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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/27236-0.txt b/27236-0.txt new file mode 100644 index 0000000..5fc56d9 --- /dev/null +++ b/27236-0.txt @@ -0,0 +1,10453 @@ +The Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os Lusíadas + +Author: Luís Vaz de Camões + +Release Date: November 11, 2008 [EBook #27236] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS *** + + + + +Produced by Rui Baptista. This book was transcribed from +the online scans produced by the Portuguese _Biblioteca +Nacional Digital_ (http://purl.pt/1/1/). + + + + + + + + +OS +LVSIADAS +de Luis de Ca- +moẽs. + +COM PRIVILEGIO +REAL. + +Impreſſos em Lisboa, com licença da +ſancta Inquiſição, & do Ordinario: +em caſa de Antonio +Gõçaluez Impreſſor. +1572. + + + +Eu el Rey faço ſaber aos que eſte Aluara virem +que eu ey por bem & me praz dar licença +a Luis de Camoẽs pera que poſſa fazer imprimir +neſta cidade de Lisboa, hũa obra em +Octaua rima chamada Os Luſiadas, que contem +dez cantos perfeitos, na qual por ordem +poetica em verſos ſe declarão os principaes feitos +dos Portugueſes nas partes da India depois que ſe deſcobrio a +nauegação pera ellas por mãdado del Rey dom Manoel meu viſauo +que ſancta gloria aja, & iſto com priuilegio pera que em tempo +de dez anos que ſe começarão do dia que ſe a dita obra acabar +de empremir em diãte, ſe não poſſa imprimir nẽ vender em meus +reinos & ſenhorios nem trazer a elles de fora, nem leuar aas ditas +partes da India pera ſe vender ſem licẽça do dito Luis de Camoẽs +ou da peſſoa que pera iſſo ſeu poder tiuer, ſob pena de quẽ o contrario +fizer pagar cinquoenta cruzados & perder os volmes que +imprimir, ou vender, a metade pera o dito Luis de Camoẽs, & a +outra metade pera quem os acuſar. E antes de ſe a dita obra vender +lhe ſera poſto o preço na meſa do deſpacho dos meus Deſembargadores +do paço, o qual ſe declarará & porá impreſſo na primeira +folha da dita obra pera ſer a todos notorio, & antes de ſe imprimir +ſera viſta & examinada na meſa do conſelho geral do ſanto +officio da Inquiſição pera cõ ſua licença ſe auer de imprimir, & +ſe o dito Luis de Camões tiuer acrecentados mais algũs Cantos, +tambem ſe imprimirão auendo pera iſſo licença do ſancto officio, +como acima he dito. E eſte meu Aluara ſe imprimirà outroſi no +principio da dita obra, o qual ey por bem que valha & tenha força +& vigor, como ſe foſſe carta feita em meu nome por mim aſſinada +& paſſada por minha Chancellaria ſem embargo da Ordenação +do ſegundo liuro, tit. xx. que diz que as couſas cujo effeito +ouuer de durar mais que hum ano paſſem per cartas, & paſſando +por aluaras não valhão. Gaſpar de Seixas o fiz em Lisboa, a .xxiiij: +de Setembro, de M.D.LXXI. Iorge da Coſta o fiz eſcreuer. + + + +❧ OS LVSIADAS +DE LVIS DE +CAMÕES. + +Canto primeiro. + +As armas, & os ba- +rões aſsinalados, +Que da Occidental praya Luſi- +tana, +Por mares nunca de antes na- +uegados, +Paſſaram, ainda alem da Taprobana, +Em perigos, & guerras esforçados, +Mais do que prometia a força humana. +E entre gente remota edificarão +Nouo Reino, que tanto ſublimarão. + +E tambem as memorias glorioſas +Daquelles Reis, que forão dilatando +A Fee, o Imperio, & as terras vicioſas +De Affrica, & de Aſia, andarão deuaſtando, +E aquelles que por obras valeroſas +Se vão da ley da Morte libertando. +Cantando eſpalharey por toda parte, +Se a tanto me ajudar o engenho & arte. + +Ceſſem do ſabio Grego, & do Troyano, +As nauegações grandes que fizerão: +Calleſe de Alexandro, & de Trajano, +A fama das victorias que tiuerão, +Que eu canto o peyto illuſtre Luſitano, +A quem Neptuno, & Marte obedeçerão: +Ceſſe tudo o que a Muſa antigua canta, +Que outro valor mais alto ſe aleuanta. + +E vos Tagides minhas, pois criado +Tendes em my hum nouo engenho ardente. +Se ſempre em verſo humilde, celebrado +Foy de my voſſo rio alegremente, +Daime agora hum ſom alto, & ſublimado, +Hum estillo grandiloco, & corrente, +Porque de voſſas agoas Phebo ordene, +Que não tenhão enueja aas de Hypocrene. + +Daime hũa furia grande & ſonoroſa, +E não de agreſte a vena, ou frauta ruda: +Mas de tuba canora & belicoſa, +Que o peito acende, & a cor ao geſto muda: +Daime igoal canto aos feitos da famoſa +Gente voſſa, que a Marte tanto ajuda: +Que ſe eſpalhe & ſe conte no vniuerſo, +Se tam ſublime preço cabe em verſo. + +E vos ò bem naſcida ſegurança +Da Luſitana antigua liberdade, +E não menos certiſsima eſperança, +De aumento da pequena Chriſtandade: +Vos o nouo temor da Maura lança, +Marauilha fatal da noſſa idade: +Dada ao mundo por Deos q̃ todo o mande, +Pera do mundo a Deos dar parte grande. + +Vos tenrro, & nouo ramo florecente, +De hũa aruore de Christo mais amada +Que nenhũa naſcida no Occidente, +Ceſarea, ou Christianiſsima chamada: +Vedeo no voſſo eſcudo, que preſente +Vos amostra a victoria ja paſſada. +Na qual vos deu por armas, & deixou +As que elle pera ſi na Cruz tomou. + +Vos poderoſo Rei, cujo alto Imperio, +O Sol logo em naſcendo ve primeiro: +Veo tambem no meio do Hemiſpherio, +E quando dece o deixa derradeiro. +Vos que eſperamos jugo & vituperio, +Do torpe Ismaelita caualleiro: +Do Turco Oriental, & do Gentio, +Que inda bebe o licor do ſancto Rio. + +Inclinay por hum pouco a magestade, +Que neſſe tenrro gesto vos contemplo, +Que ja ſe mostra, qual na inteira idade, +Quando ſobindo yreis ao eterno templo, +Os olhos a real benignidade +Ponde no chão: vereis hum nouo exemplo, +De amor, dos patrios feitos valeroſos, +Em verſos deuulgado numeroſos. + +Vereis amor da patria, não mouido +De premio vil: mas alto, & quaſi eterno +Que nam he premio vil, ſer conhecido +Por hum pregão do ninho meu paterno. +Ouui vereis o nome engrandecido +Daquelles de quem ſois ſenhor ſuperno. +E julgareis qual he mais excelente, +Se ſer do mundo Rei, ſe de tal gente: + +Ouui, que não vereis com vãs façanhas +Fantaſticas, fingidas, mentiroſas, +Louuar os voſſos, como nas eſtranhas +Muſas, de engrandecerſe deſejoſas, +As verdadeiras voſſas ſam tamanhas, +Que excedem as ſonhadas fabuloſas: +Que excedem Rodamonte, & o vão Rugeiro, +E Orlando, inda quefora verdadeiro. + +Por eſtes vos darey hum Nuno fero, +Que fez ao Rei, & ao Reino tal ſeruiço, +Hum Egas, & hũ dom Fuas, q̃ de Homero +A Citara parelles ſo cobiço: +Pois polos doze pares daruos quero, +Os doze de Inglaterra, & o ſeu Magriço. +Douuos tambem aquelle illustre Gama, +Que para ſi de Eneas toma a fama. + +Pois ſe a troco de Carlos Rei de França, +Ou de Ceſar, quereis iqual memoria: +Vede o primeiro Afonſo, cuja lança +Eſcura faz qualquer eſtranha gloria: +E aquelle que a ſeu Reino a ſegurança +Deixou, com a grande & proſpera victoria. +Outro Ioane, inuicto caualleiro, +O quarto, & quinto Afonſos, & o terceiro. + +Nem deixarão meus verſos eſquecidos, +Aquelles que nos Reinos la da Aurora, +Se fizerão por armas tam ſubidos, +Voſſa bandeira ſempre vencedora. +Hum Pacheco fortiſsimo, & os temidos +Almeidas, por quem ſempre o Tejo chora. +Albuquerque terribil, Caſtro forte, +E outros em quem poder não teue a morte. + +E em quanto eu eſtes canto, & a vos nam poſſo +Sublime Rei, que nam me atreuo a tanto, +Tomay as redeas vos do Reino voſſo, +Dareis materia a nunca ouuido canto: +Comecem a ſentir o peſo groſſo, +(Que polo mundo todo faça eſpanto,) +De exercitos, & feitos ſingulares, +De affricas as terras, & do Oriente os mares. + +Em vos os olhos tem o Mouro frio, +Em quem vè ſeu exicio afigurado, +So com vos ver o barbaro Gentio, +Moſtra o peſcoço ao jugo ja inclinado: +Thetis todo o ceruleo ſenhorio, +Tem pera vos por dote aparelhado: +Que affeiçoada ao geſto bello, & tenro, +Deſeja de compraruos pera genro. + +Em vos ſe vem da Olimpica morada, +Dos ous auôs, as almas ca famoſas, +Hũa na paz Angelica dourada, +Outra polas batalhas ſanguinoſas: +Em vos eſperão, verſe renouada, +Sua memoria, & obras valeroſas. +E la vos tem lugar no fim da idade, +No templo da ſuprema eternidade. + +Mas em quanto eſte tempo paſſa lento, +De regerdes os pouos, que o deſejão: +Day vos fauor ao nouo atreuimento, +Pera que estes meus verſos voſſos ſejão: +E vereis ir cortando o ſalſo argento: +Os voſſos Argonautas, por que vejão, +Que ſam vistos de vos no mar yrado, +E costumaiuos ja a ſer inuocado. + +Ia no largo Occeano nauegauão, +As inquietas ondas apartando, +Os ventos brandamente reſpirauão, +Das naos as vellas concauas inchando: +Da branca eſcuma, os mares ſe moſtrauão +Cubertos, onde as proas vão cortando. +As maritimas agoas conſagradas, +Que do gado de Proteo ſam cortadas. + +Quando os Deuſes no Olimpo luminoſo, +Onde o gouerno esta, da humana gente, +Se ajuntão em conſilio glorioſo, +Sobre as couſas futuras do Oriente: +Piſando o criſtalino Ceo fermoſo, +Vem pela via Lactea, juntamente +Conuocados da parte do Tonante, +Pelo Neto gentil do velho Atlante. + +Deixão dos ſete Ceos o regimento, +Que do poder mais alto lhe foi dado, +Alto poder, que ſo co penſamento +Governa o Ceo, a Terra, & o Mar yrado: +Ali ſe acharão juntos num momento, +Os que habitão o Arcturo congelado. +E os que o Auſtro tem, & as partes onde +A Aurora naſce, & o claro Sol ſe eſconde. + +Eſtava o Padre ali ſublime & dino, +Que vibra os feros rayos de Vulcano, +Num aſſento de estrellas criſtalino, +Com geſto alto, ſevero, & ſoberano, +Do roſto reſpiraua hum ar diuino, +Que diuino tornàra hum corpo humano: +Com hũa coroa, & ceptro rutilante, +De outra pedra mais clara que diamante. + +Em luzentes aſſentos, marchetados +De ouro, & de perlas, mais abaixo estavão +Os outros Deuſes todos aſſentados, +Como a Razão, & a Ordem concertauão. +Precedem os antiguos mais honrrados, +Mais abaixo os menores ſe aſſentauão: +Quando Iupiter alto, aſſy dizendo, +Cum tom de voz começa, graue & horrendo. + +Eternos moradores do luzente +Eſtelifero polo & claro aſſento, +Se do grande valor da forte gente, +De Luſo, não perdeis o penſamento, +Deueis de ter ſabido claramente +Como he dos fados grandes certo intento +Que por ella ſeſqueção os humanos, +De Aſsirios, Perſas, Gregos & Romanos. + +Ia lhe foy (bem o vistes) concedido +Cum poder tam ſingelo & tam pequeno +Tomar ao Mouro forte & guarnecido, +Toda a terra que rega o Tejo ameno: +Pois contra o Caſtelhano tam temido +Sempre alcançou fauor do Ceo ſereno. +Aſsi que ſempre em fim com fama & gloria, +Teue os tropheos pendentes da victoria. + +Deixo Deoſes atras a fama antigua, +Que co a gente de Romulo alcançarão, +Quando com Viriato, na inimiga +Guerra Romana tanto ſe affamarão. +Tambem deixo a memoria, que os obriga +A grande nome, quando aleuantarão +Hum, por ſeu capitão, que peregrino +Fingio na Cerua eſpirito diuino. + +Agora vedes bem, que cometendo, +O diuidoſo mar, num lenho leue, +Por vias nunca vſadas, não temendo +De Affrico & Noto a força a mais ſatreue: +Que auendo tanto ja que as partes vendo, +Onde o dia he comprido, & onde breue. +Inclinão ſeu propoſito, & perfia +A ver os berços, onde naſce o dia + +Prometido lhe eſtà do fado eterno, +Cuja alta ley nam pode ſer quebrada, +Que tenhão longos tempos o gouerno +Do mar, que vé do Sol a roxa entrada. +Nas agoas tem paſſado o duro Inuerno, +A gente vem perdida & trabalhada. +Ia parece bem feito, que lhe ſeja +Mostrada a noua terra que deſeja. + +E porque, como viſtes, tem paſſados +Na viagem, tam aſperos perigos, +Tantos Climas & Ceos experimentados, +Tanto furor de ventos inimigos +Que ſejam, de termino, agaſalhados +Neſta coſta affricana como amigos. +E tendo guarnecida a laſſa frota, +Tornarão a ſeguir ſua longa rata. + +Eſtas palauras Iupiter dezia, +Quando os Deoſes por ordem reſpondendo, +Na ſentença hum do outro difiria, +Razões diuerſas dando & recebendo. +O padre Baco, ali nam conſentia +No que Iupiter diſſe, conhecendo +Que eſquecerão ſeus feitos no Oriente, +Se la paſſar a Luſitana gente. + +Ouuido tinha aos Fados que viria +Hũa gente fortiſsimo de Heſpanha, +Pelo mar alto, a qual ſojeitaria +Da India, tudo quanto Doris banha: +E com nouas victorias venceria, +A fama antiga, ou ſua, ou foſſe eſtranha. +Altamente lhe doe perder a gloria, +De que Niſa celebra inda a memoria. + +Ve que ja teue o Indo ſojugado, +E nunca lhe tirou Fortuna, ou caſo, +Por vencedor da India ſer cantado, +De quantos bebem a agoa de Parnaſo. +Teme agora que ſeja ſepultado, +Seu tam celebre nome, em negro vaſo, +Dagoa do eſquecimento, ſe la chegão +Os fortes Portugueſes, que nauegão, + +Suſtentaua contra elle Venus bella, +Affeiçoada aa gente Luſitana, +Por quantas qualidades via nella, +Da antiga tam amada ſua Romana, +Nos fortes corações, na grande estrella, +Que mostrarão na terra Tingitana: +E na lingoa, na qual, quando imagina, +Com pouca corrupção cre que he a Latina. + +Eſtas cauſas mouião Cyterea, +E mais, porque das Parcas claro entende +Que ha de ſer celebrada a clara Dea, +Onde a gente beligera ſe eſtende. +Aſsi que hum pela infamia que arrecea, +E o outro polas honras que pretende, +Debatem, & na perfia permanecem, +A qualquer ſeus amigos fauorecem: + +Qual Auſtro fero, ou Boreas na eſpeſſura, +De ſilueſtre aruoredo abastecida, +Rompendo os ramos vão da mata eſcura, +Com impito & braueza deſmedida. +Brama toda montanha, o ſom murmura, +Rompenſe as folhas, ferue a ſerra erguida. +Tal andaua o tumulto leuantado, +Entre os Deoſes no Olimpo conſagrado. + +Mas Marte que da Deoſa ſuſtentaua, +Entre todos as partes em porfia, +Ou por que o amor antiguo o obrigaua, +Ou porque a gente forte o merecia, +De entre os Deoſes em pee ſe leuantaua, +Merencorio no gesto parecia: +O forte eſcudo ao collo pendurado, +Deitando para tràs medonho e irado. + +A viſeira do elmo de Diamante, +Aleuantando hum pouco, muy ſeguro, +Por dar ſeu parecer ſe pos diante +De Iupiter, armado, forte & duro: +E dando hũa pancada penetrante, +Co conto do baſtão, no ſolio puro: +O ceo tremeo, & Apolo de toruado, +Hum pouco a luz perdeo, como infiado. + +E diſſe aſsi, ò padre a cujo imperio, +Tudo aquillo obedece, que criaſte, +Se eſta gente que buſca outro Emiſpherio, +Cuja valia, & obras tanto amaſte: +Não queres que padeção vituperio, +Como ha ja tanto tempo que ordenaste +Não ouças mais, pois es juyz direito, +Razões de quem parece que he ſoſpeito. + +Que ſe aqui a razão ſe não mostraſſe +Vencida do temor demaſiado, +Bem fora que aqui Baco os ſoſtentaſſe, +Pois que de Luſo vem, ſeu tam priuado: +Mas eſta tenção ſua, agora paſſe, +Porque em fim vem de eſtamago danado. +Que nunca tirarà alhea enueja, +O bem que outrem mereçe, & o ceo deſeja. + +E tu padre de grande fortaleza, +Da determinaçam que tẽs tomada, +Nam tornes por detras pois he fraqueza +Deſistir ſe da couſa começada. +Mercurio pois excede em ligeireza +Ao vento leue, & aa ſeta bem talhada, +Lhe va mostrar a terra, onde ſe informe +Da India, & onde a gente ſe reforme. + +Como iſto diſſe o Padre poderoſo, +A cabeça inclinando, conſentio +No que diſſe Mauorte valeroſo, +E Nectar ſobre todos eſparzio: +Pelo caminho Lacteo glorioſo, +Logo cada hum dos Deoſes ſe partio. +Fazendo ſeus reaes acatamentos, +Pera os determinados apouſentos. + +Em quanto iſto ſe paſſa, na fermoſa +Caſa eterea do Olimpo omnipotente +Cortaua o mar a gente belicoſa: +Ia la da banda do Auſtro, & do Oriente, +Entre a coſta Ethiopica, & a famoſa +Ilha de ſam Lourenço, & o Sol ardente +Queimaua entam os Deoſes, que Tifeô +Co temor grande em pexes conuerteô. + +Tam brandamente os ventos os leuauão, +Como quem o ceo tinha por amigo: +Sereno o ar, & os tempos ſe mostrauão +Sem nuuẽs, ſem receio de perigo: +O promontorio praſſo ja paſſauão +Na coſta de Ethiopia, nome antiguo. +Quando o mar deſcobrindo lhe moſtraua, +Nouas ilhas que em torno cerca, & laua. + +Vaſco da gama, o forte Capitão, +Que a tamanhas empreſas ſe offerece, +De ſoberbo, & de altiuo coração, +A quem fortuna ſempre fauorece +Pera ſe aqui deter, não ve razão, +Que inhabitada a terra lhe parece: +Por diante paſſar determinaua: +Mas nam lhe ſoccedeo como cuydaua. + +Eis aparecem logo em companhia, +Hũs pequenos bateis, que vem daquella +Que mais chegada à terra parecia, +Cortando o longo mar com larga vella: +A gente ſe aluoroça, & de alegria +Não ſabe mais que olhar a cauſa della. +Que gente ſera eſta, em ſi dezião, +Que costumes, que ley, que Rei terião? + +As embarcações erão, na maneira +Muy veloces, eſtreitas, & compridas, +As vellas com que vem erão de eſteira, +Dũas folhas de Palma bem tecidas: +A gente da cor era verdadeira, +Que Phaeton, nas terras acendidas +Ao mundo deu, de ouſado, & não prudente, +O Pado o ſabe, & Lampetuſa o ſente. + +De panos de algodão vinhão veſtidos, +De varias cores, brancos, & liſtrados, +Hũs trazem derredor de ſi cingidos, +Outros em modo ayroſo ſobraçados, +Das cintas pera cima vem deſpidos: +Por armas tem adagas, & tarçados. +Com toucas na cabeça, & nauegando, +Anafis ſonoroſos vão tocando. + +Cos panos, & cos braços açenauão, +Aas gentes Luſitanas, que eſperaſſem: +Mas ja as proas ligeiras, ſe inclinauão, +Pera que junto aas Ilhas amainaſſem. +A gente, & marinheiros trabalhauão, +Como ſe aqui os trabalhos ſacabaſſem: +Tomão vellas, amainaſe a verga alta, +Da ancora o mar ferido, encima ſalta. + +Não erão ancorados, quando a gente +Eſtranha, polas cordas ja ſubia, +No geſto ledos vem, & humanamente, +O Capitão ſublime os recebia. +As meſas manda por em continente, +Do licor que Lieo prantado auia: +Enchem vaſos de vidro, & do que deitão, +Os de Phaeton queimados nada engeitão. + +Comendo alegremente perguntauão, +Pela Arabica lingoa, donde vinhão, +Quem erão, de que terra, que buſcauão, +Ou que partes do mar corrido tinhão? +Os fortes Luſitanos lhe tornauão, +As diſcretas repostas que conuinhão. +Os Portugueſes ſomos do Occidente, +Himos buſcando as terras do Oriente. + +Do mar temos corrido, & nauegado +Toda a parte do Antartico, & Caliſto, +Toda a coſta Affricana rodeado, +Diuerſos Ceos, & Terras temos viſto: +Dum Rei potente ſomos, tam amado, +Tam querido de todos, & bem quisto: +Que nam no largo Mar, com leda fronte: +Mas no lago entraremos de Acheronte. + +E por mandado ſeu, buſcando andamos +A terra Oriental, que o Indo rega, +Por elle o Mar remoto nauegamos, +Que ſo dos feos Focas ſe nauega: +Mas ja razão parece que ſaibamos, +Se entre vos a verdade não ſe nega. +Quem ſois, que terra he eſta que abitais? +Ou ſe tendes da India algũs ſinais? + +Somos, hum dos das Ilhas lhe tornou, +Eſtrangeiros na terra, Lei, & nação +Que os proprios, ſam aquelles que criou +A Natura ſem Lei, & ſem Razão: +Nos temos a Lei certa que inſinou, +O claro deſcendente de Abrahão: +Que agora tem do Mundo o ſenhorio, +A mãy Hebrea teue, & o pai Gentio. + +Esta Ilha pequena que habitamos, +He em toda eſta terra certa eſcala, +De todos os que as Ondas nauegamos, +De Quiloa, de Mombaça, & de Sofala: +E por ſer neceſſaria, procuramos, +Como proprios da terra, de habitala. +E porque tudo em fim vos notifique, +Chamaſe a pequena Ilha Moçambique. + +E ja que de tam longe nauegais, +Buſcando o Indo Idaſpe, & terra ardente, +Piloto aqui tereis, por quem ſejais +Guiados pelas ondas ſabiamente. +Tambem ſera bemfeito que tenhais, +Da terra algum refreſco, & que o Regente +Que esta terra gouerna, que vos veja, +E do mais neceſſario vos proueja. + +Iſto dizendo, o Mouro ſe tornou +A ſeus bateis com toda a companhia, +Do Capitão & gente ſe apartou, +Com mostras de deuida corteſia: +Niſto Febo nas agoas encerrou, +Co carro de Christal, o claro dia: +Dando cargo aa Irmaã, que alumiaſſe, +O largo Mundo, em quanto repouſaſſe. + +A noyte ſe paſſou na laſſa frota, +Com eſtranha alegria, & não cuydada, +Por acharem da terra tão remota, +Noua de tanto tempo deſejada: +Qualquer então conſigo cuyda, & nota +Na gente, & na maneira deſuſada. +E como os que na errada Seita crérão, +Tanto por todo o mundo ſe eſtendérão. + +Da Lũa os claros rayos rutilauão, +Polas argenteas ondas Neptuninas, +As Estrellas os Ceos acompanhauão. +Qual campo reueſtido de boninas, +Os furioſos ventos repouſauão, +Polas couas eſcuras peregrinas. +Porem da armada a gente vigiaua, +Como por longo tempo coſtumaua. + +Mas aſſy como a Aurora marchetada, +Os fermoſos cabellos eſpalhou, +No Ceo ſereno, abrindo a roxa entrada, +Ao claro Hiperionio que acordou, +Começa a embandeirarſe toda a armada, +E de todos alegres ſe adornou: +Por receber com festas, & alegria, +O Regedor das Ilhas que partia. + +Partia alegremente nauegando, +A ver as naos ligeiras Luſitanas, +Com refreſco da terra, em ſi cuidando, +Que ſam aquellas gentes inhumanas: +Que os apouſentos Caſpios habitando, +A conquiſtar as terras Aſianas +Vierão: & por ordem do deſtino, +O Imperio tomarão a Coſtantino. + +Recebe o Capitão alegremente, +O Mouro, & toda ſua companhia, +Dalhe de ricas peças hum preſente, +Que ſo pera eſte effeito ja trazia: +Dalhe conſerua doçe, & dalhe o ardente +Não vſado licor que dâ alegria. +Tudo o Mouro contente bem recebe, +E muito mais contente come, & bebe. + +Eſtà a gente maritima de Luſo, +Subida pela exarcia, de admirada, +Notando o estrangeiro modo, & vſo, +E a lingoagem tam barbara & enleada. +Tambem o Mouro astuto eſtà confuſo, +Olhando a cor, o trajo, & a forte armada. +E perguntando tudo lhe dezia, +Se porventura vinhão de Turquia. + +E mais lhe diz tambem, que ver deſeja +Os liuros de ſua ley, preceito, ou fé, +Pera ver ſe conforme à ſua ſeja, +Ou ſe ſam dos de Christo, como crè: +E porque tudo note, & tudo veja, +Ao Capitão pedia, que lhe dé, +Mostra das fortes armas de que vſauão, +Quando cos inimigos pelejauão. + +Responde o valeroſo Capitão, +Por hum que a lingoa eſcura bem ſabia: +Darte ey Senhor illuſtre relação +De my, da ley, das armas que trazia: +Nem ſou da terra, nem da geraçam, +Das gentes enojoſas de Turquia: +Mas ſou da forte Europa belicoſa, +Buſco as terras da India tam famoſa? + +A ley tenho daquelle, a cujo imperio +Obedece o viſibil, & inuiſibil, +Aquelle que criou todo o Emispherio, +Tudo o que ſente, & todo o inſenſibil +Que padeceo deshonra, & vituperio, +Sofrendo morte injuſta, & inſufribil: +E que do ceo aa terra em fim deceo, +Por ſubir os mortais da terra ao ceo. + +Deste Deos homem, alto, & infinito, +Os Liuros que tu pedes, nam trazia, +Que bem poſſo eſcuſar trazer eſcripto +Em papel, o que na alma andar deuia. +Se as armas queres ver, como tẽs dito, +Comprido eſſe deſejo te ſeria: +Como amigo as veras, porque eu me obrigo, +Que nunca as queiras ver como inimigo. + +Iſto dizendo, manda os diligentes +Miniſtros, amoſtrar as armaduras, +Vem arneſes, & peitos reluzentes, +Malhas finas, & laminas ſeguras, +Eſcudos de pinturas differentes, +Pilouros, eſpingardas de aço puras, +Arcos, & ſagittiferas aljauas, +Partaſanas agudas, chuças brauas. + +As bombas vem de fogo, & juntamente +As panellas ſulfureas, tam danoſas, +Porem aos de Vulcano nam conſente +Que dem fogo aas bombardas temeroſas: +Porque o generoſo animo, & valente, +Entre gentes tam poucas, & medroſas, +Não mostra quanto pode, & com razão, +Que he fraqueza entre ouelhas ſer lião. + +Porem diſto que o Mouro aqui notou, +E de tudo o que vio, com olho atento, +Hum odio certo na alma lhe ficou, +Hũa vontade mà de penſamento. +Nas moſlras, & no gesto o não moſtrou: +Mas com riſonho, & ledo fingimento, +Tratalos brandamente determina, +Ate que moſtrar poſſa o que imagina. + +Pilotos lhe pedia o Capitão, +Por quem podeſſe aa India ſer leuado, +Dizlhe, que o largo premio leuarão, +Do trabalho que niſſo for tomado. +Prometelhos o Mouro, com tenção +De peito venenoſo, & tão danado: +Que a morte ſe podeſſe neste dia, +Em lugar de Pilotos lhe daria. + +Tamanho o odio foy, & a mà vontade, +Que aos eſtrangeiros ſupito tomou, +Sabendo ſer ſequaces da verdade, +Que o filho de Dauid nos enſinou, +Os ſegredos daquella Eternidade +A quem juyzo algum não alcançou. +Que nunca falte hum perfido inimigo, +A aqueles de quem foſte tanto amigo? + +Partioſe nisto em fim co a companhia, +Das naos o falſo Mouro despedido, +Com enganoſa & grande corteſia, +Com geſto ledo a todos, & fingido: +cortárão os bateis a curta via +Das agoas de Neptuno, & recebido +Na terra do obſequente ajuntamento, +Se foy o Mouro ao cognito apouſento: + +Do claro aſſento Etereo, o grão Tebano, +Que da paternal coxa foy naſcido +Olhando o ajuntamento Luſitano, +Ao Mouro ſer moleſto, & auorrecido: +No penſamento cuyda hum falſo engano +Com que ſeja de todo deſtruydo. +E em quanto iſto ſo na alma imaginaua +Configo eſtas palauras praticaua. + +Eſtà do fado ja determinado, +Que tamanhas victorias tam famoſas, +Ajão os Portugueſes alcançado, +Das Indianas gentes belicoſas. +E eu ſo filho do Padre ſublimado, +Com tantas qualidades generoſas: +Ey de ſofrer que o Fado fauoreça +Outrem, por quem meu nome ſe eſcureça? + +Ia quiſeram os Deoſes que tiueſſe, +O filho de Filipo neſta parte, +Tanto poder, que tudo ſometeſſe +Debaixo do ſeu jugo, o fero Marte: +Mas aſſe de ſoffrer que o Fado deſſe, +A tam poucos tamanho esforço, & arte +Queu co gram Macedonio, & Romano, +Demos lugar ao nome Luſitan? + +Não ſera aſſy, porque antes que chegado +Seja eſte Capitão, astutamente +Lhe ſera tanto engano fabricado, +Que nunca veja as partes do Oriente: +Eu decerey aa terra, & o indignado +Peito, reuoluerey da Maura gente, +Porque ſempre por via yra dereita, +Quem do oportuno tempo ſe aproueita. + +Iſto dizendo yrado, & quaſi inſano, +Sobre a terra Affricana deſcendeo, +Onde vestindo a forma & geſto humano, +Pera o Praſſo ſabido ſe moueo. +E por milhor tecer o aſtuto engano, +No geſto natural ſe conuerteo, +Dum Mouro, em Moçambique conhecido, +Velho, ſabio, & co Xeque muy valido. + +E entrando aſſy a falarlhe, a tempo & horas, +A ſua falſidade acomodadas, +Lhe diz como erão gentes roubadoras, +Eſtas que ora de nouo ſam chegadas: +Que das nações na coſta moradoras, +Correndo a fama veio, que roubadas, +Forão por estes homẽs que paſſauão, +Que com pactos de paz ſempre ancorauão. + +E ſabe mais, lhe diz, como entendido +Tenho destes Christãos ſanguinolentos, +Que quaſi todo o mar tem destruido, +Com roubos, com incendios violentos: +E trazem ja de longe engano vrdido, +Contra nos, & que todos ſeus intentos +Sam pera nos matarem, & roubarem, +E molheres & filhos captiuarem. + +E tambem ſey que tem determinado, +De vir por agoa a terra muito cedo, +O Capitão dos ſeus acomponhado, +Que da tençam danada naſce o medo: +Tu deues de yr tambem cos teus armado +Eſperallo em cilada, occulto & quedo: +Por que ſaindo a gente deſcuydada, +Cairão facilmente na cilada. + +E ſe inda não ficarem deste geito, +Destruydos, ou mortos totalmente, +Eu tenho imaginada no conceito, +Outra manha & ardil que te contente: +Mandalhe dar Piloto, que de geito +Seja aſtuto no engano, & tam prudente, +Que os leue aonde ſejão deſtruydos, +Desbaratados mortos, ou perdidos. + +Tanto que eſtas palauras acabou, +O Mauro nos tais caſos, ſabio & velho +Os braços pelo collo lhe lançou, +Agradecendo muito o tal conſelho: +E logo neſſe inſtante concertou, +Pera a guerra o beligero aparelho: +Pera que ao Portugues ſe lhe tornaſſe, +Em roxo ſangue a agoa que buſcaſſe. + +E buſca mais pera o cuydado engano, +Mouro que por Piloto aa nao lhe mande, +Sagaz, aſtuto, & ſabio em todo o dano +De quem fiar ſe poſſa hum feito grande, +Dizlhe que acompanhando o Luſitano, +Por tais coſtas, & mares co elle ande: +Que ſe daqui eſcapar, que la diante +Va cair onde nunca ſe aleuante. + +Ia o rayo Apolina viſitaua, +Os Montes Nabatheos acendido, +Quando Gama cos ſeus determinaua, +De vir por agoa a terra apercebido: +A gente nos bateis ſe concertaua, +Como ſe foſſe o engano ja ſabido: +Mas pode ſoſpeitarſe facilmente, +Que o coração preſago nunca mente. + +E mais tambem mandado tinha a terra, +De antes pelo Piloto neceſſario: +E foilhe reſpondido em ſom de guerra, +Caſo do que cuydaua muy contrario: +Por iſto, & porque ſabe quanto erra, +Quem ſe cre de ſeu perfido aduerſario, +Apercebido vay como podia, +Em tres bateis ſomente que trazia: + +Mas os Mouros que andauão pela praya, +Por lhe defender a agoa deſejada, +Hum de eſcudo embarcado, & de azagaya, +Outro de arco encuruado, & ſeta eruada: +Eſperão que a guerreira gente ſaya, +Outros muytos ja poſtos em cillada. +E porque o caſo leue ſe lhe faça, +Poem hũs poucos diante por negaça. + +Andão pela ribeira alua arenoſa, +Os belicoſos Mouros acenando, +Com a adarga, & co a aſtea perigoſa, +Os fortes Portugueſes incitando: +Nam ſoſfre muito a gente generoſa, +Andarlhe os cães os dentes amoſtrando. +Qualquer em terra ſalta, tam ligeiro, +Que nenhum dizer pode que he primeiro. + +Qual no corro ſanguino, o ledo amante, +Vendo a fermoſa dama deſejada, +O Touro buſca, & pondo ſe diante, +Salta, corre, ſibila, acena, & brada: +Mas o animal atroçe neſſe instante, +Com a fronte cornigera inclinada, +Bramando duro corre, & os olhos cerra, +Derriba, fere, & mata & poem por terra. + +Eis nos bateis o fogo ſe leuanta, +Na furioſa & dura artilheria, +A plumbea pela mata, o brado eſpanta: +Ferido o ar retumba, & aſſouia: +O coraçam dos Mouros ſe quebranta, +O temor grande o ſangue lhe resfria. +Ia foge o eſcondido de medroſo, +E morre o deſcuberto auenturoſo. + +Não ſe contenta a gente Portugueſa: +Mas ſeguindo a victoria eſtrue, & mata +A pouoação ſem muro, & ſem defeſa, +Esbombardea, acende, & desbarata. +Da caualgada ao Mouro ja lhe peſa, +Que bem cuidou comprala mais barata: +Ia blasfema da guerra, & maldizia, +O velho inerte, & a mãy que o filho cria. + +Fugindo, a ſeta o Mouro vay tirando, +Sem força, de couarde, & de apreſſado, +A pedra, o pao, & o canto arremeſſando, +Dalhe armas o furor deſatinado: +Ia a Ilha, & todo o mais, deſemparando, +Aa terra firme foge amedrontado. +Paſſa, & corta do mar o eſtreito braço, +Que a Ilha em torno cerca, em pouco eſpaço. + +Hũs vão nas almádías carregadas, +Hum corta o mar a nado diligente, +Quem ſe affoga nas ondas encuruadas, +Quem bebe o mar, & o deita juntamente: +Arrombão as meudas bombardadas +Os Pangaios ſotis da bruta gente. +Desta arte o Portugues em fim caſtiga, +A vil malicia, perfida, inimiga. + +Tornão victorioſos pera a armada, +Co deſpojo da guerra, & rica preſa, +E vão a ſeu prazer fazer agoada, +Sem achar reſiſtencia, nem defeſa +Ficaua a Maura gente magoada, +No odio antigo, mais que nunca aceſa. +E vendo ſem vingança tanto dano, +Somente estriba no ſegundo engano. + +Pazes cometer manda arrependido, +O Regedor daquella inica terra, +Sem ſer dos Luſitanos entendido, +Que em figura de paz lhe manda guerra: +Porque o Piloto falſo prometido, +Que toda a mà tenção no peito encerra. +Pera os guiar aa morte lhe mandaua, +Como em ſinal das pazes que trataua. + +O Capitão, que ja lhe entam conuinha, +Tornar a ſeu caminho acoſtumado, +Que tempo concertado, & ventos tinha, +Pera yr buſcar o Indo deſejado. +Recebendo o Piloto que lhe vinha, +Foy delle alegremente agaſalhado: +E reſpondendo ao menſageiro, a tento +Aas vellas manda dar ao largo vento. + +Desta arte deſpedida a forte armada, +As ondas de Anfitrite diuidia, +Das filhas de Nerêo acompanhada, +Fiel, alegre, & doçe companhia. +O Capitão, que não cahia em nada, +Do enganoſo ardil que o Mouro vrdia: +Delle muy largamente ſe informaua, +Da India toda, & coſtas que paſſaua: + +Mas o Mouro inſtruido nos enganos, +Que o maléuolo Baco lhe enſinára +De morte, ou captiueiro nouos danos, +Antes que aa India chegue lhe prepara, +Dando razão dos portos Indianos, +Tambem tudo o que pede lhe declara. +Que auendo por verdade o que dizia, +De nada a forte gente ſe temia. + +E diz lhe mais co falſo penſamento, +Com que Synon os Phrigios enganou, +Que perto eſtà hũa Ilha, cujo aſſento, +Pouo antigo Chriſtão ſempre abitou: +O Capitão que a tudo eſtaua a tento, +Tanto co estas nouas ſe alegrou, +Que com dadiuas grandes lhe rogaua, +Que o leue aa terra onde eſta gente eſtaua. + +Ho mesmo o falſo Mouro determina, +Que o ſeguro Chriſtão lhe manda & pede, +Que a Ilha he poſſuida da malina +Gente, que ſegue o torpe Mahamede: +Aqui o engano & morte lhe imagina, +Porque em poder & forças muito excede +Aa Moçambique, eſta Ilha que ſe chama +Quîloa, muy conhecida pola fama. + +Pera là ſe inclinaua a leda frota: +Mas a Deoſa em Cythere celebrada, +Vendo como deixaua a certa rota, +Por yr buſcar a morte não cuidada, +Não conſente que em terra tão remota +Se perca a gente della tanto amada. +E com ventos contrairos a deſuia, +Donde o Piloto falſo a leua, & guia. + +Mas o maluado Mouro nam podendo, +Tal determinação leuar auante, +Outra maldade inica cometendo, +Ainda em ſeu propoſito constante, +Lhe diz, que pois as agoas diſcorrendo, +Os leuàrão por força por diante, +Que outra Ilha tem perto, cuja gente, +Erão Chriſtãos com Mouros juntamente. + +Tambem nestas palauras lhe mentia, +Como por regimento em fim leuaua, +Que aqui gente de Chriſto não auia: +Mas a que a Mahamede celeebraua. +O Capitão que em tudo o mouro cria, +Virando as vellas, a Ilha demandaua: +Mas nam querendo a Deoſa guardadora, +Nam entra pela barra, & ſurge fora. + +Eſtaua a Ilha aa terra tam chegada, +Que hum eſtreito pequeno a diuidia, +Hũa cidade nella ſituada, +Que na fronte do mar aparecia, +De nobres edificios fabricada, +Como por fora, ao longe deſcobria, +Regida por hum Rei de antigua idade, +Mombaça he o nome da Ilha, & da Cidade. + +E ſendo a ella o Capitão chegado, +Eſtranhamente ledo, porque eſpera +De poder ver o pouo baptizado, +Como o falſo Piloto lhe diſſera: +Eis vem bateis da terra com recado +Do Rei, que ja ſabia a gente que era, +Que Baco muito de antes o auiſara, +Na forma doutro Mouro que tomàra. + +O recado que trazem he de amigos: +Mas debaxo o veneno vem cuberto, +Que os penſamentos erão de inimigos, +Segundo foy o engano deſcuberto. +O grandes & grauiſsimo perigos, +O caminho de vida nunca certo: +Que aonde a gente poem ſua eſperança, +Tenha a vida tam pouca ſegurança. + +No mar tanta tormenta, & tanto dano, +Tantas vezes a morte apercebida, +Na terra, tanta guerra, tanto engano, +Tanta neceſsidade auorrecida: +Onde pode acolherſe hum fraco humano, +Onde terà ſegura a curta vida? +Que não ſe arme, & ſe indigne o Ceo ſereno. +Contra hum bicho da terra tam pequeno. + +Fim. + + + +❧ Canto Segundo. + +Ia neſte tempo o +lucido Planeta, +Que as horas vay do dia diſtin- +guindo, +Chegaua aa deſejada, & lenta Meta, +A luz Celeſte aas gentes encobrindo: +E da caſa maritima ſecreta, +Lhe eſtaua o Deos Nocturno a porta abrĩdo: +Quando as infidas gentes ſe chegárão +Aas naos, que pouco auia que ancorarão + +Dantre elles hum que traz encomendado, +O mortifero engano, aſsi dezia. +Capitão valeroſo, que cortado +Tens de Neptuno o reyno, & ſalſa via, +O Rei que manda eſta Ilha, aluoraçado +Da vinda tua tem tanta alegria, +Que nam deſeja mais que agaſalharte, +Verte, & do neceſſario reformarte. + +E porque eſtà em eſtremo deſejoſo +De te ver, como couſa nomeada, +Te roga que de nada receoſo, +Entres a barra, tu com toda armada: +E porque do caminho trabalhoſo, +Traras a gente debil, & canſada, +Diz que na terra podes reformala, +Que a natureza obriga a deſejada, + +E ſe buſcando vas mercadoria, +Que produze o aurifero Leuante, +Canella, Crauo, ardente eſpeciaria, +Ou Droga ſalutifera, & preſtante: +Ou ſe queres luzente pedraria, +O Rubí fino, o rigido Diamante: +Daqui leuaras tudo tam ſobejo. +Com que faças o fim a teu deſejo: + +Ao menſageiro o Capitão reſponde, +As palauras do Rei agradecendo, +E diz que porque o Sol no mar ſe eſconde, +Não entra pera dentro obedecendo, +Porem que como a luz mostrar por onde +Va ſem perigo, a frota não temendo, +Comprirà ſem receio ſeu mandado, +Que a mais por tal ſenhor eſtà obrigado. + +Perguntalhe deſpois, ſe estão na terra +Chriſtãos, como o Piloto lhe dezia, +O menſageiro aſtuto que não erra, +Lhe diz, que a mais da gẽte em Chriſto cria: +Deſta ſorte do peito lhe desterra +Toda a ſoſpeita, & cauta fantaſia: +Por onde o Capitão ſeguramente, +Se fia da infiel, & falſa gente. + +E de algũs que trazia condenados, +Por culpas, & por feitos vergonhoſos +Porque podeſſem ſer auenturados, +Em caſos deſta ſorte duuidoſos. +Manda dous mais ſagazes, enſaiados, +Porque notem dos Mouros enganoſos, +A Cidade, & poder, & porque vejão, +Os que Chriſtãos, que ſo tanto ver deſejão. + +E por eſtes ao Rei preſentes manda, +Porque a boa vontade que moſtraua, +Tenha firme, ſegura, limpa, & branda, +A qual bem ao contrario em tudo eſtaua. +Ia a companhia perfida, enefanda +Das naos ſe deſpedia, & o mar cortaua, +Foram com geſtos ledos, & fingidos, +Os dous da frota em terra recebidos. + +E deſpois que ao Rei apreſentàrão, +Co recado os preſentes que trazião, +A Cidade correrão, & notarão +Muito menos daquillo que querião, +Que os Mouros cauteloſos ſe guardarão +De lhe moſtrarem tudo o que pedião. +Que onde reina a malicia, eſtà o receio +Que a faz imaginar no peito alheio. + +Mas aquelle que ſempre a mocidode +Tem no roſto perpetua, & foy naſcido +De duas mãis: que vrdia a falſidade, +Por ver o nauegante deſtruydo: +Eſtaua nũa caſa da Cidade, +Com roſto humano, & habito fingido +Moſtrandoſe Chriſtão, & fabricaua +Hum altar ſumptuoſo que adoraua. + +Ali tinha em retrato affigurada +Do alto & Sancto ſpirito a pintura, +A candida Pombinha debuxada, +Sobre a vnica Fenix virgem pura, +A companhia ſancta eſtà pintada, +Dos doze tam toruados na figura, +Como os que, ſo das lingoas que cayrão, +De fogo, varias lingoas referirão. + +Aqui os dous companheiros conduzidos, +Onde com este engano Baco estaua +Poem em terra os giolhos, & os ſentidos +Naquelle Deos, que o mundo gouernaua +Os cheiros excellentes produzidos, +Na Panchaia odorifera queimaua +O Thioneû, & aſsi por derradeiro +O falſo Deos adora o verdadeiro. + +Aqui forão denoite agaſalhados, +Com todo o bom, & honeſto tratamento +Os dous Chriſtãos, nam vendo que enganado +Os tinha o falſo, & ſancto fingimento: +Mas aſsi como os rayos eſpalhados +Do Sol forão no mundo, & num momento +Apareceo no rubido Orizonte, +Na moça de Titão a roxa ſronte. + +Tornão da terra os Mouros co recado +Do Rei, pera que entraſſem, & conſigo +Os dous que o Capitão tinha mandado, +A quem ſe o Rei moſtrou ſincêro amigo: +E ſendo o Portugues certificado, +De não auer receio de perigo. +E que gente de Chriſto em terra auia, +Dentro no ſalſorio entrar queria + +Dizem lhe os que mandou, que em terra vîrão, +Sacras aras, & ſacerdote ſancto, +Que ali ſe agaſalhàrão, & dormirão, +Em quanto a luz cubrio o eſcuro manto: +E que no Rei, & gentes não ſentirão +Senão contentamento, & gosto tanto: +Que não podia certo auer ſoſpeita, +Nũa mostra tão clara, & tão perfeita. + +Co iſto o nobre Gama recebia +Alegremente os Mouros que ſubião, +Que leuemente hum animo ſe fia, +De mostras que tão certas parecião: +A nao da gente perfida ſe enchia, +Deixando a bordo os barcos que trazião: +Alegres vinhão todos, porque crem +Que a preſa deſejada certa tem. + +Na terra cautamente aparelhauão, +Armas, & monições, que como viſſem +Que no Rio os nauios ancorauão, +Nelles ouſadamente ſe ſubiſſem: +E neſta treição determinauão, +Que os de Luſo de todo deſtruiſſem: +E que incautos pagaſſem deste geito +O mal que em Moçambique tinhão feito. + +As ancoras tenaces vão leuando, +Com a nautica grita coſtumada, +Da proa as vellas ſos ao vento dando, +Inclinão pera a barra abaliſada: +Mas a linda Ericina, que guardando +Andaua ſempre a gente aſsinalada: +Vendo a cilada grande, & tam ſecreta, +Voa do Ceo ao Mar como hũa ſeta. + +Conuoca as aluas filhas de Nerêo, +Com toda a mais cerulea companhia, +Que porque no ſalgado Mar naſceo, +Das agoas o poder lhe obedecia. +E propondo lhe a cauſa a que deceo, +Com todos juntamente ſe partia: +Pera eſtoruar que a armada não chegaſſe +Aonde pera ſempre ſe acabaſſe. + +Ia na agoa erguendo vão com grande preſſa, +Com as argenteas caudas branca eſcuma, +Cloto co peito corta, & atraueſſa +Com mais furor o Mar do que coſtuma. +Salta Niſe, Nerine ſe arremeſſa, +Por cima da agoa creſpa, em força ſuma: +Abrem caminho as ondas encuruadas, +De temor das Nereidas apreſſadas. + +Nos hombros de hum Tritão com geſto aceſo, +Vay a linda Dione furioſa, +Não ſente quem a leua o doçe peſo, +De ſoberbo, com carga tam fermoſa: +Ia chegão perto donde o vento teſo, +Enche as vellas da frota belicoſa. +Repartenſe, & rodeão neſſe inſtante +As naos ligeiras que hião por diante. + +Poem ſe a Deoſa com outras em dereito +Da proa capitaina, & ali fechando, +O caminho da barra estão de geito, +Que em vão aſſopra o vento, a vella inchãdo: +Poem no madeiro duro o brando peito, +Pera detras a forte nao forçando. +Outras em derredor leuandoa eſtauão, +E da barra inimiga a deſuiauão. + +Quaes pera a coua as pròuidas formigas, +Leuando o peſogrande acomodado, +As forças exercitão, de inimigas, +Do inimigo Inuerno congelado: +Ali ſam ſeus trabalhos, & fadigas, +Ali mostrão vigor nunca eſperado. +Tais andauão as Nimphas eſtoruando +Aa gente Portugueſa o fim nefando. + +Torna pera detras a Nao forçada, +A peſar dos que leua, que gritando, +Mareão vellas, ferue a gente yrada, +O leme a hum bordo, & a outro atraueſſando +O Meſtre aſtuto em vão da popa brada, +Vendo como diante ameaçando +Os estaua hum maritimo penedo, +Que de quebrarlhe a Nao lhe mete medo: + +A celeuma medonha ſe aleuanta, +No rudo Marinheiro que