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+Project Gutenberg's A Mulher Portugueza, by Eduardo Shwalbach Lucci
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Mulher Portugueza
+
+Author: Eduardo Shwalbach Lucci
+
+Release Date: August 16, 2008 [EBook #26325]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MULHER PORTUGUEZA ***
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+EDUARDO SCHWALBACH LUCCI
+
+Da Academia das Sciencias de Lisboa
+
+A MULHER
+
+PORTUGUEZA
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON,
+de Lélo & Irmão, editores
+Rua das Carmelitas, 144
+1916
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+A MULHER
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+PORTUGUEZA
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+EDUARDO SCHWALBACH LUCCI
+
+Da Academia das Sciencias de Lisboa
+
+A MULHER
+
+PORTUGUEZA
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON,
+de Lélo & Irmão, editores
+Rua das Carmelitas, 144
+1916
+
+
+_A propriedade literária e artística está garantida em todos os países
+que aderiram à Convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 da março
+de 1911. No Brasil pela lei n.° 2577 de 17 de janeiro de 1912)._
+
+
+Porto--Imprensa Moderna
+
+
+
+
+A MULHER PORTUGUEZA
+
+
+MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES:
+
+O lindo thema--A Mulher Portugueza--attraíu-me pelo seu encanto, mas
+prejudica-o, a par da fraqueza da palavra, o defeito de ter de obedecer
+a uma curva, que se retesa e quasi estala nos limites apertados d'uma
+conferencia. Ouvi-me, pois, mães, esposas, filhas, mulheres queridas,
+que viveis dentro de corações e no coração trazeis sempre uma imagem,
+com a benevolencia, que deve sempre amantelar um amigo e um defensor. No
+fertil poema, por onde a vossa alma transita atravez de almas,
+procurarei colher a graça e o perfume para a expressão dos meus
+sentimentos, attenuando com este valioso recurso os males de que faço
+padecer tão brilhante assumpto.
+
+
+
+Resultado para que se encaminha o contínuo esforço do homem, causa da
+sua actividade e aspiração do seu espirito, é a mulher quem, com a
+grandeza do infinito bem, ou a grandeza do infinito mal, nos conduz pela
+vida fóra numa ascenção gloriosa, ou numa derrocada tragica. Por ella o
+homem crê, por ella descrê, por ella assassina, por ella morre. Altar e
+hostia, tortura e guilhotina, faz-nos viver a vida tal qual a dôr
+surriba a alegria, a punhalada espirra o sangue e os labios guardam os
+dentes. Mas nas suas epopeias sublimes e nas suas elegias tremendas
+surge-nos como a confissão palpavel da energia e da bondade divinas.
+Hymno e oração do amor, canta-lhe as alegrias e reza-lhe as tristezas;
+alma da bondade, aroma da ternura e lagrima da dôr, torna-se em
+explicação religiosa, bella e harmonica da vida humana. Assim realisada
+e assim realisando, Deus desce até á mulher, o homem sobe até ella.
+Encontram-se no seu coração e beijam-se.
+
+A Shakespeare ligaram um espirito--um _andador_, e a Socrates, outro
+espirito--o _demonio_, porque só pela interferencia do sobrehumano lhes
+admittiam as concepções. Não deve, portanto, causar reparo dizer-se que
+a mulher tem sido sempre, e sempre será, o _espirito familiar_ do homem.
