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+The Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Guerra
+ Depoimentos de Herejes
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: October 14, 2008 [EBook #26915]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GUERRA ***
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+
+Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização
+disponibilizada pela bibRIA.
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+JAIME DE MAGALHÃES LIMA
+
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+A GUERRA
+
+DEPOIMENTOS DE HEREJES
+
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+F. FRANÇA AMADO, EDITOR
+COIMBRA. 1915.
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+A GUERRA
+
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+Composto o impresso na Tipografia França Amado,
+Rua Ferreira Borges Coimbra.
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+JAIME DE MAGALHÃES LIMA
+
+
+A GUERRA
+
+DEPOIMENTOS DE HEREJES
+
+
+
+COIMBRA
+F. FRANÇA AMADO, EDITOR
+1915.
+
+
+
+
+Prologo
+
+
+Um direito o nosso tempo conquistou plenamente--o direito de heresia.
+Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje.
+Pela sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por
+momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram
+com a rapidez e mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e
+esperanças mal fundadas.
+
+O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as
+ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas,
+todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião,
+da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta afirmação o
+nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida
+puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no
+govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade
+independente de restricção e de crítica--êsse logrou, porêm, prevalecer
+atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito
+multiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das
+próprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas,
+as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palácios, é
+legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos
+sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de
+muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por
+diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de
+muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade. É isso tão
+legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, como o desdem das iras
+olimpicas de Jupiter, ou a revolta contra as fogueiras da Inquisição, ou
+a libertação da tirania de todos os cesares, sejam êles coroados por
+direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da
+soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos
+de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum dia
+poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma
+modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito
+heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em
+ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em
+merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade,
+muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto.
+
+O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde
+corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse
+direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior
+havia constituído e estabelecido firmemente em o nosso espirito; foi um
+ajuste de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra
+que êle soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem,
+a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as
+egrejas, o império, e até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma
+revisão sevéra dos respectivos valores e a uma determinação dos seus
+caracteres e responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente
+alteradas na sua nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde
+utilidade. Palavras que eram um paládio transfiguráram-se em espéctros,
+muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se
+arruinou, muito fetichismo se desfez.
+
+De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a
+uma influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi
+nestas folhas umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que
+não pouco poderão esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de
+angustia, os que as meditárem.
+
+Umas foram já impressas no _Diário de Noticias_, de Lisboa; outras, o
+maior número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me
+alarguei ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se
+referem à _Arte de Gastar_ uma versão quási completa do magnífico
+opúsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor
+sr. Humphrey Milford a autorização necessária para a tradução, que êle
+bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o
+meu reconhecimento.
+
+Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o
+mundo se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um
+desmentido rápido e radical.
+
+Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do
+respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos
+surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros
+despotas aqueles mesmos que clamaram pela libertação dos oprimidos e no
+seu clamor conduziram os exercitos às batalhas.
+
+Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita
+desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de
+despotismo para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos
+os paises interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta
+de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as
+forças e de todas as actividades sociais, uma violência sem limites,
+involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal
+situação ficam resíduos; de semelhante incêndio restarão, pela força das
+cousas, ruínas fumegantes. O que era temporário tornar-se-á facilmente
+permanente, máu foi ter-se fundado; o que se decretára para salvação da
+republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das
+oligarquias. Houve uma fermentação cuja vitalidade reanimou muitos
+elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão muito alêm do periodo
+que a levantou, compreendendo por simples contágio muita cousa que lhe
+era estranha.
+
+Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos
+pesará duramente na vida das nações empenhadas na guerra.
+
+A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos
+se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e
+quanto os números podem somar. Não há arimética possível para volumes
+desta largueza e complexidade.
+
+Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar
+uma restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos
+e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E
+êsse estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta
+calamidade que nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro
+modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade
+na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no _Hibbert
+Journal_ sôbre «a tirania das cousas que são meramente cousas», mostrou
+como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço
+dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo
+e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em
+uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano
+pelo culto do maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na
+vida espiritual do mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o
+industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas
+positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho
+dos povos, não servirá para acentuar as suas rivalidades, para cavar
+mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixões
+predatórias?»
+
+Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus
+despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com
+que o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forte da
+guerra, que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que
+nos campos de batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte
+que as oficinas e os laboratórios criavam e lhes mandavam.
+
+Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de
+alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências
+financeiras, ansiosas por uma organização económica fácil e
+abundantemente colectável, se houverem de ser consideradas as
+necessidades fiscais dos estados esmagados com dívidas fabulosas que se
+contraíram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito
+penosos, não será de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato,
+robusteça aquela constituição do trabalho que, seguramente, por uma já
+longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negação da
+liberdade, a mais fatal das opressões.
+
+Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a
+formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa é certa desde já nos
+resultados da guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas
+económicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos
+caprichos dos reis, à fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos
+seus sortilégios cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça,
+nos seus efeitos concretos, radicalmente contrária aos sonhos de
+liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas
+hecatombes. Mas determinou uma renovação da consciência, uma filosofia,
+uma moral, um modo de ser economico, um renascimento íntimo, que são de
+durar e crescer, invulneráveis às artes dos imperadores e ao poder dos
+vendilhões, superiores ao seu domínio.
+
+A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o
+mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande
+acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum[1].» Foi
+essencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e
+serão transitórias as alterações ou a persistência da ordem material do
+mundo.
+
+O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição
+das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em
+relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes
+espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo
+«invisiveis», sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto
+êles andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste
+mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo,
+destruindo tudo na sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso
+bem-estar--eis que os cegos vêem e os surdos começam a ouvir.
+Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o
+cáos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da
+tempestade universal nos revelou subitamente um novo aspecto do mundo...
+Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, distinguimos a
+presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não prevalece; e
+é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é sempre a
+mesma--no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra a
+morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o
+dissolveriam. Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de
+aparições que nos surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua
+conquista final no futuro que encontramos a inolvidável significação da
+guerra presente[2]».
+
+Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi
+neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género,
+valerá tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro
+pensamento. «Parecia dominar como filosofia na hora presente. Tinha a
+seu favor uma certa força. Estamos em um mundo material, e os que
+estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma
+espécie de conclusão de que êle é a existência inteira. Por isso erram.
+A matéria é muito importante, mas por modo algum é a totalidade do
+universo. Há dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um
+tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde admitir-se que o aspécto
+material domine; tem de servir as necessidades do espírito. A nota do
+universo material é repetição; a nota do universo espiritual ou psiquico
+não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na história do nosso
+próprio mundo--primeiro os animais inferiores, depois os animais
+superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos
+ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O
+próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o
+indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temos de compreender que
+somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós,
+ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta
+é a nota do universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada
+vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente,
+emquanto a soma de matéria e energia não cresce; esta é constante. A
+inteligência póde crescer; póde crescer a felicidade; póde o
+conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis[3]».
+
+Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais.
+Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra
+trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus
+lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa
+nas sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendências
+de liberdade, de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram
+em proporções assombrosas os tesouros da vida do espírito, único
+progresso possível, único que importa o domínio da matéria, mesmo quando
+a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnável pela solidez das
+suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela
+prepotência triunfante e orgulhosa sôbre as infinitas escravidões que a
+servem e são a sua mais funda aspiração e o seu mais eficaz instrumento
+de reinar.
+
+Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente
+mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e
+económica em que tiver de rematar os combates, será a jornada moral e
+religiosa a que a guerra nos conduziu. Não há poderes do mundo que a
+perturbem. Porventura será mais activa quando êles menos a favorecerem.
+A necessidade de reacção acelera-a e fortifica-a.
+
+Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da
+«futilidade» que hoje são, uma infantilidade cruel, de que nos
+lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na
+mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das
+vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da
+razão a _Eneida_ será porventura um conto para crianças, e os herois que
+nos exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que
+entrevemos a rudeza da edade da pedra.
+
+
+
+
+Convulsões dum enfêrmo
+
+
+Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração
+de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e
+gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado
+por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos
+seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação
+que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um
+«crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se
+sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se
+armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da
+Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam
+os canhões, amontoavam munições e edificavam fortalezas por modo nunca
+visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que
+nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma
+segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão
+dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores
+à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia
+pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma
+inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar.
+
+Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de
+vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e
+prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com
+enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os
+economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que
+só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse
+ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e
+pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos
+negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da
+amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos
+impenitentes, que tambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças,
+tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia
+remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas
+devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca,
+era de ora em diante a lei da vida.
+
+De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes,
+surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia
+crê-la.
+
+Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...
+
+A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era
+unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações,
+alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e
+empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do
+zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes
+fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos
+era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores,
+um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e
+de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia.
+Eram êles que na mais atroz loucura gerada de imaginárias ambições
+lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual
+escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para
+se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e
+unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de
+desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para
+criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a
+fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie.
+
+Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e
+aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e
+comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas
+militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão
+legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o
+conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de
+aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão
+destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam.
+Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na
+Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras
+atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o
+desrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia
+cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída,
+construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram
+acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e
+injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros
+do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava
+a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados.
+E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos
+séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada
+fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os
+com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com
+o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico,
+e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o
+espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês
+de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o
+primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que
+pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã
+Bretanha e de todo o mundo culto:--«Não é um conflito meramente
+material, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas
+conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que
+contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa
+liberdade de milhões que constituem a massa do género humano».
+
+Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo
+coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que,
+envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares,
+o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a
+incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito,
+entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as
+cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a
+crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a
+deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a
+corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus
+das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de
+doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos,
+uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si
+antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin
+contra Bismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um
+Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor
+inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a
+graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o
+despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de
+previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo
+metodo e por subtil engenho.
+
+Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando
+que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias,
+agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora
+angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se,
+com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição
+penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o
+carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava,
+em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão
+moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A
+eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez
+profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas
+daquilo que êles imaginam ser o carácter germânico, a absorpção de todo
+o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e
+repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza,
+embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas
+o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse».
+
+Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a
+reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:--«As
+bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode
+ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras
+signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade»,
+«não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo
+que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza,
+roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e
+inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si
+miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam
+pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França--esmagaram-na,
+roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram
+para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus».
+
+O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem
+público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o
+povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro
+trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da
+Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias
+livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento
+alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida
+inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o
+caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer;
+nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte
+que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a
+contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações
+apolineas; e disto fez uma religião.
+
+Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes
+compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações
+dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais
+ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento
+fundamental é de uma simplicidade incomparável:--«A Alemanha tem nos
+destinos do mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura,
+levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura
+germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse
+destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação
+radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario
+vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A
+cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a
+inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu
+espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente
+desimpedir o caminho.
+
+Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora
+dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha,
+afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por
+nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e
+todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo,
+por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos
+com matrícula em Hamburgo.
+
+Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso
+foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos alicerces,
+aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era
+vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do
+tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte,
+ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência
+de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar,
+corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os
+seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine
+por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores,
+poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da
+natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento
+económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os
+gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram
+sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o
+crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral».
+
+Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não
+adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura
+alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade»
+e «nausea», que «todos os deuses aprenderam a temer. Se alguem quizesse
+vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto
+germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença
+pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido»,
+dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem
+ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente
+arrastado.
+
+Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer
+do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de
+subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da
+caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos
+encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer,
+que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e
+muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua
+felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua
+natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da
+brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta
+Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada
+em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas,
+fazendo da disciplina, obediência, ordem e comodidades a razão última da
+nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem
+mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis
+ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a
+bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a
+de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo
+lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.
+
+Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela
+unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como
+sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e
+admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos
+palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não
+compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente
+cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho,
+fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que
+mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a
+Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em
+larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do
+amor, trocados pelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os
+povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente
+a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da
+humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar
+agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons
+hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade,
+caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e
+gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados
+e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e
+por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada
+difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o
+homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e
+qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das
+profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa
+cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os
+homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as
+raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe
+que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma
+esteira infinita de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem
+o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores
+rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação
+suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente
+os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das
+castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas
+de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de
+inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das
+materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens
+mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em
+tormento.
+
+Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em
+especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais
+profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles
+concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia
+racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.
+
+O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e
+ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma
+cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra
+cousa; e o que nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de
+silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão
+do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor
+moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e
+sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem
+duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras
+culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como
+soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças
+a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha,
+sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca
+religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em
+disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e
+reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança
+a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra
+assassinado.
+
+Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua
+missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o
+negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido
+instinto que o não engana, considera que, quando o preto tem culpa,
+ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é
+alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse
+implorado.
+
+Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento
+moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar;
+e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não
+alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o
+inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os
+delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da
+mais submissa humildade e contrição.
+
+Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como
+fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser
+social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da
+guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em
+pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da
+vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano,
+abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos
+da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder
+mais alto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo,
+culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em
+conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as
+derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e
+à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa
+sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde
+que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela
+irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa
+servidão terrena que lhe repugna.
+
+Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação
+das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais
+do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência
+dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da
+fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos
+impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente
+e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado
+da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo
+impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da
+mentalidade característica da nossa era. Á liberdade do pensamento,
+emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo
+estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das
+crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser
+intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com
+a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e
+direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações
+especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas
+fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas,
+a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns
+pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e
+Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram
+algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na
+pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a
+liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e
+sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do
+pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes
+políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a
+unidade de tendências mentais, constantemente contrariados, minados e
+traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo
+império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira,
+irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas
+aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na
+história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha
+de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e
+desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual
+provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à
+própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.
+
+Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo
+evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente
+no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de
+todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de
+todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus
+trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não
+autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar
+as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem que
+combatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a
+vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados
+à idade da razão.
+
+O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que
+a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai
+construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as
+estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se
+verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto
+que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de
+reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a
+negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas,
+sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de
+materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas
+materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr.
+Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e
+discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os
+pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos
+contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto
+pensar. Se assim fôr, veremos a verdade daquêle velho e belo proverbio
+espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas
+seriam ganhos.»
+
+Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez
+larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa
+a que nos sujeitam.
+
+É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em
+proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que
+sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar
+ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que
+sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir.
+Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do
+pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por
+urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma
+simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor
+dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado
+patriotismo e mais modesto bom senso?
+
+Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com
+aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e
+arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas.
+
+Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que
+comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no
+seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes,
+como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos
+ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo
+com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo
+com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o
+idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não
+morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.
+
+
+
+
+Ganhos e perdas
+
+
+Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para
+reconhecerem e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as
+conseqùências militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de
+se desenhar a divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a
+distribuição da fôrça e dos canhões, muito antes disso e
+independentemente dos seus destinos e designios já as aspirações e
+crenças dos homens definiram e anunciaram tendências e propósitos que da
+guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propício, já marcaram
+no seu rol vencedores e vencidos, já proclamáram suas determinações
+inflexiveis.
+
+Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da
+conflagração tremenda em que o mundo se agita.
+
+Dela sai já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e
+desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos
+fez prosélitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões,
+apaixonou as multidões, dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis
+e os sapientes, toda a grandeza e autoridade política e moral, o saber,
+a virtude e a fôrça.
+
+Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como,
+por que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a
+abastança assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára
+para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se
+o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as
+crueldades. Não nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma
+injuria; a todo o morticinio, a toda a opressão e a todo o insulto o
+temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulsão, escravo
+dedicado de um patriotismo todo constituido e só constituido de cobiças
+e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a
+fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o
+Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo económico moralmente
+acanhada, reduzindo a vida a uma repartição de comodidades e a uma
+cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o
+socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de
+previdência, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago
+e grandes regalos, mas era uma mecanica que só considerava o corpo,
+deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração,
+consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a
+guerra soltou; até mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente,
+senão contente, à prolongada cultura dessa ruindade, que as obsessões de
+grandeza política reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados
+sonhos.
+
+Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um
+despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na
+omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer
+despotismos seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas
+suas afirmações, menos a palavra liberdade.
+
+Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a
+apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é
+pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o
+despotismo e a opressão militar, passa-o ao bando das traidores e
+herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos
+Réclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente à
+desgraça presente e à ruina, mais do que nunca confiadas em que só a
+gloria da sua crença poderá resgatar-nos da mortificação. Quantos
+apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, seja qual fôr a
+fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a
+coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e
+na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a
+felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no
+imperio da consciência moral isenta de toda a violência e
+constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na
+vitória que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus
+adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a
+ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolação, com uma impiedade
+inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforço irado
+dos exércitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas.
+Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, o anarquismo, na sua alta
+expressão filosófica, que não nas suas aberrações criminosas, vê de
+súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando
+sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do
+socialismo.
+
+Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o
+problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as
+imprecações impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em
+risco bens e grandezas.
+
+Há vinte anos, António de Serpa,--um talento culto, homem de superior e
+nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus
+contemporâneos fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a
+esquecer,--escrevia um opusculo sobre «O Anarquismo».
+
+Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com
+o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa,
+mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se
+tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás
+muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em
+advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o
+imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O
+estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi
+nesse incidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos
+ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento
+das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência,
+determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e
+lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um
+espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse
+passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido
+nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de
+funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era
+grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o
+ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem
+por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe
+o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o
+engrandeciam.
+
+Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e
+contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de
+espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para
+durar--Oliveira Martins.
+
+A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e
+querido socialismo do Estado, grande progresso fabricado nas
+universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das
+sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria
+Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de
+negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres
+antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não
+foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração
+pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O
+socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição
+política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais
+como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade,
+perdoando-lhe os agravos.
+
+Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos
+as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem
+com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos
+seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de
+blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia
+de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e
+até nem sempre isenta de injustiça.
+
+Outros e inesperados aspéctos se nos deparam.
+
+Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária
+insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo,
+reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma
+horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as
+deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos
+converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e
+emprega.
+
+O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a
+redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno
+político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza,
+conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades
+modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução
+Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de
+Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos
+andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do
+absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e
+ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida,
+ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando
+em esperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência
+que foram a obra sinistra dos seus inimigos.
+
+O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo
+prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo
+baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas,
+e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo
+zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e
+Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças,
+fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo,
+levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e
+sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza.
+Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos
+para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja
+navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior
+segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de
+prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.
+
+Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso,
+emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da
+Religião que arruinára, segundo ela cria, os edifícios de outras eras
+tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal
+insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não
+é dêste mundo.
+
+Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a
+terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela
+liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela
+aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo
+reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do
+espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e
+cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de
+sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a
+ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e
+exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e
+errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do
+império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de
+almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que
+dolorosamente nos dominavam e turbavam--dêsse romantismo que, em obras
+de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco
+mas jámais vil.
+
+Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que
+afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem
+hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da
+capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o
+senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos
+que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução
+Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada
+passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas.
+Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção.
+
+Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças
+militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e
+ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do
+século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se
+encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo
+desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e
+acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes
+muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido
+e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidas da Europa a Revolução
+Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.
+
+Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para
+onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta
+cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais
+poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio
+alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao
+inimigo.
+
+Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória
+nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de
+ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais
+eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e
+seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer
+armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina,
+prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em
+bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos
+não-combatentes, homens, mulheres e crianças--estes homens trabalharam
+durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E
+o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento e
+justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na
+nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses)
+esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo
+tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do
+império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o
+coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o
+corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas
+não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã».
+
+«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por
+Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe
+deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e
+magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das
+cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade.
+
+E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos,
+confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações
+do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará
+ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas
+tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos
+diversos dos que as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador
+fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é
+Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga
+que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma
+crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta
+guerra a sustentam».
+
+O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina
+política do mundo--a doutrina do estado predatório como encontrou a sua
+expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em
+resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os
+progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo
+antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e
+organização, como Roma nunca possuiu».
+
+«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não
+é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda
+a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder
+militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no
+Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção
+do direito a uma altura que é universal, «Fez o direito independente e
+superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou
+missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam
+representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A
+doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito,
+foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da
+civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação
+mais alta.
+
+Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua
+história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa
+psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza
+da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no
+absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela
+que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e
+desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos
+da raça humana, aprendeu a grande lição universal--isto é, que há uma só
+raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber
+queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da
+responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêsses dos
+estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da
+humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele
+«intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que
+Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra
+nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa
+democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados
+direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no
+conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da
+«caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a
+sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e
+vagamente profética.
+
+Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o
+desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário,
+amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de
+intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e
+instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em
+que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na
+imprensa--e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de
+governo e a mais engenhosa arte de governar os homens e os trazer
+contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de
+estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar
+a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma.
+Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na
+sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina
+menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se
+emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha
+afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e
+altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos
+arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo
+o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só
+dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a
+procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços.
+
+De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão
+pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em
+acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos
+das coisas, nunca ninguem soube tão completamente as suas qualidades, e
+nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e
+sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada
+e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava
+preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas,
+nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas
+oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de
+previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as
+necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os
+confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de
+toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos
+indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro,
+impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela,
+lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao
+maior e mais angustioso dos sacrificios.
+
+Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza
+porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade
+apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza.
+Foi isso que êle odiou, foi isso que o ofendeu e fez lançar no combate,
+incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa
+necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da
+filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas
+multíplices traduções práticas.
+
+Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de
+presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada
+animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com
+todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O
+resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o
+sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para
+largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela
+sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda
+aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem
+nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e
+definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos
+de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito
+menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor,
+muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta
+civilização confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente
+e fraca, embora erguida em dourados baluartes.
+
+Facto singular e notável--há muito a Alemanha se queixava de pobreza de
+homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em
+capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que
+mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era
+confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a
+situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência
+concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se
+lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade
+suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma
+pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à
+altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia
+nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e
+carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de
+batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.
+
+Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus
+apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou qualquer factor
+essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza,
+equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições,
+mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma
+expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida
+presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das
+humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a
+mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na
+sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico,
+renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que
+vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de
+lhes restituir, na educação das novas gerações.
+
+Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela
+psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de
+justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política
+que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia,
+romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia
+da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e
+só pela guerra alcançariam manter a energia.
+
+A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda
+da necessidade e benefícios das guerras.
+
+No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma
+pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um
+mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já
+próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o
+advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e
+fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra
+significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, a _grande
+ilusão_; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma
+futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que
+mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de
+tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os
+primeiros fumos dos canhões atoldaram.
+
+Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição
+imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores
+que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os
+instintos que a alimentavam. O presente era a demonstração clara da
+subsistência dessa doutrina de morte.
+
+Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com
+aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a
+insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que
+alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e
+fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi
+certo--facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda
+há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita
+unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma
+monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e
+abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.
+
+Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua
+defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não
+esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos
+séculos; todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo,
+avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o
+sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a
+adversidade, para a tristeza e para a dôr, desenvolvia a obediência ao
+dever, semeava a coragem, a dedicação e a generosidade? Nem assim
+conseguia restaurar o império perdido! Poderes mais altos lentamente se
+haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro a piramide, que parecia
+invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os tumulos dos faraoos,
+esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do
+sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e insignificante para
+julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto
+era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava
+encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre
+amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o
+desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o
+esfôrço, a consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram
+virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjecção, não
+careciamos, para as possuir, de as cultivar no ódio, na cobiça, na
+brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinárias; o
+trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e
+do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam
+para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que não
+cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em
+prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de
+outra eramos capazes. O _Cavador do Millet_, no seu campo safaro, só com
+a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus
+pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente
+apregoára que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas.
+
+Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da
+largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida
+e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril
+crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de
+proscrição no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus
+trágicos horrores.
+
+Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o
+último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de
+civilização que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e
+pretende justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem
+em que agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e
+governos, com todos os seus enganos, traições e angústias, com todas as
+suas fadigas, prazeres, ruins ambições e opressões; póde, claudicante e
+ignorando a própria miséria, continuar incerta e cega na jornada dos
+seus muitos e lúgubres progressos até de novo naufragar na imensidade
+dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou um inimigo que não lhe
+perdoará; despertou a consciência das suas terríveis enfermidades, e com
+ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade
+que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de facto, porque
+os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é tenaz e
+seguro nas conquistas.
+
+Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos
+poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi
+unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que
+muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de
+tudo isso, um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração,
+por muito distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto
+dos exércitos; mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e
+ventura, foi o castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um
+profundo _peccavi_ cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes
+e cuja absolvição temos de procurar em um mundo fundado em uma outra
+alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente
+nos haviamos entregado. Outras aspirações, outras crenças e todo o seu
+modo de ser externo terão de nos inspirar para nossa fortuna e alegria.
+Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que
+supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre.
+
+
+
+
+Revisão de valores
+
+
+O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem
+dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem
+as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente
+aproveita e emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a
+rapidez dos movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se
+perdem nas nuvens tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se
+ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo,
+para as imaginações infantis, mas difere do que antigamente se fazia
+apenas naquelas minguadas proporções em que os brinquedos das lojas de
+Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo
+vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automóvel não serão cousa muito
+diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, igualmente
+insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de Cesar com
+seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo
+sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que
+hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e
+engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto
+das multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores
+e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e
+possuídos por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão
+despejadas e poderosas que não carecem de registo, nem de garantias
+especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas
+no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhámos, não
+ostentamos ambições e talentos superiores aos muitos e famosos que
+fizeram a guerra quási exclusivamente fiados na fôrça do seu braço; e
+nem tão pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que
+aqueles de estreme e insaciável cobiça que exaltaram os generais de
+outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre foi desde que se
+conhece história, um assassino cruel e sordido.
+
+Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve
+alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com
+uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a
+astúcia, a dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser
+ferido tomaram em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem,
+pela firmeza de ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e
+lealdade da luta a peito descoberto. O carácter de negócio, conta, e
+cálculo e previsão, aliás de supremo alcance, apagou muita beleza da
+imprudência, da ousadia e do desprendimento. «As batalhas não são já o
+heroismo espetaculoso do passado», disse um general celebre pelos seus
+escritos, Homero Lea. «Os exércitos de hoje e os de ámanhã são uma
+sombria máquina gigantesca destituida de heroismo melodramático... uma
+máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a
+uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e
+irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de
+trevas, um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima,
+acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa
+magnanimidade, raro conduz a revelar quem ofereça com uma clara
+abnegação a própria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao
+inimigo da sua pátria e da sua crença. Entre a guerra moderna, intima e
+exteriormente mascarada de couraças, e a guerra dos tempos heroicos,
+fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia que vai de um
+arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de um negócio
+a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio e a
+baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a
+isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses
+diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das
+batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a
+insinuação de um certo materialismo que invariavelmente prefere a
+torpeza lucrativa às contingências de uma franca e determinada
+honestidade.
+
+Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da
+guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em
+couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma
+multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra
+escoltada de infâmias, em regra mais rendosa para a ignomínia do que
+gloriosa para a dignidade.
+
+Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a
+guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a
+apontar, e êsse de incalculável magnitude--a amizade em que no dia de
+Natal se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente
+se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais,
+por espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no
+tempo como douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e
+afeição, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares
+de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade
+sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os
+soldados voltaram às fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de
+novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructível se
+edificára e permanecia de pé, inviolável; uma luz se acendêra, que não
+podia apagar-se, de paz, de comunhão e de carinho; uma saudade se
+ateiára precipitando as nações e os exércitos em caminhos novos, para
+outros combates.
+
+Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali
+venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuízos, que
+lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, e por
+vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a
+amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos
+lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade.
+Foi todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em
+uma altura superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada;
+foi a consagração de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do
+que a insânia sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte
+lançado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a
+repetir-lhes que os homens não querem a guerra e a aborrecem, e
+unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e
+iludem são arrastados às batalhas que o coração amaldiçôa. Foi a
+confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia incalculável, das
+determinações de uma consciência que sente dissipar-se a divisão das
+raças e das nações--não porque a suprime, mas exactamente porque,
+reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a
+ama no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de
+interesses e afeições por aquilo que é o nosso comum amor, em vez de nos
+massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da
+individualidade étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde
+distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos
+separar e tornar inimigos.
+
+Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira
+impressão, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando
+calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das
+mulheres e das crianças até à ruina das catedrais--que jámais poderão
+ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver
+os bafejos dos alentos místicos que em extasis divinos as sonharam e
+ergueram e pelo sangue de mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam
+dado a aureola de uma arte e tradições irreparáveis, das que vivem uma
+só vez, filhas de uma só alma, e não renascem, se as ultrajou a malvadez
+dos homens atónitos na turbação de um ímpeto sinistro!--os menos
+desconfiados dos incitamentos da primeira impressão de pronto descreram
+dos sinais de paz que há pouco viam com alvoroço no horisonte. Logo se
+abandonaram ao desalento e tiveram como não subsistentes a solidez e
+progressos daquele internacionalismo que era a vitória da consciência
+dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas
+diversas tendências, necessidades e divergências, e conduzindo a uma
+lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, paulatinamente
+mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se traduzia
+em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral
+cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas
+reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas
+hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em
+campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais
+altos do que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza
+milagrosa dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa
+de novo se fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios
+a convicção dos que antes da guerra encontravam na expansão do
+internacionalismo os fundamentos e a esperança do renascimento político
+e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos
+valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dirá por
+outra forma e por outras palavras o que a trégua e os sorrisos do dia de
+Natal não lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela
+análise da história, pelo exame dos factos políticos e pela verificação
+das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que porventura lhes
+haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes do
+coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no
+conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando
+não é a desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de
+desarmar exércitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes,
+indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma
+obra de extermínio.