trabalha, +O grande eſtrondo, a Maura gente eſpanta, +Como ſe viſſem horrida batalha: +Nam ſabem a razão de furia tanta, +Nam ſabem neſta preſſa quem lhe valha, +Cuydão que ſeus enganos ſam ſabidos, +E que ande ſer por iſſo aqui punidos. + +Eilos ſubitamente ſe lançauão, +A ſeus bateis veloces que trazião, +Outros encima o mar aleuantauão, +Saltando nagoa a nado ſe acolhião: +De hum bordo & doutro ſubito ſaltauão, +Que o medo os compelia do que vião. +Que antes querem ao mar auenturarſe, +Que nas mãos inimigas entregarſe. + +Aſsi como em ſeluatica alagoa, +As rãs no tempo antigo Lycia gente, +Se ſentem por ventura vir peſſoa, +Estando fora da agoa incautamente, +Daqui, & dali ſaltando, o charco ſoa, +Por fogir do perigo que ſe ſente, +E acolhendo ſe ao couto que conhecem, +Sos as cabeças na agoa lhe aparecem. + +Aſsi fogem os Mouros, & o Piloto, +Que ao perigo grande as naos guiâra, +Crendo que ſeu engano eſtaua noto, +Tambem foge ſaltando na agoa amara: +Mas por nam darem no penedo immoto, +Onde percão a vida doçe, & cara: +A ancora ſolta logo a capitaina, +Qualquer das outras junto della amaina. + +Vendo o Gama, atentado a eſtranheza +Dos Mouros não cuidada, & juntamente, +O Piloto fugir lhe com preſteza, +Entende o que ordenaua a bruta gente, +E vendo ſem contraste, & ſem braueza +Dos ventos, ou das, agoas ſem corrente, +Que a Nao paſſar auante não podia, +Auendo o por milagre aſsi dezia. + +O caſo grande, eſtranho, & não cuydado, +O milagre clariſsimo, & euidente, +O deſcuberto engano inopinado, +O perfida inimiga, & ſalſa gente, +Quem poderà do mal aparelhado +Liurarſe ſem perigo ſabiamente. +Se la de cima a guarda ſoberana, +Não acudir aa fraca força humana? + +Bem nos moſtra a diuina prouidencia, +Destes portos, a pouca ſegurança, +Bem claro temos viſto na aparencia, +Que era enganada a noſſa confiança +Mas pois ſaber humano, nem prudencia +Enganos tam fingidos nam alcança: +O tu guarda diuina, tem cuidado +De quem ſem ti nam pode ſer guardado. + +E ſe te moue tanto a piedade, +Deſta miſera gente peregrina, +Que ſo por tua altiſsima bondade, +Da gente a ſaluas, perfida & malina, +Nalgum porto ſeguro de verdade: +Conduzirmos ja agora determina, +Ou nos amostra a terra que buſcamos, +Pois ſo por teu ſeruiço nauegamos. + +Ouuiolhe eſtas palauras piadoſas, +A fermoſa Dione, & comouida, +Dantre as Nimphas ſe vay, que ſaudoſas +Ficarão deſta ſubita partida: +Ia penetra as Eſtrellas luminoſas, +Ia na terceyra Eſphera recebida +Auante paſſa, & la no ſexto Ceo +Pera onde eſtaua o Padre ſe moueo. + +E como hia afrontada do caminho +Tão fermoſa no geſto ſe moſtraua, +Queas Eſtrellas, & o Ceo, & o Ar vizinho, +E tudo quanto a via namoraua +Dos olhos, onde faz ſeu filho o ninho +Hũs eſpiritos viuos inspiraua, +Com que os Polos gelados acendia, +E tornaua do Fogo a eſphera fria. + +E por mais namorar o ſoberano +Padre, de quem foy ſempre amada, & cara +Se lhapreſenta aſsi como ao Troyano, +Na ſelua Idea ja ſe apreſentàra: +Se a vira o caçador, que o vulto humano +Perdeo, vendo Diana na agoa clara: +Nunca os famintos galgos o matàrão, +Que primeiro deſejos o acabárão. + +Os creſpos fios douro ſe eſparzião +Pelo colo, que a neue eſcurecia, +Andando as lacteas tetas lhe tremião, +Com quem Amor brincaua, & não ſe via. +Da alua petrina flamas lhe ſaião, +Onde o minino as almas acendia. +Polas liſas colũnas lhe trepauão, +Deſejos, que como Era ſe enrolauão. + +Cum delgado cendal as partes cobre, +De quem vergonha he natural reparo, +Porem nem tudo eſconde, nem deſcobre +O veo dos roxos lirios pouco auaro: +Mas pera que o deſejo acenda, & dobre, +Lhe poem diante aquelle objecto raro. +Ia ſe ſentem no Ceo, por toda a parte, +Ciumes em Vulcano, Amor em Marte: + +E mostrando no angelico ſembrante, +Co riſo hũa tristeza miſturada, +Como dama que foi do incauto amante, +Em brincos amoroſos mal tratada, +Que ſe aqueixa, & ſe ri, num meſmo inſtãte, +E ſe torna entre alegre maogada. +Deſta arte a Deoſa, a quem nenhũa iguala, +Mais mimoſa que triſte ao Padre fala. + +Sempre eu cuidey, ô Padre poderoſo, +Que pera as couſas, que eu do peito amaſſe +Te achaſſe brando, affabil, & amoroſo, +Poſto que a algum contrairo lhe peſaſſe: +Mas pois que contra my te vejo yroſo, +Sem que to mereceſſe, nem te erraſſe. +Façaſe como Baco determina, +Aſſentarey em fim que fuy mofina. + +Eſte pouo que he meu, por quem derramo, +As lagrimas que em vão caidos vejo, +Que aſſaz de mal lhe quero, pois que o amo, +Sendo tu tanto contra meu deſejo: +Por elle a ti rogando choro, & bramo, +E contra minha dita em fim pelejo. +Ora pois porque o amo he mal tratado, +Quero lhe querer mal, ſera guardado. + +Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes, +Que pois eu fuy: & niſto de mimoſa +O rosto banha, em lagrimas ardentes, +Como co orualho fica a freſca roſa. +Calada hum pouco, como ſe entre os dentes +Lhe impedira a falla piedoſa. +Torna a ſeguila, & indo por diante, +Llhe atalha o poderoſo, & grão Tonante. + +E deſtas brandas moſtras comouido, +Que mouerão de hum Tigre o ptito duro, +Co vulto alegre, qual do Ceo ſubido, +Torna ſereno & claro o ar eſcuro. +As lagrimas lhe alimpa, & acendido +Na façe a beija, & abraça o colo puro. +De modo que dali, ſe ſo ſe achara, +Outro nouo Cupido ſe gerara. + +E co ſeu apertando o roſto amado, +Que os ſaluços, & lagrimas aumenta, +Como minino da ama castigado, +Que quem no aſſago o choro lhe acrecenta, +Por lhe por em ſoſſego o peito yrado, +Muitos caſos futuros lhe apreſenta. +Dos fados as entranhas reuoluendo, +Deſta maneira em fim lhe eſtà dizendo. + +Fermoſa filha minha não temais +Perigo algum, nos voſſos Luſitanos, +Nem que ninguem comigo poſſa mais, +Que eſſes choroſos olhos ſoberanos: +Que eu vos prometo filha que vejais +Eſquecerenſe Gregos & Romanos. +Pelos illuſtres feitos que esta gente, +Ha de fazer nas partes do Oriente. + +Que ſe o facundo Vliſſes eſcapou, +De ſer na Ogigia Ilha, eterno eſcrauo: +E ſe Antenor os ſeios penetrou, +Iliricos, & a fonte de Timauo. +E ſe o piadoſo Eneas nauegou, +De Scila, & de Caribdis o Mar brauo. +Os voſſos môres couſas atentando, +Nouos mundos ao mundo yrão moſtrando. + +Fortalezas, Cidades, & altos muros, +Por elles vereis filha edificados: +Os Turcos belaciſsimos & duros, +Delles ſempre vereis desbaratados. +Os Reis da India liures, & ſeguros, +Vereis ao Rei potente ſojugados. +E por elles de tudo em fim ſenhores, +Serão dadas na terra leis milhores. + +Vereis eſte, que agora preſuroſo, +Por tantos medos o Indo vay buſcando, +Tremer delle Neptuno de medroſo, +Sem vento ſuas agoas encreſpando. +O caſo nunca viſto, & milagroſo +Que trema, & ferua o Mar em calma eſtãdo? +O gente forte, & de altos penſamentos, +Que tambem della hão medo os Elementos. + +Vereis a terra que a agoa lhe tolhia, +Que inda ha de ſer hum porto muy decente, +Em que vão deſcanſar da longa via, +As naos que nauegarem do Occidente. +Toda eſta coſta em fim, que agora vrdia, +O mortifero engano, obediente, +Lhe pagarà tributos, conhecendo, +Não poder reſistir ao Luſo horrendo: + +E vereis o Mar roxo tam famoſo, +Tornar ſelhe amarello de infiado: +Vereis de Ormuz o Reino poderoſo, +Duas vezes tomado, & ſojugado. +Ali vereis o Mouro furioſo, +De ſuas meſmas ſetas traſpaſſado. +Que quem vay contra os voſſos, claro veja, +Que ſe reſiſte, contra ſi peleja. + +Vereis a inexpugnabil Dio fortes, +Que dous cercos terà, dos voſſos ſendo: +Ali ſe mostrarà ſeu preço, & ſorte, +Feitos de armas grandiſsimos fazendo. +Enuejoſo vereis o grão Mauorte, +Do peito Luſitano, fero & horrendo. +Do Mouro ali verão que a voz extrema, +Do falſo Mahamede ao Ceo blasfema. + +Goa vereis aos Mouros ſer tomada, +A qual virá deſpois a ſer ſenhora, +De todo o Oriente, & ſublimada +Cos triumphos da gente vencedora. +Ali ſoberba altiua, & exalçada, +Ao Gentio que os Idolos adora. +Duro ſreo porà, & a toda a terra, +Que cuidar de fazer aos voſſos guerra. + +Vereis a fortaleza ſuſtentarſe, +De Cananor, com pouca força & gente: +E vereis Calecu desbaratarſe, +Cidade populoſa, & tam potente. +E vereis em Cochim aſsinalarſe, +Tanto hum peito ſoberbo, & inſolente, +Que Cîtara ja mais cantou victoria, +Que aſsi mereça eterno nome, & gloria. + +Nunca com Marte, inſtructo & furioſo, +Se vio feruer Leucate, quando Auguſto +Nas ciuîs Actias guerras animoſo, +O Capitão venceo Romano injuſto, +Que dos pouos de Aurora, & do famoſo +Nilo, & do Bactra Scitico, & robusto, +A victoria trazia, & preſa rica, +Preſo da Egipcia linda & não pudica. + +Como vereis o mar feruendo aceſo, +Cos incendios dos voſſos pelejando, +Leuando o Idololatra, & o Mouro preſo, +De nações differentes triumphando. +E ſogeita a rica Aurea Cherſoneſo, +Ate o longico China nauegando. +E as Ilhas mais remotas do Oriente, +Serlhe a todo o Occeano obediente. + +De modo filha minha, que de geito, +Amoſtrarão esforço mais que humano, +Que nunca ſe vera tam forte peito, +Do Gangetico mar ao Gaditano, +Nem das Boreais ondas, ao Eſtreito, +Que moſtrou o agrauado Luſitano: +Poſto que em todo o mundo, de affrontados +Reſucitaſſem todos os paſſados. + +Como isto diſſe, manda o conſagrado +Filho de Maia aa terra, porque tenha, +Hum pacifico porto, & ſoſſegado, +Pera onde ſem receyo a frota venha: +E pera que em Mombaça, auenturado +O forte Capitão ſe não detenha, +Lhe mãda mais, que em ſonhos lhe moſtraſſe +A terra, onde quieto repouſaſſe. + +Ia pelo ar o Cylenêo voaua, +Com as aſas nos pês aa terra deçe, +Sua vara fatal na mão leuaua, +Com que os olhos canſados adormece: +Com eſta, as triſtes almas reuocaua, +Do Inferno, & o vento lhe obedeçe. +Na cabeça o galêro coſtumado, +E deſta arte a Melinde foy chegado. + +Conſigo a Fama leua, porque diga, +Do Luſitano, o preço grande, & raro, +Que o nome illuſtre a hũ certo amor obriga, +E faz a quem o tem, amado & caro. +Deſta arte vay fazendo a gente amiga, +Co rumor famoſiſsimo, & perclaro. +Ia Melinde em deſejos arde todo, +De ver da gente forte o gesto, & modo. + +Dali pera Mombaça logo parte, +Aonde as naos eſtauão temeroſas, +Pera que aa gente mando que ſe aparte +Da barra imiga, & terras ſoſpeitoſas: +Porque muy pouco val esforço, & arte, +Contra infernais vontades enganoſas: +Pouco val coração, aſtucia , & ſiſo, +Se la dos Ceos nam vem celeſte auiſo. + +Meyo caminho a noite tinha andado, +E as Eſtrellas no Ceo co a luz alheia, +Tinhão o largo Mundo alumiado, +E ſo co ſono a gente ſe recreia. +O Capitão illuſtre, ja canſado, +De vigiar a noite, que arreceia, +Breue repouſo antam aos olhos daua, +A outra gente a quartos vigiaua. + +Quando Mercurio em ſonhos lhe apareçe, +Dizendo, fuge, fuge Luſitano, +Da cilada que o Rei malicado teçe, +Por te trazer ao fim, & extremo dano, +Fuge, que o Vento, & o Ceo te fauoreçe, +Sereno o tempo tẽs, & o Occeano, +E outro Rei mais amigo, noutra parte, +Onde podes ſeguro agaſalharte. + +Não tens aqui ſe não aparelhado, +O hoſpicio que o cru Diomedes daua, +Fazendo ſer manjar acostumado, +De cauallos a gente que hoſpedaua: +As aras do Buſiris infamado, +Onde os hoſpedes tristes imolaua +Teràs certas aqui ſe muito eſperas, +Fuge das gentes perfidas & feras. + +Vaite ao longo da coſta diſcorrendo, +E outra terra acharàs de mais verdade +La quaſi junto donde o Sol ardendo, +Iguala o dia, & noite em quantidade: +Ali tua frota alegre recebendo +Hum Rei, com muitas obras de amizade, +Gaſalhado ſeguro te daria, +E pera a India certa & ſabia guia. + +Isto Mercurio diſſe, & o ſono leua +Ao Capitão, que com muy grande eſpanto +Acorda, & ve ferida a eſcura treua, +De hũa ſubita luz, & rayo ſancto: +E vendo claro quanto lhe releua, +Não ſe deter na terra iniqua tanto. +Com nouo ſprito ao Mestre ſeu mandaua, +Que as vellas deſſe ao vento que aſſopraua. + +Day vellas, diſſe, day ao largo vento, +Que o Ceo nos fauoreçe, & Deos o manda, +Que hum menſageiro vi do claro aſſento +Que ſo em fauor de noſſos paſſos ando: +Aleuantaſe niſto o mouimento, +Dos marinheiros, de hũa & de outra banda, +Leuão gritando as ancoras acima, +Moſtrando a ruda força, que ſe estima. + +Neſte tempo, que as ancoras leuauão, +Na ſombra eſcura os Mouros eſcondidos, +Manſamente as amarras lhe cortauão, +Por ſerem, dando aa coſta, deſtruydos: +Mas com viſta de Linces vigiauão, +Os Portuegueſes ſempre apercebidos. +Elles como acordados os ſentirão, +Voando, & não remando lhe fogirão. + +Mas ja as agudas proas apartando, +Hião as vias humidas de argento, +Aſſopralhe galerno o vento, & brando, +Com ſuaue & ſeguro mouimento, +Nos perigos paſſados vão falando, +Que mal ſe perderão do penſamento, +Os caſos grandes, donde em tanto aperto +A vida em ſaluo eſcapa por acerto. + +Tinha hũa volta dado o Sol ardente, +E noutra começaua, quando virão +Ao longe dous nauios, brandamente +Cos ventos nauegando, que reſpirão, +Porque auião de ſer da Maura gente, +Pera elles arribando, as vellas virão. +Hum de temor do mal que arreceaua, +Por ſe ſaluar a gente aa costa daua. + +Não he o outro que fica tão manhoſo: +Mas nas mãos vay cair do Luſitano, +Sem o rigor de Marte furioſo, +E ſem a furia horrenda de Vulcano, +Que como foſſe debil & medroſo, +Da pouca gente o fraco peito humano: +Não teue reſiſtencia, & ſe a tiuêra, +Mais dãno reſiſtindo recebêra. + +E como o Gama muito deſejaſſe, +Piloto pera a India que buſcaua, +Cuidou que entre eſtes Mouros o tomaſſe: +Mas não lhe ſoccedeo como cuidaua, +Que nenhum delles ha que lhe inſinaſſe +A que parte dos Ceos a India eſtaua. +Porem dezem lhe todos, que tem perto, +Melinde onde achàrão Piloto certo. + +Louuão do Rei os Mouros a bondade, +Condiçam liberal, ſincero peito, +Mognificencia grande, & humanidade, +Com partes de grandiſsimo reſpeito. +O Capitão o aſſella por verdade, +Porque ja lho diſſera deſte geito, +O Cydenêo em ſonhos, & partia, +Pera onde o ſonho, & o Mouro lhe dizia. + +Era no tempo alegre quando entraua, +No roubador de Europa a luz Febea, +Quando hum, & o outro corno lhe aquentaua +E Flora derramaua o de Amalthea: +A memoria do dia renouaua, +O preſuroſo Sol, que o Ceo rodea. +Em que aquelle, a quem tudo eſtà ſogeito, +O ſello pos a quanto tinha feito. + +Quando chegaua a frota aaquella parte, +Onde o Reino Melinde ja ſe via, +De toldos adornada, & leda de arte +Que bem moſtra eſtimar o Sancto dia: +Treme a Bandeira, voa o Eſtandarte, +A cor porpurea ao longe aparecia. +Soão os atambores & pandeiros, +E aſsi entrauão ledos & guerreiros. + +Enche ſe toda a praya Molindana, +Da gente que vem ver a leda armada, +Gente mais verdadeira, & mais humana +Que toda a doutra terra atras deixada. +Surge diante a frota Luſitana, +Pega no findo a ancora peſada. +Mandão fora hum dos Mouros q̃ tomàrão, +Por quem ſua vinda ao Rei manifeſtàrão. + +O Rei que ja ſabia da nobreza +que tanto os Portugueſes engrandece, +Tomarem o ſeu porto tanto preza, +Quanto a gente fortiſsima merece: +E com verdadeiro animo, & pureza, +Que os peitos generoſos ennobrece. +Lhe manda rogar muyto que ſaiſſem, +Pera que de ſeus Reinos ſe ſeruiſſem: + +Sam offerecimentos verdadeiros, +E palauras ſinceras, não dobradas, +As que o Rei manda aos nobres caualleiros, +Que tanto mar & terras tem paſſadas: +Mandalhe mais lanigeros carneiros, +E galinhas domeſticas çeuadas, +Com as fructas que antam na terra auia, +E a vontade aa dadiua excedia. + +Recebe o Capitão alegremente +O menſageiro ledo, & ſeu recado, +E logo manda ao Rei outro preſente, +Que de longe trazia aparelhado: +Eſcarlata purpurea, cor ardente, +O ramoſo coral fino, & prezado. +Que debaxo das agoas mole creçe, +E como he fora dellas ſe endureçe. + +Manda mais hum na pratica elegante, +Que co Rei nobre as pazes concertaſſe, +E que de não ſair naquelle inſtante, +De ſuas naos em terra o deſculpaſſe. +Partido aſsi o embaixador preſtante, +Como na terra ao Rei ſe apreſentaſſe: +Com eſtillo que Palas lhe enſinaua, +Estas palauras tais fallando oraua. + +Sublime Rei, a quem do Olimpo puro, +Foy da ſuma Iustiça concedido, +Refrear o ſoberbo pouo duro, +Não menos delle amado, que temido, +Como porto muy forte, & muy ſeguro, +De todo o Oriente conhecido: +Te vimos a buſcar, pera que achemos +Em ti o remedio certo que queremos. + +Não ſomos roubadores, que paſſando +Pelas fracas cidades deſcuidadas, +A ferro, & a fogo, as gentes vão matando +Por roubarlhe as fazendas cubiçadas: +Mas da ſoberba Europa nauegando, +Himos buſcando as terras apartadas +Da India grande, & rica, por mandado +De hum Rei que temos, alto, & ſublimado. + +Que geração tam dura ahi de gente? +Que barbaro costume, & vſança fea, +Que não vedem os pertos, tam ſomente: +Mas inda o hospicio da deſerta area? +Que ma tençam? que peito em nos ſe ſente? +Que de tam pouca gente ſe arrecea. +Que com laços armados tam fingidos, +Nos ordenaſſem vernos deſtruydos? + +Mas tu, em quem muy certo confiamos +Acharſe mais verdade, o Rei benigno, +E aquella certa ajuda em ti eſperamos, +Que teue o perdido Itaco em Alcino: +A teu porto ſeguros nauegamos, +Conduzidos do interprete diuino. +Que pois a ti nos manda, eſtà muy claro, +Que es de peito ſincêro, humano, & raro. + +E não cuydes, ô Rei, que não ſaiſſe. +O noſſo Capitão eſclarecido +A verte, ou a ſeruirte, porque viſſe +Ou ſoſpeitaſſe em ti peito fingido: +Mas ſaberas que o fez porque compriſſe, +O regimento em tudo obedecido, +De ſeu Rei, que lhe manda que nam ſaia, +Deixando a frota, em nenhũ porto, ou praia. + +E porque he de vaſſalos, o exercicio, +Que os membros tem regidos da cabeça +Não quereras, pois tẽs de Rei o officio, +Que ninguem a ſèu Rei deſobedeça: +Mas as merçes, & o grande beneficio, +Que ora acha em ti, promete que conheça +Em tudo aquillo que elle & os ſeus poderem, +Em quanto os rios pera o mar correrem. + +Aſsi dizia, & todos juntamente, +Hũs com outros em pratica fallando, +Louuauão muito o eſtamago da gente, +Que tantos Ceos & mares vai paſſando, +E o Rei illuſtre, o peito obediente, +Dos Portugueſes, na alma imaginando. +Tinha por valor grande, & muy ſubido, +O do Rei que he tam longe obedecido. + +E com riſonha viſta, & ledo aſpeito, +Responde ao Embaixador, que tanto estima +Toda a ſoſpeita mà tiray do peito, +Nenhum frio temor em vos ſe imprima: +Que voſſo preço, & obras ſam de geito, +Pera vos ter o mundo em muyta eſtima. +E quem vos fez mollesto tratamento, +Não pode ter ſobido penſamento. + +De não ſair em terra toda a gente, +Por obſeruar a vſado preminencia, +Ainda que me peſe eſtranhamente, +Em muito tenho a muita obediencia: +Mas ſe lho o regimento não conſente, +Nem eu conſentirey que a excelencia, +De peitos tão leais em ſi desfaça, +So perque a meu deſejo ſatisfaça. + +Porem como a luz crastina chegada, +Ao mundo for, em minhas almàdîas, +Eu irey viſitar a forte armada, +Que ver tanto deſejo, ha tantos dias. +E ſe vier do mar desbaratada, +Do furioſo vento, & longas vias: +Aqui tera, de limpos penſamentos +Piloto, munições, & mantimentos. + +Isto diſſe, & nas agoas ſe eſcondia, +O filho de Latona, & o menſageiro +Co a embaixada alegre ſe partia +Pera a frota, no ſeu batel ligeiro: +Enchem ſe os peitos todos de alegria, +Por terem o remedio verdadeiro, +Pera acharem a terra que buſcauão, +E aſsi ledos a noite feſtejauão. + +Não faltão ali os rayos de arteficio, +Os tremulos Cometas imitando, +Fazem os Bombardeiros ſeu officio: +O ceo, a terra, & as ondas atroando. +Moſtraſe dos Cyclopas o exercicio, +Nas bombas que de fogo estão queimando, +Outros com vozes, com que o Ceo ferião. +Inſtrumentos altiſſonos tangião. + +Respondem lhe da terra juntamente, +Co rayo volteando, com zonido, +Anda em giros no ar a roda ardente, +Estoura o po ſulfureo eſcondido: +A grita ſe aleuanta ao Ceo, da gente, +O Mar ſe via em fogos acendido: +E não menos a terra, & aſsi feſteja +Hum ao outro a maneira de peleja. + +Mas ja o Ceo inquieto reuoluendo, +As gentes incitaua a ſeu trabalho, +E ja a mãy de Menon a luz trazendo, +Ao ſono longo punha certo atalho: +Hião ſe as ſombras lentas desfazendo, +Sobre as flores da terra, em frio orualho, +Quando o Rei Milindano ſe embarcaua +A ver a frota que no mar estaua. + +Vião ſe em derredor feruer as prayas +Da gente, que a ver ſo concorre leda, +Luzem da fina purpura as cabaias, +Lustrão os panos da tecida ſeda: +Em lugar de guerreiras a zagaias +E do arco, que os cornos arremeda +Da Lũa, trazem ramos de Palmeira, +Dos que vencem coroa verdadeira. + +Hum batel grande & largo, que toldado +Venha de ſedas de diuerſas cores, +Traz o Rei de Melinde, acompanhado +De nobres de ſeu Reino, & de ſenhores: +Vem de ricos veſtidos adornado, +Segundo ſeus costumes, & primores. +Na cabeça hũa fota guarnecida, +De ouro, & de ſeda, & de algodão tecida. + +Cabaya de Damaſco rico, & dino, +Da Tiria cor, entre elles eſtimada, +Hum colar ao peſcoço de ouro fino, +Onde a materia da obra he ſuperada, +Cum reſplandor reluze Adamantino, +Na cinta, a rica adaga bem laurada. +Nas alparcas dos pês, em fim de tudo, +Cobrem, ouro & aljofar ao veludo. + +Com hum redondo emparo alto de ſeda, +Nũa alta & dourada astea enxerido, +Hum miniſtro aa ſolar quentura veda, +Que não offenda & queime o Rei ſubido: +Muſica traz na proa, eſtranha & leda, +De aſpero ſom, horriſsimo ao ouuido: +De trombetas arcadas em redondo, +Que ſem concerto fazem rudo estrondo. + +Não menos guarnecido o Luſitano, +Nos ſeus bateis da frota ſe partia, +A receber no mar o Melindano, +Com luſtroſa & honrada companhia: +Vestido o Gama vem ao modo Hispano: +Mas Franceſa era a roupa que veſtia, +De cetim da Adriatica Veneza, +Carmeſi, cor que a gente tanto preza. + +De botões douro as mangas vem tomadas, +Onde o Sol reluzindo a viſta cega: +As calças ſoldadeſcas recamadas, +Do metal que Fortuna a tantos nega, +E com pontas do meſmo delicadas, +Os golpes do gibão ajunta, & achega: +Ao Italico modo a aurea eſpada, +Pruma na gorra, hum pouco diclinada. + +Nos de ſua companhia ſe moſtraua, +Da tinta que dà o Mûrice excelente, +A varia cor, que os olhos alegraua, +E a maneira do trajo diferente: +Tal o fermoſo eſmalte ſe notaua, +Dos veſtidos olhados juntamente: +Qual aparece o arco rutilante, +Da bella Nimpha filha de Thaumante. + +Sonoroſas trombetas incitauão, +Os animos alegres reſoando, +Dos Mouros os bateis o Mar co lhauão, +Os toldos pelas agoas arrojando: +As bombardas horriſſonas bramando, +Com as nuuẽs de fumo o Sol tomando, +Ameudam ſe os brados acendidos, +Tapão com as mãos os Mouros os ouuidos. + +Ia no batel entrou do Capitão +O Rei, que nos ſeus braços o leuaua, +Elle coa corteſia, que a razão +(Por ſer Rei) requeria, lhe fallaua. +Cũas moſtras de eſpanto, & admiração, +O Mouro o geſto, & o modo lhe notoua, +Como quem em muy grande estima tinha, +Gente que de tam longe à India vinha. + +E com grandes palauras lhe offereçe, +Tudo o que de ſeus Reinos lhe compriſſe, +E que ſe mantimento lhe falleçe, +Como ſe proprio foſſe lho pediſſe: +Diz lhe mais, que por fama bem conheçe +A gente Luſitana, ſem que a viſſe. +Que ja ouuio dizer, que noutra terra +Com gente de ſua ley tiueſſe guerra. + +E como por toda Affrica ſe ſoa, +Lhe diz, os grandes feitos que fizerão, +Quando nella ganharão a coroa +Do Reino, onde as Hesperidas viuerão: +E com muitas palauras apregoa, +O menos que os de Luſo merecerão: +E o mais que pela fama o Rei ſabia: +Mas deſta ſorte o Gama reſpondia. + +O tu que ſo tiueste piedade, +Rei benigno, da gente Luſitana, +Que com tanta miſeria, & aduerſidade, +Doe mares experimenta a furia inſana. +Aquella alta, & diuina eternidade, +Que o Ceo reuolue, & rege a gente humana: +Pois que de ti tais obras reçebemos, +Te pague o que nos outros não pedemos. + +Tu ſo de todos quantos queima Apolo, +Nos recebes em paz do Mar profundo +Em ti, dos ventos horridos de Eolo, +Refugio achamos bom, fido, & jocundo. +Em quanto apacentar o largo Polo, +As Eſtrellas, & o Sol der lume ao Mundo, +Onde quer que eu viuer, com fama & gloria, +Viuirão teus louuores em memoria. + +Isto dizendo, os barcos vão remando, +Pera a frota, que o Mouro ver deſeja,, +Vão as naos, hũa & hũa rodeando, +Porque de todas tudo note, & veja: +Mas pera o Ceo Vulcano fuzilando, +A frota co as bombardas o feſteja, +E as trombetas canoras lhe tangião, +Cos anafis os Mouros reſpondião. + +Mas deſpois de ſer tudo ja notado, +Do generoſo Mouro, que paſmaua, +Ouuindo o inſtrumento inuſitado, +Que tamanho terror em ſi moſtraua, +Mandaua estar quieto, & ancorado, +Nagoa o batel ligeiro que as leuaua, +Por fallar de vagar co forte Gama, +Nas couſas de que tem noticla, & fama. + +Em praticas o Mouro diferentes, +Se deleitaua, perguntando agora, +Pelas guerras famoſas & excelentes, +Co pouo áuidas, que a Mafoma adora: +Agora lhe pergunta pelas gentes +De toda a Hispheria vltima, onde mora: +Agora pelos pouos ſeus vezinhos, +Agora pelos humidos caminhos. + +Mas antes valeroſo Capitão, +Nos conta, lhe dezia, diligente, +Da terra tua o clima, & região +Do Mundo onde morais diſtintamente, +E aſsi de voſſa antiga geração, +E o principio do Reino tam potente: +Cos ſucceſſos das guerras do começo, +Que ſem ſabellas, ſey que ſam de preço. + +E aſsi tambem nos conta dos rodeios +Longos, em que te traz o Mar yrado, +Vendo os coſtumes barbaros alheios, +Que a noſſa Affrica ruda tem criado +Conta: que agora vem cos aureos freios, +Os cauallos que o carro marchetado, +Do nouo Sol, da fria Aurora trazem, +O Vento dorme, o Mar & as ondas jazem. + +E não menos co tempo ſe pareçe, +O deſejo de ouuirte o que contares, +Que quem ha, que por fama não conheçe +As obras Portugueſas ſingulares: +Não tanto deſuiado reſplandeçe, +De nos o claro Sol, pera julgares. +Que os Melindanos tem tam rudo peito, +Que não eſtimem muito hum grande feito. + +Cometerão ſoberbos os Gigantes, +Com guerra vão, o olimpo claro, & puro, +Tentou Peritho, & Theſeu, de ignorantes, +O Reino de Plutão horrendo & eſcuro, +Se ouue feitos no mundo tam poſſantes, +Não menos he trabalho illuſtre, & duro, +Quanto foi cometer Inferno, & Ceo, +Que outrem cometa a furia de Nereo. + +Queimou o ſagrado templo de Diana, +Do ſutil Teſifonio fabricado, +Horoſtrato, por ſer da gente humana +Conhecido no mundo, & nomeado: +Se tambem com tais obras nos engana, +O deſejo de hum nome auentajado. +Mais razão ha que queira eterna gloria +Quem faz obras tam dignas de memoria. +Fim. + + + +❧ Canto Terceiro. + +Agora tu Caliope +me enſina, +O que contou ao Rei, o illustre +Gama: +Inſpira immortal canto, & voz diuina, +Neſte peito mortal, que tanto te ama. +Aſsi o claro inuentor da Medicina, +De quem Orpheo pariſte, o linda Dama: +Nunca por Daphne, Clicie, ou Leucothôe +Te negue o Amor diuido, como ſoe. + +Poem tu Nimfa em effeito meu deſejo, +Como mereçe a gente Luſitana, +Que veja & ſaiba o mundo que do Tejo +O licor de Aganipe corre & mana, +Deixa as flores de Pindo, que ja vejo +Banharme Apolo na agoa ſoberana. +Senão direy, que tẽs algum receio, +Que ſe eſcureça o teu querido Orpheio. + +Promptos eſtauão todos eſcuitando, +O que o ſublime Gama contaria +Quando, deſpois de hum pouco eſtar cuidãdo, +Aleuantando o roſto, aſsi dizia: +Mandas me, o Rei, que conte declarando, +De minha gente a grão geanaloſia: +Não me manda contar eſtranha hiſtoria: +Mas mandas me louuar dos meus a gloria. + +Que outrem poſſa louuar esforço alheio, +Couſa he que ſe coſtuma, & ſe deſeja: +Mas louuar os meus proprios, arreceio, +Que louuor tão ſospeito mal me esteja, +E pera dizer tudo, temo & creio, +Que qualquer longo tempo curto ſeja: +Mas pois o mandas, tudo ſe te deue, +Irey contra o que deuo, & ſerey breue. + +Alem diſſo, o que a tudo em fim me obriga, +He não poder mentir no que diſſer, +Porque de feitos tais, por mais que diga, +Mais me ha de ficar inda por dizer: +Mas perque nisto a ordem leue & ſiga, +Segundo o que deſejas de ſaber. +Primeiro tratarey da larga terra, +Deſpois direy da ſanguinoſa guerra. + +Entre a Zona que o Cancro ſenhorea, +Meta Septentrional do Sol luzente, +E aquella, que por fria ſe arrecea +Tanto, como a do meyo por ardente, +Iaz a ſoberba Europa, a quem rodea, +Pela parte do Arcturo, & do Occidente: +Com ſuas ſalſas ondas o Occeano, +E pela Auſtral, o Mar Mediterrano. + +Da parte donde o dia vem naſcendo, +Com Aſia ſe auizinha: mas o Rio +Que dos montes Rifeios vay correndo, +Na alagoa Meotis, curuo & frio +As diuide: & o Mar, que fero & horrendo +Vio dos Gregos o yrado ſenhorio: +Onde agora de Troia triumfante, +Não vê mais que a memoria o nauegante. + +La onde mais debaxo està do Polo, +Os montes Hyperboreos aparecem, +E aquelles onde ſempre ſopra Eolo, +E co nome do ſopros, ſe ennobrecem, +Aqui tam pouca força tem de Apolo, +Os rayos que no mundo reſplandecem. +Que a neue eſtà contino pelos montes, +Gelado o mar, geladas ſempre as fontes. + +Aqui dos Cytas, grande quantidade +Viuem, que antigamente grande guerra +Tiuerão, ſobre a humana antiguidade, +Cos que tinhão antão a Egipcia terra: +Mas quem tão fera estaua da verdade, +(Ia que o juyzo humano tanto erra:) +Pera que do mais certo ſe informàra, +Ao campo Damaſceno o perguntàra. + +Agora neſtas partes ſe nomea, +A Lapia fria, a inculta Noruega, +Eſcandinauia Ilha, que ſe arrea, +Das victorias que Italia não lhe nega +Aqui, em quanto as agoas não refrea, +O congelado Inuerno, ſe nauega. +Hum braço do Sarmatico Occeoano, +Pelo Bruſio, Suecio, & frio Dano. + +Entre eſte Mar, & o Tanais viue eſtranha +Gente, Ruthenos, Moſcos, & Liuonios, +Sarmatas outro tempo, & na montanha +Hircinia, os Marcomanos ſam Polonios +Sugeitos ao Imperio de Alemanha, +Sam Saxones, Boemios, & Panonios, +E outras varias nações, que o Reno frio +Laua, & o Danubio, Amaſis, & Albis Rio. + +Entre o remoto Iſtro, & o claro eſtreito, +Aonde Hele deixou, co nome, a vida, +Estão os Traces de robuſto peito, +Do fero Marte, patria tam querida, +Onde co Hemo, o Rodope ſugeito +Ao Otomano està, que ſometida, +Bizancio tem a ſeu ſeruiço indino, +Boa injuria do grande Coſtantino. + +Logo de Macedonia eſtão as gentes, +A quem laua do Axio a agoa fria: +E vos tamhem, o terras excelentes, +Nos coſtumes, engenhos, & ouſadia, +Que criaſtes os peitos eloquentes, +E os juizos de alta fantaſia: +Com quem tu clara Grecia o Ceo penetras, +E não menos por armas, que por letras. + +Logo os Dalmatas viuem, & no ſeio, +Onde Antenor ja muros leuantou, +A ſoberba Veneza eſtâ no meio +Das agoas, que tam baxa começou +Da terra, hum braço vem ao mar, que cheio +De esforço, nações varias ſogeitou, +Braço forte, de gente ſublimada, +Não menos nos engenhos que na eſpada. + +Em torno o cerca o Reino Neptunino, +Cos muros naturais, por outra parte, +Pela meyo o diuide o Apinino, +Que tam illuſtre fez o patrio Marte: +Mas deſpois que o porteiro tem diuino, +Perdendo o esforço veio, & bellica arte: +Pobre eſtà ja de antiga poteſtade, +Tanto Deos ſe contenta de humildade. + +Galia ali ſe verà, que nomeada, +Cos Ceſareos Triumfos foy no mundo, +Que do Sequana, & Rôdano he regada, +E do Garuna frio, & Reno fundo: +Logo os montes da Nimpha ſepultada +Pyrene ſe aleuantão, que ſegundo +Antiguidades contão, quando arderão, +Rios de ouro, & de prata antão corrèrão. + +Eis aqui ſe deſcobre a nobre Eſpanha, +Como cabeça ali de Europa toda, +Em cujo ſenhorio & gloria eſtranha, +Muitas voltas tem dado a fatal roda: +Mas nunca poderà, com força, ou manha, +A fortuna inquieta porlhe noda: +Que lha não tire o esforço & ouſadia, +Dos belicoſos peitos, que em ſi cria. + +Com Tingitania enteſta, & ali parece +Que quer fechar o mar Mediterrano, +Onde o ſabido estreito ſe ennobrece, +Co extremo trabalho do Thebano: +Com nações differentes ſe engrandece, +Cercadas com as ondas do Occeano. +Todas de tal nobreza, & tal valor, +Que qualquer dellas cuida que he milhor. + +Tem o Tarragones, que ſe fez claro, +Sujeitando Partênope inquieta, +O Nauarro, as Aſturias, que reparo +Ia forão, contra a gente Mohometa, +Tem o Galego cauto, & o grande & raro +Caſtelhano, a quem fez o ſeu Planeta, +Restituidor de Eſpanha, & ſenhor della, +Bethis, Lião, Granada, com Castella. + +Eis aqui quaſi cume da cabeça, +De Europa toda, o Reino Luſitano, +Onde a Terra ſe acaba, & o Mar começa, +E onde Febo repouſa no Occeano: +Eſte quis o Ceo juſto, que ſloreça +Nas armas, contra o torpe Mauritano, +Deitando o de ſi fora, & la na ardente +Affrica eſtar quieto o nam conſente. + +Eſta he a ditoſa patria minha amada, +Aa qual ſe o Ceo me da, que eu ſem perigo +Torne, com eſta empreſa ja acabada, +Acabeſe eſta luz ali comigo. +Eſta foy Luſitania diriuada, +De Luſo, ou Lyſa: que de Bacho antigo, +Filhos forão pareçe, ou companheiros, +E nella antam os Incolas primeiros. + +Desta o Paſtor naſceo, que no ſeu nome +Se ve, que de homem forte os feitos teue, +Cuja fama, ninguem virà que dome, +Pois a grande de Roma não ſe atreue: +Eſta, o velho que os filhos proprios come, +Por decreto do, Ceo ligeiro, & leue, +Veo a fazer no mundo tanta parte, +Criando a Reino illuſtre, & foi deſta arte. + +Hum Rei, por nome Affonſo, foy na Eſpanha, +Que fez aos Sarracenos tanta guerra, +Que por armas ſanguinas, força & manha +A muitos fez perder a vida, & a terra: +Voando deſte Rei a fama eſtranha, +Do Herculano Calpe aa Caſpia ſerra, +Muitos, pera na guerra eſclarecerſe, +Vinhão a elle, & aa morte offerecerſe. + +E com hum amor intrinſeco acendidos +Da Fè, mais que das honras populares, +Erão de varias terras conduzidos, +Deixando a patria amada, & proprios lares +Deſpois que em feitos altos & ſubidos. +Se moſtrarão nas armas ſingulares. +Quis o famoſo Affonſo, que obras tais, +Leuaſſem premio digno, & dões agoais. + +Deſtes Anrique dizem que ſegundo, +Filho de hum Rei de Vngria exprimentado, +Portugal ouue em ſorte, que no Mundo +Entam não era illuſtre, nem prezado: +E pera mais ſinal damor profundo, +Quis o Rei Caſtelhano, que caſado, +Com Tereſa ſua filha o Conde foſſe, +E com ella das terras tomou poſſe. + +Eſte deſpois que contra os deſcendentes, +Da eſcraua Agar, victorias grandes teue, +Ganhando muitas terras adjacentes, +Fazendo o que a ſeu forte peito deue. +Em premio destes feitos excellentes, +Deulhe o ſupremo Deos, em tempo breue, +Hum filho, que illuſtraſſe o nome vfano +Do belicoſo Reino Luſitano. + +Ia tinha vindo Anrique da conquista, +Da cidade Hyeroſolima ſagrada, +E do Iordão a area tinha vista, +Que vio de Deos a carne em ſi lauada, +Que não tendo Gotfredo a quem reſiſta, +Depois de ter Iudea ſojugada. +Muitos que nestas guerras o ajudárão, +Pera ſeus ſenhorios ſe tornàrão. + +Quando chegado ao fim de ſua idade, +O forte & famoſo Vngaro estremado, +Forçado da fatal neceſsidade, +O ſpirito deu, a quem lho tinha dado: +Ficaua o filho em tenra mocidade, +Em quem o pay deixaua ſeu traſlado: +Que do Mundo os mais fortes igualaua, +Que de tal pay tal filho ſe eſperaua. + +Mas o velho rumor, não ſey ſe errado, +Que em tanta antiguidade não ha certeza, +Conta que a mãy tomando todo o eſtado +Do ſegundo Hymeneo, não ſe despreza: +O filho orfão deixaua deſerdado, +Dizendo que nas terras, a grandeza +Do ſenhorio todo, ſo ſua era, +Porque pera caſar ſeu pay lhas dera. + +Mas o Principe Affonſo, que deſta arte +Se chamaua, do Auô tomando o nome, +Vendoſe em ſuas terras não ter parte, +Que a mãy com ſeu marido as mãda & come, +Feruendo lhe no peito o duro Marte, +Imagina conſigo como as tome. +Reuoluidas as cauſas no conceito, +Ao propoſito firme ſegue o effeito. + +De Guimarães o campo ſe tingia, +Co ſangue proprio da intestina guerra, +Onde a mãy que tam pouco o perecia, +A ſeu filho negaua o amor, & a terra, +Co elle posta em campo ja ſe via, +E não ve a ſoberba, o muito que erra. +Contra Deos, contra o maternal amor: +Mas nella o ſenſual era maior. + +O Progne crua, o magica Medea, +Se em voſſos proprios filhos vos vingais +Da maldade dos pais, da culpa alheia, +Olhay que inda Tereſa peca mais: +Incontinencia ma, cubiça fea, +São as cauſas deste erro principais. +Scilla por hũa mata o velho pay, +Eſta por ambas, contra o filho vay. + +Mas ja o Principe claro, o vencimento, +Do padrasto & da inica mãy leuaua, +Ia lhe obedece a terra num momento, +Que primeiro contra elle pelejaua. +Porem vencido de Ira o entendimento, +A mãy em ferros aſperos ataua: +Mas de Deos foi vingada em tempo breue, +Tanta veneração aos pais ſe deue. + +Eis ſe ajunta o ſoberbo Castelhano, +Pera vingar a injuria de Tereja, +Contra o tam raro em gente Luſitano, +A quem nenhum trabalho agraua, ou peſa: +Em batalha cruel, o peito humano, +Ajudado da Angelica defeſa. +Não ſo contra tal furia ſe ſuſtenta: +Mas o inimigo aſperrimo affugenta. + +Não paſſa muito tempo, quando o forte +Principe, em Guimarães eſta cercado, +De infinito poder, que deſta ſorte, +Foy refazerſe o immigo magoado: +Mas com ſe offerecer aa dura morte, +O fiel Egas amo, foy liurado. +Que de outra arte podêra ſer perdido, +Segundo estaua mal aperçebido. + +Mas o leal vaſſallo conhecendo, +Que ſeu ſenhor não tinha reſiſtencia, +Se vay ao Caſtelhano, prometendo, +Que elle faria darlhe obediencia. +Leuanta o inimigo o cerco horrendo, +Fiado na promeſſa, & conſciencia +De Egas moniz mas não conſente o peito +Do moço illuſlre, a outrem ſer ſogeito. + +Chegado tinha o prazo prometido, +Em que o Rei Castelhano ja agoardaua, +Que o Principe a ſeu mando ſometido, +Lhe deſſe a obediencia que eſperaua. +Vendo Egas, que ficaua fementido, +O que delle Caſtella não cuydaua, +Determina de dar a doçe vida, +A troco da palaura mal comprida. + +E com ſeus filhos & molher ſe parte, +A aleuantar co elles a fiança, +Deſcalços, & deſpidos, de tal arte, +Que mais moue a piedade que a vingança. +Se pretendes Rei alto de vingarte, +De minha temeraria confiança, +Dizia, eis aqui venho offerecido, +A te pagar co a vida o prometido. + +Ves aqui trago as vidas inocentes, +Dos filhos ſem peccado, & da conſorte, +Se a peitos generoſos, & excellentes, +Dos fracos ſatisfaz a fera morte. +Ves aqui as mãos, & a lingoa delinquentes, +Nellas ſos exprimenta, toda ſorte +De tormentos, de mortes, pelo eſtillo +De Scinis, & do touro de Perillo. + +Qual diante do algoz o condenado, +Que ja na vido a morte tem bebido, +Poem no çepo a garganta: & ja entregado, +Eſpera pelo golpe tam temido: +Tal diante do Principe indinado, +Egas eſtaua a tudo offerecido: +Mas o Rei vendo a eſtranha lealdade, +Mais pode em fim que a Ira a Piedade. + +O grão fidelidade Portugueſa, +De vaſſallo, que a tanto ſe obrigaua, +Que mais o Perſa fez naquella empreſa, +Onde roſto & narizes ſe cortaua, +Do que ao grande Dario tanto peſa, +Que mil vezes dizendo ſuspiraua. +Que mais o ſeu Zopiro ſão prezâra, +Que vinte Babilonias que tomàra + +Mas ja o Principe Affonſo aparelhaua, +O Luſitano exercito ditoſo, +Contra o Mouro que as terras habitaua, +Dalem do claro Tejo deleitoſo: +Ia no campo de Ourique ſe aſſentaua, +O arraial ſoberbo, & belicoſo: +Defronte do inimigo Sarraceno, +Poſto que em força, & gente tam pequeno. + +Em nenhũa outra couſa confiado, +Senão no ſummo Deos, que o Ceo regia, +Que tam pouco era o pouo bautizado, +Que pera hum ſo cem Mouros aueria. +Iulga qualquer juyzo ſoſſegado, +Por mais temeridade que ouſadia, +Cometer hum tamanho ajuntamento, +Que pera hum caualleiro ouueſſe cento. + +Cinco Reis Mouros ſam os inimigos, +Dos quaes o principal Ismar ſe chama, +Todos exprimentados nos perigos +Da guerra, onde ſe alcança a illuſtre fama: +Seguem guerreiras Damas ſeus amigos, +Imitando a fermoſa & forte Dama, +De quem tanto os Troyanos ſe ajudârão, +E as que o Termodonte ja goſtârão. + +A matutina luz ſerena, & fria, +As Estrellas do Pollo ja apartaua, +Quando na Cruz o Filho de Maria, +Amoſtrando ſe a Affonſo o animaua: +Elle adorando quem lhe aparecia, +Na Fê todo inflamado aſsi gritaua. +Aos infieis Senhor, aos infieis, +E não a my que creio o que podeis. + +Com tal milagre, os animos da gente +Portugueſa, inflamados leuantauão, +Por ſeu Rei natural, eſte excelente +Principe, que do peito tanto amauão: +E diante do exercito potente, +Dos imigos, gritando o ceo tocauão: +Dizendo em alta voz, real, real, +Por Affonſo alto Rei de Portugal. + +Qoal cos gritos & vozes incitado, +Pola montanha o rabido Moloſo, +Contra o Touro remete, que fiado +Na força eſtà do corno temeroſo: +Ora pega na orelha, ora no lado, +Latindo mais ligeiro que forçoſo, +Ate que em fim rompendolhe a garganta, +Do brauo a força horrenda ſe quebranta. + +Tal do Rei nouo, o eſtamago acendido, +Por Deos & polo pouo juntamente, +O barbaro comete apercebido, +Co animoſo exercito rompente: +Leuantão nisto os perros o alarido +Dos gritos, tocam a arma, ſerue a gente, +As lanças & arcos tomão, tubas ſoão, +Inſtromentos de guerra tudo atroão. + +Bem como quando a flama que ateada, +Foi nos aridos campos (aſoprando +O ſibilante Boreas) animada +Co vento, o ſeco mato vay queimando: +A paſtoral companha, que deitada, +Co doçe ſono estaua, deſpertando, +Ao eſtridor do fogo que ſe atea, +Recolhe o fato, & ſoge pera a aldea. + +Deſta arte o Mouro atonito & toruado, +Toma ſem tento as armas muy depreſſa, +Não foge: mas eſpera confiado, +E o ginete belligero arremeſſa: +O Portugues o encontra denodado, +Pelos peitos as lanças lhe atraueſſa. +Hũs caem meios mortos, & outros vão +A ajuda conuocando do Alcorão. + +Ali ſe vem encontros temeroſos, +Pera ſe desfazer hũa alta ſerra, +E os animais correndo furioſos, +Que Neptuno amoſtrou ferindo a terra: +Golpes