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A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + + + + + +JAIME DE MAGALHÃES LIMA + + +A GUERRA + +DEPOIMENTOS DE HEREJES + + +F. FRANÇA AMADO, EDITOR +COIMBRA. 1915. + + + + +A GUERRA + + + + +Composto o impresso na Tipografia França Amado, +Rua Ferreira Borges Coimbra. + + +JAIME DE MAGALHÃES LIMA + + +A GUERRA + +DEPOIMENTOS DE HEREJES + + + +COIMBRA +F. FRANÇA AMADO, EDITOR +1915. + + + + +Prologo + + +Um direito o nosso tempo conquistou plenamente--o direito de heresia. +Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje. +Pela sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por +momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram +com a rapidez e mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e +esperanças mal fundadas. + +O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as +ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas, +todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião, +da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta afirmação o +nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida +puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no +govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade +independente de restricção e de crítica--êsse logrou, porêm, prevalecer +atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito +multiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das +próprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas, +as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palácios, é +legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos +sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de +muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por +diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de +muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade. É isso tão +legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, como o desdem das iras +olimpicas de Jupiter, ou a revolta contra as fogueiras da Inquisição, ou +a libertação da tirania de todos os cesares, sejam êles coroados por +direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da +soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos +de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum dia +poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma +modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito +heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em +ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em +merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade, +muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto. + +O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde +corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse +direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior +havia constituído e estabelecido firmemente em o nosso espirito; foi um +ajuste de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra +que êle soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem, +a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as +egrejas, o império, e até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma +revisão sevéra dos respectivos valores e a uma determinação dos seus +caracteres e responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente +alteradas na sua nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde +utilidade. Palavras que eram um paládio transfiguráram-se em espéctros, +muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se +arruinou, muito fetichismo se desfez. + +De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a +uma influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi +nestas folhas umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que +não pouco poderão esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de +angustia, os que as meditárem. + +Umas foram já impressas no _Diário de Noticias_, de Lisboa; outras, o +maior número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me +alarguei ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se +referem à _Arte de Gastar_ uma versão quási completa do magnífico +opúsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor +sr. Humphrey Milford a autorização necessária para a tradução, que êle +bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o +meu reconhecimento. + +Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o +mundo se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um +desmentido rápido e radical. + +Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do +respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos +surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros +despotas aqueles mesmos que clamaram pela libertação dos oprimidos e no +seu clamor conduziram os exercitos às batalhas. + +Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita +desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de +despotismo para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos +os paises interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta +de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as +forças e de todas as actividades sociais, uma violência sem limites, +involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal +situação ficam resíduos; de semelhante incêndio restarão, pela força das +cousas, ruínas fumegantes. O que era temporário tornar-se-á facilmente +permanente, máu foi ter-se fundado; o que se decretára para salvação da +republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das +oligarquias. Houve uma fermentação cuja vitalidade reanimou muitos +elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão muito alêm do periodo +que a levantou, compreendendo por simples contágio muita cousa que lhe +era estranha. + +Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos +pesará duramente na vida das nações empenhadas na guerra. + +A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos +se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e +quanto os números podem somar. Não há arimética possível para volumes +desta largueza e complexidade. + +Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar +uma restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos +e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E +êsse estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta +calamidade que nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro +modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade +na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no _Hibbert +Journal_ sôbre «a tirania das cousas que são meramente cousas», mostrou +como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço +dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo +e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em +uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano +pelo culto do maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na +vida espiritual do mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o +industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas +positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho +dos povos, não servirá para acentuar as suas rivalidades, para cavar +mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixões +predatórias?» + +Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus +despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com +que o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forte da +guerra, que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que +nos campos de batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte +que as oficinas e os laboratórios criavam e lhes mandavam. + +Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de +alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências +financeiras, ansiosas por uma organização económica fácil e +abundantemente colectável, se houverem de ser consideradas as +necessidades fiscais dos estados esmagados com dívidas fabulosas que se +contraíram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito +penosos, não será de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato, +robusteça aquela constituição do trabalho que, seguramente, por uma já +longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negação da +liberdade, a mais fatal das opressões. + +Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a +formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa é certa desde já nos +resultados da guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas +económicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos +caprichos dos reis, à fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos +seus sortilégios cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça, +nos seus efeitos concretos, radicalmente contrária aos sonhos de +liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas +hecatombes. Mas determinou uma renovação da consciência, uma filosofia, +uma moral, um modo de ser economico, um renascimento íntimo, que são de +durar e crescer, invulneráveis às artes dos imperadores e ao poder dos +vendilhões, superiores ao seu domínio. + +A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o +mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande +acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum[1].» Foi +essencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e +serão transitórias as alterações ou a persistência da ordem material do +mundo. + +O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição +das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em +relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes +espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo +«invisiveis», sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto +êles andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste +mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo, +destruindo tudo na sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso +bem-estar--eis que os cegos vêem e os surdos começam a ouvir. +Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o +cáos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da +tempestade universal nos revelou subitamente um novo aspecto do mundo... +Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, distinguimos a +presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não prevalece; e +é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é sempre a +mesma--no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra a +morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o +dissolveriam. Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de +aparições que nos surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua +conquista final no futuro que encontramos a inolvidável significação da +guerra presente[2]». + +Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi +neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género, +valerá tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro +pensamento. «Parecia dominar como filosofia na hora presente. Tinha a +seu favor uma certa força. Estamos em um mundo material, e os que +estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma +espécie de conclusão de que êle é a existência inteira. Por isso erram. +A matéria é muito importante, mas por modo algum é a totalidade do +universo. Há dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um +tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde admitir-se que o aspécto +material domine; tem de servir as necessidades do espírito. A nota do +universo material é repetição; a nota do universo espiritual ou psiquico +não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na história do nosso +próprio mundo--primeiro os animais inferiores, depois os animais +superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos +ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O +próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o +indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temos de compreender que +somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós, +ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta +é a nota do universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada +vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente, +emquanto a soma de matéria e energia não cresce; esta é constante. A +inteligência póde crescer; póde crescer a felicidade; póde o +conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis[3]». + +Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais. +Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra +trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus +lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa +nas sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendências +de liberdade, de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram +em proporções assombrosas os tesouros da vida do espírito, único +progresso possível, único que importa o domínio da matéria, mesmo quando +a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnável pela solidez das +suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela +prepotência triunfante e orgulhosa sôbre as infinitas escravidões que a +servem e são a sua mais funda aspiração e o seu mais eficaz instrumento +de reinar. + +Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente +mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e +económica em que tiver de rematar os combates, será a jornada moral e +religiosa a que a guerra nos conduziu. Não há poderes do mundo que a +perturbem. Porventura será mais activa quando êles menos a favorecerem. +A necessidade de reacção acelera-a e fortifica-a. + +Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da +«futilidade» que hoje são, uma infantilidade cruel, de que nos +lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na +mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das +vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da +razão a _Eneida_ será porventura um conto para crianças, e os herois que +nos exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que +entrevemos a rudeza da edade da pedra. + + + + +Convulsões dum enfêrmo + + +Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração +de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e +gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado +por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos +seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação +que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um +«crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se +sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se +armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da +Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam +os canhões, amontoavam munições e edificavam fortalezas por modo nunca +visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que +nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma +segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão +dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores +à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia +pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma +inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar. + +Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de +vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e +prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com +enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os +economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que +só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse +ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e +pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos +negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da +amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos +impenitentes, que tambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças, +tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia +remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas +devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca, +era de ora em diante a lei da vida. + +De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes, +surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia +crê-la. + +Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!... + +A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era +unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações, +alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e +empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do +zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes +fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos +era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores, +um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e +de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia. +Eram êles que na mais atroz loucura gerada de imaginárias ambições +lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual +escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para +se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e +unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de +desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para +criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a +fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie. + +Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e +aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e +comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas +militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão +legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o +conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de +aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão +destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam. +Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na +Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras +atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o +desrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia +cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída, +construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram +acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e +injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros +do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava +a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados. +E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos +séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada +fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os +com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com +o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico, +e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o +espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês +de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o +primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que +pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã +Bretanha e de todo o mundo culto:--«Não é um conflito meramente +material, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas +conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que +contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa +liberdade de milhões que constituem a massa do género humano». + +Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo +coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que, +envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares, +o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a +incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito, +entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as +cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a +crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a +deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a +corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus +das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de +doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos, +uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si +antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin +contra Bismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um +Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor +inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a +graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o +despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de +previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo +metodo e por subtil engenho. + +Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando +que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias, +agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora +angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se, +com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição +penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o +carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava, +em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão +moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A +eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez +profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas +daquilo que êles imaginam ser o carácter germânico, a absorpção de todo +o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e +repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza, +embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas +o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse». + +Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a +reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:--«As +bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode +ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras +signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade», +«não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo +que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza, +roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e +inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si +miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam +pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França--esmagaram-na, +roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram +para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus». + +O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem +público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o +povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro +trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da +Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias +livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento +alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida +inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o +caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer; +nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte +que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a +contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações +apolineas; e disto fez uma religião. + +Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes +compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações +dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais +ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento +fundamental é de uma simplicidade incomparável:--«A Alemanha tem nos +destinos do mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura, +levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura +germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse +destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação +radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario +vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A +cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a +inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu +espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente +desimpedir o caminho. + +Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora +dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha, +afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por +nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e +todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo, +por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos +com matrícula em Hamburgo. + +Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso +foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos alicerces, +aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era +vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do +tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, +ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência +de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar, +corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os +seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine +por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores, +poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da +natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento +económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os +gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram +sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o +crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral». + +Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não +adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura +alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade» +e «nausea», que «todos os deuses aprenderam a temer. Se alguem quizesse +vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto +germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença +pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido», +dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem +ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente +arrastado. + +Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer +do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de +subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da +caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos +encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer, +que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e +muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua +felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua +natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da +brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta +Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada +em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas, +fazendo da disciplina, obediência, ordem e comodidades a razão última da +nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem +mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis +ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a +bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a +de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo +lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura. + +Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela +unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como +sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e +admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos +palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não +compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente +cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho, +fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que +mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a +Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em +larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do +amor, trocados pelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os +povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente +a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da +humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar +agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons +hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade, +caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e +gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados +e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e +por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada +difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o +homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e +qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das +profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa +cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os +homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as +raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe +que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma +esteira infinita de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem +o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores +rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação +suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente +os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das +castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas +de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de +inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das +materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens +mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em +tormento. + +Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em +especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais +profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles +concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia +racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo. + +O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e +ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma +cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra +cousa; e o que nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de +silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão +do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor +moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e +sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem +duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras +culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como +soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças +a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha, +sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca +religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em +disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e +reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança +a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra +assassinado. + +Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua +missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o +negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido +instinto que o não engana, considera que, quando o preto tem culpa, +ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é +alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse +implorado. + +Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento +moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar; +e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não +alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o +inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os +delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da +mais submissa humildade e contrição. + +Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como +fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser +social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da +guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em +pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da +vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano, +abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos +da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder +mais alto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo, +culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em +conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as +derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e +à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa +sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde +que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela +irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa +servidão terrena que lhe repugna. + +Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação +das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais +do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência +dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da +fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos +impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente +e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado +da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo +impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da +mentalidade característica da nossa era. Á liberdade do pensamento, +emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo +estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das +crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser +intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com +a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e +direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações +especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas +fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas, +a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns +pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e +Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram +algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na +pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a +liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e +sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do +pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes +políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a +unidade de tendências mentais, constantemente contrariados, minados e +traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo +império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira, +irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas +aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na +história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha +de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e +desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual +provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à +própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender. + +Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo +evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente +no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de +todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de +todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus +trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não +autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar +as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem que +combatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a +vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados +à idade da razão. + +O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que +a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai +construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as +estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se +verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto +que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de +reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a +negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas, +sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de +materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas +materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr. +Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e +discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os +pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos +contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto +pensar. Se assim fôr, veremos a verdade daquêle velho e belo proverbio +espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas +seriam ganhos.» + +Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez +larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa +a que nos sujeitam. + +É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em +proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que +sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar +ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que +sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir. +Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do +pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por +urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma +simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor +dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado +patriotismo e mais modesto bom senso? + +Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com +aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e +arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas. + +Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que +comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no +seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes, +como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos +ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo +com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo +com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o +idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não +morto, surge glorioso a revestir a terra desolada. + + + + +Ganhos e perdas + + +Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para +reconhecerem e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as +conseqùências militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de +se desenhar a divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a +distribuição da fôrça e dos canhões, muito antes disso e +independentemente dos seus destinos e designios já as aspirações e +crenças dos homens definiram e anunciaram tendências e propósitos que da +guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propício, já marcaram +no seu rol vencedores e vencidos, já proclamáram suas determinações +inflexiveis. + +Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da +conflagração tremenda em que o mundo se agita. + +Dela sai já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e +desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos +fez prosélitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões, +apaixonou as multidões, dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis +e os sapientes, toda a grandeza e autoridade política e moral, o saber, +a virtude e a fôrça. + +Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como, +por que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a +abastança assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára +para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se +o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as +crueldades. Não nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma +injuria; a todo o morticinio, a toda a opressão e a todo o insulto o +temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulsão, escravo +dedicado de um patriotismo todo constituido e só constituido de cobiças +e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a +fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o +Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo económico moralmente +acanhada, reduzindo a vida a uma repartição de comodidades e a uma +cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o +socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de +previdência, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago +e grandes regalos, mas era uma mecanica que só considerava o corpo, +deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração, +consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a +guerra soltou; até mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente, +senão contente, à prolongada cultura dessa ruindade, que as obsessões de +grandeza política reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados +sonhos. + +Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um +despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na +omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer +despotismos seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas +suas afirmações, menos a palavra liberdade. + +Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a +apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é +pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o +despotismo e a opressão militar, passa-o ao bando das traidores e +herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos +Réclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente à +desgraça presente e à ruina, mais do que nunca confiadas em que só a +gloria da sua crença poderá resgatar-nos da mortificação. Quantos +apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, seja qual fôr a +fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a +coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e +na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a +felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no +imperio da consciência moral isenta de toda a violência e +constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na +vitória que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus +adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a +ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolação, com uma impiedade +inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforço irado +dos exércitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas. +Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, o anarquismo, na sua alta +expressão filosófica, que não nas suas aberrações criminosas, vê de +súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando +sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do +socialismo. + +Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o +problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as +imprecações impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em +risco bens e grandezas. + +Há vinte anos, António de Serpa,--um talento culto, homem de superior e +nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus +contemporâneos fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a +esquecer,--escrevia um opusculo sobre «O Anarquismo». + +Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com +o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa, +mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se +tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás +muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em +advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o +imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O +estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi +nesse incidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos +ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento +das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência, +determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e +lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um +espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse +passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido +nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de +funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era +grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o +ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem +por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe +o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o +engrandeciam. + +Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e +contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de +espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para +durar--Oliveira Martins. + +A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e +querido socialismo do Estado, grande progresso fabricado nas +universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das +sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria +Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de +negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres +antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não +foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração +pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O +socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição +política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais +como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade, +perdoando-lhe os agravos. + +Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos +as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem +com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos +seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de +blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia +de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e +até nem sempre isenta de injustiça. + +Outros e inesperados aspéctos se nos deparam. + +Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária +insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo, +reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma +horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as +deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos +converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e +emprega. + +O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a +redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno +político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza, +conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades +modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução +Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de +Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos +andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do +absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e +ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida, +ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando +em esperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência +que foram a obra sinistra dos seus inimigos. + +O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo +prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo +baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas, +e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo +zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e +Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças, +fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo, +levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e +sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza. +Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos +para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja +navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior +segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de +prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias. + +Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso, +emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da +Religião que arruinára, segundo ela cria, os edifícios de outras eras +tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal +insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não +é dêste mundo. + +Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a +terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela +liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela +aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo +reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do +espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e +cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de +sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a +ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e +exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e +errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do +império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de +almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que +dolorosamente nos dominavam e turbavam--dêsse romantismo que, em obras +de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco +mas jámais vil. + +Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que +afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem +hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da +capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o +senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos +que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução +Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada +passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas. +Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção. + +Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças +militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e +ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do +século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se +encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo +desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e +acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes +muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido +e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidas da Europa a Revolução +Francesa desapiedadamente combateu e derrubou. + +Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para +onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta +cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais +poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio +alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao +inimigo. + +Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória +nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de +ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais +eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e +seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer +armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina, +prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em +bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos +não-combatentes, homens, mulheres e crianças--estes homens trabalharam +durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E +o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento e +justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na +nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses) +esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo +tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do +império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o +coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o +corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas +não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã». + +«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por +Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe +deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e +magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das +cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade. + +E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos, +confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações +do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará +ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas +tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos +diversos dos que as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador +fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é +Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga +que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma +crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta +guerra a sustentam». + +O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina +política do mundo--a doutrina do estado predatório como encontrou a sua +expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em +resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os +progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo +antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e +organização, como Roma nunca possuiu». + +«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não +é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda +a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder +militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no +Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção +do direito a uma altura que é universal, «Fez o direito independente e +superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou +missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam +representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A +doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito, +foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da +civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação +mais alta. + +Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua +história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa +psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza +da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no +absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela +que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e +desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos +da raça humana, aprendeu a grande lição universal--isto é, que há uma só +raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber +queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da +responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêsses dos +estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da +humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele +«intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que +Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra +nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa +democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados +direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no +conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da +«caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a +sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e +vagamente profética. + +Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o +desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário, +amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de +intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e +instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em +que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na +imprensa--e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de +governo e a mais engenhosa arte de governar os homens e os trazer +contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de +estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar +a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma. +Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na +sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina +menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se +emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha +afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e +altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos +arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo +o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só +dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a +procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços. + +De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão +pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em +acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos +das coisas, nunca ninguem soube tão completamente as suas qualidades, e +nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e +sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada +e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava +preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas, +nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas +oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de +previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as +necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os +confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de +toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos +indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro, +impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela, +lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao +maior e mais angustioso dos sacrificios. + +Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza +porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade +apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza. +Foi isso que êle odiou, foi isso que o ofendeu e fez lançar no combate, +incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa +necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da +filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas +multíplices traduções práticas. + +Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de +presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada +animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com +todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O +resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o +sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para +largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela +sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda +aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem +nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e +definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos +de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito +menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor, +muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta +civilização confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente +e fraca, embora erguida em dourados baluartes. + +Facto singular e notável--há muito a Alemanha se queixava de pobreza de +homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em +capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que +mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era +confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a +situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência +concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se +lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade +suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma +pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à +altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia +nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e +carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de +batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado. + +Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus +apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou qualquer factor +essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza, +equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições, +mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma +expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida +presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das +humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a +mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na +sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico, +renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que +vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de +lhes restituir, na educação das novas gerações. + +Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela +psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de +justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política +que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia, +romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia +da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e +só pela guerra alcançariam manter a energia. + +A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda +da necessidade e benefícios das guerras. + +No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma +pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um +mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já +próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o +advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e +fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra +significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, a _grande +ilusão_; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma +futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que +mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de +tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os +primeiros fumos dos canhões atoldaram. + +Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição +imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores +que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os +instintos que a alimentavam. O presente era a demonstração clara da +subsistência dessa doutrina de morte. + +Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com +aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a +insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que +alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e +fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi +certo--facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda +há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita +unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma +monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e +abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos. + +Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua +defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não +esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos +séculos; todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo, +avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o +sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a +adversidade, para a tristeza e para a dôr, desenvolvia a obediência ao +dever, semeava a coragem, a dedicação e a generosidade? Nem assim +conseguia restaurar o império perdido! Poderes mais altos lentamente se +haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro a piramide, que parecia +invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os tumulos dos faraoos, +esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do +sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e insignificante para +julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto +era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava +encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre +amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o +desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o +esfôrço, a consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram +virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjecção, não +careciamos, para as possuir, de as cultivar no ódio, na cobiça, na +brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinárias; o +trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e +do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam +para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que não +cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em +prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de +outra eramos capazes. O _Cavador do Millet_, no seu campo safaro, só com +a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus +pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente +apregoára que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas. + +Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da +largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida +e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril +crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de +proscrição no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus +trágicos horrores. + +Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o +último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de +civilização que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e +pretende justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem +em que agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e +governos, com todos os seus enganos, traições e angústias, com todas as +suas fadigas, prazeres, ruins ambições e opressões; póde, claudicante e +ignorando a própria miséria, continuar incerta e cega na jornada dos +seus muitos e lúgubres progressos até de novo naufragar na imensidade +dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou um inimigo que não lhe +perdoará; despertou a consciência das suas terríveis enfermidades, e com +ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade +que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de facto, porque +os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é tenaz e +seguro nas conquistas. + +Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos +poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi +unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que +muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de +tudo isso, um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração, +por muito distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto +dos exércitos; mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e +ventura, foi o castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um +profundo _peccavi_ cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes +e cuja absolvição temos de procurar em um mundo fundado em uma outra +alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente +nos haviamos entregado. Outras aspirações, outras crenças e todo o seu +modo de ser externo terão de nos inspirar para nossa fortuna e alegria. +Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que +supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre. + + + + +Revisão de valores + + +O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem +dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem +as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente +aproveita e emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a +rapidez dos movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se +perdem nas nuvens tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se +ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo, +para as imaginações infantis, mas difere do que antigamente se fazia +apenas naquelas minguadas proporções em que os brinquedos das lojas de +Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo +vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automóvel não serão cousa muito +diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, igualmente +insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de Cesar com +seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo +sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que +hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e +engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto +das multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores +e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e +possuídos por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão +despejadas e poderosas que não carecem de registo, nem de garantias +especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas +no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhámos, não +ostentamos ambições e talentos superiores aos muitos e famosos que +fizeram a guerra quási exclusivamente fiados na fôrça do seu braço; e +nem tão pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que +aqueles de estreme e insaciável cobiça que exaltaram os generais de +outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre foi desde que se +conhece história, um assassino cruel e sordido. + +Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve +alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com +uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a +astúcia, a dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser +ferido tomaram em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem, +pela firmeza de ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e +lealdade da luta a peito descoberto. O carácter de negócio, conta, e +cálculo e previsão, aliás de supremo alcance, apagou muita beleza da +imprudência, da ousadia e do desprendimento. «As batalhas não são já o +heroismo espetaculoso do passado», disse um general celebre pelos seus +escritos, Homero Lea. «Os exércitos de hoje e os de ámanhã são uma +sombria máquina gigantesca destituida de heroismo melodramático... uma +máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a +uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e +irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de +trevas, um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima, +acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa +magnanimidade, raro conduz a revelar quem ofereça com uma clara +abnegação a própria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao +inimigo da sua pátria e da sua crença. Entre a guerra moderna, intima e +exteriormente mascarada de couraças, e a guerra dos tempos heroicos, +fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia que vai de um +arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de um negócio +a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio e a +baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a +isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses +diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das +batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a +insinuação de um certo materialismo que invariavelmente prefere a +torpeza lucrativa às contingências de uma franca e determinada +honestidade. + +Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da +guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em +couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma +multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra +escoltada de infâmias, em regra mais rendosa para a ignomínia do que +gloriosa para a dignidade. + +Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a +guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a +apontar, e êsse de incalculável magnitude--a amizade em que no dia de +Natal se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente +se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais, +por espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no +tempo como douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e +afeição, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares +de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade +sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os +soldados voltaram às fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de +novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructível se +edificára e permanecia de pé, inviolável; uma luz se acendêra, que não +podia apagar-se, de paz, de comunhão e de carinho; uma saudade se +ateiára precipitando as nações e os exércitos em caminhos novos, para +outros combates. + +Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali +venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuízos, que +lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, e por +vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a +amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos +lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade. +Foi todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em +uma altura superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada; +foi a consagração de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do +que a insânia sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte +lançado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a +repetir-lhes que os homens não querem a guerra e a aborrecem, e +unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e +iludem são arrastados às batalhas que o coração amaldiçôa. Foi a +confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia incalculável, das +determinações de uma consciência que sente dissipar-se a divisão das +raças e das nações--não porque a suprime, mas exactamente porque, +reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a +ama no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de +interesses e afeições por aquilo que é o nosso comum amor, em vez de nos +massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da +individualidade étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde +distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos +separar e tornar inimigos. + +Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira +impressão, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando +calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das +mulheres e das crianças até à ruina das catedrais--que jámais poderão +ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver +os bafejos dos alentos místicos que em extasis divinos as sonharam e +ergueram e pelo sangue de mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam +dado a aureola de uma arte e tradições irreparáveis, das que vivem uma +só vez, filhas de uma só alma, e não renascem, se as ultrajou a malvadez +dos homens atónitos na turbação de um ímpeto sinistro!--os menos +desconfiados dos incitamentos da primeira impressão de pronto descreram +dos sinais de paz que há pouco viam com alvoroço no horisonte. Logo se +abandonaram ao desalento e tiveram como não subsistentes a solidez e +progressos daquele internacionalismo que era a vitória da consciência +dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas +diversas tendências, necessidades e divergências, e conduzindo a uma +lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, paulatinamente +mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se traduzia +em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral +cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas +reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas +hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em +campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais +altos do que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza +milagrosa dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa +de novo se fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios +a convicção dos que antes da guerra encontravam na expansão do +internacionalismo os fundamentos e a esperança do renascimento político +e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos +valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dirá por +outra forma e por outras palavras o que a trégua e os sorrisos do dia de +Natal não lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela +análise da história, pelo exame dos factos políticos e pela verificação +das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que porventura lhes +haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes do +coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no +conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando +não é a desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de +desarmar exércitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes, +indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma +obra de extermínio. + +O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes, +e é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por +um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos, +corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e +crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do +patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo +por que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa +derivar de que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do +patriotismo e são alheios às faltas da religião». Compreenderam-se em +uma só divindade e apostolado as virtudes e as degenerações e +deformidades do patriotismo; porque «o patriotismo pode tornar-se não +moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas, +podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos de infalibilidade, e +daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à perda conseqùênte +da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode pedir a sua +moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais; +o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao Deus da +verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de +ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não +pode encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma +mais profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No +fundo de todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio». +«O verdadeiro patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em +todos, que respeita a nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde +quer que a encontre. Não fomos suficientemente patriotas no passado. +Realmente, não acreditamos no patriotismo». É insensato, mesquinho e +despiedoso o patriotismo que antes de bem combater não soube bem viver, +que só na guerra sente as obrigações e todas as esquece e desconhece na +paz. «Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que nós chamamos +os anos caquéticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e +crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e +tocas nesta linda Inglaterra», (como de resto em todo o mundo), «que é +nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual não estamos +prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os pobres, rebaixados os +humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus o clamor de +milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos divertimos. E +imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a chacina da +guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das +doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se podia +atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da +pobreza, da embriaguez e vicio».[4] + +Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de +antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista--miséria e orgulho dos +govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal +responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na +guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para +sempre convencida de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e +à riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua +corrupção e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou, +perdeu o prestígio dos seus conciliábulos e segredos, e são mais os +incrédulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. Há muito +suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinações, +isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, embora fôsse o meio +de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as cobiças, a +sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou +menos consciente e nunca escrupuloso--agora, ao dar conta pública das +suas façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas +anteriores. + +Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos +homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o +movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar +anti-diplomático, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento +inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente +aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do +secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada +posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante cinco +anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço +diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da +Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se +para discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus +beneficios e seus males e agravos. + +Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, _O Camelo +e o Fundo da Agulha_, severo estudo da degradação que a posse da riqueza +importa, e a _Decadência da Aristocracia_, onde pôs a claro a fraqueza +da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e +talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou +_Democracia e Fiscalização dos Negócios Estrangeiros_. Aí procurava +acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade +da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspirações e esforços das +democracias. «Não creio», escrevia então, «que na época presente haja +questão mais importante do que a consideração do problema que resolverá +como é que a opinião pacífica, moderadora e progressiva da democracia +póde penetrar tanto nos negócios internacionais como nos negócios +nacionais, e como é que um estado democrático póde descobrir os meios +próprios para se exprimir no governo da nação». + +Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a +importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas +políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um +redactor de _The Christian Commonwealth_, pôde renovar o seu pensamento +com a autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado +por factos de uma trágica evidência. + +Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O +desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a +guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve +quebra na boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As +narrações pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relações +afetuosas entre êles e o «inimigo» no dia de Natal mostram claramente +que a guerra não é entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e +facilmente seriam amigos, se os que os governam não estivessem em +guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; a guerra não foi +causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse contra o povo +de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a +moralidade internacional e que é realmente a moralidade +intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua +crítica é principalmente política. Contesta que haja uma quebra moral da +parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomático e +garantir a fiscalisação democrática nos negócios estrangeiros, o que só +por intermédio do parlamento póde fazer-se. «Diplomacia aberta» é em +certo modo uma frase que não convém. Do que o país carece é de conhecer +inteiramente os seus compromissos e obrigações com os países +estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política que +se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de +interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma +tradição de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado, +que nos veio de idade-média e que tem por efeito deixar as cousas +inteiramente nas mãos de homens públicos ciumentos de toda a intervenção +estranha. O que mais lastima, todavia, é a política do silêncio oficial +sobre materias que se tornam de uma importância vital. Um completo +segrêdo é em nossos dias praticamente impossível. O povo sustenta-se de +palestras ociosas, rumores e falsas referências dos jornais. Não está +sem informações mas está mal informado.» A culpa não é dos ministros, é +dos próprios parlamentos que se movem em um círculo vicioso: porque os +seus membros não são informados dos negócios externos, poucos se +interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas mãos dos grupos +que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes grupos, e a +ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram de tal +modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão destinadas +a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a +consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da +democracia, prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a +direcção dos negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos +ministros ou que deixe de haver negociações que necessitem de reserva +emquanto proseguem. «Mas carecemos de mais bastas oportunidades de +discussão, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e +obrigações, de democratisar o serviço diplomático.» Porque a exiguidade +da retribuição dêsses serviços tornaram-nos praticamente o apanágio de +reduzidissimas classes abastadas, e «homens de talento, criados na fé +democrática, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular, +são excluidos justamente por não possuirem aquelas qualificações +adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.» + +Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia. +Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são +indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da +humanidade, e essas relações não podem deixar de ter seus interpretes +próprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está +inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande +perda de vidas e bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres. +Mas está humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua +insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior +do coração terá de dar o lugar a quem a substitúa com menos soberba, +mais modéstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspirações +dos povos que a sua arte está destinada a servir e que ela cegamente +sacrificou às ambições pervertidas de reduzidas aristocracias e à +voracidade insondável das oligarquias mercantes. + +Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada +que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus +palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que +arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este +campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas +aspirações e das tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De +soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigações políticas e morais +que são a condição da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver +nobremente, em paz e dando a paz. + +Um artigo do _Daily Chronicle_, procurando as razões por que a +Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem +anos, emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava +explicação insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco +que unem os povos dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para +essa extraordinaria fortuna, é certo que a identidade da raça dos +Estados Unidos e da Inglaterra está profundamente limitada e prejudicada +pela insinuação de sangue estranho, e não póde dar razão bastante de tão +sólida e prolongada amizade. Causa mais eficaz poderá encontrar-se +«nestas ideias de liberdade pessoal, direitos civis, obediência à lei e +confiança nos métodos judiciários, que são a herança comum do passado do +povo americano e do povo britânico. Ambos êsses países realisaram os +processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e estão por +conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a +experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos. +Ambos êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do +militarismo que escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes +foram, indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem +anos. + +«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais +importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de +facto, a Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade +governados pela opinião pública.» + +E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica, +conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu +direito de assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter +que brilhantemente revelou onde tem podido dominar. + +Na verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o +internacionalismo nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças +superiores das quais dependem, como todos os demais elementos da +constituição social das nações e as suas afirmações. O internacionalismo +dissemina-se e avigora-se, e a diplomacia muda de modos, gestos e +processos, aparentemente; no fundo não são senhores dos seus destinos, +jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que os autorisa ou condena +e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos os seus aspectos +muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e +desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não +desperte e não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu +invencível poder e a sua indomável expansão. E esta guerra mais +evidentemente do que nenhuma outra o demonstrou. + +«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente +grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira +guerra de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da +nossa religião. Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que, +se as nações são cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o +souberam Atanasio e Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo +de Constantino até agora esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua +protecção a igreja e, largamente, sob o seu governo, no acontecimento +conhecido como a conversão de Constantino, muitos dos princípios do +Evangelho se obscureceram. Durante séculos, a igreja estava pronta a +abençoar exércitos e armadas. Shakespeare julgou apropriado fazer +proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam Henrique V a +declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa, instado +para abençoar as armas, respondera:--«Dou a minha benção à paz.» E um +arcebispo--_alterius orbis papa_--solenemente declarava toda a guerra +«obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente +que toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro +efectivo. Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o +cristianismo nunca foi aplicado às relações internacionais. O que faliu +foi uma civilisação que não era cristã»[5]. + +Romain-Rolland, nos artigos que publicou no _Journal de Genève_ e +correram mundo vertidos em diferentes linguas, anunciados como um pregão +profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra +mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes +apóstolos rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de +repente nos mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães, +e Frank, morto em combate, por amor do militarismo, ele que era o +campeão da união franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à +disposição dos seus governos e lhes coadjuvaram as mentiras e os odios +«tendo a coragem de morrer pela fé alheia, os que não tiveram animo de +morrer pela sua própria fé.» «Os representantes do Principe de Paz, +sacerdotes, pastores e bispos, foram para as batalhas aos milhares, a +levar-lhes, mosquete em punho, os divinos mandamentos:--Não matarás e +amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de austriacos, alemães ou de +russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada um tem o seu Deus e +cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o defenderem e +destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte mil +sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os +cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem +qualquer expressão de pasmo, a scena paradoxal na estação do caminho de +ferro de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços +ordinandos que iam para os seus regimentos, cantando todos juntos a +marselheza.» Pio X, a quem o rompimento de guerra apressou a morte, +segundo se crê, que «não poupou os seus anatemas aos sacerdotes +inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra do modernismo, que fez +êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes cuja ambição +desmedida votou o mundo à miséria e à morte?» + +Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo, +porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta +de resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se +associou, atiçando-o em vez de o apagar. + +Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de +Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o +cristianismo e as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência +da organização das igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do +império de um princípio cuja expansão e penetração teem sido constantes +desde a hora da sua revelação, cujo poder mais do que nunca nos domina e +fascina, e cuja lei cada vez mais lucidamente se mostra a solução unica +e a unica redenção dos males e angústias que afligem a humanidade. + +Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão +de ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas +cristãs veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por +todo o mundo associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e +deshumano; tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo, +abençoando-os bastas vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito +dos fiéis, de ordinário prontas em promover o culto da riqueza e do +podêr; quási invariavelmente afastadas, senão inimigas, do +desenvolvimento da democracia que, sendo a tradução política dos seus +princípios, elas insistiram em desconhecer, aceitando-a em último +extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina, subversão, opressão +e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe dúvidas, temores e +embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e partilhando-lhes +do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes, e +amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação +das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno +impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da +autoridade civil, subsistente durante longos séculos e por diversos +modos efectiva, expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no +forum e no templo; mais combatentes, coercitivas, do que apostólicas, +mais amigas de mandar, e de facto mandando, entre erários e espadas, do +que confiadas em cativar pela pobreza, pela isenção de toda a violência, +pela verdade e pelo amor; de uma scéptica complacência com o fariseismo +e hipocrisia que se lhes roja pelos altares, inteiramente descuidadas em +corrigir as superstições dos seus rebanhos; afeiçoadas a uma caridade +realmente abundante de deligências, desinteresses e esmolas, mas +intimamente e logicamente inseparável de todas as aristocracias e +hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e de quanto +possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a intervenção; +não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para depois +lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em +paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos +predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo +cuja suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de +expressão da alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar +regras e manter uma disciplina estreita e mecanica do que exaltadas em +respeitar, defender e propagar a pureza dos princípios; desatentas ao +inimigo que lhes invadia os domínios, não percebendo ou tomando em pouco +o que o desenvolvimento da imprensa diária lhes importava, pois, +trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que cada um escolhe +ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o procurávamos, nos +dias de descanso das fadigas profissionais:--as igrejas, no geral, +decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando, por +desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira +de aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da +adoração dos homens, que para as servirem as tinham edificado e +cimentado com o seu sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e +teem. Faltaram-lhes crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma +conjuntura como a presente, porque crentes não tinham, quedaram-se +impotentes, com grande copia de bons desejos, palavras excelentes e +muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de acção. + +«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o +preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os +fundamentos e desvairou as gentes. Da corrompida interpretação dêsse +princípio veio que, devidido o mundo e a consciência em duas metades, +uma para Deus e outra para Cesar, completamente se perdeu a noção da +dependência em que Cesar estava de Deus, e impensadamente se dispensou a +observância das obrigações correlativas; não mais se cuidou de +subordinar Cesar a Deus, (os imperadores contam com o auxilio de Deus +para os seus negócios e invocam-no como quem está seguro da honestidade +e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino seu, próprio e para +todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o desregramento, +a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de que, se +Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma humanidade +redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação do +mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a +fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no +rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa, +excelente e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle +adaptada, sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua +sumidade, por vezes propensa a indulgências com a cobardia religiosa, +sem mesmo hesitar em abençoar exércitos que, sendo portadores do ódio e +da morte, são a negação de Cristo, e até mesmo pondo sob a protecção da +cruz as máquinas dos caminhos de ferro que são levitas e servidores +horrendos de desapiedadas cobiças. + +Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade +religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e +infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas +e domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por +isso cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez +mais inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o +reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão +sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos +primeiros dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos, +manter. «Os horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem +do cristianismo e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e +esta espécie de cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como +aquela de que estamos sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da +natureza da impostura. Mas, por muito más que as cousas sejam, não há +necessidade de desesperar. Um novo cristianismo e uma nova cultura +surgem--o cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a cultura dos +profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa religião, +não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam o +logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que +Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora +presente. + +De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades +modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada +sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência +do cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde +durante prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos +os altares e espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer +na solução dos problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso +tempo resulta é a vitória da religião e do cristianismo em toda a +latitude, como promessa unica de salvação. Cresceram fóra das suas +igrejas, com diferentes nomes e diferentes rubricas, sob diversissimas +invocações, mesmo sob as que se propunham nega-los e, inscientemente, +imaginando afugenta-los, destrui-los e substitui-los, os propagavam e +defendiam; cresceram, porêm, continuamente e, sendo divinos, nunca como +agora se mostraram necessidade terrena mais urgente e remédio mais +seguro das nossas enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior +altura, erguidos não só pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre +foi todo o seu ser e substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da +logica, pela meditação e pela reflexão, pelas conclusões da inteligência +e pela investigação das leis da vida, pelas demonstrações da +experiência, pelas lições da história desapaixonada e isenta de toda a +obsecação de sectarismo. + +A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em +iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e +discordia em auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no +reconhecimento da mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação +do mesmo mistério, na justificação do mesmo amor e no respeito da mesma +regra que dêsse princípio deriva. Religião, sciência e filosofia que +fôram atrozmente irreconciliáveis, resolvendo nas fogueiras, nas +masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas divergências e conflictos, +caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se amparam para uma mesma +jornada. Já a ninguem surpreende que um publicista de superior reputação +se detenha a proclamar o «valor religioso do livre pensamento», +significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade do +espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a +sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu +inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade. +Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma +igreja infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O +pensamento não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda +menos, por modo algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava +que essa fé podesse definir-se como um estudante a definiu--«aquela +qualidade pela qual cremos em cousas que sabemos serem totalmente +destituídas de verdade.» Mas a igreja de hoje, no seu melhor modo, +acolhe bem o pensamento porque com êle está mais segura de si. +Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que lhe resta +está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra, considera +o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr que +voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as +profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade +foi auxiliada por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal +da realidade da nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para +o campo largo da razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e +a sciência, levadas para qualquer cousa como um terreno comum. + +«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias +de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos +dogmas, vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida; +mas as cousas grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na +sabedoria e no amor de Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em +o nosso dever com os nossos irmãos, são, pensa ele, mais profundamente +sentidos e mais sinceramente possuídos do que nunca. A sciência abdicou +da sua velha arrogancia e está preparada para se apresentar de cabeça +curvada, como um humilde investigador nos palácios do Oculto.» + +São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e +no govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião +e o seu valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma +torrente, no meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se +um homem da estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida +de apostolado político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se, +confessa publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a +política e se consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas +suas palavras, não o desengano de um profeta mas a desilusão de uma +época que, ardentemente empenhada em livrar a terra e os homens dos +martírios que os crucificam, errou a estrada e foi procurar em +mesquinhas artes e em artificios estreitamente humanos uma salvação que +êles não continham. São a condemnação final de toda a idolatria +materialista dos valores económicos e a certeza de que só a inspiração +religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza da nossa +inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de fundar. + +Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo +director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno +livro, de sumo interesse e eloquente clareza, intitulado _O Sermão da +Montanha e a Política prática_. Pretendia que «não podemos realizar +imediatamente os ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da +sua realização, e os nossos movimentos podem estar de harmonia com as +leis da natureza humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram +supremamente compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas +pelos que adoram Mamon e Belial». + +Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma +lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da +terra, e em particular na política, examinando a possibilidade de +aplicação das bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à +simplicidade, à misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por +engenhosos sistemas e subtis abstrações mas pelos exemplos históricos +mais vulgares, vinha por fim a afirmar que é possivel governar uma nação +pelos princípios estabelecidos no Sermão da Montanha e que é sómente em +quanto assim procedemos que a sociedade póde elevar-se dos tipos mais +baixos aos mais altos. Podemos ir para diante no espírito do +cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião é que +vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e dos +demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu +de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens +públicos podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma +legislação humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste +o facto de que essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará +lembrar o que a legislação social e política tem sido desde o comêço do +século desenove--o que ela fez protegendo as crianças, de que infernos +vem arrancando os trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a +dignidade, que lutas titânicas sustentou para isso, que barreiras +formidáveis de prejuízos e vis interêsses lhe foi necessário transpôr e +vencer. E que princípio, que fôrça realizava êsses milagres senão o +cristianismo