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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:32:51 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A philosophia da natureza dos naturalistas + +Author: Antero Tarquínio de Quental + +Release Date: October 4, 2008 [EBook #26776] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +A PHILOSOPHIA DA NATUREZA + +NATURALISTAS + +1894 + + + + +HOMENAGEM POSTHUMA + +A + +ANTHERO DE QUENTAL + + +(MICHAELENSE) + + + +ANTHERO DE QUENTAL + +A PHILOSOPHIA DA NATUREZA + +DOS + +NATURALISTAS + + +1894 +Typ. Editora do CAMPEÃO POPULAR +S. Miguel--PONTA DELGADA--Açores + + + + +EXPLICAÇÃO PREVIA + + +Digam o que disserem, Anthero de Quental foi indubitavelmente, um dos +mais fecundos escriptores do seu paiz e da sua epocha. + +Raros, muito raros, foram as theorias ou problemas da actualidade, +ventilados com interesse nos dominios da Sciencia, da Politica ou da +Arte que deixassem d'exercitar a penna sempre prestigiosa e sempre +elegante do grande Mestre. + +Na sua obra em prosa cabe, porem, um logar proeminente aos copiosos +artigos de critica ou de polemica, que, durante quasi trinta annos, +appareceram estampados em diversos orgãos da imprensa periodica +portugueza, tanto da capital como da provincia, e nos quaes, á +semelhança de Littré e de Taine, elle connotou, como n'um diario intimo, +não sómente as suas opiniões pessoaes sobre os homens e os successos +contemporaneos, mas ainda as correntes de influencias estranhas que +actuaram no seu espirito e as impressões que d'ahi resultaram. + +Como critico e polemista, Anthero de Quental não teve em Portugal +competidor; foi unico na energia fogosa da polemica e nos processos +technicos da analyse critica. + +Os seus escriptos de critica bibliographica são exemplares de methodo e +de bom senso, de finura e de erudição, de escrupulosa imparcialidade e +d'aquella serena comprehensão dos multiplices aspectos das cousas e dos +homens que dá ao critico a maxima authoridade e valor. + +N'este particular, pertence-lhe a gloria de ter sido entre nós o +verdadeiro creador d'um genero litterario descurado, para não dizermos +falseado, na sua applicação. + +Até elle a critica, aberrando diametralmente do seu papel objectivo, +fazia-se pela antipathia ou sympathia do critico para com o nome do +author; o louvor ou a censura previam-se justamente, dadas as relações +de sentimento d'um para com outro. + +Foi Anthero quem iniciou a critica impessoal, a critica objectiva, +desapaixonada, fria, inspirada por um sentimento de equidade e de +justiça--critica, em summa, que é uma lição; porque ensina, e que pode +fazer do criticado um adversario, mas nunca um inimigo--e do critico um +juiz, mas nunca um louvaminheiro nem um delator. + +Os artigos criticos do grande Mestre teem todos estes caracteres +acentuadamente impressos: não são exclusivamente laudatorios nem +exclusivamente aggressivos; são justos e por isso mesmo verdadeiros. +Teem authoridade; porque fallam sinceramente uma linguagem que não é a +do odio nem a dos affectos; mas que é a voz d'uma consciencia honrada +para a qual os Homens são o menos e a Verdade o mais. + +Se alguns d'esses trabalhos perderam já aquelle cunho de novidade que os +fez circular vertiginosamente d'um a outro canto do nosso paiz, e se por +isso não movem ao interesse e enthusiasmo que suscitaram aos primitivos +leitores, é certo, que ainda assim, constituem documentos de summa +valia, quer sob o ponto de vista meramente litterario, quer como +subsidio para quem no futuro pretenda historiar as differentes phases do +movimento das idéas em Portugal, na ultima metade do seculo XIX. + +Taes elementos são, portanto, indispensaveis para o estudo de Anthero e +da sua epocha. Sem elles mal se poderá comprehender a obra do grande +Mestre na sua extensão, valor, influencia, e mal se poderá explicar +tambem a filiação ou dependencia das diversas partes d'essa obra +complexa e vastissima. + +Vê-se, pois, que quem quizer formar uma idéa cabal do irrivalisavel +escriptor e da sua actividade productora, ou procurar comprehender a +acção exercida sobre os seus contemporaneos, ha de necessariamente +recorrer ás collecções das Revistas e Gazetas, que o contaram entre os +seus collaboradores, onde elle deixou archivado pelo seu proprio punho +aquillo que bem pode chamar-se a sua _autobiographia mental_. + +Infelizmente, porém, são numerosos e pouco accessiveis esses +repositorios, muitos dos quaes teem desapparecido (como succede á maior +parte das revistas academicas, publicadas em Coimbra) e outros tornam-se +cada dia mais raros, dada a procura dos collecionadores. + +N'estas condições, dentro em breve, poucos serão os estudiosos que +tenham a dita de ler e consultar os escriptos jornalisticos d'Anthero. + +Esperar-se-ha que um editor tome sobre si o encargo de recolher essas +numerosas especies dispersas? + +E não será isso, por assim dizer, sacrificar a obra do grande Mestre, +deixando de recolher muitos dos escriptos da maior raridade? + +A edição definitiva das obras completas d'Anthero só poderá levar-se a +cabo, quando primeiro se publiquem as reproducções d'esses escriptos +avulsos. + +Aos amigos e discipulos do immortal escriptor impende, pois, um grande +dever de gratidão:--é o dever de cada um de per si ou associados, salvar +do olvidio e da destruição os trabalhos do Mestre, colligindo-os +systematicamente e por ordem chronologica, á semelhança do que fez o sr. +Oliveira Martins para os Sonetos e restantes composições poeticas. + +É urgente começar. Talvez mais tarde não seja possivel reconstituir a +serie d'aquelles trabalhos ou por terem desapparecido os jornaes em que +foram originalmente publicados, ou por muitos d'elles serem anonymos e +terem tambem desapparecido as pessoas que poderiam reconhecer a sua +paternidade. + + +II + +No diario portuense--_A Provincia_--inseriu Anthero de Quental, em 1886, +uma serie de cinco artigos, a proposito da obra de Vianna de Lima, +intitulada--_Exposição summaria das theorias transformistas_. + +A questão versada era e é ainda das mais importantes e das mais +disputadas, tanto no terreno propriamente especulativo, como no terreno +das sciencias naturaes. + +Anthero de Quental, methaphysico de profissão, não podia entrar no +debate como naturalista, embora os seus estudos tivessem fundos +alicerces nas Sciencias da natureza. Discutiu e argumentou como +philosopho;--philosophou; porque na materia tinha opiniões originaes +definidas e razões peculiarmente suas. + +D'ahi a importancia e renome dos artigos que o publico illustrado +victoriou, como modelos acabados de analyse critica, collocando-os do +mesmo passo a par das melhores paginas de prosa portugueza. + +Tinha razão. + +São com effeito obras primas no seu genero e em que não se sabe qual +mais admirar, se a belleza incomparavel de forma, se a genial pujança e +superioridade do pensamento que anima aquella solida construcção +especulativa, communicando-lhe a maxima potencia de suggestão e de +interesse. + +Mostremo-lo, embora de relance. + +Anthero de Quental, partindo do principio de que a _sciencia não póde +ser para a philosophia mais que uma materia prima_, impugna a pretensão +de fundar uma philosophia da natureza com a a simples generalisação dos +dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em