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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/26411-8.txt b/26411-8.txt new file mode 100644 index 0000000..5bfb132 --- /dev/null +++ b/26411-8.txt @@ -0,0 +1,1911 @@ +The Project Gutenberg EBook of Villa Nova de Gaia, by João Vaz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Villa Nova de Gaia + +Author: João Vaz + +Editor: Teófilo Braga + +Release Date: August 23, 2008 [EBook #26411] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VILLA NOVA DE GAIA *** + + + + +Produced by Thanks to Pedro Saborano (produced from scanned +images of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +RARIDADE BIBLIOGRAPHICA + + +GAIA + +ROMANCE + +POR + +JOÃO VAZ + + + + +PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A +TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR NO ROMANCE COM FORMA ERUDITA NOS FINS +DO SECULO XVI + +POR + +THEOPHILO BRAGA + + + + +COIMBRA +IMPRENSA LITTERARIA +1868 + + + +VILLA NOVA DE GAIA + +ROMANCE + +POR + +JOÃO VAZ + +DE EVORA + +PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A +TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE ANONYMO NO ROMANCE COM FÓRMA LITTERARIA + +POR + +THEOPHILO BRAGA + + +COIMBRA +IMPRENSA LITTERARIA +1868 + + + + +TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR + +NO ROMANCE COM FÓRMA ERUDITA NOS FINS DO SECULO XVI + + +Não se póde conhecer a litteratura portugueza, ignorando o movimento das +litteraturas da edade media da Europa; como a formaçao das linguas, do +direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir +tanto como a litteratura a unidade da grande raça neo-latina. Quasi +todas as phases porque passaram as litteraturas italiana, franceza, +hespanhola ou provençal, quer na fórma das primeiras poesias, nas +novellas cavalheirescas, nas chronicas, ou nos contos decameronicos, no +romance popular, ou no sentimento da natureza despertado pela +Renascença, tudo, tudo, abertamente o sustentamos, se encontra na +litteratura portuguesa. + +Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua +gaguez pelo canto; em Portugal, os primeiros monumentos linguisticos que +apparecem são essas canções do seculo XII e XIII que os criticos não tem +sabido avaliar. Foi a poesia do povo, longo tempo desprezada pelas +côrtes provençaes, que os livreiros mercenarios dos principios do seculo +XVI atiraram ao vulgo, recolhida em _folhas volantes_. + +Foi assim que d'estas folhas dispersas se formaram os primeiros +Romanceiros; Esteban de Najera, Martin Nucio, Andres de Villalta e Pedro +de Flores juntaram os romances que andavam _discarriados_. A _Silva de +varios romances_, de 1550, assignala a épocha da grande vulgarisação dos +romances populares da Peninsula, que, ainda assim, para serem acceitos +depois de colligidos, precisaram de se arreiar com o titulo de +_Cancioneiro_, então preconisado pelo gosto erudito e provençalesco. Por +este tempo o _Cancionero de Romances_ é reimpresso em Portugal, sendo a +maior parte dos romances que cita já conhecida de Gil Vicente, e por +conseguinte do povo portuguez. O _Romancero do Cid_ de Escobar e a +_Primavera e Flor de Romances_ reproduziram-se tambem nos prelos +portuguezes. O romance popular, simples de condição, franco, rude, +tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não +sabia abstrahir, dramatisava, accumulava as situações. Fôra preciso um +genio superior para comprehender-lhe a ingenuidade profunda. Lope de +Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar +que o metro octosyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos, +e pôz em fórma de romance os passos dolorosissimos da Paixão. Após elle +seguiu-se a turba dos poetas; Juan de la Cueba, Garci Sanches, Lasso de +la Vega, Segura, Timoneda vão reduzindo á fórma de romance todas as +historias do mundo, desde a Biblia e historia da Grecia e Roma até aos +Chronicons monasticos. O romance achou-se d'este modo despido da sua +natural _sencillez_; tornaram-no declamador, quando elle mal sabia +titubear, e se repetia nas grandes emoções; fizeram-no descriptivo, com +uma abstracção subjectiva, que o desnaturava. D'esta degeneração +inevitavel nasceram os romances mouriscos, que estafaram o gosto com +tanta _Zaida y Adalifa_, como se queixa o _Romancero General_. O poema +de _Gaia_ de João Vaz, de Evora, pertence a esta épocha, e é um precioso +monumento que assignal-a na litteratura portugueza esta transformação. O +romance popular, perdendo o genio rude, perdêra a fórma octosyllabica, +ia tomando a fórma heroica da outava academica, como o poema de +_Roncesvalles_ de Balbuena. + +Tornaram-se os romances do povo um pretexto para as _glosas_ dos poetas +palacianos, que se serviam dos motes mais celebres para as suas +galanterias. + +No _Cancioneiro Geral_ sómente se encontra com fórma de romance umas +trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que +principiam: + + Eu era moça menina + per nome dona Inez, etc.[1] + +'Neste tempo a fórma do romance popular tinha sido despresada +completamente; na colleção de romances antigos, feita em Anvers em 1550, +encontramos o titulo de _Cancionero de Romances_, em que a palavra +Cancioneiro se emprega para proteger com o valor que tinha a rudeza da +tradição oral. No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, sómente se +encontra o _rymance_: + + Tyempo bueno, tempo bueno, etc.[2] + +Este romance é uma imitação dos dous celebres romances conservados no +_Cancioneiro General_ de 1557: _Fonte frida, fonte frida_, e _Rosa +fresca, rosa fresca_, muitas e muitas vezes glosados pelos poetos +palacianos. O romance do _Tyempo bueno_, é algum troço conservado por +causa da glosa que lhe fez Garcia de Resende. 'Neste tempo o +renascimento das Canções provençaes distrahia os serões das principaes +côrtes da Europa. + +O romance popular era antigo e invariavel; não se prestava a perpetuar +as anecdotas e pequenas intrigas palacianas. Então começaram os poetas +cultistas a glosar os romances mais celebres da tradição. Na _Poetica +Española_ de Rengifo, publicada em 1592 (cap. XXXVIII), se lê: «No ha +muchos años, que com[~e]çaron nuestros Poetas a glosar Romances viejos, +metiendo cada dos versos en la seg[~u]da de las Redondillas. Y han sido +tan bien recebidas estas Glossas, que les han dado los musicos muchas +sonadas, y se cantan, y oyen com particular gusto.» O que refere Rengifo +encontramol-o confirmado no _Cancionero Geral_ de 1511, conhecido em +Portugal, por isso que d'elle encontramos traduzidas por Frei João +Claro, monge de Alcobaça, a _Paraphrase do Padre Nosso_, da _Ave Maria_ +e do _Te Deum laudamus_ de Hernam Peres de Gusman, que se podem ver nos +_Ineditos de Alcobaça_ de Frei Fortunato de Sam Boaventura[3]. O romance +da _Bella mal maridada_ era glosado com predilecção pelos nossos +Quinhentistas. Bernardim Ribeiro glosou o romance de Durandarte, aonde +começa _Oh Belarma, oh Belarma_, já glosado até ao decimo verso no +_Cancionero de Ixar_, fol. 138, e d'ahi por diante tirado da _Floresta +de romances_[4]. + +A todas estas causas de decadencia e transformação accresceu a +prohibição das _folhas volantes_ pelo _Index Expurgatorio_ de 1581. + + + +Como Sepulveda, que tirava os seus romances das chronicas hespanholas, +João Vaz, completou a tradição dos amores de _Gaia_ por algum documento +escripto. Qual elle fosse ninguem o póde asseverar. É certo que se +encontra a narração d'esses amores com esta fórma graciosa no _Livro +velho das Linhagens_: «e este rey D. Ramiro se vê casado com huma +rainha, e fege n'elle rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão +que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Mayer: +entom era rey Ramiro nas Asturias; e quando Abencadão tornou adusea para +Gaia, que era seu castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa +molher e pesoulhe eude muito, e emviou por seu filho D. Ordonho e por +seus vassallos, e fretou saas naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar +a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou pela foz cobriua de panos +verdes, em tal guiza que cuidassem que erão ramos, cá entonce Douro era +cuberto de huma parte e da outra darvores; e esse rey Ramiro vestiose em +panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu corno, e falou com seu +filho e com os seus vassallos que quando ouvissem o seu corno que todos +lhe acorressem, e que todos juvecem pela ribeira per antre as arvores, +fóra poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice estar a huma +fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fóra do castello, e +fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzela que servia a rainha +levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella +donzela havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e +nem o conheceo, e el pediolhe dagoa pela aravia, e ella deulha por hum +antre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo havia partido com +sa molher a rainha pela meadade; el deose a beber, e deitou o anel no +antre, e a donzella foice, e deo agoa á rainha, e cahiolhe o anel na +mão, e conheceu ella logo; a rainha perguntou quem achara na fonte; ella +respondeu qua não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe non +negace, ca lhe faria por onde bem, e mercê; e a donzela lhe dice enton +que achara hum mouro doente e lazarado, e que lhe pedira dagoa que +bebece, e ella que lha dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce +por el, e se o hi achasse que lho adusese. A donzela foi por el, e +dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ella; e entonces rey +Ramiro foise com ella; e el entrando pela porta do paço conheceo-o a +rainha, e dicelhe--«Rey Ramiro quem te aduse aqui?»--E el lhe +respondeu--«ca o teu amor»--: e ella lhe dice que vinha a morrer, e el +lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice á donzela que o metese +na camara, e que lhe não dese que comece, nem que bebece; e a donzela +pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou +Abencadão e derãolhe que jantace, e despois de jantar foice para a +rainha; e desque fizerão seu plazer, dice a rainha--«se tu aqui tivesses +rey Ramiro, que lhe farias?» O mouro então respondeo--«o que el a mi +faria: matal-o.» Então a rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e +ella assim o fez, e aduseo ante o mouro, e o mouro lhe disse--«es tu rey +Ramiro?»--e elle respondeo--«eu sou»--e o mouro lhe perguntou--«a que +vieste aqui?»--elrey Ramiro lhe disse entom--«vim ver minha molher que +me filhaste a torto; ca tu havias comigo tregoas, e nom me catava de +ti»--e o mouro lhe disse «vieste a morrer; mas querote perguntar: se me +tiveces em Mier que morte me darias?»--Elrey Ramiro era muito faminto e +respondeolhe assim--«eu te daria um capão assado e huma regueifa, e +fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa (copa?) chea de vinho +que bebesses: em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas +as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um +padrão, e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o folego.»--Então +respondeo Abencadão--«essa morte te quero eu dar.»--E fez abrir os +curraes, e fezes sobir em um padrão que hi entom estava; e começou rey +Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sua gente pelo corno que +lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe +com seus vassallos, e meterãose pela porta do castello, e el deceuse do +padron adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha, +e descabeçando atá o menor mouro que havia em Gaia, andarão todos á +espada, e nom ficou em essa villa de Gaia pedra sobre pedra que tudo nãa +fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e +quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora +amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramiro deitouce a +dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas +della caerão a D. Ramiro pelo rostro, e el espertouse, e disselhe, +porque chorava, e ella disselhe--«choro por o mui bom mouro que +mataste»--e então o filho que andava hi na nave ouvio aquella palavra +que sa madre dissera, e disse ao padre--«padre não levemos comnosco mais +o demo»--Entom rey Ramiro filhou uma mó que trazia na nave, e ligoulha +na garganta, e anchorouha no mar, e dês aquella hora chamarão hi Foz +d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa corte, e contoulhe tudo como +lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e louvoulho +toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella hum filho, e +quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom o padre, que +lhe punha este nome por que seria padre e senhor de muito boa fidalguia; +e morreo rey D. Ramyro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in +pace[5]. + + [1] Fol. 221. + + [2] Cancion. Geral, fol. 217. + + [3] Vid. o meu Cancioneiro popular, pag. 31-39; notas, pag. 204. + + [4] A edição da Bibliotheca Portugueza é detestavel; desconheceu a + celebre edição de Ferrara, e atribue a Bernardim Ribeiro a pag. 363 + um soneto de Gongora, fazendo-o auctor do romance de Durandarte das + velhas colleções hespanholas. + + [5] Mon. hist., II Scriptores, pag. 180-181. Esta mesma legenda se + encontra no Livro das linhagens do Conde Dom Pedro (Mon. Hist., + ibid. pag. 274-277) com algumas variantes na acção. + + Aqui agradecemos ao illustre philologo, o Sr. Dr. Pereira Caldas, a + valiosa offerta do unico exemplar conhecido do romance de _Gaia_, de + que nos servimos para a presente edição. + + + + +BREVE +COMPOSIÇAM E TRATADO, + + +Agora novamente tirada das antiguedades de Espanha. Que trata de como el +Rey Almançor morreo em Portugal junto á cidade do Porto, onde chamão +Gaya, ás mãos del Rey Ramiro, & sua gente, donde tambem cobrou, & matou +sua molher chamada Gaya, que estava com este Mouro, da qual ficou este +lugar chamado de seu nome. + + * * * * * + +Composto por João Vaz natural da Cidade de Evora, em verso de oitava rima. + +_Dirigido a dom Miguel de Meneses, Marquez de Villa Real, &._ + + * * * * * + +Foy visto, & approvado, pello Padre Frey Manuel Coelho. + +_Em Lisboa com todas as licenças necessarias._ + +_Por Antonio Alvares._ 1630. + + * * * * * + + +Soneto ao Marquez. + + A ti Varão insigne, & sinalado, + Da generosa stirpe Lusitana, + Author offerece este tractado, + Sobre esta Hystoria Mauritania. + Desse Rey Almançor desbaratado. + Pella gente Galega, & Castelhana, + Desse bom Rey Ramiro o esforçado, + Dos