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+ <title>Transviado, por Jaime de Magalhães Lima</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Transviado, by Jaime de Magalhães Lima
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Transviado
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
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+Release Date: July 1, 2008 [EBook #25945]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRANSVIADO ***
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+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net
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+<div class="centrado"><img src="images/capa.jpg" alt="capa do livro"></div>
+
+<br>
+
+<div class="centrado">
+
+<p style="font-size: 200%;">ROMANCES ILLUSTRADOS</p>
+
+<p style="font-size: 120%; color: red;">JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p style="font-size: 240%; color: red;">TRANSVIADO</p>
+
+<p style="color: red;">ROMANCE ILLUSTRADO
+<br>
+COM MAGNIFICAS GRAVURAS</p>
+
+<p style="color: red;">LISBOA</p>
+
+<p style="color: red;">EMPREZA EDITORA<br>
+T. da Queimada, 35</p>
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+<h1>TRANSVIADO</h1>
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+<div class="capa">
+<p style="font-size: 140%;">JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<hr style=" width: 80%; height: 6px; border-top: solid 2px #000000;">
+
+<p style="font-size: 220%;">TRANSVIADO</p>
+
+<hr style=" width: 30%;">
+
+<p>Romance illustrado com magnificas gravuras</p>
+
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<p>LISBOA
+<br>
+<span style="font-size: 120%;">EMPREZA EDITORA</span>
+<br>
+35&mdash;Travessa da Queimada&mdash;35
+<br>
+1899</p>
+</div>
+
+
+<p style="margin: 20%; padding: 2em; border: solid 2px #888888; text-align: center;">EMPREZA EDITORA</p>
+<span class="pagenum">[5]</span>
+
+<h4>A</h4>
+
+<h4>LUIZ DE MAGALHÃES</h4>
+
+<p style="margin: 2em;">Dedico-te este livro que é simultaneamente uma recordação
+e uma promessa da nossa amizade. Nasceu da
+vida commum do nosso espirito, da experiencia na aspera
+e triste jornada pela terra que temos feito juntos e em
+que caminharemos unidos até que o destino lhe ponha
+termo.</p>
+<span class="pagenum">[7]</span>
+<div id="corpo">
+
+
+
+
+<h1>I</h1>
+
+
+<p>Nos campos do Mondego, abaixo de Coimbra,
+a primavera é frequentemente agreste
+e fria. Quando o vento do mar sopra
+rijo sobre os brancos lençoes de malmequeres
+a surgir da terra humida e paludosa,
+ainda farta das aguas do inverno, as
+tardes são inclementes para o corpo ávido
+do repouso e doçura da natureza.</p>
+
+<p>Este rapaz que além se apeou d'uma
+carruagem, em frente da estação de S. Braz,
+na estrada que vem dos lados de Albergaria,
+atravessou a linha conchegando o gabão que o
+vento desconcerta, e, mal entrado na gare, em que
+só destaca uma carreta abandonada com poucos fardos,
+procura onde se abrigue. Estamos todavia n'uma
+tarde d'abril.</p>
+
+<p>O rapaz seguiu vagarosamente, ao longo da gare;
+na porta em que leu «sala d'espera» abriu e entrou. A
+um canto, sobre o duro banco de madeira, dormitava
+um homem gordo, de lunetas, mãos nos bolsos e
+chapéu derrubado para os olhos; ao lado uma mulher
+<span class="pagenum">[8]</span>
+esbelta e franzina, um olhar brilhante sob o véo que
+lhe cobria o rosto. O homem levantou-se levemente
+turbado, com modos submissos, e pareceu hesitar.</p>
+
+<p>&mdash;Eu agora... contra a luz..., não distinguia
+bem. Perdoe v. ex.<sup>a</sup>! disse dirigindo-se ao recem-chegado.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem, como vinha de fóra e a sala estava
+um pouco escura, não o conheci á primeira vista. Foi
+necessario reparar um pouco...</p>
+
+<p>&mdash;Então como tem passado v. ex.<sup>a</sup> depois da sua
+jornada ao estrangeiro?... Será melhor sentar-nos,
+acrescentou apressadamente o homem das lunetas
+sem esperar resposta... V. ex.<sup>a</sup> tem aqui logar...
+dizia affastando um cesto de morangos d'um sofá que
+parecia mais commodo.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado, muito obrigado... Não se incommode...
+Em qualquer sitio...</p>
+
+<p>E o rapaz ia a sentar-se quando o outro, abruptamente,
+o obriga a aprumar-se apontando-lhe a mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Minha mulher... o sr Claudio de Souza Portugal,
+um cavalheiro muito illustrado e do meu maior
+respeito!</p>
+
+<p>Trocaram-se as palavras sacramentaes e todos se
+sentaram.</p>
+
+<p>&mdash;Que extravagante modo de vêr! começou Claudio.
+Nas cidades, onde não faltam recursos, a <i>Companhia</i>
+dá-nos uma sala de espera com certo conforto,
+e aqui, n'este deserto, no meio d'um charco, reduz
+todas as commodidades dos pobres passageiros a um
+banco mal pintado e frequentado sabe Deus por
+quem. Na Suissa chega a haver, nas estações que
+estão nas circumstancias d'esta, uns pequenos quartos
+em que se pernoita com agasalho e aceio. Aqui,
+que barbarie!... Havemos de ser sempre assim; um
+paiz de toiros ha-de ser forçosamente um paiz de
+campinos. Tambem tem a sua belleza, é verdade;
+<span class="pagenum">[9]</span>
+mas, quando se tem frio, uma manta do Ribatejo e
+duas taboas de pinho, confessemos, são pouco.</p>
+
+<p>E fitava a mulher, nervoso, contente com esta apparição
+inesperada, captivo da sua graça.</p>
+
+<p>Ella respondia:&mdash;E v. ex.<sup>a</sup> bem o deve estranhar.
+Segundo tenho ouvido, fez ha pouco uma linda viagem
+pelo estrangeiro. Provavelmente, agora mesmo,
+vae aproveitar a primavera em melhores terras.</p>
+
+<p>&mdash;Não, venho aqui apenas para vêr um meu amigo
+que passa para Lisboa e volto já a Albergaria.
+Não é sacrificio, para mim, viver ali. Em Paris, em
+Vienna d'Austria, por toda essa Italia que é a melhor
+galeria do mundo, no meio de riquezas artisticas
+sem numero, nunca houve prazeres sufficientes
+para me apagarem as saudades do meu paiz. Pelo
+contrario, tinha horas d'uma tristeza prolongada.
+Creio até que mais d'uma vez caí na fraqueza de
+chorar. Porque, não sei bem; não eram saudades
+com um objecto determinado, era uma dôr vaga mas
+penetrante.</p>
+
+<p>Ella, sorrindo, replicou:&mdash;Bem diz o ditado que dá
+Deus nozes a quem não tem dentes. Só eu aborreço
+cordealmente a vida de provincia e estou condemnada
+a soffrel-a. Já não queria Paris nem Vienna, com
+Lisboa me contentava. Nem isso!... Não posso comprehender
+o mundo sem muita gente. A Avenida e
+S. Carlos e o Campo Grande e as praças e as ruas,
+tudo isso é para mim encantador, e infinitamente
+melhor que o pó e os tamancos da villa de Albergaria.
+Eu sei que é de máu gosto não elogiar as bellezas
+do campo, mas fui educada em Lisboa e hei-de
+ser lisboeta até ao fim da vida. Não... Parece-me
+sentir se o comboio. Até já, que nós tambem não
+saimos, concluiu ella, erguendo-se, com visivel interesse
+em continuar a palestra.</p>
+
+<p>O comboio entrava na gare e separaram-se, dirigindo
+se cada um ás carruagens em que descobriam as
+<span class="pagenum">[10]</span>
+pessoas que procuravam. Depois, rapidamente, bateu
+o signal da partida, a confusão de pregoeiros de jornaes
+e de passageiros que corriam do restaurante
+dissipou-se, e, novamente, na gare ficaram sós Claudio,
+os seus interlocutores, e poucos empregados que
+arrastadamente recolhiam da sua tarefa a dormitar
+pelos armazens, entre as bagagens.</p>
+
+<p>Claudio approximou-se do par que momentos antes
+tinha deixado e offereceu-lhe logar na sua carruagem
+para regressarem juntos a Albergaria.</p>
+
+<p>&mdash;Não, muito obrigado, vamos incommodal-o. Temos
+ali um carrito em que viémos.</p>
+
+<p>Instou; que a tarde estava horrorosa, que iriam
+talvez um pouco mais agasalhados, que lhe davam o
+maior prazer com a sua companhia.</p>
+
+<p>&mdash;A Emilia dirá, respondeu o homem de lunetas
+voltando-se para a mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! por mim, acudiu ella muito alegremente,
+acceito e agradeço; não sei desprezar tão boa fortuna.
+Desculpe-me v. ex.<sup>a</sup> a franqueza... Conheço o
+apenas ha uma hora e vou dispondo já das suas cousas
+com uma familiaridade que póde induzil-o em
+mau juizo...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! pelo amor de Deus, minha senhora, não
+diga mais, que blasphemias!... Muito prazer, fico
+muito reconhecido a v. ex.<sup>as</sup>.</p>
+
+<p>Encaminharam-se, atravez da linha, para a carruagem,
+que era um vasto <i>landau</i> tirado por dois
+possantes cavallos, e Claudio sentou-se em frente de
+Emilia e do marido.</p>
+
+<p>Apenas sairam da estação, a conversa reatou-se
+no tom de banal animação em que a vimos começada.
+Claudio ia inquieto, um pouco embriagado pela
+belleza da mulher que tinha deante de si.</p>
+
+<p>Examinava-a á claridade d'este poente coado pela
+leve neblina do norte; ha pouco, na escuridão da
+sala, mal a tinha visto, só agora podia julgar inteiramente
+<span class="pagenum">[11]</span>
+da estranha seducção que logo ao primeiro
+encontro o impressionára. Emilia era uma mulher
+de feições quasi vulgares, magra, testa alta, rosto
+oval com as faces ligeiramente angulosas, a bocca
+grande, os labios delgados, o nariz secco e pronunciado;
+mas uma mobilidade d'olhar, de gestos e de
+sorrisos, desprendidos entre um collar de dentes
+sem mancha, que enfeitiçava. Com excepção dos
+olhos que eram soberbos de doçura e languidez, nem
+uma só feição que merecesse a arte atteniense;
+ainda assim, um poder d'attracção enebriante.</p>
+
+<p>Com esta superior espiritualidade contrastava a
+grosseria do marido, trigueiro, quasi calvo, o olhar
+embaciado, taciturno, todos os signaes de vida interior
+apagados. Era escrivão de fazenda, chamava-se
+Ricardo Dias d'Almeida, e na villa conheciam-n'o
+pelo <i>Canadas</i>, porque a sua medida habitual, nas
+noites d'alegria, era uma canada de vinho.</p>
+
+<p>A carruagem seguia vagarosamente, pesadamente,
+a estrada desabrigada que ia ladeando os campos
+despovoados; o crepusculo approximava-se e a conversação
+corria sempre viva, sem repouso. Eram
+Claudio e Emilia que sós a alimentavam, ella não
+cessando de interrogal-o sobre as suas jornadas, elle
+descrevendo e contando, ora relembrando as maravilhas
+de luxo e de arte que tinha visto, ora referindo
+incidentes alegres da vida nomada. Quando jornadeava
+mais assiduamente, as paixões não tinham
+fim, uma cada dia, quasi invariavelmente. No lago
+de Como o amor fôra grande por uma sueca de cabellos
+dourados e bocca pequenina, que passara uma
+tarde com elle na villa Carlota, onde ha plantas exoticas
+e esculpturas de Canova; mas nenhum como o
+que tivera por uma ingleza com quem viajara seis
+horas no Rheno, de Mayance a Colonia. Eram incendios
+romanticos, labaredas ephemeras a que a sua
+imaginação por momentos se entregava caprichosamente.
+<span class="pagenum">[12]</span>
+O que não pensou quando viu essa rapariga
+ingleza?! Sonhava-a filha d'um lord que por ali, algures,
+nas margens do rio, devia ter um castello para
+descansar no estio. Via-a nas torres, roupagens brancas,
+tranças ao vento e havia de raptal-a por uma
+noite de luar montado n'um soberbo cavallo arabe,
+veloz e nobre. Ao amanhecer andaria tudo em correrias
+doidas pelo castello, o pae espumando vinganças,
+os creados atonitos, chorando; e já longe,
+em mysteriosos campos desconhecidos, o cavallo jazendo
+extenuado e elle moribundo de fadiga e amor
+a deixar-lhe nos labios o ultimo alento. Depois, ao
+cair da noite, os pastores que o sepultavam na montanha
+e os soluços da sua amada sobre o corpo hirto
+e frio, e tarde, em tempos distantes, a scena ultima,
+o perdão do pae e a solidão no convento.</p>
+
+<p>Emilia ouvia attenta esta indiscreta revelação
+d'uma alma. Com breves perguntas provocava ou
+novas confissões ou narrativas em que o espirito femenil
+se deleita. E Paris? Devia ser deslumbrante
+de luxo e de prazeres. E o <i>Bois</i> e a Opera e os Campos-Elysios
+e as corridas em Longchamps? Vinham
+então as descripções de soberbas equipagens e de
+magnificos espectaculos. E diziam que agora era
+uma sombra do passado! Um fidalgo francez, com
+quem Claudio se relacionara, levou-o uma noite, depois
+da opera, ao Tortoni, quasi deserto, só para lhe
+mostrar logares que elle reputava celebres. Aqui se
+sentara o duque de X..., aqui o marquez de Z...
+Na rua a fila das carruagens não tinha fim. Então,
+sim, então havia luxo em Paris, dizia o fidalgo. Tambem
+passara quinze dias em Londres, na <i>season</i>,
+admirara muito a solidez do luxo britannico e, estava
+mesmo em dizer, o seu bom gosto, uma sobriedade
+de linhas e de decoração que tocava o atticismo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas tudo isso, concluia Claudio, não vale
+<span class="pagenum">[13]</span>
+aquelle cantinho, e apontou para fóra da carruagem,
+atravez dos vidros.</p>
+
+<p>Era quasi noite e estavam em frente das azenhas
+dos Casaes. Entre os troncos de choupos, as aguas
+espumantes sarjando a terra e as madresilvas debruçadas
+nos vallados, entre os vultos mal distinctos
+que a obscuridade confundia e deformava, a porta
+do moinho lançava um clarão e ao fundo via-se, em
+volta da lareira, o moleiro, a mulher e os filhos,
+abrigados do vento frio que corria no valle, sobre a
+ribeira.</p>
+
+<p>&mdash;Que mau gosto! Perdoe-me a franqueza, respondeu
+Emilia. É impossivel que o sinta, está a brincar.
+Ou então, como já me percebeu a fraqueza, quer-me
+ouvir.</p>
+
+<p>&mdash;Não, replicou Claudio, é a verdade. Se vivesse
+um pouco commigo, havia de convencel-a. Estou
+certo de que mudaria de sentimentos.</p>
+
+<p>Fez-se um breve silencio; e houve entre os dois
+como uma commum necessidade de recolhimento intimo.
+Elle pensava com mágoa quanto a concepção
+vulgar da belleza estava longe do seu ideal, ella ficára
+indecisa perante uma affirmação tão cathegorica,
+porventura instinctivamente subjugada pelo poder
+de insinuação de Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Nem v. ex.<sup>a</sup> imagina o que isto é, disse Ricardo
+julgando de boa educação não deixar cair a conversa.
+Tudo uma miseria! O que eu não sei é como esta
+gente vive. Só no anno passado houve mais de cento
+e cincoenta contribuições relaxadas. Isto na predial,
+porque na industrial, com a lei nova, ninguem
+paga.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, é, são pobrissimos, respondeu pacientemente
+Claudio, mas a pobreza tambem tem as
+suas alegrias e até a sua belleza.</p>
+
+<p>Nova pausa, novo silencio, o silencio proprio
+do contacto de duas almas que se sentem em desharmonia
+<span class="pagenum">[14]</span>
+e que ao mesmo tempo se veem attrahidas
+por mutua fascinação. O certo é que a conversa perdeu
+todo o movimento e, entre desconnexas interrogações,
+variando sempre de assumpto, assim chegaram
+a casa do escrivão de fazenda.</p>
+
+<p>&mdash;E então até amanhã, por certo não falta em
+casa do dr. Carvalho. Tem grande festa, disse Emilia.</p>
+
+<p>&mdash;Que remedio! São os annos d'elle e eu sou-lhe
+tão obrigado...</p>
+
+<p>E no dia seguinte, emquanto Claudio se sentava
+a uma mesa do whist, ouvia entre duas solteironas
+o seguinte dialogo:</p>
+
+<p>&mdash;Já reparaste como a Emilia está hoje elegante?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, já vi. Está bonita. E é singular!
+Ella que costuma cuidar tão pouco de si...</p>
+
+<p>Só Claudio podia suspeitar o segredo d'aquella
+transformação. Via a com uma vaga, quasi inconsciente
+impressão de triumpho e de vaidade satisfeita.
+Nem sequer sonhava quantas batalhas lhe reservava
+esta primeira gloria, tão tentadora como traiçoeira
+na facilidade com que se deixava conquistar.</p>
+<span class="pagenum">[15]</span>
+
+
+
+
+<h1>II</h1>
+
+
+<p>A estrada que partindo de Albergaria para o
+nascente se interna nas serras, segue paralellamente
+á ribeira que vem de Alcofa,
+ao lado de campos ferteis, copiosamente banhados
+pelas aguas da rega. O valle vae
+apertando e, passado um estreito em que
+os montes lateraes quasi se tocam, deixando
+apenas uma apertada passagem para
+o rio, a estrada bifurca-se; um dos ramos
+segue para a esquerda entre montes desertos,
+calcinados, de longe em longe marcados
+por oliveiras solitarias, com a vegetação rachitica
+dos terrenos calcareos que se esboroam em
+pó fino e branco. A breve distancia, a encosta começa
+a ser aspera, de todos os lados apparecem miserrimos
+campos fechados por muros de pedra solta;
+acima, n'uma quebrada, avistam-se os telhados da
+aldeia entre bastas ameixieiras e o olivedo já mais
+viçoso do que o deixamos em baixo. No latido dos
+cães e no cantar do gallo sentem-se uns prenuncios
+<span class="pagenum">[16]</span>
+de vida, signaes de habitação humana com os seus
+guardas, as suas provisões e os seus pomares.</p>
+
+<p>Essa aldeia é Villalva, um montão de casebres
+cortados de caminhos cheios de matto, de tojo, de
+urze e de carrasco, degráus informes dando accesso
+a casitas negras de fumo, cortelhos de magros
+porcos fossando na estrumeira. Á entrada, uma casa
+caiada, com tres pequenas janellas, uma escada ao
+lado, acompanhando a encosta, por detraz os curraes
+formando pateo; e por baixo, pelas frestas vedadas
+com um varão de ferro, espreitam palhas soltas e os
+cestos da vindima, advinha se o celleiro, a adega e
+o palheiro. Fôra ali, n'aquella aldeia e n'aquella
+casa, que nascera Claudio.</p>
+
+<p>Os paes eram lavradores, tinham bons campos na
+varzêa, um vasto pinhal no Bunheiro, e bastas courellas
+dessiminadas nos montes onde colhiam o centeio,
+o vinho e o azeite. Os filhos foram poucos; dois
+morreram novos, n'uma epidemia de variola, uma
+filha, a mais velha, casara cedo com um lavrador da
+Alumieira, a poucos kilometros d'ali, e Claudio ficára
+só em casa, desde os sete annos.</p>
+
+<p>Um tio que se ordenára e era abbade n'uma freguezia
+do Minho queria que elle fosse padre; escrevia
+ao irmão lembrando-lhe que era tempo de
+mandar o rapaz á escola, se queriam fazer d'elle
+alguma cousa, que pela sua parte estava prompto
+a ajudal-o, como elle bem o sabia, e que emfim
+não tinha outros parentes e o pouco que possuia
+havia de deixal-o aos seus. Precisava mesmo de
+tratar das suas ultimas disposições; já no inverno
+passado a gotta o tinha tido preso em casa
+mais de dois mezes e sentia-se muito fraco.</p>
+
+<p>O pae hesitava. Era um homem austero que tinha
+feito da vida uma tarefa de trabalho. A pé desde o
+romper do dia, ao lado do unico creado que tinha, vigiando
+tudo, adeante do gado pelos ingremes atalhos
+<span class="pagenum">[17]</span>
+da serra, nas veigas, em noites de estio, com agua até
+ao artelho, guiando as regas pelos milharaes, curvado,
+ceifando, sob o sol ardente, o seu corpo não tinha
+repouso. Pouco fallava; a mulher e os filhos respeitavam-n'o
+mas temiam-n'o, conheciam as suas
+duras reprimendas, se o creado tardou a fazer a cama
+ao gado, se a enxada ficou no campo e o milho mal
+coberto na eira.</p>
+
+<p>Era para aquillo que ensinava o filho; muitos louvores
+déra a Deus quando elle nasceu por ter quem
+o ajudasse e continuasse o amanho do seu casal.
