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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:33:00 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Newton: Poema + +Author: José Agostinho de Macedo + +Release Date: October 8, 2008 [EBook #26848] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NEWTON: POEMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +NEWTON, + +POEMA + +POR + +JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO. + + +LISBOA, + +Na Impressão Regia. Anno 1813. + +_Com licença._ + + + + + _Sciscitanti cælestium causas, domesticus_ + _Interpres._ + + Seneca, Cons. ad Marcian. + + + + +PROEMIO. + + +O Mundo deve aos Conquistadores desgraças, lagrimas, e lutos; o Mundo +deve a Newton verdades, sciencia, e luzes. Se inquietar os homens tem +merecido tantas Epopéas, porque não merecerá hum Poema quem illustra, e +quem ensina os homens? Ah! se chegará o tempo de se conhecer, que huma +penna he mais util que huma espada! Canta-se com enfasi quem conquistou +huma Provincia, e porque não ha de ser cantado aquelle de quem se póde +dizer, que conquistára a Natureza, obrigando-a, á força de estudo, e +engenho, a revelar seus mais reconditos arcanos? He preciso que +conheçamos que o Imperio da Poesia tem limites muito mais extensos do +que até agora se julgava; e eu creio que o seu melhor emprego he a +contemplação, e a exposição deste sempre antigo, e sempre novo quadro, +que se chama a Natureza. A simples intuição de seus prodigios, e o +estudo destes mesmos prodigios, dilata, e accende mais a imaginação +do verdadeiro Poeta, que todas as chamadas grandes acções dos +Conquistadores, ou perturbadores da Terra. Se o homem só se deve chamar +grande, quando he verdadeiramente util aos outros homens, quem poderá +pôr em dúvida que os descobrimentos, e as mesmas hypotheses de Newton +sejão mais uteis aos mortaes do que as expedições da Cruzada, que derão +a materia ao Poema de Tasso? Quem illustra a humanidade he maior que +quem a diminúe. Newton merecia hum Poema, as Musas lho devião, eu +satisfiz esta divida; se a satisfiz bem, a critica o dirá; em quanto aos +miseraveis reparos da escura Inveja, prepare-se esta, porque a mesma +chamma, que se me desprendeo n'alma para cantar Newton, me obriga a +consagrar igual tributo de louvor a Buffon. + + + + +NEWTON, +POEMA. + + +CANTO I. + + Já da Aurora ao clarão suave, e puro + Cedia o campo azul do immenso espaço + D'estrellas recamada a noite umbrosa; + Nuncia do dia, ás lucidas esferas, + Da luz primeira undulações mandava. + Das mãos de neve, e do purpureo rosto + Brancas brilhantes pérolas cahião + No verde esmalte dos rizonhos prados; + De ondas immensas de escarlata, e d'ouro + Era o ceo do Oriente envolto, e cheio; + E pelo espaço liquido dos ares + Os adejantes Zéfyros das azas + Da manhã fresca os hálitos soltavão; + E a vaga turba aligera nos bosques, + Dava o tributo dos primeiros hymnos + Da Natureza ao renascente quadro. + Quasi rompia o flammejante disco, + Que onde soberbo, e vívido fulgura, + Prazer espalha, e graças aviventa, + E mostra em luz envolto o Mundo ao Mundo. + Depondo o pezo do voraz cuidado, + (Amargo pezo da existencia minha!) + Eu no prazer do esquecimento envolto, + E, á desgraça esquecido, então pousava. + Do doce somno em balsamos immerso, + Somno em que meiga a Natureza furta + Á existencia mortal trabalho, e magoa; + Eis-que sinto levar-me...(e como, e onde + Eu não posso dizer.) Voei nas azas + De arrebatados extasis sublimes. + Sonho, sonho não foi; que mil confusas + Na fantasia imagens apresenta. + Extasi foi sómente, e arrebatado + Eu fui de hum Genio habitador do Olympo, + Que ao pensamento do mortal qu'indága + Abre do eterno arcano eternas portas, + E, n'hum centro de luz, lhe mostra o immenso + Da Natureza o variante quadro. + Do Grande Scipião dest'arte á vista + Talvez n'hum tempo se mostrasse a Gloria, + Que a prosseguir na bellicosa estrada + Lhe manda, e lhe descobre o alto destino, + Que aniquilla Carthago, exalta Roma. + Já pizo o aereo cume, e a luz brilhante + Auri-luzente se diffunde, e espalha. + Como do meio do profundo Oceano + Costuma alçar-se desmedido escôlho, + Que vê quebrar-se nas eternas bazes, + Já languida, e sem força onda espumante: + Se olha do cume as voadoras nuvens, + E os ressonantes tumidos chuveiros, + Se ouve o horrendo fragor do accezo raio, + Sereno permanece, e sente apenas + Que a triste escuridão nas faldas pousa; + E onda, e vento debalde a baze açoita. + Assim eu, levantado á immensa altura, + Hum ar tranquillo e puro, e luz mais clara + Bebo em torrentes, e descubro apenas + Grossas nuvens pousar na Terra inerte. + Eis no gremio da paz serena, e doce, + Se me antolha pizar de Heróes o alcaçar, + Extatico bradando, ah! não, por certo, + Pode ser este o terreal assento! + Hum céo sereno, e Primavera eterna + Celestes flores, e não vistas plantas, + E, cheios de prazer, bosques sombrios, + D'aguas mais puras borbulhantes fontes, + Não por certo não tem mesquinho Globo! + Sem véos aqui contemplo, aqui descubro + Essa invisivel fluida substancia, + Que em torno fecha, e que circunda a Terra; + Que em si nuvens contém, contém vapores; + Que em si tantos fenómenos acolhe; + Que he necessaria tanto, aos sons, á vista, + Ao fogo, á vida, ás arvores, ás plantas! + Ó da Divina mão alto, infinito + Poder nunca entendido! Se a atmosfera + Não refrangesse a nós do Sol os raios, + Não se virão brilhar n'azul campina + Em distancia infinita immensos astros: + Nem o doce crepusculo se vira, + Ou quando o mesmo Sol s'esconde, e fóge, + Ou quando n'horizonte inda não surge, + Mas debil raio matutino espalha. + Se volvo aos ceos extático meus olhos, + Vejo proximo o Sol, da luz origem; + O pelago de fogo, a ardente massa, + De que he composto o fulgurante corpo. + He elle o fixo, o luminoso ponto, + Elle o centro commum qu'em torno cercão, + Sem cessar gravitando, aureos Planetas, + A Lua já descubro, e vejo os mares, + Os largos, fundos, procellosos rios, + Que parecem, da terra, obscuras manchas, + Quando a vista de lá nos ceos espalho. + Ilhas descubro, altissimas montanhas, + De cujas frentes escabrosas desce + A luz reflexa, que da Terra eu vejo, + Luz que lhe empresta o fulgurante globo, + Origem della, e do calor origem. + Seu móto vario, e desigual contemplo + Com que mostra em seu gyro incerto o rosto; + Talvez proceda da diversa, e forte + Visivel atracção do Sol, e Terra, + Do eixo obliquo em que se agita, e móve. + Mais vivos que os Planetas, mais brilhantes + Em viva luz aos olhos se offerecem + Em sempre incerta, e variante fórma + Tão vastos, tão excentricos Cometas, + Tardios em mostrar-se, e sempre infaustos + Á vil superstição do vulgo insano, + Agoiro triste aos pálidos Tyrannos! + São duraveis, e sólidas substancias; + Da mão do Eterno Artifice são obras. + O Nada as produzio, quando na origem + Do Mundo lhe mandou, que fosse tudo. + Não quaes ousou julgar rude ignorancia + Ligeiros fogos de temor objectos, + Sem orbitas, sem leis, sem marcha, e centro. + Quantas contemplo lucidas estrellas! + Quantos Astros centraes! Quão luminosos, + Quantos, quantos satéllites velozes + Em torno delles caminhando eu vejo! + Em tão diversos, tão distantes corpos, + Tão varios entre si, tanta harmonia! + Minha alma se confunde, e se deslumbra + Debil vista mortal. Tudo me opprime, + Eu só prodigios, só milagres vejo! + Entro no abysmo do silencio, e fico!... + Qual o que sóbe do Apenino ao cume, + E alonga os olhos pelo immenso plano, + Onde outr'ora s'ergueo Latino Imperio, + Vastas Cidades vê, ferteis campinas, + E os restos immortaes do fasto, e gloria, + Que inda em quebrados marmores avulta, + Vê longos rios retalhando os campos, + E do Tirrheno mar, d'Ádria nas ondas + Vê náos altas rasgando o dorso a Thetis. + Depois que ávida vista em scenas tantas + Hum pouco apascentou, turvado, absorto, + Dentro em si mesmo se concentra, e fica + Vastas idéas revolvendo, quantas + Da Natureza, e da Fortuna os quadros + A seus olhos atónitos mostrárão: + Assim eu vejo em quantidade immensa + Surgir das aguas, levantar-se aos ares, + Pelos raios Febeos como attrahidas, + As humidas porções já rarefeitas; + Mais ligeiras que o ar, no ar fluctuão; + Nellas a vida tem, nellas se fórmão + A nuvem densa, as nevoas importunas, + Que, com diversa reflexão de Apóllo, + Que em seu seio refrange o accezo raio, + Variante espectaculo me amostrão. + Dos rarefeitos ares eu descubro, + Que os ventos nascem, (portentoso arcano, + Por tantos, tantos seculos occulto!) + Os inconstantes milagrosos sopros, + (Da bemfazeja Providencia hum grito!) + Pelo inquieto campo do Oceano + Levão de hum Polo a outro ousados pinhos. + Equilibrado o fluido dos ares, + Não os oiço bramir!... Mas quem perturba + A dilatada calma, a paz tranquilla? + Quem rouba ao ar pacifico equilibrio? + Talvez, talvez, que, exhalações rompendo + Do terreo globo, e tenebrosas furnas, + Ou sobre o eixo a rotação diurna + Da Terra seja do prodigio a fonte! + Eis com elles se agitão, se misturão, + As espalhadas fluctuantes nuvens; + Do agudo frio comprimidas, tornão + A seu terreno, e primitivo berço. + Em chuva salutar desfeitas descem; + Ou, se o frio he maior, candidos vélos + Do brando vento conduzidos cobrem + No triste Inverno o campo amortecido; + Ou nas miudas condensadas gotas, + Pelas douradas messes espargidas, + Ao desvelado Lavrador só trazem, + Depois de longo afan, tristeza, ou pranto. + Vejo o accezo relampago medonho, + Oiço o horrendo trovão, vejo o espantoso + Trilho abrazado do sulfúreo raio, + Nada a meus olhos se me esconde, nada! + E já de enxofre, de bitume, e nitro + De ácido sal, de alcálicos diversos + Grosso vapor subindo eu vejo aos ares. + Foi do Sol attrahido, o vento o leva; + Com violento impulso então fermenta, + Prestes se accende, subito nos manda + Essa palida luz sempre seguida + D'alto fragor, que faz tremer nos eixos + Timido o Mundo, e precursora he sempre + Da chamma rapidissima, que desce + Com pavoroso estrepito, e que abate + Quanto voando na carreira encontra. + De aspecto muda do vapor a massa, + Nem sempre he raio estrepitoso; eu vejo + As agudas Pyramides, as Traves, + A Seta aguda, o flamejante Drágo + E as que se mostrão lúcidas Estrellas, + Que accezos trilhos n'horizonte deixão; + E esse, usado a brilhar no algente Pólo, + Sem calor vivo, sem substancia hum fogo, + Huns restos são maravilhosos, bellos + Dessas de luz undulações pasmosas, + Que detidas do ar no immenso seio + Fórmão brilhantes Boreaes auroras; + Ao lúcido horizonte em parallela + Linha se mostrão, se mais baixas correm + Ou, n'hum centro commum, s'unem subindo + Até que extinctas as porções sulfureas + Pouco a pouco do ar desapparecem, + Deixando apenas ao gelado Norte + Hum suave crepusculo brilhante. + Se volvo a vista n'outra parte, absorta + De multi-forme côr descubro a nuncia + Da sempiterna paz, Iris formosa, + Que a doce reflexão dos aureos raios, + Unida á refracção sobre miudas + Da fria chuva transparentes gotas, + A septi-forme côr prontos lhe imprimem. + Quantos, quantos fenomenos pasmosos + A luz reflexa nos produz nos ares! + Em tanto objecto o pensamento fixo, + Em tanto objecto extaticos meus olhos + Grandes idéas me despertão n'alma! + Eu, de augusto silencio em sombras fico! + E só do centro de meu peito exhalo, + Não os ais da afflição, do assombro o grito. + Eu sinto, eu sinto hum Deos; não foi do Acaso + A milagrosa producção do Mundo! + Obra só foi do Artifice supremo: + Hum rio origem tem, o effeito causa. + Tantas estrellas lucidas dispersas + Nesta estendida cúpula azulada, + Esta Lua, este Sol, o dia, a sombra, + (Constante alternativa;) a luz, e os ares + São cifras com qu'escreve a mão suprema + De hum Ente Summo, Sapiente, Immenso. + Na flor, na planta, no mimoso fructo, + Nos rostos varios, e animaes diversos, + Nos sons, nas côres, na minha alma o vejo, + Almo thesouro da Clemencia eterna. + Ella enriquece a Terra, e a vejo em tantas + Tão varias producções na especie eternas: + D'alta grandeza sua eu sinto a prova + No fundo abysmo dos extensos mares, + Nos Ceos immensos, na pezada Terra + Seu Divino saber, tremendo adoro + N'alma belleza dos mortaes objectos, + Nas leis eternas dos celestes corpos + Os caracteres luminosos vejo + D'hum Concelho immortal que rege o Todo, + Na exacta proporção dos fins, dos meios, + Que do visivel Mundo o quadro ostenta + Tudo, tudo me diz qu'hum Deos preside + Monarcha immenso de infinito Imperio. + Á luz ordena que me aclare, e manda + Ao ar que me sustente, e a vida aspiro. + Elle o calor produz, que o vital germe, + Em successivas gerações conserva: + Elle o dia formou, nelle ao trabalho + O mesmo Rei da creação destina: + Elle a noite produz, com ella em sombras + Da fria Terra a machina sepulta, + Em que o corpo mortal restaure a força, + Com que ao surgir da matutina Aurora, + Torne ás fadigas, aos cuidados volva. + Porque discorro, existo, e eu sinto dentro + De mim que penso sensações diversas. + Quando o incorporeo ser d'alma contemplo + Vejo huma imagem do Motor supremo, + Que quiz que eu fosse a similhança sua: + E não direi, que me sustenta, e rege + Hum Ser universal, hum Nume Eterno? + Ah! da materia o movimento o mostra! + Ella inerte de si, da inercia sua + Não podéra sahir sem braço Eterno, + De cujo impulso o movimento nasce. + Em taes idéas concentrado estava + Sem olhos despregar do quadro augusto; + Que sempre he novo, e bello, e sempre antigo; + Livro do estudo meu, delicias minhas; + Eis-que descubro no mais alto cume + Do fulgurante Olympo erguido hum Templo, + Cuja sublime estranha architetura + Nem alma a concebeo, nem olhos virão. + De lúcido crystal, alto esplendente + Se levantava altissima fachada; + Arcos, columnas, architraves, tudo + De pedraria oriental se fórma, + Onde huma luz celestial batendo + Derramava reverberos brilhantes: + A magestosa cúpula fulgura, + Qual de Narsinga o diamante fulge. + Quem dá força a meu estro, e quem sustenta + Meus temerarios sobrehumanos vôos? + Como á Verdade franquear eu devo + Té agora as bronzeas ferrolhadas portas + De crença, a cuja luz não seja avára + A turba indocil do inconstante vulgo? + Longe, longe, ó profanos! Se tu reges, + Se tu mesma, ó Verdade, o canto animas. + Se me encordôas Cithara toante, + Para o Templo celeste apresso o passo, + E não receio de mordazes linguas + O golpe fundo, o livido veneno. + No peristilio magestoso, e vasto, + (Eu não distinguo se he mulher, se he Deosa) + Então descubro, que volvendo os olhos, + Em mim pronta os fixou como se ha muito + Naquella Estancia me aguardasse; estende + Formosos braços, e me aperta ao seio. + Soltando a voz angelica me exclama: + Escrito estava no volume arcano + Do immobil Fado, que no Templo entrasses, + Que a Sapiencia levantou no Olympo. + Tu, separado dos mortaes enganos + Da vaidade, que domina o Mundo, + E dando ás Musas o fervente engenho, + Que á grata sombra dos sagrados louros + As horas ganhas da voluvel vida, + E o grão thesouro de profundo estudo + Buscas constante, e com trabalho ajuntas, + Soffrendo o longo afan té quando a sombra + No vasto seio involve o inerte globo: + Hoje das mãos da Sapiencia o premio + Tu deves receber, teu genio enchendo + Não de verso suave, ou brandas rimas, + Com que do mar o vencedor tu cantas, + Que as portas abre do vedado Oriente, + Qu'a Patria d'honra encheo, de gloria o Mundo, + Mas d'excelsa verdade ao vulgo ignóta. + De seus olhos a Deosa amor respira; + Mas tal amor, que penetrava o peito + Sem perturbar do entendimento o lume, + Qual ser costuma entre os mortaes, se he grande! + Eu tinha fitos no seu rosto os olhos, + Com celeste prazer toda a minha alma + Em doces chammas ondear sentia; + A Deosa o conheceo, quer mudo, e quasi + Abstracta estava, e do sentido alheio. + Solta hum surrizo dos purpureos labios + E assim começa a me fallar benigna. + "Tens cheio o coração de ignoto fogo, + A quem mortaes no Mundo amor chamárão, + E a quem puro prazer nos Ceos se chama. + Este puro prazer do gozo alheio + Tóma força, e principio, e tudo a todos + Se apraz de ser, e se derrama inteiro. + Do privado interesse ignora a meta, + E, nem se muda, nem se altera, como + Tantas vezes no Mundo amor se muda. + O proprio amor aos corações innáto, + Que a todas as paixões qu'o peito agitão + Se amolda sempre, e se transforma nellas. + He transvestido amor vossa esperança; + Amor he pertinacia, Amor he magoa; + Amor são todos os prazeres vossos; + De Amor o movimento, os accidentes, + Considerados, são paixões diversas. + Na origem, quando nasce, Amor se chama; + Quando do peito sahe, quando se expande, + E busca unir-se ao suspirado objecto, + Chama-se então desejo; e vigoroso, + Já seguro de si, firme em si mesmo, + Se as azas solta, e se remonta, e sobe, + O nome tem de vivida esperança. + He constancia, se, obstáculos vencendo, + Na mesma opposição mais força adquire. + Quando aos duros rivaes declara guerra, + He sempre Amor; mas chama-se ardimento, + Mil vezes a si mesmo elle se esconde; + Mas neste raro sacrificio he sempre + No altar do coração victima, e fogo, + E Sacerdote Amor, que em si transforma + Quantas no Mundo vê paixões diversas. + Mas tempo he já que teu desejo abaste, + E te descubra o portentoso Templo, + Onde benigno te conduz teu Fado. + Esta, que vêz alçar-se, augusta móle + Encerra dentro em si Filosofia: + Altares alli tem, do monte excelso + Genio a tem feito tutelar os Numes: + Sacerdotes são seus, são seus Ministros + Esses engenhos transcendentes, vastos, + Que tão raro entre vós asylo encontrão, + Sustento, protecção, respeito, escudo. + A Fadiga sou eu; nome tremendo + A quem d'hum ocio torpe os braços busca, + E na mole indolencia a vida exhaure: + Mas he doce o meu nome a quem Virtude, + A quem Mérito apraz. Segue-me, ó filho, + Entra comigo os pórticos do Templo." + Que gélido suor me banha a frente! + De vêa em vêa penetrante frio + O curso ao sangue fervido entorpéce! + Tremi confuso, e vacillante o passo + Entre contrarios pensamentos movo? + Vi que de Icaro o vôo, a acerba queda + Desse soberbo, e deslumbrado moço, + Que mal regera ignípedes Ethontes, + Eu hia a renovar. Meu alto assombro + Descobre a Deosa, e se doeu de ver-me; + A mão benigna me estendeo, susteve + No meio já do pavimento augusto. + Dentro era d'ouro o consagrado Alcaçar, + De azul celeste a cupula esmaltada, + Onde brilhantes lucidas estrellas, + Quaes Safiras finissimas, se engastão; + Oriental Pyrópo o chão lhe fórma; + E nas paredes (mão divina!) expressas + Admira a vista insólitas pinturas, + Quaes nunca Rafael, quaes nunca ousara + Traçar pincel de Rubens portentoso. + Aqui se vião nos incultos bosques + Ir errando os mortaes sem lei, sem freio, + E quasi extincto o luminoso facho + Da celeste Razão, preza entre sombras. + Alli se admirão simplices viventes + Rudes choupanas levantar primeiro + De annosos troncos, e de seccas folhas, + Onde, quaes féras nos covís, s'escondem + Das injurias do ar, do vento aos sopros. + Neste estado infeliz de hum Mundo inculto + Se dá principio á sociedade humana: + A primeira familia alli se ajunta + A rotear começa o campo agreste. + Nella o pai foi Monarcha, até foi Nume, + Da sapiencia, e da razão guiado, + Alli juntava Sacerdocio, e Reino. + Os Ceos interpetrando as leis promulga, + Que o bem commum da sociedade buscão, + Não era a Sapiencia obscura, e arcana, + Destes primeiros pais, mas doce, e clara + Abria o Templo da vulgar Virtude. + Deste humilde principio, e tão pequeno, + Surgio de Roma o desmedido Imperio; + D'huma cabana s'estendeo no Mundo. + Alli Romulo, e Numa as leis dictavão, + Ao novo asylo universal chamando + Do antigo Lacio indigenas incultos. + Além se via progressivamente + Multiplicar-se sempre a especie humana: + Mas passou mui depressa a idade d'ouro! + A ferrea começou, e além se via + Ir o robusto agricultor rasgando + Com ferreo arado o seio á terra inculta; + Sobre ella s'entornou suor primeiro. + D'estranho tronco as arvores s'enxértão: + Corta-lhe a foice os ressequidos ramos. + Se falta a Natureza, a industria suppre; + Pois quanto as plantas por seu proprio instincto + Ajudadas do Sol, ferteis co'a chuva + Nos espontaneos fructos produzião, + Á humana precisão já não bastava. + Então das cultas, pampinosas vides, + Se tirarão primeiro os dons de Brómio: + Então luxo ensinou tingir por fausto + Co'a preciosa purpura de Tyro + Do verme industrioso a tenue baba. + Se a relva dava então tranquillos sonos, + Á sombra qu'espalhava o Freixo annoso, + E se estancava a sede á lynfa pura + Do serpeante límpido regato; + Vélos se arrancão do innocente armento, + Que ao cançado mortal repousos prestão; + E o liquor salutifero se apúra, + Que restáura o vigor no inerte corpo. + Por buscar novos, escondidos Mundos, + Da nativa montanha então se virão + Cortados abater-se o Chôpo, a Faia: + Já vem nas ondas contrastar co'os ventos. + Para ajuntar as peregrinas merces, + Lá vai duro mortal soltando as vélas, + No elemento não seu, do vento ás iras; + Mortal té agora ingenuo, e qu'outras praias + Não tinha visto mais, qu'as do tranquillo + Regato que lhe corta os patrios campos. + A guerra assoladora, a guerra infausta + Era ignota até alli, e em tristes côres + Alli se via a fervida peleja. + Na bigorna se bate a horrenda espada; + Em dura lança além s'alonga o ferro + Mais avante s'erguia o forte muro; + As torres hião topetar co'as nuvens. + Gozava a antiga gente ocio tranquillo: + Ah! que Furia infernal, que monstro horrendo + Trouxe do escuro Inferno o facho accezo? + Que nuvem se elevou sangue estilando? + A raiva, o odio, a inveja o braço alçarão. + Primeiro a Ingratidão nas mãos levanta, + O ferro atroz, sanguinolenta espada; + E peito a peito, d'ambição levado, + Se combate o mortal; chamou-se gloria + Esse furor brutal, que avilta as feras, + Que poupão por instincto a propria especie: + Tudo foi sombra, e confusão no Mundo. + A raiva universal, honra se chama; + Tanto do humano coração se apossa + Que julga estado primitivo a guerra! + Augmentão-se as nações, o estrago cresce: + Sempre o furor de dominar triunfa. + O que era o pai, o Sacerdote, o Nume + Da primeira familia, he já Tyranno! + De fero aspecto debuxado estava + Sanguinario Nembrot qu'ergue seu throno + Sobre o pescoço das nações em ferros. + A Terra se povôa, o facho accezo + Não s'extingue jámais nas mãos das Furias, + Se hum throno se levanta, outro se abate. + Nos mais remotos angulos do Mundo, + Onde existem nações, a guerra existe. + Mas entre tantas retratadas gentes, + Que o ferro tem nas mãos, no aspecto as iras, + Eu vejo estar em solitario alvergue + Pensativos mortaes, longe, e mui longe, + Em doce paz, do estrepito, e tumulto. + Ao ar, ao portamento, á vista, ao móto, + Subito conheci, que os sabios erão, + Que as sempiternas leis da Natureza + Em pró dos outros conhecer tentárão. + Com pertinaz estudo, e prompto engenho, + No grande livro do Universo estudão, + E com pasmosa distincção contemplão + Tão formoso espectaculo, tão vario. + C'os labios semi-abertos, os immoveis + Olhos pregados tem no ethereo assento, + Como que vão buscando o immenso, e certo + Eterno gyro dos rotantes astros. + He esta a ocupação, este o deleite + Do cobiçoso pensamento altivo, + De assombro os enche maravilha tanta; + Curiosidade da ignorancia he filha, + Tão propria, e tanto da mortal essencia; + Sómente ella produz sabedoria, + Quando o veloz enthuziasmo atêa, + E quando observa desusado effeito + Da Natureza, ou Ceo, corre anhelante, + Corre prompta, interroga, observa, indaga, + E tenta descobrir quanto se off'rece + A seu ouvido extatico, a seus olhos: + Vai dos effeitos penetrando ás causas. + Tal presupposto foi de antigos Sabios, + Das cousas todas indagar as fontes. + Da sciencia o amor, o amor do estudo, + Entre os Sabios se diz Filosofia. + Curiosidade, e ocio, á Deosa derão + (A quem he consagrado o Templo) a essencia. + Ás inda feras indomadas gentes, + Mal acolhidas na choupana humilde, + Communicou seus raios luminosos. + Fez-lhes vêr de si mesma a imagem pura, + Apenas observou que accezos olhos + Na abóbeda dos Ceos apascentavão, + Do sempiterno braço contemplando + Essas sem fim maravilhosas obras. + Depois que em tanto quadro a vista absorta + Acabei de deter, novos objectos, + Minha alma toda subito me levão. + Eis esculpidas novas maravilhas, + Nos aureos muros assombrado vejo. + Sobre hum turquino fundo auri-luzente + Fixas sempre n'hum ponto estrellas brilhão, + A cujos lumes, trémulos, suspensos + Pelos bosques Caldeos vejo os pastores, + Imprimindo signaes na mole arêa, + Da sabia Geometria as leis primeiras. + (Dura, afanosa sapiencia, quanto + Tu sabes levantar o engenho humano!) + Co'a frente envolta em sombra além correndo + Eu vejo o vasto fluctuante Nilo + Do pingue Egypto os campos retalhando, + Vejo-lhe em torno industriosa gente + Medindo-lhe a compasso ás turvas ondas, + Esperando que o Ceo constante, e meigo + O retorno annual decrete ás aguas; + E, em quanto o interesse, em quanto o Genio + Dividem entre si fadiga, estudo, + Recebe nova luz Geometria. + Qual costuma romper d'alpestre rócha + Limpida fonte, e serpeando o campo + Por entre as pedras vai com doce, e grato + Continuo estrondo alimentando as flores; + C'huma fonte depois, depois com outra + Sempre augmentando a crystalina vêa, + Que cresce, e passa a lucido regáto, + E, recebendo d'outros mil tributo, + O fundo leito alarga, e já bramoso + Aqui começa a se fazer torrente, + Espuma, e freme, e se arrebata, e foge, + De tanto, e tanto feudo enriquecido, + E soberbo de si no fundo Oceano + Lá chega, lá confunde o nome, as aguas: + Tal do seio da immensa Natureza, + Escuro seio, pouco a pouco trouxe + O humano entendimento a luz brilhante + E dest'arte raiou Filosofia, + Que foi por longos seculos juntando + D'alma sciencia o perennal thesouro, + Suave fructo da innocencia antiga, + Ah! tão buscada em vão na idade nossa! + Em que fogo maior, mais viva chamma, + Que essa que a boca do Vesuvio exhala, + No seio do mortal fomenta o crime. + Esse inquieto, e vil ferreo desejo + De possuir incommodas riquezas, + Que partilha não são, por máo destino, + Do que apascenta o coração tranquillo. + Na posse ingenua das sciencias todas: + Com pertinaz estudo se augmentárão; + E do existente Mundo as leis, e as bazes + Forão continuo emprego á mente humana: + Mas nada lhe abastou desejo accezo, + Que tão vivo cresceo, qual cresce o vasto + De pequena faisca immenso incendio. + Quando fixo encarou bellezas tantas + Lançou-se aos Ceos com generosos vôos, + E dos astros o influxo, e o vario aspecto + Ouzou descortinar, no eterno curso, + Pelos ermos do espaço os foi seguindo. + E soberbo de si, não satisfeito + A seu profundo, e vasto pensamento, + Co'a tócha acceza da Razão diante, + Abre, piza, franqueia ignóta estrada, + Que mais, e mais se aplaina, e mais s'estende + C'o porfiado estudo, e os homens leva + Ao Templo augusto da immortal Verdade, + Que escondido não he qual foi primeiro. + Ella pôde encantar Genios sublimes + Cujas imagens em perennes bronzes + Em si conserva o magestoso Alcaçar: + Oh! mui feliz Entendimento humano: + Se em taes indagações, se em taes estudos + Aprende a conhecer, e amar o Eterno + Só de bens larga fonte, immenso Oceano! + +_Fim do I. Canto._ + + + + +NEWTON, +POEMA. + + +CANTO II. + + Da Sapiencia antigos amadores, + Os Sacerdotes do celeste Nume, + Ao sacrosanto Templo alto ornamento, + Com seus bustos em porfido formavão + Do magestoso altar decóro illustre; + Puro, innocente altar, onde a profana + Mão despiedada dos mortaes infrenes + Nunca pozera victimas de sangue, + De que tanto se apraz da guerra o Nume, + Que o cego Fanatismo, ah! tão frequente! + Nas torpes aras da Ambição degolla. + São incensos aqui puros affectos, + E o remontado pensamento os votos; + São offerendas extases sublimes, + Vôos da mente, que s'eleva aos astros, + E corre o immenso espaço. Aquella Deosa, + Que o berço tem nos Ceos, qu'he dom dos Numes, + Que he mãi das Artes, e inventora dellas, + De magestade, e de belleza cheia, + Taes holocaustos no seu seio acolhe. + Vi, (qu'assombro!) de luz cercado o vulto + Do primeiro mortal, puro, innocente, + Qual já das mãos do Creador dos Mundos + Sahio primeiro, e dominou na Terra. + Do Divíno saber nasce ensinado, + Das cousas conhecia a essencia propria, + Impoz o proprio nome aos seres todos. + E junto delle fulgurando estavão + Em menos viva luz seus tardos netos, + Que delle, como herança, alta doutrina + N'huma idade de seculos colherão: + De labio em labio aos pósteros a mandão + Té qu'horroroso, universal Diluvio + Fez que de todo agonizasse o Mundo. + Via logo a Noé, que intacto surge + Do lenho guardador da especie humana: + Aos filhos seus dos fulgurantes astros + O aspecto, o moto, as posições ensina. + Sublime Sapiencia, e douto estudo, + Que tão illustres fez, depois da obscura + Confusão de Babel, nações diversas, + O innocente Caldeo, o Arabe experto, + Do Nilo o morador mysterios todo, + E o Persa audaz idólatra do fogo. + Descubro a Prometheo, e o velho Atlante + Em que a verdade a Fabula reveste + Da Poesia co'as brilhantes côres. + Hum, com fogo dos Ceos, anima o barro; + Outro o pezo sustem do excelso Olympo. + Vejo o profundo Trimegisto, e vejo. + O sublime Cantor harmonioso, + Que de Troia a catastrofe nos pinta, + Que, em brando verso, imagens lizongeiras, + Da Sapiencia os pennetraes nos abre; + A idéa em si contém das artes todas. + Pelas margens do Indo, e turvo Ganges + Meditadores Brâmenes diviso, + Que em sombra muito espessa a luz envolvem, + E a verdade entre symbolos nos dizem. + A Confucio Chinez descubro, admiro, + Que a voz escuta á sabia Natureza, + E firma o summo bem só na virtude. + Tres Zoroastros, que nas sombras plantão + Luminoso fanal, que á Persia, e Egypto + Das Artes para o Templo a estrada aplaina. + Logo dois immortaes cantores vejo, + He Lino, e o doce Orfeo, que a Lyra d'ouro + Com tanta fez soar maga harmonia, + Que doceis se tornou troncos, e penhas, + Que do cáhos no escuro horrendo centro, + Principio do Universo, Amor plantarão. + Pensativo Beroso alli contemplo, + A quem de Athenas a famosa escóla + Estatua alevantou d'ouro mais puro. + A par delle he Chilon, que o dia extremo + Sem pena, sem temor contente encára. + Do tyrannico