ſe dão medonhos, & forçoſos, +Por toda a parte andaua aceſa a guerra: +Mas o de Luſo, arnes, couraça & malha, +Rompe, corta, desfaz, a bola & talha. + +Cabeças pelo campo vão ſaltando, +Braços, pernas, ſem dono & ſem ſentido, +E doutros as entranhas palpitando, +Palida a cor, o geſto amortecido: +Ia perde o campo o exercito nefando, +Correm rios do ſangue deſparzido +Com que tambem do campo a cor ſe perde +Tornado Carmeſi de branco & verde. + +Ia fica vencedor o Luſitano +Recolhendo os trofeos & preſa rica, +Desbaratado & roto o Mauro Hispano, +Tres dias o gram Rei no campo fica: +Aqui pinta no branco eſcudo vfano, +Que agora esta victoria certifica: +Cinco escudos azues eſclarecidos, +Em ſinal destes cinco Reis vencidos. + +E neſtes cinco eſcudos pinta os trinta +Dinheiros, porque Deos fora vendido, +Eſcreuendo a memoria em varia tinta, +Daquelle de quem foy fauorecido, +Em cada hum dos cinco, cinco pinta, +Porque aſsi fica o numero comprido: +Contando duas vezes o do meio, +Dos cinco azues que em Cruz pintando veio. + +Paſſado ja algum tempo, que paſſada +Era esta grão victoria, o Rei ſubido +A tomar vay Leiria, que tomada +Fora muy pouco auia, do vencido: +Com eſta a forte Arronches ſojugada +Foy juntamente: & o ſempre ennobrecido +Scabelicaſtro, cujo campo ameno, +Tu claro Tejo regas tam ſereno. + +A eſtas nobres villas ſometidas, +Ajunta tambem Mafra, em pouco eſpaço, +E nas ſerras da Lua conhecidas, +Sojuga a ſria Sintra, o duro braço, +Sintra onde as Naiades eſcondidas +Nas fontes, vão fugindo ao doçe laço: +Onde Amor as enreda brandameme, +Nas agoas acendendo fogo ardente. + +E tu nobre Lisboa, que no Mundo, +Facilmente das outras es princeſa, +Que edificada foſte do facundo, +Por cujo engano foy Dardania aceſa: +Tu a quem obedece o Mar profundo, +Obedeceste aa força Portugueſa. +Ajudada tambem da forte armada, +Que das Boreais partes foy mandada. + +La do Germanico Albis, & do Reno, +E da fria Bretanha conduzidos, +A destruir o pouo Sarraceno, +Muitos com tenção ſancta erão partidos, +Entrando a bocaja, do Tejo ameno, +Co arrayal do grande Affonſo vnidos. +Cuja alta fama antão ſubia aos ceos, +Foy posto cerco aos muros Vliſſeos. + +Cinco vezes a Lũa ſe eſcondêra, +E outras tantas moſtrâra cheio o rosto, +Quando a Cidade entrada ſe rendêra, +Ao duro cerco, que lhe eſtaua poſto. +Foy a batalha tam ſanguina & fera, +Quanto obrigaua o firme proſupoſto: +De vencedores aſperos, & ouſados, +E de vencidos, ja deſesperados. + +Deſta arte em fim tomada ſe rendeo, +Aquella que nos tempos ja paſſados +Aa grande força nunca obedeceo, +Dos frios pouos Sciticos ouſados: +Cujo poder a tanto ſe estendeo, +Que o Ibero o vio, & o Tejo amedrontados. +E em fim co Betis tanto algum podêrão, +Que aa terra do Vandalia nome dèrão. + +Que cidade tam forte, por ventura +Auera que reſiſta, ſe Lisboa +Não pede reſistir aa força dura +Da gente, cuja fama tanto voa. +Ia lhe obedece toda a Eſtremadura, +Obidos, Alanquer, por onde ſoa +O tom das freſcas agoas, entre as pedras, +Que murmurando laua, & Torres vedras. + +E vos tambem, o terras transtaganas, +Affamadas co dom da flaua Ceres, +Obedeceis aas forças mais que humanas, +Entregando lhe os muros, & os poderes. +E tu laurador Mouro, que te enganas, +Se ſustentar a fertil terra queres. +Que Eluas, & Moura, & Serpa conhecidas, +E Alcaçare do ſal, eſtão rendidas. + +Eis a nobre Cidade, certo aſſento, +Do rebelde Sertorio antigamente, +Onde ora as agoas nitidas de argento, +Vem ſuſtentar de longo a terra, & a gente, +Pelos arcos reaes, que cento & cento +Nos ares ſe aleuantão nobremente. +Obedeceo, por meio & ouſadia +De Giraldo, que medos não temia. + +Ia na cidade Beja vay tomar, +Vingança de Trancoſo deſtruida, +Affonſo que não ſabe ſoſegar, +Por eſtender co a fama a curta vida: +Não ſe lhe pede muito ſustentar +A Cidade: mas ſendo ja rendida, +Em toda a couſa viua, a gente yrada, +Prouando os fios vay da dura eſpada. + +Com eſtas ſojugada foy Palmella, +E a piſcoſa Cizimbra, & juntamente, +Sendo ajudado mais de ſua eſtrella, +Desbarata hum exercito potente: +Sentio o a Villa, & vio o a ſerra della, +Que a ſocorrella vinha deligente. +Pela fralda da ſerra deſcuydodo, +Do temeroſo encontro inopinado. + +O Rei de Badajoz era alto Mouro, +Com quatro mil cauallos furioſos, +Innumeros piões, darmas & de curo +Guarnecidos, guerreiros & luſtroſos: +Mas qual no mes de Maio o brauo Touro +Cos ciumes da vaca, arreceoſos, +Sentindo gente o bruto, & cego amante +Saltea o deſcuidado caminhante. + +Deſta arte Affonſo ſubito moſtrado, +Na gente da, que paſſa bem ſegura, +Fere, mata, derriba denodado, +Foge o Rei Mouro, & ſo da vida cura, +Dum Panico terror todo aſombrado, +So de ſeguillo o exercito procura. +Sendo eſtes que fizerão tanto aballo, +Nomais que ſo ſeſenta de cauallo. + +Logo ſegue a victoria ſem tardança, +O grão Rei incanſabil, ajuntando +Gentes de todo o Reino, cuja vſança +Era andar ſempre terras conquiſtando, +Cercar vay Badajoz, & logo alcança +O fim de ſeu deſejo, pelejando +Com tanto esforço & arte, & valentia, +Que a fez fazer aas outras companhia. + +Mas o alto Deos, que pera longe guarda, +O caſtigo daquelle que o mereçe, +Ou pera que ſe emmende aas vezes tarda, +Ou por ſegredos que homem não conheçe, +Se ate qui ſempre o forte Rei reſguarda, +Dos perigos a que elle ſe offereçe. +Agora lhe não deixa ter defeſa, +Da maldição da mãy que estaua preſa. + +Que eſtando na cidade que cercâra, +Cercado nella foy dos Lioneſes, +Porque a conquiſta della lhe tomâra, +De Lião ſendo, & não dos Portugueſes. +A pertinacia aqui lhe custa cara, +Aſsi como acontece muytas vezes, +Que em ferros quebra as pernas, indo aceſo +Aa batalha onde foy vencido & preſo. + +O famoſo Pompeyo não te pene, +De teus feitos illuſtres a ruyna, +Nem ver que a juſta Nemeſis ordene, +Ter teu ſogro de ti victoria dina, +Poſto que o frio Faſis, ou Syene +Que pera nenhum cabo a ſombra inclina: +O Bootes gellado, & a linha ardente, +Temeſſem o teu nome geralmente. + +Poſto que a rica Arabia, & que os feroces +Eniocos, & Colcos, cuja fama +O Veo dourado eſtende: & os Capadoçes, +E Iudea, que hum Deos adora & ama, +E que o molles Sofenos, & os Atroces, +Silicios, com a Armenia, que derrama, +As agoas dos dous Rios, cuja fonte +Estâ noutro mais alto & ſancto Monte. + +E poſto em fim que deſdo mar de Atlante, +Ate o Scitico Tauro, monte erguido +Ia vencedor te viſſem, não te eſpante +Se o campo Emathio ſo te vio vencido, +Porque Affonſo veras ſoberbo & ouante, +Tudo render, & ſer deſpois rendido. +Aſsi o quis o conſelho alto celeſte, +Que vença o ſogro a ti, & o genro a este. + +Tornado o Rei ſublime finalmente, +Do diuino juyzo caſtigado, +Deſpois que em Santarem ſoberbamente, +Em vão dos Sarracenos foy cercado. +E deſpois que do martyre Vicente, +O ſanctiſsimo corpo venerado. +Do ſacro promontorio conhecido, +Aa cidade Vliſſea foy trazido. + +Porque leuaſſe auante ſeu deſejo, +Ao forte filho manda o laſſo velho, +Que aas terras ſe paſſaſſe dalentejo, +Com gente, & co beligero aparelho: +Sancho, desforço & danimo ſobejo, +Auante paſſa, & faz correr vermelho, +O rio que Seuilha vay regando, +Co ſangue mauro, barbaro & nefando. + +E com eſta victoria cobiçoſo, +Ia não deſcanſa o moço ate que veja, +Outro eſtrago como este, temeroſo +No barbaro que tem cercado Beja. +Não tarda muito o Principe ditoſo, +Sem ver o fim daquillo que deſeja. +Aſsi eſtragado o Mouro, na vingança +De tantas perdas poem ſua eſperança. + +Ia ſe ajuntão do monte, a quem Meduſa +O corpo fez perder, que teue o Ceo: +Ia vem do promontorio de Ampeluſa, +E do Tinge que aſſento foy de Anteo. +O morador de Abila não ſe eſcuſa, +Que tambem com ſuas armas ſe moueo: +Ao ſom da Mauritana & ronca tuba, +Todo o Reino que foy do nobre Iuba. + +Entraua com toda esta companhia, +O Miralmomini em Portugal +Treze Reis mouros leua de valia, +Entre os quaes tem o ceptro Imperial: +E aſsi fazendo quanto mal podia, +O que em partes podia fazer mal. +Dom Sancho vay cercar em Santarem, +Porem não lhe ſocede muito bem. + +Dalhe combates aſperos,fazendo +Ardis de guerra mil, o Mouro yroſo, +Não lhe aproueita ja trabuco horrendo, +Mina ſecreta, Ariete forçoſo: +Porque o filho de Affonſo, não perdendo +Nada do esforço, & acordo generoſo, +Tudo prouê com animo & prudencia, +Que em toda a parte ha esforço & reſiſtencia + +Mas o velho a quem tinhão ja obrigado +Os trabalhoſos annos, ao ſoſego, +Eſtando na Cidade, cujo prado +Enuerdecem as agoas do Mondego: +Sabendo como o filho està cercado, +Em Santarem, do Mauro pouo cego, +Se parte diligente da Cidade, +Que não perde a preſteza co a idade. + +E co a famoſa gente â guerra vſada, +vay ſocorrer o filho, & aſsi ajuntados, +A Portugueſa furia coſtumada, +Em breue os Mouros tem desbaratados: +A campina que toda eſtà qualhada +De marlotas, capuzes variados, +De cauallos, jaezes, preſa rica, +De ſeus ſenhores mortos chea fica. + +Logo todo o reſtante ſe partio +De Luſitania, poſtos em fugida, +O Miralmomini ſo não fogio, +Por que antes de fogir lhe foge a vida, +A quem lhe eſta victoria permitio, +Dão louuores & graças ſem medida: +Que em caſos tão eſtranhos claramente, +Mais peleja o fauor de Deos que a gente. + +De tamanhas victorias triumfaua, +O velho Affonſo, Principe ſubido, +Quando quem tudo em fim vencendo andaua, +Da larga, & muita idade foi vencido, +A palida doença lhe tocaua, +Com fria mão o corpo enfraquecido: +E pagàrão ſeus annos deste geito, +Aa triſte Libitina ſeu dereito + +Os altos promontorios o chorarão, +E do rios as agoas ſaudoſas, +Os ſemeados campos alagarão,. +Com lagrimas correndo piadoſas: +Mas tanto pelo mundo ſe alargarão +Com fama ſuas obras valeroſas, +Que ſempre no ſeu Reino chamarão, +Affonſo, Affonſo os eccos, mas em vão. + +Sancho forte mancebo, que ficàra +Imitando ſeu pay na valentia, +E que em ſua vida ja ſe exprimentâra, +Quando o Betis de ſangue ſe tingia, +E o barbaro poder desbaratâra, +Do Iſmaelita Rei de Andaluzia. +E mais quando os que Beja em vão cercârão. +Os golpes de ſeu braço em ſi prouârão. + +Deſpois que foy por Rei aleuantado, +Auendo poucos annos que reinaua, +A cidade de Silues tem cercado, +Cujos campos o barbaro lauraua: +Foy das valentes gentes ajudado, +Da Germanica armada, que paſſaua. +De armas fortes & gente apercebida, +A recobrar Iudea ja perdida. + +Paſſauão a ajudar na ſancta empreſa, +O roxo Federico, que moueo +O pederoſo exercito, em defeſa +Da cidade onde Christo padeceo, +Quando Guido co a gente em ſede aceſa, +Ao grande Saladino ſe rendeo: +No lugar onde aos Mouros ſobejauão, +As agoas que os de guido deſejauão. + +Mas a fermoſa armada, que viera +Por contraste de vento, aaquella parte +Sancho quis ajudar na guerra fera, +Ia que em ſeruiço vay, do ſancto Marte +Aſsi como a ſeu pay acontecèra, +Quando tomou Lisboa, da meſma arte, +Do Germano ajudado Silues toma, +E o brauo morador deſtrue & doma. + +E ſe tantos tropheos do Mahometa, +Aleuantando vay tambem do forte +Liones, não conſente eſtar quieta +A terra vſada aos caſos de Mauorte: +Ate que na ceruiz ſeu jugo meta +Da ſoberba Tui, que a mesma ſorte, +Veo ter a muitas villas ſuas vizinhas, +Que por armas tu Sancho humildes tinhas. + +Mas entre tantas palmas ſalteado +Da temeroſa morte, fica erdeiro, +Hum filho ſeu de todos estimado, +Que foy ſegundo Affonſo, & Rei terceiro +No tempo deſte, aos Mauros foi tomado +Alcaçere do ſal por derradeiro: +Por que dantes os Mouros o tomarão, +Mas agora eſtruidos o pagarão. + +Morto despois Affonſo lhe ſucede +Sancho ſegundo, manſo & deſcuidado, +Que tanto em ſeus deſcuidos ſe deſmede, +Que de outrem quẽ mandaua era mandado, +De gouernar o Reino que outro pede, +Por cauſa dos priuados foi priuado, +Porque como por elles ſe regia, +Em todos os ſeus vicios conſentia. + +Não era Sancho não tam deſoneſto, +Como Nero, que hum moço recebia +Por molher, & deſpois horrendo incesto, +Com a mãy Agripina cometia: +Nem tam cruel aas gentes & moleſto, +Que a cidade queimaſſe onde viuia, +Nem tam mao como foi Hedio gabàlo, +Nem como o mole Rei Sardanapâlo. + +Nem era o pouo ſeu tiranizado, +Como Sicilia foy de ſeus tiranos, +Nem tinha como Phalaris achado, +Genero de tormentos inhumanos: +Mas o Reino de altiuo, & coſtumado +A ſenhores em tudo ſoberanos. +A Rei não obedece, nem conſente, +Que não for mais que todos excellente. + +Por eſta cauſa o Reino gouernou, +O Conde Bolonhes, deſpois alçado +Por Rei, quando da vida ſe apartou, +Seu yrmão Sancho, ſempre ao ocio dado +Eſte que Affonſo o brauo ſe chamou, +Despois de ter o Reino ſegurado: +Em dilatalo cuida, que em terreno +Não cabe o altiuo peito tam pequeno. + +Da terra dos Algarues, que lhe fora +Em caſamento dada, grande parte, +Recupêra co braço, & deita fora +O Mouro mal querido ja de Marte: +Este de todofez liure & ſenhora +Luſitania,com força & bellica arte: +E acabou de oprimir a nação forte, +Na terra que aos de Luſo coube em ſorte. + +Eis deſpois vem Dinis, que bem pareçe, +Do brauo Affonſo eſtirpe nobre & dina, +Com quem a fama grande ſe eſcureçe, +Da liberalidade Alexandrina. +Co este o Reino proſpero floreçe, +(Alcançada ja a paz aurea diuina) +Em constituições, leis & costumes, +Na terra ja tranquila claros lumes. + +Fez primeiro em Coimbra exercitarſe, +O valeroſo officio de Minerua, +E de Helicona as Muſas fez paſſarſe, +A piſar de Mondego a fertil erua: +Quanto pode de Athenas deſejarſe, +Tudo o ſoberbo Apolo aqui reſerua. +Aqui as capellas da tecidas de ouro, +Do Bacaro, & do ſempre verde louro. + +Nobres villas de nouo edificou, +Fortalezas, caſtellos muy ſeguros, +E quaſi o Reino todo reformou, +Com edificios grandes, & altos muros: +Mas deſpois que a dura Atropos cortou, +O fio de ſeus dias ja maduros: +Ficoulhe o filho pouco obediente, +Quarto Affonſo: mas forte & excelẽte: + +Eſte ſempre as ſoberbas Caſtelhanas, +Co peito deſprezou firme & ſereno, +Porque não he das ſorças Luſitanas, +Temer poder maior, por mais pequeno +Mas porem quando as gentes Mauritanas, +A poſſuir o Eſperico terreno., +Entrarão pelas terras de Caſtella, +Foy o ſoberbo Affonſo a ſocorrella. + +Nunca com Semirâmis, gente tanta +Veio ôs campos Ydaſpicos enchendo, +Nem Atila, que Italia toda eſpanta, +Chamandoſe de Deos açoute horrendo. +Gottica gente trouxe tanta, quanta +Do Sarraceno barbaro eſtupendo, +Co poder exceſsiuo de Granada, +Foy nos campos Tarteſios ajuntada. + +E vendo o Rei ſublime Caſtelhano, +A forca inexpugnabil, grande & forte, +Temendo mais o fim do pouo Hispano, +Ia perdido hũa vez, que a propria morte +Pedindo ajuda ao forte Luſitano, +Lhe mandaua a cariſsima conſorte, +Molher de quem a manda, & filha amada +Daquelle a cujo Reino foi mandada. + +Entraua a fermoſiſsima Maria, +Polos paternais paços ſublimados, +Lindo o geſto: mas fora de alegria, +E ſeus olhos em lagrimas banhados, +Os cabellos Angelicos trazia, +Pelos eburneos hombros eſpalhados: +Diante do Pay ledo, que a agaſalha, +Estas palauras tais chorando eſpalha. + +Quantos pouos a terra produzio +De Africa toda gente fera & estranha, +O grão Rei de Marrocos conduzio +Pera vir poſſuir a nobre Eſpanha: +Poder tamanho junto não ſe vio, +Despois que o ſalſo Mar a terra banha. +Trazem ferocidade, & furor tanto, +Que a viuos medo, & a mortos faz eſpanto. + +Aquelle que me deſte por marido, +Por defender ſua terra amedrontada, +Co pequeno poder, offerecido +Ao duro golpe eſtà, da Maura eſpada, +E ſe não for contigo ſocorrido, +Verme as delle & do Reino ſer priuada, +Viuua & triſte, & posta em vida eſcura, +Sem marido, ſem Reino, & ſem ventura. + +Por tanto, ô Rei, de quem com puro medo, +O corrente Muluca ſe congella, +Rompe toda a tardança, acude cedo, +Aa miſeranda gente de Caſtella. +Se eſſe gesto que moſtras claro & ledo, +De pay o verdadeiro amor aſſella: +Acude & corre pay, que ſe não corres, +Pode ſer que não aches quem ſocorres. + +Não de outra ſorte a timida Maria +Falando eſtá, que a triſte Venus, quando +A Iupiter ſeu pay fauor pedia, +Pera Eneas ſeu filho, nauegando, +Que a tanta piedade o comouia, +Que caido das mãos o rayo infando. +Tudo o clemente Padre lhe concede, +Peſandolhe do pouco que lhe pede. + +Mas ja cos eſquadrões da gente armada, +Os Eborenſes campos vão qualhados, +Luſtra co Sol o arnes, a lança, a eſpada, +Vão rinchando os cauallos jaezados: +A canora trombeta embandeirada +Os corações aa paz acoſtumados: +Vay às fulgentes armas incitando +Polas concauidades retumbando. + +Entre todos no meio ſe ſublima, +Das inſignias Reais acompanhado, +O vaſeroſo Affonſo, que por cima +De todos, leua o collo aleuantado, +E ſomente co geſto esforça & anima, +A qualquer coração amedrontado. +Aſsi entra nas terras de Castella, +Com a filha gentil Rainha della. + +Iuntos os dous Affonſos finalmente, +Nos campos de Tarifa, eſtão defronte +Da grande multidão da cega gente, +Pera quem ſam pequenos campo & monte. +Não ha peito tão alto & tam potente, +Que de deſconfiança não ſe afronte, +Em quanto não conheça, & claro veja, +Que co braço dos ſeus Chriſto peleja. + +Eſtão do Agar os netos caſi rindo, +Do poder dos Chrisſtãos fraco & pequeno, +As terras como ſuas repartindo, +Ante mão, entre o exercito Agareno: +Que com titulo falſo poſſuindo +Eſtà o famoſo nome Sarraceno. +Aſsi tambem com falſa conta & nua, +Aa nobre terra alhea chamão ſua. + +Qual o membrudo & barbaro Gigante, +Do Rei Saul, com cauſa tam temido, +Vendo o Paſtor inorme eſtar diante, +So de pedras & esforço apercebido, +Com palauras ſoberbas o arrogante, +Despreza o fraco moço mal veſtido: +Que rodeando a funda o deſengana, +Quanto mais pode a Fê que a força humana. + +Desta arte o Mouro perfido deſpreza, +O poder dos Christãos, & não entende, +Que eſtà ajudado da alta fortaleza, +A quem o Inferno horrifico ſe rende. +Co ella o Castelhano, & com deſtreza, +De Marrocos o Rei comete & offende. +O Portugues que tudo eſtima em nada, +Se faz temer ao Reino de Granada. + +Eis as lanças & eſpadas retenião, +Por cima dos arneſes, brauo eſtrago, +Chamão (ſegundo as leis que ali ſeguião,) +Hũs Mafamede, & os outros Sanctiago, +Os feridos com grita o Ceo ferião, +Fazendo de ſeu ſangue bruto lago, +Onde outros meios mortos ſe afogauão, +Quando do ferro as vidas eſcapauão. + +Com esforço tamanho eſtrue & mata, +O Luſo ao Granadil, que em pouco eſpaço, +Totalmente o poder lhe desbarata, +Sem lhe valer defeſa, ou peito de aço: +De alcançar tal victoria tam barata, +Inda não bem contente o forte braço, +Vay ajudar ao brauo Caſtelhano, +Que pelejando eſtà co Mauritano. + +Ia ſe hia o Sol ardente recolhendo, +Pera a caſa de Thetis, & inclinado, +Pera o Ponente o veſpero trazendo, +Estaua o claro dia memorado, +Quando o poder do Mauro grande & horẽdo +Foi pelos fortes Reis desbaratado, +Com tanta mortindade, que a memoria, +Nunca no mundo vio tam gram victoria. + +Não matou a quarta parte o forte Mario, +Dos que morrerão neſte vencimento, +Quando as agoas co ſangue do aduerſario, +Fez beber ao exercito ſedento, +Nem o Peno aſperiſsimo contrario, +Do Romano poder de naſcimento: +Quando tantos matou da illustre Roma, +Que alqueires tres de aneis dos mortos toma. + +E ſe tu tantas almas ſo podeſte, +Mandor ao Reino eſcuro de Cocito, +Quando a ſancta Cidade desfizeſte +Do pouo pertinaz no antigo rito: +Permiſſam & vingança foy celeſte, +E não força de braço, o nobre Tito, +Que aſsi dos Vates foy profetizado, +E despois por I E S V certificado. + +Paſſada eſta tão prospera victoria, +Tornado Affonſo aa Luſitana terra, +A ſe lograr da paz com tanta gloria, +Quanta ſoube ganhar na dura guerra, +O caſo triste & dino da memoria, +Que do ſepulchro os homẽs deſenterra, +Aconteceo da miſera, & mezquinha +Que deſpois de ſer morta foy Rainha. + +Tu ſo, tu puro Amor com força crua, +Que os corações humanos tanto obriga, +Deſte cauſa aa moleſta morte ſua, +Como ſe fora perfida inimiga: +Se dizem fero Amor que a ſede tua, +Nem com lagrimas triſtes ſe mitiga: +E porque queres aſpero & tirano +Tuas aras banhar em ſangue humano. + +Eſtauas linda Ines poſta em ſoſego +De teus annos, colhendo doçe fructo, +Naquelle engano da alma, ledo & cego, +Que a fortuna não deixa durar muito, +Nos ſaudoſos campos do Mondego, +De teus fermoſos olhos nunca enxuto, +Aos montes inſinando, & âs eruinhas +O nome que no peito eſcripto tinhas. + +Do teu Principe ali te reſpondião, +As lembranças que na alma lhe morauão, +Que ſempre ante ſeus olhos te trazião, +Quando dos teus fermoſos ſe apartauão +De noite em doçes ſonhos, que mentião, +De dia em penſamentos que voauão. +E quanto em fim cuidaua, & quanto via, +Eram tudo memorias de alegria. + +De outras bellas ſenhoras, & Princeſas, +Os deſejados tâlamos engeita, +Que tudo em fim, tu puro amor desprezas, +Quando hum gesto ſuaue te ſogeita: +Vendo estas namoradas eſtranhezas, +O velho pay ſeſudo, que reſpeita +O murmurar do pouo, & a fantaſia +Do filho, que caſarſe não queria. + +Tirar Ines ao mundo determina, +Por lhe tirar o filho que tem preſo, +Crendo co ſangue ſô da morte indina, +Matar do firme amor o fogo aceſo: +Que furor conſentio, que a eſpada fina, +Que pode ſustentar o grande peſo +Do furor Mauro, foſſe aleuantada, +Contra hũa fraca dama delicada? + +Trazião a os horrificos algozes, +Ante o Rei, ja mouido a piedade: +Mas o pouo com falſas, & ferozes +Razões, aa morte crua o perſuade: +Ella com tristes & piedoſas vozes, +Saidas ſô da magoa, & ſaudade +Do ſeu Principe, & filhos que deixaua, +Que mais que a propria morte a magoaua. + +Pera o Ceo criſtalino aleuantando, +Com lagrimas os olhos piedoſos, +Os olhos, porque as mãos lhe eſtaua atando, +Hum dos duros miniſtros riguroſos. +E deſpois nos mininos atentando, +Que tam queridos tinha, & tam mimoſos, +Cuja orfindade como mãy temia, +Pera o auô cruel aſsi dizia. + +Se ja nas brutas feras, cuja mente +Natura fez cruel de naſcimento, +E nas aues agreſtes, que ſomente +Nas rapinas aerias tem o intento, +Com pequenas crianças vio a gente, +Terem tam piadoſo ſentimento, +Como co a mãy de Nino ja moſtrârão, +E cos yrmãos que Roma edificàrão. + +O tu que tẽs de humano o geſto & o peito +(Se de humano he, matar hũa donzella +Fraca & ſem força, ſo por ter ſubjeito +O coração, a quem ſoube vencella) +A eſtas criançinhas tem reſpeito, +Pois o não tẽs aa morte eſcura della, +Mouate a piedade ſua & minha, +Pois te não moue a culpa que não tinha. + +E ſe vencendo a Maura reſiſtencia, +A morte ſabes dar com fogo & ferro, +Sabe tambem dar vida com clemencia, +A quem pera perdela não fez erro: +Mas ſe to aſsi merece eſta inocencia, +Poem me em perpetuo & miſero deſterro, +Na Scitia fria, ou la na Lybia ardente, +Onde em lagrimas viua eternamente. + +Poem me onde ſe vſe toda a feridade, +Entre Liões, & Tigres, & verey +Se nelles achar poſſo a piedade +Que entre peitos humanos não achey: +Ali co amor intrinſeco & vontade, +Naquelle por quem mouro, criarey +Eſtas reliquias ſuas que aqui viſte, +Que refrigerio ſejão da mãy triste. + +Queria perdoarlhe o Rei benigno, +Mouido das palauras que o magoão: +Mas o pertinaz pouo, & ſeu deſtino +(Que deſta ſorte o quis) lhe não perdoão, +Arrancão das eſpadas de aço fino, +Os que por bom tal feito ali apregoão, +Contra hũa dama, ô peitos carniceiros +Feros vos amoſtrais, & caualleiros? + +Qual contra a linda moça Policena, +Conſolação extrema da mãy velha, +Porque a ſombra de Achiles a condena, +Co ferro o duro Pirro ſe aparelha: +Mas ella os olhos com que o ar ſerena, +(Bem como paciente, & manſa ouelha) +Na miſera mãy postos, que endoudeçe +Ao duro ſacrificio ſe offereçe. + +Tais contra Inès os brutos matadores, +No colo de alabaſtro, que ſoſtinha +As obras com que amor matou de amores +Aquelle que despois a fez Rainha: +As eſpadas banhando, & as brancas ſlores, +Que ella dos olhos ſeus regadas tinha, +Se encarniçauão, feruidos & yroſos, +No foturo castigo não cuidoſos. + +Bem podêras, ô Sol, da viſta deſtes +Teus rayos apartar aquelle dia, +Como da ſeua meſa de Tyeſtes, +Quando os filhos por mão de Atreu comia. +Vos, ô concauos vales que podeſtes, +A voz extrema ouuir da boca fria, +O nome do ſeu Pedro que lhe ouuistes, +Por muito grande eſpaço repetistes. + +Aſsi como a bonina que cortada, +Antes do tempo foy, candida & bella, +Sendo das mãos laciuas mal tratada, +Da minina que a trouxe na capella: +O cheiro traz perdido, & a cor murchada: +Tal eſtà morta a palida donzella, +Secas do roſto as roſas, & perdida +A branca & viua cor, co a doçe vida. + +As filhas do Mondego, a morte eſcura +Longo tempo chorando memorarão, +E por memoria eterna em fonte pura +As lagrimas choradas transformarão: +O nome lhe poderão, que inda dura, +Dos amores de Ines que ali paſſarão. +Vede que freſca fonte rega as flores, +Que lagrimas ſam a agoa, & o nome amores + +Não correo muito tempo que a vingança +Não viſſe Pedro das mortais feridas, +Que em tomando do Reino a gouernança, +A tomou dos fugidos humicidas: +Do outro Pedro cruiſsimo os alcança, +Que ambos immigos das humanas vidas, +O concerto fizerão duro & injuſto, +Que com Lepido, & Antonio fez Auguſto. + +Este castigador foy reguroſo, +De latrocinios, mortes & adulterios, +Fazer nos maos cruezas, fero & yroſo, +Erão os ſeus mais certos refrigerios: +As cidades guardando juſtiçoſo, +De todos os ſoberbos vituperios, +Mais ladrões caſtigando aa morte deu, +Que o vagabundo Alcides, ou Theſeu. + +Do juſto & duro Pedro naſce o brando +(Vede da natureza o deſconcerto) +Remiſſo, & ſem cuidado algum Fernando, +Que todo o Reino pos em muito aperto, +Que vindo o Caſtelhano deuastando +As terras ſem defeſa, eſteue perto +De deſtruirſe o Reino totalmente, +Que hum fraco Rei faz fraca a forte gente. + +Ou foy caſtigo claro do peccado, +De tirar Lianor a ſeu marido, +E caſar ſe co ella de enleuado, +Num falſo parecer mal entendido: +Ou foy que o coração ſogeito, & dado +Ao vicio vil, de quem ſe vio rendido, +Molle ſe fez, & fraco, & bem parece +Que hum baxo amor os fortes enfraquece. + +Do peccado tiuerão ſempre a pena +Muitos, que Deos o quis, & permitio: +Os que forão roubar a bella Elena, +E com Apio tambem Tarquino o vio: +Pois por quem Dauid Sancto ſe condena? +Ou quem o Tribo illuftre deſtruio +De Benjamim? bem claro nolo inſina, +Por Sarra Faraô, Sychem por Dina. + +E pois ſe os peitos fortes enfraqueçe, +Hum inconceſſo amor deſatinado, +Bem no filho de Almena ſe pareçe, +Quando em Omfale andaua transformado, +De Marco Antonio a fama ſe eſcureçe, +Com ſer tanto a Cleopatra affeiçoado: +Tu tambem Peno proſpero o ſentiſte, +Deſpois que hũa moça vil na Apulia viste. + +Mas quem pode liurarſe por ventura, +Dos laços que amor arma brandamente +Entre as roſas & a neue humana pura, +O ouro, & o alabaſtro transparente +Quem de hũa peregrina fermoſura +De hum vulto de Meduſa propriamente +Que o coração conuerte que tem preſo, +Em pedra não: mas em deſejo aceſo. + +Quem vio hum olhar ſeguro, hum geſto brando, +Hũa ſuaue & Angelica excelencia, +Que em ſi eſtâ ſempre as almas trãformãdo +Que tiueſſe contra ella reſiſtencia: +Deſculpado por certo estâ Fernando, +Pera quem tem de amor experencia: +Mas antes tendo liure a fantaſia, +Por muyto mais culpado o julgaria. +Fim. + + + +❧ Canto Quarto. + +Deſpois de procello +ſa tempestade, +Nocturna ſombra, & ſibilante +vento, +Traz a manhaã ſerena claridade, +Eſperança de porto, & ſaluamento: +Aparta o Sol a negra eſcuridade, +Remouendo o temor ao penſamento: +Aſsi no Reino forte aconteceo, +Deſpois que o Rei Fernando ſalleçeo. + +Porque ſe muito os noſſos deſejarão, +Quem os danos & offenſas va vingando, +Naquelles que tãbem ſe aproueitârão, +Do deſcuido remiſſo de Fernando, +Deſpois de pouco tempo o alcançârão, +Ioanne ſempre illuſtre aleuantando +Por Rei, como de Pedro vnico erdeiro +(Ainda que bastardo) verdadeiro. + +Ser iſto ordenação dos ceos diuina, +Por ſinais muito claros ſe moſtrou +Quando em Euora a voz de hũa minina, +Ante tempo falando o nomeou: +E como couſa em fim que o Ceo destina, +No berço o corpo, & a voz aleuantou, +Portugal, Portugal, alçando a mão +Diſſe, polo Rei nouo Dom Ioão. + +Alteradas então do Reino as gentes, +Co odio que occupado os peitos tinha, +Abſolutas cruezas, & euidentes +Faz do pouo o furor por onde vinha, +Matando vão amigos & parentes, +Do adultero Conde, & da Rainha, +Com quem ſua incontinencia deſoneſta +Mais (despois de viuua) manifeſta. + +Mas elle em fim com cauſa deſonrado, +Diante della a ferro frio morre, +De outros muitos na morte acompanhado +Que tudo o fogo erguido queima & corre: +Quem como Astianas precipitado +(Sem lhe valerem ordẽs) de alta torre +A quem ordẽs, nem aras, nem reſpeito, +Quem nu por ruas & em pedaços feito. + +Podẽſe por em longo eſquecimento, +As cruezas mortais que Roma vio +Feitas do feroz Mario, & do cruento +Syla, quando o contrario lhe fogio: +Por iſſo Lianor, que o ſentimento +Do morto Conde ao mundo deſcobrio, +Faz contra Luſitania vir Caſtella, +Dizendo ſer ſua filha herdeira della. + +Beatriz era a filha, que caſada +Co Caſtelhano eſtà, que o Reino pede, +Por filha de Fernando reputada, +Se a corrompida fama lho concede. +Com esta voz Caſtella aleuantada, +Dizendo que eſta filha ao pay ſucede: +Suas forças ajunta pera as guerras +De varias regiões & varias terras. + +Vem de toda a prouincia que de hum Brigo, +(Se foy) ja teue o nome diriuado +Das terras que Fernando, & que Rodrigo +Ganharão do tirano & Mauro eſtado: +Não eſtimão das armas o perigo, +Os que cortando vão co duro arado +Os campos Lioneſes, cuja gente, +Cos Mouros foi nas armas excellente. + +Os Vandalos, na antiga valentia +Ainda confiados,ſe ajuntauão +Da cabeça de toda Andaluzia, +Que do Goadalquibir as agoas lauão, +A nobre Ilha tambem ſe apercebia, +Que antigamente os Tirios habitauão: +Trazendo por inſignias verdadeiras +As Herculeas colunas nas bandeiras. + +Tambem vem la do Reino de Toledo, +Cidade nobre & antiga, a quem cercando +O Tejo em torno vay ſuaue & ledo, +Que das ſerras de Conca vem manando: +A vos outros tambem não tolhe o medo, +O ſordidos Galegos, duro bando, +Que pera reſistirdes, vos armastes, +Aaquelles, cujos golpes ja prouastes. + +Tambem mouem da guerra as negrasfurias, +A gente Bizcainha, que careçe +De polidas razões, & que as injurias +Muito mal dos estranhos compadeçe: +A terra de Guipuſcua, & das Aſturias +Que com minas de ferro ſe ennobreçe, +Armou delle, os ſoberbos matadores, +Pera ajudar na guerra a ſeus ſenhores. + +Ioane, a quem do peito o eforço creçe, +Como a Sariſam Hebreo da guedelha, +Poſto que tudo pouco lhe pareçe +Cos poucos de ſeu Reino ſe aparelha, +E não porque conſelho lhe faleçe, +Cos principaes ſenhores ſe aconſelha: +Mas ſo por ver das gentes as ſentenças, +Que ſempre ouue entre muitos diferenças. + +Não falta com razões quem deſconcerte, +Da opinião de todos, na vontade, +Em quem o esforço antigo ſe conuerte, +Em deſuſada & ma deſlealdade, +Podendo o temor mais, gelado, inerte +Que a propria & natural fidelidade, +Negão o Rei & a patria, & ſe conuem +Negarão (como Pedro) o Deos que tem. + +Mas nunca foy que eſte erro ſe ſentiſſe, +No forte dom Nuno aluerez: mas antes +Poſto que em ſeus Irmãos tão claro o viſſe, +Reprouando as vontades incoſtantes: +A aquellas duuidoſas gentes diſſe, +Com palauras mais duras que elegantes, +A mão na eſpada irado, & não facundo, +Ameaçando a terra, o mar, & o mundo. + +Como da gente illuſtre Portugueſa, +Ha de auer quem refuſe o patrio Marte? +Como, deſta prouincia que princeſa +Foy das gentes na guerra em toda parte, +Ha de ſair quem negue ter defeſa, +Quem negue a Fe, o amor, o esforço & arte +De Portugues, & por nenhum reſpeito +O proprio Reino queira ver ſogeito? + +Como, não ſois vos inda os deſcendentes +Daquelles, que debaixo da bandeira, +Do grande Enriquez, feros & valentes +Venceſtes eſta gente tam guerreira? +Quando tantas bandeiras, tantas gentes +Poſeram em fugida, de maneira, +Que ſete illuſtres Condes lhe trouxerão +Preſos, afora a preſa que tiuerão? + +Com quem forão contino ſopeados +Estes, de quem o eſtais agora vos, +Por Dinis & ſeu filho, ſublimados +Se não cos voſſos fortes pais & auôs? +Pois ſe com ſeus deſcuidos, ou peccados, +Fernando em tal fraqueza aſsi vos pos, +Torne vos voſſas forças o Rei nouo, +Se he certo que co Rei ſe muda o pouo. + +Rei tendes tal, que ſe o valor tiuerdes +Igual ao Rei que agora aleuantaſtes, +Desbaratareis tudo o que quiſerdes, +Quanto mais a quem ja desbarataſtes: +E ſe com iſto em fim vos não mouerdes, +Do penetrante medo que tomastes, +Atay as mãos a voſſo vão receio, +Que eu ſo reſiſtirey ao jugo alheio. + +Eu ſo com meus vaſſalos, & com eſta, +(E dizendo isto arranca mea eſpada) +Defenderey da força dura, & infeſta +A terra nunca de outrem ſojugada, +Em virtude do Rei, da patria meſta, +Da lealdade ja por vos negada, +Vencerey (não ſo eſtes aduerſarios:) +Mas quantos a meu Rei forem contrarios. + +Bem como entre os mançebos recolhidos, +Em Camiſio, reliquias ſos de Canas, +Ia pera ſe entregar quaſi mouidos +A fortuna das forças Affricanas: +Cornelio moço os faz, que compelidos +Da ſua eſpada jurem, que as Romanas +Armas, nam deixarão em quanto a vida +Os nam deixar, ou nellas for perdida. + +Deſtarte a gente força, & e força Nuno, +Que com lhe ouuir as vltimas razões +Remouem o temor frio importuno, +Que gelados lhe tinha os corações: +Nos animais caualgão de Neptuno, +Brandindo, & volteando arremeſſoẽs, +Vão correndo & gritando a boca aberta, +Viua o famoſo Rei que nos liberta. + +Das gentes populares, hũs aprouão +A guerra com que a patria ſe ſoſtinha, +Hũs as armas alimpão & renouão, +Que a ferrugem da paz gaſtadas tinha: +Capaçetes eſtofam, peitos prouão, +Armaſe cada hum como conuinha. +Outros fazem vestidos de mil cores, +Com letras & tenções de ſeus amores. + +Com toda esta lustroſa companhia, +Ioanne forte ſae da freſca Abrantes, +Abrantes, que tambem da fonte fria +Do Tejo logra as agoas abundantes: +Os primeiros armigeros regia, +Quem pera reger era os muy poſſantes, +Orientais exercitos, ſem conto, +Com que paſſaua Xerxes o Helesponto. + +Dom Nuno Alueres digo, verdadeiro +Açoute de ſoberbos Caſtelhanos, +Como ja o fero Huno o foy primeiro +Pera Eranceſes, pera Italianos, +Outro tambem famoſo caualleiro, +Que a ala dereita tem dos Luſitanos, +Apto pera mandalos, & regelos, +Meu Rodriguez ſe diz de Vaſconcelos. + +E da outra ala que a eſta correſponde, +Antão vazquez de Almada he Capitão, +Que deſpois foy de Abranches nobre Conde, +Das gentes vay regendo a ſestra mão, +Logo não retagoarda não ſe eſconde, +Das quinas & caſtellos o pendão, +Com Ioanne Rey forte em toda parte, +Que eſcurecendo o preço vay de Marte. + +Eſtauão pelos muros temeroſas, +E de hum alegre medo quaſi frias, +Rezando as mais, irmãs, damas, & eſpoſas +Prometendo jejũs, & romarias: +Ia chegão as eſquadras bellicoſas, +Defronte das imigas companhias, +Que com grita grandiſsima os recebem, +E todas grande duuida concebem. + +Respondem as trombetas menſageiras, +Pifaros ſibilantes, & atambores, +Alferezes volteão as bandeiras, +Que variadas ſam de muitas cores: +Era no ſeco tempo, que nas eiras +Ceres o fructo deixa aos lauradores, +Entra em Aſtrea o Sol, no mes de Agoſto, +Baco das vuas tira o doçe moſto. + +Deu ſinal a trombeta Castelhana, +Horrendo, fero, ingente, & temeroſo, +Ouuio o o monte Artabro, & Guadiana, +A tras tornou as ondas de medroſo: +Ouuio o Douro, & a terra Tranſtagana, +Correo ao mar o Tejo duuidoſo: +E as mãis que o ſom terribil eſcuitârão, +Aos peitos os filhinhos apertârão. + +Quantos roſtos ali ſe vem ſem cor, +Que ao coração acode o ſangue amigo, +Que nos perigos grandes, o temor, +He mayor muitas vezes que o perigo, +E ſe o não he, pareçeo, que o furor +De offender, ou vencer o duro immigo, +Faz não ſentir, que he perda grande & rara +Dos membros corporais da vida cara. + +Começaſe a trauar a incerta guerra, +De ambas partes ſe moue a primeira ala, +Hũs leua a defenſam da propria terra, +Outros as eſperanças de ganhala: +Logo o grande Pereira em quem ſe encerra +Todo o valor, primeiro ſe aſsinala +Derriba, & encontra, & a terra ẽ fim ſemea +Dos que a tanto deſejão, ſendo alhea. + +Ia pelo eſpeſſo ar, os eſtridentes +Farpões, ſetas, & varios tiros voão, +Debaxo dos pês duros dos ardentes +Cauallos, treme a terra, os vales ſoão: +Eſpedação ſe as lanças, & as frequentes +Quedas, co as duras armas tudo atroão. +Recreçem os immigos ſobre a pouca +Gente, do fero Nuno que os apouca. + +Eis ali ſeus yrmãos contra elle vão, +(Caſo feo & cruel:) mas não ſe eſpanta, +Que menos he querer matar o yrmão, +Quem contra o Rei & a patria ſe aleuanta: +Destes arrenegados muitos ſam, +No primeiro eſquadrão, que ſe adianta, +Contra yrmãos & parentes (caſo eſtranho) +Quaes nas guerras Ciuis de Iuleo Magno. + +O tu Sertorio, o nobre Cariolano +Catilina, & vos outros dos antigos, +Que contra voſſas patrias, com profano +Coração, vos fizestes inimigos: +Se lâ no reino eſcuro de Sumano +Receberdes grauiſsimos castigos +Dizeilhe que tambem dos Portugueſes +Algũs tredores ouue algũas vezes. + +Rompem ſe aqui dos noſſos os primeiros, +Tantos dos inimigos a elles vão: +Eſta ali Nuno, qual pellos outeiros +De Ceita estâ o fortiſsimo lião +Que cercado ſe ve dos caualleiros +Que os campos vão correr de Tutuão, +Perſeguem no com as lanças, & elle iroſo +Toruado hũ pouco eſtâ, mas não medroſo. + +Com torua vista os vê, mas a natura +Ferina, & a yra não lhe compadecem +Que as coſtas dê, mas antes na eſpeſſura +Das lanças ſe arremeſſa, que recrecem: +Tal eſtà o caualeiro que a verdura +Tinge co ſangue alheyo, ali perecem +Algũs dos ſeus, que o animo valente +Perde a virtude contra tanta gente. + +Sentio Ioane a afronta que paſſaua +Nuno, que como ſabio capitão, +Tudo corria, & via, & a todos daua +Com preſença & palauras coração: +Qual parida Lioa fera & braua +Que os filhos que no ninho ſôs eſtão +Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara, +O paſtor de Maſsilia lhos furtara. + +Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos +Os montes ſete Irmãos atroa & abala, +Tal Ioane com outros eſcolhidos +Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala: +O fortes companheiros, o ſubidos +Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala, +Defendey voſſas terras que a eſperança +Da liberdade, eſtâ na voſſa lança. + +Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro +Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes +Dos inimigos corro, & vou primeiro +Pelejay verdadeiros Portugueſes. +Iſto diſſe o magnanimo guerreyro +E ſopeſando a lança quatro vezes, +Com força tira & deſte vnico tiro +Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro, + +Porque eis os ſeus aceſos nouamente +Dhũa nobre vergonha & honroſo fogo +Sobre qual mais com animo valente, +Perigos vencerâ, do Marcio jogo +Porfião: tingeo ferro o fogo ardente +Rompem malhas primeiro, & peitos logo +Aſsi recebem junto & dão feridas +Como a quem ja não doe perder as vidas. + +A muitos mandão ver o Eſtigio lago +Em cujo corpo a morte, & o ferro entraua +O Meſtre morre ali de Sanctiago +Que fortiſsimamente pelejaua +Morre tambem, fazendo grande eſtrago +Outro Meſtre cruel de Calatraua +Os Pereiras tambem arrenegados +Morrem, arrenegando o Ceo & os fados. + +Muitos tambem do vulgo vil ſem nome +Vão, & tambem dos nobres ao profundo +Onde o Trifauce Cão perpetua fome +Tem, das almas que paſſão deſte mundo +E porque mais aqui ſe amanſe & dome +A ſoberba do imigo furibundo, +A ſublime bandeira Caſtelhana +Foy derribada os pês da Luſitana. + +Aqui a fera batalha ſe encruece +Com mortes, gritos, ſangue & cutiladas +A multidão da gente que perece +Tem as flores da propria cor mudadas: +Ia as coſtas dão & as vidas: ja falece +O furor, & ſobejão as lançadas, +Ia de Caſtella o Rey desbaratado +Se vee, & de ſeu propoſito mudado. + +O campo vay deixando ao vencedor +Contente de lhe não deixar a vida +Seguẽ no os que ficarão, & o temor +Lhe da não pês, mas aſas aa fugida: +Encobrem no profundo peito a dor +Da morte, da fazenda deſpendida, +Da magoa, da deſonra, & triste nojo +De ver outrem triumphar de ſeu deſpojo. + +Algũs vão maldizendo & blasfemando +Do primeyro que guerra fez no mundo +Outros a ſede dura vão culpando +Do peito cobiçoſo & ſitibundo: +Que por tomar o alheo, o miſerando +Pouo auentura aas penas do profundo +Deixando tantas mãis, tantas eſpoſas +Sem filhos, ſem maridos deſditoſas. + +O vencedor Ioanne eſteue os dias +Coſtumados no campo, em grande gloria +Com offertas deſpois, & romarias +As graças deu a quem lhe deu victoria: +Mas Nuno que não quer por outras vias, +Entre as gentes deixar de ſi memoria +Se não por armas ſempre ſoberanas +Pera as terras ſe paſſa Trãſtaganas. + +Ajudao ſeu destino de maneira +Que fez igoal o effeito ao penſamento, +Porque a terra dos Vandalos fronteira +Lhe concede o deſpojo & o vencimento +Ia de Siuilha a Betica bandeira +E de varios ſenhores nũ momento +Se lhe derriba aos pês ſem ter defeſa +Obrigados da força Portugueſa. + +Deſtas & outras victorias longamente +Erão os Caſtelhanos opprimidos +Quando a paz deſejada ja da gente +Derão os vencedores aos vencidos: +Deſpois que quis o Padre omnipotente +Dar os Reis inimigos por maridos +Aas duas lllustriſsimas Ingleſas +Gentis, fermoſas, inclitas