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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A philosophia da natureza dos naturalistas + +Author: Antero Tarquínio de Quental + +Release Date: October 4, 2008 [EBook #26776] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Out. 2008) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +A PHILOSOPHIA DA NATUREZA<br /> + +<br /> + +NATURALISTAS +</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>1894</h3> + +<br /> + +<br /> + +<h4>HOMENAGEM POSTHUMA<br /> + +<br /> + +A<br /> + +<br /> + +ANTHERO DE QUENTAL +</h4> + +<h4> +(MICHAELENSE) +</h4> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h3><span class="smallcaps">Anthero de Quental</span></h3> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h2> +A PHILOSOPHIA DA NATUREZA<br /> + +<br /> + +DOS<br /> + +<br /> + +NATURALISTAS +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h4>1894 +</h4> + +<h5>Typ. Editora do <span class="smallcaps">CAMPEÃO +POPULAR</span><br /> + +<span class="smallcaps">S. Miguel--PONTA +DELGADA--Açores</span> +</h5> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>EXPLICAÇÃO PREVIA +</h3> + +<br /> + +Digam o que disserem, Anthero de Quental +foi indubitavelmente, um dos mais fecundos escriptores +do seu paiz e da sua epocha. +<br /> + +<br /> + +Raros, muito raros, foram as theorias ou problemas +da actualidade, ventilados com interesse +nos dominios da Sciencia, da Politica ou da Arte +que deixassem d'exercitar a penna sempre prestigiosa +e sempre elegante do grande Mestre. +<br /> + +<br /> + +Na sua obra em prosa cabe, porem, um logar +proeminente aos copiosos artigos de critica ou +de polemica, que, durante quasi trinta annos, appareceram +estampados em diversos orgãos da imprensa +periodica portugueza, tanto da capital como +da provincia, e nos quaes, á semelhança de +Littré e de Taine, elle connotou, como n'um diario +<span class="pagenum">[VI]</span> +intimo, não sómente as suas opiniões +pessoaes sobre +os homens e os successos contemporaneos, +mas ainda as correntes de influencias estranhas +que actuaram no seu espirito e as impressões que +d'ahi resultaram. +<br /> + +<br /> + +Como critico e polemista, Anthero de Quental +não teve em Portugal competidor; foi unico +na energia fogosa da polemica e nos processos +technicos da analyse critica. +<br /> + +<br /> + +Os seus escriptos de critica bibliographica +são exemplares de methodo e de bom senso, de finura +e de erudição, de escrupulosa imparcialidade +e d'aquella serena comprehensão dos multiplices +aspectos das cousas e dos homens que dá ao critico +a maxima authoridade e valor. +<br /> + +<br /> + +N'este particular, pertence-lhe a gloria de ter +sido entre nós o verdadeiro creador d'um genero +litterario descurado, para não dizermos falseado, +na sua applicação. +<br /> + +<br /> + +Até elle a critica, aberrando diametralmente +do seu papel objectivo, fazia-se pela antipathia ou +sympathia do critico para com o nome do author; +o louvor ou a censura previam-se justamente, dadas +as relações de sentimento d'um para com outro. +<br /> + +<br /> + +Foi Anthero quem iniciou a critica impessoal, +a critica objectiva, desapaixonada, fria, inspirada +<span class="pagenum">[VII]</span> +por um sentimento de equidade e de justiça--critica, +em summa, que é uma lição; porque +ensina, e +que pode fazer do criticado um adversario, mas +nunca um inimigo--e do critico um juiz, mas nunca +um louvaminheiro nem um delator. +<br /> + +<br /> + +Os artigos criticos do grande Mestre teem todos +estes caracteres acentuadamente impressos: +não são exclusivamente laudatorios nem +exclusivamente +aggressivos; são justos e por isso mesmo +verdadeiros. Teem authoridade; porque fallam sinceramente +uma linguagem que não é a do odio +nem a dos affectos; mas que é a voz d'uma consciencia +honrada para a qual os Homens são o menos +e a Verdade o mais. +<br /> + +<br /> + +Se alguns d'esses trabalhos perderam já aquelle +cunho de novidade que os fez circular vertiginosamente +d'um a outro canto do nosso paiz, e +se por isso não movem ao interesse e enthusiasmo +que suscitaram aos primitivos leitores, é certo, +que ainda assim, constituem documentos de +summa valia, quer sob o ponto de vista meramente +litterario, quer como subsidio para quem +no futuro pretenda historiar as differentes phases +do movimento das idéas em Portugal, na ultima +metade do seculo XIX. +<br /> + +<br /> + +Taes elementos são, portanto, indispensaveis +para o estudo de Anthero e da sua epocha. Sem +<span class="pagenum">[VIII]</span> +elles mal se poderá comprehender a obra do grande +Mestre na sua extensão, valor, influencia, e +mal se poderá explicar tambem a +filiação ou dependencia +das diversas partes d'essa obra complexa +e vastissima. +<br /> + +<br /> + +Vê-se, pois, que quem quizer formar uma +idéa cabal do irrivalisavel escriptor e da sua actividade +productora, ou procurar comprehender a +acção exercida sobre os seus contemporaneos, ha +de necessariamente recorrer ás +collecções das Revistas +e Gazetas, que o contaram entre os seus +collaboradores, onde elle deixou archivado pelo +seu proprio punho aquillo que bem pode chamar-se +a sua <em>autobiographia mental</em>. +<br /> + +<br /> + +Infelizmente, porém, são numerosos e pouco +accessiveis esses repositorios, muitos dos quaes +teem desapparecido (como succede á maior parte +das revistas academicas, publicadas em Coimbra) +e outros tornam-se cada dia mais raros, dada a +procura dos collecionadores. +<br /> + +<br /> + +N'estas condições, dentro em breve, poucos +serão os estudiosos que tenham a dita de ler e +consultar os escriptos jornalisticos d'Anthero. +<br /> + +<br /> + +Esperar-se-ha que um editor tome sobre si o +encargo de recolher essas numerosas especies dispersas? +<br /> + +<br /> + +E não será isso, por assim dizer, sacrificar a +<span class="pagenum">[IX]</span> +obra do grande Mestre, deixando de recolher muitos +dos escriptos da maior raridade? +<br /> + +<br /> + +A edição definitiva das obras completas d'Anthero +só poderá levar-se a cabo, quando primeiro +se publiquem as reproducções d'esses escriptos +avulsos. +<br /> + +<br /> + +Aos amigos e discipulos do immortal escriptor +impende, pois, um grande dever de gratidão:--é +o dever de cada um de per si ou associados, +salvar do olvidio e da destruição os trabalhos do +Mestre, colligindo-os systematicamente e por ordem +chronologica, á semelhança do que fez o sr. +Oliveira Martins para os Sonetos e restantes +composições +poeticas. +<br /> + +<br /> + +É urgente começar. Talvez mais tarde +não +seja possivel reconstituir a serie d'aquelles trabalhos +ou por terem desapparecido os jornaes em +que foram originalmente publicados, ou por muitos +d'elles serem anonymos e terem tambem desapparecido +as pessoas que poderiam reconhecer +a sua paternidade. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="px">[X]</a></span> +<h3>II +</h3> + +<br /> + +No diario portuense--<em>A +Provincia</em>--inseriu Anthero +de Quental, em 1886, uma serie de cinco +artigos, a proposito da obra de Vianna de Lima, +intitulada--<em>Exposição summaria +das theorias +transformistas</em>. +<br /> + +<br /> + +A questão versada era e é ainda das mais +importantes e das mais disputadas, tanto no terreno +propriamente especulativo, como no terreno +das sciencias naturaes. +<br /> + +<br /> + +Anthero de Quental, <a href="#e1">metaphysico</a> +de profissão, +não podia entrar no debate como naturalista, +embora os seus estudos tivessem fundos alicerces +nas Sciencias da natureza. Discutiu e argumentou +como philosopho;--philosophou; porque +na materia tinha opiniões originaes definidas e +razões peculiarmente suas. +<br /> + +<br /> + +D'ahi a importancia e renome dos artigos que +o publico illustrado victoriou, como modelos acabados +de analyse critica, collocando-os do mesmo +passo a par das melhores paginas de prosa portugueza. +<br /> + +<br /> + +Tinha razão. +<br /> + +<br /> + +São com effeito obras primas no seu genero e +<span class="pagenum"><a name="pxi">[XI]</a></span> +em que não se sabe qual mais admirar, se a belleza +incomparavel de forma, se a genial pujança +e superioridade do pensamento que anima aquella +solida construcção especulativa, communicando-lhe +a maxima potencia de suggestão e de interesse. +<br /> + +<br /> + +Mostremo-lo, embora de relance. +<br /> + +<br /> + +Anthero de Quental, partindo do principio de +que a <em>sciencia não póde ser para +a philosophia +mais que uma materia prima</em>, impugna a +pretensão +de fundar