conta o indispensavel +criterio das ideias. É este o thema principal que elle se esforça para +estabelecer fundamentalmente. + +Analysando as duas noções que formam a base da doutrina Haeckeliana--_o +movimento e a evolução_--mostra que a primeira é insufficiente, e á +segunda falta a generalidade scientifica; visto como não intervem, senão +_onde o elemento historico representa um papel proeminente_. + +Por outro lado demonstra que ha contradicção flagrante entre a idéa da +espontaneidade da materia, como a admitte a escola monista, e a theoria +da conservação do movimento, que domina nas sciencias physicas e em +grande parte nas sciencias da organisação. + +E sobre estas premissas logicas, conclue que a doutrina da evolução, +formulada por Haeckel, longe de ser, como se pretende, uma doutrina +positiva, baseada nas sciencias e fluindo d'ellas como sua consequencia +natural, implica, pelo contrario uma _extensão abusiva da inducção +scientifica e a illegitima generalisação d'uma hypothese, que, se é +perfeitamente fundada no terreno de determinadas sciencias, só ahi e só +n'esse ponto de vista tem authoridade scientifica_. + +A _idéa da finalidade_, combatida pela escola monista, é sustentada por +Anthero d'um modo superior e original. + +_A evolução_, diz elle, _implicando a idéa d'um typo, que as formas +evolvendo, tendem a realisar, implica por isso mesmo uma finalidade. +Quem diz evolução, diz progresso. Ora progresso que não tende para cousa +alguma que não tem um typo e um fim, não se comprehende._ + +Não é preciso mais para se ver a importancia e o valor do trabalho que +se segue. + +Poderiamos fazer aqui algumas approximações entre as doutrinas d'Anthero +e as doutrinas de Hartmann, Lang e Stallo--seus authores predilectos e +mais compulsados. + +Poderiamos tambem mostrar que os bellos artigos sobre as tendencias da +moderna philosophia, dados a lume na _Revista de Portugal_, são o +desenvolvimento logico do pensamento dominante nas paginas adiante +reproduzidas. + +Mas fallece-nos a authoridade e competencia para tanto, e demais, o +trabalho d'Anthero não carece nem de criticas, nem de commentarios +elucidativos:--impõe-se por si e tem em si a necessaria lucidez para +convencer a uma simples leitura. + +Reproduzindo-o hoje temos apenas em vista render, no anniversario do seu +passamento, uma derradeira homenagem de respeito e estima ao filho +d'esta ilha que é uma das maiores glorias das letras patrias, e ao mesmo +tempo facilitar aos estudiosos a leitura d'um dos trabalhos +philosophicos d'elle em que mais claramente se patenteiam o seu subtil +engenho dialectico, a originalidade das suas concepções especulativas e +as maravilhosas qualidades didacticas da sua prosa expositiva e +analytica. + +E d'est'arte fica explicada a presente publicação. + + + Ponta Delgada, + 11 Setembro de 1893. + + _Eugenio Vaz Pacheco do Canto e Castro_ + + + + +PRIMEIRO ARTIGO[A] + + +Um livro sobre as modernas theorias transformistas, publicado em Paris e +em francez, e firmado por um nome portuguez, é facto tão extraordinario, +que por si só bastaria para attrahir as attenções. Mas no livro do snr. +Vianna de Lima, não é só a extranheza do facto que deve chamar a nossa +attenção: é ainda o seu valor intrinseco. Esta _Exposição summaria das +theorias transformistas_ é, como o titulo indica, uma especie de _summa_ +das doutrinas professadas sobre a philosophia da natureza por uma escola +consideravel, cuja cabeça, E. Haeckel, é um dos nomes mais illustres, e +justamente illustres, da Allemanha intellectual, na segunda metade do +nosso seculo: e a obra do adepto não é indigna, nem pela intelligencia +nem pelo saber, da escola nem do mestre. + +Não sou naturalista e, tendo a consciencia da minha incompetencia, não +me atreveria a escrever sobre a obra do sr. Vianna de Lima, se o seu +livro fosse propriamente um livro de sciencias naturaes, e se os quatro +estudos, de que se compõe, se conservassem escrupulosamente nos limites +rigorosos do campo scientifico. O livro, porem, do snr. Vianna de Lima, +apezar da modestia do titulo, aspira de facto a ser um livro de +philosophia da natureza, e, n'esse terreno, creio poder, sem temeridade, +emittir algumas opiniões fundamentadas. Prestarei, assim uma homenagem +ao moço portuguez (portuguez pelo nome e pelo sangue: ouço que é +brazileiro) que tão galhardamente nos representa no grande mundo da +intelligencia, aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para dizer alguma +cousa sobre uma escola philosophica, cujos chefes respeito e cuja +importancia não desconheço; mas cujas tendencias estão muito longe, em +meu entender, de serem satisfactorias. + +Alexandre de Humboldt, o naturalista encyclopedico e quasi legendario do +primeiro quartel d'este seculo, costumava dizer causticamente, +referindo-se á philosophia da natureza puramente especulativa, que então +deslumbrava com os clarões do genio de Schelling e Hegel, não só a +Allemanha pensadora, mas ainda a Allemanha scientifica, _que achava +singularissimos aquelles naturalistas que pretendiam fazer chimica sem +molhar a ponta dos dedos_. + +Tinha razão. + +Hoje, nós outros metaphysicos, podemos com igual razão dizer que são +singulares estes philosophos, que, com os dedos mais que ensopados em +chimica, pretendem fazer philosophia sem nunca se terem dado ao trabalho +de reflectir. + +Com effeito, a philosophia é, de sua natureza, especulativa, e a +sciencia não póde ser para ella mais que uma materia prima. + +Um homem de sciencia, por encyclopedico que seja, se não tiver ao mesmo +tempo reflectido muito e profundamente sobre as questões puramente +racionaes, que a sciencia suscita e não póde por si resolver, reflectido +sobre as ideas abstractas, que são, umas, postulados para as differentes +sciencias, outras, principios ordenadores d'uma explicação geral das +cousas, um tal homem de sciencia, apesar do seu encyclopedismo, não +poderá nunca aspirar ao titulo de philosopho. Pode dizer que _sabe_, mas +não que _entende_, porque o problema do universo, como problema total e +concreto, será para a sua intelligencia, aliás opulenta de factos, tão +obscuro, como é para a intelligencia d'um simples e ignorante. A +philosophia não é o mero ajuntamento ou ainda o quadro empiricamente +ordenado dos factos do universo: é a comprehensão e explicação racional +e total d'esse grande quadro. Ora, uma tal explicação só é possivel no +ponto de vista das ideias ultimas e fundamentaes da rasão (_substancia_, +_causa_, _fim_) e essas ideias teem por isso de ser tomadas em si, +pesadas e analysadas. Não faz outra cousa a metaphysica, e sem +metaphysica não ha philosophia, porque não ha verdadeira comprehensão +racional, nem verdadeira e total explicação. Metaphysica (ou +especulação) e sciencia (ou observação) são duas series convergentes, +que partem de pontos oppostos e com leis de desenvolvimento diversas; +mas, como são convergentes, encontram-se: o ponto onde se encontram e, +sem se fundirem, reciprocamente se penetram, é que é a philosophia. A +philosophia tem pois por materia a sciencia, por forma a metaphysica; ou +ainda, a philosophia é a observação (quero dizer, os seus resultados) +considerada no ponto de vista absoluta da rasão. + +O desconhecimento d'estas verdades e o desdem pela metaphysica, filho