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+The Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os Lusíadas
+
+Author: Luís Vaz de Camões
+
+Release Date: November 11, 2008 [EBook #27236]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rui Baptista. This book was transcribed from
+the online scans produced by the Portuguese _Biblioteca
+Nacional Digital_ (http://purl.pt/1/1/).
+
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+
+
+
+
+OS
+LVSIADAS
+de Luis de Ca-
+moẽs.
+
+COM PRIVILEGIO
+REAL.
+
+Impreſſos em Lisboa, com licença da
+ſancta Inquiſição, & do Ordinario:
+em caſa de Antonio
+Gõçaluez Impreſſor.
+1572.
+
+
+
+Eu el Rey faço ſaber aos que eſte Aluara virem
+que eu ey por bem & me praz dar licença
+a Luis de Camoẽs pera que poſſa fazer imprimir
+neſta cidade de Lisboa, hũa obra em
+Octaua rima chamada Os Luſiadas, que contem
+dez cantos perfeitos, na qual por ordem
+poetica em verſos ſe declarão os principaes feitos
+dos Portugueſes nas partes da India depois que ſe deſcobrio a
+nauegação pera ellas por mãdado del Rey dom Manoel meu viſauo
+que ſancta gloria aja, & iſto com priuilegio pera que em tempo
+de dez anos que ſe começarão do dia que ſe a dita obra acabar
+de empremir em diãte, ſe não poſſa imprimir nẽ vender em meus
+reinos & ſenhorios nem trazer a elles de fora, nem leuar aas ditas
+partes da India pera ſe vender ſem licẽça do dito Luis de Camoẽs
+ou da peſſoa que pera iſſo ſeu poder tiuer, ſob pena de quẽ o contrario
+fizer pagar cinquoenta cruzados & perder os volmes que
+imprimir, ou vender, a metade pera o dito Luis de Camoẽs, & a
+outra metade pera quem os acuſar. E antes de ſe a dita obra vender
+lhe ſera poſto o preço na meſa do deſpacho dos meus Deſembargadores
+do paço, o qual ſe declarará & porá impreſſo na primeira
+folha da dita obra pera ſer a todos notorio, & antes de ſe imprimir
+ſera viſta & examinada na meſa do conſelho geral do ſanto
+officio da Inquiſição pera cõ ſua licença ſe auer de imprimir, &
+ſe o dito Luis de Camões tiuer acrecentados mais algũs Cantos,
+tambem ſe imprimirão auendo pera iſſo licença do ſancto officio,
+como acima he dito. E eſte meu Aluara ſe imprimirà outroſi no
+principio da dita obra, o qual ey por bem que valha & tenha força
+& vigor, como ſe foſſe carta feita em meu nome por mim aſſinada
+& paſſada por minha Chancellaria ſem embargo da Ordenação
+do ſegundo liuro, tit. xx. que diz que as couſas cujo effeito
+ouuer de durar mais que hum ano paſſem per cartas, & paſſando
+por aluaras não valhão. Gaſpar de Seixas o fiz em Lisboa, a .xxiiij:
+de Setembro, de M.D.LXXI. Iorge da Coſta o fiz eſcreuer.
+
+
+
+❧ OS LVSIADAS
+DE LVIS DE
+CAMÕES.
+
+Canto primeiro.
+
+As armas, & os ba-
+rões aſsinalados,
+Que da Occidental praya Luſi-
+tana,
+Por mares nunca de antes na-
+uegados,
+Paſſaram, ainda alem da Taprobana,
+Em perigos, & guerras esforçados,
+Mais do que prometia a força humana.
+E entre gente remota edificarão
+Nouo Reino, que tanto ſublimarão.
+
+E tambem as memorias glorioſas
+Daquelles Reis, que forão dilatando
+A Fee, o Imperio, & as terras vicioſas
+De Affrica, & de Aſia, andarão deuaſtando,
+E aquelles que por obras valeroſas
+Se vão da ley da Morte libertando.
+Cantando eſpalharey por toda parte,
+Se a tanto me ajudar o engenho & arte.
+
+Ceſſem do ſabio Grego, & do Troyano,
+As nauegações grandes que fizerão:
+Calleſe de Alexandro, & de Trajano,
+A fama das victorias que tiuerão,
+Que eu canto o peyto illuſtre Luſitano,
+A quem Neptuno, & Marte obedeçerão:
+Ceſſe tudo o que a Muſa antigua canta,
+Que outro valor mais alto ſe aleuanta.
+
+E vos Tagides minhas, pois criado
+Tendes em my hum nouo engenho ardente.
+Se ſempre em verſo humilde, celebrado
+Foy de my voſſo rio alegremente,
+Daime agora hum ſom alto, & ſublimado,
+Hum estillo grandiloco, & corrente,
+Porque de voſſas agoas Phebo ordene,
+Que não tenhão enueja aas de Hypocrene.
+
+Daime hũa furia grande & ſonoroſa,
+E não de agreſte a vena, ou frauta ruda:
+Mas de tuba canora & belicoſa,
+Que o peito acende, & a cor ao geſto muda:
+Daime igoal canto aos feitos da famoſa
+Gente voſſa, que a Marte tanto ajuda:
+Que ſe eſpalhe & ſe conte no vniuerſo,
+Se tam ſublime preço cabe em verſo.
+
+E vos ò bem naſcida ſegurança
+Da Luſitana antigua liberdade,
+E não menos certiſsima eſperança,
+De aumento da pequena Chriſtandade:
+Vos o nouo temor da Maura lança,
+Marauilha fatal da noſſa idade:
+Dada ao mundo por Deos q̃ todo o mande,
+Pera do mundo a Deos dar parte grande.
+
+Vos tenrro, & nouo ramo florecente,
+De hũa aruore de Christo mais amada
+Que nenhũa naſcida no Occidente,
+Ceſarea, ou Christianiſsima chamada:
+Vedeo no voſſo eſcudo, que preſente
+Vos amostra a victoria ja paſſada.
+Na qual vos deu por armas, & deixou
+As que elle pera ſi na Cruz tomou.
+
+Vos poderoſo Rei, cujo alto Imperio,
+O Sol logo em naſcendo ve primeiro:
+Veo tambem no meio do Hemiſpherio,
+E quando dece o deixa derradeiro.
+Vos que eſperamos jugo & vituperio,
+Do torpe Ismaelita caualleiro:
+Do Turco Oriental, & do Gentio,
+Que inda bebe o licor do ſancto Rio.
+
+Inclinay por hum pouco a magestade,
+Que neſſe tenrro gesto vos contemplo,
+Que ja ſe mostra, qual na inteira idade,
+Quando ſobindo yreis ao eterno templo,
+Os olhos a real benignidade
+Ponde no chão: vereis hum nouo exemplo,
+De amor, dos patrios feitos valeroſos,
+Em verſos deuulgado numeroſos.
+
+Vereis amor da patria, não mouido
+De premio vil: mas alto, & quaſi eterno
+Que nam he premio vil, ſer conhecido
+Por hum pregão do ninho meu paterno.
+Ouui vereis o nome engrandecido
+Daquelles de quem ſois ſenhor ſuperno.
+E julgareis qual he mais excelente,
+Se ſer do mundo Rei, ſe de tal gente:
+
+Ouui, que não vereis com vãs façanhas
+Fantaſticas, fingidas, mentiroſas,
+Louuar os voſſos, como nas eſtranhas
+Muſas, de engrandecerſe deſejoſas,
+As verdadeiras voſſas ſam tamanhas,
+Que excedem as ſonhadas fabuloſas:
+Que excedem Rodamonte, & o vão Rugeiro,
+E Orlando, inda quefora verdadeiro.
+
+Por eſtes vos darey hum Nuno fero,
+Que fez ao Rei, & ao Reino tal ſeruiço,
+Hum Egas, & hũ dom Fuas, q̃ de Homero
+A Citara parelles ſo cobiço:
+Pois polos doze pares daruos quero,
+Os doze de Inglaterra, & o ſeu Magriço.
+Douuos tambem aquelle illustre Gama,
+Que para ſi de Eneas toma a fama.
+
+Pois ſe a troco de Carlos Rei de França,
+Ou de Ceſar, quereis iqual memoria:
+Vede o primeiro Afonſo, cuja lança
+Eſcura faz qualquer eſtranha gloria:
+E aquelle que a ſeu Reino a ſegurança
+Deixou, com a grande & proſpera victoria.
+Outro Ioane, inuicto caualleiro,
+O quarto, & quinto Afonſos, & o terceiro.
+
+Nem deixarão meus verſos eſquecidos,
+Aquelles que nos Reinos la da Aurora,
+Se fizerão por armas tam ſubidos,
+Voſſa bandeira ſempre vencedora.
+Hum Pacheco fortiſsimo, & os temidos
+Almeidas, por quem ſempre o Tejo chora.
+Albuquerque terribil, Caſtro forte,
+E outros em quem poder não teue a morte.
+
+E em quanto eu eſtes canto, & a vos nam poſſo
+Sublime Rei, que nam me atreuo a tanto,
+Tomay as redeas vos do Reino voſſo,
+Dareis materia a nunca ouuido canto:
+Comecem a ſentir o peſo groſſo,
+(Que polo mundo todo faça eſpanto,)
+De exercitos, & feitos ſingulares,
+De affricas as terras, & do Oriente os mares.
+
+Em vos os olhos tem o Mouro frio,
+Em quem vè ſeu exicio afigurado,
+So com vos ver o barbaro Gentio,
+Moſtra o peſcoço ao jugo ja inclinado:
+Thetis todo o ceruleo ſenhorio,
+Tem pera vos por dote aparelhado:
+Que affeiçoada ao geſto bello, & tenro,
+Deſeja de compraruos pera genro.
+
+Em vos ſe vem da Olimpica morada,
+Dos ous auôs, as almas ca famoſas,
+Hũa na paz Angelica dourada,
+Outra polas batalhas ſanguinoſas:
+Em vos eſperão, verſe renouada,
+Sua memoria, & obras valeroſas.
+E la vos tem lugar no fim da idade,
+No templo da ſuprema eternidade.
+
+Mas em quanto eſte tempo paſſa lento,
+De regerdes os pouos, que o deſejão:
+Day vos fauor ao nouo atreuimento,
+Pera que estes meus verſos voſſos ſejão:
+E vereis ir cortando o ſalſo argento:
+Os voſſos Argonautas, por que vejão,
+Que ſam vistos de vos no mar yrado,
+E costumaiuos ja a ſer inuocado.
+
+Ia no largo Occeano nauegauão,
+As inquietas ondas apartando,
+Os ventos brandamente reſpirauão,
+Das naos as vellas concauas inchando:
+Da branca eſcuma, os mares ſe moſtrauão
+Cubertos, onde as proas vão cortando.
+As maritimas agoas conſagradas,
+Que do gado de Proteo ſam cortadas.
+
+Quando os Deuſes no Olimpo luminoſo,
+Onde o gouerno esta, da humana gente,
+Se ajuntão em conſilio glorioſo,
+Sobre as couſas futuras do Oriente:
+Piſando o criſtalino Ceo fermoſo,
+Vem pela via Lactea, juntamente
+Conuocados da parte do Tonante,
+Pelo Neto gentil do velho Atlante.
+
+Deixão dos ſete Ceos o regimento,
+Que do poder mais alto lhe foi dado,
+Alto poder, que ſo co penſamento
+Governa o Ceo, a Terra, & o Mar yrado:
+Ali ſe acharão juntos num momento,
+Os que habitão o Arcturo congelado.
+E os que o Auſtro tem, & as partes onde
+A Aurora naſce, & o claro Sol ſe eſconde.
+
+Eſtava o Padre ali ſublime & dino,
+Que vibra os feros rayos de Vulcano,
+Num aſſento de estrellas criſtalino,
+Com geſto alto, ſevero, & ſoberano,
+Do roſto reſpiraua hum ar diuino,
+Que diuino tornàra hum corpo humano:
+Com hũa coroa, & ceptro rutilante,
+De outra pedra mais clara que diamante.
+
+Em luzentes aſſentos, marchetados
+De ouro, & de perlas, mais abaixo estavão
+Os outros Deuſes todos aſſentados,
+Como a Razão, & a Ordem concertauão.
+Precedem os antiguos mais honrrados,
+Mais abaixo os menores ſe aſſentauão:
+Quando Iupiter alto, aſſy dizendo,
+Cum tom de voz começa, graue & horrendo.
+
+Eternos moradores do luzente
+Eſtelifero polo & claro aſſento,
+Se do grande valor da forte gente,
+De Luſo, não perdeis o penſamento,
+Deueis de ter ſabido claramente
+Como he dos fados grandes certo intento
+Que por ella ſeſqueção os humanos,
+De Aſsirios, Perſas, Gregos & Romanos.
+
+Ia lhe foy (bem o vistes) concedido
+Cum poder tam ſingelo & tam pequeno
+Tomar ao Mouro forte & guarnecido,
+Toda a terra que rega o Tejo ameno:
+Pois contra o Caſtelhano tam temido
+Sempre alcançou fauor do Ceo ſereno.
+Aſsi que ſempre em fim com fama & gloria,
+Teue os tropheos pendentes da victoria.
+
+Deixo Deoſes atras a fama antigua,
+Que co a gente de Romulo alcançarão,
+Quando com Viriato, na inimiga
+Guerra Romana tanto ſe affamarão.
+Tambem deixo a memoria, que os obriga
+A grande nome, quando aleuantarão
+Hum, por ſeu capitão, que peregrino
+Fingio na Cerua eſpirito diuino.
+
+Agora vedes bem, que cometendo,
+O diuidoſo mar, num lenho leue,
+Por vias nunca vſadas, não temendo
+De Affrico & Noto a força a mais ſatreue:
+Que auendo tanto ja que as partes vendo,
+Onde o dia he comprido, & onde breue.
+Inclinão ſeu propoſito, & perfia
+A ver os berços, onde naſce o dia
+
+Prometido lhe eſtà do fado eterno,
+Cuja alta ley nam pode ſer quebrada,
+Que tenhão longos tempos o gouerno
+Do mar, que vé do Sol a roxa entrada.
+Nas agoas tem paſſado o duro Inuerno,
+A gente vem perdida & trabalhada.
+Ia parece bem feito, que lhe ſeja
+Mostrada a noua terra que deſeja.
+
+E porque, como viſtes, tem paſſados
+Na viagem, tam aſperos perigos,
+Tantos Climas & Ceos experimentados,
+Tanto furor de ventos inimigos
+Que ſejam, de termino, agaſalhados
+Neſta coſta affricana como amigos.
+E tendo guarnecida a laſſa frota,
+Tornarão a ſeguir ſua longa rata.
+
+Eſtas palauras Iupiter dezia,
+Quando os Deoſes por ordem reſpondendo,
+Na ſentença hum do outro difiria,
+Razões diuerſas dando & recebendo.
+O padre Baco, ali nam conſentia
+No que Iupiter diſſe, conhecendo
+Que eſquecerão ſeus feitos no Oriente,
+Se la paſſar a Luſitana gente.
+
+Ouuido tinha aos Fados que viria
+Hũa gente fortiſsimo de Heſpanha,
+Pelo mar alto, a qual ſojeitaria
+Da India, tudo quanto Doris banha:
+E com nouas victorias venceria,
+A fama antiga, ou ſua, ou foſſe eſtranha.
+Altamente lhe doe perder a gloria,
+De que Niſa celebra inda a memoria.
+
+Ve que ja teue o Indo ſojugado,
+E nunca lhe tirou Fortuna, ou caſo,
+Por vencedor da India ſer cantado,
+De quantos bebem a agoa de Parnaſo.
+Teme agora que ſeja ſepultado,
+Seu tam celebre nome, em negro vaſo,
+Dagoa do eſquecimento, ſe la chegão
+Os fortes Portugueſes, que nauegão,
+
+Suſtentaua contra elle Venus bella,
+Affeiçoada aa gente Luſitana,
+Por quantas qualidades via nella,
+Da antiga tam amada ſua Romana,
+Nos fortes corações, na grande estrella,
+Que mostrarão na terra Tingitana:
+E na lingoa, na qual, quando imagina,
+Com pouca corrupção cre que he a Latina.
+
+Eſtas cauſas mouião Cyterea,
+E mais, porque das Parcas claro entende
+Que ha de ſer celebrada a clara Dea,
+Onde a gente beligera ſe eſtende.
+Aſsi que hum pela infamia que arrecea,
+E o outro polas honras que pretende,
+Debatem, & na perfia permanecem,
+A qualquer ſeus amigos fauorecem:
+
+Qual Auſtro fero, ou Boreas na eſpeſſura,
+De ſilueſtre aruoredo abastecida,
+Rompendo os ramos vão da mata eſcura,
+Com impito & braueza deſmedida.
+Brama toda montanha, o ſom murmura,
+Rompenſe as folhas, ferue a ſerra erguida.
+Tal andaua o tumulto leuantado,
+Entre os Deoſes no Olimpo conſagrado.
+
+Mas Marte que da Deoſa ſuſtentaua,
+Entre todos as partes em porfia,
+Ou por que o amor antiguo o obrigaua,
+Ou porque a gente forte o merecia,
+De entre os Deoſes em pee ſe leuantaua,
+Merencorio no gesto parecia:
+O forte eſcudo ao collo pendurado,
+Deitando para tràs medonho e irado.
+
+A viſeira do elmo de Diamante,
+Aleuantando hum pouco, muy ſeguro,
+Por dar ſeu parecer ſe pos diante
+De Iupiter, armado, forte & duro:
+E dando hũa pancada penetrante,
+Co conto do baſtão, no ſolio puro:
+O ceo tremeo, & Apolo de toruado,
+Hum pouco a luz perdeo, como infiado.
+
+E diſſe aſsi, ò padre a cujo imperio,
+Tudo aquillo obedece, que criaſte,
+Se eſta gente que buſca outro Emiſpherio,
+Cuja valia, & obras tanto amaſte:
+Não queres que padeção vituperio,
+Como ha ja tanto tempo que ordenaste
+Não ouças mais, pois es juyz direito,
+Razões de quem parece que he ſoſpeito.
+
+Que ſe aqui a razão ſe não mostraſſe
+Vencida do temor demaſiado,
+Bem fora que aqui Baco os ſoſtentaſſe,
+Pois que de Luſo vem, ſeu tam priuado:
+Mas eſta tenção ſua, agora paſſe,
+Porque em fim vem de eſtamago danado.
+Que nunca tirarà alhea enueja,
+O bem que outrem mereçe, & o ceo deſeja.
+
+E tu padre de grande fortaleza,
+Da determinaçam que tẽs tomada,
+Nam tornes por detras pois he fraqueza
+Deſistir ſe da couſa começada.
+Mercurio pois excede em ligeireza
+Ao vento leue, & aa ſeta bem talhada,
+Lhe va mostrar a terra, onde ſe informe
+Da India, & onde a gente ſe reforme.
+
+Como iſto diſſe o Padre poderoſo,
+A cabeça inclinando, conſentio
+No que diſſe Mauorte valeroſo,
+E Nectar ſobre todos eſparzio:
+Pelo caminho Lacteo glorioſo,
+Logo cada hum dos Deoſes ſe partio.
+Fazendo ſeus reaes acatamentos,
+Pera os determinados apouſentos.
+
+Em quanto iſto ſe paſſa, na fermoſa
+Caſa eterea do Olimpo omnipotente
+Cortaua o mar a gente belicoſa:
+Ia la da banda do Auſtro, & do Oriente,
+Entre a coſta Ethiopica, & a famoſa
+Ilha de ſam Lourenço, & o Sol ardente
+Queimaua entam os Deoſes, que Tifeô
+Co temor grande em pexes conuerteô.
+
+Tam brandamente os ventos os leuauão,
+Como quem o ceo tinha por amigo:
+Sereno o ar, & os tempos ſe mostrauão
+Sem nuuẽs, ſem receio de perigo:
+O promontorio praſſo ja paſſauão
+Na coſta de Ethiopia, nome antiguo.
+Quando o mar deſcobrindo lhe moſtraua,
+Nouas ilhas que em torno cerca, & laua.
+
+Vaſco da gama, o forte Capitão,
+Que a tamanhas empreſas ſe offerece,
+De ſoberbo, & de altiuo coração,
+A quem fortuna ſempre fauorece
+Pera ſe aqui deter, não ve razão,
+Que inhabitada a terra lhe parece:
+Por diante paſſar determinaua:
+Mas nam lhe ſoccedeo como cuydaua.
+
+Eis aparecem logo em companhia,
+Hũs pequenos bateis, que vem daquella
+Que mais chegada à terra parecia,
+Cortando o longo mar com larga vella:
+A gente ſe aluoroça, & de alegria
+Não ſabe mais que olhar a cauſa della.
+Que gente ſera eſta, em ſi dezião,
+Que costumes, que ley, que Rei terião?
+
+As embarcações erão, na maneira
+Muy veloces, eſtreitas, & compridas,
+As vellas com que vem erão de eſteira,
+Dũas folhas de Palma bem tecidas:
+A gente da cor era verdadeira,
+Que Phaeton, nas terras acendidas
+Ao mundo deu, de ouſado, & não prudente,
+O Pado o ſabe, & Lampetuſa o ſente.
+
+De panos de algodão vinhão veſtidos,
+De varias cores, brancos, & liſtrados,
+Hũs trazem derredor de ſi cingidos,
+Outros em modo ayroſo ſobraçados,
+Das cintas pera cima vem deſpidos:
+Por armas tem adagas, & tarçados.
+Com toucas na cabeça, & nauegando,
+Anafis ſonoroſos vão tocando.
+
+Cos panos, & cos braços açenauão,
+Aas gentes Luſitanas, que eſperaſſem:
+Mas ja as proas ligeiras, ſe inclinauão,
+Pera que junto aas Ilhas amainaſſem.
+A gente, & marinheiros trabalhauão,
+Como ſe aqui os trabalhos ſacabaſſem:
+Tomão vellas, amainaſe a verga alta,
+Da ancora o mar ferido, encima ſalta.
+
+Não erão ancorados, quando a gente
+Eſtranha, polas cordas ja ſubia,
+No geſto ledos vem, & humanamente,
+O Capitão ſublime os recebia.
+As meſas manda por em continente,
+Do licor que Lieo prantado auia:
+Enchem vaſos de vidro, & do que deitão,
+Os de Phaeton queimados nada engeitão.
+
+Comendo alegremente perguntauão,
+Pela Arabica lingoa, donde vinhão,
+Quem erão, de que terra, que buſcauão,
+Ou que partes do mar corrido tinhão?
+Os fortes Luſitanos lhe tornauão,
+As diſcretas repostas que conuinhão.
+Os Portugueſes ſomos do Occidente,
+Himos buſcando as terras do Oriente.
+
+Do mar temos corrido, & nauegado
+Toda a parte do Antartico, & Caliſto,
+Toda a coſta Affricana rodeado,
+Diuerſos Ceos, & Terras temos viſto:
+Dum Rei potente ſomos, tam amado,
+Tam querido de todos, & bem quisto:
+Que nam no largo Mar, com leda fronte:
+Mas no lago entraremos de Acheronte.
+
+E por mandado ſeu, buſcando andamos
+A terra Oriental, que o Indo rega,
+Por elle o Mar remoto nauegamos,
+Que ſo dos feos Focas ſe nauega:
+Mas ja razão parece que ſaibamos,
+Se entre vos a verdade não ſe nega.
+Quem ſois, que terra he eſta que abitais?
+Ou ſe tendes da India algũs ſinais?
+
+Somos, hum dos das Ilhas lhe tornou,
+Eſtrangeiros na terra, Lei, & nação
+Que os proprios, ſam aquelles que criou
+A Natura ſem Lei, & ſem Razão:
+Nos temos a Lei certa que inſinou,
+O claro deſcendente de Abrahão:
+Que agora tem do Mundo o ſenhorio,
+A mãy Hebrea teue, & o pai Gentio.
+
+Esta Ilha pequena que habitamos,
+He em toda eſta terra certa eſcala,
+De todos os que as Ondas nauegamos,
+De Quiloa, de Mombaça, & de Sofala:
+E por ſer neceſſaria, procuramos,
+Como proprios da terra, de habitala.
+E porque tudo em fim vos notifique,
+Chamaſe a pequena Ilha Moçambique.
+
+E ja que de tam longe nauegais,
+Buſcando o Indo Idaſpe, & terra ardente,
+Piloto aqui tereis, por quem ſejais
+Guiados pelas ondas ſabiamente.
+Tambem ſera bemfeito que tenhais,
+Da terra algum refreſco, & que o Regente
+Que esta terra gouerna, que vos veja,
+E do mais neceſſario vos proueja.
+
+Iſto dizendo, o Mouro ſe tornou
+A ſeus bateis com toda a companhia,
+Do Capitão & gente ſe apartou,
+Com mostras de deuida corteſia:
+Niſto Febo nas agoas encerrou,
+Co carro de Christal, o claro dia:
+Dando cargo aa Irmaã, que alumiaſſe,
+O largo Mundo, em quanto repouſaſſe.
+
+A noyte ſe paſſou na laſſa frota,
+Com eſtranha alegria, & não cuydada,
+Por acharem da terra tão remota,
+Noua de tanto tempo deſejada:
+Qualquer então conſigo cuyda, & nota
+Na gente, & na maneira deſuſada.
+E como os que na errada Seita crérão,
+Tanto por todo o mundo ſe eſtendérão.
+
+Da Lũa os claros rayos rutilauão,
+Polas argenteas ondas Neptuninas,
+As Estrellas os Ceos acompanhauão.
+Qual campo reueſtido de boninas,
+Os furioſos ventos repouſauão,
+Polas couas eſcuras peregrinas.
+Porem da armada a gente vigiaua,
+Como por longo tempo coſtumaua.
+
+Mas aſſy como a Aurora marchetada,
+Os fermoſos cabellos eſpalhou,
+No Ceo ſereno, abrindo a roxa entrada,
+Ao claro Hiperionio que acordou,
+Começa a embandeirarſe toda a armada,
+E de todos alegres ſe adornou:
+Por receber com festas, & alegria,
+O Regedor das Ilhas que partia.
+
+Partia alegremente nauegando,
+A ver as naos ligeiras Luſitanas,
+Com refreſco da terra, em ſi cuidando,
+Que ſam aquellas gentes inhumanas:
+Que os apouſentos Caſpios habitando,
+A conquiſtar as terras Aſianas
+Vierão: & por ordem do deſtino,
+O Imperio tomarão a Coſtantino.
+
+Recebe o Capitão alegremente,
+O Mouro, & toda ſua companhia,
+Dalhe de ricas peças hum preſente,
+Que ſo pera eſte effeito ja trazia:
+Dalhe conſerua doçe, & dalhe o ardente
+Não vſado licor que dâ alegria.
+Tudo o Mouro contente bem recebe,
+E muito mais contente come, & bebe.
+
+Eſtà a gente maritima de Luſo,
+Subida pela exarcia, de admirada,
+Notando o estrangeiro modo, & vſo,
+E a lingoagem tam barbara & enleada.
+Tambem o Mouro astuto eſtà confuſo,
+Olhando a cor, o trajo, & a forte armada.
+E perguntando tudo lhe dezia,
+Se porventura vinhão de Turquia.
+
+E mais lhe diz tambem, que ver deſeja
+Os liuros de ſua ley, preceito, ou fé,
+Pera ver ſe conforme à ſua ſeja,
+Ou ſe ſam dos de Christo, como crè:
+E porque tudo note, & tudo veja,
+Ao Capitão pedia, que lhe dé,
+Mostra das fortes armas de que vſauão,
+Quando cos inimigos pelejauão.
+
+Responde o valeroſo Capitão,
+Por hum que a lingoa eſcura bem ſabia:
+Darte ey Senhor illuſtre relação
+De my, da ley, das armas que trazia:
+Nem ſou da terra, nem da geraçam,
+Das gentes enojoſas de Turquia:
+Mas ſou da forte Europa belicoſa,
+Buſco as terras da India tam famoſa?
+
+A ley tenho daquelle, a cujo imperio
+Obedece o viſibil, & inuiſibil,
+Aquelle que criou todo o Emispherio,
+Tudo o que ſente, & todo o inſenſibil
+Que padeceo deshonra, & vituperio,
+Sofrendo morte injuſta, & inſufribil:
+E que do ceo aa terra em fim deceo,
+Por ſubir os mortais da terra ao ceo.
+
+Deste Deos homem, alto, & infinito,
+Os Liuros que tu pedes, nam trazia,
+Que bem poſſo eſcuſar trazer eſcripto
+Em papel, o que na alma andar deuia.
+Se as armas queres ver, como tẽs dito,
+Comprido eſſe deſejo te ſeria:
+Como amigo as veras, porque eu me obrigo,
+Que nunca as queiras ver como inimigo.
+
+Iſto dizendo, manda os diligentes
+Miniſtros, amoſtrar as armaduras,
+Vem arneſes, & peitos reluzentes,
+Malhas finas, & laminas ſeguras,
+Eſcudos de pinturas differentes,
+Pilouros, eſpingardas de aço puras,
+Arcos, & ſagittiferas aljauas,
+Partaſanas agudas, chuças brauas.
+
+As bombas vem de fogo, & juntamente
+As panellas ſulfureas, tam danoſas,
+Porem aos de Vulcano nam conſente
+Que dem fogo aas bombardas temeroſas:
+Porque o generoſo animo, & valente,
+Entre gentes tam poucas, & medroſas,
+Não mostra quanto pode, & com razão,
+Que he fraqueza entre ouelhas ſer lião.
+
+Porem diſto que o Mouro aqui notou,
+E de tudo o que vio, com olho atento,
+Hum odio certo na alma lhe ficou,
+Hũa vontade mà de penſamento.
+Nas moſlras, & no gesto o não moſtrou:
+Mas com riſonho, & ledo fingimento,
+Tratalos brandamente determina,
+Ate que moſtrar poſſa o que imagina.
+
+Pilotos lhe pedia o Capitão,
+Por quem podeſſe aa India ſer leuado,
+Dizlhe, que o largo premio leuarão,
+Do trabalho que niſſo for tomado.
+Prometelhos o Mouro, com tenção
+De peito venenoſo, & tão danado:
+Que a morte ſe podeſſe neste dia,
+Em lugar de Pilotos lhe daria.
+
+Tamanho o odio foy, & a mà vontade,
+Que aos eſtrangeiros ſupito tomou,
+Sabendo ſer ſequaces da verdade,
+Que o filho de Dauid nos enſinou,
+Os ſegredos daquella Eternidade
+A quem juyzo algum não alcançou.
+Que nunca falte hum perfido inimigo,
+A aqueles de quem foſte tanto amigo?
+
+Partioſe nisto em fim co a companhia,
+Das naos o falſo Mouro despedido,
+Com enganoſa & grande corteſia,
+Com geſto ledo a todos, & fingido:
+cortárão os bateis a curta via
+Das agoas de Neptuno, & recebido
+Na terra do obſequente ajuntamento,
+Se foy o Mouro ao cognito apouſento:
+
+Do claro aſſento Etereo, o grão Tebano,
+Que da paternal coxa foy naſcido
+Olhando o ajuntamento Luſitano,
+Ao Mouro ſer moleſto, & auorrecido:
+No penſamento cuyda hum falſo engano
+Com que ſeja de todo deſtruydo.
+E em quanto iſto ſo na alma imaginaua
+Configo eſtas palauras praticaua.
+
+Eſtà do fado ja determinado,
+Que tamanhas victorias tam famoſas,
+Ajão os Portugueſes alcançado,
+Das Indianas gentes belicoſas.
+E eu ſo filho do Padre ſublimado,
+Com tantas qualidades generoſas:
+Ey de ſofrer que o Fado fauoreça
+Outrem, por quem meu nome ſe eſcureça?
+
+Ia quiſeram os Deoſes que tiueſſe,
+O filho de Filipo neſta parte,
+Tanto poder, que tudo ſometeſſe
+Debaixo do ſeu jugo, o fero Marte:
+Mas aſſe de ſoffrer que o Fado deſſe,
+A tam poucos tamanho esforço, & arte
+Queu co gram Macedonio, & Romano,
+Demos lugar ao nome Luſitan?
+
+Não ſera aſſy, porque antes que chegado
+Seja eſte Capitão, astutamente
+Lhe ſera tanto engano fabricado,
+Que nunca veja as partes do Oriente:
+Eu decerey aa terra, & o indignado
+Peito, reuoluerey da Maura gente,
+Porque ſempre por via yra dereita,
+Quem do oportuno tempo ſe aproueita.
+
+Iſto dizendo yrado, & quaſi inſano,
+Sobre a terra Affricana deſcendeo,
+Onde vestindo a forma & geſto humano,
+Pera o Praſſo ſabido ſe moueo.
+E por milhor tecer o aſtuto engano,
+No geſto natural ſe conuerteo,
+Dum Mouro, em Moçambique conhecido,
+Velho, ſabio, & co Xeque muy valido.
+
+E entrando aſſy a falarlhe, a tempo & horas,
+A ſua falſidade acomodadas,
+Lhe diz como erão gentes roubadoras,
+Eſtas que ora de nouo ſam chegadas:
+Que das nações na coſta moradoras,
+Correndo a fama veio, que roubadas,
+Forão por estes homẽs que paſſauão,
+Que com pactos de paz ſempre ancorauão.
+
+E ſabe mais, lhe diz, como entendido
+Tenho destes Christãos ſanguinolentos,
+Que quaſi todo o mar tem destruido,
+Com roubos, com incendios violentos:
+E trazem ja de longe engano vrdido,
+Contra nos, & que todos ſeus intentos
+Sam pera nos matarem, & roubarem,
+E molheres & filhos captiuarem.
+
+E tambem ſey que tem determinado,
+De vir por agoa a terra muito cedo,
+O Capitão dos ſeus acomponhado,
+Que da tençam danada naſce o medo:
+Tu deues de yr tambem cos teus armado
+Eſperallo em cilada, occulto & quedo:
+Por que ſaindo a gente deſcuydada,
+Cairão facilmente na cilada.
+
+E ſe inda não ficarem deste geito,
+Destruydos, ou mortos totalmente,
+Eu tenho imaginada no conceito,
+Outra manha & ardil que te contente:
+Mandalhe dar Piloto, que de geito
+Seja aſtuto no engano, & tam prudente,
+Que os leue aonde ſejão deſtruydos,
+Desbaratados mortos, ou perdidos.
+
+Tanto que eſtas palauras acabou,
+O Mauro nos tais caſos, ſabio & velho
+Os braços pelo collo lhe lançou,
+Agradecendo muito o tal conſelho:
+E logo neſſe inſtante concertou,
+Pera a guerra o beligero aparelho:
+Pera que ao Portugues ſe lhe tornaſſe,
+Em roxo ſangue a agoa que buſcaſſe.
+
+E buſca mais pera o cuydado engano,
+Mouro que por Piloto aa nao lhe mande,
+Sagaz, aſtuto, & ſabio em todo o dano
+De quem fiar ſe poſſa hum feito grande,
+Dizlhe que acompanhando o Luſitano,
+Por tais coſtas, & mares co elle ande:
+Que ſe daqui eſcapar, que la diante
+Va cair onde nunca ſe aleuante.
+
+Ia o rayo Apolina viſitaua,
+Os Montes Nabatheos acendido,
+Quando Gama cos ſeus determinaua,
+De vir por agoa a terra apercebido:
+A gente nos bateis ſe concertaua,
+Como ſe foſſe o engano ja ſabido:
+Mas pode ſoſpeitarſe facilmente,
+Que o coração preſago nunca mente.
+
+E mais tambem mandado tinha a terra,
+De antes pelo Piloto neceſſario:
+E foilhe reſpondido em ſom de guerra,
+Caſo do que cuydaua muy contrario:
+Por iſto, & porque ſabe quanto erra,
+Quem ſe cre de ſeu perfido aduerſario,
+Apercebido vay como podia,
+Em tres bateis ſomente que trazia:
+
+Mas os Mouros que andauão pela praya,
+Por lhe defender a agoa deſejada,
+Hum de eſcudo embarcado, & de azagaya,
+Outro de arco encuruado, & ſeta eruada:
+Eſperão que a guerreira gente ſaya,
+Outros muytos ja poſtos em cillada.
+E porque o caſo leue ſe lhe faça,
+Poem hũs poucos diante por negaça.
+
+Andão pela ribeira alua arenoſa,
+Os belicoſos Mouros acenando,
+Com a adarga, & co a aſtea perigoſa,
+Os fortes Portugueſes incitando:
+Nam ſoſfre muito a gente generoſa,
+Andarlhe os cães os dentes amoſtrando.
+Qualquer em terra ſalta, tam ligeiro,
+Que nenhum dizer pode que he primeiro.
+
+Qual no corro ſanguino, o ledo amante,
+Vendo a fermoſa dama deſejada,
+O Touro buſca, & pondo ſe diante,
+Salta, corre, ſibila, acena, & brada:
+Mas o animal atroçe neſſe instante,
+Com a fronte cornigera inclinada,
+Bramando duro corre, & os olhos cerra,
+Derriba, fere, & mata & poem por terra.
+
+Eis nos bateis o fogo ſe leuanta,
+Na furioſa & dura artilheria,
+A plumbea pela mata, o brado eſpanta:
+Ferido o ar retumba, & aſſouia:
+O coraçam dos Mouros ſe quebranta,
+O temor grande o ſangue lhe resfria.
+Ia foge o eſcondido de medroſo,
+E morre o deſcuberto auenturoſo.
+
+Não ſe contenta a gente Portugueſa:
+Mas ſeguindo a victoria eſtrue, & mata
+A pouoação ſem muro, & ſem defeſa,
+Esbombardea, acende, & desbarata.
+Da caualgada ao Mouro ja lhe peſa,
+Que bem cuidou comprala mais barata:
+Ia blasfema da guerra, & maldizia,
+O velho inerte, & a mãy que o filho cria.
+
+Fugindo, a ſeta o Mouro vay tirando,
+Sem força, de couarde, & de apreſſado,
+A pedra, o pao, & o canto arremeſſando,
+Dalhe armas o furor deſatinado:
+Ia a Ilha, & todo o mais, deſemparando,
+Aa terra firme foge amedrontado.
+Paſſa, & corta do mar o eſtreito braço,
+Que a Ilha em torno cerca, em pouco eſpaço.
+
+Hũs vão nas almádías carregadas,
+Hum corta o mar a nado diligente,
+Quem ſe affoga nas ondas encuruadas,
+Quem bebe o mar, & o deita juntamente:
+Arrombão as meudas bombardadas
+Os Pangaios ſotis da bruta gente.
+Desta arte o Portugues em fim caſtiga,
+A vil malicia, perfida, inimiga.
+
+Tornão victorioſos pera a armada,
+Co deſpojo da guerra, & rica preſa,
+E vão a ſeu prazer fazer agoada,
+Sem achar reſiſtencia, nem defeſa
+Ficaua a Maura gente magoada,
+No odio antigo, mais que nunca aceſa.
+E vendo ſem vingança tanto dano,
+Somente estriba no ſegundo engano.
+
+Pazes cometer manda arrependido,
+O Regedor daquella inica terra,
+Sem ſer dos Luſitanos entendido,
+Que em figura de paz lhe manda guerra:
+Porque o Piloto falſo prometido,
+Que toda a mà tenção no peito encerra.
+Pera os guiar aa morte lhe mandaua,
+Como em ſinal das pazes que trataua.
+
+O Capitão, que ja lhe entam conuinha,
+Tornar a ſeu caminho acoſtumado,
+Que tempo concertado, & ventos tinha,
+Pera yr buſcar o Indo deſejado.
+Recebendo o Piloto que lhe vinha,
+Foy delle alegremente agaſalhado:
+E reſpondendo ao menſageiro, a tento
+Aas vellas manda dar ao largo vento.
+
+Desta arte deſpedida a forte armada,
+As ondas de Anfitrite diuidia,
+Das filhas de Nerêo acompanhada,
+Fiel, alegre, & doçe companhia.
+O Capitão, que não cahia em nada,
+Do enganoſo ardil que o Mouro vrdia:
+Delle muy largamente ſe informaua,
+Da India toda, & coſtas que paſſaua:
+
+Mas o Mouro inſtruido nos enganos,
+Que o maléuolo Baco lhe enſinára
+De morte, ou captiueiro nouos danos,
+Antes que aa India chegue lhe prepara,
+Dando razão dos portos Indianos,
+Tambem tudo o que pede lhe declara.
+Que auendo por verdade o que dizia,
+De nada a forte gente ſe temia.
+
+E diz lhe mais co falſo penſamento,
+Com que Synon os Phrigios enganou,
+Que perto eſtà hũa Ilha, cujo aſſento,
+Pouo antigo Chriſtão ſempre abitou:
+O Capitão que a tudo eſtaua a tento,
+Tanto co estas nouas ſe alegrou,
+Que com dadiuas grandes lhe rogaua,
+Que o leue aa terra onde eſta gente eſtaua.
+
+Ho mesmo o falſo Mouro determina,
+Que o ſeguro Chriſtão lhe manda & pede,
+Que a Ilha he poſſuida da malina
+Gente, que ſegue o torpe Mahamede:
+Aqui o engano & morte lhe imagina,
+Porque em poder & forças muito excede
+Aa Moçambique, eſta Ilha que ſe chama
+Quîloa, muy conhecida pola fama.
+
+Pera là ſe inclinaua a leda frota:
+Mas a Deoſa em Cythere celebrada,
+Vendo como deixaua a certa rota,
+Por yr buſcar a morte não cuidada,
+Não conſente que em terra tão remota
+Se perca a gente della tanto amada.
+E com ventos contrairos a deſuia,
+Donde o Piloto falſo a leua, & guia.
+
+Mas o maluado Mouro nam podendo,
+Tal determinação leuar auante,
+Outra maldade inica cometendo,
+Ainda em ſeu propoſito constante,
+Lhe diz, que pois as agoas diſcorrendo,
+Os leuàrão por força por diante,
+Que outra Ilha tem perto, cuja gente,
+Erão Chriſtãos com Mouros juntamente.
+
+Tambem nestas palauras lhe mentia,
+Como por regimento em fim leuaua,
+Que aqui gente de Chriſto não auia:
+Mas a que a Mahamede celeebraua.
+O Capitão que em tudo o mouro cria,
+Virando as vellas, a Ilha demandaua:
+Mas nam querendo a Deoſa guardadora,
+Nam entra pela barra, & ſurge fora.
+
+Eſtaua a Ilha aa terra tam chegada,
+Que hum eſtreito pequeno a diuidia,
+Hũa cidade nella ſituada,
+Que na fronte do mar aparecia,
+De nobres edificios fabricada,
+Como por fora, ao longe deſcobria,
+Regida por hum Rei de antigua idade,
+Mombaça he o nome da Ilha, & da Cidade.
+
+E ſendo a ella o Capitão chegado,
+Eſtranhamente ledo, porque eſpera
+De poder ver o pouo baptizado,
+Como o falſo Piloto lhe diſſera:
+Eis vem bateis da terra com recado
+Do Rei, que ja ſabia a gente que era,
+Que Baco muito de antes o auiſara,
+Na forma doutro Mouro que tomàra.
+
+O recado que trazem he de amigos:
+Mas debaxo o veneno vem cuberto,
+Que os penſamentos erão de inimigos,
+Segundo foy o engano deſcuberto.
+O grandes & grauiſsimo perigos,
+O caminho de vida nunca certo:
+Que aonde a gente poem ſua eſperança,
+Tenha a vida tam pouca ſegurança.
+
+No mar tanta tormenta, & tanto dano,
+Tantas vezes a morte apercebida,
+Na terra, tanta guerra, tanto engano,
+Tanta neceſsidade auorrecida:
+Onde pode acolherſe hum fraco humano,
+Onde terà ſegura a curta vida?
+Que não ſe arme, & ſe indigne o Ceo ſereno.
+Contra hum bicho da terra tam pequeno.
+
+Fim.
+
+
+
+❧ Canto Segundo.
+
+Ia neſte tempo o
+lucido Planeta,
+Que as horas vay do dia diſtin-
+guindo,
+Chegaua aa deſejada, & lenta Meta,
+A luz Celeſte aas gentes encobrindo:
+E da caſa maritima ſecreta,
+Lhe eſtaua o Deos Nocturno a porta abrĩdo:
+Quando as infidas gentes ſe chegárão
+Aas naos, que pouco auia que ancorarão
+
+Dantre elles hum que traz encomendado,
+O mortifero engano, aſsi dezia.
+Capitão valeroſo, que cortado
+Tens de Neptuno o reyno, & ſalſa via,
+O Rei que manda eſta Ilha, aluoraçado
+Da vinda tua tem tanta alegria,
+Que nam deſeja mais que agaſalharte,
+Verte, & do neceſſario reformarte.
+
+E porque eſtà em eſtremo deſejoſo
+De te ver, como couſa nomeada,
+Te roga que de nada receoſo,
+Entres a barra, tu com toda armada:
+E porque do caminho trabalhoſo,
+Traras a gente debil, & canſada,
+Diz que na terra podes reformala,
+Que a natureza obriga a deſejada,
+
+E ſe buſcando vas mercadoria,
+Que produze o aurifero Leuante,
+Canella, Crauo, ardente eſpeciaria,
+Ou Droga ſalutifera, & preſtante:
+Ou ſe queres luzente pedraria,
+O Rubí fino, o rigido Diamante:
+Daqui leuaras tudo tam ſobejo.
+Com que faças o fim a teu deſejo:
+
+Ao menſageiro o Capitão reſponde,
+As palauras do Rei agradecendo,
+E diz que porque o Sol no mar ſe eſconde,
+Não entra pera dentro obedecendo,
+Porem que como a luz mostrar por onde
+Va ſem perigo, a frota não temendo,
+Comprirà ſem receio ſeu mandado,
+Que a mais por tal ſenhor eſtà obrigado.
+
+Perguntalhe deſpois, ſe estão na terra
+Chriſtãos, como o Piloto lhe dezia,
+O menſageiro aſtuto que não erra,
+Lhe diz, que a mais da gẽte em Chriſto cria:
+Deſta ſorte do peito lhe desterra
+Toda a ſoſpeita, & cauta fantaſia:
+Por onde o Capitão ſeguramente,
+Se fia da infiel, & falſa gente.
+
+E de algũs que trazia condenados,
+Por culpas, & por feitos vergonhoſos
+Porque podeſſem ſer auenturados,
+Em caſos deſta ſorte duuidoſos.
+Manda dous mais ſagazes, enſaiados,
+Porque notem dos Mouros enganoſos,
+A Cidade, & poder, & porque vejão,
+Os que Chriſtãos, que ſo tanto ver deſejão.
+
+E por eſtes ao Rei preſentes manda,
+Porque a boa vontade que moſtraua,
+Tenha firme, ſegura, limpa, & branda,
+A qual bem ao contrario em tudo eſtaua.
+Ia a companhia perfida, enefanda
+Das naos ſe deſpedia, & o mar cortaua,
+Foram com geſtos ledos, & fingidos,
+Os dous da frota em terra recebidos.
+
+E deſpois que ao Rei apreſentàrão,
+Co recado os preſentes que trazião,
+A Cidade correrão, & notarão
+Muito menos daquillo que querião,
+Que os Mouros cauteloſos ſe guardarão
+De lhe moſtrarem tudo o que pedião.
+Que onde reina a malicia, eſtà o receio
+Que a faz imaginar no peito alheio.
+
+Mas aquelle que ſempre a mocidode
+Tem no roſto perpetua, & foy naſcido
+De duas mãis: que vrdia a falſidade,
+Por ver o nauegante deſtruydo:
+Eſtaua nũa caſa da Cidade,
+Com roſto humano, & habito fingido
+Moſtrandoſe Chriſtão, & fabricaua
+Hum altar ſumptuoſo que adoraua.
+
+Ali tinha em retrato affigurada
+Do alto & Sancto ſpirito a pintura,
+A candida Pombinha debuxada,
+Sobre a vnica Fenix virgem pura,
+A companhia ſancta eſtà pintada,
+Dos doze tam toruados na figura,
+Como os que, ſo das lingoas que cayrão,
+De fogo, varias lingoas referirão.
+
+Aqui os dous companheiros conduzidos,
+Onde com este engano Baco estaua
+Poem em terra os giolhos, & os ſentidos
+Naquelle Deos, que o mundo gouernaua
+Os cheiros excellentes produzidos,
+Na Panchaia odorifera queimaua
+O Thioneû, & aſsi por derradeiro
+O falſo Deos adora o verdadeiro.
+
+Aqui forão denoite agaſalhados,
+Com todo o bom, & honeſto tratamento
+Os dous Chriſtãos, nam vendo que enganado
+Os tinha o falſo, & ſancto fingimento:
+Mas aſsi como os rayos eſpalhados
+Do Sol forão no mundo, & num momento
+Apareceo no rubido Orizonte,
+Na moça de Titão a roxa ſronte.
+
+Tornão da terra os Mouros co recado
+Do Rei, pera que entraſſem, & conſigo
+Os dous que o Capitão tinha mandado,
+A quem ſe o Rei moſtrou ſincêro amigo:
+E ſendo o Portugues certificado,
+De não auer receio de perigo.
+E que gente de Chriſto em terra auia,
+Dentro no ſalſorio entrar queria
+
+Dizem lhe os que mandou, que em terra vîrão,
+Sacras aras, & ſacerdote ſancto,
+Que ali ſe agaſalhàrão, & dormirão,
+Em quanto a luz cubrio o eſcuro manto:
+E que no Rei, & gentes não ſentirão
+Senão contentamento, & gosto tanto:
+Que não podia certo auer ſoſpeita,
+Nũa mostra tão clara, & tão perfeita.
+
+Co iſto o nobre Gama recebia
+Alegremente os Mouros que ſubião,
+Que leuemente hum animo ſe fia,
+De mostras que tão certas parecião:
+A nao da gente perfida ſe enchia,
+Deixando a bordo os barcos que trazião:
+Alegres vinhão todos, porque crem
+Que a preſa deſejada certa tem.
+
+Na terra cautamente aparelhauão,
+Armas, & monições, que como viſſem
+Que no Rio os nauios ancorauão,
+Nelles ouſadamente ſe ſubiſſem:
+E neſta treição determinauão,
+Que os de Luſo de todo deſtruiſſem:
+E que incautos pagaſſem deste geito
+O mal que em Moçambique tinhão feito.
+
+As ancoras tenaces vão leuando,
+Com a nautica grita coſtumada,
+Da proa as vellas ſos ao vento dando,
+Inclinão pera a barra abaliſada:
+Mas a linda Ericina, que guardando
+Andaua ſempre a gente aſsinalada:
+Vendo a cilada grande, & tam ſecreta,
+Voa do Ceo ao Mar como hũa ſeta.
+
+Conuoca as aluas filhas de Nerêo,
+Com toda a mais cerulea companhia,
+Que porque no ſalgado Mar naſceo,
+Das agoas o poder lhe obedecia.
+E propondo lhe a cauſa a que deceo,
+Com todos juntamente ſe partia:
+Pera eſtoruar que a armada não chegaſſe
+Aonde pera ſempre ſe acabaſſe.
+
+Ia na agoa erguendo vão com grande preſſa,
+Com as argenteas caudas branca eſcuma,
+Cloto co peito corta, & atraueſſa
+Com mais furor o Mar do que coſtuma.
+Salta Niſe, Nerine ſe arremeſſa,
+Por cima da agoa creſpa, em força ſuma:
+Abrem caminho as ondas encuruadas,
+De temor das Nereidas apreſſadas.
+
+Nos hombros de hum Tritão com geſto aceſo,
+Vay a linda Dione furioſa,
+Não ſente quem a leua o doçe peſo,
+De ſoberbo, com carga tam fermoſa:
+Ia chegão perto donde o vento teſo,
+Enche as vellas da frota belicoſa.
+Repartenſe, & rodeão neſſe inſtante
+As naos ligeiras que hião por diante.
+
+Poem ſe a Deoſa com outras em dereito
+Da proa capitaina, & ali fechando,
+O caminho da barra estão de geito,
+Que em vão aſſopra o vento, a vella inchãdo:
+Poem no madeiro duro o brando peito,
+Pera detras a forte nao forçando.
+Outras em derredor leuandoa eſtauão,
+E da barra inimiga a deſuiauão.
+
+Quaes pera a coua as pròuidas formigas,
+Leuando o peſogrande acomodado,
+As forças exercitão, de inimigas,
+Do inimigo Inuerno congelado:
+Ali ſam ſeus trabalhos, & fadigas,
+Ali mostrão vigor nunca eſperado.
+Tais andauão as Nimphas eſtoruando
+Aa gente Portugueſa o fim nefando.
+
+Torna pera detras a Nao forçada,
+A peſar dos que leua, que gritando,
+Mareão vellas, ferue a gente yrada,
+O leme a hum bordo, & a outro atraueſſando
+O Meſtre aſtuto em vão da popa brada,
+Vendo como diante ameaçando
+Os estaua hum maritimo penedo,
+Que de quebrarlhe a Nao lhe mete medo:
+
+A celeuma medonha ſe aleuanta,
+No rudo Marinheiro que trabalha,
+O grande eſtrondo, a Maura gente eſpanta,
+Como ſe viſſem horrida batalha:
+Nam ſabem a razão de furia tanta,
+Nam ſabem neſta preſſa quem lhe valha,
+Cuydão que ſeus enganos ſam ſabidos,
+E que ande ſer por iſſo aqui punidos.
