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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Transviado + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: July 1, 2008 [EBook #25945] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRANSVIADO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + + +<div class="centrado"><img src="images/capa.jpg" alt="capa do livro"></div> + +<br> + +<div class="centrado"> + +<p style="font-size: 200%;">ROMANCES ILLUSTRADOS</p> + +<p style="font-size: 120%; color: red;">JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p> + +<p style="font-size: 240%; color: red;">TRANSVIADO</p> + +<p style="color: red;">ROMANCE ILLUSTRADO +<br> +COM MAGNIFICAS GRAVURAS</p> + +<p style="color: red;">LISBOA</p> + +<p style="color: red;">EMPREZA EDITORA<br> +T. da Queimada, 35</p> +</div> + + + + +<h1>TRANSVIADO</h1> + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 140%;">JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p> + +<hr style=" width: 80%; height: 6px; border-top: solid 2px #000000;"> + +<p style="font-size: 220%;">TRANSVIADO</p> + +<hr style=" width: 30%;"> + +<p>Romance illustrado com magnificas gravuras</p> + +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<p>LISBOA +<br> +<span style="font-size: 120%;">EMPREZA EDITORA</span> +<br> +35—Travessa da Queimada—35 +<br> +1899</p> +</div> + + +<p style="margin: 20%; padding: 2em; border: solid 2px #888888; text-align: center;">EMPREZA EDITORA</p> +<span class="pagenum">[5]</span> + +<h4>A</h4> + +<h4>LUIZ DE MAGALHÃES</h4> + +<p style="margin: 2em;">Dedico-te este livro que é simultaneamente uma recordação +e uma promessa da nossa amizade. Nasceu da +vida commum do nosso espirito, da experiencia na aspera +e triste jornada pela terra que temos feito juntos e em +que caminharemos unidos até que o destino lhe ponha +termo.</p> +<span class="pagenum">[7]</span> +<div id="corpo"> + + + + +<h1>I</h1> + + +<p>Nos campos do Mondego, abaixo de Coimbra, +a primavera é frequentemente agreste +e fria. Quando o vento do mar sopra +rijo sobre os brancos lençoes de malmequeres +a surgir da terra humida e paludosa, +ainda farta das aguas do inverno, as +tardes são inclementes para o corpo ávido +do repouso e doçura da natureza.</p> + +<p>Este rapaz que além se apeou d'uma +carruagem, em frente da estação de S. Braz, +na estrada que vem dos lados de Albergaria, +atravessou a linha conchegando o gabão que o +vento desconcerta, e, mal entrado na gare, em que +só destaca uma carreta abandonada com poucos fardos, +procura onde se abrigue. Estamos todavia n'uma +tarde d'abril.</p> + +<p>O rapaz seguiu vagarosamente, ao longo da gare; +na porta em que leu «sala d'espera» abriu e entrou. A +um canto, sobre o duro banco de madeira, dormitava +um homem gordo, de lunetas, mãos nos bolsos e +chapéu derrubado para os olhos; ao lado uma mulher +<span class="pagenum">[8]</span> +esbelta e franzina, um olhar brilhante sob o véo que +lhe cobria o rosto. O homem levantou-se levemente +turbado, com modos submissos, e pareceu hesitar.</p> + +<p>—Eu agora... contra a luz..., não distinguia +bem. Perdoe v. ex.<sup>a</sup>! disse dirigindo-se ao recem-chegado.</p> + +<p>—Eu tambem, como vinha de fóra e a sala estava +um pouco escura, não o conheci á primeira vista. Foi +necessario reparar um pouco...</p> + +<p>—Então como tem passado v. ex.<sup>a</sup> depois da sua +jornada ao estrangeiro?... Será melhor sentar-nos, +acrescentou apressadamente o homem das lunetas +sem esperar resposta... V. ex.<sup>a</sup> tem aqui logar... +dizia affastando um cesto de morangos d'um sofá que +parecia mais commodo.</p> + +<p>—Muito obrigado, muito obrigado... Não se incommode... +Em qualquer sitio...</p> + +<p>E o rapaz ia a sentar-se quando o outro, abruptamente, +o obriga a aprumar-se apontando-lhe a mulher.</p> + +<p>—Minha mulher... o sr Claudio de Souza Portugal, +um cavalheiro muito illustrado e do meu maior +respeito!</p> + +<p>Trocaram-se as palavras sacramentaes e todos se +sentaram.</p> + +<p>—Que extravagante modo de vêr! começou Claudio. +Nas cidades, onde não faltam recursos, a <i>Companhia</i> +dá-nos uma sala de espera com certo conforto, +e aqui, n'este deserto, no meio d'um charco, reduz +todas as commodidades dos pobres passageiros a um +banco mal pintado e frequentado sabe Deus por +quem. Na Suissa chega a haver, nas estações que +estão nas circumstancias d'esta, uns pequenos quartos +em que se pernoita com agasalho e aceio. Aqui, +que barbarie!... Havemos de ser sempre assim; um +paiz de toiros ha-de ser forçosamente um paiz de +campinos. Tambem tem a sua belleza, é verdade; +<span class="pagenum">[9]</span> +mas, quando se tem frio, uma manta do Ribatejo e +duas taboas de pinho, confessemos, são pouco.</p> + +<p>E fitava a mulher, nervoso, contente com esta apparição +inesperada, captivo da sua graça.</p> + +<p>Ella respondia:—E v. ex.<sup>a</sup> bem o deve estranhar. +Segundo tenho ouvido, fez ha pouco uma linda viagem +pelo estrangeiro. Provavelmente, agora mesmo, +vae aproveitar a primavera em melhores terras.</p> + +<p>—Não, venho aqui apenas para vêr um meu amigo +que passa para Lisboa e volto já a Albergaria. +Não é sacrificio, para mim, viver ali. Em Paris, em +Vienna d'Austria, por toda essa Italia que é a melhor +galeria do mundo, no meio de riquezas artisticas +sem numero, nunca houve prazeres sufficientes +para me apagarem as saudades do meu paiz. Pelo +contrario, tinha horas d'uma tristeza prolongada. +Creio até que mais d'uma vez caí na fraqueza de +chorar. Porque, não sei bem; não eram saudades +com um objecto determinado, era uma dôr vaga mas +penetrante.</p> + +<p>Ella, sorrindo, replicou:—Bem diz o ditado que dá +Deus nozes a quem não tem dentes. Só eu aborreço +cordealmente a vida de provincia e estou condemnada +a soffrel-a. Já não queria Paris nem Vienna, com +Lisboa me contentava. Nem isso!... Não posso comprehender +o mundo sem muita gente. A Avenida e +S. Carlos e o Campo Grande e as praças e as ruas, +tudo isso é para mim encantador, e infinitamente +melhor que o pó e os tamancos da villa de Albergaria. +Eu sei que é de máu gosto não elogiar as bellezas +do campo, mas fui educada em Lisboa e hei-de +ser lisboeta até ao fim da vida. Não... Parece-me +sentir se o comboio. Até já, que nós tambem não +saimos, concluiu ella, erguendo-se, com visivel interesse +em continuar a palestra.</p> + +<p>O comboio entrava na gare e separaram-se, dirigindo +se cada um ás carruagens em que descobriam as +<span class="pagenum">[10]</span> +pessoas que procuravam. Depois, rapidamente, bateu +o signal da partida, a confusão de pregoeiros de jornaes +e de passageiros que corriam do restaurante +dissipou-se, e, novamente, na gare ficaram sós Claudio, +os seus interlocutores, e poucos empregados que +arrastadamente recolhiam da sua tarefa a dormitar +pelos armazens, entre as bagagens.</p> + +<p>Claudio approximou-se do par que momentos antes +tinha deixado e offereceu-lhe logar na sua carruagem +para regressarem juntos a Albergaria.</p> + +<p>—Não, muito obrigado, vamos incommodal-o. Temos +ali um carrito em que viémos.</p> + +<p>Instou; que a tarde estava horrorosa, que iriam +talvez um pouco mais agasalhados, que lhe davam o +maior prazer com a sua companhia.</p> + +<p>—A Emilia dirá, respondeu o homem de lunetas +voltando-se para a mulher.</p> + +<p>—Ah! por mim, acudiu ella muito alegremente, +acceito e agradeço; não sei desprezar tão boa fortuna. +Desculpe-me v. ex.<sup>a</sup> a franqueza... Conheço o +apenas ha uma hora e vou dispondo já das suas cousas +com uma familiaridade que póde induzil-o em +mau juizo...</p> + +<p>—Oh! pelo amor de Deus, minha senhora, não +diga mais, que blasphemias!... Muito prazer, fico +muito reconhecido a v. ex.<sup>as</sup>.</p> + +<p>Encaminharam-se, atravez da linha, para a carruagem, +que era um vasto <i>landau</i> tirado por dois +possantes cavallos, e Claudio sentou-se em frente de +Emilia e do marido.</p> + +<p>Apenas sairam da estação, a conversa reatou-se +no tom de banal animação em que a vimos começada. +Claudio ia inquieto, um pouco embriagado pela +belleza da mulher que tinha deante de si.</p> + +<p>Examinava-a á claridade d'este poente coado pela +leve neblina do norte; ha pouco, na escuridão da +sala, mal a tinha visto, só agora podia julgar inteiramente +<span class="pagenum">[11]</span> +da estranha seducção que logo ao primeiro +encontro o impressionára. Emilia era uma mulher +de feições quasi vulgares, magra, testa alta, rosto +oval com as faces ligeiramente angulosas, a bocca +grande, os labios delgados, o nariz secco e pronunciado; +mas uma mobilidade d'olhar, de gestos e de +sorrisos, desprendidos entre um collar de dentes +sem mancha, que enfeitiçava. Com excepção dos +olhos que eram soberbos de doçura e languidez, nem +uma só feição que merecesse a arte atteniense; +ainda assim, um poder d'attracção enebriante.</p> + +<p>Com esta superior espiritualidade contrastava a +grosseria do marido, trigueiro, quasi calvo, o olhar +embaciado, taciturno, todos os signaes de vida interior +apagados. Era escrivão de fazenda, chamava-se +Ricardo Dias d'Almeida, e na villa conheciam-n'o +pelo <i>Canadas</i>, porque a sua medida habitual, nas +noites d'alegria, era uma canada de vinho.</p> + +<p>A carruagem seguia vagarosamente, pesadamente, +a estrada desabrigada que ia ladeando os campos +despovoados; o crepusculo approximava-se e a conversação +corria sempre viva, sem repouso. Eram +Claudio e Emilia que sós a alimentavam, ella não +cessando de interrogal-o sobre as suas jornadas, elle +descrevendo e contando, ora relembrando as maravilhas +de luxo e de arte que tinha visto, ora referindo +incidentes alegres da vida nomada. Quando jornadeava +mais assiduamente, as paixões não tinham +fim, uma cada dia, quasi invariavelmente. No lago +de Como o amor fôra grande por uma sueca de cabellos +dourados e bocca pequenina, que passara uma +tarde com elle na villa Carlota, onde ha plantas exoticas +e esculpturas de Canova; mas nenhum como o +que tivera por uma ingleza com quem viajara seis +horas no Rheno, de Mayance a Colonia. Eram incendios +romanticos, labaredas ephemeras a que a sua +imaginação por momentos se entregava caprichosamente. +<span class="pagenum">[12]</span> +O que não pensou quando viu essa rapariga +ingleza?! Sonhava-a filha d'um lord que por ali, algures, +nas margens do rio, devia ter um castello para +descansar no estio. Via-a nas torres, roupagens brancas, +tranças ao vento e havia de raptal-a por uma +noite de luar montado n'um soberbo cavallo arabe, +veloz e nobre. Ao amanhecer andaria tudo em correrias +doidas pelo castello, o pae espumando vinganças, +os creados atonitos, chorando; e já longe, +em mysteriosos campos desconhecidos, o cavallo jazendo +extenuado e elle moribundo de fadiga e amor +a deixar-lhe nos labios o ultimo alento. Depois, ao +cair da noite, os pastores que o sepultavam na montanha +e os soluços da sua amada sobre o corpo hirto +e frio, e tarde, em tempos distantes, a scena ultima, +o perdão do pae e a solidão no convento.</p> + +<p>Emilia ouvia attenta esta indiscreta revelação +d'uma alma. Com breves perguntas provocava ou +novas confissões ou narrativas em que o espirito femenil +se deleita. E Paris? Devia ser deslumbrante +de luxo e de prazeres. E o <i>Bois</i> e a Opera e os Campos-Elysios +e as corridas em Longchamps? Vinham +então as descripções de soberbas equipagens e de +magnificos espectaculos. E diziam que agora era +uma sombra do passado! Um fidalgo francez, com +quem Claudio se relacionara, levou-o uma noite, depois +da opera, ao Tortoni, quasi deserto, só para lhe +mostrar logares que elle reputava celebres. Aqui se +sentara o duque de X..., aqui o marquez de Z... +Na rua a fila das carruagens não tinha fim. Então, +sim, então havia luxo em Paris, dizia o fidalgo. Tambem +passara quinze dias em Londres, na <i>season</i>, +admirara muito a solidez do luxo britannico e, estava +mesmo em dizer, o seu bom gosto, uma sobriedade +de linhas e de decoração que tocava o atticismo.</p> + +<p>—Mas tudo isso, concluia Claudio, não vale +<span class="pagenum">[13]</span> +aquelle cantinho, e apontou para fóra da carruagem, +atravez dos vidros.</p> + +<p>Era quasi noite e estavam em frente das azenhas +dos Casaes. Entre os troncos de choupos, as aguas +espumantes sarjando a terra e as madresilvas debruçadas +nos vallados, entre os vultos mal distinctos +que a obscuridade confundia e deformava, a porta +do moinho lançava um clarão e ao fundo via-se, em +volta da lareira, o moleiro, a mulher e os filhos, +abrigados do vento frio que corria no valle, sobre a +ribeira.</p> + +<p>—Que mau gosto! Perdoe-me a franqueza, respondeu +Emilia. É impossivel que o sinta, está a brincar. +Ou então, como já me percebeu a fraqueza, quer-me +ouvir.</p> + +<p>—Não, replicou Claudio, é a verdade. Se vivesse +um pouco commigo, havia de convencel-a. Estou +certo de que mudaria de sentimentos.</p> + +<p>Fez-se um breve silencio; e houve entre os dois +como uma commum necessidade de recolhimento intimo. +Elle pensava com mágoa quanto a concepção +vulgar da belleza estava longe do seu ideal, ella ficára +indecisa perante uma affirmação tão cathegorica, +porventura instinctivamente subjugada pelo poder +de insinuação de Claudio.</p> + +<p>—Nem v. ex.<sup>a</sup> imagina o que isto é, disse Ricardo +julgando de boa educação não deixar cair a conversa. +Tudo uma miseria! O que eu não sei é como esta +gente vive. Só no anno passado houve mais de cento +e cincoenta contribuições relaxadas. Isto na predial, +porque na industrial, com a lei nova, ninguem +paga.</p> + +<p>—É verdade, é, são pobrissimos, respondeu pacientemente +Claudio, mas a pobreza tambem tem as +suas alegrias e até a sua belleza.</p> + +<p>Nova pausa, novo silencio, o silencio proprio +do contacto de duas almas que se sentem em desharmonia +<span class="pagenum">[14]</span> +e que ao mesmo tempo se veem attrahidas +por mutua fascinação. O certo é que a conversa perdeu +todo o movimento e, entre desconnexas interrogações, +variando sempre de assumpto, assim chegaram +a casa do escrivão de fazenda.</p> + +<p>—E então até amanhã, por certo não falta em +casa do dr. Carvalho. Tem grande festa, disse Emilia.</p> + +<p>—Que remedio! São os annos d'elle e eu sou-lhe +tão obrigado...</p> + +<p>E no dia seguinte, emquanto Claudio se sentava +a uma mesa do whist, ouvia entre duas solteironas +o seguinte dialogo:</p> + +<p>—Já reparaste como a Emilia está hoje elegante?</p> + +<p>—É verdade, já vi. Está bonita. E é singular! +Ella que costuma cuidar tão pouco de si...</p> + +<p>Só Claudio podia suspeitar o segredo d'aquella +transformação. Via a com uma vaga, quasi inconsciente +impressão de triumpho e de vaidade satisfeita. +Nem sequer sonhava quantas batalhas lhe reservava +esta primeira gloria, tão tentadora como traiçoeira +na facilidade com que se deixava conquistar.</p> +<span class="pagenum">[15]</span> + + + + +<h1>II</h1> + + +<p>A estrada que partindo de Albergaria para o +nascente se interna nas serras, segue paralellamente +á ribeira que vem de Alcofa, +ao lado de campos ferteis, copiosamente banhados +pelas aguas da rega. O valle vae +apertando e, passado um estreito em que +os montes lateraes quasi se tocam, deixando +apenas uma apertada passagem para +o rio, a estrada bifurca-se; um dos ramos +segue para a esquerda entre montes desertos, +calcinados, de longe em longe marcados +por oliveiras solitarias, com a vegetação rachitica +dos terrenos calcareos que se esboroam em +pó fino e branco. A breve distancia, a encosta começa +a ser aspera, de todos os lados apparecem miserrimos +campos fechados por muros de pedra solta; +acima, n'uma quebrada, avistam-se os telhados da +aldeia entre bastas ameixieiras e o olivedo já mais +viçoso do que o deixamos em baixo. No latido dos +cães e no cantar do gallo sentem-se uns prenuncios +<span class="pagenum">[16]</span> +de vida, signaes de habitação humana com os seus +guardas, as suas provisões e os seus pomares.</p> + +<p>Essa aldeia é Villalva, um montão de casebres +cortados de caminhos cheios de matto, de tojo, de +urze e de carrasco, degráus informes dando accesso +a casitas negras de fumo, cortelhos de magros +porcos fossando na estrumeira. Á entrada, uma casa +caiada, com tres pequenas janellas, uma escada ao +lado, acompanhando a encosta, por detraz os curraes +formando pateo; e por baixo, pelas frestas vedadas +com um varão de ferro, espreitam palhas soltas e os +cestos da vindima, advinha se o celleiro, a adega e +o palheiro. Fôra ali, n'aquella aldeia e n'aquella +casa, que nascera Claudio.</p> + +<p>Os paes eram lavradores, tinham bons campos na +varzêa, um vasto pinhal no Bunheiro, e bastas courellas +dessiminadas nos montes onde colhiam o centeio, +o vinho e o azeite. Os filhos foram poucos; dois +morreram novos, n'uma epidemia de variola, uma +filha, a mais velha, casara cedo com um lavrador da +Alumieira, a poucos kilometros d'ali, e Claudio ficára +só em casa, desde os sete annos.</p> + +<p>Um tio que se ordenára e era abbade n'uma freguezia +do Minho queria que elle fosse padre; escrevia +ao irmão lembrando-lhe que era tempo de +mandar o rapaz á escola, se queriam fazer d'elle +alguma cousa, que pela sua parte estava prompto +a ajudal-o, como elle bem o sabia, e que emfim +não tinha outros parentes e o pouco que possuia +havia de deixal-o aos seus. Precisava mesmo de +tratar das suas ultimas disposições; já no inverno +passado a gotta o tinha tido preso em casa +mais de dois mezes e sentia-se muito fraco.</p> + +<p>O pae hesitava. Era um homem austero que tinha +feito da vida uma tarefa de trabalho. A pé desde o +romper do dia, ao lado do unico creado que tinha, vigiando +tudo, adeante do gado pelos ingremes atalhos +<span class="pagenum">[17]</span> +da serra, nas veigas, em noites de estio, com agua até +ao artelho, guiando as regas pelos milharaes, curvado, +ceifando, sob o sol ardente, o seu corpo não tinha +repouso. Pouco fallava; a mulher e os filhos respeitavam-n'o +mas temiam-n'o, conheciam as suas +duras reprimendas, se o creado tardou a fazer a cama +ao gado, se a enxada ficou no campo e o milho mal +coberto na eira.</p> + +<p>Era para aquillo que ensinava o filho; muitos louvores +déra a Deus quando elle nasceu por ter quem +o ajudasse e continuasse o amanho do seu casal. +Para que fazel-o padre? Tinha ali com que viver. +Mas o Veiga, que fôra recebedor lá na terra em que +estava o irmão e que o tratava como cliente abastado, +tinha-lhe dito, quando elle foi pagar a decima, +que o irmão estava muito rico. Era um unhas de +fome, não gastava um real, sempre de tamancos, +com meias de lã no inverno, e de verão nem meias +trazia. Tudo para poupar!</p> + +<p>E já outros lhe tinham dito a mesma cousa. Ao +certo nada sabia, que o padre nunca lhe disséra +quanto tinha; receiava que lhe pedissem alguma +cousa. Só quando foi pelo casamento da sobrinha lhe +mandou uma peça em ouro.</p> + +<p>Seria tudo isso verdade? Tambem não queria privar +o rapaz d'uma fortuna. Toda a vida tinha trabalhado +para os filhos; se agora podia deixal-os ricos, +era sua obrigação fazer deligencias para isso.</p> + +<p>Entretanto Claudio frequentava a escola e, graças +ás hesitações do pae sobre o seu destino, não lhe +davam na lavoura serviço pesado; cuidava dos bois, +se o creado trabalhava longe de casa, levava o jantar +aos trabalhadores, se os havia de fóra, andava á +tarde na apanha da azeitona. Era uma creança nutrida +e forte, pacifica, as faces rosadas, cabellos e +olhos castanhos, uma certa mansidão no olhar; parecia-se +muito com a mãe que fôra sempre um modelo +<span class="pagenum">[18]</span> +de paciencia. Aprendia mal, continuamente distraido, +e associava-se pouco aos companheiros da +escola; ao peão na barra, nas brigas e nas corridas +ficava sempre vencido. O seu maior prazer estava +n'um cantinho do quintal onde plantava flores que a +mãe lhe pedia para pôr n'um vaso, no oratorio, aos +pés d'um crucifixo. Vagueava pelo pateo, ora examinando +os bois, ora afagando o cão, ora debruçado no +muro a vêr as gallinhas que na rua apascentavam as +ninhadas. O pae tinha-o em pouca conta.</p> + +<p>—Nunca ha-de ser nada com aquella preguiça; +comer, dormir e passeiar. O que elle quer é andar de +mãos nos bolsos. Está mesmo bom para abbade.</p> + +<p>—Ora deixa lá, respondia a mãe, Deus sabe o que +elle será.</p> + +<p>Essa sim, essa tivéra sempre grande inclinação +para o filho, e muito mais agora que a rapariga se +tinha casado e ficára só com elle. Ensinava-o a rezar, +toda a doutrina christã, e repetia-lhe muito os +mandamentos da lei de Deus e as bemaventuranças.</p> + +<p>Bemaventurados os pobres d'espirito, e os que são +mansos, e os que choram, e os misericordiosos, e os +pacificos; é para elles o reino dos céos. Pintava-lhe +as penas do inferno para os máus e a presença de +Deus, na companhia dos anjos, para os bons. A +creança não se cansava de interrogar. Como seria? +Pelo seu espirito passavam sombras de terror quando +o julgavam e lhe diziam:</p> + +<p>—Isso é peccado.</p> + +<p>Temia o inferno. Penas eternas! em lá caindo, era +para sempre.</p> + +<p>Os mendigos vinham á porta da cosinha, andrajosos, +esfarrapados, calcando o matto fôfo e humido +com o bordão a que tremulos se arrimavam. A mãe, +para animar o filho na caridade, mandava-lhes por +elle um pedaço de brôa.</p> +<span class="pagenum">[19]</span> + +<p>—Seja pelo divino amor de Deus. Por alma de +quem lá tem: Padre nosso que estaes nos céos...</p> + +<p>O pequenito ouvia silencioso. Era bom; Deus ouvia +tambem os mendigos e perdoava os peccados +aos que tinham morrido e estavam nas penas do purgatorio.</p> + +<p>Era preciso, dizia-lhe a mãe, rezar muito, e por +muito que se rezasse nunca era o bastante para alcançar +o perdão de todos os peccados; ficava-se +sempre em divida. Scismava n'este mysterio.</p> + +<p>A isto se reduzia a educação de Claudio, ás singelas +lições do exemplo e aos piedosos conselhos da +mãe quando á noite, findo o trabalho, emquanto não +chegava a hora da ceia, se sentava com elle no chão, +sobre a esteira, ao canto da sala, proximo do oratorio.</p> + +<p>Decorreram dois annos n'este abandono. Ao fim, +em agosto, veiu uma nova carta do Minho, decisiva. +O abbade voltava a insistir na educação do sobrinho; +as despezas eram por sua conta. Não se prendessem +com isso. O seu amigo padre Netto ia passar as ferias +ao Carregal, não tinham mais do que entregar-lhe +o rapaz no primeiro de outubro, viria com elle +para o collegio. Depois o abbade olharia pelos estudos.</p> + +<p>O pae d'esta vez não hesitou. A carta era tão terminante +que não podia deixar de fazer a vontade ao +irmão sem o risco de perder toda a herança para os +filhos. Sem demora, com a sua habitual firmeza, tratou +do enxoval. Um dia, pela madrugada, metteu algum +dinheiro no bolso e foi com a mulher e com o +filho a Albergaria. Ahi tomaram a deligencia e seguiram +para Coimbra. Por lá andaram algumas horas, +de loja em loja, desconfiados dos preços, abrazados +de calor, regateando e comprando os pannos, +o chapeu, os sapatos, a gravata e a caixa de folha +que havia de ser dentro de dois mezes a magra bagagem +<span class="pagenum">[20]</span> +do bisonho estudante. Á tarde voltaram a +Villalva.</p> + +<p>Veio a costureira e o alfaiate. Queria-se tudo largo, +muito largo, senão, elle era um latagão, d'aqui +a pouco nada lhe servia, era um desperdicio. N'esse +canto da sala, sobre a esteira, entre a janella e o +oratorio, ali onde á tarde Claudio recebia as piedosas +lições da mãe, o chão semeou se de linhas e de +farrapos, de pedaços de panno orlados de grandes +alinhavos, entre elles a pregadeira e a thesoura postas +a um lado. Ia n'aquella casa, tão tranquilla, um +bulicio desusado; a costureira cantava, rasgavam-se +asperamente as peças de bretanha, e a mesa animava-se +com o novo conviva, a rapariga que tagarellara +todo o jantar, contando o que ia na villa e o muito +que brincara quando fôra a Balmaes, á Senhora da +Saude. Tinham andado toda a noite a dançar no jardim +do sr. Cunha, um fidalgo que lhes mandara dar +pão dôce e licores.</p> + +<p>Claudio estava contente, tudo aquillo era para elle; +a singela vaidade infantil alegrava-se com as parcas +riquezas que aos seus olhos tamanhas pareciam.</p> + +<p>O movimento foi baixando, as camisas juntaram-se +dobradas sobre uma cadeira, a costureira não +voltou, varreu-se a sala e o pequeno casal de Villalva +caiu no seu habitual silencio.</p> + +<p>O pequenito sentiu então o primeiro travo da +saudade. Ia partir. Para onde? Os mestres eram tão +maus... E os bois? e o seu cão? e as suas flôres? +Iam talvez seccar. Só se fosse a mãe que as regasse +para as pôr a Nosso Senhor. Já lh'o pedira e ella +tinha-lh'o promettido.</p> + +<p>O padre Netto mandara dizer que o rapaz devia estar +no primeiro d'outubro, ás tres horas da madrugada, +na estação do caminho de ferro, em Coimbra, +para seguir com elle. Precisavam sair de Villalva á +meia noite.</p> +<span class="pagenum">[21]</span> + +<p>Depois da ceia começou a fazer-se a mala. Já estava +tudo na sala, faltava arrumar a caixa. Claudio +assistia e ajudava, allumiando com o candieiro na +mão e ouvindo as recommendações da mãe. Iam duas +andainas de roupa, mas a preta era só para os domingos, +para ir á egreja, a alguma festa, ou para +quando o sr. director mandasse; que visse bem, não +se perdesse alguma coisa, tudo aquillo tinha custado +muito dinheiro. Iam tambem uns sapatos pretos, só +para trazer com a roupa melhor, não fosse estragal-os +na brincadeira. Juntou-lhes ainda um rosario de +contas de vidro branco e verde enfiadas n'um cordão +vermelho, não se esquecesse de o resar todas as +noites a Nossa Senhora, por alma dos avós e para +que ella o ajudasse em todas as afflicções da sua vida +e o defendesse das tentações do mundo.</p> + +<p>A creança ouvia, promettendo fazer o que a mãe +lhe ia pedindo. Cerca das onze horas, como já passasse +muito da hora a que habitualmente se deitava, encostou-se +sobre duas cadeiras e adormeceu, com a cabeça +repousada sobre o braço. A noite começava a arrefecer. +A mãe foi buscar um chale, abriu-o, afastou-lhe +o braço e d'um casaco velho fez um travesseiro +em que lhe pousou a cabeça. O pae estava dormindo +na cosinha, não quizera deitar-se na cama; não valia +a pena por tão pouco. E, n'este silencio que a fadiga +trouxera, a mãe ficou só, velando, ajoelhada em oração +perante o Christo, a rogar-lhe fervorosamente +protecção para o filho.</p> + +<p>Ao bater da meia noite foi accordar o marido, +o filho e o creado que dormia em baixo, no palheiro.</p> + +<p>As despedidas foram breves que nem o marido +gostava de expansões nem o pequeno Claudio, tonto +de somno, podia dar-lhes grande attenção.</p> + +<p>A mãe acompanhou-os até á porta e logo os viu +perderem-se na confusão da neblina mal illuminada +pelo luar, ladeira abaixo, o pequenito pela mão do +<span class="pagenum">[22]</span> +pae, atraz o creado, varapau ao hombro e sobre elle +a caixa de folha, vibrando estridula e compassada. Ao +fundo estava o carro. Claudio, mal elle partiu, adormeceu +novamente. E assim foi, moido da jornada, +accordando só por breves minutos se o chamavam, +até ás alturas de Espinho.</p> + +<p>Quando ali chegou, era madrugada; cedendo ao +habito despertou. Onde estava? Que era feito dos +doces ruidos de Villalva, da voz do pae marcando +trabalho ao creado, dos passos da mãe na cosinha, +abrindo a arca para levar o milho á creação? Tinha +saudades, as lagrimas marejavam-lhe nos olhos, mas +a novidade da payzagem e a vertigem do movimento +distraiam-n'o e moderavam esta hora de angustia.</p> + +<p>Estava ao pé do mar. Não o surprehendia, já o tinha +visto na Figueira, quando lá fôra em romaria +com a irmã, pelo S. João, no anno em que ella se +casou; atraia-o esta vastidão inquieta que Deus creára +e em que admirava o seu poder. Apearam-se em +Villa Nova de Gaya e causou-lhe grande estranheza +a ponte pensil; mas vira e não comprehendia como +tinham lançado aquellas cordas de ferro, d'um ao +outro lado do rio. As ruas e as praças do Porto pouco +o impressionaram; eram semelhantes ao que havia +em Coimbra, na Calçada, na Portagem e na feira +de S. Bartholomeu. O padre Netto mostrava-lhe as +estatuas, D. Pedro IV, D. Pedro V. Sabia quem +eram? O mestre escola fallava d'elles, lá em Albergaria, +mas era para os mais adiantados. D'uma só +cousa os seus olhos não podiam desprender-se, cheios +de pasmo e curiosidade: os bois. Estranhava-os muito, +com os seus grandes cornos, em lyra, e as mãos +tortas, quasi aleijadas, deformadas pelo trabalho violento +na calçada. Eram feios; os d'elle eram mais bonitos, +cornos curtos, pernaltos, aprumados e nédios.</p> + +<p>Ao collegio devia chegar á noite, depois de cinco +<span class="pagenum">[23]</span> +horas de carruagem. Iam continuar os aspectos novos +que tanto captivavam a sua curiosidade de creança: +Rio Tinto e os seus teares sem conta,—em Albergaria +havia só um,—Vallongo e as pedreiras de +lousa, e as vides a trepar pelas arvores e os valles +estreitos e humidos com os seus altos milharaes. +Oliveiras não havia. Com que se alumiavam? perguntava +ao padre. O azeite vem de fóra, respondia. +E aquillo o que é? dizia apontando uma construcção +desconhecida, sobre quatro pilares de granito. É um +espigueiro; guardam ali as espigas do milho até ficarem +bem seccas e só depois é que o malham. +Assim passou toda a tarde, interrogando, vendo, +observando tudo o que se prendia com os seus habitos +e com a propensão natural do seu espirito. O padre +ia-lhe respondendo. Era um homem paciente e +bom, muito habituado a creanças, sabendo conquistal-as.</p> + +<p>Os primeiros dias do collegio foram maus, pouco +de molde a apagar as saudades que Claudio tinha da +casa. Os companheiros escarneciam-n'o ao vêl-o nos +seus enormes sapatos, a roupa nova, angulosa e hirta, +d'uma vastidão desproporcionada. Perguntaram-lhe +quem era o pae.</p> + +<p>—Meu pae, respondeu vaidoso, é o thesoureiro da +junta de parochia.</p> + +<p>Começaram a chamar-lhe o thesoureiro e Claudio, +timido, vexado, sentiu-se só entre aquella multidão +desconhecida. O isolamento em que vivera em Villalva, +os aturados conselhos da mãe, ensinando-o cedo +a distinguir entre o bem e o mal, o exemplo da +austeridade do pae, mataram á nascença na sua alma +todo o germen de expansão e de lucta, quebraram +todas as forças animaes e deixaram o terreno varrido +para n'elle se alastrar a dolorosa consciencia da +obrigação.</p> + +<p>Mandavam-n'o ali estudar; era preciso voltar a +<span class="pagenum">[24]</span> +Villalva, exames feitos, coberto de louvores, sem +uma falta. Temia a severidade do pae e temia ainda +mais as lagrimas da mãe. O espirito da creança concentrou-se +na sua tarefa; os mestres viram com admiração +o estudo e a intelligencia do novo discipulo +que vinha com fama de aprender mal.</p> + +<p>O abbade, o tio, immundo e gordo, arfando de +cansaço, vinha vêl-o algumas vezes e pagar as mezadas. +Pouco fallava ao sobrinho.—Que era preciso +estudar, eram as suas palavras quasi invariaveis. +Pelo director sabia que ia bem e, como não tinha +que reprehender, pouco fallava, porque, na sua opinião +e na aridez do seu coração de celibatario, era +preciso chamal-os ao respeito, não dar confiança a +esses fedelhos.</p> + +<p>Aos sabbados havia lição de doutrina christã. A +primeira vez que Claudio foi interrogado, foi para +elle um triumpho. Sabia tudo: os mandamentos da +lei de Deus, os mandamentos da egreja, as bemaventuranças, +as obras de misericordia, os peccados mortaes, +tudo, tudo, até os inimigos da alma. Os camaradas +ouviram-n'o com espanto e elle sentiu-se victorioso +e contente. Havia de o contar á mãe; era +uma boa nova a levar-lhe quando fosse a férias.</p> + +<p>Um dia o padre Netto espraiou-se mais que de costume +na lição; foi até fallar do inferno, dizendo que +os doutores da Egreja ignoravam se era um logar em +que se soffriam todos os tormentos e dores que o corpo +póde soffrer, se um estado em que a alma andava errante, +em continua agonia. Estranha revelação para +Claudio, esta que para os seus camaradas passára incomprehendida! +Ficou scismando. Vagamente percebia um +céo e um inferno differentes d'aquelles com que +a mãe o embalára. O theologo mostrava-lhe a dupla +natureza do seu ser, sentia uma alma feliz ou torturada, +mas inteiramente apartada do corpo. No seu +<span class="pagenum">[25]</span> +espirito accumulavam-se os germens de meditação +sobre a consciencia e o destino humano.</p> + +<p>N'este mesmo anno levaram-n'o pela primeira vez +á confissão. Foi um dia, que ficou memoravel na sua +lembrança, assim como a inquietação que o precedeu. +Quaes eram os seus peccados? Quantas pragas +rogára? Tinha deixado alguma vez de estudar as lições +por preguiça? Queria mal a alguem, aos professores +ou aos camaradas? As duvidas traziam-n'o +em sobresalto, porque era preciso dizer tudo para +que a confissão fosse bem feita. Era preciso dizer +tudo, e com sincero arrependimento e proposito de +emenda.</p> + +<p>Além d'isso,—suprema duvida,—era preciso arrepender-se +pelo amor de Deus e não pelo temor +das penas do inferno. Era realmente assim? Por esforço +da vontade procurava obedecer ao amor de +Deus, mas a sua consciencia infantil não podia alcançal-o. +O temor do inferno predominava.</p> + +<p>Fosse como fosse, o essencial era fazer a confissão +completa e elle ia dizer todos os peccados de que se +lembrasse.</p> + +<p>O collegio ficava n'uma encosta; a egreja no +valle, sobre a ribeira que o cortava. Descia-se rapidamente +e seguia-se depois pelo valle acima, n'um +caminho quasi plano, de grande lagedo de granito, +orlado de carvalhos enfeitados de videiras; ao fim, +um pequeno adro, a egreja e junto d'ella o cemiterio.</p> + +<p>Ao romper do sol, o prefeito fez sair todos os +que se iam confessar. Manhã de primavera, orvalhada, +fresca, viçosa nos renovos do arvoredo; e Claudio +opprimido, concentrado nas suas duvidas, sentia +pela primeira vez bem nitidamente o divorcio entre +a alma inquieta e a impassibilidade sorridente da +natureza.</p> + +<p>Com que delicia beberia o ar de manhã! Mas +<span class="pagenum">[26]</span> +um demonio interior o suffocava. Começava a aprender +o que era a vida humana.</p> + +<p>Entraram na egreja, indo ajoelhar no altar do +Santissimo; depois, levantaram-se e o prefeito mandou-os +sentar n'um banco que ficava por baixo do +pulpito.</p> + +<p>O confessor era um só, o parocho. Um a um +foram chamados os confessandos que, á maneira +que voltavam, ajoelhavam rezando a penitencia. Claudio +foi o ultimo. Rezou a confissão embaraçado e +tremulo, mãos postas, cabeça curvada, os olhos fitos +nos pés do confessor.</p> + +<p>Começaram as perguntas, a seguir pelos mandamentos +da lei de Deus e depois pelos mandamentos +da egreja. A quantos tinha faltado? Mentia? Ah! +n'este ponto tinha um peccado que fôra o seu primeiro +grande remorso.</p> + +<p>Um dia, um domingo, tinha chovido de manhã, e +de tarde o prefeito mandou-os vestir para sairem; +estava uma tarde calma, o ar carregado, os caminhos +cobertos de lama. Claudio vestiu o fato preto e +calçou os sapatos novos para se mostrar aos companheiros +em trajos ricos.</p> + +<p>—Para que anda o menino a estragar esse fato? +perguntou o prefeito.</p> + +<p>—Tinha frio, respondeu Claudio.</p> + +<p>Mentira; não era frio, era vaidade. O remorso ia +ficar-lhe de lembrança. Para o futuro seria mais corajoso.</p> + +<p>O padre, um velhito, magro e bondoso, vendo o +mundo já da beira do tumulo, sorriu com sympathia +á pureza da creança, não quiz ouvir mais, mandou-lhe +dizer o acto de contricção e absolveu-o.</p> + +<p>A natureza sorria tambem nos gorgeios das aves +que esvoaçavam fóra, no cemiterio, e nos suaves +raios do sol da manhã que pela estreita fresta da +sachristia alumiavam docemente a pobreza dos gavetões +<span class="pagenum">[27]</span> +carcomidos em que o padre guardava o calice, +a alva e as vestes.</p> + +<p>Claudio veiu ouvir a missa e saiu da egreja contente. +Sentia-se bem, a consciencia e a virtude tinham +vencido todas as duvidas; pela primeira vez +experimentava a grandeza d'um dramatico triumpho +intimo.</p> + +<p>Com excepção d'estes breves incidentes, que jámais +se apagariam da sua memoria, a vida do collegio +foi para elle monotona e triste; timido no recreio, +vivendo pouco intimamente com os companheiros, +todo se entregava ao estudo. Os mestres estimavam-n'o. +Um d'elles ficára pasmado do modo porque Claudio +lêra um longo trecho de Garrett contando a pobreza +de Camões. Não se conteve que não exclamasse:</p> + +<p>—Muito bem! Torna a lêr para estes meninos ouvirem. +Impressionava-o a emoção com que a creança +lia e que provinha d'uma penetrante comprehensão +das dôres que o poeta cantava.</p> + +<p>No fim do anno eram os exames, em Braga, onde +os pobres rapazes iam arrebanhados, pallidos, enfermos +de desconforto, afflicções e receios. D'ahi +dispersavam em férias, cada um para a sua aldeia.</p> + +<p>Claudio veiu em companhia do padre Netto que +em Coimbra o entregou ao pae a quem chamou de +parte para lhe dar informações do filho. Ia muito +bem; muito applicado e muito socegado; fizera só +instrucção primaria e portuguez, mas no anno seguinte +devia fazer exame de francez, de desenho e +até talvez de geometria. O abbade estava satisfeito; +já lhe tinha dito que se o rapaz assim continuasse, +o melhor era mandal o para a Universidade. Sempre +era outra cousa, outra posição, para que servia ser +padre sabia-o elle, por mal dos seus peccados. Isto +tudo aqui para nós, concluia; não se lhe póde dizer +<span class="pagenum">[28]</span> +nada. Se a gente vae a gabal-os, fazem-se tolos e +ninguem os atura.</p> + +<p>O pae levou Claudio para Villalva. No caminho +desceu um pouco da sua habitual frieza, perguntando +ao filho o que fazia no collegio, se gostava +d'isto, se não gostava d'aquillo, quantos eram os +mestres e se lhe tinham dado muitas palmatoadas. +Começava a respeital-o; o que o padre dissera, incendiava-o +em ambições. Formado e com a fortuna +do tio, a advogar, mandaria em Albergaria; via-o +já presidente da camara, talvez deputado. O filho +do Antonio Simões, de Barreiros, não era mais do que +elle e estava em Lisboa nas côrtes, um fidalgo. Pois +algumas vezes lhe tinha emprestado ás tres e quatro +moedas para mandar a mezada ao rapaz! Agora era +elle que mandava dinheiro ao pae; ainda ha poucos +dias déra mais de sessenta moedas pelo Cerrado de +Baixo, na Cruz das Almas.</p> + +<p>Os primeiros dias de férias passados em Villalva +foram uma festa para Claudio. Veiu a irmã e ella +juntamente com a mãe, ambas contentes e orgulhosas, +pedia-lhe a narração do que se passava no collegio, +como era a jornada, os exames, o Porto, a cidade +de Braga e o Bom Jesus do Monte. Quem lhes +dera poder ir lá! Claudio, por seu lado, sentia uma +nova atmosphera; ainda ha um anno esquecido, quasi +abandonado, via-se agora cercado de attenções que +eram novas para elle. Convertera-se n'uma esperança +de riqueza e de poderio, lisongeava a ambição +do pae, a vaidade da irmã e a piedade da mãe que +tudo attribuia ás suas orações, ás esmolas que dava +e á recompensa divina. O filho ouvia-a; com ella +cria tambem que toda a sua sorte vinha da vontade +de Deus, mas a edade e a alegria de voltar ao seu +casal não o deixavam prender-se muito a esses pensamentos. +Os seus cuidados eram a admiração das +flôres que deixára plantadas, os gados, os campos e +<span class="pagenum">[29]</span> +as colheitas. A sua vida consubstanciara-se cedo +com a d'esse mundo natural que era o companheiro +inseparavel da sua alma e do seu corpo.</p> + +<p>Uma tarde, em setembro, a mãe começou a sentir +uma pequena dôr no ventre. Foi continuando no trabalho, +arrumando a cosinha e preparando a ceia, +mas as dores repetiam-se cada vez mais frequentes +e agudas; seguiam-se uns ligeiros suores e, depois +d'uns instantes de abatimento, parecia-lhe que ia +adormecer, concebia uma vaga esperança de cura. +Eram simples remitencias; o mal estava apenas incipiente. +N'uma crise, a mais violenta, chamou o filho:</p> + +<p>—Claudio, estou muito mal. Tenho uma dôr aqui, +e punha a mão sobre o ventre. Valha-me Nossa Senhora! +Se eu désse um passeio, talvez me passasse.</p> + +<p>Foram para o quintal e lá se arrastou pelo carreiro +junto ao muro. Poucos passos deu. A dôr voltava, +ella encostada ás arvores esperava que abrandasse +para dar alguns passos. Por fim, não poude mais; +veiu para a sua alcova. Era quasi noite e o marido +recolhia.</p> + +<p>—Não te quiz mandar chamar, disse-lhe, para +te não tirar do trabalho... Ha duas horas que +não páro... Não sei o que isto é... E torcia-se +angustiada, os olhos cavados, as faces desfiguradas.</p> + +<p>Mandaram chamar o medico.</p> + +<p>—Era melhor chamar o padre, dizia ella; e a Maria, +a filha. Mas não... a esta hora... coitada... ficam +lá os pequenitos sós... ai! meu Deus... eu morro... +morro... Estorcia-se, desgrenhada, os olhos +em alvo, os braços nús, punhos cerrados.</p> + +<p>Veiu o medico e receitou. Emquanto o creado corria +á botica, preparavam um banho. Tudo faltava, +agua e banheira. A confusão era extrema; a dôr não +<span class="pagenum">[30]</span> +abrandava. Só cerca das dez horas chegaram os primeiros +medicamentos.</p> + +<p>Bateram onze horas. O mal não declinava. O pae +de Claudio estava aterrado.</p> + +<p>—Isto não melhora, dizia para o medico, fitando-o +com olhos interrogadores e anciosos.</p> + +<p>—Espere, espere... por emquanto ainda não é +tarde. Então?! Não me esteja a desanimar. Parece +que nunca viu ninguem com uma colica. Pois olhe +que eu não tenho visto poucas e até hoje, graças a +Deus, ainda nenhum doente me morreu d'isso.</p> + +<p>Claudio fugira para longe; chorava mas não queria +que o vissem chorar, temia o pae que por +certo não deixaria de o reprehender pelas suas pieguices, +como elle lhe chamava. Queria rezar. O oratorio +era na sala e estava lá o medico. Abriu a porta +de mansinho, atravessou o pateo e, seguindo o carreiro +onde á tarde estivera com a mãe, foi ajoelhar-se +lá no extremo, debaixo d'uma oliveira. A noite estava +serena: o luar cobria os montes de que vinham +as exhalações quentes que succedem ás calmas do +estio. Ajoelhado, de mãos postas, fitando os astros, +via a face da Virgem, sentada no seu throno de gloria, +entre nuvens douradas. Orava e ella via-o:—Ave +Maria, cheia de graça... Respondia-lhe um olhar de +doçura e esperança. Quando voltou a casa, finda a +oração, a mãe dormia extenuada e pallida.</p> + +<div class="centrado"><img src="images/001.jpg" alt="Foi ajoelhar-se lá no extremo debaixo d'uma oliveira."></div> + +<p>Accordou á uma hora da noite. Ainda ali estava o +medico.</p> + +<p>—Então?! Está melhor? perguntou-lhe.</p> + +<p>—Agora estou bem, graças a Deus. Muito cansada.</p> + +<p>A fé de Claudio tinha n'este momento confirmação +plena; no seu coração estavam lançadas sementes +que o tempo podia transformar, mas nunca anniquilar.</p> + +<p>Estes dois mezes de férias em Villalva foram para +<span class="pagenum">[31]</span> +Claudio um começo de revelação consciente da felicidade +d'aquelles logares. Ao chegar a noite da +partida, não poude, como da primeira vez, vêr distrahidamente +os cuidados da mãe e adormecer; foi +uma noite de lagrimas e de saudade confessada. Ainda +tres dias depois, no collegio, a um canto da sala +de estudo, tinha uma nova crise de lagrimas. Um +dos mestres passou n'esse momento. Vendo-o a chorar +e adivinhando o que se passava no espirito da +creança, disse-lhe compassivamente:</p> + +<p>—Deixe os livros, deixe os livros, vá brincar.</p> + +<p>As saudades não turvavam porém a applicação do +collegial. Pelo contrario, o desejo de voltar a Villalva +triumphante, como no primeiro anno, a alegria +dos paes e os carinhos que d'ahi vinham e de que a +sua alma era tão avida, constituiam uma ambição +sempre presente á sua lembrança e que o mantinha +invariavelmente no mesmo caminho. Durante seis +annos, que tantos foram os que consumiu n'estes estudos +preparatorios, a sua vida manteve-se n'uma linha +ininterrupta de respeito, de obediencia, de concentração, +d'estudo e de fé. Se lhe fosse possivel +fazer parar ali o desenvolvimento do seu espirito, teria +ficado um alto exemplo de caracter e de firmeza. +Mas outros destinos e outras amarguras lhe estavam +reservados.</p> + +<p>Aos desesseis annos matriculou-se na Universidade. +O pae queria vel-o advogado; Claudio, como de +costume, ia fazer-lhe a vontade.</p> + +<p>A entrada na Universidade não desvanecia, antes +accentuava, os caracteres da sua alma anteriormente +adquiridos. Semelhantemente ao que lhe acontecera +quando entrou no collegio, sentia-se por timidez +e por natural pendor alheio a esta turba multa que o +rodeiava, alegre, buliçosa, fremente de actividade +e de pujança; a primeira e a nova situação eram rigorosamente +parallelas, áparte um estado de consciencia +<span class="pagenum">[32]</span> +agora mais determinado e em breve na sua +plenitude. O mundo era para Claudio uma obrigação +pesada e instante: alegrias, expansões sadias do naturalismo +juvenil, tudo devia ser pautado e regrado +pelo dever immanente. Desgraçado! Mal sabia elle a +que abysmo corria.</p> + +<p>No inverno immediato á sua entrada na Universidade, +deu-se um acontecimento que havia de ter na +sua vida as mais profundas consequencias. Morreu o +abbade e instituiu-o universal herdeiro.</p> + +<p>Deixava a quinta da Nogueira, propriedade afamada, +inscripções e numerosas dividas activas, ao todo +uns bons quarenta contos de réis, conforme o pae de +Claudio lhe mandou dizer. Fôra elle que cuidára do +inventario e liquidação da herança, visto que o filho +era menor ainda, mas contrariado porque, dizia, estava +habituado a cuidar os seus bens, não sabia +cuidar de bens alheios, nunca fôra procurador. No +fundo, não podia fugir a um vago ciume e inveja por +se sentir, por aquelle lado, em grande inferioridade +relativamente ao filho. Demais, sempre esperára que +o irmão, embora muito inclinado ao sobrinho, o deixasse +ao menos usufructuario; não podia tolerar sem +tentações de revolta esta condição d'um subordinado +que sabia que em breve seria independente de qualquer +auctoridade. Por isso, quando Claudio veio passar +o natal a Villalva, o pae, que desde a morte do +tio nunca mais o vira porque evitava a occasião de o +encontrar, addiando um momento que lhe era desagradavel, +disse-lhe seccamente:</p> + +<p>—Teu tio deixou-te tudo. Ora tu tens dezesseis +annos e a lei dá-me o direito de administrar o que é +teu até á tua maioridade; mas a minha tenção é emancipar-te +aos dezoito annos. Se queres, toma já conta +do que é teu; para mim é um descanço. Sabes muito +bem o que tens a fazer, já não és nenhuma creança.</p> +<span class="pagenum">[33]</span> + +<p>Vingava-se, desprezando o que a fortuna lhe negára.</p> + +<p>Não o comprehendeu assim Claudio, na sua simplicidade; +tomando por generosidade e desinteresse +o despeito do pae, commovido, pediu-lhe para que +continuasse a cuidar dos bens da herança. Nada +queria senão a mezada que já tinha; vivia satisfeito.</p> + +<p>O pae recusava, mas os rogos e as instancias +acabaram por convencel-o. Cedeu, talvez contente; +julgava o filho humilhado e a humilhação pagava-lhe +em grande parte o despeito de não ter sido herdeiro.</p> + +<p>Não obstante as circumstancias muito particulares +em que Claudio ficava vivendo, em completa e espontanea +dependencia do pae, a herança que acabava +de receber tinha, desde já, na sua vida a mais +poderosa influencia. Affastava de vez todas as preoccupações +de ordem material, garantia-lhe de futuro +uma riqueza que era de sobra para os seus modestos +habitos; a salutar necessidade de ganhar pelo seu +braço e pelo seu engenho o pão de cada dia ser-lhe-ia +desconhecida.</p> + +<p>A sua carreira estava traçada pelas condições +particulares da existencia que agora se reuniam ás +lições que aprendera no regaço da mãe. A vida +era uma obrigação de fazer bem. Simplesmente restava +determinar o que era o bem.</p> + +<p>Nas poucas relações que em Coimbra creára, veio +encontrar uma atmosphera absolutamente differente +da que deixára no collegio.</p> + +<p>Deus não existia, era uma invenção do mêdo, +conservada pelos reis e pelos padres que especulavam +com a crendice popular. Onde estavam as provas +da sua existencia?</p> + +<p>O positivismo, unica sã philosophia, mandava +que só na observação e na experiencia nos fiassemos. +<span class="pagenum">[34]</span> +Só o que d'ahi vinha era certo, o resto ficava +ao sabor de cada um. Não era pois verdade +o que os padres e a mãe lhe tinham ensinado.</p> + +<p>Deixou-se levar n'esta nova corrente. Obedecendo +a uma sêde interior de verdade, ouvia +e meditava o que os camaradas estudiosos lhe diziam +e lia com avidez as obras que elles lhe indicavam.</p> + +<p>De lições escolares pouco cuidava, que os lentes +eram uns velhos estupidos e ignorantes, do +novo methodo nada sabiam. Buchner, Spenser, +Comte, Littré, Darwin, Taine e Haeckel, esses +eram verdadeiros mestres. Era lêl-os, estudal-os, +e ficava-se senhor de toda a verdade. A +«Historia da creação», de Ernesto Haeckel, foi para +Claudio uma revelação. Estudou-a, linha a linha, em +frigidas noites de inverno, debruçado sobre a banca +de cerejeira, mettido em cobertores de papa, á luz +frouxa do candieiro d'azeite.</p> + +<p>Começava a comprehender o novo mundo: a creação +foi uma fabula que a ignorancia inventou, os seres +transformavam-se, e a pedra, a rosa, a salamandra +e o homem eram formas d'uma mesma actividade, +producto apenas de leis constantes e universaes; +no mundo tudo é rigorosamente derivado d'um estado +anterior, a flôr é uma folha que se transforma. +Por conseguinte, o que é bem e o que é mal? Tudo +é relativo, diziam os novos evangelhos, não ha bem +nem mal, o assassino e o santo são dois productos +naturaes do mesmo quilate.</p> + +<p>Era n'esta crença que aos dezoito annos Claudio regressava +a Villalva, satisfeito com os progressos do seu +espirito, occultando porém á mãe o seu modo de pensar, +resolvido a supportar a sua religião. No fundo, não +tinha mudado; só uma ingenuidade infantil lhe fazia +crêr que estava regenerado e lhe deixava passar +ignorada a contradição interior. Não só todo o seu +<span class="pagenum">[35]</span> +trabalho provinha d'uma ambição de verdade que +não aprendera nos livros que estudava mas que tinha +sido previamente lançada no seu coração pelo +amor e pela piedade maternal, mas ainda todos os +actos da sua vida lhe negavam as affirmações do espirito.</p> + +<p>Não o via; o desenvolvimento da consciencia +não era ainda sufficiente para lh'o revelar. Sem embargo, +a contradição era completa.</p> + +<p>Que o digam os seus primeiros amores que foram +d'esse tempo.</p> + +<p>Á tarde, Claudio descia de Villalva; vinha á botica +da villa, em frente da praça, ouvir os ociosos +que por alli paravam e ensinar-lhes politica. Que +eram o Fontes e o Braamcamp? Idiotas! Sabiam porventura +alguma cousa?! Nem sequer conheciam os +grandes livros modernos em que se aprendia a sciencia +social.</p> + +<p>O administrador escandalisava-se com a petulancia +do rapaz.</p> + +<p>—Era para isto, dizia, que os mandavam a Coimbra +e que o pae e o tio tinham andado toda a vida a +trabalhar. Se elles lhe tivessem mettido uma enxada +nas mãos, seria bem melhor.</p> + +<p>Claudio ouvia as reflexões do administrador que +só confirmavam a sua vaidade. Uns estupidos, uns +brutos! Elle é que sabia.</p> + +<p>Foi n'uma d'essas tardes, emquanto passeava +d'um ao outro extremo da sala, em frente do boticario +a jogar as damas com o recebedor, que, n'um +momento em que assomou á porta, viu passar uma +rapariga loira, alta, reforçada e agil, cantaro á cabeça, +a caminho da fonte.</p> + +<p>—Quem é? perguntou ao boticario. Que linda +cousa!</p> + +<p>—É a Conceição, filha do Manuel da Aveleda. +Olhe, cuide-me d'aquillo, cuide-me d'aquillo que +<span class="pagenum">[36]</span> +está no seu tempo, accrescentou o boticario. A minha +pena é não lhe poder ser bom.</p> + +<p>E distraidamente fez avançar a sua «dama».</p> + +<p>Claudio ficára profundamente impressionado com +a graça e a meiguice da rapariga, um modelo de mocidade +e de doçura. Nos dias seguintes, vinha, como +de costume, á botica, e ao entardecer não tirava os +olhos da estrada, do lado de Villar, onde ella morava.</p> + +<p>Ella passava sempre, ora só, sizuda e apressada, +ora com as companheiras, rindo e parando a cada +passo.</p> + +<p>Já tinha percebido que o estudante a fitava; uma +vez mesmo, ao voltar a esquina, para assegurar o +seu juizo, olhára para traz. Não se enganava: elle lá +estava, á porta, fitando-a sempre. Chegára até a dizel-o +a uma das companheiras.</p> + +<p>—Vês aquelle rapaz, o filho do José Portugal, de +Villalva? disse-lhe. Quando eu passo, olha muito para +mim.</p> + +<p>—É bem rico, quem dera! respondeu a companheira.</p> + +<p>Calaram-se. A Conceição não adiantou conversa, +um pouco arrependida da indiscrição. Gostava d'elle, +e, se ia só, ao passar em frente da botica, punha os +olhos no chão e os passos embaraçavam-se-lhe.</p> + +<p>Por seu lado, Claudio soffria o mesmo embaraço. +Que fazer? Seguil-a? Mas ella não olhava para elle; a +imaginação representava-lhe a resposta avessa com +que seria repellido e o golpe que o seu coração soffreria. +Depois, seria uma troça do boticario, do administrador, +do escrivão... e elle gostava d'ella, não +podia consentir gracejos sobre uma cousa em que o +seu coração era parte. Escrever-lhe? Responderia +ella? Estavamos no mesmo caso. Ia rir-se com as +companheiras e d'ahi a dois dias andaria a carta +<span class="pagenum">[37]</span> +em todas as mãos. Ainda era peior do que fallar-lhe.</p> + +<p>Uma vez chegou a trazer a melhor rosa que encontrou +no jardim para lh'a offerecer. Em logar de +ir á botica, passearia e encontral a-ia em baixo, fóra +da villa; ahi ninguem o via, o caminho é deserto, e +fosse o que fosse poderia fallar-lhe sem maior perigo.</p> + +<p>Foi. Na sua impaciencia, saiu cedo. Quando chegou +á fonte, ainda não era sol posto. Começou a subir +a encosta que liga a fonte com a villa; onde o +caminho é menos devassado, n'uma curva, sentou-se +sobre um muro, esperando a Conceição. O coração +batia-lhe ancioso; pela imaginação passavam-lhe +mil devaneios. Com que palavras começaria? Estava +quasi arrependido. Para que se mettia elle n'aquellas +cousas? Fugiria? Tambem não, era fraqueza. +N'isto, n'esta oscillação entre o amor e a timidez, a +Conceição appareceu com as companheiras habituaes +Não lhe podia fallar. Para Claudio era um +allivio, libertava o d'uma situação afflictiva. Levantou-se +e dirigiu-se á botica.</p> + +<p>—Muito tarde, hoje, sr. Claudio, disse o boticario.</p> + +<p>—Demorei-me um pouco, respondeu laconicamente.</p> + +<p>Ainda bem, pensou, que a penumbra da baiuca +encobria o rubor que lhe viera á face quando o boticario +lhe fallou.</p> + +<p>Não tardou porém que os seus desejos fossem satisfeitos. +Uma tarde demorou-se na botica e, ao voltar +a casa, fez caminho por Villar.</p> + +<p>Em boa hora!</p> + +<p>A Conceição passava, atravessando a rua para +casa d'uma visinha.</p> + +<p>—Muito boa noite, meu amor.</p> + +<p>—Muito boa noite, sr. Claudio.</p> +<span class="pagenum">[38]</span> + +<p>—Por aqui, sem medo, a estas horas?</p> + +<p>—Ninguem me rouba.</p> + +<p>E a conversa continuou ligeira e alegre.</p> + +<p>D'ali por deante já Claudio não receiava dirigir-se-lhe, +estava certo do amor da Conceição. Dentro +em pouco havia hora aprazada para se encontrarem.</p> + +<p>Esses amores duraram dois annos e foram castos +e puros. A Conceição era para Claudio um culto; tocar-lhe +era maculal-a, era destruir o que n'ella havia +de sagrado, a melhor fonte d'amor. As suas cartas +respiram a mais estremada candura. De Coimbra +escrevia-lhe:</p> + +<br> + +<p style="text-align: right; margin-right: 2em;">Querida Conceição</p> + +<p>Escrevo-te hoje para te mostrar toda a tristeza em +que tenho andado. Desde que vim, nunca mais tive +alegria, nem a terei emquanto não voltar para ao pé +de ti.</p> + +<p>Por muito que procure distrahir-me, trago sempre +comigo a mágoa de não te vêr. Só para o natal ahi +voltarei. Terei paciencia que outro remedio não +tenho.</p> + +<p>Queria ter ao menos a alegria de te fallar um instante +mas isso não póde acontecer. Tu nunca aqui +vens e eu não posso sair d'aqui.</p> + +<p>Lembro-me de que estou longe de ti e a tristeza não +me deixa, porque te adoro de todo o meu coração e +serei até á morte</p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 3em;">o teu</p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 2em;"><i>Claudio</i></p> + +<br> + +<p>Não podia supportar esta singeleza o rapaz de vinte +annos, que do materialismo positivista tinha passado +ao naturalismo na litteratura e lia agora Zola, +<span class="pagenum">[39]</span> +deliciando-se no exame das baixezas humanas, sem +attentar no que ellas encerram de grandioso e +dramatico, ainda mesmo nos seus aspectos infimos.</p> + +<p>O falso conhecimento das sciencias naturaes, consideradas +superficialmente, junto ao vigor, nunca +isento de brutalidade, de gente moça, haviam necessariamente +de dar em resultado o desprezo da +castidade e da pureza que d'ora em diante passariam +a cognominar-se ridiculo sentimentalismo.</p> + +<p>Por outro lado, a forma impressa na infancia á sua +alma permanecia e permaneceria como o verdadeiro +fundamento da sua natureza; a piedade christã, embora +sob aspectos differentes, seria sempre uma fonte +abundante e inexgotavel de idealismo.</p> + +<p>Claudio não attingia a contradição intima entre a +sua alma e as doutrinas aprendidas nos livros e nas +palestras com os camaradas da universidade. Não +eram as mulheres simples objectos de amor sensual +atravez do qual a natureza assegurava a conservação +e a propagação da especie? Fóra d'isso, tudo era +doença, romantismo archaico ou timidez pueril.</p> + +<p>E todavia não supportava sem um fremito de +repulsão a lembrança de que a sua amada, um +anjo que a aureola dos anjos envolvia, havia +de desfazer em brutal sensualidade a frescura do +seu rosto semi-divino e o meigo riso, irisiado de +cores mimosas, que desabrochava nos seus labios +como a rosa entre o orvalho da manhã.</p> + +<p>Ignorava a contradição, parecia-lhe apenas inconstancia, +que não desejava e queria todos os dias +a mesma cousa; tomava estas fluctuações á conta de +fraqueza do proprio animo.</p> + +<p>Por fim, resolveu acabar com uma situação aos +seus olhos ridiculamente inconfessavel. O que?! +Amar uma mulher só para lhe dizer palavras doces, +olhar para ella, contar-lhe o que se fazia em Villalva, +<span class="pagenum">[40]</span> +ouvir a que horas ella ia á fonte e a que horas +lavava a roupa?! Não era um homem! Não se atrevia +a ir mais adeante, não queria tomar as responsabilidades +do descredito d'uma rapariga? Por si não se +importava com essas pieguices da aldeia, mas a mãe +com certeza não gostava, iria magoar-se com o seu +proceder. Elle tambem... não gostava; repugnava-lhe, +embora as doutrinas que aprendera em Coimbra +lh'o admittissem. Precisava fallar com franqueza á +Conceição.</p> + +<p>Uma manhã, em que ella tinha de vir a Alcofa, foi +encontral-a na estrada e conversaram de pé, á sombra +d'uma oliveira.</p> + +<p>Eram oito horas; dos montes requeimados reflectia se +um sol penetrante, na atmosphera quieta das +varzeas o arvoredo esperava sequioso que a briza do +norte viesse beijal o, um calmo torpôr invadia toda a +natureza.</p> + +<p>Claudio sentia-se mal, sentia-se fraco; talvez +d'aquelle calor, pensava, mas na realidade a agonia +vinha-lhe do coração, da vaga consciencia de que ia +quebrar uma urna de affectos limpidos e sãos cujos +pedaços jámais poderia soldar e cujo licor sagrado +para sempre se perderia no pó em que tão impensadamente +o derramava.</p> + +<p>Aquelle momento havia de lembrar-lhe, muitos annos +depois, com um arrependimento lancinante +quasi com remorso.</p> + +<p>A Conceição veio alegre e risonha, como de costume, +entregue sem reserva á alegria de vêr o seu +Claudio; elle opprimido.</p> + +<p>Com um miraculoso poder de sympathia que tudo +adivinha, a Conceição perguntou-lhe immediatamente:</p> + +<p>—O que tem? Vem hoje tão triste!</p> + +<p>—Tenho a dizer-te uma cousa que te vae fazer +chorar, mas é preciso que t'a diga. Isto não póde +<span class="pagenum">[41]</span> +continuar, disse Claudio brutalmente. Olha, Conceição, +meu pae nunca consentiria que nos casassemos +e então para que hei-de enganar-te? Hei-de ser +sempre teu amigo, mas por isso mesmo não quero +prejudicar a tua felicidade. Não te faltam bons casamentos, +pódes ser ainda muito feliz. O mal é para +mim que vou perder-te.</p> + +<p>A Conceição chorava de dôr e de surpreza; nada +sabia dizer.</p> + +<p>Se era por ella ter feito algum mal, que lh'o dissesse, +que não podia ser senão intriga; que só pelo +amor que lhe tinha lhe custava deixal-o...</p> + +<p>Claudio porém insistiu no proposito de terminarem +as suas relações e apartaram-se, ella banhada em +lagrimas, elle cruelmente alliviado por se libertar +d'uma situação que começava a pesar-lhe.</p> + +<p>No fim d'um anno a Conceição casava com um +carpinteiro. Passa ás vezes na villa, o cesto á cabeça, +quando leva o jantar ao marido, o farto collo a +entrevêr-se pelo chambre desabotoado no pescoço +para respirar na pesada atmosphera do estio. Claudio +via-a, contente por se convencer de que os amores +idyllicos não tinham sido estorvo á sua felicidade. +Um dia a veria com saudades da ventura que +perdera!</p> + +<p>N'estes errores do espirito se consumiram os cinco +annos que Claudio passou em Coimbra; ao fim +d'elles era necessario voltar a Villalva.</p> + +<p>O problema da sua existencia apresentava-se-lhe +cada vez mais urgente, cada vez mais confuso, a +alma dilacerada entre os impulsos mysticos que vinham +da sua primeira infancia, as instigações do +espirito inquieto por uma sciencia estreita e incompleta +e vagos ardores de mocidade que o aconselhavam +a calcar sciencia e mysticismo e entregar-se +sem reserva ás expansões do instincto. Que fazer?