em +grande parte da reacção, aliás justissima, provocada pelos excessos e +intoleravel dogmatismo da especulação, na Allemanha, e pela sua +insignificancia e convencionalismo, em França; e, por cima d'isso ainda, +o maravilhoso desenvolvimento das sciencias naturaes, durante os ultimos +40 annos, deram de si o apparecimento d'uma pseudo-philosophia da +natureza que se pretende positiva e puramente filha das sciencias e que +julga ingenuamente poder resolver os intrincados problemas das idéas, +sem ter o incommodo de reflectir e só com grande somma de physica, +chimica e physiologia. + +D'estes naturalistas philosophos o mais eminente, tanto pelo saber como +pelo genio, é o apostolo de Darwin na Allemanha, o illustre autor da +_Historia natural da Criação_, Ernesto Haeckel. É entre os discipulos de +Haeckel que vem tomar logar, com o seu livro, o snr. V. de Lima. + +Profano, não me é dado conhecer e dizer até que ponto a rigorosa verdade +e o rigoroso methodo scientificos tem sido violentados pelo sabio e +engenhoso, mas não menos phantasioso e temerario professor de Munich[B], +para se dobrarem e acommodarem ás suas doutrinas geraes. Sei só que +outros mestres eminentes, como Virchow, Helmholtz, Huxley e Du +Bois-Reymond estão longe de se darem por inteiramente satisfeitos com a +orthodoxia scientifica de muitas das affirmações do padrinho do _monero +batybio_. A mim só me é permittido occupar-me com as ideias e tendencias +propriamente philosophicas da escola monista-evolucionista, cuja cabeça +é Haeckel; e o livro do discipulo, que se propoz resumir a doutrina, +ser-me-ha occasião para fazer sobresahir (embora só em dois pontos, mas +capitaes ambos) a confusão e deficiencia na analyse das ideias, que +impedem, a meu juizo, que a pretendida philosophia da natureza +monista-evolucionista, apezar da imponente massa de sciencia sobre que +assenta, attinja a verdadeira altura d'uma philosophia da natureza. + +Monismo e evolução são as duas noções que formam a base da doutrina +Haekeliana. Comecemos por indagar que ideia precisa envolve esta +palavra--_monismo_. Parece-me que a palavra é que é nova, não a ideia. +Tanto valeria dizer pantheismo, ou ainda materialismo, pois não encontro +no fundo d'aquella expressão nada mais do que n'estas duas outras; a +saber: uma concepção unitaria da substancia. + +Esta concepção, porem, (na sua simplicidade e em quanto não fôr definida +d'uma maneira particular) é propriedade commum de muitas escolas antigas +e modernas e precisa sahir d'essa generalidade e indeterminação para +poder caracterisar uma maneira especial de comprehender as cousas: assim +o atomismo, assim o pantheismo de Spinoza, assim o idealismo realista de +Hegel etc. Ora, é justamente essa falta de definição precisa, essa vaga +de generalidade e indeterminação, que eu noto no _monismo_ de Haeckel. +_Monismo_ parece-me apenas uma palavra nova (e muito dispensavel) e não +a mais. + +Com effeito, affirmar abstractamente a unidade de substancia é, no +terreno da philosophia da natureza, pouca cousa: o que importa é +definil-a. Definil-a é apresental-a nas suas relações com a realidade, é +caracterisal-a na sua maneira de ser positiva, é mostrar, não como a +concebemos _em si_ (pertence isso á metaphysica), mas como a concebemos +_realisavel_. + +Uma materia abstracta, una e simples, apenas vagamente susceptivel de se +manifestar por omnimodas modalidades, é uma base insufficiente para a +philosophia da natureza; porque é uma base insufficiente para a +sciencia. O que a sciencia exige e o que é preciso á philosophia da +natureza é determinar n'essa infinidade de moralidades, qual é a +fundamental ou elementar, aquella a que se reduzem todas as outras. Ora +é isso justamente o que as sciencias da natureza teem feito, reduzindo +todas as modalidades da materia ao elemento primordial _movimento_. Os +monistas, sempre que fallam como homens de sciencia, adoptam (e não +podiam deixar d'adoptar) esta concepção. Mas, como philosophos, em vez +de receberem das mãos da sciencia este resultado, para o elaborarem e +desenvolverem, caem no vago e em inextrincaveis confusões. + +É assim que o nosso auctor começa por se declarar anti-materialista e +pretende repellir o atomismo. affirmando que a materia não póde ser +definida per esta ou aquella propriedade, mas que «para o monismo, a +materia é o que é _in situ_.... é aquillo que se manifesta aos nossos +sentidos e ao nosso entendimento por modos diversissimos, sob forma de +phenomenos infinitamente variados.... pretender isolar (d'este +conjuncto) certas propriedades, abstrahir certas qualidades, é grande +erro.... para elle (o monista) qualidades, propriedades especificas ou +funccionaes, funcções, etc. são inherentes á materia em que se +manifestam e formam com ella um todo indissoluvel». Entretanto, meia +pagina abaixo, dá a entender que todas as propriedades da materia são +fórmas do movimento e se reduzem a movimentos elementares: «a força é a +propriedade ou a maneira de ser mais geral da materia.... todas as +forças são reductiveis a movimentos.... uma força não é mais do que +materia em movimento». Mas, se isto é assim, a materia não é já «tudo o +que é _in situ_» as suas propriedades não são já «inisolaveis e +indissoluveis», nem é «grande erro abstrahir do conjuncto d'ellas certas +propriedades», visto que, de facto, a materia é caracterisada por uma +propriedade fundamental, o movimento, da qual todas as outras não são +mais do que modalidades, ou, mais terminantemente, grupos e combinações +de movimentos simples elementares. Seriamos assim levados ao dynamismo, +concepção já mais precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado +monismo, e que, depois de Leibnitz, cada vez mais tem ido penetrando, ou +antes, impondo-se á philosophia das sciencias. + +Já por aqui começamos a ver quanto a concepção monista da materia é +confusa e mal definida e, por conseguinte, pouco philosophica. Mas não o +é só por isto. A confusão primeira faz-se sentir em todos os aspectos da +ideia de materia. É impossivel, com effeito, passar-se naturalmente da +noção d'uma substancia una, simples e apenas virtualmente susceptivel +d'omnimodas modalidades, para a rica e quasi infinita variedade dos +seres e qualidades de que se compõe a universal realidade. Que importa +que essa doutrina sibyllina nos diga que a sua substancia una e simples +é virtualmente susceptivel de toda a variedade de formas e qualidades? A +questão está justamente em se saber como é que, sendo una e simples, tal +substancia póde effectivamente dar de si o movimento e a variedade. + +Sobre isto (e isto é justamente o nó vital da questão) é muda a +doutrina. + +Como é que essa substancia una e simples se determina? como é que, sendo +una e simples, se póde dar n'ella opposição, diversidade, movimento? + +A concepção monistia implica continuidade--e tudo no universo é +descontinuo; implica simplicidade--e tudo no universo é complexo: +implica inalterabilidade e indistincção--e tudo no universo é perpetua +mudança, differenciação e instabilidade. + +O nosso auctor levanta se desdenhosamente contra o atomismo. Entretanto +o seu monismo, ou é cousa nenhuma, ou tem de se resolver na ideia de +atomo. Pois o que está no fundo da concepção atomista? A ideia da +descontinuidade da materia. E tal