! + O sabio ponderou, que outr'ora na Chaldéa + Se havia já mostrado o movimento á Terra; + Porém a Curia segue em furibunda guerra, + E condemnou-lhe a obra. + + Mas eis um luctador que a força audaz redobra, + E com coragem fria + Procura no infinito as leis da astronomia. + Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu. + + E o mundo olha assombrado o insigne Galileu, + Que segue passo a passo + O trajecto eternal dos mundos pelo espaço. + + Se ha nome que de Gloria esplenda no universo, + É o d'esse velho nobre + Que o clero punge e arrasta, em dôr, e pranto immerso, + Mas que ao Genio descobre + A esteira do futuro, a via dos heroes + Que põem no Progresso os rubidos pharoes! + + A quéda do Oriente, estremecer convulso + Havia dado á Ideia um vigoroso impulso, + Civilisando a mente e pondo em toda a parte + O gosto da Poesia, e pelos brilhos da arte. + Então o aureo paiz dos inclitos varões + Produz um sol gigante o esplendido CAMÕES, + A synthese do Genio, um estro democrata + Assombro dos Ideaes, talento que arrebata! + + Que bella actividade! Um cyclo era uma escola + De sublimado intento!... + Porém vê-se descer o manto de Loyola + Por cima d'esse advento, + E logo a aurora cae nas garras do terror, + E logo a humana gloria exprime no estertor + Que a prostra um assassino! + + Comtudo avança o Bem! Luthero, Huss e Calvino + Feriram mortalmente + O abuso, a tyrannia e o repugnante agente + Das penas infernaes, + Geradas no rancor das hyenas clericaes. + + A lucta assim travada é turbulenta e audaz! + De um lado impera altivo o monstro Satanaz. + E do outro a aspiração das comprovadas cousas. + A aurora veste lucto, a terra veste lousas, + E o sangue corre a flux no precipicio escuro... + + Mas elle fecundou os germens do Futuro! + ....................................... + + Keppler, Newton, Brahé, tinham desfeito o mytho + Da creação divina; os livros do infinito + Já tinham revelado, em phrases de planetas + Da grande lei sidérea as deslumbrantes metas. + + Descartes ampliára as lucidas conquistas + E profundára o abysmo ás vãs ficções deistas; + E como o jesuitismo erguesse um throno ao mal, + Surgiu-lhe o valoroso e hostil Blaise Pascal, + Com satyra cortante e lucido criterio, + Traçando-lhe no Tempo o eterno cemiterio. + + Desfibrava-se a pouco a lenda theologica, + E punha-se a attenção na historia geologica, + Gognel, Jussieu, Buffon, tinham rasgado a entranha + No valle, e na montanha, + Á esphera onde se agita o Genio e o desatino. + Seguiram-lhe o trajecto um Pallas e Arduino, + E todos, sem sentir, + Fizeram o passado esmorecer, ruir. + + A antiga historia china oppunha-se á utopia + Da lenda de Moysés; a sciencia cada dia + Os cerebros levava á nova experiencia, + Que em breve provaria á forte intelligencia + A historia da Materia + No mar, na vida, e morte, e sons, e luz etherea. + ................................................ + Brotava na Consciencia a aspiração politica; + Deixara a Inglaterra a fórmula mephitica, + E em todos os sentidos + Se pressentiam já os turbidos ruidos. + Voltaire e Diderot entravam no futuro. + Desmoronando o muro + Que ainda protegia a treva e o fanatismo. + Ficou pois fulminada a crença e o mysticismo! + Nenhum abrigo havia aos golpes do alvião + Vibrados pela firme e rija Evolução. + Os reis, mesmo a sorrir abriam o jazigo, + Onde ia sepultar-se o clero, o seu amigo, + Sem verem que aluida a base do edificio + Que tem por cima o odio, e em baixo o precipicio, + Desaba fatalmente em multiplas bastilhas. + + Tinham sulcado o oceano as portuguezas quilhas, + E o genio dos heroes deixara esteiras certas + Á bella exploração das ricas descobertas. + No clima luxuriante, e terras do Equador + Eram a flóra e fauna os ninhos do esplendor, + E o Homem que estudava, o Homem já sabia + Que Deus era ignorante, e muito, em Geographia. + .............................................. + N'este mar revoltoso é que se eleva o homem + Que uns coroam de luz, outros na campa somem! + + +VI + + O marquez de Pombal, producto do seu meio, + Trazia na Consciencia o salutar anceio + Das santas cousas bellas. + Mas um facto mental, o facto do attavismo, + Acorrentava-o sempre ao velho despotismo + Dos thronos e das cellas. + + A corrente soprada além, da heroica França, + Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança + Das creações mais caras; + Porém n'esse combate imigo do Direito, + Cedia tristemente á voz do Preconceito, + E ás perversões ignaras. + + Demonstra-o fartamente o proceder confuso + Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso + De mortes e afflicção, + Curando juntamente, e com visivel gloria, + De lhe aplainar a rude e fria trajectoria, + Por meio da instrucção. + + Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho + Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho + Do seculo passado, + Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas, + Expostos com vigor, e com profundas vistas + De um espirito avançado. + + Comprova-o a friesa usada com Fylinto + Que longe do seu ninho, o doce riso extincto, + Chorava, em lyra de ouro, + As ruinas da ventura, o azul do patrio lar, + As aguas do Mondego, e as vibrações do luar + Entre os jasmins e o louro. + + A ethopéa social dos seculos transactos, + Reflecte-se e vigora em seus funestos actos. + Fluctua sem cessar seu espirito viril, + Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil. + Mas n'elle transparece uma tendencia rude + Que punge a leal Virtude! + + A statica mental aperta-a pelos pulsos; + E a dynamica então imprime-lhe os impulsos + Da progressiva lida; + E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida. + + Porém quando abordou á estancia derradeira + Deixava atraz de si a sanguinosa esteira, + Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança + Reclamam com vigor criterio e segurança + Ao tribunal da Historia, onde serão julgados + Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados. + .............................................. + Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz, + Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus + O affecto que daria a irmão, se irmão tivera, + Venero o positivo, e nunca a van chimera. + + Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso, + Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso, + As