sangue alli manchado + Pittaco á morte sobranceiro existe. + Legislador Solon de brando aspeito, + Que com vasto saber enlaça Astréa, + E ás leis soube juntar Filosofia; + Dos bons Monarchas o modello he este! + Depois Zaleuco vi, depois Carondas, + Ambos com justas leis Sicilia exaltão. + No meio bem do taciturno alvergue + De Pythagoras sabio o vulto admiro, + No rosto, e ar mysterioso em tudo, + Que da Unidade, ou centro aos seres todos, + A origem fez sahir, principio, e causa. + Cleóbulo descubro, elle a formosa, + Sabia filha gentil conserva ao lado, + Que da engraçada boca em aureo rio: + Eloquente entornou Filosofia: + Ah! nunca aos homens se mostrou tão bella! + Admiro mais além Biante o sabio, + Que digna só julgou de humano estudo + Moral, que na virtude a alma levanta, + Em sua mesma magestade occulta, + Deixando a Natureza, enigma escuro, + Indecifravel aos mortaes mesquinhos + Em quanto em fragil barro a alma se prende. + Periandro alli vejo, e vejo o Scyta + Anacharsis, Filosofo profundo, + Cujo nome immortal materia, e fama + Deo neste ferreo tempo ao douto escrito, + Que a Grecia em si contém, co'a Grecia tudo. + Vejo a Misson, que symbolo o destingue? + O nobre, e nobre só proficuo arado, + Que o seio rasga á terra agradecida: + Delle se peja a estólida vaidade; + Do Filosofo á vista he mais que hum Ceptro: + Na cultura do campo o sabio he grande; + Nem pode o estudo ter mais digno objecto; + E nunca outro mister, nunca outras artes, + Com mais afan buscasse o engenho humano! + Celeste Agricultura, oh digno emprego + Té do mortal primeiro inda innocente! + Eu distinguo Epiménides, que deixa + A escondida caverna em que medita, + Aos homens vem mostrar da luz os raios + Ferécides, Bericio, e aquelle observo, + Que a Frygia vio nascer sublime, e douto, + Que em lizongeiras fabulas esconde + Quantas depois lições do justo, e honesto + O Pórtico sublime, a Estóa derão. + Thales descubro então, brazão da Jonia, + Que he da primeira escóla excelso mestre, + Que á Grecia deo lições, deo luz, deo tudo + Quanto soube alcançar de Astronomia + Do protentoso vidro o olho despido. + Elle primeiro do Solsticio o ponto + Sobre a Terra observou, e elle primeiro + Predisse aos homens pavoroso eclypse, + Que rouba a luz á Terra, e a paz ao peito, + Deste mysterio assustador ignáro. + Elle o principio assignalou do Todo, + O humor aquoso que circunda o globo. + Vejo Archeláo, Anaximandro admiro; + Este infinita julga a Natureza; + (Ó Portuguez Hebreo, tal foi teu erro!) + Aquelle julga que as primeiras causas + Só são da geração calor, e frio. + Anaximenes do Orador Romano + Sempre admirado, alli contemplo, admiro, + No móto eterno da substancia eterna + A essencia poz de hum Árbitro supremo, + E deo ao Mundo por principio immenso, + A substancia do ar, vasto, infinito. + O profundo Anaxágoras diviso, + De fundos olhos, de enrugado aspeito + Prolixa barba, atenuado corpo, + Que ardente pedra incombustivel julga + O luminoso Sol. Vai branco, e curvo, + Calva a rugosa frente, a tez sombria, + O protentoso Sócrates, o justo, + (Quanto o ser pode a Natureza impura) + Attento sempre ao movimento interno + Do humano coração, regeita, e mófa + Dos vãos systemas fysicos do Mundo, + Que á mente dos mortaes ignotos deixa, + E s'apraz de deixar Motor Superno. + Só da austera moral segue as pizadas, + E avezado o mortal ás vans idéas + Da vacillante Fysica o procura + A estudo reduzir da essencia propria. + Só quando o homem se conhece he sabio! + Vejo Aristippo, Antísthenes descubro; + Hum busca o summo bem no inerte, e baixo + Prazer que encanta os corporaes sentidos: + (Ó lisongeiro do soberbo Augusto, + Teu systema tal foi, teus aureos versos + Aristippo sómente, e Amor respirão!) + Porém, mais sabio Antísthenes encontra + Só d'alma no prazer, ventura extrema; + Este o primeiro da assisada turba + Do Cynico mordaz. Crates contemplo, + Que julga inutil pezo a vã riqueza, + E no abysmo do mar com ella esconde + O inquieto temor, voraz cuidado. + Alli Monîmo admiro, e Zeno, e Hiparco, + Vejo a vagante habitação do Sabio + Diógenes pasmoso, e alli defronte + Em pé contemplo o assolador do Mundo; + Da esquerda parte inclina hum pouco a frente, + E a fluctuante clámyde lhe arrastra; + Pende-lhe ao lado o ferro, e delle em torno + Calisthenes contemplo, e mudo, e quedo + O grande Efestião. Elle alça o braço + De quem Persia se teme, e teme o Ganges, + E ao pobre habitador da cuba off'rece + Seus thesouros, seus dons; tranquillo, e grande, + Só lhe pede que ao Sol não véde as luzes, + Nem lhe tolha o calor que ao frio, inerte + Corpo negado tem Frugalidade. + Se houve grande Filosofo, he só este! + Com taes lições, já Menedemo he grande, + Que hum só bem conheceo, e he só virtude. + Euclides vejo, e Pontico, avezado + Á contumaz contradição de tudo. + Vejo Estilpon magnanimo, que a intonsa + Cabeça traz, e descoberta sempre: + Pobre o vestido tem, e os pés descalços, + Com elles piza a vaidade, o fausto, + E quanto pede o coração lhe nega. + Ó grande Preceptor do ingrato Nero, + Se isto não foi teu animo sublime, + Ah! são por certo teus escritos, isto!! + Diofantes, Apolonio, eu bem destinguo, + Tem nas mãos o compasso, e tem na terra + Immoveis sempre os encovados olhos; + Alli descreve as trabalhosas curvas, + E além disto não mais surge esta idade; + Não foi mais Galileo, nem mais Des-Cartes! + De Estoico rigor seguindo a trilha + Eu vejo envolto em seus possiveis Zeno. + De veneravel rosto accezos olhos + Eu descubro a Platão, Platão que o Nume + Nos objectos que vê, contempla, adora; + Que a novo Amor dá luz, e alegre espera + Que a seu astro natal sua alma torne. + Ó sublime doutrina, ah tu podeste, + Dentro da Escóla de Florença outr'ora, + O eloquente escutar Policiano; + Se as letras tem na Europa apreço, estima, + Se em seu amor se me embranquece a frente, + A tão sabio mortal, tão grande o devo! + Este o tributo, que meus versos pagão: + Que mais te posso dar? Teu nome he tudo. + Vejo Espeuzipo imitador da grande + Virtude illustre de Platão sublime: + Teve commum com elle, o estudo, o sangue; + E a baze eterna lança á Academia, + A quem deo nome o milagroso Tullio. + Da belleza inimigo, e da ternura + Xenocrates descubro austero, e triste, + Vergonhoso baldão da especie humana, + Que, nem ao mago scintilar d'huns olhos + Nem ao surrizo de purpureos labios + E ás aureas ondas de madeiras d'ouro, + Sente no peito a Natureza toda, + Q'até do fundo abysmo aos monstros feios, + E sanguinario Tigre, amar ensina. + O pertinaz Arcesiláo na escola + O segue, duvidando, a alma suspensa + Entre a diversa opinião conserva. + A imagem de Carnéades descubro, + Da nova Academia he timbre, he gloria + Cuja alma excelsa da verdade indaga, + Entre o provavel sempre, a estrada incerta. + Pythéas vejo que do antigo Sabio, + A quem Samo talvez já déra o berço, + Vai seguindo as pizadas, e se julga + Continuo habitador de corpos varios. + Este aos ceos porporção, este a medida + Primeiro assignalou; dos aureos astros + Para hum centro commum conhece o móto + Naquelle antigo symbolo mostrado + Da septicórde auri-sonante Lyra, + Que Febo tem nas mãos, q'o Vate inveja; + E se lhe antolha, que escutava ao perto + Sempiterna, multiplice harmonia, + Da Esfera portentosa alto-brilhante; + Talvez nelle encontrasse o germe, a fonte + De seu systema de attracção, sublime, + Infatigado explorador Britano.... + Meditador Empédocles já vejo, + Que julga (ó fraco dos mortaes discurso!) + Suor do terreo globo o vasto Oceano; + Se este, se este não foi, Buffon facundo, + Esse teu vapor humido, que a Terra, + Destacada do Sol, e ardendo em fogo + Ao mais subido d'atmosfera exhala, + E cahindo de lá se fórma em mares! + Do Italico saber brazões sublimes + Tidas, e Architas fulgurando admiro; + Ambos julgavão cada estrella hum Mundo. + Suspenso pelo ar alto infinito, + Onde hum astro central preside a muitos + Rotantes globos, q'em si mesmo opácos + Reverberante luz delle recebem: + E no globo gentil da argentea Lua + Mares, selvas, montanhas supozerão, + E de ser pensador fecundo alvergue. + Este nas margens do revolto Sena, + Que hoje escravos só vís, só ferros banha, + Teu pensamento foi, sublime engenho, + Quando d'hum Mundo n'outro Mundo ignóto + Levaste a passear matrona ímbelle, + Do prazer filosofico em ligeiras + Azas de accezo enthuziasmo ouzado. + Tal foi a idéa de profundos sabios + Que tão soberba opinião vestírão + Das côres da razão, qual tu fizeste + Nessa pasmosa extatica viagem + Com q', ó profundo Képler, te lançaste + Por entre os astros aos confins do Todo. + Na escura tez Prothagoras conheço, + Que entre sophismas envelhece, e nega, + Oh! sacrilega audacia! hum Deos ao Mundo. + Nem vê na grande architetada mole + De hum Ser eterno a mão reguladora! + Cheio de assombro, e maravilha fito + Na imagem de Demócrito meus olhos; + Abdera o vio nascer, e a mente excelsa + Na grande esfera da sciencia entranha. + Vejo a par delle Heraclito, que chora + Ao triste aspecto da miseria humana, + Em quanto aquelle no incessante rizo + Com soberba indiscreta o Mundo insulta: + Ambos no excesso opposto hum erro abrange. + Vejo a Pirron que pertinaz duvîda + Do que tem da verdade o cunho impresso; + Muda sempre de côr, muda de aspecto, + He duvidoso, e vacillante sempre; + Filosofico orgulho, e quanto, e quanto + Se fecundou teu germe em peito humano! + Teu scepticismo do erudito Baile + Os escritos manchou, q'espalhão sombras + N'hum ponto unindo o verdadeiro, o falso! + Entre guerreiras machinas envolto, + Entre abrazadas náos vejo Archimedes: + Cheio de palmas, de laureis lhe chora + De Siracuza o vencedor, a morte; + Foi esta a vez primeira, ó grão Marcello, + Que sobre a Terra fez Heroes o pranto! + Illustre pranto, que aligeira ao Mundo + O ferreo jugo do Latino Imperio! + Eis descubro Epicuro, o vulgo insano + Nelle descobre hum ímpio, eu vejo hum sabio + Frugal, modesto, taciturno, humilde, + Que d'alma no prazer, puro, e sincero + Suprema quiz constituir ventura. + Entre viçosas arvores se assenta + De hum ameno jardim; medita, ou finge + Os infinitos átomos no vácuo, + D'hum laço casual produz os Mundos. + D'alma foi erro, e da vontade engano + Não passa ao coração; tranquillo, e puro + Ama a virtude. Ó Seneca, foi este + Teu pensamento quando instrues Lucilio. + Mas erraste; he chimerica a virtude + Em quem della não vê n'hum Deos a fonte: + Quem no acaso conhece o author do Mundo, + Se não erra, e blasfema, então delira! + Eis d'Estagira o Genio, eis o prodigio + Talvez, talvez maior q' a Grecia vira. + Do Mundo he mestre, a Natureza he sua, + Não se confunde o Peripáto, e elle: + Elle foi luz, o Peripáto he sombra. + Não he seu mór brazão ter visto o Mundo + Do Mundo o vencedor posto a seu lado, + Pois de Alexandre, que conquista a Terra + Só devia Aristoteles ser mestre. + He seu tymbre maior ter da sciencia + Quasi o infinito circulo corrido. + Inda em seus livros q' a ignorancia altera + (Ignorancia dos Arabes soberba) + Saber encyclopedico descubro. + Se hoje tudo he Buffon, se Plinio he muito + Senão fora Aristoteles, não forão. + Bem como hum Nume ao Mundo as bazes lança + Quando no instante productivo o manda + Sahir do centro do confuso cahos; + Assim das artes, das sciencias todas, + Quasi no cahos da ignorancia envoltas, + Lança o grande Aristoteles as bazes. + Quando deixou de perseguir o Mundo + A Sapiencia, o merito, a virtude? + Tristes aves da noite a luz odêão: + D'Athenas Aristoteles se esconde, + Em voluntaria morte azylo encontra. + Na sublime cadeira então se assenta + (E alli brilhando estava) o douto, o grave + Da Natureza interpetre Theofrasto; + Desgraçado Calísthenes lhe escuta + As sublimes lições, e o grande Endemo, + E a respeitavel multidão dos Sabios + Affeitos sempre a passear pensando. + Do Tybre a escravidão, do Tybre os ferros + Tornão de Athenas, e Corintho o fasto + Em pobre aldêa, ou lastimosas cinzas: + Eis se transplanta a Sapiencia a Roma; + E, se da Gloria o Templo as armas abrem + A seus grandes Heroes, tambem seus Sabios + No eterno Templo da sciencia eu vejo. + Entre todos mais luz, talvez mais clara, + Que a que se espalha dos Argivos bustos, + O protentoso Cicero derrama! + Nenhum Sabio formou do Eterno Nume, + Entre as sombras Pagans, mais alta idéa! + Elle incorporeo, immenso o considera + De eterna Providencia, Amor eterno. + Existente por si, e author do Todo. + Por certo entre os mortaes nenhum té agora. + Tão profundo saber juntou co'a rica + D'aurea eloquencia exuberante vêa! + Do Epicurêo Lucrecio então descubro + O pensativo, e descarnado aspeito: + O centro tira do Universo, e Mundos + Infinitos julgou no immenso espaço. + Alli vejo Epitéto humilde escravo, + Mas entre os sabios soberano, e livre; + Cuja fragil alampada hum thesouro + Entre as joias valeo da antiga Roma. + Vejo o vulto de Seneca, seus olhos, + De huma luz ardentissima, levanta + Meditabundo ao luminoso assento; + Piza as salas fataes d'ebano, e d'ouro, + Onde o sangue materno hum Nero entorna, + Onde jaz de Germanico o cadaver + Seneca o monstro louva, e s'entristece: + Dependencia d'hum throno a quanto obrigas + Pequeno em obras he, grande em sciencia + Elle a vida antepoz ao justo, ao pejo + Por ella perde de viver as causas: + Mas em seu gremio o tem Filosofia, + Só porque disse q' ás acções internas + He presente hum juiz, presente hum Nume. + Roma nelle acabou. Na foz do Nilo + Imperial Alexandria surge; + Ella produz o Eclético Potámon + No Templo veio fulgurar seu rosto. + Da bella Hipacia a formozura brilha; + Eloquencia, e saber da boca entorna + Entre suaves halitos de rozas, + Que transportado Origenes lhe escuta. + Em sua escola Próculo se exalta, + Amónio, Celso, Jamblico, e Porfirio, + Que mal sabido Platonismo illude. + Vejo n'hum throno, sobranceiro a muitos, + O magestoso vulto auri-esplendente + Do novo Tullio, o fluido Lactancio, + Talvez maior, que o Consular de Arpino. + Não era longe delle, em sombra envolto + Da prizão melancolica, Boecio; + Vai banhando os grilhões d'amargo pranto + Té que raiando vio Filosofia, + Que as sombras rompe, as lagrimas lhe enchuga. + Profunda escuridão, profundo luto + No vasto Imperio das sciencias pousa; + Onde apparecem Vandalos, acabão. + Quaes vemos entre nós do Sena os monstros, + Que vem das artes derrubando os Templos; + Vem do gelado, tenebroso Arcturo + Bando, de morte, e de ignorancia armado, + Apenas ficão gárrulas escólas, + Que hum só busto não tem no eterno Templo, + Té que dos gelos de Sarmacia surge + Copérnico immortal, este o primeiro + Que alli se manifesta, alli fulgura + Entre os astros envolto, entre as esferas: + Vio Sol immobil, vio rodar a Terra, + E apenas o immortal pasmoso escrito, + Ao respeito dos seculos entrega, + O templo augusto da sciencia todo + De protentosos sabios se povôa. + Eis se me amostra Galileo, dos astros + O novo Cidadão, tem curva a frente, + E descarnadas mãos co'as vís cadêas. + Cinge-lhe Jove na enrugada testa + As q' elle achára incognitas estrellas. + D'antiga Resia veio o alto ornamento, + He Bernúlli immortal. Na margem fria + Do discordante Baltico diviso + O grande author das Mónadas, q' encontra + No composto mortal mága harmonia + Entre a composta, e simplice substancia. + Nascido a meditar, modesto, e mudo, + Da nebulosa Hollanda em canto escuso, + Do grão Des-Cartes magestoso vulto + Entre as sombras, e a luz plantado admiro. + Hum globo tinha aos pés nas mãos hum facho + Q' ao globo espanca a tréva da ignorancia. + Legislador sublime além brilhava, + Verulamio infeliz, primeiro as portas + Da recatada Natureza abria. + O desprezado á cinte, e ignoto a muitos, + O frugal Espinosa aqui surgia.[1] + Errou que he homem, mas errou com elle + Toda a escóla Eleática, e tu mesmo, + Ó Seneca immortal, com elle erraste: + E Campanéla, e Bruno, e a nós mais perto + Contradictorio Mirabaud, deliras. + Mas quem, profundo Hebreo, te nega engenho? + Em força d'alma hes unico entre todos + Dos que além penetrar julgão que he dado + Do que foi dado a pensamento humano. + Eu te posso impugnar, e outros te insultão. + Talvez eu sorte igual no Téjo alcanço + Não penetrando da Sciencia o Templo, + Porém no ingénuo dom d'ingenuos versos, + Que a si por premio tem, por méta a Patria: + Béja te deo teus pais, teu berço o Douro: + Alguma cousa tens commum comigo. + Alli d'Obergio, Mallebranche, e Locke + Os aureos bustos luminosos via, + Que em transcendente fluido brilhante + Para hum Mundo ideal seus passos guião, + E, as sombras methafisicas rompendo, + Sem fallar ao sentido as almas fallão, + Abrindo o geometrico compasso + Quantos talentos assombrosos vejo! + Entre o Germano agudo, e ameno Franco + Do Italico saber vejo os milagres. + O que Diofante, o que Apolonio excede, + Do grão Toscano a par, brilha Viviani. + Sexo, sexo gentil, na Italia hes grande; + Nos Labyrinthos do profundo Euclides + A formosa Ardighelli, e Agnezzi entrarão + Outra Laura maior, q' essa, que outr'ora + Do vate, todo amor, deo força á Lyra, + Nos penetraes da Natureza entrando, + A Spalanzani explica altos mysterios. + Com ella Boscovich subiste aos astros. + Não te vence hum Maraldi, e nem Cassini: + Talvez, talvez, que a formosura as graças + Me pareça que dão luz ás sciencias. + Algaroti, teu vulto alli contemplo, + Tão grato foste ao Salomão do Norte; + Porém mais grato a mim, e ás artes foste; + Entre o fulgor da purpura mais brilha + Do grande Passionei a excelsa imagem; + Issocrates te cede, inda que venha + Do grão pezo dos seculos seguido; + Não tem que oppôr-te, ou q' igualar-te o Sena, + E menos tem q' equiparar-te o Mundo + Encanto omniscio, universal Roberti: + Não me cega a paixão, q' ao Tibre eu guardo, + Nem o clarão de Italica sciencia + Tanto me cega, e me deslumbra tanto, + Que não veja raiar no Templo augusto + D'Anglia, e Germania os protentosos sabios. + Alli d'Hobbes descubro a imagem triste; + Alli vejo Stanley das Artes Livio; + E o que nasceo para illustrar o Mundo + Desde o frio Danubio, o grão Bruckéro; + E Kant, a si clarão, e enigma a todos. + Alli brilhava Degerando illustre, + Que em mui douto suor banha os escritos, + Que eterno fazem nos umbraes da Gloria + De ti, Filosofia, ávido amante. + Meigos olhos lançou tambem no Téjo + (Quando ha de, ó Téjo, conhecer-te o Mundo?) + E, entre inda sombras Arabes descobre + O profundo Vernei, o ameno, o rico: + E, que dissera se encontrára hum Nunes; + Astros, astros do Ceo, prendeo-vos elle + E, o subtil instrumento ao nauta entrega, + Ao nauta Portuguez, senhor dos mares: + Sem elle Cook o globo ah! não cortára! + Mas lá foi Magalhães sem elle, e cerca, + Porque a si se levava, o mar, e o Mundo! + Tu nos meus versos mofarás do Lethes, + E a gloria que te nega a Patria ingrata + Em suaves canções te outorga hum vate. + Ah! permittira o Ceo, q' o preço humano + Á morte não pagára alma tão grande! + Eu não deprimo o merito, o talento; + Naquelle alcáçar resplendente estava + (Deposto hum pouco o Tragico cothurno,) + O florido Voltaire, Sceptico illustre, + Emilia tinha ao lado, Emilia o tymbre + Talvez maior do feminil engenho; + Com ella corre a passear nos astros. + Eu lá vejo Nollet, Brisson descubro. + Salpicado Bailly de fresco sangue, + Indagador Sonnini a quem Fortuna + Se honras na vida deo, na morte as néga; + Vive em sciencias, na pobreza expira. + Além dos mares a Franklîn descubro, + Que o raio foi prender nas mãos de Jove. + De Prussos vejo o busto; o nome ignoro, + Ou barbaro talvez não cabe em versos; + Aurea lingoa do Téjo em vão procura, + Em seus cadentes numeros suaves, + E na Lira ajustar, que a Grega imita, + Os acres sons dos Hyperboreos nomes: + Mas não faz dura a metrica harmonia + O teu nome ó Linneo, tu sacerdote + Do Sanctuario d'alma Natureza; + Alli vejo teu busto, alli cercada + A frente tens de peregrinas plantas, + E tu, qual novo Adão, dás nome a todas. + Hum ramalhete de purpureas flores + A Europa, a Lybia, a America t'off'rece; + A Asia de tantas maravilhas chêa + Das margens do Mecón, do Ganges, do Indo + Grinaldas te prepara, e lá tas manda, + Tão bellas quaes as pinta o China astuto: + Ceilão entre seus balsamos as tece. + E o suave vapor, q' a Aurora exhala, + Lá no berço onde nasce, e espalha rozas, + Em dourados túribulos te invia. + Não tiverão os Reis, tributos destes! + Ao poder se negou, dá-se á sciencia. + Maior gloria me chama, hum novo busto + Que entre todos maior, mais luz derrama. + Este he Buffon, que não mortal parece. + He seu louvor, universal silencio: + Nem lingoa humana diz, nem mente abrange + Tudo o que foi Buffon; contemplo, e calo. + Se he mais q' a Poezia, he mais que humano + Rafael co'os pinceis, Buffon co'a lingoa.... + Só Natureza he mais, porq' elles morrem, + Morre, não ella, taes rivaes supplanta. + Só Newton he maior; que entrego a palma. + Não ao que pinta, ao que conhece as causas; + Se este he só venturoso, este he só grande. + Com tanta luz atonito, e suspenso + Volvo os olhos de hum lado, e bem no meio + Do magestoso Templo o altar estava. + Por argenteos degráos se avança e sobe, + Mas com trabalho, á baze alabastrina. + Alli sentada--Experiencia--estava. + Eu prompto a conheci no rosto antigo + Na longa veste, e diamantina tarja, + Em q' esta li gravada, aurea sentença: + "Das cousas mestra eu sou, dos homens mestra" + N'hum quadrado Geometrico se assenta + O sacrosanto altar, e em cima posto + Vi como hum vaso de alabastro puro, + Que não de Fídias o cinzel abrira; + Teve artífices dois, Estudo, e Tempo. + Do seio lhe rompia etherea chamma, + Q' ante o Nume brilhando aos Ceos subia + Inextinguivel lampada, que os annos + Vão augmentando progressivamente. + Formão á Deosa os seculos hum throno + Mais que os rubins precioso, e mais segura + Materia tem, que o sólido diamante. + Tem cheio o rosto de Viveza, e graça, + Que amor no humano coração desperta, + Que encadêa a vontade, a alma levanta. + D'estatura commum se me antolhava; + Mas logo a vi subida até co'a frente + Ir topetar na abóbada do Templo. + De fios subtilissimos tecidas, + Mas de materia indissoluvel, erão + As vestes q' ella traja, e que formadas + Forão por ella mesma, obra pasmosa, + Que do candido pé, ao collo eburneo + Forma diversos gráos: hum véo sombrio + (Por mão proterva lacerado em parte) + De negra antiguidade a envolve toda + Nas mãos tem livros de diversas lingoas, + Onde eleva tambem dourado sceptro. + Pasmado, á quasi omnipotente Deosa + Todo me inclino, a magestade acato. + Titubeante, e tremulo dest'arte, + Soltando a voz hum pouco, á Deosa fallo: + "Ó tu do estudo emprego, ó Madre excelsa + Da intelligencia dos arcanos todos + De que he fecundo o Ceo, fecunda a Terra; + Tu da verdade indagadora, e facho + Luminoso da vida. Ó tu do vicio, + Tu da ignorancia rispido flagello, + Tu, q' hes tudo ao mortal, q' hes luz, q' hes vida, + Ante os teus olhos me conduz Fadiga: + Misero Vate eu sou, no peito acôlho + Desejo de saber: sempre afanoso + Apoz a imagem da verdade eu corro; + Mas a alma envolta em sombra, em sombra os olhos, + Enigmas vejo só, eu palpo enigmas: + Sentir, gozar, não perceber, he esta + Da existencia mortal partilha, e obra.... + Mas qual te vejo, ó Deosa, e q' orgulhosos + Amadores te cercão! Que ignorantes + Do acatamento q' a teu lume immenso, + Deveo sempre guardar o engenho humano! + Deve, qual pobre, pequenino rio, + A quem agua não deo caudal torrente, + Correr tranquillo, e murmurar nas pedras, + Ao Pastor innocente, á Ninfa ingenua + Objectos de prazer offerecendo. + Mas o desejo audaz, e o louco orgulho + O torna rio impetuoso, e bravo + Soberbo, ufano vai d'agua não sua. + Eis se despenha, qual torrente Alpina, + E os campos cobre furioso, e turvo; + Leva comsigo os troncos, leva os gados, + Leva o Pastor, e a misera choupana, + Té que cesse do ar fecunda chuva: + E, serenado o ceo primeiro orgulho + Então depõe deixando a marge enchuta." + Mais quizera dizer eis q' o grão Nume, + Fitos em cuja frente eu tinha os olhos, + Soltou dos labios divinal surriso, + E, doce voz alevantando, exclama: + "Podem, meu filho, eternizar no Mundo + O mesquinho mortal meus dons sublimes, + E as idéas altissimas, e claras, + Q' eu co' mão destra na sua alma imprimo; + Comigo, e o sentes tu, do pezo humano + Se livra, se desfaz o entendimento; + Ao alto sóbe, e se remonta, e chega + Comigo aos claros Ceos, comigo entende + Mysterios profundissimos, e entra + Da Natureza nos occultos seios. + Essa Eterna Razão por mim conhece, + Que se difunde n'Universo inteiro, + A, que mora no germe, occulta força, + A que a tudo dá forma, e dá figura. + Por mim, por mim conhece a origem d'alma, + Qual tenha em corpo humano assento, e throno; + A que fim s'encaminhe, e quaes s'encontrem + Ou desgraças, ou bens, na vida, e morte. + Eu torno bello o Mundo, os homens sabios + Se ingenuos querem vir seguir meus passos, + E contemplão por mim o alto principio + Das cousas em si mesmo, os gráos, e os tempos, + Que a tudo tem prescripto a mão do Eterno. + Eu os levanto a conhecer hum Nume, + Obedecer-lhe, e venerallo sempre: + Delle, só delle a pressentirem tudo + A lei, e ordenação; eu só lhe ensino + A dar justo valor, dar justo apreço, + Ao que se mostra ou verdadeiro, ou falso. + Se o prazer, a que he misto o pranto, a magoa, + E o pungente pezar, que he tardo sempre, + Os homens sabem condemnar, eu mesma + Seu peito aclaro, o coração lhe inflammo; + He meu proprio este dom. Por mim descobrem + Que he só feliz na Terra, he só potente + Quem se domina a si: Guia incorrupta + São minhas luzes ao mortal na vida. + Eu primeiro lhe aceno, eu lhe preparo, + (Depois Religião, que he só, que he tudo) + Séde no Ceo, qu'eternamente he bella. + Do Christianismo h[~u] mestre, h[~u] sabio, h[~u] grande, + De Alexandria nas escolas doutas, + D'alta verdade, que dos Ceos foi dada, + Pedagoga me chama, eu sou por certo + Quem da luz da Razão, da Natureza + Leva os mortaes a accreditar mysterios + Qu'á razão não se oppõe, mas são mais altos. + Mas eu desço comtigo ao Templo augusto; + Q' inda que erguido o vêz, não he distante + Da terrea habitação do engano, e minha. + Olha, admira, contempla a excelsa móle + Premio d'hum Grande que he brazão do Mundo: + Este he d'honra immortal o alto ornamento, + Que eu mesma á Gloria consagrei, com elle + De hum Pontifice meu premeio as obras, + Elle as minhas expoz, dou premio ás suas." + A Deosa emudeceo, á dextra eu volvo + (Nunca confuso assim) trementes olhos; + E no meio da luz brilhante, e pura + Soberbo alçar-se Mausoléo descubro. + De Newton vi gravado o nome excelso + N'hum pórfido immortal, que nem d'Augusto; + Ou no Tybre cobrio geladas cinzas, + Ou do Grande Pompeo fechou no Nilo + Restos chorados do implacavel Julio. + Depois que vezes mil no estranho, e grande, + Monumento fitei pasmados olhos, + Por longo tempo contemplando absorto + Aquella d'alto engenho obra estupenda, + Ao Britanno immortal sagrei com votos + Inteiro o coração, minha alma inteira; + D'estima este o tributo, o feudo he este, + Que eu primeiro paguei, Nação pasmosa + De quem o mar he todo, a Terra he quasi. + Mas eu sou Portuguez, e armas não podem + Alhêas deslumbrar-me; eu vejo as Lusas, + Cuja gloria tu vêz no vasto Oriente, + E, onde levantas triplice bandeira, + Primeiro o nome Portuguez encontras. + Eu não te invejo a gloria, nem thesouros; + Se de Safyras atulhados cofres, + Fios de brancas Pérolas, se finos + Luminosos Rubins d'Asia recebes; + Já d'Asia hum Portuguez trouxe mais qu'isso: + Do Indo, Hydaspe, e Gange as aguas trouxe + Dentro em barro Chinez; e era Atayde. + Será maior teu Rodney, ou teu Nelson? + Nem teu Monk he maior, se o Sceptro engeita, + Em Regia frente o Diadema pondo. + Hes grande para mim porque em teu seio + Bolingbrocke apparece, Adisson, Pope; + Apparece Bacon, Milton tactêa + Arpa tocada só d'Hebreo Monarcha; + Em ti tiverão berço, e Locke, e Tompson, + E o que os povos do Mundo inda baralha, + E a Gallia fez tremer, Pitt, he teu filho. + Hes grande para mim, porque hum Senado + De Reis, mais que o de Roma em ti conservas, + Onde tantos Demosthenes, e tantos + Tullios sabem surgir, salvar a Patria. + He esta a fonte do respeito, e estima; + Que eu Vate, que eu Filosofo consagro + A ti grande Nação, da Europa asylo. + +_Fim do II. Canto._ + + + + +NEWTON, +POEMA. + + +CANTO III. + + Tinha ficado em extase profundo + Do protentoso Mausoléo co'a vista: + Mas da pasmosa suspensão me chama + A Fadiga outra vez; eis abro os olhos, + Junto ao sepulcro vejo em lédo aspecto + Matronas duas de belleza estranha: + Humanos hombros veste argenteas azas, + Na dextra mão sustenta argentea tuba; + Vi que era a Fama, que immortaes escritos + De Newton celebrou; era outra a Gloria, + Que os sustenta nas mãos, defende, e guarda. + Da Fama, e Gloria he obra, he maravilha + O immortal Cenotafio: aos pés sentada + A Verdade admirei simplice, e núa: + Ella serve de baze ao grande, illustre + Monumento immortal onde a pressága + Mente me diz, que saberão no Mundo, + Que eu no Mundo existi, tardios netos. + Do seio extractos da materia prima + Dois pedestaes estão, que no encendrado + Ouro conservão symbolos diversos, + E as bazes são de lúcidas columnas. + No meio huma Pyramide que mostra + No mui subtil triangular remáte + Do fogo, e clara luz o throno; e assento, + Qual entre os Gregos o mais douto o mostra, + Crendo que deste fogo era alma chêa, + Que qual laço entre si sustenta, e prende + Intelligivel Mundo ao Mundo inerte, + Incorporea substancia á sensitiva: + (Methafysico abysmo, ou sombra he isto, + Que eu débil, que eu mortal romper não posso). + Daquelle fogo interminavel fonte + Vi d'átomos sahir, que o Sol brilhante + Desde o seu seio luminoso espalha, + Donde o Immenso esplendor dalvez se forma. + Além do alcance do saber humano + He sua rapidez, correm velozes + Dos Ceos o immenso espaço, em toda a parte + Se difundem no ar; destas pequenas + Particulas tem luz, tem lume os corpos; + Sempre impellido vai, vibrado sempre + (Continua undulação) primeiro raio + D'outro, que delle apóz o Sol despede. + Diante da Pyramide sublime + Entre as columnas se elevava ingente, + Firme, segura baze; ordem Toscana + Com magestade seus adornos fórma; + Nella esculpido teu grão nome eu leio, + Immortal Galileo, tu preço, e gloria + Da Etrusca Sapiencia, e timbre illustre + D'alma Cidade qu'em seu gremio