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diff --git a/27084-8.txt b/27084-8.txt new file mode 100644 index 0000000..c8ea84c --- /dev/null +++ b/27084-8.txt @@ -0,0 +1,2586 @@ +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº5 (de 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: October 29, 2008 [EBook #27084] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + +OFFERECIDAS + +A QUEM NÃO PÓDE DORMIR + +POR + +Camillo Castello Branco + + +PUBLICAÇÃO MENSAL + + +N.º 5--MAIO + +LIVRARIA INTERNACIONAL +DE +ERNESTO CHARDRON +_96, Largo dos Clerigos, 98_ + +PORTO EUGENIO CHARDRON +_4, Largo de S. Francisco, 4_ +BRAGA + +1874 + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA + +62--Rua da Cancella Velha--62 + +1874 + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + + +SUMMARIO + +Petronilla, Gamarra, Zamperini--Entrada para os salões--Os salões, +introducção, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Ecce iterum +«Silva» Chrispinus--Santos-Silva--Doudo Illustre--A +catastrophe--Renan--Correcções--Mau exemplo de poetas casados--A casa de +Bragança «ab ovo»--Um inquisidor portuguez e o principe de +Gales--Trilogia da «Actualidade» + + + + +PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI + + +Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos +argentarios portuguezes no seculo XVIII. + +Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745. +Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros +diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas +cabeças, sem respeitar as testas coroadas. + +Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta. +Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com +as «princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye +denomina as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso +Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas não esbanjava em +galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas +transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as +actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O +fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia +hombrear em proezas de galã com algum frade bernardo de costumes +suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu +camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor +platonico. Havia no theatro o _camarote dos frades_, collocado por baixo +do camarote das açafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os +monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas +não passavam d'estes resfolegos os frades. + +A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos +fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, _morceau +friand_,--dizia o cavalheiro de Oliveira--que só aos grandes senhores +competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante. + +D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se +illaquear n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de +ouro e pedras. + +Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras +carregadas de riquezas--diz Francisco Xavier de Oliveira--e acrescenta +que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou +eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja. +(_OEuvres mêlées..._ Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a +enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a ternura. A +final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte +menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se +capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo +passo que o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos +comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio. + + * * * * * + +Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos +antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano +Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e +cortezão--assevera Francisco Xavier de Oliveira.--D. João V dava-lhe uma +pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina +tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados +como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com +as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a boa philosophia, a +boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E assim viveu e +medrou longos annos em Lisboa. + +Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e +algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada +dançarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra, +quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de +grande fôlego. + +Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro, +justiçado como regicida em 1758. + +Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados; +e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade +matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro. + +Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o +descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a +instar com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da +ordem de Santo Agostinho. + +E professou. + +O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como +mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D. +Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que +tragico destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo +da libertinagem, com cabellos brancos. + +E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias, +instillando-lhe no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral. + +O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao +paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos +quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa +Monica. + +--Vês tu quanto te amo?--disse o marquez--dei-te a preferencia, entre ti +e o rei. + +--Se fizesses outra cousa nunca mais me verias--replicou ella +abespinhando-se. + +--Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!... + +--O teu dever é esse... _Antes que todo es mi dama_, diz Calderon de la +Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco +amor me tens. + +_J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul +mot de ma façon_, diz o cavalheiro de Oliveira, (_OEuvres mêlées_, t. +3.º p. 34). + +Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má +digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns +merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim +da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira +alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de +Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o +velho marquez á cova: + + +«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o +Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a, +e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella +quanto cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz +monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa, +o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos, +socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances á +vingança do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques +de encontro á coragem intrepida de Noronha... Era elle, porém, o +possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas +vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o +aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez, +authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve +nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do +marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto +pôde por demorar tão injusta prisão, vingando d'est'arte os manes do +marquez, seu sobrinho.» (_Obra cit._, pag. 34 e 35). + + +O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões +atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a +sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e +escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, _maus bichos os +comem_, como disse o Sá de Miranda. + +Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra, +d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto +conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no +dia 9 de março de 1723. + +O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a +Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de +brilhantes... _Il me fit voir_ (diz o amigo de Noronha) _entre ses +propres mains ce même portrait du marquis, le même jour qu'il en avail +fait présent à son infidele Gamarra._ + +Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a +preceito, _mieux que personne_: + + +«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era +moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em +todos os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava +igualmente o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente +estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha.» (_Obra cit._, pag. +35). + + +Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir +do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada +oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda não era frade. +Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio +de seu homem, como era de justiça. O marido sondou a profundidade do seu +direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao +patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos á annullação +dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com +o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao +marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro, +metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de +Madrid. (_Obra cit._, pag. 33, nota _A_). + +Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar +como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro +visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a +quem o rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o +nome de _carvoeiro da Rosa_. Ao proposito d'esta perigosa cigana, +escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira: + + +«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da +astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos +desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu +enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos. +Este pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo. +Induziu ella um galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o +desgraçado; foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» (_Obra +cit._, pag. 66). + +O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de +cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram +pela catastrophe da forca. + +Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida +do Monte contra o desembargador aguazil do _carvoeiro_. Diziam assim: + + Oh! descahido te vejam + Estes olhos peccadores: + Arrastado e perseguido + Já que perco os meus amores. + + Todas nós, as freiras juntas + Te havemos de praguejar + Pois por caber com el-rei + Nos vaes desacreditar! + + Justiça de Deus te cáia, + E com todo o seu poder; + Na bocca de um bacamarte + Te vejamos padecer. + + Homem, deixa-nos viver, + Não sejas tão turbulento; + Deixa divertir as tristes + Que não sahem do convento. + + Etc. + +Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII, +perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga. + +--Que livros? + +--A _Historia do theatro portuguez_, onde elle conta pouco mais ou menos +essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do actor +hespanhol Antonio Ruiz. + +Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio. +Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como +o leitor vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a +culpa, confrontando o original e o plagiato. + + ELLE + + (EM 1871) + + _Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos + annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, + historiador e palaciano._ Era homem de bem tanto ás direitas como + actor de merito. _Do seu_ porte _honrado_ redundou-lhe _uma pensão + annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido + das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos + prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._ + + HIST. DO THEATRO PORT. + + EU + + (EM 1866) + + _Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos + annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, + historiador e palaciano._ Era tão homem de bem quanto actor de + merecimento. _Do seu_ proceder _honrado_ resultou-lhe _uma pensão + annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido + das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos + prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._ + + O JUDEU (romance). + +Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco +Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca +viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porém, no acto da copia, +deslisei da versão do professor de litteratura em tres pontos. 1.