</p> + +<p>Poucos mezes depois de regressar a casa, vieram +<span class="pagenum">[42]</span> +o administrador do concelho, o reitor do Ervedal, o +prior de Villar, o regedor do Sabugal e o Rodrigues, +grande influente nas freguezias da serra, convidal-o +para a presidencia da camara.</p> + +<p>Diziam-lhe que a eleição era segura, por esse lado +nada tinha a receiar, ninguem lh'a disputava, mas, +quando a disputassem, estava alli força sufficiente para +a vencer, pois que os homens que alli via representavam +mais de dois terços da votação de todo o concelho.</p> + +<p>Tambem não faziam questão de lista, elle escolheria +os collegas que quizesse; o que desejavam +era um homem sério e capaz, porque não imaginava +o que ia na camara. Uma ladroeira! Traziam toda a +sorte de vadios a receber por conta do cofre municipal +e até se dizia que o presidente estava alcançado.</p> + +<p>—Dizia! Era certo, accrescentava o reitor do Ervedal. +Ainda ha pouco, quando foi obrigado a entrar +com a receita da viação, teve de pedir oitocentos +mil reis ao José Maria, das Aranhas, e hypothecou-lhe +a terra da Preza.</p> + +<p>Claudio defendia-se; que estava muito novo, queria +estudar e não se mettia em politica. Tudo intrigas, +tudo dissabores!</p> + +<p>—Não era politica, replicavam-lhe, era um serviço +que prestava ao concelho. Visse o que o pae tinha +feito na junta de parochia. Nas obras do cemiterio +deixava tudo para estar ao romper do dia ao +pé dos trabalhadores. Poupou muito dinheiro á freguezia +com o seu zelo e a sua economia, e prejudicando-se +porque para isso tinha de deixar a sua +vida. Agora elle que era um rapaz formado e rico!... +Até o entretinha! Que fazia alli, sempre agarrado aos +livros?...</p> + +<p>Depois... precisava pensar, em tres dias responderia +definitivamente,—foi a evasiva com que +<span class="pagenum">[43]</span> +Claudio se libertou dos seus interlocutores que começavam +a fatigal-o com rogos e instancias.</p> + +<p>Ao fechar a porta, recolheu murmurando:</p> + +<p>—Pois sim! Contem com isso, não me faltava mais +nada do que metter-me n'essa vinagreira.</p> + +<p>O seu proposito de recusa era formal, mas temia +o desgosto do pae que adivinhava de opinião differente. +Só perante este queria desculpar-se, porque +para os outros a resposta estava feita.</p> + +<p>Consultou-o. Com grande surpreza sua viu que +não o animava. Que não se illudisse, dizia-lhe, já +sabia muito bem o que era tudo aquilo. Todos os +que alli vieram tinham as suas pretensões; não o +queriam na camara senão para as satisfazer. Bem se +importavam elles com as cousas do concelho! Cada +um cuidava de si, da sua fonte e da sua estrada. +Quando esteve na junta, o Mattos, da Azenha, ficou +de mal com elle porque não lhe mandou compôr o +caminho do Freixial. Queria que lhe fizessem estradas +para as suas quintas e não se importavam de +mais nada! Tambem lhe não aconselhava que recusasse; +um homem precisa servir para alguma cousa. +Mas se imaginava que nos cargos publicos havia +só honra e gloria, estava muito enganado; trabalhos +e desgostos é que lá encontraria.</p> + +<p>No fundo desejava que o filho acceitasse, considerava +como um triumpho para a sua vida a situação +de Claudio; mas já velho, conhecendo o mundo e +amando o filho, invadia-o o desprendimento das vaidades +e o egoismo do repouso, não se atrevia a +aconselhar uma vida de inquietações.</p> + +<p>Claudio, percebendo a hesitação do pae, recusou, +e este, quando mais tarde foi prevenido pela mulher +da resolução do filho, respondeu:</p> + +<p>—Não está para os aturar. Faz muito bem. Tem +que comer e quer viver descansado.</p> + +<p>Não passavam porém sem deixar vestigios estes +<span class="pagenum">[44]</span> +incidentes. Que fazer? que fazer? Não era a vida qualquer +cousa que elle tinha obrigação de aproveitar em +beneficio dos outros?</p> + +<p>Toda a hypothese de solução, ainda que ephemera, +fazia reviver o problema. Bastava uma proposta +dos politicos da villa para que comsigo trouxesse +longas meditações sobre a escolha entre uma +vida d'acção e uma vida de estudo e meditação.</p> + +<p>Os dias corriam longos entre o fastio dos livros, +por uns vagos desejos da acção, e o desgosto da acção, +por uma interior necessidade de recolhimento. Amores +não os havia profundos, que este estado tudo turvava +e embaraçava, só a duvida imperava dissolvendo +e quebrando toda a energia e todo o movimento +salutar e espontaneo.</p> + +<p>Necessariamente haveria remedio para esta situação.</p> + +<p>Era preciso procural-o no estudo, deveria estar +n'esses montões de livros que se lhe accumulavam +sobre a mesa.</p> + +<p>O melhor era estudar, mas d'esta vez com methodo +e conforme os bons principios, que nem os +padres nem os lentes da Universidade lhe tinham +dado instrucção aproveitavel. Começava-se pela mathematica +e seguia-se pela physica, pela chimica, +pelas sciencias naturaes, a terminar na historia, nas +sciencias sociaes, nas bellas artes e na litteratura.</p> + +<p>Quando tivesse levado a cabo esta empreza, então +poderia fazer alguma cousa com plena consciencia.</p> + +<p>E a pequena sala de Villalva encheu se de estantes +de livros, de retortas e de apparelhos estranhos que +a rude gente da aldeia olhava com curiosidade e desconfiança.</p> + +<p>Não podiam porém varrer-se n'um dia os velhos +habitos, mórmente no proprio local em que se tinham +creado; não podia supportar o estudo aturado +<span class="pagenum">[45]</span> +aquelle que fôra educado na liberdade dos campos +e nos prazeres da vida rustica.</p> + +<p>Claudio sentia-se fraco, incapaz de levar a cabo a +sua empreza com a tenacidade que ella, no seu entender, +reclamava; aborrecia-se do estudo, a cada +passo trocava a leitura dos livros de chimica por um +romance ou por um trecho poetico, vinha á botica +saber dos namoros das raparigas e dispendia longas +horas em um novo jardim que fizera no cerrado, á +entrada da aldeia, onde o pae cavára uma cisterna e +tinha a eira e os abrunheiros. Era quasi um escandalo. +Que rapaz aquelle! Não fazia nada, ninguem +sabia o que elle queria, alli mettido com os livros.</p> + +<p>O regedor passou uma tarde de maio em que Claudio +com uma thesoura limpava as roseiras dos pedunculos +das flores desfolhadas.</p> + +<p>—Tenha v. ex.<sup>a</sup> muito boa tarde, disse-lhe.</p> + +<p>—Ora viva o sr. regedor! Então como vae?</p> + +<p>—Obrigado, como velho.</p> + +<p>—Por aqui está a passar um bocado de tempo?</p> + +<p>—É verdade.</p> + +<p>—Tambem não sei que gosto é este. Ainda se fossem +cousas que déssem fructo... mas a modo que +não vejo por aqui senão estas ameixieiras.</p> + +<p>—Eu gosto d'isto, respondeu Claudio já com certo +fastio da conversa.</p> + +<p>O regedor fez uma pausa e, bem ruminado o pensamento, +exclamou:</p> + +<p>—E a respeito de advogar, nada?!...</p> + +<p>Foi a voz do povo, toda a aldeia assim pensava; +não comprehendia aquelle viver mysterioso, aquella +inercia, aquella ausencia de vulgares ambições mundanas.</p> + +<p>O pae de Claudio tambem não estava contente, sonhára +o filho dominador e poderoso, e via-o recolhido, +calado, indifferente.</p> +<span class="pagenum">[46]</span> + +<p>—Elle lá sabe! pensava comsigo.</p> + +<p>Os camaradas de Claudio que tinha conhecido +quando ia a Coimbra levar-lhe a mezada, diziam que +elle era muito intelligente. E depois era rico, podia +fazer o que quizesse...</p> + +<p>Não queria metter-se em politica? Talvez fizesse +bem. Para que? Para lhe gastarem dinheiro e no fim +dizerem mal d'elle. Lembrava-se do que passára na +junta de parochia, das ingratidões e desgostos que +soffrêra.</p> + +<p>—Elle lá sabe, elle lá sabe...</p> + +<p>Era assim que concluia sempre as suas reflexões, +continuando no trabalho como se não fosse rico, +tal qual nos tempos em que todas as suas ambições +se limitavam a ter mais uma junta de gado.</p> + +<p>Demais, sentia-se muito cansado para vêr sem indifferença +as cousas d'este mundo. A cada instante, +nas palestras em que ficava ao domingo depois da +missa, no adro da egreja, com os magnates da freguezia +que o ouviam como a homem de muito juizo, +dizia:</p> + +<p>—Estou com os pés para a cóva.</p> + +<p>—Ora deixe lá, está novo ainda para gosar esta +vida. Os filhos ricos, agora é que é viver!</p> + +<p>—Eu cá me sinto, respondia.</p> + +<p>E ficava a scismar n'um abatimento, n'uma fadiga +que o opprimia e que tinha como prenuncio de curta +duração.</p> + +<p>Não se enganava. No mesmo anno em que Claudio +viera de Coimbra, o pae soffreu um ataque de +<i>grippe</i>. Tinha ficado muito fraco; durante muitos dias +arrastou-se pela lareira e pela sala, quasi sempre +sentado, somnolento, caindo bastas vezes em prostração. +O medico vinha vel-o, desconfiando d'aquella +moleza, e um dia em que elle se queixou de que os +pés lhe inchavam, auscultou-o.</p> +<span class="pagenum">[47]</span> + +<p>—Ha alguma novidade? perguntou-lhe Claudio que +o acompanhou até á porta do pateo.</p> + +<p>—Parece haver ali qualquer embaraço de circulação, +respondeu o medico com um gesto de descontentamento.</p> + +<p>O velho ao fim d'um mez parecia restabelecido, +sómente um pouco mais lento no trabalho. Esta fraqueza, +esta fraqueza... Isto vae mal, dizia ás vezes. +Mas a continuação dos seus lamentos sem symptoma +de molestia notavel acabou por convencer a +familia de que não havia perigo imminente. Assim +se passaram cerca de dois annos depois do ataque +de <i>grippe</i> em que o medico confessára as primeiras +suspeitas.</p> + +<p>Uma tarde, ao recolher a casa, disse á mulher:</p> + +<p>—Andei a podar as pereiras e vi geitos de lá ficar. +Deu-me uma tontura que, se não me encosto a uma +arvore, caia. Isto vae mal!...</p> + +<p>Mas a mulher não deu grande importancia ao succedido. +Seria fraqueza. Elle tambem não comia nada... +disse-lhe. Sempre aquelle fastio... Era preciso chamar +o medico a ver se lhe receitava alguma coisa +que lhe désse apetite.</p> + +<p>Alguns dias depois, já quasi esquecido aquelle breve +incidente, o pae de Claudio deitou-se á hora habitual +e adormeceu. O filho estava ainda para a villa, +a mulher ficára a costurar e o creado preparava as estacas +para a vinha. Estavam em fevereiro, as noites +eram longas, ainda se fazia serão. De repente, da alcova +em que o velho dormia, veio esta voz angustiada:</p> + +<p>—Carmo, Carmo, acode-me, estou muito afflicto.</p> + +<p>Ella correu ao quarto.</p> + +<p>—Olha, disse elle, vê se me ajudas, quero levantar-me, +falta-me o ar. Lançou-lhe o braço pelas costas, +a mão apoiada no hombro, e, quando procurava erguer-se, +<span class="pagenum">[48]</span> +tombou sobre élla, com todo o seu peso, +morto, a cabeça pendida sobre o peito.</p> + +<p>Para Claudio a comoção foi extraordinaria. Agora, +perante os restos inanimados que tinham +sido d'aquelle que mais respeitára, via em toda a +luz o que significava uma vida de honestidade e de +trabalhos, a riqueza e a ordem que em volta de si +derramara durante tão longos annos. Para aquelle +não tinha havido hesitações e o triumpho fôra completo; +augmentou os bens, serviu os seus e os estranhos, +toda a existencia foi um combate com a natureza, +com os homens, com os acasos do destino. Os +braços cairam de fadiga, mas o animo não esmoreceu +até ao derradeiro alento. Quem lhe déra ser assim!...</p> + +<p>Para isto, para estas reflexões, não precisava dos +livros, nem leituras nem sabios o inspiravam; o pensamento +vinha-lhe do coração, espontaneo, brotando +da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez +fosse vão todo o caminho andado, tempo perdido +o que gastára á procura da verdade, folheando +com avidez os tratados de philosophia d'esses homens +que diziam serem os mestres da humanidade!</p> + +<p>O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito, +cada vez mais instante, aggravado pelas muito +particulares circumstancias que a morte do pae trouxera. +Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior +que a toda a hora lhe eccoava no peito.</p> + +<p>Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodára-se +a um modo de cousas transitorio. Considerara a herança +do tio como fortuna do pae e não consentiu +que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente +com as flores e os livros, ora no seu jardim, +ora na sala alumiada e silenciosa do modesto casal +de Villalva, ora nas palestras da villa, ora em solitarios +passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando +<span class="pagenum">[49]</span> +e estudando, quando não se quedava a fallar +com a gente do campo, interrogando-a sobre os seus +rebanhos e as suas lavouras. Estudava agora, depois +decidiria o que havia de fazer. Não o satisfaziam os +livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel +de tudo aquillo e advinhava em si, sem as poder +definir, outras ambições, outras esperanças, outros +desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae +vivesse, não sairia d'ali nem queria saber dos seus +bens.</p> + +<p>Hoje as circumstancias são differentes. Passados +os primeiros dias de mais pungente saudade, começa +a pensar, com um firme proposito de resolução, +no caminho que lhe convém seguir. Estava rico, com +vinte e quatro annos, que iria fazer da mocidade e +da fortuna? Ficar ali?</p> + +<p>Era um convento, uma vida estreita, e os livros +com que se tinha aconselhado diziam-lhe que a existencia +era uma lucta, o ascetismo uma doença, e a +expansão de todas as forças, de todos os apetites e +de todas as paixões uma lei natural, porventura a +condição do vigor e da saude. O luxo e todos os seus +prazeres eram bons. Havia desgraçados a quem isso +offendia? Illusão, não era offensa, era a lei do mundo; +eram vencidos, seres inferiores que o progresso +da especie exigia que se consumissem na miseria. +Não era isso o que a mãe lhe ensinára e intimamente +sentia-se inclinado á piedade, á modestia, á doçura +e á tranquillidade? Vicios hereditarios, casos atavicos, +que a regra era luctar, o signal de superioridade vencer.</p> + +<p>Ouviu a mãe. Disse-lhe que estavam ali muito +mal, sem commodidades e sem conforto, que queria +frequentar mais assiduamente algumas relações que +deixára em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer +em Albergaria, d'onde mais facilmente poderia +sair.</p> +<span class="pagenum">[50]</span> + +<p>Demais, pensava em fazer uma longa viagem que +era necessaria para se instruir; custava-lhe deixar +a mãe em Villalva, entre uma gente estupida, sem +recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse +n'uma doença ou n'um desastre. Lembrava se +do que acontecera com a morte do pae; por pouco +deixou de se vêr sósinho nos seus ultimos instantes.</p> + +<p>A mãe ouviu com grande pasmo e surpreza. Na +sua simplicidade, tinha imaginado que tudo estava +muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de boas +teias de linho. Não era aquillo toda a riqueza do +mundo, não o considerava ella como supremo favôr +de Deus e premio do ardor com que lhe orava? Isolamento +não o sentia, que as horas eram poucas para +o trabalho e corriam ligeiras no labutar constante. +Tambem não comprehendia a falta de recursos; a +doença e a morte vêm quando Deus quer, não temos +mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a +Claudio convinha sair d'ali, fizesse como melhor +fosse para elle. Vivera sempre para os outros e agora +que já não tinha marido nada lhe custava obedecer +ao filho. A paciencia e a resignação não conheciam +limites n'aquella alma.</p> + +<p>Claudio começou pois a cuidar com impaciencia +da sua nova installação. Arrendou um palacio, á entrada +da villa, do lado do poente, com pateo nobre, +escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas +janellas saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim +e pomares. Tinha sido, segundo se dizia, dos duques +d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento rico de +Coimbra que o arrendava barato porque não o queria +improductivo, não queria, na sua expressão, cavallos +d'estado.</p> + +<p>Vieram moveis caros, louças da India, quadros, +bronzes e damascos, comprados nos bazares de Lisboa +por onde Claudio andou em companhia d'um antigo +<span class="pagenum">[51]</span> +amigo e condiscipulo que era de gente fina e +muito entendido em <i>bric-à-brac</i>. Veiu tambem um +<i>landau</i> e dois grandes cavallos francezes que tinham +pertencido a um negociante que se arruinára em +fundos hespanhoes.</p> + +<p>—Pechincha! dizia-lhe o amigo. Isto que aqui vês +por um conto e duzentos, custou mais do dobro. A +carruagem é de Binder, os cavallos estão novos e os +arreios são magnificos! O pobre homem vendeu a +medo, envergonhado; se os tivesse annunciado e esperasse, +era impossivel que não encontrasse quem +lhe desse mais.</p> + +<p>Gastaram-se n'esta primeira installação uns oito +contos de réis dos doze que o José Portugal tinha +deixado em Coimbra, á ordem do filho, em casa +d'um commerciante da Praça Velha, que lhe cobrava +os juros das inscripções e recebia as rendas que vinham +do Minho. O velho, na sua escrupulosa honradez, +pensava sempre em não prejudicar o filho em +proveito proprio ou em proveito da filha casada. Por +isso punha de parte aquillo que em sua consciencia +entendia sobrar dos rendimentos da herança.</p> + +<p>—Lá lh'o deixo, pensava, elle lhe dará a applicação +que quizer. Não lhe hão-de faltar terras para +comprar. Está ahi a casa do fidalgo que, por morte +d'elle, se vem a vender toda. Já não podem com dividas.</p> + +<p>Foi o amigo de Claudio, Jorge de Castro, quem +veiu mobilar-lhe a casa.</p> + +<p>Não havia que fiar em estofadores. Um dinheirão +e tudo sem gosto! Ainda ha pouco vira na Avenida a +casa do Antonio Ferreira, um negociante da praça +que enriqueceu com a alta da borracha. Pagou mais +de trinta contos ao Gaspar e não tinha um cantinho +que se diga: benza-te Deus. Muita seda, muitos dourados, +uma caixa de amendoas! Emquanto o José +de Menezes, que se casou ha pouco, com um conto +<span class="pagenum">[52]</span> +e quinhentos poz a casa como um brinco. A sala de +jantar pouco mais tinha que a meza, uma credencia, +velha baixela de estanho, meia duzia de cadeiras, +suspensa do tecto uma lampada de bronze e nas paredes +quatro prateleiras com pratos de Wedgwood, +brancos, na sua brancura leitosa, de leite a desnatar +n'um fundo escuro e mate.</p> + +<p>—Original! concluia Jorge.</p> + +<p>Aquelles objectos pareciam que tinham acabado +de servir e que a todos os instantes estavam em movimento. +Davam uma expressão de vida que os armadores +de profissão desconheciam. Que barbaridades +iam por essas casas de Lisboa! Havia-as armadas +em capellas, com muitos pannos, papeis dourados, +jarras de porcelana, flores artificiaes e castiçaes +de prata; havia as armadas em tumulo, todas em estuque +brilhante e frio; e havia-as tambem, de amadores +improvisados, armadas em museu onde os moveis, +aliás ricos e ás vezes de grande valor, se accumulavam +sem relação, sem parentesco que os ligasse. +Se lhes pozessem rotulos e preços, a loja era +completa. O Menezes não; tinha muitissimo gosto. E +sabia comprar: aquella sala de jantar não lhe custou +talvez duzentos mil réis.</p> + +<p>Claudio comprehendia mal a lição do amigo e +estranhava o calor com que lhe era dada; no collegio +nunca ouvira fallar de estofos e mobilias, em +Coimbra vivera retirado de elegancias e em Villalva +trabalhava-se de sol a sol; a mais brilhante peça da +casa era a enxada polida entre os seixos da serra. +Soubera pelos livros que a arte era a corôa da educação +d'um bello espirito e queria-a tambem como +tudo o que aos olhos da propria consciencia podesse +engrandecel-o; mas outras eram as suas preoccupações +interiores. Havia de aprender com tempo e paciencia, +quando tivesse a sua vida mais assente. Não +tardaria, pensava; tinha uma casa commoda e de +<span class="pagenum">[53]</span> +bom gosto, o estudo havia de aproveitar-lhe melhor +sob impressões deliciosas, os progressos seriam rapidos.</p> + +<p>Não o pensava egualmente a mãe, abatida com +tamanho encargo, a casa, as salas e os creados. Suspirava +pela paz laboriosa de Villalva, baixinho, em +silencio, não fosse o filho ouvil-a e desgostar-se com +as suas saudades.</p> + +<p>Estabeleceram-se novos costumes em conformidade +com a nova vida, almoço ao meio dia, jantar ás +seis horas, as manhãs para o estudo, as tardes para +os negocios da casa, visita ás propriedades e passeios +de carruagem, as noites... oh! as noites eram +realmente um grave embaraço. A botica enfadava, +era mesquinha com a sua baixa e insalubre curiosidade; +o jogo era para velhas, um estupido brinquedo; +em casa, o estomago pesado, frente a frente com +a velhita, o tedio era extremo. De resto, ella gostava +de fazer serão ao pé das creadas, na cosinha, com a +sua velha rocca á cinta, fiando o linho de Villalva. +Chegando áquella hora, Claudio não sabia onde se +refugiasse.</p> + +<p>Valia-lhe ás vezes Coimbra, alguma noite no theatro, +onde por accaso encontrava quem lhe fallasse de +Flaubert, de Zola, de Comte ou de Spenser, as grandes +preoccupações de seus estudos. Mas isso mesmo +era raro porque, nos cinco annos que lá tinha estado, +levára uma vida bisonha, retrahida e poucas relações +deixára.</p> + +<p>D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos; +Jorge de Castro, que ha pouco encontramos em Lisboa, +aconselhando-o na installação do palacio de Albergaria, +e José d'Albuquerque que mais tarde nos +vae apparecer intimamente ligado á vida de Claudio.</p> + +<p>Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento +e de habitos. Fôra curiosa a maneira porque entre +<span class="pagenum">[54]</span> +elles e Claudio se creára um profundo affecto, apezar +das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.</p> + +<p>Claudio passeiava habitualmente só. Vinha porém +todas as tardes a uma livraria da baixa, na Calçada, +procurando com avidez as novidades litterarias +chegadas de França e prescrutando, entre os livros +alinhados nas prateleiras, o caminho a seguir na +sua ancia de saber. Era ali que invariavelmente +encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos +como Claudio a cousas litterarias. D'este +modo, por este unico laço, começou a constituir-se +essa amisade que a uniformidade de sentimentos +e de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo +porém o tempo escolar, Jorge fôra viver para Lisboa +e em Coimbra só ficára o Albuquerque, em +casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante, +porque todo o apparato de luxo que encontrava +brigava com os seus habitos e a sua educação.</p> + +<p>Agora que mudára de ideias e de aspirações, +aproveitava a hospitalidade do amigo, para desenferrujar +a lingua, dizia, que era uma necessidade +permutar ideias.</p> + +<p>Nem assim, com todo este complicado artificio, +podia conformar-se com a vida de estudo que architectara. +Ás vezes possuia-se d'um invencivel +fastio dos livros e corria ao jardim, plantando, +regando, limpando as arvores e as flôres, voltando +instinctivamente aos bons habitos da sua educação.</p> + +<p>O jardineiro, que contractára em Lisboa, corria +logo, que não se enxovalhasse s. ex.<sup>a</sup>, elle faria o +que quizesse.</p> + +<p>Claudio desculpava-se; era para se entreter, que +lhe fazia bem á saude.</p> +<span class="pagenum">[55]</span> + +<p>—Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando +a pericia do senhor.</p> + +<p>Já tinha tido um patrão que tambem fazia o mesmo, +o seu gosto era andar a tratar do jardim, mais +era um grande fidalgo, empregado no paço da Ajuda, +muito amigo do sr. D. Luiz!</p> + +<p>O estudo não o satisfazia. Foi a conclusão a que +Claudio chegou no fim d'um anno de residencia em +Albergaria.</p> + +<p>Talvez questão de ambiente, falta de incitamento +pela ausencia de camaradagem adequada... O +melhor era a experiencia, o conhecimento directo +das cousas e dos homens, sair d'alli, vêr o mundo, +os grandes espectaculos da vida, do trabalho, da arte +humana e da natureza. Ainda sobrára alguma cousa +do mealheiro que o pae lhe deixára, iria correr a Europa.</p> + +<p>Começaria pela Hespanha, pelas margens do +Mediterraneo passaria a Italia, regressando iria á +Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow, voltaria pela +Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz +e a Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia +a Pariz e faria alli quartel general, centro de +todas as excursões.</p> + +<p>Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano, +dando-lhe conta da morosidade com que o seu estudo +proseguia e da maneira por que pensava em +adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.</p> + +<p>Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga +civilisação, e ficariam para successivas jornadas +o Oriente e a Grecia, a India, o Japão e a America +do Norte.</p> + +<p>O amigo applaudia. Quem lhe déra poder fazer o +mesmo! Mas tinha casado cedo, não podia levar a +mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era contentar +com a sua sorte. Passava o verão com a mãe +em Loures, o inverno em Lisboa, e as suas viagens +<span class="pagenum">[56]</span> +duravam habitualmente um dia, dois ou tres em casos +muito excepcionaes.</p> + +<p>Em Santarem, onde fôra com o Antonio de Mello +e o Carlos d'Azevedo, gastára um dia, a jornada a +Evora durou tres dias mas já não parava com saudades +de casa, como quando veio a Albergaria, +onde recebia cartas da mulher que eram um sermão +de lagrimas.</p> + +<p>Tudo tinha compensações, dizia afinal; se elle, +Claudio, tinha a inteira liberdade de dispender o +seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e alcançar +uma vasta instrucção, elle, Jorge, tinha os +carinhos constantes d'um lar amado e alegre. Não +era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que se instruisse +agora, que aproveitasse, e a seu tempo lá +chegaria.</p> + +<p>Claudio partiu em abril e jornadeou até ao fim de +outubro com uma impaciencia desusada. Não parava +em parte alguma, com sêde de impressões, uma +embriaguez de aspectos desconhecidos propria de +quem fôra creado em horisontes estreitos.</p> + +<p>Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo +observava, registando na lembrança conhecimentos +novos.</p> + +<p>Ás vezes deixava-se possuir d'um extremo cansanço, +tinha saudades da sua terra, parecia-lhe +que cousa alguma valia tanto como a paz de Villalva +e até a imagem da sua Conceição d'outros tempos +lhe passava meigamente pelos olhos. Fadiga! Eram +momentos passageiros; com esforço e tenacidade +juntaria larga copia de conhecimentos, em casa, no +socego do seu canto, havia de digerir toda aquella +massa informe, havia de dispol-a em theorias e systemas, +e então o saber seria completo e o estudo +deixaria de o enfadar.</p> + +<p>Uma tarde, na Flandres, teve uma visão que lhe +ficou de lembrança. Saira de Gand, de manhã, a vêr +<span class="pagenum">[57]</span> +uma propriedade modelo que tinha tido o primeiro +premio no ultimo concurso e, já proximo do pôr do +sol, esperava o comboio n'uma estação de aldeia. A +gare estava deserta e silenciosa; em volta os campos +verdes e planos, emoldurados em altas sebes de +choupos que oscillavam ao vento brandamente; raros +casaes dispersos; em frente a casa d'um lavrador, +uma velha á porta, fiando na roda, á maneira +do norte, e ao pé uma creança recolhendo as gallinhas +ao poleiro. Que seria da familia? Andava nos +campos, certamente.</p> + +<p>Em casa ficaram os velhos e as creanças fazendo +o pouco trabalho de que eram capazes. Talvez alli +estivesse a suprema sabedoria. Que andava elle a fatigar-se +com vãos estudos? O mais sensato seria voltar +a Villalva, casar-se e trabalhar; fazer como aquelles +que alli via. Uma pungente saude acompanhando +o sentimento da inamidade de toda a sua vida lhe +apertou o coração e os olhos humedeceram-se n'um +movimento de desalento profundo.</p> + +<p>Pariz apagava essas impressões fugitivas; desfaziam-se +rapidamente na sua atmosphera de luxo, de +prazer, de epicurismo.</p> + +<p>As theorias materialistas aprendidas nos livros +confirmavam as instigações dos sentidos. Claudio +convencia-se de que a verdade era a riqueza e o +progresso dos gozos e das commodidades. A lucta +pela vida reduzia-se á expansão naturalista, á conquista +dos regalos do corpo. Que mais poderia significar? +Que valor poderia ter o sacrificio pelos outros? +Não lh'o encontrava, de facto. Talvez utilidade social... +mas isso era uma cousa vaga, indefinida. +Guia seguro só a expansão do individuo, a satisfação +dos seus appetites; o resto, preoccupações moraes, +eram vicios hereditarios, remanescente d'um +estado metaphysico que a sciencia condemnava.</p> + +<p>E n'estas idéas voltava em fins d'outubro a Albergaria, +<span class="pagenum">[58]</span> +com um scepticismo convencional, mal ajudado +pela experiencia do luxo dos hoteis caros das cidades, +e sempre em contradição com constantes inclinações +interiores para outras e mais altas paragens.</p> + +<p>Os primeiros dias que seguiram o seu regresso foram +para ouvir a mãe e visitar as terras. A mãe contava-lhe +ingenuamente o que se passara na sua ausencia; +as colheitas tinham sido boas, regular anno de vinho e +abundante de milho. Não chegaram as vasilhas da +adega, mas, como o filho não estava, não quiz sem +consentimento d'elle comprar novos toneis e, para o +que faltava, pediu-os emprestados. Encheu-se tudo +o que havia em casa e mais duas vasilhas de noventa +almudes que se pediram. Se o preço fosse bom, +era uma riqueza. Iam agora começar com a azeitona. +Tambem não era mau anno mas o feitor dizia que +não passaria de metade da colheita anterior. Os creados +é que muito lhe custavam a supportar, sempre +com intrigas, com invejas, trabalhando pouco e exigindo +muito.</p> + +<p>—Grande náo, grande tormenta, dizia lembrando-se +com saudade dos tempos de Villalva e do socego +em que lá vivera durante quarenta annos.</p> + +<p>Claudio ouvia com interesse as palavras da mãe. +Involviam-lhe o coração n'um alento d'amor que ha +muitos mezes desconhecia; todo se entregava a esta +caricia que recebia como uma benção. Demais, nunca +tinha esquecido a casa e as lavouras; os habitos +da infancia arreigaram-se-lhe no espirito, o ruminar +dos bois, o latido dos cães e o murmurio do arvoredo, +todos os doces ruidos que acompanham a vida +dos campos tornaram-se para os seus ouvidos o mais +mavioso dos córos cuja harmonia lhe fazia esquecer +o mundo e os homens para o confundir pantheistamente +no movimento da natureza. No eterno canto +que da terra se desprende, a sua alma vibrava unisona.</p> +<span class="pagenum">[59]</span> + +<p>Por isso, voltando a casa, tudo corria e via, interrogando +secretamente esses queridos seres que +ainda na mudez lhe respondiam. As folhas dos platanos +voavam já pelas ruas do jardim levadas no humido +sudoeste que ia trazer as primeiras chuvas do +inverno, os loureiros começavam a destacar negros +entre os choupos amarellecidos, as aguas corriam +livres, á borda dos campos relvosos, frescos dos copiosos +orvalhos do outomno; abria-se a hora do recolhimento +e da treva.</p> + +<p>Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada +a hora de recolhimento no estudo, pelas noites +de inverno ou pelas suas geladas manhãs, junto ao +fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado +o espirito n'esta atmosphera amiga, havia +então de estudar e, alliando com as leituras a recordação +do muito que vira, as infinitas impressões que +armazenara na memoria durante seis mezes em que +correra sempre, n'este novo consorcio o estudo havia +de ser captivante e util. Passaria ali o inverno, +todo o verão seguinte, ainda outro inverno, e depois +iria em nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria +na sua educação.</p> + +<p>Os dias porém iam correndo, estavamos já em +meiado de novembro, e os livros trazidos de Paris +jaziam intactos, em monte, a um canto do gabinete, +entre recordações de viagem, um punhal de +circassiano comprado em Tula, mosaicos de Florença +e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de começar +como um estudante relapso; todos os pretextos +lhe serviam, a necessidade de frequentar o lagar que +precisava reparação, as visitas a antigos conhecimentos +de Coimbra, um novo curral que construia +em Villalva, á maneira do que vira na Hollanda. +Dissipava o tempo n'esta inquietação, com um inconfessado +temor dos enfados do estudo. Lia desconexamente +grande copia de romances, Bourget, +<span class="pagenum">[60]</span> +Tolstoi e os russos, cuja fama no occidente despontava +a este tempo, mas os volumosos tratados de +sciencia e de philosophia continuavam esperando.</p> + +<p>Ás vezes sentia saudades de Londres, de Paris e +dos seus prazeres. Estudo, lavouras, deveres sociaes, +destino da sua vida, tudo passava então ao rol das +phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna +regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos? +Não eram o seu legitimo direito? Amar, beber, regalar +os olhos e os ouvidos nas maravilhas da arte, +em artistica sensualidade, era o que lhe convinha, +era o que cabia á sua edade, era o que havia de lhe +trazer em recompensa o riso e a franca alegria de +que tanto carecia e em que corpo e alma haviam de +expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra +a clausura.</p> + +<p>E os piedosos conselhos da mãe? Coitada! Illusões +das almas simples; a verdade era muito outra. Não +tinha sido vão o baptismo nas aguas de cynismo +epicurista em que se iniciára pelos templos afamados +da devassidão cosmopolita.</p> + +<p>Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia +Emilia.</p> +<span class="pagenum">[61]</span> + + + + +<h1>III</h1> + + +<p>Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco +fallou com Emilia, elle prezo a uma meza +do <i>whist</i>, para ser agradavel ao juiz que +sem isso se aborrecia, ella dansando sempre. +Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz, +as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, +muito praticas em galanteios e n'esta especie +de reuniões, de fluente banalidade. Animavam +muito, dizia-se; com ellas e quatro +estudantes que de Coimbra acompanharam +o sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas +seguiram-se quasi sem interrupção. Á meia +noite parecia haver certo cansaço, mas, como o doutor +mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, +a alegria renovou-se.</p> + +<p>—Que bella noite! dizia um dos estudantes para +as damas. O peior é ámanhã a <i>cabra</i>. Eu ainda não +vi nem uma linha da lição. Provavelmente já não me +deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o +que ha de ser de mim!</p> +<span class="pagenum">[62]</span> + +<p>Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e +via já ali correspondencia amorosa para uns bons +seis mezes, apressava-se a responder-lhe:</p> + +<p>—Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco +temos o Sagrado Coração de Jesus. Não falte. Quero +ver...</p> + +<p>—Se eu poder... Queira Deus que não venha a +cahir em férias de ponto!</p> + +<p>Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por +finda e Claudio veio então a uma janella respirar por +um momento o ar fresco da noite e repousar a cabeça +aturdida pela immobilidade e pela attenção +forçada.</p> + +<p>O dr. Carvalho, vendo-o só, abeirou-se d'elle para +o distrair.</p> + +<p>—Tem-se aborrecido muito, não é verdade?</p> + +<p>—Não!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas +meninas para nos communicar alegria. Esta D. +Emilia, principalmente, é d'uma vivacidade...</p> + +<p>—Ah! muito galante!</p> + +<p>—E fina...</p> + +<p>—Parece incrivel que ella ainda conserve estas +maneiras fidalgas, a viver todos os dias com um homem +d'aquelles!</p> + +<p>—É grosseiro, o marido?</p> + +<p>—Não imagina!</p> + +<p>—Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um +pouco amigo de vinho.</p> + +<p>—Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e +d'uma brutalidade nunca vistas. Eu conheço perfeitamente +a historia d'essa rapariga, por um condiscipulo +meu que era muito lá de casa d'ella e creio até +que ainda parente.</p> + +<p>E contou:</p> + +<p>—Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos +meios mas andando constantemente em muito +boa roda, porque a familia era realmente muito fidalga. +<span class="pagenum">[63]</span> +Os paes estavam quasi sempre por Penacova. +Tinham ali proximo, no Chello, uns bemsitos, uma +casa na villa, e para economisar,—coitados, não havia +melhor!—viviam lá todo o anno, com excepção +do tempo que passavam na quinta do morgado do +Véro que os convidava muito, para os ajudar. Dos +quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga, +morreu de variola, dos rapazes um assentou praça, +creio que já está tenente, o outro que era um estroinão, +foi para o Brazil, e esta, a Emilia, casou, +mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo +era escripturario de fazenda e que só depois foi +nomeado escrivão, por muita instancia do morgado +do Véro com o Marques Lino, deputado pela +Louzã.</p> + +<p>Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha +lá de Lisboa, habituada a muita convivencia e a muito +namorisco, encontrou se só, não tinha mais ninguem +que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes +ainda se oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança +de lhe arranjarem um casamento rico, mas +começaram, com estas cantigas do costume, a dizer-lhe +que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era +o dinheiro que fazia a felicidade, e, como eram babosos +pela filha e ella andava doidinha de todo, lá se +deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora o +Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é +sei-o eu, um grande relaxado com muito pouca vergonha +e muita impostura, que se convenceu de que +a protecção da familia da mulher ainda o podia levar +a escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se +apanhou servido, fez-se então um bebado descarado, +sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em casa +com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta +de obscenidade deante da mulher e dos filhos... +É impossivel que esta mulher, para quem manobrasse +com arte... Deus sabe até o que ella terá feito +<span class="pagenum">[64]</span> +por outras terras!... porque não creio que ella com +o genio desinvolto que tem e vendo o que o marido +é e como a trata...</p> + +<p>—Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.</p> + +<p>—Não... mas aquillo não falha. Estava bom para +si que é novo e tem tempo para essas cousas!</p> + +<p>—Para mim?</p> + +<p>—Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?</p> + +<p>—Não são annos de fortuna! respondeu Claudio +sorrindo e encaminhando-se para o centro da sala, +d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.</p> + +<p>—Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois, +passeando a passos largos no seu gabinete, de +regresso de casa do dr. Carvalho.</p> + +<p>Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa, +educação aristocratica. Que desenfado para os seus +ocios de Albergaria!</p> + +<p>Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada, +o marido desleixado, sempre pelas tascas, +repellente para quem se mostrava de habitos tão +finos e sensibilidade tão delicada. Não devia falhar +a aventura.</p> + +<p>Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a +confiança de Emilia, mais dois de correspondencia +amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o resto +estava certo.</p> + +<p>Era claro! Uma mulher casada sabia bem para +que era que elle lhe fazia a côrte. Não tinha a esperar +casamento. Devia ser boa essa situação em +que nunca podia haver compromissos de futuro. E o +marido? Com aquella obesidade, calvo e de lunetas, +não seria de temer.</p> + +<p>Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro; +não se mostrando muito avaro, havia de +o manter em boa disposição. Um achado, um achado! +O peior era a mãe; não havia de gostar, haviam +de lhe produzir grande impressão os amores com +<span class="pagenum">[65]</span> +uma mulher casada. Coitadita! Não sabia o que era a +lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio +aquelle immundo bebado guardava para si uma deliciosa +mulher?</p> + +<p>Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais +do que qualquer outro; estavam no seu direito, haviam +de amar-se livremente.</p> + +<p>A natureza não conhecia fidelidades nem infidelidades; +os seres attraiam-se por selecção natural, não +havia fugir á lei.</p> + +<p>Demais, isto era uma aventura; se a velhita +se mostrasse muito contrariada, punha-se termo ao +episodio. Nem a elle convinha prolongal-o. Um +anno, quando muito; na primavera seguinte, malas +feitas e a caminho do Oriente! Nada de se prender +com pieguices; isso era bom para os tempos em que +ia ao Outeiro fallar com a Conceição e tinha escrupulos +de lhe tocar. Fôra bem tolo! Se fosse agora, o +caso seria outro. Já era tempo de ser homem.</p> + +<p>Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte +iria visital-a. Era correcto. Continuariam a +conversação da estrada de S. Braz, que ia em bom +caminho de intimidade, e não sairia sem deixar ajustado +sob qualquer pretexto novo encontro. Era preciso +bater a caça sem cessar.</p> + +<p>Os devaneios da imaginação amorosa prolongaram-se +até altas horas da noite. E adormeceu contente, +nas suas risonhas esperanças.</p> + +<p>Pela manhã dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar +como de costume! Abriu um livro de botanica, +mas não estava em boa disposição de leituras scientificas.</p> + +<p>Era melhor um livro de pura litteratura. O quê? +Tourgueneff? Não; eram tristes estes russos com as +suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria e a dôr. +Eram fracos; questão de clima, de lymphatismo e +inacção forçada pelos rigores da natureza. Com um +<span class="pagenum">[66]</span> +sol tão lindo e o jardim como um açafate perfumado +de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se +em pensamentos sombrios.</p> + +<p>Vejamos outro. Balzac? Tambem não; era uma +obsessão de gente fallida, credores e agiotas por +todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a +angustia da cubiça.</p> + +<p>Outro ainda, vamos correndo a estante. Merimée! +Ah! Merimée... este sim, este era um homem são. +Sceptico, dizem. Que importa? Não é o scepticismo +a verdadeira philosophia? Quem póde dizer-me o +que é vicio e o que é virtude? Phantasias! O que +existe é a natureza humana com todas as suas forças +e a sua expansão. A harmonia ha-de sair da lucta, +deixemos livre o instincto.</p> + +<p>Abriu as <i>Cartas a uma desconhecida</i> e foi sentar-se +proximo da janella, comodamente estirado n'uma +poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava uma +sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de +regatos, scintillações do orvalho na folhagem mimosa, +balsamos das flores que desabrocham, vozes sentidas +das aves que se amam e preparam o ninho.</p> + +<p>Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia á sua +doçura, pousou o livro sobre os joelhos e, apoz breves +minutos de hesitação, lançou-o sobre a mesa e +desceu a vaguear pela sombra dos platanos, á beira +dos lagos que os ramos beijavam, curvados, em mystico +amor. A imagem de Emilia não lhe deixava os +olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que +lhe diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de +conquistador.</p> + +<p>Ao meio dia foi almoçar.</p> + +<p>De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo +morbidamente irritado da atmosphera de fumo e de +poeira em que permanecera durante cinco horas. +Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente +o somno; era um dormir febril em que o retrato +<span class="pagenum">[67]</span> +de Emilia permanecia como visão insistente. +Por isso, depois do almoço, cedendo á fadiga e ao +torpor da digestão, adormeceu novamente n'um divan +do seu gabinete. Quando accordou, eram cerca +de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco +estaria ao pé da sua amada.</p> + +<p>Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais +elegante que trouxera de Londres. A gravata era um +problema; as mulheres attentam em todas estas frivolidades +e é necessario satisfazer-lhes o espirito. +Luvas, sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos +a resolver e que Claudio considerou um a um, +experimentando e observando, em frente do espelho.</p> + +<p>Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da +praça, lembrou-se de que tinha de passar em frente +da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o traje. +Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia +ser que elle o não visse... Foi para diante. De facto, +o pharmaceutico dormia a sésta. Por esta vez, estava +salvo da interrogações compromettedoras.</p> + +<p>Á porta da casa da rua da Cruz, em que morava +Emilia, bateu de mansinho duas pancadas com a +bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada +despida e núa. Sentiu-se um abafado rumor de +passos apressados e veiu abrir a porta uma rapariga +descalça, os cabellos curtos, escondendo as mãos +sob um avental de riscado.</p> + +<p>A rapariga olhou Claudio com surpreza.</p> + +<p>—O sr. Almeida está?</p> + +<p>—O sr. Almeida está a descansar.</p> + +<p>—E a sr.<sup>a</sup> D. Emilia?</p> + +<p>—A sr.<sup>a</sup> D. Emilia acabou ha pouco de jantar.</p> + +<p>—Leva-lhe este cartão e diz lhe que eu desejava +fallar-lhe, sim?</p> + +<p>E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma +de ouro, um cartão em que se lia: <i>C. de Sousa +<span class="pagenum">[68]</span> +Portugal</i>. Mandara-os fazer em Paris, eram os que +usava no estrangeiro e já por vezes o tinham feito +passar por conde.</p> + +<p>A creada voltou:</p> + +<p>—Que faça favôr de subir...</p> + +<p>Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena, +rectangular, com uma só janella saccada, e tendo +por toda a mobilia um sofá coberto de palhinha, algumas +cadeiras, um tapete, uma meza com um panno +vermelho, sobre ella um candieiro, dois castiçaes, +um par de jarras vasias e um album de photographias, +e na parede um retrato a carvão, mal desenhado. +A pobreza transparecia n'aquella nudez.</p> + +<p>Emilia appareceu immediatamente, com um vestido +de chita clara muito singelo, apertado no pescoço +por uma larga fita de velludo preto e um alfinete de +prata, um só annel, a alliança, na mão esquerda, o +pequenino pé bem calçado de preto. Apertou a mão +a Claudio e, começando a conversa, disse-lhe que o +marido estava a descansar mas que ia chamal-o.</p> + +<p>—Não o incommode v. ex.<sup>a</sup> por minha causa, vinha +só apresentar a v. ex.<sup>as</sup> os meus respeitos.</p> + +<p>—Mas elle é que ha-de sentir não o vêr.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus lhe peço, não o incommode.</p> + +<p>Sentaram-se. Fallaram da reunião da vespera e +apreciaram a belleza das raparigas que lá foram. +Claudio teria estado melhor se podesse conversar +um pouco mais, e accentuava significativamente estas +palavras; mas o juiz, coitado! é que já não prescindia +do <i>whist</i> e não quiz contrarial-o. A ella por +certo não tinha acontecido o mesmo. Dansára toda a +noite e n'isso estava a suprema felicidade, não era +verdade?</p> + +<p>A conversação da estrada de S. Braz recomeçava. +Pela janella aberta via-se um largo campo em que +uma rapariga graciosamente curvada ceifava, balouçando a +fouce com agilidade, o azevem prestes a +<span class="pagenum">[69]</span> +amadurecer que se estendia n'um vasto lençol, ondeando +ao vento, em fugidios reflexos prateados; em +baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando +os caminhos e abrigando os regatos; ao longe, +a orla negra do horisonte com os montes cobertos +de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos +fenos que seccavam ao sol, as pavêas alinhadas na +terra e polvilhadas de pontos amarellos, murchas +flores de malmequeres.</p> + +<p>Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana +era uma injustiça com a feliz sorte que o destino +lhe concedia, dizia Claudio. Que linda payzagem! +Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos +pontos mais bonitos da villa.</p> + +<p>—Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia; +mas ou por estar habituada ao local ou porque realmente +não está no meu feitio apreciar estas cousas, +nunca penso em tal paysagem. Venho á janella para +vêr se temos sol ou se temos chuva. Só este silencio +é de morrer! Parece-me que estou n'uma sepultura, +eu que fui educada no meio de tanta gente. Não! +Por emquanto não me dou por convencida!</p> + +<p>—Mas hei-de convencel-a, creia v. ex.<sup>a</sup> Não me +será difficil.</p> + +<p>—Talvez...</p> + +<p>—Com certeza. E mais tarde v. ex.<sup>a</sup> ha-de agradecer +m'o. Será o meio de se aborrecer menos em +Albergaria.</p> + +<p>N'isto, o escrivão assomou á porta d'uma alcova, +em chinellos, sem luneta e sem collarinho, a camisa +desabotoada.</p> + +<p>—Oh! disse confuso, queira v. ex.<sup>a</sup> perdoar, sr. +doutor. Estava a descançar, senti fallar e levantei-me +pensando que era o meu escripturario que ficou de +me trazer esta tarde o borrão das novas matrizes da +Afurada. De fórma que...</p> + +<div class="centrado"><img src="images/002.jpg" alt="—Oh! disse confuso, queira v. ex.<sup>a</sup> perdoar, sr. doutor."></div> + +<p>—Ora, sem cerimonia, á sua vontade. O que eu +<span class="pagenum">[70]</span> +sinto é ter vindo perturbar-lhe a sésta, mas não queria +deixar passar mais tempo sem vir apresentar os +meus respeitos a vv. ex.<sup>as</sup>.</p> + +<p>—Muito obrigado, muito agradecido, não era necessario +incommodar-se.</p> + +<p>—Estava admirando estas lindas vistas de sua +casa...</p> + +<p>—Ah! sim, não são más, mas a casa não presta +para nada. Ora eu lh'a mostro que ella depressa se +vê.</p> + +<p>Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.</p> + +<p>—Quem anda sempre com a mala ás costas, disse, +sem paradeiro, não póde ter a casa em ordem. V. +ex.<sup>a</sup> vae pasmar da nossa sumptuosidade.</p> + +<p>—Que importa! apressou-se a responder Claudio, +accudindo ao embaraço de Emilia. Bem pequena era +a nossa casa de Villalva e viviamos lá contentes. Estou +quasi arrependido de ter mudado.</p> + +<p>O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos +quartos, uma sala de jantar e para além, indicava, +a cosinha, a dispensa e um quarto para as creadas. +Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha, +este pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava +o da janella; serve para os pequenos brincarem.</p> + +<p>—Um cantinho delicioso; só esta vista vale um +palacio, dizia Claudio.</p> + +<p>—Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei +uma casa que nem vidros tinha! Esta ao menos é +mais limpinha.</p> + +<p>De pé, em frente da janella, conversaram ainda +algum tempo. Claudio pedia informações da casa, +perguntava os limites da propriedade, quanto teria +custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos +de Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente +vender-se-ia porque elle trazia a propriedade +muito desprezada e arrendada.</p> +<span class="pagenum">[71]</span> + +<p>—É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa +um pouco mais abaixo, de fórma que podesse descobrir +toda a varzea.</p> + +<p>—Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!</p> + +<p>—Não me quero prender, tenho ainda uma vida +tão incerta... E não incommodo mais a v. ex.<sup>as</sup>, +disse abruptamente, curvando-se e estendendo a mão +a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que +tinha vindo perturbar-lhes o seu socego. A culpa +não é minha, a culpa é da amabilidade de vv. +ex.<sup>as</sup>.</p> + +<p>—Nós é que ficamos muito obrigados á sua amabilidade, +replicava ella. Quando quizer apparecer... +Estamos quasi sempre em casa; á noite mesmo, só +saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.</p> + +<p>—Não me despeço d'acceitar o favor, ia dizendo +já a caminho da escada.</p> + +<p>—Mesmo para vêr se me converte á boa doutrina...</p> + +<p>—Hei-de converter, por Deus!</p> + +<p>Claudio sahiu contente. A sua intimidade com +Emilia caminhava a passos largos; ainda ha dois +dias era uma desconhecida e já hoje lhe offerecia +relações continuadas. O escrivão tambem devia estar +contente; um desgraçado, sempre perseguido dos +credores, havia de exultar com a amisade de quem +lhe podesse valer com largueza. Era não desanimar +nem perder tempo. Fallavam-lhe em ir lá á noite? +Aproveitaria. Excellente! E depois Emilia cada vez +lhe parecia mais tentadora. O que era a educação! +Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre +quatro paredes caiadas e núas! Que differença +entre aquelles habitos e o desleixo provinciano. Já +mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos, +na sua modestia, os dois pequenitos de Emilia +que via á tarde, na botica, passando da escola. +<span class="pagenum">[72]</span> +Devia soffrer muito a infeliz rapariga, tão fina de nascimento, +ligada a um homem estupido e boçal que +necessariamente a trataria como a qualquer escripturario +de fazenda.</p> + +<p>Uma breve impressão de piedade lhe passou no +coração, mas immediatamente procurou affastal-a. +Era uma preza que buscava, uma amante delicada e +fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, já +com pretensões a gôsos artisticos; nada de romantismos. +Se se punha com pieguices, tinhamos outra +Conceição, e para vergonha uma bastava. Aquella +desculpava-se por creancice; agora devia ser homem. +Ia gosar, não ia chorar.</p> + +<p>Cuidado, muito cuidado, para que não désse algum +passo em falso e prejudicasse a sua grande +ambição! N'isso é que devia pensar. O resto... nada +de escrupulos; se não fosse elle, havia de ser outro; +era impossivel que ella se não aborrecesse d'aquelle +bebado que demais tinha, segundo diziam, uma +amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que já teria +acontecido pelas outras terras onde ella andou. +Caça d'arribação!</p> + +<p>E com estes pensamentos fortalecia o animo para +a sua nova empreza.</p> + +<p>Emilia dissera-lhe que apparecesse á noite; havia +de o fazer, era até a hora que mais lhe convinha.</p> + +<p>Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!</p> + +<p>O dia livre para o estudo e para cuidar dos +bens, a noite, essa noite que até agora tanto o enfadava, +para as caricias da amante.</p> + +<p>Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo +pelo qual nunca podéra seguir no estudo cingindo-se +aos programmas que architectava, fosse esta ausencia +de prazeres.</p> + +<p>Tambem devia contar com elles, como homem +que era, para a propria perfeição, para alcançar a +<span class="pagenum">[73]</span> +plenitude de desenvolvimento mental a que aspirava.</p> + +<p>Para isso a influencia da amante devia ser salutar, +vinha preencher uma lacuna da sua existencia.</p> + +<p>Os impulsos de namorado transformavam-se na +alma de Claudio em esperanças de gozo, de paz e de +saber, d'essa vida tranquilla e nobre; e, o espirito +enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em +que havia de voltar a casa de Emilia.</p> + +<p>Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve +pela primeira vez. Mostraria uma pressa que ao marido +se podia tornar suspeita, e vaidosamente resolbêra +usar de todas as precauções que á sua conquista +conviessem, como homem astuto e habil. Nem +sequer lhe devia passar á porta.</p> + +<p>Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos, +palestrou alegremente com o boticario, passeou bastas +vezes no jardim, e assim consumiu o tempo d'estes +dois dias que precederam a nova visita a Emilia.</p> + +<p>Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em +boa disposição, a alegria distraia-o, inquietava-o. Em +pouco tempo, pensava, viria a tranquillidade, quando +a sua vida estivesse definitivamente fixada.</p> + +<p>Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha +tantas esperanças. Seria melhor vestir-se antes +de jantar e poderia mesmo referir-se a esse facto na +conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o +aos seus olhos o habito elegante de, ainda na +provincia e só, mudar de trajo para se sentar á +meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair +medeiava um espaço de tempo em que não sabia que +fazer... Era melhor vestir-se então e a Emilia diria +do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.</p> + +<p>Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava +<span class="pagenum">[74]</span> +tão profundamente? Sim, mas por costume, por +vicio de educação de que necessitava corrigir-se. Se +a mentira era um instrumento proprio a conseguir +o seu fim, porque não o havia de usar? A lucta pela +vida, a lucta pela vida! Grande lei! N'essa é que +precisava inspirar-se.</p> + +<p>O jantar, em companhia da velha mãe, que lhe +chamava ceia e pouco comia porque, dizia, tinha +jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou, +ainda a noite não se tinha cerrado.</p> + +<p>Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se +pausada e esmeradamente. O relogio, parecia-lhe, +caminhava lento; mau grado seu, achou-se +prompto ainda não eram oito horas. Tinha-se impacientado +talvez, apezar do proposito em contrario que +fizera.</p> + +<p>Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli, +quieto; ia dar um pequeno passeio e depois das oito +horas se dirigiria a casa de Emilia.</p> + +<p>Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da +descida, sentou-se n'um banco de pedra que alli havia. +Não iria mais longe. A poeira enxovalhava o e +não queria voltar a casa para se limpar; poderiam +estranhar tantos cuidados.</p> + +<p>A noite estava calma e morna; sobre a sua cabeça +uma abobada de arvores colossaes, cortada a espaços +breves e raros pelas manchas do céu que empallidecia +á luz do luar nascente.</p> + +<p>Além, para lá do valle em que as aguas corriam +murmurosas, ficava a casaria da encosta, ainda na +sombra; depois, a viva crista dos montes; por detraz, +erguia-se a lua jorrando silenciosamente a +claridade. Nos loureiros, á beira dos regatos, debruçados +sobre alfobres mimosos, cantavam os rouxinoes.</p> + +<p>Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor. +A figura de Emilia passou-lhe nos olhos como uma +<span class="pagenum">[75]</span> +apparição de pureza; não era n'aquelle momento a +sensual amante que buscava, era uma belleza ideal +que adorava.</p> + +<p>Romantismo! oh! o maldito romantismo que o +atacava! Quando se veria livre d'aquella molestia? +Porventura seria incuravel e nunca chegaria a sua +hora de forte e viril razão? Procurou dissipar estes +sentimentos, que tinha por fraqueza, e começou a pensar +no que iria dizer á Emilia.</p> + +<p>Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos +feminis, fallar-lhe de elegancia, mostrar-lhe com que +luxo vivera em Paris, no <i>Continental</i>, e como sabia +aprecial-o. Por este meio havia de alcançar a sua +admiração; d'ahi a mostrar-se em confronto com a +grosseria e a rudeza do marido, o caminho era curto. +Não poderia escapar-lhe.</p> + +<p>Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo. +Podia ir sem risco de mostrar ignorancia dos costumes +elegantes.</p> + +<p>Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso +e desesperado da sua anciedade. Sempre aquella +fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis não, porque +aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia +da sua desproporcionada agitação mais o +irritava. Que podia temer? Que o não recebessem? +Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus +galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas +em uma só batalha. Era pedir muito. Vaidade +da sua parte; concluia. O que elle receiava era a +infelicidade na sua empreza que tomaria por uma +prova de incapacidade para as luctas do mundo. Coragem, +firmeza! Não havia de succeder assim.</p> + +<p>Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita +descalça, correndo pressurosa, da cosinha, onde preparava +o chá, mangas arregaçadas e o lenço mal atado, +quasi solto, a cair-lhe nos hombros.</p> + +<p>—A sr.<sup>a</sup> D. Emilia recebe? perguntou Claudio, +<span class="pagenum">[76]</span> +suspeitando de que Emilia o ouvisse e procurando +uma linguagem elegante.</p> + +<p>—Os senhores estão na sala, respondeu promptamente +a creada. Faça favôr de subir.</p> + +<p>Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, +Emilia costurava, um pequeno açafate pousado +ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um jornal +approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza +sobre que estendia os braços e o papel.</p> + +<p>—Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida +e franca alegria.</p> + +<p>—Eu tinha promettido... começou Claudio.</p> + +<p>—Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos +dias em que não tenho de ir a Coimbra é sempre +esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão deitados; +mal anoitece, começam logo a cair com somno. +A Emilia passa o tempo com os farrapos. A mim, o +que me vale é o <i>Seculo</i>. É muito bom jornal. V. ex.<sup>a</sup> +não costuma lêl-o?</p> + +<p>—Não, nunca o vejo.</p> + +<p>—Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o +que me vale. E ainda assim, quando Deus quer, ás +nove horas estou na cama. Quando quizer... faz-nos +muito favôr.</p> + +<p>—Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho. +Imagino que os celibatarios hão-de ser muito +importunos para a gente casada.</p> + +<p>—Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda não +pude habituar-me a deitar-me cedo; antes da meia +noite não durmo. Por aqui me entretenho conforme +posso. E ainda v. ex.<sup>a</sup> quer que me conforme com a +vida de provincia!... Só estas noites são um castigo!</p> + +<p>—N'esse ponto concordo. Tambem me custam um +pouco.</p> + +<p>Ia recomeçar a antiga conversação. Estavam satisfeitos +os desejos de Claudio; teria ensejo de mostrar +<span class="pagenum">[77]</span> +que, apezar das suas preferencias pela vida do +campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica, +experimentára-a, e em Paris tinha andado +em todos os regalos do luxo. Para Emilia devia ser +uma fascinação.