ideia impõe-se: impõe-se como um facto +á sensação; impõe-se como um postulado á sciencia, que, sem presuppor a +descontinuidade, é incapaz d'avaliar e exprimir por numeros (e é esse o +typo e a forma perfeita do conhecimento scientifico) seja o que fôr na +successão dos phenomenos; impõe-se finalmente á especulação, que não +póde conceber movimento onde não ha distincção, opposição e successão, e +não póde pensar a distincção sem pensar _ipso facto_ a descontinuidade. + +Foi precisamente esta objecção que encontrou deante de si e contra a +qual veio desmanchar-se a physica cartesiana com a sua ideia da +materia-extensão. + +Como se concebe o movimento numa tal materia? perguntava-lhe o atomista +Gassendi. E Boileau, com o seu solido bom senso, resumia a questão nos +dois versos celebres: + + C'est en vain que Rohault sèche pour concevoir + Comment, tout étant plein, tout a pu se mouvoir + +O snr. V. de Lima, levantando-se, com os seus mestres, contra o +atomismo, e acceitando ao mesmo tempo, com as sciencias physicas, a +reducção da ideia de materia á de movimento, mostra mais uma vez a +inconsistencia do monismo no terreno das ideias geraes da natureza e a +falta de analyse segura que patenteia a concepção fundamental sobre que +assenta. + +Declamar contra o atomismo é facil: evitar com uma palavra vaga e ao +mesmo tempo pomposa as difficuldades que envolve a concepção da materia, +é mais facil ainda: mas não é isso o que se espera de verdadeiros +philosophos; e uma tentativa de philosophia da natureza, só merecerá +este nome, quando sobre a analyse das ideias de substancia, força e +movimento se assente uma doutrina da materia que satisfaça ao mesmo +tempo ás exigencias puramente racionaes da especulação e as mais +praticas da indagação scientifica. Nada d'isto encontro no monismo de +Haeckel e seus discipulos: o terreno sobre que pretendem construir está, +quanto a mim, muito longe de ser solido. + + + + +SEGUNDO ARTIGO[C] + + +Falta-me ainda encarar, n'esta esphera da ideia de materia, a concepção +monista, sob um outro ponto de vista. É o da espontaneidade da materia. + +O snr. Vianna de Lima affirma, por assim dizer, dogmaticamente, nas suas +_Observações preliminares_, essa espontaneidade e protesta contra a +physica da inercia: entretanto, todo o seu livro, toda a sua maneira de +comprehender a evolução presupõe a inercia da materia. É que d'uma +affirmação a uma theoria vae uma certa distancia, e não me consta que +algum dos mestres do monismo tentasse ainda formular essa theoria. O +assumpto envolve com effeito uma difficuldade, que me parece exceder a +capacidade especulativa dos doutores monistas. + +A ideia da espontaneidade da materia (ideia puramente especulativa, em +que peze ás pretensões do positivismo dos nossos naturalistas +philosophos) parece estar em contradicção com a theoria da conservação +do movimento, que domina nas sciencias physicas e já em grande parte nas +sciencias da organisação. + +Não vejo que a doutrina monista resolva, como ella póde ser resolvida, +n'uma esphera superior, esta contradicção. Pelo contrario, no livro do +sr. V. de Lima, pela maneira por que o principio da conservação do +movimento é applicado, sem a menor reserva ou explicação, desde a +physica até á psychologia, e a evolução apresentada como o exclusivo +resultado do puro mechanismo, a espontaneidade da materia, praticamente +e apesar das affirmações preliminares, é constantemente desconhecida, ou +antes, é negada implicitamente a cada instante. De facto, é como se o +livro todo não tivesse outro fim senão destruir a these estabelecida nos +prolegomenos--these que todavia é, philosophicamente, o seu fundamento. +Com effeito, se havemos de entender que todo o movimento, seja de que +ordem fôr, é não só condicionado por um movimento anterior, mas +realmente e exclusivamente uma transformação d'esse movimento anterior, +é claro que tal concepção do movimento exclue _in limine_ a ideia de +espontaneidade. A condição passa a ser causa: o effeito, mera prolação +da causa, é uma apparencia sem ser proprio, sem autonomia. + +Consideremos mais de perto a contradicção que d'aqui resulta. Se, por um +lado, a materia em geral é dotada d'espontaneidade, isto é, se o +movimento lhe é inherente; mas se, por outro lado, qualquer movimento +particular e todo e qualquer movimento se reduz no fundo, a uma simples +transformação das acções anteriores que o condicionam; pergunta-se: como +se consegue então a espontaneidade geral e theorica da materia? Se o +movimento *A* se reduz a uma simples transformação do movimento *B*, que +o condiciona e não *é* por isso espontaneo, o movimento *B* está para +com o movimento *C*, que por seu turno o condiciona, exactamente na +mesma relação, assim como o movimento *C* para com o movimento D, o +movimento *D* para com o movimento *E* e assim indefinidamente--de sorte +que em parte alguma se encontra movimento espontaneo. O que significa, +pois, a espontaneidade attribuida theoricamente á materia? E, sobre +tudo, como se explica o proprio facto do movimento, que d'este modo está +em toda a parte sem estar em parte alguma? que é por toda a parte +effeito, sem ter causa em parte alguma? como se concebe esse modo de +ser, que, não tendo autonomia em nenhum dos pontos onde se realisa e +realisando-se universalmente, parece ser e não ser ao mesmo tempo? + +Ainda por este lado, se me não engano, a ideia da materia, segundo os +monistas, está muito longe de apresentar a definição e consistencia +necessarias. Ora essa idéa tem de ser a pedra mestra de toda a +construcção philosophica na esphera da natureza. A final de contas bem +apertada e espremida, a doutrina da materia, segundo a philosophia +monista, reduz-se, como creio ter mostrado, ás noções correntes, nas +sciencias physicas, de atomo e força. Não só não ha n'ella originalidade +alguma, mas o que é peior, apresentam-se nos aquellas noções envolvidas +nevoentamente n'uma concepção vaga, d'onde é necessario extrahil as e, +no fim de tudo, em vez de esclarecidas e aprofundadas, obscurecidas por +forma tal que nada ha de lucido e fecundo a tirar d'ellas para uma +comprehensão superior e verdadeiramente philosophica dos phenomenos da +natureza. + +Com as observações que acabo de fazer não pretendo de modo algum +contestar o valor e a legitimidade, na esphera das sciencias physicas, +das noções de materia, atomo, força e movimento, nos limites em que a +sciencia emprega estas noções: ellas não são, com effeito, para a +sciencia mais de que hypotheses, restrictas a um determinado campo e não +tendo por fim senão a coordenação racional d'uma determinada ordem de +phenomenos, d'um determinado aspecto da phenomenalidade. A sciencia, +usando d'estas noções, não pretende impol-as fóra da sua esphera, nem +dal-as em absoluto, como explicação ultima e irreductivel das cousas. A +conservação do movimento, scientificamente, é um facto: um facto, que +pela sua generalidade, envolvendo a explicação de innumeros outros +factos, tem o valor d'uma theoria, mas d'uma theoria puramente +scientifica. Se a conservação do movimento implica o determinismo, +implica-o só nos limites e no ponto de vista do puro mechanismo, no +ponto de vista da realidade como systema de movimentos--sem que a +sciencia possa ou pretenda concluir d'ahi para um outro ponto