+O que elle produz de grande é ella quem lh'o inspira, o que parece ir
+além das suas forças vem da força que ella irradia. A ingratidão do
+homem para com a mulher tem sido, porêm, enorme. Não passa sem ella e
+diz mal d'ella. Da antiguidade ao dia de hoje, os libellos accumulam-se
+com uma injustiça que apavóra. Euripides põe na boca de Hippolyto as
+mais flagelladoras apostrophes, que alguma vez contra ella foram
+proferidas. Affirma que tudo quanto o homem tem de mau vem da mulher e
+exclama: «Porque--ó deuses immortaes!--não foi dado ao homem o poder de
+gerar o homem de uma pedra, de um pedaço de ouro, de um tronco de arvore
+e não de um ventre de mulher?» Aristophanes, por intermedio de
+Mnesiloco, nas _Festas de Céres_ _e de Proserpina_, simulando
+defendê-la, quasi sobreleva Euripides no ataque. Strindberg, nos
+_Casados_, accusa-a de só afagar para morder, e no _Pae_ a violencia
+contra ella mantem-se constante e formidavel, como a de Nietzsche no
+_Assim falava Zarathustra_, na _Genealogia da Moral_ e em _O Viajante e
+a Sombra_. Quanto mais culto, mais impiedoso, vituperando-a com
+affrontosas opiniões e algemando-a com as leis por elle proprio
+fabricadas. Mas nesta terra, eternamente fertilisada pelo vosso pranto e
+florescida pelo vosso riso--ó querida e boa mulher portugueza!--talvez
+porque assim o sois, nunca se disse grande mal a vosso respeito, nem a
+lei foi das mais precárias para vossa defesa. Em Portugal nunca o
+insulto dos philosophos e dos moralistas vos escalvou a dignidade, nem a
+lei desceu a vexames, e tambem em nenhum outro paiz, por honra vossa e
+alegria do nosso lar, a despeito das violencias do instincto, da
+barbaridade das velhas edades, da convulsão dos usos e costumes, a
+mulher se conservou tão modesta, tão carinhosa, tão simples e tão casta!
+
+
+
+A mulher portugueza da Edade Média era a escrava do homem pelo corpo e
+de Deus pelo espirito. Vista á luz da moral e do respeito de agora,
+magôa-nos; mas o homem não a insultava, não lhe batia, não a violava sem
+a lei lhe tomar contas. Magôa-nos, doe-nos, mas os factores sociaes não
+lhe permittiam que fosse outra, porque nem ella, nem o seu amor estavam
+dignificados. Apparece-nos amoral e subalterna, mero objecto de prazer,
+massa de instincto e de passividade, de pernas cruzadas, em cima d'um
+estrado, a jogar o xadrez, a enfiar pérolas e aljôfares e a recitar as
+Horas Canónicas e as Horas de Santa Maria com um isochronismo de
+pêndulo. Que ha, porém, a esperar de uma época, em que a mãe do fundador
+da monarchia alterna dos braços d'um Trava para outro Trava, D. Affonso
+Henriques arranca uma sua filha ao marido para a afivelar ao Braganção e
+a abbadessa Grácia Mendes, mandada vir para concubina de D. Affonso III,
+vae pagando pelo caminho direitos de entrada ao fidalgo que a traz e
+direitos de saída ao fidalgo que a leva!? Que querem de uma época, em
+que o christianismo abate o grande valor moral e artistico do corpo,
+apontando-o como deposito de podridões e ninho de vicios, com o fim de
+só glorificar a alma em consagração a Deus? Cuidar do corpo! Não; que a
+carne é ignominia. Escondê-lo bem, mortificá-lo, desprezá-lo.
+
+Sem esse culto a mulher rebaixa-se, apaga-se; a sua sensualidade
+brutalisa-se. Sem a preparação indispensavel, a sua intelligencia não
+scintilla. E assim vemos as afamadas mulheres de então, negada ás suas
+formas a veneração grega e privado o seu cerebro do cultivo romano, a
+dominarem não pela belleza do espirito, mas pela belleza natural do
+corpo e pela sensualidade unicamente animal, que o inflamma numa revolta
+ingénita contra o desprezo a que o votam. Descurada material e
+espiritualmente, que outra mulher podia saír d'esta sociedade? A mulher
+subalterna, embora digna de todo o nosso respeito por essa sua propria
+subalternidade, porque, entregue inteiramente aos seus asperos
+instinctos, sabe orar e mortificar-se. Nestas condições e durante um
+periodo tão sêco e árido, de cilicios e penitencias, de passividade e
+isolamento, erguem-se nos primeiros tempos da monarchia as infantas D.