heras infantis que enleio na Consciencia, + A força que me impelle á lucta da inclemencia + Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas + Odeia a quem cultiva as rosas christalinas + No coração do Bem, Progresso e Liberdade, + Seguem a religião do Justo e da Verdade, + É a sua crença ideal, + Resume-se no amor do seu sentir filial. + + Mas tendo a mente forte e despresando os idolos, + E combatendo firme os monumentos frivolos, + Politico-sociaes, + Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes + Da vida do marquez, + E vejo com tristesa o nome portuguez + Coberto pelo horror, + Quando podia ser um foco de explendor. + + A queda do jesuita é justa, é rasoavel; + Expulsa essa barreira imiga insuperavel, + Podia a sociedade erguer-se da ignorancia, + Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia + Ao Pensamento novo, a santa aspiração! + + É digno de louvor quebrar á inquisição + Os braços da vingança a ira da torpesa. + + Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa, + Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente, + Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente, + Rojado pelo chão, manchado pela lama! + E pelas nações clama + A Ideia humanitaria, amena, e justiceira, + Vendo arrojar um ente á estupida fogueira! + + E embora fosse um padre, embora um jesuita, + Embora fosse irmão da raça atroz, precita, + A minha voz sentida + Protesta contra a morte imposta a Malagrida! + Protesto! E emquanto houver + Um coração de luz em peito de mulher, + Meu brado ha de correr nos angulos do mundo, + E em todo o mar fecundo! + + +VII + + Que se ha de então fazer aos grandes luctadores, + Que lançam sobre a Historia as olorosas flores, + E regam com seu sangue os fructos do porvir? + Que fontes de esplendor iremos nós abrir + Ao vidente Danton, a Lincoln, a Blanqui, + O martyr que sorri + Por entre a cerração da noute do tormento? + Que havemos de offertar aos soes do Pensamento? + + Nunca apoiei Thiers, nem o chacal da Russia! + Detesto a immanidade, e a vingativa astucia... + O sangue da Communa, as lagrimas de Jessa, + Formaram no silencio a fulgida cabeça + Da indomavel revolta! + + O monstro que commanda, em meio de uma escolta + As manobras crueis que geram a orphandade, + É mais feroz que um tigre, e avilta a Humanidade, + E deve ter na mente + A infamia de Javheh, e os odios da serpente. + + Como hei de eu incensar a monarchista treva? + Como hei de então louvar um ser de fronte seva? + Pombal beijou a patria, e espedaçou-lhe o seio; + Fez guerra ao Preconceito, e prostergou o anceio + Dos crentes do porvir! + Levou seu nome á Gloria, e fel-o após cahir. + + No sangue inda escorrega + Quem segue a lusa historia. A sã Justiça nega + Um preito, a quem desdenha a humanitaria via, + E lança a Liberdade ás palhas da enxovia. + + Fique acima de tudo o limpido criterio; + Formar uma cidade onde era um cemiterio + Seria expôr a vida aos morbidos prejuizos. + Vasar em molde infiel historicos juizos + Será viciar tambem o pensamento ao Povo. + + Justiça! Ha de o vindouro escalpellar de novo + A nossa actividade; e então... tremendo encargo! + Ou ha de ter no peito um sentimento amargo + Ou ha de achar mesquinha a obra dos avós! + + Salvemos o Futuro, e que elle creia em nós! + + +FIM + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal á luz da +Philosophia, by Angelina Vidal + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + +***** This file should be named 27255-8.txt or 27255-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/2/5/27255/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Marquez de Pombal á luz da Philosophia + +Author: Angelina Vidal + +Release Date: November 14, 2008 [EBook #27255] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<div align="center"> +<p> </p> +<p style="font-size: 2em; font-weight: bold;">O MARQUEZ DE POMBAL</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">Á LUZ DA PHILOSOPHIA</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="capa"> +<p style="font-size: 1.1em; font-weight: bold;">ANGELINA VIDAL</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em;">O MARQUEZ DE POMBAL</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">Á LUZ DA PHILOSOPHIA</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br> + +IMPRENSA DA VIUVA SOUSA NEVES<br> + +65, Rua da Atalaia, 67<br> + +1882</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div align="center"> +<p style="font-size: 1.3em;">A</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.3em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +</div> + +<div id="corpo"> +<h1>ESCRIPTOR ILLUSTRE</h1> + +<p>Estamos em pleno jubileo.</p> + +<p>Cada época traz o seu cunho caracteristico de exagero, e tristes dos que +se affoutam a soltar qualquer nota discordante no concerto da lisonja +publica.</p> + +<p>No meio d'este anemico paiz vibra ainda uma corda vocal, a ultima--é a +maledicencia. Este facto pathologico é porém de modo tal inoffensivo, que +minuciosamente estudada a sua etiologia, conclue-se que por unica +therapeutica deve applicar-se-lhe o despreso.</p> + +<p>Insultar é uma necessidade tão inherente ao organismo patrio, que se o +indigena não houvera a quem fazel-o, insultar-se-hia a si mesmo.</p> + +<p>Não se combatem principios; oppõem-se abusos a abusos; á communhão da +Liberdade não se admittem cerebros livres; tem de annullar-se a consciencia, +em honra do opportunismo.</p> + +<p>Para ser-se <i>immortal</i> pedem-se as credenciaes aos monarchas da +opinião, e inscreve-se o pretendente nos clubs do elogio +mutuo; não é economico, porque importa a dignidade dos candidatos; mas custa +menos do que fazer-se eleger deputado de qualquer partido.</p> + +<p>Eu porém affasto-me dos microscopicos fetiches, para venerar tão só os +privilegiados do talento, e tenho bastante valor para arrostar com os desdens +do enfatuamento ignaro. Democrata convicta, e evangelisadora do livre +exame--em ethica, sciencia, e politica, manifesto amplamente as opiniões do +meu espirito, com a altiva independencia de quem se habituou a superar os +diques verminosos da sórdida mesquinhez. </p> + +<p>Por isso estendo fraternamente a mão ao glorioso mestre da patria lingua, +e saudando o fecundo engenho do athleta da litteratura portugueza, +offereço-lhe despretenciosamente estes humildes versos.