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+The Project Gutenberg EBook of Sonetos de Anthero, by Antero de Quental
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Sonetos de Anthero
+
+Author: Antero de Quental
+
+Release Date: August 16, 2008 [EBook #26326]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SONETOS DE ANTHERO ***
+
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+
+
+
+
+SONETOS
+
+DE
+
+ANTHERO
+
+
+EDITOR--STÉNIO.
+
+
+COIMBRA
+
+Dezembro 1861.
+
+IMPRENSA LITERARIA.
+
+
+
+
+DO EDITOR
+
+_Pela mão vos trago um vate:_
+
+
+ Amigo Anthero,
+ Aproxima-te á machina: o retrato
+ Quero fique a primor. Eia! Arrepela-me
+ Essas bastas gadelhas côr das messes
+ Lá quando ao largo foge em tarde estuosa
+ O grande _Moribundo_! Ergue essa fronte!
+ Fita-me com esse olhar tão sobranceiro
+ De vivo lume cheio e puro aféto!
+ Inclina mais ao lado o teu sombrêro,
+ E assenta no quadril a mão segura
+ Do braço firme e leal. Estende a perna...
+ Deixa ficar-te assim, que estás famoso.
+
+ Dezembro 1861 STÉNIO
+
+
+
+
+A João de Deus
+
+
+Como ha para cada latitude uma estrela, para cada estrela uma luz sua;
+ha para cada evolução da Arte uma forma propria, unica, perfeita.
+
+A forma compteta do lirismo puro é o Soneto.
+
+A _Ode_, como a flor esplendida do cátus, abre aos quatro ventos do
+entusiasmo as suas petalas brilhantes, fortes, ardentes como os voos
+altivos, mas seguros, do genio que julga o espaço seu e tenta avassalar
+o mundo.
+
+Aquela pompa deslumbra: mas quando o vento da tarde passar, talvez vá
+achal-a pendida sobre os espinhos da áste, semimorta, sem que do
+esplendor da manhã lhe reste mais que a túnica de purpura ja desbotada,
+em que se envolve como uma rainha decaída no manto da sua antiga
+realeza.
+
+Imaginação luxuriante, profusão de ideas, babel confusa de mil elementos
+encontrados--como reduzir tudo isto á unidade, ao simples?
+
+Impossivel. Aquela forma veste uma substancia: é manifestação verdadeira
+e exáta d'uma evolução da Arte: mas reduzil-a á simplicidade, ninguem o
+pode fazer, por que a substancia d'aquela forma é complexa, como o mundo
+que a gerou. Não é o lirismo _puro_.
+
+Entre o Mosteiro da Batalha e essa selva gigantesca de colunas, ogivas,
+abobadas, portáes, chamada Catedral de Strasburgo, ha toda a diferença
+que vai do simples ao complexo, do belo ao grandioso.
+
+Ora o lirismo--o lirismo puro e estreme--vive do belo e não do grande,
+de simplicidade e não de profusão: o sentimento é _um_--simples--por que
+é a parte eterna, imutavel, divina do homem: o olho com que vemos a
+Deus, a mão com que lhe palpamos o seio. A inteligencia, a fantatasia,
+são complexas, profusas, multiplas, por que são o mutavel, o
+progressivo, a porta por onde nos entra o mundo, o pulmão com que
+aspiramos e respiramos o universo, o imenso.
+
+A Catedral de Strasburgo é a grande obra da arte humana, o trabalho de
+mil inteligencias, o pensamento da humanidade n'uma época da sua vida;
+um Faust d'estrofes de marmore. O Mosteiro da Batalha é a tocante
+tradução do sentimento eterno da alma, da aspiração imutavel a Deus, ao
+Amor-unico, um Evangelho escrito a escopro e buril: uma é ainda a terra;
+o outro é ja o ceu.
+
+Pois bem: a _ode_, o lirismo de cabeça, aonde se espelha o universo,
+será a Catedral da Meia-Idade: mas o _soneto_, o lirismo puro da alma, a
+idea que traduz o eterno sentimento, é o Mosteiro da Batalha.
+
+ * * * * *
+
+Por que?