º Elle +escreveu em 1871: _Era homem de bem tanto ás direitas como auctor de +merito_; e eu escrevi em 1866: _Era tão homem de bem quanto author de +merecimento._ E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: _Il étoit aussi +homme de bien qu'il etoit Acteur de mérite._ O _tanto ás direitas_ do +snr. Theophilo é uma perola de estylo de que eu não quiz defraudal-o nem +_ás tortas_. 2.º ponto: Elle disse: _do seu porte honrado_. E eu, +gafando a phrase de francezia, puz _proceder_ em lugar de _porte_. Foi +ignorancia que me pesa como _porte_ ou carreto; mas ainda me fica +_porte_ ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me +quero dar _porte_ ou importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando +em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pôz +_redundou-lhe_, e eu _resultou-lhe_. Do feitio que elle escreveu a idéa +fica mais aceada. Na nova edição do _Judeu_ hei de apanhar-lhe o +_redundou-lhe_ que é bom. + +No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes +lhe armei a sancadilha de chamar Antonio _Rodrigues_ ao actor hespanhol +que nunca foi _Rodrigues_; mas sim _Ruiz_. Faz-se mister sestro de muito +mentir para enganar um homem, de quem se copía o engano cinco annos +depois! Parece enguiço! O cavalheiro de Oliveira escreveu _Ruiz_. Cuidei +que era abreviatura de _Rodrigues_, e lá vai a peta de recochête lograr +o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me +desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor +como e quando, se é que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do +doutor Theophilo. + +Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em +casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto +d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes +decimas: + + Victor! já chegou a gente + de Madrid, tão esperada, + e já foi agasalhada + do seu superintendente. + Este padre impertinente + se intitula em Portugal + Dom Hieronomio de tal, + e _Cancer_ tambem seria, + pois á sua enfermaria + puxa as damas do hospital. + Porém, viva o tal padrinho! + só a taes afilhadas chega; + que á Undarro, e á gallega + abençôa o seu carinho. + E baptisa de caminho + com fé pia e fervorosa + a dama em flôr magestosa, + confirmada no primor; + porém, se a Undarro é flôr + tombem a gallega é Rosa. + + .............................. + .............................. + + Com que já por uma vez, + temos boa companhia, + graças ao nosso Atouguia + que tal companhia fez, + Em fim, já chegou Garcez,[1] + galan de primeira classe, + que eu não cuidei que chegasse; + e já muita gente diz + que morreu Antonio Ruiz; + mas _requiescat in pace_. + + _Amen._ + +Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de +traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me +d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasião de +recommendar certo livro escripto portuguezmente: + +......................................................................... + +«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio +dos sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues! +Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna +letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as +suas cousas originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua +ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar +com linguas teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas +fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos +latrocinios que elles cá nos fizeram em 1808. Se os não citava, tambem +elles lá não disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos +arrebanharam nas igrejas. Retaliação justa. + +«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo, +não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a +ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e +cimentados na singularidade bordalenga com que transpõe idéas +peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, coxas, +esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados +d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas +desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre +sobrepuja o phosphoro. + +«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas +para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a +furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a +flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim! + +«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações +atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E +prometto lembrar-lh'as. + +«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas +negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de +viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais +intelligente e manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo +que, lá ao diante, se saiba quo morri na desconfiança de que o snr. +Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os +applausos do gentio lôrpa.» + + +Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui +apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me +capaz de copiar de toda a gente. + + * * * * * + +Agora, direi da Zamperini. + +Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das +forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos +documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano. + +Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em +quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro +para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um +systema que não é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela +mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de +espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graça. +Iam então dous quadrilheiros trazêl-o da enfermaria dos orates em +direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado até ao palco. +Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um +desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava +gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a +epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam +ao seu cubiculo no hospital de S. José. + +Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I, +condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres +illustres que capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei +nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras, +filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina. + +Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no +holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise +da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos +capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por +ordem do ministro. + +Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura, +figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma +banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos: + + Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout, + puis que vous êtes dans un país de fous. + +Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que +ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe +beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em +inglez: + + The true property of an englishman + T'is to pay and despise.........[2] + +E mais abaixo: + + Mylord, dont kiss her hand, + Because she has no face, + But kiss her... her... her... + Kiss her elsewhere[3] + +Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que +figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos: + + A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime; + allons, prenez l'exemple, et vous serez de même. + +Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça mette a bolsa na algibeira, e dá +visos de safar-se, com estes versos: + + Lasciate agli altri, amico, la campagna, + questa sol con quatrini si guadagna. + +A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode +á cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra: + + Macedo, não te cances, + Pois os gostos são diversos; + Zamperini estima o ouro, + E nada entende de versos. + +E assim termina a relamboria semsaboria. + +Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla +nota de Verdier _Hyssope_. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, hoje +em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras +glaciaes em ternuras de camarins. + + [1] O snr. Theophilo a pag. 151 e 152 do tom. 3.º do seu _Theatro + portuguez_ desmente o Pinto Brandão, dizendo que o _Garcez não + veio_. O doutor, 141 annos depois, estava mais em dia que o poeta, + redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. Theophilo + é unico! + + [2] O que bem caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar. + + [3] Mylord, talvez vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a + mão, etc. + + + + +ENTRADA PARA OS SALÕES + + +Eu não contava com a gloria e o contentamento de estampar nas _Noites de +insomnia_ o livro completo de physiologia social, intitulado--OS SALÕES. + +Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde +tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra. + +Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão +benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença +de 1:000 subscriptores. + +E, pois que a publicação dos SALÕES principiou aqui desacompanhada da +introducção indispensavel ao complexo dos capitulos, forçoso é que se +interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado irá ao +entendimento dos trechos que já leu e dos outros que advierem. + +Este livro dos SALÕES será a porção mais para durar e sobreviver ás +futilidades das _Noites de insomnia_. O visconde de Ouguella, ainda em +annos florentes e vigorosos, póde dizer com o velho e experimentado +Rousseau: _Je sens mon coeur et je connais les hommes_. O seu livro +esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas +e pungentes ironias de Proudhon--aquelle vidente que Deus mandou +apregoar a prophecia da destruição debaixo dos muros da segunda +Jerusalem derruida. + +A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os +SALÕES, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, vê pelos olhos da +historia--a Fatalidade inflexa--; e emerge á flôr d'estes parceis, que +nos atormentam, as evoluções da Providencia. + +Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O +melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma +balbuciação em linguagem nova. + +A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de +Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de +Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes +em que o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não +se compadece com uns corações que nasceram velhos. + +Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do +passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos +pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que +moralisemos as _massas_. Mas sejamos todos _massas_ em quanto o povo--a +arraia das hortas e das galerias parlamentares--desconfiar que lhe desce +do alto o exemplo que a dissolve e acanalha. + +O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á +feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em _palavras de +crente_, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay. +Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se +alguma hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a +infamia assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho +José Freire. Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das +casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis +seus Pansas. + +E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras +da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos SALÕES, e peço ao +visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto +lhe deparou o manuscripto do desembargador. + + + + +OS SALÕES + + +INTRODUCÇÃO + + ... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir + pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière + sous le ténébreux manteau de l'océan. + + THEOPHILE GAUTIER. + +Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri +o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei +o seguinte: + + +«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do +hospital de S. José.» + + +Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o +espirito. + +Resolvi ir á feira da Ladra. + +Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano, +na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado. + +Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada +passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das +inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e +sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, +aprendem-se nas _Mil e uma noites_, adivinham-se nas chronicas dos +nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das +casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um +mytho. Para nós--pobre povo--empurrado para as vagas espumosas do +oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem +sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os +numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas. + +E o que somos nós? Deus o sabe. + +Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico, +devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente +constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam +thronos e proclamam republicas. + +«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, +n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das +raças e linguas orientaes. + +As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa +grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que +afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das +escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A +_graça_, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para +apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de +reminiscencias tão pagãs. + +E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente +reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da +corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar. + +Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal +francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal +artigo--esculpido hoje nos bronzes da historia--com esta phrase singela +e prophetica: _Pobre França, pobre rei!_... + +Se eu dissera aqui: _pobre_ Portugal!--Não digo. + +Entrei na feira da Ladra. + +Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna, +levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais +ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces. + +Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua +tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo +buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das +possessões indo-britannicas. + +Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de +pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os +residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram. + +Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino: + + «Lasciate ogni speranza, voi che entrate.» + +Achava-me em presença do inventario de uma capital. + +Examinei: + +Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas +elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina +de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um +sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de +prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais +longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de _parvenu_, um saleiro da +modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso +etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o +expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os +amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por +mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura +e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em +prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos +devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos +delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro +do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de +boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no +primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um +prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão +equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia +a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos +embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, +com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy. + +Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras +quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados +de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a +óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, +no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um +candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da +lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de +direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma +fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas, +tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha, +talvez a ultima illusão dos seus possuidores. _Sic transit gloria +mundi_, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros +dourados dos triumphadores romanos. + +Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do +atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se +expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das +gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e +proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as +civilisações. + +Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente +lustrosa--despojo venerando de algum desembargador da casa da +supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã +mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de +lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em +variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em +arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte, +abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e +hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de +charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados +surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através +de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres +do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e +envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador +de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre +dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do +desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes +inspirações de Benvenuto Cellini. + +Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no +seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras, +formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever +por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e +ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada +por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor +inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. +Envolvia-se n'um cafran ou burnus--uma especie de farrapo de panno, que +lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um +lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos +negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um +pedaço de cera amollecido entre os dedos. + +Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do +despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um +movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe, +uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das +pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação +feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor! + +A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas +allucinações e devaneios acusticos. + +Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador? + +A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre +os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas +phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, +algum preito a Satanaz,--e depois accentuou em voz clara e cadenciada as +seguintes palavras: + +--Dê-me dez libras, e leva-o de graça. + +--E a chave? + +--A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. +São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O +desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito +nos ultimos annos da sua vida. + +--Conheceu-o? + +A velha sorriu-se. + +A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo +infernal. + +--Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em +Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu +vendo os moveis para comer. + +Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta +amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua +curta narração. + +Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou +as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa +como um mysterio. + +Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei +nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte: + + +AO LEITOR + +Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. +Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu +tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes +elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, +que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei +do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto +horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho +pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth, +nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de +Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de +Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes +nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, +Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de +enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com +ellas povoar + +OS SALÕES + +Segue-se o livro. + +Vou publical-o. + + VISCONDE DE OUGUELLA. + + + + +ECCE ITERUM «SILVA» CRÍSPINUS + + +Escreve elle no n.º 69 da _Actualidade_: + + +«Publicou-se o n.º 17 da _Tribuna_. Insere artigos e versos dos snrs. +Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece +dos numeros _ulteriores_.» + + +_Ulterior_ quer dizer _que vem depois_, ou _que tem data posterior_. + +Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou _ulterior_ ao n.º +18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o _depois_ está primeiro +que _antes_, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem primeiro que os +seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.^os 18, 19, etc., da +_Tribuna_ promettiam ser iguaes aos seus precedentes, escreveria: «Tudo +nos assegura que os numeros, que hão de sahir anteriormente, serão +dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.» + +Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores e ulteriores furunculos de +aposthema intellectual, proponho á academia real das sciencias este snr. +Silva... para varredor. + + + + +SANTOS-SILVA + + +Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e +os sete orphãos do egregio orador! + +Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos +filhos! + +Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de +Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a +pobreza, ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos +banhados das ultimas lagrimas de seu pai. + +Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto +da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade. + +João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito +imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado +grupo de crianças que punham as mãos--expressão unica das agonias +inexprimiveis. + +A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do +Altissimo. + + * * * * * + +Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus +discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e +energico orador parlamentar. + +Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei +nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o +meditativamente, sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os +seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria, +pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram, +o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem. + +Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo +honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos +lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome +iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo +adeus. + +E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o coração cheio das +presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle que lhes seria +protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis +criancinhas. + +Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!... + +Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem +filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia +de Santos-Silva? + +Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871. + + +«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa +duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã +consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a +tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos. +Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma +regra que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral. +Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente +faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da +sua molestia. Os proprios medicos são os que, n'este ponto, mais se +enganam, por que são os que mais exageram. + +«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não +descure restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento +hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe +regularise qualquer desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito, +ou o levante de qualquer ligeira prostração. Creia tambem na sua idade, +e na força medicatriz da natureza, que, quando é bem dirigida e +auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres. + +«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de +um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as +mais vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem +sel-o. De todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma, +e mais me angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em +infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus +esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do +santo amor de seus filhos. + +«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que +os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei aos meus. +Repartirei com elles o meu prestimo, se então o tiver. Estas palavras +não são só de consolação: são compromissos solemnes, que espero não +desmentir. + +......................................................................... + +«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de +seus antecessores. + +......................................................................... + +«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que +Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a +vida de seus filhos.» + + +Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina, +posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias +proprias que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus, +quando sentiu na garganta a constricção da asphyxia. + +O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella +alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: _A +posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus +antecessores_. + +Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete +filhos. + + + + +DOUDO ILLUSTRE + + +O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José de Sousa Magalhães, doutor em +canones, jurisconsulto eminente, orador esclarecido tanto no magisterio +universitario como no parlamento, ensandeceu em 1858, quando contava +quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em Villa Pouca de +Aguiar, na casa onde havia nascido. + +Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de +provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D. +Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do +arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que +denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta +pugna um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e +em variada litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do +arcebispo, e contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por +parte do patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo +academico Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores. + +Como quer que fosse, o arcebispo de Mitylene perdeu na brava luta a +razão; e, ao parecer de illustrados juizes da sua justiça, foi a +iniquidade que matou o robusto athleta. + +Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a +esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva +condensação da escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica, +absorta na contemplação estupida das lagrimas dos parentes e amigos. + +Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do +delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze +annos, nas suas escuridões interiores. + +Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o +taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua +familia. + +Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de +anno, mez e dia. + +Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de +Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em +jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com +os dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que +fôra um dos mais alumiados da sua época, admiraveis lanços de linguagem, +de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso! É que tambem nos +delirios ha raptos de luminosas visões. + +Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu +titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia. +Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da +desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas. + +Eis-aqui os titulos: _O gigante--Os privilegios da corôa dynastica--As +cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito +na universidade--A missão divina--A chronica real--Da santidade do +direito--Cemiterio protestante--A tyrannia impossivel--O mesmo Senhor +fez os seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia--O +impassivel--O erro commum--Os tres fundadores--O cordeiro--A surpreza--O +burrinho e o menino dos protestantes--O templo--O penhor e a hypotheca, +ou o juro e a herdade--O titulo da realeza--O parocho--O demonio +tentador--A espada de S. Bruno--O enigma--Mascara de ferro--O sonho--D. +Maria Caraça Bonaparte ou a burrinha protestante--O viatico da +eternidade--A estrella do norte ou a misericordia dos mares--A +vacca--Apologo--A catastrophe_. + +Estes manuscriptos comprehendem sessenta cadernos em folha. Em poder da +familia do finado arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto +de doze annos. Tirando ao acaso um de entre os cadernos cosidos com +algodão verde e escarlate--para dar ao leitor a manifestação escripta de +uma alma que esvoaça á volta dos residuos ainda bruxuleantes da sua +razão---aqui vai a + + + + +CATASTROPHE + + +Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o +titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua +primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de +toda a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias +atrocissimas d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram +bem conhecidas dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque +não souberam, ou porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram +ao successo o nome de «catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar +o que era patente e publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e +enredo occulto, nada explicaram na sua «anti-catastrophe», documento +mediano e mal traçado para o fim, e para o grande empenho da causa e da +questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e degrada apoucando o +assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e desviar a +attenção do horror da catastrophe. + +Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta +vergonhosa historia da usurpação; as suas monographias são como memorias +de encommenda que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar +algum erro ou para afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim +da historia não curam nem tratam: porque a prevenção da historia é o +erro, e com este rumo ninguem póde navegar nem progredir. Attribuem +geralmente os protestantes aquelle sinistro ao partido cardinalicio de +Roma, segundo o seu costume e petulante ousadia de calumniadores, que +commetteu o delicto para o assoalhar e publicar por um lado +attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro lado +desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma +imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso +empenho confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é +como a luz mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em +toda a parte onde estiver encerrado o homem pela maior tyrannia para +alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme debaixo da +lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto não +revela o enigma da sua escura sepultura. + +A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da +historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a +boa critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e +verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A +Divina Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da +injuria; o demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o +facto permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes +só no echo até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir +no decurso dos seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e +medonho ou funesto e assustador até para o demonio que o gera e produz. +Sôa do orgão a tuba, e não é a mão do homem que fere a tecla, nem a +musica e pensamento do seu compositor que produz a melodia. Devia o +homem vêr no arcano a sciencia divina, que deu ao ar modulado pelo +instrumento a euphonica sympathia dos sons e o gentil devaneio do mais +accorde accento. + +O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que +julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito +verdadeiro da sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo +catholico; porque só n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos +de maior vergonha apenas cabe a profana chula de tabernal comedia, e a +ironia da musica. A arpa é instrumento real, a lira só a tange a poesia +e a verdadeira inspiração que o Senhor concede ou nega ao cantor pelo +moto da trova e pelo pensamento da sua religião e virtude. A historia +verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e pedinte--eis o dilemma unico +da sciencia, e o programma que o escriptor competente sempre encontra +diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a que se propõe e +persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do canto pelo +sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as suas +abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem +possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa +catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple +do seu desenfado sem sonhar com opiparo e somnolento banquete; e por +isso todas as suas lôas acabam em comer. + +O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os +homens do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e +profissões só pelo benigno e precioso metal que auferem e adoram--e +d'estes é sempre o maior numero; o actual enche de eunuchos todos os +theatros e d'histriões a comedia d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco. +Que mais diremos d'este reprobo e amphibio meteoro, senão que jámais +deixa de se converter contra o inventor e mais obstinado sectario? o +ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, ou machina de pura +digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho herdeiro dispor o +cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos eunuchos sempre a +mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem proletario. + +Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões +para aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo +ha de rir do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos, +e fazer duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter +necessidade de fugir da sua sanha, e sem accelerar o passo do seu +domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil e +desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da +sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e +decifrai os signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do +que as memorias que deviam retratar os seus pensamentos de historiador, +e apenas contém a sombra da sua ignominia e proterva hediondez e +peçonha. + +Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi +synonymo de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o +direito é dar pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é +o mesmo que entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais +desleal e traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido +que póde formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a +usurpação; os seus meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais +desleal e machiavelica, e o perpetuo enredo do engano; o estribilho +protestante, o punhal do forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega +da patria perdida ao mais ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do +demonio. A sua authoridade sempre falsa não impera, pactua em toda a +parte com os maiores scelerados, e consegue fins mediocres e resultados +de dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina +roubam-se uns aos outros. + +Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais +negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas +primeiramente o rei não pôde usurpar, nas provincias nem em +Traz-os-Montes, em segundo lugar a usurpação veio toda a pertencer aos +caudilhos, que o governaram e dominaram e á sua lei mental e miseravel +recurso; que só pôde communicar a seu filho com o mais tetrico e +deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor pela abominavel +traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o cardeal +romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o +escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa +de Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza +faziam entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia +real, que era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado +deixava-se vencer, e cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado +pelo melhor tabaco e café de Moca, e pelos prazeres reunidos do seu +abominavel harem. + +A lei mental foi uma medida deficientissima para o seu fim, mas prova +até que ponto é verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O +padre santo durante o interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens +á casa de Bragança;--disse então a abominavel facção: entregar os bens é +o mesmo que entregar a corôa;--e logo faziam um processo com grande +numero de testemunhas para provar que não havia successor á corôa, e que +D. João I por esta falta de successor fôra justamente acclamado. +Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria protestante, que aitribuiam a João +das Regras, e davam ao falso documento o cunho das côrtes de Coimbra, +aonde não foi nem podia ser apresentada sem grande irrisão e escarneo de +todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque de Bragança para +desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os herejes e +fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa fundar-se na +apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é de um +anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou, +irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que +usurpava os bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta +figura só para desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os +histriões do torpe magnetismo das façanhas da estrada orçam pelo mesmo +vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia +proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa +tyrannia. Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes +serviços que fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr +obeliscos devidos ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os +francezes, foi para entregar e vender a patria e os penates, os templos +e a sua santidade, as mulheres e todo o verniz do rosto vil e infame do +idolo das suas abjectas heresias e traições: se algum militar brioso e +valente do exercito appareceu no Brazil foi vendido tres vezes, +ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não assignava os mais +falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos que preparavam +e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do nosso +exercito peninsular. + +Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da +usurpação? porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos +seculos modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao +Senhor a menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente +sombra de galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o +rei gemeu na sua escravidão de toda a vida, os usurpadores conspiraram, +escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o principio Divino +triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e não ha +obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que calou +na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do +novilho. + +A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel, +e deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar +no decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido +usurpador é como a familia dos flamengos e dos ciganos--prova e reprova +todas gerações e partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas +pela ultima arma do veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida +estava como o condestavel atormentado pelos remorsos; este deixou os +bens usurpados aos outros aventureiros, e pediu esmola á porta do +convento com bastante industria e sagacidade; aquelle seria morto na +mesma possilga em que vivia, se tentasse restituir a corôa; porque a +verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos ministros da sua historica +realeza. + +A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no +banco dos réos, no ultimo transe de vida, ou no meio da mais funesta +desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe como o furacão através +dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca as arvores com a +sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e morreu;--quem +estrangulou o monarcha? o processo começado das provas evidentes de +testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são estes +em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para +descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os +males da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em +virtude de uma queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a +dirigir ao cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia +vergava debaixo do peso de invenciveis remorsos, mas que não podia +entregar á casa de Bragança uma corôa sem entregar a vida aos seus +tyrannos e crueis usurpadores, e algozes, e d'estes tirava o seu seguro +e pedia desaggravo e redempção. + +D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção +e um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança +não contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da +esterilidade. O que D. Duarte pedia para os falsos donatarios, e +verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de aleive e da +calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as successões +são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de +familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo--o seu castigo providencial +vai sendo identico da mesma catastrophe e represalia. + +Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a +sua verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem +a virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o +horror das suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa +mordacidade e peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de +Diu, Barros e Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre +Cesar das suas façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque +temia mais a calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que +tomava pela frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem +estremecer do vulcão. + +Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta +memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples +academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e acreditasse na Divina +Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os herejes attribuem +ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos recursos. Em regra, +moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e pelo signal da +sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior desprezo para +fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe veniaga. + +D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque; +todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e +brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os +dous primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos +mesmos meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a +excommunhão e o interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo +desenlace, e a mesma reprovação e condemnação divina. O conde da +Ericeira escreveu n'esta era a sua vergonhosa historia; o conde era +verdadeiro sandeu; o author de «Portugal Restaurado» recebeu a falsa +herança de uma casa; e trabalhoso no appetite fazendo do conde o fundo +da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela astucia mais que +diabolica de que se servia no empenho. Apenas concluiu o seu trabalho, +disse: Dai-me o premio;--e apenas se viu senhor do falso titulo e casa, +disse: Dai-me o preço da obra;--e fez d'esta outra historia um thesouro +para se enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João +das Regras; porque a sua original possilga nunca se descobriu nem +annunciou, e dizia-se que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao +pé da feira da Ladra de uma mulher, que vendia a chanfana do açougue +pelas portas de Lisboa, e que apregoava pelas ruas maior engano. + +Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de +Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição +em Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de +sustentar a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar +e sem horror o monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se +recreava com o vil officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I +principiou a considerar como proprios da corôa todos os bens da casa +real de Bragança; D. João dispunha como duque e como senhor de todos os +bens para imitar ou produzir a realeza e invicta memoria do senhor D. +Manoel I. Esta questão tinha sido tratada e muito debatida na primeira +época; todos se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus +bens como prova heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João +professou o erro em Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de +Calvino semelhante ao que foi expulso das Necessidades em nossos dias +pelo clamor do povo e pela justa queixa da parte sensata e catholica do +reino. Todos os herejes são monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu +preito o juramento da loja que o falso rei presta ao veneravel, e se o +rei tem o falso cargo jura como rei ao immediato sujeição e obediencia +ás decisões maçonicas, e como são muitas as lojas, a cada passo se vê +partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a sua monarchia pelas +seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o vislumbre do poder. + +Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e +brigantino de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é +o dos bens da casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais +feroz engano. As seitas e os corrilhos, que se formam das fezes de todos +os partidos estrangeiros e execraveis contam como elemento uma vez que o +lisonjeie e afoute para maior roubo e façanha da contribuição e da +injuria que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas +todas sobem, e todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o +que nos resta a provar para complemento da catastrophe e para sua prova +real e exuberante. + +Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes +recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns +valentões, que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e não podia ser +esta força angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o +rei se fazia forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragança +a cuja frente estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta +difficuldade em conceder as redeas do governo ao presumido successor. +Este conflicto nasceu e cresceu da mesma antiga causa de todas as +discordias da usurpação, e pelo motivo da injuria que tinham feito á +casa de Bragança e ao seu popular e heroico senhorio. D'esta vez o +governo pontificio ainda não estava resolvido a ceder; não faria a menor +concessão de reconhecimento sem a absoluta e total entrega dos bens de +Bragança ou dos bens da corôa, e D. Affonso estava resolvido a todos os +sacrificios, uma vez que achasse uma collocação em Roma e um modo de +viver ou uma absolvição vantajosa para o seu arrumo e fim. Esta deve ser +a ambição do usurpador que nasce; o seu throno não offerece encantos, +nem póde servir de balisa para a gloria verdadeira e santa que se embebe +na felicidade do povo e no heroismo e façanha. + +N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que +fosse tão corajoso e tão absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir +ou sahir do reino para não soffrer a perda da liberdade; tentou o +impossivel, e quebrou pela reconhecida prevaricação e má fé da nova e +falsa casa de Bragança, que seu pai organisou em Lisboa como partido +protestante para sustentar a negra e atroz usurpação: estes factos são +innegaveis. O _Joannes à regulis_ da primeira usurpação era um hereje +estrangeiro semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. João +IV tinha na sua côrte um ministro protestante da convenção de Cromwell, +e todos os usurpadores dos bens da casa de Bragança deviam ser da mesma +seita e falso cunho: D. Affonso VI abraçava a doutrina catholica, e, +consoante os bons principios de direito, devia perder o titulo de rei; +e, se em vez de casar em França, fosse ao reino ceder da corôa, +lisonjearia o reino catholico, e podia obter a liberdade, que outro +Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso conservou a corôa e por esta +razão o povo portuguez não podia ingerir-se na questão para defender o +preso; D. Pedro, seu irmão, era nimiamente cruel, mas não temia o +partido de seu irmão, porque não o tinha: D. Pedro