princeſas. + +Não ſofre o peito forte vſado aa guerra +Não ter imigo ja a quem faça dano, +E aſsi não tendo a quem vencer na terra +Vay cometer as ondas do Occeano: +Eſte he o primeiro Rey que ſe deſterra +Da patria, por fazer que o Afrinano, +Conheça pollas armas, quanto excede +A ley de Christo aa ley de Mafamede. + +Eis mil nadantes aues pello argento +Da furioſa Tetis inquieta, +Abrindo as pandas aſas vão ao vento +Pera onde Alcides pos a extrema meta: +O monte Abila, & o nobre fundamento +De Ceita toma, & o torpe Mahometa +Deita fora, & ſegura toda Eſpanha +Da Iuliana, mã, & desleal manha. + +Não conſentio a morte tantos annos +Que de Heroe tão ditoſo ſe lograſſe +Portugal, mas os coros ſoberanos +Do ceo ſupremo, quis que pouoaſſe: +Mas pera defenſam dos Luſitanos +Deixou quem o leuou, quem gouernaſſe, +E aumentaſſe a terra mais que dantes +Inclita gêração, altos Infantes. + +Não foy do Rey Duarte tão ditoſo +O tempo que ficou na ſumma alteza, +Que aſsi vay alternando o tempo iroſo +O bem co mal, o goſto co a tristeza: +Quem vio ſempre hum eſtado deleitoſo? +Ou quem vio em fortuna auer firmeza? +Pois inda neſte Reino, & neſte Rey +Não vſou ella tanto deſta ley. + +Vio ſer captiuo o ſancto irmão Fernando +Que a tão altas empreſas aſpiraua +Que por ſaluar o pouo miſerando +Cercado, ao Sarraceno ſentregaua: +Sô por amor da patria eſtâ paſſando +A vida de ſenhora feyta eſcraua, +Por não ſe dar por elle ha forte Ceita +Mais o pubrico bem que o ſeu reſpeita. + +Cadro porque o inimigo não venceſſe, +Deixou antes vencer da morte a vida, +Regulo porque a patria não perdeſſe, +Quis mais a liberdade ver perdida: +Eſte porque ſe Eſpanha não temeſſe +A captiueiro eterno ſe conuida: +Codro, nem Curcio, ouuido por eſpanto +Nemos Decios leais fizerão tanto. + +Mas Affonſo do Reino vnico herdeiro, +Nome em armas ditoſo, em noſſa Heſperia, +Que a ſoberba do barbaro fronteiro, +Tornou em baxa & humilima miſeria, +Fora por certo inuicto caualleiro, +Se não quiſera yr ver a terra Iberia: +Mas Affrica dira ſer impoſsibil, +Poder ninguem vencer o Rei terribil. + +Eſte pode colher as maçãs de ouro, +Que ſamente o Terintio colher pode, +Do jugo que lhe pos o brauo Mouro, +A ceruiz inda agora nam ſacode: +Na fronte a palma leua, & o verde louro, +Das victorias do barbaro, que acode +A defender Alcaçer forte villa, +Tangere populoſo, & a dura Arzilla. + +Porem ellas em fim por força entradas, +Os muros abaxarão de Diamante, +Aas Portugueſas forças coſtumadas, +A derribarem quanto achão diante, +Marauilhas em armas eſtremadas, +E de eſcriptura dinas elegante, +Fizerão caualleiros nesta empreſa +Mais, affinando a fama Portugueſa. + +Porem deſpois tocado de ambição, +E gloria de mandar amara & bella, +Vay cometer Fernando de Aragão, +Sobre o potente Reino de Caſtella, +Ajuntaſe a inimiga multidão, +Das ſoberbas & varias gentes della, +Deſde Caliz ao alto Perineo, +Que tudo ao Rei Fernando obedeceo. + +Não quis ficar nos Reinos occioſo, +O mancebo Ioanne, & logo ordena +De ir ajudar o pay ambicioſo, +Que então lhe foy ajuda não pequena, +Saioſe em fim do trançe perigoſo, +Com fronte não toruada, mas ſerena +Desbaratado o pay ſanguinolento: +Mas ficou duuidoſo o vencimento. + +Porque o filho ſublime & ſoberano, +Gentil, forte, animoſo caualleiro, +Nos contrarios fazendo imenſo dano, +Todo hum dia ficou no campo inteiro: +Desta arte foy vencido Octauiano, +E Antonio vencedor ſeu companheiro, +Quando daquelles que Ceſar matârão +Nos Philipicos campos ſe vingârão. + +Porem deſpois que a eſcura noite eterna, +Affonſo apouſentou no Ceo ſereno, +O Principe que o Reino então gouerna, +Foy Ioanne ſegundo, & Rei terzeno: +Eſte por auer fama ſempiterna, +Mais do que tentar pode homem terreno +Tentou, que foy buſcar da roxa Aurora +Os terminos, que eu vou buſcando agora. + +Manda ſeus menſageiros que paſſarão +Eſpanha, França, Italia celebrada, +E la no illuſtre porto ſe embarcârão, +Onde ja foy Partenope enterrada, +Napoles onde os fados ſe moſtrârão, +Fazendoa a varias gentes ſubjugada, +Pola illuſtrar no fim de tantos annos, +Co ſenhorio de inclitos Hispanos. + +Polo mar alto Siculo nauegão, +Vão ſe aas praias de Rodes arenoſas, +E dali aas ribeiras altas chegão, +Que com morte de Magno ſam famoſas: +Vão a Menfis, & aas terras que ſe regão, +Das enchentes Niloticas vndoſas, +Sobem aa Ethiopia, ſobre Egipto, +Que de Christo la guarda o ſancto rito. + +Paſſam tambem as ondas Eritreas, +Que o pouo de Iſrael ſem Nao paſſou, +Ficão lhe a tras as ſerras Nabateas, +Que o filho de Ismael co nome ornou: +As coſtas odoriferas Sabeas, +Que a mãy do bello Adonis tanto honrou, +Cercão, com toda a Arabia deſcuberta +Feliz, deixando a Petrea, & a Deſerta. + +Entrão no estreito Perſico, onde dura +Da confuſa Babel, inda a memoria, +Ali co Tigre o Eufrates ſe meſtura, +Que as fontes onde naſcem tem por gloria: +Dali vão em demanda da agoa pura, +Que cauſa inda ſera de larga hiſtoria +Do Indo, pellas ondas do Occeano, +Onde nam ſe atreueo paſſar Trajano. + +Virão gentes incognitas, & eſtranhas +Da India, da Carmania, & Gedroſia, +Vendo varios costumes, varias manhas +Que cada Região produze & cria: +Mas de vias tão aſperas, tamanhas +Tornarſe facilmente não podia, +La morrerão em fim, & la ficârão. +Que aa deſejada patria não tornârão. + +Pareſce que guardaua o claro Ceo +A Monoel, & ſeus merecimentos, +Eſta empreſa tão ardua, que o moueo +A ſubidos & illuſtres mouimentos: +(Manoel, que a Ioane ſocedeo +No reino, & nos altiuos penſamentos) +Logo como tomou do reino cargo +Tomou mais a conquiſta do mar largo. + +O qual, como de nobre penſamento +Daquella obrigação, que lhe ficâra +De ſeus antepaſſados, (cujo intento, +Foy ſempre acrecentar a terra chara) +Não deixaſſe de ſer hum ſo momento +Conquiſtado: No tempo que a luz clara +Foge, & as eſtrellas nitidas que ſaem +A repouſo conuidão, quando caem. + +Eſtando ja deitado no aureo leito +Onde ymaginações mais certas ſam, +Reuoluendo contino no conceito +De ſeu officio, & ſangue a obrigação, +Os olhos lhe occupou o ſonno acceito +Sem lhe deſoccupar o coração, +Porque tanto que laſſo ſe adormece +Morfeo en varias formas lhe aparece. + +Aqui ſe lhe apreſenta que ſubia +Tão alto que tocaua aa prima Eſphera, +Donde diante varios mundos via +Nações de muita gente eſtranha, & fera: +E laa bem junto donde nace o dia +Deſpois que os olhos longos estendera, +Vio de antiguos longinquos & altos montes +Nacerem duas claras & altas fontes. + +Aues agrestes, feras & alimarias +Pello monte ſeluatico habitauão, +Mil aruores ſylueſtres & eruas varias +O paſſo & o trato aas gentes atalhauão: +Eſtas duras montanhas aduerſarias +De mais conuerſação, por ſi moſtrauão +Que deſque Adão peccou aos noſſos annos +Não as romperão nunca pês humanos. + +Das agoas ſe lhe antolha que ſaião +Por elle os largos paſſos inclinando, +Dous homẽs, que muy velhos parecião +De aſpeito, inda que agreſte, venerando: +Das pontas dos cabellos lhe ſaião +Gotas, que o corpo todo vão banhando, +A cor da pelle baça & denegrida +A barba hirſuta, intonſa, mas comprida. + +Dambos de dous a fronte coroada +Ramos não conhecidos & eruas tinha, +Hum delles a preſença traz canſada +Como quem de mais longe ali caminha, +E aſsi a agoa com impito alterada +Parecia que doutra parte vinha, +Bem como Alfeo de Arcadia em Syracuſa +Vay buſcar os abraços de Aretuſa. + +Eſte que era o mais graue na peſſoa +Destarte pera o Rey de longe brada, +O tu a cujos reinos & coroa +Grande parte do mundo eſta guardada, +Nos outros, cuja fama tanto voa +Cuja ceruiz bem nunca foy domada, +Te auiſamos que he tempo que ja mandes +A receber de nos tributos grandes. + +Eu ſou o illuſtre Ganges, que na terra +Celeſte, tenho o berço verdadeiro, +Estoutro he o Indo Rey, que nesta ſerra +Que vês, ſeu nacimento tem primeiro: +Cuſtartemos com tudo dura guerra, +Mas inſiſtindo tu por derradeiro, +Com não viſtas victorias, ſem receyo +A quantas gentes vês poras o freyo: + +Não diſſe mais o rio Illuſtre & ſancto, +Mas ambos deſparecem num momento, +Acorda Emanuel cum nouo eſpanto +E grande alteração de penſamento: +Eſtendeo niſto Febo o claro manto +Pello eſcuro Emiſperio ſomnolento: +Veyo a menham no ceo pintando as côres +De pudibunda roſa & roxas flores. + +Chama o Rei os ſenhores a conſelho +E propoẽ lhe as figuras da viſam, +As palauras lhe diz do ſancto velho, +Que a todos forão grande admiração: +Determinão o nautico aparelho +Pera que com ſublime coração +Vaa a gente que mandar cortando os mares +A buſcar nouos climas, nouos ares. + +Eu que bem mal cuidaua que em effeito +Se poſeſſe o que o peito me pedia, +Que ſempre grandes couſas deste geito +Preſago o coração me prometia: +Não ſey porque razão, porque reſpeito, +Ou porque bom ſinal que em mi ſe via, +Me poẽ o inclyto Rei nas mãos a chaue +Deſte cometimento grande, & graue. + +E com rogo & palauras amoroſas +Que he hũ mando nos Reis que a mais obriga, +Me diſſe: As couſas arduas & lustroſas +Se alcanção com trabalho & com fadiga: +Faz as peſſoas altas & famoſas +A vida que ſe perde & que periga, +Que quando ao medo infame não ſe rende +Então, ſe menos dura, mais ſe eſtende. + +Eu vos tenho entre todos eſcolhido +Para hũa empreſa qual a vos ſe deue, +Trabalho illuſtre, duro & eſclareſcido, +O que eu ſey que por mi vos ſera leue: +Não ſofri mais, mas logo: O Rey ſubido, +Auenturarme a ferro, a fogo, a neue, +He tão pouco por vos que mais me pena +Ser eſta vida couſa tão pequena. + +Imaginay tamanhas auenturas +Quaes Euriſteo a Alcides inuentaua, +O lião Cleonêo, Arpias duras +O porco de Erimanto, a Ydra braua: +Decer em fim aas ſombras vans & eſcuras +Onde os campos de Dite a Eſtige laua, +Porque a mayor perigo, a môr affronta +Por vos, o Rey, o eſprito & carne he prõpta. + +Com merces ſumptuoſas me agardece +E com razoẽs me louua eſta vontade, +Que a virtude louuada viue & crece, +E o louuor altos caſos perſuade: +A acompanharme logo ſe offerece +Obrigado damor & damizade, +Não menos cobiçoſo de honra & fama, +O charo meu Irmão Paulo da Gama. + +Mais ſe me ajunta Nicolao Coello +De trabalhos muy grande ſoffredor, +Ambos ſam de valia & de conſelho +Dexperiencia em armas & furor: +Ia de manceba gente me aparelho +Em que crece o deſejo do valer, +Todos de grande esforço, & aſsi parece +Quem a tamanhas couſas ſe offerece. + +Forão de Emanoel remunerados, +Porque com mais amor ſe apercebeſſem, +E com palauras altas animados +Pera quantos trabalhos ſoccedeſſem: +Aſsi forão o Mynias ajuntados +Pera que o veo dourado combateſſem, +Na Fatidiça nao, que ouſou primeira +Tentar o mar Euxinio, auentureira. + +E ja no porto da inclita Vliſſea +Cum aluoroço nobre, & cum deſejo, +(Onde o licor meſtura & branca area +Co ſalgado Neptuno o doce Tejo:) +As naos preſtes eſtão, & não refrea +Temor nenhum o iuuenil deſpejo, +Porque a gente maritima & a de Marte +Eſtão pera ſeguirme a toda parte. + +Pellas prayas vestidos os ſoldados +De varias cores vem, & varias artes, +E não menos de esforço aparelhados +Pera buſcar do mundo nouas partes: +Nas fortes naos os ventos ſoſſegados +Ondeão os aerios estandartes, +Ellas prometem vendo os mares largos +De ſer no Olimpo eſtrellas como a de Argos. + +Deſpois de aparelhados deſta ſorte +De quanto tal viagem pede & manda, +Aparelhamos a alma pera a morte +Que ſempre aos nautas ante os olhos anda: +Pera o ſumo poder que a Etherea corte +Soſtenta ſo coa vista veneranda, +Imploramos fauor que nos guiaſſe +E que noſſos começos aſpiraſſe. + +Partimonos aſsi do ſancto templo +Que nas Prais do mar eſtâ aſſentado, +Que o nome tem da terra, pera exemplo, +Donde Deos foy em carne ao mundo dado: +Certifico te, o Rey, que ſe contemplo +Como fuy deſtas prayas apartado, +Cheyo dentro de duuida & receyo +Que apenas nos meus olhos ponho o freyo. + +A gente da cidade aquelle dia +(Hũs por amigos, outros por parentes, +Outros por ver ſomente) concorria +Saudoſos na viſta & deſcontentes: +E nos coa virtuoſa companhia +De mil religioſos diligentes, +Em prociſſam ſolene a Deos orando +Pera os bateis viemos caminhando. + +Em tão longo caminho & duuidoſo +Por perdidos as gentes nos julgauão, +As molheres cum choro piadoſo, +Os homẽs com ſuſpiros que arrancauão: +Mãis, Eſpoſas, Irmãs, que o temeroſo +Amor mais deſconfia, acrecentauão +A deſeſperação, & frio medo +De ja nos não tornar a ver tão cedo. + +Qual vay dizendo: O filho a quem eu tinha +So pera refrigerio, & doce emparo +Desta canſada ja velhice minha, +Que em choro acabarâ, penoſo & amaro: +Porque me deixas, miſera & mezquinha? +Porque de mi te vas, o filho charo +A fazer o funereo enterramento +Onde ſejas de pexes mantimento? + +Qual em cabello: O doce & amado eſpoſo +Sem quem não quis amor que viuer poſſa, +Porque is auenturar ao mar iroſo +Eſſa vida que he minha, & não he voſſa? +Como por hum caminho duuidoſo +Vos eſquece a afeição tão doce noſſa? +Noſſo amor, noſſo vão contentamento +Quereis que com as vellas leue o vento. + +Neſtas & outras palauras que dizião +De amor, & de piadoſa humanidade, +Os velhos & os mininos os ſeguião +Em quem menos esforço poẽ a ydade: +Os montes de mais perto reſpondião +Quaſi mouidos de alta piedade, +A branca area as lagrimas banhauão +Que em multidão co ellas ſe ygoalauão. + +Nos outros ſem a vista aleuantarmos +Nem a Mãy, nem a Eſpoſa, neſte eſtado, +Por nos não magoarmos, ou mudarmos +Do prepoſito firme começado: +Determiney de aſsi nos embarcarmos +Sem o deſpedimento custumado, +Que poſto que he de amor vſança boa +Aquem ſe aparta, on fica, mais magoa. + +Mas hum velho daſpeito venerando, +Que ficaua nas prayas, entre a gente, +Poſtos em nos os olhos, meneando +Tres vezes a cabeça, deſcontente, +A voz peſada hum pouco aleuantando, +Que nos no mar ouuimos claramente, +Cum ſaber ſo dexperiencias feyto +Tais palauras tirou do experto peito. + +O gloria de mandar, o vaã cubiça +Deſta vaidade, a quem chamamos Fama, +O fraudolento goſto, que ſe atiça +Cũa aura popular, que honra ſe chama: +Que caſtigo tamanho & que juſtiça +fazes no peito vão que muito te ama, +Que mortes, que perigos, que tormentas +Que crueldades nelles eſprimentas. + +Dura inquietação dalma & da vida +Fonte de deſemparos & adulterios, +Sagaz conſumidora conhecida +De fazendas, de reinos, & de imperios: +Chamante illuſtre, chamante ſubida, +Sendo dina de infames vituperios, +Chamante Fama, & Gloria ſoberana, +Nomes com quem ſe o pouo neſcio engana. + +A que nouos deſaſtres determinas +De leuar estes reynos & eſta gente? +Que perigos, que mortes lhe destinas +Debaixo dalgum nome preminente? +Que promeſſas de reynos, & de minas +Douro, que lhe faras tão facilmente? +Que famas lhe prometeras, que hiſtorias? +Que triumphos, que palmas, que victorias? + +Mas ô tu geração daquelle inſano +Cujo peccado & deſobediencia, +Não ſomente do reino ſoberano +Te pos neſte deſterro & triſte auuſencia: +Mas inda doutro estado mais que humano +Da quieta & da ſimpres innocencia, +Idade douro, tanto te priuou +Que na de ferro & darmas te deitou. + +Ia que nesta goſtoſa vaidade +Tanto enleuas a leue fantaſia, +Ia que aa bruta crueza & feridade +Poſeste nome esforço & valentia, +Ia que prezas em tanta quantidade +O deſprezo da vida, que deuia +De ſer ſempre eſtimada, pois que ja +Temeo tanto perdella quem a dâ. + +Não tens junto com tigo o Iſmaelita +Com quem ſempre teras guerras ſobejas? +Não ſegue elle do Arabio a ley maldita, +Se tu polla de Chriſto ſo pellejas? +Não tem cidades mil, terra infinita, +Se terras & riqueza mais deſejas? +Não he elle por armas esforçado +Se queres por victorias ſer louuado? + +Deixas criar aas portas o inimigo +Por yres buſcar outro de tão longe, +Por quem ſe deſpouoe o reino antigo +Se enfraqueça & ſe vaa deitando a longe: +Buſcas o incerto & incognito perigo +Porque a fama te exalte & te liſonge, +Chamando te ſenhor com larga copia +Da India, Perſia, Arabia, & de Ethiopia. + +O maldito o primeiro que no mundo +Nas ondas vella pôs en ſeco lenho, +Dino da eterna pena do profundo +Se he juſta a juſta ley que ſigo & tenho: +Nunca juyzo algum alto & profundo, +Nem cythara ſonora, ou viuo engenho, +Te dê por iſſo fama, nem memoria, +Mas comtigo ſe acabe o nome & gloria. + +Trouxe o filho de Iapeto do Ceo +O fogo que ajuntou ao peito humano, +Fogo que o mundo em armas accendeo +Em mortes, em deſonras (grande engano) +Quanto milhor nos fora Prometeo, +E quanto pera o mundo menos dano, +Que a tua eſtatua Illuſtre não tiuera +Fogo de altos deſejos, que a mouera. + +Não cometera o moço miſerando +O carro alto do pay, nem o âr vazio +O grande Achitector co filho, dando +Hum, nome ao mar, & o outro, fama ao rio: +Nenhum cometimento alto & nefando +Por fogo, ferro, agoa, calma & frio, +Deixa intentado a humana geração: +Miſera ſorte, eſtranha Condição! +F I M. + + + +❧ Canto Quinto. +Eſtas ſentenças tais +o velho honrado +Vociferando eſtaua, quando a- +brimos +As aſas ao ſereno & ſoſſegado +Vento, & do porto amado nos partimos: +E como he ja no mar cuſtume vſado +A vella desfraldando o ceo ferimos, +Dizendo Boa viagem, logo o vento +Nos troncos fez o vſado mouimento. + +Entruaa neste tempo o eterno lume, +No animal Nemeyo truculento, +E o mundo que com tempo ſe conſume +Na ſeiſta idade andaua enfermo & lento: +Nella ve, como tinha por coſtume +Curſos do Sol quatorze vezes cento, +Com mais nouenta & ſete, em que corria +quando no mar a armada ſe estendia. + +Ia a vista pouco & pouco ſe desterra +Daquelles patrios montes que ficauão, +Ficaua o charo Tejo, & a freſca ſerra +De Sintra, & nella os olhos ſe alongauão: +Ficauanos tambem na amada terra +O coração, que as magoas lâ diyxauão, +E ja deſpois que toda ſe eſcondeo +Não vimos mais em fim que mar & ceo. + +Aſsi fomos abrindo aquelles mares +Que geração algũa não abrio, +As nouas Ilhas vendo, & os nouos ares, +Que o generoſo Enrique deſcobrio: +De Mauritania os montes & lugares +Terra que Anteo num tempo poſſuyo, +Deyxando aa mão ezquerda, que aa dereita +Não ha certeza doutra, mas ſoſpeita. + +Paſſamos a grande Ilha da madeira +Que do muito aruoredo aſsi ſe chama, +Das que nos pouoamos, a primeira, +Mais celebre por nome, que por fama: +Mas nem por ſer do mundo a derradeira +Se lhe auentajão quantas Venus ama, +Antes ſendo esta ſua ſe eſquecera +De Cypro, Guido, Pafos, & Cythêra. + +Deixamos de Maſsilia a eſteril costa +Onde ſeu gado os Azenegues pastão, +Gente que as freſcas agoas nunca goſta +Nem as eruas do campo bem lhe abaſtão: +A terra a nenhum fruto em fim deſpoſta, +Onde as aues no ventre o ferro gastão, +Padecendo de tudo extrema inopia +Que aparta a Barbarîa de Etiopia. + +Paſſamos o lemite aonde chega +O Sol, que pera o Norte os carros guia, +Onde jazem os pouos, a quem nega +O filho de Climêne a cor do dia: +Aqui gentes eſtranhas laua & rega +Do negro Sanagâ a corrente fria, +Onde o Cabo Arſinario o nome perde +Chamando ſe dos noſſos Cabo verde. + +Paſſadas tendo ja as Canareas ilhas +Que tiuerão por nome Fortunadas, +Entramos nauegando pollas filhas +Do velho Heſperio, Heſperidas chamadas +Terras por onde nouas marauilhas +Andarão vendo jaa noſſas armadas, +Ali tomamos porto com bom vento +Por tomarmos da terra mantimento. + +A aquella ilha aportamos, que tomou +O nome do guerreiro Sanctiago, +Sancto que os Eſpanhoes tanto ajudou +A fazerem nos Mouros brauo eſtrago: +Daqui tanto que Boreas nos ventou +Tornamos a cortar o immenſo lago, +Do ſalgado Occeano, & aſsi deixamos +A terra onde o refreſco doce achamos. + +Por aqui rodeando a larga parte +De Africa, que ficaua ao Oriente, +A prouincia lalofo, que reparte +Por diuerſas naçoẽs a negra gente: +A muy grande Mandinga, por cuja arte, +Logramos o metal rico & luzente, +Que do curuo Gambea as agoas bebe +As quaes o largo Atlantico recebe. + +As Dorcadas paſſamos, pouoadas +Das Irmaãs, que outrotempo ali viuião, +Que de vista total ſendo priuadas +Todas tres dhum ſo olho ſe ſeruião: +Tu ſo, tu cujas tranças encreſpadas +Neptuno la nas agoas acendião, +Torna la ja de todas a mais fea +De biuoras encheſte a ardente area. + +Sempre em fim pera o Auſtro a aguda proa +No grandiſsimo golfão nos metemos, +Deixando a ſerra aſperrima Lyoa +Co Cabo a quem das Palmas nome demos: +O grande rio, onde batendo ſoa +O mar nas prayas notas, que ali temos, +Ficou, co a Ilha illuſtre que tomou +O nome dhum que o lado a Deos tocou. + +Ali o muy grande reyno eſtâ de Congo +Por nos ja conuertido â fee de Christo, +Por onde o Zaire paſſa claro & longo +Rio pellos antigos nuca viſto: +Por eſte largo mar em fim me alongo +Do conhecido pollo de Caliſto, +Tendo o termino ardente ja paſſado +Onde o meyo do mundo he limitado. + +Ia deſcuberto tinhamos diante +La no nouo Hemiſperio noua estrela +Não viſta deoutra gente, que ignorante +Algũs tempos eſteue incerta della: +Vemos a parte menos rutilante +E por falta destrellas menos bella, +Do Polo fixo, onde inda ſe não ſabe +Que outra terra comece, ou mar acabe: + +Aſsi paſſando aquellas regioẽs +Por onde duas vezes paſſa Apolo, +Dous inuernos fazendo & dous veroẽs +Em quanto corre dhum ao outro Polo: +Por calmas, por tormentas & opreſſoẽs +Queſempre faz no mar o yrado Eolo, +Vimos as Vrſas a peſar de Iuno +Banharemſe nas agoas de Neptuno. + +Contarte longamente as perigoſas +Couſas do mar, que os homẽs não entendem, +Subitas trouoadas temeroſas, +Relampados que o ar em fogo acendem: +Negros chuueiros, noites tenebroſas, +Bramidos de trouoẽs que o mundo fendem, +Não menos he trabalho, que grande erro +Ainda que tiuiſſe a voz de ferro. + +Os caſos vi que os rudos marinheiros +Que tem por meſtra a longa experiencia, +Contão por certos ſempre & verdadeiros +Iulgando as couſas ſo polla aparencia. +E que os que tem juizos mais inteiros +Que ſo por puro engenho & por ciencia, +Vem do mundo, os ſegredos eſcondidos +Iulgão por falſos, ou mal entendidos. + +Vi claramente viſto o lume viuo +Que a maritima gente tem por ſanto, +Em tempo de tormenta & vento eſquiuo +De tempeſtade eſcura & triste pranto: +Não menos foy a todos ecceſsiuo +Milagre, & couſa certo de alto eſpanto, +Ver as nuuẽs do mar com largo cano +Soruer as altas agoas do Occeano. + +Eu o vi certamente (& não preſumo +Que a viſta me enganaua) leuantar ſe, +No ar hum vaporzinho & ſutil fumo +E do vento trazido, rodearſe: +De aqui leuado hum cano ao Polo ſumo +Se via, tão delgado que enxergarſe +Dos olhos facilmente não podia, +Da materia das nuuẽs parecia. + +Hiaſe pouco & pouco acrecentando +E mais que hum largo maſto ſe engroſſaua, +Aqui ſe eſtreita, aqui ſe alargaquando +Os golpes grandes de agoa em ſi chupaua: +Eſtauaſe co as ondas ondeando, +Encima delle hũa nuuem ſe eſpeſſaua, +Fazendoſe mayor mais carregada +Co cargo grande dagoa em ſi tomada. + +Qual roxa Sangueſuga ſe veria +Nos beiços da alimaria (que imprudente, +Bebendo a recolheo na fonte fria) +Fartar co ſangue alheyo a ſede ardente: +Chupando mais & mais ſe engroſſa & cria +Ali ſe enche & ſe alarga grandemente, +Tal a grande coluna, enchendo aumenta +A ſi, & a nuuem negra que ſuſtenta. + +Mas deſpois que de todo ſe fartou +O pê que tem no mar a ſi recolhe, +E pello ceo chouendo em fim voou +Porque coa agoa a jacente agoa molhe: +Aas ondas torna as ondas que tomou: +Mas o ſabor do ſal lhe tira, & tolhe, +Vejão agora os ſabios na eſcriptura +Que ſegredos ſam estes de Natura. + +Se os antigos Philoſophos, que andarão +Tantas terras, por ver ſegredos dellas, +As marauilhas que eu paſſei, paſſarão +A tão diuerſos ventos dando as vellas: +Que grandes eſcripturas que deixarão +Que influição de ſinos & de eſtrellas, +Que eſtranhezas, que grandes qualidades, +E tudo ſem mentir, puras verdades. + +Mas ja o Planeta qne no ceo primeiro +Habita, cinco vezes apreſſada, +Agora meyo rosto, agora inteiro +Mostrara, em quãto o mar cortaua a armada: +Quando da Eterea gauea hum marinheiro +Prompto coa viſta, terra, terra, brada, +Salta no bordo aluoroçada a gente +Cos olhos no Orizonte do Oriente. + +A maneira de nuuẽs ſe começão +A deſcubrir os montes que enxergamos, +As ancoras peſadas ſe adereção, +As vellas ja chegados amainamos: +E pera que mais certas ſe conheção +As partes tão remotas onde eſtamos, +Pello nouo inſtrumento do Astrolabio +Inuenção de ſutil juizo & ſabio. + +Deſembarcamos logo na eſpaçoſa +Parte, por onde a gente ſe eſpalhou, +De ver couſas eſtranhas deſejoſa +Da terra que outro pouo não piſou: +Porem eu cos pilotos na arenoſa +Praya, por vermos em que parte eſtou, +Me detenho, em tomar do ſol a altura +E compaſſar a vniuerſal pintura. + +Achamos ter de todo ja paſſado +Do Semicapro pexe a grande meta, +Eſtando entre elle & o circulo gelado +Auſtral, parte do mundo mais ſecreta: +Eis de meus companheiros rcdeado +Vejo hum eſtranho vir de pelle preta, +Que tomarão per força, em quanto apanha +De mel os doces fauos na montanha. + +Toruado vem na viſta, como aquelle +Que não ſe vira nunca em tal eſtremo, +Nem elle entende a nos, nem nos a elle, +Seluagem mais que o bruto Polifemo: +Começolhe a mostrar da rica pelle +De Colcos o gentil metal ſupremo, +A prata fina, a quente eſpeciaria: +A nada disto o bruto ſe mouia. + +Mando moſtrarlhe peças mais ſomenos +Contas de Chriſtalmo tranſparente, +Alguns ſoantes caſcaueis pequenos, +Hum barrete vermelho, cor contente: +Vi logo por ſinais & por acenos +Que com iſto ſe alegra grandemente, +Mando o ſoltar com tudo, & aſsi caminha +Pera a pouoação, que perto tinha. + +Mas logo ao outro dia ſeus parceiros +Todos nús, & da cor da eſcura treua, +Decendo pellos aſperos outeiros +As peças vem buſcar que eſtoutro leua: +Domeſticos ja tanto & companheiros +Se nos moſtrão, que fazem que ſe atreua, +Fernão Velloſo a yr ver da terra o trato +E partirſe co elles pello mato. + +He Velloſo no braço confiado +E de arrogante cre que vay ſeguro, +Mas, ſendo hum grande eſpaço ja paſſado, +Em que algum bom ſinal ſaber procuro: +Eſtando, a viſta alçada, co cuidado +No auentureyro, eis pello monte duro +Aparece, & ſegundo ao mar caminha +Mais apreſſado do que fora vinha. + +O batel de Coelho foy depreſſa +Pollo tomar, mas antes que chegaſſe, +Hum Etiope ouſado ſe arremeſſa +A elle porque não ſe lhe eſcapaſſe: +Outro & outro lhe ſaem veſſe em preſſa +Velloſo, ſem que alguem lhe ali ajudaſſe, +Acudo eu logo, & em quanto o remo aperto +Se mostra hum bando negro deſcuberto. + +Da eſpeſſa nuuem ſêtas & pedradas +Chouem ſobre nos outros ſem medida, +E não forão ao vento em vão deitadas +Que esta perna trouxe eu dali ferida: +Mas nos como peſſoas magoadas +A repoſta lhe demos tão tecida, +Que em mais que nos barretes ſe ſoſpeita +Que a cor vermelha leuão deſta feita. + +E ſendo ja Velloſo em ſaluamento +Logo nos recolhemos pera a armada, +Vendo a malicia fea & rudo intento +Da gente beſtial, bruta & maluada: +De quem nenhum milhor conhecimento +Podemos ter da India deſejada, +Que eſtarmos inda muyto longe della +E aſsi torney a dar ao vento a vella. + +Diſſe então a Velloſo hum companheiro +(Começando ſe todos a ſorrir) +Oula Vedolo amigo, aquelle outeiro +He milhor de decer que de ſubir: +Si he, reſponde o ouſado auentureiro +Mas quando eu pera ca vi tantos vir, +Daquelles caẽs, de preſſa hum pouco vim +Por me lembrar que estaueis ca ſem mim. + +Contou então que tanto que paſſarão +Aquelle monte, os negros de quem fallo, +Auante mais paſſar o não deixarão, +Querendo, ſe não torna, ali matallo: +E tornando ſe, logo ſe emboſcarão +Porque ſaindo nos pera tomallo, +Nos podeſſem mandar ao reino eſcuro +Por nos roubar em mais a ſeu ſeguro. + +Porem ja cinco Soes erão paſſados +Que dali nos partiramos, cortando +Os mares nunca doutrem nauegados, +Proſperamente os ventos aſſoprando: +Quando hũa noite estando deſcuidados +Na cortadora proa vigiando, +Hũa nuuem que os ares eſcurece +Sobre noſſas cabeças aparece. + +Tão temeroſa vinha & carregada, +Que pos nos coraçoẽs hum grande medo, +Bramindo o negro mar, de longe brada +Como ſe deſſe em vão nalgum rochedo: +O poteſtade, diſſe, ſublimada +Que ameaço diuino, ou que ſegredo, +Eſte clima, & eſte mar nos apreſenta, +Que môr couſa parece que tormenta? + +Não acabaua, quando hũa figura +Se nos mostra no ar, robuſta & valida, +De disforme & grandiſsima eſtatura, +O roſto carregado, a barba eſqualida: +Os olhos encouados, & a poſtura +Medonha & maa, & a cor terrena & palida, +Cheos de terra & creſpos os cabellos, +A boca negra, os dentes amarellos. + +Tão grande era de membros, que bem poſſo +Certificarte, que este era o ſegundo +De Rodes estranhiſsimo Coloſſo, +Que hum dos ſete milagres foy do mundo: +Cum tom de voz nos falla horrendo & groſſo +Que pareceo ſair do mar profundo, +Arrepião ſe as carnes & o cabello +A mi, & a todos, ſoo de ouuillo & vello. + +E diſſe: O gente ouſada mais que quantas +No mundo cometerão grandes couſas, +Tu que por guerras cruas, taes & tantas +E por trabalhos vãos munca repouſas: +Pois os vedados terminos quebrantas +E nauegar meus longos mares ouſas, +Que eu tãto tempo ha ja que guardo, & tenho +Nunca arados deſtranho, ou proprio lenho. + +Pois vens ver os ſegredos eſcondidos +Da natureza, & do humido elemento, +A nenhum grande humano concedidos +De nobre, ou de immortal merecimento: +Ouue os danos de mi, que apercebidos +Eſtão, a teu ſobejo atreuimento, +Por todo o largo mar & polla terra +Que inda has de ſojugar com dura guerra. + +Sabe que quantas naos eſta viagem +Que tu fazes, fizerem de atreuidas +Inimiga terão esta paragem +Com ventos & tormentas deſmedidas: +E da primeira armada que paſſagem +Fizer por eſtas ondas inſuffridas, +Eu farey dimprouiſo tal caſtigo +Que ſeja môr o dano que o perigo. + +Aqui eſpero tomar ſe não me engano +De quem me deſcobrio ſuma vingança, +E não ſe acabarâ ſo nisto o dano +De voſſa pertinace confiança: +Antes em voſſas naos vereys cada anno +Se he verdade o que meu juyzo alcança, +Naufragios, perdiçoẽs de toda ſorte, +Que o menor mal de todos ſeja a morte. + +E do primeiro Illuſtre, que a ventura +Com fama alta fizer tocar os Ceos, +Serey eterna & noua ſepoltura +Por juizos incognitos de Deos: +Aqui porà da Turca armada dura +Os ſoberbos & proſperos tropheos, +Comigo de ſeus danos o ameaça +A destruida Quiloa com Mombaça. + +Outro tambem virâ de honrada fama +Liberal, caualeiro, enamorado, +E conſigo trarâ a fermoſa dama +Que Amor por gram merce lhe terâ dado: +Triſte ventura, & negro fado os chama +Neste terreno meu, que duro & yrado, +Os deixarâ dhum crú naufragio viuos +Pera verem trabalhos ecceſtiuos. + +Verão morrer com fome os filhos charos +Em tanto amor gêrados & nacidos, +Verão os Cafres aſperos & auaros +Tirar aa linda dama ſeus veſtidos: +Os cristalinos membros & perclaros +Aa calma, ao frio, no ar verão deſpidos, +Deſpois de ter piſada longamente +Cos delicados pês a area ardente. + +E verão mais osolhos que eſcaparem +De tanto mal, de tanta deſuentura, +Os dous amantes miſeros ficarem +Na ſeruida & implacabil eſpeſſura: +Ali deſpois que as pedras abrandarem +Com lagrimas de dôr, de magoa pura, +Abraçados as almas ſoltaram +Da fermoſa & miſerrima priſam. + +Mais hia por diante o monstro horrendo +Dizendo noſſos fados, quando alçado +Lhe diſſe eu: Quem es tu? que eſſe estupendo +Corpo, certo me tem marauilhado +A boca & os olhos negros retorcendo, +E dando hum eſpantoſo & grande brado, +Me reſpondeo, com voz peſada & amara +Como quem da pregunta lhe peſara. + +Eu ſou aquelle occulto & grande Cabo +A quem chamais vos outros Tormentorio, +Que nunca a Ptolomeu, Pomponio, Eſtrabo, +Plinio, & quantos paſſarão fuy notorio: +Aqui toda a Africana coſta acabo +Neſte meu nunca viſto Promontorio, +Que pera o Polo Antariuo ſe eſtende +A quem voſſa ouſadia tanto offende. + +Fuy dos filhos aſperrimos da terra +Qual Encelado, Egeo, & o Centimano, +Chameime Adamaſtor,& fuy na guerra +Contra o que vibra os rayos de Vulcano: +Não que poſeſſe ſerra ſobre ſerra +Mas conquiſtando as ondas do Occeano, +Fuy capitão domar, par onde andaua +A armada de Neptuno, que eu buſcaua. + +Amores da alta eſpoſa de Peleo +Me fizerão tomar tamanha empreſa, +Todas as Deoſas deſprezey do ceo +So par amar das agoas a Princeſa: +Hum dia a vi coas filhas de Nereo +Sayr nua na praya, & logo preſa, +A vontade ſinti, de tal maneira +Que inda não ſinto couſa que mais queira. + +Como foſſe impoſsibil alcançalla +Polla grandeza fea de meu geſto, +Determiney por armas de tomalla +E a Doris eſte caſo manifeſto: +De medo a Deoſa então por mi lhe falla: +Mas ella cum fermoſo riſo honesto, +Reſpondeo: Qual ſera o amor baſtante +De Nimpha que ſuſtente o dhum Gigante. + +Com tudo por liurarmos o Occeano +De tanta guerra, eu buſcarey maneira, +Com que com minha honra eſcuſe o dano. +Tal reſpoſta me torna a menſageira: +Eu que cair não pude neste engano, +(Que he grande dos amantes a cigueira) +Encherãome com grandes abondanças +O peito de deſejos & eſperanças. + +Ia neſcio, ja da guerra deſiſtindo +Hũa noite de Doris prometida, +Me aparece de longe o geſto lindo +Da branca Thetis vnica deſpida: +Como doudo corri de longe, abrindo +Os braços, pera aquella que era vida +Deſte corpo, & começo os olhos bellos +A lhe beijar, as faces & os cabellos. + +O que não ſey de nojo como o conte +Que crendo ter nos braços quem amaua, +Abraçado me achey cum duro monte +De aſpero mato, & de eſpeſſura braua: +Eſtando cum penedo fronte a fronte +Queu pollo roſto angelico apartaua, +Não fiquey homem não, mas mudo & quedo +E junto dhum penedo outro panedo + +O Nimpha a mais fermoſa do Oceano +Ia que minha preſença não te agrada, +Que te cuſtaua terme neſte engano, +Ou foſſe monte, nuuem, ſonho, ou nada: +Daqui me parto irado, & quaſi inſano +Da magoa & da deſonra ali paſſada, +A buſcar outro mundo, onde não viſſe +Quem de meu pranto, & de meu mal ſe riſſe. + +Erão ja neſte tempo meus Irmãos +Vencidos & em miſeria estrema poſtos, +E por mais ſegurarſe os Deoſes vãos +Algũs a varios montes ſottopostos: +E como contra o Ceo não valem mãos, +Eu que chorando andaua meus deſgoſtos, +Comecey a ſentir do fado imigo +Por meus atreuimentos o caſtigo. + +Conuerteſeme a carne em terra dura, +Em penedos os oſſos ſe fizerão, +Eſtes membros que ves & esta figura +Por eſtas longas agoas ſe estenderão: +Em fim minha grandiſsima eſtatura +Neſte remoto cabo conuerterão +Os Deoſes, & por mais dobradas magoas +Me anda Thetis cercando deſtas agoas. + +Aſsi contaua & cum medonho choro +Subito dante os olhos ſe apartou, +Desfez ſe a nuuem negra, & cum ſonoro +Bramido, muito longe o mar ſoou: +Eu, leuantando as mãos ao ſancto coro +Dos Anjos, que tão longe nos guiou, +A Deos pedi que remoueſſe os duros +Caſos, que Adamaſtor contou futuros. + +Ia Phlegon, & Pyrois vinhão tirando +Cos outros dous o carro radiante, +Quando a terra alta ſe nos foy mostrando +Em que foy conuertido o grão gigante: +Ao longo desta costa, começando +Ia de cortar as ondas do Leuante, +Por ella abaixo hum pouco nauegamos +Onde ſegunda vez terra tomamos. + +A gente que eſta terra poſſuya +Poſto que todos Etiopes erão, +Mais humana no trato parecia +Que os outros, que tão mal nos receberão: +Com bailos & com feſtas de alegria +Pella praya arenoſa a nos vierão, +As molheres conſigo & o manſo gado +Que apacentauão, gordo & bem criado. + +As molheres queimadas vem encima +Dos vagaroſos bois, ali ſentadas +Animais que elles tem em mais eſtima +Que todo o outro gado das manadas: +Cantigas paſtoris, ou proſa, ou rima, +Na ſua lingua cantão concertadas, +Co doce ſom das rusticas auenas +Imitando de Titiro as Camenas. + +Eſtes como na viſta prazenteiros +Foſſem, humanamente nos tratarão, +Trazendonos galinhas & carneiros +A troco doutras peças que leuarão: +Mas como nunca em fim meus companheiros +Palaura ſua algũa lhe alcançarão +Que deſſe algun ſinal do que buſcamos: +As vellas dando, as ancoras leuamos. + +Ia aqui tinhamos dado hum gram rodeyo +Aa coſta negra de Africa, & tornaua +A proa a demandar o ardente meyo +Do Ceo, & o polo Antartico ficaua: +Aquelle ilheo deixamos, onde veyo +Outra armada primeira, que buſcaua +O tormentorio Cabo, & deſcuberto, +Naquelle ilheo fez ſeu limite certo. + +Daqui fomos cortando muitos dias +Entre tormentas tristes & bonanças, +No largo mar fazendo nouas vias +So conduzidos de arduas eſperanças: +Co mar hum tempo andamos em porfias +Que como tudo nelle ſam mudanças, +Corrente nelle achamos tão poſſante +Que paſſar não deixaua por diante. + +Era mayor a força em demaſia +Segundo pera tras nos obrigaua, +Do mar, que cantro nos ali corria +Que por nos a do vento que aſſopraua: +Injuriado Noto da porfia +Em que co mar (parece) tanto eſtaua +Os aſſopros esforça iradamente +Com que nos fez vencer a grão corrente. + +Trazia o Sol o dia celebrado +Em que tres Reis das partes do Oriente, +Forão buſcar hum Rey de pouco nado +No qual Rey outros tres ha juntamente: +Neſte dia outro porto foy tomado +Por nos, da meſma ja contada gente, +Num largo rio, ao qual o nome demos +Do dia em que por elle nos metemos. + +Deſta gente refreſco algum tomamos, +E do rio freſca agoa, mas com tudo +Nenhum ſinal aqui da India achamos +No pouo com nos outros caſi mudo: +Ora vê Rey quamanha terra andamos +Sem ſair nunca deſte pouo rudo, +Sem vermos nunca noua, nem ſinal, +Da deſejada parte Oriental. + +Ora imagina agora quam coitados +Andariamos todos, quam pardidos, +De fomes, de tormentas quebrantados +Por climas & por mares não ſabidos: +E do eſperar comprido tão canſados +Quanto a deſeſperar ja compellidos, +Por ceos não naturais, de qualidade +Inimiga de noſſa humanidade. + +Corrupto ja & danado o mantimento +Danoſo & mão ao fraco corpo humano, +E alem diſſo nenhum contentamento +Que ſequer da eſperança foſſe engano: +Cres tu que ſe eſte noſſo ajuntamento +De ſoldados, não fora Luſitano, +Que durara elle tanto obediente +Por ventura a ſeu Rey & a ſeu regente? + +Cres tu que ja não forão leuantados +Contra ſeu capitão ſe os reſiſtira, +Fazendo ſe Piratas, obrigados +De deſeſperação, de fome, de ira? +Grandemente, porcerto eſtão prouados +Pois que nenhum trabalho grande os tira +Daquella Portugueſa alta eccellencia +De lealdade firme, & obediencia. + +Deixando o porto em fim do doce rio +E tornando a cortar a agoa ſalgada, +Fizemos deſta costa algum deſuio +Deitando pera o pego toda a armada: +Porque ventando Noto manſo & frio +Nã nos apanhaſſe a agoa da enſeada, +Que a coſta faz ali daquella banda +Donde a rica Sofala o ouro manda. + +Eſta paſſada, logo o leue leme +Encomendado ao ſacro Nicolao, +Pera onde o mar na coſta brada & geme +A proa inclina dhũa & doutra nao. +Quando indo o coração que eſpera & teme +E que tanto fiou dhum fraco pao, +Do que eſparaua ja deſeſperado +Foy dhũa nouidade aluoroçado. + +E foy, que eſtando ja da costa perto +Onde as prayas & valles bem ſe vião, +Num rio, que ali ſae ao mar aberto +Bateis aa vela entrauão & ſayão: +Alegria muy grande foy porcerto +Acharmos ja peſſoas que ſabião +Neuegar, porque entrellas eſperamos +De achar nouas algũas, como achamos. + +Ethiopes ſam todos, mas parece +Que com gente milhor comunicauão, +Palaura algũa Arabia ſe conhece +Entre a lingoagem ſua que falauão. +E com pano delgado que ſe tece +De algodão, as cabeças apertauãa, +Com otro que de tinta azul ſe tinge +Cadahum as vergonhoſas partes cinge. + +Pella Arabica lingoa que mal falão, +E que Fernão martinz muy bem entende +Dizem, que por nos, que em grãdeza ygoalão +As noſſas, o ſeu mar ſe corta & fende. +Mas que la donde ſae o Sol, ſe abalão +Pera onde a coſta ao Sul ſe alarga, & eſtende +E do Sul pera o Sol, terra onde auia +Gente aſsi como nos da cor do dia. + +Muy grandemente aqui nos alegramos +Coa gente, & com as nouas muito mais. +Pellos ſinais que neſte rio achamos +O nome lhe ficou dos bons ſinais: +Hum padrão neſta terra aleuantamos +Que pera aſinalar lugares tais +Trazia alguns, o nome tem do bello +Guiador de Tobias a Gabello. + +Aqui de limos, caſcas & doſtrinhos, +Nojoſa criação das agoas fundas, +Alimpamos as naos, que dos caminos +Longos do mar, vem ſordidas & immundas: +Dos oſpedes que tinhamos vizinhos +Com moſtras apraziueis & jocundas, +Ouuemos ſempre o vſado mantimento +Limpas de todo o falſo penſamento. + +Mas não foy, da eſperança grande & immenſa +Que neſta terra ouuemos, limpa & pura +A alegria: mas logo a recompenſa +A Ramnuſia com noua deſuentura: +Aſsi no ceo ſereno ſe diſpenſa, +Coesta condição peſada & dura +Nacemos, o peſar terâ firmeza, +Mas o bem logo muda a natureza. + +E foy que de doença crua & feya +A mais que eu nunca vi, deſempararão +Muitos a vida, & em terra eſtranha & alheia +Os oſſos pera ſempre ſepultarão: +Quem auerâ que ſem o ver o creya +Que tão disformemente ali lhe incharão, +As gingiuas na boca, que crecia +A carne, & juntamente apodrecia. + +Apodrecia cum fetido & bruto +Cheiro, que o âr vizinho inficionaua, +Não tinhamos ali medico aſtuto, +Sururgião ſutil menos ſe achaua: +Mas qualquer neste officio pouco inſtructo +Pella carne ja podre aſsi cortaua, +Como ſe fora morta, & bem conuinha +Pois que morto ficaua quem a tinha. + +Em fim que neſta incognita eſpeſſura +Deixamos pera ſempre os companheiros, +Que em tal caminho & em tanta deſuentura +Forão ſempre com noſco auentureiros: +Quam facil he ao corpo a ſepultura +Quaeſquer ondas do mar, quaeſquer outeiros, +Estranhos, aſsimeſmo como aos