</p> + +<p><small>Lisboa 30 de abril de 1882.</small></p> + +<p class="direita"><i>Angelina Vidal.</i></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h2>I</h2> + +<blockquote> + Um côro de ovações se eleva norte a sul;<br> + No seio do paiz, palpita a festa ingente,<br> + Mil eccos de alegria ondulam pelo azul,<br> + E a vaga popular circula vivamente.</blockquote> + +<blockquote> + Que enorme vibração aos tristes galvanisa?<br> + Que fado deslumbrante a Patria considera?<br> + Una rasgo de valor que um mundo synthetisa?<br> + Um estro que irradia a Gloria pela esphera?</blockquote> + +<blockquote> + Um Genio que assombrasse o coração do mundo?<br> + Talvez Dante ou Camões, talvez um Diderot,<br> + Ou Bacon, ou Voltaire o destructor profundo,<br> + Feurbach ou Galileo, Danton, Goethe, Rousseau?</blockquote> + +<blockquote> + Oh não! A Patria canta o athleta da Realesa,<br> + O Hercules pujante, o pulso sem rival<br> + Que punha até por terra as leis da Naturesa,<br> + Mas que tambem erguia a fama Nacional.</blockquote> + +<blockquote> + Thuribulisem pois o nome do gigante,<br> + Incensem sem descanço o esteio da corôa,<br> + O facho da instrucção, o genio penetrante,<br> + Que de um montão de cinza ergueu nova Lisboa!</blockquote> + +<blockquote> + Cantae, Democracia; o espirito do bravo,<br> + Que o nivel fez rolar por sobre a Sociedade,<br> + Prostrando o jesuitismo, ou libertando o escravo,<br> + Quebrando á inquisição as garras da maldade. </blockquote> + +<blockquote> + Lisonja, ergue a Pombal um hymno de louvores!<br> + Realça o que é brilhante, esconde o que é medonho!<br> + Cerrae a porta á Historia, ó novos pensadores!<br> + O mal não existiu; é falsidade, é sonho!</blockquote> + +<h2>II</h2> + +<blockquote> + Nove horas; a cidade acorda sob um ceu<br> + De christalino azul, de transparente veu;<br> + Movimenta-se a pouco a gente nas viellas,<br> + Adornam-se com arte as donas e donzellas,<br> + E os sinos vão chamando os fervidos catholicos<br> + Aos festejos do templo, e aos canticos symbolicos.</blockquote> + +<blockquote> + Entoa o padre a missa, e os crentes, com respeito<br> + Se curvam brandamente; habita em cada peito<br> + A prece fervorosa, os orgãos gemem notas<br> + Que fazem palpitar as candidas devotas.<br> + Ha como que um sereno e doce mysticismo<br> + Que leva os corações, em nuvens de idealismo,<br> + Aos páramos do ignoto, aos vagos paradisicos,<br> + Onde a crença cultiva os lirios metaphisicos.</blockquote> + +<blockquote> + Nas praças, os peões, laboram tristemente,<br> + E n'uma gelosia um vulto sorridente<br> + Espreita cuidadoso ao longo dos caminhos.<br> + Passa ás vezes um nobre envolto em bons arminhos,<br> + E alinham-se na rua, á porta dos conventos,<br> + Os novos com preguiça, e os velhos sem proventos.</blockquote> + +<blockquote> + De repente porém, um intimo ruido<br> + Se escuta assustador na entranha da cidade!<br> + Depressa lhe succede horrivel alarido,<br> + E um turbido baquear, em toda a extensidade.</blockquote> + +<blockquote> + Oscilla cada predio, e cahem pelo sólo<br> + Desfeitos como em pó os rijos edificios;<br> + E a misera Lisboa, afflicta, pólo a pólo<br> + Vomita o seu terror, por igneos orificios.</blockquote> + +<blockquote> + Fogem as mães tremendo, os filhos junto ao seio,<br> + E correm a acolher-se aos templos do Senhor;<br> + Mas eis que ao grande affan do seu materno anceio<br> + Ahi se expõe um quadro escuro e aterrador.</blockquote> + +<blockquote> + Abobadas cahindo em cima dos altares,<br> + E o padre surpreendido em meio dos cantares,<br> + Sem voz, sem movimento, a par de uma madona<br> + Que ha muito se ostentava em seu painel de lona.<br> + Creanças a chorar, columnas em pedaços,<br> + Soluços do estertor, e aqui e além uns braços<br> + Sob as pedras surgindo e estrebuchando a custo!...</blockquote> + +<blockquote> + Nas ruas e jardins não é menor o susto.<br> + Rodou rapidamente o nivel da desgraça!<br> + Só resta enorme entulho onde era alegre praça,<br> + E os tectos ao cahir nos crepitantes lumes,<br> + Erguem linguas de fogo, em cálidos queixumes.</blockquote> + +<blockquote> + Estala o velho tronco ao cedro gigantesco,<br> + E paira em tudo o horror mortifero e dantesco.<br> + E para cumular o quadro de afflicções,<br> + O Tejo, saccudindo os pardos turbilhões,<br> + Devora febrilmente as ruinas rescaldantes,<br> + E lambe o morto, e o vivo, em saltos delirantes,<br> + E abrindo o coração, sedento de vingança,<br> + Abysma o forte, o fraco, o velho, a mãe, a creança! </blockquote> + +<blockquote> + E como se o terror gerasse a crueldade,<br> + Para opprobrio veraz da crúa humanidade,<br> + No cahos tumulento anda essa immunda plebe<br> + Que rouba, que assassina, e apenas se apercebe,<br> + Sob as nuvens de fumo e pulsações do fogo.</blockquote> + +<blockquote> + E o rei e o seu ministro?<br> + Accaso n'esse jogo<br> + Da horrifica tormenta, o ceu de azul purissimo<br> + Ousaria esquecer um rei que é <i>fidelissimo</i>?<br> + Quem sabe se terão cahido do vaivem?</blockquote> + +<blockquote> + Salvou-o Jehovah--el-rei estava em Belem?<br> + ...........................................</blockquote> + +<blockquote> + Depressa chega ali a nova deploravel;<br> + Aterra-se a nobresa; o facto lamentavel<br> + Envolve em lucto e pranto innumeros varões.<br> + Entreolham-se a tremer, e logo as orações<br> + Se elevam para o ceu como espiraes de dôr.<br> + El-rei branco de susto, os filhos com pavor<br> + Percorrem os salões, idiotas e perplexos.</blockquote> + +<blockquote> + Mas fulgem n'um olhar uns vividos reflexos,<br> + E um vulto erecto e firme encara D. José;<br> + «Marquez, murmura el-rei, castigo de Deus é<br> + «O horrivel cataclysmo! E agora, que afflicção!<br> + «Que havemos de fazer em tal destruição?<br> + «Arde toda a cidade, e estão vasios os portos»<br> + --Salvemos quem viver, demos á terra os mortos.--<br> + Responde friamente o imigo da utopia.</blockquote> + +<blockquote> + E longe de invocar a Deus ou a Maria,<br> + Expede ordens de cunho e toma arduas medidas,<br> + Alenta sem delonga as perigadas vidas,<br> + Corta os braços á chamma, e tolhe o passo á fome;<br> + Liberta o infeliz da angustia que o consome,<br> + E ahi onde o devasso um roubo perpetrava,<br> + Ahi a forca bruta á morte o condemnava.