+
+Por que ha uma forma para cada idea; por que o vestido deve ajustar-se
+ao corpo, por que cada estatua tem o seu molde diferente.
+
+Qual será a forma do simples? A unidade. O que corresponde ao
+sentimento? O simples.
+
+Atiremos com uma peça de pano aos hombros d'este _nú_ e vejamos o que
+sáe...
+
+O Sentimento não se define: é indefinido; vago; misterioso; aspira, e
+não sabe o que quer; sonha, e não vê as visões do sonho; chóra, e mal
+sabe o que são lagrimas; corre, e não conhece a terra que pisa; ora, e
+não sabe que Deus lhe escuta a prece; exulta, ri, entristece, sisma, e
+não conhece quem lhe dêo tristeza ou alegria.
+
+Eil-o aí o _nú_, vergonhoso e timorato, fugindo a luz e o ruido,
+ocultando-se no fundo da alma, como em abrigo profundo o desconhecido.
+
+D'aqui, até que apareça á luz do dia, vestido e um pouco proprio para a
+sociadade, ainda timido e saudoso de retiro, sim, mas, finalmente, ja um
+tanto desafrontado e senhor de si; desde que o tirem do seu abrigo, até
+o trazerem para a assemblea dos homens, por quantas transformações, por
+quantas fases, por quantas mãos não passará ele?!..
+
+Vejamos como se veste o _nú_, para conhecermos que vestido lhe vai
+melhor.
+
+Assim:
+
+O Sentimento é o que há em nós de mais irrefletido, mais fatal (ainda
+que, por outro lado, mais livre) na alma do homem, é--o instinto da
+alma--Quando o poeta sentiu, na primeira noute em que ergueu ao céu os
+olhos do espirito, agitar-se-lhe dentro o hospede estranho, ficou como
+que alheio ao mundo e a si, e mal soube da visita do desconhecido.
+
+Mas, quando uma e outra vez e muitas vezes, sentiu tomarem-lhe a mão e
+levarem-no pelos espaços ideaes a novos e estranhos mundos, olhou em
+roda, por ver a face ao guia misterioso. Não o vio; mas, no silencio da
+noute ouvio dentro de si um sussurro brando e sumido como o da agua
+entre os arbustos, como confidencia d'amores dita baixinho e em segredo.
+
+E então prestou o ouvido e escutou.
+
+ * * * * *
+
+O que significa isto? o que é este inclinar-se do poeta sobre o fundo da
+sua alma, interrogando-lhe os écos, escutando-lhe as vozes que lá dentro
+murmuram mal-distintas?
+
+É o homem que começa a ter consciencia do sentimento:
+
+É a inteligencia querendo penetrar n'alma:
+
+É o dedo que se põe sobre o coração, para lhe sentir o pulsar:
+
+É o poeta que se interroga.
+
+E o _nú_ oculta-se, disfarça-se, foge, não se deixa apanhar; mas o olhar
+prescrutador segue-o por toda a parte, vai-lhe em cima a cada retirada,
+fita-o nos cantos mais obscuros, e não podendo segural-o, ao menos
+_estuda-lhe_ as feições, _toma-lhe_ os modos, aprende-lhe os geitos,
+escuta-lhe as falas e, juntando tudo isto, forma um todo, mais ou menos
+semelhante, mais ou menos disforme, mas, em todo o caso, retrato que vai
+pendurar na camara mais bela, mais escolhida da casa, como no melhor
+lugar do oratorio se guarda a reliquia mais sagrada.
+
+Primeira transformação, pois, do sentimento. O poéta toma conhecimento
+do que lhe vae n'alma: estuda-se no intimo: tem consciencia dos fátos
+instintivos do espirito: e a inteligencia retrata, como póde, esse
+estranho que lhe entrou em casa, a quem quer por força conhecer.
+
+A inteligencia forma _idea do sentimento_.
+
+ * * * * *
+
+Eis aí o nosso _nú_ trazido á praça.
+
+Desde que se apossou d'ele a inteligencia, não parece o mesmo:
+assaltam-no estranhas veleidades, caprixos desconhecidos. Ele o
+_sismador_, o _solitario_, recorda-se do _vae soli_ e lembra-se de
+comunicar com o mundo, de se mostrar um pouco á luz do dia.