</p> + +<p>Mas em breve a conversação caiu no extremo +opposto. Não era de Paris que se fallava, era de Villalva, +da sua paz e das suas alegrias. Emilia ouvia-o +com tanto interesse, tão meigamente o instigava á +intimidade que Claudio, impensadamente, esquecendo +todo o proposito anterior, caiu no mais completo +abandono e começou n'uma confissão sincera, espontanea, +d'um coração que estava a trasbordar d'affecto, +almejando por um coração gemeo em que o vertesse.</p> + +<p>Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo +a casa, fôra encontral-o no leito, os olhos +cerrados e a face livida, n'uma serenidade em que +lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada +consciencia.</p> + +<p>Relembrava as silenciosas lagrimas da mãe junto +do cadaver do esposo e quanta grandeza vira n'aquella +mudez de estatua, n'aquella dôr tão pura que se +concentrava recatada, como temendo polluir-se no +contacto com a indifferença mascarada de lucto que +sempre apparece n'essas horas. Elle, Claudio, não +chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante +esse quadro em que se resumiam tantos annos de +communhão no amor e no trabalho. Intimamente +perguntava em que dissipára os trinta e tres annos +da sua existencia.</p> + +<p>Só mais tarde é que poude sentir uma infinita saudade; +só mais tarde é que percebeu bem o desapparecimento +d'aquella sombra querida a labutar, a labutar, +pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol, +pelo frio penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo +reverbero das estrellas. No primeiro instante, fôra +<span class="pagenum">[78]</span> +apenas uma grande lição. Que era a sua vida de estudo +ao lado d'aquella ignorada epopêa? Aquelle sim, +aquelle tinha chegado ao posto, aquelle tinha sido +digno.</p> + +<p>A confissão corria torrencial, como as aguas do +açude que se despenham. Ricardo ouvia e vagamente +presentia qualquer cousa captivante; Emilia, na +sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo +e inconsciente arrebatamento de admiração. Já não +provocava a conversação, interrogando; o mais espontaneo +tornava-se para ella o mais agradavel. E, +quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou +com visivel pezar:</p> + +<p>—Já?!</p> + +<p>—São dez horas e não quero contrariar os habitos +de v. ex.<sup>as</sup> Estou aqui ha duas horas! Para sécca não +foi pouco.</p> + +<p>—Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois +não lhe faço a vontade! Não digo nada.</p> + +<p>—Faz v. ex.<sup>a</sup> muito mal. Quem cála consente e eu +sou capaz de voltar.</p> + +<p>—Queira Deus que seja breve!</p> + +<p>Ricardo acompanhou Claudio até á porta e voltando +á sala:</p> + +<p>—Parece ter bom coração este rapaz, disse, dirigindo-se +a Emilia.</p> + +<p>—É muito sympathico e muito fino, respondeu +ella. Ninguem ha-de dizer que foi creado na aldeia.</p> + +<p>—Lá estás tu com toleimas. Imaginas que só essa +gente de Lisboa é que sabe conversar. Um rapaz +rico e que tem viajado!...</p> + +<p>Emilia não replicou. Temia as brutalidades de linguagem +do marido e não queria provocal-as.</p> + +<p>Ambos se alegravam com as novas relações: ella, +porque via em Claudio uma boa companhia para attenuar +o aborrecimento das noites provincianas e o +marido porque systematicamente cortejava todas as +<span class="pagenum">[79]</span> +pessoas ricas que poderiam ter influencia, esperando +alcançar melhor collocação. A sua aspiração, presentemente, +era passar para recebedor; teria menos +trabalho e mais alguns proventos.</p> + +<p>Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz, +descontente da sua inhabilidade, interiormente humilhado +do seu procedimento. Não era aquella a +conversação que tinha marcado como inicio de conquista; +tinha feito tenção de fallar a Emilia da vida +elegante e fôra contar-lhe intimidades de Villalva. +Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter na +vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre +infeliz!</p> + +<p>O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes +lhe recusavam. E, depois, praticára uma ruim +acção cujos aspectos negros a imaginação lhe avolumava, +dando-lhe as proporções d'uma grande infamia; +fallára a Emilia da morte do pae, a Emilia que +d'antemão tinha considerado sua amante! Como, por +que estranha aberração de todas as regras moraes, +que tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as +cousas intimas e sagradas, aquillo que no seu coração +havia de mais recatado e nobre, com os mais +baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno, +e esta suspeita torturava-o.</p> + +<p>A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta +oppressão. A fadiga e a frescura da madrugada trouxeram-lhe +porém duas horas de repouso. Pelas sete +horas da manhã despertava e a alegria da natureza, +o bulicio do mercado, que era junto á sua casa, todo +o fremito de vida proprio d'aquella hora conseguiram +infundir no espirito de Claudio a tranquillidade +perdida e porventura um vago contentamento.</p> + +<p>Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado +da morte do pae, mas que mal houvera n'isso? +Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a apparencia +de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado +<span class="pagenum">[80]</span> +com que olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar +bem da sua honestidade. Os amores não tinham +passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se +na sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio. +Não havia de que se arrepender. Tivera confissões +intimas com uma mulher que conhecia ha pouco, +mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar; +a isto se reduzia a sua falta, se falta tinha havido. +Não era motivo para inquietações.</p> + +<p>Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar +os serões de Emilia, duas ou tres vezes por +semana.</p> + +<p>Os fumos de conquistador pareciam apagados, +lançara-os á conta das suas bastas phantasias, e entregava-se +sem reserva á doçura d'um convivio em +que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar +Emilia. Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, +muito bem educada; havia de gostar d'ella.</p> + +<p>—Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas! +Nunca me entendi com essa gente. Não saio do meu +canto, estou velha para aprender costumes novos. E +quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não +ha um mez e já te parece uma santa. Caça d'arribação! +dizia teu pae que Deus haja.</p> + +<p>—É porque a minha mãe não a conhece. Em a conhecendo, +ha-de gostar d'ella, verá.</p> + +<p>Mas a velhita, na sua bisonha desconfiança, não +se dava por vencida, meneando negativamente a cabeça.</p> + +<p>Aos sabbados era a reunião em casa do dr. Carvalho. +Claudio nunca faltava. Dispunha sempre as +suas cousas de modo a que estivesse livre n'essas +noites.</p> + +<p>Emilia pedia-lhe singelamente que não faltasse +e elle queria mostrar-lhe que nunca esquecia os +seus desejos.</p> + +<p>Demais, se o juiz não vinha, não havia <i>whist</i> +<span class="pagenum">[81]</span> +e todos se juntavam em volta da meza do loto, palestrando +e interrompendo o jogo a cada instante.</p> + +<p>Então corriam horas deliciosas para Claudio, entregue +desprendidamente á admiração de Emilia cujo +espirito d'uma infantil alegria contrastava tão singularmente +com as suas pesadas e sombrias duvidas +habituaes. Para ella, a vida era apparentemente um +trinado de aves.</p> + +<p>Uma noite fallou-se dos passeios de Albergaria.</p> + +<p>—Ha um muito bonito, mas é um pouco longe, +disse Claudio, Lourosa.</p> + +<p>Ninguem sabia onde ficava.</p> + +<p>Claudio explicou:</p> + +<p>—Lourosa fica entre Villar e a Ariosa. Sóbe-se a +estrada até Villar, depois começa-se a descer e no +fim d'uns tres ou quatro kilometros encontra-se a +povoação. É uma aldeia, sem cousa alguma de notavel; +os pinhaes que ficam entre Lourosa e Villar, +esses são d'uma extraordinaria belleza, cortados de +ribeiros orlados de choupos e salgueiros, os montes +abundando em vegetação. Um retalho delicioso de +natureza montanhosa!</p> + +<p>Todos desejavam vêl-a.</p> + +<p>—É bem facil, dizia Claudio. Saimos d'aqui de +manhã, levamos o almoço, passamos por lá o dia e +ao anoitecer estamos em casa. Depende só da vontade +de v ex.<sup>as</sup>. É marcarem o dia e eu me encarregarei +de tudo.</p> + +<p>—Vamos lá! Estou prompto! Magnifico! Não +falto!—grande alarido de vozes confusas em torno +da meza.</p> + +<p>Ficou ajustado o passeio; iriam o dr. Carvalho e a +mulher, Emilia e Ricardo, as Silvas, de Barrosas, o +reitor, o dr. Maia, um rapaz da Beira que tinha vindo +advogar para Albergaria, e Claudio; ao todo umas +dez pessoas.</p> + +<p>Assim é que os passeios são bons, diziam; onde +<span class="pagenum">[82]</span> +vae muita gente, d'ordinario não se passa sem qualquer +cousa desagradavel.</p> + +<p>Tres dias depois, ás seis horas da manhã, no pateo +do palacio de Claudio, um char-à-banc ordinario +tirado por dois magnificos cavallos, nédios e impacientes +nos seus arreios burnidos, de ferragens reluzentes, +esperavam os convidados. Em cima do +carro havia tres cestos de verga, da ilha da Madeira, +dois fechados e um terceiro coberto com uma toalha +por baixo da qual se adivinhavam as garrafas de +vinho.</p> + +<p>Os convidados vinham lentamente. Claudio recebia-os +á porta. O primeiro foi o reitor que, contava, +já tinha dito missa e tomado a sua chavena de café; +era fraco e ninguem o apanhava em jornada de estomago +vasio. A isso, graças a Deus, devia a sua saude; +não havia de fazer como o seu collega do Eiral que +não tinha cuidado nenhum comsigo e agora lá ia +para as Pedras Salgadas a vêr se conseguia algumas +melhoras. Incommodo, despeza, e no fim viria bem +ou mal, como Deus quizesse:</p> + +<p>Depois do reitor veio o dr. Carvalho; tinha-se demorado +um pouco e pedia desculpa, mas não quiz +sair sem vêr a mulher do José Manco que estava +com uma pneumonia, muito doente.</p> + +<p>—Tenho feito clinica em muita terra, dizia, mas +pneumonias como as d'estes sitios nunca encontrei. +Terriveis! Quasi sempre fataes. Não sei se é do clima, +se da constituição da gente... Ahi vem já o Ricardo +e a sr.<sup>a</sup> D. Emilia com o dr. Maia. Bom! Só +faltam as Silvas. Não pensei, ainda assim, que fossem +todos tão pontuaes.</p> + +<p>Emilia vinha apressada e risonha, ao lado do marido +que conversava com o advogado, queixando-se +ambos da madrugada. Trazia um vestido de chita +azul guarnecido de rendas brancas, luvas côr de camurça +e grande chapéu de palha clara com papoulas +<span class="pagenum">[83]</span> +vermelhas. Trabalhára até á meia noite, a burnir o +vestido, a pregar-lhe as rendas que eram d'um outro, e +a enfeitar o chapéu composto com uma velha carcassa +que tinha comprado ha dois annos e as flores que +trouxera no chapéu de inverno.</p> + +<p>O marido regateava-lhe uma a uma todas as despezas +e envergonhada, ás occultas, andava constantemente +remexendo os farrapos para improvisar enfeites +que satisfazessem os seus appetites de elegancia.</p> + +<p>Agora que tinha de acompanhar Claudio, cujo bom +gosto começava a admirar, esmerara-se e vinha contente, +julgando que elle havia de reconhecer no traje +a distincção da pessoa.</p> + +<p>Não se enganava. Claudio admirou a sua gentileza; +intimamente fazia confrontos entre as senhoras +da villa. Emilia era decididamente a unica com educação. +Fina, muito fina! concluia no seu juizo.</p> + +<p>Pelo seu lado, procurava tambem não decair no +conceito da sua amada e pedia-lhe agora desculpa +da pobreza da carruagém. Uma grande falta de recursos +para fazer alguma cousa em termos! Tinha +procurado um <i>breack</i> decente, mas nem em Coimbra +o poude arranjar. Uma miseria! Vira-se obrigado a +remediar-se com aquelle que ali estava e os seus cavallos. +Se continuasse por ali, porque pensava em +se estabelecer definitivamente em Albergaria, havia +de comprar uma carruagem propria para aquelles +passeios.</p> + +<p>Eram quasi sete horas quando appareceram as +Silvas, acompanhadas d'uma creada ofegante, com +uma pequena cesta á cabeça.</p> + +<p>—Ah! disse a mais velha, julguei morrer! Que estafa! +Mas a culpa não foi minha. A mana não quiz +vir sem trazer um bolo de sete cantinhos,—é muito +bom, é ainda feito por uma receita que nos deu a D. +<span class="pagenum">[84]</span> +Adelaide Saldanha,—e aquelle forno é um castigo. +Primeiro que aqueça...</p> + +<p>—Ora v. ex.<sup>a</sup> a incommodar-se... interrompeu +Claudio.</p> + +<p>—Deixe lá, deixe lá, disse o dr. Carvalho, que +mostrava com ellas grande confiança, quem corre de +gosto não cansa. E visto que foi para nosso regalo, +havemos logo de lhe fazer uma saude. Olhe, já ali +vão,—e apontava para o cesto das garrafas.</p> + +<p>Recolheram-se todos á carruagem que partiu, oscillando +ao sair o portal. O reitor e Ricardo tomaram +logar ao pé do cocheiro.</p> + +<p>—Vamos aqui melhor, dizia o Ricardo para o reitor, +escusamos de aturar senhoras. É bom para o +Maia que está novo e o Carvalho tambem... chega-se +muito para as Silvas. É menino! Eu cá já não faço +versos. Tomára eu mas é o almoço. Parece-me que +já ia.</p> + +<p>—O sr. tambem está sempre com essas cousas! +Ora não seja má lingua... dizia o reitor.</p> + +<p>Ao passarem na botica, estava o boticario á porta +a conversar com o regedor do Sobral.</p> + +<p>—A vida está para aquelles, disse despeitado por +não ter recebido convite. O pae e o tio a pouparem +para estes agora gozarem!</p> + +<p>A companhia ia alegre.</p> + +<p>As Silvas palravam com o advogado; interiormente +sonhavam ali um casamento, sua ambição capital. +Fallavam das suas flores, das suas gallinhas, +dos cuidados que tinham pela adéga e pelo lagar +d'azeite, procurando com deligencia pôr em relevo +as suas virtudes domesticas. Mutuamente se elogiavam; +uma sabia de cosinha como ninguem, não havia +má cosinheira ás ordens d'ella; a outra, diziam, +tinha nascido para homem, constantemente nos campos, +á frente dos bandos na apanha da azeitona, entre +as vinhas, no outomno, com grande chapeu de +<span class="pagenum">[85]</span> +palha, dando ordens e berrando aos trabalhadores:</p> + +<p>—Olha como levas esse poceiro! Não fazem nada +em ordem! Que estupidos! Não póde a gente ter um +momento de descanso...</p> + +<p>O advogado ouvia e procurava palavras de admiração.</p> + +<p>—Isso hoje é muito raro, dizia V. ex.<sup>as</sup> foram +educadas á antiga. Bons tempos! As meninas d'agora +vão para os collegios e vêm de lá anemicas, sem +prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e só servem +para tocar piano.</p> + +<p>Tambem elle pensava em casamento: queria cousa +de conveniencia. A sua ambição era um dote de dez +a doze contos de réis. Não o tinha ainda encontrado, +mas não desanimava nas suas deligencias.</p> + +<p>O dr. Carvalho procurava associar-se á conversação, +ora com gracejos, ora lisongeando as Silvas.</p> + +<p>—Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda +vêm a cair.</p> + +<p>Claudio conversava tambem, dirigindo-se á mulher +do dr. Carvalho e a Emilia, empenhado em prender +esta ultima aos seus sentimentos. Apontava tudo +o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello, +os carvalhos nodosos do Casal Novo, projectando-se +nos montes nus e asperos, a varzea de Villar humida +e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam +em torno.</p> + +<p>—N'este tempo, o campo é muito bonito, exclamava +a mulher do doutor em admiração convencional.</p> + +<p>Emilia, intimamente insensivel, sómente por ser +agradavel a Claudio, repetia:</p> + +<p>—É bonito, é realmente muito bonito.</p> + +<p>Sentia-se bem, não pelas impressões da paysagem, +mas pelo doce prazer de ouvir Claudio.</p> + +<p>Tinham passado a primeira cadeia de montanhas +<span class="pagenum">[86]</span> +começavam agora a descer rapidamente para Lourosa.</p> + +<p>Á esquerda, no extremo horisonte, ficavam as +corôas de neve da serra da Estrella, em frente, em +toda a sua desdenhosa magestade, erguiam-se as +serras da Louzã, as faldas bordadas de aldeias, de +pinhaes e de campanarios, os píncaros despidos e +negros, respirando, no ceu sereno e mudo, solidão e +grandeza.</p> + +<p>—Oh! amigo Claudio, disse o dr. Carvalho, parece-me +que você se enganou; isto aqui ainda é mais +feio que do outro lado.</p> + +<p>—Oh! não. Eu acho este panorama magestoso. +Magestoso, meu amigo!</p> + +<p>—Será, não digo que não. Eu é que não vejo senão +muita pedra. O que vale é que você hade tratar-nos +bem. Que horas serão?</p> + +<p>—Oito.</p> + +<p>—Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar +é enorme e nós viemos devagar. Os seus pobres +cavallos vão dizer mal do passeio. Com uma +carga d'estas!</p> + +<p>—Não, não é muito. Agora vamos depressa. D'aqui +a meia hora estamos em Lourosa.</p> + +<p>A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes +modificava-se; a vegetação tornava-se mais basta e +os raros casebres dispersos eram construidos de delgadas +laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco +atravessavam Lourosa.</p> + +<p>—Então? dizia de cima o Ricardo. Cá o nosso reitor +diz que estamos em Lourosa. Para onde nos leva +você, ó doutor?</p> + +<p>—Não seja impaciente; vá andando, vá andando +que não se hade arrepender, respondia Claudio.</p> + +<p>—Eu sei lá! Desconfio...</p> + +<p>Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando +nos pinhaes bastos e sem interrupção que +<span class="pagenum">[87]</span> +cobrem aquella região de monticulos e desfiladeiros. +Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno +são continuados e dos valles apertados, entre o +matto espesso e tenro, solta-se um alento de viço e +de frescura. As urzes floriam em quebradiços calices +de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas +frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam +as suas fulvas e aladas flores.</p> + +<p>—Ah! isto sim, isto aqui é outra coisa, disse o dr. +Carvalho. Dou a mão á palmatoria. Sim, senhor. Valle +a pena vir cá.</p> + +<p>—Já vê que não o enganei, respondeu Claudio.</p> + +<p>Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro, +um pobre abrigo com uma só porta, sem janellas, +feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a luz +espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que +esperavam os creados de Claudio que tinham vindo +adiante, alta madrugada, para fazerem os primeiros +preparativos. Com a mobilia do cantoneiro conseguiram +montar a mesa, em baixo, ao pé d'uma fonte, +longe da estrada, para fugir aos curiosos, de modo +que não fossem vistos de quem passasse. Eram essas +as instrucções de Claudio. Estava tudo prompto, +dizia um dos creados, para quando s. ex.<sup>as</sup> quizessem.</p> + +<p>Claudio propôz á companhia um passeio. Era muito +cedo, passeiariam agora pela fresca viriam depois +a almoçar quando o sol apertasse, que o dia +promettia ser quente.</p> + +<p>Todos acceitaram. Só o reitor e Ricardo é que se +apressaram a pedir que os deixassem ficar. Já sabiam +o que era gente nova e o que eram as serras; +não se fiavam nas pernas. Ninguem insistiu.</p> + +<p>—Liberdade! disse o dr. Carvalho, cada um gosa +a seu modo; e as Silvas, aproveitando o ensejo para +fallar da sua actividade, diziam ao dr. Maia que não +<span class="pagenum">[88]</span> +sabiam que gente era aquella, tão commodista. Para +ellas não havia como andar a pé. Tinham ido uma +vez á Senhora da Penha, umas boas tres léguas por +maus caminhos. Pois ainda não era noite quando +voltaram a Barrosas e do dia seguinte, ás cinco horas +da manhã, estavam a pé como se nada tivesse acontecido.</p> + +<p>Elle, o dr. Maia, respondia que tambem tinha sido +grande andarilho, quando era mais rapaz, em Coimbra; +fôra a Lorvão com os companheiros de casa. +Mas agora não tinha tempo, por causa do escriptorio; +uma vida sedentaria, que o matava. O que lhe +valia eram os banhos do mar. Costumava ir para Espinho.</p> + +<p>—Nós vamos sempre para a Figueira, disse uma +das Silvas.</p> + +<p>—Este anno provavelmente tambem para lá irei. +Fica-me aqui mais perto e posso vir ao tribunal quando +fôr preciso.</p> + +<p>Entretanto Claudio fallava com o cantoneiro que +lhe indicava o passeio. Desciam abaixo, á azenha, +subiam pelo carreiro que se via do outro lado, atravez +do monte, depois chegando acima encontravam +um caminho; não tinham mais do que seguil-o e lá +iriam ter.</p> + +<p>Era um sitio muito lindo! Ainda o anno passado +ali tinha estado o director das obras publicas com +uma familia de Coimbra.</p> + +<p>Dentro em pouco, Ricardo adormecia na cabana +do cantoneiro, sobre uma esteira estendida n'uma +velha arca, o reitor sentava-se n'uma pedra, á porta +da casa, a lêr os jornaes que cautelosamente tinha +trazido, e em frente, na montanha, iam subindo os +restantes companheiros.</p> + +<p>As Silvas caminhavam adeante, fazendo gala da +sua robustez e rindo-se do Carvalho e do Maia que +queriam acompanhal-as e se confessavam já cansados; +<span class="pagenum">[89]</span> +atraz, a larga distancia, seguiam Claudio com +Emilia e a mulher do Carvalho.</p> + +<p>—Sangue quente! dizia Claudio apontando os que +iam á frente. O sr. dr. Carvalho é que parece um +rapaz, alegre e ligeiro...</p> + +<p>—Foi sempre assim, respondeu a mulher do doutor. +Muito rijo!</p> + +<p>Claudio mostrava insistentemente a Emilia a belleza +infinda das cousas por que passavam: a suavidade +de colorido das <i>primulas</i> que bordavam a ribeira, +os aljofares d'orvalho que cobriam o matto, os +choupos tremulos na aragem da manhã, os pinheiros +que se desenhavam nitidos na limpidez do céu, as +vozes mysteriosas que se desprendiam do arvoredo. +Queria que ella commungasse nas suas impressões e +ella já não resistia.</p> + +<p>—É bonito, muito lindo, respondia a cada instante.</p> + +<p>O cantoneiro não os enganára. Passado o cume do +monte, o caminho era ladeado de muros baixos, para +defender os mattos dos rebanhos que passassem; continuava +assim em longa distancia até que o pinhal +começava a rarear e abria-se uma clareira. Tinham +em frente, na margem opposta do ribeiro, uma ravina +apertada por onde a agua corria, em pequenas +cascatas, entre as azenhas e os pinheiros. Era a este +logar que o cantoneiro se referira.</p> + +<p>—Muito lindo! muito lindo! exclamavam todos.</p> + +<p>Só uma das Silvas fez reservas.</p> + +<p>—Sim, é bonito, disse; mas a nossa Albergaria +não é peior. Só aquella abundancia d'agua!...</p> + +<p>Desceram abaixo, atravessaram o ribeiro e subiram +pelo carreiro que dava accesso ás azenhas. Pouco +caminharam; estavam cansados, o calor já apertava, +e, aos primeiros muros que encontraram +entre a sombra do pinhal e á beira da agua, sentaram-se.</p> +<span class="pagenum">[90]</span> + +<p>Claudio, sempre ao lado de Emilia, ia colhendo +flores agrestes e fazia-lhe vêr as formas delicadas e +os mimos de colorido que se perdiam ignorados por +aquellas serras. Para que os jardins? A belleza espalhava-se +por toda a parte, nas cousas mais triviaes, +tudo estava em a perceber com olhos carinhosos.</p> + +<p>Por isso o campo nunca lhe enfadava. A natureza +era inexgotavel, as suas riquezas não tinham limite +e a vida inteira era sempre breve, não diria já para +as admirar que seria querer muito, mas para comprehender +a sua existencia.</p> + +<p>Quando se chega a isto, quando se adivinha o +thesouro que a todos foi prodigamente aberto e que +raros aproveitam, uma absorvente avidez de sensações +nos invade e somos arrebatados por este espectaculo +prodigioso e infindo que nos vem d'aquillo +que antes chamavamos mudez e solidão. Animam-se +os rochedos, no maior ermo acompanham-nos vozes +desconhecidas; o coração captiva-se d'um amor +puro e largo, immaculado e sereno. E como as cidades +nos parecem então abominaveis, com as suas +miserias e a sua vida de artificio e mentira! Nem +satisfazem o espirito nem os sentidos.</p> + +<p>Queria que Emilia se penetrasse do mesmo sentimento. +Ella já não luctava; ouvia e nas palavras de +Claudio sentia com deleite uma embalsamada frescura.</p> + +<p>O dr. Carvalho e o Maia não deixavam as Silvas. +Fallavam agora dos galanteios da Figueira no ultimo +outomno e discutiam o procedimento d'uma menina +de Coimbra que passava a noite a fallar, a uma janella +baixa, com um janota de Lisboa, um tal Couceiro +d'Abreu, que se dizia de boa familia, mas que +pelos modos não o parecia.</p> + +<p>Era a mais velha das Silvas que sustentava a conversa +com o dr. Carvalho.</p> +<span class="pagenum">[91]</span> + +<p>—Ella tinha desculpa, dizia. Uma rapariga nova, +sem experiencia do mundo, não podia calcular o que +se pensaria no meio d'aquella gente que morre por +dizer mal e, quando não tem que dizer, inventa. Mas +elle!... Um infame! É preciso ser muito canalha +para jogar assim a reputação d'uma rapariga. Que +eu não acredito... Os homens são todos assim, terminava +suspirando, com os olhos baixos e fitos na +ponta do guarda sol que cravava entre os seixos.</p> + +<p>—Mas que mau humor, que maldade! Parece que +já algum homem lhe fez mal.</p> + +<p>—A mim?! Estão bem livres d'isso, eu lhe asseguro. +Tenho os olhos bem abertos.</p> + +<p>—Ora tem os olhos abertos... Eu queria vêr!... +Se gostasse a valer d'um rapaz...</p> + +<p>—Ai, nada, nada! Não sou de pieguices. Que tambem +lhe digo: Se gostasse d'alguem, não havia de +ter medo do que dissessem. Havia de lhe fallar onde +melhor me parecesse. Com tanto que estivesse de +bem com a minha consciencia...</p> + +<p>—Bravo, bravo! exclamava o doutor, sonhando +aventuras. Gosto de gente assim.</p> + +<p>Claudio tinha-se levantado e, apoz elle, toda a +companhia. Eram horas do almoço. Voltaram á casa +do cantoneiro, seguindo o mesmo caminho por que +tinham vindo.</p> + +<p>A mesa estava posta n'um sitio ensombrado, o +reitor já tinha lido os seus jornaes e contava pormenores +d'um crime praticado no Poço do Bispo ao Ricardo +que passeiava impaciente em frente da mesa, +olhando sempre o carreiro por onde os companheiros +tinham desapparecido.</p> + +<p>Um pouco acima, encostada a uma canastra, uma +creada adormecera.</p> + +<p>—Olá, seus mandriões, gritou o dr. Carvalho dirigindo-se +ao reitor lá do outro lado do monte.</p> +<span class="pagenum">[92]</span> + +<p>—Vivam, vivam, respondeu o Ricardo. Já cá tardavam.</p> + +<p>A mulher accordou.</p> + +<p>—Muito moida, tia Venancia? perguntou o reitor.</p> + +<p>—Sai de Albergaria ainda era noite. Já vinha ao +pé do Hospital quando bateram tres horas, respondeu +a pobre mulher.</p> + +<p>O almoço começou quasi em silencio. Todos tinham +estranhado a madrugada e o passeio; o calor e +a fome acabaram de os alquebrar. Sentia-se a moleza +e o cansaço. Só o dr. Carvalho resistia, sempre +alegre e palrador. Estava habituado a não ter horas +para dormir nem para comer; os doentes é que mandavam. +Estranhava a Claudio o luxo com que tratava +os seus convivas, que não era preciso; até as taças +para o champagne tinha mandado vir. Um copo para +cada um era quanto bastava.</p> + +<p>—Principalmente para o Ricardo!... Um só e +grande, segredava maliciosamente.</p> + +<p>Pouco a pouco a animação ia surgindo, na excitação +dos vinhos e das viandas; a conversação tornava-se +continua, entre o bulicio da baixella e o riso +dos convidados, cada qual elogiando o prato que melhor +lhe convinha ao paladar e todos louvando Claudio.</p> + +<p>—É um cavalheiro, um cavalheiro, dizia Ricardo, +o prato coberto com uma enorme fatia de fiambre e +lançando a mão a uma farta garrafa de Collares. Eu +cá vou andando com este, não sei que graça acham +a essas limonadas!</p> + +<p>E apontava os vinhos do Rheno.</p> + +<p>Estavam chegados ao champagne. As rolhas voavam +entre os gritos das Silvas que com grandes gestos +defendiam os olhos. O dr. Maia, que ha muito se +calara ruminando o discurso, levantou-se para beber +á saude de Claudio.</p> +<span class="pagenum">[93]</span> + +<p>Não eram palavras banaes as que queria dizer; +pretendia fazer um discurso que impressionasse +os ouvintes e particularmente a mais nova das Silvas +para quem começava a olhar como uma noiva +possivel.</p> + +<p>«—Minhas senhoras e meus senhores...»</p> + +<p>—É muito amavel, não se esquece das senhoras, +disse sorrindo com ironia o dr. Carvalho para a Silva +que estava ao lado d'elle; e atrevidamente chamava +a sua attenção, batendo-lhe com a mão no joelho, +por baixo da mesa.</p> + +<p>«Não era á minha humilde e obscura personalidade, +não era a mim que sou um forasteiro n'estas +terras e tão pobre de dotes de eloquencia, que competiria +talvez saudar o nosso generoso amphytrião; +mas a profunda estima e consideração que tenho pelo +illustre doutor Claudio obrigam-me a levantar a minha +fraca voz n'este concerto de bellezas da natureza, +de illustrações e de formosuras que tocam o nosso +coração...»</p> + +<p>—Toma, diz em segredo o Carvalho para a Silva, +aquillo é com a mana. A menina é que não apanha +nada. Só se fosse um beijo que eu lhe désse!</p> + +<p>—Não seja atrevido!</p> + +<p>—Não seja má. E bateu-lhe novamente com a mão +no joelho, procurando ajuizar da perna.</p> + +<p>«O dr. Claudio, meus senhores, a cuja amabilidade +devemos as boas horas que temos passado aqui e +que jámais esquecerei, não é um homem vulgar. +Tem seguido a evolução da sciencia e está ao par +das modernas descobertas da sociologia. Eu que deixei +ha pouco os bancos da universidade, não posso +acompanhal-o nos arrojados vôos do seu estudo mas +comprehendo a sua bella orientação positivista...»</p> + +<p>E continuou assim fazendo o elogio de Claudio, até +se lhe esgotar a provisão de banalidades que tinha +adquirido em Coimbra. Ao fim, sentou-se vaidoso, +<span class="pagenum">[94]</span> +procurando adivinhar a impressão que tinha deixado +nos ouvintes.</p> + +<p>—Muito bem, muito bem, sr. dr. Maia, disseram +de differentes lados da mesa.</p> + +<p>A Silva disse-lhe tambem em voz branda:</p> + +<p>—Gostei muito de o ouvir, falla realmente muito +bem.</p> + +<p>—Não, minha senhora, isso é muita bondade de +v. ex.<sup>a</sup> Não tenho tido uso. Aqui, na comarca de Albergaria, +o movimento é pequeno e com estes jurados +analphabetos não vale a pena estudar.</p> + +<p>—Oh! não esteja com modestia... eu reparei que +todos o estavam ouvindo com muito agrado. Na provincia +é tão raro encontrar alguem que saiba fallar...</p> + +<p>O reitor contava ao Ricardo dos prégadores que +tinha ouvido. O melhor era o Alves Mendes. O que +eu admiro, dizia, é a memoria que elle tem para +metter aquillo tudo na cabeça!</p> + +<p>Claudio estava embaraçado. Não contava com o +discurso e percebia que os convivas esperavam a +resposta.</p> + +<p>Interiormente sentiu um momento de enfado que +attribuia á impertinencia do dr. Maia, mas que de +facto vinha do risco, que corria, de desmerecer no +conceito de Emilia, a seus olhos supremo juiz do +bom gosto.</p> + +<p>Durante alguns minutos pensou no que iria dizer; +depois, como impellido por uma subita resolução, +levantou-se e disse:</p> + +<p>—Agradeço as immerecidas palavras do sr. dr. +Maia, que por certo foram dictadas pela consideração +que me dispensa e não pelo que realmente valho. +Entre aquelles que me honraram acompanhando-me +n'este passeio, não quero fazer senão uma +unica distincção, aquella que de justiça é devida. +Saúdo de todo o meu coração as senhoras que com +a sua formosura, o seu espirito e a sua gentileza +<span class="pagenum">[95]</span> +generosamente nos déram estas tão breves horas de +alegria!</p> + +<p>—Vivam, vivam! Á saude de vv. ex.<sup>as</sup>! D. Emilia... +D. Maria.</p> + +<p>E todos beberam.</p> + +<p>Claudio bebeu tambem, olhando Emilia. Era a ella +que se dirigia e era a admiração pela sua graça que +o inspirára.</p> + +<p>—Foi pena ser tão pouco, disse o reitor para Claudio, +sollicitando um discurso.</p> + +<p>—Não perderam nada. Não sou orador. Isso é +aqui para o nosso dr. Maia.</p> + +<p>Os brindes não tinham fim. Cada qual bebia pelas +pessoas das suas relações e o dr. Carvalho, que o +calor do banquete tinha excitado, voltando-se para a +Silva, disse-lhe quasi em segredo:</p> + +<p>—A ultima, a virar e a serio, por uma intenção +particular, por uma menina que sinceramente admiro +e estimo!</p> + +<p>—Agradeço em nome d'ella e posso assegurar-lhe +que é pago com muita amizade.</p> + +<p>—Não acredito, respondeu o Carvalho, fitando-a +com olhos languidos.</p> + +<p>E, voltando se para Claudio, accrescentou:</p> + +<p>—E se nos levantassemos, oh doutor? Olhe que +estamos á meza ha duas horas e não queremos morrer +aqui de indigestão!</p> + +<p>—Está dito. V. ex.<sup>as</sup> mandam.</p> + +<p>Novamente os convivas se espalharam nos montes, +reconstituindo-se os primeiros grupos; o Carvalho +e o Maia com as Silvas, Claudio com Emilia e a +mulher do Carvalho, o reitor ao pé de Ricardo.</p> + +<p>Pouco se affastaram do logar do almoço; o calor, +a madrugada, o cansaço do passeio e o pezo da digestão +tornaram-os abatidos, molles e somnolentos. +Só Claudio e o dr. Carvalho resistiam, movidos ambos +por identicos motivos.</p> +<span class="pagenum">[96]</span> + +<p>Ás quatro horas partiram de regresso a Albergaria. +Houve um momento de animação aos primeiros movimentos +da carruagem, mas em breve voltou o silencio +proprio da fadiga.</p> + +<p>O Ricardo cambaleava dormindo, os olhos cerrados +por baixo da luneta, o collete desabotoado +mostrando a camisa enxovalhada de suor. A mulher +do dr. Carvalho, que tinha percebido os galanteios +do marido com a Silva, desesperada com ciumes +queixava-se de dores de cabeça. Claudio vinha scismando.</p> + +<p>Porque não havia de casar-se? Que vida daria ao +seu lar a graça e a elegancia d'uma mulher? Mas +não era facil encontrar quem com instinctos d'artista +se sugeitasse á vida monotona de provincia.</p> + +<p>Emilia crescia agora aos seus olhos e na sua +admiração. Que rara fortuna possuil-a! E como devia +ser infeliz, ligada a um homem grosseiro e bestial! +Uma irrepremivel compaixão o aproximava d'ella e +mais um laço ligava aquellas duas almas que, n'uma +turva inconsciencia, se iam prendendo e confundindo.</p> + +<p>Cerca das seis horas, chegaram a Albergaria. Claudio +conduziu cada um á sua casa e todos se apartaram +com palavras de reconhecimento e cordealidade.</p> + +<p>—Queira Deus, dizia Claudio á mulher do dr. +Carvalho, que v. ex.<sup>a</sup> não fique a dizer muito mal do +passeio. Talvez que uns granulos de antipyrina...</p> + +<p>—Não, respondeu o doutor. É muito sujeita a dores +de cabeça. Em dormindo, fica bem. Isto não vale +nada. Quem déra que todos os dias assim fossem!...</p> + +<p>Claudio tornou-se inseparavel da familia de Ricardo. +A cada passo se encontravam juntos: nos passeios, +á tarde, pela estrada do Sobral; na egreja, á +missa e em dias de festa; á noite, em casa do dr. +Carvalho e pelos serões da visinhança. Na botica estranhava-se +<span class="pagenum">[97]</span> +a mudança de Claudio; commentava-se +já com risos maliciosos e palavras mordazes. Só +elle ignorava o que se dizia; feliz de tanta e tão bella +amizade, a ella se entregava inteiramente e ingenuamente +transformava em sentimentos puros, d'esta +vez sem plano nem preoccupações scientificas, os +projectos de conquistador com que dois mezes antes +entrara em casa de Ricardo.</p> + +<p>Entre Claudio e Emilia fazia-se rapidamente a permuta +de habitos e costumes que é de regra entre +amantes; ella cedia dos seus prejuizos lisboetas para +admirar a natureza e conformar-se com a paz provinciana, +elle esquecia a simplicidade de Villalva, o estudo +e os propositos de vida laboriosa, para se confundir +nas futilidades em que imaginava bom gosto +e arte.</p> + +<p>De facto, nenhum mudára; ambos passavam apenas +por uma crise d'amor que lhes transfigurava o +aspecto das cousas.</p> + +<p>Para Emilia a natureza era um adorno, como as +flores na meza do glutão que, só cubiçando as viandas, +se compraz todavia cercando-as de frescura e +perfumes; nada podia dizer ao seu mesquinho espirito +a vida gigantesca da terra, o drama eterno e +mudo em que os elementos se combatem e amam, +captivantes de mysterio, insondaveis na profundeza +dos seus destinos. Nem as arvores nem as aguas +nem as montanhas podiam ter significação aos seus +olhos apartadas da voz do amante e dos seus doces +olhos, as brizas do poente que á tarde varriam a +atmosphera ardente do estio, a sombra do loureiro +que á hora da calma a protegia, o murmurar dos regatos +e o canto apaixonado dos rouxinoes ao luar +eram unicamente a faustuosa decoração do theatro +em que se lhe revelava a imagem de Claudio, mas +valiam aos seus olhos tanto como a rutilancia dos +<span class="pagenum">[98]</span> +cristaes, das sedas e dos salões dourados em que o +seu temperamento se formára.</p> + +<p>Por sua vez, Claudio caia n'uma illusão parallela: +pensava que Emilia lhe revelava um mundo novo de +elegancia e arte, lançava á conta de rudeza a simplicidade +que em tempos, que agora lhe pareciam distantes, +adorava na casa de seus paes, e tomava por +alargamento e complemento da educação do seu espirito +a frivolidade a que só o arrastava a anciedade +de se impregnar das graças da sua amada.</p> + +<p>Pelo S. João acompanhou Emilia e Ricardo a Coimbra, +a uma festa em casa d'um fidalgo, d'appelido +Albuquerque.</p> + +<p>Os Albuquerques viviam n'um palacio, proximo da +estrada da Beira; a pouco mais d'um kilometro da +cidade, encontrava-se um largo portão de ferro rematado +por um brazão e continuado para um e +outro lado pela gradaria alta que circumdava a propriedade.</p> + +<p>De dentro trasbordava o arvoredo, os choupos, +os platanos, as olaias, as palmeiras e as eras que +vestiam as paredes d'uma crina frondosa; em frente +do portão, uma alameda, bordada de buxo, que em +leve declive conduzia, em linha recta, a uma curta e +larga escada de pedra, de dois lanços, formando semicirculo, +com uma grande taça de pedra ao centro +d'onde a agua se derramava sobre um tanque em +fios longos e scintillantes. A casa era d'um andar, +sobre celleiros e adégas muito baixos, quasi inteiramente +enterrados, tendo acima do sólo só as estreitas +frestas que lhes davam luz. Entrava-se n'um largo +vestibulo bem mobilado de escabellos em que +destacava o vermelho e ouro do brazão que os encimava; +á direita a larga porta d'uma capella, á esquerda +uma extensa linha de vastissimos salões, em +frente a entrada para o interior do palacio.</p> + +<p>O velho Albuquerque, fresco e esmerado na sua velhice, +<span class="pagenum">[99]</span> +o rosto vivo e malicioso lembrando os retratos +de Henrique IV, com ademanes fidalgos recebia as +senhoras no vestibulo e conduzia-as pelo braço ao +coração da festa. Ao lado estava o filho que o ajudava +n'essa tarefa. Fôra condiscipulo de Claudio +e era ainda seu intimo amigo. Quando o viu, veiu +para elle promptamente, e, n'um movimento de jubilo, +abraçou-o.</p> + +<p>—Mas que feliz surpreza!...</p> + +<p>—Tantas vezes me pediste que viesse ás tuas festas +e tantas vezes recusei que algum dia havia de +quebrar o encanto. É verdade que faltei ao dictado... Vim +sem ser convidado, mas já sabia que me +desculpavas.</p> + +<p>—Agradeço-t'o muito. Déste-me agora uma grande +alegria.</p> + +<p>—Tinha vontade de te vêr, creio que ha tres mezes +que não nos avistavamos. Ultimamente tenho +vindo pouco a Coimbra. Depois as instancias da familia +do Almeida...</p> + +<p>—Escolheste bem; a companhia é excellente. Gosto +muito da Emilia! D'uma vivacidade... Que pena +ter casado com aquelle homem... Mas anda cá, continuou +o filho do Albuquerque pondo as mãos na cintura +de Claudio e olhando o attentamente, reparo agora!... Estás +um janota! Que é da modestia e do estudo +e d'essa austeridade d'outros tempos?</p> + +<p>—Um pouco mais civilisado, um pouco mais civilisado... Querias-me eternamente rustico?</p> + +<p>—Não, quero-te assim, estás muito bem. Até me +pareces mais bonito. Essa maluqueira de te metteres +em casa com os livros, como n'um convento, era intoleravel! +Ainda bem, ainda bem que estás a caminho +da salvação! Que eu, verdade, verdade, tambem +gosto de socego...</p> + +<p>E entraram ambos na sala onde os pares se levantavam +para a primeira quadrilha, em meio da confusão +<span class="pagenum">[100]</span> +das sêdas e das joias, de cristaes, de moveis artisticos +e de louças orientaes illuminadas abundantemente +pelos candelabros de bronze que pendiam do +tecto e pelas pratas cinzeladas que pousavam nos +velhos contadores indianos. A casa dos Albuquerques +tinha fama pelas suas festas, pelo luxo e pela +alegria que tradicionalmente as caracterisavam, e +muitos corriam ali só para admirar essa ostentação de +opulencia.</p> + +<p>Claudio teve um momento de pasmo, A vida simples +de Villalva e a vida estreita que levava em Albergaria +não o tinham educado a passar indifferente +pela riqueza e pelo luxo; captivavam-no pela novidade, +pela sensualidade, pelo preconceito bebido nos +livros materialistas de que a expansão de todos os +appetites era salutar e humanamente digna, e, mais +do que isso, pela sympathia com o espirito frivolo de +Emilia.</p> + +<p>Todo o espectaculo que tinha diante de si lhe parecia +admiravel; passava uma epoca, que seria breve +na sua existencia, de cubiça mundana.</p> + +<p>Dentro em pouco dançava com Emilia. Ella estava +radiante, julgava-se transportada aos salões de Lisboa. +Uma noite de baile era a reviviscencia das melhores +lembranças da mocidade, d'aquellas a que o +seu espirito mais insistentemente queria. A Claudio +apontava aquella peça da India que só tinha egual +na collecção d'El-rei D. Fernando, os brilhantes da +condessa de Murtede que o Leitão avaliára em sete +contos de réis, o vestido de setim da Costa Real, de +Miranda do Corvo, feito em Paris quando lá esteve, +na primavera, a graça, a distincção do velho Albuquerque, +e toda a tremulina de fogos fatuos que +lhe passava diante dos olhos. Elle ouvia e applaudia +com palavras de admiração, que o amor lhe segredava, +o enthusiasmo futil de Emilia.</p> + +<p>Cerca da meia noite, o borburinho do baile afrouxou. +<span class="pagenum">[101]</span> +No meio das salas ficaram grupos de casacas +esguias e negras, em volta das damas formaram-se +pequenos circulos de cadeiras; os creados entravam +com grandes taboleiros pesados de finas iguarias, o +Albuquerque e as filhas corriam as salas offerecendo +os calices do precioso vinho das suas terras do +Douro.</p> + +<p>Comia-se alegremente e trocavam-se saudes intimas, +com palavras banaes de convencional cortezia.</p> + +<p>Claudio aproximou-se de Emilia; ia beber por ella, +pelos seus filhos e pelo seu marido, pela sua felicidade +e alegria. Os copos tocaram os labios e dois minutos +de silencio disseram o que os labios calaram,—o +affecto que n'aquelles dois corações surdamente +crescia.</p> + +<p>Á uma hora, já o Ricardo queria partir. Andára a +arrastar-se pelas cadeiras, pelas portas das salas de +dança e pelos cantos das mezas de jogo, mãos nos +bolsos e luneta pendida sobre o nariz, até que chegasse +a hora de se fartar: agora, replecto, a festa +terminara para elle, queria dormir. Estava massado, +dizia á mulher, e tinha no dia seguinte a repartição. +Elle é que sabia o que isso era, com o mez de julho +á porta e o semestre da contribuição predial para receber!</p> + +<p>Claudio accudia em favor de Emilia:</p> + +<p>—Seja rasoavel, dizia ao Ricardo; são tão poucas +as occasiões que ella tem de se divertir...</p> + +<p>Intimamente tambem elle tinha vontade de partir; +ao deslumbramento das primeiras horas seguia-se +uma sensação de fadiga e enfado, uma vaga necessidade +de recolhimento e silencio. Porque? Mysterioso +cansaço!</p> + +<p>Abandonado, a um canto da sala, n'uma soberba +cadeira de espaldar, ia seguindo com os olhos Emilia +que valsava ligeira nos braços d'um rapaz estroina, +todo fresco e risonho de cynismo e de saude. +<span class="pagenum">[102]</span> +Comparava-a com as outras raparigas e cada vez +mais se penetrava da sua gentileza. Até no trajar lhe +parecia vencel-as, ella que para vir ali fôra buscar +ao seu pobre guarda-roupa as unicas sedas que lá +havia, um vestido preto que os paes lhe déram quando +casou e uns farrapos côr de rosa com que o enfeitára.</p> + +<p>Sahiram pelas tres horas da madrugada. A frescura +da manhã, açoutando-lhe as faces, animava-os. +Claudio e Emilia vieram conversando até Albergaria. +Ricardo ia a dormir, oscillando com as trepidações +da carruagem.</p> + +<p>—Sim, dizia Claudio a Emilia, tudo isto é magnifico +mas o socego dos nossos serões não é peior. Em +regra, fico indifferente ás festas a que o coração é +alheio; e n'uma multidão d'estas não póde haver intimidade.</p> + +<p>—Tudo tem o seu logar. A mim, nada me refresca +como um baile; fico bem oito dias, pelo menos. Dá-me +saude.</p> + +<p>Claudio voltava triste. Emilia julgava-o cansado e +elle mesmo queria attribuir a sua inquietação aos +effeitos d'uma atmosphera viciada e da excitação do +fumo e do movimento. Só tarde pôde conciliar o somno, +o corpo abrazado e dorido. Não se lhe varriam dos +olhos e dos ouvidos os rumores das vozes e da musica, +o brilho rutilante das salas e a imagem de Emilia +valsando distraida e fogosa nos braços dos rapazes +galanteadores e ousados. Inconscientemente, soffria +as primeiras dores do ciume.</p> + +<p>Estavamos chegados ao fim de junho. O dr. Carvalho +aconselhava Claudio a que não deixasse de ir ás +caldas. Só as inhalações das aguas sulphurosas podiam +livral-o d'aquella bronchite, dizia. Era o que a +sua experiencia lhe tinha mostrado.</p> + +<p>Claudio defendia-se brandamente. Estava tão bem... +<span class="pagenum">[103]</span> +Mas o Carvalho instava. Resolveu partir para as Caldas +da Rainha.</p> + +<p>No primeiro de julho, por um sol ardentissimo, +foi a casa de Emilia despedir-se. Ella nunca tinha +estado nas Caldas da Rainha, mas ouvira sempre á +gente com que convivia em Lisboa que não havia +terra de mais gozo. Todas as noites se dansava; os +dias passavam se em continuados jogos e merendas +á sombra do arvoredo.</p> + +<p>—Embora!... respondia Claudio. Estava aqui muito +bem.</p> + +<p>E olhava a varzea e os campos d'onde se desprendiam +sussurros d'aguas que iam descendo e um alento +de frescura, sobre os milhos tenros, mimosos, regados +n'aquella noite.</p> + +<p>A voz de Emilia e a doçura da intimidade casavam-se +com a suavidade da natureza. Teve um instante +de desalento; sentiu derramar-se-lhe no corpo, +como uma uncção venenosa, um torpor em que a +vontade se aniquilava, mas, sacudindo energicamente +a tentação, levantou-se, apertou a mão de Emilia +com palavras d'um adeus vulgar, e saiu.</p> + +<p>Em casa foi abraçar a mãe. Ingenua, resignada, +sorridente na paz da sua alma, recommendava-lhe +que tivesse cautela, tinha muito medo de remedios. +Não gostava de o vêr partir, ficava em cuidados, +antes fosse para Pariz.</p> + +<p>—Tenho sempre muito medo! dizia.</p> + +<p>Partiu. O movimento, a curiosidade da paysagem, +as ininterrompidas cambiantes d'aspectos moderavam +os movimentos de saudade e quasi lhe davam a +illusão do esquecimento.</p> + +<p>Depois, ao chegar ás Caldas, a installação, a consulta +do medico, os banhos, novas terras, nova gente, +cousas novas, trouxeram-n'o durante dois dias +n'uma agitação que tomava por contentamento. +Apressou-se a escrever á mãe, ao dr. Carvalho e ao +<span class="pagenum">[104]</span> +Ricardo, referindo o que se passava e promettendo que +voltaria ao fim de vinte dias, quando o tratamento +tivesse terminado. Teria muito que contar aos serões.</p> + +<p>Estava na firme disposição de se associar á vida +mundana, assistindo aos concertos, passeiando todas +as tardes na Matta, jogando o arquinho com as damas +e o <i>whist</i> com a gente grave que Lisboa emprestava +por um mez, dançando e galanteiando. +Queria tomar os conselhos de Emilia e imital-a, para +mais merecer no seu conceito.</p> + +<p>A illusão foi breve. Ao fim de dois dias, com desespero +e odio, fugia de toda a convivencia, procurava +os cantos affastados e ermos para se concentrar +nas suas lembranças, e opprimido, ancioso, +como um tigre na jaula, revolvia-se na estreita cella +que habitava n'uma hospedaria.</p> + +<p>A ausencia revelára-lhe o amor. Percebia agora +até onde levianamente tinha caminhado. Dissipada +toda a duvida, sabia,—com que amargura!—que o +seu coração estava preso a Emilia, cuja imagem o +acompanhava sempre, sempre, fundindo n'uma só +ambição todos os desejos, todas as preoccupações e +todas as necessidades.</p> + +<p>Que era feito das suas convicções materialistas, +dos seus propositos de conquistador, da alegre esperança +com que d'animo leve procurava a casa de Ricardo? +Por que estranha inercia deixára transformar +essa viril resolução no affecto candente que o +consumia? Mysterioso impulso!</p> + +<p>Era por certo uma fraqueza. Havia de occultal-a +firmemente, sem um minuto de desfallecimento, aos +olhos do mundo, e ainda mesmo aos seus mais intimos +amigos. Ás vezes tinha uma esperança e dizia +comsigo:</p> + +<p>—Pieguice! Tambem assim foi com a Conceição e +hoje vejo-a passar, casada, com os filhos ao collo, +<span class="pagenum">[105]</span> +sem o menor desejo. Hei-de curar-me; tudo se gasta, +tudo esmorece.</p> + +<p>Em pouco tempo adoecia. As saudades e a agitação +constante em que ellas o traziam determinaram um +aggravamento da doença que o tinha levado alli. Ao +cair da tarde começava a febre, a noite passava-se +em suores, e pela madrugada dormia então prostrado +um somno povoado de pesadellos. Não queria medico; +sabia bem qual era o seu mal.</p> + +<p>Uma manhã, com surpreza do creado, que sempre +o estranhára e nunca podera comprehendel-o, pediu +uma carruagem e correu ao caminho de ferro.</p> + +<p>Só a viagem bastava para lhe restaurar as forças. +Quando á noite chegou a Albergaria, parecia-lhe que +todos os soffrimentos tinham sido apenas um sonho +mau.</p> + +<p>Não o sentiu porém assim a pobre e velha mãe +que, recebendo-o surprehendida e alvoroçada, ao +attentar na sua physionomia escalavrada por dez +dias d'ausencia de Emilia, mal poude conter as lagrimas.</p> + +<p>Claudio mentiu-lhe. Fôra uma constipação com +alguma febre, uma noite que se demorara na Matta. +O medico dissera-lhe que só passados vinte dias podia +continuar no tratamento e por isso voltára para +casa.</p> + +<p>N'isto, beijou-a, intimamente pedindo n'este +beijo, supplica muda, perdão da mentira. Ella estranhou-o +mas, tomando o apenas como sêde dos seus +carinhos, passou-lhe a mão no rosto, affagando-o.</p> + +<p>—Não ha de ser nada, se Deus quizer... Parecia-me +que o coração me adivinhava qualquer cousa, +quando te vi sair.</p> + +<p>O serão prolongou-se até muito tarde, Claudio +perguntando pelo que se passava em Albergaria e a +mãe ouvindo o que era a vida nas Caldas.</p> + +<p>—Ai, Senhor! Que dinheiro se gasta n'essas cousas! +<span class="pagenum">[106]</span> +exclamava. E tanta pobreza por esse mundo...</p> + +<p>—E Emilia!?</p> + +<p>—Não a tinha visto, mas dissera-lhe o filho, na +egreja, á missa, onde o tinha encontrado, que a mãe +não saia porque andava um pouco doente.</p> + +<p>Claudio estremeceu. O quê?! Ella tambem!... E +calou-se um instante, absorvido n'esse pensamento, +entre o temor e a alegria.</p> + +<p>Bateu uma hora da noite. Era tempo de se deitar, +dizia a mãe; precisava descansar, não lhe voltasse a +febre.</p> + +<p>O filho beijou-lhe a mão e recolheu-se ao seu gabinete, +a caminho do quarto em que dormia, que era +contiguo.</p> + +<p>Abriu a janella para lançar os olhos sobre o jardim. +Quantas vezes nas Caldas se lembrara com penetrante +saudade d'elle e da sua tranquillidade, a +que associava o vulto de Emilia! Vinha do norte uma +densa névoa que envolvia as arvores n'uma gaze humida +e fresca, das magnolias rolavam gottas d'agua +caindo descompassadas sobre as folhas seccas que +juncavam a terra, e as aguas rumorejavam sumindo-se +nos sorvedouros que atravez da encosta as levavam +aos ribeiros. Toda a voz humana se calava, só a natureza +cantava o seu infindo e eterno canto.</p> + +<p>N'aquella frescura Claudio procurava um balsamo, +mas a inquietação abrazava-o, embalde o peito arquejante +se dilatava nas auras matutinas. Esperava +um somno tranquillo. Entre as nuvens de poeira que +o tinham acompanhado ante-gozára o repouso no seu +leito, no silencio do seu lar e na alegria de voltar +em poucas horas a vêr Emilia; e o silencio não lhe +trazia repouso e a frescura não lhe abrandava esse +fogo estranho que lhe corria nas veias!</p> + +<p>Mentira á sua mãe. Esse pensamento torturava-o. +Nunca o tinha feito. Queria affastal-o, procurava motivos +que lhe satisfizessem a consciencia. Mentira, é +<span class="pagenum">[107]</span> +verdade, mas que mal resultava d'ahi? Não fôra só +para occultar o seu amor por Emilia? E a quem interessava +esse amor senão a elle, a elle só? Debalde! +A razão não lograva dominar a dôr que estava ali, +como um espinho, cravada no coração, penetrando +cada vez mais fundo. Depois, Emilia... que lhe diria, +que pensava ella?...</p> + +<p>Lembrava todo o passado, os continuados passeios, +as palestras intimas, a mutua confissão de todos os +cuidados, de todos os bens e de todos os males da +existencia de cada um. Muita vez se tinham referido +á sua amizade mas nunca entre elles se fallára de +amor.</p> + +<p>Para Claudio essa illusão terminára. Sabia que +a paixão o consumia. Havia de occultar-lh'a porque +era uma offensa á sua honra e porque, se ella a adivinhasse, +havia de repellil-o com a sua intemerata +virtude.</p> + +<p>É verdade que a mãe lhe dissera que Emilia +tambem adoecera na sua ausencia... Mas não! Era +impossivel! Não cabia na sua candura a sombra +d'um pensamento criminoso. Criminoso?! Pois era +crime o affecto entre duas almas irmãs e o desprezo +do homem vil a que Emilia se achára ligada n'um +momento infeliz? Convenção estupida contra que a +natureza protesta, frageis leis humanas que a vida +deroga a cada instante, desmentindo-as e escarnecendo-as!</p> + +<p>E todavia não podia libertar-se da duvida! A convicção +não lhe empolgava o espirito. Mentira a sua +mãe, havia de mentir-lhe todos os dias occultando-lhe +o intimo do seu coração, fugiria de todos guardando +o segredo de que córava, perseguido pelos +phantasmas implacaveis da sua consciencia. A consciencia! +Tambem o amor era crime? Que tinha elle +com o que o mundo pensava?</p> + +<p>Não fôra intencionalmente que procurara aquella +<span class="pagenum">[108]</span> +mulher, não era seu direito,—lera-o nos livros, +aprendera-o nos evangelhos da sciencia!—conquistar +todos os bens que a sua força podesse alcançar? +A vida era uma lucta. Gloria aos vencedores, vergonha +aos vencidos! Queria a sua hora de luctador, +queria a sua hora de triumpho, queria as palmas da +victoria, elle que tão mal dispendera os primeiros +annos da mocidade n'um timido recolhimento. Mas +voltava uma onda de amargura... Não, não podia +ser! E a honra de Emilia? e o seu nome? e os seus +filhos? Que duvida! que angustia!...</p> + +<p>Altas horas, adormeceu, prostrado d'este doloroso +meditar. O somno foi breve; pela madrugada ergueu-se +e desceu ao jardim.</p> + +<p>O sol bebia os orvalhos da noite, uma branda aragem +do norte varrera a névoa, no ceu azul corriam +ligeiras, a perder-se no horisonte, pequenas nuvens +alvas e leves. A natureza despertava para a vida, e +no renascimento da luz Claudio colhia a sua parte de +vigor.</p> + +<p>A inquietação da noite fôra um desfilar de phantasmas +que iam longe, como as nuvens para que +levantava os olhos. Talvez a febre, o cansaço da jornada... +Em poucas horas veria Emilia. Havia de +occultar-lhe a tempestade por que passara, transformal-a +em pura e candida amizade.</p> + +<p>Fôra um erro, uma falta, ter mentido a sua mãe. +Pezava-lhe ainda, magoava-o. Para o futuro, porém, +não teria necessidade de a repetir porque na sua +existencia nada haveria que precisasse occultar. Todas +as attribulações dos ultimos dias passavam como +um sonho mau, e ia seguindo pelas ruas do jardim +na embriaguez do leve perfume que as ultimas rosas +espalhavam no ar, juncando a terra, desfolhadas e +emmurchecidas pelo estio.</p> + +<p>Á beira do lago pendia d'um rochedo um jasmineiro; +sobre as aguas boiavam as suas flores singelas +<span class="pagenum">[109]</span> +e brancas. Debruçou-se, ajoelhado na terra e +colheu um ramo. Era para Emilia.</p> + +<p>Voltou a casa contente e almoçou com a mãe. Tinha +dormido pouco, dizia-lhe, talvez excitado da jornada, +mas sentia se bem, com bom apetite. O dr. +Carvalho é que o aconselhara mal;—coitado!—de +boa fé. O que elle precisava não eram banhos das +Caldas, era estar em casa socegado com os seus +livros e as suas flores. Ali sim, ali é que tinha +saude.</p> + +<p>A mãe applaudia: graças a Deus nunca precisara +sair da aldeia senão para ir a Coimbra ou á Figueira, +no S. João. Sempre assim vira fazer aos da sua condição. +Agora é que tudo eram doenças e banhos de +mar e remedios da botica. Muito dinheiro e pouco +que fazer! Não sabia como essa gente governava o +que era seu, a sair a cada instante, a casa sempre +em mãos dos creados. Deus a livrasse de tal vida! +Até tinha escrupulo...</p> + +<p>Onze horas. Claudio levantou-se. Ia vêr o dr. Carvalho, +explicava, passaria por casa de Emilia, e depois +viria descansar. Tinha medo do calor, estava +muito fraco.</p> + +<p>Saiu e dirigiu-se a casa do dr. Carvalho.</p> + +<p>O dr. Carvalho estava no escriptorio, de esporas, +chicote na mão e chapeu na cabeça, ouvindo +um cliente. Correu risonho de braços abertos para +Claudio.</p> + +<p>—Estava agora mesmo para ir a sua casa. Fui ao +Amial que tenho lá uma mulhersinha com uma perniciosa,—e +bem mal,—e ia vêl-o. Então como vae, +diga-me cá? Que foi isso? Aqui ficamos todos muito +surprehendidos ao dizerem-nos que tinha voltado. +Foi o Martins, quando veiu ao chá, que trouxe a noticia. +Ainda quiz ir saber como tinha chegado mas estavam +cá as Silvas e depois, quando ellas sairam, +era tarde, já passava da meia noite.</p> +<span class="pagenum">[110]</span> + +<p>—Isto não foi nada. Demorei-me um dia a conversar +na Matta com o conselheiro Andrade, estava +fresco,—ali nas Caldas ha para tarde um norte mesmo +frio, e a bronchite aggravou-se. Tive uma febricula. +O medico do hospital disse-me que devia suspender +os banhos e, em vista d'isso, achei que o +que tinha a fazer era vir-me embora. E fiz bem! Já +esta noite dormi descansado.</p> + +<p>—Em todo o caso, tenha cuidado. Eu acho o ainda +palido e um bocadinho abatido. Deixe cá vêr esse +pulso... Está bem, mas tenha cuidado, tenha cuidado. +Nem mesmo devia sair com este calor.</p> + +<p>—Não vou para longe; quero só visitar os amigos. +D'aqui a pouco estou em casa.</p> + +<p>A visita foi breve, Claudio contando rapidamente +como se passava o tempo nas Caldas e o dr. Carvalho +referindo o que se passára em Albergaria. Tudo +muito desanimado com a falta de Claudio; até aos +serões pouca gente tinha apparecido. A Emilia não +saia, andava um pouco incommodada do estomago, +o dr. Maia estava para a Beira, elle, Claudio, nas +Caldas, o Ricardo sempre a caminho de Coimbra; só +as Silvas e o reitor é que se conservaram firmes. +Quasi nem havia parceiros para o quino.</p> + +<p>Saindo de casa do dr. Carvalho, Claudio dirigiu-se +á repartição de fazenda, á esquina da rua da +Cruz.</p> + +<p>O seu desejo era ir immediatamente a casa de +Emilia, mas já desconfiado, procurando evitar toda a +suspeita, com a astucia vulgar dos namorados que a +ninguem illude senão áquelles mesmos que a usam, +foi primeiro procurar o Ricardo para fazer crer que o +interesse e a amizade se estendiam a toda a familia.</p> + +<p>O Ricardo, mal o viu, levantou-se logo.</p> + +<p>—Como está v. ex.<sup>a</sup> tem passado bem? perguntou +<span class="pagenum">[111]</span> +muito respeitoso, afastando a cadeira com ruido +e atirando apressado o cigarro para o escarrador.</p> + +<p>—Um pouco incommodado; foi por isso que voltei +mais depressa.</p> + +<p>E reeditou a velha historia da Matta, da bronchite +e do medico que só ao fim de vinte dias o deixava +continuar a tomar banhos.</p> + +<p>—Ora muito sinto, muito sinto, repetia Ricardo, +procurando dar á voz uma intonação magoada.</p> + +<p>—E em sua casa, a sr.<sup>a</sup> D. Emilia e os pequenos +como vão?</p> + +<p>—Muito obrigado, os pequenos optimos, cada vez +mais travessos; a Emilia é que não tem passado bem, +com uma grande falta de appetite e muito fraca. O +dr. Carvalho já lhe receitou uns granulos de quassina +e de arseniato de strychnina, mas ella teimou em +não tomar nada. Que está bem, que está bem, que +não precisa remedios... Deus queira que não me dê +ainda alguns trabalhos!</p> + +<p>—Eu hei de ir vêl-a, disse Claudio mostrando desprendimento +mas intimamente ancioso.</p> + +<p>—Olhe, deixei-a agora mesmo a costurar na sala. +Fui a casa beber uma cerveja, que este calor mata-me! +Nem posso trabalhar, tem-se me atrazado o serviço!...</p> + +<p>Claudio aproveitou o ensejo.</p> + +<p>—Não quero interrompel-o por mais tempo, á noite +conversaremos com vagar... Então, se me dá licença, +vou ali vêr a sr.<sup>a</sup> D. Emilia... Até logo...</p> + +<p>—Não se incommode... dizia ainda para Ricardo +que se dispunha a descer a escada e a acompanhal-o +até á porta.</p> + +<p>Os poucos passos que medeavam entre a repartição +de fazenda e a casa de Emilia foram para Claudio +lentos e compassados. Dominando os movimentos, +por um esforço da vontade, julgava dominar a anciedade +e porventura libertar-se assim da inquietação. +<span class="pagenum">[112]</span> +Á porta bateu cautelosamente, o peito opprimido, suffocado +de impaciencia. Lembrava-se da primeira vez +que ali fôra. Tambem então estava ancioso, em alegres +esperanças de conquista, e agora,—quanto caminho +andado em tão breves dias!—ali estava novamente +mas escravisado pela paixão, torturado de duvidas, +turvado pela dôr.</p> + +<p>A creada desceu, como de costume, abriu, e +d'esta vez, sem hesitações, exclamou:</p> + +<p>—Ah! o sr. dr. Claudio!... Faça favor de entrar. +A sr.<sup>a</sup> D. Emilia está na sala!</p> + +<p>Claudio subiu. Entrou na sala, quando Emilia, já +de pé, tendo ouvido a sua voz e apressando-se a deixar +a costura, vinha ao seu encontro.