quais Reys ambos, a Historia emana. + Recebe pois Senhor esclarecido, + A obra, que o Author te apresenta, + Com amor, humildade, & cortesia. + Como que se desculpa de atrevido. + O que por paga toma, & se contenta, + Por servir a tam alta Senhoria. + + + + +ARGUMENTO E DECLARAÇAM DA HISTORIA. + + +Em tempo que reynava em Galiza, & parte de Espanha, o animoso Rei Ramiro +que foy casado com h[~u]a Senhora chamada Gaya, tendo os Mouros +occupada: a demais: por ser em tempo que se avia perdido Espanha entre +outros Reys Mouros, reynava Almançor. + +Estes dous Reys, avendo entre si batalhas, em h[~u]a captivou Ramiro +h[~u]a irmãa deste Almançor, a qual tinha por amiga; do que enojada +Gaya, tratou com Almançor a quisesse furtar, que ella daria ordem como +se fosse com elle, como deu, & a cobrou, & levou pera Portugal, que +estava de Mouros, & a foy pór junto da Cidade do Porto, & junto do Rio +Douro, sobre o lugar que agora chamão Gaya, onde Almançor tinha +fortaleza, & paços, dos quaes oje em dia se vem os alicerces, & +fundamentos. O que vendo Ramiro, ordenou demproviso tres Gales de +armada, & com ellas veo aportar, a Sam João da Foz, mea legoa do porto, +& sendo de noyte com ellas se entrou por o Rio Douro, sem serem sentidas +dos Mouros, & cobertas de ramos por não serem vistas, tanto que +amanheceo, Ramiro se pos em trajos de romeiro, & sayo em terra deixado +em sinal aos seus, que se ouvissem tanger h[~u]a buzina que consigo +levava lhe acudissem. E assi se foy guiando pera os paços deste Mouro, & +antes disso chegou a h[~u]a fonte, onde com elle veo ter h[~u]a Moura, +que vinha buscar hum pucaro de agoa, pera a mesma Gaya, o qual +falandolhe em Aravia lhe pedio o pucaro pera beber por elle, & lho deu, +& des que bebeo, tirando hum anel do dedo o deitou dentro, sem o ver a +Moura. Bebendo Gaya conheceo o anel que era de seu marido Ramiro, & o +mandou chamar, por ser já entam ido Almançor, & vendose, se abraçarão, & +tratarão de matar o Mouro, & se hirem ambos, & pera isso o meteo em +h[~u]a camara, pera que quando Almançor durmisse a sesta lhe desse +rebate; nisto veo Almançor da caça, & sentado á mesa pera comer, esta +Gaya lhe deu conta de Ramiro, & como vinha pera o matar, & assi o Mouro +mãdou vir ante si a Ramiro, & passadas antre si rezões, por fim, disse +Almançor, se eu Ramiro fora a tua casa pera te matar, que me fizeras? +respondei, mandarate levar a hum alto, & com esta bozina te fizera +tanger até que rebentaras, mandou Almançor, que isso lhe fizessem, +levado ao alto, começou a tanger, & logo a gente de Ramiro acudio, & +tomando os Mouros descuydados degolarão Almançor, & os mais, & foi +saqueada a terra, & dessa Gaya ficou o nome ao lugar de Gaya, da Cidade +do Porto. + + + + +ROMANCE DE GAIA + + + Cantemos de Ramiro Rey de Espanha, + E del Rey Almançor de Berberia, + Quando por desventura tam estranha, + No mais de Espanha entam Mouros avia, + Com animo cruel, com cruel sanha, + Cada qual um ao outro pretendia, + Privar de sua fama, honra, estado, + Com todas suas forças, e cuydado. + + Desse Ramiro digo o esforçado, + Que deste nome tres com elle hão sido, + Daquelle que com Gaya foy casado, + Por quem tantos trabalhos ha sufrido, + Da qual Gaya do Porto ha tomado; + Em Portugal o mesmo apellido, + Lugar junto do Douro em o Porto, + Onde foy Almançor preso e morto. + + Por mãos deste Ramiro animoso, + No que se satisfez de sua afronta, + E lhe valeo em isso o ser manhoso, + Segundo a historia o aponta, + Que nam bastava ser Rey valoroso, + Que força sem saber muy pouco monta, + E os ardis he cousa muy notoria, + Que sam causa urgente de victoria. + + Nem tratamos aqui das mais pendenças, + E batalhas antre estes Reys avidas, + Que forão muyto largas, e extenças, + E em chronicas estão bem referidas, + Só queremos tratar das differenças, + Que antre estes Reys forão movidas + Quando Ramiro ouve captivado + A irmãa de Almançor, e deshonrado. + + Donde este Almançor tempo esperando, + A molher a Ramiro ha furtado, + No qual se foy emfim muy bem vingado, + Ou estava no furto melhorado, + De Gaya Almançor ficou gozando, + E com ella ficou como casado, + Assi que um peccado outro chama, + E fazem na maldade calo, e cama. + + Vendose Almaçor com a tal presa, + Como Aguia Real voou com ella, + Logo que a furtou com ligereza + Perdeo de vista os Reynos de Castella, + E veo aqui portar nesta deveza + Do Douro onde então estava aquella, + Povoação, e paços, donde Gaya, + A qual ahi está junto da praya. + + Ramiro tal ficou com esta nova, + Que se lhe deu la onde era ausente, + Que esteve em se meter em h[~u]a cova, + Não querendo viver antre a gente, + Não aver igual dor, he clara prova, + Porque de si he quasi impaciente, + Mas como he Christão, e Rey sabido, + A Deos logo então se ha socorrido. + + Tanto, e mais chorava o seu peccado, + Que toda esta mesma desventura, + No que consiste o ser Christão chamado, + E nisto está o seu remedio, e cura, + Ramiro que em isto se ha fundado. + Ver quam pouco na vida o gosto dura, + A Deos se dedicou, o que Deos vendo, + Neste caso quis logo ir provendo. + + E assi lhe inspirou que ordenasse, + H[~u]a pequena, e secreta armada, + De h[~u]as tres gales, e que guiasse + Aonde sua Gaya era levada, + E que como fiel bem confiasse, + Que por elle seria hi cobrada, + E o mesmo Almançor morto, e vencido, + Porque Deos o havia permetido. + + Ordenou pois Ramiro com bom siso, + As tres gales darmada pella posta, + Com bonança vieram demproviso, + A Portugal a demandar a costa, + E por ella guiando sobre aviso, + Calados sem falar, nem dar resposta, + A Sam João da Foz forão surgidos, + De noyte sem dos Mouros ser sentidos. + + Chegadas as gales a foz, e entrada, + Daquesse Rio Douro caudaloso, + Ahi parou então esta armada. + Com perigo, por ser lugar fragoso, + Da noyte era ja parte andada, + O Ceo estava claro, e luminoso, + O ar sereno, tudo socegado, + O mar porem alli sempre he irado. + + E por se segurar determinarão, + Tomar o Rio acima assi surgindo, + Pella parte a dentro, se deytarão, + Com os remos o Douro vão ferindo, + E por fazer carreira deceparão, + Mil arvores, que o Rio vam cobrindo, + Que sem isso gales ir não podião, + Até onde levalas pretendião. + + Era o arvoredo nessa idade, + Muy sobejo, e crecido até a praya, + Na parte donde agora he a Cidade, + E na banda daquem chamada Gaya, + De arvores muy gram variedade, + De brozios, e louro, mirtos, faya, + E com ser tudo fragoa, e penedia, + Somente o arvoredo alli se via. + + Nesta parte de ca daquem do Douro, + No mais alto outeyro, e o mayor, + Ahi tinha seus paços el Rei Mouro, + Aquelle a quem chamarão Almançor, + Ahi tinha tambem o seu thesouro, + Porque daquella terra era senhor, + Contente e recreado alli vivia, + Por ser terra de caça e monteria. + + Ahi vay h[~u]a cava como mina, + Até o Rio feita entre dous valos, + Que ainda agora se vè, e determina, + Ser pera írem beber os seus cavalos, + Tambem he cousa certa, e de crer digna, + Que tinha outros Reys Mouros vassalos, + Todos a este Rey obedecião, + Porque em sua ley maldita crião. + + Alli se estava o Mouro aposentado, + Donde o largo mar, cos olhos via, + Dalli o via as vezes socegado, + E outras quando bravo bem o ouvia + Tambem estava alli fortalezado, + Porque del Rey Ramiro se temia, + Que quem deve, em fim sempre recea, + Se tem um bon jantar, de haver ma cea. + + Alli gastava a vida com sabores, + O Mouro Almançor muy namorado, + Gozando dessa Gaya; e seus favores, + Molher del Rey Ramiro o magoado, + Mas o jogo, e caça, e os amores, + O fazem do perigo descuydado, + E entre tanto o tempo dá h[~u]a volta, + Pesca o pescador nagoa envolta. + + Chegado pois Ramiro o muy prudente, + Com suas tres gales apercebidas, + De noite, ja que bem dormia a gente, + Alli se preparão escondidas, + E posto que vem feyto h[~u]a serpente, + Ordena que não sejão alli sentidas, + E seu furor resguarda pera quando, + Se veja de Almançor ir triumphando. + + Alli gastada a noyte em socego, + Quanto possivel era e importava, + Tratavão do segredo em emprego, + E do que tal empresa demandava, + A lingoa de Arabigo, e Grego, + Muy ao natural pronunciava, + Só do aviso da terra tendo mingoa + Por si se oferece ir tomar lingoa. + + Ficou porem por todos assentado, + Que tocando Ramiro h[~u]a corneta + Não fique em Gale nenhum soldado, + Que logo o outeyro nam cometa, + E com animo forte e esforçado, + Contra os crueis Mouros arremeta, + E todos juntos dando Sanctiago, + Os Mouros ajam hum cruel estrago. + + Passada pois a noite, veo o dia, + Ramiro toma trajos de romeiro, + Deyxada toda sua companhia, + Sobindo se vay so pello outeyro, + A Deos so quis levar por sua guia, + E em sua fe firme, e muy inteiro, + E fazendo o sinal da Cruz no peito + Aos paços do Mouro foy direito. + + Por ver se indo assi desconhecido + A sua molher Gaya ver pudesse, + Ou sendo Almançor a caça ydo, + Ella com o seu Ramiro se viesse, + O Phebo então mostrava aver nacido, + Contra quem disse, se ora te aprouvesse, + Com teu resplandor Phebo me ir mostrado, + Este bem, que pretendo, e vou buscando. + + Assi se vay o triste de Ramiro, + De pensamentos tais arrodeado, + De pedra não seria mais de hum tiro, + Que perto estava ja de povoado; + Dizendo vay, se este bem acquiro + Deste Mouro serey muy bem vingado, + E por esta historia ser sabida + Aqui se verá feyta h[~u]a ermida. + + E dando mais Ramiro h[~u]a passada + Vio h[~u]a fonte dagoa muy fermosa, + De rica pedraria fabricada, + De agua muy delgada, e saborosa, + A qual oje em dia he chamada, + A fonte de Ramiro, sem mais glosa, + A qual oje ahi está por memoria + Em testemunho, e fe desta historia. + + Alli se assentou por ir cansado, + Não, para descansar, que mal descansa, + Aquelle que então ha começado, + Trabalhar por o que depois alcança, + E alli se despõe determinado + Armar h[~u]a certos laços desperança, + Esperando que và alguém à fonte, + Que novas de Almançor lhe diga e cõte. + + Cuydando está Ramiro o que faria, + Se espere alli, ou fosse proseguindo. + Que só da sua armada se temia, + Nam fossem os Mouros hi sentindo, + Pello perigo grande que corria + Em nam si ir primeiro descobrindo, + A terra antes de se dar rebate, + Por que milhor se desse o seu combate. + + Começou a dizer ja fenecera + Com a morte que eu mesmo me daria, + Se a esperança nam me entretivera, + Dizendo espera a noyte, e mais hum dia, + Tantas vezes me diz espera, espera + Que ja cuydo que o faz de zombaria, + Se me ouves esperança por esmola + Te peço, ou me mata, ou me consola. + + Qual soe o mar fazer naturalmente, + Nas marinhas que a elle sam chegadas, + Quando vem com maré, e com enchente, + Da qual sam de contino visitadas, + Que com o ardor do sol quando he quente + As taes agoas com sal sam congeladas, + E se antes de o ser, hi tem vasante + Não fica hi sal atras, nem adiante. + + Assi a magoas em o pensamento, + Vam ao coraçam, e hi represadas, + Tras maré de enchente o sentimento, + E em agoas de sal, hi sam tornadas, + E com força da dor, e do tormento, + Por os olhos rebentão, e destapadas, + Nas lagrimas vem tudo, e qu[~e] não chora, + Da cova esta tal muy perto mora. + + Assi o bom Ramiro recordado + Daquella pena e dor que o atormenta, + Posto que a chorar está avesado, + Como de novo agora o mal lamenta, + E a presa da magoa se ha quebrado, + Dos olhos outra fonte lhe arrebenta, + E assi duas fontes alli correm + Porque h[~u]a nacia deste homem. + + E assi era de ver esta porfia + Com que cada qual dellas caminhava, + Que se da fonte muyta agoa corria + Ramiro pellos olhos mais deytava, + Mil lastimas o triste alli dezia, + Perguntay pera quem, ou aquem falava, + Com dor a lingoa fala desatinos, + E faz hom[~e]s chorar como meninos. + + H[~u]a Nimpha então fazendo aballo + Là dentro em a fonte se banhava, + E começou cantar por consolallo, + Notou Ramiro entam o que cantava, + Cantando (disse a Nimpha) a ti fallo. + Ramiro là te ouvi aonde estava, + Sou Nimpha, Esperança sou chamada, + Espera que a boa ora te he guardada. + + Com esperança cação os caçadores, + As aves em os laços enlaçadas, + Com esperar recolhem os lavradores, + O fruyto das sementes semeadas, + E com canas tambem os pescadores, + Com sedelas, e boyas, e chumbadas, + O peyxe quando o comer engolem + Com que por engano de anzoes cobrem. + + Neste conto Ramiro está enlevado + E a Nimpha no mesmo ainda procede, + Quando junto a elles ha chegado + H[~u]a Moura da ley de Mafamede, + Sapatinhas da cor de laranjado + A medida do pé tres pontos pede, + Escassamente a Moura foy sentida + Quando a Nimpha na fonte foy somida. + + Na idade mostrava esta Moura + Que ainda donzella ser devia, + De gentil parecer tam branca e loura, + Que nisso nada Moura parecia, + Não sey a natureza, porque doura, + De graça a que dà graça e bem fogia, + Que bem sem graça he como está visto, + Aquelle que nam cre na ley de Christo! + + Vestida vem de cor alionado + De h[~u]a roupa de sede até o artelho, + H[~u]a touca tonizil com hum trançado + De fitas damarelo, e vermelho, + Com hum cinto muy largo, e apertado + Em tudo tras concerto, e aparelho + Por isso de ser vista nam recea + Mas em ver, e ser vista se recrea. + + Hum vaso dourado tras de gram valia, + De muy ricos esmaltes esmaltado, + Que ser cousa de Rey bem parecia, + Segundo era rico, e bem obrado + Cantando vem a Moura em Aravia; + O tal cantar Ramiro ha notado, + Damor era seu canto muy sobido, + Porque se aqueyxava de Cupido. + + Alli sauda a Moura o bom andante, + Ao seu modo em sua Aravia, + Ramiro lhe responde em consoante, + De Arabigo que bem o entendia, + A Moura que o ve feito hum brivante, + Posto que de nenhum modo o conhecia, + Sospeyta por o ver tam bem criado + Ser homem que seus trajos ha mudado. + + Pediolhe de beber o bom Romeyro, + A Moura de cortês não lho negava, + Mas o vaso encheo, e lavou primeiro, + E com mesura lho apresentava, + Ramiro lhe tirou o seu sombreiro, + E o pucaro dagoa lhe tomava, + Que ser de Almançor claro se via, + Pellas letras, e armas que trazia. + + Ramiro, que em tal ventura se acha, + Bebendo perguntou a quem servia, + A Moura respondeu servia a Gaya, + Pera quem hia buscar a agoa fria, + Vede que trago amargo alli traga, + Ver que sua molher tambem bebia + Por jarros de Almançor seu enemigo, + O qual ella ja tinha por amigo. + + Nam quis Ramiro mais saber do caso, + Mas encobrindo a dor que nalma sente, + Tornou encher na fonte o rico vaso, + (Dizendo) de força he, seja paciente, + Mas vagando vay ja aquelle