+Sancha e D. Thereza, irmãs de D. Affonso II, instituidoras das gafarias,
+onde ellas proprias lavam as chagas dos leprosos, e mais tarde, no
+estrebuxar da dynastia affonsina para o alvor da dynastia de Aviz,
+Deusadeu Martins, Brites de Almeida e Maria de Sousa. A primeira, por
+seu valor e astucia, immortalisa-se na defesa de Monsão; a segunda torna
+lendaria uma pá de forno; a terceira salva a vida do Mestre de Aviz,
+atravessando com uma partazana o peito do renegado Gonçalo de Gusmão e
+tolhendo o passo a uma partida de castelhanos. Que representam estas
+cinco mulheres? A caridade e a bravura. Lances poeticos de amor,
+fulgurações de espirito? Não se vislumbram. Apenas mortificação,
+humildade e força animal ao serviço d'um levantado espirito.
+
+Chega a época de D. João I, e pela influencia de D. Filippa de
+Lencastre, a mulher começa a divinisar-se: deixa de ser uma cousa para
+ser alguem. Forma-se a sua individualidade. Depois d'uma curta
+transição, em que a rainha, percebendo a necessidade de disciplinar as
+paixões brutaes dos homens, privou da escolha o instincto e estabeleceu
+como que--perdoem-me a palavra--uma coudelaria da côrte, determinando
+casamentos, desapparece a posse brutal, quebra-se a grilheta do _Eu
+quero aquella mulher_, e illuminada por uma aurora de sonho e de
+fantasia, ella descerra os labios tremulos e murmura pela primeira vez:
+«Eu amo!» Inicia-se o seu poema, nasce a flôr do sentimento. É o influxo
+das novellas do cyclo bretão, que se exerce; é a figura resplandecente
+de Isolda que vem redimir a mulher portugueza, transformando-a de
+simples instrumento de prazer em força, direito e razão de amor,
+engrandecendo-a, sensibilisando-a. É essa poesia, que, romantisando-lhe
+a imaginação por meio de formas ideaes, lhe enche a alma e a vida com o
+sopro perfumado da felicidade, ou com as torturas da desgraça, e lhe faz
+antever a realidade humana pela mutua posse de duas almas. É Isolda,
+debruçada sobre o cadaver de Tristão, a dizer-lhe: «Vendo-te morto, ó
+meu Tristão, não posso, nem tenho o direito de viver. Morreste por meu
+amor e eu morro de tristeza por não ter chegado a tempo.» É a figura de
+Isolda a espiritualisar a sensualidade na mulher, como a figura de
+Galaaz, pela preoccupação da virgindade, a influir sobre o homem,
+dando-nos Nun'Alvares a resistir ao casamento, o infante D. Duarte a
+consorciar-se, aos 37 annos, ainda de palmito e capella, e o cardeal D.
+Jayme, que, instado pelos medicos para aquecer o leito ao calor d'uma
+mulher e com este agradavel remedio salvar a vida, exclama
+estupidamente: «Antes quero morrer limpo do que morrer sujo!»
+
+A mulher portugueza, até esse momento crisalida do amor, rompe o casulo
+da sua intelligencia, da sua dignidade e do seu coração e entra a
+deslumbrar-nos com o resplendor do espirito e do sentimento, mais tarde
+revigorado por outras influencias derivadas em grande parte da
+exuberante erudição que veiu da Renascença. O seu vôo eleva-se, e no
+reinado de D. João II a mulher da côrte já verseja e franqueia o seu
+entendimento a estudos profundos. A primeira verdadeiramente notavel,
+que se nos depara, é D. Filippa, filha do infante D. Pedro, trazendo
+pela mão sua sobrinha, a infanta D. Joanna, por ella educada e para quem
+traduziu do latim o _Tratado da vida solitaria_;--tão culta, que
+escreveu notas politicas, cuja importancia resalta na _Pratica ao Senado
+de Lisboa_, quando se receavam tumultos na capital, e tão artista, que
+era a illuminadora das suas obras. Em seguida tres rainhas exercem uma
+acção decisiva no theatro portuguez: D. Beatriz, mãe de D. Manuel, D.