</p> + +<p>As mãos apertaram-se n'um movimento de franca +e irreprimida alegria; n'um momento pareciam magicamente +dissolvidas todas as duvidas e todas as +dores.</p> + +<p>Sentaram-se e a conversação começou precipitada, +rapida. Sentiam-se ambos bem; á frescura da sala +com as janellas semi-cerradas juntava se a frescura +do espirito faiscante no contacto dos dois corações +amorosos.</p> + +<p>Para Claudio as Caldas eram uma estação deliciosa; +as horas passavam se ligeiras em concertos, em +bailes, em passeios, n'uma festa continuada de graça, +de luxo e de elegancia. Lembrara se lá muitas +vezes de Emilia. Como ella havia de apreciar aquelles +dias que correspondiam tão bem á delicadeza da +sua educação! O peior fôra a constipação que não o +tinha deixado concluir o tratamento. Seria outro anno! +Paciencia. Tambem tinha a compensação de se +vêr na tranquillidade da sua casa.</p> + +<p>Emilia estava um pouco surprehendida com a +doença de Claudio. Só pelo jardineiro que trouxera +o ramo de jasmins soubera do seu regresso, que o +Ricardo, conforme velhos habitos, em casa só parava +<span class="pagenum">[113]</span> +para dormir e comer, pouco fallava. Mas suppozera +que se tinha aborrecido da vida e da gente que elle +chamava ironicamente a gente fina, e por isso voltára +ao ninho.</p> + +<p>Ella, tambem, tinha passado mal, do calor, provavelmente; +uma inapetencia e uma fraqueza que a não +deixavam um instante. Não tinha saido de casa, nem +uma só vez, depois que elle partira.</p> + +<p>N'este ponto, a conversa esmoreceu e fez-se um +momento de silencio. Claudio fitou Emilia, viu-a pallida, +os olhos cavados, todo o viço minado pela paixão.</p> + +<p>Perpassando-lhe pela mente, n'uma vertigem, a +lembrança da torturante saudade que soffrera, arquejante +de desejo, caiu de joelhos, e beijando-lhe as +mãos que apertava nas suas convulsivamente:</p> + +<p>—Emilia! Emilia! balbuciou com a face occulta no +regaço.</p> + +<p>Ella, muda de surpreza e entorpecida d'amor, mal +tentou desembaraçar-se dos laços que a prendiam.</p> + +<p>De repente, Claudio levantou-se, como n'um subito +e apavorado despertar:</p> + +<p>—Perdoe-me, perdoe-me pelo amor de Deus, disse +para Emilia.</p> + +<p>E tremulo, desvairado, correu a esconder-se em +casa.</p> +<span class="pagenum">[115]</span> + + + + +<h1>IV</h1> + + +<p>Olhe, ahi vem o dr Carvalho que lhe póde +contar alguma cousa, dizia o boticario para +o recebedor, atirando os dados sobre a taboa +do gamão.</p> + +<p>—De quê? do calor? perguntava o Carvalho +entrando. Tem sido de morrer. Esta +manhã tive de ir a Sarnadas...</p> + +<p>—Mas responda lá, é verdade ou não é?</p> + +<p>—Respondo... mas hei-de saber primeiro +o que me pergunta.</p> + +<p>—É verdade que o Claudio vae todas +as noites, á uma hora, para casa da D. Emilia emquanto +o bebado do Ricardo está no melhor do seu +somno?</p> + +<p>—Ora...</p> + +<p>—Ora!... Elles até já teem saido a passeiar! Ainda a +semana passada umas mulheres, que iam ás tres horas +da noite para a feira de Monteiros, os encontraram +sentados lá em baixo, ao pé da fonte. Tambem +agora só de noite... que de dia não se pára com +calor.</p> +<span class="pagenum">[116]</span> + +<p>—Eu acredito lá n'isso! Quando mesmo fosse verdade +o que vocês querem dizer, ella ia deixar o marido, +os filhos e a creada, e sair para fóra de casa! +Bastava que um d'elles accordasse para a comprometter.</p> + +<p>—Vê o doutor o Claudio por aqui?!... Metteu-se na +toca como um rato dentro do queijo. É que arranjou +coisa melhor que a nossa companhia. E faz bem. +Olhe que eu antes me queria com ella aos couces +que com o nosso recebedor aos beijos. Não é peste +nenhuma.</p> + +<p>—Não sei... essas cousas são faceis de dizer. +Vejo-os em minha casa todas as semanas, ainda +não descobri n'elles signaes de namoro. Conversam, +jogam e até ás vezes passam quasi toda a noite sem +se aproximarem um do outro.</p> + +<p>—Não que elles iam mesmo namorar-se para sua +casa! Se não fallam um com o outro é porque andam +entendidos. Para mim é mais uma razão. Que o doutor +deve defendel-os... Tambem nos saiu bem +bom...</p> + +<p>—Adeus, adeus, que estão hoje com muito má +lingua, apressou-se o Carvalho a dizer, fugindo com +receio de que lhe fallassem na Silva que continuava +a seguir, com boas esperanças de conquista.</p> + +<p>Estavamos a este tempo em fins d'agosto, mez e +meio depois que vimos Claudio saindo como um louco +de casa de Emilia. De facto, retraira-se; com o +pretexto nos seus estudos e na sua debil saude, fechara-se +em casa e quasi ninguem o via. Entregara-se +por completo ao drama da sua existencia.</p> + +<p>Aquelle dia em que de volta das Caldas tinha ido +vêr Emilia, ficára-lhe na lembrança. Fôra a hora +mais cruel de toda a sua vida. Recordava-o a todo o +instante, como se trouxesse cravado no peito um +punhal que lhe rasgava as carnes a cada movimento.</p> +<span class="pagenum">[117]</span> + +<p>A mãe estranhára-lhe a pallidez vendo-o entrar. +Não era nada, resultado da fraqueza e do calor; ia +dormir um pouco... Fechou-se no quarto, atirando-se +para um sofá, succumbido de pavor. O que +fôra? Que loucura o fizera ajoelhar aos pés de Emilia? +O que pensaria ella? Perdel-a-ia, julgando-o um +vulgar conquistador, ou começava uma vida d'amor? +Que fizera dos seus propositos de amisade e da energia +com que havia de dominar toda a paixão? Por +outro lado, pensava, ella resistira frouxamente quando +elle lhe apertou as mãos. Era pois verdade que o +amava?</p> + +<p>Um refrigerio se lhe derramava nas veias. E a +mãe? Ai! mentira-lhe; tão cedo olvidára as torturas +da noite! Não, não seria assim, não seria levado por +uma hora de desvairamento. Havia de voltar a casa +de Emilia, poderia agora abrir-lhe completamente a +sua alma, fazer-lhe inteira confissão do seu amor, +das suas duvidas e ella, se o amava,—era certo, era +certo!—havia de querer, como elle, uma vida pura, +uma vida sem macula, em que nenhum tivesse de +córar nem perante o mundo, nem perante a propria +consciencia.</p> + +<p>A consciencia! Voltava esse estranho phantasma. +Onde, em que livros, em que systemas aprendera a +guiar-se por esse feitiço interior, onde vira provada +a sua existencia? Imaginação doente! Não havia +consciencia, não havia deveres deante de dois entes +aproximados pelos impulsos do amor que os abrazava +e confundia. Ah! pensasse baixinho... estava +ali sua mãe, sentia-lhe os passos, vinha talvez escutar, +saber se dormia. Não fosse adivinhar o que +lhe passava pelo espirito e morrer na cruz de tamanha +dôr! Que lhe dissera ella na estreita sala de Villalva, +pelas noites de luar, ao pé do Christo? Lembrava-se +agora! A consciencia, a consciencia!</p> +<span class="pagenum">[118]</span> + +<p>Fôra alli que se lhe revelára essa apparição que o +vigiava implacavelmente.</p> + +<p>Havia de obedecer-lhe. Sentia um fremito de coragem +que o erguia do abatimento e da duvida. Mas +não!... Delirava.</p> + +<p>Não eram escrupulos que o atormentavam, era o +receio de perder o amor de Emilia, de se ter apartado +para sempre do seu coração, ferindo-a na sua +virtude. A que baixeza descera!</p> + +<p>Não eram melhores os remorsos, a consciencia +atribulada, que esta misera prisão á fragilidade d'uma +mulher? Quem lhe déra libertar-se! Porque não havia +de o fazer? Para que voltaria a casa de Emilia? Cobardia! +Havia de a insultar e fugir? Pediria primeiro o seu +perdão,—ai! quanto lhe seria doce! depois... talvez, +talvez...</p> + +<p>E o seu espirito perdia-se n'um labyrintho e o +coração vogava em ondas de dôr.</p> + +<p>N'este martyrio passou todo o dia. Ao jantar queixou-se +á mãe. Ainda não se sentia bom. Se fosse +estar dois dias em Villalva, poderia fazer-lhe bem a +mudança d'ares. No dia seguinte resolveria, conforme +fosse a noite.</p> + +<p>Interiormente, esta palavra fazia-o tremer. A noite! +O que iria passar-se entre elle e Emilia? Contava +uma a uma as horas que o aproximavam d'esse momento +decisivo e, por mais doloroso que o imaginasse, +apetecia-o.</p> + +<p>Ás oito horas batia á porta da pequena casa da +rua da Cruz. A custo subiu a escada; o corpo mortificado +arrastava-se pesado e lento, banhado n'um +frio suor d'agonia.</p> + +<p>Mal entrou na sala, deixou-se cair sobre uma cadeira. +Emilia estendeu-lhe a mão, silenciosa, mais +pallida ainda do que elle a vira de manhã, com lagrimas +de emoção a toldarem-lhe os olhos. Claudio +olhou em volta. Estavam sós. Podia fallar.</p> +<span class="pagenum">[119]</span> + +<p>—Por certo me terá julgado severamente, mas se +quizer fazer-me a esmola de me ouvir,—é uma esmola,—ha-de +perdoar-me.</p> + +<p>—Não tenho que lhe perdoar, interrompeu ella +tremendo, escusa de me dizer cousa alguma, sei +muito bem o que se passa no seu espirito... Eu é +que sou infeliz!</p> + +<p>E as lagrimas desprenderam-se-lhe pelas faces.</p> + +<p>Fez-se uma longa pausa e a conversação continuou.</p> + +<p>N'esta mutua confissão em que o amor desabrochava, +sentiam-se ambos bem; partiram-se as cadeias +que os prendiam n'um mutismo oppressivo e +as palavras voaram como um bando de rolas soltas +á luz por uma alegre madrugada.</p> + +<p>Claudio podia contar todos os soffrimentos por que +passára e Emilia responder-lhe, descobrindo a seu +turno o intimo do seu peito.</p> + +<p>Tambem ella tinha soffrido muito ao vêr crescer +esta affeição. Chamava-lhe assim, repugnava-lhe a +palavra amor em que sentia mais de perto a quebra +da fidelidade conjugal.</p> + +<p>O adulterio repugnava-lhe, invocava para o repellir +o dever e a religião, sem todavia sentir a profundeza +d'aquellas obrigações.</p> + +<p>Repugnava-lhe porque era feio, era de mau gosto, +contradizia os preceitos da sua educação e não cabia +no convencionalismo estreito que era toda a sua regra +moral, vasia de sentimento.</p> + +<p>Envergonhar-se-ia de ser infiel ao marido pelas +mesmas razões que a levavam a passar noites crueis +procurando tirar dos seus farrapos trajos elegantes, +para competir com a gente fina cujas relações frequentava.</p> + +<p>Claudio ouvia e applaudia, penetrado de admiração +perante tão sublime virtude, ingenuamente julgando +ter encontrado par ás suas duvidas e atribulações, +<span class="pagenum">[120]</span> +onde de facto só havia um fragil simulacro de +grandeza moral.</p> + +<p>Esta noite, que se annunciára tormentosa, derramava +em ambos os amantes uma tranquillidade +profunda.</p> + +<p>Tudo agora ficava determinado d'uma vez para +sempre.</p> + +<p>Perdoada a falta de Claudio, que se punha á conta +do arrebatamento produzido pela presença de Emilia +ao fim de tantos dias de saudade, quebrada toda a +repressão dos sentimentos intimos, podia assim reconhecer +sem remorsos o seu mutuo affecto todo +impregnado de respeito.</p> + +<p>Seriam como irmãos; elle com a sua amizade trazer-lhe-ia +lenitivo á tristeza da infelicidade conjugal, +aconselhando-a, guiando-a e amparando-a pela presença +d'um coração fiel, ella havia de banir a aridez +das horas de estudo de Claudio pelas graças do seu +espirito. A vida tornava-se perfeita.</p> + +<p>O encontro d'aquellas duas almas fôra um bem +providencial para ambos, perdida uma em busca de +carinhos, perdida outra na desventura d'um destino +amargo.</p> + +<p>Duvidas, saudades, hesitações, tudo se dissipava +nas brizas propicias do amor triumphante. O espirito +vergou-se ao sentimento e acceitou, sem perplexidade +nem confusão, esse flamejar de desejos, tomando-o +por uma aurora luminosa e serena.</p> + +<p>Claudio entrou no seu palacio, fatigado mas alegre, +a refazer-se n'um somno povoado de venturas. No +dia seguinte podia dizer á sua mãe:—Graças a Deus, +estou melhor;—e ella veria contente, como a benção +das suas orações, a vida e o rubor voltar ao rosto do +filho.</p> + +<p>Pela calma do estio as flores beberiam o viço nos +regatos e a natureza havia de povoar-se de vozes +<span class="pagenum">[121]</span> +harmoniosas e clementes, cantando em côro com os +amantes felizes.</p> + +<p>Era boa occasião de voltar ao estudo, satisfeitas +as vagas aspirações sentimentaes que +nunca deixavam de o seguir. Tinha o affecto da mãe +e de Emilia. Que mais precisava? Devia mesmo romper +com perniciosos habitos de ociosidade provinciana, +gastando-se a inquirir das intrigas do soalheiro +e expondo-se a ouvir, com a brutal liberdade da +gente rude, allusões ás suas relações com Emilia que +outros poderiam interpretar injustamente. Por isso +deixára de frequentar a botica, armado para uma +vida de pureza e de saber. Na seccura das suas +preoccupações racionalistas infiltrava-se um desconhecido +fermento de poesia cujos primeiros e rapidos +movimentos lhe davam a illusão da felicidade.</p> + +<p>D'essa illusão partilhava Emilia, e para ella era +completa. Rapidamente esquecera o dia em que +Claudio voltára das Caldas; na sua leviandade mulheril, +entregava-se sem reservas ao prazer da hora +presente.</p> + +<p>Ella, tão pobre de carinhos, abandonada do marido +que cada vez mais se entregava aos seus vicios, +sentia como uma infinita suavidade a nova atmosphera +de affecto que a envolvia. Já não havia dores que fossem +unicamente suas, já não havia cuidados que não tivessem +confidente, afflicção que não tivesse soccorro. +A imagem de Claudio entranhava-se-lhe no coração +como o supremo bem e sabedoria. Era bello tudo o +que elle amava, era bom quanto elle julgava bom. +Deixára de a tentar o ruido das festas, a vã agitação +por que algum tempo suspirava, para esquecer as +mágoas; a natureza e o seu silencio ou os seus mysteriosos +murmurios diziam-lhe agora mais que todos +os artificios que com delicia lhe deslumbravam os +olhos.</p> + +<p>Para elle, ainda não chegára a hora de inteira tranquillidade. +<span class="pagenum">[122]</span> +Estava bem, não havia remorso que lhe +pesasse, poderia confessar toda a sua vida. Mas não +a confessava. Porque? Não era tão puro, tão casto o +seu amor por Emilia? Não córava elle lembrando-se +que algum dia pensára em fazer d'ella sua amante? +Não estava resgatada essa affronta, que nunca communicára +a ninguem, pelo respeito com que agora +a idealisava, santificando-a e adorando-a como martyr? +Embora!</p> + +<p>Não ousava fallar de Emilia, temia que alguem manchasse +com ruins desconfianças este amor immaculado. +Nem á sua mãe o confessava; na ingenuidade +do seu pensamento condemnaria talvez o affecto +por uma mulher casada e não poderia comprehender +a isenção do filho.</p> + +<p>Por isso se calava, por isso fugia d'antigos companheiros +com que francamente ria de amorosas +aventuras picarescas, arrastando dentro de si, como +um pendulo que oscilla e mortifica, esta constante +reserva e o temor do que elle julgaria injustiça. A +sua vida era feliz, mas apertava-se dolorosamente, +cercada de phantasmas.</p> + +<p>N'este idyllio se consummiram quatro mezes. +Claudio frequentava pouco a casa de Emilia, sempre +perseguido d'uma vaga suspeita do naufragio da +honra da sua amada.</p> + +<p>Encontrava-a em casa do dr. Carvalho uma vez +cada semana, via-a na egreja, acompanhava-a nos +seus breves passeios. Só de longe em longe a procurava +na rua da Cruz, contando os dias, para que a +frequencia se não tornasse notada da visinhança. +Inutil cuidado; o cynismo vulgar, melhor inspirado +do que o idealismo poetico, não se illudia sobre a +realidade, satanicamente commentava a familiaridade +e sorria.</p> + +<p>Uma tarde, nos primeiros dias de dezembro, á +hora em que o sol ia baixando e um frio sereno e +<span class="pagenum">[123]</span> +humido annunciava os gelos da noite, Claudio entrava +na villa, regressando d'um passeio a Palhares, +com Emilia, com as Silvas, a mulher do dr. Carvalho +e o Maia.</p> + +<p>Este, tendo partido um casamento rico que tentára +na Beira, voltava-se agora com mais insistencia +para a Silva, tanto mais que lhe haviam dito que +ellas tinham em Monteiros um tio rico de quem seriam +herdeiras.</p> + +<p>Averiguára pelo juiz que lá estava, um seu parente, +e viera a saber que o homem era realmente rico; +pagava uns noventa mil réis de contribuição predial, +tinha bastante dinheiro a juro, fóra um bom mealheiro +que guardava em casa, como grande avaro +que era. Não constava que tivesse testamento, nem +o faria porque isso lhe repugnava. Os unicos herdeiros +eram as sobrinhas.</p> + +<p>A herança devia estar para breve. Elle contava +setenta e quatro annos, já o anno passado tinha tido +um antrax que o pozera ás portas da morte, e os +medicos diziam que não podia ir longe; havia desordens +no funccionamento dos rins, perigosas e incuraveis.</p> + +<p>A duvida era uma unica: este homem tinha um +filho natural d'uma creada, mas nunca o reconhecera, +correndo-o com uma bengala uma vez que o pequenito, +por conselho da mãe, lhe pedira a benção +no meio da rua.</p> + +<p>Pretendia que elle fosse filho d'um creado, com +quem a rapariga tivera amores, mas, para maior +segurança, quando o rapaz tinha quatorze annos, +mandou-o para o Brazil. Sabia-se que elle vivia e +que de lá soccorria a mãe, a quem o velho abandonára +na miseria.</p> + +<p>O Maia, porém, não se assustava com isto; já conhecia +alguns casos mal parados de investigação de paternidade +illegitima que o affoitavam, quasi se +<span class="pagenum">[124]</span> +sentia tentado com a demanda para dar largas á sua +actividade profissional, e conhecia o processo por +que ordinariamente estes terminam casos.</p> + +<p>O rapaz não tinha dinheiro para custear o pleito e +viria a uma conciliação, contentando-se com uns magros +contos de reis.</p> + +<p>Na verdade, esse grupo que vinha estrada acima +cantando louvores á natureza,—a tarde estava lindissima! +não se cansavam de repetir,—cuidava apenas +de amores.</p> + +<p>O Maia procurava mulher e fortuna; Claudio contemplava +a sua Emilia; a Silva, a mais velha, que +dizia agora que não se queria casar porque não estava +para aturar homens,—queria a sua independencia!—a +cada instante olhava para traz, a vêr se descobria +o dr. Carvalho que tinha ido á Varzea visitar +os doentes, e a mulher do Carvalho, que andava muito +inflamada em ciumes, vinha guardando a amante +do marido.</p> + +<p>Pararam na praça. Havia alli um grande ajuntamento, +em volta d'um trapezio erguido no meio da +calçada e tapetado em baixo com immundos farrapos.</p> + +<p>No trapezio estava sentado um homem magro, as +faces cavadas, vestido d'uma desbotada malha côr +de rosa, calçado de cothurnos brancos; em baixo, de +pé, uma mulher, tambem vestida côr de rosa, saia +curta, coberta de lantejoulas que se estendiam em +arabescos pelos hombros, levantava do chão uma +creancita magra, longos cabellos louros e olhos azues, +e arremessava-a ao homem do trapezio. A creancita, +voltando-se no ar, soltava um grito agudo e o homem +recebia-a nos braços.</p> + +<p>Claudio voltou-se constrangido, para não presencear +este quadro de miseria, e, ao lado d'elle, uma +rapariga do povo, que era linda, voltou as costas +tambem.</p> +<span class="pagenum">[125]</span> + +<p>—Credo, Virgem Nossa Senhora, nem quero vêr! +disse ella.</p> + +<p>—Eu tambem não gósto, respondeu Claudio.</p> + +<p>—Quem ha-de gostar de vêr o innocentinho alli +aos trambolhões?! Até parece que o desmancham.</p> + +<p>—São modos de vida. A fome tudo póde.</p> + +<p>—Antes pedir esmola.</p> + +<p>E trocaram ainda mais umas breves palavras, +com uma subita sympathia tirada da mesma compaixão.</p> + +<p>O dr. Carvalho não tardou a chegar, risonho e +animado.</p> + +<p>—Vamos para casa, disse para a Silva, antes que +se faça noite, que lhe quero dar um ramo de violetas +como ha muito não vê. Tenho-as lá magnificas. +Deu-m'as o jardineiro da condessa de Albergaria. +Uma maravilha!</p> + +<p>A mulher do Carvalho córou, e lá seguiram todos +a caminho do jardim.</p> + +<p>Claudio acompanhou-os até á porta e voltou a casa, +para não mais sair n'aquelle dia. Emilia ia taciturna.</p> + +<p>—Tão calada? perguntou Claudio.</p> + +<p>—Estou com frio.</p> + +<p>—Deus queira que não lhe vá fazer mal.</p> + +<p>E separaram-se.</p> + +<p>No dia seguinte, á tarde, Claudio foi á rua da Cruz +saber de Emilia.</p> + +<p>Com grande surpreza, appareceu-lhe Ricardo, dizendo +que a mulher estava muito incommodada desde +a vespera.</p> + +<p>Logo ao chegar a casa, fôra atacada de vomitos; +desde então nunca mais a tinha deixado uma violenta +dôr de cabeça.</p> + +<p>—Até chorava, dizia o Ricardo.</p> + +<p>Tinha querido chamar o medico, mas ella toda se +exaltára com a lembrança, dizendo que isso ainda +<span class="pagenum">[126]</span> +lhe fazia peior, que nunca se chamou um medico +por uma dôr de cabeça e que o maior beneficio +que lhe podiam fazer era deixal-a só, em paz e socego.</p> + +<p>Claudio ficou no maior desalento. Evidentemente, +tratava-se d'uma doença grave, para que Emilia não +fizesse o esforço de se levantar do leito e vir vel-o +quando não podia ignorar que elle ali estava. O seu +primeiro impulso foi instar pela assistencia d'um medico, +mas depois, reflectindo, receiava contrarial-a e +aggravar o mal. Resolvia esperar mais vinte e quatro +horas que antecipadamente sabia serem de agitação.</p> + +<p>A noite foi afflictiva. A possibilidade da morte de +Emilia perseguia-o como um espectro, povoando-lhe +a escuridão de visões tenebrosas. O despontar do +dia, porém, alliviou-o; dissipava os sonhos, parecia +dar-lhe consciencia mais nitida da realidade. Não seria +cousa grave! A sua imaginação é que tinha certa tendencia +a representar-lhe o peior. Até poderia ser +que áquella hora tudo estivesse passado! O que o +preoccupava agora era determinar a hora de ir vêr +Emilia.</p> + +<p>Preferiria a tarde para não mostrar excessivo cuidado. +Oh! Senhor, que vida! Não ter a liberdade de +confessar os seus sentimentos, sempre em continuados +temores, fugindo como um criminoso... E não o +era!</p> + +<p>Mas não podia esperar tanto. Sete horas da manhã!... +Teria ainda dez horas. Impossivel. Iria depois +de almoço. Que lhe importava o que podessem +dizer. Ia ás occultas, porventura?...</p> + +<p>Era meio dia quando chegou á rua da Cruz. Á +creada perguntou por Emilia. Estava melhor, já se +levantára, até de manhã descera um bocadinho ao +jardim.</p> + +<p>Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande +<span class="pagenum">[127]</span> +peso; entrou na sala que estava deserta, Emilia +tardava e por certo já lhe tinha ouvido a voz... Era +singular! Ella que sempre corria para elle tão pressurosa...</p> + +<p>Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se +a passos lentos, compassados, parando a meio do +corredor, para dar á creada umas ultimas ordens. +Claudio esperava-a de pé, frenetico, movendo-se nos +dois passos que medeavam entre a meza e o +sofá.</p> + +<p>De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de +terror. Emilia vinha para elle com aquella mesma +pallidez caracteristica que já um dia lhe conhecera +e em que só os seus grandes olhos ficavam +boiando como pharoes, em braza, n'uma toalha alva +e mate, orlada ricamente pelos mais finos cabellos.</p> + +<p>—O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe +a mão. Estranho-a.</p> + +<p>—Não sei, respondeu ella pausada e desprendidamente. +Foi apenas uma dôr de cabeça, um pouco +mais violenta do que as que costumo ter. Antes +fosse uma doença grave! Que faço eu n'este mundo?!...</p> + +<p>—Não seja injusta nem cruel com os que a estimam. +Se soubesse o que eu tenho soffrido ha algumas +horas...</p> + +<p>—Não vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria +muita rapariga fresca e nova que o cubiçasse. +Conheço-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos uma +bem bonita na praça, aquella que esteve ao pé de +nós. Não lhe pareceu?</p> + +<p>Claudio só então comprehendeu que Emilia ardia +em ciume. Correu-lhe o sangue ao coração, seccaram-se-lhe +os labios e, como uma féra precipitando-se +sobre a preza, lançou os braços em torno da cintura +<span class="pagenum">[128]</span> +de Emilia, beijando-lhe as faces em convulsões +de desejo.</p> + +<p>—Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se, +endoideceu?</p> + +<p>—Não, não endoideci, respondeu elle tremulo e o +rosto congestionado. A culpa é sua, unicamente sua. +Fica assim convencida do meu amor?</p> + +<p>Já não era o timido que nós viramos soluçante, +implorando perdão, por uma calma noite de julho. +A cubiça e uma instinctiva mas plena certeza de dominio +tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia +obedecia, defendendo-se frouxamente com o temor +do escandalo e da sua vergonha, inconscientemente +dominada por um ardor de paixão que a fazia acceitar +como boas as razões que o amante ardilosamente +inventava para a levar a quanto lhe apetecia.</p> + +<p>Não valia a religião nem o dever; a culpa era do +destino que, tendo-lhe dado um marido repellente +e sordido, lhe deparava agora uma alma irmã da +sua.</p> + +<p>Claudio voltava a casa agitado de contentamento. +Todos os escrupulos, todas as preoccupações se baniram +ao alento d'aquelle corpo que tivera nos braços, +ao contacto d'aquella face cuja impressão sentia +ainda nos labios.</p> + +<p>A animalidade vencia, a satisfação da carne punha +em debandada os terrores da alma transformando-os +em deliciosas e captivantes esperanças. Voltaria +á rua da Cruz no dia seguinte, á mesma hora, +quando Ricardo estivesse na repartição e os filhos na +escola. Sequioso dos beijos de Emilia, todo se entregava +a essa cubiça absorvente.</p> + +<p>Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse +jardim que fôra e seria ainda o theatro das suas +inquietações, esperando o bater do meio dia como +cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o +<span class="pagenum">[129]</span> +freio, a orelha fita ao toque do clarim que marcará a +partida.</p> + +<p>Quem lh'a déra ali, por essa tarde de dezembro em +que o sol tão brandamente penetrava a terra passando +entre os troncos nus das arvores desfolhadas pelo +inverno! Iria colher violetas á sombra dos cedros e +a meiguice dos seus beijos havia de confundir-se +com o perfume subtil e inebriante, o amor a adejar +na luz pallida e cariciosa.</p> + +<p>Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco, +onde o respeito pela sua amada que havia de pôr no +sacrario a que não chegariam as palpitações da concupiscencia +impura? Sonhos vãos, vãos propositos! +Nem d'isso já se lembrava! Varrera-lh'o da lembrança +a chama em que todo o seu ser ardia n'uma +transformação gloriosa.</p> + +<p>Com que alegria subiu á sala de Emilia!... Mas Emilia +vinha triste, os olhos macerados, mysteriosa, +perseguida d'um pavôr que nem o anceio de vêr o +amante podia dissipar. Não se assustasse Claudio... +Ricardo desconfiára, estranhára as visitas áquella +hora, ameaçára-a. Tudo porém se poderia arranjar, ella +lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam encontrar. +Depois lhe contaria pausadamente como isso +se passára; não se demorasse, saisse quanto antes. +Que não se affligisse, ella era a mesma. E abraçaram-se.</p> + +<p>Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava +hymnos de triumpho. Era sua! A certeza do amor de +Emilia vencia todas as atribulações e resgatava todas +as dores passadas. O ardor da paixão e a coragem +confundiam-se n'um só fogo, impetuoso, subindo +para os céos, á serenidade olympica do amor +victorioso.</p> + +<p>Na mesma tarde d'este dia em que tivéra o primeiro +annuncio da desconfiança de Ricardo, Claudio +recebeu uma carta de Emilia.</p> +<span class="pagenum">[130]</span> + +<p>O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe +que viesse, ás dez horas da noite, a uma pequena capella +abandonada que ficava junto á casa, na rua +da Cruz, e que com ella tinha communicação interior.</p> + +<p>Entregaram a carta a Claudio na presença da mãe, +no fim do jantar. Teve de mentir. Disse que era do +prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse lá á noite. +Estava com um ataque de gotta e não podia sair.</p> + +<p>—Foi-se metter na eleição da junta de parochia +e agora ha-de querer que eu lhe dê os votos de +Villalva!...</p> + +<p>Para se conformar com o que disséra á mãe, saiu +ás oito horas. Não era verosimil ir procurar um velho, +n'uma aldeia, ás dez horas da noite. E ainda, +para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta +longa a escrever, inaddiavel, que justificasse a +permanencia em casa.</p> + +<p>Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa +Nova, e voltaria torneando a villa, a entrar na rua +que o levaria em direitura a casa de Emilia; mas, +quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito +horas e um quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se +já á capella; poderiam vêl-o e comprometteria Emilia.</p> + +<p>Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto, +á beira do caminho, sobre o parapeito d'um +aqueducto, esperando.</p> + +<p>Accordava agora do desvario sensual em que todo o +dia andara arrastado; a treva, a fadiga, o silencio, o +isolamento e a immobilidade forçada despertavam-lhe +a consciencia. Era um crime o que ia fazer? Não era; +a paixão convencia-o da propria innocencia. A ninguem +prejudicava, nem mesmo a Ricardo que fôra o +primeiro a abandonar a mulher. Não a roubava aos +filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este +mundo é uma conquista; queria a sua parte. Mas +<span class="pagenum">[131]</span> +porque então este sentimento d'amargura á hora em +que ia satisfazer-se a sua maior ambição? Mentia e +a mentira repugnava-lhe.</p> + +<p>Não vira elle o que lhe acontecera com a mãe ao +receber a carta? Mentira! Era a voz que sentia echoar +pelos despidos cerros dos montes e pelas sombras +do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava +em torno. Viria alguem?... Que importava? Quem +o sabia? Oh! não, tinha-o escripto na fronte, illuminada +por uma luz de remorso. Fôra loucura... Porque +não fugiu, porque não se affastou para longe a +primeira vez que encontrara Emilia? Emilia!... Quanto +soffreria ella tambem?!... Devia-lhe amparo, fôra +elle que a tentara na paz da sua virtude, fôra elle +que lhe derramara no sangue, como um veneno, +aquella pallidez com que a vira nas horas de soffrimento +e que se lhe gravaria nos olhos para sempre.</p> + +<p>Queria vêl-a, queria abraçal-a,—fortuna suprema! +E o amor e a compaixão casavam-se na mesma +anciedade.</p> + +<p>Finalmente, ás dez horas, abriu-se a porta da +capella da rua da Cruz. Claudio não a conhecia.</p> + +<p>Foi preciso que Emilia o guiasse na escuridão, +apenas cortada pela escassa luz que vinha da porta +lateral que abria sobre os campos e dava passagem +para um alpendre da casa de Ricardo.</p> + +<p>A capella estava abandonada; servia apenas de +palheiro e arrecadação de alfaias de lavoura. Iam +sentar-se no degrau do altar-mór, unica elevação +que havia no pavimento lageado e raso.</p> + +<p>—Tambem alli está um confissionario velho, disse +Emilia, mas só tem um assento, o do padre.</p> + +<p>—Leva-me lá, respondeu Claudio, quero ajoelhar +aos teus pés e pedir-te perdão das minhas faltas.</p> + +<p>—As suas faltas!...</p> +<span class="pagenum">[132]</span> + +<p>—Suas?... Não me chames assim. Parece que +me affastas.</p> + +<p>Ella sentou-se e Claudio ajoelhou. Estava tremulo +e frio, gelado pelas longas horas de espera na estrada +deserta e mortificado pelas angustiosas cogitações +em que o lançavam as luctas interiores da paixão, +as contradições do dever e do desejo, da realidade +cynica e das aspirações ideaes. Caíra como +prostrado, mudo de emoção, esmagado de duvidas +em que a amargura e o contentamento se confundiam +n'uma mesma vibração.</p> + +<div class="centrado"><img src="images/003.jpg" alt="Ella sentou-se e Claudio ajoelhou."></div> + +<p>Ella estava serena, na simplicidade do amor apartado +das complicações d'uma consciencia intelligente +e timida. Estava nos braços do amante, que lhe +envolviam a cintura, ninguem o sabia, e esta ultima +circumstancia bastava a tranquillisal-a. Não havia +duvidas intimas; tudo se reduzia a convenções mundanas +que, illudidas ou compridas, ficavam sempre +igualmente satisfeitas.</p> + +<p>Pouco e pouco, Claudio reanimou-se no alento da +amante. A sensibilidade vencia. E tarde, pela noite +calada, recolhia a casa n'uma plenitude de vida e de +contentamento que ha muito lhe era desconhecida.</p> + +<p>A sua existencia tornára-se completa, julgava elle +com a fé mais firme; ia entrar n'um periodo de fecunda +e longa tranquillidade. Considerava-se unido +para sempre a Emilia no mais puro hymeneu, ella +era a legitima esposa do seu corpo e da sua alma, a +que devia fidelidade que do coração lhe votava. Quizera +o destino, por um capricho cruel, que essa mulher +vivesse separada d'elle, n'uma vida de privações +e de penas, mas esse facto não enfraquecia +nem prejudicava a união. Pelo contrario, sublimava-a, +introduzindo-lhe elementos moraes de paciencia +e resignação que inflamavam os amantes pela +lucta perpetua.</p> +<span class="pagenum">[133]</span> + +<p>Restava a Claudio dispôr as cousas externas conforme +as novas condições da sua existencia.</p> + +<p>Para illudir a mãe, faria um pequeno gabinete, +em baixo, ao pé do jardim, em que passaria as noites, +sem ninguem o sentir. Iria á rua da Cruz nos dias +em que Ricardo fosse a Coimbra, repetiria quanto +possivel os passeios e jornadas que o affastasem de +Albergaria,—convinha ao bom nome de Emilia, cuja +honra se lhe afigurava immaculada,—e evitaria mesmo +frequentar a casa do dr. Carvalho com a assiduidade +que até então usára. Voltaria a completar os +seus estudos que d'esta vez tinham todas as condições +de proseguir até ao fim, satisfeito o corpo e envolvido +o espirito n'uma atmosphera de poesia. +Assim seria a sua vida até á hora derradeira em que +queria morrer os olhos fitos n'essa imagem que era +o sangue do seu sangue, a sua razão de ser.</p> + +<p>N'este novo caminho, em que affoitamente entrou, +deu aos seus estudos uma nova direcção. Era necessario +resolver o problema moral, que ha tantos mezes +o inquietava, era necessario pôr de harmonia a +razão e o sentimento, descobrir os motivos que haviam +de justificar plenamente a sua existencia e banir +todas as duvidas que o turvavam.</p> + +<p>Na verdade, a sciencia nada lhe dissera. As leis +da lucta pela vida e do transformismo nunca lhe podéram +explicar nem porque era doloroso mentir a +sua mãe nem por que motivo havia de occultar os +seus amores com Emilia. Conveniencias sociaes? Mas +então os instinctos naturaes não são o melhor juiz +dessas conveniencias e não conduzem á perfeição +final? E, se assim não é, se ha parallelamente outras +leis, quaes são, em que se fundam, que princípio +as sancciona, como e em que modificam as primeiras?</p> + +<p>Evidentemente, a sciencia era incompleta; nada +lhe dizia sobre aquillo que mais o interessava e mostrava-se +<span class="pagenum">[134]</span> +incapaz de lhe offerecer tranquillidade. Porque +era verdade que vivia inquieto.</p> + +<p>Voltava-se para os livros de religião e de moral. +Devia haver uma outra sciencia. Lia Epicteto, Marco Aurelio, +os padres da Egreja e, entre os modernos, Renan, +Amiel e Tolstoi. A vida seria, nas palavras d'estes, +o desprezo do mundo e da carne, a conformidade com o +destino, a exaltação no amor e na humildade. Os primeiros +serão os ultimos e os ultimos serão os primeiros. +N'este mundo, todos somos irmãos. «Irmãos, amae-vos +uns aos outros!» As palavras do evangelista tornavam-se +uma obsessão.</p> + +<p>Se assim era, que crimes eram os seus, na occiosidade, +na traição e na mentira! Dominava-o um impulso +de arrependimento. N'uma tragedia intima, repetia: +Pequei! Esquecia a sciencia. O corpo e os seus +apetites não eram uma realidade tambem? Sim, de +certo, mas melhores seriam as privações do que a +tortura d'aquella vida sem repouso...</p> + +<p>N'este drama, passou cerca de dois annos. Aos +olhos dos estranhos, a quem os amores escandalosos, +por muito continuados, se tornaram indifferentes, +a tranquillidade parecia perfeita. De facto, nenhum +obstaculo de natureza material existia.</p> + +<p>A mãe de Claudio não se julgava no direito de +pôr estorvos á sua vontade, desde a morte do +marido; nos seus inveterados habitos de servir e obedecer, +considerava o filho o seu senhor. O Ricardo, ou +fosse ignorancia, aliás nada provavel, dos amores +da mulher, ou fosse um cynico interesse na amisade +de Claudio de quem sempre esperava protecção e +com cuja bolsa contava para os momentos difficeis, +amiudando e prolongando as suas noites de Coimbra +em casa da amante, acabára por deixar Emilia n'um +desafogo que lhe permittia longas horas do mais +repousado amor.</p> + +<p>Os tormentos vinham da consciencia. Claudio não +<span class="pagenum">[135]</span> +encontrava solução moral que importasse justificação +plena do seu viver. A duvida e a inquietação +eram constantes, permanentes; cavavam-lhe na alma +abysmos de mysterio, perante os quaes a todo o +instante tremia e se apavorava. O mais pequeno incidente +revolvia toda essa vasa que o suffocava, um +dia de ciumes de Emilia, a suspeita de que o tinham +visto entrar na capella, um gesto, uma palavra de +sua mãe, condemnando os desvarios do adulterio.</p> + +<p>Por outro lado, Emilia descia aos seus olhos. Saciados +os apetites que as graças do seu corpo despertaram, +via em plena nudez a inanidade do seu +pensamento moral.</p> + +<p>Instinctivamente boa e simples, amando Claudio +ingenuamente com o afferro caracteristico das mulheres +apaixonadas, era todavia incapaz de se elevar +á comprehensão das duvidas que o agitavam; e ella, +que se sentia contente com a sua sorte, não percebia +que o amante podesse, sem reservas, deixar de +partilhar o seu contentamento.</p> + +<p>Presentiram o juizo que o publico formava das +suas relações? Adivinhavam-n'o, e até se esforçavam +por lhe tirar toda a apparencia de razão; mas viera +tão cedo e em tal calor de paixão que não constituira +mais que um passageiro desgosto com que ambos +em breve e facilmente se conformáram. Que tinham +os outros com a sua vida? Olhassem para si +que teriam bem de que fallar. Que fazia o Carvalho +sempre de braço dado com a Silva? E a outra não ia +casar com o Maia? Uma miseria! Só por causa da +fortuna.</p> + +<p>Era sabido que ella na Figueira tinha namorado +um rapaz de Lisboa que lhe vinha fallar ao terraço, +á uma hora da noite.</p> + +<p>Um dia, na primavera, exactamente tres annos +depois que conhecera Emilia, Claudio recebeu uma +<span class="pagenum">[136]</span> +carta de seu amigo Jorge de Castro, annunciando-lhe +uma proxima visita.</p> + +<p>Visto que elle, Claudio, se mettera a ermita, resolvia +o Jorge ir abraçal-o; que preparasse os cavallos, +queria visitar todas as aldeias suas conhecidas, +que a visita não era só para elle, era tambem para +aquelles montes de que se lembrava com saudades.</p> + +<p>A carta respirava uma grande alegria, denunciando +uma natureza sã, vigorosa. Claudio leu-a com tristeza. +Porque não havia elle de viver assim contente?... +Scismava. Talvez o Jorge lhe revelasse o segredo +d'aquella fortuna.</p> + +<p>Respondeu lhe immediatamente. Exultava. Os cavallos +estavam promptos, tinha-os n'aquelle momento +ligeiros como gamos, do campo de Coimbra. Traçava +já varios passeios, em Albergaria e em Villalva +onde lhe queria mostrar os jardins que créara no +meio de rochedos. Promettia-lhe mais varios regalos +da mesa provinciana, que o amigo apreciava, bons +patos com arroz, uma preciosa vitella vinda da serra +e vinhos da varzea de Villar que não os havia +melhores. Que viesse quanto antes. Até precisava +muito conversar com elle, accrescentava laconicamente.</p> + +<p>—Até precisava muito conversar com elle... repetiu +Jorge, lendo a carta na presença da mulher. É +capaz de querer casar. Que pateta! Aos vinte oito +annos, quando tem uma fortuna boa e todos os prazeres +ao seu alcance... Eu, se agora me visse solteiro, +não me casava antes dos quarenta annos. É muito +bom, mas uma prisão...</p> + +<p>Claudio veio esperar o amigo a S. Braz, por uma +tarde serena, o ceu limpo e azul, os campos rebrilhando +de reflexos multicores.</p> + +<p>—Oh! que magnifico sol! disse Jorge ao apear-se, +<span class="pagenum">[137]</span> +depois de abraçar Claudio. Com um tempo assim, até os +inimigos se podem visitar.</p> + +<p>E encaminharam-se para a carruagem.</p> + +<p>Todo o caminho se dispendeu no exame dos cavallos +e na apreciação da paysagem. Jorge ia maravilhado. +Que vigor, que frescura! Aquillo devia fazer +mal... Era lethifero. Dava vontade de fechar os +olhos e adormecer por alli, á beira dos comoros toucados +de madre-silva e de giesta. Uma natureza assim +desmoralisava. Por isso Claudio se quedára n'aquella +apathia. Estava encantado. E ria, sem de longe imaginar +a dolorosa ferida que tocava.</p> + +<p>Ás cinco horas da manhã do dia seguinte, Jorge +passeiava no jardim esperando que Claudio despertasse. +Este não tardou.</p> + +<p>—Ainda bem! exclamou Jorge. Até é peccado dormir +por uma manhã d'estas.</p> + +<p>Em volta, a vida era d'uma intensidade extrema, +n'um turbilhão alegre e scintillante, de murmurios +de regatos, tremulas manchas d'um sol benigno, +gorgeios d'aves, perfumes de lilazes, de rosas e cylindras.</p> + +<p>—Vives aqui muito bem, disse Jorge, sentando-se +n'um banco de pedra, á sombra dos loureiros, em +frente d'um platano magestoso, opulentamente curvado +sobre o tanque em cujas aguas os seus ramos +vogavam.</p> + +<p>—Não tão bem como te parece!</p> + +<p>Contou então todo o drama da sua vida; o primeiro +encontro com Emilia, a leviandade com que +se lançára na sua conquista, o amor sincero e a paixão +que d'ahi resultára, a angustia em que vivia +n'uma vida de constante mentira, as tentações que +tinha de pôr termo a essas torturas, o receio e a +compaixão pela infelicidade da amante, sempre que +se lembrava d'uma separação. No fundo, sentia-se +torturado de arrependimento e remorsos; a sua felicidade, +<span class="pagenum">[138]</span> +tão cubiçada dos estranhos que o julgavam +satisfeito e impenitente, reduzia-se a uma crudelissima +agonia.</p> + +<p>Jorge desconhecia essas situações. Casára cedo, +por casualidade, cedendo a uma inclinação natural, +sem maior esforço da vontade. Não dizia que o casamento +fosse bom nem mau; elle tinha-se dado bem +e louvava a Deus por o ter feito, pois sabia d'outros +casos semelhantes ao de Claudio e todos tinham mau +fim.</p> + +<p>Lembrava: o Cabral, um companheiro da Universidade, +apaixonou-se pela mulher d'um amigo +e suicidou-se. O Nogueira, um bom rapaz mas um +sceptico, começou a namorar a mulher d'um visinho,—brincadeira!—e +a mulher toma o caso a sério, +abandona o marido e vem metter-se-lhe em casa. E +ahi estava o pobre desgraçado preso provavelmente +para toda a vida. Estes eram casos recentes, mas outros +aconteciam a cada passo. Elle fugia d'isso. Era +quasi ridicula tanta felicidade conjugal, bem o sabia, +mas ao menos que descanço!...</p> + +<p>De resto, Jorge não se atrevia a aconselhar qualquer +resolução. O tempo a indicaria. Era sempre +uma loucura querer substituir inteiramente o destino +e a sorte pelas inspirações da vontade. Parecia-lhe +até uma falta de humildade, desmedido orgulho. Demais, +o peccado não era grande. Tinha amores com +uma mulher casada cujo marido a deixava a cada +momento por uma amante?... De quem era a culpa? As +cousas do mundo não se podiam tomar todas em casos +de consciencia. No bom senso vulgar havia muito +de razão e justiça.</p> + +<p>Pensava Claudio que, se amanhã fosse á pharmacia +e contasse aos companheiros d'outro tempo o que +lhe succedia, alguem tomaria a serio as suas duvidas? +Todos se ririam. Ridiculo, n'aquella comedia, +só o Ricardo. Era a boa tradição e, quem sabe? talvez +<span class="pagenum">[139]</span> +a boa regra. Afinal, o amante era vencedor. Por +conseguinte, dormisse descansado e levasse as cousas +alegremente. O tempo, o tempo lhe diria o que tinha +a fazer. Não havia de tardar... que aquelle viver +aborrecia.</p> + +<p>Jorge voltou a Lisboa sem deixar no espirito de +Claudio outra impressão, além da tristeza em que +caia comparando-se com elle.</p> + +<p>Aquelle sim, aquelle soubera viver! Voltava a casa +aos braços da mulher e dos filhos, a um ninho de +caricias e de affectos de que abertamente e tranquillamente +podia fartar-se, isento de toda a duvida, livre +de todo o remorso.</p> + +<p>Porque não fizera elle o mesmo? Porque se lançára +n'uns amores que a consciencia lhe condemnava, +fossem quaes fossem as razões que o espirito buscasse +para os legitimar? E porque não havia de +emendar-se? Porque não havia de converter Emilia +ao dever, como elle mesmo se tinha convertido? Ella +seria então a primeira a desejar o seu casamento, a +desejar vêl-o emendado d'uma vida de mentira, olvidando +o passado, que pelas suas amarguras lhes serviria +a ambos de lição, para os affastar de nova queda. +Assim resgatariam, em longos annos de honestidade, a +breve loucura d'algum tempo. Corajosamente, sem +lagrimas, com a risonha serenidade da virtude, apartar-se-iam. +Quanto a vida lhes seria então suave e +boa!</p> + +<p>Isto pensava, isto pensou durante alguns mezes +sem se atrever a communical-o a Emilia. Temia a +impressão que havia de lhe produzir a lembrança do +abandono do amante, seu unico amparo, a sua unica +alegria, d'ella que ninguem tinha no mundo, entregue +ao marido que a desprezava, perdida no mais +arido ermo de carinhos.</p> + +<p>O receio e a compaixão traziam-n'o em mentira; +ia addiando, addiando sempre a hora d'uma confissão +<span class="pagenum">[140]</span> +que imaginava o seu dever e salvação e de que +todavia tremia, não por elle que a tudo estava d'antemão +resignado mas por Emilia que já então sabia +ser moralmente fragil, inconsistente.</p> + +<p>Pelo S. João foram, como de costume, a Coimbra, +a casa dos Albuquerques. Claudio ia contrariado, +absorvido, como andava, em preoccupações moraes +que o traziam n'um permanente desejo de recolhimento; +mas Emilia, em rapidas fulgurações, mostrava +ainda todo o seu antigo ardor pela futilidade elegante.</p> + +<p>—É mais uma occasião que tenho de te vêr de +casaca e gravata branca, e assim é que ficas bem. +Mas vê como te portas... Ha por lá muita menina +bonita!</p> + +<p>Era a recommendação habitual, quando partiam +para essas festas.</p> + +<p>D'esta vez, Emilia veiu de Coimbra preoccupada e +distrahida, fallando a custo e evitando os olhos de +Claudio. Este já não se illudia com taes modos e gestos; +por muito frequentes os conhecia. Eram ciumes. +Quantas horas afflictivas passára na capella da rua +da Cruz para affastar essas tempestades que eram +uma das dores com que a leviandade de Emilia sobrecarregava +a sua atroz situação!</p> + +<p>Antecipadamente sabia o que seria a sua primeira +entrevista depois do baile, toda consagrada a explicações +e a mentiras. Mentiras? Sim, mentiras. Emilia +tinha razão. Claudio em toda a noite não tirara os +olhos de Laura, uma filha do velho Albuquerque, +cheia de graça e de candura, valsando com uma travessura +infantil.</p> + +<p>Seria mais um remorso, havia de mentir-lhe, havia +de a convencer de que era sempre a victima dos +seus zelos infundados, mas era certo que Laura lhe +deixára uma impressão profunda, e vagamente, com +uma tenacidade perigosa para os amores de Emilia, +<span class="pagenum">[141]</span> +pensava em que talvez estivesse ali a sua salvação. +Seria um capricho dos sentidos, o encontro casual +d'um temperamento ardente e d'uma natureza nervosa, +uma surda concupiscencia? Talvez não. Laura +era uma rapariga educada em ociosidade absoluta, +sem a minima instrucção, sabendo com segurança +apenas valsar, brincar e montar a cavallo e a Claudio, +burguez por habito e por educação, d'uma delicadeza +moral doentia pela aturada insistencia dos +problemas da sua vida, repugnava uma existencia +tão vasia e inutil.</p> + +<p>Qualquer cousa ignorada o atraia, porém. Tambem +aqui o espirito e a reflexão não lograram vencer +o sentimento.</p> + +<p>Ouem podia saber a verdade? Quem podia dizer-lhe +o que se abrigava n'aquelle corpo de creança? +Talvez um coração apaixonado, uma d'estas mulheres +que se consomem n'um só amor.</p> + +<p>A imaginação representava-lhe prazeres infinitos, +n'um lar todo illuminado por essa luz de sacrificio. +Havia de a dominar pelo amor, havia de banir dos +seus desejos os habitos de ociosidade. Ella seria +bondosa, ingenuamente amoravel; não era uma rapariga +prevenida e, quando tivesse amamentado um +filho, quando tivesse vivido n'uma atmosphera de +labor e de virtude, a esposa da sua alma revelar-se-ia.</p> + +<p>Depois, se errasse nas suas esperanças, tambem +saberia mandar a quem não soubesse amar. A herança +paterna, o homem sevéro e frio, accordaria.</p> + +<p>Mas Emilia, Emilia?... A sua falta pesava-lhe então +n'uma fadiga e n'um desespero invenciveis; entre o +desejo de sair d'uma vida, a seus olhos criminosa, e +a ambição duma vida normal, cavava-se um abysmo +innundado de lagrimas que era precioso transpôr. +Recuava. Nunca! Pobre Emilia...</p> + +<p>Ás vezes, sobre o conflicto d'aspirações passava +<span class="pagenum">[142]</span> +uma onda de scepticismo. Laura, Emilia, o casamento, +o adulterio... phantasias! Fugisse d'ali, fosse +viver em Lisboa, não poupasse ao seu corpo todas +as delicias que a fortuna lhe consentia. Mas o dever +dominava-o, não havia modo de se libertar, n'uma +vida facil, d'essa pesada escravidão a que desde a +infancia fôra votado.</p> + +<p>Outras vezes, esquecia Emilia. Laura apparecia-lhe +como uma visão de candura, o anjo que lhe annunciava +a paz, e caia na tristeza da infinita saudade +das cousas cubiçadas e impossiveis.</p> + +<p>Queria aquecer-se ao sol da sua ingenuidade e da +sua fé, beber na sua simplicidade um alento purificador. +Loucura! A felicidade fugira-lhe para sempre, +de tudo poderia curar-se menos do remorso, a vása +de todas as almas delicadas, a toldar-lhes o mais pequeno +movimento. Só o dever seria a sua ambição; +deixasse como um forte, por justo castigo da sua +culpa, os sonhos de felicidade. Loucura ainda! Dever, +felicidade, que estranhas vozes eram essas?</p> + +<p>Luctar era bom para quem tinha os favores do +destino. Elle não; vinha batido dos erros e contrariedades +e só na escuridão da terra encontraria repouso.</p> + +<p>Comprehendia agora. E pensava na doce paz do +cemiterio e nas flores que haviam de lhe cobrir a sepultura.</p> + +<p>Nova loucura! O suicidio era um crime. Não lh'o +ensinára sua mãe?!...</p> + +<p>Iam decorridos oito dias sem que Claudio tivesse +voltado a casa dos Albuquerques, como costumava +depois dos bailes, por obrigação de cortezia. O seu +desejo de tornar a vêr Laura ficava aqui prejudicado +pelo receio d'um novo accesso de ciumes de +Emilia.</p> + +<p>Por fim, uma tarde, ou por mais animado ou por +<span class="pagenum">[143]</span> +indifferente e fatigado de tanto meditar, metteu-se +na carruagem e partiu.</p> + +<p>A visita foi curta; pouco pôde fallar com Laura.</p> + +<p>—Sei que tem um jardim muito bonito, disse ella. +Se algum dia lá passar, quero pedir a meu pae que m'o +deixe vêr.</p> + +<p>—Muita honra... e com o maior prazer. Mas nada +tenho notavel; só uma collecção de rosas que não é +má. N'este tempo, porém, póde dizer-se que não há +rosas.</p> + +<p>Ficava confundido com a lembrança de Laura. +Que mysteriosos instinctos a attraiam á sua casa e +ás suas flores, ás cousas que elle tanto amava. Ah! +Se Emilia o soubesse... Tremia.</p> + +<p>D'aquella visita voltava quasi doente, sobresaltado, +um vaguear permanente, os olhos cavados, o +corpo quebrado, com todos os symptomas physicos +da paixão.</p> + +<p>A fadiga era extrema; com ella veio um somno +profundo de que despertou n'uma tranquillidade que +ha muito desconhecia.</p> + +<p>O que fôra? Que se passára? Porque tantas inquietações?</p> + +<p>A indifferença vencia. Voltaria aos braços de Emilia +mais firme do que nunca nos seus propositos de +eterno amor.</p> + +<p>Para que abandonal-a? Não era o dever que o instigava, +não; era o egoismo, o desejo d'uma vida repousada, +uma sêde de carinhos e de affectos.</p> + +<p>Ingratidão! Tão cedo esquecia o que Emilia era +para elle...</p> + +<p>Voltasse aos seus livros, ao estudo e ás suas occupações +habituaes, resignado com o destino. A felicidade +dependia unicamente d'elle; era conformar-se +com a natural expiação do seu erro, sacrificando +humildemente ao bem alheio os seus sonhos de ventura.</p> +<span class="pagenum">[144]</span> + +<p>Virtude e saber, tudo era orgulho; a humildade a +sabedoria suprema. Fôra o que sua mãe lhe ensinára +e era o que o coração n'aquelle momento lhe repetia.</p> + +<p>Da incerteza em que então começou a viver ficou +testemunho no «diario» a que Claudio confiava +as suas penas, n'um isolamento e n'uma clausura +que as aggravavam. D'ahi tiramos os seguintes fragmentos:</p> + +<br> + +<p><i>7 d'agosto.</i> Tranquillidade, abandono. Entregue ao +tempo e ao acaso, vejo correr os dias n'uma resignada +desesperança. N'esta calma perpassa a imagem +Laura e ouve-se por vezes uma dorida voz de anciedade. +A vida é mais alguma cousa do que esta apathia +na dôr, a vida é a pratica do bem. Até a minha +serenidade é crime!... Não! enganei-me. As bençãos +da resignação não desceram ao meu peito, vivo +na tristeza das cousas desejadas e inaccessiveis. Sinto +uma prostração das luctas vãs, não chegou ainda a +hora da conformidade.</p> + +<p><i>16 d'agosto.</i> Scismo. A intensidade da aspiração +instiga-me a romper com o passado. As fézes d'um +amor illegitimo toldam-me a alma até ao azedume. +Que direitos tem Emilia sobre mim? É cumplice +d'um mesmo crime? Seja pois victima do mesmo +resgate.</p> + +<p><i>17 d'agosto.</i> Esta tarde fui surprehendido pela visita +dos Albuquerques. Vinham de passeiar, disseram, +e desceram para vêr o meu jardim. Laura veio +tambem. Perceberia o velho o que me passava pelo +espirito? Desconfio. Apressa-se a não perder o ensejo +de remendar a sua fortuna escalavrada. Nos primeiros +instantes, esta lembrança de que era instrumento +de especulação revoltou-me; depois, a presença de +Laura tudo desvaneceu. A graça, a candura, a ingenuidade! +<span class="pagenum">[145]</span> +Só esse alento me restituiria a vida. Acompanhei-a +colhendo flores para ella, recebeu-as com +avidez, á partida não as quiz pousar na carruagem, +guardou-as nas suas mãos carinhosamente. Ella tambem +quererá prender a sua descuidada ventura á +miseria da minha alma ensanguentada? Talvez... +talvez a guie um mysterioso impulso de caridade! +Sinto renascer a esperança.</p> + +<p>O Albuquerque pediu-me que fosse jantar com elle. +Prometi-lhe que iria muito em breve.</p> + +<p><i>18 d'agosto.</i> Noite terrivel. Fui encontrar Emilia +n'uma exaltação de loucura com a noticia da visita +de Laura. Quando lhe annunciei que tinha promettido +ir brevemente a casa do Albuquerque, respondeu-me +com uma seccura brutal:</p> + +<p>—Vá, está livre, póde ligar-se a quem quizer. +Nada me deve. Na minha desgraça não perdi a dignidade, +fique sabendo! Os nossos amores terminaram +hoje. Aborreceu-se. Era tempo... Sei muito +bem o que me cumpre fazer; é voltar áquillo de que +nunca deveria ter saido.</p> + +<p>Emudeci de surpreza perante aquella linguagem e +aquella firmeza; a alegria de vêr terminadas as minhas +hesitações e as minhas duvidas lança para +longe todas as demais preoccupações. Livre emfim!... +E sem lagrimas nem manchas de sangue, +sem os espectros que me guardavam o somno. A +vida é uma festa. Corramos ao prazer. Affasta quanto +póde perturbar-te e aprende na miseria moral +quanto vale a sã alegria do corpo repousado na satisfação +dos seus apetites. Para traz, para traz todas +as atribulações da consciencia; retempera-te no vigor +d'um naturalismo ingenuo.</p> + +<p><i>19 d'agosto.</i> Voltei a casa de Emilia. Disse-lhe que +queria saber quaes seriam em publico as nossas relações.</p> +<span class="pagenum">[146]</span> + +<p>—Mas, evidentemente, da maior amizade, respondeu-me. +Nem outra cousa se justifica. Não valia a +pena ter o incommodo de vir aqui só para isso.</p> + +<p>Mentia; o que eu procurava era a confirmação das +palavras do dia antecedente. Tudo acabou. Conversamos +duas horas, com a animação que o contentamento +intimo me dava, sem uma referencia d'amor, +sem a mais leve tentativa de reconciliação. Quando +parti, pareceu-me que os olhos se lhe humedeciam. +Porque? Comprehendeu que a separação está consumada? +Para sempre!</p> + +<p>Extincto todo o capricho sensual, só ligações moraes +nos poderiam prender, e essas desvaneceram-se +ao vêr por terra todas as illusões de emenda, de +doçura, de resignação, que d'ella esperava para resgatar +a nossa falta commum. Restaria a compaixão +pela sua desventura e o receio de uma allucinação +que, pondo-lhe termo á vida, aggravaria as minhas +dores com o mais pesado remorso. Tudo isso passou! +Eis-me livre e tranquillo.</p> + +<p><i>20 d'agosto.</i> Fui talvez cruel, abandonando Emilia +á sua miseria. Se não fosse Laura, tel-o-ia feito? Cedi +á virtude ou ao egoismo, a um novo apetite, ao cansaço +do corpo saciado, ou ao arrependimento e ao +proposito de emenda? Voltam as duvidas a rasgar-me +o coração. Melancolia. Fraqueza. Toda a alegria se +esvae.</p> + +<p>Oh! a volupia das lagrimas, o prazer de sentir o +soffrimento dos que choram por nós! Talvez uma +vága saudade...</p> + +<p><i>27 d'agosto.</i> Uma hora cruel, extrema angustia. +Hoje recebi uma carta de Emilia, pedindo-me que +fosse vêl-a á noite, na capella. Todo o dia fiquei +na maior inquietação. Passeei de tarde procurando +accalmar-me com a fadiga do corpo. A excitação +crescia e foi na maior anciedade que ás dez horas +cheguei á rua da Cruz.</p> +<span class="pagenum">[147]</span> + +<p>Emilia fez-me sentar no velho confessionario e rojando-se +na terra, a meus pés, suffocada pelas lagrimas, +disse-me que me chamára porque já não podia +soffrer mais; que sabia que eu ia partir para uma +viagem longa, não podia crêr que tivesse acreditado +o que n'um momento de ciume me tinha dito, tres +annos de amôr em que tudo sacrificára por mim não +podiam terminar com duas palavras de separação. +N'isto, ergueu-se. Succumbido de terror, vi ressuscitar, +deante de mim, banhada de luar, aquella pallidez +e os olhos flamejantes em que um dia me abrazei +ebrio d'amôr; e da humida escuridão da capella +vieram aos meus ouvidos, como uma anathema, +como a eterna excommunhão da paz e da virtude, +lentamente, pausadamente, estas palavras:</p> + +<p>—Diga-me... diga-me... oiça bem!... se não +posso contar mais com o seu amôr. Quero suicidar-me!</p> + +<p>Um sentimento de miseravel cobardia se apoderou +de mim e menti, menti com firmeza, vilmente. Tudo +era falso; nunca amára Laura, nunca pensára em +casar-me, ia a Lisboa por breves dias para cuidar de +cousas urgentes, o meu amor por ella não afrouxara +um só momento, queria só castigal-a dos seus imerecidos +ciumes. Convenceu-se e serenou. Beijei-a. +Entre os meus labios e a sua face interpunha-se uma +sombra que em vão procurei dissipar, a sombra da +mentira. No fundo, bem o sei, não cessaram um instante +as ambições de regeneração. Só o temor do +suicidio me contém.</p> + +<p><i>30 d'agosto—Lisboa.</i> Vim até aqui calcando as +supplicas mais compungentes que podem sair d'um +coração humano. Se ouvisse sómente a compaixão +e a piedade, voltaria atraz... Não posso mais! Morro +esmagado entre a fraqueza e o desejo. Revolta-se o +orgulho e ergue-me um impulso de rectidão. Rectidão +ou crueldade? Commetti um crime e para resgatal-o +<span class="pagenum">[148]</span> +tenho de arriscar uma vida. Deverei permanecer +na vergonha ou ensaguentar a virtude? Vae, não +receies, diz-me uma voz occulta.</p> + +<p>As lagrimas de Emilia são uma fraqueza, o apêgo +aos beneficios do seu crime. Não seria a tua compaixão +uma fraqueza tambem?</p> + +<p>Cuidado! Pensa bem. Não é talvez a virtude que te +guia, é a crueldade; não é o amor do bem, é a paixão +por Laura.</p> + +<p><i>31 de agosto.</i> Esta manhã encontrei F... que me +fallou dos Albuquerques. Conhece Laura, viveu muito +com ella. É encantadora de singeleza e de bondade, +disse-me. Passei o dia no maior contentamento. +Todas as esperanças renascem, vibrantes de vigor. +Esqueci que ao longe uma mulher afflicta, semi-doida, +bebe o calice da minha culpa. Nem as lagrimas, +nem a deshonra alheia, nem a consciencia do +proprio aviltamento podem perturbar-me a alegria.</p> + +<p>Serão assim os outros homens?... Será a +virtude um acaso e a miseria moral a lei comum?</p> + +<p><i>2 de setembro. Lisboa.</i> Tristeza, desalento. Impossivel +conservar-me aqui, tenho de voltar a Albergaria. +O que me espera? Vou luctar? Cederei abdicando +para sempre da paz da consciencia e da felicidade +na virtude em proveito dos caprichos e da fraqueza +de Emilia? Hora maldita a da tentação! Tudo na minha +vida é incerto, só o soffrimento me resta por +companheiro. Abraça a tua cruz, é a cruz do teu +erro!</p> + +<p><i>4 de setembro.</i> Voltei a casa de Emilia. Encontrei-a +fatigada, abatida, mas ao ver-me, o rosto illuminou-se-lhe +d'uma candida alegria. Julgava-me restituido +ao seu amor. Quando, tentando novamente desprender-me, +lhe declarei que só para a tranquillisar lhe +tinha dito que nunca julguei terminado o nosso amor +<span class="pagenum">[149]</span> +mas que, na verdade, o tinha acreditado e estivera +em risco de tomar compromissos com Laura, não +teve uma palavra de resposta. Silenciosa, muda de +espanto, na paralysia da dor, só lagrimas se moveram +na face immovel e queda. O que se passou dentro +em mim, não o sei; uma compaixão profunda, +angustiada, e, mais alto do que ella, o bramar +da consciencia e a tortura do dever. Que me resta? +Confessar a verdade inteira, pedir o seu perdão +e separar-nos. Deixal-a-hei pois na miseria e +no abandono?... Nunca! Dorme, enxuga as lagrimas, +dou-te a paz da minha consciencia e serei +só a soffrer, soffrerei resignado, sem um lamento!</p> + +<br> + +<p>Desde esta hora, durante longos dias, todo o +«diario» de Claudio revela uma incerteza e uma confusão +infindas.</p> + +<p>O sentimento d'um dever a cumprir, a compaixão +pela miseria de Emilia, a lembrança de Laura, cujo +affecto sentia crescer, o cansaço d'uma vida inquieta +e a ambição de tranquillidade, tudo o fazia +oscillar constantemente entre os mais desencontrados +propositos.