prazo, + Se minha esperança não me mente, + Que presto se verá morto este Mouro, + Perdendo sua fama, e seu thesouro. + + Consigo isto dezia o magoado + Tirando dum anel no vaso o deita, + Sem que fosse sentido, nem olhado + Da Moura por nam ter disso sospeita, + Por el Rey Almançor lhe ha perguntado + A caçar deve ser ido, a cousa feyta, + A caçar vay dos porcos, e veados, + Que os seus là lhe tinham emprazados. + + A Moura se despede do Romeyro + So por representar honestidade, + Que alli se detivera o dia inteyro, + Segundo que isso pede a mocidade, + Sobindo vay a Moura pello outeiro, + Ligeiro, e com gram vellocidade, + Porque parece que hia ja tardando, + E teme que o tardar lhe vão notando. + + Ramiro que na fonte soo ficava, + Donde sua figura clara via, + Consigo mesmo o triste alli falava, + E elle mesmo assi se respondia, + E sendo dantes aguia que voava, + E que na nota a todos excedia, + Agora com a dor que o aperta + Parece que desvayra, e desconcerta. + + Se verdadeira es minha figura, + (Dizia) tu figura jà es tal, + Que como cousa que jà não tem cura, + Se devem deyxar ao natural, + Porque teu mal he mal que sempre dura, + E que he sobre todos sem igual, + Por isso, pois o tens, e o padeces + Não sey como de todo nam faleces. + + A figura então lhe respondia + Em voz, e em toada differente, + Que serem duas cousas parecia, + Cada h[~u]a por si distintamente, + Ou fosse a esperança a qual seria, + Que ja o reprendera de impaciente, + Agora nisso mesmo lhe aponta, + No que lhe respondeo, ou tanto monta. + + Deixemos a Ramiro por agora, + Sobre seu mal soltar mil desatinos, + Chore seu mal que com rezão o chora, + Dè mil ays, dè suspiros muy continos, + Até que Deos lhe traga aquella ora, + Na qual, nem Mouros velhos, nem meninos + Fiquem mais povoando aquella terra, + E morra Almançor naquella guerra. + + Vamos saber da Moura o que passava, + Quando sua senhora a agoa bebia, + E se se alterava, ou perguntava, + Cujo fosse o anel que dentro hia, + Porque nisso Ramiro se fundava + Em que o seu anel conheceria, + E se lhe tinha amor de molher boa, + No caso ella faria de pessoa. + + Bebeo pois a Rainha, e achando, + O anel conheceo que de Ramiro era, + E quanto pode em si dissimulando, + Hum muy grande sospiro ahi dera, + E confusa está imaginando, + Porque via, e arte alli viera, + Ou porque invenção, modo, e geito, + E se era aquelle, ou contrafeito. + + Perguntou se achara alguem na fonte + Ao tempo que ella agoa tomara, + Dizendo que lhe diga, e lhe conte, + Tudo o que ante ella se passara, + Ou outra alg[~u]a cousa lhe aponte, + Por onde o anel alli achara, + E porque disso a Moura se espantava + A Raynha contra ella se assanhava. + + A Moura que se vee ser innocente, + Do caso que então mal entendia, + Jura que não achou nenh[~u]a gente. + A Raynha lhe disse que mentia, + E com esta porfia differente, + A Raynha em ira se encendia, + Com hum Chapim lhe tira daremesso, + Quis Deos se desviou, e foi avesso. + + Tornou a Moura então assegurouse, + Dizendo que achara a hum Romeiro, + Mas que não se acordava, e disculpouse, + Da culpa de lho não dizer primeiro, + A Raynha com isso aquietouse, + Crendo ser seu marido verdadeiro, + E ou fosse com fee, ou sem verdade, + De vello mostrou ter grande vontade. + + Mandou pois a Raynha que o chamasse + E que de sua parte lhe dissesse, + Que fosse logo là, e não tardasse, + E fosse confiado, e não temesse, + E que em bom segredo lhe guardasse, + O que do tal Romeiro entendesse, + Que Almançor a caça era ido, + Que podia fazer em seu partido. + + A Moura parte logo diligente, + A cumprir o mandado da senhora, + Ramiro que tornar a moura sente, + Esforço (disse) se ha mister agora, + E como vio a Moura vir contente, + Alegrouse tambem naquella hora, + Posto que o coração o convidava, + Com outro desprazer que adevinhava. + + Chegando pois a Moura lhe dezia; + Romeiro a Raynha Gaya manda, + Te peça com amor, e cortesia, + A vejas, que te espera na varanda. + Que de verte gram gozo levaria, + E de favorecer tua demanda, + Que lhe queiras fazer aquesta graça, + Antes que Almançor venha da caça. + + Que saibas que Almançor a caça he ido, + Não percas ponto algum de tal ensejo, + Ramiro que a mensagem ha ouvido, + Ousado mostra logo o seu desejo, + Cuidando que fazia em seu partido, + Alegre sem algum receo, ou pejo, + Tomando o bordão, disse senhora, + Guiai, que em vossas mãos me ponho agora. + + E sem fazer demora obedecendo, + Acompanhou a Moura com cautela, + Perguntando se vão, e respondendo, + A Moura a Ramiro, e elle a ella, + No andar pausa as vezes vão fazendo, + Ramiro vay soltando â Moura a trella, + A Moura he cortesaã, e confiada, + E demostrava ser muy namorada. + + A pratica damores he fingida, + Da parte de Ramiro enganosa, + A Moura vay damor presa, e vencida, + Enganada merece a envejosa, + Nos amores muy solta, e atrevida, + O que dana, e afea o ser fermosa, + Enganada merece h[~u]a tal dama, + Quando de namorada quer ter fama. + + Pois trata de adquirir o que pretende, + A ver sua senhora, e o deseja, + Mormente, pois o sabe, e o entende, + Mas todas sam feridas da enveja, + O fogo da cobiça as acende, + Que sempre h[~u]as com outras tem peleja, + Sobre o negro amar, e ser amadas, + E sam h[~u]as das outras desdenhadas. + + Junto vam jà dos paços, e castello, + A Raynha andava passeando, + Na varanda muy morta jà por velo, + Ramiro os seus olhos levantando, + Não pos duvida alg[~u]a em conhecelo, + Nem elle della esteve duvidando, + Sobindo pois Ramiro h[~u]a escada, + A Raynha com elle està chegada. + + E como onde ha amor nam ha receo + Sem receo de nada se abraçarão, + Porque o seu prazer era tam cheo, + Que remeteo por mais que o represaram, + E estando assi neste enleo, + Damor, dos olhos rios emanarão, + De agoas que dizem ser salgadas + Estas porem por doces sam julgadas. + + Qual Pyramo, e Tysbe se mostrarão, + Amarse de verdade o que pedia, + O vinculo de amor que professarão, + Mais mostra de amor ser não podia, + Que a que alli ambos demostrarão, + Nem outra cousa delles se entendia, + Mas como a molher bayla, ou dança, + Logo sabe fazer h[~u]a mudança. + + Perguntoulhe então Gaya o que buscava + Ou porque via, e arte alli viera, + Alli Ramiro então se assentava, + Como se em sua casa estivera, + Assentado dizerlhe começava, + O caso que a isto me trouxera. + Se tu senhora o tens tambem sabido, + Porque me julgaras por atrevido. + + Se venho por ventura a salvarte, + O amor sobre tudo he cousa forte, + Ao menos senão podes cobrarte, + Consolarmeey em verte em minha morte, + E se Deos conceder poder livrarte, + Quero provar em isso minha sorte, + A isso (como digo) venho agora, + A cobrarte, ou morrer por ti senhora. + + Gaya sabiamente respondia, + Fingindo ser leal, e verdadeira, + Isso muy bem agora se faria, + Se se tivesse modo, ou maneira + De ser a nossa salvo, mas nam via + Nem sabia caminho, nem carreira, + Nem tu Ramiro mostras aparelho + E nisso ha mister muy bom conselho. + + Ramiro lhe tornou aconselhado + Estou senhora, e bem apercebido, + Mas em só te levar nam sou vingado, + Sem matar este Mouro fementido. + E se de nos pode ser descabeçado, + Em salvo te porà o teu marido + Porque eu que a isso me aventuro, + Nam he sem te poder por em seguro. + + Pois isso (disse) mandas que se faça + Assi se fará bem, e sem perigo, + Com o favor de Deos, e sua graça, + A qual seja contigo, e comigo, + Mas porque pode vir cedo da caça, + Este Mouro cruel teu enemigo, + Eu te direy o modo que teremos + Pera a nosso salvo isto fazermos. + + Abrio logo h[~u]a camara dourada, + De verão lhe servia de aposento, + Onde nunca o Sol fazia entrada, + E na sesta hia ter contentamento + Que sò por sua mão era fechada + Por lhe servir de seu recolhimento, + Ahi o fez entrar, e sendo entrado, + Deste modo, e maneira lhe ha falado. + + Aqui te ficaràs dentro metido, + Se queres concluyr em este feyto, + E se v[~e]s do caminho afligido + Bem podes acostarte em este leyto, + Aqui podes estar sem ser sentido + Onde podes fazer de teu proveyto, + Quando for tempo, e ora de acostarse, + E aqui Almançor vier deytarse. + + Virà ora da caça encalmado + A mesa tem jà posta esperando + O comer està jà negociado + Nam poderà jà ir muyto tardando + E desque de comer ha acabado, + O sono o vay logo convidando, + E he certo vir logo a este pouso, + A descansar a sesta, e ter repouso. + + Nisto deuse rebate, e nova certa, + Que vinha Almançor da montaria, + A camara fechou que estava aberta, + E de Ramiro então se despedia, + Tornou a seu estrado, e alerta + Se pos a entender no que entendia, + Com as damas laurando seda, e ouro + Quando a esta hora chegou o Mouro. + + Acompanhado vem de caçadores, + De monteiros de pe, e cavalleyros, + E de cães como elles filhadores, + Muytos Mouros de lança, e besteiros + Vestidos de libreas, e de mil cores, + Com bozinas, e cornos prazenteiros, + Porem vinham muy surdos, e calados + Por não acharem Porcos, e Veados. + + Descavalga Almançor muy diligente, + Sobindo pera o paço, e aposento + Ella que o vè vir tam descontente, + Per si lhe foy fazer recebimento, + Com passo perlongado, e differente, + Lhe demostrou ter contentamento, + Com sua boa vinda, e alvoroço, + Deitandolhe os braços no pescoço. + + Almançor lhe pagou por esta via, + Os afogos de amor na mesma ora, + Fazendolhe h[~u]a grande cortesia, + Dizendolhe vivaes minha senhora, + E com este prazer, e alegria, + Sem se fazer alg[~u]a outra demora, + Se sentarão à mesa e assentados + Serviramlhe seus pajes, e criados, + + No meo do comer os dous estando, + Com grande gosto, festa, e alegria, + O segredo esta mà lhe foy soltando, + Dizendo, quero darte iguaria, + Da qual bem sey que deves dir gostando, + Por ser nova de gosto ta daria, + No que conheceràs quanto te ama, + Quem não dà por Ramiro em que a chama. + + Que dèras Almançor Rey poderoso, + (Lhe disse) a quem Ramiro te entregàra, + Que deras se te víras tão ditoso, + A quem agora preso to mostrara, + Não me estranhes mostrarte disto gozo, + Que se com firme amor nam te amara, + Na treyção de Ramiro consentira + Que oje te matava neste dia. + + Que diremos de caso tam horrendo, + De femea tam mà, tam fera, dura, + Que coração tam duro, ha que vendo, + Deslealdade tal em criatura, + Nam deixa de ser duro amolecendo + Avendo dò de tanta desventura, + Num Rey que vem em trajos de romeiro, + A tirar a molher de captiveiro. + + Ah falsa que te vas ao profundo, + Como não temes que ha Deos verdadeiro? + Que trocas por amor falso, e segundo, + A teu Rey, e a teu marido, e amor primeiro, + Por isso, e cousas taes vay mal ao mundo, + Por isso vem a peste, e o captiveiro, + E ha falta de paz na Christandade, + Por falta de verdade, e lealdade. + + Se a verdade ca naceo na terra, + Qual terra, ou quem ousa desterrala, + Se tam natural he que lhe põe guerra? + Quem ousa, ou pretende degradala? + Se na verdade todo o bem se encerra, + Qual he o que se poe a pedrejala, + E sendo como he cousa tam forte, + Que só ella he senhora sobre a morte. + + Ó se esta verdade se abraçasse, + Alli onde parece claramente, + Se cada hum a casa a levasse, + Assi como quem leva hum bom parente, + E se dentro no peito a conservasse, + E o mesmo fizesse toda a gente, + Servindolhe de peso, e medida, + A Deos seria alegre nossa vida. + + Ó celeste virtude, ó lealdade, + Qual ha antre as mais que milhor seja, + De ti produz, e nace a castidade, + Que todo o poder vence em peleja, + Que cousa ha milhor na Christandade? + Que cousa mais chegada à Igreja? + Que cousa, porque Deos milhor se renda, + E nos dè sua graça, e nos defenda. + + Almançor que o caso ha ouvido, + Bem cre que esta Gaya isto dezia, + Por folgar de falar no seu marido, + Que tudo aquillo que era zombaria, + Entam lhe disse, aqui està escondido, + E sabe que matarte pretendia, + E levarme consigo sem mais ordem, + Mas eu quero ser tua, nam doutro homem. + + Confuso fica o Mouro, e muy turbado, + Do caso, e perigo em que estivera, + Que antes de muyto fora degolado + Se esta mesma Gaya o quisera, + Por outra parte està muy alterado, + Festejando este bem que amor lhe dera, + Trazendo a seu poder seu enemigo, + Sem perda de batalha, e sem perigo. + + Oo cruel sobre todas as molheres, + Tal fama queres ter, tal nomeada, + Porque o teu Ramiro ja nam queres? + Por estar com hum Mouro abarregada, + Não te lembrão os filhos teus prazeres? + Nem te acordas que es molher casada, + E que fosse Christãa? nam sey agora, + Antes parece que em ti, ley não mora. + + Das mais que forão màs calar se pode, + Só desta sobre todas mà praguejo, + Não sinto nellas mal que se acommode, + A h[~u]a tal treição, a tal despejo, + Por hum Mouro infiel cara de bode, + Em quem foy por amor, e o desejo, + Perde do bom Ramiro, a memoria, + Perde honra, e fama, perde a gloria. + + Ramiro bem ouvia o que passava, + Porque dalli estava muyto perto, + E como a mà tudo lhe contava, + E ja era em fim bem descuberto, + Ja vedes em que estado o triste estava, + Com que dor, agonia, em que aperto, + Que saltos lhe daria nessa ora, + O coração querendo saltar fora. + + Não quis mais Almançor comer bocado, + Com festa de prazer, e alegria, + Dizendo eu estou bem consolado, + Não quero comer outra iguaria, + E mais pois tenho hospede honrado, + Rezam he que lhe guarde cortesia, + E pois aqui està neste aposento, + Vamoslhe fazer hum recibimento. + + Seu capitão da guarda entom chamando, + Alli se lhe homilhou, e lhe ha mandado, + Que com a sua guarda va guiando, + Pera donde Ramiro està fechado, + O triste de Ramiro està orando, + A Deos que lhe socorra em tal estado, + Porque muy claramente alli via, + Que a morte à porta lhe batia. + + A porta desfechada num momento, + Do numero de Mouros muy armados, + Foy cheo todo aquelle aposento, + Com alfanges, e braços remangados, + Deos te valha Ramiro em tal tormento, + Que os teus estão de ti muy alongados, + E a tua armada está no Douro, + E tu sò preso antre tanto Mouro. + + Vendo pois Almançor tal desatino, + A seu contrario estar tam desarmado, + E em abito vil de perigrino, + Mostrouse disso muy maravilhado, + Dizendo, eu nam sey, nem determino, + Que este seja Ramiro esforçado, + Mas se elle este he, e fez mudança, + Bem pouco vai agora a sua lança. + + Alli Ramiro então lhe respondia, + Algum ora foy ella nomeada, + Antre Christãos, e antre a berberia + Tambem em essa Veyga de Granada, + Onde morreo muy gram cavallaria, + E se perdeo a tua cavalgada, + Agora, eu não venho a conquistarte, + Porque venho de paz, e