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diff --git a/26914-h/26914-h.htm b/26914-h/26914-h.htm new file mode 100644 index 0000000..c0c496d --- /dev/null +++ b/26914-h/26914-h.htm @@ -0,0 +1,2697 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Do que o fogo não queima, por Jaime de Magalhães Lima</title> + <meta name="AUTHOR" content="Jaime de Magalhães Lima"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + font-style: normal; + } + .numeracao { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 85%; + text-align: right; + } + .pagenum a { + color: silver; + } + h1 { text-align: center;margin-top: 3em;} + h2 { text-align: center;margin-top: 1em;} + + #capa {text-align: center; border: solid 1px #000000; width: 600px; margin: auto;} + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + #notas {font-size: 0.8em; text-align: justify; margin: 1em;} + #indice {width: 68%; margin-left: 15%;} + a {text-decoration:none; color: #000000;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Do que o fogo não queima, by Jaime de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Do que o fogo não queima + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: October 14, 2008 [EBook #26914] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + + + + + +</pre> + + +<div align="center"> +<p>Jaime de Magalhães Lima</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em">Do que o fogo não queima</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p align="center">Composição e Impressão <br> +Emprêsa Gráfica A UNIVERSAL <br> +111, Rua Duque de Loulé, 131 <br> +PORTO</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;text-align:center;">DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="capa"> +<p><span style="font-size: 1.2em">JAIME DE MAGALHÃES LIMA</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 3em;"><span +style="margin-right: 2em;">Do que o fogo</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">não queima</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p align="center">PORTO <br> +Empresa Gráfica A UNIVERSAL <br> +111, Rua Duque de Loulé, 131 <br> +1918</p> +</div> + +<div id="corpo"> +<span class="pagenum"><a id="pag_V" name="pag_V">[V]</a></span> +<h1><A name="SECTION00100000000000000000">PROLOGO</a></h1> + +<p><i>A guerra prossegue na sua impenitencia sinistra, junta os seus dias em +mêses e os seus mêses em anos, e as heresias que a aborrecem e lhe negam a +legitimidade e os beneficios, não se rendem e nem sequer esmorecem, não +obstante a insistencia do flagelo que lhe dá visos de necessidade e condição +natural. E eu, que dessas heresias fiz colheita e esperança</i><A name="tex2html1" href="#foot278"><sup>1</sup></a> <i>no primeiro momento, +suspeito a conveniencia, senão a obrigação, de as repetir e corroborar quando +o tempo e a perseverança entre vicissitudes contrarias as fortificaram e +disseminaram.</i></p> + +<p><i>Daí este opusculo.</i></p> + +<p><i>«Heresias» não será talvez o termo proprio; melhor diria se lhes +chamasse «crenças». «Heresia <span class="pagenum"><a id="pag_VI" name="pag_VI">[VI]</a></span>é uma palavra que as tiranias +do fanatismo fizeram aviltante e criminosa para justificar as atrocidades de +um dominio insaciavel e da intolerancia, sem aliás alcançarem discriminar, e +muito menos provar, onde residia a piedade e a injuria, se em quem usava os +poderes da terra para oprimir a consciencia, se em quem se prevalecia da +robustez de consciencia para afrontar os poderes do mundo. No fim, ambos +encontrarão porventura que fizeram acto de fé a seu +modo—indubitavelmente muito mais glorioso no que por acusação de +heresia sofreu o martirio. Este será, na realidade, o crente, quem mais de +perto tocou a divindade e mais inteira e fielmente lhe obedeceu.</i></p> + +<p><i>Aquilo que desse drama hoje vemos, e é objecto da vida politica e do +estado, não desmente o que de ontem sabemos e foi arrebatamento do dogmatismo +eclesiastico absolutista. Duas especies de <span class="pagenum"><a id="pag_VII" name="pag_VII">[VII]</a></span>patriotismo se +encontram em conflicto, e, nenhum conseguindo vencer ou convencer o +adversario, ambos e mutuamente se reputam herejes:—o patriotismo de +servir e o patriotismo de combater: o de espada e carabina, que tem por acto +bom afastar e eliminar o proximo, e o de martelo e charrua, que tem por +missão e dignidade fecundar a terra e agasalhar aquele mesmo proximo que o +outro abomina; o que ama o peregrino e o que detesta o estranho; o que é um +impulso de exclusão e aversão, uma avareza, e o que é uma confissão de bem +querer e um anseio de proteger, uma caridade. Ha duas especies de +patriotismo, como ha dois modos e duas aspirações de cultura do homem, +conduzindo a atitudes politicas divergentes, de que as concepções do +patriotismo correlativas são apenas uma das suas multiplices +manifestações:—ha uma cultura que consiste em nos aprestar para calcar +e escravisar os outros, <span class="pagenum"><a id="pag_VIII" name="pag_VIII">[VIII]</a></span>e ha uma cultura que se esforça +por nos fortalecer para calcarmos as nossas proprias paixões e as ordenarmos +e disciplinarmos sob uma regra sobrehumana; ha a cultura que olha para o chão +e a que olha para os céus, a que é uma tarefa de sordidez, em que se degrada, +e a que se eleva no desprendimento, em que exulta. O que nestes tempos de +guerra se tem passado com os que por imposição da consciencia se recusaram a +combater, particularmente o procedimento dos poderes constituidos da +Inglaterra com as centenas dos seus</i> conscientious objectors, <i>o +patriotismo inquisitorial, cujas torturas e penas vão desde o fusilamento +puro e simples, tanto da feição peremptoria do rigor continental, até á +prisão, trabalhos forçados e perda dos direitos politicos, que são as +soluções predilectas, menos severas mas por igual mortais, da tradicional +liberdade insular,—isto nos manifesta, dolorosamente, não só</i> <span class="pagenum"><a id="pag_IV" name="pag_IV">[IV]</a></span><i>quanto são profundos os antagonismos essenciais e latentes +de que as sociedades modernas se compõem, mas tambem quanto é morosa a +jornada no caminho e na ambição daquela liberdade e respeito mutuo, quando +amor não seja, para os quais não ha heresias.</i></p> + +<p><i>Embora! Essa escabrosa jornada não cessa. Ali mesmo onde sofre +terriveis assaltos inimigos, aí assinala triunfos e progressos. Um momento de +«brutalidade hunica e de baixeza desenrolando as suas ondas sobre as nações +que participaram na guerra, rebarbarisando toda a civilização por alguns +anos», na expressão violentamente exacta de Carlos Liebknecht, que paga com +desoito mêses de prisão a audacia insubmissa das suas heresias, isso não +bastou para aterrar ou desalentar as consciencias certas dos seus direitos e +imperio, e inabalaveis na segurança de um eterno renascimento e vitoria +final.</i><span class="pagenum"><a id="pag_X" name="pag_X">[X]</a></span></p> + +<p><i>Os sintomas são claros.</i></p> + +<p><i>Não conseguiu a Camara dos Comuns, por uma minguada maioria, um voto +favoravel á perda dos direitos politicos do</i> conscientious objector, +<i>sem que não tivesse de lutar com uma oposição veemente, na qual se +juntaram homens de todos os partidos politicos, não excluindo os mais +acentuadamente conservadores. Foi então que, sem embargo do seu declarado e +esclarecido conservantismo, Lord Hugo Cecil, em uma oração magistral, +combateu «a idolatria do estado», que, tornando-o superior á lei moral, +perdeu a Alemanha na confiança das nações civilizadas; foi então que, em +palavras memoraveis, se ouviu a reivindicação da preeminencia do dever +perante a consciencia sobre a obrigação perante o estado. «É na crença +naquela região de obediencia superior que nos impõe qualquer cousa mais do +que aquilo que o estado nos póde pedir, e que nos dá <span class="pagenum"><a id="pag_XI" name="pag_XI">[XI]</a></span>qualquer cousa mais do que o estado jámais nos poderá dar, que +nós temos de sustentar a grande causa em que nos empenhámos. Ás vezes dizemos +que combatemos pela civilização.» Mas aquele em quem o dever da consciencia +sobreleva á obrigação com o estado «dirá antes que combatemos para que a +civilização se mantenha uma civilização cristã, e, por certo, em uma +civilização cristã é mal violentar a consciencia dos sinceros, é mal +impôr-lhes uma obrigação que eles julgam corruptora e contagiosa.»</i></p> + +<p><i>Emquanto isto se proclama em voz alta, apaixonadamente e apaixonando as +legiões de crentes a que se comunica, uma outra ordem de factos se apressa a +dar-lhe uma confirmação eloquente. A falencia retumbante das artes politicas +dos estados que desencadearam a mais mortifera e ruinosa das guerras, para ao +fim confessarem que pela guerra não teem solução os problemas que <span class="pagenum"><a id="pag_XII" name="pag_XII">[XII]</a></span>ela era chamada a resolver; a derrota do intelectualismo +politico, que, em boa logica com todo o intelectualismo e suas naturais +insuficiencias, se embriagou na vaidade das suas limitadas forças e, +desconhecendo as do caracter moral, considerou os homens meras quantidades e +energias mecanicas alheias a toda a influencia das forças intimas +espirituais; esta estreiteza que tinha de rematar na incapacidade demonstrada +das diplomacias profissionais ortodoxas para assegurar, não direi já a +felicidade dos homens mas a paz das nações, induz a procurar em outros +poderes a fortuna que estes muito contingentes e mesquinhos não souberam +dar-nos.</i></p> + +<p><i>É nesta angustia que mais uma vez se nos revela em seu intacto +resplendor aquela lei pela qual a consciencia soube que «nem só de pão vive o +homem», que a historia e a garantia unica da civilização é o alargamento +progressivo dos limites <span class="pagenum"><a id="pag_XIII" name="pag_XIII">[XIII]</a></span>da espiritualidade á custa da +restrição dos limites das materialidades, e que os combates a que o nosso +tempo teve o triste privilegio de assistir, não são mais do que um momento de +conflicto e de violencia entre isso que não é pão e é vida e se sente +oprimido, e aquilo que, sendo pão, sendo repasto do corpo, seu sustento ou +seu prazer ou sua força, todavia e cada vez mais se mostra alento +insuficiente e mesquinho para aquele outro banquete etereo e intangivel, que +os sentidos não tocam, e se chama simpatia, amor, humanidade ou caridade, e +sempre e afinal essencia da vida.</i></p> + +<p><i>Preparemos para esse banquete o nosso animo.</i></p> + +<p> </p> + +<p><i>Eixo, 15-1-1918.</i></p> +<span class="pagenum"><a id="pag_1" name="pag_1">[1]</a></span> +<h1><A name="SECTION00200000000000000000"></a><br> +Do que o fogo não queima </h1> + +<p>Se da onda temerosa que começou a assolar a Europa e o mundo em 1914 +consideramos apenas a espuma enxovalhada, não ha maior infamia, nem maior +crime e indignidade. É uma degradação de incomensuravel profundeza, é a terra +lavada em sangue pela ganancia abjecta das tiranias da sordidez.</p> + +<p>Um publicista de notavel merecimento e admiravel imparcialidade, G. Lowes +Dickinson, compreendendo a opinião de milhares de homens, o desalento de +muitos dos mais sinceros e cultos, a revolta de alguns e o cinismo +inalteravel de uma minoria poderosamente armada, resume neste esboço a +situação:</p> + +<p>«A guerra veio da rivalidade entre os estados na disputa do poder e da +riqueza. Isto é universalmente aceite. Sejam quais forem as diversidades de +opinião que prevalecem nos diferentes <span class="pagenum"><a id="pag_2" name="pag_2">[2]</a></span>paises interessados, +ninguem pretende que a guerra tivesse origem em qualquer necessidade da +civilização, em qualquer impulso generoso ou ambição nobre. Conforme o +conceito popular da Inglaterra, nasceu a guerra unica e exclusivamente da +ambição da Alemanha, vinda á conquista de territorio e poder; e, conforme o +conceito popular alemão, nasceu da ambição da Inglaterra, correndo a atacar e +destruir a riqueza crescente da Alemanha e a sua força. Assim, para qualquer +dos beligerantes, a guerra mostra-se como imposta por uma pura perversidade, +e sob nenhum aspecto tem justificação moral de especie alguma. Estes +conceitos, na verdade, são demasiado simples quanto aos factos; mas... a +guerra procedeu da rivalidade de imperio entre as grandes potencias, em toda +a parte do mundo. A contenda entre a França e a Alemanha no governo de +Marrocos; a contenda entre a Russia e a Austria no governo dos Balkans; a +contenda entre a Alemanha e outras nações no governo da Turquia—foram +estas as causas da guerra.</p> + +<p>«É a cobiça de mercados, concessões e colocação de capitais que está por +detraz da politica colonial conduzindo ás guerras. Os estados concorrem ao +direito de explorar os fracos, e nesta concorrencia os governos são movidos e +tutelados pelos interesses financeiros. O inglês foi ao Egito por causa dos +prestamistas, o francês foi a Marrocos por causa do minerio e da riqueza. Em +todo o Oriente, no mais proximo como no mais distante, são as concessões, o +<span class="pagenum"><a id="pag_3" name="pag_3">[3]</a></span>comercio e os emprestimos que levaram á rivalidade das +potencias, a guerra sobre a guerra, ás <i>expedições punitivas</i> e, ironia +das ironias! ás <i>indemnisações</i>, extorquidas como uma nova forma, e +especial, de roubar os povos que se levantam esforçando-se por se defenderem +dos roubos. Por um momento, as potencias combinam suprimir a vitima comum; no +dia seguinte, lançam-se umas sobre as outras a disputar o espolio. Estes são +realmente na sua nudez os factos sobre as questões entre os estados a +respeito da politica comercial e colonial. Emquanto a exploração dos paises +menos desenvolvidos fôr dirigida por companhias, não tendo outro fim senão os +dividendos, emquanto os financeiros determinarem a politica dos governos, +emquanto as expedições militares acabando em anexações forem postas aos +hombros do publico por motivos que não podem confessar-se, hão-de acabar em +guerra as nações que começaram pelo roubo, e milhares e milhões de vidas +inocentes e generosas, as melhores da Europa, hão-de perder-se inutilmente, +sem fim algum, porque interesses sinistros jogaram na sombra a paz do mundo +em proveito do dinheiro das suas algibeiras.»<A name="tex2html2" +href="#foot285"><sup>2</sup></a></p> + +<p>Sordidez, miseria, crueldade, uma tirania de scelerados sacrificando a +ruins paixões de dominio, avareza e sensualidade as multidões inocentes, o +trabalho, a candura, a honestidade e o <span class="pagenum"><a id="pag_4" name="pag_4">[4]</a></span>heroismo—cifra-se nisto a historia militar do mundo. Estas +seriam as causas da guerra, as da ultima como as de quantas a precederam, +esta a sua unica e eterna maldição. Só o que se viu com as companhias de +navegação, e é publico, desilude os menos crentes nas infamias da guerra. +Quando as familias dos que combatiam e morriam nas trincheiras, para gloria e +proveito dos que os mandavam, sofriam fome e frio, havia emprezas de +navegação, e tambem dos que mandavam, que faziam dividendos de 65 por cento, +á custa da anciedade e atribulações daqueles que criaram os filhos imolados +nas batalhas. As monstruosidades economicas alimentam-se daquele mesmo sangue +que as monstruosidades da soberba derramam desapiedadamente no chão esteril +dos combates.</p> + +<p>Não duvidemos, a guerra e a ignominia são filhas do mesmo ventre.</p> + +<p>Mas não duvidemos tambem de que, onde a guerra se peleja e a ignominia +corre a fazer as suas presas; outras forças se erguem que as dominam e +confundem. E sobre os destroços da politica, de ordinario infame, floresce de +continuo a consciencia moral, tão pura na aspiração como lenta mas inflexivel +no crescer.</p> + +<p>Estranha sujeição das potestades! Essa fortaleza satanica não é só por si +tão robusta que prescinda da protecção do bem dos povos, da isenção, do +patriotismo, da fortuna moral dos homens e das nações, e de outras e +infinitas sombras etereas que vivem, desarmadas e fracas, apenas em os nossos +sonhos. Para que as <span class="pagenum"><a id="pag_5" name="pag_5">[5]</a></span>ambições da sordidez prevalecessem e +colhessem o seu quinhão na guerra em que nos crucificaram, foi-lhes +necessario invocar interesses urgentes da liberdade e da dignidade humana. +Pressentiram que só por esse compromisso levariam os exercitos ás batalhas. +Por uma singular escravidão, a sordidez sujeitou-se á nobreza. Talvez +mentindo astuciosamente, com uma astucia vulpina, toda de impostura; mas +sujeitou-se, não sem ignorar de que por força terá de cumprir muito daquilo +que por mentira assegurou. A sordidez tem em seu poder as armas e o fogo, +quanto é necessario para devastar a terra e a embeber no sangue. E essa mesma +sordidez armada, sentindo fugir-lhe o poder perante qualquer cousa que o fogo +não queima, aceitou a tutela e imperio de forças imponderaveis e jurou-lhes +fidelidade. A força fisica na sua maior opulencia destrutiva não sabe +combater, sente-se insuficiente, se não tem em seu apoio um principio moral +que a legitime. Para que os soldados marchassem contra a Alemanha, tornou-se +necessario convencer os povos de que a Alemanha praticava um crime e meditava +as atrocidades de um despotismo avaro, absorvente, insaciavel.</p> + +<p>Eis aí o facto capital de cuja compreensão depende a determinação do +caracter e mais profunda significação desta ultima fatalidade que pôs as +nações em guerra—não são os principios que dependem das armas, são as +armas que dependem dos principios. Pelo gráu em que as armas dependem dos +principios se afere a <span class="pagenum"><a id="pag_6" name="pag_6">[6]</a></span>altura da civilização de uma comunidade +e de uma época, e pelo desrespeito ou pela corrupção dos principios se +julgará da profundeza da sua degradação. O progresso da humanidade é +puramente materia de desenvolvimento e natureza do espirito que a penetrou e +rege. Disso dependem as guerras; os seus incendios dependem do que o fogo não +queima. Se se ateiam, é porque aquela essencia eterea lhes falece; se +abrandam ou se apagam, foi porque ela os envolveu. «Por muito que condenemos +os chefes negligentes e as castas desapiedadas que vivem pela guerra, a fonte +real do mal é o sentimento popular em que se apoiam. A lição que aí temos a +aprender, é que as doutrinas e paixões enraizadas, de que essas desgraças +provêm, só podem ser removidas por um lento e firme labor das forças +espirituais. Aquilo de que principalmente se carece é a eliminação dos +sentimentos cujas instituições alimentam a inveja e o odio, e preparam os +homens para a desconfiança e para a agressão.» (Lord Bryce).