summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/26914-h
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '26914-h')
-rw-r--r--26914-h/26914-h.htm2697
1 files changed, 2697 insertions, 0 deletions
diff --git a/26914-h/26914-h.htm b/26914-h/26914-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..c0c496d
--- /dev/null
+++ b/26914-h/26914-h.htm
@@ -0,0 +1,2697 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Do que o fogo não queima, por Jaime de Magalhães Lima</title>
+ <meta name="AUTHOR" content="Jaime de Magalhães Lima">
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1">
+ <meta name="KEYWORDS" content="">
+ <style type="text/css">
+ @media print {
+ .pagenum { visibility: hidden;}
+ }
+ @media handheld {
+ .pagenum { visibility: hidden;}
+ }
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pagenum {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ font-style: normal;
+ }
+ .numeracao {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 85%;
+ text-align: right;
+ }
+ .pagenum a {
+ color: silver;
+ }
+ h1 { text-align: center;margin-top: 3em;}
+ h2 { text-align: center;margin-top: 1em;}
+
+ #capa {text-align: center; border: solid 1px #000000; width: 600px; margin: auto;}
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;}
+ #notas {font-size: 0.8em; text-align: justify; margin: 1em;}
+ #indice {width: 68%; margin-left: 15%;}
+ a {text-decoration:none; color: #000000;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Do que o fogo não queima, by Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Do que o fogo não queima
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: October 14, 2008 [EBook #26914]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização
+disponibilizada pela bibRIA.
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div align="center">
+<p>Jaime de Magalhães Lima</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2em">Do que o fogo não queima</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p align="center">Composição e Impressão <br>
+Emprêsa Gráfica A UNIVERSAL <br>
+111, Rua Duque de Loulé, 131 <br>
+PORTO</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;text-align:center;">DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="capa">
+<p><span style="font-size: 1.2em">JAIME DE MAGALHÃES LIMA</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 3em;"><span
+style="margin-right: 2em;">Do que o fogo</span><br>
+<span style="margin-left: 2em;">não queima</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p align="center">PORTO <br>
+Empresa Gráfica A UNIVERSAL <br>
+111, Rua Duque de Loulé, 131 <br>
+1918</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<span class="pagenum"><a id="pag_V" name="pag_V">[V]</a></span>
+<h1><A name="SECTION00100000000000000000">PROLOGO</a></h1>
+
+<p><i>A guerra prossegue na sua impenitencia sinistra, junta os seus dias em
+mêses e os seus mêses em anos, e as heresias que a aborrecem e lhe negam a
+legitimidade e os beneficios, não se rendem e nem sequer esmorecem, não
+obstante a insistencia do flagelo que lhe dá visos de necessidade e condição
+natural. E eu, que dessas heresias fiz colheita e esperança</i><A name="tex2html1" href="#foot278"><sup>1</sup></a> <i>no primeiro momento,
+suspeito a conveniencia, senão a obrigação, de as repetir e corroborar quando
+o tempo e a perseverança entre vicissitudes contrarias as fortificaram e
+disseminaram.</i></p>
+
+<p><i>Daí este opusculo.</i></p>
+
+<p><i>«Heresias» não será talvez o termo proprio; melhor diria se lhes
+chamasse «crenças». «Heresia <span class="pagenum"><a id="pag_VI" name="pag_VI">[VI]</a></span>é uma palavra que as tiranias
+do fanatismo fizeram aviltante e criminosa para justificar as atrocidades de
+um dominio insaciavel e da intolerancia, sem aliás alcançarem discriminar, e
+muito menos provar, onde residia a piedade e a injuria, se em quem usava os
+poderes da terra para oprimir a consciencia, se em quem se prevalecia da
+robustez de consciencia para afrontar os poderes do mundo. No fim, ambos
+encontrarão porventura que fizeram acto de fé a seu
+modo&mdash;indubitavelmente muito mais glorioso no que por acusação de
+heresia sofreu o martirio. Este será, na realidade, o crente, quem mais de
+perto tocou a divindade e mais inteira e fielmente lhe obedeceu.</i></p>
+
+<p><i>Aquilo que desse drama hoje vemos, e é objecto da vida politica e do
+estado, não desmente o que de ontem sabemos e foi arrebatamento do dogmatismo
+eclesiastico absolutista. Duas especies de <span class="pagenum"><a id="pag_VII" name="pag_VII">[VII]</a></span>patriotismo se
+encontram em conflicto, e, nenhum conseguindo vencer ou convencer o
+adversario, ambos e mutuamente se reputam herejes:&mdash;o patriotismo de
+servir e o patriotismo de combater: o de espada e carabina, que tem por acto
+bom afastar e eliminar o proximo, e o de martelo e charrua, que tem por
+missão e dignidade fecundar a terra e agasalhar aquele mesmo proximo que o
+outro abomina; o que ama o peregrino e o que detesta o estranho; o que é um
+impulso de exclusão e aversão, uma avareza, e o que é uma confissão de bem
+querer e um anseio de proteger, uma caridade. Ha duas especies de
+patriotismo, como ha dois modos e duas aspirações de cultura do homem,
+conduzindo a atitudes politicas divergentes, de que as concepções do
+patriotismo correlativas são apenas uma das suas multiplices
+manifestações:&mdash;ha uma cultura que consiste em nos aprestar para calcar
+e escravisar os outros, <span class="pagenum"><a id="pag_VIII" name="pag_VIII">[VIII]</a></span>e ha uma cultura que se esforça
+por nos fortalecer para calcarmos as nossas proprias paixões e as ordenarmos
+e disciplinarmos sob uma regra sobrehumana; ha a cultura que olha para o chão
+e a que olha para os céus, a que é uma tarefa de sordidez, em que se degrada,
+e a que se eleva no desprendimento, em que exulta. O que nestes tempos de
+guerra se tem passado com os que por imposição da consciencia se recusaram a
+combater, particularmente o procedimento dos poderes constituidos da
+Inglaterra com as centenas dos seus</i> conscientious objectors, <i>o
+patriotismo inquisitorial, cujas torturas e penas vão desde o fusilamento
+puro e simples, tanto da feição peremptoria do rigor continental, até á
+prisão, trabalhos forçados e perda dos direitos politicos, que são as
+soluções predilectas, menos severas mas por igual mortais, da tradicional
+liberdade insular,&mdash;isto nos manifesta, dolorosamente, não só</i> <span class="pagenum"><a id="pag_IV" name="pag_IV">[IV]</a></span><i>quanto são profundos os antagonismos essenciais e latentes
+de que as sociedades modernas se compõem, mas tambem quanto é morosa a
+jornada no caminho e na ambição daquela liberdade e respeito mutuo, quando
+amor não seja, para os quais não ha heresias.</i></p>
+
+<p><i>Embora! Essa escabrosa jornada não cessa. Ali mesmo onde sofre
+terriveis assaltos inimigos, aí assinala triunfos e progressos. Um momento de
+«brutalidade hunica e de baixeza desenrolando as suas ondas sobre as nações
+que participaram na guerra, rebarbarisando toda a civilização por alguns
+anos», na expressão violentamente exacta de Carlos Liebknecht, que paga com
+desoito mêses de prisão a audacia insubmissa das suas heresias, isso não
+bastou para aterrar ou desalentar as consciencias certas dos seus direitos e
+imperio, e inabalaveis na segurança de um eterno renascimento e vitoria
+final.</i><span class="pagenum"><a id="pag_X" name="pag_X">[X]</a></span></p>
+
+<p><i>Os sintomas são claros.</i></p>
+
+<p><i>Não conseguiu a Camara dos Comuns, por uma minguada maioria, um voto
+favoravel á perda dos direitos politicos do</i> conscientious objector,
+<i>sem que não tivesse de lutar com uma oposição veemente, na qual se
+juntaram homens de todos os partidos politicos, não excluindo os mais
+acentuadamente conservadores. Foi então que, sem embargo do seu declarado e
+esclarecido conservantismo, Lord Hugo Cecil, em uma oração magistral,
+combateu «a idolatria do estado», que, tornando-o superior á lei moral,
+perdeu a Alemanha na confiança das nações civilizadas; foi então que, em
+palavras memoraveis, se ouviu a reivindicação da preeminencia do dever
+perante a consciencia sobre a obrigação perante o estado. «É na crença
+naquela região de obediencia superior que nos impõe qualquer cousa mais do
+que aquilo que o estado nos póde pedir, e que nos dá <span class="pagenum"><a id="pag_XI" name="pag_XI">[XI]</a></span>qualquer cousa mais do que o estado jámais nos poderá dar, que
+nós temos de sustentar a grande causa em que nos empenhámos. Ás vezes dizemos
+que combatemos pela civilização.» Mas aquele em quem o dever da consciencia
+sobreleva á obrigação com o estado «dirá antes que combatemos para que a
+civilização se mantenha uma civilização cristã, e, por certo, em uma
+civilização cristã é mal violentar a consciencia dos sinceros, é mal
+impôr-lhes uma obrigação que eles julgam corruptora e contagiosa.»</i></p>
+
+<p><i>Emquanto isto se proclama em voz alta, apaixonadamente e apaixonando as
+legiões de crentes a que se comunica, uma outra ordem de factos se apressa a
+dar-lhe uma confirmação eloquente. A falencia retumbante das artes politicas
+dos estados que desencadearam a mais mortifera e ruinosa das guerras, para ao
+fim confessarem que pela guerra não teem solução os problemas que <span class="pagenum"><a id="pag_XII" name="pag_XII">[XII]</a></span>ela era chamada a resolver; a derrota do intelectualismo
+politico, que, em boa logica com todo o intelectualismo e suas naturais
+insuficiencias, se embriagou na vaidade das suas limitadas forças e,
+desconhecendo as do caracter moral, considerou os homens meras quantidades e
+energias mecanicas alheias a toda a influencia das forças intimas
+espirituais; esta estreiteza que tinha de rematar na incapacidade demonstrada
+das diplomacias profissionais ortodoxas para assegurar, não direi já a
+felicidade dos homens mas a paz das nações, induz a procurar em outros
+poderes a fortuna que estes muito contingentes e mesquinhos não souberam
+dar-nos.</i></p>
+
+<p><i>É nesta angustia que mais uma vez se nos revela em seu intacto
+resplendor aquela lei pela qual a consciencia soube que «nem só de pão vive o
+homem», que a historia e a garantia unica da civilização é o alargamento
+progressivo dos limites <span class="pagenum"><a id="pag_XIII" name="pag_XIII">[XIII]</a></span>da espiritualidade á custa da
+restrição dos limites das materialidades, e que os combates a que o nosso
+tempo teve o triste privilegio de assistir, não são mais do que um momento de
+conflicto e de violencia entre isso que não é pão e é vida e se sente
+oprimido, e aquilo que, sendo pão, sendo repasto do corpo, seu sustento ou
+seu prazer ou sua força, todavia e cada vez mais se mostra alento
+insuficiente e mesquinho para aquele outro banquete etereo e intangivel, que
+os sentidos não tocam, e se chama simpatia, amor, humanidade ou caridade, e
+sempre e afinal essencia da vida.</i></p>
+
+<p><i>Preparemos para esse banquete o nosso animo.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><i>Eixo, 15-1-1918.</i></p>
+<span class="pagenum"><a id="pag_1" name="pag_1">[1]</a></span>
+<h1><A name="SECTION00200000000000000000"></a><br>
+Do que o fogo não queima </h1>
+
+<p>Se da onda temerosa que começou a assolar a Europa e o mundo em 1914
+consideramos apenas a espuma enxovalhada, não ha maior infamia, nem maior
+crime e indignidade. É uma degradação de incomensuravel profundeza, é a terra
+lavada em sangue pela ganancia abjecta das tiranias da sordidez.</p>
+
+<p>Um publicista de notavel merecimento e admiravel imparcialidade, G. Lowes
+Dickinson, compreendendo a opinião de milhares de homens, o desalento de
+muitos dos mais sinceros e cultos, a revolta de alguns e o cinismo
+inalteravel de uma minoria poderosamente armada, resume neste esboço a
+situação:</p>
+
+<p>«A guerra veio da rivalidade entre os estados na disputa do poder e da
+riqueza. Isto é universalmente aceite. Sejam quais forem as diversidades de
+opinião que prevalecem nos diferentes <span class="pagenum"><a id="pag_2" name="pag_2">[2]</a></span>paises interessados,
+ninguem pretende que a guerra tivesse origem em qualquer necessidade da
+civilização, em qualquer impulso generoso ou ambição nobre. Conforme o
+conceito popular da Inglaterra, nasceu a guerra unica e exclusivamente da
+ambição da Alemanha, vinda á conquista de territorio e poder; e, conforme o
+conceito popular alemão, nasceu da ambição da Inglaterra, correndo a atacar e
+destruir a riqueza crescente da Alemanha e a sua força. Assim, para qualquer
+dos beligerantes, a guerra mostra-se como imposta por uma pura perversidade,
+e sob nenhum aspecto tem justificação moral de especie alguma. Estes
+conceitos, na verdade, são demasiado simples quanto aos factos; mas... a
+guerra procedeu da rivalidade de imperio entre as grandes potencias, em toda
+a parte do mundo. A contenda entre a França e a Alemanha no governo de
+Marrocos; a contenda entre a Russia e a Austria no governo dos Balkans; a
+contenda entre a Alemanha e outras nações no governo da Turquia&mdash;foram
+estas as causas da guerra.</p>
+
+<p>«É a cobiça de mercados, concessões e colocação de capitais que está por
+detraz da politica colonial conduzindo ás guerras. Os estados concorrem ao
+direito de explorar os fracos, e nesta concorrencia os governos são movidos e
+tutelados pelos interesses financeiros. O inglês foi ao Egito por causa dos
+prestamistas, o francês foi a Marrocos por causa do minerio e da riqueza. Em
+todo o Oriente, no mais proximo como no mais distante, são as concessões, o
+<span class="pagenum"><a id="pag_3" name="pag_3">[3]</a></span>comercio e os emprestimos que levaram á rivalidade das
+potencias, a guerra sobre a guerra, ás <i>expedições punitivas</i> e, ironia
+das ironias! ás <i>indemnisações</i>, extorquidas como uma nova forma, e
+especial, de roubar os povos que se levantam esforçando-se por se defenderem
+dos roubos. Por um momento, as potencias combinam suprimir a vitima comum; no
+dia seguinte, lançam-se umas sobre as outras a disputar o espolio. Estes são
+realmente na sua nudez os factos sobre as questões entre os estados a
+respeito da politica comercial e colonial. Emquanto a exploração dos paises
+menos desenvolvidos fôr dirigida por companhias, não tendo outro fim senão os
+dividendos, emquanto os financeiros determinarem a politica dos governos,
+emquanto as expedições militares acabando em anexações forem postas aos
+hombros do publico por motivos que não podem confessar-se, hão-de acabar em
+guerra as nações que começaram pelo roubo, e milhares e milhões de vidas
+inocentes e generosas, as melhores da Europa, hão-de perder-se inutilmente,
+sem fim algum, porque interesses sinistros jogaram na sombra a paz do mundo
+em proveito do dinheiro das suas algibeiras.»<A name="tex2html2"
+href="#foot285"><sup>2</sup></a></p>
+
+<p>Sordidez, miseria, crueldade, uma tirania de scelerados sacrificando a
+ruins paixões de dominio, avareza e sensualidade as multidões inocentes, o
+trabalho, a candura, a honestidade e o <span class="pagenum"><a id="pag_4" name="pag_4">[4]</a></span>heroismo&mdash;cifra-se nisto a historia militar do mundo. Estas
+seriam as causas da guerra, as da ultima como as de quantas a precederam,
+esta a sua unica e eterna maldição. Só o que se viu com as companhias de
+navegação, e é publico, desilude os menos crentes nas infamias da guerra.
+Quando as familias dos que combatiam e morriam nas trincheiras, para gloria e
+proveito dos que os mandavam, sofriam fome e frio, havia emprezas de
+navegação, e tambem dos que mandavam, que faziam dividendos de 65 por cento,
+á custa da anciedade e atribulações daqueles que criaram os filhos imolados
+nas batalhas. As monstruosidades economicas alimentam-se daquele mesmo sangue
+que as monstruosidades da soberba derramam desapiedadamente no chão esteril
+dos combates.</p>
+
+<p>Não duvidemos, a guerra e a ignominia são filhas do mesmo ventre.</p>
+
+<p>Mas não duvidemos tambem de que, onde a guerra se peleja e a ignominia
+corre a fazer as suas presas; outras forças se erguem que as dominam e
+confundem. E sobre os destroços da politica, de ordinario infame, floresce de
+continuo a consciencia moral, tão pura na aspiração como lenta mas inflexivel
+no crescer.</p>
+
+<p>Estranha sujeição das potestades! Essa fortaleza satanica não é só por si
+tão robusta que prescinda da protecção do bem dos povos, da isenção, do
+patriotismo, da fortuna moral dos homens e das nações, e de outras e
+infinitas sombras etereas que vivem, desarmadas e fracas, apenas em os nossos
+sonhos. Para que as <span class="pagenum"><a id="pag_5" name="pag_5">[5]</a></span>ambições da sordidez prevalecessem e
+colhessem o seu quinhão na guerra em que nos crucificaram, foi-lhes
+necessario invocar interesses urgentes da liberdade e da dignidade humana.
+Pressentiram que só por esse compromisso levariam os exercitos ás batalhas.
