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Nº5 (de 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: October 29, 2008 [EBook #27084] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + +OFFERECIDAS + +A QUEM NÃO PÓDE DORMIR + +POR + +Camillo Castello Branco + + +PUBLICAÇÃO MENSAL + + +N.º 5--MAIO + +LIVRARIA INTERNACIONAL +DE +ERNESTO CHARDRON +_96, Largo dos Clerigos, 98_ + +PORTO EUGENIO CHARDRON +_4, Largo de S. Francisco, 4_ +BRAGA + +1874 + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA + +62--Rua da Cancella Velha--62 + +1874 + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + + +SUMMARIO + +Petronilla, Gamarra, Zamperini--Entrada para os salões--Os salões, +introducção, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Ecce iterum +«Silva» Chrispinus--Santos-Silva--Doudo Illustre--A +catastrophe--Renan--Correcções--Mau exemplo de poetas casados--A casa de +Bragança «ab ovo»--Um inquisidor portuguez e o principe de +Gales--Trilogia da «Actualidade» + + + + +PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI + + +Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos +argentarios portuguezes no seculo XVIII. + +Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745. +Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros +diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas +cabeças, sem respeitar as testas coroadas. + +Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta. +Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com +as «princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye +denomina as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso +Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas não esbanjava em +galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas +transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as +actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O +fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia +hombrear em proezas de galã com algum frade bernardo de costumes +suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu +camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor +platonico. Havia no theatro o _camarote dos frades_, collocado por baixo +do camarote das açafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os +monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas +não passavam d'estes resfolegos os frades. + +A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos +fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, _morceau +friand_,--dizia o cavalheiro de Oliveira--que só aos grandes senhores +competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante. + +D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se +illaquear n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de +ouro e pedras. + +Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras +carregadas de riquezas--diz Francisco Xavier de Oliveira--e acrescenta +que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou +eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja. +(_OEuvres mêlées..._ Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a +enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a ternura. A +final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte +menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se +capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo +passo que o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos +comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio. + + * * * * * + +Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos +antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano +Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e +cortezão--assevera Francisco Xavier de Oliveira.--D. João V dava-lhe uma +pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina +tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados +como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com +as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a boa philosophia, a +boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E assim viveu e +medrou longos annos em Lisboa. + +Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e +algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada +dançarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra, +quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de +grande fôlego. + +Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro, +justiçado como regicida em 1758. + +Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados; +e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade +matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro. + +Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o +descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a +instar com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da +ordem de Santo Agostinho. + +E professou. + +O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como +mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D. +Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que +tragico destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo +da libertinagem, com cabellos brancos. + +E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias, +instillando-lhe no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral. + +O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao +paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos +quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa +Monica. + +--Vês tu quanto te amo?--disse o marquez--dei-te a preferencia, entre ti +e o rei. + +--Se fizesses outra cousa nunca mais me verias--replicou ella +abespinhando-se. + +--Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!... + +--O teu dever é esse... _Antes que todo es mi dama_, diz Calderon de la +Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco +amor me tens. + +_J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul +mot de ma façon_, diz o cavalheiro de Oliveira, (_OEuvres mêlées_, t. +3.º p. 34). + +Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má +digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns +merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim +da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira +alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de +Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o +velho marquez á cova: + + +«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o +Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a, +e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella +quanto cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz +monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa, +o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos, +socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances á +vingança do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques +de encontro á coragem intrepida de Noronha... Era elle, porém, o +possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas +vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o +aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez, +authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve +nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do +marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto +pôde por demorar tão injusta prisão, vingando d'est'arte os manes do +marquez, seu sobrinho.» (_Obra cit._, pag. 34 e 35). + + +O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões +atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a +sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e +escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, _maus bichos os +comem_, como disse o Sá de Miranda. + +Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra, +d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto +conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no +dia 9 de março de 1723. + +O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a +Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de +brilhantes... _Il me fit voir_ (diz o amigo de Noronha) _entre ses +propres mains ce même portrait du marquis, le même jour qu'il en avail +fait présent à son infidele Gamarra._ + +Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a +preceito, _mieux que personne_: + + +«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era +moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em +todos os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava +igualmente o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente +estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha.» (_Obra cit._, pag. +35). + + +Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir +do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada +oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda não era frade. +Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio +de seu homem, como era de justiça. O marido sondou a profundidade do seu +direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao +patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos á annullação +dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com +o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao +marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro, +metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de +Madrid. (_Obra cit._, pag. 33, nota _A_). + +Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar +como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro +visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a +quem o rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o +nome de _carvoeiro da Rosa_. Ao proposito d'esta perigosa cigana, +escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira: + + +«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da +astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos +desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu +enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos. +Este pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo. +Induziu ella um galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o +desgraçado; foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» (_Obra +cit._, pag. 66). + +O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de +cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram +pela catastrophe da forca. + +Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida +do Monte contra o desembargador aguazil do _carvoeiro_. Diziam assim: + + Oh! descahido te vejam + Estes olhos peccadores: + Arrastado e perseguido + Já que perco os meus amores. + + Todas nós, as freiras juntas + Te havemos de praguejar + Pois por caber com el-rei + Nos vaes desacreditar! + + Justiça de Deus te cáia, + E com todo o seu poder; + Na bocca de um bacamarte + Te vejamos padecer. + + Homem, deixa-nos viver, + Não sejas tão turbulento; + Deixa divertir as tristes + Que não sahem do convento. + + Etc. + +Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII, +perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga. + +--Que livros? + +--A _Historia do theatro portuguez_, onde elle conta pouco mais ou menos +essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do actor +hespanhol Antonio Ruiz. + +Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio. +Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como +o leitor vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a +culpa, confrontando o original e o plagiato. + + ELLE + + (EM 1871) + + _Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos + annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, + historiador e palaciano._ Era homem de bem tanto ás direitas como + actor de merito. _Do seu_ porte _honrado_ redundou-lhe _uma pensão + annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido + das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos + prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._ + + HIST. DO THEATRO PORT. + + EU + + (EM 1866) + + _Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos + annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, + historiador e palaciano._ Era tão homem de bem quanto actor de + merecimento. _Do seu_ proceder _honrado_ resultou-lhe _uma pensão + annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido + das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos + prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._ + + O JUDEU (romance). + +Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco +Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca +viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porém, no acto da copia, +deslisei da versão do professor de litteratura em tres pontos. 1.º Elle +escreveu em 1871: _Era homem de bem tanto ás direitas como auctor de +merito_; e eu escrevi em 1866: _Era tão homem de bem quanto author de +merecimento._ E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: _Il étoit aussi +homme de bien qu'il etoit Acteur de mérite._ O _tanto ás direitas_ do +snr. Theophilo é uma perola de estylo de que eu não quiz defraudal-o nem +_ás tortas_. 2.º ponto: Elle disse: _do seu porte honrado_. E eu, +gafando a phrase de francezia, puz _proceder_ em lugar de _porte_. Foi +ignorancia que me pesa como _porte_ ou carreto; mas ainda me fica +_porte_ ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me +quero dar _porte_ ou importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando +em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pôz +_redundou-lhe_, e eu _resultou-lhe_. Do feitio que elle escreveu a idéa +fica mais aceada. Na nova edição do _Judeu_ hei de apanhar-lhe o +_redundou-lhe_ que é bom. + +No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes +lhe armei a sancadilha de chamar Antonio _Rodrigues_ ao actor hespanhol +que nunca foi _Rodrigues_; mas sim _Ruiz_. Faz-se mister sestro de muito +mentir para enganar um homem, de quem se copía o engano cinco annos +depois! Parece enguiço! O cavalheiro de Oliveira escreveu _Ruiz_. Cuidei +que era abreviatura de _Rodrigues_, e lá vai a peta de recochête lograr +o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me +desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor +como e quando, se é que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do +doutor Theophilo. + +Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em +casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto +d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes +decimas: + + Victor! já chegou a gente + de Madrid, tão esperada, + e já foi agasalhada + do seu superintendente. + Este padre impertinente + se intitula em Portugal + Dom Hieronomio de tal, + e _Cancer_ tambem seria, + pois á sua enfermaria + puxa as damas do hospital. + Porém, viva o tal padrinho! + só a taes afilhadas chega; + que á Undarro, e á gallega + abençôa o seu carinho. + E baptisa de caminho + com fé pia e fervorosa + a dama em flôr magestosa, + confirmada no primor; + porém, se a Undarro é flôr + tombem a gallega é Rosa. + + .............................. + .............................. + + Com que já por uma vez, + temos boa companhia, + graças ao nosso Atouguia + que tal companhia fez, + Em fim, já chegou Garcez,[1] + galan de primeira classe, + que eu não cuidei que chegasse; + e já muita gente diz + que morreu Antonio Ruiz; + mas _requiescat in pace_. + + _Amen._ + +Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de +traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me +d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasião de +recommendar certo livro escripto portuguezmente: + +......................................................................... + +«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio +dos sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues! +Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna +letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as +suas cousas originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua +ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar +com linguas teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas +fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos +latrocinios que elles cá nos fizeram em 1808. Se os não citava, tambem +elles lá não disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos +arrebanharam nas igrejas. Retaliação justa. + +«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo, +não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a +ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e +cimentados na singularidade bordalenga com que transpõe idéas +peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, coxas, +esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados +d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas +desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre +sobrepuja o phosphoro. + +«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas +para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a +furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a +flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim! + +«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações +atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E +prometto lembrar-lh'as. + +«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas +negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de +viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais +intelligente e manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo +que, lá ao diante, se saiba quo morri na desconfiança de que o snr. +Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os +applausos do gentio lôrpa.» + + +Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui +apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me +capaz de copiar de toda a gente. + + * * * * * + +Agora, direi da Zamperini. + +Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das +forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos +documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano. + +Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em +quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro +para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um +systema que não é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela +mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de +espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graça. +Iam então dous quadrilheiros trazêl-o da enfermaria dos orates em +direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado até ao palco. +Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um +desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava +gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a +epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam +ao seu cubiculo no hospital de S. José. + +Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I, +condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres +illustres que capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei +nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras, +filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina. + +Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no +holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise +da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos +capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por +ordem do ministro. + +Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura, +figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma +banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos: + + Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout, + puis que vous êtes dans un país de fous. + +Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que +ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe +beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em +inglez: + + The true property of an englishman + T'is to pay and despise.........[2] + +E mais abaixo: + + Mylord, dont kiss her hand, + Because she has no face, + But kiss her... her... her... + Kiss her elsewhere[3] + +Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que +figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos: + + A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime; + allons, prenez l'exemple, et vous serez de même. + +Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça mette a bolsa na algibeira, e dá +visos de safar-se, com estes versos: + + Lasciate agli altri, amico, la campagna, + questa sol con quatrini si guadagna. + +A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode +á cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra: + + Macedo, não te cances, + Pois os gostos são diversos; + Zamperini estima o ouro, + E nada entende de versos. + +E assim termina a relamboria semsaboria. + +Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla +nota de Verdier _Hyssope_. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, hoje +em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras +glaciaes em ternuras de camarins. + + [1] O snr. Theophilo a pag. 151 e 152 do tom. 3.º do seu _Theatro + portuguez_ desmente o Pinto Brandão, dizendo que o _Garcez não + veio_. O doutor, 141 annos depois, estava mais em dia que o poeta, + redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. Theophilo + é unico! + + [2] O que bem caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar. + + [3] Mylord, talvez vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a + mão, etc. + + + + +ENTRADA PARA OS SALÕES + + +Eu não contava com a gloria e o contentamento de estampar nas _Noites de +insomnia_ o livro completo de physiologia social, intitulado--OS SALÕES. + +Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde +tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra. + +Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão +benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença +de 1:000 subscriptores. + +E, pois que a publicação dos SALÕES principiou aqui desacompanhada da +introducção indispensavel ao complexo dos capitulos, forçoso é que se +interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado irá ao +entendimento dos trechos que já leu e dos outros que advierem. + +Este livro dos SALÕES será a porção mais para durar e sobreviver ás +futilidades das _Noites de insomnia_. O visconde de Ouguella, ainda em +annos florentes e vigorosos, póde dizer com o velho e experimentado +Rousseau: _Je sens mon coeur et je connais les hommes_. O seu livro +esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas +e pungentes ironias de Proudhon--aquelle vidente que Deus mandou +apregoar a prophecia da destruição debaixo dos muros da segunda +Jerusalem derruida. + +A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os +SALÕES, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, vê pelos olhos da +historia--a Fatalidade inflexa--; e emerge á flôr d'estes parceis, que +nos atormentam, as evoluções da Providencia. + +Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O +melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma +balbuciação em linguagem nova. + +A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de +Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de +Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes +em que o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não +se compadece com uns corações que nasceram velhos. + +Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do +passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos +pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que +moralisemos as _massas_. Mas sejamos todos _massas_ em quanto o povo--a +arraia das hortas e das galerias parlamentares--desconfiar que lhe desce +do alto o exemplo que a dissolve e acanalha. + +O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á +feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em _palavras de +crente_, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay. +Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se +alguma hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a +infamia assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho +José Freire. Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das +casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis +seus Pansas. + +E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras +da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos SALÕES, e peço ao +visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto +lhe deparou o manuscripto do desembargador. + + + + +OS SALÕES + + +INTRODUCÇÃO + + ... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir + pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière + sous le ténébreux manteau de l'océan. + + THEOPHILE GAUTIER. + +Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri +o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei +o seguinte: + + +«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do +hospital de S. José.» + + +Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o +espirito. + +Resolvi ir á feira da Ladra. + +Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano, +na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado. + +Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada +passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das +inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e +sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, +aprendem-se nas _Mil e uma noites_, adivinham-se nas chronicas dos +nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das +casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um +mytho. Para nós--pobre povo--empurrado para as vagas espumosas do +oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem +sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os +numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas. + +E o que somos nós? Deus o sabe. + +Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico, +devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente +constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam +thronos e proclamam republicas. + +«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, +n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das +raças e linguas orientaes. + +As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa +grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que +afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das +escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A +_graça_, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para +apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de +reminiscencias tão pagãs. + +E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente +reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da +corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar. + +Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal +francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal +artigo--esculpido hoje nos bronzes da historia--com esta phrase singela +e prophetica: _Pobre França, pobre rei!_... + +Se eu dissera aqui: _pobre_ Portugal!