</p> + +<p>Incapaz de queimar, ou sequer prejudicar ou interromper a vitalidade +essencial dos principios, o fogo das batalhas apenas reduz a cinzas as sarças +que os ocultam e que por os ocultarem nos transviam; é um arrojo de +sinceridade, é um processo terrivel e crudelissimo de pureza, desprendendo os +principios, a suprema razão de ser da humanidade, das miserias infinitas que +os contrariam e envolvem. Alguem disse, pondo essa aparente contradicção em +uma imagem feliz, que só de noite as estrelas brilham.</p> + +<p>Se <span class="pagenum"><a id="pag_7" name="pag_7">[7]</a></span>«ha certas cousas eternamente belas que subsistirão +quando a guerra passar, tais quais eram antes da guerra começar e tais quais +serão sempre, e se o nosso dever é concorrer para as manter vivas, +compreendendo-as e amando-as» (Gilbert Murray), a guerra que nos angustía +seria talvez perante «essas cousas eternamente belas» uma experiencia, um +transe de morte precedendo uma ressurreição esplendida, de esplendor mais +alto que todo aquele que precedentemente as houvesse coroado. Porventura a +guerra veio a combater pela violencia uma civilização turbada e enlouquecida +pela sensualidade, uma civilização que nem soube acautelar-se pela persuasão +nem corrigir-se pela experiencia pacifica; será a febre de uma infecção que a +higiene não foi capaz de prevenir, por debilidade de animo e cegueira de +inteligencia, que não por escassez de recursos.</p> + +<p>O que vimos á luz desse brazeiro e que não viamos claramente antes que ele +se acendesse, embora surdamente minasse a terra e a felicidade, é como uma +aurora de redenção e esperança, como uma certeza divina.</p> + +<p>Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de +inteligencia, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova ordem +nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga muito bem +lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é de melhor ordem +nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e o presente lho +confirmou pelas provações. De que o <span class="pagenum"><a id="pag_8" name="pag_8">[8]</a></span>mundo carece, para sua +luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não queima; não é +de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento.</p> + +<p>De facto, uma lei de identidade inviolavel faz que a guerra não possa +gerar senão a guerra, por mais subtil que seja o esforço para a transmudar em +benignidade. A paz, como obra politica, ou diplomatica, ou militar, ficará +por nascimento sujeita á concepção inseparavel do ventre de soberba e avareza +que a gera; sómente será efectiva e fecunda quando derivar de um renascimento +da politica, da diplomacia e dos exercitos no espirito religioso que se lhes +insinuar. Fóra disso será uma ficção e uma ilusão, transitorias e mentirosas +como todas as ficções e ilusões que os cataclismos infernais das criações +humanas se encarregam de dissipar com a maior dureza. É inutil cogitar +combinações, tribunais e semelhantes subterfugios para protelar em esperanças +vãs o que só ao espirito pertence e só ele póde dar. As civilizações +vulgarmente chamadas decadentes e decaídas, porque minguaram em poder militar +ou de todo o perderam, são bastas vezes as que predominam, embora destituidas +de bens e forças temporais. Avassalaram pelo espirito aqueles e aquilo que +pelas armas as venceram. Nos individuos como nas raças são os mortos que +governam, como o filosofo pretende. A eternidade das ideias e das aspirações, +e das energias morais em que essa eternidade se revela, sobrepõe-se ás +vicissitudes efemeras do tempo e completamente as <span class="pagenum"><a id="pag_9" name="pag_9">[9]</a></span>subordina, +ainda que essas vicissitudes importem a morte de milhares de homens e a +aniquilação de riquezas inumeraveis. A Grecia inspirando-nos a liberdade, +Roma disciplinando-nos na ordem ou Israel prostando-nos na piedade foram +superiores a toda a corrupção, ruina ou escravidão, governam hoje mais ampla +e firmemente do que na hora em que o poder politico as servia; como, +modernamente, a França no fulgor da sua inteligencia, ou a Inglaterra na +acuidade dos instintos morais, ou a Russia na abdicação religiosa, ou a +Alemanha na intuição das temporalidades, são imperios fundados de uma vez +para sempre, insubmersiveis no dominio do nosso espirito e na pratica da +nossa existencia, sejam quais forem as vicissitudes politicas que o futuro +lhes tenha reservadas. A vida dos estados é nada, um instante passageiro, +comparada com a vida das civilizações que, se realmente o são, se realmente +significam o desenvolvimento e afirmação progressivos de uma alma, de uma +relação com o infinito na existencia sensivel, não admitem perda nem +retrocesso, e nem sequer quebra de expansão. A riqueza do espirito, porque +não é deste mundo, embora neste mundo habite, não depende das contingencias +politicas das nações; a todas é superior, e porque é superior, por nenhuma +foi ou será vencida. Só pela riqueza do espirito os povos se engrandecem e +vencem ou serão vencidos; o resto é acidental.</p> + +<p>O que o espirito ganhou nas batalhas sangrentas em que a politica +ultimamente precipitou <span class="pagenum"><a id="pag_10" name="pag_10">[10]</a></span>os estados e as nações é qualquer +cousa como um terramoto. O abalo moral confunde pelos efeitos proximos e +remotos as ruinas de que os canhões cobriram a terra. Uma revolução social se +efectuou durante a guerra. O direito de propriedade foi de todo abolido por +instancia de interesses colectivos. E o que mezes antes parecia a maior +iniquidade e levantaria as pedras das calçadas, subitamente foi admitido como +o mais justo e natural dos acontecimentos. O estado monopolisou o pão e o +fogo, e os povos submeteram-se; todos os interesses individuais e de classe +foram indistintamente imolados a obrigações sociais, demonstradas ou +hipoteticas, e, embora no tumulto proprio de semelhante radicalismo se +insinuassem as torpezas inseparaveis do remexer das riquezas, os povos +consentiram pacientemente na dolorosa e inaudita expoliação. Naufragaram na +tormenta liberdades que haviam custado o sacrificio de gerações inumeraveis e +o martirio de centenas e centenas de vidas, e as vitimas desta renovação de +despotismos curvaram-se sem lamentos á fatalidade que lhes vinha em nome da +salvação publica. Evidentemente, se não houve a criação instantanea de novos +deveres, houve, pelo menos, uma revisão pratica e efectiva da escala e +amplitude dos deveres e dos direitos, a qual não pode fundar-se em outra +cousa senão na transformação da consciencia moral das sociedades.</p> + +<p>Foi um progresso que nos abre reinos novos de grandeza economica e moral, +ou é uma <span class="pagenum"><a id="pag_11" name="pag_11">[11]</a></span>ruina na qual vão sepultar-se os melhores sonhos +que nos alentavam a coragem para suportar as miserias do mundo?</p> + +<p>O conde Hermann Keyserling, em um artigo publicado na <i>Atlantic +Monthly</i> de abril de 1916, e intitulado <i>Juizo de um Filosofo sobre a +Guerra</i>, responde a esta interrogação com uma precisão e profundeza +devéras notaveis. Quanto dessa lucida apreciação das duvidas angustiosas que +a guerra provocou veio ao meu conhecimento, pela transcrição feita na +<i>Public Opinion</i><A name="tex2html3" href="#foot144"><sup>3</sup></a> +onde as fui buscar, aqui procurarei traduzir e guardar, pois melhor +condensação da suprema e decisiva influencia dos problemas morais deste +momento da nossa civilização não encontrei na torrente de escritos que a +preocupação dos aspectos morais da guerra suscitou, interessando os mais +altos e nobres espiritos do nosso tempo.</p> + +<p>«A causa dos Alliados vencerá», diz o conde Hermann Keyserling, «de uma +forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, mediata ou imediatamente.»</p> + +<p>«É inconcebivel que possa sobreviver o sistema de politica internacional +que provocou esta catastrofe; é inteiramente inverosimil que os novos +tratados que teem de se fazer, não sejam uma reflexão das aspirações e +esperanças de todo o mundo; o purgatorio desta guerra terá de consumar a +decadencia, transmudar em <span class="pagenum"><a id="pag_12" name="pag_12">[12]</a></span>novas as velhas formas, acelerar o +seu desenvolvimento, aclarar o espirito-das nações.»</p> + +<p>«Nem mesmo uma Alemanha vitoriosa, no seu antigo modo, ousaria ditar a paz +em termos reaccionarios; jámais seria aceite pela opinião publica, e não +duraria se a violentasse. Mas a Alemanha de amanhã será muito diferente da +Alemanha de ontem; a experiencia deste transe te-la-ha mudado muito. Como a +França, como a Inglaterra, como a Russia, ou terá encontrado a sua nova alma +ou, pelo menos, não estará longe de a encontrar. E essa alma será a de uma +nação intensamente democratica.</p> + +<p>«Não ha pois razão para pessimismo, apesar do horror da situação presente. +A guerra não póde ser senão horrenda, quando pelejada nas proporções +gigantescas e com a intensidade de paixão que agora se mostraram. Se os +melhores entendimentos parecem cegos e os melhores corações se deixaram +turvar pelo odio, a condição da maioria deve ser pavorosa.</p> + +<p>«Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, <i>significam</i> +muito pouco, desde que os homens durante a febre não são o que são; e a maior +parte dos horrores serão logo esquecidos, tal qual como com as pessoas mais +sadias que, depois de terem escapado de uma doença mortal, pensam pouco nos +sofrimentos por que passaram.</p> + +<p>«Não esqueçamos nunca que esta guerra significa uma crise constituicional +e que nesta conformidade temos de a julgar. Só então seremos capazes de +compreender as suas fases.</p> + +<p>«Digo <span class="pagenum"><a id="pag_13" name="pag_13">[13]</a></span>que a causa dos Aliados tem a vitoria certa. Isto +não implica, todavia, que seja consumado, qualquer dos fins concretos que ela +se propôs.</p> + +<p>«Será impossivel assegurar uma paz de tal modo duradoura que de uma vez +para sempre impeça a violação dos tratados; uma nação sósinha não terá +possibilidade de decidir a sua propria sorte mais livremente do que um +individuo póde desprender-se dos laços sociais e de parentesco e seguir +exclusivamente a sua boa vontade; o principio nacionalista não tem +possibilidade de triunfar desde que a maior parte dos paises estão habitados +em comum por diferentes raças. Mas, em vez disto, teremos melhoria em outras +cousas.</p> + +<p>«Muito provavelmente, a ideia tradicional de um estado que autorisava uma +nação a oprimir outras nações, será condenada, dando logar a uma nova ideia, +baseada exclusivamente sobre considerações economicas e militares, e deixando +plena independencia a todas as nações quanto aos termos da sua cultura. Muito +provavelmente, o equilibrio futuro da Europa dependerá, mais do que dantes, +da colaboração sobrepujando a oposição, o que só por si tornará menos +frequentes as guerras.</p> + +<p>«Mas são inuteis as profecias sobre o que desconhecemos. A unica cousa +certa é que esta guerra do mundo, sendo uma crise constituicional, ha-de +acelerar na vida interna das nações e nas relações internacionais aquelas +transformações que cada ano se teem mostrado mais urgentes <span class="pagenum"><a id="pag_14" name="pag_14">[14]</a></span>e +cujas formulas ninguem, por agora, póde encontrar.</p> + +<p>«Ha uma intenção no labor cego da Historia.</p> + +<p>«Não quero dizer que todos os resultados desta guerra hajam de ser bons; +muito longe disso. Os seus efeitos materiais imediatos não podem deixar de +ser desastrosos. A morte prematura de milhões dos mais robustos e melhores +não poderá beneficiar o remanescente. Os odios e ressentimentos semeiados +hão-de estorvar por algum tempo toda a convivencia internacional.</p> + +<p>«O que Romain-Rolland disse, mostrar-se-ha muito verdadeiro no primeiro +momento:—<i>Quelque soit le vainqueur, c'est l'Europe qui será la +vaincue.</i> A um tão longo e terrivel esforço ha-de seguir-se uma reacção, +uma depressão temporaria tanto mais acentuada quanto maior fôr o +levantamento. Podemos perder por algum tempo tudo aquilo que moralmente +ganhamos nas horas de perigo. No primeiro instante, todos os efeitos +imediatos desta guerra poderão ser francamente negativos.</p> + +<p>«Todavia, não retirarei uma só das palavras de esperança que escrevi, nem +que eu soubesse que nos estão reservados acontecimentos peiores ainda do que +aqueles por que temos passado.</p> + +<p>«Porque o progresso que realmente importa é o progresso no idealismo, e +este não póde ser suspenso por periodos de retrocesso material, por mais +longos que eles sejam.</p> + +<p>«Em que sentido promoveu o bem o advento de Cristo ou o da Revolução +Francesa? Materialmente <span class="pagenum"><a id="pag_15" name="pag_15">[15]</a></span> não, nem em principio nem depois. +Ainda mais: mesmo hoje se póde pôr em duvida se é consideravel o beneficio da +condição material do mundo derivado de qualquer daqueles acontecimentos. Mas +mudaram o espirito dos homens, mudaram a sua consciencia das cousas; e isto é +que é superiormente importante, porque só uma mudança de consciencia das +cousas é capaz de mudar intimamente as proprias cousas.</p> + +<p>«O espirito afeiçoa a materia muito lentamente. É isso certo. Mas, por +isso tambem, nenhuma outra cousa a afeiçoa absolutamente.</p> + +<p>«A lei só começou a ser o reflexo da rectidão no dia em que os homens +começaram a conceber o que a rectidão significava.</p> + +<p>«As instituições, só por si, são nada. As mais perfeitas que se possam +imaginar, são meramente uma crosta prestes a cair ao mais pequeno impulso da +paixão, se não exprimem um grau correspondente de compreensão espiritual.</p> + +<p>«Assim, a civilização perfeita da antiga Roma não pôde subsistir porque +apenas exprimia uma compreensão limitada; e, pelo contrario, o germen de uma +penetração mais profunda lançado pelo Evangelho de Cristo nas almas barbaras +tornou-as aptas para um infinito progresso.</p> + +<p>«Nunca como agora se encontraram em o mesmo nivel a penetração espiritual +e a exteriorisação. No principio da nossa era a penetração era profunda, mas +o estado de cultura externa era inferior; hoje, esta parece infinitamente <span class="pagenum"><a id="pag_16" name="pag_16">[16]</a></span>superior áquela. Isto explica o incomparavel horror desta +guerra. Isto revelou a disparidade monstruosa entre a nossa civilização +externa e o estado das nossas almas. Mas este horror abre-nos os olhos do +espirito.</p> + +<p>«Nunca mais e em parte alguma a opinião publica suportará os processos +tradicionais e profundamente imorais das relações internacionais; nunca mais +admitirá conscientemente que o poder é o direito. A nossa consciencia das +cousas ha-de mudar, e esta é a unica especie de progresso a tomar em conta. +Não ha desastres materiais que anulem essa conquista.</p> + +<p>«Só o progresso no idealismo cria uma base segura de desenvolvimento +material. Demais, tarde ou cedo esse progresso se exprimirá, por si mesmo, em +sua face externa. Ora esse progresso ha-de inquestionavelmente caber-nos +depois da guerra, seja qual fôr o caminho que os acontecimentos materiais +tomem.</p> + +<p>«Nós, os contemporaneos da guerra mais destruidora que o mundo viu, +julgamos muitas vezes injusto que fossemos nós os escolhidos para esta +terrivel experiencia.</p> + +<p>«Console-nos a ideia da retribuição deste sacrificio.</p> + +<p>«Não fossem os nossos sofrimentos, não fosse a desgraça que nós ao mesmo +tempo padecemos e causamos, e aqueles que hão-de vir depois de nós não seriam +capazes de conhecer nem de viver vida melhor do que a nossa. Se o +conhecimento ha-de incarnar um dia, inevitavelmente, em acção e vida, não é +menos verdade <span class="pagenum"><a id="pag_17" name="pag_17">[17]</a></span>que só as acções consumadas dão origem, em +regra, a novas realizações.</p> + +<p>«Um mundo novo nunca nasceu senão da agonia do que o precede.»</p> + +<p>Nem porventura será necessario esperar o fim da guerra e das suas +calamidades, para que possamos sentir o alvorecer da transformação salutar +que a rapida mas profunda analise do conde Hermann de Reyserling agoura em +termos de evidencia. Alguma cousa ha mudada desde já; alguma cousa dessa +redenção se mostra já fundada e inabalavel.</p> + +<p>Se o mundo se acha ainda entregue á violencia estupida e cruel da força +puramente fisica, se ainda abundam os que nela crêem com um fetichismo +barbaro, e a tomam pela prova ultima da civilização, entretanto a propagação +de um sentimento vigoroso de desprestigio da força a condena, senão á miseria +de um facto de abominação, pelo menos a um estado de sujeição e escravidão +sob o dominio de poderes mais altos. Não será propriamente o desprestigio da +força esse julgamento dos seus feitos e crimes ao qual temos assistido, mas é +desde já, e claramente, o sentimento das responsabilidades da força. O +imperialismo e as suas armaduras de aço e as suas tiranias e magistraturas +vão a retemperar-se em um novo baptismo. Secretas leis da alma dos povos lhe +exigem, por titulo de admissão, que de apanagio e privilegio, instituido em +proveito da riqueza e do orgulho dos estados, das dinastias e das classes, se +converta em instrumento da paz e da prosperidade dos povos. <span class="pagenum"><a id="pag_18" name="pag_18">[18]</a></span>Depositario da força, e não o seu livre possuidor, o +imperialismo moderno, para legitimar e manter a sua existencia e o seu poder, +cede a impulsos que já de longe lhe vinham turvando a liberdade e o +absolutismo, e tem de cohonestar a ambição do dominio, e os interesses dos +que dominam e regem, com a consciencia zelosa e praticamente fecunda das +responsabilidades impreteriveis que ele importa para a alegria e fortuna das +nações e das gentes que compreender no seu ambito e tiver, mais sob a sua +protecção e guarda do que sob a sua autoridade retribuida. De um simples +instrumento de mandar e de usufruir riquezas, de um processo de avareza terá +de passar, por efeito do progresso moral e das obrigações politicas +correlativas, a um modo de servir isentamente. E essa transformação que a +evolução moral das sociedades vinha reclamando lentamente, incitando e +conquistando a custo, foi agora subita e singularmente apressada pela +violencia da guerra, pelas suas dores, pela experiencia e desenganos de que +ela se tornou portadora sinistra, todas inclinando a crêr que o imperialismo, +para ser um processo de ordem politica e como tal escapar aos impetos de uma +reacção anarquica, terá de fundar-se em nobreza, probidade, desinteresse e +inspiração de altos e generosos deveres. Só por estes e pela fidelidade com +que os observar, só pela actividade e pela soma de bens concretos que +importar para a felicidade dos povos, será aceite e querido. Confiado apenas +ao prestigio das armas e á ostentação da soberba <span class="pagenum"><a id="pag_19" name="pag_19">[19]</a></span>e da +crueldade, da avidez e da injustiça, erguidas estas em seus tronos de +riqueza, jámais irá além das criações gigantescas que a historia nos mostra +dissolvendo-se invariavelmente na corrupção do seu proprio sangue. A +desilusão tornou-se completa no meio da catastrofe.