d'esta arte. + + A irmãa te furtey sendo casado, + Tendoa por amiga sendo dama, + No que occasião a ti te ey dado + A quereres roubar minha honra, e fama, + Por isso se causou por meu peccado, + Chegares Almançor a minha cama, + E nam sendo na terra, sem perigo, + Me furtaste a molher que tens contigo. + + E pois fuy causador d'essas afrontas, + O Reyno busque là outro herdeyro, + Que jà não quero mais, que estas Contas, + E andar neste trajo de Romeiro, + Almançor lhe tornou, muy bem apontas, + Mas v[~e]s Lobo em figura de Cordeyro, + E jà nam te crerey o que disseres, + Enemigo da honra das molheres. + + Perdoame Ramiro isto que digo, + Que como a Rey que es devo tratarte, + Mas estou desagora mal contigo, + Desque de teu engano sobe parte, + E pois que te meteste em tal perigo, + Sem te valer o teu saber, e arte, + Podes dizer que a ti em este feyto, + Vieste ca fazer pouco proveito. + + Tua Gaya comigo, esta senhora, + De ti Ramiro està pouco lembrada, + E diz que oxalà que nunca fora, + Contigo em algum tempo desposada, + Se dizes que te ha sido traydora, + Em esta tua machina ordenada, + Com bem rezam to foy, pois tu has sido, + O que foste pera ella mao marido. + + Por h[~u]a parte tenho sentimento, + Do misero estado em que estàs posto, + Mas que fazes tu neste aposento, + Agora sem meu grado, e sem meu gosto, + Porisso me nam dà de teu tormento, + E de se te mudar em teu desgosto, + O gosto que levavas tam profundo, + Em me privar da vida deste mundo. + + Ramiro respondeo teu odio claro, + Te Cega, e faz que julgues de ligeiro, + Não deves de rezão ser tam avaro, + E deves de ouvir partes primeiro, + E por minha defesa te declaro, + Que mal posso sem armas ser guerreiro, + E a minha tenção foy, e he boa, + E isto julgarà toda a pessoa. + + Vinha ver se acaso ver podia, + Essa por quem eu tanto ey padecido, + Pois jà ver, nem cobrala, nam podia, + Por ir de meu estado despedido, + E em ley de rezam se permitia, + Vir vella, pois em fim sou seu marido, + Que quanto he tratar de teu tormento, + Nunca me veo tal ao pensamento. + + Esta mesma molher que nunca fora, + De verme mostrou gram contentamento, + Mil lagrimas chorando nesta ora, + Cuydando neste nosso apartamento, + E por tu Almançor vires de fora, + Da caça, me meteo neste aposento, + E se ella outra conta te ha dado, + Innocente sou disso, e mal culpado. + + Almançor nam curando de argumento + Nem rezões que Ramiro apontasse, + (Lhe disse em final) que ao tormento, + Desde entam alli se aparelhasse, + Porque o que dezia era vento, + E que da culpa nam se escusasse, + Que o que a sua Gaya lhe contàra, + Isto em verdade se passàra. + + Dizendo se em teu Reyno me acolheras, + Como agora eu te ey acolhido, + Com tençam de matarte, que fizeras? + Respondeme se disso es servido, + Que se pello perdam ainda esperas, + O teu juyzo deves ter perdido, + Que nam tenho rezam de perdoarte, + Nem menos me mereces, que acabarte. + + Ramiro com bom animo esforçado, + Lho tornou, pois em fim queres padeça, + Sem nessa minha morte ser culpado, + A justiça do ceo sobre ti deça, + Pois julgas como homem apayxonado, + Nem tomas parecer doutra cabeça, + Mas ja que assi he, se eu te colhera, + A ti Almançor mesmo isto fizera. + + Mandarate levar muy bem atado + Sem te valer ser Rey, nem teus primores, + Com dous algozes cada hum a seu lado, + E pôr em o mais alto dessas torres, + E com esta bozina a ser forçado, + Tanger sem descançar, sofrendo as dores, + E fosses despois disso enforcado, + Como homem qualquer de baixo estado. + + Almançor ouvindo esta pendença, + Que Ramiro contra elle imaginava, + Em ira encendido, sem detença, + Contra Ramiro, disse que mandava, + Que nelle se execute a tal sentença, + Porque do mesmo modo a confirmava, + Juntandose pois gente infinita, + De Mouros, o levarão com gram grita. + + No alto da muralha o puserão + Atado, e ia com corda no pescoço, + E alli a tanger o constrangerão, + Com muy grande praser, e alvoroço, + A esta festa todos concorrerão, + Nenhum velho ficou, nem Mouro moço, + Ao som da bozina, h[~u]s cantavam, + Outros dando rizadas apupavam. + + Essas Mouras de honrra encerradas, + E damas mais fermosas, e as feas + Sobiam ao alto por escadas, + Por verem dos eyrados, e açoteas, + As mais Mouras, e Mouros amanadas, + Vão, sò ficam os presos nas cadeas, + Mas nas cadeas ouvem claramente, + A festa, e clamor que vay na gente. + + Almançor ao som da alegria, + Que por toda a Villa ha soado, + De novo disse, que comer queria, + E à mesa se pos logo assentado, + E quantas vezes a bozina ouvia, + Com gram gosto metia o bocado, + E a Gaya cruel com elle estava + Que a ira, e zombar o ajudava. + + A gente de Ramiro, que emboscada, + Estava dahi perto donde ouvia, + Os Mouros quando davam apupada, + E vendo a bozina que tangia, + Remetendo com ordem ordenada, + Toda dentro na Villa se metia, + Que as guardas que a villa então guardavam, + Onde estava Ramiro então estavam. + + E dalli como Lobos indomados, + Nos paços de Almançor deram de siso, + Ao tempo que elle, e seus privados, + Estavão com mais festa, e com mais riso, + Aonde logo foram degolados, + El Rey, e os mais Mouros demproviso, + E a Gaya tambem às mãos tomada, + E a villa sogeita, e saqueada. + + Essa Mourama junta como estava, + Pera ver a Ramiro padecente, + Que de nada então se percatava, + Vendo entrar na Villa alhea gente + E o furor, e esforço que mostrava + Matando, e degolando cruelmente, + Se põe a defender com seus traçados + Mas logo foram hi desbaratados. + + E como hia já sentenciado + Que não se desse vida a nenhum Mouro, + De sangue hum gram rio ha manado, + Que pellos matos foy sayr ao Douro, + E em sangue as agoas se hão tornado, + E perdeo por então a cor de louro, + E o mar pellos Portos ha mostrado, + Ter muyto sangue então derramado. + + Ramiro la do alto tudo vendo, + A Deos pellas merces as graças dando + Como livre se vio, se foy decendo, + Vendo que o andavam os seus buscando, + E como os seus o fossem conhecendo, + A mão todos alli lhe então beyjando, + Por seu Rey, senhor, e satisfeyto, + Aos paços guiou, e foy direito. + + Dous filhos de Ramiro alli vinhão + Filhos da mesma Gaya nesta armada, + Que chegando Ramiro jà hi tinhão, + A sua mesma mãy às mãos tomada, + Os quais por animala lhe dezião, + Que farião que fosse perdoada, + Chegado pois Ramiro lhe rogaram, + Por ella, e a vida lhe alcançarão. + + Em isto o bom Ramiro lhe contava + A treyção que esta Gaya lhe urdira, + Do que toda a gente se espantava, + E como de seus laços se espedira, + Que proposto à morte jà estava, + Se Deos com seu favor não lhe acodira, + Dando com discrição, e bom esforço, + Que jà tinha o baraço no pescoço. + + Com tudo, pois pedis filhos amados, + (Lhe disse) lhe perdoe, e dê a vida, + Pois della quereys ser filhos chamados + Mando que ninguem isso vos impida, + E vão à vossa conta os seus peccados, + Que por elles milhor fora punida, + Pera ficar aviso às semelhantes + Casadas com bõs Reys, e com infantes. + + Assolada a terra, e destroyda, + E avida esta presa, e grão victoria, + Ficou a soldadesca enriquecida, + E com honra, e fama, e grãde gloria; + Dos trabalhos passados esquecida, + Sò deste bem presente tem memoria, + Dando louvor a Deos toda a gente, + Por victoria tal tão excelente. + + Foy este tal triumpho celebrado, + Cuja fama correo o mar, e a terra, + E logo o arrayal hy foy alçado, + Decendendo do alto, e da serra, + Nas galès se hão todos embarcado, + Por terem concluido aquella guerra, + Começando a remar os remadores, + Ao som das trombetas, e atambores. + + A Gaya vay chorando amargamente, + Pello Mouro Almançor que ja não via + Ramiro, e os filhos de repente, + Vendo quão pouco a vida agardecia, + Mandarão na deitar em continente, + No mar porque muy bem o merecia, + Com h[~u]a grande pedra a ella atada, + Alli fica esta Gaya margulhada. + + E com prospero vento, e bonança, + Ramiro a seus Reynos ha tornado, + Levando de Almançor a tal vingança, + E victoria que Deos lhe avia dado. + E dahi em diante a sua lança + Ja mais Mouro algum ha aguardado, + E sempre este bõ Rey lhes moveo guerra + Ganhandolhes de Espanha muita terra. + + Aquelle Rey dos Reys omnipotente, + Que na terra mercês lhe ha outrogado, + O tenha em a gloria eternamente + Com corôa da gloria coroado. + E aos Reys Christãos que ao presente, + Reynão, paz, e concordia aja dado + Pellos quaes nesta liga assi ligado: + Os immigos da Fè sejão domados. + + +LAUS DEO. + + + + + Dr. CHAVES E CASTRO + + Apontamentos sobre alguns Processos Summarios, Summarissimos, e + Executivos, e sobre o Processo para a exigencia dos Creditos + hypothecarios, creado pela Lei hypothecaria de 1 de Julho de 1863--1 + volume. 1$000 + + Estudos sobre a Reforma do Processo civil ordinario portuguez, desde + a proposição da acção até á sentença da primeira instancia--1 + volume. 800 + + + THEOPHILO BRAGA + + Obras primas de Chateaubriand--Atala--Renato--Aventuras do + Derradeiro Abencerrage com um estudo litterario--1 volume. 500 + + Gaia, romance de João Vaz, publicado segundo a edição de 1630--Fol. + 200 + + + JUNQUEIRA FREIRE + + Inspirações do Claustro, 2.ª edição, com um juizo critico do Sr. J. + M. Pereira da Silva, 1 vol. 600 + + + SEVERINO D'AZEVEDO + + Boas Festas a Manuel Roussado, broch. 100 + + Segunda Carta de Boas Festas, broch. 100 + + + ARISTIDES DE BASTOS + + Elementos de Poetica para uso das escholas--brochura. 400 + + + J. MANOEL PEREIRA + + Principios de Geographia e Chorographia Portugueza--brochura. 120 + + + L. G. PERES FURTADO GALVÃO + + Addição ao Indice alphabetico da legislação hypothecaria e fórma de + Processo para as exonerações, expropriações e preferencia das + hypothecas--brochura. 200 + + + + +Notas de transcrição. + +No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no +sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais. +Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes: + +[~e] Resprenta um e com um til(~) por cima e que parece ser uma +abreviatura dos caracteres "em" + +[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma +abreviatura dos caracteres "um" + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Villa Nova de Gaia, by João Vaz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VILLA NOVA DE GAIA *** + +***** This file should be named 26411-8.txt or 26411-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/4/1/26411/ + +Produced by Thanks to Pedro Saborano (produced from scanned +images of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/26411-8.zip b/26411-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..306605b --- /dev/null +++ b/26411-8.zip diff --git a/26411-h.zip b/26411-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2b5549f --- /dev/null +++ b/26411-h.zip diff --git a/26411-h/26411-h.htm b/26411-h/26411-h.htm new file mode 100644 index 0000000..10c6722 --- /dev/null +++ b/26411-h/26411-h.htm @@ -0,0 +1,1965 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <meta name="AUTHOR" content="Visconde de Villa-Moura"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <title>Villa nova de Gaia, por João Vaz</title> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #capa {border: double; border-width: 6px;padding:1em; text-align: center;} + .poesia {margin: 1em; margin-left: 3em;} + .footnote {margin: 2em; font-size: 0.8em;} + .small-caps {font-variant: small-caps;} + hr {border: none; border-bottom: solid 2px #000000;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Villa Nova de Gaia, by João Vaz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Villa Nova de Gaia + +Author: João Vaz + +Editor: Teófilo Braga + +Release Date: August 23, 2008 [EBook #26411] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VILLA NOVA DE GAIA *** + + + + +Produced by Thanks to Pedro Saborano (produced from scanned +images of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<div id="capa"> +<p style="font-size: 1.5em;">RARIDADE BIBLIOGRAPHICA</p> +<hr> + +<p style="font-size: 4em;">GAIA</p> + +<p>ROMANCE</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 2em;">JOÃO VAZ</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p> </p> + +<p>PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A +TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR NO ROMANCE COM FORMA ERUDITA NOS FINS DO +SECULO XVI</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 2em;">THEOPHILO BRAGA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>COIMBRA<br> +IMPRENSA LITTERARIA<br> +1868</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 3em;">VILLA NOVA DE GAIA</p> + +<p>ROMANCE</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 2em;">JOÃO VAZ</p> + +<p>DE EVORA</p> + +<p>PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A +TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE ANONYMO NO ROMANCE COM FÓRMA LITTERARIA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 2em;">THEOPHILO BRAGA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>COIMBRA<br> +IMPRENSA LITTERARIA<br> +1868</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +</div> + +<div id="corpo"> +<h1 style="text-align: center;">TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR</h1> + +<h2 style="text-align: center;">NO ROMANCE COM FÓRMA ERUDITA NOS FINS DO +SECULO XVI</h2> + +<p><span class="pagenum">[III]</span>Não se póde conhecer a litteratura +portugueza, ignorando o movimento das litteraturas da edade media da Europa; +como a formaçao das linguas, do direito, da religião e das instituições +sociaes, nenhum facto faz sentir tanto como a litteratura a unidade da grande +raça neo-latina. Quasi todas as phases porque passaram as litteraturas +italiana, franceza, hespanhola ou provençal, quer na fórma das primeiras +poesias, nas novellas cavalheirescas, nas chronicas, ou nos contos +decameronicos, no romance popular, ou no sentimento da natureza despertado +pela Renascença, tudo, tudo, abertamente o sustentamos, se encontra na +litteratura portuguesa.</p> + +<p>Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua gaguez +pelo canto; em Portugal, os primeiros monumentos linguisticos que apparecem +são essas canções do seculo XII e XIII que os criticos não tem sabido +avaliar. Foi a poesia do povo, longo tempo desprezada pelas côrtes +provençaes, que os livreiros mercenarios dos principios do seculo XVI +atiraram ao vulgo, recolhida em <em>folhas volantes</em>.