+
+O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes,
+e é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por
+um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos,
+corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e
+crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do
+patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo
+por que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa
+derivar de que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do
+patriotismo e são alheios às faltas da religião». Compreenderam-se em
+uma só divindade e apostolado as virtudes e as degenerações e
+deformidades do patriotismo; porque «o patriotismo pode tornar-se não
+moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas,
+podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos de infalibilidade, e
+daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à perda conseqùênte
+da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode pedir a sua
+moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais;
+o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao Deus da
+verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de
+ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não
+pode encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma
+mais profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No
+fundo de todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio».
+«O verdadeiro patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em
+todos, que respeita a nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde
+quer que a encontre. Não fomos suficientemente patriotas no passado.
+Realmente, não acreditamos no patriotismo». É insensato, mesquinho e
+despiedoso o patriotismo que antes de bem combater não soube bem viver,
+que só na guerra sente as obrigações e todas as esquece e desconhece na
+paz. «Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que nós chamamos
+os anos caquéticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e
+crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e
+tocas nesta linda Inglaterra», (como de resto em todo o mundo), «que é
+nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual não estamos
+prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os pobres, rebaixados os
+humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus o clamor de
+milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos divertimos. E
+imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a chacina da
+guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das
+doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se podia
+atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da
+pobreza, da embriaguez e vicio».[4]
+
+Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de
+antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista--miséria e orgulho dos
+govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal
+responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na
+guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para
+sempre convencida de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e
+à riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua
+corrupção e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou,
+perdeu o prestígio dos seus conciliábulos e segredos, e são mais os
+incrédulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. Há muito
+suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinações,
+isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, embora fôsse o meio
+de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as cobiças, a
+sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou
+menos consciente e nunca escrupuloso--agora, ao dar conta pública das
+suas façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas
+anteriores.
+
+Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos
+homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o
+movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar
+anti-diplomático, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento
+inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente
+aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do
+secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada
+posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante cinco
+anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço
+diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da
+Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se
+para discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus
+beneficios e seus males e agravos.
+
+Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, _O Camelo
+e o Fundo da Agulha_, severo estudo da degradação que a posse da riqueza
+importa, e a _Decadência da Aristocracia_, onde pôs a claro a fraqueza
+da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e
+talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou
+_Democracia e Fiscalização dos Negócios Estrangeiros_. Aí procurava
+acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade
+da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspirações e esforços das
+democracias. «Não creio», escrevia então, «que na época presente haja
+questão mais importante do que a consideração do problema que resolverá
+como é que a opinião pacífica, moderadora e progressiva da democracia
+póde penetrar tanto nos negócios internacionais como nos negócios
+nacionais, e como é que um estado democrático póde descobrir os meios
+próprios para se exprimir no governo da nação».
+
+Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a
+importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas
+políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um
+redactor de _The Christian Commonwealth_, pôde renovar o seu pensamento
+com a autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado
+por factos de uma trágica evidência.
+
+Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O
+desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a
+guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve
+quebra na boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As
+narrações pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relações
+afetuosas entre êles e o «inimigo» no dia de Natal mostram claramente
+que a guerra não é entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e
+facilmente seriam amigos, se os que os governam não estivessem em
+guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; a guerra não foi
+causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse contra o povo
+de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a
+moralidade internacional e que é realmente a moralidade
+intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua
+crítica é principalmente política. Contesta que haja uma quebra moral da
+parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomático e
+garantir a fiscalisação democrática nos negócios estrangeiros, o que só
+por intermédio do parlamento póde fazer-se. «Diplomacia aberta» é em
+certo modo uma frase que não convém. Do que o país carece é de conhecer
+inteiramente os seus compromissos e obrigações com os países
+estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política que
+se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de
+interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma
+tradição de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado,
+que nos veio de idade-média e que tem por efeito deixar as cousas
+inteiramente nas mãos de homens públicos ciumentos de toda a intervenção
+estranha. O que mais lastima, todavia, é a política do silêncio oficial
+sobre materias que se tornam de uma importância vital. Um completo
+segrêdo é em nossos dias praticamente impossível. O povo sustenta-se de
+palestras ociosas, rumores e falsas referências dos jornais. Não está
+sem informações mas está mal informado.» A culpa não é dos ministros, é
+dos próprios parlamentos que se movem em um círculo vicioso: porque os
+seus membros não são informados dos negócios externos, poucos se
+interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas mãos dos grupos
+que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes grupos, e a
+ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram de tal
+modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão destinadas
+a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a
+consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da
+democracia, prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a
+direcção dos negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos
+ministros ou que deixe de haver negociações que necessitem de reserva
+emquanto proseguem. «Mas carecemos de mais bastas oportunidades de
+discussão, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e
+obrigações, de democratisar o serviço diplomático.» Porque a exiguidade
+da retribuição dêsses serviços tornaram-nos praticamente o apanágio de
+reduzidissimas classes abastadas, e «homens de talento, criados na fé
+democrática, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular,
+são excluidos justamente por não possuirem aquelas qualificações
+adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»
+
+Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia.
+Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são
+indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da
+humanidade, e essas relações não podem deixar de ter seus interpretes
+próprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está
+inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande
+perda de vidas e bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres.
+Mas está humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua
+insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior
+do coração terá de dar o lugar a quem a substitúa com menos soberba,
+mais modéstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspirações
+dos povos que a sua arte está destinada a servir e que ela cegamente
+sacrificou às ambições pervertidas de reduzidas aristocracias e à
+voracidade insondável das oligarquias mercantes.
+
+Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada
+que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus
+palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que
+arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este
+campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas
+aspirações e das tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De
+soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigações políticas e morais
+que são a condição da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver
+nobremente, em paz e dando a paz.
+
+Um artigo do _Daily Chronicle_, procurando as razões por que a
+Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem
+anos, emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava
+explicação insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco
+que unem os povos dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para
+essa extraordinaria fortuna, é certo que a identidade da raça dos
+Estados Unidos e da Inglaterra está profundamente limitada e prejudicada
+pela insinuação de sangue estranho, e não póde dar razão bastante de tão
+sólida e prolongada amizade. Causa mais eficaz poderá encontrar-se
+«nestas ideias de liberdade pessoal, direitos civis, obediência à lei e
+confiança nos métodos judiciários, que são a herança comum do passado do
+povo americano e do povo britânico. Ambos êsses países realisaram os
+processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e estão por
+conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a
+experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos.
+Ambos êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do
+militarismo que escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes
+foram, indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem
+anos.
+
+«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais
+importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de
+facto, a Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade
+governados pela opinião pública.»
+
+E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica,
+conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu
+direito de assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter
+que brilhantemente revelou onde tem podido dominar.
+
+Na verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o
+internacionalismo nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças
+superiores das quais dependem, como todos os demais elementos da
+constituição social das nações e as suas afirmações. O internacionalismo
+dissemina-se e avigora-se, e a diplomacia muda de modos, gestos e
+processos, aparentemente; no fundo não são senhores dos seus destinos,
+jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que os autorisa ou condena
+e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos os seus aspectos
+muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e
+desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não
+desperte e não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu
+invencível poder e a sua indomável expansão. E esta guerra mais
+evidentemente do que nenhuma outra o demonstrou.
+
+«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente
+grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira
+guerra de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da
+nossa religião. Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que,
+se as nações são cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o
+souberam Atanasio e Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo
+de Constantino até agora esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua
+protecção a igreja e, largamente, sob o seu governo, no acontecimento
+conhecido como a conversão de Constantino, muitos dos princípios do
+Evangelho se obscureceram. Durante séculos, a igreja estava pronta a
+abençoar exércitos e armadas. Shakespeare julgou apropriado fazer
+proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam Henrique V a
+declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa, instado
+para abençoar as armas, respondera:--«Dou a minha benção à paz.» E um
+arcebispo--_alterius orbis papa_--solenemente declarava toda a guerra
+«obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente
+que toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro
+efectivo. Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o
+cristianismo nunca foi aplicado às relações internacionais. O que faliu
+foi uma civilisação que não era cristã»[5].
+
+Romain-Rolland, nos artigos que publicou no _Journal de Genève_ e
+correram mundo vertidos em diferentes linguas, anunciados como um pregão
+profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra
+mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes
+apóstolos rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de
+repente nos mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães,
+e Frank, morto em combate, por amor do militarismo, ele que era o
+campeão da união franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à
+disposição dos seus governos e lhes coadjuvaram as mentiras e os odios
+«tendo a coragem de morrer pela fé alheia, os que não tiveram animo de
+morrer pela sua própria fé.» «Os representantes do Principe de Paz,
+sacerdotes, pastores e bispos, foram para as batalhas aos milhares, a
+levar-lhes, mosquete em punho, os divinos mandamentos:--Não matarás e
+amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de austriacos, alemães ou de
+russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada um tem o seu Deus e
+cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o defenderem e
+destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte mil
+sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os
+cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem
+qualquer expressão de pasmo, a scena paradoxal na estação do caminho de
+ferro de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços
+ordinandos que iam para os seus regimentos, cantando todos juntos a
+marselheza.» Pio X, a quem o rompimento de guerra apressou a morte,
+segundo se crê, que «não poupou os seus anatemas aos sacerdotes
+inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra do modernismo, que fez
+êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes cuja ambição
+desmedida votou o mundo à miséria e à morte?»
+
+Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo,
+porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta
+de resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se
+associou, atiçando-o em vez de o apagar.
+
+Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de
+Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o
+cristianismo e as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência
+da organização das igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do
+império de um princípio cuja expansão e penetração teem sido constantes
+desde a hora da sua revelação, cujo poder mais do que nunca nos domina e
+fascina, e cuja lei cada vez mais lucidamente se mostra a solução unica
+e a unica redenção dos males e angústias que afligem a humanidade.
+
+Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão
+de ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas
+cristãs veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por
+todo o mundo associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e
+deshumano; tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo,
+abençoando-os bastas vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito
+dos fiéis, de ordinário prontas em promover o culto da riqueza e do
+podêr; quási invariavelmente afastadas, senão inimigas, do
+desenvolvimento da democracia que, sendo a tradução política dos seus
+princípios, elas insistiram em desconhecer, aceitando-a em último
+extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina, subversão, opressão
+e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe dúvidas, temores e
+embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e partilhando-lhes
+do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes, e
+amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação
+das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno
+impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da
+autoridade civil, subsistente durante longos séculos e por diversos
+modos efectiva, expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no
+forum e no templo; mais combatentes, coercitivas, do que apostólicas,
+mais amigas de mandar, e de facto mandando, entre erários e espadas, do
+que confiadas em cativar pela pobreza, pela isenção de toda a violência,
+pela verdade e pelo amor; de uma scéptica complacência com o fariseismo
+e hipocrisia que se lhes roja pelos altares, inteiramente descuidadas em
+corrigir as superstições dos seus rebanhos; afeiçoadas a uma caridade
+realmente abundante de deligências, desinteresses e esmolas, mas
+intimamente e logicamente inseparável de todas as aristocracias e
+hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e de quanto
+possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a intervenção;
+não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para depois
+lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em
+paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos
+predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo
+cuja suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de
+expressão da alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar
+regras e manter uma disciplina estreita e mecanica do que exaltadas em
+respeitar, defender e propagar a pureza dos princípios; desatentas ao
+inimigo que lhes invadia os domínios, não percebendo ou tomando em pouco
+o que o desenvolvimento da imprensa diária lhes importava, pois,
+trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que cada um escolhe
+ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o procurávamos, nos
+dias de descanso das fadigas profissionais:--as igrejas, no geral,
+decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando, por
+desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira
+de aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da
+adoração dos homens, que para as servirem as tinham edificado e
+cimentado com o seu sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e
+teem. Faltaram-lhes crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma
+conjuntura como a presente, porque crentes não tinham, quedaram-se
+impotentes, com grande copia de bons desejos, palavras excelentes e
+muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de acção.
+
+«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o
+preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os
+fundamentos e desvairou as gentes. Da corrompida interpretação dêsse
+princípio veio que, devidido o mundo e a consciência em duas metades,
+uma para Deus e outra para Cesar, completamente se perdeu a noção da
+dependência em que Cesar estava de Deus, e impensadamente se dispensou a
+observância das obrigações correlativas; não mais se cuidou de
+subordinar Cesar a Deus, (os imperadores contam com o auxilio de Deus
+para os seus negócios e invocam-no como quem está seguro da honestidade
+e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino seu, próprio e para
+todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o desregramento,
+a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de que, se
+Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma humanidade
+redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação do
+mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a
+fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no
+rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa,
+excelente e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle
+adaptada, sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua
+sumidade, por vezes propensa a indulgências com a cobardia religiosa,
+sem mesmo hesitar em abençoar exércitos que, sendo portadores do ódio e
+da morte, são a negação de Cristo, e até mesmo pondo sob a protecção da
+cruz as máquinas dos caminhos de ferro que são levitas e servidores
+horrendos de desapiedadas cobiças.
+
+Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade
+religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e
+infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas
+e domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por
+isso cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez
+mais inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o
+reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão
+sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos
+primeiros dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos,
+manter. «Os horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem
+do cristianismo e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e
+esta espécie de cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como
+aquela de que estamos sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da
+natureza da impostura. Mas, por muito más que as cousas sejam, não há
+necessidade de desesperar. Um novo cristianismo e uma nova cultura
+surgem--o cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a cultura dos
+profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa religião,
+não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam o
+logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que
+Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora
+presente.
+
+De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades
+modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada
+sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência
+do cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde
+durante prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos
+os altares e espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer
+na solução dos problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso
+tempo resulta é a vitória da religião e do cristianismo em toda a
+latitude, como promessa unica de salvação. Cresceram fóra das suas
+igrejas, com diferentes nomes e diferentes rubricas, sob diversissimas
+invocações, mesmo sob as que se propunham nega-los e, inscientemente,
+imaginando afugenta-los, destrui-los e substitui-los, os propagavam e
+defendiam; cresceram, porêm, continuamente e, sendo divinos, nunca como
+agora se mostraram necessidade terrena mais urgente e remédio mais
+seguro das nossas enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior
+altura, erguidos não só pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre
+foi todo o seu ser e substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da
+logica, pela meditação e pela reflexão, pelas conclusões da inteligência
+e pela investigação das leis da vida, pelas demonstrações da
+experiência, pelas lições da história desapaixonada e isenta de toda a
+obsecação de sectarismo.
+
+A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em
+iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e
+discordia em auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no
+reconhecimento da mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação
+do mesmo mistério, na justificação do mesmo amor e no respeito da mesma
+regra que dêsse princípio deriva. Religião, sciência e filosofia que
+fôram atrozmente irreconciliáveis, resolvendo nas fogueiras, nas
+masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas divergências e conflictos,
+caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se amparam para uma mesma
+jornada. Já a ninguem surpreende que um publicista de superior reputação
+se detenha a proclamar o «valor religioso do livre pensamento»,
+significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade do
+espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a
+sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu
+inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade.
+Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma
+igreja infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O
+pensamento não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda
+menos, por modo algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava
+que essa fé podesse definir-se como um estudante a definiu--«aquela
+qualidade pela qual cremos em cousas que sabemos serem totalmente
+destituídas de verdade.» Mas a igreja de hoje, no seu melhor modo,
+acolhe bem o pensamento porque com êle está mais segura de si.
+Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que lhe resta
+está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra, considera
+o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr que
+voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as
+profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade
+foi auxiliada por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal
+da realidade da nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para
+o campo largo da razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e
+a sciência, levadas para qualquer cousa como um terreno comum.
+
+«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias
+de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos
+dogmas, vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida;
+mas as cousas grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na
+sabedoria e no amor de Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em
+o nosso dever com os nossos irmãos, são, pensa ele, mais profundamente
+sentidos e mais sinceramente possuídos do que nunca. A sciência abdicou
+da sua velha arrogancia e está preparada para se apresentar de cabeça
+curvada, como um humilde investigador nos palácios do Oculto.»
+
+São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e
+no govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião
+e o seu valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma
+torrente, no meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se
+um homem da estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida
+de apostolado político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se,
+confessa publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a
+política e se consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas
+suas palavras, não o desengano de um profeta mas a desilusão de uma
+época que, ardentemente empenhada em livrar a terra e os homens dos
+martírios que os crucificam, errou a estrada e foi procurar em
+mesquinhas artes e em artificios estreitamente humanos uma salvação que
+êles não continham. São a condemnação final de toda a idolatria
+materialista dos valores económicos e a certeza de que só a inspiração
+religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza da nossa
+inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de fundar.
+
+Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo
+director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno
+livro, de sumo interesse e eloquente clareza, intitulado _O Sermão da
+Montanha e a Política prática_. Pretendia que «não podemos realizar
+imediatamente os ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da
+sua realização, e os nossos movimentos podem estar de harmonia com as
+leis da natureza humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram
+supremamente compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas
+pelos que adoram Mamon e Belial».
+
+Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma
+lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da
+terra, e em particular na política, examinando a possibilidade de
+aplicação das bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à
+simplicidade, à misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por
+engenhosos sistemas e subtis abstrações mas pelos exemplos históricos
+mais vulgares, vinha por fim a afirmar que é possivel governar uma nação
+pelos princípios estabelecidos no Sermão da Montanha e que é sómente em
+quanto assim procedemos que a sociedade póde elevar-se dos tipos mais
+baixos aos mais altos. Podemos ir para diante no espírito do
+cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião é que
+vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e dos
+demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu
+de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens
+públicos podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma
+legislação humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste
+o facto de que essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará
+lembrar o que a legislação social e política tem sido desde o comêço do
+século desenove--o que ela fez protegendo as crianças, de que infernos
+vem arrancando os trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a
+dignidade, que lutas titânicas sustentou para isso, que barreiras
+formidáveis de prejuízos e vis interêsses lhe foi necessário transpôr e
+vencer. E que princípio, que fôrça realizava êsses milagres senão o
+cristianismo que dos livros sagrados se derramára nos códices das
+doutrinas e das instituições políticas?
+
+Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores,
+seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância
+daquele valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem,
+sobretudo para o fazer repassar mais profundamente a consciência dos
+homens, definitivamente convencidos da necessidade de um predomínio
+maior ainda, infinitivamente mais profundo, dos princípios do Evangelho
+considerados na sua influência prática, na sua ilimitada aplicação à
+disciplina e conduta da vida.
+
+Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra,
+Filipe Snowden, dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as
+fôrças unidas da democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado
+a catástrofe da presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se
+por tal forma que as fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas
+não tiveram tempo de mobilisar-se antes que as intrigas dos
+militaristas, monarcas e diplomatas soltassem as fúrias da guerra.
+Sempre acreditára e confessára que, se as nações da Europa continuassem
+na política internacional dos ultimos quinze anos, provocando
+hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de armamentos, o
+resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a causa da
+guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a
+responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais,
+deixaram que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os
+militaristas e os diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas
+aspirações democráticas e levados por interesses económicos e outros
+opostos aos trabalhadores do mundo. Tivessem-se os trabalhadores
+apossado do govêrno das relações internacionais, e debalde se teria
+provocado a guerra e as suas calamidades, de cuja responsabilidade os
+trabalhadores não podiam livrar-se.
+
+Sem dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar
+no podêr da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está
+longe de se conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio
+dos partidos socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as
+nações. Mas para os estranhos às artes da actividade política prática,
+medianamente propensos a esperar das suas tramas a fortaleza que só no
+vigor das tendências do espírito encontram, o mais provável será que não
+fôsse a deficiência de direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a
+guerra; antes teria acontecido que a insuficiência do espírito
+anti-militarista entre os trabalhadores não permitiu que êles se
+acautelassem e defendessem o mundo contra essa inqualificável
+monstruosidade. Para os que mais esperam da inspiração interior que do
+engenho prático, a responsabilidade dos trabalhadores está amplamente
+atenuada pela sua miséria material e indigência moral correlativa. A
+civilização moderna, fazendo-os escravos de uma escravidão de que a
+custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes podia ensinar
+menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas revoltadas.
+
+Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos
+sórdidos das chancelarias, dos palácios e das casernas. Teria sido a
+debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um simples erro
+de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição perante
+poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de
+iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a
+guiar e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja
+suficiente para a substituir.
+
+Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu
+Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor,
+quando o génio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de
+todo isento de ira injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr
+termo a esta peste da guerra, _não há senão um remédio_, e é «o geral
+abandono dêste sistema de vivermos do trabalho dos outros», poderá
+parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a proporções demasiado
+mesquinhas um conflicto de proporções gigantescas que é uma dôr e uma
+agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do
+filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com que êle pretende
+fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma
+anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos,
+ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmação
+do profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem
+os seus vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em
+renascimento assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das
+relações sociais, desde a ínfima humildade de um servo que nos comove
+até á soberba das potestades da terra que nos ameaçam.
+
+Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros,
+negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre
+as nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram
+para isto as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e
+colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores
+podessem subsistir; e são a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir
+concessões de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o
+trabalho de gente de côr seja explorado até ao extremo mais amargo;
+apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas
+gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) possam realisar
+dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros productos
+industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho
+destas avidas e deshumanas ambições:--tais são os fins das guerras de
+hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós,
+porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes
+capitalistas e comerciais, que hoje são os representantes das nações, se
+funda em o mesmo princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é
+encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho
+valoríse o que nós podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e
+sem vergonha é a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos
+animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente
+velada todavia por uma aguada de sentimento «cristão» e por uma rede de
+instituições filantrópicas para suposto benefício das muitas vítimas que
+nós espoliamos.
+
+«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra
+intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos
+cobre o corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros,
+sem considerar aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois
+que admirar se por fim resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto
+teatro do drama das nações, e nas letras vermelhas da guerra e do
+conflito, escritas através dos continentes? De nada serve dizermos com
+uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o
+militarismo, animando nós entretanto em nossa própria vida e em a nossa
+igreja, ligas do império e outras instituições, o mais sordido e egoista
+mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, apenas uma guerra
+de um género muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que
+se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos
+canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma
+comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra[6].»
+
+Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se
+reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre--uma derrogação do
+princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a
+qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e
+que o hábito nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em
+uma tal simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola.
+Acusados e pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o
+cristianismo significa na hora presente, até onde chegam as suas bençãos
+e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que
+influências imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e
+latentemente se criaram, e que espécie de revolução, ou, melhor, de
+resurreição nos anunciam.
+
+Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo
+tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida
+fortaleza, deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem
+edificá-la. E aquilo de que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento
+da inteligência na humanidade, o conhecimento da história e a observação
+minuciosa e exacta da evolução das sociedades, todo êsse honesto labor
+das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos
+por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas,
+tudo isso que é um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi
+vão para evitar as provações a que um destino sinistro nos conduziu.
+
+Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse
+que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na _Grande Ilusão_, largamente
+comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e
+renovado no _Prussianismo e a sua Destilação_, isso bastava para que a
+paz e a guerra fôssem um pleito findo.
+
+Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos
+essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e
+conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos,
+o pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a
+grande ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida,
+aquelas que representam os fins das sociedades humanas, só podem
+alcançar-se pelo desenvolvimento da fôrça política e militar dos
+estados, pela extensão do seu território e pelo domínio dos seus
+govêrnos. Esta doutrina, proeminente e característica na Prussia,
+tornára-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorável
+contágio. Para a debelar não bastavam combinações diplomáticas e a
+revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de espírito, só por
+tendências opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as
+academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a propagaram; e só
+por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. Não seria
+pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa
+sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da religião;
+debalde sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram sustentar as
+crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a liberdade,
+quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e a
+estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua
+comparação, demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos
+altares. Assim acontece e se verifica que «o combate pelos ideais não
+póde mais tomar a forma de combate entre as nações, porque as questões
+morais estão dentro das próprias nações e cruzam as fronteiras
+políticas. Não há estado algum moderno que seja completamente católico
+ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático ou democrático,
+socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo
+moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma cooperação
+intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros
+estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e
+economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a
+estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões
+nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas
+pela coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty,
+citado por Norman Angell, «ignorar a significação dos congressos
+internacionais não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo,
+do feminismo, de toda a espécie das artes e sciências, que tão
+claramente marcam os seus sinais nas épocas de férias. A nacionalidade,
+como fôrça de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a
+aproximar-se uma situação em que a fôrça da nacionalidade será
+distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as classes se
+organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua
+fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a
+associação atravessa os limites dos estados, que são puramente
+convencionais, e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do
+género humano em estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em
+respeitar um _mujik_ russo porque pertence a uma grande nação, ou em
+desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação
+pequena». «Viremos a compreender que as divisões reais psíquicas e
+morais não são entre as nações, mas entre as concepções opostas da
+vida».
+
+Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente
+obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre
+os povos será em breves anos uma realidade. E a acção dessa lei
+efectua-se com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra
+tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A
+certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do
+que em todas as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez
+anos do que primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os
+desenvolvimentos de uma geração?».
+
+Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a
+natureza humana não é susceptível de mudar. A história é a negação
+radical de semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de
+retardatários. Do canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos
+autos de fé à liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao espírito
+militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se
+exteriormente é bem diferente do que foi na sua origem, intimamente
+anima-a um espírito que desconhece e repele aquele de pura animalidade
+que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de bandos famintos,
+devastadores e crueis, passou à comunidade moral e religiosa, e a
+civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do espírito
+militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater,
+cresce-lhes a tendência para trabalhar, e é trabalhando juntos, e não
+combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma
+terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e
+decaíndo, continuamente se sustenta.
+
+De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento
+de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais
+sãos e corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a
+procriação das novas gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria
+Inglaterra, apezar de toda a resistência do espírito da sua raça, corre
+o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo
+póde prejudicar-se na diligência de o vencer pela adopção das suas armas
+e pelo abandôno das virtudes que a tornaram grande, «a aptidão de
+iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a sua obstinada resistência
+à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua impaciência com a
+burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o que se
+involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada
+para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca,
+promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura
+substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo modo
+uma fórma de parasitismo, promove o retrocesso».
+
+A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que
+ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão
+económica--usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa
+do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar,
+consideração social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia
+um mundo em que as cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo
+os grandes espíritos da antiguidade não acreditavam que o mundo podesse
+ser laborioso, senão quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo
+uso da fôrça física, isto é, pela escravatura. Tres quartas partes dos
+que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora é a Itália,
+eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados à
+noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, acorrentados aos
+portais. Era uma sociedade de escravos--escravos para combate, escravos
+para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta
+Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo nas
+cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos
+espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepção de
+uma condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo
+impulso económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade,
+quando disse que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por
+si», a escravidão seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de
+chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o
+impulso de uma causa abstracta chamada interesse económico, e êles
+considerariam semelhante asserção como a de meros teóricos sentimentais.
+Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se ha sessenta anos
+afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre
+êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por certo se
+riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de aceleração
+a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, mas
+principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia,
+esta substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais
+seguro e rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas
+tambêm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que,
+por isso mesmo que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o
+espírito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fôrça
+universal em todo o sentido.
+
+Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres
+competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E
+todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o
+coração purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar
+êsse prodigioso renascimento.
+
+Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios
+poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos
+êsse espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda
+se ergue como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para
+combater o inimigo, a satânica sensualidade que fundou o mundo moderno
+em ambições tôrpes e em materialidades e que, é evidente, não abdicará
+do seu reino passada a tormenta? Como é que um pensamento religioso só
+por si ha-de destroçar os poderes da terra enriquecidos, armados e
+incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes
+diplomáticos, pela redução dos armamentos, por todos êsses «retalhos de
+papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a Alemanha rasgou o
+compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Bélgica?!...
+Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo destinado
+a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em
+suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e sujeita-los à
+lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas intenções há-de
+tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua regra?
+
+Ferrero, o historiador da _Grandeza e Decadência de Roma_, diz-nos no
+último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a
+pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o
+futuro, dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em
+tentativas contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro
+por si mesmo se fazia no grande império, e muito diferente daquilo que
+se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para
+reorganizar em Roma o govêrno aristocrático, acontecia que por si
+mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços de milhões de homens
+inconscientes do resultado final, as regiões do império que mais
+diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, mútuamente
+se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta;
+interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais
+estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma
+ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho
+interior, invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento
+acidental dos territórios feito pela conquista e pela diplomacia se
+tornava verdadeiramente um só corpo, animado de uma vontade única».
+
+Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da
+constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma
+grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra.
+Dedicado à _Workers' Educational Association_, e por isso posto em
+termos de ser compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos,
+colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e
+Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na sedução de abstrações
+e idealismos, procura êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a
+crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito
+manifesto muito instrue os menos versados nas questões políticas, mas
+nem por isso menos interessados e dedicados na determinação final de uma
+situação das nações da Europa, que terá de ser de larguissimas
+conseqùências na fortuna ou na desgraça dos povos que elas compreendem.
+
+Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio
+da lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois
+processos.
+
+Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em
+tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de
+tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e
+em muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da
+sua fé como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na
+impossibilidade de serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a
+perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem,
+onde estão os exércitos que tornam soberanas e uma realidade as decisões
+dos tribunais? Quando uma nação, armada e grande, afrontar as obrigações
+dos _retalhos de papel_ e os rasgar, quem tornará de bronze a vontade
+dos tribunais e converterá em mármore a precária consistência do papel?
+Um revoltado bastará para atraiçoar as intenções mais firmes e felizes,
+e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fôgo.
+
+Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e
+preparar o caminho para progressos ulteriores, mas só por si não podem
+dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação satisfatória para
+o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários govêrnos soberanos e
+em bem das suas nações».