+Por uma singular escravidão, a sordidez sujeitou-se á nobreza. Talvez
+mentindo astuciosamente, com uma astucia vulpina, toda de impostura; mas
+sujeitou-se, não sem ignorar de que por força terá de cumprir muito daquilo
+que por mentira assegurou. A sordidez tem em seu poder as armas e o fogo,
+quanto é necessario para devastar a terra e a embeber no sangue. E essa mesma
+sordidez armada, sentindo fugir-lhe o poder perante qualquer cousa que o fogo
+não queima, aceitou a tutela e imperio de forças imponderaveis e jurou-lhes
+fidelidade. A força fisica na sua maior opulencia destrutiva não sabe
+combater, sente-se insuficiente, se não tem em seu apoio um principio moral
+que a legitime. Para que os soldados marchassem contra a Alemanha, tornou-se
+necessario convencer os povos de que a Alemanha praticava um crime e meditava
+as atrocidades de um despotismo avaro, absorvente, insaciavel.</p>
+
+<p>Eis aí o facto capital de cuja compreensão depende a determinação do
+caracter e mais profunda significação desta ultima fatalidade que pôs as
+nações em guerra&mdash;não são os principios que dependem das armas, são as
+armas que dependem dos principios. Pelo gráu em que as armas dependem dos
+principios se afere a <span class="pagenum"><a id="pag_6" name="pag_6">[6]</a></span>altura da civilização de uma comunidade
+e de uma época, e pelo desrespeito ou pela corrupção dos principios se
+julgará da profundeza da sua degradação. O progresso da humanidade é
+puramente materia de desenvolvimento e natureza do espirito que a penetrou e
+rege. Disso dependem as guerras; os seus incendios dependem do que o fogo não
+queima. Se se ateiam, é porque aquela essencia eterea lhes falece; se
+abrandam ou se apagam, foi porque ela os envolveu. «Por muito que condenemos
+os chefes negligentes e as castas desapiedadas que vivem pela guerra, a fonte
+real do mal é o sentimento popular em que se apoiam. A lição que aí temos a
+aprender, é que as doutrinas e paixões enraizadas, de que essas desgraças
+provêm, só podem ser removidas por um lento e firme labor das forças
+espirituais. Aquilo de que principalmente se carece é a eliminação dos
+sentimentos cujas instituições alimentam a inveja e o odio, e preparam os
+homens para a desconfiança e para a agressão.» (Lord Bryce).</p>
+
+<p>Incapaz de queimar, ou sequer prejudicar ou interromper a vitalidade
+essencial dos principios, o fogo das batalhas apenas reduz a cinzas as sarças
+que os ocultam e que por os ocultarem nos transviam; é um arrojo de
+sinceridade, é um processo terrivel e crudelissimo de pureza, desprendendo os
+principios, a suprema razão de ser da humanidade, das miserias infinitas que
+os contrariam e envolvem. Alguem disse, pondo essa aparente contradicção em
+uma imagem feliz, que só de noite as estrelas brilham.</p>
+
+<p>Se <span class="pagenum"><a id="pag_7" name="pag_7">[7]</a></span>«ha certas cousas eternamente belas que subsistirão
+quando a guerra passar, tais quais eram antes da guerra começar e tais quais
+serão sempre, e se o nosso dever é concorrer para as manter vivas,
+compreendendo-as e amando-as» (Gilbert Murray), a guerra que nos angustía
+seria talvez perante «essas cousas eternamente belas» uma experiencia, um
+transe de morte precedendo uma ressurreição esplendida, de esplendor mais
+alto que todo aquele que precedentemente as houvesse coroado. Porventura a
+guerra veio a combater pela violencia uma civilização turbada e enlouquecida
+pela sensualidade, uma civilização que nem soube acautelar-se pela persuasão
+nem corrigir-se pela experiencia pacifica; será a febre de uma infecção que a
+higiene não foi capaz de prevenir, por debilidade de animo e cegueira de
+inteligencia, que não por escassez de recursos.</p>
+
+<p>O que vimos á luz desse brazeiro e que não viamos claramente antes que ele
+se acendesse, embora surdamente minasse a terra e a felicidade, é como uma
+aurora de redenção e esperança, como uma certeza divina.</p>
+
+<p>Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de
+inteligencia, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova ordem
+nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga muito bem
+lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é de melhor ordem
+nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e o presente lho
+confirmou pelas provações. De que o <span class="pagenum"><a id="pag_8" name="pag_8">[8]</a></span>mundo carece, para sua
+luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não queima; não é
+de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento.</p>
+
+<p>De facto, uma lei de identidade inviolavel faz que a guerra não possa
+gerar senão a guerra, por mais subtil que seja o esforço para a transmudar em
+benignidade. A paz, como obra politica, ou diplomatica, ou militar, ficará
+por nascimento sujeita á concepção inseparavel do ventre de soberba e avareza
+que a gera; sómente será efectiva e fecunda quando derivar de um renascimento
+da politica, da diplomacia e dos exercitos no espirito religioso que se lhes
+insinuar. Fóra disso será uma ficção e uma ilusão, transitorias e mentirosas
+como todas as ficções e ilusões que os cataclismos infernais das criações
+humanas se encarregam de dissipar com a maior dureza. É inutil cogitar
+combinações, tribunais e semelhantes subterfugios para protelar em esperanças
+vãs o que só ao espirito pertence e só ele póde dar. As civilizações
+vulgarmente chamadas decadentes e decaídas, porque minguaram em poder militar
+ou de todo o perderam, são bastas vezes as que predominam, embora destituidas
+de bens e forças temporais. Avassalaram pelo espirito aqueles e aquilo que
+pelas armas as venceram. Nos individuos como nas raças são os mortos que
+governam, como o filosofo pretende. A eternidade das ideias e das aspirações,
+e das energias morais em que essa eternidade se revela, sobrepõe-se ás
+vicissitudes efemeras do tempo e completamente as <span class="pagenum"><a id="pag_9" name="pag_9">[9]</a></span>subordina,
+ainda que essas vicissitudes importem a morte de milhares de homens e a
+aniquilação de riquezas inumeraveis. A Grecia inspirando-nos a liberdade,
+Roma disciplinando-nos na ordem ou Israel prostando-nos na piedade foram
+superiores a toda a corrupção, ruina ou escravidão, governam hoje mais ampla
+e firmemente do que na hora em que o poder politico as servia; como,
+modernamente, a França no fulgor da sua inteligencia, ou a Inglaterra na
+acuidade dos instintos morais, ou a Russia na abdicação religiosa, ou a
+Alemanha na intuição das temporalidades, são imperios fundados de uma vez
+para sempre, insubmersiveis no dominio do nosso espirito e na pratica da
+nossa existencia, sejam quais forem as vicissitudes politicas que o futuro
+lhes tenha reservadas. A vida dos estados é nada, um instante passageiro,
+comparada com a vida das civilizações que, se realmente o são, se realmente
+significam o desenvolvimento e afirmação progressivos de uma alma, de uma
+relação com o infinito na existencia sensivel, não admitem perda nem
+retrocesso, e nem sequer quebra de expansão. A riqueza do espirito, porque
+não é deste mundo, embora neste mundo habite, não depende das contingencias
+politicas das nações; a todas é superior, e porque é superior, por nenhuma
+foi ou será vencida. Só pela riqueza do espirito os povos se engrandecem e
+vencem ou serão vencidos; o resto é acidental.</p>
+
+<p>O que o espirito ganhou nas batalhas sangrentas em que a politica
+ultimamente precipitou <span class="pagenum"><a id="pag_10" name="pag_10">[10]</a></span>os estados e as nações é qualquer
+cousa como um terramoto. O abalo moral confunde pelos efeitos proximos e
+remotos as ruinas de que os canhões cobriram a terra. Uma revolução social se
+efectuou durante a guerra. O direito de propriedade foi de todo abolido por
+instancia de interesses colectivos. E o que mezes antes parecia a maior
+iniquidade e levantaria as pedras das calçadas, subitamente foi admitido como
+o mais justo e natural dos acontecimentos. O estado monopolisou o pão e o
+fogo, e os povos submeteram-se; todos os interesses individuais e de classe
+foram indistintamente imolados a obrigações sociais, demonstradas ou
+hipoteticas, e, embora no tumulto proprio de semelhante radicalismo se
+insinuassem as torpezas inseparaveis do remexer das riquezas, os povos
+consentiram pacientemente na dolorosa e inaudita expoliação. Naufragaram na
+tormenta liberdades que haviam custado o sacrificio de gerações inumeraveis e
+o martirio de centenas e centenas de vidas, e as vitimas desta renovação de
+despotismos curvaram-se sem lamentos á fatalidade que lhes vinha em nome da
+salvação publica. Evidentemente, se não houve a criação instantanea de novos
+deveres, houve, pelo menos, uma revisão pratica e efectiva da escala e
+amplitude dos deveres e dos direitos, a qual não pode fundar-se em outra
+cousa senão na transformação da consciencia moral das sociedades.</p>
+
+<p>Foi um progresso que nos abre reinos novos de grandeza economica e moral,
+ou é uma <span class="pagenum"><a id="pag_11" name="pag_11">[11]</a></span>ruina na qual vão sepultar-se os melhores sonhos
+que nos alentavam a coragem para suportar as miserias do mundo?</p>
+
+<p>O conde Hermann Keyserling, em um artigo publicado na <i>Atlantic
+Monthly</i> de abril de 1916, e intitulado <i>Juizo de um Filosofo sobre a
+Guerra</i>, responde a esta interrogação com uma precisão e profundeza
+devéras notaveis. Quanto dessa lucida apreciação das duvidas angustiosas que
+a guerra provocou veio ao meu conhecimento, pela transcrição feita na
+<i>Public Opinion</i><A name="tex2html3" href="#foot144"><sup>3</sup></a>
+onde as fui buscar, aqui procurarei traduzir e guardar, pois melhor
+condensação da suprema e decisiva influencia dos problemas morais deste
+momento da nossa civilização não encontrei na torrente de escritos que a
+preocupação dos aspectos morais da guerra suscitou, interessando os mais
+altos e nobres espiritos do nosso tempo.</p>
+
+<p>«A causa dos Alliados vencerá», diz o conde Hermann Keyserling, «de uma
+forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, mediata ou imediatamente.»</p>
+
+<p>«É inconcebivel que possa sobreviver o sistema de politica internacional
+que provocou esta catastrofe; é inteiramente inverosimil que os novos
+tratados que teem de se fazer, não sejam uma reflexão das aspirações e
+esperanças de todo o mundo; o purgatorio desta guerra terá de consumar a
+decadencia, transmudar em <span class="pagenum"><a id="pag_12" name="pag_12">[12]</a></span>novas as velhas formas, acelerar o
+seu desenvolvimento, aclarar o espirito-das nações.»</p>
+
+<p>«Nem mesmo uma Alemanha vitoriosa, no seu antigo modo, ousaria ditar a paz
+em termos reaccionarios; jámais seria aceite pela opinião publica, e não
+duraria se a violentasse. Mas a Alemanha de amanhã será muito diferente da
+Alemanha de ontem; a experiencia deste transe te-la-ha mudado muito. Como a
+França, como a Inglaterra, como a Russia, ou terá encontrado a sua nova alma
+ou, pelo menos, não estará longe de a encontrar. E essa alma será a de uma
+nação intensamente democratica.</p>
+
+<p>«Não ha pois razão para pessimismo, apesar do horror da situação presente.
+A guerra não póde ser senão horrenda, quando pelejada nas proporções
+gigantescas e com a intensidade de paixão que agora se mostraram. Se os
+melhores entendimentos parecem cegos e os melhores corações se deixaram
+turvar pelo odio, a condição da maioria deve ser pavorosa.</p>
+
+<p>«Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, <i>significam</i>
+muito pouco, desde que os homens durante a febre não são o que são; e a maior
+parte dos horrores serão logo esquecidos, tal qual como com as pessoas mais
+sadias que, depois de terem escapado de uma doença mortal, pensam pouco nos
+sofrimentos por que passaram.</p>
+
+<p>«Não esqueçamos nunca que esta guerra significa uma crise constituicional
+e que nesta conformidade temos de a julgar. Só então seremos capazes de
+compreender as suas fases.</p>
+
+<p>«Digo <span class="pagenum"><a id="pag_13" name="pag_13">[13]</a></span>que a causa dos Aliados tem a vitoria certa. Isto
+não implica, todavia, que seja consumado, qualquer dos fins concretos que ela
+se propôs.</p>
+
+<p>«Será impossivel assegurar uma paz de tal modo duradoura que de uma vez
+para sempre impeça a violação dos tratados; uma nação sósinha não terá
+possibilidade de decidir a sua propria sorte mais livremente do que um
+individuo póde desprender-se dos laços sociais e de parentesco e seguir
+exclusivamente a sua boa vontade; o principio nacionalista não tem
+possibilidade de triunfar desde que a maior parte dos paises estão habitados
+em comum por diferentes raças. Mas, em vez disto, teremos melhoria em outras
+cousas.</p>
+
+<p>«Muito provavelmente, a ideia tradicional de um estado que autorisava uma
+nação a oprimir outras nações, será condenada, dando logar a uma nova ideia,
+baseada exclusivamente sobre considerações economicas e militares, e deixando
+plena independencia a todas as nações quanto aos termos da sua cultura. Muito
+provavelmente, o equilibrio futuro da Europa dependerá, mais do que dantes,
+da colaboração sobrepujando a oposição, o que só por si tornará menos
+frequentes as guerras.</p>
+
+<p>«Mas são inuteis as profecias sobre o que desconhecemos. A unica cousa
+certa é que esta guerra do mundo, sendo uma crise constituicional, ha-de
+acelerar na vida interna das nações e nas relações internacionais aquelas
+transformações que cada ano se teem mostrado mais urgentes <span class="pagenum"><a id="pag_14" name="pag_14">[14]</a></span>e
+cujas formulas ninguem, por agora, póde encontrar.</p>
+
+<p>«Ha uma intenção no labor cego da Historia.</p>
+
+<p>«Não quero dizer que todos os resultados desta guerra hajam de ser bons;
+muito longe disso. Os seus efeitos materiais imediatos não podem deixar de
+ser desastrosos. A morte prematura de milhões dos mais robustos e melhores
+não poderá beneficiar o remanescente. Os odios e ressentimentos semeiados
+hão-de estorvar por algum tempo toda a convivencia internacional.</p>
+
+<p>«O que Romain-Rolland disse, mostrar-se-ha muito verdadeiro no primeiro
+momento:&mdash;<i>Quelque soit le vainqueur, c'est l'Europe qui será la
+vaincue.</i> A um tão longo e terrivel esforço ha-de seguir-se uma reacção,
+uma depressão temporaria tanto mais acentuada quanto maior fôr o
+levantamento. Podemos perder por algum tempo tudo aquilo que moralmente
+ganhamos nas horas de perigo. No primeiro instante, todos os efeitos
+imediatos desta guerra poderão ser francamente negativos.</p>
+
+<p>«Todavia, não retirarei uma só das palavras de esperança que escrevi, nem
+que eu soubesse que nos estão reservados acontecimentos peiores ainda do que
+aqueles por que temos passado.</p>
+
+<p>«Porque o progresso que realmente importa é o progresso no idealismo, e
+este não póde ser suspenso por periodos de retrocesso material, por mais
+longos que eles sejam.</p>
+
+<p>«Em que sentido promoveu o bem o advento de Cristo ou o da Revolução
+Francesa? Materialmente <span class="pagenum"><a id="pag_15" name="pag_15">[15]</a></span> não, nem em principio nem depois.
+Ainda mais: mesmo hoje se póde pôr em duvida se é consideravel o beneficio da
+condição material do mundo derivado de qualquer daqueles acontecimentos. Mas
+mudaram o espirito dos homens, mudaram a sua consciencia das cousas; e isto é
+que é superiormente importante, porque só uma mudança de consciencia das
+cousas é capaz de mudar intimamente as proprias cousas.</p>
+
+<p>«O espirito afeiçoa a materia muito lentamente. É isso certo. Mas, por
+isso tambem, nenhuma outra cousa a afeiçoa absolutamente.</p>
+
+<p>«A lei só começou a ser o reflexo da rectidão no dia em que os homens
+começaram a conceber o que a rectidão significava.</p>
+
+<p>«As instituições, só por si, são nada. As mais perfeitas que se possam
+imaginar, são meramente uma crosta prestes a cair ao mais pequeno impulso da
+paixão, se não exprimem um grau correspondente de compreensão espiritual.</p>
+
+<p>«Assim, a civilização perfeita da antiga Roma não pôde subsistir porque
+apenas exprimia uma compreensão limitada; e, pelo contrario, o germen de uma
+penetração mais profunda lançado pelo Evangelho de Cristo nas almas barbaras
+tornou-as aptas para um infinito progresso.</p>
+
+<p>«Nunca como agora se encontraram em o mesmo nivel a penetração espiritual
+e a exteriorisação. No principio da nossa era a penetração era profunda, mas
+o estado de cultura externa era inferior; hoje, esta parece infinitamente <span class="pagenum"><a id="pag_16" name="pag_16">[16]</a></span>superior áquela. Isto explica o incomparavel horror desta
+guerra. Isto revelou a disparidade monstruosa entre a nossa civilização
+externa e o estado das nossas almas. Mas este horror abre-nos os olhos do
+espirito.</p>
+
+<p>«Nunca mais e em parte alguma a opinião publica suportará os processos
+tradicionais e profundamente imorais das relações internacionais; nunca mais
+admitirá conscientemente que o poder é o direito. A nossa consciencia das
+cousas ha-de mudar, e esta é a unica especie de progresso a tomar em conta.