+
+Eilos ſubitamente ſe lançauão,
+A ſeus bateis veloces que trazião,
+Outros encima o mar aleuantauão,
+Saltando nagoa a nado ſe acolhião:
+De hum bordo & doutro ſubito ſaltauão,
+Que o medo os compelia do que vião.
+Que antes querem ao mar auenturarſe,
+Que nas mãos inimigas entregarſe.
+
+Aſsi como em ſeluatica alagoa,
+As rãs no tempo antigo Lycia gente,
+Se ſentem por ventura vir peſſoa,
+Estando fora da agoa incautamente,
+Daqui, & dali ſaltando, o charco ſoa,
+Por fogir do perigo que ſe ſente,
+E acolhendo ſe ao couto que conhecem,
+Sos as cabeças na agoa lhe aparecem.
+
+Aſsi fogem os Mouros, & o Piloto,
+Que ao perigo grande as naos guiâra,
+Crendo que ſeu engano eſtaua noto,
+Tambem foge ſaltando na agoa amara:
+Mas por nam darem no penedo immoto,
+Onde percão a vida doçe, & cara:
+A ancora ſolta logo a capitaina,
+Qualquer das outras junto della amaina.
+
+Vendo o Gama, atentado a eſtranheza
+Dos Mouros não cuidada, & juntamente,
+O Piloto fugir lhe com preſteza,
+Entende o que ordenaua a bruta gente,
+E vendo ſem contraste, & ſem braueza
+Dos ventos, ou das, agoas ſem corrente,
+Que a Nao paſſar auante não podia,
+Auendo o por milagre aſsi dezia.
+
+O caſo grande, eſtranho, & não cuydado,
+O milagre clariſsimo, & euidente,
+O deſcuberto engano inopinado,
+O perfida inimiga, & ſalſa gente,
+Quem poderà do mal aparelhado
+Liurarſe ſem perigo ſabiamente.
+Se la de cima a guarda ſoberana,
+Não acudir aa fraca força humana?
+
+Bem nos moſtra a diuina prouidencia,
+Destes portos, a pouca ſegurança,
+Bem claro temos viſto na aparencia,
+Que era enganada a noſſa confiança
+Mas pois ſaber humano, nem prudencia
+Enganos tam fingidos nam alcança:
+O tu guarda diuina, tem cuidado
+De quem ſem ti nam pode ſer guardado.
+
+E ſe te moue tanto a piedade,
+Deſta miſera gente peregrina,
+Que ſo por tua altiſsima bondade,
+Da gente a ſaluas, perfida & malina,
+Nalgum porto ſeguro de verdade:
+Conduzirmos ja agora determina,
+Ou nos amostra a terra que buſcamos,
+Pois ſo por teu ſeruiço nauegamos.
+
+Ouuiolhe eſtas palauras piadoſas,
+A fermoſa Dione, & comouida,
+Dantre as Nimphas ſe vay, que ſaudoſas
+Ficarão deſta ſubita partida:
+Ia penetra as Eſtrellas luminoſas,
+Ia na terceyra Eſphera recebida
+Auante paſſa, & la no ſexto Ceo
+Pera onde eſtaua o Padre ſe moueo.
+
+E como hia afrontada do caminho
+Tão fermoſa no geſto ſe moſtraua,
+Queas Eſtrellas, & o Ceo, & o Ar vizinho,
+E tudo quanto a via namoraua
+Dos olhos, onde faz ſeu filho o ninho
+Hũs eſpiritos viuos inspiraua,
+Com que os Polos gelados acendia,
+E tornaua do Fogo a eſphera fria.
+
+E por mais namorar o ſoberano
+Padre, de quem foy ſempre amada, & cara
+Se lhapreſenta aſsi como ao Troyano,
+Na ſelua Idea ja ſe apreſentàra:
+Se a vira o caçador, que o vulto humano
+Perdeo, vendo Diana na agoa clara:
+Nunca os famintos galgos o matàrão,
+Que primeiro deſejos o acabárão.
+
+Os creſpos fios douro ſe eſparzião
+Pelo colo, que a neue eſcurecia,
+Andando as lacteas tetas lhe tremião,
+Com quem Amor brincaua, & não ſe via.
+Da alua petrina flamas lhe ſaião,
+Onde o minino as almas acendia.
+Polas liſas colũnas lhe trepauão,
+Deſejos, que como Era ſe enrolauão.
+
+Cum delgado cendal as partes cobre,
+De quem vergonha he natural reparo,
+Porem nem tudo eſconde, nem deſcobre
+O veo dos roxos lirios pouco auaro:
+Mas pera que o deſejo acenda, & dobre,
+Lhe poem diante aquelle objecto raro.
+Ia ſe ſentem no Ceo, por toda a parte,
+Ciumes em Vulcano, Amor em Marte:
+
+E mostrando no angelico ſembrante,
+Co riſo hũa tristeza miſturada,
+Como dama que foi do incauto amante,
+Em brincos amoroſos mal tratada,
+Que ſe aqueixa, & ſe ri, num meſmo inſtãte,
+E ſe torna entre alegre maogada.
+Deſta arte a Deoſa, a quem nenhũa iguala,
+Mais mimoſa que triſte ao Padre fala.
+
+Sempre eu cuidey, ô Padre poderoſo,
+Que pera as couſas, que eu do peito amaſſe
+Te achaſſe brando, affabil, & amoroſo,
+Poſto que a algum contrairo lhe peſaſſe:
+Mas pois que contra my te vejo yroſo,
+Sem que to mereceſſe, nem te erraſſe.
+Façaſe como Baco determina,
+Aſſentarey em fim que fuy mofina.
+
+Eſte pouo que he meu, por quem derramo,
+As lagrimas que em vão caidos vejo,
+Que aſſaz de mal lhe quero, pois que o amo,
+Sendo tu tanto contra meu deſejo:
+Por elle a ti rogando choro, & bramo,
+E contra minha dita em fim pelejo.
+Ora pois porque o amo he mal tratado,
+Quero lhe querer mal, ſera guardado.
+
+Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes,
+Que pois eu fuy: & niſto de mimoſa
+O rosto banha, em lagrimas ardentes,
+Como co orualho fica a freſca roſa.
+Calada hum pouco, como ſe entre os dentes
+Lhe impedira a falla piedoſa.
+Torna a ſeguila, & indo por diante,
+Llhe atalha o poderoſo, & grão Tonante.
+
+E deſtas brandas moſtras comouido,
+Que mouerão de hum Tigre o ptito duro,
+Co vulto alegre, qual do Ceo ſubido,
+Torna ſereno & claro o ar eſcuro.
+As lagrimas lhe alimpa, & acendido
+Na façe a beija, & abraça o colo puro.
+De modo que dali, ſe ſo ſe achara,
+Outro nouo Cupido ſe gerara.
+
+E co ſeu apertando o roſto amado,
+Que os ſaluços, & lagrimas aumenta,
+Como minino da ama castigado,
+Que quem no aſſago o choro lhe acrecenta,
+Por lhe por em ſoſſego o peito yrado,
+Muitos caſos futuros lhe apreſenta.
+Dos fados as entranhas reuoluendo,
+Deſta maneira em fim lhe eſtà dizendo.
+
+Fermoſa filha minha não temais
+Perigo algum, nos voſſos Luſitanos,
+Nem que ninguem comigo poſſa mais,
+Que eſſes choroſos olhos ſoberanos:
+Que eu vos prometo filha que vejais
+Eſquecerenſe Gregos & Romanos.
+Pelos illuſtres feitos que esta gente,
+Ha de fazer nas partes do Oriente.
+
+Que ſe o facundo Vliſſes eſcapou,
+De ſer na Ogigia Ilha, eterno eſcrauo:
+E ſe Antenor os ſeios penetrou,
+Iliricos, & a fonte de Timauo.
+E ſe o piadoſo Eneas nauegou,
+De Scila, & de Caribdis o Mar brauo.
+Os voſſos môres couſas atentando,
+Nouos mundos ao mundo yrão moſtrando.
+
+Fortalezas, Cidades, & altos muros,
+Por elles vereis filha edificados:
+Os Turcos belaciſsimos & duros,
+Delles ſempre vereis desbaratados.
+Os Reis da India liures, & ſeguros,
+Vereis ao Rei potente ſojugados.
+E por elles de tudo em fim ſenhores,
+Serão dadas na terra leis milhores.
+
+Vereis eſte, que agora preſuroſo,
+Por tantos medos o Indo vay buſcando,
+Tremer delle Neptuno de medroſo,
+Sem vento ſuas agoas encreſpando.
+O caſo nunca viſto, & milagroſo
+Que trema, & ferua o Mar em calma eſtãdo?
+O gente forte, & de altos penſamentos,
+Que tambem della hão medo os Elementos.
+
+Vereis a terra que a agoa lhe tolhia,
+Que inda ha de ſer hum porto muy decente,
+Em que vão deſcanſar da longa via,
+As naos que nauegarem do Occidente.
+Toda eſta coſta em fim, que agora vrdia,
+O mortifero engano, obediente,
+Lhe pagarà tributos, conhecendo,
+Não poder reſistir ao Luſo horrendo:
+
+E vereis o Mar roxo tam famoſo,
+Tornar ſelhe amarello de infiado:
+Vereis de Ormuz o Reino poderoſo,
+Duas vezes tomado, & ſojugado.
+Ali vereis o Mouro furioſo,
+De ſuas meſmas ſetas traſpaſſado.
+Que quem vay contra os voſſos, claro veja,
+Que ſe reſiſte, contra ſi peleja.
+
+Vereis a inexpugnabil Dio fortes,
+Que dous cercos terà, dos voſſos ſendo:
+Ali ſe mostrarà ſeu preço, & ſorte,
+Feitos de armas grandiſsimos fazendo.
+Enuejoſo vereis o grão Mauorte,
+Do peito Luſitano, fero & horrendo.
+Do Mouro ali verão que a voz extrema,
+Do falſo Mahamede ao Ceo blasfema.
+
+Goa vereis aos Mouros ſer tomada,
+A qual virá deſpois a ſer ſenhora,
+De todo o Oriente, & ſublimada
+Cos triumphos da gente vencedora.
+Ali ſoberba altiua, & exalçada,
+Ao Gentio que os Idolos adora.
+Duro ſreo porà, & a toda a terra,
+Que cuidar de fazer aos voſſos guerra.
+
+Vereis a fortaleza ſuſtentarſe,
+De Cananor, com pouca força & gente:
+E vereis Calecu desbaratarſe,
+Cidade populoſa, & tam potente.
+E vereis em Cochim aſsinalarſe,
+Tanto hum peito ſoberbo, & inſolente,
+Que Cîtara ja mais cantou victoria,
+Que aſsi mereça eterno nome, & gloria.
+
+Nunca com Marte, inſtructo & furioſo,
+Se vio feruer Leucate, quando Auguſto
+Nas ciuîs Actias guerras animoſo,
+O Capitão venceo Romano injuſto,
+Que dos pouos de Aurora, & do famoſo
+Nilo, & do Bactra Scitico, & robusto,
+A victoria trazia, & preſa rica,
+Preſo da Egipcia linda & não pudica.
+
+Como vereis o mar feruendo aceſo,
+Cos incendios dos voſſos pelejando,
+Leuando o Idololatra, & o Mouro preſo,
+De nações differentes triumphando.
+E ſogeita a rica Aurea Cherſoneſo,
+Ate o longico China nauegando.
+E as Ilhas mais remotas do Oriente,
+Serlhe a todo o Occeano obediente.
+
+De modo filha minha, que de geito,
+Amoſtrarão esforço mais que humano,
+Que nunca ſe vera tam forte peito,
+Do Gangetico mar ao Gaditano,
+Nem das Boreais ondas, ao Eſtreito,
+Que moſtrou o agrauado Luſitano:
+Poſto que em todo o mundo, de affrontados
+Reſucitaſſem todos os paſſados.
+
+Como isto diſſe, manda o conſagrado
+Filho de Maia aa terra, porque tenha,
+Hum pacifico porto, & ſoſſegado,
+Pera onde ſem receyo a frota venha:
+E pera que em Mombaça, auenturado
+O forte Capitão ſe não detenha,
+Lhe mãda mais, que em ſonhos lhe moſtraſſe
+A terra, onde quieto repouſaſſe.
+
+Ia pelo ar o Cylenêo voaua,
+Com as aſas nos pês aa terra deçe,
+Sua vara fatal na mão leuaua,
+Com que os olhos canſados adormece:
+Com eſta, as triſtes almas reuocaua,
+Do Inferno, & o vento lhe obedeçe.
+Na cabeça o galêro coſtumado,
+E deſta arte a Melinde foy chegado.
+
+Conſigo a Fama leua, porque diga,
+Do Luſitano, o preço grande, & raro,
+Que o nome illuſtre a hũ certo amor obriga,
+E faz a quem o tem, amado & caro.
+Deſta arte vay fazendo a gente amiga,
+Co rumor famoſiſsimo, & perclaro.
+Ia Melinde em deſejos arde todo,
+De ver da gente forte o gesto, & modo.
+
+Dali pera Mombaça logo parte,
+Aonde as naos eſtauão temeroſas,
+Pera que aa gente mando que ſe aparte
+Da barra imiga, & terras ſoſpeitoſas:
+Porque muy pouco val esforço, & arte,
+Contra infernais vontades enganoſas:
+Pouco val coração, aſtucia , & ſiſo,
+Se la dos Ceos nam vem celeſte auiſo.
+
+Meyo caminho a noite tinha andado,
+E as Eſtrellas no Ceo co a luz alheia,
+Tinhão o largo Mundo alumiado,
+E ſo co ſono a gente ſe recreia.
+O Capitão illuſtre, ja canſado,
+De vigiar a noite, que arreceia,
+Breue repouſo antam aos olhos daua,
+A outra gente a quartos vigiaua.
+
+Quando Mercurio em ſonhos lhe apareçe,
+Dizendo, fuge, fuge Luſitano,
+Da cilada que o Rei malicado teçe,
+Por te trazer ao fim, & extremo dano,
+Fuge, que o Vento, & o Ceo te fauoreçe,
+Sereno o tempo tẽs, & o Occeano,
+E outro Rei mais amigo, noutra parte,
+Onde podes ſeguro agaſalharte.
+
+Não tens aqui ſe não aparelhado,
+O hoſpicio que o cru Diomedes daua,
+Fazendo ſer manjar acostumado,
+De cauallos a gente que hoſpedaua:
+As aras do Buſiris infamado,
+Onde os hoſpedes tristes imolaua
+Teràs certas aqui ſe muito eſperas,
+Fuge das gentes perfidas & feras.
+
+Vaite ao longo da coſta diſcorrendo,
+E outra terra acharàs de mais verdade
+La quaſi junto donde o Sol ardendo,
+Iguala o dia, & noite em quantidade:
+Ali tua frota alegre recebendo
+Hum Rei, com muitas obras de amizade,
+Gaſalhado ſeguro te daria,
+E pera a India certa & ſabia guia.
+
+Isto Mercurio diſſe, & o ſono leua
+Ao Capitão, que com muy grande eſpanto
+Acorda, & ve ferida a eſcura treua,
+De hũa ſubita luz, & rayo ſancto:
+E vendo claro quanto lhe releua,
+Não ſe deter na terra iniqua tanto.
+Com nouo ſprito ao Mestre ſeu mandaua,
+Que as vellas deſſe ao vento que aſſopraua.
+
+Day vellas, diſſe, day ao largo vento,
+Que o Ceo nos fauoreçe, & Deos o manda,
+Que hum menſageiro vi do claro aſſento
+Que ſo em fauor de noſſos paſſos ando:
+Aleuantaſe niſto o mouimento,
+Dos marinheiros, de hũa & de outra banda,
+Leuão gritando as ancoras acima,
+Moſtrando a ruda força, que ſe estima.
+
+Neſte tempo, que as ancoras leuauão,
+Na ſombra eſcura os Mouros eſcondidos,
+Manſamente as amarras lhe cortauão,
+Por ſerem, dando aa coſta, deſtruydos:
+Mas com viſta de Linces vigiauão,
+Os Portuegueſes ſempre apercebidos.
+Elles como acordados os ſentirão,
+Voando, & não remando lhe fogirão.
+
+Mas ja as agudas proas apartando,
+Hião as vias humidas de argento,
+Aſſopralhe galerno o vento, & brando,
+Com ſuaue & ſeguro mouimento,
+Nos perigos paſſados vão falando,
+Que mal ſe perderão do penſamento,
+Os caſos grandes, donde em tanto aperto
+A vida em ſaluo eſcapa por acerto.
+
+Tinha hũa volta dado o Sol ardente,
+E noutra começaua, quando virão
+Ao longe dous nauios, brandamente
+Cos ventos nauegando, que reſpirão,
+Porque auião de ſer da Maura gente,
+Pera elles arribando, as vellas virão.
+Hum de temor do mal que arreceaua,
+Por ſe ſaluar a gente aa costa daua.
+
+Não he o outro que fica tão manhoſo:
+Mas nas mãos vay cair do Luſitano,
+Sem o rigor de Marte furioſo,
+E ſem a furia horrenda de Vulcano,
+Que como foſſe debil & medroſo,
+Da pouca gente o fraco peito humano:
+Não teue reſiſtencia, & ſe a tiuêra,
+Mais dãno reſiſtindo recebêra.
+
+E como o Gama muito deſejaſſe,
+Piloto pera a India que buſcaua,
+Cuidou que entre eſtes Mouros o tomaſſe:
+Mas não lhe ſoccedeo como cuidaua,
+Que nenhum delles ha que lhe inſinaſſe
+A que parte dos Ceos a India eſtaua.
+Porem dezem lhe todos, que tem perto,
+Melinde onde achàrão Piloto certo.
+
+Louuão do Rei os Mouros a bondade,
+Condiçam liberal, ſincero peito,
+Mognificencia grande, & humanidade,
+Com partes de grandiſsimo reſpeito.
+O Capitão o aſſella por verdade,
+Porque ja lho diſſera deſte geito,
+O Cydenêo em ſonhos, & partia,
+Pera onde o ſonho, & o Mouro lhe dizia.
+
+Era no tempo alegre quando entraua,
+No roubador de Europa a luz Febea,
+Quando hum, & o outro corno lhe aquentaua
+E Flora derramaua o de Amalthea:
+A memoria do dia renouaua,
+O preſuroſo Sol, que o Ceo rodea.
+Em que aquelle, a quem tudo eſtà ſogeito,
+O ſello pos a quanto tinha feito.
+
+Quando chegaua a frota aaquella parte,
+Onde o Reino Melinde ja ſe via,
+De toldos adornada, & leda de arte
+Que bem moſtra eſtimar o Sancto dia:
+Treme a Bandeira, voa o Eſtandarte,
+A cor porpurea ao longe aparecia.
+Soão os atambores & pandeiros,
+E aſsi entrauão ledos & guerreiros.
+
+Enche ſe toda a praya Molindana,
+Da gente que vem ver a leda armada,
+Gente mais verdadeira, & mais humana
+Que toda a doutra terra atras deixada.
+Surge diante a frota Luſitana,
+Pega no findo a ancora peſada.
+Mandão fora hum dos Mouros q̃ tomàrão,
+Por quem ſua vinda ao Rei manifeſtàrão.
+
+O Rei que ja ſabia da nobreza
+que tanto os Portugueſes engrandece,
+Tomarem o ſeu porto tanto preza,
+Quanto a gente fortiſsima merece:
+E com verdadeiro animo, & pureza,
+Que os peitos generoſos ennobrece.
+Lhe manda rogar muyto que ſaiſſem,
+Pera que de ſeus Reinos ſe ſeruiſſem:
+
+Sam offerecimentos verdadeiros,
+E palauras ſinceras, não dobradas,
+As que o Rei manda aos nobres caualleiros,
+Que tanto mar & terras tem paſſadas:
+Mandalhe mais lanigeros carneiros,
+E galinhas domeſticas çeuadas,
+Com as fructas que antam na terra auia,
+E a vontade aa dadiua excedia.
+
+Recebe o Capitão alegremente
+O menſageiro ledo, & ſeu recado,
+E logo manda ao Rei outro preſente,
+Que de longe trazia aparelhado:
+Eſcarlata purpurea, cor ardente,
+O ramoſo coral fino, & prezado.
+Que debaxo das agoas mole creçe,
+E como he fora dellas ſe endureçe.
+
+Manda mais hum na pratica elegante,
+Que co Rei nobre as pazes concertaſſe,
+E que de não ſair naquelle inſtante,
+De ſuas naos em terra o deſculpaſſe.
+Partido aſsi o embaixador preſtante,
+Como na terra ao Rei ſe apreſentaſſe:
+Com eſtillo que Palas lhe enſinaua,
+Estas palauras tais fallando oraua.
+
+Sublime Rei, a quem do Olimpo puro,
+Foy da ſuma Iustiça concedido,
+Refrear o ſoberbo pouo duro,
+Não menos delle amado, que temido,
+Como porto muy forte, & muy ſeguro,
+De todo o Oriente conhecido:
+Te vimos a buſcar, pera que achemos
+Em ti o remedio certo que queremos.
+
+Não ſomos roubadores, que paſſando
+Pelas fracas cidades deſcuidadas,
+A ferro, & a fogo, as gentes vão matando
+Por roubarlhe as fazendas cubiçadas:
+Mas da ſoberba Europa nauegando,
+Himos buſcando as terras apartadas
+Da India grande, & rica, por mandado
+De hum Rei que temos, alto, & ſublimado.
+
+Que geração tam dura ahi de gente?
+Que barbaro costume, & vſança fea,
+Que não vedem os pertos, tam ſomente:
+Mas inda o hospicio da deſerta area?
+Que ma tençam? que peito em nos ſe ſente?
+Que de tam pouca gente ſe arrecea.
+Que com laços armados tam fingidos,
+Nos ordenaſſem vernos deſtruydos?
+
+Mas tu, em quem muy certo confiamos
+Acharſe mais verdade, o Rei benigno,
+E aquella certa ajuda em ti eſperamos,
+Que teue o perdido Itaco em Alcino:
+A teu porto ſeguros nauegamos,
+Conduzidos do interprete diuino.
+Que pois a ti nos manda, eſtà muy claro,
+Que es de peito ſincêro, humano, & raro.
+
+E não cuydes, ô Rei, que não ſaiſſe.
+O noſſo Capitão eſclarecido
+A verte, ou a ſeruirte, porque viſſe
+Ou ſoſpeitaſſe em ti peito fingido:
+Mas ſaberas que o fez porque compriſſe,
+O regimento em tudo obedecido,
+De ſeu Rei, que lhe manda que nam ſaia,
+Deixando a frota, em nenhũ porto, ou praia.
+
+E porque he de vaſſalos, o exercicio,
+Que os membros tem regidos da cabeça
+Não quereras, pois tẽs de Rei o officio,
+Que ninguem a ſèu Rei deſobedeça:
+Mas as merçes, & o grande beneficio,
+Que ora acha em ti, promete que conheça
+Em tudo aquillo que elle & os ſeus poderem,
+Em quanto os rios pera o mar correrem.
+
+Aſsi dizia, & todos juntamente,
+Hũs com outros em pratica fallando,
+Louuauão muito o eſtamago da gente,
+Que tantos Ceos & mares vai paſſando,
+E o Rei illuſtre, o peito obediente,
+Dos Portugueſes, na alma imaginando.
+Tinha por valor grande, & muy ſubido,
+O do Rei que he tam longe obedecido.
+
+E com riſonha viſta, & ledo aſpeito,
+Responde ao Embaixador, que tanto estima
+Toda a ſoſpeita mà tiray do peito,
+Nenhum frio temor em vos ſe imprima:
+Que voſſo preço, & obras ſam de geito,
+Pera vos ter o mundo em muyta eſtima.
+E quem vos fez mollesto tratamento,
+Não pode ter ſobido penſamento.
+
+De não ſair em terra toda a gente,
+Por obſeruar a vſado preminencia,
+Ainda que me peſe eſtranhamente,
+Em muito tenho a muita obediencia:
+Mas ſe lho o regimento não conſente,
+Nem eu conſentirey que a excelencia,
+De peitos tão leais em ſi desfaça,
+So perque a meu deſejo ſatisfaça.
+
+Porem como a luz crastina chegada,
+Ao mundo for, em minhas almàdîas,
+Eu irey viſitar a forte armada,
+Que ver tanto deſejo, ha tantos dias.
+E ſe vier do mar desbaratada,
+Do furioſo vento, & longas vias:
+Aqui tera, de limpos penſamentos
+Piloto, munições, & mantimentos.
+
+Isto diſſe, & nas agoas ſe eſcondia,
+O filho de Latona, & o menſageiro
+Co a embaixada alegre ſe partia
+Pera a frota, no ſeu batel ligeiro:
+Enchem ſe os peitos todos de alegria,
+Por terem o remedio verdadeiro,
+Pera acharem a terra que buſcauão,
+E aſsi ledos a noite feſtejauão.
+
+Não faltão ali os rayos de arteficio,
+Os tremulos Cometas imitando,
+Fazem os Bombardeiros ſeu officio:
+O ceo, a terra, & as ondas atroando.
+Moſtraſe dos Cyclopas o exercicio,
+Nas bombas que de fogo estão queimando,
+Outros com vozes, com que o Ceo ferião.
+Inſtrumentos altiſſonos tangião.
+
+Respondem lhe da terra juntamente,
+Co rayo volteando, com zonido,
+Anda em giros no ar a roda ardente,
+Estoura o po ſulfureo eſcondido:
+A grita ſe aleuanta ao Ceo, da gente,
+O Mar ſe via em fogos acendido:
+E não menos a terra, & aſsi feſteja
+Hum ao outro a maneira de peleja.
+
+Mas ja o Ceo inquieto reuoluendo,
+As gentes incitaua a ſeu trabalho,
+E ja a mãy de Menon a luz trazendo,
+Ao ſono longo punha certo atalho:
+Hião ſe as ſombras lentas desfazendo,
+Sobre as flores da terra, em frio orualho,
+Quando o Rei Milindano ſe embarcaua
+A ver a frota que no mar estaua.
+
+Vião ſe em derredor feruer as prayas
+Da gente, que a ver ſo concorre leda,
+Luzem da fina purpura as cabaias,
+Lustrão os panos da tecida ſeda:
+Em lugar de guerreiras a zagaias
+E do arco, que os cornos arremeda
+Da Lũa, trazem ramos de Palmeira,
+Dos que vencem coroa verdadeira.
+
+Hum batel grande & largo, que toldado
+Venha de ſedas de diuerſas cores,
+Traz o Rei de Melinde, acompanhado
+De nobres de ſeu Reino, & de ſenhores:
+Vem de ricos veſtidos adornado,
+Segundo ſeus costumes, & primores.
+Na cabeça hũa fota guarnecida,
+De ouro, & de ſeda, & de algodão tecida.
+
+Cabaya de Damaſco rico, & dino,
+Da Tiria cor, entre elles eſtimada,
+Hum colar ao peſcoço de ouro fino,
+Onde a materia da obra he ſuperada,
+Cum reſplandor reluze Adamantino,
+Na cinta, a rica adaga bem laurada.
+Nas alparcas dos pês, em fim de tudo,
+Cobrem, ouro & aljofar ao veludo.
+
+Com hum redondo emparo alto de ſeda,
+Nũa alta & dourada astea enxerido,
+Hum miniſtro aa ſolar quentura veda,
+Que não offenda & queime o Rei ſubido:
+Muſica traz na proa, eſtranha & leda,
+De aſpero ſom, horriſsimo ao ouuido:
+De trombetas arcadas em redondo,
+Que ſem concerto fazem rudo estrondo.
+
+Não menos guarnecido o Luſitano,
+Nos ſeus bateis da frota ſe partia,
+A receber no mar o Melindano,
+Com luſtroſa & honrada companhia:
+Vestido o Gama vem ao modo Hispano:
+Mas Franceſa era a roupa que veſtia,
+De cetim da Adriatica Veneza,
+Carmeſi, cor que a gente tanto preza.
+
+De botões douro as mangas vem tomadas,
+Onde o Sol reluzindo a viſta cega:
+As calças ſoldadeſcas recamadas,
+Do metal que Fortuna a tantos nega,
+E com pontas do meſmo delicadas,
+Os golpes do gibão ajunta, & achega:
+Ao Italico modo a aurea eſpada,
+Pruma na gorra, hum pouco diclinada.
+
+Nos de ſua companhia ſe moſtraua,
+Da tinta que dà o Mûrice excelente,
+A varia cor, que os olhos alegraua,
+E a maneira do trajo diferente:
+Tal o fermoſo eſmalte ſe notaua,
+Dos veſtidos olhados juntamente:
+Qual aparece o arco rutilante,
+Da bella Nimpha filha de Thaumante.
+
+Sonoroſas trombetas incitauão,
+Os animos alegres reſoando,
+Dos Mouros os bateis o Mar co lhauão,
+Os toldos pelas agoas arrojando:
+As bombardas horriſſonas bramando,
+Com as nuuẽs de fumo o Sol tomando,
+Ameudam ſe os brados acendidos,
+Tapão com as mãos os Mouros os ouuidos.
+
+Ia no batel entrou do Capitão
+O Rei, que nos ſeus braços o leuaua,
+Elle coa corteſia, que a razão
+(Por ſer Rei) requeria, lhe fallaua.
+Cũas moſtras de eſpanto, & admiração,
+O Mouro o geſto, & o modo lhe notoua,
+Como quem em muy grande estima tinha,
+Gente que de tam longe à India vinha.
+
+E com grandes palauras lhe offereçe,
+Tudo o que de ſeus Reinos lhe compriſſe,
+E que ſe mantimento lhe falleçe,
+Como ſe proprio foſſe lho pediſſe:
+Diz lhe mais, que por fama bem conheçe
+A gente Luſitana, ſem que a viſſe.
+Que ja ouuio dizer, que noutra terra
+Com gente de ſua ley tiueſſe guerra.
+
+E como por toda Affrica ſe ſoa,
+Lhe diz, os grandes feitos que fizerão,
+Quando nella ganharão a coroa
+Do Reino, onde as Hesperidas viuerão:
+E com muitas palauras apregoa,
+O menos que os de Luſo merecerão:
+E o mais que pela fama o Rei ſabia:
+Mas deſta ſorte o Gama reſpondia.
+
+O tu que ſo tiueste piedade,
+Rei benigno, da gente Luſitana,
+Que com tanta miſeria, & aduerſidade,
+Doe mares experimenta a furia inſana.
+Aquella alta, & diuina eternidade,
+Que o Ceo reuolue, & rege a gente humana:
+Pois que de ti tais obras reçebemos,
+Te pague o que nos outros não pedemos.
+
+Tu ſo de todos quantos queima Apolo,
+Nos recebes em paz do Mar profundo
+Em ti, dos ventos horridos de Eolo,
+Refugio achamos bom, fido, & jocundo.
+Em quanto apacentar o largo Polo,
+As Eſtrellas, & o Sol der lume ao Mundo,
+Onde quer que eu viuer, com fama & gloria,
+Viuirão teus louuores em memoria.
+
+Isto dizendo, os barcos vão remando,
+Pera a frota, que o Mouro ver deſeja,,
+Vão as naos, hũa & hũa rodeando,
+Porque de todas tudo note, & veja:
+Mas pera o Ceo Vulcano fuzilando,
+A frota co as bombardas o feſteja,
+E as trombetas canoras lhe tangião,
+Cos anafis os Mouros reſpondião.
+
+Mas deſpois de ſer tudo ja notado,
+Do generoſo Mouro, que paſmaua,
+Ouuindo o inſtrumento inuſitado,
+Que tamanho terror em ſi moſtraua,
+Mandaua estar quieto, & ancorado,
+Nagoa o batel ligeiro que as leuaua,
+Por fallar de vagar co forte Gama,
+Nas couſas de que tem noticla, & fama.
+
+Em praticas o Mouro diferentes,
+Se deleitaua, perguntando agora,
+Pelas guerras famoſas & excelentes,
+Co pouo áuidas, que a Mafoma adora:
+Agora lhe pergunta pelas gentes
+De toda a Hispheria vltima, onde mora:
+Agora pelos pouos ſeus vezinhos,
+Agora pelos humidos caminhos.
+
+Mas antes valeroſo Capitão,
+Nos conta, lhe dezia, diligente,
+Da terra tua o clima, & região
+Do Mundo onde morais diſtintamente,
+E aſsi de voſſa antiga geração,
+E o principio do Reino tam potente:
+Cos ſucceſſos das guerras do começo,
+Que ſem ſabellas, ſey que ſam de preço.
+
+E aſsi tambem nos conta dos rodeios
+Longos, em que te traz o Mar yrado,
+Vendo os coſtumes barbaros alheios,
+Que a noſſa Affrica ruda tem criado
+Conta: que agora vem cos aureos freios,
+Os cauallos que o carro marchetado,
+Do nouo Sol, da fria Aurora trazem,
+O Vento dorme, o Mar & as ondas jazem.
+
+E não menos co tempo ſe pareçe,
+O deſejo de ouuirte o que contares,
+Que quem ha, que por fama não conheçe
+As obras Portugueſas ſingulares:
+Não tanto deſuiado reſplandeçe,
+De nos o claro Sol, pera julgares.
+Que os Melindanos tem tam rudo peito,
+Que não eſtimem muito hum grande feito.
+
+Cometerão ſoberbos os Gigantes,
+Com guerra vão, o olimpo claro, & puro,
+Tentou Peritho, & Theſeu, de ignorantes,
+O Reino de Plutão horrendo & eſcuro,
+Se ouue feitos no mundo tam poſſantes,
+Não menos he trabalho illuſtre, & duro,
+Quanto foi cometer Inferno, & Ceo,
+Que outrem cometa a furia de Nereo.
+
+Queimou o ſagrado templo de Diana,
+Do ſutil Teſifonio fabricado,
+Horoſtrato, por ſer da gente humana
+Conhecido no mundo, & nomeado:
+Se tambem com tais obras nos engana,
+O deſejo de hum nome auentajado.
+Mais razão ha que queira eterna gloria
+Quem faz obras tam dignas de memoria.
+Fim.
+
+
+
+❧ Canto Terceiro.
+
+Agora tu Caliope
+me enſina,
+O que contou ao Rei, o illustre
+Gama:
+Inſpira immortal canto, & voz diuina,
+Neſte peito mortal, que tanto te ama.
+Aſsi o claro inuentor da Medicina,
+De quem Orpheo pariſte, o linda Dama:
+Nunca por Daphne, Clicie, ou Leucothôe
+Te negue o Amor diuido, como ſoe.
+
+Poem tu Nimfa em effeito meu deſejo,
+Como mereçe a gente Luſitana,
+Que veja & ſaiba o mundo que do Tejo
+O licor de Aganipe corre & mana,
+Deixa as flores de Pindo, que ja vejo
+Banharme Apolo na agoa ſoberana.
+Senão direy, que tẽs algum receio,
+Que ſe eſcureça o teu querido Orpheio.
+
+Promptos eſtauão todos eſcuitando,
+O que o ſublime Gama contaria
+Quando, deſpois de hum pouco eſtar cuidãdo,
+Aleuantando o roſto, aſsi dizia:
+Mandas me, o Rei, que conte declarando,
+De minha gente a grão geanaloſia:
+Não me manda contar eſtranha hiſtoria:
+Mas mandas me louuar dos meus a gloria.
+
+Que outrem poſſa louuar esforço alheio,
+Couſa he que ſe coſtuma, & ſe deſeja:
+Mas louuar os meus proprios, arreceio,
+Que louuor tão ſospeito mal me esteja,
+E pera dizer tudo, temo & creio,
+Que qualquer longo tempo curto ſeja:
+Mas pois o mandas, tudo ſe te deue,
+Irey contra o que deuo, & ſerey breue.
+
+Alem diſſo, o que a tudo em fim me obriga,
+He não poder mentir no que diſſer,
+Porque de feitos tais, por mais que diga,
+Mais me ha de ficar inda por dizer:
+Mas perque nisto a ordem leue & ſiga,
+Segundo o que deſejas de ſaber.
+Primeiro tratarey da larga terra,
+Deſpois direy da ſanguinoſa guerra.
+
+Entre a Zona que o Cancro ſenhorea,
+Meta Septentrional do Sol luzente,
+E aquella, que por fria ſe arrecea
+Tanto, como a do meyo por ardente,
+Iaz a ſoberba Europa, a quem rodea,
+Pela parte do Arcturo, & do Occidente:
+Com ſuas ſalſas ondas o Occeano,
+E pela Auſtral, o Mar Mediterrano.
+
+Da parte donde o dia vem naſcendo,
+Com Aſia ſe auizinha: mas o Rio
+Que dos montes Rifeios vay correndo,
+Na alagoa Meotis, curuo & frio
+As diuide: & o Mar, que fero & horrendo
+Vio dos Gregos o yrado ſenhorio:
+Onde agora de Troia triumfante,
+Não vê mais que a memoria o nauegante.
+
+La onde mais debaxo està do Polo,
+Os montes Hyperboreos aparecem,
+E aquelles onde ſempre ſopra Eolo,
+E co nome do ſopros, ſe ennobrecem,
+Aqui tam pouca força tem de Apolo,
+Os rayos que no mundo reſplandecem.
+Que a neue eſtà contino pelos montes,
+Gelado o mar, geladas ſempre as fontes.
+
+Aqui dos Cytas, grande quantidade
+Viuem, que antigamente grande guerra
+Tiuerão, ſobre a humana antiguidade,
+Cos que tinhão antão a Egipcia terra:
+Mas quem tão fera estaua da verdade,
+(Ia que o juyzo humano tanto erra:)
+Pera que do mais certo ſe informàra,
+Ao campo Damaſceno o perguntàra.
+
+Agora neſtas partes ſe nomea,
+A Lapia fria, a inculta Noruega,
+Eſcandinauia Ilha, que ſe arrea,
+Das victorias que Italia não lhe nega
+Aqui, em quanto as agoas não refrea,
+O congelado Inuerno, ſe nauega.
+Hum braço do Sarmatico Occeoano,
+Pelo Bruſio, Suecio, & frio Dano.
+
+Entre eſte Mar, & o Tanais viue eſtranha
+Gente, Ruthenos, Moſcos, & Liuonios,
+Sarmatas outro tempo, & na montanha
+Hircinia, os Marcomanos ſam Polonios
+Sugeitos ao Imperio de Alemanha,
+Sam Saxones, Boemios, & Panonios,
+E outras varias nações, que o Reno frio
+Laua, & o Danubio, Amaſis, & Albis Rio.
+
+Entre o remoto Iſtro, & o claro eſtreito,
+Aonde Hele deixou, co nome, a vida,
+Estão os Traces de robuſto peito,
+Do fero Marte, patria tam querida,
+Onde co Hemo, o Rodope ſugeito
+Ao Otomano està, que ſometida,
+Bizancio tem a ſeu ſeruiço indino,
+Boa injuria do grande Coſtantino.
+
+Logo de Macedonia eſtão as gentes,
+A quem laua do Axio a agoa fria:
+E vos tamhem, o terras excelentes,
+Nos coſtumes, engenhos, & ouſadia,
+Que criaſtes os peitos eloquentes,
+E os juizos de alta fantaſia:
+Com quem tu clara Grecia o Ceo penetras,
+E não menos por armas, que por letras.
+
+Logo os Dalmatas viuem, & no ſeio,
+Onde Antenor ja muros leuantou,
+A ſoberba Veneza eſtâ no meio
+Das agoas, que tam baxa começou
+Da terra, hum braço vem ao mar, que cheio
+De esforço, nações varias ſogeitou,
+Braço forte, de gente ſublimada,
+Não menos nos engenhos que na eſpada.
+
+Em torno o cerca o Reino Neptunino,
+Cos muros naturais, por outra parte,
+Pela meyo o diuide o Apinino,
+Que tam illuſtre fez o patrio Marte:
+Mas deſpois que o porteiro tem diuino,
+Perdendo o esforço veio, & bellica arte:
+Pobre eſtà ja de antiga poteſtade,
+Tanto Deos ſe contenta de humildade.
+
+Galia ali ſe verà, que nomeada,
+Cos Ceſareos Triumfos foy no mundo,
+Que do Sequana, & Rôdano he regada,
+E do Garuna frio, & Reno fundo:
+Logo os montes da Nimpha ſepultada
+Pyrene ſe aleuantão, que ſegundo
+Antiguidades contão, quando arderão,
+Rios de ouro, & de prata antão corrèrão.
+
+Eis aqui ſe deſcobre a nobre Eſpanha,
+Como cabeça ali de Europa toda,
+Em cujo ſenhorio & gloria eſtranha,
+Muitas voltas tem dado a fatal roda:
+Mas nunca poderà, com força, ou manha,
+A fortuna inquieta porlhe noda:
+Que lha não tire o esforço & ouſadia,
+Dos belicoſos peitos, que em ſi cria.
+
+Com Tingitania enteſta, & ali parece
+Que quer fechar o mar Mediterrano,
+Onde o ſabido estreito ſe ennobrece,
+Co extremo trabalho do Thebano:
+Com nações differentes ſe engrandece,
+Cercadas com as ondas do Occeano.
+Todas de tal nobreza, & tal valor,
+Que qualquer dellas cuida que he milhor.
+
+Tem o Tarragones, que ſe fez claro,
+Sujeitando Partênope inquieta,
+O Nauarro, as Aſturias, que reparo
+Ia forão, contra a gente Mohometa,
+Tem o Galego cauto, & o grande & raro
+Caſtelhano, a quem fez o ſeu Planeta,
+Restituidor de Eſpanha, & ſenhor della,
+Bethis, Lião, Granada, com Castella.
+
+Eis aqui quaſi cume da cabeça,
+De Europa toda, o Reino Luſitano,
+Onde a Terra ſe acaba, & o Mar começa,
+E onde Febo repouſa no Occeano:
+Eſte quis o Ceo juſto, que ſloreça
+Nas armas, contra o torpe Mauritano,
+Deitando o de ſi fora, & la na ardente
+Affrica eſtar quieto o nam conſente.
+
+Eſta he a ditoſa patria minha amada,
+Aa qual ſe o Ceo me da, que eu ſem perigo
+Torne, com eſta empreſa ja acabada,
+Acabeſe eſta luz ali comigo.
+Eſta foy Luſitania diriuada,
+De Luſo, ou Lyſa: que de Bacho antigo,
+Filhos forão pareçe, ou companheiros,
+E nella antam os Incolas primeiros.
+
+Desta o Paſtor naſceo, que no ſeu nome
+Se ve, que de homem forte os feitos teue,
+Cuja fama, ninguem virà que dome,
+Pois a grande de Roma não ſe atreue:
+Eſta, o velho que os filhos proprios come,
+Por decreto do, Ceo ligeiro, & leue,
+Veo a fazer no mundo tanta parte,
+Criando a Reino illuſtre, & foi deſta arte.
+
+Hum Rei, por nome Affonſo, foy na Eſpanha,
+Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
+Que por armas ſanguinas, força & manha
+A muitos fez perder a vida, & a terra:
+Voando deſte Rei a fama eſtranha,
+Do Herculano Calpe aa Caſpia ſerra,
+Muitos, pera na guerra eſclarecerſe,
+Vinhão a elle, & aa morte offerecerſe.
+
+E com hum amor intrinſeco acendidos
+Da Fè, mais que das honras populares,
+Erão de varias terras conduzidos,
+Deixando a patria amada, & proprios lares
+Deſpois que em feitos altos & ſubidos.
+Se moſtrarão nas armas ſingulares.
+Quis o famoſo Affonſo, que obras tais,
+Leuaſſem premio digno, & dões agoais.
+
+Deſtes Anrique dizem que ſegundo,
+Filho de hum Rei de Vngria exprimentado,
+Portugal ouue em ſorte, que no Mundo
+Entam não era illuſtre, nem prezado:
+E pera mais ſinal damor profundo,
+Quis o Rei Caſtelhano, que caſado,
+Com Tereſa ſua filha o Conde foſſe,
+E com ella das terras tomou poſſe.
+
+Eſte deſpois que contra os deſcendentes,
+Da eſcraua Agar, victorias grandes teue,
+Ganhando muitas terras adjacentes,
+Fazendo o que a ſeu forte peito deue.
+Em premio destes feitos excellentes,
+Deulhe o ſupremo Deos, em tempo breue,
+Hum filho, que illuſtraſſe o nome vfano
+Do belicoſo Reino Luſitano.
+
+Ia tinha vindo Anrique da conquista,
+Da cidade Hyeroſolima ſagrada,
+E do Iordão a area tinha vista,
+Que vio de Deos a carne em ſi lauada,
+Que não tendo Gotfredo a quem reſiſta,
+Depois de ter Iudea ſojugada.
+Muitos que nestas guerras o ajudárão,
+Pera ſeus ſenhorios ſe tornàrão.
+
+Quando chegado ao fim de ſua idade,
+O forte & famoſo Vngaro estremado,
+Forçado da fatal neceſsidade,
+O ſpirito deu, a quem lho tinha dado:
+Ficaua o filho em tenra mocidade,
+Em quem o pay deixaua ſeu traſlado:
+Que do Mundo os mais fortes igualaua,
+Que de tal pay tal filho ſe eſperaua.
+
+Mas o velho rumor, não ſey ſe errado,
+Que em tanta antiguidade não ha certeza,
+Conta que a mãy tomando todo o eſtado
+Do ſegundo Hymeneo, não ſe despreza:
+O filho orfão deixaua deſerdado,
+Dizendo que nas terras, a grandeza
+Do ſenhorio todo, ſo ſua era,
+Porque pera caſar ſeu pay lhas dera.
+
+Mas o Principe Affonſo, que deſta arte
+Se chamaua, do Auô tomando o nome,
+Vendoſe em ſuas terras não ter parte,
+Que a mãy com ſeu marido as mãda & come,
+Feruendo lhe no peito o duro Marte,
+Imagina conſigo como as tome.
+Reuoluidas as cauſas no conceito,
+Ao propoſito firme ſegue o effeito.
+
+De Guimarães o campo ſe tingia,
+Co ſangue proprio da intestina guerra,
+Onde a mãy que tam pouco o perecia,
+A ſeu filho negaua o amor, & a terra,
+Co elle posta em campo ja ſe via,
+E não ve a ſoberba, o muito que erra.
+Contra Deos, contra o maternal amor:
+Mas nella o ſenſual era maior.
+
+O Progne crua, o magica Medea,
+Se em voſſos proprios filhos vos vingais
+Da maldade dos pais, da culpa alheia,
+Olhay que inda Tereſa peca mais:
+Incontinencia ma, cubiça fea,
+São as cauſas deste erro principais.
+Scilla por hũa mata o velho pay,
+Eſta por ambas, contra o filho vay.
+
+Mas ja o Principe claro, o vencimento,
+Do padrasto & da inica mãy leuaua,
+Ia lhe obedece a terra num momento,
+Que primeiro contra elle pelejaua.
+Porem vencido de Ira o entendimento,
+A mãy em ferros aſperos ataua:
+Mas de Deos foi vingada em tempo breue,
+Tanta veneração aos pais ſe deue.
+
+Eis ſe ajunta o ſoberbo Castelhano,
+Pera vingar a injuria de Tereja,
+Contra o tam raro em gente Luſitano,
+A quem nenhum trabalho agraua, ou peſa:
+Em batalha cruel, o peito humano,
+Ajudado da Angelica defeſa.
+Não ſo contra tal furia ſe ſuſtenta:
+Mas o inimigo aſperrimo affugenta.
+
+Não paſſa muito tempo, quando o forte
+Principe, em Guimarães eſta cercado,
+De infinito poder, que deſta ſorte,
+Foy refazerſe o immigo magoado:
+Mas com ſe offerecer aa dura morte,
+O fiel Egas amo, foy liurado.
+Que de outra arte podêra ſer perdido,
+Segundo estaua mal aperçebido.
+
+Mas o leal vaſſallo conhecendo,
+Que ſeu ſenhor não tinha reſiſtencia,
+Se vay ao Caſtelhano, prometendo,
+Que elle faria darlhe obediencia.
+Leuanta o inimigo o cerco horrendo,
+Fiado na promeſſa, & conſciencia
+De Egas moniz mas não conſente o peito
+Do moço illuſlre, a outrem ſer ſogeito.
+
+Chegado tinha o prazo prometido,
+Em que o Rei Castelhano ja agoardaua,
+Que o Principe a ſeu mando ſometido,
+Lhe deſſe a obediencia que eſperaua.
+Vendo Egas, que ficaua fementido,
+O que delle Caſtella não cuydaua,
+Determina de dar a doçe vida,
+A troco da palaura mal comprida.
+
+E com ſeus filhos & molher ſe parte,
+A aleuantar co elles a fiança,
+Deſcalços, & deſpidos, de tal arte,
+Que mais moue a piedade que a vingança.
+Se pretendes Rei alto de vingarte,
+De minha temeraria confiança,
+Dizia, eis aqui venho offerecido,
+A te pagar co a vida o prometido.
+
+Ves aqui trago as vidas inocentes,
+Dos filhos ſem peccado, & da conſorte,
+Se a peitos generoſos, & excellentes,
+Dos fracos ſatisfaz a fera morte.
+Ves aqui as mãos, & a lingoa delinquentes,
+Nellas ſos exprimenta, toda ſorte
+De tormentos, de mortes, pelo eſtillo
+De Scinis, & do touro de Perillo.
+
+Qual diante do algoz o condenado,
+Que ja na vido a morte tem bebido,
+Poem no çepo a garganta: & ja entregado,
+Eſpera pelo golpe tam temido:
+Tal diante do Principe indinado,
+Egas eſtaua a tudo offerecido:
+Mas o Rei vendo a eſtranha lealdade,
+Mais pode em fim que a Ira a Piedade.
+
+O grão fidelidade Portugueſa,
+De vaſſallo, que a tanto ſe obrigaua,
+Que mais o Perſa fez naquella empreſa,
+Onde roſto & narizes ſe cortaua,
+Do que ao grande Dario tanto peſa,
+Que mil vezes dizendo ſuspiraua.
+Que mais o ſeu Zopiro ſão prezâra,
+Que vinte Babilonias que tomàra
+
+Mas ja o Principe Affonſo aparelhaua,
+O Luſitano exercito ditoſo,
+Contra o Mouro que as terras habitaua,
+Dalem do claro Tejo deleitoſo:
+Ia no campo de Ourique ſe aſſentaua,
+O arraial ſoberbo, & belicoſo:
+Defronte do inimigo Sarraceno,
+Poſto que em força, & gente tam pequeno.
+
+Em nenhũa outra couſa confiado,
+Senão no ſummo Deos, que o Ceo regia,
+Que tam pouco era o pouo bautizado,
+Que pera hum ſo cem Mouros aueria.
+Iulga qualquer juyzo ſoſſegado,
+Por mais temeridade que ouſadia,
+Cometer hum tamanho ajuntamento,
+Que pera hum caualleiro ouueſſe cento.
+
+Cinco Reis Mouros ſam os inimigos,
+Dos quaes o principal Ismar ſe chama,
+Todos exprimentados nos perigos
+Da guerra, onde ſe alcança a illuſtre fama:
+Seguem guerreiras Damas ſeus amigos,
+Imitando a fermoſa & forte Dama,
+De quem tanto os Troyanos ſe ajudârão,
+E as que o Termodonte ja goſtârão.
+
+A matutina luz ſerena, & fria,
+As Estrellas do Pollo ja apartaua,
+Quando na Cruz o Filho de Maria,
+Amoſtrando ſe a Affonſo o animaua:
+Elle adorando quem lhe aparecia,
+Na Fê todo inflamado aſsi gritaua.
+Aos infieis Senhor, aos infieis,
+E não a my que creio o que podeis.
+
+Com tal milagre, os animos da gente
+Portugueſa, inflamados leuantauão,
+Por ſeu Rei natural, eſte excelente
+Principe, que do peito tanto amauão:
+E diante do exercito potente,
+Dos imigos, gritando o ceo tocauão:
+Dizendo em alta voz, real, real,
+Por Affonſo alto Rei de Portugal.
+
+Qoal cos gritos & vozes incitado,
+Pola montanha o rabido Moloſo,
+Contra o Touro remete, que fiado
+Na força eſtà do corno temeroſo:
+Ora pega na orelha, ora no lado,
+Latindo mais ligeiro que forçoſo,
+Ate que em fim rompendolhe a garganta,
+Do brauo a força horrenda ſe quebranta.
+
+Tal do Rei nouo, o eſtamago acendido,
+Por Deos & polo pouo juntamente,
+O barbaro comete apercebido,
+Co animoſo exercito rompente:
+Leuantão nisto os perros o alarido
+Dos gritos, tocam a arma, ſerue a gente,
+As lanças & arcos tomão, tubas ſoão,
+Inſtromentos de guerra tudo atroão.
+
+Bem como quando a flama que ateada,
+Foi nos aridos campos (aſoprando
+O ſibilante Boreas) animada
+Co vento, o ſeco mato vay queimando:
+A paſtoral companha, que deitada,
+Co doçe ſono estaua, deſpertando,
+Ao eſtridor do fogo que ſe atea,
+Recolhe o fato, & ſoge pera a aldea.