noſſos, +Receberão de todo o illuſtre os oſſos. + +Aſsi que deſte porto nos partimos +Com mayor eſperança & mòr triſteza, +E pella coſta abaixo o mar abrimos +Buſcando algum ſinal de mais firmeza: +Na dura Moçambique em fim ſurgimos, +De cuja falſidade & mâ vileza +Ia ſeras ſabedor, & dos enganos +Dos pouos de Mombaça pouco humanos. + +Ate que aqui no teu ſeguro porto, +Cuja brandura & doce tratamento, +Darâ ſaude a hum viuo, & vida a hũ morto, +Nos trouxe a piedade do alto aſſento: +Aqui repouſou, aqui doce conforto, +Noua aquietação do penſamento +Nos deste, & vês aqui ſe atente ouuiſte, +Te contey tudo quanto me pediste. + +Iulgas agora Rey ſe ouue no mundo +Gentes que tais caminhos cometeſſem? +Crês tu que tanto Eneas & o facundo +Vliſſes, pello mundo ſe eſtendeſſem? +Ouſou algum a ver do mar profundo +Por mais verſos que delle ſe eſcreueſſem, +Do que eu vi, a poder desforço & de arte, +E do que inda ei de ver, a oitaua parte? + +Eſſe que bebeo tanto da agoa Aonia +Sobre quem tem contenda peregrina, +Entre ſi, Rodes, Smirna, & Colofonia, +Atenas, Yos, Argo, & Salamina: +E ſoutro que eſclarece toda Auſonia, +A cuja voz altiſona & diuina +Ouuindo, o patrio Mincio ſe adormece, +Mas o Tibre co ſom ſe enſoberuece. + +Cantem, louuem, & eſereuão ſempre eſtremos +Deſſes ſeus Semideoſes, & encareção, +Fingindo Magas Circes, Polifemos, +Syrenas que co canto os adormeção: +Dem lhe mais nauegar â vella & remos +Os Cicones, & a terra onde ſe eſquecem +Os companheiros em goſtando o Loto, +Dem lhe perder nas agoas o Piloto. + +Ventos ſoltos lhe finjão & imaginem +Dos odres, & Calipſos namoradas, +Harpias, que o manjar lhe contaminem +Decer aas ſombras nuas ja paſſadas: +Que por muito & por muito que ſe afinem +Nestas Fabulas vaãs tambem ſonhadas, +A verdade que eu conto nua & pura +Vence toda grandiloca eſcriptura. + +Da boca do facundo capitão +Pendendo eſtauão todos embibidos, +Quando deu fim aa longa narração +Dos altos feitos grandes & ſubidos: +Louua o Rey o ſublime coração +Dos Reis em tantas guerras conhecidos, +Da gente louua a antiga fortaleza, +A lealdade danimo & nobreza. + +Vay recontando o pouo que ſe admira +O caſo cada qual que mais notou, +Nenhum delles da gente os olhos tira +Que tão longos caminhos rodeou: +Mas ja o mancebo Delio as redeas vira +Que o irmão de Lampecia mal guiou, +Por vir a deſcanſar nos Thetios braços +E el Rey ſe vay do mar aos nobres paços. + +Quam doce he o louuor & a juſta gloria +Dos proprios feitos, quando ſam ſoados, +Qualquer nobre trabalha que em memoria +Vença, ou ygoale os grandes ja paſſados: +As enuejas da illustre & alhea hiſtoria +Fazem mil vezes feitos ſublimados, +Quem valeroſas obras exercita +Louuor alheo muito o eſperta & incita. + +Não tinha em tanto os feitos glorioſos +De Achiles, Alexandro na pelleja, +Quanto de quem o canta, os numeroſos +Verſos, iſſo ſo louua, iſſo deſeja: +Os tropheos de Melciades famoſos +Temiſtocles deſpertão ſo de enueja, +E diz, que nada tanto o deleitaua +Como a vez que ſeus feitos celebraua. + +Trabalha par moſtrar Vaſco da Gama +Que eſſas nauegaçoẽs que o mundo canta, +Não merecem tamanha gloria & fama: +Como a ſua, que o ceo & a terra eſpanta: +Si mas aquelle Heroe que eſtima & ama +Com doẽs, merces, fauores, & honra tanta +A lira Mantuana faz que ſoe +Eneas, & a Romana gloria voe. + +Dâ a terra Luſitana Scipioẽs +Ceſares, Alexandros, & da Auguſtos, +Mas não lhe dâ com tudo aquelles doẽs +Cuja falta os faz duros & robustos +Octauio, entre as mayores opreſſoẽs +Compunha verſos doutos & venuſtos, +Não dirâ Fuluia certo que he mentira +Quando a deixaua Antonio por Glafira. + +Vay Ceſar ſojugando toda França +E as armas não lhe empedem a ſciencia, +Mas nũa mão a pena, & noutra a lança +Igoalaua de Cicero a eloquencia: +O que de Scipião ſe ſabe & alcança +He nas comedias grande experiencia, +Lia Alexandro a Homero de maneira +Que ſempre ſe lhe ſabe aa cabeceira. + +Em fim não ouue forte capitão +Que não foſſe tambem douto & ſciente, +Da Lacia, Grega, ou Barbara nação +Se não da Portugueſa tão ſomente: +Sem vergonha o não digo, que a rezão +Dalgum não ſer por verſos excelente, +He não ſe ver prezado o verſo & rima, +Porque quem não ſabe arte não na eſtima. + +Por iſſo & não por falta de Natura +Não ha tambem Virgilios nem Homeros, +Nem auerâ ſe eſte coſtume dura +Pios Eneas, nem Achiles feros: +Mas o pior de tudo he que a ventura +Tão aſperos os fez, & tão Austeros, +Tão rudos, & de ingenho tão remiſſo +Que a muitos lhe dâ pouco, ou nada diſſo. + +Aas Muſas agardeça o noſſo Gama +O muito amor da patria, que as obriga +A dar aos ſeus na lira nome & fama +De toda a illuſtre & bellica fadiga: +Que elle, nem quem na eſtirpa ſeu ſe chama, +Caliope não tem por tão amiga, +Nem as filhas do Tejo, que deixaſſem +As tellas douro fino, & que o cantaſſem. + +Porque o amor fraterno & puro gosto +De dar a todo o Luſitano feito +Seu louuor, he ſomente o proſuposto +Das Tagides gentis, & ſeu reſpeito: +Porem não deixe em fim de ter deſpoſto +Ninguem a grandes obras ſempre o peito, +Que por eſta, ou por outra qualquer via +Não perdera ſeu preço & ſua valia. + +F I M. + + + +❧ Canto Seiſto. + +Nam ſabia em que +modo festejaſſe +O Rey Pagão os fortes nauegan +tes, +Pera que as amizades alcançaſſe +Do Rey Chriſtão, das gentes tão poſſantes: +Peſalhe que tão longe o apouſentaſſe +Das Europeas terras abundantes, +A ventura, que namno fez vizinho +Donde Hercules ao mar abrio o caminho. + +Com jogos, danças, & outras alegrias +A ſegundo a policia Melindana, +Com vſadas & ledas peſcarias +Com que a Lageia Antonio alegra & engana: +Eſte famoſo Rey todos os dias +Feſteja a companhia Luſitana, +Com banquetes, manjares deſuſados +Com frutas, aues, carnes, & peſcados. + +Mas vendo o Capitão que ſe detinha +Ia mais do que deuia, & o freſco vento +O conuida que parta & tome aſinha, +Os Pilotos da terra & mantimento, +Não ſe quer mais deter, que ainda tinha +Muito pera cortar do ſalſo argento, +Ia do Pagão benigno ſe deſpede +Que a todos amizade longa pede. + +Pedelhe mais, que aquelle porto ſeja +Sempre com ſuas Frotas viſitado, +Que nenhum outro bem mayor deſeja +Que dar a tais baroẽs ſeu reino & estado: +E que em quanto ſeu corpo o ſprito reja +Eſtarâ de contino aparelhado, +A pôr a vida & reino totalmente +Por tão bom Rey, por tão ſublime gente. + +Outras palauras tais lhe reſpondia +O Capitão, & logo as vellas dando, +Pera as terras da Aurora ſe partia, +Que tanto tempo ha ja que vay buſcando: +No Piloto que leua não auia +Falſidade, mas antes vay moſtrando +A nauegação certa, & aſsi caminha +Ia mais ſeguro do que dantes vinha. + +As ondas nauegauão do Oriente +Ia nos mares da India, & enxergauão +Os talamos do Sol, que nace ardente, +Ia quaſi ſeus deſejos ſe acabauão: +Mas o mao de Tioneo, que na alma ſente +As venturas, que então ſe aparelhauão +Aa gente Luſitana dellas dina, +Arde, morre, blasfema & deſatina. + +Via eſtar todo o Ceo determinado +De fazer de Lisboa noua Roma, +Não no pode eſtoruar, que deſtinado +Eſtâ doutro poder que tudo doma, +Do Olimpo dece em fim deſeſperado, +Nouo remedio em terra buſca, & toma, +Entra no humido reino, & vaiſe aa corte +Daquelle, a quem o mar cayo em ſorte. + +No mais interno fundo das profundas +Cauernas altas, onde o mar ſe eſconde, +La donde as ondas ſaem furibundas, +Quando aas iras do vento o mar reſponde, +Neptuno mora, & morão as jocundas +Nereidas, & outros Deoſes do mar, onde +As agoas campa deixão aas cidades, +Que habitão eſtas humidas deidades. + +Deſcobre o fundo nunca deſcuberto +As areas ali de prata fina, +Torres altas ſe vem no campo aberto +Da tranſparente maſſa criſtalina, +Quanto ſe chegão mais os olhos perto, +Tanto menos a vista determina +Se he criſtal o que vê, ſe diamante, +Que aſsi ſe moſtra claro & radiante. + +As portas douro fino, & marchetadas +Do rico aljofar que nas conchas nace, +De eſculptura fermoſa estão lauradas, +Na qual do irado Baco a viſta pace: +E vê primeiro em cores variadas +Do velho Chaos a tão confuſa face, +Vemſe os quatro elementos traſladados +Em diuerſos officios occupados. + +Ali ſublime o Fogo eſtaua encima, +Que em nenhũa materia ſe ſuſtinha, +Daqui as couſas viuas ſempre anima, +Deſpois que Prometeo furtado o tinha: +Logo a pos elle leue ſe ſublima +O inuiſibil Ar, que mais aſinha +Tomou lugar, & nem por quente, ou frio, +Algum deixa no mundo eſtar vazio + +Eſtaua a terra em montes reuestida +De verdes eruas & aruores floridas, +Dando pasto diuerſo & dando vida +Aas alimarias nella produzidas: +A clara forma ali estaua eſculpida +Das agoas entre a terra deſparzidas, +De peſcados criando varios modos, +Com ſeu humor mantendo os corpos todos. + +Noutra parte eſculpida eſtaua a guerra +Que tiuerão os Deoſes cos Gigantes, +Esta Tiſeo debaixo da alta ſerra +De Etna, que as flamas lança crepitantes: +Eſculpido ſe vê ferindo a terra +Neptuno, quando as gentes ignorantes. +Delle o cauallo ouuerão, & a primeira +De Minerua pacifica Ouliueira. + +Pouca tardança faz Lyeo irado +Ne viſta deſtas couſas, mas entrando +Nos paços de Neptuno, que auiſado +Da vinda ſua, o eſtaua ja aguardando: +Aas portas o recebe, acompanhado +Das Nimphas, que ſe eſtão marauilhando, +De ver que cometendo tal caminho, +Entre no reino dagoa o Rey do vinho. + +O Neptuno, lhe diſſe, não te eſpantes. +De Baco nos teus reinos receberes, +Porque tambem cos grandes & poſſantes +Mostra a Fortuna injuſta ſeus poderes: +Manda chamar os Deoſes do mar, antes +Que fale mais, ſe ouuirme o mais quiſeres, +Verão da deſuentura grandes modos, +Oução todos o mal que toca a todos. + +Iulgando ja Neptuno que ſeria +Eſtranho caſo aquelle, logo manda +Tritão, que chame os Deoſes da agoa fria, +Que o mar habitão dhũa & doutro banda, +Tritão, que de ſer filho ſe gloria +Do Rey, & de Salacia veneranda, +Era mancebo grande, negro & feyo +Trombeta de ſeu pay, & ſeu Correyo. + +Os cabellos da barba, & os que decem +Da cabeça nos ombros, todos erão, +Hũs limos prenhes dagoa, & bem parecem +Que nunca brando pentem conhecerão: +Nas pontas pendurados não falecem +Os negros Miſilhoẽs, que ali ſe gerão, +Na cabeça por gorra tinha poſta +Hũa muy grande caſca de Lagoſta. + +O corpa nú, & os membros genitais +Por não ter ao nadar impedimento, +Mas porem de pequenos animais +Do mar, todos cubertos cento & cento: +Camaroẽs, & Cangrejos, & outros mais +Que recebem de Phebe crecimento, +Oſtras, & Camaroẽs do muſco çujos, +As coſtas coa caſca os Caramujos. + +Na mão a grande Concha retorcida +Que trazia, com força ja tocaua, +A voz grande canora foy ouuida +Por todo o mar, que longe retumbaua: +Ia toda a companhia apercebida +Dos Deoſes, para os paços caminhaua +Do Deos, que fez os muros de Dardania, +Deſtroidos deſpois da Grega inſania. + +Venha o padre Oceano acompanhado +Dos filhos & das filhas que gerara, +Vem Nereo, que com Doris foy caſado, +Que todo o mar de Nimphas pouoara: +O Propheta Proteo, deixando o gado +Maritimo pacer pella agoa amara, +Ali veyo tambem, mas ja ſabia +O que o padre Lyeo no mar queria. + +Vinha por outra parte a linda eſpoſa +De Neptuno, de Celo & Veſta filha, +Graue & leda no gesto, & tão fermoſa +Que ſe amanſaua o mar de marauilha: +Veſtida hũa camiſa precioſa +Trazia de delgada beatilha, +Que o corpo cristalino dexa verſe, +Que tanto bem não he para eſconderſe. + +Anfitrite fermoſa como as ſlores, +Neſte caſo não quis que faleceſſe, +O Delfim traz conſigo, que aos amores +Do Rey lhe aconſelhou que obedeceſſe: +Cos olhos que de tudo ſam ſenhores +Qualquer parecera que o Sol venceſſe, +Ambas vem pella mão, ygoal partido +Pois ambas ſam eſpoſas dhum marido. + +Aquella que das furias de Atamante +Fugindo, veyo a ter diuino eſtado, +Conſigo traz o filho, belli Infante, +No numero dos Deoſes relatado. +Pella praya brincando vem diante +Com as lindas conchinhas, que o ſalgado +Mar ſempre cria, & aas vezes pella area +No colo o toma a bella Panopea. + +E o Deos que foy num tempo corpo humano, +E por virtude da erua poderoſa +Foy conuertido em pexe, & deſte dano +Lhe reſultou deidade glorioſa, +Inda vinha chorando o feio engano, +Que Circes tinha vſado coa fermoſa +Scylla, que elle ama, desta ſendo amado +Que a mais obriga amor mal empregado. + +Ia finalmente todos aſſentados +Na grande ſala nobre & diuinal, +As Deoſas em riquiſsimos eſtrados, +Os Deoſes em cadeiras de cristal: +Forão todos do Padre agaſalhados, +Que co Thebano tinha aſſento ygoal: +De fumos enche a caſa a rica maſſa +Que no mar nace, & Arabia em cheiro paſſa. + +Eſtando ſoſſegado ja o tumulto +Dos Deoſes, & de ſeus recebimentos, +Começa a deſcubrir do peito occulto, +A cauſa o Tyoneo de ſeus tormentos: +Hum pouco carregando ſe no vulto, +Dando moſtra de grandes ſentimentos, +So por dar aos de Luſo triſte morte +Co ferro alheyo, fala deſta ſorte. + +Princepe que de juro ſenhoreas +Dhum Polo, ao outro Polo o mar irado, +Tu que as gentes da terra toda enfreas, +Que não paſſem o termo limitado: +E tu padre Oceano, que rodeas +O mundo vniuerſal, & o tens cercado: +E com juſto decreto aſsi parmites, +Que dentro viuão ſo de ſeus limites. + +E vos Deoſes do mar, que não ſoffreis +Injuria algũa em voſſo reino grande, +Que com castigo ygoal vos não vingueis, +De quemquer que por elle corra, & ande: +Que deſcuido foy este em que viueis? +Quem pode ſer que tanto vos abrande, +Os peitos, con razão endurecidos +Contra os humanos fracos & atreuidos? + +Vistes que com grandiſsima ouſadia +Forão ja cometer o Ceo ſupremo, +Vistes aquella inſana fantaſia +De tentarem o mar com vella & remo: +Vistes, & ainda vemos cada dia, +Soberbas & inſolencias tais, que temo +Que do mar & do Ceo em poucos anos, +Venhão Deoſes a ſer, & nos humanos. + +Vedes agora a fraca geracão +Que dhum vaſſallo meu o nome toma, +Com ſoberbo, & altiuo coração, +A vos, & a mi, & o mundo todo doma: +Vedes o voſſo mar cortando vão, +Mais do que fez a gente alta de Roma, +Vedes o voſſo reino deuaſſando +Os voſſos eſtatutos vão quebrando. + +Eu vi que contra os Mynias, que primeiro +No voſſo reino este caminho abrirão, +Boreas injuriado, & o companheiro +Aquilo, & os outros todos reſiſtirão: +Pois ſe do ajuntamento auentureiro +Os ventos eſta injuria aſsi ſentirão, +Vos a quem mais compete eſta vingança, +Que eſperais, porque a pondes em tardança? + +E não conſinto Deoſes que cuideis +Que por amor de vos do ceo deci, +Nem da magoa da injuria que ſofreis, +Mas da que ſeme faz tombem a mi: +Que aquellas grandes honras, queſabeis +Que no mundo ganhey, quando venci +As terras Indianas do Oriente, +Todas vejo abatidas desta gente. + +Que o gran Senhor & fados que destinão, +Como lhe bem parece, o baxo mundo, +Famas mores que nunca determinão +De dar a eſtes baroẽs no mar profundo: +Aqui vereis o Deoſes como inſinão +O mal tambem a Deoſes. que a ſegundo +Se ve, ninguem ja tem menos valia +Que quem com mais razão valer deuia. + +E por iſſo do Olimpo ja fugi, +Buſcando algum remedio a meus peſares, +Por ver o preço, que no Ceo perdi, +Se por dita acharey nos voſſos mares: +Mais quis dizer, & não paſſou daqui, +Porque as lagrimas ja correndo a pares +Lhe ſaltarão dos olhos, com que logo +Se acendem as Deidades dagoa em fogo. + +A Ira com que ſubito alterado +O coração dos Deoſes foy num ponto, +Não ſoffreo mais conſelho bem cuidado, +Nem dilação, nem outro algum deſconto: +Ao grande Eolo mandão ja recado +Da parte de Neptuno, que ſem conto +Solte as furias dos ventos repugnantes, +Que não aja no mar mais nauegantes. + +Bem quiſera primeiro ali Protheo +Dizer neste negocio o que ſentia, +E ſegundo o que a todos pareceo, +Era algũa profunda prophecia: +Porem tanto o tumulto ſe moueo +Subito na diuina companhia, +Que Thetis indinada lhe bradou, +Neptuno ſabe bem o que mandou. + +Ia la o ſoberbo Hypotades ſoltaua +Do carcere fechado os furioſos +Ventos, que com palauras animaua, +Contra os varoẽs audaces & animoſos: +Subito o ceo ſereno ſe obumbraua, +Que os ventos mais que nunca impetuoſos +Começão nouas forças a yr tomando, +Torres, montes & caſas derribando. + +Em quanto este conſelho ſe fazia +No fundo aquoſo, a leda laſſa Frota +Com vento ſoſſegado proſeguia +Pello tranquilo mar, a longa rota: +Era no tempo quando a luz do dia. +Do Eoo Emiſperio estâ remota, +Os do quarto da prima ſe deitauão +Pera o ſegundo os outros deſpertauão. + +Vencidos vem do ſono, & mal deſpertos +Bocijando a miudo ſe encoſtauão, +Pellas antenas, todos mal cubertos, +Contra os agudos ares que aſſoprauão: +Os olhos contra ſeu querer abertos +Mas estregando os membros estirauão, +Remedios contra o ſonno buſcar querem, +Hiſtorias contão, caſos mil referem. + +Com que milhor podemos, hum dizia, +Eſte tempo paſſar, que he tão peſado, +Se não com algum conto de alegria +Com que nos deixe o ſono carregado? +Reſponde Lionardo, que trazia +Penſamentos de firme namorado, +Que contos paderemos ter milhores +Pera paſſar o tempo, que de amores? + +Não he, diſſe Veloſo, couſa juſta +Tratar branduras em tanta aſpereza, +Que o trabalho do mar, que tanto cuſta, +Não ſoffre amores, nem delicadeza: +Antes de guerra ſeruida & robuſta +A noſſa hiſtoria ſeja, pois dureza +Noſſa vida ha de ſer, ſegundo entendo +Que o trabalho por vir mo eſta dizendo. + +Conſentem niſto todos, & encomendão +A Veloſo que conte iſto que aproua, +Contarei diſſe, ſem que me reprendão +De contar couſa fabuloſa, ou noua: +E porque os que me ouuirem daqui aprendão +A fazer feitos grandes de alta proua, +Dos nacidos direy na noſſa terra, +E eſtes ſejão os doze de Inglaterra. + +No tempo que do reino a redea leue +Ioão filho de Pedro moderaua, +Deſpois que ſoſſegado & liure o teue +Do vizinho poder que o moleſtaua: +La na grande Inglaterra, que da neue +Boreal ſempre abunda, ſemeaua +A fera Erinis dura & mâ cizania +Que luſtre foſſea noſſa Luſitania. + +Entre as damas gentis da corte Ingleſa, +E nobres corteſaõs, a caſo hum dia +Se leuantou diſcordia em ira aceſa, +Ou foy opinião, ou foy porfia: +Os Corteſaõs a quem tam pouco peſa +Soltar palauras graues de ouſadia +Dizem que prouarão, que honras & famas +Em tais damas não ha, pera ſer damas. + +E que ſe ouuer alguem com lança & eſpada +Que queira ſustentar a parte ſua, +Que elles em campo raſo, ou estacada, +Lhe darão fea infamia, ou morte crua: +A femenil fraqueza pouco vſada +Ou nunca a oprobrios tais, vendo ſe nua +De forças naturais conuenientes, +Socorro pede a amigos & parentes. + +Mas como foſſem grandes & poſſantes +No reino os inimigos, não ſe atreuem +Nem parentes, nem feruidos amantes +A ſuſtentar as damas, como deuem: +Com lagrimas fermoſas & bastantes +A fazer que em ſocorro os Deoſos leuem +De todo o Ceo, por roſtos de alabaſtro +Se vão todas ao duque de Alencastro. + +Era eſte Ingres potente, & militara +Cos Portugueſes ja contra Castella, +Onde as forças magnanimas prouara +Dos companheiros, & benigna eſtrella? +Não menos neſta terra eſprimentara +Namorados affeitos, quando nella +A filha vio, que tanto o peito doma +Do forte Rey, que por molher a toma. + +Eſte que ſocorrer lhe não queria, +Por não cauſar diſcordias inteſtinas +Lhe diz, quando o direito pretendia +Do reino la das terras Iberinas, +Nos Luſitanos vi tanta ouſadia, +Tanto primor, & partes tão diuinas, +Que elles ſos poderião, ſe não erro +Suſtentar voſſa parte a fogo & ferro. + +E ſe agrauadas damas ſois ſeruidas, +Por vos lhe mandarei embaixadores, +Que por cartas diſcretas & polidas, +De voſſo agrauo os fação ſabedores: +Tambem por voſſa parte encarecidas +Com palauras dafagos & damores, +Lhe ſejão voſſas lagrimas, que eu creyo +Que ali terees ſocorro & forte eſteyo. + +Destarte as aconſelha o Duque experto, +E logo lhe nomea doze fortes, +E porque cada dama hum tenha certo, +Lhe manda que ſobrelles lancem ſortes, +Que ellas ſo doze ſam: & deſcuberto +Qual a qual tem caida das conſortes, +Cadhũa eſcreue ao ſeu por varios modos, +E todas a ſeu Rey, & o Duque a todos. + +Ia chega a Portugal o menſageiro, +Toda a corte aluoroça a nouidade, +Quiſera o Rey ſublime ſer primeiro, +Mas não lho ſoffre a Regia Mageſtade: +Qualquer dos corteſaõs auentureiro +Deſeja ſer, com feruida vontade, +E ſo fica por bemauenturado, +Quem ja vem pello Duque nomeado. + +La na leal cidade, donde teue +Origem (como he fama) o nome eterno +De Portugal, armar madeiro leue +Manda o que tem o leme do gouerno: +Apercebem ſe os doze em tempo breue +Darmas, & roupas de vſo mais moderno, +De elmos, cimeras, letras, & primores +Caualos, & Concertos de mil cores. + +Ia do ſeu Rey tomado tem licença +Pera partir do Douro celebrado, +Aqueles, que eſcolhidos por ſentença +Forão do Duque Ingles eſprimentado: +Não ha na companhia differença +De caualeiro, destro, ou esforçado: +Mas hum ſo, que Magriço ſe dizia +Deſtarte fala aa forte companhia, + +Fortiſsimos conſocios, eu deſejo +A muito ja de andar terras estranhas, +Por ver mais agoas, que as do Douro & Tejo, +Varias gentes, & leis, & varias manhas: +Agora que aparelho certo vejo, +(Pois que do mundo as couſas ſam tamanhas) +Quero ſe me deixais, ir ſò por terra, +Porque eu ſerey conuoſco em Inglaterra. + +E quando caſo for, que eu impedido +Por quem das couſas he vltima linha, +Não for com voſco ao prazo instituido, +Pouca falta vos faz a falta minha: +Todos por mi fareis o que he diuido: +Mas ſe a verdade o ſprito me adiuinha, +Rios, montes, fortuna, ou ſua enueja, +Não farão que eu com voſco la não ſeja. + +Aſsi diz & abraçados os amigos, +E tomada licença, em fim ſe parte, +Paſſa Lião, Caſtella vendo antigos +Lugares, que ganhara o patrio Marte: +Neuarra, cos altiſsimos perigos +Do Perineo, que Eſpanha & Galia parte: +Vistas em fim de França as couſas grandes, +No grande emperio foy parar de Frandes. + +Ali chegado, ou foſſe caſo, ou manha, +Sem paſſar ſe deteue muitos dias, +Mas dos onze a illuſtriſsima companha +Cortão do mar do Norte as ondas frias: +Chegados de Inglaterra aa coſta eſtranha, +Pera Londres ja fazem todos vias, +Do Duque ſam com feſta agaſalhados, +E das damas ſeruidos, & amimados. + +Chegaſſe o prazo, & dia aſinalado, +De entrar em campo ja cos doze Ingleſes, +Que pello Rey ja tinhão ſegurado, +Armanſe delmos, greuas, & de arneſes: +Ia as damas tem por ſi fulgente & armado +O Mauorte feroz dos Portugueſes, +Vestem ſe ellas de cores & de ſedas +De ouro, & de joyas mil, ricas, & ledas. + +Mas aquella, a quem fora em ſorte dado +Magriço, que não vinha, com triſteza +Se veſte, por não ter quem nomeado +Seja ſeu caualeiro, nesta empreſa: +Bem que os onze apregoão, que acabado +Sera o negocio aſsi na corte Ingleſa, +Que as damas vencedoras ſe conheção +Poſto que dous & tres dos ſeus falleção. + +Ia num ſublime & pubrico theatro +Se aſſenta o Rey Ingles com toda a corte, +Eſtauão tres & tres, & quatro & quatro, +Bem como a cada qual coubera em ſorte: +Não ſam vistos do Sol do Tejo ao Batro, +De força, esforço, & danimo mais forte, +Outros doze ſayr como os Ingleſes +No campo, contra os onze Portugueſes. + +Maſtigão os caualos escumando +Os aureos freos, com feroz ſembrante, +Estaua o Sol nas armas rutilando, +Como em criſtal, ou rigido diamante: +Mas enxergaſe num & noutro bando +Partido deſigoal & diſſonante +Dos onze contra os doze: quando a gente +Começa a aluoroçar ſe geralmente. + +Verão todos o rosto aonde auia +A cauſa principal do rebuliço, +Eis entra hum caualeiro, que trazia +Armas, caualo, ao bellico ſeruiço. +Ao Rey & aas damas fala, & logo ſe hia +Pera os onze, que eſte era o gram Magriço, +Abraça os companheiros como amigos, +A quem não fata certo nos perigos. + +A dama como ouuio, que este era aquelle, +Que vinha a defender ſeu nome, & fama, +Se alegra, & veſte ali do animal de Hele, +Que a gente bruta mais que vertude ama: +Ia dão ſinal, & o ſom da tuba impelle +Os belicoſos animos, que inflama, +Picão deſporas, largão redeas logo +Abaxão lanças, fere a terra fogo. + +Dos caualos o estrepito parece +Que faz, que o chão debaixo todo treme, +O coração no peito, que estremece +De quem os olha, ſe aluoroça, & teme: +Qual do caualo voa, que não dece, +Qual co caualo em terra dando, geme, +Qual vermelhas as armas faz de brancas, +Qual cos penachos do elmo açouta as ancas. + +Algum dali tomou perpetuo ſono, +E fez da vida ao fim breue interualo, +Correndo algum cauallo vay ſem dono, +E noutra parte o dono ſem caualo: +Cae a ſoberba Ingleſa de ſeu trono, +Que dous ou tres ja fora vão do valo, +Os que de eſpada vem fazer batalha, +Mais achão ja que arnes, eſcudo, & malha. + +Gastar palauras em contar eſtremos +De golpes feros, cruas eſtocadas, +He deſſes gaſtadores, que ſabemos +Maos do tempo, com fabulas ſonhadas: +Baſta por fim do caſo, que entendemos +Que com finezas altas & affamadas, +Cos noſſos fica a palma da victoria, +E as damas vencedoras, & com gloria. + +Recolhe o Duque os doze vencedores +Nos ſeus paços, com feſtas & alegria, +Cozinheiros occupa, & caçadores +Das damas a fermoſa companhia, +Que querem dar aos ſeus libertadores +Banquetes mil, cada hora, & cada dia, +Em quanto ſe detem em Inglaterra, +Ate tornar aa doce & chara terra. + +Mas dizem que com tudo o gram Magriço +Deſejoſo de ver as couſas grandes, +La ſe deixou ficar, onde hum ſeruiço +Notauel aa condeſſa fez de Frandes: +E como quem não era ja nouiço +Em todo trance, onde tu Marte mandes, +Hum Frances mata em campo, que o deſtino +La teue de Torcato & de Coruino. + +Outro tambem dos doze em Alemanha +Se lança, & teue hum fero deſafio +Cum Germano enganoſo, que com manha +Não diuida o quis pòr no eſtremo fio: +Contando aſsi Veloſo, ja a companha +Lhe pede, que não faça tal deſuio +Do caſo de Magriço, & vencimento +Nem deixe o de Alemanha em eſquecimento. + +Mas neste paſſo aſsi promptos eſtando, +Eis o meſtre, que olhando os ares anda, +O apito toca, acordão deſpertando +Os marinheiros dhũa & doutra banda: +E porque o vento vinha refreſcando, +Os traquetes das gaueas tomar manda, +Alerta, diſſe, estay, que o vento crece +Daquella nuuem negra que aparece. + +Não erão os traquetes bem tomados, +Quando dà a grande & ſubita procella, +Amaina, diſſe o meſtre a grandes brados +Amaina, diſſe, amaina a grande vella, +Não eſperão os ventos indinados +Que amainaſſem, mas juntos dando nella, +Em pedaços a fazem, cum ruido +Que o mundo pareceo ſer deſtruydo. + +O ceo fere com gritos niſto a gente, +Cum ſubito temor, & deſacordo, +Que no romper da vela a Nao pendente +Toma gram ſuma dagoa pello bordo, +Alija, diſſe o meſtre, rijamente, +Alija tudo ao mar, não falte acordo, +Vão outros dar a bomba não ceſſando, +Aa bomba que nos imos alagando. + +Correm logo os ſoldados animoſos +A dar aa bomba, & tanto que chegarão, +Os balanços, que os mares temeroſos +Derão aa Nao, num bordo os derribarão: +Tres marinheiros duros, & forçoſos, +A menear o leme não baſtarão, +Talhas lhe punhão dhũa & doutra parte +Se aproueitar dos homens força & arte. + +Os ventos erão tais, que não poderão +Moſtrar mais força dimpeto cruel, +Se pera derribar então vierão +A fortiſsima torre de Babel: +Nos altiſsimos mares, que crecerão, +A pequena grandura dhum batel, +Moſtra a poſſante nao, que moue eſpanto +Vendo que ſe ſoſtem nas ondas tanto. + +A nao grande, em que vay Paulo da Gama, +Quebrada leua o maſto pello meyo, +Quaſi toda alagada: a gente chama +Aquelle que a ſaluar o mundo veyo: +Não menos gritos vãos ao ar derrama +Toda a Nao de Coelho, com receyo, +Com quanto teue o meſtre tanto tento +Que primeiro amainou que deſſe o vento: + +Agora ſobre as nuuens os ſubião +As ondas de Neptuno furibundo, +Agora a ver parece que decião +As intimas entranhas do profundo. +Noto, Auſtro, Boreas, Aquilo querião +Arruinar a machina do mundo, +A noite negra & feya ſe alumia, +Cos rayos, em que o Polo todo ardia. + +As Alcioneas aues triste canto +Iunto da costa braua leuantarão, +Lembrando ſe de ſeu paſſado pranto, +Que as furioſas agoas lhe cauſarão: +Os Delfins namorados entre tanto +La nas couas maritimas entrarão, +Fugindo aa tempeſtade, & ventos duros +Que nem no fundo os deixa eſtar ſeguros + +Nunca tam viuos rayos fabricou +Contra a fera ſoberba dos Gigantes, +O gram ferreiro ſordido, que obrou +Do enteado as armas radiantes: +Nem tanto o gram Tonante arremeſſou +Relampados ao mundo fulminantes, +No gram diluuio, donde ſos viuerão +Os dous que em gente as pedras conuerterão. + +Quantos montes então, que derribarão +As ondas que batião denodadas, +Quantas aruores velhas arrancarão +Do vento brauo as furias indinadas: +As forçoſas raizes não cuidarão +Que nunca pera o ceo foſſem viradas, +Nem as fundas arêas que podeſſem +Tanto os mares que encima as reuolueſſem. + +Vendo Vaſco da Gama que tam perto +Do fim de ſeu deſejo ſe perdia, +Vendo ora o mar ate o inferno aberto, +Ora com noua furia ao ceo ſubia, +Confuſo de temor, da vida incerto, +Onde nenhum remedio lhe valia, +Chama aquelle remedio ſancto & forte +Que o impoſsibil pode, desta ſorte. + +Diuina guarda, angelica, celeſte, +Que os ceos, o mar & terra ſenhoreds, +Tu que a todo iſrael refugio deſte +Por metade das agoas Eritreas: +Tu que liuraſte Paulo & defendeſte +Das Syrtes arenoſas & ondas feas, +E guardaste cos filhos o ſegundo +Pouoador do alagado & vacuo mundo. + +Se tenho nouos medos perigoſos +Doutra Scylla & Caribdis ja paſſados, +Outras Syrtes, & baxos arenoſos, +Outros Acroceraunios infamados, +No fim de tantos caſos trabalhoſos, +Por que ſomos de ti deſemparados, +Se eſte noſſo trabalho não te offende, +Mas antes teu ſeruiço ſo pretende? + +O ditoſos aquelles que puderão +Entre as agudas lanças Affricanas +Morrer, em quanto fortes ſostiuerão +A ſancta Fe, nas terras Mauritanas: +De quem feitos illuſtres ſe ſouberão, +De quem ſicão memorias ſoberanas, +De quem ſe ganha a vida com perdella, +Doce fazendo a morte as honras della. + +Aſsi dizendo os ventos que lutauão, +Como touros indomitos bramando, +Mais & mais a tormenta acrecentauão, +Pella miuda enxarcia aſſuuiando. +Relampados medonhos não ceſſauão, +Feros trouoẽs que vem repreſentando +Cair o ceo dos exos ſobre a terra, +Cenſigo os elementos terem guerra. + +Mas ja a amoroſa ſtrela ſcintilaua +Diante do Sol claro, no Orizonte +Menſageira do dia, & viſitaua +A terra, & o largo mar, com leda fronte: +A deoſa que nos ceos a gouernaua, +De quem foge o enſiſero Orionte, +Tanto que o mar, & a chara armada vira, +Tocada junto foy de medo, & de ira. + +Estas obras de Baco ſam por certo, +Diſſe, mas não ſerâ, que auante leue +Tão danada tenção, que deſcuberto +Me ſera ſempre o mal a que ſe atreue, +Iſto dizendo, dece ao mar aberto, +No caminho gaſtando eſpaço breue, +Em quanto manda as nimphas amoroſas +Grinaldas nas cabeças por de roſas. + +Grinaldas manda por de varias cores +Sobre cabellos louros a porfia, +Quem não dirâ, que nacem roxas flores +Sobre ouro natural, que amor infia: +Abrandar determina por amores +Dos ventos a nojoſa companhia, +Moſtrandolhe as amadas Nimphas bellas, +Que mais fermoſas vinhão que as eſtrellas. + +Aſsi foy, porque tanto que chegarão +A viſta dellas, logo lhe falecem +As forças com que dantes pellejarão, +E ja como rendidos lhe obedecem. +Os pês & mãos, parece, que lhe atarão +Os cabellos que os rayos eſcurecem, +A Boreas, que do peito mais queria, +Aſsi diſſe a belliſsima Oritia. + +Não creas, fero Boreas, que te creyo +Que me tiueſte nunca amor constante, +Que brandura he de amor mais certo arreyo, +E não conuem furor a firme amante: +Se ja não poẽs a tanta inſania freyo, +Não eſperes de mi daqui em diante, +Que poſſa mais amarte, mas temerte, +Que amor contigo, em medo ſe conuerte. + +Aſsi meſmo a fermoſa Galatea +Dizia ao fero Noto, que bem ſabe +Que dias ha que em vella ſe recrea, +E bem crê que com elle tudo acabe, +Não ſabe o brauo tanto bem ſe o crea, +Que o coração no peito lhe não cabe, +De contente de ver que a dama o manda, +Pouco cuida que faz ſe logo abranda. + +Deſta maneira as outras amanſauão +Subitamente os outros amadores, +E logo aa linda Venus ſe entregauão, +Amanſadas as iras & os furores, +Ella lhe prometeo vendo que amauão. +Sempiterno fauor em ſeus amores, +Nas bellas mãos tomandelhe omenagem +De lhe ſerem leais eſta viagem. + +Ia a menham clara daua nos outeiros, +Por onde o Ganges murmurando ſoa, +Quando da celſa gauea os marinheiros +Enxergarão terra alta pella proa, +Ia fora de tormenta, & dos primeiros +Mares, o temor vão do peito voa, +Diſſe alegre o Piloto Melindano, +Teria he de Calccu, ſe não me engano. + +Eſta he por certo a terra que buſcais +Da verdadeira India, que aparece +E ſe do mundo mais não deſejais, +Voſſo trabalho longo aqui fenece: +Soſſrer aqui não pode o Gama mais, +De ledo em ver que a terra ſe conhece, +Os geolhos no chão, as mãos ao ceo +A merce grande a Deos agardeceo. + +As graças a Deos daua, & razão tinha +Que não ſomente a terra lhe moſtraua, +Que com tanto temor buſcando vinha +Por quem tanto trabalho eſprimentaua, +Mas via ſe liurado tão aſinha +Da morte, que no mar lhe aparelhaua +O vento duro, feruido, & medonho, +Como quem deſpertou de horrendo ſonho. + +Por meyo deſtes horridos parigos +Deſtes trabalhos graues & temores, +Alcanção os que ſam de fama amigos +As honras immortais, & graos mayores: +Não encoſtados ſempre nos antigos +Troncos nobres de ſeus anteceſſores, +Não nos leitos dourados, entre os finos +Animais de Moſcouia Zebellinos. + +Não cos manjares nouos & exquiſitos, +Não cos paſſeos molles & oucioſos, +Não cos varios deleites & infinitos +Que afeminão os peitos generoſos: +Não cos nunca vencidos apetitos +Que a Fortuna tem ſempre tão mimoſos, +Que não ſoffre a nenhum que o paſſo mude +Pera algũa obra heroica de virtude. + +Mas com buſcar co ſeu forçoſo braço +As honras, que elle chame proprias ſuas, +Vigiando, & veſtindo o forjado aço +Soffrendo tempeſtades & ondas cruas: +Vencendo os torpes frios no regaço +Do Sul, & regioẽs de abrigo nuas, +Engulindo o corrupto mantimento +Temperado com hum arduo ſofrimento. + +E com forçar o rosto que ſe enfia, +A parecer ſeguro, ledo, inteiro, +Pera o pilouro ardente, que aſſouia +E leua a perna, ou braço ao companheiro: +Destarte o peito hum calo honroſo cria +Deſprezador das honras, & dinheiro, +Das honras, & dinheiro, que a venntura +Forjou, & não vertude juſta, & dura. + +Deſtarte ſe eſclarece o entendimento, +Que experiencias fazem repouſado, +E fica vendo, como de alto aſſento, +O baxo tracto humano embaraçado, +Eſte onde tiuer força o regimento +Direito, & nam de affeitos occupado, +Subirà (como deue) a illuſtre mando, +Contra vontade ſua, & não rogando. + +FIM. + + + +❧ Canto Septimo. + +Ia ſe viã chegados +junto aa terra, +Que deſejada ja de tantos fora, +Que entre as correntes Indicas ſe +encerra, +E o Ganges, que no çeo terreno mora: +Ora ſus gente forte que na guerra +Quereis leuar a palma vencedora, +Ia ſois chegados, ja tendes diante +A terra de riquezas abundante. + +A vos, ô geraçam de Luſo digo, +Que tam pequena parte ſois no mundo: +Não digo inda no mundo, mas no amigo +Curral de quem gouerna o çeo rotundo: +Vos, a quem não ſomente algum perigo +Eſtorua conquiſtar o pouo inmundo: +Mas nem cobiça, ou pouca obediencia +Da Madre, que nos çeos eſtâ em eſſencia. + +Vos Portugueſes poucos, quanto fortes, +Que o fraco poder voſſo não peſais, +Vos que aa cuſta de voſſas varias mortes +A lei da vida eterna dilatais: +Aſsi do çeo deitadas ſam as ſortes, +Que vos por muito poucos que ſejais, +Muito façais na ſancta Chriſtandade: +Que tanto, ô Chriſto exaltas a humildade. + +Vedelos Alemães, ſoberbo gado, +Que por tam largos campos ſe apacenta, +Do ſucceſſor de Pedro rebelado, +Nouo paſtor, & noua ceita inuenta: +Vedelo em feas guerras occupado, +Que inda co cego error ſe nam contenta, +Não contra o ſuperbiſsimo Otomano: +Mas por ſair do jugo ſoberano. + +Vedelo duro Ingles, que ſe nomea +Rei da velha & ſanctiſsima cidade, +Que o torpe Iſmaelita ſenhorea, +(Quem via honra tam longe da verdade) +Entre as Boreais neues ſe recrea, +Noua maneira faz de Chriſtandade, +Pera os de Christo tem a eſpada nua, +Nem por tomar a terra que era ſua. + +Guardalhe por entanto hum falſo Rei, +A cidade Hieroſolima terreste, +Em quanto elle não guarda a ſancta lei, +Da cidade Hieroſolima celeſte: +Pois de ti Gallo indigno que direy? +Que o nome Christianiſsimo quiſeste, +Nem pera defendelo, nem guardalo, +Mas para ſer contra elle, & derribalo. + +Achas que tẽs direito em ſenhorios +De Chriſtãos, ſendo o teu tam largo & tãto. +E nam contra o Cynifio & Nilo rios +Inimigos do antigo nome ſancto, +Ali ſe ande prouar da eſpada os fios, +Em quem quer reprouar da Ygreja o canto, +De Carlos, de Luis, o nome & a terra +Erdaſte, & as cauſas nam da justa guerra? + +Pois que direy daquelles que em delicias, +Que o vil ocio no mundo traz conſigo, +Gastão as vidas, logrão as diuicias, +Eſquecidos de ſeu valor antigo: +Naſcem da tyrania inimicicias, +Que o pouo forte tem de ſi inimigo, +Contigo Italia fallo, ja ſumerſa +Em vicios mil, & de ti meſma aduerſa. + +O miſeros Chriſtãos, pola ventura +Sois os dentes de Cadmo deſparzidos, +Que hũs aos outros ſe dão aa morte dura, +Sendo todos de hum ventre produzidos? +Nem vedes a diuina ſepultura +Poſſuida de cães, que ſempre vnidos +Vos vem tomar a voſſa antiga terra, +Fazendo ſe famoſas pela guerra? + +Vedes que tem por vſo & por decreto, +Do qual ſam tão inteiros obſeruantes, +Ajuntarem o exercito inquieto, +Contra os pouos, que ſam de Chriſto amantes. +Entre vos nunca deixa a fera Aleto +De ſamear cizanias repugnantes, +Olhay ſeſtais ſeguros de perigos, +Que elles & vos, ſois voſſos inimigos. + +Se cobiça de grandes ſenhorios +Vos faz yr conquiſtar terras alheas, +Nam vedes que Pactolo & Hermo rios, +Ambos voluem auriferas areas, +Em Lidia, Aſsiria laurão de ouro os fios, +Affrica eſconde em ſi luzentes veas, +Mouauos ja ſe quer riqueza tanta, +Pois mouer vos não pode a caſa Sancta. + +Aquellas inuenções feras & nouas, +De instrumentos mortais da artelharia, +Ia deuem de fazeras duras prouas, +Nos muros de Bizancio, & de Turquia: +Fazei que torne la aas ſilueſtres couas, +Dos Caspios montes, & da Citia fria, +A Turca geração, que multiplica +Na policia da voſſa Europa rica. + +Gregos, Traces, Armenios, Georgianos +Bradando vos eſtão, que o pouo bruto +Lhe obriga os caros filhos aos profanos +Preceptos do alcorão (duro tributo) +Em caſtigar.os feitos inhumanos +Vos gloriay de peito forte, & aſtuto, +E não queirais louuores arrogantes, +De ſerdes contra os voſſos muy poſſantes. + +Mas em tanto que cegos, & ſedentos +Andais de voſſo ſangue, o gente inſana, +Não faltarão Christãos atreuimentos, +Neſta pequena caſa Luſitana +De Affrica tem maritimos aſſentos, +He na Aſia mais que todas ſoberana, +Na quarta parte noua os campos ara, +E ſe mais mundo ouuera la chegâra. + +E vejamos em tanto que aconteçe +Aaquelles tam famoſos nauegantes, +Deſpois que a branda Venus enfraqueçe +O furor vão dos ventos repugnantes: +Deſpois que a larga terra lhe apareçe, +Fim de ſuas perfias tam conſtantes, +Onde vẽ ſamear de Christo a ley, +E dar nouo coſtume, & nouo Rei. + +Tanto que aa noua terra ſe chegârão, +Leues embarcações de peſcadores +Acharão, que o caminho lhe moſtrârão +De Calecu onde eram moradores: +Pera la logo as proas ſe inclinarão, +Porque esta era a cidade das milhores +Do Malabar milhor, onde viuia +O Rei que a terra toda poſſuia. + +Alem do Indo jaz, & âquem do Gange, +Hum terreno muy grande, & aſſaz famoſo +Que pela parte Auſtralo mar abrange, +E pera o Norte o Emodio cauernoſo. +Iugo de Reis diuerſos o conſtrange +A varias leis: algũs o vicioſo +Mahoma, algũs os Idolos adorão, +Algũs os animais, que entre elles morão. + +La bem no grande monte, que cortando +Tam larga terra, toda Aſia diſcorre, +Que nomes tam diuerſos vai tomando, +Segundo as regiões por onde corre, +As fontes ſaem, donde vem manando +Os rios, cuja gram corrente morre +No mar Indico, & cercão todo o peſo +Do terreno, fazendo o Cherſoneſo. + +Entre hum & o outro rio, em grande eſpaço +Say da larga terra hũa longa ponta +Quaſi piramidal , que no regaço +Do mar com Ceilão inſula confronta, +E junto donde naſce o largo braço +Gangetico, o rumor antigo conta. +Que os vizinhos da terra moradores +Do cheiro ſe mantem das finas flores. + +Mas agora de nomes, & de vſança, +Nouos & varios ſam os habitantes: +Os Delijs, os Patanes, que em poſſança +De terra, & gente, ſam mais abundantes, +Decanis, Oriâs, que a eſperança +Tem de ſua ſaluação nas reſonantes +Agoas do Gange, & a terra de Bengala +Fertil de ſorte que outra não lhe igoala. + +O Reino de Cambaia bellicoſo +(Dizem que foy de Poro Rei potente) +O Reino de Narſinga poderoſo, +Mais de ouro & pedras, que de forte gente: +Aqui ſe enxerga la do mar vndoſo +Hum monte alto, que corre longamente, +Seruindo ao Malabar de forte muro, +Com que do Canarâ viue ſeguro. + +Da terra os naturais lhe chamão Gate, +Do pê do qual pequena quantidade +Se eſtende hũa ſralda eſtreita, que combate +Do mar a natural ferocidade: +Aqui de outras cidades ſem debate, +Calecu tem a illuſtre dignidade, +De cabeça de Imperio rica, & bella, +Samorim ſe intitula o ſenhor della. + +Chegada a frota ao rico ſenhorio, +Hum Portugues mandado logo parte, +A fazer ſabedar o Rei gentio +Da vinda ſua a tam remota parte: +Entrando o menſageiro pelo Rio, +Que ali nas ondas