<br> + .........................................<br> + Annos depois surgia a nova capital<br> + N'um throno que assentava em bases de christal. +</blockquote> + +<h2>III</h2> + +<blockquote> + Que borburinho é esse? O Porto anda revolto?<br> + Que foi que se passou?<br> + Como é que invade a praça o povo irado e solto,<br> + Se tanto laborou<br> + El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto?</blockquote> + +<blockquote> + Se ha tanto beneficio, exforços tão visiveis<br> + Em prol da causa publica, <br> + Como podem brotar reprovações sensiveis,<br> + Como é que a ideia nublica<br> + Não acha na Rasão um dique d'impossiveis?</blockquote> + +<blockquote> + «O povo é desgraçado,» affirma a humana Historia, <br> + «Mataram-lhe o Direito,<br> + «E forçara-n'o a seguir a negra sorte ingloria,<br> + «Calado, contrafeito, <br> + «Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria!»</blockquote> + +<blockquote> + Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar;<br> + A ignara populaça. <br> + O monopolio rouba-a, era mister luctar!<br> + E logo, a plebea raça<br> + Reclama valorosa, em vez de supplicar.</blockquote> + +<blockquote> + Mas o ministro excelso havia já disposto<br> + Das cousas do alto-Douro; <br> + Vivesse embora a Patria em noute de desgosto.<br> + Os cofres tinham ouro... <br> + Que importa se a Rasão traz lagrimas no rosto?</blockquote> + +<blockquote> + Por isso se indignou o esteio da Realesa,<br> + E os raios da vingança<br> + Fabrica muito á pressa, e envia com prestesa<br> + Á popular esp'rança<br> + Fundada na intuição das leis da Naturesa.</blockquote> + +<blockquote> + E após, hórrido insulto á crença humanitaria! <br> + Por um delicto falso<br> + Estende-se no Porto a rede sanguinaria,<br> + E o torpe cadafalso<br> + Arranca friamente a vida ao triste paria!</blockquote> + +<blockquote> + Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua,<br> + Forçaram-se a seguir <br> + O sacrificio immano, onde o valor recua,<br> + E a ver a mãe subir <br> + A via da amargura, e escarnecida e nua!</blockquote> + +<blockquote> + E um homem venerando, um martyr impolluto<br> + Que a Consciencia chora, <br> + O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto,<br> + Sereno como a aurora,<br> + Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto!</blockquote> + +<blockquote> + O que ha que justifique o horror de taes supplicios?<br> + Que espirito medonho,<br> + Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios?<br> + Não julga quasi um sonho<br> + Que um homem só, profunde infindos precipicios?</blockquote> + +<blockquote> + Quem ha que não palpite em plena indignação<br> + Olhando um nobre velho<br> + Manchado pela affronta, exposto á impia acção.<br> + Pondo um lastro vermelho, <br> + Na terra onde semeia a intima afflicção.</blockquote> + +<blockquote> + Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta,<br> + Violada em seu pudor,<br> + Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta<br> + Nas ancias do terror,<br> + Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta?</blockquote> + +<blockquote> + Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto,<br> + Comquanto fôra filho, <br> + Havia de exprobar ao potentado morto<br> + O mortuario trilho<br> + Que abriu com turvo affan no coração de Porto!</blockquote> + +<blockquote> + Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa,<br> + Comquanto fosse Mãe, <br> + Havia de olvidar o astro de Lisboa,<br> + Para escutar além, <br> + O brado perennal que pólo a pólo sôa!</blockquote> + +<blockquote> + Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas;<br> + Proclama-o democrata!<br> + Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças<br> + E dize se arrebata<br> + Um nome que traduz as mais crueis offensas!<br> + ............................................</blockquote> + +<blockquote> + E o titan que esmagava assim, rude e febril,<br> + Os braços da nação, os braços productores,<br> + Os ferros destruia ao escravo no Brasil,<br> + E baixava ao commercio os olhos protectores!</blockquote> + +<blockquote> + Infando laborar! Contradicção tamanha,<br> + Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo,<br> + E nos traz á memoria a flórida montanha<br> + Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo!</blockquote> + +<blockquote> + Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo<br> + Quando és synthese só das leis da creação!<br> + És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso,<br> + Proclamas o Progresso, e dás a Destruição! </blockquote> + +<blockquote> + Exhaures toda a força em busca da Verdade,<br> + Penetras com valor nos seculos remotos,<br> + E quando julgas ver a eterna claridade<br> + Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos!</blockquote> + +<blockquote> + Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja!<br> + Que infrene marulhar na logica dos factos!<br> + E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja,<br> + Ha de chegar emfim aos desenganos latos.</blockquote> + +<blockquote> + Buscae por toda a esphera a perfeição preclara;<br> + O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo;<br> + A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara,<br> + A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto!</blockquote> + +<blockquote> + A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra,<br> + E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento;<br> + Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra,<br> + E põe um muro espesso em face ao Pensamento.</blockquote> + +<blockquote> + Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro,<br> + Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade;<br> + E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro<br> + Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade!</blockquote> + +<blockquote> + Nos dramas do Universo ha sempre imitações<br> + O fado é perennal, a fórma é transitoria;<br> + Cada época produz idoneas mutações<br> + E ha pontos de contacto a escurecer a Historia.</blockquote> + +<blockquote> + Se um dia a raça humana attinge os lisos portos<br> + De seus nobres ideaes, então, forte e sublime,<br> + Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos,<br> + Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime.</blockquote> + +<blockquote> + E então, em vez de honrar ministros, generaes,<br> + Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos,<br> + Dará seu preito eterno ás leis universaes,<br> + E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos!</blockquote> + +<h2>IV</h2> + +<blockquote> + Vem rompendo a manhã, dizem as aves<br> + Seus canticos tranquillos e suaves.<br> + As perolas da aurora, sobre as flôres,<br> + Parecem lamentar ignotas dôres;<br> + E a voz do pegureiro, nas collinas,<br> + De envolta com as phrases purpurinas<br> + Com que o espaço saúda a Humanidade,<br> + Tem um cunho supremo de saudade,<br> + Tem um ecco de angustia tão sentida,<br> + Como a corda de uma harpa, que, partida<br> + Expande pelo ether seus lamentos.</blockquote> + +<blockquote> + Vem rompendo a manhã, nos movimentos<br> + Dos multiplos anceios luminosos<br> + Que agitam sem cessar a humana arteria,<br> + E transformam as lides da Materia,<br> + Parecem destacar-se uns sons dolosos,<br> + Que a Naturesa arranca das entranhas,<br> + E que vibram no valle e nas montanhas.</blockquote> + +<blockquote> + E comtudo nos floridos caminhos<br> + Balouçam brandamente os doces ninhos,<br> + E reflectem nas limpidas correntes<br> + As nuvens azuladas, transparentes,<br> + Como um espelho brilhante da Consciencia,<br> + E as varzeas em virente florescencia<br> + Espalham pelo ambiente seus perfumes.</blockquote> + +<blockquote> + Mas escutam-se ao longe alguns queixumes,<br> + Mas um grande alvoroto se aproxima,<br> + E parece que a aurora desanima,<br> + Que os doces rouxinoes tremem de susto,<br> + E pende a Naturesa o roseo busto!</blockquote> + +<blockquote> + Quem é que vem então por essa estrada,<br> + Quando apenas desperta a madrugada?<br> + Que significa pois tanto tropel,<br> + Que quer dizer a angustia tão cruel<br> + Que pulsa ahi no seio universal?</blockquote> + +<blockquote> + É talvez um factor do negro mal,<br> + Algum gigante audaz, filho da noute,<br> + Algum Attila ou Nero, rijo açoute<br> + Das coleras divinas, e illusorias,<br> + Que vem correndo as turvas trajectorias<br> + Do vicio, do rancor, do odio insano,<br> + Até rasgar o peito ao ser humano!<br> + .................................<br> + É um cortejo que segue... quem será!?<br> + Já passam muito perto...<br> + Que numerosos são! Que vejo!... Ah!<br> + Com passo frouxo e incerto <br> + Caminha uma mulher, em desalinho,<br> + Mais pallida que arminho.</blockquote> + +<blockquote> + De um lado traz o padre, e de outro o algoz<br> + De ventas dilatadas<br> + E a estupida expressão de um ser feroz.<br> + As brancas mãos ligadas,<br> + Veem roxas das auras matutinas,<br> + E das correntes finas. </blockquote> + +<blockquote> + Cinge-lhe o corpo esvelto a alva infamante<br> + Dos tristes condemnados, <br> + E ás vezes solta um ai tão lancinante,<br> + Que tremem magoados<br> + Os proprios corações mais rancorosos,<br> + E os monstros mais odiosos. </blockquote> + +<blockquote> + Vem seguida dos filhos e do esposo,<br> + Santissima cohorte<br> + Que vae cahir tambem no seio iroso<br> + Da vingativa morte,<br> + Que o ministro do rei, fero e iracundo,<br> + Arroja sobre o mundo. </blockquote> + +<blockquote> + Chegam junto do poste; ahi pára tudo.<br> + O algoz, sem mais respeito <br> + Bate no hombro á martyr; fica mudo<br> + O feminino peito,<br> + Varado pela intima agonia<br> + Da infrene tyrannia. </blockquote> + +<blockquote> + «Levanta essa cabeça, infiel traidora!<br> + Ordena-lhe o carrasco;<br> + «Tu serás a primeira, que és senhora!<br> + E com medonho chasco<br> + Procura, um por um, os instrumentos<br> + Que servem aos tormentos. </blockquote> + +<blockquote> + «Vê marqueza de Tavora--era a triste!<br> + «Que esplendidas tenazes!<br> + «Sabes quanta virtude aqui persiste?<br> + «São para os teus rapazes.<br> + «Applico-lh'as na cara, mesmo em braza,<br> + «E faço--taboa raza!</blockquote> + +<blockquote> + «E as torquezes? São rijas de uma vez!<br> + «Agarram como o brêo!<br> + «Hão de arrancar os olhos ao marquez,<br> + «<i>Meu amo e senhor meu;</i><br> + «E emquanto lhe correr o pranto amargo<br> + Protesto que o não largo!</blockquote> + +<blockquote> + «Fidalga sem vergonha, olha os cutellos<br> + «Com que eu lhe parto as pernas.<br> + «Agarro-lhes depois pelos cabellos,<br> + «E, lanço-os nas cisternas.<br> + «Porém seu coração traidor, e infausto,<br> + «Dos corvos será pasto.</blockquote> + +<blockquote> + «Vá! Morre descançada, morre em paz,<br> + «Que eu mato os teus tambem!<br> + «Vão todos para o monstro Satanaz!<br> + «E tu, que és boa mãe,<br> + «Deves nutrir os jubilos eternos<br> + «Por vel-os nos infernos!</blockquote> + +<blockquote> + «Mas ouve, ouve mais; teu corpo amado,<br> + «Sou eu que o amortalho<br> + «Nos farrapos do opprobrio e do peccado,<br> + «E em cinzas o retalho.<br> + «E para mór despreso demonstrar<br> + «Atiro-as logo ao mar.</blockquote> + +<blockquote> + «Recae-a em tua fronte todo mal,<br> + «Infamia e maldição!<br> + «Sepulte-se n'um torpe lodaçal<br> + «Teu limpido brazão,<br> + «E fique para sempre o nome teu<br> + «Mais vil que o de um judeu!»</blockquote> + +<blockquote> + A martyr, com a vista erguida ao espaço<br> + Soffria silenciosa.<br> + Rodeia-lhe o pescoço o frio laço<br> + E a victima formosa<br> + E ao ver fugir da vida os aureos brilhos<br> + Só diz «Filhos, meus filhos!...»</blockquote> + +<blockquote> + Ó mães! Que dôr suprema isto traduz!<br> + Que turbida epopeia!<br> + Ó povo soffredor, fóco de luz<br> + De onde irradia a Ideia, <br> + Medita; o que ha de mais cruento e féro<br> + No coração de um Nero?!</blockquote> + +<blockquote> + Como é que desce tanto a raça humana?<br> + Como é que um Povo culto<br> + Supporta resignado a mão tyranna<br> + Que lhe arremessa o insulto,<br> + E deixa ir esmagando sob as lousas<br> + As filhas, mães, e esposas?<br> + ....................................</blockquote> + +<blockquote> + Horas depois os martyres morriam<br> + Ás mãos do indigno algoz;<br> + Boatos na cidade percorriam<br> + Porém a plebea voz <br> + Produz-se eternamente no vazio...<br> + Por isso... não se ouviu!