+
+Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem,
+nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário,
+merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir
+valôr que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as
+suas faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos
+beneficios; pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito
+colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo
+que póde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, não em a
+maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos
+para desafiar a violência. Pressupõem um mapa do mundo traçado
+definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações nacionais dos
+povos. Pressupõem um _status quo_ que se mantem, não simplesmente, como
+o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação seria
+inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente
+equitativo. Pressupõem uma base democrática de direitos civis e
+representação idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem,
+finalmente, uma opinião pública educada, incomparavelmente menos
+egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos
+estreitamente nacional do que aquela que até aqui tem prevalecido».
+
+O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de
+extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a
+velha estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos.
+Espera resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos,
+mas do crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das
+próprias nações no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o
+estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente
+uma refutação definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua
+das nações. Espera a expressão do govêrno do mundo na ordem externa,
+daquilo que podemos chamar o _princípio da República_, do grande
+princípio de lord Acton, do estado composto de nações livres, do estado
+como um corpo vivo, que vive pela união orgânica e livre actividade dos
+seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de acção no
+alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis entre os povos
+das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo patriotismo
+foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme fundamento
+das mais antigas lealdades».
+
+«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem
+ser resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e
+guerra; só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de
+cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigências mais
+altas do que os seus interesses seccionais--as exigências de direitos
+civis comuns e do interêsse da civilisação. Nisto, na união e
+colaboração das diversas raças e dos diversos povos, é que o princípio
+da República encontra o seu campo peculiar de operação. Sem êste
+princípio... o mundo será o caos que hoje é»[7].
+
+Eis aí a lei suprema da história--a preponderância da actividade
+interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações, aos
+decretos, às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e
+dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes
+movimentos da humanidade. Roma e a constituição jurídica e moral do
+mundo latino que dela nasceu e é seu espelho, foi apenas o maior exemplo
+da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raças, duas vezes
+repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade política da
+civilisação, e depois refazendo-a, quando, decrépita, carecia de ser
+renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas
+sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas à mesma
+lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de
+fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes.
+
+Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo,
+será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes
+do resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que
+ninguêm tem consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação.
+Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto
+a sua vitória a isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou
+roubar o seu domínio.
+
+Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e
+desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua
+obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito
+correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir.
+Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só
+produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde
+ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo
+inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho
+subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o
+haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os
+pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as
+multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e
+de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de
+agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças,
+conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as
+amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis,
+que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a
+vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão
+libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão
+então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados
+serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o
+respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as
+nações.
+
+
+
+
+Da arte de gastar e suas responsabilidades
+
+
+«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam;
+hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que
+nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos.
+Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja
+impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que,
+começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o
+caminho de melhores hábitos.
+
+«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar
+desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte,
+quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas
+despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus
+rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação
+que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a
+produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise
+o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu
+gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos
+inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem
+maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles
+que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por
+conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por
+que hão-de usar êsse poder.»
+
+A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o
+titulo de _Spending in War Time_, o professor E. J. Urwick publicou, em
+Oxford, na colecção de _Papers for War Time_, dirigida por W. Temple.
+
+Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação
+dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do
+ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se
+arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas
+angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é
+simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a
+ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções
+por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e
+as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos
+entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e
+de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em
+tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer
+«a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a
+confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no
+método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à
+missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e
+instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.
+
+Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de
+aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e
+fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos,
+virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que
+o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e
+o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a
+solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com
+uma dolorosissima evidência.
+
+O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a
+exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e
+extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar
+para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são
+reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para
+o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios
+indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de
+facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e
+êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso
+com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus
+haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão
+sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.
+
+E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente?
+Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades
+em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus
+regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para
+acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as
+somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de
+indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que
+lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades,
+disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por
+longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram
+inaptos para outras profissões?
+
+A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os
+que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos
+ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações,
+alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e
+causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos
+ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam
+dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.
+
+A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos
+causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a
+toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas
+sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam,
+constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela
+perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam
+as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se
+escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre
+acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem
+sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela
+presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da
+lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos
+possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a
+distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos
+e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe
+discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências
+ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como
+obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos
+trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência
+social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia
+de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros
+obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e
+traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o
+comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos
+emprego a muitos braços.
+
+Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam
+o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes
+ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso
+escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a
+consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de
+capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição
+económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz
+padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por
+exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras
+empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a
+situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de
+trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro,
+cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital
+que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na
+maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e
+cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se
+suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São
+infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de
+retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia
+que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos
+acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos
+casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados,
+porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o
+afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades,
+compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o
+género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes
+pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a
+produzir.
+
+Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick,
+«crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um
+assinalado serviço à indústria, _beneficiando o comércio e dando
+emprego_. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas
+é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade
+reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que
+agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É
+indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a
+inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos,
+estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a
+proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra
+cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido
+rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem
+espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos.
+No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme
+de dinheiro se está gastando em panos de _khaki_, resultando daí que
+correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital
+(incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a
+produção dos uniformes de _khaki_. Ora esta direcção do trabalho e do
+capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem
+para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a
+que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente
+especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por
+conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é
+mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente
+rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos
+fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos
+fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com
+todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital
+altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles
+operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro
+trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser _khaki_; o ourives
+hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para
+construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais
+dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos
+dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e
+dependem literalmente de nós, neste sentido--fômos nós que os convidamos
+a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as
+nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este
+modo. São, por conseguinte, os _nossos_ trabalhadores, os _nossos_
+dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no
+momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão
+arruinados».
+
+De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom
+dizer:--«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as
+despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:--«E os
+trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas
+supérfluas de que hão-de viver?...»
+
+«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma
+perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de
+uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do
+indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os
+trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica
+de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não
+saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem
+fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente
+se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de
+todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e
+processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem
+imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria
+riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando
+dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou
+consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem,
+a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e
+indústria são em geral sustentados só por um modo--pela criação actual
+de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e
+criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os
+trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos
+sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto
+aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o
+conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer
+riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a
+consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são
+exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os
+comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar,
+a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de
+comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a
+preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha.
+Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou
+podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a
+conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada;
+mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se
+obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence
+êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está
+inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos
+gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na
+proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente
+realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no
+quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se
+pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no
+facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que
+gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos
+outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o
+quer que seja a êsse bom resultado.
+
+«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas
+vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso
+onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os
+trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e,
+com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a
+soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada,
+mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo.
+E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum
+individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão
+total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma
+verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras
+que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos
+nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa
+comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas
+vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco _shillings_. Ora nos
+tempos _bons_, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de
+longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os
+rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a
+relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros,
+suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como
+antigamente».
+
+Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve
+e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido
+por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o
+seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de
+gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no
+caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o
+sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido
+habitos maus, está provado pelo facto--e êsse é o sinal de todo o habito
+máu--de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal
+sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes
+é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e
+parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide
+da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena
+classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».
+
+Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos
+dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela
+nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se
+imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem
+moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal.
+Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar,
+a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa
+e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no
+dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela
+primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade.
+Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está
+mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões
+individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem
+que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas
+sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a
+maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por
+sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as
+soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente
+conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.
+
+Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura;
+mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que
+a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e
+delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a
+justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa
+a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua
+honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu
+contentamento e felicidade.
+
+
+
+
+O Cavador e o Profeta
+
+
+Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada,
+porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de
+assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter
+irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e
+do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia
+infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de
+estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o
+amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a
+consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o
+domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a
+sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há
+insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a
+teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e
+estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as
+raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.
+
+Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à
+velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma
+destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do
+rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores,
+e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem
+sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e
+acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas
+infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e
+repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis
+ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se
+êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai
+no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não
+permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e
+outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar
+seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se
+atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu
+cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a
+aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas
+vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e
+aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra
+injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna
+e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo
+vago será talvez um dos bordões da humildade.
+
+E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A
+melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o
+lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a
+riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses
+caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as
+sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em
+nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o
+seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E
+depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras,
+e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de
+perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da
+pobreza.
+
+Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque
+tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como
+diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses
+malfadados passos.
+
+Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito
+que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a
+brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a
+sua conseqùência.
+
+Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência,
+dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não
+havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava
+maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de
+facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão.
+Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a
+poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as
+inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas
+terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez,
+serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor.
+Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um
+fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição
+e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus
+criados e servidores.
+
+Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade
+e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por
+elas não se afreimava.
+
+Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha
+a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava
+claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a
+mais penetrante arte de persuadir.
+
+Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado
+desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava
+no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos
+animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo
+terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era
+escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até
+onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo
+ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a
+afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes
+superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.
+
+Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos
+ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham
+levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia,
+consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto
+rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que
+no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o
+tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.
+
+--«Porque?»
+
+--«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de _o_ ganhar, precisa
+de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».
+
+E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda
+trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem
+para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma
+indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso
+essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência
+na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e
+económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe
+outra cousa.
+
+Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a
+poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia
+e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua
+lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da
+taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe
+parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros
+na pastagem.
+
+Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para
+êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe
+com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é
+apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.
+
+Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas
+provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A
+vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade,
+uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma
+independência de todos os instinctos na suma vibração das suas
+energias--uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e
+aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas
+grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito
+misterioso.
+
+Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito
+aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de
+vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que
+eu não sou capaz de saber.
+
+Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre
+de sangue o mundo?
+
+--«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem
+trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem
+agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo
+comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de
+costa direita, quer comer sem trabalhar».
+
+Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há
+mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus
+apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores,
+_caveant consules_! tomem nota os generais e os seus imperadores,
+andam-lhes inimigos na fortaleza.
+
+Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias
+inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito
+longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá
+ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos
+incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes
+pedir impostos e os filhos para a guerra».
+
+Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o
+génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas
+palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta
+ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e
+identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e
+consubstanciação em uma única visão?!...
+
+
+
+
+Aparições
+
+Mazzini
+
+
+É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o
+que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da
+salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento
+e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles
+importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de
+uma fortuna fácil e prolongada.
+
+Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais
+remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu
+destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes
+incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela
+morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra
+haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam
+os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o
+pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas
+que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o
+seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das
+cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em
+que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou,
+sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e
+esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos
+cara, e esperança da glória a que nos conduzem.
+
+Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa
+o nome de Mazzini.
+
+Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela
+obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado
+os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o
+assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades.
+Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam
+ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de
+homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini
+jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e
+confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a
+legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores
+rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o
+fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa
+fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos
+da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.
+
+Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na
+hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do
+mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à
+contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.
+
+Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e
+atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.
+
+Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...
+
+Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si,
+independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O
+universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus,
+uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia
+divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o
+triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza
+das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência
+impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as
+realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único
+consistente, de todas as edificações que tentassemos construir.
+
+Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu
+tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu
+que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos
+estados--«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho
+disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e
+de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através
+do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia».
+Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam
+uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto,
+de todo perturbaram a fortuna da Europa.
+
+Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a
+vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma
+certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de
+crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as
+estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e
+mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a
+todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder,
+viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso
+único dever».
+
+A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história
+como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do
+presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos
+precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem,
+sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder,
+não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus
+e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a
+insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que _há um
+só Deus e todos os homens são filhos de Deus_. Foi a promulgação destas
+duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem
+soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma
+alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão
+a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção
+quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras
+sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no
+cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal
+compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque _da
+maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma
+mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e
+cada um de nós membros uns dos outros_. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c.
+XII, vv. 4, 5). _E haverá um só rebanho e um só pastor_ (Evangelho de S.
+João, c. X, ver. 16)».
+
+A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em
+toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção
+religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de
+egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de
+ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre
+o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa
+onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada
+externamente; povos que dizem que _a verdade é uma cousa e a utilidade
+uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática_. Êsses
+países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento,
+opressão e anarquia».
+
+A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua
+substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.
+
+«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria
+fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação
+opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao
+indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por
+conseguinte, não só porque é uma _necessidade_ da nossa vida, mas tambêm
+porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros
+e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam
+antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma
+educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as
+faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e
+mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da
+humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais
+rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e
+intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por
+isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser
+inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a
+natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos
+necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades
+mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.»
+
+Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu
+valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e
+produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a
+_instrucção_, desacompanhada de um gráu correspondente de _educação_, é
+um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um
+mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos
+entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina».
+
+Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma
+família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo
+pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu».
+Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver
+toda a verdade que nela se encerra.
+
+«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo,
+mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no
+próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do
+Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor
+da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para
+os sacerdotes a comunhão nos _dois géneros_».
+
+«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação
+superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado
+morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela
+ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir
+naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a
+negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião
+eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto
+de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de
+sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre
+os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material,
+tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e
+nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os
+finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do _fait
+accompli_». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude
+republicana».
+
+Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à
+sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão
+que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois
+«a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós
+temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente
+dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades
+humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem)
+aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e
+todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela
+porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma
+realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção
+divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender».
+
+Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes
+ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da
+família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a
+salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina».
+
+«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação
+europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e
+trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da
+sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa
+sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a
+ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande
+missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou
+compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da
+vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do
+govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o
+elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos
+semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura
+pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da
+linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma,
+as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a
+fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de
+misericórdia»--tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da
+egreja.
+
+Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há
+desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época,
+estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a
+de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em
+inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais
+sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma
+religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo
+«podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa
+dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis,
+aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única
+escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande
+e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor.
+Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela
+representava, e não se encontraria entre eles um só mártir».
+
+«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como
+scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias,
+desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos
+altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados.
+Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida
+quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra,
+para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias
+estranhos a toda a concepção religiosa».
+
+A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição
+da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas
+relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no
+espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes
+trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo
+e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para
+aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o
+quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa
+alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de
+concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira
+para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo
+não podem exercer os seus direitos».
+
+O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se
+passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar,
+por _desenvolvimento_, pela _modificação_ perpétua dos elementos que
+manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas
+épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos,
+deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não
+teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de
+uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou
+além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são
+os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando
+os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de
+todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como
+sempre fôram os instinctos da humanidade».
+
+E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento»,
+sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a
+deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer
+organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e
+estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos
+modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser
+qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade
+nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e
+indestructiveis. «Algum dia fomos _escravos_, depois _servos_, depois
+_assalariados_; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres
+produtores e irmãos na _associação_--associação livre e voluntária, por
+nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se
+conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela
+autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições
+individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que
+como seres de livre e espontânea vontade».
+
+Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das
+sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é
+eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um
+homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde
+só respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as
+reformas são inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um
+sepulcro branco, nada mais». «Só os princípios edificam». «Onde
+quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revoluções, temos
+sempre de ir ao conhecimento e à pregação dos princípios. O verdadeiro
+instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor
+_moral_». Não suprimiremos o factor económico nem é possível suprimí-lo,
+mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do govêrno da sua
+influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias do
+individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta
+perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão dos _apetites_
+da espécie humana». A cada estado do progresso devia corresponder «uma
+melhoria positiva da condição material do povo»; mas sustentava que «os
+interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, dependem dos
+princípios, não podem ser a _mira_ e o fim da sociedade. Porque sabiamos
+que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos lembramos
+que, quando o factor _material_ começou a apossar-se de Roma, e o dever
+com o povo se reduziu a dar-lhe _pão e jogos_, Roma e o seu povo
+apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na
+Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada,
+precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil
+que separa dos princípios o bem-estar material».
+
+São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma
+revolução é a passagem de uma ideia da _teoria_ à _prática_. Digam os
+homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca
+causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a
+tributação opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são
+mais ou menos ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem
+a sua origem no espírito, nas próprias raizes da _vida_; não no corpo,
+no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma
+filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição
+histórica da humanidade».
+
+Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras
+de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos
+na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens
+as emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão _tornando-se, êles
+mesmos, melhores_; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão
+_merecendo-os_ pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os
+procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido,
+alcançá-los hiam; mas, se os procurassem em nome do _bem-estar_ que os
+materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos
+momentaneos, seguidos de desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles
+que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambêm
+êsses procuravam o seu _bem-estar_ e para o obterem queriam unir-se com
+eles, como um elemento de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer;
+mas, logo que com o seu auxílio tivessem obtido o bem estar,
+abandoná-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista.
+Era essa a história do último meio século e o nome dêsse meio século era
+_materialismo_».
+
+As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e
+organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no
+conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento.
+Por vezes, vêem a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a
+considerá-la uma triste _necessidade_, e deixam às gerações futuras o
+cuidado de lhe encontrar remédio. A indiferença e o esquecimento são
+doces para o homem que se sente no santuário da sua família, cercado de
+faces sorridentes, emquanto lá fóra sopram as rajadas do inverno e a
+neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças da janella dupla. Esperareis
+erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expressão
+da _situação económica_ e do que deva substituí-la em uma sociedade bem
+organizada? Esperareis arrancá-los do seu repouso egoista meramente pela
+análise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram?
+Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitárias; não lhes
+peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? Falam-lhes em nome
+de _interêsses_. Não é o gozo o primeiro dos interêsses? E êles gozam».
+
+A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será
+tambêm um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais
+habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela
+delimitação do território, pelo agregado e conjugação das fôrças
+económicas e por qualquer combinação de actividades políticas. «A
+nacionalidade é a crença em uma origem e um fim comum. Se hoje fôr
+fundada em um interêsse, pode ser derrubada amanhã por outro interêsse
+mais ousado e mais poderoso». «Só quando o evangelho da fraternidade de
+todos os homens de uma nação fez da alma santuário de virtude e amor,
+quando a grande concepção da nacionalidade deixou de se encontrar
+reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para base dos seus
+direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse que
+sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será
+possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».
+
+O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso
+correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o
+grito eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício,
+por instrumento os povos, e por fim a humanidade». «O pensamento
+religioso é o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e
+alma, o seu espírito e o sinal externo. A humanidade só existe na
+consciência da sua própria origem e no pressentimento dos seus próprios
+destinos». Fora do trabalho da reforma moral «toda a organização
+política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se «do nosso trabalho
+banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os povos». «O
+elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande revolução
+está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».
+
+Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto
+vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação».
+Acreditava em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de
+existir, que compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma
+influência continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm,
+no seu aspecto físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para
+Mazzini, era por igual essencial e simples.
+
+«Cristo disse:--«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com
+afeição fraterna». E disse tambêm:--«Entre vós será o primeiro aquêle
+que fôr o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se compreende
+nestas palavras. Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana,
+actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifício, a afirmação da
+doutrina da igualdade, a abolição de toda a aristocracia, o esforço de
+perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a
+perfeição podem existir--tudo assim se resume naqueles dois preceitos».
+
+«Toda a revolução social é essencialmente _religiosa_. Toda a época tem
+a sua _crença_. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar a
+humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que
+superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o
+_sentimento religioso_, é desconhecer a significação dessas palavras,
+querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como
+fôrem as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em
+seu coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».
+
+Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais
+traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta,
+talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com
+que opôz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se
+combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que
+provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens,
+arrastados de escravidão em escravidão, de miséria em miséria, de
+tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os
+transviava e perdia; ignoravam que «o unico padrão da vida é a ideia do
+dever, santa, inexorável, dominante».
+
+«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os
+estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e
+uma destruição perante os povos. O fim da política era a aplicação da
+lei moral à constituição civil de uma nação na sua dupla actividade,
+doméstica e estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à
+organização do trabalho no seu duplo aspecto de produção e
+distribuição».
+
+«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas
+representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim
+de todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos
+deveres cumpridos; podiam resumir-se em um só direito--que os outros
+cumpram comnosco o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a
+soberania está em nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é
+sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, é
+impotente ou nula e não representa outra cousa senão tirania.» «A
+sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu, é apenas uma sociedade de
+seguros mútuos». Partindo da filosofia da liberdade individual,
+destituiu de fecundidade êste _princípio_ baseando-o, não sôbre um dever
+comum a todos, não sôbre a definição do homem como uma criatura social
+por essência, não sôbre a concepção de uma autoridade divina e de um
+designio providencial, não sôbre o laço que une o _indivíduo_ à
+humanidade do qual êle é um factor, mas sob a simples _convenção_,
+confessada ou subentendida».
+
+«Carecemos de ensinar não o _direito_, mas o _dever_, acordar para
+melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo
+decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da
+missão dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até
+agora está esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de
+crença, de pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não
+procurou êle salvar pela crítica um mundo moribundo. Não falou de
+interêsses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos
+interêsses. Prégou no santo nome de Deus certas verdades até então
+desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito séculos depois
+da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, mudaram a face da
+terra».
+
+«Três cousas eram sagradas--tradição, progresso, associação».
+
+A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância
+presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente
+devida a uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde
+podemos deduzir e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade
+encontrar-se hia no «estudo severo da tradição universal que é a
+manifestação da vida na humanidade». A humanidade, dizia, invocando e
+desenvolvendo o pensamento de Pascal, «é um homem que aprende
+continuamente. Os indivíduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem
+que produziram, não se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os
+homens que passam sôbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de nós
+nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças que são a obra de toda a
+humanidade antes de nós; cada um de nós traz inconscientemente algum
+elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe
+segue. A educação da humanidade cresce como aquelas piramides orientais
+a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia,
+chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a
+educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu
+inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente,
+continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé,
+passo a passo, a humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida,
+da sua missão, de Deus e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se
+completam e consubstanciam, «onde encontramos a voz permanente da
+humanidade harmonisando-se com a voz da nossa consciência, aí teremos ao
+nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade».
+
+O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É _pensamento_
+e _acção_. As teorias podem modificar o primeiro; não podem criar o
+ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em Mazzini
+confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, o
+poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os
+juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as
+inumeráveis e prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália
+unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma,
+inspiração, e o seu braço executor, não houve risco a que se esquivasse,
+não houve penas que não experimentasse, desde o aturado exílio que em
+condições de pobreza, às vezes extrema, o apartou da família, da pátria
+e dos amigos, até à condemnação à morte e porventura à tentativa de
+assassinato que o perseguiram como milhafres. Não houve contrariedade ou
+ameaça que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de
+martírio. «Particularmente aborrecia o egoismo, tão popular com a gente
+de hoje. Não gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que
+lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e à cultura para lhe
+salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito e da alma, mas era sempre
+do espírito e da alma dos outros». E «foi conspirador porque era muito
+fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vêr atraiçoados, muito
+honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que
+aceitasse a paz sem honra»[9].
+
+Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica
+inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes
+perigosas nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos
+que com o seu dinheiro não faziam bem». Um instinto seguro os advertia
+de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversário perigoso
+dos apanágios e privilégios que ensoberbeciam as aristocracias políticas
+e eclesiásticas. Cavour e Luiz Napoleão Bonaparte eram irmãos nos
+sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia
+com o conflito de ideais que o amor do apóstolo e a ambição do
+aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O
+profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o cristianismo é a
+negação radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias,
+divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos homens teem
+inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as suas
+cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e
+económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o
+monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução,
+em diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa
+que caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e
+inumeráveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas,
+no coração e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta
+religião os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e
+mostrando-nos uma outra razão da vida, adjudicando toda a nossa
+actividade intima e externa a um outro espírito. Não faz sentido ter e
+invocar como princípio de acção e dedicação o meu senhor», ou êle seja
+rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão de industria, quando senhores e
+vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e
+seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos igualmente
+humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei de
+comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu
+só porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as
+comunidades bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos
+e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente
+se fundaram e viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou
+religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por
+muitos modos e em diversos lugares, se persistem e são uma fôrça
+espiritual efectiva aquêles sentimentos de fidelidade, lealdade,
+dedicação e sujeição que eram seus vínculos e instrumentos, se essa
+ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando já
+terminou a religiosidade íntima que era a sua essência e alma, é sómente
+porque, convertida em tradições políticas, estéticas, morais e
+eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou,
+póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prática,
+um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o remanescente
+de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é a
+primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o
+império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os
+que são coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos
+cofres à prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é
+de efeitos práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma
+escravidão eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu
+aquela outra consciência de escravidões mortais, condicionadas,
+contingentes e transitórias, por longos séculos decisivas e supremas.
+Mazzini, que por ser fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou
+as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes
+senão anatemas.
+
+Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha
+de ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos
+absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo.
+Amaldiçoado dos despotismos, por isso que pedia a liberdade, não podia
+ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, religião e dever
+perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente viam e queriam
+o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez sugere e
+aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e se
+desfaz.
+
+Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e
+sobretudo a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo
+da fôrça e da riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias,
+cimentando os alicerces de um grande império e aí se oferecendo à
+imitação das nações, emquanto se insinuava nos laboratórios e nas
+bibliotecas e aí endurecia o coração e envenenava o espírito das novas
+gerações. Nesse momento, Mazzini era um vencido; com o seu débil corpo
+se sepultavam as suas ilusões. Liberdade, religião e o povo que
+inconscientemente as guarda e serve, iam de tropel calcados e esmagados
+no culto de multíplices escravidões, no desprendimento de Deus e da sua
+lei, na fé vil de que o mundo era um banquete do qual só ao nosso ventre
+tinhamos a dar contas.
+
+Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto,
+sabedor e previdente, tão abundante de servos envaidecidos da própria
+servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus
+anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as
+primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que
+se afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia,
+escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e
+condenação das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens.
+
+Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico
+das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da
+sua glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra
+será eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.
+
+FIM.
+
+
+ [1] Artigo do _Manchester Guardian_.
+
+ [2] Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de
+ Moscou, no _Hibbert Journal_.
+
+ [3]_Millgate Monthly_, março de 1915. Notícia de um discurso de
+ Oliver Lodge, em Bradford.
+
+ [4] Percy Dearmer. _Patriotism._ Humphrey Milford: Oxford Unversity
+ Press, 1915.
+
+ [5] William Temple. _Cristianity and War._ (Humphrey Milford; Oxford
+ University Press, 1914).
+
+ [6] E. Carpenter, _What will Stay the Plague?_ Artigo publicado em
+ _The Christian Commonwealth_, de 9 de dezembro de 1914.
+
+ [7]_The War and Democracy_, por W. Seton--Watson, J. Dover Wilson,
+ Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood. (Londres; Macmillan, 1912).
+ Pag. 374 e seg.
+
+ [8] O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o
+ principalmente, quasi exclusivamente, em dois volumes da _Everyman's
+ Library_. (Londres; J. M. Dent & Sons), um que contêm versões dos
+ escritos de Mazzini, _The Duties of Man and Other Essays_, e o outro
+ que é a narração da sua vida e a crítica das suas doutrinas,
+ intitulado _The Life of Mazzini_, escrito por Bolton King. Esses
+ dois volumes constituem só por si uma lição moral e política e uma
+ inspiração de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem os
+ divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente serviço às
+ letras pátrias, e sobretudo à educação das novas gerações, tão
+ desiludidas das seguranças e presunções materialistas que encontram
+ no ocaso, como apressadas em descobrir novos e mais serenos
+ horizontes para que se encaminhem.
+
+ [9] H. Demarest Lloyd. _Mazzini and other Essays._ Pag. 4 e 6.
+
+
+
+
+Indice
+
+
+ Prologo
+
+ Convulsões dum enfêrmo
+
+ Ganhos e perdas
+
+ Revisão de valores
+
+ Da arte de gastar e suas responsabilidades
+
+ O Cavador e o Profeta
+
+ Aparições
+
+
+
+
+DO MESMO AUTOR
+
+ _Vozes do meu lar_, 1 vol.
+
+ _Na paz do Senhor_, romance, 1 vol.
+
+ _Reino da Saudade_, romance, 1 vol.
+
+ _Via Redentora_, 1 vol.
+
+ _Apostolos da Terra_, 1 vol.
+
+ _Sonho de Perfeição_, romance, 1 vol.
+
+ _S. Francisco d'Assis_, 1 vol.
+
+ _José Estevão_, 1 vol.
+
+ _Alexandre Herculano_, 1 vol.
+
+ _Rogações de Eremita_, poemetos em prosa
+
+ _Salmos do Prisioneiro_, 1 vol.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GUERRA ***
+
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
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+
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+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+
+
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+
+
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+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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+The Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhães Lima
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: A Guerra
+ Depoimentos de Herejes
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: October 14, 2008 [EBook #26915]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GUERRA ***
+
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+Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização
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+<div align="center">
+<p>JAIME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
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+
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>
+F. FRANÇA AMADO, EDITOR <br>
+COIMBRA. 1915.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<div align="center">
+<p style="font-size: 2em;">A GUERRA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">Composto o impresso na Tipografia França Amado, <br>
+Rua Ferreira Borges Coimbra.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="capa">
+
+
+<p style="font-size: 1.2em;">JAIME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">A GUERRA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">DEPOIMENTOS DE HEREJES</p>
+
+<p><img align="bottom" border="0"
+src="images/famado.png" alt="Logotipo do editor"></p>
+
+<p style="font-size: 1em;">
+COIMBRA<br>
+F. FRANÇA AMADO, EDITOR<br>
+1915.
