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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº5 (de 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: October 29, 2008 [EBook #27084]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+OFFERECIDAS
+
+A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
+
+POR
+
+Camillo Castello Branco
+
+
+PUBLICAÇÃO MENSAL
+
+
+N.º 5--MAIO
+
+LIVRARIA INTERNACIONAL
+DE
+ERNESTO CHARDRON
+_96, Largo dos Clerigos, 98_
+
+PORTO EUGENIO CHARDRON
+_4, Largo de S. Francisco, 4_
+BRAGA
+
+1874
+
+
+PORTO
+
+TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
+
+62--Rua da Cancella Velha--62
+
+1874
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+
+SUMMARIO
+
+Petronilla, Gamarra, Zamperini--Entrada para os salões--Os salões,
+introducção, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Ecce iterum
+«Silva» Chrispinus--Santos-Silva--Doudo Illustre--A
+catastrophe--Renan--Correcções--Mau exemplo de poetas casados--A casa de
+Bragança «ab ovo»--Um inquisidor portuguez e o principe de
+Gales--Trilogia da «Actualidade»
+
+
+
+
+PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI
+
+
+Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos
+argentarios portuguezes no seculo XVIII.
+
+Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745.
+Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros
+diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas
+cabeças, sem respeitar as testas coroadas.
+
+Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta.
+Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com
+as «princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye
+denomina as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso
+Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas não esbanjava em
+galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas
+transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as
+actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O
+fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia
+hombrear em proezas de galã com algum frade bernardo de costumes
+suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu
+camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor
+platonico. Havia no theatro o _camarote dos frades_, collocado por baixo
+do camarote das açafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os
+monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas
+não passavam d'estes resfolegos os frades.
+
+A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos
+fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, _morceau
+friand_,--dizia o cavalheiro de Oliveira--que só aos grandes senhores
+competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante.
+
+D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se
+illaquear n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de
+ouro e pedras.
+
+Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras
+carregadas de riquezas--diz Francisco Xavier de Oliveira--e acrescenta
+que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou
+eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja.
+(_OEuvres mêlées..._ Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a
+enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a ternura. A
+final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte
+menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se
+capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo
+passo que o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos
+comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio.
+
+ * * * * *
+
+Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos
+antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano
+Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e
+cortezão--assevera Francisco Xavier de Oliveira.--D. João V dava-lhe uma
+pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina
+tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados
+como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com
+as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a boa philosophia, a
+boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E assim viveu e
+medrou longos annos em Lisboa.
+
+Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e
+algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada
+dançarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra,
+quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de
+grande fôlego.
+
+Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro,
+justiçado como regicida em 1758.
+
+Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados;
+e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade
+matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.
+
+Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o
+descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a
+instar com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da
+ordem de Santo Agostinho.
+
+E professou.
+
+O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como
+mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D.
+Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que
+tragico destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo
+da libertinagem, com cabellos brancos.
+
+E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias,
+instillando-lhe no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral.
+
+O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao
+paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos
+quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa
+Monica.
+
+--Vês tu quanto te amo?--disse o marquez--dei-te a preferencia, entre ti
+e o rei.
+
+--Se fizesses outra cousa nunca mais me verias--replicou ella
+abespinhando-se.
+
+--Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!...
+
+--O teu dever é esse... _Antes que todo es mi dama_, diz Calderon de la
+Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco
+amor me tens.
+
+_J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul
+mot de ma façon_, diz o cavalheiro de Oliveira, (_OEuvres mêlées_, t.
+3.º p. 34).
+
+Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má
+digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns
+merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim
+da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira
+alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de
+Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o
+velho marquez á cova:
+
+
+«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o
+Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a,
+e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella
+quanto cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz
+monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa,
+o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos,
+socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances á
+vingança do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques
+de encontro á coragem intrepida de Noronha... Era elle, porém, o
+possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas
+vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o
+aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez,
+authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve
+nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do
+marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto
+pôde por demorar tão injusta prisão, vingando d'est'arte os manes do
+marquez, seu sobrinho.» (_Obra cit._, pag. 34 e 35).
+
+
+O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões
+atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a
+sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e
+escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, _maus bichos os
+comem_, como disse o Sá de Miranda.
+
+Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra,
+d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto
+conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no
+dia 9 de março de 1723.
+
+O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a
+Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de
+brilhantes... _Il me fit voir_ (diz o amigo de Noronha) _entre ses
+propres mains ce même portrait du marquis, le même jour qu'il en avail
+fait présent à son infidele Gamarra._
+
+Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a
+preceito, _mieux que personne_:
+
+
+«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era
+moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em
+todos os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava
+igualmente o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente
+estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha.» (_Obra cit._, pag.
+35).
+
+
+Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir
+do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada
+oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda não era frade.
+Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio
+de seu homem, como era de justiça. O marido sondou a profundidade do seu
+direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao
+patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos á annullação
+dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com
+o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao
+marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro,
+metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de
+Madrid. (_Obra cit._, pag. 33, nota _A_).
+
+Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar
+como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro
+visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a
+quem o rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o
+nome de _carvoeiro da Rosa_. Ao proposito d'esta perigosa cigana,
+escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:
+
+
+«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da
+astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos
+desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu
+enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos.
+Este pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo.
+Induziu ella um galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o
+desgraçado; foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» (_Obra
+cit._, pag. 66).
+
+O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de
+cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram
+pela catastrophe da forca.
+
+Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida
+do Monte contra o desembargador aguazil do _carvoeiro_. Diziam assim:
+
+ Oh! descahido te vejam
+ Estes olhos peccadores:
+ Arrastado e perseguido
+ Já que perco os meus amores.
+
+ Todas nós, as freiras juntas
+ Te havemos de praguejar
+ Pois por caber com el-rei
+ Nos vaes desacreditar!
+
+ Justiça de Deus te cáia,
+ E com todo o seu poder;
+ Na bocca de um bacamarte
+ Te vejamos padecer.
+
+ Homem, deixa-nos viver,
+ Não sejas tão turbulento;
+ Deixa divertir as tristes
+ Que não sahem do convento.
+
+ Etc.
+
+Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII,
+perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.
+
+--Que livros?
+
+--A _Historia do theatro portuguez_, onde elle conta pouco mais ou menos
+essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do actor
+hespanhol Antonio Ruiz.
+
+Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio.
+Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como
+o leitor vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a
+culpa, confrontando o original e o plagiato.
+
+ ELLE
+
+ (EM 1871)
+
+ _Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos
+ annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho,
+ historiador e palaciano._ Era homem de bem tanto ás direitas como
+ actor de merito. _Do seu_ porte _honrado_ redundou-lhe _uma pensão
+ annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido
+ das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos
+ prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._
+
+ HIST. DO THEATRO PORT.
+
+ EU
+
+ (EM 1866)
+
+ _Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos
+ annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho,
+ historiador e palaciano._ Era tão homem de bem quanto actor de
+ merecimento. _Do seu_ proceder _honrado_ resultou-lhe _uma pensão
+ annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido
+ das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos
+ prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._
+
+ O JUDEU (romance).
+
+Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco
+Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca
+viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porém, no acto da copia,
+deslisei da versão do professor de litteratura em tres pontos. 1.º Elle
+escreveu em 1871: _Era homem de bem tanto ás direitas como auctor de
+merito_; e eu escrevi em 1866: _Era tão homem de bem quanto author de
+merecimento._ E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: _Il étoit aussi
+homme de bien qu'il etoit Acteur de mérite._ O _tanto ás direitas_ do
+snr. Theophilo é uma perola de estylo de que eu não quiz defraudal-o nem
+_ás tortas_. 2.º ponto: Elle disse: _do seu porte honrado_. E eu,
+gafando a phrase de francezia, puz _proceder_ em lugar de _porte_. Foi
+ignorancia que me pesa como _porte_ ou carreto; mas ainda me fica
+_porte_ ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me
+quero dar _porte_ ou importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando
+em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pôz
+_redundou-lhe_, e eu _resultou-lhe_. Do feitio que elle escreveu a idéa
+fica mais aceada. Na nova edição do _Judeu_ hei de apanhar-lhe o
+_redundou-lhe_ que é bom.
+
+No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes
+lhe armei a sancadilha de chamar Antonio _Rodrigues_ ao actor hespanhol
+que nunca foi _Rodrigues_; mas sim _Ruiz_. Faz-se mister sestro de muito
+mentir para enganar um homem, de quem se copía o engano cinco annos
+depois! Parece enguiço! O cavalheiro de Oliveira escreveu _Ruiz_. Cuidei
+que era abreviatura de _Rodrigues_, e lá vai a peta de recochête lograr
+o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me
+desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor
+como e quando, se é que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do
+doutor Theophilo.
+
+Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em
+casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto
+d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes
+decimas:
+
+ Victor! já chegou a gente
+ de Madrid, tão esperada,
+ e já foi agasalhada
+ do seu superintendente.
+ Este padre impertinente
+ se intitula em Portugal
+ Dom Hieronomio de tal,
+ e _Cancer_ tambem seria,
+ pois á sua enfermaria
+ puxa as damas do hospital.
+ Porém, viva o tal padrinho!
+ só a taes afilhadas chega;
+ que á Undarro, e á gallega
+ abençôa o seu carinho.
+ E baptisa de caminho
+ com fé pia e fervorosa
+ a dama em flôr magestosa,
+ confirmada no primor;
+ porém, se a Undarro é flôr
+ tombem a gallega é Rosa.
+
+ ..............................
+ ..............................
+
+ Com que já por uma vez,
+ temos boa companhia,
+ graças ao nosso Atouguia
+ que tal companhia fez,
+ Em fim, já chegou Garcez,[1]
+ galan de primeira classe,
+ que eu não cuidei que chegasse;
+ e já muita gente diz
+ que morreu Antonio Ruiz;
+ mas _requiescat in pace_.
+
+ _Amen._
+
+Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de
+traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me
+d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasião de
+recommendar certo livro escripto portuguezmente:
+
+.........................................................................
+
+«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio
+dos sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues!
+Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna
+letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as
+suas cousas originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua
+ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar
+com linguas teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas
+fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos
+latrocinios que elles cá nos fizeram em 1808. Se os não citava, tambem
+elles lá não disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos
+arrebanharam nas igrejas. Retaliação justa.
+
+«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo,
+não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a
+ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e
+cimentados na singularidade bordalenga com que transpõe idéas
+peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, coxas,
+esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados
+d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas
+desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre
+sobrepuja o phosphoro.
+
+«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas
+para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a
+furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a
+flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim!
+
+«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações
+atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E
+prometto lembrar-lh'as.
+
+«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas
+negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de
+viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais
+intelligente e manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo
+que, lá ao diante, se saiba quo morri na desconfiança de que o snr.
+Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os
+applausos do gentio lôrpa.»
+
+
+Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui
+apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me
+capaz de copiar de toda a gente.
+
+ * * * * *
+
+Agora, direi da Zamperini.
+
+Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das
+forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos
+documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano.
+
+Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em
+quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro
+para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um
+systema que não é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela
+mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de
+espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graça.
+Iam então dous quadrilheiros trazêl-o da enfermaria dos orates em
+direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado até ao palco.
+Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um
+desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava
+gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a
+epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam
+ao seu cubiculo no hospital de S. José.
+
+Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I,
+condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres
+illustres que capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei
+nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras,
+filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.
+
+Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no
+holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise
+da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos
+capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por
+ordem do ministro.
+
+Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura,
+figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma
+banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:
+
+ Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout,
+ puis que vous êtes dans un país de fous.
+
+Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que
+ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe
+beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em
+inglez:
+
+ The true property of an englishman
+ T'is to pay and despise.........[2]
+
+E mais abaixo:
+
+ Mylord, dont kiss her hand,
+ Because she has no face,
+ But kiss her... her... her...
+ Kiss her elsewhere[3]
+
+Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que
+figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos:
+
+ A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime;
+ allons, prenez l'exemple, et vous serez de même.
+
+Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça mette a bolsa na algibeira, e dá
+visos de safar-se, com estes versos:
+
+ Lasciate agli altri, amico, la campagna,
+ questa sol con quatrini si guadagna.
+
+A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode
+á cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra:
+
+ Macedo, não te cances,
+ Pois os gostos são diversos;
+ Zamperini estima o ouro,
+ E nada entende de versos.
+
+E assim termina a relamboria semsaboria.
+
+Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla
+nota de Verdier _Hyssope_. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, hoje
+em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras
+glaciaes em ternuras de camarins.
+
+ [1] O snr. Theophilo a pag. 151 e 152 do tom. 3.º do seu _Theatro
+ portuguez_ desmente o Pinto Brandão, dizendo que o _Garcez não
+ veio_. O doutor, 141 annos depois, estava mais em dia que o poeta,
+ redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. Theophilo
+ é unico!
+
+ [2] O que bem caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar.
+
+ [3] Mylord, talvez vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a
+ mão, etc.
+
+
+
+
+ENTRADA PARA OS SALÕES
+
+
+Eu não contava com a gloria e o contentamento de estampar nas _Noites de
+insomnia_ o livro completo de physiologia social, intitulado--OS SALÕES.
+
+Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde
+tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra.
+
+Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão
+benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença
+de 1:000 subscriptores.
+
+E, pois que a publicação dos SALÕES principiou aqui desacompanhada da
+introducção indispensavel ao complexo dos capitulos, forçoso é que se
+interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado irá ao
+entendimento dos trechos que já leu e dos outros que advierem.
+
+Este livro dos SALÕES será a porção mais para durar e sobreviver ás
+futilidades das _Noites de insomnia_. O visconde de Ouguella, ainda em
+annos florentes e vigorosos, póde dizer com o velho e experimentado
+Rousseau: _Je sens mon coeur et je connais les hommes_. O seu livro
+esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas
+e pungentes ironias de Proudhon--aquelle vidente que Deus mandou
+apregoar a prophecia da destruição debaixo dos muros da segunda
+Jerusalem derruida.
+
+A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os
+SALÕES, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, vê pelos olhos da
+historia--a Fatalidade inflexa--; e emerge á flôr d'estes parceis, que
+nos atormentam, as evoluções da Providencia.
+
+Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O
+melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma
+balbuciação em linguagem nova.
+
+A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de
+Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de
+Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes
+em que o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não
+se compadece com uns corações que nasceram velhos.
+
+Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do
+passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos
+pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que
+moralisemos as _massas_. Mas sejamos todos _massas_ em quanto o povo--a
+arraia das hortas e das galerias parlamentares--desconfiar que lhe desce
+do alto o exemplo que a dissolve e acanalha.
+
+O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á
+feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em _palavras de
+crente_, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay.
+Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se
+alguma hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a
+infamia assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho
+José Freire. Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das
+casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis
+seus Pansas.
+
+E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras
+da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos SALÕES, e peço ao
+visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto
+lhe deparou o manuscripto do desembargador.
+
+
+
+
+OS SALÕES
+
+
+INTRODUCÇÃO
+
+ ... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir
+ pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière
+ sous le ténébreux manteau de l'océan.
+
+ THEOPHILE GAUTIER.
+
+Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri
+o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei
+o seguinte:
+
+
+«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do
+hospital de S. José.»
+
+
+Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o
+espirito.
+
+Resolvi ir á feira da Ladra.
+
+Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano,
+na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado.
+
+Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada
+passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das
+inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e
+sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros,
+aprendem-se nas _Mil e uma noites_, adivinham-se nas chronicas dos
+nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das
+casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um
+mytho. Para nós--pobre povo--empurrado para as vagas espumosas do
+oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem
+sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os
+numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas.
+
+E o que somos nós? Deus o sabe.
+
+Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico,
+devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente
+constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam
+thronos e proclamam republicas.
+
+«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana,
+n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das
+raças e linguas orientaes.
+
+As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa
+grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que
+afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das
+escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A
+_graça_, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para
+apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de
+reminiscencias tão pagãs.
+
+E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente
+reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da
+corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.
+
+Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal
+francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal
+artigo--esculpido hoje nos bronzes da historia--com esta phrase singela
+e prophetica: _Pobre França, pobre rei!_...
+
+Se eu dissera aqui: _pobre_ Portugal!--Não digo.
+
+Entrei na feira da Ladra.
+
+Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna,
+levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais
+ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.
+
+Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua
+tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo
+buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das
+possessões indo-britannicas.
+
+Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de
+pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os
+residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.
+
+Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:
+
+ «Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»
+
+Achava-me em presença do inventario de uma capital.
+
+Examinei:
+
+Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas
+elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina
+de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um
+sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de
+prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais
+longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de _parvenu_, um saleiro da
+modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso
+etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o
+expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os
+amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por
+mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura
+e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em
+prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos
+devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos
+delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro
+do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de
+boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no
+primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um
+prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão
+equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia
+a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos
+embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos,
+com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.
+
+Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras
+quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados
+de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a
+óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados,
+no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um
+candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da
+lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de
+direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma
+fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas,
+tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha,
+talvez a ultima illusão dos seus possuidores. _Sic transit gloria
+mundi_, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros
+dourados dos triumphadores romanos.
+
+Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do
+atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se
+expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das
+gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e
+proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as
+civilisações.
+
+Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente
+lustrosa--despojo venerando de algum desembargador da casa da
+supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã
+mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de
+lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em
+variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em
+arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte,
+abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e
+hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de
+charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados
+surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através
+de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres
+do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e
+envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador
+de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre
+dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do
+desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes
+inspirações de Benvenuto Cellini.
+
+Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no
+seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras,
+formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever
+por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e
+ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada
+por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor
+inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth.
+Envolvia-se n'um cafran ou burnus--uma especie de farrapo de panno, que
+lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um
+lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos
+negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um
+pedaço de cera amollecido entre os dedos.
+
+Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do
+despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um
+movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe,
+uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das
+pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação
+feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!
+
+A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas
+allucinações e devaneios acusticos.
+
+Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?
+
+A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre
+os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas
+phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal,
+algum preito a Satanaz,--e depois accentuou em voz clara e cadenciada as
+seguintes palavras:
+
+--Dê-me dez libras, e leva-o de graça.
+
+--E a chave?
+
+--A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha.
+São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O
+desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito
+nos ultimos annos da sua vida.
+
+--Conheceu-o?
+
+A velha sorriu-se.
+
+A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo
+infernal.
+
+--Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em
+Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu
+vendo os moveis para comer.
+
+Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta
+amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua
+curta narração.
+
+Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou
+as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa
+como um mysterio.
+
+Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei
+nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:
+
+
+AO LEITOR
+
+Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove.
+Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu
+tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes
+elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época,
+que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei
+do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto
+horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho
+pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth,
+nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de
+Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de
+Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes
+nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs,
+Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de
+enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com
+ellas povoar
+
+OS SALÕES
+
+Segue-se o livro.
+
+Vou publical-o.
+
+ VISCONDE DE OUGUELLA.
+
+
+
+
+ECCE ITERUM «SILVA» CRÍSPINUS
+
+
+Escreve elle no n.º 69 da _Actualidade_:
+
+
+«Publicou-se o n.º 17 da _Tribuna_. Insere artigos e versos dos snrs.
+Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece
+dos numeros _ulteriores_.»
+
+
+_Ulterior_ quer dizer _que vem depois_, ou _que tem data posterior_.
+
+Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou _ulterior_ ao n.º
+18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o _depois_ está primeiro
+que _antes_, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem primeiro que os
+seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.^os 18, 19, etc., da
+_Tribuna_ promettiam ser iguaes aos seus precedentes, escreveria: «Tudo
+nos assegura que os numeros, que hão de sahir anteriormente, serão
+dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.»
+
+Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores e ulteriores furunculos de
+aposthema intellectual, proponho á academia real das sciencias este snr.
+Silva... para varredor.
+
+
+
+
+SANTOS-SILVA
+
+
+Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e
+os sete orphãos do egregio orador!
+
+Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos
+filhos!
+
+Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de
+Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a
+pobreza, ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos
+banhados das ultimas lagrimas de seu pai.
+
+Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto
+da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.
+
+João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito
+imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado
+grupo de crianças que punham as mãos--expressão unica das agonias
+inexprimiveis.
+
+A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do
+Altissimo.
+
+ * * * * *
+
+Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus
+discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e
+energico orador parlamentar.
+
+Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei
+nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o
+meditativamente, sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os
+seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria,
+pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram,
+o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem.
+
+Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo
+honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos
+lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome
+iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo
+adeus.
+
+E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o coração cheio das
+presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle que lhes seria
+protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis
+criancinhas.
+
+Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!...
+
+Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem
+filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia
+de Santos-Silva?
+
+Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.
+
+
+«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa
+duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã
+consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a
+tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos.
+Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma
+regra que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral.
+Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente
+faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da
+sua molestia. Os proprios medicos são os que, n'este ponto, mais se
+enganam, por que são os que mais exageram.
+
+«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não
+descure restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento
+hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe
+regularise qualquer desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito,
+ou o levante de qualquer ligeira prostração. Creia tambem na sua idade,
+e na força medicatriz da natureza, que, quando é bem dirigida e
+auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres.
+
+«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de
+um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as
+mais vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem
+sel-o. De todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma,
+e mais me angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em
+infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus
+esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do
+santo amor de seus filhos.
+
+«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que
+os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei aos meus.
+Repartirei com elles o meu prestimo, se então o tiver. Estas palavras
+não são só de consolação: são compromissos solemnes, que espero não
+desmentir.
+
+.........................................................................
+
+«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de
+seus antecessores.
+
+.........................................................................
+
+«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que
+Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a
+vida de seus filhos.»
+
+
+Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina,
+posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias
+proprias que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus,
+quando sentiu na garganta a constricção da asphyxia.
+
+O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella
+alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: _A
+posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus
+antecessores_.
+
+Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete
+filhos.
+
+
+
+
+DOUDO ILLUSTRE
+
+
+O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José de Sousa Magalhães, doutor em
+canones, jurisconsulto eminente, orador esclarecido tanto no magisterio
+universitario como no parlamento, ensandeceu em 1858, quando contava
+quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em Villa Pouca de
+Aguiar, na casa onde havia nascido.
+
+Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de
+provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D.
+Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do
+arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que
+denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta
+pugna um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e
+em variada litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do
+arcebispo, e contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por
+parte do patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo
+academico Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores.
+
+Como quer que fosse, o arcebispo de Mitylene perdeu na brava luta a
+razão; e, ao parecer de illustrados juizes da sua justiça, foi a
+iniquidade que matou o robusto athleta.
+
+Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a
+esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva
+condensação da escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica,
+absorta na contemplação estupida das lagrimas dos parentes e amigos.
+
+Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do
+delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze
+annos, nas suas escuridões interiores.
+
+Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o
+taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua
+familia.
+
+Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de
+anno, mez e dia.
+
+Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de
+Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em
+jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com
+os dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que
+fôra um dos mais alumiados da sua época, admiraveis lanços de linguagem,
+de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso! É que tambem nos
+delirios ha raptos de luminosas visões.
+
+Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu
+titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia.
+Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da
+desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas.
+
+Eis-aqui os titulos: _O gigante--Os privilegios da corôa dynastica--As
+cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito
+na universidade--A missão divina--A chronica real--Da santidade do
+direito--Cemiterio protestante--A tyrannia impossivel--O mesmo Senhor
+fez os seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia--O
+impassivel--O erro commum--Os tres fundadores--O cordeiro--A surpreza--O
+burrinho e o menino dos protestantes--O templo--O penhor e a hypotheca,
+ou o juro e a herdade--O titulo da realeza--O parocho--O demonio
+tentador--A espada de S. Bruno--O enigma--Mascara de ferro--O sonho--D.
+Maria Caraça Bonaparte ou a burrinha protestante--O viatico da
+eternidade--A estrella do norte ou a misericordia dos mares--A
+vacca--Apologo--A catastrophe_.
+
+Estes manuscriptos comprehendem sessenta cadernos em folha. Em poder da
+familia do finado arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto
+de doze annos. Tirando ao acaso um de entre os cadernos cosidos com
+algodão verde e escarlate--para dar ao leitor a manifestação escripta de
+uma alma que esvoaça á volta dos residuos ainda bruxuleantes da sua
+razão---aqui vai a
+
+
+
+
+CATASTROPHE
+
+
+Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o
+titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua
+primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de
+toda a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias
+atrocissimas d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram
+bem conhecidas dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque
+não souberam, ou porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram
+ao successo o nome de «catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar
+o que era patente e publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e
+enredo occulto, nada explicaram na sua «anti-catastrophe», documento
+mediano e mal traçado para o fim, e para o grande empenho da causa e da
+questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e degrada apoucando o
+assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e desviar a
+attenção do horror da catastrophe.
+
+Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta
+vergonhosa historia da usurpação; as suas monographias são como memorias
+de encommenda que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar
+algum erro ou para afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim
+da historia não curam nem tratam: porque a prevenção da historia é o
+erro, e com este rumo ninguem póde navegar nem progredir. Attribuem
+geralmente os protestantes aquelle sinistro ao partido cardinalicio de
+Roma, segundo o seu costume e petulante ousadia de calumniadores, que
+commetteu o delicto para o assoalhar e publicar por um lado
+attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro lado
+desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma
+imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso
+empenho confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é
+como a luz mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em
+toda a parte onde estiver encerrado o homem pela maior tyrannia para
+alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme debaixo da
+lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto não
+revela o enigma da sua escura sepultura.
+
+A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da
+historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a
+boa critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e
+verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A
+Divina Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da
+injuria; o demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o
+facto permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes
+só no echo até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir
+no decurso dos seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e
+medonho ou funesto e assustador até para o demonio que o gera e produz.
+Sôa do orgão a tuba, e não é a mão do homem que fere a tecla, nem a
+musica e pensamento do seu compositor que produz a melodia. Devia o
+homem vêr no arcano a sciencia divina, que deu ao ar modulado pelo
+instrumento a euphonica sympathia dos sons e o gentil devaneio do mais
+accorde accento.
+
+O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que
+julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito
+verdadeiro da sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo
+catholico; porque só n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos
+de maior vergonha apenas cabe a profana chula de tabernal comedia, e a
+ironia da musica. A arpa é instrumento real, a lira só a tange a poesia
+e a verdadeira inspiração que o Senhor concede ou nega ao cantor pelo
+moto da trova e pelo pensamento da sua religião e virtude. A historia
+verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e pedinte--eis o dilemma unico
+da sciencia, e o programma que o escriptor competente sempre encontra
+diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a que se propõe e
+persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do canto pelo
+sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as suas
+abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem
+possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa
+catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple
+do seu desenfado sem sonhar com opiparo e somnolento banquete; e por
+isso todas as suas lôas acabam em comer.
+
+O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os
+homens do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e
+profissões só pelo benigno e precioso metal que auferem e adoram--e
+d'estes é sempre o maior numero; o actual enche de eunuchos todos os
+theatros e d'histriões a comedia d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco.
+Que mais diremos d'este reprobo e amphibio meteoro, senão que jámais
+deixa de se converter contra o inventor e mais obstinado sectario? o
+ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, ou machina de pura
+digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho herdeiro dispor o
+cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos eunuchos sempre a
+mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem proletario.
+
+Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões
+para aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo
+ha de rir do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos,
+e fazer duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter
+necessidade de fugir da sua sanha, e sem accelerar o passo do seu
+domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil e
+desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da
+sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e
+decifrai os signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do
+que as memorias que deviam retratar os seus pensamentos de historiador,
+e apenas contém a sombra da sua ignominia e proterva hediondez e
+peçonha.
+
+Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi
+synonymo de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o
+direito é dar pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é
+o mesmo que entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais
+desleal e traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido
+que póde formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a
+usurpação; os seus meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais
+desleal e machiavelica, e o perpetuo enredo do engano; o estribilho
+protestante, o punhal do forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega
+da patria perdida ao mais ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do
+demonio. A sua authoridade sempre falsa não impera, pactua em toda a
+parte com os maiores scelerados, e consegue fins mediocres e resultados
+de dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina
+roubam-se uns aos outros.
+
+Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais
+negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas
+primeiramente o rei não pôde usurpar, nas provincias nem em
+Traz-os-Montes, em segundo lugar a usurpação veio toda a pertencer aos
+caudilhos, que o governaram e dominaram e á sua lei mental e miseravel
+recurso; que só pôde communicar a seu filho com o mais tetrico e
+deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor pela abominavel
+traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o cardeal
+romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o
+escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa
+de Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza
+faziam entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia
+real, que era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado
+deixava-se vencer, e cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado
+pelo melhor tabaco e café de Moca, e pelos prazeres reunidos do seu
+abominavel harem.
+
+A lei mental foi uma medida deficientissima para o seu fim, mas prova
+até que ponto é verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O
+padre santo durante o interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens
+á casa de Bragança;--disse então a abominavel facção: entregar os bens é
+o mesmo que entregar a corôa;--e logo faziam um processo com grande
+numero de testemunhas para provar que não havia successor á corôa, e que
+D. João I por esta falta de successor fôra justamente acclamado.
+Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria protestante, que aitribuiam a João
+das Regras, e davam ao falso documento o cunho das côrtes de Coimbra,
+aonde não foi nem podia ser apresentada sem grande irrisão e escarneo de
+todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque de Bragança para
+desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os herejes e
+fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa fundar-se na
+apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é de um
+anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou,
+irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que
+usurpava os bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta
+figura só para desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os
+histriões do torpe magnetismo das façanhas da estrada orçam pelo mesmo
+vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia
+proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa
+tyrannia. Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes
+serviços que fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr
+obeliscos devidos ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os
+francezes, foi para entregar e vender a patria e os penates, os templos
+e a sua santidade, as mulheres e todo o verniz do rosto vil e infame do
+idolo das suas abjectas heresias e traições: se algum militar brioso e
+valente do exercito appareceu no Brazil foi vendido tres vezes,
+ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não assignava os mais
+falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos que preparavam
+e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do nosso
+exercito peninsular.
+
+Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da
+usurpação? porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos
+seculos modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao
+Senhor a menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente
+sombra de galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o
+rei gemeu na sua escravidão de toda a vida, os usurpadores conspiraram,
+escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o principio Divino
+triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e não ha
+obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que calou
+na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do
+novilho.
+
+A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel,
+e deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar
+no decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido
+usurpador é como a familia dos flamengos e dos ciganos--prova e reprova
+todas gerações e partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas
+pela ultima arma do veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida
+estava como o condestavel atormentado pelos remorsos; este deixou os
+bens usurpados aos outros aventureiros, e pediu esmola á porta do
+convento com bastante industria e sagacidade; aquelle seria morto na
+mesma possilga em que vivia, se tentasse restituir a corôa; porque a
+verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos ministros da sua historica
+realeza.
+
+A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no
+banco dos réos, no ultimo transe de vida, ou no meio da mais funesta
+desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe como o furacão através
+dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca as arvores com a
+sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e morreu;--quem
+estrangulou o monarcha? o processo começado das provas evidentes de
+testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são estes
+em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para
+descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os
+males da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em
+virtude de uma queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a
+dirigir ao cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia
+vergava debaixo do peso de invenciveis remorsos, mas que não podia
+entregar á casa de Bragança uma corôa sem entregar a vida aos seus
+tyrannos e crueis usurpadores, e algozes, e d'estes tirava o seu seguro
+e pedia desaggravo e redempção.
+
+D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção
+e um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança
+não contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da
+esterilidade. O que D. Duarte pedia para os falsos donatarios, e
+verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de aleive e da
+calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as successões
+são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de
+familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo--o seu castigo providencial
+vai sendo identico da mesma catastrophe e represalia.
+
+Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a
+sua verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem
+a virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o
+horror das suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa
+mordacidade e peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de
+Diu, Barros e Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre
+Cesar das suas façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque
+temia mais a calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que
+tomava pela frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem
+estremecer do vulcão.
+
+Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta
+memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples
+academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e acreditasse na Divina
+Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os herejes attribuem
+ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos recursos. Em regra,
+moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e pelo signal da
+sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior desprezo para
+fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe veniaga.
+
+D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque;
+todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e
+brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os
+dous primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos
+mesmos meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a
+excommunhão e o interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo
+desenlace, e a mesma reprovação e condemnação divina. O conde da
+Ericeira escreveu n'esta era a sua vergonhosa historia; o conde era
+verdadeiro sandeu; o author de «Portugal Restaurado» recebeu a falsa
+herança de uma casa; e trabalhoso no appetite fazendo do conde o fundo
+da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela astucia mais que
+diabolica de que se servia no empenho. Apenas concluiu o seu trabalho,
+disse: Dai-me o premio;--e apenas se viu senhor do falso titulo e casa,
+disse: Dai-me o preço da obra;--e fez d'esta outra historia um thesouro
+para se enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João
+das Regras; porque a sua original possilga nunca se descobriu nem
+annunciou, e dizia-se que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao
+pé da feira da Ladra de uma mulher, que vendia a chanfana do açougue
+pelas portas de Lisboa, e que apregoava pelas ruas maior engano.
+
+Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de
+Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição
+em Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de
+sustentar a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar
+e sem horror o monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se
+recreava com o vil officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I
+principiou a considerar como proprios da corôa todos os bens da casa
+real de Bragança; D. João dispunha como duque e como senhor de todos os
+bens para imitar ou produzir a realeza e invicta memoria do senhor D.
+Manoel I. Esta questão tinha sido tratada e muito debatida na primeira
+época; todos se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus
+bens como prova heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João
+professou o erro em Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de
+Calvino semelhante ao que foi expulso das Necessidades em nossos dias
+pelo clamor do povo e pela justa queixa da parte sensata e catholica do
+reino. Todos os herejes são monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu
+preito o juramento da loja que o falso rei presta ao veneravel, e se o
+rei tem o falso cargo jura como rei ao immediato sujeição e obediencia
+ás decisões maçonicas, e como são muitas as lojas, a cada passo se vê
+partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a sua monarchia pelas
+seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o vislumbre do poder.
+
+Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e
+brigantino de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é
+o dos bens da casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais
+feroz engano. As seitas e os corrilhos, que se formam das fezes de todos
+os partidos estrangeiros e execraveis contam como elemento uma vez que o
+lisonjeie e afoute para maior roubo e façanha da contribuição e da
+injuria que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas
+todas sobem, e todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o
+que nos resta a provar para complemento da catastrophe e para sua prova
+real e exuberante.
+
+Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes
+recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns
+valentões, que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e não podia ser
+esta força angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o
+rei se fazia forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragança
+a cuja frente estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta
+difficuldade em conceder as redeas do governo ao presumido successor.
+Este conflicto nasceu e cresceu da mesma antiga causa de todas as
+discordias da usurpação, e pelo motivo da injuria que tinham feito á
+casa de Bragança e ao seu popular e heroico senhorio. D'esta vez o
+governo pontificio ainda não estava resolvido a ceder; não faria a menor
+concessão de reconhecimento sem a absoluta e total entrega dos bens de
+Bragança ou dos bens da corôa, e D. Affonso estava resolvido a todos os
+sacrificios, uma vez que achasse uma collocação em Roma e um modo de
+viver ou uma absolvição vantajosa para o seu arrumo e fim. Esta deve ser
+a ambição do usurpador que nasce; o seu throno não offerece encantos,
+nem póde servir de balisa para a gloria verdadeira e santa que se embebe
+na felicidade do povo e no heroismo e façanha.
+
+N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que
+fosse tão corajoso e tão absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir
+ou sahir do reino para não soffrer a perda da liberdade; tentou o
+impossivel, e quebrou pela reconhecida prevaricação e má fé da nova e
+falsa casa de Bragança, que seu pai organisou em Lisboa como partido
+protestante para sustentar a negra e atroz usurpação: estes factos são
+innegaveis. O _Joannes à regulis_ da primeira usurpação era um hereje
+estrangeiro semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. João
+IV tinha na sua côrte um ministro protestante da convenção de Cromwell,
+e todos os usurpadores dos bens da casa de Bragança deviam ser da mesma
+seita e falso cunho: D. Affonso VI abraçava a doutrina catholica, e,
+consoante os bons principios de direito, devia perder o titulo de rei;
+e, se em vez de casar em França, fosse ao reino ceder da corôa,
+lisonjearia o reino catholico, e podia obter a liberdade, que outro
+Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso conservou a corôa e por esta
+razão o povo portuguez não podia ingerir-se na questão para defender o
+preso; D. Pedro, seu irmão, era nimiamente cruel, mas não temia o
+partido de seu irmão, porque não o tinha: D. Pedro tambem não tinha o
+partido da nação, e por isso affectava grande humanidade para com seu
+irmão, e grande respeito pelas côrtes, que sempre o repelliram e
+despeitaram amargamente.
+
+D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmão para o privar de
+todos os seus estados até o dar por demente e por impotente, aceitou a
+mesma mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de
+rainha, D. Pedro julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo
+de rei; e parecia logico que a deposição perpetua de Affonso o
+investisse na authoridade real, e o coroasse rei em vez de regente; o
+titulo de principe não lhe podia competir, nem o de infante, que pouco
+tempo depois começaram a usar por inaudita usurpação e roubo, e pelo
+mais atroz anachronismo os filhos segundos d'esta familia de D. João IV.