+
+Caro lhe custa o: caprixo! Quanto não perdeu ele ja com passar de
+sentimento ao estado d'idea! Quanto não perderá agora passando d'idea a
+fáto!
+
+O seu belo _todo_ ja o vimos desfigurado no retrato que inabil
+fotógrapho lhe tirou: d'esse pouco, que lhe resta, lá vai ainda perder o
+melhor, la se vai envolver na _forma_, la vai cobrir-se com vestido...
+ele... o _nú_..
+
+Por que é preciso vestil-o; e toda a questão está n'isto. Vestil-o! pois
+o que tinha ele de melhor senão a sua nudez, a liberdade de movimentos,
+tão indefinidos, tão vagos, tão belos?!..
+
+Tudo isto lhe vai cobrir o detestavel vestido.
+
+O sentimento é o misterioso, o escuro, o vago:
+
+A inteligencia, o claro, o preciso, o definido.
+
+Para combinar estes dous termos, quanta dificuldade e, o que é piór,
+quanto perdido!
+
+Mas ao menos a idea, sendo ja tão má, pode, ainda assim, existir
+denudada: mas a forma! a forma! não só é clara, precisa, mas, mais que
+tudo, é _vestido_.
+
+Procuremos pois ao sentimento, pelo menos, vestidura que o não tolha,
+que lhe não encubra as belezas, que o deixe senhor de si; finalmente,
+vestido que lhe vá bem, e esse só pode ser _um_--Escolhamos:
+
+ * * * * *
+
+Aí temos pois o sentimento reduzido a idea, á procura de forma.
+
+Vejamos as transformações por que passou para, em vista d'elas, lhe
+escolhermos uma propria.
+
+A inteligencia, tomando conhecimento do sentimento, caminhou
+gradualmente; primeiro um lado, depois outro; agora esta face e logo
+aquela: assim se foi a idea desenhando até que juntas essas partes se
+formou um todo, a _unidade_.
+
+Comtudo essas partes são homogeneas, como homogeneos são os ramos que se
+ajuntam n'um tronco commum: é como se um pintor estudasse uma
+cabeça--ora de perfil, depois de face, o olhar, o rir, o labio, a
+fronte, tudo por sua vez, e ultimamente então fizesse o retrato.
+
+Assim, pois, a forma deve ser tãobem uma só; talhada de uma unica peça;
+da mesma natureza; mas que comece por cobrir bem cada parte, e depois
+cubrao todo e o envolva.
+
+ * * * * *
+
+E que ha no soneto? Uma unidade perfeita: desenha-se cada idea parcial
+de per si, mas não tão independente das outras que não haja entre elas
+relação, até que a final, juntando tudo n'um só se apresenta por todos
+os lados simultaneamente, como em resumo, o fecho--_chave d'ouro!_--
+
+Daí, unidade. E simplicidade? Toda: as partes conservão estreito laço
+entre si: é só um sentimento, só uma a idea; não são varias, mas varios
+lados: a unidade final funde-os n'um todo.
+
+Resumindo;
+
+O sentimento desenha-se de perfil, aos poucos, gradualmente;
+
+A forma acompanha essa evolução: segue-o em cada manifestação parcial.
+
+Desenha-se, por fim, todo e forma-se d'ele idea percisa ou, pelo menos,
+completa;
+
+A forma amolda-se a esta reconstrução, e resume-o igualmente, como que
+fundindo as partes no todo.
+
+O sentimento é _um_;
+
+Á forma, pela precisão, a que apresenta maior unidade.
+
+É _simples_;
+
+Ainda a estreiteza d'ela não permite abraçar mais que o preciso: tudo o
+que for estranho, regeita-o por que o não póde conter.
+
+ * * * * *
+
+Esta é pois, a forma lirica por excelencia: o manto alvo e casto com que
+tem de se envolver, para ver o dia, aquelas partes mais pudicas, mais
+melindrosas, mais puras da alma.