+
+Deſta arte o Mouro atonito & toruado,
+Toma ſem tento as armas muy depreſſa,
+Não foge: mas eſpera confiado,
+E o ginete belligero arremeſſa:
+O Portugues o encontra denodado,
+Pelos peitos as lanças lhe atraueſſa.
+Hũs caem meios mortos, & outros vão
+A ajuda conuocando do Alcorão.
+
+Ali ſe vem encontros temeroſos,
+Pera ſe desfazer hũa alta ſerra,
+E os animais correndo furioſos,
+Que Neptuno amoſtrou ferindo a terra:
+Golpes ſe dão medonhos, & forçoſos,
+Por toda a parte andaua aceſa a guerra:
+Mas o de Luſo, arnes, couraça & malha,
+Rompe, corta, desfaz, a bola & talha.
+
+Cabeças pelo campo vão ſaltando,
+Braços, pernas, ſem dono & ſem ſentido,
+E doutros as entranhas palpitando,
+Palida a cor, o geſto amortecido:
+Ia perde o campo o exercito nefando,
+Correm rios do ſangue deſparzido
+Com que tambem do campo a cor ſe perde
+Tornado Carmeſi de branco & verde.
+
+Ia fica vencedor o Luſitano
+Recolhendo os trofeos & preſa rica,
+Desbaratado & roto o Mauro Hispano,
+Tres dias o gram Rei no campo fica:
+Aqui pinta no branco eſcudo vfano,
+Que agora esta victoria certifica:
+Cinco escudos azues eſclarecidos,
+Em ſinal destes cinco Reis vencidos.
+
+E neſtes cinco eſcudos pinta os trinta
+Dinheiros, porque Deos fora vendido,
+Eſcreuendo a memoria em varia tinta,
+Daquelle de quem foy fauorecido,
+Em cada hum dos cinco, cinco pinta,
+Porque aſsi fica o numero comprido:
+Contando duas vezes o do meio,
+Dos cinco azues que em Cruz pintando veio.
+
+Paſſado ja algum tempo, que paſſada
+Era esta grão victoria, o Rei ſubido
+A tomar vay Leiria, que tomada
+Fora muy pouco auia, do vencido:
+Com eſta a forte Arronches ſojugada
+Foy juntamente: & o ſempre ennobrecido
+Scabelicaſtro, cujo campo ameno,
+Tu claro Tejo regas tam ſereno.
+
+A eſtas nobres villas ſometidas,
+Ajunta tambem Mafra, em pouco eſpaço,
+E nas ſerras da Lua conhecidas,
+Sojuga a ſria Sintra, o duro braço,
+Sintra onde as Naiades eſcondidas
+Nas fontes, vão fugindo ao doçe laço:
+Onde Amor as enreda brandameme,
+Nas agoas acendendo fogo ardente.
+
+E tu nobre Lisboa, que no Mundo,
+Facilmente das outras es princeſa,
+Que edificada foſte do facundo,
+Por cujo engano foy Dardania aceſa:
+Tu a quem obedece o Mar profundo,
+Obedeceste aa força Portugueſa.
+Ajudada tambem da forte armada,
+Que das Boreais partes foy mandada.
+
+La do Germanico Albis, & do Reno,
+E da fria Bretanha conduzidos,
+A destruir o pouo Sarraceno,
+Muitos com tenção ſancta erão partidos,
+Entrando a bocaja, do Tejo ameno,
+Co arrayal do grande Affonſo vnidos.
+Cuja alta fama antão ſubia aos ceos,
+Foy posto cerco aos muros Vliſſeos.
+
+Cinco vezes a Lũa ſe eſcondêra,
+E outras tantas moſtrâra cheio o rosto,
+Quando a Cidade entrada ſe rendêra,
+Ao duro cerco, que lhe eſtaua poſto.
+Foy a batalha tam ſanguina & fera,
+Quanto obrigaua o firme proſupoſto:
+De vencedores aſperos, & ouſados,
+E de vencidos, ja deſesperados.
+
+Deſta arte em fim tomada ſe rendeo,
+Aquella que nos tempos ja paſſados
+Aa grande força nunca obedeceo,
+Dos frios pouos Sciticos ouſados:
+Cujo poder a tanto ſe estendeo,
+Que o Ibero o vio, & o Tejo amedrontados.
+E em fim co Betis tanto algum podêrão,
+Que aa terra do Vandalia nome dèrão.
+
+Que cidade tam forte, por ventura
+Auera que reſiſta, ſe Lisboa
+Não pede reſistir aa força dura
+Da gente, cuja fama tanto voa.
+Ia lhe obedece toda a Eſtremadura,
+Obidos, Alanquer, por onde ſoa
+O tom das freſcas agoas, entre as pedras,
+Que murmurando laua, & Torres vedras.
+
+E vos tambem, o terras transtaganas,
+Affamadas co dom da flaua Ceres,
+Obedeceis aas forças mais que humanas,
+Entregando lhe os muros, & os poderes.
+E tu laurador Mouro, que te enganas,
+Se ſustentar a fertil terra queres.
+Que Eluas, & Moura, & Serpa conhecidas,
+E Alcaçare do ſal, eſtão rendidas.
+
+Eis a nobre Cidade, certo aſſento,
+Do rebelde Sertorio antigamente,
+Onde ora as agoas nitidas de argento,
+Vem ſuſtentar de longo a terra, & a gente,
+Pelos arcos reaes, que cento & cento
+Nos ares ſe aleuantão nobremente.
+Obedeceo, por meio & ouſadia
+De Giraldo, que medos não temia.
+
+Ia na cidade Beja vay tomar,
+Vingança de Trancoſo deſtruida,
+Affonſo que não ſabe ſoſegar,
+Por eſtender co a fama a curta vida:
+Não ſe lhe pede muito ſustentar
+A Cidade: mas ſendo ja rendida,
+Em toda a couſa viua, a gente yrada,
+Prouando os fios vay da dura eſpada.
+
+Com eſtas ſojugada foy Palmella,
+E a piſcoſa Cizimbra, & juntamente,
+Sendo ajudado mais de ſua eſtrella,
+Desbarata hum exercito potente:
+Sentio o a Villa, & vio o a ſerra della,
+Que a ſocorrella vinha deligente.
+Pela fralda da ſerra deſcuydodo,
+Do temeroſo encontro inopinado.
+
+O Rei de Badajoz era alto Mouro,
+Com quatro mil cauallos furioſos,
+Innumeros piões, darmas & de curo
+Guarnecidos, guerreiros & luſtroſos:
+Mas qual no mes de Maio o brauo Touro
+Cos ciumes da vaca, arreceoſos,
+Sentindo gente o bruto, & cego amante
+Saltea o deſcuidado caminhante.
+
+Deſta arte Affonſo ſubito moſtrado,
+Na gente da, que paſſa bem ſegura,
+Fere, mata, derriba denodado,
+Foge o Rei Mouro, & ſo da vida cura,
+Dum Panico terror todo aſombrado,
+So de ſeguillo o exercito procura.
+Sendo eſtes que fizerão tanto aballo,
+Nomais que ſo ſeſenta de cauallo.
+
+Logo ſegue a victoria ſem tardança,
+O grão Rei incanſabil, ajuntando
+Gentes de todo o Reino, cuja vſança
+Era andar ſempre terras conquiſtando,
+Cercar vay Badajoz, & logo alcança
+O fim de ſeu deſejo, pelejando
+Com tanto esforço & arte, & valentia,
+Que a fez fazer aas outras companhia.
+
+Mas o alto Deos, que pera longe guarda,
+O caſtigo daquelle que o mereçe,
+Ou pera que ſe emmende aas vezes tarda,
+Ou por ſegredos que homem não conheçe,
+Se ate qui ſempre o forte Rei reſguarda,
+Dos perigos a que elle ſe offereçe.
+Agora lhe não deixa ter defeſa,
+Da maldição da mãy que estaua preſa.
+
+Que eſtando na cidade que cercâra,
+Cercado nella foy dos Lioneſes,
+Porque a conquiſta della lhe tomâra,
+De Lião ſendo, & não dos Portugueſes.
+A pertinacia aqui lhe custa cara,
+Aſsi como acontece muytas vezes,
+Que em ferros quebra as pernas, indo aceſo
+Aa batalha onde foy vencido & preſo.
+
+O famoſo Pompeyo não te pene,
+De teus feitos illuſtres a ruyna,
+Nem ver que a juſta Nemeſis ordene,
+Ter teu ſogro de ti victoria dina,
+Poſto que o frio Faſis, ou Syene
+Que pera nenhum cabo a ſombra inclina:
+O Bootes gellado, & a linha ardente,
+Temeſſem o teu nome geralmente.
+
+Poſto que a rica Arabia, & que os feroces
+Eniocos, & Colcos, cuja fama
+O Veo dourado eſtende: & os Capadoçes,
+E Iudea, que hum Deos adora & ama,
+E que o molles Sofenos, & os Atroces,
+Silicios, com a Armenia, que derrama,
+As agoas dos dous Rios, cuja fonte
+Estâ noutro mais alto & ſancto Monte.
+
+E poſto em fim que deſdo mar de Atlante,
+Ate o Scitico Tauro, monte erguido
+Ia vencedor te viſſem, não te eſpante
+Se o campo Emathio ſo te vio vencido,
+Porque Affonſo veras ſoberbo & ouante,
+Tudo render, & ſer deſpois rendido.
+Aſsi o quis o conſelho alto celeſte,
+Que vença o ſogro a ti, & o genro a este.
+
+Tornado o Rei ſublime finalmente,
+Do diuino juyzo caſtigado,
+Deſpois que em Santarem ſoberbamente,
+Em vão dos Sarracenos foy cercado.
+E deſpois que do martyre Vicente,
+O ſanctiſsimo corpo venerado.
+Do ſacro promontorio conhecido,
+Aa cidade Vliſſea foy trazido.
+
+Porque leuaſſe auante ſeu deſejo,
+Ao forte filho manda o laſſo velho,
+Que aas terras ſe paſſaſſe dalentejo,
+Com gente, & co beligero aparelho:
+Sancho, desforço & danimo ſobejo,
+Auante paſſa, & faz correr vermelho,
+O rio que Seuilha vay regando,
+Co ſangue mauro, barbaro & nefando.
+
+E com eſta victoria cobiçoſo,
+Ia não deſcanſa o moço ate que veja,
+Outro eſtrago como este, temeroſo
+No barbaro que tem cercado Beja.
+Não tarda muito o Principe ditoſo,
+Sem ver o fim daquillo que deſeja.
+Aſsi eſtragado o Mouro, na vingança
+De tantas perdas poem ſua eſperança.
+
+Ia ſe ajuntão do monte, a quem Meduſa
+O corpo fez perder, que teue o Ceo:
+Ia vem do promontorio de Ampeluſa,
+E do Tinge que aſſento foy de Anteo.
+O morador de Abila não ſe eſcuſa,
+Que tambem com ſuas armas ſe moueo:
+Ao ſom da Mauritana & ronca tuba,
+Todo o Reino que foy do nobre Iuba.
+
+Entraua com toda esta companhia,
+O Miralmomini em Portugal
+Treze Reis mouros leua de valia,
+Entre os quaes tem o ceptro Imperial:
+E aſsi fazendo quanto mal podia,
+O que em partes podia fazer mal.
+Dom Sancho vay cercar em Santarem,
+Porem não lhe ſocede muito bem.
+
+Dalhe combates aſperos,fazendo
+Ardis de guerra mil, o Mouro yroſo,
+Não lhe aproueita ja trabuco horrendo,
+Mina ſecreta, Ariete forçoſo:
+Porque o filho de Affonſo, não perdendo
+Nada do esforço, & acordo generoſo,
+Tudo prouê com animo & prudencia,
+Que em toda a parte ha esforço & reſiſtencia
+
+Mas o velho a quem tinhão ja obrigado
+Os trabalhoſos annos, ao ſoſego,
+Eſtando na Cidade, cujo prado
+Enuerdecem as agoas do Mondego:
+Sabendo como o filho està cercado,
+Em Santarem, do Mauro pouo cego,
+Se parte diligente da Cidade,
+Que não perde a preſteza co a idade.
+
+E co a famoſa gente â guerra vſada,
+vay ſocorrer o filho, & aſsi ajuntados,
+A Portugueſa furia coſtumada,
+Em breue os Mouros tem desbaratados:
+A campina que toda eſtà qualhada
+De marlotas, capuzes variados,
+De cauallos, jaezes, preſa rica,
+De ſeus ſenhores mortos chea fica.
+
+Logo todo o reſtante ſe partio
+De Luſitania, poſtos em fugida,
+O Miralmomini ſo não fogio,
+Por que antes de fogir lhe foge a vida,
+A quem lhe eſta victoria permitio,
+Dão louuores & graças ſem medida:
+Que em caſos tão eſtranhos claramente,
+Mais peleja o fauor de Deos que a gente.
+
+De tamanhas victorias triumfaua,
+O velho Affonſo, Principe ſubido,
+Quando quem tudo em fim vencendo andaua,
+Da larga, & muita idade foi vencido,
+A palida doença lhe tocaua,
+Com fria mão o corpo enfraquecido:
+E pagàrão ſeus annos deste geito,
+Aa triſte Libitina ſeu dereito
+
+Os altos promontorios o chorarão,
+E do rios as agoas ſaudoſas,
+Os ſemeados campos alagarão,.
+Com lagrimas correndo piadoſas:
+Mas tanto pelo mundo ſe alargarão
+Com fama ſuas obras valeroſas,
+Que ſempre no ſeu Reino chamarão,
+Affonſo, Affonſo os eccos, mas em vão.
+
+Sancho forte mancebo, que ficàra
+Imitando ſeu pay na valentia,
+E que em ſua vida ja ſe exprimentâra,
+Quando o Betis de ſangue ſe tingia,
+E o barbaro poder desbaratâra,
+Do Iſmaelita Rei de Andaluzia.
+E mais quando os que Beja em vão cercârão.
+Os golpes de ſeu braço em ſi prouârão.
+
+Deſpois que foy por Rei aleuantado,
+Auendo poucos annos que reinaua,
+A cidade de Silues tem cercado,
+Cujos campos o barbaro lauraua:
+Foy das valentes gentes ajudado,
+Da Germanica armada, que paſſaua.
+De armas fortes & gente apercebida,
+A recobrar Iudea ja perdida.
+
+Paſſauão a ajudar na ſancta empreſa,
+O roxo Federico, que moueo
+O pederoſo exercito, em defeſa
+Da cidade onde Christo padeceo,
+Quando Guido co a gente em ſede aceſa,
+Ao grande Saladino ſe rendeo:
+No lugar onde aos Mouros ſobejauão,
+As agoas que os de guido deſejauão.
+
+Mas a fermoſa armada, que viera
+Por contraste de vento, aaquella parte
+Sancho quis ajudar na guerra fera,
+Ia que em ſeruiço vay, do ſancto Marte
+Aſsi como a ſeu pay acontecèra,
+Quando tomou Lisboa, da meſma arte,
+Do Germano ajudado Silues toma,
+E o brauo morador deſtrue & doma.
+
+E ſe tantos tropheos do Mahometa,
+Aleuantando vay tambem do forte
+Liones, não conſente eſtar quieta
+A terra vſada aos caſos de Mauorte:
+Ate que na ceruiz ſeu jugo meta
+Da ſoberba Tui, que a mesma ſorte,
+Veo ter a muitas villas ſuas vizinhas,
+Que por armas tu Sancho humildes tinhas.
+
+Mas entre tantas palmas ſalteado
+Da temeroſa morte, fica erdeiro,
+Hum filho ſeu de todos estimado,
+Que foy ſegundo Affonſo, & Rei terceiro
+No tempo deſte, aos Mauros foi tomado
+Alcaçere do ſal por derradeiro:
+Por que dantes os Mouros o tomarão,
+Mas agora eſtruidos o pagarão.
+
+Morto despois Affonſo lhe ſucede
+Sancho ſegundo, manſo & deſcuidado,
+Que tanto em ſeus deſcuidos ſe deſmede,
+Que de outrem quẽ mandaua era mandado,
+De gouernar o Reino que outro pede,
+Por cauſa dos priuados foi priuado,
+Porque como por elles ſe regia,
+Em todos os ſeus vicios conſentia.
+
+Não era Sancho não tam deſoneſto,
+Como Nero, que hum moço recebia
+Por molher, & deſpois horrendo incesto,
+Com a mãy Agripina cometia:
+Nem tam cruel aas gentes & moleſto,
+Que a cidade queimaſſe onde viuia,
+Nem tam mao como foi Hedio gabàlo,
+Nem como o mole Rei Sardanapâlo.
+
+Nem era o pouo ſeu tiranizado,
+Como Sicilia foy de ſeus tiranos,
+Nem tinha como Phalaris achado,
+Genero de tormentos inhumanos:
+Mas o Reino de altiuo, & coſtumado
+A ſenhores em tudo ſoberanos.
+A Rei não obedece, nem conſente,
+Que não for mais que todos excellente.
+
+Por eſta cauſa o Reino gouernou,
+O Conde Bolonhes, deſpois alçado
+Por Rei, quando da vida ſe apartou,
+Seu yrmão Sancho, ſempre ao ocio dado
+Eſte que Affonſo o brauo ſe chamou,
+Despois de ter o Reino ſegurado:
+Em dilatalo cuida, que em terreno
+Não cabe o altiuo peito tam pequeno.
+
+Da terra dos Algarues, que lhe fora
+Em caſamento dada, grande parte,
+Recupêra co braço, & deita fora
+O Mouro mal querido ja de Marte:
+Este de todofez liure & ſenhora
+Luſitania,com força & bellica arte:
+E acabou de oprimir a nação forte,
+Na terra que aos de Luſo coube em ſorte.
+
+Eis deſpois vem Dinis, que bem pareçe,
+Do brauo Affonſo eſtirpe nobre & dina,
+Com quem a fama grande ſe eſcureçe,
+Da liberalidade Alexandrina.
+Co este o Reino proſpero floreçe,
+(Alcançada ja a paz aurea diuina)
+Em constituições, leis & costumes,
+Na terra ja tranquila claros lumes.
+
+Fez primeiro em Coimbra exercitarſe,
+O valeroſo officio de Minerua,
+E de Helicona as Muſas fez paſſarſe,
+A piſar de Mondego a fertil erua:
+Quanto pode de Athenas deſejarſe,
+Tudo o ſoberbo Apolo aqui reſerua.
+Aqui as capellas da tecidas de ouro,
+Do Bacaro, & do ſempre verde louro.
+
+Nobres villas de nouo edificou,
+Fortalezas, caſtellos muy ſeguros,
+E quaſi o Reino todo reformou,
+Com edificios grandes, & altos muros:
+Mas deſpois que a dura Atropos cortou,
+O fio de ſeus dias ja maduros:
+Ficoulhe o filho pouco obediente,
+Quarto Affonſo: mas forte & excelẽte:
+
+Eſte ſempre as ſoberbas Caſtelhanas,
+Co peito deſprezou firme & ſereno,
+Porque não he das ſorças Luſitanas,
+Temer poder maior, por mais pequeno
+Mas porem quando as gentes Mauritanas,
+A poſſuir o Eſperico terreno.,
+Entrarão pelas terras de Caſtella,
+Foy o ſoberbo Affonſo a ſocorrella.
+
+Nunca com Semirâmis, gente tanta
+Veio ôs campos Ydaſpicos enchendo,
+Nem Atila, que Italia toda eſpanta,
+Chamandoſe de Deos açoute horrendo.
+Gottica gente trouxe tanta, quanta
+Do Sarraceno barbaro eſtupendo,
+Co poder exceſsiuo de Granada,
+Foy nos campos Tarteſios ajuntada.
+
+E vendo o Rei ſublime Caſtelhano,
+A forca inexpugnabil, grande & forte,
+Temendo mais o fim do pouo Hispano,
+Ia perdido hũa vez, que a propria morte
+Pedindo ajuda ao forte Luſitano,
+Lhe mandaua a cariſsima conſorte,
+Molher de quem a manda, & filha amada
+Daquelle a cujo Reino foi mandada.
+
+Entraua a fermoſiſsima Maria,
+Polos paternais paços ſublimados,
+Lindo o geſto: mas fora de alegria,
+E ſeus olhos em lagrimas banhados,
+Os cabellos Angelicos trazia,
+Pelos eburneos hombros eſpalhados:
+Diante do Pay ledo, que a agaſalha,
+Estas palauras tais chorando eſpalha.
+
+Quantos pouos a terra produzio
+De Africa toda gente fera & estranha,
+O grão Rei de Marrocos conduzio
+Pera vir poſſuir a nobre Eſpanha:
+Poder tamanho junto não ſe vio,
+Despois que o ſalſo Mar a terra banha.
+Trazem ferocidade, & furor tanto,
+Que a viuos medo, & a mortos faz eſpanto.
+
+Aquelle que me deſte por marido,
+Por defender ſua terra amedrontada,
+Co pequeno poder, offerecido
+Ao duro golpe eſtà, da Maura eſpada,
+E ſe não for contigo ſocorrido,
+Verme as delle & do Reino ſer priuada,
+Viuua & triſte, & posta em vida eſcura,
+Sem marido, ſem Reino, & ſem ventura.
+
+Por tanto, ô Rei, de quem com puro medo,
+O corrente Muluca ſe congella,
+Rompe toda a tardança, acude cedo,
+Aa miſeranda gente de Caſtella.
+Se eſſe gesto que moſtras claro & ledo,
+De pay o verdadeiro amor aſſella:
+Acude & corre pay, que ſe não corres,
+Pode ſer que não aches quem ſocorres.
+
+Não de outra ſorte a timida Maria
+Falando eſtá, que a triſte Venus, quando
+A Iupiter ſeu pay fauor pedia,
+Pera Eneas ſeu filho, nauegando,
+Que a tanta piedade o comouia,
+Que caido das mãos o rayo infando.
+Tudo o clemente Padre lhe concede,
+Peſandolhe do pouco que lhe pede.
+
+Mas ja cos eſquadrões da gente armada,
+Os Eborenſes campos vão qualhados,
+Luſtra co Sol o arnes, a lança, a eſpada,
+Vão rinchando os cauallos jaezados:
+A canora trombeta embandeirada
+Os corações aa paz acoſtumados:
+Vay às fulgentes armas incitando
+Polas concauidades retumbando.
+
+Entre todos no meio ſe ſublima,
+Das inſignias Reais acompanhado,
+O vaſeroſo Affonſo, que por cima
+De todos, leua o collo aleuantado,
+E ſomente co geſto esforça & anima,
+A qualquer coração amedrontado.
+Aſsi entra nas terras de Castella,
+Com a filha gentil Rainha della.
+
+Iuntos os dous Affonſos finalmente,
+Nos campos de Tarifa, eſtão defronte
+Da grande multidão da cega gente,
+Pera quem ſam pequenos campo & monte.
+Não ha peito tão alto & tam potente,
+Que de deſconfiança não ſe afronte,
+Em quanto não conheça, & claro veja,
+Que co braço dos ſeus Chriſto peleja.
+
+Eſtão do Agar os netos caſi rindo,
+Do poder dos Chrisſtãos fraco & pequeno,
+As terras como ſuas repartindo,
+Ante mão, entre o exercito Agareno:
+Que com titulo falſo poſſuindo
+Eſtà o famoſo nome Sarraceno.
+Aſsi tambem com falſa conta & nua,
+Aa nobre terra alhea chamão ſua.
+
+Qual o membrudo & barbaro Gigante,
+Do Rei Saul, com cauſa tam temido,
+Vendo o Paſtor inorme eſtar diante,
+So de pedras & esforço apercebido,
+Com palauras ſoberbas o arrogante,
+Despreza o fraco moço mal veſtido:
+Que rodeando a funda o deſengana,
+Quanto mais pode a Fê que a força humana.
+
+Desta arte o Mouro perfido deſpreza,
+O poder dos Christãos, & não entende,
+Que eſtà ajudado da alta fortaleza,
+A quem o Inferno horrifico ſe rende.
+Co ella o Castelhano, & com deſtreza,
+De Marrocos o Rei comete & offende.
+O Portugues que tudo eſtima em nada,
+Se faz temer ao Reino de Granada.
+
+Eis as lanças & eſpadas retenião,
+Por cima dos arneſes, brauo eſtrago,
+Chamão (ſegundo as leis que ali ſeguião,)
+Hũs Mafamede, & os outros Sanctiago,
+Os feridos com grita o Ceo ferião,
+Fazendo de ſeu ſangue bruto lago,
+Onde outros meios mortos ſe afogauão,
+Quando do ferro as vidas eſcapauão.
+
+Com esforço tamanho eſtrue & mata,
+O Luſo ao Granadil, que em pouco eſpaço,
+Totalmente o poder lhe desbarata,
+Sem lhe valer defeſa, ou peito de aço:
+De alcançar tal victoria tam barata,
+Inda não bem contente o forte braço,
+Vay ajudar ao brauo Caſtelhano,
+Que pelejando eſtà co Mauritano.
+
+Ia ſe hia o Sol ardente recolhendo,
+Pera a caſa de Thetis, & inclinado,
+Pera o Ponente o veſpero trazendo,
+Estaua o claro dia memorado,
+Quando o poder do Mauro grande & horẽdo
+Foi pelos fortes Reis desbaratado,
+Com tanta mortindade, que a memoria,
+Nunca no mundo vio tam gram victoria.
+
+Não matou a quarta parte o forte Mario,
+Dos que morrerão neſte vencimento,
+Quando as agoas co ſangue do aduerſario,
+Fez beber ao exercito ſedento,
+Nem o Peno aſperiſsimo contrario,
+Do Romano poder de naſcimento:
+Quando tantos matou da illustre Roma,
+Que alqueires tres de aneis dos mortos toma.
+
+E ſe tu tantas almas ſo podeſte,
+Mandor ao Reino eſcuro de Cocito,
+Quando a ſancta Cidade desfizeſte
+Do pouo pertinaz no antigo rito:
+Permiſſam & vingança foy celeſte,
+E não força de braço, o nobre Tito,
+Que aſsi dos Vates foy profetizado,
+E despois por I E S V certificado.
+
+Paſſada eſta tão prospera victoria,
+Tornado Affonſo aa Luſitana terra,
+A ſe lograr da paz com tanta gloria,
+Quanta ſoube ganhar na dura guerra,
+O caſo triste & dino da memoria,
+Que do ſepulchro os homẽs deſenterra,
+Aconteceo da miſera, & mezquinha
+Que deſpois de ſer morta foy Rainha.
+
+Tu ſo, tu puro Amor com força crua,
+Que os corações humanos tanto obriga,
+Deſte cauſa aa moleſta morte ſua,
+Como ſe fora perfida inimiga:
+Se dizem fero Amor que a ſede tua,
+Nem com lagrimas triſtes ſe mitiga:
+E porque queres aſpero & tirano
+Tuas aras banhar em ſangue humano.
+
+Eſtauas linda Ines poſta em ſoſego
+De teus annos, colhendo doçe fructo,
+Naquelle engano da alma, ledo & cego,
+Que a fortuna não deixa durar muito,
+Nos ſaudoſos campos do Mondego,
+De teus fermoſos olhos nunca enxuto,
+Aos montes inſinando, & âs eruinhas
+O nome que no peito eſcripto tinhas.
+
+Do teu Principe ali te reſpondião,
+As lembranças que na alma lhe morauão,
+Que ſempre ante ſeus olhos te trazião,
+Quando dos teus fermoſos ſe apartauão
+De noite em doçes ſonhos, que mentião,
+De dia em penſamentos que voauão.
+E quanto em fim cuidaua, & quanto via,
+Eram tudo memorias de alegria.
+
+De outras bellas ſenhoras, & Princeſas,
+Os deſejados tâlamos engeita,
+Que tudo em fim, tu puro amor desprezas,
+Quando hum gesto ſuaue te ſogeita:
+Vendo estas namoradas eſtranhezas,
+O velho pay ſeſudo, que reſpeita
+O murmurar do pouo, & a fantaſia
+Do filho, que caſarſe não queria.
+
+Tirar Ines ao mundo determina,
+Por lhe tirar o filho que tem preſo,
+Crendo co ſangue ſô da morte indina,
+Matar do firme amor o fogo aceſo:
+Que furor conſentio, que a eſpada fina,
+Que pode ſustentar o grande peſo
+Do furor Mauro, foſſe aleuantada,
+Contra hũa fraca dama delicada?
+
+Trazião a os horrificos algozes,
+Ante o Rei, ja mouido a piedade:
+Mas o pouo com falſas, & ferozes
+Razões, aa morte crua o perſuade:
+Ella com tristes & piedoſas vozes,
+Saidas ſô da magoa, & ſaudade
+Do ſeu Principe, & filhos que deixaua,
+Que mais que a propria morte a magoaua.
+
+Pera o Ceo criſtalino aleuantando,
+Com lagrimas os olhos piedoſos,
+Os olhos, porque as mãos lhe eſtaua atando,
+Hum dos duros miniſtros riguroſos.
+E deſpois nos mininos atentando,
+Que tam queridos tinha, & tam mimoſos,
+Cuja orfindade como mãy temia,
+Pera o auô cruel aſsi dizia.
+
+Se ja nas brutas feras, cuja mente
+Natura fez cruel de naſcimento,
+E nas aues agreſtes, que ſomente
+Nas rapinas aerias tem o intento,
+Com pequenas crianças vio a gente,
+Terem tam piadoſo ſentimento,
+Como co a mãy de Nino ja moſtrârão,
+E cos yrmãos que Roma edificàrão.
+
+O tu que tẽs de humano o geſto & o peito
+(Se de humano he, matar hũa donzella
+Fraca & ſem força, ſo por ter ſubjeito
+O coração, a quem ſoube vencella)
+A eſtas criançinhas tem reſpeito,
+Pois o não tẽs aa morte eſcura della,
+Mouate a piedade ſua & minha,
+Pois te não moue a culpa que não tinha.
+
+E ſe vencendo a Maura reſiſtencia,
+A morte ſabes dar com fogo & ferro,
+Sabe tambem dar vida com clemencia,
+A quem pera perdela não fez erro:
+Mas ſe to aſsi merece eſta inocencia,
+Poem me em perpetuo & miſero deſterro,
+Na Scitia fria, ou la na Lybia ardente,
+Onde em lagrimas viua eternamente.
+
+Poem me onde ſe vſe toda a feridade,
+Entre Liões, & Tigres, & verey
+Se nelles achar poſſo a piedade
+Que entre peitos humanos não achey:
+Ali co amor intrinſeco & vontade,
+Naquelle por quem mouro, criarey
+Eſtas reliquias ſuas que aqui viſte,
+Que refrigerio ſejão da mãy triste.
+
+Queria perdoarlhe o Rei benigno,
+Mouido das palauras que o magoão:
+Mas o pertinaz pouo, & ſeu deſtino
+(Que deſta ſorte o quis) lhe não perdoão,
+Arrancão das eſpadas de aço fino,
+Os que por bom tal feito ali apregoão,
+Contra hũa dama, ô peitos carniceiros
+Feros vos amoſtrais, & caualleiros?
+
+Qual contra a linda moça Policena,
+Conſolação extrema da mãy velha,
+Porque a ſombra de Achiles a condena,
+Co ferro o duro Pirro ſe aparelha:
+Mas ella os olhos com que o ar ſerena,
+(Bem como paciente, & manſa ouelha)
+Na miſera mãy postos, que endoudeçe
+Ao duro ſacrificio ſe offereçe.
+
+Tais contra Inès os brutos matadores,
+No colo de alabaſtro, que ſoſtinha
+As obras com que amor matou de amores
+Aquelle que despois a fez Rainha:
+As eſpadas banhando, & as brancas ſlores,
+Que ella dos olhos ſeus regadas tinha,
+Se encarniçauão, feruidos & yroſos,
+No foturo castigo não cuidoſos.
+
+Bem podêras, ô Sol, da viſta deſtes
+Teus rayos apartar aquelle dia,
+Como da ſeua meſa de Tyeſtes,
+Quando os filhos por mão de Atreu comia.
+Vos, ô concauos vales que podeſtes,
+A voz extrema ouuir da boca fria,
+O nome do ſeu Pedro que lhe ouuistes,
+Por muito grande eſpaço repetistes.
+
+Aſsi como a bonina que cortada,
+Antes do tempo foy, candida & bella,
+Sendo das mãos laciuas mal tratada,
+Da minina que a trouxe na capella:
+O cheiro traz perdido, & a cor murchada:
+Tal eſtà morta a palida donzella,
+Secas do roſto as roſas, & perdida
+A branca & viua cor, co a doçe vida.
+
+As filhas do Mondego, a morte eſcura
+Longo tempo chorando memorarão,
+E por memoria eterna em fonte pura
+As lagrimas choradas transformarão:
+O nome lhe poderão, que inda dura,
+Dos amores de Ines que ali paſſarão.
+Vede que freſca fonte rega as flores,
+Que lagrimas ſam a agoa, & o nome amores
+
+Não correo muito tempo que a vingança
+Não viſſe Pedro das mortais feridas,
+Que em tomando do Reino a gouernança,
+A tomou dos fugidos humicidas:
+Do outro Pedro cruiſsimo os alcança,
+Que ambos immigos das humanas vidas,
+O concerto fizerão duro & injuſto,
+Que com Lepido, & Antonio fez Auguſto.
+
+Este castigador foy reguroſo,
+De latrocinios, mortes & adulterios,
+Fazer nos maos cruezas, fero & yroſo,
+Erão os ſeus mais certos refrigerios:
+As cidades guardando juſtiçoſo,
+De todos os ſoberbos vituperios,
+Mais ladrões caſtigando aa morte deu,
+Que o vagabundo Alcides, ou Theſeu.
+
+Do juſto & duro Pedro naſce o brando
+(Vede da natureza o deſconcerto)
+Remiſſo, & ſem cuidado algum Fernando,
+Que todo o Reino pos em muito aperto,
+Que vindo o Caſtelhano deuastando
+As terras ſem defeſa, eſteue perto
+De deſtruirſe o Reino totalmente,
+Que hum fraco Rei faz fraca a forte gente.
+
+Ou foy caſtigo claro do peccado,
+De tirar Lianor a ſeu marido,
+E caſar ſe co ella de enleuado,
+Num falſo parecer mal entendido:
+Ou foy que o coração ſogeito, & dado
+Ao vicio vil, de quem ſe vio rendido,
+Molle ſe fez, & fraco, & bem parece
+Que hum baxo amor os fortes enfraquece.
+
+Do peccado tiuerão ſempre a pena
+Muitos, que Deos o quis, & permitio:
+Os que forão roubar a bella Elena,
+E com Apio tambem Tarquino o vio:
+Pois por quem Dauid Sancto ſe condena?
+Ou quem o Tribo illuftre deſtruio
+De Benjamim? bem claro nolo inſina,
+Por Sarra Faraô, Sychem por Dina.
+
+E pois ſe os peitos fortes enfraqueçe,
+Hum inconceſſo amor deſatinado,
+Bem no filho de Almena ſe pareçe,
+Quando em Omfale andaua transformado,
+De Marco Antonio a fama ſe eſcureçe,
+Com ſer tanto a Cleopatra affeiçoado:
+Tu tambem Peno proſpero o ſentiſte,
+Deſpois que hũa moça vil na Apulia viste.
+
+Mas quem pode liurarſe por ventura,
+Dos laços que amor arma brandamente
+Entre as roſas & a neue humana pura,
+O ouro, & o alabaſtro transparente
+Quem de hũa peregrina fermoſura
+De hum vulto de Meduſa propriamente
+Que o coração conuerte que tem preſo,
+Em pedra não: mas em deſejo aceſo.
+
+Quem vio hum olhar ſeguro, hum geſto brando,
+Hũa ſuaue & Angelica excelencia,
+Que em ſi eſtâ ſempre as almas trãformãdo
+Que tiueſſe contra ella reſiſtencia:
+Deſculpado por certo estâ Fernando,
+Pera quem tem de amor experencia:
+Mas antes tendo liure a fantaſia,
+Por muyto mais culpado o julgaria.
+Fim.
+
+
+
+❧ Canto Quarto.
+
+Deſpois de procello
+ſa tempestade,
+Nocturna ſombra, & ſibilante
+vento,
+Traz a manhaã ſerena claridade,
+Eſperança de porto, & ſaluamento:
+Aparta o Sol a negra eſcuridade,
+Remouendo o temor ao penſamento:
+Aſsi no Reino forte aconteceo,
+Deſpois que o Rei Fernando ſalleçeo.
+
+Porque ſe muito os noſſos deſejarão,
+Quem os danos & offenſas va vingando,
+Naquelles que tãbem ſe aproueitârão,
+Do deſcuido remiſſo de Fernando,
+Deſpois de pouco tempo o alcançârão,
+Ioanne ſempre illuſtre aleuantando
+Por Rei, como de Pedro vnico erdeiro
+(Ainda que bastardo) verdadeiro.
+
+Ser iſto ordenação dos ceos diuina,
+Por ſinais muito claros ſe moſtrou
+Quando em Euora a voz de hũa minina,
+Ante tempo falando o nomeou:
+E como couſa em fim que o Ceo destina,
+No berço o corpo, & a voz aleuantou,
+Portugal, Portugal, alçando a mão
+Diſſe, polo Rei nouo Dom Ioão.
+
+Alteradas então do Reino as gentes,
+Co odio que occupado os peitos tinha,
+Abſolutas cruezas, & euidentes
+Faz do pouo o furor por onde vinha,
+Matando vão amigos & parentes,
+Do adultero Conde, & da Rainha,
+Com quem ſua incontinencia deſoneſta
+Mais (despois de viuua) manifeſta.
+
+Mas elle em fim com cauſa deſonrado,
+Diante della a ferro frio morre,
+De outros muitos na morte acompanhado
+Que tudo o fogo erguido queima & corre:
+Quem como Astianas precipitado
+(Sem lhe valerem ordẽs) de alta torre
+A quem ordẽs, nem aras, nem reſpeito,
+Quem nu por ruas & em pedaços feito.
+
+Podẽſe por em longo eſquecimento,
+As cruezas mortais que Roma vio
+Feitas do feroz Mario, & do cruento
+Syla, quando o contrario lhe fogio:
+Por iſſo Lianor, que o ſentimento
+Do morto Conde ao mundo deſcobrio,
+Faz contra Luſitania vir Caſtella,
+Dizendo ſer ſua filha herdeira della.
+
+Beatriz era a filha, que caſada
+Co Caſtelhano eſtà, que o Reino pede,
+Por filha de Fernando reputada,
+Se a corrompida fama lho concede.
+Com esta voz Caſtella aleuantada,
+Dizendo que eſta filha ao pay ſucede:
+Suas forças ajunta pera as guerras
+De varias regiões & varias terras.
+
+Vem de toda a prouincia que de hum Brigo,
+(Se foy) ja teue o nome diriuado
+Das terras que Fernando, & que Rodrigo
+Ganharão do tirano & Mauro eſtado:
+Não eſtimão das armas o perigo,
+Os que cortando vão co duro arado
+Os campos Lioneſes, cuja gente,
+Cos Mouros foi nas armas excellente.
+
+Os Vandalos, na antiga valentia
+Ainda confiados,ſe ajuntauão
+Da cabeça de toda Andaluzia,
+Que do Goadalquibir as agoas lauão,
+A nobre Ilha tambem ſe apercebia,
+Que antigamente os Tirios habitauão:
+Trazendo por inſignias verdadeiras
+As Herculeas colunas nas bandeiras.
+
+Tambem vem la do Reino de Toledo,
+Cidade nobre & antiga, a quem cercando
+O Tejo em torno vay ſuaue & ledo,
+Que das ſerras de Conca vem manando:
+A vos outros tambem não tolhe o medo,
+O ſordidos Galegos, duro bando,
+Que pera reſistirdes, vos armastes,
+Aaquelles, cujos golpes ja prouastes.
+
+Tambem mouem da guerra as negrasfurias,
+A gente Bizcainha, que careçe
+De polidas razões, & que as injurias
+Muito mal dos estranhos compadeçe:
+A terra de Guipuſcua, & das Aſturias
+Que com minas de ferro ſe ennobreçe,
+Armou delle, os ſoberbos matadores,
+Pera ajudar na guerra a ſeus ſenhores.
+
+Ioane, a quem do peito o eforço creçe,
+Como a Sariſam Hebreo da guedelha,
+Poſto que tudo pouco lhe pareçe
+Cos poucos de ſeu Reino ſe aparelha,
+E não porque conſelho lhe faleçe,
+Cos principaes ſenhores ſe aconſelha:
+Mas ſo por ver das gentes as ſentenças,
+Que ſempre ouue entre muitos diferenças.
+
+Não falta com razões quem deſconcerte,
+Da opinião de todos, na vontade,
+Em quem o esforço antigo ſe conuerte,
+Em deſuſada & ma deſlealdade,
+Podendo o temor mais, gelado, inerte
+Que a propria & natural fidelidade,
+Negão o Rei & a patria, & ſe conuem
+Negarão (como Pedro) o Deos que tem.
+
+Mas nunca foy que eſte erro ſe ſentiſſe,
+No forte dom Nuno aluerez: mas antes
+Poſto que em ſeus Irmãos tão claro o viſſe,
+Reprouando as vontades incoſtantes:
+A aquellas duuidoſas gentes diſſe,
+Com palauras mais duras que elegantes,
+A mão na eſpada irado, & não facundo,
+Ameaçando a terra, o mar, & o mundo.
+
+Como da gente illuſtre Portugueſa,
+Ha de auer quem refuſe o patrio Marte?
+Como, deſta prouincia que princeſa
+Foy das gentes na guerra em toda parte,
+Ha de ſair quem negue ter defeſa,
+Quem negue a Fe, o amor, o esforço & arte
+De Portugues, & por nenhum reſpeito
+O proprio Reino queira ver ſogeito?
+
+Como, não ſois vos inda os deſcendentes
+Daquelles, que debaixo da bandeira,
+Do grande Enriquez, feros & valentes
+Venceſtes eſta gente tam guerreira?
+Quando tantas bandeiras, tantas gentes
+Poſeram em fugida, de maneira,
+Que ſete illuſtres Condes lhe trouxerão
+Preſos, afora a preſa que tiuerão?
+
+Com quem forão contino ſopeados
+Estes, de quem o eſtais agora vos,
+Por Dinis & ſeu filho, ſublimados
+Se não cos voſſos fortes pais & auôs?
+Pois ſe com ſeus deſcuidos, ou peccados,
+Fernando em tal fraqueza aſsi vos pos,
+Torne vos voſſas forças o Rei nouo,
+Se he certo que co Rei ſe muda o pouo.
+
+Rei tendes tal, que ſe o valor tiuerdes
+Igual ao Rei que agora aleuantaſtes,
+Desbaratareis tudo o que quiſerdes,
+Quanto mais a quem ja desbarataſtes:
+E ſe com iſto em fim vos não mouerdes,
+Do penetrante medo que tomastes,
+Atay as mãos a voſſo vão receio,
+Que eu ſo reſiſtirey ao jugo alheio.
+
+Eu ſo com meus vaſſalos, & com eſta,
+(E dizendo isto arranca mea eſpada)
+Defenderey da força dura, & infeſta
+A terra nunca de outrem ſojugada,
+Em virtude do Rei, da patria meſta,
+Da lealdade ja por vos negada,
+Vencerey (não ſo eſtes aduerſarios:)
+Mas quantos a meu Rei forem contrarios.
+
+Bem como entre os mançebos recolhidos,
+Em Camiſio, reliquias ſos de Canas,
+Ia pera ſe entregar quaſi mouidos
+A fortuna das forças Affricanas:
+Cornelio moço os faz, que compelidos
+Da ſua eſpada jurem, que as Romanas
+Armas, nam deixarão em quanto a vida
+Os nam deixar, ou nellas for perdida.
+
+Deſtarte a gente força, & e força Nuno,
+Que com lhe ouuir as vltimas razões
+Remouem o temor frio importuno,
+Que gelados lhe tinha os corações:
+Nos animais caualgão de Neptuno,
+Brandindo, & volteando arremeſſoẽs,
+Vão correndo & gritando a boca aberta,
+Viua o famoſo Rei que nos liberta.
+
+Das gentes populares, hũs aprouão
+A guerra com que a patria ſe ſoſtinha,
+Hũs as armas alimpão & renouão,
+Que a ferrugem da paz gaſtadas tinha:
+Capaçetes eſtofam, peitos prouão,
+Armaſe cada hum como conuinha.
+Outros fazem vestidos de mil cores,
+Com letras & tenções de ſeus amores.
+
+Com toda esta lustroſa companhia,
+Ioanne forte ſae da freſca Abrantes,
+Abrantes, que tambem da fonte fria
+Do Tejo logra as agoas abundantes:
+Os primeiros armigeros regia,
+Quem pera reger era os muy poſſantes,
+Orientais exercitos, ſem conto,
+Com que paſſaua Xerxes o Helesponto.
+
+Dom Nuno Alueres digo, verdadeiro
+Açoute de ſoberbos Caſtelhanos,
+Como ja o fero Huno o foy primeiro
+Pera Eranceſes, pera Italianos,
+Outro tambem famoſo caualleiro,
+Que a ala dereita tem dos Luſitanos,
+Apto pera mandalos, & regelos,
+Meu Rodriguez ſe diz de Vaſconcelos.
+
+E da outra ala que a eſta correſponde,
+Antão vazquez de Almada he Capitão,
+Que deſpois foy de Abranches nobre Conde,
+Das gentes vay regendo a ſestra mão,
+Logo não retagoarda não ſe eſconde,
+Das quinas & caſtellos o pendão,
+Com Ioanne Rey forte em toda parte,
+Que eſcurecendo o preço vay de Marte.
+
+Eſtauão pelos muros temeroſas,
+E de hum alegre medo quaſi frias,
+Rezando as mais, irmãs, damas, & eſpoſas
+Prometendo jejũs, & romarias:
+Ia chegão as eſquadras bellicoſas,
+Defronte das imigas companhias,
+Que com grita grandiſsima os recebem,
+E todas grande duuida concebem.
+
+Respondem as trombetas menſageiras,
+Pifaros ſibilantes, & atambores,
+Alferezes volteão as bandeiras,
+Que variadas ſam de muitas cores:
+Era no ſeco tempo, que nas eiras
+Ceres o fructo deixa aos lauradores,
+Entra em Aſtrea o Sol, no mes de Agoſto,
+Baco das vuas tira o doçe moſto.
+
+Deu ſinal a trombeta Castelhana,
+Horrendo, fero, ingente, & temeroſo,
+Ouuio o o monte Artabro, & Guadiana,
+A tras tornou as ondas de medroſo:
+Ouuio o Douro, & a terra Tranſtagana,
+Correo ao mar o Tejo duuidoſo:
+E as mãis que o ſom terribil eſcuitârão,
+Aos peitos os filhinhos apertârão.
+
+Quantos roſtos ali ſe vem ſem cor,
+Que ao coração acode o ſangue amigo,
+Que nos perigos grandes, o temor,
+He mayor muitas vezes que o perigo,
+E ſe o não he, pareçeo, que o furor
+De offender, ou vencer o duro immigo,
+Faz não ſentir, que he perda grande & rara
+Dos membros corporais da vida cara.
+
+Começaſe a trauar a incerta guerra,
+De ambas partes ſe moue a primeira ala,
+Hũs leua a defenſam da propria terra,
+Outros as eſperanças de ganhala:
+Logo o grande Pereira em quem ſe encerra
+Todo o valor, primeiro ſe aſsinala
+Derriba, & encontra, & a terra ẽ fim ſemea
+Dos que a tanto deſejão, ſendo alhea.
+
+Ia pelo eſpeſſo ar, os eſtridentes
+Farpões, ſetas, & varios tiros voão,
+Debaxo dos pês duros dos ardentes
+Cauallos, treme a terra, os vales ſoão:
+Eſpedação ſe as lanças, & as frequentes
+Quedas, co as duras armas tudo atroão.
+Recreçem os immigos ſobre a pouca
+Gente, do fero Nuno que os apouca.
+
+Eis ali ſeus yrmãos contra elle vão,
+(Caſo feo & cruel:) mas não ſe eſpanta,
+Que menos he querer matar o yrmão,
+Quem contra o Rei & a patria ſe aleuanta:
+Destes arrenegados muitos ſam,
+No primeiro eſquadrão, que ſe adianta,
+Contra yrmãos & parentes (caſo eſtranho)
+Quaes nas guerras Ciuis de Iuleo Magno.
+
+O tu Sertorio, o nobre Cariolano
+Catilina, & vos outros dos antigos,
+Que contra voſſas patrias, com profano
+Coração, vos fizestes inimigos:
+Se lâ no reino eſcuro de Sumano
+Receberdes grauiſsimos castigos
+Dizeilhe que tambem dos Portugueſes
+Algũs tredores ouue algũas vezes.
+
+Rompem ſe aqui dos noſſos os primeiros,
+Tantos dos inimigos a elles vão:
+Eſta ali Nuno, qual pellos outeiros
+De Ceita estâ o fortiſsimo lião
+Que cercado ſe ve dos caualleiros
+Que os campos vão correr de Tutuão,
+Perſeguem no com as lanças, & elle iroſo
+Toruado hũ pouco eſtâ, mas não medroſo.
+
+Com torua vista os vê, mas a natura
+Ferina, & a yra não lhe compadecem
+Que as coſtas dê, mas antes na eſpeſſura
+Das lanças ſe arremeſſa, que recrecem:
+Tal eſtà o caualeiro que a verdura
+Tinge co ſangue alheyo, ali perecem
+Algũs dos ſeus, que o animo valente
+Perde a virtude contra tanta gente.
+
+Sentio Ioane a afronta que paſſaua
+Nuno, que como ſabio capitão,
+Tudo corria, & via, & a todos daua
+Com preſença & palauras coração:
+Qual parida Lioa fera & braua
+Que os filhos que no ninho ſôs eſtão
+Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara,
+O paſtor de Maſsilia lhos furtara.
+
+Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos
+Os montes ſete Irmãos atroa & abala,
+Tal Ioane com outros eſcolhidos
+Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala:
+O fortes companheiros, o ſubidos
+Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala,
+Defendey voſſas terras que a eſperança
+Da liberdade, eſtâ na voſſa lança.
+
+Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro
+Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes
+Dos inimigos corro, & vou primeiro
+Pelejay verdadeiros Portugueſes.
+Iſto diſſe o magnanimo guerreyro
+E ſopeſando a lança quatro vezes,
+Com força tira & deſte vnico tiro
+Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro,
+
+Porque eis os ſeus aceſos nouamente
+Dhũa nobre vergonha & honroſo fogo
+Sobre qual mais com animo valente,
+Perigos vencerâ, do Marcio jogo
+Porfião: tingeo ferro o fogo ardente
+Rompem malhas primeiro, & peitos logo
+Aſsi recebem junto & dão feridas
+Como a quem ja não doe perder as vidas.
+
+A muitos mandão ver o Eſtigio lago
+Em cujo corpo a morte, & o ferro entraua
+O Meſtre morre ali de Sanctiago
+Que fortiſsimamente pelejaua
+Morre tambem, fazendo grande eſtrago
+Outro Meſtre cruel de Calatraua
+Os Pereiras tambem arrenegados
+Morrem, arrenegando o Ceo & os fados.
+
+Muitos tambem do vulgo vil ſem nome
+Vão, & tambem dos nobres ao profundo
+Onde o Trifauce Cão perpetua fome
+Tem, das almas que paſſão deſte mundo
+E porque mais aqui ſe amanſe & dome
+A ſoberba do imigo furibundo,
+A ſublime bandeira Caſtelhana
+Foy derribada os pês da Luſitana.
+
+Aqui a fera batalha ſe encruece
+Com mortes, gritos, ſangue & cutiladas
+A multidão da gente que perece
+Tem as flores da propria cor mudadas:
+Ia as coſtas dão & as vidas: ja falece
+O furor, & ſobejão as lançadas,
+Ia de Caſtella o Rey desbaratado
+Se vee, & de ſeu propoſito mudado.
+
+O campo vay deixando ao vencedor
+Contente de lhe não deixar a vida
+Seguẽ no os que ficarão, & o temor
+Lhe da não pês, mas aſas aa fugida:
+Encobrem no profundo peito a dor
+Da morte, da fazenda deſpendida,
+Da magoa, da deſonra, & triste nojo
+De ver outrem triumphar de ſeu deſpojo.
+
+Algũs vão maldizendo & blasfemando
+Do primeyro que guerra fez no mundo
+Outros a ſede dura vão culpando
+Do peito cobiçoſo & ſitibundo:
+Que por tomar o alheo, o miſerando
+Pouo auentura aas penas do profundo
+Deixando tantas mãis, tantas eſpoſas
+Sem filhos, ſem maridos deſditoſas.
+
+O vencedor Ioanne eſteue os dias
+Coſtumados no campo, em grande gloria
+Com offertas deſpois, & romarias
+As graças deu a quem lhe deu victoria:
+Mas Nuno que não quer por outras vias,
+Entre as gentes deixar de ſi memoria
+Se não por armas ſempre ſoberanas
+Pera as terras ſe paſſa Trãſtaganas.