+Maria, sua mulher, e D. Leonor, viuva de D. João II. É sob a sua
+protecção que nasce o theatro nacional. Pondo de parte a segunda, por
+não portugueza, vemos ao lado de D. Beatriz, a mais sumptuosa mulher do
+seu tempo, D. Leonor a praticar o bem, a animar o talento e as artes.
+Funda o hospital das Caldas, as Mercearias, a Misericordia de Lisboa, dá
+impulso á typographia e acolhe Gil Vicente. Affirma-se uma obra
+civilisadora pela conformidade do coração com o cerebro.
+
+O brilhantismo litterario da côrte attinge a sua edade de ouro,
+fortifica-se e expande-se para ir morrer no Paço da infanta D. Maria,
+onde, na Academia artistica e na Academia litteraria, ao lado das
+italianas Angela e Luiza Sigêa, brilham D. Leonor de Noronha, a
+traductora e annotadora de Marco Antonio Sibellico, Joanna Vaz, a loira
+coimbrã, poetisa e historiadora, Paula Vicenta com o seu pujante talento
+dramatico, e Publia Hortensia, que, aos 17 annos, discute Aristoteles
+com homens de alto saber, depois de ter feito em Coimbra os cursos de
+philosophia e theologia. Este banho de luz exalta a mulher, ainda com as
+pernas cruzadas sobre um estrado, fechada em casa e recebendo apenas o
+frade. A sua alma divinisa-se; a poesia cerca-a e ella poetisa tambem.
+Intellectualisa-se, sonha e tem visões. Mas a enorme transformação, que
+neste periodo se operou entre nós pelo descobrimento do caminho maritimo
+para a India, deslocando o centro de gravidade do emporio de Veneza para
+Lisboa, se deu ensejo á permuta intellectual com o estrangeiro, d'onde
+vieram homens dos mais doutos para as Universidades e mulheres illustres
+para o cenaculo da Infanta, trouxe conjunctamente o mercador, o homem de
+negocios, o homem de dinheiro e com elle o prazer e o vicio. Então o
+portuguez aferrolhou ainda mais a mulher, sobrepoz adufas a adufas,
+rotulas a rotulas, cortando-lhe toda a communicação para o exterior, e
+os moralistas apregoaram que a missão feminina consistia sómente em
+fiar, conceber e chorar.
+
+Já illuminada, sentindo bem a posse de si propria, á oppressão contrapõe
+o ardil e recorre á intermediaria:--Branca Gil do _Velho da Horta_ e
+Brizida Vaz do _Auto da Barca_. Todavia, ao mesmo tempo que uns
+enclausuravam as mulheres, outros embarcavam-se para a India,
+deixando-as á vontade e só receosas de elles não chegarem a
+partir:--dialogo entre a Ama e a Moça do _Auto da India_. A inteira
+clausura tem de terminar; a reacção vem logo depois. A mulher, se em
+casa está posta em recato, encontra a sociabilidade na rua. Nas
+frissuras dos pateos de comedia, nas tranqueiras das praças de touros,
+nos palanques dos autos de fé, em todas as festas publicas junta-se com
+o homem. Lisboa é Grecia e Roma:--em casa o gyneceu atheniense, na rua o
+convivio romano.
+
+Recuemos, porêm, um pouco. No despovoamento de Portugal, se alguns
+homens se apartam das mulheres, outros levam-nas e algumas das que os
+acompanham identificam-se com elles em rasgos de heroismo e dedicação,
+que as egualam ás mais celebres espartanas. Nos memoraveis cercos de Diu
+lá as vemos fazendo rosto ao inimigo, correndo da agulha á lança, do
+estrado á muralha. Isabel Madeira, morto em seus braços o marido, com a
+mais firme estoicidade sepulta-o e volta ao trabalho das tranqueiras.
