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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:25:57 -0700 |
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Arrepela-me + Essas bastas gadelhas côr das messes + Lá quando ao largo foge em tarde estuosa + O grande _Moribundo_! Ergue essa fronte! + Fita-me com esse olhar tão sobranceiro + De vivo lume cheio e puro aféto! + Inclina mais ao lado o teu sombrêro, + E assenta no quadril a mão segura + Do braço firme e leal. Estende a perna... + Deixa ficar-te assim, que estás famoso. + + Dezembro 1861 STÉNIO + + + + +A João de Deus + + +Como ha para cada latitude uma estrela, para cada estrela uma luz sua; +ha para cada evolução da Arte uma forma propria, unica, perfeita. + +A forma compteta do lirismo puro é o Soneto. + +A _Ode_, como a flor esplendida do cátus, abre aos quatro ventos do +entusiasmo as suas petalas brilhantes, fortes, ardentes como os voos +altivos, mas seguros, do genio que julga o espaço seu e tenta avassalar +o mundo. + +Aquela pompa deslumbra: mas quando o vento da tarde passar, talvez vá +achal-a pendida sobre os espinhos da áste, semimorta, sem que do +esplendor da manhã lhe reste mais que a túnica de purpura ja desbotada, +em que se envolve como uma rainha decaída no manto da sua antiga +realeza. + +Imaginação luxuriante, profusão de ideas, babel confusa de mil elementos +encontrados--como reduzir tudo isto á unidade, ao simples? + +Impossivel. Aquela forma veste uma substancia: é manifestação verdadeira +e exáta d'uma evolução da Arte: mas reduzil-a á simplicidade, ninguem o +pode fazer, por que a substancia d'aquela forma é complexa, como o mundo +que a gerou. Não é o lirismo _puro_. + +Entre o Mosteiro da Batalha e essa selva gigantesca de colunas, ogivas, +abobadas, portáes, chamada Catedral de Strasburgo, ha toda a diferença +que vai do simples ao complexo, do belo ao grandioso. + +Ora o lirismo--o lirismo puro e estreme--vive do belo e não do grande, +de simplicidade e não de profusão: o sentimento é _um_--simples--por que +é a parte eterna, imutavel, divina do homem: o olho com que vemos a +Deus, a mão com que lhe palpamos o seio. A inteligencia, a fantatasia, +são complexas, profusas, multiplas, por que são o mutavel, o +progressivo, a porta por onde nos entra o mundo, o pulmão com que +aspiramos e respiramos o universo, o imenso. + +A Catedral de Strasburgo é a grande obra da arte humana, o trabalho de +mil inteligencias, o pensamento da humanidade n'uma época da sua vida; +um Faust d'estrofes de marmore. O Mosteiro da Batalha é a tocante +tradução do sentimento eterno da alma, da aspiração imutavel a Deus, ao +Amor-unico, um Evangelho escrito a escopro e buril: uma é ainda a terra; +o outro é ja o ceu. + +Pois bem: a _ode_, o lirismo de cabeça, aonde se espelha o universo, +será a Catedral da Meia-Idade: mas o _soneto_, o lirismo puro da alma, a +idea que traduz o eterno sentimento, é o Mosteiro da Batalha. + + * * * * * + +Por que? + +Por que ha uma forma para cada idea; por que o vestido deve ajustar-se +ao corpo, por que cada estatua tem o seu molde diferente. + +Qual será a forma do simples? A unidade. O que corresponde ao +sentimento? O simples. + +Atiremos com uma peça de pano aos hombros d'este _nú_ e vejamos o que +sáe... + +O Sentimento não se define: é indefinido; vago; misterioso; aspira, e +não sabe o que quer; sonha, e não vê as visões do sonho; chóra, e mal +sabe o que são lagrimas; corre, e não conhece a terra que pisa; ora, e +não sabe que Deus lhe escuta a prece; exulta, ri, entristece, sisma, e +não conhece quem lhe dêo tristeza ou alegria. + +Eil-o aí o _nú_, vergonhoso e timorato, fugindo a luz e o ruido, +ocultando-se no fundo da alma, como em abrigo profundo o desconhecido. + +D'aqui, até que