--Não digo. + +Entrei na feira da Ladra. + +Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna, +levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais +ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces. + +Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua +tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo +buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das +possessões indo-britannicas. + +Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de +pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os +residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram. + +Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino: + + «Lasciate ogni speranza, voi che entrate.» + +Achava-me em presença do inventario de uma capital. + +Examinei: + +Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas +elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina +de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um +sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de +prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais +longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de _parvenu_, um saleiro da +modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso +etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o +expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os +amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por +mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura +e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em +prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos +devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos +delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro +do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de +boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no +primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um +prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão +equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia +a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos +embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, +com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy. + +Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras +quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados +de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a +óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, +no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um +candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da +lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de +direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma +fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas, +tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha, +talvez a ultima illusão dos seus possuidores. _Sic transit gloria +mundi_, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros +dourados dos triumphadores romanos. + +Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do +atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se +expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das +gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e +proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as +civilisações. + +Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente +lustrosa--despojo venerando de algum desembargador da casa da +supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã +mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de +lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em +variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em +arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte, +abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e +hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de +charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados +surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através +de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres +do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e +envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador +de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre +dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do +desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes +inspirações de Benvenuto Cellini. + +Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no +seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras, +formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever +por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e +ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada +por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor +inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. +Envolvia-se n'um cafran ou burnus--uma especie de farrapo de panno, que +lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um +lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos +negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um +pedaço de cera amollecido entre os dedos. + +Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do +despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um +movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe, +uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das +pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação +feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor! + +A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas +allucinações e devaneios acusticos. + +Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador? + +A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre +os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas +phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, +algum preito a Satanaz,--e depois accentuou em voz clara e cadenciada as +seguintes palavras: + +--Dê-me dez libras, e leva-o de graça. + +--E a chave? + +--A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. +São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O +desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito +nos ultimos annos da sua vida. + +--Conheceu-o? + +A velha sorriu-se. + +A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo +infernal. + +--Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em +Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu +vendo os moveis para comer. + +Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta +amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua +curta narração. + +Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou +as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa +como um mysterio. + +Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei +nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte: + + +AO LEITOR + +Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. +Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu +tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes +elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, +que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei +do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto +horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho +pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth, +nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de +Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de +Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes +nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, +Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de +enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com +ellas povoar + +OS SALÕES + +Segue-se o livro. + +Vou publical-o. + + VISCONDE DE OUGUELLA. + + + + +ECCE ITERUM «SILVA» CRÍSPINUS + + +Escreve elle no n.º 69 da _Actualidade_: + + +«Publicou-se o n.º 17 da _Tribuna_. Insere artigos e versos dos snrs. +Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece +dos numeros _ulteriores_.» + + +_Ulterior_ quer dizer _que vem depois_, ou _que tem data posterior_. + +Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou _ulterior_ ao n.º +18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o _depois_ está primeiro +que _antes_, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem primeiro que os +seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.^os 18, 19, etc., da +_Tribuna_ promettiam ser iguaes aos seus precedentes, escreveria: «Tudo +nos assegura que os numeros, que hão de sahir anteriormente, serão +dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.» + +Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores e ulteriores furunculos de +aposthema intellectual, proponho á academia real das sciencias este snr. +Silva... para varredor. + + + + +SANTOS-SILVA + + +Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e +os sete orphãos do egregio orador! + +Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos +filhos! + +Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de +Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a +pobreza, ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos +banhados das ultimas lagrimas de seu pai. + +Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto +da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade. + +João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito +imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado +grupo de crianças que punham as mãos--expressão unica das agonias +inexprimiveis. + +A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do +Altissimo. + + * * * * * + +Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus +discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e +energico orador parlamentar. + +Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei +nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o +meditativamente, sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os +seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria, +pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram, +o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem. + +Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo +honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos +lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome +iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo +adeus. + +E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o coração cheio das +presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle que lhes seria +protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis +criancinhas. + +Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!... + +Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem +filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia +de Santos-Silva? + +Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871. + + +«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa +duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã +consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a +tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos. +Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma +regra que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral. +Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente +faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da +sua molestia. Os proprios medicos são os que, n'este ponto, mais se +enganam, por que são os que mais exageram. + +«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não +descure restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento +hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe +regularise qualquer desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito, +ou o levante de qualquer ligeira prostração. Creia tambem na sua idade, +e na força medicatriz da natureza, que, quando é bem dirigida e +auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres. + +«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de +um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as +mais vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem +sel-o. De todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma, +e mais me angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em +infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus +esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do +santo amor de seus filhos. + +«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que +os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei aos meus. +Repartirei com elles o meu prestimo, se então o tiver. Estas palavras +não são só de consolação: são compromissos solemnes, que espero não +desmentir. + +......................................................................... + +«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de +seus antecessores. + +......................................................................... + +«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que +Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a +vida de seus filhos.» + + +Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina, +posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias +proprias que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus, +quando sentiu na garganta a constricção da asphyxia. + +O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella +alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: _A +posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus +antecessores_. + +Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete +filhos. + + + + +DOUDO ILLUSTRE + + +O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José de Sousa Magalhães, doutor em +canones, jurisconsulto eminente, orador esclarecido tanto no magisterio +universitario como no parlamento, ensandeceu em 1858, quando contava +quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em Villa Pouca de +Aguiar, na casa onde havia nascido. + +Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de +provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D. +Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do +arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que +denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta +pugna um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e +em variada litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do +arcebispo, e contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por +parte do patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo +academico Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores. + +Como quer que fosse, o arcebispo de Mitylene perdeu na brava luta a +razão; e, ao parecer de illustrados juizes da sua justiça, foi a +iniquidade que matou o robusto athleta. + +Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a +esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva +condensação da escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica, +absorta na contemplação estupida das lagrimas dos parentes e amigos. + +Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do +delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze +annos, nas suas escuridões interiores. + +Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o +taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua +familia. + +Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de +anno, mez e dia. + +Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de +Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em +jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com +os dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que +fôra um dos mais alumiados da sua época, admiraveis lanços de linguagem, +de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso! É que tambem nos +delirios ha raptos de luminosas visões. + +Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu +titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia. +Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da +desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas. + +Eis-aqui os titulos: _O gigante--Os privilegios da corôa dynastica--As +cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito +na universidade--A missão divina--A chronica real--Da santidade do +direito--Cemiterio protestante--A tyrannia impossivel--O mesmo Senhor +fez os seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia--O +impassivel--O erro commum--Os tres fundadores--O cordeiro--A surpreza--O +burrinho e o menino dos protestantes--O templo--O penhor e a hypotheca, +ou o juro e a herdade--O titulo da realeza--O parocho--O demonio +tentador--A espada de S. Bruno--O enigma--Mascara de ferro--O sonho--D. +Maria Caraça Bonaparte ou a burrinha protestante--O viatico da +eternidade--A estrella do norte ou a misericordia dos mares--A +vacca--Apologo--A catastrophe_. + +Estes manuscriptos comprehendem sessenta cadernos em folha. Em poder da +familia do finado arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto +de doze annos. Tirando ao acaso um de entre os cadernos cosidos com +algodão verde e escarlate--para dar ao leitor a manifestação escripta de +uma alma que esvoaça á volta dos residuos ainda bruxuleantes da sua +razão---aqui vai a + + + + +CATASTROPHE + + +Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o +titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua +primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de +toda a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias +atrocissimas d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram +bem conhecidas dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque +não souberam, ou porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram +ao successo o nome de «catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar +o que era patente e publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e +enredo occulto, nada explicaram na sua «anti-catastrophe», documento +mediano e mal traçado para o fim, e para o grande empenho da causa e da +questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e degrada apoucando o +assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e desviar a +attenção do horror da catastrophe. + +Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta +vergonhosa historia da usurpação; as suas monographias são como memorias +de encommenda que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar +algum erro ou para afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim +da historia não curam nem tratam: porque a prevenção da historia é o +erro, e com este rumo ninguem póde navegar nem progredir. Attribuem +geralmente os protestantes aquelle sinistro ao partido cardinalicio de +Roma, segundo o seu costume e petulante ousadia de calumniadores, que +commetteu o delicto para o assoalhar e publicar por um lado +attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro lado +desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma +imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso +empenho confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é +como a luz mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em +toda a parte onde estiver encerrado o homem pela maior tyrannia para +alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme debaixo da +lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto não +revela o enigma da sua escura sepultura. + +A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da +historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a +boa critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e +verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A +Divina Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da +injuria; o demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o +facto permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes +só no echo até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir +no decurso dos seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e +medonho ou funesto e assustador até para o demonio que o gera e produz. +Sôa do orgão a tuba, e não é a mão do homem que fere a tecla, nem a +musica e pensamento do seu compositor que produz a melodia. Devia o +homem vêr no arcano a sciencia divina, que deu ao ar modulado pelo +instrumento a euphonica sympathia dos sons e o gentil devaneio do mais +accorde accento. + +O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que +julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito +verdadeiro da sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo +catholico; porque só n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos +de maior vergonha apenas cabe a profana chula de tabernal comedia, e a +ironia da musica. A arpa é instrumento real, a lira só a tange a poesia +e a verdadeira inspiração que o Senhor concede ou nega ao cantor pelo +moto da trova e pelo pensamento da sua religião e virtude. A historia +verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e pedinte--eis o dilemma unico +da sciencia, e o programma que o escriptor competente sempre encontra +diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a que se propõe e +persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do canto pelo +sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as suas +abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem +possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa +catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple +do seu desenfado sem sonhar com opiparo e somnolento banquete; e por +isso todas as suas lôas acabam em comer. + +O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os +homens do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e +profissões só pelo benigno e precioso metal que auferem e adoram--e +d'estes é sempre o maior numero; o actual enche de eunuchos todos os +theatros e d'histriões a comedia d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco. +Que mais diremos d'este reprobo e amphibio meteoro, senão que jámais +deixa de se converter contra o inventor e mais obstinado sectario? o +ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, ou machina de pura +digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho herdeiro dispor o +cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos eunuchos sempre a +mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem proletario. + +Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões +para aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo +ha de rir do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos, +e fazer duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter +necessidade de fugir da sua sanha, e sem accelerar o passo do seu +domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil e +desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da +sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e +decifrai os signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do +que as memorias que deviam retratar os seus pensamentos de historiador, +e apenas contém a sombra da sua ignominia e proterva hediondez e +peçonha. + +Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi +synonymo de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o +direito é dar pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é +o mesmo que entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais +desleal e traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido +que póde formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a +usurpação; os seus meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais +desleal e machiavelica, e o perpetuo enredo do engano; o estribilho +protestante, o punhal do forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega +da patria perdida ao mais ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do +demonio. A sua authoridade sempre falsa não impera, pactua em toda a +parte com os maiores scelerados, e consegue fins mediocres e resultados +de dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina +roubam-se uns aos outros. + +Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais +negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas +primeiramente o rei não pôde usurpar, nas provincias nem em +Traz-os-Montes, em segundo lugar a usurpação veio toda a pertencer aos +caudilhos, que o governaram e dominaram e á sua lei mental e miseravel +recurso; que só pôde communicar a seu filho com o mais tetrico e +deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor pela abominavel +traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o cardeal +romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o +escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa +de Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza +faziam entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia +real, que era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado +deixava-se vencer, e cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado +pelo melhor tabaco e café de Moca, e pelos prazeres reunidos do seu +abominavel harem. + +A lei mental foi uma medida deficientissima para o seu fim, mas prova +até que ponto é verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O +padre santo durante o interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens +á casa de Bragança;--disse então a abominavel facção: entregar os bens é +o mesmo que entregar a corôa;--e logo faziam um processo com grande +numero de testemunhas para provar que não havia successor á corôa, e que +D. João I por esta falta de successor fôra justamente acclamado. +Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria protestante, que aitribuiam a João +das Regras, e davam ao falso documento o cunho das côrtes de Coimbra, +aonde não foi nem podia ser apresentada sem grande irrisão e escarneo de +todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque de Bragança para +desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os herejes e +fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa fundar-se na +apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é de um +anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou, +irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que +usurpava os bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta +figura só para desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os +histriões do torpe magnetismo das façanhas da estrada orçam pelo mesmo +vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia +proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa +tyrannia. Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes +serviços que fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr +obeliscos devidos ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os +francezes, foi para entregar e vender a patria e os penates, os templos +e a sua santidade, as mulheres e todo o verniz do rosto vil e infame do +idolo das suas abjectas heresias e traições: se algum militar brioso e +valente do exercito appareceu no Brazil foi vendido tres vezes, +ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não assignava os mais +falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos que preparavam +e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do nosso +exercito peninsular. + +Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da +usurpação? porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos +seculos modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao +Senhor a menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente +sombra de galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o +rei gemeu na sua escravidão de toda a vida, os usurpadores conspiraram, +escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o principio Divino +triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e não ha +obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que calou +na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do +novilho. + +A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel, +e deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar +no decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido +usurpador é como a familia dos flamengos e dos ciganos--prova e reprova +todas gerações e partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas +pela ultima arma do veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida +estava como o condestavel atormentado pelos remorsos; este deixou os +bens usurpados aos outros aventureiros, e pediu esmola á porta do +convento com bastante industria e sagacidade; aquelle seria morto na +mesma possilga em que vivia, se tentasse restituir a corôa; porque a +verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos ministros da sua historica +realeza. + +A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no +banco dos réos, no ultimo transe de vida, ou no meio da mais funesta +desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe como o furacão através +dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca as arvores com a +sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e morreu;--quem +estrangulou o monarcha? o processo começado das provas evidentes de +testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são estes +em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para +descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os +males da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em +virtude de uma queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a +dirigir ao cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia +vergava debaixo do peso de invenciveis remorsos, mas que não podia +entregar á casa de Bragança uma corôa sem entregar a vida aos seus +tyrannos e crueis usurpadores, e algozes, e d'estes tirava o seu seguro +e pedia desaggravo e redempção. + +D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção +e um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança +não contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da +esterilidade. O que D. Duarte pedia para os falsos donatarios, e +verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de aleive e da +calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as successões +são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de +familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo--o seu castigo providencial +vai sendo identico da mesma catastrophe e represalia. + +Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a +sua verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem +a virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o +horror das suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa +mordacidade e peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de +Diu, Barros e Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre +Cesar das suas façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque +temia mais a calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que +tomava pela frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem +estremecer do vulcão. + +Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta +memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples +academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e acreditasse na Divina +Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os herejes attribuem +ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos recursos. Em regra, +moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e pelo signal da +sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior desprezo para +fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe veniaga. + +D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque; +todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e +brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os +dous primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos +mesmos meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a +excommunhão e o interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo +desenlace, e a mesma reprovação e condemnação divina. O conde da +Ericeira escreveu n'esta era a sua vergonhosa historia; o conde era +verdadeiro sandeu; o author de «Portugal Restaurado» recebeu a falsa +herança de uma casa; e trabalhoso no appetite fazendo do conde o fundo +da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela astucia mais que +diabolica de que se servia no empenho. Apenas concluiu o seu trabalho, +disse: Dai-me o premio;--e apenas se viu senhor do falso titulo e casa, +disse: Dai-me o preço da obra;--e fez d'esta outra historia um thesouro +para se enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João +das Regras; porque a sua original possilga nunca se descobriu nem +annunciou, e dizia-se que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao +pé da feira da Ladra de uma mulher, que vendia a chanfana do açougue +pelas portas de Lisboa, e que apregoava pelas ruas maior engano. + +Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de +Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição +em Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de +sustentar a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar +e sem horror o monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se +recreava com o vil officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I +principiou a considerar como proprios da corôa todos os bens da casa +real de Bragança; D. João dispunha como duque e como senhor de todos os +bens para imitar ou produzir a realeza e invicta memoria do senhor D. +Manoel I. Esta questão tinha sido tratada e muito debatida na primeira +época; todos se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus +bens como prova heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João +professou o erro em Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de +Calvino semelhante ao que foi expulso das Necessidades em nossos dias +pelo clamor do povo e pela justa queixa da parte sensata e catholica do +reino. Todos os herejes são monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu +preito o juramento da loja que o falso rei presta ao veneravel, e se o +rei tem o falso cargo jura como rei ao immediato sujeição e obediencia +ás decisões maçonicas, e como são muitas as lojas, a cada passo se vê +partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a sua monarchia pelas +seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o vislumbre do poder. + +Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e +brigantino de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é +o dos bens da casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais +feroz engano. As seitas e os corrilhos, que se formam das fezes de todos +os partidos estrangeiros e execraveis contam como elemento uma vez que o +lisonjeie e afoute para maior roubo e façanha da contribuição e da +injuria que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas +todas sobem, e todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o +que nos resta a provar para complemento da catastrophe e para sua prova +real e exuberante. + +Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes +recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns +valentões, que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e não podia ser +esta força angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o +rei se fazia forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragança +a cuja frente estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta +difficuldade em conceder as redeas do governo ao presumido successor. +Este conflicto nasceu e cresceu da mesma antiga causa de todas as +discordias da usurpação, e pelo motivo da injuria que tinham feito á +casa de Bragança e ao seu popular e heroico senhorio. D'esta vez o +governo pontificio ainda não estava resolvido a ceder; não faria a menor +concessão de reconhecimento sem a absoluta e total entrega dos bens de +Bragança ou dos bens da corôa, e D. Affonso estava resolvido a todos os +sacrificios, uma vez que achasse uma collocação em Roma e um modo de +viver ou uma absolvição vantajosa para o seu arrumo e fim. Esta deve ser +a ambição do usurpador que nasce; o seu throno não offerece encantos, +nem póde servir de balisa para a gloria verdadeira e santa que se embebe +na felicidade do povo e no heroismo e façanha. + +N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que +fosse tão corajoso e tão absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir +ou sahir do reino para não soffrer a perda da liberdade; tentou o +impossivel, e quebrou pela reconhecida prevaricação e má fé da nova e +falsa casa de Bragança, que seu pai organisou em Lisboa como partido +protestante para sustentar a negra e atroz usurpação: estes factos são +innegaveis. O _Joannes à regulis_ da primeira usurpação era um hereje +estrangeiro semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. João +IV tinha na sua côrte um ministro protestante da convenção de Cromwell, +e todos os usurpadores dos bens da casa de Bragança deviam ser da mesma +seita e falso cunho: D. Affonso VI abraçava a doutrina catholica, e, +consoante os bons principios de direito, devia perder o titulo de rei; +e, se em vez de casar em França, fosse ao reino ceder da corôa, +lisonjearia o reino catholico, e podia obter a liberdade, que outro +Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso conservou a corôa e por esta +razão o povo portuguez não podia ingerir-se na questão para defender o +preso; D. Pedro, seu irmão, era nimiamente cruel, mas não temia o +partido de seu irmão, porque não o tinha: D. Pedro tambem não tinha o +partido da nação, e por isso affectava grande humanidade para com seu +irmão, e grande respeito pelas côrtes, que sempre o repelliram e +despeitaram amargamente. + +D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmão para o privar de +todos os seus estados até o dar por demente e por impotente, aceitou a +mesma mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de +rainha, D. Pedro julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo +de rei; e parecia logico que a deposição perpetua de Affonso o +investisse na authoridade real, e o coroasse rei em vez de regente; o +titulo de principe não lhe podia competir, nem o de infante, que pouco +tempo depois começaram a usar por inaudita usurpação e roubo, e pelo +mais atroz anachronismo os filhos segundos d'esta familia de D. João IV. + +Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragança D. João +IV e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho +segundo para prevenir a falta de successor pelo receio da morte do +principe, e uma supposição e um embuste indigno, ou um meio de que se +servia a atroz calumnia da usurpação dos bens para tirar a D. Affonso VI +o que lhe tinha ficado da casa de Bragança e para os dar ao seu +predilecto: e por esta razão veio a D. Affonso o desejo de restituir, e +occorreu á facção o pensamento de depôr o insensato. Assim manejou a +perfida intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas +as eras procura colher e alcançar o seu unico fim que é o roubo pela +pertinaz heresia e pelo mais atroz engano e enredo. + +D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe +negou o tratamento; as nações não cessavam de o responsabilisar pela +vida do infeliz e proscripto; e já se julgava que fazia guardar como rei +um homem estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez +prender e reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do +tumulto dos seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido +d'aquella supposta revolução para declarar novamente como doudo o triste +que se deixou cahir no laço. D. Pedro a cada passo reunia as côrtes do +reino sempre na esperança de que o reconhecessem rei, mas jámais o +conseguiu pela grande desaffeição e justo odio que tinha merecido e +grangeado. + +A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se +assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os +bens de Bragança e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por +almoxarifes que nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as +terras juizes, e assalariava por todo o genero de engano os cobradores +da falsa e aleivosa renda, e por esta fórma constituiu as suas +instituições e morgados: o povo reagia contra a usurpação, mas o rei e o +governo, o infante e os seus almoxarifes conspiravam, e apesar do odio +do povo que não podia ser mais justo nem mais bem merecido colhiam e +recolhiam do roubo grandes interesses e mortificavam o povo com exacções +de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam do seu fim primordial e +applicavam para outro de maior escandalo e torpeza. + +O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas +jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a +figurar por alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua +mudança para a ilha é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam +abaixo de toda a critica: D. Affonso VI não era admittido a escrever; o +mesmo governo de D. Pedro fingiu ou suppôz as cartas para dar ao preso a +laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido +se temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e +como existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro. +Com effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por +morto na ilha para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D. +Pedro em côrtes a pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que +tomasse o titulo e o tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador +hereje, e injusto possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com +isto se houve por acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha +realeza. + +Veio então a questão romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto +aos bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do +povo, uma vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança. +O governo passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho +e prova de sua torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e +póde dizer-se que o escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida +taberna, ou no ergastulo do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais +indomita fera; por que estes reis sempre andaram presos, e a que chamam +casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e +conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de +julgar que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada +individuo é obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para +ficar doudo e bem sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus +verdadeiros senhores e tyrannos. + +Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou +de má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a +lingua do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo +pretenderam fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula, +nem suscitaram as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o +ingresso e a influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não +ouvir verdades amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão +inauditas usurpações e falsidades, e de tão grande subserviencia aos +estrangeiros e a todos os inimigos da nossa fé e da nossa gloria e +renome. + +João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um +fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam +entre nós; os seus dogmas proprios da mais abjecta demagogia podiam +apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, dos Neros e +dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes á lei +regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os +Tusculanos de Cicero e de sua REPUBLICA, só para a posteridade; e +estaria em algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar +e apparecer sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e +eterno d'el-rei o snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades +causam tedio e nojo. D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento +de magestade, sem lhe competir e por heresia de infame e vil +protestante. Agora dizem os apologistas da mesma seita que Portugal +sempre foi protestante; mas não dizem como se retractou a viuva, nem diz +como precisou a ignobil memoria de D. João IV de ser absolvida como +contrita á hora da morte para ter sepultura de corpo. + +Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel +cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa +e por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o +titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava +esta rosa d'ouro só para um rei ou imperador que acontecia ser o que +confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; e jámais o +pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o +mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como +vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que +não estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias, +nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons +catholicos e fieis. Durante a usurpação sempre procuraram os herejes +tomar lugar e assento, e á medida que fugia a fé da sua pureza invadiam +as raças, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir +as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar +pasto á luxuria dos maiores desvarios e ameaças. E seria só pela +necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia? É certo que +o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas o principio de +desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus +antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas +successões estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte +e pensamento do desprezo da santa lei e fé. + +Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen +cujos artigos secretos são da infame propaganda protestante que invadiu +o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este +com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragança a seguir o +falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame +ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como +Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e já os +protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus +superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da +injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario, +e no odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez +com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de +heresia, cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da +Bretanha e de Londres, como é sabido e se estendia por meio de +ramificações secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idéas da +santa acclamação de D. João I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo +mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truão e ridiculo para depôr +o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como então se dizia ao +mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e +para resuscitar os immortaes. + +Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas +iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter +verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e +protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior +astucia progrediam e illudiam sempre até o grau de maior engano, a este +como simples mação, áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos +mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os +maiores segredos dos outros graus, em quanto não obtinha os verdadeiros +da maior abominação de seu secreto esconjuro. + +Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta +revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz +calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que +nasce sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar +dos que só podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do +seu elemento; porque as claridades da sua existencia não o habilitavam +para conviver no espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza, e +por isso o precipitam mais depressa para que conheça o que é e o que +póde valer como energumeno. Alguem julga que o meteóro póde fazer-se +cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou estrella sem que o +Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita mais cedo este +rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu catholico +reinado e se lhe põe o nome de _mechas_, ou de _põe mais_..., mais +adiante o fazem _José do nabo_, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a +subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os +inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do +crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior +attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os +seus sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade +de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso. +O sophisma é a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o +incenso podre ao demonio, são despojados da propria pelle, e victimas da +nova crueldade dos monstros. + +Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos +milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre santo, se +a sua tentação inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que +fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do +desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razão S. Pedro condemnou +o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas +foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e ostensivo, já era +escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para +a sua ruina e perdição. + +A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro. +Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos +e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais +damnada chorêa da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter +n'este mundo e no outro a mesma sorte--a catastrophe--e o mesmo exito e +cruel engano. + + + + +RENAN + + +O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar +juizo e prudencia a questão da academia real das sciencias e Ernesto +Renan. Estas linhas do _Jornal da Noite_ compendiam todos os argumentos +do esclarecido publicista: _Merecem respeito as convicções. Mas a +consciencia dos outros é tão d'elles como a nossa, igualmente livre, de +todo o ponto respeitavel._ + +É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da +Republica: _nós, que de tolerantes nos desvanecemos, somos +intolerantissimos como frades_. + +O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica +as diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão +do author da _Vida de Jesus_. Os adaís da liberdade forjam golilhas de +phrases para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia. +Offendem e injuriam. + +O author do romance intitulado _Vida de Jesus_ é malquisto dos seis +academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o +indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista +indiscreto que enreda as suas novellas com o sacratissimo nome de Jesus +Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes um livro mui dilecto +do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é motivo bastante a que +as almas profundamente christãs se devotem á apotheose do depreciador de +Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do romance nos +descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do chaldeu. + +Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no +ulterior protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia, +mórmente quando, á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de +Vasconcellos, declaram que estremam entre o author da _Vida de Jesus_, e +o author da _Historia geral das linguas semitas_. + +Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que +afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao +coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um +incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de +Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de +Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e +receosos das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que +Renan recebesse publicamente em Portugal a consideração que o snr. +Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que +temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns +escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de +civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente. + + + + +CORRECÇÕES + + +Convém fazer algumas ao artigo _O Decepado_ (n.º 4, pag. 71). +Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á +gratidão o contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas +tão remotas e alheias das _novissimas_ charadas, das _capitações_, do +_don-juanismo_ e dos bancos. + +Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e, +se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o +appellido que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que +levante turbilhões de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal. +Eis a carta do snr. J. F. Torres: + +......................................................................... + +«Deliciei-me com a leitura das veridicas noticias historicas do meu +conterraneo Duarte d'Almeida, _o Decepado_. Ora, v. incansavel em +revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em tão gloriosa e +ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o arrojo de +lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a +verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu +author. + +«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de +Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella[4]; +mas sim um castello ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado +demolir pelo fallecido procurador da casa Penalva, Martinho do Banho, +para com a pedra mandar fazer escadas e outras toscas obras que conduzem +á capellinha de Santo Amaro, pertenças da mesma casa Penalva. Existe +outro igual monumento no lugar de Bandavizes, freguezia de Fataunços. + +«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia +ter sido uma vivenda ostentosa, como se vê do que ainda hoje existe, +pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa d'Oliveira. + +«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada +alli existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil[5]. Ha +porém na villa uma elegante capella do santo, onde se celebra missa +todas as segundas feiras; e onde se conserva a pia em que se baptisou o +santo; e bem assim o queixo inferior do mesmo, reliquia muito venerada +pelos habitantes da villa. O corpo, como v. sabe, jaz enterrado em S. +Francisco de Santarem.» + + +Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como +fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: _A exc.^ma madrasta +d'el-rei D. Luiz I calumniada_. + +O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro +opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus +admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais +eloquente de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra +biblica. + +João de Deus, o excellente poeta, cantava d'est'arte, ha 15 annos, em +Coimbra o dadivoso prestigiador: + + Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo + Nos prodigios da milagrosa vara + Que o Senhor Deus te deu: + Teu coração, Moysés do christianismo, + Tua alma é que eu admiro, e te invejára, + Se o que é teu fosse teu. + +Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus, +que tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava +a varinha que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita, +ainda não é banqueiro, segundo me consta. + +Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha +talento. Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras, +sobrevivem ao prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do _Instituto_: + + Le coeur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait + On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait. + Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel + Une promesse sainte, dans un voex solennel! + + Si, par lui, mon talent me donne la richesse, + J'ai ma mission aussi, soulager la détresse, + Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi, + Pour ramener enfin le calme en mon esprit. + +N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da +sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára +n'aquelle recinto da _charmante jeunesse_. Queixava-se outro sim, de +ingratidões que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado +no Porto, romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á +orla de um throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria +em Vienna d'Austria. Brilhantes desenlaces! + +E foram os rapazes de Coimbra--aquelles viventissimos rapazes de 1859, +Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e +dezenas de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração +retranzido. _Gloire à vous!_ exclamava Herrmann. + + [4] Existia no seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto + nobiliario de testemunha coeva e ocular. + + [5] Em 1780 ainda se via n'esta casa a capella, no local onde + nascera S. fr. Gil. + + + + +MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS + + + ... Une femme prudente y doit regarder à deux fois avant d'épouser + un poete! + + J. JANIN, _Le livre_. + +Se o fino amor não é condão dos poetas, é escusado esgaravatar essa rara +perola em outra concha. O amor duradouro é incompativel com a creatura +sujeita á decomposição e á morte. As recomposições interiores são +incessantes, até ao momento em que o espirito vital se evóla, e a +podridão começa. + +As reformações da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo. +Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o graváme e a +melancolia da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso +d'isto. Almas floridas em corpos devastados. Os primeiros tem auréola de +poesia lugubre. Os segundos são lastimaveis quando, em honra de suas +cãs, arrancam um a um os renovos da alma, ou os vão delindo com secretas +lagrimas; e são irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice, dando +resplendor á calva com um nimbo de namorados. + +Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII, +_Marcial portuguez_. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem +ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar +foi anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava +pela côrte diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a +consorte, cuidando dos trigaes e dos parrécos. + +Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais +desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi +pelos cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao +santuario da familia com a lyra e com o rheumatismo. + +Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se +bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa +senhora! + +O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de +a ter mofado na prosa caseira--a prosa de marido enfastiado, que é o +vasconso mais barbaro da glottica humana. + +Aqui está um dos cantares com que o sobredito _Marcial_ +desprimorosamente chasqueava as caricias, os vernizes, as tranças +retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e arqueavam as ancas +da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa inventára, á +custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos vestigios da +belleza perdida. E observem que o cruel a denomina _Sara_, equiparando-a +á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes poetas no coração: + + Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho + para vêr tuas faltas, + não quero que te falte meu conselho + em presumpções tão altas. + + Lembre-te agora só que és terra e lôdo + e terra te has-de vêr do mesmo modo; + mas não te digo nem te lembro nada + porque ha muito que em terra estás tornada. + + Que importa que, alguma hora, a prata pura + de tuas mãos nascesse, + e que de teus cabellos a espessura + as minas de ouro désse! + + Se o tempo vil, que tudo troca e muda, + sómente do ouro poz, por mais ajuda, + em tuas mãos de prata o amarello, + e a prata, de tuas mãos em teu cabello! + se um tempo, foram de marfim brunido + no seculo dourado, + não vês que o tempo as tem já consumido, + não vês que as tem gastado? + + Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos; + que eu, quando toco teus nodosos dedos, + me parece que apalpo, e não me engano, + cinco cordões de frade franciscano. + Viciando a natureza com taes tintas, + com pinceis delicados, + jasmins e rosas em teu rosto pintas. + Deixa esses vãos cuidados; + pois quando tua cara me alvorota, + mascara me parece de chacota; + e, se é das tintas, digo n'este passo + que a mascara está inda em calhamaço. + + Como pretendes, pois, com mil enganos, + vestir mil primaveras + sem ter a primavera de teus annos! + Como não desesperas! + que o tempo chegou já ao seu estio, + aonde toda a fruta perde o brio; + parecendo tua cara desmedrada + fruta que se seccou, noz arrugada. + + Se feitura de Deus Eva não fôra, + dissera, sem porfias, + que de Eva foste mãi, velha senhora, + pois te sobejam dias + para esta presumpção que agora tenho; + e, concluindo em fim, a alcançar venho, + pois alcançar não posso tua idade, + que deves ser a mãi da Eternidade. + + Teus olhos, por descargo da consciencia, + a idade os tem mettidos + em duas lapas, fazendo penitencia; + e estão tão escondidos, + que, quando os vou buscar porque me choram, + não acerto co' bêco aonde moram; + porque o tempo os mudou, seu passo a passo, + da flor do rosto lá para o cachaço[6]. + + ............................................ + ............................................ + + Em fim, senhora, se te vejo em osso, + com essa cara posta em tal pescoço, + me parece, tirada a cabelleira, + em cima de um bordão uma caveira. + + ............................................. + + Sabe que sei, e d'isto me não gabo, + que te alugou sem duvida o diabo, + invejando teu corpo, cara e dedos + para a Santo Antão fazer maiores medos[7] + E deixa, em fim, tanto vão cuidado; + e ao sagrado te acolhe + primeiro que te ponham em sagrado. + Este conselho colhe; + admitte o que te digo sem desgosto; + que eu, quando vejo teu funesto rosto, + d'elle tambem o seu conselho tomo, + pois cuido que me diz: _Memento, homo!_ + +Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D. +Catharina, abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e +impenitente, por aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade +provecta com poemas sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á +circulação dos enxurros. Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no _Elogio de +poetas lusitanos_, conceitua n'esta altura o descaroado marido: + + D. Thomaz de Noronha em tanto augmento + Confirma de sus versos la escellencia + Que admirando sutil su entendimiento + Puede hazerle a Quevedo conpetencia: + Alma de tan ayroso movimiento, + Luz parece de sol de su presencia + Y sol a cuya luz crecen desmayos, + Aguila no soy yo de tantos rayos... + +Que te fulminem, Jacintho!--diria um leitor circumspecto. Achou-lhe +airoso movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez +e cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um +trovista de tasca. + +A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre +missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque +metrifica a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do +talento, é enfermidade repugnante. + + [6] Segue uma estrophe cuja nudeza, posto que não envergonhe o + realismo hodierno, nos pareceu propriedade dos livros escriptos + para _homens_, cuja deshonestidade os authores lisonjeam com as + dedicatorias dos seus romances. + + [7] _Metter medo aos medos de Santo Antão_, era adagio do tempo, + que teve a seguinte origem: No terceiro domingo de agosto de 1577 + sahiu uma procissão da antiga parochia de S. Julião. Entre varias + figuras e carros triumphaes ia um homem representando Santo Antão + no deserto, e á volta d'elle varios demonios com feitio de monos o + aterravam com caretas e tregeitos medonhos. + + + + +A CASA DE BRAGANÇA «AB OVO» + + +D. Gonçalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava +as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus +com as curiosidades philoginias, gregamente faltando. + +D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte, +chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um +menino robusto, como os recem-nascidos do _high-life_, o qual se chamou +Antoninho. + +Este D. Antonio Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai +de 32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mães d'este rapazio +todo chamou-se Eyria de Carvalhal, e das predestinadas entranhas d'esta +menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da primeira duqueza de +Bragança, casada com o bastardo de D. João I. + +D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos +veio a redempção em 1640. + +Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles +fossem castos ou infecundos, não teriamos Braganças, e gemeriamos ainda +hoje captivos de Hespanha. + +O arcebispo descança ha 526 annos, em uma capella contigua á porta +travessa da sé de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida +no mausoléo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se +apaixonasse por hespanholas. O coração não tem _ubi_. O escolar de +Salamanca lêra talvez o philosopho grego que dissera serem todas as +mulheres uma. Se a natureza as não discriminára, como estremal-as por +fronteiras? + +Mas tão portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a +mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada +sobre suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta! + +Ainda não vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a +morte do D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José Corrêa, +biographos dos arcebispos bracharenses, a souberam ou quizeram divulgar. +Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por haver sido prelado como +por genio investigador de antiguidade, não ignoraria o que era constante +de um processo existente no archivo da mitra. + +Eis o caso: + +Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a +Villa-Flôr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os +moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro +homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. +Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, +mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se não fugisse, +pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cahir de costas no +terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Villa-Flôr com a +fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, de envolta com parte dos +capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado +chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante n'aquelle tempo, +fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a +D. Affonso IV. + +O rei, poucos dias depois, mandou a Villa-Flôr uma alçada com dois +algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que pôde colher na +devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo +descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se +erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor. + +E assim morreu, por effeito de tão miserrimo lance, aquelle valente do +Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto +successor D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. Fôra elle o defensor da +cidade do Porto, quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua +vanguarda o incendio e a devastação. Fôra elle ainda quem acaudilhára a +hoste de portuguezes, quando uma invasão de hespanhoes, em desapoderada +fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanças dos alabardeiros do +arcebispo. + +Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flôr, amotina-se a +arraia-miuda, foge de escorregão por uma corda, cahe de cangalhas, +amolga o osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraça de +Portugal se elle, antes de lesar as vertebras lombares e regiões +visinhas, nos não tivesse deixado os embryões da casa de Bragança na +pessoa de seu filho prior! + + + + +UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES + + +O filho de Jayme I de Inglaterra veio a Madrid, em 1610, para vêr de +perto a princeza Anna, filha de Philippe III, uma das mais formosas +mulheres d'aquella época. D. Fernão Martins Mascarenhas, inquisidor +geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que soube da chegada do +heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa presumpção de o +reduzir á fé catholica. O principe, todo embebecido nas magias da filha +de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver esse negocio +que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinião de alguns +historiadores, porém, é que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja +romana, não tanto pela influencia theologica da carta, como pelos +filtros amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para +esposa; e, quando em Londres se preparavam os festejos do noivado, +morreu o noivo em 1612. + +A carta do inquisidor bispo do Algarve é inedita. A este prelado devemos +a impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avós todos os +livros gafados de heresias. Se não fosse elle, é muito de recear que em +Portugal se lêssem então os livros que no seculo XVII propulsaram as +sciencias na França e Allemanha: o que seria uma calamidade. Eis a carta +do santo varão: + + +«A vinda de V. A. a esta côrte foi de tanta alegria para todos os que +nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da +sua presença, temos obrigação de fazer demonstração publica, assim em +dar graças a Deus por esta mercê, como em significar a V. A. o animo, e +a vontade com que festejamos a honra que todos alcançamos por esta +causa. + +«O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas orações, +para melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa, é que +queira V. A. ouvir e entender a razão do que por cá acha, e é +professarmos a fé, e a religião que professa, e ensina a igreja +catholica romana, verdadeiramente apostolica; porque o animo com que +desejamos paz perpetua entre as corôas de Hespanha e Inglaterra, nos +obriga a procurar a conformidade na religião entre os principes dellas, +pois, como diz Santo Agostinho, não póde haver verdadeira concordia +aonde os entendimentos estão desunidos na terra. + +«Muitas razões se podiam allegar para V. A. se dispôr a fazer este +serviço a Deus, e mercê a toda a Hespanha, porque os livros estão cheios +d'estas materias, mas tres são só as que lembro a V. A. para satisfazer +a obrigação que tenho n'este reino de Portugal. + +«A primeira é considerar V. A. que isto que nós professamos em Hespanha, +acerca da obediencia á sé apostolica-romana, professaram, sem nenhuma +interrupção, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o +tempo de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, até o de +Henrique VIII de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudança na +religião; porque como nunca se havia preferir o parecer dos que querem +innovar cousas ao juizo d'aquelles que dellas perseveraram por tantos +annos, bem se vê, a prudencia natural está pedindo que se repare muito +n'esta variedade que se introduziu em Inglaterra nos derradeiros annos. +E é muito para vêr a fórma em que escreveu Eduardo, rei de Inglaterra, +ao papa Alexandre III, porque ambos estão condemnando o que agora se +segue no mesmo reino com palavras tão claras que não soffrem +interpretação alguma. + +«A segunda razão é porque todos os reis de Inglaterra que antes de +Henrique VIII tiveram o sceptro d'aquelle illustre reino depois de +Alberto, fundaram a sua jurisdicção na obediencia á igreja romana, em +que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro, principe dos +apostolos, e vigario universal de Christo na terra, até Ina e Ataulfo +fazerem o proprio reino tributario da sé apostolica, e este tributo +durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve +que em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que +deviam aos pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeças da +igreja catholica, e sempre depois vieram a fazer penitencia de seus +erros, como consta dos proprios annaes e chronicas de Inglaterra que +Polidoro Virgilio II seguiu, e tratou em sua historia. + +«A terceira razão é porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudança, +quando morreu declarou que errára, e por esta causa expirou com summa +pena, e inquietação, como consta da relação que fizeram homens de muita +virtude, letras, e authoridade que assistiram á sua morte, e os aponta +Sandero, com outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas +cousas; e se não remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que +permittiu lhe faltasse n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe +lembrasse o que o proprio escreveu tão doutamente contra Luthero, e +dirigiu ao papa Leão X. + +«Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores +tiveram e professaram por largos annos, sendo tão virtuosos, prudentes e +valorosos, como o mundo todo reconhece, não fará mais que restituir á fé +a casa d'onde contra razão e justiça anda desterrada; e com esta +restituição além da gloria immortal, que alcançará em todos os seculos +vindouros, obrigará a Deus Nosso Senhor abrir as mãos da sua +liberalidade para lhe acrescentar muitos reinos com novas prosperidades +temporaes.» + + + + +A TRILOGIA DA «ACTUALIDADE» + + +Quando o snr. Moutinho de Sousa, ha pouco tempo, negociava, em Lisboa, +actores que preenchessem e aperfeiçoassem a companhia dramatica do +theatro Baquet, o snr. Silva, roto saboyardo do escangalhado realejo +litterario da _Actualidade_, escreveu, com o desplante da sua ignorancia +impenitente, que a escripturação dos tres indicados actores formava uma +agradavel TRILOGIA. + +Tres actores, tres pessoas--uma _trilogia_! + +O leitor (se não é elle) sabe que os gregos denominavam _trilogia_ o +conjuncto de tres peças theatraes, quando o poeta pleiteava o premio da +tragedia. Uma compoz Eschylo, a mais commevedora que nos legou a antiga +scena. Shakspeare fez uma _trilogia_ com as tres tragedias que completam +Henrique VI. O _Walstein_ de Schiller é tambem uma _trilogia_. Querem os +francezes por igual ter a sua na concatenação do _Barbeiro de Sevilha_, +_Casamento de Figaro_ e _Mãi delinquente_ de Beaumarchais. Tambem nós, +em os nossos humildes fastos litterarios, temos uma _Trilogia +romantica_, em que se annunciavam collaboradores Antonio Pereira da +Cunha, D. João de Azevedo, e João Machado Pinheiro (visconde de +Pindella). + +Por analogia, tres composições em um livro, tres tratados, tres +discursos, poderemos denominal-os _trilogia_; mas chamar _tratado_ +(_logos_) ao snr. Pola, e _composição_ á snr.ª Virginia, e _discurso_ á +snr.ª Emilia das Neves, hellenisando-as pessimamente, seria uma fineza +grega, se não fosse uma asneira portugueza. + +Este snr. Silva (aviso aos naturalistas) dizem-me que tem as orelhas de +tamanho regular. Elle e os 2 Joaquins são tres partes de uma só +cousa--_trilogia_. Aqui vão bem; cálham: são tres peças que arredondam +um tolo superlativo. Ainda, no dominio grego, podéramos chamar aos +tres--_triga_. (Veja um _Lexicon_ o snr. Pinto). E, quando apparecer um +quarto, por não sahirmos de Athenas e das analogias remotas, os quatro +serão _quadriga_. Ora ahi tem gregarias em barda. Divirta-se. + +_P. S._ Eu dissera-lhe _adeusinho_, quando fui _banido_; mas elle, +mentindo e espremendo novamente o figado, espirrou um golfo de bilis +negra. Faz-se mister não levantar mão das ventosas. Ou elle estuda, ou +eu o esfolo. + + +FIM DO 5.º NUMERO + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 *** + +***** This file should be named 27084-8.txt or 27084-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/0/8/27084/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/27084-8.zip b/27084-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..caa200d --- /dev/null +++ b/27084-8.zip diff --git a/27084-h.zip b/27084-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b75d773 --- /dev/null +++ b/27084-h.zip diff --git a/27084-h/27084-h.htm b/27084-h/27084-h.htm new file mode 100644 index 0000000..f472788 --- /dev/null +++ b/27084-h/27084-h.htm @@ -0,0 +1,2750 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 5</title> + <meta name="author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;} + .pagenum {font-size: 0.6em; font-style: normal; color: #666666; position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + a {color: #000000; text-decoration: none;} + sup {font-size: 0.8em; font-style: normal;} + h2, h3, h4 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + .direita { + text-align: right; + } + .centrado { + text-align: center; + } + .poesia { + margin-left: 30%; + font-size: 80%; + text-align: left; + font-style: italic; + } + blockquote { + margin-left: 10%; + font-size: 0.8em; + text-align: left; + } + .citacao { + margin-left: 40%; + margin-right: 5%; + font-size: 0.8em; + text-align: left; + } + .ni{ + font-style: normal; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + #corpo .centrado{ + text-indent: 0em; + } + p { + text-indent: 1em; + } + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + #sumario { + width: 75%; + margin: auto; + border-left: solid 1px #000000; + border-top: solid 1px #000000; + border-right: solid 3px #000000; + border-bottom: solid 3px #000000; + padding: 1em; + } +.celula { + display: table-cell; + font-size: 0.8em; + padding: 1em; +} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº5 (de 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: October 29, 2008 [EBook #27084] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<span class="pagenum">[1]</span> + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 6em;"> + +<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p> + +<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> +<hr style="width: 3em;"> + +<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p> +<br> + +<hr style="width: 3em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">N.º 5—MAIO</p> +<hr style="width: 3em;"> + +<table width="100%" summary="Endereço do editor"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">LIVRARIA INTERNACIONAL<br> + <span style="font-size: 0.7em;">DE</span> </th> + </tr> + <tr> + <td style="border-right: solid 1px #000000;"><span + style="font-size: 0.9em;">ERNESTO CHARDRON <br> + <em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br> + <strong>PORTO</strong> </span> </td> + <td><span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br> + <em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br> + <strong>BRAGA</strong> </span> </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<hr style="width: 2em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class="pagenum">[2]</span> + +<div id="impressor" style="text-align: center;"> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<hr style="width: 8em;"> + +<p>PORTO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">62—Rua da Cancella Velha—62</p> +<hr style="width: 2em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class="pagenum">[3]</span> + +<div id="sumario"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 4em;"> + +<p style="text-align: center; font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> +<hr style="width: 4em;"> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"><strong>SUMMARIO</strong> +</p> + +<p><em><a href="#cap01">Petronilla, Gamarra, Zamperini</a>—<a +href="#cap02">Entrada para os salões</a>—<a href="#cap03">Os salões, +introducção, pelo exc.<sup>mo</sup> snr. visconde de Ouguella</a>—<a +href="#cap04">Ecce iterum «Silva» Chrispinus</a>—<a +href="#cap05">Santos-Silva</a>—<a href="#cap06">Doudo Illustre</a>—<a +href="#cap07">A catastrophe</a>—<a href="#cap08">Renan</a>—<a +href="#cap09">Correcções</a>—<a href="#cap10">Mau exemplo de poetas +casados</a>—<a href="#cap11">A casa de Bragança «ab ovo»</a>—<a +href="#cap12">Um inquisidor portuguez e o principe de Gales</a>—<a +href="#cap13">Trilogia da «Actualidade»</a></em></p> +</div> +<span class="pagenum">[5]</span> + +<div id="corpo"> +<hr> +<a name="cap01"></a> + +<h1>PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI</h1> + +<p>Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos +argentarios portuguezes no seculo XVIII.</p> + +<p>Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745. +Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros +diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas +cabeças, sem respeitar as testas coroadas.</p> + +<p>Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta. +Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com as +«princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye denomina +as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso <span +class="pagenum">[6]</span>Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; +mas não esbanjava em galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das +suas transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as +actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O +fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia hombrear em +proezas de galã com algum frade bernardo de costumes suspeitos. Os frades +propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu camarote o collo despeitorado +da Petronilla com settas de amor platonico. Havia no theatro o <em>camarote +dos frades</em>, collocado por baixo do camarote das açafatas. Tinha rotulas +de pau, por entre as quaes os monges assopravam uns suspiros quentes como as +lufadas da Arabia. Mas não passavam d'estes resfolegos os frades.</p> + +<p>A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos fidalgos. +Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, <em>morceau +friand</em>,—dizia o cavalheiro de Oliveira—que só aos grandes senhores +competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante.</p> + +<p>D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se illaquear +n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de ouro e +pedras.</p> + +<p><span class="pagenum">[7]</span>Quando se passou a Castella, a garrida +comica levou trinta cavalgaduras carregadas de riquezas—diz Francisco Xavier +de Oliveira—e acrescenta que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da +pedraria que ostentou eram taes que as damas de primeira plana se morderam de +inveja. (<i>OEuvres mêlées...</i> Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha +continuou a enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a +ternura. A final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a +parte menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se +capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo passo que +o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos comediantes, e +ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos +antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano Annio +Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e +cortezão—assevera Francisco Xavier de Oliveira.