+</div>
+
+<div id="indice">
+<h2><a name="SECTION00800000000000000000">Indice</a> </h2>
+
+ <p><a name="tex2html19" href="#SECTION00100000000000000000">Prologo <span class="numeracao">V</span></a></p>
+ <p><a name="tex2html20" href="#SECTION00200000000000000000">Convulsões dum enfêrmo <span class="numeracao">1</span></a></p>
+ <p><a name="tex2html21" href="#SECTION00300000000000000000">Ganhos e perdas <span class="numeracao">25</span></a></p>
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+ <p><a name="tex2html23" href="#SECTION00500000000000000000">Da arte de gastar e suas responsabilidades <span class="numeracao">113</span></a></p>
+ <p><a name="tex2html24" href="#SECTION00600000000000000000">O Cavador e o Profeta <span class="numeracao">131</span></a></p>
+ <p><a name="tex2html25" href="#SECTION00700000000000000000">Aparições <span class="numeracao">141</span></a></p>
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+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_V" name="pag_V">[V]</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00100000000000000000"></a>Prologo </h1>
+
+<p>Um direito o nosso tempo conquistou plenamente&mdash;o direito de heresia.
+Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje. Pela
+sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por momentos
+imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram com a rapidez e
+mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e esperanças mal fundadas.
+</p>
+
+<p>O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as
+ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas, todos
+os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião, da
+filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta<span
+class="pagenum"><a id="pag_VI" name="pag_VI">[VI]</a></span> afirmação o
+nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida
+puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no
+govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade
+independente de restricção e de crítica&mdash;êsse logrou, porêm, prevalecer
+atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito multiplos e
+vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das próprias cinzas.
+Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas, as que se adoram nos
+templos como as que se lisongeiam nos palácios, é legítimo duvidar da crença
+religiosa como da crença política, podemos sem ofensa dos homens e
+respeitando a nossa consciência desconfiar de muito civismo e de muito
+patriotismo envelhecidos e envilecidos por diversa corrupção, podemos duvidar
+da justiça, e até da dignidade, de muito orgulho nacional, pervertido por
+íntima ruindade. É isso tão legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão,
+como o desdem das iras olimpicas de Jupiter, ou a revolta<span
+class="pagenum"><a id="pag_VII" name="pag_VII">[VII]</a></span> contra as
+fogueiras da Inquisição, ou a libertação da tirania de todos os cesares,
+sejam êles coroados por direito divino ou aclamados pela insensatez e pela
+ingenuidade da soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo;
+carecemos de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum
+dia poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma
+modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito
+heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em ignominia,
+muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em merecimento e honra, muita
+virtude foi crime, muito crime foi santidade, muita prudência foi loucura,
+muita loucura foi acerto.</p>
+
+<p>O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde
+corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse
+direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior havia
+constituído e estabelecido firmemente em o<span class="pagenum"><a
+id="pag_VIII" name="pag_VIII">[VIII]</a></span> nosso espirito; foi um ajuste
+de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra que êle
+soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem, a riqueza, o
+nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as egrejas, o império, e
+até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma revisão sevéra dos
+respectivos valores e a uma determinação dos seus caracteres e
+responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente alteradas na sua
+nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde utilidade. Palavras que
+eram um paládio transfiguráram-se em espéctros, muito resplendor se apagou,
+muita treva se iluminou, muito poder se arruinou, muito fetichismo se desfez.
+</p>
+
+<p>De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a uma
+influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi nestas folhas
+umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que não pouco poderão
+esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de angustia, os que as
+meditárem.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_IX" name="pag_IX">[IX]</a></span>Umas
+foram já impressas no <i>Diário de Noticias</i>, de Lisboa; outras, o maior
+número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me alarguei
+ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se referem à <i>Arte
+de Gastar</i> uma versão quási completa do magnífico opúsculo do sr. E. J.
+Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor sr. Humphrey Milford a
+autorização necessária para a tradução, que êle bondosamente me concedeu, com
+uma gentileza pela qual confesso aqui o meu reconhecimento.</p>
+
+<p>Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o mundo
+se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um desmentido
+rápido e radical.</p>
+
+<p>Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do
+respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos
+surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros
+despotas aqueles mesmos que clamaram pela<span class="pagenum"><a id="pag_X"
+name="pag_X">[X]</a></span> libertação dos oprimidos e no seu clamor
+conduziram os exercitos às batalhas.</p>
+
+<p>Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita
+desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de despotismo
+para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos os paises
+interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta de todas as
+liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as forças e de todas
+as actividades sociais, uma violência sem limites, involvendo vidas e bens em
+uma temerosa vertigem do estado. De uma tal situação ficam resíduos; de
+semelhante incêndio restarão, pela força das cousas, ruínas fumegantes. O que
+era temporário tornar-se-á facilmente permanente, máu foi ter-se fundado; o
+que se decretára para salvação da republica, astuciosamente se continua para
+vantagem das dinastias e das oligarquias. Houve uma fermentação cuja
+vitalidade reanimou muitos elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão
+muito alêm do periodo que<span class="pagenum"><a id="pag_XI"
+name="pag_XI">[XI]</a></span> a levantou, compreendendo por simples contágio
+muita cousa que lhe era estranha.</p>
+
+<p>Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos pesará
+duramente na vida das nações empenhadas na guerra.</p>
+
+<p>A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos
+se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e quanto os
+números podem somar. Não há arimética possível para volumes desta largueza e
+complexidade.</p>
+
+<p>Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar uma
+restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos e em
+termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E êsse
+estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta calamidade que
+nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro modo tem
+probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade na imprensa
+inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no <i>Hibbert Journal</i> sôbre
+«a tirania<span class="pagenum"><a id="pag_XII"
+name="pag_XII">[XII]</a></span> das cousas que são meramente cousas», mostrou
+como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço dos
+homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo e o
+industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em uma fonte
+comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano pelo culto do
+maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na vida espiritual do
+mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o industrialismo deve
+afinal ser contado, em si e por si, entre as causas positivas da guerra.
+Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho dos povos, não servirá para
+acentuar as suas rivalidades, para cavar mais fundas as suas invejas, e para
+inflamar as suas paixões predatórias?»</p>
+
+<p>Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus
+despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com que
+o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forte <span
+class="pagenum"><a id="pag_XIII" name="pag_XIII">[XIII]</a></span>da guerra,
+que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que nos campos de
+batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte que as oficinas e
+os laboratórios criavam e lhes mandavam.</p>
+
+<p>Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de
+alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências financeiras,
+ansiosas por uma organização económica fácil e abundantemente colectável, se
+houverem de ser consideradas as necessidades fiscais dos estados esmagados
+com dívidas fabulosas que se contraíram rapidamente, mas que levam anos a
+saldar, muitos anos e muito penosos, não será de estranhar que a guerra, no
+seu seguimento imediato, robusteça aquela constituição do trabalho que,
+seguramente, por uma já longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais
+perfeita negação da liberdade, a mais fatal das opressões.</p>
+
+<p>Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a
+formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa é<span class="pagenum"><a
+id="pag_XIV" name="pag_XIV">[XIV]</a></span> certa desde já nos resultados da
+guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas económicos ser
+arquitetados e fundados como melhor convenha aos caprichos dos reis, à
+fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos seus sortilégios
+cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça, nos seus efeitos
+concretos, radicalmente contrária aos sonhos de liberdade que inflamaram os
+seus incendios e precipitaram as suas hecatombes. Mas determinou uma
+renovação da consciência, uma filosofia, uma moral, um modo de ser economico,
+um renascimento íntimo, que são de durar e crescer, invulneráveis às artes
+dos imperadores e ao poder dos vendilhões, superiores ao seu domínio.</p>
+
+<p>A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o
+mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande
+acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum<a
+name="tex2html1" href="#foot363"><sup>1</sup></a>.» Foi<span
+class="pagenum"><a id="pag_XV" name="pag_XV">[XV]</a></span> essencialmente
+uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e serão transitórias as
+alterações ou a persistência da ordem material do mundo.</p>
+
+<p>O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição
+das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em
+relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes
+espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo «invisiveis»,
+sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto êles andavam
+imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste mesmo momento em
+que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo, destruindo tudo na
+sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso bem-estar&mdash;eis que os
+cegos vêem e os surdos começam a ouvir. Obscuramente pressentimos a
+aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o cáos. Quasi podemos dizer que uma
+scentelha desprendendo-se da tempestade universal nos revelou subitamente
+um<span class="pagenum"><a id="pag_XVI" name="pag_XVI">[XVI]</a></span> novo
+aspecto do mundo... Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra,
+distinguimos a presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não
+prevalece; e é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é
+sempre a mesma&mdash;no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra
+a morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o dissolveriam.
+Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de aparições que nos
+surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua conquista final no
+futuro que encontramos a inolvidável significação da guerra presente<a
+name="tex2html2" href="#foot364"><sup>2</sup></a>».</p>
+
+<p>Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi
+neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género, valerá
+tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro pensamento.
+«Parecia dominar como filosofia<span class="pagenum"><a id="pag_XVII"
+name="pag_XVII">[XVII]</a></span> na hora presente. Tinha a seu favor uma
+certa força. Estamos em um mundo material, e os que estudam o organismo
+corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma espécie de conclusão de
+que êle é a existência inteira. Por isso erram. A matéria é muito importante,
+mas por modo algum é a totalidade do universo. Há dois aspectos do universo,
+o espiritual e o material, e um tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde
+admitir-se que o aspécto material domine; tem de servir as necessidades do
+espírito. A nota do universo material é repetição; a nota do universo
+espiritual ou psiquico não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na
+história do nosso próprio mundo&mdash;primeiro os animais inferiores, depois os
+animais superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos
+ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O
+próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o
+indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temos<span class="pagenum"><a
+id="pag_XVIII" name="pag_XVIII">[XVIII]</a></span> de compreender que somos
+todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós, ou para
+cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta é a nota do
+universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada vez maior. A
+soma de vida no universo parece crescer continuamente, emquanto a soma de
+matéria e energia não cresce; esta é constante. A inteligência póde crescer;
+póde crescer a felicidade; póde o conhecimento espiritual atingir alturas
+presentemente inacessiveis<a name="tex2html3"
+href="#foot365"><sup>3</sup></a>».</p>
+
+<p>Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais.
+Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra
+trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus
+lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa nas
+sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendências<span
+class="pagenum"><a id="pag_XIX" name="pag_XIX">[XIX]</a></span> de liberdade,
+de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram em proporções
+assombrosas os tesouros da vida do espírito, único progresso possível, único
+que importa o domínio da matéria, mesmo quando a materialidade se reputa
+fortalecida e inexpugnável pela solidez das suas filosofias e sistemas, pelo
+poder das armas e da riqueza, e pela prepotência triunfante e orgulhosa sôbre
+as infinitas escravidões que a servem e são a sua mais funda aspiração e o
+seu mais eficaz instrumento de reinar.</p>
+
+<p>Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente mais
+fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e económica em que
+tiver de rematar os combates, será a jornada moral e religiosa a que a guerra
+nos conduziu. Não há poderes do mundo que a perturbem. Porventura será mais
+activa quando êles menos a favorecerem. A necessidade de reacção acelera-a e
+fortifica-a.</p>
+
+<p>Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da
+«futilidade»<span class="pagenum"><a id="pag_XX"
+name="pag_XX">[XX]</a></span> que hoje são, uma infantilidade cruel, de que
+nos lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na
+mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das
+vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da razão
+a <i>Eneida</i> será porventura um conto para crianças, e os herois que nos
+exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que entrevemos a
+rudeza da edade da pedra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_1" name="pag_1">[1]</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00200000000000000000"></a> <br>
+Convulsões dum enfêrmo </h1>
+
+<p>Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração de
+guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e gananciosa
+dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado por longos anos
+de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos seus prazeres e
+complexas sensualidades, julgou no auge da indignação que um pensamento
+monstruosamente scelerado meditára e consumava um «crime contra a
+civilização», o maior e o mais odioso que jámais se sonhára e praticára na
+história da humanidade. Declaradamente se armavam, havia quási meio século,
+os grandes poderes militares da Europa; engrandeciam os exércitos,
+acrescentavam as armadas, acumulavam os canhões, amontoavam munições e
+edificavam<span class="pagenum"><a id="pag_2" name="pag_2">[2]</a></span>
+fortalezas por modo nunca visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do
+velho preceito que nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz,
+sustentava uma segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão
+dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores à
+glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia pela sua
+fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma inviolabilidade
+formidável a quem os soubesse fabricar e usar.</p>
+
+<p>Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de
+vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e
+prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com enorme
+esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os economistas e os
+homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que só por demência, e
+jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse ela qual fôsse, se
+poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e pavorosos cataclismos? A
+paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos negócios, emquanto as armas
+significavam a mais sólida das garantias da amizade entre os povos. Apesar
+dos vaticinios de profetas tenebrosos impenitentes, que<span
+class="pagenum"><a id="pag_3" name="pag_3">[3]</a></span> tambêm os havia e
+não cessavam de agourar desgraças, tendo por fatal a hora terrível de uma
+guerra europeia, o mundo ia remexendo os seus oiros e os seus estercos, os
+seus bens e as suas devassidões, convencido de que a bonança, uma perene
+bonança orgiaca, era de ora em diante a lei da vida.</p>
+
+<p>De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes,
+surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia crê-la.
+</p>
+
+<p>Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...</p>
+
+<p>A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era
+unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações,
+alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e empedernidas
+e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do zelo e respeito da
+fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes fazia ignorar; e a traição
+aos arrebatamentos da ventura em que viviamos era executada e proclamada pelo
+braço e pela bôca de três imperadores, um caduco na senilidade própria dos
+seus anos, o outro demente de raça e de vaidade, e o terceiro não muito são,
+sujeito a acessos de melancolia. Eram êles que na mais atroz loucura gerada
+de<span class="pagenum"><a id="pag_4" name="pag_4">[4]</a></span> imaginárias
+ambições lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por
+igual escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para
+se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e unirem.
+Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de desolação e de
+cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para criar e cultivar o
+pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a fortuna, toda a dignidade e
+toda a glória da nossa espécie.</p>
+
+<p>Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e
+aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e comando
+dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas militares e dos
+seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão legitimando-as, entre o
+estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o conflito das raças, uma
+diversidade e uma incompatibilidade de aspirações que se excluiam e por
+condição estavam sem remissão destinadas a chegarem à agudeza dos combates em
+que se encontravam. Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias
+dos alemães na Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As
+primeiras atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o<span
+class="pagenum"><a id="pag_5" name="pag_5">[5]</a></span> desrespeito dos
+tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia cínica em sua
+hedionda nudez, perante a hospitalidade traída, construíndo fortalezas
+ocultas e pondo espiões onde com amizade eram acolhidos, perante o morticínio
+de velhos e crianças, o insulto e injúria das mulheres e a destruìção e saque
+dos mais preciosos tesouros do espírito humano, mal se revelou a animalidade
+barbara que alimentava a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo
+eramos chamados. E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que
+ha longos séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e
+amaldiçoada fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e
+confrontando-os com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o
+slavo, com o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo
+britânico, e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza
+o espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês de
+hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o primeiro
+ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que pronunciou no
+Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã Bretanha e de todo o
+mundo culto:&mdash;«Não é um conflito meramente <span class="pagenum"><a
+id="pag_6" name="pag_6">[6]</a></span>material, é tambêm um conflito
+espiritual. Das suas últimas conseqùências se verá que mais tarde ou mais
+cedo dependem tudo o que contêm promessa e esperança, que conduz à
+emancipação e mais completa liberdade de milhões que constituem a massa do
+género humano».</p>
+
+<p>Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo
+coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que, envolvido
+no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares, o que rialmente
+as precipitava em um embate temeroso era a incompatibilidade, irreconciliável
+e ardente, entre a fôrça e o direito, entre a brutalidade e o respeito,
+moderação e tolerância, entre as cobiças da sordidez e o desprendimento da
+nobreza, entre o cinismo e a crença, entre a liberdade e o despotismo, entre
+a boa fé e a deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a
+corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus das
+batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de doutrinas e de
+sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos, uma divergência de
+modos de ser sociais, morais e religiosos entre si antipáticos até à exclusão
+mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin contra<span class="pagenum"><a
+id="pag_7" name="pag_7">[7]</a></span> Bismarck, Voltaire contra Treitschke,
+o monismo degradante de um Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista,
+nobre, credor inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a
+fé, a graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o
+despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de previsão e
+astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo metodo e por subtil
+engenho.</p>
+
+<p>Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando que
+vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias, agravadas e
+acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora angustiosa a um combate
+de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se, com a aureola das profecias,
+palavras de Ruskin nas quais a intuição penetrante do génio muito cedo
+apontou a distância que havia entre o carácter germânico e as tendências
+britânicas. Já em 1859 Ruskin falava, em carta a um amigo, do «intenso
+egoismo e ignorância do pintor alemão moderno (na sua obra)» que «era
+indizível no que tinha de ofensivo. A eterna vaidade e vulgaridade
+mascarando-se de piedade e poesia, a surdez profunda a toda a beleza rial,
+inchada em abomináveis caricaturas daquilo que êles imaginam ser o
+carácter<span class="pagenum"><a id="pag_8" name="pag_8">[8]</a></span>
+germânico, a absorpção de todo o amor de Deus ou do homem na impaciência de
+aplauso» feriam-no e repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão
+de beleza, embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na
+concupiscência; «mas o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que
+fôsse».</p>
+
+<p>Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a
+reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:&mdash;«As bençãos
+são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode ser uma
+coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras signifiquem».
+«Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade», «não ha sôma de
+saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo que, quando os
+alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza, roubam-lhe os quadros
+(de que não podem compreender nem um traço), e inteiramente arruinam o país
+moral e físicamente, deixando atraz de si miséria, vicio e ódio profundo,
+onde quer que os seus malditos pés hajam pisado. Foi precisamente o mesmo que
+fizeram em França&mdash;esmagaram-na, roubaram-na, deixaram-na na miséria do
+desespero e da vergonha, e fôram para casa a lamber os beiços e a cantar
+«Te-Deus».</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_9" name="pag_9">[9]</a></span>O almirante
+Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem público muito popular
+nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o povo alemão se tornára feliz
+e prospero pelos velhos métodos de duro trabalho, vida limpa e pensamento
+claro. Tomára os mercados da Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas
+férias, nos seus dias livres em cada semana e nos sports». Querendo
+glorificar o temperamento alemão e explicar as suas conquistas, depreciando
+ao mesmo tempo a vida inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam
+admiravelmente o caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para
+enriquecer; nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e
+arte que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a
+contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações apolineas; e
+disto fez uma religião.</p>
+
+<p>Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes compreendem-se
+hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações dos profetas, guias
+e educadores da Alemanha moderna, entre os quais ficará de triste celebridade
+a obra de Bernhardi, cujo pensamento fundamental é de uma simplicidade
+incomparável:&mdash;«A Alemanha tem nos destinos<span class="pagenum"><a
+id="pag_10" name="pag_10">[10]</a></span> do mundo uma alta e divina missão,
+espalhar a sua cultura, levar a cabo o renascimento dos homens e das
+sociedades na cultura germânica e pela cultura germânica, e o processo único
+de cumprir êsse destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a
+aniquilação radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario
+vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A cultura, no
+seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a inimiga mais
+inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu espírito, é a primeira
+que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente desimpedir o caminho.</p>
+
+<p>Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora dos
+seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha, afagada,
+soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por nascimento ou
+inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e todos os
+mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo, por enxames
+de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos com matrícula em
+Hamburgo.</p>
+
+<p>Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi
+necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos <span
+class="pagenum"><a id="pag_11" name="pag_11">[11]</a></span>alicerces, aquela
+outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a
+Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda
+impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e
+anceios de liberdade, tinha menos sciência de laboratório e mais sciência do
+coração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir. Mas isso se fez
+completamente. Não falta entre os seus filhos quem, vendo maguadamente e sem
+paixão a situação, termine por confessar que os alemães «deixaram de ser uma
+nação de pensadores, poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e
+exploração da natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o
+desenvolvimento económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu
+com os gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram
+sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o crescimento da
+riqueza o decrescimento do sentimento moral».</p>
+
+<p>Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não
+adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura alemã o
+mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade» e «nausea»,
+que «todos os deuses aprenderam<span class="pagenum"><a id="pag_12"
+name="pag_12">[12]</a></span> a temer. Se alguem quizesse vêr a alma
+germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto germânico, as artes
+e os modos germânicos. Que grosseira indiferença pelo gosto!» Para «todo o
+leitor que tivesse um «terceiro» ouvido», dizia, eram «uma tortura» os livros
+escritos em alemão, «sem tom, sem ritmo nem cadência». O próprio alemão lia
+«mal», negligentemente arrastado.</p>
+
+<p>Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer
+do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de subjugar
+físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da caserna aborrecem
+e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos encantos das academias,
+embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer, que só em si se alegra e
+alimenta e se atribui a delicadeza da vida e muito da sua grandeza, valha
+muito no conceito dos homens e na sua felicidade, sem embargo de ser ignorado
+pelo militarismo, mercê da sua natural rebeldia no conhecimento de qualquer
+coisa estranha à arte da brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e
+condecoradas. E esta Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos
+ossos, materialisada em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências
+idealistas, fazendo da disciplina, obediência,<span class="pagenum"><a
+id="pag_13" name="pag_13">[13]</a></span> ordem e comodidades a razão última
+da nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem
+mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis ao
+chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a
+bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a de
+novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo lhe
+significa pela inimizade que detesta a sua cultura.</p>
+
+<p>Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela unidas
+com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como sujeitam a Europa
+ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e admitindo-os, em pé de
+igualdade, de portas a dentro dos seus velhos palacios?!... Pasma desta
+infidelidade à sua cultura e outra cousa não compreenderá, pois, destituída
+de todo o sentimento verdadeiramente cristão, não percebe os laços que juntam
+os povos educados no Evangelho, fazendo do Evangelho a razão suprema da
+existência; e outros não há que mais profundamente o sigam e nêle creiam do
+que a Grã-Bretanha e a Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas
+opostas em larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos
+do amor, trocados<span class="pagenum"><a id="pag_14"
+name="pag_14">[14]</a></span> pelos regalos do estomago, não atinge que
+aquilo que os povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é
+exactamente a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e
+contentamento da humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e
+descansado, andar agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios,
+médicos e bons hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz,
+electricidade, caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones
+e gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados e
+se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e por uma
+mecanica administrativa que na precisão matemática em nada difere das
+máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o homem à mísera
+condição de matéria prima, questão de número, volume e qualidades
+físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das profundezas da terra.
+Não concebe que foi o extremo fastio dessa cultura, em que tudo foi cultivado
+menos a liberdade e o amor entre os homens, êsse reino incontestado da alma,
+o que impeliu para a guerra as raças que o adoram, outro não suportam e o
+vêem ameaçado: não concebe que entre exércitos que, como o alemão, deixam,
+por onde passam, uma esteira infinita<span class="pagenum"><a id="pag_15"
+name="pag_15">[15]</a></span> de garrafas vasias, e os que, como o da Russia,
+proìbem o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores
+rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação
+suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente os
+incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das castas
+políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas de vida ou
+de morte são as convulsões de uma civilização enferma de inanidade religiosa
+e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das materialidades, caída em um
+desespero febril de libertação dos germens mórbidos que lhe invadiram o
+sangue e lhe converteram a vida em tormento.</p>
+
+<p>Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em especial
+o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais profundos e os
+estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles concorrido para manter
+acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia racionalista, os fachos do mais
+sublimado idealismo.</p>
+
+<p>O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e
+ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma cousa, e a
+«emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra cousa; e o<span
+class="pagenum"><a id="pag_16" name="pag_16">[16]</a></span> que nas margens
+do Reno é um valor intelectual, conclusão de silogismos, demonstração de
+textos e arquivos, elemento de compreensão do mundo e dos homens, é fora
+dali, em terras suas inimigas, um valor moral, fundamento e motivo de
+proceder nas relações individuais e sociais. De modo que o que algures se
+tornou objecto de curiosidade, sem duvida salutar e benéfica, que se cultiva
+de mistura com todas as outras culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão
+misteriosa como soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as
+outras fôrças a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a
+Alemanha, sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente
+pouca religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em
+disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e
+reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança a que
+a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra assassinado.</p>
+
+<p>Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua
+missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o negro
+prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido instinto que
+o não engana,<span class="pagenum"><a id="pag_17"
+name="pag_17">[17]</a></span> considera que, quando o preto tem culpa,
+ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é alemão,
+castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse implorado.</p>
+
+<p>Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento moral
+da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar; e por isso
+é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não alcança, quando
+lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o inunda de sangue e de
+dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os delinqùentes ajoelham, e os
+que não sabem perdoar, nem mesmo em face da mais submissa humildade e
+contrição.</p>
+
+<p>Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como fruto
+desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser social.
+Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da guerra, mais do
+que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em pontos essênciais, são
+certas e inevitáveis, independentemente da vitória das armas. Desde a lição
+formidável da queda do império romano, abdicando das suas velhas fôrças
+morais, das que considerava fundamentos da sua austéra e cruel grandeza, e
+entregando as rendidas a um poder mais<span class="pagenum"><a id="pag_18"
+name="pag_18">[18]</a></span> alto, à inspiração cristã, desde então nunca
+mais o materialismo, culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido,
+se encontraram em conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se
+de todas as derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à
+alegria e à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando
+essa sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde
+que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela
+irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa servidão
+terrena que lhe repugna.</p>
+
+<p>Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação
+das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais do
+que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência dos povos,
+recordando a dissolução do império romano, seguida da fragmentação medieval,
+e aproximando-a da revolução iminente dos impérios modernos nas suas
+tendências descentralisadoras, já amplamente e brilhantemente exemplificadas
+na Inglaterra, não estará muito afastado da realidade quem supozer a política
+levada neste pendor pelo surdo impulso de fôrças morais e religiosas, pela
+pressão das exigências da mentalidade característica<span class="pagenum"><a
+id="pag_19" name="pag_19">[19]</a></span> da nossa era. Á liberdade do
+pensamento, emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada
+pelo estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das
+crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser intelectual,
+moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com a legitimidade da
+revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e direitos de tolerância de
+todo o espírito nas suas manifestações especulativas e concretas. Dentro de
+grandes linhas psicológicas fundamentais, a diversidade é extrema e reclama
+liberdades correlativas, a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o
+mais vulgar, uns pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade,
+Igualdade e Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se
+apuram algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na
+pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a
+liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e sintam
+pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do pensamento tem de
+corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes políticos que não
+podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a unidade de
+tendências<span class="pagenum"><a id="pag_20" name="pag_20">[20]</a></span>
+mentais, constantemente contrariados, minados e traídos por obscuras mas
+indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha,
+englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais
+diversas e as mais diversas aspirações, é porque para êsse milagre político,
+sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que
+é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e
+desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual
+provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria
+liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.</p>
+
+<p>Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo evidente
+que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente no continente
+da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de todo carecido de
+unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de todo avessos a
+suportarem independências, o conflito tem de seguir seus trâmites para abolir
+uma unidade forçada que a unidade psicológica não autoriza; e para satisfazer
+a diversidade pela liberdade há de encontrar as soluções convenientes. Os
+ingleses não exageram, quando dizem que<span class="pagenum"><a id="pag_21"
+name="pag_21">[21]</a></span> combatem tanto pela Inglaterra como pela
+Alemanha. De facto, preparam a vitória de princípios, por cujo triunfo
+anseiam todos os povos chegados à idade da razão.</p>
+
+<p>O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que a
+querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai construir,
+não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as estações
+reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se verga e esmorece
+açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto que estamos em vésperas
+de uma profunda reacção, pois que por efeitos de reacção chegámos à convulsão
+presente. Desde já se adivinha que a negação da cultura alemã, e negada está
+seja qual fôr a sorte das armas, sendo ela a cultura e a ambição meditada e
+tenaz de toda a especie de materialidades, implica um largo desprendimento de
+infinitas materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O
+dr. Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e
+discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os
+pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos
+contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto pensar.