+Anna Fernandes, a famosa velha de Diu, assume proporções épicas ao
+dar-se o assalto da mina, no baluarte de D. Fernando. Quando tudo vôa
+pelos ares, paredes, alicerces, cavalleiros e soldados e a investida dos
+mouros arde em maior sanha, ella, num impeto de decisão e energia, á
+frente das nossas indianas, umas a arremessarem pedregulhos, outras a
+acudirem com pelouros, metallificando a voz em estridente clarim de
+guerra, brada aos nossos homens:--«Pelejae por vosso Deus! pelejae por
+vosso rei, cavalleiros de Christo, porque Deus está comvosco!» A estes
+exemplos do mais esforçado animo, outros se juntam de abnegação não
+menos admiravel. Catharina de Sousa, mandando as suas joias a D. João de
+Castro, diz-lhe que empenhará a sua propria filha, se tanto fôr
+necessario para o serviço da patria. D. Joanna de Avelar escreve á
+regente: «Senhora! Acabo de perder dois filhos: um que me ficou morto na
+guerra do Mazagão, outro na guerra da India. Resta-me só este terceiro,
+o mais novo, ainda não soldado e que é o portador d'esta carta.
+Offereço-o a Vossa Alteza para seguir o exemplo, que seus irmãos lhe
+deram.»
+
+Ó mulheres portuguezas, orgulhae-vos tanto do vosso inexcedivel valor,
+como do vosso enternecido coração, onde o amor e o brio nacional sempre
+acharam o mais retumbante echo!
+
+Não percamos a curva e attentemos. Á mulher medieva, mortificada e
+humilde, segue-se a mulher dignificada e esclarecida, á mulher-cousa
+substitue-se a mulher-espirito, e sempre o mesmo sangue ardente lhe
+aquece as veias e lhe robustece o braço, como, para não voltarmos a esta
+sua modalidade, se continua a verificar em D. Filippa de Vilhena e D.
+Marianna de Lencastre, em 1640, na condessa de Castello Melhor e em
+Helena Peres numa nova defesa de Monsão, e mais tarde, no seculo XVIII,
+em D. Maria de Sequeira, que chamando a si o commando d'uma nau atacada,
+no seu regresso da Bahia, por uma esquadrilha de corsarios argelinos,
+logo inflige ao inimigo uma desastrosa e veloz retirada. Não affrouxam o
+heroismo e a bravura na mulher portugueza, cujo dominio se alarga do
+corpo para o espirito. Em cada alma feminina despertam e palpitam
+milhares de almas conscientes, que espargem luz e sublimam quanto tocam.
+A poesia dá-lhe ternura, a arte afina-lhe as linhas da intelligencia e
+apura-lhe o gosto. Sente o direito de amar egual ao de ser amada. A
+massa faz-se carne, a carne torna-se flôr e a flôr espalha aroma. Isolda
+abre-lhe o coração e beija-lh'o, o sangue leva-lhe esse beijo ao cerebro
+e a mulher portugueza pensa e sonha, mas os seus sonhos são innocentes,
+porque os originam a pureza da lenda e a castidade devaneadora das
+personagens. É a aurora da mulher de hoje, então ainda simples nas suas
+aspirações:--nem o sol a queima, nem o luar lhe esfuma mysterios. É o
+côr de rosa, a serenidade do romper da manhã.