+
+Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragança D. João
+IV e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho
+segundo para prevenir a falta de successor pelo receio da morte do
+principe, e uma supposição e um embuste indigno, ou um meio de que se
+servia a atroz calumnia da usurpação dos bens para tirar a D. Affonso VI
+o que lhe tinha ficado da casa de Bragança e para os dar ao seu
+predilecto: e por esta razão veio a D. Affonso o desejo de restituir, e
+occorreu á facção o pensamento de depôr o insensato. Assim manejou a
+perfida intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas
+as eras procura colher e alcançar o seu unico fim que é o roubo pela
+pertinaz heresia e pelo mais atroz engano e enredo.
+
+D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe
+negou o tratamento; as nações não cessavam de o responsabilisar pela
+vida do infeliz e proscripto; e já se julgava que fazia guardar como rei
+um homem estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez
+prender e reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do
+tumulto dos seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido
+d'aquella supposta revolução para declarar novamente como doudo o triste
+que se deixou cahir no laço. D. Pedro a cada passo reunia as côrtes do
+reino sempre na esperança de que o reconhecessem rei, mas jámais o
+conseguiu pela grande desaffeição e justo odio que tinha merecido e
+grangeado.
+
+A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se
+assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os
+bens de Bragança e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por
+almoxarifes que nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as
+terras juizes, e assalariava por todo o genero de engano os cobradores
+da falsa e aleivosa renda, e por esta fórma constituiu as suas
+instituições e morgados: o povo reagia contra a usurpação, mas o rei e o
+governo, o infante e os seus almoxarifes conspiravam, e apesar do odio
+do povo que não podia ser mais justo nem mais bem merecido colhiam e
+recolhiam do roubo grandes interesses e mortificavam o povo com exacções
+de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam do seu fim primordial e
+applicavam para outro de maior escandalo e torpeza.
+
+O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas
+jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a
+figurar por alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua
+mudança para a ilha é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam
+abaixo de toda a critica: D. Affonso VI não era admittido a escrever; o
+mesmo governo de D. Pedro fingiu ou suppôz as cartas para dar ao preso a
+laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido
+se temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e
+como existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro.
+Com effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por
+morto na ilha para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D.
+Pedro em côrtes a pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que
+tomasse o titulo e o tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador
+hereje, e injusto possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com
+isto se houve por acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha
+realeza.
+
+Veio então a questão romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto
+aos bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do
+povo, uma vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança.
+O governo passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho
+e prova de sua torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e
+póde dizer-se que o escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida
+taberna, ou no ergastulo do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais
+indomita fera; por que estes reis sempre andaram presos, e a que chamam
+casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e
+conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de
+julgar que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada
+individuo é obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para
+ficar doudo e bem sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus
+verdadeiros senhores e tyrannos.
+
+Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou
+de má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a
+lingua do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo
+pretenderam fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula,
+nem suscitaram as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o
+ingresso e a influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não
+ouvir verdades amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão
+inauditas usurpações e falsidades, e de tão grande subserviencia aos
+estrangeiros e a todos os inimigos da nossa fé e da nossa gloria e
+renome.
+
+João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um
+fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam
+entre nós; os seus dogmas proprios da mais abjecta demagogia podiam
+apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, dos Neros e
+dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes á lei
+regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os
+Tusculanos de Cicero e de sua REPUBLICA, só para a posteridade; e
+estaria em algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar
+e apparecer sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e
+eterno d'el-rei o snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades
+causam tedio e nojo. D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento
+de magestade, sem lhe competir e por heresia de infame e vil
+protestante. Agora dizem os apologistas da mesma seita que Portugal
+sempre foi protestante; mas não dizem como se retractou a viuva, nem diz
+como precisou a ignobil memoria de D. João IV de ser absolvida como
+contrita á hora da morte para ter sepultura de corpo.
+
+Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel
+cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa
+e por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o
+titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava
+esta rosa d'ouro só para um rei ou imperador que acontecia ser o que
+confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; e jámais o
+pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o
+mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como
+vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que
+não estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias,
+nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons
+catholicos e fieis. Durante a usurpação sempre procuraram os herejes
+tomar lugar e assento, e á medida que fugia a fé da sua pureza invadiam
+as raças, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir
+as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar
+pasto á luxuria dos maiores desvarios e ameaças. E seria só pela
+necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia? É certo que
+o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas o principio de
+desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus
+antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas
+successões estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte
+e pensamento do desprezo da santa lei e fé.
+
+Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen
+cujos artigos secretos são da infame propaganda protestante que invadiu
+o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este
+com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragança a seguir o
+falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame
+ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como
+Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e já os
+protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus
+superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da
+injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario,
+e no odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez
+com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de
+heresia, cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da
+Bretanha e de Londres, como é sabido e se estendia por meio de
+ramificações secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idéas da
+santa acclamação de D. João I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo
+mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truão e ridiculo para depôr
+o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como então se dizia ao
+mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e
+para resuscitar os immortaes.
+
+Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas
+iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter
+verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e
+protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior
+astucia progrediam e illudiam sempre até o grau de maior engano, a este
+como simples mação, áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos
+mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os
+maiores segredos dos outros graus, em quanto não obtinha os verdadeiros
+da maior abominação de seu secreto esconjuro.
+
+Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta
+revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz
+calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que
+nasce sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar
+dos que só podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do
+seu elemento; porque as claridades da sua existencia não o habilitavam
+para conviver no espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza, e
+por isso o precipitam mais depressa para que conheça o que é e o que
+póde valer como energumeno. Alguem julga que o meteóro póde fazer-se
+cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou estrella sem que o
+Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita mais cedo este
+rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu catholico
+reinado e se lhe põe o nome de _mechas_, ou de _põe mais_..., mais
+adiante o fazem _José do nabo_, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a
+subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os
+inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do
+crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior
+attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os
+seus sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade
+de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso.
+O sophisma é a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o
+incenso podre ao demonio, são despojados da propria pelle, e victimas da
+nova crueldade dos monstros.
+
+Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos
+milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre santo, se
+a sua tentação inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que
+fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do
+desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razão S. Pedro condemnou
+o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas
+foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e ostensivo, já era
+escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para
+a sua ruina e perdição.
+
+A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro.
+Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos
+e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais
+damnada chorêa da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter
+n'este mundo e no outro a mesma sorte--a catastrophe--e o mesmo exito e
+cruel engano.
+
+
+
+
+RENAN
+
+
+O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar
+juizo e prudencia a questão da academia real das sciencias e Ernesto
+Renan. Estas linhas do _Jornal da Noite_ compendiam todos os argumentos
+do esclarecido publicista: _Merecem respeito as convicções. Mas a
+consciencia dos outros é tão d'elles como a nossa, igualmente livre, de
+todo o ponto respeitavel._
+
+É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da
+Republica: _nós, que de tolerantes nos desvanecemos, somos
+intolerantissimos como frades_.
+
+O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica
+as diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão
+do author da _Vida de Jesus_. Os adaís da liberdade forjam golilhas de
+phrases para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia.
+Offendem e injuriam.
+
+O author do romance intitulado _Vida de Jesus_ é malquisto dos seis
+academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o
+indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista
+indiscreto que enreda as suas novellas com o sacratissimo nome de Jesus
+Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes um livro mui dilecto
+do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é motivo bastante a que
+as almas profundamente christãs se devotem á apotheose do depreciador de
+Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do romance nos
+descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do chaldeu.
+
+Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no
+ulterior protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia,
+mórmente quando, á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de
+Vasconcellos, declaram que estremam entre o author da _Vida de Jesus_, e
+o author da _Historia geral das linguas semitas_.
+
+Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que
+afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao
+coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um
+incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de
+Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de
+Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e
+receosos das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que
+Renan recebesse publicamente em Portugal a consideração que o snr.
+Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que
+temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns
+escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de
+civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente.
+
+
+
+
+CORRECÇÕES
+
+
+Convém fazer algumas ao artigo _O Decepado_ (n.º 4, pag. 71).
+Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á
+gratidão o contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas
+tão remotas e alheias das _novissimas_ charadas, das _capitações_, do
+_don-juanismo_ e dos bancos.
+
+Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e,
+se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o
+appellido que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que
+levante turbilhões de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal.
+Eis a carta do snr. J. F. Torres:
+
+.........................................................................
+
+«Deliciei-me com a leitura das veridicas noticias historicas do meu
+conterraneo Duarte d'Almeida, _o Decepado_. Ora, v. incansavel em
+revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em tão gloriosa e
+ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o arrojo de
+lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a
+verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu
+author.
+
+«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de
+Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella[4];
+mas sim um castello ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado
+demolir pelo fallecido procurador da casa Penalva, Martinho do Banho,
+para com a pedra mandar fazer escadas e outras toscas obras que conduzem
+á capellinha de Santo Amaro, pertenças da mesma casa Penalva. Existe
+outro igual monumento no lugar de Bandavizes, freguezia de Fataunços.
+
+«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia
+ter sido uma vivenda ostentosa, como se vê do que ainda hoje existe,
+pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa d'Oliveira.
+
+«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada
+alli existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil[5]. Ha
+porém na villa uma elegante capella do santo, onde se celebra missa
+todas as segundas feiras; e onde se conserva a pia em que se baptisou o
+santo; e bem assim o queixo inferior do mesmo, reliquia muito venerada
+pelos habitantes da villa. O corpo, como v. sabe, jaz enterrado em S.
+Francisco de Santarem.»
+
+
+Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como
+fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: _A exc.^ma madrasta
+d'el-rei D. Luiz I calumniada_.
+
+O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro
+opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus
+admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais
+eloquente de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra
+biblica.
+
+João de Deus, o excellente poeta, cantava d'est'arte, ha 15 annos, em
+Coimbra o dadivoso prestigiador:
+
+ Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo
+ Nos prodigios da milagrosa vara
+ Que o Senhor Deus te deu:
+ Teu coração, Moysés do christianismo,
+ Tua alma é que eu admiro, e te invejára,
+ Se o que é teu fosse teu.
+
+Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus,
+que tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava
+a varinha que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita,
+ainda não é banqueiro, segundo me consta.
+
+Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha
+talento. Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras,
+sobrevivem ao prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do _Instituto_:
+
+ Le coeur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait
+ On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait.
+ Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel
+ Une promesse sainte, dans un voex solennel!
+
+ Si, par lui, mon talent me donne la richesse,
+ J'ai ma mission aussi, soulager la détresse,
+ Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi,
+ Pour ramener enfin le calme en mon esprit.
+
+N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da
+sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára
+n'aquelle recinto da _charmante jeunesse_. Queixava-se outro sim, de
+ingratidões que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado
+no Porto, romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á
+orla de um throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria
+em Vienna d'Austria. Brilhantes desenlaces!
+
+E foram os rapazes de Coimbra--aquelles viventissimos rapazes de 1859,
+Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e
+dezenas de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração
+retranzido. _Gloire à vous!_ exclamava Herrmann.
+
+ [4] Existia no seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto
+ nobiliario de testemunha coeva e ocular.
+
+ [5] Em 1780 ainda se via n'esta casa a capella, no local onde
+ nascera S. fr. Gil.
+
+
+
+
+MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS
+
+
+ ... Une femme prudente y doit regarder à deux fois avant d'épouser
+ un poete!
+
+ J. JANIN, _Le livre_.
+
+Se o fino amor não é condão dos poetas, é escusado esgaravatar essa rara
+perola em outra concha. O amor duradouro é incompativel com a creatura
+sujeita á decomposição e á morte. As recomposições interiores são
+incessantes, até ao momento em que o espirito vital se evóla, e a
+podridão começa.
+
+As reformações da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo.
+Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o graváme e a
+melancolia da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso
+d'isto. Almas floridas em corpos devastados. Os primeiros tem auréola de
+poesia lugubre. Os segundos são lastimaveis quando, em honra de suas
+cãs, arrancam um a um os renovos da alma, ou os vão delindo com secretas
+lagrimas; e são irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice, dando
+resplendor á calva com um nimbo de namorados.
+
+Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII,
+_Marcial portuguez_. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem
+ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar
+foi anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava
+pela côrte diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a
+consorte, cuidando dos trigaes e dos parrécos.
+
+Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais
+desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi
+pelos cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao
+santuario da familia com a lyra e com o rheumatismo.
+
+Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se
+bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa
+senhora!
+
+O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de
+a ter mofado na prosa caseira--a prosa de marido enfastiado, que é o
+vasconso mais barbaro da glottica humana.
+
+Aqui está um dos cantares com que o sobredito _Marcial_
+desprimorosamente chasqueava as caricias, os vernizes, as tranças
+retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e arqueavam as ancas
+da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa inventára, á
+custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos vestigios da
+belleza perdida. E observem que o cruel a denomina _Sara_, equiparando-a
+á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes poetas no coração:
+
+ Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho
+ para vêr tuas faltas,
+ não quero que te falte meu conselho
+ em presumpções tão altas.
+
+ Lembre-te agora só que és terra e lôdo
+ e terra te has-de vêr do mesmo modo;
+ mas não te digo nem te lembro nada
+ porque ha muito que em terra estás tornada.
+
+ Que importa que, alguma hora, a prata pura
+ de tuas mãos nascesse,
+ e que de teus cabellos a espessura
+ as minas de ouro désse!
+
+ Se o tempo vil, que tudo troca e muda,
+ sómente do ouro poz, por mais ajuda,
+ em tuas mãos de prata o amarello,
+ e a prata, de tuas mãos em teu cabello!
+ se um tempo, foram de marfim brunido
+ no seculo dourado,
+ não vês que o tempo as tem já consumido,
+ não vês que as tem gastado?
+
+ Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos;
+ que eu, quando toco teus nodosos dedos,
+ me parece que apalpo, e não me engano,
+ cinco cordões de frade franciscano.
+ Viciando a natureza com taes tintas,
+ com pinceis delicados,
+ jasmins e rosas em teu rosto pintas.
+ Deixa esses vãos cuidados;
+ pois quando tua cara me alvorota,
+ mascara me parece de chacota;
+ e, se é das tintas, digo n'este passo
+ que a mascara está inda em calhamaço.
+
+ Como pretendes, pois, com mil enganos,
+ vestir mil primaveras
+ sem ter a primavera de teus annos!
+ Como não desesperas!
+ que o tempo chegou já ao seu estio,
+ aonde toda a fruta perde o brio;
+ parecendo tua cara desmedrada
+ fruta que se seccou, noz arrugada.
+
+ Se feitura de Deus Eva não fôra,
+ dissera, sem porfias,
+ que de Eva foste mãi, velha senhora,
+ pois te sobejam dias
+ para esta presumpção que agora tenho;
+ e, concluindo em fim, a alcançar venho,
+ pois alcançar não posso tua idade,
+ que deves ser a mãi da Eternidade.
+
+ Teus olhos, por descargo da consciencia,
+ a idade os tem mettidos
+ em duas lapas, fazendo penitencia;
+ e estão tão escondidos,
+ que, quando os vou buscar porque me choram,
+ não acerto co' bêco aonde moram;
+ porque o tempo os mudou, seu passo a passo,
+ da flor do rosto lá para o cachaço[6].
+
+ ............................................
+ ............................................
+
+ Em fim, senhora, se te vejo em osso,
+ com essa cara posta em tal pescoço,
+ me parece, tirada a cabelleira,
+ em cima de um bordão uma caveira.
+
+ .............................................
+
+ Sabe que sei, e d'isto me não gabo,
+ que te alugou sem duvida o diabo,
+ invejando teu corpo, cara e dedos
+ para a Santo Antão fazer maiores medos[7]
+ E deixa, em fim, tanto vão cuidado;
+ e ao sagrado te acolhe
+ primeiro que te ponham em sagrado.
+ Este conselho colhe;
+ admitte o que te digo sem desgosto;
+ que eu, quando vejo teu funesto rosto,
+ d'elle tambem o seu conselho tomo,
+ pois cuido que me diz: _Memento, homo!_
+
+Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D.
+Catharina, abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e
+impenitente, por aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade
+provecta com poemas sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á
+circulação dos enxurros. Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no _Elogio de
+poetas lusitanos_, conceitua n'esta altura o descaroado marido:
+
+ D. Thomaz de Noronha em tanto augmento
+ Confirma de sus versos la escellencia
+ Que admirando sutil su entendimiento
+ Puede hazerle a Quevedo conpetencia:
+ Alma de tan ayroso movimiento,
+ Luz parece de sol de su presencia
+ Y sol a cuya luz crecen desmayos,
+ Aguila no soy yo de tantos rayos...
+
+Que te fulminem, Jacintho!--diria um leitor circumspecto. Achou-lhe
+airoso movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez
+e cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um
+trovista de tasca.
+
+A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre
+missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque
+metrifica a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do
+talento, é enfermidade repugnante.
+
+ [6] Segue uma estrophe cuja nudeza, posto que não envergonhe o
+ realismo hodierno, nos pareceu propriedade dos livros escriptos
+ para _homens_, cuja deshonestidade os authores lisonjeam com as
+ dedicatorias dos seus romances.
+
+ [7] _Metter medo aos medos de Santo Antão_, era adagio do tempo,
+ que teve a seguinte origem: No terceiro domingo de agosto de 1577
+ sahiu uma procissão da antiga parochia de S. Julião. Entre varias
+ figuras e carros triumphaes ia um homem representando Santo Antão
+ no deserto, e á volta d'elle varios demonios com feitio de monos o
+ aterravam com caretas e tregeitos medonhos.
+
+
+
+
+A CASA DE BRAGANÇA «AB OVO»
+
+
+D. Gonçalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava
+as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus
+com as curiosidades philoginias, gregamente faltando.
+
+D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte,
+chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um
+menino robusto, como os recem-nascidos do _high-life_, o qual se chamou
+Antoninho.
+
+Este D. Antonio Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai
+de 32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mães d'este rapazio
+todo chamou-se Eyria de Carvalhal, e das predestinadas entranhas d'esta
+menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da primeira duqueza de
+Bragança, casada com o bastardo de D. João I.
+
+D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos
+veio a redempção em 1640.
+
+Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles
+fossem castos ou infecundos, não teriamos Braganças, e gemeriamos ainda
+hoje captivos de Hespanha.
+
+O arcebispo descança ha 526 annos, em uma capella contigua á porta
+travessa da sé de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida
+no mausoléo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se
+apaixonasse por hespanholas. O coração não tem _ubi_. O escolar de
+Salamanca lêra talvez o philosopho grego que dissera serem todas as
+mulheres uma. Se a natureza as não discriminára, como estremal-as por
+fronteiras?