+Não ha desastres materiais que anulem essa conquista.</p>
+
+<p>«Só o progresso no idealismo cria uma base segura de desenvolvimento
+material. Demais, tarde ou cedo esse progresso se exprimirá, por si mesmo, em
+sua face externa. Ora esse progresso ha-de inquestionavelmente caber-nos
+depois da guerra, seja qual fôr o caminho que os acontecimentos materiais
+tomem.</p>
+
+<p>«Nós, os contemporaneos da guerra mais destruidora que o mundo viu,
+julgamos muitas vezes injusto que fossemos nós os escolhidos para esta
+terrivel experiencia.</p>
+
+<p>«Console-nos a ideia da retribuição deste sacrificio.</p>
+
+<p>«Não fossem os nossos sofrimentos, não fosse a desgraça que nós ao mesmo
+tempo padecemos e causamos, e aqueles que hão-de vir depois de nós não seriam
+capazes de conhecer nem de viver vida melhor do que a nossa. Se o
+conhecimento ha-de incarnar um dia, inevitavelmente, em acção e vida, não é
+menos verdade <span class="pagenum"><a id="pag_17" name="pag_17">[17]</a></span>que só as acções consumadas dão origem, em
+regra, a novas realizações.</p>
+
+<p>«Um mundo novo nunca nasceu senão da agonia do que o precede.»</p>
+
+<p>Nem porventura será necessario esperar o fim da guerra e das suas
+calamidades, para que possamos sentir o alvorecer da transformação salutar
+que a rapida mas profunda analise do conde Hermann de Reyserling agoura em
+termos de evidencia. Alguma cousa ha mudada desde já; alguma cousa dessa
+redenção se mostra já fundada e inabalavel.</p>
+
+<p>Se o mundo se acha ainda entregue á violencia estupida e cruel da força
+puramente fisica, se ainda abundam os que nela crêem com um fetichismo
+barbaro, e a tomam pela prova ultima da civilização, entretanto a propagação
+de um sentimento vigoroso de desprestigio da força a condena, senão á miseria
+de um facto de abominação, pelo menos a um estado de sujeição e escravidão
+sob o dominio de poderes mais altos. Não será propriamente o desprestigio da
+força esse julgamento dos seus feitos e crimes ao qual temos assistido, mas é
+desde já, e claramente, o sentimento das responsabilidades da força. O
+imperialismo e as suas armaduras de aço e as suas tiranias e magistraturas
+vão a retemperar-se em um novo baptismo. Secretas leis da alma dos povos lhe
+exigem, por titulo de admissão, que de apanagio e privilegio, instituido em
+proveito da riqueza e do orgulho dos estados, das dinastias e das classes, se
+converta em instrumento da paz e da prosperidade dos povos. <span class="pagenum"><a id="pag_18" name="pag_18">[18]</a></span>Depositario da força, e não o seu livre possuidor, o
+imperialismo moderno, para legitimar e manter a sua existencia e o seu poder,
+cede a impulsos que já de longe lhe vinham turvando a liberdade e o
+absolutismo, e tem de cohonestar a ambição do dominio, e os interesses dos
+que dominam e regem, com a consciencia zelosa e praticamente fecunda das
+responsabilidades impreteriveis que ele importa para a alegria e fortuna das
+nações e das gentes que compreender no seu ambito e tiver, mais sob a sua
+protecção e guarda do que sob a sua autoridade retribuida. De um simples
+instrumento de mandar e de usufruir riquezas, de um processo de avareza terá
+de passar, por efeito do progresso moral e das obrigações politicas
+correlativas, a um modo de servir isentamente. E essa transformação que a
+evolução moral das sociedades vinha reclamando lentamente, incitando e
+conquistando a custo, foi agora subita e singularmente apressada pela
+violencia da guerra, pelas suas dores, pela experiencia e desenganos de que
+ela se tornou portadora sinistra, todas inclinando a crêr que o imperialismo,
+para ser um processo de ordem politica e como tal escapar aos impetos de uma
+reacção anarquica, terá de fundar-se em nobreza, probidade, desinteresse e
+inspiração de altos e generosos deveres. Só por estes e pela fidelidade com
+que os observar, só pela actividade e pela soma de bens concretos que
+importar para a felicidade dos povos, será aceite e querido. Confiado apenas
+ao prestigio das armas e á ostentação da soberba <span class="pagenum"><a id="pag_19" name="pag_19">[19]</a></span>e da
+crueldade, da avidez e da injustiça, erguidas estas em seus tronos de
+riqueza, jámais irá além das criações gigantescas que a historia nos mostra
+dissolvendo-se invariavelmente na corrupção do seu proprio sangue. A
+desilusão tornou-se completa no meio da catastrofe.</p>
+
+<p>A atrocidade dos combates imprimiu com uma profundeza desconhecida esta
+feição de serviço do proximo, não só ao imperialismo politico, ao que usa
+canhões, palmas e estandartes e aterra pela morte, mas tambem a todos os
+demais imperialismos seus parceiros, parentes e aderentes, aos imperialismos
+das oficinas como até aos simples imperialismos domesticos. Por força da
+dolorosa eloquencia de um momento que revelou na sua nudez a miseria de todo
+o isolamento orgulhoso dos homens e das nações, sucede a urgencia da
+solidariedade e da cooperação áquele apetite de dominio, exploração, sujeição
+e posse que tem sido a alma de todas as escravidões e servidões. Nesta
+lugubre escola, o capitão de armas aprendeu a respeitar o soldado, como o
+patrão o operario, e o amo o seu servo. A ideia de propriedade, dos homens
+como das cousas, a razão do dominio pulverizou-se para ser refeita em nova
+liga. Isentou-se de estranheza o clamor de Tiberio Graco, quando clamava ás
+multidões que o cercavam: «Os animais bravios que estão espalhados pela
+Italia teem suas tocas e cavernas onde podem abrigar-se, e os que combatem,
+que derramam o seu sangue em defesa da Italia, não teem outra propriedade
+senão a luz e o ar que respiram; <span class="pagenum"><a id="pag_20" name="pag_20">[20]</a></span>sem casa, sem morada certa,
+vagueiam por todos os lados com as mulheres e com os filhos. Os generais
+enganam-se quando os exortam a combater pelos seus tumulos e pelos seus
+templos. Em tão grande numero de romanos haverá um só que tenha um altar
+domestico e um tumulo em que os seus antepassados repousem? Não combatem e
+não morrem senão para manter o luxo e a opulencia dos outros; chamam-lhes os
+senhores do universo, e não teem de seu um palmo de terra.»</p>
+
+<p>Vinte séculos passaram desde que o mundo jazendo na servidão desmentiu na
+ironia e na crueldade dos factos a violenta aspiração do tribuno; mas, feita
+daquelas cousas que o fogo não queima, prevalecia e durava atravez de toda a
+derrota, e hoje vemos o que a justiça das gerações lhe guardava. Porque as
+plebes do nosso tempo, caminhando para a guerra, já aprenderam a preguntar
+porque e para que é que lá vão, e os que as mandam já não sentem em seu poder
+arte de engano ou energia de captação que lhes dê segurança bastante para
+negar e roubar aos que combatem o seu quinhão na patria. Com pasmo vimos a
+Inglaterra estabelecer o serviço militar obrigatorio, mas talvez na surpreza
+muitos se esquecessem de considerar que essa violencia feita ás liberdades
+tradicionais daquele país era a democracia continental com o seu cortejo de
+igualdades passando o Estreito, e, se não derrubava de um golpe o
+remanescente do feudalismo insular, o que o futuro dirá, suspendia-lhe, pelo
+menos, todas as <span class="pagenum"><a id="pag_21" name="pag_21">[21]</a></span>garantias de estabilidade. O exercito deixou
+de ser o servidor assoldadado dos governos e das aristocracias, obediente á
+sua voz; tornou-se em obrigação de defesa, comum a todas as classes e para
+cumprir a qual se confundiram nas fileiras os plebeus e os nobres, e
+imediatamente, de burgo em burgo, alguma voz misteriosa apregoou a nova
+lei:&mdash;«Cada homem, cada voto». É a igualdade do poder politico, preludio
+certo e sabido das reivindicações igualitarias continentais, ameaçando as
+desigualdades monstruosas da fortuna economica, que na Inglaterra, com a
+liberdade de testar e a liberdade mercantil, mantinham o poder das velhas
+aristocracias e criavam aristocracias novas, diferentes pela origem das
+antigas mas com elas emparceirando no dominio politico. Meses depois de
+estabelecido o serviço militar obrigatorio, aparecia na camara dos comuns uma
+proposta abolindo todos os privilegios hereditarios, e o <i>Times</i> dava
+fóros de cidade á discussão da conveniencia da constituição de um partido
+republicano na Inglaterra, que esse jornal aliás combatia mas discutia, o que
+só por si é sinal dos tempos.</p>
+
+<p>Por outro lado, a pressão dos confrontos proprios de toda a angustia em
+que as provações nos incitam a considerar a sorte dos que de semelhantes
+desgraças teem sido menos atormentados, levava-nos a verificar, em
+sentimentos menos platonicos dos que aqueles que até agora prevaleciam nas
+academias, que emquanto a Europa se enleiava em tradições e <span class="pagenum"><a id="pag_22" name="pag_22">[22]</a></span>prejuizos, com um passado tanto mais pesado para a liberdade do
+seu espirito quanto mais longo e acidentado nos anos e nas vicissitudes
+insinuando-lhe o tumulto e turvação do conflicto de diversissimas aspirações,
+algures a situação era diferente. Emquanto a Europa arrastava entre fadigas e
+penas infinitas esse fardo que é a sua gloria e a sua grandeza, e tambem,
+bastas vezes, o residuo morto da sua vida e o estorvo fatal da sua
+vitalidade, além do Atlantico filhos seus, que ela criou e amamentou com o
+melhor do seu sangue, tinham fundado nações opulentas de riqueza e
+felicidade, e regendo-se por principios assáz diferentes dos que nos
+preocupam e governam, e emancipadas em larga escala do que a nós nos causa
+dano.</p>
+
+<p>Nós, europeus aferrados a todas as aristocracias, de espirito como de
+bens, destituidos de elasticidade moral e economica, facilmente nos
+envergonhando da pobreza, tardos em sentir como sem prejuizo da dignidade e
+até da alegria um homem passa de magistrado a caixeiro e de caixeiro a
+magistrado, não raro inclinados a tomar por honra a hierarquia social e a
+profissão, rebeldes a perceber que a honra é um facto de consciencia e não
+depende da condição economica e da classe,&mdash;com qualquer coincide e a
+todas póde ser alheia,&mdash;temos visto com frequente desconfiança o
+desenvolvimento da grande Republica Norte-Americana, suspeitando da sua
+nobreza e temendo, senão mesmo aborrecendo, a rudeza das suas energias
+violentas, desprendidas de todos os moderadores que entre <span class="pagenum"><a id="pag_23" name="pag_23">[23]</a></span>nós lhes minguariam a expansão e os impetos. O governo da
+multidão e a paixão mercantil afiguram-se-nos por vezes uma degradação,
+quando os referimos ás hierarquias tradicionais e hereditarias que nos andam
+no sangue, e a velhas e equivocas fidalguias de desprendimento dos bens da
+terra que essas fidalguias desprezam por ignominiosos, sem embargo de
+consentirem que o seu desprezo sirva tanto á elevação da alma e á
+generosidade como á ociosidade indigente e ao desamor do trabalho.</p>
+
+<p>Mas, chegados a um momento de calamidade, como o presente, e atentando
+mais uma vez na condição dos que nos aparecem melhor armados de espirito e
+corpo para afrontarem as horas de desvairamento e ansiedade, não podemos
+furtar-nos a duvidas, e preguntamos se de facto não haverá constituição
+social mais simples e feliz do que esta, muito confusa, das velhas
+civilizações europeias, e se aqueles nivelamentos e liberdades democraticas
+que desde Platão tivemos por portadores de depressão, não redundam afinal na
+supressão de todas as superioridades e excepções, compensando-a amplamente
+pela elevação economica e mental da mediania e do comum. Sem embargo dos
+muitos descontos que necessariamente ha a fazer em todas as prosperidades, o
+certo é, e evidente, que os Estados-Unidos da America, dentro das suas
+formulas democraticas e seja qual fôr o muito mal que das democracias possa
+dizer-se e verificar-se, alcançaram uma situação politica admiravel, emquanto
+os Estados-Unidos da Europa, <span class="pagenum"><a id="pag_24" name="pag_24">[24]</a></span>tão orgulhosos de saber,
+experiencia, ordem, categorias e tradições, são ainda do reino da utopia,
+para o maior numero, e uma vaga esperança, para um reduzido optimismo que
+teima em não descrêr do progresso moral da humanidade. Não sem boas razões, a
+democracia europeia pregunta-nos se o imperialismo capitalista
+transatlantico, precario, a praso, sujeito á sorte da inteligencia e dos bons
+negocios, será mais funesto e menos cruel do que o imperialismo militar
+dinastico, nascido e mantido por ordem do acaso hereditario, sem obrigação de
+capacidade mental nem dependencia das contingencias mercantis. Alguem mesmo
+quereria saber dos mestres da sciencia social e politica das nossas terras se
+os Estados-Unidos da America viveriam entre si na paz em que vivem se, em
+logar de se organisarem democraticamente, tivessem fundado monarquias com as
+respectivas dinastias. E os factos recentes, particularmente o que se tem
+passado nos Balkans, e estes opressivos e indeclinaveis confrontos semeiam
+perplexidades, demasiado bastas para nos deixarem caminho aberto e plano pelo
+qual possamos sair afoitamente de semelhante labirinto.</p>
+
+<p>Nem mesmo será de prevalecer o argumento usual contra a legitimidade da
+comparação da Europa e da America, alegando que as tradições da Europa e a
+juventude da America não autorisam aproximações. Não, as tradições da Europa
+são as tradições da America, e a idade da consciencia e da razão de um e
+outro continente é a mesma; quem fundou as nações de além do <span class="pagenum"><a id="pag_25" name="pag_25">[25]</a></span>Atlantico foram europeus repassados do que as civilizações
+europeias tinham de mais profundo. A diferença, onde a haja, depende apenas
+de descriminarmos em que ramos da tradição, que muitos eram, se fundou a
+civilização americana, e em que ramos da tradição se manteve a civilização da
+Europa. E, feito isto, teriamos ainda, para tirar as ilações praticas do
+confronto, de saber se foi a Europa ou a America que se desenvolveu nos ramos
+sadios, qual dos dois continentes teve a infeliz sorte de se aferrar aos
+ramos decrepitos, invadidos de toda a casta de musgos e liquenes,
+continuamente sujeitos a inumeraveis doenças parasitarias.</p>
+
+<p>Em todo o caso, para os de mais desdenhosa ufania da civilização europeia,
+imaginando a America demasiado moça ainda para muito poder sentir e pensar,
+para quem apenas tenha observado na America a torrente do seu mercantilismo e
+a julgue destituida da alta espiritualidade que é o nosso brazão, convém
+notar que os livros de Tolstoi se vendem aos milhões nos Estados-Unidos da
+America, e os de Ruskin «são lidos mais largamente na America do que na
+Inglaterra.»<A name="tex2html4" href="#foot286"><sup>4</sup></a> A mais alta
+elevação da alma de que a Europa foi capaz no século XIX e que esta
+personificou esplendidamente em seus profetas, é comum na sua disseminação e
+influencia ás praias de aquem e de além-mar, porventura mais <span class="pagenum"><a id="pag_26" name="pag_26">[26]</a></span>querida na terra virgem do que no chão exausto. E quem hoje
+reler <i>A Americanisação do Mundo</i>, do extraordinario jornalista que foi
+W. T. Stead, irá encontrar ensejos de aplauso e de admiração de uma larga
+previdencia, nas mesmas paginas por onde ha alguns anos passou os olhos
+estimulado apenas pela curiosidade de conhecer os sonhos e devaneios dos
+publicistas. Na bagagem militar dos Estados-Unidos da America que os seus
+navios desembarcam na Europa, vem envolvida uma outra e muito volumosa
+bagagem politica e moral. Tenhamos isso como inevitavel e feito em grande
+parte. Não se amiudaram os momentos em que as palavras do presidente Wilson
+teem sido o texto da politica dos Aliados e nelas juraram os estadistas
+encanecidos do velho mundo?!...</p>
+
+<p>Destas divagações do espirito em busca de melhores dias, uma cousa se
+salva, porém, intacta&mdash;a condenação da violencia como processo politico.
+Em toda a hipotese chegamos á certeza&mdash;e essa certeza constituirá um
+poder politico de suprema importancia&mdash;de que para a prosperidade dos
+estados e das nações valerá sempre mais organisar do que armar; mais se
+fortalecem as nações pelo desenvolvimento e coordenação das suas relações
+internas e externas do que pela invulnerabilidade restrictamente militar. Nas
+nações como nos individuos, a saude politica, como a saude fisiologica, será
+mais um facto de equilibrio e ponderação das suas energias do que o
+desenvolvimento sumo de qualquer delas, seja qual fôr, força militar ou <span class="pagenum"><a id="pag_27" name="pag_27">[27]</a></span>capacidade muscular. Se os Estados Unidos da America não nos
+facultassem elementos decisivos nessa demonstração, bastaria para nos induzir
+em semelhantes conclusões o confronto da soberba e prolongada expansão
+pacifica da Alemanha antes da guerra com os destroços de varia especie,
+economica e moral, acumulados pela cegueira da sua febre guerreira, desde o
+dia em que se julgou capaz de manter e acrescentar a grandeza por efeito e
+graça da violencia militar. O seu imperio e prestigio, cujo alargamento
+participava da natureza dos prodigios do engenho humano, dissipou-se em uma
+extensão incalculavel na hora em que, desprendendo-se de toda a simpatia
+pelos povos que a acolhiam em termos de fraternidade, preferiu a arrogancia
+da força á insinuação do amor, ou mesmo ao simples comercio das comodidades
+mutuas. Na hora em que a Alemanha ateiou o incendio infernal que prostrou a
+terra e os nossos corações na desolação, nessa hora brilhou com um novo e
+imperecivel esplendor e que o fogo não queima; nessa hora nos convencemos,
+subjugados pela dôr e esclarecidos pela experiencia, que a essencia da vida
+das nações, o que torna os seus povos eleitos ou condenados, dignos ou
+infames, felizes ou desgraçados, ou até mesmo ricos ou pobres, é a sua alma,
+a sua aspiração, a sua fé e a sua crença, o seu caracter moral e religioso,
+perante o qual o saber e a força são unicamente uma ilusão e uma insidia, uma
+traição tarde ou cedo destinada a conduzi-los á vergonha e á miseria, se um
+instinto salvador não lhes <span class="pagenum"><a id="pag_28" name="pag_28">[28]</a></span>ensinou a disciplinar e conter
+esse saber e essa força na obediencia a uma aspiração superior.</p>
+
+<p>A fortuna dos povos é em ultima analise questão moral, questão de
+psicologia, traducção do idealismo de cada um e de cada epoca, acidente
+positivo de uma alma.</p>
+
+<p>Um publicista eminente da Inglaterra, professor da Universidade de
+Londres, o sr. L. T. Hobhouse, examinando as causas da guerra e as suas
+consequencias, assim como as possibilidades e probabilidades de uma paz
+imediata e duradoura, acentuou este aspecto essencial de derivação
+psicologica da fortuna das nações em dois livros<A name="tex2html5"
+href="#foot287"><sup>5</sup></a>, que, a meu vêr, são das lições mais lucidas
+e serenas que o tremendo conflicto provocou.</p>
+
+<p>Segundo o seu pensar e dizer, a culpa da calamidade que pagamos caro, com
+rios de sangue, e da qual as gerações futuras terão de resgatar por meio de
+incalculaveis e prolongados sacrificios as nações modificadas e de todo
+empobrecidas, não foi o Kaiser nem a diplomacia, modestos colaboradores e
+interpretes de sinistros desvairamentos. A guerra proveio das tendencias e
+desordens da psicologia dos povos; as cogitações da filosofia e as
+inquietações morais e politicas correlativas que precederam a catastrofe e se
+amiudaram durante largo tempo antes da guerra, traziam claramente no ventre
+as <span class="pagenum"><a id="pag_29" name="pag_29">[29]</a></span>convulsões em que haviam de rematar. Durante estes
+ultimos doze anos, imediatamente antes de 1914, juntaram-se e cresceram na
+Europa os elementos de desgraça&mdash;«um grupo de estados inflamados pela
+consciencia da sua nacionalidade, avidos de grandes presas, descontentes com
+cada distribuição, emancipados de todo o senso do direito pelos seus novos
+guias espirituais, endoutrinados em todos os sistemas eticos da violencia,
+prontos a sujeitar-se á disciplina e ás fadigas por amor de esmagar os
+outros, e, se a confiança agressiva abrandava, sustentados na sua propensão
+pelo medo dos rivais que eles despresavam e todavia provocavam. Esta foi a
+dilatada condição de combate moral que vimos tomar corpo em sua traducção
+fisica, nos factos.»</p>
+
+<p>Aqueles que ha trinta anos saíram das escolas impregnados de naturalismos,
+lutas pela vida e ambições e processos politicos consequentes, sabem
+perfeitamente a que especie de direitos e deveres essa sciencia e essa moral
+conduziam, e o que logicamente preparavam á Europa, quando das bibliotecas e
+dos compendios universitarios, todos revestidos da dignidade do amor á
+verdade, passassem a ser trocadas em moeda corrente na pratica da vida
+publica e do comportamento individual, em toda a escala das relações com o
+proximo, ou o proximo fosse uma nação de alguns milhões de habitantes, ou um
+simples mendigo que se nos atravessasse na estrada e despedissemos por
+<i>vencido</i> e <i>inferior</i>, ou um mercador que nos acotovelasse <span class="pagenum"><a id="pag_30" name="pag_30">[30]</a></span>no caes da alfandega e atropelassemos para dar a precedencia ao
+nosso fardo. A sciencia e a filosofia, legitimando toda a casta de soberba e
+avareza, acharam <i>natural</i> a brutalidade. Era o colapso absoluto da
+simpatia, do respeito, da caridade e da justiça, de todos os velhos bordões,
+apoiados nos quais tinhamos feito uma jornada honesta de mais de vinte e
+cinco séculos, para fundarmos as criações singulares a que chamamos a
+familia, a nação e a religião do amor dos homens.</p>
+
+<p>Simplesmente, a sciencia e a filosofia, na rajada da invasão materialista,
+esqueceram, porêm, que a arvore tinha raizes e que, por muitos ramos que lhe
+partissem e queimassem, as raizes ficavam na terra, e ao primeiro alento da
+primavera novos ramos iam crescer do tronco e florir, em tudo semelhantes aos
+antigos. Esqueceram que as nações, como a nossa alma, teem uma historia e
+instintos alimentados e avigorados no correr dos tempos, e não haverá forças
+de raciocinio nem impetos de destruição que os arranquem do seu temperamento;
+esqueceram que a nossa civilização tem um caracter e esse caracter, residuo
+da fermentação de uma longa vida, constante em sua essencia, é que afinal
+ha-de marcar-lhe a linha de progresso atravez de todas as contingencias.</p>
+
+<p>Mas não o esqueceu quem, desconfiando das indicações dos tubos de
+laboratorio e de todas as estreitezas que muito vaidosamente chamamos
+sciencia, procurou uma mais larga e exacta concepção da vida no exame da
+consciencia <span class="pagenum"><a id="pag_31" name="pag_31">[31]</a></span>e nos livros do passado, aí descobrindo as
+razões do presente e as possibilidades e probabilidades do futuro. Para esse,
+o passado assegura-lhe que «as civilizações não morrem por calamidades
+externas, mas quando no intimo se lhes finou a alma. A civilização romana
+caíu, não porque os invasores eram mais fortes, mas porque no seu coração
+estava fraca.» «Antes disso, o genio do helenismo morrêra nas longas guerras
+intestinas que paralisaram as cidades livres e lhes arrancaram o coração
+daquela vida civica que era simultaneamente a fonte de inspiração do poeta,
+do artista e do filosofo.» O que criou o conflicto da Alemanha com as nações
+do Ocidente e com a Russia, foi uma divergencia de alma, porventura um
+atrazo. «Na realidade, a Alemanha pouco participou daquele novo impulso
+democratico, humanisante, que se ergueu na Inglaterra do século XVII e ainda
+mais vivamente na França do século XVIII. «Por differentes vezes e por
+diversos lados, desde a Holanda do século XVI até á Bélgica de 1914, as
+nações da Europa ocidental e os povos que delas vieram, contribuiram para
+este espirito de liberdade, democracia e humanidade. Povos pequenos e grandes
+deles tiveram a sua parte; pensadores, homens publicos e filantropistas para
+aí deram o seu quinhão. Mas este espirito é a criação do Ocidente, e foram
+elementos da sua escola que em maior ou menor gráu levedaram a estrutura
+politica e social da Europa central e oriental.» «Tocam tambem a estrutura da
+sociedade alemã, mas não se tem ponderado suficientemente <span class="pagenum"><a id="pag_32" name="pag_32">[32]</a></span>que o corpo principal do pensamento alemão se conservou alheio
+a este movimento desde o começo do século XIX. Não foi assim ao principio:
+Kant, o maior dos pensadores alemães, manteve uma inteira simpatia com o
+humanitarismo do século XVII, e Fichte foi um idealista cujas lições
+representavam uma força de peso a favor da liberdade na luta com Napoleão.