uma philosophia da natureza com a +a simples generalisação dos dados d'um grupo de +sciencias, e sem ter em conta o indispensavel criterio +das ideias. É este o thema principal que elle +se esforça para estabelecer fundamentalmente. +<br /> + +<br /> + +Analysando as duas noções que formam a base +da doutrina Haeckeliana--<em>o <a href="#e2">monismo</a> +e a +evolução</em>--mostra +que a primeira é insufficiente, e á +segunda falta a generalidade scientifica; visto como +não intervem, senão <em>onde o +elemento historico +representa um papel proeminente</em>. +<br /> + +<br /> + +Por outro lado demonstra que ha contradicção +flagrante entre a idéa da espontaneidade da +materia, como a admitte a escola monista, e a +theoria da conservação do movimento, que domina +nas sciencias physicas e em grande parte nas +<span class="pagenum">[XII]</span> +sciencias da organisação. +<br /> + +<br /> + +E sobre estas premissas logicas, conclue que +a doutrina da evolução, formulada por Haeckel, +longe de ser, como se pretende, uma doutrina positiva, +baseada nas sciencias e fluindo d'ellas como +sua consequencia natural, implica, pelo contrario +uma <em>extensão abusiva da +inducção scientifica +e a illegitima generalisação d'uma hypothese, +que, se é perfeitamente fundada no terreno de determinadas +sciencias, só ahi e só n'esse ponto de +vista tem authoridade scientifica</em>. +<br /> + +<br /> + +A <em>idéa da finalidade</em>, +combatida pela escola +monista, é sustentada por Anthero d'um modo +superior e original. +<br /> + +<br /> + +<em>A evolução</em>, +diz elle, <em>implicando a idéa d'um +typo, que as formas evolvendo, tendem a realisar, +implica por isso mesmo uma finalidade. Quem diz +evolução, diz progresso. Ora progresso que +não +tende para cousa alguma que não tem um typo e +um fim, não se comprehende.</em> +<br /> + +<br /> + +Não é preciso mais para se ver a importancia +e o valor do trabalho que se segue. +<br /> + +<br /> + +Poderiamos fazer aqui algumas approximações +entre as doutrinas d'Anthero e as doutrinas +de Hartmann, Lang e Stallo--seus authores predilectos +e mais compulsados. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XIII]</span> +Poderiamos tambem mostrar que os bellos artigos +sobre as tendencias da moderna philosophia, +dados a lume na <em>Revista de Portugal</em>, +são o desenvolvimento +logico do pensamento dominante nas +paginas adiante reproduzidas. +<br /> + +<br /> + +Mas fallece-nos a authoridade e competencia +para tanto, e demais, o trabalho d'Anthero não +carece nem de criticas, nem de commentarios +elucidativos:--impõe-se +por si e tem em si a necessaria +lucidez para convencer a uma simples leitura. +<br /> + +<br /> + +Reproduzindo-o hoje temos apenas em vista +render, no anniversario do seu passamento, uma +derradeira homenagem de respeito e estima ao filho +d'esta ilha que é uma das maiores glorias das letras +patrias, e ao mesmo tempo facilitar aos estudiosos +a leitura d'um dos trabalhos philosophicos +d'elle em que mais claramente se patenteiam o +seu subtil engenho dialectico, a originalidade das +suas concepções especulativas e as maravilhosas +qualidades didacticas da sua prosa expositiva e +analytica. +<br /> + +<br /> + +E d'est'arte fica explicada a presente +publicação. +<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">Ponta Delgada,<br /> + +11 Setembro de 1893.</div> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Eugenio Vaz Pacheco do +Canto e +Castro</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>PRIMEIRO ARTIGO<sup><a href="#1">[A]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Um livro sobre as modernas theorias +transformistas, publicado em Paris e em +francez, e firmado por um nome portuguez, +é facto tão extraordinario, que por si +só +bastaria para attrahir as attenções. Mas no livro +do snr. Vianna de Lima, não é só a +extranheza +do facto que deve chamar a nossa attenção: +é +ainda o seu valor intrinseco. Esta +<em>Exposição +summaria das theorias transformistas</em> é, +como o +<span class="pagenum">[2]</span> +titulo indica, uma especie de <em>summa</em> +das doutrinas +professadas sobre a philosophia da natureza +por uma escola consideravel, cuja cabeça, E. +Haeckel, é um dos nomes mais illustres, e justamente +illustres, da Allemanha intellectual, na segunda +metade do nosso seculo: e a obra do adepto +não é indigna, nem pela intelligencia nem pelo +saber, da escola nem do mestre. +<br /> + +<br /> + +Não sou naturalista e, tendo a consciencia da +minha incompetencia, não me atreveria a escrever +sobre a obra do sr. Vianna de Lima, se o seu livro +fosse propriamente um livro de sciencias naturaes, +e se os quatro estudos, de que se compõe, +se conservassem escrupulosamente nos limites rigorosos +do campo scientifico. O livro, porem, do +snr. Vianna de Lima, apezar da modestia do titulo, +aspira de facto a ser um livro de philosophia +da natureza, e, n'esse terreno, creio poder, +sem temeridade, emittir algumas opiniões fundamentadas. +Prestarei, assim uma homenagem ao +moço portuguez (portuguez pelo nome e pelo sangue: +ouço que é brazileiro) que tão +galhardamente +nos representa no grande mundo da intelligencia, +aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para +dizer alguma cousa sobre uma escola philosophica, +cujos chefes respeito e cuja importancia não +desconheço; mas cujas tendencias estão muito +longe, em meu entender, de serem satisfactorias. +<br /> + +<br /> + +Alexandre de Humboldt, o naturalista encyclopedico +e quasi legendario do primeiro quartel +<span class="pagenum">[3]</span> +d'este seculo, costumava dizer causticamente, referindo-se +á philosophia da natureza puramente +especulativa, que então deslumbrava com os +clarões +do genio de Schelling e Hegel, não só a Allemanha +pensadora, mas ainda a Allemanha scientifica, +<em>que achava singularissimos aquelles naturalistas +que pretendiam fazer chimica sem molhar a +ponta dos dedos</em>. +<br /> + +<br /> + +Tinha razão. +<br /> + +<br /> + +Hoje, nós outros metaphysicos, podemos com +igual razão dizer que são singulares estes +philosophos, +que, com os dedos mais que ensopados em +chimica, pretendem fazer philosophia sem nunca +se terem dado ao trabalho de reflectir. +<br /> + +<br /> + +Com effeito, a philosophia é, de sua natureza, +especulativa, e a sciencia não póde ser para ella +mais que uma materia prima. +<br /> + +<br /> + +Um homem de sciencia, por encyclopedico +que seja, se não tiver ao mesmo tempo reflectido +muito e profundamente sobre as questões puramente +racionaes, que a sciencia suscita e não póde +por si resolver, reflectido sobre as ideas abstractas, +que são, umas, postulados para as differentes +sciencias, outras, principios ordenadores +d'uma explicação geral das cousas, um tal homem +de sciencia, apesar do seu encyclopedismo, não +poderá nunca aspirar ao titulo de philosopho. Pode +dizer que <em>sabe</em>, mas não +que <em>entende</em>, porque o +problema do universo, como problema total e +concreto, será para a sua intelligencia, aliás +opulenta +<span class="pagenum">[4]</span> +de factos, tão obscuro, como é para a +intelligencia +d'um simples e ignorante. A philosophia +não é o mero ajuntamento ou ainda o quadro +empiricamente +ordenado dos factos do universo: é a +comprehensão e explicação racional e +total d'esse +grande quadro. Ora, uma tal explicação +só é possivel +no ponto de vista das ideias ultimas e fundamentaes +da rasão (<em>substancia</em>, +<em>causa</em>, +<em>fim</em>) e essas +ideias teem por isso de ser tomadas em si, +pesadas e analysadas. Não faz outra cousa a metaphysica, +e sem metaphysica não ha philosophia, +porque não ha verdadeira comprehensão +racional, nem verdadeira e total explicação. +Metaphysica +(ou especulação) e sciencia (ou +observação) +são duas series convergentes, que partem +de pontos oppostos e com leis de desenvolvimento +diversas; mas, como são convergentes, encontram-se: +o ponto onde se encontram e, sem se +fundirem, reciprocamente se penetram, é que é a +philosophia. A philosophia tem pois por materia +a sciencia, por forma a metaphysica; ou ainda, a +philosophia é a observação (quero +dizer, os seus +resultados) considerada no ponto de vista absoluta +da rasão. +<br /> + +<br /> + +O desconhecimento d'estas verdades e o desdem +pela metaphysica, filho em grande parte da +reacção, aliás justissima, provocada +pelos excessos +e intoleravel dogmatismo da especulação, na +Allemanha, e pela sua insignificancia e convencionalismo, +em França; e, por cima d'isso ainda, +<span