+
+Mas tão portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a
+mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada
+sobre suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta!
+
+Ainda não vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a
+morte do D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José Corrêa,
+biographos dos arcebispos bracharenses, a souberam ou quizeram divulgar.
+Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por haver sido prelado como
+por genio investigador de antiguidade, não ignoraria o que era constante
+de um processo existente no archivo da mitra.
+
+Eis o caso:
+
+Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a
+Villa-Flôr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os
+moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro
+homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate.
+Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo,
+mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se não fugisse,
+pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cahir de costas no
+terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Villa-Flôr com a
+fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, de envolta com parte dos
+capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado
+chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante n'aquelle tempo,
+fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a
+D. Affonso IV.
+
+O rei, poucos dias depois, mandou a Villa-Flôr uma alçada com dois
+algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que pôde colher na
+devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo
+descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se
+erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor.
+
+E assim morreu, por effeito de tão miserrimo lance, aquelle valente do
+Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto
+successor D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. Fôra elle o defensor da
+cidade do Porto, quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua
+vanguarda o incendio e a devastação. Fôra elle ainda quem acaudilhára a
+hoste de portuguezes, quando uma invasão de hespanhoes, em desapoderada
+fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanças dos alabardeiros do
+arcebispo.
+
+Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flôr, amotina-se a
+arraia-miuda, foge de escorregão por uma corda, cahe de cangalhas,
+amolga o osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraça de
+Portugal se elle, antes de lesar as vertebras lombares e regiões
+visinhas, nos não tivesse deixado os embryões da casa de Bragança na
+pessoa de seu filho prior!
+
+
+
+
+UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES
+
+
+O filho de Jayme I de Inglaterra veio a Madrid, em 1610, para vêr de
+perto a princeza Anna, filha de Philippe III, uma das mais formosas
+mulheres d'aquella época. D. Fernão Martins Mascarenhas, inquisidor
+geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que soube da chegada do
+heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa presumpção de o
+reduzir á fé catholica. O principe, todo embebecido nas magias da filha
+de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver esse negocio
+que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinião de alguns
+historiadores, porém, é que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja
+romana, não tanto pela influencia theologica da carta, como pelos
+filtros amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para
+esposa; e, quando em Londres se preparavam os festejos do noivado,
+morreu o noivo em 1612.
+
+A carta do inquisidor bispo do Algarve é inedita. A este prelado devemos
+a impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avós todos os
+livros gafados de heresias. Se não fosse elle, é muito de recear que em
+Portugal se lêssem então os livros que no seculo XVII propulsaram as
+sciencias na França e Allemanha: o que seria uma calamidade. Eis a carta
+do santo varão:
+
+
+«A vinda de V. A. a esta côrte foi de tanta alegria para todos os que
+nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da
+sua presença, temos obrigação de fazer demonstração publica, assim em
+dar graças a Deus por esta mercê, como em significar a V. A. o animo, e
+a vontade com que festejamos a honra que todos alcançamos por esta
+causa.
+
+«O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas orações,
+para melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa, é que
+queira V. A. ouvir e entender a razão do que por cá acha, e é
+professarmos a fé, e a religião que professa, e ensina a igreja
+catholica romana, verdadeiramente apostolica; porque o animo com que
+desejamos paz perpetua entre as corôas de Hespanha e Inglaterra, nos
+obriga a procurar a conformidade na religião entre os principes dellas,
+pois, como diz Santo Agostinho, não póde haver verdadeira concordia
+aonde os entendimentos estão desunidos na terra.
+
+«Muitas razões se podiam allegar para V. A. se dispôr a fazer este
+serviço a Deus, e mercê a toda a Hespanha, porque os livros estão cheios
+d'estas materias, mas tres são só as que lembro a V. A. para satisfazer
+a obrigação que tenho n'este reino de Portugal.
+
+«A primeira é considerar V. A. que isto que nós professamos em Hespanha,
+acerca da obediencia á sé apostolica-romana, professaram, sem nenhuma
+interrupção, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o
+tempo de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, até o de
+Henrique VIII de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudança na
+religião; porque como nunca se havia preferir o parecer dos que querem
+innovar cousas ao juizo d'aquelles que dellas perseveraram por tantos
+annos, bem se vê, a prudencia natural está pedindo que se repare muito
+n'esta variedade que se introduziu em Inglaterra nos derradeiros annos.
+E é muito para vêr a fórma em que escreveu Eduardo, rei de Inglaterra,
+ao papa Alexandre III, porque ambos estão condemnando o que agora se
+segue no mesmo reino com palavras tão claras que não soffrem
+interpretação alguma.
+
+«A segunda razão é porque todos os reis de Inglaterra que antes de
+Henrique VIII tiveram o sceptro d'aquelle illustre reino depois de
+Alberto, fundaram a sua jurisdicção na obediencia á igreja romana, em
+que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro, principe dos
+apostolos, e vigario universal de Christo na terra, até Ina e Ataulfo
+fazerem o proprio reino tributario da sé apostolica, e este tributo
+durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve
+que em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que
+deviam aos pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeças da
+igreja catholica, e sempre depois vieram a fazer penitencia de seus
+erros, como consta dos proprios annaes e chronicas de Inglaterra que
+Polidoro Virgilio II seguiu, e tratou em sua historia.
+
+«A terceira razão é porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudança,
+quando morreu declarou que errára, e por esta causa expirou com summa
+pena, e inquietação, como consta da relação que fizeram homens de muita
+virtude, letras, e authoridade que assistiram á sua morte, e os aponta
+Sandero, com outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas
+cousas; e se não remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que
+permittiu lhe faltasse n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe
+lembrasse o que o proprio escreveu tão doutamente contra Luthero, e
+dirigiu ao papa Leão X.
+
+«Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores
+tiveram e professaram por largos annos, sendo tão virtuosos, prudentes e
+valorosos, como o mundo todo reconhece, não fará mais que restituir á fé
+a casa d'onde contra razão e justiça anda desterrada; e com esta
+restituição além da gloria immortal, que alcançará em todos os seculos
+vindouros, obrigará a Deus Nosso Senhor abrir as mãos da sua
+liberalidade para lhe acrescentar muitos reinos com novas prosperidades
+temporaes.»
+
+
+
+
+A TRILOGIA DA «ACTUALIDADE»
+
+
+Quando o snr. Moutinho de Sousa, ha pouco tempo, negociava, em Lisboa,
+actores que preenchessem e aperfeiçoassem a companhia dramatica do
+theatro Baquet, o snr. Silva, roto saboyardo do escangalhado realejo
+litterario da _Actualidade_, escreveu, com o desplante da sua ignorancia
+impenitente, que a escripturação dos tres indicados actores formava uma
+agradavel TRILOGIA.
+
+Tres actores, tres pessoas--uma _trilogia_!
+
+O leitor (se não é elle) sabe que os gregos denominavam _trilogia_ o
+conjuncto de tres peças theatraes, quando o poeta pleiteava o premio da
+tragedia. Uma compoz Eschylo, a mais commevedora que nos legou a antiga
+scena. Shakspeare fez uma _trilogia_ com as tres tragedias que completam
+Henrique VI. O _Walstein_ de Schiller é tambem uma _trilogia_. Querem os
+francezes por igual ter a sua na concatenação do _Barbeiro de Sevilha_,
+_Casamento de Figaro_ e _Mãi delinquente_ de Beaumarchais. Tambem nós,
+em os nossos humildes fastos litterarios, temos uma _Trilogia
+romantica_, em que se annunciavam collaboradores Antonio Pereira da
+Cunha, D. João de Azevedo, e João Machado Pinheiro (visconde de
+Pindella).
+
+Por analogia, tres composições em um livro, tres tratados, tres
+discursos, poderemos denominal-os _trilogia_; mas chamar _tratado_
+(_logos_) ao snr. Pola, e _composição_ á snr.ª Virginia, e _discurso_ á
+snr.ª Emilia das Neves, hellenisando-as pessimamente, seria uma fineza
+grega, se não fosse uma asneira portugueza.
+
+Este snr. Silva (aviso aos naturalistas) dizem-me que tem as orelhas de
+tamanho regular. Elle e os 2 Joaquins são tres partes de uma só
+cousa--_trilogia_. Aqui vão bem; cálham: são tres peças que arredondam
+um tolo superlativo. Ainda, no dominio grego, podéramos chamar aos
+tres--_triga_. (Veja um _Lexicon_ o snr. Pinto). E, quando apparecer um
+quarto, por não sahirmos de Athenas e das analogias remotas, os quatro
+serão _quadriga_. Ora ahi tem gregarias em barda. Divirta-se.
+
+_P. S._ Eu dissera-lhe _adeusinho_, quando fui _banido_; mas elle,
+mentindo e espremendo novamente o figado, espirrou um golfo de bilis
+negra. Faz-se mister não levantar mão das ventosas. Ou elle estuda, ou
+eu o esfolo.
+
+
+FIM DO 5.º NUMERO
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+ <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 5</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº5 (de 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: October 29, 2008 [EBook #27084]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
+
+</pre>
+
+<span class="pagenum">[1]</span>
+
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 6em;">
+
+<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p>
+
+<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p>
+<hr style="width: 3em;">
+
+<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p>
+<br>
+
+<hr style="width: 3em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">N.º 5&mdash;MAIO</p>
+<hr style="width: 3em;">
+
+<table width="100%" summary="Endereço do editor">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+ <span style="font-size: 0.7em;">DE</span> </th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="border-right: solid 1px #000000;"><span
+ style="font-size: 0.9em;">ERNESTO CHARDRON <br>
+ <em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br>
+ <strong>PORTO</strong> </span> </td>
+ <td><span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br>
+ <em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br>
+ <strong>BRAGA</strong> </span> </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<hr style="width: 2em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[2]</span>
+
+<div id="impressor" style="text-align: center;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<hr style="width: 8em;">
+
+<p>PORTO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">62&mdash;Rua da Cancella Velha&mdash;62</p>
+<hr style="width: 2em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[3]</span>
+
+<div id="sumario">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p style="text-align: center; font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"><strong>SUMMARIO</strong>
+</p>
+
+<p><em><a href="#cap01">Petronilla, Gamarra, Zamperini</a>&mdash;<a
+href="#cap02">Entrada para os salões</a>&mdash;<a href="#cap03">Os salões,
+introducção, pelo exc.<sup>mo</sup> snr. visconde de Ouguella</a>&mdash;<a
+href="#cap04">Ecce iterum «Silva» Chrispinus</a>&mdash;<a
+href="#cap05">Santos-Silva</a>&mdash;<a href="#cap06">Doudo Illustre</a>&mdash;<a
+href="#cap07">A catastrophe</a>&mdash;<a href="#cap08">Renan</a>&mdash;<a
+href="#cap09">Correcções</a>&mdash;<a href="#cap10">Mau exemplo de poetas
+casados</a>&mdash;<a href="#cap11">A casa de Bragança «ab ovo»</a>&mdash;<a
+href="#cap12">Um inquisidor portuguez e o principe de Gales</a>&mdash;<a
+href="#cap13">Trilogia da «Actualidade»</a></em></p>
+</div>
+<span class="pagenum">[5]</span>
+
+<div id="corpo">
+<hr>
+<a name="cap01"></a>
+
+<h1>PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI</h1>
+
+<p>Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos
+argentarios portuguezes no seculo XVIII.</p>
+
+<p>Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745.
+Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros
+diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas
+cabeças, sem respeitar as testas coroadas.</p>
+
+<p>Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta.
+Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com as
+«princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye denomina
+as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso <span
+class="pagenum">[6]</span>Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras;
+mas não esbanjava em galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das
+suas transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as
+actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O
+fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia hombrear em
+proezas de galã com algum frade bernardo de costumes suspeitos. Os frades
+propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu camarote o collo despeitorado
+da Petronilla com settas de amor platonico. Havia no theatro o <em>camarote
+dos frades</em>, collocado por baixo do camarote das açafatas. Tinha rotulas
+de pau, por entre as quaes os monges assopravam uns suspiros quentes como as
+lufadas da Arabia. Mas não passavam d'estes resfolegos os frades.</p>
+
+<p>A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos fidalgos.
+Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, <em>morceau
+friand</em>,&mdash;dizia o cavalheiro de Oliveira&mdash;que só aos grandes senhores
+competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante.</p>
+
+<p>D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se illaquear
+n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de ouro e
+pedras.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[7]</span>Quando se passou a Castella, a garrida
+comica levou trinta cavalgaduras carregadas de riquezas&mdash;diz Francisco Xavier
+de Oliveira&mdash;e acrescenta que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da
+pedraria que ostentou eram taes que as damas de primeira plana se morderam de
+inveja. (<i>OEuvres mêlées...</i> Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha
+continuou a enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a
+ternura. A final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a
+parte menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se
+capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo passo que
+o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos comediantes, e
+ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*      *</p>
+
+<p>Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos
+antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano Annio
+Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e
+cortezão&mdash;assevera Francisco Xavier de Oliveira.&mdash;D. João V dava-lhe uma
+pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina
+tempera velados pelos reposteiros <span class="pagenum">[8]</span>heraldicos.
+Tinha espiritos levantados como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto
+engodava os fidalgos com as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a
+boa philosophia, a boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E
+assim viveu e medrou longos annos em Lisboa.</p>
+
+<p>Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e
+algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada dançarina;
+mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra, quanto ao appellido,
+deixou em Portugal memorias dignas de romance de grande fôlego.</p>
+
+<p>Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro,
+justiçado como regicida em 1758.</p>
+
+<p>Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados; e,
+deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade
+matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.</p>
+
+<p>Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o
+descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a instar
+com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da ordem de Santo
+Agostinho.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[9]</span>E professou.</p>
+
+<p>O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como
+mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D.
+Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que tragico
+destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo da
+libertinagem, com cabellos brancos.</p>
+
+<p>E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias, instillando-lhe
+no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral.</p>
+
+<p>O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao
+paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos
+quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa Monica.
+</p>
+
+<p>&mdash;Vês tu quanto te amo?&mdash;disse o marquez&mdash;dei-te a preferencia, entre ti e
+o rei.</p>
+
+<p>&mdash;Se fizesses outra cousa nunca mais me verias&mdash;replicou ella
+abespinhando-se.</p>
+
+<p>&mdash;Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!...</p>
+
+<p>&mdash;O teu dever é esse... <i>Antes que todo es mi dama</i>, diz Calderon de
+la Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco
+amor me tens.</p>
+
+<p><i>J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul
+mot de ma façon</i>, <span class="pagenum">[10]</span>diz o cavalheiro de
+Oliveira, (<i>OEuvres mêlées</i>, t. 3.º p. 34).</p>
+
+<p>Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má
+digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns
+merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim da
+Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira alguma
+cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de Oliveira
+conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o velho marquez á
+cova:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o
+Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a, e
+conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella quanto
+cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz monastica tudo que
+mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa, o respeito paternal, o
+affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos, socego, interesses, em fim,
+a propria vida que expoz em muitos lances á vingança do marquez, cujo
+respeito benemerito soffreu muitos desfalques de encontro á coragem intrepida
+de Noronha... Era elle, <span class="pagenum">[11]</span>porém, o possessor
+unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas vezes projectou
+matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o aggrediram: felizmente
+repulsamos os assassinos. A final, o marquez, authorisado pelo rei, logrou
+encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve nove mezes; e com muita
+difficuldade obteve soltura depois da morte do marquez. Fr. Gaspar, tio
+d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto pôde por demorar tão injusta
+prisão, vingando d'est'arte os manes do marquez, seu sobrinho.» (<i>Obra
+cit.</i>, pag. 34 e 35).</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões
+atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a
+sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e escudam
+com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, <i>maus bichos os comem</i>,
+como disse o Sá de Miranda.</p>
+
+<p>Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra,
+d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto conde
+de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no dia 9 de
+março de 1723.</p>
+
+<p>O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a
+Valentim de Noronha o <span class="pagenum">[12]</span>retrato que lhe elle
+dera engastado em moldura de brilhantes... <i>Il me fit voir</i> (diz o amigo
+de Noronha) <i>entre ses propres mains ce même portrait du marquis, le même
+jour qu'il en avail fait présent à son infidele Gamarra.</i></p>
+
+<p>Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a preceito,
+<i>mieux que personne</i>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era
+moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em todos
+os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava igualmente
+o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente estima. Se amou
+rasgadamente alguem, foi Noronha.» (<i>Obra cit.</i>, pag. 35).</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir
+do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada oppoz-se.
+Mandou chamar o marido, que ainda não era frade. Communicou-lhe o proposito
+de se declarar casada e passar-se ao dominio de seu homem, como era de
+justiça. O marido sondou a profundidade do seu direito e a profundeza do
+peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao patriarcha Santo Agostinho.
+Sahiu-lhe a igreja <span class="pagenum">[13]</span>com embargos á annullação
+dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com o
+marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao marido,
+isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro, metteu-se em
+Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de Madrid. (<i>Obra
+cit.</i>, pag. 33, nota <i>A</i>).</p>
+
+<p>Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar
+como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro
+visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a quem o
+rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o nome de
+<i>carvoeiro da Rosa</i>. Ao proposito d'esta perigosa cigana, escreve o
+tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da
+astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos
+desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu
+enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos. Este
+pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo. Induziu ella um
+galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o desgraçado; <span
+class="pagenum">[14]</span>foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.»