+Mas, com o advento da filosofia hegeliana, o pensamento academico na Alemanha
+associou-se, e cada vez mais, com os poderes estabelecidos.» «O liberalismo
+que havia na Alemanha morreu em 1848. A Alemanha fundou então uma cultura
+propriamente sua, baseada em uma noção do estado e das suas exigencias, do
+individuo e dos seus direitos sobre o resto do mundo, que a civilização
+ocidental repudiava.»</p>
+
+<p>«Ora, olhando pelas nações do mundo, com excepção da Alemanha, não vemos
+sinais alguns de quebra de fé naqueles principios. Pelo contrario, vemos que
+as nações, uma a uma, atentam no facto de que são aqueles principios que
+estão em risco. E, se assim é, não se trata de uma civilização mortalmente
+enferma por falta de crença nos seus principios, por falta de confiança em
+si, pelo pecado mortal de se atraiçoar.»<A name="tex2html6"
+href="#foot288"><sup>6</sup></a></p>
+
+<p>De facto, nas trevas da catastrofe sentiu-se desde o começo o poder de uma
+aspiração que <span class="pagenum"><a id="pag_33" name="pag_33">[33]</a></span>vem de longe e não se engana no rumo;
+sentiu-se a obediencia a um evangelho espiritual e moral, de que a politica
+com o seu cortejo de ambições e degradações será apenas um turvado espelho,
+um acidentado esforço de realisação, sujeito aos vaevens de toda a traducção
+concreta dos sonhos de nossa alma, da de cada homem como da de cada raça e da
+de cada momento da civilização, ora deformada e oprimida por virtude dos seus
+combates, ora vitoriosa e prospera, mas afinal, em derradeira sumula,
+invariavelmente progredindo e progressiva. Um alto e profundo idealismo
+determina muito daquilo que, no primeiro movimento de repulsão e de horror
+perante a guerra, nos poderá parecer sómente a assolação de uma torrente de
+abjecções e vilanias.</p>
+
+<p>Clutton Brock, cuja autoridade de pensador cresceu com as considerações de
+elevado caracter moral que publicou sobre a guerra, incita o seu país a
+fortalecer-se na disciplina de uma filosofia, de que o acha desprovido.</p>
+
+<p>Por esse motivo e com o fim de traçar os fundamentos essenciais dessa
+renovação espiritual escreveu um opusculo<A name="tex2html7"
+href="#foot289"><sup>7</sup></a>, onde pretende que uma das grandes vantagens
+da Alemanha na guerra foi encontrar-se robustecida pela insinuação organica
+de uma filosofia que inteiramente lhe repassou todas as actividades&mdash;uma
+<span class="pagenum"><a id="pag_34" name="pag_34">[34]</a></span>filosofia má, pervertida, conduzindo ao crime em vez de
+conduzir ao bem, mas, sem embargo, uma filosofia, a concepção de um sistema
+das relações do mundo e dos homens, crente na sua justiça e nobreza, e só por
+isso uma fonte incomparavel de energia, uma arma formidavel de combate, senão
+a mais eficaz das armas de combate, aquela sem a qual todas as demais são
+frouxas. E isso teria faltado aos Aliados.</p>
+
+<p>Os alemães «fizeram um estado que é um perigo para o mundo, porque o fim
+desse estado é ruim; mas o estado da Inglaterra não tem um fim. Usaram todas
+as suas virtudes com um fim material, e não viram que ele era material; mas
+nós (os inglêses) deixamos as nossas virtudes ao acaso. Se os alemães veem no
+seu país um absoluto falso, nós não temos absoluto algum, nem verdadeiro nem
+falso. Ha gente, e não é só alemã, que crê que a cultura alemã póde salvar o
+mundo e que por isso anseia por uma vitoria alemã. Para ela, a cultura alemã
+é qualquer cousa positiva, qualquer cousa na qual os homens se esqueceram de
+si por amor do estado, e, procedendo assim, se erguem acima das suas forças
+naturais; e crêem que os alemães podem ensinar-nos todo este segredo de
+abandono do interesse meramente individual, de modo que todos nós faremos a
+nossa obra tão sistematica e completamente como os alemães. Mas em nós não
+encontram inteiramente nada de positivo, e parecemos-lhes combater meramente
+pelos metodos do passado, da mão á boca, e com esses metodos. Não teem razão,
+<span class="pagenum"><a id="pag_35" name="pag_35">[35]</a></span>sem duvida; combatemos, pelo menos, contra um egotismo que o
+mundo nunca suportará, seja qual fôr a limpeza que ele possa trazer; porque
+com essa limpeza impõe a escravidão. Mas carecemos de tornar bem claro ao
+nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente
+individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito
+alemão. Os alemães põem o valor da Alemanha acima de todas as cousas; mas
+nós, o que é que nós aprendemos a apreciar acima de todas as cousas? Toda a
+nossa sociedade sofre da falta de valores, de uma desvairada mundaneidade que
+nem sempre está contente comsigo. Este descontentamento e este desvairamento
+envolve esperanças, mais esperanças do que a intencional perversidade da
+Alemanha; mas nem o descontamento nem o desvairamento são bons só por si, e
+não conduzirão ao quer que seja, se nós não formos capazes de encontrar
+valores, e os justos valores.»<A name="tex2html8"
+href="#foot290"><sup>8</sup></a></p>
+
+<p>Na verdade, embora a afirmação categorica de que carecemos de uma
+filosofia da vida se ache singularmente moderada onde o exame do moralista
+reconheceu que «carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que
+combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto
+e completo do que o que prepondera no espirito alemão», a acusação não será
+de admitir-se em toda a extensão. <span class="pagenum"><a id="pag_36" name="pag_36">[36]</a></span>As suas proprias palavras
+a combatem, confessando que a questão é de clareza de entendimento e de
+consciencia, e não de escassez de causa intima ou ausencia de uma filosofia
+fundamental.</p>
+
+<p>Essa filosofia, que o critico quereria sentir na gente da sua patria, de
+facto subsiste desde já e activamente. Trazemo-la no sangue, neste sangue que
+é o legado de muitas gerações, e no qual se fundiram e consubstanciaram, em
+uma tenacissisima aspiração, aquela liberdade que a Grecia sonhou, a ordem
+que Roma fundou, e, coroação maravilhosa do pensamento politico constituido
+pela antiguidade greco-romana, o nacionalismo acalentado pela Renascença,
+movendo-se e medrando dentro daquela catolicidade que uma vez nascida do
+poder e governo do imperio romano viveu na igreja catolica, prevalecendo-se
+de um momento de unidade religiosa, e hoje se prolonga nas aspirações do
+internacionalismo, fundando na comunidade humanitaria o que algum tempo foi
+resultado da unidade religiosa&mdash;sem muito querer persuadir-se, diga-se
+de passagem, que, ou se fale em nome de Deus, ou em nome da Humanidade, ou se
+invoque a Razão, ou nos inflamemos na Fé, a conclusão moral é em toda a
+hipotese una e invariavel, e o racionalismo e o cristianismo juntam-se na
+mesma concepção da ordem humana, nas mesmas liberdades e responsabilidades,
+nas mesmas aspirações e deveres de igualdade e amor.</p>
+
+<p>De filosofia não carecemos, realmente. Temos enraizada no peito toda
+aquela, e profundissima, <span class="pagenum"><a id="pag_37" name="pag_37">[37]</a></span>que a tradição e a experiencia de
+muitos séculos nos legaram. O que nos afasta da Alemanha não é a mingua de
+uma razão intima, da mesma natureza daquela que a alenta e move; o que nos
+afasta é apenas o grau de consciencia e a forma pratica correlativa em que o
+mundo latino e o mundo germanico sentem essa razão e os termos em que lhe
+obedecem. A Alemanha cultivou e definiu a sua filosofia, aparentemente oposta
+de todo á nossa, em circunstancias apontadas por Hobhouse nas passagens que
+acima traduzi, mas entretanto nós, descuidadamente, sem nos esforçarmos por
+definir e sistematisar os motivos do nosso esforço, fomos vivendo a nossa
+vida e seguimos por instinto o nosso caminho, sem o errarmos, não obstante
+não preguntarmos para onde iamos e porque. Ao fim, quando o conflicto nos
+iluminou tragicamente a jornada, é que vimos onde estávamos e que especie de
+filosofia nos tinha conduzido até ali. Claro está que mais seguros se
+encontravam em seus baluartes os que com mais paciencia e metodo os haviam
+edificado; mas nem por isso os nossos reductos deixaram de se mostrar
+inexpugnaveis. Se o não fossem, se uma filosofia muito diversa da que animou
+a Alemanha e lhe deu força e coesão não nos inspirasse, se aspirações muito
+diferentes não nos arrebatassem, a guerra ter-se-hia reduzido a uma marcha
+triunfal dos exercitos teutonicos, portadores de um genero de civilização
+pelo qual todos os povos da terra estavam suspirando, ansiosos por abdicarem
+das suas aspirações ingenitas no seio do <span class="pagenum"><a id="pag_38" name="pag_38">[38]</a></span> povo eleito. A
+invasão alemã teria sido uma benção recebida de joelhos e com hinos de
+louvor; não significaria a violencia, para nos libertarmos da qual
+sacrificamos vidas e bens, o melhor da nossa riqueza e da nossa alegria, e
+comprometemos por largos anos a sorte dos que nos vão suceder e nos hão-de
+herdar encargos tremendos.</p>
+
+<p>Ainda mais. Não só traziamos no peito uma filosofia e lhe obedeciamos,
+embora o prolongado habito de a seguir nos tivesse em grande parte dispensado
+de lhe reconhecer e cultivar intencionalmente o poder, mas o desenvolvimento
+dessa filosofia não deixou de se operar de continuo e nos termos da sua
+essencia. E chegados ao momento de dar contas do passado no presente, de
+revelar as ideias e paixões em que nos criamos e mostrar pelos resultados
+ultimos a sua legitimidade, verifica-se que temos sido fidelissimos servos
+dos principios da nossa civilização, bastas vezes contrariados e oprimidos
+pela adversidade do destino mas sempre renovados, e ressurgidos e maiores,
+pela constancia da nossa crença.</p>
+
+<p>Para compreendermos como atravez de todas as obscuridades e reacções de
+uma fermentação mental e material prodigiosa houve um progresso, uma logica,
+uma direcção e um adiantamento em uma linha invariavel, bastará considerarmos
+esta lenta renovação psicologica que graduou em diferente altura o valor
+militar e o valor do trabalho, por virtude da expansão dos germens inoculados
+em a nossa organisação <span class="pagenum"><a id="pag_39" name="pag_39">[39]</a></span>pelo pensamento democratico
+tradicional. «Já aprendemos», disse W. J. Bryan, antigo secretario de estado
+nos Estados-Unidos da America, «que é mais vantajoso alargar a terra que
+possuimos, duplicando-lhe a producção, do que acrescentar-lhe por conquista
+uma nova área. ... Ha mais inspiração em uma vida nobre do que na morte
+heroica.» Entre tantas cousas que as convulsões politicas e militares
+destruiram e arruinaram no correr dos séculos, sempre cresceram aquelas que o
+fogo não queima, certa essencia espiritual, a razão de ser e proceder das
+sociedades, que inflexivelmente as encaminha, quer na paz, quer na guerra,
+ainda mesmo quando a sua acção se ignora ou parece aniquilada para sempre.
+</p>
+
+<p>Heroismos de hoje, todos constituidos pela força de servir e criar,
+expressão ultima de uma actividade de amor e de uma compreensão da virtude
+dos homens, lentamente elaborada dos germens da nossa civilização, vão a
+eclipsar as glorias de ontem, inflamadas no impeto de conquistar e no
+arrebatamento de esmagar e vencer, paixões do odio, por vezes fecundas e
+grandes pela coragem e até pela isenção que significaram, mas invariavelmente
+barbaras pela crueldade dos impulsos, inseparavel da sua força intima. O
+trabalho que algum dia foi vileza e escravidão e arrastou o carro dos
+capitães de armas em seus triunfos, converteu-se agora em uma religião, e é
+ele que pouco a pouco vae subjugando os capitães de armas ao serviço da sua
+defesa e culto. Emquanto as balas cobriam <span class="pagenum"><a id="pag_40" name="pag_40">[40]</a></span>de cadaveres as
+trincheiras de Verdun, fumegavam as fabricas no seu labor sob a metralha, os
+arados sulcavam o chão sem temor da morte que pairava sobre as leivas, e a
+consciencia duvidava, sem saber a quem mais glorificar e engrandecer, se aos
+que sucumbiam heroicamente nas batalhas da morte, se aos que, não menos
+sagradamente, ofereciam o peito e o sangue nas batalhas da vida. Alguma cousa
+sentimos, senão mudada, pelo menos crescida, por certo apenas crescida, visto
+que nasceu comnosco, com a nossa civilização, em todos os seus modos a
+encontramos vivaz e alargando-se, a dizer-nos que, «é tão digno ser ferido ou
+morto trabalhando pela saude e bem-estar de uma nação como combatendo por
+ela.»<A name="tex2html9" href="#foot291"><sup>9</sup></a></p>
+
+<p>«A gloria militar só pode ser iniqua. Por cada heroi que ela regista,
+quantos morrem desconhecidos, e todavia tão grandes que nem sequer tiveram a
+ideia da gloria... O heroi maior é o que não conhece o seu valor. Morre sem a
+si mesmo se conhecer, desconhecido dos homens, e a terra absorve o seu corpo
+anonimo. Mas quanto é grande a grandeza de ser humilde! O soldado mais
+humilde é o maior, aquele que se submeteu á regra até á morte, sem imaginar
+que é notavel o que ele fez. Faz o que tem de ser feito. Faz o seu oficio de
+soldado. A pura grandeza do homem reduz-se sempre a bem <span class="pagenum"><a id="pag_41" name="pag_41">[41]</a></span>fazer o seu oficio. O que é necessario, não é o entusiasmo; é a
+consciencia profissional. O entusiasmo é apenas uma desigualdade de
+temperamento.»</p>
+
+<p>Os combates que o trabalho combateu em França durante a guerra, igualam,
+onde não sobrepujam, toda a sua estupenda gloria militar. «Através da morte,
+através do fogo, os trabalhadores consumam tenazmente a sua tarefa. Este
+heroismo do trabalhador encerra uma grande esperança porque a força eterna da
+nação reside no trabalho. A guerra não é mais do que uma desordem momentanea.
+Sempre ha-de acabar pelo regresso ao trabalho.» «O campo, o trigo, o moinho
+conteem uma invencibilidade que a guerra não subjugará. Nem as ceifeiras
+tiveram medo dos obuses, nem o moleiro teve medo de servir de alvo. Sob a
+violencia passageira, a terra prossegue na sua eternidade, e vemos as mãos
+das ceifeiras ligarem as paveias com um gesto que é sempre o mesmo desde o
+começo do mundo. Ha na humanidade forças que a colera do homem nunca será
+capaz de prostrar, e é delas que se alimenta. Que poder domina tudo aquilo? O
+soldado sabe vencer o soldado. O trabalhador sabe vencer a morte.» «Ha um
+patriotismo guerreiro que é sublime, porque afronta a morte. Todos devemos
+inclinar-nos perante ele. Ha um patriotismo trabalhador que é ir para o
+trabalho.»<A name="tex2html10" href="#foot292"><sup>10</sup></a></p>
+
+<p>Esse <span class="pagenum"><a id="pag_42" name="pag_42">[42]</a></span>patriotismo que combate imperturbavel os combates do
+trabalho e que o critico comovido contemplou com orgulho na sua patria, esse
+foi e é invulneravel a toda a injuria do fogo, e, sentindo-o crescer na nossa
+alma e através da historia, sentindo-o avassalar-nos a consciencia,
+ilumina-nos e alenta-nos a esperança de que, sendo a maior força e o supremo
+padrão da gloria humana, só a esse está reservado todo o imperio em que as
+nações e as raças viverão para melhores destinos. Isso que permanece sob as
+cinzas, e não as cinzas que o vento leva, isso será o sustento e a razão de
+ser da humanidade. É mais do que uma esperança; é uma certeza e a mais
+vivificante das muitas que a guerra deixa erguidas entre os seus destroços.