+
+Ajudao ſeu destino de maneira
+Que fez igoal o effeito ao penſamento,
+Porque a terra dos Vandalos fronteira
+Lhe concede o deſpojo & o vencimento
+Ia de Siuilha a Betica bandeira
+E de varios ſenhores nũ momento
+Se lhe derriba aos pês ſem ter defeſa
+Obrigados da força Portugueſa.
+
+Deſtas & outras victorias longamente
+Erão os Caſtelhanos opprimidos
+Quando a paz deſejada ja da gente
+Derão os vencedores aos vencidos:
+Deſpois que quis o Padre omnipotente
+Dar os Reis inimigos por maridos
+Aas duas lllustriſsimas Ingleſas
+Gentis, fermoſas, inclitas princeſas.
+
+Não ſofre o peito forte vſado aa guerra
+Não ter imigo ja a quem faça dano,
+E aſsi não tendo a quem vencer na terra
+Vay cometer as ondas do Occeano:
+Eſte he o primeiro Rey que ſe deſterra
+Da patria, por fazer que o Afrinano,
+Conheça pollas armas, quanto excede
+A ley de Christo aa ley de Mafamede.
+
+Eis mil nadantes aues pello argento
+Da furioſa Tetis inquieta,
+Abrindo as pandas aſas vão ao vento
+Pera onde Alcides pos a extrema meta:
+O monte Abila, & o nobre fundamento
+De Ceita toma, & o torpe Mahometa
+Deita fora, & ſegura toda Eſpanha
+Da Iuliana, mã, & desleal manha.
+
+Não conſentio a morte tantos annos
+Que de Heroe tão ditoſo ſe lograſſe
+Portugal, mas os coros ſoberanos
+Do ceo ſupremo, quis que pouoaſſe:
+Mas pera defenſam dos Luſitanos
+Deixou quem o leuou, quem gouernaſſe,
+E aumentaſſe a terra mais que dantes
+Inclita gêração, altos Infantes.
+
+Não foy do Rey Duarte tão ditoſo
+O tempo que ficou na ſumma alteza,
+Que aſsi vay alternando o tempo iroſo
+O bem co mal, o goſto co a tristeza:
+Quem vio ſempre hum eſtado deleitoſo?
+Ou quem vio em fortuna auer firmeza?
+Pois inda neſte Reino, & neſte Rey
+Não vſou ella tanto deſta ley.
+
+Vio ſer captiuo o ſancto irmão Fernando
+Que a tão altas empreſas aſpiraua
+Que por ſaluar o pouo miſerando
+Cercado, ao Sarraceno ſentregaua:
+Sô por amor da patria eſtâ paſſando
+A vida de ſenhora feyta eſcraua,
+Por não ſe dar por elle ha forte Ceita
+Mais o pubrico bem que o ſeu reſpeita.
+
+Cadro porque o inimigo não venceſſe,
+Deixou antes vencer da morte a vida,
+Regulo porque a patria não perdeſſe,
+Quis mais a liberdade ver perdida:
+Eſte porque ſe Eſpanha não temeſſe
+A captiueiro eterno ſe conuida:
+Codro, nem Curcio, ouuido por eſpanto
+Nemos Decios leais fizerão tanto.
+
+Mas Affonſo do Reino vnico herdeiro,
+Nome em armas ditoſo, em noſſa Heſperia,
+Que a ſoberba do barbaro fronteiro,
+Tornou em baxa & humilima miſeria,
+Fora por certo inuicto caualleiro,
+Se não quiſera yr ver a terra Iberia:
+Mas Affrica dira ſer impoſsibil,
+Poder ninguem vencer o Rei terribil.
+
+Eſte pode colher as maçãs de ouro,
+Que ſamente o Terintio colher pode,
+Do jugo que lhe pos o brauo Mouro,
+A ceruiz inda agora nam ſacode:
+Na fronte a palma leua, & o verde louro,
+Das victorias do barbaro, que acode
+A defender Alcaçer forte villa,
+Tangere populoſo, & a dura Arzilla.
+
+Porem ellas em fim por força entradas,
+Os muros abaxarão de Diamante,
+Aas Portugueſas forças coſtumadas,
+A derribarem quanto achão diante,
+Marauilhas em armas eſtremadas,
+E de eſcriptura dinas elegante,
+Fizerão caualleiros nesta empreſa
+Mais, affinando a fama Portugueſa.
+
+Porem deſpois tocado de ambição,
+E gloria de mandar amara & bella,
+Vay cometer Fernando de Aragão,
+Sobre o potente Reino de Caſtella,
+Ajuntaſe a inimiga multidão,
+Das ſoberbas & varias gentes della,
+Deſde Caliz ao alto Perineo,
+Que tudo ao Rei Fernando obedeceo.
+
+Não quis ficar nos Reinos occioſo,
+O mancebo Ioanne, & logo ordena
+De ir ajudar o pay ambicioſo,
+Que então lhe foy ajuda não pequena,
+Saioſe em fim do trançe perigoſo,
+Com fronte não toruada, mas ſerena
+Desbaratado o pay ſanguinolento:
+Mas ficou duuidoſo o vencimento.
+
+Porque o filho ſublime & ſoberano,
+Gentil, forte, animoſo caualleiro,
+Nos contrarios fazendo imenſo dano,
+Todo hum dia ficou no campo inteiro:
+Desta arte foy vencido Octauiano,
+E Antonio vencedor ſeu companheiro,
+Quando daquelles que Ceſar matârão
+Nos Philipicos campos ſe vingârão.
+
+Porem deſpois que a eſcura noite eterna,
+Affonſo apouſentou no Ceo ſereno,
+O Principe que o Reino então gouerna,
+Foy Ioanne ſegundo, & Rei terzeno:
+Eſte por auer fama ſempiterna,
+Mais do que tentar pode homem terreno
+Tentou, que foy buſcar da roxa Aurora
+Os terminos, que eu vou buſcando agora.
+
+Manda ſeus menſageiros que paſſarão
+Eſpanha, França, Italia celebrada,
+E la no illuſtre porto ſe embarcârão,
+Onde ja foy Partenope enterrada,
+Napoles onde os fados ſe moſtrârão,
+Fazendoa a varias gentes ſubjugada,
+Pola illuſtrar no fim de tantos annos,
+Co ſenhorio de inclitos Hispanos.
+
+Polo mar alto Siculo nauegão,
+Vão ſe aas praias de Rodes arenoſas,
+E dali aas ribeiras altas chegão,
+Que com morte de Magno ſam famoſas:
+Vão a Menfis, & aas terras que ſe regão,
+Das enchentes Niloticas vndoſas,
+Sobem aa Ethiopia, ſobre Egipto,
+Que de Christo la guarda o ſancto rito.
+
+Paſſam tambem as ondas Eritreas,
+Que o pouo de Iſrael ſem Nao paſſou,
+Ficão lhe a tras as ſerras Nabateas,
+Que o filho de Ismael co nome ornou:
+As coſtas odoriferas Sabeas,
+Que a mãy do bello Adonis tanto honrou,
+Cercão, com toda a Arabia deſcuberta
+Feliz, deixando a Petrea, & a Deſerta.
+
+Entrão no estreito Perſico, onde dura
+Da confuſa Babel, inda a memoria,
+Ali co Tigre o Eufrates ſe meſtura,
+Que as fontes onde naſcem tem por gloria:
+Dali vão em demanda da agoa pura,
+Que cauſa inda ſera de larga hiſtoria
+Do Indo, pellas ondas do Occeano,
+Onde nam ſe atreueo paſſar Trajano.
+
+Virão gentes incognitas, & eſtranhas
+Da India, da Carmania, & Gedroſia,
+Vendo varios costumes, varias manhas
+Que cada Região produze & cria:
+Mas de vias tão aſperas, tamanhas
+Tornarſe facilmente não podia,
+La morrerão em fim, & la ficârão.
+Que aa deſejada patria não tornârão.
+
+Pareſce que guardaua o claro Ceo
+A Monoel, & ſeus merecimentos,
+Eſta empreſa tão ardua, que o moueo
+A ſubidos & illuſtres mouimentos:
+(Manoel, que a Ioane ſocedeo
+No reino, & nos altiuos penſamentos)
+Logo como tomou do reino cargo
+Tomou mais a conquiſta do mar largo.
+
+O qual, como de nobre penſamento
+Daquella obrigação, que lhe ficâra
+De ſeus antepaſſados, (cujo intento,
+Foy ſempre acrecentar a terra chara)
+Não deixaſſe de ſer hum ſo momento
+Conquiſtado: No tempo que a luz clara
+Foge, & as eſtrellas nitidas que ſaem
+A repouſo conuidão, quando caem.
+
+Eſtando ja deitado no aureo leito
+Onde ymaginações mais certas ſam,
+Reuoluendo contino no conceito
+De ſeu officio, & ſangue a obrigação,
+Os olhos lhe occupou o ſonno acceito
+Sem lhe deſoccupar o coração,
+Porque tanto que laſſo ſe adormece
+Morfeo en varias formas lhe aparece.
+
+Aqui ſe lhe apreſenta que ſubia
+Tão alto que tocaua aa prima Eſphera,
+Donde diante varios mundos via
+Nações de muita gente eſtranha, & fera:
+E laa bem junto donde nace o dia
+Deſpois que os olhos longos estendera,
+Vio de antiguos longinquos & altos montes
+Nacerem duas claras & altas fontes.
+
+Aues agrestes, feras & alimarias
+Pello monte ſeluatico habitauão,
+Mil aruores ſylueſtres & eruas varias
+O paſſo & o trato aas gentes atalhauão:
+Eſtas duras montanhas aduerſarias
+De mais conuerſação, por ſi moſtrauão
+Que deſque Adão peccou aos noſſos annos
+Não as romperão nunca pês humanos.
+
+Das agoas ſe lhe antolha que ſaião
+Por elle os largos paſſos inclinando,
+Dous homẽs, que muy velhos parecião
+De aſpeito, inda que agreſte, venerando:
+Das pontas dos cabellos lhe ſaião
+Gotas, que o corpo todo vão banhando,
+A cor da pelle baça & denegrida
+A barba hirſuta, intonſa, mas comprida.
+
+Dambos de dous a fronte coroada
+Ramos não conhecidos & eruas tinha,
+Hum delles a preſença traz canſada
+Como quem de mais longe ali caminha,
+E aſsi a agoa com impito alterada
+Parecia que doutra parte vinha,
+Bem como Alfeo de Arcadia em Syracuſa
+Vay buſcar os abraços de Aretuſa.
+
+Eſte que era o mais graue na peſſoa
+Destarte pera o Rey de longe brada,
+O tu a cujos reinos & coroa
+Grande parte do mundo eſta guardada,
+Nos outros, cuja fama tanto voa
+Cuja ceruiz bem nunca foy domada,
+Te auiſamos que he tempo que ja mandes
+A receber de nos tributos grandes.
+
+Eu ſou o illuſtre Ganges, que na terra
+Celeſte, tenho o berço verdadeiro,
+Estoutro he o Indo Rey, que nesta ſerra
+Que vês, ſeu nacimento tem primeiro:
+Cuſtartemos com tudo dura guerra,
+Mas inſiſtindo tu por derradeiro,
+Com não viſtas victorias, ſem receyo
+A quantas gentes vês poras o freyo:
+
+Não diſſe mais o rio Illuſtre & ſancto,
+Mas ambos deſparecem num momento,
+Acorda Emanuel cum nouo eſpanto
+E grande alteração de penſamento:
+Eſtendeo niſto Febo o claro manto
+Pello eſcuro Emiſperio ſomnolento:
+Veyo a menham no ceo pintando as côres
+De pudibunda roſa & roxas flores.
+
+Chama o Rei os ſenhores a conſelho
+E propoẽ lhe as figuras da viſam,
+As palauras lhe diz do ſancto velho,
+Que a todos forão grande admiração:
+Determinão o nautico aparelho
+Pera que com ſublime coração
+Vaa a gente que mandar cortando os mares
+A buſcar nouos climas, nouos ares.
+
+Eu que bem mal cuidaua que em effeito
+Se poſeſſe o que o peito me pedia,
+Que ſempre grandes couſas deste geito
+Preſago o coração me prometia:
+Não ſey porque razão, porque reſpeito,
+Ou porque bom ſinal que em mi ſe via,
+Me poẽ o inclyto Rei nas mãos a chaue
+Deſte cometimento grande, & graue.
+
+E com rogo & palauras amoroſas
+Que he hũ mando nos Reis que a mais obriga,
+Me diſſe: As couſas arduas & lustroſas
+Se alcanção com trabalho & com fadiga:
+Faz as peſſoas altas & famoſas
+A vida que ſe perde & que periga,
+Que quando ao medo infame não ſe rende
+Então, ſe menos dura, mais ſe eſtende.
+
+Eu vos tenho entre todos eſcolhido
+Para hũa empreſa qual a vos ſe deue,
+Trabalho illuſtre, duro & eſclareſcido,
+O que eu ſey que por mi vos ſera leue:
+Não ſofri mais, mas logo: O Rey ſubido,
+Auenturarme a ferro, a fogo, a neue,
+He tão pouco por vos que mais me pena
+Ser eſta vida couſa tão pequena.
+
+Imaginay tamanhas auenturas
+Quaes Euriſteo a Alcides inuentaua,
+O lião Cleonêo, Arpias duras
+O porco de Erimanto, a Ydra braua:
+Decer em fim aas ſombras vans & eſcuras
+Onde os campos de Dite a Eſtige laua,
+Porque a mayor perigo, a môr affronta
+Por vos, o Rey, o eſprito & carne he prõpta.
+
+Com merces ſumptuoſas me agardece
+E com razoẽs me louua eſta vontade,
+Que a virtude louuada viue & crece,
+E o louuor altos caſos perſuade:
+A acompanharme logo ſe offerece
+Obrigado damor & damizade,
+Não menos cobiçoſo de honra & fama,
+O charo meu Irmão Paulo da Gama.
+
+Mais ſe me ajunta Nicolao Coello
+De trabalhos muy grande ſoffredor,
+Ambos ſam de valia & de conſelho
+Dexperiencia em armas & furor:
+Ia de manceba gente me aparelho
+Em que crece o deſejo do valer,
+Todos de grande esforço, & aſsi parece
+Quem a tamanhas couſas ſe offerece.
+
+Forão de Emanoel remunerados,
+Porque com mais amor ſe apercebeſſem,
+E com palauras altas animados
+Pera quantos trabalhos ſoccedeſſem:
+Aſsi forão o Mynias ajuntados
+Pera que o veo dourado combateſſem,
+Na Fatidiça nao, que ouſou primeira
+Tentar o mar Euxinio, auentureira.
+
+E ja no porto da inclita Vliſſea
+Cum aluoroço nobre, & cum deſejo,
+(Onde o licor meſtura & branca area
+Co ſalgado Neptuno o doce Tejo:)
+As naos preſtes eſtão, & não refrea
+Temor nenhum o iuuenil deſpejo,
+Porque a gente maritima & a de Marte
+Eſtão pera ſeguirme a toda parte.
+
+Pellas prayas vestidos os ſoldados
+De varias cores vem, & varias artes,
+E não menos de esforço aparelhados
+Pera buſcar do mundo nouas partes:
+Nas fortes naos os ventos ſoſſegados
+Ondeão os aerios estandartes,
+Ellas prometem vendo os mares largos
+De ſer no Olimpo eſtrellas como a de Argos.
+
+Deſpois de aparelhados deſta ſorte
+De quanto tal viagem pede & manda,
+Aparelhamos a alma pera a morte
+Que ſempre aos nautas ante os olhos anda:
+Pera o ſumo poder que a Etherea corte
+Soſtenta ſo coa vista veneranda,
+Imploramos fauor que nos guiaſſe
+E que noſſos começos aſpiraſſe.
+
+Partimonos aſsi do ſancto templo
+Que nas Prais do mar eſtâ aſſentado,
+Que o nome tem da terra, pera exemplo,
+Donde Deos foy em carne ao mundo dado:
+Certifico te, o Rey, que ſe contemplo
+Como fuy deſtas prayas apartado,
+Cheyo dentro de duuida & receyo
+Que apenas nos meus olhos ponho o freyo.
+
+A gente da cidade aquelle dia
+(Hũs por amigos, outros por parentes,
+Outros por ver ſomente) concorria
+Saudoſos na viſta & deſcontentes:
+E nos coa virtuoſa companhia
+De mil religioſos diligentes,
+Em prociſſam ſolene a Deos orando
+Pera os bateis viemos caminhando.
+
+Em tão longo caminho & duuidoſo
+Por perdidos as gentes nos julgauão,
+As molheres cum choro piadoſo,
+Os homẽs com ſuſpiros que arrancauão:
+Mãis, Eſpoſas, Irmãs, que o temeroſo
+Amor mais deſconfia, acrecentauão
+A deſeſperação, & frio medo
+De ja nos não tornar a ver tão cedo.
+
+Qual vay dizendo: O filho a quem eu tinha
+So pera refrigerio, & doce emparo
+Desta canſada ja velhice minha,
+Que em choro acabarâ, penoſo & amaro:
+Porque me deixas, miſera & mezquinha?
+Porque de mi te vas, o filho charo
+A fazer o funereo enterramento
+Onde ſejas de pexes mantimento?
+
+Qual em cabello: O doce & amado eſpoſo
+Sem quem não quis amor que viuer poſſa,
+Porque is auenturar ao mar iroſo
+Eſſa vida que he minha, & não he voſſa?
+Como por hum caminho duuidoſo
+Vos eſquece a afeição tão doce noſſa?
+Noſſo amor, noſſo vão contentamento
+Quereis que com as vellas leue o vento.
+
+Neſtas & outras palauras que dizião
+De amor, & de piadoſa humanidade,
+Os velhos & os mininos os ſeguião
+Em quem menos esforço poẽ a ydade:
+Os montes de mais perto reſpondião
+Quaſi mouidos de alta piedade,
+A branca area as lagrimas banhauão
+Que em multidão co ellas ſe ygoalauão.
+
+Nos outros ſem a vista aleuantarmos
+Nem a Mãy, nem a Eſpoſa, neſte eſtado,
+Por nos não magoarmos, ou mudarmos
+Do prepoſito firme começado:
+Determiney de aſsi nos embarcarmos
+Sem o deſpedimento custumado,
+Que poſto que he de amor vſança boa
+Aquem ſe aparta, on fica, mais magoa.
+
+Mas hum velho daſpeito venerando,
+Que ficaua nas prayas, entre a gente,
+Poſtos em nos os olhos, meneando
+Tres vezes a cabeça, deſcontente,
+A voz peſada hum pouco aleuantando,
+Que nos no mar ouuimos claramente,
+Cum ſaber ſo dexperiencias feyto
+Tais palauras tirou do experto peito.
+
+O gloria de mandar, o vaã cubiça
+Deſta vaidade, a quem chamamos Fama,
+O fraudolento goſto, que ſe atiça
+Cũa aura popular, que honra ſe chama:
+Que caſtigo tamanho & que juſtiça
+fazes no peito vão que muito te ama,
+Que mortes, que perigos, que tormentas
+Que crueldades nelles eſprimentas.
+
+Dura inquietação dalma & da vida
+Fonte de deſemparos & adulterios,
+Sagaz conſumidora conhecida
+De fazendas, de reinos, & de imperios:
+Chamante illuſtre, chamante ſubida,
+Sendo dina de infames vituperios,
+Chamante Fama, & Gloria ſoberana,
+Nomes com quem ſe o pouo neſcio engana.
+
+A que nouos deſaſtres determinas
+De leuar estes reynos & eſta gente?
+Que perigos, que mortes lhe destinas
+Debaixo dalgum nome preminente?
+Que promeſſas de reynos, & de minas
+Douro, que lhe faras tão facilmente?
+Que famas lhe prometeras, que hiſtorias?
+Que triumphos, que palmas, que victorias?
+
+Mas ô tu geração daquelle inſano
+Cujo peccado & deſobediencia,
+Não ſomente do reino ſoberano
+Te pos neſte deſterro & triſte auuſencia:
+Mas inda doutro estado mais que humano
+Da quieta & da ſimpres innocencia,
+Idade douro, tanto te priuou
+Que na de ferro & darmas te deitou.
+
+Ia que nesta goſtoſa vaidade
+Tanto enleuas a leue fantaſia,
+Ia que aa bruta crueza & feridade
+Poſeste nome esforço & valentia,
+Ia que prezas em tanta quantidade
+O deſprezo da vida, que deuia
+De ſer ſempre eſtimada, pois que ja
+Temeo tanto perdella quem a dâ.
+
+Não tens junto com tigo o Iſmaelita
+Com quem ſempre teras guerras ſobejas?
+Não ſegue elle do Arabio a ley maldita,
+Se tu polla de Chriſto ſo pellejas?
+Não tem cidades mil, terra infinita,
+Se terras & riqueza mais deſejas?
+Não he elle por armas esforçado
+Se queres por victorias ſer louuado?
+
+Deixas criar aas portas o inimigo
+Por yres buſcar outro de tão longe,
+Por quem ſe deſpouoe o reino antigo
+Se enfraqueça & ſe vaa deitando a longe:
+Buſcas o incerto & incognito perigo
+Porque a fama te exalte & te liſonge,
+Chamando te ſenhor com larga copia
+Da India, Perſia, Arabia, & de Ethiopia.
+
+O maldito o primeiro que no mundo
+Nas ondas vella pôs en ſeco lenho,
+Dino da eterna pena do profundo
+Se he juſta a juſta ley que ſigo & tenho:
+Nunca juyzo algum alto & profundo,
+Nem cythara ſonora, ou viuo engenho,
+Te dê por iſſo fama, nem memoria,
+Mas comtigo ſe acabe o nome & gloria.
+
+Trouxe o filho de Iapeto do Ceo
+O fogo que ajuntou ao peito humano,
+Fogo que o mundo em armas accendeo
+Em mortes, em deſonras (grande engano)
+Quanto milhor nos fora Prometeo,
+E quanto pera o mundo menos dano,
+Que a tua eſtatua Illuſtre não tiuera
+Fogo de altos deſejos, que a mouera.
+
+Não cometera o moço miſerando
+O carro alto do pay, nem o âr vazio
+O grande Achitector co filho, dando
+Hum, nome ao mar, & o outro, fama ao rio:
+Nenhum cometimento alto & nefando
+Por fogo, ferro, agoa, calma & frio,
+Deixa intentado a humana geração:
+Miſera ſorte, eſtranha Condição!
+F I M.
+
+
+
+❧ Canto Quinto.
+Eſtas ſentenças tais
+o velho honrado
+Vociferando eſtaua, quando a-
+brimos
+As aſas ao ſereno & ſoſſegado
+Vento, & do porto amado nos partimos:
+E como he ja no mar cuſtume vſado
+A vella desfraldando o ceo ferimos,
+Dizendo Boa viagem, logo o vento
+Nos troncos fez o vſado mouimento.
+
+Entruaa neste tempo o eterno lume,
+No animal Nemeyo truculento,
+E o mundo que com tempo ſe conſume
+Na ſeiſta idade andaua enfermo & lento:
+Nella ve, como tinha por coſtume
+Curſos do Sol quatorze vezes cento,
+Com mais nouenta & ſete, em que corria
+quando no mar a armada ſe estendia.
+
+Ia a vista pouco & pouco ſe desterra
+Daquelles patrios montes que ficauão,
+Ficaua o charo Tejo, & a freſca ſerra
+De Sintra, & nella os olhos ſe alongauão:
+Ficauanos tambem na amada terra
+O coração, que as magoas lâ diyxauão,
+E ja deſpois que toda ſe eſcondeo
+Não vimos mais em fim que mar & ceo.
+
+Aſsi fomos abrindo aquelles mares
+Que geração algũa não abrio,
+As nouas Ilhas vendo, & os nouos ares,
+Que o generoſo Enrique deſcobrio:
+De Mauritania os montes & lugares
+Terra que Anteo num tempo poſſuyo,
+Deyxando aa mão ezquerda, que aa dereita
+Não ha certeza doutra, mas ſoſpeita.
+
+Paſſamos a grande Ilha da madeira
+Que do muito aruoredo aſsi ſe chama,
+Das que nos pouoamos, a primeira,
+Mais celebre por nome, que por fama:
+Mas nem por ſer do mundo a derradeira
+Se lhe auentajão quantas Venus ama,
+Antes ſendo esta ſua ſe eſquecera
+De Cypro, Guido, Pafos, & Cythêra.
+
+Deixamos de Maſsilia a eſteril costa
+Onde ſeu gado os Azenegues pastão,
+Gente que as freſcas agoas nunca goſta
+Nem as eruas do campo bem lhe abaſtão:
+A terra a nenhum fruto em fim deſpoſta,
+Onde as aues no ventre o ferro gastão,
+Padecendo de tudo extrema inopia
+Que aparta a Barbarîa de Etiopia.
+
+Paſſamos o lemite aonde chega
+O Sol, que pera o Norte os carros guia,
+Onde jazem os pouos, a quem nega
+O filho de Climêne a cor do dia:
+Aqui gentes eſtranhas laua & rega
+Do negro Sanagâ a corrente fria,
+Onde o Cabo Arſinario o nome perde
+Chamando ſe dos noſſos Cabo verde.
+
+Paſſadas tendo ja as Canareas ilhas
+Que tiuerão por nome Fortunadas,
+Entramos nauegando pollas filhas
+Do velho Heſperio, Heſperidas chamadas
+Terras por onde nouas marauilhas
+Andarão vendo jaa noſſas armadas,
+Ali tomamos porto com bom vento
+Por tomarmos da terra mantimento.
+
+A aquella ilha aportamos, que tomou
+O nome do guerreiro Sanctiago,
+Sancto que os Eſpanhoes tanto ajudou
+A fazerem nos Mouros brauo eſtrago:
+Daqui tanto que Boreas nos ventou
+Tornamos a cortar o immenſo lago,
+Do ſalgado Occeano, & aſsi deixamos
+A terra onde o refreſco doce achamos.
+
+Por aqui rodeando a larga parte
+De Africa, que ficaua ao Oriente,
+A prouincia lalofo, que reparte
+Por diuerſas naçoẽs a negra gente:
+A muy grande Mandinga, por cuja arte,
+Logramos o metal rico & luzente,
+Que do curuo Gambea as agoas bebe
+As quaes o largo Atlantico recebe.
+
+As Dorcadas paſſamos, pouoadas
+Das Irmaãs, que outrotempo ali viuião,
+Que de vista total ſendo priuadas
+Todas tres dhum ſo olho ſe ſeruião:
+Tu ſo, tu cujas tranças encreſpadas
+Neptuno la nas agoas acendião,
+Torna la ja de todas a mais fea
+De biuoras encheſte a ardente area.
+
+Sempre em fim pera o Auſtro a aguda proa
+No grandiſsimo golfão nos metemos,
+Deixando a ſerra aſperrima Lyoa
+Co Cabo a quem das Palmas nome demos:
+O grande rio, onde batendo ſoa
+O mar nas prayas notas, que ali temos,
+Ficou, co a Ilha illuſtre que tomou
+O nome dhum que o lado a Deos tocou.
+
+Ali o muy grande reyno eſtâ de Congo
+Por nos ja conuertido â fee de Christo,
+Por onde o Zaire paſſa claro & longo
+Rio pellos antigos nuca viſto:
+Por eſte largo mar em fim me alongo
+Do conhecido pollo de Caliſto,
+Tendo o termino ardente ja paſſado
+Onde o meyo do mundo he limitado.
+
+Ia deſcuberto tinhamos diante
+La no nouo Hemiſperio noua estrela
+Não viſta deoutra gente, que ignorante
+Algũs tempos eſteue incerta della:
+Vemos a parte menos rutilante
+E por falta destrellas menos bella,
+Do Polo fixo, onde inda ſe não ſabe
+Que outra terra comece, ou mar acabe:
+
+Aſsi paſſando aquellas regioẽs
+Por onde duas vezes paſſa Apolo,
+Dous inuernos fazendo & dous veroẽs
+Em quanto corre dhum ao outro Polo:
+Por calmas, por tormentas & opreſſoẽs
+Queſempre faz no mar o yrado Eolo,
+Vimos as Vrſas a peſar de Iuno
+Banharemſe nas agoas de Neptuno.
+
+Contarte longamente as perigoſas
+Couſas do mar, que os homẽs não entendem,
+Subitas trouoadas temeroſas,
+Relampados que o ar em fogo acendem:
+Negros chuueiros, noites tenebroſas,
+Bramidos de trouoẽs que o mundo fendem,
+Não menos he trabalho, que grande erro
+Ainda que tiuiſſe a voz de ferro.
+
+Os caſos vi que os rudos marinheiros
+Que tem por meſtra a longa experiencia,
+Contão por certos ſempre & verdadeiros
+Iulgando as couſas ſo polla aparencia.
+E que os que tem juizos mais inteiros
+Que ſo por puro engenho & por ciencia,
+Vem do mundo, os ſegredos eſcondidos
+Iulgão por falſos, ou mal entendidos.
+
+Vi claramente viſto o lume viuo
+Que a maritima gente tem por ſanto,
+Em tempo de tormenta & vento eſquiuo
+De tempeſtade eſcura & triste pranto:
+Não menos foy a todos ecceſsiuo
+Milagre, & couſa certo de alto eſpanto,
+Ver as nuuẽs do mar com largo cano
+Soruer as altas agoas do Occeano.
+
+Eu o vi certamente (& não preſumo
+Que a viſta me enganaua) leuantar ſe,
+No ar hum vaporzinho & ſutil fumo
+E do vento trazido, rodearſe:
+De aqui leuado hum cano ao Polo ſumo
+Se via, tão delgado que enxergarſe
+Dos olhos facilmente não podia,
+Da materia das nuuẽs parecia.
+
+Hiaſe pouco & pouco acrecentando
+E mais que hum largo maſto ſe engroſſaua,
+Aqui ſe eſtreita, aqui ſe alargaquando
+Os golpes grandes de agoa em ſi chupaua:
+Eſtauaſe co as ondas ondeando,
+Encima delle hũa nuuem ſe eſpeſſaua,
+Fazendoſe mayor mais carregada
+Co cargo grande dagoa em ſi tomada.
+
+Qual roxa Sangueſuga ſe veria
+Nos beiços da alimaria (que imprudente,
+Bebendo a recolheo na fonte fria)
+Fartar co ſangue alheyo a ſede ardente:
+Chupando mais & mais ſe engroſſa & cria
+Ali ſe enche & ſe alarga grandemente,
+Tal a grande coluna, enchendo aumenta
+A ſi, & a nuuem negra que ſuſtenta.
+
+Mas deſpois que de todo ſe fartou
+O pê que tem no mar a ſi recolhe,
+E pello ceo chouendo em fim voou
+Porque coa agoa a jacente agoa molhe:
+Aas ondas torna as ondas que tomou:
+Mas o ſabor do ſal lhe tira, & tolhe,
+Vejão agora os ſabios na eſcriptura
+Que ſegredos ſam estes de Natura.
+
+Se os antigos Philoſophos, que andarão
+Tantas terras, por ver ſegredos dellas,
+As marauilhas que eu paſſei, paſſarão
+A tão diuerſos ventos dando as vellas:
+Que grandes eſcripturas que deixarão
+Que influição de ſinos & de eſtrellas,
+Que eſtranhezas, que grandes qualidades,
+E tudo ſem mentir, puras verdades.
+
+Mas ja o Planeta qne no ceo primeiro
+Habita, cinco vezes apreſſada,
+Agora meyo rosto, agora inteiro
+Mostrara, em quãto o mar cortaua a armada:
+Quando da Eterea gauea hum marinheiro
+Prompto coa viſta, terra, terra, brada,
+Salta no bordo aluoroçada a gente
+Cos olhos no Orizonte do Oriente.
+
+A maneira de nuuẽs ſe começão
+A deſcubrir os montes que enxergamos,
+As ancoras peſadas ſe adereção,
+As vellas ja chegados amainamos:
+E pera que mais certas ſe conheção
+As partes tão remotas onde eſtamos,
+Pello nouo inſtrumento do Astrolabio
+Inuenção de ſutil juizo & ſabio.
+
+Deſembarcamos logo na eſpaçoſa
+Parte, por onde a gente ſe eſpalhou,
+De ver couſas eſtranhas deſejoſa
+Da terra que outro pouo não piſou:
+Porem eu cos pilotos na arenoſa
+Praya, por vermos em que parte eſtou,
+Me detenho, em tomar do ſol a altura
+E compaſſar a vniuerſal pintura.
+
+Achamos ter de todo ja paſſado
+Do Semicapro pexe a grande meta,
+Eſtando entre elle & o circulo gelado
+Auſtral, parte do mundo mais ſecreta:
+Eis de meus companheiros rcdeado
+Vejo hum eſtranho vir de pelle preta,
+Que tomarão per força, em quanto apanha
+De mel os doces fauos na montanha.
+
+Toruado vem na viſta, como aquelle
+Que não ſe vira nunca em tal eſtremo,
+Nem elle entende a nos, nem nos a elle,
+Seluagem mais que o bruto Polifemo:
+Começolhe a mostrar da rica pelle
+De Colcos o gentil metal ſupremo,
+A prata fina, a quente eſpeciaria:
+A nada disto o bruto ſe mouia.
+
+Mando moſtrarlhe peças mais ſomenos
+Contas de Chriſtalmo tranſparente,
+Alguns ſoantes caſcaueis pequenos,
+Hum barrete vermelho, cor contente:
+Vi logo por ſinais & por acenos
+Que com iſto ſe alegra grandemente,
+Mando o ſoltar com tudo, & aſsi caminha
+Pera a pouoação, que perto tinha.
+
+Mas logo ao outro dia ſeus parceiros
+Todos nús, & da cor da eſcura treua,
+Decendo pellos aſperos outeiros
+As peças vem buſcar que eſtoutro leua:
+Domeſticos ja tanto & companheiros
+Se nos moſtrão, que fazem que ſe atreua,
+Fernão Velloſo a yr ver da terra o trato
+E partirſe co elles pello mato.
+
+He Velloſo no braço confiado
+E de arrogante cre que vay ſeguro,
+Mas, ſendo hum grande eſpaço ja paſſado,
+Em que algum bom ſinal ſaber procuro:
+Eſtando, a viſta alçada, co cuidado
+No auentureyro, eis pello monte duro
+Aparece, & ſegundo ao mar caminha
+Mais apreſſado do que fora vinha.
+
+O batel de Coelho foy depreſſa
+Pollo tomar, mas antes que chegaſſe,
+Hum Etiope ouſado ſe arremeſſa
+A elle porque não ſe lhe eſcapaſſe:
+Outro & outro lhe ſaem veſſe em preſſa
+Velloſo, ſem que alguem lhe ali ajudaſſe,
+Acudo eu logo, & em quanto o remo aperto
+Se mostra hum bando negro deſcuberto.
+
+Da eſpeſſa nuuem ſêtas & pedradas
+Chouem ſobre nos outros ſem medida,
+E não forão ao vento em vão deitadas
+Que esta perna trouxe eu dali ferida:
+Mas nos como peſſoas magoadas
+A repoſta lhe demos tão tecida,
+Que em mais que nos barretes ſe ſoſpeita
+Que a cor vermelha leuão deſta feita.
+
+E ſendo ja Velloſo em ſaluamento
+Logo nos recolhemos pera a armada,
+Vendo a malicia fea & rudo intento
+Da gente beſtial, bruta & maluada:
+De quem nenhum milhor conhecimento
+Podemos ter da India deſejada,
+Que eſtarmos inda muyto longe della
+E aſsi torney a dar ao vento a vella.
+
+Diſſe então a Velloſo hum companheiro
+(Começando ſe todos a ſorrir)
+Oula Vedolo amigo, aquelle outeiro
+He milhor de decer que de ſubir:
+Si he, reſponde o ouſado auentureiro
+Mas quando eu pera ca vi tantos vir,
+Daquelles caẽs, de preſſa hum pouco vim
+Por me lembrar que estaueis ca ſem mim.
+
+Contou então que tanto que paſſarão
+Aquelle monte, os negros de quem fallo,
+Auante mais paſſar o não deixarão,
+Querendo, ſe não torna, ali matallo:
+E tornando ſe, logo ſe emboſcarão
+Porque ſaindo nos pera tomallo,
+Nos podeſſem mandar ao reino eſcuro
+Por nos roubar em mais a ſeu ſeguro.
+
+Porem ja cinco Soes erão paſſados
+Que dali nos partiramos, cortando
+Os mares nunca doutrem nauegados,
+Proſperamente os ventos aſſoprando:
+Quando hũa noite estando deſcuidados
+Na cortadora proa vigiando,
+Hũa nuuem que os ares eſcurece
+Sobre noſſas cabeças aparece.
+
+Tão temeroſa vinha & carregada,
+Que pos nos coraçoẽs hum grande medo,
+Bramindo o negro mar, de longe brada
+Como ſe deſſe em vão nalgum rochedo:
+O poteſtade, diſſe, ſublimada
+Que ameaço diuino, ou que ſegredo,
+Eſte clima, & eſte mar nos apreſenta,
+Que môr couſa parece que tormenta?
+
+Não acabaua, quando hũa figura
+Se nos mostra no ar, robuſta & valida,
+De disforme & grandiſsima eſtatura,
+O roſto carregado, a barba eſqualida:
+Os olhos encouados, & a poſtura
+Medonha & maa, & a cor terrena & palida,
+Cheos de terra & creſpos os cabellos,
+A boca negra, os dentes amarellos.
+
+Tão grande era de membros, que bem poſſo
+Certificarte, que este era o ſegundo
+De Rodes estranhiſsimo Coloſſo,
+Que hum dos ſete milagres foy do mundo:
+Cum tom de voz nos falla horrendo & groſſo
+Que pareceo ſair do mar profundo,
+Arrepião ſe as carnes & o cabello
+A mi, & a todos, ſoo de ouuillo & vello.
+
+E diſſe: O gente ouſada mais que quantas
+No mundo cometerão grandes couſas,
+Tu que por guerras cruas, taes & tantas
+E por trabalhos vãos munca repouſas:
+Pois os vedados terminos quebrantas
+E nauegar meus longos mares ouſas,
+Que eu tãto tempo ha ja que guardo, & tenho
+Nunca arados deſtranho, ou proprio lenho.
+
+Pois vens ver os ſegredos eſcondidos
+Da natureza, & do humido elemento,
+A nenhum grande humano concedidos
+De nobre, ou de immortal merecimento:
+Ouue os danos de mi, que apercebidos
+Eſtão, a teu ſobejo atreuimento,
+Por todo o largo mar & polla terra
+Que inda has de ſojugar com dura guerra.
+
+Sabe que quantas naos eſta viagem
+Que tu fazes, fizerem de atreuidas
+Inimiga terão esta paragem
+Com ventos & tormentas deſmedidas:
+E da primeira armada que paſſagem
+Fizer por eſtas ondas inſuffridas,
+Eu farey dimprouiſo tal caſtigo
+Que ſeja môr o dano que o perigo.
+
+Aqui eſpero tomar ſe não me engano
+De quem me deſcobrio ſuma vingança,
+E não ſe acabarâ ſo nisto o dano
+De voſſa pertinace confiança:
+Antes em voſſas naos vereys cada anno
+Se he verdade o que meu juyzo alcança,
+Naufragios, perdiçoẽs de toda ſorte,
+Que o menor mal de todos ſeja a morte.
+
+E do primeiro Illuſtre, que a ventura
+Com fama alta fizer tocar os Ceos,
+Serey eterna & noua ſepoltura
+Por juizos incognitos de Deos:
+Aqui porà da Turca armada dura
+Os ſoberbos & proſperos tropheos,
+Comigo de ſeus danos o ameaça
+A destruida Quiloa com Mombaça.
+
+Outro tambem virâ de honrada fama
+Liberal, caualeiro, enamorado,
+E conſigo trarâ a fermoſa dama
+Que Amor por gram merce lhe terâ dado:
+Triſte ventura, & negro fado os chama
+Neste terreno meu, que duro & yrado,
+Os deixarâ dhum crú naufragio viuos
+Pera verem trabalhos ecceſtiuos.
+
+Verão morrer com fome os filhos charos
+Em tanto amor gêrados & nacidos,
+Verão os Cafres aſperos & auaros
+Tirar aa linda dama ſeus veſtidos:
+Os cristalinos membros & perclaros
+Aa calma, ao frio, no ar verão deſpidos,
+Deſpois de ter piſada longamente
+Cos delicados pês a area ardente.
+
+E verão mais osolhos que eſcaparem
+De tanto mal, de tanta deſuentura,
+Os dous amantes miſeros ficarem
+Na ſeruida & implacabil eſpeſſura:
+Ali deſpois que as pedras abrandarem
+Com lagrimas de dôr, de magoa pura,
+Abraçados as almas ſoltaram
+Da fermoſa & miſerrima priſam.
+
+Mais hia por diante o monstro horrendo
+Dizendo noſſos fados, quando alçado
+Lhe diſſe eu: Quem es tu? que eſſe estupendo
+Corpo, certo me tem marauilhado
+A boca & os olhos negros retorcendo,
+E dando hum eſpantoſo & grande brado,
+Me reſpondeo, com voz peſada & amara
+Como quem da pregunta lhe peſara.
+
+Eu ſou aquelle occulto & grande Cabo
+A quem chamais vos outros Tormentorio,
+Que nunca a Ptolomeu, Pomponio, Eſtrabo,
+Plinio, & quantos paſſarão fuy notorio:
+Aqui toda a Africana coſta acabo
+Neſte meu nunca viſto Promontorio,
+Que pera o Polo Antariuo ſe eſtende
+A quem voſſa ouſadia tanto offende.
+
+Fuy dos filhos aſperrimos da terra
+Qual Encelado, Egeo, & o Centimano,
+Chameime Adamaſtor,& fuy na guerra
+Contra o que vibra os rayos de Vulcano:
+Não que poſeſſe ſerra ſobre ſerra
+Mas conquiſtando as ondas do Occeano,
+Fuy capitão domar, par onde andaua
+A armada de Neptuno, que eu buſcaua.
+
+Amores da alta eſpoſa de Peleo
+Me fizerão tomar tamanha empreſa,
+Todas as Deoſas deſprezey do ceo
+So par amar das agoas a Princeſa:
+Hum dia a vi coas filhas de Nereo
+Sayr nua na praya, & logo preſa,
+A vontade ſinti, de tal maneira
+Que inda não ſinto couſa que mais queira.
+
+Como foſſe impoſsibil alcançalla
+Polla grandeza fea de meu geſto,
+Determiney por armas de tomalla
+E a Doris eſte caſo manifeſto:
+De medo a Deoſa então por mi lhe falla:
+Mas ella cum fermoſo riſo honesto,
+Reſpondeo: Qual ſera o amor baſtante
+De Nimpha que ſuſtente o dhum Gigante.
+
+Com tudo por liurarmos o Occeano
+De tanta guerra, eu buſcarey maneira,
+Com que com minha honra eſcuſe o dano.
+Tal reſpoſta me torna a menſageira:
+Eu que cair não pude neste engano,
+(Que he grande dos amantes a cigueira)
+Encherãome com grandes abondanças
+O peito de deſejos & eſperanças.
+
+Ia neſcio, ja da guerra deſiſtindo
+Hũa noite de Doris prometida,
+Me aparece de longe o geſto lindo
+Da branca Thetis vnica deſpida:
+Como doudo corri de longe, abrindo
+Os braços, pera aquella que era vida
+Deſte corpo, & começo os olhos bellos
+A lhe beijar, as faces & os cabellos.
+
+O que não ſey de nojo como o conte
+Que crendo ter nos braços quem amaua,
+Abraçado me achey cum duro monte
+De aſpero mato, & de eſpeſſura braua:
+Eſtando cum penedo fronte a fronte
+Queu pollo roſto angelico apartaua,
+Não fiquey homem não, mas mudo & quedo
+E junto dhum penedo outro panedo
+
+O Nimpha a mais fermoſa do Oceano
+Ia que minha preſença não te agrada,
+Que te cuſtaua terme neſte engano,
+Ou foſſe monte, nuuem, ſonho, ou nada:
+Daqui me parto irado, & quaſi inſano
+Da magoa & da deſonra ali paſſada,
+A buſcar outro mundo, onde não viſſe
+Quem de meu pranto, & de meu mal ſe riſſe.
+
+Erão ja neſte tempo meus Irmãos
+Vencidos & em miſeria estrema poſtos,
+E por mais ſegurarſe os Deoſes vãos
+Algũs a varios montes ſottopostos:
+E como contra o Ceo não valem mãos,
+Eu que chorando andaua meus deſgoſtos,
+Comecey a ſentir do fado imigo
+Por meus atreuimentos o caſtigo.
+
+Conuerteſeme a carne em terra dura,
+Em penedos os oſſos ſe fizerão,
+Eſtes membros que ves & esta figura
+Por eſtas longas agoas ſe estenderão:
+Em fim minha grandiſsima eſtatura
+Neſte remoto cabo conuerterão
+Os Deoſes, & por mais dobradas magoas
+Me anda Thetis cercando deſtas agoas.
+
+Aſsi contaua & cum medonho choro
+Subito dante os olhos ſe apartou,
+Desfez ſe a nuuem negra, & cum ſonoro
+Bramido, muito longe o mar ſoou:
+Eu, leuantando as mãos ao ſancto coro
+Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
+A Deos pedi que remoueſſe os duros
+Caſos, que Adamaſtor contou futuros.
+
+Ia Phlegon, & Pyrois vinhão tirando
+Cos outros dous o carro radiante,
+Quando a terra alta ſe nos foy mostrando
+Em que foy conuertido o grão gigante:
+Ao longo desta costa, começando
+Ia de cortar as ondas do Leuante,
+Por ella abaixo hum pouco nauegamos
+Onde ſegunda vez terra tomamos.
+
+A gente que eſta terra poſſuya
+Poſto que todos Etiopes erão,
+Mais humana no trato parecia
+Que os outros, que tão mal nos receberão:
+Com bailos & com feſtas de alegria
+Pella praya arenoſa a nos vierão,
+As molheres conſigo & o manſo gado
+Que apacentauão, gordo & bem criado.
+
+As molheres queimadas vem encima
+Dos vagaroſos bois, ali ſentadas
+Animais que elles tem em mais eſtima
+Que todo o outro gado das manadas:
+Cantigas paſtoris, ou proſa, ou rima,
+Na ſua lingua cantão concertadas,
+Co doce ſom das rusticas auenas
+Imitando de Titiro as Camenas.
+
+Eſtes como na viſta prazenteiros
+Foſſem, humanamente nos tratarão,
+Trazendonos galinhas & carneiros
+A troco doutras peças que leuarão:
+Mas como nunca em fim meus companheiros
+Palaura ſua algũa lhe alcançarão
+Que deſſe algun ſinal do que buſcamos:
+As vellas dando, as ancoras leuamos.
+
+Ia aqui tinhamos dado hum gram rodeyo
+Aa coſta negra de Africa, & tornaua
+A proa a demandar o ardente meyo
+Do Ceo, & o polo Antartico ficaua:
+Aquelle ilheo deixamos, onde veyo
+Outra armada primeira, que buſcaua
+O tormentorio Cabo, & deſcuberto,
+Naquelle ilheo fez ſeu limite certo.
+
+Daqui fomos cortando muitos dias
+Entre tormentas tristes & bonanças,
+No largo mar fazendo nouas vias
+So conduzidos de arduas eſperanças:
+Co mar hum tempo andamos em porfias
+Que como tudo nelle ſam mudanças,
+Corrente nelle achamos tão poſſante
+Que paſſar não deixaua por diante.
+
+Era mayor a força em demaſia
+Segundo pera tras nos obrigaua,
+Do mar, que cantro nos ali corria
+Que por nos a do vento que aſſopraua:
+Injuriado Noto da porfia
+Em que co mar (parece) tanto eſtaua
+Os aſſopros esforça iradamente
+Com que nos fez vencer a grão corrente.
+
+Trazia o Sol o dia celebrado
+Em que tres Reis das partes do Oriente,
+Forão buſcar hum Rey de pouco nado
+No qual Rey outros tres ha juntamente:
+Neſte dia outro porto foy tomado
+Por nos, da meſma ja contada gente,
+Num largo rio, ao qual o nome demos
+Do dia em que por elle nos metemos.
+
+Deſta gente refreſco algum tomamos,
+E do rio freſca agoa, mas com tudo
+Nenhum ſinal aqui da India achamos
+No pouo com nos outros caſi mudo:
+Ora vê Rey quamanha terra andamos
+Sem ſair nunca deſte pouo rudo,
+Sem vermos nunca noua, nem ſinal,
+Da deſejada parte Oriental.
+
+Ora imagina agora quam coitados
+Andariamos todos, quam pardidos,
+De fomes, de tormentas quebrantados
+Por climas & por mares não ſabidos:
+E do eſperar comprido tão canſados
+Quanto a deſeſperar ja compellidos,
+Por ceos não naturais, de qualidade
+Inimiga de noſſa humanidade.
+
+Corrupto ja & danado o mantimento
+Danoſo & mão ao fraco corpo humano,
+E alem diſſo nenhum contentamento
+Que ſequer da eſperança foſſe engano:
+Cres tu que ſe eſte noſſo ajuntamento
+De ſoldados, não fora Luſitano,
+Que durara elle tanto obediente
+Por ventura a ſeu Rey & a ſeu regente?
+
+Cres tu que ja não forão leuantados
+Contra ſeu capitão ſe os reſiſtira,
+Fazendo ſe Piratas, obrigados
+De deſeſperação, de fome, de ira?
+Grandemente, porcerto eſtão prouados
+Pois que nenhum trabalho grande os tira
+Daquella Portugueſa alta eccellencia
+De lealdade firme, & obediencia.
+
+Deixando o porto em fim do doce rio
+E tornando a cortar a agoa ſalgada,
+Fizemos deſta costa algum deſuio
+Deitando pera o pego toda a armada:
+Porque ventando Noto manſo & frio
+Nã nos apanhaſſe a agoa da enſeada,
+Que a coſta faz ali daquella banda
+Donde a rica Sofala o ouro manda.
+
+Eſta paſſada, logo o leue leme
+Encomendado ao ſacro Nicolao,
+Pera onde o mar na coſta brada & geme
+A proa inclina dhũa & doutra nao.
+Quando indo o coração que eſpera & teme
+E que tanto fiou dhum fraco pao,
+Do que eſparaua ja deſeſperado
+Foy dhũa nouidade aluoroçado.
+
+E foy, que eſtando ja da costa perto
+Onde as prayas & valles bem ſe vião,
+Num rio, que ali ſae ao mar aberto
+Bateis aa vela entrauão & ſayão:
+Alegria muy grande foy porcerto
+Acharmos ja peſſoas que ſabião
+Neuegar, porque entrellas eſperamos
+De achar nouas algũas, como achamos.
+
+Ethiopes ſam todos, mas parece
+Que com gente milhor comunicauão,
+Palaura algũa Arabia ſe conhece
+Entre a lingoagem ſua que falauão.
+E com pano delgado que ſe tece
+De algodão, as cabeças apertauãa,
+Com otro que de tinta azul ſe tinge
+Cadahum as vergonhoſas partes cinge.
+
+Pella Arabica lingoa que mal falão,
+E que Fernão martinz muy bem entende
+Dizem, que por nos, que em grãdeza ygoalão
+As noſſas, o ſeu mar ſe corta & fende.
+Mas que la donde ſae o Sol, ſe abalão
+Pera onde a coſta ao Sul ſe alarga, & eſtende
+E do Sul pera o Sol, terra onde auia
+Gente aſsi como nos da cor do dia.
+
+Muy grandemente aqui nos alegramos
+Coa gente, & com as nouas muito mais.
+Pellos ſinais que neſte rio achamos
+O nome lhe ficou dos bons ſinais:
+Hum padrão neſta terra aleuantamos
+Que pera aſinalar lugares tais
+Trazia alguns, o nome tem do bello
+Guiador de Tobias a Gabello.
+
+Aqui de limos, caſcas & doſtrinhos,
+Nojoſa criação das agoas fundas,
+Alimpamos as naos, que dos caminos
+Longos do mar, vem ſordidas & immundas:
+Dos oſpedes que tinhamos vizinhos
+Com moſtras apraziueis & jocundas,
+Ouuemos ſempre o vſado mantimento
+Limpas de todo o falſo penſamento.
+
+Mas não foy, da eſperança grande & immenſa
+Que neſta terra ouuemos, limpa & pura
+A alegria: mas logo a recompenſa
+A Ramnuſia com noua deſuentura:
+Aſsi no ceo ſereno ſe diſpenſa,
+Coesta condição peſada & dura
+Nacemos, o peſar terâ firmeza,
+Mas o bem logo muda a natureza.
+
+E foy que de doença crua & feya
+A mais que eu nunca vi, deſempararão
+Muitos a vida, & em terra eſtranha & alheia
+Os oſſos pera ſempre ſepultarão:
+Quem auerâ que ſem o ver o creya
+Que tão disformemente ali lhe incharão,
+As gingiuas na boca, que crecia
+A carne, & juntamente apodrecia.
+
+Apodrecia cum fetido & bruto
+Cheiro, que o âr vizinho inficionaua,
+Não tinhamos ali medico aſtuto,
+Sururgião ſutil menos ſe achaua:
+Mas qualquer neste officio pouco inſtructo
+Pella carne ja podre aſsi cortaua,
+Como ſe fora morta, & bem conuinha
+Pois que morto ficaua quem a tinha.