</blockquote> + +<blockquote> + El-rei dava audiencia; ao seu ministro<br> + Fel-o marquez e conde;<br> + O premio era brilhante mas sinistro,<br> + E a Historia ainda esconde <br> + Os prantos que verteu, porque o terror<br> + Suffoca os ais á Dôr!</blockquote> + +<blockquote> + Comtudo alguma cousa se levanta<br> + A protestar com ancia;<br> + Alguma aspiração sublime e santa,<br> + Em firme reluctancia<br> + Descobre ás gerações os negros rastros<br> + Dos portentosos astros. </blockquote> + +<blockquote> + E chama-se Consciencia á eterna força,<br> + Que os seculos correndo, <br> + Sem que a linha traçada alguem contorça,<br> + Pharoes vae accendendo<br> + Nos angulos do turvo precipicio,<br> + Onde faz ninho o vicio.</blockquote> + +<blockquote> + Em nome d'essa força que defende<br> + O fraco, o pobre, a creança,<br> + Gigante luminoso que se estende<br> + Da morte á loura esp'rança,<br> + É que eu reprovo a impia atrocidade<br> + Da velha sociedade. </blockquote> + +<blockquote> + Sou democrata e mãe; procuro um norte<br> + De Liberdade e Gloria;<br> + Acceito essa revolta ardente e forte<br> + Que faz tremer a Historia, <br> + Porém condemno o immano desvario<br> + Que mata a sangue frio!<br> + ...........................................</blockquote> + +<blockquote> + Que a lei arvóre o facho augusto do Direito,<br> + E vá depois cravar nos intimos do peito<br> + As garras da Inclemencia, <br> + Que a Lei fulmine a infamia e seja mais infame<br> + Que avilte e prostitua, e contra a ignavia clame,<br> + Revolta a sã Consciencia!</blockquote> + +<blockquote> + Se o misero infeliz que pelas praças dorme<br> + Calcado pela dôr, medita o <i>crime enorme</i><br> + De procurar viver;<br> + Se presa da afflicção divaga pelas ruas,<br> + Sem casa nem familia, ao frio, as costas nuas,<br> + E os prantos a correr; </blockquote> + +<blockquote> + Se a esposa que implorou á sociedade honesta<br> + Um meio de vencer a fome, e a sorte infesta,<br> + Se encontra repellida;<br> + E para alimentar um filho, irmão ou pae,<br> + Arranca o seu diadema, e sobre as lamas vae<br> + Manchar-se, prostituida. </blockquote> + +<blockquote> + Se o orphão que vegeta a par do vicio ignobil,<br> + Mais tarde é para o vicio o nauseabundo mobil,<br> + Se rouba e prostitue,<br> + Como ousa revoltar-se a sociedade vil,<br> + Se é ella quem provoca, e desbragada e hostil,<br> + Perverte e não instrue?</blockquote> + +<blockquote> + Que pensamento assiste aos monstruosos codigos?<br> + Se os papas, deuses, reis, no crime hão de ser prodigos,<br> + Como é que a lei castiga<br> + Um ser vidente e bom, que aclara a escuridão<br> + Com o facho viril da leal Revolução?<br> + Como é que a Lei intriga?</blockquote> + +<blockquote> + Como é que ella protege o roubador agiota,<br> + E arrasta na enxovia o desgraçado illota<br> + Que a fome fez baquear<br> + Nos pelagos do mal? Ó sociedade absurda!<br> + Á voz da Naturesa, a lei ha de ser surda<br> + E o odio ha de julgar! </blockquote> + +<blockquote> + .........................................</blockquote> + +<blockquote> + Matar uma mulher que é mãe, que é democrata,<br> + Assassinar sem dó a esposa aristocrata,<br> + Junto dos filhos seus,<br> + É por egual cruel, é por egual maldito!<br> + E havia de fazer chorar todo o infinito,<br> + Se acaso houvera um Deus! </blockquote> + +<blockquote> + Por mim, que offerto o culto ao que é sereno e puro,<br> + Que adoro o Bem sublime, e odeio quanto é duro,<br> + Que não conheço a fé,<br> + Protesto contra a morte infausta de Antonietta,<br> + De Sophia, Leonor, Rolland, gentil athleta,<br> + De Tavora e Corday! </blockquote> + +<blockquote> + A mão que referenda o crime da injustiça,<br> + Quando podia erguer da deleteria liça<br> + Um sol ou um jasmim,<br> + Assigna, sem pensar, o perennal deslustre<br> + De um seculo, de um nome, ou de um paiz illustre,<br> + Da Humanidade emfim!</blockquote> + +<h2>V</h2> + +<blockquote> + Como ha de pois a Historia olhar esse Gigante,<br> + Que tinha em si a morte, o Bem, a luz e o crime?<br> + Que ora se eleva a um mundo altivo e coruscante<br> + E logo gera um mal que a Gloria não redime?<br> + Elle era um diplomata, um patriota, um merito,<br> + Podia ser tambem um nobre benemerito<br> + Levando o Povo Luso ás concepções do Justo,<br> + Se em vez de ser feroz, de ter um genio adusto<br> + Voltasse ao sentimento um coração suave.</blockquote> + +<blockquote> + Julgou que ser tyranno era o mister mais grave<br> + Do ministro de um rei!<br> + Fez um docel de sangue ao tribunal da Lei,<br> + Poz um manto de lucto aos hombros da Justiça,<br> + Pisou raivoso o clero, e foi ouvir-lhe a missa,<br> + E como affirmação da ideia monarchista<br> + Dos nobres ao plebeu traçou a rubra lista.</blockquote> + +<blockquote> + Como ha de pois a Historia olhar o athleta ousado?</blockquote> + +<blockquote> + Pesando com criterio os factos do passado,<br> + Seguindo passo a passo o luminoso accesso<br> + Da Sciencia e do Progresso.<br> + ........................................</blockquote> + +<blockquote> + Ha muito que na Europa o sopro percorria<br> + Da clara discussão da sã philosophia.<br> + Desde o seculo doze, a duvida christã,<br> + Buscava escalpellar o craneo de Satan.<br> + Pierre d'Abelard examinara a crença,<br> + E via já na fé uma utopia immensa.<br> + Breve, Thomaz d'Aquino, imigo da Rasão,<br> + Antepunha ao Progresso a fera inquisição.<br> + Mas Bacon, um titan, repelle a fé-cahotica,<br> + E dando luz á Optica <br> + Recebe uma intuição da Sciencia positiva.<br> + Então larga a rotina, e só na lide activa <br> + Depoz a base firme á ideia demonstravel.<br> + Foi elle um ser vidente, e concebeu provavel,<br> + Toda a gloria vindoura; em seu nobre labor<br> + Meditava o progresso enorme do vapor;<br> + Mas como em sua frente a infamia não assoma,<br> + Foi um martyr da Sciencia, e victima de Roma,<br> + A eterna desbragada, a eterna prostituta<br> + Que as gerações enlucta.</blockquote> + +<blockquote> + Mas o germen vingou; surgiu em breve a imprensa,<br> + Excelso meteoro, a realidade immensa<br> + Que faz de Guttemberg um centro luminoso!<br> + Ia baquear em terra um deus medonho e iroso;<br> + Ia a Ideia pulsar na mente e força do Homem!<br> + E como as trevas somem<br> + Os raios de um bom sol, assim o novo invento<br> + Abria par em par a estrada ao Pensamento!