</p> + +<p>A atrocidade dos combates imprimiu com uma profundeza desconhecida esta +feição de serviço do proximo, não só ao imperialismo politico, ao que usa +canhões, palmas e estandartes e aterra pela morte, mas tambem a todos os +demais imperialismos seus parceiros, parentes e aderentes, aos imperialismos +das oficinas como até aos simples imperialismos domesticos. Por força da +dolorosa eloquencia de um momento que revelou na sua nudez a miseria de todo +o isolamento orgulhoso dos homens e das nações, sucede a urgencia da +solidariedade e da cooperação áquele apetite de dominio, exploração, sujeição +e posse que tem sido a alma de todas as escravidões e servidões. Nesta +lugubre escola, o capitão de armas aprendeu a respeitar o soldado, como o +patrão o operario, e o amo o seu servo. A ideia de propriedade, dos homens +como das cousas, a razão do dominio pulverizou-se para ser refeita em nova +liga. Isentou-se de estranheza o clamor de Tiberio Graco, quando clamava ás +multidões que o cercavam: «Os animais bravios que estão espalhados pela +Italia teem suas tocas e cavernas onde podem abrigar-se, e os que combatem, +que derramam o seu sangue em defesa da Italia, não teem outra propriedade +senão a luz e o ar que respiram; <span class="pagenum"><a id="pag_20" name="pag_20">[20]</a></span>sem casa, sem morada certa, +vagueiam por todos os lados com as mulheres e com os filhos. Os generais +enganam-se quando os exortam a combater pelos seus tumulos e pelos seus +templos. Em tão grande numero de romanos haverá um só que tenha um altar +domestico e um tumulo em que os seus antepassados repousem? Não combatem e +não morrem senão para manter o luxo e a opulencia dos outros; chamam-lhes os +senhores do universo, e não teem de seu um palmo de terra.»</p> + +<p>Vinte séculos passaram desde que o mundo jazendo na servidão desmentiu na +ironia e na crueldade dos factos a violenta aspiração do tribuno; mas, feita +daquelas cousas que o fogo não queima, prevalecia e durava atravez de toda a +derrota, e hoje vemos o que a justiça das gerações lhe guardava. Porque as +plebes do nosso tempo, caminhando para a guerra, já aprenderam a preguntar +porque e para que é que lá vão, e os que as mandam já não sentem em seu poder +arte de engano ou energia de captação que lhes dê segurança bastante para +negar e roubar aos que combatem o seu quinhão na patria. Com pasmo vimos a +Inglaterra estabelecer o serviço militar obrigatorio, mas talvez na surpreza +muitos se esquecessem de considerar que essa violencia feita ás liberdades +tradicionais daquele país era a democracia continental com o seu cortejo de +igualdades passando o Estreito, e, se não derrubava de um golpe o +remanescente do feudalismo insular, o que o futuro dirá, suspendia-lhe, pelo +menos, todas as <span class="pagenum"><a id="pag_21" name="pag_21">[21]</a></span>garantias de estabilidade. O exercito deixou +de ser o servidor assoldadado dos governos e das aristocracias, obediente á +sua voz; tornou-se em obrigação de defesa, comum a todas as classes e para +cumprir a qual se confundiram nas fileiras os plebeus e os nobres, e +imediatamente, de burgo em burgo, alguma voz misteriosa apregoou a nova +lei:—«Cada homem, cada voto». É a igualdade do poder politico, preludio +certo e sabido das reivindicações igualitarias continentais, ameaçando as +desigualdades monstruosas da fortuna economica, que na Inglaterra, com a +liberdade de testar e a liberdade mercantil, mantinham o poder das velhas +aristocracias e criavam aristocracias novas, diferentes pela origem das +antigas mas com elas emparceirando no dominio politico. Meses depois de +estabelecido o serviço militar obrigatorio, aparecia na camara dos comuns uma +proposta abolindo todos os privilegios hereditarios, e o <i>Times</i> dava +fóros de cidade á discussão da conveniencia da constituição de um partido +republicano na Inglaterra, que esse jornal aliás combatia mas discutia, o que +só por si é sinal dos tempos.</p> + +<p>Por outro lado, a pressão dos confrontos proprios de toda a angustia em +que as provações nos incitam a considerar a sorte dos que de semelhantes +desgraças teem sido menos atormentados, levava-nos a verificar, em +sentimentos menos platonicos dos que aqueles que até agora prevaleciam nas +academias, que emquanto a Europa se enleiava em tradições e <span class="pagenum"><a id="pag_22" name="pag_22">[22]</a></span>prejuizos, com um passado tanto mais pesado para a liberdade do +seu espirito quanto mais longo e acidentado nos anos e nas vicissitudes +insinuando-lhe o tumulto e turvação do conflicto de diversissimas aspirações, +algures a situação era diferente. Emquanto a Europa arrastava entre fadigas e +penas infinitas esse fardo que é a sua gloria e a sua grandeza, e tambem, +bastas vezes, o residuo morto da sua vida e o estorvo fatal da sua +vitalidade, além do Atlantico filhos seus, que ela criou e amamentou com o +melhor do seu sangue, tinham fundado nações opulentas de riqueza e +felicidade, e regendo-se por principios assáz diferentes dos que nos +preocupam e governam, e emancipadas em larga escala do que a nós nos causa +dano.</p> + +<p>Nós, europeus aferrados a todas as aristocracias, de espirito como de +bens, destituidos de elasticidade moral e economica, facilmente nos +envergonhando da pobreza, tardos em sentir como sem prejuizo da dignidade e +até da alegria um homem passa de magistrado a caixeiro e de caixeiro a +magistrado, não raro inclinados a tomar por honra a hierarquia social e a +profissão, rebeldes a perceber que a honra é um facto de consciencia e não +depende da condição economica e da classe,—com qualquer coincide e a +todas póde ser alheia,—temos visto com frequente desconfiança o +desenvolvimento da grande Republica Norte-Americana, suspeitando da sua +nobreza e temendo, senão mesmo aborrecendo, a rudeza das suas energias +violentas, desprendidas de todos os moderadores que entre <span class="pagenum"><a id="pag_23" name="pag_23">[23]</a></span>nós lhes minguariam a expansão e os impetos. O governo da +multidão e a paixão mercantil afiguram-se-nos por vezes uma degradação, +quando os referimos ás hierarquias tradicionais e hereditarias que nos andam +no sangue, e a velhas e equivocas fidalguias de desprendimento dos bens da +terra que essas fidalguias desprezam por ignominiosos, sem embargo de +consentirem que o seu desprezo sirva tanto á elevação da alma e á +generosidade como á ociosidade indigente e ao desamor do trabalho.</p> + +<p>Mas, chegados a um momento de calamidade, como o presente, e atentando +mais uma vez na condição dos que nos aparecem melhor armados de espirito e +corpo para afrontarem as horas de desvairamento e ansiedade, não podemos +furtar-nos a duvidas, e preguntamos se de facto não haverá constituição +social mais simples e feliz do que esta, muito confusa, das velhas +civilizações europeias, e se aqueles nivelamentos e liberdades democraticas +que desde Platão tivemos por portadores de depressão, não redundam afinal na +supressão de todas as superioridades e excepções, compensando-a amplamente +pela elevação economica e mental da mediania e do comum. Sem embargo dos +muitos descontos que necessariamente ha a fazer em todas as prosperidades, o +certo é, e evidente, que os Estados-Unidos da America, dentro das suas +formulas democraticas e seja qual fôr o muito mal que das democracias possa +dizer-se e verificar-se, alcançaram uma situação politica admiravel, emquanto +os Estados-Unidos da Europa, <span class="pagenum"><a id="pag_24" name="pag_24">[24]</a></span>tão orgulhosos de saber, +experiencia, ordem, categorias e tradições, são ainda do reino da utopia, +para o maior numero, e uma vaga esperança, para um reduzido optimismo que +teima em não descrêr do progresso moral da humanidade. Não sem boas razões, a +democracia europeia pregunta-nos se o imperialismo capitalista +transatlantico, precario, a praso, sujeito á sorte da inteligencia e dos bons +negocios, será mais funesto e menos cruel do que o imperialismo militar +dinastico, nascido e mantido por ordem do acaso hereditario, sem obrigação de +capacidade mental nem dependencia das contingencias mercantis. Alguem mesmo +quereria saber dos mestres da sciencia social e politica das nossas terras se +os Estados-Unidos da America viveriam entre si na paz em que vivem se, em +logar de se organisarem democraticamente, tivessem fundado monarquias com as +respectivas dinastias. E os factos recentes, particularmente o que se tem +passado nos Balkans, e estes opressivos e indeclinaveis confrontos semeiam +perplexidades, demasiado bastas para nos deixarem caminho aberto e plano pelo +qual possamos sair afoitamente de semelhante labirinto.</p> + +<p>Nem mesmo será de prevalecer o argumento usual contra a legitimidade da +comparação da Europa e da America, alegando que as tradições da Europa e a +juventude da America não autorisam aproximações. Não, as tradições da Europa +são as tradições da America, e a idade da consciencia e da razão de um e +outro continente é a mesma; quem fundou as nações de além do <span class="pagenum"><a id="pag_25" name="pag_25">[25]</a></span>Atlantico foram europeus repassados do que as civilizações +europeias tinham de mais profundo. A diferença, onde a haja, depende apenas +de descriminarmos em que ramos da tradição, que muitos eram, se fundou a +civilização americana, e em que ramos da tradição se manteve a civilização da +Europa. E, feito isto, teriamos ainda, para tirar as ilações praticas do +confronto, de saber se foi a Europa ou a America que se desenvolveu nos ramos +sadios, qual dos dois continentes teve a infeliz sorte de se aferrar aos +ramos decrepitos, invadidos de toda a casta de musgos e liquenes, +continuamente sujeitos a inumeraveis doenças parasitarias.</p> + +<p>Em todo o caso, para os de mais desdenhosa ufania da civilização europeia, +imaginando a America demasiado moça ainda para muito poder sentir e pensar, +para quem apenas tenha observado na America a torrente do seu mercantilismo e +a julgue destituida da alta espiritualidade que é o nosso brazão, convém +notar que os livros de Tolstoi se vendem aos milhões nos Estados-Unidos da +America, e os de Ruskin «são lidos mais largamente na America do que na +Inglaterra.»<A name="tex2html4" href="#foot286"><sup>4</sup></a> A mais alta +elevação da alma de que a Europa foi capaz no século XIX e que esta +personificou esplendidamente em seus profetas, é comum na sua disseminação e +influencia ás praias de aquem e de além-mar, porventura mais <span class="pagenum"><a id="pag_26" name="pag_26">[26]</a></span>querida na terra virgem do que no chão exausto. E quem hoje +reler <i>A Americanisação do Mundo</i>, do extraordinario jornalista que foi +W. T. Stead, irá encontrar ensejos de aplauso e de admiração de uma larga +previdencia, nas mesmas paginas por onde ha alguns anos passou os olhos +estimulado apenas pela curiosidade de conhecer os sonhos e devaneios dos +publicistas. Na bagagem militar dos Estados-Unidos da America que os seus +navios desembarcam na Europa, vem envolvida uma outra e muito volumosa +bagagem politica e moral. Tenhamos isso como inevitavel e feito em grande +parte. Não se amiudaram os momentos em que as palavras do presidente Wilson +teem sido o texto da politica dos Aliados e nelas juraram os estadistas +encanecidos do velho mundo?!...</p> + +<p>Destas divagações do espirito em busca de melhores dias, uma cousa se +salva, porém, intacta—a condenação da violencia como processo politico. +Em toda a hipotese chegamos á certeza—e essa certeza constituirá um +poder politico de suprema importancia—de que para a prosperidade dos +estados e das nações valerá sempre mais organisar do que armar; mais se +fortalecem as nações pelo desenvolvimento e coordenação das suas relações +internas e externas do que pela invulnerabilidade restrictamente militar. Nas +nações como nos individuos, a saude politica, como a saude fisiologica, será +mais um facto de equilibrio e ponderação das suas energias do que o +desenvolvimento sumo de qualquer delas, seja qual fôr, força militar ou <span class="pagenum"><a id="pag_27" name="pag_27">[27]</a></span>capacidade muscular. Se os Estados Unidos da America não nos +facultassem elementos decisivos nessa demonstração, bastaria para nos induzir +em semelhantes conclusões o confronto da soberba e prolongada expansão +pacifica da Alemanha antes da guerra com os destroços de varia especie, +economica e moral, acumulados pela cegueira da sua febre guerreira, desde o +dia em que se julgou capaz de manter e acrescentar a grandeza por efeito e +graça da violencia militar. O seu imperio e prestigio, cujo alargamento +participava da natureza dos prodigios do engenho humano, dissipou-se em uma +extensão incalculavel na hora em que, desprendendo-se de toda a simpatia +pelos povos que a acolhiam em termos de fraternidade, preferiu a arrogancia +da força á insinuação do amor, ou mesmo ao simples comercio das comodidades +mutuas. Na hora em que a Alemanha ateiou o incendio infernal que prostrou a +terra e os nossos corações na desolação, nessa hora brilhou com um novo e +imperecivel esplendor e que o fogo não queima; nessa hora nos convencemos, +subjugados pela dôr e esclarecidos pela experiencia, que a essencia da vida +das nações, o que torna os seus povos eleitos ou condenados, dignos ou +infames, felizes ou desgraçados, ou até mesmo ricos ou pobres, é a sua alma, +a sua aspiração, a sua fé e a sua crença, o seu caracter moral e religioso, +perante o qual o saber e a força são unicamente uma ilusão e uma insidia, uma +traição tarde ou cedo destinada a conduzi-los á vergonha e á miseria, se um +instinto salvador não lhes <span class="pagenum"><a id="pag_28" name="pag_28">[28]</a></span>ensinou a disciplinar e conter +esse saber e essa força na obediencia a uma aspiração superior.</p> + +<p>A fortuna dos povos é em ultima analise questão moral, questão de +psicologia, traducção do idealismo de cada um e de cada epoca, acidente +positivo de uma alma.</p> + +<p>Um publicista eminente da Inglaterra, professor da Universidade de +Londres, o sr. L. T. Hobhouse, examinando as causas da guerra e as suas +consequencias, assim como as possibilidades e probabilidades de uma paz +imediata e duradoura, acentuou este aspecto essencial de derivação +psicologica da fortuna das nações em dois livros<A name="tex2html5" +href="#foot287"><sup>5</sup></a>, que, a meu vêr, são das lições mais lucidas +e serenas que o tremendo conflicto provocou.</p> + +<p>Segundo o seu pensar e dizer, a culpa da calamidade que pagamos caro, com +rios de sangue, e da qual as gerações futuras terão de resgatar por meio de +incalculaveis e prolongados sacrificios as nações modificadas e de todo +empobrecidas, não foi o Kaiser nem a diplomacia, modestos colaboradores e +interpretes de sinistros desvairamentos. A guerra proveio das tendencias e +desordens da psicologia dos povos; as cogitações da filosofia e as +inquietações morais e politicas correlativas que precederam a catastrofe e se +amiudaram durante largo tempo antes da guerra, traziam claramente no ventre +as <span class="pagenum"><a id="pag_29" name="pag_29">[29]</a></span>convulsões em que haviam de rematar. Durante estes +ultimos doze anos, imediatamente antes de 1914, juntaram-se e cresceram na +Europa os elementos de desgraça—«um grupo de estados inflamados pela +consciencia da sua nacionalidade, avidos de grandes presas, descontentes com +cada distribuição, emancipados de todo o senso do direito pelos seus novos +guias espirituais, endoutrinados em todos os sistemas eticos da violencia, +prontos a sujeitar-se á disciplina e ás fadigas por amor de esmagar os +outros, e, se a confiança agressiva abrandava, sustentados na sua propensão +pelo medo dos rivais que eles despresavam e todavia provocavam. Esta foi a +dilatada condição de combate moral que vimos tomar corpo em sua traducção +fisica, nos factos.»</p> + +<p>Aqueles que ha trinta anos saíram das escolas impregnados de naturalismos, +lutas pela vida e ambições e processos politicos consequentes, sabem +perfeitamente a que especie de direitos e deveres essa sciencia e essa moral +conduziam, e o que logicamente preparavam á Europa, quando das bibliotecas e +dos compendios universitarios, todos revestidos da dignidade do amor á +verdade, passassem a ser trocadas em moeda corrente na pratica da vida +publica e do comportamento individual, em toda a escala das relações com o +proximo, ou o proximo fosse uma nação de alguns milhões de habitantes, ou um +simples mendigo que se nos atravessasse na estrada e despedissemos por +<i>vencido</i> e <i>inferior</i>, ou um mercador que nos acotovelasse <span class="pagenum"><a id="pag_30" name="pag_30">[30]</a></span>no caes da alfandega e atropelassemos para dar a precedencia ao +nosso fardo. A sciencia e a filosofia, legitimando toda a casta de soberba e +avareza, acharam <i>natural</i> a brutalidade. Era o colapso absoluto da +simpatia, do respeito, da caridade e da justiça, de todos os velhos bordões, +apoiados nos quais tinhamos feito uma jornada honesta de mais de vinte e +cinco séculos, para fundarmos as criações singulares a que chamamos a +familia, a nação e a religião do amor dos homens.