+
+Em fim que neſta incognita eſpeſſura
+Deixamos pera ſempre os companheiros,
+Que em tal caminho & em tanta deſuentura
+Forão ſempre com noſco auentureiros:
+Quam facil he ao corpo a ſepultura
+Quaeſquer ondas do mar, quaeſquer outeiros,
+Estranhos, aſsimeſmo como aos noſſos,
+Receberão de todo o illuſtre os oſſos.
+
+Aſsi que deſte porto nos partimos
+Com mayor eſperança & mòr triſteza,
+E pella coſta abaixo o mar abrimos
+Buſcando algum ſinal de mais firmeza:
+Na dura Moçambique em fim ſurgimos,
+De cuja falſidade & mâ vileza
+Ia ſeras ſabedor, & dos enganos
+Dos pouos de Mombaça pouco humanos.
+
+Ate que aqui no teu ſeguro porto,
+Cuja brandura & doce tratamento,
+Darâ ſaude a hum viuo, & vida a hũ morto,
+Nos trouxe a piedade do alto aſſento:
+Aqui repouſou, aqui doce conforto,
+Noua aquietação do penſamento
+Nos deste, & vês aqui ſe atente ouuiſte,
+Te contey tudo quanto me pediste.
+
+Iulgas agora Rey ſe ouue no mundo
+Gentes que tais caminhos cometeſſem?
+Crês tu que tanto Eneas & o facundo
+Vliſſes, pello mundo ſe eſtendeſſem?
+Ouſou algum a ver do mar profundo
+Por mais verſos que delle ſe eſcreueſſem,
+Do que eu vi, a poder desforço & de arte,
+E do que inda ei de ver, a oitaua parte?
+
+Eſſe que bebeo tanto da agoa Aonia
+Sobre quem tem contenda peregrina,
+Entre ſi, Rodes, Smirna, & Colofonia,
+Atenas, Yos, Argo, & Salamina:
+E ſoutro que eſclarece toda Auſonia,
+A cuja voz altiſona & diuina
+Ouuindo, o patrio Mincio ſe adormece,
+Mas o Tibre co ſom ſe enſoberuece.
+
+Cantem, louuem, & eſereuão ſempre eſtremos
+Deſſes ſeus Semideoſes, & encareção,
+Fingindo Magas Circes, Polifemos,
+Syrenas que co canto os adormeção:
+Dem lhe mais nauegar â vella & remos
+Os Cicones, & a terra onde ſe eſquecem
+Os companheiros em goſtando o Loto,
+Dem lhe perder nas agoas o Piloto.
+
+Ventos ſoltos lhe finjão & imaginem
+Dos odres, & Calipſos namoradas,
+Harpias, que o manjar lhe contaminem
+Decer aas ſombras nuas ja paſſadas:
+Que por muito & por muito que ſe afinem
+Nestas Fabulas vaãs tambem ſonhadas,
+A verdade que eu conto nua & pura
+Vence toda grandiloca eſcriptura.
+
+Da boca do facundo capitão
+Pendendo eſtauão todos embibidos,
+Quando deu fim aa longa narração
+Dos altos feitos grandes & ſubidos:
+Louua o Rey o ſublime coração
+Dos Reis em tantas guerras conhecidos,
+Da gente louua a antiga fortaleza,
+A lealdade danimo & nobreza.
+
+Vay recontando o pouo que ſe admira
+O caſo cada qual que mais notou,
+Nenhum delles da gente os olhos tira
+Que tão longos caminhos rodeou:
+Mas ja o mancebo Delio as redeas vira
+Que o irmão de Lampecia mal guiou,
+Por vir a deſcanſar nos Thetios braços
+E el Rey ſe vay do mar aos nobres paços.
+
+Quam doce he o louuor & a juſta gloria
+Dos proprios feitos, quando ſam ſoados,
+Qualquer nobre trabalha que em memoria
+Vença, ou ygoale os grandes ja paſſados:
+As enuejas da illustre & alhea hiſtoria
+Fazem mil vezes feitos ſublimados,
+Quem valeroſas obras exercita
+Louuor alheo muito o eſperta & incita.
+
+Não tinha em tanto os feitos glorioſos
+De Achiles, Alexandro na pelleja,
+Quanto de quem o canta, os numeroſos
+Verſos, iſſo ſo louua, iſſo deſeja:
+Os tropheos de Melciades famoſos
+Temiſtocles deſpertão ſo de enueja,
+E diz, que nada tanto o deleitaua
+Como a vez que ſeus feitos celebraua.
+
+Trabalha par moſtrar Vaſco da Gama
+Que eſſas nauegaçoẽs que o mundo canta,
+Não merecem tamanha gloria & fama:
+Como a ſua, que o ceo & a terra eſpanta:
+Si mas aquelle Heroe que eſtima & ama
+Com doẽs, merces, fauores, & honra tanta
+A lira Mantuana faz que ſoe
+Eneas, & a Romana gloria voe.
+
+Dâ a terra Luſitana Scipioẽs
+Ceſares, Alexandros, & da Auguſtos,
+Mas não lhe dâ com tudo aquelles doẽs
+Cuja falta os faz duros & robustos
+Octauio, entre as mayores opreſſoẽs
+Compunha verſos doutos & venuſtos,
+Não dirâ Fuluia certo que he mentira
+Quando a deixaua Antonio por Glafira.
+
+Vay Ceſar ſojugando toda França
+E as armas não lhe empedem a ſciencia,
+Mas nũa mão a pena, & noutra a lança
+Igoalaua de Cicero a eloquencia:
+O que de Scipião ſe ſabe & alcança
+He nas comedias grande experiencia,
+Lia Alexandro a Homero de maneira
+Que ſempre ſe lhe ſabe aa cabeceira.
+
+Em fim não ouue forte capitão
+Que não foſſe tambem douto & ſciente,
+Da Lacia, Grega, ou Barbara nação
+Se não da Portugueſa tão ſomente:
+Sem vergonha o não digo, que a rezão
+Dalgum não ſer por verſos excelente,
+He não ſe ver prezado o verſo & rima,
+Porque quem não ſabe arte não na eſtima.
+
+Por iſſo & não por falta de Natura
+Não ha tambem Virgilios nem Homeros,
+Nem auerâ ſe eſte coſtume dura
+Pios Eneas, nem Achiles feros:
+Mas o pior de tudo he que a ventura
+Tão aſperos os fez, & tão Austeros,
+Tão rudos, & de ingenho tão remiſſo
+Que a muitos lhe dâ pouco, ou nada diſſo.
+
+Aas Muſas agardeça o noſſo Gama
+O muito amor da patria, que as obriga
+A dar aos ſeus na lira nome & fama
+De toda a illuſtre & bellica fadiga:
+Que elle, nem quem na eſtirpa ſeu ſe chama,
+Caliope não tem por tão amiga,
+Nem as filhas do Tejo, que deixaſſem
+As tellas douro fino, & que o cantaſſem.
+
+Porque o amor fraterno & puro gosto
+De dar a todo o Luſitano feito
+Seu louuor, he ſomente o proſuposto
+Das Tagides gentis, & ſeu reſpeito:
+Porem não deixe em fim de ter deſpoſto
+Ninguem a grandes obras ſempre o peito,
+Que por eſta, ou por outra qualquer via
+Não perdera ſeu preço & ſua valia.
+
+F I M.
+
+
+
+❧ Canto Seiſto.
+
+Nam ſabia em que
+modo festejaſſe
+O Rey Pagão os fortes nauegan
+tes,
+Pera que as amizades alcançaſſe
+Do Rey Chriſtão, das gentes tão poſſantes:
+Peſalhe que tão longe o apouſentaſſe
+Das Europeas terras abundantes,
+A ventura, que namno fez vizinho
+Donde Hercules ao mar abrio o caminho.
+
+Com jogos, danças, & outras alegrias
+A ſegundo a policia Melindana,
+Com vſadas & ledas peſcarias
+Com que a Lageia Antonio alegra & engana:
+Eſte famoſo Rey todos os dias
+Feſteja a companhia Luſitana,
+Com banquetes, manjares deſuſados
+Com frutas, aues, carnes, & peſcados.
+
+Mas vendo o Capitão que ſe detinha
+Ia mais do que deuia, & o freſco vento
+O conuida que parta & tome aſinha,
+Os Pilotos da terra & mantimento,
+Não ſe quer mais deter, que ainda tinha
+Muito pera cortar do ſalſo argento,
+Ia do Pagão benigno ſe deſpede
+Que a todos amizade longa pede.
+
+Pedelhe mais, que aquelle porto ſeja
+Sempre com ſuas Frotas viſitado,
+Que nenhum outro bem mayor deſeja
+Que dar a tais baroẽs ſeu reino & estado:
+E que em quanto ſeu corpo o ſprito reja
+Eſtarâ de contino aparelhado,
+A pôr a vida & reino totalmente
+Por tão bom Rey, por tão ſublime gente.
+
+Outras palauras tais lhe reſpondia
+O Capitão, & logo as vellas dando,
+Pera as terras da Aurora ſe partia,
+Que tanto tempo ha ja que vay buſcando:
+No Piloto que leua não auia
+Falſidade, mas antes vay moſtrando
+A nauegação certa, & aſsi caminha
+Ia mais ſeguro do que dantes vinha.
+
+As ondas nauegauão do Oriente
+Ia nos mares da India, & enxergauão
+Os talamos do Sol, que nace ardente,
+Ia quaſi ſeus deſejos ſe acabauão:
+Mas o mao de Tioneo, que na alma ſente
+As venturas, que então ſe aparelhauão
+Aa gente Luſitana dellas dina,
+Arde, morre, blasfema & deſatina.
+
+Via eſtar todo o Ceo determinado
+De fazer de Lisboa noua Roma,
+Não no pode eſtoruar, que deſtinado
+Eſtâ doutro poder que tudo doma,
+Do Olimpo dece em fim deſeſperado,
+Nouo remedio em terra buſca, & toma,
+Entra no humido reino, & vaiſe aa corte
+Daquelle, a quem o mar cayo em ſorte.
+
+No mais interno fundo das profundas
+Cauernas altas, onde o mar ſe eſconde,
+La donde as ondas ſaem furibundas,
+Quando aas iras do vento o mar reſponde,
+Neptuno mora, & morão as jocundas
+Nereidas, & outros Deoſes do mar, onde
+As agoas campa deixão aas cidades,
+Que habitão eſtas humidas deidades.
+
+Deſcobre o fundo nunca deſcuberto
+As areas ali de prata fina,
+Torres altas ſe vem no campo aberto
+Da tranſparente maſſa criſtalina,
+Quanto ſe chegão mais os olhos perto,
+Tanto menos a vista determina
+Se he criſtal o que vê, ſe diamante,
+Que aſsi ſe moſtra claro & radiante.
+
+As portas douro fino, & marchetadas
+Do rico aljofar que nas conchas nace,
+De eſculptura fermoſa estão lauradas,
+Na qual do irado Baco a viſta pace:
+E vê primeiro em cores variadas
+Do velho Chaos a tão confuſa face,
+Vemſe os quatro elementos traſladados
+Em diuerſos officios occupados.
+
+Ali ſublime o Fogo eſtaua encima,
+Que em nenhũa materia ſe ſuſtinha,
+Daqui as couſas viuas ſempre anima,
+Deſpois que Prometeo furtado o tinha:
+Logo a pos elle leue ſe ſublima
+O inuiſibil Ar, que mais aſinha
+Tomou lugar, & nem por quente, ou frio,
+Algum deixa no mundo eſtar vazio
+
+Eſtaua a terra em montes reuestida
+De verdes eruas & aruores floridas,
+Dando pasto diuerſo & dando vida
+Aas alimarias nella produzidas:
+A clara forma ali estaua eſculpida
+Das agoas entre a terra deſparzidas,
+De peſcados criando varios modos,
+Com ſeu humor mantendo os corpos todos.
+
+Noutra parte eſculpida eſtaua a guerra
+Que tiuerão os Deoſes cos Gigantes,
+Esta Tiſeo debaixo da alta ſerra
+De Etna, que as flamas lança crepitantes:
+Eſculpido ſe vê ferindo a terra
+Neptuno, quando as gentes ignorantes.
+Delle o cauallo ouuerão, & a primeira
+De Minerua pacifica Ouliueira.
+
+Pouca tardança faz Lyeo irado
+Ne viſta deſtas couſas, mas entrando
+Nos paços de Neptuno, que auiſado
+Da vinda ſua, o eſtaua ja aguardando:
+Aas portas o recebe, acompanhado
+Das Nimphas, que ſe eſtão marauilhando,
+De ver que cometendo tal caminho,
+Entre no reino dagoa o Rey do vinho.
+
+O Neptuno, lhe diſſe, não te eſpantes.
+De Baco nos teus reinos receberes,
+Porque tambem cos grandes & poſſantes
+Mostra a Fortuna injuſta ſeus poderes:
+Manda chamar os Deoſes do mar, antes
+Que fale mais, ſe ouuirme o mais quiſeres,
+Verão da deſuentura grandes modos,
+Oução todos o mal que toca a todos.
+
+Iulgando ja Neptuno que ſeria
+Eſtranho caſo aquelle, logo manda
+Tritão, que chame os Deoſes da agoa fria,
+Que o mar habitão dhũa & doutro banda,
+Tritão, que de ſer filho ſe gloria
+Do Rey, & de Salacia veneranda,
+Era mancebo grande, negro & feyo
+Trombeta de ſeu pay, & ſeu Correyo.
+
+Os cabellos da barba, & os que decem
+Da cabeça nos ombros, todos erão,
+Hũs limos prenhes dagoa, & bem parecem
+Que nunca brando pentem conhecerão:
+Nas pontas pendurados não falecem
+Os negros Miſilhoẽs, que ali ſe gerão,
+Na cabeça por gorra tinha poſta
+Hũa muy grande caſca de Lagoſta.
+
+O corpa nú, & os membros genitais
+Por não ter ao nadar impedimento,
+Mas porem de pequenos animais
+Do mar, todos cubertos cento & cento:
+Camaroẽs, & Cangrejos, & outros mais
+Que recebem de Phebe crecimento,
+Oſtras, & Camaroẽs do muſco çujos,
+As coſtas coa caſca os Caramujos.
+
+Na mão a grande Concha retorcida
+Que trazia, com força ja tocaua,
+A voz grande canora foy ouuida
+Por todo o mar, que longe retumbaua:
+Ia toda a companhia apercebida
+Dos Deoſes, para os paços caminhaua
+Do Deos, que fez os muros de Dardania,
+Deſtroidos deſpois da Grega inſania.
+
+Venha o padre Oceano acompanhado
+Dos filhos & das filhas que gerara,
+Vem Nereo, que com Doris foy caſado,
+Que todo o mar de Nimphas pouoara:
+O Propheta Proteo, deixando o gado
+Maritimo pacer pella agoa amara,
+Ali veyo tambem, mas ja ſabia
+O que o padre Lyeo no mar queria.
+
+Vinha por outra parte a linda eſpoſa
+De Neptuno, de Celo & Veſta filha,
+Graue & leda no gesto, & tão fermoſa
+Que ſe amanſaua o mar de marauilha:
+Veſtida hũa camiſa precioſa
+Trazia de delgada beatilha,
+Que o corpo cristalino dexa verſe,
+Que tanto bem não he para eſconderſe.
+
+Anfitrite fermoſa como as ſlores,
+Neſte caſo não quis que faleceſſe,
+O Delfim traz conſigo, que aos amores
+Do Rey lhe aconſelhou que obedeceſſe:
+Cos olhos que de tudo ſam ſenhores
+Qualquer parecera que o Sol venceſſe,
+Ambas vem pella mão, ygoal partido
+Pois ambas ſam eſpoſas dhum marido.
+
+Aquella que das furias de Atamante
+Fugindo, veyo a ter diuino eſtado,
+Conſigo traz o filho, belli Infante,
+No numero dos Deoſes relatado.
+Pella praya brincando vem diante
+Com as lindas conchinhas, que o ſalgado
+Mar ſempre cria, & aas vezes pella area
+No colo o toma a bella Panopea.
+
+E o Deos que foy num tempo corpo humano,
+E por virtude da erua poderoſa
+Foy conuertido em pexe, & deſte dano
+Lhe reſultou deidade glorioſa,
+Inda vinha chorando o feio engano,
+Que Circes tinha vſado coa fermoſa
+Scylla, que elle ama, desta ſendo amado
+Que a mais obriga amor mal empregado.
+
+Ia finalmente todos aſſentados
+Na grande ſala nobre & diuinal,
+As Deoſas em riquiſsimos eſtrados,
+Os Deoſes em cadeiras de cristal:
+Forão todos do Padre agaſalhados,
+Que co Thebano tinha aſſento ygoal:
+De fumos enche a caſa a rica maſſa
+Que no mar nace, & Arabia em cheiro paſſa.
+
+Eſtando ſoſſegado ja o tumulto
+Dos Deoſes, & de ſeus recebimentos,
+Começa a deſcubrir do peito occulto,
+A cauſa o Tyoneo de ſeus tormentos:
+Hum pouco carregando ſe no vulto,
+Dando moſtra de grandes ſentimentos,
+So por dar aos de Luſo triſte morte
+Co ferro alheyo, fala deſta ſorte.
+
+Princepe que de juro ſenhoreas
+Dhum Polo, ao outro Polo o mar irado,
+Tu que as gentes da terra toda enfreas,
+Que não paſſem o termo limitado:
+E tu padre Oceano, que rodeas
+O mundo vniuerſal, & o tens cercado:
+E com juſto decreto aſsi parmites,
+Que dentro viuão ſo de ſeus limites.
+
+E vos Deoſes do mar, que não ſoffreis
+Injuria algũa em voſſo reino grande,
+Que com castigo ygoal vos não vingueis,
+De quemquer que por elle corra, & ande:
+Que deſcuido foy este em que viueis?
+Quem pode ſer que tanto vos abrande,
+Os peitos, con razão endurecidos
+Contra os humanos fracos & atreuidos?
+
+Vistes que com grandiſsima ouſadia
+Forão ja cometer o Ceo ſupremo,
+Vistes aquella inſana fantaſia
+De tentarem o mar com vella & remo:
+Vistes, & ainda vemos cada dia,
+Soberbas & inſolencias tais, que temo
+Que do mar & do Ceo em poucos anos,
+Venhão Deoſes a ſer, & nos humanos.
+
+Vedes agora a fraca geracão
+Que dhum vaſſallo meu o nome toma,
+Com ſoberbo, & altiuo coração,
+A vos, & a mi, & o mundo todo doma:
+Vedes o voſſo mar cortando vão,
+Mais do que fez a gente alta de Roma,
+Vedes o voſſo reino deuaſſando
+Os voſſos eſtatutos vão quebrando.
+
+Eu vi que contra os Mynias, que primeiro
+No voſſo reino este caminho abrirão,
+Boreas injuriado, & o companheiro
+Aquilo, & os outros todos reſiſtirão:
+Pois ſe do ajuntamento auentureiro
+Os ventos eſta injuria aſsi ſentirão,
+Vos a quem mais compete eſta vingança,
+Que eſperais, porque a pondes em tardança?
+
+E não conſinto Deoſes que cuideis
+Que por amor de vos do ceo deci,
+Nem da magoa da injuria que ſofreis,
+Mas da que ſeme faz tombem a mi:
+Que aquellas grandes honras, queſabeis
+Que no mundo ganhey, quando venci
+As terras Indianas do Oriente,
+Todas vejo abatidas desta gente.
+
+Que o gran Senhor & fados que destinão,
+Como lhe bem parece, o baxo mundo,
+Famas mores que nunca determinão
+De dar a eſtes baroẽs no mar profundo:
+Aqui vereis o Deoſes como inſinão
+O mal tambem a Deoſes. que a ſegundo
+Se ve, ninguem ja tem menos valia
+Que quem com mais razão valer deuia.
+
+E por iſſo do Olimpo ja fugi,
+Buſcando algum remedio a meus peſares,
+Por ver o preço, que no Ceo perdi,
+Se por dita acharey nos voſſos mares:
+Mais quis dizer, & não paſſou daqui,
+Porque as lagrimas ja correndo a pares
+Lhe ſaltarão dos olhos, com que logo
+Se acendem as Deidades dagoa em fogo.
+
+A Ira com que ſubito alterado
+O coração dos Deoſes foy num ponto,
+Não ſoffreo mais conſelho bem cuidado,
+Nem dilação, nem outro algum deſconto:
+Ao grande Eolo mandão ja recado
+Da parte de Neptuno, que ſem conto
+Solte as furias dos ventos repugnantes,
+Que não aja no mar mais nauegantes.
+
+Bem quiſera primeiro ali Protheo
+Dizer neste negocio o que ſentia,
+E ſegundo o que a todos pareceo,
+Era algũa profunda prophecia:
+Porem tanto o tumulto ſe moueo
+Subito na diuina companhia,
+Que Thetis indinada lhe bradou,
+Neptuno ſabe bem o que mandou.
+
+Ia la o ſoberbo Hypotades ſoltaua
+Do carcere fechado os furioſos
+Ventos, que com palauras animaua,
+Contra os varoẽs audaces & animoſos:
+Subito o ceo ſereno ſe obumbraua,
+Que os ventos mais que nunca impetuoſos
+Começão nouas forças a yr tomando,
+Torres, montes & caſas derribando.
+
+Em quanto este conſelho ſe fazia
+No fundo aquoſo, a leda laſſa Frota
+Com vento ſoſſegado proſeguia
+Pello tranquilo mar, a longa rota:
+Era no tempo quando a luz do dia.
+Do Eoo Emiſperio estâ remota,
+Os do quarto da prima ſe deitauão
+Pera o ſegundo os outros deſpertauão.
+
+Vencidos vem do ſono, & mal deſpertos
+Bocijando a miudo ſe encoſtauão,
+Pellas antenas, todos mal cubertos,
+Contra os agudos ares que aſſoprauão:
+Os olhos contra ſeu querer abertos
+Mas estregando os membros estirauão,
+Remedios contra o ſonno buſcar querem,
+Hiſtorias contão, caſos mil referem.
+
+Com que milhor podemos, hum dizia,
+Eſte tempo paſſar, que he tão peſado,
+Se não com algum conto de alegria
+Com que nos deixe o ſono carregado?
+Reſponde Lionardo, que trazia
+Penſamentos de firme namorado,
+Que contos paderemos ter milhores
+Pera paſſar o tempo, que de amores?
+
+Não he, diſſe Veloſo, couſa juſta
+Tratar branduras em tanta aſpereza,
+Que o trabalho do mar, que tanto cuſta,
+Não ſoffre amores, nem delicadeza:
+Antes de guerra ſeruida & robuſta
+A noſſa hiſtoria ſeja, pois dureza
+Noſſa vida ha de ſer, ſegundo entendo
+Que o trabalho por vir mo eſta dizendo.
+
+Conſentem niſto todos, & encomendão
+A Veloſo que conte iſto que aproua,
+Contarei diſſe, ſem que me reprendão
+De contar couſa fabuloſa, ou noua:
+E porque os que me ouuirem daqui aprendão
+A fazer feitos grandes de alta proua,
+Dos nacidos direy na noſſa terra,
+E eſtes ſejão os doze de Inglaterra.
+
+No tempo que do reino a redea leue
+Ioão filho de Pedro moderaua,
+Deſpois que ſoſſegado & liure o teue
+Do vizinho poder que o moleſtaua:
+La na grande Inglaterra, que da neue
+Boreal ſempre abunda, ſemeaua
+A fera Erinis dura & mâ cizania
+Que luſtre foſſea noſſa Luſitania.
+
+Entre as damas gentis da corte Ingleſa,
+E nobres corteſaõs, a caſo hum dia
+Se leuantou diſcordia em ira aceſa,
+Ou foy opinião, ou foy porfia:
+Os Corteſaõs a quem tam pouco peſa
+Soltar palauras graues de ouſadia
+Dizem que prouarão, que honras & famas
+Em tais damas não ha, pera ſer damas.
+
+E que ſe ouuer alguem com lança & eſpada
+Que queira ſustentar a parte ſua,
+Que elles em campo raſo, ou estacada,
+Lhe darão fea infamia, ou morte crua:
+A femenil fraqueza pouco vſada
+Ou nunca a oprobrios tais, vendo ſe nua
+De forças naturais conuenientes,
+Socorro pede a amigos & parentes.
+
+Mas como foſſem grandes & poſſantes
+No reino os inimigos, não ſe atreuem
+Nem parentes, nem feruidos amantes
+A ſuſtentar as damas, como deuem:
+Com lagrimas fermoſas & bastantes
+A fazer que em ſocorro os Deoſos leuem
+De todo o Ceo, por roſtos de alabaſtro
+Se vão todas ao duque de Alencastro.
+
+Era eſte Ingres potente, & militara
+Cos Portugueſes ja contra Castella,
+Onde as forças magnanimas prouara
+Dos companheiros, & benigna eſtrella?
+Não menos neſta terra eſprimentara
+Namorados affeitos, quando nella
+A filha vio, que tanto o peito doma
+Do forte Rey, que por molher a toma.
+
+Eſte que ſocorrer lhe não queria,
+Por não cauſar diſcordias inteſtinas
+Lhe diz, quando o direito pretendia
+Do reino la das terras Iberinas,
+Nos Luſitanos vi tanta ouſadia,
+Tanto primor, & partes tão diuinas,
+Que elles ſos poderião, ſe não erro
+Suſtentar voſſa parte a fogo & ferro.
+
+E ſe agrauadas damas ſois ſeruidas,
+Por vos lhe mandarei embaixadores,
+Que por cartas diſcretas & polidas,
+De voſſo agrauo os fação ſabedores:
+Tambem por voſſa parte encarecidas
+Com palauras dafagos & damores,
+Lhe ſejão voſſas lagrimas, que eu creyo
+Que ali terees ſocorro & forte eſteyo.
+
+Destarte as aconſelha o Duque experto,
+E logo lhe nomea doze fortes,
+E porque cada dama hum tenha certo,
+Lhe manda que ſobrelles lancem ſortes,
+Que ellas ſo doze ſam: & deſcuberto
+Qual a qual tem caida das conſortes,
+Cadhũa eſcreue ao ſeu por varios modos,
+E todas a ſeu Rey, & o Duque a todos.
+
+Ia chega a Portugal o menſageiro,
+Toda a corte aluoroça a nouidade,
+Quiſera o Rey ſublime ſer primeiro,
+Mas não lho ſoffre a Regia Mageſtade:
+Qualquer dos corteſaõs auentureiro
+Deſeja ſer, com feruida vontade,
+E ſo fica por bemauenturado,
+Quem ja vem pello Duque nomeado.
+
+La na leal cidade, donde teue
+Origem (como he fama) o nome eterno
+De Portugal, armar madeiro leue
+Manda o que tem o leme do gouerno:
+Apercebem ſe os doze em tempo breue
+Darmas, & roupas de vſo mais moderno,
+De elmos, cimeras, letras, & primores
+Caualos, & Concertos de mil cores.
+
+Ia do ſeu Rey tomado tem licença
+Pera partir do Douro celebrado,
+Aqueles, que eſcolhidos por ſentença
+Forão do Duque Ingles eſprimentado:
+Não ha na companhia differença
+De caualeiro, destro, ou esforçado:
+Mas hum ſo, que Magriço ſe dizia
+Deſtarte fala aa forte companhia,
+
+Fortiſsimos conſocios, eu deſejo
+A muito ja de andar terras estranhas,
+Por ver mais agoas, que as do Douro & Tejo,
+Varias gentes, & leis, & varias manhas:
+Agora que aparelho certo vejo,
+(Pois que do mundo as couſas ſam tamanhas)
+Quero ſe me deixais, ir ſò por terra,
+Porque eu ſerey conuoſco em Inglaterra.
+
+E quando caſo for, que eu impedido
+Por quem das couſas he vltima linha,
+Não for com voſco ao prazo instituido,
+Pouca falta vos faz a falta minha:
+Todos por mi fareis o que he diuido:
+Mas ſe a verdade o ſprito me adiuinha,
+Rios, montes, fortuna, ou ſua enueja,
+Não farão que eu com voſco la não ſeja.
+
+Aſsi diz & abraçados os amigos,
+E tomada licença, em fim ſe parte,
+Paſſa Lião, Caſtella vendo antigos
+Lugares, que ganhara o patrio Marte:
+Neuarra, cos altiſsimos perigos
+Do Perineo, que Eſpanha & Galia parte:
+Vistas em fim de França as couſas grandes,
+No grande emperio foy parar de Frandes.
+
+Ali chegado, ou foſſe caſo, ou manha,
+Sem paſſar ſe deteue muitos dias,
+Mas dos onze a illuſtriſsima companha
+Cortão do mar do Norte as ondas frias:
+Chegados de Inglaterra aa coſta eſtranha,
+Pera Londres ja fazem todos vias,
+Do Duque ſam com feſta agaſalhados,
+E das damas ſeruidos, & amimados.
+
+Chegaſſe o prazo, & dia aſinalado,
+De entrar em campo ja cos doze Ingleſes,
+Que pello Rey ja tinhão ſegurado,
+Armanſe delmos, greuas, & de arneſes:
+Ia as damas tem por ſi fulgente & armado
+O Mauorte feroz dos Portugueſes,
+Vestem ſe ellas de cores & de ſedas
+De ouro, & de joyas mil, ricas, & ledas.
+
+Mas aquella, a quem fora em ſorte dado
+Magriço, que não vinha, com triſteza
+Se veſte, por não ter quem nomeado
+Seja ſeu caualeiro, nesta empreſa:
+Bem que os onze apregoão, que acabado
+Sera o negocio aſsi na corte Ingleſa,
+Que as damas vencedoras ſe conheção
+Poſto que dous & tres dos ſeus falleção.
+
+Ia num ſublime & pubrico theatro
+Se aſſenta o Rey Ingles com toda a corte,
+Eſtauão tres & tres, & quatro & quatro,
+Bem como a cada qual coubera em ſorte:
+Não ſam vistos do Sol do Tejo ao Batro,
+De força, esforço, & danimo mais forte,
+Outros doze ſayr como os Ingleſes
+No campo, contra os onze Portugueſes.
+
+Maſtigão os caualos escumando
+Os aureos freos, com feroz ſembrante,
+Estaua o Sol nas armas rutilando,
+Como em criſtal, ou rigido diamante:
+Mas enxergaſe num & noutro bando
+Partido deſigoal & diſſonante
+Dos onze contra os doze: quando a gente
+Começa a aluoroçar ſe geralmente.
+
+Verão todos o rosto aonde auia
+A cauſa principal do rebuliço,
+Eis entra hum caualeiro, que trazia
+Armas, caualo, ao bellico ſeruiço.
+Ao Rey & aas damas fala, & logo ſe hia
+Pera os onze, que eſte era o gram Magriço,
+Abraça os companheiros como amigos,
+A quem não fata certo nos perigos.
+
+A dama como ouuio, que este era aquelle,
+Que vinha a defender ſeu nome, & fama,
+Se alegra, & veſte ali do animal de Hele,
+Que a gente bruta mais que vertude ama:
+Ia dão ſinal, & o ſom da tuba impelle
+Os belicoſos animos, que inflama,
+Picão deſporas, largão redeas logo
+Abaxão lanças, fere a terra fogo.
+
+Dos caualos o estrepito parece
+Que faz, que o chão debaixo todo treme,
+O coração no peito, que estremece
+De quem os olha, ſe aluoroça, & teme:
+Qual do caualo voa, que não dece,
+Qual co caualo em terra dando, geme,
+Qual vermelhas as armas faz de brancas,
+Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.
+
+Algum dali tomou perpetuo ſono,
+E fez da vida ao fim breue interualo,
+Correndo algum cauallo vay ſem dono,
+E noutra parte o dono ſem caualo:
+Cae a ſoberba Ingleſa de ſeu trono,
+Que dous ou tres ja fora vão do valo,
+Os que de eſpada vem fazer batalha,
+Mais achão ja que arnes, eſcudo, & malha.
+
+Gastar palauras em contar eſtremos
+De golpes feros, cruas eſtocadas,
+He deſſes gaſtadores, que ſabemos
+Maos do tempo, com fabulas ſonhadas:
+Baſta por fim do caſo, que entendemos
+Que com finezas altas & affamadas,
+Cos noſſos fica a palma da victoria,
+E as damas vencedoras, & com gloria.
+
+Recolhe o Duque os doze vencedores
+Nos ſeus paços, com feſtas & alegria,
+Cozinheiros occupa, & caçadores
+Das damas a fermoſa companhia,
+Que querem dar aos ſeus libertadores
+Banquetes mil, cada hora, & cada dia,
+Em quanto ſe detem em Inglaterra,
+Ate tornar aa doce & chara terra.
+
+Mas dizem que com tudo o gram Magriço
+Deſejoſo de ver as couſas grandes,
+La ſe deixou ficar, onde hum ſeruiço
+Notauel aa condeſſa fez de Frandes:
+E como quem não era ja nouiço
+Em todo trance, onde tu Marte mandes,
+Hum Frances mata em campo, que o deſtino
+La teue de Torcato & de Coruino.
+
+Outro tambem dos doze em Alemanha
+Se lança, & teue hum fero deſafio
+Cum Germano enganoſo, que com manha
+Não diuida o quis pòr no eſtremo fio:
+Contando aſsi Veloſo, ja a companha
+Lhe pede, que não faça tal deſuio
+Do caſo de Magriço, & vencimento
+Nem deixe o de Alemanha em eſquecimento.
+
+Mas neste paſſo aſsi promptos eſtando,
+Eis o meſtre, que olhando os ares anda,
+O apito toca, acordão deſpertando
+Os marinheiros dhũa & doutra banda:
+E porque o vento vinha refreſcando,
+Os traquetes das gaueas tomar manda,
+Alerta, diſſe, estay, que o vento crece
+Daquella nuuem negra que aparece.
+
+Não erão os traquetes bem tomados,
+Quando dà a grande & ſubita procella,
+Amaina, diſſe o meſtre a grandes brados
+Amaina, diſſe, amaina a grande vella,
+Não eſperão os ventos indinados
+Que amainaſſem, mas juntos dando nella,
+Em pedaços a fazem, cum ruido
+Que o mundo pareceo ſer deſtruydo.
+
+O ceo fere com gritos niſto a gente,
+Cum ſubito temor, & deſacordo,
+Que no romper da vela a Nao pendente
+Toma gram ſuma dagoa pello bordo,
+Alija, diſſe o meſtre, rijamente,
+Alija tudo ao mar, não falte acordo,
+Vão outros dar a bomba não ceſſando,
+Aa bomba que nos imos alagando.
+
+Correm logo os ſoldados animoſos
+A dar aa bomba, & tanto que chegarão,
+Os balanços, que os mares temeroſos
+Derão aa Nao, num bordo os derribarão:
+Tres marinheiros duros, & forçoſos,
+A menear o leme não baſtarão,
+Talhas lhe punhão dhũa & doutra parte
+Se aproueitar dos homens força & arte.
+
+Os ventos erão tais, que não poderão
+Moſtrar mais força dimpeto cruel,
+Se pera derribar então vierão
+A fortiſsima torre de Babel:
+Nos altiſsimos mares, que crecerão,
+A pequena grandura dhum batel,
+Moſtra a poſſante nao, que moue eſpanto
+Vendo que ſe ſoſtem nas ondas tanto.
+
+A nao grande, em que vay Paulo da Gama,
+Quebrada leua o maſto pello meyo,
+Quaſi toda alagada: a gente chama
+Aquelle que a ſaluar o mundo veyo:
+Não menos gritos vãos ao ar derrama
+Toda a Nao de Coelho, com receyo,
+Com quanto teue o meſtre tanto tento
+Que primeiro amainou que deſſe o vento:
+
+Agora ſobre as nuuens os ſubião
+As ondas de Neptuno furibundo,
+Agora a ver parece que decião
+As intimas entranhas do profundo.
+Noto, Auſtro, Boreas, Aquilo querião
+Arruinar a machina do mundo,
+A noite negra & feya ſe alumia,
+Cos rayos, em que o Polo todo ardia.
+
+As Alcioneas aues triste canto
+Iunto da costa braua leuantarão,
+Lembrando ſe de ſeu paſſado pranto,
+Que as furioſas agoas lhe cauſarão:
+Os Delfins namorados entre tanto
+La nas couas maritimas entrarão,
+Fugindo aa tempeſtade, & ventos duros
+Que nem no fundo os deixa eſtar ſeguros
+
+Nunca tam viuos rayos fabricou
+Contra a fera ſoberba dos Gigantes,
+O gram ferreiro ſordido, que obrou
+Do enteado as armas radiantes:
+Nem tanto o gram Tonante arremeſſou
+Relampados ao mundo fulminantes,
+No gram diluuio, donde ſos viuerão
+Os dous que em gente as pedras conuerterão.
+
+Quantos montes então, que derribarão
+As ondas que batião denodadas,
+Quantas aruores velhas arrancarão
+Do vento brauo as furias indinadas:
+As forçoſas raizes não cuidarão
+Que nunca pera o ceo foſſem viradas,
+Nem as fundas arêas que podeſſem
+Tanto os mares que encima as reuolueſſem.
+
+Vendo Vaſco da Gama que tam perto
+Do fim de ſeu deſejo ſe perdia,
+Vendo ora o mar ate o inferno aberto,
+Ora com noua furia ao ceo ſubia,
+Confuſo de temor, da vida incerto,
+Onde nenhum remedio lhe valia,
+Chama aquelle remedio ſancto & forte
+Que o impoſsibil pode, desta ſorte.
+
+Diuina guarda, angelica, celeſte,
+Que os ceos, o mar & terra ſenhoreds,
+Tu que a todo iſrael refugio deſte
+Por metade das agoas Eritreas:
+Tu que liuraſte Paulo & defendeſte
+Das Syrtes arenoſas & ondas feas,
+E guardaste cos filhos o ſegundo
+Pouoador do alagado & vacuo mundo.
+
+Se tenho nouos medos perigoſos
+Doutra Scylla & Caribdis ja paſſados,
+Outras Syrtes, & baxos arenoſos,
+Outros Acroceraunios infamados,
+No fim de tantos caſos trabalhoſos,
+Por que ſomos de ti deſemparados,
+Se eſte noſſo trabalho não te offende,
+Mas antes teu ſeruiço ſo pretende?
+
+O ditoſos aquelles que puderão
+Entre as agudas lanças Affricanas
+Morrer, em quanto fortes ſostiuerão
+A ſancta Fe, nas terras Mauritanas:
+De quem feitos illuſtres ſe ſouberão,
+De quem ſicão memorias ſoberanas,
+De quem ſe ganha a vida com perdella,
+Doce fazendo a morte as honras della.
+
+Aſsi dizendo os ventos que lutauão,
+Como touros indomitos bramando,
+Mais & mais a tormenta acrecentauão,
+Pella miuda enxarcia aſſuuiando.
+Relampados medonhos não ceſſauão,
+Feros trouoẽs que vem repreſentando
+Cair o ceo dos exos ſobre a terra,
+Cenſigo os elementos terem guerra.
+
+Mas ja a amoroſa ſtrela ſcintilaua
+Diante do Sol claro, no Orizonte
+Menſageira do dia, & viſitaua
+A terra, & o largo mar, com leda fronte:
+A deoſa que nos ceos a gouernaua,
+De quem foge o enſiſero Orionte,
+Tanto que o mar, & a chara armada vira,
+Tocada junto foy de medo, & de ira.
+
+Estas obras de Baco ſam por certo,
+Diſſe, mas não ſerâ, que auante leue
+Tão danada tenção, que deſcuberto
+Me ſera ſempre o mal a que ſe atreue,
+Iſto dizendo, dece ao mar aberto,
+No caminho gaſtando eſpaço breue,
+Em quanto manda as nimphas amoroſas
+Grinaldas nas cabeças por de roſas.
+
+Grinaldas manda por de varias cores
+Sobre cabellos louros a porfia,
+Quem não dirâ, que nacem roxas flores
+Sobre ouro natural, que amor infia:
+Abrandar determina por amores
+Dos ventos a nojoſa companhia,
+Moſtrandolhe as amadas Nimphas bellas,
+Que mais fermoſas vinhão que as eſtrellas.
+
+Aſsi foy, porque tanto que chegarão
+A viſta dellas, logo lhe falecem
+As forças com que dantes pellejarão,
+E ja como rendidos lhe obedecem.
+Os pês & mãos, parece, que lhe atarão
+Os cabellos que os rayos eſcurecem,
+A Boreas, que do peito mais queria,
+Aſsi diſſe a belliſsima Oritia.
+
+Não creas, fero Boreas, que te creyo
+Que me tiueſte nunca amor constante,
+Que brandura he de amor mais certo arreyo,
+E não conuem furor a firme amante:
+Se ja não poẽs a tanta inſania freyo,
+Não eſperes de mi daqui em diante,
+Que poſſa mais amarte, mas temerte,
+Que amor contigo, em medo ſe conuerte.
+
+Aſsi meſmo a fermoſa Galatea
+Dizia ao fero Noto, que bem ſabe
+Que dias ha que em vella ſe recrea,
+E bem crê que com elle tudo acabe,
+Não ſabe o brauo tanto bem ſe o crea,
+Que o coração no peito lhe não cabe,
+De contente de ver que a dama o manda,
+Pouco cuida que faz ſe logo abranda.
+
+Deſta maneira as outras amanſauão
+Subitamente os outros amadores,
+E logo aa linda Venus ſe entregauão,
+Amanſadas as iras & os furores,
+Ella lhe prometeo vendo que amauão.
+Sempiterno fauor em ſeus amores,
+Nas bellas mãos tomandelhe omenagem
+De lhe ſerem leais eſta viagem.
+
+Ia a menham clara daua nos outeiros,
+Por onde o Ganges murmurando ſoa,
+Quando da celſa gauea os marinheiros
+Enxergarão terra alta pella proa,
+Ia fora de tormenta, & dos primeiros
+Mares, o temor vão do peito voa,
+Diſſe alegre o Piloto Melindano,
+Teria he de Calccu, ſe não me engano.
+
+Eſta he por certo a terra que buſcais
+Da verdadeira India, que aparece
+E ſe do mundo mais não deſejais,
+Voſſo trabalho longo aqui fenece:
+Soſſrer aqui não pode o Gama mais,
+De ledo em ver que a terra ſe conhece,
+Os geolhos no chão, as mãos ao ceo
+A merce grande a Deos agardeceo.
+
+As graças a Deos daua, & razão tinha
+Que não ſomente a terra lhe moſtraua,
+Que com tanto temor buſcando vinha
+Por quem tanto trabalho eſprimentaua,
+Mas via ſe liurado tão aſinha
+Da morte, que no mar lhe aparelhaua
+O vento duro, feruido, & medonho,
+Como quem deſpertou de horrendo ſonho.
+
+Por meyo deſtes horridos parigos
+Deſtes trabalhos graues & temores,
+Alcanção os que ſam de fama amigos
+As honras immortais, & graos mayores:
+Não encoſtados ſempre nos antigos
+Troncos nobres de ſeus anteceſſores,
+Não nos leitos dourados, entre os finos
+Animais de Moſcouia Zebellinos.
+
+Não cos manjares nouos & exquiſitos,
+Não cos paſſeos molles & oucioſos,
+Não cos varios deleites & infinitos
+Que afeminão os peitos generoſos:
+Não cos nunca vencidos apetitos
+Que a Fortuna tem ſempre tão mimoſos,
+Que não ſoffre a nenhum que o paſſo mude
+Pera algũa obra heroica de virtude.
+
+Mas com buſcar co ſeu forçoſo braço
+As honras, que elle chame proprias ſuas,
+Vigiando, & veſtindo o forjado aço
+Soffrendo tempeſtades & ondas cruas:
+Vencendo os torpes frios no regaço
+Do Sul, & regioẽs de abrigo nuas,
+Engulindo o corrupto mantimento
+Temperado com hum arduo ſofrimento.
+
+E com forçar o rosto que ſe enfia,
+A parecer ſeguro, ledo, inteiro,
+Pera o pilouro ardente, que aſſouia
+E leua a perna, ou braço ao companheiro:
+Destarte o peito hum calo honroſo cria
+Deſprezador das honras, & dinheiro,
+Das honras, & dinheiro, que a venntura
+Forjou, & não vertude juſta, & dura.
+
+Deſtarte ſe eſclarece o entendimento,
+Que experiencias fazem repouſado,
+E fica vendo, como de alto aſſento,
+O baxo tracto humano embaraçado,
+Eſte onde tiuer força o regimento
+Direito, & nam de affeitos occupado,
+Subirà (como deue) a illuſtre mando,
+Contra vontade ſua, & não rogando.
+
+FIM.
+
+
+
+❧ Canto Septimo.
+
+Ia ſe viã chegados
+junto aa terra,
+Que deſejada ja de tantos fora,
+Que entre as correntes Indicas ſe
+encerra,
+E o Ganges, que no çeo terreno mora:
+Ora ſus gente forte que na guerra
+Quereis leuar a palma vencedora,
+Ia ſois chegados, ja tendes diante
+A terra de riquezas abundante.
+
+A vos, ô geraçam de Luſo digo,
+Que tam pequena parte ſois no mundo:
+Não digo inda no mundo, mas no amigo
+Curral de quem gouerna o çeo rotundo:
+Vos, a quem não ſomente algum perigo
+Eſtorua conquiſtar o pouo inmundo:
+Mas nem cobiça, ou pouca obediencia
+Da Madre, que nos çeos eſtâ em eſſencia.
+
+Vos Portugueſes poucos, quanto fortes,
+Que o fraco poder voſſo não peſais,
+Vos que aa cuſta de voſſas varias mortes
+A lei da vida eterna dilatais:
+Aſsi do çeo deitadas ſam as ſortes,
+Que vos por muito poucos que ſejais,
+Muito façais na ſancta Chriſtandade:
+Que tanto, ô Chriſto exaltas a humildade.
+
+Vedelos Alemães, ſoberbo gado,
+Que por tam largos campos ſe apacenta,
+Do ſucceſſor de Pedro rebelado,
+Nouo paſtor, & noua ceita inuenta:
+Vedelo em feas guerras occupado,
+Que inda co cego error ſe nam contenta,
+Não contra o ſuperbiſsimo Otomano:
+Mas por ſair do jugo ſoberano.
+
+Vedelo duro Ingles, que ſe nomea
+Rei da velha & ſanctiſsima cidade,
+Que o torpe Iſmaelita ſenhorea,
+(Quem via honra tam longe da verdade)
+Entre as Boreais neues ſe recrea,
+Noua maneira faz de Chriſtandade,
+Pera os de Christo tem a eſpada nua,
+Nem por tomar a terra que era ſua.
+
+Guardalhe por entanto hum falſo Rei,
+A cidade Hieroſolima terreste,
+Em quanto elle não guarda a ſancta lei,
+Da cidade Hieroſolima celeſte:
+Pois de ti Gallo indigno que direy?
+Que o nome Christianiſsimo quiſeste,
+Nem pera defendelo, nem guardalo,
+Mas para ſer contra elle, & derribalo.
+
+Achas que tẽs direito em ſenhorios
+De Chriſtãos, ſendo o teu tam largo & tãto.
+E nam contra o Cynifio & Nilo rios
+Inimigos do antigo nome ſancto,
+Ali ſe ande prouar da eſpada os fios,
+Em quem quer reprouar da Ygreja o canto,
+De Carlos, de Luis, o nome & a terra
+Erdaſte, & as cauſas nam da justa guerra?
+
+Pois que direy daquelles que em delicias,
+Que o vil ocio no mundo traz conſigo,
+Gastão as vidas, logrão as diuicias,
+Eſquecidos de ſeu valor antigo:
+Naſcem da tyrania inimicicias,
+Que o pouo forte tem de ſi inimigo,
+Contigo Italia fallo, ja ſumerſa
+Em vicios mil, & de ti meſma aduerſa.
+
+O miſeros Chriſtãos, pola ventura
+Sois os dentes de Cadmo deſparzidos,
+Que hũs aos outros ſe dão aa morte dura,
+Sendo todos de hum ventre produzidos?
+Nem vedes a diuina ſepultura
+Poſſuida de cães, que ſempre vnidos
+Vos vem tomar a voſſa antiga terra,
+Fazendo ſe famoſas pela guerra?
+
+Vedes que tem por vſo & por decreto,
+Do qual ſam tão inteiros obſeruantes,
+Ajuntarem o exercito inquieto,
+Contra os pouos, que ſam de Chriſto amantes.
+Entre vos nunca deixa a fera Aleto
+De ſamear cizanias repugnantes,
+Olhay ſeſtais ſeguros de perigos,
+Que elles & vos, ſois voſſos inimigos.
+
+Se cobiça de grandes ſenhorios
+Vos faz yr conquiſtar terras alheas,
+Nam vedes que Pactolo & Hermo rios,
+Ambos voluem auriferas areas,
+Em Lidia, Aſsiria laurão de ouro os fios,
+Affrica eſconde em ſi luzentes veas,
+Mouauos ja ſe quer riqueza tanta,
+Pois mouer vos não pode a caſa Sancta.
+
+Aquellas inuenções feras & nouas,
+De instrumentos mortais da artelharia,
+Ia deuem de fazeras duras prouas,
+Nos muros de Bizancio, & de Turquia:
+Fazei que torne la aas ſilueſtres couas,
+Dos Caspios montes, & da Citia fria,
+A Turca geração, que multiplica
+Na policia da voſſa Europa rica.
+
+Gregos, Traces, Armenios, Georgianos
+Bradando vos eſtão, que o pouo bruto
+Lhe obriga os caros filhos aos profanos
+Preceptos do alcorão (duro tributo)
+Em caſtigar.os feitos inhumanos
+Vos gloriay de peito forte, & aſtuto,
+E não queirais louuores arrogantes,
+De ſerdes contra os voſſos muy poſſantes.
+
+Mas em tanto que cegos, & ſedentos
+Andais de voſſo ſangue, o gente inſana,
+Não faltarão Christãos atreuimentos,
+Neſta pequena caſa Luſitana
+De Affrica tem maritimos aſſentos,
+He na Aſia mais que todas ſoberana,
+Na quarta parte noua os campos ara,
+E ſe mais mundo ouuera la chegâra.
+
+E vejamos em tanto que aconteçe
+Aaquelles tam famoſos nauegantes,
+Deſpois que a branda Venus enfraqueçe
+O furor vão dos ventos repugnantes:
+Deſpois que a larga terra lhe apareçe,
+Fim de ſuas perfias tam conſtantes,
+Onde vẽ ſamear de Christo a ley,
+E dar nouo coſtume, & nouo Rei.
+
+Tanto que aa noua terra ſe chegârão,
+Leues embarcações de peſcadores
+Acharão, que o caminho lhe moſtrârão
+De Calecu onde eram moradores:
+Pera la logo as proas ſe inclinarão,
+Porque esta era a cidade das milhores
+Do Malabar milhor, onde viuia
+O Rei que a terra toda poſſuia.
+
+Alem do Indo jaz, & âquem do Gange,
+Hum terreno muy grande, & aſſaz famoſo
+Que pela parte Auſtralo mar abrange,
+E pera o Norte o Emodio cauernoſo.
+Iugo de Reis diuerſos o conſtrange
+A varias leis: algũs o vicioſo
+Mahoma, algũs os Idolos adorão,
+Algũs os animais, que entre elles morão.
+
+La bem no grande monte, que cortando
+Tam larga terra, toda Aſia diſcorre,
+Que nomes tam diuerſos vai tomando,
+Segundo as regiões por onde corre,
+As fontes ſaem, donde vem manando
+Os rios, cuja gram corrente morre
+No mar Indico, & cercão todo o peſo
+Do terreno, fazendo o Cherſoneſo.
+
+Entre hum & o outro rio, em grande eſpaço
+Say da larga terra hũa longa ponta
+Quaſi piramidal , que no regaço
+Do mar com Ceilão inſula confronta,
+E junto donde naſce o largo braço
+Gangetico, o rumor antigo conta.
+Que os vizinhos da terra moradores
+Do cheiro ſe mantem das finas flores.
+
+Mas agora de nomes, & de vſança,
+Nouos & varios ſam os habitantes:
+Os Delijs, os Patanes, que em poſſança
+De terra, & gente, ſam mais abundantes,
+Decanis, Oriâs, que a eſperança
+Tem de ſua ſaluação nas reſonantes
+Agoas do Gange, & a terra de Bengala
+Fertil de ſorte que outra não lhe igoala.
+
+O Reino de Cambaia bellicoſo
+(Dizem que foy de Poro Rei potente)
+O Reino de Narſinga poderoſo,
+Mais de ouro & pedras, que de forte gente:
+Aqui ſe enxerga la do mar vndoſo
+Hum monte alto, que corre longamente,
+Seruindo ao Malabar de forte muro,
+Com que do Canarâ viue ſeguro.
+
+Da terra os naturais lhe chamão Gate,
+Do pê do qual pequena quantidade
+Se eſtende hũa ſralda eſtreita, que combate
+Do mar a natural ferocidade:
+Aqui de outras cidades ſem debate,
+Calecu tem a illuſtre dignidade,
+De cabeça de Imperio rica, & bella,
+Samorim ſe intitula o ſenhor della.