+(<i>Obra cit.</i>, pag. 66).</p>
+
+<p>O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de
+cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram pela
+catastrophe da forca.</p>
+
+<p>Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida
+do Monte contra o desembargador aguazil do <i>carvoeiro</i>. Diziam assim:
+</p>
+
+<div class="poesia">
+Oh! descahido te vejam<br>
+Estes olhos peccadores:<br>
+Arrastado e perseguido<br>
+Já que perco os meus amores.<br>
+<br>
+Todas nós, as freiras juntas<br>
+Te havemos de praguejar<br>
+Pois por caber com el-rei<br>
+Nos vaes desacreditar!<br>
+<br>
+Justiça de Deus te cáia,<br>
+E com todo o seu poder;<br>
+Na bocca de um bacamarte<br>
+Te vejamos padecer.<br>
+<br>
+Homem, deixa-nos viver,<br>
+Não sejas tão turbulento;<br>
+Deixa divertir as tristes<br>
+Que não sahem do convento.<br>
+<br>
+Etc.<br>
+</div>
+
+<p>Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII,
+perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[15]</span>&mdash;Que livros?</p>
+
+<p>&mdash;A <i>Historia do theatro portuguez</i>, onde elle conta pouco mais ou
+menos essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do
+actor hespanhol Antonio Ruiz.</p>
+
+<p>Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio. Abri
+a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como o leitor
+vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a culpa,
+confrontando o original e o plagiato.</p>
+
+<div class="celula">
+<p class="centrado">ELLE</p>
+
+<p class="centrado"><span class="small-caps">(em 1871)</span></p>
+
+<p><i>Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos annos no
+theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e
+palaciano.</i> Era homem de bem tanto ás direitas como actor de merito. <i>Do
+seu</i> porte <i>honrado</i> redundou-lhe <i>uma pensão annual de cento e
+vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da
+nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez
+idolatrar.</i></p>
+
+<p class="centrado"><span class="small-caps">Hist. do theatro port.</span>
+</p>
+</div>
+
+<div class="celula">
+<p class="centrado">EU</p>
+
+<p class="centrado"><span class="small-caps">(em 1866)</span></p>
+
+<p><i>Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos annos
+no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e
+palaciano.</i> Era tão homem de bem quanto actor de merecimento. <i>Do
+seu</i> proceder <i>honrado</i> resultou-lhe <i>uma pensão annual de cento e
+vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da
+nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez
+idolatrar.</i></p>
+
+<p class="centrado"><span class="small-caps">O judeu</span> (romance).</p>
+</div>
+
+<p><span class="pagenum">[16]</span>Quem, primeiro que elle e eu, dissera
+isto em francez foi Francisco Xavier de Oliveira, em um livro que
+provavelmente o snr. Theophilo nunca viu; mas adivinhou-o, e eu copiei
+d'elle. Porém, no acto da copia, deslisei da versão do professor de
+litteratura em tres pontos. 1.º Elle escreveu em 1871: <i>Era homem de bem
+tanto ás direitas como auctor de merito</i>; e eu escrevi em 1866: <i>Era tão
+homem de bem quanto author de merecimento.</i> E o cavalheiro de Oliveira
+tinha escripto: <i>Il étoit aussi homme de bien qu'il etoit Acteur de
+mérite.</i> O <i>tanto ás direitas</i> do snr. Theophilo é uma perola de
+estylo de que eu não quiz defraudal-o nem <i>ás tortas</i>. 2.º ponto: Elle
+disse: <i>do seu porte honrado</i>. E eu, gafando a phrase de francezia, puz
+<i>proceder</i> em lugar de <i>porte</i>. Foi ignorancia que me pesa como
+<i>porte</i> ou carreto; mas ainda me fica <i>porte</i> ou capacidade para
+mais toneladas de materia bruta com que me quero dar <i>porte</i> ou
+importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando em 1866 eu copiava o que
+o doutor escrevia em 1871: Elle pôz <i>redundou-lhe</i>, e eu
+<i>resultou-lhe</i>. Do feitio que elle escreveu a idéa fica mais aceada. Na
+nova edição do <i>Judeu</i> hei de apanhar-lhe o <i>redundou-lhe</i> que é
+bom.</p>
+
+<p>No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes lhe
+armei a sancadilha <span class="pagenum">[17]</span>de chamar Antonio
+<i>Rodrigues</i> ao actor hespanhol que nunca foi <i>Rodrigues</i>; mas sim
+<i>Ruiz</i>. Faz-se mister sestro de muito mentir para enganar um homem, de
+quem se copía o engano cinco annos depois! Parece enguiço! O cavalheiro de
+Oliveira escreveu <i>Ruiz</i>. Cuidei que era abreviatura de
+<i>Rodrigues</i>, e lá vai a peta de recochête lograr o doutor que m'a
+encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me desenganou foi o
+poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor como e quando, se é
+que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do doutor Theophilo.</p>
+
+<p>Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em
+casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto
+d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes
+decimas:</p>
+
+<div class="poesia">
+Victor! já chegou a gente<br>
+de Madrid, tão esperada,<br>
+e já foi agasalhada<br>
+do seu superintendente.<br>
+Este padre impertinente<br>
+se intitula em Portugal<br>
+Dom Hieronomio de tal,<br>
+e <span class="ni">Cancer</span> tambem seria,<br>
+pois á sua enfermaria<br>
+puxa as damas do hospital.<br>
+<span class="pagenum">[18]</span>Porém, viva o tal padrinho!<br>
+só a taes afilhadas chega;<br>
+que á Undarro, e á gallega<br>
+abençôa o seu carinho.<br>
+E baptisa de caminho<br>
+com fé pia e fervorosa<br>
+a dama em flôr magestosa,<br>
+confirmada no primor;<br>
+porém, se a Undarro é flôr<br>
+tombem a gallega é Rosa.<br>
+<br>
+..............................<br>
+..............................<br>
+<br>
+Com que já por uma vez,<br>
+temos boa companhia,<br>
+graças ao nosso Atouguia<br>
+que tal companhia fez,<br>
+Em fim, já chegou Garcez,<sup><a href="#fn1" name="mfn1">1</a></sup><br>
+galan de primeira classe,<br>
+que eu não cuidei que chegasse;<br>
+e já muita gente diz<br>
+que morreu Antonio Ruiz;<br>
+mas <span class="ni">requiescat in pace</span>.<br>
+<br>
+<span class="ni" style="margin-left: 4em;">Amen.</span><br>
+</div>
+
+<p>Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de
+traductor de um livro <span class="pagenum">[19]</span>que nunca viu. E agora
+vem de molde penitenciar-me d'um insolente repto que escrevi ha dous annos
+por occasião de recommendar certo livro escripto portuguezmente:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio dos
+sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues!
+Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna letrada
+do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as suas cousas
+originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua ignorancia dos
+idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar com linguas
+teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas fallava mouro. O seu
+forragear no francez era um justo despique dos latrocinios que elles cá nos
+fizeram em 1808. Se os não citava, tambem elles lá não disseram cujas eram as
+patenas e os calices de ouro que nos arrebanharam nas igrejas. Retaliação
+justa.</p>
+
+<p>«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo,
+não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco <span
+class="pagenum">[20]</span>a ensinar a mocidade, sustenta creditos de
+original, affirmados e cimentados na singularidade bordalenga com que
+transpõe idéas peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto,
+coxas, esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados
+d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas
+desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre
+sobrepuja o phosphoro.</p>
+
+<p>«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas
+para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a
+furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a flecha. Ai
+do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim!</p>
+
+<p>«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações
+atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E prometto
+lembrar-lh'as.</p>
+
+<p>«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas
+negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de viver
+tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais intelligente e
+manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo que, lá ao diante,
+se saiba quo morri na <span class="pagenum">[21]</span>desconfiança de que o
+snr. Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os
+applausos do gentio lôrpa.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui
+apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me capaz
+de copiar de toda a gente.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*      *</p>
+
+<p>Agora, direi da Zamperini.</p>
+
+<p>Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das
+forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos documentos
+levaram da sensibilidade do peito lusitano.</p>
+
+<p>Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em
+quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro para
+pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um systema que não
+é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela mensalidade,
+metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de espectaculo, concediam-lhe a
+lucidez necessaria para cantar de graça. Iam então dous quadrilheiros
+trazêl-o da enfermaria dos orates em direitura ao camarim. O tenor vestia-se,
+<span class="pagenum">[22]</span>e era escoltado até ao palco. Ahi, desatava
+o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um desafogo de injurias
+rimadas aos emprezarios. O povo trovejava gargalhadas, e o improvisador,
+aquecido pelos applausos, sarjava a epiderme d'aquelles originaes patifes
+que, no fim da opera, o devolviam ao seu cubiculo no hospital de S. José.</p>
+
+<p>Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I,
+condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres illustres que
+capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei nem o grande
+ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras, filho do marquez de
+Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.</p>
+
+<p>Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no
+holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise da
+logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos capitalistas.
+Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por ordem do ministro.</p>
+
+<p>Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura,
+figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma banca;
+e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:</p>
+
+<blockquote>
+ <span class="pagenum">[23]</span>Prenez, belle et charmante coquette,
+ prenes tout,<br>
+ puis que vous êtes dans un país de fous. </blockquote>
+
+<p>Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que
+ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe
+beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em
+inglez:</p>
+
+<blockquote>
+ The true property of an englishman<br>
+ T'is to pay and despise.........<sup><a name="L6313" id="L6313"
+ href="#L6315">2</a></sup></blockquote>
+
+<p>E mais abaixo:</p>
+
+<blockquote>
+ Mylord, dont kiss her hand,<br>
+ Because she has no face,<br>
+ But kiss her... her... her...<br>
+ Kiss her elsewhere<sup><a name="L6317" id="L6317"
+href="#L6319">3</a></sup></blockquote>
+
+<p>Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que
+figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos:</p>
+
+<blockquote>
+ A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime;<br>
+ allons, prenez l'exemple, et vous serez de même.</blockquote>
+
+<p>Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça <span
+class="pagenum">[24]</span>mette a bolsa na algibeira, e dá visos de
+safar-se, com estes versos:</p>
+
+<blockquote>
+ Lasciate agli altri, amico, la campagna,<br>
+ questa sol con quatrini si guadagna.</blockquote>
+
+<p>A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode á
+cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra:</p>
+
+<div class="poesia">
+Macedo, não te cances,<br>
+Pois os gostos são diversos;<br>
+Zamperini estima o ouro,<br>
+E nada entende de versos. </div>
+
+<p>E assim termina a relamboria semsaboria.</p>
+
+<p>Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla
+nota de Verdier <em>Hyssope</em>. Os netos dos sujeitos que a opulentaram,
+hoje em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras
+glaciaes em ternuras de camarins.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#mfn1" name="fn1">1</a></sup> O snr. Theophilo a pag. 151 e
+152 do tom. 3.º do seu <i>Theatro portuguez</i> desmente o Pinto Brandão,
+dizendo que o <i>Garcez não veio</i>. O doutor, 141 annos depois, estava mais
+em dia que o poeta, redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo.
+Theophilo é unico!</p>
+
+<p><sup><a name="L6315" id="L6315" href="#L6313">2</a></sup> O que bem
+caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar.</p>
+
+<p><sup><a name="L6319" id="L6319" href="#L6317">3</a></sup> Mylord, talvez
+vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a mão, etc.</p>
+</div>
+<hr>
+<a name="cap02"></a>
+
+<h1>ENTRADA PARA OS SALÕES</h1>
+
+<p><span class="pagenum">[25]</span>Eu não contava com a gloria e o
+contentamento de estampar nas <em>Noites de insomnia</em> o livro completo de
+physiologia social, intitulado&mdash;<span class="small-caps">os salões</span>.</p>
+
+<p>Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde
+tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra.</p>
+
+<p>Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão
+benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença de
+1:000 subscriptores.</p>
+
+<p>E, pois que a publicação dos <span class="small-caps">salões</span>
+principiou aqui desacompanhada da introducção indispensavel ao complexo dos
+capitulos, forçoso é que se interponha o soberbo peristylo por onde o leitor
+mais de grado irá ao entendimento dos trechos que já leu e dos outros que
+advierem.</p>
+
+<p>Este livro dos <span class="small-caps">salões</span> será a porção mais
+para durar e sobreviver ás futilidades das <em>Noites de insomnia</em>. O
+visconde de Ouguella, ainda em annos florentes e vigorosos, póde dizer com o
+velho e experimentado Rousseau: <em>Je sens mon coeur et je connais les
+hommes</em>. <span class="pagenum">[26]</span>O seu livro esplende os
+lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas e pungentes
+ironias de Proudhon&mdash;aquelle vidente que Deus mandou apregoar a prophecia da
+destruição debaixo dos muros da segunda Jerusalem derruida.</p>
+
+<p>A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente <span
+class="small-caps">os salões,</span> apparece-nos ahi sem a venda gentilica,
+vê pelos olhos da historia&mdash;a Fatalidade inflexa&mdash;; e emerge á flôr d'estes
+parceis, que nos atormentam, as evoluções da Providencia.</p>
+
+<p>Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O
+melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma
+balbuciação em linguagem nova.</p>
+
+<p>A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de
+Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de
+Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes em que
+o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não se compadece
+com uns corações que nasceram velhos.</p>
+
+<p>Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do
+passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos <span
+class="pagenum">[27]</span>cultos pouco ha que ensinar, logo que esses nos
+admoestam superciliosamente que moralisemos as <em>massas</em>. Mas sejamos
+todos <em>massas</em> em quanto o povo&mdash;a arraia das hortas e das galerias
+parlamentares&mdash;desconfiar que lhe desce do alto o exemplo que a dissolve e
+acanalha.</p>
+
+<p>O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á
+feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em <em>palavras de
+crente</em>, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay.
+Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se alguma
+hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a infamia
+assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho José Freire.
+Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das casernas e reverberam
+nos gladios dos Quichotes que constituem os reis seus Pansas.</p>
+
+<p>E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras da
+Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos <span
+class="small-caps">salões</span>, e peço ao visconde de Ouguella que nos
+relate como foi que um providencial acerto lhe deparou o manuscripto do
+desembargador.</p>
+<hr>
+
+<a name="cap03"></a>
+
+<h1>OS SALÕES</h1>
+
+<h2>INTRODUCÇÃO</h2>
+
+<div class="citacao">
+<p>... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir pour le
+plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière sous le ténébreux
+manteau de l'océan.</p>
+
+<p style="text-align:right;">THEOPHILE GAUTIER.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pagenum">[28]</span>Era um dia esplendido de inverno n'este
+ignoto canto do occidente. Abri o Almanach da agencia primitiva de annuncios,
+e a paginas dez encontrei o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do
+hospital de S. José.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o
+espirito.</p>
+
+<p>Resolvi ir á feira da Ladra.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[29]</span>Ás terças feiras, assemelha-se o campo de
+Sant'Anna a um bazar africano, na selvagem e cynica disposição dos objectos
+que constituem o mercado.</p>
+
+<p>Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada
+passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das
+inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e sumptuosos
+caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, aprendem-se nas <em>Mil
+e uma noites</em>, adivinham-se nas chronicas dos nossos navegadores,
+estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das casas antiquissimas e
+esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um mytho. Para nós&mdash;pobre
+povo&mdash;empurrado para as vagas espumosas do oceano, pelas civilisações que se
+apossaram da Europa, e que nos varrem sem piedade nem dôr para a Africa
+carthagineza, como se nós foramos os numidas das lendas romanas ou os ferozes
+kabylas das raizes do Atlas.</p>
+
+<p>E o que somos nós? Deus o sabe.</p>
+
+<p>Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico,
+devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente
+constitucional, e essencialmente ignorante <span
+class="pagenum">[30]</span>n'estas lutas, que despedaçam thronos e proclamam
+republicas.</p>
+
+<p>«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, n'um
+proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das raças e
+linguas orientaes.</p>
+
+<p>As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa
+grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que
+afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das
+escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A
+<em>graça</em>, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz
+para apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de
+reminiscencias tão pagãs.</p>
+
+<p>E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente
+reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da corôa,
+tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.</p>
+
+<p>Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal francez,
+tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal artigo&mdash;esculpido
+hoje nos bronzes da historia&mdash;com esta phrase singela e prophetica: <em>Pobre
+França, pobre rei!</em>...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[31]</span>Se eu dissera aqui: <em>pobre</em>
+Portugal!&mdash;Não digo.</p>
+
+<p>Entrei na feira da Ladra.</p>
+
+<p>Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna,
+levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais ou
+menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.</p>
+
+<p>Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua
+tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo buxo,
+caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das possessões
+indo-britannicas.</p>
+
+<p>Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de
+pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os
+residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.</p>
+
+<p>Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»</p>
+</blockquote>
+
+<p>Achava-me em presença do inventario de uma capital.</p>
+
+<p>Examinei:</p>
+
+<p>Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente <span
+class="pagenum">[32]</span>contornado nas fórmas elegantes do reinado de Luiz
+XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina de faiança, que fôra a ultima
+aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um sacrificio a Diana, em biscuit de
+Saxe, tombado sobre a espora de prateleira, que fôra triste legado do ultimo
+marquez de Marialva. Mais longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de
+<em>parvenu</em>, um saleiro da modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os
+fragmentos de um vaso etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e
+concertos com que o expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de
+Veneza, onde os amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o
+vidro, por mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de
+verdura e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em
+prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos devaneios da
+côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos delirios asceticos do
+mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro do mais antigo Saxe,
+levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de boninas e amores perfeitos,
+recordava, na suavidade das fórmas e no primor das folhagens, as creações
+elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um prato esmaltado da mais diaphana e
+transparente porcelana do Japão equilibrava-se <span
+class="pagenum">[33]</span>sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se
+traduzia a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos
+embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, com
+os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.</p>
+
+<p>Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras
+quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados de
+varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a óleo, em
+vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, no estylo
+classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um candieiro de
+latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da lampada a cuja luz
+Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de direito criminal. Após estes
+primores archeologicos desenrolava-se uma fileira incommensuravel de botinas,
+sapatos, babuches, chinelas, tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam
+n'uma extensa linha, talvez a ultima illusão dos seus possuidores. <em>Sic
+transit gloria mundi</em>, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos
+carros dourados dos triumphadores romanos.</p>
+
+<p>Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do
+atheniense Sophocles até <span class="pagenum">[34]</span>ao sóco plebeu da
+comedia vulgar, onde se expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este
+bazar immenso das gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes,
+semi-deuses e proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de
+todas as civilisações.</p>
+
+<p>Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente
+lustrosa&mdash;despojo venerando de algum desembargador da casa da supplicação, de
+par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã mais desenvolta e
+elegante. Por entre colchas da India, recamadas de lentejoulas, esmaltadas em
+mosaicos de fios de ouro, entretecidos em variados matizes, lençoes de
+Bretanha, finissimos, arrendados em arabescos nas orlas das cabeceiras,
+columnas de carvalho do norte, abertas a buril, em que pousavam passaros
+esculpidos sobre pampanos e hastes de videira, no meio de fragmentos de
+apparatosos biombos de charão escarlate da phantastica China, onde aves e
+dragões dourados surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do
+artista, através de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando
+todas as côres do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e
+envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador de
+Boule, moldado em tartaruga, <span class="pagenum">[35]</span>envolto em
+festões de grinaldas de cobre dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e
+arremedando, na ousadia do desenho e na elegancia e recortes das folhas de
+metal, as sublimes inspirações de Benvenuto Cellini.</p>
+
+<p>Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no
+seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras,
+formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever por
+uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e ia
+perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada por uma
+serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor inexcedivel. Pareceu-me
+dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. Envolvia-se n'um cafran ou
+burnus&mdash;uma especie de farrapo de panno, que lhe cingia o tronco, deixando
+solta a cabeça, que apparecia envolta n'um lenço asqueroso, injuriado pelo
+tempo, e que emmoldurava dous olhos negros scintillantes e vivos, n'uma
+physionomia baça e livida, como um pedaço de cera amollecido entre os
+dedos.</p>
+
+<p>Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do despertar
+d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um movel, que se
+arrasta, uns sons roucos e gutturaes, <span class="pagenum">[36]</span>na
+melopéa arabe, uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das
+pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação feita
+ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!</p>
+
+<p>A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas
+allucinações e devaneios acusticos.</p>
+
+<p>Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?</p>
+
+<p>A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre os
+farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas phrases, que
+não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, algum preito a
+Satanaz,&mdash;e depois accentuou em voz clara e cadenciada as seguintes
+palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Dê-me dez libras, e leva-o de graça.</p>
+
+<p>&mdash;E a chave?</p>
+
+<p>&mdash;A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. São
+comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O desembargador
+João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito nos ultimos annos
+da sua vida.</p>
+
+<p>&mdash;Conheceu-o?</p>
+
+<p>A velha sorriu-se.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[37]</span>A ironia d'este sorriso tinha não sei que
+reflexo dos lampejos do fogo infernal.</p>
+
+<p>&mdash;Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em
+Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu vendo os
+moveis para comer.</p>
+
+<p>Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta
+amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua curta
+narração.</p>
+
+<p>Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou
+as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa como
+um mysterio.</p>
+
+<p>Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei
+nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:</p>
+
+<p style="text-align:center;">AO LEITOR</p>
+
+<p>Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. Considerei,
+examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu tempo. Vou
+debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes elles se teem
+mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, que não é a minha.
