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+The Project Gutenberg EBook of Villa Nova de Gaia, by João Vaz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Villa Nova de Gaia
+
+Author: João Vaz
+
+Editor: Teófilo Braga
+
+Release Date: August 23, 2008 [EBook #26411]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VILLA NOVA DE GAIA ***
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+Produced by Thanks to Pedro Saborano (produced from scanned
+images of public domain material from Google Book Search)
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+RARIDADE BIBLIOGRAPHICA
+
+
+GAIA
+
+ROMANCE
+
+POR
+
+JOÃO VAZ
+
+
+
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+PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A
+TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR NO ROMANCE COM FORMA ERUDITA NOS FINS
+DO SECULO XVI
+
+POR
+
+THEOPHILO BRAGA
+
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+COIMBRA
+IMPRENSA LITTERARIA
+1868
+
+
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+VILLA NOVA DE GAIA
+
+ROMANCE
+
+POR
+
+JOÃO VAZ
+
+DE EVORA
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+PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A
+TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE ANONYMO NO ROMANCE COM FÓRMA LITTERARIA
+
+POR
+
+THEOPHILO BRAGA
+
+
+COIMBRA
+IMPRENSA LITTERARIA
+1868
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+
+
+TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR
+
+NO ROMANCE COM FÓRMA ERUDITA NOS FINS DO SECULO XVI
+
+
+Não se póde conhecer a litteratura portugueza, ignorando o movimento das
+litteraturas da edade media da Europa; como a formaçao das linguas, do
+direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir
+tanto como a litteratura a unidade da grande raça neo-latina. Quasi
+todas as phases porque passaram as litteraturas italiana, franceza,
+hespanhola ou provençal, quer na fórma das primeiras poesias, nas
+novellas cavalheirescas, nas chronicas, ou nos contos decameronicos, no
+romance popular, ou no sentimento da natureza despertado pela
+Renascença, tudo, tudo, abertamente o sustentamos, se encontra na
+litteratura portuguesa.
+
+Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua
+gaguez pelo canto; em Portugal, os primeiros monumentos linguisticos que
+apparecem são essas canções do seculo XII e XIII que os criticos não tem
+sabido avaliar. Foi a poesia do povo, longo tempo desprezada pelas
+côrtes provençaes, que os livreiros mercenarios dos principios do seculo
+XVI atiraram ao vulgo, recolhida em _folhas volantes_.
+
+Foi assim que d'estas folhas dispersas se formaram os primeiros
+Romanceiros; Esteban de Najera, Martin Nucio, Andres de Villalta e Pedro
+de Flores juntaram os romances que andavam _discarriados_. A _Silva de
+varios romances_, de 1550, assignala a épocha da grande vulgarisação dos
+romances populares da Peninsula, que, ainda assim, para serem acceitos
+depois de colligidos, precisaram de se arreiar com o titulo de
+_Cancioneiro_, então preconisado pelo gosto erudito e provençalesco. Por
+este tempo o _Cancionero de Romances_ é reimpresso em Portugal, sendo a
+maior parte dos romances que cita já conhecida de Gil Vicente, e por
+conseguinte do povo portuguez. O _Romancero do Cid_ de Escobar e a
+_Primavera e Flor de Romances_ reproduziram-se tambem nos prelos
+portuguezes. O romance popular, simples de condição, franco, rude,
+tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não
+sabia abstrahir, dramatisava, accumulava as situações. Fôra preciso um
+genio superior para comprehender-lhe a ingenuidade profunda. Lope de
+Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar
+que o metro octosyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos,
+e pôz em fórma de romance os passos dolorosissimos da Paixão. Após elle
+seguiu-se a turba dos poetas; Juan de la Cueba, Garci Sanches, Lasso de
+la Vega, Segura, Timoneda vão reduzindo á fórma de romance todas as
+historias do mundo, desde a Biblia e historia da Grecia e Roma até aos
+Chronicons monasticos. O romance achou-se d'este modo despido da sua
+natural _sencillez_; tornaram-no declamador, quando elle mal sabia
+titubear, e se repetia nas grandes emoções; fizeram-no descriptivo, com
+uma abstracção subjectiva, que o desnaturava. D'esta degeneração
+inevitavel nasceram os romances mouriscos, que estafaram o gosto com
+tanta _Zaida y Adalifa_, como se queixa o _Romancero General_. O poema
+de _Gaia_ de João Vaz, de Evora, pertence a esta épocha, e é um precioso
+monumento que assignal-a na litteratura portugueza esta transformação. O
+romance popular, perdendo o genio rude, perdêra a fórma octosyllabica,
+ia tomando a fórma heroica da outava academica, como o poema de
+_Roncesvalles_ de Balbuena.
+
+Tornaram-se os romances do povo um pretexto para as _glosas_ dos poetas
+palacianos, que se serviam dos motes mais celebres para as suas
+galanterias.
+
+No _Cancioneiro Geral_ sómente se encontra com fórma de romance umas
+trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que
+principiam:
+
+ Eu era moça menina
+ per nome dona Inez, etc.[1]
+
+'Neste tempo a fórma do romance popular tinha sido despresada
+completamente; na colleção de romances antigos, feita em Anvers em 1550,
+encontramos o titulo de _Cancionero de Romances_, em que a palavra
+Cancioneiro se emprega para proteger com o valor que tinha a rudeza da
+tradição oral. No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, sómente se
+encontra o _rymance_:
+
+ Tyempo bueno, tempo bueno, etc.[2]
+
+Este romance é uma imitação dos dous celebres romances conservados no
+_Cancioneiro General_ de 1557: _Fonte frida, fonte frida_, e _Rosa
+fresca, rosa fresca_, muitas e muitas vezes glosados pelos poetos
+palacianos. O romance do _Tyempo bueno_, é algum troço conservado por
+causa da glosa que lhe fez Garcia de Resende. 'Neste tempo o
+renascimento das Canções provençaes distrahia os serões das principaes
+côrtes da Europa.
+
+O romance popular era antigo e invariavel; não se prestava a perpetuar
+as anecdotas e pequenas intrigas palacianas. Então começaram os poetas
+cultistas a glosar os romances mais celebres da tradição. Na _Poetica
+Española_ de Rengifo, publicada em 1592 (cap. XXXVIII), se lê: «No ha
+muchos años, que com[~e]çaron nuestros Poetas a glosar Romances viejos,
+metiendo cada dos versos en la seg[~u]da de las Redondillas. Y han sido
+tan bien recebidas estas Glossas, que les han dado los musicos muchas
+sonadas, y se cantan, y oyen com particular gusto.» O que refere Rengifo
+encontramol-o confirmado no _Cancionero Geral_ de 1511, conhecido em
+Portugal, por isso que d'elle encontramos traduzidas por Frei João
+Claro, monge de Alcobaça, a _Paraphrase do Padre Nosso_, da _Ave Maria_
+e do _Te Deum laudamus_ de Hernam Peres de Gusman, que se podem ver nos
+_Ineditos de Alcobaça_ de Frei Fortunato de Sam Boaventura[3]. O romance
+da _Bella mal maridada_ era glosado com predilecção pelos nossos
+Quinhentistas. Bernardim Ribeiro glosou o romance de Durandarte, aonde
+começa _Oh Belarma, oh Belarma_, já glosado até ao decimo verso no
+_Cancionero de Ixar_, fol. 138, e d'ahi por diante tirado da _Floresta
+de romances_[4].
+
+A todas estas causas de decadencia e transformação accresceu a
+prohibição das _folhas volantes_ pelo _Index Expurgatorio_ de 1581.
+
+
+
+Como Sepulveda, que tirava os seus romances das chronicas hespanholas,
+João Vaz, completou a tradição dos amores de _Gaia_ por algum documento
+escripto. Qual elle fosse ninguem o póde asseverar. É certo que se
+encontra a narração d'esses amores com esta fórma graciosa no _Livro
+velho das Linhagens_: «e este rey D. Ramiro se vê casado com huma
+rainha, e fege n'elle rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão
+que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Mayer:
+entom era rey Ramiro nas Asturias; e quando Abencadão tornou adusea para
+Gaia, que era seu castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa
+molher e pesoulhe eude muito, e emviou por seu filho D. Ordonho e por
+seus vassallos, e fretou saas naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar
+a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou pela foz cobriua de panos
+verdes, em tal guiza que cuidassem que erão ramos, cá entonce Douro era
+cuberto de huma parte e da outra darvores; e esse rey Ramiro vestiose em
+panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu corno, e falou com seu
+filho e com os seus vassallos que quando ouvissem o seu corno que todos
+lhe acorressem, e que todos juvecem pela ribeira per antre as arvores,
+fóra poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice estar a huma
+fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fóra do castello, e
+fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzela que servia a rainha
+levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella
+donzela havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e
+nem o conheceo, e el pediolhe dagoa pela aravia, e ella deulha por hum
+antre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo havia partido com
+sa molher a rainha pela meadade; el deose a beber, e deitou o anel no
+antre, e a donzella foice, e deo agoa á rainha, e cahiolhe o anel na
+mão, e conheceu ella logo; a rainha perguntou quem achara na fonte; ella
+respondeu qua não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe non
+negace, ca lhe faria por onde bem, e mercê; e a donzela lhe dice enton
+que achara hum mouro doente e lazarado, e que lhe pedira dagoa que
+bebece, e ella que lha dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce
+por el, e se o hi achasse que lho adusese. A donzela foi por el, e
+dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ella; e entonces rey
+Ramiro foise com ella; e el entrando pela porta do paço conheceo-o a
+rainha, e dicelhe--«Rey Ramiro quem te aduse aqui?»--E el lhe
+respondeu--«ca o teu amor»--: e ella lhe dice que vinha a morrer, e el
+lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice á donzela que o metese
+na camara, e que lhe não dese que comece, nem que bebece; e a donzela
+pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou
+Abencadão e derãolhe que jantace, e despois de jantar foice para a
+rainha; e desque fizerão seu plazer, dice a rainha--«se tu aqui tivesses
+rey Ramiro, que lhe farias?» O mouro então respondeo--«o que el a mi
+faria: matal-o.» Então a rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e
+ella assim o fez, e aduseo ante o mouro, e o mouro lhe disse--«es tu rey
+Ramiro?»--e elle respondeo--«eu sou»--e o mouro lhe perguntou--«a que
+vieste aqui?»--elrey Ramiro lhe disse entom--«vim ver minha molher que
+me filhaste a torto; ca tu havias comigo tregoas, e nom me catava de
+ti»--e o mouro lhe disse «vieste a morrer; mas querote perguntar: se me
+tiveces em Mier que morte me darias?»--Elrey Ramiro era muito faminto e
+respondeolhe assim--«eu te daria um capão assado e huma regueifa, e
+fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa (copa?) chea de vinho
+que bebesses: em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas
+as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um
+padrão, e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o folego.»--Então
+respondeo Abencadão--«essa morte te quero eu dar.»--E fez abrir os
+curraes, e fezes sobir em um padrão que hi entom estava; e começou rey
+Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sua gente pelo corno que
+lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe
+com seus vassallos, e meterãose pela porta do castello, e el deceuse do
+padron adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha,
+e descabeçando atá o menor mouro que havia em Gaia, andarão todos á
+espada, e nom ficou em essa villa de Gaia pedra sobre pedra que tudo nãa
+fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e
+quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora
+amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramiro deitouce a
+dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas
+della caerão a D. Ramiro pelo rostro, e el espertouse, e disselhe,
+porque chorava, e ella disselhe--«choro por o mui bom mouro que
+mataste»--e então o filho que andava hi na nave ouvio aquella palavra
+que sa madre dissera, e disse ao padre--«padre não levemos comnosco mais
+o demo»--Entom rey Ramiro filhou uma mó que trazia na nave, e ligoulha
+na garganta, e anchorouha no mar, e dês aquella hora chamarão hi Foz
+d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa corte, e contoulhe tudo como
+lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e louvoulho
+toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella hum filho, e
+quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom o padre, que
+lhe punha este nome por que seria padre e senhor de muito boa fidalguia;
+e morreo rey D. Ramyro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in
+pace[5].
+
+ [1] Fol. 221.
+
+ [2] Cancion. Geral, fol. 217.
+
+ [3] Vid. o meu Cancioneiro popular, pag. 31-39; notas, pag. 204.
+
+ [4] A edição da Bibliotheca Portugueza é detestavel; desconheceu a
+ celebre edição de Ferrara, e atribue a Bernardim Ribeiro a pag. 363
+ um soneto de Gongora, fazendo-o auctor do romance de Durandarte das
+ velhas colleções hespanholas.
+
+ [5] Mon. hist., II Scriptores, pag. 180-181. Esta mesma legenda se
+ encontra no Livro das linhagens do Conde Dom Pedro (Mon. Hist.,
+ ibid. pag. 274-277) com algumas variantes na acção.
+
+ Aqui agradecemos ao illustre philologo, o Sr. Dr. Pereira Caldas, a
+ valiosa offerta do unico exemplar conhecido do romance de _Gaia_, de
+ que nos servimos para a presente edição.
+
+
+
+
+BREVE
+COMPOSIÇAM E TRATADO,
+
+
+Agora novamente tirada das antiguedades de Espanha. Que trata de como el
+Rey Almançor morreo em Portugal junto á cidade do Porto, onde chamão
+Gaya, ás mãos del Rey Ramiro, & sua gente, donde tambem cobrou, & matou
+sua molher chamada Gaya, que estava com este Mouro, da qual ficou este
+lugar chamado de seu nome.
+
+ * * * * *
+
+Composto por João Vaz natural da Cidade de Evora, em verso de oitava rima.
+
+_Dirigido a dom Miguel de Meneses, Marquez de Villa Real, &._
+
+ * * * * *
+
+Foy visto, & approvado, pello Padre Frey Manuel Coelho.
+
+_Em Lisboa com todas as licenças necessarias._
+
+_Por Antonio Alvares._ 1630.
+
+ * * * * *
+
+
+Soneto ao Marquez.
+
+ A ti Varão insigne, & sinalado,
+ Da generosa stirpe Lusitana,
+ Author offerece este tractado,
+ Sobre esta Hystoria Mauritania.
+ Desse Rey Almançor desbaratado.
+ Pella gente Galega, & Castelhana,
+ Desse bom Rey Ramiro o esforçado,
+ Dos quais Reys ambos, a Historia emana.
+ Recebe pois Senhor esclarecido,
+ A obra, que o Author te apresenta,
+ Com amor, humildade, & cortesia.
+ Como que se desculpa de atrevido.
+ O que por paga toma, & se contenta,
+ Por servir a tam alta Senhoria.
+
+
+
+
+ARGUMENTO E DECLARAÇAM DA HISTORIA.
+
+
+Em tempo que reynava em Galiza, & parte de Espanha, o animoso Rei Ramiro
+que foy casado com h[~u]a Senhora chamada Gaya, tendo os Mouros
+occupada: a demais: por ser em tempo que se avia perdido Espanha entre
+outros Reys Mouros, reynava Almançor.
+
+Estes dous Reys, avendo entre si batalhas, em h[~u]a captivou Ramiro
+h[~u]a irmãa deste Almançor, a qual tinha por amiga; do que enojada
+Gaya, tratou com Almançor a quisesse furtar, que ella daria ordem como
+se fosse com elle, como deu, & a cobrou, & levou pera Portugal, que
+estava de Mouros, & a foy pór junto da Cidade do Porto, & junto do Rio
+Douro, sobre o lugar que agora chamão Gaya, onde Almançor tinha
+fortaleza, & paços, dos quaes oje em dia se vem os alicerces, &
+fundamentos. O que vendo Ramiro, ordenou demproviso tres Gales de
+armada, & com ellas veo aportar, a Sam João da Foz, mea legoa do porto,
+& sendo de noyte com ellas se entrou por o Rio Douro, sem serem sentidas
+dos Mouros, & cobertas de ramos por não serem vistas, tanto que
+amanheceo, Ramiro se pos em trajos de romeiro, & sayo em terra deixado
+em sinal aos seus, que se ouvissem tanger h[~u]a buzina que consigo
+levava lhe acudissem. E assi se foy guiando pera os paços deste Mouro, &
+antes disso chegou a h[~u]a fonte, onde com elle veo ter h[~u]a Moura,
+que vinha buscar hum pucaro de agoa, pera a mesma Gaya, o qual
+falandolhe em Aravia lhe pedio o pucaro pera beber por elle, & lho deu,
+& des que bebeo, tirando hum anel do dedo o deitou dentro, sem o ver a
+Moura. Bebendo Gaya conheceo o anel que era de seu marido Ramiro, & o
+mandou chamar, por ser já entam ido Almançor, & vendose, se abraçarão, &
+tratarão de matar o Mouro, & se hirem ambos, & pera isso o meteo em
+h[~u]a camara, pera que quando Almançor durmisse a sesta lhe desse
+rebate; nisto veo Almançor da caça, & sentado á mesa pera comer, esta
+Gaya lhe deu conta de Ramiro, & como vinha pera o matar, & assi o Mouro
+mãdou vir ante si a Ramiro, & passadas antre si rezões, por fim, disse
+Almançor, se eu Ramiro fora a tua casa pera te matar, que me fizeras?