</p> + +<p>Simplesmente, a sciencia e a filosofia, na rajada da invasão materialista, +esqueceram, porêm, que a arvore tinha raizes e que, por muitos ramos que lhe +partissem e queimassem, as raizes ficavam na terra, e ao primeiro alento da +primavera novos ramos iam crescer do tronco e florir, em tudo semelhantes aos +antigos. Esqueceram que as nações, como a nossa alma, teem uma historia e +instintos alimentados e avigorados no correr dos tempos, e não haverá forças +de raciocinio nem impetos de destruição que os arranquem do seu temperamento; +esqueceram que a nossa civilização tem um caracter e esse caracter, residuo +da fermentação de uma longa vida, constante em sua essencia, é que afinal +ha-de marcar-lhe a linha de progresso atravez de todas as contingencias.</p> + +<p>Mas não o esqueceu quem, desconfiando das indicações dos tubos de +laboratorio e de todas as estreitezas que muito vaidosamente chamamos +sciencia, procurou uma mais larga e exacta concepção da vida no exame da +consciencia <span class="pagenum"><a id="pag_31" name="pag_31">[31]</a></span>e nos livros do passado, aí descobrindo as +razões do presente e as possibilidades e probabilidades do futuro. Para esse, +o passado assegura-lhe que «as civilizações não morrem por calamidades +externas, mas quando no intimo se lhes finou a alma. A civilização romana +caíu, não porque os invasores eram mais fortes, mas porque no seu coração +estava fraca.» «Antes disso, o genio do helenismo morrêra nas longas guerras +intestinas que paralisaram as cidades livres e lhes arrancaram o coração +daquela vida civica que era simultaneamente a fonte de inspiração do poeta, +do artista e do filosofo.» O que criou o conflicto da Alemanha com as nações +do Ocidente e com a Russia, foi uma divergencia de alma, porventura um +atrazo. «Na realidade, a Alemanha pouco participou daquele novo impulso +democratico, humanisante, que se ergueu na Inglaterra do século XVII e ainda +mais vivamente na França do século XVIII. «Por differentes vezes e por +diversos lados, desde a Holanda do século XVI até á Bélgica de 1914, as +nações da Europa ocidental e os povos que delas vieram, contribuiram para +este espirito de liberdade, democracia e humanidade. Povos pequenos e grandes +deles tiveram a sua parte; pensadores, homens publicos e filantropistas para +aí deram o seu quinhão. Mas este espirito é a criação do Ocidente, e foram +elementos da sua escola que em maior ou menor gráu levedaram a estrutura +politica e social da Europa central e oriental.» «Tocam tambem a estrutura da +sociedade alemã, mas não se tem ponderado suficientemente <span class="pagenum"><a id="pag_32" name="pag_32">[32]</a></span>que o corpo principal do pensamento alemão se conservou alheio +a este movimento desde o começo do século XIX. Não foi assim ao principio: +Kant, o maior dos pensadores alemães, manteve uma inteira simpatia com o +humanitarismo do século XVII, e Fichte foi um idealista cujas lições +representavam uma força de peso a favor da liberdade na luta com Napoleão. +Mas, com o advento da filosofia hegeliana, o pensamento academico na Alemanha +associou-se, e cada vez mais, com os poderes estabelecidos.» «O liberalismo +que havia na Alemanha morreu em 1848. A Alemanha fundou então uma cultura +propriamente sua, baseada em uma noção do estado e das suas exigencias, do +individuo e dos seus direitos sobre o resto do mundo, que a civilização +ocidental repudiava.»</p> + +<p>«Ora, olhando pelas nações do mundo, com excepção da Alemanha, não vemos +sinais alguns de quebra de fé naqueles principios. Pelo contrario, vemos que +as nações, uma a uma, atentam no facto de que são aqueles principios que +estão em risco. E, se assim é, não se trata de uma civilização mortalmente +enferma por falta de crença nos seus principios, por falta de confiança em +si, pelo pecado mortal de se atraiçoar.»<A name="tex2html6" +href="#foot288"><sup>6</sup></a></p> + +<p>De facto, nas trevas da catastrofe sentiu-se desde o começo o poder de uma +aspiração que <span class="pagenum"><a id="pag_33" name="pag_33">[33]</a></span>vem de longe e não se engana no rumo; +sentiu-se a obediencia a um evangelho espiritual e moral, de que a politica +com o seu cortejo de ambições e degradações será apenas um turvado espelho, +um acidentado esforço de realisação, sujeito aos vaevens de toda a traducção +concreta dos sonhos de nossa alma, da de cada homem como da de cada raça e da +de cada momento da civilização, ora deformada e oprimida por virtude dos seus +combates, ora vitoriosa e prospera, mas afinal, em derradeira sumula, +invariavelmente progredindo e progressiva. Um alto e profundo idealismo +determina muito daquilo que, no primeiro movimento de repulsão e de horror +perante a guerra, nos poderá parecer sómente a assolação de uma torrente de +abjecções e vilanias.</p> + +<p>Clutton Brock, cuja autoridade de pensador cresceu com as considerações de +elevado caracter moral que publicou sobre a guerra, incita o seu país a +fortalecer-se na disciplina de uma filosofia, de que o acha desprovido.</p> + +<p>Por esse motivo e com o fim de traçar os fundamentos essenciais dessa +renovação espiritual escreveu um opusculo<A name="tex2html7" +href="#foot289"><sup>7</sup></a>, onde pretende que uma das grandes vantagens +da Alemanha na guerra foi encontrar-se robustecida pela insinuação organica +de uma filosofia que inteiramente lhe repassou todas as actividades—uma +<span class="pagenum"><a id="pag_34" name="pag_34">[34]</a></span>filosofia má, pervertida, conduzindo ao crime em vez de +conduzir ao bem, mas, sem embargo, uma filosofia, a concepção de um sistema +das relações do mundo e dos homens, crente na sua justiça e nobreza, e só por +isso uma fonte incomparavel de energia, uma arma formidavel de combate, senão +a mais eficaz das armas de combate, aquela sem a qual todas as demais são +frouxas. E isso teria faltado aos Aliados.</p> + +<p>Os alemães «fizeram um estado que é um perigo para o mundo, porque o fim +desse estado é ruim; mas o estado da Inglaterra não tem um fim. Usaram todas +as suas virtudes com um fim material, e não viram que ele era material; mas +nós (os inglêses) deixamos as nossas virtudes ao acaso. Se os alemães veem no +seu país um absoluto falso, nós não temos absoluto algum, nem verdadeiro nem +falso. Ha gente, e não é só alemã, que crê que a cultura alemã póde salvar o +mundo e que por isso anseia por uma vitoria alemã. Para ela, a cultura alemã +é qualquer cousa positiva, qualquer cousa na qual os homens se esqueceram de +si por amor do estado, e, procedendo assim, se erguem acima das suas forças +naturais; e crêem que os alemães podem ensinar-nos todo este segredo de +abandono do interesse meramente individual, de modo que todos nós faremos a +nossa obra tão sistematica e completamente como os alemães. Mas em nós não +encontram inteiramente nada de positivo, e parecemos-lhes combater meramente +pelos metodos do passado, da mão á boca, e com esses metodos. Não teem razão, +<span class="pagenum"><a id="pag_35" name="pag_35">[35]</a></span>sem duvida; combatemos, pelo menos, contra um egotismo que o +mundo nunca suportará, seja qual fôr a limpeza que ele possa trazer; porque +com essa limpeza impõe a escravidão. Mas carecemos de tornar bem claro ao +nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente +individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito +alemão. Os alemães põem o valor da Alemanha acima de todas as cousas; mas +nós, o que é que nós aprendemos a apreciar acima de todas as cousas? Toda a +nossa sociedade sofre da falta de valores, de uma desvairada mundaneidade que +nem sempre está contente comsigo. Este descontentamento e este desvairamento +envolve esperanças, mais esperanças do que a intencional perversidade da +Alemanha; mas nem o descontamento nem o desvairamento são bons só por si, e +não conduzirão ao quer que seja, se nós não formos capazes de encontrar +valores, e os justos valores.»<A name="tex2html8" +href="#foot290"><sup>8</sup></a></p> + +<p>Na verdade, embora a afirmação categorica de que carecemos de uma +filosofia da vida se ache singularmente moderada onde o exame do moralista +reconheceu que «carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que +combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto +e completo do que o que prepondera no espirito alemão», a acusação não será +de admitir-se em toda a extensão. <span class="pagenum"><a id="pag_36" name="pag_36">[36]</a></span>As suas proprias palavras +a combatem, confessando que a questão é de clareza de entendimento e de +consciencia, e não de escassez de causa intima ou ausencia de uma filosofia +fundamental.</p> + +<p>Essa filosofia, que o critico quereria sentir na gente da sua patria, de +facto subsiste desde já e activamente. Trazemo-la no sangue, neste sangue que +é o legado de muitas gerações, e no qual se fundiram e consubstanciaram, em +uma tenacissisima aspiração, aquela liberdade que a Grecia sonhou, a ordem +que Roma fundou, e, coroação maravilhosa do pensamento politico constituido +pela antiguidade greco-romana, o nacionalismo acalentado pela Renascença, +movendo-se e medrando dentro daquela catolicidade que uma vez nascida do +poder e governo do imperio romano viveu na igreja catolica, prevalecendo-se +de um momento de unidade religiosa, e hoje se prolonga nas aspirações do +internacionalismo, fundando na comunidade humanitaria o que algum tempo foi +resultado da unidade religiosa—sem muito querer persuadir-se, diga-se +de passagem, que, ou se fale em nome de Deus, ou em nome da Humanidade, ou se +invoque a Razão, ou nos inflamemos na Fé, a conclusão moral é em toda a +hipotese una e invariavel, e o racionalismo e o cristianismo juntam-se na +mesma concepção da ordem humana, nas mesmas liberdades e responsabilidades, +nas mesmas aspirações e deveres de igualdade e amor.</p> + +<p>De filosofia não carecemos, realmente. Temos enraizada no peito toda +aquela, e profundissima, <span class="pagenum"><a id="pag_37" name="pag_37">[37]</a></span>que a tradição e a experiencia de +muitos séculos nos legaram. O que nos afasta da Alemanha não é a mingua de +uma razão intima, da mesma natureza daquela que a alenta e move; o que nos +afasta é apenas o grau de consciencia e a forma pratica correlativa em que o +mundo latino e o mundo germanico sentem essa razão e os termos em que lhe +obedecem. A Alemanha cultivou e definiu a sua filosofia, aparentemente oposta +de todo á nossa, em circunstancias apontadas por Hobhouse nas passagens que +acima traduzi, mas entretanto nós, descuidadamente, sem nos esforçarmos por +definir e sistematisar os motivos do nosso esforço, fomos vivendo a nossa +vida e seguimos por instinto o nosso caminho, sem o errarmos, não obstante +não preguntarmos para onde iamos e porque. Ao fim, quando o conflicto nos +iluminou tragicamente a jornada, é que vimos onde estávamos e que especie de +filosofia nos tinha conduzido até ali. Claro está que mais seguros se +encontravam em seus baluartes os que com mais paciencia e metodo os haviam +edificado; mas nem por isso os nossos reductos deixaram de se mostrar +inexpugnaveis. Se o não fossem, se uma filosofia muito diversa da que animou +a Alemanha e lhe deu força e coesão não nos inspirasse, se aspirações muito +diferentes não nos arrebatassem, a guerra ter-se-hia reduzido a uma marcha +triunfal dos exercitos teutonicos, portadores de um genero de civilização +pelo qual todos os povos da terra estavam suspirando, ansiosos por abdicarem +das suas aspirações ingenitas no seio do <span class="pagenum"><a id="pag_38" name="pag_38">[38]</a></span> povo eleito. A +invasão alemã teria sido uma benção recebida de joelhos e com hinos de +louvor; não significaria a violencia, para nos libertarmos da qual +sacrificamos vidas e bens, o melhor da nossa riqueza e da nossa alegria, e +comprometemos por largos anos a sorte dos que nos vão suceder e nos hão-de +herdar encargos tremendos.</p> + +<p>Ainda mais. Não só traziamos no peito uma filosofia e lhe obedeciamos, +embora o prolongado habito de a seguir nos tivesse em grande parte dispensado +de lhe reconhecer e cultivar intencionalmente o poder, mas o desenvolvimento +dessa filosofia não deixou de se operar de continuo e nos termos da sua +essencia. E chegados ao momento de dar contas do passado no presente, de +revelar as ideias e paixões em que nos criamos e mostrar pelos resultados +ultimos a sua legitimidade, verifica-se que temos sido fidelissimos servos +dos principios da nossa civilização, bastas vezes contrariados e oprimidos +pela adversidade do destino mas sempre renovados, e ressurgidos e maiores, +pela constancia da nossa crença.</p> + +<p>Para compreendermos como atravez de todas as obscuridades e reacções de +uma fermentação mental e material prodigiosa houve um progresso, uma logica, +uma direcção e um adiantamento em uma linha invariavel, bastará considerarmos +esta lenta renovação psicologica que graduou em diferente altura o valor +militar e o valor do trabalho, por virtude da expansão dos germens inoculados +em a nossa organisação <span class="pagenum"><a id="pag_39" name="pag_39">[39]</a></span>pelo pensamento democratico +tradicional. «Já aprendemos», disse W. J. Bryan, antigo secretario de estado +nos Estados-Unidos da America, «que é mais vantajoso alargar a terra que +possuimos, duplicando-lhe a producção, do que acrescentar-lhe por conquista +uma nova área. ... Ha mais inspiração em uma vida nobre do que na morte +heroica.» Entre tantas cousas que as convulsões politicas e militares +destruiram e arruinaram no correr dos séculos, sempre cresceram aquelas que o +fogo não queima, certa essencia espiritual, a razão de ser e proceder das +sociedades, que inflexivelmente as encaminha, quer na paz, quer na guerra, +ainda mesmo quando a sua acção se ignora ou parece aniquilada para sempre. +</p> + +<p>Heroismos de hoje, todos constituidos pela força de servir e criar, +expressão ultima de uma actividade de amor e de uma compreensão da virtude +dos homens, lentamente elaborada dos germens da nossa civilização, vão a +eclipsar as glorias de ontem, inflamadas no impeto de conquistar e no +arrebatamento de esmagar e vencer, paixões do odio, por vezes fecundas e +grandes pela coragem e até pela isenção que significaram, mas invariavelmente +barbaras pela crueldade dos impulsos, inseparavel da sua força intima. O +trabalho que algum dia foi vileza e escravidão e arrastou o carro dos +capitães de armas em seus triunfos, converteu-se agora em uma religião, e é +ele que pouco a pouco vae subjugando os capitães de armas ao serviço da sua +defesa e culto. Emquanto as balas cobriam <span class="pagenum"><a id="pag_40" name="pag_40">[40]</a></span>de cadaveres as +trincheiras de Verdun, fumegavam as fabricas no seu labor sob a metralha, os +arados sulcavam o chão sem temor da morte que pairava sobre as leivas, e a +consciencia duvidava, sem saber a quem mais glorificar e engrandecer, se aos +que sucumbiam heroicamente nas batalhas da morte, se aos que, não menos +sagradamente, ofereciam o peito e o sangue nas batalhas da vida. Alguma cousa +sentimos, senão mudada, pelo menos crescida, por certo apenas crescida, visto +que nasceu comnosco, com a nossa civilização, em todos os seus modos a +encontramos vivaz e alargando-se, a dizer-nos que, «é tão digno ser ferido ou +morto trabalhando pela saude e bem-estar de uma nação como combatendo por +ela.»<A name="tex2html9" href="#foot291"><sup>9</sup></a></p> + +<p>«A gloria militar só pode ser iniqua. Por cada heroi que ela regista, +quantos morrem desconhecidos, e todavia tão grandes que nem sequer tiveram a +ideia da gloria... O heroi maior é o que não conhece o seu valor. Morre sem a +si mesmo se conhecer, desconhecido dos homens, e a terra absorve o seu corpo +anonimo. Mas quanto é grande a grandeza de ser humilde! O soldado mais +humilde é o maior, aquele que se submeteu á regra até á morte, sem imaginar +que é notavel o que ele fez. Faz o que tem de ser feito. Faz o seu oficio de +soldado. A pura grandeza do homem reduz-se sempre a bem <span class="pagenum"><a id="pag_41" name="pag_41">[41]</a></span>fazer o seu oficio. O que é necessario, não é o entusiasmo; é a +consciencia profissional. O entusiasmo é apenas uma desigualdade de +temperamento.»</p> + +<p>Os combates que o trabalho combateu em França durante a guerra, igualam, +onde não sobrepujam, toda a sua estupenda gloria militar. «Através da morte, +através do fogo, os trabalhadores consumam tenazmente a sua tarefa. Este +heroismo do trabalhador encerra uma grande esperança porque a força eterna da +nação reside no trabalho. A guerra não é mais do que uma desordem momentanea. +Sempre ha-de acabar pelo regresso ao trabalho.» «O campo, o trigo, o moinho +conteem uma invencibilidade que a guerra não subjugará. Nem as ceifeiras +tiveram medo dos obuses, nem o moleiro teve medo de servir de alvo. Sob a +violencia passageira, a terra prossegue na sua eternidade, e vemos as mãos +das ceifeiras ligarem as paveias com um gesto que é sempre o mesmo desde o +começo do mundo. Ha na humanidade forças que a colera do homem nunca será +capaz de prostrar, e é delas que se alimenta. Que poder domina tudo aquilo? O +soldado sabe vencer o soldado. O trabalhador sabe vencer a morte.» «Ha um +patriotismo guerreiro que é sublime, porque afronta a morte. Todos devemos +inclinar-nos perante ele. Ha um patriotismo trabalhador que é ir para o +trabalho.»<A name="tex2html10" href="#foot292"><sup>10</sup></a></p> + +<p>Esse <span class="pagenum"><a id="pag_42" name="pag_42">[42]</a></span>patriotismo que combate imperturbavel os combates do +trabalho e que o critico comovido contemplou com orgulho na sua patria, esse +foi e é invulneravel a toda a injuria do fogo, e, sentindo-o crescer na nossa +alma e através da historia, sentindo-o avassalar-nos a consciencia, +ilumina-nos e alenta-nos a esperança de que, sendo a maior força e o supremo +padrão da gloria humana, só a esse está reservado todo o imperio em que as +nações e as raças viverão para melhores destinos. Isso que permanece sob as +cinzas, e não as cinzas que o vento leva, isso será o sustento e a razão de +ser da humanidade. É mais do que uma esperança; é uma certeza e a mais +vivificante das muitas que a guerra deixa erguidas entre os seus destroços. +</p> + +<p>O scepticismo desdenhoso, mais propenso a lidar com a miseria, de que faz +seu lucro, do que a exaltar-se em visões que não lhe matam a sua fome de +prazeres caracteristicos, está pronto a advertir-nos de que pouco importa que +nos homens haja impulsos eternos de robustez, paz e nobreza. Outros, e de +baixeza, os combatem; nestes temos de confiar, e destes havemos de nos +socorrer, porque sempre os encontramos arrogantes e muitas vezes os vimos +dominar, e sempre lhes sentimos a crueldade atroz. Esse scepticismo não +desistirá de procurar convencer-nos de que toda a aurora de justiça e amor +conhecida dos homens, e muitas teem sido, é invariavelmente entenebrecida por +uma ruindade ingenita indomavel que <span class="pagenum"><a id="pag_43" name="pag_43">[43]</a></span>logo a confunde em uma +noite cerrada. Não ha que esperar paraisos da bondade humana; sempre existiu +e nunca governou o mundo. É isso o que o scepticismo nos assegura, tal qual +como se nos dissesse que não vale a pena semeiar a floresta nem crêr no seu +crescer, porque sempre houve tempestades e as tempestades derrubaram muitas +arvores, e sempre houve vermes e os vermes muitas outras corromperam, ás +vezes das mais frondosas e melhores.