+Para que fazel-o padre? Tinha ali com que viver.
+Mas o Veiga, que fôra recebedor lá na terra em que
+estava o irmão e que o tratava como cliente abastado,
+tinha-lhe dito, quando elle foi pagar a decima,
+que o irmão estava muito rico. Era um unhas de
+fome, não gastava um real, sempre de tamancos,
+com meias de lã no inverno, e de verão nem meias
+trazia. Tudo para poupar!</p>
+
+<p>E já outros lhe tinham dito a mesma cousa. Ao
+certo nada sabia, que o padre nunca lhe disséra
+quanto tinha; receiava que lhe pedissem alguma
+cousa. Só quando foi pelo casamento da sobrinha lhe
+mandou uma peça em ouro.</p>
+
+<p>Seria tudo isso verdade? Tambem não queria privar
+o rapaz d'uma fortuna. Toda a vida tinha trabalhado
+para os filhos; se agora podia deixal-os ricos,
+era sua obrigação fazer deligencias para isso.</p>
+
+<p>Entretanto Claudio frequentava a escola e, graças
+ás hesitações do pae sobre o seu destino, não lhe
+davam na lavoura serviço pesado; cuidava dos bois,
+se o creado trabalhava longe de casa, levava o jantar
+aos trabalhadores, se os havia de fóra, andava á
+tarde na apanha da azeitona. Era uma creança nutrida
+e forte, pacifica, as faces rosadas, cabellos e
+olhos castanhos, uma certa mansidão no olhar; parecia-se
+muito com a mãe que fôra sempre um modelo
+<span class="pagenum">[18]</span>
+de paciencia. Aprendia mal, continuamente distraido,
+e associava-se pouco aos companheiros da
+escola; ao peão na barra, nas brigas e nas corridas
+ficava sempre vencido. O seu maior prazer estava
+n'um cantinho do quintal onde plantava flores que a
+mãe lhe pedia para pôr n'um vaso, no oratorio, aos
+pés d'um crucifixo. Vagueava pelo pateo, ora examinando
+os bois, ora afagando o cão, ora debruçado no
+muro a vêr as gallinhas que na rua apascentavam as
+ninhadas. O pae tinha-o em pouca conta.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca ha-de ser nada com aquella preguiça;
+comer, dormir e passeiar. O que elle quer é andar de
+mãos nos bolsos. Está mesmo bom para abbade.</p>
+
+<p>&mdash;Ora deixa lá, respondia a mãe, Deus sabe o que
+elle será.</p>
+
+<p>Essa sim, essa tivéra sempre grande inclinação
+para o filho, e muito mais agora que a rapariga se
+tinha casado e ficára só com elle. Ensinava-o a rezar,
+toda a doutrina christã, e repetia-lhe muito os
+mandamentos da lei de Deus e as bemaventuranças.</p>
+
+<p>Bemaventurados os pobres d'espirito, e os que são
+mansos, e os que choram, e os misericordiosos, e os
+pacificos; é para elles o reino dos céos. Pintava-lhe
+as penas do inferno para os máus e a presença de
+Deus, na companhia dos anjos, para os bons. A
+creança não se cansava de interrogar. Como seria?
+Pelo seu espirito passavam sombras de terror quando
+o julgavam e lhe diziam:</p>
+
+<p>&mdash;Isso é peccado.</p>
+
+<p>Temia o inferno. Penas eternas! em lá caindo, era
+para sempre.</p>
+
+<p>Os mendigos vinham á porta da cosinha, andrajosos,
+esfarrapados, calcando o matto fôfo e humido
+com o bordão a que tremulos se arrimavam. A mãe,
+para animar o filho na caridade, mandava-lhes por
+elle um pedaço de brôa.</p>
+<span class="pagenum">[19]</span>
+
+<p>&mdash;Seja pelo divino amor de Deus. Por alma de
+quem lá tem: Padre nosso que estaes nos céos...</p>
+
+<p>O pequenito ouvia silencioso. Era bom; Deus ouvia
+tambem os mendigos e perdoava os peccados
+aos que tinham morrido e estavam nas penas do purgatorio.</p>
+
+<p>Era preciso, dizia-lhe a mãe, rezar muito, e por
+muito que se rezasse nunca era o bastante para alcançar
+o perdão de todos os peccados; ficava-se
+sempre em divida. Scismava n'este mysterio.</p>
+
+<p>A isto se reduzia a educação de Claudio, ás singelas
+lições do exemplo e aos piedosos conselhos da
+mãe quando á noite, findo o trabalho, emquanto não
+chegava a hora da ceia, se sentava com elle no chão,
+sobre a esteira, ao canto da sala, proximo do oratorio.</p>
+
+<p>Decorreram dois annos n'este abandono. Ao fim,
+em agosto, veiu uma nova carta do Minho, decisiva.
+O abbade voltava a insistir na educação do sobrinho;
+as despezas eram por sua conta. Não se prendessem
+com isso. O seu amigo padre Netto ia passar as ferias
+ao Carregal, não tinham mais do que entregar-lhe
+o rapaz no primeiro de outubro, viria com elle
+para o collegio. Depois o abbade olharia pelos estudos.</p>
+
+<p>O pae d'esta vez não hesitou. A carta era tão terminante
+que não podia deixar de fazer a vontade ao
+irmão sem o risco de perder toda a herança para os
+filhos. Sem demora, com a sua habitual firmeza, tratou
+do enxoval. Um dia, pela madrugada, metteu algum
+dinheiro no bolso e foi com a mulher e com o
+filho a Albergaria. Ahi tomaram a deligencia e seguiram
+para Coimbra. Por lá andaram algumas horas,
+de loja em loja, desconfiados dos preços, abrazados
+de calor, regateando e comprando os pannos,
+o chapeu, os sapatos, a gravata e a caixa de folha
+que havia de ser dentro de dois mezes a magra bagagem
+<span class="pagenum">[20]</span>
+do bisonho estudante. Á tarde voltaram a
+Villalva.</p>
+
+<p>Veio a costureira e o alfaiate. Queria-se tudo largo,
+muito largo, senão, elle era um latagão, d'aqui
+a pouco nada lhe servia, era um desperdicio. N'esse
+canto da sala, sobre a esteira, entre a janella e o
+oratorio, ali onde á tarde Claudio recebia as piedosas
+lições da mãe, o chão semeou se de linhas e de
+farrapos, de pedaços de panno orlados de grandes
+alinhavos, entre elles a pregadeira e a thesoura postas
+a um lado. Ia n'aquella casa, tão tranquilla, um
+bulicio desusado; a costureira cantava, rasgavam-se
+asperamente as peças de bretanha, e a mesa animava-se
+com o novo conviva, a rapariga que tagarellara
+todo o jantar, contando o que ia na villa e o muito
+que brincara quando fôra a Balmaes, á Senhora da
+Saude. Tinham andado toda a noite a dançar no jardim
+do sr. Cunha, um fidalgo que lhes mandara dar
+pão dôce e licores.</p>
+
+<p>Claudio estava contente, tudo aquillo era para elle;
+a singela vaidade infantil alegrava-se com as parcas
+riquezas que aos seus olhos tamanhas pareciam.</p>
+
+<p>O movimento foi baixando, as camisas juntaram-se
+dobradas sobre uma cadeira, a costureira não
+voltou, varreu-se a sala e o pequeno casal de Villalva
+caiu no seu habitual silencio.</p>
+
+<p>O pequenito sentiu então o primeiro travo da
+saudade. Ia partir. Para onde? Os mestres eram tão
+maus... E os bois? e o seu cão? e as suas flôres?
+Iam talvez seccar. Só se fosse a mãe que as regasse
+para as pôr a Nosso Senhor. Já lh'o pedira e ella
+tinha-lh'o promettido.</p>
+
+<p>O padre Netto mandara dizer que o rapaz devia estar
+no primeiro d'outubro, ás tres horas da madrugada,
+na estação do caminho de ferro, em Coimbra,
+para seguir com elle. Precisavam sair de Villalva á
+meia noite.</p>
+<span class="pagenum">[21]</span>
+
+<p>Depois da ceia começou a fazer-se a mala. Já estava
+tudo na sala, faltava arrumar a caixa. Claudio
+assistia e ajudava, allumiando com o candieiro na
+mão e ouvindo as recommendações da mãe. Iam duas
+andainas de roupa, mas a preta era só para os domingos,
+para ir á egreja, a alguma festa, ou para
+quando o sr. director mandasse; que visse bem, não
+se perdesse alguma coisa, tudo aquillo tinha custado
+muito dinheiro. Iam tambem uns sapatos pretos, só
+para trazer com a roupa melhor, não fosse estragal-os
+na brincadeira. Juntou-lhes ainda um rosario de
+contas de vidro branco e verde enfiadas n'um cordão
+vermelho, não se esquecesse de o resar todas as
+noites a Nossa Senhora, por alma dos avós e para
+que ella o ajudasse em todas as afflicções da sua vida
+e o defendesse das tentações do mundo.</p>
+
+<p>A creança ouvia, promettendo fazer o que a mãe
+lhe ia pedindo. Cerca das onze horas, como já passasse
+muito da hora a que habitualmente se deitava, encostou-se
+sobre duas cadeiras e adormeceu, com a cabeça
+repousada sobre o braço. A noite começava a arrefecer.
+A mãe foi buscar um chale, abriu-o, afastou-lhe
+o braço e d'um casaco velho fez um travesseiro
+em que lhe pousou a cabeça. O pae estava dormindo
+na cosinha, não quizera deitar-se na cama; não valia
+a pena por tão pouco. E, n'este silencio que a fadiga
+trouxera, a mãe ficou só, velando, ajoelhada em oração
+perante o Christo, a rogar-lhe fervorosamente
+protecção para o filho.</p>
+
+<p>Ao bater da meia noite foi accordar o marido,
+o filho e o creado que dormia em baixo, no palheiro.</p>
+
+<p>As despedidas foram breves que nem o marido
+gostava de expansões nem o pequeno Claudio, tonto
+de somno, podia dar-lhes grande attenção.</p>
+
+<p>A mãe acompanhou-os até á porta e logo os viu
+perderem-se na confusão da neblina mal illuminada
+pelo luar, ladeira abaixo, o pequenito pela mão do
+<span class="pagenum">[22]</span>
+pae, atraz o creado, varapau ao hombro e sobre elle
+a caixa de folha, vibrando estridula e compassada. Ao
+fundo estava o carro. Claudio, mal elle partiu, adormeceu
+novamente. E assim foi, moido da jornada,
+accordando só por breves minutos se o chamavam,
+até ás alturas de Espinho.</p>
+
+<p>Quando ali chegou, era madrugada; cedendo ao
+habito despertou. Onde estava? Que era feito dos
+doces ruidos de Villalva, da voz do pae marcando
+trabalho ao creado, dos passos da mãe na cosinha,
+abrindo a arca para levar o milho á creação? Tinha
+saudades, as lagrimas marejavam-lhe nos olhos, mas
+a novidade da payzagem e a vertigem do movimento
+distraiam-n'o e moderavam esta hora de angustia.</p>
+
+<p>Estava ao pé do mar. Não o surprehendia, já o tinha
+visto na Figueira, quando lá fôra em romaria
+com a irmã, pelo S. João, no anno em que ella se
+casou; atraia-o esta vastidão inquieta que Deus creára
+e em que admirava o seu poder. Apearam-se em
+Villa Nova de Gaya e causou-lhe grande estranheza
+a ponte pensil; mas vira e não comprehendia como
+tinham lançado aquellas cordas de ferro, d'um ao
+outro lado do rio. As ruas e as praças do Porto pouco
+o impressionaram; eram semelhantes ao que havia
+em Coimbra, na Calçada, na Portagem e na feira
+de S. Bartholomeu. O padre Netto mostrava-lhe as
+estatuas, D. Pedro IV, D. Pedro V. Sabia quem
+eram? O mestre escola fallava d'elles, lá em Albergaria,
+mas era para os mais adiantados. D'uma só
+cousa os seus olhos não podiam desprender-se, cheios
+de pasmo e curiosidade: os bois. Estranhava-os muito,
+com os seus grandes cornos, em lyra, e as mãos
+tortas, quasi aleijadas, deformadas pelo trabalho violento
+na calçada. Eram feios; os d'elle eram mais bonitos,
+cornos curtos, pernaltos, aprumados e nédios.</p>
+
+<p>Ao collegio devia chegar á noite, depois de cinco
+<span class="pagenum">[23]</span>
+horas de carruagem. Iam continuar os aspectos novos
+que tanto captivavam a sua curiosidade de creança:
+Rio Tinto e os seus teares sem conta,&mdash;em Albergaria
+havia só um,&mdash;Vallongo e as pedreiras de
+lousa, e as vides a trepar pelas arvores e os valles
+estreitos e humidos com os seus altos milharaes.
+Oliveiras não havia. Com que se alumiavam? perguntava
+ao padre. O azeite vem de fóra, respondia.
+E aquillo o que é? dizia apontando uma construcção
+desconhecida, sobre quatro pilares de granito. É um
+espigueiro; guardam ali as espigas do milho até ficarem
+bem seccas e só depois é que o malham.
+Assim passou toda a tarde, interrogando, vendo,
+observando tudo o que se prendia com os seus habitos
+e com a propensão natural do seu espirito. O padre
+ia-lhe respondendo. Era um homem paciente e
+bom, muito habituado a creanças, sabendo conquistal-as.</p>
+
+<p>Os primeiros dias do collegio foram maus, pouco
+de molde a apagar as saudades que Claudio tinha da
+casa. Os companheiros escarneciam-n'o ao vêl-o nos
+seus enormes sapatos, a roupa nova, angulosa e hirta,
+d'uma vastidão desproporcionada. Perguntaram-lhe
+quem era o pae.</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae, respondeu vaidoso, é o thesoureiro da
+junta de parochia.</p>
+
+<p>Começaram a chamar-lhe o thesoureiro e Claudio,
+timido, vexado, sentiu-se só entre aquella multidão
+desconhecida. O isolamento em que vivera em Villalva,
+os aturados conselhos da mãe, ensinando-o cedo
+a distinguir entre o bem e o mal, o exemplo da
+austeridade do pae, mataram á nascença na sua alma
+todo o germen de expansão e de lucta, quebraram
+todas as forças animaes e deixaram o terreno varrido
+para n'elle se alastrar a dolorosa consciencia da
+obrigação.</p>
+
+<p>Mandavam-n'o ali estudar; era preciso voltar a
+<span class="pagenum">[24]</span>
+Villalva, exames feitos, coberto de louvores, sem
+uma falta. Temia a severidade do pae e temia ainda
+mais as lagrimas da mãe. O espirito da creança concentrou-se
+na sua tarefa; os mestres viram com admiração
+o estudo e a intelligencia do novo discipulo
+que vinha com fama de aprender mal.</p>
+
+<p>O abbade, o tio, immundo e gordo, arfando de
+cansaço, vinha vêl-o algumas vezes e pagar as mezadas.
+Pouco fallava ao sobrinho.&mdash;Que era preciso
+estudar, eram as suas palavras quasi invariaveis.
+Pelo director sabia que ia bem e, como não tinha
+que reprehender, pouco fallava, porque, na sua opinião
+e na aridez do seu coração de celibatario, era
+preciso chamal-os ao respeito, não dar confiança a
+esses fedelhos.</p>
+
+<p>Aos sabbados havia lição de doutrina christã. A
+primeira vez que Claudio foi interrogado, foi para
+elle um triumpho. Sabia tudo: os mandamentos da
+lei de Deus, os mandamentos da egreja, as bemaventuranças,
+as obras de misericordia, os peccados mortaes,
+tudo, tudo, até os inimigos da alma. Os camaradas
+ouviram-n'o com espanto e elle sentiu-se victorioso
+e contente. Havia de o contar á mãe; era
+uma boa nova a levar-lhe quando fosse a férias.</p>
+
+<p>Um dia o padre Netto espraiou-se mais que de costume
+na lição; foi até fallar do inferno, dizendo que
+os doutores da Egreja ignoravam se era um logar em
+que se soffriam todos os tormentos e dores que o corpo
+póde soffrer, se um estado em que a alma andava errante,
+em continua agonia. Estranha revelação para
+Claudio, esta que para os seus camaradas passára incomprehendida!
+Ficou scismando. Vagamente percebia um
+céo e um inferno differentes d'aquelles com que
+a mãe o embalára. O theologo mostrava-lhe a dupla
+natureza do seu ser, sentia uma alma feliz ou torturada,
+mas inteiramente apartada do corpo. No seu
+<span class="pagenum">[25]</span>
+espirito accumulavam-se os germens de meditação
+sobre a consciencia e o destino humano.</p>
+
+<p>N'este mesmo anno levaram-n'o pela primeira vez
+á confissão. Foi um dia, que ficou memoravel na sua
+lembrança, assim como a inquietação que o precedeu.
+Quaes eram os seus peccados? Quantas pragas
+rogára? Tinha deixado alguma vez de estudar as lições
+por preguiça? Queria mal a alguem, aos professores
+ou aos camaradas? As duvidas traziam-n'o
+em sobresalto, porque era preciso dizer tudo para
+que a confissão fosse bem feita. Era preciso dizer
+tudo, e com sincero arrependimento e proposito de
+emenda.</p>
+
+<p>Além d'isso,&mdash;suprema duvida,&mdash;era preciso arrepender-se
+pelo amor de Deus e não pelo temor
+das penas do inferno. Era realmente assim? Por esforço
+da vontade procurava obedecer ao amor de
+Deus, mas a sua consciencia infantil não podia alcançal-o.
+O temor do inferno predominava.</p>
+
+<p>Fosse como fosse, o essencial era fazer a confissão
+completa e elle ia dizer todos os peccados de que se
+lembrasse.</p>
+
+<p>O collegio ficava n'uma encosta; a egreja no
+valle, sobre a ribeira que o cortava. Descia-se rapidamente
+e seguia-se depois pelo valle acima, n'um
+caminho quasi plano, de grande lagedo de granito,
+orlado de carvalhos enfeitados de videiras; ao fim,
+um pequeno adro, a egreja e junto d'ella o cemiterio.</p>
+
+<p>Ao romper do sol, o prefeito fez sair todos os
+que se iam confessar. Manhã de primavera, orvalhada,
+fresca, viçosa nos renovos do arvoredo; e Claudio
+opprimido, concentrado nas suas duvidas, sentia
+pela primeira vez bem nitidamente o divorcio entre
+a alma inquieta e a impassibilidade sorridente da
+natureza.</p>
+
+<p>Com que delicia beberia o ar de manhã! Mas
+<span class="pagenum">[26]</span>
+um demonio interior o suffocava. Começava a aprender
+o que era a vida humana.</p>
+
+<p>Entraram na egreja, indo ajoelhar no altar do
+Santissimo; depois, levantaram-se e o prefeito mandou-os
+sentar n'um banco que ficava por baixo do
+pulpito.</p>
+
+<p>O confessor era um só, o parocho. Um a um
+foram chamados os confessandos que, á maneira
+que voltavam, ajoelhavam rezando a penitencia. Claudio
+foi o ultimo. Rezou a confissão embaraçado e
+tremulo, mãos postas, cabeça curvada, os olhos fitos
+nos pés do confessor.</p>
+
+<p>Começaram as perguntas, a seguir pelos mandamentos
+da lei de Deus e depois pelos mandamentos
+da egreja. A quantos tinha faltado? Mentia? Ah!