+
+Chegada a frota ao rico ſenhorio,
+Hum Portugues mandado logo parte,
+A fazer ſabedar o Rei gentio
+Da vinda ſua a tam remota parte:
+Entrando o menſageiro pelo Rio,
+Que ali nas ondas entra, a não viſta arte
+A cor, o geſto estranho, o trajo nouo
+Fez concorrer a vello todo o pouo.
+
+Entre a gente que a vello concorria,
+Se chega hum Mahometa, que naſcido
+Fora na região da Berberia,
+La onde fora Anteo obedecido.
+Ou pela vezinhança ja teria
+O Reino Luſitano conhecido,
+Ou foy ja aſsinalado de ſeu ferro,
+Fortuna o trouxe a tam longo desterro.
+
+Em vendo o menſageiro com jocundo
+Roſto, como quem ſabe a lingoa Hiſpana
+Lhe diſſe, quem te trouxe a eſtoutro mundo,
+Tam longe da tua patria Luſitana?
+Abrindo lhe reſponde o mar profundo,
+Por onde nunca veio gente humana,
+Vimos buſcar do Indo o grão corrente,
+Por onde a Lei diuina ſe acrecente.
+
+Eſpantado ficou da gram viajem,
+O mouro qne Monçaide ſe chamaua,
+Ouuindo as opreſſoẽs que na paſſajem
+Do mar, o Luſitano lhe contaua,
+Mas vendo em fim, que a força da menſajem
+So pera o Rei da terra releuaua,
+Lhe diz que eſtaua fora da cidade.
+Mas de caminho pauca quantidade.
+
+E que em tanto que a noua lhe chegeſſe
+De ſua estranha vinda, ſe queria
+Na ſua pobre caſa repouſaſſe,
+E do manjar da terra comeria:
+E deſpois que ſe hum pouco recreaſſe,
+Coelle pera a armada tornaria,
+Que alegria não pode ſer tamanha,
+Que achar gente vezinha em terra eſtranha.
+
+O Portuegues aceita de vontade
+O que o ledo Monçaide lhe offerece
+Como ſe longa fora ja a amizade,
+Coelle come & bebe, & lhe obedeçe:
+Ambos ſe tornão logo da cidade,
+Pera a frota, que o Mouro bem conheçe,
+Sobem aa Capitaina, & toda a gente
+Monçaide recebeo benignamente.
+
+O Capitão o abraça em cabo ledo,
+Ouuindo clara a lingoa de Caſtella,
+Iunto de ſi o aſſenta, & prompto & quedo
+Pela terra pergunta, & couſas della:
+Qual ſe ajuntaua em Rodope o aruoredo,
+So por ouuir o amante da donzella
+Euridiçe, tocando a lira de ouro,
+Tal a gente ſe ajunta a ouuir o Mouro.
+
+Elle começa, o gente que a natura
+Vizinha fez de meu paterno ninho,
+Que deſtino tam grande, ou que ventura
+Vos trouxe a cometerdes tal caminho:
+Nam he ſem cauſa não occulta, & eſcura
+Vir do longinco Tejo, & ignoto Minho,
+Por mares nunca doutro lenho arados,
+A Reinos tam remotos & apartados.
+
+Deos por certo vos traz, porque pretende
+Algum ſeruiço ſeu por vos obrado:
+Por iſſo ſo vos guia, & vos defende
+Dos imigos do mar, do vento yrado:
+Sabey que estais na India, onde ſe estende
+Diuerſo pouo, rico & proſperado,
+De ouro luzente, & fina pedraria,
+Cheiro ſuaue, ardente eſpeciaria.
+
+Eſta prouincia, cujo porto agora
+Tomado tendes, Malabar ſe chama,
+Do culto antigo os Ydolos adora,
+Que ca por estas partes ſe derrama:
+De diuerſos Reis he, mas dum ſo fora
+Noutro tempo, ſegundo a antiga fama,
+Saramâ Perimal foy derradeiro
+Rei, que este Reino teue vnido & inteiro.
+
+Porem como a eſta terra entam vieſſem,
+De la do ſeyo Arabico outras gentes,
+Que o culto Mahometico trouxeſſem,
+No qual me inſtituirão meus parentes,
+Succedeo que pregando conuerteſſem
+O Perimal, de ſabios & elloquentes,
+Fazem lhe a ley tomar com feruor tanto,
+Que proſupos de nella morrer ſancto.
+
+Naos arma, & nellas mete curioſo
+Mercadoria que offereça rica,
+Pera yr nellas a ſer religioſo,
+Onde o prepheta jaz, que a ley pubrica:
+Antes que parta, o Reino poderoſo
+Cos ſeus reparte, porque não lhe fica
+Erdeiro proprio, faz os mais aceitos,
+Ricos de pobres, liures de ſojeitos.
+
+A hum Cochim, & a outro Cananor,
+A qual Chale, a qual a ilha da pimenta,
+A qual Coulão, a qual dâ Cranganor
+E os mais, a quem o mais ſerue & contenta
+Hum ſo moço, a quem tinha muito amor,
+Deſpois que tudo deu, ſe lhe apreſenta,
+Pera este Calecu ſomente fica,
+Cidade ja por tracto nobre & rica.
+
+Eſta lhe dâ co titulo excellente
+De Emperador, que ſobre os outros mande,
+Iſto feito ſe parte diligente,
+Pera onde em ſancta vida acabe, & ande,
+E daqui fica o nome de potente
+Camorî, mais que todos digno, & grande
+Ao moço & deſcendentes, donde vem
+Eſte, que agora o Imperio manda & tem.
+
+A ley da gente toda rica & pobre,
+De fabulas compoſta ſe imagina:
+Andão nûs, & ſomente hum pano cobre
+As partes, que a cubrir natura inſina:
+Dous modos ha de gente, porque a nobre
+Naires chamados ſam, & a menos digna
+Poleâs tem por nome, a quem obriga
+A ley não mesturar a casta antiga
+
+Porque os q̃vſaram ſempre hum mesmo officio,
+De outro nam podẽ receber conſorte,
+Nem os filhos teram outro exercicio,
+Senão o de ſeus paſſados ate morte,
+Pera os Neires he certo grande viçio
+Deſtes ſerem tocados de tal ſorte,
+Que quando algum ſe toca por ventura,
+Com ceremonias mil ſe alimpa & apura.
+
+Deſta ſorte o Iudaico pouo antigo
+Nem tocaua na gente de Samaria,
+Mais eſtranhezas inda das que digo
+Neſta terra vereis de vſança varia,
+Os Naires ſos ſam dados ao perigo
+Das armas, ſos defendem da contraria
+Banda o ſeu Rei, trazendo ſempre vſada
+Na ezquerda a adarga, e na dereita a eſpada:
+
+Bramenes ſam os ſeus religioſos,
+Nome antigo, & de grande preminencia,
+Obſeruão os preceitos tam famoſos
+Dhum, que primeiro pos nome aa ciencia:
+Nem matão couſa viua, & temeroſos
+Das carnes tem grandiſsima abstinencia,
+Somente no venereo ajuntamento
+Tem mais licença, & menos regimento.
+
+Gerais ſam as molheres: mas ſomente
+Pera os da geração de ſeus maridos:
+Ditoſa condiçam, ditoſa gente,
+Que nam ſam de ciumes offendidos.
+Eſtes & outros costumes variamente
+Sam pelos Malabares admitidos,
+A terra he groſſa em trato, em tudo aquilo
+Que as ondas podem dar da China ao Nilo.
+
+Aſsi contaua o Mouro: mas vagando
+Andaua a fama ja pela cidade,
+Da vinda deſta gente estranha, guando
+O Rei ſaber mandaua da verdade,
+Ia vinham pelas ruas caminhando,
+Rodeados de todo ſexo, & idade,
+Os principaes que o Rei buſcar mandâra,
+O Capitão da armada que chegâra.
+
+Mas elle, que do Rei ja tem licença
+Pera deſembarcar, acompanhado
+Dos nobres Portugueſes ſem detença
+Parte de ricos panos adornado:
+Das cores a fermoſa diferença
+A viſta alegra ao pouo aluoroçado,
+O remo compaſſado fere frio
+Agora o mar, despois o freſco rio.
+
+Na praia hum regedor do Reino eſtaua,
+Que na ſua lingoa Catual ſe chama,
+Rodeado de Naires, que eſperaua
+Com deſuſada feſta o nobre Gama:
+Ia na terra nos braços o leuaua,
+E num partatil leito hũa rica cama
+Lhe offereçe em que va, costume vſado,
+Que nos hombros dos homẽs he leuado.
+
+Desta arte o Malabar, deſtarte o Luſo,
+Caminhão la pera onde o Rei o eſpera:
+Os outros Portagueſes vão ao vſo
+Que infantaria ſegne eſquadra fera:
+O pouo que concorre vay confuſo
+De ver a gente estranha, & bem quiſera
+Perguntar: mas no tempo ja paſſado
+Na torre de Babel lhe foi vedado.
+
+O Gama, & o Catual hião fallando
+Nas couſas que lhe o tempo offerecia,
+Monçaide entrelles vay interpretando
+As palauras que de ambos entendia:
+Aſsi pela cidade caminhando,
+Onde hũa rica fabrica ſe erguia
+De hum ſumptuoſo templo ja chegauão,
+Pelas portas do qual juntos entrauão.
+
+Ali estam das deidades as figuras
+Eſculpidas em pao, & em pedra fria,
+Varias degeſtos, varias de pinturas,
+A ſegundo o Demonio lhe fingia.
+Vem ſe as abominaueis eſculturas,
+Qual a Chimêra em membros ſe varia,
+Os Chriſtãos olhos a ver Deos vſados
+Em forma humana eſtam marauilhados.
+
+Hum na cabeça cornos eſculpidos,
+Qual Iupiter Amon em Lybia estaua,
+Outro num corpo roſtos tinha vnidos,
+Bem como o antigo Iano ſe pintaua:
+Outro com muitos braços diuididos
+A Briareo pareçe que imitaua:
+Outro fronte Canina tem de fora,
+Qual Anubis Menfitico ſe adora.
+
+Aqui feita do barbaro gentio
+A ſupersticioſa adoração,
+Direitos vão ſem outro algum deſuio,
+Pera onde eſtaua o Rei do pouo vão:
+Engroſſando ſe vay da gente o fio,
+Cos que vem ver o eſtranho Capitão,
+Eſtão pelos telhados & janellas
+Velhos & moços, donas & donzellas.
+
+Ia chegão perto, & não paſſos lentos,
+Dos jardins odoriferos fermoſos,
+Que em ſi eſcondem os regios apouſentos,
+Altos de torres não, mas ſumptuoſos,
+Edificão ſe os nobres ſeus aſſentos,
+Por entre os aruoredos deleitoſos,
+Aſsi viuem os Reis daquella gente,
+No campo & na cidade juntamente.
+
+Pelos partais da cerca a ſutileza
+Se enxerga da Dedalea facultade,
+Em figuras mostrando por nobreza
+Da India a mais remota antiguidade:
+Affiguradas vão com tal viueza
+As hiſtorias daquella antiga idade,
+Que quem dellas tiuer noticia inteira,
+Pela ſombra conheçe a verdadeira.
+
+Eſtaua hum grande exercito que piſa
+A terra Oriental, que o Idaſpe laua,
+Rege o hum capitam de fronte liſa,
+Que com frondentes Tirſos palejaua,
+Por elle edificada eſtaua Niſa
+Nas ribeiras do rio, que manaua,
+Tão proprio, que ſe ali estiuer Semelle,
+Dirâ por certo, que he ſeu filho aquelle.
+
+Mais auante bebendo ſeca o rio,
+Mui grande multidão da Aſsiria gente,
+Sujeita a feminino ſenhorio,
+De hũa tam bella, como incontinente:
+Ali tem junto ao lado nunca frio,
+Eſculpido o feroz ginete ardente,
+Com quem teria o filho competencia,
+Amor nefando, bruta incontinencia.
+
+Daqui mais apartadas tremolauão
+As bandeiras de Grecia glorioſas,
+Terceira Monarchia, & ſojugauão,
+Ate as agoas Gargeticas vndoſas:
+Dum capitão mancebo ſe guiauão
+De palmas rodeado valeroſas,
+Que ja não de Filipo, mas ſem falta
+De progenie de Iupiter ſe exalta.
+
+Os Portugueſes vendo eſtas memorias,
+Dizia o Catual ao Capitão,
+Tempo cedo virà que outras victorias,
+Estas que agora olhais abaterão:
+Aqui ſe eſcreuerão nouas hiſtorias,
+Por gentes eſtrangeiras que virão
+Que os noſſos ſabios magos o alcançârão,
+Quando o tempo futuro eſpeculârão.
+
+E dizlhe mais a magica ſciencia,
+Que pera ſe euitar força tamanha,
+Não valerâ dos homẽs reſiſtencia,
+Que contra o Ceo não val da gente manha:
+Mas tambem diz que a bellica excellencia
+Nas armas, & na paz, da gente eſtranha
+Sera tal, que ſera no mundo ouuido
+O vencedor, por gloria do vencido.
+
+Aſsi fallando entrauão ja na ſala,
+Onde aquelle potente Emperador
+Nũa camilha jaz, que nam ſe igoala
+De outra algũa no preço & no lauor:
+No recoſtado geſto ſe aſsinala
+Hum venerando & prospero ſenhor,
+Hum pano de ouro cinge, & na cabeça
+De precioſas gemas ſe adereça.
+
+Bem junto delle hum velho reuerente,
+Cos giolhos no chão, de quando em quando
+Lhe daua a verde folha da erua ardente
+Que a ſeu coſtume eſtaua ruminando:
+Hum Bramene, peſſoa preminente,
+Pera o Gama vem com paſſo brando,
+Pera que ao grande Principe o apreſente,
+Que diante lhe acena que ſe aſſente.
+
+Sentado o Gama junto ao rico leito,
+Os ſeus mais afaſtados, prompto em viſta
+Estaua o Samori no trajo & geito
+Da gente, nunca de antes delle viſta:
+Lançando a graue voz do ſabio peito,
+Que grande authoridade logo aquiſta
+Na opinião do Rei, & do pouo todo
+O Capitão lhe falla deſte modo.
+
+Hum grande Rei, de la das partes, onde
+O ceo volubil com perpetua roda
+Da terra a luz ſolar coa terra eſconde,
+Tingindo a que deixou de eſcura noda,
+Ouuindo do rumor que la responde
+O eco, como em ti da India toda
+O principado eſtâ, & a mageſtade,
+Vinculo quer contigo de amizade.
+
+E por longos rodeos a ti manda,
+Por te fazer ſaber que tudo aquillo
+Que ſobre o mar, que ſobre as terras anda
+De riquezas, de lâ do Tejo ao Nilo:
+E desda fria plaga de Gelanda,
+Ate bem donde o Sol nam muda o eſtilo
+Nos dias, ſobre a gente de Ethiopia,
+Tudo tem no ſeu Reino em grande copia.
+
+E ſe queres com pactos, & lianças
+De paz, & de amizade ſacra, & nua,
+Comerçio conſentir das abundanças
+Das fazendas da terra ſua, & tua,
+Porque creção as rendas, & abaſtanças,
+Por quem a gente mais trabalha & ſua,
+De voſſos Reinos, ſera certamente
+De ti proueito, & delle gloria ingente.
+
+E ſendo aſsi que o nô deſta amizade,
+Entre vos firmemente permaneça,
+Estara prompto a toda aduerſidade,
+Que por guerra a teu Reino ſe offereça:
+Com gente, armas, & naos de qualidade
+Que por yrmão te tenha, & te conheça,
+E da vontade em ti ſobriſto poſta
+Me des a my certiſsima reposta.
+
+Tal embaxada daua o Capitão,
+A quem o Rei gentio reſpondia,
+Que em ver embaxadores de nação
+Tam remota, gram gloria recebia:
+Mas neſte caſo a vltima tençam
+Com os de ſeu conſelho tomaria,
+Informando ſe certo de quem era
+O Rei, & a gente, & terra que diſſera.
+
+E que em tanto podia do trabalho
+Paſſado yr repouſar, & em tempo breue
+Daria a ſeu deſpacho hum juſto talho,
+Com que a ſeu Rei repoſta alegre leue:
+Ia niſto punha a noite o vſado atalho
+Aas humanas canſeiras, porque ceue
+De doçe ſono os membros trabalhados,
+Os olhos ocupando ao ocio dados.
+
+Agaſalhados foram juntamente,
+O Gama, & Portugueſes no apouſento
+Do nobre Regedor da Indica gente,
+Com festas & geral contentamento:
+O Catual no cargo diligente
+De ſeu Rei, tinha ja por regimento
+Saber da gente eſtranha donde vinha
+Que costumes, que lei, que terra tinha.
+
+Tanto que os igneos carros do fermoſo
+Mancebo Delio vio, que a luz renoua,
+Manda chamar Monçaide, deſejoſo
+De poder ſe informar da gente noua:
+Ia lhe pergunta prompto & curioſo,
+Se tem noticia inteira, & certa proua,
+Dos eſtranhos quem ſam, que ouuido tinha
+Que he gente de ſua patria muy vizinha.
+
+Que particularmente ali lhe deſſe
+Informação muy larga, pois fazia
+Niſſo ſeruiço ao Rei, porque ſoubeſſe
+O que neste negocio ſe faria:
+Mançaide torna, poſto que eu quiſeſſe
+Dizerte disto mais nam ſaberia,
+Somente ſey que he gente la de Hespanha
+Onde o meu ninho, & o Sol no mar ſe banha.
+
+Tem a ley dum Propheta, que gerado
+Foi ſem fazer na carne detrimento
+Da mãy, tal que por bafo estâ aprouado
+Do Deos, que tem do mundo o regimento:
+O que entre meus antigos he julgado
+Delles, he que o valor ſanguinolento
+Das armas, no ſeu braço reſplandeçe,
+O que em noſſos paſſados ſe pareçe.
+
+Porque elles com virtude ſobre humana,
+Os deitarão dos campos abundoſos
+Do rico Tejo, & freſca Goadiana,
+Com feitos memoraueis, & famoſos:
+E não contentes inda, & na Affricana
+Parte, cortando os mares proceloſos
+Nos não querem deixar viuer ſeguros,
+Tomando nos cidades, & altos muros.
+
+Nam menos tem moſtrado esforço, & manha,
+Em quaesquer outras guerras que acõteção,
+Ou das gentes beligeras da Eſpanha,
+Ou la dalgũs que do Pirene deção.
+Aſsi que nunca em fim com lança eſtranha
+Se tem, que por vencidos ſe conheção,
+Nem ſe ſabe inda não, te afirmo & aſſello
+Pera estes Anibais nenhum Marcello.
+
+E ſeſta informação nam for inteira
+Tanto quanto conuem, delles pretende
+Informarte, que he gente verdadeira,
+A quem mais falſidade enoja & offende:
+Vay verlhe a frota, as armas, & a maneira
+Do fundido metal, que tudo rende,
+E folgaras de veres a policia
+Portugueſa na paz, & na milicia.
+
+Ia com deſejos o Idolatra ardia,
+De ver iſto, que o Mouro lhe contaua,
+Manda eſquipar bateis, que yr ver queria
+Os lenhos em que o Gama nauegaua.
+Ambos partem da praia, a quem ſeguia
+A Naira geraçam, que o mar coalhaua,
+Aa Capitaina ſobem forte & bella,
+Onde Paulo os recebe a bordo della.
+
+Purpureos ſam os toldos, & as bandeiras
+Do rico fio ſam, que o bicho gera,
+Nellas eſtam pintadas as guerreiras
+Obras, que o forte braço ja fizera:
+Batalhas tem campais auentureiras,
+Deſafios crueis, pintura fera,
+Que tanto que ao Gentio ſe apreſenta,
+A tento nella os ollos apacenta.
+
+Pelo que ve pergunta: mas o Gama
+Lhe pedia primeiro que ſe aſſente,
+E que aquelle deleite que tanto ama
+A ceita Epicurea, eſperimente:
+Dos eſpumantes vaſos ſe derrama
+O licor, que Noe mostrâra aa gente:
+Mas comer o Gentio nam pretende,
+Que a ceita que ſeguia lho defende.
+
+A trombeta que em paz no penſamento,
+Imagem faz de guerra, rompe os ares,
+Co ſogo o diabolico instrumento,
+Se faz ouuir no fundo la dos mares:
+Tudo o Gentio nota: mas o intento
+Moſtraua ſempre ternos ſingulares
+Feitos dos homẽs, que em retrato breue
+A muda poeſia ali deſcreue.
+
+Alçaſe em pê, co elle os Gamas junto
+Coelho de outra parte, & o Mauritano
+Os olhos poem no bellico trafunto
+De hum velho branco, aſpeito venerando,
+Cujo nome nam pode ſer defuncto
+Em quanto ouuer no mundo trato humano,
+No trajo a Grega vſança eſtâ perfeita,
+Hum ramo por inſignia na dereita.
+
+Hum ramo na mão tinha: mas o cego
+Eu que cometo inſano, & temerario,
+Sem vos Nimphas do Tejo, & do Mondego,
+Por caminho tam arduo, longo, & vario:
+Voſſo fauor inuoco, que nauego
+Por alto mar, com vento tam contrario,
+Que ſe nam me ajudais, ei grande medo,
+Que o meu fraco batel ſe alague cedo.
+
+Olhay que ha tanto tempo, que cantando
+O voſſo Tejo, & os voſſos Luſitanos,
+A fortuna me traz peregrinando,
+Nouos trabalhos vendo, & nouos danos:
+Agora o mar, agora eſprimentando
+Os perigos Mauorcios inhumanos,
+Qual Canace que â morte ſe condena,
+Nũ mão ſempre a eſpada, & noutra a pena:
+
+Agora com pobreza auorrecida,
+Por hoſpicios alheios degradado,
+Agora da eſperança ja adquirida,
+De nouo mais que nunca derribado:
+Agora aas costas eſcapando a vida,
+Que dum fio pendia tam delgado,
+Que não menos milagre foi ſaluarſe,
+Que pera o Rei Iudaico acrecentarſe.
+
+E ainda Nimphas minhas não baſtaua,
+Que tamanhas miſerias me cercaſſem:
+Senão que aquelles que eu cantando andaua,
+Tal premio de meus verſos me tornaſſem
+A troco dos deſcanſos que eſparaua,
+Das capellas de louro que me honraſſem,
+Trabalhos nunca vſados me inuentârão,
+Com que em tam duro eſtado me deitârão.
+
+Vede Nimphas que engenhos de ſenhores
+O voſſo Tejo cria valeroſos,
+Que aſsi ſabem prezas com tais fauores
+A quem os faz cantando glorioſos:
+Que exemplos a futuros eſcriptores,
+Pera eſpertar engenhos curioſos,
+Pera porem as couſas em memoria,
+Que merecerem ter eterna gloria.
+
+Pois logo em tantos males he forçado,
+Que ſo voſſo fauor me não falleça,
+Principalmente aqui, que ſou chegado
+Onde feitos diuerſos engrandeça:
+Daimo vos ſos, que eu tenho ja jurado
+Que não no empregue em quem o não mereça
+Nem por liſonja louue algum ſubido,
+Sob pena de não ſer agradecido.
+
+Nem creais Nimphas nam que fama deſſe
+A quem ao bem comum, & do ſeu Rei
+Antepoſer ſeu proprio intereſſe:
+Imigo da diuina & humana ley,
+Nenhum ambicioſo, que quiſeſſe
+Subir a grandes cargos, cantarey,
+So por poder com torpes exercicios
+Vſar mais largamente de ſeus vicios.
+
+Nenhum que vſe de ſeu poder bastante
+Pera ſeruir a ſeu deſejo feio,
+E que por comprazer ao vulgo errante
+Se muda em mais figuras que Proteio,
+Nem Camenas tambem cuideis que cante
+Quem com habito honeſto & graue veio,
+Por contentar o Rei no officio nouo,
+A deſpir & roubar o pobre pouo.
+
+Nem quem acha que he justo & que he dereito
+Guardaſe a ley do Rei ſeueramente,
+E não acha que he juſto & bom reſpeito,
+Que ſe pague o ſuor da ſeruil gente.
+Nem quem ſempre com pouco experto peito
+Razões aprende, & cuida que he prudente,
+Pera taxar com mão rapace & eſcaſſa,
+Os trabalhos alheios, que nam paſſa.
+
+Aquelles ſos direy que auenturârão
+Por ſeu Deos, por ſeu Rei, a amada vida
+Onde perdendoa, em fama a dilatârão,
+Tambem de ſuas obras merecida
+Apolo, & as Muſas que me acompanharão,
+Me dobraram a furia concedida
+Em quanto eu tomo alento deſcanſado,
+Por tornar ao trabalho mais folgado.
+
+F I M.
+
+
+
+❧ Canto Octauo.
+
+Na primeira figura
+ſe detinha
+O Catual, que vira estar pinta-
+da.
+Que por diuiſa hum ramo na mão tinha,
+A barba branca, longa, & penteada:
+Quem era, & porque cauſa lhe conuinha
+A diuiſa que tem na mão tomada,
+Paulo reſponde, cuja voz diſcreta
+O Mauritano ſabio lhe interpreta.
+
+Eſtas figuras todas que aparecem,
+Brauos em viſta, & feros nos aſpeitos,
+Mais brauos, & mais feros ſe conhecem
+Pela fama, nas obras, & nos feitos
+Antigos ſam, mas inda reſplandecem
+Co nome, entre os engenhos mais perfeitos,
+Eſte que ves he Luſo, donde a fama
+O noſſo Reino Luſitania chama.
+
+Foy filho & companheiro do Thebano,
+Que tam diuerſas partes conquiſtou
+Parece vindo ter ao ninho Hispano,
+Seruindo as armas que contino vſou,
+Do Douro, Guadiana o campo vfano,
+Ia dito Eliſio, tanto o contentou
+Que ali quis dar, aos ja canſados oſſos
+Eterna ſepultura, & nome aos noſſos.
+
+O ramo que lhe ves pera diuiſa,
+O verde Tyrſo foi de Baco vſado,
+O qual aa noſſa idade amoſtra & auiſa
+Que foi ſeu companheiro & filho amado:
+Ves outro, que do Tejo a terra piſa,
+Deſpois de ter tam longo mar arado,
+Onde muros perpetuos edefica,
+E templo a Palas, que em memoria fica
+
+Vliſſes he o que faz a ſancta caſa
+Aa Deoſa, que lhe dâ lingoa facunda,
+Que ſe lâ na Aſia Troia inſigne abraſa,
+Ca na Europa Lisboa ingente funda:
+Quem ſera eſtoutro ca que o campo arraſa
+De mortos, com preſença furibunda?
+Grandes batalhas tem desbaratadas,
+Que as Agueas nas bandeiras tem pintadas.
+
+Aſsi o Gentio diz, reſponde o Gama,
+Eſte que ves paſtor ja foi de gado,
+Viriato ſabemos que ſe chama,
+Destro na lança mais que no cajado:
+Injuriada tem de Roma a fama,
+Vencedor inuencibil afamado,
+Nem tem coelle não, nem ter puderão
+O primor que com Pirro ja tiuerão.
+
+Com força não: com manha vergonhoſa,
+A vida lhe tirarão que os eſpanta,
+Que o grande aperto em gente, inda q̃ honroſa
+Aas vezes leis magnanimas quebranta:
+Outro eſtâ aqui que contra a patria yroſa
+Degradado com noſco ſe aleuanta,
+Eſcolheo bem com quem ſe aleuantaſſe
+Pera que eternamente ſe illuſtraſſe.
+
+Vês com noſco tambem vence as bandeiras
+Deſſas aues de Iupiter validas,
+Que ja naquelle tempo as mais guerreiras
+Gentes de nos ſouberam ſer vencidas:
+Olha tam ſotis artes & maneiras,
+Pera adquerir os pouos tam fingidas
+A fatidica Cerua que o auiſa,
+Elle he Sertorio, & ella a ſua diuiſa.
+
+Olha eſtoutra bandeira & ve pintado,
+O gram progenitor dos Reis primeiros,
+Nos Vngaro o fazemos, porem nado
+Crem ſer em Lotharingia os eſtrangeiros:
+Deſpois de ter cos Mouros ſuperado
+Galegos, & Leoneſes caualleiros,
+Aa caſa Sancta paſſa o ſancto Enrique,
+Porque o tronco dos Reis ſe ſanctifique.
+
+Quem he me dize estoutro que me eſpanta,
+Pergunta o Malabar marauilhado,
+Que tantos eſquadrões, que gente tanta,
+Com tam pouca, tem roto & deſtroçado:
+Tantos muros aſperrimos quebranta,
+Tantas batalhas da nunca canſado,
+Tantas coroas tem por tantas partes,
+A ſeus pês derribadas, & eſtandartes?
+
+Eſte he o primeiro Afonſo, diſſe o Gama,
+Que todo Portugal aos Mouros toma,
+Por quem no Estigio lago jura a fama,
+De mais não celebrar nenhum de Roma:
+Eſte he aquelle zeloſo a quem Deos ama,
+Com cujo braço o Mouro imigo doma,
+Pera quem de ſeu Reino abaxa os muros,
+Nada deixando ja pera os futuros.
+
+Se Ceſar, ſe Alexandre Rei tiuerão,
+Tam pequeno poder, tam pouca gente,
+Contra tantos inimigos quantos erão,
+Os que desbarataua eſte excelente,
+Nam creas que ſeus nomes ſe eſtenderão
+Com glorias imortais tam largamente:
+Mas deixa os feitos ſeus inexplicaueis,
+Ve que os de ſeus vaſſalos ſam notaueis.
+
+Eſte que ves olhar com geſto yrado,
+Pera o rompido Alumno mal ſofrido,
+Dizendo lhe que o exercito eſpalhado,
+Recolha, & torne ao campo defendido:
+Torna o moço do velho acompanhado,
+Que vencedor o torna de vencido,
+Egas moniz ſe chama o forte velho
+Pera leais vaſſalos claro eſpelho.
+
+Vello ca vai cos filhos a entregarſe,
+Acorda ao colo, nu de ſeda & pano,
+Porque nam quis o moço ſogeitarſe,
+Como elle prometera ao Castelhano:
+Fez com ſiſo & promeſſas leuantarſe
+O cerco que ja eſtaua ſoberano,
+Os filhos & molher obriga aa pena,
+Pera que o ſenhor ſalue, a ſi condena.
+
+Nem fez o Conſul tanto que cercado
+Foi nas forcas Caudinas de ignorante
+Quando a paſſar por baxo foi forçado
+Do Samnitico jugo triumphante:
+Este pelo ſeu pouo injuriado,
+Aſsi ſe entrega ſo firme & conſtante,
+Eſtoutro aſsi, & os filhos naturais,
+E a conſorte ſem culpa, que doe mais
+
+Ves eſte que ſaindo da cilada,
+Dâ ſobre o Rei que cerca a villa forte,
+Ia o Rei tem preſo, & a villa deſcercada
+Illustre feito digno de Mauorte,
+Velo ca vay pintado neſta armada
+No mar tambem aos Mouros dando a morte,
+Tomando lhe as galès, leuando a gloria,
+Da primeira maritima victoria.
+
+E dom Fuas Roupinho que na terra,
+E no mar reſplandece juntamente,
+Co fogo que acendeo junto da ſerra
+De Abila, nas gales da Maura gente
+Olha como então juſta & ſancta guerra
+De acabar pelejando està contente:
+Dar mãos dos Mouros entra a felice alma
+Triunfando nos ceos com juſta Palma.
+
+Nam ves hum ajuntamento de estrangeiro
+Trajo, ſair da grande armada noua,
+Que ajuda a combater o Rei primeiro
+Lisboa, de ſi dando ſancta proua:
+Olha Enrique famoſo caualleiro,
+A Palma que lhe naſce junto aa coua,
+Por elles moſtra Deos milagre visto,
+Germanos ſam os Martyris de Christo.
+
+Hum Sacerdote vê brandindo a eſpada,
+Contra Arronches que toma, por vingança
+De Leiria, que de antes foi tomada,
+Por quem porMaphamede enreſta a lança:
+He Teotonio Prior: mas vê cercada
+Sanctarem, & veras a ſegurança
+Da figura nos muros, que primeira
+Subindo ergueo das Quinas a bandeira:
+
+Vello ca donde Sancho desbarata
+Os Mouros de Vandalia em fera guerra,
+Os imigos rompendo, o Alferez mata,
+E Hispalico pendão derriba em terra,
+Mem Moniz he, que em ſi o valor retrata,
+Que o ſepulchro do pay cos oſſos cerra,
+Digno deſtas bandeiras, pois ſem falta
+A contraria derriba, & a ſua exalta.
+
+Olha aquelle que deçe pela lança,
+Com as duas cabeças dos vigias,
+Onde a çilada eſconde, com que alcança
+A cidade por manhas & ouſadias:
+Ella por armas toma a ſemelhança
+Do caualleiro, que as cabeças frias
+Na mão leuaua, feito nunca feito,
+Giraldo ſem pauor he o forte peito.
+
+Nem vês hum Caſtelhano, que agrauado,
+De Affonſo nono Rei, pelo odio antigo
+Dos de Lara cos Mouros he deitado,
+De Portugal fazendoſe inimigo?
+Abrantes villa toma acompanhado
+Dos duros infieis que traz conſigo:
+Mas vê que hum Portugues com pouca gente
+O desbarata & o prende ouſadamente.
+
+Martim Lopez ſe chama o caualleiro,
+Que destes leuar pode a palma, & o louro:
+Mas olha hum Eccleſiastico guerreiro,
+Que em lança de aço torna o Bago de ouro:
+Vêllo entre os duuidoſos tam inteiro,
+Em não negar batalha ao brauo Mouro,
+Olha o ſinal no çeo que lhe apareçe,
+Com que nos poucos ſeus o esforço creçe.
+
+Vês vão os Reis de Cordoua & Seuilha,
+Rotos, cos outros dous, & não de eſpaço,
+Rotos? mas antes mortos, marauilha
+Feita de Deos, que não de humano braço:
+Vês ja a villa de Alcaçare ſe humilha,
+Sem lhe valer defeſa, ou muro de aço,
+A dom Matheus o Biſpo de Lisboa,
+Que a coroa de palma ali coroa.
+
+Olha hum Meſtre que deçe de Caſtella,
+Portugues de nação, como conquiſta
+A terra dos Algarues, & ja nella
+Nem acha que por armas lhe reſiſta,
+Com manha, esforço, & com benigna estrella
+Villas, castellos toma a eſcalla vista:
+Ves Tauila tomada aos moradores,
+Em vingança dos ſete caçadores.
+
+Vês com belica aſtucia ao Mouro ganha
+Silues, que elle ganhou com força ingente,
+He dom Paio Correa, cuja manha
+E grande esforço faz enueja aa gente:
+Mas não paſſes os tres q̃ ẽ Frãça & Eſpanha
+Se fazem conhecer perpetuamente,
+Em deſafios, juſtas & torneos,
+Nellas deixando publicos trofeos.
+
+Vellos co nome vem de auentureiros,
+A Castella, onde o preço ſos leuârão
+Dos jogos de Belona verdadeiros,
+Que com dano de algũs ſe exercitârão,
+Vê mortos os ſoberbos caualleiros,
+Que o principal dos tres deſafiarão,
+Que Gonçalo Ribeiro ſe nomea,
+Que pode não temer a ley Letea.
+
+Atenta num que a fama tanto eſtende,
+Que de nenhum paſſado ſe contenta,
+Que a patria que de hum fraco fio pende
+Sobre ſeus duros hombros a ſuſtenta,
+Não no ves tinto de yra, que reprende
+A vil deſconfiança inerte & lenta
+Do pouo, & faz que tome o doçe freyo,
+De Rei ſeu natural, & nam de alheyo.
+
+Olha por ſeu conſelho & ouſadia,
+De Deos guiada ſo, & de ſancta Eſtrella
+So pode o que impoſsibil parecia,
+Vencer o pouo ingente de Castella:
+Ves par induſtria, esforço, & valentia
+Outro eſtrago & victoria clara & bella
+Na gente, aſsi feroz como infinita,
+Que entre o Tarteſo, & Goadiana habita.
+
+Mas não ves quaſi ja desbaratado,
+O poder Luſitano, pela auſencia
+Do Capitão deuoto, que apartado
+Orando inuoca a ſuma & trina eſſencia:
+Vello com preſſa ja dos ſeus achado,
+Que lhe dizem que falta reſiſtencia
+Contra poder tamanho, & que vieſſe,
+Porque conſigo esforço aos fracos deſſe.
+
+Mas olha com que ſancta confiança,
+Que inda não era tempo reſpondia,
+Como quem tinha em Deos a ſegurança
+Da victoria, que logo lhe daria:
+Aſsi Pompilio, ouuindo que a poſſança
+Dos imigos a terra lhe corria,
+A quem lhe a dura noua eſtaua dando,
+Pois eu, reſponde, eſtou ſacrificando.
+
+Se quem com tanto esforço em Deos ſe atreue,
+Ouuir quiſeres como ſe nomea,
+Portugues Cipião chamar ſe deue:
+Mas mais de dom Nuno Aluarez ſe arrea,
+Ditoſa patria que tal filho teue:
+Mas antes pai, que em quanto o Sol rodea
+Eſte globo de Ceres & Neptuno,
+Sempre ſuſpirarâ por tal aluno.
+
+Na meſma guerra vê que preſas ganha,
+Estoutro Capitão de pouca gente,
+Comendadores vence, & o gado apanha,
+Que leuão roubado ouſadamente:
+Outra vez vê que a lança em ſangue banha
+Destes, ſo por liurar com amor ardente
+O preſo amigo, preſo por leal,
+Pero Rodriguez he do Landroal.
+
+Olha eſte deſleal o como paga
+O perjurio que fez & vil engano,
+Gil Fernandez he de Eluas quem o eſtraga,
+E faz vir a paſſar o vltimo dano:
+De Xerez rouba o campo, & quaſi alaga
+Co ſangue de ſeus donos Castelhano:
+Mas olha Rui Pireira que co roſto
+Faz eſcudo aas gales, diante poſto.
+
+Olha que dezeſete Luſitanos,
+Neſte outeiro fabulas ſe defendem,
+Fortes de quatrocentos Castelhanos,
+Que em derredor pelos tomar ſe eſtendem,
+Porem logo ſentiram com ſeus danos,
+Que nam ſo ſe defendem, mas effendem,
+Digno feito de ſer no mundo eterno,
+Grande no tempo antigo & no moderno.
+
+Sabeſe antigamente que trezentos
+Ia contra mil Romanos pelejarão,
+No tempo que os virîs atreuimentos
+De Viriato tanto ſe illuſtrarão,
+E delles alcançando vencimentos
+Memoraueis, de erança nos deixarão,
+Que os muitos por ſer poucos nam temamos
+O que deſpois mil vezes amoſtramos.
+
+Olha ca dous Infantes Pedro & Henrique,
+Progenie generoſa de Ioane,
+Aquelle faz que fama illuſtre fique
+Delle em Germania, com que a morte engane:
+Eſte, que ella nos mares o pubrique,
+Por ſeu deſcobridor, & deſengane
+De Ceita a Maura tumida vaidade,
+Primeiro entrando as portas da cidades.
+
+Vês o Conde dom Pedro que ſustenta
+Dous cercos contra toda a Barbaria,
+Vês outro Conde eſtà que repreſenta
+Em terra Marte, em forças & ouſadia,
+De poder defender ſe nam contenta
+Alcaçere da ingente companhia:
+Mas do ſeu Rei defende a cara vida,
+Pondo por muro a ſua, ali perdida.
+
+Outros muitos verias que os pintores
+Aqui tambem por certo pintarião:
+Mas faltalhe pinçel, faltão lhe cores,
+Honra, premio, fauor que as artes crião,
+Culpa dos vicioſos ſucceſſores,
+Que degenerão certo, & ſe deſuião
+Do luſtre, & do valor dos ſeus paſſados,
+Em goſtos & vaidades atolados.
+
+Aquelles pais illuſtres que ja derão
+Principio aa geraçam que delles pende,
+Pela virtude muyto antão fizerão,
+E por deixar a caſa que deſcende,
+Cegos, que dos trabalhos que tiuerão,
+Se alta fama & rumor delles ſe eſtende,
+Eſcuros deixão ſempre ſeus menores,
+Com lhe deixar deſcanſos corrutores.
+
+Outros tambem ha grandes & abaſtados,
+Sem nenhum tronco illuſtre donde venhão,
+Culpa de Reis, que aas vezes a priuados
+Dão mais que a mil, q̃ esforço & ſaber tenhã
+Eſtes os ſeus nam querem ver pintados,
+Crendo que cores vãs lhe não conuenhão,
+E como a ſeu contrairo natural,
+Aa pintura que falla querem mal.
+
+Não nego que â com tudo deſcendentes
+Do generoſo tronco, & caſa rica
+Que com custumes altos & excellentes
+Suſtentão a nobreza que lhe fica:
+E ſe ha luz dos antigos ſeus parentes
+Nelles mais o valor não clarifica,
+Nam ſalta ao menos, nem ſe faz eſcura:
+Mas destes acha poucos a pintura.
+
+Aſsi eſtâ declarando os grandes feitos,
+O Gama que ali moſtra a varia tinta,
+Que a douta mão tam claros, tam perfeitos
+Do ſingular artifice ali pinta:
+Os olhos tinha promptos & dereitos,
+O Catual na historia bem daſtinta,
+Mil vezes perguntaua, & mil ouuia,
+As goſtoſas batalhas que ali via.
+
+Mas ja a luz ſe moſtraua duuidoſa,
+Porque a alampada grande ſe eſcondia
+Debaxo do Orizonte & luminoſa
+Leuaua aos Antipodas o dia,
+Quando o Gentio, & a gente generoſa,
+Dos Naires, da nao forte ſe partia
+A buſcar o repouſo que deſcanſa,
+Os laſſos animais, na noite manſa.
+
+Entre tanto os Aruſpices famoſos
+Na falſa opinião, que em ſacrificios
+Anteuem ſempre os caſos duuidoſos,
+Por ſinais diabolicos, & indicios
+Mandados do Rei proprio, eſtudioſos
+Exercitauão a arte & ſeus officios,
+Sobre esta vinda desta gente eſtranha,
+Que aas ſuas terras vem da ignota Eſpanha.
+
+Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,
+De como a noua gente lhe ſeria
+Iugo perpetuo, eterno catiueiro,
+Deſtruiçam de gente, & de valia:
+Vaiſe eſpantado o atonito agoureiro
+Dizer ao Rei (ſegundo o que entendia)
+Os ſinais temeroſos que alcançâra
+Nas entranhas das victimas que oulhara:
+
+A iſto mais ſe ajunta que hum deuoto
+Sacerdote da ley de Maphamede,
+Dos odios concebidos nam remoto,
+Contra a diuina Fe, que tudo excede,
+Em forma do Propheta falſo & noto,
+Que do filho da eſcraua Agar procede,
+Baco odioſo em ſonhos lhe aparece,
+Que de ſeus odios inda ſe nam deçe.
+
+E diz lhe aſsi, guardaiuos gente minha,
+Do mal que ſe aparelha pelo imigo
+Que pelas agoas humidas caminha,
+Antes que eſteis mais perto do perigo:
+Isto dizendo acorda o Mouro aſinha,
+Eſpantado do ſonho: mas conſigo
+Cuida que não he mais que ſonho vſado
+Torna a dormir quieto & ſoſegado.
+
+Torna Bacho dizendo, nam conheces
+O gram legiſlador que a teus paſſados
+Tem moſtrado o preceito a que obedeces
+Sem o qual foreis muitos baptizados?
+Eu parti rudo vello, & tu adormeces?
+Pois ſaberas que aquelles que chegados
+De nouo ſam, ſeram muy grande dano
+Da lei que eu dei ao neſcio pouo humano.
+
+Em quanto he fraca a força deſta gente,
+Ordena como em tudo ſe reſista,
+Porque quando o Sol ſae facilmente
+Se pode nelle por a aguda viſta:
+Porem deſpois que ſobe claro & ardente,
+Se agudeza dos olhos o conquiſta,
+Tam cega fica, quanto ficareis
+Se raizes criar lhe nam tolheis.
+
+Isto dito, elle & o ſono ſe deſpede,
+Tremendo fica o atonito Agareno
+Salta da cama, lume aos ſeruos pede
+Laurando nelle oo feruido veneno:
+Tanto que a noua luz que ao Sol precede
+Mostrara roſto Angelico & ſereno,
+Conuoca os principais da torpa ceita,
+Aos quais do que ſonhou dâ conta estreita.
+
+Diuerſos pareceres & contrarios
+Ali ſe dão ſegundo o que entendião,
+Astutas traições, enganos varios,
+Perfidias inuentauam & tecião:
+Mas deixando conſelhos temerarios,
+Deſtruiçam da gente pretendião,
+Por manhas mais ſotis & ardis milhores,
+Com peitas adquerindo os regedores,
+
+Com peitas, ouro, & dadiuas ſecretas
+Concilião da terra os principais,
+E com razões notaueis & diſcretas
+Moſtram ſer perdiçam dos naturais,
+Dizendo que ſam gentes inquietas,
+Que os mares discorrendo Occidentais,
+Viuem ſo de piraticas rapinas,
+Sem Rei, ſem leis humanas ou diuinas.
+
+O quanto deue o Rei que bem gouerna,
+De olhar que os conſelheiros, ou priuados,
+De conſciencia, & de virtude interna,
+E de ſincero amor ſejam dotados:
+Porque como estè paſto na ſuperna
+Cadeira, pode mal dos apartados
+Negocios, ter noticia mais inteira,
+Do que lhe der a lingoa conſelheira.
+
+Nem tam pouco direy que tome tanto
+Em groſſo, a conſciencia limpa & certa
+Que ſe enleue num pobre & humilde manto,
+Onde ambição a caſo ande encuberta,
+E quando hũ bom em tudo he juſto & ſancto
+E em negocios do mundo pouco acerta,
+Que mal coelles poderâ ter conta,
+A quieta inocencia, em ſo Deos pronta.
+
+Mas aquelles auaros Catuais,
+Que o Gentilico pouo gouernauão,
+Induzidos das gentes infernais,
+O Portugues deſpacho dilatauão:
+Mas o Gama, que não pretende mais,
+De tudo quanto os Mouros ordenauão,
+Que leuar a ſeu Rei hum ſinal certo
+Do mundo, que deixa deſcuberto.
+
+Nisto trabalha ſo, quem bem ſabia
+Que deſpois que leuaſſe esta certeza,
+Armas, & naos, & gentes mandaria
+Manoel, que exercita a ſumma alteza,
+Com que a ſeu jugo & ley ſometeria
+Das terras, & do mar a redondeza,
+Que elle não era mais que hum diligente
+Deſcobridor das terras do Oriente.
+
+Fallar ao Rei Gentio determina,
+Porque com ſeu deſpacho ſe tornaſſe,
+Que ja ſentia em tudo da malina
+Gente impedirſe quanto delejaſſe:
+O Rei que da noticia falſa, & indina
+Nam era deſpantar ſe ſespantaſſe,
+Que tam credulo era em ſeus agouros,
+E mais ſendo affirmados pelos Mouros.
+
+Eſte temor lhe esfria o baixo peito:
+Por outra parte a força da cobiça,
+A quem por natureza eſtâ ſugeito,
+Hum deſejo immortal lhe acende, & atiça:
+Que bem vê que grandiſsimo proueito
+Farâ ſe com verdade, & com juſtiça
+O contrato fizer por longos annos,
+Que lhe comete o Rei dos Luſitanos.
+
+Sobre iſto nos conſelhos que tomaua,
+Achaua muy contrarios pareceres,
+Que naquelles, com quem ſe aconſelhaua,
+Executa o dinheiro ſeus poderes:
+O grande Capitão chamar mandaua,
+A quem chegado diſſe, ſe quiſeres
+Confeſſarme a verdade limpa, & nua,
+Perdão alcançaras da culpa tua.
+
+Eu ſou bem informado, que a embaxada
+Que de teu Rei me deste, que he fingida:
+Porque nem tu tẽs Rei, nem patria amada,
+Mas vagabundo vas paſſando a vida:
+Que quem da Hiſperia vltima alongada
+Rei, ou ſenhor de inſania deſmedida,
+Ha de vir cometer com naos, & frotas
+Tam incertas viagẽs, & remotas?
+
+E ſe de grandes Reinos poderoſos,
+O teu Rei tem a regia majestade,
+Que preſentes me trazes valeroſos,
+Sinais de tua incognita verdade:
+Com peças & dões altos ſumptuoſos
+Se lia dos Reis altos a amizade:
+Que ſinal nem penhor não he baſtante,
+A palauras dum vago nauegante.
+
+Se por ventura vindes deſterrados,
+Como ja foram homẽs dalta ſorte,
+Em meu Reino ſereis agaſalhados,
+Que toda a terra he patria pera o forte:
+Ou ſe piratas ſois ao mar vſados,
+Dizeimo ſem temor de infamia, ou morte:
+Que por ſe ſustentar em toda idade,
+Tudo faz a vital neceſsidade.
+
+Iſto aſsi dito, o Gama que ja tinha
+Suspeitas das inſidias que ordenaua
+O Mahometico odio, donde vinha
+Aquillo que tam mal o Rei cuidaua:
+Cũa alta confianca, que conuinha,
+Com que ſeguro credito alcançaua,
+Que Venus Acidalia lhe influia,
+Tais palauras do ſabio peito abria.
+
+Se os antigos delitos, que a malicia
+Humana cometeo na priſca idade,
+Nam cauſaram, que o vaſo da niquicia,
+Açoute tão cruel da Chriſtandade,
+Viera por perpetua inimicicia
+Na geraçam de Adão, co a falſidade
+O poderoſo Rei da torpe ſeita,
+Nam conceberas tu tam mâ ſoſpeita.
+
+Mas porque nenhumb grande bem ſe alcança
+Sem grandes opreſsões, & em todo o feyto
+Segue o temor os paſſos da eſperança,
+Que em ſuor viue ſempre de ſeu peyto,
+Me moſtras tu tão pouca confiança
+Deſta minha verdade: ſem reſpeyto
+Das razões em contrario que acharias
+Senão creſſes a quem não crer deuias.
+
+Porque ſe eu de rapinas ſo viueſſe
+Vndiuago, ou da patria desterrado,
+Como cres que tão longe me vieſſe,
+Buſcar aſſento incognito & apartado?
+Porque eſperanças, ou porque intereſſe,
+Viria eſprimentando o mar yrado,
+Os Antarticos frios, & os ardores
+Que ſofrem do Carneyro os moradores?
+
+Se com grandes preſentes dalta eſtima
+O credito me pedes do que digo,
+Eu não vim mais q̃ a achar o estranho Clima
+Onde a natura pos teu Reyno antigo:
+Mas ſe a Fortuna tanto me ſublima,
+Que eu torne à minha patria, & Reino amigo
+Então verâs o dom ſoberbo & rico
+Com que minha tornada certifico.
+
+Se te pareçe inopinado feito,
+Que Rei da vltima Hisperia ati me mande,
+O coraçam ſublime, o regio peito,
+Nenhum caſo poſsibil tem por grande.
+Bem pareçe que o nobre & gram conceito
+Do Luſitano eſpirito demande
+Maior credito, & fe de mais alteza,
+Que crea delle tanta fortaleza.
+
+Sabe que ha muitos annos, que os antigos
+Reis noſſos firmemente propuſerão
+De vencer os trabathos, & perigos,
+Que ſempre âs grandes couſas ſe opuſerão
+E deſcobrindo os mares inimigos
+Do quieto deſcanſo, pretenderão
+De ſaber que fim tinhão, & onde estauão
+As derradeiras praias que lauauão.
+
+Conceito digno foi do ramo claro
+Do venturoſo Rei, que arou primeiro
+O mar, por yr deitar do ninho caro
+O morador de Abila derradeiro:
+Eſte por ſua induſtria, & engenho raro,
+Num madeiro ajuntando outro madeiro,
+Deſcobrir pode a parte, que faz clara
+De Argos, da Ydra a luz, da Lebre, e da Ara.
+
+Creſcendo cos ſucceſſos bons primeyros
+No peyto as ouſadias, deſcobrirão
+Pouco & pouco caminhos eſtrangeyros,
+Que hũs ſuccedendo aos outros proſeguirão:
+De Affrica os moradores derradeyros
+Austrais, que nunca as ſete flammas virão,
+Forão viſtos de nos, atras deyxando
+Quantos eſtão os Tropicos queymando.
+
+Aſsi com firme peyto, & com tamanho
+Propoſito vencemos à Fortuna,
+Ate que nos no teu terreno eſtranho
+Viemos pôr a vltima coluna:
+Rompendo a força do liquido Eſtanho
+Da tempeſtade horrifica, & importuna
+Ati chegamos, de quem ſo queremos
+ſinal, que ao noſſo Rey de ti leuemos.
+
+Eſta he a verdade Rey, que não faria
+Por tão incerto bem, tão fraco premio
+Qual, não ſendo isto aſsi, eſperar podia,
+Tão lango tão fingido, & vão proemio:
+Mas antes deſcanſar me deyxaria
+No nunca deſcanſado & fero gremio
+Da madre Thetis, qual pirata inico
+Dos trabalhos alheyos feyto rico.