entra, a não viſta arte +A cor, o geſto estranho, o trajo nouo +Fez concorrer a vello todo o pouo. + +Entre a gente que a vello concorria, +Se chega hum Mahometa, que naſcido +Fora na região da Berberia, +La onde fora Anteo obedecido. +Ou pela vezinhança ja teria +O Reino Luſitano conhecido, +Ou foy ja aſsinalado de ſeu ferro, +Fortuna o trouxe a tam longo desterro. + +Em vendo o menſageiro com jocundo +Roſto, como quem ſabe a lingoa Hiſpana +Lhe diſſe, quem te trouxe a eſtoutro mundo, +Tam longe da tua patria Luſitana? +Abrindo lhe reſponde o mar profundo, +Por onde nunca veio gente humana, +Vimos buſcar do Indo o grão corrente, +Por onde a Lei diuina ſe acrecente. + +Eſpantado ficou da gram viajem, +O mouro qne Monçaide ſe chamaua, +Ouuindo as opreſſoẽs que na paſſajem +Do mar, o Luſitano lhe contaua, +Mas vendo em fim, que a força da menſajem +So pera o Rei da terra releuaua, +Lhe diz que eſtaua fora da cidade. +Mas de caminho pauca quantidade. + +E que em tanto que a noua lhe chegeſſe +De ſua estranha vinda, ſe queria +Na ſua pobre caſa repouſaſſe, +E do manjar da terra comeria: +E deſpois que ſe hum pouco recreaſſe, +Coelle pera a armada tornaria, +Que alegria não pode ſer tamanha, +Que achar gente vezinha em terra eſtranha. + +O Portuegues aceita de vontade +O que o ledo Monçaide lhe offerece +Como ſe longa fora ja a amizade, +Coelle come & bebe, & lhe obedeçe: +Ambos ſe tornão logo da cidade, +Pera a frota, que o Mouro bem conheçe, +Sobem aa Capitaina, & toda a gente +Monçaide recebeo benignamente. + +O Capitão o abraça em cabo ledo, +Ouuindo clara a lingoa de Caſtella, +Iunto de ſi o aſſenta, & prompto & quedo +Pela terra pergunta, & couſas della: +Qual ſe ajuntaua em Rodope o aruoredo, +So por ouuir o amante da donzella +Euridiçe, tocando a lira de ouro, +Tal a gente ſe ajunta a ouuir o Mouro. + +Elle começa, o gente que a natura +Vizinha fez de meu paterno ninho, +Que deſtino tam grande, ou que ventura +Vos trouxe a cometerdes tal caminho: +Nam he ſem cauſa não occulta, & eſcura +Vir do longinco Tejo, & ignoto Minho, +Por mares nunca doutro lenho arados, +A Reinos tam remotos & apartados. + +Deos por certo vos traz, porque pretende +Algum ſeruiço ſeu por vos obrado: +Por iſſo ſo vos guia, & vos defende +Dos imigos do mar, do vento yrado: +Sabey que estais na India, onde ſe estende +Diuerſo pouo, rico & proſperado, +De ouro luzente, & fina pedraria, +Cheiro ſuaue, ardente eſpeciaria. + +Eſta prouincia, cujo porto agora +Tomado tendes, Malabar ſe chama, +Do culto antigo os Ydolos adora, +Que ca por estas partes ſe derrama: +De diuerſos Reis he, mas dum ſo fora +Noutro tempo, ſegundo a antiga fama, +Saramâ Perimal foy derradeiro +Rei, que este Reino teue vnido & inteiro. + +Porem como a eſta terra entam vieſſem, +De la do ſeyo Arabico outras gentes, +Que o culto Mahometico trouxeſſem, +No qual me inſtituirão meus parentes, +Succedeo que pregando conuerteſſem +O Perimal, de ſabios & elloquentes, +Fazem lhe a ley tomar com feruor tanto, +Que proſupos de nella morrer ſancto. + +Naos arma, & nellas mete curioſo +Mercadoria que offereça rica, +Pera yr nellas a ſer religioſo, +Onde o prepheta jaz, que a ley pubrica: +Antes que parta, o Reino poderoſo +Cos ſeus reparte, porque não lhe fica +Erdeiro proprio, faz os mais aceitos, +Ricos de pobres, liures de ſojeitos. + +A hum Cochim, & a outro Cananor, +A qual Chale, a qual a ilha da pimenta, +A qual Coulão, a qual dâ Cranganor +E os mais, a quem o mais ſerue & contenta +Hum ſo moço, a quem tinha muito amor, +Deſpois que tudo deu, ſe lhe apreſenta, +Pera este Calecu ſomente fica, +Cidade ja por tracto nobre & rica. + +Eſta lhe dâ co titulo excellente +De Emperador, que ſobre os outros mande, +Iſto feito ſe parte diligente, +Pera onde em ſancta vida acabe, & ande, +E daqui fica o nome de potente +Camorî, mais que todos digno, & grande +Ao moço & deſcendentes, donde vem +Eſte, que agora o Imperio manda & tem. + +A ley da gente toda rica & pobre, +De fabulas compoſta ſe imagina: +Andão nûs, & ſomente hum pano cobre +As partes, que a cubrir natura inſina: +Dous modos ha de gente, porque a nobre +Naires chamados ſam, & a menos digna +Poleâs tem por nome, a quem obriga +A ley não mesturar a casta antiga + +Porque os q̃vſaram ſempre hum mesmo officio, +De outro nam podẽ receber conſorte, +Nem os filhos teram outro exercicio, +Senão o de ſeus paſſados ate morte, +Pera os Neires he certo grande viçio +Deſtes ſerem tocados de tal ſorte, +Que quando algum ſe toca por ventura, +Com ceremonias mil ſe alimpa & apura. + +Deſta ſorte o Iudaico pouo antigo +Nem tocaua na gente de Samaria, +Mais eſtranhezas inda das que digo +Neſta terra vereis de vſança varia, +Os Naires ſos ſam dados ao perigo +Das armas, ſos defendem da contraria +Banda o ſeu Rei, trazendo ſempre vſada +Na ezquerda a adarga, e na dereita a eſpada: + +Bramenes ſam os ſeus religioſos, +Nome antigo, & de grande preminencia, +Obſeruão os preceitos tam famoſos +Dhum, que primeiro pos nome aa ciencia: +Nem matão couſa viua, & temeroſos +Das carnes tem grandiſsima abstinencia, +Somente no venereo ajuntamento +Tem mais licença, & menos regimento. + +Gerais ſam as molheres: mas ſomente +Pera os da geração de ſeus maridos: +Ditoſa condiçam, ditoſa gente, +Que nam ſam de ciumes offendidos. +Eſtes & outros costumes variamente +Sam pelos Malabares admitidos, +A terra he groſſa em trato, em tudo aquilo +Que as ondas podem dar da China ao Nilo. + +Aſsi contaua o Mouro: mas vagando +Andaua a fama ja pela cidade, +Da vinda deſta gente estranha, guando +O Rei ſaber mandaua da verdade, +Ia vinham pelas ruas caminhando, +Rodeados de todo ſexo, & idade, +Os principaes que o Rei buſcar mandâra, +O Capitão da armada que chegâra. + +Mas elle, que do Rei ja tem licença +Pera deſembarcar, acompanhado +Dos nobres Portugueſes ſem detença +Parte de ricos panos adornado: +Das cores a fermoſa diferença +A viſta alegra ao pouo aluoroçado, +O remo compaſſado fere frio +Agora o mar, despois o freſco rio. + +Na praia hum regedor do Reino eſtaua, +Que na ſua lingoa Catual ſe chama, +Rodeado de Naires, que eſperaua +Com deſuſada feſta o nobre Gama: +Ia na terra nos braços o leuaua, +E num partatil leito hũa rica cama +Lhe offereçe em que va, costume vſado, +Que nos hombros dos homẽs he leuado. + +Desta arte o Malabar, deſtarte o Luſo, +Caminhão la pera onde o Rei o eſpera: +Os outros Portagueſes vão ao vſo +Que infantaria ſegne eſquadra fera: +O pouo que concorre vay confuſo +De ver a gente estranha, & bem quiſera +Perguntar: mas no tempo ja paſſado +Na torre de Babel lhe foi vedado. + +O Gama, & o Catual hião fallando +Nas couſas que lhe o tempo offerecia, +Monçaide entrelles vay interpretando +As palauras que de ambos entendia: +Aſsi pela cidade caminhando, +Onde hũa rica fabrica ſe erguia +De hum ſumptuoſo templo ja chegauão, +Pelas portas do qual juntos entrauão. + +Ali estam das deidades as figuras +Eſculpidas em pao, & em pedra fria, +Varias degeſtos, varias de pinturas, +A ſegundo o Demonio lhe fingia. +Vem ſe as abominaueis eſculturas, +Qual a Chimêra em membros ſe varia, +Os Chriſtãos olhos a ver Deos vſados +Em forma humana eſtam marauilhados. + +Hum na cabeça cornos eſculpidos, +Qual Iupiter Amon em Lybia estaua, +Outro num corpo roſtos tinha vnidos, +Bem como o antigo Iano ſe pintaua: +Outro com muitos braços diuididos +A Briareo pareçe que imitaua: +Outro fronte Canina tem de fora, +Qual Anubis Menfitico ſe adora. + +Aqui feita do barbaro gentio +A ſupersticioſa adoração, +Direitos vão ſem outro algum deſuio, +Pera onde eſtaua o Rei do pouo vão: +Engroſſando ſe vay da gente o fio, +Cos que vem ver o eſtranho Capitão, +Eſtão pelos telhados & janellas +Velhos & moços, donas & donzellas. + +Ia chegão perto, & não paſſos lentos, +Dos jardins odoriferos fermoſos, +Que em ſi eſcondem os regios apouſentos, +Altos de torres não, mas ſumptuoſos, +Edificão ſe os nobres ſeus aſſentos, +Por entre os aruoredos deleitoſos, +Aſsi viuem os Reis daquella gente, +No campo & na cidade juntamente. + +Pelos partais da cerca a ſutileza +Se enxerga da Dedalea facultade, +Em figuras mostrando por nobreza +Da India a mais remota antiguidade: +Affiguradas vão com tal viueza +As hiſtorias daquella antiga idade, +Que quem dellas tiuer noticia inteira, +Pela ſombra conheçe a verdadeira. + +Eſtaua hum grande exercito que piſa +A terra Oriental, que o Idaſpe laua, +Rege o hum capitam de fronte liſa, +Que com frondentes Tirſos palejaua, +Por elle edificada eſtaua Niſa +Nas ribeiras do rio, que manaua, +Tão proprio, que ſe ali estiuer Semelle, +Dirâ por certo, que he ſeu filho aquelle. + +Mais auante bebendo ſeca o rio, +Mui grande multidão da Aſsiria gente, +Sujeita a feminino ſenhorio, +De hũa tam bella, como incontinente: +Ali tem junto ao lado nunca frio, +Eſculpido o feroz ginete ardente, +Com quem teria o filho competencia, +Amor nefando, bruta incontinencia. + +Daqui mais apartadas tremolauão +As bandeiras de Grecia glorioſas, +Terceira Monarchia, & ſojugauão, +Ate as agoas Gargeticas vndoſas: +Dum capitão mancebo ſe guiauão +De palmas rodeado valeroſas, +Que ja não de Filipo, mas ſem falta +De progenie de Iupiter ſe exalta. + +Os Portugueſes vendo eſtas memorias, +Dizia o Catual ao Capitão, +Tempo cedo virà que outras victorias, +Estas que agora olhais abaterão: +Aqui ſe eſcreuerão nouas hiſtorias, +Por gentes eſtrangeiras que virão +Que os noſſos ſabios magos o alcançârão, +Quando o tempo futuro eſpeculârão. + +E dizlhe mais a magica ſciencia, +Que pera ſe euitar força tamanha, +Não valerâ dos homẽs reſiſtencia, +Que contra o Ceo não val da gente manha: +Mas tambem diz que a bellica excellencia +Nas armas, & na paz, da gente eſtranha +Sera tal, que ſera no mundo ouuido +O vencedor, por gloria do vencido. + +Aſsi fallando entrauão ja na ſala, +Onde aquelle potente Emperador +Nũa camilha jaz, que nam ſe igoala +De outra algũa no preço & no lauor: +No recoſtado geſto ſe aſsinala +Hum venerando & prospero ſenhor, +Hum pano de ouro cinge, & na cabeça +De precioſas gemas ſe adereça. + +Bem junto delle hum velho reuerente, +Cos giolhos no chão, de quando em quando +Lhe daua a verde folha da erua ardente +Que a ſeu coſtume eſtaua ruminando: +Hum Bramene, peſſoa preminente, +Pera o Gama vem com paſſo brando, +Pera que ao grande Principe o apreſente, +Que diante lhe acena que ſe aſſente. + +Sentado o Gama junto ao rico leito, +Os ſeus mais afaſtados, prompto em viſta +Estaua o Samori no trajo & geito +Da gente, nunca de antes delle viſta: +Lançando a graue voz do ſabio peito, +Que grande authoridade logo aquiſta +Na opinião do Rei, & do pouo todo +O Capitão lhe falla deſte modo. + +Hum grande Rei, de la das partes, onde +O ceo volubil com perpetua roda +Da terra a luz ſolar coa terra eſconde, +Tingindo a que deixou de eſcura noda, +Ouuindo do rumor que la responde +O eco, como em ti da India toda +O principado eſtâ, & a mageſtade, +Vinculo quer contigo de amizade. + +E por longos rodeos a ti manda, +Por te fazer ſaber que tudo aquillo +Que ſobre o mar, que ſobre as terras anda +De riquezas, de lâ do Tejo ao Nilo: +E desda fria plaga de Gelanda, +Ate bem donde o Sol nam muda o eſtilo +Nos dias, ſobre a gente de Ethiopia, +Tudo tem no ſeu Reino em grande copia. + +E ſe queres com pactos, & lianças +De paz, & de amizade ſacra, & nua, +Comerçio conſentir das abundanças +Das fazendas da terra ſua, & tua, +Porque creção as rendas, & abaſtanças, +Por quem a gente mais trabalha & ſua, +De voſſos Reinos, ſera certamente +De ti proueito, & delle gloria ingente. + +E ſendo aſsi que o nô deſta amizade, +Entre vos firmemente permaneça, +Estara prompto a toda aduerſidade, +Que por guerra a teu Reino ſe offereça: +Com gente, armas, & naos de qualidade +Que por yrmão te tenha, & te conheça, +E da vontade em ti ſobriſto poſta +Me des a my certiſsima reposta. + +Tal embaxada daua o Capitão, +A quem o Rei gentio reſpondia, +Que em ver embaxadores de nação +Tam remota, gram gloria recebia: +Mas neſte caſo a vltima tençam +Com os de ſeu conſelho tomaria, +Informando ſe certo de quem era +O Rei, & a gente, & terra que diſſera. + +E que em tanto podia do trabalho +Paſſado yr repouſar, & em tempo breue +Daria a ſeu deſpacho hum juſto talho, +Com que a ſeu Rei repoſta alegre leue: +Ia niſto punha a noite o vſado atalho +Aas humanas canſeiras, porque ceue +De doçe ſono os membros trabalhados, +Os olhos ocupando ao ocio dados. + +Agaſalhados foram juntamente, +O Gama, & Portugueſes no apouſento +Do nobre Regedor da Indica gente, +Com festas & geral contentamento: +O Catual no cargo diligente +De ſeu Rei, tinha ja por regimento +Saber da gente eſtranha donde vinha +Que costumes, que lei, que terra tinha. + +Tanto que os igneos carros do fermoſo +Mancebo Delio vio, que a luz renoua, +Manda chamar Monçaide, deſejoſo +De poder ſe informar da gente noua: +Ia lhe pergunta prompto & curioſo, +Se tem noticia inteira, & certa proua, +Dos eſtranhos quem ſam, que ouuido tinha +Que he gente de ſua patria muy vizinha. + +Que particularmente ali lhe deſſe +Informação muy larga, pois fazia +Niſſo ſeruiço ao Rei, porque ſoubeſſe +O que neste negocio ſe faria: +Mançaide torna, poſto que eu quiſeſſe +Dizerte disto mais nam ſaberia, +Somente ſey que he gente la de Hespanha +Onde o meu ninho, & o Sol no mar ſe banha. + +Tem a ley dum Propheta, que gerado +Foi ſem fazer na carne detrimento +Da mãy, tal que por bafo estâ aprouado +Do Deos, que tem do mundo o regimento: +O que entre meus antigos he julgado +Delles, he que o valor ſanguinolento +Das armas, no ſeu braço reſplandeçe, +O que em noſſos paſſados ſe pareçe. + +Porque elles com virtude ſobre humana, +Os deitarão dos campos abundoſos +Do rico Tejo, & freſca Goadiana, +Com feitos memoraueis, & famoſos: +E não contentes inda, & na Affricana +Parte, cortando os mares proceloſos +Nos não querem deixar viuer ſeguros, +Tomando nos cidades, & altos muros. + +Nam menos tem moſtrado esforço, & manha, +Em quaesquer outras guerras que acõteção, +Ou das gentes beligeras da Eſpanha, +Ou la dalgũs que do Pirene deção. +Aſsi que nunca em fim com lança eſtranha +Se tem, que por vencidos ſe conheção, +Nem ſe ſabe inda não, te afirmo & aſſello +Pera estes Anibais nenhum Marcello. + +E ſeſta informação nam for inteira +Tanto quanto conuem, delles pretende +Informarte, que he gente verdadeira, +A quem mais falſidade enoja & offende: +Vay verlhe a frota, as armas, & a maneira +Do fundido metal, que tudo rende, +E folgaras de veres a policia +Portugueſa na paz, & na milicia. + +Ia com deſejos o Idolatra ardia, +De ver iſto, que o Mouro lhe contaua, +Manda eſquipar bateis, que yr ver queria +Os lenhos em que o Gama nauegaua. +Ambos partem da praia, a quem ſeguia +A Naira geraçam, que o mar coalhaua, +Aa Capitaina ſobem forte & bella, +Onde Paulo os recebe a bordo della. + +Purpureos ſam os toldos, & as bandeiras +Do rico fio ſam, que o bicho gera, +Nellas eſtam pintadas as guerreiras +Obras, que o forte braço ja fizera: +Batalhas tem campais auentureiras, +Deſafios crueis, pintura fera, +Que tanto que ao Gentio ſe apreſenta, +A tento nella os ollos apacenta. + +Pelo que ve pergunta: mas o Gama +Lhe pedia primeiro que ſe aſſente, +E que aquelle deleite que tanto ama +A ceita Epicurea, eſperimente: +Dos eſpumantes vaſos ſe derrama +O licor, que Noe mostrâra aa gente: +Mas comer o Gentio nam pretende, +Que a ceita que ſeguia lho defende. + +A trombeta que em paz no penſamento, +Imagem faz de guerra, rompe os ares, +Co ſogo o diabolico instrumento, +Se faz ouuir no fundo la dos mares: +Tudo o Gentio nota: mas o intento +Moſtraua ſempre ternos ſingulares +Feitos dos homẽs, que em retrato breue +A muda poeſia ali deſcreue. + +Alçaſe em pê, co elle os Gamas junto +Coelho de outra parte, & o Mauritano +Os olhos poem no bellico trafunto +De hum velho branco, aſpeito venerando, +Cujo nome nam pode ſer defuncto +Em quanto ouuer no mundo trato humano, +No trajo a Grega vſança eſtâ perfeita, +Hum ramo por inſignia na dereita. + +Hum ramo na mão tinha: mas o cego +Eu que cometo inſano, & temerario, +Sem vos Nimphas do Tejo, & do Mondego, +Por caminho tam arduo, longo, & vario: +Voſſo fauor inuoco, que nauego +Por alto mar, com vento tam contrario, +Que ſe nam me ajudais, ei grande medo, +Que o meu fraco batel ſe alague cedo. + +Olhay que ha tanto tempo, que cantando +O voſſo Tejo, & os voſſos Luſitanos, +A fortuna me traz peregrinando, +Nouos trabalhos vendo, & nouos danos: +Agora o mar, agora eſprimentando +Os perigos Mauorcios inhumanos, +Qual Canace que â morte ſe condena, +Nũ mão ſempre a eſpada, & noutra a pena: + +Agora com pobreza auorrecida, +Por hoſpicios alheios degradado, +Agora da eſperança ja adquirida, +De nouo mais que nunca derribado: +Agora aas costas eſcapando a vida, +Que dum fio pendia tam delgado, +Que não menos milagre foi ſaluarſe, +Que pera o Rei Iudaico acrecentarſe. + +E ainda Nimphas minhas não baſtaua, +Que tamanhas miſerias me cercaſſem: +Senão que aquelles que eu cantando andaua, +Tal premio de meus verſos me tornaſſem +A troco dos deſcanſos que eſparaua, +Das capellas de louro que me honraſſem, +Trabalhos nunca vſados me inuentârão, +Com que em tam duro eſtado me deitârão. + +Vede Nimphas que engenhos de ſenhores +O voſſo Tejo cria valeroſos, +Que aſsi ſabem prezas com tais fauores +A quem os faz cantando glorioſos: +Que exemplos a futuros eſcriptores, +Pera eſpertar engenhos curioſos, +Pera porem as couſas em memoria, +Que merecerem ter eterna gloria. + +Pois logo em tantos males he forçado, +Que ſo voſſo fauor me não falleça, +Principalmente aqui, que ſou chegado +Onde feitos diuerſos engrandeça: +Daimo vos ſos, que eu tenho ja jurado +Que não no empregue em quem o não mereça +Nem por liſonja louue algum ſubido, +Sob pena de não ſer agradecido. + +Nem creais Nimphas nam que fama deſſe +A quem ao bem comum, & do ſeu Rei +Antepoſer ſeu proprio intereſſe: +Imigo da diuina & humana ley, +Nenhum ambicioſo, que quiſeſſe +Subir a grandes cargos, cantarey, +So por poder com torpes exercicios +Vſar mais largamente de ſeus vicios. + +Nenhum que vſe de ſeu poder bastante +Pera ſeruir a ſeu deſejo feio, +E que por comprazer ao vulgo errante +Se muda em mais figuras que Proteio, +Nem Camenas tambem cuideis que cante +Quem com habito honeſto & graue veio, +Por contentar o Rei no officio nouo, +A deſpir & roubar o pobre pouo. + +Nem quem acha que he justo & que he dereito +Guardaſe a ley do Rei ſeueramente, +E não acha que he juſto & bom reſpeito, +Que ſe pague o ſuor da ſeruil gente. +Nem quem ſempre com pouco experto peito +Razões aprende, & cuida que he prudente, +Pera taxar com mão rapace & eſcaſſa, +Os trabalhos alheios, que nam paſſa. + +Aquelles ſos direy que auenturârão +Por ſeu Deos, por ſeu Rei, a amada vida +Onde perdendoa, em fama a dilatârão, +Tambem de ſuas obras merecida +Apolo, & as Muſas que me acompanharão, +Me dobraram a furia concedida +Em quanto eu tomo alento deſcanſado, +Por tornar ao trabalho mais folgado. + +F I M. + + + +❧ Canto Octauo. + +Na primeira figura +ſe detinha +O Catual, que vira estar pinta- +da. +Que por diuiſa hum ramo na mão tinha, +A barba branca, longa, & penteada: +Quem era, & porque cauſa lhe conuinha +A diuiſa que tem na mão tomada, +Paulo reſponde, cuja voz diſcreta +O Mauritano ſabio lhe interpreta. + +Eſtas figuras todas que aparecem, +Brauos em viſta, & feros nos aſpeitos, +Mais brauos, & mais feros ſe conhecem +Pela fama, nas obras, & nos feitos +Antigos ſam, mas inda reſplandecem +Co nome, entre os engenhos mais perfeitos, +Eſte que ves he Luſo, donde a fama +O noſſo Reino Luſitania chama. + +Foy filho & companheiro do Thebano, +Que tam diuerſas partes conquiſtou +Parece vindo ter ao ninho Hispano, +Seruindo as armas que contino vſou, +Do Douro, Guadiana o campo vfano, +Ia dito Eliſio, tanto o contentou +Que ali quis dar, aos ja canſados oſſos +Eterna ſepultura, & nome aos noſſos. + +O ramo que lhe ves pera diuiſa, +O verde Tyrſo foi de Baco vſado, +O qual aa noſſa idade amoſtra & auiſa +Que foi ſeu companheiro & filho amado: +Ves outro, que do Tejo a terra piſa, +Deſpois de ter tam longo mar arado, +Onde muros perpetuos edefica, +E templo a Palas, que em memoria fica + +Vliſſes he o que faz a ſancta caſa +Aa Deoſa, que lhe dâ lingoa facunda, +Que ſe lâ na Aſia Troia inſigne abraſa, +Ca na Europa Lisboa ingente funda: +Quem ſera eſtoutro ca que o campo arraſa +De mortos, com preſença furibunda? +Grandes batalhas tem desbaratadas, +Que as Agueas nas bandeiras tem pintadas. + +Aſsi o Gentio diz, reſponde o Gama, +Eſte que ves paſtor ja foi de gado, +Viriato ſabemos que ſe chama, +Destro na lança mais que no cajado: +Injuriada tem de Roma a fama, +Vencedor inuencibil afamado, +Nem tem coelle não, nem ter puderão +O primor que com Pirro ja tiuerão. + +Com força não: com manha vergonhoſa, +A vida lhe tirarão que os eſpanta, +Que o grande aperto em gente, inda q̃ honroſa +Aas vezes leis magnanimas quebranta: +Outro eſtâ aqui que contra a patria yroſa +Degradado com noſco ſe aleuanta, +Eſcolheo bem com quem ſe aleuantaſſe +Pera que eternamente ſe illuſtraſſe. + +Vês com noſco tambem vence as bandeiras +Deſſas aues de Iupiter validas, +Que ja naquelle tempo as mais guerreiras +Gentes de nos ſouberam ſer vencidas: +Olha tam ſotis artes & maneiras, +Pera adquerir os pouos tam fingidas +A fatidica Cerua que o auiſa, +Elle he Sertorio, & ella a ſua diuiſa. + +Olha eſtoutra bandeira & ve pintado, +O gram progenitor dos Reis primeiros, +Nos Vngaro o fazemos, porem nado +Crem ſer em Lotharingia os eſtrangeiros: +Deſpois de ter cos Mouros ſuperado +Galegos, & Leoneſes caualleiros, +Aa caſa Sancta paſſa o ſancto Enrique, +Porque o tronco dos Reis ſe ſanctifique. + +Quem he me dize estoutro que me eſpanta, +Pergunta o Malabar marauilhado, +Que tantos eſquadrões, que gente tanta, +Com tam pouca, tem roto & deſtroçado: +Tantos muros aſperrimos quebranta, +Tantas batalhas da nunca canſado, +Tantas coroas tem por tantas partes, +A ſeus pês derribadas, & eſtandartes? + +Eſte he o primeiro Afonſo, diſſe o Gama, +Que todo Portugal aos Mouros toma, +Por quem no Estigio lago jura a fama, +De mais não celebrar nenhum de Roma: +Eſte he aquelle zeloſo a quem Deos ama, +Com cujo braço o Mouro imigo doma, +Pera quem de ſeu Reino abaxa os muros, +Nada deixando ja pera os futuros. + +Se Ceſar, ſe Alexandre Rei tiuerão, +Tam pequeno poder, tam pouca gente, +Contra tantos inimigos quantos erão, +Os que desbarataua eſte excelente, +Nam creas que ſeus nomes ſe eſtenderão +Com glorias imortais tam largamente: +Mas deixa os feitos ſeus inexplicaueis, +Ve que os de ſeus vaſſalos ſam notaueis. + +Eſte que ves olhar com geſto yrado, +Pera o rompido Alumno mal ſofrido, +Dizendo lhe que o exercito eſpalhado, +Recolha, & torne ao campo defendido: +Torna o moço do velho acompanhado, +Que vencedor o torna de vencido, +Egas moniz ſe chama o forte velho +Pera leais vaſſalos claro eſpelho. + +Vello ca vai cos filhos a entregarſe, +Acorda ao colo, nu de ſeda & pano, +Porque nam quis o moço ſogeitarſe, +Como elle prometera ao Castelhano: +Fez com ſiſo & promeſſas leuantarſe +O cerco que ja eſtaua ſoberano, +Os filhos & molher obriga aa pena, +Pera que o ſenhor ſalue, a ſi condena. + +Nem fez o Conſul tanto que cercado +Foi nas forcas Caudinas de ignorante +Quando a paſſar por baxo foi forçado +Do Samnitico jugo triumphante: +Este pelo ſeu pouo injuriado, +Aſsi ſe entrega ſo firme & conſtante, +Eſtoutro aſsi, & os filhos naturais, +E a conſorte ſem culpa, que doe mais + +Ves eſte que ſaindo da cilada, +Dâ ſobre o Rei que cerca a villa forte, +Ia o Rei tem preſo, & a villa deſcercada +Illustre feito digno de Mauorte, +Velo ca vay pintado neſta armada +No mar tambem aos Mouros dando a morte, +Tomando lhe as galès, leuando a gloria, +Da primeira maritima victoria. + +E dom Fuas Roupinho que na terra, +E no mar reſplandece juntamente, +Co fogo que acendeo junto da ſerra +De Abila, nas gales da Maura gente +Olha como então juſta & ſancta guerra +De acabar pelejando està contente: +Dar mãos dos Mouros entra a felice alma +Triunfando nos ceos com juſta Palma. + +Nam ves hum ajuntamento de estrangeiro +Trajo, ſair da grande armada noua, +Que ajuda a combater o Rei primeiro +Lisboa, de ſi dando ſancta proua: +Olha Enrique famoſo caualleiro, +A Palma que lhe naſce junto aa coua, +Por elles moſtra Deos milagre visto, +Germanos ſam os Martyris de Christo. + +Hum Sacerdote vê brandindo a eſpada, +Contra Arronches que toma, por vingança +De Leiria, que de antes foi tomada, +Por quem porMaphamede enreſta a lança: +He Teotonio Prior: mas vê cercada +Sanctarem, & veras a ſegurança +Da figura nos muros, que primeira +Subindo ergueo das Quinas a bandeira: + +Vello ca donde Sancho desbarata +Os Mouros de Vandalia em fera guerra, +Os imigos rompendo, o Alferez mata, +E Hispalico pendão derriba em terra, +Mem Moniz he, que em ſi o valor retrata, +Que o ſepulchro do pay cos oſſos cerra, +Digno deſtas bandeiras, pois ſem falta +A contraria derriba, & a ſua exalta. + +Olha aquelle que deçe pela lança, +Com as duas cabeças dos vigias, +Onde a çilada eſconde, com que alcança +A cidade por manhas & ouſadias: +Ella por armas toma a ſemelhança +Do caualleiro, que as cabeças frias +Na mão leuaua, feito nunca feito, +Giraldo ſem pauor he o forte peito. + +Nem vês hum Caſtelhano, que agrauado, +De Affonſo nono Rei, pelo odio antigo +Dos de Lara cos Mouros he deitado, +De Portugal fazendoſe inimigo? +Abrantes villa toma acompanhado +Dos duros infieis que traz conſigo: +Mas vê que hum Portugues com pouca gente +O desbarata & o prende ouſadamente. + +Martim Lopez ſe chama o caualleiro, +Que destes leuar pode a palma, & o louro: +Mas olha hum Eccleſiastico guerreiro, +Que em lança de aço torna o Bago de ouro: +Vêllo entre os duuidoſos tam inteiro, +Em não negar batalha ao brauo Mouro, +Olha o ſinal no çeo que lhe apareçe, +Com que nos poucos ſeus o esforço creçe. + +Vês vão os Reis de Cordoua & Seuilha, +Rotos, cos outros dous, & não de eſpaço, +Rotos? mas antes mortos, marauilha +Feita de Deos, que não de humano braço: +Vês ja a villa de Alcaçare ſe humilha, +Sem lhe valer defeſa, ou muro de aço, +A dom Matheus o Biſpo de Lisboa, +Que a coroa de palma ali coroa. + +Olha hum Meſtre que deçe de Caſtella, +Portugues de nação, como conquiſta +A terra dos Algarues, & ja nella +Nem acha que por armas lhe reſiſta, +Com manha, esforço, & com benigna estrella +Villas, castellos toma a eſcalla vista: +Ves Tauila tomada aos moradores, +Em vingança dos ſete caçadores. + +Vês com belica aſtucia ao Mouro ganha +Silues, que elle ganhou com força ingente, +He dom Paio Correa, cuja manha +E grande esforço faz enueja aa gente: +Mas não paſſes os tres q̃ ẽ Frãça & Eſpanha +Se fazem conhecer perpetuamente, +Em deſafios, juſtas & torneos, +Nellas deixando publicos trofeos. + +Vellos co nome vem de auentureiros, +A Castella, onde o preço ſos leuârão +Dos jogos de Belona verdadeiros, +Que com dano de algũs ſe exercitârão, +Vê mortos os ſoberbos caualleiros, +Que o principal dos tres deſafiarão, +Que Gonçalo Ribeiro ſe nomea, +Que pode não temer a ley Letea. + +Atenta num que a fama tanto eſtende, +Que de nenhum paſſado ſe contenta, +Que a patria que de hum fraco fio pende +Sobre ſeus duros hombros a ſuſtenta, +Não no ves tinto de yra, que reprende +A vil deſconfiança inerte & lenta +Do pouo, & faz que tome o doçe freyo, +De Rei ſeu natural, & nam de alheyo. + +Olha por ſeu conſelho & ouſadia, +De Deos guiada ſo, & de ſancta Eſtrella +So pode o que impoſsibil parecia, +Vencer o pouo ingente de Castella: +Ves par induſtria, esforço, & valentia +Outro eſtrago & victoria clara & bella +Na gente, aſsi feroz como infinita, +Que entre o Tarteſo, & Goadiana habita. + +Mas não ves quaſi ja desbaratado, +O poder Luſitano, pela auſencia +Do Capitão deuoto, que apartado +Orando inuoca a ſuma & trina eſſencia: +Vello com preſſa ja dos ſeus achado, +Que lhe dizem que falta reſiſtencia +Contra poder tamanho, & que vieſſe, +Porque conſigo esforço aos fracos deſſe. + +Mas olha com que ſancta confiança, +Que inda não era tempo reſpondia, +Como quem tinha em Deos a ſegurança +Da victoria, que logo lhe daria: +Aſsi Pompilio, ouuindo que a poſſança +Dos imigos a terra lhe corria, +A quem lhe a dura noua eſtaua dando, +Pois eu, reſponde, eſtou ſacrificando. + +Se quem com tanto esforço em Deos ſe atreue, +Ouuir quiſeres como ſe nomea, +Portugues Cipião chamar ſe deue: +Mas mais de dom Nuno Aluarez ſe arrea, +Ditoſa patria que tal filho teue: +Mas antes pai, que em quanto o Sol rodea +Eſte globo de Ceres & Neptuno, +Sempre ſuſpirarâ por tal aluno. + +Na meſma guerra vê que preſas ganha, +Estoutro Capitão de pouca gente, +Comendadores vence, & o gado apanha, +Que leuão roubado ouſadamente: +Outra vez vê que a lança em ſangue banha +Destes, ſo por liurar com amor ardente +O preſo amigo, preſo por leal, +Pero Rodriguez he do Landroal. + +Olha eſte deſleal o como paga +O perjurio que fez & vil engano, +Gil Fernandez he de Eluas quem o eſtraga, +E faz vir a paſſar o vltimo dano: +De Xerez rouba o campo, & quaſi alaga +Co ſangue de ſeus donos Castelhano: +Mas olha Rui Pireira que co roſto +Faz eſcudo aas gales, diante poſto. + +Olha que dezeſete Luſitanos, +Neſte outeiro fabulas ſe defendem, +Fortes de quatrocentos Castelhanos, +Que em derredor pelos tomar ſe eſtendem, +Porem logo ſentiram com ſeus danos, +Que nam ſo ſe defendem, mas effendem, +Digno feito de ſer no mundo eterno, +Grande no tempo antigo & no moderno. + +Sabeſe antigamente que trezentos +Ia contra mil Romanos pelejarão, +No tempo que os virîs atreuimentos +De Viriato tanto ſe illuſtrarão, +E delles alcançando vencimentos +Memoraueis, de erança nos deixarão, +Que os muitos por ſer poucos nam temamos +O que deſpois mil vezes amoſtramos. + +Olha ca dous Infantes Pedro & Henrique, +Progenie generoſa de Ioane, +Aquelle faz que fama illuſtre fique +Delle em Germania, com que a morte engane: +Eſte, que ella nos mares o pubrique, +Por ſeu deſcobridor, & deſengane +De Ceita a Maura tumida vaidade, +Primeiro entrando as portas da cidades. + +Vês o Conde dom Pedro que ſustenta +Dous cercos contra toda a Barbaria, +Vês outro Conde eſtà que repreſenta +Em terra Marte, em forças & ouſadia, +De poder defender ſe nam contenta +Alcaçere da ingente companhia: +Mas do ſeu Rei defende a cara vida, +Pondo por muro a ſua, ali perdida. + +Outros muitos verias que os pintores +Aqui tambem por certo pintarião: +Mas faltalhe pinçel, faltão lhe cores, +Honra, premio, fauor que as artes crião, +Culpa dos vicioſos ſucceſſores, +Que degenerão certo, & ſe deſuião +Do luſtre, & do valor dos ſeus paſſados, +Em goſtos & vaidades atolados. + +Aquelles pais illuſtres que ja derão +Principio aa geraçam que delles pende, +Pela virtude muyto antão fizerão, +E por deixar a caſa que deſcende, +Cegos, que dos trabalhos que tiuerão, +Se alta fama & rumor delles ſe eſtende, +Eſcuros deixão ſempre ſeus menores, +Com lhe deixar deſcanſos corrutores. + +Outros tambem ha grandes & abaſtados, +Sem nenhum tronco illuſtre donde venhão, +Culpa de Reis, que aas vezes a priuados +Dão mais que a mil, q̃ esforço & ſaber tenhã +Eſtes os ſeus nam querem ver pintados, +Crendo que cores vãs lhe não conuenhão, +E como a ſeu contrairo natural, +Aa pintura que falla querem mal. + +Não nego que â com tudo deſcendentes +Do generoſo tronco, & caſa rica +Que com custumes altos & excellentes +Suſtentão a nobreza que lhe fica: +E ſe ha luz dos antigos ſeus parentes +Nelles mais o valor não clarifica, +Nam ſalta ao menos, nem ſe faz eſcura: +Mas destes acha poucos a pintura. + +Aſsi eſtâ declarando os grandes feitos, +O Gama que ali moſtra a varia tinta, +Que a douta mão tam claros, tam perfeitos +Do ſingular artifice ali pinta: +Os olhos tinha promptos & dereitos, +O Catual na historia bem daſtinta, +Mil vezes perguntaua, & mil ouuia, +As goſtoſas batalhas que ali via. + +Mas ja a luz ſe moſtraua duuidoſa, +Porque a alampada grande ſe eſcondia +Debaxo do Orizonte & luminoſa +Leuaua aos Antipodas o dia, +Quando o Gentio, & a gente generoſa, +Dos Naires, da nao forte ſe partia +A buſcar o repouſo que deſcanſa, +Os laſſos animais, na noite manſa. + +Entre tanto os Aruſpices famoſos +Na falſa opinião, que em ſacrificios +Anteuem ſempre os caſos duuidoſos, +Por ſinais diabolicos, & indicios +Mandados do Rei proprio, eſtudioſos +Exercitauão a arte & ſeus officios, +Sobre esta vinda desta gente eſtranha, +Que aas ſuas terras vem da ignota Eſpanha. + +Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro, +De como a noua gente lhe ſeria +Iugo perpetuo, eterno catiueiro, +Deſtruiçam de gente, & de valia: +Vaiſe eſpantado o atonito agoureiro +Dizer ao Rei (ſegundo o que entendia) +Os ſinais temeroſos que alcançâra +Nas entranhas das victimas que oulhara: + +A iſto mais ſe ajunta que hum deuoto +Sacerdote da ley de Maphamede, +Dos odios concebidos nam remoto, +Contra a diuina Fe, que tudo excede, +Em forma do Propheta falſo & noto, +Que do filho da eſcraua Agar procede, +Baco odioſo em ſonhos lhe aparece, +Que de ſeus odios inda ſe nam deçe. + +E diz lhe aſsi, guardaiuos gente minha, +Do mal que ſe aparelha pelo imigo +Que pelas agoas humidas caminha, +Antes que eſteis mais perto do perigo: +Isto dizendo acorda o Mouro aſinha, +Eſpantado do ſonho: mas conſigo +Cuida que não he mais que ſonho vſado +Torna a dormir quieto & ſoſegado. + +Torna Bacho dizendo, nam conheces +O gram legiſlador que a teus paſſados +Tem moſtrado o preceito a que obedeces +Sem o qual foreis muitos baptizados? +Eu parti rudo vello, & tu adormeces? +Pois ſaberas que aquelles que chegados +De nouo ſam, ſeram muy grande dano +Da lei que eu dei ao neſcio pouo humano. + +Em quanto he fraca a força deſta gente, +Ordena como em tudo ſe reſista, +Porque quando o Sol ſae facilmente +Se pode nelle por a aguda viſta: +Porem deſpois que ſobe claro & ardente, +Se agudeza dos olhos o conquiſta, +Tam cega fica, quanto ficareis +Se raizes criar lhe nam tolheis. + +Isto dito, elle & o ſono ſe deſpede, +Tremendo fica o atonito Agareno +Salta da cama, lume aos ſeruos pede +Laurando nelle oo feruido veneno: +Tanto que a noua luz que ao Sol precede +Mostrara roſto Angelico & ſereno, +Conuoca os principais da torpa ceita, +Aos quais do que ſonhou dâ conta estreita. + +Diuerſos pareceres & contrarios +Ali ſe dão ſegundo o que entendião, +Astutas traições, enganos varios, +Perfidias inuentauam & tecião: +Mas deixando conſelhos temerarios, +Deſtruiçam da gente pretendião, +Por manhas mais ſotis & ardis milhores, +Com peitas adquerindo os regedores, + +Com peitas, ouro, & dadiuas ſecretas +Concilião da terra os principais, +E com razões notaueis & diſcretas +Moſtram ſer perdiçam dos naturais, +Dizendo que ſam gentes inquietas, +Que os mares discorrendo Occidentais, +Viuem ſo de piraticas rapinas, +Sem Rei, ſem leis humanas ou diuinas. + +O quanto deue o Rei que bem gouerna, +De olhar que os conſelheiros, ou priuados, +De conſciencia, & de virtude interna, +E de ſincero amor ſejam dotados: +Porque como estè paſto na ſuperna +Cadeira, pode mal dos apartados +Negocios, ter noticia mais inteira, +Do que lhe der a lingoa conſelheira. + +Nem tam pouco direy que tome tanto +Em groſſo, a conſciencia limpa & certa +Que ſe enleue num pobre & humilde manto, +Onde ambição a caſo ande encuberta, +E quando hũ bom em tudo he juſto & ſancto +E em negocios do mundo pouco acerta, +Que mal coelles poderâ ter conta, +A quieta inocencia, em ſo Deos pronta. + +Mas aquelles auaros Catuais, +Que o Gentilico pouo gouernauão, +Induzidos das gentes infernais, +O Portugues deſpacho dilatauão: +Mas o Gama, que não pretende mais, +De tudo quanto os Mouros ordenauão, +Que leuar a ſeu Rei hum ſinal certo +Do mundo, que deixa deſcuberto. + +Nisto trabalha ſo, quem bem ſabia +Que deſpois que leuaſſe esta certeza, +Armas, & naos, & gentes mandaria +Manoel, que exercita a ſumma alteza, +Com que a ſeu jugo & ley ſometeria +Das terras, & do mar a redondeza, +Que elle não era mais que hum diligente +Deſcobridor das terras do Oriente. + +Fallar ao Rei Gentio determina, +Porque com ſeu deſpacho ſe tornaſſe, +Que ja ſentia em tudo da malina +Gente impedirſe quanto delejaſſe: +O Rei que da noticia falſa, & indina +Nam era deſpantar ſe ſespantaſſe, +Que tam credulo era em ſeus agouros, +E mais ſendo affirmados pelos Mouros. + +Eſte temor lhe esfria o baixo peito: +Por outra parte a força da cobiça, +A quem por natureza eſtâ ſugeito, +Hum deſejo immortal lhe acende, & atiça: +Que bem vê que grandiſsimo proueito +Farâ ſe com verdade, & com juſtiça +O contrato fizer por longos annos, +Que lhe comete o Rei dos Luſitanos. + +Sobre iſto nos conſelhos que tomaua, +Achaua muy contrarios pareceres, +Que naquelles, com quem ſe aconſelhaua, +Executa o dinheiro ſeus poderes: +O grande Capitão chamar mandaua, +A quem chegado diſſe, ſe quiſeres +Confeſſarme a verdade limpa, & nua, +Perdão alcançaras da culpa tua. + +Eu ſou bem informado, que a embaxada +Que de teu Rei me deste, que he fingida: +Porque nem tu tẽs Rei, nem patria amada, +Mas vagabundo vas paſſando a vida: +Que quem da Hiſperia vltima alongada +Rei, ou ſenhor de inſania deſmedida, +Ha de vir cometer com naos, & frotas +Tam incertas viagẽs, & remotas? + +E ſe de grandes Reinos poderoſos, +O teu Rei tem a regia majestade, +Que preſentes me trazes valeroſos, +Sinais de tua incognita verdade: +Com peças & dões altos ſumptuoſos +Se lia dos Reis altos a amizade: +Que ſinal nem penhor não he baſtante, +A palauras dum vago nauegante. + +Se por ventura vindes deſterrados, +Como ja foram homẽs dalta ſorte, +Em meu Reino ſereis agaſalhados, +Que toda a terra he patria pera o forte: +Ou ſe piratas ſois ao mar vſados, +Dizeimo ſem temor de infamia, ou morte: +Que por ſe ſustentar em toda idade, +Tudo faz a vital neceſsidade. + +Iſto aſsi dito, o Gama que ja tinha +Suspeitas das inſidias que ordenaua +O Mahometico odio, donde vinha +Aquillo que tam mal o Rei cuidaua: +Cũa alta confianca, que conuinha, +Com que ſeguro credito alcançaua, +Que Venus Acidalia lhe influia, +Tais palauras do ſabio peito abria. + +Se os antigos delitos, que a malicia +Humana cometeo na priſca idade, +Nam cauſaram, que o vaſo da niquicia, +Açoute tão cruel da Chriſtandade, +Viera por perpetua inimicicia +Na geraçam de Adão, co a falſidade +O poderoſo Rei da torpe ſeita, +Nam conceberas tu tam mâ ſoſpeita. + +Mas porque nenhumb grande bem ſe alcança +Sem grandes opreſsões, & em todo o feyto +Segue o temor os paſſos da eſperança, +Que em ſuor viue ſempre de ſeu peyto, +Me moſtras tu tão pouca confiança +Deſta minha verdade: ſem reſpeyto +Das razões em contrario que acharias +Senão creſſes a quem não crer deuias. + +Porque ſe eu de rapinas ſo viueſſe +Vndiuago, ou da patria desterrado, +Como cres que tão longe me vieſſe, +Buſcar aſſento incognito & apartado? +Porque eſperanças, ou porque intereſſe, +Viria eſprimentando o mar yrado, +Os Antarticos frios, & os ardores +Que ſofrem do Carneyro os moradores? + +Se com grandes preſentes dalta eſtima +O credito me pedes do que digo, +Eu não vim mais q̃ a achar o estranho Clima +Onde a natura pos teu Reyno antigo: +Mas ſe a Fortuna tanto me ſublima, +Que eu torne à minha patria, & Reino amigo +Então verâs o dom ſoberbo & rico +Com que minha tornada certifico. + +Se te pareçe inopinado feito, +Que Rei da vltima Hisperia ati me mande, +O coraçam ſublime, o regio peito, +Nenhum caſo poſsibil tem por grande. +Bem pareçe que o nobre & gram conceito +Do Luſitano eſpirito demande +Maior credito, & fe de mais alteza, +Que crea delle tanta fortaleza. + +Sabe que ha muitos annos, que os antigos +Reis noſſos firmemente propuſerão +De vencer os trabathos, & perigos, +Que ſempre âs grandes couſas ſe opuſerão +E deſcobrindo os mares inimigos +Do quieto deſcanſo, pretenderão +De ſaber que fim tinhão, & onde estauão +As derradeiras praias que lauauão. + +Conceito digno foi do ramo claro +Do venturoſo Rei, que arou primeiro +O mar, por yr deitar do ninho caro +O morador de Abila derradeiro: +Eſte por ſua induſtria, & engenho raro, +Num madeiro ajuntando outro madeiro, +Deſcobrir pode a parte, que faz clara +De Argos, da Ydra a luz, da Lebre, e da Ara. + +Creſcendo cos ſucceſſos bons primeyros +No peyto as ouſadias, deſcobrirão +Pouco & pouco caminhos eſtrangeyros, +Que hũs ſuccedendo aos outros proſeguirão: +De Affrica os moradores derradeyros +Austrais, que nunca as ſete flammas virão, +Forão viſtos de nos, atras deyxando +Quantos eſtão os Tropicos queymando. + +Aſsi com firme peyto, & com tamanho +Propoſito vencemos à Fortuna, +Ate que nos no teu terreno eſtranho +Viemos pôr a vltima coluna: +Rompendo a força do liquido Eſtanho +Da tempeſtade horrifica, & importuna +Ati chegamos, de quem ſo queremos +ſinal, que ao noſſo Rey de ti leuemos. + +Eſta he a verdade Rey, que não faria +Por tão incerto bem, tão fraco premio +Qual, não ſendo isto aſsi, eſperar podia, +Tão lango tão fingido, & vão proemio: +Mas antes deſcanſar me deyxaria +No nunca deſcanſado & fero gremio +Da madre Thetis, qual pirata inico +Dos trabalhos alheyos feyto rico. + +Aſsi que