+n'este ponto tinha um peccado que fôra o seu primeiro
+grande remorso.</p>
+
+<p>Um dia, um domingo, tinha chovido de manhã, e
+de tarde o prefeito mandou-os vestir para sairem;
+estava uma tarde calma, o ar carregado, os caminhos
+cobertos de lama. Claudio vestiu o fato preto e
+calçou os sapatos novos para se mostrar aos companheiros
+em trajos ricos.</p>
+
+<p>&mdash;Para que anda o menino a estragar esse fato?
+perguntou o prefeito.</p>
+
+<p>&mdash;Tinha frio, respondeu Claudio.</p>
+
+<p>Mentira; não era frio, era vaidade. O remorso ia
+ficar-lhe de lembrança. Para o futuro seria mais corajoso.</p>
+
+<p>O padre, um velhito, magro e bondoso, vendo o
+mundo já da beira do tumulo, sorriu com sympathia
+á pureza da creança, não quiz ouvir mais, mandou-lhe
+dizer o acto de contricção e absolveu-o.</p>
+
+<p>A natureza sorria tambem nos gorgeios das aves
+que esvoaçavam fóra, no cemiterio, e nos suaves
+raios do sol da manhã que pela estreita fresta da
+sachristia alumiavam docemente a pobreza dos gavetões
+<span class="pagenum">[27]</span>
+carcomidos em que o padre guardava o calice,
+a alva e as vestes.</p>
+
+<p>Claudio veiu ouvir a missa e saiu da egreja contente.
+Sentia-se bem, a consciencia e a virtude tinham
+vencido todas as duvidas; pela primeira vez
+experimentava a grandeza d'um dramatico triumpho
+intimo.</p>
+
+<p>Com excepção d'estes breves incidentes, que jámais
+se apagariam da sua memoria, a vida do collegio
+foi para elle monotona e triste; timido no recreio,
+vivendo pouco intimamente com os companheiros,
+todo se entregava ao estudo. Os mestres estimavam-n'o.
+Um d'elles ficára pasmado do modo porque Claudio
+lêra um longo trecho de Garrett contando a pobreza
+de Camões. Não se conteve que não exclamasse:</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem! Torna a lêr para estes meninos ouvirem.
+Impressionava-o a emoção com que a creança
+lia e que provinha d'uma penetrante comprehensão
+das dôres que o poeta cantava.</p>
+
+<p>No fim do anno eram os exames, em Braga, onde
+os pobres rapazes iam arrebanhados, pallidos, enfermos
+de desconforto, afflicções e receios. D'ahi
+dispersavam em férias, cada um para a sua aldeia.</p>
+
+<p>Claudio veiu em companhia do padre Netto que
+em Coimbra o entregou ao pae a quem chamou de
+parte para lhe dar informações do filho. Ia muito
+bem; muito applicado e muito socegado; fizera só
+instrucção primaria e portuguez, mas no anno seguinte
+devia fazer exame de francez, de desenho e
+até talvez de geometria. O abbade estava satisfeito;
+já lhe tinha dito que se o rapaz assim continuasse,
+o melhor era mandal o para a Universidade. Sempre
+era outra cousa, outra posição, para que servia ser
+padre sabia-o elle, por mal dos seus peccados. Isto
+tudo aqui para nós, concluia; não se lhe póde dizer
+<span class="pagenum">[28]</span>
+nada. Se a gente vae a gabal-os, fazem-se tolos e
+ninguem os atura.</p>
+
+<p>O pae levou Claudio para Villalva. No caminho
+desceu um pouco da sua habitual frieza, perguntando
+ao filho o que fazia no collegio, se gostava
+d'isto, se não gostava d'aquillo, quantos eram os
+mestres e se lhe tinham dado muitas palmatoadas.
+Começava a respeital-o; o que o padre dissera, incendiava-o
+em ambições. Formado e com a fortuna
+do tio, a advogar, mandaria em Albergaria; via-o
+já presidente da camara, talvez deputado. O filho
+do Antonio Simões, de Barreiros, não era mais do que
+elle e estava em Lisboa nas côrtes, um fidalgo. Pois
+algumas vezes lhe tinha emprestado ás tres e quatro
+moedas para mandar a mezada ao rapaz! Agora era
+elle que mandava dinheiro ao pae; ainda ha poucos
+dias déra mais de sessenta moedas pelo Cerrado de
+Baixo, na Cruz das Almas.</p>
+
+<p>Os primeiros dias de férias passados em Villalva
+foram uma festa para Claudio. Veiu a irmã e ella
+juntamente com a mãe, ambas contentes e orgulhosas,
+pedia-lhe a narração do que se passava no collegio,
+como era a jornada, os exames, o Porto, a cidade
+de Braga e o Bom Jesus do Monte. Quem lhes
+dera poder ir lá! Claudio, por seu lado, sentia uma
+nova atmosphera; ainda ha um anno esquecido, quasi
+abandonado, via-se agora cercado de attenções que
+eram novas para elle. Convertera-se n'uma esperança
+de riqueza e de poderio, lisongeava a ambição
+do pae, a vaidade da irmã e a piedade da mãe que
+tudo attribuia ás suas orações, ás esmolas que dava
+e á recompensa divina. O filho ouvia-a; com ella
+cria tambem que toda a sua sorte vinha da vontade
+de Deus, mas a edade e a alegria de voltar ao seu
+casal não o deixavam prender-se muito a esses pensamentos.
+Os seus cuidados eram a admiração das
+flôres que deixára plantadas, os gados, os campos e
+<span class="pagenum">[29]</span>
+as colheitas. A sua vida consubstanciara-se cedo
+com a d'esse mundo natural que era o companheiro
+inseparavel da sua alma e do seu corpo.</p>
+
+<p>Uma tarde, em setembro, a mãe começou a sentir
+uma pequena dôr no ventre. Foi continuando no trabalho,
+arrumando a cosinha e preparando a ceia,
+mas as dores repetiam-se cada vez mais frequentes
+e agudas; seguiam-se uns ligeiros suores e, depois
+d'uns instantes de abatimento, parecia-lhe que ia
+adormecer, concebia uma vaga esperança de cura.
+Eram simples remitencias; o mal estava apenas incipiente.
+N'uma crise, a mais violenta, chamou o filho:</p>
+
+<p>&mdash;Claudio, estou muito mal. Tenho uma dôr aqui,
+e punha a mão sobre o ventre. Valha-me Nossa Senhora!
+Se eu désse um passeio, talvez me passasse.</p>
+
+<p>Foram para o quintal e lá se arrastou pelo carreiro
+junto ao muro. Poucos passos deu. A dôr voltava,
+ella encostada ás arvores esperava que abrandasse
+para dar alguns passos. Por fim, não poude mais;
+veiu para a sua alcova. Era quasi noite e o marido
+recolhia.</p>
+
+<p>&mdash;Não te quiz mandar chamar, disse-lhe, para
+te não tirar do trabalho... Ha duas horas que
+não páro... Não sei o que isto é... E torcia-se
+angustiada, os olhos cavados, as faces desfiguradas.</p>
+
+<p>Mandaram chamar o medico.</p>
+
+<p>&mdash;Era melhor chamar o padre, dizia ella; e a Maria,
+a filha. Mas não... a esta hora... coitada... ficam
+lá os pequenitos sós... ai! meu Deus... eu morro...
+morro... Estorcia-se, desgrenhada, os olhos
+em alvo, os braços nús, punhos cerrados.</p>
+
+<p>Veiu o medico e receitou. Emquanto o creado corria
+á botica, preparavam um banho. Tudo faltava,
+agua e banheira. A confusão era extrema; a dôr não
+<span class="pagenum">[30]</span>
+abrandava. Só cerca das dez horas chegaram os primeiros
+medicamentos.</p>
+
+<p>Bateram onze horas. O mal não declinava. O pae
+de Claudio estava aterrado.</p>
+
+<p>&mdash;Isto não melhora, dizia para o medico, fitando-o
+com olhos interrogadores e anciosos.</p>
+
+<p>&mdash;Espere, espere... por emquanto ainda não é
+tarde. Então?! Não me esteja a desanimar. Parece
+que nunca viu ninguem com uma colica. Pois olhe
+que eu não tenho visto poucas e até hoje, graças a
+Deus, ainda nenhum doente me morreu d'isso.</p>
+
+<p>Claudio fugira para longe; chorava mas não queria
+que o vissem chorar, temia o pae que por
+certo não deixaria de o reprehender pelas suas pieguices,
+como elle lhe chamava. Queria rezar. O oratorio
+era na sala e estava lá o medico. Abriu a porta
+de mansinho, atravessou o pateo e, seguindo o carreiro
+onde á tarde estivera com a mãe, foi ajoelhar-se
+lá no extremo, debaixo d'uma oliveira. A noite estava
+serena: o luar cobria os montes de que vinham
+as exhalações quentes que succedem ás calmas do
+estio. Ajoelhado, de mãos postas, fitando os astros,
+via a face da Virgem, sentada no seu throno de gloria,
+entre nuvens douradas. Orava e ella via-o:&mdash;Ave
+Maria, cheia de graça... Respondia-lhe um olhar de
+doçura e esperança. Quando voltou a casa, finda a
+oração, a mãe dormia extenuada e pallida.</p>
+
+<div class="centrado"><img src="images/001.jpg" alt="Foi ajoelhar-se lá no extremo debaixo d'uma oliveira."></div>
+
+<p>Accordou á uma hora da noite. Ainda ali estava o
+medico.</p>
+
+<p>&mdash;Então?! Está melhor? perguntou-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Agora estou bem, graças a Deus. Muito cansada.</p>
+
+<p>A fé de Claudio tinha n'este momento confirmação
+plena; no seu coração estavam lançadas sementes
+que o tempo podia transformar, mas nunca anniquilar.</p>
+
+<p>Estes dois mezes de férias em Villalva foram para
+<span class="pagenum">[31]</span>
+Claudio um começo de revelação consciente da felicidade
+d'aquelles logares. Ao chegar a noite da
+partida, não poude, como da primeira vez, vêr distrahidamente
+os cuidados da mãe e adormecer; foi
+uma noite de lagrimas e de saudade confessada. Ainda
+tres dias depois, no collegio, a um canto da sala
+de estudo, tinha uma nova crise de lagrimas. Um
+dos mestres passou n'esse momento. Vendo-o a chorar
+e adivinhando o que se passava no espirito da
+creança, disse-lhe compassivamente:</p>
+
+<p>&mdash;Deixe os livros, deixe os livros, vá brincar.</p>
+
+<p>As saudades não turvavam porém a applicação do
+collegial. Pelo contrario, o desejo de voltar a Villalva
+triumphante, como no primeiro anno, a alegria
+dos paes e os carinhos que d'ahi vinham e de que a
+sua alma era tão avida, constituiam uma ambição
+sempre presente á sua lembrança e que o mantinha
+invariavelmente no mesmo caminho. Durante seis
+annos, que tantos foram os que consumiu n'estes estudos
+preparatorios, a sua vida manteve-se n'uma linha
+ininterrupta de respeito, de obediencia, de concentração,
+d'estudo e de fé. Se lhe fosse possivel
+fazer parar ali o desenvolvimento do seu espirito, teria
+ficado um alto exemplo de caracter e de firmeza.
+Mas outros destinos e outras amarguras lhe estavam
+reservados.</p>
+
+<p>Aos desesseis annos matriculou-se na Universidade.
+O pae queria vel-o advogado; Claudio, como de
+costume, ia fazer-lhe a vontade.</p>
+
+<p>A entrada na Universidade não desvanecia, antes
+accentuava, os caracteres da sua alma anteriormente
+adquiridos. Semelhantemente ao que lhe acontecera
+quando entrou no collegio, sentia-se por timidez
+e por natural pendor alheio a esta turba multa que o
+rodeiava, alegre, buliçosa, fremente de actividade
+e de pujança; a primeira e a nova situação eram rigorosamente
+parallelas, áparte um estado de consciencia
+<span class="pagenum">[32]</span>
+agora mais determinado e em breve na sua
+plenitude. O mundo era para Claudio uma obrigação
+pesada e instante: alegrias, expansões sadias do naturalismo
+juvenil, tudo devia ser pautado e regrado
+pelo dever immanente. Desgraçado! Mal sabia elle a
+que abysmo corria.</p>
+
+<p>No inverno immediato á sua entrada na Universidade,
+deu-se um acontecimento que havia de ter na
+sua vida as mais profundas consequencias. Morreu o
+abbade e instituiu-o universal herdeiro.</p>
+
+<p>Deixava a quinta da Nogueira, propriedade afamada,
+inscripções e numerosas dividas activas, ao todo
+uns bons quarenta contos de réis, conforme o pae de
+Claudio lhe mandou dizer. Fôra elle que cuidára do
+inventario e liquidação da herança, visto que o filho
+era menor ainda, mas contrariado porque, dizia, estava
+habituado a cuidar os seus bens, não sabia
+cuidar de bens alheios, nunca fôra procurador. No
+fundo, não podia fugir a um vago ciume e inveja por
+se sentir, por aquelle lado, em grande inferioridade
+relativamente ao filho. Demais, sempre esperára que
+o irmão, embora muito inclinado ao sobrinho, o deixasse
+ao menos usufructuario; não podia tolerar sem
+tentações de revolta esta condição d'um subordinado
+que sabia que em breve seria independente de qualquer
+auctoridade. Por isso, quando Claudio veio passar
+o natal a Villalva, o pae, que desde a morte do
+tio nunca mais o vira porque evitava a occasião de o
+encontrar, addiando um momento que lhe era desagradavel,
+disse-lhe seccamente:</p>
+
+<p>&mdash;Teu tio deixou-te tudo. Ora tu tens dezesseis
+annos e a lei dá-me o direito de administrar o que é
+teu até á tua maioridade; mas a minha tenção é emancipar-te
+aos dezoito annos. Se queres, toma já conta
+do que é teu; para mim é um descanço. Sabes muito
+bem o que tens a fazer, já não és nenhuma creança.</p>
+<span class="pagenum">[33]</span>
+
+<p>Vingava-se, desprezando o que a fortuna lhe negára.</p>
+
+<p>Não o comprehendeu assim Claudio, na sua simplicidade;
+tomando por generosidade e desinteresse
+o despeito do pae, commovido, pediu-lhe para que
+continuasse a cuidar dos bens da herança. Nada
+queria senão a mezada que já tinha; vivia satisfeito.</p>
+
+<p>O pae recusava, mas os rogos e as instancias
+acabaram por convencel-o. Cedeu, talvez contente;
+julgava o filho humilhado e a humilhação pagava-lhe
+em grande parte o despeito de não ter sido herdeiro.</p>
+
+<p>Não obstante as circumstancias muito particulares
+em que Claudio ficava vivendo, em completa e espontanea
+dependencia do pae, a herança que acabava
+de receber tinha, desde já, na sua vida a mais
+poderosa influencia. Affastava de vez todas as preoccupações
+de ordem material, garantia-lhe de futuro
+uma riqueza que era de sobra para os seus modestos
+habitos; a salutar necessidade de ganhar pelo seu
+braço e pelo seu engenho o pão de cada dia ser-lhe-ia
+desconhecida.</p>
+
+<p>A sua carreira estava traçada pelas condições
+particulares da existencia que agora se reuniam ás
+lições que aprendera no regaço da mãe. A vida
+era uma obrigação de fazer bem. Simplesmente restava
+determinar o que era o bem.</p>
+
+<p>Nas poucas relações que em Coimbra creára, veio
+encontrar uma atmosphera absolutamente differente
+da que deixára no collegio.</p>
+
+<p>Deus não existia, era uma invenção do mêdo,
+conservada pelos reis e pelos padres que especulavam
+com a crendice popular. Onde estavam as provas
+da sua existencia?</p>
+
+<p>O positivismo, unica sã philosophia, mandava
+que só na observação e na experiencia nos fiassemos.
+<span class="pagenum">[34]</span>
+Só o que d'ahi vinha era certo, o resto ficava
+ao sabor de cada um. Não era pois verdade
+o que os padres e a mãe lhe tinham ensinado.</p>
+
+<p>Deixou-se levar n'esta nova corrente. Obedecendo
+a uma sêde interior de verdade, ouvia
+e meditava o que os camaradas estudiosos lhe diziam
+e lia com avidez as obras que elles lhe indicavam.</p>
+
+<p>De lições escolares pouco cuidava, que os lentes
+eram uns velhos estupidos e ignorantes, do
+novo methodo nada sabiam. Buchner, Spenser,
+Comte, Littré, Darwin, Taine e Haeckel, esses
+eram verdadeiros mestres. Era lêl-os, estudal-os,
+e ficava-se senhor de toda a verdade. A
+«Historia da creação», de Ernesto Haeckel, foi para
+Claudio uma revelação. Estudou-a, linha a linha, em
+frigidas noites de inverno, debruçado sobre a banca
+de cerejeira, mettido em cobertores de papa, á luz
+frouxa do candieiro d'azeite.</p>
+
+<p>Começava a comprehender o novo mundo: a creação
+foi uma fabula que a ignorancia inventou, os seres
+transformavam-se, e a pedra, a rosa, a salamandra
+e o homem eram formas d'uma mesma actividade,
+producto apenas de leis constantes e universaes;
+no mundo tudo é rigorosamente derivado d'um estado
+anterior, a flôr é uma folha que se transforma.
+Por conseguinte, o que é bem e o que é mal? Tudo
+é relativo, diziam os novos evangelhos, não ha bem
+nem mal, o assassino e o santo são dois productos
+naturaes do mesmo quilate.</p>
+
+<p>Era n'esta crença que aos dezoito annos Claudio regressava
+a Villalva, satisfeito com os progressos do seu
+espirito, occultando porém á mãe o seu modo de pensar,
+resolvido a supportar a sua religião. No fundo, não
+tinha mudado; só uma ingenuidade infantil lhe fazia
+crêr que estava regenerado e lhe deixava passar
+ignorada a contradição interior. Não só todo o seu
+<span class="pagenum">[35]</span>
+trabalho provinha d'uma ambição de verdade que
+não aprendera nos livros que estudava mas que tinha
+sido previamente lançada no seu coração pelo
+amor e pela piedade maternal, mas ainda todos os
+actos da sua vida lhe negavam as affirmações do espirito.</p>
+
+<p>Não o via; o desenvolvimento da consciencia
+não era ainda sufficiente para lh'o revelar. Sem embargo,
+a contradição era completa.</p>
+
+<p>Que o digam os seus primeiros amores que foram
+d'esse tempo.</p>
+
+<p>Á tarde, Claudio descia de Villalva; vinha á botica
+da villa, em frente da praça, ouvir os ociosos
+que por alli paravam e ensinar-lhes politica. Que
+eram o Fontes e o Braamcamp? Idiotas! Sabiam porventura
+alguma cousa?! Nem sequer conheciam os
+grandes livros modernos em que se aprendia a sciencia
+social.</p>
+
+<p>O administrador escandalisava-se com a petulancia
+do rapaz.</p>
+
+<p>&mdash;Era para isto, dizia, que os mandavam a Coimbra
+e que o pae e o tio tinham andado toda a vida a
+trabalhar. Se elles lhe tivessem mettido uma enxada
+nas mãos, seria bem melhor.</p>
+
+<p>Claudio ouvia as reflexões do administrador que
+só confirmavam a sua vaidade. Uns estupidos, uns
+brutos! Elle é que sabia.</p>
+
+<p>Foi n'uma d'essas tardes, emquanto passeava
+d'um ao outro extremo da sala, em frente do boticario
+a jogar as damas com o recebedor, que, n'um
+momento em que assomou á porta, viu passar uma
+rapariga loira, alta, reforçada e agil, cantaro á cabeça,
+a caminho da fonte.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é? perguntou ao boticario. Que linda
+cousa!</p>
+
+<p>&mdash;É a Conceição, filha do Manuel da Aveleda.