</p> + +<p>Foi assim que d'estas folhas dispersas se formaram os primeiros +Romanceiros; Esteban de Najera, Martin Nucio, Andres de Villalta e Pedro de +Flores juntaram os romances que andavam <em>discarriados</em>. A <em>Silva de +varios romances</em>, de 1550, assignala a épocha da grande vulgarisação dos +romances populares da Peninsula, que, ainda assim, para serem acceitos depois +de colligidos, precisaram de se arreiar com o titulo de <em>Cancioneiro</em>, +então preconisado pelo gosto erudito e provençalesco. Por este tempo o +<em>Cancionero de Romances</em> é reimpresso em Portugal, sendo a maior parte +dos romances que cita já <span class="pagenum">[IV]</span>conhecida de Gil +Vicente, e por conseguinte do povo portuguez. O <em>Romancero do Cid</em> de +Escobar e a <em>Primavera e Flor de Romances</em> reproduziram-se tambem nos +prelos portuguezes. O romance popular, simples de condição, franco, rude, +tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não sabia +abstrahir, dramatisava, accumulava as situações. Fôra preciso um genio +superior para comprehender-lhe a ingenuidade profunda. Lope de Vega foi um +dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar que o metro +octosyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos, e pôz em fórma de +romance os passos dolorosissimos da Paixão. Após elle seguiu-se a turba dos +poetas; Juan de la Cueba, Garci Sanches, Lasso de la Vega, Segura, Timoneda +vão reduzindo á fórma de romance todas as historias do mundo, desde a Biblia +e historia da Grecia e Roma até aos Chronicons monasticos. O romance achou-se +d'este modo despido da sua natural <em>sencillez</em>; tornaram-no +declamador, quando elle mal sabia titubear, e se repetia nas grandes emoções; +fizeram-no descriptivo, com uma abstracção subjectiva, que o desnaturava. +D'esta degeneração inevitavel nasceram os romances mouriscos, que estafaram o +gosto com tanta <em>Zaida y Adalifa</em>, como se queixa o <em>Romancero +General</em>. O poema de <em>Gaia</em> de João Vaz, de Evora, pertence a esta +épocha, e é um precioso monumento que assignal-a na litteratura portugueza +esta transformação. O romance popular, perdendo o genio rude, perdêra a fórma +octosyllabica, ia tomando a fórma heroica da outava academica, como o poema +de <em>Roncesvalles</em> de Balbuena.</p> + +<p>Tornaram-se os romances do povo um pretexto para as <em>glosas</em> dos +poetas palacianos, que se serviam dos motes mais celebres para as suas +galanterias.</p> + +<p>No <em>Cancioneiro Geral</em> sómente se encontra com fórma de romance +umas trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que +principiam:</p> + +<div class="poesia"> +Eu era moça menina<br> +per nome dona Inez, etc.<a name="L3574" id="L3574" +href="#L3576"><sup>1</sup></a></div> + +<p><span class="pagenum">[V]</span>'Neste tempo a fórma do romance popular +tinha sido despresada completamente; na colleção de romances antigos, feita +em Anvers em 1550, encontramos o titulo de <em>Cancionero de Romances</em>, +em que a palavra Cancioneiro se emprega para proteger com o valor que tinha a +rudeza da tradição oral. No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, sómente +se encontra o <em>rymance</em>:</p> + +<div class="poesia"> +Tyempo bueno, tempo bueno, etc.<a name="L3591" id="L3591" +href="#L3594"><sup>2</sup></a></div> + +<p>Este romance é uma imitação dos dous celebres romances conservados no +<em>Cancioneiro General</em> de 1557: <em>Fonte frida, fonte frida</em>, e +<em>Rosa fresca, rosa fresca</em>, muitas e muitas vezes glosados pelos +poetos palacianos. O romance do <em>Tyempo bueno</em>, é algum troço +conservado por causa da glosa que lhe fez Garcia de Resende. 'Neste tempo o +renascimento das Canções provençaes distrahia os serões das principaes côrtes +da Europa.</p> + +<p>O romance popular era antigo e invariavel; não se prestava a perpetuar as +anecdotas e pequenas intrigas palacianas. Então começaram os poetas cultistas +a glosar os romances mais celebres da tradição. Na <em>Poetica Española</em> +de Rengifo, publicada em 1592 (cap. XXXVIII), se lê: «No ha muchos años, que +comẽçaron nuestros Poetas a glosar Romances viejos, metiendo cada dos +versos en la segũda de las Redondillas. Y han sido tan bien recebidas +estas Glossas, que les han dado los musicos muchas sonadas, y se cantan, y +oyen com particular gusto.» O que refere Rengifo encontramol-o confirmado no +<em>Cancionero Geral</em> de 1511, conhecido em Portugal, por isso que d'elle +encontramos traduzidas por Frei João Claro, monge de Alcobaça, a +<em>Paraphrase do Padre Nosso</em>, da <em>Ave Maria</em> e do <em>Te Deum +laudamus</em> de Hernam Peres de Gusman, que se podem ver nos <em>Ineditos de +Alcobaça</em> de Frei Fortunato de Sam Boaventura<a name="L3624" id="L3624" +href="#L3627"><sup>3</sup></a>. O romance da <em>Bella mal maridada</em> era +glosado com predilecção pelos nossos Quinhentistas. Bernardim Ribeiro glosou +o romance de Durandarte, aonde começa <em>Oh Belarma, oh Belarma</em>, <span +class="pagenum">[VI]</span>já glosado até ao decimo verso no <em>Cancionero +de Ixar</em>, fol. 138, e d'ahi por diante tirado da <em>Floresta de +romances</em><a name="L3635" id="L3635" href="#L3630"><sup>4</sup></a>.</p> + +<p>A todas estas causas de decadencia e transformação accresceu a prohibição +das <em>folhas volantes</em> pelo <em>Index Expurgatorio</em> de 1581.</p> + +<p> </p> + +<p>Como Sepulveda, que tirava os seus romances das chronicas hespanholas, +João Vaz, completou a tradição dos amores de <em>Gaia</em> por algum +documento escripto. Qual elle fosse ninguem o póde asseverar. É certo que se +encontra a narração d'esses amores com esta fórma graciosa no <em>Livro velho +das Linhagens</em>: «e este rey D. Ramiro se vê casado com huma rainha, e +fege n'elle rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão que era mouro, e +foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Mayer: entom era rey Ramiro +nas Asturias; e quando Abencadão tornou adusea para Gaia, que era seu +castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa molher e pesoulhe eude +muito, e emviou por seu filho D. Ordonho e por seus vassallos, e fretou saas +naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar a Sanhoane da Furada; e pois que a +nave entrou pela foz cobriua de panos verdes, em tal guiza que cuidassem que +erão ramos, cá entonce Douro era cuberto de huma parte e da outra darvores; e +esse rey Ramiro vestiose em panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu +corno, e falou com seu filho e com os seus vassallos que quando ouvissem o +seu corno que todos lhe acorressem, e que todos juvecem pela ribeira per +antre as arvores, fóra poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice +estar a huma fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fóra do +castello, e fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzela que servia a +rainha levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella +donzela havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e nem o +conheceo, <span class="pagenum">[VII]</span>e el pediolhe dagoa pela aravia, +e ella deulha por hum antre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo +havia partido com sa molher a rainha pela meadade; el deose a beber, e deitou +o anel no antre, e a donzella foice, e deo agoa á rainha, e cahiolhe o anel +na mão, e conheceu ella logo; a rainha perguntou quem achara na fonte; ella +respondeu qua não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe non negace, +ca lhe faria por onde bem, e mercê; e a donzela lhe dice enton que achara hum +mouro doente e lazarado, e que lhe pedira dagoa que bebece, e ella que lha +dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce por el, e se o hi achasse que +lho adusese. A donzela foi por el, e dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha +que fosse a ella; e entonces rey Ramiro foise com ella; e el entrando pela +porta do paço conheceo-o a rainha, e dicelhe—«Rey Ramiro quem te aduse +aqui?»—E el lhe respondeu—«ca o teu amor»—: e ella lhe dice que vinha a +morrer, e el lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice á donzela que o +metese na camara, e que lhe não dese que comece, nem que bebece; e a donzela +pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou Abencadão e +derãolhe que jantace, e despois de jantar foice para a rainha; e desque +fizerão seu plazer, dice a rainha—«se tu aqui tivesses rey Ramiro, que lhe +farias?» O mouro então respondeo—«o que el a mi faria: matal-o.» Então a +rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e ella assim o fez, e aduseo +ante o mouro, e o mouro lhe disse—«es tu rey Ramiro?»—e elle respondeo—«eu +sou»—e o mouro lhe perguntou—«a que vieste aqui?»—elrey Ramiro lhe disse +entom—«vim ver minha molher que me filhaste a torto; ca tu havias comigo +tregoas, e nom me catava de ti»—e o mouro lhe disse «vieste a morrer; mas +querote perguntar: se me tiveces em Mier que morte me darias?»—Elrey Ramiro +era muito faminto e respondeolhe assim—«eu te daria um capão assado e huma +regueifa, e fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa (copa?) chea de +vinho que bebesses: em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas +as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um padrão, +e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o folego.»—Então respondeo +Abencadão—«essa morte te <span class="pagenum">[VIII]</span>quero eu +dar.»—E fez abrir os curraes, e fezes sobir em um padrão que hi entom +estava; e começou rey Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sua +gente pelo corno que lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como +ouvio, acorreolhe com seus vassallos, e meterãose pela porta do castello, e +el deceuse do padron adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da +bainha, e descabeçando atá o menor mouro que havia em Gaia, andarão todos á +espada, e nom ficou em essa villa de Gaia pedra sobre pedra que tudo nãa +fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e quanto +haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora amarrarão as +barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramiro deitouce a dormir no regaço da +rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas della caerão a D. Ramiro +pelo rostro, e el espertouse, e disselhe, porque chorava, e ella +disselhe—«choro por o mui bom mouro que mataste»—e então o filho que andava +hi na nave ouvio aquella palavra que sa madre dissera, e disse ao +padre—«padre não levemos comnosco mais o demo»—Entom rey Ramiro filhou uma +mó que trazia na nave, e ligoulha na garganta, e anchorouha no mar, e dês +aquella hora chamarão hi Foz d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa +corte, e contoulhe tudo como lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou +com ella, e louvoulho toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege +nella hum filho, e quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom +o padre, que lhe punha este nome por que seria padre e senhor de muito boa +fidalguia; e morreo rey D. Ramyro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in +pace<a name="L3692" id="L3692" href="#L3686"><sup>5</sup></a>.</p> + +<div class="footnote"> +<p><a name="L3576" id="L3576" href="#L3574"><sup>1</sup></a> Fol. 221.</p> + +<p><a name="L3594" id="L3594" href="#L3591"><sup>2</sup></a> Cancion. Geral, +fol. 217.</p> + +<p><a name="L3627" id="L3627" href="#L3624"><sup>3</sup></a> Vid. o meu +Cancioneiro popular, pag. 31-39; notas, pag. 204.</p> + +<p><a name="L3630" id="L3630" href="#L3635"><sup>4</sup></a> A edição da +Bibliotheca Portugueza é detestavel; desconheceu a celebre edição de Ferrara, +e atribue a Bernardim Ribeiro a pag. 363 um soneto de Gongora, fazendo-o +auctor do romance de Durandarte das velhas colleções hespanholas.</p> + +<p><a name="L3686" id="L3686" href="#L3692"><sup>5</sup></a> Mon. hist., II +Scriptores, pag. 180-181. Esta mesma legenda se encontra no Livro das +linhagens do Conde Dom Pedro (Mon. Hist., ibid. pag. 274-277) com algumas +variantes na acção.</p> + +<p>Aqui agradecemos ao illustre philologo, o Sr. Dr. Pereira Caldas, a +valiosa offerta do unico exemplar conhecido do romance de <em>Gaia</em>, de +que nos servimos para a presente edição.</p> +</div> + +<p> </p> + +<h2 style="text-align: center;">BREVE<br> +COMPOSIÇAM E TRATADO,</h2> + +<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;">Agora novamente tirada das +antiguedades de Espanha. Que trata de como el Rey Almançor morreo em Portugal +junto á cidade do Porto, onde chamão Gaya, ás mãos del Rey Ramiro, & sua +gente, donde tambem cobrou, & matou sua molher chamada Gaya, que estava +com este Mouro, da qual ficou este lugar chamado de seu nome.</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p style="text-align: center;">Composto por João Vaz natural da Cidade de +Evora, em verso de oitava rima.</p> + +<p style="text-align: center;"><em>Dirigido a dom Miguel de Meneses, Marquez +de Villa Real, &.</em></p> + +<hr style="width: 10%; text-align: center;"> + +<p style="text-align: center;">Foy visto, & approvado, pello Padre Frey +Manuel Coelho.</p> + +<p style="text-align: center;"><em>Em Lisboa com todas as licenças +necessarias.</em><br> +<em>Por Antonio Alvares.</em> 1630.</p> + +<hr> + +<p> </p> + +<h3 style="text-align: center;">Soneto ao Marquez.</h3> + +<div class="poesia"> + A ti Varão insigne, & sinalado,<br> +Da generosa stirpe Lusitana,<br> +Author offerece este tractado,<br> +Sobre esta Hystoria Mauritania.<br> + Desse Rey Almançor desbaratado.<br> +Pella gente Galega, & Castelhana,<br> +Desse bom Rey Ramiro o esforçado,<br> +Dos quais Reys ambos, a Historia emana.<br> + Recebe pois Senhor esclarecido,<br> +A obra, que o Author te apresenta,<br> +Com amor, humildade, & cortesia.<br> + Como que se desculpa de atrevido.<br> +O que por paga toma, & se contenta,<br> +Por servir a tam alta Senhoria. </div> + +<h3 style="text-align: center;">ARGUMENTO E DECLARAÇAM DA HISTORIA.</h3> + +<p><span class="pagenum">[10]</span>Em tempo que reynava em Galiza, & +parte de Espanha, o animoso Rei Ramiro que foy casado com hũa Senhora +chamada Gaya, tendo os Mouros occupada: a demais: por ser em tempo que se +avia perdido Espanha entre outros Reys Mouros, reynava Almançor.