—D. João V dava-lhe uma +pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina +tempera velados pelos reposteiros <span class="pagenum">[8]</span>heraldicos. +Tinha espiritos levantados como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto +engodava os fidalgos com as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a +boa philosophia, a boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E +assim viveu e medrou longos annos em Lisboa.</p> + +<p>Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e +algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada dançarina; +mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra, quanto ao appellido, +deixou em Portugal memorias dignas de romance de grande fôlego.</p> + +<p>Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro, +justiçado como regicida em 1758.</p> + +<p>Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados; e, +deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade +matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.</p> + +<p>Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o +descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a instar +com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da ordem de Santo +Agostinho.</p> + +<p><span class="pagenum">[9]</span>E professou.</p> + +<p>O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como +mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D. +Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que tragico +destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo da +libertinagem, com cabellos brancos.</p> + +<p>E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias, instillando-lhe +no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral.</p> + +<p>O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao +paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos +quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa Monica. +</p> + +<p>—Vês tu quanto te amo?—disse o marquez—dei-te a preferencia, entre ti e +o rei.</p> + +<p>—Se fizesses outra cousa nunca mais me verias—replicou ella +abespinhando-se.</p> + +<p>—Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!...</p> + +<p>—O teu dever é esse... <i>Antes que todo es mi dama</i>, diz Calderon de +la Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco +amor me tens.</p> + +<p><i>J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul +mot de ma façon</i>, <span class="pagenum">[10]</span>diz o cavalheiro de +Oliveira, (<i>OEuvres mêlées</i>, t. 3.º p. 34).</p> + +<p>Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má +digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns +merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim da +Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira alguma +cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de Oliveira +conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o velho marquez á +cova:</p> + +<p> </p> + +<p>«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o +Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a, e +conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella quanto +cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz monastica tudo que +mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa, o respeito paternal, o +affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos, socego, interesses, em fim, +a propria vida que expoz em muitos lances á vingança do marquez, cujo +respeito benemerito soffreu muitos desfalques de encontro á coragem intrepida +de Noronha... Era elle, <span class="pagenum">[11]</span>porém, o possessor +unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas vezes projectou +matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o aggrediram: felizmente +repulsamos os assassinos. A final, o marquez, authorisado pelo rei, logrou +encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve nove mezes; e com muita +difficuldade obteve soltura depois da morte do marquez. Fr. Gaspar, tio +d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto pôde por demorar tão injusta +prisão, vingando d'est'arte os manes do marquez, seu sobrinho.» (<i>Obra +cit.</i>, pag. 34 e 35).</p> + +<p> </p> + +<p>O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões +atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a +sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e escudam +com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, <i>maus bichos os comem</i>, +como disse o Sá de Miranda.</p> + +<p>Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra, +d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto conde +de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no dia 9 de +março de 1723.</p> + +<p>O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a +Valentim de Noronha o <span class="pagenum">[12]</span>retrato que lhe elle +dera engastado em moldura de brilhantes... <i>Il me fit voir</i> (diz o amigo +de Noronha) <i>entre ses propres mains ce même portrait du marquis, le même +jour qu'il en avail fait présent à son infidele Gamarra.</i></p> + +<p>Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a preceito, +<i>mieux que personne</i>:</p> + +<p> </p> + +<p>«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era +moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em todos +os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava igualmente +o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente estima. Se amou +rasgadamente alguem, foi Noronha.» (<i>Obra cit.</i>, pag. 35).</p> + +<p> </p> + +<p>Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir +do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada oppoz-se. +Mandou chamar o marido, que ainda não era frade. Communicou-lhe o proposito +de se declarar casada e passar-se ao dominio de seu homem, como era de +justiça. O marido sondou a profundidade do seu direito e a profundeza do +peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao patriarcha Santo Agostinho. +Sahiu-lhe a igreja <span class="pagenum">[13]</span>com embargos á annullação +dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com o +marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao marido, +isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro, metteu-se em +Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de Madrid. (<i>Obra +cit.</i>, pag. 33, nota <i>A</i>).</p> + +<p>Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar +como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro +visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a quem o +rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o nome de +<i>carvoeiro da Rosa</i>. Ao proposito d'esta perigosa cigana, escreve o +tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:</p> + +<p> </p> + +<p>«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da +astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos +desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu +enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos. Este +pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo. Induziu ella um +galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o desgraçado; <span +class="pagenum">[14]</span>foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» +(<i>Obra cit.</i>, pag. 66).</p> + +<p>O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de +cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram pela +catastrophe da forca.</p> + +<p>Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida +do Monte contra o desembargador aguazil do <i>carvoeiro</i>. Diziam assim: +</p> + +<div class="poesia"> +Oh! descahido te vejam<br> +Estes olhos peccadores:<br> +Arrastado e perseguido<br> +Já que perco os meus amores.<br> +<br> +Todas nós, as freiras juntas<br> +Te havemos de praguejar<br> +Pois por caber com el-rei<br> +Nos vaes desacreditar!<br> +<br> +Justiça de Deus te cáia,<br> +E com todo o seu poder;<br> +Na bocca de um bacamarte<br> +Te vejamos padecer.<br> +<br> +Homem, deixa-nos viver,<br> +Não sejas tão turbulento;<br> +Deixa divertir as tristes<br> +Que não sahem do convento.<br> +<br> +Etc.<br> +</div> + +<p>Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII, +perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.</p> + +<p><span class="pagenum">[15]</span>—Que livros?</p> + +<p>—A <i>Historia do theatro portuguez</i>, onde elle conta pouco mais ou +menos essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do +actor hespanhol Antonio Ruiz.</p> + +<p>Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio. Abri +a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como o leitor +vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a culpa, +confrontando o original e o plagiato.</p> + +<div class="celula"> +<p class="centrado">ELLE</p> + +<p class="centrado"><span class="small-caps">(em 1871)</span></p> + +<p><i>Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos annos no +theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e +palaciano.</i> Era homem de bem tanto ás direitas como actor de merito. <i>Do +seu</i> porte <i>honrado</i> redundou-lhe <i>uma pensão annual de cento e +vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da +nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez +idolatrar.</i></p> + +<p class="centrado"><span class="small-caps">Hist. do theatro port.</span> +</p> +</div> + +<div class="celula"> +<p class="centrado">EU</p> + +<p class="centrado"><span class="small-caps">(em 1866)</span></p> + +<p><i>Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos annos +no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e +palaciano.</i> Era tão homem de bem quanto actor de merecimento. <i>Do +seu</i> proceder <i>honrado</i> resultou-lhe <i>uma pensão annual de cento e +vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da +nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez +idolatrar.</i></p> + +<p class="centrado"><span class="small-caps">O judeu</span> (romance).</p> +</div> + +<p><span class="pagenum">[16]</span>Quem, primeiro que elle e eu, dissera +isto em francez foi Francisco Xavier de Oliveira, em um livro que +provavelmente o snr. Theophilo nunca viu; mas adivinhou-o, e eu copiei +d'elle. Porém, no acto da copia, deslisei da versão do professor de +litteratura em tres pontos. 1.º Elle escreveu em 1871: <i>Era homem de bem +tanto ás direitas como auctor de merito</i>; e eu escrevi em 1866: <i>Era tão +homem de bem quanto author de merecimento.</i> E o cavalheiro de Oliveira +tinha escripto: <i>Il étoit aussi homme de bien qu'il etoit Acteur de +mérite.</i> O <i>tanto ás direitas</i> do snr. Theophilo é uma perola de +estylo de que eu não quiz defraudal-o nem <i>ás tortas</i>. 2.º ponto: Elle +disse: <i>do seu porte honrado</i>. E eu, gafando a phrase de francezia, puz +<i>proceder</i> em lugar de <i>porte</i>. Foi ignorancia que me pesa como +<i>porte</i> ou carreto; mas ainda me fica <i>porte</i> ou capacidade para +mais toneladas de materia bruta com que me quero dar <i>porte</i> ou +importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando em 1866 eu copiava o que +o doutor escrevia em 1871: Elle pôz <i>redundou-lhe</i>, e eu +<i>resultou-lhe</i>. Do feitio que elle escreveu a idéa fica mais aceada. Na +nova edição do <i>Judeu</i> hei de apanhar-lhe o <i>redundou-lhe</i> que é +bom.</p> + +<p>No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes lhe +armei a sancadilha <span class="pagenum">[17]</span>de chamar Antonio +<i>Rodrigues</i> ao actor hespanhol que nunca foi <i>Rodrigues</i>; mas sim +<i>Ruiz</i>. Faz-se mister sestro de muito mentir para enganar um homem, de +quem se copía o engano cinco annos depois! Parece enguiço! O cavalheiro de +Oliveira escreveu <i>Ruiz</i>. Cuidei que era abreviatura de +<i>Rodrigues</i>, e lá vai a peta de recochête lograr o doutor que m'a +encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me desenganou foi o +poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor como e quando, se é +que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do doutor Theophilo.</p> + +<p>Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em +casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto +d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes +decimas:</p> + +<div class="poesia"> +Victor! já chegou a gente<br> +de Madrid, tão esperada,<br> +e já foi agasalhada<br> +do seu superintendente.<br> +Este padre impertinente<br> +se intitula em Portugal<br> +Dom Hieronomio de tal,<br> +e <span class="ni">Cancer</span> tambem seria,<br> +pois á sua enfermaria<br> +puxa as damas do hospital.<br> +<span class="pagenum">[18]</span>Porém, viva o tal padrinho!<br> +só a taes afilhadas chega;<br> +que á Undarro, e á gallega<br> +abençôa o seu carinho.<br> +E baptisa de caminho<br> +com fé pia e fervorosa<br> +a dama em flôr magestosa,<br> +confirmada no primor;<br> +porém, se a Undarro é flôr<br> +tombem a gallega é Rosa.<br> +<br> +..............................<br> +..............................<br> +<br> +Com que já por uma vez,<br> +temos boa companhia,<br> +graças ao nosso Atouguia<br> +que tal companhia fez,<br> +Em fim, já chegou Garcez,<sup><a href="#fn1" name="mfn1">1</a></sup><br> +galan de primeira classe,<br> +que eu não cuidei que chegasse;<br> +e já muita gente diz<br> +que morreu Antonio Ruiz;<br> +mas <span class="ni">requiescat in pace</span>.<br> +<br> +<span class="ni" style="margin-left: 4em;">Amen.</span><br> +</div> + +<p>Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de +traductor de um livro <span class="pagenum">[19]</span>que nunca viu. E agora +vem de molde penitenciar-me d'um insolente repto que escrevi ha dous annos +por occasião de recommendar certo livro escripto portuguezmente:</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio dos +sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues! +Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna letrada +do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as suas cousas +originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua ignorancia dos +idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar com linguas +teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas fallava mouro. O seu +forragear no francez era um justo despique dos latrocinios que elles cá nos +fizeram em 1808. Se os não citava, tambem elles lá não disseram cujas eram as +patenas e os calices de ouro que nos arrebanharam nas igrejas. Retaliação +justa.</p> + +<p>«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo, +não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco <span +class="pagenum">[20]</span>a ensinar a mocidade, sustenta creditos de +original, affirmados e cimentados na singularidade bordalenga com que +transpõe idéas peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, +coxas, esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados +d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas +desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre +sobrepuja o phosphoro.</p> + +<p>«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas +para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a +furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a flecha. Ai +do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim!</p> + +<p>«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações +atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E prometto +lembrar-lh'as.</p> + +<p>«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas +negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de viver +tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais intelligente e +manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo que, lá ao diante, +se saiba quo morri na <span class="pagenum">[21]</span>desconfiança de que o +snr. Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os +applausos do gentio lôrpa.»</p> + +<p> </p> + +<p>Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui +apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me capaz +de copiar de toda a gente.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Agora, direi da Zamperini.</p> + +<p>Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das +forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos documentos +levaram da sensibilidade do peito lusitano.</p> + +<p>Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em +quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro para +pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um systema que não +é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela mensalidade, +metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de espectaculo, concediam-lhe a +lucidez necessaria para cantar de graça. Iam então dous quadrilheiros +trazêl-o da enfermaria dos orates em direitura ao camarim. O tenor vestia-se, +<span class="pagenum">[22]</span>e era escoltado até ao palco. Ahi, desatava +o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um desafogo de injurias +rimadas aos emprezarios. O povo trovejava gargalhadas, e o improvisador, +aquecido pelos applausos, sarjava a epiderme d'aquelles originaes patifes +que, no fim da opera, o devolviam ao seu cubiculo no hospital de S. José.</p> + +<p>Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I, +condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres illustres que +capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei nem o grande +ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras, filho do marquez de +Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.</p> + +<p>Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no +holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise da +logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos capitalistas. +Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por ordem do ministro.</p> + +<p>Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura, +figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma banca; +e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:</p> + +<blockquote> + <span class="pagenum">[23]</span>Prenez, belle et charmante coquette, + prenes tout,<br> + puis que vous êtes dans un país de fous. </blockquote> + +<p>Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que +ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe +beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em +inglez:</p> + +<blockquote> + The true property of an englishman<br> + T'is to pay and despise.........<sup><a name="L6313" id="L6313" + href="#L6315">2</a></sup></blockquote> + +<p>E mais abaixo:</p> + +<blockquote> + Mylord, dont kiss her hand,<br> + Because she has no face,<br> + But kiss her... her... her...<br> + Kiss her elsewhere<sup><a name="L6317" id="L6317" +href="#L6319">3</a></sup></blockquote> + +<p>Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que +figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos:</p> + +<blockquote> + A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime;<br> + allons, prenez l'exemple, et vous serez de même.</blockquote> + +<p>Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça <span +class="pagenum">[24]</span>mette a bolsa na algibeira, e dá visos de +safar-se, com estes versos:</p> + +<blockquote> + Lasciate agli altri, amico, la campagna,<br> + questa sol con quatrini si guadagna.</blockquote> + +<p>A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode á +cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra:</p> + +<div class="poesia"> +Macedo, não te cances,<br> +Pois os gostos são diversos;<br> +Zamperini estima o ouro,<br> +E nada entende de versos. </div> + +<p>E assim termina a relamboria semsaboria.</p> + +<p>Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla +nota de Verdier <em>Hyssope</em>. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, +hoje em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras +glaciaes em ternuras de camarins.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#mfn1" name="fn1">1</a></sup> O snr. Theophilo a pag. 151 e +152 do tom. 3.º do seu <i>Theatro portuguez</i> desmente o Pinto Brandão, +dizendo que o <i>Garcez não veio</i>. O doutor, 141 annos depois, estava mais +em dia que o poeta, redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. +Theophilo é unico!</p> + +<p><sup><a name="L6315" id="L6315" href="#L6313">2</a></sup> O que bem +caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar.</p> + +<p><sup><a name="L6319" id="L6319" href="#L6317">3</a></sup> Mylord, talvez +vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a mão, etc.</p> +</div> +<hr> +<a name="cap02"></a> + +<h1>ENTRADA PARA OS SALÕES</h1> + +<p><span class="pagenum">[25]</span>Eu não contava com a gloria e o +contentamento de estampar nas <em>Noites de insomnia</em> o livro completo de +physiologia social, intitulado—<span class="small-caps">os salões</span>.</p> + +<p>Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde +tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra.</p> + +<p>Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão +benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença de +1:000 subscriptores.</p> + +<p>E, pois que a publicação dos <span class="small-caps">salões</span> +principiou aqui desacompanhada da introducção indispensavel ao complexo dos +capitulos, forçoso é que se interponha o soberbo peristylo por onde o leitor +mais de grado irá ao entendimento dos trechos que já leu e dos outros que +advierem.</p> + +<p>Este livro dos <span class="small-caps">salões</span> será a porção mais +para durar e sobreviver ás futilidades das <em>Noites de insomnia</em>. O +visconde de Ouguella, ainda em annos florentes e vigorosos, póde dizer com o +velho e experimentado Rousseau: <em>Je sens mon coeur et je connais les +hommes</em>. <span class="pagenum">[26]</span>O seu livro esplende os +lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas e pungentes +ironias de Proudhon—aquelle vidente que Deus mandou apregoar a prophecia da +destruição debaixo dos muros da segunda Jerusalem derruida.</p> + +<p>A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente <span +class="small-caps">os salões,</span> apparece-nos ahi sem a venda gentilica, +vê pelos olhos da historia—a Fatalidade inflexa—; e emerge á flôr d'estes +parceis, que nos atormentam, as evoluções da Providencia.</p> + +<p>Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O +melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma +balbuciação em linguagem nova.</p> + +<p>A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de +Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de +Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes em que +o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não se compadece +com uns corações que nasceram velhos.</p> + +<p>Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do +passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos <span +class="pagenum">[27]</span>cultos pouco ha que ensinar, logo que esses nos +admoestam superciliosamente que moralisemos as <em>massas</em>. Mas sejamos +todos <em>massas</em> em quanto o povo—a arraia das hortas e das galerias +parlamentares—desconfiar que lhe desce do alto o exemplo que a dissolve e +acanalha.</p> + +<p>O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á +feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em <em>palavras de +crente</em>, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay. +Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se alguma +hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a infamia +assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho José Freire. +Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das casernas e reverberam +nos gladios dos Quichotes que constituem os reis seus Pansas.</p> + +<p>E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras da +Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos <span +class="small-caps">salões</span>, e peço ao visconde de Ouguella que nos +relate como foi que um providencial acerto lhe deparou o manuscripto do +desembargador.</p> +<hr> + +<a name="cap03"></a> + +<h1>OS SALÕES</h1> + +<h2>INTRODUCÇÃO</h2> + +<div class="citacao"> +<p>... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir pour le +plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière sous le ténébreux +manteau de l'océan.</p> + +<p style="text-align:right;">THEOPHILE GAUTIER.</p> +</div> + +<p><span class="pagenum">[28]</span>Era um dia esplendido de inverno n'este +ignoto canto do occidente. Abri o Almanach da agencia primitiva de annuncios, +e a paginas dez encontrei o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do +hospital de S. José.»</p> + +<p> </p> + +<p>Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o +espirito.</p> + +<p>Resolvi ir á feira da Ladra.</p> + +<p><span class="pagenum">[29]</span>Ás terças feiras, assemelha-se o campo de +Sant'Anna a um bazar africano, na selvagem e cynica disposição dos objectos +que constituem o mercado.</p> + +<p>Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada +passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das +inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e sumptuosos +caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, aprendem-se nas <em>Mil +e uma noites</em>, adivinham-se nas chronicas dos nossos navegadores, +estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das casas antiquissimas e +esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um mytho. Para nós—pobre +povo—empurrado para as vagas espumosas do oceano, pelas civilisações que se +apossaram da Europa, e que nos varrem sem piedade nem dôr para a Africa +carthagineza, como se nós foramos os numidas das lendas romanas ou os ferozes +kabylas das raizes do Atlas.</p> + +<p>E o que somos nós? Deus o sabe.</p> + +<p>Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico, +devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente +constitucional, e essencialmente ignorante <span +class="pagenum">[30]</span>n'estas lutas, que despedaçam thronos e proclamam +republicas.</p> + +<p>«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, n'um +proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das raças e +linguas orientaes.</p> + +<p>As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa +grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que +afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das +escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A +<em>graça</em>, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz +para apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de +reminiscencias tão pagãs.</p> + +<p>E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente +reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da corôa, +tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.</p> + +<p>Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal francez, +tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal artigo—esculpido +hoje nos bronzes da historia—com esta phrase singela e prophetica: <em>Pobre +França, pobre rei!</em>...</p> + +<p><span class="pagenum">[31]</span>Se eu dissera aqui: <em>pobre</em> +Portugal!—Não digo.</p> + +<p>Entrei na feira da Ladra.