apareça á luz do dia, vestido e um pouco proprio para a +sociadade, ainda timido e saudoso de retiro, sim, mas, finalmente, ja um +tanto desafrontado e senhor de si; desde que o tirem do seu abrigo, até +o trazerem para a assemblea dos homens, por quantas transformações, por +quantas fases, por quantas mãos não passará ele?!.. + +Vejamos como se veste o _nú_, para conhecermos que vestido lhe vai +melhor. + +Assim: + +O Sentimento é o que há em nós de mais irrefletido, mais fatal (ainda +que, por outro lado, mais livre) na alma do homem, é--o instinto da +alma--Quando o poeta sentiu, na primeira noute em que ergueu ao céu os +olhos do espirito, agitar-se-lhe dentro o hospede estranho, ficou como +que alheio ao mundo e a si, e mal soube da visita do desconhecido. + +Mas, quando uma e outra vez e muitas vezes, sentiu tomarem-lhe a mão e +levarem-no pelos espaços ideaes a novos e estranhos mundos, olhou em +roda, por ver a face ao guia misterioso. Não o vio; mas, no silencio da +noute ouvio dentro de si um sussurro brando e sumido como o da agua +entre os arbustos, como confidencia d'amores dita baixinho e em segredo. + +E então prestou o ouvido e escutou. + + * * * * * + +O que significa isto? o que é este inclinar-se do poeta sobre o fundo da +sua alma, interrogando-lhe os écos, escutando-lhe as vozes que lá dentro +murmuram mal-distintas? + +É o homem que começa a ter consciencia do sentimento: + +É a inteligencia querendo penetrar n'alma: + +É o dedo que se põe sobre o coração, para lhe sentir o pulsar: + +É o poeta que se interroga. + +E o _nú_ oculta-se, disfarça-se, foge, não se deixa apanhar; mas o olhar +prescrutador segue-o por toda a parte, vai-lhe em cima a cada retirada, +fita-o nos cantos mais obscuros, e não podendo segural-o, ao menos +_estuda-lhe_ as feições, _toma-lhe_ os modos, aprende-lhe os geitos, +escuta-lhe as falas e, juntando tudo isto, forma um todo, mais ou menos +semelhante, mais ou menos disforme, mas, em todo o caso, retrato que vai +pendurar na camara mais bela, mais escolhida da casa, como no melhor +lugar do oratorio se guarda a reliquia mais sagrada. + +Primeira transformação, pois, do sentimento. O poéta toma conhecimento +do que lhe vae n'alma: estuda-se no intimo: tem consciencia dos fátos +instintivos do espirito: e a inteligencia retrata, como póde, esse +estranho que lhe entrou em casa, a quem quer por força conhecer. + +A inteligencia forma _idea do sentimento_. + + * * * * * + +Eis aí o nosso _nú_ trazido á praça. + +Desde que se apossou d'ele a inteligencia, não parece o mesmo: +assaltam-no estranhas veleidades, caprixos desconhecidos. Ele o +_sismador_, o _solitario_, recorda-se do _vae soli_ e lembra-se de +comunicar com o mundo, de se mostrar um pouco á luz do dia. + +Caro lhe custa o: caprixo! Quanto não perdeu ele ja com passar de +sentimento ao estado d'idea! Quanto não perderá agora passando d'idea a +fáto! + +O seu belo _todo_ ja o vimos desfigurado no retrato que inabil +fotógrapho lhe tirou: d'esse pouco, que lhe resta, lá vai ainda perder o +melhor, la se vai envolver na _forma_, la vai cobrir-se com vestido... +ele... o _nú_.. + +Por que é preciso vestil-o; e toda a questão está n'isto. Vestil-o! pois +o que tinha ele de melhor senão a sua nudez, a liberdade de movimentos, +tão indefinidos, tão vagos, tão belos?!.. + +Tudo isto lhe vai cobrir o detestavel vestido. + +O sentimento é o misterioso, o escuro, o vago: + +A inteligencia, o claro, o preciso, o definido. + +Para combinar estes dous termos, quanta dificuldade e, o que é piór, +quanto perdido! + +Mas ao menos a idea, sendo ja tão má, pode, ainda assim, existir +denudada: mas a forma! a forma! não só é clara, precisa, mas, mais que +tudo, é _vestido_. + +Procuremos pois ao sentimento, pelo