+Olhe, cuide-me d'aquillo, cuide-me d'aquillo que
+<span class="pagenum">[36]</span>
+está no seu tempo, accrescentou o boticario. A minha
+pena é não lhe poder ser bom.</p>
+
+<p>E distraidamente fez avançar a sua «dama».</p>
+
+<p>Claudio ficára profundamente impressionado com
+a graça e a meiguice da rapariga, um modelo de mocidade
+e de doçura. Nos dias seguintes, vinha, como
+de costume, á botica, e ao entardecer não tirava os
+olhos da estrada, do lado de Villar, onde ella morava.</p>
+
+<p>Ella passava sempre, ora só, sizuda e apressada,
+ora com as companheiras, rindo e parando a cada
+passo.</p>
+
+<p>Já tinha percebido que o estudante a fitava; uma
+vez mesmo, ao voltar a esquina, para assegurar o
+seu juizo, olhára para traz. Não se enganava: elle lá
+estava, á porta, fitando-a sempre. Chegára até a dizel-o
+a uma das companheiras.</p>
+
+<p>&mdash;Vês aquelle rapaz, o filho do José Portugal, de
+Villalva? disse-lhe. Quando eu passo, olha muito para
+mim.</p>
+
+<p>&mdash;É bem rico, quem dera! respondeu a companheira.</p>
+
+<p>Calaram-se. A Conceição não adiantou conversa,
+um pouco arrependida da indiscrição. Gostava d'elle,
+e, se ia só, ao passar em frente da botica, punha os
+olhos no chão e os passos embaraçavam-se-lhe.</p>
+
+<p>Por seu lado, Claudio soffria o mesmo embaraço.
+Que fazer? Seguil-a? Mas ella não olhava para elle; a
+imaginação representava-lhe a resposta avessa com
+que seria repellido e o golpe que o seu coração soffreria.
+Depois, seria uma troça do boticario, do administrador,
+do escrivão... e elle gostava d'ella, não
+podia consentir gracejos sobre uma cousa em que o
+seu coração era parte. Escrever-lhe? Responderia
+ella? Estavamos no mesmo caso. Ia rir-se com as
+companheiras e d'ahi a dois dias andaria a carta
+<span class="pagenum">[37]</span>
+em todas as mãos. Ainda era peior do que fallar-lhe.</p>
+
+<p>Uma vez chegou a trazer a melhor rosa que encontrou
+no jardim para lh'a offerecer. Em logar de
+ir á botica, passearia e encontral a-ia em baixo, fóra
+da villa; ahi ninguem o via, o caminho é deserto, e
+fosse o que fosse poderia fallar-lhe sem maior perigo.</p>
+
+<p>Foi. Na sua impaciencia, saiu cedo. Quando chegou
+á fonte, ainda não era sol posto. Começou a subir
+a encosta que liga a fonte com a villa; onde o
+caminho é menos devassado, n'uma curva, sentou-se
+sobre um muro, esperando a Conceição. O coração
+batia-lhe ancioso; pela imaginação passavam-lhe
+mil devaneios. Com que palavras começaria? Estava
+quasi arrependido. Para que se mettia elle n'aquellas
+cousas? Fugiria? Tambem não, era fraqueza.
+N'isto, n'esta oscillação entre o amor e a timidez, a
+Conceição appareceu com as companheiras habituaes
+Não lhe podia fallar. Para Claudio era um
+allivio, libertava o d'uma situação afflictiva. Levantou-se
+e dirigiu-se á botica.</p>
+
+<p>&mdash;Muito tarde, hoje, sr. Claudio, disse o boticario.</p>
+
+<p>&mdash;Demorei-me um pouco, respondeu laconicamente.</p>
+
+<p>Ainda bem, pensou, que a penumbra da baiuca
+encobria o rubor que lhe viera á face quando o boticario
+lhe fallou.</p>
+
+<p>Não tardou porém que os seus desejos fossem satisfeitos.
+Uma tarde demorou-se na botica e, ao voltar
+a casa, fez caminho por Villar.</p>
+
+<p>Em boa hora!</p>
+
+<p>A Conceição passava, atravessando a rua para
+casa d'uma visinha.</p>
+
+<p>&mdash;Muito boa noite, meu amor.</p>
+
+<p>&mdash;Muito boa noite, sr. Claudio.</p>
+<span class="pagenum">[38]</span>
+
+<p>&mdash;Por aqui, sem medo, a estas horas?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem me rouba.</p>
+
+<p>E a conversa continuou ligeira e alegre.</p>
+
+<p>D'ali por deante já Claudio não receiava dirigir-se-lhe,
+estava certo do amor da Conceição. Dentro
+em pouco havia hora aprazada para se encontrarem.</p>
+
+<p>Esses amores duraram dois annos e foram castos
+e puros. A Conceição era para Claudio um culto; tocar-lhe
+era maculal-a, era destruir o que n'ella havia
+de sagrado, a melhor fonte d'amor. As suas cartas
+respiram a mais estremada candura. De Coimbra
+escrevia-lhe:</p>
+
+<br>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 2em;">Querida Conceição</p>
+
+<p>Escrevo-te hoje para te mostrar toda a tristeza em
+que tenho andado. Desde que vim, nunca mais tive
+alegria, nem a terei emquanto não voltar para ao pé
+de ti.</p>
+
+<p>Por muito que procure distrahir-me, trago sempre
+comigo a mágoa de não te vêr. Só para o natal ahi
+voltarei. Terei paciencia que outro remedio não
+tenho.</p>
+
+<p>Queria ter ao menos a alegria de te fallar um instante
+mas isso não póde acontecer. Tu nunca aqui
+vens e eu não posso sair d'aqui.</p>
+
+<p>Lembro-me de que estou longe de ti e a tristeza não
+me deixa, porque te adoro de todo o meu coração e
+serei até á morte</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 3em;">o teu</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 2em;"><i>Claudio</i></p>
+
+<br>
+
+<p>Não podia supportar esta singeleza o rapaz de vinte
+annos, que do materialismo positivista tinha passado
+ao naturalismo na litteratura e lia agora Zola,
+<span class="pagenum">[39]</span>
+deliciando-se no exame das baixezas humanas, sem
+attentar no que ellas encerram de grandioso e
+dramatico, ainda mesmo nos seus aspectos infimos.</p>
+
+<p>O falso conhecimento das sciencias naturaes, consideradas
+superficialmente, junto ao vigor, nunca
+isento de brutalidade, de gente moça, haviam necessariamente
+de dar em resultado o desprezo da
+castidade e da pureza que d'ora em diante passariam
+a cognominar-se ridiculo sentimentalismo.</p>
+
+<p>Por outro lado, a forma impressa na infancia á sua
+alma permanecia e permaneceria como o verdadeiro
+fundamento da sua natureza; a piedade christã, embora
+sob aspectos differentes, seria sempre uma fonte
+abundante e inexgotavel de idealismo.</p>
+
+<p>Claudio não attingia a contradição intima entre a
+sua alma e as doutrinas aprendidas nos livros e nas
+palestras com os camaradas da universidade. Não
+eram as mulheres simples objectos de amor sensual
+atravez do qual a natureza assegurava a conservação
+e a propagação da especie? Fóra d'isso, tudo era
+doença, romantismo archaico ou timidez pueril.</p>
+
+<p>E todavia não supportava sem um fremito de
+repulsão a lembrança de que a sua amada, um
+anjo que a aureola dos anjos envolvia, havia
+de desfazer em brutal sensualidade a frescura do
+seu rosto semi-divino e o meigo riso, irisiado de
+cores mimosas, que desabrochava nos seus labios
+como a rosa entre o orvalho da manhã.</p>
+
+<p>Ignorava a contradição, parecia-lhe apenas inconstancia,
+que não desejava e queria todos os dias
+a mesma cousa; tomava estas fluctuações á conta de
+fraqueza do proprio animo.</p>
+
+<p>Por fim, resolveu acabar com uma situação aos
+seus olhos ridiculamente inconfessavel. O que?!
+Amar uma mulher só para lhe dizer palavras doces,
+olhar para ella, contar-lhe o que se fazia em Villalva,
+<span class="pagenum">[40]</span>
+ouvir a que horas ella ia á fonte e a que horas
+lavava a roupa?! Não era um homem! Não se atrevia
+a ir mais adeante, não queria tomar as responsabilidades
+do descredito d'uma rapariga? Por si não se
+importava com essas pieguices da aldeia, mas a mãe
+com certeza não gostava, iria magoar-se com o seu
+proceder. Elle tambem... não gostava; repugnava-lhe,
+embora as doutrinas que aprendera em Coimbra
+lh'o admittissem. Precisava fallar com franqueza á
+Conceição.</p>
+
+<p>Uma manhã, em que ella tinha de vir a Alcofa, foi
+encontral-a na estrada e conversaram de pé, á sombra
+d'uma oliveira.</p>
+
+<p>Eram oito horas; dos montes requeimados reflectia se
+um sol penetrante, na atmosphera quieta das
+varzeas o arvoredo esperava sequioso que a briza do
+norte viesse beijal o, um calmo torpôr invadia toda a
+natureza.</p>
+
+<p>Claudio sentia-se mal, sentia-se fraco; talvez
+d'aquelle calor, pensava, mas na realidade a agonia
+vinha-lhe do coração, da vaga consciencia de que ia
+quebrar uma urna de affectos limpidos e sãos cujos
+pedaços jámais poderia soldar e cujo licor sagrado
+para sempre se perderia no pó em que tão impensadamente
+o derramava.</p>
+
+<p>Aquelle momento havia de lembrar-lhe, muitos annos
+depois, com um arrependimento lancinante
+quasi com remorso.</p>
+
+<p>A Conceição veio alegre e risonha, como de costume,
+entregue sem reserva á alegria de vêr o seu
+Claudio; elle opprimido.</p>
+
+<p>Com um miraculoso poder de sympathia que tudo
+adivinha, a Conceição perguntou-lhe immediatamente:</p>
+
+<p>&mdash;O que tem? Vem hoje tão triste!</p>
+
+<p>&mdash;Tenho a dizer-te uma cousa que te vae fazer
+chorar, mas é preciso que t'a diga. Isto não póde
+<span class="pagenum">[41]</span>
+continuar, disse Claudio brutalmente. Olha, Conceição,
+meu pae nunca consentiria que nos casassemos
+e então para que hei-de enganar-te? Hei-de ser
+sempre teu amigo, mas por isso mesmo não quero
+prejudicar a tua felicidade. Não te faltam bons casamentos,
+pódes ser ainda muito feliz. O mal é para
+mim que vou perder-te.</p>
+
+<p>A Conceição chorava de dôr e de surpreza; nada
+sabia dizer.</p>
+
+<p>Se era por ella ter feito algum mal, que lh'o dissesse,
+que não podia ser senão intriga; que só pelo
+amor que lhe tinha lhe custava deixal-o...</p>
+
+<p>Claudio porém insistiu no proposito de terminarem
+as suas relações e apartaram-se, ella banhada em
+lagrimas, elle cruelmente alliviado por se libertar
+d'uma situação que começava a pesar-lhe.</p>
+
+<p>No fim d'um anno a Conceição casava com um
+carpinteiro. Passa ás vezes na villa, o cesto á cabeça,
+quando leva o jantar ao marido, o farto collo a
+entrevêr-se pelo chambre desabotoado no pescoço
+para respirar na pesada atmosphera do estio. Claudio
+via-a, contente por se convencer de que os amores
+idyllicos não tinham sido estorvo á sua felicidade.
+Um dia a veria com saudades da ventura que
+perdera!</p>
+
+<p>N'estes errores do espirito se consumiram os cinco
+annos que Claudio passou em Coimbra; ao fim
+d'elles era necessario voltar a Villalva.</p>
+
+<p>O problema da sua existencia apresentava-se-lhe
+cada vez mais urgente, cada vez mais confuso, a
+alma dilacerada entre os impulsos mysticos que vinham
+da sua primeira infancia, as instigações do
+espirito inquieto por uma sciencia estreita e incompleta
+e vagos ardores de mocidade que o aconselhavam
+a calcar sciencia e mysticismo e entregar-se
+sem reserva ás expansões do instincto. Que fazer?</p>
+
+<p>Poucos mezes depois de regressar a casa, vieram
+<span class="pagenum">[42]</span>
+o administrador do concelho, o reitor do Ervedal, o
+prior de Villar, o regedor do Sabugal e o Rodrigues,
+grande influente nas freguezias da serra, convidal-o
+para a presidencia da camara.</p>
+
+<p>Diziam-lhe que a eleição era segura, por esse lado
+nada tinha a receiar, ninguem lh'a disputava, mas,
+quando a disputassem, estava alli força sufficiente para
+a vencer, pois que os homens que alli via representavam
+mais de dois terços da votação de todo o concelho.</p>
+
+<p>Tambem não faziam questão de lista, elle escolheria
+os collegas que quizesse; o que desejavam
+era um homem sério e capaz, porque não imaginava
+o que ia na camara. Uma ladroeira! Traziam toda a
+sorte de vadios a receber por conta do cofre municipal
+e até se dizia que o presidente estava alcançado.</p>
+
+<p>&mdash;Dizia! Era certo, accrescentava o reitor do Ervedal.
+Ainda ha pouco, quando foi obrigado a entrar
+com a receita da viação, teve de pedir oitocentos
+mil reis ao José Maria, das Aranhas, e hypothecou-lhe
+a terra da Preza.</p>
+
+<p>Claudio defendia-se; que estava muito novo, queria
+estudar e não se mettia em politica. Tudo intrigas,
+tudo dissabores!</p>
+
+<p>&mdash;Não era politica, replicavam-lhe, era um serviço
+que prestava ao concelho. Visse o que o pae tinha
+feito na junta de parochia. Nas obras do cemiterio
+deixava tudo para estar ao romper do dia ao
+pé dos trabalhadores. Poupou muito dinheiro á freguezia
+com o seu zelo e a sua economia, e prejudicando-se
+porque para isso tinha de deixar a sua
+vida. Agora elle que era um rapaz formado e rico!...
+Até o entretinha! Que fazia alli, sempre agarrado aos
+livros?...</p>
+
+<p>Depois... precisava pensar, em tres dias responderia
+definitivamente,&mdash;foi a evasiva com que
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Claudio se libertou dos seus interlocutores que começavam
+a fatigal-o com rogos e instancias.</p>
+
+<p>Ao fechar a porta, recolheu murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim! Contem com isso, não me faltava mais
+nada do que metter-me n'essa vinagreira.</p>
+
+<p>O seu proposito de recusa era formal, mas temia
+o desgosto do pae que adivinhava de opinião differente.
+Só perante este queria desculpar-se, porque
+para os outros a resposta estava feita.</p>
+
+<p>Consultou-o. Com grande surpreza sua viu que
+não o animava. Que não se illudisse, dizia-lhe, já
+sabia muito bem o que era tudo aquilo. Todos os
+que alli vieram tinham as suas pretensões; não o
+queriam na camara senão para as satisfazer. Bem se
+importavam elles com as cousas do concelho! Cada
+um cuidava de si, da sua fonte e da sua estrada.
+Quando esteve na junta, o Mattos, da Azenha, ficou
+de mal com elle porque não lhe mandou compôr o
+caminho do Freixial. Queria que lhe fizessem estradas
+para as suas quintas e não se importavam de
+mais nada! Tambem lhe não aconselhava que recusasse;
+um homem precisa servir para alguma cousa.
+Mas se imaginava que nos cargos publicos havia
+só honra e gloria, estava muito enganado; trabalhos
+e desgostos é que lá encontraria.</p>
+
+<p>No fundo desejava que o filho acceitasse, considerava
+como um triumpho para a sua vida a situação
+de Claudio; mas já velho, conhecendo o mundo e
+amando o filho, invadia-o o desprendimento das vaidades
+e o egoismo do repouso, não se atrevia a
+aconselhar uma vida de inquietações.</p>
+
+<p>Claudio, percebendo a hesitação do pae, recusou,
+e este, quando mais tarde foi prevenido pela mulher
+da resolução do filho, respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Não está para os aturar. Faz muito bem. Tem
+que comer e quer viver descansado.</p>
+
+<p>Não passavam porém sem deixar vestigios estes
+<span class="pagenum">[44]</span>
+incidentes. Que fazer? que fazer? Não era a vida qualquer
+cousa que elle tinha obrigação de aproveitar em
+beneficio dos outros?</p>
+
+<p>Toda a hypothese de solução, ainda que ephemera,
+fazia reviver o problema. Bastava uma proposta
+dos politicos da villa para que comsigo trouxesse
+longas meditações sobre a escolha entre uma
+vida d'acção e uma vida de estudo e meditação.</p>
+
+<p>Os dias corriam longos entre o fastio dos livros,
+por uns vagos desejos da acção, e o desgosto da acção,
+por uma interior necessidade de recolhimento. Amores
+não os havia profundos, que este estado tudo turvava
+e embaraçava, só a duvida imperava dissolvendo
+e quebrando toda a energia e todo o movimento
+salutar e espontaneo.</p>
+
+<p>Necessariamente haveria remedio para esta situação.</p>
+
+<p>Era preciso procural-o no estudo, deveria estar
+n'esses montões de livros que se lhe accumulavam
+sobre a mesa.</p>
+
+<p>O melhor era estudar, mas d'esta vez com methodo
+e conforme os bons principios, que nem os
+padres nem os lentes da Universidade lhe tinham
+dado instrucção aproveitavel. Começava-se pela mathematica
+e seguia-se pela physica, pela chimica,
+pelas sciencias naturaes, a terminar na historia, nas
+sciencias sociaes, nas bellas artes e na litteratura.</p>
+
+<p>Quando tivesse levado a cabo esta empreza, então
+poderia fazer alguma cousa com plena consciencia.</p>
+
+<p>E a pequena sala de Villalva encheu se de estantes
+de livros, de retortas e de apparelhos estranhos que
+a rude gente da aldeia olhava com curiosidade e desconfiança.</p>
+
+<p>Não podiam porém varrer-se n'um dia os velhos
+habitos, mórmente no proprio local em que se tinham
+creado; não podia supportar o estudo aturado
+<span class="pagenum">[45]</span>
+aquelle que fôra educado na liberdade dos campos
+e nos prazeres da vida rustica.</p>
+
+<p>Claudio sentia-se fraco, incapaz de levar a cabo a
+sua empreza com a tenacidade que ella, no seu entender,
+reclamava; aborrecia-se do estudo, a cada
+passo trocava a leitura dos livros de chimica por um
+romance ou por um trecho poetico, vinha á botica
+saber dos namoros das raparigas e dispendia longas
+horas em um novo jardim que fizera no cerrado, á
+entrada da aldeia, onde o pae cavára uma cisterna e
+tinha a eira e os abrunheiros. Era quasi um escandalo.
+Que rapaz aquelle! Não fazia nada, ninguem
+sabia o que elle queria, alli mettido com os livros.</p>
+
+<p>O regedor passou uma tarde de maio em que Claudio
+com uma thesoura limpava as roseiras dos pedunculos
+das flores desfolhadas.</p>
+
+<p>&mdash;Tenha v. ex.<sup>a</sup> muito boa tarde, disse-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Ora viva o sr. regedor! Então como vae?</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, como velho.</p>
+
+<p>&mdash;Por aqui está a passar um bocado de tempo?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não sei que gosto é este. Ainda se fossem
+cousas que déssem fructo... mas a modo que
+não vejo por aqui senão estas ameixieiras.</p>
+
+<p>&mdash;Eu gosto d'isto, respondeu Claudio já com certo
+fastio da conversa.</p>
+
+<p>O regedor fez uma pausa e, bem ruminado o pensamento,
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;E a respeito de advogar, nada?!...</p>
+
+<p>Foi a voz do povo, toda a aldeia assim pensava;
+não comprehendia aquelle viver mysterioso, aquella
+inercia, aquella ausencia de vulgares ambições mundanas.</p>
+
+<p>O pae de Claudio tambem não estava contente, sonhára
+o filho dominador e poderoso, e via-o recolhido,
+calado, indifferente.</p>
+<span class="pagenum">[46]</span>
+
+<p>&mdash;Elle lá sabe! pensava comsigo.</p>
+
+<p>Os camaradas de Claudio que tinha conhecido
+quando ia a Coimbra levar-lhe a mezada, diziam que
+elle era muito intelligente. E depois era rico, podia
+fazer o que quizesse...</p>
+
+<p>Não queria metter-se em politica? Talvez fizesse
+bem. Para que? Para lhe gastarem dinheiro e no fim
+dizerem mal d'elle. Lembrava-se do que passára na
+junta de parochia, das ingratidões e desgostos que
+soffrêra.</p>
+
+<p>&mdash;Elle lá sabe, elle lá sabe...</p>
+
+<p>Era assim que concluia sempre as suas reflexões,
+continuando no trabalho como se não fosse rico,
+tal qual nos tempos em que todas as suas ambições
+se limitavam a ter mais uma junta de gado.</p>
+
+<p>Demais, sentia-se muito cansado para vêr sem indifferença
+as cousas d'este mundo. A cada instante,
+nas palestras em que ficava ao domingo depois da
+missa, no adro da egreja, com os magnates da freguezia
+que o ouviam como a homem de muito juizo,
+dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Estou com os pés para a cóva.</p>
+
+<p>&mdash;Ora deixe lá, está novo ainda para gosar esta
+vida. Os filhos ricos, agora é que é viver!</p>
+
+<p>&mdash;Eu cá me sinto, respondia.</p>
+
+<p>E ficava a scismar n'um abatimento, n'uma fadiga
+que o opprimia e que tinha como prenuncio de curta
+duração.</p>
+
+<p>Não se enganava. No mesmo anno em que Claudio
+viera de Coimbra, o pae soffreu um ataque de
+<i>grippe</i>. Tinha ficado muito fraco; durante muitos dias
+arrastou-se pela lareira e pela sala, quasi sempre
+sentado, somnolento, caindo bastas vezes em prostração.