+</p>
+
+<p>O scepticismo desdenhoso, mais propenso a lidar com a miseria, de que faz
+seu lucro, do que a exaltar-se em visões que não lhe matam a sua fome de
+prazeres caracteristicos, está pronto a advertir-nos de que pouco importa que
+nos homens haja impulsos eternos de robustez, paz e nobreza. Outros, e de
+baixeza, os combatem; nestes temos de confiar, e destes havemos de nos
+socorrer, porque sempre os encontramos arrogantes e muitas vezes os vimos
+dominar, e sempre lhes sentimos a crueldade atroz. Esse scepticismo não
+desistirá de procurar convencer-nos de que toda a aurora de justiça e amor
+conhecida dos homens, e muitas teem sido, é invariavelmente entenebrecida por
+uma ruindade ingenita indomavel que <span class="pagenum"><a id="pag_43" name="pag_43">[43]</a></span>logo a confunde em uma
+noite cerrada. Não ha que esperar paraisos da bondade humana; sempre existiu
+e nunca governou o mundo. É isso o que o scepticismo nos assegura, tal qual
+como se nos dissesse que não vale a pena semeiar a floresta nem crêr no seu
+crescer, porque sempre houve tempestades e as tempestades derrubaram muitas
+arvores, e sempre houve vermes e os vermes muitas outras corromperam, ás
+vezes das mais frondosas e melhores.</p>
+
+<p>Em socorro dos scepticos e da sua filosofia comoda, isentando de muita
+obrigação, esforço e dever, viriam os homens praticos, esses de que Cristo
+foi a negação, quando julgou pratico morrer na cruz para ressurgir em
+espirito, no mais activo e criador espirito da humanidade.</p>
+
+<p>Os homens praticos não se convencem com semelhante loucura, e esses
+pretendem que o unico modo eficaz de salvar a humanidade é organisar a sua
+vileza em vez de invocar a sua nobreza. Fazendo o inventario comparado das
+guerras e das aspirações de paz, acharão que as guerras teem prevalecido
+sobre as aspirações de paz e, porque assim aconteceu, não poderá acontecer
+diferentemente. No seu obstinado entender, a guerra para ser fecunda terá de
+preparar novas guerras, cogitando de continuo na força futura dos exercitos e
+no seu poder. Tudo o mais é utopia. <i>Homo hominis lupus.</i> A unica
+esperança de sustentação dos homens é avigorar-lhes as queixadas, afiar-lhes
+os dentes e banir-lhes do peito a piedade. Devorar e ser devorado será o
+ciclo infernal em que a politica tem <span class="pagenum"><a id="pag_44" name="pag_44">[44]</a></span>de penar. Amar e ser
+amado é ilusão contraria á natureza e, mais do que perigosa, mortal.</p>
+
+<p>Nem lhes abalará a firmeza o proprio testemunho da Historia que eles
+invocam e que aliás demonstra o progressivo desenvolvimento da boa vontade
+entre os povos e as nações, um declinar constante de aversões e
+incompatibilidades, até mesmo entre aqueles que ainda ha pouco eram inimigos
+e cruzavam armas. No fundo do desenvolvimento politico das sociedades humanas
+ha um alargamento e fortalecimento constante das suas faculdades de afeição,
+mas, como esse desenvolvimento é um facto de evolução e conquista gradual e
+não uma revolução ou um fenomeno de cataclismo, nunca poderá isentar-se
+totalmente de um remanescente de barbaria e crueldade que só progressiva e
+lentamente decáe. E porque esse remanescente persiste, o scepticismo, e a
+avareza, ambições, e até mesmo certo heroismo, que todos são os seus
+acolitos, exaltam-se na ilusão de que os homens não mudam; e por isso fazem
+da má vontade reciproca entre os povos uma lei e um sistema politico e uma
+moral publica. Mas, sem embargo, os factos frequentemente desrespeitam as
+suas profecias tenebrosas. Quando terminaram as guerras napoleonicas, todo o
+mundo imaginou que a paz era apenas uma tregua entre a Inglaterra e a França;
+não tardaria a renovação dos combates entre estas duas nações. Um dia, um
+homem publico eminente da Inglaterra repetia esses temores diante do duque de
+Wellington, e o duque, respondendo-lhe, aconselhou <span class="pagenum"><a id="pag_45" name="pag_45">[45]</a></span>que «se
+mais tarde ou mais cedo tinham de entrar outra vez em combate, fizessem por
+todos os meios que fosse o mais tarde possivel.» O proprio guerreiro desejava
+a paz e suscitava uma politica conforme os seus desejos; e o futuro deu-lhe
+razão. Guerra não tornou a haver entre a França e a Inglaterra. Passados cem
+anos, encontramo-las aliadas. A solução pacifica mostrou-se mais pratica do
+que a solução belicosa.</p>
+
+<p>Entre a maior violencia das batalhas ouvirão agouros de paz aqueles que os
+quizerem ouvir. Ao fim de dois anos de guerra entre a Inglaterra e a
+Alemanha, na hora de suma inimizade, o professor Munsterberg, alemão de uma
+alta autoridade, lembrava que a liberdade dos mares poderia ser eficazmente
+assegurada por uma aliança da Inglaterra, da Alemanha e dos Estados-Unidos da
+America. E a imprensa inglêsa, respondendo-lhe, abstinha-se de dar opinião
+sobre a justiça e praticabilidade de semelhante insinuação, advertindo apenas
+que as incompatibilidades suscitadas pela guerra eram um obstaculo formal a
+essa solução&mdash;o que equivale a dizer que, apagadas essas
+incompatibilidades, não será talvez uma utopia o alvitre. Pelo visto, o
+obstaculo é apenas de natureza moral, outro não ha de natureza politica ou
+economica. Não será de todo ilegitimo pôr esperanças em hipotese tão ousada,
+sobretudo se nos lembrarmos de quanto foi breve a inimizade entre a França e
+a Inglaterra, e se cremos, com muita boa gente, que, se não houvesse esse
+espinho da questão <span class="pagenum"><a id="pag_46" name="pag_46">[46]</a></span>da Alsacia, talvez a Alemanha e a França
+fossem hoje aliadas em vez de inimigas, apesar da guerra de 1870.</p>
+
+<p>Depois, a fatalidade da propensão logica insistentemente pregunta porque é
+que o internacionalismo, sendo um facto culminante do nosso tempo, não ha-de
+estender-se á politica, ou melhor, como é que a politica ha-de conservar-se
+alheia ao seu espirito e acção. Internacionalisou-se a sciencia, a arte, a
+religião, o capital e o proprio comercio, apesar das suas infinitas
+rivalidades; não se concebe que este impulso exclua a politica. Pelo
+contrario, é sabido até que ponto o internacionalismo penetrou nas oficinas,
+não são segredo nem pouca cousa as tendencias de solidariedade que por lá se
+insinuaram e medram. Admitamos que da oficina trasbordem e se espalhem nos
+campos, onde a sua disseminação tem de ser lenta por virtude da inercia
+caracteristica do espirito rural, sempre moroso em seus movimentos,
+cautelosamente conservador, mas nem por isso menos tenaz nas inclinações. E
+mais não carecemos para sinal de tempos novos, mais ou menos proximos, talvez
+mais proximos do que remotos, se considerarmos a intensidade da actividade
+mental dos nossos dias, a renovação da consciencia que ela importa, e a ordem
+social a que essa nova consciencia conduz inevitavelmente.</p>
+
+<p>O progresso, sendo como é unicamente fundado na fortaleza do espirito e no
+seu desenvolvimento incessante, é indestructivel em sua constituição e nos
+seus orgãos, em toda a amplitude <span class="pagenum"><a id="pag_47" name="pag_47">[47]</a></span>da sua expressão e
+expansão. O que nos dá a ilusão de retrocesso ou de irreductibilidade da
+barbaria, são as desordens de funcção, não é uma lesão essencial organica,
+que não existe; são as enfermidades acidentais, passadas as quais as
+sociedades voltam a ser o que eram anteriormente ao acidente
+morbido&mdash;tal qual o homem doente recuperando o equilibrio normal quando
+findou o delirio da febre, reatando a vida no ponto em que a tinha no momento
+de ser perturbada, naquela edade, estatura fisica e capacidade mental que lhe
+eram proprias e caracteristicas. Nem porque adoeceu e se curou voltará o
+velho a ser moço e o adolescente ressurgirá criança. Uma identidade
+especifica se mantem com seus momentos de eclipse, ao fim vitoriosa de
+qualquer opressão passageira que por acaso sofreu. E assim o entendeu um
+esclarecido internacionalismo, pela voz dos seus chefes mais autorisados
+insistindo em nos assegurar que não renunciou, nem tem razão para renunciar,
+ás suas aspirações e esforços. Negando que a guerra o houvesse enfraquecido,
+tira das responsabilidades que lhe exigem e dos feitos que lhe atribuem a
+demonstração da sua força e vitalidade. As acusações de falencia com que a
+diplomacia dos politicos de profissão procura estigmatisa-lo e afasta-lo do
+caminho, no qual essa diplomacia serve as cobiças dinasticas e capitalistas,
+seriam em ultima analise um tributo á importancia que lhe assiste nas
+relações entre os povos e ao alargamento e amplitude progressiva do seu
+poder. Confessando que o nacionalismo agressivo <span class="pagenum"><a id="pag_48" name="pag_48">[48]</a></span>teve um
+impeto de tresloucada ambição envolvendo nas suas paixões o mundo inteiro,
+crê cada vez mais profundamente na missão de paz que o zelo profetico dos
+seus mestres e o trabalho paciente dos discipulos tem exercido nestes ultimos
+cincoenta anos com tão religioso ardor como manifesta eficacia. As
+dificuldades que o assaltavam e os transes por que passou no desvairamento
+momentaneo dos seus apostolos e soldados, iludidos pela astucia dos que
+governam, não lhe abalou o fundamental optimismo, proprio da fé com que
+prosegue nos seus combates e vitorias.</p>
+
+<p>Depois ainda, esta ultima guerra veio demonstrar com uma clareza
+terminante que já não ha neutrais possiveis nos conflictos das civilizações.
+Não se arrasaram fronteiras nem será possivel, e muito menos necessario,
+arrasá-las, porque a natureza e a historia as ergueram por longos séculos,
+senão para sempre; mas cresceu a intensidade de transito através dessas
+fronteiras, e com ela cresceu a simpatia mutua e a comunhão politica dos que
+nelas transitam. As relações dos povos estreitaram-se de tal modo que, se uma
+calamidade flagelou uma nação, todas as demais sofrem nos seus interesses e
+afeições. Ora por Deus, ora por Satanaz, ora por amor do espirito, ora por
+ambição mundana, a terra vai a converter-se em propriedade de um possuidor
+unico&mdash;o homem, um só e não muitos, como no passado encontravamos e
+distinguiamos, sobretudo quando os viamos em combate. E, se o possuidor é um
+só e a propriedade <span class="pagenum"><a id="pag_49" name="pag_49">[49]</a></span>se acha portanto indivisa, o conflicto é
+impossivel onde a unidade organica se tornou essencial.</p>
+
+<p>A propria insolvencia da guerra pelos feitos militares, que em mais de
+trez anos de combates através de mil esforços, vitorias e derrotas não foram
+capazes de dar solução ao conflicto e, pelo contrario, demonstraram a sua
+inanidade como processo de solução dos antagonismos em oposição violenta,
+isso que fez que se chegasse á conclusão de que as nações teem força para
+fazer a guerra, mas não teem força para fazer a paz, isso significa um golpe
+profundo na doutrina da confiança militarista. Sobretudo a vitalidade dos
+interesses economicos mostrou-se superior a toda a ruina por mera violencia.
+Por seu poder e relações não tiveram força bastante para evitar a guerra, mas
+ficou de uma vez para sempre certo que a economia das nações, fruto da paz, e
+da inteligencia e dos afectos, não póde ser arrasada pela guerra. Essa
+economia subsiste apesar da guerra e durante a sua propria acção; não ha
+exercitos que possam com ela, e nem a dos aliados nem a dos imperios centrais
+fraquejaram e deram sinais de se submergir nesta pavorosa catastrofe,
+constituindo por essa maravilhosa resistencia uma prova formidavel do
+caracter de ociosidade cruel de todas as guerras na fortuna dos povos, que
+vivem de pão, não vivem de polvora. A arte de ser util emancipou-se das
+supostas necessidades de violencia, que algum tempo a fascinaram. «A
+violencia seduz porque nos dispensa <span class="pagenum"><a id="pag_50" name="pag_50">[50]</a></span>de um esforço de
+reflexão, de um trabalho de razão. Porque é necessario um esforço para
+desfazer um nó. É mais facil cortá-lo.»<A name="tex2html11"
+href="#foot293"><sup>11</sup></a> Mas desde que os homens e as sociedades
+chegaram á idade da razão, não só a sua honra mas tambem os seus interesses
+temporais os induzem a esperar da razão o que erradamente pediam á violencia.
+</p>
+
+<p>Debalde essa tendencia, de que resulta a unidade de aspiração dos povos e
+o consequente declinar das guerras, tem até hoje procurado orgãos adequados
+que lhe sirvam eficazmente as funcções. É certo. Preponderante apenas em um
+mundo moral limitado, carece ainda da largueza de disseminação que lhe ha-de
+assegurar a consistencia, embora essa disseminação progressiva se mantenha na
+historia das sociedades cultas com uma constancia manifesta. Muitos tratados
+e tribunais de arbitragem, muitos compromissos de paz se reduziram a
+<i>pedacinhos de papel</i>, e logo se inflamaram e arderam mal se ouviram
+clarins de guerra. Outros, porém, se mostraram consistentes e rebeldes ao
+fogo em iguais circunstancias. Tambem é certo.</p>
+
+<p>Aqueles que se rasgaram ou arderam, foi porque, significando unicamente
+uma esperança e uma tendencia, uma ambição e um fim, ainda não eram de facto
+uma lei, embora escritos fossem. Uma lei, para o ser com força executiva <span class="pagenum"><a id="pag_51" name="pag_51">[51]</a></span>e real, carece de um estado de espirito em que se haja fundado
+e estabelecido antes de se estampar e consignar na definição verbal e nos
+contractos selados. Essa é a razão pela qual não se cumprem muitas leis que
+já foram cumpridas, e ainda não se cumprem outras que já foram apregoadas, e
+vigoram algumas que jámais foram traduzidas para o papel. É que as leis,
+antes de o serem e para o serem, hão-de viver no mero estado de aspiração do
+espirito; sómente são leis e prevalecem emquanto as aspirações dos povos as
+querem e confirmam. Como poder de criar o quer que seja nas sociedades e na
+consciencia dos homens, a lei escrita, nacional ou internacional, é de um
+valor nimiamente hipotetico; a lei será, muito mais do que isso ou muito
+diferentemente disso, uma verificação e explicação daquilo que natural e
+expontaneamente se criou. Quando vem antes da criação que pretendem
+representar, ou quando lhe sobrevivem, as leis vergam, cedem e anulam-se ao
+mais leve movimento contrario.</p>
+
+<p>Ora, em materia de guerra entre os povos, as propensões pacificas, que são
+aliás uma força manifesta e crescente, não vão tão adiantadas que possam
+constituir-se em tribunais e sancionar-se em sentenças. Foi esta antecipação
+do desenvolvimento de um principio e de uma alta realidade que, mostrando-se
+o que na realidade era, revelando a fragilidade propria de uma constituição
+incipiente, deu a muitos a ilusão de que esse principio e essa realidade não
+existiam em absoluto e não eram uma força em acção, e, <span class="pagenum"><a id="pag_52" name="pag_52">[52]</a></span>porque acontecera que se mostraram incapazes de afrontar as
+injurias de um momento adverso, jámais poderiam subsistir.</p>
+
+<p>Quizemos talvez começar a casa pelos telhados, em vez de lhe dar principio
+pelos alicerces. E, muito provavelmente, o radicalismo socialista acerta
+quando, reconhecendo que o internacionalismo organisado anteriormente á
+guerra foi impotente para a conter, explica o desastre e confia no futuro,
+dizendo que, «emquanto os governos andarem divorciados dos povos, emquanto
+eles forem autocracias e plutocracias, emquanto os homens forem governados
+pela corrupção, pela violencia e pelo engano, não haverá garantia real de que
+a paz, mesmo quando nominalmente observada entre as nações, produza os frutos
+ou assegure as liberdades da paz de Deus. Emquanto os povos não dirigirem a
+politica dos governos, emquanto a democracia não for uma realidade, não
+haverá paz permanente, externa ou domestica; e, quando esse dia chegar, pouca
+necessidade haverá de uma força de policia internacional.»<A name="tex2html12" href="#foot294"><sup>12</sup></a></p>
+
+<p>Se assim é, e a observação dos factos decorridos nestes ultimos anos de
+profundissimas convulsões sociais e progressiva consciencia das suas origens
+e remedios de todo confirma a esperança dos apostolos da renovação politica
+do mundo, se assim é, não podem vir longe os tempos de paz.</p>
+
+<p>Porque <span class="pagenum"><a id="pag_53" name="pag_53">[53]</a></span>a vitoria da democracia, ainda que na revolução da
+Russia não se houvesse mostrado triunfante ou não fosse carregação inevitavel
+dos navios vindos dos Estados-Unidos da America, republicanos e livres
+pensadores, afeitos incorrigivelmente á liberdade politica e religiosa, e
+naturalmente propensos a comunica-la aos povos aos quais se unirem por
+amizade, a vitoria da democracia tornou-se a sumula deste terramoto que foi a
+guerra de 1914. Obedecendo a impulsos politicos originarios da civilisação,
+mantidos e medrados em uma evolução muitas vezes secular, grande legado das
+cogitações filosoficas do século XVIII e da abundantissima experiencia do
+século XIX, a democracia é da essencia constituicional do latinismo e de
+quanto ele de perto ou de longe criou ou tocou, sem distincção de gentes ou
+de latitude para onde se transportasse. Diferentemente se organisará conforme
+as necessidades e tradições e acidentes da existencia dos povos sobre os
+quais impera; poderá ser aqui um sistema de fragmentação comunista, acolá a
+constituição de centralisações colossais, e além o livre jogo do
+individualismo; poderá ser na estrutura e na hierarquia das funcções uma
+monarquia, ou uma republica, ou um imperio, uma arregimentação despotica das
+plebes ou a associação livre das actividades sociaes. Mas em todo o mundo se
+tornou a tendencia irrefragavel e invencivel da constituição dos governos
+para servir os povos e a recusa indomavel da subjugação dos povos para servir
+os governos. No espirito das comunidades decaiu <span class="pagenum"><a id="pag_54" name="pag_54">[54]</a></span>a ideia de
+serem possuidas e a obediencia correlativa, e a essa ideia sobrepoz-se,
+vencendo-a e condemnando-a, o pensamento de possuirmos a terra em comum e em
+comum obedecermos, não áqueles a quem a fortuna ou a audacia deu a força de
+mandar, mas sómente áqueles a quem a consciencia deu o talento e a obrigação
+de ser util e de proceder isentos de interesse proprio, em beneficio do
+proximo. Uma democracia, aquela democracia que persiste, cresce e ha mais de
+vinte séculos ressurge de cada revez mais poderosa do que era
+antecedentemente, «não é uma mera forma de governo. Não depende de urnas ou
+de leis de sufragio popular ou de qualquer maquinismo. Isso é apenas o seu
+adorno. A democracia é um espirito e uma atmosfera, e a sua essencia é a
+confiança nos instintos morais do povo. Um tirano não é um democrata, porque
+crê no governo pela força; como não é democrata o demagogo porque crê no
+governo pela lisonja. Um país democratico é um país onde o governo tem
+confiança no povo e o povo tem confiança no governo e em si, e onde todos se
+unem na fé de que a causa do seu país não é materia apenas de interesse
+individual ou nacional, mas está de harmonia com as grandes forças morais que
+governam os destinos do genero humano.»<A name="tex2html13"
+href="#foot295"><sup>13</sup></a></p>
+
+<p>Essas forças morais que governam a humanidade, <span class="pagenum"><a id="pag_55" name="pag_55">[55]</a></span>não as
+queima o fogo. E essas são as que hão-de fazer a paz, a presente como a
+futura, e a futura mais robusta do que a presente.</p>
+
+<p>Uma noite, em uma igreja, ficaram alguns soldados de sentinela a guardar a
+urna de uma eleição politica.</p>
+
+<p>Havia no altar mór dois anjos magnificos, empunhando tocheiros, e a sua
+grandeza e resplendor dominavam o templo.</p>
+
+<p>Para encurtar o enfado da vigilia, os soldados vestiram de guerreiros os
+anjos. Poseram-lhes aos hombros o capote e a mochila, cingiram-lhes as
+correias, ocultaram-lhes os cabelos no capacete e trocaram os tocheiros por
+carabinas. Ao fim, alguem deu a voz de «sentido», militarmente, e a companhia
+perfilou-se em continencia.</p>
+
+<p>Havia alguma cousa de escarneo sinisiro no gracejo. Era um templo
+transmudado em caserna, a dureza expulsando a graça e a crueldade banindo a
+piedade.</p>
+
+<p>Mas, quando amanheceu, o sonho de Satanaz havia passado, e os anjos,
+recuperando a liberdade das suas azas, de novo se ergueram áquela gloria que
+o menospreso desconhecera e ocultára sem poder destrui-la, porque era de sua
+condição indestructivel. Até sob o manto da injuria persistira.</p>
+
+<p>Não é diferente desta a historia da humanidade&mdash;desta humanidade á
+qual todas as nações pertencem e que os tempos mostraram susceptivel de
+nobreza, de fé e de amor, de quanto constitue a gloria dos anjos. Póde um
+impulso <span class="pagenum"><a id="pag_56" name="pag_56">[56]</a></span>impio perverte-la e tranfigura-la por um momento.