+
+Fazer do soneto o molde aonde o cérebro _só_ despeje o que concebe
+independente da alma; as visões da fantasia, apenas; é desconhecer-lhe a
+natureza, é dar á boémia das praças publicas o vestido, a cintura da
+virgem.
+
+Esta é a forma superior do lirismo do coração.
+
+N'ela tem vindo todos os grandes poetas vasar o que tinham de mais puro
+na alma, quando, muita vez, cançados, talvez exautos d'imaginação e de
+idea, sentiam, todavia, transbordar-lhe o coração, como se tivesse,
+semelhante ao lago que recebe e nunca vasa, muito e muito ainda para
+dar, mas que, á falta de quem lh'o receba, guardasse secreto em si.
+
+Recebeu-lhes, então, o balsamo mais puro de suas almas esta forma
+generosa e profunda. Dante, Miguel Angelo, Shakspeare, Camões,
+admiram-se nas grandes, nas imensas manifestações de suas inteligencias,
+o Inferno, S. Pedro, Othelo, Lusiadas: mas conhecel-os, amal-os, só
+aonde esta forma bela e pura lhes prestou molde aonde vasassem os
+sentimentos mais intimos de suas almas. Ali, admira-se o Artista, mas
+aqui ama-se o Poeta: ali arrebata-nos o entusiasmo, mas aqui
+rebentam-nos as lagrimas.
+
+Os Lusiadas são a epopea d'um povo; ser-lhe-hão tambem epitafio quando
+com a sua mão Deus lhe apagar o nome d'entre as nações. Mas qual ha
+poema de sofrimento que iguale este final do soneto CLXXVII.
+
+ Triste o que espera! triste o que confia!
+
+Aonde ha epitafio, que melhor narre ás gerações a vida pelo amor
+d'aquela alma nobre, do que este (XIX):
+
+ Alma minha gentil que te partiste...
+
+Os Lusiadas são a epopea do povo: mas a epopea do Poeta é aquele
+livrinho apenas lembrado dos Sonetos.
+
+Um é o monumento da nação; outro o do homem: os Lusiadas escreveu-os o
+Soldado; mas foi o poeta quem chorou os Sonetos.
+
+Quem fala ai em colunas e estatuas? Camões não se vê, não se funde, não
+se palpa: sente-se! Que melhor retrato, que maior estatua quereis de que
+estes versos (CX):
+
+ E vou de dia em dia, d'ano em ano,
+ Após um não sei que, após um nada,
+ Que, quanto mais me chego, menos vejo.
+
+Depois d'esta, que ele por suas mãos fundiu, ninguem lhe vá tirar as
+feições!
+
+ * * * * *
+
+Esta grande forma estava perdida: sumio-a um dia Bocage, em meio do
+delirio d'alguma orgía _poetica_, e, tão longe a arrojou, que bem
+custoso foi achal-a depois. Lembrou-se ainda d'ela, ja quando as
+_grandes sombras_ lhe vinham do ceu descendo sobre a alma, a envolvel-a,
+para que no caminho não podesse olhar a terra e perdesse de todo a
+lembrança d'este desterro.
+
+Foi sublime aquela reminiscencia! mas a troco de quantos esquecimentos
+não veio ela?!
+
+Achou-a, depois, um homem--um poeta--digo _poeta_, por que o
+esquecimento do seu nome é, n'esta terra, a sua melhor coroa: a gloria
+aqui é ser esquecido, por que poetas--_poetas_ não ha ca quem os
+entenda...
+
+João de Deus restituiu-nos o _Soneto_ como ele é, como deve ser:
+a--forma superior do lirismo--Sem este laço atravez dos tempos, quem
+poderia achar aquela forma, para nola restituir em toda a sua pureza?
+Certo que não seriam os Castilhos, nem os Lemos, nem...
+
+De Camões até hoje é grande o salto: só alma gémea da do amante de
+Natercia, poderia assim transpor o abismo de tres séculos. É-o. Á terra
+fecundada por Camões custou-lhe a conceber tamanho _monstro_! Gemeu nas
+dores e na fronte do poeta bem se divisam angustias que a mãe deu em
+legado ao filho, e as maiores ainda que lhe deixou seu _Pae_... mas,
+João de Deus! quem renegará seu Pae?!