+
+Vem a dominação dos Filippes. Com a perda da independencia foge para
+Madrid grande parte da força intellectual e artistica, mas a Espanha
+alguma cousa nos manda em troca. O seu theatro revela uma nova feição do
+amor,--o amor que mata, que encanta e faz chorar. D. Juan Tenorio
+apossa-se dos corações; nasce o homem fatal e nasce a mulher fatal. A
+morte da mulher pelo marido já não é o direito do senhor, é o direito do
+coração. Esboça-se a alvorada do _Resistiu-me? Matei-a!_ A mulher,
+engolfada no drama, estende a mão para a tragedia. O manteu dispensa a
+alcovêta. Embiocada, pode saír impunemente e assim vae até 1640 por
+entre lances arriscados de amor, sob o pontificado da capa e espada e a
+protecção do biôco. É neste periodo que, emquanto Soror Brigida, olhos
+postos na gloria eterna, se arrebata no amor divino, Soror Violante, a
+meio caminho das alturas, se debruça para o mundo e fita os olhos na
+terra:
+
+ Que suspensão, que enleio, que cuidado
+ É este meu, tyrano deus Cupido,
+ Pois tirando-me emfim todo o sentido,
+ Me deixa o sentimento duplicado!
+
+O mysticismo procura a conjuncção com o mundanismo; a mulher
+equilibra-se entre a terra e o céu. Faz-se a Restauração. Os usos e os
+costumes não se modificam, embora se perceba uma tendencia regressiva
+para o seculo XVI, até que D. Maria Francisca de Saboya importa para a
+nossa côrte, as modas, os costumes, os galanteios e em si propria o
+figurino da corrupção da côrte franceza. A francezia lança as suas
+garras e empolga as nossas mulheres e os nossos homens, creando a frança
+e o faceira. Ao amor tragico e sinistro do theatro espanhol succede o
+amor leve e brincado. O espirito da mulher portugueza adelgaça-se e ao
+mesmo tempo que ainda se dramatisa em Mariana Alcoforado com o coração a
+fistular-se de amargura e os olhos aferrados na estrada por onde o seu
+amante seguiu para não mais voltar, atira-nos de chofre com a galhofeira
+D. Feliciana de Milão a saracotear-se pela Rua Nova, numa semcerimonia
+impropria d'aquelle seculo, faladora, mexeriqueira, enxertia da _verve_
+franceza na graça portugueza, a fazer trocadilhos em Odivellas e a dizer
+ás creadas, que na egreja de S. Roque procuravam abrir-lhe passagem
+junto de certa dama, cujo amor valia ouro e obstinada em não querer
+levantar-se: «Deixae-a, deixae-a, que não se levanta de graça quem se
+deita por dinheiro.»
+
+A mulher avança em liberdade e sociabilidade, do seu coração apagam-se
+as paginas suaves e ingenuas dos poemas lendarios, a sua alma palpita
+com outra energia, a vida pelo amor e o amor pela vida é o que a
+impressiona, o que lhe move os sentidos e lhe encanta a razão. Mas ainda
+está separada do homem nas etiquetas da côrte e impõe-se que a
+ambicionada juncção se effectue. Determina-a D. João V, ao lado do conde
+da Ericeira, do que resulta o namoro dentro de casa, tendo o leque e o
+lenço por signaleiros. Manifesta-se então um facto curioso: a mulher
+decota-se quasi até o umbigo e não se lhe lobriga o bico do sapato.
+Porquê? Porque oscilla entre a comica e a freira. Esta recata-a da
+cintura para baixo, aquella desnuda-a da cintura para cima. Comicas e
+freiras dividem entre si o poder. Todo o galante tem uma freira e tem
+uma comica. O theatro recupera a sua influencia. A mulher imita as
+comicas no andar, nos gestos, nas attitudes e nas modas; perde o
+sentimento proprio e adquire o sentimento alheio. Simultaneamente, o
+amor freiratico, com requintes de platonismo, chega á allucinação e a
+donzella passa ao escuro. Não podendo subir ao palco, enche os
+conventos, onde tres caminhos a attraem: o da santidade, o da
+litteratura e o da profanação do habito. E é neste solavanco de almas e
+corpos a tentarem o equilibrio, que a arte e a litteratura transluzem e
+occupam o logar primacial nos quadros de Josepha de Ayala, nos planos
+architectonicos de D. Margarida de Noronha, na ceramica de Ignacia de
+Almeida e nas comedias e poesias de D. Joanna Ignez da Cruz, guindada a
+_Decima Musa_.