+Muitas vezes o tem feito e não poucas terá ainda, por certo, de o repetir.
+Mas a manhã sempre volta, porque o mover dos astros não cessou e, quando
+volta, logo fulge a gloria dos anjos. Nunca o fogo a queimou.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<span class="pagenum"><a id="pag_57" name="pag_57">[57]</a></span>
+<h1>Valores restaurados</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><A name="SECTION00310000000000000000">Renascimento da educação
+classica</a></h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><A name="SECTION00311000000000000000">I</a> </h2>
+
+<p>«Em breves anos, veremos renascidos e florescentes a educação e o ensino
+classicos. Não tenhamos duvidas. Os sinais de resurreição são manifestos, a
+germinação da nova ideia vigorosa; e nestes tempos em que toda a
+transformação é rapida e a circulação do pensamento tão activa como a
+propagação da electricidade, manda a experiencia e a lógica contar em curto
+prazo com uma profunda reforma dos programas escolares, subordinada á nova
+aspiração, orientando-se em rumo diverso daquele estreitamente positivo e
+scientifico em que com tanta incerteza e naufragio navegamos ha uns bons
+vinte e cinco anos. As humanidades e a cultura classica retomam seu logar e
+imperio. O clamor é geral. Será ouvido dos que o podem converter em uma força
+activa eficaz.</p>
+
+<p>«Tem <span class="pagenum"><a id="pag_58" name="pag_58">[58]</a></span>todos os modos de reclamação de verdade, justiça e
+necessidade pratica. Não pode encontrar resistencia que prevaleça sobre
+elementos de tamanha força e duma tal natureza.</p>
+
+<p>«As sociedades teem destas crises que, uma vez lançadas, logo se lhes
+presente a solução e os triunfos.</p>
+
+<p>«E a crise presente do ensino é dêsse género.</p>
+
+<p>«Não é uma novidade, realmente. Não é uma aventura de ensaios e tentativas
+para inventar homens novos, de novas aptidões e estranhas tendencias
+psicológicas.</p>
+
+<p>«É no fundo o desengano de uma aventura, empreendida com muito boas
+esperanças e rematada com muita desilusão, é a reposição das coisas do
+espirito e da ordem da vida concreta naquelas condições em que durante
+séculos se haviam mantido e prosperado.</p>
+
+<p>«Ha cerca de vinte e cinco anos disseminou-se na Europa, na America, e por
+todo o mundo culto uma verdadeira mania de <i>realidades</i>, coisas
+<i>praticas</i>, <i>utilidades</i>, vaga e implicita negação de outras
+coisas, aéreas em semelhantes conceitos, com que os homens se haviam
+preocupado até então. E essas coisas não praticas, isso que se chamava
+beleza, ordem, justiça, aspirações do puro espirito, passou então á categoria
+de inutilidades, toleradas apenas como enfado e desfastio, adorno e deleite
+de curiosos e ociosos diletantismos.</p>
+
+<p>«O ensino amoldou-se a essa preocupação. Pôr uma engrenagem onde estava
+uma ideia, uma ideia aritmetica onde havia um silogismo, <span class="pagenum"><a id="pag_59" name="pag_59">[59]</a></span>uma
+fabrica onde estava uma estátua, e um apito de vapor onde se ouvia um canto
+de poeta, tornou-se imediatamente a quinta essencia da sabedoria das nações e
+dos seus estadistas, e o sonho de perfeição e grandeza dos pedagogos
+progressistas e progressivos, dos que iam na frente e se propunham ir
+muitissimo mais longe.</p>
+
+<p>«O ensino classico pareceu então uma abominavel e esteril velharia;
+dessorava o cérebro, atrofiava os musculos, tinha por vezes um cheiro
+detestavel a côrte e sacristia. As famosas humanidades trocaram-se de bom
+grado por abundantes animalidades. No homem considerou-se quasi unicamente o
+animal e no mundo viu-se muito restritamente um processo de multiplicação de
+comodidades.</p>
+
+<p>«Para isso se teriam criado a terra e as sociedades. Tudo o mais seria, na
+classificação mais benigna, pelo menos antiquado.</p>
+
+<p>«Que olhassemos para a Alemanha, prégava-se. Lá é que se sabia. As suas
+vitórias e prosperidades eram uma questão de escola, e de sciencia, dessas
+muito faladas e desejadas e louvadas coisas práticas. Era o mestre escola que
+tinha vencido em Sadowa. O germanismo e as suas glórias teriam sido apenas
+questão de laboratorios, retortas, lentes, microscopios, raizes quadradas e
+taboas de logaritmos.</p>
+
+<p>«Sciencia, muita sciencia, sempre sciencia. Estava aí o elixir da vida, a
+fortuna das nações e a felicidade dos homens. Latim, grego, Aristofanes e
+Cicero e Tito Livio respeitaveis massadores que tomavam o tempo á rapaziada e
+não <span class="pagenum"><a id="pag_60" name="pag_60">[60]</a></span>lhes deixavam lucro que valesse um real. Abaixo as
+inutilidades. Passassem aos museus respectivos.</p>
+
+<p>«Lá encontrariam conservadores habilitados que as guardassem no logar que
+lhes competia, para recreio de eruditos. Para o comum dos mortais não tinham
+nada de aproveitavel.</p>
+
+<p>«Assim fomos andando, nesta fé, de reforma em reforma, a dar ar e luz aos
+nossos institutos e liceus, sempre á espera de vermos sair de lá os atletas
+que haviam de renovar as nações. Mas os atletas tardavam. Em seu logar,
+apareciam mesmo muitos enfermos. Começamos a desconfiar de que a sciencia não
+dava o que prometia, e a suspeitar de que tinhamos errado na escolha,
+passando ao deposito das inutilidades um arsenal de belas armas.</p>
+
+<p>«Coisa curiosa! A primeira vez que ha dois ou tres anos encontrei um
+escrito moderno atacando abertamente os abusos do ensino chamado scientifico
+e o abandono das letras classicas e das antigas humanidades, foi em um jornal
+socialista radical. Os que vão na frente do movimento politico, os que
+reclamam e exigem mais profundas reformas, as pedem em nome da justiça, e
+pelo seu radicalismo bota-abaixo pareceriam os mais propensos a banir todas
+as velharias das sociedades contemporaneas e futuras, seriam esses os
+primeiros a advogar a restauração de processos e intuitos da educação e
+ensino, postos de parte e condenados por empecilhos do progresso.</p>
+
+<p>«A educação classica refugiando-se nas fortalezas <span class="pagenum"><a id="pag_61" name="pag_61">[61]</a></span>do
+socialismo radical, que se poderia muito logicamente supôr todo impregnado de
+radicalismos scientificos, era fenómeno para estranhar; e, na minha
+ignorancia e despreocupação, de facto estranhei, no primeiro momento.</p>
+
+<p>«Mas em poucas linhas me desvanecia a confusão aquele artigo que acabava
+de lêr.</p>
+
+<p>«O quê?! dizia. As humanidades eram más? Onde se formaram os homens da
+Revolução Francêsa? Onde aprenderam os principios de liberdade, igualdade e
+justiça que proclamaram e por que se sacrificaram até ao martirio, para nolos
+transmitir triunfantes e para nos remir de aviltada condição?</p>
+
+<p>«Donde brotou e onde firmava as suas raizes essa seara unica da literatura
+romantica?</p>
+
+<p>«Não, as humanidades não eram más. Eram excelentes e suficientes. Os
+homens que nos deram foram bons, entre os melhores de que fala a historia, e
+nem outros de superior grandeza podemos desejar e sonhar.</p>
+
+<p>«O discurso convencia-me. Desde o momento em que os homens se criam para
+os homens, os conhecimentos essenciais do seu espirito e os modos mais nobres
+do seu caracter hão-de ser humanidades. Preferir-lhes animalidades, reduzir o
+homem a um vulgar organismo sem diferença fundamental dos seus semelhantes
+nas espécies animais, ou mais simplesmente ainda passa-lo á categoria
+mecanica de motor e alavancas conjugadas, destinado a diversas operações de
+produção e consumo, era uma degradação. Evidentemente, tornava-se necessario
+ser homem antes de <span class="pagenum"><a id="pag_62" name="pag_62">[62]</a></span>ser bicho ou maquina. Dependia disso a
+dignidade. Sempre assim se havia entendido.</p>
+
+<p>«Depois, o ensino classico, se era classico, de sua natureza era
+essencial, partindo do principio que por classico se entende aquilo que em
+sucessivos séculos e sucessivas gerações se reputou invariavelmente bom ou
+belo. Abandonar o que de certeza assim era, para o trocar por vantagens
+incertas, teria sido insensatez.</p>
+
+<p>«A mais passageira reflexão não poderia deixar de concluir pelo predominio
+do ensino classico. Admitiria que se acrescentasse. Que se eliminasse ou
+reduzisse, nunca.</p>
+
+<p>«De que todavia agora se trata e o que provoca a campanha incipiente, não
+é de apreciações abstractas, é dos desenganos da experiencia.</p>
+
+<p>«Não sou tão moço que não tivesse conhecido os homens educados puramente
+nas escolas classicas da primeira metade do século XIX. Conheci até alguns
+desses professores de latim espalhados a capricho pelo país, regendo cadeiras
+singulares dessa disciplina, ás quais as vilas, que as possuiam, atribuiam
+orgulhosamente o valor duma universidade. Ali se aprendia tudo, imaginavam; e
+quem de lá saia com louvor do mestre, tinha-se na conta de homem instruido e
+culto.</p>
+
+<p>«Entre os meus proximos parentes os encontrei. Meu pai não teve outra
+escola nem outra educação literaria. Aprendeu o latim com o professor da vila
+em que nasceu, e com essa reduzida bagagem escolar foi para o Brazil, aos
+dezoito anos. Se mais tarde estudou a lingua francêsa <span class="pagenum"><a id="pag_63" name="pag_63">[63]</a></span>e
+modernismos correlativos, de que careceu para se pôr a par do seu tempo,
+nunca lhes criou tanto amor que, quando entrou em maré de comprar livros,
+deixasse de se fazer forte em classicos portugueses, e dos modernos
+apreciasse sobretudo aqueles que de classicos tinham carregadas tintas.</p>
+
+<p>«Conheci muitos dos seus amigos e companheiros, camaradas da escola e
+outros de educação identica, que todos conservavam vivas as tendencias que na
+mocidade haviam tomado.</p>
+
+<p>«Possuo mesmo muitas cartas de discipulos dessas escolas, e incidentemente
+tenho tido ensejo de apreciar as ideias que revelam e os caracteres que
+traduzem.</p>
+
+<p>«Sem matematicas e sem quimicas e fisicas e mais ferramenta dos apuros
+scientificos modernos, não descubro em que pontos e por que lados os antigos
+eram inferiores aos modernos como homens praticos, como conhecedores das
+coisas da terra e seus administradores, como capacidade de reger os homens e
+lhes tratar os bens.</p>
+
+<p>«Foram esses, os classicos, os discipulos das humanidades tão desprezadas
+pelos seus filhos, que iniciaram a renovação economica da Europa (e por sinal
+que com muita coisa excelente iniciaram muita coisa tragica); foram eles que
+organizaram a fábrica e traçaram a via férrea, que deificaram a maquina a
+vapor e os teares mecanicos, e tudo isso fizeram não só com uma percepção
+clarissima dos fins e meios e consequencias, mas com uma fé e um entusiasmo
+<span class="pagenum"><a id="pag_64" name="pag_64">[64]</a></span>que a prodigalidade de invenções e as maravilhas da
+industria da nossa era jámais encontraram em igual grau entre os
+contemporaneos. Não tiveram nem sombra de educação scientifica; nas suas
+escolas, as declinações dos verbos e nomes tinham uma importancia suprema
+sobre as quatro operações aritmeticas. Não foi isso, porêm, impedimento a que
+calculassem com precisão e justeza, quando isso se lhes tornou necessario.
+Meu pai, latinista apaixonado e aferindo todos os valores literarios pelo
+classicismo, não deixou por essa qualidade de ser um comerciante previdente,
+habil e seguro e um belo administrador das instituições economicas em que
+serviu. Deu boas provas disso. Pois em matéria de literatura dessa
+especialidade não cansou a vista, quando aliás muito costumava lêr. No seu
+espolio, entre algumas centenas de volumes, sómente um peregrino «codigo
+comercial», ali perdido, lembrava o comerciante.</p>
+
+<p>«É que a gente do seu tempo tinha uma concepção muito diferente das
+necessidades da vida pratica. Julgava-a muito mais acessivel do que hoje a
+julgamos; parecia-lhe que era questão de simples bom senso, a que todo o
+homem medianamente educado póde chegar, e muita ferramenta e metralha que nós
+supomos apuradissima sciencia, deixava-a puramente a cargo da oficina.