</blockquote> + +<blockquote> + O Genio eternisava em breve a Pomponace,<br> + E o forte Rabelais batia face a face<br> + A escolastica, e a lei theocratica e politica,<br> + Bem como o abuso annexo á concepção juridica. </blockquote> + +<blockquote> + A Patria lusitana, a joia do Occidente<br> + Á Europa mostra então o poeta Gil Vicente,<br> + Que açouta o clero hostil com látegos de risos,<br> + E nem sequer poupando os <i>santos paraisos</i>.<br> + Na praça era o judeu sujeito a atrocidades;<br> + Na côrte, D. Manuel escarnecia os frades.</blockquote> + +<blockquote> + Havia pois de um lado a força da rotina<br> + E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina.</blockquote> + +<blockquote> + Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode,<br> + Roma chega raivosa, e vê que nada póde.<br> + Copernico affirmava a terrea rotação,<br> + Perdia o seu prestigio a <i>santa</i> religião!<br> + Forçoso era impedir a affronta d'essa Idéa!<br> + O sabio ponderou, que outr'ora na Chaldéa<br> + Se havia já mostrado o movimento á Terra;<br> + Porém a Curia segue em furibunda guerra,<br> + E condemnou-lhe a obra.</blockquote> + +<blockquote> + Mas eis um luctador que a força audaz redobra,<br> + E com coragem fria<br> + Procura no infinito as leis da astronomia.<br> + Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu.</blockquote> + +<blockquote> + E o mundo olha assombrado o insigne Galileu,<br> + Que segue passo a passo<br> + O trajecto eternal dos mundos pelo espaço.</blockquote> + +<blockquote> + Se ha nome que de Gloria esplenda no universo,<br> + É o d'esse velho nobre<br> + Que o clero punge e arrasta, em dôr, e pranto immerso,<br> + Mas que ao Genio descobre <br> + A esteira do futuro, a via dos heroes<br> + Que põem no Progresso os rubidos pharoes!</blockquote> + +<blockquote> + A quéda do Oriente, estremecer convulso<br> + Havia dado á Ideia um vigoroso impulso,<br> + Civilisando a mente e pondo em toda a parte<br> + O gosto da Poesia, e pelos brilhos da arte.<br> + Então o aureo paiz dos inclitos varões<br> + Produz um sol gigante o esplendido CAMÕES,<br> + A synthese do Genio, um estro democrata<br> + Assombro dos Ideaes, talento que arrebata!</blockquote> + +<blockquote> + Que bella actividade! Um cyclo era uma escola<br> + De sublimado intento!... <br> + Porém vê-se descer o manto de Loyola<br> + Por cima d'esse advento, <br> + E logo a aurora cae nas garras do terror,<br> + E logo a humana gloria exprime no estertor<br> + Que a prostra um assassino! </blockquote> + +<blockquote> + Comtudo avança o Bem! Luthero, Huss e Calvino<br> + Feriram mortalmente<br> + O abuso, a tyrannia e o repugnante agente<br> + Das penas infernaes,<br> + Geradas no rancor das hyenas clericaes.</blockquote> + +<blockquote> + A lucta assim travada é turbulenta e audaz!<br> + De um lado impera altivo o monstro Satanaz.<br> + E do outro a aspiração das comprovadas cousas.<br> + A aurora veste lucto, a terra veste lousas,<br> + E o sangue corre a flux no precipicio escuro...</blockquote> + +<blockquote> + Mas elle fecundou os germens do Futuro!<br> + .......................................</blockquote> + +<blockquote> + Keppler, Newton, Brahé, tinham desfeito o mytho<br> + Da creação divina; os livros do infinito<br> + Já tinham revelado, em phrases de planetas<br> + Da grande lei sidérea as deslumbrantes metas.</blockquote> + +<blockquote> + Descartes ampliára as lucidas conquistas<br> + E profundára o abysmo ás vãs ficções deistas;<br> + E como o jesuitismo erguesse um throno ao mal,<br> + Surgiu-lhe o valoroso e hostil Blaise Pascal,<br> + Com satyra cortante e lucido criterio,<br> + Traçando-lhe no Tempo o eterno cemiterio.</blockquote> + +<blockquote> + Desfibrava-se a pouco a lenda theologica,<br> + E punha-se a attenção na historia geologica,<br> + Gognel, Jussieu, Buffon, tinham rasgado a entranha<br> + No valle, e na montanha, <br> + Á esphera onde se agita o Genio e o desatino.<br> + Seguiram-lhe o trajecto um Pallas e Arduino,<br> + E todos, sem sentir,<br> + Fizeram o passado esmorecer, ruir.</blockquote> + +<blockquote> + A antiga historia china oppunha-se á utopia<br> + Da lenda de Moysés; a sciencia cada dia<br> + Os cerebros levava á nova experiencia,<br> + Que em breve provaria á forte intelligencia<br> + A historia da Materia<br> + No mar, na vida, e morte, e sons, e luz etherea.<br> + ................................................<br> + Brotava na Consciencia a aspiração politica;<br> + Deixara a Inglaterra a fórmula mephitica,<br> + E em todos os sentidos<br> + Se pressentiam já os turbidos ruidos.<br> + Voltaire e Diderot entravam no futuro.<br> + Desmoronando o muro<br> + Que ainda protegia a treva e o fanatismo.<br> + Ficou pois fulminada a crença e o mysticismo!<br> + Nenhum abrigo havia aos golpes do alvião<br> + Vibrados pela firme e rija Evolução.<br> + Os reis, mesmo a sorrir abriam o jazigo,<br> + Onde ia sepultar-se o clero, o seu amigo,<br> + Sem verem que aluida a base do edificio<br> + Que tem por cima o odio, e em baixo o precipicio,<br> + Desaba fatalmente em multiplas bastilhas.</blockquote> + +<blockquote> + Tinham sulcado o oceano as portuguezas quilhas,<br> + E o genio dos heroes deixara esteiras certas<br> + Á bella exploração das ricas descobertas.<br> + No clima luxuriante, e terras do Equador<br> + Eram a flóra e fauna os ninhos do esplendor,<br> + E o Homem que estudava, o Homem já sabia<br> + Que Deus era ignorante, e muito, em Geographia.<br> + ..............................................<br> + N'este mar revoltoso é que se eleva o homem<br> + Que uns coroam de luz, outros na campa somem!</blockquote> + +<h2>VI</h2> + +<blockquote> + O marquez de Pombal, producto do seu meio,<br> + Trazia na Consciencia o salutar anceio<br> + Das santas cousas bellas. <br> + Mas um facto mental, o facto do attavismo,<br> + Acorrentava-o sempre ao velho despotismo<br> + Dos thronos e das cellas. </blockquote> + +<blockquote> + A corrente soprada além, da heroica França,<br> + Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança<br> + Das creações mais caras;<br> + Porém n'esse combate imigo do Direito,<br> + Cedia tristemente á voz do Preconceito,<br> + E ás perversões ignaras.</blockquote> + +<blockquote> + Demonstra-o fartamente o proceder confuso<br> + Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso<br> + De mortes e afflicção,<br> + Curando juntamente, e com visivel gloria,<br> + De lhe aplainar a rude e fria trajectoria,<br> + Por meio da instrucção.