+Onde bastar o esboço abandonarei <span class="pagenum">[38]</span>a palheta,
+e usarei do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais
+vasto horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não
+tenho pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth,
+nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de
+Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de Murillo e
+o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes nossos Mirabeaus,
+Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, Favres e Marats hei de
+pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de enroupal-as, nas vestiduras do nosso
+seculo, e hei de com ellas e só com ellas povoar</p>
+
+<p style="text-align:center;">OS SALÕES</p>
+
+<p>Segue-se o livro.</p>
+
+<p>Vou publical-o.</p>
+
+<p style="text-align:right;">VISCONDE DE OUGUELLA.</p>
+<hr>
+
+<a name="cap04"></a>
+
+<h1>ECCE ITERUM «SILVA» CRÍSPINUS</h1>
+<span class="pagenum">[39]</span>
+
+<p>Escreve elle no n.º 69 da <em>Actualidade</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Publicou-se o n.º 17 da <em>Tribuna</em>. Insere artigos e versos dos
+snrs. Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece
+dos numeros <em>ulteriores</em>.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Ulterior</em> quer dizer <em>que vem depois</em>, ou <em>que tem data
+posterior</em>.</p>
+
+<p>Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou <em>ulterior</em> ao
+n.º 18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o <em>depois</em> está
+primeiro que <em>antes</em>, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem
+primeiro que os seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.<sup>os</sup> 18,
+19, etc., da <em>Tribuna</em> promettiam ser iguaes aos seus precedentes,
+escreveria: «Tudo nos assegura que os numeros, que hão de sahir
+anteriormente, serão dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.»</p>
+
+<p>Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores <span
+class="pagenum">[40]</span>e ulteriores furunculos de aposthema intellectual,
+proponho á academia real das sciencias este snr. Silva... para varredor.</p>
+<hr>
+
+<a name="cap05"></a>
+
+<h1>SANTOS-SILVA</h1>
+
+<p>Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e os
+sete orphãos do egregio orador!</p>
+
+<p>Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos
+filhos!</p>
+
+<p>Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de
+Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a pobreza,
+ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos banhados das
+ultimas lagrimas de seu pai.</p>
+
+<p>Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto da
+misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.</p>
+
+<p>João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito
+imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado <span
+class="pagenum">[41]</span>grupo de crianças que punham as mãos&mdash;expressão
+unica das agonias inexprimiveis.</p>
+
+<p>A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do
+Altissimo.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*      *</p>
+
+<p>Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus discursos
+como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e energico
+orador parlamentar.</p>
+
+<p>Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei nem
+entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o meditativamente,
+sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os seus adversarios, a
+julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria, pareciam-me grandes, como os
+de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram, o orador magnanimo deu-lhes a
+honra de o inspirarem.</p>
+
+<p>Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo
+honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos lhe
+fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome iria
+ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo adeus.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[42]</span>E, quando eu lhe fallava de meus filhos
+com o coração cheio das presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle
+que lhes seria protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis
+criancinhas.</p>
+
+<p>Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!...</p>
+
+<p>Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem filhos?
+E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia de
+Santos-Silva?</p>
+
+<p>Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa
+duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã
+consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a tambem
+estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos. Dos
+desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma regra
+que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral. Nada ha mais
+falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente faz do seu estado,
+pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da sua molestia. Os
+proprios medicos <span class="pagenum">[43]</span> são os que, n'este ponto,
+mais se enganam, por que são os que mais exageram.</p>
+
+<p>«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não descure
+restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento hygienico,
+analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe regularise qualquer
+desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito, ou o levante de qualquer
+ligeira prostração. Creia tambem na sua idade, e na força medicatriz da
+natureza, que, quando é bem dirigida e auxiliada por um medico prudente e
+habil, faz milagres.</p>
+
+<p>«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de um
+pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as mais
+vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem sel-o. De
+todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma, e mais me
+angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em infortunios sobre a
+orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus esqueceu na hora em que
+encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do santo amor de seus filhos.</p>
+
+<p>«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que
+os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei <span
+class="pagenum">[44]</span>aos meus. Repartirei com elles o meu prestimo, se
+então o tiver. Estas palavras não são só de consolação: são compromissos
+solemnes, que espero não desmentir.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus
+antecessores.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que
+Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a vida
+de seus filhos.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina,
+posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias proprias
+que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus, quando sentiu na
+garganta a constricção da asphyxia.</p>
+
+<p>O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella
+alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: <em>A
+posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus
+antecessores</em>.</p>
+
+<p>Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete
+filhos.</p>
+<hr>
+
+<a name="cap06"></a>
+
+<h1>DOUDO ILLUSTRE</h1>
+
+<p><span class="pagenum">[45]</span>O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José
+de Sousa Magalhães, doutor em canones, jurisconsulto eminente, orador
+esclarecido tanto no magisterio universitario como no parlamento, ensandeceu
+em 1858, quando contava quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em
+Villa Pouca de Aguiar, na casa onde havia nascido.</p>
+
+<p>Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de
+provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D.
+Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do
+arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que
+denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta pugna
+um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e em variada
+litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do arcebispo, e
+contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por parte do
+patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo academico
+Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[46]</span>Como quer que fosse, o arcebispo de
+Mitylene perdeu na brava luta a razão; e, ao parecer de illustrados juizes da
+sua justiça, foi a iniquidade que matou o robusto athleta.</p>
+
+<p>Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a
+esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva condensação da
+escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica, absorta na contemplação
+estupida das lagrimas dos parentes e amigos.</p>
+
+<p>Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do
+delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze annos,
+nas suas escuridões interiores.</p>
+
+<p>Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o
+taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua
+familia.</p>
+
+<p>Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de
+anno, mez e dia.</p>
+
+<p>Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de
+Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em
+jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com os
+dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que fôra um
+dos mais alumiados da sua época, admiraveis <span class="pagenum">[47]</span>
+lanços de linguagem, de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso!
+É que tambem nos delirios ha raptos de luminosas visões.</p>
+
+<p>Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu
+titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia.
+Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da
+desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas.</p>
+
+<p>Eis-aqui os titulos: <em>O gigante&mdash;Os privilegios da corôa dynastica&mdash;As
+cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito na
+universidade&mdash;A missão divina&mdash;A chronica real&mdash;Da santidade do
+direito&mdash;Cemiterio protestante&mdash;A tyrannia impossivel&mdash;O mesmo Senhor fez os
+seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia&mdash;O impassivel&mdash;O
+erro commum&mdash;Os tres fundadores&mdash;O cordeiro&mdash;A surpreza&mdash;O burrinho e o
+menino dos protestantes&mdash;O templo&mdash;O penhor e a hypotheca, ou o juro e a
+herdade&mdash;O titulo da realeza&mdash;O parocho&mdash;O demonio tentador&mdash;A espada de S.
+Bruno&mdash;O enigma&mdash;Mascara de ferro&mdash;O sonho&mdash;D. Maria Caraça Bonaparte ou a
+burrinha protestante&mdash;O viatico da eternidade&mdash;A estrella do norte ou a
+misericordia dos mares&mdash;A vacca&mdash;Apologo&mdash;A catastrophe</em>.</p>
+
+<p>Estes manuscriptos comprehendem sessenta <span
+class="pagenum">[48]</span>cadernos em folha. Em poder da familia do finado
+arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto de doze annos. Tirando
+ao acaso um de entre os cadernos cosidos com algodão verde e escarlate&mdash;para
+dar ao leitor a manifestação escripta de uma alma que esvoaça á volta dos
+residuos ainda bruxuleantes da sua razão&mdash;-aqui vai a</p>
+
+<a name="cap07"></a>
+
+<h1>CATASTROPHE</h1>
+
+<p>Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o
+titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua
+primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de toda
+a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias atrocissimas
+d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram bem conhecidas
+dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque não souberam, ou
+porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram ao successo o nome de
+«catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar o que era patente e
+publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e enredo occulto, nada
+explicaram na sua «anti-catastrophe», documento <span
+class="pagenum">[49]</span>mediano e mal traçado para o fim, e para o grande
+empenho da causa e da questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e
+degrada apoucando o assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e
+desviar a attenção do horror da catastrophe.</p>
+
+<p>Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta vergonhosa
+historia da usurpação; as suas monographias são como memorias de encommenda
+que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar algum erro ou para
+afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim da historia não curam
+nem tratam: porque a prevenção da historia é o erro, e com este rumo ninguem
+póde navegar nem progredir. Attribuem geralmente os protestantes aquelle
+sinistro ao partido cardinalicio de Roma, segundo o seu costume e petulante
+ousadia de calumniadores, que commetteu o delicto para o assoalhar e publicar
+por um lado attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro
+lado desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma
+imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso empenho
+confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é como a luz
+mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em toda a <span
+class="pagenum">[50]</span>parte onde estiver encerrado o homem pela maior
+tyrannia para alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme
+debaixo da lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto
+não revela o enigma da sua escura sepultura.</p>
+
+<p>A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da
+historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a boa
+critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e
+verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A Divina
+Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da injuria; o
+demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o facto
+permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes só no echo
+até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir no decurso dos
+seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e medonho ou funesto e
+assustador até para o demonio que o gera e produz. Sôa do orgão a tuba, e não
+é a mão do homem que fere a tecla, nem a musica e pensamento do seu
+compositor que produz a melodia. Devia o homem vêr no arcano a sciencia
+divina, que deu ao ar modulado pelo instrumento a euphonica sympathia <span
+class="pagenum">[51]</span>dos sons e o gentil devaneio do mais accorde
+accento.</p>
+
+<p>O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que
+julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito verdadeiro da
+sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo catholico; porque só
+n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos de maior vergonha apenas
+cabe a profana chula de tabernal comedia, e a ironia da musica. A arpa é
+instrumento real, a lira só a tange a poesia e a verdadeira inspiração que o
+Senhor concede ou nega ao cantor pelo moto da trova e pelo pensamento da sua
+religião e virtude. A historia verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e
+pedinte&mdash;eis o dilemma unico da sciencia, e o programma que o escriptor
+competente sempre encontra diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a
+que se propõe e persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do
+canto pelo sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as
+suas abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem
+possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa
+catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple do
+seu desenfado <span class="pagenum">[52]</span>sem sonhar com opiparo e
+somnolento banquete; e por isso todas as suas lôas acabam em comer.</p>
+
+<p>O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os homens
+do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e profissões só pelo
+benigno e precioso metal que auferem e adoram&mdash;e d'estes é sempre o maior
+numero; o actual enche de eunuchos todos os theatros e d'histriões a comedia
+d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco. Que mais diremos d'este reprobo e
+amphibio meteoro, senão que jámais deixa de se converter contra o inventor e
+mais obstinado sectario? o ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga,
+ou machina de pura digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho
+herdeiro dispor o cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos
+eunuchos sempre a mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem
+proletario.</p>
+
+<p>Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões para
+aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo ha de rir
+do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos, e fazer
+duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter necessidade de
+fugir da sua sanha, e sem accelerar <span class="pagenum">[53]</span>o passo
+do seu domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil
+e desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da
+sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e decifrai os
+signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do que as memorias
+que deviam retratar os seus pensamentos de historiador, e apenas contém a
+sombra da sua ignominia e proterva hediondez e peçonha.</p>
+
+<p>Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi synonymo
+de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o direito é dar
+pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é o mesmo que
+entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais desleal e
+traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido que póde
+formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a usurpação; os seus
+meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais desleal e machiavelica,
+e o perpetuo enredo do engano; o estribilho protestante, o punhal do
+forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega da patria perdida ao mais
+ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do demonio. A sua authoridade
+sempre falsa não impera, pactua em toda a parte com os maiores scelerados, e
+consegue fins mediocres e <span class="pagenum">[54]</span> resultados de
+dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina
+roubam-se uns aos outros.</p>
+
+<p>Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais
+negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas primeiramente o
+rei não pôde usurpar, nas provincias nem em Traz-os-Montes, em segundo lugar
+a usurpação veio toda a pertencer aos caudilhos, que o governaram e dominaram
+e á sua lei mental e miseravel recurso; que só pôde communicar a seu filho
+com o mais tetrico e deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor
+pela abominavel traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o
+cardeal romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o
+escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa de
+Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza faziam
+entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia real, que
+era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado deixava-se vencer, e
+cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado pelo melhor tabaco e café de
+Moca, e pelos prazeres reunidos do seu abominavel harem.</p>
+
+<p>A lei mental foi uma medida deficientissima <span
+class="pagenum">[55]</span> para o seu fim, mas prova até que ponto é
+verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O padre santo durante o
+interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens á casa de Bragança;&mdash;disse
+então a abominavel facção: entregar os bens é o mesmo que entregar a
+corôa;&mdash;e logo faziam um processo com grande numero de testemunhas para
+provar que não havia successor á corôa, e que D. João I por esta falta de
+successor fôra justamente acclamado. Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria
+protestante, que aitribuiam a João das Regras, e davam ao falso documento o
+cunho das côrtes de Coimbra, aonde não foi nem podia ser apresentada sem
+grande irrisão e escarneo de todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque
+de Bragança para desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os
+herejes e fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa
+fundar-se na apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é
+de um anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou,
+irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que usurpava os
+bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta figura só para
+desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os histriões do torpe
+magnetismo das façanhas da estrada <span class="pagenum">[56]</span>orçam
+pelo mesmo vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia
+proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa tyrannia.
+Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes serviços que
+fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr obeliscos devidos
+ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os francezes, foi para entregar e
+vender a patria e os penates, os templos e a sua santidade, as mulheres e
+todo o verniz do rosto vil e infame do idolo das suas abjectas heresias e
+traições: se algum militar brioso e valente do exercito appareceu no Brazil
+foi vendido tres vezes, ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não
+assignava os mais falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos
+que preparavam e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do
+nosso exercito peninsular.</p>
+
+<p>Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da usurpação?
+porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos seculos
+modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao Senhor a
+menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente sombra de
+galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o rei gemeu na
+<span class="pagenum">[57]</span>sua escravidão de toda a vida, os
+usurpadores conspiraram, escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o
+principio Divino triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e
+não ha obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que
+calou na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do
+novilho.</p>
+
+<p>A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel, e
+deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar no
+decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido usurpador é como
+a familia dos flamengos e dos ciganos&mdash;prova e reprova todas gerações e
+partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas pela ultima arma do
+veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida estava como o condestavel
+atormentado pelos remorsos; este deixou os bens usurpados aos outros
+aventureiros, e pediu esmola á porta do convento com bastante industria e
+sagacidade; aquelle seria morto na mesma possilga em que vivia, se tentasse
+restituir a corôa; porque a verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos
+ministros da sua historica realeza.</p>
+
+<p>A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no
+banco dos réos, no <span class="pagenum">[58]</span>ultimo transe de vida, ou
+no meio da mais funesta desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe
+como o furacão através dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca
+as arvores com a sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e
+morreu;&mdash;quem estrangulou o monarcha? o processo começado das provas
+evidentes de testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são
+estes em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para
+descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os males
+da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em virtude de uma
+queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a dirigir ao
+cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia vergava debaixo do
+peso de invenciveis remorsos, mas que não podia entregar á casa de Bragança
+uma corôa sem entregar a vida aos seus tyrannos e crueis usurpadores, e
+algozes, e d'estes tirava o seu seguro e pedia desaggravo e redempção.</p>
+
+<p>D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção e
+um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança não
+contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da esterilidade.