ouvira + Os magos sons da Cythara suave, + Que a Laura celebrou, qu'ouvira outr'ora + Da boca de Ficino auri-eloquente + Do excelso Platonismo expor mysterios; + Que dera o berço ao que descobre hum Mundo, + Que o nome seu tomou; qu'inda hoje o guarda. + Immortal Galileo, devem-te os sabios, + Da Terra aos astros o caminho aberto; + Qual deve a Magalhães o nauta a estrada, + Que cerca todo o globo em mar profundo: + He teu brazão sômente, he gloria tua + Desta mesquinha, inerte escura Terra + Avizinhar as lucidas estrellas; + E, se o Toscano ceo d'astros he rico, + Que ao throno Medicêo docel formárão, + A ti se deve, a ti!... Memoria triste! + O throno Medicêo, he sombra, he cinzas, + Depois que o Tygre, ou Vandalo do Sena + Despreza a Sapiencia, avilta os thronos! + O teu engenho inaccessivel abre + Nova estrada ao saber: Britanno illustre, + Com ella architectou obra estupenda, + Que, consagrada á lucida verdade, + Da proterva ignorancia o orgulho opprime. + Immortal Galileo, ao dia, ás luzes + Que ao Mundo trouxe teu saber profundo, + Se oppôz a cega audaz insipiencia + E inda agora se oppõe; que hum véo sombrio + Tentou no Sena despregar-te em cima. + Ah! não se lembrão que se a Italia culta + Não dera o berço a Galileo, não forão + Tão ufanas de si Gallia, e Britannia, + Hum Newton dando á luz, e á luz Des-Cartes! + Dos lados sobre a baze alta, e segura + Eu vi dois globos da pezada, e dura + Magnete, que he mysterio ao sabio, a todos: + Virtude de attracção nella reside, + Se a mente a não conhece, a vista a sente: + Pegando, unindo a si (profundo arcano!) + Esse metal cruel, sagrado a Marte, + Que hoje a misera Europa em sangue inunda, + E he dos mortaes na mão rival do raio. + Esta ao sabio, esta ao vulgo ignóta força, + Como em triunfo se descobre, e mostra. + De teu contínuo meditar foi obra, + Ó Genio do Tamiza, este prodigio; + Mostra a tendencia qu'entre si conservão + Alternativamente os corpos todos, + Que a hum centro que he commum gravîtão sempre. + Ignóto nome aos seculos antigos, + Foi attracção reciproca, e foi sempre, + Centrífuga, e centrípeta ignorada, + Com que estranhos fenomenos s'explicão. + Em seu lugar as gárrulas escolas + Sonhárão Nume occulto, occulta força, + D'odio, e d'amor combate, ou guerra eterna, + Horror do vácuo, e qualidade ignóta. + N'hum dos globos está gravada em ouro + Por mãos de Ptolomeo etherea esfera, + Á qual d'ambito immenso a Terra he centro: + Acima della brilha argentea Lua, + Que o nocturno clarão do Sol recebe. + O mensageiro dos celestes Numes + Muito acima fulgura; e essa, que teve, + Alma belleza, no Oceano o berço, + No que he terceiro Ceo, resplende, e brilha; + Precede o dia; quando nasce, e surge + Quando o disco do Sol se encobre, ou morre! + D'aurea luz coroado, e ardentes raios + O Sol succede: e se descobre Marte + Sanguineo, e triste n'outro Ceo rodando. + De Jupiter o globo immenso, e claro, + Em mui remoto circulo se agita. + Inda além delle, vagaroso, e frio, + Vai do antigo Saturno o debil raio. + Immoveis pontos, lucidas estrellas + Brilhão no immobil crystallino assento. + Obra do grão Copérnico descubro + N'outro globo esculpida, immensa esfera, + Della, o Sol luminoso he centro, he fóco, + Que mui proximo a si Mercurio observa; + Vai n'hum carro apoz elle a Cypria Deosa + Roseos freios batendo ás alvas Pombas, + (Dos astros todos o mais bello, he este); + E n'outro ceo mais alto a escura Terra, + Tornada astro rotante, o gyro absolve; + Da Lua seu satéllite seguida, + Da qual ao vario movimento he centro. + Das feras armas lugubres o Nume + (A quem tanto tributo, incenso tanto, + Em lagrimas, em luto a Europa off'rece!) + Segue-se apoz da terra; e apoz de Marte + O vivo, o claro, o desmedido Jove, + De brilhantes satellites cercado + Que tu, grão Galileo, primeiro achaste! + E do tardo Saturno a immensa, e vasta + Mole apparece, de Clientes muitos, + E variante annel cercado avança. + Hum longo estudo architetou tão bella, + Tão engenhosa machina prestante, + Entre os gelos Sarmaticos levada + Á maior perfeição, pois já n'antiga + Idade a vio sahir absorto o Mundo + Das mãos do escravo do eloquente Tullio,[2] + A quem, deposta a consular soberba, + Se dignou de escrever, chamar-lhe amigo. + Sobre os dois globos se sustenta, e firma + A illustre, sepulcral Urna estupenda; + Architetada, e repellida brilha + De Prisma em fórma, e de materia ignóta; + Se o brilho he do diamante, inda mais brilha, + Se he solido o rubim, mais dura existe. + Nas folhagens de Acanto, ou de Cypreste + Alli pôz Escultura: em vez de adorno, + Em vez dos negros symbolos da morte, + Só gravou Mathematico Instrumento, + Com que medir dos Ceos a immensa estrada + Usa idéa Astronomica segura. + Do negro Paragon moldura observo, + Que em si contém de Izác a illustre imagem; + He relevada em solida Esmeralda, + Parece q' inda volve, e q' inda espalha + Filosofica vista em torno aos astros, + Que respirando está Filosofia. + E tanto ao vivo está, tal arte o fórma, + Que, se meus olhos acredito, ainda + Cuido que solta a voz, que os labios move. + Este relevo portentoso, e raro + He sustido nas mãos d'hum Genio illustre, + A quem deo berço d'Adria a grão Rainha, + (Hoje escrava tambem d'escravos feros) + Genio que objectos da terrena estima + Aos pés soube pizar, e além subindo + Onde o fragil mortal mui raro chega, + Teve ao lado Virtude, e teve o gosto, + Que o bello sabe achar nas artes bellas, + Rival sublime, ou vencedor de Horacio, + Na mente sempre á Poezia dada + Seguro alvergue achou Filosofia; + Pelas varedas da sciencia segue + De Newton o farol brilhante e puro. + Caro ao Monarcha, que juntou n'hum laço + De Minerva, e Bellona o genio, e as artes, + Minerva n'alma tem, nas mãos tem Marte, + E a pacifica Oliva ao louro ajunta: + Monarca invicto, que estendeo vivendo + A mão benigna ás Musas desvalidas, + E ao lado como amigo os vates senta, + E no Reino, onde agora a Guerra existe, + De Augusto, fez raiar dourados dias: + Foi-lhe caro Algarotti; oh fausto nome, + Tão doce e grato ao lisongeiro sexo, + Que une mil vezes formosura, e letras! + Da nivea mão travando-lhe o dirige + Pelas agras do calculo varedas, + E lhe ensina a não vêr com medo, e pena + Os labyrinthos das traçadas linhas + Nos cubos, nos triangulos de Newton; + Este nas mãos sustem o Oval relevo, + Que ao vivo representa, ao vivo exprime + Do grande explorador da Natureza + O magestoso, e respirante vulto. + D'Optica o Genio na moldura estende, + Moldura sup'rior, brilhantes azas: + Com septemplice luz se expandem bellas, + Que as côres todas primitivas guarda: + O corpo todo he nú, cercado apenas + D'hum sendal claro azul que estrellas bordão; + Na dextra mão sustenta, huma grinalda, + E acena de cingir com ella a frente, + De pedraria Oriental composta; + Na esquerda mão conserva os luminosos + Crystaes, em lentes que affeiçoa e pule + Co'as doutas mãos Filosofo tranquillo + O Portuguez Hebreo na Hollanda escura,[3] + Que, a vil lisonja despresando altivo, + Banha o pão com suor, trabalha, e vive. + D' aurea madeixa o Genio hum raio expande, + Que, composto de mil, fulgura ao longe. + Resulta delle a côr candida aos olhos: + Da Urna sepulcral no seio o raio + Se refrange instantaneo, em parte opposta + Quadrilongo se vê, posto que fosse + Esferico ao partir da origem sua. + Diversos gráos, e proporção distincta + As côres entre si guardão, conservão; + O brilhante escarlate occupa o fundo, + O laranjado o meio, e, qual no Goivo + O amarello se mostra, alli campêa; + O verde então se vê, que enroupa as plantas; + Vegetação Rainha assim se veste, + Ópa com que se adorna, e o Mundo enfeita: + Do azul, que forra os Ceos, o Indico he perto, + E da saudade o symbolo tristonho, + Matiz da violeta; eis brilha o rôxo. + Escala harmoniosa! Eis della em torno + D'huma composta côr listões s'estendem, + Que outros compostos gradativos formão, + Que adornos são do Mausoléo soberbo: + E, n'hum Rubim profundamente expressas, + Estas palavras portentosas erão: + "Com suas Leis a vasta Natureza + Immersa estava em tenebrosa noite; + Surge, ó Newton, bradava a voz do Eterno; + Nasceo Newton no Mundo, e nasce o dia." + Eis tres figuras mais, do grão Sepulcro + Ornamento, diviso em torno postas; + Primeiro a de Ancião curvo, e rugoso, + Fontenelle se diz, meditabundo, + Aos Ceos aponta, e contemplando os astros, + Diz que habitados são, que a argentea Lua + He do pensante, e do mortal morada; + Qu'existem Mundos mais no éther immenso. + De vórtices cingido, outro apparece, + Em cujo seio envolve o Sol brilhante; + Em seu gyro assignala o móto aos astros. + Tem sobre o Cenotáfio os olhos fitos, + O simulacro observa, e mudo o adora. + Entre elles ambos Maupertúis descubro, + E sobre hum globo estende aureo compasso, + E sem temer as cerrações do pólo, + Geómetra sublime, os gráos lhe mede. + Eternidade sobre tudo existe, + De insupportavel luz clarão diffunde, + Onde se perde, e se deslumbra a vista, + S' ousa fitar-se ao seu seio immenso. + Mal contemplava o monumento augusto, + De homem tão grande consagrado á gloria; + De tão sublimes extasis me arranca + A Fadiga outra vez: "He tempo, ó filho. + Que o transportado espirito se torne + Á habitação mortal, que desça á Terra: + Vai: quanto viste, aos homens anuncîa; + Vai declarar insólitos protentos + Sobre esta móle sepulcral gravados. + O Mundo vivirá: Newton sublime + Em quanto exista, existirá com elle. + Sobre as ruinas do acabado Mundo + A gloria existirá fastosa, inteira, + Seu throno erguendo sobre immensa, e clara + Luz, que só Newton dividio na Terra." + Disse; eis foge a visão, eis foge o Templo. + Eu, não diff'rente d'hum mortal que vôa, + Desço do cume do fadado monte. + O mesmo monte s'escondeo: vapores + Levantados em torno á vista enferma + Sobre mim denso véo de nuvens formão, + Roubão-me ao claro Olympo: a planta apenas + Se me antolhava que na Terra firmo, + Do novo dia sou chamado ao duro + Lagrimoso trabalho, herança minha, + N'huma absoluta escuridade, inglorio, + Sómente a mim deixado, e á Natureza, + Sem murmurar do Ceo que assim lhe aprouve, + Tranquillamente o tumulo esperando + (Pouco dista de mim!) repouso eterno. + Mas sem que a vil lisonja hum pão mendigue; + Nem aos soberbos porticos dos grandes + A dependencia guiará meus passos, + Nem vergonhosa súpplica, aos ouvidos + D' hum homem meu igual levei té agora. + Falte em que ponha os pés mesquinha terra, + Injusta collisão d'almas obtusas, + Menos que vermes na sciencia, em tudo, + Só grandes na ignorancia, e na impostura, + Me procure azedar cadentes dias; + Nem duro, e negro pão banhado em pranto, + E obtido com suor me escóre a vida; + Nem tenha onde evitar (paredes nuas) + Das estações a dura alternativa; + Nunca abatido o peito em males tantos, + Nem triste o rosto me verão no Mundo; + N'alma assentado o presupposto tenho + De huma voz Filosofica, que brada: + "Dos males todos, o menor he morte." + Se he preciso morrer, sou grande, e livre, + Sou nobre, independente, e sou ditoso; + Do estudo, e da sciencia o fructo he este. + Não he caduca vida hum bem q' valha + De hum vicio só, de huma vileza o preço, + Mas em quanto não finda este intervallo, + Breve entre o berço, e tumulo, desejo + Ó Patria minha, engrandecer teu nome, + Dar-te, qual hes, a conhecer ao Mundo. + Isto busco, isto quero, isto medito, + Neste seculo infausto á paz negado, + Em que tudo se esquece, excepto o sangue; + Em que he sciencia o calculo da morte; + Em que hum Tigre feroz se chama hum grande; + Em que amor do retiro, amor do estudo + Como fraqueza, e pedantismo he tido, + E a sciencia maior lembrar-se o nome + Da terra em que os mortaes seu sangue entornem. + Menos barbaro foi por certo o tempo + Em que do polo aquilonar marchando + Fero Ataúlio, ou Genserico veio + He Theodorico barbaro, mas teve + Ministro ao lado seu Cassiodoro: + Deo-se apreço ao saber, respeito ás Musas. + Filosofo he Boecio; aurea eloquencia + Apolinar, e Símacho sustentão, + E do Grego saber riqueza, e brilho + Nas escolas Ecléticas conserva + Á foz do Nilo transplantada Athenas. + Mas agora!...ah com lagrimas augmento + Do patrio rio a turbida corrente!... + Porém eu torno a mim, que a mim me rouba: + Melancolico véo que alma me enluta. + Trago do Templo excelso inda gravadas + Na fantazia férvida as imagens, + Que eu alli descobrira, inda me lembro + De quanto ao grão Britanno as Artes devem. + Cultas nações extaticas o louvão, + Nunca a lingua mortal cança em louvallo: + Unico Genio, cujo estudo, e fama, + Sómente ha de acabar quando se solte + A chamma voracissima do fogo, + Que a Terra, os astros lucidos consuma, + Com que do Mundo a machina vacille; + Como tu prometeste, e tu cantaste, + Ó dulcissimo Vate, a quem por louros + Deo do Tybre o Tyranno a Scitia, e morte. + Newton; foste mortal; mas quasi eu creio, + (Qual he crença de extatico Poeta) + Que d'hum astro natal vieste ao Mundo + Mostrar prodigios aos mortaes ignótos. + Tu, c'o Prisma na mão mostraste a fonte + Da septiforme côr, que a luz encerra, + Qual seja a essencia sua, e qual a vida. + A superficie dos terrenos corpos, + Em parte absorve os luminosos raios, + E, reflectidos n'outra parte, os manda + Aos olhos nossos com diversas côres. + Opáco eis apparece o corpo, quando + A luz não tópa com directos póros; + Na obliquidade a escuridão consiste, + Pois menor transparencia a luz encontra: + Tu decifraste as primitivas côres, + Ó grande Genio escrutador do Mundo! + Tu das mixtas nos dás brilhante idéa, + Que effeitos são dos reflectidos raios, + E qual seja o poder donde dimane + Á refracção, e reflexão principio. + Nem são de teu engenho obras supremas + As qu'em suave metro expuz té agora. + Não so da luz as vibrações potentes + Refrangiveis mostrou nos corpos densos, + Que no incessante, moto encontrão sempre; + Mas a mais progredindo, a mente excelsa, + Não se perdeo no calculo infinito: + Abysmos onde hum novo ignóto brilho + Aos mortaes pode abrir; sahindo ovante + Do labyrintho de infinitas curvas, + Quando a recta propoz, porque he finita; + Se hum pouco só diverge, então se fórma + Sempre em curva infinita. Ó sombra, as Musas + De ti se espantão, se intimidão, fogem: + Só lhe apraz terra donde brotem flores; + Só manejão pinceis, calculo odêão; + Ou he pequeno emprego á fantazia, + Que se escalda, se expande, e se remonta, + Juntar com sequidão cifras a cifras; + Outro quadro maior minha alma occupa. + Bastava, ó Newton immortal; bastava + A dar-te hum nome eterno, a luz, e as côres; + Mas tu, da clara luz transpondo o Imperio, + Foste os astros seguir no eterno móto. + A pestilente Inveja em vão contrasta + A teu nome immortal memoria, e honra. + Da Geometria nas valentes azas + Nunca tentado despregaste hum vôo, + E d'huma esfera n'outra esfera foste + Viver entre mil soes sem deslumbtar-te; + Lá tu foste encontrar, de lá revélas + Lei q' a hum centro commum chama os Planetas; + E a lei com que do centro os astros fogem. + O móto desigual da argentea Lua + A teus profundos calculos sugeitas. + Tu no móto annual, tu no diurno, + Vais passo a passo acompanhando a Terra. + Tu do grande fenomeno espantoso, + Exposto á nossa vista, e sempre ignóto, + Com que ora sobem na arenosa praia, + Ora descem na praia as turvas ondas, + A verosimil causa, ou certa apontas. + E teu profundo espirito em repouso, + Assombroso mortal, jámais deixaste. + Se, os tubos astronomicos depondo, + Deixas de ir vêr os Ceos, correndo os astros, + Não satisfeito de rasgar o obscuro, + Denso véo que encobria a Natureza, + Pelos sombrios pennetraes entrando + Com luminoso facho, e nunca extincto, + Tu, nascido a dar luz, rasgas as sombras + Talvez mais densas, que no seio envolvem + Marcado já periodo dos tempos, + Vai correndo teu fio, e apenas paras + No momento em q' á voz do Eterno o Mundo + Surge do cáhos, se organiza, e brilha. + Tu, da impostura oriental mofando, + E do fallaz mysterioso Egypto, + Só da verdade oraculos respeitas. + Petavio, Usserio te contemplão mudos + Quando outras luzes contemplando mostras + Da Natureza na observada marcha + Tão remoto não ser da Terra o berço. + A baze, as progressões, a gloria, a quéda + De Imperios vastos que ambição formára, + Interpetre das leis dos Ceos, dos astros, + Quizeste ser Legislador dos tempos. + Quem póde a gloria recuzar-te, ó Newton, + De dar ao Mundo a luz que elle não tinha? + A transcendente Geometria elevas + Ao ponto além do qual finda o perfeito. + Da Natureza sacerdote, acclaras + Mysterios que ignorára a Grecia, o Lacio. + Pelas sombras da Historia a luz derramas + Quando a baze maior, Chronologia, + Tu deixas em teus calculos segura. + Se o profundo Varennio a terra, os mares + Co'a régoa Filosofica medindo, + Este, ai! tão triste! domicilio humano + Em quadro multiforme off'rece á mente; + Tu te dignas polir, dar brilho, e preço + Talvez ao mór Geógrafo que exista; + A Newton por interpetre merece! + Nelle a luz he brazão, que tu lhe emprestas; + Em ti timbre maior, sendo tu Newton, + Confessar, conhecer merito estranho. + Da Natureza expositor, quizeste + As azas despregar n'hum ceo mais alto, + As cortinas fatídicas rasgando, + Com que a mão do Immortal cobre o futuro, + Foi teu maior estudo esse volume; + Onde as visões de extatico Profeta + Em sombra impenetravel se sepultão, + Não vadeaveis, não, que os aureos sellos + Só lhos deve romper momento extremo, + Quando de espanto agonizante o Mundo, + Vir das nuvens baixar do Eterno o filho. + Não foste grande aqui; mas são pequenos + Quantos ousão rasgar comtigo as sombras, + Em que Deus quiz guardar mysterios tantos. + No Templo Filosofico dest'arte + Tu mereceste hum tumulo sublime, + Que he seu mais nobre altar; não pompa infausta, + Qual ser dos Reis o mausoleo costuma; + Neste a gloria se acaba, o nome expira; + O teu dalli começa, e dalli manda + Raios de luz a esclarecer o Mundo. + Se tens a mente de sciencia cheia, + Tens de virtude, o coração cercado: + He mais arduo ser bom, que douto, e sabio; + E huma Virtude só tem mais valia + Que o teu compasso d'ouro, as linhas tuas, + E as leis que dás, ou que suppões nos astros. + Entre o fausto incivil entre a grandeza, + Podeste ser Filosofo modesto. + Ah! sem virtude, a sapiencia he nada! + A Inveja te assaltou, (e a quem perdoa + Este monstro o maior do escuro Inferno?) + Mas tu, qual no Oceano altivo escolho + Das negras ondas, que rebentão, zombas. + E, se hum novo Palacio á Sapiencia + Levantárão mortaes no Tybre, e Sena, + Os enfeites são seus, e as bazes tuas, + Ó feliz Albion, berço de tantos, + Magnanimos Heroes, que o Mundo illustrão, + Da honra e da virtude asylo, e Patria, + Vê que ha no Tejo quem conheça o grande + Alumno teo que legislou nos astros; + Quem seu saber adore, e seu profundo + Systema vá seguindo em todo, em parte; + Quem possa ser maior, e igual ao menos. + Este dos versos meus, tributo acceita + Que eu consagro a teu nome, á gloria tua: + Pendura-os em seu tumulo, e se tanto + Nem desejar, nem merecer eu devo, + Junto da pedra, que os despojos fecha + De Tompson teu Pintor, meus dons conserva: + Se elle traçou da Natureza o quadro, + Dos seculos té alli co'a Lyra intacta, + Eu do Interpetre seu pinto em meus versos + O grande Genio, e lhe eternizo a Fama. + +_Fim do III. Canto._ + + + + +NEWTON, +POEMA. + + +CANTO IV. + + Da luz que o Templo magestoso enchia + Nunca a meus olhos o clarão s'extingue, + Com elle vejo d' outra sorte a Terra: + S'era envolta até alli na sombra escura + Do cáhos da ignorancia, eis fulge, eis brilha + De novos astros, nova luz banhada. + Era tréva até alli quanto pousara, + Em Athenas outr'ora, outr'ora em Roma. + Era frouxa a impulsão de sabios tantos, + Que, mestres do Universo, aos homens davão + Lições de sapiencia. Ah! nunca o Templo + Aos miseros mortaes se abrio de todo! + Quando a barbarie Góthica domina + Por tantos, tantos seculos no Mundo, + Dos continuos fenomenos a causa + Sempre ignorada foi. De espaço a espaço + Surgía hum Genio, forcejando apenas + Por quebrar os grilhões. Baldado intento! + Hia o volume universal fechado, + Com sellos de Diamante, á força humana; + Qual no tristonho tenebroso Inverno, + Quando a densa, importuna, e grossa neve, + Abafa em torno o ar; se o Sol brilhante + Rasga c'o vivo raio o manto espesso, + Subito foge; subito o negrume + Tapa de novo o fulgurante aspecto, + O Imperio estende da imperfeita noite. + Tal da Verdade, e Natureza estava + Envolto sempre o rosto em véo sombrio; + E, se hum frouxo vislumbre hum pouco a treva + Tentava dividir, mais carregada + Vinha cahindo a sombra da ignorancia: + Ou porque o cego Fanatismo as luzes + Demorava continuo, ou porque ainda + O marcado periodo não vinha + Na vasta, immensa successão dos tempos, + Que a mão que rege o todo ás artes marca, + Quaes os Imperios são que nascem quando + Do nada á vida a Providencia os chama. + Quantos Genios nutrio no seio a Italia + Antes que Newton fulgurasse ao Mundo? + Tilesio, Cisalpino, e Bruno, aquelle + Que entre chammas fataes seu crime expia! + E Cardano, que entr'Arabes idéas + Tantas centelhas luminosas lança! + Mas nunca rompe o dia, e o Mundo aclara. + Tu mesmo ó Galileo, teu passo apenas, + Ao Peristillo do grão Templo levas: + Não te foi dado os porticos de todo + Aos homens franquear. Germania hum Sabio + Produz, q' aos Ceos se lance, os astros peze, + E ouse fallar de perto á Natureza; + Kepler as leis universaes sentia, + Que seguem na carreira ethereos corpos. + E Gallia, então n'Aurora, então no berço, + Ou não escuta, ou não conhece o Sabio, + Que entre os gelos da Hollanda hum mundo finge + De turbilhões, de vortices sonhados: + E de Epicuro nos jardins se assenta + Renovador dos átomos errantes + Pensativo Gassendi, e em tréva envolto, + Corpuscular Filosofia ensina, + Onde engenho só brilha, e nunca hum passo + A sempre douta experiencia avança. + Ah! se mais á razão, que á fantazia + Desse o Germano illustre a quem patente + O vasto Imperio foi das artes todas, + Se as primitivas mónadas, se aquella + Pré-existente enfática harmonia + Hum pouco s'esquecesse, e a voz ouvisse + Da contumaz observação das causas, + Mais cedo, e mais brilhante a luz raiára! + Do immenso livro do Universo os sellos + Aos olhos dos mortaes s'espedaçárão! + Mas Newton existio, e a Terra he outra; + O que era só mysterio, o que era sombra, + Foi tudo luz, e sapiencia tudo, + Bem como he todo luz, e he dia o Mundo + Quando o disco do Sol do Ganges rompe, + De arcanos naturaes expoz a cifra + Rasgou-se o manto a toda a Natureza! + Eis do infinito o calculo profundo + Pôde abrir, e forçar cerradas portas + Da Sapiencia o recatado Templo + Visto apenas ao longe entre inaccessas + Róchas quebradas de escarpados montes + Se abrio de todo, e se mostrou qual era. + Oh! que scena espantosa, oh quadro augusto! + Enthusiasmo que minha alma agita + Te abrange todo, te contempla, e pinta. + Em teu claro vastissimo horizonte + As gradações da luz, da sombra eu sigo, + Empreza digna de espantar por certo + A rica fantazia, o fogo, a força + De Tintoreto, ou de Jordão pintando! + Eu não sei que ardimento interno eu sinto, + Irresistivel violencia aos versos + Me leva todo, e da memoria eu tiro + Thesouros cuja posse eu mesmo ignóro: + Sobre mim me levanto, e alheio aos males, + Que outra vez tão de perto, em copia tanta + Terrivelmente minha Patria assombrão, + A Lyra Filosofica tactêo, + E onde não chega estrepito da guerra + Eu vejo a luz que a Terra a Newton deve, + De antigos évos óptica ignorada + De Sarpi, e Porta aos immortaes cuidados, + Ah! por certo deveo primeiros passos! + Porém co' Prisma, a calculos de Newton + Pode formar a analyse das côres: + Do Genio, tymbre d'Anglicos triunfos, + O volume doutissimo propaga + A luz que em só vista, e ignota sempre. + Vãos systemas té alli que o throno occupão + Cahem sem força, e vigor no abysmo, e nada + A Experiencia só, corrige, emenda + Quanto á moderna observação se oppunha; + E a nova escóla Eclectica se eleva + Sobre a verdade, e calculo sómente. + Eis-Eulér, e Clairault, profundos genios, + Sobre o problema dos tres corpos lanção + A baze ao grão saber, e altos progressos + Do magestoso simplice systema, + Que La Place immortal do Mundo off'rece. + Quão gloriosas consequencias vejo + De teus principios, ó Britanno illustre! + A nutação do eixo em que se firma, + Em que rodando vai pezada Terra: + Do mar a exaltação, do mar a fuga, + (Que fluxo, e que refluxo a proza chama): + D'astros primarios movimento eterno, + Dos satélites seus que ao centro tendem; + Dos cometas excentricos, que o moto, + E sempre incerto, irregular conservão, + Os constantes periodos se marcão. + A libração da prateada Lua, + Astro proximo a nós, mas sempre ignóto, + E a causa achada dos bramosos ventos, + Do ar sonoro oscilações pasmosas; + Tudo he patente já. Methodo exacto, + E de integrar, de aproximar se abraça, + E tudo, ó grande Inglez, tua gloria augmenta! + A longa duração de quasi um cento + D'annuas revoluções da Terra inerte + De teus principios á cultura entrega + Fontenelle dulcissimo, que Mundos + Vio mais no espaço, e aridas sciencias + De nova graça e formosura enfeita. + Da Germania, que hum tempo, e núa, e simples + A' Historiador Filosofo se mostra, + Surge o grão Wolfio, e se offerece ao Mundo; + Segue o trilho de calculos profundos: + Mathematica luz lança no campo + De quanta a Terra vio Filosofia. + De ti, grão Newton, os vestigios piza, + E da exacta sciencia entra o Sacrario, + Em sombras methafysicas s'entranha; + Quadro bem digno da attenção do sabio, + Nunca em meus versos ficarás inglorio! + A Inveja perseguio genio tão raro; + Entre agitadas borrascosas ondas + Em seu peito existio tranquilidade, + E a cada tiro venenoso dava + A grão resposta de hum volume douto + Com que da sapiencia o erario augmenta. + Do Lycêo de Berlin lá foge expulso + Vai com elle a Virtude, e vai Sciencia. + Da Hollanda nebulosa os sabios surgem. + Ah! porque foge á magica harmonia + De meus versos seu nome! As Musas fogem, + E os alpes vendo, os Pyreneos não passam. + Só do Tibre, ou do Téjo as aguas gostão + Depois que o Trace barbaro, e que o Scytha + Do Eurotas, de Hypocrene a margem pizão! + Mosckembroêke, Sgravesande illustrão + Da Fysica os confins. Conspicua em tudo, + Antes que ao jugo Vandalo dobrasse + O tão nobre até alli livre pescoço, + Nevosa Helvecia n'huma só familia + Da sciencia o deposito conserva. + Fadada para as letras Baziléa + Tantos Bernullis dá, quantos os sábios. + Claro ornamento da sciencia exacta, + Onde hum tempo foi Grecia, e Roma outr'ora + Onde em Sena mudado, eu via o Tibre, + Quanto a Fysica val, quanto se avança! + Á Luz de Newton nova luz empresta, + E não deixou que dezejar á Terra. + Da grande Academia o Templo eu vejo, + Alcaçar da sciencia ao Mundo aberto + Do grande Newton a memoria, o nome, + Alli qual genio tutelar preside + No vasto erario de immortaes volumes + Encerra, e fêcha a Natureza toda, + E a Natureza toda aos olhos abre. + De luz tão clara não carece Italia; + Paiz tão caro ao Ceo, tão grato aos sabios, + Ah! nunca os Brennos te pisassem, nunca! + Devera em Cima de teus Alpes vêr-se + A gráo Minerva sobraçando a Egyde + Co'a angui-crinita frente de Medusa + Onde os Hydros fataes s'enroscão, silvão, + Petrificar as Vandalas Cohortes, + Qual já Perseo c'o diamantino escudo + As iras suspendeo do equoreo monstro, + E Andromeda livrou. Italia, Italia, + Belligeranres torreões nos mares + De contrarias nações, a Hesperia, a Gallia, + E a soberba Albion, respeitão, guardão + Lenho que leva La Peyrouse, e marcha + Co'as raras produções do opposto Mundo + A enriquecer a Europa armi-potente: + Não he de huma nação, da Terra he todo + O sabio que a riqueza augmenta ás artes. + Tal acatáda ser, tal tu devias, + Ó domicilio do saber immenso, + E não hirem turvar profanas armas + Teus sabios immortaes, teus monumentos; + Tudo em ti tinha o Mundo, e as Musas todas + Tinhão firmado em ti seu Templo, e throno. + De hum vate acceita o pranto, acceita os votos, + Sabe que o Téjo te conhece toda + Entre as cultas nações, tu só me illustras, + Eu nada tenho que invejar ao Mundo, + Quando em viva abstracção te roubo ao Globo; + Sem Filicasa, eu Lyrico me acclamo, + Ah! sem Tasso, o Cantor do acceso Oriente + Cedera a nenhum outro Epica tuba; + E meditando harmoniosamente + Eu só fôra o Pintor da Natureza + Se Arrighi, e Conti co'os pincéis não dérão + A tão grande painel mais alma, e vida. + A accesa fantasia hum pouco, hu' pouco + Das Musas se lembrou deixando as linhas, + Os cubos, e os triangulos de Newton, + E a regua de marfim, compasso d'ouro + Com que elle mede a Natureza toda. + Com quanta gloria te serviste delle, + Tu, que a tudo primeiro o exemplo deste! + Não cede, não, Bolonha ao grão Tamisa + Menos Florença, que, em jardins envolta, + Da Fysica sciencia o Imperio estende; + De Newton ao clarão marcha Zanotti: + Curvo, e velho Ricatti, abstracto, e mudo + A seu sacrario te conduz, Urania; + De Newton nas fluxões tu luz derramas. + Se teve crime a Sociedade extincta + Aos olhos da razáo, tu lho disculpas, + E tu pedes por ella o pranto ao Mundo. + Manfredi, e Grandi, e Nicolai, de assombro + Enche do Neva, e do Danubio os sabios; + Não mais, não mais a progredir se atreve + O grande Imperio da sciencia exacta. + Onde o claro Sebéto as aguas volve, + E ao perto ouve bramir, troar escuta + Do medonho Vesuvio o seio horrendo, + Chega de Newton a sciencia, e chega + O desejo de abrir com aureas chaves + Da recatada Natureza o Templo, + Orlandi, e Galiani aos astros sobem, + O grão Maraldi lhes franqueia a estrada; + Com Cassini outra vez s'exalta o Mundo. + Se muito a Galileo deveste, ó Newton, + Mais a Italia te deve, as Artes devem, + Na Hesperia á perfeição levadas sempre. + Mecanica, aos mortaes proficuo estudo, + Depois de Newton teu sacrario aberto + Eu vejo pela Europa, e mais se apura + Do maquinista Siculo o talento, + Que atalha os vôos das Romanas Aguias; + A força cede a força ás artes sabias! + Quasi vejo surgir Numes na Terra, + A Cujo aceno os corpos obedecem; + Não he a Lyra de Anfião que os montes + Manda a Thebas chegar, são leis profundas, + Que ás sombras arrancou da Natureza + O estudo da Mecanica pasmoso + Náos se suspendem, diques s'apresentão + Á furia sempre indómita dos mares. + Sobe hum rio em Marly, corre hum penhasco + Á