+Se assim fôr, veremos a verdade<span class="pagenum"><a id="pag_22"
+name="pag_22">[22]</a></span> daquêle velho e belo proverbio espanhol, de que
+«Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas seriam ganhos.»</p>
+
+<p>Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez
+larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa a
+que nos sujeitam.</p>
+
+<p>É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em proporções
+assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que sempre nos será
+indispensável e que por qualquer modo teremos de criar ou substituir, e
+significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que sempre nos foi
+supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir. Se esta situação
+persistir, a que modificações obrigará a economia do pais e respectivamente a
+economia de cada um? Acontecerá que por urgência das pressões económicas
+cheguemos a um nacionalismo e a uma simplicidade aos quais nenhum incentivo
+moral póde levar-nos, e em favor dos quais se esfalfaram em vão a arte mais
+sã, o mais bem inspirado patriotismo e mais modesto bom senso?</p>
+
+<p>Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com
+aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e arrazando as
+cidades. Não consente mutações instantâneas.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_23" name="pag_23">[23]</a></span>Ámanhã,
+finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que comovidamente
+foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no seu trabalho, nas
+suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes, como se lhes permanecesse
+intacto e sem alteração o carácter. Mas novos ástros se ergueram, brilham e
+lentamente iluminarão e penetrarão o mundo com a sua luz, e nele criarão
+inumeráveis vidas novas. O materialismo com todas as suas edificações e
+fortalezas afunda-se no occaso, e o idealismo, renascido das profundezas onde
+jazia sepultado, mas não morto, surge glorioso a revestir a terra
+desolada.<span class="pagenum"><a id="pag_24" name="pag_24">[24]</a></span>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_25" name="pag_25">[25]</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00300000000000000000"></a> <br>
+Ganhos e perdas </h1>
+
+<p>Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para reconhecerem
+e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as conseqùências
+militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de se desenhar a
+divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a distribuição da
+fôrça e dos canhões, muito antes disso e independentemente dos seus destinos
+e designios já as aspirações e crenças dos homens definiram e anunciaram
+tendências e propósitos que da guerra nasceram ou na guerra encontraram
+terreno propício, já marcaram no seu rol vencedores e vencidos, já
+proclamáram suas determinações inflexiveis.</p>
+
+<p>Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da conflagração
+tremenda em que o mundo se agita.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_26" name="pag_26">[26]</a></span>Dela sai
+já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e desprestigiado, o
+poder magnifico do socialismo que durante longos anos fez prosélitos,
+adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões, apaixonou as multidões,
+dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis e os sapientes, toda a
+grandeza e autoridade política e moral, o saber, a virtude e a fôrça.</p>
+
+<p>Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como, por
+que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a abastança
+assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára para base dos
+seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se o companheiro e o
+aliado submisso de todos os despotismos e de todas as crueldades. Não nos
+poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma injuria; a todo o morticinio, a
+toda a opressão e a todo o insulto o temos visto associado, sem um lamento,
+sem um gesto de repulsão, escravo dedicado de um patriotismo todo constituido
+e só constituido de cobiças e odios, por completo desconhecendo o que seja e
+para que sirva a fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade
+estranha, todo o Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo
+económico moralmente acanhada, reduzindo a vida a uma<span class="pagenum"><a
+id="pag_27" name="pag_27">[27]</a></span> repartição de comodidades e a uma
+cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o socialismo
+podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de previdência, de
+agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago e grandes regalos,
+mas era uma mecanica que só considerava o corpo, deixava intacto isto que
+chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração, consentia-lhe que alimentasse
+a ruindade de sentimentos cujas furias a guerra soltou; até mesmo assistiu,
+mais do que indiferente, complacente, senão contente, à prolongada cultura
+dessa ruindade, que as obsessões de grandeza política reputavam um auxiliar
+eficaz de seus desvairados sonhos.</p>
+
+<p>Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um
+despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na
+omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer despotismos
+seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas suas afirmações,
+menos a palavra liberdade.</p>
+
+<p>Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a
+apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é pura
+miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o despotismo e
+a<span class="pagenum"><a id="pag_28" name="pag_28">[28]</a></span> opressão
+militar, passa-o ao bando das traidores e herejes. As sombras dos Proudhon,
+dos Bakounine, dos Tolstoi, dos Réclus, como a figura profetica de Kropotkine
+sorriem tristemente à desgraça presente e à ruina, mais do que nunca
+confiadas em que só a gloria da sua crença poderá resgatar-nos da
+mortificação. Quantos apregoavam que os governos são essêncialmente um mal,
+seja qual fôr a fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos
+abominaram a coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas
+enxovias e na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a
+felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no imperio
+da consciência moral isenta de toda a violência e constrangimento, sentem
+renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na vitória que lhe facultam as
+calamidades, espalhadas pelos seus adversarios das alturas dos seus tronos e
+dos seus tribunais, semeando a ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a
+desolação, com uma impiedade inflexivel, obedientemente e brilhantemente
+servida pelo esforço irado dos exércitos e pela soberba enfatuada e
+corrompida das magistraturas. Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós,
+o anarquismo, na sua alta expressão filosófica, que não nas suas aberrações
+criminosas,<span class="pagenum"><a id="pag_29" name="pag_29">[29]</a></span>
+vê de súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando
+sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do
+socialismo.</p>
+
+<p>Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o
+problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as imprecações
+impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em risco bens e
+grandezas.</p>
+
+<p>Há vinte anos, António de Serpa,&mdash;um talento culto, homem de superior e
+nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus contemporâneos
+fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a esquecer,&mdash;escrevia um
+opusculo sobre «O Anarquismo».</p>
+
+<p>Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com o
+indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa, mal se
+compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se tornou possivel
+examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás muito chãos e claros.
+O chefe de um partido conservador arvorava-se em advogado do mais perigoso
+pensamento revolucionário! Muita gente o imaginou e lamentou, sem poder
+explicar êsse estranho desvairamento. O estudioso e observador da evolução
+política, que outra coisa não foi nesse<span class="pagenum"><a id="pag_30"
+name="pag_30">[30]</a></span> incidente o antigo ministro do Estado e o mais
+moderado dos ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o
+desenvolvimento das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da
+experiência, determinando posições, relações e conseqùências,
+desapaixonadamente e lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada
+reflexão, em um espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado
+idealismo, êsse passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e
+compreendido nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de
+funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era grande e
+a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o ministro, não
+estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem por última
+homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe o valor pela
+posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o engrandeciam.</p>
+
+<p>Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e
+contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de espírito,
+grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para
+durar&mdash;Oliveira Martins.</p>
+
+<p>A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e querido
+socialismo do<span class="pagenum"><a id="pag_31"
+name="pag_31">[31]</a></span> Estado, grande progresso fabricado nas
+universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das sociedades,
+grande organizador e disciplinador. O retardatário seria Antonio de Serpa com
+o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de negações. Vieram para a
+imprensa as discussões dêsses dois ilustres antagonistas, aplicando as suas
+teorias ao regimen económico, e não foram sem influência nas vicissitudes
+políticas e na administração pública dessa época e nas que até nossos dias se
+lhes teem seguido. O socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na
+constituição política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre
+de ideais como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa
+vontade, perdoando-lhe os agravos.</p>
+
+<p>Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos as
+suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem com que,
+sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos seus principios
+fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de blasfémia e escândalo
+não se nos afigura mais do que uma ténue apologia de verdades quase
+axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e até nem sempre isenta de
+injustiça.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_32" name="pag_32">[32]</a></span>Outros e
+inesperados aspéctos se nos deparam.</p>
+
+<p>Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária
+insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo, reaparece-nos
+revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma horrorosa fatalidade
+de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as deformidades e aponta-as á
+maldição dos povos. As munições dos exercitos converte-as êle em punhais
+terrivelmente agudos para quem as fabricou e emprega.</p>
+
+<p>O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a
+redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno político,
+isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza, conseqùência
+lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades modernas,
+avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução Francesa
+recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de Liberdade, Igualdade
+e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos andava esfarrapada,
+escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do absolutismo, pelos comandantes
+das casernas, pelos prégadores e ditadores dos parlamentos e pelos profetas
+da lei da luta pela vida, ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e
+caridade, reanimando em <span class="pagenum"><a id="pag_33"
+name="pag_33">[33]</a></span>esperança as multidões prostradas pelas agonias,
+dôres e impotência que foram a obra sinistra dos seus inimigos.</p>
+
+<p>O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo
+prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo baixo
+materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas, e pelo
+positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo zeloso das
+coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e Fraternidade, idealismos
+e realismos, tudo eram utopias, doenças, fraquezas a que urgia acudir com a
+proscrição do sentimentalismo, levando de tropel toda a nobreza, e com a
+glorificação da cobiça e sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de
+generosidade e pureza. Uns nasciam para mandar e outros para obedecer,
+dizia-se então; e todos para se banharem e deleitarem em um mar de infinita
+sordidez, cuja navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e
+superior segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de
+prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.</p>
+
+<p>Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso,
+emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da Religião
+que arruinára, segundo ela<span class="pagenum"><a id="pag_34"
+name="pag_34">[34]</a></span> cria, os edifícios de outras eras tenebrosas,
+barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal insânia de
+ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não é dêste mundo.
+</p>
+
+<p>Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a terra
+e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela liberdade, pela
+independência das pequenas nacionalidades, pela aniquilação do despotismo
+militar e seus consortes e derivados, pelo reino do cristianismo entre os
+homens. É a rehabilitação total do espírito que inflamou a Revolução
+Francesa; é a justificação ardente e cara do idealismo político e religioso
+amaldiçoado e acusado de sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e
+atraiçoado; é a ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente
+e exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e
+errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do império
+da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de almas mais
+elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que dolorosamente nos
+dominavam e turbavam&mdash;dêsse romantismo que, em obras de génio, foi acto de
+Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco mas jámais vil.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_35" name="pag_35">[35]</a></span>Por
+essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que
+afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem hoje
+alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da capacidade militar
+da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o senso moral e político dos
+povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos que lhe deram causa, interrompeu
+a civilisação iniciada pela Revolução Francesa, fundada nos seus evangelhos e
+durante oitenta anos conquistada passo a passo, heroicamente, entre mil
+desastres e infinitas penas. Fecha-se agora o período de quarenta anos de
+reacção.</p>
+
+<p>Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças
+militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e
+ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do século XX
+inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se encontra
+robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo desengano da
+conveniência e insolência do despotismo armado a primor e acautelado com
+talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes muito mais brutal e
+pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido e senil do que cruel, que
+pelas côrtes apodrecidas<span class="pagenum"><a id="pag_36"
+name="pag_36">[36]</a></span> da Europa a Revolução Francesa desapiedadamente
+combateu e derrubou.</p>
+
+<p>Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para onde
+caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta cruzada,
+evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais poderosa, foi de
+certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio alemão não se ilude;
+apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao inimigo.</p>
+
+<p>Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória
+nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de
+ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais eloqùêntes
+adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e seis anos pastor
+protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer armas, mas não póde
+fazer homens. Estes professores de chacina, prégadores da barbaria como um
+dogma, estes homens que se apoiam em bases scientíficas e advogam a ruína das
+catedrais e o terror dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças&mdash;estes
+homens trabalharam durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós
+combatemos». E o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de
+talento e<span class="pagenum"><a id="pag_37" name="pag_37">[37]</a></span>
+justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na
+nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses) esmague. A
+vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo tamanho dos
+canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do império. Os
+impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o coração do império
+não é suficientemente forte para lhes sustentar o corpo». «Podem os homens
+queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas não podem tirar-lhes do sangue
+a influência cristã».</p>
+
+<p>«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por
+Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe deu
+domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e magnanimidade, que o
+faz sorrir no seu humorismo à contradição das cousas resolvida e conciliada
+na unção de uma perene bondade.</p>
+
+<p>E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos,
+confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações do
+político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará ao mundo
+que «não se tratava de um conflito meramente material, mas tambêm de um
+conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos diversos dos<span
+class="pagenum"><a id="pag_38" name="pag_38">[38]</a></span> que as igrejas e
+as chancelarias nos insinuam. O pensador fortalecido por aturado estudo e
+acreditado por trabalhos valiosos que é Benjamim Kidd, resumindo as
+conclusões dos mestres da sua classe, julga que a Alemanha só poderá ser
+vencida por «um idealismo mais alto e uma crença e uma determinação que sejam
+mais fortes do que aquelas que nesta guerra a sustentam».</p>
+
+<p>O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina
+política do mundo&mdash;a doutrina do estado predatório como encontrou a sua
+expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em resumo,
+a negação dos princípios característicos com os quais os progressos e
+liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo antigo caíu. Mas
+exprime essa negação protegida com sciência, recursos e organização, como
+Roma nunca possuiu».</p>
+
+<p>«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não é
+senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda a
+fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder militar».
+A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no Ocidente durante
+vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção do direito a uma altura
+que é universal,<span class="pagenum"><a id="pag_39"
+name="pag_39">[39]</a></span> «Fez o direito independente e superior a todos
+os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou missão em que possam
+basear-se, seja qual fôr a escala em que possam representar-se, e seja qual
+fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A doutrina oposta, reclamando a
+superioridade do estado sobre o direito, foi sempre o desafio às lutas
+estupendas que constituem a história da civilisação ocidental, e sempre caíu
+sob o impulso de uma civilisação mais alta.</p>
+
+<p>Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua
+história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa psicologia
+política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza da sua fôrça
+escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no absolutismo fechado
+das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela que em contacto com o mundo
+durante séculos e nas suas humilhações e desastres, como nas vitórias de um
+império de 450 milhões de individuos da raça humana, aprendeu a grande lição
+universal&mdash;isto é, que há uma só raça, uma só côr e uma só alma na
+humanidade, posto que para o saber queimasse às vezes a carne. Foi ela que
+ergueu o sentimento da responsabilidade humana acima de todas as teorias dos
+interêsses <span class="pagenum"><a id="pag_40"
+name="pag_40">[40]</a></span>dos estados e dos impérios». Foi ela que, por
+sua glória e fortuna da humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção
+invencível aquele «intolerável pêso da moralidade de escravos da ética
+civilisada» que Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma
+outra nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa
+democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados direitos e
+há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no conceito presunçoso
+e insolente dos administradores e senhores da «caserna besuntada de
+metafísica que fica para lá do Reno», segundo a sugestiva expressão de Eça de
+Queiroz, tão pitoresca como profunda e vagamente profética.</p>
+
+<p>Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o
+desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário,
+amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de
+intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e
+instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em que
+exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na
+imprensa&mdash;e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de governo e
+a mais engenhosa<span class="pagenum"><a id="pag_41"
+name="pag_41">[41]</a></span> arte de governar os homens e os trazer
+contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de
+estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar a
+abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma. Se é
+grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na sua
+omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina menos a
+humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se emparceirára em
+uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha afrontava a terra inteira
+com o seu saber, tão arrogante, poderoso e altivo como as armas com que
+ameaçava levar diante de si e sumir nos arrebatamentos invencíveis da sua
+cultura as nações e as gentes de todo o globo. Arvorou-se em empório de todo
+o saber e de todo o pensar. Só dali nos viria essa mercadoria preciosa, e
+porventura excessivamente a procurámos em suas terras e a pagámos por
+exagerados preços.</p>
+
+<p>De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão
+pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em acção
+no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos das coisas,
+nunca ninguem soube tão<span class="pagenum"><a id="pag_42"
+name="pag_42">[42]</a></span> completamente as suas qualidades, e nunca
+ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e sábio metodo.
+A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada e temida, era
+apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava preparada
+militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas, nas
+instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas oficinas. Era um
+prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de previsão, de ordem, de
+atenção, compreensão e satisfação de todas as necessidades, das maiores às
+mais pequeninas, de antecipação de todos os confortos, de extremo
+desenvolvimento de toda a capacidade mental, de toda a riqueza económica, de
+toda a fôrça concebivel e possivel dos indivíduos e das comunidades. E nada
+disto, que era e é um assômbro, impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos,
+se revoltasse contra ela, lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer
+se sujeitasse ao maior e mais angustioso dos sacrificios.</p>
+
+<p>Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza porque,
+incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade apenas se
+revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza. Foi isso que
+êle odiou, foi isso que o<span class="pagenum"><a id="pag_43"
+name="pag_43">[43]</a></span> ofendeu e fez lançar no combate, incitado por
+uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa necessidade de
+humilhação do orgulho da razão, da sciência, da filosofia, e das vaidades, e
+bastas vezes inanidades, das suas multíplices traduções práticas.</p>
+
+<p>Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de
+presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada
+animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com todas
+as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O resultado
+será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o sentimos, ficámos
+desconfiados para largos anos, provavelmente para largos séculos, de que
+aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela sciência, aquela filosofia,
+aquelas armas, aquela disciplina, e toda aquela ordem material, intelectual e
+moral, de uma tenue moralidade sem nobreza, que admirámos, copiámos e nos era
+afiançada como a última e definitiva palavra da civilização, serão bem pouco,
+os míseros vencidos de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos
+sábia, muito menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade
+e amor, muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta
+civilização<span class="pagenum"><a id="pag_44" name="pag_44">[44]</a></span>
+confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente e fraca, embora
+erguida em dourados baluartes.</p>
+
+<p>Facto singular e notável&mdash;há muito a Alemanha se queixava de pobreza de
+homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em
+capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que mais
+autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era confirmado pelos
+estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a situação política do
+Império; e isso se acentuou com uma evidência concludente nas negociações que
+precederam a guerra e em todas as que se lhes seguiram, revelando da parte da
+diplomacia alemã uma incapacidade suma, ao passo que a Inglaterra ostentava
+nas mesmas diligências uma pleiade de homens públicos a par do seu passado e
+da sua fama, em tudo à altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a
+França e a Russia nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de
+inteligência e carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos
+campos de batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.</p>
+
+<p>Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus
+apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou<span class="pagenum"><a
+id="pag_45" name="pag_45">[45]</a></span> qualquer factor essencial, e por
+isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza, equilibrio e beleza de
+faculdades que só o latino nas suas tradições, mesmo negligentemente
+cuidadas, sabe produzir e produz com uma expontaneidade, com uma naturalidade
+que são maravilha e a mais solida presunção da sua eternidade. Aqueles que
+jámais descreram das humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da
+vida contra a mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade
+humana na sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor
+económico, renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer
+que vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de
+lhes restituir, na educação das novas gerações.</p>
+
+<p>Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela
+psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de justificar a
+guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política que lhes convem. E
+respectivamente os sonhos de paz eram utopia, romantismo, sentimentalismo,
+negação do espírito scientífico, filosofia da cobardia, desgraça e atrofia
+das raças que os deixassem prevalecer e só pela guerra alcançariam manter a
+energia.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_46" name="pag_46">[46]</a></span>A
+própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda da
+necessidade e benefícios das guerras.</p>
+
+<p>No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma
+pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um
+mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já
+próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o advento da
+idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e fascinavam. A
+persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra significava, àlêm duma
+acção crudelissima, um negócio péssimo, a <i>grande ilusão</i>; toda a
+erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma futilidade, quando não
+era puramente a cobiça sordida e cega dos que mandavam e não tinham medida
+nem lei em suas ambições; essa aurora de tempos novos pareceu escurecida para
+não mais brilhar, quando os primeiros fumos dos canhões atoldaram.</p>
+
+<p>Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição
+imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores que
+fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os instintos
+que a alimentavam. O presente era a demonstração<span class="pagenum"><a
+id="pag_47" name="pag_47">[47]</a></span> clara da subsistência dessa
+doutrina de morte.</p>
+
+<p>Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com aquela
+universalidade e largueza com que se discutia, bastava a insistência na
+dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que alguma coisa nova
+agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e fortaleceu as tendências
+dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi certo&mdash;facto primacial e de
+extremas conseqùências, que a guerra, ainda há cem anos uma actividade
+natural, e nessa qualidade admitida e aceita unanimamente, tornára-se no
+pensamento dos nossos dias uma monstruosidade, uma aberração e um crime, tão
+indignadamente apontados e abominados hoje como outrora exaltadamente
+louvados e aplaudidos.</p>
+
+<p>Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua
+defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não
+esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos séculos;
+todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo, avigorava a
+disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o sentimento da
+honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a adversidade,<span
+class="pagenum"><a id="pag_48" name="pag_48">[48]</a></span> para a tristeza
+e para a dôr, desenvolvia a obediência ao dever, semeava a coragem, a
+dedicação e a generosidade? Nem assim conseguia restaurar o império perdido!
+Poderes mais altos lentamente se haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro
+a piramide, que parecia invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os
+tumulos dos faraoos, esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova
+do fogo e do sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e
+insignificante para julgar os homens. A escala dos valores toda se havia
+alterado; quanto era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e
+costumava encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais
+nobre amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o
+desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o esfôrço, a
+consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram virtudes sem as quais
+os homens se despenhavam na abjecção, não careciamos, para as possuir, de as
+cultivar no ódio, na cobiça, na brutalidade, na impiedade, na ruina e nas
+atrocidades sanguinárias; o trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a
+cegueira do destino e do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade
+religiosa bastavam para nos experimentar e educar.<span class="pagenum"><a
+id="pag_49" name="pag_49">[49]</a></span> A adversidade de todos os dias, que
+não cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em prova
+toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de outra
+eramos capazes. O <i>Cavador do Millet</i>, no seu campo safaro, só com a sua
+enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus pedestais os
+Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente apregoára que era
+chegado o tempo de converter as espadas em charruas.</p>
+
+<p>Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da largueza
+e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida e aquela mesma
+futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril crueldade que
+anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de proscrição no conceito
+dos homens empenhados em nos libertarem dos seus trágicos horrores.</p>
+
+<p>Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o
+último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de civilização
+que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e pretende
+justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem em que
+agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e governos, com todos
+os seus enganos, traições e angústias,<span class="pagenum"><a id="pag_50"
+name="pag_50">[50]</a></span> com todas as suas fadigas, prazeres, ruins
+ambições e opressões; póde, claudicante e ignorando a própria miséria,
+continuar incerta e cega na jornada dos seus muitos e lúgubres progressos até
+de novo naufragar na imensidade dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou
+um inimigo que não lhe perdoará; despertou a consciência das suas terríveis
+enfermidades, e com ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e
+de simplicidade que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de
+facto, porque os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é
+tenaz e seguro nas conquistas.</p>
+
+<p>Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos
+poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi
+unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que muitas
+envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de tudo isso,
+um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração, por muito
+distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto dos exércitos;
+mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e ventura, foi o
+castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um profundo <i>peccavi</i>
+cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes e cuja absolvição<span
+class="pagenum"><a id="pag_51" name="pag_51">[51]</a></span> temos de
+procurar em um mundo fundado em uma outra alma muito diferente daquela, por
+demais corrompida, a que loucamente nos haviamos entregado. Outras
+aspirações, outras crenças e todo o seu modo de ser externo terão de nos
+inspirar para nossa fortuna e alegria. Muita coisa que criamos morta ha de
+resuscitar; e muita coisa que supunhamos eterna ha de desvanecer-se para
+sempre.<span class="pagenum"><a id="pag_52" name="pag_52">[52]</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_53" name="pag_53">[53]</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00400000000000000000"></a> <br>
+Revisão de valores </h1>
+
+<p>O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem
+dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem as
+subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente aproveita e
+emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a rapidez dos
+movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se perdem nas nuvens
+tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se ocultam nas profundezas
+do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo, para as imaginações infantis,
+mas difere do que antigamente se fazia apenas naquelas minguadas proporções
+em que os brinquedos das lojas de Paris diferem dos que alegravam as mocinhas
+de Corinto antes de Cristo vir ao mundo. As<span class="pagenum"><a
+id="pag_54" name="pag_54">[54]</a></span> jornadas de Joffre em automóvel não
+serão cousa muito diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia,
+igualmente insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de
+Cesar com seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo
+modo sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que
+hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e
+engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto das
+multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores e
+capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e possuídos
+por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão despejadas e
+poderosas que não carecem de registo, nem de garantias especiais do estado,
+para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas no final, apezar de toda a
+complexidade em que nos embrenhámos, não ostentamos ambições e talentos
+superiores aos muitos e famosos que fizeram a guerra quási exclusivamente
+fiados na fôrça do seu braço; e nem tão pouco consagramos as proezas e
+chacina a fins mais nobres do que aqueles de estreme e insaciável cobiça que
+exaltaram os generais de outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre
+foi desde<span class="pagenum"><a id="pag_55" name="pag_55">[55]</a></span>
+que se conhece história, um assassino cruel e sordido.</p>
+
+<p>Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve
+alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com uma
+guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a astúcia, a
+dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser ferido tomaram
+em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem, pela firmeza de
+ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e lealdade da luta a peito
+descoberto. O carácter de negócio, conta, e cálculo e previsão, aliás de
+supremo alcance, apagou muita beleza da imprudência, da ousadia e do
+desprendimento. «As batalhas não são já o heroismo espetaculoso do passado»,
+disse um general celebre pelos seus escritos, Homero Lea. «Os exércitos de
+hoje e os de ámanhã são uma sombria máquina gigantesca destituida de heroismo
+melodramático... uma máquina que leva anos a formar em suas partes separadas,
+que leva anos a uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce
+e irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de trevas,
+um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima, acautelada e
+perversa, que raro consente<span class="pagenum"><a id="pag_56"
+name="pag_56">[56]</a></span> um gesto de generosa magnanimidade, raro conduz
+a revelar quem ofereça com uma clara abnegação a própria vida, quem se
+inflame procurando dar a morte ao inimigo da sua pátria e da sua crença.
+Entre a guerra moderna, intima e exteriormente mascarada de couraças, e a
+guerra dos tempos heroicos, fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia
+que vai de um arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de
+um negócio a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio
+e a baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a
+isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses
+diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das
+batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a insinuação
+de um certo materialismo que invariavelmente prefere a torpeza lucrativa às
+contingências de uma franca e determinada honestidade.</p>
+
+<p>Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da
+guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em
+couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma
+multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra escoltada de
+infâmias,<span class="pagenum"><a id="pag_57" name="pag_57">[57]</a></span>
+em regra mais rendosa para a ignomínia do que gloriosa para a dignidade.</p>
+
+<p>Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a
+guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a
+apontar, e êsse de incalculável magnitude&mdash;a amizade em que no dia de Natal
+se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente se
+trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais, por
+espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no tempo como
+douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e afeição, que lhes
+transbordavam do peito, e para converterem em olhares de intimidade e
+ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade sanguinaria em que um
+tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os soldados voltaram às
+fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de novo se cobriu de cadaveres
+a terra. Mas alguma cousa indestructível se edificára e permanecia de pé,
+inviolável; uma luz se acendêra, que não podia apagar-se, de paz, de comunhão
+e de carinho; uma saudade se ateiára precipitando as nações e os exércitos em
+caminhos novos, para outros combates.</p>
+
+<p>Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali
+venceu e aniquilou<span class="pagenum"><a id="pag_58"
+name="pag_58">[58]</a></span> o nacionalismo nas suas estreitezas e
+prejuízos, que lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza,
+e por vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a
+amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos
+lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade. Foi
+todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em uma altura
+superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada; foi a consagração
+de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do que a insânia
+sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte lançado aos quatro
+ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a repetir-lhes que os
+homens não querem a guerra e a aborrecem, e unicamente pela avidez dos que os
+governam, escravisam, fascinam e iludem são arrastados às batalhas que o
+coração amaldiçôa. Foi a confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia
+incalculável, das determinações de uma consciência que sente dissipar-se a
+divisão das raças e das nações&mdash;não porque a suprime, mas exactamente porque,
+reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a ama
+no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de interesses e
+afeições por aquilo<span class="pagenum"><a id="pag_59"
+name="pag_59">[59]</a></span> que é o nosso comum amor, em vez de nos
+massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da individualidade
+étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde distinguir-nos e de
+facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos separar e tornar inimigos.
+</p>
+
+<p>Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira impressão,
+vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando calamidades e
+atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das mulheres e das
+crianças até à ruina das catedrais&mdash;que jámais poderão ressurgir na inteireza
+do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver os bafejos dos alentos
+místicos que em extasis divinos as sonharam e ergueram e pelo sangue de
+mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam dado a aureola de uma arte e
+tradições irreparáveis, das que vivem uma só vez, filhas de uma só alma, e
+não renascem, se as ultrajou a malvadez dos homens atónitos na turbação de um
+ímpeto sinistro!&mdash;os menos desconfiados dos incitamentos da primeira
+impressão de pronto descreram dos sinais de paz que há pouco viam com
+alvoroço no horisonte. Logo se abandonaram ao desalento e tiveram como não
+subsistentes a solidez e progressos daquele internacionalismo<span
+class="pagenum"><a id="pag_60" name="pag_60">[60]</a></span> que era a
+vitória da consciência dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os
+conflitos das suas diversas tendências, necessidades e divergências, e
+conduzindo a uma lenta substituição da hostilidade pela cooperação que,
+paulatinamente mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se
+traduzia em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral
+cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas
+reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas
+hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em
+campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais altos do
+que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza milagrosa
+dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa de novo se
+fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios a convicção dos
+que antes da guerra encontravam na expansão do internacionalismo os
+fundamentos e a esperança do renascimento político e social das comunidades,
+meditem paralelamente o que na escala dos valores sofreram o patriotismo e a
+diplomacia, e isso lhes dirá por outra forma e por outras palavras o que a
+trégua e os sorrisos do dia de Natal não lhes tiverem significado. <span
+class="pagenum"><a id="pag_61" name="pag_61">[61]</a></span>A seu modo e
+precisamente, pela análise da história, pelo exame dos factos políticos e
+pela verificação das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que
+porventura lhes haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes
+do coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no conceito
+dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando não é a
+desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de desarmar exércitos
+e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes, indemnes de debilidades
+afectivas, haviam juntado e edificado para uma obra de extermínio.</p>
+
+<p>O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes, e
+é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por um
+resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos,
+corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e
+crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do
+patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo por
+que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa derivar de
+que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do patriotismo e são alheios
+às faltas da religião». Compreenderam-se em uma<span class="pagenum"><a
+id="pag_62" name="pag_62">[62]</a></span> só divindade e apostolado as
+virtudes e as degenerações e deformidades do patriotismo; porque «o
+patriotismo pode tornar-se não moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os
+estados, como as igrejas, podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos
+de infalibilidade, e daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à
+perda conseqùênte da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode
+pedir a sua moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores
+espirituais; o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao
+Deus da verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de
+ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não pode
+encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma mais
+profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No fundo de
+todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio». «O verdadeiro
+patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em todos, que respeita a
+nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde quer que a encontre. Não
+fomos suficientemente patriotas no passado. Realmente, não acreditamos no
+patriotismo». É insensato, mesquinho e despiedoso o patriotismo que antes de
+bem combater não<span class="pagenum"><a id="pag_63"
+name="pag_63">[63]</a></span> soube bem viver, que só na guerra sente as
+obrigações e todas as esquece e desconhece na paz. «Nos anos angustiosos de
+sombria luta de classes que nós chamamos os anos caquéticos da paz, vivemos
+vidas baixas, egoistas, acanhadas e crueis. De ano para ano as cidades
+alargam horrivelmente as suas ruas e tocas nesta linda Inglaterra», (como de
+resto em todo o mundo), «que é nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas
+pela qual não estamos prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os
+pobres, rebaixados os humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus
+o clamor de milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos
+divertimos. E imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a
+chacina da guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que
+resultam das doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se
+podia atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da
+pobreza, da embriaguez e vicio».<a name="tex2html4"
+href="#foot705"><sup>4</sup></a></p>
+
+<p>Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de
+antagonismos sangrentos,<span class="pagenum"><a id="pag_64"
+name="pag_64">[64]</a></span> rapacidade e conquista&mdash;miséria e orgulho dos
+govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal
+responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na guerra uma
+completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para sempre convencida
+de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e à riqueza da terra,
+condenada e confundida pelo cataclismo que na sua corrupção e debilidade
+fundamentais provocou, aplaudiu e consumou, perdeu o prestígio dos seus
+conciliábulos e segredos, e são mais os incrédulos que a proscrevem do que os
+fieis que a amparam. Há muito suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e
+tenebrosa nas maquinações, isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé,
+embora fôsse o meio de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as
+cobiças, a sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais
+ou menos consciente e nunca escrupuloso&mdash;agora, ao dar conta pública das suas
+façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas anteriores.</p>
+
+<p>Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos
+homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o
+movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar
+anti-diplomático,<span class="pagenum"><a id="pag_65"
+name="pag_65">[65]</a></span> era um hereje da sua igreja, um deputado do
+parlamento inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais
+puramente aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial,
+filho do secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma
+elevada posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante
+cinco anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço
+diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da
+Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se para
+discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus beneficios e seus
+males e agravos.</p>
+
+<p>Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, <i>O Camelo
+e o Fundo da Agulha</i>, severo estudo da degradação que a posse da riqueza
+importa, e a <i>Decadência da Aristocracia</i>, onde pôs a claro a fraqueza
+da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e talento
+provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou <i>Democracia e
+Fiscalização dos Negócios Estrangeiros</i>. Aí procurava acautelar-nos contra
+os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade da diplomacia trazia
+sujeitos os destinos, aspirações e esforços das democracias. «Não creio»,
+escrevia então, «que na época presente<span class="pagenum"><a id="pag_66"
+name="pag_66">[66]</a></span> haja questão mais importante do que a
+consideração do problema que resolverá como é que a opinião pacífica,
+moderadora e progressiva da democracia póde penetrar tanto nos negócios
+internacionais como nos negócios nacionais, e como é que um estado
+democrático póde descobrir os meios próprios para se exprimir no governo da
+nação».</p>
+
+<p>Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a
+importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas
+políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um redactor de
+<i>The Christian Commonwealth</i>, pôde renovar o seu pensamento com a
+autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado por factos de
+uma trágica evidência.</p>
+
+<p>Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O
+desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a
+guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve quebra na
+boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As narrações pateticas,
+feitas pelos homens em campanha, das relações afetuosas entre êles e o
+«inimigo» no dia de Natal mostram claramente que a guerra não é entre os
+povos; sentem a necessidade de ser<span class="pagenum"><a id="pag_67"
+name="pag_67">[67]</a></span> amigos e facilmente seriam amigos, se os que os
+governam não estivessem em guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são;
+a guerra não foi causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse
+contra o povo de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a
+moralidade internacional e que é realmente a moralidade intergovernamental.
+Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua crítica é principalmente
+política. Contesta que haja uma quebra moral da parte do povo... carecemos de
+nos libertar do segredo diplomático e garantir a fiscalisação democrática nos
+negócios estrangeiros, o que só por intermédio do parlamento póde fazer-se.
+«Diplomacia aberta» é em certo modo uma frase que não convém. Do que o país
+carece é de conhecer inteiramente os seus compromissos e obrigações com os
+países estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política
+que se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de
+interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma tradição
+de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado, que nos veio de
+idade-média e que tem por efeito deixar as cousas inteiramente nas mãos de
+homens públicos ciumentos de toda a intervenção estranha. O que mais
+lastima,<span class="pagenum"><a id="pag_68" name="pag_68">[68]</a></span>
+todavia, é a política do silêncio oficial sobre materias que se tornam de uma
+importância vital. Um completo segrêdo é em nossos dias praticamente
+impossível. O povo sustenta-se de palestras ociosas, rumores e falsas
+referências dos jornais. Não está sem informações mas está mal informado.» A
+culpa não é dos ministros, é dos próprios parlamentos que se movem em um
+círculo vicioso: porque os seus membros não são informados dos negócios
+externos, poucos se interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas
+mãos dos grupos que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes
+grupos, e a ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram
+de tal modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão
+destinadas a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a
+consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da democracia,
+prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a direcção dos
+negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos ministros ou que
+deixe de haver negociações que necessitem de reserva emquanto proseguem. «Mas
+carecemos de mais bastas oportunidades de discussão, de submetter ao
+parlamento todos os tratados, compromissos e obrigações, de democratisar
+o<span class="pagenum"><a id="pag_69" name="pag_69">[69]</a></span> serviço
+diplomático.» Porque a exiguidade da retribuição dêsses serviços tornaram-nos
+praticamente o apanágio de reduzidissimas classes abastadas, e «homens de
+talento, criados na fé democrática, que compreendem e podem interpretar o
+sentimento popular, são excluidos justamente por não possuirem aquelas
+qualificações adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»</p>
+
+<p>Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia.
+Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são
+indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da humanidade, e
+essas relações não podem deixar de ter seus interpretes próprios e
+instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está inutilisada a
+engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande perda de vidas e
+bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres. Mas está humilhada,
+desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua insensatez, egoismo,
+estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior do coração terá de dar o
+lugar a quem a substitúa com menos soberba, mais modéstia, e sobretudo mais
+conhecimento e respeito das aspirações dos povos que a sua arte está
+destinada a servir e que ela cegamente sacrificou às ambições pervertidas de
+reduzidas aristocracias<span class="pagenum"><a id="pag_70"
+name="pag_70">[70]</a></span> e à voracidade insondável das oligarquias
+mercantes.</p>
+
+<p>Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada
+que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus
+palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que
+arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este campo
+comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas aspirações e das
+tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De soberana passa a cativa, ao
+cativeiro das obrigações políticas e morais que são a condição da dignidade e
+da utilidade, da arte de ser e viver nobremente, em paz e dando a paz.</p>
+
+<p>Um artigo do <i>Daily Chronicle</i>, procurando as razões por que a
+Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem anos,
+emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava explicação
+insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco que unem os povos
+dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para essa extraordinaria
+fortuna, é certo que a identidade da raça dos Estados Unidos e da Inglaterra
+está profundamente limitada e prejudicada pela insinuação de sangue estranho,
+e não póde dar razão bastante de tão sólida e<span class="pagenum"><a
+id="pag_71" name="pag_71">[71]</a></span> prolongada amizade. Causa mais
+eficaz poderá encontrar-se «nestas ideias de liberdade pessoal, direitos
+civis, obediência à lei e confiança nos métodos judiciários, que são a
+herança comum do passado do povo americano e do povo britânico. Ambos êsses
+países realisaram os processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e
+estão por conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a
+experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos. Ambos
+êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do militarismo que
+escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes foram,
+indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem anos.</p>
+
+<p>«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais
+importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de facto, a
+Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade governados pela
+opinião pública.»</p>
+
+<p>E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica,
+conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu direito de
+assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter que
+brilhantemente revelou onde tem podido dominar.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_72" name="pag_72">[72]</a></span>Na
+verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o internacionalismo
+nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças superiores das quais
+dependem, como todos os demais elementos da constituição social das nações e
+as suas afirmações. O internacionalismo dissemina-se e avigora-se, e a
+diplomacia muda de modos, gestos e processos, aparentemente; no fundo não são
+senhores dos seus destinos, jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que
+os autorisa ou condena e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos
+os seus aspectos muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e
+desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não desperte e
+não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu invencível poder e a
+sua indomável expansão. E esta guerra mais evidentemente do que nenhuma outra
+o demonstrou.</p>
+
+<p>«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente
+grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira guerra
+de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da nossa religião.
+Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que, se as nações são
+cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o souberam Atanasio
+e<span class="pagenum"><a id="pag_73" name="pag_73">[73]</a></span>
+Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo de Constantino até agora
+esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua protecção a igreja e, largamente,
+sob o seu governo, no acontecimento conhecido como a conversão de
+Constantino, muitos dos princípios do Evangelho se obscureceram. Durante
+séculos, a igreja estava pronta a abençoar exércitos e armadas. Shakespeare
+julgou apropriado fazer proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam
+Henrique V a declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa,
+instado para abençoar as armas, respondera:&mdash;«Dou a minha benção à paz.» E um
+arcebispo&mdash;<i>alterius orbis papa</i>&mdash;solenemente declarava toda a guerra
+«obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente que
+toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro efectivo.
+Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o cristianismo nunca foi
+aplicado às relações internacionais. O que faliu foi uma civilisação que não
+era cristã»<a name="tex2html5" href="#foot706"><sup>5</sup></a>.</p>
+
+<p>Romain-Rolland, nos artigos que publicou no <i>Journal de Genève</i> e
+correram mundo vertidos<span class="pagenum"><a id="pag_74"
+name="pag_74">[74]</a></span> em diferentes linguas, anunciados como um
+pregão profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra
+mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes apóstolos
+rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de repente nos
+mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães, e Frank, morto
+em combate, por amor do militarismo, ele que era o campeão da união
+franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à disposição dos seus governos e
+lhes coadjuvaram as mentiras e os odios «tendo a coragem de morrer pela fé
+alheia, os que não tiveram animo de morrer pela sua própria fé.» «Os
+representantes do Principe de Paz, sacerdotes, pastores e bispos, foram para
+as batalhas aos milhares, a levar-lhes, mosquete em punho, os divinos
+mandamentos:&mdash;Não matarás e amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de
+austriacos, alemães ou de russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada
+um tem o seu Deus e cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o
+defenderem e destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte
+mil sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os
+cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem qualquer
+expressão de pasmo, a<span class="pagenum"><a id="pag_75"
+name="pag_75">[75]</a></span> scena paradoxal na estação do caminho de ferro
+de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços ordinandos que iam
+para os seus regimentos, cantando todos juntos a marselheza.» Pio X, a quem o
+rompimento de guerra apressou a morte, segundo se crê, que «não poupou os
+seus anatemas aos sacerdotes inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra
+do modernismo, que fez êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes
+cuja ambição desmedida votou o mundo à miséria e à morte?»</p>
+
+<p>Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo,
+porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta de
+resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se associou,
+atiçando-o em vez de o apagar.</p>
+
+<p>Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de
+Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o cristianismo e
+as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência da organização das
+igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do império de um princípio cuja
+expansão e penetração teem sido constantes desde a hora da sua revelação,
+cujo poder mais do que nunca nos domina e fascina, e cuja lei cada vez mais
+lucidamente se mostra a solução<span class="pagenum"><a id="pag_76"
+name="pag_76">[76]</a></span> unica e a unica redenção dos males e angústias
+que afligem a humanidade.</p>
+
+<p>Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão de
+ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas cristãs
+veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por todo o mundo
+associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e deshumano;
+tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo, abençoando-os bastas
+vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito dos fiéis, de ordinário
+prontas em promover o culto da riqueza e do podêr; quási invariavelmente
+afastadas, senão inimigas, do desenvolvimento da democracia que, sendo a
+tradução política dos seus princípios, elas insistiram em desconhecer,
+aceitando-a em último extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina,
+subversão, opressão e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe
+dúvidas, temores e embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e
+partilhando-lhes do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes,
+e amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação
+das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno
+impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da
+autoridade<span class="pagenum"><a id="pag_77" name="pag_77">[77]</a></span>
+civil, subsistente durante longos séculos e por diversos modos efectiva,
+expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no forum e no templo; mais
+combatentes, coercitivas, do que apostólicas, mais amigas de mandar, e de
+facto mandando, entre erários e espadas, do que confiadas em cativar pela
+pobreza, pela isenção de toda a violência, pela verdade e pelo amor; de uma
+scéptica complacência com o fariseismo e hipocrisia que se lhes roja pelos
+altares, inteiramente descuidadas em corrigir as superstições dos seus
+rebanhos; afeiçoadas a uma caridade realmente abundante de deligências,
+desinteresses e esmolas, mas intimamente e logicamente inseparável de todas
+as aristocracias e hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e
+de quanto possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a
+intervenção; não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para
+depois lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em
+paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos
+predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo cuja
+suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de expressão da
+alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar regras e manter uma
+disciplina<span class="pagenum"><a id="pag_78" name="pag_78">[78]</a></span>
+estreita e mecanica do que exaltadas em respeitar, defender e propagar a
+pureza dos princípios; desatentas ao inimigo que lhes invadia os domínios,
+não percebendo ou tomando em pouco o que o desenvolvimento da imprensa diária
+lhes importava, pois, trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que
+cada um escolhe ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o
+procurávamos, nos dias de descanso das fadigas profissionais:&mdash;as igrejas, no
+geral, decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando,
+por desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira de
+aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da adoração
+dos homens, que para as servirem as tinham edificado e cimentado com o seu
+sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e teem. Faltaram-lhes
+crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma conjuntura como a presente,
+porque crentes não tinham, quedaram-se impotentes, com grande copia de bons
+desejos, palavras excelentes e muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de
+acção.</p>
+
+<p>«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o
+preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os fundamentos
+e desvairou as gentes. Da<span class="pagenum"><a id="pag_79"
+name="pag_79">[79]</a></span> corrompida interpretação dêsse princípio veio
+que, devidido o mundo e a consciência em duas metades, uma para Deus e outra
+para Cesar, completamente se perdeu a noção da dependência em que Cesar
+estava de Deus, e impensadamente se dispensou a observância das obrigações
+correlativas; não mais se cuidou de subordinar Cesar a Deus, (os imperadores
+contam com o auxilio de Deus para os seus negócios e invocam-no como quem
+está seguro da honestidade e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino
+seu, próprio e para todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o
+desregramento, a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de
+que, se Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma
+humanidade redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação
+do mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a
+fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no
+rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa, excelente
+e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle adaptada,
+sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua sumidade, por vezes
+propensa a indulgências com a cobardia religiosa, sem mesmo hesitar em
+abençoar<span class="pagenum"><a id="pag_80" name="pag_80">[80]</a></span>
+exércitos que, sendo portadores do ódio e da morte, são a negação de Cristo,
+e até mesmo pondo sob a protecção da cruz as máquinas dos caminhos de ferro
+que são levitas e servidores horrendos de desapiedadas cobiças.</p>
+
+<p>Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade
+religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e
+infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas e
+domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por isso
+cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez mais
+inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o
+reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão
+sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos primeiros
+dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos, manter. «Os
+horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem do cristianismo
+e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e esta espécie de
+cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como aquela de que estamos
+sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da natureza da impostura. Mas, por
+muito más que as cousas sejam, não há necessidade de desesperar. Um novo
+cristianismo e uma nova cultura surgem&mdash;o<span class="pagenum"><a id="pag_81"
+name="pag_81">[81]</a></span> cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a
+cultura dos profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa
+religião, não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam
+o logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que
+Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora presente.
+</p>
+
+<p>De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades
+modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada
+sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência do
+cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde durante
+prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos os altares e
+espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer na solução dos
+problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso tempo resulta é a
+vitória da religião e do cristianismo em toda a latitude, como promessa unica
+de salvação. Cresceram fóra das suas igrejas, com diferentes nomes e
+diferentes rubricas, sob diversissimas invocações, mesmo sob as que se
+propunham nega-los e, inscientemente, imaginando afugenta-los, destrui-los e
+substitui-los, os propagavam e defendiam; cresceram, porêm,
+continuamente<span class="pagenum"><a id="pag_82"
+name="pag_82">[82]</a></span> e, sendo divinos, nunca como agora se mostraram
+necessidade terrena mais urgente e remédio mais seguro das nossas
+enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior altura, erguidos não só
+pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre foi todo o seu ser e
+substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da logica, pela meditação e pela
+reflexão, pelas conclusões da inteligência e pela investigação das leis da
+vida, pelas demonstrações da experiência, pelas lições da história
+desapaixonada e isenta de toda a obsecação de sectarismo.</p>
+
+<p>A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em
+iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e discordia em
+auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no reconhecimento da
+mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação do mesmo mistério, na
+justificação do mesmo amor e no respeito da mesma regra que dêsse princípio
+deriva. Religião, sciência e filosofia que fôram atrozmente irreconciliáveis,
+resolvendo nas fogueiras, nas masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas
+divergências e conflictos, caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se
+amparam para uma mesma jornada. Já a ninguem surpreende que um
+publicista<span class="pagenum"><a id="pag_83" name="pag_83">[83]</a></span>
+de superior reputação se detenha a proclamar o «valor religioso do livre
+pensamento», significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade
+do espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a
+sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu
+inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade.
+Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma igreja
+infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O pensamento
+não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda menos, por modo
+algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava que essa fé podesse
+definir-se como um estudante a definiu&mdash;«aquela qualidade pela qual cremos em
+cousas que sabemos serem totalmente destituídas de verdade.» Mas a igreja de
+hoje, no seu melhor modo, acolhe bem o pensamento porque com êle está mais
+segura de si. Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que
+lhe resta está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra,
+considera o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr
+que voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as
+profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade<span
+class="pagenum"><a id="pag_84" name="pag_84">[84]</a></span> foi auxiliada
+por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal da realidade da
+nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para o campo largo da
+razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e a sciência, levadas
+para qualquer cousa como um terreno comum.</p>
+
+<p>«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias
+de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos dogmas,
+vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida; mas as cousas
+grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na sabedoria e no amor de
+Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em o nosso dever com os nossos
+irmãos, são, pensa ele, mais profundamente sentidos e mais sinceramente
+possuídos do que nunca. A sciência abdicou da sua velha arrogancia e está
+preparada para se apresentar de cabeça curvada, como um humilde investigador
+nos palácios do Oculto.»</p>
+
+<p>São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e no
+govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião e o seu
+valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma torrente, no
+meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se um<span
+class="pagenum"><a id="pag_85" name="pag_85">[85]</a></span> homem da
+estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida de apostolado
+político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se, confessa
+publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a política e se
+consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas suas palavras, não o
+desengano de um profeta mas a desilusão de uma época que, ardentemente
+empenhada em livrar a terra e os homens dos martírios que os crucificam,
+errou a estrada e foi procurar em mesquinhas artes e em artificios
+estreitamente humanos uma salvação que êles não continham. São a condemnação
+final de toda a idolatria materialista dos valores económicos e a certeza de
+que só a inspiração religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza
+da nossa inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de
+fundar.</p>
+
+<p>Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo
+director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno livro, de
+sumo interesse e eloquente clareza, intitulado <i>O Sermão da Montanha e a
+Política prática</i>. Pretendia que «não podemos realizar imediatamente os
+ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da sua realização, e os
+nossos movimentos podem<span class="pagenum"><a id="pag_86"
+name="pag_86">[86]</a></span> estar de harmonia com as leis da natureza
+humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram supremamente
+compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas pelos que adoram
+Mamon e Belial».</p>
+
+<p>Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma
+lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da terra, e
+em particular na política, examinando a possibilidade de aplicação das
+bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à simplicidade, à
+misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por engenhosos sistemas e
+subtis abstrações mas pelos exemplos históricos mais vulgares, vinha por fim
+a afirmar que é possivel governar uma nação pelos princípios estabelecidos no
+Sermão da Montanha e que é sómente em quanto assim procedemos que a sociedade
+póde elevar-se dos tipos mais baixos aos mais altos. Podemos ir para diante
+no espírito do cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião
+é que vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e
+dos demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu
+de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens públicos
+podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma<span
+class="pagenum"><a id="pag_87" name="pag_87">[87]</a></span> legislação
+humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste o facto de que
+essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará lembrar o que a
+legislação social e política tem sido desde o comêço do século desenove&mdash;o
+que ela fez protegendo as crianças, de que infernos vem arrancando os
+trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a dignidade, que lutas
+titânicas sustentou para isso, que barreiras formidáveis de prejuízos e vis
+interêsses lhe foi necessário transpôr e vencer. E que princípio, que fôrça
+realizava êsses milagres senão o cristianismo que dos livros sagrados se
+derramára nos códices das doutrinas e das instituições políticas?</p>
+
+<p>Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores,
+seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância daquele
+valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem, sobretudo para o
+fazer repassar mais profundamente a consciência dos homens, definitivamente
+convencidos da necessidade de um predomínio maior ainda, infinitivamente mais
+profundo, dos princípios do Evangelho considerados na sua influência prática,
+na sua ilimitada aplicação à disciplina e conduta da vida.</p>
+
+<p>Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra, Filipe
+Snowden,<span class="pagenum"><a id="pag_88" name="pag_88">[88]</a></span>
+dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as fôrças unidas da
+democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado a catástrofe da
+presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se por tal forma que as
+fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas não tiveram tempo de
+mobilisar-se antes que as intrigas dos militaristas, monarcas e diplomatas
+soltassem as fúrias da guerra. Sempre acreditára e confessára que, se as
+nações da Europa continuassem na política internacional dos ultimos quinze
+anos, provocando hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de
+armamentos, o resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a
+causa da guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a
+responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais, deixaram
+que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os militaristas e os
+diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas aspirações democráticas e
+levados por interesses económicos e outros opostos aos trabalhadores do
+mundo. Tivessem-se os trabalhadores apossado do govêrno das relações
+internacionais, e debalde se teria provocado a guerra e as suas calamidades,
+de cuja responsabilidade os trabalhadores não podiam livrar-se.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_89" name="pag_89">[89]</a></span>Sem
+dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar no podêr
+da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está longe de se
+conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio dos partidos
+socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as nações. Mas para os
+estranhos às artes da actividade política prática, medianamente propensos a
+esperar das suas tramas a fortaleza que só no vigor das tendências do
+espírito encontram, o mais provável será que não fôsse a deficiência de
+direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a guerra; antes teria
+acontecido que a insuficiência do espírito anti-militarista entre os
+trabalhadores não permitiu que êles se acautelassem e defendessem o mundo
+contra essa inqualificável monstruosidade. Para os que mais esperam da
+inspiração interior que do engenho prático, a responsabilidade dos
+trabalhadores está amplamente atenuada pela sua miséria material e indigência
+moral correlativa. A civilização moderna, fazendo-os escravos de uma
+escravidão de que a custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes
+podia ensinar menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas
+revoltadas.</p>
+
+<p>Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos
+sórdidos das<span class="pagenum"><a id="pag_90"
+name="pag_90">[90]</a></span> chancelarias, dos palácios e das casernas.
+Teria sido a debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um
+simples erro de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição
+perante poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de
+iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a guiar
+e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja suficiente
+para a substituir.</p>
+
+<p>Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu Eduardo
+Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor, quando o génio
+bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de todo isento de ira
+injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr termo a esta peste da
+guerra, <i>não há senão um remédio</i>, e é «o geral abandono dêste sistema
+de vivermos do trabalho dos outros», poderá parecer-nos que simplifica em
+extremo e reduz a proporções demasiado mesquinhas um conflicto de proporções
+gigantescas que é uma dôr e uma agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos
+capricho da destreza do filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com
+que êle pretende fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra
+uma anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos,
+ligeiramente que seja, de pronto<span class="pagenum"><a id="pag_91"
+name="pag_91">[91]</a></span> nos convencemos de que nem a afirmação do
+profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem os seus
+vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em renascimento
+assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das relações sociais,
+desde a ínfima humildade de um servo que nos comove até á soberba das
+potestades da terra que nos ameaçam.</p>
+
+<p>Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros,
+negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre as
+nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram para isto
+as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e colheitas, para
+apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores podessem subsistir; e são
+a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir concessões de borracha, minas de
+ouro, minas de diamantes em que o trabalho de gente de côr seja explorado até
+ao extremo mais amargo; apossar-se de colonias e terras distantes, onde
+empresas capitalistas gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr)
+possam realisar dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros
+productos industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no
+caminho destas avidas e deshumanas ambições:&mdash;tais são os<span
+class="pagenum"><a id="pag_92" name="pag_92">[92]</a></span> fins das guerras
+de hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós,
+porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes capitalistas e
+comerciais, que hoje são os representantes das nações, se funda em o mesmo
+princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é encontrar algum trabalhador
+ou grupo de trabalhadores cujo trabalho valoríse o que nós podemos
+apropriar... Um parasitismo sem disfarce e sem vergonha é a ordem, ou a
+desordem dos nossos dias. A rapacidade dos animais de preza mal se oculta em
+a nossa vida social, transparentemente velada todavia por uma aguada de
+sentimento «cristão» e por uma rede de instituições filantrópicas para
+suposto benefício das muitas vítimas que nós espoliamos.</p>
+
+<p>«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra
+intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos cobre o
+corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros, sem considerar
+aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois que admirar se por fim
+resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto teatro do drama das nações,
+e nas letras vermelhas da guerra e do conflito, escritas através dos
+continentes? De nada serve dizermos com uma presumida piedade que<span
+class="pagenum"><a id="pag_93" name="pag_93">[93]</a></span> estamos em campo
+para banir a guerra e o militarismo, animando nós entretanto em nossa própria
+vida e em a nossa igreja, ligas do império e outras instituições, o mais
+sordido e egoista mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra,
+apenas uma guerra de um género muito mais insignificante e mais cobarde do
+que aquele que se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e
+dos canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma
+comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra<a
+name="tex2html6" href="#foot707"><sup>6</sup></a>.»</p>
+
+<p>Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se
+reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre&mdash;uma derrogação do
+princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a qualquer
+outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e que o hábito
+nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em uma tal
+simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola. Acusados e
+pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o cristianismo significa na
+hora presente, até<span class="pagenum"><a id="pag_94"
+name="pag_94">[94]</a></span> onde chegam as suas bençãos e anatemas, e
+conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que influências
+imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e latentemente se criaram,
+e que espécie de revolução, ou, melhor, de resurreição nos anunciam.</p>
+
+<p>Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo
+tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida fortaleza,
+deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem edificá-la. E aquilo de
+que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento da inteligência na
+humanidade, o conhecimento da história e a observação minuciosa e exacta da
+evolução das sociedades, todo êsse honesto labor das universidades, da
+imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos por qualquer meio se
+tornaram verdadeiros pastores das nossas almas, tudo isso que é um assombro
+da capacidade mental dos homens, tudo foi vão para evitar as provações a que
+um destino sinistro nos conduziu.</p>
+
+<p>Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse
+que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na <i>Grande Ilusão</i>, largamente
+comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e
+renovado no <i>Prussianismo e a sua Destilação</i>, <span class="pagenum"><a
+id="pag_95" name="pag_95">[95]</a></span>isso bastava para que a paz e a
+guerra fôssem um pleito findo.</p>
+
+<p>Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos
+essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e
+conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos, o
+pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a grande
+ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida, aquelas que
+representam os fins das sociedades humanas, só podem alcançar-se pelo
+desenvolvimento da fôrça política e militar dos estados, pela extensão do seu
+território e pelo domínio dos seus govêrnos. Esta doutrina, proeminente e
+característica na Prussia, tornára-se afinal comum a toda a Europa por
+virtude de um deplorável contágio. Para a debelar não bastavam combinações
+diplomáticas e a revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de
+espírito, só por tendências opostas poderia ser vencida. Foram os
+professores, as academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a
+propagaram; e só por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada.