+
+Sobre este periodo de impropriedade feminina vem o periodo pombalino com
+a plutocracia e a alta industria triumphantes. A comica e a freira
+descem de cotação; constituem-se os salões; da senhora, com toda a sua
+nobre seducção, sae a conversadora, cujos prototypos se modelam na
+condessa de Soure e em D. Maria May. A frança e o faceira prolongam-se,
+em agudo preciosismo, na sécia e no peralta; o leque, que se arrebica
+com o cognome de _marotinho_, reentra em acção; inaugura-se o alphabeto
+dos dedos; o namoro de portas a dentro conquista liberdade absoluta;
+estabelecem-se as academias de fandango, onde os dois sexos deliram.
+Morre D. José, e a viradeira fanatica, com o regresso dos jesuitas e da
+nobreza eivada de fanatismo, proíbe que as mulheres dansem. Os corpos de
+baile são formados por barbaças em _travesti_ e quem canta são os
+_castrati_. A mulher soffre de novo a clausura, o theatro é-lhe vedado,
+a sua intelligencia geme sob uma suffocação. Mas pela influencia do
+passado, da educação recebida, apparecem as poetisas palacianas, que
+correspondem ás versejadoras do Paço no seculo XV, tomando superior
+vulto a notabilissima e formosa Marqueza de Alorna, a viscondessa de
+Balsemão, D. Francisca de Paula Possolo e D. Thereza de Mello
+Breyner,--e em Napoles a figura tragica de Leonor da Fonseca Pimentel,
+proclamando a eterna justiça, transforma o patibulo do seu corpo em
+apotheose da sua alma.
+
+Desde a perda da nossa independencia, a mulher portugueza passa por
+transições bruscas, que a sacodem e instabilisam, sem os necessarios
+estadios, fazendo-a uma complicação sem termo e dando-lhe ainda uma nova
+feição com a vinda dos francezes. Nessa convulsão a sua liberdade
+espraia-se; marca-se o periodo da casquilha e do bandarra, dos
+pisa-flôres e dos janotas. O amor perturba-a e não ha ter-lhe mão.
+Estonteada pelas fardas chamarradas e pelo aprumo viril, entrega-se nos
+braços dos officiaes franceses. Vive-se um pouco a vida de Paris, não a
+vida leve e vaporosa do tempo da Brichota, mas a do Imperio com todos os
+seus desvairos. Salva-a num movimento decidido, pulso forte, que refreia
+a corrida á rédea solta. O vintismo corrige a depravação. A mulher volta
+ao lar, faz-se dona de casa; a educação domestica reveste-se de
+gravidade; prega-se a virtude. Em auxilio d'este esforço entram o
+romantismo francez e o inglez. Chateaubriand exalta a mãe e exclama:
+«Aleitar os filhos é a maior belleza!» E então as mulheres vão para os
+bailes levando os filhos ao colo e dão-lhes de mamar deante de toda a
+gente. É a sua segunda dignificação. Succede, porêm, ao vintismo, em que
+tudo veste briche--corpos e corações--o periodo nevrotico de D. Miguel
+com um retrocesso momentaneo á época de D. Sebastião. O pegador de
+touros torna-se o ideal da mulher. Instante rapidissimo. Com D. Pedro
+IV, toda a valente pleiade de emigrados traz o influxo estrangeiro, e
+pela irradiação de Hugo, Lamartine, Vigny, Musset e do proprio Garrett
+molda-se a romantica.