menos, vestidura que o não tolha, +que lhe não encubra as belezas, que o deixe senhor de si; finalmente, +vestido que lhe vá bem, e esse só pode ser _um_--Escolhamos: + + * * * * * + +Aí temos pois o sentimento reduzido a idea, á procura de forma. + +Vejamos as transformações por que passou para, em vista d'elas, lhe +escolhermos uma propria. + +A inteligencia, tomando conhecimento do sentimento, caminhou +gradualmente; primeiro um lado, depois outro; agora esta face e logo +aquela: assim se foi a idea desenhando até que juntas essas partes se +formou um todo, a _unidade_. + +Comtudo essas partes são homogeneas, como homogeneos são os ramos que se +ajuntam n'um tronco commum: é como se um pintor estudasse uma +cabeça--ora de perfil, depois de face, o olhar, o rir, o labio, a +fronte, tudo por sua vez, e ultimamente então fizesse o retrato. + +Assim, pois, a forma deve ser tãobem uma só; talhada de uma unica peça; +da mesma natureza; mas que comece por cobrir bem cada parte, e depois +cubrao todo e o envolva. + + * * * * * + +E que ha no soneto? Uma unidade perfeita: desenha-se cada idea parcial +de per si, mas não tão independente das outras que não haja entre elas +relação, até que a final, juntando tudo n'um só se apresenta por todos +os lados simultaneamente, como em resumo, o fecho--_chave d'ouro!_-- + +Daí, unidade. E simplicidade? Toda: as partes conservão estreito laço +entre si: é só um sentimento, só uma a idea; não são varias, mas varios +lados: a unidade final funde-os n'um todo. + +Resumindo; + +O sentimento desenha-se de perfil, aos poucos, gradualmente; + +A forma acompanha essa evolução: segue-o em cada manifestação parcial. + +Desenha-se, por fim, todo e forma-se d'ele idea percisa ou, pelo menos, +completa; + +A forma amolda-se a esta reconstrução, e resume-o igualmente, como que +fundindo as partes no todo. + +O sentimento é _um_; + +Á forma, pela precisão, a que apresenta maior unidade. + +É _simples_; + +Ainda a estreiteza d'ela não permite abraçar mais que o preciso: tudo o +que for estranho, regeita-o por que o não póde conter. + + * * * * * + +Esta é pois, a forma lirica por excelencia: o manto alvo e casto com que +tem de se envolver, para ver o dia, aquelas partes mais pudicas, mais +melindrosas, mais puras da alma. + +Fazer do soneto o molde aonde o cérebro _só_ despeje o que concebe +independente da alma; as visões da fantasia, apenas; é desconhecer-lhe a +natureza, é dar á boémia das praças publicas o vestido, a cintura da +virgem. + +Esta é a forma superior do lirismo do coração. + +N'ela tem vindo todos os grandes poetas vasar o que tinham de mais puro +na alma, quando, muita vez, cançados, talvez exautos d'imaginação e de +idea, sentiam, todavia, transbordar-lhe o coração, como se tivesse, +semelhante ao lago que recebe e nunca vasa, muito e muito ainda para +dar, mas que, á falta de quem lh'o receba, guardasse secreto em si. + +Recebeu-lhes, então, o balsamo mais puro de suas almas esta forma +generosa e profunda. Dante, Miguel Angelo, Shakspeare, Camões, +admiram-se nas grandes, nas imensas manifestações de suas inteligencias, +o Inferno, S. Pedro, Othelo, Lusiadas: mas conhecel-os, amal-os, só +aonde esta forma bela e pura lhes prestou molde aonde vasassem os +sentimentos mais intimos de suas almas. Ali, admira-se o Artista, mas +aqui ama-se o Poeta: ali arrebata-nos o entusiasmo, mas aqui +rebentam-nos as lagrimas. + +Os Lusiadas são a epopea d'um povo; ser-lhe-hão tambem epitafio quando +com a sua mão Deus lhe apagar o nome d'entre as nações. Mas qual ha +poema de sofrimento que iguale este final do soneto CLXXVII. + + Triste o que espera! triste o que confia! + +Aonde ha epitafio, que melhor narre ás gerações a vida pelo amor +d'aquela alma nobre, do que este (XIX): + + Alma