</p> + +<p>Em socorro dos scepticos e da sua filosofia comoda, isentando de muita +obrigação, esforço e dever, viriam os homens praticos, esses de que Cristo +foi a negação, quando julgou pratico morrer na cruz para ressurgir em +espirito, no mais activo e criador espirito da humanidade.</p> + +<p>Os homens praticos não se convencem com semelhante loucura, e esses +pretendem que o unico modo eficaz de salvar a humanidade é organisar a sua +vileza em vez de invocar a sua nobreza. Fazendo o inventario comparado das +guerras e das aspirações de paz, acharão que as guerras teem prevalecido +sobre as aspirações de paz e, porque assim aconteceu, não poderá acontecer +diferentemente. No seu obstinado entender, a guerra para ser fecunda terá de +preparar novas guerras, cogitando de continuo na força futura dos exercitos e +no seu poder. Tudo o mais é utopia. <i>Homo hominis lupus.</i> A unica +esperança de sustentação dos homens é avigorar-lhes as queixadas, afiar-lhes +os dentes e banir-lhes do peito a piedade. Devorar e ser devorado será o +ciclo infernal em que a politica tem <span class="pagenum"><a id="pag_44" name="pag_44">[44]</a></span>de penar. Amar e ser +amado é ilusão contraria á natureza e, mais do que perigosa, mortal.</p> + +<p>Nem lhes abalará a firmeza o proprio testemunho da Historia que eles +invocam e que aliás demonstra o progressivo desenvolvimento da boa vontade +entre os povos e as nações, um declinar constante de aversões e +incompatibilidades, até mesmo entre aqueles que ainda ha pouco eram inimigos +e cruzavam armas. No fundo do desenvolvimento politico das sociedades humanas +ha um alargamento e fortalecimento constante das suas faculdades de afeição, +mas, como esse desenvolvimento é um facto de evolução e conquista gradual e +não uma revolução ou um fenomeno de cataclismo, nunca poderá isentar-se +totalmente de um remanescente de barbaria e crueldade que só progressiva e +lentamente decáe. E porque esse remanescente persiste, o scepticismo, e a +avareza, ambições, e até mesmo certo heroismo, que todos são os seus +acolitos, exaltam-se na ilusão de que os homens não mudam; e por isso fazem +da má vontade reciproca entre os povos uma lei e um sistema politico e uma +moral publica. Mas, sem embargo, os factos frequentemente desrespeitam as +suas profecias tenebrosas. Quando terminaram as guerras napoleonicas, todo o +mundo imaginou que a paz era apenas uma tregua entre a Inglaterra e a França; +não tardaria a renovação dos combates entre estas duas nações. Um dia, um +homem publico eminente da Inglaterra repetia esses temores diante do duque de +Wellington, e o duque, respondendo-lhe, aconselhou <span class="pagenum"><a id="pag_45" name="pag_45">[45]</a></span>que «se +mais tarde ou mais cedo tinham de entrar outra vez em combate, fizessem por +todos os meios que fosse o mais tarde possivel.» O proprio guerreiro desejava +a paz e suscitava uma politica conforme os seus desejos; e o futuro deu-lhe +razão. Guerra não tornou a haver entre a França e a Inglaterra. Passados cem +anos, encontramo-las aliadas. A solução pacifica mostrou-se mais pratica do +que a solução belicosa.</p> + +<p>Entre a maior violencia das batalhas ouvirão agouros de paz aqueles que os +quizerem ouvir. Ao fim de dois anos de guerra entre a Inglaterra e a +Alemanha, na hora de suma inimizade, o professor Munsterberg, alemão de uma +alta autoridade, lembrava que a liberdade dos mares poderia ser eficazmente +assegurada por uma aliança da Inglaterra, da Alemanha e dos Estados-Unidos da +America. E a imprensa inglêsa, respondendo-lhe, abstinha-se de dar opinião +sobre a justiça e praticabilidade de semelhante insinuação, advertindo apenas +que as incompatibilidades suscitadas pela guerra eram um obstaculo formal a +essa solução—o que equivale a dizer que, apagadas essas +incompatibilidades, não será talvez uma utopia o alvitre. Pelo visto, o +obstaculo é apenas de natureza moral, outro não ha de natureza politica ou +economica. Não será de todo ilegitimo pôr esperanças em hipotese tão ousada, +sobretudo se nos lembrarmos de quanto foi breve a inimizade entre a França e +a Inglaterra, e se cremos, com muita boa gente, que, se não houvesse esse +espinho da questão <span class="pagenum"><a id="pag_46" name="pag_46">[46]</a></span>da Alsacia, talvez a Alemanha e a França +fossem hoje aliadas em vez de inimigas, apesar da guerra de 1870.</p> + +<p>Depois, a fatalidade da propensão logica insistentemente pregunta porque é +que o internacionalismo, sendo um facto culminante do nosso tempo, não ha-de +estender-se á politica, ou melhor, como é que a politica ha-de conservar-se +alheia ao seu espirito e acção. Internacionalisou-se a sciencia, a arte, a +religião, o capital e o proprio comercio, apesar das suas infinitas +rivalidades; não se concebe que este impulso exclua a politica. Pelo +contrario, é sabido até que ponto o internacionalismo penetrou nas oficinas, +não são segredo nem pouca cousa as tendencias de solidariedade que por lá se +insinuaram e medram. Admitamos que da oficina trasbordem e se espalhem nos +campos, onde a sua disseminação tem de ser lenta por virtude da inercia +caracteristica do espirito rural, sempre moroso em seus movimentos, +cautelosamente conservador, mas nem por isso menos tenaz nas inclinações. E +mais não carecemos para sinal de tempos novos, mais ou menos proximos, talvez +mais proximos do que remotos, se considerarmos a intensidade da actividade +mental dos nossos dias, a renovação da consciencia que ela importa, e a ordem +social a que essa nova consciencia conduz inevitavelmente.</p> + +<p>O progresso, sendo como é unicamente fundado na fortaleza do espirito e no +seu desenvolvimento incessante, é indestructivel em sua constituição e nos +seus orgãos, em toda a amplitude <span class="pagenum"><a id="pag_47" name="pag_47">[47]</a></span>da sua expressão e +expansão. O que nos dá a ilusão de retrocesso ou de irreductibilidade da +barbaria, são as desordens de funcção, não é uma lesão essencial organica, +que não existe; são as enfermidades acidentais, passadas as quais as +sociedades voltam a ser o que eram anteriormente ao acidente +morbido—tal qual o homem doente recuperando o equilibrio normal quando +findou o delirio da febre, reatando a vida no ponto em que a tinha no momento +de ser perturbada, naquela edade, estatura fisica e capacidade mental que lhe +eram proprias e caracteristicas. Nem porque adoeceu e se curou voltará o +velho a ser moço e o adolescente ressurgirá criança. Uma identidade +especifica se mantem com seus momentos de eclipse, ao fim vitoriosa de +qualquer opressão passageira que por acaso sofreu. E assim o entendeu um +esclarecido internacionalismo, pela voz dos seus chefes mais autorisados +insistindo em nos assegurar que não renunciou, nem tem razão para renunciar, +ás suas aspirações e esforços. Negando que a guerra o houvesse enfraquecido, +tira das responsabilidades que lhe exigem e dos feitos que lhe atribuem a +demonstração da sua força e vitalidade. As acusações de falencia com que a +diplomacia dos politicos de profissão procura estigmatisa-lo e afasta-lo do +caminho, no qual essa diplomacia serve as cobiças dinasticas e capitalistas, +seriam em ultima analise um tributo á importancia que lhe assiste nas +relações entre os povos e ao alargamento e amplitude progressiva do seu +poder. Confessando que o nacionalismo agressivo <span class="pagenum"><a id="pag_48" name="pag_48">[48]</a></span>teve um +impeto de tresloucada ambição envolvendo nas suas paixões o mundo inteiro, +crê cada vez mais profundamente na missão de paz que o zelo profetico dos +seus mestres e o trabalho paciente dos discipulos tem exercido nestes ultimos +cincoenta anos com tão religioso ardor como manifesta eficacia. As +dificuldades que o assaltavam e os transes por que passou no desvairamento +momentaneo dos seus apostolos e soldados, iludidos pela astucia dos que +governam, não lhe abalou o fundamental optimismo, proprio da fé com que +prosegue nos seus combates e vitorias.</p> + +<p>Depois ainda, esta ultima guerra veio demonstrar com uma clareza +terminante que já não ha neutrais possiveis nos conflictos das civilizações. +Não se arrasaram fronteiras nem será possivel, e muito menos necessario, +arrasá-las, porque a natureza e a historia as ergueram por longos séculos, +senão para sempre; mas cresceu a intensidade de transito através dessas +fronteiras, e com ela cresceu a simpatia mutua e a comunhão politica dos que +nelas transitam. As relações dos povos estreitaram-se de tal modo que, se uma +calamidade flagelou uma nação, todas as demais sofrem nos seus interesses e +afeições. Ora por Deus, ora por Satanaz, ora por amor do espirito, ora por +ambição mundana, a terra vai a converter-se em propriedade de um possuidor +unico—o homem, um só e não muitos, como no passado encontravamos e +distinguiamos, sobretudo quando os viamos em combate. E, se o possuidor é um +só e a propriedade <span class="pagenum"><a id="pag_49" name="pag_49">[49]</a></span>se acha portanto indivisa, o conflicto é +impossivel onde a unidade organica se tornou essencial.</p> + +<p>A propria insolvencia da guerra pelos feitos militares, que em mais de +trez anos de combates através de mil esforços, vitorias e derrotas não foram +capazes de dar solução ao conflicto e, pelo contrario, demonstraram a sua +inanidade como processo de solução dos antagonismos em oposição violenta, +isso que fez que se chegasse á conclusão de que as nações teem força para +fazer a guerra, mas não teem força para fazer a paz, isso significa um golpe +profundo na doutrina da confiança militarista. Sobretudo a vitalidade dos +interesses economicos mostrou-se superior a toda a ruina por mera violencia. +Por seu poder e relações não tiveram força bastante para evitar a guerra, mas +ficou de uma vez para sempre certo que a economia das nações, fruto da paz, e +da inteligencia e dos afectos, não póde ser arrasada pela guerra. Essa +economia subsiste apesar da guerra e durante a sua propria acção; não ha +exercitos que possam com ela, e nem a dos aliados nem a dos imperios centrais +fraquejaram e deram sinais de se submergir nesta pavorosa catastrofe, +constituindo por essa maravilhosa resistencia uma prova formidavel do +caracter de ociosidade cruel de todas as guerras na fortuna dos povos, que +vivem de pão, não vivem de polvora. A arte de ser util emancipou-se das +supostas necessidades de violencia, que algum tempo a fascinaram. «A +violencia seduz porque nos dispensa <span class="pagenum"><a id="pag_50" name="pag_50">[50]</a></span>de um esforço de +reflexão, de um trabalho de razão. Porque é necessario um esforço para +desfazer um nó. É mais facil cortá-lo.»<A name="tex2html11" +href="#foot293"><sup>11</sup></a> Mas desde que os homens e as sociedades +chegaram á idade da razão, não só a sua honra mas tambem os seus interesses +temporais os induzem a esperar da razão o que erradamente pediam á violencia. +</p> + +<p>Debalde essa tendencia, de que resulta a unidade de aspiração dos povos e +o consequente declinar das guerras, tem até hoje procurado orgãos adequados +que lhe sirvam eficazmente as funcções. É certo. Preponderante apenas em um +mundo moral limitado, carece ainda da largueza de disseminação que lhe ha-de +assegurar a consistencia, embora essa disseminação progressiva se mantenha na +historia das sociedades cultas com uma constancia manifesta. Muitos tratados +e tribunais de arbitragem, muitos compromissos de paz se reduziram a +<i>pedacinhos de papel</i>, e logo se inflamaram e arderam mal se ouviram +clarins de guerra. Outros, porém, se mostraram consistentes e rebeldes ao +fogo em iguais circunstancias. Tambem é certo.</p> + +<p>Aqueles que se rasgaram ou arderam, foi porque, significando unicamente +uma esperança e uma tendencia, uma ambição e um fim, ainda não eram de facto +uma lei, embora escritos fossem. Uma lei, para o ser com força executiva <span class="pagenum"><a id="pag_51" name="pag_51">[51]</a></span>e real, carece de um estado de espirito em que se haja fundado +e estabelecido antes de se estampar e consignar na definição verbal e nos +contractos selados. Essa é a razão pela qual não se cumprem muitas leis que +já foram cumpridas, e ainda não se cumprem outras que já foram apregoadas, e +vigoram algumas que jámais foram traduzidas para o papel. É que as leis, +antes de o serem e para o serem, hão-de viver no mero estado de aspiração do +espirito; sómente são leis e prevalecem emquanto as aspirações dos povos as +querem e confirmam. Como poder de criar o quer que seja nas sociedades e na +consciencia dos homens, a lei escrita, nacional ou internacional, é de um +valor nimiamente hipotetico; a lei será, muito mais do que isso ou muito +diferentemente disso, uma verificação e explicação daquilo que natural e +expontaneamente se criou. Quando vem antes da criação que pretendem +representar, ou quando lhe sobrevivem, as leis vergam, cedem e anulam-se ao +mais leve movimento contrario.</p> + +<p>Ora, em materia de guerra entre os povos, as propensões pacificas, que são +aliás uma força manifesta e crescente, não vão tão adiantadas que possam +constituir-se em tribunais e sancionar-se em sentenças. Foi esta antecipação +do desenvolvimento de um principio e de uma alta realidade que, mostrando-se +o que na realidade era, revelando a fragilidade propria de uma constituição +incipiente, deu a muitos a ilusão de que esse principio e essa realidade não +existiam em absoluto e não eram uma força em acção, e, <span class="pagenum"><a id="pag_52" name="pag_52">[52]</a></span>porque acontecera que se mostraram incapazes de afrontar as +injurias de um momento adverso, jámais poderiam subsistir.</p> + +<p>Quizemos talvez começar a casa pelos telhados, em vez de lhe dar principio +pelos alicerces. E, muito provavelmente, o radicalismo socialista acerta +quando, reconhecendo que o internacionalismo organisado anteriormente á +guerra foi impotente para a conter, explica o desastre e confia no futuro, +dizendo que, «emquanto os governos andarem divorciados dos povos, emquanto +eles forem autocracias e plutocracias, emquanto os homens forem governados +pela corrupção, pela violencia e pelo engano, não haverá garantia real de que +a paz, mesmo quando nominalmente observada entre as nações, produza os frutos +ou assegure as liberdades da paz de Deus. Emquanto os povos não dirigirem a +politica dos governos, emquanto a democracia não for uma realidade, não +haverá paz permanente, externa ou domestica; e, quando esse dia chegar, pouca +necessidade haverá de uma força de policia internacional.»<A name="tex2html12" href="#foot294"><sup>12</sup></a></p> + +<p>Se assim é, e a observação dos factos decorridos nestes ultimos anos de +profundissimas convulsões sociais e progressiva consciencia das suas origens +e remedios de todo confirma a esperança dos apostolos da renovação politica +do mundo, se assim é, não podem vir longe os tempos de paz.</p> + +<p>Porque <span class="pagenum"><a id="pag_53" name="pag_53">[53]</a></span>a vitoria da democracia, ainda que na revolução da +Russia não se houvesse mostrado triunfante ou não fosse carregação inevitavel +dos navios vindos dos Estados-Unidos da America, republicanos e livres +pensadores, afeitos incorrigivelmente á liberdade politica e religiosa, e +naturalmente propensos a comunica-la aos povos aos quais se unirem por +amizade, a vitoria da democracia tornou-se a sumula deste terramoto que foi a +guerra de 1914. Obedecendo a impulsos politicos originarios da civilisação, +mantidos e medrados em uma evolução muitas vezes secular, grande legado das +cogitações filosoficas do século XVIII e da abundantissima experiencia do +século XIX, a democracia é da essencia constituicional do latinismo e de +quanto ele de perto ou de longe criou ou tocou, sem distincção de gentes ou +de latitude para onde se transportasse. Diferentemente se organisará conforme +as necessidades e tradições e acidentes da existencia dos povos sobre os +quais impera; poderá ser aqui um sistema de fragmentação comunista, acolá a +constituição de centralisações colossais, e além o livre jogo do +individualismo; poderá ser na estrutura e na hierarquia das funcções uma +monarquia, ou uma republica, ou um imperio, uma arregimentação despotica das +plebes ou a associação livre das actividades sociaes. Mas em todo o mundo se +tornou a tendencia irrefragavel e invencivel da constituição dos governos +para servir os povos e a recusa indomavel da subjugação dos povos para servir +os governos. No espirito das comunidades decaiu <span class="pagenum"><a id="pag_54" name="pag_54">[54]</a></span>a ideia de +serem possuidas e a obediencia correlativa, e a essa ideia sobrepoz-se, +vencendo-a e condemnando-a, o pensamento de possuirmos a terra em comum e em +comum obedecermos, não áqueles a quem a fortuna ou a audacia deu a força de +mandar, mas sómente áqueles a quem a consciencia deu o talento e a obrigação +de ser util e de proceder isentos de interesse proprio, em beneficio do +proximo. Uma democracia, aquela democracia que persiste, cresce e ha mais de +vinte séculos ressurge de cada revez mais poderosa do que era +antecedentemente, «não é uma mera forma de governo. Não depende de urnas ou +de leis de sufragio popular ou de qualquer maquinismo. Isso é apenas o seu +adorno. A democracia é um espirito e uma atmosfera, e a sua essencia é a +confiança nos instintos morais do povo. Um tirano não é um democrata, porque +crê no governo pela força; como não é democrata o demagogo porque crê no +governo pela lisonja. Um país democratico é um país onde o governo tem +confiança no povo e o povo tem confiança no governo e em si, e onde todos se +unem na fé de que a causa do seu país não é materia apenas de interesse +individual ou nacional, mas está de harmonia com as grandes forças morais que +governam os destinos do genero humano.»