que dos livros sagrados se derramára nos códices das +doutrinas e das instituições políticas? + +Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores, +seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância +daquele valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem, +sobretudo para o fazer repassar mais profundamente a consciência dos +homens, definitivamente convencidos da necessidade de um predomínio +maior ainda, infinitivamente mais profundo, dos princípios do Evangelho +considerados na sua influência prática, na sua ilimitada aplicação à +disciplina e conduta da vida. + +Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra, +Filipe Snowden, dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as +fôrças unidas da democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado +a catástrofe da presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se +por tal forma que as fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas +não tiveram tempo de mobilisar-se antes que as intrigas dos +militaristas, monarcas e diplomatas soltassem as fúrias da guerra. +Sempre acreditára e confessára que, se as nações da Europa continuassem +na política internacional dos ultimos quinze anos, provocando +hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de armamentos, o +resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a causa da +guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a +responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais, +deixaram que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os +militaristas e os diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas +aspirações democráticas e levados por interesses económicos e outros +opostos aos trabalhadores do mundo. Tivessem-se os trabalhadores +apossado do govêrno das relações internacionais, e debalde se teria +provocado a guerra e as suas calamidades, de cuja responsabilidade os +trabalhadores não podiam livrar-se. + +Sem dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar +no podêr da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está +longe de se conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio +dos partidos socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as +nações. Mas para os estranhos às artes da actividade política prática, +medianamente propensos a esperar das suas tramas a fortaleza que só no +vigor das tendências do espírito encontram, o mais provável será que não +fôsse a deficiência de direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a +guerra; antes teria acontecido que a insuficiência do espírito +anti-militarista entre os trabalhadores não permitiu que êles se +acautelassem e defendessem o mundo contra essa inqualificável +monstruosidade. Para os que mais esperam da inspiração interior que do +engenho prático, a responsabilidade dos trabalhadores está amplamente +atenuada pela sua miséria material e indigência moral correlativa. A +civilização moderna, fazendo-os escravos de uma escravidão de que a +custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes podia ensinar +menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas revoltadas. + +Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos +sórdidos das chancelarias, dos palácios e das casernas. Teria sido a +debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um simples erro +de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição perante +poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de +iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a +guiar e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja +suficiente para a substituir. + +Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu +Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor, +quando o génio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de +todo isento de ira injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr +termo a esta peste da guerra, _não há senão um remédio_, e é «o geral +abandono dêste sistema de vivermos do trabalho dos outros», poderá +parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a proporções demasiado +mesquinhas um conflicto de proporções gigantescas que é uma dôr e uma +agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do +filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com que êle pretende +fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma +anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos, +ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmação +do profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem +os seus vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em +renascimento assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das +relações sociais, desde a ínfima humildade de um servo que nos comove +até á soberba das potestades da terra que nos ameaçam. + +Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros, +negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre +as nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram +para isto as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e +colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores +podessem subsistir; e são a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir +concessões de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o +trabalho de gente de côr seja explorado até ao extremo mais amargo; +apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas +gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) possam realisar +dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros productos +industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho +destas avidas e deshumanas ambições:--tais são os fins das guerras de +hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós, +porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes +capitalistas e comerciais, que hoje são os representantes das nações, se +funda em o mesmo princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é +encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho +valoríse o que nós podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e +sem vergonha é a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos +animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente +velada todavia por uma aguada de sentimento «cristão» e por uma rede de +instituições filantrópicas para suposto benefício das muitas vítimas que +nós espoliamos. + +«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra +intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos +cobre o corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros, +sem considerar aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois +que admirar se por fim resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto +teatro do drama das nações, e nas letras vermelhas da guerra e do +conflito, escritas através dos continentes? De nada serve dizermos com +uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o +militarismo, animando nós entretanto em nossa própria vida e em a nossa +igreja, ligas do império e outras instituições, o mais sordido e egoista +mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, apenas uma guerra +de um género muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que +se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos +canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma +comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra[6].» + +Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se +reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre--uma derrogação do +princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a +qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e +que o hábito nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em +uma tal simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola. +Acusados e pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o +cristianismo significa na hora presente, até onde chegam as suas bençãos +e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que +influências imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e +latentemente se criaram, e que espécie de revolução, ou, melhor, de +resurreição nos anunciam. + +Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo +tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida +fortaleza, deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem +edificá-la. E aquilo de que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento +da inteligência na humanidade, o conhecimento da história e a observação +minuciosa e exacta da evolução das sociedades, todo êsse honesto labor +das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos +por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas, +tudo isso que é um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi +vão para evitar as provações a que um destino sinistro nos conduziu. + +Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse +que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na _Grande Ilusão_, largamente +comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e +renovado no _Prussianismo e a sua Destilação_, isso bastava para que a +paz e a guerra fôssem um pleito findo. + +Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos +essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e +conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos, +o pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a +grande ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida, +aquelas que representam os fins das sociedades humanas, só podem +alcançar-se pelo desenvolvimento da fôrça política e militar dos +estados, pela extensão do seu território e pelo domínio dos seus +govêrnos. Esta doutrina, proeminente e característica na Prussia, +tornára-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorável +contágio. Para a debelar não bastavam combinações diplomáticas e a +revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de espírito, só por +tendências opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as +academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a propagaram; e só +por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. Não seria +pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa +sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da religião; +debalde sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram sustentar as +crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a liberdade, +quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e a +estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua +comparação, demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos +altares. Assim acontece e se verifica que «o combate pelos ideais não +póde mais tomar a forma de combate entre as nações, porque as questões +morais estão dentro das próprias nações e cruzam as fronteiras +políticas. Não há estado algum moderno que seja completamente católico +ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático ou democrático, +socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo +moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma cooperação +intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros +estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e +economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a +estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões +nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas +pela coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty, +citado por Norman Angell, «ignorar a significação dos congressos +internacionais não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo, +do feminismo, de toda a espécie das artes e sciências, que tão +claramente marcam os seus sinais nas épocas de férias. A nacionalidade, +como fôrça de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a +aproximar-se uma situação em que a fôrça da nacionalidade será +distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as classes se +organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua +fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a +associação atravessa os limites dos estados, que são puramente +convencionais, e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do +género humano em estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em +respeitar um _mujik_ russo porque pertence a uma grande nação, ou em +desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação +pequena». «Viremos a compreender que as divisões reais psíquicas e +morais não são entre as nações, mas entre as concepções opostas da +vida». + +Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente +obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre +os povos será em breves anos uma realidade. E a acção dessa lei +efectua-se com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra +tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A +certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do +que em todas as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez +anos do que primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os +desenvolvimentos de uma geração?». + +Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a +natureza humana não é susceptível de mudar. A história é a negação +radical de semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de +retardatários. Do canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos +autos de fé à liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao espírito +militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se +exteriormente é bem diferente do que foi na sua origem, intimamente +anima-a um espírito que desconhece e repele aquele de pura animalidade +que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de bandos famintos, +devastadores e crueis, passou à comunidade moral e religiosa, e a +civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do espírito +militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater, +cresce-lhes a tendência para trabalhar, e é trabalhando juntos, e não +combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma +terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e +decaíndo, continuamente se sustenta. + +De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento +de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais +sãos e corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a +procriação das novas gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria +Inglaterra, apezar de toda a resistência do espírito da sua raça, corre +o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo +póde prejudicar-se na diligência de o vencer pela adopção das suas armas +e pelo abandôno das virtudes que a tornaram grande, «a aptidão de +iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a sua obstinada resistência +à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua impaciência com a +burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o que se +involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada +para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca, +promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura +substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo modo +uma fórma de parasitismo, promove o retrocesso». + +A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que +ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão +económica--usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa +do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar, +consideração social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia +um mundo em que as cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo +os grandes espíritos da antiguidade não acreditavam que o mundo podesse +ser laborioso, senão quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo +uso da fôrça física, isto é, pela escravatura. Tres quartas partes dos +que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora é a Itália, +eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados à +noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, acorrentados aos +portais. Era uma sociedade de escravos--escravos para combate, escravos +para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta +Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo nas +cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos +espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepção de +uma condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo +impulso económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade, +quando disse que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por +si», a escravidão seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de +chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o +impulso de uma causa abstracta chamada interesse económico, e êles +considerariam semelhante asserção como a de meros teóricos sentimentais. +Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se ha sessenta anos +afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre +êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por certo se +riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de aceleração +a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, mas +principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia, +esta substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais +seguro e rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas +tambêm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que, +por isso mesmo que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o +espírito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fôrça +universal em todo o sentido. + +Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres +competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E +todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o +coração purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar +êsse prodigioso renascimento. + +Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios +poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos +êsse espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda +se ergue como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para +combater o inimigo, a satânica sensualidade que fundou o mundo moderno +em ambições tôrpes e em materialidades e que, é evidente, não abdicará +do seu reino passada a tormenta? Como é que um pensamento religioso só +por si ha-de destroçar os poderes da terra enriquecidos, armados e +incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes +diplomáticos, pela redução dos armamentos, por todos êsses «retalhos de +papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a Alemanha rasgou o +compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Bélgica?!... +Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo destinado +a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em +suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e sujeita-los à +lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas intenções há-de +tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua regra? + +Ferrero, o historiador da _Grandeza e Decadência de Roma_, diz-nos no +último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a +pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o +futuro, dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em +tentativas contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro +por si mesmo se fazia no grande império, e muito diferente daquilo que +se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para +reorganizar em Roma o govêrno aristocrático, acontecia que por si +mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços de milhões de homens +inconscientes do resultado final, as regiões do império que mais +diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, mútuamente +se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta; +interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais +estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma +ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho +interior, invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento +acidental dos territórios feito pela conquista e pela diplomacia se +tornava verdadeiramente um só corpo, animado de uma vontade única». + +Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da +constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma +grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra. +Dedicado à _Workers' Educational Association_, e por isso posto em +termos de ser compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos, +colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e +Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na sedução de abstrações +e idealismos, procura êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a +crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito +manifesto muito instrue os menos versados nas questões políticas, mas +nem por isso menos interessados e dedicados na determinação final de uma +situação das nações da Europa, que terá de ser de larguissimas +conseqùências na fortuna ou na desgraça dos povos que elas compreendem. + +Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio +da lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois +processos. + +Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em +tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de +tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e +em muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da +sua fé como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na +impossibilidade de serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a +perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem, +onde estão os exércitos que tornam soberanas e uma realidade as decisões +dos tribunais? Quando uma nação, armada e grande, afrontar as obrigações +dos _retalhos de papel_ e os rasgar, quem tornará de bronze a vontade +dos tribunais e converterá em mármore a precária consistência do papel? +Um revoltado bastará para atraiçoar as intenções mais firmes e felizes, +e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fôgo. + +Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e +preparar o caminho para progressos ulteriores, mas só por si não podem +dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação satisfatória para +o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários govêrnos soberanos e +em bem das suas nações». + +Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem, +nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário, +merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir +valôr que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as +suas faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos +beneficios; pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito +colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo +que póde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, não em a +maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos +para desafiar a violência. Pressupõem um mapa do mundo traçado +definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações nacionais dos +povos. Pressupõem um _status quo_ que se mantem, não simplesmente, como +o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação seria +inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente +equitativo. Pressupõem uma base democrática de direitos civis e +representação idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem, +finalmente, uma opinião pública educada, incomparavelmente menos +egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos +estreitamente nacional do que aquela que até aqui tem prevalecido». + +O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de +extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a +velha estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos. +Espera resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos, +mas do crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das +próprias nações no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o +estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente +uma refutação definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua +das nações. Espera a expressão do govêrno do mundo na ordem externa, +daquilo que podemos chamar o _princípio da República_, do grande +princípio de lord Acton, do estado composto de nações livres, do estado +como um corpo vivo, que vive pela união orgânica e livre actividade dos +seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de acção no +alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis entre os povos +das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo patriotismo +foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme fundamento +das mais antigas lealdades». + +«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem +ser resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e +guerra; só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de +cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigências mais +altas do que os seus interesses seccionais--as exigências de direitos +civis comuns e do interêsse da civilisação. Nisto, na união e +colaboração das diversas raças e dos diversos povos, é que o princípio +da República encontra o seu campo peculiar de operação. Sem êste +princípio... o mundo será o caos que hoje é»[7]. + +Eis aí a lei suprema da história--a preponderância da actividade +interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações, aos +decretos, às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e +dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes +movimentos da humanidade. Roma e a constituição jurídica e moral do +mundo latino que dela nasceu e é seu espelho, foi apenas o maior exemplo +da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raças, duas vezes +repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade política da +civilisação, e depois refazendo-a, quando, decrépita, carecia de ser +renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas +sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas à mesma +lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de +fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes. + +Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo, +será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes +do resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que +ninguêm tem consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação. +Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto +a sua vitória a isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou +roubar o seu domínio. + +Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e +desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua +obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito +correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir. +Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só +produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde +ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo +inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho +subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o +haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os +pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as +multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e +de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de +agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças, +conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as +amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis, +que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a +vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão +libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão +então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados +serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o +respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as +nações. + + + + +Da arte de gastar e suas responsabilidades + + +«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam; +hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que +nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos. +Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja +impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que, +começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o +caminho de melhores hábitos. + +«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar +desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte, +quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas +despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus +rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação +que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a +produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise +o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu +gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos +inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem +maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles +que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por +conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por +que hão-de usar êsse poder.» + +A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o +titulo de _Spending in War Time_, o professor E. J. Urwick publicou, em +Oxford, na colecção de _Papers for War Time_, dirigida por W. Temple. + +Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação +dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do +ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se +arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas +angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é +simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a +ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções +por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e +as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos +entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e +de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em +tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer +«a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a +confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no +método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à +missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e +instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura. + +Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de +aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e +fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos, +virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que +o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e +o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a +solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com +uma dolorosissima evidência. + +O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a +exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e +extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar +para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são +reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para +o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios +indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de +facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e +êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso +com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus +haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão +sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica. + +E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente? +Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades +em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus +regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para +acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as +somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de +indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que +lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades, +disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por +longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram +inaptos para outras profissões? + +A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os +que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos +ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações, +alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e +causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos +ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam +dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam. + +A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos +causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a +toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas +sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam, +constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela +perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam +as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se +escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre +acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem +sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela +presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da +lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos +possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a +distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos +e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe +discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências +ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como +obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos +trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência +social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia +de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros +obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e +traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o +comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos +emprego a muitos braços. + +Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam +o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes +ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso +escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a +consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de +capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição +económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz +padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por +exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras +empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a +situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de +trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro, +cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital +que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na +maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e +cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se +suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São +infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de +retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia +que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos +acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos +casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados, +porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o +afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades, +compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o +género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes +pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a +produzir. + +Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick, +«crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um +assinalado serviço à indústria, _beneficiando o comércio e dando +emprego_. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas +é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade +reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que +agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É +indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a +inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos, +estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a +proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra +cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido +rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem +espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos. +No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme +de dinheiro se está gastando em panos de _khaki_, resultando daí que +correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital +(incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a +produção dos uniformes de _khaki_. Ora esta direcção do trabalho e do +capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem +para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a +que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente +especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por +conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é +mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente +rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos +fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos +fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com +todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital +altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles +operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro +trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser _khaki_; o ourives +hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para +construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais +dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos +dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e +dependem literalmente de nós, neste sentido--fômos nós que os convidamos +a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as +nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este +modo. São, por conseguinte, os _nossos_ trabalhadores, os _nossos_ +dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no +momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão +arruinados». + +De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom +dizer:--«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as +despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:--«E os +trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas +supérfluas de que hão-de viver?...» + +«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma +perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de +uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do +indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os +trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica +de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não +saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem +fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente +se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de +todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e +processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem +imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria +riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando +dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou +consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem, +a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e +indústria são em geral sustentados só por um modo--pela criação actual +de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e +criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os +trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos +sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto +aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o +conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer +riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a +consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são +exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os +comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar, +a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de +comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a +preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha. +Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou +podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a +conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada; +mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se +obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence +êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está +inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos +gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na +proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente +realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no +quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se +pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no +facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que +gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos +outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o +quer que seja a êsse bom resultado. + +«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas +vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso +onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os +trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e, +com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a +soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada, +mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo. +E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum +individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão +total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma +verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras +que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos +nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa +comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas +vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco _shillings_. Ora nos +tempos _bons_, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de +longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os +rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a +relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros, +suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como +antigamente». + +Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve +e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido +por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o +seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de +gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no +caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o +sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido +habitos maus, está provado pelo facto--e êsse é o sinal de todo o habito +máu--de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal +sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes +é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e +parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide +da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena +classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais». + +Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos +dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela +nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se +imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem +moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal. +Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar, +a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa +e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no +dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela +primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade. +Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está +mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões +individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem +que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas +sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a +maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por +sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as +soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente +conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes. + +Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura; +mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que +a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e +delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a +justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa +a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua +honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu +contentamento e felicidade. + + + + +O Cavador e o Profeta + + +Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada, +porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de +assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter +irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e +do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia +infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de +estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o +amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a +consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o +domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a +sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há +insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a +teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e +estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as +raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos. + +Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à +velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma +destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do +rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores, +e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem +sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e +acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas +infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e +repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis +ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se +êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai +no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não +permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e +outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar +seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se +atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu +cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a +aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas +vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e +aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra +injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna +e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo +vago será talvez um dos bordões da humildade. + +E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A +melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o +lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a +riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses +caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as +sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em +nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o +seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E +depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras, +e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de +perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da +pobreza. + +Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque +tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como +diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses +malfadados passos. + +Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito +que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a +brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a +sua conseqùência. + +Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência, +dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não +havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava +maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de +facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão. +Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a +poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as +inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas +terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez, +serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor. +Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um +fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição +e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus +criados e servidores. + +Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade +e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por +elas não se afreimava. + +Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha +a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava +claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a +mais penetrante arte de persuadir. + +Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado +desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava +no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos +animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo +terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era +escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até +onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo +ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a +afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes +superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia. + +Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos +ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham +levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia, +consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto +rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que +no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o +tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo. + +--«Porque?» + +--«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de _o_ ganhar, precisa +de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar». + +E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda +trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem +para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma +indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso +essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência +na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e +económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe +outra cousa. + +Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a +poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia +e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua +lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da +taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe +parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros +na pastagem. + +Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para +êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe +com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é +apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias. + +Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas +provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A +vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade, +uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma +independência de todos os instinctos na suma vibração das suas +energias--uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e +aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas +grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito +misterioso. + +Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito +aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de +vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que +eu não sou capaz de saber. + +Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre +de sangue o mundo? + +--«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem +trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem +agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo +comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de +costa direita, quer comer sem trabalhar». + +Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há +mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus +apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores, +_caveant consules_! tomem nota os generais e os seus imperadores, +andam-lhes inimigos na fortaleza. + +Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias +inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito +longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá +ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos +incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes +pedir impostos e os filhos para a guerra». + +Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o +génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas +palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta +ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e +identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e +consubstanciação em uma única visão?!... + + + + +Aparições + +Mazzini + + +É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o +que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da +salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento +e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles +importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de +uma fortuna fácil e prolongada. + +Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais +remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu +destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes +incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela +morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra +haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam +os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o +pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas +que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o +seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das +cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em +que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou, +sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e +esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos +cara, e esperança da glória a que nos conduzem. + +Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa +o nome de Mazzini. + +Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela +obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado +os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o +assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades. +Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam +ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de +homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini +jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e +confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a +legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores +rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o +fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa +fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos +da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs. + +Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na +hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do +mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à +contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer. + +Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e +atentamente corri a ouvir os clamores da aparição. + +Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!... + +Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si, +independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O +universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus, +uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia +divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o +triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza +das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência +impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as +realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único +consistente, de todas as edificações que tentassemos construir. + +Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu +tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu +que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos +estados--«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho +disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e +de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através +do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia». +Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam +uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto, +de todo perturbaram a fortuna da Europa. + +Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a +vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma +certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de +crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as +estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e +mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a +todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder, +viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso +único dever». + +A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história +como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do +presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos +precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem, +sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder, +não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus +e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a +insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que _há um +só Deus e todos os homens são filhos de Deus_. Foi a promulgação destas +duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem +soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma +alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão +a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção +quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras +sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no +cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal +compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque _da +maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma +mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e +cada um de nós membros uns dos outros_. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c. +XII, vv. 4, 5). _E haverá um só rebanho e um só pastor_ (Evangelho de S. +João, c. X, ver. 16)». + +A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em +toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção +religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de +egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de +ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre +o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa +onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada +externamente; povos que dizem que _a verdade é uma cousa e a utilidade +uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática_. Êsses +países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento, +opressão e anarquia». + +A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua +substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais. + +«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria +fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação +opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao +indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por +conseguinte, não só porque é uma _necessidade_ da nossa vida, mas tambêm +porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros +e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam +antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma +educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as +faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e +mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da +humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais +rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e +intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por +isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser +inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a +natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos +necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades +mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.» + +Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu +valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e +produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a +_instrucção_, desacompanhada de um gráu correspondente de _educação_, é +um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um +mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos +entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina». + +Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma +família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo +pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu». +Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver +toda a verdade que nela se encerra. + +«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo, +mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no +próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do +Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor +da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para +os sacerdotes a comunhão nos _dois géneros_». + +«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação +superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado +morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela +ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir +naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a +negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião +eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto +de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de +sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre +os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material, +tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e +nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os +finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do _fait +accompli_». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude +republicana». + +Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à +sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão +que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois +«a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós +temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente +dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades +humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem) +aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e +todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela +porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma +realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção +divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender». + +Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes +ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da +família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a +salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina». + +«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação +europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e +trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da +sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa +sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a +ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande +missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou +compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da +vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do +govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o +elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos +semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura +pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da +linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma, +as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a +fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de +misericórdia»--tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da +egreja. + +Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há +desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época, +estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a +de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em +inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais +sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma +religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo +«podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa +dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis, +aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única +escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande +e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor. +Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela +representava, e não se encontraria entre eles um só mártir». + +«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como +scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias, +desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos +altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados. +Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida +quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra, +para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias +estranhos a toda a concepção religiosa». + +A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição +da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas +relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no +espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes +trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo +e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para +aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o +quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa +alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de +concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira +para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo +não podem exercer os seus direitos». + +O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se +passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar, +por _desenvolvimento_, pela _modificação_ perpétua dos elementos que +manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas +épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos, +deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não +teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de +uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou +além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são +os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando +os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de +todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como +sempre fôram os instinctos da humanidade». + +E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento», +sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a +deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer +organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e +estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos +modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser +qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade +nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e +indestructiveis. «Algum dia fomos _escravos_, depois _servos_, depois +_assalariados_; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres +produtores e irmãos na _associação_--associação livre e voluntária, por +nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se +conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela +autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições +individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que +como seres de livre e espontânea vontade». + +Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das +sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é +eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um +homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde +só respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as +reformas são inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um +sepulcro branco, nada mais». «Só os princípios edificam». «Onde +quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revoluções, temos +sempre de ir ao conhecimento e à pregação dos princípios. O verdadeiro +instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor +_moral_». Não suprimiremos o factor económico nem é possível suprimí-lo, +mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do govêrno da sua +influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias do +individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta +perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão dos _apetites_ +da espécie humana». A cada estado do progresso devia corresponder «uma +melhoria positiva da condição material do povo»; mas sustentava que «os +interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, dependem dos +princípios, não podem ser a _mira_ e o fim da sociedade. Porque sabiamos +que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos lembramos +que, quando o factor _material_ começou a apossar-se de Roma, e o dever +com o povo se reduziu a dar-lhe _pão e jogos_, Roma e o seu povo +apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na +Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada, +precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil +que separa dos princípios o bem-estar material». + +São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma +revolução é a passagem de uma ideia da _teoria_ à _prática_. Digam os +homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca +causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a +tributação opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são +mais ou menos ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem +a sua origem no espírito, nas próprias raizes da _vida_; não no corpo, +no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma +filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição +histórica da humanidade». + +Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras +de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos +na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens +as emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão _tornando-se, êles +mesmos, melhores_; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão +_merecendo-os_ pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os +procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido, +alcançá-los hiam; mas, se os procurassem em nome do _bem-estar_ que os +materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos +momentaneos, seguidos de desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles +que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambêm +êsses procuravam o seu _bem-estar_ e para o obterem queriam unir-se com +eles, como um elemento de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer; +mas, logo que com o seu auxílio tivessem obtido o bem estar, +abandoná-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista. +Era essa a história do último meio século e o nome dêsse meio século era +_materialismo_». + +As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e +organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no +conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento. +Por vezes, vêem a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a +considerá-la uma triste _necessidade_, e deixam às gerações futuras o +cuidado de lhe encontrar remédio. A indiferença e o esquecimento são +doces para o homem que se sente no santuário da sua família, cercado de +faces sorridentes, emquanto lá fóra sopram as rajadas do inverno e a +neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças da janella dupla. Esperareis +erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expressão +da _situação económica_ e do que deva substituí-la em uma sociedade bem +organizada? Esperareis arrancá-los do seu repouso egoista meramente pela +análise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram? +Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitárias; não lhes +peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? Falam-lhes em nome +de _interêsses_. Não é o gozo o primeiro dos interêsses? E êles gozam». + +A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será +tambêm um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais +habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela +delimitação do território, pelo agregado e conjugação das fôrças +económicas e por qualquer combinação de actividades políticas. «A +nacionalidade é a crença em uma origem e um fim comum. Se hoje fôr +fundada em um interêsse, pode ser derrubada amanhã por outro interêsse +mais ousado e mais poderoso». «Só quando o evangelho da fraternidade de +todos os homens de uma nação fez da alma santuário de virtude e amor, +quando a grande concepção da nacionalidade deixou de se encontrar +reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para base dos seus +direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse que +sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será +possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus». + +O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso +correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o +grito eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício, +por instrumento os povos, e por fim a humanidade». «O pensamento +religioso é o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e +alma, o seu espírito e o sinal externo. A humanidade só existe na +consciência da sua própria origem e no pressentimento dos seus próprios +destinos». Fora do trabalho da reforma moral «toda a organização +política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se «do nosso trabalho +banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os povos». «O +elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande revolução +está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim». + +Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto +vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação». +Acreditava em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de +existir, que compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma +influência continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm, +no seu aspecto físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para +Mazzini, era por igual essencial e simples. + +«Cristo disse:--«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com +afeição fraterna». E disse tambêm:--«Entre vós será o primeiro aquêle +que fôr o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se compreende +nestas palavras. Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana, +actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifício, a afirmação da +doutrina da igualdade, a abolição de toda a aristocracia, o esforço de +perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a +perfeição podem existir--tudo assim se resume naqueles dois preceitos». + +«Toda a revolução social é essencialmente _religiosa_. Toda a época tem +a sua _crença_. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar a +humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que +superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o +_sentimento religioso_, é desconhecer a significação dessas palavras, +querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como +fôrem as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em +seu coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola». + +Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais +traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta, +talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com +que opôz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se +combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que +provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens, +arrastados de escravidão em escravidão, de miséria em miséria, de +tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os +transviava e perdia; ignoravam que «o unico padrão da vida é a ideia do +dever, santa, inexorável, dominante». + +«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os +estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e +uma destruição perante os povos. O fim da política era a aplicação da +lei moral à constituição civil de uma nação na sua dupla actividade, +doméstica e estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à +organização do trabalho no seu duplo aspecto de produção e +distribuição». + +«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas +representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim +de todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos +deveres cumpridos; podiam resumir-se em um só direito--que os outros +cumpram comnosco o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a +soberania está em nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é +sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, é +impotente ou nula e não representa outra cousa senão tirania.» «A +sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu, é apenas uma sociedade de +seguros mútuos». Partindo da filosofia da liberdade individual, +destituiu de fecundidade êste _princípio_ baseando-o, não sôbre um dever +comum a todos, não sôbre a definição do homem como uma criatura social +por essência, não sôbre a concepção de uma autoridade divina e de um +designio providencial, não sôbre o laço que une o _indivíduo_ à +humanidade do qual êle é um factor, mas sob a simples _convenção_, +confessada ou subentendida». + +«Carecemos de ensinar não o _direito_, mas o _dever_, acordar para +melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo +decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da +missão dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até +agora está esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de +crença, de pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não +procurou êle salvar pela crítica um mundo moribundo. Não falou de +interêsses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos +interêsses. Prégou no santo nome de Deus certas verdades até então +desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito séculos depois +da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, mudaram a face da +terra». + +«Três cousas eram sagradas--tradição, progresso, associação». + +A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância +presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente +devida a uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde +podemos deduzir e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade +encontrar-se hia no «estudo severo da tradição universal que é a +manifestação da vida na humanidade». A humanidade, dizia, invocando e +desenvolvendo o pensamento de Pascal, «é um homem que aprende +continuamente. Os indivíduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem +que produziram, não se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os +homens que passam sôbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de nós +nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças que são a obra de toda a +humanidade antes de nós; cada um de nós traz inconscientemente algum +elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe +segue. A educação da humanidade cresce como aquelas piramides orientais +a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia, +chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a +educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu +inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente, +continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé, +passo a passo, a humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida, +da sua missão, de Deus e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se +completam e consubstanciam, «onde encontramos a voz permanente da +humanidade harmonisando-se com a voz da nossa consciência, aí teremos ao +nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade». + +O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É _pensamento_ +e _acção_. As teorias podem modificar o primeiro; não podem criar o +ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em Mazzini +confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, o +poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os +juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as +inumeráveis e prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália +unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma, +inspiração, e o seu braço executor, não houve risco a que se esquivasse, +não houve penas que não experimentasse, desde o aturado exílio que em +condições de pobreza, às vezes extrema, o apartou da família, da pátria +e dos amigos, até à condemnação à morte e porventura à tentativa de +assassinato que o perseguiram como milhafres. Não houve contrariedade ou +ameaça que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de +martírio. «Particularmente aborrecia o egoismo, tão popular com a gente +de hoje. Não gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que +lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e à cultura para lhe +salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito e da alma, mas era sempre +do espírito e da alma dos outros». E «foi conspirador porque era muito +fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vêr atraiçoados, muito +honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que +aceitasse a paz sem honra»[9]. + +Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica +inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes +perigosas nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos +que com o seu dinheiro não faziam bem». Um instinto seguro os advertia +de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversário perigoso +dos apanágios e privilégios que ensoberbeciam as aristocracias políticas +e eclesiásticas. Cavour e Luiz Napoleão Bonaparte eram irmãos nos +sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia +com o conflito de ideais que o amor do apóstolo e a ambição do +aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O +profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o cristianismo é a +negação radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias, +divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos homens teem +inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as suas +cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e +económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o +monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução, +em diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa +que caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e +inumeráveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas, +no coração e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta +religião os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e +mostrando-nos uma outra razão da vida, adjudicando toda a nossa +actividade intima e externa a um outro espírito. Não faz sentido ter e +invocar como princípio de acção e dedicação o meu senhor», ou êle seja +rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão de industria, quando senhores e +vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e +seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos igualmente +humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei de +comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu +só porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as +comunidades bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos +e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente +se fundaram e viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou +religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por +muitos modos e em diversos lugares, se persistem e são uma fôrça +espiritual efectiva aquêles sentimentos de fidelidade, lealdade, +dedicação e sujeição que eram seus vínculos e instrumentos, se essa +ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando já +terminou a religiosidade íntima que era a sua essência e alma, é sómente +porque, convertida em tradições políticas, estéticas, morais e +eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou, +póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prática, +um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o remanescente +de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é a +primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o +império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os +que são coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos +cofres à prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é +de efeitos práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma +escravidão eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu +aquela outra consciência de escravidões mortais, condicionadas, +contingentes e transitórias, por longos séculos decisivas e supremas. +Mazzini, que por ser fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou +as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes +senão anatemas. + +Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha +de ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos +absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo. +Amaldiçoado dos despotismos, por isso que pedia a liberdade, não podia +ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, religião e dever +perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente viam e queriam +o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez sugere e +aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e se +desfaz. + +Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e +sobretudo a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo +da fôrça e da riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias, +cimentando os alicerces de um grande império e aí se oferecendo à +imitação das nações, emquanto se insinuava nos laboratórios e nas +bibliotecas e aí endurecia o coração e envenenava o espírito das novas +gerações. Nesse momento, Mazzini era um vencido; com o seu débil corpo +se sepultavam as suas ilusões. Liberdade, religião e o povo que +inconscientemente as guarda e serve, iam de tropel calcados e esmagados +no culto de multíplices escravidões, no desprendimento de Deus e da sua +lei, na fé vil de que o mundo era um banquete do qual só ao nosso ventre +tinhamos a dar contas. + +Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto, +sabedor e previdente, tão abundante de servos envaidecidos da própria +servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus +anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as +primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que +se afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia, +escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e +condenação das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens. + +Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico +das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da +sua glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra +será eternamente o inferno ensanguentado a que descemos. + +FIM. + + + [1] Artigo do _Manchester Guardian_. + + [2] Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de + Moscou, no _Hibbert Journal_. + + [3]_Millgate Monthly_, março de 1915. Notícia de um discurso de + Oliver Lodge, em Bradford. + + [4] Percy Dearmer. _Patriotism._ Humphrey Milford: Oxford Unversity + Press, 1915. + + [5] William Temple. _Cristianity and War._ (Humphrey Milford; Oxford + University Press, 1914). + + [6] E. Carpenter, _What will Stay the Plague?_ Artigo publicado em + _The Christian Commonwealth_, de 9 de dezembro de 1914. + + [7]_The War and Democracy_, por W. Seton--Watson, J. Dover Wilson, + Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood. (Londres; Macmillan, 1912). + Pag. 374 e seg. + + [8] O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o + principalmente, quasi exclusivamente, em dois volumes da _Everyman's + Library_. (Londres; J. M. Dent & Sons), um que contêm versões dos + escritos de Mazzini, _The Duties of Man and Other Essays_, e o outro + que é a narração da sua vida e a crítica das suas doutrinas, + intitulado _The Life of Mazzini_, escrito por Bolton King. Esses + dois volumes constituem só por si uma lição moral e política e uma + inspiração de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem os + divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente serviço às + letras pátrias, e sobretudo à educação das novas gerações, tão + desiludidas das seguranças e presunções materialistas que encontram + no ocaso, como apressadas em descobrir novos e mais serenos + horizontes para que se encaminhem. + + [9] H. Demarest Lloyd. _Mazzini and other Essays._ Pag. 4 e 6. + + + + +Indice + + + Prologo + + Convulsões dum enfêrmo + + Ganhos e perdas + + Revisão de valores + + Da arte de gastar e suas responsabilidades + + O Cavador e o Profeta + + Aparições + + + + +DO MESMO AUTOR + + _Vozes do meu lar_, 1 vol. + + _Na paz do Senhor_, romance, 1 vol. + + _Reino da Saudade_, romance, 1 vol. + + _Via Redentora_, 1 vol. + + _Apostolos da Terra_, 1 vol. + + _Sonho de Perfeição_, romance, 1 vol. + + _S. Francisco d'Assis_, 1 vol. + + _José Estevão_, 1 vol. + + _Alexandre Herculano_, 1 vol. + + _Rogações de Eremita_, poemetos em prosa + + _Salmos do Prisioneiro_, 1 vol. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GUERRA *** + +***** This file should be named 26915-8.txt or 26915-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/9/1/26915/ + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Depoimentos de Herejes, por Jaime de Magalhães Lima</title> + <meta name="AUTHOR" content="Jaime de Magalhães Lima"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + font-style: normal; + } + .pagenum a { + color: silver; + } + .numeracao { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 85%; + text-align: right; + } + h1 { text-align: center;margin-top: 3em;} + h2 { text-align: center;margin-top: 1em;} + #capa {text-align: center; border: solid 1px #000000; width: 600px; margin: auto;} + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + #notas {font-size: 0.8em; text-align: justify; margin: 1em;} + a {text-decoration:none; color: #000000;} + #indice {width: 68%; margin-left: 15%;} + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Guerra + Depoimentos de Herejes + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: October 14, 2008 [EBook #26915] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GUERRA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + + + + + +</pre> + + + +<div align="center"> +<p>JAIME DE MAGALHÃES LIMA</p> + +<p style="font-size: 3em;">A GUERRA</p> + +<p>DEPOIMENTOS DE HEREJES</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> +F. FRANÇA AMADO, EDITOR <br> +COIMBRA. 1915.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div align="center"> +<p style="font-size: 2em;">A GUERRA</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">Composto o impresso na Tipografia França Amado, <br> +Rua Ferreira Borges Coimbra.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div id="capa"> + + +<p style="font-size: 1.2em;">JAIME DE MAGALHÃES LIMA</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em;">A GUERRA</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">DEPOIMENTOS DE HEREJES</p> + +<p><img align="bottom" border="0" +src="images/famado.png" alt="Logotipo do editor"></p> + +<p style="font-size: 1em;"> +COIMBRA<br> +F. FRANÇA AMADO, EDITOR<br> +1915. +</div> + +<div id="indice"> +<h2><a name="SECTION00800000000000000000">Indice</a> </h2> + + <p><a name="tex2html19" href="#SECTION00100000000000000000">Prologo <span class="numeracao">V</span></a></p> + <p><a name="tex2html20" href="#SECTION00200000000000000000">Convulsões dum enfêrmo <span class="numeracao">1</span></a></p> + <p><a name="tex2html21" href="#SECTION00300000000000000000">Ganhos e perdas <span class="numeracao">25</span></a></p> + <p><a name="tex2html22" href="#SECTION00400000000000000000">Revisão de valores <span class="numeracao">53</span></a></p> + <p><a name="tex2html23" href="#SECTION00500000000000000000">Da arte de gastar e suas responsabilidades <span class="numeracao">113</span></a></p> + <p><a name="tex2html24" href="#SECTION00600000000000000000">O Cavador e o Profeta <span class="numeracao">131</span></a></p> + <p><a name="tex2html25" href="#SECTION00700000000000000000">Aparições <span class="numeracao">141</span></a></p> +</div> + +<p> </p> + + +<div id="corpo"> +<p><span class="pagenum"><a id="pag_V" name="pag_V">[V]</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION00100000000000000000"></a>Prologo </h1> + +<p>Um direito o nosso tempo conquistou plenamente—o direito de heresia. +Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje. Pela +sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por momentos +imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram com a rapidez e +mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e esperanças mal fundadas. +</p> + +<p>O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as +ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas, todos +os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião, da +filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta<span +class="pagenum"><a id="pag_VI" name="pag_VI">[VI]</a></span> afirmação o +nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida +puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no +govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade +independente de restricção e de crítica—êsse logrou, porêm, prevalecer +atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito multiplos e +vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das próprias cinzas. +Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas, as que se adoram nos +templos como as que se lisongeiam nos palácios, é legítimo duvidar da crença +religiosa como da crença política, podemos sem ofensa dos homens e +respeitando a nossa consciência desconfiar de muito civismo e de muito +patriotismo envelhecidos e envilecidos por diversa corrupção, podemos duvidar +da justiça, e até da dignidade, de muito orgulho nacional, pervertido por +íntima ruindade. É isso tão legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, +como o desdem das iras olimpicas de Jupiter, ou a revolta<span +class="pagenum"><a id="pag_VII" name="pag_VII">[VII]</a></span> contra as +fogueiras da Inquisição, ou a libertação da tirania de todos os cesares, +sejam êles coroados por direito divino ou aclamados pela insensatez e pela +ingenuidade da soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; +carecemos de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum +dia poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma +modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito +heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em ignominia, +muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em merecimento e honra, muita +virtude foi crime, muito crime foi santidade, muita prudência foi loucura, +muita loucura foi acerto.</p> + +<p>O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde +corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse +direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior havia +constituído e estabelecido firmemente em o<span class="pagenum"><a +id="pag_VIII" name="pag_VIII">[VIII]</a></span> nosso espirito; foi um ajuste +de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra que êle +soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem, a riqueza, o +nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as egrejas, o império, e +até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma revisão sevéra dos +respectivos valores e a uma determinação dos seus caracteres e +responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente alteradas na sua +nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde utilidade. Palavras que +eram um paládio transfiguráram-se em espéctros, muito resplendor se apagou, +muita treva se iluminou, muito poder se arruinou, muito fetichismo se desfez. +</p> + +<p>De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a uma +influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi nestas folhas +umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que não pouco poderão +esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de angustia, os que as +meditárem.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_IX" name="pag_IX">[IX]</a></span>Umas +foram já impressas no <i>Diário de Noticias</i>, de Lisboa; outras, o maior +número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me alarguei +ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se referem à <i>Arte +de Gastar</i> uma versão quási completa do magnífico opúsculo do sr. E. J. +Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor sr. Humphrey Milford a +autorização necessária para a tradução, que êle bondosamente me concedeu, com +uma gentileza pela qual confesso aqui o meu reconhecimento.</p> + +<p>Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o mundo +se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um desmentido +rápido e radical.</p> + +<p>Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do +respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos +surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros +despotas aqueles mesmos que clamaram pela<span class="pagenum"><a id="pag_X" +name="pag_X">[X]</a></span> libertação dos oprimidos e no seu clamor +conduziram os exercitos às batalhas.</p> + +<p>Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita +desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de despotismo +para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos os paises +interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta de todas as +liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as forças e de todas +as actividades sociais, uma violência sem limites, involvendo vidas e bens em +uma temerosa vertigem do estado. De uma tal situação ficam resíduos; de +semelhante incêndio restarão, pela força das cousas, ruínas fumegantes. O que +era temporário tornar-se-á facilmente permanente, máu foi ter-se fundado; o +que se decretára para salvação da republica, astuciosamente se continua para +vantagem das dinastias e das oligarquias. Houve uma fermentação cuja +vitalidade reanimou muitos elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão +muito alêm do periodo que<span class="pagenum"><a id="pag_XI" +name="pag_XI">[XI]</a></span> a levantou, compreendendo por simples contágio +muita cousa que lhe era estranha.</p> + +<p>Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos pesará +duramente na vida das nações empenhadas na guerra.</p> + +<p>A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos +se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e quanto os +números podem somar. Não há arimética possível para volumes desta largueza e +complexidade.</p> + +<p>Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar uma +restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos e em +termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E êsse +estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta calamidade que +nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro modo tem +probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade na imprensa +inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no <i>Hibbert Journal</i> sôbre +«a tirania<span class="pagenum"><a id="pag_XII" +name="pag_XII">[XII]</a></span> das cousas que são meramente cousas», mostrou +como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço dos +homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo e o +industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em uma fonte +comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano pelo culto do +maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na vida espiritual do +mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o industrialismo deve +afinal ser contado, em si e por si, entre as causas positivas da guerra. +Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho dos povos, não servirá para +acentuar as suas rivalidades, para cavar mais fundas as suas invejas, e para +inflamar as suas paixões predatórias?»</p> + +<p>Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus +despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com que +o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forte <span +class="pagenum"><a id="pag_XIII" name="pag_XIII">[XIII]</a></span>da guerra, +que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que nos campos de +batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte que as oficinas e +os laboratórios criavam e lhes mandavam.</p> + +<p>Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de +alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências financeiras, +ansiosas por uma organização económica fácil e abundantemente colectável, se +houverem de ser consideradas as necessidades fiscais dos estados esmagados +com dívidas fabulosas que se contraíram rapidamente, mas que levam anos a +saldar, muitos anos e muito penosos, não será de estranhar que a guerra, no +seu seguimento imediato, robusteça aquela constituição do trabalho que, +seguramente, por uma já longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais +perfeita negação da liberdade, a mais fatal das opressões.</p> + +<p>Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a +formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa é<span class="pagenum"><a +id="pag_XIV" name="pag_XIV">[XIV]</a></span> certa desde já nos resultados da +guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas económicos ser +arquitetados e fundados como melhor convenha aos caprichos dos reis, à +fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos seus sortilégios +cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça, nos seus efeitos +concretos, radicalmente contrária aos sonhos de liberdade que inflamaram os +seus incendios e precipitaram as suas hecatombes. Mas determinou uma +renovação da consciência, uma filosofia, uma moral, um modo de ser economico, +um renascimento íntimo, que são de durar e crescer, invulneráveis às artes +dos imperadores e ao poder dos vendilhões, superiores ao seu domínio.</p> + +<p>A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o +mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande +acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum<a +name="tex2html1" href="#foot363"><sup>1</sup></a>.» Foi<span +class="pagenum"><a id="pag_XV" name="pag_XV">[XV]</a></span> essencialmente +uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e serão transitórias as +alterações ou a persistência da ordem material do mundo.</p> + +<p>O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição +das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em +relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes +espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo «invisiveis», +sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto êles andavam +imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste mesmo momento em +que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo, destruindo tudo na +sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso bem-estar—eis que os +cegos vêem e os surdos começam a ouvir. Obscuramente pressentimos a +aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o cáos. Quasi podemos dizer que uma +scentelha desprendendo-se da tempestade universal nos revelou subitamente +um<span class="pagenum"><a id="pag_XVI" name="pag_XVI">[XVI]</a></span> novo +aspecto do mundo... Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, +distinguimos a presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não +prevalece; e é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é +sempre a mesma—no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra +a morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o dissolveriam. +Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de aparições que nos +surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua conquista final no +futuro que encontramos a inolvidável significação da guerra presente<a +name="tex2html2" href="#foot364"><sup>2</sup></a>».</p> + +<p>Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi +neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género, valerá +tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro pensamento. +«Parecia dominar como filosofia<span class="pagenum"><a id="pag_XVII" +name="pag_XVII">[XVII]</a></span> na hora presente. Tinha a seu favor uma +certa força. Estamos em um mundo material, e os que estudam o organismo +corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma espécie de conclusão de +que êle é a existência inteira. Por isso erram. A matéria é muito importante, +mas por modo algum é a totalidade do universo. Há dois aspectos do universo, +o espiritual e o material, e um tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde +admitir-se que o aspécto material domine; tem de servir as necessidades do +espírito. A nota do universo material é repetição; a nota do universo +espiritual ou psiquico não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na +história do nosso próprio mundo—primeiro os animais inferiores, depois os +animais superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos +ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O +próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o +indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temos<span class="pagenum"><a +id="pag_XVIII" name="pag_XVIII">[XVIII]</a></span> de compreender que somos +todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós, ou para +cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta é a nota do +universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada vez maior. A +soma de vida no universo parece crescer continuamente, emquanto a soma de +matéria e energia não cresce; esta é constante. A inteligência póde crescer; +póde crescer a felicidade; póde o conhecimento espiritual atingir alturas +presentemente inacessiveis<a name="tex2html3" +href="#foot365"><sup>3</sup></a>».