ribeira do Neva, e a baze fórma + Da colossal, prodigiosa móle, + Que representa o creador de Imperio, + Que hoje a razão defende, o crime insulta. + Sem a Italia meu canto erguer não posso; + Se Imperio Mathematico contemplo, + Musckembroêcke, e Belidoro a guerra + (Guerra dos sabios são, que o sangue ignorão) + Accendem entre, si, disputão doutos + Do movimento de impelidos corpos, + Que a força perdem gradativamente, + Até que a resistencia o móto acabe. + Do Sena, e do Tamiza os sabios todos + De Newton, de Amontons nas leis insistem; + Eis surge, eis brilha o Bolonhez Palcani, + E onde co'as doutas maquinas não chega, + Mysterios da razão co'a força abrange; + Traça hum ramo hyperbolico engenhoso, + Assintótico o diz, com elle explica, + Com elle aclara o disputado arcano. + Se as leis dos corpos sólidos se mostrão + Em soberana luz, quanto escondida + Guardava a Natureza a lei constante, + Que pôz desde o começo ao rio undoso, + Que elle na marcha accelerada observa! + Mil equações algebricas a escondem; + Vencem-se em fim mysteriosas sombras. + Depois de quanto afan, de quanto estudo + Tu, Saladini, a theoria expunhas, + Que escólho da mecanica tu chamas, + Não superavel quasi a engenho humano! + Tu deste a Hydrodinamica pasmosa; + Teu hemisferio hydraulico os louvores + Do taciturno pensador La-Grange + Te soube merecer. Ricatti o grande + Te abraça terno com silencio augusto, + Sobre teu rosto lagrimas derrama; + Do Sabio velho a candida ternura + Mais te explica, e te diz, que o louro, o premio + Que Berlin te mandou, promette o Sena. + Mas teus cuidados, as vigilias tuas, + Ó tu de Urania Sacerdote, e filho, + Á sciencia dão luz, que os ceos abrange, + Por ti seu Reino estende a Astronomia; + Desde o culto Caldeo, do douto Egypcio + Té quasi ao berço teu jazia em sombras; + Nada avançado tinha Árabe estudo, + Guardador do deposito das letras, + Que á furia se evadio do Turco indouto + Depois que a sabia Grecia he cinza, ou nada: + Nem mesmo entre os de Dánia agrestes montes, + Onde Ticho elevou seu tubo aos astros, + Solar systema se aclarou de todo. + Mas apenas os Ceos co'a mente excelsa, + Sem te assustar o espaço indefinito, + Ousaste passear, como vencida + Da douta audacia a Madre Natureza, + Ou fez que o Ceo, se aproximasse á Terra, + Ou que a Terra de perto os astros visse. + Leis occultas té alli se patenteão + E o que Newton expoz, Cassini indaga. + Seguindo a piza ao fundador, ao mestre + Da sciencia astronomica, empunhava + O Telescopio do subtil Campani; + De Saturno os satellites descobre + Quasi todos então; busca as estrellas, + Que immortal Galileo Primeiro achára, + Luas de Jove são; fanal aos nautas; + O espantoso fenomeno nos mostra + Da luz Zodiacal, co'a parallaxe + Do sanguineo, medonho, accezo Marte + A distancia marcou do Sol á Terra, + Distancia que confunde a mente humana, + E que a luz n'hum momento abrange, e corre; + Sabio traçou Meridiana linha, + E por ella nos mostra o variante + Moto veloz da Terra ao Sol em torno. + Então mais claro no volume immenso, + Dos Ceos, já quasi aberto, os homens lêrão. + Foi-lhe sugeita a abobeda brilhante + A radío mathemático, qual era + O mortal domicilio aos homens dado: + Parallaxe annual d'altas estrellas, + Que engastadas nos Ceos fixas se amostrão; + Idéa falsa se aniquila, e foge, + E a lei da aberração mostra a verdade. + Peregrinando pelos Ceos supremos + Vão sabios indagar da Terra a fórma + Co'a sciencia astronomica se marca + Da nossa habitação figura, e termo. + Quasi se amostra a longitude ignóta + Sobre inconstante mar, onde em cavado + Pinho, avaro mortal circunda o globo. + Incessante fadiga a luz derrama + No arcano presentido, e ignóto ainda + Da obliquidade do angulo, que hum pouco + Em cem annos na Ecliptica decresce! + Quasi deixão seu tom da Lyra as cordas + Quando dest'arte nos umbraes me entranho + Da linguagem dos calculos, que he sombra, + Que estrema immensamente, e que divide + O frio Euclides do fervente Milton. + Ah! de Ariosto aos extases divinos + Calculador pousado em vão se ajusta. + Como indignado das prescriptas metas, + Achadas até alli no espaço immenso + Herschell sobe mais alto, além das tardas, + Luas, que escoltão frigido Saturno. + Lá corre a suspender na marcha Urano, + Leva comsigo a Carolina, e ambos + Revolução continua, e varia encontrão, + No luminoso annel que o globo cinge, + Do nem remóto, ou ultimo Saturno; + Quando com elle hum Hercules comparo, + Q' Olbers descobre, que a carreira immensa, + No gyro de dois seculos absolve. + De mais perto se observa a argentea Lua, + Gelados montes tem, gelados mares, + E tem Vesuvios que vomitão chammas. + He cidadão, e morador he quasi + Na Terra inda o mortal do ethereo assento. + Desgraçado Bailly, fuma o teu sangue + No cadafalso vil: tua alma agora, + Já solta das prizões, lá vê nos astros + Se o grão discurso teu, falhou no Mundo. + Se a Terra, dizes tu, se outros Planetas + Por centro do seu gyro o Sol conhecem, + Talvez, que o nosso Sol, que os Soes, que fixos + Parecem ser na abobeda azulada? + Tenhão centro commum n'hum Sol mais puro, + Mais vasto, e luminoso, e que descrevão + Em roda delle, essa orbita assombrosa, + Que mais remotos tem limite, e termo, + Que a fantasia fervida d'hum Váte! + La-Lande a imaginou, La-Lande a sente; + Mas, foge, foge aos calculos, ás cifras. + Virá talvez hum tempo... ah! se na Terra + Não tiver duração Vandalo Imperio! + Em que outros vidros, outros tubos mostrem, + Que foi verdade, e luz tão grande idéa! + Depositada está no aureo volume, + Que sobranceiro ao cadafalso, ao sangue, + Não ferio com Bailly furor de Tigres, + Que ao Sena derão leis, e as dão na Europa, + Que os ferros beija voluntaria escrava: + Vileza, e corrupção, chegaste a tanto! + Não foi sem fructo, não, ou foi deleite + A sciencia Astronomica entre os homens! + Ah! quanta, e quanta luz se deve a Newton! + Só são dignas de apreço as artes uteis. + Quão proficuo aos mortaes he nauta ousado! + Se tu, Lysia, tens gloria, ao nauta o deves, + Que abrio primeiro do Oriente as portas: + E teu nome immortal soou na Terra, + Porque teu lenho undívago a cercára, + Nas Ilhas do Oceano, e mares todos, + Dos Lusos se conserva o nome, e a fama. + Muito pôde o valor, pouco a sciencia + No seculo inda rude, alheio ás artes! + Por que inda hum Newton não subira aos astros, + Newton, sciencia, calculos, systemas + Só Magalhães não necessita; basta + Que ao lado delle vão, vingança e honra; + Eis todo o Globo rodeado; he esta + A façanha maior da especie humana. + Era extincto o fervor nos Lusos peitos + Depois que estranhas leis o Tejo ouvira, + Do mar o senhorio então transfere + Ás mãos Britannas o Senhor dos Mundos. + De Vatennio a fadiga illustra hum Newton, + Correm Bretões o mar, e o globo cercão, + Não levados do sordido, e terreno + Insaciavel interesse de ouro; + Mas só por illustrar, dar mór grandeza + Á esfera immensa das sciencias todas. + Vai Cook, e vai Byron cercando o Globo + Por inda não tentada, incerta via + Então suspendem generosa marcha + Quando em gelado mar, gelada terra + Da Natureza no decreto attentão, + Que atraz lhes manda bracear as vélas; + Que onde a Terra acabou, findar se deve + O trabalho mortal, o amor da gloria. + Ó nome Lusitano, ó Patria minha, + Eu culpo o teu silencio, a huma virtude, + Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia. + Descreve Newton c'o compasso d'ouro + O globo que Varennio exposto havia; + Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville, + Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyrão. + Do Continente austral foge o fantasma, + Que avarento Hollandez (nem hoje avaro; + Nem já por crimes se conhece a Hollanda) + Julgou grande porção do globo, e sua. + Assombrado do gelo atraz voltárão, + Mas nunca hum passo além co' lenho óvante + Da Terra forão que tocára hum Luso; + Magnanimo Queiroz, déste-lhe hum nome + Para ti foi brazão, e he meta aos outros + Do nebuloso Sul prescrutadores: + E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo, + Se ao pensativo Bátavo pertence, + E ao pertinaz navegador Britanno, + No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte, + Mais além de Queiroz nenhum se avança. + Foi entre tantos Magalhães primeiro, + Todos de hum centro os raios se derramão, + Que vem tocar d'hum circulo os extremos, + Tal do centro de luz, que accende hum Newton + Se derrama ao grão circulo das artes + O perpetuo clarão com que hoje medrão. + Quanto a vetusta Fysica ignorava, + Sobre a essencia do ar se mostra aos olhos; + Piza-se a immensa fluida substancia; + E já senhor do mar n'hum curvo lenho + Não lhe basta do Globo o Imperio inteiro, + Se o dominio o mortal não tem dos ares; + Lá sóbe, la passêa, e vê seguro + Debaixo de seus pés cruzando os raios. + Do antigo Architas se escureça a Pomba; + Maior prodigio guarda a idade nossa. + Eu vejo pelo ar volantes carros, + Quaes vão nas ondas os baixeis arfando; + E nelles os mortaes tranquillos vejo + Sem temer o despenho, e não lhes lembra, + Que afrontada dest'arte a Natureza, + Tire vingança da famosa injuria. + Eu vejo o golpe, e a victima primeira + Em Rosier intrepido, que sobe; + Elle o primeiro foi, mas prestes passa, + Do regaço da gloria ás mãos da morte. + Porém mais uteis os trabalhos vejo + Dos sabios, que o caminho a Newton seguem; + Eis a fonte de incognitos arcanos + Aberta aos olhos dos mortaes absortos; + Eis o electrico fluido pasmoso + De fenomenos mil já causa ignóta; + Do raio a patria se conhece, e teme, + He das nuvens a electrica peleja. + Se trôa, se rebrama o escuro Inferno + Dentro do bojo de Vesuvio, e exhala + O fumo que se expande, e o Ceo nos rouba, + E traz ao dia de repente a noite, + E aquella chamma, que entre estragos tanto, + Chora o Mundo o maior, de Plinio a morte; + Aqui descobre electricismo o Sabio. + Sabios illustres, que mysterios tantos + Descortinar, e conhecer podestes; + Legislador Americano, os évos + Teo nome guardarão; Nollet, teu nome + Da sapiencia nos annaes gravado + Eternamente vivirá; se as artes + Barbaridade, que extermina tudo, + Quizer poupar da aluvião de ultrages, + Que ás leis, á Natureza, e aos Ceos tem feito. + Da multi-forme Boreal Aurora + Mairan, seguindo os calculos de Newton, + Expoz a causa aos seculos ignota. + Da atmosféra solar porção tirada + Por veloz rotação do terreo globo. + Ao ar então se communica espesso, + Que as tristes regiões do Polo abafa. + Tu, de Bérgamo o tymbre, sabio illustre, + Tu, Savióli, que na Lyra d'ouro, + Cantaste os dons de Eráto, os dons d'Urania, + Do Volga, e do Boristhenes ás margens + Foste observar de perto o accezo quadro, + Do Boreal Fenomeno, tu viste + Nos gelos que c'os Ceos quasi confinão + A reflexão dos luminosos raios, + E tantos, taes listões formar nos ares, + Que pelas vastas regiões das sombras, + Ou da morte talvez, suprem hum dia. + Das Artes no progresso a gloria vejo + Da indagadora Chimica, que tanto + Da Europa pelos angulos se acclama + (Com tanto ardor, que enthusiasmo he, certo!) + Interpetre fiel se diz da vasta, + Té agora occulta Natureza toda. + Já de antigos delirios despojada, + Se ella analyza os simplices, não busca, + Lisongeando sordida avareza, + As pedras converter, (que insania!) em ouro! + Té mãos Imperiaes viste, ó Florença, + Depondo o sceptro, tactear cadinhos, + Tanto o prestigio de tal arte póde! + Mas se delles a Purpura não foge, + Fogem por certo as Musas d'espantadas: + Nega-se a Lyra a barbaros, e escuros + Termos, que jurão sanguinosa guerra + Do metro Luso á mágica harmonia. + Morre-me a chamma, que me ferve n'alma, + Se hydrogenio, se azóte, ou se oxigenio, + Ousados vem barbarizar meus versos. + Não te negão porém lugar, nem gloria, + Lavoisier illustre, que hum momento + Inda pediste ao barbaro Tyranno, + Da vida, ai dor! que despiedado córta, + Em que inda mais á Natureza abrisses, + Nunca de todo, o sanctuario, aberto! + Mas hum Tigre quer sangue, e não sciencia; + Tu não choras a vida, a perda choras, + De huma verdade, que comtigo em sombra + Perpetuamente no sepulcro he posta. + Nem do globo as reconditas entranhas + Da vista ao sabio indagador se occultão; + Tal he o Imperio do brilhante facho, + Que Newton accendeu! Henckel, Bomare + Então das minas pela tréva espessa + Perdem de vista o Sol, da vista o dia, + E á debil luz de palida lanterna + O profundo vão ver Laboratorio, + Em que os metaes prepara a Natureza: + Dos homens os quiz pôr, tão longe, e longe! + Vio que do ferro só, não curvo arado, + Mas liza espada fabricar devião, + E do bronze os canhões, que o raio imitão, + A tanta assolação chamando gloria. + Mais o ouro escondeu no abysmo, e sombra, + Devendo ser do mérito a corôa, + Quasi sempre he do crime o premio, e causa. + Mas eu duros metaes deixo nas sombras: + Distem pouco do Inferno, eu busco o quadro, + Que em sua face a Natureza mostra. + Estudo immenso, dos mortaes só digno, + Perenne fonte das sciencias todas, + Das mesmas Artes mãi que estende o Imperio + Por quanto abraça o ar, a terra, os mares + Desde o vasto Elefante, á vaga, e bella + Borboleta gentil, que beija as flores: + Da gigantesca, ou colossal Balêa + Ao pequenino lucido testaceo, + Que, igual ao grão de arêa, á vista foge: + Desde o cedro soberbo, á relva humilde, + Que os gados tózão, que tapiza os prados. + Estudo liberal, que engenho humano + Descobre vasto, interminavel campo, + Que o orgulho scientifico confunde + Com tanto, vario, e differente objecto, + Que imperceptiveis relações conservão; + Quaes anneis entre si ligados sempre, + Interminavel a cadêa formão, + Que prende, e tem principio em Ser Eterno. + Tão vasto estudo, glorioso, e bello, + Tanto mais se cultiva, e mais florece, + Quanto é menos pezada, e menos densa + Nuvem que assombra o social estado + De Antiquario pedante, ou Vate inerte, + Vadio adorador d'alta belleza, + Cuja vida he desprezo, a morte he fome: + De hebdomadal efémera caterva, + Que do nada surgio, e ao nada torna + Depois que o povo no momento d'ocio + Escarneceo profeticas promessas. + Estudo augusto, que propaga e cresce + Onde menos o estólido Forense, + E impertinente Puritano existe, + Rico de frases só, de cousas pobre; + Onde menos a enfática Impostura + Precursora da morte, a morte apressa; + E o Quinhentista moedor, mysterios + Nos parece mostrar, se mudo, e triste + Pulverulento códice idolátra, + Que he rico só de antiguidade, e traça. + De insectos taes em ti não viste a praga, + Aviltada Germania, ah! quando ao Mundo + O grande author das mónadas off'rece + A Prothogea. Nem Britannia a sente + Quando Johnston, Derrham, e hum Lister dava. + Nem com elles, Italia, então gemeste + Quando dava a Botanica Zanoni: + Quando hum Morgagni teu, quando hum Borelli, + Nos penetraes da Natureza entravão: + Equando Valisnéri a expunha toda; + Já limpa, e livre de pedantes eras, + Quando a tócha accendia Spalanzani, + E arranca de seu seio altos arcanos, + Quaes desde o grande Peripáto os evos, + Nunca atélli descortinar podérão. + Nem Gallia (agora escrava em sangue, e ferros, + Qual de Piratas viz n'Africa Emporio, + Que o mar Tirreno co'as Galés infesta;) + E de rapina, e violencia existe, + De Novellistas oppremida estava + Quando o grande Buffon n'hum quadro immenso + A Natureza á Natureza mostra. + Se a tempestade das Novellas surge, + Se os Jornaes a si mesmo, e os homens matão, + Se a militar, politica mania + Começa de deixar tão ermo o Globo, + He pastor Daubenton, Sonnini expira + (Inda feliz que ao cadafalso escapa) + Do esquecimento, e da penuria em braços. + Da Natureza não prospéra o estudo, + Nem se conhece hum Newton, se estes vermes + Da sciencia os alcaçares maculão: + Nunca do Tejo ás margens se aproximem, + Terá throno a sciencia, as Artes preço: + Lusitania terá Buffons, e Plinios; + E Vates, que estudando a Natureza, + Saibão dar justo emprego ao dom das Musas, + Se tem tal nome, o ingenito talento, + Que alta facundia a numeros sugeita, + Que em grande tudo vê, que imagens falla, + E que, a razão ligando á fantazia, + Dá força, dá calor, dá vida a tudo. + Mas de tristeza hum véo me envolve, e fecha + Tudo o que palpo, e que diviso, he sombra! + Della vejo romper Fantasma horrendo; + Ao rosto atroz, ás Sanguinosas vestes + Eu conheci, (que dor!) Barbaridade! + De Omar a ferrea Simitarra empunha, + Na esquerda, e negra mão fulgura a tócha, + E se me antolha já q' hum vasto incendio + Das Artes o deposito consume: + Que já são pasto da estridente chamma + Das Musas todas as vigilias doutas! + Nem teu mesmo volume escapa, ó Newton. + Oh perda!...Oh Albion, manda os teus raios + Elles podem vedar barbaro incendio. + Corre, e na Hespanha pulveriza os monstros, + Que onde quer que do corpo a sombra espalhão, + Turva se o ar, se esteriliza a terra, + Da vida, e da sciencia amor expira. + Em quanto além do Vistula rompendo + D'honra, e valor o sufocado incendio + Desfeicha o raio, que talvez da Europa + De huma vez para sempre a injuria vingue. + Então do cáhos recuando o Imperio, + Hum dia assomará que traga ao Mundo + A luz que a Grecia vio, quando na escóla + O Genio de Estagira absorta ouvia; + Quando acceso Demosthenes da boca + D'aurea elequencia as ondas entornava, + E além das nuvens Pindaro subia; + A luz já vista fulgurar em Roma + Quando Augusto a seu lado assenta Horacio, + Ou Tullio a dubia liberdade escóra: + Qual seculos depois raiou mais clara + Do Decimo Leão no Imperio eximio, + Quando o Segundo Julio ás Artes abre + O Templo, que até alli fechara o Godo: + A luz que a França mais ditosa vira + Do tão Grande Luiz brilhar nos dias. + Então dos Ceos descendo a Paz serena, + Da porficua Oliveira ao lado os Louros + Fará brotar, reverdecer, c'roar-se + Com sua rama a magestosa frente + Do profundo Filosofo, e do Vate. + +_Fim do IV. e ultimo Canto._ + + [1] Deve entender-se o termo--frugal--no sentido proprio de sustento + parco; pois diz Collero, que se sustentava de sopas de leite, e + passas, e era tão modesto nos vestidos, que trajou sempre de preto, + e de mui grosseiro panno; respondendo ao Gran Pensionario da + Hollanda, que lho estranhou--Que o edificio humano escusava ricas + armações. + + [2] Contra os meus propositos a respeito de notas, me vejo obrigado + a esta, talvez que em hum passo escuro para muitos eruditos: Cicero + entre seus escravos tinha dois, ambos Gregos, hum chamado Tyro, que + era seu leitor, e a quem Cicero escreveo muitas cartas; outro + chamado Posidonio, inventor da machina a que chamamos--Planetario--; + ainda que não tão perfeita como a vemos. Isto diz o mesmo Cicero, a + Attico, fallando da machina "_Quem nuper Possidonius noster ut + venit._" + + [3] Collero na Vida de Espinosa diz, que seus paes erão de Beja, e + que elle nascêra no Porto, donde fora levado para Amsterdão de dois + annos de idade, hindo tambem com seus pais o célebre Jacob Murteira, + que depois foi seu Mestre: este foi o que depois se rio do desafio + de Antonio Vieira. + + + + +Notas de transcrição. + +No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no +sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais. +Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes: + +[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma +abreviatura dos caracteres "um". + + + + + +End of Project Gutenberg's Newton: Poema, by José Agostinho de Macedo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NEWTON: POEMA *** + +***** This file should be named 26848-8.txt or 26848-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/6/8/4/26848/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Newton: Poema + +Author: José Agostinho de Macedo + +Release Date: October 8, 2008 [EBook #26848] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NEWTON: POEMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<br> +<div class="capa"> +<span class="pagenum"><a name="pag_1" id="pag_1">[1]</a></span> +<p style="font-size: 2.5em;">NEWTON,</p> + + +<p style="font-size: 1.8em;">POEMA</p> + + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + + +<p style="font-size: 1.2em;">JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO.</p> + + +<p><img src="images/imp_reg.gif" alt="Selo da Imprensa Regia"></p> + +<p style="font-size: 1em;">LISBOA,</p> + +<p style="font-size: 0.8em;"><span class="small-caps">Na Impressão Regia.</span> Anno 1813. +<br> +<i>Com licença.</i></p> +</div> + + +<blockquote> +<span class="pagenum"><a name="pag_2" id="pag_2">[2]</a></span><i>Sciscitanti cælestium causas, domesticus</i> +<BR><i> Interpres.</i> +</blockquote> + +<p align="right"> +Seneca, Cons. ad Marcian. +</p> + +<span class="pagenum"><a name="pag_3" id="pag_3">[3]</a></span> +<H1>PROEMIO.</H1> + +<P style="text-align: justify"> +O Mundo deve aos Conquistadores desgraças, lagrimas, e lutos; o Mundo +deve a Newton verdades, sciencia, e luzes. Se inquietar os homens +tem merecido tantas Epopéas, porque não merecerá hum Poema quem illustra, +e quem ensina os homens? Ah! se chegará o tempo de se conhecer, que +huma penna he mais util que huma espada! Canta-se com enfasi quem +conquistou huma Provincia, e porque não ha de ser cantado aquelle +de quem se póde dizer, que conquistára a Natureza, obrigando-a, á +força de estudo, e engenho, a revelar seus mais reconditos arcanos? +He preciso que conheçamos que o Imperio da Poesia tem limites muito +mais extensos do que até agora se julgava; e eu creio que o seu melhor +emprego he a contemplação, e a exposição deste sempre antigo, e sempre +novo quadro, que se chama a Natureza. A simples intuição de seus prodigios, +e o estudo destes mesmos prodigios, dilata, e <span class="pagenum"><a name="pag_4" id="pag_4">[4]</a></span>accende mais +a imaginação do verdadeiro Poeta, que todas as chamadas grandes acções +dos Conquistadores, ou perturbadores da Terra. Se o homem só se deve +chamar grande, quando he verdadeiramente util aos outros homens, quem +poderá pôr em dúvida que os descobrimentos, e as mesmas hypotheses +de Newton sejão mais uteis aos mortaes do que as expedições da Cruzada, +que derão a materia ao Poema de Tasso? Quem illustra a humanidade +he maior que quem a diminúe. Newton merecia hum Poema, as Musas lho +devião, eu satisfiz esta divida; se a satisfiz bem, a critica o dirá; +em quanto aos miseraveis reparos da escura Inveja, prepare-se esta, +porque a mesma chamma, que se me desprendeo n'alma para cantar Newton, +me obriga a consagrar igual tributo de louvor a Buffon. + +<span class="pagenum"><a name="pag_5" id="pag_5">[5]</a></span> +<H1>NEWTON, +<BR> +POEMA. +</H1> + + + +<H1>CANTO I.</H1> + + +<blockquote> +Já da Aurora ao clarão suave, e puro +<BR> +Cedia o campo azul do immenso espaço +<BR> +D'estrellas recamada a noite umbrosa; +<BR> +Nuncia do dia, ás lucidas esferas, +<BR> +Da luz primeira undulações mandava. +<BR> +Das mãos de neve, e do purpureo rosto +<BR> +Brancas brilhantes pérolas cahião +<BR> +No verde esmalte dos rizonhos prados; +<BR> +De ondas immensas de escarlata, e d'ouro +<BR> +Era o ceo do Oriente envolto, e cheio; +<BR> +E pelo espaço liquido dos ares +<BR> +Os adejantes Zéfyros das azas +<BR> +Da manhã fresca os hálitos soltavão; +<BR> +E a vaga turba aligera nos bosques, +<BR> +Dava o tributo dos primeiros hymnos +<BR> +Da Natureza ao renascente quadro. +<BR> +Quasi rompia o flammejante disco, +<BR> +Que onde soberbo, e vívido fulgura, +<BR> +Prazer espalha, e graças aviventa, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_6" id="pag_6">[6]</a></span>E mostra em luz envolto o Mundo ao Mundo. +<BR> + + Depondo o pezo do voraz cuidado, +<BR>(Amargo pezo da existencia minha!) +<BR> +Eu no prazer do esquecimento envolto, +<BR> +E, á desgraça esquecido, então pousava. +<BR> +Do doce somno em balsamos immerso, +<BR> +Somno em que meiga a Natureza furta +<BR>Á existencia mortal trabalho, e magoa; +<BR> +Eis-que sinto levar-me...(e como, e onde +<BR> +Eu não posso dizer.) Voei nas azas +<BR> +De arrebatados extasis sublimes. +<BR> +Sonho, sonho não foi; que mil confusas +<BR> +Na fantasia imagens apresenta. +<BR> +Extasi foi sómente, e arrebatado +<BR> +Eu fui de hum Genio habitador do Olympo, +<BR> +Que ao pensamento do mortal qu'indága +<BR> +Abre do eterno arcano eternas portas, +<BR> +E, n'hum centro de luz, lhe mostra o immenso +<BR> +Da Natureza o variante quadro. +<BR> +Do Grande Scipião dest'arte á vista +<BR> +Talvez n'hum tempo se mostrasse a Gloria, +<BR> +Que a prosseguir na bellicosa estrada +<BR> +Lhe manda, e lhe descobre o alto destino, +<BR> +Que aniquilla Carthago, exalta Roma. +<BR> + + Já pizo o aereo cume, e a luz brilhante +<BR> +Auri-luzente se diffunde, e espalha. +<BR> +Como do meio do profundo Oceano +<BR> +Costuma alçar-se desmedido escôlho, +<BR> +Que vê quebrar-se nas eternas bazes, +<BR> +Já languida, e sem força onda espumante: +<BR> +Se olha do cume as voadoras nuvens, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_7" id="pag_7">[7]</a></span>E os ressonantes tumidos chuveiros, +<BR> +Se ouve o horrendo fragor do accezo raio, +<BR> +Sereno permanece, e sente apenas +<BR> +Que a triste escuridão nas faldas pousa; +<BR> +E onda, e vento debalde a baze açoita. +<BR> +Assim eu, levantado á immensa altura, +<BR> +Hum ar tranquillo e puro, e luz mais clara +<BR> +Bebo em torrentes, e descubro apenas +<BR> +Grossas nuvens pousar na Terra inerte. +<BR> +Eis no gremio da paz serena, e doce, +<BR> +Se me antolha pizar de Heróes o alcaçar, +<BR> +Extatico bradando, ah! não, por certo, +<BR> +Pode ser este o terreal assento! +<BR> +Hum céo sereno, e Primavera eterna +<BR> +Celestes flores, e não vistas plantas, +<BR> +E, cheios de prazer, bosques sombrios, +<BR> +D'aguas mais puras borbulhantes fontes, +<BR> +Não por certo não tem mesquinho Globo! +<BR> +Sem véos aqui contemplo, aqui descubro +<BR> +Essa invisivel fluida substancia, +<BR> +Que em torno fecha, e que circunda a Terra; +<BR> +Que em si nuvens contém, contém vapores; +<BR> +Que em si tantos fenómenos acolhe; +<BR> +Que he necessaria tanto, aos sons, á vista, +<BR> +Ao fogo, á vida, ás arvores, ás plantas! +<BR>Ó da Divina mão alto, infinito +<BR> +Poder nunca entendido! Se a atmosfera +<BR> +Não refrangesse a nós do Sol os raios, +<BR> +Não se virão brilhar n'azul campina +<BR> +Em distancia infinita immensos astros: +<BR> +Nem o doce crepusculo se vira, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_8" id="pag_8">[8]</a></span>Ou quando o mesmo Sol s'esconde, e fóge, +<BR> +Ou quando n'horizonte inda não surge, +<BR> +Mas debil raio matutino espalha. +<BR> + + Se volvo aos ceos extático meus olhos, +<BR> +Vejo proximo o Sol, da luz origem; +<BR> +O pelago de fogo, a ardente massa, +<BR> +De que he composto o fulgurante corpo. +<BR> +He elle o fixo, o luminoso ponto, +<BR> +Elle o centro commum qu'em torno cercão, +<BR> +Sem cessar gravitando, aureos Planetas, +<BR> +A Lua já descubro, e vejo os mares, +<BR> +Os largos, fundos, procellosos rios, +<BR> +Que parecem, da terra, obscuras manchas, +<BR> +Quando a vista de lá nos ceos espalho. +<BR> +Ilhas descubro, altissimas montanhas, +<BR> +De cujas frentes escabrosas desce +<BR> +A luz reflexa, que da Terra eu vejo, +<BR> +Luz que lhe empresta o fulgurante globo, +<BR> +Origem della, e do calor origem. +<BR> +Seu móto vario, e desigual contemplo +<BR> +Com que mostra em seu gyro incerto o rosto; +<BR> +Talvez proceda da diversa, e forte +<BR> +Visivel atracção do Sol, e Terra, +<BR> +Do eixo obliquo em que se agita, e móve. +<BR> + + Mais vivos que os Planetas, mais brilhantes +<BR> +Em viva luz aos olhos se offerecem +<BR> +Em sempre incerta, e variante fórma +<BR> +Tão vastos, tão excentricos Cometas, +<BR> +Tardios em mostrar-se, e sempre infaustos +<BR>Á vil superstição do vulgo insano, +<BR> +Agoiro triste aos pálidos Tyrannos! +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_9" id="pag_9">[9]</a></span>São duraveis, e sólidas substancias; +<BR> +Da mão do Eterno Artifice são obras. +<BR> +O Nada as produzio, quando na origem +<BR> +Do Mundo lhe mandou, que fosse tudo. +<BR> +Não quaes ousou julgar rude ignorancia +<BR> +Ligeiros fogos de temor objectos, +<BR> +Sem orbitas, sem leis, sem marcha, e centro. +<BR> + + Quantas contemplo lucidas estrellas! +<BR> +Quantos Astros centraes! Quão luminosos, +<BR> +Quantos, quantos satéllites velozes +<BR> +Em torno delles caminhando eu vejo! +<BR> +Em tão diversos, tão distantes corpos, +<BR> +Tão varios entre si, tanta harmonia! +<BR> +Minha alma se confunde, e se deslumbra +<BR> +Debil vista mortal. Tudo me opprime, +<BR> +Eu só prodigios, só milagres vejo! +<BR> +Entro no abysmo do silencio, e fico!... +<BR> + + Qual o que sóbe do Apenino ao cume, +<BR> +E alonga os olhos pelo immenso plano, +<BR> +Onde outr'ora s'ergueo Latino Imperio, +<BR> +Vastas Cidades vê, ferteis campinas, +<BR> +E os restos immortaes do fasto, e gloria, +<BR> +Que inda em quebrados marmores avulta, +<BR> +Vê longos rios retalhando os campos, +<BR> +E do Tirrheno mar, d'Ádria nas ondas +<BR> +Vê náos altas rasgando o dorso a Thetis. +<BR> +Depois que ávida vista em scenas tantas +<BR> +Hum pouco apascentou, turvado, absorto, +<BR> +Dentro em si mesmo se concentra, e fica +<BR> +Vastas idéas revolvendo, quantas +<BR> +Da Natureza, e da Fortuna os quadros +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_10" id="pag_10">[10]</a></span>A seus olhos atónitos mostrárão: +<BR> +Assim eu vejo em quantidade immensa +<BR> +Surgir das aguas, levantar-se aos ares, +<BR> +Pelos raios Febeos como attrahidas, +<BR> +As humidas porções já rarefeitas; +<BR> +Mais ligeiras que o ar, no ar fluctuão; +<BR> +Nellas a vida tem, nellas se fórmão +<BR> +A nuvem densa, as nevoas importunas, +<BR> +Que, com diversa reflexão de Apóllo, +<BR> +Que em seu seio refrange o accezo raio, +<BR> +Variante espectaculo me amostrão. +<BR> + + Dos rarefeitos ares eu descubro, +<BR> +Que os ventos nascem, (portentoso arcano, +<BR> +Por tantos, tantos seculos occulto!) +<BR> +Os inconstantes milagrosos sopros, +<BR>(Da bemfazeja Providencia hum grito!) +<BR> +Pelo inquieto campo do Oceano +<BR> +Levão de hum Polo a outro ousados pinhos. +<BR> +Equilibrado o fluido dos ares, +<BR> +Não os oiço bramir!... Mas quem perturba +<BR> +A dilatada calma, a paz tranquilla? +<BR> +Quem rouba ao ar pacifico equilibrio? +<BR> +Talvez, talvez, que, exhalações rompendo +<BR> +Do terreo globo, e tenebrosas