+Guardava-se para aproveitar ou desprezar os inventos que as oficinas lhe
+ofereciam, segundo as relações de conveniencia ou inconveniencia que lhes
+encontrasse com os <span class="pagenum"><a id="pag_65" name="pag_65">[65]</a></span>muitos e variadissimos elementos sociais
+que iam tocar.</p>
+
+<p>«Para êste ultimo papel se destinava. E, como êle era uma coisa
+essencialmente humana, como a humanidade era o ponto ultimo de referencia de
+todos os progressos e invenções, o ensino das humanidades lhe bastava, o
+conhecimento do passado dos homens a inspirava, sempre confiando em que o
+melhor mestre da vida era a experiencia e da experiencia rezavam
+abundantissimamente os alfarrabios gregos e latinos.</p>
+
+<p>«Não direi que a gente saída das escolas classicas pensasse isto tão
+nitidamente, como hoje se nos apresenta. Mas sentia-o e punha-o em pratica, o
+que foi sem dúvida muito melhor e mais útil. Da sua utilidade colhemos nós os
+frutos, nós que, cheios de prosapia, emendamos, corrigimos e em grande parte
+abandonamos por supérfluo o ensino dos nossos pais&mdash;esse mesmo ensino
+que foi tanto ou tão pouco mesquinho, estreito e infecundo que deu de si uma
+transformação politica como a Revolução Francêsa, uma revolução literaria
+como o romantismo, e uma revolução industrial como a fábrica moderna.</p>
+
+<p>«O que todos nós poderemos verificar passando os olhos pela
+correspondencia vulgar dos homens daqueles tempos e daquelas escolas, é o
+primor de linguagem. Qualquer morgado das selvas mandava um recado ao feitor
+em termos mais concisos, mais claros e mais belos do que aqueles que hoje usa
+muitas vezes um professor <span class="pagenum"><a id="pag_66" name="pag_66">[66]</a></span>dirigindo-se ao reitor da sua
+universidade. Os documentos oficiais, a correspondencia entre as autoridades
+e a exposição de suas narrações e reflexões são pedra talhada e polida, duma
+finura de arestas em que não ha linha tremida ou apagada; as ambiguidades, as
+confusões, os pleonasmos, a arrastada negligencia de quem não sabe ao certo o
+que diz, eram provavelmente pecados tão graves que um fino instinto adquirido
+no correr dos séculos os evitara sem mais esforço. Escrevia-se bem;
+escrevia-se com clareza.</p>
+
+<p>«Adivinha-se a resposta da «sciencia». Virá clamar que o importante é
+saber, não é dizer. Cheira-lhe a rapé, a alfazema, a côrte e a convento esse
+cuidado na expressão. Aborrece-o por artificial, pretencioso e vão. Mas
+outros pretenderão que, se o bem pensar deve preceder o bem dizer, nem por
+isso deixa de ser certo que para bem dizer é necessario pensar bem, e
+emquanto apuramos a linguagem e procuramos os melhores termos e a melhor
+ordem, submetemos o pensamento a um minucioso exame, de caminho o corrigimos,
+acabando bastas vezes por lhe descobrir erros e faltas de logica que afinal o
+alteram profundamente e subvertem.</p>
+
+<p>«Por mais que o modernismo scientifico me pregue e fale das suas glórias,
+eu sempre me sentirei envergonhado das minhas desordenadas prosas perante o
+falar correntio e limpido dêsses velhotes fradêscos que em duas linhas sabiam
+dizer o que queriam dizer e por nenhuma outra <span class="pagenum"><a id="pag_67" name="pag_67">[67]</a></span>forma se podia
+traduzir mais lucidamente. E verificado o milagre e desejando repeti-lo, e
+convencido dos seus beneficios, não sei que haja modo de o reproduzir sem
+beber das mesmas aguas que o criaram.</p>
+
+<p>«Sómente me palpita que, por muito que nos apressemos na jornada, quando
+chegarmos á fonte já lá encontramos uma multidão. Tudo o anuncia. Felizes os
+que forem na frente.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><A name="SECTION00312000000000000000">II</a></h2>
+
+<p>Isto escrevi ha seis anos<A name="tex2html14"
+href="#foot303"><sup>14</sup></a>, e, se agora tenho a indiscrição de o
+desenterrar, não é para fazer registo, em meu beneficio, de antecipações, mas
+sómente para lembrar como vinha de longe aquela corrente de reacção contra o
+desvario do ensino meramente scientifico, da qual nas minhas breves tarefas
+de jornalista fui um passageiro e modestissimo interprete. Quanto então dizia
+não era meu; era do tempo. Hoje o encontramos no seu natural desenvolvimento,
+esclarecido e animado por uma experiencia terrivel, envolvido e singularmente
+revelado no conflicto das nações armadas e em guerra sangrenta, representando
+a Alemanha, pelos acasos da sua sorte, um gráu maravilhoso de cultura e
+organisação <span class="pagenum"><a id="pag_68" name="pag_68">[68]</a></span>scientifica, significando a França, com os povos
+que lhe estão aliados, aquela velha cultura classica que foi tida por
+insuficiente e ineficaz para realisar as aspirações modernas da civilização,
+e resultando da oposição destas duas correntes a necessidade de escolha e
+reforma dos principios fundamentais da educação.</p>
+
+<p>Um artigo magnifico, publicado no <i>Times</i> em fevereiro de 1917 e
+assinado por <i>Um oficial ferido</i>, põe em termos de perfeita clareza, que
+convém registar, esta dualidade em conflicto.</p>
+
+<p>São desse artigo estes periodos que vou transcrever:</p>
+
+<p>«A guerra pôs em evidencia certas alternativas espirituais; tornou-as
+inteligiveis encorporando-as em personalidade. Fez que muitos mil homens,
+inteiramente isentos de odio contra a Alemanha, preguntem:&mdash;O que é que
+na atitude alemã perante a vida ha que no-la torna intoleravel? Porque é que
+nós sentimos que a causa da França e da Inglaterra é a causa da
+humanidade?</p>
+
+<p>«Isto preguntam, e, se são francêses ou inglêses, (latinos ou latinisados,
+diremos nós), respondem que o que é intoleravel na Alemanha, o que pretere as
+multiplices excelencias do seu saber e espirito publico, é que ha nela
+qualquer cousa que grava sinais de morte naquilo que ela toca; qualquer cousa
+que é a antitese da individualidade, das aspirações pessoais e esforço e
+sacrificio espontaneo; um espirito que organisa os homens mas não os inspira,
+que os cultiva mas não os ama, que faz um estado poderoso <span class="pagenum"><a id="pag_69" name="pag_69">[69]</a></span>mas não faz uma democracia nem uma igreja, e que, emquanto os
+pecados caracteristicos da França e da Inglaterra são os dos homens,
+fraqueza, paixão e leviandade, os pecados caracteristicos da Prussia, como
+ela é hoje, são os do demonio, a arrogancia intelectual, a frieza do coração,
+e o desprezo pelo que é digno de piedade e amor, e ridiculo em a natureza
+humana... Temos de reconhecer que a luta real, de que esta guerra é apenas um
+episodio, não é meramente entre o nosso país (a Inglaterra) e qualquer cousa
+tão instavel e transitoria como a Alemanha moderna, mas entre as exigencias
+permanentes e irreconciliaveis da alma dos homens, e que o que tornou
+perigoso o espirito germanico é que ele não é alheio mas horrivelmente
+identico ao de quase todo o mundo moderno. Porque o espirito do imperialismo
+germanico é com demasiada frequencia o espirito do industrialismo inglês e
+americano, com todo o seu culto do poder como um fim só por si, com os seus
+padrões materiais grosseiros, a sua subordinação da personalidade ao
+maquinismo, o seu culto de uma organisação complicada e mortal para a alma; e
+o materialismo, que na Prussia se revela na adoração do poder do estado,
+revela-se na Inglaterra na adoração do poder do dinheiro.</p>
+
+<p>«Não é mais nobre este ultimo, é mais ignobil, porque é menos
+desinteressado que o primeiro. Não é tão violento, é mais maliciosamente
+corrupto, e, pelo que respeita á massa do genero humano, quase igualmente
+tiranico. <span class="pagenum"><a id="pag_70" name="pag_70">[70]</a></span>Mas, ou tome a forma de violencia militar ou a de
+cobiça mercantil, o espirito do materialismo é um só, e é um só tambem o
+espirito que lhe resiste.»</p>
+
+<p>«E, se nós sentimos que os direitos absolutos da personalidade, a
+conservação e desenvolvimento da liberdade espiritual, são dignos de
+sacrificio em tempo de guerra, igualmente sentiremos que são dignos de
+sacrificio em tempo de paz. Ora a esfera em que os direitos da personalidade
+mais claramente estão envolvidos, e onde o que os ameaça é mais evidentemente
+obra de motivos materialistas, é a esfera da educação.</p>
+
+<p>«A educação oferece, todavia, uma especie de <i>experimentum crucis</i>,
+uma conjuntura na qual se podem pôr em prova as causas pelas quais afirmamos
+ter pegado em armas. Pois, por fim, os meritos de uma guerra teem de ser
+julgados, não pela correspondencia diplomatica que a precedeu, não pelos
+esforços que se empregam para a ganhar, mas pela especie de civilização que
+dela deriva, pela habilidade do vencedor em estabelecer, não só sobre o
+inimigo mas sobre si mesmo, a autoridade dos principios pelos quais alega ter
+combatido.</p>
+
+<p>«Se, como nós pretendemos, a causa da Inglaterra é a causa de todas as
+mais altas possibilidades do espirito humano, então teremos de perpetuar essa
+mesma causa em as nossas instituições sociais, cujo caracter depende do
+caracter da educação que dermos aos nossos filhos e filhas.»</p>
+
+<p>Uma <span class="pagenum"><a id="pag_71" name="pag_71">[71]</a></span>calamidade sem nome obrigou-nos a preguntar á nossa
+consciencia para que é que criamos os filhos. Da resposta que ela nos dér,
+esclarecida pela mais cruel das experiencias, dependerão os fins e processos
+dessa criação.</p>
+
+<p>O que a experiencia nos diz, ao fim de quase meio seculo de educação
+impetuosamente scientifica, é que a vida imporia mais pelo que pensamos e
+sentimos, pelo repouso ou pela inquietação do nosso espirito, do que pelo que
+dominamos, compreendemos e possuimos, pelo que a nossa acção apreende e pelo
+que a nossa inteligencia alcança. É isto o que de todo temos trazido
+esquecido, naquela sujeição dos homens ás cousas que foi a paixão cega da
+educação scientifica moderna e da especie de cultura que ela produziu; e foi
+por muito evidente se haver tornado esta subalternisação dos valores morais
+perante as conquistas materiais que M.<sup>me</sup> Montessori, com uma
+penetração profetica, muito antes que a guerra o manifestasse pelas suas
+angustias, julgou que «o homem que tão maravilhosamente transforma o seu
+ambiente e curva o universo á sua vontade, não conseguiu transformar-se a si
+mesmo.»</p>
+
+<p>Nem se imagine que este modo de vêr é o preconceito tradicional do latino
+e seus derivados e afins, todos impregnados de aspirações de nobreza e
+heroismo, facilmente trocando o dinheiro e toda a riqueza e a propria
+existencia fisica pela dignidade do caracter e pela gloria. Além do Reno,
+onde a força criou o seu imperio e o administrou e acrescentou em menoscabo
+<span class="pagenum"><a id="pag_72" name="pag_72">[72]</a></span>de qualquer cousa eterea que teve por sentimentalismo e
+enfermidade, tambem o desengano encontrou os seus arautos. E Eucken, o
+filosofo cuja elevação de espirito e profundeza de inteligencia são de
+apreciar e respeitar em todo o mundo culto, sem embargo das paixões de
+patriotismo que o possam perturbar, não nega a falencia da utopia
+materialista. Discorrendo sobre <i>as experiencias da guerra e as exigencias
+do futuro</i>, confessou que a guerra revelou um predominio geral de egoismo,
+falsidade e cobiça entre todas as nações nela interessadas, mais largamente
+disseminado do que até aqui se suspeitára. Em seu conceito, a crença na
+bondade fundamental da humanidade recebeu golpes profundos. A Alemanha
+orgulhava-se do seu trabalho, mas este orgulho do trabalho, organisação e
+educação carecia talvez de cousas fundamentais da vida que ele preteriu; em
+vez de cultivar essas cousas mais profundas e imponderaveis, o alemão
+acrescentou ás ambições do trabalho as cobiças do prazer. Os desejos do corpo
+tomaram o logar dos desejos do espirito, e é essencial para uma nação a
+cultura do senso responsavel dos valores morais, o desenvolvimento de um
+sentimento que a habilite a distinguir entre o bem e o mal, entre o real e o
+ilusorio, entre a verdade e a falsidade, entre a grandeza e a mesquinhez.
+«Não hesitava em dizer que quanto mais cresceu a perfeição do trabalho, mais
+pequena se tornou a alma... Um homem tem de ser julgado unicamente pelo que
+de humanidade nele houver.» Quereria vêr <span class="pagenum"><a id="pag_73" name="pag_73">[73]</a></span>a nação mais
+ardente no apreço daqueles altos e grandes valores da alma, sem os quais
+nação alguma póde ser verdadeiramente grande, sem os quais nação alguma pode
+cumprir a sua missão no mundo.</p>
+
+<p>O desprezo a que chegaram esses «altos e grandes valores da alma», que são
+a medida da dignidade do homem, todos o sabemos e magoadamente o sentimos nas
+relações quotidianas ordinarias. De facto, a experiencia da guerra, embora de
+uma eloquencia suprema, era desnecessaria para reconhecer a miseria moral a
+que haviamos baixado; no comercio moral das sociedades ha muito se acumulavam
+os sinais de depressão. Visitassemos nós um liceu ou uma universidade,
+preguntassemos pelas suas aspirações aos rapazes que lá andassem, e este
+queria ser engenheiro, aquele queria ser medico, aqueloutro advogado, e ainda
+alguem preferiria ser comerciante, mas todos sonhavam proventos de muitos
+contos de reis e a isso referiam o valor da carreira. Nem um só nos
+responderia que a sua ambição era viver de pouco, honestamente, engrandecendo
+o espirito e servindo o proximo. Nenhum se dedicaria a professar naquela
+«classe de homens», de que Platão falou, onde disse que «é pequena, rara por
+sua natureza e o produto de uma educação ideal aquela classe de homens que
+voltam a face firmemente para a moderação, quando sentem uma necessidade ou
+um desejo, que são sobrios quando teem ensejo de fazer uma larga fortuna, que
+preferem os lucros moderados aos grandes.» <span class="pagenum"><a id="pag_74" name="pag_74">[74]</a></span>Mais uma vez
+podiamos dizer com o filosofo grego que «a massa do genero humano é
+exactamente o contrario, desmedida nas suas necessidades e insaciavel no
+desejo de arranjar dinheiro, quando tem ao seu alcance um proveito moderado.»
+Muito poucos encontrariamos nas escolas, se alguns tinhamos de achar, que
+estivessem inclinados a adoptar o preceito antigo que, «para sermos ricos,
+queria não que acrescentassemos as riquezas mas que diminuissemos as
+necessidades»; e muito menos tinhamos possibilidades de descobrir quem
+estivesse disposto a considerar o desengano do Evangelho e a preguntar «que
+utilidade ha para um ser humano em possuir o mundo inteiro se perdeu a alma.»
+(S. Mateus, c. 16, v. 26). As riquezas da terra constituiram-se em finalidade
+humana; não distinguindo mais o que se deve aos bens do mundo e o que devemos
+ás pessoas, as pessoas mudaram-se em instrumento da conquista dos bens do
+mundo, em vez de serem morada da beleza divina e do seu culto. A educação
+toda se enlevava no poder de servir a bolsa ou a vaidade, na arte eficaz de
+captar as cousas ou de possuir as almas.</p>
+
+<p>Não, não era a moderação platonica, nem a nobreza romana, nem o
+desprendimento, o que iamos buscar ás escolas. As vitorias alemãs de 1870,
+corroborando impulsos de uma filosofia materialista florescente, lançaram o
+mundo, a exemplo da Alemanha, na superstição ignominiosa e aviltante da
+riqueza, da força e da cobiça.</p>
+
+<p>Assistimos <span class="pagenum"><a id="pag_75" name="pag_75">[75]</a></span>agora á demonstração tremenda da inanidade
+dessa ambição. Vinha, porêm, de longe a desconfiança, e até a aversão, da
+cegueira da brutalidade divinisada, metodica e intencionalmente aprendida e
+cultivada. Desde o seu inicio, ainda quando ela imperava e crescia, de tal
+modo agravava, não direi já a tradição humanitaria, mas sobretudo o nosso
+modo de ser psicologico que, revendo a historia do seu nascimento e
+progressos, enxameiam as lembranças da primeira hora, quando Mathew
+Arnold&mdash;e basta para testemunho este agouro de um alto e sereno
+espirito&mdash;escrevia, em 1871, que «o imperio alemão seria apenas um
+despotismo doirado, politicamente fraco apesar do seu poder militar, barbaro
+apesar das suas escolas e universidades.»</p>
+
+<p>E vinha de longe a ameaça da preterição da civilização de qualidade pela
+civilização de quantidade. Com que clareza pressentiu a calamidade esse
+extraordinario espirito, que tanto engrandeceu o genio da França e que teve
+neste mundo o nome de J. Joubert!</p>
+
+<p>Em 1809, apreciando uma <i>Memoria sobre a Instrução Publica na
+Holanda</i>, já ele afoitamente exprimia apreensões que hoje se tornaram caso
+julgado por uma experiencia rematada em demonstrações dolorosissimamente
+irrefragaveis. «Aquela boa gente» que havia escrito a <i>Memoria</i>, dizia
+então esse notabilissimo pensador francês, «pensava que o fim da educação
+literaria é e deve ser, não tornar o espirito mais belo, o gosto mais puro, a
+percepção mais justa, a lingua <span class="pagenum"><a id="pag_76" name="pag_76">[76]</a></span>mais adornada, a alma mais
+delicada e a memoria mais feliz, mas sómente dar ao espirito «um maior numero
+de aptidões para toda a especie de conhecimentos.» Choravam o estado do seu
+país a este respeito: «Os estudos das matematicas, da fisica, da historia
+natural andavam ali muito desprezados. Os <i>auditorios</i> em que estas
+sciencias se ensinavam, eram pouco frequentados, mesmo quase desertos, em
+alguns logares. Disso coravam, e «não é isso, diziam, «o que o estado actual
+das luzes e da sociedade exige.» Para se porem pois de nivel com o estado
+actual das luzes e da sociedade, grande cavalo de batalha daqueles que, não
+encontrando nunca as suas razões no interior das cousas, porque têm o
+espirito pouco penetrante, procuram-nas sempre externamente, porque emfim têm
+olhos, desejariam eles que se ensinasse tudo á mocidade, mesmo á infancia,
+para a tornar capaz de saber tudo.»<A name="tex2html15"
+href="#foot304"><sup>15</sup></a></p>
+
+<p>O conflicto das diversas aspirações da educação, sentiam-no aproximar-se
+os homens superiores de ha cem anos. O que seria esse desapego da beleza do
+espirito e da delicadeza da alma, trocadas pela multiplicidade de aptidões
+tecnicas e pela abundancia do conhecimento da exterioridade das cousas,
+sabemo-lo nós agora. Despejadamente no-lo disse o prussianismo cultivado com
+esmero e consciencia durante cincoenta <span class="pagenum"><a id="pag_77" name="pag_77">[77]</a></span>anos e terminando por
+dar ao mundo o espectaculo de todas as desolações de uma brutalidade, no
+fundo da qual se distingue uma apostasia clamorosa e contente na sua soberba,
+a negação altiva do helenismo e do cristianismo que fundaram a civilização,
+foram o seu leite e são o seu sustento, a sua substancia.</p>
+
+<p>Em todo o acanhamento das minhas faculdades, mas em pleno vigor da
+sensibilidade, eu, que não posso gabar-me de haver sido <i>educado</i> no
+latinismo, porque não é educação que se tome em conta a arrastada e
+desordenada negligencia com que usamos passar pelas escolas, mas que fui
+<i>nascido</i> no latinismo, o que para a constituição psicologica sobrepuja
+a educação, não escapei ás apreensões de M. Arnold relativamente ao
+germanismo tumido de sciencia e tão minguado de humanidade. Em 1888, algum
+demonio me seduzia quando, passando por Berlim, escrevi nas minhas notas:
+«Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou nas mãos de uma
+vontade; só ela a move. A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram
+banidos; o povo vai taciturno e lento.» «A Alemanha, que Berlim nos mostra,
+afigura-se-me um elefante, a inteligencia e a força em um corpo informe. Toda
+a sua alma cristalisou nesta aspiração&mdash;ser forte, invencivel.»