+O medico vinha vel-o, desconfiando d'aquella
+moleza, e um dia em que elle se queixou de que os
+pés lhe inchavam, auscultou-o.</p>
+<span class="pagenum">[47]</span>
+
+<p>&mdash;Ha alguma novidade? perguntou-lhe Claudio que
+o acompanhou até á porta do pateo.</p>
+
+<p>&mdash;Parece haver ali qualquer embaraço de circulação,
+respondeu o medico com um gesto de descontentamento.</p>
+
+<p>O velho ao fim d'um mez parecia restabelecido,
+sómente um pouco mais lento no trabalho. Esta fraqueza,
+esta fraqueza... Isto vae mal, dizia ás vezes.
+Mas a continuação dos seus lamentos sem symptoma
+de molestia notavel acabou por convencer a
+familia de que não havia perigo imminente. Assim
+se passaram cerca de dois annos depois do ataque
+de <i>grippe</i> em que o medico confessára as primeiras
+suspeitas.</p>
+
+<p>Uma tarde, ao recolher a casa, disse á mulher:</p>
+
+<p>&mdash;Andei a podar as pereiras e vi geitos de lá ficar.
+Deu-me uma tontura que, se não me encosto a uma
+arvore, caia. Isto vae mal!...</p>
+
+<p>Mas a mulher não deu grande importancia ao succedido.
+Seria fraqueza. Elle tambem não comia nada...
+disse-lhe. Sempre aquelle fastio... Era preciso chamar
+o medico a ver se lhe receitava alguma coisa
+que lhe désse apetite.</p>
+
+<p>Alguns dias depois, já quasi esquecido aquelle breve
+incidente, o pae de Claudio deitou-se á hora habitual
+e adormeceu. O filho estava ainda para a villa,
+a mulher ficára a costurar e o creado preparava as estacas
+para a vinha. Estavam em fevereiro, as noites
+eram longas, ainda se fazia serão. De repente, da alcova
+em que o velho dormia, veio esta voz angustiada:</p>
+
+<p>&mdash;Carmo, Carmo, acode-me, estou muito afflicto.</p>
+
+<p>Ella correu ao quarto.</p>
+
+<p>&mdash;Olha, disse elle, vê se me ajudas, quero levantar-me,
+falta-me o ar. Lançou-lhe o braço pelas costas,
+a mão apoiada no hombro, e, quando procurava erguer-se,
+<span class="pagenum">[48]</span>
+tombou sobre élla, com todo o seu peso,
+morto, a cabeça pendida sobre o peito.</p>
+
+<p>Para Claudio a comoção foi extraordinaria. Agora,
+perante os restos inanimados que tinham
+sido d'aquelle que mais respeitára, via em toda a
+luz o que significava uma vida de honestidade e de
+trabalhos, a riqueza e a ordem que em volta de si
+derramara durante tão longos annos. Para aquelle
+não tinha havido hesitações e o triumpho fôra completo;
+augmentou os bens, serviu os seus e os estranhos,
+toda a existencia foi um combate com a natureza,
+com os homens, com os acasos do destino. Os
+braços cairam de fadiga, mas o animo não esmoreceu
+até ao derradeiro alento. Quem lhe déra ser assim!...</p>
+
+<p>Para isto, para estas reflexões, não precisava dos
+livros, nem leituras nem sabios o inspiravam; o pensamento
+vinha-lhe do coração, espontaneo, brotando
+da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez
+fosse vão todo o caminho andado, tempo perdido
+o que gastára á procura da verdade, folheando
+com avidez os tratados de philosophia d'esses homens
+que diziam serem os mestres da humanidade!</p>
+
+<p>O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito,
+cada vez mais instante, aggravado pelas muito
+particulares circumstancias que a morte do pae trouxera.
+Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior
+que a toda a hora lhe eccoava no peito.</p>
+
+<p>Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodára-se
+a um modo de cousas transitorio. Considerara a herança
+do tio como fortuna do pae e não consentiu
+que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente
+com as flores e os livros, ora no seu jardim,
+ora na sala alumiada e silenciosa do modesto casal
+de Villalva, ora nas palestras da villa, ora em solitarios
+passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando
+<span class="pagenum">[49]</span>
+e estudando, quando não se quedava a fallar
+com a gente do campo, interrogando-a sobre os seus
+rebanhos e as suas lavouras. Estudava agora, depois
+decidiria o que havia de fazer. Não o satisfaziam os
+livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel
+de tudo aquillo e advinhava em si, sem as poder
+definir, outras ambições, outras esperanças, outros
+desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae
+vivesse, não sairia d'ali nem queria saber dos seus
+bens.</p>
+
+<p>Hoje as circumstancias são differentes. Passados
+os primeiros dias de mais pungente saudade, começa
+a pensar, com um firme proposito de resolução,
+no caminho que lhe convém seguir. Estava rico, com
+vinte e quatro annos, que iria fazer da mocidade e
+da fortuna? Ficar ali?</p>
+
+<p>Era um convento, uma vida estreita, e os livros
+com que se tinha aconselhado diziam-lhe que a existencia
+era uma lucta, o ascetismo uma doença, e a
+expansão de todas as forças, de todos os apetites e
+de todas as paixões uma lei natural, porventura a
+condição do vigor e da saude. O luxo e todos os seus
+prazeres eram bons. Havia desgraçados a quem isso
+offendia? Illusão, não era offensa, era a lei do mundo;
+eram vencidos, seres inferiores que o progresso
+da especie exigia que se consumissem na miseria.
+Não era isso o que a mãe lhe ensinára e intimamente
+sentia-se inclinado á piedade, á modestia, á doçura
+e á tranquillidade? Vicios hereditarios, casos atavicos,
+que a regra era luctar, o signal de superioridade vencer.</p>
+
+<p>Ouviu a mãe. Disse-lhe que estavam ali muito
+mal, sem commodidades e sem conforto, que queria
+frequentar mais assiduamente algumas relações que
+deixára em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer
+em Albergaria, d'onde mais facilmente poderia
+sair.</p>
+<span class="pagenum">[50]</span>
+
+<p>Demais, pensava em fazer uma longa viagem que
+era necessaria para se instruir; custava-lhe deixar
+a mãe em Villalva, entre uma gente estupida, sem
+recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse
+n'uma doença ou n'um desastre. Lembrava se
+do que acontecera com a morte do pae; por pouco
+deixou de se vêr sósinho nos seus ultimos instantes.</p>
+
+<p>A mãe ouviu com grande pasmo e surpreza. Na
+sua simplicidade, tinha imaginado que tudo estava
+muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de boas
+teias de linho. Não era aquillo toda a riqueza do
+mundo, não o considerava ella como supremo favôr
+de Deus e premio do ardor com que lhe orava? Isolamento
+não o sentia, que as horas eram poucas para
+o trabalho e corriam ligeiras no labutar constante.
+Tambem não comprehendia a falta de recursos; a
+doença e a morte vêm quando Deus quer, não temos
+mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a
+Claudio convinha sair d'ali, fizesse como melhor
+fosse para elle. Vivera sempre para os outros e agora
+que já não tinha marido nada lhe custava obedecer
+ao filho. A paciencia e a resignação não conheciam
+limites n'aquella alma.</p>
+
+<p>Claudio começou pois a cuidar com impaciencia
+da sua nova installação. Arrendou um palacio, á entrada
+da villa, do lado do poente, com pateo nobre,
+escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas
+janellas saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim
+e pomares. Tinha sido, segundo se dizia, dos duques
+d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento rico de
+Coimbra que o arrendava barato porque não o queria
+improductivo, não queria, na sua expressão, cavallos
+d'estado.</p>
+
+<p>Vieram moveis caros, louças da India, quadros,
+bronzes e damascos, comprados nos bazares de Lisboa
+por onde Claudio andou em companhia d'um antigo
+<span class="pagenum">[51]</span>
+amigo e condiscipulo que era de gente fina e
+muito entendido em <i>bric-à-brac</i>. Veiu tambem um
+<i>landau</i> e dois grandes cavallos francezes que tinham
+pertencido a um negociante que se arruinára em
+fundos hespanhoes.</p>
+
+<p>&mdash;Pechincha! dizia-lhe o amigo. Isto que aqui vês
+por um conto e duzentos, custou mais do dobro. A
+carruagem é de Binder, os cavallos estão novos e os
+arreios são magnificos! O pobre homem vendeu a
+medo, envergonhado; se os tivesse annunciado e esperasse,
+era impossivel que não encontrasse quem
+lhe desse mais.</p>
+
+<p>Gastaram-se n'esta primeira installação uns oito
+contos de réis dos doze que o José Portugal tinha
+deixado em Coimbra, á ordem do filho, em casa
+d'um commerciante da Praça Velha, que lhe cobrava
+os juros das inscripções e recebia as rendas que vinham
+do Minho. O velho, na sua escrupulosa honradez,
+pensava sempre em não prejudicar o filho em
+proveito proprio ou em proveito da filha casada. Por
+isso punha de parte aquillo que em sua consciencia
+entendia sobrar dos rendimentos da herança.</p>
+
+<p>&mdash;Lá lh'o deixo, pensava, elle lhe dará a applicação
+que quizer. Não lhe hão-de faltar terras para
+comprar. Está ahi a casa do fidalgo que, por morte
+d'elle, se vem a vender toda. Já não podem com dividas.</p>
+
+<p>Foi o amigo de Claudio, Jorge de Castro, quem
+veiu mobilar-lhe a casa.</p>
+
+<p>Não havia que fiar em estofadores. Um dinheirão
+e tudo sem gosto! Ainda ha pouco vira na Avenida a
+casa do Antonio Ferreira, um negociante da praça
+que enriqueceu com a alta da borracha. Pagou mais
+de trinta contos ao Gaspar e não tinha um cantinho
+que se diga: benza-te Deus. Muita seda, muitos dourados,
+uma caixa de amendoas! Emquanto o José
+de Menezes, que se casou ha pouco, com um conto
+<span class="pagenum">[52]</span>
+e quinhentos poz a casa como um brinco. A sala de
+jantar pouco mais tinha que a meza, uma credencia,
+velha baixela de estanho, meia duzia de cadeiras,
+suspensa do tecto uma lampada de bronze e nas paredes
+quatro prateleiras com pratos de Wedgwood,
+brancos, na sua brancura leitosa, de leite a desnatar
+n'um fundo escuro e mate.</p>
+
+<p>&mdash;Original! concluia Jorge.</p>
+
+<p>Aquelles objectos pareciam que tinham acabado
+de servir e que a todos os instantes estavam em movimento.
+Davam uma expressão de vida que os armadores
+de profissão desconheciam. Que barbaridades
+iam por essas casas de Lisboa! Havia-as armadas
+em capellas, com muitos pannos, papeis dourados,
+jarras de porcelana, flores artificiaes e castiçaes
+de prata; havia as armadas em tumulo, todas em estuque
+brilhante e frio; e havia-as tambem, de amadores
+improvisados, armadas em museu onde os moveis,
+aliás ricos e ás vezes de grande valor, se accumulavam
+sem relação, sem parentesco que os ligasse.
+Se lhes pozessem rotulos e preços, a loja era
+completa. O Menezes não; tinha muitissimo gosto. E
+sabia comprar: aquella sala de jantar não lhe custou
+talvez duzentos mil réis.</p>
+
+<p>Claudio comprehendia mal a lição do amigo e
+estranhava o calor com que lhe era dada; no collegio
+nunca ouvira fallar de estofos e mobilias, em
+Coimbra vivera retirado de elegancias e em Villalva
+trabalhava-se de sol a sol; a mais brilhante peça da
+casa era a enxada polida entre os seixos da serra.
+Soubera pelos livros que a arte era a corôa da educação
+d'um bello espirito e queria-a tambem como
+tudo o que aos olhos da propria consciencia podesse
+engrandecel-o; mas outras eram as suas preoccupações
+interiores. Havia de aprender com tempo e paciencia,
+quando tivesse a sua vida mais assente. Não
+tardaria, pensava; tinha uma casa commoda e de
+<span class="pagenum">[53]</span>
+bom gosto, o estudo havia de aproveitar-lhe melhor
+sob impressões deliciosas, os progressos seriam rapidos.</p>
+
+<p>Não o pensava egualmente a mãe, abatida com
+tamanho encargo, a casa, as salas e os creados. Suspirava
+pela paz laboriosa de Villalva, baixinho, em
+silencio, não fosse o filho ouvil-a e desgostar-se com
+as suas saudades.</p>
+
+<p>Estabeleceram-se novos costumes em conformidade
+com a nova vida, almoço ao meio dia, jantar ás
+seis horas, as manhãs para o estudo, as tardes para
+os negocios da casa, visita ás propriedades e passeios
+de carruagem, as noites... oh! as noites eram
+realmente um grave embaraço. A botica enfadava,
+era mesquinha com a sua baixa e insalubre curiosidade;
+o jogo era para velhas, um estupido brinquedo;
+em casa, o estomago pesado, frente a frente com
+a velhita, o tedio era extremo. De resto, ella gostava
+de fazer serão ao pé das creadas, na cosinha, com a
+sua velha rocca á cinta, fiando o linho de Villalva.
+Chegando áquella hora, Claudio não sabia onde se
+refugiasse.</p>
+
+<p>Valia-lhe ás vezes Coimbra, alguma noite no theatro,
+onde por accaso encontrava quem lhe fallasse de
+Flaubert, de Zola, de Comte ou de Spenser, as grandes
+preoccupações de seus estudos. Mas isso mesmo
+era raro porque, nos cinco annos que lá tinha estado,
+levára uma vida bisonha, retrahida e poucas relações
+deixára.</p>
+
+<p>D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos;
+Jorge de Castro, que ha pouco encontramos em Lisboa,
+aconselhando-o na installação do palacio de Albergaria,
+e José d'Albuquerque que mais tarde nos
+vae apparecer intimamente ligado á vida de Claudio.</p>
+
+<p>Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento
+e de habitos. Fôra curiosa a maneira porque entre
+<span class="pagenum">[54]</span>
+elles e Claudio se creára um profundo affecto, apezar
+das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.</p>
+
+<p>Claudio passeiava habitualmente só. Vinha porém
+todas as tardes a uma livraria da baixa, na Calçada,
+procurando com avidez as novidades litterarias
+chegadas de França e prescrutando, entre os livros
+alinhados nas prateleiras, o caminho a seguir na
+sua ancia de saber. Era ali que invariavelmente
+encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos
+como Claudio a cousas litterarias. D'este
+modo, por este unico laço, começou a constituir-se
+essa amisade que a uniformidade de sentimentos
+e de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo
+porém o tempo escolar, Jorge fôra viver para Lisboa
+e em Coimbra só ficára o Albuquerque, em
+casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante,
+porque todo o apparato de luxo que encontrava
+brigava com os seus habitos e a sua educação.</p>
+
+<p>Agora que mudára de ideias e de aspirações,
+aproveitava a hospitalidade do amigo, para desenferrujar
+a lingua, dizia, que era uma necessidade
+permutar ideias.</p>
+
+<p>Nem assim, com todo este complicado artificio,
+podia conformar-se com a vida de estudo que architectara.
+Ás vezes possuia-se d'um invencivel
+fastio dos livros e corria ao jardim, plantando,
+regando, limpando as arvores e as flôres, voltando
+instinctivamente aos bons habitos da sua educação.</p>
+
+<p>O jardineiro, que contractára em Lisboa, corria
+logo, que não se enxovalhasse s. ex.<sup>a</sup>, elle faria o
+que quizesse.</p>
+
+<p>Claudio desculpava-se; era para se entreter, que
+lhe fazia bem á saude.</p>
+<span class="pagenum">[55]</span>
+
+<p>&mdash;Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando
+a pericia do senhor.</p>
+
+<p>Já tinha tido um patrão que tambem fazia o mesmo,
+o seu gosto era andar a tratar do jardim, mais
+era um grande fidalgo, empregado no paço da Ajuda,
+muito amigo do sr. D. Luiz!</p>
+
+<p>O estudo não o satisfazia. Foi a conclusão a que
+Claudio chegou no fim d'um anno de residencia em
+Albergaria.</p>
+
+<p>Talvez questão de ambiente, falta de incitamento
+pela ausencia de camaradagem adequada... O
+melhor era a experiencia, o conhecimento directo
+das cousas e dos homens, sair d'alli, vêr o mundo,
+os grandes espectaculos da vida, do trabalho, da arte
+humana e da natureza. Ainda sobrára alguma cousa
+do mealheiro que o pae lhe deixára, iria correr a Europa.</p>
+
+<p>Começaria pela Hespanha, pelas margens do
+Mediterraneo passaria a Italia, regressando iria á
+Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow, voltaria pela
+Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz
+e a Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia
+a Pariz e faria alli quartel general, centro de
+todas as excursões.</p>
+
+<p>Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano,
+dando-lhe conta da morosidade com que o seu estudo
+proseguia e da maneira por que pensava em
+adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.</p>
+
+<p>Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga
+civilisação, e ficariam para successivas jornadas
+o Oriente e a Grecia, a India, o Japão e a America
+do Norte.</p>
+
+<p>O amigo applaudia. Quem lhe déra poder fazer o
+mesmo! Mas tinha casado cedo, não podia levar a
+mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era contentar
+com a sua sorte. Passava o verão com a mãe
+em Loures, o inverno em Lisboa, e as suas viagens
+<span class="pagenum">[56]</span>
+duravam habitualmente um dia, dois ou tres em casos
+muito excepcionaes.</p>
+
+<p>Em Santarem, onde fôra com o Antonio de Mello
+e o Carlos d'Azevedo, gastára um dia, a jornada a
+Evora durou tres dias mas já não parava com saudades
+de casa, como quando veio a Albergaria,
+onde recebia cartas da mulher que eram um sermão
+de lagrimas.</p>
+
+<p>Tudo tinha compensações, dizia afinal; se elle,
+Claudio, tinha a inteira liberdade de dispender o
+seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e alcançar
+uma vasta instrucção, elle, Jorge, tinha os
+carinhos constantes d'um lar amado e alegre. Não
+era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que se instruisse
+agora, que aproveitasse, e a seu tempo lá
+chegaria.</p>
+
+<p>Claudio partiu em abril e jornadeou até ao fim de
+outubro com uma impaciencia desusada. Não parava
+em parte alguma, com sêde de impressões, uma
+embriaguez de aspectos desconhecidos propria de
+quem fôra creado em horisontes estreitos.</p>
+
+<p>Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo
+observava, registando na lembrança conhecimentos
+novos.</p>
+
+<p>Ás vezes deixava-se possuir d'um extremo cansanço,
+tinha saudades da sua terra, parecia-lhe
+que cousa alguma valia tanto como a paz de Villalva
+e até a imagem da sua Conceição d'outros tempos
+lhe passava meigamente pelos olhos. Fadiga! Eram
+momentos passageiros; com esforço e tenacidade
+juntaria larga copia de conhecimentos, em casa, no
+socego do seu canto, havia de digerir toda aquella
+massa informe, havia de dispol-a em theorias e systemas,
+e então o saber seria completo e o estudo
+deixaria de o enfadar.</p>
+
+<p>Uma tarde, na Flandres, teve uma visão que lhe
+ficou de lembrança. Saira de Gand, de manhã, a vêr
+<span class="pagenum">[57]</span>
+uma propriedade modelo que tinha tido o primeiro
+premio no ultimo concurso e, já proximo do pôr do
+sol, esperava o comboio n'uma estação de aldeia. A
+gare estava deserta e silenciosa; em volta os campos
+verdes e planos, emoldurados em altas sebes de
+choupos que oscillavam ao vento brandamente; raros
+casaes dispersos; em frente a casa d'um lavrador,
+uma velha á porta, fiando na roda, á maneira
+do norte, e ao pé uma creança recolhendo as gallinhas
+ao poleiro. Que seria da familia? Andava nos
+campos, certamente.</p>
+
+<p>Em casa ficaram os velhos e as creanças fazendo
+o pouco trabalho de que eram capazes. Talvez alli
+estivesse a suprema sabedoria. Que andava elle a fatigar-se
+com vãos estudos? O mais sensato seria voltar
+a Villalva, casar-se e trabalhar; fazer como aquelles
+que alli via. Uma pungente saude acompanhando
+o sentimento da inamidade de toda a sua vida lhe
+apertou o coração e os olhos humedeceram-se n'um
+movimento de desalento profundo.</p>
+
+<p>Pariz apagava essas impressões fugitivas; desfaziam-se
+rapidamente na sua atmosphera de luxo, de
+prazer, de epicurismo.</p>
+
+<p>As theorias materialistas aprendidas nos livros
+confirmavam as instigações dos sentidos. Claudio
+convencia-se de que a verdade era a riqueza e o
+progresso dos gozos e das commodidades. A lucta
+pela vida reduzia-se á expansão naturalista, á conquista
+dos regalos do corpo. Que mais poderia significar?