minha gentil que te partiste... + +Os Lusiadas são a epopea do povo: mas a epopea do Poeta é aquele +livrinho apenas lembrado dos Sonetos. + +Um é o monumento da nação; outro o do homem: os Lusiadas escreveu-os o +Soldado; mas foi o poeta quem chorou os Sonetos. + +Quem fala ai em colunas e estatuas? Camões não se vê, não se funde, não +se palpa: sente-se! Que melhor retrato, que maior estatua quereis de que +estes versos (CX): + + E vou de dia em dia, d'ano em ano, + Após um não sei que, após um nada, + Que, quanto mais me chego, menos vejo. + +Depois d'esta, que ele por suas mãos fundiu, ninguem lhe vá tirar as +feições! + + * * * * * + +Esta grande forma estava perdida: sumio-a um dia Bocage, em meio do +delirio d'alguma orgía _poetica_, e, tão longe a arrojou, que bem +custoso foi achal-a depois. Lembrou-se ainda d'ela, ja quando as +_grandes sombras_ lhe vinham do ceu descendo sobre a alma, a envolvel-a, +para que no caminho não podesse olhar a terra e perdesse de todo a +lembrança d'este desterro. + +Foi sublime aquela reminiscencia! mas a troco de quantos esquecimentos +não veio ela?! + +Achou-a, depois, um homem--um poeta--digo _poeta_, por que o +esquecimento do seu nome é, n'esta terra, a sua melhor coroa: a gloria +aqui é ser esquecido, por que poetas--_poetas_ não ha ca quem os +entenda... + +João de Deus restituiu-nos o _Soneto_ como ele é, como deve ser: +a--forma superior do lirismo--Sem este laço atravez dos tempos, quem +poderia achar aquela forma, para nola restituir em toda a sua pureza? +Certo que não seriam os Castilhos, nem os Lemos, nem... + +De Camões até hoje é grande o salto: só alma gémea da do amante de +Natercia, poderia assim transpor o abismo de tres séculos. É-o. Á terra +fecundada por Camões custou-lhe a conceber tamanho _monstro_! Gemeu nas +dores e na fronte do poeta bem se divisam angustias que a mãe deu em +legado ao filho, e as maiores ainda que lhe deixou seu _Pae_... mas, +João de Deus! quem renegará seu Pae?! + +Dezembro 1861. + + + + +AD AMIGOS. + + Ó voi, ch'avete gl'intelleti sani, + Mirate la dottrina che s'asconde + Sotto in velame degli versi strani. + + DANTE. _Inferno_. + + + + +I. + +Ignoto Deo. + + +Que beleza mortal se te assemelha, +Ó sonhada visão d'esta alma ardente! +Que refletes em mim teu brilho ingente, +Lá como em mar d'anil o sol se espelha? + +O mundo é grande! e esta ancia me aconcelha +A buscarte na terra: e eu, pobre crente, +Vou pelo mundo a ver o _Deus clemente_... +Mas a ára só lhe encontro... núa e velha. + +Não é mortal o que eu em ti adoro. +Que és tu aqui? olhar de piadade, +Gota de mel em taça de venenos. + +_Ah lagrima das lagrimas que choro!_ +Ah sonho dos meus sonhos! Se és verdade, +Descobre-te, visão, no ceu ao menos! + + + + +II. + +A M. C. + + +Não busco n'esta vida gloria ou fama: +Das turbas que me imporia o vão ruido? +Hoje deus, e amanhã já esquecido, +Como esquece o clarão de extinta chama! + +Fóco, que a luz em torno não derrama, +Tal é essa ventura; éco perdido, +Quanto mais se chamou, mais escondido +Fugiu e se esqueceu de quem o chama. + +Cada flor d'essa croa é um engano, +Como a nuvem das tardes ilusoria, +Como o misterio vão d'um vão arcano. + +Mas croe-me tua mão a fronte ingloria, +Cinge-me tu o louro soberano... +Verás, verás então se amo essa gloria! + + + + +III. + +Ignoto Deo. + + +Meus dias vão correndo vagarosos +Sem prazer e sem dor, e mais parece +Que este fóco intrior antes fenece +Do que brilha com raios luminosos. + +É bela a vida e os anos são formosos, +E nunca ao peito amante amor falece... +Mas, se a beleza aqui nos aparece, +Outra alembra de mais perfeitos gosos. + +Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira: +Prende-a um instante mundanal beleza, +Mas outra a patria é por que