+respondei, mandarate levar a hum alto, & com esta bozina te fizera
+tanger até que rebentaras, mandou Almançor, que isso lhe fizessem,
+levado ao alto, começou a tanger, & logo a gente de Ramiro acudio, &
+tomando os Mouros descuydados degolarão Almançor, & os mais, & foi
+saqueada a terra, & dessa Gaya ficou o nome ao lugar de Gaya, da Cidade
+do Porto.
+
+
+
+
+ROMANCE DE GAIA
+
+
+ Cantemos de Ramiro Rey de Espanha,
+ E del Rey Almançor de Berberia,
+ Quando por desventura tam estranha,
+ No mais de Espanha entam Mouros avia,
+ Com animo cruel, com cruel sanha,
+ Cada qual um ao outro pretendia,
+ Privar de sua fama, honra, estado,
+ Com todas suas forças, e cuydado.
+
+ Desse Ramiro digo o esforçado,
+ Que deste nome tres com elle hão sido,
+ Daquelle que com Gaya foy casado,
+ Por quem tantos trabalhos ha sufrido,
+ Da qual Gaya do Porto ha tomado;
+ Em Portugal o mesmo apellido,
+ Lugar junto do Douro em o Porto,
+ Onde foy Almançor preso e morto.
+
+ Por mãos deste Ramiro animoso,
+ No que se satisfez de sua afronta,
+ E lhe valeo em isso o ser manhoso,
+ Segundo a historia o aponta,
+ Que nam bastava ser Rey valoroso,
+ Que força sem saber muy pouco monta,
+ E os ardis he cousa muy notoria,
+ Que sam causa urgente de victoria.
+
+ Nem tratamos aqui das mais pendenças,
+ E batalhas antre estes Reys avidas,
+ Que forão muyto largas, e extenças,
+ E em chronicas estão bem referidas,
+ Só queremos tratar das differenças,
+ Que antre estes Reys forão movidas
+ Quando Ramiro ouve captivado
+ A irmãa de Almançor, e deshonrado.
+
+ Donde este Almançor tempo esperando,
+ A molher a Ramiro ha furtado,
+ No qual se foy emfim muy bem vingado,
+ Ou estava no furto melhorado,
+ De Gaya Almançor ficou gozando,
+ E com ella ficou como casado,
+ Assi que um peccado outro chama,
+ E fazem na maldade calo, e cama.
+
+ Vendose Almaçor com a tal presa,
+ Como Aguia Real voou com ella,
+ Logo que a furtou com ligereza
+ Perdeo de vista os Reynos de Castella,
+ E veo aqui portar nesta deveza
+ Do Douro onde então estava aquella,
+ Povoação, e paços, donde Gaya,
+ A qual ahi está junto da praya.
+
+ Ramiro tal ficou com esta nova,
+ Que se lhe deu la onde era ausente,
+ Que esteve em se meter em h[~u]a cova,
+ Não querendo viver antre a gente,
+ Não aver igual dor, he clara prova,
+ Porque de si he quasi impaciente,
+ Mas como he Christão, e Rey sabido,
+ A Deos logo então se ha socorrido.
+
+ Tanto, e mais chorava o seu peccado,
+ Que toda esta mesma desventura,
+ No que consiste o ser Christão chamado,
+ E nisto está o seu remedio, e cura,
+ Ramiro que em isto se ha fundado.
+ Ver quam pouco na vida o gosto dura,
+ A Deos se dedicou, o que Deos vendo,
+ Neste caso quis logo ir provendo.
+
+ E assi lhe inspirou que ordenasse,
+ H[~u]a pequena, e secreta armada,
+ De h[~u]as tres gales, e que guiasse
+ Aonde sua Gaya era levada,
+ E que como fiel bem confiasse,
+ Que por elle seria hi cobrada,
+ E o mesmo Almançor morto, e vencido,
+ Porque Deos o havia permetido.
+
+ Ordenou pois Ramiro com bom siso,
+ As tres gales darmada pella posta,
+ Com bonança vieram demproviso,
+ A Portugal a demandar a costa,
+ E por ella guiando sobre aviso,
+ Calados sem falar, nem dar resposta,
+ A Sam João da Foz forão surgidos,
+ De noyte sem dos Mouros ser sentidos.
+
+ Chegadas as gales a foz, e entrada,
+ Daquesse Rio Douro caudaloso,
+ Ahi parou então esta armada.
+ Com perigo, por ser lugar fragoso,
+ Da noyte era ja parte andada,
+ O Ceo estava claro, e luminoso,
+ O ar sereno, tudo socegado,
+ O mar porem alli sempre he irado.
+
+ E por se segurar determinarão,
+ Tomar o Rio acima assi surgindo,
+ Pella parte a dentro, se deytarão,
+ Com os remos o Douro vão ferindo,
+ E por fazer carreira deceparão,
+ Mil arvores, que o Rio vam cobrindo,
+ Que sem isso gales ir não podião,
+ Até onde levalas pretendião.
+
+ Era o arvoredo nessa idade,
+ Muy sobejo, e crecido até a praya,
+ Na parte donde agora he a Cidade,
+ E na banda daquem chamada Gaya,
+ De arvores muy gram variedade,
+ De brozios, e louro, mirtos, faya,
+ E com ser tudo fragoa, e penedia,
+ Somente o arvoredo alli se via.
+
+ Nesta parte de ca daquem do Douro,
+ No mais alto outeyro, e o mayor,
+ Ahi tinha seus paços el Rei Mouro,
+ Aquelle a quem chamarão Almançor,
+ Ahi tinha tambem o seu thesouro,
+ Porque daquella terra era senhor,
+ Contente e recreado alli vivia,
+ Por ser terra de caça e monteria.
+
+ Ahi vay h[~u]a cava como mina,
+ Até o Rio feita entre dous valos,
+ Que ainda agora se vè, e determina,
+ Ser pera írem beber os seus cavalos,
+ Tambem he cousa certa, e de crer digna,
+ Que tinha outros Reys Mouros vassalos,
+ Todos a este Rey obedecião,
+ Porque em sua ley maldita crião.
+
+ Alli se estava o Mouro aposentado,
+ Donde o largo mar, cos olhos via,
+ Dalli o via as vezes socegado,
+ E outras quando bravo bem o ouvia
+ Tambem estava alli fortalezado,
+ Porque del Rey Ramiro se temia,
+ Que quem deve, em fim sempre recea,
+ Se tem um bon jantar, de haver ma cea.
+
+ Alli gastava a vida com sabores,
+ O Mouro Almançor muy namorado,
+ Gozando dessa Gaya; e seus favores,
+ Molher del Rey Ramiro o magoado,
+ Mas o jogo, e caça, e os amores,
+ O fazem do perigo descuydado,
+ E entre tanto o tempo dá h[~u]a volta,
+ Pesca o pescador nagoa envolta.
+
+ Chegado pois Ramiro o muy prudente,
+ Com suas tres gales apercebidas,
+ De noite, ja que bem dormia a gente,
+ Alli se preparão escondidas,
+ E posto que vem feyto h[~u]a serpente,
+ Ordena que não sejão alli sentidas,
+ E seu furor resguarda pera quando,
+ Se veja de Almançor ir triumphando.
+
+ Alli gastada a noyte em socego,
+ Quanto possivel era e importava,
+ Tratavão do segredo em emprego,
+ E do que tal empresa demandava,
+ A lingoa de Arabigo, e Grego,
+ Muy ao natural pronunciava,
+ Só do aviso da terra tendo mingoa
+ Por si se oferece ir tomar lingoa.
+
+ Ficou porem por todos assentado,
+ Que tocando Ramiro h[~u]a corneta
+ Não fique em Gale nenhum soldado,
+ Que logo o outeyro nam cometa,
+ E com animo forte e esforçado,
+ Contra os crueis Mouros arremeta,
+ E todos juntos dando Sanctiago,
+ Os Mouros ajam hum cruel estrago.
+
+ Passada pois a noite, veo o dia,
+ Ramiro toma trajos de romeiro,
+ Deyxada toda sua companhia,
+ Sobindo se vay so pello outeyro,
+ A Deos so quis levar por sua guia,
+ E em sua fe firme, e muy inteiro,
+ E fazendo o sinal da Cruz no peito
+ Aos paços do Mouro foy direito.
+
+ Por ver se indo assi desconhecido
+ A sua molher Gaya ver pudesse,
+ Ou sendo Almançor a caça ydo,
+ Ella com o seu Ramiro se viesse,
+ O Phebo então mostrava aver nacido,
+ Contra quem disse, se ora te aprouvesse,
+ Com teu resplandor Phebo me ir mostrado,
+ Este bem, que pretendo, e vou buscando.
+
+ Assi se vay o triste de Ramiro,
+ De pensamentos tais arrodeado,
+ De pedra não seria mais de hum tiro,
+ Que perto estava ja de povoado;
+ Dizendo vay, se este bem acquiro
+ Deste Mouro serey muy bem vingado,
+ E por esta historia ser sabida
+ Aqui se verá feyta h[~u]a ermida.
+
+ E dando mais Ramiro h[~u]a passada
+ Vio h[~u]a fonte dagoa muy fermosa,
+ De rica pedraria fabricada,
+ De agua muy delgada, e saborosa,
+ A qual oje em dia he chamada,
+ A fonte de Ramiro, sem mais glosa,
+ A qual oje ahi está por memoria
+ Em testemunho, e fe desta historia.
+
+ Alli se assentou por ir cansado,
+ Não, para descansar, que mal descansa,
+ Aquelle que então ha começado,
+ Trabalhar por o que depois alcança,
+ E alli se despõe determinado
+ Armar h[~u]a certos laços desperança,
+ Esperando que và alguém à fonte,
+ Que novas de Almançor lhe diga e cõte.
+
+ Cuydando está Ramiro o que faria,
+ Se espere alli, ou fosse proseguindo.
+ Que só da sua armada se temia,
+ Nam fossem os Mouros hi sentindo,
+ Pello perigo grande que corria
+ Em nam si ir primeiro descobrindo,
+ A terra antes de se dar rebate,
+ Por que milhor se desse o seu combate.
+
+ Começou a dizer ja fenecera
+ Com a morte que eu mesmo me daria,
+ Se a esperança nam me entretivera,
+ Dizendo espera a noyte, e mais hum dia,
+ Tantas vezes me diz espera, espera
+ Que ja cuydo que o faz de zombaria,
+ Se me ouves esperança por esmola
+ Te peço, ou me mata, ou me consola.
+
+ Qual soe o mar fazer naturalmente,
+ Nas marinhas que a elle sam chegadas,
+ Quando vem com maré, e com enchente,
+ Da qual sam de contino visitadas,
+ Que com o ardor do sol quando he quente
+ As taes agoas com sal sam congeladas,
+ E se antes de o ser, hi tem vasante
+ Não fica hi sal atras, nem adiante.
+
+ Assi a magoas em o pensamento,
+ Vam ao coraçam, e hi represadas,
+ Tras maré de enchente o sentimento,
+ E em agoas de sal, hi sam tornadas,
+ E com força da dor, e do tormento,
+ Por os olhos rebentão, e destapadas,
+ Nas lagrimas vem tudo, e qu[~e] não chora,
+ Da cova esta tal muy perto mora.
+
+ Assi o bom Ramiro recordado
+ Daquella pena e dor que o atormenta,
+ Posto que a chorar está avesado,
+ Como de novo agora o mal lamenta,
+ E a presa da magoa se ha quebrado,
+ Dos olhos outra fonte lhe arrebenta,
+ E assi duas fontes alli correm
+ Porque h[~u]a nacia deste homem.
+
+ E assi era de ver esta porfia
+ Com que cada qual dellas caminhava,
+ Que se da fonte muyta agoa corria
+ Ramiro pellos olhos mais deytava,
+ Mil lastimas o triste alli dezia,
+ Perguntay pera quem, ou aquem falava,
+ Com dor a lingoa fala desatinos,
+ E faz hom[~e]s chorar como meninos.
+
+ H[~u]a Nimpha então fazendo aballo
+ Là dentro em a fonte se banhava,
+ E começou cantar por consolallo,
+ Notou Ramiro entam o que cantava,
+ Cantando (disse a Nimpha) a ti fallo.
+ Ramiro là te ouvi aonde estava,
+ Sou Nimpha, Esperança sou chamada,
+ Espera que a boa ora te he guardada.
+
+ Com esperança cação os caçadores,
+ As aves em os laços enlaçadas,
+ Com esperar recolhem os lavradores,
+ O fruyto das sementes semeadas,
+ E com canas tambem os pescadores,
+ Com sedelas, e boyas, e chumbadas,
+ O peyxe quando o comer engolem
+ Com que por engano de anzoes cobrem.
+
+ Neste conto Ramiro está enlevado
+ E a Nimpha no mesmo ainda procede,
+ Quando junto a elles ha chegado
+ H[~u]a Moura da ley de Mafamede,
+ Sapatinhas da cor de laranjado
+ A medida do pé tres pontos pede,
+ Escassamente a Moura foy sentida
+ Quando a Nimpha na fonte foy somida.
+
+ Na idade mostrava esta Moura
+ Que ainda donzella ser devia,
+ De gentil parecer tam branca e loura,
+ Que nisso nada Moura parecia,
+ Não sey a natureza, porque doura,
+ De graça a que dà graça e bem fogia,
+ Que bem sem graça he como está visto,
+ Aquelle que nam cre na ley de Christo!
+
+ Vestida vem de cor alionado
+ De h[~u]a roupa de sede até o artelho,
+ H[~u]a touca tonizil com hum trançado
+ De fitas damarelo, e vermelho,
+ Com hum cinto muy largo, e apertado
+ Em tudo tras concerto, e aparelho
+ Por isso de ser vista nam recea
+ Mas em ver, e ser vista se recrea.
+
+ Hum vaso dourado tras de gram valia,
+ De muy ricos esmaltes esmaltado,
+ Que ser cousa de Rey bem parecia,
+ Segundo era rico, e bem obrado
+ Cantando vem a Moura em Aravia;
+ O tal cantar Ramiro ha notado,
+ Damor era seu canto muy sobido,
+ Porque se aqueyxava de Cupido.
+
+ Alli sauda a Moura o bom andante,
+ Ao seu modo em sua Aravia,
+ Ramiro lhe responde em consoante,
+ De Arabigo que bem o entendia,
+ A Moura que o ve feito hum brivante,
+ Posto que de nenhum modo o conhecia,
+ Sospeyta por o ver tam bem criado
+ Ser homem que seus trajos ha mudado.
+
+ Pediolhe de beber o bom Romeyro,
+ A Moura de cortês não lho negava,
+ Mas o vaso encheo, e lavou primeiro,
+ E com mesura lho apresentava,
+ Ramiro lhe tirou o seu sombreiro,
+ E o pucaro dagoa lhe tomava,
+ Que ser de Almançor claro se via,
+ Pellas letras, e armas que trazia.
+
+ Ramiro, que em tal ventura se acha,
+ Bebendo perguntou a quem servia,
+ A Moura respondeu servia a Gaya,
+ Pera quem hia buscar a agoa fria,
+ Vede que trago amargo alli traga,
+ Ver que sua molher tambem bebia
+ Por jarros de Almançor seu enemigo,
+ O qual ella ja tinha por amigo.
+
+ Nam quis Ramiro mais saber do caso,
+ Mas encobrindo a dor que nalma sente,
+ Tornou encher na fonte o rico vaso,
+ (Dizendo) de força he, seja paciente,
+ Mas vagando vay ja aquelle prazo,
+ Se minha esperança não me mente,
+ Que presto se verá morto este Mouro,
+ Perdendo sua fama, e seu thesouro.
+
+ Consigo isto dezia o magoado
+ Tirando dum anel no vaso o deita,
+ Sem que fosse sentido, nem olhado
+ Da Moura por nam ter disso sospeita,
+ Por el Rey Almançor lhe ha perguntado
+ A caçar deve ser ido, a cousa feyta,
+ A caçar vay dos porcos, e veados,
+ Que os seus là lhe tinham emprazados.
+
+ A Moura se despede do Romeyro
+ So por representar honestidade,
+ Que alli se detivera o dia inteyro,
+ Segundo que isso pede a mocidade,
+ Sobindo vay a Moura pello outeiro,
+ Ligeiro, e com gram vellocidade,
+ Porque parece que hia ja tardando,
+ E teme que o tardar lhe vão notando.
+
+ Ramiro que na fonte soo ficava,
+ Donde sua figura clara via,
+ Consigo mesmo o triste alli falava,
+ E elle mesmo assi se respondia,
+ E sendo dantes aguia que voava,
+ E que na nota a todos excedia,
+ Agora com a dor que o aperta
+ Parece que desvayra, e desconcerta.
+
+ Se verdadeira es minha figura,
+ (Dizia) tu figura jà es tal,
+ Que como cousa que jà não tem cura,
+ Se devem deyxar ao natural,
+ Porque teu mal he mal que sempre dura,
+ E que he sobre todos sem igual,
+ Por isso, pois o tens, e o padeces
+ Não sey como de todo nam faleces.