class="pagenum">[5]</span> +o maravilhoso desenvolvimento das sciencias naturaes, +durante os ultimos 40 annos, deram de si +o apparecimento d'uma pseudo-philosophia da +natureza que se pretende positiva e puramente filha +das sciencias e que julga ingenuamente poder resolver +os intrincados problemas das idéas, sem +ter o incommodo de reflectir e só com grande +somma de physica, chimica e physiologia. +<br /> + +<br /> + +D'estes naturalistas philosophos o mais eminente, +tanto pelo saber como pelo genio, é o apostolo +de Darwin na Allemanha, o illustre autor da +<em>Historia natural da +Criação</em>, Ernesto Haeckel. +É entre os discipulos de Haeckel que vem tomar +logar, com o seu livro, o snr. V. de Lima. +<br /> + +<br /> + +Profano, não me é dado conhecer e dizer +até que ponto a rigorosa verdade e o rigoroso +methodo scientificos tem sido violentados pelo +sabio e engenhoso, mas não menos phantasioso e +temerario professor de Munich<sup><a href="#2">[B]</a></sup>, +para se dobrarem +e acommodarem ás suas doutrinas geraes. +Sei só que outros mestres eminentes, como Virchow, +Helmholtz, Huxley e Du Bois-Reymond estão +longe de se darem por inteiramente satisfeitos +com a orthodoxia scientifica de muitas das +affirmações +do padrinho do <em>monero batybio</em>. A mim +só me +é permittido occupar-me com as ideias e tendencias +propriamente philosophicas da escola monista-evolucionista, +cuja cabeça é Haeckel; e o livro do discipulo, +que se propoz resumir a doutrina, ser-me-ha +<span class="pagenum"><a name="p6">[6]</a></span> +occasião para fazer sobresahir (embora só em +dois pontos, mas capitaes ambos) a confusão e deficiencia +na analyse das ideias, que impedem, a +meu juizo, que a pretendida philosophia da natureza +monista-evolucionista, apezar da imponente +massa de sciencia sobre que assenta, attinja a verdadeira +altura d'uma philosophia da natureza. +<br /> + +<br /> + +Monismo e evolução são as duas +noções que +formam a base da doutrina Haekeliana. Comecemos +por indagar que ideia precisa envolve esta +palavra--<em>monismo</em>. Parece-me que a +palavra é que +é nova, não a ideia. Tanto valeria dizer +pantheismo, +ou ainda materialismo, pois não encontro no +fundo d'aquella expressão nada mais do que n'estas +duas outras; a saber: uma concepção unitaria +da substancia. +<br /> + +<br /> + +Esta concepção, porem, (na sua simplicidade +e em quanto não fôr definida d'uma maneira +particular) +é propriedade commum de muitas escolas +antigas e modernas e precisa sahir d'essa generalidade +e indeterminação para poder caracterisar +uma maneira especial de comprehender as cousas: +assim o atomismo, assim o pantheismo de +Spinoza, assim o idealismo realista de Hegel etc. +Ora, é justamente essa falta de +definição precisa, +essa <a href="#e3">vaga generalidade</a> e +indeterminação, que +eu noto no <em>monismo</em> de Haeckel. +<em>Monismo</em> parece-me +apenas uma palavra nova (e muito dispensavel) +e <a href="#e4">não mais</a>. +<br /> + +<br /> + +Com effeito, affirmar abstractamente a unidade +<span class="pagenum">[7]</span> +de substancia é, no terreno da philosophia +da natureza, pouca cousa: o que importa é definil-a. +Definil-a é apresental-a nas suas +relações com a realidade, +é caracterisal-a na sua maneira de ser positiva, +é mostrar, não como a concebemos +<em>em si</em> +(pertence isso á metaphysica), mas como a concebemos +<em>realisavel</em>. +<br /> + +<br /> + +Uma materia abstracta, una e simples, apenas +vagamente susceptivel de se manifestar por +omnimodas modalidades, é uma base insufficiente +para a philosophia da natureza; porque é uma base +insufficiente para a sciencia. O que a sciencia +exige e o que é preciso á philosophia da natureza +é determinar n'essa infinidade de moralidades, +qual é a fundamental ou elementar, aquella a que +se reduzem todas as outras. Ora é isso justamente +o que as sciencias da natureza teem feito, reduzindo +todas as modalidades da materia ao elemento +primordial <em>movimento</em>. Os monistas, +sempre +que fallam como homens de sciencia, adoptam +(e não podiam deixar d'adoptar) esta +concepção. +Mas, como philosophos, em vez de receberem +das mãos da sciencia este resultado, para o +elaborarem e desenvolverem, caem no vago e em +inextrincaveis confusões. +<br /> + +<br /> + +É assim que o nosso auctor começa por se +declarar anti-materialista e pretende repellir o atomismo. +affirmando que a materia não póde ser +definida per esta ou aquella propriedade, mas que +«para o monismo, a materia é o que é +<em>in situ</em>.... +<span class="pagenum">[8]</span> +é aquillo que se manifesta aos nossos sentidos e +ao nosso entendimento por modos diversissimos, +sob forma de phenomenos infinitamente variados.... +pretender isolar (d'este conjuncto) certas +propriedades, abstrahir certas qualidades, é grande +erro.... para elle (o monista) qualidades, propriedades +especificas ou funccionaes, funcções, etc. +são inherentes á materia em que se manifestam +e formam com ella um todo indissoluvel». Entretanto, +meia pagina abaixo, dá a entender que todas +as propriedades da materia são fórmas do +movimento e se reduzem a movimentos elementares: +«a força é a propriedade ou a maneira +de +ser mais geral da materia.... todas as forças são +reductiveis a movimentos.... uma força não +é +mais do que materia em movimento». Mas, se isto +é assim, a materia não é já +«tudo o que é <em>in +situ</em>» as suas propriedades não +são já «inisolaveis +e indissoluveis», nem é «grande erro +abstrahir do +conjuncto d'ellas certas propriedades», visto que, +de facto, a materia é caracterisada por uma propriedade +fundamental, o movimento, da qual todas +as outras não são mais do que modalidades, +ou, mais terminantemente, grupos e combinações +de movimentos simples elementares. Seriamos assim +levados ao dynamismo, concepção já +mais +precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado +monismo, e que, depois de Leibnitz, cada +vez mais tem ido penetrando, ou antes, impondo-se +á philosop» as suas propriedades não +são já «inisolaveis +e indissoluveis», nem é «grande erro +abstrahir do +conjuncto d'ellas certas propriedades», visto que, +de facto, a materia é caracterisada por uma propriedade +fundamental, o movimento, da qual todas +as outras não são mais do que modalidades, +ou, mais terminantemente, grupos e combinações +de movimentos simples elementares. Seriamos assim +levados ao dynamismo, concepção já +mais +precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado +monismo, e que, depois de Leibnitz, cada +vez mais tem ido penetrando, ou antes, impondo-se +á philosophia das sciencias. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p9">[9]</a></span> +Já por aqui começamos a ver quanto a +concepção +monista da materia é confusa e mal definida +e, por conseguinte, pouco philosophica. Mas +não o é só por isto. A +confusão primeira faz-se +sentir em todos os aspectos da ideia de materia. +É impossivel, com effeito, passar-se naturalmente +da noção d'uma substancia una, simples e apenas +virtualmente susceptivel d'omnimodas modalidades, +para a rica e quasi infinita variedade dos +seres e qualidades de que se compõe a universal +realidade. Que importa que essa doutrina sibyllina +nos diga que a sua substancia una e simples é +virtualmente susceptivel de toda a variedade de +formas e qualidades? A questão está justamente +em se saber como é que, sendo una e simples, +tal substancia póde effectivamente dar de si o movimento +e a variedade. +<br /> + +<br /> + +Sobre isto (e isto é justamente o nó vital da +questão) é muda a doutrina. +<br /> + +<br /> + +Como é que essa substancia una e simples +se determina? como é que, sendo una e simples, +se póde dar n'ella opposição, +diversidade, movimento? +<br /> + +<br /> + +A concepção <a href="#e5">monista</a> +implica continuidade--e +tudo no universo é descontinuo; implica simplicidade--e +tudo no universo é complexo: implica +inalterabilidade e indistincção--e tudo no +universo +é perpetua mudança, +differenciação e instabilidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[10]</span> +O nosso auctor levanta se desdenhosamente +contra o atomismo. Entretanto o seu monismo, ou +é cousa nenhuma, ou tem de se resolver na ideia +de atomo. Pois o que está no fundo da +concepção +atomista? A ideia da descontinuidade da materia. +E tal ideia impõe-se: impõe-se como um facto +á +sensação; impõe-se como um postulado +á sciencia, +que, sem presuppor a descontinuidade, é incapaz +d'avaliar e exprimir por numeros (e é esse o typo +e a