suspira. + +Porem do pressentir dá-me a certeza, +Dá-ma! e contrito--embora a dor me fira-- +Eu sempre bemdirei essa tristeza! + + + + +IV. + +A M. E. + + +Terra do exilo! Aqui tambem as flores +Tem perfume e matiz; tambem vicejam +Rosas no prado e pelo prado adejam +Zéfiros brandos suspirando amores: + +Tambem ca tem a terra seus primores; +Pelos vales as fontes rumorejam; +Tem a noute seus sopros, que a bafejam, +E o ceu tem sua luz e seus ardores. + +Em toda a natureza ha amor e cantos, +Em toda a natureza Deus se encerra... +E comtudo esta é a causa de meus prantos! + +Eu sou bem como a flor que não descerra +Em clima alheio. Que importam teus encantos? +Não és, terra do exilio, a minha terra! + + + + +V. + +A Alberto Telles. + + +Só!--Ao ermita sosinho na montanha +Visita-o Deus e dá-lhe confiança: +O nauta, que o tufão aos polos lança, +Ainda espera um sopro que o ceu tenha! + +Só!--Mas quem se assenta em riba estranha, +Longe dos seus, lá tem inda a lembrança: +E inda no peito deixa Deus a esprança +A quem á noute chora em erma penha. + +Só!--Não o é quem possue na terra um laço +--Um que seja--que o prenda a este fadario, +Uma crença, uma esprança... e inda um cuidado. + +Mas cruzar--indifrente--inertes braços, +Mas passar--entre turbas--solitario, +Isto é ser só, é ser abandonado. + + + + +VI. + +A Santos Valente. + + +Estreita é do prazer na vida a taça: +Largo, como o oceano é largo e fundo, +E, como ele, em venturas infecundo, +O calis amargoso da desgraça. + +E comtudo nossa alma, quando passa +No pregrinar da vida pelo mundo, +Prazer só pede á vida, amor fecundo, +Com esta unica esprança só se abraça. + +É lei de Deus este aspirar imenso... +E comtudo a ilusão impoz á vida, +E manda buscar luz, e dá-nos treva! + +Ah! se Deus acendeu um fóco intenso +D'amor e dor em nós, na ardente lida, +Por que a miragem cria... ou por que a leva? + + + + +VII. + +A Florido Telles. + + +Quando comparo gloria ou ouro ou fama +--Venturas que em si tem oculto o dano-- +Com aquele outro afeto soberano, +Que amor se diz e é luz de pura chama, + +Vejo que são bem como arteira dama +Que sob o honesto riso, esconde o engano, +E quem as segue como esse que ufano, +Por ir traz do prazer, deixa quem o ama. + +Do orgulho vem aquele estranho goso +E a gloria d'ele só nos vem do orgulho, +Por que só na vaidade tem a palma: + +Tem na paixão seu brilho mais formoso +E das paixões, tambem, some-o o marulho... +Mas a gloria d'amor... essa vem d'alma! + + + + +VIII. + +A M. C. + + +Poz-te Deus sobre a fronte a mão podrosa! +O que fada o poeta e o soldado +Pousou em ti o olhar d'amor veládo +E disse-te! «_mulher, vai! sê formosa._» + +E tú, descendo na onda armoniosa, +Pousaste n'este solo angustiado +--Estrela envolta n'um clarão sagrado, +Do teu olhar d'amor na luz radiosa-- + +Ah!... quem sou eu, para poder mercer-te? +Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado, +Anjo! deu-te o Senhor um mundo á parte. + +E a mim, a quem deu olhos para ver-te, +Sem poder mais... ca mim o que me ha dado? +Voz pra cantar, uma alma para amar-te! + + + + +IX. + +Ignoto Deo. + + +Um diluvio de luz cáe da montanha: +Eis o dia! eis o sol! o esposo amado! +Onde ha, por toda a terra, um só cuidado +Que não dissipe a luz que o mundo banha? + +Flor, viração, e prado, e erma penha, +Revolto mar ou golfo socegado, +Onde ha hi ser de Deus tam olvidado +Pra que alivio do ceu o ceu não tenha? + +--Deus é Pae! Pae de toda a creatura: +E a todo o ser o seu amor assiste: +De seus filhos o mal sempre é lembrado-- + +--Ah! se Deus a seus filhos dá ventura. +N'esta hora santa... e eu--só--posso ser triste... +Serei filho, mas filho abandonado! + + + + +X. + +Ad amicos. + + +PROPTER SOLATIUM. + + +Renasço, amigos, vivo! Ha pouco ainda +Disse ao viver «_afunde-te no nada!