+Não seria pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua
+calamitosa sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da
+religião; debalde<span class="pagenum"><a id="pag_96"
+name="pag_96">[96]</a></span> sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram
+sustentar as crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a
+liberdade, quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e
+a estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua comparação,
+demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos altares. Assim acontece
+e se verifica que «o combate pelos ideais não póde mais tomar a forma de
+combate entre as nações, porque as questões morais estão dentro das próprias
+nações e cruzam as fronteiras políticas. Não há estado algum moderno que seja
+completamente católico ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático
+ou democrático, socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais
+do mundo moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma
+cooperação intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros
+estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e
+economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a
+estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões
+nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas pela
+coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty, citado por
+Norman Angell, «ignorar<span class="pagenum"><a id="pag_97"
+name="pag_97">[97]</a></span> a significação dos congressos internacionais
+não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo, do feminismo, de toda
+a espécie das artes e sciências, que tão claramente marcam os seus sinais nas
+épocas de férias. A nacionalidade, como fôrça de limitar, cede perante o
+cosmopolitismo... Encontramos a aproximar-se uma situação em que a fôrça da
+nacionalidade será distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as
+classes se organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos
+da sua fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a
+associação atravessa os limites dos estados, que são puramente convencionais,
+e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do género humano em
+estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em respeitar um
+<i>mujik</i> russo porque pertence a uma grande nação, ou em desprezar um
+fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação pequena». «Viremos a
+compreender que as divisões reais psíquicas e morais não são entre as nações,
+mas entre as concepções opostas da vida».</p>
+
+<p>Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente
+obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre os
+povos será em breves anos<span class="pagenum"><a id="pag_98"
+name="pag_98">[98]</a></span> uma realidade. E a acção dessa lei efectua-se
+com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra tem sido
+diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A certos
+respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do que em todas
+as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez anos do que
+primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os desenvolvimentos de uma
+geração?».</p>
+
+<p>Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a natureza
+humana não é susceptível de mudar. A história é a negação radical de
+semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de retardatários. Do
+canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos autos de fé à liberdade
+religiosa, do heroismo divinisado ao espírito militar combatido como um
+crime, a humanidade renasceu; e, se exteriormente é bem diferente do que foi
+na sua origem, intimamente anima-a um espírito que desconhece e repele aquele
+de pura animalidade que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de
+bandos famintos, devastadores e crueis, passou à comunidade moral e
+religiosa, e a civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do
+espírito militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater,
+cresce-lhes a tendência para <span class="pagenum"><a id="pag_99"
+name="pag_99">[99]</a></span>trabalhar, e é trabalhando juntos, e não
+combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma
+terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e
+decaíndo, continuamente se sustenta.</p>
+
+<p>De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento
+de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais sãos e
+corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a procriação das novas
+gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria Inglaterra, apezar de toda a
+resistência do espírito da sua raça, corre o risco de perder as suas melhores
+qualidades. Combatendo o prussianismo póde prejudicar-se na diligência de o
+vencer pela adopção das suas armas e pelo abandôno das virtudes que a
+tornaram grande, «a aptidão de iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a
+sua obstinada resistência à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua
+impaciência com a burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o
+que se involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada
+para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca,
+promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura
+substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo <span
+class="pagenum"><a id="pag_100" name="pag_100">[100]</a></span>modo uma fórma
+de parasitismo, promove o retrocesso».</p>
+
+<p>A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que
+ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão
+económica&mdash;usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa do
+dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar, consideração
+social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia um mundo em que as
+cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo os grandes espíritos da
+antiguidade não acreditavam que o mundo podesse ser laborioso, senão quando a
+grande massa se tornasse laboriosa pelo uso da fôrça física, isto é, pela
+escravatura. Tres quartas partes dos que nos dias mais florescentes de Roma
+povoavam o que agora é a Itália, eram escravos, acorrentados no campo quando
+trabalhavam, acorrentados à noite nos dormitórios e, os que eram porteiros,
+acorrentados aos portais. Era uma sociedade de escravos&mdash;escravos para
+combate, escravos para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais
+e, acrescenta Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo
+nas cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos
+espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou<span class="pagenum"><a
+id="pag_101" name="pag_101">[101]</a></span> uma larga concepção de uma
+condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo impulso
+económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade, quando disse
+que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por si», a escravidão
+seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de chegar tempo em que o mundo
+trabalharia muito mais activamente sob o impulso de uma causa abstracta
+chamada interesse económico, e êles considerariam semelhante asserção como a
+de meros teóricos sentimentais. Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se
+ha sessenta anos afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo
+trabalho livre êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por
+certo se riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de
+aceleração a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos,
+mas principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia, esta
+substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais seguro e
+rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas tambêm de
+acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que, por isso mesmo
+que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o espírito mais elevado e
+o mais mesquinho,<span class="pagenum"><a id="pag_102"
+name="pag_102">[102]</a></span> por isso se torna uma fôrça universal em todo
+o sentido.</p>
+
+<p>Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres
+competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E todavia a
+guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o coração
+purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar êsse
+prodigioso renascimento.</p>
+
+<p>Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios
+poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos êsse
+espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda se ergue
+como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para combater o inimigo, a
+satânica sensualidade que fundou o mundo moderno em ambições tôrpes e em
+materialidades e que, é evidente, não abdicará do seu reino passada a
+tormenta? Como é que um pensamento religioso só por si ha-de destroçar os
+poderes da terra enriquecidos, armados e incessantes na avidez? Pelas ligas e
+tribunais de paz, pelos ajustes diplomáticos, pela redução dos armamentos,
+por todos êsses «retalhos de papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a
+Alemanha rasgou o compromisso que a obrigava a respeitar a<span
+class="pagenum"><a id="pag_103" name="pag_103">[103]</a></span> neutralidade
+da Bélgica?!... Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo
+destinado a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as
+igrejas em suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e
+sujeita-los à lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas
+intenções há-de tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua
+regra?</p>
+
+<p>Ferrero, o historiador da <i>Grandeza e Decadência de Roma</i>, diz-nos no
+último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a
+pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o futuro,
+dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em tentativas
+contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro por si mesmo se
+fazia no grande império, e muito diferente daquilo que se tinha pensado.
+Emquanto Augusto se dava a tantas penas para reorganizar em Roma o govêrno
+aristocrático, acontecia que por si mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços
+de milhões de homens inconscientes do resultado final, as regiões do império
+que mais diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima,
+mútuamente se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta;
+interesses materiais<span class="pagenum"><a id="pag_104"
+name="pag_104">[104]</a></span> que infinitamente se encadeavam, tinham-nas
+mais estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma
+ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho interior,
+invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento acidental dos
+territórios feito pela conquista e pela diplomacia se tornava verdadeiramente
+um só corpo, animado de uma vontade única».</p>
+
+<p>Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da
+constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma grande
+clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra. Dedicado à
+<i>Workers' Educational Association</i>, e por isso posto em termos de ser
+compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos, colaborado por
+professores eminentes das universidades de Cambridge e Oxford, mais cingido
+aos factos do que enlevado na sedução de abstrações e idealismos, procura
+êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a crise que a guerra representa
+nos destinos da democracia, e com um exito manifesto muito instrue os menos
+versados nas questões políticas, mas nem por isso menos interessados e
+dedicados na determinação final de uma situação das nações da Europa, que
+terá de ser de larguissimas <span class="pagenum"><a id="pag_105"
+name="pag_105">[105]</a></span>conseqùências na fortuna ou na desgraça dos
+povos que elas compreendem.</p>
+
+<p>Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio da
+lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois processos.</p>
+
+<p>Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em
+tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de
+tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e em
+muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da sua fé
+como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na impossibilidade de
+serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a perversidade dos homens
+as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem, onde estão os exércitos que
+tornam soberanas e uma realidade as decisões dos tribunais? Quando uma nação,
+armada e grande, afrontar as obrigações dos <i>retalhos de papel</i> e os
+rasgar, quem tornará de bronze a vontade dos tribunais e converterá em
+mármore a precária consistência do papel? Um revoltado bastará para atraiçoar
+as intenções mais firmes e felizes, e para inundar a terra de uma chuva de
+sangue e de fôgo.</p>
+
+<p>Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e
+preparar o<span class="pagenum"><a id="pag_106"
+name="pag_106">[106]</a></span> caminho para progressos ulteriores, mas só
+por si não podem dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação
+satisfatória para o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários
+govêrnos soberanos e em bem das suas nações».</p>
+
+<p>Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem,
+nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário,
+merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir valôr
+que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as suas
+faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos beneficios;
+pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito colectivo da
+humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo que póde chamar-se o
+ideal civil contra o ideal militar, não em a maioria dos estados mas em todos
+os estados suficientemente poderosos para desafiar a violência. Pressupõem um
+mapa do mundo traçado definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações
+nacionais dos povos. Pressupõem um <i>status quo</i> que se mantem, não
+simplesmente, como o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação
+seria inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente
+equitativo. Pressupõem uma base<span class="pagenum"><a id="pag_107"
+name="pag_107">[107]</a></span> democrática de direitos civis e representação
+idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem, finalmente, uma
+opinião pública educada, incomparavelmente menos egoista, menos ignorante,
+menos flutuante, menos materialista, e menos estreitamente nacional do que
+aquela que até aqui tem prevalecido».</p>
+
+<p>O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de
+extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a velha
+estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos. Espera
+resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos, mas do
+crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das próprias nações
+no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o estabelecimento
+definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente uma refutação
+definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua das nações. Espera a
+expressão do govêrno do mundo na ordem externa, daquilo que podemos chamar o
+<i>princípio da República</i>, do grande princípio de lord Acton, do estado
+composto de nações livres, do estado como um corpo vivo, que vive pela união
+orgânica e livre actividade dos seus diversos membros. E encontra o seu
+imediato<span class="pagenum"><a id="pag_108" name="pag_108">[108]</a></span>
+campo de acção no alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis
+entre os povos das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo
+patriotismo foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme
+fundamento das mais antigas lealdades».</p>
+
+<p>«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem ser
+resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e guerra;
+só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de cada estado, no
+reconhecimento por ambas as partes de exigências mais altas do que os seus
+interesses seccionais&mdash;as exigências de direitos civis comuns e do interêsse
+da civilisação. Nisto, na união e colaboração das diversas raças e dos
+diversos povos, é que o princípio da República encontra o seu campo peculiar
+de operação. Sem êste princípio... o mundo será o caos que hoje é»<a
+name="tex2html7" href="#foot708"><sup>7</sup></a>.</p>
+
+<p>Eis aí a lei suprema da história&mdash;a preponderância da actividade interior
+e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações,<span
+class="pagenum"><a id="pag_109" name="pag_109">[109]</a></span> aos decretos,
+às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e dos imperadores,
+e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes movimentos da humanidade.
+Roma e a constituição jurídica e moral do mundo latino que dela nasceu e é
+seu espelho, foi apenas o maior exemplo da inflexibilidade dessa lei do
+desenvolvimento das raças, duas vezes repetido naquele lugar, primeiro
+criando a unidade política da civilisação, e depois refazendo-a, quando,
+decrépita, carecia de ser renovada pela unidade religiosa. A face das cousas
+parece mudar mas sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas
+à mesma lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos,
+de fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes.
+</p>
+
+<p>Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo,
+será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes do
+resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que ninguêm tem
+consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação. Quando as leis
+escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto a sua vitória a
+isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou roubar o seu domínio.
+</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_110"
+name="pag_110">[110]</a></span>Quarenta anos de materialismo brutal,
+inflamado por um mesquinho e desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na
+guerra a sua obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu
+espírito correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia
+conduzir. Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque
+só produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde ostentára
+traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo inaudito lhe
+demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho subtil lhe minára os
+fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o haviam gerado e nutrido, os
+apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os pensadores, a inspiração dos
+poetas, as academias, e sobretudo as multidões que os ouviam, sentiam e
+interpretavam, fatigadas de errores e de desprendimento religioso e moral; e,
+verificando pela experiência de agudos instintos os benefícios e os males das
+doutrinas e das crenças, conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou
+lhes roubam, assim as amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis
+e imponderáveis, que habitam no coração das multidões anónimas, que nos
+dirigem e dão a vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses
+poderão libertar-nos da<span class="pagenum"><a id="pag_111"
+name="pag_111">[111]</a></span> guerra ou eternisar a sua danação; e as
+igrejas valerão então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os
+estados serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o
+respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as
+nações.<span class="pagenum"><a id="pag_112" name="pag_112">[112]</a></span>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_113" name="pag_113">[113]</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00500000000000000000"></a> <br>
+Da arte de gastar e suas responsabilidades </h1>
+
+<p>«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam;
+hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que nenhum
+mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos. Parece que se
+torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja impossível achar
+remédio simples para ruins efeitos, sabemos que, começando a pensar
+honestamente, teremos probabilidades de achar o caminho de melhores hábitos.
+</p>
+
+<p>«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar desta
+negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte, quanto à
+futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas despesas? Não é
+bem para uma nação que uma quarta<span class="pagenum"><a id="pag_114"
+name="pag_114">[114]</a></span> parte dos seus rendimentos se gaste de um
+modo inconstante. Não é bem para uma nação que a quarta parte da sua
+capacidade de trabalho se especialise a produzir cousas que se vêem e sentem
+destituídas de valor, mal uma crise o vem pôr em prova. De resto, os ricos
+não são os únicos que no seu gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os
+seus poucos luxos inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que
+individualmente teem maior responsabilidade na errada direcção do trabalho,
+emquanto são êles que individualmente possuem maior poder de gastar e são,
+por conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por
+que hão-de usar êsse poder.»</p>
+
+<p>A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o
+titulo de <i>Spending in War Time</i>, o professor E. J. Urwick publicou, em
+Oxford, na colecção de <i>Papers for War Time</i>, dirigida por W. Temple.
+</p>
+
+<p>Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação dos
+princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do ocidente, e
+dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se arrepender», essa
+colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas angustias em que a
+indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é simultâneamente<span
+class="pagenum"><a id="pag_115" name="pag_115">[115]</a></span> um estudo
+magnifico de diversos problemas que a ansiedade de melhores dias definiu e
+pôz, não sem esperança de soluções por igual próprias a satisfazer as
+investigações da consciência moral e as necessidades da vida prática. Os que
+seguem a Cristo, estão unidos entre si em uma comunhão superior a todas as
+divisões de nacionalidade e de raça; «os deveres cristãos e de amor e de
+perdão prendem-nos tanto em tempo de guerra como em tempo de paz». E os
+cristãos teem de reconhecer «a insuficiência da mera compulsão para vencer o
+mal, e de guardar a confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente
+no poder e no método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se
+associaram à missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente
+testemunho e instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.</p>
+
+<p>Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de
+aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e
+fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos, virá a
+considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que o destino
+lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e o seu reino na
+terra, e especialmente como favorece ou embaraça a solução<span
+class="pagenum"><a id="pag_116" name="pag_116">[116]</a></span> dos conflitos
+económicos que a guerra exacerbou e revelou com uma dolorosissima evidência.
+</p>
+
+<p>O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a exiguidade
+de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e extensão das
+despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar para se sustentarem,
+quando freqùêntemente, e por desgraça, não são reduzidos ao extremo de não
+gastarem sequer aquilo de que careciam para o seu parco sustento, porque de
+todo lhes faltam os meios indispensáveis. Mas não acontece assim com outros,
+ainda numerosos, de facto representando uma fôrça poderosa na actividade das
+sociedades; e êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam
+por isso com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos
+seus haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão
+sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.</p>
+
+<p>E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente?
+Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades em
+prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus
+regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para acudirem
+aos<span class="pagenum"><a id="pag_117" name="pag_117">[117]</a></span>
+necessitados, derivam das suas dissipações habituais as somas que nelas
+empregavam, e para isso criam novas legiões de indigentes, condenando à
+miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que lhes serviam as dissipações,
+provendo-lhes o luxo e as futilidades, disso auferindo o pão de cada dia e
+para isso tendo sido educados por longos anos de prática e especialisação,
+que não raro os tornaram inaptos para outras profissões?</p>
+
+<p>A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os
+que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos ou
+tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações, alongando-as a
+uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e causando-as a outros
+se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos ultimos, negando-lhes o que
+até aí lhes davam e em certo modo prometiam dar-lhes, pela invariabilidade do
+que lhes pediam.</p>
+
+<p>A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos
+causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a toda a
+casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas sem
+cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam, constantemente
+de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú <span class="pagenum"><a
+id="pag_118" name="pag_118">[118]</a></span>pela perturbação em que a guerra
+desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam as nossas despesas como essas
+doenças latentes, graves, fatais, que se escondem em aparências de saúde e
+artes de bem trajar, e que uma febre acidental revela aos que em sua
+negligência não as tinham previsto nem sentido, aterrando-os então pela
+iminência de perigos mortais e pela presença de própria miséria. Por uma
+incúria que é o indício da lastimosa leveza de consciência moral e religiosa
+de que nos deixamos possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e
+toda a distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que
+dispomos e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de
+longe discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências
+ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como obrigação
+e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos trabalhadores
+alimentavam e em que condição os mantinham, que influência social exerciamos
+por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia de nós, que
+instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros obrigados das
+nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e traiçoeira certeza de que
+gastando, seja como fôr, beneficiamos o comércio e acrescentamos<span
+class="pagenum"><a id="pag_119" name="pag_119">[119]</a></span> a riqueza e o
+tráfego, unicamente porque demos emprego a muitos braços.</p>
+
+<p>Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam o
+sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes ignoramos
+inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso escapa à nossa
+atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a consciência,
+sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de capital os nossos
+hábitos determinam, que espécie de constituição económica criam e sustentam,
+e de que enfermidades ela padece e faz padecer os homens que lhe estão
+sujeitos. Pois é evidente que será, por exemplo, muito diversa em seus riscos
+a situação de costureiras empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse
+trabalho amestradas, e a situação dessas mesmas costureiras empregadas a
+coserem blusas de trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou
+qualquer outro, cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e
+anula-se o capital que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima
+miséria e na maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos
+trabalhores, e cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece,
+e se suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São
+infinitamente<span class="pagenum"><a id="pag_120"
+name="pag_120">[120]</a></span> e manifestamente menos numerosas as
+contigências de retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda
+a distancia que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos
+acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos casos a
+impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados, porque o
+desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o afrouxamento, e em
+breve a atrofia completa, de outras capacidades, compreender-se-á quanto
+importa para a fortuna dos trabalhadores o género de trabalho que lhes
+reclamamos e o género de mercadoria que lhes pedimos e, porque lho pedimos,
+os convidamos e na realidade obrigamos a produzir.</p>
+
+<p>Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick,
+«crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um
+assinalado serviço à indústria, <i>beneficiando o comércio e dando
+emprego</i>. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas é
+o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade reside
+no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que agora temos a
+considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É indubitavelmente
+verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a inclinação da<span
+class="pagenum"><a id="pag_121" name="pag_121">[121]</a></span> indústria
+para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos, estimula por isso os patrões
+e os operários a fazerem sapatos e a proseguir no fabrico dos sapatos, em vez
+de produzirem qualquer outra cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos
+sapatos no sentido rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se
+consagrem espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem
+sacos. No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma
+enorme de dinheiro se está gastando em panos de <i>khaki</i>, resultando daí
+que correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital (incluindo
+a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a produção dos
+uniformes de <i>khaki</i>. Ora esta direcção do trabalho e do capital involve
+alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem para fazerem isto em vez
+daquilo. Usualmente significa que dá causa a que os trabalhadores e o capital
+dos patrões se tornem altamente especialisados para o trabalho particular que
+lhes pedem; tornam-se, por conseguinte, aptos para este trabalho e para
+nenhum outro. Isto ainda é mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às
+despezas da gente rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização
+da parte dos fabricantes de vestidos<span class="pagenum"><a id="pag_122"
+name="pag_122">[122]</a></span> ou de sapatos muito caros do que da parte dos
+fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com todos
+os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital altamente
+especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles operam) é que não
+podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro trabalho. O costureiro
+hábil não pode mudar e coser <i>khaki</i>; o ourives hábil não servirá de
+muito para fabricante de espingardas ou para construtor de cabanas. É por
+isso que hoje os grupos de pacientes mais dignos de dó são justamente aqueles
+trabalhadores que durante anos dependeram da freguezia da gente fina. Na
+realidade, dependeram e dependem literalmente de nós, neste sentido&mdash;fômos
+nós que os convidamos a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para
+satisfazer as nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só
+por este modo. São, por conseguinte, os <i>nossos</i> trabalhadores, os
+<i>nossos</i> dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados;
+e no momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão
+arruinados».</p>
+
+<p>De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom
+dizer:&mdash;«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as despezas
+supérfluas».<span class="pagenum"><a id="pag_123"
+name="pag_123">[123]</a></span> Mas logo surgem duvidas e perguntam:&mdash;«E os
+trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas supérfluas de
+que hão-de viver?...»</p>
+
+<p>«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma
+perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de uma
+errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do
+indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os
+trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica de
+uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não saibamos onde
+se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem fiou e teceu o
+linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente se obliterou o
+sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de todo deixamos que
+prevaleçam nesta materia tendências, principios e processos que resultam não
+só em desamor dos que de nós dependem imediatamente, mas até na instabilidade
+e muita dissipação da própria riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os
+trabalhadores gastando dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum
+gasto de dinheiro ou consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto
+sustenta alguem, a não ser a<span class="pagenum"><a id="pag_124"
+name="pag_124">[124]</a></span> pessoa que adquire a fazenda e a consome.
+Trabalhadores e indústria são em geral sustentados só por um modo&mdash;pela
+criação actual de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um
+campo e criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os
+trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos
+sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto aplica-se
+a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o conceber; mas a
+materia é bastante simples. Os dois processos de fazer riqueza, em a nossa
+capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a consumir, em a nossa
+capacidade de gastadores de dinheiro, são exactamente análogos aos dois
+processos de cosinhar os alimentos e de os comer depois de cosinhados. Se o
+nosso cosinheiro nos prepara um jantar, a seqùência natural dos
+acontecimentos é que nós ou outros o havemos de comer. Mas comer o jantar não
+habilita, de modo algum, o cosinheiro a preparar outra refeição, e não o
+sustenta, a êle, nem à sua cosinha. Isso só se consegue fornecendo-lhe novos
+materiais para cosinhar. Ou podemos comparar a despeza á explosão de uma
+arma. A explosão é a conseqùência natural da carga, e foi para isso que a
+arma foi carregada;<span class="pagenum"><a id="pag_125"
+name="pag_125">[125]</a></span> mas a explosão não concorre para carregar de
+novo a arma, isso só se obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem
+algum valor, pertence êle a um resultado totalmente diferente, que por sua
+vez está inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos
+gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na
+proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente realmente
+necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no quer que seja
+para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se pretendemos
+sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no facto de que
+previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que gastamos e por êsse
+trabalho acrescentámos realmente os recursos dos outros trabalhadores.
+Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o quer que seja a êsse bom
+resultado.</p>
+
+<p>«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas
+vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso onde
+fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os trabalhadores ou
+os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e, com todo o seu duro
+trabalho, a soma de cousas que podem <span class="pagenum"><a id="pag_126"
+name="pag_126">[126]</a></span>fabricar, ou a soma de serviços que podem
+prestar em um ano, é severamente limitada, mesmo que possa crescer
+gradualmente à medida que os anos vão correndo. E em uma terra que de modo
+algum anda inundada de mel e de leite, nenhum individuo e nenhuma classe pode
+tirar com muita largueza da provisão total produzida sem deixar algures uma
+falta. Isto é por tal forma verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que
+por cada cem libras que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas
+libras dos nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da
+nossa comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas
+vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco <i>shillings</i>. Ora nos
+tempos <i>bons</i>, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de
+longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os
+rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a relação
+entre a nossa abundancia e a indigência dos outros, suficientemente para nos
+inclinar a não dispender o nosso dinheiro como antigamente».</p>
+
+<p>Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve e
+fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado<span class="pagenum"><a
+id="pag_127" name="pag_127">[127]</a></span> talento definido por um espírito
+e por um caracter manifestamente superiores, não quer o seu autor que se lhe
+atribua a «afirmação de que os nossos habitos de gastar são egoistas, ou
+indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no caso unico em que êles involvem
+realmente um perigo grande para o sistema actual da indústria. E que êles na
+verdade são nêste sentido habitos maus, está provado pelo facto&mdash;e êsse é o
+sinal de todo o habito máu&mdash;de que presentemente involvem todo o sistema em
+dificuldades, mal sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da
+instabilidade que lhes é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina
+parecem ser elemento e parte daquele arriscado processo em que se procura
+equilibrar a pirâmide da indústria no vertice dos desejos e necessidades de
+uma pequena classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades
+universais».</p>
+
+<p>Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos
+dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela
+nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se imagina
+autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem moralmente inteira
+liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal.<span class="pagenum"><a
+id="pag_128" name="pag_128">[128]</a></span> Mas, se houve beneficios na
+guerra e nos transes por que nos faz passar, a seu activo teremos de lançar
+as profundas lições sociais que nos deixa e o poder, senão o terror, com que
+nos obriga a escutá-las. Porque, no dizer de um jornalista inglês, «a guerra
+ensinou a certa gente, pela primeira vez, exactamente o que significa viver
+em uma sociedade. Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem
+organizada, está mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as
+pretensões individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo.
+Daí vem que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas
+sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a maior das
+calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por sua instigação
+houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as soluções evidentes
+que êles reclamam, e que de resto continuamente conhecemos e entrevemos pela
+voz de interpretes eloquentes.</p>
+
+<p>Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura;
+mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que a
+história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e delas
+tirar ensinamento para emendar<span class="pagenum"><a id="pag_129"
+name="pag_129">[129]</a></span> os seus êrros e para acautelar a justiça e a
+paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa a aproveitar e
+meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua honra e o seu dever,
+e é afinal o interesse imediato do seu contentamento e felicidade.<span
+class="pagenum"><a id="pag_130" name="pag_130">[130]</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_131" name="pag_131">[131]</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00600000000000000000"></a> <br>
+O Cavador e o Profeta </h1>
+
+<p>Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada, porque
+a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de assiduidade e
+serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter irreductivel em seus
+moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e do que o destino quiz, em
+uma liberdade intransigente, por uma rebeldia infinita constituido fóra de
+toda a pressão da vontade e intenções de estranhos, não há nada que o vergue,
+nem há contingência que o amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere.
+O seu braço e a consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto
+orgulho o domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e
+necessidade, a sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta.
+Não há insinuação<span class="pagenum"><a id="pag_132"
+name="pag_132">[132]</a></span> alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe
+abrande a teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura
+e estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as
+raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.</p>
+
+<p>Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à velhice
+adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma destas creaturas
+que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do rosto, comendo as
+migalhas e abandonando o principal aos seus senhores, e que, por sua grandeza
+e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem sequer o evitam. Toda a
+metralha filantrópica e seus condimentos e acessorios sociológicos e
+socialistas, que se traduzem em bibliotecas infindas e em odios, guerra e
+sangue, toda essa ambiciosa disputa e repartição da riqueza, e seus venenos,
+astucias, e engenhosas e subtis ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e
+vão a êsse velho pobre, se êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e
+combates o que lhe vai no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo
+principio que não permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam
+magras e outras gordas e uns ninhos estão altos e outros <span
+class="pagenum"><a id="pag_133" name="pag_133">[133]</a></span>baixos, uns em
+logar seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se
+atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu
+cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a
+aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas vezes
+seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e aceitável,
+porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra injustiças, nem
+resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna e intransgressivel
+que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo vago será talvez um dos
+bordões da humildade.</p>
+
+<p>E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A
+melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o
+lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a
+riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses
+caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as sessenta
+leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em nenhuma dessas
+aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o seduzisse, luxo que
+o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E depressa voltou à enxada e à
+escravidão do amo a quem<span class="pagenum"><a id="pag_134"
+name="pag_134">[134]</a></span> cavava as terras, e que em troca lhe dava o
+pão. A experiência do mundo, quando o via de perto, inflamava-lhe logo um
+obstinado desejo e contentamento da pobreza.</p>
+
+<p>Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque
+tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como diz,
+rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses
+malfadados passos.</p>
+
+<p>Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito
+que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a
+brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a sua
+conseqùência.</p>
+
+<p>Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência, dando-a
+tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não havia questão,
+como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava maravilhosamente com
+as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de facto se tornou, em extremo
+simples. Não precisava de juiz nem escrivão. Era deixar à mulher e aos filhos
+a casa, o lar, o campo, e mais toda a poesia, graças e confortos que lá não
+encontrou, e mais todas as inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle
+embora, a cavar nas terras de<span class="pagenum"><a id="pag_135"
+name="pag_135">[135]</a></span> alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi
+o que êle fez, serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor.
+Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um fidalgo
+a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição e da bondade
+a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus criados e
+servidores.</p>
+
+<p>Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade e
+a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por elas não
+se afreimava.</p>
+
+<p>Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha a
+verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava
+claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a mais
+penetrante arte de persuadir.</p>
+
+<p>Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado
+desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava no
+ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos
+animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo
+terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era
+escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até onde
+era<span class="pagenum"><a id="pag_136" name="pag_136">[136]</a></span>
+mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo ou demónio lhe
+mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a afeição e a dedicação
+que os homens pagavam mal; advinhava-lhes superioridades na inconsciência, e
+com ternura as reconhecia.</p>
+
+<p>Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos
+ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham levado,
+não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia, consistente, sólida, de
+largos e singelos alicerces, e de resto rematadamente singular. Assim, entre
+as lições que lhe ouvi, aprendi que no casamento a questão de idade só
+importa ao homem. A mulher a todo o tempo póde casar; o homem é que precisa
+de ser novo.</p>
+
+<p>&mdash;«Porque?»</p>
+
+<p>&mdash;«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de <i>o</i> ganhar,
+precisa de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».</p>
+
+<p>E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda trabalha,
+com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem para enriquecer o
+amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma indiferença. É por trabalhar; é
+o trabalho pelo trabalho, impulso essencial, significação única da vida,<span
+class="pagenum"><a id="pag_137" name="pag_137">[137]</a></span> única razão
+de ser da existência na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema
+moral e económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe
+outra cousa.</p>
+
+<p>Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a
+poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia e
+nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua lógica o que
+não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da taberna e do
+alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe parecerão um facto tão
+natural e legítimo como as correrias dos potros na pastagem.</p>
+
+<p>Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para
+êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe com um
+desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é apenas uma
+alegria, abençoada como todas as alegrias.</p>
+
+<p>Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas
+provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A vida
+seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade, uma sujeição
+de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma independência<span
+class="pagenum"><a id="pag_138" name="pag_138">[138]</a></span> de todos os
+instinctos na suma vibração das suas energias&mdash;uma religião em que o mesmo
+amor, e por igual, servia a Deus e aos homens, à terra e aos céus, porque a
+terra e os céus eram as duas grandes verdades iniciais, duas emanações
+sublimes de um só espírito misterioso.</p>
+
+<p>Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito
+aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de vida que
+eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que eu não sou
+capaz de saber.</p>
+
+<p>Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre
+de sangue o mundo?</p>
+
+<p>&mdash;«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem
+trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem
+agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo comigo
+que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de costa direita,
+quer comer sem trabalhar».</p>
+
+<p>Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há mais
+de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus apóstolos,
+como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores, <i>caveant
+consules</i>!<span class="pagenum"><a id="pag_139"
+name="pag_139">[139]</a></span> tomem nota os generais e os seus imperadores,
+andam-lhes inimigos na fortaleza.</p>
+
+<p>Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias
+inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito
+longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá ficam,
+por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos incultos, e «são
+felizes até que os governos as descobrem para lhes pedir impostos e os filhos
+para a guerra».</p>
+
+<p>Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o
+génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas
+palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta ou
+foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e identificaram, que
+mundo novo prometem a sua conformidade e consubstanciação em uma única
+visão?!...<span class="pagenum"><a id="pag_140"
+name="pag_140">[140]</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_141" name="pag_141">[141]</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00700000000000000000"></a> <br>
+Aparições </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00710000000000000000">Mazzini</a> </h2>
+
+<p>É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o que
+ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da
+salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento e no
+caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles importam
+como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de uma fortuna
+fácil e prolongada.</p>
+
+<p>Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais
+remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu destino e
+responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes incertezas, em
+labirintos de ruinas inundadas de sangue e<span class="pagenum"><a
+id="pag_142" name="pag_142">[142]</a></span> habitadas pela morte, pela fome
+e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra haverá refúgio de tão
+agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam os céus e a imensidade,
+rogando que lhes mandem uma voz que seja o pregão do resgate, um alento onde
+respirem a fortaleza e paz. Profetas que a embriaguez das paixões votára à
+mudez dos seus tumulos e a quem o seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára
+a grandeza, erguem-se das cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão
+tenebrosa do tumulto em que os homens se despenham nos abismos que a própria
+loucura cavou, sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São
+remorso e esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que
+pagamos cara, e esperança da glória a que nos conduzem.</p>
+
+<p>Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa o
+nome de Mazzini.</p>
+
+<p>Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela obsessão
+do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado os espíritos e
+edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o assombro da nossa
+imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades. Revolucionário, poeta e
+sonhador, incarnação de idealismos que haviam ganhado<span class="pagenum"><a
+id="pag_143" name="pag_143">[143]</a></span> fama de estéreis e perigosos, e
+a negação daquela espécie de homem prático em que a sordidez se converteu em
+suprema virtude, Mazzini jazia no manso olvido e proscrição a que uma época
+toda enlevada e confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo
+havia votado a legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes,
+pensadores rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera
+todo o fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da
+nossa fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos
+aviltamentos da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.</p>
+
+<p>Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na
+hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do mundo e
+nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à contemplação de
+visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.</p>
+
+<p>Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e
+atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.</p>
+
+<p>Que dizia?<a name="tex2html8" href="#foot1075"><sup>8</sup></a> Em que
+arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_144" name="pag_144">[144]</a></span>Não
+compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si,
+independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O universo
+pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus, uma linha no
+poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia divina. Da
+conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o triunfo final,
+toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza das sociedade
+humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência impalpável, era isso a
+sumula, regra, condição da vida de todas as realidades em que a nossa vontade
+podia influir, o fundamento, único consistente, de todas as edificações que
+tentassemos construir.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_145"
+name="pag_145">[145]</a></span>Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na
+solução dos problemas do seu tempo e do seu país, no ardor de mártir a que
+consagrára a vida, sentiu que duas doenças corrompiam as classes que
+preponderavam no govêrno dos estados&mdash;«o maquiavelismo e o materialismo. A
+primeira, mesquinho disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para
+longe do amor e de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a
+segunda, através do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na
+anarquia». Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e
+embaraçavam uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente
+manifesto, de todo perturbaram a fortuna da Europa.</p>
+
+<p>Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a
+vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma certa
+lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de crescimento governa
+as plantas; uma lei de movimento governa as estrelas; uma lei nos governa, a
+nós e à nossa vida, lei mais nobre e mais elevada do que aqueloutras, por
+isso que nós estamos superiores a todas as outras cousas criadas na terra.