+
+Abrem-se os salões para os grandes bailes; mas já não é o salão
+pombalino, é o salão com o estrangeirismo. Irrompe uma nova sociedade,
+começam as classes altas a descer e as classes baixas a subir, e a
+portuguezinha, pallida e luarenta, atravessa de olhos em alvo, por entre
+os homens terriveis, nos bailes do Manteigueiro, da Assembleia, da
+Regaleira, das Laranjeiras, do marquez de Vianna e do marquez de
+Penafiel, e nas reuniões litterarias da interessantissima D. Maria Krus,
+de cabecinha ao lado emmoldurada em bandós. Apesar d'este acesso febril,
+fortalecida com o exemplo de D. Maria II, conserva-se ainda a boa dona
+de casa e o namoro faz-se sob resguardo, emquanto não a surpreende o
+néo-romantismo, na passagem do reinado de D. Pedro V para o de D. Luiz,
+e ella desata a soluçar e a tomar amor á tisica. O Passeio Publico
+colma-se de namoricos, e a mulher, que tão bem soube usar da sua graça e
+da sua seducção na vida portugueza de 1830 a 1860, vae-se diminuindo
+pouco a pouco a si propria e só nos ultimos vinte annos, dentro d'um
+rasgado desafogo, torna a fulgir pela illustração com que se cultiva,
+pelo gosto que se lhe apura, pela intelligencia que se lhe desenvolve.
+
+
+
+Tendo percorrido uma curva, por vezes extravagante, e acabando por
+investigar com desembaraço varios problemas psychologicos e por se
+integrar na vida social, apresenta-se-nos no seculo XX, ora ponto de
+interrogação, ora exclamação reveladora. Talvez não erre classificando a
+mulher de hoje--a mulher anciosa. É a anciedade o que a domina,
+anciedade de saber, anciedade de dirigir a sua vida, anciedade de
+inteira libertação, anciedade de attingir o ideal, que para si propria
+creou. E d'este conjuncto de aspirações resulta ser o nosso constante
+auxilio, a força da nossa força, a intelligencia da nossa intelligencia,
+o coração do nosso coração, o braço do nosso braço.
+
+Eternamente governada pelo sentimento, com a ternura que nenhuma outra
+possue, meiga, affectuosa e soffredora, arte viva pela harmonia da
+formosura, pela melodia da voz e pela doçura do trato, religião sublime
+pela elevação do espirito, onde repercute a dôr eterna e brilha a
+esperança immortal, poema dos sentidos, de todo o amor e de todas as
+crenças, rosario, flôr, sol e luar, breviario e epopeia, bella,
+resignada e casta,--ó mulher portugueza, pelas evoluções que tendes
+percorrido, vós fostes, sois e haveis de continuar a ser o viço do nosso
+olhar, o paladar da nossa bôca, a musica dos nossos ouvidos, o
+verdadeiro corpo da nossa alma e acima de tudo a raiz de toda a nossa
+poesia e o alento da nossa patria. Conduzi-a, pois, sem o minimo
+desfallecimento, sempre vigilante, sempre terna, esteio da nossa fé,
+estandarte dos nossos triumphos, cantico das nossas glorias!
+Mulher-arte, mulher-religião, com a vossa influencia, com a agudeza do
+vosso espirito e com a generosidade dos vossos sentimentos, espalhae o
+amor entre nós todos! Dos vossos olhos, dos vossos labios, dos vossos
+corações lançae jorros de amor, porque de muito amor é que precisa a
+nossa linda e querida terra e outra fonte não temos aonde o vamos beber.
+Filippa de Vilhena, para restaurar Portugal do jugo castelhano, armou os
+seus dois filhos com duas espadas, e vós, mulheres de hoje, se quereis
+restaurar a patria do jugo das inimizades e malquerenças, abri o vosso
+peito e armae com o vosso coração os vossos entes mais queridos.
+Elles ficarão sendo os abençoados cavalleiros da concordia e do
+amor, e Portugal inteiro ajoelhará a vossos pés, exclamando,
+commovido:--Bemdita, mil vezes bemdita, ó mulher portugueza!
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Mulher Portugueza, by Eduardo Shwalbach Lucci
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MULHER PORTUGUEZA ***
+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+works. See paragraph 1.E below.
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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