+
+Aſsi que ô Rey, ſe minha grão verdade
+Tẽs por qual he, ſincera, & não dobrada,
+Ajuntame ao deſpacho breuidade,
+Não me impidas o goſto da tornada:
+E ſe inda te parece falſidade,
+Cuyda bem na razão que eſta prouada,
+Que com claro juyzo pode verſe,
+Que facil he a verdade dentenderſe.
+
+A tento eſtaua o Rey na ſegurança,
+Com que prouaua o Gama o que dezia,
+Concebe delle certa confiança,
+Credito firme, em quanto proferia,
+Pondera, das palauras ha abastança,
+Iulga na autoridade grão valia,
+Começa de julgar por enganados
+Os Catuais currutos, mal julgados.
+
+Iuntamente a cobiça do proueyto,
+Que eſpera do contrato Luſitano,
+O faz obedecer, & ter reſpeyto,
+Co Capitão, & não co Mauro engano:
+Enfim ao Gama manda, que direyto
+Aas naos ſe vâ, & ſeguro dalgum dano
+Poſſa a terra mandar qualquer fazenda,
+Que pela eſpeciaria troque, & venda.
+
+Que manda da fazenda enfim lhe manda,
+Que nos Reynos Gangeticos faleça,
+Salgũa traz idonea la da banda
+Donde a terra ſe acaba, & o mar começa.
+Iâ da Real preſença veneranda
+Se parte o Capitão, pera onde peça
+Ao Catual, que delle tinha cargo
+Embarcação, que a ſua eſta de largo.
+
+Embarcação que o leue aas naos lbe pede:
+Mas o mao Regedor, que nouos laços
+Lhe machinaua, nada lhe concede,
+Interponda tardanças & embaraços:
+Coelle parte ao caes, porque o arrede
+Longe quanto poder dos regios paços,
+Onde, ſem que ſeu Rei tenha noticia,
+Faça o que lhe inſinar ſua malicia.
+
+La bem longe lhe diz, que lhe daria
+Embarcaçam bastante, em que partiſſe,
+Ou que pera a luz craſtina do dia
+Futuro, ſua partida diffiriſſe:
+Ia com tantas tardanças entendia
+O Gama, que o Gentio conſentiſſe
+Na ma tençam dos Mouros, torpe & fera,
+O que delle ate li nam entendêra:
+
+Era este Catual, hum dos que estauão
+Corrutos pela Maumetana gente,
+O principal por quem ſe gouernauão
+As cidades do Samorim potente:
+Delle ſomente os Mouros eſperauão
+Efeyto a ſeus enganos torpemente,
+Elle, que no concerto vil conſpira
+De ſuas eſperanças nam delira.
+
+O Gama com inſtancia lhe requere
+Que o mande por nas naos, & não lhe val,
+E que aſsi lho mandàra, lhe refere,
+O nobre ſucceſſor de Perimal:
+Porque razão lhe empede & lhe difere
+A fazenda trazer de Portugal,
+Pois aquillo que os Reis ja tem mandado
+Nam pode ſer por outrem derrogado?
+
+Pouco obedece o Catual corruto
+A tais palauras, antes reuoluendo
+Na fantaſia algum ſutil, & aſtuto
+Engano diabolico, & eſtupendo,
+Ou como banhar poſſa o ferro bruto
+No ſangue auorrecido, eſtaua vendo,
+Ou como as naos em fogo lhe abraſaſſe,
+Porque nenhũa aa patria mais tornaſſe.
+
+Que nenhum torne aa patria ſo pretende
+O conſelho infernal dos Maumetanos,
+Porque nam ſaiba nunca onde ſe eſtende
+Aterra Eoa o Rei dos Luſitanos:
+Não parte o Gama em fim, que lho defende
+O Regedor dos barbaros profanos,
+Nem ſem licença ſua yrſe podia,
+Que as almâdias todas lhe tolhia.
+
+Aos brados & razões do Capitão,
+Responde o Idolatra, que mandaſſe
+Chegar aa terra as naos, que longe eſtão,
+Porque milhor dali foſſe, & tornaſſe:
+Sinal he de inimigo, & de ladrão,
+Que la tam longe a frota ſe alargaſſe,
+Lhe diz, porque do certo & fido amigo
+He nam temer do ſeu nenhum perigo.
+
+Nestas palauras o diſcreto Gama
+Enxerga bem, que as naos deſeja perto
+O Catual, porque com ferro, & flama
+Lhas aſſalte, por odio deſcuberto:
+Em varios penſamentos ſe derrama:
+Fantaſiando eſtâ remedio certo,
+Que deſſe a quanto mal ſe lhe ordenaua
+Tudo temia, tudo em fim cuidaua.
+
+Qual o reflexo lume do polido
+Eſpelho de aço, ou de cristal fermoſo,
+Que do rayo ſolar ſendo ferido,
+Vai ferir noutra parte luminoſo,
+E ſendo da oucioſa mão mouido
+Pela caſa do moço curioſo,
+Anda pelas paredes, & telhado,
+Tremulo, aqui & ali, & deſſoſſegado.
+
+Tal o vago juyzo fluctuaua
+Do Gama preſo, quando lhe lembrara
+Coelho, ſe por caſo o eſparaua
+Na praia cos bateis, como ordenara:
+Logo ſecretamente lhe mandaua,
+Que ſe tornaſſe aa frota, que deixâra,
+Nam foſſe ſalteado dos enganos,
+Que eſperaua, dos feros Maumetanos.
+
+Tal ha de ſer, quem quer co dom de Marte
+Imitar os illuſtres, & igoalalos.
+Voar co penſamento a toda parte,
+Adiuinhar pirigos, & euitallos:
+Com militar engenho, & ſutil arte
+Entender os imigos, & enganalos,
+Crer tudo em fim, que nunca louuarey
+O Capitão que diga, não cuidey.
+
+Inſiste o Malabar em telo preſo,
+Senão manda chegar a terra a armada,
+Elle conſtante, & de yra nobre aceſo,
+Os ameaços ſeus nam teme nada:
+Que antes quer ſobre ſi tomar o peſo,
+De quanto mal a vil malicia ouſada
+Lhe andar armando, que por em ventura
+A frota de ſeu Rei, que tem ſegura.
+
+Aquella noite eſteue ali detido,
+E parte do outro dia, quando ordena
+De ſe tornar ao Rei. mas impedido
+Foi da guarda que tinha não pequena:
+Comete lhe o Gentio outro partido,
+Temendo de ſeu Rei castigo, ou pena,
+Se ſabe esta malicia, a qual aſinha
+Saberâ, ſe mais tempo ali o detinha.
+
+Diz lhe que mande vir toda á fazenda
+Vendibil, que trazia, pera a terra,
+Pera que de vagar ſe troque, & venda,
+Que quem nam quer comercio, buſca guerra:
+Posto que os maos prepoſitos entenda
+O Gama, que o danado peito encerra,
+Conſente, porque ſabe por verdade,
+Que compra co a fazenda a liberdade.
+
+Concertã ſe que o negro mande dar,
+Embarcações idoneas com que venha,
+Que os ſeus bateis não quer auenturar,
+Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha:
+Partem as almàdias a buſcar
+Mercadoria Hispana, que conuenha,
+Eſcreue a ſeu yrmão, que lhe mandaſſe
+A fazenda, com que ſe reſgataſſe.
+
+Vem a fazenda a terra, aonde logo
+A agaſalhou o iffame Catual:
+Coella ficam Aluaro & Diogo,
+Que a podeſſem vender pelo que val,
+Se mais que obrigação, que mando & rogo
+No peito vil o premio pode, & val,
+Bem o moſtra o Gentio a quem o entenda,
+Pois o Gama ſoltou pela fazenda.
+
+Por ella o ſolta, crendo que ali tinha
+Penhor baſtante, donde recebeſſe
+Intereſſe maior do que lhe vinha,
+Se o Capitão mais tempo detiueſſe:
+Elle vendo que ja lhe nam conuinha
+Tornar a terra, porque nam podeſſe
+Ser mais retido, ſendo aas naos chegado
+Nellas eſtar ſe deixa deſcanſado.
+
+Nas naos estar ſe deyxa vagaroſo,
+Atê ver o que o tempo lhe deſcobre,
+Que não ſe fia ja do cobiçoſo
+Regedor corrompido, & poauco nobre.
+Veja agora o juyzo curioſo
+Quanto no rico, aſsi como no pobre
+Pode o vil intereſſe & ſede imiga
+Do dinheyro, que a tudo nos obriga.
+
+A Polidoro mata o Rey Treicio,
+Sò por ficar ſenhor do grão teſouro:
+Entra, pelo fortiſsimo edificio,
+Com a filha de Acriſo a chuua douro:
+Pode tanto em Tarpeia auaro vicio,
+Que a troco do metal luzente, & louro,
+Entrega aos inimigos a alta torre,
+Do qual quaſi afogada empago morre.
+
+Eſte rende munidas fortalezas,
+Faz tredoros, & falſos os amigos,
+Eſte a mais nobres faz fazer vilezas,
+E entrega Capitães aos inimigos:
+Este corrompe virginais purezas,
+Sem temer de honra, ou fama algũs perigos,
+Eſte depraua as vezes âs ciencias,
+Os juyzos cegando, & as conſciencias.
+
+Eſte interpreta mais que ſutilmente
+Os textos. eſte faz & desfaz leis:
+Eſte cauſa os perjurios entre a gente:
+E mil vezes tirânos torna os Reis.
+A te os que ſo a Deos omnipotente
+Se dedicão, mil vezes ouuireis,
+Que corrompe eſte encantador, & illude:
+Mas não ſem cor com tudo de virtude.
+
+F I M.
+
+
+
+❧ Canto Nono.
+
+Tiuerão longamen-
+te na cidade
+Sem vender ſe a fazenda os do-
+us feitores,
+Que os infieis por manha, & falſidade
+Fazem, que nam lha comprem mercadores,
+Que todo ſeu propoſito, & vontade
+Era, deter ali os deſcubridores
+Da India, tanto tempo que vieſſem
+De Meca as naos, que as ſuas desfizeſſem.
+
+La no ſeio Eritreo, onde fundada
+Arſinoe foi do Fgipcio Ptholomeo,
+Do nome da irmã ſua aſsi chamada,
+Que deſpois em Suez ſe conuerteo,
+Não longe, o porto jaz da nomeada
+Cidade Meca, que ſe engrandeceo
+Com a ſuperstiçam falſa, & profana,
+Da relegioſa agoa Maumetana.
+
+Gidâ ſe chama o porto, aonde o trato
+De todo o roxo mar mais florecia,
+De que tinha proueito grande, & grato
+O Soldão que eſſe Reino poſſuia:
+Daqui aos Malabares, por contrato
+Dos infieis, fermoſa companhia
+De grandes naos, pelo Indico Oceano,
+Eſpeciaria vem buſcar cada anno.
+
+Por eſtas naos os Mouros eſperauão,
+Que como foſſem grandes & poſſantes
+Aquellas, que o comerçio lhe tomauão,
+Com flamas abraſaſſem crepitantes:
+Neſte ſocorro tanto confiauão,
+Que ja nam querem mais dos nauegantes,
+Se nam que tanto tempo ali tardaſſem,
+Que da famoſa Meca as naos chegaſſem.
+
+Mas o Gouernador dos ceos, & gentes,
+Que pera quanto tem determinado,
+De longe os meios dâ conuenientes,
+Por onde vem a effeito o fim fadado,
+Influio piadoſos accidentes
+De affeiçam em Monçaide, que guardado
+Estaua pera dar ao Gama auiſo,
+E merecer por iſſo o Paraiſo.
+
+Eſte de quem ſe os Mouros não guardauão,
+Por ſer Mouro como elles, antes era
+Participante em quanto machinauão,
+A tençam lhe deſcobre torpe, & fera:
+Muitas vezes as naos que longe eſtauão
+Viſita, & com piedade conſidera
+O dano, ſem razão, que ſe lhe ordena,
+Pela maligna gente Sarracena.
+
+Informa o cauto Gama das armadas,
+Que de Arabica Meca vem cadano,
+Que agora ſam dos ſeus tam deſejadas,
+Pera ſer inſtrumento deſte dano:
+Diz lhe que vem de gente carregadas,
+E dos trouões horrendos de Vulcano,
+E que pode ſer dellas opremido,
+Segundo eſtaua mal apercebido.
+
+O Gama que tambem conſideraua
+O tempo, que pera a partida o chama,
+E que deſpacho ja não eſparaua
+Milhor do Rei, que os Maumetanos ama:
+Aos feitores, que em terra eſtão, mandaua
+Que ſe tornem aas naos: & porque a fama
+Deſta ſubita vinda os não impida,
+Lhe manda que a fizeſſem eſcondida.
+
+Porem não tardou muito, que voando
+Hum rumor nam ſoaſſe com verdade,
+Que forão preſos os feitores, quando
+Foram ſentidos virſe da cidade:
+Eſta fama as orelhas penetrando
+Do ſabio capitão, com breuidade
+Faz repreſaria nũs, que aas naos vierão,
+A vender pedraria que trouxerão.
+
+Eram eſtes antigos mercadores
+Ricos em Calecu, & conhecidos
+Da falta delles, logo entre os milhores
+Sentido foi, que eſtão no mar retidos:
+Mas ja nas naos os bõs trabalhadores,
+Voluem o cabrestante, & repartidos
+Pelo trabalho, hũs puxão pela amarra,
+Outros quebrão co peito duro a barra.
+
+Outros pendem da verga, & ja deſatão
+A vella, que com grita ſe ſoltaua,
+Quando com maior grita ao Rei relatão
+A preſſa, com que a armada ſe leuaua:
+As molheres & filhos, que ſe matão
+Daquelles que vão preſos, onde eſtaua
+O Samorim, ſe aqueixão que perdidos
+Hũs tem os pais, as outras os maridos.
+
+Manda logo os feitores Luſitanos
+Com toda ſua fazenda liuremente,
+A peſar dos imigos Maumetanos,
+Porque lhe torne a ſua preſa gente:
+Deſculpas manda o Rei de ſeus enganos,
+Recebe o Capitão de melhormente
+Os preſos, que as deſculpas, & tornando
+Algũs negros, ſe parte as vellas dando.
+
+Parteſe coſta abaxo, porque entende
+Que em vão co Rei gentio trabalhaua,
+Em querer delle paz, a qual pretende
+Por firmar o comercio que trataua:
+Mas como aquella terra que ſe estende
+Pela Aurora, ſabida ja deixaua,
+Com eſtas nouas torna aa patria cara,
+Certos ſinais leuando do que achara.
+
+Leua algũs Malabares, que tomou
+Per força, dos que o Samorim mandâra,
+Quando os preſos feitores lhe tornou:
+Leua pimenta ardente que compràra:
+A ſeca flor de Banda não ficou,
+A Noz, & o negro crauo, que faz clara
+A noua ilha Maluco, coa canella,
+Com que Ceilão he rica illustre & bella.
+
+Isto tudo lhe ouuera a deligencia
+De Monçaide fiel, que tambem leua,
+Que inſpirado de Angelica influencia,
+Quer no liuro de Chriſto que ſe eſcreua,
+O ditoſo .Affricano, que a clemencia
+Diuina aſsi tirou deſcura treua,
+E tam longe da patria achou maneira,
+Pera ſubir aa patria verdadeira.
+
+Apartadas aſsi da ardente costa,
+As venturoſas naos, leuando a proa
+Pera onde a natureza tinha poſta
+A Meta Austrina da eſparança boa,
+Leuando alegres nouas & repoſta,
+Da parte Oriental pera Lisboa,
+Outra vez cometendo os duros medos
+Do mar incerto, temidos & ledos.
+
+O prazer de chegar aa patria cara,
+A ſeus penates caros & parentes,
+Pera contar a peregrina, & rara
+Nauegaçam, os varios çeos, & gentes,
+Vir a lograr o premio, que ganhàra
+Por tão longos trabalhos, & accidentes,
+Cada hum, tem por goſto tam perfeito,
+Que o coração para elle he vaſo eſtreito.
+
+Porem a Deoſa Cipria, que ordenada
+Era pera fauor dos Luſitanos
+Do Padre eterno, & por bom genio dada
+Que ſempre os guia ja de longos annos.
+A gloria por trabalhos alcançada,
+Satisfação de bem ſofridos danos,
+Lhe andaua ja ordenando, & pretendia
+Darlhe nos mares tristes alegria.
+
+Deſpois de ter hum pouco reuoluido
+Na mente, o largo mar que nauegârão,
+Os trabalhos, que pelo Deos naſcido,
+Nas Amphioneas Thebas, ſe cauſarão,
+Ia trazia de longe no ſentido,
+Pera premio de quanto mal paſſarão,
+Buſcarlhe algum deleite, algum deſcanſo
+No Reino de criſtal liquida, & manſo.
+
+Algum repouſo em fim, com que podeſſe
+Refucilar a laſſa humanidade
+Dos nauegantes ſeus, como intereſſe
+Do trabalho, que incurta a breue idade:
+Parecelhe razão que conta deſſe
+A ſeu filho, por cuja poteſtade
+Os Deoſes faz decer ao vil terreno,
+E os humanos ſubir ao ceo ſereno.
+
+Iſto bem reuoluido, determina
+De terlhe aparelhada la no meio
+Das agoas, algũa inſula diuina,
+Ornada deſmaltado & verde arreio:
+Que muitas tem no reino, que confina
+Da primeira co terreno ſeio,
+Afora as que paſſue ſoberanas,
+Pera dentro das portas Herculanas.
+
+Ali quer que as aquaticas donzellas,
+Eſperem os fortiſsimos barões,
+Todas as que tem titolo de bellas,
+Gloria dos olhos, dor dos corações,
+Com danças, & coreas, porque nellas
+Influirâ ſecretas affeições,
+Pera com mais vontade trabalharem
+De contentar a quem ſe affeiçoarem.
+
+Tal manha buſcou ja, pera que aquelle
+Que de Achiſes pario, bem recebido
+Foſſe no campo que a bouina pelle
+Tomou de eſpaço, por ſutil partido:
+Seu filho vai buſcar, porque ſo nelle
+Tem todo ſeu poder, fero Cupido,
+Que aſsi como naquella empreſa antiga
+A ajudou ja, neſtoutra a ajude & ſiga.
+
+No carro ajunta as aues, que na vida
+Vão da morte as exequias celebrando,
+E aquellas em que ja foi conuertida
+Peristera, as boninas apanhando:
+Em derredor da Deoſa ja partida,
+No ar laſciuos beijos ſe vão dando,
+Ella por onde paſſa o ar, & o vento
+Sereno faz, com brando mouimento.
+
+Ia ſobre os Idalios montes pende,
+Onde o filho frecheiro eſtaua então,
+Ajuntando outros muitos, que pretende
+Fazer hũa famoſa expedição
+Contra o mundo reuelde, porque emende
+Erros grandes, que ha dias nelle eſtão,
+Amando couſas que nos ſorão dadas,
+Nam pera ſer amadas, mas vſadas.
+
+Via Acteon na caça, tam auſtero,
+De cego na alegria bruta, inſana,
+Que por ſeguir hum feo animal fero,
+Foge da gente, & bella forma humana:
+E por caſtigo quer doçe, & ſeuero,
+Maſtra lhe a fermoſura de Diana,
+E guarde ſe nam ſeja inda comido
+Deſſes cães que agora ama, & conſumido.
+
+E vè do mundo todo os principais,
+Que nenhum no bem pubrico imagina,
+Vê nelles, que não tem amor a mais
+Que a ſi ſomente, & a quem Philaucia inſina
+Vê que eſſes que frequentão os reais
+Paços, por verdadeira & ſaã doctrina
+Vendem adulação, que mal conſente
+Mandarſe o nouo trigo florecente.
+
+Vê que aquelles que deuem aa pobreza
+Amor diuino, & ao pouo charidade,
+Amão ſomente mandos, & riqueza,
+Simulãdo juſtiça, & integridade:
+Da fea tyrania & de aſpereza
+Fazem direito, & vaã ſeueridade:
+Leis em fauor do Rei ſe estabelecem,
+As em fauor do pouo ſo perecem.
+
+Vê em fim que ninguem ama o que deue,
+Se não o que ſomente mal deſeja,
+Não quer que tanto tempo ſe releue,
+O castigo que duro, & justo ſeja:
+Seus miniſtros ajunta, porque leue
+Exercitos conformes aa peleja,
+Que eſpera ter coa mal regida gente,
+Que lhe não for agora obediente.
+
+Muitos deſtes mininos voadores,
+Eſtão em varias obras trabalhando,
+Hũs amolando ferros paſſadores,
+Outros aſteas de ſetas delgaçando,
+Trabalhando cantando estão de amores,
+Varios caſos em verſo modulando,
+Melodia ſonora, & concertada,
+Suaue a letra, angelica a ſoada.
+
+Nas fragras immortais, onde forjauão,
+Pera as ſetas as pontas penetrantes,
+Por lenha, corações ardendo eſtauão,
+Viuas entranhas inda palpitantes:
+As agoas onde os ferros temperauão,
+Lagrimas ſam de miſeros amantes,
+A viua flama, o nunca morto lume,
+Deſejo he ſo que queima, & não conſume.
+
+Algũs exercitando a mão andauão,
+Nos duros corações da plebe ruda,
+Crebros ſoſpiros pelo ar ſoauão,
+Dos que feridos vão, da ſeta aguda,
+Fermoſas Nimphas ſam, as que curauão
+As chagas recebidas, cuja ajuda
+Não ſomente dâ vida aos mal feridos:
+Mas poem em vida os inda não naſcidos.
+
+Fermoſas ſam algũas, & outras feas,
+Segundo a qualidade for das chagas,
+Que o veneno eſpalhado pelas veas,
+Curão no aas vezes aſperas triagas
+Algũs ficão ligados em cadeas,
+Por palauras ſutis de ſabias Magas,
+Iſto acontece aas vezes quando as ſetas
+Acertão de leuar eruas ſecretas.
+
+Deſtes tiros aſsi deſordenados,
+Que estes moços mal deſtros vão tirando,
+Naſcem amores mil desconcertados,
+Entre o pouo ferido miſerando,
+E tambem nos heroes de altos eſtados,
+Exemplos mil ſe vem de amor nefando,
+Qual o das moças, Bibli, & Cynirea
+Hum mancebo de Aſsiria, hum de Iudea.
+
+E vos ô poderoſo por paſtoras
+Muytas vezes ferido o peyto vedes,
+E por bayxos, & rudos vos ſenhoras
+Tambem vos tomão nas Vulcanias redes,
+Hũs eſperando andais nocturnas horas,
+Outros ſubis telhados & paredes,
+Mas eu creyo que deſte amor indino,
+He mais culpa a da mãy, que a da minino.
+
+Mas ja no verde prado o carro leue,
+Punhão os brancos Ciſnes manſamente,
+E Dione, que as roſas entre a neue
+No rosto traz, decia diligente:
+O frecheiro, que contra o çeo ſe atreue,
+A recebella vem, ledo, & contente,
+Vem todos os cupidos ſeruidores,
+Beijar a mão aa Deoſa dos amores.
+
+Ella porque não gaſte o tempo em vão,
+Nos braços tendo o filho, confiada
+Lhe diz, amado filho, em cuja mão
+Toda minha potencia eſtà fundada:
+Filho em quem minhas forças ſempre eſtão,
+Tu que as armas Tifeas tẽs em nada,
+A ſocorrer me a tua poteſtade,
+Me traz eſpecial neceſsidade.
+
+Bem ves as Luſitanicas fadigas,
+Que eu ja de muito longe fauoreço,
+Porque das Parcas ſey minhas amigas,
+Que me ande venerar & ter em preço,
+E porque tanto imitão as antigas
+Obras de meus Romanos, me offereço
+A lhe dar tanta ajuda em quanto poſſo,
+A quanto ſe estender o poder noſſo.
+
+E porque das inſidias do odioſo
+Baco foram na India moleſtados,
+E das injurias ſos do mar vndoſo,
+Poderão mais ſer mortos, que canſados:
+No mesmo mar, que ſempre temeroſo
+Lhe foi, quero que ſejão repouſados,
+Tomando aquelle premio, & doçe gloria
+Do trabalho que faz clara a memoria.
+
+E pera iſſo queria que feridas
+As filhas de Nereo, no ponto fundo,
+Da mor dos Luſitanos encendidas,
+Que vem de deſcobrir o nouo mundo,
+Todas nũa ilha juntas & ſubidas,
+Ilha que nas entranhas do profundo
+Oceano, terei aparelhada,
+De dões de Flora, & Zefiro adornada.
+
+Ali com mil refreſcos & manjares,
+Com vinhos odoriferos, & roſas,
+Em criſtalinos paços ſingulares,
+Fermoſos leitos, & ellas mais fermoſas:
+Em fim com mil deleites não vulgares,
+Os eſperem as Nimphas amoroſas,
+Damor feridas, pera lhe entregarem
+Quanto dellas os olhos cobiçarem.
+
+Quero que aja no reino Neptunino
+Onde eu naſci, progenie forte & bella,
+E tome exemplo o mundo vil, malino,
+Que contra tua potencia ſe reuela,
+Porque entendão que muro Adamantino,
+Nem triste hypocreſia val contra ella:
+Mal auerâ na terra quem ſe guarde,
+Se teu fogo imortal nas agoas arde.
+
+Aſsi Venus propos, & o filho inico
+Pera lhe obedecer ja ſe apercebe,
+Manda trazer o arco eburneo rico,
+Onde as ſetas de ponta de ouro embebe:
+Com geſto ledo a Cipria, & impudico,
+Dentro no carro o filho ſeu recebe,
+Ha redea larga aas aues, cujo canto
+Ha Phaetontea morte chorou tanto.
+
+Mas diz Cupido, que era neceſſaria
+Hũa famoſa, & celebre terceyra,
+Que poſto que mil vezes lhe he contraria,
+Outras muytas ha tem por companheyra:
+A Deoſa Gigantea temeraria,
+Iactante, mintiroſa, & verdadeyra,
+Que com cem olhos ve, & por onde voa
+O que vè com mil bocas apregoa.
+
+Vão a buſcar, & mandam a diante,
+Que celebrando va com tuba clara,
+Os louuores da gente nauegante,
+Mais do que nunca os doutrem celebrara
+Ia murmurando a fama penetrante
+Pelas fundas cauernas ſe eſpalhàra,
+Fala verdade, a vida por verdade,
+Que junto a Deoſa traz Credulidade.
+
+O louuor grande, o rumor excellente
+No coração dos Deoſes, que indinados
+Forão por Baco contra a illuſtre gente,
+Mudando os fez hum pouco afeyçoados:
+O peyto feminil, que leuemente
+Muda quaeſquer propafitos tomados,
+Ia julga por mao zelo, & por crueza
+Deſejar mal a tanta fortaleza.
+
+Deſpede niſto o fero moço as ſetas
+Hũa apos outra, geme o mar cos tiros,
+Dereitas pelas ondas inquietas,
+Algũas vão, & algũas fazem giros:
+Caem as Nimphas, lançam das ſecretas
+Entranhas ardentiſsimos ſoſpiros,
+Cae qualquer, ſem ver o vulto que ama,
+Que tanto como a vista pode a fama.
+
+Os cornos ajuntou da eburnea Lũa,
+Com força o moço indomito exceſsiua,
+Que Thetis quer ferir mais que nenhũa,
+Porque mais que nenhũa lhe era eſquiua:
+Ia não fica na aljaua ſeta algũa,
+Nem nos equoreos campos Nimpha viua,
+E ſe feridas inda eſtão viuendo,
+Sera pera ſentir que vão morrendo.
+
+Day lugar altas & ceruleas ondas,
+Que vedes Venus traz a medicina,
+Moſtrando as brancas vellas, & redondas,
+Que vem por cima da agoa Neptunina:
+Pera que tu reciproco reſpondas
+Ardente Amor aa flama feminina,
+He forçado que a pudicicia honesta
+Faça quanto lhe Venus amoeſta.
+
+Ia todo o bello coro ſe aparelha
+Das Nereidas, & junto caminhaua
+Em coreas gentis, vſança velha,
+Pera a ilha, a que Venus as guiaua:
+Ali a fermoſa Deoſa lhe aconſelha
+O que ella fez mil vezes, quando amaua,
+Ellas que vão do doçe amor vencidas,
+Eſtão a ſeu conſelho offerecidas.
+
+Cortando vão as naos a larga via
+Do mar ingente, pera a patria amada,
+Deſejando prouerſe de agoa fria,
+Pera a grande viajem prolongada:
+Quando juntas com ſubita alegria,
+Ouuerão vista da ilha namorada,
+Rompendo pelo çeo a mãi fermoſa
+De Menonio, ſuaue & deleitoſa.
+
+De longe a Ilha virão freſca, & bella,
+Que Venus pelas ondas lha leuaua
+(Bem como o vento leua branca vella)
+Pera onde a forte armada ſe enxergaua,
+Que porque não paſſaſſem, ſem que nella
+Tomaſſem porto, como deſejaua,
+Pera onde as naos nauegão a mouia
+A Accidalia, que tudo em fim podia.
+
+Mas firme a fez & imobil, como vio
+Que era dos Nautas viſta, & demandada,
+Qual ficou Delos, tanto que pario
+Latona Phebo, & a Deoſa aa caça vſada
+Pera la logo a proa o mar abrio,
+Onde a coſta fazia hũa enſeada
+Curua, & quieta, cuja branca area
+Pintou de ruiuas conchas Cyterea.
+
+Tres fermoſos outeiros ſe moſtrauão,
+Erguidos com ſoberba gracioſa,
+Que de gramineo eſmalte ſe adornauão,
+Na fermoſa ilha alegre, & deleitoſa:
+Claras fontes & limpidas manauão
+Do cume, que a verdura tem viçoſa,
+Por entre pedras aluas ſe diriua,
+A ſonoroſa Limpha fugitiua.
+
+Num valle ameno, que os outeiros fende,
+Vinhão as claras agoas ajuntarſe,
+Onde hũa meſa fazem, que ſe estende
+Tam bella, quanto pode imaginarſe:
+Aruoredo gentil ſobre ella pende,
+Como que prompto estâ pera afeitarſe,
+Vendoſe no cristal reſplandecente,
+Que em ſi o eſtâ pintando propriamente:
+
+Mil aruores eſtão ao çeo ſubindo,
+Com pomos odoriferos & bellos,
+A Laranjeira tem no fruito lindo
+A cor, que tinha Daphne nos cabellos.
+Encoſtaſe no chão, que eſtà caindo
+A Cidreira cos peſos amarellos,
+Os fermoſos limoẽs ali cheirando
+Eſtam virgineas tetas imitando.
+
+As aruores agreſtes, que os outeiros
+Tem com frondente coma emnobrecidos
+Alemos ſam de Alcides, & os Loureiros
+Do louro Deos amados, & queridos:
+Mirtos de Cyterea, cos Pinheiros
+De Cybele por outro amor vencidos,
+Estâ apontando o agudo Cipariſo
+Pera onde he poſto o Etereo paraiſo.
+
+Os dões que dâ Pomona, ali natura
+Produze diferentes nos ſabores,
+Sem ter neceſsidade de cultura,
+Que ſem ella ſe dão muito milhores.
+As Cereijas porpureas na pintura,
+As Amoras, que o nome tem de amores,
+O pomo, que da patria Perſia veio,
+Milhor tornado no terreno alheio.
+
+Abre a Romã, mostrando a rubicunda
+Cor, com que tu Rubi teu preço perdes:
+Entre os braços do Vlmeiro eſtâ a jocunda
+Vide, cũs cachos roxos, & outros verdes:
+E vos ſe na voſſa aruore fecunda
+Peras pyramidais viuer quiſerdes,
+Entregaiuos ao dano, que cos bicos,
+Em vos fazem os paſſaros inicos.
+
+Pois a tapeçaria bella & fina,
+Com que ſe cobre a ruſtico terreno,
+Faz ſer a de Achemenia menos dina:
+Mas o ſombrio valle mais ameno:
+Ali a cabeça o flor Cyfiſia inclina,
+Sobollo tanque lucido & ſereno,
+Floreçe o filho & neto de Cyniras,
+Por quem tu Deoſa Paphia inda ſuspiras.
+
+Pera julgar dificil couſa fora,
+No çeo vendo, & na terra as meſmas cores,
+Se daua aas flores cor a bella Aurora,
+Ou ſe lha dam a ella as bellas flores:
+Pintando eſtaua ali Zefiro, & Flora
+As violas da cor dos amadores,
+O Lirio roxo, a freſca Roſa bella,
+Qual reluze nas faces da donzella.
+
+A candida Cecêm das Matutinas
+Lagrimas ruciada, & a Manjarona,
+Venſe as letras nas flores Hyacintinas,
+Vem queridas do filho de Latona:
+Bem ſe enxerga nos pomos & boninas,
+Que competia Cloris com Pomona:
+Pois ſe as aues no ar cantando voão,
+Alegres animais o chão pouoão.
+
+A longo da agoa o niueo Ciſne canta,
+Responde lhe do ramo Philomela,
+Da ſombra de ſeus cornos nam ſe eſpanta
+Acteon nagoa criſtalina & bella:
+Aqui a fugace Lebre ſe leuanta
+Da eſpeſſa mata, ou temida Gazella,
+Ali no bico traz ao caro ninho,
+O mantimento ô leue paſſarinho.
+
+Neſta freſcura tal deſembarcauão
+Ia das naos os ſegundos Argonautas,
+Onde pela floresta ſe deixauão
+Andar as bellas Deoſas como incautas,
+Algũas doçes Cytaras tocauão,
+Algũas arpas, & ſonoras frautas,
+Outras cos arcos de ouro ſe fingião
+Seguir os animais, que nam ſeguião.
+
+Aſsi lho aconſelhàra a meſtra experta,
+Que andaſſem pelos campos eſpalhadas,
+Que vista dos barões a preſa incerta,
+Se fizeſſem primeyro deſejadas
+Algũas, que na forma deſcuberta
+Do bello corpo eſtauão confiadas,
+Poſta a artificioſa fermoſura,
+nuas lauarſe deyxão na agoa pura.
+
+Mas os fortes mancebos, que na praya
+Punhão os pes de terra cubiçoſos,
+Que não ha nenhum delles, que não ſaya
+De acharem caça agreſte deſejoſos:
+Não cuydão que ſem laço, ou redes caya
+Caça naquelles montes deleytoſos
+Tão ſuaue, domeſtica, & benina,
+Qual ferida lha tinha ja Ericina.
+
+Algũs que em eſpingardas, & nas beſtas
+Pera ferir os Ceruos ſe fiauão,
+Pelos ſombrios matos, & floreſtas
+Determinadamente ſe lançauão:
+Outros nas ſombras, que de as altas ſeſtas
+Defendem a verdura, paſſeauão
+Ao longo da agoa, que ſuaue, & queda
+Por aluas pedras corre aa praya leda.
+
+Começão de enxergar ſubitamente
+Por entre verdes ramos varias cores,
+Cores de quem a viſta julga, & ſente,
+Que não erão das roſas, ou das flores,
+Mas da lam fina, & ſeda diferente
+Que mais incîta a força dos amores,
+De que ſe vestem as humanas roſas,
+Fazendoſe por arte mais fermoſas.
+
+Da Veloſo eſpantado hum grande grito,
+Senhores caça eſtranha diſſe he eſta,
+Se inda durão o Gentio antigo rito,
+A Deoſas he ſagrada esta floresta:
+Mais deſcobrimos do que humano eſprito
+Deſejou nunca, & bem ſe manifeſta
+Que ſam grandes as couſas, & excellentes
+Que o mundo encobre aos homẽs imprudẽtes.
+
+Sigamos eſtas Deoſas, & vejamos,
+Se fantasticas ſam, ſe verdadeiras,
+Isto dito velloces mais que Gamos,
+Selançam a correr pelas ribeiras:
+Fugindo as Nimphas vão por entre os ramos,
+Mas mais induſtrioſas que ligeiras,
+Pouco & pouco ſurrindo, & gritos dando,
+Se deixão yr dos Galgos alcançando.
+
+De hũa os cabellos de ouro o vento leua
+Correndo, & da outra as fraldas delicadas,
+Acendeſe o deſejo que ſe ceua
+Nas aluas carnes ſubito moſtradas,
+Hũa de industria cae, & ja releua
+Com moſtras mais maſias, que indinadas,
+Que ſobre ella empecendo tambem caia
+Quem a ſeguio pela arenoſa praia.
+
+Outros por outra parte vão topar,
+Com as Deoſas deſpidas, que ſe lauão,
+Ellas começam ſubito a gritar,
+Como que aſſalto tal nam eſperauão,
+Hũas fingindo menos eſtimar
+A vergonha, que a força, ſe lançauão
+Nuas por entre o mato, aos olhos dando
+O que aas mãos cobiçoſas vão negando.
+
+Outra como acudindo mais de preſſa,
+Aa vergonha da Deoſa caçadora,
+Eſconde o corpo nagoa, outra ſe apreſſa
+Por tomar os veſtidos, que tem fora:
+Tal dos mancebos ha, que ſe arremeſſa
+Veſtido aſsi & calçado (que co a mora
+Deſſe deſpir, ha medo que inda tarde)
+A matar na agoa o fogo que nelle arde.
+
+Qual tão de caçador ſagaz, & ardido,
+Vſado a tomar na agoa a aue ferida,
+Vendo roſto o ferreo cano erguido,
+Pera a Garcenha, ou Pata conhecida,
+Antes que ſoe o eſtouro, mal ſofrido
+Salta nagoa, & da preſa nam duuîda,
+Nadando vay & latindo, aſsi o mancebo
+Remete ha que nam era yrmaã de Phebo.
+
+Lionardo ſoldado bem deſpoſto,
+Manhoſo, caualleiro, & namorado,
+A quem amor não dera hum ſo deſgoſto,
+Mas ſempre fora delle mal tratado:
+E tinha ja por firme proſuposto
+Ser com amores mal afortunado,
+Porem não que perdeſſe a eſperança,
+De inda poder ſeu fado ter mudança.
+
+Quis aqui ſua ventura, que corria
+Apos Efire, exemplo de belleza,
+Que mais caro que as outras dar queria,
+O que deu para darſe a natureza,
+Ia canſado correndo lhe dizia.
+O fermoſura indigna de aſpereza,
+Pois desta vida te concedo a palma,
+Eſpera hum corpo de quem leuas a alma.
+
+Todas de correr canſam, Nimpha pura,
+Rendendo ſe aa vontade do inimigo,
+Tu ſo de my ſo foges na eſpeſſura?
+Quem te diſſe que eu era o que te ſigo?
+Se to tem dito ja aquella ventura,
+Que em toda a parte ſempre anda comigo,
+O nam na creas, porque eu quando a cria,
+Mil vezes cada hora me mentia.
+
+Nam canſes, que me canſas: & ſe queres
+Fujirme, porque nam poſſa tocarte,
+Minha ventura he tal, que inda que eſperes
+Ella farâ que nam poſſa alcançarte:
+Eſpera, quero ver, ſe tu quiſeres,
+Que ſutil modo buſca de eſcaparte,
+E notarâs no fim deſte ſucceſſo,
+Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.
+
+O não me fujas, aſsi nunca o breue
+Tempo fuja de tua fermoſura,
+Que ſo com refrear o paſſo leue,
+Vencerâs da fortuna a força dura:
+Que Emperador, que exercito ſe atreue.
+A quebrantar a furia da ventura,
+Que em quanto deſejey me vai ſeguindo,
+O que tu ſo faras nam me fugindo?
+
+Põeste da parte da desdita minha?
+Fraqueza he dar ajuda ao mais potente:
+Leuas me hum coração, que liure tinha?
+Solta mo, & corroras mais leuemente.
+Não te carrega eſſa alma tam mezquinha,
+Que neſſes fios de ouro reluzente
+Atada leuas? ou deſpois de preſa
+Lhe mudaſte a ventura, & menos peſa?
+
+Neſta eſperança ſo te vou ſeguindo,
+Que ou tu nam ſofrerâs o peſo della,
+Ou na virtude de teu gesto lindo,
+Lhe mudarâs a triste & dura eſtrella.
+E ſe ſe lhe mudar, nam vas fugindo,
+Que Amor te ferirà, gentil donzella,
+E tu me eſperarâs, ſe Amor te fere,
+E ſe me eſperas, não ha mais que eſpere.
+
+Ia nam fugia a bella Nimpha, tanto
+Por ſe dar cara ao triste que a ſeguia,
+Como por yr ouuindo o doçe canto,
+As namoradas magoas que dizia:
+Voluendo o roſto ja ſereno & ſancto,
+Toda banhada em riſo, & alegria,
+Cair ſe deixa aos pês do vencedor,
+Que todo ſe desfaz em puro amor.
+
+O que famintos beijos na floreſta,
+E que mimoſo choro que ſoaua,
+Que afagos tam ſuaues, que yra honeſta
+Que em riſinhos alegres ſe tornaua:
+O que mais paſſam na menhã, & na ſesta
+Que Venus com prazeres inflamaua,
+Milhor he eſprimentalo que julgalo,
+Mas julgue o quem nam pode eſprimentalo.
+
+Deſta arte em fim conformes ja as fermoſas
+Nimphas, cos ſeus amados nauegantes,
+Os ornão de capellas deleitoſas,
+De louro, & de ouro, & flores abundantes:
+As mãos aluas lhe dauão como eſpoſas
+Com palauras formais, & eſtipulantes,
+Se prometem eterna companhia
+Em vida & morte, de honra & alegria.
+
+Hũa dellas maior, a quem ſe humilha
+Todo o coro das Nimphas, & obedece,
+Que dizem ſer de Celo & Vesta filha,
+O que no geſto bello ſe parece,
+Enchendo a terra, & o mar de marauilha,
+O Capitão illustre que o mereçe,
+Recebe ali com pompa honeſta, & rêgia,
+Moſtrando ſe ſenhora grande, & egregia.
+
+Que deſpois de lhe ter dito quem era,
+Cum alto exordio de alta graça ornado,
+Dando lhe a entender, que ali viera
+Por alta influiçam do imobil fado,
+Pera lhe deſcobrir da vnida eſphera,
+Da terra immenſa, & mar não nauegado
+Os ſegredos, por alta prophecia,
+O que eſta ſua naçam ſo merecia:
+
+Tomando o pela mão a leua, & guia
+Pera o cume dum monte alto, & diuino,
+No qual hũa rica fabrica ſe erguia
+De criſtal toda, & de ouro puro, & fino:
+A maior parte aqui paſſam do dia
+Em doçes jogos, & em prazer contino,
+Ella nos paços logra ſeus amores,
+As outras pelas ſombras entre as flores.
+
+Aſsi a fermofa, & a forte companhia,
+O dia quaſi todo eſtão paſſando,
+Nãa alma, doçe, incognita alegria,
+O trabalhos tam longos compenſando:
+Porque dos feitos grandes, da ouſadia
+Forte & famoſa, o mundo està guardando
+O premio la no fim bem merecido,
+Com fama grande, & nome alto & ſubido.
+
+Que as Nimphas do Occeano tam fermoſas,
+Thetis & a Ilha angelica pintada,
+Outra couſa nam he, que as deleitoſas
+Honras, que a vida fazem ſublimada:
+Aquellas preminencias glorioſas,
+Os triumphos, a fronte coroada
+De Palma, & Louro, a gloria & marauilha
+Estes ſam os deleites desta Ilha.
+
+Que as immortalidades que fingia
+A antiguidade, que os illuſtres ama,
+La no estellante Olimpo a quem ſubia,
+Sobre as aſas inclitas da fama,
+Por obras valeroſas, que fazia,
+Pelo trabalho immenſo, que ſe chama
+Caminho da virtude alto & fragoſo:
+Mas no fim doçe, alegre, & deleitoſo.
+
+Nam erão ſenão premios, que reparte
+Por feitos imortais & ſoberanos,
+O mundo, cos varões, que esforço & arte
+Diuinos os fizerão, ſendo humanos:
+Que Iupiter, Mercurio, Phebo, & Marte
+Eneas, & Quirino, & os dous Thebanos
+Ceres, Palas, & Iuno, com Diana
+Todos forão de fraca carne humana.
+
+Mas a fama, trombeta de obras tais,
+Lhe deu no mundo nomes tam eſtranhos
+De Deoſes, Semideoſes immortais
+Indigetes, Eroicos, & de Magnos
+Por iſſo, o vos que as famas estimais,
+Se quiſerdes no mundo ſer tamanhos,
+Deſpertai ja do ſono do ocio ignauo,
+Que o animo de liure faz eſcrauo.
+
+E ponde na cobiça hum freio duro,
+E na ambiçam tambem, que indignamente
+Tomais mil vezes, & no torpe & eſcuro
+Vicio da tirania infame, & vrgente:
+Porque eſſas honras vaãs, eſſe ouro puro
+Verdadeiro valor nam dão aa gente,
+Milhor he merecellos, ſem os ter
+Que poſſuilos ſem os mereçer.
+
+Ou day na paz as leis iguais, constantes,
+Que aos grandes não dem o dos pequenos,
+Ou vos veſti nas armas rutilantes,
+Contra a ley dos imigos Sarracenos,
+Fareis os Reinos grandes, & poſſantes
+E todos tereis mais, & nenhum menos
+Poſſuireis riquezas merecidas,
+Com as honras, que illuſtrão tanto as vidas.
+
+E fareis claro o Rei, que tanto amais,
+Agora cos conſelhos bem cuidados,
+Agora co as eſpadas, que immortais
+Vos farão, como os voſſos ja paſſados:
+Impoſsibilidades não façais,
+Que quem quis ſempre pode: & numerados
+Sereis entre os Heroes eſclarecidos,
+E neſta ilha de Venus recebidos.
+
+F I M.
+
+
+
+❧ Canto Decimo
+& vltimo.
+
+Mas ja o claro ama-
+dor da Lariſſea
+Adultera, inclinaua os animais,
+La para o grande lago, que rodea
+Temiſtitão, nos fins Occidentais:
+O grande ardor do Sol Fauonio enfrea,
+Co ſopro, que nos tanques naturais
+Encreſpa a agoa ſerena, & deſpertaua
+Os Lirios, & Iazmins que a calma agraua.
+
+Quando as fermoſas Ninfas cos amantes
+Pella mão ja conformes & contentes,
+Subião pera os paços radiantes,
+E de metais ornados reluzentes:
+Mandados da Rainha, que abundantes
+Meſas, daltos manjares, excelentes,
+Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
+Reſtaurem da canſada natureza.
+
+Ali em cadeiras ricas criſtalinas,
+Se aſſentão, dous & dous, amante & dama,
+Noutras aa cabeceira douro finas,
+Eſtà coa bella Deoſa o claro Gama:
+De ygoarias ſuaues & diuinas
+A quem não chega a Egipcia antiga fama,
+Se acumulão os pratos de fuluo ouro,
+Trazidos la do Atlantico teſouro.
+
+Os vinhos odoriferos, que acima
+Eſtão não ſo do Italico Falerno,
+Mas da Ambroſia, que Ioue tanto eſtima,
+Com todo o ajuntamento ſempiterno:
+Nos vaſos, onde em vão trabalha a lima
+Creſpas eſcumas erguem, que no interno
+Coração mouem ſubita alegria,
+Saltando coa miſtura dagoa fria.
+
+Mil praticas alegres ſe tocauão,
+Rîſos doces, ſutis, & argutos ditos,
+Que entre hũ & outro mãjar ſe aleuantauão
+Deſpertando os alegres apatitos:
+Muſicos instrumentos não faltauão,
+Quais no profundo reyno, os nus eſpritos
+Fizerão deſcanſar da eterna pena,
+Cũa voz dhũa angelica Syrena.
+
+Cantaua a bella Ninfa, & cos acentos
+Que pellos altos paços vão ſoando,
+Em conſonancia ygoal, os inſtromentos
+Suaues vem a hum tempo conformando:
+Hum ſubito ſilencio enfrea os ventos,
+E faz hir docemente murmurando
+As agoas, & nas caſas naturais
+Adormecer os brutos animais.
+
+Com doce voz eſtâ ſubindo ao cco
+Altos varões, que estão por vir ao mundo,
+Cujas claras Ideas via Protheo,
+Num globo vão, diafano, rotundo,
+Que Iupiter em dom lho concedeo
+Em ſonhos, & deſpois no reino fundo
+Vaticinando o diſſe, & na memoria
+Recolheo logo a Ninfa a clara hiſtoria.
+
+Materia he de Coturno, & não de Soco
+A que a Nimpha aprendeo no immenſo lago:
+Qual Yopas não ſoube, ou Demodoco,
+Entre os Pheaces hum, outro em Carthago.
+Aqui minha Caliope te inuoco
+Neste trabalho extremo, porque em pago,
+Me tornes, do q̃ eſcreuo, & em vão pretendo,
+O goſto de eſcreuer, que vou perdendo.
+
+Vão os annos decendo, & ja do Eſtio
+Ha pouco que paſſar ate o Otono,
+A fortuna me faz o engenho frio,
+Do qual ja não me jacto, nem me abono:
+Os deſgoſtos me vão leuando ao rio
+Do negro eſquecimento, & eterno ſono,
+Mas tu me dâ que cumpra, ò grão Rainha
+Das Muſas, cô que quero aa nação minha.
+
+Cantaua a bella Deoſa, que virião
+Do Tejo, pello mar que o Gama abrîra,
+Armadas que as ribeiras vencerião,
+Por onde o Oceano Indico ſoſpira:
+E que os Gentios Reis, que não darião
+A ceruiz ſua ao jugo, o ferro & yra
+Prouarião do braço duro & forte,
+Ate renderſe a elle, ou logo aa morte.
+
+Cantaua dhum que tem nos Malabares
+Do ſumo ſacerdocio a dignidade,
+Que ſo por não quebrar cos ſingulares
+Baroẽs, os nos que dera damizade,
+Sofrerâ ſuas cidades & lugares,
+Com ferro, incendios, ira & crueldade
+Ver deſtruir do Samorim potente:
+Que tais odios terâ coa noua gente.
+
+E canta como la ſe embarcaria
+Em Bellem o remedio deste dano,
+Sem ſaber o que em ſi ao mar traria
+O grão Pacheco, Achiles Luſitano:
+O peſo ſentirão, quando entraria,
+O curuo lenho, & o ſeruido Oceano,
+Quando mais nagoa os troncos, que gemerem,
+Contra ſua natureza ſe meterem.
+
+Mas ja chegado aos fins Orientais,
+E deixado em ajuda do gentio
+Rey de Cochim,com poucos naturais,
+Nos braços do ſalgado & curuo rio,
+Desbaratarâ os Naires infernais
+No paſſo Cambalão, tornando frio
+Deſpanto o ardos immenſo do Oriente
+Que verâ tanto obrar tão pouca gente.
+
+Chamarâ o Samorim mais gente noua:
+Virão Reis Bipur, & de Tânôr,
+Das ſerras de Narſinga, que alta proua
+Eſtarão prometendo a ſeu ſenhor:
+Faràque todo o Naire em fim ſe moua,
+Que entre Calicû jaz, & Cananor,
+Dambas as leis immigas, pera a guerra,
+Mouros por mar, Gentios polla terra.
+
+E todos outra vez desbaratando,
+Por terra, & mar, o grão Pacheco ouſado,
+A grande multidão que yrâ matando,
+A todo o Malabar terâ admirado:
+Cometerâ outra vez não dilatando
+O Gentio os combates apreſſado,
+Injuriando os ſeus, fazendo votos
+Em vão aos Deoſes vãos, ſurdos, & immotos
+
+Ia não defenderâ ſomente os paſſos,
+Mas queimar lhe ha lugares, templos, caſas:
+Aceſo de yra o Cão, não vendo laſſos
+Aquelles que as cidades fazem raſas:
+Farà que os ſeus de vida pouco eſcaſſos,
+Cometão o Pacheco que tem aſas
+Por dous paſſos num tempo, mas voando
+Dhum outro, tudo yrâ desbaratando.
+
+Virâ ali o Samorim, porque em peſſoa
+Veja a batalha, & os ſeus esforce, & anime,
+Mas hum tiro, que com zonido voa,
+De ſangue o tingirâ no andor ſublime:
+Ia não verâ remedio, ou manha boa,
+Nem força, que o Pacheco muito eſtime,
+Inuentara traiçoẽs, & vãos venenos,
+Mas ſempre (o ceo querendo) farâ menos.
+
+Que tornarâ a vez ſeptima, cantaua,
+Pellejar co inuicto & forte Luſo,
+A quem nenhum trabalho peſa, & agraua,
+Mas com tudo eſte ſo o farâ confuſo:
+Trarâ pera a batalha horrenda, & braua,
+Machinas de madeiros fora de vſo,
+Pera lhe abalroar as Carauellas,
+Que ateli vão lhe fora cometellas.
+
+Pella agoa leuarâ ſerras de fogo
+Pera a braſarlhe quanta armada tenha,
+Mas a militar arte, & engenho, logo
+Farâ ſer vaã a braueza com que venha:
+Nenhum claro barão no Martio jogo,
+Que nas aſas da fama ſe ſostenha,
+Chega a este, que a palma a todos toma,
+E perdoeme a illuſtre Grecia, ou Roma.