+
+ A figura então lhe respondia
+ Em voz, e em toada differente,
+ Que serem duas cousas parecia,
+ Cada h[~u]a por si distintamente,
+ Ou fosse a esperança a qual seria,
+ Que ja o reprendera de impaciente,
+ Agora nisso mesmo lhe aponta,
+ No que lhe respondeo, ou tanto monta.
+
+ Deixemos a Ramiro por agora,
+ Sobre seu mal soltar mil desatinos,
+ Chore seu mal que com rezão o chora,
+ Dè mil ays, dè suspiros muy continos,
+ Até que Deos lhe traga aquella ora,
+ Na qual, nem Mouros velhos, nem meninos
+ Fiquem mais povoando aquella terra,
+ E morra Almançor naquella guerra.
+
+ Vamos saber da Moura o que passava,
+ Quando sua senhora a agoa bebia,
+ E se se alterava, ou perguntava,
+ Cujo fosse o anel que dentro hia,
+ Porque nisso Ramiro se fundava
+ Em que o seu anel conheceria,
+ E se lhe tinha amor de molher boa,
+ No caso ella faria de pessoa.
+
+ Bebeo pois a Rainha, e achando,
+ O anel conheceo que de Ramiro era,
+ E quanto pode em si dissimulando,
+ Hum muy grande sospiro ahi dera,
+ E confusa está imaginando,
+ Porque via, e arte alli viera,
+ Ou porque invenção, modo, e geito,
+ E se era aquelle, ou contrafeito.
+
+ Perguntou se achara alguem na fonte
+ Ao tempo que ella agoa tomara,
+ Dizendo que lhe diga, e lhe conte,
+ Tudo o que ante ella se passara,
+ Ou outra alg[~u]a cousa lhe aponte,
+ Por onde o anel alli achara,
+ E porque disso a Moura se espantava
+ A Raynha contra ella se assanhava.
+
+ A Moura que se vee ser innocente,
+ Do caso que então mal entendia,
+ Jura que não achou nenh[~u]a gente.
+ A Raynha lhe disse que mentia,
+ E com esta porfia differente,
+ A Raynha em ira se encendia,
+ Com hum Chapim lhe tira daremesso,
+ Quis Deos se desviou, e foi avesso.
+
+ Tornou a Moura então assegurouse,
+ Dizendo que achara a hum Romeiro,
+ Mas que não se acordava, e disculpouse,
+ Da culpa de lho não dizer primeiro,
+ A Raynha com isso aquietouse,
+ Crendo ser seu marido verdadeiro,
+ E ou fosse com fee, ou sem verdade,
+ De vello mostrou ter grande vontade.
+
+ Mandou pois a Raynha que o chamasse
+ E que de sua parte lhe dissesse,
+ Que fosse logo là, e não tardasse,
+ E fosse confiado, e não temesse,
+ E que em bom segredo lhe guardasse,
+ O que do tal Romeiro entendesse,
+ Que Almançor a caça era ido,
+ Que podia fazer em seu partido.
+
+ A Moura parte logo diligente,
+ A cumprir o mandado da senhora,
+ Ramiro que tornar a moura sente,
+ Esforço (disse) se ha mister agora,
+ E como vio a Moura vir contente,
+ Alegrouse tambem naquella hora,
+ Posto que o coração o convidava,
+ Com outro desprazer que adevinhava.
+
+ Chegando pois a Moura lhe dezia;
+ Romeiro a Raynha Gaya manda,
+ Te peça com amor, e cortesia,
+ A vejas, que te espera na varanda.
+ Que de verte gram gozo levaria,
+ E de favorecer tua demanda,
+ Que lhe queiras fazer aquesta graça,
+ Antes que Almançor venha da caça.
+
+ Que saibas que Almançor a caça he ido,
+ Não percas ponto algum de tal ensejo,
+ Ramiro que a mensagem ha ouvido,
+ Ousado mostra logo o seu desejo,
+ Cuidando que fazia em seu partido,
+ Alegre sem algum receo, ou pejo,
+ Tomando o bordão, disse senhora,
+ Guiai, que em vossas mãos me ponho agora.
+
+ E sem fazer demora obedecendo,
+ Acompanhou a Moura com cautela,
+ Perguntando se vão, e respondendo,
+ A Moura a Ramiro, e elle a ella,
+ No andar pausa as vezes vão fazendo,
+ Ramiro vay soltando â Moura a trella,
+ A Moura he cortesaã, e confiada,
+ E demostrava ser muy namorada.
+
+ A pratica damores he fingida,
+ Da parte de Ramiro enganosa,
+ A Moura vay damor presa, e vencida,
+ Enganada merece a envejosa,
+ Nos amores muy solta, e atrevida,
+ O que dana, e afea o ser fermosa,
+ Enganada merece h[~u]a tal dama,
+ Quando de namorada quer ter fama.
+
+ Pois trata de adquirir o que pretende,
+ A ver sua senhora, e o deseja,
+ Mormente, pois o sabe, e o entende,
+ Mas todas sam feridas da enveja,
+ O fogo da cobiça as acende,
+ Que sempre h[~u]as com outras tem peleja,
+ Sobre o negro amar, e ser amadas,
+ E sam h[~u]as das outras desdenhadas.
+
+ Junto vam jà dos paços, e castello,
+ A Raynha andava passeando,
+ Na varanda muy morta jà por velo,
+ Ramiro os seus olhos levantando,
+ Não pos duvida alg[~u]a em conhecelo,
+ Nem elle della esteve duvidando,
+ Sobindo pois Ramiro h[~u]a escada,
+ A Raynha com elle està chegada.
+
+ E como onde ha amor nam ha receo
+ Sem receo de nada se abraçarão,
+ Porque o seu prazer era tam cheo,
+ Que remeteo por mais que o represaram,
+ E estando assi neste enleo,
+ Damor, dos olhos rios emanarão,
+ De agoas que dizem ser salgadas
+ Estas porem por doces sam julgadas.
+
+ Qual Pyramo, e Tysbe se mostrarão,
+ Amarse de verdade o que pedia,
+ O vinculo de amor que professarão,
+ Mais mostra de amor ser não podia,
+ Que a que alli ambos demostrarão,
+ Nem outra cousa delles se entendia,
+ Mas como a molher bayla, ou dança,
+ Logo sabe fazer h[~u]a mudança.
+
+ Perguntoulhe então Gaya o que buscava
+ Ou porque via, e arte alli viera,
+ Alli Ramiro então se assentava,
+ Como se em sua casa estivera,
+ Assentado dizerlhe começava,
+ O caso que a isto me trouxera.
+ Se tu senhora o tens tambem sabido,
+ Porque me julgaras por atrevido.
+
+ Se venho por ventura a salvarte,
+ O amor sobre tudo he cousa forte,
+ Ao menos senão podes cobrarte,
+ Consolarmeey em verte em minha morte,
+ E se Deos conceder poder livrarte,
+ Quero provar em isso minha sorte,
+ A isso (como digo) venho agora,
+ A cobrarte, ou morrer por ti senhora.
+
+ Gaya sabiamente respondia,
+ Fingindo ser leal, e verdadeira,
+ Isso muy bem agora se faria,
+ Se se tivesse modo, ou maneira
+ De ser a nossa salvo, mas nam via
+ Nem sabia caminho, nem carreira,
+ Nem tu Ramiro mostras aparelho
+ E nisso ha mister muy bom conselho.
+
+ Ramiro lhe tornou aconselhado
+ Estou senhora, e bem apercebido,
+ Mas em só te levar nam sou vingado,
+ Sem matar este Mouro fementido.
+ E se de nos pode ser descabeçado,
+ Em salvo te porà o teu marido
+ Porque eu que a isso me aventuro,
+ Nam he sem te poder por em seguro.
+
+ Pois isso (disse) mandas que se faça
+ Assi se fará bem, e sem perigo,
+ Com o favor de Deos, e sua graça,
+ A qual seja contigo, e comigo,
+ Mas porque pode vir cedo da caça,
+ Este Mouro cruel teu enemigo,
+ Eu te direy o modo que teremos
+ Pera a nosso salvo isto fazermos.
+
+ Abrio logo h[~u]a camara dourada,
+ De verão lhe servia de aposento,
+ Onde nunca o Sol fazia entrada,
+ E na sesta hia ter contentamento
+ Que sò por sua mão era fechada
+ Por lhe servir de seu recolhimento,
+ Ahi o fez entrar, e sendo entrado,
+ Deste modo, e maneira lhe ha falado.
+
+ Aqui te ficaràs dentro metido,
+ Se queres concluyr em este feyto,
+ E se v[~e]s do caminho afligido
+ Bem podes acostarte em este leyto,
+ Aqui podes estar sem ser sentido
+ Onde podes fazer de teu proveyto,
+ Quando for tempo, e ora de acostarse,
+ E aqui Almançor vier deytarse.
+
+ Virà ora da caça encalmado
+ A mesa tem jà posta esperando
+ O comer està jà negociado
+ Nam poderà jà ir muyto tardando
+ E desque de comer ha acabado,
+ O sono o vay logo convidando,
+ E he certo vir logo a este pouso,
+ A descansar a sesta, e ter repouso.
+
+ Nisto deuse rebate, e nova certa,
+ Que vinha Almançor da montaria,
+ A camara fechou que estava aberta,
+ E de Ramiro então se despedia,
+ Tornou a seu estrado, e alerta
+ Se pos a entender no que entendia,
+ Com as damas laurando seda, e ouro
+ Quando a esta hora chegou o Mouro.
+
+ Acompanhado vem de caçadores,
+ De monteiros de pe, e cavalleyros,
+ E de cães como elles filhadores,
+ Muytos Mouros de lança, e besteiros
+ Vestidos de libreas, e de mil cores,
+ Com bozinas, e cornos prazenteiros,
+ Porem vinham muy surdos, e calados
+ Por não acharem Porcos, e Veados.
+
+ Descavalga Almançor muy diligente,
+ Sobindo pera o paço, e aposento
+ Ella que o vè vir tam descontente,
+ Per si lhe foy fazer recebimento,
+ Com passo perlongado, e differente,
+ Lhe demostrou ter contentamento,
+ Com sua boa vinda, e alvoroço,
+ Deitandolhe os braços no pescoço.
+
+ Almançor lhe pagou por esta via,
+ Os afogos de amor na mesma ora,
+ Fazendolhe h[~u]a grande cortesia,
+ Dizendolhe vivaes minha senhora,
+ E com este prazer, e alegria,
+ Sem se fazer alg[~u]a outra demora,
+ Se sentarão à mesa e assentados
+ Serviramlhe seus pajes, e criados,
+
+ No meo do comer os dous estando,
+ Com grande gosto, festa, e alegria,
+ O segredo esta mà lhe foy soltando,
+ Dizendo, quero darte iguaria,
+ Da qual bem sey que deves dir gostando,
+ Por ser nova de gosto ta daria,
+ No que conheceràs quanto te ama,
+ Quem não dà por Ramiro em que a chama.
+
+ Que dèras Almançor Rey poderoso,
+ (Lhe disse) a quem Ramiro te entregàra,
+ Que deras se te víras tão ditoso,
+ A quem agora preso to mostrara,
+ Não me estranhes mostrarte disto gozo,
+ Que se com firme amor nam te amara,
+ Na treyção de Ramiro consentira
+ Que oje te matava neste dia.
+
+ Que diremos de caso tam horrendo,
+ De femea tam mà, tam fera, dura,
+ Que coração tam duro, ha que vendo,
+ Deslealdade tal em criatura,
+ Nam deixa de ser duro amolecendo
+ Avendo dò de tanta desventura,
+ Num Rey que vem em trajos de romeiro,
+ A tirar a molher de captiveiro.
+
+ Ah falsa que te vas ao profundo,
+ Como não temes que ha Deos verdadeiro?
+ Que trocas por amor falso, e segundo,
+ A teu Rey, e a teu marido, e amor primeiro,
+ Por isso, e cousas taes vay mal ao mundo,
+ Por isso vem a peste, e o captiveiro,
+ E ha falta de paz na Christandade,
+ Por falta de verdade, e lealdade.
+
+ Se a verdade ca naceo na terra,
+ Qual terra, ou quem ousa desterrala,
+ Se tam natural he que lhe põe guerra?
+ Quem ousa, ou pretende degradala?
+ Se na verdade todo o bem se encerra,
+ Qual he o que se poe a pedrejala,
+ E sendo como he cousa tam forte,
+ Que só ella he senhora sobre a morte.
+
+ Ó se esta verdade se abraçasse,
+ Alli onde parece claramente,
+ Se cada hum a casa a levasse,
+ Assi como quem leva hum bom parente,
+ E se dentro no peito a conservasse,
+ E o mesmo fizesse toda a gente,
+ Servindolhe de peso, e medida,
+ A Deos seria alegre nossa vida.
+
+ Ó celeste virtude, ó lealdade,
+ Qual ha antre as mais que milhor seja,
+ De ti produz, e nace a castidade,
+ Que todo o poder vence em peleja,
+ Que cousa ha milhor na Christandade?
+ Que cousa mais chegada à Igreja?
+ Que cousa, porque Deos milhor se renda,
+ E nos dè sua graça, e nos defenda.
+
+ Almançor que o caso ha ouvido,
+ Bem cre que esta Gaya isto dezia,
+ Por folgar de falar no seu marido,
+ Que tudo aquillo que era zombaria,
+ Entam lhe disse, aqui està escondido,
+ E sabe que matarte pretendia,
+ E levarme consigo sem mais ordem,
+ Mas eu quero ser tua, nam doutro homem.
+
+ Confuso fica o Mouro, e muy turbado,
+ Do caso, e perigo em que estivera,
+ Que antes de muyto fora degolado
+ Se esta mesma Gaya o quisera,
+ Por outra parte està muy alterado,
+ Festejando este bem que amor lhe dera,
+ Trazendo a seu poder seu enemigo,
+ Sem perda de batalha, e sem perigo.
+
+ Oo cruel sobre todas as molheres,
+ Tal fama queres ter, tal nomeada,
+ Porque o teu Ramiro ja nam queres?
+ Por estar com hum Mouro abarregada,
+ Não te lembrão os filhos teus prazeres?
+ Nem te acordas que es molher casada,
+ E que fosse Christãa? nam sey agora,
+ Antes parece que em ti, ley não mora.
+
+ Das mais que forão màs calar se pode,
+ Só desta sobre todas mà praguejo,
+ Não sinto nellas mal que se acommode,
+ A h[~u]a tal treição, a tal despejo,
+ Por hum Mouro infiel cara de bode,
+ Em quem foy por amor, e o desejo,
+ Perde do bom Ramiro, a memoria,
+ Perde honra, e fama, perde a gloria.
+
+ Ramiro bem ouvia o que passava,
+ Porque dalli estava muyto perto,
+ E como a mà tudo lhe contava,
+ E ja era em fim bem descuberto,
+ Ja vedes em que estado o triste estava,
+ Com que dor, agonia, em que aperto,
+ Que saltos lhe daria nessa ora,
+ O coração querendo saltar fora.
+
+ Não quis mais Almançor comer bocado,
+ Com festa de prazer, e alegria,
+ Dizendo eu estou bem consolado,
+ Não quero comer outra iguaria,
+ E mais pois tenho hospede honrado,
+ Rezam he que lhe guarde cortesia,
+ E pois aqui està neste aposento,
+ Vamoslhe fazer hum recibimento.
+
+ Seu capitão da guarda entom chamando,
+ Alli se lhe homilhou, e lhe ha mandado,
+ Que com a sua guarda va guiando,
+ Pera donde Ramiro està fechado,
+ O triste de Ramiro està orando,
+ A Deos que lhe socorra em tal estado,
+ Porque muy claramente alli via,
+ Que a morte à porta lhe batia.
+
+ A porta desfechada num momento,
+ Do numero de Mouros muy armados,
+ Foy cheo todo aquelle aposento,
+ Com alfanges, e braços remangados,
+ Deos te valha Ramiro em tal tormento,
+ Que os teus estão de ti muy alongados,
+ E a tua armada está no Douro,
+ E tu sò preso antre tanto Mouro.
+
+ Vendo pois Almançor tal desatino,
+ A seu contrario estar tam desarmado,
+ E em abito vil de perigrino,
+ Mostrouse disso muy maravilhado,
+ Dizendo, eu nam sey, nem determino,
+ Que este seja Ramiro esforçado,
+ Mas se elle este he, e fez mudança,
+ Bem pouco vai agora a sua lança.
+
+ Alli Ramiro então lhe respondia,
+ Algum ora foy ella nomeada,
+ Antre Christãos, e antre a berberia
+ Tambem em essa Veyga de Granada,
+ Onde morreo muy gram cavallaria,
+ E se perdeo a tua cavalgada,
+ Agora, eu não venho a conquistarte,
+ Porque venho de paz, e d'esta arte.
+
+ A irmãa te furtey sendo casado,
+ Tendoa por amiga sendo dama,
+ No que occasião a ti te ey dado
+ A quereres roubar minha honra, e fama,
+ Por isso se causou por meu peccado,
+ Chegares Almançor a minha cama,
+ E nam sendo na terra, sem perigo,
+ Me furtaste a molher que tens contigo.