</p> + +<p>Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna, +levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais ou +menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.</p> + +<p>Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua +tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo buxo, +caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das possessões +indo-britannicas.</p> + +<p>Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de +pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os +residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.</p> + +<p>Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:</p> + +<blockquote> + <p>«Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»</p> +</blockquote> + +<p>Achava-me em presença do inventario de uma capital.</p> + +<p>Examinei:</p> + +<p>Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente <span +class="pagenum">[32]</span>contornado nas fórmas elegantes do reinado de Luiz +XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina de faiança, que fôra a ultima +aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um sacrificio a Diana, em biscuit de +Saxe, tombado sobre a espora de prateleira, que fôra triste legado do ultimo +marquez de Marialva. Mais longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de +<em>parvenu</em>, um saleiro da modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os +fragmentos de um vaso etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e +concertos com que o expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de +Veneza, onde os amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o +vidro, por mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de +verdura e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em +prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos devaneios da +côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos delirios asceticos do +mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro do mais antigo Saxe, +levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de boninas e amores perfeitos, +recordava, na suavidade das fórmas e no primor das folhagens, as creações +elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um prato esmaltado da mais diaphana e +transparente porcelana do Japão equilibrava-se <span +class="pagenum">[33]</span>sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se +traduzia a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos +embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, com +os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.</p> + +<p>Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras +quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados de +varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a óleo, em +vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, no estylo +classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um candieiro de +latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da lampada a cuja luz +Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de direito criminal. Após estes +primores archeologicos desenrolava-se uma fileira incommensuravel de botinas, +sapatos, babuches, chinelas, tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam +n'uma extensa linha, talvez a ultima illusão dos seus possuidores. <em>Sic +transit gloria mundi</em>, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos +carros dourados dos triumphadores romanos.</p> + +<p>Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do +atheniense Sophocles até <span class="pagenum">[34]</span>ao sóco plebeu da +comedia vulgar, onde se expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este +bazar immenso das gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, +semi-deuses e proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de +todas as civilisações.</p> + +<p>Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente +lustrosa—despojo venerando de algum desembargador da casa da supplicação, de +par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã mais desenvolta e +elegante. Por entre colchas da India, recamadas de lentejoulas, esmaltadas em +mosaicos de fios de ouro, entretecidos em variados matizes, lençoes de +Bretanha, finissimos, arrendados em arabescos nas orlas das cabeceiras, +columnas de carvalho do norte, abertas a buril, em que pousavam passaros +esculpidos sobre pampanos e hastes de videira, no meio de fragmentos de +apparatosos biombos de charão escarlate da phantastica China, onde aves e +dragões dourados surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do +artista, através de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando +todas as côres do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e +envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador de +Boule, moldado em tartaruga, <span class="pagenum">[35]</span>envolto em +festões de grinaldas de cobre dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e +arremedando, na ousadia do desenho e na elegancia e recortes das folhas de +metal, as sublimes inspirações de Benvenuto Cellini.</p> + +<p>Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no +seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras, +formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever por +uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e ia +perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada por uma +serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor inexcedivel. Pareceu-me +dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. Envolvia-se n'um cafran ou +burnus—uma especie de farrapo de panno, que lhe cingia o tronco, deixando +solta a cabeça, que apparecia envolta n'um lenço asqueroso, injuriado pelo +tempo, e que emmoldurava dous olhos negros scintillantes e vivos, n'uma +physionomia baça e livida, como um pedaço de cera amollecido entre os +dedos.</p> + +<p>Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do despertar +d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um movel, que se +arrasta, uns sons roucos e gutturaes, <span class="pagenum">[36]</span>na +melopéa arabe, uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das +pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação feita +ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!</p> + +<p>A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas +allucinações e devaneios acusticos.</p> + +<p>Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?</p> + +<p>A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre os +farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas phrases, que +não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, algum preito a +Satanaz,—e depois accentuou em voz clara e cadenciada as seguintes +palavras:</p> + +<p>—Dê-me dez libras, e leva-o de graça.</p> + +<p>—E a chave?</p> + +<p>—A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. São +comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O desembargador +João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito nos ultimos annos +da sua vida.</p> + +<p>—Conheceu-o?</p> + +<p>A velha sorriu-se.</p> + +<p><span class="pagenum">[37]</span>A ironia d'este sorriso tinha não sei que +reflexo dos lampejos do fogo infernal.</p> + +<p>—Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em +Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu vendo os +moveis para comer.</p> + +<p>Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta +amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua curta +narração.</p> + +<p>Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou +as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa como +um mysterio.</p> + +<p>Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei +nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:</p> + +<p style="text-align:center;">AO LEITOR</p> + +<p>Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. Considerei, +examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu tempo. Vou +debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes elles se teem +mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, que não é a minha. +Onde bastar o esboço abandonarei <span class="pagenum">[38]</span>a palheta, +e usarei do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais +vasto horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não +tenho pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth, +nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de +Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de Murillo e +o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes nossos Mirabeaus, +Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, Favres e Marats hei de +pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de enroupal-as, nas vestiduras do nosso +seculo, e hei de com ellas e só com ellas povoar</p> + +<p style="text-align:center;">OS SALÕES</p> + +<p>Segue-se o livro.</p> + +<p>Vou publical-o.</p> + +<p style="text-align:right;">VISCONDE DE OUGUELLA.</p> +<hr> + +<a name="cap04"></a> + +<h1>ECCE ITERUM «SILVA» CRÍSPINUS</h1> +<span class="pagenum">[39]</span> + +<p>Escreve elle no n.º 69 da <em>Actualidade</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>«Publicou-se o n.º 17 da <em>Tribuna</em>. Insere artigos e versos dos +snrs. Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece +dos numeros <em>ulteriores</em>.»</p> + +<p> </p> + +<p><em>Ulterior</em> quer dizer <em>que vem depois</em>, ou <em>que tem data +posterior</em>.</p> + +<p>Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou <em>ulterior</em> ao +n.º 18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o <em>depois</em> está +primeiro que <em>antes</em>, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem +primeiro que os seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.<sup>os</sup> 18, +19, etc., da <em>Tribuna</em> promettiam ser iguaes aos seus precedentes, +escreveria: «Tudo nos assegura que os numeros, que hão de sahir +anteriormente, serão dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.»</p> + +<p>Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores <span +class="pagenum">[40]</span>e ulteriores furunculos de aposthema intellectual, +proponho á academia real das sciencias este snr. Silva... para varredor.</p> +<hr> + +<a name="cap05"></a> + +<h1>SANTOS-SILVA</h1> + +<p>Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e os +sete orphãos do egregio orador!</p> + +<p>Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos +filhos!</p> + +<p>Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de +Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a pobreza, +ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos banhados das +ultimas lagrimas de seu pai.</p> + +<p>Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto da +misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.</p> + +<p>João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito +imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado <span +class="pagenum">[41]</span>grupo de crianças que punham as mãos—expressão +unica das agonias inexprimiveis.</p> + +<p>A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do +Altissimo.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus discursos +como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e energico +orador parlamentar.</p> + +<p>Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei nem +entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o meditativamente, +sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os seus adversarios, a +julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria, pareciam-me grandes, como os +de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram, o orador magnanimo deu-lhes a +honra de o inspirarem.</p> + +<p>Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo +honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos lhe +fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome iria +ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo adeus.</p> + +<p><span class="pagenum">[42]</span>E, quando eu lhe fallava de meus filhos +com o coração cheio das presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle +que lhes seria protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis +criancinhas.</p> + +<p>Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!...</p> + +<p>Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem filhos? +E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia de +Santos-Silva?</p> + +<p>Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.</p> + +<p> </p> + +<p>«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa +duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã +consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a tambem +estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos. Dos +desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma regra +que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral. Nada ha mais +falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente faz do seu estado, +pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da sua molestia. Os +proprios medicos <span class="pagenum">[43]</span> são os que, n'este ponto, +mais se enganam, por que são os que mais exageram.</p> + +<p>«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não descure +restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento hygienico, +analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe regularise qualquer +desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito, ou o levante de qualquer +ligeira prostração. Creia tambem na sua idade, e na força medicatriz da +natureza, que, quando é bem dirigida e auxiliada por um medico prudente e +habil, faz milagres.</p> + +<p>«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de um +pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as mais +vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem sel-o. De +todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma, e mais me +angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em infortunios sobre a +orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus esqueceu na hora em que +encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do santo amor de seus filhos.</p> + +<p>«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que +os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei <span +class="pagenum">[44]</span>aos meus. Repartirei com elles o meu prestimo, se +então o tiver. Estas palavras não são só de consolação: são compromissos +solemnes, que espero não desmentir.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus +antecessores.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que +Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a vida +de seus filhos.»</p> + +<p> </p> + +<p>Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina, +posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias proprias +que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus, quando sentiu na +garganta a constricção da asphyxia.</p> + +<p>O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella +alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: <em>A +posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus +antecessores</em>.</p> + +<p>Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete +filhos.</p> +<hr> + +<a name="cap06"></a> + +<h1>DOUDO ILLUSTRE</h1> + +<p><span class="pagenum">[45]</span>O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José +de Sousa Magalhães, doutor em canones, jurisconsulto eminente, orador +esclarecido tanto no magisterio universitario como no parlamento, ensandeceu +em 1858, quando contava quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em +Villa Pouca de Aguiar, na casa onde havia nascido.</p> + +<p>Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de +provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D. +Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do +arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que +denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta pugna +um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e em variada +litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do arcebispo, e +contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por parte do +patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo academico +Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores.</p> + +<p><span class="pagenum">[46]</span>Como quer que fosse, o arcebispo de +Mitylene perdeu na brava luta a razão; e, ao parecer de illustrados juizes da +sua justiça, foi a iniquidade que matou o robusto athleta.</p> + +<p>Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a +esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva condensação da +escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica, absorta na contemplação +estupida das lagrimas dos parentes e amigos.</p> + +<p>Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do +delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze annos, +nas suas escuridões interiores.</p> + +<p>Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o +taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua +familia.</p> + +<p>Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de +anno, mez e dia.</p> + +<p>Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de +Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em +jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com os +dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que fôra um +dos mais alumiados da sua época, admiraveis <span class="pagenum">[47]</span> +lanços de linguagem, de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso! +É que tambem nos delirios ha raptos de luminosas visões.</p> + +<p>Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu +titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia. +Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da +desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas.</p> + +<p>Eis-aqui os titulos: <em>O gigante—Os privilegios da corôa dynastica—As +cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito na +universidade—A missão divina—A chronica real—Da santidade do +direito—Cemiterio protestante—A tyrannia impossivel—O mesmo Senhor fez os +seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia—O impassivel—O +erro commum—Os tres fundadores—O cordeiro—A surpreza—O burrinho e o +menino dos protestantes—O templo—O penhor e a hypotheca, ou o juro e a +herdade—O titulo da realeza—O parocho—O demonio tentador—A espada de S. +Bruno—O enigma—Mascara de ferro—O sonho—D. Maria Caraça Bonaparte ou a +burrinha protestante—O viatico da eternidade—A estrella do norte ou a +misericordia dos mares—A vacca—Apologo—A catastrophe</em>.</p> + +<p>Estes manuscriptos comprehendem sessenta <span +class="pagenum">[48]</span>cadernos em folha. Em poder da familia do finado +arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto de doze annos. Tirando +ao acaso um de entre os cadernos cosidos com algodão verde e escarlate—para +dar ao leitor a manifestação escripta de uma alma que esvoaça á volta dos +residuos ainda bruxuleantes da sua razão—-aqui vai a</p> + +<a name="cap07"></a> + +<h1>CATASTROPHE</h1> + +<p>Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o +titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua +primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de toda +a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias atrocissimas +d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram bem conhecidas +dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque não souberam, ou +porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram ao successo o nome de +«catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar o que era patente e +publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e enredo occulto, nada +explicaram na sua «anti-catastrophe», documento <span +class="pagenum">[49]</span>mediano e mal traçado para o fim, e para o grande +empenho da causa e da questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e +degrada apoucando o assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e +desviar a attenção do horror da catastrophe.</p> + +<p>Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta vergonhosa +historia da usurpação; as suas monographias são como memorias de encommenda +que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar algum erro ou para +afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim da historia não curam +nem tratam: porque a prevenção da historia é o erro, e com este rumo ninguem +póde navegar nem progredir. Attribuem geralmente os protestantes aquelle +sinistro ao partido cardinalicio de Roma, segundo o seu costume e petulante +ousadia de calumniadores, que commetteu o delicto para o assoalhar e publicar +por um lado attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro +lado desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma +imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso empenho +confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é como a luz +mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em toda a <span +class="pagenum">[50]</span>parte onde estiver encerrado o homem pela maior +tyrannia para alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme +debaixo da lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto +não revela o enigma da sua escura sepultura.</p> + +<p>A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da +historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a boa +critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e +verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A Divina +Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da injuria; o +demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o facto +permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes só no echo +até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir no decurso dos +seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e medonho ou funesto e +assustador até para o demonio que o gera e produz. Sôa do orgão a tuba, e não +é a mão do homem que fere a tecla, nem a musica e pensamento do seu +compositor que produz a melodia. Devia o homem vêr no arcano a sciencia +divina, que deu ao ar modulado pelo instrumento a euphonica sympathia <span +class="pagenum">[51]</span>dos sons e o gentil devaneio do mais accorde +accento.</p> + +<p>O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que +julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito verdadeiro da +sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo catholico; porque só +n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos de maior vergonha apenas +cabe a profana chula de tabernal comedia, e a ironia da musica. A arpa é +instrumento real, a lira só a tange a poesia e a verdadeira inspiração que o +Senhor concede ou nega ao cantor pelo moto da trova e pelo pensamento da sua +religião e virtude. A historia verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e +pedinte—eis o dilemma unico da sciencia, e o programma que o escriptor +competente sempre encontra diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a +que se propõe e persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do +canto pelo sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as +suas abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem +possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa +catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple do +seu desenfado <span class="pagenum">[52]</span>sem sonhar com opiparo e +somnolento banquete; e por isso todas as suas lôas acabam em comer.</p> + +<p>O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os homens +do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e profissões só pelo +benigno e precioso metal que auferem e adoram—e d'estes é sempre o maior +numero; o actual enche de eunuchos todos os theatros e d'histriões a comedia +d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco. Que mais diremos d'este reprobo e +amphibio meteoro, senão que jámais deixa de se converter contra o inventor e +mais obstinado sectario? o ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, +ou machina de pura digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho +herdeiro dispor o cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos +eunuchos sempre a mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem +proletario.</p> + +<p>Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões para +aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo ha de rir +do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos, e fazer +duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter necessidade de +fugir da sua sanha, e sem accelerar <span class="pagenum">[53]</span>o passo +do seu domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil +e desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da +sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e decifrai os +signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do que as memorias +que deviam retratar os seus pensamentos de historiador, e apenas contém a +sombra da sua ignominia e proterva hediondez e peçonha.</p> + +<p>Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi synonymo +de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o direito é dar +pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é o mesmo que +entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais desleal e +traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido que póde +formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a usurpação; os seus +meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais desleal e machiavelica, +e o perpetuo enredo do engano; o estribilho protestante, o punhal do +forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega da patria perdida ao mais +ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do demonio. A sua authoridade +sempre falsa não impera, pactua em toda a parte com os maiores scelerados, e +consegue fins mediocres e <span class="pagenum">[54]</span> resultados de +dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina +roubam-se uns aos outros.</p> + +<p>Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais +negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas primeiramente o +rei não pôde usurpar, nas provincias nem em Traz-os-Montes, em segundo lugar +a usurpação veio toda a pertencer aos caudilhos, que o governaram e dominaram +e á sua lei mental e miseravel recurso; que só pôde communicar a seu filho +com o mais tetrico e deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor +pela abominavel traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o +cardeal romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o +escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa de +Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza faziam +entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia real, que +era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado deixava-se vencer, e +cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado pelo melhor tabaco e café de +Moca, e pelos prazeres reunidos do seu abominavel harem.