_» +E já, bem vedes, surjo á luz dourada +--No labio o rir, no peito esprança infinda-- + +Ah, flor da vida! flor viçosa e linda! +Envolto na mortalha regelada +Do _só_ pensar--perdão!--foste olvida... +Flor do sentir e crer e amar... bem vinda! + +A vida! como a sinto, ardente, imensa! +Não unica! tomando a imensidade! +Livre! perante Deus surgindo forte! + +Que amor! que luz! que pira, vasta, intensa! +Plenitude! armonia! realidade! +Mas melhor que tudo isto é sempre a morte. + + + + +XI. + +A M.C. + + +No ceu! se ha ceu pra os olhos de quem chora, +Ceu, para o peito de quem sofre tanto... +Se ha _voz d'amor_, e amor ha puro e santo +--Chama que brilha, mas que não devora... + +No ceu! se uma alma n'esse espaço mora, +Que a prece escuta e enchuga o nosso pranto; +Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto +Do amor piadoso... que eu não sinto agora: + +No ceu, ó virgem! findarão meus males; +Heide ter vida (por que mais pareço +Sofrer a vida, que lograr favores) + +Ali, ó lirio dos celestes vales! +--Tendo seu fim--terão o seu começo, +Para não mais findar, nossos amores. + + + + +XII. + +A José Felix dos Santos. + + +Sempre o futuro! sempre! e o presente +Nunca! Que seja esta hora em que se existe +D'incerteza e de dor sempre a mais triste, +E só nos farte a esprança um bem ausente! + +O futuro! Que importa? se inclemente +Essa hora em que a esprança nos consiste, +Chega... é presente... e só á dor assiste?! +Assim, onde é a esprança que não mente? + +Desventura ou delirio? O que procuro, +--Se me foge--é miragem enganosa, +--Se me espera--peór, espetro impuro. + +Assim a vida passa vagarosa: +O presente a aspirar sempre ao futuro, +O futuro uma sombra mentirosa. + + + + +XIII. + +A H. C. + + +OB MAESTITIAM. + + +Por que descrês, mulher, do amor, da vida? +Por que esse Hermon tranformas em Calvario? +Por que deixas que, aos poucos, do sudario +Te aperte o seio a dobra úmedecida? + +Que visão te fugio, que assim perdida +Buscas em vão n'este ermo solitario? +Que fatal maldição, destino vário, +Te faz trazer a fronte ao chão pendida? + +Nenhuma! Todo o bem em ti assiste; +Deus, em penhor, te deu a formosura, +Uma benção do ceu traz-te cada hora; + +E descrês do viver?! E eu, pobre e triste, +Que só no teu olhar leio a ventura, +Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?... + + + + +XIV. + +A Alberto Sampaio. + + +Não me fales de gloria: é outro o altar +Onde queimo piadoso o meu incenso, +E, amimado de fogo mais intenso, +De fé mais viva, vou sacrificar. + +Que vai a gloria, diz! pra se adorar +--Fumo, que sobre o abismo anda suspenso-- +Que vislumbre nos dá do amor imenso? +Esse amor que venturas faz gosar? + +Ha outro, mais celeste, mais eterno, +Que, se o busco com fé, não quer fugir-me, +Nem dá, em vez de goso, negro inferno. + +Só esse hei-de buscar, e confundir-me +Na essencia do _amor_, puro, sempiterno... +Quero só n'esse fogo consumir-me! + + + + +XV. + +Ignoto Deo. + + +Vai-te, na aza negra da desgraça, +Pensamento _d'Amor_, sombra d'uma hora, +Que estreitei tantos _seclos_, vai-te--embora!-- +Como nuvem que o vento impele... e passa. + +Que arrojemos de nós quem mais se abraça, +Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora +D'essa alma o sangue, com que mais vigora, +Como amigo comungue á mesma taça! + +Que se torne impossivel a esprança, +E nunca a dor (que sempre o mal assiste) +E seja unica esprança a desventura!... + +Se em silencio sofrer fôra vingança!... +Envolve-te em ti mesmo, ó alma triste, +Talvez que sem esprança haja ventura!... + + + + +XVI. + +A Q. M. Q. + + +Fica-te em paz! não póde a mão do homem +Partir o seio á arveloa queixosa, +Quando o canto soltou, e a voz chorosa +Ergueu la contra as magoas que a consomem. + +Respeito o