forma perfeita do conhecimento scientifico) +seja o que fôr na successão dos phenomenos; +impõe-se finalmente á +especulação, que não póde +conceber movimento onde não ha +distincção, opposição +e successão, e não póde pensar a +distincção +sem pensar <em>ipso facto</em> a +descontinuidade. +<br /> + +<br /> + +Foi precisamente esta objecção que encontrou +deante de si e contra a qual veio desmanchar-se +a physica cartesiana com a sua ideia da +materia-extensão. +<br /> + +<br /> + +Como se concebe o movimento numa tal materia? +perguntava-lhe o atomista Gassendi. E Boileau, +com o seu solido bom senso, resumia a questão +nos dois versos celebres: +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">C'est en vain que Rohault +sèche pour concevoir<br /> + +Comment, tout étant plein, tout a pu se mouvoir</div> + +<br /> + +O snr. V. de Lima, levantando-se, com os +seus mestres, contra o atomismo, e acceitando ao +<span class="pagenum">[11]</span> +mesmo tempo, com as sciencias physicas, a +reducção +da ideia de materia á de movimento, mostra +mais uma vez a inconsistencia do monismo no +terreno das ideias geraes da natureza e a falta de +analyse segura que patenteia a concepção +fundamental +sobre que assenta. +<br /> + +<br /> + +Declamar contra o atomismo é facil: evitar +com uma palavra vaga e ao mesmo tempo pomposa +as difficuldades que envolve a concepção da +materia, é mais facil ainda: mas não é +isso o que +se espera de verdadeiros philosophos; e uma tentativa +de philosophia da natureza, só merecerá +este nome, quando sobre a analyse das ideias de +substancia, força e movimento se assente uma +doutrina da materia que satisfaça ao mesmo tempo +ás exigencias puramente racionaes da +especulação +e as mais praticas da indagação scientifica. +Nada d'isto encontro no monismo de Haeckel e +seus discipulos: o terreno sobre que pretendem +construir está, quanto a mim, muito longe de ser +solido.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>SEGUNDO ARTIGO<sup><a href="#3">[C]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Falta-me ainda encarar, n'esta esphera +da ideia de materia, a concepção +monista, sob um outro ponto de vista. +É o da espontaneidade da materia. +<br /> + +<br /> + +O snr. Vianna de Lima affirma, por assim +dizer, dogmaticamente, nas suas +<em>Observações +preliminares</em>, essa espontaneidade e protesta +contra a physica da inercia: entretanto, todo o +seu livro, toda a sua maneira de comprehender a +evolução presupõe a inercia da +materia. É que +d'uma affirmação a uma theoria vae uma certa +distancia, e não me consta que algum dos mestres +do monismo tentasse ainda formular essa +<span class="pagenum">[14]</span> +theoria. O assumpto envolve com effeito uma difficuldade, +que me parece exceder a capacidade +especulativa dos doutores monistas. +<br /> + +<br /> + +A ideia da espontaneidade da materia (ideia +puramente especulativa, em que peze ás pretensões +do positivismo dos nossos naturalistas philosophos) +parece estar em contradicção com a theoria da +conservação +do movimento, que domina nas sciencias +physicas e já em grande parte nas sciencias +da organisação. +<br /> + +<br /> + +Não vejo que a doutrina monista resolva, como +ella póde ser resolvida, n'uma esphera superior, +esta contradicção. Pelo contrario, no livro +do sr. V. de Lima, pela maneira por que o principio +da conservação do movimento é +applicado, +sem a menor reserva ou explicação, desde a +physica até á psychologia, e a +evolução apresentada +como o exclusivo resultado do puro mechanismo, +a espontaneidade da materia, praticamente +e apesar das affirmações preliminares, +é +constantemente desconhecida, ou antes, é negada +implicitamente a cada instante. De facto, é +como se o livro todo não tivesse outro fim senão +destruir a these estabelecida nos prolegomenos--these +que todavia é, philosophicamente, +o seu fundamento. Com effeito, se havemos de +entender que todo o movimento, seja de que +ordem fôr, é não só +condicionado por um movimento +anterior, mas realmente e exclusivamente +<span class="pagenum">[15]</span> +uma transformação d'esse movimento anterior, +é +claro que tal concepção do movimento exclue +<em>in +limine</em> a ideia de espontaneidade. A +condição passa +a ser causa: o effeito, mera prolação da causa, +é uma apparencia sem ser proprio, sem autonomia. +<br /> + +<br /> + +Consideremos mais de perto a contradicção +que d'aqui resulta. Se, por um lado, a materia +em geral é dotada d'espontaneidade, isto é, se o +movimento lhe é inherente; mas se, por outro lado, +qualquer movimento particular e todo e qualquer +movimento se reduz no fundo, a uma simples +transformação das acções +anteriores que o +condicionam; pergunta-se: como se consegue então +a espontaneidade geral e theorica da materia? +Se o movimento <b>A</b> se reduz a uma +simples transformação +do movimento <b>B</b>, que o condiciona e +não <b>é</b> por isso +espontaneo, o movimento <b>B</b> está +para com o movimento <b>C</b>, que por seu turno o +condiciona, exactamente na mesma relação, assim +como o movimento <b>C</b> para com o movimento D, +o movimento <b>D</b> para com o movimento <b>E</b> +e assim +indefinidamente--de sorte que em parte alguma +se encontra movimento espontaneo. O que significa, +pois, a espontaneidade attribuida theoricamente +á materia? E, sobre tudo, como se explica +o proprio facto do movimento, que d'este modo +está em toda a parte sem estar em parte alguma? +que é por toda a parte effeito, sem ter causa em +<span class="pagenum">[16]</span> +parte alguma? como se concebe esse modo de +ser, que, não tendo autonomia em nenhum dos +pontos onde se realisa e realisando-se universalmente, +parece ser e não ser ao mesmo tempo? +<br /> + +<br /> + +Ainda por este lado, se me não engano, a +ideia da materia, segundo os monistas, está muito +longe de apresentar a definição e consistencia +necessarias. Ora essa idéa tem de ser a pedra +mestra de toda a construcção philosophica na +esphera +da natureza. A final de contas bem apertada +e espremida, a doutrina da materia, segundo +a philosophia monista, reduz-se, como creio ter +mostrado, ás noções correntes, nas +sciencias physicas, +de atomo e força. Não só +não ha n'ella +originalidade alguma, mas o que é peior, +apresentam-se nos aquellas +noções envolvidas nevoentamente +n'uma concepção vaga, d'onde é +necessario +extrahil as e, no fim de tudo, em vez de esclarecidas +e aprofundadas, obscurecidas por forma +tal que nada ha de lucido e fecundo a tirar +d'ellas para uma comprehensão superior e verdadeiramente +philosophica dos phenomenos da natureza. +<br /> + +<br /> + +Com as observações que acabo de fazer +não +pretendo de modo algum contestar o valor e a +legitimidade, na esphera das sciencias physicas, +das noções de materia, atomo, força e +movimento, +nos limites em que a sciencia emprega estas +noções: ellas não são, com +effeito, para a sciencia +<span class="pagenum">[17]</span> +mais de que hypotheses, restrictas a um determinado +campo e não tendo por fim senão a +coordenação +racional d'uma determinada ordem de +phenomenos, d'um determinado aspecto da phenomenalidade. +A sciencia, usando d'estas noções, +não pretende impol-as fóra da sua esphera, nem +dal-as em absoluto, como explicação ultima e +irreductivel +das cousas. A conservação do movimento, +scientificamente, é um facto: um facto, +que pela sua generalidade, envolvendo a +explicação +de innumeros outros factos, tem o valor d'uma +theoria, mas d'uma theoria puramente scientifica. +Se a conservação do movimento implica o +determinismo, +implica-o só nos limites e no ponto de +vista do puro mechanismo, no ponto de vista da +realidade como systema de movimentos--sem +que a sciencia possa ou pretenda concluir d'ahi para +um outro ponto de vista, que não é o seu, e +em que o mechanismo já não apparece como o limite +e termo ultimo do conhecimento. +<br /> + +<br /> + +Sciencia e especulação (volto a repetil-o) +são +cousas muito diversas, embora dependentes uma +da outra, e o que basta á sciencia não +é sufficiente +para a especulação. Ideias, que no terreno +scientifico bastam e são por isso, n'esse terreno, +muito legitimamente consideradas irreductiveis, +não bastam já nas regiões da +especulação, onde +com effeito são reductiveis a categorias mais +transcendentes. +Se o conjunto das sciencias não póde, +<span class="pagenum">[18]</span> +como todos os verdadeiros pensadores reconhecem, +supprir a philosophia ou substituir-se a ella, +é justamente porque o conjuncto das ideias geraes +das sciencias, não