</p> + +<p>Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais. +Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra +trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus +lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa nas +sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendências<span +class="pagenum"><a id="pag_XIX" name="pag_XIX">[XIX]</a></span> de liberdade, +de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram em proporções +assombrosas os tesouros da vida do espírito, único progresso possível, único +que importa o domínio da matéria, mesmo quando a materialidade se reputa +fortalecida e inexpugnável pela solidez das suas filosofias e sistemas, pelo +poder das armas e da riqueza, e pela prepotência triunfante e orgulhosa sôbre +as infinitas escravidões que a servem e são a sua mais funda aspiração e o +seu mais eficaz instrumento de reinar.</p> + +<p>Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente mais +fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e económica em que +tiver de rematar os combates, será a jornada moral e religiosa a que a guerra +nos conduziu. Não há poderes do mundo que a perturbem. Porventura será mais +activa quando êles menos a favorecerem. A necessidade de reacção acelera-a e +fortifica-a.</p> + +<p>Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da +«futilidade»<span class="pagenum"><a id="pag_XX" +name="pag_XX">[XX]</a></span> que hoje são, uma infantilidade cruel, de que +nos lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na +mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das +vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da razão +a <i>Eneida</i> será porventura um conto para crianças, e os herois que nos +exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que entrevemos a +rudeza da edade da pedra.</p> + +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_1" name="pag_1">[1]</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION00200000000000000000"></a> <br> +Convulsões dum enfêrmo </h1> + +<p>Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração de +guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e gananciosa +dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado por longos anos +de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos seus prazeres e +complexas sensualidades, julgou no auge da indignação que um pensamento +monstruosamente scelerado meditára e consumava um «crime contra a +civilização», o maior e o mais odioso que jámais se sonhára e praticára na +história da humanidade. Declaradamente se armavam, havia quási meio século, +os grandes poderes militares da Europa; engrandeciam os exércitos, +acrescentavam as armadas, acumulavam os canhões, amontoavam munições e +edificavam<span class="pagenum"><a id="pag_2" name="pag_2">[2]</a></span> +fortalezas por modo nunca visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do +velho preceito que nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, +sustentava uma segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão +dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores à +glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia pela sua +fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma inviolabilidade +formidável a quem os soubesse fabricar e usar.</p> + +<p>Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de +vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e +prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com enorme +esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os economistas e os +homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que só por demência, e +jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse ela qual fôsse, se +poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e pavorosos cataclismos? A +paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos negócios, emquanto as armas +significavam a mais sólida das garantias da amizade entre os povos. Apesar +dos vaticinios de profetas tenebrosos impenitentes, que<span +class="pagenum"><a id="pag_3" name="pag_3">[3]</a></span> tambêm os havia e +não cessavam de agourar desgraças, tendo por fatal a hora terrível de uma +guerra europeia, o mundo ia remexendo os seus oiros e os seus estercos, os +seus bens e as suas devassidões, convencido de que a bonança, uma perene +bonança orgiaca, era de ora em diante a lei da vida.</p> + +<p>De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes, +surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia crê-la. +</p> + +<p>Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...</p> + +<p>A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era +unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações, +alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e empedernidas +e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do zelo e respeito da +fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes fazia ignorar; e a traição +aos arrebatamentos da ventura em que viviamos era executada e proclamada pelo +braço e pela bôca de três imperadores, um caduco na senilidade própria dos +seus anos, o outro demente de raça e de vaidade, e o terceiro não muito são, +sujeito a acessos de melancolia. Eram êles que na mais atroz loucura gerada +de<span class="pagenum"><a id="pag_4" name="pag_4">[4]</a></span> imaginárias +ambições lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por +igual escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para +se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e unirem. +Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de desolação e de +cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para criar e cultivar o +pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a fortuna, toda a dignidade e +toda a glória da nossa espécie.</p> + +<p>Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e +aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e comando +dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas militares e dos +seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão legitimando-as, entre o +estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o conflito das raças, uma +diversidade e uma incompatibilidade de aspirações que se excluiam e por +condição estavam sem remissão destinadas a chegarem à agudeza dos combates em +que se encontravam. Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias +dos alemães na Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As +primeiras atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o<span +class="pagenum"><a id="pag_5" name="pag_5">[5]</a></span> desrespeito dos +tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia cínica em sua +hedionda nudez, perante a hospitalidade traída, construíndo fortalezas +ocultas e pondo espiões onde com amizade eram acolhidos, perante o morticínio +de velhos e crianças, o insulto e injúria das mulheres e a destruìção e saque +dos mais preciosos tesouros do espírito humano, mal se revelou a animalidade +barbara que alimentava a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo +eramos chamados. E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que +ha longos séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e +amaldiçoada fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e +confrontando-os com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o +slavo, com o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo +britânico, e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza +o espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês de +hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o primeiro +ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que pronunciou no +Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã Bretanha e de todo o +mundo culto:—«Não é um conflito meramente <span class="pagenum"><a +id="pag_6" name="pag_6">[6]</a></span>material, é tambêm um conflito +espiritual. Das suas últimas conseqùências se verá que mais tarde ou mais +cedo dependem tudo o que contêm promessa e esperança, que conduz à +emancipação e mais completa liberdade de milhões que constituem a massa do +género humano».</p> + +<p>Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo +coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que, envolvido +no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares, o que rialmente +as precipitava em um embate temeroso era a incompatibilidade, irreconciliável +e ardente, entre a fôrça e o direito, entre a brutalidade e o respeito, +moderação e tolerância, entre as cobiças da sordidez e o desprendimento da +nobreza, entre o cinismo e a crença, entre a liberdade e o despotismo, entre +a boa fé e a deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a +corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus das +batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de doutrinas e de +sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos, uma divergência de +modos de ser sociais, morais e religiosos entre si antipáticos até à exclusão +mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin contra<span class="pagenum"><a +id="pag_7" name="pag_7">[7]</a></span> Bismarck, Voltaire contra Treitschke, +o monismo degradante de um Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, +nobre, credor inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a +fé, a graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o +despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de previsão e +astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo metodo e por subtil +engenho.</p> + +<p>Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando que +vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias, agravadas e +acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora angustiosa a um combate +de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se, com a aureola das profecias, +palavras de Ruskin nas quais a intuição penetrante do génio muito cedo +apontou a distância que havia entre o carácter germânico e as tendências +britânicas. Já em 1859 Ruskin falava, em carta a um amigo, do «intenso +egoismo e ignorância do pintor alemão moderno (na sua obra)» que «era +indizível no que tinha de ofensivo. A eterna vaidade e vulgaridade +mascarando-se de piedade e poesia, a surdez profunda a toda a beleza rial, +inchada em abomináveis caricaturas daquilo que êles imaginam ser o +carácter<span class="pagenum"><a id="pag_8" name="pag_8">[8]</a></span> +germânico, a absorpção de todo o amor de Deus ou do homem na impaciência de +aplauso» feriam-no e repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão +de beleza, embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na +concupiscência; «mas o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que +fôsse».</p> + +<p>Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a +reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:—«As bençãos +são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode ser uma +coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras signifiquem». +«Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade», «não ha sôma de +saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo que, quando os +alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza, roubam-lhe os quadros +(de que não podem compreender nem um traço), e inteiramente arruinam o país +moral e físicamente, deixando atraz de si miséria, vicio e ódio profundo, +onde quer que os seus malditos pés hajam pisado. Foi precisamente o mesmo que +fizeram em França—esmagaram-na, roubaram-na, deixaram-na na miséria do +desespero e da vergonha, e fôram para casa a lamber os beiços e a cantar +«Te-Deus».</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_9" name="pag_9">[9]</a></span>O almirante +Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem público muito popular +nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o povo alemão se tornára feliz +e prospero pelos velhos métodos de duro trabalho, vida limpa e pensamento +claro. Tomára os mercados da Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas +férias, nos seus dias livres em cada semana e nos sports». Querendo +glorificar o temperamento alemão e explicar as suas conquistas, depreciando +ao mesmo tempo a vida inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam +admiravelmente o caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para +enriquecer; nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e +arte que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a +contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações apolineas; e +disto fez uma religião.</p> + +<p>Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes compreendem-se +hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações dos profetas, guias +e educadores da Alemanha moderna, entre os quais ficará de triste celebridade +a obra de Bernhardi, cujo pensamento fundamental é de uma simplicidade +incomparável:—«A Alemanha tem nos destinos<span class="pagenum"><a +id="pag_10" name="pag_10">[10]</a></span> do mundo uma alta e divina missão, +espalhar a sua cultura, levar a cabo o renascimento dos homens e das +sociedades na cultura germânica e pela cultura germânica, e o processo único +de cumprir êsse destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a +aniquilação radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario +vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A cultura, no +seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a inimiga mais +inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu espírito, é a primeira +que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente desimpedir o caminho.</p> + +<p>Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora dos +seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha, afagada, +soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por nascimento ou +inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e todos os +mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo, por enxames +de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos com matrícula em +Hamburgo.</p> + +<p>Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi +necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos <span +class="pagenum"><a id="pag_11" name="pag_11">[11]</a></span>alicerces, aquela +outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a +Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda +impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e +anceios de liberdade, tinha menos sciência de laboratório e mais sciência do +coração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir. Mas isso se fez +completamente. Não falta entre os seus filhos quem, vendo maguadamente e sem +paixão a situação, termine por confessar que os alemães «deixaram de ser uma +nação de pensadores, poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e +exploração da natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o +desenvolvimento económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu +com os gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram +sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o crescimento da +riqueza o decrescimento do sentimento moral».</p> + +<p>Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não +adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura alemã o +mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade» e «nausea», +que «todos os deuses aprenderam<span class="pagenum"><a id="pag_12" +name="pag_12">[12]</a></span> a temer. Se alguem quizesse vêr a alma +germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto germânico, as artes +e os modos germânicos. Que grosseira indiferença pelo gosto!» Para «todo o +leitor que tivesse um «terceiro» ouvido», dizia, eram «uma tortura» os livros +escritos em alemão, «sem tom, sem ritmo nem cadência». O próprio alemão lia +«mal», negligentemente arrastado.</p> + +<p>Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer +do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de subjugar +físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da caserna aborrecem +e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos encantos das academias, +embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer, que só em si se alegra e +alimenta e se atribui a delicadeza da vida e muito da sua grandeza, valha +muito no conceito dos homens e na sua felicidade, sem embargo de ser ignorado +pelo militarismo, mercê da sua natural rebeldia no conhecimento de qualquer +coisa estranha à arte da brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e +condecoradas. E esta Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos +ossos, materialisada em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências +idealistas, fazendo da disciplina, obediência,<span class="pagenum"><a +id="pag_13" name="pag_13">[13]</a></span> ordem e comodidades a razão última +da nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem +mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis ao +chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a +bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a de +novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo lhe +significa pela inimizade que detesta a sua cultura.</p> + +<p>Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela unidas +com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como sujeitam a Europa +ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e admitindo-os, em pé de +igualdade, de portas a dentro dos seus velhos palacios?!... Pasma desta +infidelidade à sua cultura e outra cousa não compreenderá, pois, destituída +de todo o sentimento verdadeiramente cristão, não percebe os laços que juntam +os povos educados no Evangelho, fazendo do Evangelho a razão suprema da +existência; e outros não há que mais profundamente o sigam e nêle creiam do +que a Grã-Bretanha e a Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas +opostas em larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos +do amor, trocados<span class="pagenum"><a id="pag_14" +name="pag_14">[14]</a></span> pelos regalos do estomago, não atinge que +aquilo que os povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é +exactamente a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e +contentamento da humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e +descansado, andar agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, +médicos e bons hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, +electricidade, caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones +e gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados e +se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e por uma +mecanica administrativa que na precisão matemática em nada difere das +máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o homem à mísera +condição de matéria prima, questão de número, volume e qualidades +físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das profundezas da terra. +Não concebe que foi o extremo fastio dessa cultura, em que tudo foi cultivado +menos a liberdade e o amor entre os homens, êsse reino incontestado da alma, +o que impeliu para a guerra as raças que o adoram, outro não suportam e o +vêem ameaçado: não concebe que entre exércitos que, como o alemão, deixam, +por onde passam, uma esteira infinita<span class="pagenum"><a id="pag_15" +name="pag_15">[15]</a></span> de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, +proìbem o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores +rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação +suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente os +incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das castas +políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas de vida ou +de morte são as convulsões de uma civilização enferma de inanidade religiosa +e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das materialidades, caída em um +desespero febril de libertação dos germens mórbidos que lhe invadiram o +sangue e lhe converteram a vida em tormento.</p> + +<p>Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em especial +o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais profundos e os +estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles concorrido para manter +acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia racionalista, os fachos do mais +sublimado idealismo.</p> + +<p>O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e +ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma cousa, e a +«emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra cousa; e o<span +class="pagenum"><a id="pag_16" name="pag_16">[16]</a></span> que nas margens +do Reno é um valor intelectual, conclusão de silogismos, demonstração de +textos e arquivos, elemento de compreensão do mundo e dos homens, é fora +dali, em terras suas inimigas, um valor moral, fundamento e motivo de +proceder nas relações individuais e sociais. De modo que o que algures se +tornou objecto de curiosidade, sem duvida salutar e benéfica, que se cultiva +de mistura com todas as outras culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão +misteriosa como soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as +outras fôrças a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a +Alemanha, sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente +pouca religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em +disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e +reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança a que +a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra assassinado.</p> + +<p>Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua +missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o negro +prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido instinto que +o não engana,<span class="pagenum"><a id="pag_17" +name="pag_17">[17]</a></span> considera que, quando o preto tem culpa, +ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é alemão, +castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse implorado.</p> + +<p>Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento moral +da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar; e por isso +é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não alcança, quando +lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o inunda de sangue e de +dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os delinqùentes ajoelham, e os +que não sabem perdoar, nem mesmo em face da mais submissa humildade e +contrição.</p> + +<p>Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como fruto +desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser social. +Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da guerra, mais do +que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em pontos essênciais, são +certas e inevitáveis, independentemente da vitória das armas. Desde a lição +formidável da queda do império romano, abdicando das suas velhas fôrças +morais, das que considerava fundamentos da sua austéra e cruel grandeza, e +entregando as rendidas a um poder mais<span class="pagenum"><a id="pag_18" +name="pag_18">[18]</a></span> alto, à inspiração cristã, desde então nunca +mais o materialismo, culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, +se encontraram em conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se +de todas as derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à +alegria e à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando +essa sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde +que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela +irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa servidão +terrena que lhe repugna.</p> + +<p>Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação +das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais do +que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência dos povos, +recordando a dissolução do império romano, seguida da fragmentação medieval, +e aproximando-a da revolução iminente dos impérios modernos nas suas +tendências descentralisadoras, já amplamente e brilhantemente exemplificadas +na Inglaterra, não estará muito afastado da realidade quem supozer a política +levada neste pendor pelo surdo impulso de fôrças morais e religiosas, pela +pressão das exigências da mentalidade característica<span class="pagenum"><a +id="pag_19" name="pag_19">[19]</a></span> da nossa era. Á liberdade do +pensamento, emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada +pelo estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das +crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser intelectual, +moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com a legitimidade da +revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e direitos de tolerância de +todo o espírito nas suas manifestações especulativas e concretas. Dentro de +grandes linhas psicológicas fundamentais, a diversidade é extrema e reclama +liberdades correlativas, a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o +mais vulgar, uns pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, +Igualdade e Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se +apuram algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na +pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a +liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e sintam +pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do pensamento tem de +corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes políticos que não +podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a unidade de +tendências<span class="pagenum"><a id="pag_20" name="pag_20">[20]</a></span> +mentais, constantemente contrariados, minados e traídos por obscuras mas +indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha, +englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais +diversas e as mais diversas aspirações, é porque para êsse milagre político, +sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que +é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e +desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual +provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria +liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.</p> + +<p>Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo evidente +que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente no continente +da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de todo carecido de +unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de todo avessos a +suportarem independências, o conflito tem de seguir seus trâmites para abolir +uma unidade forçada que a unidade psicológica não autoriza; e para satisfazer +a diversidade pela liberdade há de encontrar as soluções convenientes. Os +ingleses não exageram, quando dizem que<span class="pagenum"><a id="pag_21" +name="pag_21">[21]</a></span> combatem tanto pela Inglaterra como pela +Alemanha. De facto, preparam a vitória de princípios, por cujo triunfo +anseiam todos os povos chegados à idade da razão.</p> + +<p>O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que a +querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai construir, +não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as estações +reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se verga e esmorece +açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto que estamos em vésperas +de uma profunda reacção, pois que por efeitos de reacção chegámos à convulsão +presente. Desde já se adivinha que a negação da cultura alemã, e negada está +seja qual fôr a sorte das armas, sendo ela a cultura e a ambição meditada e +tenaz de toda a especie de materialidades, implica um largo desprendimento de +infinitas materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O +dr. Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e +discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os +pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos +contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto pensar. +Se assim fôr, veremos a verdade<span class="pagenum"><a id="pag_22" +name="pag_22">[22]</a></span> daquêle velho e belo proverbio espanhol, de que +«Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas seriam ganhos.»</p> + +<p>Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez +larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa a +que nos sujeitam.</p> + +<p>É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em proporções +assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que sempre nos será +indispensável e que por qualquer modo teremos de criar ou substituir, e +significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que sempre nos foi +supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir. Se esta situação +persistir, a que modificações obrigará a economia do pais e respectivamente a +economia de cada um? Acontecerá que por urgência das pressões económicas +cheguemos a um nacionalismo e a uma simplicidade aos quais nenhum incentivo +moral póde levar-nos, e em favor dos quais se esfalfaram em vão a arte mais +sã, o mais bem inspirado patriotismo e mais modesto bom senso?</p> + +<p>Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com +aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e arrazando as +cidades. Não consente mutações instantâneas.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_23" name="pag_23">[23]</a></span>Ámanhã, +finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que comovidamente +foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no seu trabalho, nas +suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes, como se lhes permanecesse +intacto e sem alteração o carácter. Mas novos ástros se ergueram, brilham e +lentamente iluminarão e penetrarão o mundo com a sua luz, e nele criarão +inumeráveis vidas novas. O materialismo com todas as suas edificações e +fortalezas afunda-se no occaso, e o idealismo, renascido das profundezas onde +jazia sepultado, mas não morto, surge glorioso a revestir a terra +desolada.<span class="pagenum"><a id="pag_24" name="pag_24">[24]</a></span> +</p> + +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_25" name="pag_25">[25]</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION00300000000000000000"></a> <br> +Ganhos e perdas </h1> + +<p>Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para reconhecerem +e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as conseqùências +militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de se desenhar a +divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a distribuição da +fôrça e dos canhões, muito antes disso e independentemente dos seus destinos +e designios já as aspirações e crenças dos homens definiram e anunciaram +tendências e propósitos que da guerra nasceram ou na guerra encontraram +terreno propício, já marcaram no seu rol vencedores e vencidos, já +proclamáram suas determinações inflexiveis.</p> + +<p>Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da conflagração +tremenda em que o mundo se agita.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_26" name="pag_26">[26]</a></span>Dela sai +já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e desprestigiado, o +poder magnifico do socialismo que durante longos anos fez prosélitos, +adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões, apaixonou as multidões, +dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis e os sapientes, toda a +grandeza e autoridade política e moral, o saber, a virtude e a fôrça.</p> + +<p>Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como, por +que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a abastança +assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára para base dos +seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se o companheiro e o +aliado submisso de todos os despotismos e de todas as crueldades. Não nos +poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma injuria; a todo o morticinio, a +toda a opressão e a todo o insulto o temos visto associado, sem um lamento, +sem um gesto de repulsão, escravo dedicado de um patriotismo todo constituido +e só constituido de cobiças e odios, por completo desconhecendo o que seja e +para que sirva a fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade +estranha, todo o Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo +económico moralmente acanhada, reduzindo a vida a uma<span class="pagenum"><a +id="pag_27" name="pag_27">[27]</a></span> repartição de comodidades e a uma +cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o socialismo +podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de previdência, de +agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago e grandes regalos, +mas era uma mecanica que só considerava o corpo, deixava intacto isto que +chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração, consentia-lhe que alimentasse +a ruindade de sentimentos cujas furias a guerra soltou; até mesmo assistiu, +mais do que indiferente, complacente, senão contente, à prolongada cultura +dessa ruindade, que as obsessões de grandeza política reputavam um auxiliar +eficaz de seus desvairados sonhos.</p> + +<p>Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um +despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na +omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer despotismos +seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas suas afirmações, +menos a palavra liberdade.</p> + +<p>Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a +apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é pura +miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o despotismo e +a<span class="pagenum"><a id="pag_28" name="pag_28">[28]</a></span> opressão +militar, passa-o ao bando das traidores e herejes. As sombras dos Proudhon, +dos Bakounine, dos Tolstoi, dos Réclus, como a figura profetica de Kropotkine +sorriem tristemente à desgraça presente e à ruina, mais do que nunca +confiadas em que só a gloria da sua crença poderá resgatar-nos da +mortificação. Quantos apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, +seja qual fôr a fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos +abominaram a coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas +enxovias e na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a +felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no imperio +da consciência moral isenta de toda a violência e constrangimento, sentem +renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na vitória que lhe facultam as +calamidades, espalhadas pelos seus adversarios das alturas dos seus tronos e +dos seus tribunais, semeando a ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a +desolação, com uma impiedade inflexivel, obedientemente e brilhantemente +servida pelo esforço irado dos exércitos e pela soberba enfatuada e +corrompida das magistraturas. Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, +o anarquismo, na sua alta expressão filosófica, que não nas suas aberrações +criminosas,<span class="pagenum"><a id="pag_29" name="pag_29">[29]</a></span> +vê de súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando +sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do +socialismo.</p> + +<p>Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o +problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as imprecações +impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em risco bens e +grandezas.</p> + +<p>Há vinte anos, António de Serpa,—um talento culto, homem de superior e +nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus contemporâneos +fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a esquecer,—escrevia um +opusculo sobre «O Anarquismo».</p> + +<p>Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com o +indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa, mal se +compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se tornou possivel +examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás muito chãos e claros. +O chefe de um partido conservador arvorava-se em advogado do mais perigoso +pensamento revolucionário! Muita gente o imaginou e lamentou, sem poder +explicar êsse estranho desvairamento. O estudioso e observador da evolução +política, que outra coisa não foi nesse<span class="pagenum"><a id="pag_30" +name="pag_30">[30]</a></span> incidente o antigo ministro do Estado e o mais +moderado dos ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o +desenvolvimento das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da +experiência, determinando posições, relações e conseqùências, +desapaixonadamente e lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada +reflexão, em um espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado +idealismo, êsse passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e +compreendido nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de +funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era grande e +a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o ministro, não +estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem por última +homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe o valor pela +posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o engrandeciam.</p> + +<p>Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e +contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de espírito, +grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para +durar—Oliveira Martins.</p> + +<p>A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e querido +socialismo do<span class="pagenum"><a id="pag_31" +name="pag_31">[31]</a></span> Estado, grande progresso fabricado nas +universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das sociedades, +grande organizador e disciplinador. O retardatário seria Antonio de Serpa com +o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de negações. Vieram para a +imprensa as discussões dêsses dois ilustres antagonistas, aplicando as suas +teorias ao regimen económico, e não foram sem influência nas vicissitudes +políticas e na administração pública dessa época e nas que até nossos dias se +lhes teem seguido. O socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na +constituição política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre +de ideais como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa +vontade, perdoando-lhe os agravos.</p> + +<p>Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos as +suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem com que, +sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos seus principios +fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de blasfémia e escândalo +não se nos afigura mais do que uma ténue apologia de verdades quase +axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e até nem sempre isenta de +injustiça.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_32" name="pag_32">[32]</a></span>Outros e +inesperados aspéctos se nos deparam.</p> + +<p>Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária +insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo, reaparece-nos +revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma horrorosa fatalidade +de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as deformidades e aponta-as á +maldição dos povos. As munições dos exercitos converte-as êle em punhais +terrivelmente agudos para quem as fabricou e emprega.</p> + +<p>O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a +redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno político, +isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza, conseqùência +lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades modernas, +avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução Francesa +recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de Liberdade, Igualdade +e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos andava esfarrapada, +escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do absolutismo, pelos comandantes +das casernas, pelos prégadores e ditadores dos parlamentos e pelos profetas +da lei da luta pela vida, ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e +caridade, reanimando em <span class="pagenum"><a id="pag_33" +name="pag_33">[33]</a></span>esperança as multidões prostradas pelas agonias, +dôres e impotência que foram a obra sinistra dos seus inimigos.</p> + +<p>O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo +prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo baixo +materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas, e pelo +positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo zeloso das +coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e Fraternidade, idealismos +e realismos, tudo eram utopias, doenças, fraquezas a que urgia acudir com a +proscrição do sentimentalismo, levando de tropel toda a nobreza, e com a +glorificação da cobiça e sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de +generosidade e pureza. Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, +dizia-se então; e todos para se banharem e deleitarem em um mar de infinita +sordidez, cuja navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e +superior segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de +prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.</p> + +<p>Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso, +emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da Religião +que arruinára, segundo ela<span class="pagenum"><a id="pag_34" +name="pag_34">[34]</a></span> cria, os edifícios de outras eras tenebrosas, +barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal insânia de +ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não é dêste mundo. +</p> + +<p>Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a terra +e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela liberdade, pela +independência das pequenas nacionalidades, pela aniquilação do despotismo +militar e seus consortes e derivados, pelo reino do cristianismo entre os +homens. É a rehabilitação total do espírito que inflamou a Revolução +Francesa; é a justificação ardente e cara do idealismo político e religioso +amaldiçoado e acusado de sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e +atraiçoado; é a ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente +e exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e +errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do império +da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de almas mais +elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que dolorosamente nos +dominavam e turbavam—dêsse romantismo que, em obras de génio, foi acto de +Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco mas jámais vil.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_35" name="pag_35">[35]</a></span>Por +essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que +afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem hoje +alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da capacidade militar +da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o senso moral e político dos +povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos que lhe deram causa, interrompeu +a civilisação iniciada pela Revolução Francesa, fundada nos seus evangelhos e +durante oitenta anos conquistada passo a passo, heroicamente, entre mil +desastres e infinitas penas. Fecha-se agora o período de quarenta anos de +reacção.</p> + +<p>Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças +militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e +ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do século XX +inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se encontra +robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo desengano da +conveniência e insolência do despotismo armado a primor e acautelado com +talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes muito mais brutal e +pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido e senil do que cruel, que +pelas côrtes apodrecidas<span class="pagenum"><a id="pag_36" +name="pag_36">[36]</a></span> da Europa a Revolução Francesa desapiedadamente +combateu e derrubou.</p> + +<p>Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para onde +caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta cruzada, +evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais poderosa, foi de +certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio alemão não se ilude; +apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao inimigo.</p> + +<p>Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória +nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de +ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais eloqùêntes +adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e seis anos pastor +protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer armas, mas não póde +fazer homens. Estes professores de chacina, prégadores da barbaria como um +dogma, estes homens que se apoiam em bases scientíficas e advogam a ruína das +catedrais e o terror dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças—estes +homens trabalharam durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós +combatemos». E o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de +talento e<span class="pagenum"><a id="pag_37" name="pag_37">[37]</a></span> +justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na +nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses) esmague. A +vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo tamanho dos +canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do império. Os +impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o coração do império +não é suficientemente forte para lhes sustentar o corpo». «Podem os homens +queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas não podem tirar-lhes do sangue +a influência cristã».</p> + +<p>«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por +Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe deu +domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e magnanimidade, que o +faz sorrir no seu humorismo à contradição das cousas resolvida e conciliada +na unção de uma perene bondade.</p> + +<p>E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos, +confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações do +político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará ao mundo +que «não se tratava de um conflito meramente material, mas tambêm de um +conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos diversos dos<span +class="pagenum"><a id="pag_38" name="pag_38">[38]</a></span> que as igrejas e +as chancelarias nos insinuam. O pensador fortalecido por aturado estudo e +acreditado por trabalhos valiosos que é Benjamim Kidd, resumindo as +conclusões dos mestres da sua classe, julga que a Alemanha só poderá ser +vencida por «um idealismo mais alto e uma crença e uma determinação que sejam +mais fortes do que aquelas que nesta guerra a sustentam».</p> + +<p>O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina +política do mundo—a doutrina do estado predatório como encontrou a sua +expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em resumo, +a negação dos princípios característicos com os quais os progressos e +liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo antigo caíu. Mas +exprime essa negação protegida com sciência, recursos e organização, como +Roma nunca possuiu».</p> + +<p>«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não é +senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda a +fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder militar». +A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no Ocidente durante +vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção do direito a uma altura +que é universal,<span class="pagenum"><a id="pag_39" +name="pag_39">[39]</a></span> «Fez o direito independente e superior a todos +os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou missão em que possam +basear-se, seja qual fôr a escala em que possam representar-se, e seja qual +fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A doutrina oposta, reclamando a +superioridade do estado sobre o direito, foi sempre o desafio às lutas +estupendas que constituem a história da civilisação ocidental, e sempre caíu +sob o impulso de uma civilisação mais alta.</p> + +<p>Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua +história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa psicologia +política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza da sua fôrça +escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no absolutismo fechado +das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela que em contacto com o mundo +durante séculos e nas suas humilhações e desastres, como nas vitórias de um +império de 450 milhões de individuos da raça humana, aprendeu a grande lição +universal—isto é, que há uma só raça, uma só côr e uma só alma na +humanidade, posto que para o saber queimasse às vezes a carne. Foi ela que +ergueu o sentimento da responsabilidade humana acima de todas as teorias dos +interêsses <span class="pagenum"><a id="pag_40" +name="pag_40">[40]</a></span>dos estados e dos impérios». Foi ela que, por +sua glória e fortuna da humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção +invencível aquele «intolerável pêso da moralidade de escravos da ética +civilisada» que Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma +outra nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa +democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados direitos e +há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no conceito presunçoso +e insolente dos administradores e senhores da «caserna besuntada de +metafísica que fica para lá do Reno», segundo a sugestiva expressão de Eça de +Queiroz, tão pitoresca como profunda e vagamente profética.</p> + +<p>Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o +desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário, +amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de +intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e +instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em que +exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na +imprensa—e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de governo e +a mais engenhosa<span class="pagenum"><a id="pag_41" +name="pag_41">[41]</a></span> arte de governar os homens e os trazer +contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de +estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar a +abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma. Se é +grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na sua +omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina menos a +humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se emparceirára em +uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha afrontava a terra inteira +com o seu saber, tão arrogante, poderoso e altivo como as armas com que +ameaçava levar diante de si e sumir nos arrebatamentos invencíveis da sua +cultura as nações e as gentes de todo o globo. Arvorou-se em empório de todo +o saber e de todo o pensar. Só dali nos viria essa mercadoria preciosa, e +porventura excessivamente a procurámos em suas terras e a pagámos por +exagerados preços.</p> + +<p>De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão +pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em acção +no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos das coisas, +nunca ninguem soube tão<span class="pagenum"><a id="pag_42" +name="pag_42">[42]</a></span> completamente as suas qualidades, e nunca +ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e sábio metodo. +A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada e temida, era +apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava preparada +militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas, nas +instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas oficinas. Era um +prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de previsão, de ordem, de +atenção, compreensão e satisfação de todas as necessidades, das maiores às +mais pequeninas, de antecipação de todos os confortos, de extremo +desenvolvimento de toda a capacidade mental, de toda a riqueza económica, de +toda a fôrça concebivel e possivel dos indivíduos e das comunidades. E nada +disto, que era e é um assômbro, impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, +se revoltasse contra ela, lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer +se sujeitasse ao maior e mais angustioso dos sacrificios.