</p> + +<p>Estes dous Reys, avendo entre si batalhas, em hũa captivou Ramiro +hũa irmãa deste Almançor, a qual tinha por amiga; do que enojada Gaya, +tratou com Almançor a quisesse furtar, que ella daria ordem como se fosse com +elle, como deu, & a cobrou, & levou pera Portugal, que estava de +Mouros, & a foy pór junto da Cidade do Porto, & junto do Rio Douro, +sobre o lugar que agora chamão Gaya, onde Almançor tinha fortaleza, & +paços, dos quaes oje em dia se vem os alicerces, & fundamentos. O que +vendo Ramiro, ordenou demproviso tres Gales de armada, & com ellas veo +aportar, a Sam João da Foz, mea legoa do porto, & sendo de noyte com +ellas se entrou por o Rio Douro, sem serem sentidas dos Mouros, & +cobertas de ramos por não serem vistas, tanto que amanheceo, Ramiro se pos em +trajos de romeiro, & sayo em terra deixado em sinal aos seus, que se +ouvissem tanger hũa buzina que consigo levava lhe acudissem. E assi se +foy guiando pera os paços deste Mouro, & antes disso chegou a hũa +fonte, onde com elle veo ter hũa Moura, que vinha buscar hum pucaro de +agoa, pera a mesma Gaya, o qual falandolhe em Aravia lhe pedio o pucaro pera +beber por elle, & lho deu, & des que bebeo, tirando hum anel do dedo +o deitou dentro, sem o ver a Moura. Bebendo Gaya conheceo o anel que era de +seu marido Ramiro, & o mandou chamar, por ser já entam ido Almançor, +& vendose, se abraçarão, & tratarão de matar o Mouro, & se hirem +ambos, & pera isso o meteo em hũa camara, pera que quando Almançor +durmisse a sesta lhe desse rebate; nisto veo Almançor da caça, & sentado +á mesa pera comer, esta Gaya lhe deu conta de Ramiro, & como vinha pera o +matar, & assi o Mouro mãdou vir ante si a Ramiro, & passadas antre si +rezões, por fim, disse Almançor, se eu Ramiro fora a tua casa pera te matar, +que me fizeras? respondei, mandarate levar a hum alto, & com esta bozina +te fizera tanger até que rebentaras, mandou Almançor, que isso lhe fizessem, +levado ao alto, começou a tanger, & logo a gente de Ramiro acudio, & +tomando os Mouros descuydados degolarão Almançor, & os mais, & foi +saqueada a terra, & dessa Gaya ficou o nome ao lugar de Gaya, da Cidade +do Porto.</p> + +<h3 style="text-align: center;">ROMANCE DE GAIA</h3> + +<div class="poesia"> +<span class="pagenum">[11]</span> Cantemos de Ramiro Rey de Espanha,<br> +E del Rey Almançor de Berberia,<br> +Quando por desventura tam estranha,<br> +No mais de Espanha entam Mouros avia,<br> +Com animo cruel, com cruel sanha,<br> +Cada qual um ao outro pretendia,<br> +Privar de sua fama, honra, estado,<br> +Com todas suas forças, e cuydado.<br> +<br> + Desse Ramiro digo o esforçado,<br> +Que deste nome tres com elle hão sido,<br> +Daquelle que com Gaya foy casado,<br> +Por quem tantos trabalhos ha sufrido,<br> +Da qual Gaya do Porto ha tomado;<br> +Em Portugal o mesmo apellido,<br> +Lugar junto do Douro em o Porto,<br> +Onde foy Almançor preso e morto.<br> +<br> + Por mãos deste Ramiro animoso,<br> +No que se satisfez de sua afronta,<br> +E lhe valeo em isso o ser manhoso,<br> +Segundo a historia o aponta,<br> +Que nam bastava ser Rey valoroso,<br> +Que força sem saber muy pouco monta,<br> +E os ardis he cousa muy notoria,<br> +Que sam causa urgente de victoria.<br> +<br> + Nem tratamos aqui das mais pendenças,<br> +E batalhas antre estes Reys avidas,<br> +Que forão muyto largas, e extenças,<br> +E em chronicas estão bem referidas,<br> +Só queremos tratar das differenças,<br> +Que antre estes Reys forão movidas<br> +Quando Ramiro ouve captivado<br> +A irmãa de Almançor, e deshonrado.<br> +<br> +<span class="pagenum">[12]</span> Donde este Almançor tempo esperando,<br> +A molher a Ramiro ha furtado,<br> +No qual se foy emfim muy bem vingado,<br> +Ou estava no furto melhorado,<br> +De Gaya Almançor ficou gozando,<br> +E com ella ficou como casado,<br> +Assi que um peccado outro chama,<br> +E fazem na maldade calo, e cama.<br> +<br> + Vendose Almaçor com a tal presa,<br> +Como Aguia Real voou com ella,<br> +Logo que a furtou com ligereza<br> +Perdeo de vista os Reynos de Castella,<br> +E veo aqui portar nesta deveza<br> +Do Douro onde então estava aquella,<br> +Povoação, e paços, donde Gaya,<br> +A qual ahi está junto da praya.<br> +<br> + Ramiro tal ficou com esta nova,<br> +Que se lhe deu la onde era ausente,<br> +Que esteve em se meter em hũa cova,<br> +Não querendo viver antre a gente,<br> +Não aver igual dor, he clara prova,<br> +Porque de si he quasi impaciente,<br> +Mas como he Christão, e Rey sabido,<br> +A Deos logo então se ha socorrido.<br> +<br> + Tanto, e mais chorava o seu peccado,<br> +Que toda esta mesma desventura,<br> +No que consiste o ser Christão chamado,<br> +E nisto está o seu remedio, e cura,<br> +Ramiro que em isto se ha fundado.<br> +Ver quam pouco na vida o gosto dura,<br> +A Deos se dedicou, o que Deos vendo,<br> +Neste caso quis logo ir provendo.<br> +<br> +<span class="pagenum">[13]</span> E assi lhe inspirou que ordenasse,<br> +Hũa pequena, e secreta armada,<br> +De hũas tres gales, e que guiasse<br> +Aonde sua Gaya era levada,<br> +E que como fiel bem confiasse,<br> +Que por elle seria hi cobrada,<br> +E o mesmo Almançor morto, e vencido,<br> +Porque Deos o havia permetido.<br> +<br> + Ordenou pois Ramiro com bom siso,<br> +As tres gales darmada pella posta,<br> +Com bonança vieram demproviso,<br> +A Portugal a demandar a costa,<br> +E por ella guiando sobre aviso,<br> +Calados sem falar, nem dar resposta,<br> +A Sam João da Foz forão surgidos,<br> +De noyte sem dos Mouros ser sentidos.<br> +<br> + Chegadas as gales a foz, e entrada,<br> +Daquesse Rio Douro caudaloso,<br> +Ahi parou então esta armada.<br> +Com perigo, por ser lugar fragoso,<br> +Da noyte era ja parte andada,<br> +O Ceo estava claro, e luminoso,<br> +O ar sereno, tudo socegado,<br> +O mar porem alli sempre he irado.<br> +<br> + E por se segurar determinarão,<br> +Tomar o Rio acima assi surgindo,<br> +Pella parte a dentro, se deytarão,<br> +Com os remos o Douro vão ferindo,<br> +E por fazer carreira deceparão,<br> +Mil arvores, que o Rio vam cobrindo,<br> +Que sem isso gales ir não podião,<br> +Até onde levalas pretendião.<br> +<br> +<span class="pagenum">[14]</span> Era o arvoredo nessa idade,<br> +Muy sobejo, e crecido até a praya,<br> +Na parte donde agora he a Cidade,<br> +E na banda daquem chamada Gaya,<br> +De arvores muy gram variedade,<br> +De brozios, e louro, mirtos, faya,<br> +E com ser tudo fragoa, e penedia,<br> +Somente o arvoredo alli se via.<br> +<br> + Nesta parte de ca daquem do Douro,<br> +No mais alto outeyro, e o mayor,<br> +Ahi tinha seus paços el Rei Mouro,<br> +Aquelle a quem chamarão Almançor,<br> +Ahi tinha tambem o seu thesouro,<br> +Porque daquella terra era senhor,<br> +Contente e recreado alli vivia,<br> +Por ser terra de caça e monteria.<br> +<br> + Ahi vay hũa cava como mina,<br> +Até o Rio feita entre dous valos,<br> +Que ainda agora se vè, e determina,<br> +Ser pera írem beber os seus cavalos,<br> +Tambem he cousa certa, e de crer digna,<br> +Que tinha outros Reys Mouros vassalos,<br> +Todos a este Rey obedecião,<br> +Porque em sua ley maldita crião.<br> +<br> + Alli se estava o Mouro aposentado,<br> +Donde o largo mar, cos olhos via,<br> +Dalli o via as vezes socegado,<br> +E outras quando bravo bem o ouvia<br> +Tambem estava alli fortalezado,<br> +Porque del Rey Ramiro se temia,<br> +Que quem deve, em fim sempre recea,<br> +Se tem um bon jantar, de haver ma cea.<br> +<br> +<span class="pagenum">[15]</span> Alli gastava a vida com sabores,<br> +O Mouro Almançor muy namorado,<br> +Gozando dessa Gaya; e seus favores,<br> +Molher del Rey Ramiro o magoado,<br> +Mas o jogo, e caça, e os amores,<br> +O fazem do perigo descuydado,<br> +E entre tanto o tempo dá hũa volta,<br> +Pesca o pescador nagoa envolta.<br> +<br> + Chegado pois Ramiro o muy prudente,<br> +Com suas tres gales apercebidas,<br> +De noite, ja que bem dormia a gente,<br> +Alli se preparão escondidas,<br> +E posto que vem feyto hũa serpente,<br> +Ordena que não sejão alli sentidas,<br> +E seu furor resguarda pera quando,<br> +Se veja de Almançor ir triumphando.<br> +<br> + Alli gastada a noyte em socego,<br> +Quanto possivel era e importava,<br> +Tratavão do segredo em emprego,<br> +E do que tal empresa demandava,<br> +A lingoa de Arabigo, e Grego,<br> +Muy ao natural pronunciava,<br> +Só do aviso da terra tendo mingoa<br> +Por si se oferece ir tomar lingoa.<br> +<br> + Ficou porem por todos assentado,<br> +Que tocando Ramiro hũa corneta<br> +Não fique em Gale nenhum soldado,<br> +Que logo o outeyro nam cometa,<br> +E com animo forte e esforçado,<br> +Contra os crueis Mouros arremeta,<br> +E todos juntos dando Sanctiago,<br> +Os Mouros ajam hum cruel estrago.<br> +<br> +<span class="pagenum">[16]</span> Passada pois a noite, veo o dia,<br> +Ramiro toma trajos de romeiro,<br> +Deyxada toda sua companhia,<br> +Sobindo se vay so pello outeyro,<br> +A Deos so quis levar por sua guia,<br> +E em sua fe firme, e muy inteiro,<br> +E fazendo o sinal da Cruz no peito<br> +Aos paços do Mouro foy direito.<br> +<br> + Por ver se indo assi desconhecido<br> +A sua molher Gaya ver pudesse,<br> +Ou sendo Almançor a caça ydo,<br> +Ella com o seu Ramiro se viesse,<br> +O Phebo então mostrava aver nacido,<br> +Contra quem disse, se ora te aprouvesse,<br> +Com teu resplandor Phebo me ir mostrado,<br> +Este bem, que pretendo, e vou buscando.<br> +<br> + Assi se vay o triste de Ramiro,<br> +De pensamentos tais arrodeado,<br> +De pedra não seria mais de hum tiro,<br> +Que perto estava ja de povoado;<br> +Dizendo vay, se este bem acquiro<br> +Deste Mouro serey muy bem vingado,<br> +E por esta historia ser sabida<br> +Aqui se verá feyta hũa ermida.<br> +<br> + E dando mais Ramiro hũa passada<br> +Vio hũa fonte dagoa muy fermosa,<br> +De rica pedraria fabricada,<br> +De agua muy delgada, e saborosa,<br> +A qual oje em dia he chamada,<br> +A fonte de Ramiro, sem mais glosa,<br> +A qual oje ahi está por memoria<br> +Em testemunho, e fe desta historia.<br> +<br> +<span class="pagenum">[17]</span> Alli se assentou por ir cansado,<br> +Não, para descansar, que mal descansa,<br> +Aquelle que então ha começado,<br> +Trabalhar por o que depois alcança,<br> +E alli se despõe determinado<br> +Armar hũa certos laços desperança,<br> +Esperando que và alguém à fonte,<br> +Que novas de Almançor lhe diga e cõte.<br> +<br> + Cuydando está Ramiro o que faria,<br> +Se espere alli, ou fosse proseguindo.<br> +Que só da sua armada se temia,<br> +Nam fossem os Mouros hi sentindo,<br> +Pello perigo grande que corria<br> +Em nam si ir primeiro descobrindo,<br> +A terra antes de se dar rebate,<br> +Por que milhor se desse o seu combate.<br> +<br> + Começou a dizer ja fenecera<br> +Com a morte que eu mesmo me daria,<br> +Se a esperança nam me entretivera,<br> +Dizendo espera a noyte, e mais hum dia,<br> +Tantas vezes me diz espera, espera<br> +Que ja cuydo que o faz de zombaria,<br> +Se me ouves esperança por esmola<br> +Te peço, ou me mata, ou me consola.<br> +<br> + Qual soe o mar fazer naturalmente,<br> +Nas marinhas que a elle sam chegadas,<br> +Quando vem com maré, e com enchente,<br> +Da qual sam de contino visitadas,<br> +Que com o ardor do sol quando he quente<br> +As taes agoas com sal sam congeladas,<br> +E se antes de o ser, hi tem vasante<br> +Não fica hi sal atras, nem adiante.<br> +<br> +<span class="pagenum">[18]</span> Assi a magoas em o pensamento,<br> +Vam ao coraçam, e hi represadas,<br> +Tras maré de enchente o sentimento,<br> +E em agoas de sal, hi sam tornadas,<br> +E com força da dor, e do tormento,<br> +Por os olhos rebentão, e destapadas,<br> +Nas lagrimas vem tudo, e quẽ não chora,<br> +Da cova esta tal muy perto mora.<br> +<br> + Assi o bom Ramiro recordado<br> +Daquella pena e dor que o atormenta,<br> +Posto que a chorar está avesado,<br> +Como de novo agora o mal lamenta,<br> +E a presa da magoa se ha quebrado,<br> +Dos olhos outra fonte lhe arrebenta,<br> +E assi duas fontes alli correm<br> +Porque hũa nacia deste homem.<br> +<br> + E assi era de ver esta porfia<br> +Com que cada qual dellas caminhava,<br> +Que se da fonte muyta agoa corria<br> +Ramiro pellos olhos mais deytava,<br> +Mil lastimas o triste alli dezia,<br> +Perguntay pera quem, ou aquem falava,<br> +Com dor a lingoa fala desatinos,<br> +E faz homẽs chorar como meninos.<br> +<br> + Hũa Nimpha então fazendo aballo<br> +Là dentro em a fonte se banhava,<br> +E começou cantar por consolallo,<br> +Notou Ramiro entam o que cantava,<br> +Cantando (disse a Nimpha) a ti fallo.<br> +Ramiro là te ouvi aonde estava,<br> +Sou Nimpha, Esperança sou chamada,<br> +Espera que a boa ora te he guardada.<br> +<br> +<span class="pagenum">[19]</span> Com esperança cação os caçadores,<br> +As aves em os laços enlaçadas,<br> +Com esperar recolhem os lavradores,<br> +O fruyto das sementes semeadas,<br> +E com canas tambem os pescadores,<br> +Com sedelas, e boyas, e chumbadas,<br> +O peyxe quando o comer engolem<br> +Com que por engano de anzoes cobrem.<br> +<br> + Neste conto Ramiro está enlevado<br> +E a Nimpha no mesmo ainda procede,<br> +Quando junto a elles ha chegado<br> +Hũa Moura da ley de Mafamede,<br> +Sapatinhas da cor de laranjado<br> +A medida do pé tres pontos pede,<br> +Escassamente a Moura foy sentida<br> +Quando a Nimpha na fonte foy somida.<br> +<br> + Na idade mostrava esta Moura<br> +Que ainda donzella ser devia,<br> +De gentil parecer tam branca e loura,<br> +Que nisso nada Moura parecia,<br> +Não sey a natureza, porque doura,<br> +De graça a que dà graça e bem fogia,<br> +Que bem sem graça he como está visto,<br> +Aquelle que nam cre na ley de Christo!<br> +<br> + Vestida vem de cor alionado<br> +De hũa roupa de sede até o artelho,<br> +Hũa touca tonizil com hum trançado<br> +De fitas damarelo, e vermelho,<br> +Com hum cinto muy largo, e apertado<br> +Em tudo tras concerto, e aparelho<br> +Por isso de ser vista nam recea<br> +Mas em ver, e ser vista se recrea.<br> +<br> +<span class="pagenum">[20]</span> Hum vaso dourado tras de gram valia,<br> +De muy ricos esmaltes esmaltado,<br> +Que ser cousa de Rey bem parecia,<br> +Segundo era rico, e bem obrado<br> +Cantando vem a Moura em Aravia;<br> +O tal cantar Ramiro ha notado,<br> +Damor era seu canto muy sobido,<br> +Porque se aqueyxava de Cupido.<br> +<br> + Alli sauda a Moura o bom andante,<br> +Ao seu modo em sua Aravia,<br> +Ramiro lhe responde em consoante,<br> +De Arabigo que bem o entendia,<br> +A Moura que o ve feito hum brivante,<br> +Posto que de nenhum modo o conhecia,<br> +Sospeyta por o ver tam bem criado<br> +Ser homem que seus trajos ha mudado.<br> +<br> + Pediolhe de beber o bom Romeyro,<br> +A Moura de cortês não lho negava,<br> +Mas o vaso encheo, e lavou primeiro,<br> +E com mesura lho apresentava,<br> +Ramiro lhe tirou o seu sombreiro,<br> +E o pucaro dagoa lhe tomava,<br> +Que ser de Almançor claro se via,<br> +Pellas letras, e armas que trazia.