inclue em si a totalidade +dos elementos racionaes da comprehensão do universo, +mas apenas o conjuncto d'esses elementos +no ponto de vista da phenomenalidade. Ora +o monismo, attribuindo ao ponto de vista das +sciencias physicas um caracter absoluto, arvorando +as ideias geraes d'um grupo de sciencias em +ideias ultimas e irreductiveis, exorbitou da sciencia +sem ao mesmo tempo fazer acto de philosophia. +É o que talvez consiga mostrar ainda mais claramente, +fazendo a critica da ideia de evolução +segundo os monistas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>TERCEIRO ARTIGO<sup><a href="#4">[D]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +A theoria geral da evolução, diz o snr. +Vianna de Lima (e são estas as primeiras +palavras do seu livro) não é <em>um +systema</em>; +é a synthese comparativa, a conclusão que +sae do conjuncto de todos os factos positivos que +o espirito humano tem podido até agora +abraçar.... +é a unica concepção racional e +verdadeiramente +scientifica do mundo». +<br /> + +<br /> + +É necessario fazer aqui uma distincção +importante. +A evolução não é, com +effeito, um systema +no dominio circumscripto de cada uma d'aquellas +sciencias onde esta ideia, por assim dizer, +se impõe, onde mil factos a confirmam e onde fóra +<span class="pagenum">[20]</span> +d'ella seria +impossivel encontrar-se um principio +geral de coordenação. Ahi, sem duvida, a +evolução +não é um systema, mas propriamente uma +theoria scientifica. +<br /> + +<br /> + +Mas estarão n'este caso todas as sciencias? +De modo algum. +<br /> + +<br /> + +A ideia de evolução não intervem +senão onde +o elemento historico representa um papel +proeminente, isto é, acima de tudo, nas sciencias +da organisação (incluindo n'este grupo a +anthropologia +e fazendo participar d'elle as sciencias sociaes, +nos limites em que estas teem um caracter +biologico) e depois ainda, mas d'uma maneira menos +necessaria e menos definida, na astronomia, +ou propriamente, astrogenia. É só ahi que a +divisão +do trabalho se exerce, differenciando gradualmente +e como que analyticamente as formas +contidas virtualmente e, por assim dizer, envolvidas +n'um germen ou facto primeiro, que é o ponto +da partida de toda a serie. A physica e a chimica, +porem, estão completamente fóra dos dominios +da ideia de evolução. A chimica parece reduzir-se +toda á atomicidade, e a maior ou menor +complexidade de composição não foi +nunca considerada +como um desenvolvimento, assim como a +irredectubilidade dos corpos chamados simples, +se não é um dogma, é certamente um +facto que +se impõe á sciencia e que, emquanto assim se +impozer, obstará a toda a theoria geral evolucionista +<span class="pagenum">[21]</span> +dos phenomenos chimicos. Por outro lado, +entre as forças physicas, não ha hierarchia, mas +parallelismo, e a reductibilidade d'umas ás outras +implica unidade, mas não evolução, +cousas bem +distinctas. +<br /> + +<br /> + +Onde está, pois, a generalidade scientifica da +ideia de evolução? A verdade é que uma +theoria +positiva da evolução, como o sonham os monistas, +<em>essa synthese comparativa que sae do conjuncto +de todos os factos positivos</em> só seria +possivel se +se dessem duas condições capitaes: 1.º +que a +ideia +de evolução se impozesse a toda a ordem de +phenomenos, +ou (o que para nós vale o mesmo) presidisse +superiormente a todas as sciencias: 2.º +que alem de explicar, dentro do districto de cada +sciencia, os factos n'elle comprehendidos, explica-se +tambem a passagem evolutiva de cada uma +d'essas ordens para a sua immediata, sem ter +de recorrer a nenhuma ideia nova e superior. +<br /> + +<br /> + +Ora, nenhuma d'estas condições se realisa. +<br /> + +<br /> + +A ideia d'evolução (como já indiquei, +e por +isso não insisto n'este ponto) só impera em +certas +sciencias e, por conseguinte, n'uma esphera limitada +da phenomenalidade. +<br /> + +<br /> + +Em segundo logar, a passagem d'uma determinada +ordem de phenomenos para outra não se +póde explicar evolutivamente, no terreno rigorosamente +scientifico, porque, n'esse terreno, o elemento +commum d'essas varias ordens é só um elemento +<span class="pagenum"><a name="p22">[22]</a></span> +abstracto, o movimento, que pela sua +mesma abstracção, não é +capaz de dar razão do +que ha de especial em cada uma d'ellas e a caracterisa, +isto é, a forma ou funcção especial +que +representa. É assim, por exemplo, que embora +os phenomenos vitaes se reduzam, em ultima analyse, +ao movimento, isto é, a grupos e +combinações +complexas de movimentos elementares, nem +por isso a vida pode ser satisfactoriamente definida +como um modo de ser do movimento; porque +uma tal definição, pela sua mesma +abstracção, +nada define; nem o quadro de todos esses movimentos +póde ser dado como equivalente á ideia +<a href="#e6">synthetica</a> da vida; nem, +finalmente, a +concepção +mechanica da vida representará outra cousa mais +do que um aspecto da phenomenalidade da vida +e nunca a concepção mesma da vida. +<br /> + +<br /> + +Parece-me claro, em vista d'isto, que a doutrina +de evolução formulada por <a href="#e7">Haeckel</a> +e seus +discipulos não é de modo algum, como se pretende, +uma doutrina positiva, fundada nas sciencias +e sahindo d'ellas como a sua natural consequencia. +Creio ter mostrado que essa doutrina implica +uma extensão abusiva da inducção +scientifica e +a illegitima generalisação d'uma hypothese, que +se +é perfeitamente fundada no terreno de determinadas +<a href="#e8">sciencias</a>, só ahi e +só +n'esse ponto de vista +tem authoridade scientifica. +<br /> + +<br /> + +A doutrina monista tem, pois, em despeito +<span class="pagenum">[23]</span> +das suas pretensões de positividade, um caracter +especulativo e é propriamente <em>um +systema</em>, uma +construcção philosophica em que o +<em>a priori</em> representa +um papel preeminente: n'uma palavra, apezar +dos elementos scientificos que contem, não é +uma doutrina scientifica, mas uma hypothese philosophica. +<br /> + +<br /> + +Resta agora ver se, como hypothese philosophica, +a ideia d'evolução, tal como a concebem os +monistas, apresenta aquella definição e +consistencia +sem as quaes a mais ampla e brilhante hypothese +é muito mais um producto da +imaginação, +do que da razão. +<br /> + +<br /> + +Creio que não apresenta. +<br /> + +<br /> + +Especulativos inconscientes, os monistas especulam +mal. Tal como a concebem, a evolução, +destituida de todos aquelles elementos de analyse +racional, que só lhe poderiam dar um verdadeiro +cunho philosophico, não é um principio: seria +apenas +(se as suas pretensões de positividade fossem +fundadas) um facto; facto culminante e universal, +mas simples facto e não principio. +<br /> + +<br /> + +Ora os factos são apenas a materia prima +da philosophia: são aquillo que se pretende explicar, +em quanto que só os principios fornecem o +criterio e o ponto de vista d'essa explicação; e +a +doutrina monista da evolução, que, como doutrina +positiva, como generalisação scientifica dos +factos da natureza, está muito longe de ser rigorosa +<span class="pagenum">[24]</span> +e fundada, pecca por outro lado gravemente, +como hypothese philosophica, como doutrina +especulativa, pela falta d'analyse das ideias sobre +que, para merecer o nome de philosophia da natureza, +se deveria apoiar. +<br /> + +<br /> + +Com effeito, se o universo evolve porque é +que evolve? Se a sciencia nada tem que vêr com +esta questão, a philosophia é que tem muito e +tudo--e já mostrei que é sómente como +tentativa +philosophica de explicação que o evolucionismo +monista deve ser considerado. +<br /> + +<br /> + +Uma theoria geral philosophica do desenvolvimento +das cousas implica, pois, uma theoria +da razão de ser d'esse desenvolvimento. Sobre +esta questão essencial o monismo é peior do que +mudo; é absurdamente negativo. +<br /> + +<br /> + +A ideia de evolução implica necessariamente +a de finalidade; esta contem a explicação +racional +d'aquella, que, só por si, é inintelligivel e +até +contradictoria. Se o movimento, acto essencial da +materia, é autonomo (e é esta a these monista +fundamental) tal movimento não póde ser concebido +senão como um impulso espontaneo, por +conseguinte, como uma verdadeira determinação +voluntaria: ora onde ha determinação voluntaria +sem mobil, sem fim? Pois não é precisamente o +fim que determina a vontade, e que explica o acto? +Um movimento autonomo, que não tende a um +fim, é perfeitamente inconcebivel: pois se não ha +<span class="pagenum">[25]</span> +fim porque