</p> + +<p>Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza porque, +incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade apenas se +revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza. Foi isso que +êle odiou, foi isso que o<span class="pagenum"><a id="pag_43" +name="pag_43">[43]</a></span> ofendeu e fez lançar no combate, incitado por +uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa necessidade de +humilhação do orgulho da razão, da sciência, da filosofia, e das vaidades, e +bastas vezes inanidades, das suas multíplices traduções práticas.</p> + +<p>Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de +presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada +animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com todas +as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O resultado +será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o sentimos, ficámos +desconfiados para largos anos, provavelmente para largos séculos, de que +aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela sciência, aquela filosofia, +aquelas armas, aquela disciplina, e toda aquela ordem material, intelectual e +moral, de uma tenue moralidade sem nobreza, que admirámos, copiámos e nos era +afiançada como a última e definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, +os míseros vencidos de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos +sábia, muito menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade +e amor, muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta +civilização<span class="pagenum"><a id="pag_44" name="pag_44">[44]</a></span> +confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente e fraca, embora +erguida em dourados baluartes.</p> + +<p>Facto singular e notável—há muito a Alemanha se queixava de pobreza de +homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em +capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que mais +autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era confirmado pelos +estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a situação política do +Império; e isso se acentuou com uma evidência concludente nas negociações que +precederam a guerra e em todas as que se lhes seguiram, revelando da parte da +diplomacia alemã uma incapacidade suma, ao passo que a Inglaterra ostentava +nas mesmas diligências uma pleiade de homens públicos a par do seu passado e +da sua fama, em tudo à altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a +França e a Russia nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de +inteligência e carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos +campos de batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.</p> + +<p>Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus +apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou<span class="pagenum"><a +id="pag_45" name="pag_45">[45]</a></span> qualquer factor essencial, e por +isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza, equilibrio e beleza de +faculdades que só o latino nas suas tradições, mesmo negligentemente +cuidadas, sabe produzir e produz com uma expontaneidade, com uma naturalidade +que são maravilha e a mais solida presunção da sua eternidade. Aqueles que +jámais descreram das humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da +vida contra a mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade +humana na sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor +económico, renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer +que vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de +lhes restituir, na educação das novas gerações.</p> + +<p>Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela +psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de justificar a +guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política que lhes convem. E +respectivamente os sonhos de paz eram utopia, romantismo, sentimentalismo, +negação do espírito scientífico, filosofia da cobardia, desgraça e atrofia +das raças que os deixassem prevalecer e só pela guerra alcançariam manter a +energia.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_46" name="pag_46">[46]</a></span>A +própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda da +necessidade e benefícios das guerras.</p> + +<p>No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma +pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um +mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já +próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o advento da +idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e fascinavam. A +persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra significava, àlêm duma +acção crudelissima, um negócio péssimo, a <i>grande ilusão</i>; toda a +erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma futilidade, quando não +era puramente a cobiça sordida e cega dos que mandavam e não tinham medida +nem lei em suas ambições; essa aurora de tempos novos pareceu escurecida para +não mais brilhar, quando os primeiros fumos dos canhões atoldaram.</p> + +<p>Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição +imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores que +fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os instintos +que a alimentavam. O presente era a demonstração<span class="pagenum"><a +id="pag_47" name="pag_47">[47]</a></span> clara da subsistência dessa +doutrina de morte.</p> + +<p>Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com aquela +universalidade e largueza com que se discutia, bastava a insistência na +dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que alguma coisa nova +agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e fortaleceu as tendências +dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi certo—facto primacial e de +extremas conseqùências, que a guerra, ainda há cem anos uma actividade +natural, e nessa qualidade admitida e aceita unanimamente, tornára-se no +pensamento dos nossos dias uma monstruosidade, uma aberração e um crime, tão +indignadamente apontados e abominados hoje como outrora exaltadamente +louvados e aplaudidos.</p> + +<p>Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua +defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não +esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos séculos; +todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo, avigorava a +disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o sentimento da +honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a adversidade,<span +class="pagenum"><a id="pag_48" name="pag_48">[48]</a></span> para a tristeza +e para a dôr, desenvolvia a obediência ao dever, semeava a coragem, a +dedicação e a generosidade? Nem assim conseguia restaurar o império perdido! +Poderes mais altos lentamente se haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro +a piramide, que parecia invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os +tumulos dos faraoos, esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova +do fogo e do sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e +insignificante para julgar os homens. A escala dos valores toda se havia +alterado; quanto era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e +costumava encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais +nobre amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o +desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o esfôrço, a +consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram virtudes sem as quais +os homens se despenhavam na abjecção, não careciamos, para as possuir, de as +cultivar no ódio, na cobiça, na brutalidade, na impiedade, na ruina e nas +atrocidades sanguinárias; o trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a +cegueira do destino e do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade +religiosa bastavam para nos experimentar e educar.<span class="pagenum"><a +id="pag_49" name="pag_49">[49]</a></span> A adversidade de todos os dias, que +não cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em prova +toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de outra +eramos capazes. O <i>Cavador do Millet</i>, no seu campo safaro, só com a sua +enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus pedestais os +Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente apregoára que era +chegado o tempo de converter as espadas em charruas.</p> + +<p>Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da largueza +e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida e aquela mesma +futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril crueldade que +anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de proscrição no conceito +dos homens empenhados em nos libertarem dos seus trágicos horrores.</p> + +<p>Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o +último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de civilização +que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e pretende +justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem em que +agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e governos, com todos +os seus enganos, traições e angústias,<span class="pagenum"><a id="pag_50" +name="pag_50">[50]</a></span> com todas as suas fadigas, prazeres, ruins +ambições e opressões; póde, claudicante e ignorando a própria miséria, +continuar incerta e cega na jornada dos seus muitos e lúgubres progressos até +de novo naufragar na imensidade dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou +um inimigo que não lhe perdoará; despertou a consciência das suas terríveis +enfermidades, e com ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e +de simplicidade que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de +facto, porque os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é +tenaz e seguro nas conquistas.</p> + +<p>Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos +poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi +unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que muitas +envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de tudo isso, +um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração, por muito +distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto dos exércitos; +mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e ventura, foi o +castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um profundo <i>peccavi</i> +cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes e cuja absolvição<span +class="pagenum"><a id="pag_51" name="pag_51">[51]</a></span> temos de +procurar em um mundo fundado em uma outra alma muito diferente daquela, por +demais corrompida, a que loucamente nos haviamos entregado. Outras +aspirações, outras crenças e todo o seu modo de ser externo terão de nos +inspirar para nossa fortuna e alegria. Muita coisa que criamos morta ha de +resuscitar; e muita coisa que supunhamos eterna ha de desvanecer-se para +sempre.<span class="pagenum"><a id="pag_52" name="pag_52">[52]</a></span></p> + +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_53" name="pag_53">[53]</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION00400000000000000000"></a> <br> +Revisão de valores </h1> + +<p>O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem +dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem as +subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente aproveita e +emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a rapidez dos +movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se perdem nas nuvens +tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se ocultam nas profundezas +do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo, para as imaginações infantis, +mas difere do que antigamente se fazia apenas naquelas minguadas proporções +em que os brinquedos das lojas de Paris diferem dos que alegravam as mocinhas +de Corinto antes de Cristo vir ao mundo. As<span class="pagenum"><a +id="pag_54" name="pag_54">[54]</a></span> jornadas de Joffre em automóvel não +serão cousa muito diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, +igualmente insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de +Cesar com seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo +modo sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que +hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e +engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto das +multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores e +capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e possuídos +por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão despejadas e +poderosas que não carecem de registo, nem de garantias especiais do estado, +para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas no final, apezar de toda a +complexidade em que nos embrenhámos, não ostentamos ambições e talentos +superiores aos muitos e famosos que fizeram a guerra quási exclusivamente +fiados na fôrça do seu braço; e nem tão pouco consagramos as proezas e +chacina a fins mais nobres do que aqueles de estreme e insaciável cobiça que +exaltaram os generais de outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre +foi desde<span class="pagenum"><a id="pag_55" name="pag_55">[55]</a></span> +que se conhece história, um assassino cruel e sordido.</p> + +<p>Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve +alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com uma +guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a astúcia, a +dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser ferido tomaram +em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem, pela firmeza de +ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e lealdade da luta a peito +descoberto. O carácter de negócio, conta, e cálculo e previsão, aliás de +supremo alcance, apagou muita beleza da imprudência, da ousadia e do +desprendimento. «As batalhas não são já o heroismo espetaculoso do passado», +disse um general celebre pelos seus escritos, Homero Lea. «Os exércitos de +hoje e os de ámanhã são uma sombria máquina gigantesca destituida de heroismo +melodramático... uma máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, +que leva anos a uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce +e irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de trevas, +um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima, acautelada e +perversa, que raro consente<span class="pagenum"><a id="pag_56" +name="pag_56">[56]</a></span> um gesto de generosa magnanimidade, raro conduz +a revelar quem ofereça com uma clara abnegação a própria vida, quem se +inflame procurando dar a morte ao inimigo da sua pátria e da sua crença. +Entre a guerra moderna, intima e exteriormente mascarada de couraças, e a +guerra dos tempos heroicos, fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia +que vai de um arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de +um negócio a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio +e a baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a +isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses +diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das +batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a insinuação +de um certo materialismo que invariavelmente prefere a torpeza lucrativa às +contingências de uma franca e determinada honestidade.</p> + +<p>Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da +guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em +couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma +multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra escoltada de +infâmias,<span class="pagenum"><a id="pag_57" name="pag_57">[57]</a></span> +em regra mais rendosa para a ignomínia do que gloriosa para a dignidade.</p> + +<p>Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a +guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a +apontar, e êsse de incalculável magnitude—a amizade em que no dia de Natal +se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente se +trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais, por +espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no tempo como +douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e afeição, que lhes +transbordavam do peito, e para converterem em olhares de intimidade e +ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade sanguinaria em que um +tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os soldados voltaram às +fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de novo se cobriu de cadaveres +a terra. Mas alguma cousa indestructível se edificára e permanecia de pé, +inviolável; uma luz se acendêra, que não podia apagar-se, de paz, de comunhão +e de carinho; uma saudade se ateiára precipitando as nações e os exércitos em +caminhos novos, para outros combates.</p> + +<p>Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali +venceu e aniquilou<span class="pagenum"><a id="pag_58" +name="pag_58">[58]</a></span> o nacionalismo nas suas estreitezas e +prejuízos, que lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, +e por vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a +amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos +lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade. Foi +todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em uma altura +superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada; foi a consagração +de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do que a insânia +sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte lançado aos quatro +ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a repetir-lhes que os +homens não querem a guerra e a aborrecem, e unicamente pela avidez dos que os +governam, escravisam, fascinam e iludem são arrastados às batalhas que o +coração amaldiçôa. Foi a confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia +incalculável, das determinações de uma consciência que sente dissipar-se a +divisão das raças e das nações—não porque a suprime, mas exactamente porque, +reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a ama +no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de interesses e +afeições por aquilo<span class="pagenum"><a id="pag_59" +name="pag_59">[59]</a></span> que é o nosso comum amor, em vez de nos +massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da individualidade +étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde distinguir-nos e de +facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos separar e tornar inimigos. +</p> + +<p>Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira impressão, +vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando calamidades e +atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das mulheres e das +crianças até à ruina das catedrais—que jámais poderão ressurgir na inteireza +do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver os bafejos dos alentos +místicos que em extasis divinos as sonharam e ergueram e pelo sangue de +mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam dado a aureola de uma arte e +tradições irreparáveis, das que vivem uma só vez, filhas de uma só alma, e +não renascem, se as ultrajou a malvadez dos homens atónitos na turbação de um +ímpeto sinistro!—os menos desconfiados dos incitamentos da primeira +impressão de pronto descreram dos sinais de paz que há pouco viam com +alvoroço no horisonte. Logo se abandonaram ao desalento e tiveram como não +subsistentes a solidez e progressos daquele internacionalismo<span +class="pagenum"><a id="pag_60" name="pag_60">[60]</a></span> que era a +vitória da consciência dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os +conflitos das suas diversas tendências, necessidades e divergências, e +conduzindo a uma lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, +paulatinamente mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se +traduzia em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral +cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas +reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas +hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em +campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais altos do +que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza milagrosa +dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa de novo se +fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios a convicção dos +que antes da guerra encontravam na expansão do internacionalismo os +fundamentos e a esperança do renascimento político e social das comunidades, +meditem paralelamente o que na escala dos valores sofreram o patriotismo e a +diplomacia, e isso lhes dirá por outra forma e por outras palavras o que a +trégua e os sorrisos do dia de Natal não lhes tiverem significado. <span +class="pagenum"><a id="pag_61" name="pag_61">[61]</a></span>A seu modo e +precisamente, pela análise da história, pelo exame dos factos políticos e +pela verificação das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que +porventura lhes haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes +do coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no conceito +dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando não é a +desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de desarmar exércitos +e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes, indemnes de debilidades +afectivas, haviam juntado e edificado para uma obra de extermínio.</p> + +<p>O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes, e +é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por um +resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos, +corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e +crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do +patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo por +que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa derivar de +que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do patriotismo e são alheios +às faltas da religião». Compreenderam-se em uma<span class="pagenum"><a +id="pag_62" name="pag_62">[62]</a></span> só divindade e apostolado as +virtudes e as degenerações e deformidades do patriotismo; porque «o +patriotismo pode tornar-se não moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os +estados, como as igrejas, podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos +de infalibilidade, e daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à +perda conseqùênte da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode +pedir a sua moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores +espirituais; o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao +Deus da verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de +ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não pode +encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma mais +profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No fundo de +todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio». «O verdadeiro +patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em todos, que respeita a +nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde quer que a encontre. Não +fomos suficientemente patriotas no passado. Realmente, não acreditamos no +patriotismo». É insensato, mesquinho e despiedoso o patriotismo que antes de +bem combater não<span class="pagenum"><a id="pag_63" +name="pag_63">[63]</a></span> soube bem viver, que só na guerra sente as +obrigações e todas as esquece e desconhece na paz. «Nos anos angustiosos de +sombria luta de classes que nós chamamos os anos caquéticos da paz, vivemos +vidas baixas, egoistas, acanhadas e crueis. De ano para ano as cidades +alargam horrivelmente as suas ruas e tocas nesta linda Inglaterra», (como de +resto em todo o mundo), «que é nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas +pela qual não estamos prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os +pobres, rebaixados os humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus +o clamor de milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos +divertimos. E imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a +chacina da guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que +resultam das doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se +podia atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da +pobreza, da embriaguez e vicio».<a name="tex2html4" +href="#foot705"><sup>4</sup></a></p> + +<p>Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de +antagonismos sangrentos,<span class="pagenum"><a id="pag_64" +name="pag_64">[64]</a></span> rapacidade e conquista—miséria e orgulho dos +govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal +responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na guerra uma +completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para sempre convencida +de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e à riqueza da terra, +condenada e confundida pelo cataclismo que na sua corrupção e debilidade +fundamentais provocou, aplaudiu e consumou, perdeu o prestígio dos seus +conciliábulos e segredos, e são mais os incrédulos que a proscrevem do que os +fieis que a amparam. Há muito suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e +tenebrosa nas maquinações, isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, +embora fôsse o meio de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as +cobiças, a sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais +ou menos consciente e nunca escrupuloso—agora, ao dar conta pública das suas +façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas anteriores.</p> + +<p>Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos +homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o +movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar +anti-diplomático,<span class="pagenum"><a id="pag_65" +name="pag_65">[65]</a></span> era um hereje da sua igreja, um deputado do +parlamento inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais +puramente aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, +filho do secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma +elevada posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante +cinco anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço +diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da +Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se para +discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus beneficios e seus +males e agravos.</p> + +<p>Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, <i>O Camelo +e o Fundo da Agulha</i>, severo estudo da degradação que a posse da riqueza +importa, e a <i>Decadência da Aristocracia</i>, onde pôs a claro a fraqueza +da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e talento +provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou <i>Democracia e +Fiscalização dos Negócios Estrangeiros</i>. Aí procurava acautelar-nos contra +os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade da diplomacia trazia +sujeitos os destinos, aspirações e esforços das democracias. «Não creio», +escrevia então, «que na época presente<span class="pagenum"><a id="pag_66" +name="pag_66">[66]</a></span> haja questão mais importante do que a +consideração do problema que resolverá como é que a opinião pacífica, +moderadora e progressiva da democracia póde penetrar tanto nos negócios +internacionais como nos negócios nacionais, e como é que um estado +democrático póde descobrir os meios próprios para se exprimir no governo da +nação».</p> + +<p>Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a +importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas +políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um redactor de +<i>The Christian Commonwealth</i>, pôde renovar o seu pensamento com a +autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado por factos de +uma trágica evidência.</p> + +<p>Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O +desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a +guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve quebra na +boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As narrações pateticas, +feitas pelos homens em campanha, das relações afetuosas entre êles e o +«inimigo» no dia de Natal mostram claramente que a guerra não é entre os +povos; sentem a necessidade de ser<span class="pagenum"><a id="pag_67" +name="pag_67">[67]</a></span> amigos e facilmente seriam amigos, se os que os +governam não estivessem em guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; +a guerra não foi causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse +contra o povo de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a +moralidade internacional e que é realmente a moralidade intergovernamental. +Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua crítica é principalmente +política. Contesta que haja uma quebra moral da parte do povo... carecemos de +nos libertar do segredo diplomático e garantir a fiscalisação democrática nos +negócios estrangeiros, o que só por intermédio do parlamento póde fazer-se. +«Diplomacia aberta» é em certo modo uma frase que não convém. Do que o país +carece é de conhecer inteiramente os seus compromissos e obrigações com os +países estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política +que se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de +interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma tradição +de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado, que nos veio de +idade-média e que tem por efeito deixar as cousas inteiramente nas mãos de +homens públicos ciumentos de toda a intervenção estranha. O que mais +lastima,<span class="pagenum"><a id="pag_68" name="pag_68">[68]</a></span> +todavia, é a política do silêncio oficial sobre materias que se tornam de uma +importância vital. Um completo segrêdo é em nossos dias praticamente +impossível. O povo sustenta-se de palestras ociosas, rumores e falsas +referências dos jornais. Não está sem informações mas está mal informado.» A +culpa não é dos ministros, é dos próprios parlamentos que se movem em um +círculo vicioso: porque os seus membros não são informados dos negócios +externos, poucos se interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas +mãos dos grupos que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes +grupos, e a ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram +de tal modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão +destinadas a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a +consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da democracia, +prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a direcção dos +negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos ministros ou que +deixe de haver negociações que necessitem de reserva emquanto proseguem. «Mas +carecemos de mais bastas oportunidades de discussão, de submetter ao +parlamento todos os tratados, compromissos e obrigações, de democratisar +o<span class="pagenum"><a id="pag_69" name="pag_69">[69]</a></span> serviço +diplomático.» Porque a exiguidade da retribuição dêsses serviços tornaram-nos +praticamente o apanágio de reduzidissimas classes abastadas, e «homens de +talento, criados na fé democrática, que compreendem e podem interpretar o +sentimento popular, são excluidos justamente por não possuirem aquelas +qualificações adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»</p> + +<p>Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia. +Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são +indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da humanidade, e +essas relações não podem deixar de ter seus interpretes próprios e +instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está inutilisada a +engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande perda de vidas e +bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres. Mas está humilhada, +desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua insensatez, egoismo, +estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior do coração terá de dar o +lugar a quem a substitúa com menos soberba, mais modéstia, e sobretudo mais +conhecimento e respeito das aspirações dos povos que a sua arte está +destinada a servir e que ela cegamente sacrificou às ambições pervertidas de +reduzidas aristocracias<span class="pagenum"><a id="pag_70" +name="pag_70">[70]</a></span> e à voracidade insondável das oligarquias +mercantes.</p> + +<p>Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada +que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus +palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que +arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este campo +comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas aspirações e das +tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De soberana passa a cativa, ao +cativeiro das obrigações políticas e morais que são a condição da dignidade e +da utilidade, da arte de ser e viver nobremente, em paz e dando a paz.</p> + +<p>Um artigo do <i>Daily Chronicle</i>, procurando as razões por que a +Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem anos, +emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava explicação +insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco que unem os povos +dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para essa extraordinaria +fortuna, é certo que a identidade da raça dos Estados Unidos e da Inglaterra +está profundamente limitada e prejudicada pela insinuação de sangue estranho, +e não póde dar razão bastante de tão sólida e<span class="pagenum"><a +id="pag_71" name="pag_71">[71]</a></span> prolongada amizade. Causa mais +eficaz poderá encontrar-se «nestas ideias de liberdade pessoal, direitos +civis, obediência à lei e confiança nos métodos judiciários, que são a +herança comum do passado do povo americano e do povo britânico. Ambos êsses +países realisaram os processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e +estão por conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a +experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos. Ambos +êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do militarismo que +escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes foram, +indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem anos.</p> + +<p>«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais +importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de facto, a +Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade governados pela +opinião pública.»</p> + +<p>E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica, +conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu direito de +assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter que +brilhantemente revelou onde tem podido dominar.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_72" name="pag_72">[72]</a></span>Na +verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o internacionalismo +nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças superiores das quais +dependem, como todos os demais elementos da constituição social das nações e +as suas afirmações. O internacionalismo dissemina-se e avigora-se, e a +diplomacia muda de modos, gestos e processos, aparentemente; no fundo não são +senhores dos seus destinos, jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que +os autorisa ou condena e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos +os seus aspectos muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e +desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não desperte e +não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu invencível poder e a +sua indomável expansão. E esta guerra mais evidentemente do que nenhuma outra +o demonstrou.</p> + +<p>«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente +grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira guerra +de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da nossa religião. +Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que, se as nações são +cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o souberam Atanasio +e<span class="pagenum"><a id="pag_73" name="pag_73">[73]</a></span> +Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo de Constantino até agora +esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua protecção a igreja e, largamente, +sob o seu governo, no acontecimento conhecido como a conversão de +Constantino, muitos dos princípios do Evangelho se obscureceram. Durante +séculos, a igreja estava pronta a abençoar exércitos e armadas. Shakespeare +julgou apropriado fazer proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam +Henrique V a declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa, +instado para abençoar as armas, respondera:—«Dou a minha benção à paz.» E um +arcebispo—<i>alterius orbis papa</i>—solenemente declarava toda a guerra +«obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente que +toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro efectivo. +Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o cristianismo nunca foi +aplicado às relações internacionais. O que faliu foi uma civilisação que não +era cristã»<a name="tex2html5" href="#foot706"><sup>5</sup></a>.</p> + +<p>Romain-Rolland, nos artigos que publicou no <i>Journal de Genève</i> e +correram mundo vertidos<span class="pagenum"><a id="pag_74" +name="pag_74">[74]</a></span> em diferentes linguas, anunciados como um +pregão profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra +mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes apóstolos +rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de repente nos +mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães, e Frank, morto +em combate, por amor do militarismo, ele que era o campeão da união +franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à disposição dos seus governos e +lhes coadjuvaram as mentiras e os odios «tendo a coragem de morrer pela fé +alheia, os que não tiveram animo de morrer pela sua própria fé.» «Os +representantes do Principe de Paz, sacerdotes, pastores e bispos, foram para +as batalhas aos milhares, a levar-lhes, mosquete em punho, os divinos +mandamentos:—Não matarás e amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de +austriacos, alemães ou de russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada +um tem o seu Deus e cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o +defenderem e destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte +mil sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os +cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem qualquer +expressão de pasmo, a<span class="pagenum"><a id="pag_75" +name="pag_75">[75]</a></span> scena paradoxal na estação do caminho de ferro +de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços ordinandos que iam +para os seus regimentos, cantando todos juntos a marselheza.» Pio X, a quem o +rompimento de guerra apressou a morte, segundo se crê, que «não poupou os +seus anatemas aos sacerdotes inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra +do modernismo, que fez êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes +cuja ambição desmedida votou o mundo à miséria e à morte?»</p> + +<p>Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo, +porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta de +resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se associou, +atiçando-o em vez de o apagar.</p> + +<p>Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de +Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o cristianismo e +as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência da organização das +igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do império de um princípio cuja +expansão e penetração teem sido constantes desde a hora da sua revelação, +cujo poder mais do que nunca nos domina e fascina, e cuja lei cada vez mais +lucidamente se mostra a solução<span class="pagenum"><a id="pag_76" +name="pag_76">[76]</a></span> unica e a unica redenção dos males e angústias +que afligem a humanidade.</p> + +<p>Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão de +ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas cristãs +veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por todo o mundo +associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e deshumano; +tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo, abençoando-os bastas +vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito dos fiéis, de ordinário +prontas em promover o culto da riqueza e do podêr; quási invariavelmente +afastadas, senão inimigas, do desenvolvimento da democracia que, sendo a +tradução política dos seus princípios, elas insistiram em desconhecer, +aceitando-a em último extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina, +subversão, opressão e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe +dúvidas, temores e embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e +partilhando-lhes do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes, +e amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação +das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno +impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da +autoridade<span class="pagenum"><a id="pag_77" name="pag_77">[77]</a></span> +civil, subsistente durante longos séculos e por diversos modos efectiva, +expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no forum e no templo; mais +combatentes, coercitivas, do que apostólicas, mais amigas de mandar, e de +facto mandando, entre erários e espadas, do que confiadas em cativar pela +pobreza, pela isenção de toda a violência, pela verdade e pelo amor; de uma +scéptica complacência com o fariseismo e hipocrisia que se lhes roja pelos +altares, inteiramente descuidadas em corrigir as superstições dos seus +rebanhos; afeiçoadas a uma caridade realmente abundante de deligências, +desinteresses e esmolas, mas intimamente e logicamente inseparável de todas +as aristocracias e hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e +de quanto possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a +intervenção; não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para +depois lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em +paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos +predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo cuja +suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de expressão da +alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar regras e manter uma +disciplina<span class="pagenum"><a id="pag_78" name="pag_78">[78]</a></span> +estreita e mecanica do que exaltadas em respeitar, defender e propagar a +pureza dos princípios; desatentas ao inimigo que lhes invadia os domínios, +não percebendo ou tomando em pouco o que o desenvolvimento da imprensa diária +lhes importava, pois, trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que +cada um escolhe ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o +procurávamos, nos dias de descanso das fadigas profissionais:—as igrejas, no +geral, decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando, +por desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira de +aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da adoração +dos homens, que para as servirem as tinham edificado e cimentado com o seu +sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e teem. Faltaram-lhes +crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma conjuntura como a presente, +porque crentes não tinham, quedaram-se impotentes, com grande copia de bons +desejos, palavras excelentes e muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de +acção.</p> + +<p>«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o +preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os fundamentos +e desvairou as gentes. Da<span class="pagenum"><a id="pag_79" +name="pag_79">[79]</a></span> corrompida interpretação dêsse princípio veio +que, devidido o mundo e a consciência em duas metades, uma para Deus e outra +para Cesar, completamente se perdeu a noção da dependência em que Cesar +estava de Deus, e impensadamente se dispensou a observância das obrigações +correlativas; não mais se cuidou de subordinar Cesar a Deus, (os imperadores +contam com o auxilio de Deus para os seus negócios e invocam-no como quem +está seguro da honestidade e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino +seu, próprio e para todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o +desregramento, a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de +que, se Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma +humanidade redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação +do mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a +fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no +rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa, excelente +e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle adaptada, +sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua sumidade, por vezes +propensa a indulgências com a cobardia religiosa, sem mesmo hesitar em +abençoar<span class="pagenum"><a id="pag_80" name="pag_80">[80]</a></span> +exércitos que, sendo portadores do ódio e da morte, são a negação de Cristo, +e até mesmo pondo sob a protecção da cruz as máquinas dos caminhos de ferro +que são levitas e servidores horrendos de desapiedadas cobiças.</p> + +<p>Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade +religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e +infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas e +domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por isso +cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez mais +inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o +reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão +sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos primeiros +dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos, manter. «Os +horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem do cristianismo +e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e esta espécie de +cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como aquela de que estamos +sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da natureza da impostura. Mas, por +muito más que as cousas sejam, não há necessidade de desesperar. Um novo +cristianismo e uma nova cultura surgem—o<span class="pagenum"><a id="pag_81" +name="pag_81">[81]</a></span> cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a +cultura dos profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa +religião, não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam +o logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que +Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora presente. +</p> + +<p>De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades +modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada +sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência do +cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde durante +prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos os altares e +espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer na solução dos +problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso tempo resulta é a +vitória da religião e do cristianismo em toda a latitude, como promessa unica +de salvação. Cresceram fóra das suas igrejas, com diferentes nomes e +diferentes rubricas, sob diversissimas invocações, mesmo sob as que se +propunham nega-los e, inscientemente, imaginando afugenta-los, destrui-los e +substitui-los, os propagavam e defendiam; cresceram, porêm, +continuamente<span class="pagenum"><a id="pag_82" +name="pag_82">[82]</a></span> e, sendo divinos, nunca como agora se mostraram +necessidade terrena mais urgente e remédio mais seguro das nossas +enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior altura, erguidos não só +pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre foi todo o seu ser e +substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da logica, pela meditação e pela +reflexão, pelas conclusões da inteligência e pela investigação das leis da +vida, pelas demonstrações da experiência, pelas lições da história +desapaixonada e isenta de toda a obsecação de sectarismo.</p> + +<p>A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em +iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e discordia em +auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no reconhecimento da +mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação do mesmo mistério, na +justificação do mesmo amor e no respeito da mesma regra que dêsse princípio +deriva. Religião, sciência e filosofia que fôram atrozmente irreconciliáveis, +resolvendo nas fogueiras, nas masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas +divergências e conflictos, caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se +amparam para uma mesma jornada. Já a ninguem surpreende que um +publicista<span class="pagenum"><a id="pag_83" name="pag_83">[83]</a></span> +de superior reputação se detenha a proclamar o «valor religioso do livre +pensamento», significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade +do espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a +sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu +inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade. +Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma igreja +infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O pensamento +não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda menos, por modo +algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava que essa fé podesse +definir-se como um estudante a definiu—«aquela qualidade pela qual cremos em +cousas que sabemos serem totalmente destituídas de verdade.» Mas a igreja de +hoje, no seu melhor modo, acolhe bem o pensamento porque com êle está mais +segura de si. Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que +lhe resta está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra, +considera o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr +que voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as +profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade<span +class="pagenum"><a id="pag_84" name="pag_84">[84]</a></span> foi auxiliada +por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal da realidade da +nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para o campo largo da +razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e a sciência, levadas +para qualquer cousa como um terreno comum.</p> + +<p>«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias +de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos dogmas, +vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida; mas as cousas +grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na sabedoria e no amor de +Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em o nosso dever com os nossos +irmãos, são, pensa ele, mais profundamente sentidos e mais sinceramente +possuídos do que nunca. A sciência abdicou da sua velha arrogancia e está +preparada para se apresentar de cabeça curvada, como um humilde investigador +nos palácios do Oculto.»</p> + +<p>São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e no +govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião e o seu +valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma torrente, no +meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se um<span +class="pagenum"><a id="pag_85" name="pag_85">[85]</a></span> homem da +estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida de apostolado +político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se, confessa +publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a política e se +consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas suas palavras, não o +desengano de um profeta mas a desilusão de uma época que, ardentemente +empenhada em livrar a terra e os homens dos martírios que os crucificam, +errou a estrada e foi procurar em mesquinhas artes e em artificios +estreitamente humanos uma salvação que êles não continham. São a condemnação +final de toda a idolatria materialista dos valores económicos e a certeza de +que só a inspiração religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza +da nossa inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de +fundar.</p> + +<p>Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo +director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno livro, de +sumo interesse e eloquente clareza, intitulado <i>O Sermão da Montanha e a +Política prática</i>. Pretendia que «não podemos realizar imediatamente os +ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da sua realização, e os +nossos movimentos podem<span class="pagenum"><a id="pag_86" +name="pag_86">[86]</a></span> estar de harmonia com as leis da natureza +humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram supremamente +compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas pelos que adoram +Mamon e Belial».