ô Rey, ſe minha grão verdade +Tẽs por qual he, ſincera, & não dobrada, +Ajuntame ao deſpacho breuidade, +Não me impidas o goſto da tornada: +E ſe inda te parece falſidade, +Cuyda bem na razão que eſta prouada, +Que com claro juyzo pode verſe, +Que facil he a verdade dentenderſe. + +A tento eſtaua o Rey na ſegurança, +Com que prouaua o Gama o que dezia, +Concebe delle certa confiança, +Credito firme, em quanto proferia, +Pondera, das palauras ha abastança, +Iulga na autoridade grão valia, +Começa de julgar por enganados +Os Catuais currutos, mal julgados. + +Iuntamente a cobiça do proueyto, +Que eſpera do contrato Luſitano, +O faz obedecer, & ter reſpeyto, +Co Capitão, & não co Mauro engano: +Enfim ao Gama manda, que direyto +Aas naos ſe vâ, & ſeguro dalgum dano +Poſſa a terra mandar qualquer fazenda, +Que pela eſpeciaria troque, & venda. + +Que manda da fazenda enfim lhe manda, +Que nos Reynos Gangeticos faleça, +Salgũa traz idonea la da banda +Donde a terra ſe acaba, & o mar começa. +Iâ da Real preſença veneranda +Se parte o Capitão, pera onde peça +Ao Catual, que delle tinha cargo +Embarcação, que a ſua eſta de largo. + +Embarcação que o leue aas naos lbe pede: +Mas o mao Regedor, que nouos laços +Lhe machinaua, nada lhe concede, +Interponda tardanças & embaraços: +Coelle parte ao caes, porque o arrede +Longe quanto poder dos regios paços, +Onde, ſem que ſeu Rei tenha noticia, +Faça o que lhe inſinar ſua malicia. + +La bem longe lhe diz, que lhe daria +Embarcaçam bastante, em que partiſſe, +Ou que pera a luz craſtina do dia +Futuro, ſua partida diffiriſſe: +Ia com tantas tardanças entendia +O Gama, que o Gentio conſentiſſe +Na ma tençam dos Mouros, torpe & fera, +O que delle ate li nam entendêra: + +Era este Catual, hum dos que estauão +Corrutos pela Maumetana gente, +O principal por quem ſe gouernauão +As cidades do Samorim potente: +Delle ſomente os Mouros eſperauão +Efeyto a ſeus enganos torpemente, +Elle, que no concerto vil conſpira +De ſuas eſperanças nam delira. + +O Gama com inſtancia lhe requere +Que o mande por nas naos, & não lhe val, +E que aſsi lho mandàra, lhe refere, +O nobre ſucceſſor de Perimal: +Porque razão lhe empede & lhe difere +A fazenda trazer de Portugal, +Pois aquillo que os Reis ja tem mandado +Nam pode ſer por outrem derrogado? + +Pouco obedece o Catual corruto +A tais palauras, antes reuoluendo +Na fantaſia algum ſutil, & aſtuto +Engano diabolico, & eſtupendo, +Ou como banhar poſſa o ferro bruto +No ſangue auorrecido, eſtaua vendo, +Ou como as naos em fogo lhe abraſaſſe, +Porque nenhũa aa patria mais tornaſſe. + +Que nenhum torne aa patria ſo pretende +O conſelho infernal dos Maumetanos, +Porque nam ſaiba nunca onde ſe eſtende +Aterra Eoa o Rei dos Luſitanos: +Não parte o Gama em fim, que lho defende +O Regedor dos barbaros profanos, +Nem ſem licença ſua yrſe podia, +Que as almâdias todas lhe tolhia. + +Aos brados & razões do Capitão, +Responde o Idolatra, que mandaſſe +Chegar aa terra as naos, que longe eſtão, +Porque milhor dali foſſe, & tornaſſe: +Sinal he de inimigo, & de ladrão, +Que la tam longe a frota ſe alargaſſe, +Lhe diz, porque do certo & fido amigo +He nam temer do ſeu nenhum perigo. + +Nestas palauras o diſcreto Gama +Enxerga bem, que as naos deſeja perto +O Catual, porque com ferro, & flama +Lhas aſſalte, por odio deſcuberto: +Em varios penſamentos ſe derrama: +Fantaſiando eſtâ remedio certo, +Que deſſe a quanto mal ſe lhe ordenaua +Tudo temia, tudo em fim cuidaua. + +Qual o reflexo lume do polido +Eſpelho de aço, ou de cristal fermoſo, +Que do rayo ſolar ſendo ferido, +Vai ferir noutra parte luminoſo, +E ſendo da oucioſa mão mouido +Pela caſa do moço curioſo, +Anda pelas paredes, & telhado, +Tremulo, aqui & ali, & deſſoſſegado. + +Tal o vago juyzo fluctuaua +Do Gama preſo, quando lhe lembrara +Coelho, ſe por caſo o eſparaua +Na praia cos bateis, como ordenara: +Logo ſecretamente lhe mandaua, +Que ſe tornaſſe aa frota, que deixâra, +Nam foſſe ſalteado dos enganos, +Que eſperaua, dos feros Maumetanos. + +Tal ha de ſer, quem quer co dom de Marte +Imitar os illuſtres, & igoalalos. +Voar co penſamento a toda parte, +Adiuinhar pirigos, & euitallos: +Com militar engenho, & ſutil arte +Entender os imigos, & enganalos, +Crer tudo em fim, que nunca louuarey +O Capitão que diga, não cuidey. + +Inſiste o Malabar em telo preſo, +Senão manda chegar a terra a armada, +Elle conſtante, & de yra nobre aceſo, +Os ameaços ſeus nam teme nada: +Que antes quer ſobre ſi tomar o peſo, +De quanto mal a vil malicia ouſada +Lhe andar armando, que por em ventura +A frota de ſeu Rei, que tem ſegura. + +Aquella noite eſteue ali detido, +E parte do outro dia, quando ordena +De ſe tornar ao Rei. mas impedido +Foi da guarda que tinha não pequena: +Comete lhe o Gentio outro partido, +Temendo de ſeu Rei castigo, ou pena, +Se ſabe esta malicia, a qual aſinha +Saberâ, ſe mais tempo ali o detinha. + +Diz lhe que mande vir toda á fazenda +Vendibil, que trazia, pera a terra, +Pera que de vagar ſe troque, & venda, +Que quem nam quer comercio, buſca guerra: +Posto que os maos prepoſitos entenda +O Gama, que o danado peito encerra, +Conſente, porque ſabe por verdade, +Que compra co a fazenda a liberdade. + +Concertã ſe que o negro mande dar, +Embarcações idoneas com que venha, +Que os ſeus bateis não quer auenturar, +Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha: +Partem as almàdias a buſcar +Mercadoria Hispana, que conuenha, +Eſcreue a ſeu yrmão, que lhe mandaſſe +A fazenda, com que ſe reſgataſſe. + +Vem a fazenda a terra, aonde logo +A agaſalhou o iffame Catual: +Coella ficam Aluaro & Diogo, +Que a podeſſem vender pelo que val, +Se mais que obrigação, que mando & rogo +No peito vil o premio pode, & val, +Bem o moſtra o Gentio a quem o entenda, +Pois o Gama ſoltou pela fazenda. + +Por ella o ſolta, crendo que ali tinha +Penhor baſtante, donde recebeſſe +Intereſſe maior do que lhe vinha, +Se o Capitão mais tempo detiueſſe: +Elle vendo que ja lhe nam conuinha +Tornar a terra, porque nam podeſſe +Ser mais retido, ſendo aas naos chegado +Nellas eſtar ſe deixa deſcanſado. + +Nas naos estar ſe deyxa vagaroſo, +Atê ver o que o tempo lhe deſcobre, +Que não ſe fia ja do cobiçoſo +Regedor corrompido, & poauco nobre. +Veja agora o juyzo curioſo +Quanto no rico, aſsi como no pobre +Pode o vil intereſſe & ſede imiga +Do dinheyro, que a tudo nos obriga. + +A Polidoro mata o Rey Treicio, +Sò por ficar ſenhor do grão teſouro: +Entra, pelo fortiſsimo edificio, +Com a filha de Acriſo a chuua douro: +Pode tanto em Tarpeia auaro vicio, +Que a troco do metal luzente, & louro, +Entrega aos inimigos a alta torre, +Do qual quaſi afogada empago morre. + +Eſte rende munidas fortalezas, +Faz tredoros, & falſos os amigos, +Eſte a mais nobres faz fazer vilezas, +E entrega Capitães aos inimigos: +Este corrompe virginais purezas, +Sem temer de honra, ou fama algũs perigos, +Eſte depraua as vezes âs ciencias, +Os juyzos cegando, & as conſciencias. + +Eſte interpreta mais que ſutilmente +Os textos. eſte faz & desfaz leis: +Eſte cauſa os perjurios entre a gente: +E mil vezes tirânos torna os Reis. +A te os que ſo a Deos omnipotente +Se dedicão, mil vezes ouuireis, +Que corrompe eſte encantador, & illude: +Mas não ſem cor com tudo de virtude. + +F I M. + + + +❧ Canto Nono. + +Tiuerão longamen- +te na cidade +Sem vender ſe a fazenda os do- +us feitores, +Que os infieis por manha, & falſidade +Fazem, que nam lha comprem mercadores, +Que todo ſeu propoſito, & vontade +Era, deter ali os deſcubridores +Da India, tanto tempo que vieſſem +De Meca as naos, que as ſuas desfizeſſem. + +La no ſeio Eritreo, onde fundada +Arſinoe foi do Fgipcio Ptholomeo, +Do nome da irmã ſua aſsi chamada, +Que deſpois em Suez ſe conuerteo, +Não longe, o porto jaz da nomeada +Cidade Meca, que ſe engrandeceo +Com a ſuperstiçam falſa, & profana, +Da relegioſa agoa Maumetana. + +Gidâ ſe chama o porto, aonde o trato +De todo o roxo mar mais florecia, +De que tinha proueito grande, & grato +O Soldão que eſſe Reino poſſuia: +Daqui aos Malabares, por contrato +Dos infieis, fermoſa companhia +De grandes naos, pelo Indico Oceano, +Eſpeciaria vem buſcar cada anno. + +Por eſtas naos os Mouros eſperauão, +Que como foſſem grandes & poſſantes +Aquellas, que o comerçio lhe tomauão, +Com flamas abraſaſſem crepitantes: +Neſte ſocorro tanto confiauão, +Que ja nam querem mais dos nauegantes, +Se nam que tanto tempo ali tardaſſem, +Que da famoſa Meca as naos chegaſſem. + +Mas o Gouernador dos ceos, & gentes, +Que pera quanto tem determinado, +De longe os meios dâ conuenientes, +Por onde vem a effeito o fim fadado, +Influio piadoſos accidentes +De affeiçam em Monçaide, que guardado +Estaua pera dar ao Gama auiſo, +E merecer por iſſo o Paraiſo. + +Eſte de quem ſe os Mouros não guardauão, +Por ſer Mouro como elles, antes era +Participante em quanto machinauão, +A tençam lhe deſcobre torpe, & fera: +Muitas vezes as naos que longe eſtauão +Viſita, & com piedade conſidera +O dano, ſem razão, que ſe lhe ordena, +Pela maligna gente Sarracena. + +Informa o cauto Gama das armadas, +Que de Arabica Meca vem cadano, +Que agora ſam dos ſeus tam deſejadas, +Pera ſer inſtrumento deſte dano: +Diz lhe que vem de gente carregadas, +E dos trouões horrendos de Vulcano, +E que pode ſer dellas opremido, +Segundo eſtaua mal apercebido. + +O Gama que tambem conſideraua +O tempo, que pera a partida o chama, +E que deſpacho ja não eſparaua +Milhor do Rei, que os Maumetanos ama: +Aos feitores, que em terra eſtão, mandaua +Que ſe tornem aas naos: & porque a fama +Deſta ſubita vinda os não impida, +Lhe manda que a fizeſſem eſcondida. + +Porem não tardou muito, que voando +Hum rumor nam ſoaſſe com verdade, +Que forão preſos os feitores, quando +Foram ſentidos virſe da cidade: +Eſta fama as orelhas penetrando +Do ſabio capitão, com breuidade +Faz repreſaria nũs, que aas naos vierão, +A vender pedraria que trouxerão. + +Eram eſtes antigos mercadores +Ricos em Calecu, & conhecidos +Da falta delles, logo entre os milhores +Sentido foi, que eſtão no mar retidos: +Mas ja nas naos os bõs trabalhadores, +Voluem o cabrestante, & repartidos +Pelo trabalho, hũs puxão pela amarra, +Outros quebrão co peito duro a barra. + +Outros pendem da verga, & ja deſatão +A vella, que com grita ſe ſoltaua, +Quando com maior grita ao Rei relatão +A preſſa, com que a armada ſe leuaua: +As molheres & filhos, que ſe matão +Daquelles que vão preſos, onde eſtaua +O Samorim, ſe aqueixão que perdidos +Hũs tem os pais, as outras os maridos. + +Manda logo os feitores Luſitanos +Com toda ſua fazenda liuremente, +A peſar dos imigos Maumetanos, +Porque lhe torne a ſua preſa gente: +Deſculpas manda o Rei de ſeus enganos, +Recebe o Capitão de melhormente +Os preſos, que as deſculpas, & tornando +Algũs negros, ſe parte as vellas dando. + +Parteſe coſta abaxo, porque entende +Que em vão co Rei gentio trabalhaua, +Em querer delle paz, a qual pretende +Por firmar o comercio que trataua: +Mas como aquella terra que ſe estende +Pela Aurora, ſabida ja deixaua, +Com eſtas nouas torna aa patria cara, +Certos ſinais leuando do que achara. + +Leua algũs Malabares, que tomou +Per força, dos que o Samorim mandâra, +Quando os preſos feitores lhe tornou: +Leua pimenta ardente que compràra: +A ſeca flor de Banda não ficou, +A Noz, & o negro crauo, que faz clara +A noua ilha Maluco, coa canella, +Com que Ceilão he rica illustre & bella. + +Isto tudo lhe ouuera a deligencia +De Monçaide fiel, que tambem leua, +Que inſpirado de Angelica influencia, +Quer no liuro de Chriſto que ſe eſcreua, +O ditoſo .Affricano, que a clemencia +Diuina aſsi tirou deſcura treua, +E tam longe da patria achou maneira, +Pera ſubir aa patria verdadeira. + +Apartadas aſsi da ardente costa, +As venturoſas naos, leuando a proa +Pera onde a natureza tinha poſta +A Meta Austrina da eſparança boa, +Leuando alegres nouas & repoſta, +Da parte Oriental pera Lisboa, +Outra vez cometendo os duros medos +Do mar incerto, temidos & ledos. + +O prazer de chegar aa patria cara, +A ſeus penates caros & parentes, +Pera contar a peregrina, & rara +Nauegaçam, os varios çeos, & gentes, +Vir a lograr o premio, que ganhàra +Por tão longos trabalhos, & accidentes, +Cada hum, tem por goſto tam perfeito, +Que o coração para elle he vaſo eſtreito. + +Porem a Deoſa Cipria, que ordenada +Era pera fauor dos Luſitanos +Do Padre eterno, & por bom genio dada +Que ſempre os guia ja de longos annos. +A gloria por trabalhos alcançada, +Satisfação de bem ſofridos danos, +Lhe andaua ja ordenando, & pretendia +Darlhe nos mares tristes alegria. + +Deſpois de ter hum pouco reuoluido +Na mente, o largo mar que nauegârão, +Os trabalhos, que pelo Deos naſcido, +Nas Amphioneas Thebas, ſe cauſarão, +Ia trazia de longe no ſentido, +Pera premio de quanto mal paſſarão, +Buſcarlhe algum deleite, algum deſcanſo +No Reino de criſtal liquida, & manſo. + +Algum repouſo em fim, com que podeſſe +Refucilar a laſſa humanidade +Dos nauegantes ſeus, como intereſſe +Do trabalho, que incurta a breue idade: +Parecelhe razão que conta deſſe +A ſeu filho, por cuja poteſtade +Os Deoſes faz decer ao vil terreno, +E os humanos ſubir ao ceo ſereno. + +Iſto bem reuoluido, determina +De terlhe aparelhada la no meio +Das agoas, algũa inſula diuina, +Ornada deſmaltado & verde arreio: +Que muitas tem no reino, que confina +Da primeira co terreno ſeio, +Afora as que paſſue ſoberanas, +Pera dentro das portas Herculanas. + +Ali quer que as aquaticas donzellas, +Eſperem os fortiſsimos barões, +Todas as que tem titolo de bellas, +Gloria dos olhos, dor dos corações, +Com danças, & coreas, porque nellas +Influirâ ſecretas affeições, +Pera com mais vontade trabalharem +De contentar a quem ſe affeiçoarem. + +Tal manha buſcou ja, pera que aquelle +Que de Achiſes pario, bem recebido +Foſſe no campo que a bouina pelle +Tomou de eſpaço, por ſutil partido: +Seu filho vai buſcar, porque ſo nelle +Tem todo ſeu poder, fero Cupido, +Que aſsi como naquella empreſa antiga +A ajudou ja, neſtoutra a ajude & ſiga. + +No carro ajunta as aues, que na vida +Vão da morte as exequias celebrando, +E aquellas em que ja foi conuertida +Peristera, as boninas apanhando: +Em derredor da Deoſa ja partida, +No ar laſciuos beijos ſe vão dando, +Ella por onde paſſa o ar, & o vento +Sereno faz, com brando mouimento. + +Ia ſobre os Idalios montes pende, +Onde o filho frecheiro eſtaua então, +Ajuntando outros muitos, que pretende +Fazer hũa famoſa expedição +Contra o mundo reuelde, porque emende +Erros grandes, que ha dias nelle eſtão, +Amando couſas que nos ſorão dadas, +Nam pera ſer amadas, mas vſadas. + +Via Acteon na caça, tam auſtero, +De cego na alegria bruta, inſana, +Que por ſeguir hum feo animal fero, +Foge da gente, & bella forma humana: +E por caſtigo quer doçe, & ſeuero, +Maſtra lhe a fermoſura de Diana, +E guarde ſe nam ſeja inda comido +Deſſes cães que agora ama, & conſumido. + +E vè do mundo todo os principais, +Que nenhum no bem pubrico imagina, +Vê nelles, que não tem amor a mais +Que a ſi ſomente, & a quem Philaucia inſina +Vê que eſſes que frequentão os reais +Paços, por verdadeira & ſaã doctrina +Vendem adulação, que mal conſente +Mandarſe o nouo trigo florecente. + +Vê que aquelles que deuem aa pobreza +Amor diuino, & ao pouo charidade, +Amão ſomente mandos, & riqueza, +Simulãdo juſtiça, & integridade: +Da fea tyrania & de aſpereza +Fazem direito, & vaã ſeueridade: +Leis em fauor do Rei ſe estabelecem, +As em fauor do pouo ſo perecem. + +Vê em fim que ninguem ama o que deue, +Se não o que ſomente mal deſeja, +Não quer que tanto tempo ſe releue, +O castigo que duro, & justo ſeja: +Seus miniſtros ajunta, porque leue +Exercitos conformes aa peleja, +Que eſpera ter coa mal regida gente, +Que lhe não for agora obediente. + +Muitos deſtes mininos voadores, +Eſtão em varias obras trabalhando, +Hũs amolando ferros paſſadores, +Outros aſteas de ſetas delgaçando, +Trabalhando cantando estão de amores, +Varios caſos em verſo modulando, +Melodia ſonora, & concertada, +Suaue a letra, angelica a ſoada. + +Nas fragras immortais, onde forjauão, +Pera as ſetas as pontas penetrantes, +Por lenha, corações ardendo eſtauão, +Viuas entranhas inda palpitantes: +As agoas onde os ferros temperauão, +Lagrimas ſam de miſeros amantes, +A viua flama, o nunca morto lume, +Deſejo he ſo que queima, & não conſume. + +Algũs exercitando a mão andauão, +Nos duros corações da plebe ruda, +Crebros ſoſpiros pelo ar ſoauão, +Dos que feridos vão, da ſeta aguda, +Fermoſas Nimphas ſam, as que curauão +As chagas recebidas, cuja ajuda +Não ſomente dâ vida aos mal feridos: +Mas poem em vida os inda não naſcidos. + +Fermoſas ſam algũas, & outras feas, +Segundo a qualidade for das chagas, +Que o veneno eſpalhado pelas veas, +Curão no aas vezes aſperas triagas +Algũs ficão ligados em cadeas, +Por palauras ſutis de ſabias Magas, +Iſto acontece aas vezes quando as ſetas +Acertão de leuar eruas ſecretas. + +Deſtes tiros aſsi deſordenados, +Que estes moços mal deſtros vão tirando, +Naſcem amores mil desconcertados, +Entre o pouo ferido miſerando, +E tambem nos heroes de altos eſtados, +Exemplos mil ſe vem de amor nefando, +Qual o das moças, Bibli, & Cynirea +Hum mancebo de Aſsiria, hum de Iudea. + +E vos ô poderoſo por paſtoras +Muytas vezes ferido o peyto vedes, +E por bayxos, & rudos vos ſenhoras +Tambem vos tomão nas Vulcanias redes, +Hũs eſperando andais nocturnas horas, +Outros ſubis telhados & paredes, +Mas eu creyo que deſte amor indino, +He mais culpa a da mãy, que a da minino. + +Mas ja no verde prado o carro leue, +Punhão os brancos Ciſnes manſamente, +E Dione, que as roſas entre a neue +No rosto traz, decia diligente: +O frecheiro, que contra o çeo ſe atreue, +A recebella vem, ledo, & contente, +Vem todos os cupidos ſeruidores, +Beijar a mão aa Deoſa dos amores. + +Ella porque não gaſte o tempo em vão, +Nos braços tendo o filho, confiada +Lhe diz, amado filho, em cuja mão +Toda minha potencia eſtà fundada: +Filho em quem minhas forças ſempre eſtão, +Tu que as armas Tifeas tẽs em nada, +A ſocorrer me a tua poteſtade, +Me traz eſpecial neceſsidade. + +Bem ves as Luſitanicas fadigas, +Que eu ja de muito longe fauoreço, +Porque das Parcas ſey minhas amigas, +Que me ande venerar & ter em preço, +E porque tanto imitão as antigas +Obras de meus Romanos, me offereço +A lhe dar tanta ajuda em quanto poſſo, +A quanto ſe estender o poder noſſo. + +E porque das inſidias do odioſo +Baco foram na India moleſtados, +E das injurias ſos do mar vndoſo, +Poderão mais ſer mortos, que canſados: +No mesmo mar, que ſempre temeroſo +Lhe foi, quero que ſejão repouſados, +Tomando aquelle premio, & doçe gloria +Do trabalho que faz clara a memoria. + +E pera iſſo queria que feridas +As filhas de Nereo, no ponto fundo, +Da mor dos Luſitanos encendidas, +Que vem de deſcobrir o nouo mundo, +Todas nũa ilha juntas & ſubidas, +Ilha que nas entranhas do profundo +Oceano, terei aparelhada, +De dões de Flora, & Zefiro adornada. + +Ali com mil refreſcos & manjares, +Com vinhos odoriferos, & roſas, +Em criſtalinos paços ſingulares, +Fermoſos leitos, & ellas mais fermoſas: +Em fim com mil deleites não vulgares, +Os eſperem as Nimphas amoroſas, +Damor feridas, pera lhe entregarem +Quanto dellas os olhos cobiçarem. + +Quero que aja no reino Neptunino +Onde eu naſci, progenie forte & bella, +E tome exemplo o mundo vil, malino, +Que contra tua potencia ſe reuela, +Porque entendão que muro Adamantino, +Nem triste hypocreſia val contra ella: +Mal auerâ na terra quem ſe guarde, +Se teu fogo imortal nas agoas arde. + +Aſsi Venus propos, & o filho inico +Pera lhe obedecer ja ſe apercebe, +Manda trazer o arco eburneo rico, +Onde as ſetas de ponta de ouro embebe: +Com geſto ledo a Cipria, & impudico, +Dentro no carro o filho ſeu recebe, +Ha redea larga aas aues, cujo canto +Ha Phaetontea morte chorou tanto. + +Mas diz Cupido, que era neceſſaria +Hũa famoſa, & celebre terceyra, +Que poſto que mil vezes lhe he contraria, +Outras muytas ha tem por companheyra: +A Deoſa Gigantea temeraria, +Iactante, mintiroſa, & verdadeyra, +Que com cem olhos ve, & por onde voa +O que vè com mil bocas apregoa. + +Vão a buſcar, & mandam a diante, +Que celebrando va com tuba clara, +Os louuores da gente nauegante, +Mais do que nunca os doutrem celebrara +Ia murmurando a fama penetrante +Pelas fundas cauernas ſe eſpalhàra, +Fala verdade, a vida por verdade, +Que junto a Deoſa traz Credulidade. + +O louuor grande, o rumor excellente +No coração dos Deoſes, que indinados +Forão por Baco contra a illuſtre gente, +Mudando os fez hum pouco afeyçoados: +O peyto feminil, que leuemente +Muda quaeſquer propafitos tomados, +Ia julga por mao zelo, & por crueza +Deſejar mal a tanta fortaleza. + +Deſpede niſto o fero moço as ſetas +Hũa apos outra, geme o mar cos tiros, +Dereitas pelas ondas inquietas, +Algũas vão, & algũas fazem giros: +Caem as Nimphas, lançam das ſecretas +Entranhas ardentiſsimos ſoſpiros, +Cae qualquer, ſem ver o vulto que ama, +Que tanto como a vista pode a fama. + +Os cornos ajuntou da eburnea Lũa, +Com força o moço indomito exceſsiua, +Que Thetis quer ferir mais que nenhũa, +Porque mais que nenhũa lhe era eſquiua: +Ia não fica na aljaua ſeta algũa, +Nem nos equoreos campos Nimpha viua, +E ſe feridas inda eſtão viuendo, +Sera pera ſentir que vão morrendo. + +Day lugar altas & ceruleas ondas, +Que vedes Venus traz a medicina, +Moſtrando as brancas vellas, & redondas, +Que vem por cima da agoa Neptunina: +Pera que tu reciproco reſpondas +Ardente Amor aa flama feminina, +He forçado que a pudicicia honesta +Faça quanto lhe Venus amoeſta. + +Ia todo o bello coro ſe aparelha +Das Nereidas, & junto caminhaua +Em coreas gentis, vſança velha, +Pera a ilha, a que Venus as guiaua: +Ali a fermoſa Deoſa lhe aconſelha +O que ella fez mil vezes, quando amaua, +Ellas que vão do doçe amor vencidas, +Eſtão a ſeu conſelho offerecidas. + +Cortando vão as naos a larga via +Do mar ingente, pera a patria amada, +Deſejando prouerſe de agoa fria, +Pera a grande viajem prolongada: +Quando juntas com ſubita alegria, +Ouuerão vista da ilha namorada, +Rompendo pelo çeo a mãi fermoſa +De Menonio, ſuaue & deleitoſa. + +De longe a Ilha virão freſca, & bella, +Que Venus pelas ondas lha leuaua +(Bem como o vento leua branca vella) +Pera onde a forte armada ſe enxergaua, +Que porque não paſſaſſem, ſem que nella +Tomaſſem porto, como deſejaua, +Pera onde as naos nauegão a mouia +A Accidalia, que tudo em fim podia. + +Mas firme a fez & imobil, como vio +Que era dos Nautas viſta, & demandada, +Qual ficou Delos, tanto que pario +Latona Phebo, & a Deoſa aa caça vſada +Pera la logo a proa o mar abrio, +Onde a coſta fazia hũa enſeada +Curua, & quieta, cuja branca area +Pintou de ruiuas conchas Cyterea. + +Tres fermoſos outeiros ſe moſtrauão, +Erguidos com ſoberba gracioſa, +Que de gramineo eſmalte ſe adornauão, +Na fermoſa ilha alegre, & deleitoſa: +Claras fontes & limpidas manauão +Do cume, que a verdura tem viçoſa, +Por entre pedras aluas ſe diriua, +A ſonoroſa Limpha fugitiua. + +Num valle ameno, que os outeiros fende, +Vinhão as claras agoas ajuntarſe, +Onde hũa meſa fazem, que ſe estende +Tam bella, quanto pode imaginarſe: +Aruoredo gentil ſobre ella pende, +Como que prompto estâ pera afeitarſe, +Vendoſe no cristal reſplandecente, +Que em ſi o eſtâ pintando propriamente: + +Mil aruores eſtão ao çeo ſubindo, +Com pomos odoriferos & bellos, +A Laranjeira tem no fruito lindo +A cor, que tinha Daphne nos cabellos. +Encoſtaſe no chão, que eſtà caindo +A Cidreira cos peſos amarellos, +Os fermoſos limoẽs ali cheirando +Eſtam virgineas tetas imitando. + +As aruores agreſtes, que os outeiros +Tem com frondente coma emnobrecidos +Alemos ſam de Alcides, & os Loureiros +Do louro Deos amados, & queridos: +Mirtos de Cyterea, cos Pinheiros +De Cybele por outro amor vencidos, +Estâ apontando o agudo Cipariſo +Pera onde he poſto o Etereo paraiſo. + +Os dões que dâ Pomona, ali natura +Produze diferentes nos ſabores, +Sem ter neceſsidade de cultura, +Que ſem ella ſe dão muito milhores. +As Cereijas porpureas na pintura, +As Amoras, que o nome tem de amores, +O pomo, que da patria Perſia veio, +Milhor tornado no terreno alheio. + +Abre a Romã, mostrando a rubicunda +Cor, com que tu Rubi teu preço perdes: +Entre os braços do Vlmeiro eſtâ a jocunda +Vide, cũs cachos roxos, & outros verdes: +E vos ſe na voſſa aruore fecunda +Peras pyramidais viuer quiſerdes, +Entregaiuos ao dano, que cos bicos, +Em vos fazem os paſſaros inicos. + +Pois a tapeçaria bella & fina, +Com que ſe cobre a ruſtico terreno, +Faz ſer a de Achemenia menos dina: +Mas o ſombrio valle mais ameno: +Ali a cabeça o flor Cyfiſia inclina, +Sobollo tanque lucido & ſereno, +Floreçe o filho & neto de Cyniras, +Por quem tu Deoſa Paphia inda ſuspiras. + +Pera julgar dificil couſa fora, +No çeo vendo, & na terra as meſmas cores, +Se daua aas flores cor a bella Aurora, +Ou ſe lha dam a ella as bellas flores: +Pintando eſtaua ali Zefiro, & Flora +As violas da cor dos amadores, +O Lirio roxo, a freſca Roſa bella, +Qual reluze nas faces da donzella. + +A candida Cecêm das Matutinas +Lagrimas ruciada, & a Manjarona, +Venſe as letras nas flores Hyacintinas, +Vem queridas do filho de Latona: +Bem ſe enxerga nos pomos & boninas, +Que competia Cloris com Pomona: +Pois ſe as aues no ar cantando voão, +Alegres animais o chão pouoão. + +A longo da agoa o niueo Ciſne canta, +Responde lhe do ramo Philomela, +Da ſombra de ſeus cornos nam ſe eſpanta +Acteon nagoa criſtalina & bella: +Aqui a fugace Lebre ſe leuanta +Da eſpeſſa mata, ou temida Gazella, +Ali no bico traz ao caro ninho, +O mantimento ô leue paſſarinho. + +Neſta freſcura tal deſembarcauão +Ia das naos os ſegundos Argonautas, +Onde pela floresta ſe deixauão +Andar as bellas Deoſas como incautas, +Algũas doçes Cytaras tocauão, +Algũas arpas, & ſonoras frautas, +Outras cos arcos de ouro ſe fingião +Seguir os animais, que nam ſeguião. + +Aſsi lho aconſelhàra a meſtra experta, +Que andaſſem pelos campos eſpalhadas, +Que vista dos barões a preſa incerta, +Se fizeſſem primeyro deſejadas +Algũas, que na forma deſcuberta +Do bello corpo eſtauão confiadas, +Poſta a artificioſa fermoſura, +nuas lauarſe deyxão na agoa pura. + +Mas os fortes mancebos, que na praya +Punhão os pes de terra cubiçoſos, +Que não ha nenhum delles, que não ſaya +De acharem caça agreſte deſejoſos: +Não cuydão que ſem laço, ou redes caya +Caça naquelles montes deleytoſos +Tão ſuaue, domeſtica, & benina, +Qual ferida lha tinha ja Ericina. + +Algũs que em eſpingardas, & nas beſtas +Pera ferir os Ceruos ſe fiauão, +Pelos ſombrios matos, & floreſtas +Determinadamente ſe lançauão: +Outros nas ſombras, que de as altas ſeſtas +Defendem a verdura, paſſeauão +Ao longo da agoa, que ſuaue, & queda +Por aluas pedras corre aa praya leda. + +Começão de enxergar ſubitamente +Por entre verdes ramos varias cores, +Cores de quem a viſta julga, & ſente, +Que não erão das roſas, ou das flores, +Mas da lam fina, & ſeda diferente +Que mais incîta a força dos amores, +De que ſe vestem as humanas roſas, +Fazendoſe por arte mais fermoſas. + +Da Veloſo eſpantado hum grande grito, +Senhores caça eſtranha diſſe he eſta, +Se inda durão o Gentio antigo rito, +A Deoſas he ſagrada esta floresta: +Mais deſcobrimos do que humano eſprito +Deſejou nunca, & bem ſe manifeſta +Que ſam grandes as couſas, & excellentes +Que o mundo encobre aos homẽs imprudẽtes. + +Sigamos eſtas Deoſas, & vejamos, +Se fantasticas ſam, ſe verdadeiras, +Isto dito velloces mais que Gamos, +Selançam a correr pelas ribeiras: +Fugindo as Nimphas vão por entre os ramos, +Mas mais induſtrioſas que ligeiras, +Pouco & pouco ſurrindo, & gritos dando, +Se deixão yr dos Galgos alcançando. + +De hũa os cabellos de ouro o vento leua +Correndo, & da outra as fraldas delicadas, +Acendeſe o deſejo que ſe ceua +Nas aluas carnes ſubito moſtradas, +Hũa de industria cae, & ja releua +Com moſtras mais maſias, que indinadas, +Que ſobre ella empecendo tambem caia +Quem a ſeguio pela arenoſa praia. + +Outros por outra parte vão topar, +Com as Deoſas deſpidas, que ſe lauão, +Ellas começam ſubito a gritar, +Como que aſſalto tal nam eſperauão, +Hũas fingindo menos eſtimar +A vergonha, que a força, ſe lançauão +Nuas por entre o mato, aos olhos dando +O que aas mãos cobiçoſas vão negando. + +Outra como acudindo mais de preſſa, +Aa vergonha da Deoſa caçadora, +Eſconde o corpo nagoa, outra ſe apreſſa +Por tomar os veſtidos, que tem fora: +Tal dos mancebos ha, que ſe arremeſſa +Veſtido aſsi & calçado (que co a mora +Deſſe deſpir, ha medo que inda tarde) +A matar na agoa o fogo que nelle arde. + +Qual tão de caçador ſagaz, & ardido, +Vſado a tomar na agoa a aue ferida, +Vendo roſto o ferreo cano erguido, +Pera a Garcenha, ou Pata conhecida, +Antes que ſoe o eſtouro, mal ſofrido +Salta nagoa, & da preſa nam duuîda, +Nadando vay & latindo, aſsi o mancebo +Remete ha que nam era yrmaã de Phebo. + +Lionardo ſoldado bem deſpoſto, +Manhoſo, caualleiro, & namorado, +A quem amor não dera hum ſo deſgoſto, +Mas ſempre fora delle mal tratado: +E tinha ja por firme proſuposto +Ser com amores mal afortunado, +Porem não que perdeſſe a eſperança, +De inda poder ſeu fado ter mudança. + +Quis aqui ſua ventura, que corria +Apos Efire, exemplo de belleza, +Que mais caro que as outras dar queria, +O que deu para darſe a natureza, +Ia canſado correndo lhe dizia. +O fermoſura indigna de aſpereza, +Pois desta vida te concedo a palma, +Eſpera hum corpo de quem leuas a alma. + +Todas de correr canſam, Nimpha pura, +Rendendo ſe aa vontade do inimigo, +Tu ſo de my ſo foges na eſpeſſura? +Quem te diſſe que eu era o que te ſigo? +Se to tem dito ja aquella ventura, +Que em toda a parte ſempre anda comigo, +O nam na creas, porque eu quando a cria, +Mil vezes cada hora me mentia. + +Nam canſes, que me canſas: & ſe queres +Fujirme, porque nam poſſa tocarte, +Minha ventura he tal, que inda que eſperes +Ella farâ que nam poſſa alcançarte: +Eſpera, quero ver, ſe tu quiſeres, +Que ſutil modo buſca de eſcaparte, +E notarâs no fim deſte ſucceſſo, +Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo. + +O não me fujas, aſsi nunca o breue +Tempo fuja de tua fermoſura, +Que ſo com refrear o paſſo leue, +Vencerâs da fortuna a força dura: +Que Emperador, que exercito ſe atreue. +A quebrantar a furia da ventura, +Que em quanto deſejey me vai ſeguindo, +O que tu ſo faras nam me fugindo? + +Põeste da parte da desdita minha? +Fraqueza he dar ajuda ao mais potente: +Leuas me hum coração, que liure tinha? +Solta mo, & corroras mais leuemente. +Não te carrega eſſa alma tam mezquinha, +Que neſſes fios de ouro reluzente +Atada leuas? ou deſpois de preſa +Lhe mudaſte a ventura, & menos peſa? + +Neſta eſperança ſo te vou ſeguindo, +Que ou tu nam ſofrerâs o peſo della, +Ou na virtude de teu gesto lindo, +Lhe mudarâs a triste & dura eſtrella. +E ſe ſe lhe mudar, nam vas fugindo, +Que Amor te ferirà, gentil donzella, +E tu me eſperarâs, ſe Amor te fere, +E ſe me eſperas, não ha mais que eſpere. + +Ia nam fugia a bella Nimpha, tanto +Por ſe dar cara ao triste que a ſeguia, +Como por yr ouuindo o doçe canto, +As namoradas magoas que dizia: +Voluendo o roſto ja ſereno & ſancto, +Toda banhada em riſo, & alegria, +Cair ſe deixa aos pês do vencedor, +Que todo ſe desfaz em puro amor. + +O que famintos beijos na floreſta, +E que mimoſo choro que ſoaua, +Que afagos tam ſuaues, que yra honeſta +Que em riſinhos alegres ſe tornaua: +O que mais paſſam na menhã, & na ſesta +Que Venus com prazeres inflamaua, +Milhor he eſprimentalo que julgalo, +Mas julgue o quem nam pode eſprimentalo. + +Deſta arte em fim conformes ja as fermoſas +Nimphas, cos ſeus amados nauegantes, +Os ornão de capellas deleitoſas, +De louro, & de ouro, & flores abundantes: +As mãos aluas lhe dauão como eſpoſas +Com palauras formais, & eſtipulantes, +Se prometem eterna companhia +Em vida & morte, de honra & alegria. + +Hũa dellas maior, a quem ſe humilha +Todo o coro das Nimphas, & obedece, +Que dizem ſer de Celo & Vesta filha, +O que no geſto bello ſe parece, +Enchendo a terra, & o mar de marauilha, +O Capitão illustre que o mereçe, +Recebe ali com pompa honeſta, & rêgia, +Moſtrando ſe ſenhora grande, & egregia. + +Que deſpois de lhe ter dito quem era, +Cum alto exordio de alta graça ornado, +Dando lhe a entender, que ali viera +Por alta influiçam do imobil fado, +Pera lhe deſcobrir da vnida eſphera, +Da terra immenſa, & mar não nauegado +Os ſegredos, por alta prophecia, +O que eſta ſua naçam ſo merecia: + +Tomando o pela mão a leua, & guia +Pera o cume dum monte alto, & diuino, +No qual hũa rica fabrica ſe erguia +De criſtal toda, & de ouro puro, & fino: +A maior parte aqui paſſam do dia +Em doçes jogos, & em prazer contino, +Ella nos paços logra ſeus amores, +As outras pelas ſombras entre as flores. + +Aſsi a fermofa, & a forte companhia, +O dia quaſi todo eſtão paſſando, +Nãa alma, doçe, incognita alegria, +O trabalhos tam longos compenſando: +Porque dos feitos grandes, da ouſadia +Forte & famoſa, o mundo està guardando +O premio la no fim bem merecido, +Com fama grande, & nome alto & ſubido. + +Que as Nimphas do Occeano tam fermoſas, +Thetis & a Ilha angelica pintada, +Outra couſa nam he, que as deleitoſas +Honras, que a vida fazem ſublimada: +Aquellas preminencias glorioſas, +Os triumphos, a fronte coroada +De Palma, & Louro, a gloria & marauilha +Estes ſam os deleites desta Ilha. + +Que as immortalidades que fingia +A antiguidade, que os illuſtres ama, +La no estellante Olimpo a quem ſubia, +Sobre as aſas inclitas da fama, +Por obras valeroſas, que fazia, +Pelo trabalho immenſo, que ſe chama +Caminho da virtude alto & fragoſo: +Mas no fim doçe, alegre, & deleitoſo. + +Nam erão ſenão premios, que reparte +Por feitos imortais & ſoberanos, +O mundo, cos varões, que esforço & arte +Diuinos os fizerão, ſendo humanos: +Que Iupiter, Mercurio, Phebo, & Marte +Eneas, & Quirino, & os dous Thebanos +Ceres, Palas, & Iuno, com Diana +Todos forão de fraca carne humana. + +Mas a fama, trombeta de obras tais, +Lhe deu no mundo nomes tam eſtranhos +De Deoſes, Semideoſes immortais +Indigetes, Eroicos, & de Magnos +Por iſſo, o vos que as famas estimais, +Se quiſerdes no mundo ſer tamanhos, +Deſpertai ja do ſono do ocio ignauo, +Que o animo de liure faz eſcrauo. + +E ponde na cobiça hum freio duro, +E na ambiçam tambem, que indignamente +Tomais mil vezes, & no torpe & eſcuro +Vicio da tirania infame, & vrgente: +Porque eſſas honras vaãs, eſſe ouro puro +Verdadeiro valor nam dão aa gente, +Milhor he merecellos, ſem os ter +Que poſſuilos ſem os mereçer. + +Ou day na paz as leis iguais, constantes, +Que aos grandes não dem o dos pequenos, +Ou vos veſti nas armas rutilantes, +Contra a ley dos imigos Sarracenos, +Fareis os Reinos grandes, & poſſantes +E todos tereis mais, & nenhum menos +Poſſuireis riquezas merecidas, +Com as honras, que illuſtrão tanto as vidas. + +E fareis claro o Rei, que tanto amais, +Agora cos conſelhos bem cuidados, +Agora co as eſpadas, que immortais +Vos farão, como os voſſos ja paſſados: +Impoſsibilidades não façais, +Que quem quis ſempre pode: & numerados +Sereis entre os Heroes eſclarecidos, +E neſta ilha de Venus recebidos. + +F I M. + + + +❧ Canto Decimo +& vltimo. + +Mas ja o claro ama- +dor da Lariſſea +Adultera, inclinaua os animais, +La para o grande lago, que rodea +Temiſtitão, nos fins Occidentais: +O grande ardor do Sol Fauonio enfrea, +Co ſopro, que nos tanques naturais +Encreſpa a agoa ſerena, & deſpertaua +Os Lirios, & Iazmins que a calma agraua. + +Quando as fermoſas Ninfas cos amantes +Pella mão ja conformes & contentes, +Subião pera os paços radiantes, +E de metais ornados reluzentes: +Mandados da Rainha, que abundantes +Meſas, daltos manjares, excelentes, +Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza +Reſtaurem da canſada natureza. + +Ali em cadeiras ricas criſtalinas, +Se aſſentão, dous & dous, amante & dama, +Noutras aa cabeceira douro finas, +Eſtà coa bella Deoſa o claro Gama: +De ygoarias ſuaues & diuinas +A quem não chega a Egipcia antiga fama, +Se acumulão os pratos de fuluo ouro, +Trazidos la do Atlantico teſouro. + +Os vinhos odoriferos, que acima +Eſtão não ſo do Italico Falerno, +Mas da Ambroſia, que Ioue tanto eſtima, +Com todo o ajuntamento ſempiterno: +Nos vaſos, onde em vão trabalha a lima +Creſpas eſcumas erguem, que no interno +Coração mouem ſubita alegria, +Saltando coa miſtura dagoa fria. + +Mil praticas alegres ſe tocauão, +Rîſos doces, ſutis, & argutos ditos, +Que entre hũ & outro mãjar ſe aleuantauão +Deſpertando os alegres apatitos: +Muſicos instrumentos não faltauão, +Quais no profundo reyno, os nus eſpritos +Fizerão deſcanſar da eterna pena, +Cũa voz dhũa angelica Syrena. + +Cantaua a bella Ninfa, & cos acentos +Que pellos altos paços vão ſoando, +Em conſonancia ygoal, os inſtromentos +Suaues vem a hum tempo conformando: +Hum ſubito ſilencio enfrea os ventos, +E faz hir docemente murmurando +As agoas, & nas caſas naturais +Adormecer os brutos animais. + +Com doce voz eſtâ ſubindo ao cco +Altos varões, que estão por vir ao mundo, +Cujas claras Ideas via Protheo, +Num globo vão, diafano, rotundo, +Que Iupiter em dom lho concedeo +Em ſonhos, & deſpois no reino fundo +Vaticinando o diſſe, & na memoria +Recolheo logo a Ninfa a clara hiſtoria. + +Materia he de Coturno, & não de Soco +A que a Nimpha aprendeo no immenſo lago: +Qual Yopas não ſoube, ou Demodoco, +Entre os Pheaces hum, outro em Carthago. +Aqui minha Caliope te inuoco +Neste trabalho extremo, porque em pago, +Me tornes, do q̃ eſcreuo, & em vão pretendo, +O goſto de eſcreuer, que vou perdendo. + +Vão os annos decendo, & ja do Eſtio +Ha pouco que paſſar ate o Otono, +A fortuna me faz o engenho frio, +Do qual ja não me jacto, nem me abono: +Os deſgoſtos me vão leuando ao rio +Do negro eſquecimento, & eterno ſono, +Mas tu me dâ que cumpra, ò grão Rainha +Das Muſas, cô que quero aa nação minha. + +Cantaua a bella Deoſa, que virião +Do Tejo, pello mar que o Gama abrîra, +Armadas que as ribeiras vencerião, +Por onde o Oceano Indico ſoſpira: +E que os Gentios Reis, que não darião +A ceruiz ſua ao jugo, o ferro & yra +Prouarião do braço duro & forte, +Ate renderſe a elle, ou logo aa morte. + +Cantaua dhum que tem nos Malabares +Do ſumo ſacerdocio a dignidade, +Que ſo por não quebrar cos ſingulares +Baroẽs, os nos que dera damizade, +Sofrerâ ſuas cidades & lugares, +Com ferro, incendios, ira & crueldade +Ver deſtruir do Samorim potente: +Que tais odios terâ coa noua gente. + +E canta como la ſe embarcaria +Em Bellem o remedio deste dano, +Sem ſaber o que em ſi ao mar traria +O grão Pacheco, Achiles Luſitano: +O peſo ſentirão, quando entraria, +O curuo lenho, & o ſeruido Oceano, +Quando mais nagoa os troncos, que gemerem, +Contra ſua natureza ſe meterem. + +Mas ja chegado aos fins Orientais, +E deixado em ajuda do gentio +Rey de Cochim,com poucos naturais, +Nos braços do ſalgado & curuo rio, +Desbaratarâ os Naires infernais +No paſſo Cambalão, tornando frio +Deſpanto o ardos immenſo do Oriente +Que verâ tanto obrar tão pouca gente. + +Chamarâ o Samorim mais gente noua: +Virão Reis Bipur, & de Tânôr, +Das ſerras de Narſinga, que alta proua +Eſtarão prometendo a ſeu ſenhor: +Faràque todo o Naire em fim ſe moua, +Que entre Calicû jaz, & Cananor, +Dambas as leis immigas, pera a guerra, +Mouros por mar, Gentios polla terra. + +E todos outra vez desbaratando, +Por terra, & mar, o grão Pacheco ouſado, +A grande multidão que yrâ matando, +A todo o Malabar terâ admirado: +Cometerâ outra vez não dilatando +O Gentio os combates apreſſado, +Injuriando os ſeus, fazendo votos +Em vão aos Deoſes vãos, ſurdos, & immotos + +Ia não defenderâ ſomente os paſſos, +Mas queimar lhe ha lugares, templos, caſas: +Aceſo de yra o Cão, não vendo laſſos +Aquelles que as cidades fazem raſas: +Farà que os ſeus de vida pouco eſcaſſos, +Cometão o Pacheco que tem aſas +Por dous paſſos num tempo, mas voando +Dhum outro, tudo yrâ desbaratando. + +Virâ ali o Samorim, porque em peſſoa +Veja a batalha, & os ſeus esforce, & anime, +Mas hum tiro, que com zonido voa, +De ſangue o tingirâ no andor ſublime: +Ia não verâ remedio, ou manha boa, +Nem força, que o Pacheco muito eſtime, +Inuentara traiçoẽs, & vãos venenos, +Mas ſempre (o ceo querendo) farâ menos. + +Que tornarâ a vez ſeptima, cantaua, +Pellejar co inuicto & forte Luſo, +A quem nenhum trabalho peſa, & agraua, +Mas com tudo eſte ſo o farâ confuſo: +Trarâ pera a batalha horrenda, & braua, +Machinas de madeiros fora de vſo, +Pera lhe abalroar as Carauellas, +Que ateli vão lhe fora cometellas. + +Pella agoa leuarâ ſerras de fogo +Pera a braſarlhe quanta armada tenha, +Mas a militar arte, & engenho, logo +Farâ ſer vaã a braueza com que venha: +Nenhum claro barão no Martio jogo, +Que nas aſas da fama ſe ſostenha, +Chega a este, que a palma a todos toma, +E perdoeme a illuſtre Grecia, ou Roma. + +Porque tantas batalhas ſoſtentadas +Com muito pouco mais de cem ſoldados, +Com tantas manhas, & artes inuentadas +Tantos Cães não imbelles profligados: +Ou parecerão fabulas