de vista, +que não é o seu, e em que o mechanismo já não apparece como o limite e +termo ultimo do conhecimento. + +Sciencia e especulação (volto a repetil-o) são cousas muito diversas, +embora dependentes uma da outra, e o que basta á sciencia não é +sufficiente para a especulação. Ideias, que no terreno scientifico +bastam e são por isso, n'esse terreno, muito legitimamente consideradas +irreductiveis, não bastam já nas regiões da especulação, onde com +effeito são reductiveis a categorias mais transcendentes. Se o conjunto +das sciencias não póde, como todos os verdadeiros pensadores reconhecem, +supprir a philosophia ou substituir-se a ella, é justamente porque o +conjuncto das ideias geraes das sciencias, não inclue em si a totalidade +dos elementos racionaes da comprehensão do universo, mas apenas o +conjuncto d'esses elementos no ponto de vista da phenomenalidade. Ora o +monismo, attribuindo ao ponto de vista das sciencias physicas um +caracter absoluto, arvorando as ideias geraes d'um grupo de sciencias em +ideias ultimas e irreductiveis, exorbitou da sciencia sem ao mesmo tempo +fazer acto de philosophia. É o que talvez consiga mostrar ainda mais +claramente, fazendo a critica da ideia de evolução segundo os monistas. + + + + +TERCEIRO ARTIGO[D] + + +A theoria geral da evolução, diz o snr. Vianna de Lima (e são estas as +primeiras palavras do seu livro) não é _um systema_; é a synthese +comparativa, a conclusão que sae do conjuncto de todos os factos +positivos que o espirito humano tem podido até agora abraçar.... é a +unica concepção racional e verdadeiramente scientifica do mundo». + +É necessario fazer aqui uma distincção importante. A evolução não é, com +effeito, um systema no dominio circumscripto de cada uma d'aquellas +sciencias onde esta ideia, por assim dizer, se impõe, onde mil factos a +confirmam e onde fóra d'ella seria impossivel encontrar-se um principio +geral de coordenação. Ahi, sem duvida, a evolução não é um systema, mas +propriamente uma theoria scientifica. + +Mas estarão n'este caso todas as sciencias? De modo algum. + +A ideia de evolução não intervem senão onde o elemento historico +representa um papel proeminente, isto é, acima de tudo, nas sciencias da +organisação (incluindo n'este grupo a anthropologia e fazendo participar +d'elle as sciencias sociaes, nos limites em que estas teem um caracter +biologico) e depois ainda, mas d'uma maneira menos necessaria e menos +definida, na astronomia, ou propriamente, astrogenia. É só ahi que a +divisão do trabalho se exerce, differenciando gradualmente e como que +analyticamente as formas contidas virtualmente e, por assim dizer, +envolvidas n'um germen ou facto primeiro, que é o ponto da partida de +toda a serie. A physica e a chimica, porem, estão completamente fóra dos +dominios da ideia de evolução. A chimica parece reduzir-se toda á +atomicidade, e a maior ou menor complexidade de composição não foi nunca +considerada como um desenvolvimento, assim como a irredectubilidade dos +corpos chamados simples, se não é um dogma, é certamente um facto que se +impõe á sciencia e que, emquanto assim se impozer, obstará a toda a +theoria geral evolucionista dos phenomenos chimicos. Por outro lado, +entre as forças physicas, não ha hierarchia, mas parallelismo, e a +reductibilidade d'umas ás outras implica unidade, mas não evolução, +cousas bem distinctas. + +Onde está, pois, a generalidade scientifica da ideia de evolução? A +verdade é que uma theoria positiva da evolução, como o sonham os +monistas, _essa synthese comparativa que sae do conjuncto de todos os +factos positivos_ só seria possivel se se dessem duas condições +capitaes: 1.^o que a ideia de evolução se impozesse a toda a ordem de +phenomenos, ou (o que para nós vale o mesmo) presidisse superiormente a +todas as sciencias: 2.^o que alem de explicar, dentro do districto de +cada sciencia, os factos n'elle comprehendidos, explica-se tambem a +passagem evolutiva de cada uma d'essas ordens para a sua immediata, sem +ter de recorrer a nenhuma ideia nova e superior. + +Ora, nenhuma d'estas condições se realisa. + +A ideia d'evolução (como já indiquei, e por isso não insisto n'este +ponto) só impera em certas sciencias e, por conseguinte, n'uma esphera +limitada da phenomenalidade. + +Em segundo logar, a passagem d'uma determinada ordem de phenomenos para +outra não se póde explicar evolutivamente, no terreno rigorosamente +scientifico, porque, n'esse terreno, o elemento commum d'essas varias +ordens é só um elemento abstracto, o movimento, que pela sua mesma +abstracção, não é capaz de dar razão do que ha de especial em cada uma +d'ellas e a caracterisa, isto é, a forma ou funcção especial que +representa. É assim, por exemplo, que embora os phenomenos vitaes se +reduzam, em ultima analyse, ao movimento, isto é, a grupos e combinações +complexas de movimentos elementares, nem por isso a vida pode ser +satisfactoriamente definida como um modo de ser do movimento; porque uma +tal definição, pela sua mesma abstracção, nada define; nem o quadro de +todos esses movimentos póde ser dado como equivalente á ideia synthetica +da vida; nem, finalmente, a concepção mechanica da vida representará +outra cousa mais do que um aspecto da phenomenalidade da vida e nunca a +concepção mesma da vida. + +Parece-me claro, em vista d'isto, que a doutrina de evolução formulada +por Haeckel e seus discipulos não é de modo algum, como se pretende, uma +doutrina positiva, fundada nas sciencias e sahindo d'ellas como a sua +natural consequencia. Creio ter mostrado que essa doutrina implica uma +extensão abusiva da inducção scientifica e a illegitima generalisação +d'uma hypothese, que se é perfeitamente fundada no terreno de +determinadas sciencias, só ahi e só n'esse ponto de vista tem +authoridade scientifica. + +A doutrina monista tem, pois, em despeito das suas pretensões de +positividade, um caracter especulativo e é propriamente _um systema_, +uma construcção philosophica em que o _a priori_ representa um papel +preeminente: n'uma palavra, apezar dos elementos scientificos que +contem, não é uma doutrina scientifica, mas uma hypothese philosophica. + +Resta agora ver se, como hypothese philosophica, a ideia d'evolução, tal +como a concebem os monistas, apresenta aquella definição e consistencia +sem as quaes a mais ampla e brilhante hypothese é muito mais um producto +da imaginação, do que da razão. + +Creio que não apresenta. + +Especulativos inconscientes, os monistas especulam mal. Tal como a +concebem, a evolução, destituida de todos aquelles elementos de analyse +racional, que só lhe poderiam dar um verdadeiro cunho philosophico, não +é um principio: seria apenas (se as suas pretensões de positividade +fossem fundadas) um facto; facto culminante e universal, mas simples +facto e não principio. + +Ora os factos são apenas a materia prima da philosophia: são aquillo que +se pretende explicar, em quanto que só os principios fornecem o criterio +e o ponto de vista d'essa explicação; e a doutrina monista da evolução, +que, como doutrina positiva, como generalisação scientifica dos factos +da natureza, está muito longe de ser rigorosa e fundada, pecca por outro +lado gravemente, como hypothese philosophica, como doutrina +especulativa, pela falta d'analyse das ideias sobre que, para merecer