</p> + +<p>Debalde o pensamento procurava guial-o; a energia +e a vontade haviam naufragado nas ondas do +seu coração.</p> + +<p>A vida arrastava-se penosamente, sem norte, sem +rumo, desvairada, em meio de esperanças, desillusões +e desalentos.</p> + +<br> + +<p><i>27 de novembro.</i> Um dia chuvoso, pesado, humido, +escuro. Tres horas de leitura junto ao fogão, no +doce goso de aprender e de pensar. Mas esta cella é +vasia.</p> + +<p>Torturam-me ambições d'amor e de conforto moral. +<span class="pagenum">[150]</span> +Nunca o tive. A affeição illegitima que contradiz +o dever, rasga e esphacela o coração sem o aquecer; +é uma consumpção doentia.</p> + +<p>Quero o amor de Laura, o seu amor e não a sua +piedade pelas minhas dores, quero um alento que +me restitua á vida corajoso e são, não quero os +balsamos com que se occulta a miseria de Lazaro.</p> + +<p><i>28 de novembro.</i> Não póde ser boa a caridade +que alimenta o peccado. A minha compaixão pela +sorte de Emilia é um novo erro. Coragem! Sê justo!</p> + +<p>Aproxima-se a noite, fria, escura, revolvida na +sua treva por um vento inclemente. Succumbo; invade-me +um suave desejo de morrer. A morte seria +a paz, a libertação de todas as duvidas, de todas +as hesitações, das interrogações da consciencia. +Não!... Seria cobardia e vaidade: a cobardia de arrastar +a minha cruz, a vaidade de ungir o meu +cadaver com as lagrimas dos que me amaram. +Devo viver. Quero resgatar pela virtude as offensas +a Deus.</p> + +<p><i>28 de novembro.</i> A dissolução do passado torna-se +um encargo em que só entra a razão implacavel e +fria. Injustiça?... Não. A severidade é tambem um +meio de ser caritativo; a minha complacencia com +Emilia é uma falta d'amor.</p> + +<p><i>30 de novembro.</i> Um dia alegre, sorridente; a +atmosphera quieta, a paysagem rutilante. Na minha +alma, um esvoaçar de esperanças boas. Laura, Laura!... +Toda a natureza me repete o seu nome.</p> + +<p><i>1 de dezembro</i>. F... veio vêr-me. É um antigo +companheiro que se quedou no materialismo natulista. +Durante duas horas, fallou-me de transformismo +e de evolução, muito crente na sciencia. Emquanto +o ouvia, erguiam-se na minha lembrança as +illusões do passado e a tristeza caía mais pesada sobre +o meu coração que sobre a terra as sombras da +noite. Anciedade d'amor e de perdão. Podesse a tua +<span class="pagenum">[151]</span> +alma, Laura, sentir o palpitar d'esta vida dilacerada +pela amargura e havia de protegel-a, abrigando-a na +sua pureza!</p> + +<p><i>2 de dezembro.</i> Destino cruel! Quero terminar uma +vida de mentira, mentindo áquella mesma que foi a +minha amada. Degradação extrema. Quizera dizer +aos que passam:—Fugi d'este ser impuro, cuspi-me +na face e desprezai-me!</p> + +<p><i>14 de dezembro.</i> Emilia morreu no meu corarão; +apenas o dever e a piedade me prendem. Sinto-o bem, +vendo a meu lado permanentemente a imagem de +Laura. Só por ella apeteço a vida. Egoismo, ambição +de repartir com uma alma pura as agruras das minhas +culpas? Talvez... Ai! Quanto a duvida me opprime!</p> + +<p><i>16 de dezembro.</i> Enganas-te. Não é remorso, é orgulho +o que tu sentes; não é o amor da virtude, é o +pejo de confessar a tua mesquinhez e fraqueza. +Aprende a humilhar-te.</p> + +<p>Tempestade. O sybillar do vento desperta em mim +sonhos de paz e de conforto domestico, as ambições +do corpo dissipam as atribulações da alma.</p> + +<p><i>18 de dezembro.</i> Um immenso desgosto da vida, +cansado de luctar em vão. A morte seria para mim +a melhor esmola de Deus. E todavia aterra-me. Porque? +Saudades de Laura, ambição do seu affecto.</p> + +<p>Chove. Gotejam mansamente as arvores e os beiraes, +a noite vem descendo suave, humida e negra. +Só o repouso da minha alma não vem; em vão o imploro +da natureza propicia!</p> + +<p><i>20 de dezembro.</i> Indifferença, fadiga, reacção da +intelligencia. Que te importa a miseria estranha, as +lagrimas que espalhaste? Que te importa o passado? +Orgulho imbecil! Vive a tua vida, conforme o teu +destino, fabrica o teu mel ou o teu veneno, como a +vibora nos brejos ou a abelha sobre a rosa. A natureza +<span class="pagenum">[152]</span> +não erra. Não tentes dominal-a. Vaidade das +vaidades!</p> + +<p><i>31 de dezembro. Meia noite.</i> Atmosphera limpida +e calma, o céu estrellado, nem a mais ligeira nuvem +nem o estremecer d'uma folha. Interrogo os astros. +Bom agouro? É a tranquillidade que o novo amor me +traz?</p> + +<p><i>1 de janeiro.</i> Saí sósinho. Impressão de abandono, +ao pensar nas alegrias do novo anno em volta do lar. +Só minha pobre mãe me resta por companhia. Advinha +talvez as minhas dores e roga a Deus que as affaste. +Na praça encontrei um mendigo mal abrigado +nos seus farrapos de burel. Serenamente, estendeu-me +a mão, recebeu a esmola e seguiu o seu caminho. +Ao longe, vejo a casa de minha irmã; no campo, +descendo para o rio, os gados que meus sobrinhos +guardam. O amor divino, o burel, o trabalho—suprema +sabedoria! Por que estranha loucura os +abandonaste, por que aberração voltaste a face á felicidade +que tinhas deante dos teus olhos e te lançaste +nas vagas da ambição e da vaidade?</p> + +<p><i>3 de janeiro.</i> Passei a manhã no jardim, cultivando +as minhas flores. Alegria plena. Cantava, arrebatado +no palpitar de energia que se desprendia á luz tépida +e branda. Ao longe, distante, quasi perdido, um lugubre +rebate de remorso, phantasmas da consciencia +voando levados pelos balsamos a exalarem-se da +terra que o sol beija e fecunda, castamente.</p> + +<br> + +<p>A crise terminava para Claudio n'uma inacção de +impotencia; o ardor do sentimento e a intensidade +da razão quebravam todas as energias da vontade.</p> + +<p>Os dias succediam-se eguaes na sua infinita inconstancia; +a melancolia, o remorso, a indignação, +a alegria, o desprendimento, confundiam-se obscuramente, +ora no desejo de possuir o amor de Laura, +<span class="pagenum">[153]</span> +ora no temor do abandono de Emilia, ora n'uma viril +resolução de emenda, ora finalmente n'um cansado +scepticismo.</p> + +<p>Mas, anniquilado para toda a acção, entregára-se +n'uma conformidade de desesperança ao seu triste +destino.</p> + +<p>Virtude, felicidade, estudo, tudo se perdera! Nem +sequer para ahi podia volver o pensamento que logo +na memoria não surgissem lembranças crueis dos +espinhos por onde deixára em pedaços todo o viço +da sua mocidade.</p> + +<p>Uma unica imagem, uma unica, vogava nos destroços +do naufragio, incolume, resplandecente, irradiando +uma luz divina que penetrava a alma de beatitude,—sua +mãe.</p> + +<p>Perante ella, todas as sombras se dissipavam; o +tumulto da paixão convertia-se n'um culto singelo, +purificador e ardente.</p> + +<p>Instinctivamente, habituava-se á irregularidade da +sua vida. A consciencia parecia adormecer,—não se +repele um drama interior,—e essa indifferença, quasi +satisfeita, começava a conquistal-o. Habituara-se +ao egoismo absorvente de Emilia e ao seu incorregivel +ciume e habituara-se tambem á presença de +Laura que sabia ser o fructo prohibido. Exteriormente, +a sua vida era d'uma tranquillidade e d'uma +satisfação completas; cuidava das suas terras, passeiava, +vinha bastas vezes a Coimbra conversar com +os amigos ou assistir aos espectaculos publicos, e até +mesmo frequentava a capella da rua da Cruz, corajosamente, +sem aquelle receio de que as suas visitas +fossem sabidas, que em outro tempo tanto +lhe pesava e que hoje punha á conta de preoccupação +pueril.</p> + +<p>Pois podia alguem illudir-se sobre a natureza das +suas relações com Emilia?! Era claro que todos as +percebiam e advinhavam. Pasmava de que só agora +<span class="pagenum">[154]</span> +tivesse feito este raciocinio tão simples e tão seguro.</p> + +<p>Assim se consumiram cinco mezes, durante os +quaes Claudio muitos dias visitou Emilia sem que +em longas horas de palestra banal houvesse uma +unica referencia ás luctas passadas. De longe em +longe, o problema voltava á discussão, mas agora +quasi friamente, á parte a ligeira irritação de Claudio, +que provinha do sentimento da sua escravidão, +e os fogosos impetos de Emilia que temia vêr fugir-lhe +a preza.</p> + +<p>Claudio insistia sempre pela necessidade de pôrem +termo a uma vida que os envergonhava; Emilia +respondia-lhe com a obrigação em que elle estava +de nunca a abandonar, obrigação que lhe custara, a +ella, a perda da sua honra.</p> + +<p>Um dia, em fins de maio, Claudio recebeu o convite +do filho do Albuquerque para jantar. Era no dia +dos seus annos; festa intima para que só convidava +Claudio, que dos velhos amigos da casa não fallava, +eram sempre convidados.</p> + +<p>Claudio foi com conhecimento prévio de Emilia, +que pouco se amedrontava já com estas visitas, convencida +de que os amores por Laura não adeantavam. +De resto, promettera-lhe que voltaria immediatamente, +no fim do jantar, e ás onze horas estaria +na capella.</p> + +<p>Debalde o esperou até á meia noite, hora a que, +receiando a entrada de Ricardo, se deitara para soffrer +uma noite de insonia, torturada de despeito e de +ciume.</p> + +<p>Claudio ficára até tarde em Coimbra, bem certo do +que na primeira entrevista o esperava, mas intimamente +indifferente, n'esta indifferença que a frequencia +dos arrebatamentos de Emilia e o seu indomavel +egoismo tanto ajudára a crear.</p> + +<p>A noite estava tépida e serena. Depois do jantar, +<span class="pagenum">[155]</span> +todos os convivas sairam para o jardim e Claudio foi +sentar-se no banco que dominava a varzea, ao lado +de Laura, que para ali se tinha affastado pelo braço de +uma prima sua hospede, vinda da Beira a Coimbra +para dar lições de piano com uma mestra afamada.</p> + +<p>Conversaram da paizagem, das flores, dos apetites +e prazeres de cada um, trocando entre si impressões +e ideias que se lhes afiguravam da mais perfeita +conformidade.</p> + +<p>Laura adorava a musica, dizia; estudára-a cinco +annos em Lisboa, no collegio das irmãs de Santa +Ignez, com uma senhora irlandeza, e continuara depois, +tres annos, com um professor que vinha do +Porto uma vez por semana, para a ensinar. Claudio +admirava os primores de educação de Laura e tristemente +se deixava levar em devaneios de ventura +e em vagas esperanças d'um futuro feliz.</p> + +<p>Foi n'este scismar que voltou a Albergaria, tão +magoado de saudade como enfadado de Emilia, que +n'aquelle momento não representava nem um affecto +nem um remorso; era apenas um estorvo.</p> + +<p>Estranhou que no dia seguinte Emilia não lhe +mandasse o convencionado aviso para ir á capella.</p> + +<p>—Ou o marido saiu ou está desesperada com ciumes, +pensava; seja como fôr, em boa hora!... Não +sentia o menor desejo de a vêr, antecipadamente +aborrecido das explicações que tinha de lhe +dar.</p> + +<p>Não tardou porém a carta da amante. Dois dias +depois da sua visita a Coimbra, exactamente áquella +hora em que o silencio e a suavidade da noite mais +lhe aggravavam a saudade dos doces momentos em +ouvira a voz de Laura confundindo-a n'uma só delicia +com as caricias d'uma atmosphera impregnada +d'uma subtil sensualidade, encaminhava-se vagarosamente +para a rua da Cruz.</p> +<span class="pagenum">[156]</span> + +<p>Emilia estendeu-lhe seccamente a mão e foi sentar-se +affastada, no degrau do altar-mór.</p> + +<p>—Então como estás, perguntou elle, ao fim d'uma +ligeira pausa, tentando tomar-lhe a mão que ella distraidamente +retirou.</p> + +<p>—Bem, tenho passado muito bem.</p> + +<p>—Antehontem não pude vir porque o jantar acabou +tarde, o Albuquerque instou comigo para me +demorar e pareceu-me que não seria muito delicado...</p> + +<p>—Fez muito bem, como é proprio da sua educação. +Nem eu mesmo o esperava.</p> + +<p>—Estás a dizer isso maliciosamente, e não tens +razão. Pódes crêr que fiquei muito contrariado. Deus +sabe o que me custou!</p> + +<p>—Imagino! disse ella então levantando-se e dando +largas á sua colera. Que impostor!...</p> + +<p>—Não sejas injusta comigo. Magôas-me tanto... +Se adivinhasses o mal que me fazes...</p> + +<p>—Muito grande! Deve soffrer muito, calculo +bem!</p> + +<p>—Talvez mais do que julgas...</p> + +<p>—Oh! sim, acredito. Tem pressa de se casar e +quer vêr-se livre d'este trapo velho. Pois case-se!... +Quanto mais cedo, melhor!... O meu desejo é que +fosse já amanhã, para me vingar... para lhe vêr coberta +essa cabeça de cornos como a mãe d'ella fez +ao pae!</p> + +<p>Claudio ergueu-se raivoso; os punhos cerrados, +o olhar dardejante, os labios e as narinas palpitantes +de frenesi, cresceu para Emilia.</p> + +<p>—Veja o que faz! disse ella recuando e acobardando-se.</p> + +<p>Um lampejo da propria indignidade, como um relampago, +lhe illuminou o espirito; n'um salto, transpôz +a capella, lançou a mão á porta e saiu.</p> + +<p>—Canalha!... ouviu ainda.</p> +<span class="pagenum">[157]</span> + +<p>E começou a fugir atravez dos campos sobre que +poisava, quietamente, bafejando-os, o véu de humida +gaze que se desprendia dos regatos.</p> + +<p>O amor, offendido no insulto a Laura, vencera onde +a razão e a consciencia tinham sossobrado, debatendo-se +passivamente no remorso e na duvida.</p> +<span class="pagenum">[159]</span> + + + + +<h1>V</h1> + + +<p>D. Pedro Menezes de Tavora Abreu e Albuquerque +era todo o nome com que nos +actos solemnes se assignava o fidalgo que +vivia em Coimbra, na estrada da Beira, e +cujas relações Claudio frequentava.</p> + +<p>Senhor de grandes propriedades e muitos +bens no valle de Lafões, onde era conhecido +pelo morgado de Cercosa, reunira +nas suas mãos, por successivas heranças +dos seus antepassados, uma das maiores +fortunas territoriaes que por aquellas regiões +se conheciam.</p> + +<p>Em Coimbra tinha menos; mas fazia ahi maior +assistencia porque o palacio era bello e rico, e a +vasta quinta que o rodeava, com grandes insuas a +morrer no rio, um ninho de frescura entre o arvoredo +magestoso.</p> + +<p>Demais, tinha a convivencia de muitos lentes da +Universidade que, tirados de condição humilde, se +curvavam reverentes perante a nobreza, felizes de +se acercarem d'ella.</p> +<span class="pagenum">[160]</span> + +<p>Tratavam-n'o por sr. D. Pedro d'Albuquerque, e +elle queria mais a este tratamento, que aos seus +olhos indicava funda e genuina fidalguia, do que ao +de sr. fidalgo ou sr. morgado que em Lafões usualmente +lhe davam.</p> + +<p>Fidalgos e morgados havia muitos; que usassem o +titulo de Dom eram raros. De portas a dentro, em +Coimbra, esse tratamento era de obrigação e indicado +aos creados, logo que entravam em casa.</p> + +<p>Uma vez que Claudio singelamente perguntára pelo +sr. José d'Albuquerque, o filho do fidalgo, o creado +apressou-se a corrigir:</p> + +<p>—O sr. D. José está a almoçar.</p> + +<p>D. Pedro nascera em 1825. Muito cedo, aos cinco +annos, ficára sem o pae que tinha morrido d'uma +catarrhal, apanhada andando á caça em Cercosa, segundo +lhe diziam. Ficára entregue aos cuidados da +mãe e d'um tio, filho segundo, irmão do pae, que +em vida d'este tomára a seu cargo os cavallos e os +cães de caça, e de nada mais se occupava. Na verdade, +póde dizer-se que ficára unicamente entregue aos +cuidados da mãe, senhora fidalga de origem, de maneiras +e de costumes, caridosa e boa, mas com excessivo +affêrro ao estreito formalismo da gente da +sua egualha.</p> + +<p>Um dos motivos por que ella, á morte do marido, +se apressára a tomar nas suas mãos toda a administração +da casa, fôra o temor de que o seu governo +caisse sob as ordens do cunhado.</p> + +<p>Temia-o e evitava-o, não por ciumes de dominio +mas porque receiava a influencia d'elle, grosseiro e +rude, sempre em gracejos com as raparigas do campo; +queria affastar o filho d'essa má escola, queria, +no seu pensar, fazer d'elle um legitimo fidalgo, de +modos nobres e nobres sentimentos, como convinha +á gente fina. Por isso fazia valer os seus direitos de +<span class="pagenum">[161]</span> +mãe e tutora, para que ninguem podesse com auctoridade +interpôr-se entre ella e o filho.</p> + +<p>D. Pedro passou a mocidade, ora em Cercosa, ora +em Coimbra, sempre acompanhado por um padre que +a custo lhe ensinou a lêr e a escrever, porque o discipulo +era, além de pouco intelligente, remisso na +applicação e no estudo.</p> + +<p>—Esperto, esperto! dizia o padre á morgada. Mas +muito distraido... O que elle quer é brincar, está +sempre com o sentido no que lá vae fóra.</p> + +<p>Por seu lado, a mãe toda se esmerava em educar +os modos do filho. Até aos dezaseis annos, em Coimbra, +nunca o deixou sair que não fosse seguido +por um creado, para não se perder em más companhias; +tinha-o sempre a seu lado na egreja e em +todas as suas devoções, corrigindo o mais pequeno +gesto descompassado, se o filho se benzia com excessiva +rapidez, se ajoelhava ou se levantava estouvadamente, +se deixava de se curvar com reverente +moderação e suavidade ao erguer a Deus.</p> + +<p>Na sala, os seus cuidados eram extremos e as lições +completas; mandava-o entrar e sair, sentar-se, +cumprimentar, despedir-se, indicando d'uma maneira +precisa as palavras, as attitudes, os logares e as +distancias que convinham a cada momento. No dia +em que pela primeira vez viu o filho descendo a escada +com uma dama pelo braço, a acompanhal-a á +carruagem, lento, pausado, com toda a nobreza de +movimentos que lhe vinha do seu corpo moço e robusto, +teve um fremito de alegria e de triumpho. A +sua obra estava consumada. Que fidalguia! Que gentileza!</p> + +<p>Com intimo pezar e grande receio, era necessario +entregar o morgado ao tio para as lições de equitação. +Tão má companhia... Mas d'essa penosa impressão +cobráva allivio quando, ao entrar no palacio, +<span class="pagenum">[162]</span> +o tio que em casa era sempre tratado pelo sr. D. +Joãosinho, vinha dizer-lhe enthusiasmado:</p> + +<p>—O rapaz dá um cavalleiro! É atrevido e firme. +Hoje na Calçada era tudo a olhar para elle. Trazia o +<i>Corisco</i> numa dobadoira.</p> + +<p>D. Pedro aproveitára as lições; exteriormente estava +tal qual ella o desejára. Interiormente, porém, +o caracter era o do tio e as preoccupações dominantes, +absorventes, os cavallos e as mulheres. Muito +novo ainda, não saia de ao pé das creadas que continuamente +inquietava, perseguindo-as e apalpando-as.</p> + +<p>—Menino! Isso não se faz! Olhe que eu digo á senhora!... +Que tal está o fedelho?... Eram as vozes +que a cada instante corriam na cosinha e na casa +de trabalho, por toda a parte em que elle se encontrava +com as creadas.</p> + +<p>Aos creados, com quem ás vezes vinha conversar +ás occultas da mãe, dizia sempre que havia de ter +um cavallo grande, hespanhol, como o que vira na +serra, aos Malafaias, de Serrazes, e uma boa mulher, +com boa perna.</p> + +<p>—Isto ha-de ser bom!... commentavam os creados. +Temos outro como o sr. D. Joãosinho! Cão de caça +quer-se de raça!</p> + +<p>A mãe julgava-o uma vestal, e já elle ia longe nas +suas aventuras, tendo começado pela mulher do jardineiro +e proseguindo com uma costureira habitual +da casa, quando ella, por conselho do padre, começou +a dar ao filho liberdade de dispôr de si, do que +elle usou com a largueza que os seus instinctos exigiam.</p> + +<p>A elegancia do novo morgado, que a mãe procurava, +quasi unicamente, na sua educação, combinada +com o fogo d'um temperamento sanguineo, deu em +resultado o amor do luxo alliado a uma vida de continuadas +<span class="pagenum">[163]</span> +festas, caçadas, conquistas amorosas e +jogo.</p> + +<p>Ás muitas despezas que provinham da lauta vida +provinciana, juntaram-se em breve alguns mezes de +inverno passados em Lisboa onde D. Pedro Albuquerque +acabára por estabelecer residencia que lhe permittisse +frequentar a capital com as commodidades +de que era tão cubiçoso. A abertura das linhas ferreas +deu o ultimo impulso a esta ruina. A cada passo +estava a caminho de Lisboa, para assistir ao baile +do conde de X..., para ouvir uma cantora em S. +Carlos, ou mesmo, mais simplesmente, para se vestir +no Keil, que a esse tempo era o alfaiate dos janotas; +e, inversamente, a cada passo estava acarretando +de Lisboa para Coimbra moveis de mau gosto que +vinha misturar ás solidas mobilias de pau santo, +herdadas de seus avós, roliços estofos armados em +casquinha que um estofador francez, chamado Gardé, +lhe vendia por bom preço, farrapos d'algodão arrendados +que vinham substituir os sumptuosos cortinados +de damasco de seda vermelha.</p> + +<p>Tambem trouxe um cosinheiro que, á força de +<i>consommés</i>, <i>foie gras</i>, <i>galantines</i>, <i>mayonnaises</i> e outras +preparações que muito confundiam e intrigavam +os velhos fidalgos beirões que se sentavam á meza +do morgado de Cercosa, veiu banir para a frugalidade +dos banquetes da burguezia prospera o succulento +pato com arroz, o cosido bem adubado com carnes +de porco e a famosa vitella de Lafões.</p> + +<p>Foi á meza do Albuquerque que primeiro, em +Coimbra, se viram gordos espargos, comprados em +Lisboa, n'uma salchicharia franceza; houve lentes +da Universidade que, sentindo com vexame faltar-lhes +o seu profundo saber para usar tão exoticos petiscos, +deixavam de os comer por hesitarem na forma +de se servirem.</p> + +<p>O Albuquerque, que lhes percebia o embaraço mas +<span class="pagenum">[164]</span> +que por cortezia não queria dizer-lhes francamente +como se comiam espargos, fallava alto, rolando-os +no molho com a mão e chamando para si a attenção, +a dar o exemplo.</p> + +<p>Mas apezar d'isso passaram-se mezes sem que +os bisonhos convivas acceitassem os novos manjares. +Os mais ousados, os que primeiro entraram +na communhão dos usos estrangeiros, vinham depois +para a Via latina gabar aos collegas menos elegantes +a cosinha franceza, os espargos e as <i>galantines</i>, +pondo um particular deleite em ostentar o conhecimento +d'essas cousas finas perante a gente rustica +que as ignorava.</p> + +<p>Entretanto, a administração dos bens andava por +mãos de feitores e procuradores que todos enriqueciam +e serviam a contento, se tinham a habilidade +de arranjar dinheiro sempre que de Lisboa ou de +Coimbra o Albuquerque o pedisse, o que bastas vezes +fazia.</p> + +<p>A velha morgada, a mãe de D. Pedro, julgava ter +cumprido a sua missão no mundo fazendo do filho +um homem religioso, que ia á missa aos domingos e +dias santificados e se confessava todos os annos, de +casaca e gravata preta, e um fidalgo pela distincção +com que se havia n'uma sala e na presença das damas.</p> + +<p>A sua grande preoccupação era a manilha e os +parceiros de todas as noutes, no salão do palacio da +estrada da Beira onde ella invariavelmente se encontrava +no mesmo logar, distribuido mesuras e palavras +doces aos que entravam, perguntando-lhes com o seu +finissimo tacto pelas cousas que os interessavam, a +este pela saude dos filhos, áquelle pelo andamento +dos trabalhos na Universidade, e áquel'outro pelas +colheitas das propriedades que possuia nos campos +do Mondego e a que amiudadamente se referia, para +dar mostras de riqueza.</p> +<span class="pagenum">[165]</span> + +<p>Quando essa senhora falleceu, cerca de 1865, a +casa do Albuquerque estava na realidade escalavrada. +Em Lisboa tecera uma rede de lettras passadas a +amigos e a agiotas que lhe tinham valido em apuros +de dinheiro, os bens de Cercosa já estavam hypothecados +á misericordia de Vizeu, e um negociante da +Praça Velha, em Coimbra, com quem se adeantára +em contas, sabendo que as dividas cresciam, instava +por uma hypotheca das melhores insuas. Nem ao +certo se sabia a quanto montavam as dividas porque +nunca se tinha pago um real de juros a ninguem, +havia contractos feitos em condições leoninas e, +quando se chegasse á liquidação, era de esperar +que a somma se elevasse a uma quantia fabulosa.</p> + +<p>O tio do Albuquerque, que os annos e a gotta tinham +privado do regabofe que fôra toda a sua vida, com o +grosseiro bom senso que acompanhou a sua existencia +descuidada via o estado da casa. Chamou o sobrinho, +procurando convencel-o da conveniencia de +se salvar pelo meio simples que lhe ia propôr.</p> + +<p>Era preciso casar-se, dizia-lhe; a mãe tinha fallecido, +faltava áquella casa uma senhora que lhe désse +o tradicional resplendor; elle, D. Pedro, estava com +quarenta annos e era necessario que tivesse um +herdeiro. Demais, accrescentava, em continuação do +exordio que invocava os brios fidalgos, as dividas +tinham crescido e se encontrasse uma noiva com +um dote bom...</p> + +<p>A estas palavras, o sobrinho que se tinha conservado +silencioso e indifferente, de perna cruzada, +limpando pachorrentamente as unhas com um canivete, +ergueu a cabeça ante-gozando boa maré de dinheiro +e recrudescencia de prazeres.</p> + +<p>—Pois depende só de ti! apressou-se o tio a concluir +aproveitando a impressão favoravel. Tua prima +Maria Francisca...</p> + +<p>—Oh! diabo! Mas ella em tempo não tinha tido +<span class="pagenum">[166]</span> +umas historias com um Mendonça, capitão de engenharia?</p> + +<p>—Não, quem sabe lá d'essas cousas?! Fallaram +um pouco, mas isso passou. Raparigas tem sempre +os seus namoriscos...</p> + +<p>—Em todo o caso...</p> + +<p>—Deixa-te de piéguices; vamos ao que importa... +Tua prima está agora com os seus trinta annos,—e +é uma mulher toda perfeitaça!—o pae não póde ir +longe porque já deve ter passado os oitenta, e tu +bem sabes o que ali está... um poço sem fundo! O +Ornellas, do Pragal, disse-me, a ultima vez que estive +com elle, que só em ouro o velho devia ter para +cima de cem contos de réis.</p> + +<p>O sobrinho não pôz mais objecções, fizesse o tio +como quizesse. Foi para Lisboa, a gastar por conta +das suas novas esperanças e das heranças futuras, e +o tio partiu para Vizeu. Em quinze dias, estava tratado +o casamento de D. Pedro.</p> + +<p>Esta menina, Maria Francisca de Menezes Noronha +e Mello, tinha em Vizeu uma historia muito sabida +e commentada.</p> + +<p>Era uma mulher alta, morena, d'olhos negros, +dentes perfeitos e longos cabellos d'azeviche, filha +d'um fidalgo, avarento e sórdido, e d'uma creada que +elle tivera.</p> + +<p>A creada fallecera quando a pequenita tinha cinco +annos; e o velho, que tudo consentia menos que lhe +pedissem dinheiro, deixou crescer a filha ao Deus +dará, entre creados grosseiros que nem na sua presença +se guardavam de toda a casta de brinquedos e +gracejos maliciosos.</p> + +<p>Demais, sendo filha natural, só muito tarde os parentes +consentiram em a receber. Ficou por isso +sem a minima educação nem de intelligencia e sentimentos +nem de delicadas exterioridades.</p> + +<p>Apesar d'isso, como era bonita e rica, não lhe +<span class="pagenum">[167]</span> +faltavam casamentos que todos se goravam, uns pela +opposição do pae, que ella desde creança se habituára +a temer pelo seu genio irrascivel, outros por capricho +da rapariga que não olhava a fortunas nem fidalguias +e pretendia marido que lhe satisfizesse os +sentidos.</p> + +<p>Entre os pretendentes, contava-se um capitão de +engenheiros, homem alentado e grande, de grandes +bigodes atrevidamente levantados, jogador e conquistador +famoso.</p> + +<p>Diziam que D. Maria Francisca tivera por elle profunda +paixão e nada poupára para lh'a demonstrar, +compromettendo o seu bom nome em longas entrevistas +nocturnas que se tornaram sabidas na cidade.</p> + +<p>Mas nem por isso o casamento se realisára, porque +o pae d'ella se oppunha e o capitão, desde que não +presentia probabilidades de dote, preferia não crear +obrigações e lançar mais esta á conta das aventuras +de que tinha já larguissimo ról. A rapariga chorou, +desgostou-se, e em breve, por despeito e desespero, +tinha novo namoro.</p> + +<p>A proposta do tio, offerecendo-lhe o casamento +com D. Pedro, vinha encontral-a na mais favoravel +disposição de espirito. Perdida a esperança de casar +a seu contento, mórmente depois dos infelizes amores +com o capitão, estava com trinta annos. Que lhe +restava?</p> + +<p>Ao menos, casando, seria senhora da sua casa e +gosaria uma liberdade e independencia que muito +apetecia. Acceitava.</p> + +<p>O pae acceitava tambem. Suppunha que o sobrinho +estava ainda rico, não lhe pediria dote, morava +longe e não o incommodaria. Era até uma economia! +A lembrança de que ia ter menos um encargo, menos +uma pessoa a sustentar e a vestir, trazia-o contente.</p> +<span class="pagenum">[168]</span> + +<p>Verdade seja que era necessario dar-lhe alguma +coisa... Parecia mal! Mas tinha as joias que herdára +da irmã, algumas pratas, peças de panno de linho, +colchas de damasco... Emfim, veria. Dinheiro +é que não!</p> + +<p>O Albuquerque recebeu em Lisboa a noticia de +que o casamento estava ajustado, o que só pela certeza +d'uma nova fortuna a desbaratar o commovia. +Comprou ricos presentes para a noiva, depois de +conseguir do agiota da Praça Velha um novo emprestimo +para o qual hypothecou as insuas, fazendo-se +então largas contas de todos os atrazados que d'esta +vez ficaram garantidos. Veio immediatamente a Vizeu +prestar homenagem, que era de bom estylo, á +futura esposa, a qual de resto conhecia muito de perto +dos bailes e festas beirôas onde costumava encontral-a +e onde uns leves pruridos de conquista tinham +creado já entre os dois uma certa intimidade.</p> + +<p>Depois recolheu a Coimbra para presidir a uma +ligeira reparação do seu sumptuoso palacio, que foi +rapida, e sem mais delongas se realisou o casamento.</p> + +<p>Passados os primeiros e curtissimos tempos em +que o Albuquerque julgou de bom gosto acompanhar +a mulher em visitas e apresental-a aos seus velhos +amigos n'um riquissimo baile, como tradicionalmente +eram os da sua casa, voltou ao seu antigo viver, +jogo, mulheres e bastas visitas a Lisboa. Entregava +a administração da casa á esposa para melhor +conquistar a sua generosidade e simultaneamente se +desonerar de enfadonhos encargos.</p> + +<p>Ella, em quem dominavam os instinctos plebeus +e uma insaciavel sede de mandar, exultava com tão +subida investidura.</p> + +<p>Não se casára com outro fim; a liberdade compensava-a +de todas as magoas presentes e passadas, +<span class="pagenum">[169]</span> +incluindo a indifferença do marido que tratava respeitosamente +mas que no intimo considerava como +um simples e pouco incommodo tributo imposto á +sua independencia.</p> + +<p>Quando o velho pae de D. Maria Francisca morreu, +o Albuquerque veio com ella a Vizeu; mas ao +fim de poucos dias, já tristemente convencido de +que a fortuna a herdar ficava muito áquem do que +lhe tinham annunciado, deixou-se ganhar pelas saudades +dos seus prazeres habituaes e apressou-se a +voltar a Coimbra onde agora tinha uma amante, rapariga +do povo, travessa e maliciosa, muito cubiçada +dos estudantes, e que possuia o condão de +despertar em D. Pedro os mais insoffridos ciumes.</p> + +<p>A D. Maria Francisca ficava o cuidado de liquidar +a herança, o que realisou com uma ganancia e uma +crueldade que recordavam bem a ascendencia paterna.</p> + +<p>Foi então que ella contractou um procurador e +administrador, que havia de a acompanhar a Coimbra +e ficar sob as suas ordens, para a coadjuvar +n'aquella missão de morgada e senhora rica que aos +seus olhos significava uma corôa real.</p> + +<p>O procurador era um padre, novo, de vinte e cinco +annos, lindo, d'olhos azues e cabellos louros, occultando +sob uma apparencia de doçura e placidez um +coração apaixonado e ardente.</p> + +<p>Em breve D. Maria Francisca o presentiu e, n'uma +inflammada avidez de luxuria, entregou-se sem reservas +a um amor que realisava a melhor fortuna da +sua vida.</p> + +<p>A humildade do padre, casada com um vigor juvenil, +dava-lhe uma impressão de plenitude em que o +contentamento do espirito coroava os regalos do +corpo satisfeito.</p> + +<p>Pelo seu lado, o padre correspondia impetuosamente +<span class="pagenum">[170]</span> +a esse amor, concentrando todos os seus esforços +em affastar de Coimbra D. Pedro para mais +tranquillamente possuir a amante.</p> + +<p>—Vá v. ex.<sup>a</sup> para Lisboa, dizia ao morgado; não +se prenda com os negocios da casa. Estão a meu +cuidado; não vim aqui para outra cousa. É a minha +obrigação.</p> + +<p>O Albuquerque partia e, depois de estar em Lisboa, +o padre fazia de modo que o dinheiro nunca lhe +faltasse para que não se tentasse a voltar a casa. O +fidalgo escrevia ao procurador, reconhecido por tanto +trabalho e affecto; aos seus amigos não cessava +de o elogiar, como um modelo de dedicação, associando-lhe +sempre o nome da mulher cujo zelo +pelos bens e pelas commodidades do marido, dizia +este, a obrigava a viver quasi sempre no meio +d'aquellas inhospitas serras de Cercosa, mal servida +por uma velha creada que trouxera de casa de seu +pae.</p> + +<p>Porque era Cercosa a habitação preferida dos +amantes. As visitas, os serões com os lentes e mais +frequentadores do palacio da estrada da Beira, a +creadagem basta, tudo isso perturbava em Coimbra +as horas d'amor, e tudo isso desapparecia no silencio +do solar de Cercosa protegido pela discrição da +creada que já em Vizeu fôra confidente de D. Maria +Francisca.</p> + +<p>Do casamento de D. Pedro nasceram, com largos +intervallos, tres filhos; Leonor, José e Laura. Até +aos nove annos foram educados com os velhos creados +da casa, no abandono proprio das circumstancias +em que se encontravam; a mãe a todo o momento +estava em jornada com o capellão para Cercosa, +o pae fugia para Lisboa sempre que se via +com algum dinheiro e, quando estava em Coimbra +ou na Beira, passava o tempo em caçadas, visitas e +recepções, folgando continuamente, como um rapaz, +<span class="pagenum">[171]</span> +ora em sua casa ou nas festas visinhas, que retribuia +com largueza. D'este modo, os filhos tornavam-se +um estorvo, quer aos amores da fidalga, quer aos +prazeres do morgado.</p> + +<p>Era preciso remover esse embaraço. Sobre isso +conversaram amigavelmente os paes, que de resto +sempre viviam em paz e harmonia, n'uma indifferença +intima e exteriormente na mais estremada +cortezia.</p> + +<p>Queriam para os filhos uma educação primorosa, +diziam, como aquella que elles mesmos tinham tido, +queriam-n'os, principalmente, educados na religião +christã.</p> + +<p>Por isso resolveram mandar as filhas para o recolhimento +das irmãs de Santa Ignez, estabelecidas em +Lisboa, umas freiras irlandezas que a marqueza de +Fermelã, piedosa senhora que lá ia todos os dias +ouvir missa, lhes tinha elogiado como um modelo +de bons costumes e fina educação.</p> + +<p>Durante muitos annos, no 1.<sup>o</sup> d'outubro, D. Pedro +era certo á porta do recolhimento, que ficava +para os lados do Campo d'Ourique, a principio só +com Leonor, mais tarde, quando Laura chegou aos +nove annos, com as duas filhas.</p> + +<p>Ele, pelo seu natural descuido e por certo pendor +para a bondade, que facilmente o levariam a ceder +aos rogos das filhas, consentiria em alongar as ferias; +mas a mãe que vivia contrariadissima com a +sua presença, por causa do capellão, punha todos os +seus esforços em que os regulamentos collegiaes fossem +cumpridos a rigor. Era um bom costume, dizia +ao marido sempre que o sentia propenso a qualquer +concessão.</p> + +<p>No collegio elogiavam a pontualidade das meninas +Albuquerques; apontavam-na como exemplo aos mais +remissos. Aquelles sim, aquelles educavam conforme +as boas regras d'outros tempos! Os filhos lh'o +<span class="pagenum">[172]</span> +saberiam agradecer mais tarde. Não eram como a +gente de Lisboa que estragava as creanças com mimo.</p> + +<p>Com o rapaz não se podia fazer outro tanto; o pae +não consentia. Queria-o educado em liberdade, para +que fosse um homem; o collegio tornal-o-ia maricas.</p> + +<p>O melhor seria um professor que viesse a casa +dar-lhe lições até ao exame de instrucção primaria, +depois havia de frequentar o lyceu para se habituar +a tratar com os outros rapazes e por fim formar-se-ia +em direito na Universidade.</p> + +<p>D. Maria Francisca acceitou e applaudiu o programma. +Tinha pensado em que a solução era boa; +durante o tempo lectivo o filho estava preso em Coimbra, +deixando-lhe por conseguinte a liberdade de +gozar a sua querida tranquillidade de Cercosa, as ferias +do natal e da paschoa eram breves, e dos mezes +de agosto e setembro não tinha a preoccupar-se que +esses estavam d'antemão prejudicados pela presença +das filhas.</p> + +<p>D'esta arte tudo se harmonisou, a contento dos +regalos dos paes, até que chegaram os desoito annos +de Leonor, a filha mais velha. Era necessario trazel-a +para casa, apresental-a, para que se mostrasse +em toda a sua belleza, que era grande, e tomasse os +habitos mundanos que consideravam parte integrante, +e a mais essencial, da sua educação. E assim se +fez.</p> + +<p>No collegio, Leonor aprendera o cathecismo; só +por isso sabia mais doutrina christã que toda a aldeia +de Cercosa e arredores. Aprendera tambem a bordar +a ouro, em branco e a torçal, copiava desenhos a lapis +e a carvão, sabia francez e inglez muito bem, +escrevia regularmente o portuguez, e ao piano tivera +o primeiro premio, um livrinho de estampas, encadernado +em papel côr de rosa com lettras douradas.</p> +<span class="pagenum">[173]</span> + +<p>Ouvira e repetia que a caridade era a primeira +das virtudes, o que a obrigava a não bater nas companheiras +e não as accusar das suas faltas, sem embargo +do intimo prazer que sentia ao reconhecer a +sua superioridade e ao vêr-se louvada pelas suas +mestras como a primeira. Sabia que era uma obra +de misericordia dar agasalho aos nus, de beber a +quem tem sede e de comer a quem tem fome, mas +sem exercer essas virtudes ou mesmo sentil-as interiormente; +porque no collegio não havia miserias +nem mendigos, todos comiam á mesma meza, que +era abundante, e dormiam em leitos macios, quentes +e aceiados.</p> + +<p>Verdadeiras obrigações n'esta vida eram o modo +de dobrar a roupa ao deitar, a maneira de pegar no +garfo e na faca, o modo de fechar o piano, sem precipitação, +e as lições que deviam ser bem decoradas. +Feito isto, o elogio das mestras era certo; os +premios publicamente distribuidos no fim do anno +a confirmação plena de todas as satisfações da vaidade.</p> + +<p>Saindo do collegio, a transformação era facil; tinha +apenas a substituir vaidade por vaidade, os cuidados +escolares pelas preoccupações do vestuario, os +louvores dos superiores pelo elogio da sua belleza +feito nos requebros e galanteios.</p> + +<p>As instigações do instincto, auxiliadas pelos conselhos +da mãe, não tardaram a operar rapidamente +a mutação; dois annos depois de sair do collegio, +com pratica d'alguns salões da capital, de S. Carlos +e da Figueira da Foz, Leonor tinha feita a sua reputação +de bondade, de formosura e boa educação.</p> + +<p>A mãe, astuta, nunca perdendo da lembrança o +padre, anceiando pelos tempos de tranquillidade que +com elle passava em Cercosa, espreitava o ensejo de +casar a filha. O destino breve lhe deparou boa fortuna. +<span class="pagenum">[174]</span> +A victima foi o filho d'um brazileiro do Minho, +novo e riquissimo, que do Porto veiu á Figueira ostentar +as suas carruagens e os seus anneis e procurava +afidalgar-se pelo casamento.</p> + +<p>Exultou quando o viu seguir a filha. Era a felicidade +para ella e talvez para toda a familia, porque o +rapaz decerto ia pagar as dividas da casa do Albuquerque +que dia a dia se afundava vertiginosamente. +Teve uma certa difficuldade em convencer Leonor, +que soffria d'ambições de fidalguia, mas o +amor do luxo tentou-a e o casamento realisou-se.</p> + +<p>D. Maria Francisca podia voltar mais livremente a +Cercosa, até que Laura deixasse o collegio. Leonor +tinha do marido tudo quanto queria e elle se julgava +obrigado a conceder á nobreza e ao lustre que ella +trazia ao plebeu.</p> + +<p>Só os calculos de resgate das dividas se desfariam +em desillusões, porque o brazileiro, rehavendo +para isso toda a energia d'um bom burguez, defendia-se +tenazmente.</p> + +<p>Não queria saber dos negocios dos outros, tinha +os seus capitaes muito bem collocados e não podia +tocar-lhes.</p> + +<p>Á sr.<sup>a</sup> D. Leonor, como respeitosamente a tratava, +nada faltaria, nem mesmo o titulo de condessa +da Maia que um deputado lhe promettera e as vastissimas +propriedades, que n'aquelles logares possuia, +justificavam.</p> + +<p>José d'Albuquerque completamente convertêra em +desenganos as esperanças dos paes. Por um capricho +de hereditariedade, carecia absolutamente das +qualidades que caracterisavam o temperamento dos +paes, a vivacidade, o amor do luxo e dos prazeres.</p> + +<p>Era um philosopho, diziam. Levára arrastadamente +os seu estudos, não por falta de intelligencia, +que realmente possuia grande reflexão e bom senso, +<span class="pagenum">[175]</span> +mas por incuria e aversão ao que os mestres lhe ensinavam.</p> + +<p>A cada momento deixava os livros da aula, para +se entregar á leitura das velhas chronicas que ha +muito jaziam abandonadas no seu palacio e tinham +pertencido a um seu remoto ascendente que fôra +conego da sé de Coimbra.</p> + +<p>Finda a formatura na Universidade, começou a +passar dias inteiros entre a livraria e o jardim, com +a paixão d'um alfarrabista. Os seus unicos jogos +eram os livros e as flores.</p> + +<p>Recusava todos os casamentos <i>vantajosos</i> que +tentavam fazer-lhe com fidalgas e parentes da Beira; +na sua indolencia, tão avêsso ao jogo, aos cavallos +e a mulheres, que constituiam os regalos tradicionaes +da sua casa, como indifferente á administração +dos bens, tornára-se, com grande desgosto de D. Pedro, +a negação do morgado que elle phantasiára continuando +o regabofe da familia.</p> + +<p>D'aqui, nem D. Pedro nem a mulher esperavam +cousa alguma, tanto mais que o filho, além das +qualidades de espirito que tão accentuadamente manifestára, +era d'uma teimosia invencivel, mansa, calada, +mas infinitamente resistente. Na parcimonia, +no desprendimento do luxo, e até mesmo no poder +de intelligencia, fazia lembrar o avô materno, tendo +pelos livros a soffrega cubiça que o outro tinha pelo +dinheiro.</p> + +<p>Talvez por isso, por lhe recordar o pae, senão +mesmo pela propria contradicção de caracteres, a +mãe adorava-o; só por elle consentia em fazer +qualquer sacrificio dos amores do padre. A mansidão +captivava o seu genio ardente; onde quer que a +encontrasse, acariciava-a.</p> + +<p>Como ultima esperança de salvar a casa, restava +Laura. O casamento de Leonor só para ella trouxera +riqueza, e de José todo o pensamento de especulação +<span class="pagenum">[176]</span> +se tinha affastado, graças á sua doce e energica resistencia.</p> + +<p>Laura tinha uma educação perfeitamente egual á +da irmã. Ao tempo em que a conhecemos, contava +vinte e quatro annos de edade e havia seis que deixára +o collegio, continuando em casa com lições de +piano e de pintura cujos resultados se exibiam frequentemente +nos seus magnificos salões, como tentação +aos noivos ricos que infelizmente não vinham.</p> + +<p>A fama de ruina da casa de D. Pedro era larga e +fundada, vivia n'uma teia infinda de embaraços; +todos fugiam de ligar o seu nome e a sua existencia +aos vexames e vergonhas de que os Albuquerques +estavam permanentemente ameaçados.</p> + +<p>Entretanto, não faltavam a Laura carinhos de educação +nem vestidos elegantes. Devia-se aos mestres +e á modestia, de quem periodicamente se recebiam +cartas agridoces instando pelo pagamento, +mas uma derradeira esperança concentrava na pobre +rapariga todos os desvelos e para a fazer brilhar +não havia hesitações.</p> + +<p>Tal era muito em breve a historia e a situação da +familia a que Claudio pensava em unir-se, buscando +paz á sua alma n'uma vida de dignidade, de trabalho, +de elevação e de grandeza moral.</p> + +<p>Tambem, pelo seu lado, D. Pedro e a mulher o +cubiçavam. Instigados pela mesma ambição, tacitamente +reunidos num mesmo pensamento de interesse, +viam ha muito em Claudio um genro que lhes +convinha. Suppunham muito elevada a sua fortuna; +sempre que de Albergaria vinha alguem aos seus +jantares, não perdiam occasião de se informarem.</p> + +<p>—É muito bom rapaz, todos lhe diziam, e deve +estar muito bem. Além do que elle comprou ao fidalgo, +tem muito dinheiro; calculam-lhe para mais de +cem contos que herdou do tio. Elle diz que não, que +<span class="pagenum">[177]</span> +apenas recebeu de lá uns quarenta contos, mas é +claro que essas cousas nunca se confessam.</p> + +<p>Ao jantar e na palestra que precedia as partidas +de <i>whist</i>, emquanto o creado punha sobre a meza as +marcas e os baralhos de cartas, collocando aos cantos +os castiçaes de prata e os cinzeiros, o velho fidalgo, +no sofá encarnado, perna cruzada, a pôr em evidencia +o seu pé pequenino que toda a Beira galante conhecia, +não cessava de elogiar o amigo do seu José.</p> + +<p>—Uma joia de rapaz! exclamava. E de boa familia...</p> + +<p>O seu enthusiasmo ia ao ponto de imaginar fidalguias +para o seu futuro genro. Não sabia ao certo... mas +pelo nome era indubitavelmente descendente +d'uns Souzas, muito nobres, ainda parentes do duque +d'Aveiro, que viviam em Albergaria quando foi +da invasão franceza.</p> + +<p>Os francezes queimaram-lhes o palacio; elles, desgostosos +com isso, nunca mais lá voltaram, foram +morar para umas herdades que possuiam no Alemtejo +e mais tarde venderam tudo o que tinham no +norte.</p> + +<p>Depois, mesmo o nome de Portugal indicava alguma +cousa. Em Semide conhecia uma familia com +aquelle appellido, parente dos condes de Montemór +que, como se sabe, eram da mais antiga nobreza do +reino.</p> + +<p>No fundo, o velho Albuquerque sentia uma ligeira +contrariedade ao pensar no casamento da filha com +Claudio. Tentando convencer os outros, procurava +ao mesmo tempo desvanecer as sombras que lhe +empannavam o espirito. Claudio não era, infelizmente, +fidalgo; só por triste necessidade de ruina o acceitaria +para marido de Laura.</p> + +<p>Não tardaria que isso succedesse, porque, emquanto +os Albuquerques se davam a este novo sonho +<span class="pagenum">[178]</span> +de riqueza, Claudio resolvia definitivamente a +sua situação.</p> + +<p>Na madrugada que se seguiu áquella noite tormentosa +em que como doido deixára para sempre a +capella da rua da Cruz, ainda no ardor da febre em +que a anciedade o consumia, Claudio encontrava casualmente +sobre a mesa um livro de Paulo Bourget, +<i>L'Irreparable</i>. Leu e sentiu um subito despertar. Accordava, +tinha encontrado a chave do enigma da sua +existencia, a resolução de todas as duvidas. Recuperava +o animo, n'esta esperança que d'antemão se +lhe afigurava uma realidade.</p> + +<p>Sim, comprehendia agora o que tinha a fazer, o +que ha muito podéra ter feito, se a fraqueza o não tivesse +vencido.</p> + +<p>Era necessario, urgente, que por um acto de energia +creasse entre elle e Emilia uma situação irreparavel +em que lhe fosse impossivel voltar atraz; e +essa situação não podia ser outra senão o ajuste immediato +do seu casamento com Laura.</p> + +<p>Com Laura?!... Se ella o acceitasse!... Tremia, recordava +as palavras de sympathia que tinha ouvido +da sua bocca e, recordando-as, moderava as apprehensões +que lhe provinham do confronto da sua +humildade plebeia com a nobreza dos Albuquerques.</p> + +<p>Fosse como fosse, a hora era de acção; estava +resolvido a lançar para longe esta cruz d'uma eterna +hesitação.</p> + +<p>Ia escrever a Jorge pedindo-lhe que viesse a +Coimbra fazer aos Albuquerques o pedido da filha. +Elle mesmo, n'aquelle dia, iria ver Laura e, +confessando-lhe o seu amor, propôr-lhe-ia o casamento. +Se ella recusasse, telegrapharia a Jorge para +que elle suspendesse a jornada e partiria para o estrangeiro +a refazer-se de todas as dôres no repouso +e nos prazeres.</p> +<span class="pagenum">[179]</span> + +<p>De Emilia não cuidava. Fizesse o que quizesse, +não se julgava responsavel da loucura que a accomettera +e em que ella pretendia, com um egoismo +cruel, reduzil-o a propriedade sua, calcando todas +as attribulações da sua consciencia e cuspindo palavras +de escarneo e desprezo sobre aquillo que elle +amava. Era de mais! A taça trasbordava.</p> + +<p>Sentou-se e escreveu:</p> + +<br> + +<p style="text-align: right; margin-right: 2em;"><i>«Meu querido Jorge:</i></p> + +<p>Esta carta será para ti uma surpreza e espero +que, conjunctamente, um motivo de alegria. Vae surprehender-te +o pedido que venho fazer-te, a ti que +me suppunhas talvez cahido na impenitencia final, e +ha-de por certo alegrar-te saberes que, embora tarde +e o coração rasgado pela dôr e pelo remorso, vou +tentar uma nova vida de honestidade e de trabalho, +procurando resgatar nos annos que porventura tenha +deante de mim, os erros que foram o amargo fructo +de toda a minha mocidade.</p> + +<p>Depois que estiveste aqui na primavera passada, +nunca mais te fallei dos tormentos com que tenho +vivido em continuada mortificação; julguei por um +lado excessiva fraqueza da minha parte e, por outro, +profanação da paz risonha do teu lar ir inquietar-te +com lamentos que nunca deveria soltar porque eram +unicamente a minha culpa, minha grande culpa. Mas +a triste verdade é que ha um anno vivo n'uma constante +lucta, procurando fazer penetrar no coração de +Emilia a luz de Deus que nos devia guiar, a ella +e a mim, no caminho da emenda e salvação.</p> + +<p>Todos os meus esforços foram vãos; todos se partiram +e desfizeram d'encontro a um egoismo sem limites +em que, invocando o meu amôr, procurou +prender-me por todos os modos, com rogos e ameaças, +já invocando os meus loucos protestos de fidelidade +<span class="pagenum">[180]</span> +perpetua, já soccorrendo-se das obrigações que +me attribuia por ter manchado a sua honra e destruido +a sua reputação.</p> + +<p>Não pódes calcular, meu querido Jorge, a sinceridade +e instancia com que luctei, chamando-a ao dever, +em nome dos filhos, da religião, da consciencia +e do proprio amor que me jurava e de que implorava +um acto de resignação e desprendimento, restituindo-me +a tranquillidade d'alma sem a qual me +julgo indigno da vida.</p> + +<p>Tudo foi em vão! A cegueira do peccado vendava-lhe +todos os sentidos e não tive meio de a levantar +d'esse abysmo de tenebroso erro em que, por infelicidade +sua e minha, ambos nos precipitamos n'um +momento de desvairada tentação.</p> + +<p>Chegou porém a hora de pôr termo á miseria e +vergonha em que me tenho arrastado.</p> + +<p>Hontem, louca de ciumes, insultou-me e insultou +pessoas a que muito quero em termos que nunca julguei +ouvir da sua bocca e que até mesmo ignorava +que ella conhecesse, fazendo-me passar talvez a hora +mais indigna da minha vida. Fugi, para não a esmagar +n'um impeto de raiva, e agora estou no firme +proposito de estabelecer entre mim e ella qualquer cousa +irreperavel que d'uma vez para sempre nos livre +de consentir em prolongar, por mais um só dia que +seja, os nossos amores.</p> + +<p>Ah! meu Jorge, tu nunca saberás que fortuna significa +uma consciencia imaculada nem poderás imaginar +o que são as penas do remorso! Como um Lazaro, +coberto de ulceras e das mais fundamente gangrenadas, +só peço a Deus que me proteja e conduza +no seu infinito amor. Todas as dores do corpo, todas +as enfermidades serão para mim melhores que o castigo +das minhas culpas nas accusações da consciencia.</p> + +<p>Vou tentar libertar-me d'esses phantasmas sem +<span class="pagenum">[181]</span> +piedade que me perseguem e aterram, reunindo n'um +só esforço todas as energias da razão e da vontade +que ainda possa encontrar nos miserandos restos +d'um corpo exausto e d'uma alma repassada de soffrimento. +Quero casar-me.</p> + +<p>Conheceste como eu as irmãs do nosso bom amigo +José d'Albuquerque; é mesmo provavel que mais +do que eu as tenhas encontrado na sociedade que +frequentas em Lisboa. A mais velha, a Leonor, casou +no Porto com um rapaz muito rico; a Laura está ainda +solteira e é no seu nome e na sua imagem angelica +que estão hoje todas as minhas esperanças.</p> + +<p>Não me julgues apaixonado; vão longe esses tempos +e devaneios, posto que a sua formosura e os seus +dotes bem os justificassem. Procuro realisar um casamento +longamente reflectido e meditado, á fria luz +da razão.</p> + +<p>Hoje, o meu pensar transformou-se. Ha poucos +annos a vida era para mim uma festa pagã em que +a livre expansão de todas as forças animaes significava +a felicidade suprema; mas a experiencia e a +dôr ensinaram-me que concorrentemente ha leis moraes, +derivadas de inspiração interior, a que não se +póde impunemente faltar. Por as ter desconhecido e +prostergado, passei pelas mortificações que só agora +espero affastar.</p> + +<p>Não que a vida mystica me tente ou desconheça o +que devo ao corpo. Pelo contrario, vejo e comprehendo +as suas imperiosas necessidades. Mas quero +que a existencia humana, para ser bella e nobre, se +traduza n'um equilibrio das inspirações divinas e das +aspirações terrenas, na harmonia da luz da consciencia +dominando e regulando o tumultuar das paixões +mortaes.</p> + +<p>Não contesto as leis da vida organica e tudo o +que a sciencia me ensinou; pretendo apenas que, +conjunctamente e superiormente, existem leis divinas, +<span class="pagenum">[182]</span> +um impulso interior que nos domina e ordena +a pratica do bem.</p> + +<p>N'estas condições, dada a conclusão definitiva a +que cheguei sobre o que a vida deva ser, pódes comprehender +a que motivos obedeci inclinando-me a +casar n'uma familia nobre. Laura trará ao meu casal +a candura, a ingenuidade, a educação profundamente +religiosa que recebeu e os encantos da vida aristocratica, +no melhor sentido da palavra, os delicados +instinctos artisticos que são a coroa da vida mundana +e a cercam d'um puro deleite; eu levarei com +o meu sangue plebeu os habitos de trabalho que +são o brazão da gente humilde e o fundamento da +dignidade.</p> + +<p>E assim viveremos na modestia que convém á +exiguidade das minhas riquezas, na caridade que +será para nós o premio divino, o melhor dos bens, e +no estudo e na arte que elevam o espirito e nos arrebatam +n'uma aurora infinda onde o sol se eleva sempre, +espargindo serenidade e luz e jámais se afunda +derramando a treva.</p> + +<p>Quizera dizer-te todo o programma de vida que +em longos mezes de inquietação pude determinar na +anciedade de paz e de virtude; quizera dizer-te como +espero resgatar estes tristes annos de loucura e de +erro.</p> + +<p>Mas, alem de que te escrevo extenuado pela fadiga +d'uma noite tempestuosa que me deixou o espirito +em desordem, a esperança de te vêr dentro em +pouco convida-me a ser breve. Porque o que desejo +pedir-te, e é o fim principal d'esta carta, é que sem +perda de tempo venhas vêr-me para me ajudares +com o teu conselho e a tua amisade e para regulares +a minha situação com Laura e os Albuquerques, +conforme as boas regras de cortezia em que +és perito e de cujos preceitos me não reputo sabedor.</p> +<span class="pagenum">[183]</span> + +<p>Seja qual fôr o teu juizo e opinião sobre as duvidas +que me trazem perturbado, a tua presença será +para mim, estou bem certo, um grande bem. Nem +tu pódes calcular que allivio foi esta curta confissão! +Sinto-me agora bem, parecem-me distantes as sombras +afflictivas da noite; enche-me o coração a esperança +e a paz. Meu Deus! Protegei-me no caminho +da virtude e fazei que jámais d'elle torne a desviar-me!</p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 5em;">Do teu</p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 4em;"><i>Claudio</i>.»</p> + +<br> + +<p>N'essa mesma manhã, Claudio, levado ainda na +impaciencia que o fizera escrever a Jorge, pediu á +mãe, no fim do almoço, que viesse fallar-lhe ao seu +gabinete e ambos se encaminharam para lá.</p> + +<p>A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos +negros, a brilhar na face rugosa toucada de cabellos +brancos, esperou um instante que o filho começasse. +Claudio, tremulo e pallido, não sabia o que dizer; +sentia sobre si o peso e o terror d'um grande crime +a confessar perante o tribunal supremo. Foi á janella, +voltou, dirigiu-se á mesa de trabalho, pegou +n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente, +e n'estes movimentos inconscientes e desconnexos +dava pasto á sua agitação sem poder articular +uma palavra.</p> + +<p>Queria confessar á mãe toda a sua vida e pedir-lhe +perdão das suas culpas. Seria o primeiro passo +para a regeneração e para a virtude.</p> + +<p>—Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha +a perguntar, vendo o silencio do filho e +começando a sentir certo mysterio n'esta longa +pausa.</p> + +<div class="centrado"><img src="images/004.jpg" alt="—Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha a perguntar"></div> + +<p>—Eu queria, minha mãe... queria dizer-lhe... +<span class="pagenum">[184]</span> +que, se fosse da sua vontade... se fosse da sua +vontade... já lhe tenho dado tantos desgostos...</p> + +<p>—Que tens tu? disse ella levantando-se ao vêr a +angustia do filho. Senta-te, senta-te aqui, tu não estás +bem.</p> + +<p>Claudio sentou se e proseguiu, olhando vagamente, +sem se atrever a fitar a mãe:</p> + +<p>—Queria dizer-lhe que, se fosse da sua vontade, +talvez me casasse...</p> + +<p>—Oh! Claudio! respondeu ella abraçando-o. Deus +Nosso Senhor ouviu as minhas orações...</p> + +<p>E, nos braços um do outro, afogaram em lagrimas +e soluços a agonia, dissipando-a. A confissão que havia +de ser longa, encerrara-se n'estas rapidas palavras; +o coração sentira o que os labios não souberam +dizer.</p> + +<p>Não tardou a resposta de Jorge.</p> + +<p>«O casamento e a mortalha no ceu se talha», começava +elle. Esse é que era o preceito antigo e authentico +sobre casamentos. Que se deixasse Claudio +de theorias que já uma vez lhe tinham provado mal +e que agora mesmo não podiam prometter-lhe cousa +alguma.</p> + +<p>Que tinha feito muito bem em acabar com os amores +de Emilia, se o inquietavam, e que tambem lhe +não dizia que deixasse de casar com Laura, se gostava +d'ella; mas que ficasse bem certo que nem o +primeiro caso era motivo para os exaggerados remorsos +de que se deixára possuir nem devia pôr no +casamento tão extraordinarias esperanças que o futuro +não as podesse satisfazer. Conhecia muito bem +o Albuquerque pae, que a cada passo encontrava em +Lisboa; era um dissipador, mas um cavalheiro, excellente +homem.</p> + +<p>Não conhecia egualmente a mulher que quasi nunca +vinha a Lisboa, mas ouvira que era uma senhora +<span class="pagenum">[185]</span> +de muito tino e que toda se dedicára á administração +da casa.</p> + +<p>Quanto á rapariga, nada lhe diria senão que era +muito bonita, porque ninguem sabe o que está dentro +do coração d'uma menina que ainda não conheceu +nem póde conhecer o que seja a vida do casamento +com todos os seus trabalhos e obrigações. O +tempo lhe diria a sua sorte.</p> + +<p>Ia partir immediatamente para Albergaria; guardava +para a sombra dos platanos, que tanto apreciava, +a discussão de todos esses pontos que a Claudio +pareciam tão obscuros e que para elle eram tão limpidos +como agua da fonte.</p> + +<p>Em poucos dias tinha ajustado o casamento de +Claudio com Laura. Restavam só os cuidados de ordem +material, o enxoval da noiva e a installação da +casa, para o que se calculou que quatro mezes seriam +bastantes.</p> + +<p>Claudio deixava o palacio de Albergaria, ia viver +em Coimbra. A mãe voltava a Villalva, separando-se +do filho com a mágoa e a resignação que era +propria da doçura do seu caracter mas ao mesmo +tempo contente por ir acabar onde vivera a sua melhor +vida, dando largas aos habitos de simplicidade, +ao genio laborioso e á caridade constante. O filho +promettia ir vel-a todas as semanas.</p> + +<p>A casa escolhida pelos noivos era na estrada da +Beira, a pequena distancia do palacio dos Albuquerques. +Sobre uma elevação, recolhida no meio d'uma +pequena quinta que descia em largos taboleiros vicejantes +de jardins, de hortas e de pomares, dominava +todo o valle, triste nas tintas sombrias do +olivedo que o cobria. Em frente, atravez uma pequena garganta, +entre duas collinas, as aguas do rio e os salgueiros +mimosos, balouçando-se, lançavam um brando +alento de movimento e frescura sobre a morna +placidez do valle. Aqui e além, erguiam-se os choupos, +<span class="pagenum">[186]</span> +corajosamente, brandindo ao vento as tenues +folhas.</p> + +<p>Á festa da natureza quiz Claudio associar os primores +da arte; aos moveis do palacio de Albergaria +juntou o <i>bric-à-brac</i> que Jorge lhe enviou de Lisboa.</p> + +<p>Elle mesmo veio ajudal-o a dispôr quadros e louças, +tapeçarias e bronzes, cogitando artificios para +dar relevo á belleza dos objectos.</p> + +<p>O ninho era tentador para a mais delicada sensualidade; +o proprio Albuquerque, que na frequencia da +gente fina adquirira auctoridade em materia d'armador, +exclamava contente nos serões do seu palacio, +entre os lentes que vinham tomar-lhe o chá:</p> + +<p>—A casa fica linda; o rapaz tem muito gosto!...</p> + +<p>Quando chegou a hora de se separar da mãe, +Claudio sentiu pela primeira vez a apprehensão +da inanidade de todo o esforço em que com tanto +enthusiasmo e tão boas aspirações se empenhára.</p> + +<p>Onde ia? Para que tanto movimento? Que buscava? +Que valia á sua vida a riqueza e o ninho que architectára +n'esse valle que agora lhe parecia estranho? +Sonhára uma companheira para a sua vida... Onde +estava? Laura? Afigurava-se-lhe uma mulher alheia. +Desconhecia-a.</p> + +<p>Varrido e abandonado já o palacio de Albergaria, +n'essa pequena sala de Villalva, só com sua mãe, +via em torno os montes escalvados, em baixo o estreito +campo a que déra todos os seus cuidados, ao +longe um retalho da varzea cortada pelo rio. Tarde +de primavera, suavidade e silencio, só cortado pela +voz guthural do lavrador que animava o jugo! Era a +hora de jantar, a ultima refeição que teria em commum +com sua mãe antes de partir para essa jornada +mysteriosa, que tão ardentemente desejára e que +agora quasi aborrecia.</p> +<span class="pagenum">[187]</span> + +<p>Ia dormir a Coimbra, na sua nova casa.</p> + +<p>No dia seguinte, á uma hora da tarde, era o casamento. +Dos seus amigos e dos seus parentes só Jorge +o acompanharia; a mãe e a irmã não consentiram, +por timidez e acanhamento, em deixar os seus +campos. De resto, os Albuquerques, incluindo Laura, +mal se referiram a essa falta, muito promptos em +acceitar todas as escusas. Intimamente temiam que +lhes viessem manchar a festa com a sua rudeza.