+
+ E pois fuy causador d'essas afrontas,
+ O Reyno busque là outro herdeyro,
+ Que jà não quero mais, que estas Contas,
+ E andar neste trajo de Romeiro,
+ Almançor lhe tornou, muy bem apontas,
+ Mas v[~e]s Lobo em figura de Cordeyro,
+ E jà nam te crerey o que disseres,
+ Enemigo da honra das molheres.
+
+ Perdoame Ramiro isto que digo,
+ Que como a Rey que es devo tratarte,
+ Mas estou desagora mal contigo,
+ Desque de teu engano sobe parte,
+ E pois que te meteste em tal perigo,
+ Sem te valer o teu saber, e arte,
+ Podes dizer que a ti em este feyto,
+ Vieste ca fazer pouco proveito.
+
+ Tua Gaya comigo, esta senhora,
+ De ti Ramiro està pouco lembrada,
+ E diz que oxalà que nunca fora,
+ Contigo em algum tempo desposada,
+ Se dizes que te ha sido traydora,
+ Em esta tua machina ordenada,
+ Com bem rezam to foy, pois tu has sido,
+ O que foste pera ella mao marido.
+
+ Por h[~u]a parte tenho sentimento,
+ Do misero estado em que estàs posto,
+ Mas que fazes tu neste aposento,
+ Agora sem meu grado, e sem meu gosto,
+ Porisso me nam dà de teu tormento,
+ E de se te mudar em teu desgosto,
+ O gosto que levavas tam profundo,
+ Em me privar da vida deste mundo.
+
+ Ramiro respondeo teu odio claro,
+ Te Cega, e faz que julgues de ligeiro,
+ Não deves de rezão ser tam avaro,
+ E deves de ouvir partes primeiro,
+ E por minha defesa te declaro,
+ Que mal posso sem armas ser guerreiro,
+ E a minha tenção foy, e he boa,
+ E isto julgarà toda a pessoa.
+
+ Vinha ver se acaso ver podia,
+ Essa por quem eu tanto ey padecido,
+ Pois jà ver, nem cobrala, nam podia,
+ Por ir de meu estado despedido,
+ E em ley de rezam se permitia,
+ Vir vella, pois em fim sou seu marido,
+ Que quanto he tratar de teu tormento,
+ Nunca me veo tal ao pensamento.
+
+ Esta mesma molher que nunca fora,
+ De verme mostrou gram contentamento,
+ Mil lagrimas chorando nesta ora,
+ Cuydando neste nosso apartamento,
+ E por tu Almançor vires de fora,
+ Da caça, me meteo neste aposento,
+ E se ella outra conta te ha dado,
+ Innocente sou disso, e mal culpado.
+
+ Almançor nam curando de argumento
+ Nem rezões que Ramiro apontasse,
+ (Lhe disse em final) que ao tormento,
+ Desde entam alli se aparelhasse,
+ Porque o que dezia era vento,
+ E que da culpa nam se escusasse,
+ Que o que a sua Gaya lhe contàra,
+ Isto em verdade se passàra.
+
+ Dizendo se em teu Reyno me acolheras,
+ Como agora eu te ey acolhido,
+ Com tençam de matarte, que fizeras?
+ Respondeme se disso es servido,
+ Que se pello perdam ainda esperas,
+ O teu juyzo deves ter perdido,
+ Que nam tenho rezam de perdoarte,
+ Nem menos me mereces, que acabarte.
+
+ Ramiro com bom animo esforçado,
+ Lho tornou, pois em fim queres padeça,
+ Sem nessa minha morte ser culpado,
+ A justiça do ceo sobre ti deça,
+ Pois julgas como homem apayxonado,
+ Nem tomas parecer doutra cabeça,
+ Mas ja que assi he, se eu te colhera,
+ A ti Almançor mesmo isto fizera.
+
+ Mandarate levar muy bem atado
+ Sem te valer ser Rey, nem teus primores,
+ Com dous algozes cada hum a seu lado,
+ E pôr em o mais alto dessas torres,
+ E com esta bozina a ser forçado,
+ Tanger sem descançar, sofrendo as dores,
+ E fosses despois disso enforcado,
+ Como homem qualquer de baixo estado.
+
+ Almançor ouvindo esta pendença,
+ Que Ramiro contra elle imaginava,
+ Em ira encendido, sem detença,
+ Contra Ramiro, disse que mandava,
+ Que nelle se execute a tal sentença,
+ Porque do mesmo modo a confirmava,
+ Juntandose pois gente infinita,
+ De Mouros, o levarão com gram grita.
+
+ No alto da muralha o puserão
+ Atado, e ia com corda no pescoço,
+ E alli a tanger o constrangerão,
+ Com muy grande praser, e alvoroço,
+ A esta festa todos concorrerão,
+ Nenhum velho ficou, nem Mouro moço,
+ Ao som da bozina, h[~u]s cantavam,
+ Outros dando rizadas apupavam.
+
+ Essas Mouras de honrra encerradas,
+ E damas mais fermosas, e as feas
+ Sobiam ao alto por escadas,
+ Por verem dos eyrados, e açoteas,
+ As mais Mouras, e Mouros amanadas,
+ Vão, sò ficam os presos nas cadeas,
+ Mas nas cadeas ouvem claramente,
+ A festa, e clamor que vay na gente.
+
+ Almançor ao som da alegria,
+ Que por toda a Villa ha soado,
+ De novo disse, que comer queria,
+ E à mesa se pos logo assentado,
+ E quantas vezes a bozina ouvia,
+ Com gram gosto metia o bocado,
+ E a Gaya cruel com elle estava
+ Que a ira, e zombar o ajudava.
+
+ A gente de Ramiro, que emboscada,
+ Estava dahi perto donde ouvia,
+ Os Mouros quando davam apupada,
+ E vendo a bozina que tangia,
+ Remetendo com ordem ordenada,
+ Toda dentro na Villa se metia,
+ Que as guardas que a villa então guardavam,
+ Onde estava Ramiro então estavam.
+
+ E dalli como Lobos indomados,
+ Nos paços de Almançor deram de siso,
+ Ao tempo que elle, e seus privados,
+ Estavão com mais festa, e com mais riso,
+ Aonde logo foram degolados,
+ El Rey, e os mais Mouros demproviso,
+ E a Gaya tambem às mãos tomada,
+ E a villa sogeita, e saqueada.
+
+ Essa Mourama junta como estava,
+ Pera ver a Ramiro padecente,
+ Que de nada então se percatava,
+ Vendo entrar na Villa alhea gente
+ E o furor, e esforço que mostrava
+ Matando, e degolando cruelmente,
+ Se põe a defender com seus traçados
+ Mas logo foram hi desbaratados.
+
+ E como hia já sentenciado
+ Que não se desse vida a nenhum Mouro,
+ De sangue hum gram rio ha manado,
+ Que pellos matos foy sayr ao Douro,
+ E em sangue as agoas se hão tornado,
+ E perdeo por então a cor de louro,
+ E o mar pellos Portos ha mostrado,
+ Ter muyto sangue então derramado.
+
+ Ramiro la do alto tudo vendo,
+ A Deos pellas merces as graças dando
+ Como livre se vio, se foy decendo,
+ Vendo que o andavam os seus buscando,
+ E como os seus o fossem conhecendo,
+ A mão todos alli lhe então beyjando,
+ Por seu Rey, senhor, e satisfeyto,
+ Aos paços guiou, e foy direito.
+
+ Dous filhos de Ramiro alli vinhão
+ Filhos da mesma Gaya nesta armada,
+ Que chegando Ramiro jà hi tinhão,
+ A sua mesma mãy às mãos tomada,
+ Os quais por animala lhe dezião,
+ Que farião que fosse perdoada,
+ Chegado pois Ramiro lhe rogaram,
+ Por ella, e a vida lhe alcançarão.
+
+ Em isto o bom Ramiro lhe contava
+ A treyção que esta Gaya lhe urdira,
+ Do que toda a gente se espantava,
+ E como de seus laços se espedira,
+ Que proposto à morte jà estava,
+ Se Deos com seu favor não lhe acodira,
+ Dando com discrição, e bom esforço,
+ Que jà tinha o baraço no pescoço.
+
+ Com tudo, pois pedis filhos amados,
+ (Lhe disse) lhe perdoe, e dê a vida,
+ Pois della quereys ser filhos chamados
+ Mando que ninguem isso vos impida,
+ E vão à vossa conta os seus peccados,
+ Que por elles milhor fora punida,
+ Pera ficar aviso às semelhantes
+ Casadas com bõs Reys, e com infantes.
+
+ Assolada a terra, e destroyda,
+ E avida esta presa, e grão victoria,
+ Ficou a soldadesca enriquecida,
+ E com honra, e fama, e grãde gloria;
+ Dos trabalhos passados esquecida,
+ Sò deste bem presente tem memoria,
+ Dando louvor a Deos toda a gente,
+ Por victoria tal tão excelente.
+
+ Foy este tal triumpho celebrado,
+ Cuja fama correo o mar, e a terra,
+ E logo o arrayal hy foy alçado,
+ Decendendo do alto, e da serra,
+ Nas galès se hão todos embarcado,
+ Por terem concluido aquella guerra,
+ Começando a remar os remadores,
+ Ao som das trombetas, e atambores.
+
+ A Gaya vay chorando amargamente,
+ Pello Mouro Almançor que ja não via
+ Ramiro, e os filhos de repente,
+ Vendo quão pouco a vida agardecia,
+ Mandarão na deitar em continente,
+ No mar porque muy bem o merecia,
+ Com h[~u]a grande pedra a ella atada,
+ Alli fica esta Gaya margulhada.
+
+ E com prospero vento, e bonança,
+ Ramiro a seus Reynos ha tornado,
+ Levando de Almançor a tal vingança,
+ E victoria que Deos lhe avia dado.
+ E dahi em diante a sua lança
+ Ja mais Mouro algum ha aguardado,
+ E sempre este bõ Rey lhes moveo guerra
+ Ganhandolhes de Espanha muita terra.
+
+ Aquelle Rey dos Reys omnipotente,
+ Que na terra mercês lhe ha outrogado,
+ O tenha em a gloria eternamente
+ Com corôa da gloria coroado.
+ E aos Reys Christãos que ao presente,
+ Reynão, paz, e concordia aja dado
+ Pellos quaes nesta liga assi ligado:
+ Os immigos da Fè sejão domados.
+
+
+LAUS DEO.
+
+
+
+
+ Dr. CHAVES E CASTRO
+
+ Apontamentos sobre alguns Processos Summarios, Summarissimos, e
+ Executivos, e sobre o Processo para a exigencia dos Creditos
+ hypothecarios, creado pela Lei hypothecaria de 1 de Julho de 1863--1
+ volume. 1$000
+
+ Estudos sobre a Reforma do Processo civil ordinario portuguez, desde
+ a proposição da acção até á sentença da primeira instancia--1
+ volume. 800
+
+
+ THEOPHILO BRAGA
+
+ Obras primas de Chateaubriand--Atala--Renato--Aventuras do
+ Derradeiro Abencerrage com um estudo litterario--1 volume. 500
+
+ Gaia, romance de João Vaz, publicado segundo a edição de 1630--Fol.
+ 200
+
+
+ JUNQUEIRA FREIRE
+
+ Inspirações do Claustro, 2.ª edição, com um juizo critico do Sr. J.
+ M. Pereira da Silva, 1 vol. 600
+
+
+ SEVERINO D'AZEVEDO
+
+ Boas Festas a Manuel Roussado, broch. 100
+
+ Segunda Carta de Boas Festas, broch. 100
+
+
+ ARISTIDES DE BASTOS
+
+ Elementos de Poetica para uso das escholas--brochura. 400
+
+
+ J. MANOEL PEREIRA
+
+ Principios de Geographia e Chorographia Portugueza--brochura. 120
+
+
+ L. G. PERES FURTADO GALVÃO
+
+ Addição ao Indice alphabetico da legislação hypothecaria e fórma de
+ Processo para as exonerações, expropriações e preferencia das
+ hypothecas--brochura. 200
+
+
+
+
+Notas de transcrição.
+
+No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no
+sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais.
+Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes:
+
+[~e] Resprenta um e com um til(~) por cima e que parece ser uma
+abreviatura dos caracteres "em"
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+[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
+
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+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+works.
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+ <meta name="AUTHOR" content="Visconde de Villa-Moura">
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+ <title>Villa nova de Gaia, por João Vaz</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Villa Nova de Gaia, by João Vaz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Villa Nova de Gaia
+
+Author: João Vaz
+
+Editor: Teófilo Braga
+
+Release Date: August 23, 2008 [EBook #26411]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VILLA NOVA DE GAIA ***
+
+
+
+
+Produced by Thanks to Pedro Saborano (produced from scanned
+images of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+
+
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+</pre>
+
+
+<div id="capa">
+<p style="font-size: 1.5em;">RARIDADE BIBLIOGRAPHICA</p>
+<hr>
+
+<p style="font-size: 4em;">GAIA</p>
+
+<p>ROMANCE</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">JOÃO VAZ</p>
+<hr style="width: 10%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A
+TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR NO ROMANCE COM FORMA ERUDITA NOS FINS DO
+SECULO XVI</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">THEOPHILO BRAGA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>COIMBRA<br>
+IMPRENSA LITTERARIA<br>
+1868</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 3em;">VILLA NOVA DE GAIA</p>
+
+<p>ROMANCE</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">JOÃO VAZ</p>
+
+<p>DE EVORA</p>
+
+<p>PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A
+TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE ANONYMO NO ROMANCE COM FÓRMA LITTERARIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">THEOPHILO BRAGA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>COIMBRA<br>
+IMPRENSA LITTERARIA<br>
+1868</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<h1 style="text-align: center;">TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR</h1>
+
+<h2 style="text-align: center;">NO ROMANCE COM FÓRMA ERUDITA NOS FINS DO
+SECULO XVI</h2>
+
+<p><span class="pagenum">[III]</span>Não se póde conhecer a litteratura
+portugueza, ignorando o movimento das litteraturas da edade media da Europa;
+como a formaçao das linguas, do direito, da religião e das instituições
+sociaes, nenhum facto faz sentir tanto como a litteratura a unidade da grande
+raça neo-latina. Quasi todas as phases porque passaram as litteraturas
+italiana, franceza, hespanhola ou provençal, quer na fórma das primeiras
+poesias, nas novellas cavalheirescas, nas chronicas, ou nos contos
+decameronicos, no romance popular, ou no sentimento da natureza despertado
+pela Renascença, tudo, tudo, abertamente o sustentamos, se encontra na
+litteratura portuguesa.</p>
+
+<p>Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua gaguez
+pelo canto; em Portugal, os primeiros monumentos linguisticos que apparecem
+são essas canções do seculo XII e XIII que os criticos não tem sabido
+avaliar. Foi a poesia do povo, longo tempo desprezada pelas côrtes
+provençaes, que os livreiros mercenarios dos principios do seculo XVI
+atiraram ao vulgo, recolhida em <em>folhas volantes</em>.</p>
+
+<p>Foi assim que d'estas folhas dispersas se formaram os primeiros
+Romanceiros; Esteban de Najera, Martin Nucio, Andres de Villalta e Pedro de
+Flores juntaram os romances que andavam <em>discarriados</em>. A <em>Silva de
+varios romances</em>, de 1550, assignala a épocha da grande vulgarisação dos
+romances populares da Peninsula, que, ainda assim, para serem acceitos depois
+de colligidos, precisaram de se arreiar com o titulo de <em>Cancioneiro</em>,
+então preconisado pelo gosto erudito e provençalesco. Por este tempo o
+<em>Cancionero de Romances</em> é reimpresso em Portugal, sendo a maior parte
+dos romances que cita já <span class="pagenum">[IV]</span>conhecida de Gil
+Vicente, e por conseguinte do povo portuguez. O <em>Romancero do Cid</em> de
+Escobar e a <em>Primavera e Flor de Romances</em> reproduziram-se tambem nos
+prelos portuguezes. O romance popular, simples de condição, franco, rude,
+tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não sabia
+abstrahir, dramatisava, accumulava as situações. Fôra preciso um genio
+superior para comprehender-lhe a ingenuidade profunda. Lope de Vega foi um
+dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar que o metro
+octosyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos, e pôz em fórma de
+romance os passos dolorosissimos da Paixão. Após elle seguiu-se a turba dos
+poetas; Juan de la Cueba, Garci Sanches, Lasso de la Vega, Segura, Timoneda
+vão reduzindo á fórma de romance todas as historias do mundo, desde a Biblia
+e historia da Grecia e Roma até aos Chronicons monasticos. O romance achou-se
+d'este modo despido da sua natural <em>sencillez</em>; tornaram-no
+declamador, quando elle mal sabia titubear, e se repetia nas grandes emoções;
+fizeram-no descriptivo, com uma abstracção subjectiva, que o desnaturava.