o +nome de philosophia da natureza, se deveria apoiar. + +Com effeito, se o universo evolve porque é que evolve? Se a sciencia +nada tem que vêr com esta questão, a philosophia é que tem muito e +tudo--e já mostrei que é sómente como tentativa philosophica de +explicação que o evolucionismo monista deve ser considerado. + +Uma theoria geral philosophica do desenvolvimento das cousas implica, +pois, uma theoria da razão de ser d'esse desenvolvimento. Sobre esta +questão essencial o monismo é peior do que mudo; é absurdamente +negativo. + +A ideia de evolução implica necessariamente a de finalidade; esta contem +a explicação racional d'aquella, que, só por si, é inintelligivel e até +contradictoria. Se o movimento, acto essencial da materia, é autonomo (e +é esta a these monista fundamental) tal movimento não póde ser concebido +senão como um impulso espontaneo, por conseguinte, como uma verdadeira +determinação voluntaria: ora onde ha determinação voluntaria sem mobil, +sem fim? Pois não é precisamente o fim que determina a vontade, e que +explica o acto? Um movimento autonomo, que não tende a um fim, é +perfeitamente inconcebivel: pois se não ha fim porque e para que o +movimento? A ideia de finalidade é a pedra angular de toda a construcção +philosophica no terreno da natureza. + +Assim o comprehendeu Leibnitz na sua Monadologia, assim o comprehenderam +Schelling e Hegel, os verdadeiros paes da moderna philosophia da +natureza. + +O horror pueril á metaphysica e a pretensão chimerica de fundar uma +philosophia da natureza positiva e exclusivamente architectada no +terreno da sciencia levou Haeckel (e muitos outros atraz d'elle e com +elle) a desconhecerem a importancia capital da ideia de finalidade e a +minarem aquillo que justamente lhes deveria servir de primeiro +fundamento para o edificio que levantavam. É o que espero deixar +suficientemente provado no meu proximo artigo. + + + + +QUARTO ARTIGO[E] + + +O Snr. Vianna de Lima consagra as ultimas 100 paginas do seu volume a +combater a ideia de finalidade nos dominios da natureza e triumpha +facilmente dos theologos ou simili-theologos, que, despojando a materia +das suas propriedades espontaneas e da sua infinita virtualidade, veem +em tudo os effeitos d'uma direcção exterior e se extasiam diante das +harmonias intencionaes da Criação. + +Era facil o triumpho. Sómente, o snr. Vianna de Lima tomou a nuvem pela +deusa, tomou a concepção infantil e anthropomorphica da finalidade pela +propria ideia metaphysica de finalidade. + +Se o snr. Vianna de Lima se despojasse por algum tempo dos seus habitos +de pensamento de puro naturalista e estudasse um pouco os tão +abominaveis metaphysicos, não só Leibnitz e Hegel, mas ainda o +representante nosso contemporaneo da alta especulação, Hartmann (que é, +não menos do que foram aquelles dois, profundamente versado nas +sciencias da natureza) veria que a ideia de finalidade não se reduz, +como lhe parece, áquella concepção anthropomorphica, que com tão facil +felicidade refuta no seu livro. Veria que a finalidade póde ainda ser +concebida como immanente á materia e como aquelle segundo elemento que +vem integrar, juntando-se ao movimento, a noção da realidade; que, +n'este caso, longe de ser contradictoria com a espontaneidade do +movimento, é justamente a explicação do movimento; que o que parece +effeito, no ponto de vista do puro mechanismo, é causa no ponto de vista +da finalidade, sem que uma cousa repugne á outra, porque são duas +espheras do conhecimento, que ao mesmo tempo que se oppõem, +reciprocamente se completam. + +Perceberia então uma cousa, e é que, não só o movimento em geral (o +movimento em si, independentemente de qualquer ideia de desenvolvimento) +é racionalmente inexplicavel e, por conseguinte, inconcebivel sem a +ideia de finalidade ou de causa-final, mas que mais particularmente a +evolução, isto é, o movimento como hierarchia ou desenvolvimento, +implicando a ideia d'um typo, que as formas evolvendo, tendem a +realisar, implíca por isso mesmo uma finalidade. + +O typo é realisado na serie, não é um producto d'ella: pois, se fosse um +producto, como se explicaria a serie? Quem diz evolução diz progresso. +Ora, progresso que não tende para cousa alguma, que não tem um typo e um +fim, não se comprehende. Se não ha typo, não ha medida ou termo de +comparação na serie, não ha, por conseguinte, hierarchia: ha variedade +de formas parallelas e equivalentes; mas não desenvolvimento. + +No meio d'essa multidão de formas inexpressivas, tudo será igualmente +perfeito ou imperfeito: haverá ainda transformismo; mas não haverá +evolução progressiva. + +É assim que o ultimo capitulo do livro do snr. Vianna de Lima deita por +terra a doutrina estabelecida laboriosamente nos que o precedem. É assim +que metade da doutrina de Haeckel deita por terra a outra metade. É +assim que uma philosophia da natureza que pertende não ser uma +philosophia especulativa, acaba por não ser cousa alguma. + +Que concluiremos de toda esta critica? Concluiremos em primeiro logar, +que os naturalistas, quando não são ao mesmo tempo philosophos, não +podem construir uma philosophia da natureza que se sustenha de pé. +Concluiremos, em segundo logar, que não póde haver, por muito que se +apregoe, philosophia da natureza positiva (puramente scientifica), assim +como em geral não póde haver philosophia positiva. O erro commum em que +laboram os positivistas das differentes communhões (são varias, e todas +egualmente positivas) é este: que o conhecimento scientifico é o typo do +conhecimento, o conhecimento ultimo e perfeito; e que, por conseguinte, +esgotando o ponto de vista scientifico a comprehensão da realidade, +basta reunir em quadro as conclusões de todas as sciencias, ou +generalisar as ideias fundamentaes communs a todas ellas para se obter a +mais alta comprehensão das cousas, a que nos é dado aspirar. D'aqui a +chimera d'uma philosophia positiva. + +Não seria chimera, se com effeito o conhecimento scientifico +representasse o conhecimento supremo e definitivo, e não apenas uma +determinada esphera do conhecimento. Nesse caso a generalisação dos +dados scientificos corresponderia a uma verdadeira synthese e a +abstracção suprema dos elementos da realidade tomaria o logar das ideias +da razão. Infelizmente ou felizmente (que isso importa pouco) a razão +subsiste e com ella o ponto de vista das ideias metaphysicas de +_substancia_, _causa_ e finalidade_ ás quaes tem de ser referidas, em +ultima instancia, as conclusões da sciencia. E porque? Porque essas +conclusões, ainda nas suas mais vastas e deslumbrantes generalisações, +não se explicam a si mesmas e, representando apenas as grandes linhas e +como que a estructura abstracta do mundo phenomenal, precisam ellas +mesmas de ser explicadas. Com o seu caracter abstracto são ainda factos, +e os factos precisam do reflexo da razão para se tornarem intelligiveis. +O conhecimento scientifico constitue apenas a região media do +conhecimento, entre o senso commum, d'um lado, e o conhecimento +metaphysico, do outro. É pois a rasão que tem, em ultima instancia, de +se pronunciar sobre o valor e o logar, na comprehensão total do +universo, dos dados quer do senso commum quer da sciencia. Essa +comprehensão total é que é a philosophia: edificio sempre em +construcção, sempre