<A name="tex2html13" +href="#foot295"><sup>13</sup></a></p> + +<p>Essas forças morais que governam a humanidade, <span class="pagenum"><a id="pag_55" name="pag_55">[55]</a></span>não as +queima o fogo. E essas são as que hão-de fazer a paz, a presente como a +futura, e a futura mais robusta do que a presente.</p> + +<p>Uma noite, em uma igreja, ficaram alguns soldados de sentinela a guardar a +urna de uma eleição politica.</p> + +<p>Havia no altar mór dois anjos magnificos, empunhando tocheiros, e a sua +grandeza e resplendor dominavam o templo.</p> + +<p>Para encurtar o enfado da vigilia, os soldados vestiram de guerreiros os +anjos. Poseram-lhes aos hombros o capote e a mochila, cingiram-lhes as +correias, ocultaram-lhes os cabelos no capacete e trocaram os tocheiros por +carabinas. Ao fim, alguem deu a voz de «sentido», militarmente, e a companhia +perfilou-se em continencia.</p> + +<p>Havia alguma cousa de escarneo sinisiro no gracejo. Era um templo +transmudado em caserna, a dureza expulsando a graça e a crueldade banindo a +piedade.</p> + +<p>Mas, quando amanheceu, o sonho de Satanaz havia passado, e os anjos, +recuperando a liberdade das suas azas, de novo se ergueram áquela gloria que +o menospreso desconhecera e ocultára sem poder destrui-la, porque era de sua +condição indestructivel. Até sob o manto da injuria persistira.</p> + +<p>Não é diferente desta a historia da humanidade—desta humanidade á +qual todas as nações pertencem e que os tempos mostraram susceptivel de +nobreza, de fé e de amor, de quanto constitue a gloria dos anjos. Póde um +impulso <span class="pagenum"><a id="pag_56" name="pag_56">[56]</a></span>impio perverte-la e tranfigura-la por um momento. +Muitas vezes o tem feito e não poucas terá ainda, por certo, de o repetir. +Mas a manhã sempre volta, porque o mover dos astros não cessou e, quando +volta, logo fulge a gloria dos anjos. Nunca o fogo a queimou.</p> + +<p> </p> +<span class="pagenum"><a id="pag_57" name="pag_57">[57]</a></span> +<h1>Valores restaurados</h1> + +<p> </p> + +<h1><A name="SECTION00310000000000000000">Renascimento da educação +classica</a></h1> + +<p> </p> + +<h2><A name="SECTION00311000000000000000">I</a> </h2> + +<p>«Em breves anos, veremos renascidos e florescentes a educação e o ensino +classicos. Não tenhamos duvidas. Os sinais de resurreição são manifestos, a +germinação da nova ideia vigorosa; e nestes tempos em que toda a +transformação é rapida e a circulação do pensamento tão activa como a +propagação da electricidade, manda a experiencia e a lógica contar em curto +prazo com uma profunda reforma dos programas escolares, subordinada á nova +aspiração, orientando-se em rumo diverso daquele estreitamente positivo e +scientifico em que com tanta incerteza e naufragio navegamos ha uns bons +vinte e cinco anos. As humanidades e a cultura classica retomam seu logar e +imperio. O clamor é geral. Será ouvido dos que o podem converter em uma força +activa eficaz.</p> + +<p>«Tem <span class="pagenum"><a id="pag_58" name="pag_58">[58]</a></span>todos os modos de reclamação de verdade, justiça e +necessidade pratica. Não pode encontrar resistencia que prevaleça sobre +elementos de tamanha força e duma tal natureza.</p> + +<p>«As sociedades teem destas crises que, uma vez lançadas, logo se lhes +presente a solução e os triunfos.</p> + +<p>«E a crise presente do ensino é dêsse género.</p> + +<p>«Não é uma novidade, realmente. Não é uma aventura de ensaios e tentativas +para inventar homens novos, de novas aptidões e estranhas tendencias +psicológicas.</p> + +<p>«É no fundo o desengano de uma aventura, empreendida com muito boas +esperanças e rematada com muita desilusão, é a reposição das coisas do +espirito e da ordem da vida concreta naquelas condições em que durante +séculos se haviam mantido e prosperado.</p> + +<p>«Ha cerca de vinte e cinco anos disseminou-se na Europa, na America, e por +todo o mundo culto uma verdadeira mania de <i>realidades</i>, coisas +<i>praticas</i>, <i>utilidades</i>, vaga e implicita negação de outras +coisas, aéreas em semelhantes conceitos, com que os homens se haviam +preocupado até então. E essas coisas não praticas, isso que se chamava +beleza, ordem, justiça, aspirações do puro espirito, passou então á categoria +de inutilidades, toleradas apenas como enfado e desfastio, adorno e deleite +de curiosos e ociosos diletantismos.</p> + +<p>«O ensino amoldou-se a essa preocupação. Pôr uma engrenagem onde estava +uma ideia, uma ideia aritmetica onde havia um silogismo, <span class="pagenum"><a id="pag_59" name="pag_59">[59]</a></span>uma +fabrica onde estava uma estátua, e um apito de vapor onde se ouvia um canto +de poeta, tornou-se imediatamente a quinta essencia da sabedoria das nações e +dos seus estadistas, e o sonho de perfeição e grandeza dos pedagogos +progressistas e progressivos, dos que iam na frente e se propunham ir +muitissimo mais longe.</p> + +<p>«O ensino classico pareceu então uma abominavel e esteril velharia; +dessorava o cérebro, atrofiava os musculos, tinha por vezes um cheiro +detestavel a côrte e sacristia. As famosas humanidades trocaram-se de bom +grado por abundantes animalidades. No homem considerou-se quasi unicamente o +animal e no mundo viu-se muito restritamente um processo de multiplicação de +comodidades.</p> + +<p>«Para isso se teriam criado a terra e as sociedades. Tudo o mais seria, na +classificação mais benigna, pelo menos antiquado.</p> + +<p>«Que olhassemos para a Alemanha, prégava-se. Lá é que se sabia. As suas +vitórias e prosperidades eram uma questão de escola, e de sciencia, dessas +muito faladas e desejadas e louvadas coisas práticas. Era o mestre escola que +tinha vencido em Sadowa. O germanismo e as suas glórias teriam sido apenas +questão de laboratorios, retortas, lentes, microscopios, raizes quadradas e +taboas de logaritmos.</p> + +<p>«Sciencia, muita sciencia, sempre sciencia. Estava aí o elixir da vida, a +fortuna das nações e a felicidade dos homens. Latim, grego, Aristofanes e +Cicero e Tito Livio respeitaveis massadores que tomavam o tempo á rapaziada e +não <span class="pagenum"><a id="pag_60" name="pag_60">[60]</a></span>lhes deixavam lucro que valesse um real. Abaixo as +inutilidades. Passassem aos museus respectivos.</p> + +<p>«Lá encontrariam conservadores habilitados que as guardassem no logar que +lhes competia, para recreio de eruditos. Para o comum dos mortais não tinham +nada de aproveitavel.</p> + +<p>«Assim fomos andando, nesta fé, de reforma em reforma, a dar ar e luz aos +nossos institutos e liceus, sempre á espera de vermos sair de lá os atletas +que haviam de renovar as nações. Mas os atletas tardavam. Em seu logar, +apareciam mesmo muitos enfermos. Começamos a desconfiar de que a sciencia não +dava o que prometia, e a suspeitar de que tinhamos errado na escolha, +passando ao deposito das inutilidades um arsenal de belas armas.</p> + +<p>«Coisa curiosa! A primeira vez que ha dois ou tres anos encontrei um +escrito moderno atacando abertamente os abusos do ensino chamado scientifico +e o abandono das letras classicas e das antigas humanidades, foi em um jornal +socialista radical. Os que vão na frente do movimento politico, os que +reclamam e exigem mais profundas reformas, as pedem em nome da justiça, e +pelo seu radicalismo bota-abaixo pareceriam os mais propensos a banir todas +as velharias das sociedades contemporaneas e futuras, seriam esses os +primeiros a advogar a restauração de processos e intuitos da educação e +ensino, postos de parte e condenados por empecilhos do progresso.</p> + +<p>«A educação classica refugiando-se nas fortalezas <span class="pagenum"><a id="pag_61" name="pag_61">[61]</a></span>do +socialismo radical, que se poderia muito logicamente supôr todo impregnado de +radicalismos scientificos, era fenómeno para estranhar; e, na minha +ignorancia e despreocupação, de facto estranhei, no primeiro momento.</p> + +<p>«Mas em poucas linhas me desvanecia a confusão aquele artigo que acabava +de lêr.</p> + +<p>«O quê?! dizia. As humanidades eram más? Onde se formaram os homens da +Revolução Francêsa? Onde aprenderam os principios de liberdade, igualdade e +justiça que proclamaram e por que se sacrificaram até ao martirio, para nolos +transmitir triunfantes e para nos remir de aviltada condição?</p> + +<p>«Donde brotou e onde firmava as suas raizes essa seara unica da literatura +romantica?</p> + +<p>«Não, as humanidades não eram más. Eram excelentes e suficientes. Os +homens que nos deram foram bons, entre os melhores de que fala a historia, e +nem outros de superior grandeza podemos desejar e sonhar.</p> + +<p>«O discurso convencia-me. Desde o momento em que os homens se criam para +os homens, os conhecimentos essenciais do seu espirito e os modos mais nobres +do seu caracter hão-de ser humanidades. Preferir-lhes animalidades, reduzir o +homem a um vulgar organismo sem diferença fundamental dos seus semelhantes +nas espécies animais, ou mais simplesmente ainda passa-lo á categoria +mecanica de motor e alavancas conjugadas, destinado a diversas operações de +produção e consumo, era uma degradação. Evidentemente, tornava-se necessario +ser homem antes de <span class="pagenum"><a id="pag_62" name="pag_62">[62]</a></span>ser bicho ou maquina. Dependia disso a +dignidade. Sempre assim se havia entendido.</p> + +<p>«Depois, o ensino classico, se era classico, de sua natureza era +essencial, partindo do principio que por classico se entende aquilo que em +sucessivos séculos e sucessivas gerações se reputou invariavelmente bom ou +belo. Abandonar o que de certeza assim era, para o trocar por vantagens +incertas, teria sido insensatez.</p> + +<p>«A mais passageira reflexão não poderia deixar de concluir pelo predominio +do ensino classico. Admitiria que se acrescentasse. Que se eliminasse ou +reduzisse, nunca.</p> + +<p>«De que todavia agora se trata e o que provoca a campanha incipiente, não +é de apreciações abstractas, é dos desenganos da experiencia.</p> + +<p>«Não sou tão moço que não tivesse conhecido os homens educados puramente +nas escolas classicas da primeira metade do século XIX. Conheci até alguns +desses professores de latim espalhados a capricho pelo país, regendo cadeiras +singulares dessa disciplina, ás quais as vilas, que as possuiam, atribuiam +orgulhosamente o valor duma universidade. Ali se aprendia tudo, imaginavam; e +quem de lá saia com louvor do mestre, tinha-se na conta de homem instruido e +culto.</p> + +<p>«Entre os meus proximos parentes os encontrei. Meu pai não teve outra +escola nem outra educação literaria. Aprendeu o latim com o professor da vila +em que nasceu, e com essa reduzida bagagem escolar foi para o Brazil, aos +dezoito anos. Se mais tarde estudou a lingua francêsa <span class="pagenum"><a id="pag_63" name="pag_63">[63]</a></span>e +modernismos correlativos, de que careceu para se pôr a par do seu tempo, +nunca lhes criou tanto amor que, quando entrou em maré de comprar livros, +deixasse de se fazer forte em classicos portugueses, e dos modernos +apreciasse sobretudo aqueles que de classicos tinham carregadas tintas.</p> + +<p>«Conheci muitos dos seus amigos e companheiros, camaradas da escola e +outros de educação identica, que todos conservavam vivas as tendencias que na +mocidade haviam tomado.</p> + +<p>«Possuo mesmo muitas cartas de discipulos dessas escolas, e incidentemente +tenho tido ensejo de apreciar as ideias que revelam e os caracteres que +traduzem.</p> + +<p>«Sem matematicas e sem quimicas e fisicas e mais ferramenta dos apuros +scientificos modernos, não descubro em que pontos e por que lados os antigos +eram inferiores aos modernos como homens praticos, como conhecedores das +coisas da terra e seus administradores, como capacidade de reger os homens e +lhes tratar os bens.</p> + +<p>«Foram esses, os classicos, os discipulos das humanidades tão desprezadas +pelos seus filhos, que iniciaram a renovação economica da Europa (e por sinal +que com muita coisa excelente iniciaram muita coisa tragica); foram eles que +organizaram a fábrica e traçaram a via férrea, que deificaram a maquina a +vapor e os teares mecanicos, e tudo isso fizeram não só com uma percepção +clarissima dos fins e meios e consequencias, mas com uma fé e um entusiasmo +<span class="pagenum"><a id="pag_64" name="pag_64">[64]</a></span>que a prodigalidade de invenções e as maravilhas da +industria da nossa era jámais encontraram em igual grau entre os +contemporaneos. Não tiveram nem sombra de educação scientifica; nas suas +escolas, as declinações dos verbos e nomes tinham uma importancia suprema +sobre as quatro operações aritmeticas. Não foi isso, porêm, impedimento a que +calculassem com precisão e justeza, quando isso se lhes tornou necessario. +Meu pai, latinista apaixonado e aferindo todos os valores literarios pelo +classicismo, não deixou por essa qualidade de ser um comerciante previdente, +habil e seguro e um belo administrador das instituições economicas em que +serviu. Deu boas provas disso. Pois em matéria de literatura dessa +especialidade não cansou a vista, quando aliás muito costumava lêr. No seu +espolio, entre algumas centenas de volumes, sómente um peregrino «codigo +comercial», ali perdido, lembrava o comerciante.</p> + +<p>«É que a gente do seu tempo tinha uma concepção muito diferente das +necessidades da vida pratica. Julgava-a muito mais acessivel do que hoje a +julgamos; parecia-lhe que era questão de simples bom senso, a que todo o +homem medianamente educado póde chegar, e muita ferramenta e metralha que nós +supomos apuradissima sciencia, deixava-a puramente a cargo da oficina. +Guardava-se para aproveitar ou desprezar os inventos que as oficinas lhe +ofereciam, segundo as relações de conveniencia ou inconveniencia que lhes +encontrasse com os <span class="pagenum"><a id="pag_65" name="pag_65">[65]</a></span>muitos e variadissimos elementos sociais +que iam tocar.</p> + +<p>«Para êste ultimo papel se destinava. E, como êle era uma coisa +essencialmente humana, como a humanidade era o ponto ultimo de referencia de +todos os progressos e invenções, o ensino das humanidades lhe bastava, o +conhecimento do passado dos homens a inspirava, sempre confiando em que o +melhor mestre da vida era a experiencia e da experiencia rezavam +abundantissimamente os alfarrabios gregos e latinos.</p> + +<p>«Não direi que a gente saída das escolas classicas pensasse isto tão +nitidamente, como hoje se nos apresenta. Mas sentia-o e punha-o em pratica, o +que foi sem dúvida muito melhor e mais útil. Da sua utilidade colhemos nós os +frutos, nós que, cheios de prosapia, emendamos, corrigimos e em grande parte +abandonamos por supérfluo o ensino dos nossos pais—esse mesmo ensino +que foi tanto ou tão pouco mesquinho, estreito e infecundo que deu de si uma +transformação politica como a Revolução Francêsa, uma revolução literaria +como o romantismo, e uma revolução industrial como a fábrica moderna.</p> + +<p>«O que todos nós poderemos verificar passando os olhos pela +correspondencia vulgar dos homens daqueles tempos e daquelas escolas, é o +primor de linguagem. Qualquer morgado das selvas mandava um recado ao feitor +em termos mais concisos, mais claros e mais belos do que aqueles que hoje usa +muitas vezes um professor <span class="pagenum"><a id="pag_66" name="pag_66">[66]</a></span>dirigindo-se ao reitor da sua +universidade. Os documentos oficiais, a correspondencia entre as autoridades +e a exposição de suas narrações e reflexões são pedra talhada e polida, duma +finura de arestas em que não ha linha tremida ou apagada; as ambiguidades, as +confusões, os pleonasmos, a arrastada negligencia de quem não sabe ao certo o +que diz, eram provavelmente pecados tão graves que um fino instinto adquirido +no correr dos séculos os evitara sem mais esforço. Escrevia-se bem; +escrevia-se com clareza.</p> + +<p>«Adivinha-se a resposta da «sciencia». Virá clamar que o importante é +saber, não é dizer. Cheira-lhe a rapé, a alfazema, a côrte e a convento esse +cuidado na expressão. Aborrece-o por artificial, pretencioso e vão. Mas +outros pretenderão que, se o bem pensar deve preceder o bem dizer, nem por +isso deixa de ser certo que para bem dizer é necessario pensar bem, e +emquanto apuramos a linguagem e procuramos os melhores termos e a melhor +ordem, submetemos o pensamento a um minucioso exame, de caminho o corrigimos, +acabando bastas vezes por lhe descobrir erros e faltas de logica que afinal o +alteram profundamente e subvertem.</p> + +<p>«Por mais que o modernismo scientifico me pregue e fale das suas glórias, +eu sempre me sentirei envergonhado das minhas desordenadas prosas perante o +falar correntio e limpido dêsses velhotes fradêscos que em duas linhas sabiam +dizer o que queriam dizer e por nenhuma outra <span class="pagenum"><a id="pag_67" name="pag_67">[67]</a></span>forma se podia +traduzir mais lucidamente. E verificado o milagre e desejando repeti-lo, e +convencido dos seus beneficios, não sei que haja modo de o reproduzir sem +beber das mesmas aguas que o criaram.</p> + +<p>«Sómente me palpita que, por muito que nos apressemos na jornada, quando +chegarmos á fonte já lá encontramos uma multidão. Tudo o anuncia. Felizes os +que forem na frente.»</p> + +<p> </p> + +<h2><A name="SECTION00312000000000000000">II</a></h2> + +<p>Isto escrevi ha seis anos<A name="tex2html14" +href="#foot303"><sup>14</sup></a>, e, se agora tenho a indiscrição de o +desenterrar, não é para fazer registo, em meu beneficio, de antecipações, mas +sómente para lembrar como vinha de longe aquela corrente de reacção contra o +desvario do ensino meramente scientifico, da qual nas minhas breves tarefas +de jornalista fui um passageiro e modestissimo interprete. Quanto então dizia +não era meu; era do tempo. Hoje o encontramos no seu natural desenvolvimento, +esclarecido e animado por uma experiencia terrivel, envolvido e singularmente +revelado no conflicto das nações armadas e em guerra sangrenta, representando +a Alemanha, pelos acasos da sua sorte, um gráu maravilhoso de cultura e +organisação <span class="pagenum"><a id="pag_68" name="pag_68">[68]</a></span>scientifica, significando a França, com os povos +que lhe estão aliados, aquela velha cultura classica que foi tida por +insuficiente e ineficaz para realisar as aspirações modernas da civilização, +e resultando da oposição destas duas correntes a necessidade de escolha e +reforma dos principios fundamentais da educação.