tambem não tinha o +partido da nação, e por isso affectava grande humanidade para com seu +irmão, e grande respeito pelas côrtes, que sempre o repelliram e +despeitaram amargamente. + +D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmão para o privar de +todos os seus estados até o dar por demente e por impotente, aceitou a +mesma mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de +rainha, D. Pedro julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo +de rei; e parecia logico que a deposição perpetua de Affonso o +investisse na authoridade real, e o coroasse rei em vez de regente; o +titulo de principe não lhe podia competir, nem o de infante, que pouco +tempo depois começaram a usar por inaudita usurpação e roubo, e pelo +mais atroz anachronismo os filhos segundos d'esta familia de D. João IV. + +Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragança D. João +IV e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho +segundo para prevenir a falta de successor pelo receio da morte do +principe, e uma supposição e um embuste indigno, ou um meio de que se +servia a atroz calumnia da usurpação dos bens para tirar a D. Affonso VI +o que lhe tinha ficado da casa de Bragança e para os dar ao seu +predilecto: e por esta razão veio a D. Affonso o desejo de restituir, e +occorreu á facção o pensamento de depôr o insensato. Assim manejou a +perfida intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas +as eras procura colher e alcançar o seu unico fim que é o roubo pela +pertinaz heresia e pelo mais atroz engano e enredo. + +D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe +negou o tratamento; as nações não cessavam de o responsabilisar pela +vida do infeliz e proscripto; e já se julgava que fazia guardar como rei +um homem estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez +prender e reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do +tumulto dos seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido +d'aquella supposta revolução para declarar novamente como doudo o triste +que se deixou cahir no laço. D. Pedro a cada passo reunia as côrtes do +reino sempre na esperança de que o reconhecessem rei, mas jámais o +conseguiu pela grande desaffeição e justo odio que tinha merecido e +grangeado. + +A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se +assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os +bens de Bragança e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por +almoxarifes que nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as +terras juizes, e assalariava por todo o genero de engano os cobradores +da falsa e aleivosa renda, e por esta fórma constituiu as suas +instituições e morgados: o povo reagia contra a usurpação, mas o rei e o +governo, o infante e os seus almoxarifes conspiravam, e apesar do odio +do povo que não podia ser mais justo nem mais bem merecido colhiam e +recolhiam do roubo grandes interesses e mortificavam o povo com exacções +de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam do seu fim primordial e +applicavam para outro de maior escandalo e torpeza. + +O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas +jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a +figurar por alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua +mudança para a ilha é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam +abaixo de toda a critica: D. Affonso VI não era admittido a escrever; o +mesmo governo de D. Pedro fingiu ou suppôz as cartas para dar ao preso a +laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido +se temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e +como existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro. +Com effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por +morto na ilha para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D. +Pedro em côrtes a pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que +tomasse o titulo e o tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador +hereje, e injusto possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com +isto se houve por acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha +realeza. + +Veio então a questão romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto +aos bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do +povo, uma vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança. +O governo passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho +e prova de sua torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e +póde dizer-se que o escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida +taberna, ou no ergastulo do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais +indomita fera; por que estes reis sempre andaram presos, e a que chamam +casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e +conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de +julgar que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada +individuo é obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para +ficar doudo e bem sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus +verdadeiros senhores e tyrannos. + +Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou +de má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a +lingua do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo +pretenderam fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula, +nem suscitaram as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o +ingresso e a influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não +ouvir verdades amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão +inauditas usurpações e falsidades, e de tão grande subserviencia aos +estrangeiros e a todos os inimigos da nossa fé e da nossa gloria e +renome. + +João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um +fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam +entre nós; os seus dogmas proprios da mais abjecta demagogia podiam +apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, dos Neros e +dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes á lei +regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os +Tusculanos de Cicero e de sua REPUBLICA, só para a posteridade; e +estaria em algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar +e apparecer sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e +eterno d'el-rei o snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades +causam tedio e nojo. D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento +de magestade, sem lhe competir e por heresia de infame e vil +protestante. Agora dizem os apologistas da mesma seita que Portugal +sempre foi protestante; mas não dizem como se retractou a viuva, nem diz +como precisou a ignobil memoria de D. João IV de ser absolvida como +contrita á hora da morte para ter sepultura de corpo. + +Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel +cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa +e por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o +titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava +esta rosa d'ouro só para um rei ou imperador que acontecia ser o que +confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; e jámais o +pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o +mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como +vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que +não estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias, +nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons +catholicos e fieis. Durante a usurpação sempre procuraram os herejes +tomar lugar e assento, e á medida que fugia a fé da sua pureza invadiam +as raças, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir +as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar +pasto á luxuria dos maiores desvarios e ameaças. E seria só pela +necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia? É certo que +o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas o principio de +desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus +antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas +successões estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte +e pensamento do desprezo da santa lei e fé. + +Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen +cujos artigos secretos são da infame propaganda protestante que invadiu +o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este +com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragança a seguir o +falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame +ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como +Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e já os +protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus +superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da +injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario, +e no odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez +com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de +heresia, cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da +Bretanha e de Londres, como é sabido e se estendia por meio de +ramificações secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idéas da +santa acclamação de D. João I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo +mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truão e ridiculo para depôr +o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como então se dizia ao +mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e +para resuscitar os immortaes. + +Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas +iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter +verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e +protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior +astucia progrediam e illudiam sempre até o grau de maior engano, a este +como simples mação, áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos +mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os +maiores segredos dos outros graus, em quanto não obtinha os verdadeiros +da maior abominação de seu secreto esconjuro. + +Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta +revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz +calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que +nasce sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar +dos que só podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do +seu elemento; porque as claridades da sua existencia não o habilitavam +para conviver no espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza, e +por isso o precipitam mais depressa para que conheça o que é e o que +póde valer como energumeno. Alguem julga que o meteóro póde fazer-se +cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou estrella sem que o +Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita mais cedo este +rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu catholico +reinado e se lhe põe o nome de _mechas_, ou de _põe mais_..., mais +adiante o fazem _José do nabo_, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a +subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os +inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do +crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior +attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os +seus sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade +de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso. +O sophisma é a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o +incenso podre ao demonio, são despojados da propria pelle, e victimas da +nova crueldade dos monstros. + +Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos +milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre santo, se +a sua tentação inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que +fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do +desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razão S. Pedro condemnou +o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas +foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e ostensivo, já era +escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para +a sua ruina e perdição. + +A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro. +Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos +e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais +damnada chorêa da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter +n'este mundo e no outro a mesma sorte--a catastrophe--e o mesmo exito e +cruel engano. + + + + +RENAN + + +O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar +juizo e prudencia a questão da academia real das sciencias e Ernesto +Renan. Estas linhas do _Jornal da Noite_ compendiam todos os argumentos +do esclarecido publicista: _Merecem respeito as convicções. Mas a +consciencia dos outros é tão d'elles como a nossa, igualmente livre, de +todo o ponto respeitavel._ + +É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da +Republica: _nós, que de tolerantes nos desvanecemos, somos +intolerantissimos como frades_. + +O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica +as diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão +do author da _Vida de Jesus_. Os adaís da liberdade forjam golilhas de +phrases para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia. +Offendem e injuriam. + +O author do romance intitulado _Vida de Jesus_ é malquisto dos seis +academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o +indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista +indiscreto que enreda as suas novellas com o sacratissimo nome de Jesus +Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes um livro mui dilecto +do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é motivo bastante a que +as almas profundamente christãs se devotem á apotheose do depreciador de +Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do romance nos +descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do chaldeu. + +Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no +ulterior protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia, +mórmente quando, á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de +Vasconcellos, declaram que estremam entre o author da _Vida de Jesus_, e +o author da _Historia geral das linguas semitas_. + +Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que +afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao +coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um +incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de +Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de +Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e +receosos das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que +Renan recebesse publicamente em Portugal a consideração que o snr. +Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que +temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns +escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de +civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente. + + + + +CORRECÇÕES + + +Convém fazer algumas ao artigo _O Decepado_ (n.º 4, pag. 71). +Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á +gratidão o contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas +tão remotas e alheias das _novissimas_ charadas, das _capitações_, do +_don-juanismo_ e dos bancos. + +Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e, +se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o +appellido que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que +levante turbilhões de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal. +Eis a carta do snr. J. F. Torres: + +......................................................................... + +«Deliciei-me com a leitura das veridicas noticias historicas do meu +conterraneo Duarte d'Almeida, _o Decepado_. Ora, v. incansavel em +revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em tão gloriosa e +ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o arrojo de +lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a +verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu +author. + +«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de +Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella[4]; +mas sim um castello ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado +demolir pelo fallecido procurador da casa Penalva, Martinho do Banho, +para com a pedra mandar fazer escadas e outras toscas obras que conduzem +á capellinha de Santo Amaro, pertenças da mesma casa Penalva. Existe +outro igual monumento no lugar de Bandavizes, freguezia de Fataunços. + +«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia +ter sido uma vivenda ostentosa, como se vê do que ainda hoje existe, +pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa d'Oliveira. + +«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada +alli existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil[5]. Ha +porém na villa uma elegante capella do santo, onde se celebra missa +todas as segundas feiras; e onde se conserva a pia em que se baptisou o +santo; e bem assim o queixo inferior do mesmo, reliquia muito venerada +pelos habitantes da villa. O corpo, como v. sabe, jaz enterrado em S. +Francisco de Santarem.» + + +Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como +fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: _A exc.^ma madrasta +d'el-rei D. Luiz I calumniada_. + +O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro +opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus +admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais +eloquente de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra +biblica. + +João de Deus, o excellente poeta, cantava d'est'arte, ha 15 annos, em +Coimbra o dadivoso prestigiador: + + Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo + Nos prodigios da milagrosa vara + Que o Senhor Deus te deu: + Teu coração, Moysés do christianismo, + Tua alma é que eu admiro, e te invejára, + Se o que é teu fosse teu. + +Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus, +que tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava +a varinha que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita, +ainda não é banqueiro, segundo me consta. + +Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha +talento. Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras, +sobrevivem ao prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do _Instituto_: + + Le coeur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait + On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait. + Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel + Une promesse sainte, dans un voex solennel! + + Si, par lui, mon talent me donne la richesse, + J'ai ma mission aussi, soulager la détresse, + Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi, + Pour ramener enfin le calme en mon esprit. + +N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da +sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára +n'aquelle recinto da _charmante jeunesse_. Queixava-se outro sim, de +ingratidões que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado +no Porto, romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á +orla de um throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria +em Vienna d'Austria. Brilhantes desenlaces! + +E foram os rapazes de Coimbra--aquelles viventissimos rapazes de 1859, +Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e +dezenas de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração +retranzido. _Gloire à vous!_ exclamava Herrmann. + + [4] Existia no seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto + nobiliario de testemunha coeva e ocular. + + [5] Em 1780 ainda se via n'esta casa a capella, no local onde + nascera S. fr. Gil. + + + + +MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS + + + ... Une femme prudente y doit regarder à deux fois avant d'épouser + un poete! + + J. JANIN, _Le livre_. + +Se o fino amor não é condão dos poetas, é escusado esgaravatar essa rara +perola em outra concha. O amor duradouro é incompativel com a creatura +sujeita á decomposição e á morte. As recomposições interiores são +incessantes, até ao momento em que o espirito vital se evóla, e a +podridão começa. + +As reformações da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo. +Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o graváme e a +melancolia da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso +d'isto. Almas floridas em corpos devastados. Os primeiros tem auréola de +poesia lugubre. Os segundos são lastimaveis quando, em honra de suas +cãs, arrancam um a um os renovos da alma, ou os vão delindo com secretas +lagrimas; e são irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice, dando +resplendor á calva com um nimbo de namorados. + +Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII, +_Marcial portuguez_. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem +ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar +foi anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava +pela côrte diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a +consorte, cuidando dos trigaes e dos parrécos. + +Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais +desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi +pelos cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao +santuario da familia com a lyra e com o rheumatismo. + +Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se +bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa +senhora! + +O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de +a ter mofado na prosa caseira--a prosa de marido enfastiado, que é o +vasconso mais barbaro da glottica humana. + +Aqui está um dos cantares com que o sobredito _Marcial_ +desprimorosamente chasqueava as caricias, os vernizes, as tranças +retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e arqueavam as ancas +da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa inventára, á +custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos vestigios da +belleza perdida. E observem que o cruel a denomina _Sara_, equiparando-a +á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes poetas no coração: + + Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho + para vêr tuas faltas, + não quero que te falte meu conselho + em presumpções tão altas. + + Lembre-te agora só que és terra e lôdo + e terra te has-de vêr do mesmo modo; + mas não te digo nem te lembro nada + porque ha muito que em terra estás tornada. + + Que importa que, alguma hora, a prata pura + de tuas mãos nascesse, + e que de teus cabellos a espessura + as minas de ouro désse! + + Se o tempo vil, que tudo troca e muda, + sómente do ouro poz, por mais ajuda, + em tuas mãos de prata o amarello, + e a prata, de tuas mãos em teu cabello! + se um tempo, foram de marfim brunido + no seculo dourado, + não vês que o tempo as tem já consumido, + não vês que as tem gastado? + + Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos; + que eu, quando toco teus nodosos dedos, + me parece que apalpo, e não me engano, + cinco cordões de frade franciscano. + Viciando a natureza com taes tintas, + com pinceis delicados, + jasmins e rosas em teu rosto pintas. + Deixa esses vãos cuidados; + pois quando tua cara me alvorota, + mascara me parece de chacota; + e, se é das tintas, digo n'este passo + que a mascara está inda em calhamaço. + + Como pretendes, pois, com mil enganos, + vestir mil primaveras + sem ter a primavera de teus annos! + Como não desesperas! + que o tempo chegou já ao seu estio, + aonde toda a fruta perde o brio; + parecendo tua cara desmedrada + fruta que se seccou, noz arrugada. + + Se feitura de Deus Eva não fôra, + dissera, sem porfias, + que de Eva foste mãi, velha senhora, + pois te sobejam dias + para esta presumpção que agora tenho; + e, concluindo em fim, a alcançar venho, + pois alcançar não posso tua idade, + que deves ser a mãi da Eternidade. + + Teus olhos, por descargo da consciencia, + a idade os tem mettidos + em duas lapas, fazendo penitencia; + e estão tão escondidos, + que, quando os vou buscar porque me choram, + não acerto co' bêco aonde moram; + porque o tempo os mudou, seu passo a passo, + da flor do rosto lá para o cachaço[6]. + + ............................................ + ............................................ + + Em fim, senhora, se te vejo em osso, + com essa cara posta em tal pescoço, + me parece, tirada a cabelleira, + em cima de um bordão uma caveira. + + ............................................. + + Sabe que sei, e d'isto me não gabo, + que te alugou sem duvida o diabo, + invejando teu corpo, cara e dedos + para a Santo Antão fazer maiores medos[7] + E deixa, em fim, tanto vão cuidado; + e ao sagrado te acolhe + primeiro que te ponham em sagrado. + Este conselho colhe; + admitte o que te digo sem desgosto; + que eu, quando vejo teu funesto rosto, + d'elle tambem o seu conselho tomo, + pois cuido que me diz: _Memento, homo!_ + +Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D. +Catharina, abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e +impenitente, por aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade +provecta com poemas sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á +circulação dos enxurros. Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no _Elogio de +poetas lusitanos_, conceitua n'esta altura o descaroado marido: + + D. Thomaz de Noronha em tanto augmento + Confirma de sus versos la escellencia + Que admirando sutil su entendimiento + Puede hazerle a Quevedo conpetencia: + Alma de tan ayroso movimiento, + Luz parece de sol de su presencia + Y sol a cuya luz crecen desmayos, + Aguila no soy yo de tantos rayos... + +Que te fulminem, Jacintho!