+
+Dezembro 1861.
+
+
+
+
+AD AMIGOS.
+
+ Ó voi, ch'avete gl'intelleti sani,
+ Mirate la dottrina che s'asconde
+ Sotto in velame degli versi strani.
+
+ DANTE. _Inferno_.
+
+
+
+
+I.
+
+Ignoto Deo.
+
+
+Que beleza mortal se te assemelha,
+Ó sonhada visão d'esta alma ardente!
+Que refletes em mim teu brilho ingente,
+Lá como em mar d'anil o sol se espelha?
+
+O mundo é grande! e esta ancia me aconcelha
+A buscarte na terra: e eu, pobre crente,
+Vou pelo mundo a ver o _Deus clemente_...
+Mas a ára só lhe encontro... núa e velha.
+
+Não é mortal o que eu em ti adoro.
+Que és tu aqui? olhar de piadade,
+Gota de mel em taça de venenos.
+
+_Ah lagrima das lagrimas que choro!_
+Ah sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
+Descobre-te, visão, no ceu ao menos!
+
+
+
+
+II.
+
+A M. C.
+
+
+Não busco n'esta vida gloria ou fama:
+Das turbas que me imporia o vão ruido?
+Hoje deus, e amanhã já esquecido,
+Como esquece o clarão de extinta chama!
+
+Fóco, que a luz em torno não derrama,
+Tal é essa ventura; éco perdido,
+Quanto mais se chamou, mais escondido
+Fugiu e se esqueceu de quem o chama.
+
+Cada flor d'essa croa é um engano,
+Como a nuvem das tardes ilusoria,
+Como o misterio vão d'um vão arcano.
+
+Mas croe-me tua mão a fronte ingloria,
+Cinge-me tu o louro soberano...
+Verás, verás então se amo essa gloria!
+
+
+
+
+III.
+
+Ignoto Deo.
+
+
+Meus dias vão correndo vagarosos
+Sem prazer e sem dor, e mais parece
+Que este fóco intrior antes fenece
+Do que brilha com raios luminosos.
+
+É bela a vida e os anos são formosos,
+E nunca ao peito amante amor falece...
+Mas, se a beleza aqui nos aparece,
+Outra alembra de mais perfeitos gosos.
+
+Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
+Prende-a um instante mundanal beleza,
+Mas outra a patria é por que suspira.
+
+Porem do pressentir dá-me a certeza,
+Dá-ma! e contrito--embora a dor me fira--
+Eu sempre bemdirei essa tristeza!
+
+
+
+
+IV.
+
+A M. E.
+
+
+Terra do exilo! Aqui tambem as flores
+Tem perfume e matiz; tambem vicejam
+Rosas no prado e pelo prado adejam
+Zéfiros brandos suspirando amores:
+
+Tambem ca tem a terra seus primores;
+Pelos vales as fontes rumorejam;
+Tem a noute seus sopros, que a bafejam,
+E o ceu tem sua luz e seus ardores.
+
+Em toda a natureza ha amor e cantos,
+Em toda a natureza Deus se encerra...
+E comtudo esta é a causa de meus prantos!
+
+Eu sou bem como a flor que não descerra
+Em clima alheio. Que importam teus encantos?
+Não és, terra do exilio, a minha terra!
+
+
+
+
+V.
+
+A Alberto Telles.
+
+
+Só!--Ao ermita sosinho na montanha
+Visita-o Deus e dá-lhe confiança:
+O nauta, que o tufão aos polos lança,
+Ainda espera um sopro que o ceu tenha!
+
+Só!--Mas quem se assenta em riba estranha,
+Longe dos seus, lá tem inda a lembrança:
+E inda no peito deixa Deus a esprança
+A quem á noute chora em erma penha.
+
+Só!--Não o é quem possue na terra um laço
+--Um que seja--que o prenda a este fadario,
+Uma crença, uma esprança... e inda um cuidado.
+
+Mas cruzar--indifrente--inertes braços,
+Mas passar--entre turbas--solitario,
+Isto é ser só, é ser abandonado.
+
+
+
+
+VI.
+
+A Santos Valente.