</blockquote> + +<blockquote> + Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho<br> + Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho<br> + Do seculo passado,<br> + Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas,<br> + Expostos com vigor, e com profundas vistas<br> + De um espirito avançado.</blockquote> + +<blockquote> + Comprova-o a friesa usada com Fylinto<br> + Que longe do seu ninho, o doce riso extincto,<br> + Chorava, em lyra de ouro, <br> + As ruinas da ventura, o azul do patrio lar,<br> + As aguas do Mondego, e as vibrações do luar<br> + Entre os jasmins e o louro. </blockquote> + +<blockquote> + A ethopéa social dos seculos transactos,<br> + Reflecte-se e vigora em seus funestos actos.<br> + Fluctua sem cessar seu espirito viril,<br> + Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil.<br> + Mas n'elle transparece uma tendencia rude<br> + Que punge a leal Virtude! </blockquote> + +<blockquote> + A statica mental aperta-a pelos pulsos;<br> + E a dynamica então imprime-lhe os impulsos<br> + Da progressiva lida;<br> + E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida.</blockquote> + +<blockquote> + Porém quando abordou á estancia derradeira<br> + Deixava atraz de si a sanguinosa esteira,<br> + Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança<br> + Reclamam com vigor criterio e segurança<br> + Ao tribunal da Historia, onde serão julgados<br> + Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados.<br> + ..............................................<br> + Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz,<br> + Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus<br> + O affecto que daria a irmão, se irmão tivera,<br> + Venero o positivo, e nunca a van chimera.</blockquote> + +<blockquote> + Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso,<br> + Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso,<br> + As heras infantis que enleio na Consciencia,<br> + A força que me impelle á lucta da inclemencia<br> + Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas<br> + Odeia a quem cultiva as rosas christalinas<br> + No coração do Bem, Progresso e Liberdade,<br> + Seguem a religião do Justo e da Verdade,<br> + É a sua crença ideal,<br> + Resume-se no amor do seu sentir filial.</blockquote> + +<blockquote> + Mas tendo a mente forte e despresando os idolos,<br> + E combatendo firme os monumentos frivolos,<br> + Politico-sociaes,<br> + Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes<br> + Da vida do marquez,<br> + E vejo com tristesa o nome portuguez<br> + Coberto pelo horror,<br> + Quando podia ser um foco de explendor.</blockquote> + +<blockquote> + A queda do jesuita é justa, é rasoavel;<br> + Expulsa essa barreira imiga insuperavel,<br> + Podia a sociedade erguer-se da ignorancia,<br> + Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia<br> + Ao Pensamento novo, a santa aspiração!</blockquote> + +<blockquote> + É digno de louvor quebrar á inquisição<br> + Os braços da vingança a ira da torpesa.</blockquote> + +<blockquote> + Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa,<br> + Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente,<br> + Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente,<br> + Rojado pelo chão, manchado pela lama!<br> + E pelas nações clama<br> + A Ideia humanitaria, amena, e justiceira,<br> + Vendo arrojar um ente á estupida fogueira!</blockquote> + +<blockquote> + E embora fosse um padre, embora um jesuita,<br> + Embora fosse irmão da raça atroz, precita,<br> + A minha voz sentida<br> + Protesta contra a morte imposta a Malagrida!<br> + Protesto! E emquanto houver <br> + Um coração de luz em peito de mulher,<br> + Meu brado ha de correr nos angulos do mundo,<br> + E em todo o mar fecundo! </blockquote> + +<h2>VII</h2> + +<blockquote> + Que se ha de então fazer aos grandes luctadores,<br> + Que lançam sobre a Historia as olorosas flores,<br> + E regam com seu sangue os fructos do porvir?<br> + Que fontes de esplendor iremos nós abrir<br> + Ao vidente Danton, a Lincoln, a Blanqui,<br> + O martyr que sorri<br> + Por entre a cerração da noute do tormento?<br> + Que havemos de offertar aos soes do Pensamento?</blockquote> + +<blockquote> + Nunca apoiei Thiers, nem o chacal da Russia!<br> + Detesto a immanidade, e a vingativa astucia...<br> + O sangue da Communa, as lagrimas de Jessa,<br> + Formaram no silencio a fulgida cabeça<br> + Da indomavel revolta! </blockquote> + +<blockquote> + O monstro que commanda, em meio de uma escolta<br> + As manobras crueis que geram a orphandade,<br> + É mais feroz que um tigre, e avilta a Humanidade,<br> + E deve ter na mente<br> + A infamia de Javheh, e os odios da serpente.</blockquote> + +<blockquote> + Como hei de eu incensar a monarchista treva?<br> + Como hei de então louvar um ser de fronte seva?<br> + Pombal beijou a patria, e espedaçou-lhe o seio;<br> + Fez guerra ao Preconceito, e prostergou o anceio<br> + Dos crentes do porvir!<br> + Levou seu nome á Gloria, e fel-o após cahir.</blockquote> + +<blockquote> + No sangue inda escorrega <br> + Quem segue a lusa historia. A sã Justiça nega<br> + Um preito, a quem desdenha a humanitaria via,<br> + E lança a Liberdade ás palhas da enxovia.</blockquote> + +<blockquote> + Fique acima de tudo o limpido criterio;<br> + Formar uma cidade onde era um cemiterio<br> + Seria expôr a vida aos morbidos prejuizos.<br> + Vasar em molde infiel historicos juizos<br> + Será viciar tambem o pensamento ao Povo.</blockquote> + +<blockquote> + Justiça! Ha de o vindouro escalpellar de novo<br> + A nossa actividade; e então... tremendo encargo!<br> + Ou ha de ter no peito um sentimento amargo<br> + Ou ha de achar mesquinha a obra dos avós!</blockquote> + +<blockquote> + Salvemos o Futuro, e que elle creia em nós!</blockquote> + +<h2>FIM</h2> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal á luz da +Philosophia, by Angelina Vidal + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + +***** This file should be named 27255-h.htm or 27255-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/2/5/27255/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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