+Que valor poderia ter o sacrificio pelos outros?
+Não lh'o encontrava, de facto. Talvez utilidade social...
+mas isso era uma cousa vaga, indefinida.
+Guia seguro só a expansão do individuo, a satisfação
+dos seus appetites; o resto, preoccupações moraes,
+eram vicios hereditarios, remanescente d'um
+estado metaphysico que a sciencia condemnava.</p>
+
+<p>E n'estas idéas voltava em fins d'outubro a Albergaria,
+<span class="pagenum">[58]</span>
+com um scepticismo convencional, mal ajudado
+pela experiencia do luxo dos hoteis caros das cidades,
+e sempre em contradição com constantes inclinações
+interiores para outras e mais altas paragens.</p>
+
+<p>Os primeiros dias que seguiram o seu regresso foram
+para ouvir a mãe e visitar as terras. A mãe contava-lhe
+ingenuamente o que se passara na sua ausencia;
+as colheitas tinham sido boas, regular anno de vinho e
+abundante de milho. Não chegaram as vasilhas da
+adega, mas, como o filho não estava, não quiz sem
+consentimento d'elle comprar novos toneis e, para o
+que faltava, pediu-os emprestados. Encheu-se tudo
+o que havia em casa e mais duas vasilhas de noventa
+almudes que se pediram. Se o preço fosse bom,
+era uma riqueza. Iam agora começar com a azeitona.
+Tambem não era mau anno mas o feitor dizia que
+não passaria de metade da colheita anterior. Os creados
+é que muito lhe custavam a supportar, sempre
+com intrigas, com invejas, trabalhando pouco e exigindo
+muito.</p>
+
+<p>&mdash;Grande náo, grande tormenta, dizia lembrando-se
+com saudade dos tempos de Villalva e do socego
+em que lá vivera durante quarenta annos.</p>
+
+<p>Claudio ouvia com interesse as palavras da mãe.
+Involviam-lhe o coração n'um alento d'amor que ha
+muitos mezes desconhecia; todo se entregava a esta
+caricia que recebia como uma benção. Demais, nunca
+tinha esquecido a casa e as lavouras; os habitos
+da infancia arreigaram-se-lhe no espirito, o ruminar
+dos bois, o latido dos cães e o murmurio do arvoredo,
+todos os doces ruidos que acompanham a vida
+dos campos tornaram-se para os seus ouvidos o mais
+mavioso dos córos cuja harmonia lhe fazia esquecer
+o mundo e os homens para o confundir pantheistamente
+no movimento da natureza. No eterno canto
+que da terra se desprende, a sua alma vibrava unisona.</p>
+<span class="pagenum">[59]</span>
+
+<p>Por isso, voltando a casa, tudo corria e via, interrogando
+secretamente esses queridos seres que
+ainda na mudez lhe respondiam. As folhas dos platanos
+voavam já pelas ruas do jardim levadas no humido
+sudoeste que ia trazer as primeiras chuvas do
+inverno, os loureiros começavam a destacar negros
+entre os choupos amarellecidos, as aguas corriam
+livres, á borda dos campos relvosos, frescos dos copiosos
+orvalhos do outomno; abria-se a hora do recolhimento
+e da treva.</p>
+
+<p>Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada
+a hora de recolhimento no estudo, pelas noites
+de inverno ou pelas suas geladas manhãs, junto ao
+fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado
+o espirito n'esta atmosphera amiga, havia
+então de estudar e, alliando com as leituras a recordação
+do muito que vira, as infinitas impressões que
+armazenara na memoria durante seis mezes em que
+correra sempre, n'este novo consorcio o estudo havia
+de ser captivante e util. Passaria ali o inverno,
+todo o verão seguinte, ainda outro inverno, e depois
+iria em nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria
+na sua educação.</p>
+
+<p>Os dias porém iam correndo, estavamos já em
+meiado de novembro, e os livros trazidos de Paris
+jaziam intactos, em monte, a um canto do gabinete,
+entre recordações de viagem, um punhal de
+circassiano comprado em Tula, mosaicos de Florença
+e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de começar
+como um estudante relapso; todos os pretextos
+lhe serviam, a necessidade de frequentar o lagar que
+precisava reparação, as visitas a antigos conhecimentos
+de Coimbra, um novo curral que construia
+em Villalva, á maneira do que vira na Hollanda.
+Dissipava o tempo n'esta inquietação, com um inconfessado
+temor dos enfados do estudo. Lia desconexamente
+grande copia de romances, Bourget,
+<span class="pagenum">[60]</span>
+Tolstoi e os russos, cuja fama no occidente despontava
+a este tempo, mas os volumosos tratados de
+sciencia e de philosophia continuavam esperando.</p>
+
+<p>Ás vezes sentia saudades de Londres, de Paris e
+dos seus prazeres. Estudo, lavouras, deveres sociaes,
+destino da sua vida, tudo passava então ao rol das
+phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna
+regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos?
+Não eram o seu legitimo direito? Amar, beber, regalar
+os olhos e os ouvidos nas maravilhas da arte,
+em artistica sensualidade, era o que lhe convinha,
+era o que cabia á sua edade, era o que havia de lhe
+trazer em recompensa o riso e a franca alegria de
+que tanto carecia e em que corpo e alma haviam de
+expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra
+a clausura.</p>
+
+<p>E os piedosos conselhos da mãe? Coitada! Illusões
+das almas simples; a verdade era muito outra. Não
+tinha sido vão o baptismo nas aguas de cynismo
+epicurista em que se iniciára pelos templos afamados
+da devassidão cosmopolita.</p>
+
+<p>Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia
+Emilia.</p>
+<span class="pagenum">[61]</span>
+
+
+
+
+<h1>III</h1>
+
+
+<p>Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco
+fallou com Emilia, elle prezo a uma meza
+do <i>whist</i>, para ser agradavel ao juiz que
+sem isso se aborrecia, ella dansando sempre.
+Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz,
+as Silvas, de Barrosas, raparigas novas,
+muito praticas em galanteios e n'esta especie
+de reuniões, de fluente banalidade. Animavam
+muito, dizia-se; com ellas e quatro
+estudantes que de Coimbra acompanharam
+o sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas
+seguiram-se quasi sem interrupção. Á meia
+noite parecia haver certo cansaço, mas, como o doutor
+mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira,
+a alegria renovou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Que bella noite! dizia um dos estudantes para
+as damas. O peior é ámanhã a <i>cabra</i>. Eu ainda não
+vi nem uma linha da lição. Provavelmente já não me
+deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o
+que ha de ser de mim!</p>
+<span class="pagenum">[62]</span>
+
+<p>Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e
+via já ali correspondencia amorosa para uns bons
+seis mezes, apressava-se a responder-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco
+temos o Sagrado Coração de Jesus. Não falte. Quero
+ver...</p>
+
+<p>&mdash;Se eu poder... Queira Deus que não venha a
+cahir em férias de ponto!</p>
+
+<p>Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por
+finda e Claudio veio então a uma janella respirar por
+um momento o ar fresco da noite e repousar a cabeça
+aturdida pela immobilidade e pela attenção
+forçada.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho, vendo-o só, abeirou-se d'elle para
+o distrair.</p>
+
+<p>&mdash;Tem-se aborrecido muito, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Não!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas
+meninas para nos communicar alegria. Esta D.
+Emilia, principalmente, é d'uma vivacidade...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! muito galante!</p>
+
+<p>&mdash;E fina...</p>
+
+<p>&mdash;Parece incrivel que ella ainda conserve estas
+maneiras fidalgas, a viver todos os dias com um homem
+d'aquelles!</p>
+
+<p>&mdash;É grosseiro, o marido?</p>
+
+<p>&mdash;Não imagina!</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um
+pouco amigo de vinho.</p>
+
+<p>&mdash;Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e
+d'uma brutalidade nunca vistas. Eu conheço perfeitamente
+a historia d'essa rapariga, por um condiscipulo
+meu que era muito lá de casa d'ella e creio até
+que ainda parente.</p>
+
+<p>E contou:</p>
+
+<p>&mdash;Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos
+meios mas andando constantemente em muito
+boa roda, porque a familia era realmente muito fidalga.
+<span class="pagenum">[63]</span>
+Os paes estavam quasi sempre por Penacova.
+Tinham ali proximo, no Chello, uns bemsitos, uma
+casa na villa, e para economisar,&mdash;coitados, não havia
+melhor!&mdash;viviam lá todo o anno, com excepção
+do tempo que passavam na quinta do morgado do
+Véro que os convidava muito, para os ajudar. Dos
+quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga,
+morreu de variola, dos rapazes um assentou praça,
+creio que já está tenente, o outro que era um estroinão,
+foi para o Brazil, e esta, a Emilia, casou,
+mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo
+era escripturario de fazenda e que só depois foi
+nomeado escrivão, por muita instancia do morgado
+do Véro com o Marques Lino, deputado pela
+Louzã.</p>
+
+<p>Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha
+lá de Lisboa, habituada a muita convivencia e a muito
+namorisco, encontrou se só, não tinha mais ninguem
+que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes
+ainda se oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança
+de lhe arranjarem um casamento rico, mas
+começaram, com estas cantigas do costume, a dizer-lhe
+que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era
+o dinheiro que fazia a felicidade, e, como eram babosos
+pela filha e ella andava doidinha de todo, lá se
+deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora o
+Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é
+sei-o eu, um grande relaxado com muito pouca vergonha
+e muita impostura, que se convenceu de que
+a protecção da familia da mulher ainda o podia levar
+a escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se
+apanhou servido, fez-se então um bebado descarado,
+sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em casa
+com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta
+de obscenidade deante da mulher e dos filhos...
+É impossivel que esta mulher, para quem manobrasse
+com arte... Deus sabe até o que ella terá feito
+<span class="pagenum">[64]</span>
+por outras terras!... porque não creio que ella com
+o genio desinvolto que tem e vendo o que o marido
+é e como a trata...</p>
+
+<p>&mdash;Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Não... mas aquillo não falha. Estava bom para
+si que é novo e tem tempo para essas cousas!</p>
+
+<p>&mdash;Para mim?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?</p>
+
+<p>&mdash;Não são annos de fortuna! respondeu Claudio
+sorrindo e encaminhando-se para o centro da sala,
+d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois,
+passeando a passos largos no seu gabinete, de
+regresso de casa do dr. Carvalho.</p>
+
+<p>Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa,
+educação aristocratica. Que desenfado para os seus
+ocios de Albergaria!</p>
+
+<p>Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada,
+o marido desleixado, sempre pelas tascas,
+repellente para quem se mostrava de habitos tão
+finos e sensibilidade tão delicada. Não devia falhar
+a aventura.</p>
+
+<p>Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a
+confiança de Emilia, mais dois de correspondencia
+amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o resto
+estava certo.</p>
+
+<p>Era claro! Uma mulher casada sabia bem para
+que era que elle lhe fazia a côrte. Não tinha a esperar
+casamento. Devia ser boa essa situação em
+que nunca podia haver compromissos de futuro. E o
+marido? Com aquella obesidade, calvo e de lunetas,
+não seria de temer.</p>
+
+<p>Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro;
+não se mostrando muito avaro, havia de
+o manter em boa disposição. Um achado, um achado!
+O peior era a mãe; não havia de gostar, haviam
+de lhe produzir grande impressão os amores com
+<span class="pagenum">[65]</span>
+uma mulher casada. Coitadita! Não sabia o que era a
+lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio
+aquelle immundo bebado guardava para si uma deliciosa
+mulher?</p>
+
+<p>Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais
+do que qualquer outro; estavam no seu direito, haviam
+de amar-se livremente.</p>
+
+<p>A natureza não conhecia fidelidades nem infidelidades;
+os seres attraiam-se por selecção natural, não
+havia fugir á lei.</p>
+
+<p>Demais, isto era uma aventura; se a velhita
+se mostrasse muito contrariada, punha-se termo ao
+episodio. Nem a elle convinha prolongal-o. Um
+anno, quando muito; na primavera seguinte, malas
+feitas e a caminho do Oriente! Nada de se prender
+com pieguices; isso era bom para os tempos em que
+ia ao Outeiro fallar com a Conceição e tinha escrupulos
+de lhe tocar. Fôra bem tolo! Se fosse agora, o
+caso seria outro. Já era tempo de ser homem.</p>
+
+<p>Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte
+iria visital-a. Era correcto. Continuariam a
+conversação da estrada de S. Braz, que ia em bom
+caminho de intimidade, e não sairia sem deixar ajustado
+sob qualquer pretexto novo encontro. Era preciso
+bater a caça sem cessar.</p>
+
+<p>Os devaneios da imaginação amorosa prolongaram-se
+até altas horas da noite. E adormeceu contente,
+nas suas risonhas esperanças.</p>
+
+<p>Pela manhã dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar
+como de costume! Abriu um livro de botanica,
+mas não estava em boa disposição de leituras scientificas.</p>
+
+<p>Era melhor um livro de pura litteratura. O quê?
+Tourgueneff? Não; eram tristes estes russos com as
+suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria e a dôr.
+Eram fracos; questão de clima, de lymphatismo e
+inacção forçada pelos rigores da natureza. Com um
+<span class="pagenum">[66]</span>
+sol tão lindo e o jardim como um açafate perfumado
+de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se
+em pensamentos sombrios.</p>
+
+<p>Vejamos outro. Balzac? Tambem não; era uma
+obsessão de gente fallida, credores e agiotas por
+todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a
+angustia da cubiça.</p>
+
+<p>Outro ainda, vamos correndo a estante. Merimée!
+Ah! Merimée... este sim, este era um homem são.
+Sceptico, dizem. Que importa? Não é o scepticismo
+a verdadeira philosophia? Quem póde dizer-me o
+que é vicio e o que é virtude? Phantasias! O que
+existe é a natureza humana com todas as suas forças
+e a sua expansão. A harmonia ha-de sair da lucta,
+deixemos livre o instincto.</p>
+
+<p>Abriu as <i>Cartas a uma desconhecida</i> e foi sentar-se
+proximo da janella, comodamente estirado n'uma
+poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava uma
+sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de
+regatos, scintillações do orvalho na folhagem mimosa,
+balsamos das flores que desabrocham, vozes sentidas
+das aves que se amam e preparam o ninho.</p>
+
+<p>Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia á sua
+doçura, pousou o livro sobre os joelhos e, apoz breves
+minutos de hesitação, lançou-o sobre a mesa e
+desceu a vaguear pela sombra dos platanos, á beira
+dos lagos que os ramos beijavam, curvados, em mystico
+amor. A imagem de Emilia não lhe deixava os
+olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que
+lhe diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de
+conquistador.</p>
+
+<p>Ao meio dia foi almoçar.</p>
+
+<p>De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo
+morbidamente irritado da atmosphera de fumo e de
+poeira em que permanecera durante cinco horas.
+Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente
+o somno; era um dormir febril em que o retrato
+<span class="pagenum">[67]</span>
+de Emilia permanecia como visão insistente.
+Por isso, depois do almoço, cedendo á fadiga e ao
+torpor da digestão, adormeceu novamente n'um divan
+do seu gabinete. Quando accordou, eram cerca
+de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco
+estaria ao pé da sua amada.</p>
+
+<p>Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais
+elegante que trouxera de Londres. A gravata era um
+problema; as mulheres attentam em todas estas frivolidades
+e é necessario satisfazer-lhes o espirito.
+Luvas, sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos
+a resolver e que Claudio considerou um a um,
+experimentando e observando, em frente do espelho.</p>
+
+<p>Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da
+praça, lembrou-se de que tinha de passar em frente
+da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o traje.
+Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia
+ser que elle o não visse... Foi para diante. De facto,
+o pharmaceutico dormia a sésta. Por esta vez, estava
+salvo da interrogações compromettedoras.</p>
+
+<p>Á porta da casa da rua da Cruz, em que morava
+Emilia, bateu de mansinho duas pancadas com a
+bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada
+despida e núa. Sentiu-se um abafado rumor de
+passos apressados e veiu abrir a porta uma rapariga
+descalça, os cabellos curtos, escondendo as mãos
+sob um avental de riscado.</p>
+
+<p>A rapariga olhou Claudio com surpreza.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Almeida está?</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Almeida está a descansar.</p>
+
+<p>&mdash;E a sr.<sup>a</sup> D. Emilia?</p>
+
+<p>&mdash;A sr.<sup>a</sup> D. Emilia acabou ha pouco de jantar.</p>
+
+<p>&mdash;Leva-lhe este cartão e diz lhe que eu desejava
+fallar-lhe, sim?</p>
+
+<p>E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma
+de ouro, um cartão em que se lia: <i>C. de Sousa
+<span class="pagenum">[68]</span>
+Portugal</i>. Mandara-os fazer em Paris, eram os que
+usava no estrangeiro e já por vezes o tinham feito
+passar por conde.</p>
+
+<p>A creada voltou:</p>
+
+<p>&mdash;Que faça favôr de subir...</p>
+
+<p>Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena,
+rectangular, com uma só janella saccada, e tendo
+por toda a mobilia um sofá coberto de palhinha, algumas
+cadeiras, um tapete, uma meza com um panno
+vermelho, sobre ella um candieiro, dois castiçaes,
+um par de jarras vasias e um album de photographias,
+e na parede um retrato a carvão, mal desenhado.
+A pobreza transparecia n'aquella nudez.</p>
+
+<p>Emilia appareceu immediatamente, com um vestido
+de chita clara muito singelo, apertado no pescoço
+por uma larga fita de velludo preto e um alfinete de
+prata, um só annel, a alliança, na mão esquerda, o
+pequenino pé bem calçado de preto. Apertou a mão
+a Claudio e, começando a conversa, disse-lhe que o
+marido estava a descansar mas que ia chamal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Não o incommode v. ex.<sup>a</sup> por minha causa, vinha
+só apresentar a v. ex.<sup>as</sup> os meus respeitos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas elle é que ha-de sentir não o vêr.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus lhe peço, não o incommode.</p>
+
+<p>Sentaram-se. Fallaram da reunião da vespera e
+apreciaram a belleza das raparigas que lá foram.
+Claudio teria estado melhor se podesse conversar
+um pouco mais, e accentuava significativamente estas
+palavras; mas o juiz, coitado! é que já não prescindia
+do <i>whist</i> e não quiz contrarial-o. A ella por
+certo não tinha acontecido o mesmo. Dansára toda a
+noite e n'isso estava a suprema felicidade, não era
+verdade?</p>
+
+<p>A conversação da estrada de S. Braz recomeçava.
+Pela janella aberta via-se um largo campo em que
+uma rapariga graciosamente curvada ceifava, balouçando a
+fouce com agilidade, o azevem prestes a
+<span class="pagenum">[69]</span>
+amadurecer que se estendia n'um vasto lençol, ondeando
+ao vento, em fugidios reflexos prateados; em
+baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando
+os caminhos e abrigando os regatos; ao longe,
+a orla negra do horisonte com os montes cobertos
+de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos
+fenos que seccavam ao sol, as pavêas alinhadas na
+terra e polvilhadas de pontos amarellos, murchas
+flores de malmequeres.</p>
+
+<p>Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana
+era uma injustiça com a feliz sorte que o destino
+lhe concedia, dizia Claudio. Que linda payzagem!
+Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos
+pontos mais bonitos da villa.</p>
+
+<p>&mdash;Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia;
+mas ou por estar habituada ao local ou porque realmente
+não está no meu feitio apreciar estas cousas,
+nunca penso em tal paysagem. Venho á janella para
+vêr se temos sol ou se temos chuva. Só este silencio
+é de morrer! Parece-me que estou n'uma sepultura,
+eu que fui educada no meio de tanta gente. Não!
+Por emquanto não me dou por convencida!</p>
+
+<p>&mdash;Mas hei-de convencel-a, creia v. ex.<sup>a</sup> Não me
+será difficil.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez...</p>
+
+<p>&mdash;Com certeza. E mais tarde v. ex.<sup>a</sup> ha-de agradecer
+m'o. Será o meio de se aborrecer menos em
+Albergaria.</p>
+
+<p>N'isto, o escrivão assomou á porta d'uma alcova,
+em chinellos, sem luneta e sem collarinho, a camisa
+desabotoada.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! disse confuso, queira v. ex.<sup>a</sup> perdoar, sr.
+doutor. Estava a descançar, senti fallar e levantei-me
+pensando que era o meu escripturario que ficou de
+me trazer esta tarde o borrão das novas matrizes da
+Afurada. De fórma que...</p>
+
+<div class="centrado"><img src="images/002.jpg" alt="&mdash;Oh! disse confuso, queira v. ex.<sup>a</sup> perdoar, sr. doutor."></div>
+
+<p>&mdash;Ora, sem cerimonia, á sua vontade. O que eu
+<span class="pagenum">[70]</span>
+sinto é ter vindo perturbar-lhe a sésta, mas não queria
+deixar passar mais tempo sem vir apresentar os
+meus respeitos a vv. ex.<sup>as</sup>.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado, muito agradecido, não era necessario
+incommodar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Estava admirando estas lindas vistas de sua
+casa...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim, não são más, mas a casa não presta
+para nada. Ora eu lh'a mostro que ella depressa se
+vê.</p>
+
+<p>Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.</p>
+
+<p>&mdash;Quem anda sempre com a mala ás costas, disse,
+sem paradeiro, não póde ter a casa em ordem. V.
+ex.<sup>a</sup> vae pasmar da nossa sumptuosidade.</p>
+
+<p>&mdash;Que importa! apressou-se a responder Claudio,
+accudindo ao embaraço de Emilia. Bem pequena era
+a nossa casa de Villalva e viviamos lá contentes. Estou
+quasi arrependido de ter mudado.</p>
+
+<p>O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos
+quartos, uma sala de jantar e para além, indicava,
+a cosinha, a dispensa e um quarto para as creadas.
+Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha,
+este pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava
+o da janella; serve para os pequenos brincarem.</p>
+
+<p>&mdash;Um cantinho delicioso; só esta vista vale um
+palacio, dizia Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei
+uma casa que nem vidros tinha! Esta ao menos é
+mais limpinha.</p>
+
+<p>De pé, em frente da janella, conversaram ainda
+algum tempo. Claudio pedia informações da casa,
+perguntava os limites da propriedade, quanto teria
+custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos
+de Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente
+vender-se-ia porque elle trazia a propriedade
+muito desprezada e arrendada.</p>
+<span class="pagenum">[71]</span>
+
+<p>&mdash;É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa
+um pouco mais abaixo, de fórma que podesse descobrir
+toda a varzea.</p>
+
+<p>&mdash;Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!</p>
+
+<p>&mdash;Não me quero prender, tenho ainda uma vida
+tão incerta... E não incommodo mais a v. ex.<sup>as</sup>,
+disse abruptamente, curvando-se e estendendo a mão
+a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que
+tinha vindo perturbar-lhes o seu socego. A culpa
+não é minha, a culpa é da amabilidade de vv.
+ex.<sup>as</sup>.</p>
+
+<p>&mdash;Nós é que ficamos muito obrigados á sua amabilidade,
+replicava ella. Quando quizer apparecer...
+Estamos quasi sempre em casa; á noite mesmo, só
+saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;Não me despeço d'acceitar o favor, ia dizendo
+já a caminho da escada.</p>
+
+<p>&mdash;Mesmo para vêr se me converte á boa doutrina...</p>
+
+<p>&mdash;Hei-de converter, por Deus!</p>
+
+<p>Claudio sahiu contente. A sua intimidade com
+Emilia caminhava a passos largos; ainda ha dois
+dias era uma desconhecida e já hoje lhe offerecia
+relações continuadas. O escrivão tambem devia estar
+contente; um desgraçado, sempre perseguido dos
+credores, havia de exultar com a amisade de quem
+lhe podesse valer com largueza. Era não desanimar
+nem perder tempo. Fallavam-lhe em ir lá á noite?
+Aproveitaria. Excellente! E depois Emilia cada vez
+lhe parecia mais tentadora. O que era a educação!
+Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre
+quatro paredes caiadas e núas! Que differença
+entre aquelles habitos e o desleixo provinciano. Já
+mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos,
+na sua modestia, os dois pequenitos de Emilia
+que via á tarde, na botica, passando da escola.
+<span class="pagenum">[72]</span>
+Devia soffrer muito a infeliz rapariga, tão fina de nascimento,
+ligada a um homem estupido e boçal que
+necessariamente a trataria como a qualquer escripturario
+de fazenda.</p>
+
+<p>Uma breve impressão de piedade lhe passou no
+coração, mas immediatamente procurou affastal-a.
+Era uma preza que buscava, uma amante delicada e
+fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, já
+com pretensões a gôsos artisticos; nada de romantismos.
+Se se punha com pieguices, tinhamos outra
+Conceição, e para vergonha uma bastava. Aquella
+desculpava-se por creancice; agora devia ser homem.
+Ia gosar, não ia chorar.</p>
+
+<p>Cuidado, muito cuidado, para que não désse algum
+passo em falso e prejudicasse a sua grande
+ambição! N'isso é que devia pensar. O resto... nada
+de escrupulos; se não fosse elle, havia de ser outro;
+era impossivel que ella se não aborrecesse d'aquelle
+bebado que demais tinha, segundo diziam, uma
+amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que já teria
+acontecido pelas outras terras onde ella andou.
+Caça d'arribação!</p>
+
+<p>E com estes pensamentos fortalecia o animo para
+a sua nova empreza.</p>
+
+<p>Emilia dissera-lhe que apparecesse á noite; havia
+de o fazer, era até a hora que mais lhe convinha.</p>
+
+<p>Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!</p>
+
+<p>O dia livre para o estudo e para cuidar dos
+bens, a noite, essa noite que até agora tanto o enfadava,
+para as caricias da amante.</p>
+
+<p>Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo
+pelo qual nunca podéra seguir no estudo cingindo-se
+aos programmas que architectava, fosse esta ausencia
+de prazeres.</p>
+
+<p>Tambem devia contar com elles, como homem
+que era, para a propria perfeição, para alcançar a
+<span class="pagenum">[73]</span>
+plenitude de desenvolvimento mental a que aspirava.</p>
+
+<p>Para isso a influencia da amante devia ser salutar,
+vinha preencher uma lacuna da sua existencia.</p>
+
+<p>Os impulsos de namorado transformavam-se na
+alma de Claudio em esperanças de gozo, de paz e de
+saber, d'essa vida tranquilla e nobre; e, o espirito
+enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em
+que havia de voltar a casa de Emilia.</p>
+
+<p>Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve
+pela primeira vez. Mostraria uma pressa que ao marido
+se podia tornar suspeita, e vaidosamente resolbêra
+usar de todas as precauções que á sua conquista
+conviessem, como homem astuto e habil. Nem
+sequer lhe devia passar á porta.</p>
+
+<p>Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos,
+palestrou alegremente com o boticario, passeou bastas
+vezes no jardim, e assim consumiu o tempo d'estes
+dois dias que precederam a nova visita a Emilia.</p>
+
+<p>Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em
+boa disposição, a alegria distraia-o, inquietava-o. Em
+pouco tempo, pensava, viria a tranquillidade, quando
+a sua vida estivesse definitivamente fixada.</p>
+
+<p>Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha
+tantas esperanças. Seria melhor vestir-se antes
+de jantar e poderia mesmo referir-se a esse facto na
+conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o
+aos seus olhos o habito elegante de, ainda na
+provincia e só, mudar de trajo para se sentar á
+meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair
+medeiava um espaço de tempo em que não sabia que
+fazer... Era melhor vestir-se então e a Emilia diria
+do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.</p>
+
+<p>Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava
+<span class="pagenum">[74]</span>
+tão profundamente? Sim, mas por costume, por
+vicio de educação de que necessitava corrigir-se. Se
+a mentira era um instrumento proprio a conseguir
+o seu fim, porque não o havia de usar? A lucta pela
+vida, a lucta pela vida! Grande lei! N'essa é que
+precisava inspirar-se.</p>
+
+<p>O jantar, em companhia da velha mãe, que lhe
+chamava ceia e pouco comia porque, dizia, tinha
+jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou,
+ainda a noite não se tinha cerrado.</p>
+
+<p>Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se
+pausada e esmeradamente. O relogio, parecia-lhe,
+caminhava lento; mau grado seu, achou-se
+prompto ainda não eram oito horas. Tinha-se impacientado
+talvez, apezar do proposito em contrario que
+fizera.</p>
+
+<p>Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli,
+quieto; ia dar um pequeno passeio e depois das oito
+horas se dirigiria a casa de Emilia.</p>
+
+<p>Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da
+descida, sentou-se n'um banco de pedra que alli havia.
+Não iria mais longe. A poeira enxovalhava o e
+não queria voltar a casa para se limpar; poderiam
+estranhar tantos cuidados.</p>
+
+<p>A noite estava calma e morna; sobre a sua cabeça
+uma abobada de arvores colossaes, cortada a espaços
+breves e raros pelas manchas do céu que empallidecia
+á luz do luar nascente.</p>
+
+<p>Além, para lá do valle em que as aguas corriam
+murmurosas, ficava a casaria da encosta, ainda na
+sombra; depois, a viva crista dos montes; por detraz,
+erguia-se a lua jorrando silenciosamente a
+claridade. Nos loureiros, á beira dos regatos, debruçados
+sobre alfobres mimosos, cantavam os rouxinoes.</p>
+
+<p>Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor.
+A figura de Emilia passou-lhe nos olhos como uma
+<span class="pagenum">[75]</span>
+apparição de pureza; não era n'aquelle momento a
+sensual amante que buscava, era uma belleza ideal
+que adorava.</p>
+
+<p>Romantismo! oh! o maldito romantismo que o
+atacava! Quando se veria livre d'aquella molestia?
+Porventura seria incuravel e nunca chegaria a sua
+hora de forte e viril razão? Procurou dissipar estes
+sentimentos, que tinha por fraqueza, e começou a pensar
+no que iria dizer á Emilia.</p>
+
+<p>Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos
+feminis, fallar-lhe de elegancia, mostrar-lhe com que
+luxo vivera em Paris, no <i>Continental</i>, e como sabia
+aprecial-o. Por este meio havia de alcançar a sua
+admiração; d'ahi a mostrar-se em confronto com a
+grosseria e a rudeza do marido, o caminho era curto.
+Não poderia escapar-lhe.</p>
+
+<p>Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo.
+Podia ir sem risco de mostrar ignorancia dos costumes
+elegantes.</p>
+
+<p>Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso
+e desesperado da sua anciedade. Sempre aquella
+fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis não, porque
+aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia
+da sua desproporcionada agitação mais o
+irritava. Que podia temer? Que o não recebessem?
+Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus
+galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas
+em uma só batalha. Era pedir muito. Vaidade
+da sua parte; concluia. O que elle receiava era a
+infelicidade na sua empreza que tomaria por uma
+prova de incapacidade para as luctas do mundo. Coragem,
+firmeza! Não havia de succeder assim.</p>
+
+<p>Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita
+descalça, correndo pressurosa, da cosinha, onde preparava
+o chá, mangas arregaçadas e o lenço mal atado,
+quasi solto, a cair-lhe nos hombros.</p>
+
+<p>&mdash;A sr.<sup>a</sup> D. Emilia recebe? perguntou Claudio,
+<span class="pagenum">[76]</span>
+suspeitando de que Emilia o ouvisse e procurando
+uma linguagem elegante.</p>
+
+<p>&mdash;Os senhores estão na sala, respondeu promptamente
+a creada. Faça favôr de subir.</p>
+
+<p>Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro,
+Emilia costurava, um pequeno açafate pousado
+ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um jornal
+approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza
+sobre que estendia os braços e o papel.</p>
+
+<p>&mdash;Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida
+e franca alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tinha promettido... começou Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos
+dias em que não tenho de ir a Coimbra é sempre
+esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão deitados;
+mal anoitece, começam logo a cair com somno.
+A Emilia passa o tempo com os farrapos. A mim, o
+que me vale é o <i>Seculo</i>. É muito bom jornal. V. ex.<sup>a</sup>
+não costuma lêl-o?</p>
+
+<p>&mdash;Não, nunca o vejo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o
+que me vale. E ainda assim, quando Deus quer, ás
+nove horas estou na cama. Quando quizer... faz-nos
+muito favôr.</p>
+
+<p>&mdash;Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho.
+Imagino que os celibatarios hão-de ser muito
+importunos para a gente casada.</p>
+
+<p>&mdash;Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda não
+pude habituar-me a deitar-me cedo; antes da meia
+noite não durmo. Por aqui me entretenho conforme
+posso. E ainda v. ex.<sup>a</sup> quer que me conforme com a
+vida de provincia!... Só estas noites são um castigo!</p>
+
+<p>&mdash;N'esse ponto concordo. Tambem me custam um
+pouco.</p>
+
+<p>Ia recomeçar a antiga conversação. Estavam satisfeitos
+os desejos de Claudio; teria ensejo de mostrar
+<span class="pagenum">[77]</span>
+que, apezar das suas preferencias pela vida do
+campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica,
+experimentára-a, e em Paris tinha andado
+em todos os regalos do luxo. Para Emilia devia ser
+uma fascinação.</p>
+
+<p>Mas em breve a conversação caiu no extremo
+opposto. Não era de Paris que se fallava, era de Villalva,
+da sua paz e das suas alegrias. Emilia ouvia-o
+com tanto interesse, tão meigamente o instigava á
+intimidade que Claudio, impensadamente, esquecendo
+todo o proposito anterior, caiu no mais completo
+abandono e começou n'uma confissão sincera, espontanea,
+d'um coração que estava a trasbordar d'affecto,
+almejando por um coração gemeo em que o vertesse.</p>
+
+<p>Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo
+a casa, fôra encontral-o no leito, os olhos
+cerrados e a face livida, n'uma serenidade em que
+lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada
+consciencia.</p>
+
+<p>Relembrava as silenciosas lagrimas da mãe junto
+do cadaver do esposo e quanta grandeza vira n'aquella
+mudez de estatua, n'aquella dôr tão pura que se
+concentrava recatada, como temendo polluir-se no
+contacto com a indifferença mascarada de lucto que
+sempre apparece n'essas horas. Elle, Claudio, não
+chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante
+esse quadro em que se resumiam tantos annos de
+communhão no amor e no trabalho. Intimamente
+perguntava em que dissipára os trinta e tres annos
+da sua existencia.</p>
+
+<p>Só mais tarde é que poude sentir uma infinita saudade;
+só mais tarde é que percebeu bem o desapparecimento
+d'aquella sombra querida a labutar, a labutar,
+pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol,
+pelo frio penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo
+reverbero das estrellas. No primeiro instante, fôra
+<span class="pagenum">[78]</span>
+apenas uma grande lição. Que era a sua vida de estudo
+ao lado d'aquella ignorada epopêa? Aquelle sim,
+aquelle tinha chegado ao posto, aquelle tinha sido
+digno.</p>
+
+<p>A confissão corria torrencial, como as aguas do
+açude que se despenham. Ricardo ouvia e vagamente
+presentia qualquer cousa captivante; Emilia, na
+sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo
+e inconsciente arrebatamento de admiração. Já não
+provocava a conversação, interrogando; o mais espontaneo
+tornava-se para ella o mais agradavel. E,
+quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou
+com visivel pezar:</p>
+
+<p>&mdash;Já?!</p>
+
+<p>&mdash;São dez horas e não quero contrariar os habitos
+de v. ex.<sup>as</sup> Estou aqui ha duas horas! Para sécca não
+foi pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois
+não lhe faço a vontade! Não digo nada.</p>
+
+<p>&mdash;Faz v. ex.<sup>a</sup> muito mal. Quem cála consente e eu
+sou capaz de voltar.</p>
+
+<p>&mdash;Queira Deus que seja breve!</p>
+
+<p>Ricardo acompanhou Claudio até á porta e voltando
+á sala:</p>
+
+<p>&mdash;Parece ter bom coração este rapaz, disse, dirigindo-se
+a Emilia.</p>
+
+<p>&mdash;É muito sympathico e muito fino, respondeu
+ella. Ninguem ha-de dizer que foi creado na aldeia.</p>
+
+<p>&mdash;Lá estás tu com toleimas. Imaginas que só essa
+gente de Lisboa é que sabe conversar. Um rapaz
+rico e que tem viajado!...</p>
+
+<p>Emilia não replicou. Temia as brutalidades de linguagem
+do marido e não queria provocal-as.</p>
+
+<p>Ambos se alegravam com as novas relações: ella,
+porque via em Claudio uma boa companhia para attenuar
+o aborrecimento das noites provincianas e o
+marido porque systematicamente cortejava todas as
+<span class="pagenum">[79]</span>
+pessoas ricas que poderiam ter influencia, esperando
+alcançar melhor collocação. A sua aspiração, presentemente,
+era passar para recebedor; teria menos
+trabalho e mais alguns proventos.</p>
+
+<p>Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz,
+descontente da sua inhabilidade, interiormente humilhado
+do seu procedimento. Não era aquella a
+conversação que tinha marcado como inicio de conquista;
+tinha feito tenção de fallar a Emilia da vida
+elegante e fôra contar-lhe intimidades de Villalva.
+Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter na
+vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre
+infeliz!</p>
+
+<p>O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes
+lhe recusavam. E, depois, praticára uma ruim
+acção cujos aspectos negros a imaginação lhe avolumava,
+dando-lhe as proporções d'uma grande infamia;
+fallára a Emilia da morte do pae, a Emilia que
+d'antemão tinha considerado sua amante! Como, por
+que estranha aberração de todas as regras moraes,
+que tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as
+cousas intimas e sagradas, aquillo que no seu coração
+havia de mais recatado e nobre, com os mais
+baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno,
+e esta suspeita torturava-o.</p>
+
+<p>A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta
+oppressão. A fadiga e a frescura da madrugada trouxeram-lhe
+porém duas horas de repouso. Pelas sete
+horas da manhã despertava e a alegria da natureza,
+o bulicio do mercado, que era junto á sua casa, todo
+o fremito de vida proprio d'aquella hora conseguiram
+infundir no espirito de Claudio a tranquillidade
+perdida e porventura um vago contentamento.</p>
+
+<p>Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado
+da morte do pae, mas que mal houvera n'isso?
+Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a apparencia
+de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado
+<span class="pagenum">[80]</span>
+com que olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar
+bem da sua honestidade. Os amores não tinham
+passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se
+na sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio.
+Não havia de que se arrepender. Tivera confissões
+intimas com uma mulher que conhecia ha pouco,
+mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar;
+a isto se reduzia a sua falta, se falta tinha havido.
+Não era motivo para inquietações.</p>
+
+<p>Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar
+os serões de Emilia, duas ou tres vezes por
+semana.</p>
+
+<p>Os fumos de conquistador pareciam apagados,
+lançara-os á conta das suas bastas phantasias, e entregava-se
+sem reserva á doçura d'um convivio em
+que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar
+Emilia. Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia,
+muito bem educada; havia de gostar d'ella.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas!
+Nunca me entendi com essa gente. Não saio do meu
+canto, estou velha para aprender costumes novos. E
+quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não
+ha um mez e já te parece uma santa. Caça d'arribação!