</p> + +<p>Um artigo magnifico, publicado no <i>Times</i> em fevereiro de 1917 e +assinado por <i>Um oficial ferido</i>, põe em termos de perfeita clareza, que +convém registar, esta dualidade em conflicto.</p> + +<p>São desse artigo estes periodos que vou transcrever:</p> + +<p>«A guerra pôs em evidencia certas alternativas espirituais; tornou-as +inteligiveis encorporando-as em personalidade. Fez que muitos mil homens, +inteiramente isentos de odio contra a Alemanha, preguntem:—O que é que +na atitude alemã perante a vida ha que no-la torna intoleravel? Porque é que +nós sentimos que a causa da França e da Inglaterra é a causa da +humanidade?</p> + +<p>«Isto preguntam, e, se são francêses ou inglêses, (latinos ou latinisados, +diremos nós), respondem que o que é intoleravel na Alemanha, o que pretere as +multiplices excelencias do seu saber e espirito publico, é que ha nela +qualquer cousa que grava sinais de morte naquilo que ela toca; qualquer cousa +que é a antitese da individualidade, das aspirações pessoais e esforço e +sacrificio espontaneo; um espirito que organisa os homens mas não os inspira, +que os cultiva mas não os ama, que faz um estado poderoso <span class="pagenum"><a id="pag_69" name="pag_69">[69]</a></span>mas não faz uma democracia nem uma igreja, e que, emquanto os +pecados caracteristicos da França e da Inglaterra são os dos homens, +fraqueza, paixão e leviandade, os pecados caracteristicos da Prussia, como +ela é hoje, são os do demonio, a arrogancia intelectual, a frieza do coração, +e o desprezo pelo que é digno de piedade e amor, e ridiculo em a natureza +humana... Temos de reconhecer que a luta real, de que esta guerra é apenas um +episodio, não é meramente entre o nosso país (a Inglaterra) e qualquer cousa +tão instavel e transitoria como a Alemanha moderna, mas entre as exigencias +permanentes e irreconciliaveis da alma dos homens, e que o que tornou +perigoso o espirito germanico é que ele não é alheio mas horrivelmente +identico ao de quase todo o mundo moderno. Porque o espirito do imperialismo +germanico é com demasiada frequencia o espirito do industrialismo inglês e +americano, com todo o seu culto do poder como um fim só por si, com os seus +padrões materiais grosseiros, a sua subordinação da personalidade ao +maquinismo, o seu culto de uma organisação complicada e mortal para a alma; e +o materialismo, que na Prussia se revela na adoração do poder do estado, +revela-se na Inglaterra na adoração do poder do dinheiro.</p> + +<p>«Não é mais nobre este ultimo, é mais ignobil, porque é menos +desinteressado que o primeiro. Não é tão violento, é mais maliciosamente +corrupto, e, pelo que respeita á massa do genero humano, quase igualmente +tiranico. <span class="pagenum"><a id="pag_70" name="pag_70">[70]</a></span>Mas, ou tome a forma de violencia militar ou a de +cobiça mercantil, o espirito do materialismo é um só, e é um só tambem o +espirito que lhe resiste.»</p> + +<p>«E, se nós sentimos que os direitos absolutos da personalidade, a +conservação e desenvolvimento da liberdade espiritual, são dignos de +sacrificio em tempo de guerra, igualmente sentiremos que são dignos de +sacrificio em tempo de paz. Ora a esfera em que os direitos da personalidade +mais claramente estão envolvidos, e onde o que os ameaça é mais evidentemente +obra de motivos materialistas, é a esfera da educação.</p> + +<p>«A educação oferece, todavia, uma especie de <i>experimentum crucis</i>, +uma conjuntura na qual se podem pôr em prova as causas pelas quais afirmamos +ter pegado em armas. Pois, por fim, os meritos de uma guerra teem de ser +julgados, não pela correspondencia diplomatica que a precedeu, não pelos +esforços que se empregam para a ganhar, mas pela especie de civilização que +dela deriva, pela habilidade do vencedor em estabelecer, não só sobre o +inimigo mas sobre si mesmo, a autoridade dos principios pelos quais alega ter +combatido.</p> + +<p>«Se, como nós pretendemos, a causa da Inglaterra é a causa de todas as +mais altas possibilidades do espirito humano, então teremos de perpetuar essa +mesma causa em as nossas instituições sociais, cujo caracter depende do +caracter da educação que dermos aos nossos filhos e filhas.»</p> + +<p>Uma <span class="pagenum"><a id="pag_71" name="pag_71">[71]</a></span>calamidade sem nome obrigou-nos a preguntar á nossa +consciencia para que é que criamos os filhos. Da resposta que ela nos dér, +esclarecida pela mais cruel das experiencias, dependerão os fins e processos +dessa criação.</p> + +<p>O que a experiencia nos diz, ao fim de quase meio seculo de educação +impetuosamente scientifica, é que a vida imporia mais pelo que pensamos e +sentimos, pelo repouso ou pela inquietação do nosso espirito, do que pelo que +dominamos, compreendemos e possuimos, pelo que a nossa acção apreende e pelo +que a nossa inteligencia alcança. É isto o que de todo temos trazido +esquecido, naquela sujeição dos homens ás cousas que foi a paixão cega da +educação scientifica moderna e da especie de cultura que ela produziu; e foi +por muito evidente se haver tornado esta subalternisação dos valores morais +perante as conquistas materiais que M.<sup>me</sup> Montessori, com uma +penetração profetica, muito antes que a guerra o manifestasse pelas suas +angustias, julgou que «o homem que tão maravilhosamente transforma o seu +ambiente e curva o universo á sua vontade, não conseguiu transformar-se a si +mesmo.»</p> + +<p>Nem se imagine que este modo de vêr é o preconceito tradicional do latino +e seus derivados e afins, todos impregnados de aspirações de nobreza e +heroismo, facilmente trocando o dinheiro e toda a riqueza e a propria +existencia fisica pela dignidade do caracter e pela gloria. Além do Reno, +onde a força criou o seu imperio e o administrou e acrescentou em menoscabo +<span class="pagenum"><a id="pag_72" name="pag_72">[72]</a></span>de qualquer cousa eterea que teve por sentimentalismo e +enfermidade, tambem o desengano encontrou os seus arautos. E Eucken, o +filosofo cuja elevação de espirito e profundeza de inteligencia são de +apreciar e respeitar em todo o mundo culto, sem embargo das paixões de +patriotismo que o possam perturbar, não nega a falencia da utopia +materialista. Discorrendo sobre <i>as experiencias da guerra e as exigencias +do futuro</i>, confessou que a guerra revelou um predominio geral de egoismo, +falsidade e cobiça entre todas as nações nela interessadas, mais largamente +disseminado do que até aqui se suspeitára. Em seu conceito, a crença na +bondade fundamental da humanidade recebeu golpes profundos. A Alemanha +orgulhava-se do seu trabalho, mas este orgulho do trabalho, organisação e +educação carecia talvez de cousas fundamentais da vida que ele preteriu; em +vez de cultivar essas cousas mais profundas e imponderaveis, o alemão +acrescentou ás ambições do trabalho as cobiças do prazer. Os desejos do corpo +tomaram o logar dos desejos do espirito, e é essencial para uma nação a +cultura do senso responsavel dos valores morais, o desenvolvimento de um +sentimento que a habilite a distinguir entre o bem e o mal, entre o real e o +ilusorio, entre a verdade e a falsidade, entre a grandeza e a mesquinhez. +«Não hesitava em dizer que quanto mais cresceu a perfeição do trabalho, mais +pequena se tornou a alma... Um homem tem de ser julgado unicamente pelo que +de humanidade nele houver.» Quereria vêr <span class="pagenum"><a id="pag_73" name="pag_73">[73]</a></span>a nação mais +ardente no apreço daqueles altos e grandes valores da alma, sem os quais +nação alguma póde ser verdadeiramente grande, sem os quais nação alguma pode +cumprir a sua missão no mundo.</p> + +<p>O desprezo a que chegaram esses «altos e grandes valores da alma», que são +a medida da dignidade do homem, todos o sabemos e magoadamente o sentimos nas +relações quotidianas ordinarias. De facto, a experiencia da guerra, embora de +uma eloquencia suprema, era desnecessaria para reconhecer a miseria moral a +que haviamos baixado; no comercio moral das sociedades ha muito se acumulavam +os sinais de depressão. Visitassemos nós um liceu ou uma universidade, +preguntassemos pelas suas aspirações aos rapazes que lá andassem, e este +queria ser engenheiro, aquele queria ser medico, aqueloutro advogado, e ainda +alguem preferiria ser comerciante, mas todos sonhavam proventos de muitos +contos de reis e a isso referiam o valor da carreira. Nem um só nos +responderia que a sua ambição era viver de pouco, honestamente, engrandecendo +o espirito e servindo o proximo. Nenhum se dedicaria a professar naquela +«classe de homens», de que Platão falou, onde disse que «é pequena, rara por +sua natureza e o produto de uma educação ideal aquela classe de homens que +voltam a face firmemente para a moderação, quando sentem uma necessidade ou +um desejo, que são sobrios quando teem ensejo de fazer uma larga fortuna, que +preferem os lucros moderados aos grandes.» <span class="pagenum"><a id="pag_74" name="pag_74">[74]</a></span>Mais uma vez +podiamos dizer com o filosofo grego que «a massa do genero humano é +exactamente o contrario, desmedida nas suas necessidades e insaciavel no +desejo de arranjar dinheiro, quando tem ao seu alcance um proveito moderado.» +Muito poucos encontrariamos nas escolas, se alguns tinhamos de achar, que +estivessem inclinados a adoptar o preceito antigo que, «para sermos ricos, +queria não que acrescentassemos as riquezas mas que diminuissemos as +necessidades»; e muito menos tinhamos possibilidades de descobrir quem +estivesse disposto a considerar o desengano do Evangelho e a preguntar «que +utilidade ha para um ser humano em possuir o mundo inteiro se perdeu a alma.» +(S. Mateus, c. 16, v. 26). As riquezas da terra constituiram-se em finalidade +humana; não distinguindo mais o que se deve aos bens do mundo e o que devemos +ás pessoas, as pessoas mudaram-se em instrumento da conquista dos bens do +mundo, em vez de serem morada da beleza divina e do seu culto. A educação +toda se enlevava no poder de servir a bolsa ou a vaidade, na arte eficaz de +captar as cousas ou de possuir as almas.</p> + +<p>Não, não era a moderação platonica, nem a nobreza romana, nem o +desprendimento, o que iamos buscar ás escolas. As vitorias alemãs de 1870, +corroborando impulsos de uma filosofia materialista florescente, lançaram o +mundo, a exemplo da Alemanha, na superstição ignominiosa e aviltante da +riqueza, da força e da cobiça.</p> + +<p>Assistimos <span class="pagenum"><a id="pag_75" name="pag_75">[75]</a></span>agora á demonstração tremenda da inanidade +dessa ambição. Vinha, porêm, de longe a desconfiança, e até a aversão, da +cegueira da brutalidade divinisada, metodica e intencionalmente aprendida e +cultivada. Desde o seu inicio, ainda quando ela imperava e crescia, de tal +modo agravava, não direi já a tradição humanitaria, mas sobretudo o nosso +modo de ser psicologico que, revendo a historia do seu nascimento e +progressos, enxameiam as lembranças da primeira hora, quando Mathew +Arnold—e basta para testemunho este agouro de um alto e sereno +espirito—escrevia, em 1871, que «o imperio alemão seria apenas um +despotismo doirado, politicamente fraco apesar do seu poder militar, barbaro +apesar das suas escolas e universidades.»</p> + +<p>E vinha de longe a ameaça da preterição da civilização de qualidade pela +civilização de quantidade. Com que clareza pressentiu a calamidade esse +extraordinario espirito, que tanto engrandeceu o genio da França e que teve +neste mundo o nome de J. Joubert!</p> + +<p>Em 1809, apreciando uma <i>Memoria sobre a Instrução Publica na +Holanda</i>, já ele afoitamente exprimia apreensões que hoje se tornaram caso +julgado por uma experiencia rematada em demonstrações dolorosissimamente +irrefragaveis. «Aquela boa gente» que havia escrito a <i>Memoria</i>, dizia +então esse notabilissimo pensador francês, «pensava que o fim da educação +literaria é e deve ser, não tornar o espirito mais belo, o gosto mais puro, a +percepção mais justa, a lingua <span class="pagenum"><a id="pag_76" name="pag_76">[76]</a></span>mais adornada, a alma mais +delicada e a memoria mais feliz, mas sómente dar ao espirito «um maior numero +de aptidões para toda a especie de conhecimentos.» Choravam o estado do seu +país a este respeito: «Os estudos das matematicas, da fisica, da historia +natural andavam ali muito desprezados. Os <i>auditorios</i> em que estas +sciencias se ensinavam, eram pouco frequentados, mesmo quase desertos, em +alguns logares. Disso coravam, e «não é isso, diziam, «o que o estado actual +das luzes e da sociedade exige.» Para se porem pois de nivel com o estado +actual das luzes e da sociedade, grande cavalo de batalha daqueles que, não +encontrando nunca as suas razões no interior das cousas, porque têm o +espirito pouco penetrante, procuram-nas sempre externamente, porque emfim têm +olhos, desejariam eles que se ensinasse tudo á mocidade, mesmo á infancia, +para a tornar capaz de saber tudo.»<A name="tex2html15" +href="#foot304"><sup>15</sup></a></p> + +<p>O conflicto das diversas aspirações da educação, sentiam-no aproximar-se +os homens superiores de ha cem anos. O que seria esse desapego da beleza do +espirito e da delicadeza da alma, trocadas pela multiplicidade de aptidões +tecnicas e pela abundancia do conhecimento da exterioridade das cousas, +sabemo-lo nós agora. Despejadamente no-lo disse o prussianismo cultivado com +esmero e consciencia durante cincoenta <span class="pagenum"><a id="pag_77" name="pag_77">[77]</a></span>anos e terminando por +dar ao mundo o espectaculo de todas as desolações de uma brutalidade, no +fundo da qual se distingue uma apostasia clamorosa e contente na sua soberba, +a negação altiva do helenismo e do cristianismo que fundaram a civilização, +foram o seu leite e são o seu sustento, a sua substancia.</p> + +<p>Em todo o acanhamento das minhas faculdades, mas em pleno vigor da +sensibilidade, eu, que não posso gabar-me de haver sido <i>educado</i> no +latinismo, porque não é educação que se tome em conta a arrastada e +desordenada negligencia com que usamos passar pelas escolas, mas que fui +<i>nascido</i> no latinismo, o que para a constituição psicologica sobrepuja +a educação, não escapei ás apreensões de M. Arnold relativamente ao +germanismo tumido de sciencia e tão minguado de humanidade. Em 1888, algum +demonio me seduzia quando, passando por Berlim, escrevi nas minhas notas: +«Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou nas mãos de uma +vontade; só ela a move. A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram +banidos; o povo vai taciturno e lento.» «A Alemanha, que Berlim nos mostra, +afigura-se-me um elefante, a inteligencia e a força em um corpo informe. Toda +a sua alma cristalisou nesta aspiração—ser forte, invencivel.» +«Conseguiu ser forte. As doutrinas dos filosofos, de mãos dadas com o genio +militar, alcançaram emfim dar-lhe uma rara força. Póde viver-se assim? É esta +a ultima palavra da civilização, ou simplesmente uma gloria efemera, saida da +coincidencia das <span class="pagenum"><a id="pag_78" name="pag_78">[78]</a></span>aptidões de um povo com as necessidades do +momento historico? A Revolução Francesa, iniciando-nos no conhecimento dos +direitos individuais, simultaneamente deu aos estados constituições que +conduzem á fraqueza e impotencia politicas; a Alemanha mostrou-nos novas vias +conduzindo ao pólo oposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados +nas instituições derivadas da Revolução, só os nossos filhos poderão saber o +que é um país educado na admiração da força. Todas as profecias serão +prematuras, embora vagamente pressintamos que a civilização é mais alguma +cousa do que a força.»</p> + +<p>Isto preguntei e era de preguntar ha vinte e nove anos. Hoje, porêm, toda +a duvida cessou. Convencemos-nos de que a civilização tem de ser mais alguma +cousa do que a força, e de que, por maior força de remexer a terra e dominar +os seus elementos que ela atinja, negou a sua aspiração e atraiçoou-a, se com +a força não coincidiu o desenvolvimento moral do homem e das sociedades, +naquelas bases de amor, respeito, liberdade, desprendimento e generosidade +que o genio greco-latino concebeu e fundou de uma vez para sempre. Guiados +pelo passado e alvoroçados pelo presente, logo sabemos, sem a menor duvida ou +hesitação, onde e como aquela aspiração de outrora rediviva ha-de +realisar-se, por que meios hão-de criar-se e educar-se os homens que a hão-de +servir e manter em corpo e acção.</p> + +<p>Entre a educação classica e a aspiração da dignidade sobrelevando a pura +aspiração da força, ha uma relação intima e imediata. Aquele <span class="pagenum"><a id="pag_79" name="pag_79">[79]</a></span>mesmo Mathew Arnold que cedo nos acautelava contra a barbaria +da Alemanha, prevalecendo «apesar das suas escolas e universidades», esse, +distinguindo entre o estudo das letras, que «é o estudo da acção da força +humana, da actividade e da liberdade humana», e o estudo da natureza, «que é +o estudo das forças não-humanas, da restricção e da passividade humana», +julgou que «o fim e cargo da instrucção... é habilitar o homem a +<i>conhecer-se a si e ao mundo</i>.»</p> + +<p>Imagino mesmo que só isto a que vagamente chamamos letras, e que afinal +compreende toda a filosofia e toda a moral e estetica, imagino que só isto +demandará cultura e é rigorosamente objecto de educação. A outra educação, a +que na essencia é aprendizagem scientifica, essa, como a sciencia importa de +ordinario alteração da condição material das cousas, depressa entra na +categoria do facto quotidiano, e desse modo, por efeito de contacto e +presença fisica, se torna de conhecimento inevitavel. As leis e progressos da +fisica, da quimica e de toda a mecanica correlativa são faceis de conhecer +desde que têm como resultado imediato e patente o para-raios, a maquina a +vapor e o telegrafo e o telefone e os submarinos e os aeroplanos e toda a +infinita mudança correlativa ou afim. São cousas que se vêem e não podem +deixar de ser vistas e consideradas pelo seu volume e pressão continua. Os +estados da alma é que não são assim palpaveis; a mais pequena obra de arte +demanda, para ser compreendida e sentida, uma susceptibilidade fisica e +mental que, a não ser em aptidões de <span class="pagenum"><a id="pag_80" name="pag_80">[80]</a></span>excepção, só por +educação, só por uma insinuação persistente e adequada se alcança. E daí a +diversissima natureza do ensino scientifico e da educação classica, senão o +facto capital que faz que a educação seja propriamente aquela cultura +literaria, moral e estetica que constitue a aspiração classica. O resto, com +o rotulo espaventoso de sciencia, será porventura questão de conhecimento e +ensino a acrescentar á educação, que é uma só, onde as exigencias +profissionais o exigirem.