+D'esta degeneração inevitavel nasceram os romances mouriscos, que estafaram o
+gosto com tanta <em>Zaida y Adalifa</em>, como se queixa o <em>Romancero
+General</em>. O poema de <em>Gaia</em> de João Vaz, de Evora, pertence a esta
+épocha, e é um precioso monumento que assignal-a na litteratura portugueza
+esta transformação. O romance popular, perdendo o genio rude, perdêra a fórma
+octosyllabica, ia tomando a fórma heroica da outava academica, como o poema
+de <em>Roncesvalles</em> de Balbuena.</p>
+
+<p>Tornaram-se os romances do povo um pretexto para as <em>glosas</em> dos
+poetas palacianos, que se serviam dos motes mais celebres para as suas
+galanterias.</p>
+
+<p>No <em>Cancioneiro Geral</em> sómente se encontra com fórma de romance
+umas trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que
+principiam:</p>
+
+<div class="poesia">
+Eu era moça menina<br>
+per nome dona Inez, etc.<a name="L3574" id="L3574"
+href="#L3576"><sup>1</sup></a></div>
+
+<p><span class="pagenum">[V]</span>'Neste tempo a fórma do romance popular
+tinha sido despresada completamente; na colleção de romances antigos, feita
+em Anvers em 1550, encontramos o titulo de <em>Cancionero de Romances</em>,
+em que a palavra Cancioneiro se emprega para proteger com o valor que tinha a
+rudeza da tradição oral. No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, sómente
+se encontra o <em>rymance</em>:</p>
+
+<div class="poesia">
+Tyempo bueno, tempo bueno, etc.<a name="L3591" id="L3591"
+href="#L3594"><sup>2</sup></a></div>
+
+<p>Este romance é uma imitação dos dous celebres romances conservados no
+<em>Cancioneiro General</em> de 1557: <em>Fonte frida, fonte frida</em>, e
+<em>Rosa fresca, rosa fresca</em>, muitas e muitas vezes glosados pelos
+poetos palacianos. O romance do <em>Tyempo bueno</em>, é algum troço
+conservado por causa da glosa que lhe fez Garcia de Resende. 'Neste tempo o
+renascimento das Canções provençaes distrahia os serões das principaes côrtes
+da Europa.</p>
+
+<p>O romance popular era antigo e invariavel; não se prestava a perpetuar as
+anecdotas e pequenas intrigas palacianas. Então começaram os poetas cultistas
+a glosar os romances mais celebres da tradição. Na <em>Poetica Española</em>
+de Rengifo, publicada em 1592 (cap. XXXVIII), se lê: «No ha muchos años, que
+com&#x1ebd;çaron nuestros Poetas a glosar Romances viejos, metiendo cada dos
+versos en la seg&#x169;da de las Redondillas. Y han sido tan bien recebidas
+estas Glossas, que les han dado los musicos muchas sonadas, y se cantan, y
+oyen com particular gusto.» O que refere Rengifo encontramol-o confirmado no
+<em>Cancionero Geral</em> de 1511, conhecido em Portugal, por isso que d'elle
+encontramos traduzidas por Frei João Claro, monge de Alcobaça, a
+<em>Paraphrase do Padre Nosso</em>, da <em>Ave Maria</em> e do <em>Te Deum
+laudamus</em> de Hernam Peres de Gusman, que se podem ver nos <em>Ineditos de
+Alcobaça</em> de Frei Fortunato de Sam Boaventura<a name="L3624" id="L3624"
+href="#L3627"><sup>3</sup></a>. O romance da <em>Bella mal maridada</em> era
+glosado com predilecção pelos nossos Quinhentistas. Bernardim Ribeiro glosou
+o romance de Durandarte, aonde começa <em>Oh Belarma, oh Belarma</em>, <span
+class="pagenum">[VI]</span>já glosado até ao decimo verso no <em>Cancionero
+de Ixar</em>, fol. 138, e d'ahi por diante tirado da <em>Floresta de
+romances</em><a name="L3635" id="L3635" href="#L3630"><sup>4</sup></a>.</p>
+
+<p>A todas estas causas de decadencia e transformação accresceu a prohibição
+das <em>folhas volantes</em> pelo <em>Index Expurgatorio</em> de 1581.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Como Sepulveda, que tirava os seus romances das chronicas hespanholas,
+João Vaz, completou a tradição dos amores de <em>Gaia</em> por algum
+documento escripto. Qual elle fosse ninguem o póde asseverar. É certo que se
+encontra a narração d'esses amores com esta fórma graciosa no <em>Livro velho
+das Linhagens</em>: «e este rey D. Ramiro se vê casado com huma rainha, e
+fege n'elle rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão que era mouro, e
+foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Mayer: entom era rey Ramiro
+nas Asturias; e quando Abencadão tornou adusea para Gaia, que era seu
+castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa molher e pesoulhe eude
+muito, e emviou por seu filho D. Ordonho e por seus vassallos, e fretou saas
+naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar a Sanhoane da Furada; e pois que a
+nave entrou pela foz cobriua de panos verdes, em tal guiza que cuidassem que
+erão ramos, cá entonce Douro era cuberto de huma parte e da outra darvores; e
+esse rey Ramiro vestiose em panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu
+corno, e falou com seu filho e com os seus vassallos que quando ouvissem o
+seu corno que todos lhe acorressem, e que todos juvecem pela ribeira per
+antre as arvores, fóra poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice
+estar a huma fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fóra do
+castello, e fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzela que servia a
+rainha levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella
+donzela havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e nem o
+conheceo, <span class="pagenum">[VII]</span>e el pediolhe dagoa pela aravia,
+e ella deulha por hum antre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo
+havia partido com sa molher a rainha pela meadade; el deose a beber, e deitou
+o anel no antre, e a donzella foice, e deo agoa á rainha, e cahiolhe o anel
+na mão, e conheceu ella logo; a rainha perguntou quem achara na fonte; ella
+respondeu qua não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe non negace,
+ca lhe faria por onde bem, e mercê; e a donzela lhe dice enton que achara hum
+mouro doente e lazarado, e que lhe pedira dagoa que bebece, e ella que lha
+dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce por el, e se o hi achasse que
+lho adusese. A donzela foi por el, e dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha
+que fosse a ella; e entonces rey Ramiro foise com ella; e el entrando pela
+porta do paço conheceo-o a rainha, e dicelhe&mdash;«Rey Ramiro quem te aduse
+aqui?»&mdash;E el lhe respondeu&mdash;«ca o teu amor»&mdash;: e ella lhe dice que vinha a
+morrer, e el lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice á donzela que o
+metese na camara, e que lhe não dese que comece, nem que bebece; e a donzela
+pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou Abencadão e
+derãolhe que jantace, e despois de jantar foice para a rainha; e desque
+fizerão seu plazer, dice a rainha&mdash;«se tu aqui tivesses rey Ramiro, que lhe
+farias?» O mouro então respondeo&mdash;«o que el a mi faria: matal-o.» Então a
+rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e ella assim o fez, e aduseo
+ante o mouro, e o mouro lhe disse&mdash;«es tu rey Ramiro?»&mdash;e elle respondeo&mdash;«eu
+sou»&mdash;e o mouro lhe perguntou&mdash;«a que vieste aqui?»&mdash;elrey Ramiro lhe disse
+entom&mdash;«vim ver minha molher que me filhaste a torto; ca tu havias comigo
+tregoas, e nom me catava de ti»&mdash;e o mouro lhe disse «vieste a morrer; mas
+querote perguntar: se me tiveces em Mier que morte me darias?»&mdash;Elrey Ramiro
+era muito faminto e respondeolhe assim&mdash;«eu te daria um capão assado e huma
+regueifa, e fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa (copa?) chea de
+vinho que bebesses: em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas
+as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um padrão,
+e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o folego.»&mdash;Então respondeo
+Abencadão&mdash;«essa morte te <span class="pagenum">[VIII]</span>quero eu
+dar.»&mdash;E fez abrir os curraes, e fezes sobir em um padrão que hi entom
+estava; e começou rey Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sua
+gente pelo corno que lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como
+ouvio, acorreolhe com seus vassallos, e meterãose pela porta do castello, e
+el deceuse do padron adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da
+bainha, e descabeçando atá o menor mouro que havia em Gaia, andarão todos á
+espada, e nom ficou em essa villa de Gaia pedra sobre pedra que tudo nãa
+fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e quanto
+haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora amarrarão as
+barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramiro deitouce a dormir no regaço da
+rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas della caerão a D. Ramiro
+pelo rostro, e el espertouse, e disselhe, porque chorava, e ella
+disselhe&mdash;«choro por o mui bom mouro que mataste»&mdash;e então o filho que andava
+hi na nave ouvio aquella palavra que sa madre dissera, e disse ao
+padre&mdash;«padre não levemos comnosco mais o demo»&mdash;Entom rey Ramiro filhou uma
+mó que trazia na nave, e ligoulha na garganta, e anchorouha no mar, e dês
+aquella hora chamarão hi Foz d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa
+corte, e contoulhe tudo como lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou
+com ella, e louvoulho toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege
+nella hum filho, e quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom
+o padre, que lhe punha este nome por que seria padre e senhor de muito boa
+fidalguia; e morreo rey D. Ramyro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in
+pace<a name="L3692" id="L3692" href="#L3686"><sup>5</sup></a>.</p>
+
+<div class="footnote">
+<p><a name="L3576" id="L3576" href="#L3574"><sup>1</sup></a> Fol. 221.</p>
+
+<p><a name="L3594" id="L3594" href="#L3591"><sup>2</sup></a> Cancion. Geral,
+fol. 217.</p>
+
+<p><a name="L3627" id="L3627" href="#L3624"><sup>3</sup></a> Vid. o meu
+Cancioneiro popular, pag. 31-39; notas, pag. 204.</p>
+
+<p><a name="L3630" id="L3630" href="#L3635"><sup>4</sup></a> A edição da
+Bibliotheca Portugueza é detestavel; desconheceu a celebre edição de Ferrara,
+e atribue a Bernardim Ribeiro a pag. 363 um soneto de Gongora, fazendo-o
+auctor do romance de Durandarte das velhas colleções hespanholas.</p>
+
+<p><a name="L3686" id="L3686" href="#L3692"><sup>5</sup></a> Mon. hist., II
+Scriptores, pag. 180-181. Esta mesma legenda se encontra no Livro das
+linhagens do Conde Dom Pedro (Mon. Hist., ibid. pag. 274-277) com algumas
+variantes na acção.</p>
+
+<p>Aqui agradecemos ao illustre philologo, o Sr. Dr. Pereira Caldas, a
+valiosa offerta do unico exemplar conhecido do romance de <em>Gaia</em>, de
+que nos servimos para a presente edição.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2 style="text-align: center;">BREVE<br>
+COMPOSIÇAM E TRATADO,</h2>
+
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;">Agora novamente tirada das
+antiguedades de Espanha. Que trata de como el Rey Almançor morreo em Portugal
+junto á cidade do Porto, onde chamão Gaya, ás mãos del Rey Ramiro, &amp; sua
+gente, donde tambem cobrou, &amp; matou sua molher chamada Gaya, que estava
+com este Mouro, da qual ficou este lugar chamado de seu nome.</p>
+<hr style="width: 10%;">
+
+<p style="text-align: center;">Composto por João Vaz natural da Cidade de
+Evora, em verso de oitava rima.</p>
+
+<p style="text-align: center;"><em>Dirigido a dom Miguel de Meneses, Marquez
+de Villa Real, &amp;.</em></p>
+
+<hr style="width: 10%; text-align: center;">
+
+<p style="text-align: center;">Foy visto, &amp; approvado, pello Padre Frey
+Manuel Coelho.</p>
+
+<p style="text-align: center;"><em>Em Lisboa com todas as licenças
+necessarias.</em><br>
+<em>Por Antonio Alvares.</em> 1630.</p>
+
+<hr>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3 style="text-align: center;">Soneto ao Marquez.</h3>
+
+<div class="poesia">
+  A ti Varão insigne, &amp; sinalado,<br>
+Da generosa stirpe Lusitana,<br>
+Author offerece este tractado,<br>
+Sobre esta Hystoria Mauritania.<br>
+  Desse Rey Almançor desbaratado.<br>
+Pella gente Galega, &amp; Castelhana,<br>
+Desse bom Rey Ramiro o esforçado,<br>
+Dos quais Reys ambos, a Historia emana.<br>
+  Recebe pois Senhor esclarecido,<br>
+A obra, que o Author te apresenta,<br>
+Com amor, humildade, &amp; cortesia.<br>
+  Como que se desculpa de atrevido.<br>
+O que por paga toma, &amp; se contenta,<br>
+Por servir a tam alta Senhoria. </div>
+
+<h3 style="text-align: center;">ARGUMENTO E DECLARAÇAM DA HISTORIA.</h3>
+
+<p><span class="pagenum">[10]</span>Em tempo que reynava em Galiza, &amp;
+parte de Espanha, o animoso Rei Ramiro que foy casado com h&#x169;a Senhora
+chamada Gaya, tendo os Mouros occupada: a demais: por ser em tempo que se
+avia perdido Espanha entre outros Reys Mouros, reynava Almançor.</p>
+
+<p>Estes dous Reys, avendo entre si batalhas, em h&#x169;a captivou Ramiro
+h&#x169;a irmãa deste Almançor, a qual tinha por amiga; do que enojada Gaya,
+tratou com Almançor a quisesse furtar, que ella daria ordem como se fosse com
+elle, como deu, &amp; a cobrou, &amp; levou pera Portugal, que estava de
+Mouros, &amp; a foy pór junto da Cidade do Porto, &amp; junto do Rio Douro,
+sobre o lugar que agora chamão Gaya, onde Almançor tinha fortaleza, &amp;
+paços, dos quaes oje em dia se vem os alicerces, &amp; fundamentos. O que
+vendo Ramiro, ordenou demproviso tres Gales de armada, &amp; com ellas veo
+aportar, a Sam João da Foz, mea legoa do porto, &amp; sendo de noyte com
+ellas se entrou por o Rio Douro, sem serem sentidas dos Mouros, &amp;
+cobertas de ramos por não serem vistas, tanto que amanheceo, Ramiro se pos em
+trajos de romeiro, &amp; sayo em terra deixado em sinal aos seus, que se
+ouvissem tanger h&#x169;a buzina que consigo levava lhe acudissem. E assi se
+foy guiando pera os paços deste Mouro, &amp; antes disso chegou a h&#x169;a
+fonte, onde com elle veo ter h&#x169;a Moura, que vinha buscar hum pucaro de
+agoa, pera a mesma Gaya, o qual falandolhe em Aravia lhe pedio o pucaro pera
+beber por elle, &amp; lho deu, &amp; des que bebeo, tirando hum anel do dedo
+o deitou dentro, sem o ver a Moura. Bebendo Gaya conheceo o anel que era de
+seu marido Ramiro, &amp; o mandou chamar, por ser já entam ido Almançor,
+&amp; vendose, se abraçarão, &amp; tratarão de matar o Mouro, &amp; se hirem
+ambos, &amp; pera isso o meteo em h&#x169;a camara, pera que quando Almançor