+«Conseguiu ser forte. As doutrinas dos filosofos, de mãos dadas com o genio
+militar, alcançaram emfim dar-lhe uma rara força. Póde viver-se assim? É esta
+a ultima palavra da civilização, ou simplesmente uma gloria efemera, saida da
+coincidencia das <span class="pagenum"><a id="pag_78" name="pag_78">[78]</a></span>aptidões de um povo com as necessidades do
+momento historico? A Revolução Francesa, iniciando-nos no conhecimento dos
+direitos individuais, simultaneamente deu aos estados constituições que
+conduzem á fraqueza e impotencia politicas; a Alemanha mostrou-nos novas vias
+conduzindo ao pólo oposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados
+nas instituições derivadas da Revolução, só os nossos filhos poderão saber o
+que é um país educado na admiração da força. Todas as profecias serão
+prematuras, embora vagamente pressintamos que a civilização é mais alguma
+cousa do que a força.»</p>
+
+<p>Isto preguntei e era de preguntar ha vinte e nove anos. Hoje, porêm, toda
+a duvida cessou. Convencemos-nos de que a civilização tem de ser mais alguma
+cousa do que a força, e de que, por maior força de remexer a terra e dominar
+os seus elementos que ela atinja, negou a sua aspiração e atraiçoou-a, se com
+a força não coincidiu o desenvolvimento moral do homem e das sociedades,
+naquelas bases de amor, respeito, liberdade, desprendimento e generosidade
+que o genio greco-latino concebeu e fundou de uma vez para sempre. Guiados
+pelo passado e alvoroçados pelo presente, logo sabemos, sem a menor duvida ou
+hesitação, onde e como aquela aspiração de outrora rediviva ha-de
+realisar-se, por que meios hão-de criar-se e educar-se os homens que a hão-de
+servir e manter em corpo e acção.</p>
+
+<p>Entre a educação classica e a aspiração da dignidade sobrelevando a pura
+aspiração da força, ha uma relação intima e imediata. Aquele <span class="pagenum"><a id="pag_79" name="pag_79">[79]</a></span>mesmo Mathew Arnold que cedo nos acautelava contra a barbaria
+da Alemanha, prevalecendo «apesar das suas escolas e universidades», esse,
+distinguindo entre o estudo das letras, que «é o estudo da acção da força
+humana, da actividade e da liberdade humana», e o estudo da natureza, «que é
+o estudo das forças não-humanas, da restricção e da passividade humana»,
+julgou que «o fim e cargo da instrucção... é habilitar o homem a
+<i>conhecer-se a si e ao mundo</i>.»</p>
+
+<p>Imagino mesmo que só isto a que vagamente chamamos letras, e que afinal
+compreende toda a filosofia e toda a moral e estetica, imagino que só isto
+demandará cultura e é rigorosamente objecto de educação. A outra educação, a
+que na essencia é aprendizagem scientifica, essa, como a sciencia importa de
+ordinario alteração da condição material das cousas, depressa entra na
+categoria do facto quotidiano, e desse modo, por efeito de contacto e
+presença fisica, se torna de conhecimento inevitavel. As leis e progressos da
+fisica, da quimica e de toda a mecanica correlativa são faceis de conhecer
+desde que têm como resultado imediato e patente o para-raios, a maquina a
+vapor e o telegrafo e o telefone e os submarinos e os aeroplanos e toda a
+infinita mudança correlativa ou afim. São cousas que se vêem e não podem
+deixar de ser vistas e consideradas pelo seu volume e pressão continua. Os
+estados da alma é que não são assim palpaveis; a mais pequena obra de arte
+demanda, para ser compreendida e sentida, uma susceptibilidade fisica e
+mental que, a não ser em aptidões de <span class="pagenum"><a id="pag_80" name="pag_80">[80]</a></span>excepção, só por
+educação, só por uma insinuação persistente e adequada se alcança. E daí a
+diversissima natureza do ensino scientifico e da educação classica, senão o
+facto capital que faz que a educação seja propriamente aquela cultura
+literaria, moral e estetica que constitue a aspiração classica. O resto, com
+o rotulo espaventoso de sciencia, será porventura questão de conhecimento e
+ensino a acrescentar á educação, que é uma só, onde as exigencias
+profissionais o exigirem.</p>
+
+<p>Ora nós por demais estudamos a natureza e os modos e termos de a sujeitar
+e aproveitar em beneficio da força, e simultaneamente, e por demais tambem,
+desaprendemos as letras e os modos e termos de as converter em instrumento do
+conhecimento e disciplina da nossa alma. Entre agonias o verificamos. O
+desengano é profundo. E, ao senti-lo e na ansia de rehaver o perdido, de
+pronto a logica nas sugere os meios de resgate e nos manda voltar aquela
+antiga e segura estrada pela qual a Renascença caminhou, confundindo com boas
+razões em um só estudo o Humanismo, a cultura do homem, e a antiguidade
+classica, na qual essa cultura atingira uma beleza sem precedentes.</p>
+
+<p>Por certo, «não podemos reviver aquele mundo grêgo em que os poetas eram
+soldados, os politicos generais e cada homem um membro do parlamento. Nem o
+deveremos desejar. Mas podemos experimentar a apreensão de uma parte do seu
+espirito. Essa existencia, fossem quais fossem as suas faltas, não tinha a
+especialisação <span class="pagenum"><a id="pag_81" name="pag_81">[81]</a></span>dissolvente do mundo moderno. Ali ninguem era
+absorvido pelo seu comercio e pelo seu ganha-pão; um homem conservava-se em
+primeiro logar um ser humano e exercia as faculdades e experimentava os
+prazeres proprios da natureza humana. O artifice não se tornava uma maquina,
+nem o lavrador um vilão. O soldado, o mercador, o homem de letras não
+resvalavam no profissionalismo estreito. O historiador derivava das horas
+passadas nas assembleias e no campo o seu conhecimento da politica e da
+guerra. O poeta e o filosofo haviam estado em contacto com aquela natureza
+humana sobre a qual moralisavam e escreviam.»<A name="tex2html16"
+href="#foot300"><sup>16</sup></a> Evidentemente, uma nova constituição
+economica das sociedades e o seu proprio desenvolvimento mental determinaram
+adaptações e sujeições que nos forçam a ser diferentes do que fomos no mundo
+grego. Mas dentro dessa nova constituição subsiste qualquer cousa essencial
+que só a Grecia e Roma souberam penetrar, definir e fundar; subsiste aquela
+aspiração de perfazermos um tipo humano que atravez de todos os cataclismos
+humanos e cosmicos se mostrou eterno, intangivel, não susceptivel de melhoria
+ou correcção. Percorreu a Grecia toda a extensão do pensamento humano que até
+hoje nos tem sido acessivel, enquanto Roma experimentou&mdash;e essa foi a
+sua inexcedivel fortaleza&mdash;toda a extensão da disciplina <span class="pagenum"><a id="pag_82" name="pag_82">[82]</a></span>moral até hoje concebivel e realisada; e essas duas
+civilizações, conjugadas e ungidas pelo idealismo judaico, fundiram-se e
+completaram toda a forma superior da actividade humana em espirito e acção,
+deram o homem na sua integridade, e assim se tornaram a aspiração daquilo que
+chamamos civilização, ou melhor, a medida da civilização. O que se seguiu é
+apenas o processo do seu desenvolvimento, ora tumultuoso, ora coerente,
+regrado e continuo, ora crescendo, ora quebrando-se em depressões
+passageiras, mas jamais se desligando do seu impulso inicial e razão de ser,
+isto é, conservando em toda a contingencia, propicia ou adversa, a
+imutabilidade do seu fim e vontade. Nem mesmo cessa quando nos aterra um
+conflicto como esse que pôs o mundo todo em guerra. Pelo contrario, se temos
+serenidade de animo bastante para em meio da angustia apreciarmos os erros
+que a suscitaram, acharemos, como Eucken achou julgando o seu país e não
+obstante o fervor com que o ama, que todo o mal proveio de uma exagerada
+adoração da força fisica e de uma inadmissivel preponderancia das cobiças de
+uma animalidade insaciavel, ofendendo aquela integridade do homem na sua
+ponderação fisico-moral de que a Grecia e Roma nos legaram os exemplos
+sublimados.</p>
+
+<p>Por esta lição crudelissima voltaremos á educação classica, por ela
+seremos levados mais uma vez áquelas fontes de pureza de espirito de cujas
+aguas uma obcecada dissipação nos <span class="pagenum"><a id="pag_83" name="pag_83">[83]</a></span>tornou tão indigentes como
+sequiosos. Seja qual fôr a sorte das armas e o ajuste maquiavelico das
+chancelarias, ao fim encontraremos que a vitoria foi unicamente da
+civilização, dessa força constante que nos anima e é superior a todas as
+raças e a todas as nações, quer lhes julgue a prosperidade transitoria, quer
+as alente entre a decadencia a mais profunda. Porque os estados, seja qual
+fôr a sua capacidade politica, poderão disciplinar os povos, arregimenta-los
+para qualquer empreza de construcção ou demolição, mas não criam a
+civilização, que é uma aspiração psicologica etnica, prevalecendo sobre toda
+a contingencia e ressurgindo de todo o abatimento. Os povos servem a
+civilização conforme as suas aptidões, não a inventam; e serão nobres ou vís,
+vencedores ou vencidos, conforme a serviram bem ou mal, fiel ou deslealmente.
+</p>
+
+<p>Baptizar-nos nas fontes da vida que a antiguidade classica descobriu e
+onde miraculosamente se fortaleceu e engrandeceu&mdash;eis o verdadeiro
+inicio da civilização. E essa iniciação tornou-se tanto mais urgente quanto é
+certo que, chegados a um momento de vitorias esplendidas da democracia, o
+futuro das sociedades mais do que nunca deixou de depender da vontade e do
+caracter dos que governam, mais do que nunca se acha confiado á liberdade dos
+homens, e, por conseguinte, mais do que nunca tambem fica absolutamente
+dependente da capacidade moral desses mesmos homens. Esse futuro será ou uma
+orgia mansa, <span class="pagenum"><a id="pag_84" name="pag_84">[84]</a></span>quando fôr regrado, em que o zelo da boa
+distribuição e nivelamento das meras comodidades, tornando-se absorvente, só
+por essa absorpção avilta a nossa alma e a expõe ás degradações proprias da
+animalidade estreme, para as quais o alcoolismo é o sumo pontifice e o mais
+activo carrasco; ou um culto da beleza e da dignidade humana na sua
+integridade e gloria, para o qual a unica habitação conveniente são o templo
+em que Platão orou, e os logares em que o estoicismo se ouviu, e aqueles
+outros, altissimos, que a graça cristã ilumina. Fóra disto, o futuro das
+sociedades, por mais abundante e generoso que ele seja das diversas fortunas
+materiais que as constituições democraticas possam outorgar-lhes, não passará
+na essencia de uma brutalidade, mais ou menos feliz e duradoura, mas a breve
+trecho condenada a afundar-se na decrepitude, apodrecimento, vergonha e ruina
+que são o termo inevitavel de todas as brutalidades.</p>
+
+<p>Não são outras em materia de educação as conclusões da guerra. Nem a
+Alemanha escapa á sua evidencia e acção, embora por um instante se tivesse
+arvorado em apostolo da força. Não só os sinais de renovação são ali tão
+claros como em qualquer outra parte do mundo, mas o seu passado é garantia,
+aliás magnifica, da robustez do seu idealismo. «Um vento de loucura fez
+perder a cabeça a um povo forte, e julgou-se deus... não imaginando, posto
+que muito sabio seja, que esta infatuação da sua pessoa é precisamente o
+sinal de uma moralidade <span class="pagenum"><a id="pag_85" name="pag_85">[85]</a></span>inferior, de uma mentalidade de
+primitivos.» (A. Loisy). A Alemanha, que foi um lar sagrado da
+espiritualidade no seculo XVIII e ainda em grande parte do seculo XIX,
+tornou-se por uma fatalidade armazem de meras ideias, invenções e munições;
+os seus valores de alma, os que se davam e recebiam por amor, foram trocados
+por valores mundanos comerciaveis, pelos que se transmudam por dinheiro, ou
+se negoceiam por astucia e odio, ou se arrebatam por conquista. Mas cousa
+alguma induz a crêr no caracter incuravel da doença, nenhum sintoma póde em
+boa fé apontar-se que demonstre a corrupção insanavel daquela excelente
+materia prima, da qual foi feita, em tempos não remotos, a gloria espiritual
+da sua gente, e da qual tambem vieram á humanidade bens preciosos e
+inolvidaveis.</p>
+
+<p>Para as gerações que nos sucederem, nem sequer poderá ser surpreza uma
+reconciliação da Alemanha com uma parte daqueles que impetuosamente ela tem
+combatido, e uma reconciliação tão completa que lhe dê ingresso na união
+latina. As afinidades espirituais e historicas da Alemanha são muito mais
+proximas do mundo latino do que de qualquer outra especie de mentalidade,
+particularmente daquela que domina nas civilizações orientais e nas que com
+elas têm parentesco; a sua paixão presente da força, onde conciliação possa
+ter e não seja puramente uma rebeldia cega contra toda a insinuação de
+idealismo, mais de pronto encontrará termos de identidade na simpatia
+humanitaria activa, propria do <span class="pagenum"><a id="pag_86" name="pag_86">[86]</a></span>latinismo ocidental, do que
+no quietismo mistico e no desprendimento passivo que o Oriente infundiu e
+alimenta no slavo. De facto, mais de vinte e cinco seculos de historia
+demonstraram que não ha senão duas civilizações&mdash;a que cristalisou na
+sobriedade atica, na austeridade moral romana e na graça cristã, fundidas e
+disciplinadas, e a que vagueia nos arrebatamentos do Oriente, tão de pronto
+erguidos em extasis de desprendimento como inflamados na opulencia insondavel
+da sensualidade. É mesmo esta oposição de temperamentos e a diuturnidade dos
+conflitos que ela causa na ansia mutua de absorpção, na paixão violenta de
+transmudar o antagonismo em uma unidade politica e mental estavel, que de
+continuo esperamos e nunca chega, é esta atracção reciproca do Ocidente
+europeu e do Oriente, protelando-se em guerras infinitas e conquistas
+efemeras sem jámais lograrem unir e fundir suas aspirações originarias, é
+esta incompatibilidade até agora irredutivel, quer seja por amor, quer seja
+por despotismo, tudo o que tem experimentado e por muitos modos, é este
+confronto, de ordinario penoso e raro contente, que, mais do que as
+vicissitudes do desenvolvimento interno proprio dessas duas civilizações,
+constitue o drama supremo da historia da humanidade e suas epopêas. Até mesmo
+perante esse dualismo tragico, o que nestes ultimos quatro anos se tem
+passado no mundo e que nos seus males nos parece tamanho, não passará talvez
+de um acidente do desenvolvimento interno da civilização ocidental,
+porventura uma simples desproporção <span class="pagenum"><a id="pag_87" name="pag_87">[87]</a></span>entre a civilização de
+quantidade, por demais avolumada, e a civilização de qualidade, a necessidade
+de reduzir essa desproporção a termos de equilibrio consentaneo com os nossos
+fins, tradições e vontade.</p>
+
+<p>Não havendo idealismo de consequencias praticas fóra destas duas almas e
+não se concebendo a vida fóra de qualquer idealismo imanente, a Alemanha terá
+por fatalidade logica de se consubstanciar com uma dessas duas almas, e
+adivinha-se sem maior esforço para onde se inclinará, tanto mais que se sabe
+donde veio, onde foi buscar a trama da sua civilização.</p>
+
+<p>A experiencia da vida é, em uma larguissima extensão, a reducção ao
+absurdo de uma grande parte da propria vida; é um fabrico incessante de
+rebutalho de aspirações. O que na infancia se nos afigurou grande, não raro
+se mostra mesquinho na virilidade e detestavel na velhice; o que a creança
+cobiçou e achou belo, achou-o indiferente a adolescencia e despresou-o a
+idade da razão. Esta constante e progressiva revisão e eliminação de valores,
+que praticamente conduz á simplicidade e psicologicamente acrescenta e
+engrandece a espiritualidade,&mdash;isto constitue a civilização, se o
+consideramos na historia dos povos, e é por igual uma parte, e muito grande,
+da educação, se o observamos no desenvolvimento individual. A cultura e a
+educação do homem e das sociedades não são outra cousa senão o processo e a
+acção dessa revisão de valores iniciais, que teve o seu primeiro padrão <span class="pagenum"><a id="pag_88" name="pag_88">[88]</a></span>em Esparta e a sua ultima medida, e a mais alta, em Jerusalem,
+no Calvario.</p>
+
+<p>Perante esta lei de sucessão de valores, verificada na historia e de
+continuo renovada em nossa consciencia, aquilo que se passou no mundo nestes
+ultimos cincoenta anos, e de que a Alemanha foi o mais perfeito exemplo e o
+mais retumbante porta-voz, esta paixão de materialidades e a crença em suas
+virtudes, que para suprema eficacia deu a escravidão do homem perante o
+estado, a abdicação na abstracção perigosa e despotica que se chama o
+governo; essa ambição de força fisica, em cujos fundamentos alguem entreviu
+uma supersticiosa mitologia, não teria sido mais do que a expressão de um
+momento infantil do desenvolvimento dos povos civilizados, que o tempo ha-de
+corrigir pelos proprios impulsos do crescimento, tal qual está demonstrado na
+historia das nações latinas. Direi mesmo que quem observar com simpatia e
+serenidade o conflito de opiniões que a guerra inflamou, terá repetidas vezes
+encontrado entre os homens mais exaltados na admiração da Alemanha e dos seus
+feitos, até a defesa das crueldades da sua «cultura», caracteres da mais
+profunda pureza e da mais cativante ingenuidade. São crianças grandes,
+crianças excelentes, preciosa materia prima da bondade e da justiça, apenas e
+passageiramente dominadas pelo que melhor corresponde á pujança da sua
+juventude, naturalmente turbulenta, ainda avida de dominio, como é proprio da
+sua força, aprestando-se entretanto para aquelas eliminações que lhe hão <span class="pagenum"><a id="pag_89" name="pag_89">[89]</a></span>de transformar os impetos em anseios de liberdade e de
+desprendimento, visto que esta é a qualidade humana por excelencia.</p>
+
+<p>Demos pois ao tempo o que é do tempo, e, enquanto esperamos por dias menos
+agrestes, invoquemo-los pelo nosso esforço, por essa arte divina que as
+gerações glorificaram sob o titulo de educação classica.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p align="center">FIM</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="notas">
+<p><A name="foot278" id="foot278"></A><a href="#tex2html1"><sup>1</sup></a> <i>A Guerra. Depoimentos de
+Herejes.</i> (F. França Amado; Coimbra, 1915).</p>
+
+<p><A name="foot285" id="foot285"></a><a href="#tex2html2"><sup>2</sup></a><i>The European Anarcky</i>, (Allen &amp;
+Unwin).</p>
+
+<p><A name="foot144" id="foot144"></A><a href="#tex2html3"><sup>3</sup></a> N.º 2843, de 16 de abril de 1916.</p>
+
+<p><A name="foot286" id="foot286"></A><a href="#tex2html4"><sup>4</sup></a> J. Bryce. <i>The American
+Commonwealth</i>, 3.ª edição, vol. II, pag 788.</p>
+
+<p><A name="foot287" id="foot287"></A><a href="#tex2html5"><sup>5</sup></a><i>The World in Conflict</i> e
+<i>Questions of War and Peace</i>. (T. Fisher Unwin; Londres, 1915 e
+1916).</p>
+
+<p><A name="foot288" id="foot288"></a><a href="#tex2html6"><sup>6</sup></a>
+L. F. Hobhouse, <i>The World in Conflict</i>. Pag. 98.</p>
+
+<p><A name="foot289" id="foot289"></a><a href="#tex2html7"><sup>7</sup></a><i>The Ultimate Belief.</i> (Constable
+&amp; Company; Londres, 1916).</p>
+
+<p><A name="foot290" id="foot290"></a><a href="#tex2html8"><sup>8</sup></a>
+Clutton Brock. <i>L. c.</i> Pag. 105 e 106.</p>
+
+<p><A name="foot291" id="foot291"></a><a href="#tex2html9"><sup>9</sup></a>
+G. Lansbury. <i>Your Part in Poverty.</i> (G. Allen &amp; Unwin; Londres).
+Pag. 48.</p>
+
+<p><A name="foot292" id="foot292"></a><a href="#tex2html10"><sup>10</sup></a>
+Pierre Hamp. <i>Le Travail invencible.</i> (Edition de <i>La Nouvelle Revue
+Française</i>; Paris, 1916).</p>
+
+<p><A name="foot293" id="foot293"></a><a href="#tex2html11"><sup>11</sup></a>
+L. Tolstoi. <i>Journal intime, 1895-1910.</i> (Paris: E. Flammarion, 1917),
+Pag. 17. </p>
+
+<p><A name="foot294" id="foot294"></a><a href="#tex2html12"><sup>12</sup></a><i>The Herald</i>, 28 outubro de 1816.</p>
+
+<p><A name="foot295" id="foot295"></a><a href="#tex2html13"><sup>13</sup></a><i>The War and Democracy.</i> (Macmillan
+&amp; C.ª; Londres, 1915). Pag. 1 e 2 da <i>Introducção</i>, por A.
+Zimmern.</p>
+
+<p><A name="foot303" id="foot303"></a><a href="#tex2html14"><sup>14</sup></a>
+Na <i>Educação Nacional</i>, 2.ª serie, n.<sup>os</sup> 49 e 57, de 15 e 24
+de junho de 1911.</p>
+
+<p><A name="foot304" id="foot304"></a><a href="#tex2html15"><sup>15</sup></a>
+J. Joubert. <i>Correspondance.</i> (Perrin &amp; C.<sup>e</sup>; Paris,
+1914.) Pag. 190 e 191.</p>
+
+<p><A name="foot300" id="foot300"></a><a href="#tex2html16"><sup>16</sup></a>
+R. W. Livingstone. <i>A Defence of classical Education.</i> (Macmillan;
+Londres, 1916.) Pag. 77.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="indice">
+<h2>INDICE</h2>
+
+
+<p>
+<span class="numeracao">Pag.</span><br>
+<a href="#pag_V">Prologo <span class="numeracao">V</span></a>
+<br>
+<a href="#pag_1">Do que o fogo não queima <span class="numeracao">1</span></a>
+<br>
+<a href="#pag_57">Valores restaurados&mdash;Renascimento da educação classica <span class="numeracao">57</span></a>
+</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><A name="SECTION00313000000000000000" id="SECTION00313000000000000000">DO
+MESMO AUTOR</a></h2>
+<ul>
+ <li>Sonho de Perfeição, 1901, romance. </li>
+ <li>Vozes do meu Lar, 1902. </li>
+ <li>Na Paz do Senhor, 1903, romance. </li>
+ <li>Reino da Saudade, 1904, romance. </li>
+ <li>Via Redemptora, 1905. </li>
+ <li>Apostolos da Terra, 1906. </li>
+ <li>S. Francisco d'Assis, 1908. </li>
+ <li>José Estevão, 1909. </li>
+ <li>Alexandre Herculano, 1910. </li>
+ <li>Rogações de Eremita. </li>
+ <li>Salmos do Prisioneiro, 1915. </li>
+ <li>A Guerra, Depoimentos de Herejes, 1915. </li>
+</ul>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Do que o fogo não queima, by
+Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA ***
+
+***** This file should be named 26914-h.htm or 26914-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/6/9/1/26914/
+
+Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização
+disponibilizada pela bibRIA.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>