</p> + +<p>Ao fim d'essa derradeira refeição, aproximou-se +da mãe para a abraçar pela ultima vez antes +de se casar. A lembrança de todo o passado que +lhe enchia o peito trasbordou em largos soluços +e lagrimas abundantes. Choraram unidos estreitamente, +trocando um prolongado beijo, sem articular +uma só palavra, n'uma supplica fervorosa e muda +de felicidade em que se confundiam mágoas, esperanças +e um infinito affecto. Depois, Claudio, abrindo +os braços, com um gesto de resolução, deixou a +mãe:</p> + +<p>—Adeus!</p> + +<p>—Adeus!</p> + +<p>Foram as unicas palavras que em voz sumida se +ouviram; e saiu descendo o caminho, sem olhar para +traz, dirigindo-se á carruagem que o esperava em +baixo.</p> + +<p>A meia encosta, veio juntar-se-lhe, correndo e +querendo acompanhal-o, o cão de guarda da lavoura.</p> + +<p>—Chama-o, chama-o, disse Claudio para um creado +que estava perto.</p> + +<p>—Leão, Leão, aqui! gritou o creado.</p> + +<p>O cão parou hesitante e contrafeito. Por fim obedeceu.</p> + +<p>Claudio seguiu, juntando, no coração opprimido, +esta caricia ás fundas dores que o trespassavam.</p> + +<p>A este tempo, em casa dos Albuquerques, o movimento +<span class="pagenum">[188]</span> +e a confusão eram completos. Rolos de tapetes, +vasos de flores, escadas, louças, creados em +mangas de camisa, mulheres do campo transportando +cestos com ramos de hera e de loureiro, um ininterrompido +cruzar de vozes dando ordens e pedindo +objectos, tudo redemoinhava em volta de D. Pedro +que corria de salão para salão querendo dirigir toda +a esmerada ornamentação do palacio.</p> + +<p>—Olha esse lustre!... Cuidado com as cortinas!... +Esses vasos vem ou não vem?!... Então o tapete?... +Assim... pela direita... está bem! mais acima!</p> + +<p>O tiroteio não cessava, tentando cada um desembaraçar-se +da sua tarefa n'uma desordem activa e +alegre.</p> + +<p>Ao cair da noite estava tudo completo; a casa +guarnecida de verdura e de flores, coberto o chão de +tapetes a amortecer todos os ruidos, as vellas postas +profusamente nos candelabros e nas serpentinas +para se accenderem no dia seguinte.</p> + +<p>Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca, +pelas cadeiras, pelas camas e pelos sofás estendiam-se +rendas, plumas, flores e vestidos fôfos e ondeantes. +A um canto da janella uma costureira apertava a +cintura d'uma saia de seda que se espraiava pelo +chão sobre um lençol de linho e que a modista mandára +larga, errando a medida.</p> + +<p>Para o casamento estavam convidados alguns parentes +da Beira e uns fidalgos de Lisboa, companheiros +de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas e +nos clubs.</p> + +<p>Começavam agora a chegar em char-à-bancs, que +os transportavam da estação do caminho de ferro, os +da Beira com bahús de folha envernisada, mal fechados +e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa +com grandes malas de couros macios, afivelladas +com ferragens brancas e polidas como prata.</p> + +<p>O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os +<span class="pagenum">[189]</span> +aos seus quartos e mostrando-lhes em seguida +as salas mal illuminadas, para não desmanchar +os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento +os elogios.</p> + +<p>—Um palacio, uma palacio! Estás aqui como um +principe!</p> + +<p>D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo +e recebia-as nos seus aposentos.</p> + +<p>Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa +tranquillidade, os hospedes de Lisboa acantonados +nas mezas de <i>whist</i> e as senhoras no quarto de D. +Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua +natural curiosidade o enxoval e as prendas de Laura, +discutindo, apreciando e fazendo comparações +com outros casamentos nobres a que tinham assistido.</p> + +<p>—Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para +Laura.</p> + +<p>—Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria +Francisca. Creio que ha-de saber estimal-a... +E agora hão-de dar-me licença, que são horas de +preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje; +se lá não vou abaixo, os creados não fazem nada. +Uns estupidos!...</p> + +<p>—Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das +meninas recemchegadas.</p> + +<p>E seguia D. Maria Francisca para a sala de jantar.</p> + +<p>Claudio veio tambem, mas demorou-se pouco. Tinha +umas ultimas cousas a regular na sua nova casa. Laura +não procurou prendel-o, absorvida como estava pelos +cuidados dos seus vestidos novos e de se mostrar +bella e fidalga no dia que lhe diziam ser o maior da +sua vida.</p> + +<p>O casamento foi á uma hora da tarde, na capella +do palacio.</p> + +<p>Desde o meio dia havia um incessante rodar de +<span class="pagenum">[190]</span> +carruagens, que entravam o largo portão de ferro +coroado pelo brazão dos Albuquerques e iam parar em +frente dos degráus do palacio alcatifados e ladeados +de vasos com hortensias.</p> + +<p>Os cocheiros, na almofada, voltavam-se para traz, +recebiam ordem de regressar á noite, esperavam +que o creado da casa, fardado de verde e branco, +batesse a portinhola, e saiam dentro das suas librés +de emprestimo, mal ajustadas, conduzindo os cavallos +magros, cobertos de arreios baços, em que só +brilhavam as ferragens amarellas, excepcionalmente +polidas, para aquelle dia, tentando honrar os creditos +da cocheira.</p> + +<p>Nas salas, as casacas negras e brunidas entre vestidos +de seda, muitas rendas, algumas joias, e um +rumor de vozes abafadas na timidez de indiscrição e +no respeito da solemnidade. Só os convidados de +Lisboa destacavam por fallarem alto, trazerem casacas +usadas e macias, amoldando-se bem ao corpo, +e sapatos com visiveis signaes de terem servido +muitas vezes; passeavam e conversavam livremente +com damas e cavalheiros, e os da terra olhavam-n'os +estudando elegancia, confrontando-se com elles e +procurando aprender aquella maneira tão facil de dar +o nó na gravata que muito cubiçavam.</p> + +<p>O Albuquerque entrou sorridente, com Laura +pelo braço; Claudio deu por sua vez o braço a D. +Maria Francisca. Juntos os convidados aos pares, +cada cavalheiro dando o braço á sua dama, poz-se o +cortejo a caminho da capella, saindo a porta principal +e atravessando pelo jardim. Na rua, o povo apinhava-se +nas grades que vedavam a quinta, espreitando +por entre as arvores.</p> + +<p>—Tão linda! Parece um anjo... exclamavam, confundindo +em vágas remeniscencias a noiva e as +creanças que viam nas procissões com grandes azas +<span class="pagenum">[191]</span> +de pennas brancas e vestidos estrellados de lantejoulas.</p> + +<p>A cerimonia na capella foi breve; dentro d'uma +hora o cortejo regressava ao palacio. Houvera lagrimas +ao verem os paes abraçar a filha, mas a missa +em seguida ao casamento e os gracejos com que os +mais alegres commentavam a situação tinham desvanecido +essas sombras passageiras; quando sairam +da capella, todos vinham risonhos.</p> + +<p>O <i>lunch</i> era ás tres horas; no breve intervallo que +medeava entre o casamento e a refeição, os convidados +dispersaram-se em grupos pelas salas e pelos +jardins, n'aquella molleza que é caracteristica da gula +esperando a hora de saciar-se.</p> + +<p>Geralmente discutia-se a grandeza e o viver dos +Albuquerques. Os commentarios divergiam.</p> + +<p>Entre dois parentes de Vizeu sentados á sombra +d'uma olaia, podia surprehender-se o seguinte dialogo:</p> + +<p>—É uma grande casa! Vê tu que riqueza ahi está +e que gente aqui vem!</p> + +<p>—Já foi melhor. Deve muito.</p> + +<p>—Deixa lá! Tem uma grande casa... Só em Cercosa +recebe ainda para cima de cem moios de milho, fóra +o trigo, o centeio, o vinho e o azeite.</p> + +<p>—Pois sim... mas que importa isso? Á Misericordia +deve perto de trinta contos e disse-me outro +dia o Nunes, que é lá o cartorario, que tem mais de +quatro annos de juro em atrazo e é uma cruz para +lhe apanhar um vintem. Só quando estão ameaçados +de qualquer penhora é que se mexem. Olha +que ha mais de quarenta annos que este homem não +faz senão gastar dinheiro!...</p> + +<p>—Mas a casa é muito grande, tem muitos recursos. +Quanto não vale isto aqui? e os bens de Pombal?</p> + +<p>—Está tudo hypothecado ao Credito Predial e +<span class="pagenum">[192]</span> +quem lá vae é alma que caiu no inferno. Não se sae +de lá mais. Lembra-te do que aconteceu ao marquez +de Cannaes. Foi tudo! Ficaram sem nada!</p> + +<p>—Mas agora tem os genros para o ajudarem...</p> + +<p>—Só se fôr isso!... Este rapaz dizem que tem +boa casa.</p> + +<p>Mais adeante, dois lentes de direito, passeiando +de braço dado á beira do lago, commentavam differentemente, +em tom malicioso.</p> + +<p>—Hein!? Que sorte! Dá cabo da fortuna dos paes, +refresca com o casamento, arruina-se outra vez, e +agora casa as filhas ricas.</p> + +<p>—Elle merece-o, que nos tem dado muito boas +festas. Não ha ninguem para receber como este homem. +Nasceu para isto!... Acabou-se.</p> + +<p>—Mas não podem ir longe... Já por ahi ha procurações +para penhora, vindas de Lisboa, sem +conta.</p> + +<p>—O que eu admiro é como este rapaz aqui veiu +cair. Foi meu condiscipulo e era o avêsso de todas +estas cousas. Retraído, muito modesto...</p> + +<p>—Então?! Está rico, quiz afidalgar-se...</p> + +<p>—Não, não é este homem d'isso. Gostou da rapariga, +os paes haviam de lh'a metter á cara, e caiu.</p> + +<p>—Pois olhe que, se elle é como você diz, não me +parece que vá lá muito bem. Esta gente gosta de +gastar e de luxar.</p> + +<p>—Não, não! A Laura é muito boa menina!</p> + +<p>—Boa!... Historias! As meninas são todas boas, +mas, quando se habituam a viver á larga, não ha +quem as ature. Isto de fidalgos é muito boa gente +para gozarmos com elles; de portas a dentro o +caso é outro.</p> + +<p>Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor, +que tanto contrariava os seus habitos, e enfadado. +As suas preoccupações andavam muito longe da alegria +<span class="pagenum">[193]</span> +em que a excitação das viandas e o calor dos vinhos +lançavam os convidados.</p> + +<p>Ás nove horas da noite dançava-se e ria-se desprendida +e folgadamente; toda a frieza solemne se +tinha partido ao contacto do sangue escandecido. Só +Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura, +supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente +dominado d'uma religiosa tristeza, meditando +na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o coração +tumido de angustias passadas e de esperanças +futuras.</p> + +<p>Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu +dever de assistencia e saiu com Laura para a sua +nova casa. Os convidados acompanharam-n'os até ao +portão do jardim, a musica deixou de se ouvir por +um momento, as salas ficaram desertas, repetiram-se +os abraços e as lagrimas que de manhã se tinham +visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa +proseguiu redobrando de animação.</p> + +<p>Os primeiros dias passados na pequena casa da +estrada da Beira foram para Claudio d'uma infinita +doçura. Do governo da casa não havia a cuidar; +D. Maria Francisca mandára com a filha uma velha +creada da sua confiança, para tudo dirigir e regular +sem que a paz e felicidade dos noivos fosse perturbada.</p> + +<p>Longas horas no jardim entre flores, pequenos +passeios a pé pelos caminhos menos frequentados, +colhendo plantas e admirando a natureza, passeios +de carruagem pelas margens do rio, e o serões em +casa dos Albuquerques, ora jogando, ora conversando: +n'isto se consumiam os dias.</p> + +<p>Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos +da sensualidade e da indolencia como um premio de +virtude, pensando quanto o amor era bello na consciencia +tranquilla pela satisfação das convenções do +mundo, e comparando o presente com esse passado +<span class="pagenum">[194]</span> +que a ventura d'agora mais carregava de crimes e +remorsos.</p> + +<p>Emprehendia a educação do espirito de Laura, +admirando com pasmo e veneração a sua ingenuidade +e louvando a Deus por lhe ter concedido tão precioso +bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque +era simples.</p> + +<p>Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade +com a candura, tomando por singeleza d'alma, +prompta a desabrochar em sentimento christão, o que +era apenas estreiteza de intelligencia e de coração, +Claudio communicava-lhe todos os seus planos de +vida.</p> + +<p>Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente +alheia a toda a profundeza de pensamento; +elle ficava contente, tomando esse silencio por um +tacito assentimento e interpretando a mudez como +uma forte e serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia +n'uma mulher superior.</p> + +<p>Foram a Villalva. Laura pouco disse á mãe de +Claudio. A unica coisa que lhe permitiu uns momentos +de conversação foram as imagens do oratorio +e particularmente uma imagem da Senhora do +Carmo. Havia uma outra egual no collegio, em Lisboa, +e tinha com ella muita devoção. A velhita louvou +intimamente os sentimentos religiosos da sua +nova filha e repetia:</p> + +<p>—Assim é bom, assim é bom... É o que n'esta +vida me tem valido e ajudado nas minhas afflicções.</p> + +<p>Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a +sua situação. Instinctivamente affastava uma +ociosa confissão de desejos e aspirações tão carinhosamente +sentidas que nenhumas palavras saberiam +traduzil-as.</p> + +<p>Perguntava pelas cousas da casa e referia o que +<span class="pagenum">[195]</span> +na ausencia de Claudio se tinha passado. Que visse +elle o que precisaria em Coimbra, que já começava a +haver alguma hortaliça no Serrado de Baixo e o +azeite que tinha levado talvez não fosse do melhor.</p> + +<p>Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda, +era preciso experimentar o vinho que havia de precisar +de trasfega, e o José, o creado, não tinha geito +nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir lá passar +um dia para vêr todas essas coisas, mesmo porque +o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe tinha dito que +precisava fallar com elle por causa dos fóros de Sernadas. +Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias. +Partiu, com grande allivio de Laura a quem as attenções +do marido pela mãe começavam a enfadar e +que se sentia estranha áquella atmosphera. Não lhe +queria bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educação, +por temperamento e inclinação hereditaria +estava realmente destinada a ignoral-a perpetuamente.</p> + +<p>Em vão Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria +o campo em que tantas horas tinha trabalhado, +as arvores e as flôres que plantára por suas mãos. +Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente +a occultava nos salões do pae, para não dar +ensejo ao riso das antigas amigas, que lhe mordia a +vaidade, amesquinhando o marido.</p> + +<p>Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento +do mavioso casal da estrada da Beira foi subitamente +perturbado por um incidente doloroso.</p> + +<p>Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou +aos gemidos de Laura.</p> + +<p>—Que tens, minha filha, que tens?... perguntou +ancioso.</p> + +<p>Ella continuava gemendo, sem responder, e elle +insistia em tom afflictivo:</p> +<span class="pagenum">[196]</span> + +<p>—Dize, dize-me, minha filha, por quem és... +Que tens tu?</p> + +<p>Por fim, cedendo aos rogos do marido, respondeu +arrastadamente.</p> + +<p>—Ai! meu Deus!... Ha uma hora que não durmo. +Não posso parar com dores n'um dente, d'este lado... +E indicava com a mão.</p> + +<p>—Se tu fosses ao dentista pedir o elixir...</p> + +<p>—A esta hora?! perguntou Claudio surprehendido.</p> + +<p>—Sim... sim... não posso esperar.</p> + +<p>N'um instante, Claudio estava na estrada, correndo +ladeira abaixo, a caminho da cidade. Ao pé +de Laura ficára a creada que se offerecia, suavisando +a voz, para aquecer uma pinguinha d'agua, segundo +ella dizia. Talvez um chásinho...</p> + +<p>Laura nem lhe respondia, conforme os seus habitos +de menina mimosa.</p> + +<p>Entretanto Claudio batia á porta do dentista que +veio á janella, ás escuras, a resmungar com somno. +A estas horas!... É preciso ter muito pouco respeito +pelo socego d'uma pessoa! Bem tolo é quem os +atura.</p> + +<p>—Quem é que está ahi? gritou de cima.</p> + +<p>—O dr. Claudio...</p> + +<p>—Ah! é v. ex.<sup>a</sup>. Eu vou abrir, respondeu apressadamente +o dentista, moderando a impaciencia e +esforçando-se por sorrir perante o freguez rico.</p> + +<p>—Então?!... perguntou mal abriu a porta. Faça v. +ex.<sup>a</sup> o favor de subir.</p> + +<p>—Minha mulher está com uma dôr de dentes e eu +vinha pedir-lhe aquelle elixir...</p> + +<p>—Pois não! Eu dou-lh'o já...</p> + +<p>E dirigiu-se a uma estante.</p> + +<p>—Queira desculpar.</p> + +<p>—Ora essa! É a nossa obrigação, não me falle +v. ex.<sup>a</sup> n'isso... Se a dôr não abrandar á primeira +<span class="pagenum">[197]</span> +applicação, renova o algodão no fim de meia +hora...</p> + +<p>—Eu sei, eu sei, respondia Claudio, apressando-se +a descer a escada. Infelizmente já o tenho usado... +Muito obrigado, sim? E desculpe...</p> + +<p>—Não ha de quê. Sempre ás ordens de v. ex.<sup>a</sup>.</p> + +<p>Claudio entrou em casa offegante. Correu ao quarto +da mulher que, logo que o sentiu, se sentou no +leito.</p> + +<p>—Aqui está! exclamou elle risonho de contentamento +por vêr satisfeita a vontade de Laura.</p> + +<p>Com difficuldade applicou-se o remedio, porque +mal se percebia uma sombra de carie no dente, e +Laura adormeceu rapidamente n'um somno tranquillo.</p> + +<p>Excitado pela inquietação e pelo movimento, o +marido ficou passeiando na sala. Só tarde, pelas sete +horas, a fadiga o dominou e adormeceu sobre um +sofá, para não entrar no quarto e perturbar com os +seus passos o somno da mulher.</p> + +<p>Ás nove horas despertou, sentindo vozes e passos +estranhos. O que seria? Ergueu-se sobresaltado. Laura +estaria peor?</p> + +<p>A creada velha, logo pela madrugada, mandára dizer +á creada de quarto de D. Maria Francisca que +prevenisse a sua senhora de que a menina tinha +passado muito mal a noite. D. Maria Francisca soubera +a noticia quando ás oito horas pediu o primeiro +almoço e apressou-se a vir a casa da filha.</p> + +<p>Mal penteada e mal vestida, com uns sapatos lassos +e a góla do casaco desapertada deixando vêr o +collo que as rugas começavam a sulcar, D. Maria +Francisca, espavorida, perguntou subitamente ao +genro:</p> + +<p>—Então que foi, que foi?!...</p> + +<p>—Uma dôr de dentes... Felizmente pude applicar-lhe +o elixir...</p> +<span class="pagenum">[198]</span> + +<p>—E agora como está?</p> + +<p>—Deixei-a a dormir...</p> + +<p>—Sósinha!... Que imprudencia!...</p> + +<p>—É que estava tão socegada que eu não quiz +aproximar-me d'ella com receio de a accordar.</p> + +<p>Entraram no quarto.</p> + +<p>Laura tinha dormido excellentemente depois do +tratamento; nem sequer apresentava no rosto vestigios +de ter soffrido o quer que fosse. Acercaram-se +do leito pé ante pé e a mãe, em voz dorida, perguntou +á filha, que não levantava a cabeça do travesseiro:</p> + +<p>—Estás melhor, minha filhinha?</p> + +<p>—Parece que agora estou melhor, mas passei +muito mal a noite. Ai, que dôres, Santo Deus!</p> + +<p>—O Alexander bem te disse, replicou a mãe em +tom de mágoa e reprehensão, que esse dente precisava +tratamento. Tu não quizeste e ahi tens as consequencias! +Agora o remedio é voltar lá.</p> + +<p>—A Lisboa?! perguntou Claudio com certa vivacidade +e espanto.</p> + +<p>—Sim, e quanto antes. Devem ir hoje mesmo antes +que a dôr volte. É um soffrimento horroroso, +horroroso!...</p> + +<p>—Mas talvez aqui mesmo...</p> + +<p>—Ai, pelo amor de Deus, não! Uns brutinhos!...</p> + +<p>—É que o dentista foi tão amavel comigo que +póde escandalisar-se...</p> + +<p>—Não tenha medo. Ha-de fazer-lhe boa conta.</p> + +<p>E voltando-se para a filha, a cortar a discussão +que lhe parecia ociosa:</p> + +<p>—Apósto que ainda não tomaste nada? perguntou.</p> + +<p>—Não m'o trouxeram... respondeu Laura.</p> + +<p>—Com estas cousas é que é necessario ter muito +cuidado, disse D. Maria Francisca, voltando-se enfadada +para Claudio e poisando o dedo sobre o botão +da campainha.</p> +<span class="pagenum">[199]</span> + +<p>Appareceu a creada.</p> + +<p>—Então são quasi dez horas e esta menina sem +ter tomado o leite!?... exclamou irritada.</p> + +<p>—Oh, minha senhora, começou a creada a explicar, +ainda agora deram nove horas no relogio lá de +dentro e eu até vinha saber...</p> + +<p>—Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias. +Traga o leite, traga o leite. E não fique lá quatro +horas, conforme o seu costume, ouviu?... Isto quem +as atura...</p> + +<p>—Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez +umas bolachas de araruta... Deves estar tão +fraca!...</p> + +<p>—Não, mamã, não; não me falle em comer. Sabe +Deus o que me custa o tomar leite!</p> + +<p>O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam +para não incommodar a doente que durante todo este +tempo não tivera uma palavra de gratidão pelos seus +cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um +somno profundo, a refazer-se da interrupção da noite.</p> + +<p>Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa, +apezar da ligeira opposição de Claudio que viu assim +desmanchados todos os seus planos de tranquillidade +e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. Não quizesse +elle tomar a responsabilidade d'uma cousa +d'essas.</p> + +<p>Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa, +os corredores atulhados de malas e os guarda-roupas +desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam duas +grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses, +os theatros, os bailes, as visitas, os passeios, +a chuva, o sol, o frio, a humidade e o calor. +As bagagens de Claudio tambem não eram pequenas. +Laura temia um pouco a apresentação do marido +aos parentes elegantes da capital e vigiava e +com particular cuidado que nada lhe faltasse; gravatas, +calçado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas, +<span class="pagenum">[200]</span> +chapéus, tudo ia combinado ponto por ponto para +que não discrepasse das leis vigentes do janotismo.</p> + +<p>Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura +foram d'uma completa felicidade. Á parte as breves +horas que dedicaram ao dentista, todo o tempo se +dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentação +de Claudio á numerosa parentela fidalga. O +marido agradava; no trajar e nos modos não destoava +dos usos e costumes correntes e essa conformidade +com a banalidade consagrada deixava Laura +radiante de jubilo e vaidade.</p> + +<p>Não succedia outro tanto a Claudio que, regressando +a Coimbra e pensando no caminho percorrido, +via com mágoa quanto os factos divergiam das aspirações, +quanto a realidade se distanciava dos sonhos.</p> + +<p>No fundo, inconscientemente, a esposa que elle +desenhára no seu espirito e nas suas ambições era a +imagem de sua mãe, a honestidade, o trabalho, a resignação +e a caridade distillados dia a dia, gota a +gota, marcando todos os passos e todos os movimentos +da vida; o que o casamento lhe offerecia eram +vaidades e impaciencias, occultando um egoismo +sem limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo +e inconsciente.</p> + +<p>Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir +a correr procurar-lhe remedio para uma passageira +dôr de dentes e comparava a com a serenidade que +sua mãe mostrava nas dores physicas e moraes; +lembrava-se da simplicidade de Villalva e comparava-a +com a vida de infinitas necessidades a que entre +gente fina se deixava arrastar.</p> + +<p>D'esse confronto saia com umas vagas aprehensões +de ter errado na maneira de realisar as suas +aspirações moraes, mas breve esses temores se dissipavam. +A candura de Laura venceria as fraquezas +<span class="pagenum">[201]</span> +da educação. Era só o tempo necessario para a revelar +e vêr desabrochar na sua consciencia as flores de +suave perfume que lá dormiam em botão. A esperança +reanimava-o.</p> + +<p>Tardava, porém, essa almejada quietação na virtude. +As futilidades absorventes succediam-se; a existencia +consumia-se inutilmente. Laura não dispensava +a companhia de Claudio a todas as refeições, em +todos os passeios e nos serões passados em casa dos +paes, prolongados serões em que a moleza dos estomagos +replectos se espreguiçava pelas flexuosas cadeiras +Luiz XV. Por amor, dizia ella, não queria desamparal-o +um instante.</p> + +<p>O certo era que a vida de Claudio se subordinára +inteiramente á da mulher; todo o trabalho se reduzia +a servil-a nos seus prazeres e nas suas necessidades, +empregado a todo o instante nos mais frivolos +misteres, em procurar um lenço que esquecera algures +ou em transmittir ordens aos creados. Já em +casa dos Albuquerques se dizia que a filha encontrára +um excellente marido.</p> + +<p>Aos primeiros incommodos da gravidez esta situação +aggravou-se. Laura passava mal, constantemente +enfadada, com um fastio permanente, ora no leito, +ora recostada n'uma ottomana dos seus aposentos.</p> + +<p>A presença de Claudio era então reclamada como +um dever; não podia abandonar a esposa, cumpria-lhe +servil-a em todos os seus caprichos como bom +enfermeiro. Nos peiores dias, nem sequer lhe era +permittido sair ao jardim; ficava em casa, inventando +jogos para a distrair, a ella que com tudo se contrariava +e aborrecia.</p> + +<p>Uma vez, porém, teve a tentação de se affastar para +seu prazer. Os jornaes annunciavam a chegada a +Coimbra d'uma pianista notavel, Sophia Menther, +que vinha dar um concerto, um unico. Claudio leu a +noticia á mulher e perguntou:</p> +<span class="pagenum">[202]</span> + +<p>—Queres lá ir?</p> + +<p>—Deus me livre! respondeu ella irritadamente e +accentuando a inconveniencia da pergunta. Estou lá +em estado de cousa nenhuma! Como queres tu que +eu me vista?</p> + +<p>—Gostava muito de lá ir. Ha tanto tempo que não +apparece por cá quem se possa ouvir...</p> + +<p>—Mas vae tu...</p> + +<p>—Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...</p> + +<p>Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual +fastio, mas sem molestia alguma. Claudio não se +conteve; foi ao concerto. Receiando os seus amuos, +explicou que era só por uma ou duas horas quando +muito, que o desculpasse. Tinha muita vontade de +ouvir a pianista; precisava mesmo de se instruir.</p> + +<p>Laura nada respondeu, contendo o seu despeito. +Claudio saiu na persuasão de que a tinha deixado +convencida e de que ella generosamente acquiescera +aos seus desejos.</p> + +<p>A pianista era notabilissima. Claudio não teve coragem +de deixar o theatro até ao fim do concerto. +Sentia-se enlevado nas visões tragicas de Beethoven, +nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.</p> + +<p>Era uma embriaguez para os seus nervos doentes, +ainda magoados das mortificações moraes, uma agitação +sádia e capitosa.</p> + +<p>Recolheu a casa contente, sentindo em si uma +vibração que o erguia da prostração morbida em que +os azares do seu destino continuamente o traziam. +Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se +do seu leito cautelosamente.</p> + +<p>Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas +um lenço a indicar as muitas lagrimas que tinha +<span class="pagenum">[203]</span> +chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e nem +se moveu nem disse uma palavra.</p> + +<p>—Que tens, perguntou Claudio ancioso, que +tens?</p> + +<p>Não respondia; todas as instancias e todos os carinhos +eram vãos, baldada toda a mágua afflicta com +que era interrogada. Uma convulsão de choro foi a +sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.</p> + +<p>Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicações +dos modos de indifferença e aborrecimento com que +a mulher o tratou durante todo o dia que se seguiu +á noite do concerto. Por demais tinha aprendido com +Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava +apenas no seu triste destino, d'esta vez sem poder +fugir a uma ponta de azedume que se lhe cravava no +coração.</p> + +<p>Não era senhor de si, não podia dispôr de duas +horas para seu prazer e sua instrucção, para repousar, +avigorando-os, os membros fatigados? Toda a +obrigação se reduzia a servir Laura, os seus habitos +e os seus caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava +como uma perniciosa ociosidade? Esquecia +as aspirações de virtude que o tinham levado ao casamento; +o egoismo, calcado pelo dominio absorvente +da mulher, revoltava-se em nome de direitos soberanos +e infiltrava-lhe no peito um mau fermento. +Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe +pelo pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.</p> + +<p>Ao menos, lá, tinha o socego do seu palacio, a liberdade, +a independencia, os carinhos protectores +da mãe para lhe suavisar a cruz a que o prendera o +amor de Emilia.</p> + +<p>Aqui, nem isso; só, a todo o momento em face de +uma mulher que constantemente o magoava com +uma crueldade que a seccura do seu coração ignorava, +todos os caminhos estavam vedados, o carcere +<span class="pagenum">[204]</span> +era perfeito, o soffrimento sem esperança de remissão +que não viésse d'aquella mesma que era a causa +da sua dôr. Vinham, por instantes, alentos de energia +e fé, clarões que varriam estas sombras.</p> + +<p>Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que +o seu dominio se traduzia acariciando aquelle +que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio +recuperáva animo. Não! errava; as exigencias da +esposa eram as exigencias do dever. Precisava banir +da alma os derradeiros impulsos do egoismo, abdicar +de toda a liberdade, viver só e unicamente para +a sua familia. Que lhe importava o resto?</p> + +<p>Prazeres da intelligencia e do espirito, alegrias +do corpo expandindo-se ao contacto da natureza, +tudo eram vaidade de que lhe cumpria despojar-se +perante a imagem hirta e sombria que a consciencia +lhe apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade +a palavra dever. Era necessario viver +para a sua familia: essa era a obrigação por excellencia +para cumprir a qual se casára e a que espontaneamente +havia de consagrar-se, tendo posto termo +a um passado criminoso que não voltaria. Acceitasse +pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos +egoistas.</p> + +<p>Claudio promettêra a sua mãe ir vêl-a todas as semanas. +Essas visitas, á proporção que o caracter de +Laura se revelava, começavam a tornar-se um problema +inquietador.</p> + +<p>Para Claudio eram a maior das alegrias; a presença +da mãe e das serras de Villalva eram para o +seu coração um magico lenitivo que apagava todas +as dores sem o minimo esforço da razão e do pensamento.</p> + +<p>Perante ellas sorria, como se bebesse, por um +filtro mysterioso, a mocidade e a frescura. Não o +comprehendia Laura e por isso sentia, com um vago +ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer +<span class="pagenum">[205]</span> +cousa que lhe pertencia, os constantes cuidados +do marido pelo que se passava em Villalva, a +alegria e a impaciencia com que esperava o dia +de lá ir, as pequeninas necessidades que inventava +para servirem de pretexto a mais frequentes +visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e +bom.</p> + +<p>Antecipadamente discutia-se o dia da visita; já +não era sem receio que Claudio se aventurava a +lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se contrariava.</p> + +<p>—Vamos amanhã?</p> + +<p>—Amanhã, não. Temos que acompanhar á estação +as Mendonças que vão para o Porto e vieram +despedir-se.</p> + +<p>—Ah! é verdade!... Depois de amanhã...</p> + +<p>—Depois de amanhã tambem não. Disse-me hontem +a mulher do dr. Ramos que queria vêr o nosso +jardim e talvez cá viesse.</p> + +<p>—No outro dia... mas faz-se tão tarde... E não +sei o que por lá vae...</p> + +<p>—O melhor é não te prenderes comigo. Vaes sósinho.</p> + +<p>Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam +invariavelmente todas as semanas. Mal passava +o domingo, era necessario começar a preparar o +terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar +a irritação de Laura.</p> + +<p>O problema não tinha solução; estava destinado +a manter-se indefinidamente nos termos em que o +punham a contradicção do affecto de Claudio e da +indifferença de Laura. Ou Laura acompanhasse o +marido ou ficasse em Coimbra, essa visita era sempre +toldada por inquietações.</p> + +<p>A presença de Laura importava um retraimento +de expansões que por completo prejudicavam toda a +alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a apressar-se +<span class="pagenum">[206]</span> +no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a +alegria com a suspeita do descontentamento da esposa. +Temia o mutismo em que se traduziam os seus +frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro +que lhe embargava toda a felicidade.</p> + +<p>Só a mãe de Claudio ignorava quanto essas visitas +custavam, porque o filho, para lhe poupar a tranquillidade +dos seus ultimos annos, apparecia-lhe sempre +sorridente de ventura, d'uma ventura que só pelo +amor da mae se lhe mostrava na face mas que no +intimo suspeitava que jámais seria o seu quinhão +n'este mundo.</p> + +<p>Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao +transpôr a estreita porta do casal de Villalva, para +que as trevas do coração jámais se derramassem na +luminosa paz d'essa velhinha que nas suas orações +não cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com +as suas bençãos. Mas, voltadas as costas a esse sanctuario, +logo a tristeza involvia Claudio como n'uma +lugubre mortalha.</p> + +<p>Á casa da estrada da Beira corriam os mendigos, +attraidos pela fama de gente rica recentemente casada, +esperando generosidades proprias de quem +tem fé na recompensa divina.</p> + +<p>Raro batiam á porta principal. Contornavam a +casa e, segundo o seu velho costume, procuravam a +porta de serviço, onde tinham probabilidades de encontrar +alguem que os attendesse. Para isso passavam +em frente das largas janellas da sala de jantar, +vestidas de flores e trepadeiras a emoldurar o fulgor +das pratas e as cores mimosas das louças +da India, que se viam dentro, cobrindo as paredes +em extensas prateleiras. Quando sentiam vozes na +sala, começavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas +melopêas.</p> + +<p>Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia +os mendigos cuja miseria e immundicie repugnava á +<span class="pagenum">[207]</span> +sua esmerada elegancia; apressava-se a despedil-os +recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes +concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido +de os vêr sair.</p> + +<p>Claudio tentava moderar essas impaciencias com +palavras de sympathia pelos pobres, esperando despertar +iguaes sentimentos no coração da mulher e +associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava +uma indifferença inabalavel.</p> + +<p>Essa indifferença havia de transformar-se um dia +n'uma explosão de maldade em que deviam naufragar +todas as esperanças de conversão.</p> + +<p>Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante +que as sombras do arvoredo moderavam com uma +vibração de frescura e os lilazes e as roseiras embalsamavam +espargindo perfumes, Claudio almoçava +com Laura, quando um mendigo entrou a cavallo +n'um burro, um par de muletas cruzadas sobre o albardão +esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo +attrito constante dos apparelhos que jámais deixava, +ou pastasse pela beira dos caminhos ou conduzisse o +seu miserando cavalleiro. O burro entrou, parou em +baixo das janellas e, emquanto o mendigo começava +rezando, elle, com esforço, estendendo os labios, +procurava alcançar os ramos d'uma acacia que +tinha em frente.</p> + +<p>—Ah! é de mais!... exclamou nervosamente Laura +dirigindo-se ao marido e apontando o mendigo. É +preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo não +se póde parar n'esta casa!</p> + +<p>—Deixa-os lá! Coitados! Precisam e não percebem +mais...</p> + +<p>—Qual precisam! Precisam menos do que nós. +Que trabalhem! O que elles são é uns vadios, a viver +a custa dos outros. Afinal morrem e estão ahi a +cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.</p> + +<p>—Isso são casos rarissimos. Lá apparece um que +<span class="pagenum">[208]</span> +pôde fazer um mealheiro, mas a quasi totalidade +d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir +serão os menos infelizes. Deus sabe o que soffrerão +os que ficam por esses casaes!... Nós é que deviamos +procural-os.</p> + +<p>—Não faltava mais nada!... Ainda em cima de nos +incommodarem a toda a hora e a todo o instante...</p> + +<p>—Incommodar, não. Não gosto de te ouvir dizer +isso. Temos obrigação de os ajudar. Até são bonitos!... Nos +seus andrajos, nas suas rugas cavadas, +n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas +intimos de miseria physica e de miseria moral, +quantas dores, quantos desejos calcados, quanta esperança +enganada!</p> + +<p>—E os que andam ahi pelas tabernas e pedem +para ir beber, tambem te parecem muito bonitos?</p> + +<p>—Tudo é miseria. Que importa que venha das +enfermidades do corpo ou das enfermidades da alma? +Não podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: Dá a +quem te pede.</p> + +<p>—As phantasias que tu quizeres... disse Laura córando +de colera e querendo terminar; eu é que não +estou para aturar isto. Tenho cá os meus pobres que +sei que são necessitados e não quero saber dos outros. +D'aqui a pouco não ha gente decente que possa +vir a esta casa. Sempre tudo entulhado com pobres. +Deus sabe as doenças e a porcaria que elles trazem. +Ainda queres agora que ponham os burros a pastar +no jardim!... Eu é que não estou para aturar isto!... Para +me consumir basta o que aturo aos brutinhos +dos creados.</p> + +<p>Claudio calou-se, não se atrevendo a insistir perante +a irritação de Laura, e ficou scismando, com +infinita mágoa, no caracter rebelde da esposa. Enganára-se? +Essa educação religiosa das irmãs de Santa +Ignez, em que tanto se fiára, seria unicamente uma +série de formulas occultando a inanidade de sentimento? +<span class="pagenum">[209]</span> +As devoções bastas, as orações, as missas, +as confissões, os escrupulos em faltar aos preceitos +ecclesiasticos nos dias de abstinencia seriam um habito, +ainda uma singular especie de vaidade, a vaidade +religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e +uma implacavel sede de commodidades? A ingenuidade, +a candura de Laura seria apenas a inexperiencia +d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o esforço +e de toda a contrariedade, só para ostentar a +gentileza da sua figura?</p> + +<p>Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava +todas as suspeitas ruins com a vara magica do +amor e da esperança. Não; Laura era um anjo. Só a +impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava +a imaginação de pavores. Toda esta irritabilidade +que simulava estreiteza ou perversão moral, +todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a +uma simples commodidade da mulher, d'uma passividade +completa, tudo isso eram apenas o resultado +necessario d'um mau estado physiologico, d'enfadonhos +incommodos de gravidez. Mas, terminados elles, +quando Laura fosse mãe, a generosidade, os carinhos +e a caridade haviam de desabrochar na sua +alma e a vida seria então para Claudio o eden que +nas attribulações do erro sonhára e se propozera conquistar. +Esperasse; a sua hora chegaria.</p> + +<p>E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre, +perante o dominio da esposa, dos seus mais pequenos +desejos e das suas ambições mais nobres, +tomando por motivos de bom quilate as razões que +para desvanecer suspeitas amargas lhe eram suggeridas +por um amor ainda flamejante, e porventura +por um ardor de sensualidade que não attingira ainda +a sua inevitavel e satanica consumpção.</p> + +<p>Para alliviar o enfado de Laura, começaram a reunir-se +á noite em casa de Claudio os antigos frequentadores +do palacio dos Albuquerques. Vieram as classicas +<span class="pagenum">[210]</span> +mezas de jogo com os seus castiçaes de prata, +os cinzeiros e o panno verde, accenderam-se as vélas +do piano para ouvir as walsas e as marchas em +que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua +educação, entre a assistencia circularam os taboleiros +com bolos e chicaras de chá levados nos braços +hirtos dos creados, em bom aprumo, envergando +a casaca bem assente.</p> + +<p>Laura sentia então um suave contentamento que +lhe dava uma expressão de felicidade; via ali uma +reproducção fiel do viver de seus paes, toda a sua +vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha +dizer que os seus serões já tinham fama de elegantes +na cidade.</p> + +<p>Na meza, porém, é que punha os seus maiores cuidados. +O arranjo das flores, a combinação do jantar, +o serviço, o modo de pôr e tirar os pratos, a maneira +de servir os vinhos, tudo isso era objecto de longas +reflexões e consequentes recommendações severas +aos creados. Se havia algum convidado, o que +bastas vezes succedia, os cuidados redobravam e +não deixava de perguntar ao marido pela sua impressão.</p> + +<p>—Que te pareceu?</p> + +<p>—Muito bem, respondia invariavelmente Claudio.</p> + +<p>—Dizes-me sempre isso!... Não me ajudas em +cousa alguma!...</p> + +<p>A frivolidade invadira-lhe a casa com todo o seu +cortejo de fainas ociosas e estereis trabalhos em +que a vida se dissipa sem o minimo valor moral. +Todos os sonhos de caridade, de trabalho, de honestidade, +de modestia e de affastamento das cousas +mundanas esvaiam-se deante das mesquinhas exigencias +de Laura a quem parecia ter cedido completamente.</p> + +<p>Não cedera, apenas esperava. Todas as ambições +<span class="pagenum">[211]</span> +geradas na cruz do remorso permaneciam vivazes, +bem arreigadas no fundo da sua alma, esperando a +hora de saciar-se. Cedia levado pela convicção de +que era seu dever dar tranquillidade á esposa proxima +a ser mãe, sacrificando-se n'esta abdicação ao +culto da maternidade, mas intimamente contando os +dias que o separavam da hora da redempção. Nem +poderia esquecer os propositos com que se casára: +lá estavam a lembrar-lh'os as visitas a Villalva, que +Laura supportava com mal dissimulado aborrecimento.</p> + +<p>D'ahi voltava sempre com uma tristeza inquieta +que o tornava silencioso e distrahido. Porventura a +sua vida teria naufragado sem remedio? O dever que +impozera á sua vontade como norma de existencia e +satisfação da consciencia havia de curvar-se á fragilidade +d'uma mulher?</p> + +<p>A duvida voltava a apossar-se do seu espirito, mas +o desalento era breve, terminando sempre em uma +cega confiança na transformação de Laura. Toda a +sua fundamental frivolidade lhe parecia então uma +transitoria meninice, e, resignado, esperava ancioso +as dôres que, fazendo a mãe, accenderiam na sua +alma as fachos do amor divino.</p> + +<p>Quando viu approximar-se esse momento, exultou. +Era a libertação de toda a agitação vazia em que +consumira quasi um anno. Laura aprenderia nos labios +côr de rosa do filho a piedade e o sacrificio. +Não mais coraria de desespero quando os mendigos +lhe calcassem o jardim; havia de preferir á banalidade +fastidiosa dos seus serões entre os convivas o +silencio da alcova singela compassadamente cortado +pelo embalar da berço. Só estranhava o borburinho +que lhe ia em casa e as andadas de D. Maria +Francisca, já interrogando o medico, já segredando +com a parteira.</p> +<span class="pagenum">[212]</span> + +<p>—Olhe, doutor, parece que agora sentiu umas picadas +mais para o lado esquerdo... Que me diz?</p> + +<p>—Isso não significa nada, minha senhora.</p> + +<p>E ia ao pé da filha, a dizer-lhe que não era nada, +tinha respondido o medico.</p> + +<p>Voltava instantes depois.</p> + +<p>—Oh, doutor, não acha que isto vae a demorar-se. +Se a examinasse... O dr. Xavier, um indio que +estudou lá fóra, disse-me que em Paris...</p> + +<p>—Ora, Paris!... Em Paris, respondeu o doutor que +era um rude e singelo descrente de medicinas, em +Paris as mulheres teem filhos como em Portugal. +Até devem ter menos que a população diminue.</p> + +<p>—Tem uns modos este doutor... ia dizer D. Maria +Francisca á parteira. Já estou arrependida de não +ter mandado vir de Lisboa o dr. Xavier. Sempre +é outra cousa!...</p> + +<p>—Oh, sr.<sup>a</sup> D. Amelia (era o nome da parteira) talvez +seja melhor passar outra vez as mãos pelo sublimado. +Esteve agora ahi a mexer nesses vestidos e +o dr. Xavier disse-me que era preciso muito cuidado. +O sublimado sempre! Para a mais pequenina +cousa!...</p> + +<p>—Deixe lá, minha senhora! Tenho assistido a +muita mulher. Isto com a ajuda de Deus Nosso Senhor...</p> + +<p>—Oh, doutor, voltava D. Maria Francisca a perguntar +ao medico, as dores parece que são tão distantes...</p> + +<p>—Não se afflija v. ex.<sup>a</sup>, ellas apertarão.</p> + +<p>—Que homem, que modos estes! E dizem que é +bom medico! Ai, Senhor, tomára já isto passado!</p> + +<p>Claudio olhava este espectaculo surprehendido, +vagueando pelas salas e pelos corredores. O que?! +Pois o nascimento era este vil receio da morte e esta +ridicula fé nas cousas que hão-de salvar o corpo? +Não havia uma religião que libertasse de tantos e +<span class="pagenum">[213]</span> +tão mesquinhos cuidados elevando a alma em extasis +divinos? Não era toda a maternidade, desde o parto e +o berço até á formação completa do homem, o modo +providencial de pagarmos a divida d'amor e de carinhos +que a existencia de cada individuo significa? +E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar +do corpo e de passageiras dôres que a resignação, +tirada da consciencia d'uma missão sublime, curaria +melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspirações +da sua alma vinham bater contra a mais extrema +pobreza moral; o desgosto perturbava a piedade +que a afflicção da esposa lhe despertava.</p> + +<p>No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo. +Fez se um silencio d'anciedade. Os gritos repetiram-se, +lancinantes, e, após uns curtos momentos, +os vagidos d'uma creança pozeram a casa em alvoroço.</p> + +<p>—Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos +parabens! É um rapaz!... Adeus que não tenho +aqui que fazer. Muito socego é que a doente precisa.</p> + +<p>—Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio +acompanhando o medico até á porta.</p> + +<p>O medico saiu e Claudio correu apressado ao +quarto de Laura. Queria vêr a sua physionomia illuminada +de contentamento, queria vêr os primeiros +clarões d'essa aurora. Era que a sua alma havia de +expandir-se nas auras d'uma vida nova.</p> + +<p>Entrou cautelosamente, pé ante pé.</p> + +<p>—Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca, +que estava sentada á cabeceira da cama de +Laura. Venha vêr o seu morgado. Muito gordinho e +lindo como um anjo!</p> + +<p>Claudio aproximou-se da creança, tumefacta e +vermelha, apertada em faixas brancas, mas logo a +deixou para se dirigir a Laura.</p> + +<p>Beijou a mulher timidamente, humildemente, com +<span class="pagenum">[214]</span> +uma uncção religiosa. Não era o corpo enfermo que +os seus labios tocavam, era a imagem em que a graça +de Deus incarnára.</p> + +<p>—Como te sentes? murmurou.</p> + +<p>Ella entreabriu os olhos e, n'uma contracção de +repugnancia e odio, respondeu:</p> + +<p>—Ai, meu Deus! Que horror!</p> + +<p>E os olhos cerraram-se novamente. Não houve +uma palavra para o filho, nem um gesto de ternura, +nem o mais leve movimento que não significasse um +fastio mortal.</p> + +<p>Claudio ficou de pé, immovel, esperando ainda +d'aquella massa inerte envolvida em finissimo linho +uma vibração que viesse confirmar as suas esperanças +de tantos mezes.</p> + +<p>Só uma gélida mudez lhe respondia. Saiu do +quarto de Laura esmagado de desalento.</p> + +<p>Embora! No seu espirito procurava razão para justificar +o estado moral de Laura e continuar a esperança +que até alli tinha mantido.</p> + +<p>Era uma reacção natural do corpo fatigado pela +dôr physica, mas, quando a saude voltasse, com ella +viriam os affectos de mãe e o ardor de sentimento +em que todos os sacrificios são recebidos, na alma +ávida de amor, como favores do destino.</p> + +<p>Todavia, pensava, que singular perversão a do +genero humano! Não acontecia o mesmo com os +animaes. N'elles, o instincto materno dominava todas +as dores e tanto era o zelo que, nos primeiros tempos +immediatamente ao parto, a aproximação das mães +era perigosa; havia uma resurreição de instinctos +bravios a proteger os recemnascidos.</p> + +<p>Porque não seria assim para as mulheres? Que +degeneração de sentimento as podia levar a abandonar +os filhos logo ao nascer, friamente, sem um grito +do coração offendido? Não, não podia ser assim.</p> + +<p>Laura soffria apenas uma crise passageira; em +<span class="pagenum">[215]</span> +breves dias havia de operar-se a transformação milagrosa +do ser frivolo e egoista na esposa e mãe profundamente +generosa, consagrada com uma intima +felicidade, á existencia alheia.</p> + +<p>Essa transformação porém não vinha. Deccorriam +os dias, as forças voltavam, e Laura continuamente se +lamentava. Não podia dormir uma hora descançada! +dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada +a entrar-lhe no quarto a cada instante, para que +désse de mamar á creança!</p> + +<p>D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia +animalidade da sua robustez comprazia-se nas suavissimas +caricias da amamentação; o calor das creanças +junto aos seios em que pousavam as pequeninas +mãos, comprimindo-os ligeiramente, fôra sempre para +ella um instinctivo prazer, desprendido de quaesquer +razões moraes. Para a filha, porém, era differente. A +filha fôra e continuava a ser um objecto de luxo que +queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por +isso, ouvindo os queixumes de Laura, invariavelmente +lhe dizia:</p> + +<p>—Toma uma ama! Tu não queres crer que és muito +fraca...</p> + +<p>—Mas o Claudio tem dito sempre que não quer...</p> + +<p>—Lá vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer +o que o medico lhe disser. Pensas que os maridos +gostam muito de vêr as mulheres magras e velhas +antes de tempo?</p> + +<p>Interrogaram o medico, na presença de Claudio. +O medico respondeu:</p> + +<p>—Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos +é conforme a vontade de cada um. Quando se tem +n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas forças, +e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...</p> + +<p>—O que eu não comprehendo, interrompeu Claudio +que a conversação contrariava extremamente, é +<span class="pagenum">[216]</span> +como uma mulher tem forças para crear um filho no +ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo +sadio e forte, e não não tem forças para em seguida +o amamentar durante um anno. Muita gente devia +morrer entre os pobres que não tivessem para pagar +a quem lhe creasse os filhos!</p> + +<p>—Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar +porque creei os meus... Quem não tem outro +remedio, ou seja forte ou fraca, cria os filhos; mas +quem é fraca, tem meios e teima em os criar faz +muito mal. Nem mesmo ás creanças é util. Pois se +ellas podem ter um leite bom para que hão de estar +a mamar um leite fraco? Não é verdade, doutor?</p> + +<p>—Até certo ponto... respondeu o medico. Mas +lá isso, diga-se com franqueza, não sei o que é o +cuidado das mães! As creanças parece que medram +só com o calôr da cama. Por melhores que sejam as +amas, sempre são madrastas.</p> + +<p>Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava +pela vinda d'uma ama. Era uma necessidade. Só se +Claudio tinha muito gosto em vêr a mulher tisica!...</p> + +<p>Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama. +Não houve razões, nem instancias, nem um confessado +desgosto e pezar que pozessem barreiras ao egoismo +de Laura e a levassem a ceder aos desejos do +marido. E Claudio via com espanto, que em breve se +transformaria em aversão, o filho entregue a braços +estranhos.</p> + +<p>Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria +Francisca veiu discutil-o com a filha e por deferencia +que ella julgava um requinte de delicadeza, +quiz ouvir tambem Claudio. Já tinha combinado com +Laura o caracter da festa e o numero dos convidados, +baptisado ás cinco horas da tarde, jantar em +seguida e depois uma pequena reunião dos intimos. +Preferiria um grande baile, mas a casa não o comportava +<span class="pagenum">[217]</span> +e a disposição dos moveis não era adequada á +dança. Fica assim uma reunião mais escolhida, concluia +ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da +casa, escusamos de convidar os gebos que não sabem +vestir uma casaca e não vêm ahi senão para +comer.</p> + +<p>Claudio não concordava; não queria festa alguma. +O baptisado, dizia, é um sacramento e deve ser +dado com a placidez e o recolhimento de quem tem +consciencia do que faz. Não foi instituido para patuscadas.</p> + +<p>—Ora que idéas!... respondia a sogra. Haviam de +julgar que cairam em miseria ou que tem muito pouco +gosto em ter um filho. Nada, nada, deixemo-nos +de excentricidades, vamos andando assim, que foi +sempre o costume cá de casa. Que diria o Claudio se +visse o baptisado do José?!... Durante oito dias tivemos +em casa vinte e sete hospedes! O conde de Palhares, +que veiu cá de propósito, disse-me que os +bailes do Farrobo não tinham mais grandeza.</p> + +<p>—Coitado, murmurava, dirigindo-se á Laura, é +muito bom rapaz mas ha de ressentir-se sempre d'aquella +vida na aldeia.</p> + +<p>—Se a mamã soubesse o desgosto que tenho com +isso...</p> + +<p>A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.</p> + +<p>Tomando por singela obediencia as complacencias +com que até então Claudio se tinha sujeitado aos habitos +e vicios da mulher, D. Maria Francisca, que as +ausencias do marido e a docilidade do capellão tinham +convencido de que todo o dominio lhe pertencia, +começava agora a mandar em casa da filha como +em sua propria. Por isso, passando de leve sobre as +observações do genro, dispoz tudo para o baptisado +conforme o desejava.</p> + +<p>Claudio começava a viver sob uma impressão de +<span class="pagenum">[218]</span> +pavor que crescia á maneira que via perderem-se +todas as suas esperanças. A cada instante se refugiava +no seu gabinete, procurando o silencio e o isolamento +em que poderia encontrar-se só e bem de +frente com a tristeza da sua vida.</p> + +<p>Quando chegou o dia do baptisado, sentia-se mais +do que nunca opprimido. Quasi não fallava; respondia +por monosyllabos, se o interrogavam.</p> + +<p>—O sr. dr. Claudio, dizia um velho lente de theologia +para D. Maria Francisca, vê-se mesmo que está +doido de felicidade! Não diz uma palavra, vae todo +entregue ao pensamento no filho.</p> + +<p>Na egreja, porém, a imagem do Christo e a magestade +do templo, juntando-se á febre do seu espirito, +produziram-lhe um momento de oração ardente. +Com uma supplica instante, fervorosa, acompanhava +as palavras do padre, dirigindo se a um deus desconhecido +que não via com os olhos do rosto mas que +sentia na alma dominando o mundo. Intimamente +repetia com o sacerdote: <i>Omnem coecitatem cordis +ab eo expelle</i>, varre-lhe do coração toda a cegueira, +<i>disrumpe omnes laqeos Satanae</i>, quebra-lhe todos +os laços com Satanaz, <i>aperi ei Dominé januam pietatis +tuae</i>, abre-lhe, Senhor, a porta da tua piedade, +<i>accipe lampadam ardentem et irreprehensibilem</i>, +recebe a lampada ardente e irreprehensivel, <i>custodi +baptismum tuum</i>, guarda o teu baptismo, <i>serva dei +mandata</i>, obedece aos mandamentos de Deus, <i>ud +habeas vitam aeternam</i>, para que tenhas a vida +eterna. <i>Vade in pace et Dominus sit tecum</i>, vae em +paz e o Senhor seja comtigo.</p> + +<p>A estas ultimas palavras os olhos toldaram-se-lhe +de lagrimas. Vae em paz e o Senhor seja comtigo! +repetia interiormente.</p> + +<p>A dôr das amarguras do passado e a ambição da +felicidade do filho confundiam-se n'um mesmo anceio. +<span class="pagenum">[219]</span> +A consagração a Deus era plena, irrompia-lhe +do coração. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!</p> + +<p>—E fique-se por aqui, dizia-lhe D. Maria Francisca +ao entrar em casa, emquanto atravessavam o jardim. +A Laura é muito fraquinha. Depois não sei o +que é... Por mais cuidados que se tenha, os partos +envelhecem muito. Lembra-se de vêr minha prima +Luiza? Casou ha cinco annos, como sabe, e tem tres +filhos. Via-a outro dia em Cercosa. Está uma velha! +Não faz ideia. Fique-se por aqui, fique-se por aqui, +que está muito bem. Demais, um rapaz!...</p> + +<p>Claudio ouvia sem responder, pasmado do despejo +da sogra. Sabia que havia muito quem assim pensasse, +nunca imaginára que alguem se atrevesse a +aconselhar-lh'o.</p> + +<p>A sua regra era a do Evangelho: Crescei e multiplicai-vos. +Crescei e multiplicai-vos para o trabalho +e para a virtude, para que a verdade se derrame no +mundo, para que a caridade e o amor cresçam alargando-se +as relações na humanidade.</p> + +<p>O seu desejo era ter muitos filhos, julgava que essa +seria uma das condições do resgate das suas faltas +passadas; formando para o bem numerosas almas +christãs, havia de compensar os seus erros. A intervenção +da sogra surprehendera-o e por isso se calára; +mas, passado esse primeiro momento de surpreza, +revoltava-se.</p> + +<p>D. Maria Francisca, porém, é que não desanimava, +posto que pelo silencio do genro ficasse suspeitando de +que elle não acceitava o conselho. Á noite, conversando +n'um pequeno grupo em que se encontravam +Laura e Claudio, julgou conveniente repetir a instancia +mas d'esta vez levando-a por outra via.</p> + +<p>—Hoje, dizia para a sua velha amiga D. Maria do +Amaral, já não ha nem póde haver casas nobres. +Vem as partilhas e não ha fortuna que lhes resista. +A abolição dos morgados acabou com toda a fidalguia +<span class="pagenum">[220]</span> +que fazia tanto bem. Desgraçado de quem tem mais +do que um filho!</p> + +<p>—Pois o meu desejo é ter vinte, apressou-se Claudio +a responder bruscamente, não tentando dissimular +a sua irritação Que trabalhem! Foi assim que +fizeram meus paes. Deus me livre de gente vadia!</p> + +<p>Laura córou e D. Maria Francisca respondeu:</p> + +<p>—Crédo! Que ideias! Nem parecem d'um rapaz +fino como Claudio!...</p> + +<p>A conversação ia visivelmente azedar-se e D. Maria +do Amaral, com o fino tacto que adquirira na sua +vida de mundanismo fidalgo, accudiu a interrompel a:</p> + +<p>—Olha que o sr. Soares não tira os olhos de nós, +disse para D. Maria Francisca. Está á nossa espera +para a manilha; lá entende que por ser dia de +festa não ha-de ficar sem partida.</p> + +<p>E todos se levantaram.</p> + +<p>—O meu Claudio, veiu dizer Laura ao marido +quando mais tarde se recolhiam aos seus aposentos, +foi hoje muito mau. Não gosto de o vêr assim. Fico +muito zangada.</p> + +<p>—Porquê?</p> + +<p>—Ora, porquê?!...</p> + +<p>—Talvez tu tambem não queiras ter mais filhos?...</p> + +<p>—Ai, decerto que não! Um vá. Mais do que um, +Deus me livre! Só o que eu soffri!...</p> + +<p>—É a boa educação religiosa que vos dão n'esses +collegios de beatas.</p> + +<p>—Tomara-me eu lá! São umas santas...</p> + +<p>—Ninguem te prende.</p> + +<p>—Bom. Deixemo-nos de discussões que não estou +para me inquietar.</p> + +<p>—É melhor, é. Mesmo a unica cousa de que deves +cuidar é de não te inquietares. Fazes bem. Has-de +<span class="pagenum">[221]</span> +tirar-lhe bom proveito! exclamou já ao cerrar a +porta e dirigindo-se ao seu gabinete.</p> + +<p>Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro +paredes da sua cella asphyxiavam-n'o. Desceu ao +jardim e passeiou até á madrugada, meditando no +drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe +sem attenuantes, as phantasiosas esperanças que +por alguns mezes alimentára com uma tristeza resignada +voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar +da metralha. Não queria ter mais filhos! Este +pensamento obececava-o. Era a extrema perversão, +o repudio completo de todas as leis naturaes, a cobardia +e o egoismo, calcando e reprimindo toda a +expansão da vida ingenua, um misero e constante +terror, substituindo a alegria intensa do peito que +canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam +nas manhãs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A +maternidade não transformára Laura; pelo contrario, +revelava-lhe o caracter. O amor de sacrificio não +viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava, +tornando-se indomavel.</p> + +<p>Durante dois dias, Claudio só trocou com a mulher +as palavras indispensaveis; taciturno, nada fazia já +para lhe occultar o seu desgosto que era profundo. +Intimamente, mantinha talvez ainda uma derradeira +esperança, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua +paz e alegria o que por instincto e instigação da +consciencia não tinha podido alcançar. Laura porém +conservava-se inteiramente estranha ao que se passava +no espirito do marido; julgava-se offendida +com o seu silencio. Pois não era uma santa, um +anjo, como tantas vezes ouvira aos que a cercavam?!</p> + +<p>A sua vaidade não lhe deixava um instante de hesitação. +Claudio não podia ter d'ella o menor aggravo. +Tudo o que elle fazia caia sob uma condemnação formal, +completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por +<span class="pagenum">[222]</span> +elle esse sacrificio. O filho não era para ella uma dadiva +de Deus para melhor cumprir o seu destino no +mundo; tinha sido uma tortura supportada por uma +victima da sensualidade e do capricho d'um homem. +A obliteração do senso moral consumara-se n'essa +creatura a que a educação formalista, dando-lhe a apparencia +externa, os modos, as palavras e os gestos da +bondade, no intimo creára uma plena seccura +de coração. Sem as luctas da vida em que se fórma +e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o +esforço e toda a situação que não lhe lisongeasse sem +reservas os seus desejos.