+durmisse a sesta lhe desse rebate; nisto veo Almançor da caça, &amp; sentado
+á mesa pera comer, esta Gaya lhe deu conta de Ramiro, &amp; como vinha pera o
+matar, &amp; assi o Mouro mãdou vir ante si a Ramiro, &amp; passadas antre si
+rezões, por fim, disse Almançor, se eu Ramiro fora a tua casa pera te matar,
+que me fizeras? respondei, mandarate levar a hum alto, &amp; com esta bozina
+te fizera tanger até que rebentaras, mandou Almançor, que isso lhe fizessem,
+levado ao alto, começou a tanger, &amp; logo a gente de Ramiro acudio, &amp;
+tomando os Mouros descuydados degolarão Almançor, &amp; os mais, &amp; foi
+saqueada a terra, &amp; dessa Gaya ficou o nome ao lugar de Gaya, da Cidade
+do Porto.</p>
+
+<h3 style="text-align: center;">ROMANCE DE GAIA</h3>
+
+<div class="poesia">
+<span class="pagenum">[11]</span>   Cantemos de Ramiro Rey de Espanha,<br>
+E del Rey Almançor de Berberia,<br>
+Quando por desventura tam estranha,<br>
+No mais de Espanha entam Mouros avia,<br>
+Com animo cruel, com cruel sanha,<br>
+Cada qual um ao outro pretendia,<br>
+Privar de sua fama, honra, estado,<br>
+Com todas suas forças, e cuydado.<br>
+<br>
+  Desse Ramiro digo o esforçado,<br>
+Que deste nome tres com elle hão sido,<br>
+Daquelle que com Gaya foy casado,<br>
+Por quem tantos trabalhos ha sufrido,<br>
+Da qual Gaya do Porto ha tomado;<br>
+Em Portugal o mesmo apellido,<br>
+Lugar junto do Douro em o Porto,<br>
+Onde foy Almançor preso e morto.<br>
+<br>
+  Por mãos deste Ramiro animoso,<br>
+No que se satisfez de sua afronta,<br>
+E lhe valeo em isso o ser manhoso,<br>
+Segundo a historia o aponta,<br>
+Que nam bastava ser Rey valoroso,<br>
+Que força sem saber muy pouco monta,<br>
+E os ardis he cousa muy notoria,<br>
+Que sam causa urgente de victoria.<br>
+<br>
+  Nem tratamos aqui das mais pendenças,<br>
+E batalhas antre estes Reys avidas,<br>
+Que forão muyto largas, e extenças,<br>
+E em chronicas estão bem referidas,<br>
+Só queremos tratar das differenças,<br>
+Que antre estes Reys forão movidas<br>
+Quando Ramiro ouve captivado<br>
+A irmãa de Almançor, e deshonrado.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[12]</span>   Donde este Almançor tempo esperando,<br>
+A molher a Ramiro ha furtado,<br>
+No qual se foy emfim muy bem vingado,<br>
+Ou estava no furto melhorado,<br>
+De Gaya Almançor ficou gozando,<br>
+E com ella ficou como casado,<br>
+Assi que um peccado outro chama,<br>
+E fazem na maldade calo, e cama.<br>
+<br>
+  Vendose Almaçor com a tal presa,<br>
+Como Aguia Real voou com ella,<br>
+Logo que a furtou com ligereza<br>
+Perdeo de vista os Reynos de Castella,<br>
+E veo aqui portar nesta deveza<br>
+Do Douro onde então estava aquella,<br>
+Povoação, e paços, donde Gaya,<br>
+A qual ahi está junto da praya.<br>
+<br>
+  Ramiro tal ficou com esta nova,<br>
+Que se lhe deu la onde era ausente,<br>
+Que esteve em se meter em h&#x169;a cova,<br>
+Não querendo viver antre a gente,<br>
+Não aver igual dor, he clara prova,<br>
+Porque de si he quasi impaciente,<br>
+Mas como he Christão, e Rey sabido,<br>
+A Deos logo então se ha socorrido.<br>
+<br>
+  Tanto, e mais chorava o seu peccado,<br>
+Que toda esta mesma desventura,<br>
+No que consiste o ser Christão chamado,<br>
+E nisto está o seu remedio, e cura,<br>
+Ramiro que em isto se ha fundado.<br>
+Ver quam pouco na vida o gosto dura,<br>
+A Deos se dedicou, o que Deos vendo,<br>
+Neste caso quis logo ir provendo.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[13]</span>   E assi lhe inspirou que ordenasse,<br>
+H&#x169;a pequena, e secreta armada,<br>
+De h&#x169;as tres gales, e que guiasse<br>
+Aonde sua Gaya era levada,<br>
+E que como fiel bem confiasse,<br>
+Que por elle seria hi cobrada,<br>
+E o mesmo Almançor morto, e vencido,<br>
+Porque Deos o havia permetido.<br>
+<br>
+  Ordenou pois Ramiro com bom siso,<br>
+As tres gales darmada pella posta,<br>
+Com bonança vieram demproviso,<br>
+A Portugal a demandar a costa,<br>
+E por ella guiando sobre aviso,<br>
+Calados sem falar, nem dar resposta,<br>
+A Sam João da Foz forão surgidos,<br>
+De noyte sem dos Mouros ser sentidos.<br>
+<br>
+  Chegadas as gales a foz, e entrada,<br>
+Daquesse Rio Douro caudaloso,<br>
+Ahi parou então esta armada.<br>
+Com perigo, por ser lugar fragoso,<br>
+Da noyte era ja parte andada,<br>
+O Ceo estava claro, e luminoso,<br>
+O ar sereno, tudo socegado,<br>
+O mar porem alli sempre he irado.<br>
+<br>
+  E por se segurar determinarão,<br>
+Tomar o Rio acima assi surgindo,<br>
+Pella parte a dentro, se deytarão,<br>
+Com os remos o Douro vão ferindo,<br>
+E por fazer carreira deceparão,<br>
+Mil arvores, que o Rio vam cobrindo,<br>
+Que sem isso gales ir não podião,<br>
+Até onde levalas pretendião.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[14]</span>   Era o arvoredo nessa idade,<br>
+Muy sobejo, e crecido até a praya,<br>
+Na parte donde agora he a Cidade,<br>
+E na banda daquem chamada Gaya,<br>
+De arvores muy gram variedade,<br>
+De brozios, e louro, mirtos, faya,<br>
+E com ser tudo fragoa, e penedia,<br>
+Somente o arvoredo alli se via.<br>
+<br>
+  Nesta parte de ca daquem do Douro,<br>
+No mais alto outeyro, e o mayor,<br>
+Ahi tinha seus paços el Rei Mouro,<br>
+Aquelle a quem chamarão Almançor,<br>
+Ahi tinha tambem o seu thesouro,<br>
+Porque daquella terra era senhor,<br>
+Contente e recreado alli vivia,<br>
+Por ser terra de caça e monteria.<br>
+<br>
+  Ahi vay h&#x169;a cava como mina,<br>
+Até o Rio feita entre dous valos,<br>
+Que ainda agora se vè, e determina,<br>
+Ser pera írem beber os seus cavalos,<br>
+Tambem he cousa certa, e de crer digna,<br>
+Que tinha outros Reys Mouros vassalos,<br>
+Todos a este Rey obedecião,<br>
+Porque em sua ley maldita crião.<br>
+<br>
+  Alli se estava o Mouro aposentado,<br>
+Donde o largo mar, cos olhos via,<br>
+Dalli o via as vezes socegado,<br>
+E outras quando bravo bem o ouvia<br>
+Tambem estava alli fortalezado,<br>
+Porque del Rey Ramiro se temia,<br>
+Que quem deve, em fim sempre recea,<br>
+Se tem um bon jantar, de haver ma cea.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[15]</span>   Alli gastava a vida com sabores,<br>
+O Mouro Almançor muy namorado,<br>
+Gozando dessa Gaya; e seus favores,<br>
+Molher del Rey Ramiro o magoado,<br>
+Mas o jogo, e caça, e os amores,<br>
+O fazem do perigo descuydado,<br>
+E entre tanto o tempo dá h&#x169;a volta,<br>
+Pesca o pescador nagoa envolta.<br>
+<br>
+  Chegado pois Ramiro o muy prudente,<br>
+Com suas tres gales apercebidas,<br>
+De noite, ja que bem dormia a gente,<br>
+Alli se preparão escondidas,<br>
+E posto que vem feyto h&#x169;a serpente,<br>
+Ordena que não sejão alli sentidas,<br>
+E seu furor resguarda pera quando,<br>
+Se veja de Almançor ir triumphando.<br>
+<br>
+  Alli gastada a noyte em socego,<br>
+Quanto possivel era e importava,<br>
+Tratavão do segredo em emprego,<br>
+E do que tal empresa demandava,<br>
+A lingoa de Arabigo, e Grego,<br>
+Muy ao natural pronunciava,<br>
+Só do aviso da terra tendo mingoa<br>
+Por si se oferece ir tomar lingoa.<br>
+<br>
+  Ficou porem por todos assentado,<br>
+Que tocando Ramiro h&#x169;a corneta<br>
+Não fique em Gale nenhum soldado,<br>
+Que logo o outeyro nam cometa,<br>
+E com animo forte e esforçado,<br>
+Contra os crueis Mouros arremeta,<br>
+E todos juntos dando Sanctiago,<br>
+Os Mouros ajam hum cruel estrago.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[16]</span>   Passada pois a noite, veo o dia,<br>
+Ramiro toma trajos de romeiro,<br>
+Deyxada toda sua companhia,<br>
+Sobindo se vay so pello outeyro,<br>
+A Deos so quis levar por sua guia,<br>
+E em sua fe firme, e muy inteiro,<br>
+E fazendo o sinal da Cruz no peito<br>
+Aos paços do Mouro foy direito.<br>
+<br>
+  Por ver se indo assi desconhecido<br>
+A sua molher Gaya ver pudesse,<br>
+Ou sendo Almançor a caça ydo,<br>
+Ella com o seu Ramiro se viesse,<br>
+O Phebo então mostrava aver nacido,<br>
+Contra quem disse, se ora te aprouvesse,<br>
+Com teu resplandor Phebo me ir mostrado,<br>
+Este bem, que pretendo, e vou buscando.<br>
+<br>
+  Assi se vay o triste de Ramiro,<br>
+De pensamentos tais arrodeado,<br>
+De pedra não seria mais de hum tiro,<br>
+Que perto estava ja de povoado;<br>
+Dizendo vay, se este bem acquiro<br>
+Deste Mouro serey muy bem vingado,<br>
+E por esta historia ser sabida<br>
+Aqui se verá feyta h&#x169;a ermida.<br>
+<br>
+  E dando mais Ramiro h&#x169;a passada<br>
+Vio h&#x169;a fonte dagoa muy fermosa,<br>
+De rica pedraria fabricada,<br>
+De agua muy delgada, e saborosa,<br>
+A qual oje em dia he chamada,<br>
+A fonte de Ramiro, sem mais glosa,<br>
+A qual oje ahi está por memoria<br>
+Em testemunho, e fe desta historia.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[17]</span>   Alli se assentou por ir cansado,<br>
+Não, para descansar, que mal descansa,<br>
+Aquelle que então ha começado,<br>
+Trabalhar por o que depois alcança,<br>
+E alli se despõe determinado<br>
+Armar h&#x169;a certos laços desperança,<br>
+Esperando que và alguém à fonte,<br>
+Que novas de Almançor lhe diga e cõte.<br>
+<br>
+  Cuydando está Ramiro o que faria,<br>
+Se espere alli, ou fosse proseguindo.<br>
+Que só da sua armada se temia,<br>
+Nam fossem os Mouros hi sentindo,<br>
+Pello perigo grande que corria<br>
+Em nam si ir primeiro descobrindo,<br>
+A terra antes de se dar rebate,<br>
+Por que milhor se desse o seu combate.<br>
+<br>
+  Começou a dizer ja fenecera<br>
+Com a morte que eu mesmo me daria,<br>
+Se a esperança nam me entretivera,<br>
+Dizendo espera a noyte, e mais hum dia,<br>
+Tantas vezes me diz espera, espera<br>
+Que ja cuydo que o faz de zombaria,<br>
+Se me ouves esperança por esmola<br>
+Te peço, ou me mata, ou me consola.<br>
+<br>
+  Qual soe o mar fazer naturalmente,<br>
+Nas marinhas que a elle sam chegadas,<br>
+Quando vem com maré, e com enchente,<br>
+Da qual sam de contino visitadas,<br>
+Que com o ardor do sol quando he quente<br>
+As taes agoas com sal sam congeladas,<br>
+E se antes de o ser, hi tem vasante<br>
+Não fica hi sal atras, nem adiante.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[18]</span>   Assi a magoas em o pensamento,<br>
+Vam ao coraçam, e hi represadas,<br>
+Tras maré de enchente o sentimento,<br>
+E em agoas de sal, hi sam tornadas,<br>
+E com força da dor, e do tormento,<br>
+Por os olhos rebentão, e destapadas,<br>
+Nas lagrimas vem tudo, e qu&#x1ebd; não chora,<br>
+Da cova esta tal muy perto mora.<br>
+<br>
+  Assi o bom Ramiro recordado<br>
+Daquella pena e dor que o atormenta,<br>
+Posto que a chorar está avesado,<br>
+Como de novo agora o mal lamenta,<br>
+E a presa da magoa se ha quebrado,<br>
+Dos olhos outra fonte lhe arrebenta,<br>
+E assi duas fontes alli correm<br>
+Porque h&#x169;a nacia deste homem.<br>
+<br>
+  E assi era de ver esta porfia<br>
+Com que cada qual dellas caminhava,<br>
+Que se da fonte muyta agoa corria<br>
+Ramiro pellos olhos mais deytava,<br>
+Mil lastimas o triste alli dezia,<br>
+Perguntay pera quem, ou aquem falava,<br>
+Com dor a lingoa fala desatinos,<br>
+E faz hom&#x1ebd;s chorar como meninos.<br>
+<br>
+  H&#x169;a Nimpha então fazendo aballo<br>
+Là dentro em a fonte se banhava,<br>
+E começou cantar por consolallo,<br>
+Notou Ramiro entam o que cantava,<br>
+Cantando (disse a Nimpha) a ti fallo.<br>
+Ramiro là te ouvi aonde estava,<br>
+Sou Nimpha, Esperança sou chamada,<br>
+Espera que a boa ora te he guardada.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[19]</span>   Com esperança cação os caçadores,<br>
+As aves em os laços enlaçadas,<br>
+Com esperar recolhem os lavradores,<br>
+O fruyto das sementes semeadas,<br>
+E com canas tambem os pescadores,<br>
+Com sedelas, e boyas, e chumbadas,<br>
+O peyxe quando o comer engolem<br>
+Com que por engano de anzoes cobrem.<br>
+<br>
+  Neste conto Ramiro está enlevado<br>
+E a Nimpha no mesmo ainda procede,<br>
+Quando junto a elles ha chegado<br>
+H&#x169;a Moura da ley de Mafamede,<br>
+Sapatinhas da cor de laranjado<br>
+A medida do pé tres pontos pede,<br>
+Escassamente a Moura foy sentida<br>
+Quando a Nimpha na fonte foy somida.<br>
+<br>
+  Na idade mostrava esta Moura<br>
+Que ainda donzella ser devia,<br>
+De gentil parecer tam branca e loura,<br>
+Que nisso nada Moura parecia,<br>
+Não sey a natureza, porque doura,<br>
+De graça a que dà graça e bem fogia,<br>
+Que bem sem graça he como está visto,<br>
+Aquelle que nam cre na ley de Christo!<br>
+<br>
+  Vestida vem de cor alionado<br>
+De h&#x169;a roupa de sede até o artelho,<br>
+H&#x169;a touca tonizil com hum trançado<br>
+De fitas damarelo, e vermelho,<br>
+Com hum cinto muy largo, e apertado<br>
+Em tudo tras concerto, e aparelho<br>
+Por isso de ser vista nam recea<br>
+Mas em ver, e ser vista se recrea.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[20]</span>   Hum vaso dourado tras de gram valia,<br>
+De muy ricos esmaltes esmaltado,<br>
+Que ser cousa de Rey bem parecia,<br>
+Segundo era rico, e bem obrado<br>
+Cantando vem a Moura em Aravia;<br>
+O tal cantar Ramiro ha notado,<br>
+Damor era seu canto muy sobido,<br>
+Porque se aqueyxava de Cupido.<br>
+<br>
+  Alli sauda a Moura o bom andante,<br>
+Ao seu modo em sua Aravia,<br>
+Ramiro lhe responde em consoante,<br>
+De Arabigo que bem o entendia,<br>
+A Moura que o ve feito hum brivante,<br>
+Posto que de nenhum modo o conhecia,<br>
+Sospeyta por o ver tam bem criado<br>
+Ser homem que seus trajos ha mudado.<br>
+<br>
+  Pediolhe de beber o bom Romeyro,<br>
+A Moura de cortês não lho negava,<br>
+Mas o vaso encheo, e lavou primeiro,<br>
+E com mesura lho apresentava,<br>
+Ramiro lhe tirou o seu sombreiro,<br>
+E o pucaro dagoa lhe tomava,<br>
+Que ser de Almançor claro se via,<br>
+Pellas letras, e armas que trazia.<br>
+<br>
+  Ramiro, que em tal ventura se acha,<br>
+Bebendo perguntou a quem servia,<br>
+A Moura respondeu servia a Gaya,<br>
+Pera quem hia buscar a agoa fria,<br>
+Vede que trago amargo alli traga,<br>
+Ver que sua molher tambem bebia<br>
+Por jarros de Almançor seu enemigo,<br>
+O qual ella ja tinha por amigo.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[21]</span>   Nam quis Ramiro mais saber do caso,<br>
+Mas encobrindo a dor que nalma sente,<br>
+Tornou encher na fonte o rico vaso,<br>
+(Dizendo) de força he, seja paciente,<br>
+Mas vagando vay ja aquelle prazo,<br>
+Se minha esperança não me mente,<br>
+Que presto se verá morto este Mouro,<br>