ſonhadas, +Ou que os celeſtes Coros inuocados +Decerão a ajudallo, & lhe darão +Esforço, força, ardil, & coração. + +Aquelle que nos Campos Maratonios +O grão poder de Dario eſtrue, & rende, +Ou quem com quatro mil Lacedemonios +O paſſo de Termopilas defende, +Nem o mancebo Cocles dos Auſonios, +Que com todo o poder Tuſco contende +Em defenſa da ponte, ou Quinto Fabio +Foy como este na guerra forte & ſabio. + +Mas neste paſſo a Nimpha o ſom canoro +Abaxando, fez ronco, & entriſtecido, +Cantando em baxa voz enuolta em choro +O grande esforço mal agardecido: +O Beliſario, diſſe, que no coro +Das Muſas ſeras ſempre engrandecido, +Se em ti viſte abatido o brauo Marte, +Aqui tens com quem podes conſolarte. + +Aqui tens companheiro aſsi nos feitos +Como no galardão injusto & duro, +Em ti & nelle veremos altos peitos, +A baxo eſtado vir humilde, & eſcuro: +Morrer nos hoſpitais em pobres leitos, +Os que ao Rey, & aa ley ſeruem de muro, +Iſto fazem os Reys, cuja vontade +Manda mais que a juſtiça & que a verdade. + +Iſto fazem os Reis, quando embebidos +Nũa aparencia branda que os contenta, +Dão os premios de Aiace merecidos, +Aa lingoa vaã de Vliſſes fraudulenta: +Mas vingome que os bens mal repartidos +Por quem ſo doces ſombras apreſenta, +Se não os dão a ſabios caualeiros, +Dãos os logo a auarentos liſongeiros. + +Mas tu de quem ficou tão mal pagado +Hum tal vaſſalo, o Rey ſo nisto inico, +Se não es para darlhe honroſo eſtado, +He elle pera darte hum reino rico: +Em quanto for o mundo rodeado +Dos Apolineos rayos, eu te fico +Que elle ſeja entre a gente illuſtre & claro +E tu niſto culpado por auaro. + +Mas eis outro, cantaua, intitulado +Vem com nome real, & traz conſigo +O filho, que no mar ſerâ illustrado +Tanto como qualquer Romano antigo: +Ambos darão com braço forte, armado, +A Quiloa fertil aſpero caſtigo, +Fazendo nella Rey leal, & humano, +Deitado fora o perfido Tirano. + +Tambem farão Mombaça, que ſe arrea +De caſas ſumptuoſas, & edificios, +Co ferro, & fogo ſeu, queimada, & fea, +Em pago dos paſſados maleficios: +Deſpois na coſta da India, andando chea +De lenhos inimigos, & arteficios, +Contra os Luſos: com vellas, & com remos +O mancebo Lourenço farà eſtremos. + +Das grandes naos, do Samorim potente, +Que encherão todo o mar, coa ferrea pela, +Que ſae com trouão do cobre ardente, +Farà pedaços leme, masto, vela, +Deſpois lançando arpeos ouſadamente +Na capitania inimiga: dentro nela +Saltando, a farâ ſo com lança & eſpada +De quatrocentos Mouros deſpejada. + +Mas de Deos a eſcondida prouidencia, +Que ella ſo ſabe o bem de que ſe ſerue, +O porâ onde esforço, nem prudencia +Poderâ auer, que a vida lhe reſerue: +Em Chaul, onde em ſangue & reſistencia +O mar todo com fogo & ferro ferue, +Lhe farão, que com vida ſe não ſaya +As armadas de Egipto & de Cambaya. + +Ali o poder de muitos inimigos +Que o grande esforço, ſo com força rende, +Os ventos que faltârão, & os perigos +Domar, que ſobejârão, tudo o ofende: +Aqui reſurjão todos os antigos, +A ver o nobre ardor, que aqui ſe aprende, +Outro Sceua verão, que eſpedaçado +Não ſabe ſer rendido, nem domado. + +Com toda hũa coxa fora, que em pedaços +Lhe leua hum cego tiro, que paſſara, +Se ſerue inda dos animoſos braços, +E do grão coração, que lhe ficâra: +Ate que outro pilouro quebra os laços, +Com que co alma o corpo ſe liâra, +Ella ſolta voou da priſam fora, +Onde ſubito ſe acha vencedora. + +Vâyte alma em paz da guerra turbulenta, +Na qual tu mereceſte paz ſerena, +Que o corpo que em pedaços ſe apreſenta, +Quem o gerou vingança ja lhe ordena: +Que eu ouço retumbar a grão tormenta, +Que vem ja dar a dura, & eterna pena, +De Eſperas, Baſiliſcos, & Trabucos, +A Cambalcos crueis, & Mamelucos. + +Eis vem o pay com animo eſtupendo, +Trazendo furia & magoa por antolhos, +Com que o paterno amor lhe estâ mouendo +Fogo no coração, agoa nos olhos: +A nobre yra lhe vinha prometendo, +Que o ſangue farâ dar pellos giolhos +Nas inimigas naos ſentilo ha o Nilo, +Podelo ha o Indo ver, & o Gange ouiulo. + +Qual o Touro cioſo, que ſe enſaya +Pera a crua pelleja, os cornos tenta +No tronco dhum Carualho, ou alta Faya +E o âr ferindo, as forças eſprimenta: +Tal, antes que no ſeyo de Cambaya +Entre Franciſco irado na opulenta +Cidade de Dabul, a eſpada afia, +Abaxandolhe a tumida ouſadia. + +E logo entrando fero na enſeada +De Dio, illuſtre em cercos & batalhas, +Farâ eſpalhar a fraca & grande armada, +De Calecu, que remos tem por malhas: +A de Melique Yaz acautelada, +Cos pelouros que tu Vulcano eſpalhas, +Farâ yr ver o frio & fundo aſſento, +Secreto leito do humido elemento. + +Mas a de Mir Hocem, que abalroando +A furia eſpararà dos vingadores, +Verâ braços & pernas yr nadando, +Sem corpos, pello mar, de ſeus ſenhores, +Rayos de fogo yrão repreſentando, +No cego ardor, os brauos domadores, +Quanto ali ſentirão olhos, & ouuidos, +E fumo, ferro, flamas & alaridos. + +Mas ah, que desta proſpera vitoria, +Com que deſpois virâ ao patrio Tejo, +Quaſi lhe roubarâ a famoſa gloria +Hum ſucceſſo que triste & negro vejo, +O Cabo Tormentorio, que a memoria +Cos oſſos guardarâ: não terâ pejo +De tirar deſte mundo aquelle eſprito, +Que não tirarão toda a India, & Egito. + +Ali Cafres ſeluagens poderão, +O que destros immigos não podêrão, +E rudos paos tostados ſos farão, +O que arcos & pelouros não fizerão, +Occultos os juizos de Deos ſam, +As gentes vaãs que não nos entenderão, +Chamãolhe fado mao, fortuna eſcura, +Sendo ſo prouidencia de Deos pura. + +Mas ô que luz tamanha, que abrir ſinto, +Dizia a Ninfa, & a voz aleuantaua, +La no mar de Molinde em ſangue tinto +Das cidades de Lamo, de Oja, & Braua: +Pello Cunha tambem, que nunca extinto +Serâ ſeu nome, em todo o mar que laua +As ilhas do Auſtro, & praias, que ſe chamão +De ſam Lourẽço, & em todo o Sul ſe afamão. + +Eſta luz he do fogo, & das luzentes +Armas, com que Albuquerque yra amãſand +De Ormuz os Parſeos, por ſeu mal valentes, +Que refuſam o jugo honroſo & brando: +Ali verão as ſetas estridentes +Reciprocarſe, a ponta no ar virando, +Contra quem as tirou, que Deos paleja +Por quem eſtende a fe da madre Igreja. + +Ali do ſal os montes não defendem +De corrupção os corpos no combate, +Que mortos pella praya, & mar ſe eſtendem +De Gerum, de Mozcate, & Calayate: +Ate que a força ſo de braço aprendem +A abaxar a ceruiz, onde ſe lhe ate +Obrigação de dar o reyno inico +Das perlas de Barem tributo rico. + +Que glorioſas palmas tecer vejo, +Com que victoria a fronte lhe coroa, +Quando ſem ſombra vaã de medo, ou pejo +Toma a ilha illuſtriſsima de Goa: +Deſpois, obedecendo ao duro enſejo +A deixa, & ocaſião eſpera boa, +Com que a torne a tomar, que esforço & arte +Vencerão a fortuna, & o proprio Marte. + +Eis ja ſobrella torna & vây rompendo +Por muros, fogo, lanças, & pilouros, +Abrindo cõ a eſpada o eſpeſſo, & horrendo +Eſquadrão de Gentios, & de Mouros: +Irão ſoldados inclitos fazendo +Mais que Liões famelicos, & Touros, +Na luz que ſempre celebrada & dina +Sera da Egipcia ſancta Caterina. + +Nem tu menos fugir poderas deſte, +Poſto que rica, & posto que aſſentada +La no gremio da Aurora, onde naceſte, +Opulenta Malaca nomeada: +As ſetas venenoſas que fizeste, +Os Criſes com que ja te vejo armada, +Malaios namorados, Iaos valentes +Todos faras ao Luſo obedientes. + +Mais eſtanças cantâra esta Syrena +Em louuor do illuſtriſsimo Albuquerque, +Mas alembroulhe hũa yra que o condena, +Poſto que a fama ſua o mundo cerque: +O grande capitão, que o fado ordena +Que com trabalhos gloria eterna merque, +Mais ha de ſer hum brando companheiro +Pera os ſeus, que juiz cruel & inteiro. + +Mas em tempo que fomes, & aſperezas +Doenças, frechas, & trouoẽs ardentes, +A ſazão, & o lugar fazem cruezas +Nos ſoldados a todo obedientes: +Parece de ſeluaticas brutezas, +De peitos inhumanos & inſolentes, +Dar extremo ſuplicio pella culpa +Que a fraca humanidade & Amor deſculpa. + +Não ſerâ a culpa abominoſo inceſto, +Nem violento estupro em virgem pura, +Nem menos adulterio deſoneſto, +Mas cũa eſcraua vil laſciua & eſcura: +Se o peito ou de cioſo, ou de modeſto, +Ou de vſado a crueza fera & dura, +Cos ſeus hũa ira inſana não refrea, +Poẽ na fama alua noda negra & fea. + +Vio Alexandre Apeles namorado +Da ſua Campaſpe, & deulha alegremente, +Não ſendo ſeu ſoldado eſprimentado, +Nem vendoſe num cerco duro & vrgente: +Sentia Ciro que andaua ja abraſado +Araſpas, de Pantea em fogo ardente, +Que elle tomara em guarda, & prometia +Que nenhum mao deſejo o venceria. + +Mas vendo o Illuſtre Perſa, que vencido +Fora de amor, que em fim não tem defenſa, +Leuemente o perdoa, & foy ſeruido +Delle num caſo grande em recompenſa. +Per força de Iudita foy marido +O ferreo Balduuino, mas diſpenſa +Carlos pay della, poſto em couſas grandes, +Que viua, & pauoador ſeja de Frandes. + +Mas proſeguindo a Nimpha o longo canto, +De Soarez cantaua, que as bandeiras +Faria tremolar, & por eſpanto, +Pellas roxas Arabicas ribeiras: +Madina abominabil teme tanto, +Quanto Meca, & Gidâ, coas derradeiras +Prayas de Abaſia: Barborâ ſe teme, +Do mal de que o Emporio Zeila geme. + +A nobre ilha tambem de Taprobana, +Ia pello nome antigo tão famoſa, +Quanto agora ſoberba, & ſoberana, +Pella Cortiça calida, cheiroſa, +Della dar â tributo aa Luſitana +Bandeira, quando excelſa, & glorioſa +Vencendo ſe erguerâ na torre erguida, +Em Columbo, dos proprios tam temida. + +Tambem Sequeira as ondas Eritreas +Diuidindo, abrirâ nouo caminho, +Pera ti grande Imperio que te arreas +De ſeres de Candace, & Sabâ ninho: +Maçuà com Ciſternas de agoa cheas +Verâ, & o porto Arquico ali vizinho, +E fara deſcobrir remotas ilhas, +Que dão ao mundo nouas marauilhas. + +Virâ deſpois Meneſes, cujo ferro +Mais na Africa, que câ terâ prouado: +Caſtigarâ de Ormuz Soberba o erro, +Com lhe fazer tributo dar dobrado: +Tambem tu Gama, em pago do deſterro +Em que eſtâs, & ſerâs inda tornado, +Cos titolos de Conde, & dhonras nobres, +Virâs mandar a terra que deſcobres. + +Mas aquella fatal neceſsidade, +De quem ninguems ſe exime dos humanos, +Illuſtrado coa Regia dignidade, +Te tirarâ do mundo & ſeus enganos: +Outro Meneſes logo, cuja ydade +He mayor na prudencia, que nos anos, +Gouernarâ, & farà o ditoſo Henrique, +Que perpetua memoria delle fique. + +Não vencerâ ſomente os Malabares, +Deſtruindo Panane, com Coulete, +Cometendo as Bombardas, que nos ares +Se vingão ſo do peito que as comete: +Mas com virtudes certo ſingulares, +Vence os immigos dalma todos ſete, +De cubiça triumpha, & incontinencia, +Que em tal idade he ſuma de excellencia. + +Mas deſpois que as estrellas o chamarem, +Socederâs ô forte Mozcarenhas, +E ſe injustos o mando te tomarem, +Prometote que fama eterna tenhas: +Pera teus inimigos confeſſarem +Teu valor alto, o fado quer que venhas +A mandar, mais de palmas coroado, +Que de fortuna juſta acompanhado. + +No reino de Bintão, que tantos danos +Terâ a Malaca muito tempo feitos, +Num ſo dia as injurias de mil anos +Vingarâs, co valor de illuſtres peitos, +Trabalhos & perigos inhumanos, +Abrolhos ferreos mil, paſſos estreitos, +Tranqueiras, Baluartes, lanças, Setas, +Tudo fico que rompas & ſometas. + +Mas na India cubiça & ambição, +Que claramente poem aberto o rosto +Contra Deos, & Iustiça, te farão +Vituperio nenhum, mas ſo deſgoſto: +Quem faz injuria vil, & ſem rezão +Com forças & poder, em que estâ poſto, +Não vence, que a vitoria verdadeira, +He ſaber ter juſtiça nua, & inteira. + +Mas com tudo não nego que Sampayo +Serâ no esforço illuſtre, & aſinalado, +Mostrando ſe no mar hum fero rayo, +Que de inimigos mil verâ qualhado: +Em Bacanôr farâ cruel enſayo +No Malabar, pera que amedrontado +Deſpois a ſer vencido delle venha +Cutiâle, com quanta armada tenha. + +E não menos de Dio a fera frota +Que Chaul temerâ de grande & ouſada, +Farâ coa viſta ſo perdida & rota, +Por Heitor da Silueira, & destroçada: +Por Heitor Portugues, de quem ſe nota, +Que na Coſta Cambaica ſempre armada, +Serâ aos Guzarates tanto dano, +Quanto ja foy aos Gregos o Troyano. + +A Sampayo feroz ſocederà +Cunha, que longo tempo tem o leme, +De Chale as torres altas erguerâ, +Em quanto Dio illustre delle treme, +O forte Baçaîm ſe lhe darâ, +Não ſem ſangue porem, que nelle geme +Melique, porque a força ſo de eſpada +A tranqueira ſoberba ve tomada. + +Tras eſte vem Noronha, cujo Auſpicio +De Dio os Rumes feros afugenta, +Dio que o peito & bellico exercicio +De Antonio da ſilueira bem ſuſtenta: +Farâ em Noronha a morte o vſado officio, +Quando hum teu ramo, ô Gama, ſe eſprimẽta +No gouerno do Imperio, cujo zelo +Com medo o roxo mar farâ amarelo, + +Das mãos do teu Eſteuão vem tomar +As redeas hum, que ja ſera illuſtrado +No Braſil, com vencer & caſtigar +O Pirata Frances ao mar vſado: +Deſpois Capitão mor do Indico mar, +O muro de Dâmão ſoberbo & armado, +Eſcala, & primeiro entra a porta aberta +Que fogo & frechas mil terão cuberta. + +A eſte o Rey Cambaico ſoberbiſsimo +Fortaleza darà na rica Dio, +Porque contra o Mogor poderoſiſsimo +Lhe ajude a defender o ſenhorio: +Deſpois yrà com peito esforçadiſsimo +A tolher que não paſſe o Rey Gentio, +De Calecu, que aſsi com quantos veyo +O farâ retirar de ſangue cheyo + +Deſtroirâ a cidade Repelim, +Pondo o ſeu Rey com muitos em fugida: +E deſpois junto ao Cabo Comorim +Hũa façanha faz eſclarecida, +A frota principal da Samorim, +Que destroir o mundo não duuida, +Vencerâ co furor do ferro & fogo, +Em ſi verâ Beadâla o Morcio jogo. + +Tendo aſsi limpa a India dos immigos, +Virâ deſpois com cetro a gouernala, +Sem que ache reſiſtencia, nem parigos, +Que todos tremem delle, & nenhum fala: +So quis prouar os aſperos caſtigos +Baticalâ, que virâ ja Beadala, +De ſangue & corpos mortos ficou chea, +E de fogo & trouoẽs desfeita & fea. + +Eſte ſera Martinho, que de Marte +O nome tem coas obras diriuado, +Tanto em armas illuſtre em toda parte, +Quanto em conſelho ſabio & bem cuidado: +Socederlhe ha ali Castro, que o estandarte +Portugues terâ ſempre leuantado, +Conforme ſucceſſor ao ſuccedido +Que hum ergue Dio, outro o defende erguido. + +Perſas feroces, Abaſsis & Rumes +Que trazido de Roma o nome tem, +Varios de geſtos, varios de custumes +Que mil naçoẽs ao cerco feras vem +Farão dos ceos ao mundo vãos queixumes +Porque hũs poucos a terra lhe detem, +Em ſangue Portugues juram deſcridos +De banhar os bigodes retorcidos. + +Baſiliſcos medonhos & Liões, +Trabucos feros, minas encubertas, +Suſtenta Mozcarenhas cos barões, +Que tam ledos as mortes tem por certas: +Ate que nas mayores opreſſoẽs +Caſtro libertador, fazendo offertas +Das vidas de ſeus filhos, quer que fiquem +Com fama eterna, & a Deos ſe ſacrifiquem. + +Fernando hum delles, ramo da alta pranta, +Onde o violento fogo com ruido, +Em pedaços os muros no ar leuanta, +Serâ ali arrebatado, & ao ceo ſubido: +Aluaro quando o inuerno o mundo eſpanta, +E tem o caminho humido impedido, +Abrindoo, vence as ondas, & os perigos, +Os ventos, & deſpois os inimigos. + +Eis vem deſpois, o pay, que as ondas corta +Co reſtante da gente Luſitana +E com força & ſaber, que mais importa, +Batalha da felice & ſoberana: +Hũs paredes ſubindo eſcuſam porta, +Outros a abrem, na fera eſquadra inſana, +Feitos farão tão dinos de memoria, +Que não caibão em vêrſo, ou larga hiſtoria. + +Este deſpois em campo ſe apreſenta +Vencedor forte & intrepido, ao poſſante +Rey de Cambaya, & a viſta lhe amedrenta +Da fera multidão pradrupedante: +Não menos ſuas terras mal ſuſtenta +O Hydalcham do braço triumphante +Que caſtigando vay Dâbul na coſta +Nem lhe eſcapou Pondâ no ſertão posta. + +Estes & outros Baroẽs por varias partes, +Dinos todos de fama & marauilha, +Fazendoſe na terra brauos Martes, +Virão lograr os gostos deſta Ilha: +Varrendo triumphantes eſtandartes +Pellas ondas, que corta a aguda quilha, +E acharão eſtas Nimphas & eſtas meſas, +Que glorias & hõras ſam de arduas empreſas + +Aſsi cantaua a Nimpha & as outras todas +Com ſonoroſo aplauſo vozes dauão, +Com que feſtejão as alegres vodas, +Que com tanto prazer ſe celebrauão: +Por mais que da Fortuna andem as rodas +Nũa conſona voz todas ſoauão, +Não vos hão de faltar gente famoſa, +Honra, valor, & fama glorioſa. + +Deſpois que a corporal neceſsidade +Se ſatisfez do mantimento nobre, +E na armonia & doce ſuauidade, +Virão os altos feitos, que deſcobre, +Thetis de graça ornada, & grauidade, +Pera que com mais alta gloria dobre, +As festas deſte alegre & claro dia, +Pera o felice Gama aſsi dizia. + +Faz te merce barão a Sapiencia +Suprema, de cos olhos corporais +Veres, o que não pode a vã ciencia +Dos errados & miſeros mortais: +Sigueme firme, & forte, com prudencia +Por este monte eſpeſſo, tu cos mais. +Aſsi lhe diz, & o guia por hum mato +Arduo, difficil, duro a humano trato. + +Não andão muito que no erguido cume +Se acharão, onde hum campo ſe eſmaltaua, +De Eſmeraldas, Rubis, tais que preſume +A vista, que diuino chão piſaua: +Aqui hum globo vem no ar, que o lume +Clariſsimo por elle penetraua, +De modo que o ſeu centro eſta euidente, +Como a ſua ſuperficia, claramente. + +Qual a materia ſeja não ſe enxerga, +Mas enxergaſſe bem que estâ composto +De varios orbes, que a diuina verga +Compos, & hum centro a todos ſo tem poſto: +Voluendo, ora ſe abaxe, agora ſe erga, +Nũca ſergue, ou ſe abaxa, & hũ meſmo roſto +Por toda a parte tem, & em toda a parte +Começa & acaba, em fim por diuina arte. + +Vniforme, perſeito, em ſi ſoſtido, +Qual em fim o Archetipo, que o criou: +Vendo o Gama este globo, comouido +De eſpanto & de deſejo ali ficou, +Dizlhe a Deoſa, O traſunto reduzido +Em pequeno volume aqui te dou, +Do mundo aos olhos teus, pera que vejas +Por onde vas, & yrâs, & o que deſejas. + +Ves aqui a grande machina do mundo, +Eterea, & elemental, que fabricada +Aſsi foy do ſaber alto, & profundo, +Que he ſem principio, & meta limitada, +Quem cerca em derredor eſte rotundo +Globo, & ſua ſuperficia tão limada, +He Deos, mas o q̃ he Deos ninguẽ o entende, +Que a tanto o engenho humano não ſe eſtẽde. + +Eſte orbe que primeiro vay cercando +Os outros mais pequenos, que em ſi tem, +Que eſtâ com luz tão clara radiando, +Que a vista cega, & a mente vil tambem, +Empireo ſe nomea, onde logrando +Puras ahnas estão de aquelle bem, +Tamanho, que elle ſo ſe entende & alcança, +De quem não ha no mundo ſemelhança. + +Aqui ſo verdadeiros glorioſos +Diuos eſtão, porque eu, Saturno & Iano, +Iupiter, Iuno, fomos fabuloſos +Fingidos de mortal & cego engano: +So pera fazer verſos dedeitoſos +Seruimos, & ſe mais o trato humano +Nos pode dar, he ſo que o nome noſſo +Neſtas eſtrellas pos o engenho voſſo. + +E tambem porque a ſanta prouidencia, +Que em Iupiter aqui ſe repreſenta, +Por eſpiritos mil, que tem prudencia, +Gouerna o mundo todo, que ſuſtenta: +Inſinalo a prephetica ſciencia, +Em muitos das exemplos, que apreſenta, +Os que ſam bõs, guiando fauorecem, +Os maos, em quanto podem, nos ompecem. + +Quer logo aqui a pintura que varîa, +Agora deleitando, ora inſinando, +Darlhe nomes, que a antiga Poeſia +A ſeus Deoſes ja dera, fabulando: +Que os Anjos de celeſte companhia +Deoſes o ſacro verſo eſtâ chamando, +Nem nega que eſſe nome preminente, +Tambem aos maos ſe dà, mas falſamente. + +Em fim que o ſumo Deos, que por ſegundas +Cauſas obra no mundo, tudo manda: +E tornando a contarte das profundas +Obras da mão diuina veneranda, +Debaxo deſte circulo onde as mundas +Almas diuinas gozão, que não anda, +Outro corre tam leue & tam ligeiro, +Que não ſe enxerga, he o Mobile primeiro. + +Com eſte rapto, & grande mouimento, +Vão todos os que dentro tem no ſeyo, +Por obra deſte, o Sol andando atento +O dia & noite faz, com curſo alheyo: +Debaxo deſte leue anda outro lento, +Tam lento, & ſojugado a duro freyo, +Que em quanto Phebo, de luz nunca eſcaſſo, +Dozentos curſos faz, dâ elle hum paſſo. + +Olha estoutro debaxo, que eſmaltado +De corpos liſos anda, & radiantes, +Que tambem nelle tem curſo ordenado, +E nos ſeus axes correm ſcintilantes: +Bem ves como ſe veſte, & faz ornado +Co largo cinto douro, que estellantes +Animais doze traz afigurados, +Apoſentos de Phebo limitados. + +Olha por outras partes a pintura, +Que as eſtrellas fulgentes vão fazendo. +Olha a carreta, atenta a Cinoſura, +Andromeda, & ſeu pay, & o drago horrẽdo: +Vê de Caſsiopea a fermoſura, +E do Orionte o geſto turbulento, +Olha o Ciſne morrendo que ſoſpira, +A Lebre, & os Cães, a Nao, & a doce Lira. + +Debaxo deſte grande firmamento, +Ves o ceo de Saturno Deos antigo, +Iupiter logo faz o mouimento, +E Marte abaxo bellico inimigo, +O claro olho do ceo no quarto aſſento, +E Venus, que os amores traz conſigo, +Mercurio de eloquencia ſoberana, +Com tres roſtos debaxo vay Diana. + +Em todos eſtes orbes, differente +Curſo veras, nũs graue, & noutros leue: +Ora fogem do centro longamente, +Ora da terra eſtão caminho breue, +Bem como quis o padre omnipotente +Que o fogo fez, & o ar, o vento, & neue, +Os quaes veras que jazem mais a dentro, +E tem co mar a terra por ſeu centro. + +Neſte centro pouſada dos humanos, +Que não ſomente ouſados ſe contentão +De ſoffrerem da terra firme os danos +Mas inda o mar inſtabil eſprimentão, +Virâs as varias partes, que os inſanos +Mares diuidem, onde ſe apouſentão +Varias nações, que mandão varios Reis, +Varios costumes ſeus, & varias leis. + +Ves Europa Chriſtaã mais alta & clara +Que as outras em policia, & fortaleza: +Ves Africa dos bens do mundo auara, +Inculta, & toda chea de bruteza, +Co Cabo que ate qui ſe vos negâra, +Que aſſentou para o Auſtro a natureza: +Olha eſſa terra toda, que ſe habita +Deſſa gente ſem ley, quaſi infinita. + +Vé do Benomotapa o grande imperio, +De ſeluatica gente, negra & nua: +Onde Gonçalo morte & vituperio +Padecerâ, polla ſe ſancta ſua: +Nace por aste incognito Hemiſperio +O metâl, por que mais a gente ſua, +Ve que do lago, donde ſe derrama +O Nilo, tambem vindo eſtâ Cuama. + +Olha as caſas dos negros, como estão +Sem portas, confiados em ſeus ninhos +Na justiça real, & defenſam, +E na fidelidade dos vizinhos: +Olha delles a bruta multidão +Qual bando eſpeſſo & negro de Estorninhos, +Combaterà em Sofala a fortaleza, +Que defenderâ Nhaya com destreza. + +Olha la as alagoas, donde o Nilo +Nace, que não ſouberão os antigos, +velo rega, gerando o Crocodilo, +Os pouos Abaſsis de Chriſto amigos, +Olha como ſem muros (nouo eſtilo) +Se defendem milhor dos inimigos, +Ve Meroe, que ilha foy de antiga fama +Que ora dos naturais Nobâ ſe chama. + +Neſta remota terra, hum filho teu +Nas armas coutra os Turcos ſerâ claro, +Ha de ſer dom Chriſtouão o nome ſeu, +Mas contra o fim fatal não ha reparo: +Ve ca a Coſta do mar, onde te deu +Melinde hoſpicio gaſalhoſo & caro +O Rapto rio nota, que o romance +Da terra chama Obî, entra em Quilmance. + +O Cabo ve ja Aromâta chamado, +E agora Goardofû dos moradores, +Onde começa a toca do afamado +Mar roxo, que do fundo toma as cores +Este como limite eſta lançado +Que diuide Aſia de Africa, & as milhores +Pouoaçoẽs, que a parte Africa tem +Maçuâ ſam, Arquico, & Suamquem. + +Ves o extremo Suez, que antigamente +Dizem que foy dos Heroas a cidade, +Outros dizem qne Arſinoe, & ao preſente +Tem das frotas do Egipto a poteſtade: +Olha as agoas, nas quaes abrio patente +Eſtrada o gram Mouſes na antiga ydade +Aſia começa aqui, que ſe apreſenta +Em terrás grande, em reinos opulenta. + +Olha o monte Sinay, que ſe ennobrece +Co ſepulchro de ſancta Caterina, +Olha Toro, & Gidâ, que lhe falece +Agoa das fontes doce, & criſtalina: +Olha as portas do estreito, que fenece +No reyno da ſeca Adem, que confina +Com a ſerra Darzira, pedra viua, +Onde chuua dos Ceos ſe não deriua. + +Olha as Arabias tres, que tanta terra +Tomão, todas da gente vaga, & baça, +Donde vem os caualos pera a guerra +Ligeiros, & feroces, de alta raça: +Olha a coſta que corre ate que cerra +Outro eſtreito de Perſia, & faz a traça +O Cabo, que co nome ſe apellida, +Da cidade Fartaque ali ſabida, + +Olha Dofar inſigne, porque manda +O mais cheiroſo encenço pera as aras: +Mas atenta ja ca deſtroutra banda +De Roçalgate, & prayas ſempre auaras, +Começa o reyno Ormuz, que todo ſe anda +Pellas ribeiras, que inda ſerão claras +Quando as gales do Turco, & fera armada +Virem de Castel branco nua a eſpada. + +Olha o Cabo Aſaboro, que chamado +Agora he Moçandão dos nauegantes. +Por aqui entra o lago, que he fechado +De Arabia, & Perſias terras abundantes. +Atenta a ilha Barem, que o fundo ornado +Tem das ſuas perlas ricas, & imitantes +Aa cor da Aurora: & ve na agoa ſalgada +Ter o Tigris & Eufrates hũa entrada. + +Olha da grande Perſia o imperio nobre +Sempre posto no campo, & nos caualos, +Que ſe injuria de vſar fundido cobre, +E de não ter das armas ſempre os calos: +Mas ve a ilha Gerum, como deſcobre +O que fazem do tempo os interualos, +Que da cidade Armuza, que ali eſteue +Ella o nome deſpois, & a gloria teue. + +Aqui de dom Felipe de Meneſes +Se mostrarâ a virtude em armas clara, +Quando com muito poucos Portugueſes +Os muitos Parſeos vencerâ de Lara: +Virão prouar os golpes & reueſes +De dom Pedro de Souſa, que prouâra +Ia ſeu braço em Ampaza, que deixada +Terâ por terra a força ſo de eſpada. + +Mas deixemos o eſtreito, & o conhecido +Cabo de Iaſque dito ja Carpella, +Com todo o ſeu terreno mal querido +Da natura, & dos dões vſados della, +Carmania teue ja por apelido: +Mas ves o fermoſo Indo, que daquella +Altura nace junto aa qual tambem +Doutra altura correndo o Gange vem. + +Olha a terra de Vlcinde fertiliſsima, +E de Iaquete a intima enſeada, +Do mar a enchente ſubita grandiſsima, +E a vazante que foge apreſſurada: +A terra de cambaya ve ríquiſsima, +Onde do mar o ſeo fazmentrada, +Cidades outras mil, que vou paſſando, +A voſoutros aqui ſe estão guardando. + +Ves corre a coſta cèlebre Indiana +Pera o Sul, ate o Cabo Comori +Ia chamado Cori, que Taprobana +(Que ora he Ceilão) de fronte tem de ſi: +Por este mar a gente Luſitana +Qua com armas virâ deſpois de ti, +Terâ vitorias terras, & cidades +Nas quaes ham de viuer muitas ydades, + +As prouincias, que entre hum & o outro rio +Ves com varias nações, ſam infinitas: +Hum reyno Mahometa, outro Gentio, +A quem tem o Demonio leis eſcriptas: +Olha que de Narſinga o ſenhorio +Tem as reliquias ſanctas & benditas, +Do corpo de Thome, barão ſagrado, +Qut a Ieſu Chriſto teue a mão no lado. + +Aqui a cidade foy, que ſe chamaua +Meliapor, fermoſa, grande, & rica: +Os Idolos antigos adoraua: +Como inda agora faz a gente inica: +Longe do mar naquelle tempo eſtaua: +Quando a fe, que no mundo ſe pubrica, +Thome vinha prègando, & ja paſſàra +Prouincias mil do mundo, que inſinàra. + +Chegado aqui prègando, & junto dando +A doentes ſaude, a mortos vida +A caſo traz hum dia o mar vagando, +Hum lenho de grandeza deſmedida: +Deſeja o Rey, que andaua edificando, +Fazer delle madeira, & não duuida +Poder tiralo a terra compoſſantes +Forças dhomẽs, de engenhos de Aliphantes. + +Era tão grande o peſo do madeiro +Que ſo pera abalarſe, nada abaſta, +Mas o nuncio de Christo verdadeiro, +Menos trabalho em tal negocio gaſta: +Ata o cordão que traz por derradeiro +No tronco, & facilmente o leua & arraſta +Pera onde faça hum ſumptuoſo templo, +Que ficaſſe aos futuros por exemplo. + +Sabia bem que ſe com fe formada +Mandar a hum monte ſurdo, que ſe moua, +Que obedecerà logo aa voz ſagrada, +Que aſsi lho inſinou Chriſto, & elle o proua: +A gente ficon diſto aluoroçada, +Os Bramenes o tem por couſa noua, +Vendo os milagres, vendo a ſantidade, +Hão medo de perder autoridade. + +Sam estes ſacerdotes dos Gentios, +Em quem mais penetrado tinha enueja, +Buſcão maneiras mil, buſcão deſuios +Com que Thome não ſe ouça, ou morto ſeja: +O principal, que ao peito traz os fios, +Hum caſo horrendo faz, que o mundo veja +Que inimiga não ha tão dura, & fera, +Como a virtude falſa da ſincera. + +Hum filho proprio mata, & logo acuſa +De homecidio Thome, que era innocente +Dâ falſas teſtemunhas, como ſe vſa +Condenarã no a morte breuemente: +O Santo que não vè milhor eſcuſo, +Que apellar pera o Padre omnipotente, +Quer diante do Rey, & dos ſenhores, +Que ſe faça hum milagre dos mayores. + +O corpo morto manda ſer trazido +Que reſucite, & ſeja perguntado, +Quem foy ſeu matador, & ſerâ crido +Por teſtemunho o ſeu mais aprouado: +Viram todos o moço viuo erguido +Em nome de Ieſu crucificado, +Dâ graças a Thome, que lhe deu vida +E deſcobre ſeu pay ſer homicida. + +Este milagre fez tamanho eſpanto, +Que o Rey ſe banha logo na ago ſanta, +E muitos apos elle, hum beija o manto +Outro lauuor do Deos de Thome canta: +Os Bramenes ſe encherão de odio tanto, +Com ſeu veneno os morde enueja tanta, +Que perſuadindo a iſſo o pouo rudo, +Determinão matalo em fim de tudo. + +Hum dia que prègando ao pouo estaua, +Fingirão entre a gente hum arroido, +Ia Christo neſte tempo lhe ordenaua, +Que padecendo foſſe ao Ceo ſubido: +A multidão das pedras, que voaua, +No Santo dâ ja a tudo offerecido, +Hum dos maos por fartarſe mais de preſſa, +Com crua lança o peito lhe atraueſſa. + +Chorarão te Thome, o Gange & o Indo, +Choroute toda a terra que piſaſte, +Mais te chorão as almas, que veſtindo +Se yão da ſancta Fe, que lhe inſinaſte: +Mas os Anjos do ceo cantando, & rindo, +Te recebem na gloria que ganhaſte, +Pedimos te, que a Deos ajuda peças, +Com que os teus Luſitanos fauoreças. + +E voſoutros que os nomes vſurpais +De mandados de Deos, como Thome, +Dizey ſe ſois mandados, como estais +Sem yrdes a pregar a ſancta fe? +Olhay que ſe ſois Sal, & vos danais +na patria, onde Propheta ninguem he, +Com que ſe ſalgarão em noſſos dias +(Infieis deixo) tantas Hereſias? + +Mas paſſo esta materia perigoſa, +E tornemos aa coſta debuxada, +Ia com eſta cidade tão famoſa, +Se faz curua a Gangetica enſeada, +Corre Narſinga rica, & poderoſa, +Corre Orixa de roupas abaſtada, +No fundo da enſeada o illustre rio +Ganges vem ao ſalgado ſenhorio. + +Ganges, no qual os ſeus habitadores +Morrem banhados, tendo por certeza, +Que inda que ſejão grandes peccadores, +Eſta agoa ſancta os laua, & da pureza: +Ve Chatigão cidade das milhores +De Bengala prouincia, que ſe preza +De abundante, mas olha que eſtâ poſta +Pera o Auſtro daqui virada a coſta. + +Olha o reyno Arracão, olha o aſſento +De Pegu, que ja mõſtros pouoarão, +Mõſtros filhos do feo ajuntamento +Dhũa molher & hum cão, que ſos ſe acharão: +Aqui ſoante Arame no inſtromento +Da geração cuſtumão, o que vſarão +Por manha da Raynha, que inuentando +Tal vſo, deitou fora o error nefando. + +Olha Tauay cidade, onde começa +De Sião largo o imperio tão comprido, +Tenaſſarâ, Quedâ, que he ſo cabeça +Das que Pimenta ali tem produzido: +Mais auante fareis que ſe conheça +Malaca, por Emperio ennobrecido, +Onde toda a prouincia do mar grande, +Suas mercadorias ricas mande. + +Dizem que deſta terra coas poſſantes +Ondas o mar entrando diuidio, +A nobre Ilha Samatra, que ja dantes +Iuntas ambas a gente antiga vio: +Cherſoneſo foy dita, & das prestantes +Veas douro, que a terra produzio, +Aurea por epitheto lhe ajuntarão, +Alguns que foſſe Ophir ymaginarão. + +Mas na ponta da terra Cingapura +Veras, onde o caminho aas naos ſe eſtreita, +Daqui tornando a Costa aa Cynoſura +Se encurua, & pera a Aurora ſe endereita: +Ves Pam, Patane, reinos, & a longura +De Syão que eſtes & outros mais ſugeita +Olha o rio Menão, que ſe derrama +Do grande lago que Chiamay ſe chama. + +Ves neſte grão terreno os differentes +Nomes de mil nações nunca ſabidas, +Os Laos em terra & numero potentes, +Auâs, Bramàs, por ſerras tão compridas: +Ve nos remotos montes outras gentes +Que Gueos ſe chamão de ſeluages vidas, +Humana carne comem, mas a ſua +Pintão com ferro ardente, vſança crua: + +Ves paſſa por Camboja Mecom Rio, +Que capitão das agoas ſe interpreta, +Tantas recebe doutro ſo no eſtio, +Que alaga os campos largos, & inquieta, +Tem as enchentes quaes o Nilo frio, +A gente delle crè como indiſcreta, +Que pena & gloria tem deſpois de morte +Os brutos animais de toda ſorte. + +Eſte receberâ placido & brando, +No ſeu regaço os Cantos, que molhados +Vem do naufragio triſte, & miſerando, +Dos proceloſos baxos eſcapados: +Das fomes, dos perigos grandes, quando +Serâ o injuſto mando executado +Naquelle, cuja Lira ſonoroſa, +Será mais affamada que ditoſa. + +Ves corre a coſta que Champà ſe chama, +Cuja mata he do pao cheiroſo ornada, +Ves Cauchichina eſtâ de eſcura fama, +E de Ainão ve a incognita enſeada, +Aqui o ſoberbo imperio, que ſe afama +Com terras, & riqueza não cuidada, +Da China corre, & ocupa o ſenhorio +Deſdo Tropico ardente ao Cinto frio. + +Olha o muro, & edificio nunca crido, +Que entre hum imperio & o outro ſe edifica, +Certiſsimo ſinal, & conhecido, +Da potencia real, ſoberba, & rica: +Eſtes o Rey que tem não foy nacido +Princepe, nem dos pais aos filhos fica +Mas elegem aquelle que he famoſo +Por caualeiro ſabio & virtuoſo. + +Inda outra muita terra ſe te eſconde, +Ate que venha o tempo de moſtrar ſe, +Mas não deixes no mar as Ilhas, onde +A natureza quis mais affamarſe: +Eſta mea eſcondida que reſponde +De longe aa China donde vem buſcarſe, +He Iapão, onde nace a prata fina, +Que illustrada ſerà coa Ley diuina. + +Olha ca pellos mares do Oriente +As infinitas Ilhas eſpalhadas +Ve Tidore, & Tarnate, co feruente +Cume, que lança as flamas ondeadas +As aruores verâs do Crauo ardente, +Co ſangue Portugues inda compradas, +Aqui ha as aureas aues, que não decem +Nunca a terra, & ſo mortas aparecem. + +Olha de Banda as Ilhas, que ſe eſinaltão +Da varia cor, que pinta o roxo fruto, +As aues variadas, que ali faltão, +Da verde Noz tomando ſeu tributo: +Olha tambem Bornèo, onde não faltão +Lagrimas, no licor qualhado, & enxuto, +Das aruores, que Cânfora he chamado, +Com que da Ilha o nome he celebrado. + +Ali tambem Timor, que o lenho manda +Sàndalo ſalutifero, & cheiroſo, +Olha a Sunda tão larga, que hũa banda +Eſconde pera o Sul difficultoſo: +A gente do Sertão, que as terras anda, +Hum rio diz que tem miraculoſo, +Que por onde elle ſo ſem outro vae, +Conuerte em pedra o pao que nelle cae: + +Ve naquella que o tempo tornou Ilha, +Que tambem flamas tremulas vapôra, +A fonte que oleo mana, & a marauilha +Do cheiroſo licor, que o tronco chora, +Cheiroſo mais que quanto eſtila a filha +De Cyniras, na Arabia onde ella mora, +E ve que tendo quanto as outras tem, +Branda ſeda & fino ouro dà tambem. + +Olha em Ceilão, que o monte ſe aleuanta +Tanto, que as nuuẽs paſſa, ou a viſta engana, +Os naturaes o tem por couſa ſancta, +Polla pedra onde eſtâ a pègada humana: +Nas ilhas de Maldiua nace a prama +No profundo das agoas ſoberana, +Cujo pomo contra o veneno vrgente +He tido por Antidoto excelente. + +Verâs de fronte eſtar do roxo eſtreito +Socotorâ co amaro Aloe famoſa, +Outras ilhas no mar tambem ſogeito +A vos, na coſta de Affrica arenoſa, +Onde ſae do cheiro mais perfeito +A maſſa ao mundo occulta, & precioſa, +De ſam Lourenço ve a Ilha afamada, +Que Madagaſcar he dalguũs chamada. + +Eis aqui as nouas partes do Oriente, +Que voſoutros agora ao mundo dais, +Abrindo a porta ao vaſto mar patente, +Que com tão forte peito nauegais: +Mas he tambem razão, que no Ponente +Dhum Luſitano hum feito inda vejais, +Que de ſeu Rey moſtrando ſe agrauado +Caminho ha de fazer nunca cuidado. + +Vedes a grande terra que contina +Vay de Caliſto ao ſeu contrario polo, +Que ſoberba a farâ a luzente mina +Do metal, que a cor tem do louro Apolo, +Caſtella voſſa amiga ſerà dina +De lançarlhe o colar ao rudo colo, +Varias prouincias tem de varias gentes +Em ritos & cuſtumes differentes. + +Mas ca onde mais ſe alarga, ali tereis +Parte tambem co pao vermelho nota, +De Sancta Cruz o nome lhe poreis, +Deſcobrila ha a primeira voſſa frota: +Ao longo deſta coſta que tereis +Yrâ buſcando a parte mais remota +O Magalhães, no feito com verdade +Portugues, porem não na lealdade. + +Deſque paſſar a via mais que mea, +Que ao Antartico polo vay da linha, +Dhũa eſtatura quaſi Gigantea +Homẽs verâ, da terra ali vizinha: +E mais auante o eſtreito, que ſe arrea +Co nome delle agora, o qual caminha +Pera outro mar, & terra que fica onde +Com ſuas frias aſas o Auſtro a eſconde. + +Ate qui, Portugueſes, concedido +Vos he ſaberdes os futuros feitos, +Que pello mar, que ja deixais ſabido, +Virão fazer barões de fortes peitos: +Agora, pois que tendes aprendido +Trabalhos, que vos fação ſer aceitos +Aas eternas eſpoſas, & fermoſas, +Que coroas vos tecem glorioſas. + +Podeis vos embarcar, que tendes vento +E mar tranquilo pera a patria amada: +Aſsi lhe diſſe, & logo mouimento +Fazem da Ilha alegre, & namorada: +Leuão refreſco, & nobre mantimento, +Leuão a companhia deſejada, +Das Nimphas que ham de ter eternamente, +Por mais tempo que o Sol o mundo aquente. + +Aſsi forão cortando o mar ſereno, +Com vento ſempre manſo, & nunca yrado, +Ate que ouuerão viſta do terreno +Em que nacerão, ſempre deſejado: +Entrarão pella foz do Tejo ameno, +E a ſua patria, & Rey temido & amado, +O premio & gloria dão, porque mandou +E com titolos nouos ſe illuſtrou. + +No mais Muſa, no mais, que a Lira tenho +Deſtemparada, & a voz enrouquecida, +E não do canto, mas de ver que venho +Cantar a gente ſurda, & endurecida: +O fauor com que mais ſe acende o engenho, +Não no dâ a patria não, que esta metida, +No goſto da cubiça, & na rudeza +Dhũa auſtera, apagada, & vil triſteza. + +E não ſey porque influxo de deſtino +Não tem hum ledo orgulho, & geral gosto, +Que os animos leuanta de contino, +A ter pera trabalhos ledo o roſto: +Por iſſo vos ò Rey, que por diuino +Conſelho eſtais no regio ſolio poſto, +Olhay que ſois (& vede as outras gentes) +Senhor ſo de vaſſallos excellentes. + +Olhay que ledos vão, por carias vias, +Quaes rompentes liões, & brauos touros, +Dando os corpos a fomes, & vigias, +A ferro, a fogo, a ſetas, & pilouros: +A quentes regiões, a plagas frias, +A golpes da Idolatras, & de Mouros, +A perigos incognitos domundo, +A naufragios, a pexes, ao profnndo: + +Por vos ſeruir a tudo aparelhados, +De vos tam longe ſempre obedientes, +A quaeſquer voſſos aſperos mandados, +Sem dar reposta promptos & contentes, +So com ſaber que ſam de vos olhados, +Demonios infernais, negros & ardentes, +Cometerão conuoſco, & não duuido +Que vencedor vos fação, não vencido. + +Fauoreceyos logo, & alegrayos +Com a preſença, & leda humanidade, +De riguroſas leis deſaliuayos, +Que aſsi ſe abre o caminho aa ſanctidade: +Os mais eſprimentados leuantayos, +Se com a eſperiencia tem bondade, +Pera voſſo concelho, pois que ſabem +O como, o quando, & onde as couſas cabem. + +Todos fauorecei em ſeus officios, +Segundo tem das vidas o talento, +Tenhão Religioſos exercicios +De rogarem por voſſo regimento, +Com jejuns, deſciplina, pellos vicios +Comuns, toda ambição terão por vento, +Que o bom Religioſo verdadeiro, +Gloria vaã não pretende nem dinheiro. + +Os Caualeiros tende em muita eſtima, +Pois com ſeu ſangue intrepido & feruente, +Eſtendem não ſomente a ley de cima, +Mas inda voſſo imperio preeminente: +Pois aquelles que a tão remoto clima +Vos vão ſeruir com paſſo diligente, +Dous inimigos vencem, hũs os viuos, +(E o que he mais) os trabalhos exceſsiuos. + +Fazey ſenhor que nunca os admirados +Alemães, Galos, Italos, & lngleſes +Poſſam dizer que ſam pera mandados, +Mais que pera mandar os Portugueſes: +Tomay conſelho ſo deſprimentados, +Que virão largos anos, largos meſes, +Que poſto que em cientes muito cabe, +Mais em particular o experto ſabe. + +De Phormião Philoſopho elegante +Vereis como Anibal eſcarnecia, +Quando das artes bellicas diante +Delle com larga voz trataua & lia: +A diſciplina militar preſtante +Não ſe aprende ſenhor na fantaſia +Sonhando, imaginando, ou eſtudando, +Se não vendo, tratando, & pelejando. + +Mas eu que falo humilde, baxo, & rudo +De vos não conhecido, nem ſonhado? +Da boca dos pequenos ſey com tudo, +Que o lauuor ſae as vezes acabado, +Nem me falta na vida honesto eſtudo +Com longa eſperiencia misturado, +Nem engenho, que aqui vereis preſente, +Couſas que juntas ſe achão raramente. + +Pera ſeruiruos braço aas armas feito, +Pera cantaruos mente aas Muſas dada, +So me falece ſer a vos aceito, +De quem virtude deue ſer prezada: +Se me iſto o ceo concede, & o voſſo peito +Dina empreſa tomar de ſer cantada, +Como a preſaga mente vaticina, +Olhando a voſſa inclinação diuina. + +Ou fazendo que mais que a de Meduſa, +A viſta voſſa tema o monte Atlante, +Ou rompendo nos campos da Ampeluſa +Os muros de Marrocos & Trudante, +A minha ja eſtimada & leda muſa, +Fico, que em todo o mundo de vos cante, +De ſorte que Alexandro em vos ſe veja, +Sem aa dita de Achiles ter enueja. + +F I M. + + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS *** + +***** This file should be named 27236-0.txt or 27236-0.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/2/3/27236/ + +Produced by Rui Baptista. This book was transcribed from +the online scans produced by the Portuguese _Biblioteca +Nacional Digital_ (http://purl.pt/1/1/). + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/27236-0.zip b/27236-0.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..19a4a39 --- /dev/null +++ b/27236-0.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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