</p> + +<p>Entre Claudio e Laura começou uma verdadeira +lucta, surda, sem explosões retumbantes, mas continuada +e persistente, manifestando a cada momento +uma divergencia de caracteres que, não logrando +fundir-se, mutuamente tentavam dominar-se. Os +creados, as visitas, o filho, os passeios, de tudo se +tirava motivo para discussão que invariavelmente +terminava por accentuar uma incompatibilidade de +pensamento profunda.</p> + +<p>Claudio queria os creados tratados como familiares, +bondosamente, sempre propenso a excusar-lhes +os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e odiava-os +cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira, +por uma fita que uma creada trazia mal posta, porque +se demoravam em accudir ao seu chamado. Não +havia mez em que algum não fosse substituido.</p> + +<p>—Antes um pedaço de brôa, diziam, e o seu socego +do que os regalos dos fidalgos. E iam-se embora, +maldizendo da casa.</p> + +<p>—São do nosso sangue, dizia Claudio á mulher +admoestando a; tem as mesmas tentações de descanso +e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo afêrro +aos seus habitos. É preciso tratal-os com caridade. +São elles que nos servem, é sobre elles que lançamos +<span class="pagenum">[223]</span> +todos os trabalhos pesados que não podemos +ou nos repugna fazer.</p> + +<p>—Pois governa-os tu! Eu é que não estou para +isso. Se te incommoda ouvir os meus ralhos, tambem +a mim me incommoda atural-os. O que elles +são todos, concluia, enfurecendo-se, é uns demonios +que não servem senão para me inquietar.</p> + +<p>A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera +uma furia raivosa contra os creados, ficara de lembrança +a Claudio.</p> + +<p>Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia +com todo o rigor que a egreja aconselha, tendo-se +previamente informado com o confessor sobre as horas, +quantidade e especie de refeição a que devia +sujeitar-se, para alcançar todos os beneficios que +d'ahi podessem provir-lhe.</p> + +<p>Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente +vestida de negro, levando nas mãos um +livro rico, presente do casamento que uma sua parente +beata expressamente encommendára em Paris +e onde vinha traduzido para francez o evangelho. Na +egreja foi sentar-se proximo do pulpito, n'um banco +que um conego, antigo frequentador do palacio do +Albuquerque, se apressou a mandar-lhe offerecer pelo +sachristão, mal a viu. Depois seguiu com grande recolhimento +toda a cerimonia, lendo, a cabeça inclinada +sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em +longe para olhar a cruz e o altar.</p> + +<p>Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar +o magro alimento que lhe era permittido, mas ás +quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para ir +vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao +anoitecer, logo seguida de immediato regresso á sé, +para assistir ao officio de trevas e ao sermão da paixão. +Tinha pressa, para não perder o logar que o +conego promettera reservar-lhe.</p> + +<p>Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando +<span class="pagenum">[224]</span> +graciosamente o livro sobre os joelhos para se +entregar a essa delicia, e ouviu por fim o sermão. +Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia +pouco para a faculdade de theologia, terminando +o discurso e procurando motivos de emoção, clamava +no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar +o Christo morto na pobreza e no abandono, +Laura, sentindo um fremito mais de temor que de +piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas +lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente +acompanhando a onda de povo que se dirigia +á porta da egreja e entrou na carruagem.</p> + +<p>—Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é +tão descuidado... Nunca se lembra de trazer os escalfadores.</p> + +<p>Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia +noite. Ao entrarem em casa, encontraram um silencio +profundo e Laura dizia ao marido, já levemente +irritada:</p> + +<p>—Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem +sabia que eu tinha saido e jejuei todo o dia. +Que desmaselo!</p> + +<p>Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a +porta do quarto, quando n'um movimento de surpreza, +estacou.</p> + +<p>A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma +cadeira e adormecera.</p> + +<p>Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais +amargo lhe tornar o despertar, e n'um accesso de +colera indiscriptivel começou a bater-lhe e a injurial-a.</p> + +<p>—Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora +aqui?! gritava. O meu regalo era pôl-a immediatamente +no meio da rua.</p> + +<p>Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica +palavra.</p> +<span class="pagenum">[225]</span> + +<p>—E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que +homem este!</p> + +<p>Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura +acabava de receber? pensava Claudio. Era este o +modo por que commemorava os soffrimentos de Christo? +A surpreza turvava-o inteiramente e, como de +costume, a imaginação espraiava-se buscando illusões, +para retardar ainda por mais algum tempo a +convicção de que a sua vida estava unida á mais +cruel aridez do coração em que os seus sonhos de +piedade christã tinham de se dissipar.</p> + +<p>O filho era um acrescento ás vaidades de Laura. +Entravam na sala as visitantes e logo a ama o preparava +com rendas e fitas de seda para vir apresental-o. +Choviam então as exclamações. Ai! Mas que +belleza! Um mimo! Um apetite! E que gordinho!...</p> + +<p>—É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais +lisongeiras. É o retrato do avô.</p> + +<p>Laura passava então momentos felizes. Não era o +filho seu producto e propriedade, não vinham os +elogios cair directamente sobre ella, juntando-se aos +que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?</p> + +<p>A satisfação da vaidade continuava-se agora sob +uma nova fórma e, despedidas as visitas, voltava +risonha a contar a Claudio o que haviam dito a condessa +dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham +um encanto, uma belleza!...</p> + +<p>O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe +o desprezo que por ella começava a ter, +lembrando-se da indifferença com que abandonára o +filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o +para que os seus chóros não a importunassem +e principalmente do seu receio louco de ter novos +filhos.</p> + +<p>Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados +e os braços doridos das longas vigilias a amamentar +<span class="pagenum">[226]</span> +os filhos, com a imbecilidade risonha e paramentada +que tinha deante de si; a convicção do naufragio +das suas aspirações arreigava-se-lhe no espirito. +Nem já o filho lhe podia reanimar esperanças +O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..</p> + +<p>Laura continuava sempre estranha ao que se passava +no pensamento de Claudio.</p> + +<p>A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio +e posse a que a tinham habituado os mimos dos +paes, emquanto solteira, e que vira confirmados +pela submissa obediencia com que o marido se curvára +a todos os seus appetites durante os tempos de +gravidez. Queria saber todos os seus passos, queria +que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade +de sair sem previamente lhe dizer onde ia e para +que. Era um passeio em que procurava concentrar-se +algumas horas na reflexão sobre a sua malograda +existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, +que ella iria tambem. Eram negocios que tinha +a tratar? Escusava de sair e de a deixar só, tudo +se regularia por meio de cartas; e punham-se os +creados em movimento. O amor em Laura não era o +ardor de sacrificar-se á vida d'alguem, de viver para +outrem, era a paixão de possuir e conservar só para +si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. +Por isso dizia que tinha muito amor ao +marido e ao filho, e tomou por ingratidão o descontentamento +de Claudio, que percebia sem poder explical-o.</p> + +<p>—Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O +que eu lhe ouvi e o que agora vejo!...</p> + +<p>Succederam-se longos mezes sem que a situação +se modificasse apparentemente, porque no fundo ia-se +cavando a extincção de todo o affecto conjugal. +Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas +constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos +e entre duas maneiras de conceber a vida, o +<span class="pagenum">[227]</span> +egoismo que se occulta em convenções de religião +e de bondade, e a virtude que rudemente, por um +trabalho assiduo, procura servir o proximo.</p> + +<p>Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não +tinha uma hora sua, para os seus prazeres, para os +seus estudos ou para o seu trabalho; a sua existencia +estava completamente absorvida pelas exigencias +de Laura, pelas suas recepções, pelas suas visitas, +pelos cuidados e deligencias que lhe impunha, continuadamente +a caminho da pharmacia ou do consultorio, +se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço +ou se o filho se mostrava impertinente.</p> + +<p>O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando +uma vida de benedictino, affagada pelos carinhos +vigilantes da esposa, essa cella em que, lendo e pensando, +havia de alcançar o conhecimento da verdade, +que toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar +a existencia, estava hoje convertido n'uma simples +sala onde cada dia, em trajes bem talhados por +alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados +que vinham festejar os annos das pessoas +de familia—os pretextos de festas multiplicavam-se,—ou +pacientemente esperava Laura que, sem se +dar pressa, rematava a <i>toilette</i> para passeiar de carruagem, +ou se consumia em qualquer outro frivolo +mistér.</p> + +<p>Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a +quatro contos de réis de renda que Claudio possuía +e que em Albergaria lhe permittiam uma vida lauta, +sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de +Laura eram insufficientes para os seus habitos e costumes +fidalgos. Era preciso um cocheiro e um trintanario, +um jardineiro, um escudeiro, um hortelão, +uma creada para o serviço de Laura, uma outra para +a cosinha, uma outra para ajudante da cosinheira, +mais outra para o serviço das roupas, mais outra +para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de +<span class="pagenum">[228]</span> +recoveiros, de engommadeiras e as innumeras gentes +que frequentavam a cosinha da pequena casa da +estrada da Beira.</p> + +<p>Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido +quatro contos de réis além dos seus rendimentos. +Era a ruina. Queixava-se a Laura.</p> + +<p>—Tu bem sabes que não se póde viver com menos! +respondia ella com vivacidade. Só se queres +que eu lave a roupa e faça a cosinha...</p> + +<p>—Não, mas tudo tem limites.</p> + +<p>—Tem muita graça essas economias! Quem não +quer gastar, não se casa. Ou então casasses em Villalva, +com alguma rapariga de pé descalço. Não viesses +procurar uma pessoa fina.</p> + +<p>—Talvez não tivesse sido infeliz...</p> + +<p>—Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa +de meus paes muito bem, não me faltava lá nada. +Escusava de me vir metter n'este inferno.</p> + +<p>Claudio calava-se perante os modos irritados da +mulher. Por triste experiencia sabia que não lograria +convencel-a, e fugia de violencias inuteis. Interiormente, +porém, o desengano consumava-se e o +desprezo crescia, illuminado de rapidos clarões de +revolta.</p> + +<p>Começava agora a manifestar-se d'uma maneira +bem patente a sêde de libertar-se do jugo. Entrava +n'um periodo de desespero. Os momentos de tranquillidade +em que o espirito se lhe desanuviava e a +alegria parecia voltar, e que d'ordinario eram os que +passava conversando com antigos companheiros, já +não significavam esperança; eram apenas o natural +repouso das cogitações em que a sua infelicidade se +revolvia, reacção do pensamento fatigado de tristeza +e buscando espontaneamente uma atmosphera sã.</p> + +<p>Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que +não podia esperar de Laura outra cousa que não +fosse a futil existencia que até alli tinha levado; a +<span class="pagenum">[229]</span> +educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade +sem limites venciam todas as tentativas de conversão +que o marido tinha tentado, emquanto o habito +de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava +insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.</p> + +<p>—Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar +na bengala e pôr o chapéu na cabeça.</p> + +<p>—Passeiar e tratar umas cousas na baixa.</p> + +<p>—Mas eu preciso sair tambem...</p> + +<p>—Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.</p> + +<p>—Bons costumes! E muito delicados...</p> + +<p>Claudio não respondia; continuava o seu caminho. +Não tinha negocios alguns a tratar; o que queria era +libertar-se d'aquelle ambiente que o suffocava, distrair-se +em extensos passeios á beira do rio, na +contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis +mimosos ou encontrando quem lhe fallasse de coisas +ociosas que eram para o coração dorido um rapido +refrigerio.</p> + +<p>Bem sabia que por cada vez que desobedecia a +Laura teria alguns dias de despeitado mutismo, mas +a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos haviam-n'o +tornado indifferente a essa arma que a mulher +usára com proveito nos tempos em que elle esperava +vencel-a e conquistal-a pela doçura e pela +paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava +Laura ao proprio desespero, que era apenas o +castigo da ruindade dos seus sentimentos.</p> + +<p>Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar +as peiores noticias de Villalva. A mãe mandava-o +chamar; tivéra um novo ataque de paralysia +e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha +muito esperava essa má nova. Via o declinar da sua +velhinha, como lhe chamava, que já por duas vezes +fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o +proprio medico não lhe tinha occultado que era provavel +<span class="pagenum">[230]</span> +que se repetissem e que constituiam, uma +ameaça grave.</p> + +<p>Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe +pela derradeira vez. Laura quiz acompanhal-o, não +porque sentisse o menor respeito pela sogra, de cuja +rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia +de santo e de grande, mas porque julgava ser +proprio de gente fina acompanhar o marido em occasião +tão difficil. Elle, porém, instou e foi só; talvez +exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria +noticias e depois se resolveria como fosse melhor. +A verdade era que queria vêr-se sósinho com a mãe e +affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo +aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na +saudade d'aquella que fôra a maior affeição da sua +vida.</p> + +<p>Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira +d'alli toda a noite, dizia, nem sairia emquanto +Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe, acrescentava, +que o estado da doente era muito grave.</p> + +<p>—Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde +ir longe. É a sorte que a todos nos espera, e o dr. +Claudio, como homem intelligente que é, deve ter +coragem para se conformar com o destino.</p> + +<p>Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso +do doutor.</p> + +<p>—Posso fallar-lhe, não posso?</p> + +<p>—Póde... Ella por emquanto está ainda bem. +Mas não convém conversar muito. Sempre excita...</p> + +<p>Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada, +os olhos semi-cerrados, unicamente acompanhada +pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.</p> + +<p>A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o +lenço ao rosto a occultar as lagrimas que lhe rebentaram +n'uma contracção afflictiva. Depois, dominando-se, +chamou baixinho:</p> + +<p>—Minha mãe, minha mãe?</p> +<span class="pagenum">[231]</span> + +<p>—O que é? respondeu a velhinha abrindo os +olhos.</p> + +<p>—Está aqui o Claudio.</p> + +<p>—Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com +a mão esquerda, que o braço direito estava completamente +paralytico. Estou muito mal... É tempo de +dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que +cá viesses hoje...</p> + +<p>Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras +tardavam e a voz embaraçava-se.</p> + +<p>—Está assim, disse a irmã de Claudio. Falla quando +a chamam, diz meia duzia de palavras e depois +fica outra vez n'esta somnolencia. Já não se lembra +de que foi ella que te mandou chamar.</p> + +<p>Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo +da meia noite, a velhinha moveu-se no leito. +Claudio perguntou:</p> + +<p>—O que tem? Quer alguma cousa?</p> + +<p>—Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.</p> + +<p>A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se +da mãe, a observal-a. Pareceu-lhe alterada +a face; para vêr melhor, desvendou a luz que estava +sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno +bahú de coiro, antiga herança da casa em que o pae +guardava os titulos das suas propriedades.</p> + +<p>—Luiza, Luiza! gritou chamando a irmã.</p> + +<p>O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e +Claudio, ancioso, sem articular uma palavra, apenas +poude apontar para elle.</p> + +<p>Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em +breves momentos, jazia inerte aquelle corpo que os +animára com o seu alento e que lhes legava a eterna +luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.</p> + +<p>Houve certo rumor em toda a casa, dos creados +que saiam a levar ordens para o enterro, a prevenir +<span class="pagenum">[232]</span> +o parocho e os armadores. Depois, pelas duas horas, +tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam +o corpo da mãe, pallida e serena, vestida de +negro, coroada de cabellos brancos, sobre o leito, +mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam +o crucifixo, em cima da commoda, convertida em +altar.</p> + +<p>Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos +que vinham com palavras de sentimento, e muitos +com lagrimas, offerecer os seus serviços. Dirigiam-se +a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao +sair, entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto +do cadaver.</p> + +<p>Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. +Claudio abraçou-os, soluçando n'uma crise de lagrimas.</p> + +<p>—Vae vel-a, disse para a mulher.</p> + +<p>Na confusão do seu espirito perpassou a esperança +d'um milagre. A mãe havia de converter a esposa; +dos tristes despojos d'aquella que fôra uma santa +emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade +e o amor.</p> + +<p>Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente +de Albergaria que correu a Villalva. O enterro foi +á tarde. Quando chegou a noite, voltou a paz. Tudo +parecia dormir.</p> + +<p>No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha +pressa de restituir a mulher á sua casa e ás suas +commodidades. Sabia que ella não podia estar contente +ali, servida por creados rusticos, e a sua presença +perturbava-o.</p> + +<p>Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu +espirito era completa, tudo o que conscientemente +sentia era uma fadiga extrema. Voltava a Coimbra, +lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á +irmã e partiu.</p> + +<p>Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá +<span class="pagenum">[233]</span> +tinha chegado, succediam-se sem interrupção as visitas +de gente fina que vinha trazer-lhe consolações +banaes, em palavras que no correr do dia ouvia innumeras +vezes.</p> + +<p>Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava +tratar de partilhas e regular os seus negocios, +mas a verdade é que queria estar só com as suas +saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria +concentrar-se na meditação, tentar descobrir e +vêr claro o estado da sua alma. Contrariedades, esperanças, +desillusões e uma infinita saudade batiam-n'o +sem cessar como o lebreiro persegue a caça. +Fugiria? Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se +mais uma temerosa batalha.</p> +<span class="pagenum">[235]</span> + + + + +<h1>VI</h1> + + +<p>Villalva! O silencio e a paz no contacto +da natureza, a absorpção no seu caudaloso +palpitar, o arrebatamento nas +suas emanações purificantes! Perante a +cintura de montanhas que lhe cerravam +o horisonte, lançando os olhos pelo valle +em que os casaes dormiam escondidos +no arvoredo ou debruçados á beira dos +campos vicejantes, Claudio sentia uma +vaga aspiração, um desejo obscuro cortado +de saudades traduzindo-se n'um +pullular de interrogações que opprimiam. +Onde estava? Por que agrestes caminhos tinha +andado? Onde ia? O que queria?</p> + +<p>Só, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros +risos e as suas primeiras lagrimas, perante o vulto +sagrado da mãe, agora sempre presente aos seus +olhos, resurgindo reanimado, para não mais morrer, +na exaltação d'uma immarcessivel lembrança, reconstituia +a sua existencia, recordando factos, buscando +<span class="pagenum">[236]</span> +ainda, com uma tenacidade de naufrago, esperanças +de salvação.</p> + +<p>O desengano esmagava-o; já não podia ter duvidas +sobre a situação a que chegára, a historia da sua +vida era um livro aberto em que não ficava o mais +breve enigma nem a mais passageira obscuridade. +Recordava os annos da infancia e mocidade, o respeito +pelo trabalho e pela humildade de que seus +paes lhe haviam dado lição profunda no exemplo +ininterrompido, via como depois surgira a tentação +accendida pelas fascinações da sciencia materialista +e pelas perversões da riqueza, e sentia ainda com +angustia a tortura em que o lançára o tormentoso +desvairamento do adulterio.</p> + +<p>Casára-se para se salvar. Não desenganado ainda +sobre a significação moral da vida elegante, confundindo +o luxo e a arte, a delicadeza do espirito e os +cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia +fidalga sonhando a alliança d'uma simplicidade +christã com os requintes artisticos e os gozos e as +commodidades da gente fina.</p> + +<p>Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido +dolorosamente e profundamente. Encontrara um +egoismo sem limites, occultando-se em palavras doces +e sorrisos convencionaes, onde esperava uma +alma aberta á sympathia, ao amor e ao sacrificio; +encontrára uma inconsciente crueldade onde phantasiára +uma perenne bondade e denguices sentimentaes +no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora +tudo estava perdido, sem remedio.</p> + +<p>Quando fôra dos amores de Emilia, era livre, senhor +de recomeçar a sua vida; ligado pelo casamento +seria arrastado na sua desgraça sem remissão. +Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura, +os continuados motivos de desgosto que ella lhe dava +e que por constantes definiam a sua vida normal; os +ralhos e a odienta brutalidade com os creados, a +<span class="pagenum">[237]</span> +aversão aos pobres e aos mendigos, o horror da procreação +e essa avidez feroz com que reclamava o +marido só para os seus prazeres, para os seus vicios +e para as suas futilidades fidalgas, não lhe permittindo +um momento de liberdade, não lhe concedendo, +n'uma hora de bondoso desprendimento, que vivesse +para si, para os seus trabalhos, para o seu repouso, +ou, mais singelamente ainda, para as suas +meditações.</p> + +<p>Na verdade, não tivera com Laura um só acto de +violencia, não podia dizer quando começára esse +sentimento indefinido que o fazia temer a sua presença +e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por +isso a dissolução era menos completa; infiltrára-se-lhe +na alma, subtilmente, impregnando-a dia a dia +mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do +fél que trasbordava jorrando um sombrio desespero.</p> + +<p>Como supportára até então essa cruz, porque não +fugira ha mais tempo do logar em que um tormento +incessante o perseguia? Não tinham sido as esperanças +de emenda da parte de Laura que o tinham +contido. Essas perdera-as por completo quando o filho +nascera; a mesquinhez da sua alma revelára-se +então sem rebuço, deixando-lhe no espirito uma +arreigada convicção que, de resto, os factos quotidianos +confirmavam tenazmente.</p> + +<p>Rememorando as mortificações que soffria, persuadia-se, +n'um exame da propria consciencia, que +só por amor de sua velha mãe occultára a sua desgraça +tentando deixar-lhe sempre a impressão de +que vivia feliz. Sim, só por ella bebera corajosamente +esse calix sem trepidar, sem uma apparente contracção, +para que a tristeza não perturbasse a sua +velhice e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade +de quem louva a Deus por ter abençoado +de felicidade a sua próle.</p> +<span class="pagenum">[238]</span> + +<p>Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo laço +que o ligava á terra! Aquelles cyprestes que além +oscilavam ao vento junto á egreja, tinham agora +para Claudio uma fascinação estranha. Os seus olhos +não se desprendiam d'esse pedaço de terra, interrogadores, +fitando os tumulos, buscando a revelação +do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua +mãe, o seu grande affecto? Dormia já para sempre. +Para Laura, sua esposa? Era alheia ao seu coração +e, ámanhã, quando o tivessem lançado ali ao pé de +sua mãe, havia de cobrir-se de crépes finos, e correria, +em carruagem, a fazer mesuras lacrimosas +por casa dos parentes fidalgos, e bateria nos creados +quando errassem e em accessos de ira expulsaria os +mendigos do jardim.</p> + +<p>Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante +a imagem d'essa dôr mentirosa, ávida da vida, +d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do mundo +crescia no seu coração. Viveria para o filho? Nada +podia esperar d'elle. Havia de crescer ao sabor dos +caprichos da mãe. Já uma atmosphera de louvores e +constante lisonja começava a tornal-o enfadonho e +falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de +regalos, a perversão mostrar se-ia completa. Melhor +seria livrar a tempo os seus olhos d'essa imagem em +que veria incessantemente a miseria do seu destino. +Viver para os estranhos, para os desconhecidos, +para uma vida de caridade, enxugando lagrimas, +agasalhando os indigentes, levando consolo aos desventurados? +Era tarde! Toda a energia estava extincta, +consumida na propria desventura. Viver para +os prazeres do corpo, lançando para longe todas as +preoccupações moraes, despindo-se affoitamente +d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando +a casa da estrada da Beira sob a impertinente +insolencia da mulher, sentira os impetos d'uma reacção +naturalista que o vigor dos annos atiçava mas +<span class="pagenum">[239]</span> +de todas as tentações logo accordava pela lembrança +dos tormentos passados em Albergaria da Serra +nos tristes annos dos amores de Emilia e pela perseguição +de invenciveis espectros da consciencia em +que as aspirações de virtude se confundiam com a +imagem da sua mãe, no intimo sempre presente.</p> + +<p>Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano, +privada de todas as alegrias que ambicionára, +continuamente retalhada de dôres? Tivesse a coragem +de anniquillar os restos inuteis do seu corpo. +Para que servia n'este mundo? O pão que o alimentava +queimava-lhe os labios como um roubo ao trabalho +dos que eram sãos, vivendo no amor, e o suicidio +não seria um crime nem uma deserção, era +uma obra de caridade livrando a humanidade d'um +ser enfermo e esteril, era um acto de justiça, reconhecendo +e castigando o desvairamento da sua existencia +perdida em sonhos vãos e agora sacrificada á +frivolidade d'uma mulher. Uma pesada sombra lhe +escurecia então o pensamento e olhava esse abysmo +eternamente mysterioso como o mar calmo em que +precisava lançar-se para seu repouso, para sua gloria, +para sua redempção.</p> + +<p>N'esta febre havia porém remissões. Pela manhã, +desde que fallecera a mãe de Claudio, a casa de +Villalva era invariavelmente visitada pelos devedores, +pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella +dependiam.</p> + +<p>Vinham regular as suas contas, pedir perdão das +dividas em atrazo ou que lhes esperassem pelo pagamento +das rendas caidas, saber se poderiam contar +com as terras, o que seria de futuro, a quem +pertenceriam.</p> + +<p>Era gente rude, vestida de burel, mostrando no +peito uma camisa grosseira, de grandes e toscas botifarras, +muitas vezes descalça, tendo deixado á +entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres +<span class="pagenum">[240]</span> +vinham tambem; por homenagem ao novo senhor +traziam-lhe aves que iam levar a cosinha, em +pequenas cestas.</p> + +<p>—Ai, Senhor! Está no ceu, era uma santa; diziam +gemendo para que Claudio ouvisse e se compadecesse +da sua pobreza.</p> + +<p>Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios, +começavam a falar dos seus males, este dos +gados que lhe morreram, aquelle das doenças que +houvera em casa, est'outro das más colheitas e dos +maus preços. Terminavam pedindo alguma cousa. +Por alma da senhora sua mãe... rematavam.</p> + +<p>Claudio, a essa invocação, que bem sabia ser banal, +não tinha coragem de resistir. Era no seu espirito +uma instantanea resurreição de qualquer cousa +sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.</p> + +<p>De resto, as horas que passava com os arrendatarios, +com os devedores e com os creados que vinham +receber ordens e dar contas das suas obrigações, +eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os +comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples. +As riquezas do mundo encerravam-se em algumas +medidas de pão guardadas na arca, em meia duzia +de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto +o rebanho vae traçando o pasto, e tecido +nos serões de inverno á minguada luz d'uma candeia.</p> + +<p>Moral, problemas da alma não existem. «Tu comerás +o pão com o suor do teu rosto», é tudo, um +evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o sustento +que ella nunca recusa ao teu suor, não contes +os teus passos, nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha +sempre, para ti, para os filhos, para os visinhos, +para os viandantes que passam no caminho; não +penses para que nem para quem, os necessitados +<span class="pagenum">[241]</span> +te virão buscar o pão, como nas horas de miseria tu +irás tambem viver do trabalho alheio.</p> + +<p>A suprema lição era-lhe dada por aquelles que esmolavam +e nada pretendiam ensinar. De tanto estudo +e ambição, de todas as suas cogitações e de todos +os seus loucos anceios de perfeição, recebia alli +correctivo.</p> + +<p>Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera +n'essa noite em que, creança ainda, pela primeira +vez deixára Villalva para ir buscar riqueza e +saber que tão cedo se converteriam em infortunio, +e a ideia da morte voltava como a unica redempção.</p> + +<p>Laura escrevia-lhe longas cartas. Que não sabia +que crimes eram os seus para que assim fosse abandonada, +que todos a estimavam e adoravam, menos +elle; que só á inconstancia dos homens podia attribuil-o +pois ella, se por alguma cousa peccava, era +pelo muito amor que lhe tinha. O que diriam, perguntava, +todas aquellas pessoas com quem convivia +ao saber que Claudio desertara a sua casa quasi +completamente? Por certo haviam de o condemnar.</p> + +<p>No fundo, essas cartas eram apenas a confirmação +do que Claudio por demais conhecia, a vaidade +da mulher, a crença nos seus merecimentos alimentada +pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma +vontade insaciavel, absorvente, de ser senhora de +todas as acções do marido.</p> + +<p>Não mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um +objecto que era seu, para seu uso e regalo e não +para viver para elle, sacrificando-se. Confirmando a +sua infelicidade, lançavam-n'o em novos impetos de +desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar +das suas cogitações podesse surgir.</p> + +<p>Uma tarde, como estivesse só, desceu abaixo, ao +campo em que empregára tantos cuidados quando +<span class="pagenum">[242]</span> +habitava em Albergaria. Custava-lhe vêl-o; tinha +caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes +dos amores de Emilia em que julgára ter alcançado +a felicidade. Com que risonha esperança alli se +sentára em mornos crepusculos do estio e em que +desvairada agonia alli chorára as lagrimas da sua +culpa!</p> + +<p>Apezar d'isso, aquelle pedaço de terra atraia-o. No +seu proprio abandono havia uma belleza consoladora; +os jacinthos que brotavam entre a herva, as roseiras +que se perdiam nos ramos das larangeiras, +todo esse desalinho da natureza a que era estranha +a mão do homem, cantava a vida ingenua e simples +em emanações de viço e de frescura.</p> + +<p>Estavamos em fins de fevereiro. Pela manhã chovêra +e o campo brilhava todo aljofrado de gottas de +agua.</p> + +<p>Claudio abriu a cancella embaraçada nas trepadeiras +que a enleiavam e olhou procurando um +carreiro enxuto. Não havia; as hervas ruins cobriam +todos os caminhos.</p> + +<p>Quasi a seus pés, descobriu uma violeta. Abaixou-se +para a colher. Reparou então que eram muitas estendendo-se +pela beira do caminho, rompendo por +meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra +das acelgas.</p> + +<p>Instinctivamente, começou a limpar o chão das +plantas parasitas, primeiro devagarinho, com medo +de se sujar e de se picar nas ortigas, depois affoitamente, +sentindo um prazer estranho em afundar os +dedos na terra. As violetas iam surgindo e, assim +libertas, pareciam grandes e bastas.</p> + +<p>Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim +não podia mais, todo o corpo mortificado pela posição +em que estivéra, abaixado. Levantou-se, contemplou +com alegria os poucos palmos de terra que tinha +limpo, e, para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados, +<span class="pagenum">[243]</span> +enlameando-se, sem receio, procurando as +plantas que tinham resistido ao abandono.</p> + +<p>No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho, +á tarde, depois de ter recebido os clientes. Antes de +sair, voltou a vêr as violetas. Abaixou-se novamente, +teve tentações de continuar, mas não podia mais, +os membros entorpecidos.</p> + +<p>—Amanhã! amanhã! pensava subindo a encosta.</p> + +<p>Aquelles momentos tinham sido porém uma revelação. +Apetecia-os com frenesi.</p> + +<p>Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao +campo. Trazia a ferramenta, o sacho, a thesoura e a +navalha, para poder repousar d'um em outro trabalho. +Voltou ás violetas. Não podia abaixar-se, o corpo +dorido ainda do exercido da vespera. Começou a +sachar um alegrete, mas o serviço ia mal feito, deixava +escapar algumas hervas e a terra ficava aos montes, +mal arrasada. Despiu o casaco; o sol começava +a apertar pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras, +mas a mão tremia-lhe, o córte era incerto, +mal rematado.</p> + +<p>Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada +pelos vendavaes do inverno. Que infelicidade a sua! +Quanto desejava, tudo lhe era vedado. Não poder +trabalhar alli desde o romper do dia até á noite!... +Seria a salvação. Affluiam as lembranças da mocidade, +o prazer de cuidar das suas flores que a mãe +vinha colher para pôr aos pés do crucifixo. Porque +não tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo +ainda, as forças voltariam com o uso.</p> + +<p>Cada dia começou então a ter para Claudio os seus +momentos de prazer. As violetas expandiam-se agradecendo +os carinhos de quem lhes déra espaço e sol, +as roseiras mostravam purpureos e tumidos botões e +já da cylindra se erguiam suavissimos perfumes. +Era uma festa interminavel que recrudescia a cada +<span class="pagenum">[244]</span> +instante em novas vibrações de vida, coroando e +abençoando o esforço humano.</p> + +<p>Claudio sentia-se alegre junto da nova companheira +da sua vida, a natureza, e tenazmente procurava +vencer e sujeitar o corpo debil ao seu grande amor.</p> + +<p>No dia em que pela primeira vez lançou mão da +enxada, passou-se na sua alma um grande drama, +uma lucta gigante entre o destino e a esperança. +Ergueu a enxada ao ar, deixou-a cair, guiando-a, e +cravou-a no sólo. Depois, firmando-se, recuou o corpo +e voltou a leiva cortada cerce, rompendo a terra +de cuja escuridão se desprendia um alento de fertilidade, +como uma promessa. Ergueu novamente a enxada, +cravou-a, recuou e voltou uma outra leiva. +Triumphava! De repente, porém, cairam os braços e +um suor de fadiga se lhe derramou em todo o corpo. +Não podia! O esforço era superior ás suas forças; +uma reacção violenta quasi o prostrava. Encostou se +á enxada e duas gottas de suor, rolando-lhe pela +fronte, foram beijar a terra. Mysterioso hymeneu!</p> + +<p>N'aquelle beijo consumava-se um eterno amor. A +esperança, succedendo ao desalento, reanimaria o +corpo enfermo e d'aquella união, fecunda e casta, +sem peccado, brotariam fructos abundantes para matar +a fome aos miseros famintos e para restituirem +á vida a alma angustiada.</p> + +<p>Dentro em breve, poderia trabalhar quatro a cinco +horas no seu campo, vencendo pelo exercicio e pela +perseverança a debilidade physica, affrontando as +instancias dos servos, que se julgavam humilhados +vendo regeitados os seus serviços, e desprezando risos +equivocos dos visinhos que entre si discutiam se +Claudio era um avaro, se um louco.</p> + +<p>—É aquelle mesmo genio do pae, diziam uns. +Muito agarrado!</p> + +<p>—Qual genio! diziam outros. Foi uma mania que +lhe deu. Elle não faz aquillo para poupar. Parece até +<span class="pagenum">[245]</span> +que se importa pouco com o que é seu. Tem perdoado +as dividas todas e traz as rendas de rastos.</p> + +<p>Para preencher o muito tempo que lhe sobrava do +trabalho n'aquella estreita lavoura, Claudio tomára á +sua conta alguns serviços de casa mais ligeiros. Era +elle que olhava pelo penso das aves e dos gados que +breve aprenderam a conhecel-o e a festejal-o na sua +caracteristica e descompassada alegria, abeirando-se +do seu senhor com as caricias de gratidão que elle +recebia com avidez, elle que era tão pobre d'essas +dadivas.</p> + +<p>Mas não podera banir ainda todas as horas de +angustia; a fadiga e os novos prazeres d'esta existencia +nas graças da natureza não tinham vencido +inteiramente as tristezas da meditação. Ás vezes +voltavam os zumbidos demoniacos do desespero e +com elles a prostração do espirito. Não, não havia +modo de se libertar e desprender do passado! A sua +vida estava finda, precisava ter a coragem de comprehender +e esperar com resignação o esphacelamento +d'esse involucro que se lhe afigurava desprezivel +e que era o seu corpo.</p> + +<p>De longe em longe, vinha a Coimbra. Não tinha +animo para um rompimento formal; a dissolução dos +antigos vinculos ia lenta, com bastas interrupções, +prendia-se em conveniencias que não conseguira +combater victoriosamente, e com os estranhos mostrava +cuidar da administração da casa e estar preso +em Villalva por interesses temporaes.</p> + +<p>Laura recebia-o com um azedume que não procurava +encobrir, mitigado de contentamento por ter +ensejo de mostrar quanto se sentia aggravada pelas +ausencias e pelo viver do marido. Na sua impenitente +vaidade, julgava se perfeita; attribuia o affastamento +de Claudio a sentimentos brutaes e ruins.</p> + +<p>Já a mãe deixava entrevêr nas suas conversações +<span class="pagenum">[246]</span> +entre os intimos a infelicidade da filha e não perdia +occasião de repetir:</p> + +<p>—Coitadinha! Quasi sempre só... Meu genro tem +aquelles gostos extravagantes. Só está bem entre +brutinhos.</p> + +<p>Claudio comprehendia o que se passava em volta +de si; pouco fallava, cortando sempre abruptamente +qualquer tentativa de explicação sobre o seu viver.</p> + +<p>Antecipadamente sabia, por experiencia, que nem +a mulher lograria fazel-o mudar de rumo nem elle +conseguiria emendar o insubmisso caracter da mulher, +formado para o egoismo e para a vaidade n'uma +atmosphera de inconsciente perversão. Por isso se +tornára taciturno. Quando por acaso se encontrava +nos serões do palacio da estrada da Beira, apressava-se +a tomar logar a uma meza de jogo onde o dispensassem +de conversar e não o perseguissem com +indiscretas e enfadonhas interrogações sobre os seus +passos e os seus actos.</p> + +<p>Logo que podia, ao minimo pretexto, corria a +Villalva, lançando fóra com desprezo o casaco que o +embaraçava de trabalhar e a gravata que tinha por +um farrapo inutil e significativo; mal vestido e mal +calçado, começava a visitar os gados e as plantas, +retemperando-se no silencio d'aquellas montanhas; +e este regresso ao ninho, como lhe chamava, deixava-lhe +invariavelmente nas primeiras horas a impressão +d'uma felicidade reconquistada e segura. +Accordava-o uma vibração salutar, emanada d'esses +milhões de vidas, mudas para o coração arido, eloquentes +para os que palpitam na mesma onda.</p> + +<p>Em frente da casa de Claudio morava um velho +que fôra creado de seus paes. Juntara um escasso +mealheiro á custa d'uma economia inflexivel, casára +com a visinha que possuia aquelle albergue em que +habitavam, e com isso e com as terras que o seu +<span class="pagenum">[247]</span> +antigo senhor lhe déra de renda tinha prosperado +em certa independencia.</p> + +<p>Do seu casamento houvera muitos filhos, mas uns +tinham ido para o Brazil, outros trabalhavam em +Lisboa, outros tinham-se casado, outros morrido, e +em casa, a este tempo, tinha só um rapaz de quatorze +annos que o ajudava na lavoura e uma filha de +vinte annos, e de nome Maria, que no labutar domestico +auxiliava a mãe alquebrada pelos partos, +pela creação dos filhos, por quarenta annos de ininterrompidas +fadigas.</p> + +<p>Claudio olhava aquelle casal como um templo em +que se guardava pura a felicidade e a virtude. Era +aquillo que elle hoje desejaria para si, se podesse recomeçar +a sua vida;—ter tirado da terra com o suor +do seu rosto o pão de cada dia e ter dado ao mundo +uma numerosa próle de gente honesta e sã.</p> + +<p>Muitas vezes, ao recolher, quedava-se longas horas +a conversar com o visinho, interrogando-o com +uma curiosidade insaciavel, como começára, d'onde +viera para alli, como conseguira crear os filhos. O +velho contava singelamente; parecia sentir prazer +em rememorar o passado. Para comprar os primeiros +gados ainda pedira dinheiro ao pae de Claudio, que +o do mealheiro não chegava.</p> + +<p>—Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narração, +tinha aquelle genio... Para os desmazelados +era todo imperioso, mas para quem lhe andasse direitinho +era bom, gostava de os ajudar. A mim, +era elle mesmo que ás vezes me dizia: Porque não +compras mais uma junta de bezerros? Tens ahi tanto +pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o +alli, áquella arca da sala onde a sr.<sup>a</sup> sua mãe, +Deus lhe perdoe, guardava as arrecadas e o cordão. +Devo-lhe muito. E cá a minha serva de Deus tambem +me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam. +O Julio morreu mais cedo, era um rapagão! +<span class="pagenum">[248]</span> +tinha já sete annos. Veio-lhe esta doença, aqui á +garganta, não sei como lhe chamam, e ficou suffocado. +Mettia dó. Mas emfim... Deus Nosso Senhor assim +o quiz.</p> + +<p>Entretanto a rapariga passava levando para a ceia +a hortaliça lavada na ribeira; accendia a candeia, e +começava a cortal-a num alguidar, sobre a meza. +A mãe conchegava o lume á panella de barro, negra, +em que a agua já fervia.</p> + +<p>Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adoração +em que se envolvia a tristeza da sua vida desbaratada.</p> + +<p>Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse +já alto e a fadiga o prostrasse, procurando a sombra, +sentou-se junto a uma oliveira, ao pé da cancella, +enxugando o suor.</p> + +<p>Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado, +descalça, o pé comprido e magro, erguendo os +braços a amparar o açafate que trazia á cabeça, cruzado +no peito o lenço branco de ramagens vermelhas.</p> + +<p>—Dá Deus nozes a quem não tem dentes! disse +ella avistando Claudio. Isso até é peccado andar assim +a cançar-se sem precisão...</p> + +<p>Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia á +rapariga, embaraçado, como desculpando-se, attentou +na sua belleza.</p> + +<p>Era alta, nervosa, olhos garços, cabellos louros, e +assim de pé, sorrindo, os braços erguidos, lembrava +uma estatua antiga, d'estas em que cristalisa o ideal +feminino d'um povo inteiro.</p> + +<p>—Que linda me pareces! exclamou depois de ter +procurado justificar-se das suas fadigas que Maria +tanto estranhava.</p> + +<div class="centrado"><img src="images/005.jpg" alt="—Que linda me pareces!"></div> + +<p>—Eu! Linda!...</p> + +<p>E riu-se.</p> + +<p>—Mal diria que havias de ser bonita quando estava +<span class="pagenum">[249]</span> +em Albergaria e vinha aqui ás tardes. Ainda +me lembro bem!... A maior parte das vezes encontrava-te +a guardares as ovelhas com o cesto da meia no +braço e o fio d'algodão preso no hombro. Agora estás +uma moçoila que os rapazes hão-de cubiçar.</p> + +<p>—Não, não se quer d'isso, respondeu ella lisongeada +e ao mesmo tempo envergonhada com o elogio, +contorcendo-se timidamente.</p> + +<p>E seguiu ladeira acima.</p> + +<p>D'ahi em deante, Claudio começou a prender-se á +rapariga. Prolongava a conversa, á noite, com o pae +d'ella para a vêr risonha e deligente a cuidar da +casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a á +cancella do seu campo. Não trocavam palavras de +amor; elle interrogando-a sobre o seu viver, sobre +as suas ambições e os seus prazeres, procurando penetrar +a sua alma, ella respondendo laconica, com +um inalteravel sorriso em que revelava meigamente +a sua sympathia.</p> + +<p>Claudio, reflectindo na attracção que sentia por +Maria, tentava convencer-se, a poder de logica, de +que não tinha tomado novos amores. Era um +symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava +a suprema sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a +com um fervor intimo, agradecendo-lhe a revelação +d'esse mundo de paz e de felicidade. Não passaria +d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia; +queria coroar pela castidade esse novo culto.</p> + +<p>Maria tinha um campo proximo áquelle em que +Claudio trabalhava e onde elle, na impaciencia de a +vêr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde a +conversa alongou-se e, já proximo da noite, passou +na estrada um rapaz ligeiro e agil, com um vigor de +mocidade que ao primeiro olhar se mostrava. Ella, +vendo-o, disse para Claudio:</p> + +<p>—São horas. Vou-me até casa.</p> +<span class="pagenum">[250]</span> + +<p>E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao +lado.</p> + +<p>Claudio abaixou-se tambem para a ajudar.</p> + +<p>—Oh, Maria! Isso é que são creados!... Muito +boa noite, sr. doutor, gritou de longe o rapaz alegremente.</p> + +<p>—Quem é este rapaz? disse Claudio com certa anciedade, +parecendo-lhe na frouxa luz do crepusculo +que um ligeiro rubor se derramava nas faces da rapariga.</p> + +<p>—Então não sabe?... Elle conhece-o. Deu-lhe as +boas noites.</p> + +<p>—Mas não sei quem é. Não me lembra de o ter +visto.</p> + +<p>—Já lá tem ido a casa. É o filho do tio Antonio +da Azinhaga. Móra lá mesmo.</p> + +<p>Claudio estremeceu. Passava-lhe uma suspeita no +espirito. Áquella hora... fazendo caminho por ali.. +o modo como se dirigiu a Maria... Adivinhava! Era +o seu namorado!</p> + +<p>—Elle gosta de ti?! perguntou apressadamente.</p> + +<p>—Creio que sim, respondeu Maria serenamente. +Pelo menos assim o diz.</p> + +<p>—E tu gostas d'elle?</p> + +<p>—Não sei... Quando ouço essas coisas, parece-me +que não são comigo. Nunca acredito no que me +dizem.</p> + +<p>A conversa não continuou. Claudio, confundido, +despediu-se de Maria.</p> + +<p>—Vou ainda dar um passeio, disse. O luar está +tão lindo!...</p> + +<p>Desceu a tomar a estrada que seguia á beira da +varzea ladeada de oliveiras. A lua subia n'uma serenidade +divina, espargindo docemente a sua luz, e +do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina +pousava, erguia-se uma tranquillidade augusta em +que se sentia a terra latejante de vida. Claudio parou, +<span class="pagenum">[251]</span> +voltado para o nascente, ouvindo na contemplação +as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava. +Era certo, era certo! As aves que arrulhavam na +rama dos pinheiros, o musgo que rastejava pelos +troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato +polia, as aguas que desciam pressurosas, todos n'um +côro unisono cantavam louvores ao seu destino. Só +elle estava proscripto da alegria, pela propria loucura!</p> + +<p>Sentou-se á beira do caminho, a cabeça pendida, +amparada entre as mãos, n'uma agonia de tristeza.</p> + +<p>D'onde lhe vinha essa dôr que tanto contradizia a +natureza feliz? Bem o sabia; o seu coração já +não se illudia. Uma oppressão de inveja e de ciume,—eis +o segredo de tanta mágoa. Maria tinha o seu +namorado. Corára quando o avistou e quiz logo voltar +a casa. Amava-o, era indubitavel. Em poucos +mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam +de celebrar na madrugada a sua união e elle havia +de ouvil-os annunciando-lhe a sua desgraça. Que +importava?! Não fizera voto de castidade? Não era +Maria uma simples imagem perante a qual ajoelhava +na adoração da simplicidade? Tivesse animo, desprendesse-se +por uma vez das ambições terrenas, +elevasse a sua alma ás regiões de eterna beatitude.</p> + +<p>Embora! Repetia as palavras do Evangelho: «O +espirito é prompto mas a carne é fraca», e não conseguia +libertar-se da propria fraqueza, reconhecendo-a +e condemnando-a na sua consciencia. Todos os +raciocinios eram impotentes para dominar a dôr. A +lembrança de que estavam terminadas as horas em +que a voz de Maria, como um canto de feiticeira, lhe +fazia esquecer toda a desgraça da sua vida, esmagava-o. +Iam roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.</p> +<span class="pagenum">[252]</span> + +<p>A noite foi de agitação. Aos primeiros alvores da +manhã, por que anciava, ergueu-se e de casa começou +a espreitar a saida de Maria. Não tardou que ella +apparecesse á porta, com um cesto de roupa á cabeça. +Ia á ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos +para a casa de Claudio.</p> + +<p>—Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitará o meu +tormento?</p> + +<p>E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por +atalhos, a cortar-lhe o caminho. Chegou abaixo, proximo +do rio, e começou a subir a encosta. Em breve +a encontrava.</p> + +<p>—Bom dia, minha rola!</p> + +<p>—Que madrugada!... Quando saí, olhei lá para +casa e vi tudo socegado. Pensei que ainda estivesse +a dormir.</p> + +<p>—Não, não dormi bem. Dize-me uma coisa, perguntou +abruptamente: Quando é o teu casamento?</p> + +<p>—Para a semana dos nove dias.</p> + +<p>—Mas aquelle rapaz que hontem passou por nós, +quer casar comtigo...</p> + +<p>—Quer... mas eu por emquanto é que não quero +casar-me. Já lh'o disse.</p> + +<p>Para Claudio estas palavras foram um completo +allivio.</p> + +<p>Restituiam-lhe Maria, restituiam-lh'a pelo menos +para a sua admiração, para na sua singeleza reanimar +a alma enferma de cogitações e contrariedades. +Agradeceu-lh'o com um olhar, sem se atrever a uma +confissão em que temia manchar a candidez dos seus +sentimentos, e voltou a casa alegre e repousado, cantando, +a cuidar dos gados.</p> + +<p>Continuava o idyllio, as palestras com Maria e o +trabalho na lavoura. Sentia-se vigoroso e forte; nenhumas +fadigas o alquebravam. Pela madrugada estava +a pé, distribuindo o penso aos gados. Almoçava +um pedaço de brôa com um ligeiro condimento e vinha +<span class="pagenum">[253]</span> +para o campo. Não havia já serviço de que não +fosse capaz; tudo estava em o saber distribuir e alternar. +Prendia-se á terra com um amor febril, talvez +n'uma vaga ambição de igualar Maria e por isso +melhor a merecer. A rapariga estranhava todos os +devaneios de Claudio, perguntava-lhe se não era +melhor viver na riqueza, mas sorria perante as razões +que elle lhe dava e que despertavam no seu +coração um impulso de meiga sympathia.</p> + +<p>Um dia, Claudio veiu para o trabalho sem ainda +ter visto Maria. Algumas vezes isso lhe acontecia +mas sempre o deixava aprehensivo e triste; então, o +trabalho caminhava lento, os braços a custo podiam +com a enxada. Era mal sem remedio; a mãe de Maria +é que distribuia o serviço e nem sempre podia saber +antecipadamente em que se consumiria a manhã.</p> + +<p>Como era dia de mercado, suppoz que tivesse saido +mais cedo e resignou-se com a lembrança de a +vêr no regresso. Embalde porém a esperou. Maria +não veiu, em todo o dia não poude encontral-a. Ficava +inquieto. O que seria? Doença? Teria partido +para fóra da aldeia? O espirito perdia-se-lhe em conjecturas. +Pensava em parar á tarde a conversar com +o pae, como fazia muitas vezes, mas o velho veiu a +casa de Claudio para vêr umas vitellas que este mandára +vir de Miranda e por ali se quedou, no pateo, +até á hora da ceia.</p> + +<p>Desfeita esta ultima esperança, a inquietação redobrou. +Para a acalmar, saiu n'um longo passeio, +subindo pelos atalhos da serra. Queria muito áquella +aspera nudez dos montes, que infundia na sua alma +sentimentos de força e tenacidade na vida ingrata, +sujeita ao açoite de todas as intemperies, despida de +todo o viço e de toda a doçura.</p> + +<p>A noite ia adeantada, já ha muito tinham batido +as dez horas. Desceu á aldeia.</p> + +<p>Quando avistou a casa de Maria, pareceu-lhe descobrir +<span class="pagenum">[254]</span> +um vulto debruçado no muro da eira que era +junto á rua. Aproximando-se, a sua suspeita confirmava-se. +Era ella. Que felicidade! Todas as inquietações +iam cessar.</p> + +<p>—Boa noite, Maria. Que fazes aqui?</p> + +<p>—Ouvi meu pae dizer que o tinha visto sair, deixei-o +adormecer e agora estava á sua espera. Quero +muito fallar-lhe.</p> + +<p>Na sua voz percebia-se a perturbação interior. +Claudio sentiu um fremito de terror.</p> + +<p>—O que foi?! perguntou confundido.</p> + +<p>Maria contou-lhe então que tinham dito á mãe que +elle a namorava, que todas as manhãs a esperava á +porta do campo. A mãe reprehendera-a e prohibira-lhe +que lhe tornasse a fallar, a não ser em casa ou +quando outras pessoas estivessem presentes. Ameaçara-a +de o dizer ao pae, que nada sabia ainda, e de +a mandar servir para longe, se continuasse.</p> + +<p>—Esqueça-se de mim, esqueça-se de mim, foi o +singelo pedido com que respondeu a todos os rogos +e protestos apaixonados de Claudio que a deixou +assegurando-lhe que ia voltar a Coimbra e que havia +de procurar esquecel-a. Bem sabia que não poderia +fazel-o, que isso não dependia da sua vontade, mas +queria deixal-a tranquilla, sentindo-se feliz pelo sacrificio.</p> + +<p>Interiormente, quasi estava contente. Estes amores +que terminavam sem macula engrandeciam-se +aos seus olhos por este facto: a abdicação de todos +os seus desejos em proveito da felicidade de Maria +coroava d'uma maneira gloriosa o culto que lhe consagrára.</p> + +<p>Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza, +n'um amor sublimado. Iria a Coimbra, soffreria a +tortura de viver ali durante um ou dois mezes e, +quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se +de Maria. De longe, silenciosamente, faria +<span class="pagenum">[255]</span> +sua a alegria da sua amada onde a encontrasse, ou +cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo +a roupa sobre as lageas do rio, á sombra dos salgueiros.</p> + +<p>Partiu pela manhã, recommendando repetidas vezes +aos creados os gados, as aves e as plantas. Iam +sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a +saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas +flores que careciam de regas mais frequentes, a +hora a que convinha levar o gado ao pasto.</p> + +<p>Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros +da sua vida. Aquelles sim, aquelles nunca lhe +mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas, prosperando +e prodigalisando os fructos, derramando em +torno a abundancia e a belleza.</p> + +<p>Foi a pé, seguindo os caminhos menos frequentados. +Procurava bastas vezes vencer pelo movimento +e pelo cansaço a agitação do espirito; por experiencia +sabia quanto o silencio e a contemplação da +natureza lhe eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam +communicar-lhe uma parcella da sua serenidade.</p> + +<p>Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto +com grande estranheza. Não que elle tivesse deixado +completamente de lá ir mas, sempre que o fazia, +a sua vinda era previamente conhecida pelo facto +de mandar ir a carruagem a Villalva... D'ordinario, +demorava-se um ou dois dias dando solução aos +negocios da casa e entregando pontualmente á mulher +todos os rendimentos. Ficára assente pelo simples +uso, sem qualquer declaração formal, que os +rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura, +que d'elles dispunha como queria, e para elle só +reservaria os bens de Villalva.</p> + +<p>De resto, Claudio supportava este encargo de visitar +e administrar a casa sem maior contrariedade +apparente. Transpondo o portão da estrada da Beira +<span class="pagenum">[256]</span> +era outro; envergava os trajos da gente da cidade e +com elles rehavia antigos habitos de polidez e de +delicadeza mundana. Ás vezes, parecia mesmo contente; +a certeza de que dentro em pouco voltaria ao +seu casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe +tolerar resignadamente, porventura bondosamente, +os costumes que no intimo condemnava e aborrecia. +Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando +alguem tinha a indiscrição de lhe perguntar pelas +suas lavouras, respondia com um laconismo que +cortava todo o seguimento da conversa.</p> + +<p>Na sua ausencia, porém, o seu viver era muito +discutido. Em geral, julgavam-n'o um maniaco. Laura +e D. Maria Francisca tinham-n'o por um homem +brutal, destituido de todo o sentimento de bondade; +o abandono da mulher e do filho, que aliás viviam +na abundancia e no luxo, pareciam-lhes um crime. +Só D. Pedro o desculpava; sempre respeitára muito a +liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe +respeitassem a sua.</p> + +<p>—Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois. +Está no seu direito! E tu, dizia para a mulher, não +gostas de trazer plumas no chapéu e de jogar o +<i>whist</i>? É a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado +sempre muito bom rapaz... Traz ahi a Laura com +todas as commodidades e ainda fallam d'elle!</p> + +<p>A vida desregrada e a estreiteza de espirito não +tinham pervertido o coração do fidalgo. Incapaz de +uma bondade activa, conservava um constante pendor +á indulgencia e tinha, como homem enfastiado +do mundanismo, certa attracção para os caracteres +que se desviavam dos typos consagrados. Por isso +estimava o genro e o defendia.</p> + +<p>Levava o seu affecto até ao ponto de o visitar em +Villalva, quando nas caçadas se encaminhava para +esses lados.</p> + +<p>Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros +<span class="pagenum">[257]</span> +que se estiravam na sala, offegantes, a lingua +pendente e humida, ostentando a dentadura recurva +e eburnea.</p> + +<p>Claudio recebia-o com sincero contentamento e +affagava a matilha cujas proezas D. Pedro logo começava +a narrar.</p> + +<p>D. Maria Francisca escandalisava-se com essas +visitas que destoavam da sua attitude reservada com +Claudio. Se por acaso acontecia que o marido dormisse +em Villalva, para alongar a caçada, ás vezes mesmo +em companhia dos seus hospedes beirões, não +deixava de o reprehender, escarnecendo.</p> + +<p>—Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a +esses palacios! Ha-de-se lá dormir muito bem e com +muita limpeza!</p> + +<p>—Olé se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos +assomos da mulher. O Manoel de Vasconcellos ainda +agora me escreveu de Lisboa a chorar pela ceia que +Claudio nos tinha dado. E tem razão! Aquelle lombo +de porco, assado no espeto, alli á lareira, nunca +mais esquece.</p> + +<p>No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra +foi á noite a casa dos sogros.</p> + +<p>A sua presença despertou grande curiosidade entre +os convivas, que eram muitos. Todos o rodeavam, +e muitos, estranhando a sua magreza, perguntavam +se tinha passado mal ou soffrido qualquer +doença.</p> + +<p>—Não, tenho passado excellentemente, magnifico, +mesmo muito vigoroso, respondia Claudio.</p> + +<p>Na verdade, estava magro, os olhos encovados, +as faces enrugadas. Illudia-se tomando por vigor a +excitação em que o trabalho physico e a intensidade +das impressões moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.</p> + +<p>—Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam +insistindo os que o cercavam.</p> +<span class="pagenum">[258]</span> + +<p>—Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou +alguem. Que diz o doutor?</p> + +<p>Este doutor era um medico que ha pouco tinha +tomado capello em medicina e se preparava para +lente da Universidade.</p> + +<p>Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes +sobre doenças nervosas, escriptos em francez, +julgava-se senhor de toda a sciencia e deixava perceber, +sem abertamente o declarar, para não crear +antipathias que lhe prejudicassem a entrada na Universidade, +que os lentes nada sabiam. Elle é que estava +ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o +consultassem, tomando a consulta como reconhecimento +dos seus talentos, e fallava pausadamente, cathedraticamente.