+
+
+Estreita é do prazer na vida a taça:
+Largo, como o oceano é largo e fundo,
+E, como ele, em venturas infecundo,
+O calis amargoso da desgraça.
+
+E comtudo nossa alma, quando passa
+No pregrinar da vida pelo mundo,
+Prazer só pede á vida, amor fecundo,
+Com esta unica esprança só se abraça.
+
+É lei de Deus este aspirar imenso...
+E comtudo a ilusão impoz á vida,
+E manda buscar luz, e dá-nos treva!
+
+Ah! se Deus acendeu um fóco intenso
+D'amor e dor em nós, na ardente lida,
+Por que a miragem cria... ou por que a leva?
+
+
+
+
+VII.
+
+A Florido Telles.
+
+
+Quando comparo gloria ou ouro ou fama
+--Venturas que em si tem oculto o dano--
+Com aquele outro afeto soberano,
+Que amor se diz e é luz de pura chama,
+
+Vejo que são bem como arteira dama
+Que sob o honesto riso, esconde o engano,
+E quem as segue como esse que ufano,
+Por ir traz do prazer, deixa quem o ama.
+
+Do orgulho vem aquele estranho goso
+E a gloria d'ele só nos vem do orgulho,
+Por que só na vaidade tem a palma:
+
+Tem na paixão seu brilho mais formoso
+E das paixões, tambem, some-o o marulho...
+Mas a gloria d'amor... essa vem d'alma!
+
+
+
+
+VIII.
+
+A M. C.
+
+
+Poz-te Deus sobre a fronte a mão podrosa!
+O que fada o poeta e o soldado
+Pousou em ti o olhar d'amor veládo
+E disse-te! «_mulher, vai! sê formosa._»
+
+E tú, descendo na onda armoniosa,
+Pousaste n'este solo angustiado
+--Estrela envolta n'um clarão sagrado,
+Do teu olhar d'amor na luz radiosa--
+
+Ah!... quem sou eu, para poder mercer-te?
+Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
+Anjo! deu-te o Senhor um mundo á parte.
+
+E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
+Sem poder mais... ca mim o que me ha dado?
+Voz pra cantar, uma alma para amar-te!
+
+
+
+
+IX.
+
+Ignoto Deo.
+
+
+Um diluvio de luz cáe da montanha:
+Eis o dia! eis o sol! o esposo amado!
+Onde ha, por toda a terra, um só cuidado
+Que não dissipe a luz que o mundo banha?
+
+Flor, viração, e prado, e erma penha,
+Revolto mar ou golfo socegado,
+Onde ha hi ser de Deus tam olvidado
+Pra que alivio do ceu o ceu não tenha?
+
+--Deus é Pae! Pae de toda a creatura:
+E a todo o ser o seu amor assiste:
+De seus filhos o mal sempre é lembrado--
+
+--Ah! se Deus a seus filhos dá ventura.
+N'esta hora santa... e eu--só--posso ser triste...
+Serei filho, mas filho abandonado!
+
+
+
+
+X.
+
+Ad amicos.
+
+
+PROPTER SOLATIUM.
+
+
+Renasço, amigos, vivo! Ha pouco ainda
+Disse ao viver «_afunde-te no nada!_»
+E já, bem vedes, surjo á luz dourada
+--No labio o rir, no peito esprança infinda--
+
+Ah, flor da vida! flor viçosa e linda!
+Envolto na mortalha regelada
+Do _só_ pensar--perdão!--foste olvida...
+Flor do sentir e crer e amar... bem vinda!
+
+A vida! como a sinto, ardente, imensa!
+Não unica! tomando a imensidade!
+Livre! perante Deus surgindo forte!
+
+Que amor! que luz! que pira, vasta, intensa!
+Plenitude! armonia! realidade!
+Mas melhor que tudo isto é sempre a morte.
+
+
+
+
+XI.
+
+A M.C.
+
+
+No ceu! se ha ceu pra os olhos de quem chora,
+Ceu, para o peito de quem sofre tanto...
+Se ha _voz d'amor_, e amor ha puro e santo
+--Chama que brilha, mas que não devora...