teu sacrario: embora tomem +Por orgulho o respeito; eu colho a rosa +Mas não a flor modesta e melindrosa, +Que se oculta entre as mais... e que as mais somem. + +Mais que amor tenho crença: essa existencia +Pede-me um culto por que dera a vida, +Por que dou esta dor, que aqui se encerra. + +Mulher! mulher! de que valêra a essencia, +A essencia pura, a uma alma que é descrida?... +Fica-te em paz: fique eu com minha guerra! + + + + +XVII. + +Ignoto Deo. + + +Corre aos braços da mãe o filho amado; +--Por olvidar, volvendo a sua historia-- +Corre á mente do infliz doce memoria; +Corre á luz d'um olhar o olhar buscado: + +Vem o alivio animar peito magoado; +Corre o forte a buscar na morte a gloria; +Desfeita do viver sombra ilusoria, +Foge o espirito livre ao ceu anciado; + +Tudo busca quem o ama: a luz dourada +Busca do seu viver, como no escuro +Quem avista uma luz lhe vai ao encontro. + +Só tu, ventura! uma vez sonhada; +Só tu, sombra _d'amor_! que em vão procuro, +Só tu, foges de mim, só não te encontro! + + + + +XVIII. + +Ignoto Deo. + + +Espremos no Senhor! Ele ha tornado +Em suas mãos a massa inerte e fria +Da materia impotente e n'um só dia, +Luz, movimento, ação, tudo lhe ha dado. + +Ele ao que é pobre d'alma ha tributado +Carinho e amor; Ele conduz á via +Segura quem lhe foge e se extravia, +Quem um momento só não o ha lembrado. + +E a mim, que aspiro a Ele, a mim que o amo, +Que tenho vida em mim, que anceio o brilho, +Hade negar-me o termo d'este anceio? + +Buscou quem o não quiz; é a mim, que o chamo, +Hade fugir-me, como a ingrato filho? +Oh Deus! Senhor! meu Pae! espero! eu creio! + + + + +XIX. + +A João de Deus. + + +Se é lei que rege o escuro pensamento +Lutar--em vão--á cata da verdade, +Em vez da luz achar a escuridade, +Ser uma queda nova cada invento; + +É lei tambem, (embora grão tormento) +Buscar, sempre buscar a claridade, +E só ter como certa realidade +O que nos mostra claro o entendimento. + +Em tanta confuzão, em tanto engano, +O que ha-de a alma escolher? se crê, duvida; +Se procura, só acha... o desatino. + +Só Deus póde acudir em tanto dano: +Alimente-se a esprança d'outra vida, +Seja a terra degredo, o ceu destino. + + + + +XX. + +Ignoto Deo. + + +Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquele +Que tanta vez pecou, porem, contrito, +Tanta vez tem erguido a ti o grito +Da aguia que o tufão no alto compele. + +E a aguia sofre tambem, como ave imbele, +E mais que ela (que pôe mais alto o fito) +Mas da aguia, que lutou, o brado aflito. +Senhor! o teu ouvido não repele. + +Eu não cáio, meu Deus, sem ter lutado; +Fraco sou, por que sou de barro e limo, +Porem na tua _Lei_ medito e sismo. + +E eu sou teu filho! A um filho desgraçado +Que ha-de um páe recusar? Oh, dá-me arrimo, +Estende-me tua mão por sobre o abismo. + + + + +XXI. + +A Germano Meyrelles. + + +Só males são reáes, só dor existe; +Prazeres só os gera a fantasia; +Em nada--um imaginar--o bem consiste; +Anda o mal em cada hora, e instante, e dia. + +Se buscamos o que é, o que devia +Por natureza ser não nos assiste; +Se fiamos n'um bem, que a mente cria, +Que outro remedio ha hi senão ser triste? + +Quem comsigo podesse que não vira, +Que esta vida nos sonhos lhe passasse... +Mas, no que se não vê, labor perdido! + +Quem fôra tão ditoso que olvidasse... +Mas nem seu mal com ele ali dormira, +Que sempre o mal pior é ter nascido! + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Sonetos de Anthero, by Antero de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SONETOS DE ANTHERO *** + +***** This file should be named 26326-8.txt or 26326-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/3/2/26326/ + + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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