</p> + +<p>Ora nós por demais estudamos a natureza e os modos e termos de a sujeitar +e aproveitar em beneficio da força, e simultaneamente, e por demais tambem, +desaprendemos as letras e os modos e termos de as converter em instrumento do +conhecimento e disciplina da nossa alma. Entre agonias o verificamos. O +desengano é profundo. E, ao senti-lo e na ansia de rehaver o perdido, de +pronto a logica nas sugere os meios de resgate e nos manda voltar aquela +antiga e segura estrada pela qual a Renascença caminhou, confundindo com boas +razões em um só estudo o Humanismo, a cultura do homem, e a antiguidade +classica, na qual essa cultura atingira uma beleza sem precedentes.</p> + +<p>Por certo, «não podemos reviver aquele mundo grêgo em que os poetas eram +soldados, os politicos generais e cada homem um membro do parlamento. Nem o +deveremos desejar. Mas podemos experimentar a apreensão de uma parte do seu +espirito. Essa existencia, fossem quais fossem as suas faltas, não tinha a +especialisação <span class="pagenum"><a id="pag_81" name="pag_81">[81]</a></span>dissolvente do mundo moderno. Ali ninguem era +absorvido pelo seu comercio e pelo seu ganha-pão; um homem conservava-se em +primeiro logar um ser humano e exercia as faculdades e experimentava os +prazeres proprios da natureza humana. O artifice não se tornava uma maquina, +nem o lavrador um vilão. O soldado, o mercador, o homem de letras não +resvalavam no profissionalismo estreito. O historiador derivava das horas +passadas nas assembleias e no campo o seu conhecimento da politica e da +guerra. O poeta e o filosofo haviam estado em contacto com aquela natureza +humana sobre a qual moralisavam e escreviam.»<A name="tex2html16" +href="#foot300"><sup>16</sup></a> Evidentemente, uma nova constituição +economica das sociedades e o seu proprio desenvolvimento mental determinaram +adaptações e sujeições que nos forçam a ser diferentes do que fomos no mundo +grego. Mas dentro dessa nova constituição subsiste qualquer cousa essencial +que só a Grecia e Roma souberam penetrar, definir e fundar; subsiste aquela +aspiração de perfazermos um tipo humano que atravez de todos os cataclismos +humanos e cosmicos se mostrou eterno, intangivel, não susceptivel de melhoria +ou correcção. Percorreu a Grecia toda a extensão do pensamento humano que até +hoje nos tem sido acessivel, enquanto Roma experimentou—e essa foi a +sua inexcedivel fortaleza—toda a extensão da disciplina <span class="pagenum"><a id="pag_82" name="pag_82">[82]</a></span>moral até hoje concebivel e realisada; e essas duas +civilizações, conjugadas e ungidas pelo idealismo judaico, fundiram-se e +completaram toda a forma superior da actividade humana em espirito e acção, +deram o homem na sua integridade, e assim se tornaram a aspiração daquilo que +chamamos civilização, ou melhor, a medida da civilização. O que se seguiu é +apenas o processo do seu desenvolvimento, ora tumultuoso, ora coerente, +regrado e continuo, ora crescendo, ora quebrando-se em depressões +passageiras, mas jamais se desligando do seu impulso inicial e razão de ser, +isto é, conservando em toda a contingencia, propicia ou adversa, a +imutabilidade do seu fim e vontade. Nem mesmo cessa quando nos aterra um +conflicto como esse que pôs o mundo todo em guerra. Pelo contrario, se temos +serenidade de animo bastante para em meio da angustia apreciarmos os erros +que a suscitaram, acharemos, como Eucken achou julgando o seu país e não +obstante o fervor com que o ama, que todo o mal proveio de uma exagerada +adoração da força fisica e de uma inadmissivel preponderancia das cobiças de +uma animalidade insaciavel, ofendendo aquela integridade do homem na sua +ponderação fisico-moral de que a Grecia e Roma nos legaram os exemplos +sublimados.</p> + +<p>Por esta lição crudelissima voltaremos á educação classica, por ela +seremos levados mais uma vez áquelas fontes de pureza de espirito de cujas +aguas uma obcecada dissipação nos <span class="pagenum"><a id="pag_83" name="pag_83">[83]</a></span>tornou tão indigentes como +sequiosos. Seja qual fôr a sorte das armas e o ajuste maquiavelico das +chancelarias, ao fim encontraremos que a vitoria foi unicamente da +civilização, dessa força constante que nos anima e é superior a todas as +raças e a todas as nações, quer lhes julgue a prosperidade transitoria, quer +as alente entre a decadencia a mais profunda. Porque os estados, seja qual +fôr a sua capacidade politica, poderão disciplinar os povos, arregimenta-los +para qualquer empreza de construcção ou demolição, mas não criam a +civilização, que é uma aspiração psicologica etnica, prevalecendo sobre toda +a contingencia e ressurgindo de todo o abatimento. Os povos servem a +civilização conforme as suas aptidões, não a inventam; e serão nobres ou vís, +vencedores ou vencidos, conforme a serviram bem ou mal, fiel ou deslealmente. +</p> + +<p>Baptizar-nos nas fontes da vida que a antiguidade classica descobriu e +onde miraculosamente se fortaleceu e engrandeceu—eis o verdadeiro +inicio da civilização. E essa iniciação tornou-se tanto mais urgente quanto é +certo que, chegados a um momento de vitorias esplendidas da democracia, o +futuro das sociedades mais do que nunca deixou de depender da vontade e do +caracter dos que governam, mais do que nunca se acha confiado á liberdade dos +homens, e, por conseguinte, mais do que nunca tambem fica absolutamente +dependente da capacidade moral desses mesmos homens. Esse futuro será ou uma +orgia mansa, <span class="pagenum"><a id="pag_84" name="pag_84">[84]</a></span>quando fôr regrado, em que o zelo da boa +distribuição e nivelamento das meras comodidades, tornando-se absorvente, só +por essa absorpção avilta a nossa alma e a expõe ás degradações proprias da +animalidade estreme, para as quais o alcoolismo é o sumo pontifice e o mais +activo carrasco; ou um culto da beleza e da dignidade humana na sua +integridade e gloria, para o qual a unica habitação conveniente são o templo +em que Platão orou, e os logares em que o estoicismo se ouviu, e aqueles +outros, altissimos, que a graça cristã ilumina. Fóra disto, o futuro das +sociedades, por mais abundante e generoso que ele seja das diversas fortunas +materiais que as constituições democraticas possam outorgar-lhes, não passará +na essencia de uma brutalidade, mais ou menos feliz e duradoura, mas a breve +trecho condenada a afundar-se na decrepitude, apodrecimento, vergonha e ruina +que são o termo inevitavel de todas as brutalidades.</p> + +<p>Não são outras em materia de educação as conclusões da guerra. Nem a +Alemanha escapa á sua evidencia e acção, embora por um instante se tivesse +arvorado em apostolo da força. Não só os sinais de renovação são ali tão +claros como em qualquer outra parte do mundo, mas o seu passado é garantia, +aliás magnifica, da robustez do seu idealismo. «Um vento de loucura fez +perder a cabeça a um povo forte, e julgou-se deus... não imaginando, posto +que muito sabio seja, que esta infatuação da sua pessoa é precisamente o +sinal de uma moralidade <span class="pagenum"><a id="pag_85" name="pag_85">[85]</a></span>inferior, de uma mentalidade de +primitivos.» (A. Loisy). A Alemanha, que foi um lar sagrado da +espiritualidade no seculo XVIII e ainda em grande parte do seculo XIX, +tornou-se por uma fatalidade armazem de meras ideias, invenções e munições; +os seus valores de alma, os que se davam e recebiam por amor, foram trocados +por valores mundanos comerciaveis, pelos que se transmudam por dinheiro, ou +se negoceiam por astucia e odio, ou se arrebatam por conquista. Mas cousa +alguma induz a crêr no caracter incuravel da doença, nenhum sintoma póde em +boa fé apontar-se que demonstre a corrupção insanavel daquela excelente +materia prima, da qual foi feita, em tempos não remotos, a gloria espiritual +da sua gente, e da qual tambem vieram á humanidade bens preciosos e +inolvidaveis.</p> + +<p>Para as gerações que nos sucederem, nem sequer poderá ser surpreza uma +reconciliação da Alemanha com uma parte daqueles que impetuosamente ela tem +combatido, e uma reconciliação tão completa que lhe dê ingresso na união +latina. As afinidades espirituais e historicas da Alemanha são muito mais +proximas do mundo latino do que de qualquer outra especie de mentalidade, +particularmente daquela que domina nas civilizações orientais e nas que com +elas têm parentesco; a sua paixão presente da força, onde conciliação possa +ter e não seja puramente uma rebeldia cega contra toda a insinuação de +idealismo, mais de pronto encontrará termos de identidade na simpatia +humanitaria activa, propria do <span class="pagenum"><a id="pag_86" name="pag_86">[86]</a></span>latinismo ocidental, do que +no quietismo mistico e no desprendimento passivo que o Oriente infundiu e +alimenta no slavo. De facto, mais de vinte e cinco seculos de historia +demonstraram que não ha senão duas civilizações—a que cristalisou na +sobriedade atica, na austeridade moral romana e na graça cristã, fundidas e +disciplinadas, e a que vagueia nos arrebatamentos do Oriente, tão de pronto +erguidos em extasis de desprendimento como inflamados na opulencia insondavel +da sensualidade. É mesmo esta oposição de temperamentos e a diuturnidade dos +conflitos que ela causa na ansia mutua de absorpção, na paixão violenta de +transmudar o antagonismo em uma unidade politica e mental estavel, que de +continuo esperamos e nunca chega, é esta atracção reciproca do Ocidente +europeu e do Oriente, protelando-se em guerras infinitas e conquistas +efemeras sem jámais lograrem unir e fundir suas aspirações originarias, é +esta incompatibilidade até agora irredutivel, quer seja por amor, quer seja +por despotismo, tudo o que tem experimentado e por muitos modos, é este +confronto, de ordinario penoso e raro contente, que, mais do que as +vicissitudes do desenvolvimento interno proprio dessas duas civilizações, +constitue o drama supremo da historia da humanidade e suas epopêas. Até mesmo +perante esse dualismo tragico, o que nestes ultimos quatro anos se tem +passado no mundo e que nos seus males nos parece tamanho, não passará talvez +de um acidente do desenvolvimento interno da civilização ocidental, +porventura uma simples desproporção <span class="pagenum"><a id="pag_87" name="pag_87">[87]</a></span>entre a civilização de +quantidade, por demais avolumada, e a civilização de qualidade, a necessidade +de reduzir essa desproporção a termos de equilibrio consentaneo com os nossos +fins, tradições e vontade.</p> + +<p>Não havendo idealismo de consequencias praticas fóra destas duas almas e +não se concebendo a vida fóra de qualquer idealismo imanente, a Alemanha terá +por fatalidade logica de se consubstanciar com uma dessas duas almas, e +adivinha-se sem maior esforço para onde se inclinará, tanto mais que se sabe +donde veio, onde foi buscar a trama da sua civilização.</p> + +<p>A experiencia da vida é, em uma larguissima extensão, a reducção ao +absurdo de uma grande parte da propria vida; é um fabrico incessante de +rebutalho de aspirações. O que na infancia se nos afigurou grande, não raro +se mostra mesquinho na virilidade e detestavel na velhice; o que a creança +cobiçou e achou belo, achou-o indiferente a adolescencia e despresou-o a +idade da razão. Esta constante e progressiva revisão e eliminação de valores, +que praticamente conduz á simplicidade e psicologicamente acrescenta e +engrandece a espiritualidade,—isto constitue a civilização, se o +consideramos na historia dos povos, e é por igual uma parte, e muito grande, +da educação, se o observamos no desenvolvimento individual. A cultura e a +educação do homem e das sociedades não são outra cousa senão o processo e a +acção dessa revisão de valores iniciais, que teve o seu primeiro padrão <span class="pagenum"><a id="pag_88" name="pag_88">[88]</a></span>em Esparta e a sua ultima medida, e a mais alta, em Jerusalem, +no Calvario.</p> + +<p>Perante esta lei de sucessão de valores, verificada na historia e de +continuo renovada em nossa consciencia, aquilo que se passou no mundo nestes +ultimos cincoenta anos, e de que a Alemanha foi o mais perfeito exemplo e o +mais retumbante porta-voz, esta paixão de materialidades e a crença em suas +virtudes, que para suprema eficacia deu a escravidão do homem perante o +estado, a abdicação na abstracção perigosa e despotica que se chama o +governo; essa ambição de força fisica, em cujos fundamentos alguem entreviu +uma supersticiosa mitologia, não teria sido mais do que a expressão de um +momento infantil do desenvolvimento dos povos civilizados, que o tempo ha-de +corrigir pelos proprios impulsos do crescimento, tal qual está demonstrado na +historia das nações latinas. Direi mesmo que quem observar com simpatia e +serenidade o conflito de opiniões que a guerra inflamou, terá repetidas vezes +encontrado entre os homens mais exaltados na admiração da Alemanha e dos seus +feitos, até a defesa das crueldades da sua «cultura», caracteres da mais +profunda pureza e da mais cativante ingenuidade. São crianças grandes, +crianças excelentes, preciosa materia prima da bondade e da justiça, apenas e +passageiramente dominadas pelo que melhor corresponde á pujança da sua +juventude, naturalmente turbulenta, ainda avida de dominio, como é proprio da +sua força, aprestando-se entretanto para aquelas eliminações que lhe hão <span class="pagenum"><a id="pag_89" name="pag_89">[89]</a></span>de transformar os impetos em anseios de liberdade e de +desprendimento, visto que esta é a qualidade humana por excelencia.</p> + +<p>Demos pois ao tempo o que é do tempo, e, enquanto esperamos por dias menos +agrestes, invoquemo-los pelo nosso esforço, por essa arte divina que as +gerações glorificaram sob o titulo de educação classica.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p align="center">FIM</p> + +<p> </p> + +<div id="notas"> +<p><A name="foot278" id="foot278"></A><a href="#tex2html1"><sup>1</sup></a> <i>A Guerra. Depoimentos de +Herejes.</i> (F. França Amado; Coimbra, 1915).</p> + +<p><A name="foot285" id="foot285"></a><a href="#tex2html2"><sup>2</sup></a><i>The European Anarcky</i>, (Allen & +Unwin).</p> + +<p><A name="foot144" id="foot144"></A><a href="#tex2html3"><sup>3</sup></a> N.º 2843, de 16 de abril de 1916.</p> + +<p><A name="foot286" id="foot286"></A><a href="#tex2html4"><sup>4</sup></a> J. Bryce. <i>The American +Commonwealth</i>, 3.ª edição, vol. II, pag 788.</p> + +<p><A name="foot287" id="foot287"></A><a href="#tex2html5"><sup>5</sup></a><i>The World in Conflict</i> e +<i>Questions of War and Peace</i>. (T. Fisher Unwin; Londres, 1915 e +1916).</p> + +<p><A name="foot288" id="foot288"></a><a href="#tex2html6"><sup>6</sup></a> +L. F. Hobhouse, <i>The World in Conflict</i>. Pag. 98.</p> + +<p><A name="foot289" id="foot289"></a><a href="#tex2html7"><sup>7</sup></a><i>The Ultimate Belief.</i> (Constable +& Company; Londres, 1916).</p> + +<p><A name="foot290" id="foot290"></a><a href="#tex2html8"><sup>8</sup></a> +Clutton Brock. <i>L. c.</i> Pag. 105 e 106.</p> + +<p><A name="foot291" id="foot291"></a><a href="#tex2html9"><sup>9</sup></a> +G. Lansbury. <i>Your Part in Poverty.</i> (G. Allen & Unwin; Londres). +Pag. 48.</p> + +<p><A name="foot292" id="foot292"></a><a href="#tex2html10"><sup>10</sup></a> +Pierre Hamp. <i>Le Travail invencible.</i> (Edition de <i>La Nouvelle Revue +Française</i>; Paris, 1916).</p> + +<p><A name="foot293" id="foot293"></a><a href="#tex2html11"><sup>11</sup></a> +L. Tolstoi. <i>Journal intime, 1895-1910.</i> (Paris: E. Flammarion, 1917), +Pag. 17. </p> + +<p><A name="foot294" id="foot294"></a><a href="#tex2html12"><sup>12</sup></a><i>The Herald</i>, 28 outubro de 1816.</p> + +<p><A name="foot295" id="foot295"></a><a href="#tex2html13"><sup>13</sup></a><i>The War and Democracy.</i> (Macmillan +& C.ª; Londres, 1915). Pag. 1 e 2 da <i>Introducção</i>, por A. +Zimmern.</p> + +<p><A name="foot303" id="foot303"></a><a href="#tex2html14"><sup>14</sup></a> +Na <i>Educação Nacional</i>, 2.ª serie, n.<sup>os</sup> 49 e 57, de 15 e 24 +de junho de 1911.</p> + +<p><A name="foot304" id="foot304"></a><a href="#tex2html15"><sup>15</sup></a> +J. Joubert. <i>Correspondance.</i> (Perrin & C.<sup>e</sup>; Paris, +1914.) Pag. 190 e 191.</p> + +<p><A name="foot300" id="foot300"></a><a href="#tex2html16"><sup>16</sup></a> +R. W. Livingstone. <i>A Defence of classical Education.</i> (Macmillan; +Londres, 1916.) Pag. 77.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div id="indice"> +<h2>INDICE</h2> + + +<p> +<span class="numeracao">Pag.</span><br> +<a href="#pag_V">Prologo <span class="numeracao">V</span></a> +<br> +<a href="#pag_1">Do que o fogo não queima <span class="numeracao">1</span></a> +<br> +<a href="#pag_57">Valores restaurados—Renascimento da educação classica <span class="numeracao">57</span></a> +</p> +</div> + +<p> </p> + +<h2><A name="SECTION00313000000000000000" id="SECTION00313000000000000000">DO +MESMO AUTOR</a></h2> +<ul> + <li>Sonho de Perfeição, 1901, romance. </li> + <li>Vozes do meu Lar, 1902. </li> + <li>Na Paz do Senhor, 1903, romance. </li> + <li>Reino da Saudade, 1904, romance. </li> + <li>Via Redemptora, 1905. </li> + <li>Apostolos da Terra, 1906. </li> + <li>S. Francisco d'Assis, 1908. </li> + <li>José Estevão, 1909. </li> + <li>Alexandre Herculano, 1910. </li> + <li>Rogações de Eremita. </li> + <li>Salmos do Prisioneiro, 1915. </li> + <li>A Guerra, Depoimentos de Herejes, 1915. </li> +</ul> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Do que o fogo não queima, by +Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA *** + +***** This file should be named 26914-h.htm or 26914-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/9/1/26914/ + +Produced by Pedro Saborano. 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