+
+No ceu! se uma alma n'esse espaço mora,
+Que a prece escuta e enchuga o nosso pranto;
+Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto
+Do amor piadoso... que eu não sinto agora:
+
+No ceu, ó virgem! findarão meus males;
+Heide ter vida (por que mais pareço
+Sofrer a vida, que lograr favores)
+
+Ali, ó lirio dos celestes vales!
+--Tendo seu fim--terão o seu começo,
+Para não mais findar, nossos amores.
+
+
+
+
+XII.
+
+A José Felix dos Santos.
+
+
+Sempre o futuro! sempre! e o presente
+Nunca! Que seja esta hora em que se existe
+D'incerteza e de dor sempre a mais triste,
+E só nos farte a esprança um bem ausente!
+
+O futuro! Que importa? se inclemente
+Essa hora em que a esprança nos consiste,
+Chega... é presente... e só á dor assiste?!
+Assim, onde é a esprança que não mente?
+
+Desventura ou delirio? O que procuro,
+--Se me foge--é miragem enganosa,
+--Se me espera--peór, espetro impuro.
+
+Assim a vida passa vagarosa:
+O presente a aspirar sempre ao futuro,
+O futuro uma sombra mentirosa.
+
+
+
+
+XIII.
+
+A H. C.
+
+
+OB MAESTITIAM.
+
+
+Por que descrês, mulher, do amor, da vida?
+Por que esse Hermon tranformas em Calvario?
+Por que deixas que, aos poucos, do sudario
+Te aperte o seio a dobra úmedecida?
+
+Que visão te fugio, que assim perdida
+Buscas em vão n'este ermo solitario?
+Que fatal maldição, destino vário,
+Te faz trazer a fronte ao chão pendida?
+
+Nenhuma! Todo o bem em ti assiste;
+Deus, em penhor, te deu a formosura,
+Uma benção do ceu traz-te cada hora;
+
+E descrês do viver?! E eu, pobre e triste,
+Que só no teu olhar leio a ventura,
+Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?...
+
+
+
+
+XIV.
+
+A Alberto Sampaio.
+
+
+Não me fales de gloria: é outro o altar
+Onde queimo piadoso o meu incenso,
+E, amimado de fogo mais intenso,
+De fé mais viva, vou sacrificar.
+
+Que vai a gloria, diz! pra se adorar
+--Fumo, que sobre o abismo anda suspenso--
+Que vislumbre nos dá do amor imenso?
+Esse amor que venturas faz gosar?
+
+Ha outro, mais celeste, mais eterno,
+Que, se o busco com fé, não quer fugir-me,
+Nem dá, em vez de goso, negro inferno.
+
+Só esse hei-de buscar, e confundir-me
+Na essencia do _amor_, puro, sempiterno...
+Quero só n'esse fogo consumir-me!
+
+
+
+
+XV.
+
+Ignoto Deo.
+
+
+Vai-te, na aza negra da desgraça,
+Pensamento _d'Amor_, sombra d'uma hora,
+Que estreitei tantos _seclos_, vai-te--embora!--
+Como nuvem que o vento impele... e passa.
+
+Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
+Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora
+D'essa alma o sangue, com que mais vigora,
+Como amigo comungue á mesma taça!
+
+Que se torne impossivel a esprança,
+E nunca a dor (que sempre o mal assiste)
+E seja unica esprança a desventura!...
+
+Se em silencio sofrer fôra vingança!...
+Envolve-te em ti mesmo, ó alma triste,
+Talvez que sem esprança haja ventura!...
+
+
+
+
+XVI.
+
+A Q. M. Q.
+
+
+Fica-te em paz! não póde a mão do homem
+Partir o seio á arveloa queixosa,
+Quando o canto soltou, e a voz chorosa
+Ergueu la contra as magoas que a consomem.
+
+Respeito o teu sacrario: embora tomem
+Por orgulho o respeito; eu colho a rosa
+Mas não a flor modesta e melindrosa,
+Que se oculta entre as mais... e que as mais somem.
+
+Mais que amor tenho crença: essa existencia
+Pede-me um culto por que dera a vida,
+Por que dou esta dor, que aqui se encerra.