</p> + +<p>—Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor, +hoje a sciencia tem feito grandes progressos +que, digamos de passagem, são quasi completamente +ignorados em Portugal. Infelizmente, entre nós, +estuda-se muito pouco; com excepção de meia duzia +de homens de verdadeiro talento e de saber, no +geral cura-se por uns processos rotineiros de que a +medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenças +nervosas conhece-se muito pouco... mesmo +muito pouco! Quando ultimamente defendi theses, +tive occasião de ouvir as criticas mais extravagantes. +Convenci-me de que a materia era perfeita novidade +para os meus collegas. N'um caso, por exemplo, +como este do dr. Claudio, o que a sciencia aconselha +é não só o exame de todo o organismo mas particularmente +a observação das manifestações nervosas. +É cousa que demanda um grande tacto... um +grandis...simo tacto! Qualquer medico que o visse, +naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes. +Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se +por ella. Seria um erro! O dr. Claudio diz-nos que +se sente vigoroso e está ao mesmo tempo com apparencias +<span class="pagenum">[259]</span> +de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio +entre a força organica e a actividade nervosa, +que é necessario combater. Uma vida tranquilla e +particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo +da quietação é o que hoje se recommenda +n'estes casos. O mar em caso algum; a sua agitação +é communicativa. Eu creio que o dr. Claudio ganharia +muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.</p> + +<p>—Não digo que não, meu caro doutor, respondeu +Claudio disfarçando mal um sorriso, mas nem sempre +se pódem tomar remedios... tão energicos. São, +ainda que mal lhe pareça, depauperantes em alto +grau. Da algibeira, é claro.</p> + +<p>—Sim... mas nas circunstancias de v. ex.<sup>a</sup> isso +não é motivo.</p> + +<p>—Eu não digo que rejeite por completo o tratamento, +mas tomo-o em dóse mais moderada. Uma +digressão pelo Minho será o bastante.</p> + +<p>—Mas creia v. ex.<sup>a</sup> que isso não lhe dá resultado. +O que tem desacreditado muitas vezes a therapeutica +moderna é deixarem de a seguir com todo o rigor +que a sciencia aconselha.</p> + +<p>Claudio ria-se da presumpção do medico e ia aproveitando +o conselho, porque lhe convinha. Já antes +tinha pensado que a permanencia em Coimbra não +podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de +Laura, de que nem o abandono do marido a curara, +os serões em casa dos Albuquerques, toda a rede de +impostura, de mentira e de futilidade que é o caracter +da vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o. +Precisava fugir d'alli.</p> + +<p>Seguiria pelo Minho quasi até á fronteira e d'ahi, +por Montalegre e Chaves, desceria ao Douro para o +atravessar e passar á provincia da Beira Alta d'onde +voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens +haviam de o ajudar a vencer a inquietação em que o +amor o trazia.</p> +<span class="pagenum">[260]</span> + +<p>Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva +inteiramente de posse da sua vontade que empregaria +com firmeza em evitar quanto podesse levantar +a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria. +Ia pôr-se a caminho.</p> + +<p>Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e +fria. Vinha rompendo o dia. No rio a nevoa e as +aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas +dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam +e retemperavam como deuses pagãos, em ondas claras.</p> + +<p>Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilhão +da vida ingenua, era o fructo prohibido dos +seus anceios, uma recordação amarga.</p> + +<p>Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas +e pelos valles estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas +pela alvorada que se espraiava empallidecendo +o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as +cupulas dominando e protegendo os tectos negros +que, afundando-se pelas quebradas, rastejavam em +torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora magestosos, +ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas +lagrimas, quanta tortura e miseria despertavam +com a manhã d'aquella massa obscura! Um sentimento +de piedade lhe apertou o coração, e logo o remorso +começou a perseguil-o implacavelmente. Tambem +elle era criminoso, tambem elle semeiara lagrimas, +tambem elle ateiara com os seus desvarios o +fogo das paixões que alimentam a miseria!</p> + +<p>Porque saira de Villalva, porque não ficára ali +como seus paes modesto e ignorado? Talvez... talvez... +Uma suspeita lhe passava pelo espirito... Talvez +então vivesse contente com Maria, no seu casal +abençoado e fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade +ignorada que só em sonhos sentira!</p> + +<p>Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle +ahi regressaria. Levava comsigo a saudade da vida +<span class="pagenum">[261]</span> +que jámais o abandonaria e que agora +se personificara poeticamente na lembrança de Maria.</p> + +<p>Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante. +Ficára-lhe d'aquellas terras uma boa recordação. A +belleza das mulheres, altas, d'um raro concerto de +majestade e de graça nos seus trajos esguios, a payzagem +viçosa e ampla, em que a luz se attenua e +pulverisa sobre as aguas extensas e na atmosphera +humida, os costumes, a liberdade sem altivez do +povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava +a voltar a Aveiro.</p> + +<p>Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade. +Dava-lhe agora uma impressão de silencio, de +calma, de desolação que provocava a tristeza. O movimento +nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas, +com os seus ruidos caracteristos, muito poucas. +Enganára-se; não era aquillo que tinha na memoria.</p> + +<p>Pela manhã percorreu os caes. Saiam os barcos +levando os pescadores para a ria e os marnotos para +as salinas; a jarra da agua, o cesto com o almoço e +o gabão era toda a sua bagagem. Deixavam a casita +onde se abrigava o lar e o berço, e deixavam a guardal-a +a companheira da sua vida; voltariam á tarde, +a trazer-lhe generosos o pão que haviam ganho durante +o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos +do mar e aos ardores d'um abrazado estio. Tambem +assim era em Villalva, tambem áquella hora +Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e +pela serra aspera.</p> + +<p>A saudade dominava-o. Não era a cidade que estava +deserta, era o animo que faltava ao seu coração. +Os olhos recusavam-se a vêr o que se passava +em torno, constantemente voltados para uma imagem +interior.</p> + +<p>Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da +<span class="pagenum">[262]</span> +viagem. Seria inutil. Ia proseguir, mas adivinhára já +o que o esperava. Toda a terra lhe parecia arida e +silenciosa; em toda ella só poderia prender-se ao que +lhe recordasse a existencia de Maria.</p> + +<p>Uma tarde, em Vizella, do crepusculo já adeantado, +aos primeiros reverberos das estrellas, passeiava +á beira do rio e, como se sentisse fatigado, encostou-se +sobre um rochedo e adormeceu. Um vento +agreste batia as cumiadas dos montes, açoitando as +arvores que se curvavam desgrenhadas, mas no +valle os amieiros apenas se balouçavam mollemente +nas brizas humidas que corriam sobre as aguas. +Claudio aproveitava o favôr da natureza e no torpor +que precedia o somno fixava os olhos com gratidão +n'este espectaculo de feliz remanso.</p> + +<p>Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se +ás palpitações da natureza. O rio transfomára-se +em alvas nuvens que pousavam sobre o seu leito +apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como +uma apparição, em meio d'um nimbo de claridade +vermelha e candente, uma cosinha pobre e uma rapariga +curvada sobre a lareira ateando o lume que +se erguia em labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se +as lufadas do vento mordendo as cearas que +ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil +cubiçava o calor vivificante que irradiava do facho +luminoso.</p> + +<p>Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos +Casaes quando ha muitos annos vinha com Emilia +de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das +suas ambições, da sua felicidade, da tempestade que +o cercava. Corre-se a aquecer-se ao fogo redemptor +da simplicidade que a imaginação sobrexcitada lhe +mostrava n'um quadro tentador.</p> + +<p>O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para +que ir mais longe? Em vão! em vão!... Mais uma vez +<span class="pagenum">[263]</span> +repetia estas palavras com que tão dolorosamente +terminara tanta illusão da sua vida.</p> + +<p>Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de +ausencia, vencido pela saudade. Vinha na persuasão +de que o trabalho na lavoura e a simples presença +de Maria o curariam de todo o mal. Não precisava +de fallar-lhe, não precisava d'essas arrastadas conversas +á beira da estrada que os estranhos viram +com suspeição. Não estava ella divinisada no culto +que o seu coração lhe consagrava? Uma adoração +muda e casta bastaria a satisfazel-o.</p> + +<p>A jornada para Coimbra foi rapida. Ás pessoas de +familia disse que se apressara a voltar porque se +sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia muito +que fazer. Para evitar explicações que o contrariavam, +seguiu immediatamente para Villalva onde chegou +noite cerrada.</p> + +<p>Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres, +dando-lhe conta do estado dos gados, das sementeiras, +de tudo o que succedera n'aquella pacifica +solidão. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou +os estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.</p> + +<p>Dominando a impaciencia de tornar a vêr Maria, +julgava-se victorioso e começava a sentir, penetrado +de delicias, a realisação dos seus sonhos de castidade.</p> + +<p>Já tarde, abeirou-se da janella e contemplou a +aldeia recolhida no valle apertado. Tudo dormia. +Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em inquietações +d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura +tel-o-ia esquecido?... Fixava os astros, escutava +as auras da noite procurando o segredo da sua +vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de +fadiga.</p> + +<p>—Amanhã, amanhã!...</p> + +<p>N'esta risonha esperança adormecia tambem.</p> +<span class="pagenum">[264]</span> + +<p>Pela madrugada desceu ao campo. Não tardou que +Maria apparecesse tangendo o burro que conduzia a +moenda. Ao vêl-a sentiu como uma vertigem em que +o sangue lhe corria ao coração. Ella sorria de alegria. +Em poucas palavras ajustaram encontrar-se á +noite, muito tarde, junto ao muro da eira, quando +ninguem os visse.</p> + +<p>Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento +e um vigor desusados. Estranhava as suas +forças. Como acontecia que, depois de tanto tempo +de repouso, não sentisse a menor fadiga? Na excitação +em que o deixava a certeza do amor de Maria, +illudia-se; tomava como um triumpho do seu corpo +o que era apenas uma passageira febre.</p> + +<p>Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em +casa; fazia-o frequentes vezes para acalmar a inquietação +do espirito.</p> + +<p>Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao +muro. Sentiu-se um ligeiro bulicio de folhas seccas. +Era ella que se aproximava pisando descalça a caruma +que cobria a eira.</p> + +<p>Claudio começou então a contar o que soffrera na +jornada, como os dias lhe pareciam longos, como +em toda a parte via a imagem de Maria.</p> + +<p>—Não sei viver sem ti. Sou tão infeliz que preciso +da tua voz para me dar animo.</p> + +<p>Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura +e não podesse avaliar na physionomia a impressão +das suas palavras, perguntou-lhe:</p> + +<p>—E tu? tambem tinhas saudades minhas?</p> + +<p>—Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.</p> + +<p>O incendio estava lançado. Vieram as confissões +d'affecto em serões prolongados pela noite calma, as +caricias, as tentações e os impetos d'amor. Essa +castidade no contacto da natureza e na adoração das +cousas simples que Claudio sonhára, doente do affastamento +<span class="pagenum">[265]</span> +e da saudade de Maria, voava desfeita como +todas as bastas illusões da sua vida.</p> + +<p>A simplicidade é vigorosa e sadia, e o vigor é naturalista. +A luz do sol e toda a terra cantam o amor +fecundo.</p> + +<p>Esse mesmo frenesi com que Claudio revolvia +o solo lançando-lhe a semente, era uma forma de +fecundação, a anciedade de crear e multiplicar as +formas e a vida, um agitar de seiva que se confundia +com o desejo da sua amada.</p> + +<p>Uma noite adormeceu no regaço da sua amada; +ella, cariciosamente, consentiu-o. Dormiu um somno +breve, povoado de enlevos amorosos e acordou n'um +arrebatamento de paixão em que toda a pureza angelica +cedeu ao sangue encandecido.</p> + +<p>Não se passou muito tempo sem que Maria apparecesse +com o rosto desbotado, os olhos cavados, toda +alquebrada d'uma desconhecida molleza. Adoecia das +primeiras perturbações de gravidez.</p> + +<p>Chorando, confessou á mãe a sua desgraça.</p> + +<p>—Que fizeste, que fizeste?! exclamava a mãe chorando +tambem. Que vergonha a nossa!</p> + +<p>Claudio sentia-se contente, realisada toda a sua +ambição. Estava finalmente livre de todas as convenções +com que tinha rompido, inconscientemente, +levado pelo amor de Maria, e d'esse amor ia ter filhos +que elle saberia guardar das tentações mundanas, +guiando-os a uma existencia de simplicidade. +D'esta vez a felicidade era segura e certa.</p> + +<p>Uma cousa, porém, preoccupava os amantes. A +gravidez de Maria adeantava-se, já na aldeia todos a +suspeitavam com ditos e remoques que a rapariga +presentia e soffria resignadamente porque era a vontade +d'elle, de Claudio. Tarde ou cedo, o pae teria +de o saber tambem, mais cedo do que tarde, que o +tempo urgia.</p> +<span class="pagenum">[266]</span> + +<p>Combinou-se que a mãe lh'o annunciaria e assim +se fez.</p> + +<p>Elle ouviu em silencio, suffocado pela colera, e, +nas primeiras palavras que poude articular, disse +apenas:</p> + +<p>—Tira-me já de casa esse esterco! Se a torno a +vêr, esmago-a!</p> + +<p>E saiu tremulo, afogueado em ira.</p> + +<p>—Claudio, Claudio!... pensava no doido caminhar +em que a dôr o levava. Se fosse outro... matava-o! +Matava-o, sim! Mas elle, o filho do meu protector...</p> + +<p>Vinham-lhe á lembrança todas as esmolas que tinha +recebido da casa de Claudio; não ousava revoltar-se.</p> + +<p>Sentou-se sobre um muro baixo, ao lado da estrada. +Sentia não sei quê a cravar-se-lhe na cabeça, +do lado esquerdo.</p> + +<p>Os labios humedeciam-se de espuma. Pouco e +pouco o corpo inclinou-se para a frente, e caiu, +perdidos os sentidos, ferindo o rosto nas pedras agudas +do chão.</p> + +<p>Trouxeram-n'o para casa em braços, semi-morto, +e foram á villa chamar o dr. Carvalho. O velho tinha +sido acommettido d'uma congestão cerebral.</p> + +<p>—Muito mal, muito mal, por milagre escaparia, +dissera o medico meneando a cabeça.</p> + +<p>Por acaso, Claudio estava no jardim, olhando o +pôr do sol, quando os visinhos trouxeram o corpo do +pae de Maria. Sabia que n'aquelle dia elle havia de +ter conhecimento da gravidez da filha e, adivinhando +immediatamente o que se passava, correu a esconder-se +em casa antes que se aproximassem e o vissem.</p> + +<p>Os braços pendidos, o olhar desvairado, deixou-se +cair sobre o escabello da sala, immovel de assombro. +D'esta vez era certo o crime! Fôra elle, fôra elle que +o assassinára levando-lhe a deshonra ao lar! E não +<span class="pagenum">[267]</span> +morria tambem!... Pasmava da propria frieza e indifferença. +Olhava o seu corpo, os seus braços, as +suas mãos, o seu peito como duvidando da sua existencia. +Respirava, vivia, era o mesmo, elle, agora +assassino, que n'aquelle logar, n'aquella sala ajoelhára +erguendo a Deus as suas primeiras orações e +se prostrára perante o cadaver da mãe pedindo á +sua alma inspiração e conselho! Não, não podia ser! +Era outro, era outro!...</p> + +<p>O assombro crescia e a repugnancia por esse novo +homem redobrava.</p> + +<p>Levantou-se, pé ante pé, e foi á porta espreitar se +havia alguem no pateo. Ninguem! Provavelmente tinham +corrido todos a casa do velho. Aproveitou o +ensejo e fugiu a perder-se nos montes, pelos caminhos +desertos, escondido, ao abrigo dos muros que +vedavam os campos.</p> + +<p>Esperou a noite que caiu serena, sem luar, estrellada +e profunda. Ia descer á aldeia. Para quê? Não +era melhor seguir errante, em penitencia, expirando +o seu crime, a esmolar por terras ignoradas e a servir +desconhecidos, descalço, miseravel, rojando-se +humildemente?</p> + +<p>Maria, Maria!...</p> + +<p>O amor vencia todas as dôres e ainda n'aquella +angustia os braços estendiam-se a procural-a.</p> + +<p>Desceu, e começou a vaguear em volta da eira de +Maria. Tudo dormia n'um grande silencio e apenas +por uma fresta se percebia um reflexo de luz.</p> + +<p>Tinha fome. Voltou a casa a pedir a ceia.</p> + +<p>—Ai que desgraça aquella do pobre tio Manoel! +exclamou a velha creada ao vêl-o.</p> + +<p>—Já sei, já sei, apressou-se Claudio a interromper +com firmeza. Venho agora de lá. Muitos annos, +muitos annos... Coitado!</p> + +<p>—Deus Nosso Senhor o salve que ainda faz falta +áquella pobre gente...</p> +<span class="pagenum">[268]</span> + +<p>—Hoje sim, hoje já me deixa mais contente, dizia +a creada alguns momentos depois levantando da +meza os pratos vasios e estranhando a voracidade +com que Claudio tinha comido.</p> + +<p>—O passeio foi larguito, replicou elle como que +explicando.</p> + +<p>Levantou-se e tornou a sair. Queria vêr Maria. O +que seria d'ella?</p> + +<p>Dirigiu-se ao logar em que costumava fallar-lhe e +no ponto em que o muro era mais baixo saltou para +dentro da eira. Esperou. Não vinha ninguem. Não +se lembrava ella de que Claudio estava alli ou não +queria tornar a vêl-o? Um suor de afflicção lhe cobria +o corpo e o receio da condemnação de Maria +vencia o remorso do crime.</p> + +<p>Impaciente, atravessou a eira e foi collar o ouvido +a uma pequena fresta que dava luz á cosinha. Silencio! +Ninguem se movia.</p> + +<p>Recuou. Reflectia agora na sua imprudencia. Podia +ter apparecido alguem e aquelles passos occultos +seriam a confissão do seu crime. Coragem! Porque +não iria antes francamente saber do seu visinho? +Era natural. Demais, já dissera á creada que tinha lá +ido e precisava que não o encontrassem em mentira.</p> + +<p>Saltou novamente o muro. Sem hesitar, como possuido +d'uma resolução serena e inabalavel, subiu os +degraus da casa de Maria, lançou a mão á aldraba +da porta e, cauteloso, abriu-a suavemente.</p> + +<p>Foi Maria que veio vêr quem entrava, assomando +á porta que communicava a sala com o interior. Parou +um instante surprehendida. Na escuridão só +cortada pela languida claridade que vinha da pequena +lampada ardendo aos pés d'um crucifixo, a +sua physionomia mostrava a mais profunda mortificação. +Ia queixar-se, ia perguntar a Claudio porque só +agora vinha e a abandonára. Mas elle, adeantando-se, +<span class="pagenum">[269]</span> +apertou-lhe freneticamente as mãos e o peito agitado +pelos soluços, sem proferir uma só palavra, fitou-a, +deixando correr as lagrimas.</p> + +<p>Com um instincto seguro, Maria comprehendeu o +que se passava na alma de Claudio e transformando +em piedade os queixumes que trasbordavam do seu +coração:</p> + +<p>—Não chore, não chore, disse consolando-o. Foi +a minha sorte, foi a minha sorte! Foi Deus que assim +o quiz.</p> + +<p>As lagrimas de Claudio redobravam, mas agora +de gratidão pelo amor de Maria. Era ella, a victima, +que vinha consolar o criminoso! Dominava-o uma +impressão de espanto.</p> + +<p>Encontrava ali, n'aquelle pobre tugurio, o que +fora a maior ambição da sua vida, o amor. N'um +lampejo, em meio da vertigem de sentimentos que +lhe dilacerava o peito, lembrou-se de Laura e comprehendeu +toda a grandeza de Maria. Para Laura, +amar era possuir, era guardar zelosamente uma fonte +de gosos; para Maria, amar era servir, era sacrificar-se +e consumir se protegendo uma vida estranha +e abdicando de toda a dôr e de todo o prazer da propria +existencia. Não podia furtar-se a um secreto +contentamento descobrindo em plena consciencia o +thesouro de que estava senhor. Negra aberração! +pensava, sentindo-se aviltado. Tambem á hora do +crime tinha alegrias! Oh, ainda uma vez, mysterio +amargo!...</p> + +<p>O medico voltou de manhã e achou que o doente +estava melhor. Já ouvia e já se lhe divisavam ligeiros +movimentos.</p> + +<p>—Temos homem! disse voltando-se para a familia, +quando o examinava, curvado sobre o leito. Com +setenta e sete annos! É preciso ser rijo.</p> + +<p>Claudio, ancioso por se informar do estado do pae +de Maria, espreitára desde o alvorecer a vinda do +<span class="pagenum">[270]</span> +dr. Carvalho. Vira-o entrar em casa d'ella e veiu +para o jardim, a limpar as hervas d'uns vasos de +flores que estavam pousados sobre o muro sobranceiro +á rua.</p> + +<p>O dr. Carvalho, ao sair, immediatamente deu com +os olhos n'elle.</p> + +<p>—Ora isso é que é madrugar, disse chamando a +attenção de Claudio.</p> + +<p>—Suba, suba, respondeu Claudio, mostrando-se +risonho e despreoceupado. Então já não quer nada +com esta casa?</p> + +<p>O dr. subiu.</p> + +<p>—Como encontrou o doente? perguntou Claudio.</p> + +<p>O dr. Carvalho explicou então em termos da sua +arte, para mostrar saber, que o velho tinha grandes +melhoras. Recuperára os sentidos, percebiam-se já +alguns movimentos, e quando em tão poucas horas se +apresentavam symptomas d'aquella importancia, +d'ordinario a salvação era certa. Não dizia que tornasse +a ser homem para o trabalho, mas esperava +pól-o a pé. Ainda ha pouco tivera, em Aradas, o +Gusmão n'aquelle mesmo estado. A mesma cousa, +exactamente a mesma cousa! Viera o dr. Madail, que +é lá muito de casa de seus sogros e que se tem por +um chavão, dizia, e foi de parecer que não merecia +a pena tratal-o.</p> + +<p>—Pois, meu amigo, tomei conta do homem e já +corre a casa toda, encostado a uma bengala!</p> + +<p>—Deus queira que o mesmo lhe aconteça aqui, +respondeu Claudio.</p> + +<p>Interiormente sentindo grande allivio com as palavras +do medico, para não revelar uma insistencia +que poderia tornar-se suspeita, mudando rapidamente +de conversa, perguntou:</p> + +<p>—E por Albergaria que ha de novo?</p> + +<p>—A mesma paz podre. O dr. não quer nada comnosco. +<span class="pagenum">[271]</span> +Tem razão e... bom gosto. Está por aqui +muito entretido, respondeu o Carvalho atrevida e +maliciosamente, batendo com a mão no hombro de +Claudio e sorrindo-se.</p> + +<p>Claudio percebeu a allusão. Tremendo da conversa, +apressou-se a cortal-a.</p> + +<p>—Venha cá, quero mostrar-lhe em que me entretenho. +Venha vêr os meus mirandezes. Estou contentissimo. +Comem admiravelmente, são rijos no +trabalho e conservam a carne d'uma fórma espantosa.</p> + +<p>Proseguiu alguns instantes a fallar dos bois, n'uma +apertada continuidade, para que o medico não podesse +rehaver a palavra e reatar a conversa que tinha +tentado encetar. Sabia até que ponto ia n'essa +materia a ousadia do dr. Carvalho, temia que elle +viesse perguntar-lhe pelos amores de Maria, que +eram já sabidos na villa, e não queria profanal-os +com os commentarios de concupiscencia que por +certo não faltariam. Por isso foi d'uma rara loquacidade +emquanto não viu sair o seu terrivel hospede.</p> + +<p>As previsões do medico realisavam-se. O velho +continuou a melhorar; ao fim d'um mez, embora +d'uma extraordinaria irritabilidade e com perrices +infantis que revelavam a debilidade cerebral de que +jámais se curaria, parecia ter rehavido a razão. Não +podia porém mover-se; a perna e o braço esquerdos +estavam inteiramente paralyticos, e por tal motivo +se conservava no leito.</p> + +<p>Do passado devia ter boa memoria. Havia um manifesto +proposito em nunca proferir o nome da filha. +Maria deixou de lhe apparecer mal elle recuperou a +vista, por se conhecer que a sua presença o impacientava, +e elle rehavendo a sua antiga firmeza de +caracter, nem uma só vez perguntou mais por ella.</p> + +<p>N'estas circumstancias, passados os dias de desvairamento +<span class="pagenum">[272]</span> +em que o desastre o lançou, Claudio, reflectindo, +resolveu trazer Maria para casa. Já que a +tinha privado, por sua culpa, da protecção paterna, +devia-lhe o amparo que a sua desgraça exigia.</p> + +<p>Demais, o seu amor não affrouxára, antes se radicára, +n'essas horas tragicas. A sorridente resignação +de Maria, o piedoso carinho com que reprimira +as proprias lagrimas para enxugar as de Claudio, +elevaram-n'a na sua adoração e circumdavam a sua +figura d'uma auréola de bondade simples que perpetuamente +havia de a illuminar. A inteira posse d'essa +creatura angelica compensava-o de muita amargura. +Apesar de tão recentes motivos de profunda +dôr, não podia furtar-se a uma intima alegria.</p> + +<p>Em breve, tinha mais um filho. Quando elle nasceu, +pareceu-lhe que a sua vida e a sua felicidade +d'esta vez se completavam na realisação de todas as +suas ambições. Olhava o berço encanastrado, coberto +com um grosseiro retalho da manta que Maria +fiára emquanto no monte guardava as ovelhas. Comparava-o +com o outro que deixára na estrada da +Beira, a espumar de rendas finas, compradas caras +e vindas de longe, urdidas por mãos desconhecidas.</p> + +<p>Sentia ali duas almas differentes: via n'uma a +sensualidade estreme, uma caricia dos olhos e de +todo o corpo, via na outra uma historia de singeleza +e de trabalho, os placidos dias guiando o gado pelas +serras, as mãos tisnadas ao sol, lançando o fuso e +distendendo a lã.</p> + +<p>Atravez de mil angustias, que fortuna lhe concedia +o destino, que horas de paz e de poesia lhe promettia +aquelle berço emballado pelos mesmos cantares +que ouvira na sua infancia! Era feliz. Um sentimento +de gratidão lhe penetrava docemente o +peito.</p> +<span class="pagenum">[273]</span> + +<p>Assim terminava o primeiro acto d'este idyllio +dramatico.</p> + +<p>Em Coimbra, todos estes factos foram sabidos e +commentados com rancor por D. Maria Francisca e +pela filha, com simples curiosidade pelos frequentadores +habituaes do palacio da estrada da Beira que, +emquanto esperavam o chá, debatiam o caso em voz +discreta agrupando-se nos cantos mais afastados da +sala.</p> + +<p>Interiormente indifferentes, no seu egoismo satisfeito +com os ordenados pagos em dia e as digestões +abundantes e tranquillas que os encaminhavam á +obesidade, procuravam gestos de mágoa para successivamente +exclamarem:</p> + +<p>—Que pena! que pena! Um rapaz tão intelligente +e que podia viver tão bem... casado com uma menina +de tão boa educação...</p> + +<p>Os de melhor consciencia, alguns lentes que porventura +se lembravam das suas concupiscentes ousadias +com as creadas, accrescentavam indulgentemente:</p> + +<p>—Fraquezas! Todos as têm... Afinal tudo isso lhe +ha-de passar e elle hade voltar á mulher e aos filhos.</p> + +<p>Laura ficou apopletica de colera quando soube +pela mãe as circumstancias em que o marido se encontrava. +A sua inflexivel vaidade soffria um profundissimo +golpe com a demonstração quasi publica +de ficar preterida por uma mulher do povo.</p> + +<p>—Não quero ser d'esse homem nem mais um instante! +Vou mandar chamar o dr. Moraes para me +tratar da separação. É demais!... Com uma mulher +de pé descalço! Até me mette nojo! Que me ponha +para cá o que é meu...</p> + +<p>Ao ouvir estas palavras, D. Maria Francisca pensou +que Laura tinha casado com separação de bens, +e, reflectindo em que o divorcio poderia trazer-lhe +<span class="pagenum">[274]</span> +grande prejuizo, apressou-se a aconselhar com insistencia:</p> + +<p>—Oh, filhinha, isso não, isso não! Que escandalo! +Deus nos livre. O que diria esta gente? Eram capazes +de inventar que tu tinhas feito algum mal. Não +te impacientes, não te impacientes! Até te faz mal. +Já estás com umas rosetas na cara que são de fraqueza. +Vae tomar alguma cousa. Anda, anda minha +filhinha!</p> + +<p>—Ai, Senhor!... exclamáva já no corredor dando o +braço a Laura e encaminhando-se á sala de jantar.</p> + +<p>Depois de muito discutir, venceu a opinião e a astucia +de D. Maria Francisca; poz-se inteiramente de +parte a ideia de uma separação judicial. Esperavam +que por bons conselhos levariam Claudio a abandonar +Villalva e a voltar á companhia de Laura. Para +isso iam dizer a José d'Albuquerque que escrevesse +ao cunhado pedindo-lhe que não désse mais desgostos +á mulher, que tão virtuosa tinha sido, e mostrando-lhe +como a sua vida era censurada até pelos proprios +amigos, segundo diziam.</p> + +<p>Procuraram-n'o e, como de costume, foram encontral-o +entre os seus alfarrabios.</p> + +<p>Ficou muito contrariado com a presença da mãe +e da irmã que iam interromper-lhe a leitura d'uns +documentos do tempo de el-rei D. Diniz, em que um +erudito julgára ter feito descobertas preciosas, das +quaes a mais importante consistia em se provar que +o motivo principal que determinou a sementeira do +pinhal de Leiria foram os amores do rei com uma mulher +do Porto de Móz, de baixa estirpe, mas com quem +o rei vivia em intimidade e, dizia o cartapacio, «eram +os jogos e fallas entre elles tão a miude, misturados +com beijos e abraços e outros desenfadamentos de +similhante preço, que fazia a alguem ter deshonesta +<span class="pagenum">[275]</span> +suspeita da sua virgindade ser por elle minguada.»</p> + +<p>Sobre este ponto trazia José d'Albuquerque grande +correspondencia, estando prestes a demonstrar +triumphantemente que os documentos eram de nenhum +valor e que o texto citado não passava d'uma +calumniosa e malevola interposição d'um compilador +sem escrupulo do seculo XVI, cujo nome e naturalidade +já tinha descoberto. Faltava-lhe saber ao certo +a data do nascimento, mas tambem para isso levava +adiantado o trabalho.</p> + +<p>Apesar de ser perturbado nas suas cogitações, +unica cousa que no mundo amava com afferro, ouviu +pacientemente a catilinaria da mãe contra o +cunhado. Queria ella que o filho lhe escrevesse +ameaçando-o de cortar com elle todas as relações, +se não voltasse immediatamente á casa de Coimbra.</p> + +<p>—Tens obrigação de olhar pela honra de tua irmã, +já que teu pae não trata senão de se divertir, dizia +ella dogmaticamente. Não deves consentir que o marido +a deixe para ahi como um trapo sujo e ande +por lá mettido com um reles estafermo que o que +quer é viver á custa d'elle. Eu já conheço bem o +que é essa gente!... Tudo uma canalha! Uma canalha!...</p> + +<p>—Escusam de estar para ahi com todo esse aranzel +que eu não me metto n'isso, respondeu pachorrentamente +José d'Albuquerque. O Claudio é de +maior edade ha muitos annos, não me deve favores +nenhuns, e eu não tenho o minimo direito a reprehendel-o. +Demais, eu sei lá como essas cousas +são?!... Muito mexerico, muita intriga... Quem +as armou que as desarme!</p> + +<p>Não obstante esta primeira attitude de resistencia, +D. Maria Francisca que conhecia a fraqueza do filho, +lamentou-se com voz lacrimoniosa de que tinha +<span class="pagenum">[276]</span> +creado tres filhos e ninguem a ajudava, insistiu, e +conseguiu por fim que elle lhe promettesse escrever +a Jorge de Castro para que este por sua vez escrevesse +a Claudio e procurasse trazel-o á companhia +da esposa legitima.</p> + +<p>De facto, escreveu, mas em termos inteiramente +despreoccupados «O Claudio», dizia a Jorge, «com +aquelle genio romantico que nós sempre lhe conhecemos, +metteu-se em Villalva a cuidar dos rouxinoes e +das flores e parece, segundo dizem, que arranjou lá +uma amante de que já tem um pequenito. Minha +mãe e Laura andam em braza com a noticia e querem +muito que tu lhe escrevas, aconselhando-o a +deixar aquella vida. Duvido muito que o leves a +mudar, que elle com apparencia de indifferente é +muito teimoso, mas, se lhes quizeres fazer a vontade, +e tambem para me livrares d'esta continua cegarrega, +dize-lhe d'ahi alguma cousa.» Depois, passava +a fallar longamente das suas investigações. +«Tem-me dado bom trabalho», continuava, «o tal +sr. Castanheira d'Almeida que, com uma petulancia +sem precedentes, se lembrou de fazer sobre a vida +d'el-rei D. Diniz as mais estupidas affirmações. É +claro que não era cousa que se sustentasse cinco +minutos, mas é preciso não deixar correr estes erros, +convém destruil-os pela raiz, e por isso... +etc.» N'este tom escreveu duas folhas de papel.</p> + +<p>Jorge, porém, que, por inclinação natural e pelas +circumstancias particulares d'uma vida feliz, se habituára +a considerar a familia uma cousa sagrada, +ficou muito impressionado com a noticia, parecendo-lhe +que Claudio praticára a maior das loucuras e +renunciára para sempre a toda a felicidade, lançando-se +n'um mar de inquietações infinitas.</p> + +<p>Sem mais tardar e com grande anciedade pela situação +do amigo, que se lhe afigurava cruel, escreveu-lhe +palavras de conselho paternal todas impregnadas +<span class="pagenum">[277]</span> +de carinho, de mágoa e de esperança. Procurava +convencel-o, mostrando-lhe que a familia era o +verdadeiro fundamento de toda a ordem moral na +sociedade e relembrando-lhe as ideias com que a organisara; +invocava os seus sentimentos de rectidão +e de lealdade para exigir a fidelidade conjugal, ponderando +a gravidade da offensa feita á esposa que a +fraqueza propria do seu sexo e a impossibilidade de +se desaggravar dignamente collocava em condições +de obrigar todo o caracter nobre a respeital-a; e finalmente, +n'uma curta confrontação da paz d'uma +união legitima com os continuados vexames e a mentira +d'uma ligação irregular, em que nem sequer os +filhos lhe podiam dar o nome de pae sem recordarem +a falta e a vergonha da mãe, pedia a Claudio +que no proprio interesse da sua tranquillidade pozesse +termo áquella vida tão contraria a uma salutar +moralidade.</p> + +<p>Claudio leu esta carta n'uma oppressão de magoa +e compungimento. A condemnação do seu viver pelo +maior dos seus amigos parecia-lhe quebrar um dos +laços mais fortes que o prendiam ao mundo; alargava +a devastação que ha muito se vinha alastrando +em volta do seu coração. Mas, passada essa primeira +dôr, sempre presente aos seus olhos a humildade +simples de Maria, recobrou animo n'essa imagem e +escreveu:</p> + +<br> + +<p style="text-align: right; margin-right: 2em;">Meu querido Jorge:</p> + +<p>Um mau fado presidiu ao meu destino e affastou +de mim toda a alegria. A tua carta é o ultimo grito +d'essa correria de dôres que ha muitos annos me +persegue e que quasi me tem vencido.</p> + +<p>Esperava-a, antecipadamente sabia que havias de +condemnar o meu viver presente; por isso mesmo +tenho addiado até hoje uma confissão que só novas +<span class="pagenum">[278]</span> +magoas me podia trazer. Mas faça-se a tua vontade. +Aqui me tens a ouvir-te submisso, d'essa submissão +que será o derradeiro estado da minha alma, que +não sei bem se é desengano de toda a ventura, indifferença +pelas causas da terra ou consciencia e reconhecimento +da propria fraqueza, abandono de toda +a energia aos impulsos d'uma fatalidade cega.</p> + +<p>Ouve-me, porém, ainda algumas palavras antes +de me excluires da tua estima. Não é defeza, é confissão; +não é a voz do orgulho que repelle a condemnação, +é o queixume do culpado que a acceita +sem revolta.</p> + +<p>Sim! é verdade. Deixei uma mulher que tinha tomado +por esposa legitima, segundo todas as convenções +sociaes, deixei-a, deixei o filho que ella me +tinha dado e a casa que com ella habitava, e vim +esconder-me nas serras em que vi a luz, entre gente +inculta, ligado pelo amor a uma rapariga do campo, +tentando partilhar a sua humildade e a rudeza que +tomei pela maior virtude e pela felicidade suprema. +Abandonei a familia que tinha estabelecido, abandonando-lhe +quasi todos os meus bens e riquezas, deixando-a +n'uma vida de ociosidade, de abundancia e +de prazeres, abandonei o luxo e uma existencia que +me era odiosa, e fugi a acoitar-me nas caricias silenciosas +da natureza e na protecção carinhosa d'uma +mulher que me ama servindo-me.</p> + +<p>Este é o meu crime, que por certo aos teus olhos +parecerá uma vileza sem nome, imperdoavel.</p> + +<p>Talvez não tão grande como a tua imaginação a +representa! Talvez aos errores da minha desventura +correspondam as alucinações da tua felicidade!...</p> + +<p>Queres que o respeito da familia seja o alicerce +de toda a ordem moral na sociedade e tambem eu +outra cousa não pretendo. Se a familia é a união de +dois seres ligados por sentimentos congeneres de +<span class="pagenum">[279]</span> +trabalho, de consagração das suas forças á educação +d'uma nova geração, de auxilio mutuo e mutua +submissão, de renuncia aos prazeres da carne, de +caridade e amparo para todos os desvalidos, não ha +por certo melhor força para manter a ordem e a +belleza moral na humanidade. Se a familia é a união +de dois seres ligados pelas mesmas aspirações de +riqueza, de tranquillidade e de socego egoistas, de +comodidade e de luxo, de meza lauta e de ninho +tepido e macio, com os filhos entregues a mãos mercenarias +desde o berço até que a escola os entrega +á sociedade, poderá ser uma inutilidade para os estranhos, +mas, quando se tem a fortuna de possuir +todas essas cousas apetecidas, é, para os seus favorecidos, +um manso e ininterrompido regabofe. Se a familia +é porém o encarceramento, sob o mesmo tecto e +em volta do mesmo lar, de dois seres guiados por +aspirações oppostas e nenhum d'elles disposto a +ceder das suas ambições, em permanente conflicto, +consumindo n'esses dissentimentos toda a energia +que deveriam consagrar ao cumprimento da sua +missão social, então não sei o que a familia signifique, +além d'uma enorme e torpe mentira quando +esta discordia se abriga sob formulas e exterioridades +d'um falso respeito.</p> + +<p>O que eu ainda não pude saber ao certo é o que +venha a ser, como principio de moralidade, essa tão +famosa fidelidade conjugal. É o concubinato legal em +que a mulher gravida e a mulher que amamenta se +prostituem e aviltam, ás mãos do que tem o nome +de esposo, confundindo no mesmo leito a mãe e a +amante? Mas isso é sem duvida a maior aberração +das leis naturaes, uma especie de immoralidade desconhecida +dos animaes inferiores que todos, sem +evangelhos doutrinados, respeitam a femêa prenhe +e são repellidos raivosamente pela que guarda e +aquece os filhos. É essa outra especie de concubinato +<span class="pagenum">[280]</span> +em que cautelosamente se evita a procreação +para que os prazeres e a belleza do corpo não soffram +quebra ou interrupção e para fugir aos encargos +sociaes que do matrimonio resultam? N'este +caso, significa a degradação pela cobardia moral e +pelos desregramentos da concupiscencia que se arvora +em virtude e que a sociedade acceita como +joia de bom quilate.</p> + +<p>Só como inicio de perfeita castidade poderei julgar +a fidelidade conjugal um valor moral; só como +principio de abstinencia e de completa annulação +das tentações da carne poderá aos meus olhos tornar-se +digna de ser considerada por aquelles que um +anceio de vida superior domina. D'outro modo, confunde-se +nas labaredas da luxuria que todas fascinam +e matam igualmente. Que a prostituição se dê +dentro ou fóra dos limites do codigo civil, pouco importa; +será sempre a sujeição deprimente da alma +aos incitamentos impuros da sensualidade.</p> + +<p>Pensa um momento; porventura convencer-te-ás +de que os meus erros não são tão grandes como pretende +mostrar-t'os a tua felicidade que não é, como +toda a felicidade, o resultado do teu esforço mas a +concorrencia de elementos fortuitos.</p> + +<p>O meu crime foi procurar soffregamente a virtude +e tentar a sujeição da minha vida á realisação d'um +destino consciente, em logar de acceitar humildemente +os azares da propria fortuna. Nas minhas aspirações +de santidade houve talvez um orgulho sem +medida de que a providencia me castigou transformando-as +em corôa de espinhos.</p> + +<p>Que sonho mau, que instigação satanica me levou +um dia a descer estas escarpas para ir procurar na +riqueza e na sciencia a felicidade que deixava na +vida simples? Porque não fiquei aqui, como meus +paes, na paz laboriosa d'uma existencia ignorada e +singela?</p> +<span class="pagenum">[281]</span> + +<p>Quiz rehaver essa ventura perdida, magoado +das infinitas asperezas do longo caminho por que +me trouxeram a sensualidade e a curiosidade de saber, +mas, ai de mim! era tarde, e chego ao porto +tão ensanguentado que jámais as minhas feridas poderão +cicatrizar, jámais poderão estancar as chagas +em que o animo se me esvae.</p> + +<p>Não póde a razão e a vontade resgatar o que uma +vez ao coração foi roubado. Debalde o pensamento, +em rodeios sem fim, tentára restituir-me a tranquilidade.</p> + +<p>Não penses pois em ressuscitar o Lazaro; deixa +que elle espere no abandono a hora abençoada de +voltar á terra, a esse pó em que todos os crimes e +todas as virtudes se dissolvem e apagam para brotarem +resgatados n'uma fecundidade infinita.</p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 5em;">Teu</p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 4em;"><i>Claudio.</i></p> + +<br> + +<p>Apezar da serenidade apparente que Claudio revelava, +era certo que a carta de Jorge lhe deixára uma +profunda impressão de mágoa. Todo o passado se +dissolvia. Mulher, filho, amigos, tudo se transformava +em sombras de que se affastára a vida que só no +coração residia; desligados do seu affecto, morriam +para os seus olhos perante os quaes passavam como +espectros d'uma apagada existencia. Não fôra elle +que errára? Não significava esse isolamento que elle +tinha deixado o bom caminho, aquelle em que as +almas cantam uma alegria sem peccado? Voltavam +suspeitas, duvidas cruciantes.</p> + +<p>Todavia, exteriormente, a vida de Claudio parecia +ter caido na mais absoluta calma. Na aldeia já ia +esquecido o escandalo e o povo acceitava sem murmurio +os amores de Maria; a caridade, a modestia e +<span class="pagenum">[282]</span> +a singeleza que continuavam a ser os espiritos bons +do casal de Claudio varreram rapidamente a repugnancia +que ao maior numero inspirava a sua desregrada +paixão, substituindo essa passageira aversão +pelo mais carinhoso respeito.</p> + +<p>O pae de Maria ficára entrevado, mal se arrastava +da cama para o quintal, a aquecer-se ao sol ou a visitar +os gados, tentando ainda relembrar a antiga +vigilancia e uma febre de trabalho que a doença não +pudera anniquilar inteiramente; mas a familia, com +a peculiar resignação que a gente rude põe na acceitação +das cousas sem remedio, perdoára a Maria a +sua falta e frequentava-lhe a casa e as relações como +a do visinho a que mais queria.</p> + +<p>A vida ainda tinha alegrias para Claudio. Brotavam, +como flores silvestres disseminadas pelas montanhas +aridas, das aguas que se escoavam espumantes +na azenha ou se perdiam mudas beijando as tumidas +raizes do arvoredo, dos cantares das lavadeiras +que erguiam os braços robustos batendo turgidos +linhos sobre as pedras da ribeira, dos zumbidos +das abelhas fartando-se na madresilva dos comoros, +do sol espargindo-se nos orvalhos com que a noite +mansamente cobrira os campos; brotavam do palpitar +da natureza em que todo o movimento é sem +peccado, e brotavam ainda do coração de Maria em +que a simplicidade e o amor fulguravam, protegendo +em um nimbo de pureza sadia o espirito decrepito e +enfermo de Claudio.</p> + +<p>Muitas vezes, quando o trabalho apertava ou quando +o calor era muito, Claudio descia de manhã ao +campo e só voltava a casa ao pôr de sol. Maria trazia-lhe +o jantar ao meio dia, o caldo, a broa e o conducto.</p> + +<p>Procuravam uma sombra a que se acolhessem; a +refeição fazia-se n'um recolhido silencio que era +<span class="pagenum">[283]</span> +como uma prece perante a magestade olympica da +natureza.</p> + +<p>Depois vinham as sestas, cerrando os olhos na +contemplação das flores que se abriam ao sol exalando +aromas n'uma mysteriosa fecundidade.</p> + +<p>Uma tarde, por um dia de julho, Maria veio, como +de costume, trazer o jantar a Claudio, o cesto á cabeça +coberto d'uma toalha alva e grosseira; nos +braços o pequenito, repousada a fronte sobre o hombro +da mãe, no abandono em que o somno o vencia.</p> + +<p>Chegando ao campo, foi poisar a creança sobre +o chale, debaixo d'uma oliveira, proximo d'um +muro, abrigando-a do vento e do sol que abrazava, +caindo das serras.</p> + +<p>Claudio sentou-se ao lado, sobre uma pedra, e +Maria sentou-se tambem, em frente d'elle, no chão, +desapertando o lenço e mostrando o cólo, agora +exuberante no primeiro despertar da maternidade.</p> + +<p>Estavam calados, n'um d'aquelles silencios que +eram frequentes e em que perpassava uma palpitação +d'amor e de ventura.</p> + +<p>A creança tinha uma belleza angelica, os olhos +cerrados, os finos cabellos loiros desalinhados, o +sangue agitado pelo calor da atmosphera e os labios +humidos, levemente entreabertos, como segredando +palavras ignoradas d'uma doçura divina.</p> + +<p>O pae attentou na mãe e no filho. Sentindo desprender-se +d'aquelles peitos impenetraveis á corrupção +um refrigerio que instantaneamente corria +as feridas do seu coração, libertando-o de dôres perguntou +a Maria:</p> + +<p>—Gostavas de ter muitos filhos?</p> + +<p>—Filhos!... respondeu ella rindo surprehendia +da estranheza da pergunta. Cada um tem os que +Deus dá!...</p> + +<p>Claudio calou-se novamente, dominado de respeito. +<span class="pagenum">[284]</span> +Era a voz da virtude ingenua que chegára aos seus +ouvidos, da coragem na acceitação da condição humana, +da religião no amor sem limites, na conformidade +do destino.</p> + +<p>N'aquella rapariga humilde, pobre e rude, encontrava +o que nem o saber nem a razão tinham podido +conceder-lhe.</p> + +<p>Ai! Era bem certo!... A felicidade havia de nascer +do coração em jorros cristalinos como a agua +que rebenta entre os rochedos.</p> + +<p>Tentar subjugal-a sob os impulsos da intelligencia +era profanal-a. A candura maculada jámais recupera +a alvura.</p> + +<p>N'este labor continuado, em que o amor da terra +o absorvia, havia ainda para Claudio horas de repouso +e de ocio, já por simples fadiga, já porque +o trabalho tinha tambem as suas pausas naturaes.</p> + +<p>Vinham então a leitura, a meditação e as longas +caminhadas pelas veredas desertas, pelas cristas +despidas dos montes ou pelos valles apertados, entre +o arvoredo cerrado.</p> + +<p>Procurava, avidamente, em interrogações infinitas, +conquistar para si um retalho d'essa paz augusta +em que toda a natureza se envolvia. Escutava, na +doce luz do crepusculo, o brandir compassado da +Ave Maria em que sentia murmurios de orações, +supplicas e louvores de gratidão erguendo-se da +aldeia e confundindo se n'uma só prece, em mystica +união, com o repouso que a noite vinha derramando.</p> + +<p>Queria lançar a sua alma n'essa fornalha ardente +d'amor e de fé, purifical-a no contacto das almas +simples, mas sempre sentia o tumultuar d'um passado +que o despertava dos sonhos bons para o torturar +nas angustias da consciencia.</p> + +<p>Temia as noites tenebrosas do inverno e os dias +<span class="pagenum">[285]</span> +pesados e humidos que o obrigavam a enclausurar-se +na estreita sala de Villalva. Renasciam phantasmas +que julgára dissipados, visões sombrias que a +luz do sol e os carinhos humildes de Maria pareciam +ter varrido para sempre.</p> + +<p>Começava a desfiar esse rosario das suas amarguras; +um infinito desalento se apossava do seu espirito, +prostando-o de desesperança, convencendo-o +da infelicidade sem remedio.</p> + +<p>Porque não casára com a Conceição e passára de +animo leve sobre as suas lagrimas? Porque abandonára +Emilia á miseria que elle mesmo por suas mãos +tinha aggravado? Porque deixára Laura que elle espontaneamente +fôra buscar tal qual era, com todos +os seus prejuizos? E Maria,—pobre Maria!—para +que a juntára á sua desgraça, roubando-a ao amor +sadio do seu namorado? Egoismo, ciumes, aspirações +impuras que tinham perdido a sua alma, lançando-a +nas chammas do remorso.</p> + +<p>Revoltava-se contra a miseria do corpo que com +seus doidos anceios o tinham transviado do caminho +de caridade e de sacrificio em que, imolando as +suas ambições, teria encontrado a paz da consciencia.</p> + +<p>Tentava desprender-se d'esse pesado involucro +carnal com frequentes jejuns e esforçando-se por +ser casto. Por momentos, quando as minguadas forças +physicas pareciam dar ao espirito uma liberdade +que o enlevava em delicias, tinha a illusão de que +chegára a hora de renascer n'uma vida de pureza e +resgatar o passado, santificando-se pelo offerecimento +a Deus de toda a sua existencia, calcando como +reptis venenosos os ardores dos sentidos.</p> + +<p>Essa illusão pouco durava. Rebrilhava o sol, punha +a enxada ao hombro e, revolvendo a terra, communicava-se-lhe +essa gigantesca vibração de fecundidade +que é a propria vida de todo o universo. +<span class="pagenum">[286]</span> +Crear, reproduzir a sua força e o seu sangue nos +seus filhos, nas flôres e nos fructos que regára com +o suor do seu rosto, era nas horas de culto naturalista +o novo deus a que sacrificava. E, abandonando-se +a esse movimento, outras bençãos, as bençãos +do amor terreno triumphante, se lhe espargiam sobre +a fronte e lhe infiltravam um vigor desconhecido.</p> + +<p>N'esta lucta, porém, consumia-se; as suas forças +decaiam rapidamente. Ás vezes dominava-o um +abatimento, uma prostração em que sentia proximo +o seu fim. Então convencia-se que aquillo que tomára +por um rejuvenescimento não era mais do que +uma desesperada excitação em que inteiramente e +para sempre ia anniquilar-se.</p> + +<p>Em um d'esses dias, pouco tempo depois de Maria +lhe ter dado o segundo filho, recolheu tarde. Maria +já por mais d'uma vez viera á porta, olhando o caminho +a vêr se o descobria, quando elle entrou.</p> + +<p>Vinha contente, risonho, como que alliviado das +suas preoccupações sombrias.</p> + +<p>—Vim tarde. Estavas com cuidado?... Tem paciencia. +Foi-me preciso...</p> + +<p>—Não, logo me lembrei que andasse a passeiar +ou tivesse tido alguma coisa que fazer, mas nunca +se fica em descanço. Ás vezes, onde menos se espera +estão trabalhos.</p> + +<p>—Tive de ir a Albergaria. Toma, guarda isto bem +guardado. É o teu pão e dos nossos filhos, se eu +faltar, disse elle, entregando-lhe um papel azulado +com grandes manchas de lacre.</p> + +<p>Era o seu testamento em que lhe entregava, por +sua morte, os bens de Villalva.</p> + +<p>—Para que é isso? respondeu ella recuando com +uma anciedade triste. Deus Nosso Senhor hade levar-me +primeiro.</p> +<span class="pagenum">[287]</span> + +<p>—Não, não... guarda, replicou Claudio com firmeza.</p> + +<p>A rapariga então, obedecendo, recebeu o papel e, +os olhos rasos de lagrimas, beijou as mãos de Claudio.</p> + +<p>Quizéra insistir na recusa, sentia uma commoção +que a turvava, mas era a sua vontade, a vontade +d'elle, e amal-o era obedecer-lhe, era servil-o.</p> + +<p>Sentaram-se á mesa. Não se ouviu nem mais uma +palavra sobre o testamento, e a ceia começou. Claudio +estava alegre, perguntando pelos filhos, pelos gados, +pelo que em casa se fizera n'aquella tarde, fallando +dos trigaes que vira na varzea e que promettiam +uma boa colheita.</p> + +<p>No dia seguinte, voltou ao trabalho, continuando +na sua pacifica faina. O trabalho era a sua alegria, +não ficavam horas nem para recriminações nem para +idyllios.</p> + +<p>Em todo o tempo que Claudio viveu com Maria, só +houve um momento que lembrasse as horas de paixão +que antigamente o crucificavam.</p> + +<p>Uma manhã, Claudio veio a casa almoçar. Como o +orvalho no campo fosse muito e trouxesse os tamancos +enlameados, deixou-os á porta e entrou descalço. +Maria estava em pé, no meio da sala. Parecia procurar +vêr, atravez a janella, qualquer coisa que se passava +fóra, mas occultando-se ao mesmo tempo para +não ser vista. Era o pae d'ella que em frente, encostado +ás muletas, se arrastava no estreito carreiro do +seu quintal, vendo as ervilhas que se prendiam na +sêbe grosseira.</p> + +<p>Claudio poude aproximar-se sem ella o sentir. +Comprehendeu rapidamente toda a amargura que +lançára n'aquelle coração, dilacerado de remorsos.</p> + +<p>—Perdoa-me, perdoa-me, disse-lhe apertando-a +nos braços e beijando-a na fronte.</p> +<span class="pagenum">[288]</span> + +<p>E fugiu, sem voltar o rosto, deixando-a a soluçar, +banhada em pranto.</p> + +<p>Durante quatro annos, viveu assim; apparentemente +tranquillo na paz da vida do campo, interiormente +minado de duvidas que por vezes a consciencia +lhe apresentava como espectros. Maria era sempre +a mesma que fôra na hora em que a conhecera, +humilde, laboriosa, singelamente amoravel. Mas Claudio, +possuindo-a, via n'ella, repassado de contricção, +a imagem da felicidade perdida. Era tarde para a +merecer; as lembranças do passado perseguiam-n'o +implacaveis, já não havia alegria que não fosse cortada +d'um travor de arrependimento.</p> + +<p>As forças decaiam sempre. Não tinha doença alguma; +sentia uma depressão de vigor que todos os +dias se accentuava, uma velhice precoce que caminhava +incessantemente.</p> + +<p>Em maio, um dia tardou a erguer-se. Foram procural-o. +Parecia dormir, mas, como o somno se prolongasse +excessivamente, accordaram-n'o.</p> + +<p>—O que tem? perguntou-lhe Maria. Não quer hoje +levantar-se?</p> + +<p>—Não é nada, respondeu elle, fitando-a mansamente +e procurando saccudir a somnolencia que o +dominava. Estou muito constipado, tenho o peito +muito opprimido. Creio que foi do vento que hontem +apanhei lá em baixo. Isto com agasalho cura-se.</p> + +<p>—Mas é melhor chamar o medico. Quer?</p> + +<p>—Para mim não era preciso. Mas se tu ficas +assim mais descansada, manda-lhe dizer que venha +cá.</p> + +<p>Maria saiu e Claudio immediatamente caiu n'um +somno pesado, a respiração frequente e anciada.</p> + +<p>O dr. Carvalho veiu cerca do meio dia. O doente +até então não cessára de dormir. Apenas accordava +quando o chamavam, e logo cerrava os olhos, +continuando em torpor.</p> +<span class="pagenum">[289]</span> + +<p>—Está muito doente! disse o dr. para Maria. Eu +vou á villa e volto já para lhe pôr um caustico. Tenho +medo que não lhe façam isso em termos.</p> + +<p>E saiu a entrar na carruagem que o levou á pharmacia.</p> + +<p>—Oh! disse o boticario, vendo-o apear-se ligeiro, +vem hoje muito atarefado!</p> + +<p>—Quero um caustico para o dr. Claudio que está +muito mal.</p> + +<p>—Sim!?... Então com quê? perguntou o boticario +abrindo um armario envidraçado e tirando um grande +frasco com um rotulo em lettras d'oiro.</p> + +<p>—Tem uma pneumonia. E o pulso... Que desconcerto!...</p> + +<p>—Se aquelle organismo não estivesse tão depauperado, +continuou o dr., sangrava-o, mas assim... +não me atrevo.</p> + +<p>—Não sei o que será... não sei o que será, repetia +inquieto. Olhe, deixe-me vêr uma folha de papel +que sempre quero avisar a familia. Que elles não se +importam mas, se não vierem, não ha de ser por +minha culpa.</p> + +<p>E sentou-se a escrever, pedindo ao boticario que +mandasse a carta para Coimbra, no correio da tarde.</p> + +<p>A applicação dos medicamentos não deu resultado. +A pneumonia seguiu os seus tramites.</p> + +<p>Claudio conhecia mal o seu estado. Ás vezes chamava +as pessoas de casa, levado por uma vaga saudade, +procurando combater o somno que o ia dominando +e luctando por despertar a consciencia! Tinha +então palavras carinhosas, principalmente para Maria.</p> + +<p>—Estou a dar-te tanto trabalho... Tem paciencia, +tem paciencia, sim?</p> + +<p>Esses momentos eram, porém, cada vez mais raros.</p> + +<p>Ao terceiro dia, já noite adeantada, perguntou por +<span class="pagenum">[290]</span> +um velho creado que fôra de sua mãe e se chamava +Luiz.</p> + +<p>O creado veiu sem demora, mas entretanto Claudio +adormecia novamente.</p> + +<p>—Está aqui o Luiz, está aqui o Luiz, disse Maria +tentando despertal-o.</p> + +<p>O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da +cama e inclinava sobre o doente o craneo calvo, orlado +de raros e longos cabellos brancos. Claudio entreabriu +os olhos, quiz afagal-o, levantou ligeiramente +o braço, e a mão rolou pela cabeça do velho, caindo +novamente, quasi inerte, sobre o leito.</p> + +<div class="centrado"><img src="images/006.jpg" alt="O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da cama"></div> + +<p>Foi o seu ultimo movimento consciente. Depois +não se sentiu mais que um estertoroso arfar.</p> + +<p>Pela manhã, abriram a janella, cuidando que a +frescura do ar alliviaria a agonia. A luz do sol foi bater +no leito e cercou o moribundo d'um esplendor de +gloria entre o perfume da madresilva e o canto das +aves que alegremente cantavam a eterna alleluia +dos seus amores. Distante, ouvia o balido do rebanho +que o pastor levava a beber no regato. Era +uma festa de canticos angelicos.</p> + +<p>De repente, a respiração pareceu baixar docemente. +Houve no quarto um murmurio de lagrimas e de +soluços; instinctivamente todos ajoelharam, e alguem +disse:</p> + +<p>—Acabou.</p> + +<p>Maria levantou-se, inclinou-se sobre o cadaver, +cerrou-lhe os olhos e, soluçando, abraçou-o.</p> + +<p>Algumas horas depois chegava Jorge.</p> + +<p>No alvoroço que em casa de Laura produzira a +carta do dr. Carvalho, tinha resolvido D. Maria Francisca, +porque o marido estava para a Beira, pedir a +Jorge que viesse vêr o amigo.</p> + +<p>Ainda se lembrou de aconselhar á filha que fosse +a Villalva. Parecia-lhe elegante, de bom effeito no +<span class="pagenum">[291]</span> +publico, esta reconciliação á hora da morte. Mas a +filha revoltou-se.</p> + +<p>—Isso nunca!... Não é pelas offensas que elle +me fez, é porque a minha dignidade não me permitte +entrar ali n'aquella casa e pôr-me a par com +uma mulher réles...</p> + +<p>—Bem, bem, não te exaltes, filhinha. Eu cuidarei +de tudo, rematou D. Maria Francisca.</p> + +<p>Foi então que telegraphou a Jorge.</p> + +<p>Este veiu immediatamente, por Coimbra, para saber +os desejos dos Albuquerques.</p> + +<p>Laura desmaiou mal o viu, e a mãe levou-a em +braços para o quarto, voltando á sala alguns minutos +depois.</p> + +<p>—Coitadinha! Muito tem soffrido! Eu nem sei como +ella póde...</p> + +<p>Mas logo, sem poder conter-se, continuou:</p> + +<p>—Eu o que receio é que haja algum testamento +e elle tenha passado tudo para as mãos d'essa mulher +que lá tem!... O meu querido Jorge verá. Se +não houver nada, peço-lhe que tome conta de tudo +e, se houver, faça então como entender. Elle está +muito mal, segundo o que o dr. Carvalho me diz, +até talvez a estas horas tenha morrido... O que lhe +peço tambem é que me mande um proprio, a cavallo, +para se tratar do enterro logo que elle falleça.</p> + +<p>Com estas instrucções partiu para Villalva onde +foi encontrar o amigo, morto, sobre o leito, já lavado +e vestido pelas mãos de Maria e do creado +Luiz.</p> + +<p>Não se atreveu a entrar sem pedir que o annunciassem +a Maria. Ella veiu recebel-o á sala.</p> + +<p>Jorge não teve coragem de articular uma palavra, +tão grande era a commoção em que todo este drama o +lançava.</p> + +<p>Foi Maria que singelamente resolveu a situação, +<span class="pagenum">[292]</span> +dizendo-lhe magoadamente e reprimindo as lagrimas:</p> + +<p>—Então o senhor era o amigo d'elle?!... Ai! Que +pena não ter vindo mais cedo!... Fallava tanto no +Jorge quando delirava... Parecia que lhe queria dizer +alguma cousa...</p> + +<p>Immediatamente, como prescrutando n'um breve +esforço o que significava ali a presença de Jorge, +entre as lagrimas que já não podia mais conter, perguntou:</p> + +<p>—Vem buscal-o, não é verdade?... E elle que +tanto queria ficar ali ao pé da mãe!...</p> + +<p>Pela manhã veiu um carro funerario, com penachos +negros, a balouçarem-se no macadam, sobre +o qual pozeram o caixão que continha o cadaver +de Claudio. Maria viu-o affastar-se, de joelhos, +orando ao pé da janella e pedindo, não a Deus +que o tivesse junto de si porque no seu espirito +não podia haver duvida sobre a salvação de Claudio, +mas a Claudio que junto de Deus a protegesse +e amparasse com o seu auxilio. O carro desappareceu +entre as ramagens dos choupos que orlavam +a estrada; ella voltou os olhos para os cyprestes +do cemiterio, como querendo instinctivamente prender-lhes +qualquer cousa que lhes roubavam, e +ergueu-se a dar o peito ao filho que se movia no +berço.</p> + +<p>Levaram o corpo de Claudio para a egreja de Santa +Cruz e pozeram-n'o sobre um catafalco rodeado +de tochas accesas e muitas velas em serpentinas de +prata. Cobriram-n'o de corôas feitas de pannos tingidos, +em fórma de flores, e aos pés do caixão, do +meio d'esse montão informe de enfeites, pendia uma +fita preta com grandes lettras douradas, dizendo:</p> + +<p style="text-align: center;"><i>Eterna saudade da sua Laura.</i></p> +<span class="pagenum">[293]</span> + +<p>Em seguida aos responsos, pôz-se tudo a caminho +do cemiterio. Um lente da Universidade dizia na +carruagem para o juiz que o acompanhava:</p> + +<p>—Vão mais de quarenta trens! Este Albuquerque +tem ainda uma grande influencia!...</p> + +<p>—Pois não tem! respondia o juiz. O genro, se +não fosse tolo, podia ter feito uma linda figura. Ainda +nas ultimas eleições se lembraram de o eleger deputado +por Vizeu. Quem sabe?... Talvez ainda agora +vivesse!...</p> + +<p>Passados tres dias, n'aquelle campo em que Claudio +costumava trabalhar, uma creança brincava á sombra +das oliveiras. Ao lado, uma mulher, vestida de +negro, ceifava o azevem. Era Maria.</p> + +<p>Á mesma hora, em Coimbra, rodavam as carruagens +a caminho do palacio dos Albuquerques. Ali, +trocavam-se palavras doces em meio das paredes +despidas dos seus adornos. Laura e a mãe discutiram +longamente, maduramente, quantos vestidos +havia a fazer, e resolveram mandar vir da capital +uma modista em voga.</p> + +<p>—Porque, dizia D. Maria Francisca, sempre é lucto +de mais d'um anno!... Aqui fazem-te lá alguma cousa +em termos?! Não has-de andar todo esse tempo com +vestidos desageitados. Depois, vem a Figueira e precisas +ter com que te apresentes. Tu bem sabes como +aquella gente de Lisboa repara...</p> +</div> + + +<p style="text-align: center;">FIM</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Transviado, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRANSVIADO *** + +***** This file should be named 25945-h.htm or 25945-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/9/4/25945/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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