+Perdendo sua fama, e seu thesouro.<br>
+<br>
+  Consigo isto dezia o magoado<br>
+Tirando dum anel no vaso o deita,<br>
+Sem que fosse sentido, nem olhado<br>
+Da Moura por nam ter disso sospeita,<br>
+Por el Rey Almançor lhe ha perguntado<br>
+A caçar deve ser ido, a cousa feyta,<br>
+A caçar vay dos porcos, e veados,<br>
+Que os seus là lhe tinham emprazados.<br>
+<br>
+  A Moura se despede do Romeyro<br>
+So por representar honestidade,<br>
+Que alli se detivera o dia inteyro,<br>
+Segundo que isso pede a mocidade,<br>
+Sobindo vay a Moura pello outeiro,<br>
+Ligeiro, e com gram vellocidade,<br>
+Porque parece que hia ja tardando,<br>
+E teme que o tardar lhe vão notando.<br>
+<br>
+  Ramiro que na fonte soo ficava,<br>
+Donde sua figura clara via,<br>
+Consigo mesmo o triste alli falava,<br>
+E elle mesmo assi se respondia,<br>
+E sendo dantes aguia que voava,<br>
+E que na nota a todos excedia,<br>
+Agora com a dor que o aperta<br>
+Parece que desvayra, e desconcerta.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[22]</span>   Se verdadeira es minha figura,<br>
+(Dizia) tu figura jà es tal,<br>
+Que como cousa que jà não tem cura,<br>
+Se devem deyxar ao natural,<br>
+Porque teu mal he mal que sempre dura,<br>
+E que he sobre todos sem igual,<br>
+Por isso, pois o tens, e o padeces<br>
+Não sey como de todo nam faleces.<br>
+<br>
+  A figura então lhe respondia<br>
+Em voz, e em toada differente,<br>
+Que serem duas cousas parecia,<br>
+Cada h&#x169;a por si distintamente,<br>
+Ou fosse a esperança a qual seria,<br>
+Que ja o reprendera de impaciente,<br>
+Agora nisso mesmo lhe aponta,<br>
+No que lhe respondeo, ou tanto monta.<br>
+<br>
+  Deixemos a Ramiro por agora,<br>
+Sobre seu mal soltar mil desatinos,<br>
+Chore seu mal que com rezão o chora,<br>
+Dè mil ays, dè suspiros muy continos,<br>
+Até que Deos lhe traga aquella ora,<br>
+Na qual, nem Mouros velhos, nem meninos<br>
+Fiquem mais povoando aquella terra,<br>
+E morra Almançor naquella guerra.<br>
+<br>
+  Vamos saber da Moura o que passava,<br>
+Quando sua senhora a agoa bebia,<br>
+E se se alterava, ou perguntava,<br>
+Cujo fosse o anel que dentro hia,<br>
+Porque nisso Ramiro se fundava<br>
+Em que o seu anel conheceria,<br>
+E se lhe tinha amor de molher boa,<br>
+No caso ella faria de pessoa.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[23]</span>   Bebeo pois a Rainha, e achando,<br>
+O anel conheceo que de Ramiro era,<br>
+E quanto pode em si dissimulando,<br>
+Hum muy grande sospiro ahi dera,<br>
+E confusa está imaginando,<br>
+Porque via, e arte alli viera,<br>
+Ou porque invenção, modo, e geito,<br>
+E se era aquelle, ou contrafeito.<br>
+<br>
+  Perguntou se achara alguem na fonte<br>
+Ao tempo que ella agoa tomara,<br>
+Dizendo que lhe diga, e lhe conte,<br>
+Tudo o que ante ella se passara,<br>
+Ou outra alg&#x169;a cousa lhe aponte,<br>
+Por onde o anel alli achara,<br>
+E porque disso a Moura se espantava<br>
+A Raynha contra ella se assanhava.<br>
+<br>
+  A Moura que se vee ser innocente,<br>
+Do caso que então mal entendia,<br>
+Jura que não achou nenh&#x169;a gente.<br>
+A Raynha lhe disse que mentia,<br>
+E com esta porfia differente,<br>
+A Raynha em ira se encendia,<br>
+Com hum Chapim lhe tira daremesso,<br>
+Quis Deos se desviou, e foi avesso.<br>
+<br>
+  Tornou a Moura então assegurouse,<br>
+Dizendo que achara a hum Romeiro,<br>
+Mas que não se acordava, e disculpouse,<br>
+Da culpa de lho não dizer primeiro,<br>
+A Raynha com isso aquietouse,<br>
+Crendo ser seu marido verdadeiro,<br>
+E ou fosse com fee, ou sem verdade,<br>
+De vello mostrou ter grande vontade.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[24]</span>   Mandou pois a Raynha que o chamasse<br>
+E que de sua parte lhe dissesse,<br>
+Que fosse logo là, e não tardasse,<br>
+E fosse confiado, e não temesse,<br>
+E que em bom segredo lhe guardasse,<br>
+O que do tal Romeiro entendesse,<br>
+Que Almançor a caça era ido,<br>
+Que podia fazer em seu partido.<br>
+<br>
+  A Moura parte logo diligente,<br>
+A cumprir o mandado da senhora,<br>
+Ramiro que tornar a moura sente,<br>
+Esforço (disse) se ha mister agora,<br>
+E como vio a Moura vir contente,<br>
+Alegrouse tambem naquella hora,<br>
+Posto que o coração o convidava,<br>
+Com outro desprazer que adevinhava.<br>
+<br>
+  Chegando pois a Moura lhe dezia;<br>
+Romeiro a Raynha Gaya manda,<br>
+Te peça com amor, e cortesia,<br>
+A vejas, que te espera na varanda.<br>
+Que de verte gram gozo levaria,<br>
+E de favorecer tua demanda,<br>
+Que lhe queiras fazer aquesta graça,<br>
+Antes que Almançor venha da caça.<br>
+<br>
+  Que saibas que Almançor a caça he ido,<br>
+Não percas ponto algum de tal ensejo,<br>
+Ramiro que a mensagem ha ouvido,<br>
+Ousado mostra logo o seu desejo,<br>
+Cuidando que fazia em seu partido,<br>
+Alegre sem algum receo, ou pejo,<br>
+Tomando o bordão, disse senhora,<br>
+Guiai, que em vossas mãos me ponho agora.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[25]</span>   E sem fazer demora obedecendo,<br>
+Acompanhou a Moura com cautela,<br>
+Perguntando se vão, e respondendo,<br>
+A Moura a Ramiro, e elle a ella,<br>
+No andar pausa as vezes vão fazendo,<br>
+Ramiro vay soltando â Moura a trella,<br>
+A Moura he cortesaã, e confiada,<br>
+E demostrava ser muy namorada.<br>
+<br>
+  A pratica damores he fingida,<br>
+Da parte de Ramiro enganosa,<br>
+A Moura vay damor presa, e vencida,<br>
+Enganada merece a envejosa,<br>
+Nos amores muy solta, e atrevida,<br>
+O que dana, e afea o ser fermosa,<br>
+Enganada merece h&#x169;a tal dama,<br>
+Quando de namorada quer ter fama.<br>
+<br>
+  Pois trata de adquirir o que pretende,<br>
+A ver sua senhora, e o deseja,<br>
+Mormente, pois o sabe, e o entende,<br>
+Mas todas sam feridas da enveja,<br>
+O fogo da cobiça as acende,<br>
+Que sempre h&#x169;as com outras tem peleja,<br>
+Sobre o negro amar, e ser amadas,<br>
+E sam h&#x169;as das outras desdenhadas.<br>
+<br>
+  Junto vam jà dos paços, e castello,<br>
+A Raynha andava passeando,<br>
+Na varanda muy morta jà por velo,<br>
+Ramiro os seus olhos levantando,<br>
+Não pos duvida alg&#x169;a em conhecelo,<br>
+Nem elle della esteve duvidando,<br>
+Sobindo pois Ramiro h&#x169;a escada,<br>
+A Raynha com elle està chegada.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[26]</span>   E como onde ha amor nam ha receo<br>
+Sem receo de nada se abraçarão,<br>
+Porque o seu prazer era tam cheo,<br>
+Que remeteo por mais que o represaram,<br>
+E estando assi neste enleo,<br>
+Damor, dos olhos rios emanarão,<br>
+De agoas que dizem ser salgadas<br>
+Estas porem por doces sam julgadas.<br>
+<br>
+  Qual Pyramo, e Tysbe se mostrarão,<br>
+Amarse de verdade o que pedia,<br>
+O vinculo de amor que professarão,<br>
+Mais mostra de amor ser não podia,<br>
+Que a que alli ambos demostrarão,<br>
+Nem outra cousa delles se entendia,<br>
+Mas como a molher bayla, ou dança,<br>
+Logo sabe fazer h&#x169;a mudança.<br>
+<br>
+  Perguntoulhe então Gaya o que buscava<br>
+Ou porque via, e arte alli viera,<br>
+Alli Ramiro então se assentava,<br>
+Como se em sua casa estivera,<br>
+Assentado dizerlhe começava,<br>
+O caso que a isto me trouxera.<br>
+Se tu senhora o tens tambem sabido,<br>
+Porque me julgaras por atrevido.<br>
+<br>
+  Se venho por ventura a salvarte,<br>
+O amor sobre tudo he cousa forte,<br>
+Ao menos senão podes cobrarte,<br>
+Consolarmeey em verte em minha morte,<br>
+E se Deos conceder poder livrarte,<br>
+Quero provar em isso minha sorte,<br>
+A isso (como digo) venho agora,<br>
+A cobrarte, ou morrer por ti senhora.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[27]</span>   Gaya sabiamente respondia,<br>
+Fingindo ser leal, e verdadeira,<br>
+Isso muy bem agora se faria,<br>
+Se se tivesse modo, ou maneira<br>
+De ser a nossa salvo, mas nam via<br>
+Nem sabia caminho, nem carreira,<br>
+Nem tu Ramiro mostras aparelho<br>
+E nisso ha mister muy bom conselho.<br>
+<br>
+  Ramiro lhe tornou aconselhado<br>
+Estou senhora, e bem apercebido,<br>
+Mas em só te levar nam sou vingado,<br>
+Sem matar este Mouro fementido.<br>
+E se de nos pode ser descabeçado,<br>
+Em salvo te porà o teu marido<br>
+Porque eu que a isso me aventuro,<br>
+Nam he sem te poder por em seguro.<br>
+<br>
+  Pois isso (disse) mandas que se faça<br>
+Assi se fará bem, e sem perigo,<br>
+Com o favor de Deos, e sua graça,<br>
+A qual seja contigo, e comigo,<br>
+Mas porque pode vir cedo da caça,<br>
+Este Mouro cruel teu enemigo,<br>
+Eu te direy o modo que teremos<br>
+Pera a nosso salvo isto fazermos.<br>
+<br>
+  Abrio logo h&#x169;a camara dourada,<br>
+De verão lhe servia de aposento,<br>
+Onde nunca o Sol fazia entrada,<br>
+E na sesta hia ter contentamento<br>
+Que sò por sua mão era fechada<br>
+Por lhe servir de seu recolhimento,<br>
+Ahi o fez entrar, e sendo entrado,<br>
+Deste modo, e maneira lhe ha falado.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[28]</span>   Aqui te ficaràs dentro metido,<br>
+Se queres concluyr em este feyto,<br>
+E se v&#x1ebd;s do caminho afligido<br>
+Bem podes acostarte em este leyto,<br>
+Aqui podes estar sem ser sentido<br>
+Onde podes fazer de teu proveyto,<br>
+Quando for tempo, e ora de acostarse,<br>
+E aqui Almançor vier deytarse.<br>
+<br>
+  Virà ora da caça encalmado<br>
+A mesa tem jà posta esperando<br>
+O comer està jà negociado<br>
+Nam poderà jà ir muyto tardando<br>
+E desque de comer ha acabado,<br>
+O sono o vay logo convidando,<br>
+E he certo vir logo a este pouso,<br>
+A descansar a sesta, e ter repouso.<br>
+<br>
+  Nisto deuse rebate, e nova certa,<br>
+Que vinha Almançor da montaria,<br>
+A camara fechou que estava aberta,<br>
+E de Ramiro então se despedia,<br>
+Tornou a seu estrado, e alerta<br>
+Se pos a entender no que entendia,<br>
+Com as damas laurando seda, e ouro<br>
+Quando a esta hora chegou o Mouro.<br>
+<br>
+  Acompanhado vem de caçadores,<br>
+De monteiros de pe, e cavalleyros,<br>
+E de cães como elles filhadores,<br>
+Muytos Mouros de lança, e besteiros<br>
+Vestidos de libreas, e de mil cores,<br>
+Com bozinas, e cornos prazenteiros,<br>
+Porem vinham muy surdos, e calados<br>
+Por não acharem Porcos, e Veados.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[29]</span>   Descavalga Almançor muy diligente,<br>
+Sobindo pera o paço, e aposento<br>
+Ella que o vè vir tam descontente,<br>
+Per si lhe foy fazer recebimento,<br>
+Com passo perlongado, e differente,<br>
+Lhe demostrou ter contentamento,<br>
+Com sua boa vinda, e alvoroço,<br>
+Deitandolhe os braços no pescoço.<br>
+<br>
+  Almançor lhe pagou por esta via,<br>
+Os afogos de amor na mesma ora,<br>
+Fazendolhe h&#x169;a grande cortesia,<br>
+Dizendolhe vivaes minha senhora,<br>
+E com este prazer, e alegria,<br>
+Sem se fazer alg&#x169;a outra demora,<br>
+Se sentarão à mesa e assentados<br>
+Serviramlhe seus pajes, e criados,<br>
+<br>
+  No meo do comer os dous estando,<br>
+Com grande gosto, festa, e alegria,<br>
+O segredo esta mà lhe foy soltando,<br>
+Dizendo, quero darte iguaria,<br>
+Da qual bem sey que deves dir gostando,<br>
+Por ser nova de gosto ta daria,<br>
+No que conheceràs quanto te ama,<br>
+Quem não dà por Ramiro em que a chama.<br>
+<br>
+  Que dèras Almançor Rey poderoso,<br>
+(Lhe disse) a quem Ramiro te entregàra,<br>
+Que deras se te víras tão ditoso,<br>
+A quem agora preso to mostrara,<br>
+Não me estranhes mostrarte disto gozo,<br>
+Que se com firme amor nam te amara,<br>
+Na treyção de Ramiro consentira<br>
+Que oje te matava neste dia.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[30]</span>   Que diremos de caso tam horrendo,<br>
+De femea tam mà, tam fera, dura,<br>
+Que coração tam duro, ha que vendo,<br>
+Deslealdade tal em criatura,<br>
+Nam deixa de ser duro amolecendo<br>
+Avendo dò de tanta desventura,<br>
+Num Rey que vem em trajos de romeiro,<br>
+A tirar a molher de captiveiro.<br>
+<br>
+  Ah falsa que te vas ao profundo,<br>
+Como não temes que ha Deos verdadeiro?<br>
+Que trocas por amor falso, e segundo,<br>
+A teu Rey, e a teu marido, e amor primeiro,<br>
+Por isso, e cousas taes vay mal ao mundo,<br>
+Por isso vem a peste, e o captiveiro,<br>
+E ha falta de paz na Christandade,<br>
+Por falta de verdade, e lealdade.<br>
+<br>
+  Se a verdade ca naceo na terra,<br>
+Qual terra, ou quem ousa desterrala,<br>
+Se tam natural he que lhe põe guerra?<br>
+Quem ousa, ou pretende degradala?<br>
+Se na verdade todo o bem se encerra,<br>
+Qual he o que se poe a pedrejala,<br>
+E sendo como he cousa tam forte,<br>
+Que só ella he senhora sobre a morte.<br>
+<br>
+  Ó se esta verdade se abraçasse,<br>
+Alli onde parece claramente,<br>
+Se cada hum a casa a levasse,<br>
+Assi como quem leva hum bom parente,<br>
+E se dentro no peito a conservasse,<br>
+E o mesmo fizesse toda a gente,<br>
+Servindolhe de peso, e medida,<br>
+A Deos seria alegre nossa vida.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[31]</span>   Ó celeste virtude, ó lealdade,<br>
+Qual ha antre as mais que milhor seja,<br>
+De ti produz, e nace a castidade,<br>
+Que todo o poder vence em peleja,<br>
+Que cousa ha milhor na Christandade?<br>
+Que cousa mais chegada à Igreja?<br>
+Que cousa, porque Deos milhor se renda,<br>
+E nos dè sua graça, e nos defenda.<br>
+<br>
+  Almançor que o caso ha ouvido,<br>
+Bem cre que esta Gaya isto dezia,<br>
+Por folgar de falar no seu marido,<br>
+Que tudo aquillo que era zombaria,<br>
+Entam lhe disse, aqui està escondido,<br>
+E sabe que matarte pretendia,<br>
+E levarme consigo sem mais ordem,<br>
+Mas eu quero ser tua, nam doutro homem.<br>
+<br>
+  Confuso fica o Mouro, e muy turbado,<br>
+Do caso, e perigo em que estivera,<br>
+Que antes de muyto fora degolado<br>
+Se esta mesma Gaya o quisera,<br>
+Por outra parte està muy alterado,<br>
+Festejando este bem que amor lhe dera,<br>
+Trazendo a seu poder seu enemigo,<br>
+Sem perda de batalha, e sem perigo.<br>
+<br>
+  Oo cruel sobre todas as molheres,<br>
+Tal fama queres ter, tal nomeada,<br>
+Porque o teu Ramiro ja nam queres?<br>
+Por estar com hum Mouro abarregada,<br>
+Não te lembrão os filhos teus prazeres?<br>
+Nem te acordas que es molher casada,<br>
+E que fosse Christãa? nam sey agora,<br>
+Antes parece que em ti, ley não mora.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[32]</span>   Das mais que forão màs calar se pode,<br>
+Só desta sobre todas mà praguejo,<br>