+
+Mulher! mulher! de que valêra a essencia,
+A essencia pura, a uma alma que é descrida?...
+Fica-te em paz: fique eu com minha guerra!
+
+
+
+
+XVII.
+
+Ignoto Deo.
+
+
+Corre aos braços da mãe o filho amado;
+--Por olvidar, volvendo a sua historia--
+Corre á mente do infliz doce memoria;
+Corre á luz d'um olhar o olhar buscado:
+
+Vem o alivio animar peito magoado;
+Corre o forte a buscar na morte a gloria;
+Desfeita do viver sombra ilusoria,
+Foge o espirito livre ao ceu anciado;
+
+Tudo busca quem o ama: a luz dourada
+Busca do seu viver, como no escuro
+Quem avista uma luz lhe vai ao encontro.
+
+Só tu, ventura! uma vez sonhada;
+Só tu, sombra _d'amor_! que em vão procuro,
+Só tu, foges de mim, só não te encontro!
+
+
+
+
+XVIII.
+
+Ignoto Deo.
+
+
+Espremos no Senhor! Ele ha tornado
+Em suas mãos a massa inerte e fria
+Da materia impotente e n'um só dia,
+Luz, movimento, ação, tudo lhe ha dado.
+
+Ele ao que é pobre d'alma ha tributado
+Carinho e amor; Ele conduz á via
+Segura quem lhe foge e se extravia,
+Quem um momento só não o ha lembrado.
+
+E a mim, que aspiro a Ele, a mim que o amo,
+Que tenho vida em mim, que anceio o brilho,
+Hade negar-me o termo d'este anceio?
+
+Buscou quem o não quiz; é a mim, que o chamo,
+Hade fugir-me, como a ingrato filho?
+Oh Deus! Senhor! meu Pae! espero! eu creio!
+
+
+
+
+XIX.
+
+A João de Deus.
+
+
+Se é lei que rege o escuro pensamento
+Lutar--em vão--á cata da verdade,
+Em vez da luz achar a escuridade,
+Ser uma queda nova cada invento;
+
+É lei tambem, (embora grão tormento)
+Buscar, sempre buscar a claridade,
+E só ter como certa realidade
+O que nos mostra claro o entendimento.
+
+Em tanta confuzão, em tanto engano,
+O que ha-de a alma escolher? se crê, duvida;
+Se procura, só acha... o desatino.
+
+Só Deus póde acudir em tanto dano:
+Alimente-se a esprança d'outra vida,
+Seja a terra degredo, o ceu destino.
+
+
+
+
+XX.
+
+Ignoto Deo.
+
+
+Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquele
+Que tanta vez pecou, porem, contrito,
+Tanta vez tem erguido a ti o grito
+Da aguia que o tufão no alto compele.
+
+E a aguia sofre tambem, como ave imbele,
+E mais que ela (que pôe mais alto o fito)
+Mas da aguia, que lutou, o brado aflito.
+Senhor! o teu ouvido não repele.
+
+Eu não cáio, meu Deus, sem ter lutado;
+Fraco sou, por que sou de barro e limo,
+Porem na tua _Lei_ medito e sismo.
+
+E eu sou teu filho! A um filho desgraçado
+Que ha-de um páe recusar? Oh, dá-me arrimo,
+Estende-me tua mão por sobre o abismo.
+
+
+
+
+XXI.
+
+A Germano Meyrelles.
+
+
+Só males são reáes, só dor existe;
+Prazeres só os gera a fantasia;
+Em nada--um imaginar--o bem consiste;
+Anda o mal em cada hora, e instante, e dia.
+
+Se buscamos o que é, o que devia
+Por natureza ser não nos assiste;
+Se fiamos n'um bem, que a mente cria,
+Que outro remedio ha hi senão ser triste?
+
+Quem comsigo podesse que não vira,
+Que esta vida nos sonhos lhe passasse...
+Mas, no que se não vê, labor perdido!
+
+Quem fôra tão ditoso que olvidasse...
+Mas nem seu mal com ele ali dormira,
+Que sempre o mal pior é ter nascido!
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Sonetos de Anthero, by Antero de Quental
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SONETOS DE ANTHERO ***
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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