furnas, +<BR> +Ou sobre o eixo a rotação diurna +<BR> +Da Terra seja do prodigio a fonte! +<BR> + + Eis com elles se agitão, se misturão, +<BR> +As espalhadas fluctuantes nuvens; +<BR> +Do agudo frio comprimidas, tornão +<BR> +A seu terreno, e primitivo berço. +<BR> +Em chuva salutar desfeitas descem; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_11" id="pag_11">[11]</a></span>Ou, se o frio he maior, candidos vélos +<BR> +Do brando vento conduzidos cobrem +<BR> +No triste Inverno o campo amortecido; +<BR> +Ou nas miudas condensadas gotas, +<BR> +Pelas douradas messes espargidas, +<BR> +Ao desvelado Lavrador só trazem, +<BR> +Depois de longo afan, tristeza, ou pranto. +<BR> + + Vejo o accezo relampago medonho, +<BR> +Oiço o horrendo trovão, vejo o espantoso +<BR> +Trilho abrazado do sulfúreo raio, +<BR> +Nada a meus olhos se me esconde, nada! +<BR> +E já de enxofre, de bitume, e nitro +<BR> +De ácido sal, de alcálicos diversos +<BR> +Grosso vapor subindo eu vejo aos ares. +<BR> +Foi do Sol attrahido, o vento o leva; +<BR> +Com violento impulso então fermenta, +<BR> +Prestes se accende, subito nos manda +<BR> +Essa palida luz sempre seguida +<BR> +D'alto fragor, que faz tremer nos eixos +<BR> +Timido o Mundo, e precursora he sempre +<BR> +Da chamma rapidissima, que desce +<BR> +Com pavoroso estrepito, e que abate +<BR> +Quanto voando na carreira encontra. +<BR> + + De aspecto muda do vapor a massa, +<BR> +Nem sempre he raio estrepitoso; eu vejo +<BR> +As agudas Pyramides, as Traves, +<BR> +A Seta aguda, o flamejante Drágo +<BR> +E as que se mostrão lúcidas Estrellas, +<BR> +Que accezos trilhos n'horizonte deixão; +<BR> +E esse, usado a brilhar no algente Pólo, +<BR> +Sem calor vivo, sem substancia hum fogo, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_12" id="pag_12">[12]</a></span>Huns restos são maravilhosos, bellos +<BR> +Dessas de luz undulações pasmosas, +<BR> +Que detidas do ar no immenso seio +<BR> +Fórmão brilhantes Boreaes auroras; +<BR> +Ao lúcido horizonte em parallela +<BR> +Linha se mostrão, se mais baixas correm +<BR> +Ou, n'hum centro commum, s'unem subindo +<BR> +Até que extinctas as porções sulfureas +<BR> +Pouco a pouco do ar desapparecem, +<BR> +Deixando apenas ao gelado Norte +<BR> +Hum suave crepusculo brilhante. +<BR> + + Se volvo a vista n'outra parte, absorta +<BR> +De multi-forme côr descubro a nuncia +<BR> +Da sempiterna paz, Iris formosa, +<BR> +Que a doce reflexão dos aureos raios, +<BR> +Unida á refracção sobre miudas +<BR> +Da fria chuva transparentes gotas, +<BR> +A septi-forme côr prontos lhe imprimem. +<BR> + + Quantos, quantos fenomenos pasmosos +<BR> +A luz reflexa nos produz nos ares! +<BR> +Em tanto objecto o pensamento fixo, +<BR> +Em tanto objecto extaticos meus olhos +<BR> +Grandes idéas me despertão n'alma! +<BR> +Eu, de augusto silencio em sombras fico! +<BR> +E só do centro de meu peito exhalo, +<BR> +Não os ais da afflição, do assombro o grito. +<BR> +Eu sinto, eu sinto hum Deos; não foi do Acaso +<BR> +A milagrosa producção do Mundo! +<BR> +Obra só foi do Artifice supremo: +<BR> +Hum rio origem tem, o effeito causa. +<BR> +Tantas estrellas lucidas dispersas +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_13" id="pag_13">[13]</a></span>Nesta estendida cúpula azulada, +<BR> +Esta Lua, este Sol, o dia, a sombra, +<BR>(Constante alternativa;) a luz, e os ares +<BR> +São cifras com qu'escreve a mão suprema +<BR> +De hum Ente Summo, Sapiente, Immenso. +<BR> +Na flor, na planta, no mimoso fructo, +<BR> +Nos rostos varios, e animaes diversos, +<BR> +Nos sons, nas côres, na minha alma o vejo, +<BR> +Almo thesouro da Clemencia eterna. +<BR> +Ella enriquece a Terra, e a vejo em tantas +<BR> +Tão varias producções na especie eternas: +<BR> +D'alta grandeza sua eu sinto a prova +<BR> +No fundo abysmo dos extensos mares, +<BR> +Nos Ceos immensos, na pezada Terra +<BR> +Seu Divino saber, tremendo adoro +<BR> +N'alma belleza dos mortaes objectos, +<BR> +Nas leis eternas dos celestes corpos +<BR> +Os caracteres luminosos vejo +<BR> +D'hum Concelho immortal que rege o Todo, +<BR> +Na exacta proporção dos fins, dos meios, +<BR> +Que do visivel Mundo o quadro ostenta +<BR> +Tudo, tudo me diz qu'hum Deos preside +<BR> +Monarcha immenso de infinito Imperio. +<BR>Á luz ordena que me aclare, e manda +<BR> +Ao ar que me sustente, e a vida aspiro. +<BR> +Elle o calor produz, que o vital germe, +<BR> +Em successivas gerações conserva: +<BR> +Elle o dia formou, nelle ao trabalho +<BR> +O mesmo Rei da creação destina: +<BR> +Elle a noite produz, com ella em sombras +<BR> +Da fria Terra a machina sepulta, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_14" id="pag_14">[14]</a></span>Em que o corpo mortal restaure a força, +<BR> +Com que ao surgir da matutina Aurora, +<BR> +Torne ás fadigas, aos cuidados volva. +<BR> +Porque discorro, existo, e eu sinto dentro +<BR> +De mim que penso sensações diversas. +<BR> +Quando o incorporeo ser d'alma contemplo +<BR> +Vejo huma imagem do Motor supremo, +<BR> +Que quiz que eu fosse a similhança sua: +<BR> +E não direi, que me sustenta, e rege +<BR> +Hum Ser universal, hum Nume Eterno? +<BR> +Ah! da materia o movimento o mostra! +<BR> +Ella inerte de si, da inercia sua +<BR> +Não podéra sahir sem braço Eterno, +<BR> +De cujo impulso o movimento nasce. +<BR> + + Em taes idéas concentrado estava +<BR> +Sem olhos despregar do quadro augusto; +<BR> +Que sempre he novo, e bello, e sempre antigo; +<BR> +Livro do estudo meu, delicias minhas; +<BR> +Eis-que descubro no mais alto cume +<BR> +Do fulgurante Olympo erguido hum Templo, +<BR> +Cuja sublime estranha architetura +<BR> +Nem alma a concebeo, nem olhos virão. +<BR> +De lúcido crystal, alto esplendente +<BR> +Se levantava altissima fachada; +<BR> +Arcos, columnas, architraves, tudo +<BR> +De pedraria oriental se fórma, +<BR> +Onde huma luz celestial batendo +<BR> +Derramava reverberos brilhantes: +<BR> +A magestosa cúpula fulgura, +<BR> +Qual de Narsinga o diamante fulge. +<BR> +Quem dá força a meu estro, e quem sustenta +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_15" id="pag_15">[15]</a></span>Meus temerarios sobrehumanos vôos? +<BR> +Como á Verdade franquear eu devo +<BR> +Té agora as bronzeas ferrolhadas portas +<BR> +De crença, a cuja luz não seja avára +<BR> +A turba indocil do inconstante vulgo? +<BR> +Longe, longe, ó profanos! Se tu reges, +<BR> +Se tu mesma, ó Verdade, o canto animas. +<BR> +Se me encordôas Cithara toante, +<BR> +Para o Templo celeste apresso o passo, +<BR> +E não receio de mordazes linguas +<BR> +O golpe fundo, o livido veneno. +<BR> + + No peristilio magestoso, e vasto, +<BR>(Eu não distinguo se he mulher, se he Deosa) +<BR> +Então descubro, que volvendo os olhos, +<BR> +Em mim pronta os fixou como se ha muito +<BR> +Naquella Estancia me aguardasse; estende +<BR> +Formosos braços, e me aperta ao seio. +<BR> +Soltando a voz angelica me exclama: +<BR> +Escrito estava no volume arcano +<BR> +Do immobil Fado, que no Templo entrasses, +<BR> +Que a Sapiencia levantou no Olympo. +<BR> +Tu, separado dos mortaes enganos +<BR> +Da vaidade, que domina o Mundo, +<BR> +E dando ás Musas o fervente engenho, +<BR> +Que á grata sombra dos sagrados louros +<BR> +As horas ganhas da voluvel vida, +<BR> +E o grão thesouro de profundo estudo +<BR> +Buscas constante, e com trabalho ajuntas, +<BR> +Soffrendo o longo afan té quando a sombra +<BR> +No vasto seio involve o inerte globo: +<BR> +Hoje das mãos da Sapiencia o premio +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_16" id="pag_16">[16]</a></span>Tu deves receber, teu genio enchendo +<BR> +Não de verso suave, ou brandas rimas, +<BR> +Com que do mar o vencedor tu cantas, +<BR> +Que as portas abre do vedado Oriente, +<BR> +Qu'a Patria d'honra encheo, de gloria o Mundo, +<BR> +Mas d'excelsa verdade ao vulgo ignóta. +<BR> + + De seus olhos a Deosa amor respira; +<BR> +Mas tal amor, que penetrava o peito +<BR> +Sem perturbar do entendimento o lume, +<BR> +Qual ser costuma entre os mortaes, se he grande! +<BR> +Eu tinha fitos no seu rosto os olhos, +<BR> +Com celeste prazer toda a minha alma +<BR> +Em doces chammas ondear sentia; +<BR> +A Deosa o conheceo, quer mudo, e quasi +<BR> +Abstracta estava, e do sentido alheio. +<BR> +Solta hum surrizo dos purpureos labios +<BR> +E assim começa a me fallar benigna. +<BR> + + "Tens cheio o coração de ignoto fogo, +<BR> +A quem mortaes no Mundo amor chamárão, +<BR> +E a quem puro prazer nos Ceos se chama. +<BR> +Este puro prazer do gozo alheio +<BR> +Tóma força, e principio, e tudo a todos +<BR> +Se apraz de ser, e se derrama inteiro. +<BR> +Do privado interesse ignora a meta, +<BR> +E, nem se muda, nem se altera, como +<BR> +Tantas vezes no Mundo amor se muda. +<BR> +O proprio amor aos corações innáto, +<BR> +Que a todas as paixões qu'o peito agitão +<BR> +Se amolda sempre, e se transforma nellas. +<BR> +He transvestido amor vossa esperança; +<BR> +Amor he pertinacia, Amor he magoa; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_17" id="pag_17">[17]</a></span>Amor são todos os prazeres vossos; +<BR> +De Amor o movimento, os accidentes, +<BR> +Considerados, são paixões diversas. +<BR> +Na origem, quando nasce, Amor se chama; +<BR> +Quando do peito sahe, quando se expande, +<BR> +E busca unir-se ao suspirado objecto, +<BR> +Chama-se então desejo; e vigoroso, +<BR> +Já seguro de si, firme em si mesmo, +<BR> +Se as azas solta, e se remonta, e sobe, +<BR> +O nome tem de vivida esperança. +<BR> +He constancia, se, obstáculos vencendo, +<BR> +Na mesma opposição mais força adquire. +<BR> +Quando aos duros rivaes declara guerra, +<BR> +He sempre Amor; mas chama-se ardimento, +<BR> +Mil vezes a si mesmo elle se esconde; +<BR> +Mas neste raro sacrificio he sempre +<BR> +No altar do coração victima, e fogo, +<BR> +E Sacerdote Amor, que em si transforma +<BR> +Quantas no Mundo vê paixões diversas. +<BR> + + Mas tempo he já que teu desejo abaste, +<BR> +E te descubra o portentoso Templo, +<BR> +Onde benigno te conduz teu Fado. +<BR> +Esta, que vêz alçar-se, augusta móle +<BR> +Encerra dentro em si Filosofia: +<BR> +Altares alli tem, do monte excelso +<BR> +Genio a tem feito tutelar os Numes: +<BR> +Sacerdotes são seus, são seus Ministros +<BR> +Esses engenhos transcendentes, vastos, +<BR> +Que tão raro entre vós asylo encontrão, +<BR> +Sustento, protecção, respeito, escudo. +<BR> +A Fadiga sou eu; nome tremendo +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_18" id="pag_18">[18]</a></span>A quem d'hum ocio torpe os braços busca, +<BR> +E na mole indolencia a vida exhaure: +<BR> +Mas he doce o meu nome a quem Virtude, +<BR> +A quem Mérito apraz. Segue-me, ó filho, +<BR> +Entra comigo os pórticos do Templo." +<BR> + + Que gélido suor me banha a frente! +<BR> +De vêa em vêa penetrante frio +<BR> +O curso ao sangue fervido entorpéce! +<BR> +Tremi confuso, e vacillante o passo +<BR> +Entre contrarios pensamentos movo? +<BR> +Vi que de Icaro o vôo, a acerba queda +<BR> +Desse soberbo, e deslumbrado moço, +<BR> +Que mal regera ignípedes Ethontes, +<BR> +Eu hia a renovar. Meu alto assombro +<BR> +Descobre a Deosa, e se doeu de ver-me; +<BR> +A mão benigna me estendeo, susteve +<BR> +No meio já do pavimento augusto. +<BR> + + Dentro era d'ouro o consagrado Alcaçar, +<BR> +De azul celeste a cupula esmaltada, +<BR> +Onde brilhantes lucidas estrellas, +<BR> +Quaes Safiras finissimas, se engastão; +<BR> +Oriental Pyrópo o chão lhe fórma; +<BR> +E nas paredes (mão divina!) expressas +<BR> +Admira a vista insólitas pinturas, +<BR> +Quaes nunca Rafael, quaes nunca ousara +<BR> +Traçar pincel de Rubens portentoso. +<BR> +Aqui se vião nos incultos bosques +<BR> +Ir errando os mortaes sem lei, sem freio, +<BR> +E quasi extincto o luminoso facho +<BR> +Da celeste Razão, preza entre sombras. +<BR> +Alli se admirão simplices viventes +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_19" id="pag_19">[19]</a></span>Rudes choupanas levantar primeiro +<BR> +De annosos troncos, e de seccas folhas, +<BR> +Onde, quaes féras nos covís, s'escondem +<BR> +Das injurias do ar, do vento aos sopros. +<BR> +Neste estado infeliz de hum Mundo inculto +<BR> +Se dá principio á sociedade humana: +<BR> +A primeira familia alli se ajunta +<BR> +A rotear começa o campo agreste. +<BR> +Nella o pai foi Monarcha, até foi Nume, +<BR> +Da sapiencia, e da razão guiado, +<BR> +Alli juntava Sacerdocio, e Reino. +<BR> +Os Ceos interpetrando as leis promulga, +<BR> +Que o bem commum da sociedade buscão, +<BR> +Não era a Sapiencia obscura, e arcana, +<BR> +Destes primeiros pais, mas doce, e clara +<BR> +Abria o Templo da vulgar Virtude. +<BR> +Deste humilde principio, e tão pequeno, +<BR> +Surgio de Roma o desmedido Imperio; +<BR> +D'huma cabana s'estendeo no Mundo. +<BR> +Alli Romulo, e Numa as leis dictavão, +<BR> +Ao novo asylo universal chamando +<BR> +Do antigo Lacio indigenas incultos. +<BR> + + Além se via progressivamente +<BR> +Multiplicar-se sempre a especie humana: +<BR> +Mas passou mui depressa a idade d'ouro! +<BR> +A ferrea começou, e além se via +<BR> +Ir o robusto agricultor rasgando +<BR> +Com ferreo arado o seio á terra inculta; +<BR> +Sobre ella s'entornou suor primeiro. +<BR> +D'estranho tronco as arvores s'enxértão: +<BR> +Corta-lhe a foice os ressequidos ramos. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_20" id="pag_20">[20]</a></span>Se falta a Natureza, a industria suppre; +<BR> +Pois quanto as plantas por seu proprio instincto +<BR> +Ajudadas do Sol, ferteis co'a chuva +<BR> +Nos espontaneos fructos produzião, +<BR>Á humana precisão já não bastava. +<BR> +Então das cultas, pampinosas vides, +<BR> +Se tirarão primeiro os dons de Brómio: +<BR> +Então luxo ensinou tingir por fausto +<BR> +Co'a preciosa purpura de Tyro +<BR> +Do verme industrioso a tenue baba. +<BR> +Se a relva dava então tranquillos sonos, +<BR>Á sombra qu'espalhava o Freixo annoso, +<BR> +E se estancava a sede á lynfa pura +<BR> +Do serpeante límpido regato; +<BR> +Vélos se arrancão do innocente armento, +<BR> +Que ao cançado mortal repousos prestão; +<BR> +E o liquor salutifero se apúra, +<BR> +Que restáura o vigor no inerte corpo. +<BR> +Por buscar novos, escondidos Mundos, +<BR> +Da nativa montanha então se virão +<BR> +Cortados abater-se o Chôpo, a Faia: +<BR> +Já vem nas ondas contrastar co'os ventos. +<BR> +Para ajuntar as peregrinas merces, +<BR> +Lá vai duro mortal soltando as vélas, +<BR> +No elemento não seu, do vento ás iras; +<BR> +Mortal té agora ingenuo, e qu'outras praias +<BR> +Não tinha visto mais, qu'as do tranquillo +<BR> +Regato que lhe corta os patrios campos. +<BR> +A guerra assoladora, a guerra infausta +<BR> +Era ignota até alli, e em tristes côres +<BR> +Alli se via a fervida peleja. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_21" id="pag_21">[21]</a></span>Na bigorna se bate a horrenda espada; +<BR> +Em dura lança além s'alonga o ferro +<BR> +Mais avante s'erguia o forte muro; +<BR> +As torres hião topetar co'as nuvens. +<BR> +Gozava a antiga gente ocio tranquillo: +<BR> +Ah! que Furia infernal, que monstro horrendo +<BR> +Trouxe do escuro Inferno o facho accezo? +<BR> +Que nuvem se elevou sangue estilando? +<BR> +A raiva, o odio, a inveja o braço alçarão. +<BR> +Primeiro a Ingratidão nas mãos levanta, +<BR> +O ferro atroz, sanguinolenta espada; +<BR> +E peito a peito, d'ambição levado, +<BR> +Se combate o mortal; chamou-se gloria +<BR> +Esse furor brutal, que avilta as feras, +<BR> +Que poupão por instincto a propria especie: +<BR> +Tudo foi sombra, e confusão no Mundo. +<BR> +A raiva universal, honra se chama; +<BR> +Tanto do humano coração se apossa +<BR> +Que julga estado primitivo a guerra! +<BR> +Augmentão-se as nações, o estrago cresce: +<BR> +Sempre o furor de dominar triunfa. +<BR> +O que era o pai, o Sacerdote, o Nume +<BR> +Da primeira familia, he já Tyranno! +<BR> + + De fero aspecto debuxado estava +<BR> +Sanguinario Nembrot qu'ergue seu throno +<BR> +Sobre o pescoço das nações em ferros. +<BR> +A Terra se povôa, o facho accezo +<BR> +Não s'extingue jámais nas mãos das Furias, +<BR> +Se hum throno se levanta, outro se abate. +<BR> +Nos mais remotos angulos do Mundo, +<BR> +Onde existem nações, a guerra existe. +<BR> + + <span class="pagenum"><a name="pag_22" id="pag_22">[22]</a></span>Mas entre tantas retratadas gentes, +<BR> +Que o ferro tem nas mãos, no aspecto as iras, +<BR> +Eu vejo estar em solitario alvergue +<BR> +Pensativos mortaes, longe, e mui longe, +<BR> +Em doce paz, do estrepito, e tumulto. +<BR> +Ao ar, ao portamento, á vista, ao móto, +<BR> +Subito conheci, que os sabios erão, +<BR> +Que as sempiternas leis da Natureza +<BR> +Em pró dos outros conhecer tentárão. +<BR> +Com pertinaz estudo, e prompto engenho, +<BR> +No grande livro do Universo estudão, +<BR> +E com pasmosa distincção contemplão +<BR> +Tão formoso espectaculo, tão vario. +<BR> +C'os labios semi-abertos, os immoveis +<BR> +Olhos pregados tem no ethereo assento, +<BR> +Como que vão buscando o immenso, e certo +<BR> +Eterno gyro dos rotantes astros. +<BR> +He esta a ocupação, este o deleite +<BR> +Do cobiçoso pensamento altivo, +<BR> +De assombro os enche maravilha tanta; +<BR> +Curiosidade da ignorancia he filha, +<BR> +Tão propria, e tanto da mortal essencia; +<BR> +Sómente ella produz sabedoria, +<BR> +Quando o veloz enthuziasmo atêa, +<BR> +E quando observa desusado effeito +<BR> +Da Natureza, ou Ceo, corre anhelante, +<BR> +Corre prompta, interroga, observa, indaga, +<BR> +E tenta descobrir quanto se off'rece +<BR> +A seu ouvido extatico, a seus olhos: +<BR> +Vai dos effeitos penetrando ás causas. +<BR> +Tal presupposto foi de antigos Sabios, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_23" id="pag_23">[23]</a></span>Das cousas todas indagar as fontes. +<BR> +Da sciencia o amor, o amor do estudo, +<BR> +Entre os Sabios se diz Filosofia. +<BR> +Curiosidade, e ocio, á Deosa derão +<BR>(A quem he consagrado o Templo) a essencia. +<BR>Ás inda feras indomadas gentes, +<BR> +Mal acolhidas na choupana humilde, +<BR> +Communicou seus raios luminosos. +<BR> +Fez-lhes vêr de si mesma a imagem pura, +<BR> +Apenas observou que accezos olhos +<BR> +Na abóbeda dos Ceos apascentavão, +<BR> +Do sempiterno braço contemplando +<BR> +Essas sem fim maravilhosas obras. +<BR> + + Depois que em tanto quadro a vista absorta +<BR> +Acabei de deter, novos objectos, +<BR> +Minha alma toda subito me levão. +<BR> +Eis esculpidas novas maravilhas, +<BR> +Nos aureos muros assombrado vejo. +<BR> +Sobre hum turquino fundo auri-luzente +<BR> +Fixas sempre n'hum ponto estrellas brilhão, +<BR> +A cujos lumes, trémulos, suspensos +<BR> +Pelos bosques Caldeos vejo os pastores, +<BR> +Imprimindo signaes na mole arêa, +<BR> +Da sabia Geometria as leis primeiras. +<BR>(Dura, afanosa sapiencia, quanto +<BR> +Tu sabes levantar o engenho humano!) +<BR> +Co'a frente envolta em sombra além correndo +<BR> +Eu vejo o vasto fluctuante Nilo +<BR> +Do pingue Egypto os campos retalhando, +<BR> +Vejo-lhe em torno industriosa gente +<BR> +Medindo-lhe a compasso ás turvas ondas, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_24" id="pag_24">[24]</a></span>Esperando que o Ceo constante, e meigo +<BR> +O retorno annual decrete ás aguas; +<BR> +E, em quanto o interesse, em quanto o Genio +<BR> +Dividem entre si fadiga, estudo, +<BR> +Recebe nova luz Geometria. +<BR> +Qual costuma romper d'alpestre rócha +<BR> +Limpida fonte, e serpeando o campo +<BR> +Por entre as pedras vai com doce, e grato +<BR> +Continuo estrondo alimentando as flores; +<BR> +C'huma fonte depois, depois com outra +<BR> +Sempre augmentando a crystalina vêa, +<BR> +Que cresce, e passa a lucido regáto, +<BR> +E, recebendo d'outros mil tributo, +<BR> +O fundo leito alarga, e já bramoso +<BR> +Aqui começa a se fazer torrente, +<BR> +Espuma, e freme, e se arrebata, e foge, +<BR> +De tanto, e tanto feudo enriquecido, +<BR> +E soberbo de si no fundo Oceano +<BR> +Lá chega, lá confunde o nome, as aguas: +<BR> +Tal do seio da immensa Natureza, +<BR> +Escuro seio, pouco a pouco trouxe +<BR> +O humano entendimento a luz brilhante +<BR> +E dest'arte raiou Filosofia, +<BR> +Que foi por longos seculos juntando +<BR> +D'alma sciencia o perennal thesouro, +<BR> +Suave fructo da innocencia antiga, +<BR> +Ah! tão buscada em vão na idade nossa! +<BR> +Em que fogo maior, mais viva chamma, +<BR> +Que essa que a boca do Vesuvio exhala, +<BR> +No seio do mortal fomenta o crime. +<BR> +Esse inquieto, e vil ferreo desejo +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_25" id="pag_25">[25]</a></span>De possuir incommodas riquezas, +<BR> +Que partilha não são, por máo destino, +<BR> +Do que apascenta o coração tranquillo. +<BR> +Na posse ingenua das sciencias todas: +<BR> +Com pertinaz estudo se augmentárão; +<BR> +E do existente Mundo as leis, e as bazes +<BR> +Forão continuo emprego á mente humana: +<BR> +Mas nada lhe abastou desejo accezo, +<BR> +Que tão vivo cresceo, qual cresce o vasto +<BR> +De pequena faisca immenso incendio. +<BR> +Quando fixo encarou bellezas tantas +<BR> +Lançou-se aos Ceos com generosos vôos, +<BR> +E dos astros o influxo, e o vario aspecto +<BR> +Ouzou descortinar, no eterno curso, +<BR> +Pelos ermos do espaço os foi seguindo. +<BR> +E soberbo de si, não satisfeito +<BR> +A seu profundo, e vasto pensamento, +<BR> +Co'a tócha acceza da Razão diante, +<BR> +Abre, piza, franqueia ignóta estrada, +<BR> +Que mais, e mais se aplaina, e mais s'estende +<BR> +C'o porfiado estudo, e os homens leva +<BR> +Ao Templo augusto da immortal Verdade, +<BR> +Que escondido não he qual foi primeiro. +<BR> +Ella pôde encantar Genios sublimes +<BR> +Cujas imagens em perennes bronzes +<BR> +Em si conserva o magestoso Alcaçar: +<BR> +Oh! mui feliz Entendimento humano: +<BR> +Se em taes indagações, se em taes estudos +<BR> +Aprende a conhecer, e amar o Eterno +<BR> +Só de bens larga fonte, immenso Oceano! +</blockquote> + +<p class="centrado"> +<i>Fim do I. Canto.</i> +</p> + +<span class="pagenum"><a name="pag_26" id="pag_26">[26]</a></span> +<H1>NEWTON, +<BR> +POEMA. +</H1> + + + +<H1>CANTO II.</H1> + + +<blockquote> +Da Sapiencia antigos amadores, +<BR> +Os Sacerdotes do celeste Nume, +<BR> +Ao sacrosanto Templo alto ornamento, +<BR> +Com seus bustos em porfido formavão +<BR> +Do magestoso altar decóro illustre; +<BR> +Puro, innocente altar, onde a profana +<BR> +Mão despiedada dos mortaes infrenes +<BR> +Nunca pozera victimas de sangue, +<BR> +De que tanto se apraz da guerra o Nume, +<BR> +Que o cego Fanatismo, ah! tão frequente! +<BR> +Nas torpes aras da Ambição degolla. +<BR> +São incensos aqui puros affectos, +<BR> +E o remontado pensamento os votos; +<BR> +São offerendas extases sublimes, +<BR> +Vôos da mente, que s'eleva aos astros, +<BR> +E corre o immenso espaço. Aquella Deosa, +<BR> +Que o berço tem nos Ceos, qu'he dom dos Numes, +<BR> +Que he mãi das Artes, e inventora dellas, +<BR> +De magestade, e de belleza cheia, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_27" id="pag_27">[27]</a></span>Taes holocaustos no seu seio acolhe. +<BR> + + Vi, (qu'assombro!) de luz cercado o vulto +<BR> +Do primeiro mortal, puro, innocente, +<BR> +Qual já das mãos do Creador dos Mundos +<BR> +Sahio primeiro, e dominou na Terra. +<BR> +Do Divíno saber nasce ensinado, +<BR> +Das cousas conhecia a essencia propria, +<BR> +Impoz o proprio nome aos seres todos. +<BR> +E junto delle fulgurando estavão +<BR> +Em menos viva luz seus tardos netos, +<BR> +Que delle, como herança, alta doutrina +<BR> +N'huma idade de seculos colherão: +<BR> +De labio em labio aos pósteros a mandão +<BR> +Té qu'horroroso, universal Diluvio +<BR> +Fez que de todo agonizasse o Mundo. +<BR> + + Via logo a Noé, que intacto surge +<BR> +Do lenho guardador da especie humana: +<BR> +Aos filhos seus dos fulgurantes astros +<BR> +O aspecto, o moto, as posições ensina. +<BR> +Sublime Sapiencia, e douto estudo, +<BR> +Que tão illustres fez, depois da obscura +<BR> +Confusão de Babel, nações diversas, +<BR> +O innocente Caldeo, o Arabe experto, +<BR> +Do Nilo o morador mysterios todo, +<BR> +E o Persa audaz idólatra do fogo. +<BR> + + Descubro a Prometheo, e o velho Atlante +<BR> +Em que a verdade a Fabula reveste +<BR> +Da Poesia co'as brilhantes côres. +<BR> +Hum, com fogo dos Ceos, anima o barro; +<BR> +Outro o pezo sustem do excelso Olympo. +<BR> +Vejo o profundo Trimegisto, e vejo. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_28" id="pag_28">[28]</a></span>O sublime Cantor harmonioso, +<BR> +Que de Troia a catastrofe nos pinta, +<BR> +Que, em brando verso, imagens lizongeiras, +<BR> +Da Sapiencia os pennetraes nos abre; +<BR> +A idéa em si contém das artes todas. +<BR> + + Pelas margens do Indo, e turvo Ganges +<BR> +Meditadores Brâmenes diviso, +<BR> +Que em sombra muito espessa a luz envolvem, +<BR> +E a verdade entre symbolos nos dizem. +<BR> +A Confucio Chinez descubro, admiro, +<BR> +Que a voz escuta á sabia Natureza, +<BR> +E firma o summo bem só na virtude. +<BR> +Tres Zoroastros, que nas sombras plantão +<BR> +Luminoso fanal, que á Persia, e Egypto +<BR> +Das Artes para o Templo a estrada aplaina. +<BR> +Logo dois immortaes cantores vejo, +<BR> +He Lino, e o doce Orfeo, que a Lyra d'ouro +<BR> +Com tanta fez soar maga harmonia, +<BR> +Que doceis se tornou troncos, e penhas, +<BR> +Que do cáhos no escuro horrendo centro, +<BR> +Principio do Universo, Amor plantarão. +<BR> +Pensativo Beroso alli contemplo, +<BR> +A quem de Athenas a famosa escóla +<BR> +Estatua alevantou d'ouro mais puro. +<BR> +A par delle he Chilon, que o dia extremo +<BR> +Sem pena, sem temor contente encára. +<BR> +Do tyrannico sangue alli manchado +<BR> +Pittaco á morte sobranceiro existe. +<BR> +Legislador Solon de brando aspeito, +<BR> +Que com vasto saber enlaça Astréa, +<BR> +E ás leis soube juntar Filosofia; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_29" id="pag_29">[29]</a></span>Dos bons Monarchas o modello he este! +<BR> +Depois Zaleuco vi, depois Carondas, +<BR> +Ambos com justas leis Sicilia exaltão. +<BR> + + No meio bem do taciturno alvergue +<BR> +De Pythagoras sabio o vulto admiro, +<BR> +No rosto, e ar mysterioso em tudo, +<BR> +Que da Unidade, ou centro aos seres todos, +<BR> +A origem fez sahir, principio, e causa. +<BR> +Cleóbulo descubro, elle a formosa, +<BR> +Sabia filha gentil conserva ao lado, +<BR> +Que da engraçada boca em aureo rio: +<BR> +Eloquente entornou Filosofia: +<BR> +Ah! nunca aos homens se mostrou tão bella! +<BR> +Admiro mais além Biante o sabio, +<BR> +Que digna só julgou de humano estudo +<BR> +Moral, que na virtude a alma levanta, +<BR> +Em sua mesma magestade occulta, +<BR> +Deixando a Natureza, enigma escuro, +<BR> +Indecifravel aos mortaes mesquinhos +<BR> +Em quanto em fragil barro a alma se prende. +<BR> +Periandro alli vejo, e vejo o Scyta +<BR> +Anacharsis, Filosofo profundo, +<BR> +Cujo nome immortal materia, e fama +<BR> +Deo neste ferreo tempo ao douto escrito, +<BR> +Que a Grecia em si contém, co'a Grecia tudo. +<BR> +Vejo a Misson, que symbolo o destingue? +<BR> + + O nobre, e nobre só proficuo arado, +<BR> +Que o seio rasga á terra agradecida: +<BR> +Delle se peja a estólida vaidade; +<BR> +Do Filosofo á vista he mais que hum Ceptro: +<BR> +Na cultura do campo o sabio he grande; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_30" id="pag_30">[30]</a></span>Nem pode o estudo ter mais digno objecto; +<BR> +E nunca outro mister, nunca outras artes, +<BR> +Com mais afan buscasse o engenho humano! +<BR> +Celeste Agricultura, oh digno emprego +<BR> +Té do mortal primeiro inda innocente! +<BR> + + Eu distinguo Epiménides, que deixa +<BR> +A escondida caverna em que medita, +<BR> +Aos homens vem mostrar da luz os raios +<BR> +Ferécides, Bericio, e aquelle observo, +<BR> +Que a Frygia vio nascer sublime, e douto, +<BR> +Que em lizongeiras fabulas esconde +<BR> +Quantas depois lições do justo, e honesto +<BR> +O Pórtico sublime, a Estóa derão. +<BR> +Thales descubro então, brazão da Jonia, +<BR> +Que he da primeira escóla excelso mestre, +<BR> +Que á Grecia deo lições, deo luz, deo tudo +<BR> +Quanto soube alcançar de Astronomia +<BR> +Do protentoso vidro o olho despido. +<BR> +Elle primeiro do Solsticio o ponto +<BR> +Sobre a Terra observou, e elle primeiro +<BR> +Predisse aos homens pavoroso eclypse, +<BR> +Que rouba a luz á Terra, e a paz ao peito, +<BR> +Deste mysterio assustador ignáro. +<BR> +Elle o principio assignalou do Todo, +<BR> +O humor aquoso que circunda o globo. +<BR> +Vejo Archeláo, Anaximandro admiro; +<BR> +Este infinita julga a Natureza; +<BR>(Ó Portuguez Hebreo, tal foi teu erro!) +<BR> +Aquelle julga que as primeiras causas +<BR> +Só são da geração calor, e frio. +<BR> +Anaximenes do Orador Romano +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_31" id="pag_31">[31]</a></span>Sempre admirado, alli contemplo, admiro, +<BR> +No móto eterno da substancia eterna +<BR> +A essencia poz de hum Árbitro supremo, +<BR> +E deo ao Mundo por principio immenso, +<BR> +A substancia do ar, vasto, infinito. +<BR> +O profundo Anaxágoras diviso, +<BR> +De fundos olhos, de enrugado aspeito +<BR> +Prolixa barba, atenuado corpo, +<BR> +Que ardente pedra incombustivel julga +<BR> +O luminoso Sol. Vai branco, e curvo, +<BR> +Calva a rugosa frente, a tez sombria, +<BR> +O protentoso Sócrates, o justo, +<BR>(Quanto o ser pode a Natureza impura) +<BR> +Attento sempre ao movimento interno +<BR> +Do humano coração, regeita, e mófa +<BR> +Dos vãos systemas fysicos do Mundo, +<BR> +Que á mente dos mortaes ignotos deixa, +<BR> +E s'apraz de deixar Motor Superno. +<BR> +Só da austera moral segue as pizadas, +<BR> +E avezado o mortal ás vans idéas +<BR> +Da vacillante Fysica o procura +<BR> +A estudo reduzir da essencia propria. +<BR> +Só quando o homem se conhece he sabio! +<BR> + + Vejo Aristippo, Antísthenes descubro; +<BR> +Hum busca o summo bem no inerte, e baixo +<BR> +Prazer que encanta os corporaes sentidos: +<BR>(Ó lisongeiro do soberbo Augusto, +<BR> +Teu systema tal foi, teus aureos versos +<BR> +Aristippo sómente, e Amor respirão!) +<BR> +Porém, mais sabio Antísthenes encontra +<BR> +Só d'alma no prazer, ventura extrema; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_32" id="pag_32">[32]</a></span>Este o primeiro da assisada turba +<BR> +Do Cynico mordaz. Crates