+Não sinto nellas mal que se acommode,<br>
+A h&#x169;a tal treição, a tal despejo,<br>
+Por hum Mouro infiel cara de bode,<br>
+Em quem foy por amor, e o desejo,<br>
+Perde do bom Ramiro, a memoria,<br>
+Perde honra, e fama, perde a gloria.<br>
+<br>
+  Ramiro bem ouvia o que passava,<br>
+Porque dalli estava muyto perto,<br>
+E como a mà tudo lhe contava,<br>
+E ja era em fim bem descuberto,<br>
+Ja vedes em que estado o triste estava,<br>
+Com que dor, agonia, em que aperto,<br>
+Que saltos lhe daria nessa ora,<br>
+O coração querendo saltar fora.<br>
+<br>
+  Não quis mais Almançor comer bocado,<br>
+Com festa de prazer, e alegria,<br>
+Dizendo eu estou bem consolado,<br>
+Não quero comer outra iguaria,<br>
+E mais pois tenho hospede honrado,<br>
+Rezam he que lhe guarde cortesia,<br>
+E pois aqui està neste aposento,<br>
+Vamoslhe fazer hum recibimento.<br>
+<br>
+  Seu capitão da guarda entom chamando,<br>
+Alli se lhe homilhou, e lhe ha mandado,<br>
+Que com a sua guarda va guiando,<br>
+Pera donde Ramiro està fechado,<br>
+O triste de Ramiro està orando,<br>
+A Deos que lhe socorra em tal estado,<br>
+Porque muy claramente alli via,<br>
+Que a morte à porta lhe batia.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[33]</span>   A porta desfechada num momento,<br>
+Do numero de Mouros muy armados,<br>
+Foy cheo todo aquelle aposento,<br>
+Com alfanges, e braços remangados,<br>
+Deos te valha Ramiro em tal tormento,<br>
+Que os teus estão de ti muy alongados,<br>
+E a tua armada está no Douro,<br>
+E tu sò preso antre tanto Mouro.<br>
+<br>
+  Vendo pois Almançor tal desatino,<br>
+A seu contrario estar tam desarmado,<br>
+E em abito vil de perigrino,<br>
+Mostrouse disso muy maravilhado,<br>
+Dizendo, eu nam sey, nem determino,<br>
+Que este seja Ramiro esforçado,<br>
+Mas se elle este he, e fez mudança,<br>
+Bem pouco vai agora a sua lança.<br>
+<br>
+  Alli Ramiro então lhe respondia,<br>
+Algum ora foy ella nomeada,<br>
+Antre Christãos, e antre a berberia<br>
+Tambem em essa Veyga de Granada,<br>
+Onde morreo muy gram cavallaria,<br>
+E se perdeo a tua cavalgada,<br>
+Agora, eu não venho a conquistarte,<br>
+Porque venho de paz, e d'esta arte.<br>
+<br>
+  A irmãa te furtey sendo casado,<br>
+Tendoa por amiga sendo dama,<br>
+No que occasião a ti te ey dado<br>
+A quereres roubar minha honra, e fama,<br>
+Por isso se causou por meu peccado,<br>
+Chegares Almançor a minha cama,<br>
+E nam sendo na terra, sem perigo,<br>
+Me furtaste a molher que tens contigo.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[34]</span>   E pois fuy causador d'essas afrontas,<br>
+O Reyno busque là outro herdeyro,<br>
+Que jà não quero mais, que estas Contas,<br>
+E andar neste trajo de Romeiro,<br>
+Almançor lhe tornou, muy bem apontas,<br>
+Mas v&#x1ebd;s Lobo em figura de Cordeyro,<br>
+E jà nam te crerey o que disseres,<br>
+Enemigo da honra das molheres.<br>
+<br>
+  Perdoame Ramiro isto que digo,<br>
+Que como a Rey que es devo tratarte,<br>
+Mas estou desagora mal contigo,<br>
+Desque de teu engano sobe parte,<br>
+E pois que te meteste em tal perigo,<br>
+Sem te valer o teu saber, e arte,<br>
+Podes dizer que a ti em este feyto,<br>
+Vieste ca fazer pouco proveito.<br>
+<br>
+  Tua Gaya comigo, esta senhora,<br>
+De ti Ramiro està pouco lembrada,<br>
+E diz que oxalà que nunca fora,<br>
+Contigo em algum tempo desposada,<br>
+Se dizes que te ha sido traydora,<br>
+Em esta tua machina ordenada,<br>
+Com bem rezam to foy, pois tu has sido,<br>
+O que foste pera ella mao marido.<br>
+<br>
+  Por h&#x169;a parte tenho sentimento,<br>
+Do misero estado em que estàs posto,<br>
+Mas que fazes tu neste aposento,<br>
+Agora sem meu grado, e sem meu gosto,<br>
+Porisso me nam dà de teu tormento,<br>
+E de se te mudar em teu desgosto,<br>
+O gosto que levavas tam profundo,<br>
+Em me privar da vida deste mundo.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[35]</span>   Ramiro respondeo teu odio claro,<br>
+Te Cega, e faz que julgues de ligeiro,<br>
+Não deves de rezão ser tam avaro,<br>
+E deves de ouvir partes primeiro,<br>
+E por minha defesa te declaro,<br>
+Que mal posso sem armas ser guerreiro,<br>
+E a minha tenção foy, e he boa,<br>
+E isto julgarà toda a pessoa.<br>
+<br>
+  Vinha ver se acaso ver podia,<br>
+Essa por quem eu tanto ey padecido,<br>
+Pois jà ver, nem cobrala, nam podia,<br>
+Por ir de meu estado despedido,<br>
+E em ley de rezam se permitia,<br>
+Vir vella, pois em fim sou seu marido,<br>
+Que quanto he tratar de teu tormento,<br>
+Nunca me veo tal ao pensamento.<br>
+<br>
+  Esta mesma molher que nunca fora,<br>
+De verme mostrou gram contentamento,<br>
+Mil lagrimas chorando nesta ora,<br>
+Cuydando neste nosso apartamento,<br>
+E por tu Almançor vires de fora,<br>
+Da caça, me meteo neste aposento,<br>
+E se ella outra conta te ha dado,<br>
+Innocente sou disso, e mal culpado.<br>
+<br>
+  Almançor nam curando de argumento<br>
+Nem rezões que Ramiro apontasse,<br>
+(Lhe disse em final) que ao tormento,<br>
+Desde entam alli se aparelhasse,<br>
+Porque o que dezia era vento,<br>
+E que da culpa nam se escusasse,<br>
+Que o que a sua Gaya lhe contàra,<br>
+Isto em verdade se passàra.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[36]</span>   Dizendo se em teu Reyno me acolheras,<br>
+Como agora eu te ey acolhido,<br>
+Com tençam de matarte, que fizeras?<br>
+Respondeme se disso es servido,<br>
+Que se pello perdam ainda esperas,<br>
+O teu juyzo deves ter perdido,<br>
+Que nam tenho rezam de perdoarte,<br>
+Nem menos me mereces, que acabarte.<br>
+<br>
+  Ramiro com bom animo esforçado,<br>
+Lho tornou, pois em fim queres padeça,<br>
+Sem nessa minha morte ser culpado,<br>
+A justiça do ceo sobre ti deça,<br>
+Pois julgas como homem apayxonado,<br>
+Nem tomas parecer doutra cabeça,<br>
+Mas ja que assi he, se eu te colhera,<br>
+A ti Almançor mesmo isto fizera.<br>
+<br>
+  Mandarate levar muy bem atado<br>
+Sem te valer ser Rey, nem teus primores,<br>
+Com dous algozes cada hum a seu lado,<br>
+E pôr em o mais alto dessas torres,<br>
+E com esta bozina a ser forçado,<br>
+Tanger sem descançar, sofrendo as dores,<br>
+E fosses despois disso enforcado,<br>
+Como homem qualquer de baixo estado.<br>
+<br>
+  Almançor ouvindo esta pendença,<br>
+Que Ramiro contra elle imaginava,<br>
+Em ira encendido, sem detença,<br>
+Contra Ramiro, disse que mandava,<br>
+Que nelle se execute a tal sentença,<br>
+Porque do mesmo modo a confirmava,<br>
+Juntandose pois gente infinita,<br>
+De Mouros, o levarão com gram grita.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[37]</span>   No alto da muralha o puserão<br>
+Atado, e ia com corda no pescoço,<br>
+E alli a tanger o constrangerão,<br>
+Com muy grande praser, e alvoroço,<br>
+A esta festa todos concorrerão,<br>
+Nenhum velho ficou, nem Mouro moço,<br>
+Ao som da bozina, h&#x169;s cantavam,<br>
+Outros dando rizadas apupavam.<br>
+<br>
+  Essas Mouras de honrra encerradas,<br>
+E damas mais fermosas, e as feas<br>
+Sobiam ao alto por escadas,<br>
+Por verem dos eyrados, e açoteas,<br>
+As mais Mouras, e Mouros amanadas,<br>
+Vão, sò ficam os presos nas cadeas,<br>
+Mas nas cadeas ouvem claramente,<br>
+A festa, e clamor que vay na gente.<br>
+<br>
+  Almançor ao som da alegria,<br>
+Que por toda a Villa ha soado,<br>
+De novo disse, que comer queria,<br>
+E à mesa se pos logo assentado,<br>
+E quantas vezes a bozina ouvia,<br>
+Com gram gosto metia o bocado,<br>
+E a Gaya cruel com elle estava<br>
+Que a ira, e zombar o ajudava.<br>
+<br>
+  A gente de Ramiro, que emboscada,<br>
+Estava dahi perto donde ouvia,<br>
+Os Mouros quando davam apupada,<br>
+E vendo a bozina que tangia,<br>
+Remetendo com ordem ordenada,<br>
+Toda dentro na Villa se metia,<br>
+Que as guardas que a villa então guardavam,<br>
+Onde estava Ramiro então estavam.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[38]</span>   E dalli como Lobos indomados,<br>
+Nos paços de Almançor deram de siso,<br>
+Ao tempo que elle, e seus privados,<br>
+Estavão com mais festa, e com mais riso,<br>
+Aonde logo foram degolados,<br>
+El Rey, e os mais Mouros demproviso,<br>
+E a Gaya tambem às mãos tomada,<br>
+E a villa sogeita, e saqueada.<br>
+<br>
+  Essa Mourama junta como estava,<br>
+Pera ver a Ramiro padecente,<br>
+Que de nada então se percatava,<br>
+Vendo entrar na Villa alhea gente<br>
+E o furor, e esforço que mostrava<br>
+Matando, e degolando cruelmente,<br>
+Se põe a defender com seus traçados<br>
+Mas logo foram hi desbaratados.<br>
+<br>
+  E como hia já sentenciado<br>
+Que não se desse vida a nenhum Mouro,<br>
+De sangue hum gram rio ha manado,<br>
+Que pellos matos foy sayr ao Douro,<br>
+E em sangue as agoas se hão tornado,<br>
+E perdeo por então a cor de louro,<br>
+E o mar pellos Portos ha mostrado,<br>
+Ter muyto sangue então derramado.<br>
+<br>
+  Ramiro la do alto tudo vendo,<br>
+A Deos pellas merces as graças dando<br>
+Como livre se vio, se foy decendo,<br>
+Vendo que o andavam os seus buscando,<br>
+E como os seus o fossem conhecendo,<br>
+A mão todos alli lhe então beyjando,<br>
+Por seu Rey, senhor, e satisfeyto,<br>
+Aos paços guiou, e foy direito.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[39]</span>   Dous filhos de Ramiro alli vinhão<br>
+Filhos da mesma Gaya nesta armada,<br>
+Que chegando Ramiro jà hi tinhão,<br>
+A sua mesma mãy às mãos tomada,<br>
+Os quais por animala lhe dezião,<br>
+Que farião que fosse perdoada,<br>
+Chegado pois Ramiro lhe rogaram,<br>
+Por ella, e a vida lhe alcançarão.<br>
+<br>
+  Em isto o bom Ramiro lhe contava<br>
+A treyção que esta Gaya lhe urdira,<br>
+Do que toda a gente se espantava,<br>
+E como de seus laços se espedira,<br>
+Que proposto à morte jà estava,<br>
+Se Deos com seu favor não lhe acodira,<br>
+Dando com discrição, e bom esforço,<br>
+Que jà tinha o baraço no pescoço.<br>
+<br>
+  Com tudo, pois pedis filhos amados,<br>
+(Lhe disse) lhe perdoe, e dê a vida,<br>
+Pois della quereys ser filhos chamados<br>
+Mando que ninguem isso vos impida,<br>
+E vão à vossa conta os seus peccados,<br>
+Que por elles milhor fora punida,<br>
+Pera ficar aviso às semelhantes<br>
+Casadas com bõs Reys, e com infantes.<br>
+<br>
+  Assolada a terra, e destroyda,<br>
+E avida esta presa, e grão victoria,<br>
+Ficou a soldadesca enriquecida,<br>
+E com honra, e fama, e grãde gloria;<br>
+Dos trabalhos passados esquecida,<br>
+Sò deste bem presente tem memoria,<br>
+Dando louvor a Deos toda a gente,<br>
+Por victoria tal tão excelente.<br>
+<br>
+<span class="pagenum">[40]</span>   Foy este tal triumpho celebrado,<br>
+Cuja fama correo o mar, e a terra,<br>
+E logo o arrayal hy foy alçado,<br>
+Decendendo do alto, e da serra,<br>
+Nas galès se hão todos embarcado,<br>
+Por terem concluido aquella guerra,<br>
+Começando a remar os remadores,<br>
+Ao som das trombetas, e atambores.<br>
+<br>
+  A Gaya vay chorando amargamente,<br>
+Pello Mouro Almançor que ja não via<br>
+Ramiro, e os filhos de repente,<br>
+Vendo quão pouco a vida agardecia,<br>
+Mandarão na deitar em continente,<br>
+No mar porque muy bem o merecia,<br>
+Com h&#x169;a grande pedra a ella atada,<br>
+Alli fica esta Gaya margulhada.<br>
+<br>
+  E com prospero vento, e bonança,<br>
+Ramiro a seus Reynos ha tornado,<br>
+Levando de Almançor a tal vingança,<br>
+E victoria que Deos lhe avia dado.<br>
+E dahi em diante a sua lança<br>
+Ja mais Mouro algum ha aguardado,<br>
+E sempre este bõ Rey lhes moveo guerra<br>
+Ganhandolhes de Espanha muita terra.<br>
+<br>
+  Aquelle Rey dos Reys omnipotente,<br>
+Que na terra mercês lhe ha outrogado,<br>
+O tenha em a gloria eternamente<br>
+Com corôa da gloria coroado.<br>
+E aos Reys Christãos que ao presente,<br>
+Reynão, paz, e concordia aja dado<br>
+Pellos quaes nesta liga assi ligado:<br>
+Os immigos da Fè sejão domados. </div>
+
+<p style="text-align: center;">LAUS DEO.</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[41]</span> <span class="pagenum">[42]</span>
+
+<div style="margin: 2em; font-size: 0.8em;">
+<h4 style="text-align: center;">Dr. CHAVES E CASTRO</h4>
+
+<p><span class="small-caps">Apontamentos</span> sobre alguns Processos
+Summarios, Summarissimos, e Executivos, e sobre o Processo para a exigencia
+dos Creditos hypothecarios, creado pela Lei hypothecaria de 1 de Julho de
+1863&mdash;1 volume. 1$000</p>
+
+<p><span class="small-caps">Estudos</span> sobre a Reforma do Processo civil
+ordinario portuguez, desde a proposição da acção até á sentença da primeira
+instancia&mdash;1 volume. 800</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">THEOPHILO BRAGA</h4>
+
+<p style="text-align: justify;"><span class="small-caps">Obras primas de
+Chateaubriand</span>&mdash;Atala&mdash;Renato&mdash;Aventuras do Derradeiro Abencerrage com
+um estudo litterario&mdash;1 volume. 500</p>
+
+<p><span class="small-caps">Gaia</span>, romance de João Vaz, publicado
+segundo a edição de 1630&mdash;Fol. 200</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">JUNQUEIRA FREIRE</h4>
+
+<p><span class="small-caps">Inspirações do Claustro</span>, 2.ª edição, com
+um juizo critico do Sr. J. M. Pereira da Silva, 1 vol. 600</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">SEVERINO D'AZEVEDO</h4>
+
+<p><span class="small-caps">Boas Festas a Manuel Roussado</span>, broch.
+100</p>
+
+<p><span class="small-caps">Segunda Carta de Boas Festas</span>, broch.
+100</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">ARISTIDES DE BASTOS</h4>
+
+<p><span class="small-caps">Elementos de Poetica</span> para uso das
+escholas&mdash;brochura. 400</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">J. MANOEL PEREIRA</h4>
+
+<p><span class="small-caps">Principios de Geographia e Chorographia
+Portugueza</span>&mdash;brochura. 120</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">L. G. PERES FURTADO GALVÃO</h4>
+
+<p><span class="small-caps">Addição ao Indice alphabetico</span> da
+legislação hypothecaria e fórma de Processo para as exonerações,
+expropriações e preferencia das hypothecas&mdash;brochura. 200</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Villa Nova de Gaia, by João Vaz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VILLA NOVA DE GAIA ***
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
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+
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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