</p> + +<p>A lei mental foi uma medida deficientissima <span +class="pagenum">[55]</span> para o seu fim, mas prova até que ponto é +verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O padre santo durante o +interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens á casa de Bragança;—disse +então a abominavel facção: entregar os bens é o mesmo que entregar a +corôa;—e logo faziam um processo com grande numero de testemunhas para +provar que não havia successor á corôa, e que D. João I por esta falta de +successor fôra justamente acclamado. Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria +protestante, que aitribuiam a João das Regras, e davam ao falso documento o +cunho das côrtes de Coimbra, aonde não foi nem podia ser apresentada sem +grande irrisão e escarneo de todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque +de Bragança para desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os +herejes e fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa +fundar-se na apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é +de um anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou, +irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que usurpava os +bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta figura só para +desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os histriões do torpe +magnetismo das façanhas da estrada <span class="pagenum">[56]</span>orçam +pelo mesmo vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia +proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa tyrannia. +Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes serviços que +fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr obeliscos devidos +ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os francezes, foi para entregar e +vender a patria e os penates, os templos e a sua santidade, as mulheres e +todo o verniz do rosto vil e infame do idolo das suas abjectas heresias e +traições: se algum militar brioso e valente do exercito appareceu no Brazil +foi vendido tres vezes, ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não +assignava os mais falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos +que preparavam e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do +nosso exercito peninsular.</p> + +<p>Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da usurpação? +porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos seculos +modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao Senhor a +menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente sombra de +galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o rei gemeu na +<span class="pagenum">[57]</span>sua escravidão de toda a vida, os +usurpadores conspiraram, escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o +principio Divino triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e +não ha obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que +calou na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do +novilho.</p> + +<p>A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel, e +deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar no +decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido usurpador é como +a familia dos flamengos e dos ciganos—prova e reprova todas gerações e +partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas pela ultima arma do +veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida estava como o condestavel +atormentado pelos remorsos; este deixou os bens usurpados aos outros +aventureiros, e pediu esmola á porta do convento com bastante industria e +sagacidade; aquelle seria morto na mesma possilga em que vivia, se tentasse +restituir a corôa; porque a verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos +ministros da sua historica realeza.</p> + +<p>A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no +banco dos réos, no <span class="pagenum">[58]</span>ultimo transe de vida, ou +no meio da mais funesta desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe +como o furacão através dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca +as arvores com a sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e +morreu;—quem estrangulou o monarcha? o processo começado das provas +evidentes de testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são +estes em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para +descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os males +da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em virtude de uma +queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a dirigir ao +cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia vergava debaixo do +peso de invenciveis remorsos, mas que não podia entregar á casa de Bragança +uma corôa sem entregar a vida aos seus tyrannos e crueis usurpadores, e +algozes, e d'estes tirava o seu seguro e pedia desaggravo e redempção.</p> + +<p>D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção e +um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança não +contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da esterilidade. +<span class="pagenum">[59]</span> O que D. Duarte pedia para os falsos +donatarios, e verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de +aleive e da calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as +successões são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de +familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo—o seu castigo providencial vai +sendo identico da mesma catastrophe e represalia.</p> + +<p>Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a sua +verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem a +virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o horror das +suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa mordacidade e +peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de Diu, Barros e +Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre Cesar das suas +façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque temia mais a +calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que tomava pela +frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem estremecer do +vulcão.</p> + +<p>Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta +memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples<span +class="pagenum">[60]</span> academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e +acreditasse na Divina Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os +herejes attribuem ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos +recursos. Em regra, moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e +pelo signal da sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior +desprezo para fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe +veniaga.</p> + +<p>D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque; +todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e +brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os dous +primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos mesmos +meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a excommunhão e o +interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo desenlace, e a mesma +reprovação e condemnação divina. O conde da Ericeira escreveu n'esta era a +sua vergonhosa historia; o conde era verdadeiro sandeu; o author de «Portugal +Restaurado» recebeu a falsa herança de uma casa; e trabalhoso no appetite +fazendo do conde o fundo da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela +astucia mais que diabolica de que se servia no<span +class="pagenum">[61]</span> empenho. Apenas concluiu o seu trabalho, disse: +Dai-me o premio;—e apenas se viu senhor do falso titulo e casa, disse: +Dai-me o preço da obra;—e fez d'esta outra historia um thesouro para se +enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João das Regras; +porque a sua original possilga nunca se descobriu nem annunciou, e dizia-se +que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao pé da feira da Ladra de uma +mulher, que vendia a chanfana do açougue pelas portas de Lisboa, e que +apregoava pelas ruas maior engano.</p> + +<p>Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de +Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição em +Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de sustentar +a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar e sem horror o +monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se recreava com o vil +officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I principiou a considerar +como proprios da corôa todos os bens da casa real de Bragança; D. João +dispunha como duque e como senhor de todos os bens para imitar ou produzir a +realeza e invicta memoria do senhor D. Manoel I. Esta questão tinha sido<span +class="pagenum">[62]</span> tratada e muito debatida na primeira época; todos +se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus bens como prova +heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João professou o erro em +Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de Calvino semelhante ao que +foi expulso das Necessidades em nossos dias pelo clamor do povo e pela justa +queixa da parte sensata e catholica do reino. Todos os herejes são +monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu preito o juramento da loja que o +falso rei presta ao veneravel, e se o rei tem o falso cargo jura como rei ao +immediato sujeição e obediencia ás decisões maçonicas, e como são muitas as +lojas, a cada passo se vê partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a +sua monarchia pelas seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o +vislumbre do poder.</p> + +<p>Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e brigantino +de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é o dos bens da +casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais feroz engano. As seitas +e os corrilhos, que se formam das fezes de todos os partidos estrangeiros e +execraveis contam como elemento uma vez que o lisonjeie e afoute para maior +roubo e façanha da contribuição e da injuria<span class="pagenum">[63]</span> +que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas todas sobem, e +todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o que nos resta a +provar para complemento da catastrophe e para sua prova real e exuberante.</p> + +<p>Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes +recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns valentões, +que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e não podia ser esta força +angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o rei se fazia +forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragança a cuja frente +estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta difficuldade em +conceder as redeas do governo ao presumido successor. Este conflicto nasceu e +cresceu da mesma antiga causa de todas as discordias da usurpação, e pelo +motivo da injuria que tinham feito á casa de Bragança e ao seu popular e +heroico senhorio. D'esta vez o governo pontificio ainda não estava resolvido +a ceder; não faria a menor concessão de reconhecimento sem a absoluta e total +entrega dos bens de Bragança ou dos bens da corôa, e D. Affonso estava +resolvido a todos os sacrificios, uma vez que achasse uma collocação em Roma +e um modo de viver ou uma absolvição vantajosa para o seu arrumo e fim.<span +class="pagenum">[64]</span> Esta deve ser a ambição do usurpador que nasce; o +seu throno não offerece encantos, nem póde servir de balisa para a gloria +verdadeira e santa que se embebe na felicidade do povo e no heroismo e +façanha.</p> + +<p>N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que fosse +tão corajoso e tão absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir ou sahir +do reino para não soffrer a perda da liberdade; tentou o impossivel, e +quebrou pela reconhecida prevaricação e má fé da nova e falsa casa de +Bragança, que seu pai organisou em Lisboa como partido protestante para +sustentar a negra e atroz usurpação: estes factos são innegaveis. O +<em>Joannes à regulis</em> da primeira usurpação era um hereje estrangeiro +semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. João IV tinha na sua +côrte um ministro protestante da convenção de Cromwell, e todos os +usurpadores dos bens da casa de Bragança deviam ser da mesma seita e falso +cunho: D. Affonso VI abraçava a doutrina catholica, e, consoante os bons +principios de direito, devia perder o titulo de rei; e, se em vez de casar em +França, fosse ao reino ceder da corôa, lisonjearia o reino catholico, e podia +obter a liberdade, que outro Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso +conservou a corôa e por esta<span class="pagenum">[65]</span> razão o povo +portuguez não podia ingerir-se na questão para defender o preso; D. Pedro, +seu irmão, era nimiamente cruel, mas não temia o partido de seu irmão, porque +não o tinha: D. Pedro tambem não tinha o partido da nação, e por isso +affectava grande humanidade para com seu irmão, e grande respeito pelas +côrtes, que sempre o repelliram e despeitaram amargamente.</p> + +<p>D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmão para o privar de +todos os seus estados até o dar por demente e por impotente, aceitou a mesma +mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de rainha, D. Pedro +julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo de rei; e parecia +logico que a deposição perpetua de Affonso o investisse na authoridade real, +e o coroasse rei em vez de regente; o titulo de principe não lhe podia +competir, nem o de infante, que pouco tempo depois começaram a usar por +inaudita usurpação e roubo, e pelo mais atroz anachronismo os filhos segundos +d'esta familia de D. João IV.</p> + +<p>Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragança D. João IV +e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho segundo para +prevenir a falta de successor pelo receio da morte do principe, e uma +supposição<span class="pagenum">[66]</span> e um embuste indigno, ou um meio +de que se servia a atroz calumnia da usurpação dos bens para tirar a D. +Affonso VI o que lhe tinha ficado da casa de Bragança e para os dar ao seu +predilecto: e por esta razão veio a D. Affonso o desejo de restituir, e +occorreu á facção o pensamento de depôr o insensato. Assim manejou a perfida +intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas as eras +procura colher e alcançar o seu unico fim que é o roubo pela pertinaz heresia +e pelo mais atroz engano e enredo.</p> + +<p>D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe negou +o tratamento; as nações não cessavam de o responsabilisar pela vida do +infeliz e proscripto; e já se julgava que fazia guardar como rei um homem +estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez prender e +reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do tumulto dos +seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido d'aquella supposta +revolução para declarar novamente como doudo o triste que se deixou cahir no +laço. D. Pedro a cada passo reunia as côrtes do reino sempre na esperança de +que o reconhecessem rei, mas jámais o conseguiu pela grande desaffeição e +justo odio que tinha merecido e grangeado.<span +class="pagenum">[67]</span></p> + +<p>A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se +assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os bens +de Bragança e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por almoxarifes que +nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as terras juizes, e +assalariava por todo o genero de engano os cobradores da falsa e aleivosa +renda, e por esta fórma constituiu as suas instituições e morgados: o povo +reagia contra a usurpação, mas o rei e o governo, o infante e os seus +almoxarifes conspiravam, e apesar do odio do povo que não podia ser mais +justo nem mais bem merecido colhiam e recolhiam do roubo grandes interesses e +mortificavam o povo com exacções de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam +do seu fim primordial e applicavam para outro de maior escandalo e +torpeza.</p> + +<p>O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas +jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a figurar por +alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua mudança para a ilha +é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam abaixo de toda a critica: +D. Affonso VI não era admittido a escrever; o mesmo governo de D. Pedro +fingiu ou suppôz as cartas para dar ao<span class="pagenum">[68]</span> preso +a laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido se +temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e como +existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro. Com +effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por morto na ilha +para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D. Pedro em côrtes a +pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que tomasse o titulo e o +tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador hereje, e injusto +possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com isto se houve por +acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha realeza.</p> + +<p>Veio então a questão romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto aos +bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do povo, uma +vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança. O governo +passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho e prova de sua +torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e póde dizer-se que o +escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida taberna, ou no ergastulo +do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais indomita fera; por que estes +reis sempre andaram presos, e a que<span class="pagenum">[69]</span> chamam +casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e +conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de julgar +que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada individuo é +obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para ficar doudo e bem +sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus verdadeiros senhores e +tyrannos.</p> + +<p>Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou de +má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a lingua +do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo pretenderam +fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula, nem suscitaram +as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o ingresso e a +influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não ouvir verdades +amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão inauditas usurpações e +falsidades, e de tão grande subserviencia aos estrangeiros e a todos os +inimigos da nossa fé e da nossa gloria e renome.</p> + +<p>João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um +fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam entre +nós; os seus dogmas proprios da mais<span class="pagenum">[70]</span> abjecta +demagogia podiam apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, +dos Neros e dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes +á lei regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os +Tusculanos de Cicero e de sua Republica, só para a posteridade; e estaria em +algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar e apparecer +sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e eterno d'el-rei o +snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades causam tedio e nojo. +D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento de magestade, sem lhe +competir e por heresia de infame e vil protestante. Agora dizem os +apologistas da mesma seita que Portugal sempre foi protestante; mas não dizem +como se retractou a viuva, nem diz como precisou a ignobil memoria de D. João +IV de ser absolvida como contrita á hora da morte para ter sepultura de +corpo.</p> + +<p>Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel +cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa e +por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o titulo ao +mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava esta rosa +d'ouro só para um rei ou imperador <span class="pagenum">[71]</span>que +acontecia ser o que confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; +e jámais o pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por +terem o mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como +vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que não +estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias, nem cansar +o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons catholicos e fieis. +Durante a usurpação sempre procuraram os herejes tomar lugar e assento, e á +medida que fugia a fé da sua pureza invadiam as raças, e vinha o armenio e o +judeu, o cigano e o protestante invadir as rendas e fazer monopolio das reaes +para cultivar as massas e para dar pasto á luxuria dos maiores desvarios e +ameaças. E seria só pela necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de +tyrannia? É certo que o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas +o principio de desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus +antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas successões +estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte e pensamento do +desprezo da santa lei e fé.</p> + +<p>Outra sanha d'este abominavel systema foi <span +class="pagenum">[72]</span>o impio tratado de Methuen cujos artigos secretos +são da infame propaganda protestante que invadiu o reino por consentimento do +falso e perfido governo, e se obrigava este com todos os usurpadores dos bens +da santa casa de Bragança a seguir o falso preito, e a prestar homenagem +secreta ao demonio e ao mais infame ministro de Calvino, que, segundo dizem, +era monarchico, assim como Luthero era republico, e sophistico orador de +comicios; e já os protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: +mas os seus superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da +injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario, e no +odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez com +Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de heresia, +cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da Bretanha e de +Londres, como é sabido e se estendia por meio de ramificações secretas por +toda a Europa, e bebia as falsas idéas da santa acclamação de D. João I. Esta +seita ou partido foi inaugurado pelo mesmo demonio no tempo em que Juliano se +fez truão e ridiculo para depôr o papa de sua soberana cadeira e para o +entregar, como então se dizia ao mais desvanecido principe que havia de<span +class="pagenum">[73]</span> surgir para governar o mando e para resuscitar os +immortaes.</p> + +<p>Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas +iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter +verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e protestavam +fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior astucia progrediam e +illudiam sempre até o grau de maior engano, a este como simples mação, +áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos mais adiantados como +convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os maiores segredos dos outros +graus, em quanto não obtinha os verdadeiros da maior abominação de seu +secreto esconjuro.</p> + +<p>Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta +revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz +calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que nasce +sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar dos que só +podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do seu elemento; +porque as claridades da sua existencia não o habilitavam para conviver no +espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza,<span +class="pagenum">[74]</span> e por isso o precipitam mais depressa para que +conheça o que é e o que póde valer como energumeno. Alguem julga que o +meteóro póde fazer-se cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou +estrella sem que o Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita +mais cedo este rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu +catholico reinado e se lhe põe o nome de <em>mechas</em>, ou de <em>põe +mais</em>...., mais adiante o fazem <em>José do nabo</em>, e o compellem a +tomar novo Ditzy, ou a subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo +do cadafalso: os inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela +tyrannia do crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior +attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os seus +sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade de obedecer +cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso. O sophisma é a +apparencia da virtude; os que queimam no inferno o incenso podre ao demonio, +são despojados da propria pelle, e victimas da nova crueldade dos +monstros.</p> + +<p>Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos +milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre<span +class="pagenum">[75]</span> santo, se a sua tentação inclinasse a S. Pedro +para a torpe venda, o demonio que fallava pela bocca do maldito teria +conseguido o seu fim, ria do desventurado e cantava a sua victoria. Por esta +razão S. Pedro condemnou o tentador com o triplice poder do seu divino amor e +pareceu severo, mas foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e +ostensivo, já era escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a +humanidade para a sua ruina e perdição.</p> + +<p>A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro. +Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos e sem +o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais damnada chorêa +da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter n'este mundo e no outro a +mesma sorte—a catastrophe—e o mesmo exito e cruel engano.</p> +<hr> + +<a name="cap08"></a> + +<h1>RENAN</h1> + +<p><span class="pagenum">[76]</span>O snr. Antonio Augusto Teixeira de +Vasconcellos tratou com exemplar juizo e prudencia a questão da academia real +das sciencias e Ernesto Renan. Estas linhas do <em>Jornal da Noite</em> +compendiam todos os argumentos do esclarecido publicista: <em>Merecem +respeito as convicções. Mas a consciencia dos outros é tão d'elles como a +nossa, igualmente livre, de todo o ponto respeitavel.</em></p> + +<p>É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da +<span class="small-caps">Republica</span>: <em>nós, que de +tolerantes nos desvanecemos, somos intolerantissimos como frades</em>.</p> + +<p>O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica as +diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão do author +da <em>Vida de Jesus</em>. Os adaís da liberdade forjam golilhas de phrases +para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia. Offendem e +injuriam.</p> + +<p>O author do romance intitulado <em>Vida de Jesus</em> é malquisto dos seis +academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o +indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista +indiscreto que enreda as <span class="pagenum">[77]</span>suas novellas com o +sacratissimo nome de Jesus Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes +um livro mui dilecto do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é +motivo bastante a que as almas profundamente christãs se devotem á apotheose +do depreciador de Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do +romance nos descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do +chaldeu.