+
+Porque tantas batalhas ſoſtentadas
+Com muito pouco mais de cem ſoldados,
+Com tantas manhas, & artes inuentadas
+Tantos Cães não imbelles profligados:
+Ou parecerão fabulas ſonhadas,
+Ou que os celeſtes Coros inuocados
+Decerão a ajudallo, & lhe darão
+Esforço, força, ardil, & coração.
+
+Aquelle que nos Campos Maratonios
+O grão poder de Dario eſtrue, & rende,
+Ou quem com quatro mil Lacedemonios
+O paſſo de Termopilas defende,
+Nem o mancebo Cocles dos Auſonios,
+Que com todo o poder Tuſco contende
+Em defenſa da ponte, ou Quinto Fabio
+Foy como este na guerra forte & ſabio.
+
+Mas neste paſſo a Nimpha o ſom canoro
+Abaxando, fez ronco, & entriſtecido,
+Cantando em baxa voz enuolta em choro
+O grande esforço mal agardecido:
+O Beliſario, diſſe, que no coro
+Das Muſas ſeras ſempre engrandecido,
+Se em ti viſte abatido o brauo Marte,
+Aqui tens com quem podes conſolarte.
+
+Aqui tens companheiro aſsi nos feitos
+Como no galardão injusto & duro,
+Em ti & nelle veremos altos peitos,
+A baxo eſtado vir humilde, & eſcuro:
+Morrer nos hoſpitais em pobres leitos,
+Os que ao Rey, & aa ley ſeruem de muro,
+Iſto fazem os Reys, cuja vontade
+Manda mais que a juſtiça & que a verdade.
+
+Iſto fazem os Reis, quando embebidos
+Nũa aparencia branda que os contenta,
+Dão os premios de Aiace merecidos,
+Aa lingoa vaã de Vliſſes fraudulenta:
+Mas vingome que os bens mal repartidos
+Por quem ſo doces ſombras apreſenta,
+Se não os dão a ſabios caualeiros,
+Dãos os logo a auarentos liſongeiros.
+
+Mas tu de quem ficou tão mal pagado
+Hum tal vaſſalo, o Rey ſo nisto inico,
+Se não es para darlhe honroſo eſtado,
+He elle pera darte hum reino rico:
+Em quanto for o mundo rodeado
+Dos Apolineos rayos, eu te fico
+Que elle ſeja entre a gente illuſtre & claro
+E tu niſto culpado por auaro.
+
+Mas eis outro, cantaua, intitulado
+Vem com nome real, & traz conſigo
+O filho, que no mar ſerâ illustrado
+Tanto como qualquer Romano antigo:
+Ambos darão com braço forte, armado,
+A Quiloa fertil aſpero caſtigo,
+Fazendo nella Rey leal, & humano,
+Deitado fora o perfido Tirano.
+
+Tambem farão Mombaça, que ſe arrea
+De caſas ſumptuoſas, & edificios,
+Co ferro, & fogo ſeu, queimada, & fea,
+Em pago dos paſſados maleficios:
+Deſpois na coſta da India, andando chea
+De lenhos inimigos, & arteficios,
+Contra os Luſos: com vellas, & com remos
+O mancebo Lourenço farà eſtremos.
+
+Das grandes naos, do Samorim potente,
+Que encherão todo o mar, coa ferrea pela,
+Que ſae com trouão do cobre ardente,
+Farà pedaços leme, masto, vela,
+Deſpois lançando arpeos ouſadamente
+Na capitania inimiga: dentro nela
+Saltando, a farâ ſo com lança & eſpada
+De quatrocentos Mouros deſpejada.
+
+Mas de Deos a eſcondida prouidencia,
+Que ella ſo ſabe o bem de que ſe ſerue,
+O porâ onde esforço, nem prudencia
+Poderâ auer, que a vida lhe reſerue:
+Em Chaul, onde em ſangue & reſistencia
+O mar todo com fogo & ferro ferue,
+Lhe farão, que com vida ſe não ſaya
+As armadas de Egipto & de Cambaya.
+
+Ali o poder de muitos inimigos
+Que o grande esforço, ſo com força rende,
+Os ventos que faltârão, & os perigos
+Domar, que ſobejârão, tudo o ofende:
+Aqui reſurjão todos os antigos,
+A ver o nobre ardor, que aqui ſe aprende,
+Outro Sceua verão, que eſpedaçado
+Não ſabe ſer rendido, nem domado.
+
+Com toda hũa coxa fora, que em pedaços
+Lhe leua hum cego tiro, que paſſara,
+Se ſerue inda dos animoſos braços,
+E do grão coração, que lhe ficâra:
+Ate que outro pilouro quebra os laços,
+Com que co alma o corpo ſe liâra,
+Ella ſolta voou da priſam fora,
+Onde ſubito ſe acha vencedora.
+
+Vâyte alma em paz da guerra turbulenta,
+Na qual tu mereceſte paz ſerena,
+Que o corpo que em pedaços ſe apreſenta,
+Quem o gerou vingança ja lhe ordena:
+Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
+Que vem ja dar a dura, & eterna pena,
+De Eſperas, Baſiliſcos, & Trabucos,
+A Cambalcos crueis, & Mamelucos.
+
+Eis vem o pay com animo eſtupendo,
+Trazendo furia & magoa por antolhos,
+Com que o paterno amor lhe estâ mouendo
+Fogo no coração, agoa nos olhos:
+A nobre yra lhe vinha prometendo,
+Que o ſangue farâ dar pellos giolhos
+Nas inimigas naos ſentilo ha o Nilo,
+Podelo ha o Indo ver, & o Gange ouiulo.
+
+Qual o Touro cioſo, que ſe enſaya
+Pera a crua pelleja, os cornos tenta
+No tronco dhum Carualho, ou alta Faya
+E o âr ferindo, as forças eſprimenta:
+Tal, antes que no ſeyo de Cambaya
+Entre Franciſco irado na opulenta
+Cidade de Dabul, a eſpada afia,
+Abaxandolhe a tumida ouſadia.
+
+E logo entrando fero na enſeada
+De Dio, illuſtre em cercos & batalhas,
+Farâ eſpalhar a fraca & grande armada,
+De Calecu, que remos tem por malhas:
+A de Melique Yaz acautelada,
+Cos pelouros que tu Vulcano eſpalhas,
+Farâ yr ver o frio & fundo aſſento,
+Secreto leito do humido elemento.
+
+Mas a de Mir Hocem, que abalroando
+A furia eſpararà dos vingadores,
+Verâ braços & pernas yr nadando,
+Sem corpos, pello mar, de ſeus ſenhores,
+Rayos de fogo yrão repreſentando,
+No cego ardor, os brauos domadores,
+Quanto ali ſentirão olhos, & ouuidos,
+E fumo, ferro, flamas & alaridos.
+
+Mas ah, que desta proſpera vitoria,
+Com que deſpois virâ ao patrio Tejo,
+Quaſi lhe roubarâ a famoſa gloria
+Hum ſucceſſo que triste & negro vejo,
+O Cabo Tormentorio, que a memoria
+Cos oſſos guardarâ: não terâ pejo
+De tirar deſte mundo aquelle eſprito,
+Que não tirarão toda a India, & Egito.
+
+Ali Cafres ſeluagens poderão,
+O que destros immigos não podêrão,
+E rudos paos tostados ſos farão,
+O que arcos & pelouros não fizerão,
+Occultos os juizos de Deos ſam,
+As gentes vaãs que não nos entenderão,
+Chamãolhe fado mao, fortuna eſcura,
+Sendo ſo prouidencia de Deos pura.
+
+Mas ô que luz tamanha, que abrir ſinto,
+Dizia a Ninfa, & a voz aleuantaua,
+La no mar de Molinde em ſangue tinto
+Das cidades de Lamo, de Oja, & Braua:
+Pello Cunha tambem, que nunca extinto
+Serâ ſeu nome, em todo o mar que laua
+As ilhas do Auſtro, & praias, que ſe chamão
+De ſam Lourẽço, & em todo o Sul ſe afamão.
+
+Eſta luz he do fogo, & das luzentes
+Armas, com que Albuquerque yra amãſand
+De Ormuz os Parſeos, por ſeu mal valentes,
+Que refuſam o jugo honroſo & brando:
+Ali verão as ſetas estridentes
+Reciprocarſe, a ponta no ar virando,
+Contra quem as tirou, que Deos paleja
+Por quem eſtende a fe da madre Igreja.
+
+Ali do ſal os montes não defendem
+De corrupção os corpos no combate,
+Que mortos pella praya, & mar ſe eſtendem
+De Gerum, de Mozcate, & Calayate:
+Ate que a força ſo de braço aprendem
+A abaxar a ceruiz, onde ſe lhe ate
+Obrigação de dar o reyno inico
+Das perlas de Barem tributo rico.
+
+Que glorioſas palmas tecer vejo,
+Com que victoria a fronte lhe coroa,
+Quando ſem ſombra vaã de medo, ou pejo
+Toma a ilha illuſtriſsima de Goa:
+Deſpois, obedecendo ao duro enſejo
+A deixa, & ocaſião eſpera boa,
+Com que a torne a tomar, que esforço & arte
+Vencerão a fortuna, & o proprio Marte.
+
+Eis ja ſobrella torna & vây rompendo
+Por muros, fogo, lanças, & pilouros,
+Abrindo cõ a eſpada o eſpeſſo, & horrendo
+Eſquadrão de Gentios, & de Mouros:
+Irão ſoldados inclitos fazendo
+Mais que Liões famelicos, & Touros,
+Na luz que ſempre celebrada & dina
+Sera da Egipcia ſancta Caterina.
+
+Nem tu menos fugir poderas deſte,
+Poſto que rica, & posto que aſſentada
+La no gremio da Aurora, onde naceſte,
+Opulenta Malaca nomeada:
+As ſetas venenoſas que fizeste,
+Os Criſes com que ja te vejo armada,
+Malaios namorados, Iaos valentes
+Todos faras ao Luſo obedientes.
+
+Mais eſtanças cantâra esta Syrena
+Em louuor do illuſtriſsimo Albuquerque,
+Mas alembroulhe hũa yra que o condena,
+Poſto que a fama ſua o mundo cerque:
+O grande capitão, que o fado ordena
+Que com trabalhos gloria eterna merque,
+Mais ha de ſer hum brando companheiro
+Pera os ſeus, que juiz cruel & inteiro.
+
+Mas em tempo que fomes, & aſperezas
+Doenças, frechas, & trouoẽs ardentes,
+A ſazão, & o lugar fazem cruezas
+Nos ſoldados a todo obedientes:
+Parece de ſeluaticas brutezas,
+De peitos inhumanos & inſolentes,
+Dar extremo ſuplicio pella culpa
+Que a fraca humanidade & Amor deſculpa.
+
+Não ſerâ a culpa abominoſo inceſto,
+Nem violento estupro em virgem pura,
+Nem menos adulterio deſoneſto,
+Mas cũa eſcraua vil laſciua & eſcura:
+Se o peito ou de cioſo, ou de modeſto,
+Ou de vſado a crueza fera & dura,
+Cos ſeus hũa ira inſana não refrea,
+Poẽ na fama alua noda negra & fea.
+
+Vio Alexandre Apeles namorado
+Da ſua Campaſpe, & deulha alegremente,
+Não ſendo ſeu ſoldado eſprimentado,
+Nem vendoſe num cerco duro & vrgente:
+Sentia Ciro que andaua ja abraſado
+Araſpas, de Pantea em fogo ardente,
+Que elle tomara em guarda, & prometia
+Que nenhum mao deſejo o venceria.
+
+Mas vendo o Illuſtre Perſa, que vencido
+Fora de amor, que em fim não tem defenſa,
+Leuemente o perdoa, & foy ſeruido
+Delle num caſo grande em recompenſa.
+Per força de Iudita foy marido
+O ferreo Balduuino, mas diſpenſa
+Carlos pay della, poſto em couſas grandes,
+Que viua, & pauoador ſeja de Frandes.
+
+Mas proſeguindo a Nimpha o longo canto,
+De Soarez cantaua, que as bandeiras
+Faria tremolar, & por eſpanto,
+Pellas roxas Arabicas ribeiras:
+Madina abominabil teme tanto,
+Quanto Meca, & Gidâ, coas derradeiras
+Prayas de Abaſia: Barborâ ſe teme,
+Do mal de que o Emporio Zeila geme.
+
+A nobre ilha tambem de Taprobana,
+Ia pello nome antigo tão famoſa,
+Quanto agora ſoberba, & ſoberana,
+Pella Cortiça calida, cheiroſa,
+Della dar â tributo aa Luſitana
+Bandeira, quando excelſa, & glorioſa
+Vencendo ſe erguerâ na torre erguida,
+Em Columbo, dos proprios tam temida.
+
+Tambem Sequeira as ondas Eritreas
+Diuidindo, abrirâ nouo caminho,
+Pera ti grande Imperio que te arreas
+De ſeres de Candace, & Sabâ ninho:
+Maçuà com Ciſternas de agoa cheas
+Verâ, & o porto Arquico ali vizinho,
+E fara deſcobrir remotas ilhas,
+Que dão ao mundo nouas marauilhas.
+
+Virâ deſpois Meneſes, cujo ferro
+Mais na Africa, que câ terâ prouado:
+Caſtigarâ de Ormuz Soberba o erro,
+Com lhe fazer tributo dar dobrado:
+Tambem tu Gama, em pago do deſterro
+Em que eſtâs, & ſerâs inda tornado,
+Cos titolos de Conde, & dhonras nobres,
+Virâs mandar a terra que deſcobres.
+
+Mas aquella fatal neceſsidade,
+De quem ninguems ſe exime dos humanos,
+Illuſtrado coa Regia dignidade,
+Te tirarâ do mundo & ſeus enganos:
+Outro Meneſes logo, cuja ydade
+He mayor na prudencia, que nos anos,
+Gouernarâ, & farà o ditoſo Henrique,
+Que perpetua memoria delle fique.
+
+Não vencerâ ſomente os Malabares,
+Deſtruindo Panane, com Coulete,
+Cometendo as Bombardas, que nos ares
+Se vingão ſo do peito que as comete:
+Mas com virtudes certo ſingulares,
+Vence os immigos dalma todos ſete,
+De cubiça triumpha, & incontinencia,
+Que em tal idade he ſuma de excellencia.
+
+Mas deſpois que as estrellas o chamarem,
+Socederâs ô forte Mozcarenhas,
+E ſe injustos o mando te tomarem,
+Prometote que fama eterna tenhas:
+Pera teus inimigos confeſſarem
+Teu valor alto, o fado quer que venhas
+A mandar, mais de palmas coroado,
+Que de fortuna juſta acompanhado.
+
+No reino de Bintão, que tantos danos
+Terâ a Malaca muito tempo feitos,
+Num ſo dia as injurias de mil anos
+Vingarâs, co valor de illuſtres peitos,
+Trabalhos & perigos inhumanos,
+Abrolhos ferreos mil, paſſos estreitos,
+Tranqueiras, Baluartes, lanças, Setas,
+Tudo fico que rompas & ſometas.
+
+Mas na India cubiça & ambição,
+Que claramente poem aberto o rosto
+Contra Deos, & Iustiça, te farão
+Vituperio nenhum, mas ſo deſgoſto:
+Quem faz injuria vil, & ſem rezão
+Com forças & poder, em que estâ poſto,
+Não vence, que a vitoria verdadeira,
+He ſaber ter juſtiça nua, & inteira.
+
+Mas com tudo não nego que Sampayo
+Serâ no esforço illuſtre, & aſinalado,
+Mostrando ſe no mar hum fero rayo,
+Que de inimigos mil verâ qualhado:
+Em Bacanôr farâ cruel enſayo
+No Malabar, pera que amedrontado
+Deſpois a ſer vencido delle venha
+Cutiâle, com quanta armada tenha.
+
+E não menos de Dio a fera frota
+Que Chaul temerâ de grande & ouſada,
+Farâ coa viſta ſo perdida & rota,
+Por Heitor da Silueira, & destroçada:
+Por Heitor Portugues, de quem ſe nota,
+Que na Coſta Cambaica ſempre armada,
+Serâ aos Guzarates tanto dano,
+Quanto ja foy aos Gregos o Troyano.
+
+A Sampayo feroz ſocederà
+Cunha, que longo tempo tem o leme,
+De Chale as torres altas erguerâ,
+Em quanto Dio illustre delle treme,
+O forte Baçaîm ſe lhe darâ,
+Não ſem ſangue porem, que nelle geme
+Melique, porque a força ſo de eſpada
+A tranqueira ſoberba ve tomada.
+
+Tras eſte vem Noronha, cujo Auſpicio
+De Dio os Rumes feros afugenta,
+Dio que o peito & bellico exercicio
+De Antonio da ſilueira bem ſuſtenta:
+Farâ em Noronha a morte o vſado officio,
+Quando hum teu ramo, ô Gama, ſe eſprimẽta
+No gouerno do Imperio, cujo zelo
+Com medo o roxo mar farâ amarelo,
+
+Das mãos do teu Eſteuão vem tomar
+As redeas hum, que ja ſera illuſtrado
+No Braſil, com vencer & caſtigar
+O Pirata Frances ao mar vſado:
+Deſpois Capitão mor do Indico mar,
+O muro de Dâmão ſoberbo & armado,
+Eſcala, & primeiro entra a porta aberta
+Que fogo & frechas mil terão cuberta.
+
+A eſte o Rey Cambaico ſoberbiſsimo
+Fortaleza darà na rica Dio,
+Porque contra o Mogor poderoſiſsimo
+Lhe ajude a defender o ſenhorio:
+Deſpois yrà com peito esforçadiſsimo
+A tolher que não paſſe o Rey Gentio,
+De Calecu, que aſsi com quantos veyo
+O farâ retirar de ſangue cheyo
+
+Deſtroirâ a cidade Repelim,
+Pondo o ſeu Rey com muitos em fugida:
+E deſpois junto ao Cabo Comorim
+Hũa façanha faz eſclarecida,
+A frota principal da Samorim,
+Que destroir o mundo não duuida,
+Vencerâ co furor do ferro & fogo,
+Em ſi verâ Beadâla o Morcio jogo.
+
+Tendo aſsi limpa a India dos immigos,
+Virâ deſpois com cetro a gouernala,
+Sem que ache reſiſtencia, nem parigos,
+Que todos tremem delle, & nenhum fala:
+So quis prouar os aſperos caſtigos
+Baticalâ, que virâ ja Beadala,
+De ſangue & corpos mortos ficou chea,
+E de fogo & trouoẽs desfeita & fea.
+
+Eſte ſera Martinho, que de Marte
+O nome tem coas obras diriuado,
+Tanto em armas illuſtre em toda parte,
+Quanto em conſelho ſabio & bem cuidado:
+Socederlhe ha ali Castro, que o estandarte
+Portugues terâ ſempre leuantado,
+Conforme ſucceſſor ao ſuccedido
+Que hum ergue Dio, outro o defende erguido.
+
+Perſas feroces, Abaſsis & Rumes
+Que trazido de Roma o nome tem,
+Varios de geſtos, varios de custumes
+Que mil naçoẽs ao cerco feras vem
+Farão dos ceos ao mundo vãos queixumes
+Porque hũs poucos a terra lhe detem,
+Em ſangue Portugues juram deſcridos
+De banhar os bigodes retorcidos.
+
+Baſiliſcos medonhos & Liões,
+Trabucos feros, minas encubertas,
+Suſtenta Mozcarenhas cos barões,
+Que tam ledos as mortes tem por certas:
+Ate que nas mayores opreſſoẽs
+Caſtro libertador, fazendo offertas
+Das vidas de ſeus filhos, quer que fiquem
+Com fama eterna, & a Deos ſe ſacrifiquem.
+
+Fernando hum delles, ramo da alta pranta,
+Onde o violento fogo com ruido,
+Em pedaços os muros no ar leuanta,
+Serâ ali arrebatado, & ao ceo ſubido:
+Aluaro quando o inuerno o mundo eſpanta,
+E tem o caminho humido impedido,
+Abrindoo, vence as ondas, & os perigos,
+Os ventos, & deſpois os inimigos.
+
+Eis vem deſpois, o pay, que as ondas corta
+Co reſtante da gente Luſitana
+E com força & ſaber, que mais importa,
+Batalha da felice & ſoberana:
+Hũs paredes ſubindo eſcuſam porta,
+Outros a abrem, na fera eſquadra inſana,
+Feitos farão tão dinos de memoria,
+Que não caibão em vêrſo, ou larga hiſtoria.
+
+Este deſpois em campo ſe apreſenta
+Vencedor forte & intrepido, ao poſſante
+Rey de Cambaya, & a viſta lhe amedrenta
+Da fera multidão pradrupedante:
+Não menos ſuas terras mal ſuſtenta
+O Hydalcham do braço triumphante
+Que caſtigando vay Dâbul na coſta
+Nem lhe eſcapou Pondâ no ſertão posta.
+
+Estes & outros Baroẽs por varias partes,
+Dinos todos de fama & marauilha,
+Fazendoſe na terra brauos Martes,
+Virão lograr os gostos deſta Ilha:
+Varrendo triumphantes eſtandartes
+Pellas ondas, que corta a aguda quilha,
+E acharão eſtas Nimphas & eſtas meſas,
+Que glorias & hõras ſam de arduas empreſas
+
+Aſsi cantaua a Nimpha & as outras todas
+Com ſonoroſo aplauſo vozes dauão,
+Com que feſtejão as alegres vodas,
+Que com tanto prazer ſe celebrauão:
+Por mais que da Fortuna andem as rodas
+Nũa conſona voz todas ſoauão,
+Não vos hão de faltar gente famoſa,
+Honra, valor, & fama glorioſa.
+
+Deſpois que a corporal neceſsidade
+Se ſatisfez do mantimento nobre,
+E na armonia & doce ſuauidade,
+Virão os altos feitos, que deſcobre,
+Thetis de graça ornada, & grauidade,
+Pera que com mais alta gloria dobre,
+As festas deſte alegre & claro dia,
+Pera o felice Gama aſsi dizia.
+
+Faz te merce barão a Sapiencia
+Suprema, de cos olhos corporais
+Veres, o que não pode a vã ciencia
+Dos errados & miſeros mortais:
+Sigueme firme, & forte, com prudencia
+Por este monte eſpeſſo, tu cos mais.
+Aſsi lhe diz, & o guia por hum mato
+Arduo, difficil, duro a humano trato.
+
+Não andão muito que no erguido cume
+Se acharão, onde hum campo ſe eſmaltaua,
+De Eſmeraldas, Rubis, tais que preſume
+A vista, que diuino chão piſaua:
+Aqui hum globo vem no ar, que o lume
+Clariſsimo por elle penetraua,
+De modo que o ſeu centro eſta euidente,
+Como a ſua ſuperficia, claramente.
+
+Qual a materia ſeja não ſe enxerga,
+Mas enxergaſſe bem que estâ composto
+De varios orbes, que a diuina verga
+Compos, & hum centro a todos ſo tem poſto:
+Voluendo, ora ſe abaxe, agora ſe erga,
+Nũca ſergue, ou ſe abaxa, & hũ meſmo roſto
+Por toda a parte tem, & em toda a parte
+Começa & acaba, em fim por diuina arte.
+
+Vniforme, perſeito, em ſi ſoſtido,
+Qual em fim o Archetipo, que o criou:
+Vendo o Gama este globo, comouido
+De eſpanto & de deſejo ali ficou,
+Dizlhe a Deoſa, O traſunto reduzido
+Em pequeno volume aqui te dou,
+Do mundo aos olhos teus, pera que vejas
+Por onde vas, & yrâs, & o que deſejas.
+
+Ves aqui a grande machina do mundo,
+Eterea, & elemental, que fabricada
+Aſsi foy do ſaber alto, & profundo,
+Que he ſem principio, & meta limitada,
+Quem cerca em derredor eſte rotundo
+Globo, & ſua ſuperficia tão limada,
+He Deos, mas o q̃ he Deos ninguẽ o entende,
+Que a tanto o engenho humano não ſe eſtẽde.
+
+Eſte orbe que primeiro vay cercando
+Os outros mais pequenos, que em ſi tem,
+Que eſtâ com luz tão clara radiando,
+Que a vista cega, & a mente vil tambem,
+Empireo ſe nomea, onde logrando
+Puras ahnas estão de aquelle bem,
+Tamanho, que elle ſo ſe entende & alcança,
+De quem não ha no mundo ſemelhança.
+
+Aqui ſo verdadeiros glorioſos
+Diuos eſtão, porque eu, Saturno & Iano,
+Iupiter, Iuno, fomos fabuloſos
+Fingidos de mortal & cego engano:
+So pera fazer verſos dedeitoſos
+Seruimos, & ſe mais o trato humano
+Nos pode dar, he ſo que o nome noſſo
+Neſtas eſtrellas pos o engenho voſſo.
+
+E tambem porque a ſanta prouidencia,
+Que em Iupiter aqui ſe repreſenta,
+Por eſpiritos mil, que tem prudencia,
+Gouerna o mundo todo, que ſuſtenta:
+Inſinalo a prephetica ſciencia,
+Em muitos das exemplos, que apreſenta,
+Os que ſam bõs, guiando fauorecem,
+Os maos, em quanto podem, nos ompecem.
+
+Quer logo aqui a pintura que varîa,
+Agora deleitando, ora inſinando,
+Darlhe nomes, que a antiga Poeſia
+A ſeus Deoſes ja dera, fabulando:
+Que os Anjos de celeſte companhia
+Deoſes o ſacro verſo eſtâ chamando,
+Nem nega que eſſe nome preminente,
+Tambem aos maos ſe dà, mas falſamente.
+
+Em fim que o ſumo Deos, que por ſegundas
+Cauſas obra no mundo, tudo manda:
+E tornando a contarte das profundas
+Obras da mão diuina veneranda,
+Debaxo deſte circulo onde as mundas
+Almas diuinas gozão, que não anda,
+Outro corre tam leue & tam ligeiro,
+Que não ſe enxerga, he o Mobile primeiro.
+
+Com eſte rapto, & grande mouimento,
+Vão todos os que dentro tem no ſeyo,
+Por obra deſte, o Sol andando atento
+O dia & noite faz, com curſo alheyo:
+Debaxo deſte leue anda outro lento,
+Tam lento, & ſojugado a duro freyo,
+Que em quanto Phebo, de luz nunca eſcaſſo,
+Dozentos curſos faz, dâ elle hum paſſo.
+
+Olha estoutro debaxo, que eſmaltado
+De corpos liſos anda, & radiantes,
+Que tambem nelle tem curſo ordenado,
+E nos ſeus axes correm ſcintilantes:
+Bem ves como ſe veſte, & faz ornado
+Co largo cinto douro, que estellantes
+Animais doze traz afigurados,
+Apoſentos de Phebo limitados.
+
+Olha por outras partes a pintura,
+Que as eſtrellas fulgentes vão fazendo.
+Olha a carreta, atenta a Cinoſura,
+Andromeda, & ſeu pay, & o drago horrẽdo:
+Vê de Caſsiopea a fermoſura,
+E do Orionte o geſto turbulento,
+Olha o Ciſne morrendo que ſoſpira,
+A Lebre, & os Cães, a Nao, & a doce Lira.
+
+Debaxo deſte grande firmamento,
+Ves o ceo de Saturno Deos antigo,
+Iupiter logo faz o mouimento,
+E Marte abaxo bellico inimigo,
+O claro olho do ceo no quarto aſſento,
+E Venus, que os amores traz conſigo,
+Mercurio de eloquencia ſoberana,
+Com tres roſtos debaxo vay Diana.
+
+Em todos eſtes orbes, differente
+Curſo veras, nũs graue, & noutros leue:
+Ora fogem do centro longamente,
+Ora da terra eſtão caminho breue,
+Bem como quis o padre omnipotente
+Que o fogo fez, & o ar, o vento, & neue,
+Os quaes veras que jazem mais a dentro,
+E tem co mar a terra por ſeu centro.
+
+Neſte centro pouſada dos humanos,
+Que não ſomente ouſados ſe contentão
+De ſoffrerem da terra firme os danos
+Mas inda o mar inſtabil eſprimentão,
+Virâs as varias partes, que os inſanos
+Mares diuidem, onde ſe apouſentão
+Varias nações, que mandão varios Reis,
+Varios costumes ſeus, & varias leis.
+
+Ves Europa Chriſtaã mais alta & clara
+Que as outras em policia, & fortaleza:
+Ves Africa dos bens do mundo auara,
+Inculta, & toda chea de bruteza,
+Co Cabo que ate qui ſe vos negâra,
+Que aſſentou para o Auſtro a natureza:
+Olha eſſa terra toda, que ſe habita
+Deſſa gente ſem ley, quaſi infinita.
+
+Vé do Benomotapa o grande imperio,
+De ſeluatica gente, negra & nua:
+Onde Gonçalo morte & vituperio
+Padecerâ, polla ſe ſancta ſua:
+Nace por aste incognito Hemiſperio
+O metâl, por que mais a gente ſua,
+Ve que do lago, donde ſe derrama
+O Nilo, tambem vindo eſtâ Cuama.
+
+Olha as caſas dos negros, como estão
+Sem portas, confiados em ſeus ninhos
+Na justiça real, & defenſam,
+E na fidelidade dos vizinhos:
+Olha delles a bruta multidão
+Qual bando eſpeſſo & negro de Estorninhos,
+Combaterà em Sofala a fortaleza,
+Que defenderâ Nhaya com destreza.
+
+Olha la as alagoas, donde o Nilo
+Nace, que não ſouberão os antigos,
+velo rega, gerando o Crocodilo,
+Os pouos Abaſsis de Chriſto amigos,
+Olha como ſem muros (nouo eſtilo)
+Se defendem milhor dos inimigos,
+Ve Meroe, que ilha foy de antiga fama
+Que ora dos naturais Nobâ ſe chama.
+
+Neſta remota terra, hum filho teu
+Nas armas coutra os Turcos ſerâ claro,
+Ha de ſer dom Chriſtouão o nome ſeu,
+Mas contra o fim fatal não ha reparo:
+Ve ca a Coſta do mar, onde te deu
+Melinde hoſpicio gaſalhoſo & caro
+O Rapto rio nota, que o romance
+Da terra chama Obî, entra em Quilmance.
+
+O Cabo ve ja Aromâta chamado,
+E agora Goardofû dos moradores,
+Onde começa a toca do afamado
+Mar roxo, que do fundo toma as cores
+Este como limite eſta lançado
+Que diuide Aſia de Africa, & as milhores
+Pouoaçoẽs, que a parte Africa tem
+Maçuâ ſam, Arquico, & Suamquem.
+
+Ves o extremo Suez, que antigamente
+Dizem que foy dos Heroas a cidade,
+Outros dizem qne Arſinoe, & ao preſente
+Tem das frotas do Egipto a poteſtade:
+Olha as agoas, nas quaes abrio patente
+Eſtrada o gram Mouſes na antiga ydade
+Aſia começa aqui, que ſe apreſenta
+Em terrás grande, em reinos opulenta.
+
+Olha o monte Sinay, que ſe ennobrece
+Co ſepulchro de ſancta Caterina,
+Olha Toro, & Gidâ, que lhe falece
+Agoa das fontes doce, & criſtalina:
+Olha as portas do estreito, que fenece
+No reyno da ſeca Adem, que confina
+Com a ſerra Darzira, pedra viua,
+Onde chuua dos Ceos ſe não deriua.
+
+Olha as Arabias tres, que tanta terra
+Tomão, todas da gente vaga, & baça,
+Donde vem os caualos pera a guerra
+Ligeiros, & feroces, de alta raça:
+Olha a coſta que corre ate que cerra
+Outro eſtreito de Perſia, & faz a traça
+O Cabo, que co nome ſe apellida,
+Da cidade Fartaque ali ſabida,
+
+Olha Dofar inſigne, porque manda
+O mais cheiroſo encenço pera as aras:
+Mas atenta ja ca deſtroutra banda
+De Roçalgate, & prayas ſempre auaras,
+Começa o reyno Ormuz, que todo ſe anda
+Pellas ribeiras, que inda ſerão claras
+Quando as gales do Turco, & fera armada
+Virem de Castel branco nua a eſpada.
+
+Olha o Cabo Aſaboro, que chamado
+Agora he Moçandão dos nauegantes.
+Por aqui entra o lago, que he fechado
+De Arabia, & Perſias terras abundantes.
+Atenta a ilha Barem, que o fundo ornado
+Tem das ſuas perlas ricas, & imitantes
+Aa cor da Aurora: & ve na agoa ſalgada
+Ter o Tigris & Eufrates hũa entrada.
+
+Olha da grande Perſia o imperio nobre
+Sempre posto no campo, & nos caualos,
+Que ſe injuria de vſar fundido cobre,
+E de não ter das armas ſempre os calos:
+Mas ve a ilha Gerum, como deſcobre
+O que fazem do tempo os interualos,
+Que da cidade Armuza, que ali eſteue
+Ella o nome deſpois, & a gloria teue.
+
+Aqui de dom Felipe de Meneſes
+Se mostrarâ a virtude em armas clara,
+Quando com muito poucos Portugueſes
+Os muitos Parſeos vencerâ de Lara:
+Virão prouar os golpes & reueſes
+De dom Pedro de Souſa, que prouâra
+Ia ſeu braço em Ampaza, que deixada
+Terâ por terra a força ſo de eſpada.
+
+Mas deixemos o eſtreito, & o conhecido
+Cabo de Iaſque dito ja Carpella,
+Com todo o ſeu terreno mal querido
+Da natura, & dos dões vſados della,
+Carmania teue ja por apelido:
+Mas ves o fermoſo Indo, que daquella
+Altura nace junto aa qual tambem
+Doutra altura correndo o Gange vem.
+
+Olha a terra de Vlcinde fertiliſsima,
+E de Iaquete a intima enſeada,
+Do mar a enchente ſubita grandiſsima,
+E a vazante que foge apreſſurada:
+A terra de cambaya ve ríquiſsima,
+Onde do mar o ſeo fazmentrada,
+Cidades outras mil, que vou paſſando,
+A voſoutros aqui ſe estão guardando.
+
+Ves corre a coſta cèlebre Indiana
+Pera o Sul, ate o Cabo Comori
+Ia chamado Cori, que Taprobana
+(Que ora he Ceilão) de fronte tem de ſi:
+Por este mar a gente Luſitana
+Qua com armas virâ deſpois de ti,
+Terâ vitorias terras, & cidades
+Nas quaes ham de viuer muitas ydades,
+
+As prouincias, que entre hum & o outro rio
+Ves com varias nações, ſam infinitas:
+Hum reyno Mahometa, outro Gentio,
+A quem tem o Demonio leis eſcriptas:
+Olha que de Narſinga o ſenhorio
+Tem as reliquias ſanctas & benditas,
+Do corpo de Thome, barão ſagrado,
+Qut a Ieſu Chriſto teue a mão no lado.
+
+Aqui a cidade foy, que ſe chamaua
+Meliapor, fermoſa, grande, & rica:
+Os Idolos antigos adoraua:
+Como inda agora faz a gente inica:
+Longe do mar naquelle tempo eſtaua:
+Quando a fe, que no mundo ſe pubrica,
+Thome vinha prègando, & ja paſſàra
+Prouincias mil do mundo, que inſinàra.
+
+Chegado aqui prègando, & junto dando
+A doentes ſaude, a mortos vida
+A caſo traz hum dia o mar vagando,
+Hum lenho de grandeza deſmedida:
+Deſeja o Rey, que andaua edificando,
+Fazer delle madeira, & não duuida
+Poder tiralo a terra compoſſantes
+Forças dhomẽs, de engenhos de Aliphantes.
+
+Era tão grande o peſo do madeiro
+Que ſo pera abalarſe, nada abaſta,
+Mas o nuncio de Christo verdadeiro,
+Menos trabalho em tal negocio gaſta:
+Ata o cordão que traz por derradeiro
+No tronco, & facilmente o leua & arraſta
+Pera onde faça hum ſumptuoſo templo,
+Que ficaſſe aos futuros por exemplo.
+
+Sabia bem que ſe com fe formada
+Mandar a hum monte ſurdo, que ſe moua,
+Que obedecerà logo aa voz ſagrada,
+Que aſsi lho inſinou Chriſto, & elle o proua:
+A gente ficon diſto aluoroçada,
+Os Bramenes o tem por couſa noua,
+Vendo os milagres, vendo a ſantidade,
+Hão medo de perder autoridade.
+
+Sam estes ſacerdotes dos Gentios,
+Em quem mais penetrado tinha enueja,
+Buſcão maneiras mil, buſcão deſuios
+Com que Thome não ſe ouça, ou morto ſeja:
+O principal, que ao peito traz os fios,
+Hum caſo horrendo faz, que o mundo veja
+Que inimiga não ha tão dura, & fera,
+Como a virtude falſa da ſincera.
+
+Hum filho proprio mata, & logo acuſa
+De homecidio Thome, que era innocente
+Dâ falſas teſtemunhas, como ſe vſa
+Condenarã no a morte breuemente:
+O Santo que não vè milhor eſcuſo,
+Que apellar pera o Padre omnipotente,
+Quer diante do Rey, & dos ſenhores,
+Que ſe faça hum milagre dos mayores.
+
+O corpo morto manda ſer trazido
+Que reſucite, & ſeja perguntado,
+Quem foy ſeu matador, & ſerâ crido
+Por teſtemunho o ſeu mais aprouado:
+Viram todos o moço viuo erguido
+Em nome de Ieſu crucificado,
+Dâ graças a Thome, que lhe deu vida
+E deſcobre ſeu pay ſer homicida.
+
+Este milagre fez tamanho eſpanto,
+Que o Rey ſe banha logo na ago ſanta,
+E muitos apos elle, hum beija o manto
+Outro lauuor do Deos de Thome canta:
+Os Bramenes ſe encherão de odio tanto,
+Com ſeu veneno os morde enueja tanta,
+Que perſuadindo a iſſo o pouo rudo,
+Determinão matalo em fim de tudo.
+
+Hum dia que prègando ao pouo estaua,
+Fingirão entre a gente hum arroido,
+Ia Christo neſte tempo lhe ordenaua,
+Que padecendo foſſe ao Ceo ſubido:
+A multidão das pedras, que voaua,
+No Santo dâ ja a tudo offerecido,
+Hum dos maos por fartarſe mais de preſſa,
+Com crua lança o peito lhe atraueſſa.
+
+Chorarão te Thome, o Gange & o Indo,
+Choroute toda a terra que piſaſte,
+Mais te chorão as almas, que veſtindo
+Se yão da ſancta Fe, que lhe inſinaſte:
+Mas os Anjos do ceo cantando, & rindo,
+Te recebem na gloria que ganhaſte,
+Pedimos te, que a Deos ajuda peças,
+Com que os teus Luſitanos fauoreças.
+
+E voſoutros que os nomes vſurpais
+De mandados de Deos, como Thome,
+Dizey ſe ſois mandados, como estais
+Sem yrdes a pregar a ſancta fe?
+Olhay que ſe ſois Sal, & vos danais
+na patria, onde Propheta ninguem he,
+Com que ſe ſalgarão em noſſos dias
+(Infieis deixo) tantas Hereſias?
+
+Mas paſſo esta materia perigoſa,
+E tornemos aa coſta debuxada,
+Ia com eſta cidade tão famoſa,
+Se faz curua a Gangetica enſeada,
+Corre Narſinga rica, & poderoſa,
+Corre Orixa de roupas abaſtada,
+No fundo da enſeada o illustre rio
+Ganges vem ao ſalgado ſenhorio.
+
+Ganges, no qual os ſeus habitadores
+Morrem banhados, tendo por certeza,
+Que inda que ſejão grandes peccadores,
+Eſta agoa ſancta os laua, & da pureza:
+Ve Chatigão cidade das milhores
+De Bengala prouincia, que ſe preza
+De abundante, mas olha que eſtâ poſta
+Pera o Auſtro daqui virada a coſta.
+
+Olha o reyno Arracão, olha o aſſento
+De Pegu, que ja mõſtros pouoarão,
+Mõſtros filhos do feo ajuntamento
+Dhũa molher & hum cão, que ſos ſe acharão:
+Aqui ſoante Arame no inſtromento
+Da geração cuſtumão, o que vſarão
+Por manha da Raynha, que inuentando
+Tal vſo, deitou fora o error nefando.
+
+Olha Tauay cidade, onde começa
+De Sião largo o imperio tão comprido,
+Tenaſſarâ, Quedâ, que he ſo cabeça
+Das que Pimenta ali tem produzido:
+Mais auante fareis que ſe conheça
+Malaca, por Emperio ennobrecido,
+Onde toda a prouincia do mar grande,
+Suas mercadorias ricas mande.
+
+Dizem que deſta terra coas poſſantes
+Ondas o mar entrando diuidio,
+A nobre Ilha Samatra, que ja dantes
+Iuntas ambas a gente antiga vio:
+Cherſoneſo foy dita, & das prestantes
+Veas douro, que a terra produzio,
+Aurea por epitheto lhe ajuntarão,
+Alguns que foſſe Ophir ymaginarão.
+
+Mas na ponta da terra Cingapura
+Veras, onde o caminho aas naos ſe eſtreita,
+Daqui tornando a Costa aa Cynoſura
+Se encurua, & pera a Aurora ſe endereita:
+Ves Pam, Patane, reinos, & a longura
+De Syão que eſtes & outros mais ſugeita
+Olha o rio Menão, que ſe derrama
+Do grande lago que Chiamay ſe chama.
+
+Ves neſte grão terreno os differentes
+Nomes de mil nações nunca ſabidas,
+Os Laos em terra & numero potentes,
+Auâs, Bramàs, por ſerras tão compridas:
+Ve nos remotos montes outras gentes
+Que Gueos ſe chamão de ſeluages vidas,
+Humana carne comem, mas a ſua
+Pintão com ferro ardente, vſança crua:
+
+Ves paſſa por Camboja Mecom Rio,
+Que capitão das agoas ſe interpreta,
+Tantas recebe doutro ſo no eſtio,
+Que alaga os campos largos, & inquieta,
+Tem as enchentes quaes o Nilo frio,
+A gente delle crè como indiſcreta,
+Que pena & gloria tem deſpois de morte
+Os brutos animais de toda ſorte.
+
+Eſte receberâ placido & brando,
+No ſeu regaço os Cantos, que molhados
+Vem do naufragio triſte, & miſerando,
+Dos proceloſos baxos eſcapados:
+Das fomes, dos perigos grandes, quando
+Serâ o injuſto mando executado
+Naquelle, cuja Lira ſonoroſa,
+Será mais affamada que ditoſa.
+
+Ves corre a coſta que Champà ſe chama,
+Cuja mata he do pao cheiroſo ornada,
+Ves Cauchichina eſtâ de eſcura fama,
+E de Ainão ve a incognita enſeada,
+Aqui o ſoberbo imperio, que ſe afama
+Com terras, & riqueza não cuidada,
+Da China corre, & ocupa o ſenhorio
+Deſdo Tropico ardente ao Cinto frio.
+
+Olha o muro, & edificio nunca crido,
+Que entre hum imperio & o outro ſe edifica,
+Certiſsimo ſinal, & conhecido,
+Da potencia real, ſoberba, & rica:
+Eſtes o Rey que tem não foy nacido
+Princepe, nem dos pais aos filhos fica
+Mas elegem aquelle que he famoſo
+Por caualeiro ſabio & virtuoſo.
+
+Inda outra muita terra ſe te eſconde,
+Ate que venha o tempo de moſtrar ſe,
+Mas não deixes no mar as Ilhas, onde
+A natureza quis mais affamarſe:
+Eſta mea eſcondida que reſponde
+De longe aa China donde vem buſcarſe,
+He Iapão, onde nace a prata fina,
+Que illustrada ſerà coa Ley diuina.
+
+Olha ca pellos mares do Oriente
+As infinitas Ilhas eſpalhadas
+Ve Tidore, & Tarnate, co feruente
+Cume, que lança as flamas ondeadas
+As aruores verâs do Crauo ardente,
+Co ſangue Portugues inda compradas,
+Aqui ha as aureas aues, que não decem
+Nunca a terra, & ſo mortas aparecem.
+
+Olha de Banda as Ilhas, que ſe eſinaltão
+Da varia cor, que pinta o roxo fruto,
+As aues variadas, que ali faltão,
+Da verde Noz tomando ſeu tributo:
+Olha tambem Bornèo, onde não faltão
+Lagrimas, no licor qualhado, & enxuto,
+Das aruores, que Cânfora he chamado,
+Com que da Ilha o nome he celebrado.
+
+Ali tambem Timor, que o lenho manda
+Sàndalo ſalutifero, & cheiroſo,
+Olha a Sunda tão larga, que hũa banda
+Eſconde pera o Sul difficultoſo:
+A gente do Sertão, que as terras anda,
+Hum rio diz que tem miraculoſo,
+Que por onde elle ſo ſem outro vae,
+Conuerte em pedra o pao que nelle cae:
+
+Ve naquella que o tempo tornou Ilha,
+Que tambem flamas tremulas vapôra,
+A fonte que oleo mana, & a marauilha
+Do cheiroſo licor, que o tronco chora,
+Cheiroſo mais que quanto eſtila a filha
+De Cyniras, na Arabia onde ella mora,
+E ve que tendo quanto as outras tem,
+Branda ſeda & fino ouro dà tambem.
+
+Olha em Ceilão, que o monte ſe aleuanta
+Tanto, que as nuuẽs paſſa, ou a viſta engana,
+Os naturaes o tem por couſa ſancta,
+Polla pedra onde eſtâ a pègada humana:
+Nas ilhas de Maldiua nace a prama
+No profundo das agoas ſoberana,
+Cujo pomo contra o veneno vrgente
+He tido por Antidoto excelente.
+
+Verâs de fronte eſtar do roxo eſtreito
+Socotorâ co amaro Aloe famoſa,
+Outras ilhas no mar tambem ſogeito
+A vos, na coſta de Affrica arenoſa,
+Onde ſae do cheiro mais perfeito
+A maſſa ao mundo occulta, & precioſa,
+De ſam Lourenço ve a Ilha afamada,
+Que Madagaſcar he dalguũs chamada.
+
+Eis aqui as nouas partes do Oriente,
+Que voſoutros agora ao mundo dais,
+Abrindo a porta ao vaſto mar patente,
+Que com tão forte peito nauegais:
+Mas he tambem razão, que no Ponente
+Dhum Luſitano hum feito inda vejais,
+Que de ſeu Rey moſtrando ſe agrauado
+Caminho ha de fazer nunca cuidado.
+
+Vedes a grande terra que contina
+Vay de Caliſto ao ſeu contrario polo,
+Que ſoberba a farâ a luzente mina
+Do metal, que a cor tem do louro Apolo,
+Caſtella voſſa amiga ſerà dina
+De lançarlhe o colar ao rudo colo,
+Varias prouincias tem de varias gentes
+Em ritos & cuſtumes differentes.
+
+Mas ca onde mais ſe alarga, ali tereis
+Parte tambem co pao vermelho nota,
+De Sancta Cruz o nome lhe poreis,
+Deſcobrila ha a primeira voſſa frota:
+Ao longo deſta coſta que tereis
+Yrâ buſcando a parte mais remota
+O Magalhães, no feito com verdade
+Portugues, porem não na lealdade.
+
+Deſque paſſar a via mais que mea,
+Que ao Antartico polo vay da linha,
+Dhũa eſtatura quaſi Gigantea
+Homẽs verâ, da terra ali vizinha:
+E mais auante o eſtreito, que ſe arrea
+Co nome delle agora, o qual caminha
+Pera outro mar, & terra que fica onde
+Com ſuas frias aſas o Auſtro a eſconde.
+
+Ate qui, Portugueſes, concedido
+Vos he ſaberdes os futuros feitos,
+Que pello mar, que ja deixais ſabido,
+Virão fazer barões de fortes peitos:
+Agora, pois que tendes aprendido
+Trabalhos, que vos fação ſer aceitos
+Aas eternas eſpoſas, & fermoſas,
+Que coroas vos tecem glorioſas.
+
+Podeis vos embarcar, que tendes vento
+E mar tranquilo pera a patria amada:
+Aſsi lhe diſſe, & logo mouimento
+Fazem da Ilha alegre, & namorada:
+Leuão refreſco, & nobre mantimento,
+Leuão a companhia deſejada,
+Das Nimphas que ham de ter eternamente,
+Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
+
+Aſsi forão cortando o mar ſereno,
+Com vento ſempre manſo, & nunca yrado,
+Ate que ouuerão viſta do terreno
+Em que nacerão, ſempre deſejado:
+Entrarão pella foz do Tejo ameno,
+E a ſua patria, & Rey temido & amado,
+O premio & gloria dão, porque mandou
+E com titolos nouos ſe illuſtrou.
+
+No mais Muſa, no mais, que a Lira tenho
+Deſtemparada, & a voz enrouquecida,
+E não do canto, mas de ver que venho
+Cantar a gente ſurda, & endurecida:
+O fauor com que mais ſe acende o engenho,
+Não no dâ a patria não, que esta metida,
+No goſto da cubiça, & na rudeza
+Dhũa auſtera, apagada, & vil triſteza.
+
+E não ſey porque influxo de deſtino
+Não tem hum ledo orgulho, & geral gosto,
+Que os animos leuanta de contino,
+A ter pera trabalhos ledo o roſto:
+Por iſſo vos ò Rey, que por diuino
+Conſelho eſtais no regio ſolio poſto,
+Olhay que ſois (& vede as outras gentes)
+Senhor ſo de vaſſallos excellentes.
+
+Olhay que ledos vão, por carias vias,
+Quaes rompentes liões, & brauos touros,
+Dando os corpos a fomes, & vigias,
+A ferro, a fogo, a ſetas, & pilouros:
+A quentes regiões, a plagas frias,
+A golpes da Idolatras, & de Mouros,
+A perigos incognitos domundo,
+A naufragios, a pexes, ao profnndo:
+
+Por vos ſeruir a tudo aparelhados,
+De vos tam longe ſempre obedientes,
+A quaeſquer voſſos aſperos mandados,
+Sem dar reposta promptos & contentes,
+So com ſaber que ſam de vos olhados,
+Demonios infernais, negros & ardentes,
+Cometerão conuoſco, & não duuido
+Que vencedor vos fação, não vencido.
+
+Fauoreceyos logo, & alegrayos
+Com a preſença, & leda humanidade,
+De riguroſas leis deſaliuayos,
+Que aſsi ſe abre o caminho aa ſanctidade:
+Os mais eſprimentados leuantayos,
+Se com a eſperiencia tem bondade,
+Pera voſſo concelho, pois que ſabem
+O como, o quando, & onde as couſas cabem.
+
+Todos fauorecei em ſeus officios,
+Segundo tem das vidas o talento,
+Tenhão Religioſos exercicios
+De rogarem por voſſo regimento,
+Com jejuns, deſciplina, pellos vicios
+Comuns, toda ambição terão por vento,
+Que o bom Religioſo verdadeiro,
+Gloria vaã não pretende nem dinheiro.
+
+Os Caualeiros tende em muita eſtima,
+Pois com ſeu ſangue intrepido & feruente,
+Eſtendem não ſomente a ley de cima,
+Mas inda voſſo imperio preeminente:
+Pois aquelles que a tão remoto clima
+Vos vão ſeruir com paſſo diligente,
+Dous inimigos vencem, hũs os viuos,
+(E o que he mais) os trabalhos exceſsiuos.
+
+Fazey ſenhor que nunca os admirados
+Alemães, Galos, Italos, & lngleſes
+Poſſam dizer que ſam pera mandados,
+Mais que pera mandar os Portugueſes:
+Tomay conſelho ſo deſprimentados,
+Que virão largos anos, largos meſes,
+Que poſto que em cientes muito cabe,
+Mais em particular o experto ſabe.
+
+De Phormião Philoſopho elegante
+Vereis como Anibal eſcarnecia,
+Quando das artes bellicas diante
+Delle com larga voz trataua & lia:
+A diſciplina militar preſtante
+Não ſe aprende ſenhor na fantaſia
+Sonhando, imaginando, ou eſtudando,
+Se não vendo, tratando, & pelejando.
+
+Mas eu que falo humilde, baxo, & rudo
+De vos não conhecido, nem ſonhado?
+Da boca dos pequenos ſey com tudo,
+Que o lauuor ſae as vezes acabado,
+Nem me falta na vida honesto eſtudo
+Com longa eſperiencia misturado,
+Nem engenho, que aqui vereis preſente,
+Couſas que juntas ſe achão raramente.
+
+Pera ſeruiruos braço aas armas feito,
+Pera cantaruos mente aas Muſas dada,
+So me falece ſer a vos aceito,
+De quem virtude deue ſer prezada:
+Se me iſto o ceo concede, & o voſſo peito
+Dina empreſa tomar de ſer cantada,
+Como a preſaga mente vaticina,
+Olhando a voſſa inclinação diuina.
+
+Ou fazendo que mais que a de Meduſa,
+A viſta voſſa tema o monte Atlante,
+Ou rompendo nos campos da Ampeluſa
+Os muros de Marrocos & Trudante,
+A minha ja eſtimada & leda muſa,
+Fico, que em todo o mundo de vos cante,
+De ſorte que Alexandro em vos ſe veja,
+Sem aa dita de Achiles ter enueja.
+
+F I M.
+
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões
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+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS ***
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
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