+Desenvolver-nos, proceder, viver conforme a nossa lei, é êsse o<span
+class="pagenum"><a id="pag_146" name="pag_146">[146]</a></span> nosso
+primeiro, e até mesmo o nosso único dever».</p>
+
+<p>A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história como
+pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do presente e
+a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos precederam. «Os
+primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem, sem mesmo procurarem
+compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder, não no seu amor; tiveram
+uma vaga concepção de certa relação entre Deus e o homem, mas nada mais». Foi
+longa, durou dilatados séculos a insinuação do espírito que nos havia de
+levar a compreender que <i>há um só Deus e todos os homens são filhos de
+Deus</i>. Foi a promulgação destas duas grandes verdades que mudou o aspecto
+do mundo, e «só então o homem soube que onde encontrar um companheiro está um
+irmão, dotado de uma alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu
+criador, um irmão a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de
+conselho e acção quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos
+apóstolos palavras sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen
+no cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal
+compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos.<span
+class="pagenum"><a id="pag_147" name="pag_147">[147]</a></span> Porque <i>da
+maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma mesma
+funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de
+nós membros uns dos outros</i>. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c. XII, vv. 4,
+5). <i>E haverá um só rebanho e um só pastor</i> (Evangelho de S. João, c. X,
+ver. 16)».</p>
+
+<p>A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em
+toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção religiosa
+e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de egoismos ou em uma
+convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de ser baseiado pelo nosso
+trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre o culto idólatra dos
+interêsses e da oportunidade. Há países na Europa onde a liberdade é sagrada
+no intimo, mas sistematicamente violada externamente; povos que dizem que
+<i>a verdade é uma cousa e a utilidade uma outra cousa, que a teoria é uma
+cousa e outra a prática</i>. Êsses países teem necessariamente de expiar a
+sua culpa em longo isolamento, opressão e anarquia».</p>
+
+<p>A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua
+substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_148" name="pag_148">[148]</a></span>«O
+indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria fôrça
+na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação opera-se
+pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao indivíduo os
+resultados do progresso de toda a raça humana. Por conseguinte, não só porque
+é uma <i>necessidade</i> da nossa vida, mas tambêm porque é uma espécie de
+santa comunhão com todos os nossos companheiros e com todas as gerações que
+viveram, isto é, que pensaram e trabalharam antes de nós, por isso carecemos
+de nos educar, o mais possível, em uma educação moral e intelectual que
+compreenda e cultive todas as faculdades que Deus nos deu, como semente para
+produzir fruto, e forme e mantenha um laço entre a nossa vida individual e a
+vida colectiva da humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise
+o mais rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e
+intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por isso
+Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser inferior
+póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a natureza, com
+os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos necessidade dos
+nossos irmãos; e não podemos satisfazer<span class="pagenum"><a id="pag_149"
+name="pag_149">[149]</a></span> as necessidades mais simples da vida sem nos
+socorrermos do seu trabalho.»</p>
+
+<p>Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu valôr
+religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e produzindo
+escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a <i>instrucção</i>,
+desacompanhada de um gráu correspondente de <i>educação</i>, é um grave mal;
+mantem a desigualdade entre as diversas classes de um mesmo povo e inclina o
+espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos entre a justiça e a
+injustiça, e a toda a falsa doutrina».</p>
+
+<p>Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma
+família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo
+pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu». Símbolo
+da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver toda a verdade
+que nela se encerra.</p>
+
+<p>«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo,
+mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no
+próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do
+Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor da
+comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e<span class="pagenum"><a
+id="pag_150" name="pag_150">[150]</a></span> reservando para os sacerdotes a
+comunhão nos <i>dois géneros</i>».</p>
+
+<p>«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação
+superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado
+morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela ideia
+da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir naquilo que
+foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a negação de uma
+forma gasta da religião com a negação daquela religião eterna que é inata na
+alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto de uma rebelião generosa,
+e muitas vezes é acompanhado pelo poder de sacrifício e pelo respeito sincero
+da liberdade. Difundido, porêm, entre os povos, o materialismo, pelo culto
+exclusivo do bem-estar material, tenta mais infalivelmente, extingue o fogo
+de um pensamento alto e nobre, assim como toda a scentelha de vida livre,
+prostrando-os finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo
+do <i>fait accompli</i>». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude
+republicana».</p>
+
+<p>Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à
+sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão que
+havia deixado de ser a<span class="pagenum"><a id="pag_151"
+name="pag_151">[151]</a></span> aspiração da humanidade, a sua religião. Pois
+«a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós
+temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente dominar
+aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades humanas,
+transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem) aqui, onde Deus
+nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e todos nós estamos
+sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela porção de verdade eterna
+que nos foi dado perceber, de converter em uma realidade terrena tão grande
+parte do «reino dos céus», da concepção divina que repassa a vida, quanto nos
+foi dado compreender».</p>
+
+<p>Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes
+ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da família
+humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a salvação das
+relíquias da nossa anterior civilisação latina».</p>
+
+<p>«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação europeia,
+pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e trevas; o
+espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da sociedade que inspirou
+os primeiros bispos e papas; a luta severa sustentada <span
+class="pagenum"><a id="pag_152" name="pag_152">[152]</a></span>por êles em
+nome da lei moral contra o poder arbitrário e a ferocidade dos senhores
+feudais e dos reis conquistadores; a grande missão (desconhecida em nosso
+tempo por aqueles que nada sabem ou compreendem da história) cumprida por
+êsse gigante da inteligência e da vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória
+que êle ganhou em auxilio do govêrno do espírito sôbre as armas reais, do
+elemento italiano sôbre o elemento germanico; a missão da conquista
+civilisadora entre povos semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso
+dado à agricultura pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a
+conservação da linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada
+no dogma, as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a
+fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de misericórdia»&mdash;tudo
+isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da egreja.</p>
+
+<p>Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há
+desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época,
+estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a de
+«desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em
+inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito <span
+class="pagenum"><a id="pag_153" name="pag_153">[153]</a></span>dos seus mais
+sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma
+religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo «podia
+ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa dos seus
+ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis, aparentemente
+dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única escolha dêsses fieis
+está entre as recordações de uma fé, outrora grande e fecunda em bens, e as
+negações áridas de um materialismo embrutecedor. Mas pedissem a esses fieis
+para morrerem pela egreja e pela fé que ela representava, e não se
+encontraria entre eles um só mártir».</p>
+
+<p>«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como scentelhas
+derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias, desfalecendo
+encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos altares, por
+força do hábito, em momentos breves e determinados. Evapora-se à porta da
+egreja, e não mais governa ou guia a vida quotidiana dos homens. Dão uma hora
+para os céus e o dia para a terra, para os seus cálculos e interêsses
+materiais, ou para estudos e ideias estranhos a toda a concepção religiosa».
+</p>
+
+<p>A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição
+da riqueza,<span class="pagenum"><a id="pag_154"
+name="pag_154">[154]</a></span> assim como determinava uma regra de liberdade
+e amor nas relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer
+«no espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes
+trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo e
+fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para aqueles
+que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o quer que seja no
+salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa alguma para começarem
+qualquer empreza comercial, a liberdade de concorrência era uma mentira, como
+a liberdade política era uma mentira para aqueles que por falta de educação,
+instrução, oportunidade e tempo não podem exercer os seus direitos».</p>
+
+<p>O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se
+passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar, por
+<i>desenvolvimento</i>, pela <i>modificação</i> perpétua dos elementos que
+manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas épocas, em
+certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos, deram o nome de
+elementos, de condições da vida social, a cousas que não teem a sua raiz em a
+natureza, mas sómente nas convenções e costumes de uma sociedade iludida, e
+que desaparecem<span class="pagenum"><a id="pag_155"
+name="pag_155">[155]</a></span> fora dessa época particular ou além dos
+limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são os
+verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando os
+instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de todos os
+tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como sempre fôram
+os instinctos da humanidade».</p>
+
+<p>E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento», sujeito
+a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a deplorável condição
+presente não podia encontrar-se em qualquer organização geral arbitrária,
+feita segundo o plano de certo espírito e estabelecida por decretos. Tudo
+isso resultava em ilusões por diversos modos destinadas a naufragarem e a
+dissiparem-se. O remédio tinha de ser qualquer outra cousa que não
+significasse a criação de uma humanidade nova, mas que continuasse a
+humanidade nas suas tendências essenciais e indestructiveis. «Algum dia fomos
+<i>escravos</i>, depois <i>servos</i>, depois <i>assalariados</i>; não
+tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres produtores e irmãos na
+<i>associação</i>&mdash;associação livre e voluntária, por nós mesmos organizada
+em certas bases, entre homens que mutuamente se conhecem, amam e estimam, não
+a associação<span class="pagenum"><a id="pag_156"
+name="pag_156">[156]</a></span> obrigada, imposta pela autoridade que governa
+e ordenada sem respeito pelos laços e afeições individuais, tratando os
+homens mais como máquinas de produzir do que como seres de livre e espontânea
+vontade».</p>
+
+<p>Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das
+sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é
+eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um
+homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde só
+respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as reformas são
+inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um sepulcro branco, nada
+mais». «Só os princípios edificam». «Onde quizermos realizar um dos grandes
+feitos chamados revoluções, temos sempre de ir ao conhecimento e à pregação
+dos princípios. O verdadeiro instrumento do progresso dos povos tem de se
+procurar no factor <i>moral</i>». Não suprimiremos o factor económico nem é
+possível suprimí-lo, mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do
+govêrno da sua influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias
+do individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta
+perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão<span
+class="pagenum"><a id="pag_157" name="pag_157">[157]</a></span> dos
+<i>apetites</i> da espécie humana». A cada estado do progresso devia
+corresponder «uma melhoria positiva da condição material do povo»; mas
+sustentava que «os interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos,
+dependem dos princípios, não podem ser a <i>mira</i> e o fim da sociedade.
+Porque sabiamos que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos
+lembramos que, quando o factor <i>material</i> começou a apossar-se de Roma,
+e o dever com o povo se reduziu a dar-lhe <i>pão e jogos</i>, Roma e o seu
+povo apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na
+Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada,
+precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil que
+separa dos princípios o bem-estar material».</p>
+
+<p>São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma
+revolução é a passagem de uma ideia da <i>teoria</i> à <i>prática</i>. Digam
+os homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca
+causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a tributação
+opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são mais ou menos
+ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem a sua origem no
+espírito, nas<span class="pagenum"><a id="pag_158"
+name="pag_158">[158]</a></span> próprias raizes da <i>vida</i>; não no corpo,
+no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma
+filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição histórica da
+humanidade».</p>
+
+<p>Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras de
+um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos na
+Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens as
+emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão <i>tornando-se, êles
+mesmos, melhores</i>; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão
+<i>merecendo-os</i> pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os
+procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido, alcançá-los
+hiam; mas, se os procurassem em nome do <i>bem-estar</i> que os materialistas
+lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos momentaneos, seguidos de
+desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles que lhes falavam em nome do
+bem-estar, da felicidade material. Tambêm êsses procuravam o seu
+<i>bem-estar</i> e para o obterem queriam unir-se com eles, como um elemento
+de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer; mas, logo que com o seu
+auxílio tivessem obtido o bem estar, abandoná-los hiam para que
+tranquilamente podessem gozar a conquista. <span class="pagenum"><a
+id="pag_159" name="pag_159">[159]</a></span>Era essa a história do último
+meio século e o nome dêsse meio século era <i>materialismo</i>».</p>
+
+<p>As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e
+organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no conforto da
+sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento. Por vezes, vêem
+a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a considerá-la uma triste
+<i>necessidade</i>, e deixam às gerações futuras o cuidado de lhe encontrar
+remédio. A indiferença e o esquecimento são doces para o homem que se sente
+no santuário da sua família, cercado de faces sorridentes, emquanto lá fóra
+sopram as rajadas do inverno e a neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças
+da janella dupla. Esperareis erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo
+pela simples expressão da <i>situação económica</i> e do que deva
+substituí-la em uma sociedade bem organizada? Esperareis arrancá-los do seu
+repouso egoista meramente pela análise do que acontece em uma esfera na qual
+eles nunca penetraram? Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas
+utilitárias; não lhes peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê?
+Falam-lhes em nome de <i>interêsses</i>. Não é o gozo o primeiro dos
+interêsses? E êles gozam».</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_160" name="pag_160">[160]</a></span>A
+nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será tambêm
+um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais habilmente
+desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela delimitação do
+território, pelo agregado e conjugação das fôrças económicas e por qualquer
+combinação de actividades políticas. «A nacionalidade é a crença em uma
+origem e um fim comum. Se hoje fôr fundada em um interêsse, pode ser
+derrubada amanhã por outro interêsse mais ousado e mais poderoso». «Só quando
+o evangelho da fraternidade de todos os homens de uma nação fez da alma
+santuário de virtude e amor, quando a grande concepção da nacionalidade
+deixou de se encontrar reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para
+base dos seus direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse
+que sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será
+possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».</p>
+
+<p>O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso
+correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o grito
+eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício, por
+instrumento os povos, e por fim a humanidade».<span class="pagenum"><a
+id="pag_161" name="pag_161">[161]</a></span> «O pensamento religioso é o
+alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e alma, o seu espírito e
+o sinal externo. A humanidade só existe na consciência da sua própria origem
+e no pressentimento dos seus próprios destinos». Fora do trabalho da reforma
+moral «toda a organização política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se
+«do nosso trabalho banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os
+povos». «O elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande
+revolução está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».</p>
+
+<p>Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto
+vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação». Acreditava
+em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de existir, que
+compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma influência
+continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm, no seu aspecto
+físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para Mazzini, era por
+igual essencial e simples.</p>
+
+<p>«Cristo disse:&mdash;«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com
+afeição fraterna». E disse tambêm:&mdash;«Entre vós será o primeiro aquêle que fôr
+o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se<span class="pagenum"><a
+id="pag_162" name="pag_162">[162]</a></span> compreende nestas palavras.
+Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana, actividade nas boas obras, a
+doutrina do sacrifício, a afirmação da doutrina da igualdade, a abolição de
+toda a aristocracia, o esforço de perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a
+qual nem o amor nem a perfeição podem existir&mdash;tudo assim se resume naqueles
+dois preceitos».</p>
+
+<p>«Toda a revolução social é essencialmente <i>religiosa</i>. Toda a época
+tem a sua <i>crença</i>. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar
+a humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que
+superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o
+<i>sentimento religioso</i>, é desconhecer a significação dessas palavras,
+querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como fôrem
+as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em seu
+coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».</p>
+
+<p>Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais
+traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta, talvez a
+mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com que opôz o
+dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se combatia e morria
+pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes <span class="pagenum"><a
+id="pag_163" name="pag_163">[163]</a></span>que provocou podesse resultar nem
+a fortuna nem a tranquilidade dos homens, arrastados de escravidão em
+escravidão, de miséria em miséria, de tormento em tormento, de incerteza em
+incerteza. Um erro inicial os transviava e perdia; ignoravam que «o unico
+padrão da vida é a ideia do dever, santa, inexorável, dominante».</p>
+
+<p>«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os estadistas
+e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e uma destruição
+perante os povos. O fim da política era a aplicação da lei moral à
+constituição civil de uma nação na sua dupla actividade, doméstica e
+estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à organização do
+trabalho no seu duplo aspecto de produção e distribuição».</p>
+
+<p>«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas
+representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim de
+todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos deveres
+cumpridos; podiam resumir-se em um só direito&mdash;que os outros cumpram comnosco
+o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a soberania está em
+nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é sagrada quando
+interpreta e aplica a lei moral.<span class="pagenum"><a id="pag_164"
+name="pag_164">[164]</a></span> Quando dela se afasta, é impotente ou nula e
+não representa outra cousa senão tirania.» «A sociedade de Rousseau, como a
+de Montesquieu, é apenas uma sociedade de seguros mútuos». Partindo da
+filosofia da liberdade individual, destituiu de fecundidade êste
+<i>princípio</i> baseando-o, não sôbre um dever comum a todos, não sôbre a
+definição do homem como uma criatura social por essência, não sôbre a
+concepção de uma autoridade divina e de um designio providencial, não sôbre o
+laço que une o <i>indivíduo</i> à humanidade do qual êle é um factor, mas sob
+a simples <i>convenção</i>, confessada ou subentendida».</p>
+
+<p>«Carecemos de ensinar não o <i>direito</i>, mas o <i>dever</i>, acordar
+para melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo
+decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da missão
+dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até agora está
+esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de crença, de
+pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não procurou êle salvar
+pela crítica um mundo moribundo. Não falou de interêsses a homens cujas almas
+estavam envenenadas pelo culto dos interêsses. Prégou no santo nome de Deus
+certas verdades até então desconhecidas. Estas poucas verdades<span
+class="pagenum"><a id="pag_165" name="pag_165">[165]</a></span> que agora,
+desoito séculos depois da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar,
+mudaram a face da terra».</p>
+
+<p>«Três cousas eram sagradas&mdash;tradição, progresso, associação».</p>
+
+<p>A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância
+presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente devida a
+uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde podemos deduzir
+e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade encontrar-se hia no
+«estudo severo da tradição universal que é a manifestação da vida na
+humanidade». A humanidade, dizia, invocando e desenvolvendo o pensamento de
+Pascal, «é um homem que aprende continuamente. Os indivíduos morrem; mas a
+verdade que pensaram e o bem que produziram, não se perdem com eles. A
+humanidade junta-o, e os homens que passam sôbre as suas sepulturas
+aproveitam-no. Cada um de nós nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças
+que são a obra de toda a humanidade antes de nós; cada um de nós traz
+inconscientemente algum elemento, mais ou menos valioso, para a vida da
+humanidade que se lhe segue. A educação da humanidade cresce como aquelas
+piramides orientais a que cada viandante junta a sua<span class="pagenum"><a
+id="pag_166" name="pag_166">[166]</a></span> pedra. Passamos, viajantes de um
+dia, chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a
+educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu
+inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente, continuamente, na
+humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé, passo a passo, a
+humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida, da sua missão, de Deus
+e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se completam e consubstanciam,
+«onde encontramos a voz permanente da humanidade harmonisando-se com a voz da
+nossa consciência, aí teremos ao nosso alcance alguma cousa com absoluta
+verdade».</p>
+
+<p>O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É
+<i>pensamento</i> e <i>acção</i>. As teorias podem modificar o primeiro; não
+podem criar o ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em
+Mazzini confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão,
+o poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os
+juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as inumeráveis e
+prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália unificada, muitas
+vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma, inspiração, e o seu braço
+executor, não houve risco a que se esquivasse, <span class="pagenum"><a
+id="pag_167" name="pag_167">[167]</a></span>não houve penas que não
+experimentasse, desde o aturado exílio que em condições de pobreza, às vezes
+extrema, o apartou da família, da pátria e dos amigos, até à condemnação à
+morte e porventura à tentativa de assassinato que o perseguiram como
+milhafres. Não houve contrariedade ou ameaça que lhe vencessem o
+desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de martírio. «Particularmente
+aborrecia o egoismo, tão popular com a gente de hoje. Não gastava o seu tempo
+cantando, orando e clamando a Deus que lhe salvasse a alma. Nem se entregava
+ao estudo e à cultura para lhe salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito
+e da alma, mas era sempre do espírito e da alma dos outros». E «foi
+conspirador porque era muito fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os
+vêr atraiçoados, muito honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo
+para que aceitasse a paz sem honra»<a name="tex2html9"
+href="#foot1076"><sup>9</sup></a>.</p>
+
+<p>Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica
+inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes perigosas
+nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos que com o<span
+class="pagenum"><a id="pag_168" name="pag_168">[168]</a></span> seu dinheiro
+não faziam bem». Um instinto seguro os advertia de que quem tudo confiava do
+povo era naturalmente o adversário perigoso dos apanágios e privilégios que
+ensoberbeciam as aristocracias políticas e eclesiásticas. Cavour e Luiz
+Napoleão Bonaparte eram irmãos nos sentimentos com que detestavam Mazzini, e
+nem outra cousa se compadecia com o conflito de ideais que o amor do apóstolo
+e a ambição do aristocrata e do imperador em confronto necessariamente
+inflamavam. O profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o
+cristianismo é a negação radical e a ruina de quantas aristocracias,
+hierarquias, divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos
+homens teem inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as
+suas cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e
+económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o
+monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução, em
+diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa que
+caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e inumeráveis, tiveram
+o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas, no coração e nos bens da
+terra; mas, lentamente, outra e mais alta religião os destituiu do seu poder
+e prestigio,<span class="pagenum"><a id="pag_169"
+name="pag_169">[169]</a></span> inspirando-nos e mostrando-nos uma outra
+razão da vida, adjudicando toda a nossa actividade intima e externa a um
+outro espírito. Não faz sentido ter e invocar como princípio de acção e
+dedicação o meu senhor», ou êle seja rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão
+de industria, quando senhores e vassalos de toda a casta e ordem e categoria
+todos teem de invocar e seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos
+igualmente humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei
+de comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu só
+porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as comunidades
+bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos e dogmatismos,
+mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente se fundaram e
+viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou religiosa de uma
+hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por muitos modos e em
+diversos lugares, se persistem e são uma fôrça espiritual efectiva aquêles
+sentimentos de fidelidade, lealdade, dedicação e sujeição que eram seus
+vínculos e instrumentos, se essa ordem e todo o seu cortejo mental e
+espiritual sobrevivem quando já terminou a religiosidade íntima que era a sua
+essência e alma, é sómente porque, <span class="pagenum"><a id="pag_170"
+name="pag_170">[170]</a></span>convertida em tradições políticas, estéticas,
+morais e eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que
+edificou, póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade
+prática, um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o
+remanescente de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é
+a primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o
+império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os que são
+coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos cofres à
+prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é de efeitos
+práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma escravidão
+eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu aquela outra
+consciência de escravidões mortais, condicionadas, contingentes e
+transitórias, por longos séculos decisivas e supremas. Mazzini, que por ser
+fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou as ultimas e as combateu
+e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes senão anatemas.</p>
+
+<p>Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha de
+ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos
+absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo.
+Amaldiçoado<span class="pagenum"><a id="pag_171"
+name="pag_171">[171]</a></span> dos despotismos, por isso que pedia a
+liberdade, não podia ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus,
+religião e dever perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente
+viam e queriam o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez
+sugere e aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e
+se desfaz.</p>
+
+<p>Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e sobretudo
+a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo da fôrça e da
+riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias, cimentando os
+alicerces de um grande império e aí se oferecendo à imitação das nações,
+emquanto se insinuava nos laboratórios e nas bibliotecas e aí endurecia o
+coração e envenenava o espírito das novas gerações. Nesse momento, Mazzini
+era um vencido; com o seu débil corpo se sepultavam as suas ilusões.
+Liberdade, religião e o povo que inconscientemente as guarda e serve, iam de
+tropel calcados e esmagados no culto de multíplices escravidões, no
+desprendimento de Deus e da sua lei, na fé vil de que o mundo era um banquete
+do qual só ao nosso ventre tinhamos a dar contas.</p>
+
+<p>Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto,
+sabedor e previdente,<span class="pagenum"><a id="pag_172"
+name="pag_172">[172]</a></span> tão abundante de servos envaidecidos da
+própria servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus
+anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as
+primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que se
+afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia,
+escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e condenação
+das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens.</p>
+
+<p>Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico
+das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da sua
+glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra será
+eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p align="center">FIM.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="notas">
+<p><a name="foot363" id="foot363"></a><a href="#tex2html1"><sup>1</sup></a>
+Artigo do <i>Manchester Guardian</i>.</p>
+
+<p><a name="foot364" id="foot364"></a><a href="#tex2html2"><sup>2</sup></a>
+Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de Moscou, no
+<i>Hibbert Journal</i>.</p>
+
+<p><a name="foot365" id="foot365"></a><a
+href="#tex2html3"><sup>3</sup></a><i>Millgate Monthly</i>, março de 1915.
+Notícia de um discurso de Oliver Lodge, em Bradford.</p>
+
+<p><a name="foot705" id="foot705"></a><a href="#tex2html4"><sup>4</sup></a>
+Percy Dearmer. <i>Patriotism.</i> Humphrey Milford: Oxford Unversity Press,
+1915.</p>
+
+<p><a name="foot706" id="foot706"></a><a href="#tex2html5"><sup>5</sup></a>
+William Temple. <i>Cristianity and War.</i> (Humphrey Milford; Oxford
+University Press, 1914).</p>
+
+<p><a name="foot707" id="foot707"></a><a href="#tex2html6"><sup>6</sup></a>
+E. Carpenter, <i>What will Stay the Plague?</i> Artigo publicado em <i>The
+Christian Commonwealth</i>, de 9 de dezembro de 1914.</p>
+
+<p><a name="foot708" id="foot708"></a><a
+href="#tex2html7"><sup>7</sup></a><i>The War and Democracy</i>, por W.
+Seton&mdash;Watson, J. Dover Wilson, Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood.
+(Londres; Macmillan, 1912). Pag. 374 e seg.</p>
+
+<p><a name="foot1075" id="foot1075"></a><a href="#tex2html8"><sup>8</sup></a>
+O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o principalmente, quasi
+exclusivamente, em dois volumes da <i>Everyman's Library</i>. (Londres; J. M.
+Dent &amp; Sons), um que contêm versões dos escritos de Mazzini, <i>The
+Duties of Man and Other Essays</i>, e o outro que é a narração da sua vida e
+a crítica das suas doutrinas, intitulado <i>The Life of Mazzini</i>, escrito
+por Bolton King. Esses dois volumes constituem só por si uma lição moral e
+política e uma inspiração de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem
+os divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente serviço às letras
+pátrias, e sobretudo à educação das novas gerações, tão desiludidas das
+seguranças e presunções materialistas que encontram no ocaso, como apressadas
+em descobrir novos e mais serenos horizontes para que se encaminhem.</p>
+
+<p><a name="foot1076" id="foot1076"></a><a href="#tex2html9"><sup>9</sup></a>
+H. Demarest Lloyd. <i>Mazzini and other Essays.</i> Pag. 4 e 6.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="pag_173" name="pag_173">[173]</a></span></p>
+
+
+<h2>DO MESMO AUTOR</h2>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><i>Vozes do meu lar</i>, 1 vol.</p>
+
+<p><i>Na paz do Senhor</i>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><i>Reino da Saudade</i>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><i>Via Redentora</i>, 1 vol.</p>
+
+<p><i>Apostolos da Terra</i>, 1 vol.</p>
+
+<p><i>Sonho de Perfeição</i>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><i>S. Francisco d'Assis</i>, 1 vol.</p>
+
+<p><i>José Estevão</i>, 1 vol.</p>
+
+<p><i>Alexandre Herculano</i>, 1 vol.</p>
+
+<p><i>Rogações de Eremita</i>, poemetos em prosa</p>
+
+<p><i>Salmos do Prisioneiro</i>, 1 vol.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GUERRA ***
+
+***** This file should be named 26915-h.htm or 26915-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização
+disponibilizada pela bibRIA.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
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+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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