</p> + +<p>Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma +lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da terra, e +em particular na política, examinando a possibilidade de aplicação das +bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à simplicidade, à +misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por engenhosos sistemas e +subtis abstrações mas pelos exemplos históricos mais vulgares, vinha por fim +a afirmar que é possivel governar uma nação pelos princípios estabelecidos no +Sermão da Montanha e que é sómente em quanto assim procedemos que a sociedade +póde elevar-se dos tipos mais baixos aos mais altos. Podemos ir para diante +no espírito do cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião +é que vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e +dos demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu +de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens públicos +podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma<span +class="pagenum"><a id="pag_87" name="pag_87">[87]</a></span> legislação +humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste o facto de que +essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará lembrar o que a +legislação social e política tem sido desde o comêço do século desenove—o +que ela fez protegendo as crianças, de que infernos vem arrancando os +trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a dignidade, que lutas +titânicas sustentou para isso, que barreiras formidáveis de prejuízos e vis +interêsses lhe foi necessário transpôr e vencer. E que princípio, que fôrça +realizava êsses milagres senão o cristianismo que dos livros sagrados se +derramára nos códices das doutrinas e das instituições políticas?</p> + +<p>Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores, +seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância daquele +valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem, sobretudo para o +fazer repassar mais profundamente a consciência dos homens, definitivamente +convencidos da necessidade de um predomínio maior ainda, infinitivamente mais +profundo, dos princípios do Evangelho considerados na sua influência prática, +na sua ilimitada aplicação à disciplina e conduta da vida.</p> + +<p>Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra, Filipe +Snowden,<span class="pagenum"><a id="pag_88" name="pag_88">[88]</a></span> +dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as fôrças unidas da +democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado a catástrofe da +presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se por tal forma que as +fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas não tiveram tempo de +mobilisar-se antes que as intrigas dos militaristas, monarcas e diplomatas +soltassem as fúrias da guerra. Sempre acreditára e confessára que, se as +nações da Europa continuassem na política internacional dos ultimos quinze +anos, provocando hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de +armamentos, o resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a +causa da guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a +responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais, deixaram +que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os militaristas e os +diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas aspirações democráticas e +levados por interesses económicos e outros opostos aos trabalhadores do +mundo. Tivessem-se os trabalhadores apossado do govêrno das relações +internacionais, e debalde se teria provocado a guerra e as suas calamidades, +de cuja responsabilidade os trabalhadores não podiam livrar-se.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_89" name="pag_89">[89]</a></span>Sem +dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar no podêr +da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está longe de se +conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio dos partidos +socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as nações. Mas para os +estranhos às artes da actividade política prática, medianamente propensos a +esperar das suas tramas a fortaleza que só no vigor das tendências do +espírito encontram, o mais provável será que não fôsse a deficiência de +direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a guerra; antes teria +acontecido que a insuficiência do espírito anti-militarista entre os +trabalhadores não permitiu que êles se acautelassem e defendessem o mundo +contra essa inqualificável monstruosidade. Para os que mais esperam da +inspiração interior que do engenho prático, a responsabilidade dos +trabalhadores está amplamente atenuada pela sua miséria material e indigência +moral correlativa. A civilização moderna, fazendo-os escravos de uma +escravidão de que a custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes +podia ensinar menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas +revoltadas.</p> + +<p>Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos +sórdidos das<span class="pagenum"><a id="pag_90" +name="pag_90">[90]</a></span> chancelarias, dos palácios e das casernas. +Teria sido a debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um +simples erro de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição +perante poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de +iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a guiar +e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja suficiente +para a substituir.</p> + +<p>Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu Eduardo +Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor, quando o génio +bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de todo isento de ira +injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr termo a esta peste da +guerra, <i>não há senão um remédio</i>, e é «o geral abandono dêste sistema +de vivermos do trabalho dos outros», poderá parecer-nos que simplifica em +extremo e reduz a proporções demasiado mesquinhas um conflicto de proporções +gigantescas que é uma dôr e uma agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos +capricho da destreza do filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com +que êle pretende fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra +uma anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos, +ligeiramente que seja, de pronto<span class="pagenum"><a id="pag_91" +name="pag_91">[91]</a></span> nos convencemos de que nem a afirmação do +profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem os seus +vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em renascimento +assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das relações sociais, +desde a ínfima humildade de um servo que nos comove até á soberba das +potestades da terra que nos ameaçam.</p> + +<p>Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros, +negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre as +nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram para isto +as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e colheitas, para +apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores podessem subsistir; e são +a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir concessões de borracha, minas de +ouro, minas de diamantes em que o trabalho de gente de côr seja explorado até +ao extremo mais amargo; apossar-se de colonias e terras distantes, onde +empresas capitalistas gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) +possam realisar dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros +productos industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no +caminho destas avidas e deshumanas ambições:—tais são os<span +class="pagenum"><a id="pag_92" name="pag_92">[92]</a></span> fins das guerras +de hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós, +porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes capitalistas e +comerciais, que hoje são os representantes das nações, se funda em o mesmo +princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é encontrar algum trabalhador +ou grupo de trabalhadores cujo trabalho valoríse o que nós podemos +apropriar... Um parasitismo sem disfarce e sem vergonha é a ordem, ou a +desordem dos nossos dias. A rapacidade dos animais de preza mal se oculta em +a nossa vida social, transparentemente velada todavia por uma aguada de +sentimento «cristão» e por uma rede de instituições filantrópicas para +suposto benefício das muitas vítimas que nós espoliamos.</p> + +<p>«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra +intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos cobre o +corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros, sem considerar +aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois que admirar se por fim +resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto teatro do drama das nações, +e nas letras vermelhas da guerra e do conflito, escritas através dos +continentes? De nada serve dizermos com uma presumida piedade que<span +class="pagenum"><a id="pag_93" name="pag_93">[93]</a></span> estamos em campo +para banir a guerra e o militarismo, animando nós entretanto em nossa própria +vida e em a nossa igreja, ligas do império e outras instituições, o mais +sordido e egoista mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, +apenas uma guerra de um género muito mais insignificante e mais cobarde do +que aquele que se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e +dos canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma +comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra<a +name="tex2html6" href="#foot707"><sup>6</sup></a>.»</p> + +<p>Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se +reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre—uma derrogação do +princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a qualquer +outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e que o hábito +nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em uma tal +simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola. Acusados e +pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o cristianismo significa na +hora presente, até<span class="pagenum"><a id="pag_94" +name="pag_94">[94]</a></span> onde chegam as suas bençãos e anatemas, e +conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que influências +imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e latentemente se criaram, +e que espécie de revolução, ou, melhor, de resurreição nos anunciam.</p> + +<p>Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo +tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida fortaleza, +deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem edificá-la. E aquilo de +que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento da inteligência na +humanidade, o conhecimento da história e a observação minuciosa e exacta da +evolução das sociedades, todo êsse honesto labor das universidades, da +imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos por qualquer meio se +tornaram verdadeiros pastores das nossas almas, tudo isso que é um assombro +da capacidade mental dos homens, tudo foi vão para evitar as provações a que +um destino sinistro nos conduziu.</p> + +<p>Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse +que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na <i>Grande Ilusão</i>, largamente +comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e +renovado no <i>Prussianismo e a sua Destilação</i>, <span class="pagenum"><a +id="pag_95" name="pag_95">[95]</a></span>isso bastava para que a paz e a +guerra fôssem um pleito findo.</p> + +<p>Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos +essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e +conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos, o +pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a grande +ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida, aquelas que +representam os fins das sociedades humanas, só podem alcançar-se pelo +desenvolvimento da fôrça política e militar dos estados, pela extensão do seu +território e pelo domínio dos seus govêrnos. Esta doutrina, proeminente e +característica na Prussia, tornára-se afinal comum a toda a Europa por +virtude de um deplorável contágio. Para a debelar não bastavam combinações +diplomáticas e a revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de +espírito, só por tendências opostas poderia ser vencida. Foram os +professores, as academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a +propagaram; e só por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. +Não seria pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua +calamitosa sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da +religião; debalde<span class="pagenum"><a id="pag_96" +name="pag_96">[96]</a></span> sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram +sustentar as crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a +liberdade, quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e +a estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua comparação, +demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos altares. Assim acontece +e se verifica que «o combate pelos ideais não póde mais tomar a forma de +combate entre as nações, porque as questões morais estão dentro das próprias +nações e cruzam as fronteiras políticas. Não há estado algum moderno que seja +completamente católico ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático +ou democrático, socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais +do mundo moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma +cooperação intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros +estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e +economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a +estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões +nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas pela +coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty, citado por +Norman Angell, «ignorar<span class="pagenum"><a id="pag_97" +name="pag_97">[97]</a></span> a significação dos congressos internacionais +não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo, do feminismo, de toda +a espécie das artes e sciências, que tão claramente marcam os seus sinais nas +épocas de férias. A nacionalidade, como fôrça de limitar, cede perante o +cosmopolitismo... Encontramos a aproximar-se uma situação em que a fôrça da +nacionalidade será distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as +classes se organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos +da sua fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a +associação atravessa os limites dos estados, que são puramente convencionais, +e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do género humano em +estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em respeitar um +<i>mujik</i> russo porque pertence a uma grande nação, ou em desprezar um +fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação pequena». «Viremos a +compreender que as divisões reais psíquicas e morais não são entre as nações, +mas entre as concepções opostas da vida».</p> + +<p>Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente +obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre os +povos será em breves anos<span class="pagenum"><a id="pag_98" +name="pag_98">[98]</a></span> uma realidade. E a acção dessa lei efectua-se +com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra tem sido +diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A certos +respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do que em todas +as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez anos do que +primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os desenvolvimentos de uma +geração?».</p> + +<p>Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a natureza +humana não é susceptível de mudar. A história é a negação radical de +semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de retardatários. Do +canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos autos de fé à liberdade +religiosa, do heroismo divinisado ao espírito militar combatido como um +crime, a humanidade renasceu; e, se exteriormente é bem diferente do que foi +na sua origem, intimamente anima-a um espírito que desconhece e repele aquele +de pura animalidade que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de +bandos famintos, devastadores e crueis, passou à comunidade moral e +religiosa, e a civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do +espírito militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater, +cresce-lhes a tendência para <span class="pagenum"><a id="pag_99" +name="pag_99">[99]</a></span>trabalhar, e é trabalhando juntos, e não +combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma +terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e +decaíndo, continuamente se sustenta.</p> + +<p>De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento +de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais sãos e +corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a procriação das novas +gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria Inglaterra, apezar de toda a +resistência do espírito da sua raça, corre o risco de perder as suas melhores +qualidades. Combatendo o prussianismo póde prejudicar-se na diligência de o +vencer pela adopção das suas armas e pelo abandôno das virtudes que a +tornaram grande, «a aptidão de iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a +sua obstinada resistência à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua +impaciência com a burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o +que se involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada +para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca, +promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura +substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo <span +class="pagenum"><a id="pag_100" name="pag_100">[100]</a></span>modo uma fórma +de parasitismo, promove o retrocesso».</p> + +<p>A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que +ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão +económica—usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa do +dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar, consideração +social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia um mundo em que as +cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo os grandes espíritos da +antiguidade não acreditavam que o mundo podesse ser laborioso, senão quando a +grande massa se tornasse laboriosa pelo uso da fôrça física, isto é, pela +escravatura. Tres quartas partes dos que nos dias mais florescentes de Roma +povoavam o que agora é a Itália, eram escravos, acorrentados no campo quando +trabalhavam, acorrentados à noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, +acorrentados aos portais. Era uma sociedade de escravos—escravos para +combate, escravos para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais +e, acrescenta Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo +nas cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos +espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou<span class="pagenum"><a +id="pag_101" name="pag_101">[101]</a></span> uma larga concepção de uma +condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo impulso +económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade, quando disse +que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por si», a escravidão +seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de chegar tempo em que o mundo +trabalharia muito mais activamente sob o impulso de uma causa abstracta +chamada interesse económico, e êles considerariam semelhante asserção como a +de meros teóricos sentimentais. Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se +ha sessenta anos afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo +trabalho livre êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por +certo se riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de +aceleração a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, +mas principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia, esta +substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais seguro e +rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas tambêm de +acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que, por isso mesmo +que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o espírito mais elevado e +o mais mesquinho,<span class="pagenum"><a id="pag_102" +name="pag_102">[102]</a></span> por isso se torna uma fôrça universal em todo +o sentido.</p> + +<p>Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres +competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E todavia a +guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o coração +purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar êsse +prodigioso renascimento.</p> + +<p>Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios +poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos êsse +espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda se ergue +como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para combater o inimigo, a +satânica sensualidade que fundou o mundo moderno em ambições tôrpes e em +materialidades e que, é evidente, não abdicará do seu reino passada a +tormenta? Como é que um pensamento religioso só por si ha-de destroçar os +poderes da terra enriquecidos, armados e incessantes na avidez? Pelas ligas e +tribunais de paz, pelos ajustes diplomáticos, pela redução dos armamentos, +por todos êsses «retalhos de papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a +Alemanha rasgou o compromisso que a obrigava a respeitar a<span +class="pagenum"><a id="pag_103" name="pag_103">[103]</a></span> neutralidade +da Bélgica?!... Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo +destinado a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as +igrejas em suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e +sujeita-los à lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas +intenções há-de tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua +regra?</p> + +<p>Ferrero, o historiador da <i>Grandeza e Decadência de Roma</i>, diz-nos no +último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a +pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o futuro, +dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em tentativas +contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro por si mesmo se +fazia no grande império, e muito diferente daquilo que se tinha pensado. +Emquanto Augusto se dava a tantas penas para reorganizar em Roma o govêrno +aristocrático, acontecia que por si mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços +de milhões de homens inconscientes do resultado final, as regiões do império +que mais diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, +mútuamente se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta; +interesses materiais<span class="pagenum"><a id="pag_104" +name="pag_104">[104]</a></span> que infinitamente se encadeavam, tinham-nas +mais estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma +ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho interior, +invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento acidental dos +territórios feito pela conquista e pela diplomacia se tornava verdadeiramente +um só corpo, animado de uma vontade única».</p> + +<p>Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da +constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma grande +clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra. Dedicado à +<i>Workers' Educational Association</i>, e por isso posto em termos de ser +compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos, colaborado por +professores eminentes das universidades de Cambridge e Oxford, mais cingido +aos factos do que enlevado na sedução de abstrações e idealismos, procura +êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a crise que a guerra representa +nos destinos da democracia, e com um exito manifesto muito instrue os menos +versados nas questões políticas, mas nem por isso menos interessados e +dedicados na determinação final de uma situação das nações da Europa, que +terá de ser de larguissimas <span class="pagenum"><a id="pag_105" +name="pag_105">[105]</a></span>conseqùências na fortuna ou na desgraça dos +povos que elas compreendem.</p> + +<p>Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio da +lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois processos.</p> + +<p>Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em +tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de +tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e em +muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da sua fé +como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na impossibilidade de +serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a perversidade dos homens +as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem, onde estão os exércitos que +tornam soberanas e uma realidade as decisões dos tribunais? Quando uma nação, +armada e grande, afrontar as obrigações dos <i>retalhos de papel</i> e os +rasgar, quem tornará de bronze a vontade dos tribunais e converterá em +mármore a precária consistência do papel? Um revoltado bastará para atraiçoar +as intenções mais firmes e felizes, e para inundar a terra de uma chuva de +sangue e de fôgo.</p> + +<p>Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e +preparar o<span class="pagenum"><a id="pag_106" +name="pag_106">[106]</a></span> caminho para progressos ulteriores, mas só +por si não podem dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação +satisfatória para o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários +govêrnos soberanos e em bem das suas nações».</p> + +<p>Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem, +nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário, +merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir valôr +que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as suas +faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos beneficios; +pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito colectivo da +humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo que póde chamar-se o +ideal civil contra o ideal militar, não em a maioria dos estados mas em todos +os estados suficientemente poderosos para desafiar a violência. Pressupõem um +mapa do mundo traçado definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações +nacionais dos povos. Pressupõem um <i>status quo</i> que se mantem, não +simplesmente, como o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação +seria inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente +equitativo. Pressupõem uma base<span class="pagenum"><a id="pag_107" +name="pag_107">[107]</a></span> democrática de direitos civis e representação +idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem, finalmente, uma +opinião pública educada, incomparavelmente menos egoista, menos ignorante, +menos flutuante, menos materialista, e menos estreitamente nacional do que +aquela que até aqui tem prevalecido».</p> + +<p>O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de +extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a velha +estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos. Espera +resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos, mas do +crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das próprias nações +no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o estabelecimento +definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente uma refutação +definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua das nações. Espera a +expressão do govêrno do mundo na ordem externa, daquilo que podemos chamar o +<i>princípio da República</i>, do grande princípio de lord Acton, do estado +composto de nações livres, do estado como um corpo vivo, que vive pela união +orgânica e livre actividade dos seus diversos membros. E encontra o seu +imediato<span class="pagenum"><a id="pag_108" name="pag_108">[108]</a></span> +campo de acção no alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis +entre os povos das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo +patriotismo foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme +fundamento das mais antigas lealdades».</p> + +<p>«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem ser +resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e guerra; +só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de cada estado, no +reconhecimento por ambas as partes de exigências mais altas do que os seus +interesses seccionais—as exigências de direitos civis comuns e do interêsse +da civilisação. Nisto, na união e colaboração das diversas raças e dos +diversos povos, é que o princípio da República encontra o seu campo peculiar +de operação. Sem êste princípio... o mundo será o caos que hoje é»<a +name="tex2html7" href="#foot708"><sup>7</sup></a>.</p> + +<p>Eis aí a lei suprema da história—a preponderância da actividade interior +e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações,<span +class="pagenum"><a id="pag_109" name="pag_109">[109]</a></span> aos decretos, +às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e dos imperadores, +e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes movimentos da humanidade. +Roma e a constituição jurídica e moral do mundo latino que dela nasceu e é +seu espelho, foi apenas o maior exemplo da inflexibilidade dessa lei do +desenvolvimento das raças, duas vezes repetido naquele lugar, primeiro +criando a unidade política da civilisação, e depois refazendo-a, quando, +decrépita, carecia de ser renovada pela unidade religiosa. A face das cousas +parece mudar mas sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas +à mesma lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, +de fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes. +</p> + +<p>Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo, +será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes do +resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que ninguêm tem +consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação. Quando as leis +escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto a sua vitória a +isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou roubar o seu domínio. +</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_110" +name="pag_110">[110]</a></span>Quarenta anos de materialismo brutal, +inflamado por um mesquinho e desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na +guerra a sua obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu +espírito correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia +conduzir. Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque +só produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde ostentára +traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo inaudito lhe +demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho subtil lhe minára os +fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o haviam gerado e nutrido, os +apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os pensadores, a inspiração dos +poetas, as academias, e sobretudo as multidões que os ouviam, sentiam e +interpretavam, fatigadas de errores e de desprendimento religioso e moral; e, +verificando pela experiência de agudos instintos os benefícios e os males das +doutrinas e das crenças, conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou +lhes roubam, assim as amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis +e imponderáveis, que habitam no coração das multidões anónimas, que nos +dirigem e dão a vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses +poderão libertar-nos da<span class="pagenum"><a id="pag_111" +name="pag_111">[111]</a></span> guerra ou eternisar a sua danação; e as +igrejas valerão então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os +estados serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o +respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as +nações.<span class="pagenum"><a id="pag_112" name="pag_112">[112]</a></span> +</p> + +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_113" name="pag_113">[113]</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION00500000000000000000"></a> <br> +Da arte de gastar e suas responsabilidades </h1> + +<p>«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam; +hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que nenhum +mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos. Parece que se +torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja impossível achar +remédio simples para ruins efeitos, sabemos que, começando a pensar +honestamente, teremos probabilidades de achar o caminho de melhores hábitos. +</p> + +<p>«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar desta +negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte, quanto à +futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas despesas? Não é +bem para uma nação que uma quarta<span class="pagenum"><a id="pag_114" +name="pag_114">[114]</a></span> parte dos seus rendimentos se gaste de um +modo inconstante. Não é bem para uma nação que a quarta parte da sua +capacidade de trabalho se especialise a produzir cousas que se vêem e sentem +destituídas de valor, mal uma crise o vem pôr em prova. De resto, os ricos +não são os únicos que no seu gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os +seus poucos luxos inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que +individualmente teem maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, +emquanto são êles que individualmente possuem maior poder de gastar e são, +por conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por +que hão-de usar êsse poder.»</p> + +<p>A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o +titulo de <i>Spending in War Time</i>, o professor E. J. Urwick publicou, em +Oxford, na colecção de <i>Papers for War Time</i>, dirigida por W. Temple. +</p> + +<p>Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação dos +princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do ocidente, e +dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se arrepender», essa +colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas angustias em que a +indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é simultâneamente<span +class="pagenum"><a id="pag_115" name="pag_115">[115]</a></span> um estudo +magnifico de diversos problemas que a ansiedade de melhores dias definiu e +pôz, não sem esperança de soluções por igual próprias a satisfazer as +investigações da consciência moral e as necessidades da vida prática. Os que +seguem a Cristo, estão unidos entre si em uma comunhão superior a todas as +divisões de nacionalidade e de raça; «os deveres cristãos e de amor e de +perdão prendem-nos tanto em tempo de guerra como em tempo de paz». E os +cristãos teem de reconhecer «a insuficiência da mera compulsão para vencer o +mal, e de guardar a confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente +no poder e no método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se +associaram à missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente +testemunho e instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.</p> + +<p>Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de +aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e +fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos, virá a +considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que o destino +lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e o seu reino na +terra, e especialmente como favorece ou embaraça a solução<span +class="pagenum"><a id="pag_116" name="pag_116">[116]</a></span> dos conflitos +económicos que a guerra exacerbou e revelou com uma dolorosissima evidência. +</p> + +<p>O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a exiguidade +de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e extensão das +despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar para se sustentarem, +quando freqùêntemente, e por desgraça, não são reduzidos ao extremo de não +gastarem sequer aquilo de que careciam para o seu parco sustento, porque de +todo lhes faltam os meios indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, +ainda numerosos, de facto representando uma fôrça poderosa na actividade das +sociedades; e êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam +por isso com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos +seus haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão +sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.</p> + +<p>E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente? +Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades em +prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus +regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para acudirem +aos<span class="pagenum"><a id="pag_117" name="pag_117">[117]</a></span> +necessitados, derivam das suas dissipações habituais as somas que nelas +empregavam, e para isso criam novas legiões de indigentes, condenando à +miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que lhes serviam as dissipações, +provendo-lhes o luxo e as futilidades, disso auferindo o pão de cada dia e +para isso tendo sido educados por longos anos de prática e especialisação, +que não raro os tornaram inaptos para outras profissões?</p> + +<p>A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os +que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos ou +tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações, alongando-as a +uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e causando-as a outros +se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos ultimos, negando-lhes o que +até aí lhes davam e em certo modo prometiam dar-lhes, pela invariabilidade do +que lhes pediam.</p> + +<p>A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos +causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a toda a +casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas sem +cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam, constantemente +de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú <span class="pagenum"><a +id="pag_118" name="pag_118">[118]</a></span>pela perturbação em que a guerra +desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam as nossas despesas como essas +doenças latentes, graves, fatais, que se escondem em aparências de saúde e +artes de bem trajar, e que uma febre acidental revela aos que em sua +negligência não as tinham previsto nem sentido, aterrando-os então pela +iminência de perigos mortais e pela presença de própria miséria. Por uma +incúria que é o indício da lastimosa leveza de consciência moral e religiosa +de que nos deixamos possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e +toda a distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que +dispomos e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de +longe discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências +ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como obrigação +e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos trabalhadores +alimentavam e em que condição os mantinham, que influência social exerciamos +por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia de nós, que +instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros obrigados das +nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e traiçoeira certeza de que +gastando, seja como fôr, beneficiamos o comércio e acrescentamos<span +class="pagenum"><a id="pag_119" name="pag_119">[119]</a></span> a riqueza e o +tráfego, unicamente porque demos emprego a muitos braços.</p> + +<p>Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam o +sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes ignoramos +inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso escapa à nossa +atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a consciência, +sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de capital os nossos +hábitos determinam, que espécie de constituição económica criam e sustentam, +e de que enfermidades ela padece e faz padecer os homens que lhe estão +sujeitos. Pois é evidente que será, por exemplo, muito diversa em seus riscos +a situação de costureiras empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse +trabalho amestradas, e a situação dessas mesmas costureiras empregadas a +coserem blusas de trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou +qualquer outro, cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e +anula-se o capital que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima +miséria e na maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos +trabalhores, e cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, +e se suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São +infinitamente<span class="pagenum"><a id="pag_120" +name="pag_120">[120]</a></span> e manifestamente menos numerosas as +contigências de retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda +a distancia que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos +acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos casos a +impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados, porque o +desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o afrouxamento, e em +breve a atrofia completa, de outras capacidades, compreender-se-á quanto +importa para a fortuna dos trabalhadores o género de trabalho que lhes +reclamamos e o género de mercadoria que lhes pedimos e, porque lho pedimos, +os convidamos e na realidade obrigamos a produzir.</p> + +<p>Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick, +«crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um +assinalado serviço à indústria, <i>beneficiando o comércio e dando +emprego</i>. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas é +o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade reside +no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que agora temos a +considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É indubitavelmente +verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a inclinação da<span +class="pagenum"><a id="pag_121" name="pag_121">[121]</a></span> indústria +para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos, estimula por isso os patrões +e os operários a fazerem sapatos e a proseguir no fabrico dos sapatos, em vez +de produzirem qualquer outra cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos +sapatos no sentido rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se +consagrem espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem +sacos. No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma +enorme de dinheiro se está gastando em panos de <i>khaki</i>, resultando daí +que correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital (incluindo +a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a produção dos +uniformes de <i>khaki</i>. Ora esta direcção do trabalho e do capital involve +alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem para fazerem isto em vez +daquilo. Usualmente significa que dá causa a que os trabalhadores e o capital +dos patrões se tornem altamente especialisados para o trabalho particular que +lhes pedem; tornam-se, por conseguinte, aptos para este trabalho e para +nenhum outro. Isto ainda é mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às +despezas da gente rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização +da parte dos fabricantes de vestidos<span class="pagenum"><a id="pag_122" +name="pag_122">[122]</a></span> ou de sapatos muito caros do que da parte dos +fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com todos +os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital altamente +especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles operam) é que não +podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro trabalho. O costureiro +hábil não pode mudar e coser <i>khaki</i>; o ourives hábil não servirá de +muito para fabricante de espingardas ou para construtor de cabanas. É por +isso que hoje os grupos de pacientes mais dignos de dó são justamente aqueles +trabalhadores que durante anos dependeram da freguezia da gente fina. Na +realidade, dependeram e dependem literalmente de nós, neste sentido—fômos +nós que os convidamos a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para +satisfazer as nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só +por este modo. São, por conseguinte, os <i>nossos</i> trabalhadores, os +<i>nossos</i> dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; +e no momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão +arruinados».</p> + +<p>De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom +dizer:—«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as despezas +supérfluas».<span class="pagenum"><a id="pag_123" +name="pag_123">[123]</a></span> Mas logo surgem duvidas e perguntam:—«E os +trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas supérfluas de +que hão-de viver?...»</p> + +<p>«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma +perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de uma +errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do +indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os +trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica de +uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não saibamos onde +se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem fiou e teceu o +linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente se obliterou o +sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de todo deixamos que +prevaleçam nesta materia tendências, principios e processos que resultam não +só em desamor dos que de nós dependem imediatamente, mas até na instabilidade +e muita dissipação da própria riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os +trabalhadores gastando dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum +gasto de dinheiro ou consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto +sustenta alguem, a não ser a<span class="pagenum"><a id="pag_124" +name="pag_124">[124]</a></span> pessoa que adquire a fazenda e a consome. +Trabalhadores e indústria são em geral sustentados só por um modo—pela +criação actual de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um +campo e criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os +trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos +sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto aplica-se +a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o conceber; mas a +materia é bastante simples. Os dois processos de fazer riqueza, em a nossa +capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a consumir, em a nossa +capacidade de gastadores de dinheiro, são exactamente análogos aos dois +processos de cosinhar os alimentos e de os comer depois de cosinhados. Se o +nosso cosinheiro nos prepara um jantar, a seqùência natural dos +acontecimentos é que nós ou outros o havemos de comer. Mas comer o jantar não +habilita, de modo algum, o cosinheiro a preparar outra refeição, e não o +sustenta, a êle, nem à sua cosinha. Isso só se consegue fornecendo-lhe novos +materiais para cosinhar. Ou podemos comparar a despeza á explosão de uma +arma. A explosão é a conseqùência natural da carga, e foi para isso que a +arma foi carregada;<span class="pagenum"><a id="pag_125" +name="pag_125">[125]</a></span> mas a explosão não concorre para carregar de +novo a arma, isso só se obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem +algum valor, pertence êle a um resultado totalmente diferente, que por sua +vez está inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos +gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na +proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente realmente +necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no quer que seja +para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se pretendemos +sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no facto de que +previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que gastamos e por êsse +trabalho acrescentámos realmente os recursos dos outros trabalhadores. +Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o quer que seja a êsse bom +resultado.</p> + +<p>«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas +vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso onde +fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os trabalhadores ou +os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e, com todo o seu duro +trabalho, a soma de cousas que podem <span class="pagenum"><a id="pag_126" +name="pag_126">[126]</a></span>fabricar, ou a soma de serviços que podem +prestar em um ano, é severamente limitada, mesmo que possa crescer +gradualmente à medida que os anos vão correndo. E em uma terra que de modo +algum anda inundada de mel e de leite, nenhum individuo e nenhuma classe pode +tirar com muita largueza da provisão total produzida sem deixar algures uma +falta. Isto é por tal forma verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que +por cada cem libras que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas +libras dos nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da +nossa comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas +vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco <i>shillings</i>. Ora nos +tempos <i>bons</i>, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de +longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os +rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a relação +entre a nossa abundancia e a indigência dos outros, suficientemente para nos +inclinar a não dispender o nosso dinheiro como antigamente».</p> + +<p>Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve e +fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado<span class="pagenum"><a +id="pag_127" name="pag_127">[127]</a></span> talento definido por um espírito +e por um caracter manifestamente superiores, não quer o seu autor que se lhe +atribua a «afirmação de que os nossos habitos de gastar são egoistas, ou +indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no caso unico em que êles involvem +realmente um perigo grande para o sistema actual da indústria. E que êles na +verdade são nêste sentido habitos maus, está provado pelo facto—e êsse é o +sinal de todo o habito máu—de que presentemente involvem todo o sistema em +dificuldades, mal sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da +instabilidade que lhes é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina +parecem ser elemento e parte daquele arriscado processo em que se procura +equilibrar a pirâmide da indústria no vertice dos desejos e necessidades de +uma pequena classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades +universais».</p> + +<p>Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos +dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela +nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se imagina +autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem moralmente inteira +liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal.<span class="pagenum"><a +id="pag_128" name="pag_128">[128]</a></span> Mas, se houve beneficios na +guerra e nos transes por que nos faz passar, a seu activo teremos de lançar +as profundas lições sociais que nos deixa e o poder, senão o terror, com que +nos obriga a escutá-las. Porque, no dizer de um jornalista inglês, «a guerra +ensinou a certa gente, pela primeira vez, exactamente o que significa viver +em uma sociedade. Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem +organizada, está mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as +pretensões individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. +Daí vem que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas +sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a maior das +calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por sua instigação +houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as soluções evidentes +que êles reclamam, e que de resto continuamente conhecemos e entrevemos pela +voz de interpretes eloquentes.</p> + +<p>Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura; +mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que a +história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e delas +tirar ensinamento para emendar<span class="pagenum"><a id="pag_129" +name="pag_129">[129]</a></span> os seus êrros e para acautelar a justiça e a +paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa a aproveitar e +meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua honra e o seu dever, +e é afinal o interesse imediato do seu contentamento e felicidade.