</p> + +<p>Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no ulterior +protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia, mórmente quando, +á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, declaram que +estremam entre o author da <em>Vida de Jesus</em>, e o author da <em>Historia +geral das linguas semitas</em>.</p> + +<p>Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que +afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao +coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um +incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de +Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de +Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e receosos +das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que Renan recebesse +publicamente<span class="pagenum">[78]</span> em Portugal a consideração que +o snr. Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que +temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns +escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de +civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente.</p> +<hr> + +<a name="cap09"></a> + +<h1>CORRECÇÕES</h1> + +<p>Convém fazer algumas ao artigo <em>O Decepado</em> (n.º 4, pag. 71). +Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á gratidão o +contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas tão remotas e +alheias das <em>novissimas</em> charadas, das <em>capitações</em>, do +<em>don-juanismo</em> e dos bancos.</p> + +<p>Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e, +se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o appellido +que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que levante turbilhões +de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal. Eis a carta do snr. J. F. +Torres:</p> +<hr class="dotted"> + +<p><span class="pagenum">[79]</span>«Deliciei-me com a leitura das veridicas +noticias historicas do meu conterraneo Duarte d'Almeida, <em>o Decepado</em>. +Ora, v. incansavel em revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em +tão gloriosa e ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o +arrojo de lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a +verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu author.</p> + +<p>«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de +Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella<a +name="L2213" id="L2213" href="#L2218"><sup>4</sup></a>; mas sim um castello +ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado demolir pelo fallecido +procurador da casa Penalva, Martinho do Banho, para com a pedra mandar fazer +escadas e outras toscas obras que conduzem á capellinha de Santo Amaro, +pertenças da mesma casa Penalva. Existe outro igual monumento no lugar de +Bandavizes, freguezia de Fataunços.</p> + +<p>«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia ter +sido uma vivenda ostentosa, <span class="pagenum">[80]</span>como se vê do +que ainda hoje existe, pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa +d'Oliveira.</p> + +<p>«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada alli +existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil<a name="L2278" +id="L2278" href="#L2292"><sup>5</sup></a>. Ha porém na villa uma elegante +capella do santo, onde se celebra missa todas as segundas feiras; e onde se +conserva a pia em que se baptisou o santo; e bem assim o queixo inferior do +mesmo, reliquia muito venerada pelos habitantes da villa. O corpo, como v. +sabe, jaz enterrado em S. Francisco de Santarem.»</p> + +<p> </p> + +<p>Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como +fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: <em>A exc.<sup>ma</sup> +madrasta d'el-rei D. Luiz I calumniada</em>.</p> + +<p>O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro +opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus +admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais eloquente +de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra biblica.</p> + +<p><span class="pagenum">[81]</span>João de Deus, o excellente poeta, cantava +d'est'arte, ha 15 annos, em Coimbra o dadivoso prestigiador:</p> + +<div class="poesia"> +Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo<br> +Nos prodigios da milagrosa vara<br> + Que o Senhor Deus te deu:<br> +Teu coração, Moysés do christianismo,<br> +Tua alma é que eu admiro, e te invejára,<br> + Se o que é teu fosse teu.</div> + +<p>Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus, que +tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava a varinha +que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita, ainda não é +banqueiro, segundo me consta.</p> + +<p>Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha talento. +Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras, sobrevivem ao +prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do <em>Instituto</em>:</p> + +<div class="poesia"> +Le cœur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait<br> +On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait.<br> +Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel<br> +Une promesse sainte, dans un voex solennel!<br> +<span class="pagenum"><br> +[82]</span> Si, par lui, mon talent me donne la richesse,<br> +J'ai ma mission aussi, soulager la détresse,<br> +Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi,<br> +Pour ramener enfin le calme en mon esprit.</div> + +<p>N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da +sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára n'aquelle +recinto da <em>charmante jeunesse</em>. Queixava-se outro sim, de ingratidões +que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado no Porto, +romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á orla de um +throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria em Vienna +d'Austria. Brilhantes desenlaces!</p> + +<p>E foram os rapazes de Coimbra—aquelles viventissimos rapazes de 1859, +Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e dezenas +de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração retranzido. +<em>Gloire à vous!</em> exclamava Herrmann.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="L2218" id="L2218" href="#L2213"><sup>4</sup></a> Existia no +seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto nobiliario de testemunha coeva e +ocular.</p> + +<p><a name="L2292" id="L2292" href="#L2278"><sup>5</sup></a> Em 1780 ainda se +via n'esta casa a capella, no local onde nascera S. fr. Gil.</p> +</div> +<hr> + +<a name="cap10"></a> + +<h1>MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS</h1> + +<div class="citacao"> +<p><span class="pagenum">[83]</span>... Une femme prudente y doit regarder à +deux fois avant d'épouser un poete!</p> + +<p style="text-align:right;"><span class="small-caps">J. Janin</span>, <em>Le +livre</em>.</p> +</div> + +<p>Se o fino amor não é condão dos poetas, é escusado esgaravatar essa rara +perola em outra concha. O amor duradouro é incompativel com a creatura +sujeita á decomposição e á morte. As recomposições interiores são +incessantes, até ao momento em que o espirito vital se evóla, e a podridão +começa.</p> + +<p>As reformações da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo. +Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o graváme e a melancolia +da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso d'isto. Almas +floridas em corpos devastados. Os primeiros tem auréola de poesia lugubre. Os +segundos são lastimaveis quando, em honra de suas cãs, arrancam um a um os +renovos da alma, ou os vão delindo <span class="pagenum">[84]</span>com +secretas lagrimas; e são irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice, +dando resplendor á calva com um nimbo de namorados.</p> + +<p>Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII, +<em>Marcial portuguez</em>. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem +ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar foi +anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava pela côrte +diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a consorte, cuidando +dos trigaes e dos parrécos.</p> + +<p>Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais +desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi pelos +cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao santuario da +familia com a lyra e com o rheumatismo.</p> + +<p>Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se +bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa senhora!</p> + +<p>O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de a +ter mofado na prosa caseira—a prosa de marido enfastiado, que é o vasconso +mais barbaro da glottica humana.</p> + +<p>Aqui está um dos cantares com que o sobredito <em>Marcial</em> +desprimorosamente chasqueava as <span class="pagenum">[85]</span>caricias, os +vernizes, as tranças retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e +arqueavam as ancas da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa +inventára, á custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos +vestigios da belleza perdida. E observem que o cruel a denomina +<em>Sara</em>, equiparando-a á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes +poetas no coração:</p> + +<div class="poesia"> +Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho<br> + para vêr tuas faltas,<br> +não quero que te falte meu conselho<br> + em presumpções tão altas.<br> +<br> +Lembre-te agora só que és terra e lôdo<br> +e terra te has-de vêr do mesmo modo;<br> +mas não te digo nem te lembro nada<br> +porque ha muito que em terra estás tornada.<br> +<br> +Que importa que, alguma hora, a prata pura<br> + de tuas mãos nascesse,<br> +e que de teus cabellos a espessura<br> + as minas de ouro désse!<br> +<br> +Se o tempo vil, que tudo troca e muda,<br> +sómente do ouro poz, por mais ajuda,<br> +em tuas mãos de prata o amarello,<br> +e a prata, de tuas mãos em teu cabello!<br> +se um tempo, foram de marfim brunido<br> + no seculo dourado,<br> +não vês que o tempo as tem já consumido,<br> + não vês que as tem gastado?<br> +<br> +<span class="pagenum">[80]</span>Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos;<br> +que eu, quando toco teus nodosos dedos,<br> +me parece que apalpo, e não me engano,<br> +cinco cordões de frade franciscano.<br> +Viciando a natureza com taes tintas,<br> + com pinceis delicados,<br> +jasmins e rosas em teu rosto pintas.<br> + Deixa esses vãos cuidados;<br> +pois quando tua cara me alvorota,<br> +mascara me parece de chacota;<br> +e, se é das tintas, digo n'este passo<br> +que a mascara está inda em calhamaço.<br> +<br> +Como pretendes, pois, com mil enganos,<br> + vestir mil primaveras<br> +sem ter a primavera de teus annos!<br> + Como não desesperas!<br> +que o tempo chegou já ao seu estio,<br> +aonde toda a fruta perde o brio;<br> +parecendo tua cara desmedrada<br> +fruta que se seccou, noz arrugada.<br> +<br> +Se feitura de Deus Eva não fôra,<br> + dissera, sem porfias,<br> +que de Eva foste mãi, velha senhora,<br> + pois te sobejam dias<br> +para esta presumpção que agora tenho;<br> +e, concluindo em fim, a alcançar venho,<br> +pois alcançar não posso tua idade,<br> +que deves ser a mãi da Eternidade.<br> +<br> +Teus olhos, por descargo da consciencia,<br> + a idade os tem mettidos<br> +em duas lapas, fazendo penitencia;<br> + e estão tão escondidos,<br> +<span class="pagenum">[87]</span>que, quando os vou buscar porque me +choram,<br> +não acerto co' bêco aonde moram;<br> +porque o tempo os mudou, seu passo a passo,<br> +da flor do rosto lá para o cachaço<sup><a name="L2088" id="L2088" +href="#L2082">6</a></sup>.<br> +<br> +.................................................................<br> +..................................................................<br> +<br> +Em fim, senhora, se te vejo em osso,<br> +com essa cara posta em tal pescoço,<br> +me parece, tirada a cabelleira,<br> +em cima de um bordão uma caveira.<br> +<br> +...................................................................<br> +<br> +Sabe que sei, e d'isto me não gabo,<br> +que te alugou sem duvida o diabo,<br> +invejando teu corpo, cara e dedos<br> +para a Santo Antão fazer maiores medos<sup><a name="L2086" id="L2086" +href="#L2084">7</a></sup><br> +E deixa, em fim, tanto vão cuidado;<br> + e ao sagrado te acolhe<br> +primeiro que te ponham em sagrado.<br> + Este conselho colhe;<br> +<span class="pagenum">[88]</span>admitte o que te digo sem desgosto;<br> +que eu, quando vejo teu funesto rosto,<br> +d'elle tambem o seu conselho tomo,<br> +pois cuido que me diz: <span class="ni">Memento, homo!</span> </div> + +<p>Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D. Catharina, +abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e impenitente, por +aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade provecta com poemas +sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á circulação dos enxurros. +Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no <em>Elogio de poetas lusitanos</em>, +conceitua n'esta altura o descaroado marido:</p> + +<div class="poesia"> +D. Thomaz de Noronha em tanto augmento<br> +Confirma de sus versos la escellencia<br> +Que admirando sutil su entendimiento<br> +Puede hazerle a Quevedo conpetencia:<br> +Alma de tan ayroso movimiento,<br> +Luz parece de sol de su presencia<br> +Y sol a cuya luz crecen desmayos,<br> +Aguila no soy yo de tantos rayos... </div> + +<p>Que te fulminem, Jacintho!—diria um leitor circumspecto. Achou-lhe airoso +movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez e +cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um +trovista de tasca.<span class="pagenum">[89]</span></p> + +<p>A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre +missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque metrifica +a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do talento, é enfermidade +repugnante.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="L2082" id="L2082" href="#L2088">6</a></sup> Segue uma +estrophe cuja nudeza, posto que não envergonhe o realismo hodierno, nos +pareceu propriedade dos livros escriptos para <em>homens</em>, cuja +deshonestidade os authores lisonjeam com as dedicatorias dos seus +romances.</p> + +<p><sup><a name="L2084" id="L2084" href="#L2086">7</a></sup> <em>Metter medo +aos medos de Santo Antão</em>, era adagio do tempo, que teve a seguinte +origem: No terceiro domingo de agosto de 1577 sahiu uma procissão da antiga +parochia de S. Julião. Entre varias figuras e carros triumphaes ia um homem +representando Santo Antão no deserto, e á volta d'elle varios demonios com +feitio de monos o aterravam com caretas e tregeitos medonhos.</p> +</div> +<hr> + +<a name="cap11"></a> + +<h1>A CASA DE BRAGANÇA «AB OVO»</h1> + +<p>D. Gonçalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava +as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus com as +curiosidades philoginias, gregamente faltando.</p> + +<p>D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte, +chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um menino +robusto, como os recem-nascidos do <i>high-life</i>, o qual se chamou +Antoninho.</p> + +<p>Este D. Antonio Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai de +32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mães d'este rapazio todo +chamou-se Eyria de Carvalhal, e das<span class="pagenum">[90]</span> +predestinadas entranhas d'esta menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da +primeira duqueza de Bragança, casada com o bastardo de D. João I.</p> + +<p>D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos veio +a redempção em 1640.</p> + +<p>Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles +fossem castos ou infecundos, não teriamos Braganças, e gemeriamos ainda hoje +captivos de Hespanha.</p> + +<p>O arcebispo descança ha 526 annos, em uma capella contigua á porta +travessa da sé de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida no +mausoléo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se apaixonasse por +hespanholas. O coração não tem <i>ubi</i>. O escolar de Salamanca lêra talvez +o philosopho grego que dissera serem todas as mulheres uma. Se a natureza as +não discriminára, como estremal-as por fronteiras?</p> + +<p>Mas tão portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a +mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada sobre +suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta!</p> + +<p>Ainda não vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a +morte do D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José <span +class="pagenum">[91]</span>Corrêa, biographos dos arcebispos bracharenses, a +souberam ou quizeram divulgar. Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por +haver sido prelado como por genio investigador de antiguidade, não ignoraria +o que era constante de um processo existente no archivo da mitra.</p> + +<p>Eis o caso:</p> + +<p>Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a +Villa-Flôr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os +moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro homens +e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a +povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, mataram-lhe seis homens, +e matariam o proprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que +lhe não evitou cahir de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não +contentes os de Villa-Flôr com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, +de envolta com parte dos capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o +contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante n'aquelle +tempo, fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o +a D. Affonso IV.</p> + +<p><span class="pagenum">[92]</span>O rei, poucos dias depois, mandou a +Villa-Flôr uma alçada com dois algozes bem escoltados, e fez enforcar os +sacrilegos que pôde colher na devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os +incommodos do arcebispo descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se +para nunca mais se erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor.</p> + +<p>E assim morreu, por effeito de tão miserrimo lance, aquelle valente do +Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto successor +D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. Fôra elle o defensor da cidade do Porto, +quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua vanguarda o incendio e a +devastação. Fôra elle ainda quem acaudilhára a hoste de portuguezes, quando +uma invasão de hespanhoes, em desapoderada fuga, deixou o sangue de trezentas +vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo.</p> + +<p>Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flôr, amotina-se a +arraia-miuda, foge de escorregão por uma corda, cahe de cangalhas, amolga o +osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraça de Portugal se elle, +antes de lesar as vertebras lombares e regiões visinhas, nos não tivesse +deixado os embryões da casa de Bragança na pessoa de seu filho prior!</p> +<hr> + +<a name="cap12"></a> + +<h1>UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES</h1> + +<p><span class="pagenum">[93]</span>O filho de Jayme I de Inglaterra veio a +Madrid, em 1610, para vêr de perto a princeza Anna, filha de Philippe III, +uma das mais formosas mulheres d'aquella época. D. Fernão Martins +Mascarenhas, inquisidor geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que +soube da chegada do heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa +presumpção de o reduzir á fé catholica. O principe, todo embebecido nas +magias da filha de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver +esse negocio que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinião de +alguns historiadores, porém, é que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja +romana, não tanto pela influencia theologica da carta, como pelos filtros +amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para esposa; e, quando +em Londres se preparavam os festejos do noivado, morreu o noivo em 1612.</p> + +<p>A carta do inquisidor bispo do Algarve é inedita. A este prelado devemos a +impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avós todos os <span +class="pagenum">[94]</span>livros gafados de heresias. Se não fosse elle, é +muito de recear que em Portugal se lêssem então os livros que no seculo XVII +propulsaram as sciencias na França e Allemanha: o que seria uma calamidade. +Eis a carta do santo varão:<br> +</p> + +<p> </p> + +<p>«A vinda de V. A. a esta côrte foi de tanta alegria para todos os que +nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da sua +presença, temos obrigação de fazer demonstração publica, assim em dar graças +a Deus por esta mercê, como em significar a V. A. o animo, e a vontade com +que festejamos a honra que todos alcançamos por esta causa.</p> + +<p>«O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas orações, para +melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa, é que queira V. A. +ouvir e entender a razão do que por cá acha, e é professarmos a fé, e a +religião que professa, e ensina a igreja catholica romana, verdadeiramente +apostolica; porque o animo com que desejamos paz perpetua entre as corôas de +Hespanha e Inglaterra, nos obriga a procurar a conformidade na religião entre +os principes dellas, pois, como diz Santo Agostinho, não póde haver +verdadeira concordia aonde os entendimentos estão desunidos na terra.</p> + +<p><span class="pagenum">[95]</span>«Muitas razões se podiam allegar para V. +A. se dispôr a fazer este serviço a Deus, e mercê a toda a Hespanha, porque +os livros estão cheios d'estas materias, mas tres são só as que lembro a V. +A. para satisfazer a obrigação que tenho n'este reino de Portugal.</p> + +<p>«A primeira é considerar V. A. que isto que nós professamos em Hespanha, +acerca da obediencia á sé apostolica-romana, professaram, sem nenhuma +interrupção, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o tempo +de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, até o de Henrique VIII +de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudança na religião; porque como +nunca se havia preferir o parecer dos que querem innovar cousas ao juizo +d'aquelles que dellas perseveraram por tantos annos, bem se vê, a prudencia +natural está pedindo que se repare muito n'esta variedade que se introduziu +em Inglaterra nos derradeiros annos. E é muito para vêr a fórma em que +escreveu Eduardo, rei de Inglaterra, ao papa Alexandre III, porque ambos +estão condemnando o que agora se segue no mesmo reino com palavras tão claras +que não soffrem interpretação alguma.</p> + +<p>«A segunda razão é porque todos os reis de Inglaterra que antes de +Henrique VIII tiveram o <span class="pagenum">[96]</span>sceptro d'aquelle +illustre reino depois de Alberto, fundaram a sua jurisdicção na obediencia á +igreja romana, em que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro, +principe dos apostolos, e vigario universal de Christo na terra, até Ina e +Ataulfo fazerem o proprio reino tributario da sé apostolica, e este tributo +durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve que +em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que deviam aos +pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeças da igreja catholica, e +sempre depois vieram a fazer penitencia de seus erros, como consta dos +proprios annaes e chronicas de Inglaterra que Polidoro Virgilio II seguiu, e +tratou em sua historia.</p> + +<p>«A terceira razão é porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudança, +quando morreu declarou que errára, e por esta causa expirou com summa pena, e +inquietação, como consta da relação que fizeram homens de muita virtude, +letras, e authoridade que assistiram á sua morte, e os aponta Sandero, com +outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas cousas; e se não +remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que permittiu lhe faltasse +n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe lembrasse o que o <span +class="pagenum">[97]</span>proprio escreveu tão doutamente contra Luthero, e +dirigiu ao papa Leão X.</p> + +<p>«Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores +tiveram e professaram por largos annos, sendo tão virtuosos, prudentes e +valorosos, como o mundo todo reconhece, não fará mais que restituir á fé a +casa d'onde contra razão e justiça anda desterrada; e com esta restituição +além da gloria immortal, que alcançará em todos os seculos vindouros, +obrigará a Deus Nosso Senhor abrir as mãos da sua liberalidade para lhe +acrescentar muitos reinos com novas prosperidades temporaes.»</p> +<hr> + +<a name="cap13"></a> + +<h1>A TRILOGIA DA «ACTUALIDADE»</h1> + +<p>Quando o snr. Moutinho de Sousa, ha pouco tempo, negociava, em Lisboa, +actores que preenchessem e aperfeiçoassem a companhia dramatica do theatro +Baquet, o snr. Silva, roto saboyardo do escangalhado realejo litterario da +<em>Actualidade</em>, escreveu, com o desplante da sua <span +class="pagenum">[98]</span>ignorancia impenitente, que a escripturação dos +tres indicados actores formava uma agradavel <span +class="small-caps">trilogia</span>.</p> + +<p>Tres actores, tres pessoas—uma <em>trilogia!</em></p> + +<p>O leitor (se não é elle) sabe que os gregos denominavam <em>trilogia</em> +o conjuncto de tres peças theatraes, quando o poeta pleiteava o premio da +tragedia. Uma compoz Eschylo, a mais commevedora que nos legou a antiga +scena. Shakspeare fez uma <em>trilogia</em> com as tres tragedias que +completam Henrique VI. O <em>Walstein</em> de Schiller é tambem uma +<em>trilogia</em>. Querem os francezes por igual ter a sua na concatenação do +<em>Barbeiro de Sevilha</em>, <em>Casamento de Figaro</em> e <em>Mãi +delinquente</em> de Beaumarchais. Tambem nós, em os nossos humildes fastos +litterarios, temos uma <em>Trilogia romantica</em>, em que se annunciavam +collaboradores Antonio Pereira da Cunha, D. João de Azevedo, e João Machado +Pinheiro (visconde de Pindella).</p> + +<p>Por analogia, tres composições em um livro, tres tratados, tres discursos, +poderemos denominal-os <em>trilogia</em>; mas chamar <em>tratado</em> +(<em>logos</em>) ao snr. Pola, e <em>composição</em> á snr.ª Virginia, e +<em>discurso</em> á snr.ª Emilia das Neves, hellenisando-as pessimamente, +seria uma fineza grega, se não fosse uma asneira portugueza.</p> + +<p>Este snr. Silva (aviso aos naturalistas) dizem-me <span +class="pagenum">[99]</span>que tem as orelhas de tamanho regular. Elle e os 2 +Joaquins são tres partes de uma só cousa—<em>trilogia</em>. Aqui vão bem; +cálham: são tres peças que arredondam um tolo superlativo. Ainda, no dominio +grego, podéramos chamar aos tres—<em>triga</em>. (Veja um <em>Lexicon</em> o +snr. Pinto). E, quando apparecer um quarto, por não sahirmos de Athenas e das +analogias remotas, os quatro serão <em>quadriga</em>. Ora ahi tem gregarias +em barda. Divirta-se.</p> + +<p><em>P. S.</em> Eu dissera-lhe <em>adeusinho</em>, quando fui +<em>banido</em>; mas elle, mentindo e espremendo novamente o figado, espirrou +um golfo de bilis negra. Faz-se mister não levantar mão das ventosas. Ou elle +estuda, ou eu o esfolo.</p> + +<p class="centrado">FIM DO 5.º NUMERO</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 *** + +***** This file should be named 27084-h.htm or 27084-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/0/8/27084/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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