contemplo, +<BR> +Que julga inutil pezo a vã riqueza, +<BR> +E no abysmo do mar com ella esconde +<BR> +O inquieto temor, voraz cuidado. +<BR> +Alli Monîmo admiro, e Zeno, e Hiparco, +<BR> +Vejo a vagante habitação do Sabio +<BR> +Diógenes pasmoso, e alli defronte +<BR> +Em pé contemplo o assolador do Mundo; +<BR> +Da esquerda parte inclina hum pouco a frente, +<BR> +E a fluctuante clámyde lhe arrastra; +<BR> +Pende-lhe ao lado o ferro, e delle em torno +<BR> +Calisthenes contemplo, e mudo, e quedo +<BR> +O grande Efestião. Elle alça o braço +<BR> +De quem Persia se teme, e teme o Ganges, +<BR> +E ao pobre habitador da cuba off'rece +<BR> +Seus thesouros, seus dons; tranquillo, e grande, +<BR> +Só lhe pede que ao Sol não véde as luzes, +<BR> +Nem lhe tolha o calor que ao frio, inerte +<BR> +Corpo negado tem Frugalidade. +<BR> +Se houve grande Filosofo, he só este! +<BR> +Com taes lições, já Menedemo he grande, +<BR> +Que hum só bem conheceo, e he só virtude. +<BR> +Euclides vejo, e Pontico, avezado +<BR>Á contumaz contradição de tudo. +<BR> +Vejo Estilpon magnanimo, que a intonsa +<BR> +Cabeça traz, e descoberta sempre: +<BR> +Pobre o vestido tem, e os pés descalços, +<BR> +Com elles piza a vaidade, o fausto, +<BR> +E quanto pede o coração lhe nega. +<BR>Ó grande Preceptor do ingrato Nero, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_33" id="pag_33">[33]</a></span>Se isto não foi teu animo sublime, +<BR> +Ah! são por certo teus escritos, isto!! +<BR> + + Diofantes, Apolonio, eu bem destinguo, +<BR> +Tem nas mãos o compasso, e tem na terra +<BR> +Immoveis sempre os encovados olhos; +<BR> +Alli descreve as trabalhosas curvas, +<BR> +E além disto não mais surge esta idade; +<BR> +Não foi mais Galileo, nem mais Des-Cartes! +<BR> +De Estoico rigor seguindo a trilha +<BR> +Eu vejo envolto em seus possiveis Zeno. +<BR> +De veneravel rosto accezos olhos +<BR> +Eu descubro a Platão, Platão que o Nume +<BR> +Nos objectos que vê, contempla, adora; +<BR> +Que a novo Amor dá luz, e alegre espera +<BR> +Que a seu astro natal sua alma torne. +<BR>Ó sublime doutrina, ah tu podeste, +<BR> +Dentro da Escóla de Florença outr'ora, +<BR> +O eloquente escutar Policiano; +<BR> +Se as letras tem na Europa apreço, estima, +<BR> +Se em seu amor se me embranquece a frente, +<BR> +A tão sabio mortal, tão grande o devo! +<BR> +Este o tributo, que meus versos pagão: +<BR> +Que mais te posso dar? Teu nome he tudo. +<BR> + + Vejo Espeuzipo imitador da grande +<BR> +Virtude illustre de Platão sublime: +<BR> +Teve commum com elle, o estudo, o sangue; +<BR> +E a baze eterna lança á Academia, +<BR> +A quem deo nome o milagroso Tullio. +<BR> + + Da belleza inimigo, e da ternura +<BR> +Xenocrates descubro austero, e triste, +<BR> +Vergonhoso baldão da especie humana, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_34" id="pag_34">[34]</a></span>Que, nem ao mago scintilar d'huns olhos +<BR> +Nem ao surrizo de purpureos labios +<BR> +E ás aureas ondas de madeiras d'ouro, +<BR> +Sente no peito a Natureza toda, +<BR> +Q'até do fundo abysmo aos monstros feios, +<BR> +E sanguinario Tigre, amar ensina. +<BR> +O pertinaz Arcesiláo na escola +<BR> +O segue, duvidando, a alma suspensa +<BR> +Entre a diversa opinião conserva. +<BR> +A imagem de Carnéades descubro, +<BR> +Da nova Academia he timbre, he gloria +<BR> +Cuja alma excelsa da verdade indaga, +<BR> +Entre o provavel sempre, a estrada incerta. +<BR> +Pythéas vejo que do antigo Sabio, +<BR> +A quem Samo talvez já déra o berço, +<BR> +Vai seguindo as pizadas, e se julga +<BR> +Continuo habitador de corpos varios. +<BR> +Este aos ceos porporção, este a medida +<BR> +Primeiro assignalou; dos aureos astros +<BR> +Para hum centro commum conhece o móto +<BR> +Naquelle antigo symbolo mostrado +<BR> +Da septicórde auri-sonante Lyra, +<BR> +Que Febo tem nas mãos, q'o Vate inveja; +<BR> +E se lhe antolha, que escutava ao perto +<BR> +Sempiterna, multiplice harmonia, +<BR> +Da Esfera portentosa alto-brilhante; +<BR> +Talvez nelle encontrasse o germe, a fonte +<BR> +De seu systema de attracção, sublime, +<BR> +Infatigado explorador Britano.... +<BR> + + Meditador Empédocles já vejo, +<BR> +Que julga (ó fraco dos mortaes discurso!) +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_35" id="pag_35">[35]</a></span>Suor do terreo globo o vasto Oceano; +<BR> +Se este, se este não foi, Buffon facundo, +<BR> +Esse teu vapor humido, que a Terra, +<BR> +Destacada do Sol, e ardendo em fogo +<BR> +Ao mais subido d'atmosfera exhala, +<BR> +E cahindo de lá se fórma em mares! +<BR> + + Do Italico saber brazões sublimes +<BR> +Tidas, e Architas fulgurando admiro; +<BR> +Ambos julgavão cada estrella hum Mundo. +<BR> +Suspenso pelo ar alto infinito, +<BR> +Onde hum astro central preside a muitos +<BR> +Rotantes globos, q'em si mesmo opácos +<BR> +Reverberante luz delle recebem: +<BR> +E no globo gentil da argentea Lua +<BR> +Mares, selvas, montanhas supozerão, +<BR> +E de ser pensador fecundo alvergue. +<BR> +Este nas margens do revolto Sena, +<BR> +Que hoje escravos só vís, só ferros banha, +<BR> +Teu pensamento foi, sublime engenho, +<BR> +Quando d'hum Mundo n'outro Mundo ignóto +<BR> +Levaste a passear matrona ímbelle, +<BR> +Do prazer filosofico em ligeiras +<BR> +Azas de accezo enthuziasmo ouzado. +<BR> +Tal foi a idéa de profundos sabios +<BR> +Que tão soberba opinião vestírão +<BR> +Das côres da razão, qual tu fizeste +<BR> +Nessa pasmosa extatica viagem +<BR> +Com q', ó profundo Képler, te lançaste +<BR> +Por entre os astros aos confins do Todo. +<BR> +Na escura tez Prothagoras conheço, +<BR> +Que entre sophismas envelhece, e nega, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_36" id="pag_36">[36]</a></span>Oh! sacrilega audacia! hum Deos ao Mundo. +<BR> +Nem vê na grande architetada mole +<BR> +De hum Ser eterno a mão reguladora! +<BR> + + Cheio de assombro, e maravilha fito +<BR> +Na imagem de Demócrito meus olhos; +<BR> +Abdera o vio nascer, e a mente excelsa +<BR> +Na grande esfera da sciencia entranha. +<BR> +Vejo a par delle Heraclito, que chora +<BR> +Ao triste aspecto da miseria humana, +<BR> +Em quanto aquelle no incessante rizo +<BR> +Com soberba indiscreta o Mundo insulta: +<BR> +Ambos no excesso opposto hum erro abrange. +<BR> + + Vejo a Pirron que pertinaz duvîda +<BR> +Do que tem da verdade o cunho impresso; +<BR> +Muda sempre de côr, muda de aspecto, +<BR> +He duvidoso, e vacillante sempre; +<BR> +Filosofico orgulho, e quanto, e quanto +<BR> +Se fecundou teu germe em peito humano! +<BR> +Teu scepticismo do erudito Baile +<BR> +Os escritos manchou, q'espalhão sombras +<BR> +N'hum ponto unindo o verdadeiro, o falso! +<BR> +Entre guerreiras machinas envolto, +<BR> +Entre abrazadas náos vejo Archimedes: +<BR> +Cheio de palmas, de laureis lhe chora +<BR> +De Siracuza o vencedor, a morte; +<BR> +Foi esta a vez primeira, ó grão Marcello, +<BR> +Que sobre a Terra fez Heroes o pranto! +<BR> +Illustre pranto, que aligeira ao Mundo +<BR> +O ferreo jugo do Latino Imperio! +<BR> + + Eis descubro Epicuro, o vulgo insano +<BR> +Nelle descobre hum ímpio, eu vejo hum sabio +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_37" id="pag_37">[37]</a></span>Frugal, modesto, taciturno, humilde, +<BR> +Que d'alma no prazer, puro, e sincero +<BR> +Suprema quiz constituir ventura. +<BR> +Entre viçosas arvores se assenta +<BR> +De hum ameno jardim; medita, ou finge +<BR> +Os infinitos átomos no vácuo, +<BR> +D'hum laço casual produz os Mundos. +<BR> +D'alma foi erro, e da vontade engano +<BR> +Não passa ao coração; tranquillo, e puro +<BR> +Ama a virtude. Ó Seneca, foi este +<BR> +Teu pensamento quando instrues Lucilio. +<BR> +Mas erraste; he chimerica a virtude +<BR> +Em quem della não vê n'hum Deos a fonte: +<BR> +Quem no acaso conhece o author do Mundo, +<BR> +Se não erra, e blasfema, então delira! +<BR> + + Eis d'Estagira o Genio, eis o prodigio +<BR> +Talvez, talvez maior q' a Grecia vira. +<BR> +Do Mundo he mestre, a Natureza he sua, +<BR> +Não se confunde o Peripáto, e elle: +<BR> +Elle foi luz, o Peripáto he sombra. +<BR> +Não he seu mór brazão ter visto o Mundo +<BR> +Do Mundo o vencedor posto a seu lado, +<BR> +Pois de Alexandre, que conquista a Terra +<BR> +Só devia Aristoteles ser mestre. +<BR> +He seu tymbre maior ter da sciencia +<BR> +Quasi o infinito circulo corrido. +<BR> +Inda em seus livros q' a ignorancia altera +<BR>(Ignorancia dos Arabes soberba) +<BR> +Saber encyclopedico descubro. +<BR> +Se hoje tudo he Buffon, se Plinio he muito +<BR> +Senão fora Aristoteles, não forão. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_38" id="pag_38">[38]</a></span>Bem como hum Nume ao Mundo as bazes lança +<BR> +Quando no instante productivo o manda +<BR> +Sahir do centro do confuso cahos; +<BR> +Assim das artes, das sciencias todas, +<BR> +Quasi no cahos da ignorancia envoltas, +<BR> +Lança o grande Aristoteles as bazes. +<BR> +Quando deixou de perseguir o Mundo +<BR> +A Sapiencia, o merito, a virtude? +<BR> +Tristes aves da noite a luz odêão: +<BR> +D'Athenas Aristoteles se esconde, +<BR> +Em voluntaria morte azylo encontra. +<BR> + + Na sublime cadeira então se assenta +<BR>(E alli brilhando estava) o douto, o grave +<BR> +Da Natureza interpetre Theofrasto; +<BR> +Desgraçado Calísthenes lhe escuta +<BR> +As sublimes lições, e o grande Endemo, +<BR> +E a respeitavel multidão dos Sabios +<BR> +Affeitos sempre a passear pensando. +<BR> + + Do Tybre a escravidão, do Tybre os ferros +<BR> +Tornão de Athenas, e Corintho o fasto +<BR> +Em pobre aldêa, ou lastimosas cinzas: +<BR> +Eis se transplanta a Sapiencia a Roma; +<BR> +E, se da Gloria o Templo as armas abrem +<BR> +A seus grandes Heroes, tambem seus Sabios +<BR> +No eterno Templo da sciencia eu vejo. +<BR> +Entre todos mais luz, talvez mais clara, +<BR> +Que a que se espalha dos Argivos bustos, +<BR> +O protentoso Cicero derrama! +<BR> +Nenhum Sabio formou do Eterno Nume, +<BR> +Entre as sombras Pagans, mais alta idéa! +<BR> +Elle incorporeo, immenso o considera +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_39" id="pag_39">[39]</a></span>De eterna Providencia, Amor eterno. +<BR> +Existente por si, e author do Todo. +<BR> +Por certo entre os mortaes nenhum té agora. +<BR> +Tão profundo saber juntou co'a rica +<BR> +D'aurea eloquencia exuberante vêa! +<BR> +Do Epicurêo Lucrecio então descubro +<BR> +O pensativo, e descarnado aspeito: +<BR> +O centro tira do Universo, e Mundos +<BR> +Infinitos julgou no immenso espaço. +<BR> +Alli vejo Epitéto humilde escravo, +<BR> +Mas entre os sabios soberano, e livre; +<BR> +Cuja fragil alampada hum thesouro +<BR> +Entre as joias valeo da antiga Roma. +<BR> +Vejo o vulto de Seneca, seus olhos, +<BR> +De huma luz ardentissima, levanta +<BR> +Meditabundo ao luminoso assento; +<BR> +Piza as salas fataes d'ebano, e d'ouro, +<BR> +Onde o sangue materno hum Nero entorna, +<BR> +Onde jaz de Germanico o cadaver +<BR> +Seneca o monstro louva, e s'entristece: +<BR> +Dependencia d'hum throno a quanto obrigas +<BR> +Pequeno em obras he, grande em sciencia +<BR> +Elle a vida antepoz ao justo, ao pejo +<BR> +Por ella perde de viver as causas: +<BR> +Mas em seu gremio o tem Filosofia, +<BR> +Só porque disse q' ás acções internas +<BR> +He presente hum juiz, presente hum Nume. +<BR> +Roma nelle acabou. Na foz do Nilo +<BR> +Imperial Alexandria surge; +<BR> +Ella produz o Eclético Potámon +<BR> +No Templo veio fulgurar seu rosto. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_40" id="pag_40">[40]</a></span>Da bella Hipacia a formozura brilha; +<BR> +Eloquencia, e saber da boca entorna +<BR> +Entre suaves halitos de rozas, +<BR> +Que transportado Origenes lhe escuta. +<BR> +Em sua escola Próculo se exalta, +<BR> +Amónio, Celso, Jamblico, e Porfirio, +<BR> +Que mal sabido Platonismo illude. +<BR> +Vejo n'hum throno, sobranceiro a muitos, +<BR> +O magestoso vulto auri-esplendente +<BR> +Do novo Tullio, o fluido Lactancio, +<BR> +Talvez maior, que o Consular de Arpino. +<BR> +Não era longe delle, em sombra envolto +<BR> +Da prizão melancolica, Boecio; +<BR> +Vai banhando os grilhões d'amargo pranto +<BR> +Té que raiando vio Filosofia, +<BR> +Que as sombras rompe, as lagrimas lhe enchuga. +<BR> + + Profunda escuridão, profundo luto +<BR> +No vasto Imperio das sciencias pousa; +<BR> +Onde apparecem Vandalos, acabão. +<BR> +Quaes vemos entre nós do Sena os monstros, +<BR> +Que vem das artes derrubando os Templos; +<BR> +Vem do gelado, tenebroso Arcturo +<BR> +Bando, de morte, e de ignorancia armado, +<BR> +Apenas ficão gárrulas escólas, +<BR> +Que hum só busto não tem no eterno Templo, +<BR> +Té que dos gelos de Sarmacia surge +<BR> +Copérnico immortal, este o primeiro +<BR> +Que alli se manifesta, alli fulgura +<BR> +Entre os astros envolto, entre as esferas: +<BR> +Vio Sol immobil, vio rodar a Terra, +<BR> +E apenas o immortal pasmoso escrito, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_41" id="pag_41">[41]</a></span>Ao respeito dos seculos entrega, +<BR> +O templo augusto da sciencia todo +<BR> +De protentosos sabios se povôa. +<BR> +Eis se me amostra Galileo, dos astros +<BR> +O novo Cidadão, tem curva a frente, +<BR> +E descarnadas mãos co'as vís cadêas. +<BR> +Cinge-lhe Jove na enrugada testa +<BR> +As q' elle achára incognitas estrellas. +<BR> +D'antiga Resia veio o alto ornamento, +<BR> +He Bernúlli immortal. Na margem fria +<BR> +Do discordante Baltico diviso +<BR> +O grande author das Mónadas, q' encontra +<BR> +No composto mortal mága harmonia +<BR> +Entre a composta, e simplice substancia. +<BR> +Nascido a meditar, modesto, e mudo, +<BR> +Da nebulosa Hollanda em canto escuso, +<BR> +Do grão Des-Cartes magestoso vulto +<BR> +Entre as sombras, e a luz plantado admiro. +<BR> +Hum globo tinha aos pés nas mãos hum facho +<BR> +Q' ao globo espanca a tréva da ignorancia. +<BR> +Legislador sublime além brilhava, +<BR> +Verulamio infeliz, primeiro as portas +<BR> +Da recatada Natureza abria. +<BR> +O desprezado á cinte, e ignoto a muitos, +<BR> +O frugal Espinosa aqui surgia.<A NAME="tex2html1" + HREF="#foot83"><SUP>1</SUP></A> +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_42" id="pag_42">[42]</a></span>Errou que he homem, mas errou com elle +<BR> +Toda a escóla Eleática, e tu mesmo, +<BR>Ó Seneca immortal, com elle erraste: +<BR> +E Campanéla, e Bruno, e a nós mais perto +<BR> +Contradictorio Mirabund, deliras. +<BR> +Mas quem, profundo Hebreo, te nega engenho? +<BR> +Em força d'alma hes unico entre todos +<BR> +Dos que além penetrar julgão que he dado +<BR> +Do que foi dado a pensamento humano. +<BR> +Eu te posso impugnar, e outros te insultão. +<BR> +Talvez eu sorte igual no Téjo alcanço +<BR> +Não penetrando da Sciencia o Templo, +<BR> +Porém no ingénuo dom d'ingenuos versos, +<BR> +Que a si por premio tem, por méta a Patria: +<BR> +Béja te deo teus pais, teu berço o Douro: +<BR> +Alguma cousa tens commum comigo. +<BR> + + Alli d'Obergio, Mallebranche, e Locke +<BR> +Os aureos bustos luminosos via, +<BR> +Que em transcendente fluido brilhante +<BR> +Para hum Mundo ideal seus passos guião, +<BR> +E, as sombras methafisicas rompendo, +<BR> +Sem fallar ao sentido as almas fallão, +<BR> +Abrindo o geometrico compasso +<BR> +Quantos talentos assombrosos vejo! +<BR> +Entre o Germano agudo, e ameno Franco +<BR> +Do Italico saber vejo os milagres. +<BR> +O que Diofante, o que Apolonio excede, +<BR> +Do grão Toscano a par, brilha Viviani. +<BR> +Sexo, sexo gentil, na Italia hes grande; +<BR> +Nos Labyrinthos do profundo Euclides +<BR> +A formosa Ardighelli, e Agnezzi entrarão +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_43" id="pag_43">[43]</a></span>Outra Laura maior, q' essa, que outr'ora +<BR> +Do vate, todo amor, deo força á Lyra, +<BR> +Nos penetraes da Natureza entrando, +<BR> +A Spalanzani explica altos mysterios. +<BR> +Com ella Boscovich subiste aos astros. +<BR> +Não te vence hum Maraldi, e nem Cassini: +<BR> +Talvez, talvez, que a formosura as graças +<BR> +Me pareça que dão luz ás sciencias. +<BR> + + Algaroti, teu vulto alli contemplo, +<BR> +Tão grato foste ao Salomão do Norte; +<BR> +Porém mais grato a mim, e ás artes foste; +<BR> +Entre o fulgor da purpura mais brilha +<BR> +Do grande Passionei a excelsa imagem; +<BR> +Issocrates te cede, inda que venha +<BR> +Do grão pezo dos seculos seguido; +<BR> +Não tem que oppôr-te, ou q' igualar-te o Sena, +<BR> +E menos tem q' equiparar-te o Mundo +<BR> +Encanto omniscio, universal Roberti: +<BR> +Não me cega a paixão, q' ao Tibre eu guardo, +<BR> +Nem o clarão de Italica sciencia +<BR> +Tanto me cega, e me deslumbra tanto, +<BR> +Que não veja raiar no Templo augusto +<BR> +D'Anglia, e Germania os protentosos sabios. +<BR> +Alli d'Hobbes descubro a imagem triste; +<BR> +Alli vejo Stanley das Artes Livio; +<BR> +E o que nasceo para illustrar o Mundo +<BR> +Desde o frio Danubio, o grão Bruckéro; +<BR> +E Kant, a si clarão, e enigma a todos. +<BR> +Alli brilhava Degerando illustre, +<BR> +Que em mui douto suor banha os escritos, +<BR> +Que eterno fazem nos umbraes da Gloria +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_44" id="pag_44">[44]</a></span>De ti, Filosofia, ávido amante. +<BR> +Meigos olhos lançou tambem no Téjo +<BR>(Quando ha de, ó Téjo, conhecer-te o Mundo?) +<BR> +E, entre inda sombras Arabes descobre +<BR> +O profundo Vernei, o ameno, o rico: +<BR> +E, que dissera se encontrára hum Nunes; +<BR> +Astros, astros do Ceo, prendeo-vos elle +<BR> +E, o subtil instrumento ao nauta entrega, +<BR> +Ao nauta Portuguez, senhor dos mares: +<BR> +Sem elle Cook o globo ah! não cortára! +<BR> +Mas lá foi Magalhães sem elle, e cerca, +<BR> +Porque a si se levava, o mar, e o Mundo! +<BR> +Tu nos meus versos mofarás do Lethes, +<BR> +E a gloria que te nega a Patria ingrata +<BR> +Em suaves canções te outorga hum vate. +<BR> +Ah! permittira o Ceo, q' o preço humano +<BR>Á morte não pagára alma tão grande! +<BR> + + Eu não deprimo o merito, o talento; +<BR> +Naquelle alcáçar resplendente estava +<BR>(Deposto hum pouco o Tragico cothurno,) +<BR> +O florido Voltaire, Sceptico illustre, +<BR> +Emilia tinha ao lado, Emilia o tymbre +<BR> +Talvez maior do feminil engenho; +<BR> +Com ella corre a passear nos astros. +<BR> +Eu lá vejo Nollet, Brisson descubro. +<BR> +Salpicado Bailly de fresco sangue, +<BR> +Indagador Sonnini a quem Fortuna +<BR> +Se honras na vida deo, na morte as néga; +<BR> +Vive em sciencias, na pobreza expira. +<BR> +Além dos mares a Franklîn descubro, +<BR> +Que o raio foi prender nas mãos de Jove. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_45" id="pag_45">[45]</a></span>De Prussos vejo o busto; o nome ignoro, +<BR> +Ou barbaro talvez não cabe em versos; +<BR> +Aurea lingoa do Téjo em vão procura, +<BR> +Em seus cadentes numeros suaves, +<BR> +E na Lira ajustar, que a Grega imita, +<BR> +Os acres sons dos Hyperboreos nomes: +<BR> +Mas não faz dura a metrica harmonia +<BR> +O teu nome ó Linneo, tu sacerdote +<BR> +Do Sanctuario d'alma Natureza; +<BR> +Alli vejo teu busto, alli cercada +<BR> +A frente tens de peregrinas plantas, +<BR> +E tu, qual novo Adão, dás nome a todas. +<BR> +Hum ramalhete de purpureas flores +<BR> +A Europa, a Lybia, a America t'off'rece; +<BR> +A Asia de tantas maravilhas chêa +<BR> +Das margens do Mecón, do Ganges, do Indo +<BR> +Grinaldas te prepara, e lá tas manda, +<BR> +Tão bellas quaes as pinta o China astuto: +<BR> +Ceilão entre seus balsamos as tece. +<BR> +E o suave vapor, q' a Aurora exhala, +<BR> +Lá no berço onde nasce, e espalha rozas, +<BR> +Em dourados túribulos te invia. +<BR> +Não tiverão os Reis, tributos destes! +<BR> +Ao poder se negou, dá-se á sciencia. +<BR> + + Maior gloria me chama, hum novo busto +<BR> +Que entre todos maior, mais luz derrama. +<BR> +Este he Buffon, que não mortal parece. +<BR> +He seu louvor, universal silencio: +<BR> +Nem lingoa humana diz, nem mente abrange +<BR> +Tudo o que foi Buffon; contemplo, e calo. +<BR> +Se he mais q' a Poezia, he mais que humano +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_46" id="pag_46">[46]</a></span>Rafael co'os pinceis, Buffon co'a lingoa.... +<BR> +Só Natureza he mais, porq' elles morrem, +<BR> +Morre, não ella, taes rivaes supplanta. +<BR> +Só Newton he maior; que entrego a palma. +<BR> +Não ao que pinta, ao que conhece as causas; +<BR> +Se este he só venturoso, este he só grande. +<BR> + + Com tanta luz atonito, e suspenso +<BR> +Volvo os olhos de hum lado, e bem no meio +<BR> +Do magestoso Templo o altar estava. +<BR> +Por argenteos degráos se avança e sobe, +<BR> +Mas com trabalho, á baze alabastrina. +<BR> +Alli sentada—Experiencia—estava. +<BR> +Eu prompto a conheci no rosto antigo +<BR> +Na longa veste, e diamantina tarja, +<BR> +Em q' esta li gravada, aurea sentença: +<BR> + + "Das cousas mestra eu sou, dos homens mestra" +<BR> +N'hum quadrado Geometrico se assenta +<BR> +O sacrosanto altar, e em cima posto +<BR> +Vi como hum vaso de alabastro puro, +<BR> +Que não de Fídias o cinzel abrira; +<BR> +Teve artífices dois, Estudo, e Tempo. +<BR> +Do seio lhe rompia etherea chamma, +<BR> +Q' ante o Nume brilhando aos Ceos subia +<BR> +Inextinguivel lampada, que os annos +<BR> +Vão augmentando progressivamente. +<BR> +Formão á Deosa os seculos hum throno +<BR> +Mais que os rubins precioso, e mais segura +<BR> +Materia tem, que o sólido diamante. +<BR> +Tem cheio o rosto de Viveza, e graça, +<BR> +Que amor no humano coração desperta, +<BR> +Que encadêa a vontade, a alma levanta. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_47" id="pag_47">[47]</a></span>D'estatura commum se me antolhava; +<BR> +Mas logo a vi subida até co'a frente +<BR> +Ir topetar na abóbada do Templo. +<BR> +De fios subtilissimos tecidas, +<BR> +Mas de materia indissoluvel, erão +<BR> +As vestes q' ella traja, e que formadas +<BR> +Forão por ella mesma, obra pasmosa, +<BR> +Que do candido pé, ao collo eburneo +<BR> +Forma diversos gráos: hum véo sombrio +<BR>(Por mão proterva lacerado em parte) +<BR> +De negra antiguidade a envolve toda +<BR> +Nas mãos tem livros de diversas lingoas, +<BR> +Onde eleva tambem dourado sceptro. +<BR> + + Pasmado, á quasi omnipotente Deosa +<BR> +Todo me inclino, a magestade acato. +<BR> +Titubeante, e tremulo dest'arte, +<BR> +Soltando a voz hum pouco, á Deosa fallo: +<BR> + + "Ó tu do estudo emprego, ó Madre excelsa +<BR> +Da intelligencia dos arcanos todos +<BR> +De que he fecundo o Ceo, fecunda a Terra; +<BR> +Tu da verdade indagadora, e facho +<BR> +Luminoso da vida. Ó tu do vicio, +<BR> +Tu da ignorancia rispido flagello, +<BR> +Tu, q' hes tudo ao mortal, q' hes luz, q' hes vida, +<BR> +Ante os teus olhos me conduz Fadiga: +<BR> +Misero Vate eu sou, no peito acôlho +<BR> +Desejo de saber: sempre afanoso +<BR> +Apoz a imagem da verdade eu corro; +<BR> +Mas a alma envolta em sombra, em sombra os olhos, +<BR> +Enigmas vejo só, eu palpo enigmas: +<BR> +Sentir, gozar, não perceber, he esta +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_48" id="pag_48">[48]</a></span>Da existencia mortal partilha, e obra.... +<BR> +Mas qual te vejo, ó Deosa, e q' orgulhosos +<BR> +Amadores te cercão! Que ignorantes +<BR> +Do acatamento q' a teu lume immenso, +<BR> +Deveo sempre guardar o engenho humano! +<BR> +Deve, qual pobre, pequenino rio, +<BR> +A quem agua não deo caudal torrente, +<BR> +Correr tranquillo, e murmurar nas pedras, +<BR> +Ao Pastor innocente, á Ninfa ingenua +<BR> +Objectos de prazer offerecendo. +<BR> +Mas o desejo audaz, e o louco orgulho +<BR> +O torna rio impetuoso, e bravo +<BR> +Soberbo, ufano vai d'agua não sua. +<BR> +Eis se despenha, qual torrente Alpina, +<BR> +E os campos cobre furioso, e turvo; +<BR> +Leva comsigo os troncos, leva os gados, +<BR> +Leva o Pastor, e a misera choupana, +<BR> +Té que cesse do ar fecunda chuva: +<BR> +E, serenado o ceo primeiro orgulho +<BR> +Então depõe deixando a marge enchuta." +<BR> + + Mais quizera dizer eis q' o grão Nume, +<BR> +Fitos em cuja frente eu tinha os olhos, +<BR> +Soltou dos labios divinal surriso, +<BR> +E, doce voz alevantando, exclama: +<BR> + + "Podem, meu filho, eternizar no Mundo +<BR> +O mesquinho mortal meus dons sublimes, +<BR> +E as idéas altissimas, e claras, +<BR> +Q' eu co' mão destra na sua alma imprimo; +<BR> +Comigo, e o sentes tu, do pezo humano +<BR> +Se livra, se desfaz o entendimento; +<BR> +Ao alto sóbe, e se remonta, e chega +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_49" id="pag_49">[49]</a></span>Comigo aos claros Ceos, comigo entende +<BR> +Mysterios profundissimos, e entra +<BR> +Da Natureza nos occultos seios. +<BR> +Essa Eterna Razão por mim conhece, +<BR> +Que se difunde n'Universo inteiro, +<BR> +A, que mora no germe, occulta força, +<BR> +A que a tudo dá forma, e dá figura. +<BR> +Por mim, por mim conhece a origem d'alma, +<BR> +Qual tenha em corpo humano assento, e throno; +<BR> +A que fim s'encaminhe, e quaes s'encontrem +<BR> +Ou desgraças, ou bens, na vida, e morte. +<BR> +Eu torno bello o Mundo, os homens sabios +<BR> +Se ingenuos querem vir seguir meus passos, +<BR> +E contemplão por mim o alto principio +<BR> +Das cousas em si mesmo, os gráos, e os tempos, +<BR> +Que a tudo tem prescripto a mão do Eterno. +<BR> +Eu os levanto a conhecer hum Nume, +<BR> +Obedecer-lhe, e venerallo sempre: +<BR> +Delle, só delle a pressentirem tudo +<BR> +A lei, e ordenação; eu só lhe ensino +<BR> +A dar justo valor, dar justo apreço, +<BR> +Ao que se mostra ou verdadeiro, ou falso. +<BR> +Se o prazer, a que he misto o pranto, a magoa, +<BR> +E o pungente pezar, que he tardo sempre, +<BR> +Os homens sabem condemnar, eu mesma +<BR> +Seu peito aclaro, o coração lhe inflammo; +<BR> +He meu proprio este dom. Por mim descobrem +<BR> +Que he só feliz na Terra, he só potente +<BR> +Quem se domina a si: Guia incorrupta +<BR> +São minhas luzes ao mortal na vida. +<BR> +Eu primeiro lhe aceno, eu lhe preparo, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_50" id="pag_50">[50]</a></span>(Depois Religião, que he só, que he tudo) +<BR> +Séde no Ceo, qu'eternamente he bella. +<BR> +Do Christianismo hũ mestre, hũ sabio, hũ grande, +<BR> +De Alexandria nas escolas doutas, +<BR> +D'alta verdade, que dos Ceos foi dada, +<BR> +Pedagoga me chama, eu sou por certo +<BR> +Quem da luz da Razão, da Natureza +<BR> +Leva os mortaes a accreditar mysterios +<BR> +Qu'á razão não se oppõe, mas são mais altos. +<BR> + + Mas eu desço comtigo ao Templo augusto; +<BR> +Q' inda que erguido o vêz, não he distante +<BR> +Da terrea habitação do engano, e minha. +<BR> +Olha, admira, contempla a excelsa móle +<BR> +Premio d'hum Grande que he brazão do Mundo: +<BR> +Este he d'honra immortal o alto ornamento, +<BR> +Que eu mesma á Gloria consagrei, com elle +<BR> +De hum Pontifice meu premeio as obras, +<BR> +Elle as minhas expoz, dou premio ás suas." +<BR> + + A Deosa emudeceo, á dextra eu volvo +<BR>(Nunca confuso assim) trementes olhos; +<BR> +E no meio da luz brilhante, e pura +<BR> +Soberbo alçar-se Mausoléo descubro. +<BR> +De Newton vi gravado o nome excelso +<BR> +N'hum pórfido immortal, que nem d'Augusto; +<BR> +Ou no Tybre cobrio geladas cinzas, +<BR> +Ou do Grande Pompeo fechou no Nilo +<BR> +Restos chorados do implacavel Julio. +<BR> +Depois que vezes mil no estranho, e grande, +<BR> +Monumento fitei pasmados olhos, +<BR> +Por longo tempo contemplando absorto +<BR> +Aquella d'alto engenho obra estupenda, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_51" id="pag_51">[51]</a></span>Ao Britanno immortal sagrei com votos +<BR> +Inteiro o coração, minha alma inteira; +<BR> +D'estima este o tributo, o feudo he este, +<BR> +Que eu primeiro paguei, Nação pasmosa +<BR> +De quem o mar he todo, a Terra he quasi. +<BR> +Mas eu sou Portuguez, e armas não podem +<BR> +Alhêas deslumbrar-me; eu vejo as Lusas, +<BR> +Cuja gloria tu vêz no vasto Oriente, +<BR> +E, onde levantas triplice bandeira, +<BR> +Primeiro o nome Portuguez encontras. +<BR> +Eu não te invejo a gloria, nem thesouros; +<BR> +Se de Safyras atulhados cofres, +<BR> +Fios de brancas Pérolas, se finos +<BR> +Luminosos Rubins d'Asia recebes; +<BR> +Já d'Asia hum Portuguez trouxe mais qu'isso: +<BR> +Do Indo, Hydaspe, e Gange as aguas trouxe +<BR> +Dentro em barro Chinez; e era Atayde. +<BR> +Será maior teu Rodney, ou teu Nelson? +<BR> +Nem teu Monk he maior, se o Sceptro engeita, +<BR> +Em Regia frente o Diadema pondo. +<BR> +Hes grande para mim porque em teu seio +<BR> +Bolingbrocke apparece, Adisson, Pope; +<BR> +Apparece Bacon, Milton tactêa +<BR> +Arpa tocada só d'Hebreo Monarcha; +<BR> +Em ti tiverão berço, e Locke, e Tompson, +<BR> +E o que os povos do Mundo inda baralha, +<BR> +E a Gallia fez tremer, Pitt, he teu filho. +<BR> +Hes grande para mim, porque hum Senado +<BR> +De Reis, mais que o de Roma em ti conservas, +<BR> +Onde tantos Demosthenes, e tantos +<BR> +Tullios sabem surgir, salvar a Patria. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_52" id="pag_52">[52]</a></span>He esta a fonte do respeito, e estima; +<BR> +Que eu Vate, que eu Filosofo consagro +<BR> +A ti grande Nação, da Europa asylo. +</blockquote> + +<p class="centrado"> +<i>Fim do II. Canto.</i> +</p> + + +<span class="pagenum"><a name="pag_53" id="pag_53">[53]</a></span> +<H1>NEWTON, +<BR> +POEMA. +</H1> + + + +<H1>CANTO III.