--diria um leitor circumspecto. Achou-lhe +airoso movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez +e cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um +trovista de tasca. + +A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre +missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque +metrifica a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do +talento, é enfermidade repugnante. + + [6] Segue uma estrophe cuja nudeza, posto que não envergonhe o + realismo hodierno, nos pareceu propriedade dos livros escriptos + para _homens_, cuja deshonestidade os authores lisonjeam com as + dedicatorias dos seus romances. + + [7] _Metter medo aos medos de Santo Antão_, era adagio do tempo, + que teve a seguinte origem: No terceiro domingo de agosto de 1577 + sahiu uma procissão da antiga parochia de S. Julião. Entre varias + figuras e carros triumphaes ia um homem representando Santo Antão + no deserto, e á volta d'elle varios demonios com feitio de monos o + aterravam com caretas e tregeitos medonhos. + + + + +A CASA DE BRAGANÇA «AB OVO» + + +D. Gonçalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava +as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus +com as curiosidades philoginias, gregamente faltando. + +D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte, +chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um +menino robusto, como os recem-nascidos do _high-life_, o qual se chamou +Antoninho. + +Este D. Antonio Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai +de 32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mães d'este rapazio +todo chamou-se Eyria de Carvalhal, e das predestinadas entranhas d'esta +menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da primeira duqueza de +Bragança, casada com o bastardo de D. João I. + +D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos +veio a redempção em 1640. + +Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles +fossem castos ou infecundos, não teriamos Braganças, e gemeriamos ainda +hoje captivos de Hespanha. + +O arcebispo descança ha 526 annos, em uma capella contigua á porta +travessa da sé de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida +no mausoléo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se +apaixonasse por hespanholas. O coração não tem _ubi_. O escolar de +Salamanca lêra talvez o philosopho grego que dissera serem todas as +mulheres uma. Se a natureza as não discriminára, como estremal-as por +fronteiras? + +Mas tão portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a +mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada +sobre suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta! + +Ainda não vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a +morte do D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José Corrêa, +biographos dos arcebispos bracharenses, a souberam ou quizeram divulgar. +Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por haver sido prelado como +por genio investigador de antiguidade, não ignoraria o que era constante +de um processo existente no archivo da mitra. + +Eis o caso: + +Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a +Villa-Flôr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os +moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro +homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. +Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, +mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se não fugisse, +pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cahir de costas no +terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Villa-Flôr com a +fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, de envolta com parte dos +capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado +chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante n'aquelle tempo, +fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a +D. Affonso IV. + +O rei, poucos dias depois, mandou a Villa-Flôr uma alçada com dois +algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que pôde colher na +devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo +descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se +erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor. + +E assim morreu, por effeito de tão miserrimo lance, aquelle valente do +Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto +successor D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. Fôra elle o defensor da +cidade do Porto, quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua +vanguarda o incendio e a devastação. Fôra elle ainda quem acaudilhára a +hoste de portuguezes, quando uma invasão de hespanhoes, em desapoderada +fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanças dos alabardeiros do +arcebispo. + +Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flôr, amotina-se a +arraia-miuda, foge de escorregão por uma corda, cahe de cangalhas, +amolga o osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraça de +Portugal se elle, antes de lesar as vertebras lombares e regiões +visinhas, nos não tivesse deixado os embryões da casa de Bragança na +pessoa de seu filho prior! + + + + +UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES + + +O filho de Jayme I de Inglaterra veio a Madrid, em 1610, para vêr de +perto a princeza Anna, filha de Philippe III, uma das mais formosas +mulheres d'aquella época. D. Fernão Martins Mascarenhas, inquisidor +geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que soube da chegada do +heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa presumpção de o +reduzir á fé catholica. O principe, todo embebecido nas magias da filha +de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver esse negocio +que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinião de alguns +historiadores, porém, é que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja +romana, não tanto pela influencia theologica da carta, como pelos +filtros amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para +esposa; e, quando em Londres se preparavam os festejos do noivado, +morreu o noivo em 1612. + +A carta do inquisidor bispo do Algarve é inedita. A este prelado devemos +a impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avós todos os +livros gafados de heresias. Se não fosse elle, é muito de recear que em +Portugal se lêssem então os livros que no seculo XVII propulsaram as +sciencias na França e Allemanha: o que seria uma calamidade. Eis a carta +do santo varão: + + +«A vinda de V. A. a esta côrte foi de tanta alegria para todos os que +nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da +sua presença, temos obrigação de fazer demonstração publica, assim em +dar graças a Deus por esta mercê, como em significar a V. A. o animo, e +a vontade com que festejamos a honra que todos alcançamos por esta +causa. + +«O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas orações, +para melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa, é que +queira V. A. ouvir e entender a razão do que por cá acha, e é +professarmos a fé, e a religião que professa, e ensina a igreja +catholica romana, verdadeiramente apostolica; porque o animo com que +desejamos paz perpetua entre as corôas de Hespanha e Inglaterra, nos +obriga a procurar a conformidade na religião entre os principes dellas, +pois, como diz Santo Agostinho, não póde haver verdadeira concordia +aonde os entendimentos estão desunidos na terra. + +«Muitas razões se podiam allegar para V. A. se dispôr a fazer este +serviço a Deus, e mercê a toda a Hespanha, porque os livros estão cheios +d'estas materias, mas tres são só as que lembro a V. A. para satisfazer +a obrigação que tenho n'este reino de Portugal. + +«A primeira é considerar V. A. que isto que nós professamos em Hespanha, +acerca da obediencia á sé apostolica-romana, professaram, sem nenhuma +interrupção, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o +tempo de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, até o de +Henrique VIII de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudança na +religião; porque como nunca se havia preferir o parecer dos que querem +innovar cousas ao juizo d'aquelles que dellas perseveraram por tantos +annos, bem se vê, a prudencia natural está pedindo que se repare muito +n'esta variedade que se introduziu em Inglaterra nos derradeiros annos. +E é muito para vêr a fórma em que escreveu Eduardo, rei de Inglaterra, +ao papa Alexandre III, porque ambos estão condemnando o que agora se +segue no mesmo reino com palavras tão claras que não soffrem +interpretação alguma. + +«A segunda razão é porque todos os reis de Inglaterra que antes de +Henrique VIII tiveram o sceptro d'aquelle illustre reino depois de +Alberto, fundaram a sua jurisdicção na obediencia á igreja romana, em +que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro, principe dos +apostolos, e vigario universal de Christo na terra, até Ina e Ataulfo +fazerem o proprio reino tributario da sé apostolica, e este tributo +durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve +que em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que +deviam aos pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeças da +igreja catholica, e sempre depois vieram a fazer penitencia de seus +erros, como consta dos proprios annaes e chronicas de Inglaterra que +Polidoro Virgilio II seguiu, e tratou em sua historia. + +«A terceira razão é porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudança, +quando morreu declarou que errára, e por esta causa expirou com summa +pena, e inquietação, como consta da relação que fizeram homens de muita +virtude, letras, e authoridade que assistiram á sua morte, e os aponta +Sandero, com outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas +cousas; e se não remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que +permittiu lhe faltasse n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe +lembrasse o que o proprio escreveu tão doutamente contra Luthero, e +dirigiu ao papa Leão X. + +«Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores +tiveram e professaram por largos annos, sendo tão virtuosos, prudentes e +valorosos, como o mundo todo reconhece, não fará mais que restituir á fé +a casa d'onde contra razão e justiça anda desterrada; e com esta +restituição além da gloria immortal, que alcançará em todos os seculos +vindouros, obrigará a Deus Nosso Senhor abrir as mãos da sua +liberalidade para lhe acrescentar muitos reinos com novas prosperidades +temporaes.» + + + + +A TRILOGIA DA «ACTUALIDADE» + + +Quando o snr. Moutinho de Sousa, ha pouco tempo, negociava, em Lisboa, +actores que preenchessem e aperfeiçoassem a companhia dramatica do +theatro Baquet, o snr. Silva, roto saboyardo do escangalhado realejo +litterario da _Actualidade_, escreveu, com o desplante da sua ignorancia +impenitente, que a escripturação dos tres indicados actores formava uma +agradavel TRILOGIA. + +Tres actores, tres pessoas--uma _trilogia_! + +O leitor (se não é elle) sabe que os gregos denominavam _trilogia_ o +conjuncto de tres peças theatraes, quando o poeta pleiteava o premio da +tragedia. Uma compoz Eschylo, a mais commevedora que nos legou a antiga +scena. Shakspeare fez uma _trilogia_ com as tres tragedias que completam +Henrique VI. O _Walstein_ de Schiller é tambem uma _trilogia_. Querem os +francezes por igual ter a sua na concatenação do _Barbeiro de Sevilha_, +_Casamento de Figaro_ e _Mãi delinquente_ de Beaumarchais. Tambem nós, +em os nossos humildes fastos litterarios, temos uma _Trilogia +romantica_, em que se annunciavam collaboradores Antonio Pereira da +Cunha, D. João de Azevedo, e João Machado Pinheiro (visconde de +Pindella). + +Por analogia, tres composições em um livro, tres tratados, tres +discursos, poderemos denominal-os _trilogia_; mas chamar _tratado_ +(_logos_) ao snr. Pola, e _composição_ á snr.ª Virginia, e _discurso_ á +snr.ª Emilia das Neves, hellenisando-as pessimamente, seria uma fineza +grega, se não fosse uma asneira portugueza. + +Este snr. Silva (aviso aos naturalistas) dizem-me que tem as orelhas de +tamanho regular. Elle e os 2 Joaquins são tres partes de uma só +cousa--_trilogia_. Aqui vão bem; cálham: são tres peças que arredondam +um tolo superlativo. Ainda, no dominio grego, podéramos chamar aos +tres--_triga_. (Veja um _Lexicon_ o snr. Pinto). E, quando apparecer um +quarto, por não sahirmos de Athenas e das analogias remotas, os quatro +serão _quadriga_. Ora ahi tem gregarias em barda. Divirta-se. + +_P. S._ Eu dissera-lhe _adeusinho_, quando fui _banido_; mas elle, +mentindo e espremendo novamente o figado, espirrou um golfo de bilis +negra. Faz-se mister não levantar mão das ventosas. Ou elle estuda, ou +eu o esfolo. + + +FIM DO 5.º NUMERO + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 *** + +***** This file should be named 27084-8.txt or 27084-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/0/8/27084/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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