e para que o movimento? A ideia de +finalidade é a pedra angular de toda a +construcção +philosophica no terreno da natureza. +<br /> + +<br /> + +Assim o comprehendeu Leibnitz na sua Monadologia, +assim o comprehenderam Schelling e +Hegel, os verdadeiros paes da moderna philosophia +da natureza. +<br /> + +<br /> + +O horror pueril á metaphysica e a pretensão +chimerica de fundar uma philosophia da natureza +positiva e exclusivamente architectada no terreno +da sciencia levou Haeckel (e muitos outros atraz +d'elle e com elle) a desconhecerem a importancia +capital da ideia de finalidade e a minarem aquillo +que justamente lhes deveria servir de primeiro +fundamento para o edificio que levantavam. É o +que espero deixar suficientemente provado no +meu proximo artigo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>QUARTO ARTIGO<sup><a href="#5">[E]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O Snr. Vianna de Lima consagra as ultimas +100 paginas do seu volume a combater +a ideia de finalidade nos dominios +da natureza e triumpha facilmente dos theologos +ou simili-theologos, que, despojando a materia das +suas propriedades espontaneas e da sua infinita +virtualidade, veem em tudo os effeitos d'uma +direcção +exterior e se extasiam diante das harmonias +intencionaes da Criação. +<br /> + +<br /> + +Era facil o triumpho. Sómente, o snr. Vianna +de Lima tomou a nuvem pela deusa, tomou a +concepção infantil e anthropomorphica da +finalidade +pela propria ideia metaphysica de finalidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p28">[28]</a></span> +Se o snr. Vianna de Lima se despojasse por +algum tempo dos seus habitos de pensamento de +puro naturalista e estudasse um pouco os tão abominaveis +metaphysicos, não só Leibnitz e Hegel, +mas ainda o representante nosso contemporaneo +da alta especulação, Hartmann (que é, +não +menos do que foram aquelles dois, profundamente +versado nas sciencias da natureza) veria que a +ideia de finalidade não se reduz, como lhe parece, +áquella concepção <a href="#e9">anthropomorphica</a>, +que com +tão facil felicidade refuta no seu livro. Veria que +a finalidade póde ainda ser concebida como immanente +á materia e como aquelle segundo elemento +que vem integrar, juntando-se ao movimento, +a noção da realidade; que, n'este caso, +longe de ser contradictoria com a espontaneidade +do movimento, é justamente a +explicação do movimento; +que o que parece effeito, no ponto de +vista do puro mechanismo, é causa no ponto de +vista da finalidade, sem que uma cousa repugne +á outra, porque são duas espheras do +conhecimento, +que ao mesmo tempo que se oppõem, reciprocamente +se completam. +<br /> + +<br /> + +Perceberia então uma cousa, e é que, +não só +o movimento em geral (o movimento em si, independentemente +de qualquer ideia de desenvolvimento) +é racionalmente inexplicavel e, por conseguinte, +inconcebivel sem a ideia de finalidade ou +de causa-final, mas que mais particularmente a +evolução, +<span class="pagenum">[29]</span> +isto é, o movimento como +hierarchia ou +desenvolvimento, implicando a ideia d'um typo, +que as formas evolvendo, tendem a realisar, implíca +por isso mesmo uma finalidade. +<br /> + +<br /> + +O typo é realisado na serie, não é um +producto +d'ella: pois, se fosse um producto, como se +explicaria a serie? Quem diz evolução diz +progresso. +Ora, progresso que não tende para cousa +alguma, que não tem um typo e um fim, não se +comprehende. Se não ha typo, não ha medida ou +termo de comparação na serie, não ha, +por conseguinte, +hierarchia: ha variedade de formas parallelas +e equivalentes; mas não desenvolvimento. +<br /> + +<br /> + +No meio d'essa multidão de formas inexpressivas, +tudo será igualmente perfeito ou imperfeito: +haverá ainda transformismo; mas não +haverá +evolução progressiva. +<br /> + +<br /> + +É assim que o ultimo capitulo do livro do +snr. Vianna de Lima deita por terra a doutrina +estabelecida laboriosamente nos que o precedem. +É assim que metade da doutrina de Haeckel deita +por terra a outra metade. É assim que uma +philosophia da natureza que pertende +não ser uma +philosophia especulativa, acaba por não ser +cousa alguma. +<br /> + +<br /> + +Que concluiremos de toda esta critica? Concluiremos +em primeiro logar, que os naturalistas, +quando não são ao mesmo tempo philosophos, +não podem construir uma philosophia da natureza +<span class="pagenum">[30]</span> +que se sustenha de pé. Concluiremos, em segundo +logar, que não póde haver, por muito que +se apregoe, philosophia da natureza positiva (puramente +scientifica), assim como em geral não póde +haver philosophia positiva. O erro commum +em que laboram os positivistas das differentes communhões +(são varias, e todas egualmente positivas) +é este: que o conhecimento scientifico é o typo +do +conhecimento, o conhecimento ultimo e perfeito; e +que, por conseguinte, esgotando o ponto de vista +scientifico a comprehensão da realidade, basta reunir +em quadro as conclusões de todas as sciencias, +ou generalisar as ideias fundamentaes communs a +todas ellas para se obter a mais alta comprehensão +das cousas, a que nos é dado aspirar. D'aqui a +chimera d'uma philosophia positiva. +<br /> + +<br /> + +Não seria chimera, se com effeito o conhecimento +scientifico representasse o conhecimento +supremo e definitivo, e não apenas uma determinada +esphera do conhecimento. Nesse caso a +generalisação +dos dados scientificos corresponderia a +uma verdadeira synthese e a abstracção suprema +dos elementos da realidade tomaria o logar das +ideias da razão. Infelizmente ou felizmente (que +isso importa pouco) a razão subsiste e com ella o +ponto de vista das ideias metaphysicas de +<em>substancia</em>, +<em>causa e finalidade</em> ás quaes tem +de ser referidas, +em ultima instancia, as conclusões da sciencia. +E porque? Porque essas conclusões, ainda +<span class="pagenum">[31]</span> +nas suas mais vastas e deslumbrantes +generalisações, +não se explicam a si mesmas e, representando +apenas as grandes linhas e como que a estructura +abstracta do mundo phenomenal, precisam +ellas mesmas de ser explicadas. Com o seu +caracter abstracto são ainda factos, e os factos +precisam do reflexo da razão para se tornarem +intelligiveis. O conhecimento scientifico constitue +apenas a região media do conhecimento, entre o +senso commum, d'um lado, e o conhecimento metaphysico, +do outro. É pois a rasão que tem, em +ultima instancia, de se pronunciar sobre o valor e +o logar, na comprehensão total do universo, dos +dados quer do senso commum quer da sciencia. +Essa comprehensão total é que é a +philosophia: edificio +sempre em construcção, sempre renovado +nos seus materiaes (que o progresso dos conhecimentos +positivos lhe vae fornecendo dia a dia) +sempre instavel e ao mesmo tempo sempre de pé, +e que sendo sempre incompleto nunca se pode +dizer insufficiente, porque, tal como é, corresponde +ás mais altas faculdades do espirito humano, +abriga as mais sublimes aspirações, tormento +e gloria ao mesmo tempo, d'este mysterioso animal +racional chamado homem. +<br /> + +<br /> + +E eis ahi porque uma philosophia positiva é +uma chimera. Quem diz philosophia diz idealismo. +Só o systema das ideias contem inteira a +explicação +do systema das cousas. O movimento não esgota o +<span class="pagenum">[32]</span> +ser: o ser implica movimento e ideia. Os naturalistas, +desprezando ou ignorando as ideias, ignoram +metade das cousas e a sua philosophia é só +meia philosophia, ou antes, é só um arremedo da +philosophia. <em>Tudo quanto é, é +racional</em>, disse Hegel. +<br /> + +<br /> + +Pretender amputar a razão é pretender amputar +a realidade. +<br /> + +<br /> + +É dentro da razão, não fóra +d'ella, que teem +de ser marcados os limites do conhecimento. Só +no ponto de vista total da razão se resolvem as +contradicções que a realidade apresenta, como +outras tantas esphinges á intelligencia +indagadôra. +<br /> + +<br /> + +Materia e espirito, determinismo e liberdade, +evolução e finalidade, não +são ideias contradictorias +senão na apparencia: de facto, são só +duas +espheras differentes da comprehensão, these e antithese, +cuja synthese é a razão. +<br /> + +<br /> + +Assim, uma philosophia da natureza, tal como +a concebo, uma philosophia da natureza á altura, +não só do grande seculo das sciencias naturaes, +mas do grande seculo de Kant e Hegel, não +tem que regeitar o determinismo universal e a +evolução +como uma forma mechanica d'esse determinismo: +mas o que não póde é ficar ahi. +<br /> + +<br /> + +Determinismo e evolução serão apenas o +seu +ponto de partida, a forma universal da phenomenalidade, +que a generalisação scientifica lhe fornece +<span class="pagenum">[33]</span> +e que ella, a philosophia, terá d'analysar e +interpretar á luz das ideias. Só assim +terá satisfeito +não só á rasão +especulativa, mas ás exigencias +não menos imperiosas da consciencia humana. +<br /> + +<br /> + +Digo da consciencia humana; e é este um outro +aspecto, e aspecto capital da questão que é +necessario por em evidencia. Muitos dirão:--que +tem que ver a philosophia com a consciencia humana? +Responder-lhes-hei:--tem tudo. Por uma singular +aberração, são justamente os que mais +falam +de positivismo e factos positivos os que parecem +esquecer ou ignorar que a consciencia humana +é um facto, que a sua actividade, expressa +e objectivada em milhares de manifestações, desde +os codigos até á poesia, e atravez de milhares +d'annos, constitue uma ordem de factos tão positivos +e tão irrecusaveis como os da physica ou da +astronomia. E estes factos não são só +positivos e +evidentes: são ainda culminantes, pois os phenomenos +sociaes e moraes, tendo atraz de si todas +as outras ordens de phenomenos e apoiando-se +n'ellas, constituem o ponto mais alto da serie evolutiva +das cousas. +<br /> + +<br /> + +Os factos da consciencia humana são, pois, +não só factos positivos, mas os factos positivos +culminantes. +<br /> + +<br /> + +Ora que diriamos d'uma philosophia, que não +podesse explicar, mais, que estivesse em +contradicção +<span class="pagenum">[34]</span> +com os factos da physica, por exemplo, ou +de chimica? Diriamos ser uma philosophia não só +incompleta, mas falsa. E que pensaremos então +d'uma philosophia, que não só consegue explicar, +mas está em flagrante contradicção com +factos +tão positivos como aquelles, e, alem de positivos, +superiores e culminantes? +<br /> + +<br /> + +A consciencia humana é, pois, verdadeiramente +um criterio philosophico, n'este sentido que uma +philosophia incapaz de explicar satisfactoriamente +os phenomenos da consciencia, ou em contradicção +com elles, é uma philosophia incompleta, +ou errada, por deixar de fóra, ou contradizer, +uma parte e justamente a parte mais importante +da realidade. +<br /> + +<br /> + +Este criterio bastaria só por si (alem de tudo +que atraz fica dito) para condemnar toda a philosophia +puramente materialista, sob qualquer forma +em que se apresente:--mecanismo atomico, determinismo +scientifico, monismo ou pantheismo +naturalista. Sob qualquer destas formas, o materealismo +envolve, o que é a sua essencia, a +reducção +de toda a ordem de phenomenos a forças +elementares, sujeitas a uma determinação cega, +mechanica e sem fim intelligivel: envolve a +negação +de todo o elemento racional nas cousas, reduzindo +ao mesmo tempo as affirmações da consciencia +a puras illusões subjectivas. +<br /> + +<br /> + +A critica do materialismo, n'este ultimo pono +<span class="pagenum">[35]</span> +de vista, tem sido mil vezes feita e não preciso +reproduzil-a aqui. +<br /> + +<br /> + +O que quero é fazer sentir quanto o monismo +evolucionista da escola de Haeckel (que não é +mais do que uma forma do materialismo) cuja +maior pretensão é ser uma philosophia positiva +da natureza, ainda por este lado não é positivo, +por não poder explicar uma ordem inteira e a +mais importante dos factos do universo. +<br /> + +<br /> + +Declarar que a liberdade e o sentimento moral +são meras illusões subjectivas, e que os mais +intimos e mais autonomos phenomenos da consciencia +resultam apenas d'acções mechanicas e +são a transformação d'essas +acções--é facil. Agora +o que não é facil, porque é +simplesmente impossivel, +é explicar e fazer comprehender (como +ha poucos annos ainda Du Bois-Reymond perguntava +a Haeckel) como é que o movimento, um +grupo de movimentos por mais complexo que o +supponhamos, pode produzir, não já os factos +superiores +da vida do pensamento, mas o mais elementar, +a simples sensação? Deante d'esta simples +pergunta desaba todo o edificio do monismo. +A vida moral não é cousa que se decomponha +em retortas, nem se descobrirá jámais o +equivalente +mechanico do genio ou da virtude:<br /> + +<br /> + +<div class="quote"> +<em>There are more things in heaven and earth, Horatio,<br /> + +Than are dreamt off in your philosophie</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>QUINTO ARTIGO<sup><a href="#6">[F]</a></sup></h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Pretenderei eu accaso com esta critica, +contestar o valor dos trabalhos da +escola monista, ou ainda a sua importancia +philosophica? +<br /> + +<br /> + +De modo algum. +<br /> + +<br /> + +O que eu contesto é o valor do seu systema, +como systema, o que eu censuro é a pretensão +de fundar uma philosophia da natureza com a +simples generalisação dos dados d'um grupo de +sciencias, e sem ter em conta o indispensavel criterio +das ideias. Mas abstrahindo d'estas pretensões, +<span class="pagenum">[38]</span> +a tentativa de Haeckel, considerada em si, +tem um alto valor. Tem-no, sobre tudo, como +symptoma da tendencia, que cada vez mais se +manifesta na esphera da sciencia para uma unidade +de comprehensão, que assentando rigorosamente +no terreno scientifico, saia ao mesmo tempo +da analyse e abstracção inherententes +á sciencia, +procurando como formula, uma ideia de caracter +synthetico, isto é, uma ideia propriamente +philosophica. +<br /> + +<br /> + +Esta tendencia é sem duvida alguma, o facto +intellectual mais importante do seculo actual e um +d'aquelles em que mais se traduz d'um lado, a influencia +d'ora em deante cada vez mais predominante +do criticismo de Kant, e do outro, a feição +eminentemente positivista do espirito moderno. +Se uma philosophia positiva é e será sempre, como +já mostrei, uma chimera, a acção e +authoridade +directa da sciencia na philosophia será d'aqui +em deante (quero dizer depois da <em>Critica da +Rasão +pura</em>) um facto que tem de se impor a todos +os pensadores. +<br /> + +<br /> + +Mas acção e auctoridade da sciencia na +philosophia +é uma cousa, e philosophia positiva, outra. +As ideias syntheticas da philosophia não saem +das sciencias, não são simples +generalisações scientificas: +são um producto da especulação e +quando +chegam a apparecer no terreno scientifico é infiltradas +para ali das regiões da especulação, +é porque +<span class="pagenum">[39]</span> +a especulação as forneceu, sob forma de +hypothese, +á sciencia. Não cabe em escrito d'estas +dimensões expor a theoria da hypothese. Bastará +mostrar como a theoria geral da evolução, hoje +com tanto vigor e brilho formulada por Haeckel +e seus concorrentes ou discipulos, longe de ser, +como vulgarmente se imagina, uma +<em>descoberta</em> das +sciencias naturaes e um resultado directo da analyse +scientifica, é, pelo contrario, uma verdadeira +hypothese philosophica, que, producto da +elaboração +especulativa de perto de trez seculos, acabou +por se manifestar no dominio das sciencias. +<br /> + +<br /> + +Com effeito são mais fundas as suas raizes, +mais longiqua a sua procedencia. +<br /> + +<br /> + +Essa ideia não saiu das sciencias naturaes, +mas penetrou n'ellas pela influencia (obscura, é +certo e indirecta, mas muito real) das noções +metaphysicas +lentamente elaboradas, a partir da renascença, +dentro da ideia fundamental de +<em>natureza</em>. +A maneira dynamica, autonomica, realista, de +conceber a natureza é o que mais radicalmente +distingue o pensamento moderno do antigo. A natureza +para o pensamento antigo, e ainda para o mais +genial dos seus intrepretes e o mais objectivo, +Aristoteles, era concebida como abstracta, inerte, +passiva: longe de parecer concreta e espontanea, +era considerada apenas como um reflexo, +acto ou emanação d'um ser ou seres transcendentes +e perfeitos: as <em>ideias</em> de +Platão, a <em>intelligencia</em> +<span class="pagenum">[40]</span> +de Anaxagores, o <em>motor immovel</em> e as +<em>formas substanciaes</em> +de Aristoteles etc.) exteriores a ella e só +verdadeiramente autonomos. Esta maneira de conceber +manteve-se pela Escolastica e pela Theologia +christã, até á Renascença. +A partir dos ultimos +tempos da Edade-media, com a dissolução +da philosophia escolastica e as revoluções de +toda +a especie, intellectuaes, sociaes religiosas, que annunciam +a aurora dos tempos modernos, dá-se +nas regiões mais profundas da intelligencia humana +uma fermentação extraordinaria, que se exprime, +ainda com pouca consciencia do seu proprio +alcance, nas creações da astronomia e da physica +modernas (Kopernico, Keppler, Galileo, Torricelli) +e nas reformas philosophicas de Bacon e Descartes; +que se avigora com Leibnitz e Spinosa e com +os primeiros trabalhos de physiologia, botanica e +sciencias sociaes (Gesner, Harvey, Malpighi, Boerhaave, +Hobbes, Grocio, Vico, Lessing, etc.) para +acabar, plenamente consciente no seculo XIX, +por se affirmar, não já n'esta ou n'aquella ordem +de phenomenos, mas em todas as espheras da actividade +humana, nas sciencias, na philosophia, na +sociedade civil e politica e na propria arte e poesia +contemporaneas. O naturalismo é para os +tempos modernos o que foi o racionalismo para a +Antiguidade:--a formula mais geral da sua actividade. +<br /> + +<br /> + +A doutrina da evolução é apenas uma +das +<span class="pagenum"><a name="p41">[41]</a></span> +determinações, a mais recente e porisso a mais +intensa, e intima, do naturalismo moderno. +<br /> + +<br /> + +E convirá notar que o seu apparecimento é +simultaneo na astronomia, na geologia, na biologia, +na linguistica e na historia: Lamarck, Laplace, +Werner, Goethe, Geoffroy Sainte-Hilaire, Herder, +Saint-Simon, Bopp, Adelung, são contemporaneos, +ou proximamente contemporaneos. +<br /> + +<br /> + +O evolucionismo dentro das sciencias da natureza +não é mais do que a +applicação a uma ordem +de factos do principio fundamental do pensamento +moderno, uma das suas determinações +particulares. +<br /> + +<br /> + +Mas esse principio é uma hypothese geral e, +como todas ideas syntheticas, um resultado da +especulação, não é um facto +positivo. Se apparece +no dominio das sciencias, é como hypothese +philosophica, não como lei <a href="#e10">scientifica</a>. +Se as sciencias +da natureza e da sociedade convergem hoje +no sentido da evolução, convergem movidas pelo +influxo intimo do estado mental-metaphysico que +as envolve, não pela força exclusiva e +independente +do seu desenvolvimento proprio. Não ha, como +se pretende, a eliminação do elemento metaphysico +pelo elemento scientifico: ha uma mutua +penetração; +penetração da especulação +na sciencia, +pela hypothese que a vem fecundar; penetração +da sciencia na especulação, pelo correctivo +imposto, +em nome da realidade, dos factos positivos, +<span class="pagenum">[42]</span> +ao á-priorismo inherente ao pensamento especulativo. +<br /> + +<br /> + +E é por isso que o concurso da sciencia e da +especulação é indispensavel para a +constituição +definitiva da philosophia moderna (da qual todos +os systemas, desde Bruno e Bacon até aos nossos +dias são apenas esboços e prenuncios), para a +organisação +systematica do pensamento moderno em +todas as suas determinações. +<br /> + +<br /> + +Creio com Haeckel, assim como com Schelling, +Hegel, Hartmann, Comte e Spencer, que é no +terreno da evolução que essa grande synthese tem +de ser construida, e que, depois do seculo XVIII +e depois de Kant, já não é possivel +uma philosophia +que não seja essencialmente uma theoria geral +do desenvolvimento, isto é, uma philosophia +da evolução. Mas creio tambem que a +organisação +da ideia d'evolução n'essa theoria geral do +desenvolvimento +é problema que excede muito a capacidade +especial das sciencias da natureza, quero +dizer, a esphera theorica d'essas sciencias, porque +excede os limites e alcance do puro espirito scientifico. +<br /> + +<br /> + +A metaphysica do seculo XIX apezar do +descredito em que momentaneamente parece ter +caido, não disse ainda a sua ultima palavra, nem +abdicou. Se a conclusão final das sciencias tem +de ser, como creio, o mechanismo universal, a conclusão +final do pensamento metaphysico tem por +<span class="pagenum"><a name="p43">[43]</a></span> +seu lado de ser o universal idealismo. Mas já hoje +se começa a comprehender que entre estes dois +termos não ha contradicção essencial e +que esta +<em>these</em> e +<em>antithese</em> é reductivel a +uma <em>synthese</em>, que +satisfaça plenamente tanto a sciencia como a +especulação. +Essa synthese em que o idealismo apparecerá +com complemento necessario do mechanismo +já hoje se deixa entrever; e creio que <a href="#e11">nem +a +todos</a> parecerá temeridade e paradoxo, concebel-a, +como eu a concebo, nem idealista nem materialista +no antigo e mais usual sentido das palavras, +mas num sentido novo e mais profundo, como +um <em><a href="#e12">materíalismo</a> +idealista</em>. +<br /> + +<br /> + +<h4>FIM</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<hr /> +<div style="text-align: center;"><b>Tiragem de 200 +exemplares +numerados</b> +</div> + +<hr /> +<hr /><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<h4>TYPOGRAPHIA<br /> + +DO<br /> + +CAMPEÃO POPULAR +</h4> + +<br /> + +Rua da Graça n.º 15--Ponta Delgada +<br /> + +<br /> + +<b>Estabelecimento fundado em 1889</b> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="1"></a><sup>[A]</sup> <em>A +Provincia</em>--N.º 48, +II anno--Porto, 1 de março de +1886.<br /> + +<br /> + +<a name="2"></a><sup>[B]</sup> <em></em>Aliás +de Iena. (E. P.)<br /> + +<br /> + +<a name="3"></a><sup>[C]</sup> <em>A +Provincia</em>--N.º +49--II anno--Porto, 2 de Março +de 1886.<br /> + +<br /> + +<a name="4"></a><sup>[D]</sup> <em>A +Provincia</em>--N.º +50--II anno--Porto, 3 de março de +1886.<br /> + +<br /> + +<a name="5"></a><sup>[E]</sup> <em>A +Provincia</em>--N.º +51--II anno--Porto, 4 de março de +1887.<br /> + +<br /> + +<a name="6"></a><sup>[F]</sup> <em>A +Provincia</em>--N.º +52--II anno--Porto, 5 de março +de 1887.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#px">#pág. +X</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">methaphisico</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">metaphisico*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#pxi">#pág. +XI</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>movimento</em></td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>monismo</em>*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td> </td> + + <td> </td> + + <td> </td> + + <td> </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e3"></a><a href="#p6">#pág. +6</a></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">vaga +de generalidade</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">vaga +generalidade*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#p6">#pág. 6</a></td> + + <td style="text-align: center;">não a mais</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">não mais*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p9">#pág. 9</a></td> + + <td style="text-align: center;">monistia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">monista</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e6"></a><a href="#p22">#pág. +22</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">sythetica</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">synthetica</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p22">#pág. 22</a></td> + + <td style="text-align: center;">Hacekel</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Haeckel</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p22">#pág. 22</a></td> + + <td style="text-align: center;">scinecias</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">sciencias</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p28">#pág. 28</a></td> + + <td style="text-align: center;">authropomorphica</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">anthropomorphica</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p41">#pág. 41</a></td> + + <td style="text-align: center;">scientica</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">scientifica</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p43">#pág. 43</a></td> + + <td style="text-align: center;">nem todos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">nem a todos*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e12"></a><a href="#p43">#pág. +43</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;"> <em>materialista</em></td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>materíalismo</em>*</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +* correcções feitas com base na errata do +próprio livro.</div> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos +naturalistas, by Antero Tarquínio de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA *** + +***** This file should be named 26776-h.htm or 26776-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/7/7/26776/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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