renovado nos seus materiaes (que o progresso dos +conhecimentos positivos lhe vae fornecendo dia a dia) sempre instavel e +ao mesmo tempo sempre de pé, e que sendo sempre incompleto nunca se pode +dizer insufficiente, porque, tal como é, corresponde ás mais altas +faculdades do espirito humano, abriga as mais sublimes aspirações, +tormento e gloria ao mesmo tempo, d'este mysterioso animal racional +chamado homem. + +E eis ahi porque uma philosophia positiva é uma chimera. Quem diz +philosophia diz idealismo. Só o systema das ideias contem inteira a +explicação do systema das cousas. O movimento não esgota o ser: o ser +implica movimento e ideia. Os naturalistas, desprezando ou ignorando as +ideias, ignoram metade das cousas e a sua philosophia é só meia +philosophia, ou antes, é só um arremedo da philosophia. _Tudo quanto é, +é racional_, disse Hegel. + +Pretender amputar a razão é pretender amputar a realidade. + +É dentro da razão, não fóra d'ella, que teem de ser marcados os limites +do conhecimento. Só no ponto de vista total da razão se resolvem as +contradicções que a realidade apresenta, como outras tantas esphinges á +intelligencia indagadôra. + +Materia e espirito, determinismo e liberdade, evolução e finalidade, não +são ideias contradictorias senão na apparencia: de facto, são só duas +espheras differentes da comprehensão, these e antithese, cuja synthese é +a razão. + +Assim, uma philosophia da natureza, tal como a concebo, uma philosophia +da natureza á altura, não só do grande seculo das sciencias naturaes, +mas do grande seculo de Kant e Hegel, não tem que regeitar o +determinismo universal e a evolução como uma forma mechanica d'esse +determinismo: mas o que não póde é ficar ahi. + +Determinismo e evolução serão apenas o seu ponto de partida, a forma +universal da phenomenalidade, que a generalisação scientifica lhe +fornece e que ella, a philosophia, terá d'analysar e interpretar á luz +das ideias. Só assim terá satisfeito não só á rasão especulativa, mas ás +exigencias não menos imperiosas da consciencia humana. + +Digo da consciencia humana; e é este um outro aspecto, e aspecto capital +da questão que é necessario por em evidencia. Muitos dirão:--que tem que +ver a philosophia com a consciencia humana? Responder-lhes-hei:--tem +tudo. Por uma singular aberração, são justamente os que mais falam de +positivismo e factos positivos os que parecem esquecer ou ignorar que a +consciencia humana é um facto, que a sua actividade, expressa e +objectivada em milhares de manifestações, desde os codigos até á poesia, +e atravez de milhares d'annos, constitue uma ordem de factos tão +positivos e tão irrecusaveis como os da physica ou da astronomia. E +estes factos não são só positivos e evidentes: são ainda culminantes, +pois os phenomenos sociaes e moraes, tendo atraz de si todas as outras +ordens de phenomenos e apoiando-se n'ellas, constituem o ponto mais alto +da serie evolutiva das cousas. + +Os factos da consciencia humana são, pois, não só factos positivos, mas +os factos positivos culminantes. + +Ora que diriamos d'uma philosophia, que não podesse explicar, mais, que +estivesse em contradicção com os factos da physica, por exemplo, ou de +chimica? Diriamos ser uma philosophia não só incompleta, mas falsa. E +que pensaremos então d'uma philosophia, que não só consegue explicar, +mas está em flagrante contradicção com factos tão positivos como +aquelles, e, alem de positivos, superiores e culminantes? + +A consciencia humana é, pois, verdadeiramente um criterio philosophico, +n'este sentido que uma philosophia incapaz de explicar +satisfactoriamente os phenomenos da consciencia, ou em contradicção com +elles, é uma philosophia incompleta, ou errada, por deixar de fóra, ou +contradizer, uma parte e justamente a parte mais importante da +realidade. + +Este criterio bastaria só por si (alem de tudo que atraz fica dito) para +condemnar toda a philosophia puramente materialista, sob qualquer forma +em que se apresente:--mecanismo atomico, determinismo scientifico, +monismo ou pantheismo naturalista. Sob qualquer destas formas, o +materealismo envolve, o que é a sua essencia, a reducção de toda a ordem +de phenomenos a forças elementares, sujeitas a uma determinação cega, +mechanica e sem fim intelligivel: envolve a negação de todo o elemento +racional nas cousas, reduzindo ao mesmo tempo as affirmações da +consciencia a puras illusões subjectivas. + +A critica do materialismo, n'este ultimo ponto de vista, tem sido mil +vezes feita e não preciso reproduzil-a aqui. + +O que quero é fazer sentir quanto o monismo evolucionista da escola de +Haeckel (que não é mais do que uma forma do materialismo) cuja maior +pretensão é ser uma philosophia positiva da natureza, ainda por este +lado não é positivo, por não poder explicar uma ordem inteira e a mais +importante dos factos do universo. + +Declarar que a liberdade e o sentimento moral são meras illusões +subjectivas, e que os mais intimos e mais autonomos phenomenos da +consciencia resultam apenas d'acções mechanicas e são a transformação +d'essas acções--é facil. Agora o que não é facil, porque é simplesmente +impossivel, é explicar e fazer comprehender (como ha poucos annos ainda +Du Bois-Reymond perguntava a Haeckel) como é que o movimento, um grupo +de movimentos por mais complexo que o supponhamos, pode produzir, não já +os factos superiores da vida do pensamento, mas o mais elementar, a +simples sensação? Deante d'esta simples pergunta desaba todo o edificio +do monismo. A vida moral não é cousa que se decomponha em retortas, nem +se descobrirá jámais o equivalente mechanico do genio ou da virtude: + + _There are more things in heaven and earth, Horatio, + Than are dreamt off in your philosophie_ + + + + +QUINTO ARTIGO[F] + + +Pretenderei eu accaso com esta critica, contestar o valor dos trabalhos +da escola monista, ou ainda a sua importancia philosophica? + +De modo algum. + +O que eu contesto é o valor do seu systema, como systema, o que eu +censuro é a pretensão de fundar uma philosophia da natureza com a +simples generalisação dos dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em +conta o indispensavel criterio das ideias. Mas abstrahindo d'estas +pretensões, a tentativa de Haeckel, considerada em si, tem um alto +valor. Tem-no, sobre tudo, como symptoma da tendencia, que cada vez mais +se manifesta na esphera da sciencia para uma unidade de comprehensão, +que assentando rigorosamente no terreno scientifico, saia ao mesmo tempo +da analyse e abstracção inherententes á sciencia, procurando como +formula, uma ideia de caracter synthetico, isto é, uma ideia +propriamente philosophica. + +Esta tendencia é sem duvida alguma, o facto intellectual mais importante +do seculo actual e um d'aquelles em que mais se traduz d'um lado, a +influencia d'ora em deante cada vez mais predominante do criticismo de +Kant, e do outro, a feição eminentemente positivista do espirito +moderno. Se uma philosophia positiva é e será sempre, como já mostrei, +uma chimera, a acção e authoridade directa da sciencia na philosophia +será d'aqui em deante (quero dizer depois da _Critica da Rasão pura_) um +facto que tem de se impor a todos os pensadores. + +Mas acção e auctoridade da sciencia na philosophia é uma cousa, e +philosophia positiva, outra. As ideias