<br> +<br> + Ramiro, que em tal ventura se acha,<br> +Bebendo perguntou a quem servia,<br> +A Moura respondeu servia a Gaya,<br> +Pera quem hia buscar a agoa fria,<br> +Vede que trago amargo alli traga,<br> +Ver que sua molher tambem bebia<br> +Por jarros de Almançor seu enemigo,<br> +O qual ella ja tinha por amigo.<br> +<br> +<span class="pagenum">[21]</span> Nam quis Ramiro mais saber do caso,<br> +Mas encobrindo a dor que nalma sente,<br> +Tornou encher na fonte o rico vaso,<br> +(Dizendo) de força he, seja paciente,<br> +Mas vagando vay ja aquelle prazo,<br> +Se minha esperança não me mente,<br> +Que presto se verá morto este Mouro,<br> +Perdendo sua fama, e seu thesouro.<br> +<br> + Consigo isto dezia o magoado<br> +Tirando dum anel no vaso o deita,<br> +Sem que fosse sentido, nem olhado<br> +Da Moura por nam ter disso sospeita,<br> +Por el Rey Almançor lhe ha perguntado<br> +A caçar deve ser ido, a cousa feyta,<br> +A caçar vay dos porcos, e veados,<br> +Que os seus là lhe tinham emprazados.<br> +<br> + A Moura se despede do Romeyro<br> +So por representar honestidade,<br> +Que alli se detivera o dia inteyro,<br> +Segundo que isso pede a mocidade,<br> +Sobindo vay a Moura pello outeiro,<br> +Ligeiro, e com gram vellocidade,<br> +Porque parece que hia ja tardando,<br> +E teme que o tardar lhe vão notando.<br> +<br> + Ramiro que na fonte soo ficava,<br> +Donde sua figura clara via,<br> +Consigo mesmo o triste alli falava,<br> +E elle mesmo assi se respondia,<br> +E sendo dantes aguia que voava,<br> +E que na nota a todos excedia,<br> +Agora com a dor que o aperta<br> +Parece que desvayra, e desconcerta.<br> +<br> +<span class="pagenum">[22]</span> Se verdadeira es minha figura,<br> +(Dizia) tu figura jà es tal,<br> +Que como cousa que jà não tem cura,<br> +Se devem deyxar ao natural,<br> +Porque teu mal he mal que sempre dura,<br> +E que he sobre todos sem igual,<br> +Por isso, pois o tens, e o padeces<br> +Não sey como de todo nam faleces.<br> +<br> + A figura então lhe respondia<br> +Em voz, e em toada differente,<br> +Que serem duas cousas parecia,<br> +Cada hũa por si distintamente,<br> +Ou fosse a esperança a qual seria,<br> +Que ja o reprendera de impaciente,<br> +Agora nisso mesmo lhe aponta,<br> +No que lhe respondeo, ou tanto monta.<br> +<br> + Deixemos a Ramiro por agora,<br> +Sobre seu mal soltar mil desatinos,<br> +Chore seu mal que com rezão o chora,<br> +Dè mil ays, dè suspiros muy continos,<br> +Até que Deos lhe traga aquella ora,<br> +Na qual, nem Mouros velhos, nem meninos<br> +Fiquem mais povoando aquella terra,<br> +E morra Almançor naquella guerra.<br> +<br> + Vamos saber da Moura o que passava,<br> +Quando sua senhora a agoa bebia,<br> +E se se alterava, ou perguntava,<br> +Cujo fosse o anel que dentro hia,<br> +Porque nisso Ramiro se fundava<br> +Em que o seu anel conheceria,<br> +E se lhe tinha amor de molher boa,<br> +No caso ella faria de pessoa.<br> +<br> +<span class="pagenum">[23]</span> Bebeo pois a Rainha, e achando,<br> +O anel conheceo que de Ramiro era,<br> +E quanto pode em si dissimulando,<br> +Hum muy grande sospiro ahi dera,<br> +E confusa está imaginando,<br> +Porque via, e arte alli viera,<br> +Ou porque invenção, modo, e geito,<br> +E se era aquelle, ou contrafeito.<br> +<br> + Perguntou se achara alguem na fonte<br> +Ao tempo que ella agoa tomara,<br> +Dizendo que lhe diga, e lhe conte,<br> +Tudo o que ante ella se passara,<br> +Ou outra algũa cousa lhe aponte,<br> +Por onde o anel alli achara,<br> +E porque disso a Moura se espantava<br> +A Raynha contra ella se assanhava.<br> +<br> + A Moura que se vee ser innocente,<br> +Do caso que então mal entendia,<br> +Jura que não achou nenhũa gente.<br> +A Raynha lhe disse que mentia,<br> +E com esta porfia differente,<br> +A Raynha em ira se encendia,<br> +Com hum Chapim lhe tira daremesso,<br> +Quis Deos se desviou, e foi avesso.<br> +<br> + Tornou a Moura então assegurouse,<br> +Dizendo que achara a hum Romeiro,<br> +Mas que não se acordava, e disculpouse,<br> +Da culpa de lho não dizer primeiro,<br> +A Raynha com isso aquietouse,<br> +Crendo ser seu marido verdadeiro,<br> +E ou fosse com fee, ou sem verdade,<br> +De vello mostrou ter grande vontade.<br> +<br> +<span class="pagenum">[24]</span> Mandou pois a Raynha que o chamasse<br> +E que de sua parte lhe dissesse,<br> +Que fosse logo là, e não tardasse,<br> +E fosse confiado, e não temesse,<br> +E que em bom segredo lhe guardasse,<br> +O que do tal Romeiro entendesse,<br> +Que Almançor a caça era ido,<br> +Que podia fazer em seu partido.<br> +<br> + A Moura parte logo diligente,<br> +A cumprir o mandado da senhora,<br> +Ramiro que tornar a moura sente,<br> +Esforço (disse) se ha mister agora,<br> +E como vio a Moura vir contente,<br> +Alegrouse tambem naquella hora,<br> +Posto que o coração o convidava,<br> +Com outro desprazer que adevinhava.<br> +<br> + Chegando pois a Moura lhe dezia;<br> +Romeiro a Raynha Gaya manda,<br> +Te peça com amor, e cortesia,<br> +A vejas, que te espera na varanda.<br> +Que de verte gram gozo levaria,<br> +E de favorecer tua demanda,<br> +Que lhe queiras fazer aquesta graça,<br> +Antes que Almançor venha da caça.<br> +<br> + Que saibas que Almançor a caça he ido,<br> +Não percas ponto algum de tal ensejo,<br> +Ramiro que a mensagem ha ouvido,<br> +Ousado mostra logo o seu desejo,<br> +Cuidando que fazia em seu partido,<br> +Alegre sem algum receo, ou pejo,<br> +Tomando o bordão, disse senhora,<br> +Guiai, que em vossas mãos me ponho agora.<br> +<br> +<span class="pagenum">[25]</span> E sem fazer demora obedecendo,<br> +Acompanhou a Moura com cautela,<br> +Perguntando se vão, e respondendo,<br> +A Moura a Ramiro, e elle a ella,<br> +No andar pausa as vezes vão fazendo,<br> +Ramiro vay soltando â Moura a trella,<br> +A Moura he cortesaã, e confiada,<br> +E demostrava ser muy namorada.<br> +<br> + A pratica damores he fingida,<br> +Da parte de Ramiro enganosa,<br> +A Moura vay damor presa, e vencida,<br> +Enganada merece a envejosa,<br> +Nos amores muy solta, e atrevida,<br> +O que dana, e afea o ser fermosa,<br> +Enganada merece hũa tal dama,<br> +Quando de namorada quer ter fama.<br> +<br> + Pois trata de adquirir o que pretende,<br> +A ver sua senhora, e o deseja,<br> +Mormente, pois o sabe, e o entende,<br> +Mas todas sam feridas da enveja,<br> +O fogo da cobiça as acende,<br> +Que sempre hũas com outras tem peleja,<br> +Sobre o negro amar, e ser amadas,<br> +E sam hũas das outras desdenhadas.<br> +<br> + Junto vam jà dos paços, e castello,<br> +A Raynha andava passeando,<br> +Na varanda muy morta jà por velo,<br> +Ramiro os seus olhos levantando,<br> +Não pos duvida algũa em conhecelo,<br> +Nem elle della esteve duvidando,<br> +Sobindo pois Ramiro hũa escada,<br> +A Raynha com elle està chegada.<br> +<br> +<span class="pagenum">[26]</span> E como onde ha amor nam ha receo<br> +Sem receo de nada se abraçarão,<br> +Porque o seu prazer era tam cheo,<br> +Que remeteo por mais que o represaram,<br> +E estando assi neste enleo,<br> +Damor, dos olhos rios emanarão,<br> +De agoas que dizem ser salgadas<br> +Estas porem por doces sam julgadas.<br> +<br> + Qual Pyramo, e Tysbe se mostrarão,<br> +Amarse de verdade o que pedia,<br> +O vinculo de amor que professarão,<br> +Mais mostra de amor ser não podia,<br> +Que a que alli ambos demostrarão,<br> +Nem outra cousa delles se entendia,<br> +Mas como a molher bayla, ou dança,<br> +Logo sabe fazer hũa mudança.<br> +<br> + Perguntoulhe então Gaya o que buscava<br> +Ou porque via, e arte alli viera,<br> +Alli Ramiro então se assentava,<br> +Como se em sua casa estivera,<br> +Assentado dizerlhe começava,<br> +O caso que a isto me trouxera.<br> +Se tu senhora o tens tambem sabido,<br> +Porque me julgaras por atrevido.<br> +<br> + Se venho por ventura a salvarte,<br> +O amor sobre tudo he cousa forte,<br> +Ao menos senão podes cobrarte,<br> +Consolarmeey em verte em minha morte,<br> +E se Deos conceder poder livrarte,<br> +Quero provar em isso minha sorte,<br> +A isso (como digo) venho agora,<br> +A cobrarte, ou morrer por ti senhora.<br> +<br> +<span class="pagenum">[27]</span> Gaya sabiamente respondia,<br> +Fingindo ser leal, e verdadeira,<br> +Isso muy bem agora se faria,<br> +Se se tivesse modo, ou maneira<br> +De ser a nossa salvo, mas nam via<br> +Nem sabia caminho, nem carreira,<br> +Nem tu Ramiro mostras aparelho<br> +E nisso ha mister muy bom conselho.<br> +<br> + Ramiro lhe tornou aconselhado<br> +Estou senhora, e bem apercebido,<br> +Mas em só te levar nam sou vingado,<br> +Sem matar este Mouro fementido.<br> +E se de nos pode ser descabeçado,<br> +Em salvo te porà o teu marido<br> +Porque eu que a isso me aventuro,<br> +Nam he sem te poder por em seguro.<br> +<br> + Pois isso (disse) mandas que se faça<br> +Assi se fará bem, e sem perigo,<br> +Com o favor de Deos, e sua graça,<br> +A qual seja contigo, e comigo,<br> +Mas porque pode vir cedo da caça,<br> +Este Mouro cruel teu enemigo,<br> +Eu te direy o modo que teremos<br> +Pera a nosso salvo isto fazermos.<br> +<br> + Abrio logo hũa camara dourada,<br> +De verão lhe servia de aposento,<br> +Onde nunca o Sol fazia entrada,<br> +E na sesta hia ter contentamento<br> +Que sò por sua mão era fechada<br> +Por lhe servir de seu recolhimento,<br> +Ahi o fez entrar, e sendo entrado,<br> +Deste modo, e maneira lhe ha falado.<br> +<br> +<span class="pagenum">[28]</span> Aqui te ficaràs dentro metido,<br> +Se queres concluyr em este feyto,<br> +E se vẽs do caminho afligido<br> +Bem podes acostarte em este leyto,<br> +Aqui podes estar sem ser sentido<br> +Onde podes fazer de teu proveyto,<br> +Quando for tempo, e ora de acostarse,<br> +E aqui Almançor vier deytarse.<br> +<br> + Virà ora da caça encalmado<br> +A mesa tem jà posta esperando<br> +O comer està jà negociado<br> +Nam poderà jà ir muyto tardando<br> +E desque de comer ha acabado,<br> +O sono o vay logo convidando,<br> +E he certo vir logo a este pouso,<br> +A descansar a sesta, e ter repouso.<br> +<br> + Nisto deuse rebate, e nova certa,<br> +Que vinha Almançor da montaria,<br> +A camara fechou que estava aberta,<br> +E de Ramiro então se despedia,<br> +Tornou a seu estrado, e alerta<br> +Se pos a entender no que entendia,<br> +Com as damas laurando seda, e ouro<br> +Quando a esta hora chegou o Mouro.<br> +<br> + Acompanhado vem de caçadores,<br> +De monteiros de pe, e cavalleyros,<br> +E de cães como elles filhadores,<br> +Muytos Mouros de lança, e besteiros<br> +Vestidos de libreas, e de mil cores,<br> +Com bozinas, e cornos prazenteiros,<br> +Porem vinham muy surdos, e calados<br> +Por não acharem Porcos, e Veados.<br> +<br> +<span class="pagenum">[29]</span> Descavalga Almançor muy diligente,<br> +Sobindo pera o paço, e aposento<br> +Ella que o vè vir tam descontente,<br> +Per si lhe foy fazer recebimento,<br> +Com passo perlongado, e differente,<br> +Lhe demostrou ter contentamento,<br> +Com sua boa vinda, e alvoroço,<br> +Deitandolhe os braços no pescoço.<br> +<br> + Almançor lhe pagou por esta via,<br> +Os afogos de amor na mesma ora,<br> +Fazendolhe hũa grande cortesia,<br> +Dizendolhe vivaes minha senhora,<br> +E com este prazer, e alegria,<br> +Sem se fazer algũa outra demora,<br> +Se sentarão à mesa e assentados<br> +Serviramlhe seus pajes, e criados,<br> +<br> + No meo do comer os dous estando,<br> +Com grande gosto, festa, e alegria,<br> +O segredo esta mà lhe foy soltando,<br> +Dizendo, quero darte iguaria,<br> +Da qual bem sey que deves dir gostando,<br> +Por ser nova de gosto ta daria,<br> +No que conheceràs quanto te ama,<br> +Quem não dà por Ramiro em que a chama.<br> +<br> + Que dèras Almançor Rey poderoso,<br> +(Lhe disse) a quem Ramiro te entregàra,<br> +Que deras se te víras tão ditoso,<br> +A quem agora preso to mostrara,<br> +Não me estranhes mostrarte disto gozo,<br> +Que se com firme amor nam te amara,<br> +Na treyção de Ramiro consentira<br> +Que oje te matava neste dia.<br> +<br> +<span class="pagenum">[30]</span> Que diremos de caso tam horrendo,<br> +De femea tam mà, tam fera, dura,<br> +Que coração tam duro, ha que vendo,<br> +Deslealdade tal em criatura,<br> +Nam deixa de ser duro amolecendo<br> +Avendo dò de tanta desventura,<br> +Num Rey que vem em trajos de romeiro,<br> +A tirar a molher de captiveiro.<br> +<br> + Ah falsa que te vas ao profundo,<br> +Como não temes que ha Deos verdadeiro?<br> +Que trocas por amor falso, e segundo,<br> +A teu Rey, e a teu marido, e amor primeiro,<br> +Por isso, e cousas taes vay mal ao mundo,<br> +Por isso vem a peste, e o captiveiro,<br> +E ha falta de paz na Christandade,<br> +Por falta de verdade, e lealdade.<br> +<br> + Se a verdade ca naceo na terra,<br> +Qual terra, ou quem ousa desterrala,<br> +Se tam natural he que lhe põe guerra?<br> +Quem ousa, ou pretende degradala?<br> +Se na verdade todo o bem se encerra,<br> +Qual he o que se poe a pedrejala,<br> +E sendo como he cousa tam forte,<br> +Que só ella he senhora sobre a morte.<br> +<br> + Ó se esta verdade se abraçasse,<br> +Alli onde parece claramente,<br> +Se cada hum a casa a levasse,<br> +Assi como quem leva hum bom parente,<br> +E se dentro no peito a conservasse,<br> +E o mesmo fizesse toda a gente,<br> +Servindolhe de peso, e medida,<br> +A Deos seria alegre nossa vida.<br> +<br> +<span class="pagenum">[31]</span> Ó celeste virtude, ó lealdade,<br> +Qual ha antre as mais que milhor seja,<br> +De ti produz, e nace a castidade,<br> +Que todo o poder vence em peleja,<br> +Que cousa ha milhor na Christandade?<br> +Que cousa mais chegada à Igreja?<br> +Que cousa, porque Deos milhor se renda,<br> +E nos dè sua graça, e nos defenda.<br> +<br> + Almançor que o caso ha ouvido,<br> +Bem cre que esta Gaya isto dezia,<br> +Por folgar de falar no seu marido,<br> +Que tudo aquillo que era zombaria,<br> +Entam lhe disse, aqui està escondido,<br> +E sabe que matarte pretendia,<br> +E levarme consigo sem mais ordem,<br> +Mas eu quero ser tua, nam doutro homem.<br> +<br> + Confuso fica o Mouro, e muy turbado,<br> +Do caso, e perigo em que estivera,<br> +Que antes de muyto fora degolado<br> +Se esta mesma Gaya o quisera,<br> +Por outra parte està muy alterado,<br> +Festejando este bem que amor lhe dera,<br> +Trazendo a seu poder seu enemigo,<br> +Sem perda de batalha, e sem perigo.<br> +<br> + Oo cruel sobre todas as molheres,<br> +Tal fama queres ter, tal nomeada,<br> +Porque o teu Ramiro ja nam queres?