<span +class="pagenum"><a id="pag_130" name="pag_130">[130]</a></span></p> + +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_131" name="pag_131">[131]</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION00600000000000000000"></a> <br> +O Cavador e o Profeta </h1> + +<p>Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada, porque +a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de assiduidade e +serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter irreductivel em seus +moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e do que o destino quiz, em +uma liberdade intransigente, por uma rebeldia infinita constituido fóra de +toda a pressão da vontade e intenções de estranhos, não há nada que o vergue, +nem há contingência que o amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. +O seu braço e a consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto +orgulho o domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e +necessidade, a sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. +Não há insinuação<span class="pagenum"><a id="pag_132" +name="pag_132">[132]</a></span> alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe +abrande a teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura +e estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as +raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.</p> + +<p>Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à velhice +adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma destas creaturas +que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do rosto, comendo as +migalhas e abandonando o principal aos seus senhores, e que, por sua grandeza +e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem sequer o evitam. Toda a +metralha filantrópica e seus condimentos e acessorios sociológicos e +socialistas, que se traduzem em bibliotecas infindas e em odios, guerra e +sangue, toda essa ambiciosa disputa e repartição da riqueza, e seus venenos, +astucias, e engenhosas e subtis ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e +vão a êsse velho pobre, se êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e +combates o que lhe vai no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo +principio que não permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam +magras e outras gordas e uns ninhos estão altos e outros <span +class="pagenum"><a id="pag_133" name="pag_133">[133]</a></span>baixos, uns em +logar seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se +atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu +cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a +aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas vezes +seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e aceitável, +porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra injustiças, nem +resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna e intransgressivel +que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo vago será talvez um dos +bordões da humildade.</p> + +<p>E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A +melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o +lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a +riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses +caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as sessenta +leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em nenhuma dessas +aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o seduzisse, luxo que +o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E depressa voltou à enxada e à +escravidão do amo a quem<span class="pagenum"><a id="pag_134" +name="pag_134">[134]</a></span> cavava as terras, e que em troca lhe dava o +pão. A experiência do mundo, quando o via de perto, inflamava-lhe logo um +obstinado desejo e contentamento da pobreza.</p> + +<p>Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque +tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como diz, +rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses +malfadados passos.</p> + +<p>Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito +que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a +brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a sua +conseqùência.</p> + +<p>Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência, dando-a +tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não havia questão, +como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava maravilhosamente com +as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de facto se tornou, em extremo +simples. Não precisava de juiz nem escrivão. Era deixar à mulher e aos filhos +a casa, o lar, o campo, e mais toda a poesia, graças e confortos que lá não +encontrou, e mais todas as inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle +embora, a cavar nas terras de<span class="pagenum"><a id="pag_135" +name="pag_135">[135]</a></span> alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi +o que êle fez, serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor. +Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um fidalgo +a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição e da bondade +a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus criados e +servidores.</p> + +<p>Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade e +a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por elas não +se afreimava.</p> + +<p>Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha a +verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava +claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a mais +penetrante arte de persuadir.</p> + +<p>Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado +desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava no +ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos +animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo +terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era +escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até onde +era<span class="pagenum"><a id="pag_136" name="pag_136">[136]</a></span> +mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo ou demónio lhe +mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a afeição e a dedicação +que os homens pagavam mal; advinhava-lhes superioridades na inconsciência, e +com ternura as reconhecia.</p> + +<p>Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos +ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham levado, +não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia, consistente, sólida, de +largos e singelos alicerces, e de resto rematadamente singular. Assim, entre +as lições que lhe ouvi, aprendi que no casamento a questão de idade só +importa ao homem. A mulher a todo o tempo póde casar; o homem é que precisa +de ser novo.</p> + +<p>—«Porque?»</p> + +<p>—«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de <i>o</i> ganhar, +precisa de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».</p> + +<p>E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda trabalha, +com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem para enriquecer o +amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma indiferença. É por trabalhar; é +o trabalho pelo trabalho, impulso essencial, significação única da vida,<span +class="pagenum"><a id="pag_137" name="pag_137">[137]</a></span> única razão +de ser da existência na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema +moral e económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe +outra cousa.</p> + +<p>Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a +poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia e +nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua lógica o que +não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da taberna e do +alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe parecerão um facto tão +natural e legítimo como as correrias dos potros na pastagem.</p> + +<p>Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para +êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe com um +desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é apenas uma +alegria, abençoada como todas as alegrias.</p> + +<p>Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas +provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A vida +seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade, uma sujeição +de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma independência<span +class="pagenum"><a id="pag_138" name="pag_138">[138]</a></span> de todos os +instinctos na suma vibração das suas energias—uma religião em que o mesmo +amor, e por igual, servia a Deus e aos homens, à terra e aos céus, porque a +terra e os céus eram as duas grandes verdades iniciais, duas emanações +sublimes de um só espírito misterioso.</p> + +<p>Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito +aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de vida que +eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que eu não sou +capaz de saber.</p> + +<p>Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre +de sangue o mundo?</p> + +<p>—«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem +trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem +agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo comigo +que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de costa direita, +quer comer sem trabalhar».</p> + +<p>Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há mais +de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus apóstolos, +como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores, <i>caveant +consules</i>!<span class="pagenum"><a id="pag_139" +name="pag_139">[139]</a></span> tomem nota os generais e os seus imperadores, +andam-lhes inimigos na fortaleza.</p> + +<p>Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias +inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito +longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá ficam, +por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos incultos, e «são +felizes até que os governos as descobrem para lhes pedir impostos e os filhos +para a guerra».</p> + +<p>Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o +génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas +palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta ou +foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e identificaram, que +mundo novo prometem a sua conformidade e consubstanciação em uma única +visão?!...<span class="pagenum"><a id="pag_140" +name="pag_140">[140]</a></span></p> + +<p> </p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_141" name="pag_141">[141]</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION00700000000000000000"></a> <br> +Aparições </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00710000000000000000">Mazzini</a> </h2> + +<p>É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o que +ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da +salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento e no +caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles importam +como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de uma fortuna +fácil e prolongada.</p> + +<p>Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais +remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu destino e +responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes incertezas, em +labirintos de ruinas inundadas de sangue e<span class="pagenum"><a +id="pag_142" name="pag_142">[142]</a></span> habitadas pela morte, pela fome +e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra haverá refúgio de tão +agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam os céus e a imensidade, +rogando que lhes mandem uma voz que seja o pregão do resgate, um alento onde +respirem a fortaleza e paz. Profetas que a embriaguez das paixões votára à +mudez dos seus tumulos e a quem o seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára +a grandeza, erguem-se das cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão +tenebrosa do tumulto em que os homens se despenham nos abismos que a própria +loucura cavou, sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São +remorso e esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que +pagamos cara, e esperança da glória a que nos conduzem.</p> + +<p>Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa o +nome de Mazzini.</p> + +<p>Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela obsessão +do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado os espíritos e +edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o assombro da nossa +imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades. Revolucionário, poeta e +sonhador, incarnação de idealismos que haviam ganhado<span class="pagenum"><a +id="pag_143" name="pag_143">[143]</a></span> fama de estéreis e perigosos, e +a negação daquela espécie de homem prático em que a sordidez se converteu em +suprema virtude, Mazzini jazia no manso olvido e proscrição a que uma época +toda enlevada e confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo +havia votado a legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, +pensadores rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera +todo o fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da +nossa fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos +aviltamentos da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.</p> + +<p>Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na +hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do mundo e +nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à contemplação de +visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.</p> + +<p>Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e +atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.</p> + +<p>Que dizia?<a name="tex2html8" href="#foot1075"><sup>8</sup></a> Em que +arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_144" name="pag_144">[144]</a></span>Não +compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si, +independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O universo +pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus, uma linha no +poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia divina. Da +conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o triunfo final, +toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza das sociedade +humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência impalpável, era isso a +sumula, regra, condição da vida de todas as realidades em que a nossa vontade +podia influir, o fundamento, único consistente, de todas as edificações que +tentassemos construir.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_145" +name="pag_145">[145]</a></span>Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na +solução dos problemas do seu tempo e do seu país, no ardor de mártir a que +consagrára a vida, sentiu que duas doenças corrompiam as classes que +preponderavam no govêrno dos estados—«o maquiavelismo e o materialismo. A +primeira, mesquinho disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para +longe do amor e de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a +segunda, através do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na +anarquia». Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e +embaraçavam uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente +manifesto, de todo perturbaram a fortuna da Europa.</p> + +<p>Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a +vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma certa +lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de crescimento governa +as plantas; uma lei de movimento governa as estrelas; uma lei nos governa, a +nós e à nossa vida, lei mais nobre e mais elevada do que aqueloutras, por +isso que nós estamos superiores a todas as outras cousas criadas na terra. +Desenvolver-nos, proceder, viver conforme a nossa lei, é êsse o<span +class="pagenum"><a id="pag_146" name="pag_146">[146]</a></span> nosso +primeiro, e até mesmo o nosso único dever».</p> + +<p>A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história como +pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do presente e +a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos precederam. «Os +primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem, sem mesmo procurarem +compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder, não no seu amor; tiveram +uma vaga concepção de certa relação entre Deus e o homem, mas nada mais». Foi +longa, durou dilatados séculos a insinuação do espírito que nos havia de +levar a compreender que <i>há um só Deus e todos os homens são filhos de +Deus</i>. Foi a promulgação destas duas grandes verdades que mudou o aspecto +do mundo, e «só então o homem soube que onde encontrar um companheiro está um +irmão, dotado de uma alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu +criador, um irmão a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de +conselho e acção quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos +apóstolos palavras sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen +no cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal +compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos.<span +class="pagenum"><a id="pag_147" name="pag_147">[147]</a></span> Porque <i>da +maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma mesma +funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de +nós membros uns dos outros</i>. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c. XII, vv. 4, +5). <i>E haverá um só rebanho e um só pastor</i> (Evangelho de S. João, c. X, +ver. 16)».</p> + +<p>A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em +toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção religiosa +e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de egoismos ou em uma +convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de ser baseiado pelo nosso +trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre o culto idólatra dos +interêsses e da oportunidade. Há países na Europa onde a liberdade é sagrada +no intimo, mas sistematicamente violada externamente; povos que dizem que +<i>a verdade é uma cousa e a utilidade uma outra cousa, que a teoria é uma +cousa e outra a prática</i>. Êsses países teem necessariamente de expiar a +sua culpa em longo isolamento, opressão e anarquia».</p> + +<p>A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua +substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_148" name="pag_148">[148]</a></span>«O +indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria fôrça +na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação opera-se +pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao indivíduo os +resultados do progresso de toda a raça humana. Por conseguinte, não só porque +é uma <i>necessidade</i> da nossa vida, mas tambêm porque é uma espécie de +santa comunhão com todos os nossos companheiros e com todas as gerações que +viveram, isto é, que pensaram e trabalharam antes de nós, por isso carecemos +de nos educar, o mais possível, em uma educação moral e intelectual que +compreenda e cultive todas as faculdades que Deus nos deu, como semente para +produzir fruto, e forme e mantenha um laço entre a nossa vida individual e a +vida colectiva da humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise +o mais rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e +intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por isso +Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser inferior +póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a natureza, com +os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos necessidade dos +nossos irmãos; e não podemos satisfazer<span class="pagenum"><a id="pag_149" +name="pag_149">[149]</a></span> as necessidades mais simples da vida sem nos +socorrermos do seu trabalho.»</p> + +<p>Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu valôr +religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e produzindo +escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a <i>instrucção</i>, +desacompanhada de um gráu correspondente de <i>educação</i>, é um grave mal; +mantem a desigualdade entre as diversas classes de um mesmo povo e inclina o +espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos entre a justiça e a +injustiça, e a toda a falsa doutrina».</p> + +<p>Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma +família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo +pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu». Símbolo +da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver toda a verdade +que nela se encerra.</p> + +<p>«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo, +mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no +próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do +Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor da +comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e<span class="pagenum"><a +id="pag_150" name="pag_150">[150]</a></span> reservando para os sacerdotes a +comunhão nos <i>dois géneros</i>».</p> + +<p>«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação +superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado +morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela ideia +da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir naquilo que +foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a negação de uma +forma gasta da religião com a negação daquela religião eterna que é inata na +alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto de uma rebelião generosa, +e muitas vezes é acompanhado pelo poder de sacrifício e pelo respeito sincero +da liberdade. Difundido, porêm, entre os povos, o materialismo, pelo culto +exclusivo do bem-estar material, tenta mais infalivelmente, extingue o fogo +de um pensamento alto e nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, +prostrando-os finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo +do <i>fait accompli</i>». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude +republicana».</p> + +<p>Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à +sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão que +havia deixado de ser a<span class="pagenum"><a id="pag_151" +name="pag_151">[151]</a></span> aspiração da humanidade, a sua religião. Pois +«a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós +temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente dominar +aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades humanas, +transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem) aqui, onde Deus +nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e todos nós estamos +sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela porção de verdade eterna +que nos foi dado perceber, de converter em uma realidade terrena tão grande +parte do «reino dos céus», da concepção divina que repassa a vida, quanto nos +foi dado compreender».</p> + +<p>Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes +ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da família +humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a salvação das +relíquias da nossa anterior civilisação latina».</p> + +<p>«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação europeia, +pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e trevas; o +espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da sociedade que inspirou +os primeiros bispos e papas; a luta severa sustentada <span +class="pagenum"><a id="pag_152" name="pag_152">[152]</a></span>por êles em +nome da lei moral contra o poder arbitrário e a ferocidade dos senhores +feudais e dos reis conquistadores; a grande missão (desconhecida em nosso +tempo por aqueles que nada sabem ou compreendem da história) cumprida por +êsse gigante da inteligência e da vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória +que êle ganhou em auxilio do govêrno do espírito sôbre as armas reais, do +elemento italiano sôbre o elemento germanico; a missão da conquista +civilisadora entre povos semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso +dado à agricultura pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a +conservação da linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada +no dogma, as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a +fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de misericórdia»—tudo +isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da egreja.</p> + +<p>Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há +desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época, +estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a de +«desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em +inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito <span +class="pagenum"><a id="pag_153" name="pag_153">[153]</a></span>dos seus mais +sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma +religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo «podia +ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa dos seus +ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis, aparentemente +dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única escolha dêsses fieis +está entre as recordações de uma fé, outrora grande e fecunda em bens, e as +negações áridas de um materialismo embrutecedor. Mas pedissem a esses fieis +para morrerem pela egreja e pela fé que ela representava, e não se +encontraria entre eles um só mártir».</p> + +<p>«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como scentelhas +derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias, desfalecendo +encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos altares, por +força do hábito, em momentos breves e determinados. Evapora-se à porta da +egreja, e não mais governa ou guia a vida quotidiana dos homens. Dão uma hora +para os céus e o dia para a terra, para os seus cálculos e interêsses +materiais, ou para estudos e ideias estranhos a toda a concepção religiosa». +</p> + +<p>A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição +da riqueza,<span class="pagenum"><a id="pag_154" +name="pag_154">[154]</a></span> assim como determinava uma regra de liberdade +e amor nas relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer +«no espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes +trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo e +fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para aqueles +que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o quer que seja no +salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa alguma para começarem +qualquer empreza comercial, a liberdade de concorrência era uma mentira, como +a liberdade política era uma mentira para aqueles que por falta de educação, +instrução, oportunidade e tempo não podem exercer os seus direitos».</p> + +<p>O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se +passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar, por +<i>desenvolvimento</i>, pela <i>modificação</i> perpétua dos elementos que +manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas épocas, em +certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos, deram o nome de +elementos, de condições da vida social, a cousas que não teem a sua raiz em a +natureza, mas sómente nas convenções e costumes de uma sociedade iludida, e +que desaparecem<span class="pagenum"><a id="pag_155" +name="pag_155">[155]</a></span> fora dessa época particular ou além dos +limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são os +verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando os +instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de todos os +tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como sempre fôram +os instinctos da humanidade».</p> + +<p>E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento», sujeito +a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a deplorável condição +presente não podia encontrar-se em qualquer organização geral arbitrária, +feita segundo o plano de certo espírito e estabelecida por decretos. Tudo +isso resultava em ilusões por diversos modos destinadas a naufragarem e a +dissiparem-se. O remédio tinha de ser qualquer outra cousa que não +significasse a criação de uma humanidade nova, mas que continuasse a +humanidade nas suas tendências essenciais e indestructiveis. «Algum dia fomos +<i>escravos</i>, depois <i>servos</i>, depois <i>assalariados</i>; não +tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres produtores e irmãos na +<i>associação</i>—associação livre e voluntária, por nós mesmos organizada +em certas bases, entre homens que mutuamente se conhecem, amam e estimam, não +a associação<span class="pagenum"><a id="pag_156" +name="pag_156">[156]</a></span> obrigada, imposta pela autoridade que governa +e ordenada sem respeito pelos laços e afeições individuais, tratando os +homens mais como máquinas de produzir do que como seres de livre e espontânea +vontade».</p> + +<p>Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das +sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é +eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um +homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde só +respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as reformas são +inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um sepulcro branco, nada +mais». «Só os princípios edificam». «Onde quizermos realizar um dos grandes +feitos chamados revoluções, temos sempre de ir ao conhecimento e à pregação +dos princípios. O verdadeiro instrumento do progresso dos povos tem de se +procurar no factor <i>moral</i>». Não suprimiremos o factor económico nem é +possível suprimí-lo, mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do +govêrno da sua influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias +do individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta +perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão<span +class="pagenum"><a id="pag_157" name="pag_157">[157]</a></span> dos +<i>apetites</i> da espécie humana». A cada estado do progresso devia +corresponder «uma melhoria positiva da condição material do povo»; mas +sustentava que «os interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, +dependem dos princípios, não podem ser a <i>mira</i> e o fim da sociedade. +Porque sabiamos que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos +lembramos que, quando o factor <i>material</i> começou a apossar-se de Roma, +e o dever com o povo se reduziu a dar-lhe <i>pão e jogos</i>, Roma e o seu +povo apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na +Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada, +precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil que +separa dos princípios o bem-estar material».</p> + +<p>São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma +revolução é a passagem de uma ideia da <i>teoria</i> à <i>prática</i>. Digam +os homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca +causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a tributação +opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são mais ou menos +ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem a sua origem no +espírito, nas<span class="pagenum"><a id="pag_158" +name="pag_158">[158]</a></span> próprias raizes da <i>vida</i>; não no corpo, +no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma +filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição histórica da +humanidade».</p> + +<p>Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras de +um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos na +Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens as +emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão <i>tornando-se, êles +mesmos, melhores</i>; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão +<i>merecendo-os</i> pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os +procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido, alcançá-los +hiam; mas, se os procurassem em nome do <i>bem-estar</i> que os materialistas +lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos momentaneos, seguidos de +desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles que lhes falavam em nome do +bem-estar, da felicidade material. Tambêm êsses procuravam o seu +<i>bem-estar</i> e para o obterem queriam unir-se com eles, como um elemento +de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer; mas, logo que com o seu +auxílio tivessem obtido o bem estar, abandoná-los hiam para que +tranquilamente podessem gozar a conquista. <span class="pagenum"><a +id="pag_159" name="pag_159">[159]</a></span>Era essa a história do último +meio século e o nome dêsse meio século era <i>materialismo</i>».</p> + +<p>As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e +organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no conforto da +sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento. Por vezes, vêem +a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a considerá-la uma triste +<i>necessidade</i>, e deixam às gerações futuras o cuidado de lhe encontrar +remédio. A indiferença e o esquecimento são doces para o homem que se sente +no santuário da sua família, cercado de faces sorridentes, emquanto lá fóra +sopram as rajadas do inverno e a neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças +da janella dupla. Esperareis erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo +pela simples expressão da <i>situação económica</i> e do que deva +substituí-la em uma sociedade bem organizada? Esperareis arrancá-los do seu +repouso egoista meramente pela análise do que acontece em uma esfera na qual +eles nunca penetraram? Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas +utilitárias; não lhes peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? +Falam-lhes em nome de <i>interêsses</i>. Não é o gozo o primeiro dos +interêsses? E êles gozam».</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_160" name="pag_160">[160]</a></span>A +nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será tambêm +um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais habilmente +desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela delimitação do +território, pelo agregado e conjugação das fôrças económicas e por qualquer +combinação de actividades políticas. «A nacionalidade é a crença em uma +origem e um fim comum. Se hoje fôr fundada em um interêsse, pode ser +derrubada amanhã por outro interêsse mais ousado e mais poderoso». «Só quando +o evangelho da fraternidade de todos os homens de uma nação fez da alma +santuário de virtude e amor, quando a grande concepção da nacionalidade +deixou de se encontrar reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para +base dos seus direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse +que sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será +possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».</p> + +<p>O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso +correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o grito +eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício, por +instrumento os povos, e por fim a humanidade».<span class="pagenum"><a +id="pag_161" name="pag_161">[161]</a></span> «O pensamento religioso é o +alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e alma, o seu espírito e +o sinal externo. A humanidade só existe na consciência da sua própria origem +e no pressentimento dos seus próprios destinos». Fora do trabalho da reforma +moral «toda a organização política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se +«do nosso trabalho banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os +povos». «O elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande +revolução está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».</p> + +<p>Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto +vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação». Acreditava +em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de existir, que +compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma influência +continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm, no seu aspecto +físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para Mazzini, era por +igual essencial e simples.</p> + +<p>«Cristo disse:—«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com +afeição fraterna». E disse tambêm:—«Entre vós será o primeiro aquêle que fôr +o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se<span class="pagenum"><a +id="pag_162" name="pag_162">[162]</a></span> compreende nestas palavras. +Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana, actividade nas boas obras, a +doutrina do sacrifício, a afirmação da doutrina da igualdade, a abolição de +toda a aristocracia, o esforço de perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a +qual nem o amor nem a perfeição podem existir—tudo assim se resume naqueles +dois preceitos».</p> + +<p>«Toda a revolução social é essencialmente <i>religiosa</i>. Toda a época +tem a sua <i>crença</i>. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar +a humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que +superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o +<i>sentimento religioso</i>, é desconhecer a significação dessas palavras, +querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como fôrem +as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em seu +coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».</p> + +<p>Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais +traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta, talvez a +mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com que opôz o +dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se combatia e morria +pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes <span class="pagenum"><a +id="pag_163" name="pag_163">[163]</a></span>que provocou podesse resultar nem +a fortuna nem a tranquilidade dos homens, arrastados de escravidão em +escravidão, de miséria em miséria, de tormento em tormento, de incerteza em +incerteza. Um erro inicial os transviava e perdia; ignoravam que «o unico +padrão da vida é a ideia do dever, santa, inexorável, dominante».</p> + +<p>«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os estadistas +e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e uma destruição +perante os povos. O fim da política era a aplicação da lei moral à +constituição civil de uma nação na sua dupla actividade, doméstica e +estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à organização do +trabalho no seu duplo aspecto de produção e distribuição».</p> + +<p>«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas +representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim de +todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos deveres +cumpridos; podiam resumir-se em um só direito—que os outros cumpram comnosco +o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a soberania está em +nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é sagrada quando +interpreta e aplica a lei moral.<span class="pagenum"><a id="pag_164" +name="pag_164">[164]</a></span> Quando dela se afasta, é impotente ou nula e +não representa outra cousa senão tirania.» «A sociedade de Rousseau, como a +de Montesquieu, é apenas uma sociedade de seguros mútuos». Partindo da +filosofia da liberdade individual, destituiu de fecundidade êste +<i>princípio</i> baseando-o, não sôbre um dever comum a todos, não sôbre a +definição do homem como uma criatura social por essência, não sôbre a +concepção de uma autoridade divina e de um designio providencial, não sôbre o +laço que une o <i>indivíduo</i> à humanidade do qual êle é um factor, mas sob +a simples <i>convenção</i>, confessada ou subentendida».</p> + +<p>«Carecemos de ensinar não o <i>direito</i>, mas o <i>dever</i>, acordar +para melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo +decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da missão +dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até agora está +esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de crença, de +pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não procurou êle salvar +pela crítica um mundo moribundo. Não falou de interêsses a homens cujas almas +estavam envenenadas pelo culto dos interêsses. Prégou no santo nome de Deus +certas verdades até então desconhecidas. Estas poucas verdades<span +class="pagenum"><a id="pag_165" name="pag_165">[165]</a></span> que agora, +desoito séculos depois da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, +mudaram a face da terra».</p> + +<p>«Três cousas eram sagradas—tradição, progresso, associação».</p> + +<p>A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância +presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente devida a +uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde podemos deduzir +e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade encontrar-se hia no +«estudo severo da tradição universal que é a manifestação da vida na +humanidade». A humanidade, dizia, invocando e desenvolvendo o pensamento de +Pascal, «é um homem que aprende continuamente. Os indivíduos morrem; mas a +verdade que pensaram e o bem que produziram, não se perdem com eles. A +humanidade junta-o, e os homens que passam sôbre as suas sepulturas +aproveitam-no. Cada um de nós nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças +que são a obra de toda a humanidade antes de nós; cada um de nós traz +inconscientemente algum elemento, mais ou menos valioso, para a vida da +humanidade que se lhe segue. A educação da humanidade cresce como aquelas +piramides orientais a que cada viandante junta a sua<span class="pagenum"><a +id="pag_166" name="pag_166">[166]</a></span> pedra. Passamos, viajantes de um +dia, chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a +educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu +inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente, continuamente, na +humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé, passo a passo, a +humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida, da sua missão, de Deus +e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se completam e consubstanciam, +«onde encontramos a voz permanente da humanidade harmonisando-se com a voz da +nossa consciência, aí teremos ao nosso alcance alguma cousa com absoluta +verdade».</p> + +<p>O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É +<i>pensamento</i> e <i>acção</i>. As teorias podem modificar o primeiro; não +podem criar o ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em +Mazzini confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, +o poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os +juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as inumeráveis e +prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália unificada, muitas +vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma, inspiração, e o seu braço +executor, não houve risco a que se esquivasse, <span class="pagenum"><a +id="pag_167" name="pag_167">[167]</a></span>não houve penas que não +experimentasse, desde o aturado exílio que em condições de pobreza, às vezes +extrema, o apartou da família, da pátria e dos amigos, até à condemnação à +morte e porventura à tentativa de assassinato que o perseguiram como +milhafres. Não houve contrariedade ou ameaça que lhe vencessem o +desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de martírio. «Particularmente +aborrecia o egoismo, tão popular com a gente de hoje. Não gastava o seu tempo +cantando, orando e clamando a Deus que lhe salvasse a alma. Nem se entregava +ao estudo e à cultura para lhe salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito +e da alma, mas era sempre do espírito e da alma dos outros». E «foi +conspirador porque era muito fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os +vêr atraiçoados, muito honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo +para que aceitasse a paz sem honra»<a name="tex2html9" +href="#foot1076"><sup>9</sup></a>.</p> + +<p>Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica +inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes perigosas +nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos que com o<span +class="pagenum"><a id="pag_168" name="pag_168">[168]</a></span> seu dinheiro +não faziam bem». Um instinto seguro os advertia de que quem tudo confiava do +povo era naturalmente o adversário perigoso dos apanágios e privilégios que +ensoberbeciam as aristocracias políticas e eclesiásticas. Cavour e Luiz +Napoleão Bonaparte eram irmãos nos sentimentos com que detestavam Mazzini, e +nem outra cousa se compadecia com o conflito de ideais que o amor do apóstolo +e a ambição do aristocrata e do imperador em confronto necessariamente +inflamavam. O profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o +cristianismo é a negação radical e a ruina de quantas aristocracias, +hierarquias, divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos +homens teem inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as +suas cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e +económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o +monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução, em +diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa que +caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e inumeráveis, tiveram +o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas, no coração e nos bens da +terra; mas, lentamente, outra e mais alta religião os destituiu do seu poder +e prestigio,<span class="pagenum"><a id="pag_169" +name="pag_169">[169]</a></span> inspirando-nos e mostrando-nos uma outra +razão da vida, adjudicando toda a nossa actividade intima e externa a um +outro espírito. Não faz sentido ter e invocar como princípio de acção e +dedicação o meu senhor», ou êle seja rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão +de industria, quando senhores e vassalos de toda a casta e ordem e categoria +todos teem de invocar e seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos +igualmente humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei +de comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu só +porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as comunidades +bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos e dogmatismos, +mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente se fundaram e +viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou religiosa de uma +hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por muitos modos e em +diversos lugares, se persistem e são uma fôrça espiritual efectiva aquêles +sentimentos de fidelidade, lealdade, dedicação e sujeição que eram seus +vínculos e instrumentos, se essa ordem e todo o seu cortejo mental e +espiritual sobrevivem quando já terminou a religiosidade íntima que era a sua +essência e alma, é sómente porque, <span class="pagenum"><a id="pag_170" +name="pag_170">[170]</a></span>convertida em tradições políticas, estéticas, +morais e eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que +edificou, póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade +prática, um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o +remanescente de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é +a primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o +império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os que são +coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos cofres à +prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é de efeitos +práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma escravidão +eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu aquela outra +consciência de escravidões mortais, condicionadas, contingentes e +transitórias, por longos séculos decisivas e supremas. Mazzini, que por ser +fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou as ultimas e as combateu +e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes senão anatemas.</p> + +<p>Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha de +ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos +absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo. +Amaldiçoado<span class="pagenum"><a id="pag_171" +name="pag_171">[171]</a></span> dos despotismos, por isso que pedia a +liberdade, não podia ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, +religião e dever perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente +viam e queriam o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez +sugere e aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e +se desfaz.</p> + +<p>Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e sobretudo +a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo da fôrça e da +riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias, cimentando os +alicerces de um grande império e aí se oferecendo à imitação das nações, +emquanto se insinuava nos laboratórios e nas bibliotecas e aí endurecia o +coração e envenenava o espírito das novas gerações. Nesse momento, Mazzini +era um vencido; com o seu débil corpo se sepultavam as suas ilusões. +Liberdade, religião e o povo que inconscientemente as guarda e serve, iam de +tropel calcados e esmagados no culto de multíplices escravidões, no +desprendimento de Deus e da sua lei, na fé vil de que o mundo era um banquete +do qual só ao nosso ventre tinhamos a dar contas.</p> + +<p>Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto, +sabedor e previdente,<span class="pagenum"><a id="pag_172" +name="pag_172">[172]</a></span> tão abundante de servos envaidecidos da +própria servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus +anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as +primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que se +afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia, +escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e condenação +das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens.</p> + +<p>Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico +das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da sua +glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra será +eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.</p> + +<p> </p> + +<p align="center">FIM.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div id="notas"> +<p><a name="foot363" id="foot363"></a><a href="#tex2html1"><sup>1</sup></a> +Artigo do <i>Manchester Guardian</i>.</p> + +<p><a name="foot364" id="foot364"></a><a href="#tex2html2"><sup>2</sup></a> +Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de Moscou, no +<i>Hibbert Journal</i>.</p> + +<p><a name="foot365" id="foot365"></a><a +href="#tex2html3"><sup>3</sup></a><i>Millgate Monthly</i>, março de 1915. +Notícia de um discurso de Oliver Lodge, em Bradford.</p> + +<p><a name="foot705" id="foot705"></a><a href="#tex2html4"><sup>4</sup></a> +Percy Dearmer. <i>Patriotism.</i> Humphrey Milford: Oxford Unversity Press, +1915.</p> + +<p><a name="foot706" id="foot706"></a><a href="#tex2html5"><sup>5</sup></a> +William Temple. <i>Cristianity and War.</i> (Humphrey Milford; Oxford +University Press, 1914).</p> + +<p><a name="foot707" id="foot707"></a><a href="#tex2html6"><sup>6</sup></a> +E. Carpenter, <i>What will Stay the Plague?</i> Artigo publicado em <i>The +Christian Commonwealth</i>, de 9 de dezembro de 1914.</p> + +<p><a name="foot708" id="foot708"></a><a +href="#tex2html7"><sup>7</sup></a><i>The War and Democracy</i>, por W. +Seton—Watson, J. Dover Wilson, Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood. +(Londres; Macmillan, 1912). Pag. 374 e seg.</p> + +<p><a name="foot1075" id="foot1075"></a><a href="#tex2html8"><sup>8</sup></a> +O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o principalmente, quasi +exclusivamente, em dois volumes da <i>Everyman's Library</i>. (Londres; J. M. +Dent & Sons), um que contêm versões dos escritos de Mazzini, <i>The +Duties of Man and Other Essays</i>, e o outro que é a narração da sua vida e +a crítica das suas doutrinas, intitulado <i>The Life of Mazzini</i>, escrito +por Bolton King. Esses dois volumes constituem só por si uma lição moral e +política e uma inspiração de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem +os divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente serviço às letras +pátrias, e sobretudo à educação das novas gerações, tão desiludidas das +seguranças e presunções materialistas que encontram no ocaso, como apressadas +em descobrir novos e mais serenos horizontes para que se encaminhem.</p> + +<p><a name="foot1076" id="foot1076"></a><a href="#tex2html9"><sup>9</sup></a> +H. Demarest Lloyd. <i>Mazzini and other Essays.</i> Pag. 4 e 6.</p> +</div> + +<p><span class="pagenum"><a id="pag_173" name="pag_173">[173]</a></span></p> + + +<h2>DO MESMO AUTOR</h2> + +<p> </p> + +<p><i>Vozes do meu lar</i>, 1 vol.</p> + +<p><i>Na paz do Senhor</i>, romance, 1 vol.</p> + +<p><i>Reino da Saudade</i>, romance, 1 vol.</p> + +<p><i>Via Redentora</i>, 1 vol.</p> + +<p><i>Apostolos da Terra</i>, 1 vol.</p> + +<p><i>Sonho de Perfeição</i>, romance, 1 vol.</p> + +<p><i>S. Francisco d'Assis</i>, 1 vol.</p> + +<p><i>José Estevão</i>, 1 vol.</p> + +<p><i>Alexandre Herculano</i>, 1 vol.</p> + +<p><i>Rogações de Eremita</i>, poemetos em prosa</p> + +<p><i>Salmos do Prisioneiro</i>, 1 vol.</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Guerra, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GUERRA *** + +***** This file should be named 26915-h.htm or 26915-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/9/1/26915/ + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/26915-h/images/famado.png b/26915-h/images/famado.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e7ae9c5 --- /dev/null +++ b/26915-h/images/famado.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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