</H1> + + +<blockquote> +Tinha ficado em extase profundo +<BR> +Do protentoso Mausoléo co'a vista: +<BR> +Mas da pasmosa suspensão me chama +<BR> +A Fadiga outra vez; eis abro os olhos, +<BR> +Junto ao sepulcro vejo em lédo aspecto +<BR> +Matronas duas de belleza estranha: +<BR> +Humanos hombros veste argenteas azas, +<BR> +Na dextra mão sustenta argentea tuba; +<BR> +Vi que era a Fama, que immortaes escritos +<BR> +De Newton celebrou; era outra a Gloria, +<BR> +Que os sustenta nas mãos, defende, e guarda. +<BR> +Da Fama, e Gloria he obra, he maravilha +<BR> +O immortal Cenotafio: aos pés sentada +<BR> +A Verdade admirei simplice, e núa: +<BR> +Ella serve de baze ao grande, illustre +<BR> +Monumento immortal onde a pressága +<BR> +Mente me diz, que saberão no Mundo, +<BR> +Que eu no Mundo existi, tardios netos. +<BR> +Do seio extractos da materia prima +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_54" id="pag_54">[54]</a></span>Dois pedestaes estão, que no encendrado +<BR> +Ouro conservão symbolos diversos, +<BR> +E as bazes são de lúcidas columnas. +<BR> +No meio huma Pyramide que mostra +<BR> +No mui subtil triangular remáte +<BR> +Do fogo, e clara luz o throno; e assento, +<BR> +Qual entre os Gregos o mais douto o mostra, +<BR> +Crendo que deste fogo era alma chêa, +<BR> +Que qual laço entre si sustenta, e prende +<BR> +Intelligivel Mundo ao Mundo inerte, +<BR> +Incorporea substancia á sensitiva: +<BR>(Methafysico abysmo, ou sombra he isto, +<BR> +Que eu débil, que eu mortal romper não posso). +<BR> +Daquelle fogo interminavel fonte +<BR> +Vi d'átomos sahir, que o Sol brilhante +<BR> +Desde o seu seio luminoso espalha, +<BR> +Donde o Immenso esplendor dalvez se forma. +<BR> +Além do alcance do saber humano +<BR> +He sua rapidez, correm velozes +<BR> +Dos Ceos o immenso espaço, em toda a parte +<BR> +Se difundem no ar; destas pequenas +<BR> +Particulas tem luz, tem lume os corpos; +<BR> +Sempre impellido vai, vibrado sempre +<BR>(Continua undulação) primeiro raio +<BR> +D'outro, que delle apóz o Sol despede. +<BR> +Diante da Pyramide sublime +<BR> +Entre as columnas se elevava ingente, +<BR> +Firme, segura baze; ordem Toscana +<BR> +Com magestade seus adornos fórma; +<BR> +Nella esculpido teu grão nome eu leio, +<BR> +Immortal Galileo, tu preço, e gloria +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_55" id="pag_55">[55]</a></span>Da Etrusca Sapiencia, e timbre illustre +<BR> +D'alma Cidade qu'em seu gremio ouvira +<BR> +Os magos sons da Cythara suave, +<BR> +Que a Laura celebrou, qu'ouvira outr'ora +<BR> +Da boca de Ficino auri-eloquente +<BR> +Do excelso Platonismo expor mysterios; +<BR> +Que dera o berço ao que descobre hum Mundo, +<BR> +Que o nome seu tomou; qu'inda hoje o guarda. +<BR> +Immortal Galileo, devem-te os sabios, +<BR> +Da Terra aos astros o caminho aberto; +<BR> +Qual deve a Magalhães o nauta a estrada, +<BR> +Que cerca todo o globo em mar profundo: +<BR> +He teu brazão sômente, he gloria tua +<BR> +Desta mesquinha, inerte escura Terra +<BR> +Avizinhar as lucidas estrellas; +<BR> +E, se o Toscano ceo d'astros he rico, +<BR> +Que ao throno Medicêo docel formárão, +<BR> +A ti se deve, a ti!... Memoria triste! +<BR> +O throno Medicêo, he sombra, he cinzas, +<BR> +Depois que o Tygre, ou Vandalo do Sena +<BR> +Despreza a Sapiencia, avilta os thronos! +<BR> +O teu engenho inaccessivel abre +<BR> +Nova estrada ao saber: Britanno illustre, +<BR> +Com ella architectou obra estupenda, +<BR> +Que, consagrada á lucida verdade, +<BR> +Da proterva ignorancia o orgulho opprime. +<BR> +Immortal Galileo, ao dia, ás luzes +<BR> +Que ao Mundo trouxe teu saber profundo, +<BR> +Se oppôz a cega audaz insipiencia +<BR> +E inda agora se oppõe; que hum véo sombrio +<BR> +Tentou no Sena despregar-te em cima. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_56" id="pag_56">[56]</a></span>Ah! não se lembrão que se a Italia culta +<BR> +Não dera o berço a Galileo, não forão +<BR> +Tão ufanas de si Gallia, e Britannia, +<BR> +Hum Newton dando á luz, e á luz Des-Cartes! +<BR> + + Dos lados sobre a baze alta, e segura +<BR> +Eu vi dois globos da pezada, e dura +<BR> +Magnete, que he mysterio ao sabio, a todos: +<BR> +Virtude de attracção nella reside, +<BR> +Se a mente a não conhece, a vista a sente: +<BR> +Pegando, unindo a si (profundo arcano!) +<BR> +Esse metal cruel, sagrado a Marte, +<BR> +Que hoje a misera Europa em sangue inunda, +<BR> +E he dos mortaes na mão rival do raio. +<BR> +Esta ao sabio, esta ao vulgo ignóta força, +<BR> +Como em triunfo se descobre, e mostra. +<BR> +De teu contínuo meditar foi obra, +<BR>Ó Genio do Tamiza, este prodigio; +<BR> +Mostra a tendencia qu'entre si conservão +<BR> +Alternativamente os corpos todos, +<BR> +Que a hum centro que he commum gravîtão sempre. +<BR> + + Ignóto nome aos seculos antigos, +<BR> +Foi attracção reciproca, e foi sempre, +<BR> +Centrífuga, e centrípeta ignorada, +<BR> +Com que estranhos fenomenos s'explicão. +<BR> +Em seu lugar as gárrulas escolas +<BR> +Sonhárão Nume occulto, occulta força, +<BR> +D'odio, e d'amor combate, ou guerra eterna, +<BR> +Horror do vácuo, e qualidade ignóta. +<BR> + + N'hum dos globos está gravada em ouro +<BR> +Por mãos de Ptolomeo etherea esfera, +<BR>Á qual d'ambito immenso a Terra he centro: +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_57" id="pag_57">[57]</a></span>Acima della brilha argentea Lua, +<BR> +Que o nocturno clarão do Sol recebe. +<BR> +O mensageiro dos celestes Numes +<BR> +Muito acima fulgura; e essa, que teve, +<BR> +Alma belleza, no Oceano o berço, +<BR> +No que he terceiro Ceo, resplende, e brilha; +<BR> +Precede o dia; quando nasce, e surge +<BR> +Quando o disco do Sol se encobre, ou morre! +<BR> +D'aurea luz coroado, e ardentes raios +<BR> +O Sol succede: e se descobre Marte +<BR> +Sanguineo, e triste n'outro Ceo rodando. +<BR> +De Jupiter o globo immenso, e claro, +<BR> +Em mui remoto circulo se agita. +<BR> +Inda além delle, vagaroso, e frio, +<BR> +Vai do antigo Saturno o debil raio. +<BR> +Immoveis pontos, lucidas estrellas +<BR> +Brilhão no immobil crystallino assento. +<BR> + + Obra do grão Copérnico descubro +<BR> +N'outro globo esculpida, immensa esfera, +<BR> +Della, o Sol luminoso he centro, he fóco, +<BR> +Que mui proximo a si Mercurio observa; +<BR> +Vai n'hum carro apoz elle a Cypria Deosa +<BR> +Roseos freios batendo ás alvas Pombas, +<BR>(Dos astros todos o mais bello, he este); +<BR> +E n'outro ceo mais alto a escura Terra, +<BR> +Tornada astro rotante, o gyro absolve; +<BR> +Da Lua seu satéllite seguida, +<BR> +Da qual ao vario movimento he centro. +<BR> +Das feras armas lugubres o Nume +<BR>(A quem tanto tributo, incenso tanto, +<BR> +Em lagrimas, em luto a Europa off'rece!) +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_58" id="pag_58">[58]</a></span>Segue-se apoz da terra; e apoz de Marte +<BR> +O vivo, o claro, o desmedido Jove, +<BR> +De brilhantes satellites cercado +<BR> +Que tu, grão Galileo, primeiro achaste! +<BR> +E do tardo Saturno a immensa, e vasta +<BR> +Mole apparece, de Clientes muitos, +<BR> +E variante annel cercado avança. +<BR> + + Hum longo estudo architetou tão bella, +<BR> +Tão engenhosa machina prestante, +<BR> +Entre os gelos Sarmaticos levada +<BR>Á maior perfeição, pois já n'antiga +<BR> +Idade a vio sahir absorto o Mundo +<BR> +Das mãos do escravo do eloquente Tullio,<A NAME="tex2html2" + HREF="#foot172"><SUP>2</SUP></A> +<BR> +A quem, deposta a consular soberba, +<BR> +Se dignou de escrever, chamar-lhe amigo. +<BR> + + Sobre os dois globos se sustenta, e firma +<BR> +A illustre, sepulcral Urna estupenda; +<BR> +Architetada, e repellida brilha +<BR> +De Prisma em fórma, e de materia ignóta; +<BR> +Se o brilho he do diamante, inda mais brilha, +<BR> +Se he solido o rubim, mais dura existe. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_59" id="pag_59">[59]</a></span>Nas folhagens de Acanto, ou de Cypreste +<BR> +Alli pôz Escultura: em vez de adorno, +<BR> +Em vez dos negros symbolos da morte, +<BR> +Só gravou Mathematico Instrumento, +<BR> +Com que medir dos Ceos a immensa estrada +<BR> +Usa idéa Astronomica segura. +<BR> +Do negro Paragon moldura observo, +<BR> +Que em si contém de Izác a illustre imagem; +<BR> +He relevada em solida Esmeralda, +<BR> +Parece q' inda volve, e q' inda espalha +<BR> +Filosofica vista em torno aos astros, +<BR> +Que respirando está Filosofia. +<BR> +E tanto ao vivo está, tal arte o fórma, +<BR> +Que, se meus olhos acredito, ainda +<BR> +Cuido que solta a voz, que os labios move. +<BR> + + Este relevo portentoso, e raro +<BR> +He sustido nas mãos d'hum Genio illustre, +<BR> +A quem deo berço d'Adria a grão Rainha, +<BR>(Hoje escrava tambem d'escravos feros) +<BR> +Genio que objectos da terrena estima +<BR> +Aos pés soube pizar, e além subindo +<BR> +Onde o fragil mortal mui raro chega, +<BR> +Teve ao lado Virtude, e teve o gosto, +<BR> +Que o bello sabe achar nas artes bellas, +<BR> +Rival sublime, ou vencedor de Horacio, +<BR> +Na mente sempre á Poezia dada +<BR> +Seguro alvergue achou Filosofia; +<BR> +Pelas varedas da sciencia segue +<BR> +De Newton o farol brilhante e puro. +<BR> +Caro ao Monarcha, que juntou n'hum laço +<BR> +De Minerva, e Bellona o genio, e as artes, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_60" id="pag_60">[60]</a></span>Minerva n'alma tem, nas mãos tem Marte, +<BR> +E a pacifica Oliva ao louro ajunta: +<BR> +Monarca invicto, que estendeo vivendo +<BR> +A mão benigna ás Musas desvalidas, +<BR> +E ao lado como amigo os vates senta, +<BR> +E no Reino, onde agora a Guerra existe, +<BR> +De Augusto, fez raiar dourados dias: +<BR> +Foi-lhe caro Algarotti; oh fausto nome, +<BR> +Tão doce e grato ao lisongeiro sexo, +<BR> +Que une mil vezes formosura, e letras! +<BR> +Da nivea mão travando-lhe o dirige +<BR> +Pelas agras do calculo varedas, +<BR> +E lhe ensina a não vêr com medo, e pena +<BR> +Os labyrinthos das traçadas linhas +<BR> +Nos cubos, nos triangulos de Newton; +<BR> +Este nas mãos sustem o Oval relevo, +<BR> +Que ao vivo representa, ao vivo exprime +<BR> +Do grande explorador da Natureza +<BR> +O magestoso, e respirante vulto. +<BR> +D'Optica o Genio na moldura estende, +<BR> +Moldura sup'rior, brilhantes azas: +<BR> +Com septemplice luz se expandem bellas, +<BR> +Que as côres todas primitivas guarda: +<BR> +O corpo todo he nú, cercado apenas +<BR> +D'hum sendal claro azul que estrellas bordão; +<BR> +Na dextra mão sustenta, huma grinalda, +<BR> +E acena de cingir com ella a frente, +<BR> +De pedraria Oriental composta; +<BR> +Na esquerda mão conserva os luminosos +<BR> +Crystaes, em lentes que affeiçoa e pule +<BR> +Co'as doutas mãos Filosofo tranquillo +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_61" id="pag_61">[61]</a></span>O Portuguez Hebreo na Hollanda escura,<A NAME="tex2html3" + HREF="#foot118"><SUP>3</SUP></A> +<BR> +Que, a vil lisonja despresando altivo, +<BR> +Banha o pão com suor, trabalha, e vive. +<BR> + + D' aurea madeixa o Genio hum raio expande, +<BR> +Que, composto de mil, fulgura ao longe. +<BR> +Resulta delle a côr candida aos olhos: +<BR> +Da Urna sepulcral no seio o raio +<BR> +Se refrange instantaneo, em parte opposta +<BR> +Quadrilongo se vê, posto que fosse +<BR> +Esferico ao partir da origem sua. +<BR> +Diversos gráos, e proporção distincta +<BR> +As côres entre si guardão, conservão; +<BR> +O brilhante escarlate occupa o fundo, +<BR> +O laranjado o meio, e, qual no Goivo +<BR> +O amarello se mostra, alli campêa; +<BR> +O verde então se vê, que enroupa as plantas; +<BR> +Vegetação Rainha assim se veste, +<BR>Ópa com que se adorna, e o Mundo enfeita: +<BR> +Do azul, que forra os Ceos, o Indico he perto, +<BR> +E da saudade o symbolo tristonho, +<BR> +Matiz da violeta; eis brilha o rôxo. +<BR> +Escala harmoniosa! Eis della em torno +<BR> +D'huma composta côr listões s'estendem, +<BR> +Que outros compostos gradativos formão, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_62" id="pag_62">[62]</a></span>Que adornos são do Mausoléo soberbo: +<BR> +E, n'hum Rubim profundamente expressas, +<BR> +Estas palavras portentosas erão: +<BR>"Com suas Leis a vasta Natureza +<BR> +Immersa estava em tenebrosa noite; +<BR> +Surge, ó Newton, bradava a voz do Eterno; +<BR> +Nasceo Newton no Mundo, e nasce o dia." +<BR> + + Eis tres figuras mais, do grão Sepulcro +<BR> +Ornamento, diviso em torno postas; +<BR> +Primeiro a de Ancião curvo, e rugoso, +<BR> +Fontenelle se diz, meditabundo, +<BR> +Aos Ceos aponta, e contemplando os astros, +<BR> +Diz que habitados são, que a argentea Lua +<BR> +He do pensante, e do mortal morada; +<BR> +Qu'existem Mundos mais no éther immenso. +<BR> +De vórtices cingido, outro apparece, +<BR> +Em cujo seio envolve o Sol brilhante; +<BR> +Em seu gyro assignala o móto aos astros. +<BR> +Tem sobre o Cenotáfio os olhos fitos, +<BR> +O simulacro observa, e mudo o adora. +<BR> +Entre elles ambos Maupertúis descubro, +<BR> +E sobre hum globo estende aureo compasso, +<BR> +E sem temer as cerrações do pólo, +<BR> +Geómetra sublime, os gráos lhe mede. +<BR> + + Eternidade sobre tudo existe, +<BR> +De insupportavel luz clarão diffunde, +<BR> +Onde se perde, e se deslumbra a vista, +<BR> +S' ousa fitar-se ao seu seio immenso. +<BR> +Mal contemplava o monumento augusto, +<BR> +De homem tão grande consagrado á gloria; +<BR> +De tão sublimes extasis me arranca +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_63" id="pag_63">[63]</a></span>A Fadiga outra vez: "He tempo, ó filho. +<BR> +Que o transportado espirito se torne +<BR>Á habitação mortal, que desça á Terra: +<BR> +Vai: quanto viste, aos homens anuncîa; +<BR> +Vai declarar insólitos protentos +<BR> +Sobre esta móle sepulcral gravados. +<BR> +O Mundo vivirá: Newton sublime +<BR> +Em quanto exista, existirá com elle. +<BR> +Sobre as ruinas do acabado Mundo +<BR> +A gloria existirá fastosa, inteira, +<BR> +Seu throno erguendo sobre immensa, e clara +<BR> +Luz, que só Newton dividio na Terra." +<BR> + + Disse; eis foge a visão, eis foge o Templo. +<BR> +Eu, não diff'rente d'hum mortal que vôa, +<BR> +Desço do cume do fadado monte. +<BR> +O mesmo monte s'escondeo: vapores +<BR> +Levantados em torno á vista enferma +<BR> +Sobre mim denso véo de nuvens formão, +<BR> +Roubão-me ao claro Olympo: a planta apenas +<BR> +Se me antolhava que na Terra firmo, +<BR> +Do novo dia sou chamado ao duro +<BR> +Lagrimoso trabalho, herança minha, +<BR> +N'huma absoluta escuridade, inglorio, +<BR> +Sómente a mim deixado, e á Natureza, +<BR> +Sem murmurar do Ceo que assim lhe aprouve, +<BR> +Tranquillamente o tumulo esperando +<BR>(Pouco dista de mim!) repouso eterno. +<BR> +Mas sem que a vil lisonja hum pão mendigue; +<BR> +Nem aos soberbos porticos dos grandes +<BR> +A dependencia guiará meus passos, +<BR> +Nem vergonhosa súpplica, aos ouvidos +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_64" id="pag_64">[64]</a></span>D' hum homem meu igual levei té agora. +<BR> +Falte em que ponha os pés mesquinha terra, +<BR> +Injusta collisão d'almas obtusas, +<BR> +Menos que vermes na sciencia, em tudo, +<BR> +Só grandes na ignorancia, e na impostura, +<BR> +Me procure azedar cadentes dias; +<BR> +Nem duro, e negro pão banhado em pranto, +<BR> +E obtido com suor me escóre a vida; +<BR> +Nem tenha onde evitar (paredes nuas) +<BR> +Das estações a dura alternativa; +<BR> +Nunca abatido o peito em males tantos, +<BR> +Nem triste o rosto me verão no Mundo; +<BR> +N'alma assentado o presupposto tenho +<BR> +De huma voz Filosofica, que brada: +<BR>"Dos males todos, o menor he morte." +<BR> +Se he preciso morrer, sou grande, e livre, +<BR> +Sou nobre, independente, e sou ditoso; +<BR> +Do estudo, e da sciencia o fructo he este. +<BR> +Não he caduca vida hum bem q' valha +<BR> +De hum vicio só, de huma vileza o preço, +<BR> +Mas em quanto não finda este intervallo, +<BR> +Breve entre o berço, e tumulo, desejo +<BR>Ó Patria minha, engrandecer teu nome, +<BR> +Dar-te, qual hes, a conhecer ao Mundo. +<BR> +Isto busco, isto quero, isto medito, +<BR> +Neste seculo infausto á paz negado, +<BR> +Em que tudo se esquece, excepto o sangue; +<BR> +Em que he sciencia o calculo da morte; +<BR> +Em que hum Tigre feroz se chama hum grande; +<BR> +Em que amor do retiro, amor do estudo +<BR> +Como fraqueza, e pedantismo he tido, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_65" id="pag_65">[65]</a></span>E a sciencia maior lembrar-se o nome +<BR> +Da terra em que os mortaes seu sangue entornem. +<BR> +Menos barbaro foi por certo o tempo +<BR> +Em que do polo aquilonar marchando +<BR> +Fero Ataúlio, ou Genserico veio +<BR> +He Theodorico barbaro, mas teve +<BR> +Ministro ao lado seu Cassiodoro: +<BR> +Deo-se apreço ao saber, respeito ás Musas. +<BR> +Filosofo he Boecio; aurea eloquencia +<BR> +Apolinar, e Símacho sustentão, +<BR> +E do Grego saber riqueza, e brilho +<BR> +Nas escolas Ecléticas conserva +<BR>Á foz do Nilo transplantada Athenas. +<BR> +Mas agora!... ah com lagrimas augmento +<BR> +Do patrio rio a turbida corrente!... +<BR> +Porém eu torno a mim, que a mim me rouba: +<BR> +Melancolico véo que alma me enluta. +<BR> +Trago do Templo excelso inda gravadas +<BR> +Na fantazia férvida as imagens, +<BR> +Que eu alli descobrira, inda me lembro +<BR> +De quanto ao grão Britanno as Artes devem. +<BR> +Cultas nações extaticas o louvão, +<BR> +Nunca a lingua mortal cança em louvallo: +<BR> +Unico Genio, cujo estudo, e fama, +<BR> +Sómente ha de acabar quando se solte +<BR> +A chamma voracissima do fogo, +<BR> +Que a Terra, os astros lucidos consuma, +<BR> +Com que do Mundo a machina vacille; +<BR> +Como tu prometeste, e tu cantaste, +<BR>Ó dulcissimo Vate, a quem por louros +<BR> +Deo do Tybre o Tyranno a Scitia, e morte. +<BR> + + <span class="pagenum"><a name="pag_66" id="pag_66">[66]</a></span>Newton; foste mortal; mas quasi eu creio, +<BR>(Qual he crença de extatico Poeta) +<BR> +Que d'hum astro natal vieste ao Mundo +<BR> +Mostrar prodigios aos mortaes ignótos. +<BR> +Tu, c'o Prisma na mão mostraste a fonte +<BR> +Da septiforme côr, que a luz encerra, +<BR> +Qual seja a essencia sua, e qual a vida. +<BR> +A superficie dos terrenos corpos, +<BR> +Em parte absorve os luminosos raios, +<BR> +E, reflectidos n'outra parte, os manda +<BR> +Aos olhos nossos com diversas côres. +<BR> +Opáco eis apparece o corpo, quando +<BR> +A luz não tópa com directos póros; +<BR> +Na obliquidade a escuridão consiste, +<BR> +Pois menor transparencia a luz encontra: +<BR> +Tu decifraste as primitivas côres, +<BR>Ó grande Genio escrutador do Mundo! +<BR> +Tu das mixtas nos dás brilhante idéa, +<BR> +Que effeitos são dos reflectidos raios, +<BR> +E qual seja o poder donde dimane +<BR>Á refracção, e reflexão principio. +<BR> +Nem são de teu engenho obras supremas +<BR> +As qu'em suave metro expuz té agora. +<BR> +Não so da luz as vibrações potentes +<BR> +Refrangiveis mostrou nos corpos densos, +<BR> +Que no incessante, moto encontrão sempre; +<BR> +Mas a mais progredindo, a mente excelsa, +<BR> +Não se perdeo no calculo infinito: +<BR> +Abysmos onde hum novo ignóto brilho +<BR> +Aos mortaes pode abrir; sahindo ovante +<BR> +Do labyrintho de infinitas curvas, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_67" id="pag_67">[67]</a></span>Quando a recta propoz, porque he finita; +<BR> +Se hum pouco só diverge, então se fórma +<BR> +Sempre em curva infinita. Ó sombra, as Musas +<BR> +De ti se espantão, se intimidão, fogem: +<BR> +Só lhe apraz terra donde brotem flores; +<BR> +Só manejão pinceis, calculo odêão; +<BR> +Ou he pequeno emprego á fantazia, +<BR> +Que se escalda, se expande, e se remonta, +<BR> +Juntar com sequidão cifras a cifras; +<BR> +Outro quadro maior minha alma occupa. +<BR> + + Bastava, ó Newton immortal; bastava +<BR> +A dar-te hum nome eterno, a luz, e as côres; +<BR> +Mas tu, da clara luz transpondo o Imperio, +<BR> +Foste os astros seguir no eterno móto. +<BR> +A pestilente Inveja em vão contrasta +<BR> +A teu nome immortal memoria, e honra. +<BR> +Da Geometria nas valentes azas +<BR> +Nunca tentado despregaste hum vôo, +<BR> +E d'huma esfera n'outra esfera foste +<BR> +Viver entre mil soes sem deslumbtar-te; +<BR> +Lá tu foste encontrar, de lá revélas +<BR> +Lei q' a hum centro commum chama os Planetas; +<BR> +E a lei com que do centro os astros fogem. +<BR> +O móto desigual da argentea Lua +<BR> +A teus profundos calculos sugeitas. +<BR> +Tu no móto annual, tu no diurno, +<BR> +Vais passo a passo acompanhando a Terra. +<BR> +Tu do grande fenomeno espantoso, +<BR> +Exposto á nossa vista, e sempre ignóto, +<BR> +Com que ora sobem na arenosa praia, +<BR> +Ora descem na praia as turvas ondas, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_68" id="pag_68">[68]</a></span>A verosimil causa, ou certa apontas. +<BR> +E teu profundo espirito em repouso, +<BR> +Assombroso mortal, jámais deixaste. +<BR> +Se, os tubos astronomicos depondo, +<BR> +Deixas de ir vêr os Ceos, correndo os astros, +<BR> +Não satisfeito de rasgar o obscuro, +<BR> +Denso véo que encobria a Natureza, +<BR> +Pelos sombrios pennetraes entrando +<BR> +Com luminoso facho, e nunca extincto, +<BR> +Tu, nascido a dar luz, rasgas as sombras +<BR> +Talvez mais densas, que no seio envolvem +<BR> +Marcado já periodo dos tempos, +<BR> +Vai correndo teu fio, e apenas paras +<BR> +No momento em q' á voz do Eterno o Mundo +<BR> +Surge do cáhos, se organiza, e brilha. +<BR> +Tu, da impostura oriental mofando, +<BR> +E do fallaz mysterioso Egypto, +<BR> +Só da verdade oraculos respeitas. +<BR> +Petavio, Usserio te contemplão mudos +<BR> +Quando outras luzes contemplando mostras +<BR> +Da Natureza na observada marcha +<BR> +Tão remoto não ser da Terra o berço. +<BR> +A baze, as progressões, a gloria, a quéda +<BR> +De Imperios vastos que ambição formára, +<BR> +Interpetre das leis dos Ceos, dos astros, +<BR> +Quizeste ser Legislador dos tempos. +<BR> +Quem póde a gloria recuzar-te, ó Newton, +<BR> +De dar ao Mundo a luz que elle não tinha? +<BR> +A transcendente Geometria elevas +<BR> +Ao ponto além do qual finda o perfeito. +<BR> +Da Natureza sacerdote, acclaras +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_69" id="pag_69">[69]</a></span>Mysterios que ignorára a Grecia, o Lacio. +<BR> +Pelas sombras da Historia a luz derramas +<BR> +Quando a baze maior, Chronologia, +<BR> +Tu deixas em teus calculos segura. +<BR> + + Se o profundo Varennio a terra, os mares +<BR> +Co'a régoa Filosofica medindo, +<BR> +Este, ai! tão triste! domicilio humano +<BR> +Em quadro multiforme off'rece á mente; +<BR> +Tu te dignas polir, dar brilho, e preço +<BR> +Talvez ao mór Geógrafo que exista; +<BR> +A Newton por interpetre merece! +<BR> +Nelle a luz he brazão, que tu lhe emprestas; +<BR> +Em ti timbre maior, sendo tu Newton, +<BR> +Confessar, conhecer merito estranho. +<BR> + + Da Natureza expositor, quizeste +<BR> +As azas despregar n'hum ceo mais alto, +<BR> +As cortinas fatídicas rasgando, +<BR> +Com que a mão do Immortal cobre o futuro, +<BR> +Foi teu maior estudo esse volume; +<BR> +Onde as visões de extatico Profeta +<BR> +Em sombra impenetravel se sepultão, +<BR> +Não vadeaveis, não, que os aureos sellos +<BR> +Só lhos deve romper momento extremo, +<BR> +Quando de espanto agonizante o Mundo, +<BR> +Vir das nuvens baixar do Eterno o filho. +<BR> + + Não foste grande aqui; mas são pequenos +<BR> +Quantos ousão rasgar comtigo as sombras, +<BR> +Em que Deus quiz guardar mysterios tantos. +<BR> +No Templo Filosofico dest'arte +<BR> +Tu mereceste hum tumulo sublime, +<BR> +Que he seu mais nobre altar; não pompa infausta, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_70" id="pag_70">[70]</a></span>Qual ser dos Reis o mausoleo costuma; +<BR> +Neste a gloria se acaba, o nome expira; +<BR> +O teu dalli começa, e dalli manda +<BR> +Raios de luz a esclarecer o Mundo. +<BR> + + Se tens a mente de sciencia cheia, +<BR> +Tens de virtude, o coração cercado: +<BR> +He mais arduo ser bom, que douto, e sabio; +<BR> +E huma Virtude só tem mais valia +<BR> +Que o teu compasso d'ouro, as linhas tuas, +<BR> +E as leis que dás, ou que suppões nos astros. +<BR> +Entre o fausto incivil entre a grandeza, +<BR> +Podeste ser Filosofo modesto. +<BR> +Ah! sem virtude, a sapiencia he nada! +<BR> +A Inveja te assaltou, (e a quem perdoa +<BR> +Este monstro o maior do escuro Inferno?) +<BR> +Mas tu, qual no Oceano altivo escolho +<BR> +Das negras ondas, que rebentão, zombas. +<BR> +E, se hum novo Palacio á Sapiencia +<BR> +Levantárão mortaes no Tybre, e Sena, +<BR> +Os enfeites são seus, e as bazes tuas, +<BR>Ó feliz Albion, berço de tantos, +<BR> +Magnanimos Heroes, que o Mundo illustrão, +<BR> +Da honra e da virtude asylo, e Patria, +<BR> +Vê que ha no Tejo quem conheça o grande +<BR> +Alumno teo que legislou nos astros; +<BR> +Quem seu saber adore, e seu profundo +<BR> +Systema vá seguindo em todo, em parte; +<BR> +Quem possa ser maior, e igual ao menos. +<BR> +Este dos versos meus, tributo acceita +<BR> +Que eu consagro a teu nome, á gloria tua: +<BR> +Pendura-os em seu tumulo, e se tanto +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_71" id="pag_71">[71]</a></span>Nem desejar, nem merecer eu devo, +<BR> +Junto da pedra, que os despojos fecha +<BR> +De Tompson teu Pintor, meus dons conserva: +<BR> +Se elle traçou da Natureza o quadro, +<BR> +Dos seculos té alli co'a Lyra intacta, +<BR> +Eu do Interpetre seu pinto em meus versos +<BR> +O grande Genio, e lhe eternizo a Fama. +</blockquote> + +<p class="centrado"> +<i>Fim do III. Canto.</i> +</p> + +<span class="pagenum"><a name="pag_72" id="pag_72">[72]</a></span> +<H1>NEWTON, +<BR> +POEMA. +</H1> + + + +<H1>CANTO IV.</H1> + + +<blockquote> +Da luz que o Templo magestoso enchia +<BR> +Nunca a meus olhos o clarão s'extingue, +<BR> +Com elle vejo d' outra sorte a Terra: +<BR> +S'era envolta até alli na sombra escura +<BR> +Do cáhos da ignorancia, eis fulge, eis brilha +<BR> +De novos astros, nova luz banhada. +<BR> +Era tréva até alli quanto pousara, +<BR> +Em Athenas outr'ora, outr'ora em Roma. +<BR> +Era frouxa a impulsão de sabios tantos, +<BR> +Que, mestres do Universo, aos homens davão +<BR> +Lições de sapiencia. Ah! nunca o Templo +<BR> +Aos miseros mortaes se abrio de todo! +<BR> +Quando a barbarie Góthica domina +<BR> +Por tantos, tantos seculos no Mundo, +<BR> +Dos continuos fenomenos a causa +<BR> +Sempre ignorada foi. De espaço a espaço +<BR> +Surgía hum Genio, forcejando apenas +<BR> +Por quebrar os grilhões. Baldado intento! +<BR> +Hia o volume universal fechado, +<BR> +Com sellos de Diamante, á força humana; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_73" id="pag_73">[73]</a></span>Qual no tristonho tenebroso Inverno, +<BR> +Quando a densa, importuna, e grossa neve, +<BR> +Abafa em torno o ar; se o Sol brilhante +<BR> +Rasga c'o vivo raio o manto espesso, +<BR> +Subito foge; subito o negrume +<BR> +Tapa de novo o fulgurante aspecto, +<BR> +O Imperio estende da imperfeita noite. +<BR> +Tal da Verdade, e Natureza estava +<BR> +Envolto sempre o rosto em véo sombrio; +<BR> +E, se hum frouxo vislumbre hum pouco a treva +<BR> +Tentava dividir, mais carregada +<BR> +Vinha cahindo a sombra da ignorancia: +<BR> +Ou porque o cego Fanatismo as luzes +<BR> +Demorava continuo, ou porque ainda +<BR> +O marcado periodo não vinha +<BR> +Na vasta, immensa successão dos tempos, +<BR> +Que a mão que rege o todo ás artes marca, +<BR> +Quaes os Imperios são que nascem quando +<BR> +Do nada á vida a Providencia os chama. +<BR> +Quantos Genios nutrio no seio a Italia +<BR> +Antes que Newton fulgurasse ao Mundo? +<BR> +Tilesio, Cisalpino, e Bruno, aquelle +<BR> +Que entre chammas fataes seu crime expia! +<BR> +E Cardano, que entr'Arabes idéas +<BR> +Tantas centelhas luminosas lança! +<BR> +Mas nunca rompe o dia, e o Mundo aclara. +<BR> +Tu mesmo ó Galileo, teu passo apenas, +<BR> +Ao Peristillo do grão Templo levas: +<BR> +Não te foi dado os porticos de todo +<BR> +Aos homens franquear. Germania hum Sabio +<BR> +Produz, q' aos Ceos se lance, os astros peze, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_74" id="pag_74">[74]</a></span>E ouse fallar de perto á Natureza; +<BR> +Kepler as leis universaes sentia, +<BR> +Que seguem na carreira ethereos corpos. +<BR> +E Gallia, então n'Aurora, então no berço, +<BR> +Ou não escuta, ou não conhece o Sabio, +<BR> +Que entre os gelos da Hollanda hum mundo finge +<BR> +De turbilhões, de vortices sonhados: +<BR> +E de Epicuro nos jardins se assenta +<BR> +Renovador dos átomos errantes +<BR> +Pensativo Gassendi, e em tréva envolto, +<BR> +Corpuscular Filosofia ensina, +<BR> +Onde engenho só brilha, e nunca hum passo +<BR> +A sempre douta experiencia avança. +<BR> +Ah! se mais á razão, que á fantazia +<BR> +Desse o Germano illustre a quem patente +<BR> +O vasto Imperio foi das artes todas, +<BR> +Se as primitivas mónadas, se aquella +<BR> +Pré-existente enfática harmonia +<BR> +Hum pouco s'esquecesse, e a voz ouvisse +<BR> +Da contumaz observação das causas, +<BR> +Mais cedo, e mais brilhante a luz raiára! +<BR> +Do immenso livro do Universo os sellos +<BR> +Aos olhos dos mortaes s'espedaçárão! +<BR> + + Mas Newton existio, e a Terra he outra; +<BR> +O que era só mysterio, o que era sombra, +<BR> +Foi tudo luz, e sapiencia tudo, +<BR> +Bem como he todo luz, e he dia o Mundo +<BR> +Quando o disco do Sol do Ganges rompe, +<BR> +De arcanos naturaes expoz a cifra +<BR> +Rasgou-se o manto a toda a Natureza! +<BR> +Eis do infinito o calculo profundo +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_75" id="pag_75">[75]</a></span>Pôde abrir, e forçar cerradas portas +<BR> +Da Sapiencia o recatado Templo +<BR> +Visto apenas ao longe entre inaccessas +<BR> +Róchas quebradas de escarpados montes +<BR> +Se abrio de todo, e se mostrou qual era. +<BR> +Oh! que scena espantosa, oh quadro augusto! +<BR> +Enthusiasmo que minha alma agita +<BR> +Te abrange todo, te contempla, e pinta. +<BR> +Em teu claro vastissimo horizonte +<BR> +As gradações da luz, da sombra eu sigo, +<BR> +Empreza digna de espantar por certo +<BR> +A rica fantazia, o fogo, a força +<BR> +De Tintoreto, ou de Jordão pintando! +<BR> +Eu não sei que ardimento interno eu sinto, +<BR> +Irresistivel violencia aos versos +<BR> +Me leva todo, e da memoria eu tiro +<BR> +Thesouros cuja posse eu mesmo ignóro: +<BR> +Sobre mim me levanto, e alheio aos males, +<BR> +Que outra vez tão de perto, em copia tanta +<BR> +Terrivelmente minha Patria assombrão, +<BR> +A Lyra Filosofica tactêo, +<BR> +E onde não chega estrepito da guerra +<BR> +Eu vejo a luz que a Terra a Newton deve, +<BR> +De antigos évos óptica ignorada +<BR> +De Sarpi, e Porta aos immortaes cuidados, +<BR> +Ah! por certo deveo primeiros passos! +<BR> +Porém co' Prisma, a calculos de Newton +<BR> +Pode formar a analyse das côres: +<BR> +Do Genio, tymbre d'Anglicos triunfos, +<BR> +O volume doutissimo propaga +<BR> +A luz que em só vista, e ignota sempre. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_76" id="pag_76">[76]</a></span>Vãos systemas té alli que o throno occupão +<BR> +Cahem sem força, e vigor no abysmo, e nada +<BR> +A Experiencia só, corrige, emenda +<BR> +Quanto á moderna observação se oppunha; +<BR> +E a nova escóla Eclectica se eleva +<BR> +Sobre a verdade, e calculo sómente. +<BR> +Eis-Eulér, e Clairault, profundos genios, +<BR> +Sobre o problema dos tres corpos lanção +<BR> +A baze ao grão saber, e altos progressos +<BR> +Do magestoso simplice systema, +<BR> +Que La Place immortal do Mundo off'rece. +<BR> + + Quão gloriosas consequencias vejo +<BR> +De teus principios, ó Britanno illustre! +<BR> +A nutação do eixo em que se firma, +<BR> +Em que rodando vai pezada Terra: +<BR> +Do mar a exaltação, do mar a fuga, +<BR>(Que fluxo, e que refluxo a proza chama): +<BR> +D'astros primarios movimento eterno, +<BR> +Dos satélites seus que ao centro tendem; +<BR> +Dos cometas excentricos, que o moto, +<BR> +E sempre incerto, irregular conservão, +<BR> +Os constantes periodos se marcão. +<BR> +A libração da prateada Lua, +<BR> +Astro proximo a nós, mas sempre ignóto, +<BR> +E a causa achada dos bramosos ventos, +<BR> +Do ar sonoro oscilações pasmosas; +<BR> +Tudo he patente já. Methodo exacto, +<BR> +E de integrar, de aproximar se abraça, +<BR> +E tudo, ó grande Inglez, tua gloria augmenta! +<BR> + + A longa duração de quasi um cento +<BR> +D'annuas revoluções da Terra inerte +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_77" id="pag_77">[77]</a></span>De teus principios á cultura entrega +<BR> +Fontenelle dulcissimo, que Mundos +<BR> +Vio mais no espaço, e aridas sciencias +<BR> +De nova graça e formosura enfeita. +<BR> + + Da Germania, que hum tempo, e núa, e simples +<BR>A' Historiador Filosofo se mostra, +<BR> +Surge o grão Wolfio, e se offerece ao Mundo; +<BR> +Segue o trilho de calculos profundos: +<BR> +Mathematica luz lança no campo +<BR> +De quanta a Terra vio Filosofia. +<BR> +De ti, grão Newton, os vestigios piza, +<BR> +E da exacta sciencia entra o Sacrario, +<BR> +Em sombras methafysicas s'entranha; +<BR> +Quadro bem digno da attenção do sabio, +<BR> +Nunca em meus versos ficarás inglorio! +<BR> +A Inveja perseguio genio tão raro; +<BR> +Entre agitadas borrascosas ondas +<BR> +Em seu peito existio tranquilidade, +<BR> +E a cada tiro venenoso dava +<BR> +A grão resposta de hum volume douto +<BR> +Com que da sapiencia o erario augmenta. +<BR> +Do Lycêo de Berlin lá foge expulso +<BR> +Vai com elle a Virtude, e vai Sciencia. +<BR> + + Da Hollanda nebulosa os sabios surgem. +<BR> +Ah! porque foge á magica harmonia +<BR> +De meus versos seu nome! As Musas fogem, +<BR> +E os alpes vendo, os Pyreneos não passam. +<BR> +Só do Tibre, ou do Téjo as aguas gostão +<BR> +Depois que o Trace barbaro, e que o Scytha +<BR> +Do Eurotas, de Hypocrene a margem pizão! +<BR> +Mosckembroêke, Sgravesande illustrão +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_78" id="pag_78">[78]</a></span>Da Fysica os confins. Conspicua em tudo, +<BR> +Antes que ao jugo Vandalo dobrasse +<BR> +O tão nobre até alli livre pescoço, +<BR> +Nevosa Helvecia n'huma só familia +<BR> +Da sciencia o deposito conserva. +<BR> +Fadada para as letras Baziléa +<BR> +Tantos Bernullis dá, quantos os sábios. +<BR> + + Claro ornamento da sciencia exacta, +<BR> +Onde hum tempo foi Grecia, e Roma outr'ora +<BR> +Onde em Sena mudado, eu via o Tibre, +<BR> +Quanto a Fysica val, quanto se avança! +<BR>Á Luz de Newton nova luz empresta, +<BR> +E não deixou que dezejar á Terra. +<BR> +Da grande Academia o Templo eu vejo, +<BR> +Alcaçar da sciencia ao Mundo aberto +<BR> +Do grande Newton a memoria, o nome, +<BR> +Alli qual genio tutelar preside +<BR> +No vasto erario de immortaes volumes +<BR> +Encerra, e fêcha a Natureza toda, +<BR> +E a Natureza toda aos olhos abre. +<BR> + + De luz tão clara não carece Italia; +<BR> +Paiz tão caro ao Ceo, tão grato aos sabios, +<BR> +Ah! nunca os Brennos te pisassem, nunca! +<BR> +Devera em Cima de teus Alpes vêr-se +<BR> +A gráo Minerva sobraçando a Egyde +<BR> +Co'a angui-crinita frente de Medusa +<BR> +Onde os Hydros fataes s'enroscão, silvão, +<BR> +Petrificar as Vandalas Cohortes, +<BR> +Qual já Perseo c'o diamantino escudo +<BR> +As iras suspendeo do equoreo monstro, +<BR> +E Andromeda livrou. Italia, Italia, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_79" id="pag_79">[79]</a></span>Belligeranres torreões nos mares +<BR> +De contrarias nações, a Hesperia, a Gallia, +<BR> +E a soberba Albion, respeitão, guardão +<BR> +Lenho que leva La Peyrouse, e marcha +<BR> +Co'as raras produções do opposto Mundo +<BR> +A enriquecer a Europa armi-potente: +<BR> +Não he de huma nação, da Terra he todo +<BR> +O sabio que a riqueza augmenta ás artes. +<BR> +Tal acatáda ser, tal tu devias, +<BR>Ó domicilio do saber immenso, +<BR> +E não hirem turvar profanas armas +<BR> +Teus sabios immortaes, teus monumentos; +<BR> +Tudo em ti tinha o Mundo, e as Musas todas +<BR> +Tinhão firmado em ti seu Templo, e throno. +<BR> +De hum vate acceita o pranto, acceita os votos, +<BR> +Sabe que o Téjo te conhece toda +<BR> +Entre as cultas nações, tu só me illustras, +<BR> +Eu nada tenho que invejar ao Mundo, +<BR> +Quando em viva abstracção te roubo ao Globo; +<BR> +Sem Filicasa, eu Lyrico me acclamo, +<BR> +Ah! sem Tasso, o Cantor do acceso Oriente +<BR> +Cedera a nenhum outro Epica tuba; +<BR> +E meditando harmoniosamente +<BR> +Eu só fôra o Pintor da Natureza +<BR> +Se Arrighi, e Conti co'os pincéis não dérão +<BR> +A tão grande painel mais alma, e vida. +<BR> + + A accesa fantasia hum pouco, hu' pouco +<BR> +Das Musas se lembrou deixando as linhas, +<BR> +Os cubos, e os triangulos de Newton, +<BR> +E a regua de marfim, compasso d'ouro +<BR> +Com que elle mede a Natureza toda. +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_80" id="pag_80">[80]</a></span>Com quanta gloria te serviste delle, +<BR> +Tu, que a tudo primeiro o exemplo deste! +<BR> +Não cede, não, Bolonha ao grão Tamisa +<BR> +Menos Florença, que, em jardins envolta, +<BR> +Da Fysica sciencia o Imperio estende; +<BR> +De Newton ao clarão marcha Zanotti: +<BR> +Curvo, e velho Ricatti, abstracto, e mudo +<BR> +A seu sacrario te conduz, Urania; +<BR> +De Newton nas fluxões tu luz derramas. +<BR> +Se teve crime a Sociedade extincta +<BR> +Aos olhos da razáo, tu lho disculpas, +<BR> +E tu pedes por ella o pranto ao Mundo. +<BR> +Manfredi, e Grandi, e Nicolai, de assombro +<BR> +Enche do Neva, e do Danubio os sabios; +<BR> +Não mais, não mais a progredir se atreve +<BR> +O grande Imperio da sciencia exacta. +<BR> +Onde o claro Sebéto as aguas volve, +<BR> +E ao perto ouve bramir, troar escuta +<BR> +Do medonho Vesuvio o seio horrendo, +<BR> +Chega de Newton a sciencia, e chega +<BR> +O desejo de abrir com aureas chaves +<BR> +Da recatada Natureza o Templo, +<BR> +Orlandi, e Galiani aos astros sobem, +<BR> +O grão Maraldi lhes franqueia a estrada; +<BR> +Com Cassini outra vez s'exalta o Mundo. +<BR> +Se muito a Galileo deveste, ó Newton, +<BR> +Mais a Italia te deve, as Artes devem, +<BR> +Na Hesperia á perfeição levadas sempre. +<BR> + + Mecanica, aos mortaes proficuo estudo, +<BR> +Depois de Newton teu sacrario aberto +<BR> +Eu vejo pela Europa, e mais se apura +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_81" id="pag_81">[81]</a></span>Do maquinista Siculo o talento, +<BR> +Que atalha os vôos das Romanas Aguias; +<BR> +A força cede a força ás artes sabias! +<BR> +Quasi vejo surgir Numes na Terra, +<BR> +A Cujo aceno os corpos obedecem; +<BR> +Não he a Lyra de Anfião que os montes +<BR> +Manda a Thebas chegar, são leis profundas, +<BR> +Que ás sombras arrancou da Natureza +<BR> +O estudo da Mecanica pasmoso +<BR> +Náos se suspendem, diques s'apresentão +<BR>Á furia sempre indómita dos mares. +<BR> +Sobe hum rio em Marly, corre hum penhasco +<BR>Á ribeira do Neva, e a baze fórma +<BR> +Da colossal, prodigiosa móle, +<BR> +Que representa o creador de Imperio, +<BR> +Que hoje a razão defende, o crime insulta. +<BR> + + Sem a Italia meu canto erguer não posso; +<BR> +Se Imperio Mathematico contemplo, +<BR> +Musckembroêcke, e Belidoro a guerra +<BR>(Guerra dos sabios são, que o sangue ignorão) +<BR> +Accendem entre, si, disputão doutos +<BR> +Do movimento de impelidos corpos, +<BR> +Que a força perdem gradativamente, +<BR> +Até que a resistencia o móto acabe. +<BR> +Do Sena, e do Tamiza os sabios todos +<BR> +De Newton, de Amontons nas leis insistem; +<BR> +Eis surge, eis brilha o Bolonhez Palcani, +<BR> +E onde co'as doutas maquinas não chega, +<BR> +Mysterios da razão co'a força abrange; +<BR> +Traça hum ramo hyperbolico engenhoso, +<BR> +Assintótico o diz, com elle explica, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_82" id="pag_82">[82]</a></span>Com elle aclara o disputado arcano. +<BR> +Se as leis dos corpos sólidos se mostrão +<BR> +Em soberana luz, quanto escondida +<BR> +Guardava a Natureza a lei constante, +<BR> +Que pôz desde o começo ao rio undoso, +<BR> +Que elle na marcha accelerada observa! +<BR> +Mil equações algebricas a escondem; +<BR> +Vencem-se em fim mysteriosas sombras. +<BR> +Depois de quanto afan, de quanto estudo +<BR> +Tu, Saladini, a theoria expunhas, +<BR> +Que escólho da mecanica tu chamas, +<BR> +Não superavel quasi a engenho humano! +<BR> +Tu deste a Hydrodinamica pasmosa; +<BR> +Teu hemisferio hydraulico os louvores +<BR> +Do taciturno pensador La-Grange +<BR> +Te soube merecer. Ricatti o grande +<BR> +Te abraça terno com silencio augusto, +<BR> +Sobre teu rosto lagrimas derrama; +<BR> +Do Sabio velho a candida ternura +<BR> +Mais te explica, e te diz, que o louro, o premio +<BR> +Que Berlin te mandou, promette o Sena. +<BR> + + Mas teus cuidados, as vigilias tuas, +<BR>Ó tu de Urania Sacerdote, e filho, +<BR>Á sciencia dão luz, que os ceos abrange, +<BR> +Por ti seu Reino estende a Astronomia; +<BR> +Desde o culto Caldeo, do douto Egypcio +<BR> +Té quasi ao berço teu jazia em sombras; +<BR> +Nada avançado tinha Árabe estudo, +<BR> +Guardador do deposito das letras, +<BR> +Que á furia se evadio do Turco indouto +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_83" id="pag_83">[83]</a></span>Depois que a sabia Grecia he cinza, ou nada: +<BR> +Nem mesmo entre os de Dánia agrestes montes, +<BR> +Onde Ticho elevou seu tubo aos astros, +<BR> +Solar systema se aclarou de todo. +<BR> +Mas apenas os Ceos co'a mente excelsa, +<BR> +Sem te assustar o espaço indefinito, +<BR> +Ousaste passear, como vencida +<BR> +Da douta audacia a Madre Natureza, +<BR> +Ou fez que o Ceo, se aproximasse á Terra, +<BR> +Ou que a Terra de perto os astros visse. +<BR> +Leis occultas té alli se patenteão +<BR> +E o que Newton expoz, Cassini indaga. +<BR> +Seguindo a piza ao fundador, ao mestre +<BR> +Da sciencia astronomica, empunhava +<BR> +O Telescopio do subtil Campani; +<BR> +De Saturno os satellites descobre +<BR> +Quasi todos então; busca as estrellas, +<BR> +Que immortal Galileo Primeiro achára, +<BR> +Luas de Jove são; fanal aos nautas; +<BR> +O espantoso fenomeno nos mostra +<BR> +Da luz Zodiacal, co'a parallaxe +<BR> +Do sanguineo, medonho, accezo Marte +<BR> +A distancia marcou do Sol á Terra, +<BR> +Distancia que confunde a mente humana, +<BR> +E que a luz n'hum momento abrange, e corre; +<BR> +Sabio traçou Meridiana linha, +<BR> +E por ella nos mostra o variante +<BR> +Moto veloz da Terra ao Sol em torno. +<BR> +Então mais claro no volume immenso, +<BR> +Dos Ceos, já quasi aberto, os homens lêrão. +<BR> +Foi-lhe sugeita a abobeda brilhante +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_84" id="pag_84">[84]</a></span>A radío mathemático, qual era +<BR> +O mortal domicilio aos homens dado: +<BR> +Parallaxe annual d'altas estrellas, +<BR> +Que engastadas nos Ceos fixas se amostrão; +<BR> +Idéa falsa se aniquila, e foge, +<BR> +E a lei da aberração mostra a verdade. +<BR> + + Peregrinando pelos Ceos supremos +<BR> +Vão sabios indagar da Terra a fórma +<BR> +Co'a sciencia astronomica se marca +<BR> +Da nossa habitação figura, e termo. +<BR> +Quasi se amostra a longitude ignóta +<BR> +Sobre inconstante mar, onde em cavado +<BR> +Pinho, avaro mortal circunda o globo. +<BR> + + Incessante fadiga a luz derrama +<BR> +No arcano presentido, e ignóto ainda +<BR> +Da obliquidade do angulo, que hum pouco +<BR> +Em cem annos na Ecliptica decresce! +<BR> +Quasi deixão seu tom da Lyra as cordas +<BR> +Quando dest'arte nos umbraes me entranho +<BR> +Da linguagem dos calculos, que he sombra, +<BR> +Que estrema immensamente, e que divide +<BR> +O frio Euclides do fervente Milton. +<BR> +Ah! de Ariosto aos extases divinos +<BR> +Calculador pousado em vão se ajusta. +<BR> + + Como indignado das prescriptas metas, +<BR> +Achadas até alli no espaço immenso +<BR> +Herschell sobe mais alto, além das tardas, +<BR> +Luas, que escoltão frigido Saturno. +<BR> +Lá corre a suspender na marcha Urano, +<BR> +Leva comsigo a Carolina, e ambos +<BR> +Revolução continua, e varia encontrão, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_85" id="pag_85">[85]</a></span>No luminoso annel que o globo cinge, +<BR> +Do nem remóto, ou ultimo Saturno; +<BR> +Quando com elle hum Hercules comparo, +<BR> +Q' Olbers descobre, que a carreira immensa, +<BR> +No gyro de dois seculos absolve. +<BR> +De mais perto se observa a argentea Lua, +<BR> +Gelados montes tem, gelados mares, +<BR> +E tem Vesuvios que vomitão chammas. +<BR> +He cidadão, e morador he quasi +<BR> +Na Terra inda o mortal do ethereo assento. +<BR> +Desgraçado Bailly, fuma o teu sangue +<BR> +No cadafalso vil: tua alma agora, +<BR> +Já solta das prizões, lá vê nos astros +<BR> +Se o grão discurso teu, falhou no Mundo. +<BR> +Se a Terra, dizes tu, se outros Planetas +<BR> +Por centro do seu gyro o Sol conhecem, +<BR> +Talvez, que o nosso Sol, que os Soes, que fixos +<BR> +Parecem ser na abobeda azulada? +<BR> +Tenhão centro commum n'hum Sol mais puro, +<BR> +Mais vasto, e luminoso, e que descrevão +<BR> +Em roda delle, essa orbita assombrosa, +<BR> +Que mais remotos tem limite, e termo, +<BR> +Que a fantasia fervida d'hum Váte! +<BR> +La-Lande a imaginou, La-Lande a sente; +<BR> +Mas, foge, foge aos calculos, ás cifras. +<BR> +Virá talvez hum tempo... ah! se na Terra +<BR> +Não tiver duração Vandalo Imperio! +<BR> +Em que outros vidros, outros tubos mostrem, +<BR> +Que foi verdade, e luz tão grande idéa! +<BR> +Depositada está no aureo volume, +<BR> +Que sobranceiro ao cadafalso, ao sangue, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_86" id="pag_86">[86]</a></span>Não ferio com Bailly furor de Tigres, +<BR> +Que ao Sena derão leis, e as dão na Europa, +<BR> +Que os ferros beija voluntaria escrava: +<BR> +Vileza, e corrupção, chegaste a tanto! +<BR> + + Não foi sem fructo, não, ou foi deleite +<BR> +A sciencia Astronomica entre os homens! +<BR> +Ah! quanta, e quanta luz se deve a Newton! +<BR> +Só são dignas de apreço as artes uteis. +<BR> +Quão proficuo aos mortaes he nauta ousado! +<BR> +Se tu, Lysia, tens gloria, ao nauta o deves, +<BR> +Que abrio primeiro do Oriente as portas: +<BR> +E teu nome immortal soou na Terra, +<BR> +Porque teu lenho undívago a cercára, +<BR> +Nas Ilhas do Oceano, e mares todos, +<BR> +Dos Lusos se conserva o nome, e a fama. +<BR> +Muito pôde o valor, pouco a sciencia +<BR> +No seculo inda rude, alheio ás artes! +<BR> +Por que inda hum Newton não subira aos astros, +<BR> +Newton, sciencia, calculos, systemas +<BR> +Só Magalhães não necessita; basta +<BR> +Que ao lado delle vão, vingança e honra; +<BR> +Eis todo o Globo rodeado; he esta +<BR> +A façanha maior da especie humana. +<BR> +Era extincto o fervor nos Lusos peitos +<BR> +Depois que estranhas leis o Tejo ouvira, +<BR> +Do mar o senhorio então transfere +<BR>Ás mãos Britannas o Senhor dos Mundos. +<BR> +De Vatennio a fadiga illustra hum Newton, +<BR> +Correm Bretões o mar, e o globo cercão, +<BR> +Não levados do sordido, e terreno +<BR> +Insaciavel interesse de ouro; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_87" id="pag_87">[87]</a></span>Mas só por illustrar, dar mór grandeza +<BR>Á esfera immensa das sciencias todas. +<BR> +Vai Cook, e vai Byron cercando o Globo +<BR> +Por inda não tentada, incerta via +<BR> +Então suspendem generosa marcha +<BR> +Quando em gelado mar, gelada terra +<BR> +Da Natureza no decreto attentão, +<BR> +Que atraz lhes manda bracear as vélas; +<BR> +Que onde a Terra acabou, findar se deve +<BR> +O trabalho mortal, o amor da gloria. +<BR> + + Ó nome Lusitano, ó Patria minha, +<BR> +Eu culpo o teu silencio, a huma virtude, +<BR> +Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia. +<BR> +Descreve Newton c'o compasso d'ouro +<BR> +O globo que Varennio exposto havia; +<BR> +Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville, +<BR> +Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyrão. +<BR> +Do Continente austral foge o fantasma, +<BR> +Que avarento Hollandez (nem hoje avaro; +<BR> +Nem já por crimes se conhece a Hollanda) +<BR> +Julgou grande porção do globo, e sua. +<BR> +Assombrado do gelo atraz voltárão, +<BR> +Mas nunca hum passo além co' lenho óvante +<BR> +Da Terra forão que tocára hum Luso; +<BR> +Magnanimo Queiroz, déste-lhe hum nome +<BR> +Para ti foi brazão, e he meta aos outros +<BR> +Do nebuloso Sul prescrutadores: +<BR> +E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo, +<BR> +Se ao pensativo Bátavo pertence, +<BR> +E ao pertinaz navegador Britanno, +<BR> +No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_88" id="pag_88">[88]</a></span>Mais além de Queiroz nenhum se avança. +<BR> +Foi entre tantos Magalhães primeiro, +<BR> +Todos de hum centro os raios se derramão, +<BR> +Que vem tocar d'hum circulo os extremos, +<BR> +Tal do centro de luz, que accende hum Newton +<BR> +Se derrama ao grão circulo das artes +<BR> +O perpetuo clarão com que hoje medrão. +<BR> + + Quanto a vetusta Fysica ignorava, +<BR> +Sobre a essencia do ar se mostra aos olhos; +<BR> +Piza-se a immensa fluida substancia; +<BR> +E já senhor do mar n'hum curvo lenho +<BR> +Não lhe basta do Globo o Imperio inteiro, +<BR> +Se o dominio o mortal não tem dos ares; +<BR> +Lá sóbe, la passêa, e vê seguro +<BR> +Debaixo de seus pés cruzando os raios. +<BR> +Do antigo Architas se escureça a Pomba; +<BR> +Maior prodigio guarda a idade nossa. +<BR> +Eu vejo pelo ar volantes carros, +<BR> +Quaes vão nas ondas os baixeis arfando; +<BR> +E nelles os mortaes tranquillos vejo +<BR> +Sem temer o despenho, e não lhes lembra, +<BR> +Que afrontada dest'arte a Natureza, +<BR> +Tire vingança da famosa injuria. +<BR> +Eu vejo o golpe, e a victima primeira +<BR> +Em Rosier intrepido, que sobe; +<BR> +Elle o primeiro foi, mas prestes passa, +<BR> +Do regaço da gloria ás mãos da morte. +<BR> + + Porém mais uteis os trabalhos vejo +<BR> +Dos sabios, que o caminho a Newton seguem; +<BR> +Eis a fonte de incognitos arcanos +<BR> +Aberta aos olhos dos mortaes absortos; +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_89" id="pag_89">[89]</a></span>Eis o electrico fluido pasmoso +<BR> +De fenomenos mil já causa ignóta; +<BR> +Do raio a patria se conhece, e teme, +<BR> +He das nuvens a electrica peleja. +<BR> +Se trôa, se rebrama o escuro Inferno +<BR> +Dentro do bojo de Vesuvio, e exhala +<BR> +O fumo que se expande, e o Ceo nos rouba, +<BR> +E traz ao dia de repente a noite, +<BR> +E aquella chamma, que entre estragos tanto, +<BR> +Chora o Mundo o maior, de Plinio a morte; +<BR> +Aqui descobre electricismo o Sabio. +<BR> +Sabios illustres, que mysterios tantos +<BR> +Descortinar, e conhecer podestes; +<BR> +Legislador Americano, os évos +<BR> +Teo nome guardarão; Nollet, teu nome +<BR> +Da sapiencia nos annaes gravado +<BR> +Eternamente vivirá; se as artes +<BR> +Barbaridade, que extermina tudo, +<BR> +Quizer poupar da aluvião de ultrages, +<BR> +Que ás leis, á Natureza, e aos Ceos tem feito. +<BR> + + Da multi-forme Boreal Aurora +<BR> +Mairan, seguindo os calculos de Newton, +<BR> +Expoz a causa aos seculos ignota. +<BR> +Da atmosféra solar porção tirada +<BR> +Por veloz rotação do terreo globo. +<BR> +Ao ar então se communica espesso, +<BR> +Que as tristes regiões do Polo abafa. +<BR> +Tu, de Bérgamo o tymbre, sabio illustre, +<BR> +Tu, Savióli, que na Lyra d'ouro, +<BR> +Cantaste os dons de Eráto, os dons d'Urania, +<BR> +Do Volga, e do Boristhenes ás margens +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_90" id="pag_90">[90]</a></span>Foste observar de perto o accezo quadro, +<BR> +Do Boreal Fenomeno, tu viste +<BR> +Nos gelos que c'os Ceos quasi confinão +<BR> +A reflexão dos luminosos raios, +<BR> +E tantos, taes listões formar nos ares, +<BR> +Que pelas vastas regiões das sombras, +<BR> +Ou da morte talvez, suprem hum dia. +<BR> + + Das Artes no progresso a gloria vejo +<BR> +Da indagadora Chimica, que tanto +<BR> +Da Europa pelos angulos se acclama +<BR>(Com tanto ardor, que enthusiasmo he, certo!) +<BR> +Interpetre fiel se diz da vasta, +<BR> +Té agora occulta Natureza toda. +<BR> +Já de antigos delirios despojada, +<BR> +Se ella analyza os simplices, não busca, +<BR> +Lisongeando sordida avareza, +<BR> +As pedras converter, (que insania!) em ouro! +<BR> +Té mãos Imperiaes viste, ó Florença, +<BR> +Depondo o sceptro, tactear cadinhos, +<BR> +Tanto o prestigio de tal arte póde! +<BR> +Mas se delles a Purpura não foge, +<BR> +Fogem por certo as Musas d'espantadas: +<BR> +Nega-se a Lyra a barbaros, e escuros +<BR> +Termos, que jurão sanguinosa guerra +<BR> +Do metro Luso á mágica harmonia. +<BR> +Morre-me a chamma, que me ferve n'alma, +<BR> +Se hydrogenio, se azóte, ou se oxigenio, +<BR> +Ousados vem barbarizar meus versos. +<BR> +Não te negão porém lugar, nem gloria, +<BR> +Lavoisier illustre, que hum momento +<BR> +Inda pediste ao barbaro Tyranno, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_91" id="pag_91">[91]</a></span>Da vida, ai dor! que despiedado córta, +<BR> +Em que inda mais á Natureza abrisses, +<BR> +Nunca de todo, o sanctuario, aberto! +<BR> +Mas hum Tigre quer sangue, e não sciencia; +<BR> +Tu não choras a vida, a perda choras, +<BR> +De huma verdade, que comtigo em sombra +<BR> +Perpetuamente no sepulcro he posta. +<BR> + + Nem do globo as reconditas entranhas +<BR> +Da vista ao sabio indagador se occultão; +<BR> +Tal he o Imperio do brilhante facho, +<BR> +Que Newton accendeu! Henckel, Bomare +<BR> +Então das minas pela tréva espessa +<BR> +Perdem de vista o Sol, da vista o dia, +<BR> +E á debil luz de palida lanterna +<BR> +O profundo vão ver Laboratorio, +<BR> +Em que os metaes prepara a Natureza: +<BR> +Dos homens os quiz pôr, tão longe, e longe! +<BR> +Vio que do ferro só, não curvo arado, +<BR> +Mas liza espada fabricar devião, +<BR> +E do bronze os canhões, que o raio imitão, +<BR> +A tanta assolação chamando gloria. +<BR> +Mais o ouro escondeu no abysmo, e sombra, +<BR> +Devendo ser do mérito a corôa, +<BR> +Quasi sempre he do crime o premio, e causa. +<BR> + + Mas eu duros metaes deixo nas sombras: +<BR> +Distem pouco do Inferno, eu busco o quadro, +<BR> +Que em sua face a Natureza mostra. +<BR> +Estudo immenso, dos mortaes só digno, +<BR> +Perenne fonte das sciencias todas, +<BR> +Das mesmas Artes mãi que estende o Imperio +<BR> +Por quanto abraça o ar, a terra, os mares +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_92" id="pag_92">[92]</a></span>Desde o vasto Elefante, á vaga, e bella +<BR> +Borboleta gentil, que beija as flores: +<BR> +Da gigantesca, ou colossal Balêa +<BR> +Ao pequenino lucido testaceo, +<BR> +Que, igual ao grão de arêa, á vista foge: +<BR> +Desde o cedro soberbo, á relva humilde, +<BR> +Que os gados tózão, que tapiza os prados. +<BR> +Estudo liberal, que engenho humano +<BR> +Descobre vasto, interminavel campo, +<BR> +Que o orgulho scientifico confunde +<BR> +Com tanto, vario, e differente objecto, +<BR> +Que imperceptiveis relações conservão; +<BR> +Quaes anneis entre si ligados sempre, +<BR> +Interminavel a cadêa formão, +<BR> +Que prende, e tem principio em Ser Eterno. +<BR> +Tão vasto estudo, glorioso, e bello, +<BR> +Tanto mais se cultiva, e mais florece, +<BR> +Quanto é menos pezada, e menos densa +<BR> +Nuvem que assombra o social estado +<BR> +De Antiquario pedante, ou Vate inerte, +<BR> +Vadio adorador d'alta belleza, +<BR> +Cuja vida he desprezo, a morte he fome: +<BR> +De hebdomadal efémera caterva, +<BR> +Que do nada surgio, e ao nada torna +<BR> +Depois que o povo no momento d'ocio +<BR> +Escarneceo profeticas promessas. +<BR> +Estudo augusto, que propaga e cresce +<BR> +Onde menos o estólido Forense, +<BR> +E impertinente Puritano existe, +<BR> +Rico de frases só, de cousas pobre; +<BR> +Onde menos a enfática Impostura +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_93" id="pag_93">[93]</a></span>Precursora da morte, a morte apressa; +<BR> +E o Quinhentista moedor, mysterios +<BR> +Nos parece mostrar, se mudo, e triste +<BR> +Pulverulento códice idolátra, +<BR> +Que he rico só de antiguidade, e traça. +<BR> +De insectos taes em ti não viste a praga, +<BR> +Aviltada Germania, ah! quando ao Mundo +<BR> +O grande author das mónadas off'rece +<BR> +A Prothogea. Nem Britannia a sente +<BR> +Quando Johnston, Derrham, e hum Lister dava. +<BR> +Nem com elles, Italia, então gemeste +<BR> +Quando dava a Botanica Zanoni: +<BR> +Quando hum Morgagni teu, quando hum Borelli, +<BR> +Nos penetraes da Natureza entravão: +<BR> +Equando Valisnéri a expunha toda; +<BR> +Já limpa, e livre de pedantes eras, +<BR> +Quando a tócha accendia Spalanzani, +<BR> +E arranca de seu seio altos arcanos, +<BR> +Quaes desde o grande Peripáto os evos, +<BR> +Nunca atélli descortinar podérão. +<BR> +Nem Gallia (agora escrava em sangue, e ferros, +<BR> +Qual de Piratas viz n'Africa Emporio, +<BR> +Que o mar Tirreno co'as Galés infesta;) +<BR> +E de rapina, e violencia existe, +<BR> +De Novellistas oppremida estava +<BR> +Quando o grande Buffon n'hum quadro immenso +<BR> +A Natureza á Natureza mostra. +<BR> +Se a tempestade das Novellas surge, +<BR> +Se os Jornaes a si mesmo, e os homens matão, +<BR> +Se a militar, politica mania +<BR> +Começa de deixar tão ermo o Globo, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_94" id="pag_94">[94]</a></span>He pastor Daubenton, Sonnini expira +<BR>(Inda feliz que ao cadafalso escapa) +<BR> +Do esquecimento, e da penuria em braços. +<BR> +Da Natureza não prospéra o estudo, +<BR> +Nem se conhece hum Newton, se estes vermes +<BR> +Da sciencia os alcaçares maculão: +<BR> +Nunca do Tejo ás margens se aproximem, +<BR> +Terá throno a sciencia, as Artes preço: +<BR> +Lusitania terá Buffons, e Plinios; +<BR> +E Vates, que estudando a Natureza, +<BR> +Saibão dar justo emprego ao dom das Musas, +<BR> +Se tem tal nome, o ingenito talento, +<BR> +Que alta facundia a numeros sugeita, +<BR> +Que em grande tudo vê, que imagens falla, +<BR> +E que, a razão ligando á fantazia, +<BR> +Dá força, dá calor, dá vida a tudo. +<BR> + + Mas de tristeza hum véo me envolve, e fecha +<BR> +Tudo o que palpo, e que diviso, he sombra! +<BR> +Della vejo romper Fantasma horrendo; +<BR> +Ao rosto atroz, ás Sanguinosas vestes +<BR> +Eu conheci, (que dor!) Barbaridade! +<BR> +De Omar a ferrea Simitarra empunha, +<BR> +Na esquerda, e negra mão fulgura a tócha, +<BR> +E se me antolha já q' hum vasto incendio +<BR> +Das Artes o deposito consume: +<BR> +Que já são pasto da estridente chamma +<BR> +Das Musas todas as vigilias doutas! +<BR> +Nem teu mesmo volume escapa, ó Newton. +<BR> +Oh perda!... Oh Albion, manda os teus raios +<BR> +Elles podem vedar barbaro incendio. +<BR> +Corre, e na Hespanha pulveriza os monstros, +<BR><span class="pagenum"><a name="pag_95" id="pag_95">[95]</a></span>Que onde quer que do corpo a sombra espalhão, +<BR> +Turva se o ar, se esteriliza a terra, +<BR> +Da vida, e da sciencia amor expira. +<BR> +Em quanto além do Vistula rompendo +<BR> +D'honra, e valor o sufocado incendio +<BR> +Desfeicha o raio, que talvez da Europa +<BR> +De huma vez para sempre a injuria vingue. +<BR> +Então do cáhos recuando o Imperio, +<BR> +Hum dia assomará que traga ao Mundo +<BR> +A luz que a Grecia vio, quando na escóla +<BR> +O Genio de Estagira absorta ouvia; +<BR> +Quando acceso Demosthenes da boca +<BR> +D'aurea elequencia as ondas entornava, +<BR> +E além das nuvens Pindaro subia; +<BR> +A luz já vista fulgurar em Roma +<BR> +Quando Augusto a seu lado assenta Horacio, +<BR> +Ou Tullio a dubia liberdade escóra: +<BR> +Qual seculos depois raiou mais clara +<BR> +Do Decimo Leão no Imperio eximio, +<BR> +Quando o Segundo Julio ás Artes abre +<BR> +O Templo, que até alli fechara o Godo: +<BR> +A luz que a França mais ditosa vira +<BR> +Do tão Grande Luiz brilhar nos dias. +<BR> +Então dos Ceos descendo a Paz serena, +<BR> +Da porficua Oliveira ao lado os Louros +<BR> +Fará brotar, reverdecer, c'roar-se +<BR> +Com sua rama a magestosa frente +<BR> +Do profundo Filosofo, e do Vate. +</blockquote> + +<p class="centrado"> +<i>Fim do IV. e ultimo Canto.</i> +</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot83" id="foot83"></a><A + HREF="#tex2html1"><SUP>1</SUP></A> Deve entender-se o termo—frugal—no sentido proprio de sustento +parco; pois diz Collero, que se sustentava de sopas de leite, e passas, +e era tão modesto nos vestidos, que trajou sempre de preto, e de mui +grosseiro panno; respondendo ao Gran Pensionario da Hollanda, que +lho estranhou—Que o edificio humano escusava ricas armações.</p> + +<p><a name="foot172" id="foot172"></a><A + HREF="#tex2html2"><SUP>2</SUP></A> Contra os meus propositos a respeito de notas, me vejo obrigado a +esta, talvez que em hum passo escuro para muitos eruditos: Cicero +entre seus escravos tinha dois, ambos Gregos, hum chamado Tyro, que +era seu leitor, e a quem Cicero escreveo muitas cartas; outro chamado +Posidonio, inventor da machina a que chamamos—Planetario—; ainda +que não tão perfeita como a vemos. Isto diz o mesmo Cicero, a Attico, +fallando da machina "<i>Quem nuper Possidonius noster ut venit.</i>"</p> + +<p><a name="foot118" id="foot118"></a><A + HREF="#tex2html3"><SUP>3</SUP></A> Collero na Vida de Espinosa diz, que seus paes erão de Beja, e que +elle nascêra no Porto, donde fora levado para Amsterdão de dois annos +de idade, hindo tambem com seus pais o célebre Jacob Murteira, que +depois foi seu Mestre: este foi o que depois se rio do desafio de +Antonio Vieira.</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Newton: Poema, by José Agostinho de Macedo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NEWTON: POEMA *** + +***** This file should be named 26848-h.htm or 26848-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/6/8/4/26848/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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