<br> +Por estar com hum Mouro abarregada,<br> +Não te lembrão os filhos teus prazeres?<br> +Nem te acordas que es molher casada,<br> +E que fosse Christãa? nam sey agora,<br> +Antes parece que em ti, ley não mora.<br> +<br> +<span class="pagenum">[32]</span> Das mais que forão màs calar se pode,<br> +Só desta sobre todas mà praguejo,<br> +Não sinto nellas mal que se acommode,<br> +A hũa tal treição, a tal despejo,<br> +Por hum Mouro infiel cara de bode,<br> +Em quem foy por amor, e o desejo,<br> +Perde do bom Ramiro, a memoria,<br> +Perde honra, e fama, perde a gloria.<br> +<br> + Ramiro bem ouvia o que passava,<br> +Porque dalli estava muyto perto,<br> +E como a mà tudo lhe contava,<br> +E ja era em fim bem descuberto,<br> +Ja vedes em que estado o triste estava,<br> +Com que dor, agonia, em que aperto,<br> +Que saltos lhe daria nessa ora,<br> +O coração querendo saltar fora.<br> +<br> + Não quis mais Almançor comer bocado,<br> +Com festa de prazer, e alegria,<br> +Dizendo eu estou bem consolado,<br> +Não quero comer outra iguaria,<br> +E mais pois tenho hospede honrado,<br> +Rezam he que lhe guarde cortesia,<br> +E pois aqui està neste aposento,<br> +Vamoslhe fazer hum recibimento.<br> +<br> + Seu capitão da guarda entom chamando,<br> +Alli se lhe homilhou, e lhe ha mandado,<br> +Que com a sua guarda va guiando,<br> +Pera donde Ramiro està fechado,<br> +O triste de Ramiro està orando,<br> +A Deos que lhe socorra em tal estado,<br> +Porque muy claramente alli via,<br> +Que a morte à porta lhe batia.<br> +<br> +<span class="pagenum">[33]</span> A porta desfechada num momento,<br> +Do numero de Mouros muy armados,<br> +Foy cheo todo aquelle aposento,<br> +Com alfanges, e braços remangados,<br> +Deos te valha Ramiro em tal tormento,<br> +Que os teus estão de ti muy alongados,<br> +E a tua armada está no Douro,<br> +E tu sò preso antre tanto Mouro.<br> +<br> + Vendo pois Almançor tal desatino,<br> +A seu contrario estar tam desarmado,<br> +E em abito vil de perigrino,<br> +Mostrouse disso muy maravilhado,<br> +Dizendo, eu nam sey, nem determino,<br> +Que este seja Ramiro esforçado,<br> +Mas se elle este he, e fez mudança,<br> +Bem pouco vai agora a sua lança.<br> +<br> + Alli Ramiro então lhe respondia,<br> +Algum ora foy ella nomeada,<br> +Antre Christãos, e antre a berberia<br> +Tambem em essa Veyga de Granada,<br> +Onde morreo muy gram cavallaria,<br> +E se perdeo a tua cavalgada,<br> +Agora, eu não venho a conquistarte,<br> +Porque venho de paz, e d'esta arte.<br> +<br> + A irmãa te furtey sendo casado,<br> +Tendoa por amiga sendo dama,<br> +No que occasião a ti te ey dado<br> +A quereres roubar minha honra, e fama,<br> +Por isso se causou por meu peccado,<br> +Chegares Almançor a minha cama,<br> +E nam sendo na terra, sem perigo,<br> +Me furtaste a molher que tens contigo.<br> +<br> +<span class="pagenum">[34]</span> E pois fuy causador d'essas afrontas,<br> +O Reyno busque là outro herdeyro,<br> +Que jà não quero mais, que estas Contas,<br> +E andar neste trajo de Romeiro,<br> +Almançor lhe tornou, muy bem apontas,<br> +Mas vẽs Lobo em figura de Cordeyro,<br> +E jà nam te crerey o que disseres,<br> +Enemigo da honra das molheres.<br> +<br> + Perdoame Ramiro isto que digo,<br> +Que como a Rey que es devo tratarte,<br> +Mas estou desagora mal contigo,<br> +Desque de teu engano sobe parte,<br> +E pois que te meteste em tal perigo,<br> +Sem te valer o teu saber, e arte,<br> +Podes dizer que a ti em este feyto,<br> +Vieste ca fazer pouco proveito.<br> +<br> + Tua Gaya comigo, esta senhora,<br> +De ti Ramiro està pouco lembrada,<br> +E diz que oxalà que nunca fora,<br> +Contigo em algum tempo desposada,<br> +Se dizes que te ha sido traydora,<br> +Em esta tua machina ordenada,<br> +Com bem rezam to foy, pois tu has sido,<br> +O que foste pera ella mao marido.<br> +<br> + Por hũa parte tenho sentimento,<br> +Do misero estado em que estàs posto,<br> +Mas que fazes tu neste aposento,<br> +Agora sem meu grado, e sem meu gosto,<br> +Porisso me nam dà de teu tormento,<br> +E de se te mudar em teu desgosto,<br> +O gosto que levavas tam profundo,<br> +Em me privar da vida deste mundo.<br> +<br> +<span class="pagenum">[35]</span> Ramiro respondeo teu odio claro,<br> +Te Cega, e faz que julgues de ligeiro,<br> +Não deves de rezão ser tam avaro,<br> +E deves de ouvir partes primeiro,<br> +E por minha defesa te declaro,<br> +Que mal posso sem armas ser guerreiro,<br> +E a minha tenção foy, e he boa,<br> +E isto julgarà toda a pessoa.<br> +<br> + Vinha ver se acaso ver podia,<br> +Essa por quem eu tanto ey padecido,<br> +Pois jà ver, nem cobrala, nam podia,<br> +Por ir de meu estado despedido,<br> +E em ley de rezam se permitia,<br> +Vir vella, pois em fim sou seu marido,<br> +Que quanto he tratar de teu tormento,<br> +Nunca me veo tal ao pensamento.<br> +<br> + Esta mesma molher que nunca fora,<br> +De verme mostrou gram contentamento,<br> +Mil lagrimas chorando nesta ora,<br> +Cuydando neste nosso apartamento,<br> +E por tu Almançor vires de fora,<br> +Da caça, me meteo neste aposento,<br> +E se ella outra conta te ha dado,<br> +Innocente sou disso, e mal culpado.<br> +<br> + Almançor nam curando de argumento<br> +Nem rezões que Ramiro apontasse,<br> +(Lhe disse em final) que ao tormento,<br> +Desde entam alli se aparelhasse,<br> +Porque o que dezia era vento,<br> +E que da culpa nam se escusasse,<br> +Que o que a sua Gaya lhe contàra,<br> +Isto em verdade se passàra.<br> +<br> +<span class="pagenum">[36]</span> Dizendo se em teu Reyno me acolheras,<br> +Como agora eu te ey acolhido,<br> +Com tençam de matarte, que fizeras?<br> +Respondeme se disso es servido,<br> +Que se pello perdam ainda esperas,<br> +O teu juyzo deves ter perdido,<br> +Que nam tenho rezam de perdoarte,<br> +Nem menos me mereces, que acabarte.<br> +<br> + Ramiro com bom animo esforçado,<br> +Lho tornou, pois em fim queres padeça,<br> +Sem nessa minha morte ser culpado,<br> +A justiça do ceo sobre ti deça,<br> +Pois julgas como homem apayxonado,<br> +Nem tomas parecer doutra cabeça,<br> +Mas ja que assi he, se eu te colhera,<br> +A ti Almançor mesmo isto fizera.<br> +<br> + Mandarate levar muy bem atado<br> +Sem te valer ser Rey, nem teus primores,<br> +Com dous algozes cada hum a seu lado,<br> +E pôr em o mais alto dessas torres,<br> +E com esta bozina a ser forçado,<br> +Tanger sem descançar, sofrendo as dores,<br> +E fosses despois disso enforcado,<br> +Como homem qualquer de baixo estado.<br> +<br> + Almançor ouvindo esta pendença,<br> +Que Ramiro contra elle imaginava,<br> +Em ira encendido, sem detença,<br> +Contra Ramiro, disse que mandava,<br> +Que nelle se execute a tal sentença,<br> +Porque do mesmo modo a confirmava,<br> +Juntandose pois gente infinita,<br> +De Mouros, o levarão com gram grita.<br> +<br> +<span class="pagenum">[37]</span> No alto da muralha o puserão<br> +Atado, e ia com corda no pescoço,<br> +E alli a tanger o constrangerão,<br> +Com muy grande praser, e alvoroço,<br> +A esta festa todos concorrerão,<br> +Nenhum velho ficou, nem Mouro moço,<br> +Ao som da bozina, hũs cantavam,<br> +Outros dando rizadas apupavam.<br> +<br> + Essas Mouras de honrra encerradas,<br> +E damas mais fermosas, e as feas<br> +Sobiam ao alto por escadas,<br> +Por verem dos eyrados, e açoteas,<br> +As mais Mouras, e Mouros amanadas,<br> +Vão, sò ficam os presos nas cadeas,<br> +Mas nas cadeas ouvem claramente,<br> +A festa, e clamor que vay na gente.<br> +<br> + Almançor ao som da alegria,<br> +Que por toda a Villa ha soado,<br> +De novo disse, que comer queria,<br> +E à mesa se pos logo assentado,<br> +E quantas vezes a bozina ouvia,<br> +Com gram gosto metia o bocado,<br> +E a Gaya cruel com elle estava<br> +Que a ira, e zombar o ajudava.<br> +<br> + A gente de Ramiro, que emboscada,<br> +Estava dahi perto donde ouvia,<br> +Os Mouros quando davam apupada,<br> +E vendo a bozina que tangia,<br> +Remetendo com ordem ordenada,<br> +Toda dentro na Villa se metia,<br> +Que as guardas que a villa então guardavam,<br> +Onde estava Ramiro então estavam.<br> +<br> +<span class="pagenum">[38]</span> E dalli como Lobos indomados,<br> +Nos paços de Almançor deram de siso,<br> +Ao tempo que elle, e seus privados,<br> +Estavão com mais festa, e com mais riso,<br> +Aonde logo foram degolados,<br> +El Rey, e os mais Mouros demproviso,<br> +E a Gaya tambem às mãos tomada,<br> +E a villa sogeita, e saqueada.<br> +<br> + Essa Mourama junta como estava,<br> +Pera ver a Ramiro padecente,<br> +Que de nada então se percatava,<br> +Vendo entrar na Villa alhea gente<br> +E o furor, e esforço que mostrava<br> +Matando, e degolando cruelmente,<br> +Se põe a defender com seus traçados<br> +Mas logo foram hi desbaratados.<br> +<br> + E como hia já sentenciado<br> +Que não se desse vida a nenhum Mouro,<br> +De sangue hum gram rio ha manado,<br> +Que pellos matos foy sayr ao Douro,<br> +E em sangue as agoas se hão tornado,<br> +E perdeo por então a cor de louro,<br> +E o mar pellos Portos ha mostrado,<br> +Ter muyto sangue então derramado.<br> +<br> + Ramiro la do alto tudo vendo,<br> +A Deos pellas merces as graças dando<br> +Como livre se vio, se foy decendo,<br> +Vendo que o andavam os seus buscando,<br> +E como os seus o fossem conhecendo,<br> +A mão todos alli lhe então beyjando,<br> +Por seu Rey, senhor, e satisfeyto,<br> +Aos paços guiou, e foy direito.<br> +<br> +<span class="pagenum">[39]</span> Dous filhos de Ramiro alli vinhão<br> +Filhos da mesma Gaya nesta armada,<br> +Que chegando Ramiro jà hi tinhão,<br> +A sua mesma mãy às mãos tomada,<br> +Os quais por animala lhe dezião,<br> +Que farião que fosse perdoada,<br> +Chegado pois Ramiro lhe rogaram,<br> +Por ella, e a vida lhe alcançarão.<br> +<br> + Em isto o bom Ramiro lhe contava<br> +A treyção que esta Gaya lhe urdira,<br> +Do que toda a gente se espantava,<br> +E como de seus laços se espedira,<br> +Que proposto à morte jà estava,<br> +Se Deos com seu favor não lhe acodira,<br> +Dando com discrição, e bom esforço,<br> +Que jà tinha o baraço no pescoço.<br> +<br> + Com tudo, pois pedis filhos amados,<br> +(Lhe disse) lhe perdoe, e dê a vida,<br> +Pois della quereys ser filhos chamados<br> +Mando que ninguem isso vos impida,<br> +E vão à vossa conta os seus peccados,<br> +Que por elles milhor fora punida,<br> +Pera ficar aviso às semelhantes<br> +Casadas com bõs Reys, e com infantes.<br> +<br> + Assolada a terra, e destroyda,<br> +E avida esta presa, e grão victoria,<br> +Ficou a soldadesca enriquecida,<br> +E com honra, e fama, e grãde gloria;<br> +Dos trabalhos passados esquecida,<br> +Sò deste bem presente tem memoria,<br> +Dando louvor a Deos toda a gente,<br> +Por victoria tal tão excelente.<br> +<br> +<span class="pagenum">[40]</span> Foy este tal triumpho celebrado,<br> +Cuja fama correo o mar, e a terra,<br> +E logo o arrayal hy foy alçado,<br> +Decendendo do alto, e da serra,<br> +Nas galès se hão todos embarcado,<br> +Por terem concluido aquella guerra,<br> +Começando a remar os remadores,<br> +Ao som das trombetas, e atambores.<br> +<br> + A Gaya vay chorando amargamente,<br> +Pello Mouro Almançor que ja não via<br> +Ramiro, e os filhos de repente,<br> +Vendo quão pouco a vida agardecia,<br> +Mandarão na deitar em continente,<br> +No mar porque muy bem o merecia,<br> +Com hũa grande pedra a ella atada,<br> +Alli fica esta Gaya margulhada.<br> +<br> + E com prospero vento, e bonança,<br> +Ramiro a seus Reynos ha tornado,<br> +Levando de Almançor a tal vingança,<br> +E victoria que Deos lhe avia dado.<br> +E dahi em diante a sua lança<br> +Ja mais Mouro algum ha aguardado,<br> +E sempre este bõ Rey lhes moveo guerra<br> +Ganhandolhes de Espanha muita terra.<br> +<br> + Aquelle Rey dos Reys omnipotente,<br> +Que na terra mercês lhe ha outrogado,<br> +O tenha em a gloria eternamente<br> +Com corôa da gloria coroado.<br> +E aos Reys Christãos que ao presente,<br> +Reynão, paz, e concordia aja dado<br> +Pellos quaes nesta liga assi ligado:<br> +Os immigos da Fè sejão domados. </div> + +<p style="text-align: center;">LAUS DEO.</p> +</div> +<span class="pagenum">[41]</span> <span class="pagenum">[42]</span> + +<div style="margin: 2em; font-size: 0.8em;"> +<h4 style="text-align: center;">Dr. CHAVES E CASTRO</h4> + +<p><span class="small-caps">Apontamentos</span> sobre alguns Processos +Summarios, Summarissimos, e Executivos, e sobre o Processo para a exigencia +dos Creditos hypothecarios, creado pela Lei hypothecaria de 1 de Julho de +1863—1 volume. 1$000</p> + +<p><span class="small-caps">Estudos</span> sobre a Reforma do Processo civil +ordinario portuguez, desde a proposição da acção até á sentença da primeira +instancia—1 volume. 800</p> + +<h4 style="text-align: center;">THEOPHILO BRAGA</h4> + +<p style="text-align: justify;"><span class="small-caps">Obras primas de +Chateaubriand</span>—Atala—Renato—Aventuras do Derradeiro Abencerrage com +um estudo litterario—1 volume. 500</p> + +<p><span class="small-caps">Gaia</span>, romance de João Vaz, publicado +segundo a edição de 1630—Fol. 200</p> + +<h4 style="text-align: center;">JUNQUEIRA FREIRE</h4> + +<p><span class="small-caps">Inspirações do Claustro</span>, 2.ª edição, com +um juizo critico do Sr. J. M. Pereira da Silva, 1 vol. 600</p> + +<h4 style="text-align: center;">SEVERINO D'AZEVEDO</h4> + +<p><span class="small-caps">Boas Festas a Manuel Roussado</span>, broch. +100</p> + +<p><span class="small-caps">Segunda Carta de Boas Festas</span>, broch. +100</p> + +<h4 style="text-align: center;">ARISTIDES DE BASTOS</h4> + +<p><span class="small-caps">Elementos de Poetica</span> para uso das +escholas—brochura. 400</p> + +<h4 style="text-align: center;">J. MANOEL PEREIRA</h4> + +<p><span class="small-caps">Principios de Geographia e Chorographia +Portugueza</span>—brochura. 120</p> + +<h4 style="text-align: center;">L. G. PERES FURTADO GALVÃO</h4> + +<p><span class="small-caps">Addição ao Indice alphabetico</span> da +legislação hypothecaria e fórma de Processo para as exonerações, +expropriações e preferencia das hypothecas—brochura. 200</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Villa Nova de Gaia, by João Vaz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VILLA NOVA DE GAIA *** + +***** This file should be named 26411-h.htm or 26411-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/4/1/26411/ + +Produced by Thanks to Pedro Saborano (produced from scanned +images of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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