syntheticas da philosophia não +saem das sciencias, não são simples generalisações scientificas: são um +producto da especulação e quando chegam a apparecer no terreno +scientifico é infiltradas para ali das regiões da especulação, é porque +a especulação as forneceu, sob forma de hypothese, á sciencia. Não cabe +em escrito d'estas dimensões expor a theoria da hypothese. Bastará +mostrar como a theoria geral da evolução, hoje com tanto vigor e brilho +formulada por Haeckel e seus concorrentes ou discipulos, longe de ser, +como vulgarmente se imagina, uma _descoberta_ das sciencias naturaes e +um resultado directo da analyse scientifica, é, pelo contrario, uma +verdadeira hypothese philosophica, que, producto da elaboração +especulativa de perto de trez seculos, acabou por se manifestar no +dominio das sciencias. + +Com effeito são mais fundas as suas raizes, mais longiqua a sua +procedencia. + +Essa ideia não saiu das sciencias naturaes, mas penetrou n'ellas pela +influencia (obscura, é certo e indirecta, mas muito real) das noções +metaphysicas lentamente elaboradas, a partir da renascença, dentro da +ideia fundamental de _natureza_. A maneira dynamica, autonomica, +realista, de conceber a natureza é o que mais radicalmente distingue o +pensamento moderno do antigo. A natureza para o pensamento antigo, e +ainda para o mais genial dos seus intrepretes e o mais objectivo, +Aristoteles, era concebida como abstracta, inerte, passiva: longe de +parecer concreta e espontanea, era considerada apenas como um reflexo, +acto ou emanação d'um ser ou seres transcendentes e perfeitos: as +_ideias_ de Platão, a _intelligencia_ de Anaxagores, o _motor immovel_ e +as _formas substanciaes_ de Aristoteles etc.) exteriores a ella e só +verdadeiramente autonomos. Esta maneira de conceber manteve-se pela +Escolastica e pela Theologia christã, até á Renascença. A partir dos +ultimos tempos da Edade-media, com a dissolução da philosophia +escolastica e as revoluções de toda a especie, intellectuaes, sociaes +religiosas, que annunciam a aurora dos tempos modernos, dá-se nas +regiões mais profundas da intelligencia humana uma fermentação +extraordinaria, que se exprime, ainda com pouca consciencia do seu +proprio alcance, nas creações da astronomia e da physica modernas +(Kopernico, Keppler, Galileo, Torricelli) e nas reformas philosophicas +de Bacon e Descartes; que se avigora com Leibnitz e Spinosa e com os +primeiros trabalhos de physiologia, botanica e sciencias sociaes +(Gesner, Harvey, Malpighi, Boerhaave, Hobbes, Grocio, Vico, Lessing, +etc.) para acabar, plenamente consciente no seculo XIX, por se affirmar, +não já n'esta ou n'aquella ordem de phenomenos, mas em todas as espheras +da actividade humana, nas sciencias, na philosophia, na sociedade civil +e politica e na propria arte e poesia contemporaneas. O naturalismo é +para os tempos modernos o que foi o racionalismo para a Antiguidade:--a +formula mais geral da sua actividade. + +A doutrina da evolução é apenas uma das determinações, a mais recente e +porisso a mais intensa, e intima, do naturalismo moderno. + +E convirá notar que o seu apparecimento é simultaneo na astronomia, na +geologia, na biologia, na linguistica e na historia: Lamarck, Laplace, +Werner, Goethe, Geoffroy Sainte-Hilaire, Herder, Saint-Simon, Bopp, +Adelung, são contemporaneos, ou proximamente contemporaneos. + +O evolucionismo dentro das sciencias da natureza não é mais do que a +applicação a uma ordem de factos do principio fundamental do pensamento +moderno, uma das suas determinações particulares. + +Mas esse principio é uma hypothese geral e, como todas ideas +syntheticas, um resultado da especulação, não é um facto positivo. Se +apparece no dominio das sciencias, é como hypothese philosophica, não +como lei scientifica. Se as sciencias da natureza e da sociedade +convergem hoje no sentido da evolução, convergem movidas pelo influxo +intimo do estado mental-metaphysico que as envolve, não pela força +exclusiva e independente do seu desenvolvimento proprio. Não ha, como se +pretende, a eliminação do elemento metaphysico pelo elemento +scientifico: ha uma mutua penetração; penetração da especulação na +sciencia, pela hypothese que a vem fecundar; penetração da sciencia na +especulação, pelo correctivo imposto, em nome da realidade, dos factos +positivos, ao á-priorismo inherente ao pensamento especulativo. + +E é por isso que o concurso da sciencia e da especulação é indispensavel +para a constituição definitiva da philosophia moderna (da qual todos os +systemas, desde Bruno e Bacon até aos nossos dias são apenas esboços e +prenuncios), para a organisação systematica do pensamento moderno em +todas as suas determinações. + +Creio com Haeckel, assim como com Schelling, Hegel, Hartmann, Comte e +Spencer, que é no terreno da evolução que essa grande synthese tem de +ser construida, e que, depois do seculo XVIII e depois de Kant, já não é +possivel uma philosophia que não seja essencialmente uma theoria geral +do desenvolvimento, isto é, uma philosophia da evolução. Mas creio +tambem que a organisação da ideia d'evolução n'essa theoria geral do +desenvolvimento é problema que excede muito a capacidade especial das +sciencias da natureza, quero dizer, a esphera theorica d'essas +sciencias, porque excede os limites e alcance do puro espirito +scientifico. + +A metaphysica do seculo XIX apezar do descredito em que momentaneamente +parece ter caido, não disse ainda a sua ultima palavra, nem abdicou. Se +a conclusão final das sciencias tem de ser, como creio, o mechanismo +universal, a conclusão final do pensamento metaphysico tem por seu lado +de ser o universal idealismo. Mas já hoje se começa a comprehender que +entre estes dois termos não ha contradicção essencial e que esta _these_ +e _antithese_ é reductivel a uma _synthese_, que satisfaça plenamente +tanto a sciencia como a especulação. Essa synthese em que o idealismo +apparecerá com complemento necessario do mechanismo já hoje se deixa +entrever; e creio que nem a todos parecerá temeridade e paradoxo, +concebel-a, como eu a concebo, nem idealista nem materialista no antigo +e mais usual sentido das palavras, mas num sentido novo e mais profundo, +como um _materíalismo idealista_. + +FIM + + + + +====================================================================== + Tiragem de 200 exemplares numerados +====================================================================== + + + + +TYPOGRAPHIA DO CAMPEÃO POPULAR + +Rua da Graça n.^o 15--Ponta Delgada + +*Estabelecimento fundado em 1889* + + + + +*Notas:* + +[A] _A Provincia_--N.^o 48, II anno--Porto, 1 de março de 1886. + +[B] Aliás de Iena. (E. P.) + +[C] _A Provincia_--N.^o 49--II anno--Porto, 2 de Março de 1886. + +[D] _A Provincia_--N.^o 50--II anno--Porto, 3 de março de 1886. + +[E] _A Provincia_--N.^o 51--II anno--Porto, 4 de março de 1887. + +[F] _A Provincia_--N.^o 52--II anno--Porto, 5 de março de 1887. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos +naturalistas, by Antero Tarquínio de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA *** + +***** This file should be named 26776-8.txt or 26776-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/7/7/26776/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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