+<span class="pagenum">[59]</span> O que D. Duarte pedia para os falsos
+donatarios, e verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de
+aleive e da calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as
+successões são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de
+familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo&mdash;o seu castigo providencial vai
+sendo identico da mesma catastrophe e represalia.</p>
+
+<p>Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a sua
+verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem a
+virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o horror das
+suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa mordacidade e
+peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de Diu, Barros e
+Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre Cesar das suas
+façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque temia mais a
+calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que tomava pela
+frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem estremecer do
+vulcão.</p>
+
+<p>Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta
+memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples<span
+class="pagenum">[60]</span> academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e
+acreditasse na Divina Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os
+herejes attribuem ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos
+recursos. Em regra, moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e
+pelo signal da sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior
+desprezo para fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe
+veniaga.</p>
+
+<p>D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque;
+todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e
+brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os dous
+primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos mesmos
+meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a excommunhão e o
+interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo desenlace, e a mesma
+reprovação e condemnação divina. O conde da Ericeira escreveu n'esta era a
+sua vergonhosa historia; o conde era verdadeiro sandeu; o author de «Portugal
+Restaurado» recebeu a falsa herança de uma casa; e trabalhoso no appetite
+fazendo do conde o fundo da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela
+astucia mais que diabolica de que se servia no<span
+class="pagenum">[61]</span> empenho. Apenas concluiu o seu trabalho, disse:
+Dai-me o premio;&mdash;e apenas se viu senhor do falso titulo e casa, disse:
+Dai-me o preço da obra;&mdash;e fez d'esta outra historia um thesouro para se
+enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João das Regras;
+porque a sua original possilga nunca se descobriu nem annunciou, e dizia-se
+que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao pé da feira da Ladra de uma
+mulher, que vendia a chanfana do açougue pelas portas de Lisboa, e que
+apregoava pelas ruas maior engano.</p>
+
+<p>Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de
+Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição em
+Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de sustentar
+a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar e sem horror o
+monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se recreava com o vil
+officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I principiou a considerar
+como proprios da corôa todos os bens da casa real de Bragança; D. João
+dispunha como duque e como senhor de todos os bens para imitar ou produzir a
+realeza e invicta memoria do senhor D. Manoel I. Esta questão tinha sido<span
+class="pagenum">[62]</span> tratada e muito debatida na primeira época; todos
+se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus bens como prova
+heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João professou o erro em
+Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de Calvino semelhante ao que
+foi expulso das Necessidades em nossos dias pelo clamor do povo e pela justa
+queixa da parte sensata e catholica do reino. Todos os herejes são
+monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu preito o juramento da loja que o
+falso rei presta ao veneravel, e se o rei tem o falso cargo jura como rei ao
+immediato sujeição e obediencia ás decisões maçonicas, e como são muitas as
+lojas, a cada passo se vê partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a
+sua monarchia pelas seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o
+vislumbre do poder.</p>
+
+<p>Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e brigantino
+de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é o dos bens da
+casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais feroz engano. As seitas
+e os corrilhos, que se formam das fezes de todos os partidos estrangeiros e
+execraveis contam como elemento uma vez que o lisonjeie e afoute para maior
+roubo e façanha da contribuição e da injuria<span class="pagenum">[63]</span>
+que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas todas sobem, e
+todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o que nos resta a
+provar para complemento da catastrophe e para sua prova real e exuberante.</p>
+
+<p>Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes
+recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns valentões,
+que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e não podia ser esta força
+angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o rei se fazia
+forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragança a cuja frente
+estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta difficuldade em
+conceder as redeas do governo ao presumido successor. Este conflicto nasceu e
+cresceu da mesma antiga causa de todas as discordias da usurpação, e pelo
+motivo da injuria que tinham feito á casa de Bragança e ao seu popular e
+heroico senhorio. D'esta vez o governo pontificio ainda não estava resolvido
+a ceder; não faria a menor concessão de reconhecimento sem a absoluta e total
+entrega dos bens de Bragança ou dos bens da corôa, e D. Affonso estava
+resolvido a todos os sacrificios, uma vez que achasse uma collocação em Roma
+e um modo de viver ou uma absolvição vantajosa para o seu arrumo e fim.<span
+class="pagenum">[64]</span> Esta deve ser a ambição do usurpador que nasce; o
+seu throno não offerece encantos, nem póde servir de balisa para a gloria
+verdadeira e santa que se embebe na felicidade do povo e no heroismo e
+façanha.</p>
+
+<p>N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que fosse
+tão corajoso e tão absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir ou sahir
+do reino para não soffrer a perda da liberdade; tentou o impossivel, e
+quebrou pela reconhecida prevaricação e má fé da nova e falsa casa de
+Bragança, que seu pai organisou em Lisboa como partido protestante para
+sustentar a negra e atroz usurpação: estes factos são innegaveis. O
+<em>Joannes à regulis</em> da primeira usurpação era um hereje estrangeiro
+semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. João IV tinha na sua
+côrte um ministro protestante da convenção de Cromwell, e todos os
+usurpadores dos bens da casa de Bragança deviam ser da mesma seita e falso
+cunho: D. Affonso VI abraçava a doutrina catholica, e, consoante os bons
+principios de direito, devia perder o titulo de rei; e, se em vez de casar em
+França, fosse ao reino ceder da corôa, lisonjearia o reino catholico, e podia
+obter a liberdade, que outro Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso
+conservou a corôa e por esta<span class="pagenum">[65]</span> razão o povo
+portuguez não podia ingerir-se na questão para defender o preso; D. Pedro,
+seu irmão, era nimiamente cruel, mas não temia o partido de seu irmão, porque
+não o tinha: D. Pedro tambem não tinha o partido da nação, e por isso
+affectava grande humanidade para com seu irmão, e grande respeito pelas
+côrtes, que sempre o repelliram e despeitaram amargamente.</p>
+
+<p>D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmão para o privar de
+todos os seus estados até o dar por demente e por impotente, aceitou a mesma
+mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de rainha, D. Pedro
+julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo de rei; e parecia
+logico que a deposição perpetua de Affonso o investisse na authoridade real,
+e o coroasse rei em vez de regente; o titulo de principe não lhe podia
+competir, nem o de infante, que pouco tempo depois começaram a usar por
+inaudita usurpação e roubo, e pelo mais atroz anachronismo os filhos segundos
+d'esta familia de D. João IV.</p>
+
+<p>Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragança D. João IV
+e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho segundo para
+prevenir a falta de successor pelo receio da morte do principe, e uma
+supposição<span class="pagenum">[66]</span> e um embuste indigno, ou um meio
+de que se servia a atroz calumnia da usurpação dos bens para tirar a D.
+Affonso VI o que lhe tinha ficado da casa de Bragança e para os dar ao seu
+predilecto: e por esta razão veio a D. Affonso o desejo de restituir, e
+occorreu á facção o pensamento de depôr o insensato. Assim manejou a perfida
+intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas as eras
+procura colher e alcançar o seu unico fim que é o roubo pela pertinaz heresia
+e pelo mais atroz engano e enredo.</p>
+
+<p>D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe negou
+o tratamento; as nações não cessavam de o responsabilisar pela vida do
+infeliz e proscripto; e já se julgava que fazia guardar como rei um homem
+estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez prender e
+reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do tumulto dos
+seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido d'aquella supposta
+revolução para declarar novamente como doudo o triste que se deixou cahir no
+laço. D. Pedro a cada passo reunia as côrtes do reino sempre na esperança de
+que o reconhecessem rei, mas jámais o conseguiu pela grande desaffeição e
+justo odio que tinha merecido e grangeado.<span
+class="pagenum">[67]</span></p>
+
+<p>A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se
+assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os bens
+de Bragança e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por almoxarifes que
+nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as terras juizes, e
+assalariava por todo o genero de engano os cobradores da falsa e aleivosa
+renda, e por esta fórma constituiu as suas instituições e morgados: o povo
+reagia contra a usurpação, mas o rei e o governo, o infante e os seus
+almoxarifes conspiravam, e apesar do odio do povo que não podia ser mais
+justo nem mais bem merecido colhiam e recolhiam do roubo grandes interesses e
+mortificavam o povo com exacções de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam
+do seu fim primordial e applicavam para outro de maior escandalo e
+torpeza.</p>
+
+<p>O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas
+jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a figurar por
+alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua mudança para a ilha
+é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam abaixo de toda a critica:
+D. Affonso VI não era admittido a escrever; o mesmo governo de D. Pedro
+fingiu ou suppôz as cartas para dar ao<span class="pagenum">[68]</span> preso
+a laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido se
+temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e como
+existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro. Com
+effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por morto na ilha
+para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D. Pedro em côrtes a
+pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que tomasse o titulo e o
+tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador hereje, e injusto
+possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com isto se houve por
+acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha realeza.</p>
+
+<p>Veio então a questão romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto aos
+bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do povo, uma
+vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança. O governo
+passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho e prova de sua
+torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e póde dizer-se que o
+escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida taberna, ou no ergastulo
+do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais indomita fera; por que estes
+reis sempre andaram presos, e a que<span class="pagenum">[69]</span> chamam
+casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e
+conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de julgar
+que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada individuo é
+obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para ficar doudo e bem
+sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus verdadeiros senhores e
+tyrannos.</p>
+
+<p>Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou de
+má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a lingua
+do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo pretenderam
+fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula, nem suscitaram
+as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o ingresso e a
+influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não ouvir verdades
+amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão inauditas usurpações e
+falsidades, e de tão grande subserviencia aos estrangeiros e a todos os
+inimigos da nossa fé e da nossa gloria e renome.</p>
+
+<p>João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um
+fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam entre
+nós; os seus dogmas proprios da mais<span class="pagenum">[70]</span> abjecta
+demagogia podiam apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas,
+dos Neros e dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes
+á lei regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os
+Tusculanos de Cicero e de sua Republica, só para a posteridade; e estaria em
+algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar e apparecer
+sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e eterno d'el-rei o
+snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades causam tedio e nojo.
+D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento de magestade, sem lhe
+competir e por heresia de infame e vil protestante. Agora dizem os
+apologistas da mesma seita que Portugal sempre foi protestante; mas não dizem
+como se retractou a viuva, nem diz como precisou a ignobil memoria de D. João
+IV de ser absolvida como contrita á hora da morte para ter sepultura de
+corpo.</p>
+
+<p>Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel
+cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa e
+por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o titulo ao
+mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava esta rosa
+d'ouro só para um rei ou imperador <span class="pagenum">[71]</span>que
+acontecia ser o que confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo;
+e jámais o pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por
+terem o mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como
+vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que não
+estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias, nem cansar
+o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons catholicos e fieis.
+Durante a usurpação sempre procuraram os herejes tomar lugar e assento, e á
+medida que fugia a fé da sua pureza invadiam as raças, e vinha o armenio e o
+judeu, o cigano e o protestante invadir as rendas e fazer monopolio das reaes
+para cultivar as massas e para dar pasto á luxuria dos maiores desvarios e
+ameaças. E seria só pela necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de
+tyrannia? É certo que o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas
+o principio de desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus
+antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas successões
+estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte e pensamento do
+desprezo da santa lei e fé.</p>
+
+<p>Outra sanha d'este abominavel systema foi <span
+class="pagenum">[72]</span>o impio tratado de Methuen cujos artigos secretos
+são da infame propaganda protestante que invadiu o reino por consentimento do
+falso e perfido governo, e se obrigava este com todos os usurpadores dos bens
+da santa casa de Bragança a seguir o falso preito, e a prestar homenagem
+secreta ao demonio e ao mais infame ministro de Calvino, que, segundo dizem,
+era monarchico, assim como Luthero era republico, e sophistico orador de
+comicios; e já os protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo:
+mas os seus superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da
+injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario, e no
+odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez com
+Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de heresia,
+cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da Bretanha e de
+Londres, como é sabido e se estendia por meio de ramificações secretas por
+toda a Europa, e bebia as falsas idéas da santa acclamação de D. João I. Esta
+seita ou partido foi inaugurado pelo mesmo demonio no tempo em que Juliano se
+fez truão e ridiculo para depôr o papa de sua soberana cadeira e para o
+entregar, como então se dizia ao mais desvanecido principe que havia de<span
+class="pagenum">[73]</span> surgir para governar o mando e para resuscitar os
+immortaes.</p>
+
+<p>Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas
+iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter
+verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e protestavam
+fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior astucia progrediam e
+illudiam sempre até o grau de maior engano, a este como simples mação,
+áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos mais adiantados como
+convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os maiores segredos dos outros
+graus, em quanto não obtinha os verdadeiros da maior abominação de seu
+secreto esconjuro.</p>
+
+<p>Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta
+revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz
+calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que nasce
+sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar dos que só
+podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do seu elemento;
+porque as claridades da sua existencia não o habilitavam para conviver no
+espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza,<span
+class="pagenum">[74]</span> e por isso o precipitam mais depressa para que
+conheça o que é e o que póde valer como energumeno. Alguem julga que o
+meteóro póde fazer-se cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou
+estrella sem que o Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita
+mais cedo este rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu
+catholico reinado e se lhe põe o nome de <em>mechas</em>, ou de <em>põe
+mais</em>...., mais adiante o fazem <em>José do nabo</em>, e o compellem a
+tomar novo Ditzy, ou a subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo
+do cadafalso: os inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela
+tyrannia do crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior
+attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os seus
+sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade de obedecer
+cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso. O sophisma é a
+apparencia da virtude; os que queimam no inferno o incenso podre ao demonio,
+são despojados da propria pelle, e victimas da nova crueldade dos
+monstros.</p>
+
+<p>Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos
+milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre<span
+class="pagenum">[75]</span> santo, se a sua tentação inclinasse a S. Pedro
+para a torpe venda, o demonio que fallava pela bocca do maldito teria
+conseguido o seu fim, ria do desventurado e cantava a sua victoria. Por esta
+razão S. Pedro condemnou o tentador com o triplice poder do seu divino amor e
+pareceu severo, mas foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e
+ostensivo, já era escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a
+humanidade para a sua ruina e perdição.</p>
+
+<p>A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro.
+Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos e sem
+o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais damnada chorêa
+da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter n'este mundo e no outro a
+mesma sorte&mdash;a catastrophe&mdash;e o mesmo exito e cruel engano.</p>
+<hr>
+
+<a name="cap08"></a>
+
+<h1>RENAN</h1>
+
+<p><span class="pagenum">[76]</span>O snr. Antonio Augusto Teixeira de
+Vasconcellos tratou com exemplar juizo e prudencia a questão da academia real
+das sciencias e Ernesto Renan. Estas linhas do <em>Jornal da Noite</em>
+compendiam todos os argumentos do esclarecido publicista: <em>Merecem
+respeito as convicções. Mas a consciencia dos outros é tão d'elles como a
+nossa, igualmente livre, de todo o ponto respeitavel.</em></p>
+
+<p>É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da
+<span class="small-caps">Republica</span>: <em>nós, que de
+tolerantes nos desvanecemos, somos intolerantissimos como frades</em>.</p>
+
+<p>O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica as
+diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão do author
+da <em>Vida de Jesus</em>. Os adaís da liberdade forjam golilhas de phrases
+para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia. Offendem e
+injuriam.</p>
+
+<p>O author do romance intitulado <em>Vida de Jesus</em> é malquisto dos seis
+academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o
+indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista
+indiscreto que enreda as <span class="pagenum">[77]</span>suas novellas com o
+sacratissimo nome de Jesus Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes
+um livro mui dilecto do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é
+motivo bastante a que as almas profundamente christãs se devotem á apotheose
+do depreciador de Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do
+romance nos descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do
+chaldeu.</p>
+
+<p>Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no ulterior
+protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia, mórmente quando,
+á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, declaram que
+estremam entre o author da <em>Vida de Jesus</em>, e o author da <em>Historia
+geral das linguas semitas</em>.</p>
+
+<p>Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que
+afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao
+coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um
+incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de
+Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de
+Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e receosos
+das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que Renan recebesse
+publicamente<span class="pagenum">[78]</span> em Portugal a consideração que
+o snr. Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que
+temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns
+escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de
+civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente.</p>
+<hr>
+
+<a name="cap09"></a>
+
+<h1>CORRECÇÕES</h1>
+
+<p>Convém fazer algumas ao artigo <em>O Decepado</em> (n.º 4, pag. 71).
+Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á gratidão o
+contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas tão remotas e
+alheias das <em>novissimas</em> charadas, das <em>capitações</em>, do
+<em>don-juanismo</em> e dos bancos.</p>
+
+<p>Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e,
+se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o appellido
+que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que levante turbilhões
+de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal. Eis a carta do snr. J. F.
+Torres:</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p><span class="pagenum">[79]</span>«Deliciei-me com a leitura das veridicas
+noticias historicas do meu conterraneo Duarte d'Almeida, <em>o Decepado</em>.
+Ora, v. incansavel em revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em
+tão gloriosa e ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o
+arrojo de lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a
+verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu author.</p>
+
+<p>«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de
+Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella<a
+name="L2213" id="L2213" href="#L2218"><sup>4</sup></a>; mas sim um castello
+ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado demolir pelo fallecido
+procurador da casa Penalva, Martinho do Banho, para com a pedra mandar fazer
+escadas e outras toscas obras que conduzem á capellinha de Santo Amaro,
+pertenças da mesma casa Penalva. Existe outro igual monumento no lugar de
+Bandavizes, freguezia de Fataunços.</p>
+
+<p>«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia ter
+sido uma vivenda ostentosa, <span class="pagenum">[80]</span>como se vê do
+que ainda hoje existe, pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa
+d'Oliveira.</p>
+
+<p>«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada alli
+existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil<a name="L2278"
+id="L2278" href="#L2292"><sup>5</sup></a>. Ha porém na villa uma elegante
+capella do santo, onde se celebra missa todas as segundas feiras; e onde se
+conserva a pia em que se baptisou o santo; e bem assim o queixo inferior do
+mesmo, reliquia muito venerada pelos habitantes da villa. O corpo, como v.
+sabe, jaz enterrado em S. Francisco de Santarem.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como
+fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: <em>A exc.<sup>ma</sup>
+madrasta d'el-rei D. Luiz I calumniada</em>.</p>
+
+<p>O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro
+opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus
+admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais eloquente
+de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra biblica.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[81]</span>João de Deus, o excellente poeta, cantava
+d'est'arte, ha 15 annos, em Coimbra o dadivoso prestigiador:</p>
+
+<div class="poesia">
+Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo<br>
+Nos prodigios da milagrosa vara<br>
+        Que o Senhor Deus te deu:<br>
+Teu coração, Moysés do christianismo,<br>
+Tua alma é que eu admiro, e te invejára,<br>
+        Se o que é teu fosse teu.</div>
+
+<p>Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus, que
+tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava a varinha
+que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita, ainda não é
+banqueiro, segundo me consta.</p>
+
+<p>Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha talento.
+Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras, sobrevivem ao
+prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do <em>Instituto</em>:</p>
+
+<div class="poesia">
+Le c&oelig;ur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait<br>
+On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait.<br>
+Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel<br>
+Une promesse sainte, dans un voex solennel!<br>
+<span class="pagenum"><br>
+[82]</span> Si, par lui, mon talent me donne la richesse,<br>
+J'ai ma mission aussi, soulager la détresse,<br>
+Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi,<br>
+Pour ramener enfin le calme en mon esprit.</div>
+
+<p>N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da
+sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára n'aquelle
+recinto da <em>charmante jeunesse</em>. Queixava-se outro sim, de ingratidões
+que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado no Porto,
+romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á orla de um
+throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria em Vienna
+d'Austria. Brilhantes desenlaces!</p>
+
+<p>E foram os rapazes de Coimbra&mdash;aquelles viventissimos rapazes de 1859,
+Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e dezenas
+de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração retranzido.
+<em>Gloire à vous!</em> exclamava Herrmann.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="L2218" id="L2218" href="#L2213"><sup>4</sup></a> Existia no
+seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto nobiliario de testemunha coeva e
+ocular.</p>
+
+<p><a name="L2292" id="L2292" href="#L2278"><sup>5</sup></a> Em 1780 ainda se
+via n'esta casa a capella, no local onde nascera S. fr. Gil.</p>
+</div>
+<hr>
+
+<a name="cap10"></a>
+
+<h1>MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS</h1>
+
+<div class="citacao">
+<p><span class="pagenum">[83]</span>... Une femme prudente y doit regarder à
+deux fois avant d'épouser un poete!</p>
+
+<p style="text-align:right;"><span class="small-caps">J. Janin</span>, <em>Le
+livre</em>.</p>
+</div>
+
+<p>Se o fino amor não é condão dos poetas, é escusado esgaravatar essa rara
+perola em outra concha. O amor duradouro é incompativel com a creatura
+sujeita á decomposição e á morte. As recomposições interiores são
+incessantes, até ao momento em que o espirito vital se evóla, e a podridão
+começa.</p>
+
+<p>As reformações da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo.
+Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o graváme e a melancolia
+da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso d'isto. Almas
+floridas em corpos devastados. Os primeiros tem auréola de poesia lugubre. Os
+segundos são lastimaveis quando, em honra de suas cãs, arrancam um a um os
+renovos da alma, ou os vão delindo <span class="pagenum">[84]</span>com
+secretas lagrimas; e são irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice,
+dando resplendor á calva com um nimbo de namorados.</p>
+
+<p>Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII,
+<em>Marcial portuguez</em>. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem
+ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar foi
+anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava pela côrte
+diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a consorte, cuidando
+dos trigaes e dos parrécos.</p>
+
+<p>Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais
+desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi pelos
+cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao santuario da
+familia com a lyra e com o rheumatismo.</p>
+
+<p>Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se
+bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa senhora!</p>
+
+<p>O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de a
+ter mofado na prosa caseira&mdash;a prosa de marido enfastiado, que é o vasconso
+mais barbaro da glottica humana.</p>
+
+<p>Aqui está um dos cantares com que o sobredito <em>Marcial</em>
+desprimorosamente chasqueava as <span class="pagenum">[85]</span>caricias, os
+vernizes, as tranças retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e
+arqueavam as ancas da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa
+inventára, á custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos
+vestigios da belleza perdida. E observem que o cruel a denomina
+<em>Sara</em>, equiparando-a á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes
+poetas no coração:</p>
+
+<div class="poesia">
+Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho<br>
+                   para vêr tuas faltas,<br>
+não quero que te falte meu conselho<br>
+                   em presumpções tão altas.<br>
+<br>
+Lembre-te agora só que és terra e lôdo<br>
+e terra te has-de vêr do mesmo modo;<br>
+mas não te digo nem te lembro nada<br>
+porque ha muito que em terra estás tornada.<br>
+<br>
+Que importa que, alguma hora, a prata pura<br>
+                   de tuas mãos nascesse,<br>
+e que de teus cabellos a espessura<br>
+                   as minas de ouro désse!<br>
+<br>
+Se o tempo vil, que tudo troca e muda,<br>
+sómente do ouro poz, por mais ajuda,<br>
+em tuas mãos de prata o amarello,<br>
+e a prata, de tuas mãos em teu cabello!<br>
+se um tempo, foram de marfim brunido<br>
+                   no seculo dourado,<br>
+não vês que o tempo as tem já consumido,<br>
+                   não vês que as tem gastado?<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[80]</span>Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos;<br>
+que eu, quando toco teus nodosos dedos,<br>
+me parece que apalpo, e não me engano,<br>
+cinco cordões de frade franciscano.<br>
+Viciando a natureza com taes tintas,<br>
+                   com pinceis delicados,<br>
+jasmins e rosas em teu rosto pintas.<br>
+                   Deixa esses vãos cuidados;<br>
+pois quando tua cara me alvorota,<br>
+mascara me parece de chacota;<br>
+e, se é das tintas, digo n'este passo<br>
+que a mascara está inda em calhamaço.<br>
+<br>
+Como pretendes, pois, com mil enganos,<br>
+                   vestir mil primaveras<br>
+sem ter a primavera de teus annos!<br>
+                   Como não desesperas!<br>
+que o tempo chegou já ao seu estio,<br>
+aonde toda a fruta perde o brio;<br>
+parecendo tua cara desmedrada<br>
+fruta que se seccou, noz arrugada.<br>
+<br>
+Se feitura de Deus Eva não fôra,<br>
+                   dissera, sem porfias,<br>
+que de Eva foste mãi, velha senhora,<br>
+                   pois te sobejam dias<br>
+para esta presumpção que agora tenho;<br>
+e, concluindo em fim, a alcançar venho,<br>
+pois alcançar não posso tua idade,<br>
+que deves ser a mãi da Eternidade.<br>
+<br>
+Teus olhos, por descargo da consciencia,<br>
+                   a idade os tem mettidos<br>
+em duas lapas, fazendo penitencia;<br>
+                   e estão tão escondidos,<br>
+<span class="pagenum">[87]</span>que, quando os vou buscar porque me
+choram,<br>
+não acerto co' bêco aonde moram;<br>
+porque o tempo os mudou, seu passo a passo,<br>
+da flor do rosto lá para o cachaço<sup><a name="L2088" id="L2088"
+href="#L2082">6</a></sup>.<br>
+<br>
+.................................................................<br>
+..................................................................<br>
+<br>
+Em fim, senhora, se te vejo em osso,<br>
+com essa cara posta em tal pescoço,<br>
+me parece, tirada a cabelleira,<br>
+em cima de um bordão uma caveira.<br>
+<br>
+...................................................................<br>
+<br>
+Sabe que sei, e d'isto me não gabo,<br>
+que te alugou sem duvida o diabo,<br>
+invejando teu corpo, cara e dedos<br>
+para a Santo Antão fazer maiores medos<sup><a name="L2086" id="L2086"
+href="#L2084">7</a></sup><br>
+E deixa, em fim, tanto vão cuidado;<br>
+                   e ao sagrado te acolhe<br>
+primeiro que te ponham em sagrado.<br>
+                   Este conselho colhe;<br>
+<span class="pagenum">[88]</span>admitte o que te digo sem desgosto;<br>
+que eu, quando vejo teu funesto rosto,<br>
+d'elle tambem o seu conselho tomo,<br>
+pois cuido que me diz: <span class="ni">Memento, homo!</span> </div>
+
+<p>Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D. Catharina,
+abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e impenitente, por
+aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade provecta com poemas
+sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á circulação dos enxurros.
+Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no <em>Elogio de poetas lusitanos</em>,
+conceitua n'esta altura o descaroado marido:</p>
+
+<div class="poesia">
+D. Thomaz de Noronha em tanto augmento<br>
+Confirma de sus versos la escellencia<br>
+Que admirando sutil su entendimiento<br>
+Puede hazerle a Quevedo conpetencia:<br>
+Alma de tan ayroso movimiento,<br>
+Luz parece de sol de su presencia<br>
+Y sol a cuya luz crecen desmayos,<br>
+Aguila no soy yo de tantos rayos... </div>
+
+<p>Que te fulminem, Jacintho!&mdash;diria um leitor circumspecto. Achou-lhe airoso
+movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez e
+cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um
+trovista de tasca.<span class="pagenum">[89]</span></p>
+
+<p>A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre
+missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque metrifica
+a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do talento, é enfermidade
+repugnante.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="L2082" id="L2082" href="#L2088">6</a></sup> Segue uma
+estrophe cuja nudeza, posto que não envergonhe o realismo hodierno, nos
+pareceu propriedade dos livros escriptos para <em>homens</em>, cuja
+deshonestidade os authores lisonjeam com as dedicatorias dos seus
+romances.</p>
+
+<p><sup><a name="L2084" id="L2084" href="#L2086">7</a></sup> <em>Metter medo
+aos medos de Santo Antão</em>, era adagio do tempo, que teve a seguinte
+origem: No terceiro domingo de agosto de 1577 sahiu uma procissão da antiga
+parochia de S. Julião. Entre varias figuras e carros triumphaes ia um homem
+representando Santo Antão no deserto, e á volta d'elle varios demonios com
+feitio de monos o aterravam com caretas e tregeitos medonhos.</p>
+</div>
+<hr>
+
+<a name="cap11"></a>
+
+<h1>A CASA DE BRAGANÇA «AB OVO»</h1>
+
+<p>D. Gonçalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava
+as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus com as
+curiosidades philoginias, gregamente faltando.</p>
+
+<p>D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte,
+chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um menino
+robusto, como os recem-nascidos do <i>high-life</i>, o qual se chamou
+Antoninho.</p>
+
+<p>Este D. Antonio Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai de
+32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mães d'este rapazio todo
+chamou-se Eyria de Carvalhal, e das<span class="pagenum">[90]</span>
+predestinadas entranhas d'esta menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da
+primeira duqueza de Bragança, casada com o bastardo de D. João I.</p>
+
+<p>D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos veio
+a redempção em 1640.</p>
+
+<p>Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles
+fossem castos ou infecundos, não teriamos Braganças, e gemeriamos ainda hoje
+captivos de Hespanha.</p>
+
+<p>O arcebispo descança ha 526 annos, em uma capella contigua á porta
+travessa da sé de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida no
+mausoléo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se apaixonasse por
+hespanholas. O coração não tem <i>ubi</i>. O escolar de Salamanca lêra talvez
+o philosopho grego que dissera serem todas as mulheres uma. Se a natureza as
+não discriminára, como estremal-as por fronteiras?</p>
+
+<p>Mas tão portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a
+mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada sobre
+suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta!</p>
+
+<p>Ainda não vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a
+morte do D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José <span
+class="pagenum">[91]</span>Corrêa, biographos dos arcebispos bracharenses, a
+souberam ou quizeram divulgar. Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por
+haver sido prelado como por genio investigador de antiguidade, não ignoraria
+o que era constante de um processo existente no archivo da mitra.</p>
+
+<p>Eis o caso:</p>
+
+<p>Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a
+Villa-Flôr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os
+moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro homens
+e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a
+povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, mataram-lhe seis homens,
+e matariam o proprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que
+lhe não evitou cahir de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não
+contentes os de Villa-Flôr com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas,
+de envolta com parte dos capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o
+contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante n'aquelle
+tempo, fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o
+a D. Affonso IV.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[92]</span>O rei, poucos dias depois, mandou a
+Villa-Flôr uma alçada com dois algozes bem escoltados, e fez enforcar os
+sacrilegos que pôde colher na devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os
+incommodos do arcebispo descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se
+para nunca mais se erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor.</p>
+
+<p>E assim morreu, por effeito de tão miserrimo lance, aquelle valente do
+Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto successor
+D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. Fôra elle o defensor da cidade do Porto,
+quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua vanguarda o incendio e a
+devastação. Fôra elle ainda quem acaudilhára a hoste de portuguezes, quando
+uma invasão de hespanhoes, em desapoderada fuga, deixou o sangue de trezentas
+vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo.</p>
+
+<p>Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flôr, amotina-se a
+arraia-miuda, foge de escorregão por uma corda, cahe de cangalhas, amolga o
+osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraça de Portugal se elle,
+antes de lesar as vertebras lombares e regiões visinhas, nos não tivesse
+deixado os embryões da casa de Bragança na pessoa de seu filho prior!</p>
+<hr>
+
+<a name="cap12"></a>
+
+<h1>UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES</h1>
+
+<p><span class="pagenum">[93]</span>O filho de Jayme I de Inglaterra veio a
+Madrid, em 1610, para vêr de perto a princeza Anna, filha de Philippe III,
+uma das mais formosas mulheres d'aquella época. D. Fernão Martins
+Mascarenhas, inquisidor geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que
+soube da chegada do heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa
+presumpção de o reduzir á fé catholica. O principe, todo embebecido nas
+magias da filha de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver
+esse negocio que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinião de
+alguns historiadores, porém, é que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja
+romana, não tanto pela influencia theologica da carta, como pelos filtros
+amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para esposa; e, quando
+em Londres se preparavam os festejos do noivado, morreu o noivo em 1612.</p>
+
+<p>A carta do inquisidor bispo do Algarve é inedita. A este prelado devemos a
+impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avós todos os <span
+class="pagenum">[94]</span>livros gafados de heresias. Se não fosse elle, é
+muito de recear que em Portugal se lêssem então os livros que no seculo XVII
+propulsaram as sciencias na França e Allemanha: o que seria uma calamidade.
+Eis a carta do santo varão:<br>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«A vinda de V. A. a esta côrte foi de tanta alegria para todos os que
+nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da sua
+presença, temos obrigação de fazer demonstração publica, assim em dar graças
+a Deus por esta mercê, como em significar a V. A. o animo, e a vontade com
+que festejamos a honra que todos alcançamos por esta causa.</p>
+
+<p>«O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas orações, para
+melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa, é que queira V. A.
+ouvir e entender a razão do que por cá acha, e é professarmos a fé, e a
+religião que professa, e ensina a igreja catholica romana, verdadeiramente
+apostolica; porque o animo com que desejamos paz perpetua entre as corôas de
+Hespanha e Inglaterra, nos obriga a procurar a conformidade na religião entre
+os principes dellas, pois, como diz Santo Agostinho, não póde haver
+verdadeira concordia aonde os entendimentos estão desunidos na terra.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[95]</span>«Muitas razões se podiam allegar para V.
+A. se dispôr a fazer este serviço a Deus, e mercê a toda a Hespanha, porque
+os livros estão cheios d'estas materias, mas tres são só as que lembro a V.
+A. para satisfazer a obrigação que tenho n'este reino de Portugal.</p>
+
+<p>«A primeira é considerar V. A. que isto que nós professamos em Hespanha,
+acerca da obediencia á sé apostolica-romana, professaram, sem nenhuma
+interrupção, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o tempo
+de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, até o de Henrique VIII
+de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudança na religião; porque como
+nunca se havia preferir o parecer dos que querem innovar cousas ao juizo
+d'aquelles que dellas perseveraram por tantos annos, bem se vê, a prudencia
+natural está pedindo que se repare muito n'esta variedade que se introduziu
+em Inglaterra nos derradeiros annos. E é muito para vêr a fórma em que
+escreveu Eduardo, rei de Inglaterra, ao papa Alexandre III, porque ambos
+estão condemnando o que agora se segue no mesmo reino com palavras tão claras
+que não soffrem interpretação alguma.</p>
+
+<p>«A segunda razão é porque todos os reis de Inglaterra que antes de
+Henrique VIII tiveram o <span class="pagenum">[96]</span>sceptro d'aquelle
+illustre reino depois de Alberto, fundaram a sua jurisdicção na obediencia á
+igreja romana, em que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro,
+principe dos apostolos, e vigario universal de Christo na terra, até Ina e
+Ataulfo fazerem o proprio reino tributario da sé apostolica, e este tributo
+durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve que
+em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que deviam aos
+pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeças da igreja catholica, e
+sempre depois vieram a fazer penitencia de seus erros, como consta dos
+proprios annaes e chronicas de Inglaterra que Polidoro Virgilio II seguiu, e
+tratou em sua historia.</p>
+
+<p>«A terceira razão é porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudança,
+quando morreu declarou que errára, e por esta causa expirou com summa pena, e
+inquietação, como consta da relação que fizeram homens de muita virtude,
+letras, e authoridade que assistiram á sua morte, e os aponta Sandero, com
+outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas cousas; e se não
+remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que permittiu lhe faltasse
+n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe lembrasse o que o <span
+class="pagenum">[97]</span>proprio escreveu tão doutamente contra Luthero, e
+dirigiu ao papa Leão X.</p>
+
+<p>«Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores
+tiveram e professaram por largos annos, sendo tão virtuosos, prudentes e
+valorosos, como o mundo todo reconhece, não fará mais que restituir á fé a
+casa d'onde contra razão e justiça anda desterrada; e com esta restituição
+além da gloria immortal, que alcançará em todos os seculos vindouros,
+obrigará a Deus Nosso Senhor abrir as mãos da sua liberalidade para lhe
+acrescentar muitos reinos com novas prosperidades temporaes.»</p>
+<hr>
+
+<a name="cap13"></a>
+
+<h1>A TRILOGIA DA «ACTUALIDADE»</h1>
+
+<p>Quando o snr. Moutinho de Sousa, ha pouco tempo, negociava, em Lisboa,
+actores que preenchessem e aperfeiçoassem a companhia dramatica do theatro
+Baquet, o snr. Silva, roto saboyardo do escangalhado realejo litterario da
+<em>Actualidade</em>, escreveu, com o desplante da sua <span
+class="pagenum">[98]</span>ignorancia impenitente, que a escripturação dos
+tres indicados actores formava uma agradavel <span
+class="small-caps">trilogia</span>.</p>
+
+<p>Tres actores, tres pessoas&mdash;uma <em>trilogia!</em></p>
+
+<p>O leitor (se não é elle) sabe que os gregos denominavam <em>trilogia</em>
+o conjuncto de tres peças theatraes, quando o poeta pleiteava o premio da
+tragedia. Uma compoz Eschylo, a mais commevedora que nos legou a antiga
+scena. Shakspeare fez uma <em>trilogia</em> com as tres tragedias que
+completam Henrique VI. O <em>Walstein</em> de Schiller é tambem uma
+<em>trilogia</em>. Querem os francezes por igual ter a sua na concatenação do
+<em>Barbeiro de Sevilha</em>, <em>Casamento de Figaro</em> e <em>Mãi
+delinquente</em> de Beaumarchais. Tambem nós, em os nossos humildes fastos
+litterarios, temos uma <em>Trilogia romantica</em>, em que se annunciavam
+collaboradores Antonio Pereira da Cunha, D. João de Azevedo, e João Machado
+Pinheiro (visconde de Pindella).</p>
+
+<p>Por analogia, tres composições em um livro, tres tratados, tres discursos,
+poderemos denominal-os <em>trilogia</em>; mas chamar <em>tratado</em>
+(<em>logos</em>) ao snr. Pola, e <em>composição</em> á snr.ª Virginia, e
+<em>discurso</em> á snr.ª Emilia das Neves, hellenisando-as pessimamente,
+seria uma fineza grega, se não fosse uma asneira portugueza.</p>
+
+<p>Este snr. Silva (aviso aos naturalistas) dizem-me <span
+class="pagenum">[99]</span>que tem as orelhas de tamanho regular. Elle e os 2
+Joaquins são tres partes de uma só cousa&mdash;<em>trilogia</em>. Aqui vão bem;
+cálham: são tres peças que arredondam um tolo superlativo. Ainda, no dominio
+grego, podéramos chamar aos tres&mdash;<em>triga</em>. (Veja um <em>Lexicon</em> o
+snr. Pinto). E, quando apparecer um quarto, por não sahirmos de Athenas e das
+analogias remotas, os quatro serão <em>quadriga</em>. Ora ahi tem gregarias
+em barda. Divirta-se.</p>
+
+<p><em>P. S.</em> Eu dissera-lhe <em>adeusinho</em>, quando fui
+<em>banido</em>; mas elle, mentindo e espremendo novamente o figado, espirrou
+um golfo de bilis negra. Faz-se mister não levantar mão das ventosas. Ou elle
+estuda, ou eu o esfolo.</p>
+
+<p class="centrado">FIM DO 5.º NUMERO</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº5 (de 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 5 ***
+
+***** This file should be named 27084-h.htm or 27084-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/7/0/8/27084/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
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+
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+
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+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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