+dizia teu pae que Deus haja.</p>
+
+<p>&mdash;É porque a minha mãe não a conhece. Em a conhecendo,
+ha-de gostar d'ella, verá.</p>
+
+<p>Mas a velhita, na sua bisonha desconfiança, não
+se dava por vencida, meneando negativamente a cabeça.</p>
+
+<p>Aos sabbados era a reunião em casa do dr. Carvalho.
+Claudio nunca faltava. Dispunha sempre as
+suas cousas de modo a que estivesse livre n'essas
+noites.</p>
+
+<p>Emilia pedia-lhe singelamente que não faltasse
+e elle queria mostrar-lhe que nunca esquecia os
+seus desejos.</p>
+
+<p>Demais, se o juiz não vinha, não havia <i>whist</i>
+<span class="pagenum">[81]</span>
+e todos se juntavam em volta da meza do loto, palestrando
+e interrompendo o jogo a cada instante.</p>
+
+<p>Então corriam horas deliciosas para Claudio, entregue
+desprendidamente á admiração de Emilia cujo
+espirito d'uma infantil alegria contrastava tão singularmente
+com as suas pesadas e sombrias duvidas
+habituaes. Para ella, a vida era apparentemente um
+trinado de aves.</p>
+
+<p>Uma noite fallou-se dos passeios de Albergaria.</p>
+
+<p>&mdash;Ha um muito bonito, mas é um pouco longe,
+disse Claudio, Lourosa.</p>
+
+<p>Ninguem sabia onde ficava.</p>
+
+<p>Claudio explicou:</p>
+
+<p>&mdash;Lourosa fica entre Villar e a Ariosa. Sóbe-se a
+estrada até Villar, depois começa-se a descer e no
+fim d'uns tres ou quatro kilometros encontra-se a
+povoação. É uma aldeia, sem cousa alguma de notavel;
+os pinhaes que ficam entre Lourosa e Villar,
+esses são d'uma extraordinaria belleza, cortados de
+ribeiros orlados de choupos e salgueiros, os montes
+abundando em vegetação. Um retalho delicioso de
+natureza montanhosa!</p>
+
+<p>Todos desejavam vêl-a.</p>
+
+<p>&mdash;É bem facil, dizia Claudio. Saimos d'aqui de
+manhã, levamos o almoço, passamos por lá o dia e
+ao anoitecer estamos em casa. Depende só da vontade
+de v ex.<sup>as</sup>. É marcarem o dia e eu me encarregarei
+de tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos lá! Estou prompto! Magnifico! Não
+falto!&mdash;grande alarido de vozes confusas em torno
+da meza.</p>
+
+<p>Ficou ajustado o passeio; iriam o dr. Carvalho e a
+mulher, Emilia e Ricardo, as Silvas, de Barrosas, o
+reitor, o dr. Maia, um rapaz da Beira que tinha vindo
+advogar para Albergaria, e Claudio; ao todo umas
+dez pessoas.</p>
+
+<p>Assim é que os passeios são bons, diziam; onde
+<span class="pagenum">[82]</span>
+vae muita gente, d'ordinario não se passa sem qualquer
+cousa desagradavel.</p>
+
+<p>Tres dias depois, ás seis horas da manhã, no pateo
+do palacio de Claudio, um char-à-banc ordinario
+tirado por dois magnificos cavallos, nédios e impacientes
+nos seus arreios burnidos, de ferragens reluzentes,
+esperavam os convidados. Em cima do
+carro havia tres cestos de verga, da ilha da Madeira,
+dois fechados e um terceiro coberto com uma toalha
+por baixo da qual se adivinhavam as garrafas de
+vinho.</p>
+
+<p>Os convidados vinham lentamente. Claudio recebia-os
+á porta. O primeiro foi o reitor que, contava,
+já tinha dito missa e tomado a sua chavena de café;
+era fraco e ninguem o apanhava em jornada de estomago
+vasio. A isso, graças a Deus, devia a sua saude;
+não havia de fazer como o seu collega do Eiral que
+não tinha cuidado nenhum comsigo e agora lá ia
+para as Pedras Salgadas a vêr se conseguia algumas
+melhoras. Incommodo, despeza, e no fim viria bem
+ou mal, como Deus quizesse:</p>
+
+<p>Depois do reitor veio o dr. Carvalho; tinha-se demorado
+um pouco e pedia desculpa, mas não quiz
+sair sem vêr a mulher do José Manco que estava
+com uma pneumonia, muito doente.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho feito clinica em muita terra, dizia, mas
+pneumonias como as d'estes sitios nunca encontrei.
+Terriveis! Quasi sempre fataes. Não sei se é do clima,
+se da constituição da gente... Ahi vem já o Ricardo
+e a sr.<sup>a</sup> D. Emilia com o dr. Maia. Bom! Só
+faltam as Silvas. Não pensei, ainda assim, que fossem
+todos tão pontuaes.</p>
+
+<p>Emilia vinha apressada e risonha, ao lado do marido
+que conversava com o advogado, queixando-se
+ambos da madrugada. Trazia um vestido de chita
+azul guarnecido de rendas brancas, luvas côr de camurça
+e grande chapéu de palha clara com papoulas
+<span class="pagenum">[83]</span>
+vermelhas. Trabalhára até á meia noite, a burnir o
+vestido, a pregar-lhe as rendas que eram d'um outro, e
+a enfeitar o chapéu composto com uma velha carcassa
+que tinha comprado ha dois annos e as flores que
+trouxera no chapéu de inverno.</p>
+
+<p>O marido regateava-lhe uma a uma todas as despezas
+e envergonhada, ás occultas, andava constantemente
+remexendo os farrapos para improvisar enfeites
+que satisfazessem os seus appetites de elegancia.</p>
+
+<p>Agora que tinha de acompanhar Claudio, cujo bom
+gosto começava a admirar, esmerara-se e vinha contente,
+julgando que elle havia de reconhecer no traje
+a distincção da pessoa.</p>
+
+<p>Não se enganava. Claudio admirou a sua gentileza;
+intimamente fazia confrontos entre as senhoras
+da villa. Emilia era decididamente a unica com educação.
+Fina, muito fina! concluia no seu juizo.</p>
+
+<p>Pelo seu lado, procurava tambem não decair no
+conceito da sua amada e pedia-lhe agora desculpa
+da pobreza da carruagém. Uma grande falta de recursos
+para fazer alguma cousa em termos! Tinha
+procurado um <i>breack</i> decente, mas nem em Coimbra
+o poude arranjar. Uma miseria! Vira-se obrigado a
+remediar-se com aquelle que ali estava e os seus cavallos.
+Se continuasse por ali, porque pensava em
+se estabelecer definitivamente em Albergaria, havia
+de comprar uma carruagem propria para aquelles
+passeios.</p>
+
+<p>Eram quasi sete horas quando appareceram as
+Silvas, acompanhadas d'uma creada ofegante, com
+uma pequena cesta á cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! disse a mais velha, julguei morrer! Que estafa!
+Mas a culpa não foi minha. A mana não quiz
+vir sem trazer um bolo de sete cantinhos,&mdash;é muito
+bom, é ainda feito por uma receita que nos deu a D.
+<span class="pagenum">[84]</span>
+Adelaide Saldanha,&mdash;e aquelle forno é um castigo.
+Primeiro que aqueça...</p>
+
+<p>&mdash;Ora v. ex.<sup>a</sup> a incommodar-se... interrompeu
+Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe lá, deixe lá, disse o dr. Carvalho, que
+mostrava com ellas grande confiança, quem corre de
+gosto não cansa. E visto que foi para nosso regalo,
+havemos logo de lhe fazer uma saude. Olhe, já ali
+vão,&mdash;e apontava para o cesto das garrafas.</p>
+
+<p>Recolheram-se todos á carruagem que partiu, oscillando
+ao sair o portal. O reitor e Ricardo tomaram
+logar ao pé do cocheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos aqui melhor, dizia o Ricardo para o reitor,
+escusamos de aturar senhoras. É bom para o
+Maia que está novo e o Carvalho tambem... chega-se
+muito para as Silvas. É menino! Eu cá já não faço
+versos. Tomára eu mas é o almoço. Parece-me que
+já ia.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. tambem está sempre com essas cousas!
+Ora não seja má lingua... dizia o reitor.</p>
+
+<p>Ao passarem na botica, estava o boticario á porta
+a conversar com o regedor do Sobral.</p>
+
+<p>&mdash;A vida está para aquelles, disse despeitado por
+não ter recebido convite. O pae e o tio a pouparem
+para estes agora gozarem!</p>
+
+<p>A companhia ia alegre.</p>
+
+<p>As Silvas palravam com o advogado; interiormente
+sonhavam ali um casamento, sua ambição capital.
+Fallavam das suas flores, das suas gallinhas,
+dos cuidados que tinham pela adéga e pelo lagar
+d'azeite, procurando com deligencia pôr em relevo
+as suas virtudes domesticas. Mutuamente se elogiavam;
+uma sabia de cosinha como ninguem, não havia
+má cosinheira ás ordens d'ella; a outra, diziam,
+tinha nascido para homem, constantemente nos campos,
+á frente dos bandos na apanha da azeitona, entre
+as vinhas, no outomno, com grande chapeu de
+<span class="pagenum">[85]</span>
+palha, dando ordens e berrando aos trabalhadores:</p>
+
+<p>&mdash;Olha como levas esse poceiro! Não fazem nada
+em ordem! Que estupidos! Não póde a gente ter um
+momento de descanso...</p>
+
+<p>O advogado ouvia e procurava palavras de admiração.</p>
+
+<p>&mdash;Isso hoje é muito raro, dizia V. ex.<sup>as</sup> foram
+educadas á antiga. Bons tempos! As meninas d'agora
+vão para os collegios e vêm de lá anemicas, sem
+prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e só servem
+para tocar piano.</p>
+
+<p>Tambem elle pensava em casamento: queria cousa
+de conveniencia. A sua ambição era um dote de dez
+a doze contos de réis. Não o tinha ainda encontrado,
+mas não desanimava nas suas deligencias.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho procurava associar-se á conversação,
+ora com gracejos, ora lisongeando as Silvas.</p>
+
+<p>&mdash;Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda
+vêm a cair.</p>
+
+<p>Claudio conversava tambem, dirigindo-se á mulher
+do dr. Carvalho e a Emilia, empenhado em prender
+esta ultima aos seus sentimentos. Apontava tudo
+o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello,
+os carvalhos nodosos do Casal Novo, projectando-se
+nos montes nus e asperos, a varzea de Villar humida
+e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam
+em torno.</p>
+
+<p>&mdash;N'este tempo, o campo é muito bonito, exclamava
+a mulher do doutor em admiração convencional.</p>
+
+<p>Emilia, intimamente insensivel, sómente por ser
+agradavel a Claudio, repetia:</p>
+
+<p>&mdash;É bonito, é realmente muito bonito.</p>
+
+<p>Sentia-se bem, não pelas impressões da paysagem,
+mas pelo doce prazer de ouvir Claudio.</p>
+
+<p>Tinham passado a primeira cadeia de montanhas
+<span class="pagenum">[86]</span>
+começavam agora a descer rapidamente para Lourosa.</p>
+
+<p>Á esquerda, no extremo horisonte, ficavam as
+corôas de neve da serra da Estrella, em frente, em
+toda a sua desdenhosa magestade, erguiam-se as
+serras da Louzã, as faldas bordadas de aldeias, de
+pinhaes e de campanarios, os píncaros despidos e
+negros, respirando, no ceu sereno e mudo, solidão e
+grandeza.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! amigo Claudio, disse o dr. Carvalho, parece-me
+que você se enganou; isto aqui ainda é mais
+feio que do outro lado.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! não. Eu acho este panorama magestoso.
+Magestoso, meu amigo!</p>
+
+<p>&mdash;Será, não digo que não. Eu é que não vejo senão
+muita pedra. O que vale é que você hade tratar-nos
+bem. Que horas serão?</p>
+
+<p>&mdash;Oito.</p>
+
+<p>&mdash;Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar
+é enorme e nós viemos devagar. Os seus pobres
+cavallos vão dizer mal do passeio. Com uma
+carga d'estas!</p>
+
+<p>&mdash;Não, não é muito. Agora vamos depressa. D'aqui
+a meia hora estamos em Lourosa.</p>
+
+<p>A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes
+modificava-se; a vegetação tornava-se mais basta e
+os raros casebres dispersos eram construidos de delgadas
+laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco
+atravessavam Lourosa.</p>
+
+<p>&mdash;Então? dizia de cima o Ricardo. Cá o nosso reitor
+diz que estamos em Lourosa. Para onde nos leva
+você, ó doutor?</p>
+
+<p>&mdash;Não seja impaciente; vá andando, vá andando
+que não se hade arrepender, respondia Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei lá! Desconfio...</p>
+
+<p>Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando
+nos pinhaes bastos e sem interrupção que
+<span class="pagenum">[87]</span>
+cobrem aquella região de monticulos e desfiladeiros.
+Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno
+são continuados e dos valles apertados, entre o
+matto espesso e tenro, solta-se um alento de viço e
+de frescura. As urzes floriam em quebradiços calices
+de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas
+frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam
+as suas fulvas e aladas flores.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! isto sim, isto aqui é outra coisa, disse o dr.
+Carvalho. Dou a mão á palmatoria. Sim, senhor. Valle
+a pena vir cá.</p>
+
+<p>&mdash;Já vê que não o enganei, respondeu Claudio.</p>
+
+<p>Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro,
+um pobre abrigo com uma só porta, sem janellas,
+feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a luz
+espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que
+esperavam os creados de Claudio que tinham vindo
+adiante, alta madrugada, para fazerem os primeiros
+preparativos. Com a mobilia do cantoneiro conseguiram
+montar a mesa, em baixo, ao pé d'uma fonte,
+longe da estrada, para fugir aos curiosos, de modo
+que não fossem vistos de quem passasse. Eram essas
+as instrucções de Claudio. Estava tudo prompto,
+dizia um dos creados, para quando s. ex.<sup>as</sup> quizessem.</p>
+
+<p>Claudio propôz á companhia um passeio. Era muito
+cedo, passeiariam agora pela fresca viriam depois
+a almoçar quando o sol apertasse, que o dia
+promettia ser quente.</p>
+
+<p>Todos acceitaram. Só o reitor e Ricardo é que se
+apressaram a pedir que os deixassem ficar. Já sabiam
+o que era gente nova e o que eram as serras;
+não se fiavam nas pernas. Ninguem insistiu.</p>
+
+<p>&mdash;Liberdade! disse o dr. Carvalho, cada um gosa
+a seu modo; e as Silvas, aproveitando o ensejo para
+fallar da sua actividade, diziam ao dr. Maia que não
+<span class="pagenum">[88]</span>
+sabiam que gente era aquella, tão commodista. Para
+ellas não havia como andar a pé. Tinham ido uma
+vez á Senhora da Penha, umas boas tres léguas por
+maus caminhos. Pois ainda não era noite quando
+voltaram a Barrosas e do dia seguinte, ás cinco horas
+da manhã, estavam a pé como se nada tivesse acontecido.</p>
+
+<p>Elle, o dr. Maia, respondia que tambem tinha sido
+grande andarilho, quando era mais rapaz, em Coimbra;
+fôra a Lorvão com os companheiros de casa.
+Mas agora não tinha tempo, por causa do escriptorio;
+uma vida sedentaria, que o matava. O que lhe
+valia eram os banhos do mar. Costumava ir para Espinho.</p>
+
+<p>&mdash;Nós vamos sempre para a Figueira, disse uma
+das Silvas.</p>
+
+<p>&mdash;Este anno provavelmente tambem para lá irei.
+Fica-me aqui mais perto e posso vir ao tribunal quando
+fôr preciso.</p>
+
+<p>Entretanto Claudio fallava com o cantoneiro que
+lhe indicava o passeio. Desciam abaixo, á azenha,
+subiam pelo carreiro que se via do outro lado, atravez
+do monte, depois chegando acima encontravam
+um caminho; não tinham mais do que seguil-o e lá
+iriam ter.</p>
+
+<p>Era um sitio muito lindo! Ainda o anno passado
+ali tinha estado o director das obras publicas com
+uma familia de Coimbra.</p>
+
+<p>Dentro em pouco, Ricardo adormecia na cabana
+do cantoneiro, sobre uma esteira estendida n'uma
+velha arca, o reitor sentava-se n'uma pedra, á porta
+da casa, a lêr os jornaes que cautelosamente tinha
+trazido, e em frente, na montanha, iam subindo os
+restantes companheiros.</p>
+
+<p>As Silvas caminhavam adeante, fazendo gala da
+sua robustez e rindo-se do Carvalho e do Maia que
+queriam acompanhal-as e se confessavam já cansados;
+<span class="pagenum">[89]</span>
+atraz, a larga distancia, seguiam Claudio com
+Emilia e a mulher do Carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;Sangue quente! dizia Claudio apontando os que
+iam á frente. O sr. dr. Carvalho é que parece um
+rapaz, alegre e ligeiro...</p>
+
+<p>&mdash;Foi sempre assim, respondeu a mulher do doutor.
+Muito rijo!</p>
+
+<p>Claudio mostrava insistentemente a Emilia a belleza
+infinda das cousas por que passavam: a suavidade
+de colorido das <i>primulas</i> que bordavam a ribeira,
+os aljofares d'orvalho que cobriam o matto, os
+choupos tremulos na aragem da manhã, os pinheiros
+que se desenhavam nitidos na limpidez do céu, as
+vozes mysteriosas que se desprendiam do arvoredo.
+Queria que ella commungasse nas suas impressões e
+ella já não resistia.</p>
+
+<p>&mdash;É bonito, muito lindo, respondia a cada instante.</p>
+
+<p>O cantoneiro não os enganára. Passado o cume do
+monte, o caminho era ladeado de muros baixos, para
+defender os mattos dos rebanhos que passassem; continuava
+assim em longa distancia até que o pinhal
+começava a rarear e abria-se uma clareira. Tinham
+em frente, na margem opposta do ribeiro, uma ravina
+apertada por onde a agua corria, em pequenas
+cascatas, entre as azenhas e os pinheiros. Era a este
+logar que o cantoneiro se referira.</p>
+
+<p>&mdash;Muito lindo! muito lindo! exclamavam todos.</p>
+
+<p>Só uma das Silvas fez reservas.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, é bonito, disse; mas a nossa Albergaria
+não é peior. Só aquella abundancia d'agua!...</p>
+
+<p>Desceram abaixo, atravessaram o ribeiro e subiram
+pelo carreiro que dava accesso ás azenhas. Pouco
+caminharam; estavam cansados, o calor já apertava,
+e, aos primeiros muros que encontraram
+entre a sombra do pinhal e á beira da agua, sentaram-se.</p>
+<span class="pagenum">[90]</span>
+
+<p>Claudio, sempre ao lado de Emilia, ia colhendo
+flores agrestes e fazia-lhe vêr as formas delicadas e
+os mimos de colorido que se perdiam ignorados por
+aquellas serras. Para que os jardins? A belleza espalhava-se
+por toda a parte, nas cousas mais triviaes,
+tudo estava em a perceber com olhos carinhosos.</p>
+
+<p>Por isso o campo nunca lhe enfadava. A natureza
+era inexgotavel, as suas riquezas não tinham limite
+e a vida inteira era sempre breve, não diria já para
+as admirar que seria querer muito, mas para comprehender
+a sua existencia.</p>
+
+<p>Quando se chega a isto, quando se adivinha o
+thesouro que a todos foi prodigamente aberto e que
+raros aproveitam, uma absorvente avidez de sensações
+nos invade e somos arrebatados por este espectaculo
+prodigioso e infindo que nos vem d'aquillo
+que antes chamavamos mudez e solidão. Animam-se
+os rochedos, no maior ermo acompanham-nos vozes
+desconhecidas; o coração captiva-se d'um amor
+puro e largo, immaculado e sereno. E como as cidades
+nos parecem então abominaveis, com as suas
+miserias e a sua vida de artificio e mentira! Nem
+satisfazem o espirito nem os sentidos.</p>
+
+<p>Queria que Emilia se penetrasse do mesmo sentimento.
+Ella já não luctava; ouvia e nas palavras de
+Claudio sentia com deleite uma embalsamada frescura.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho e o Maia não deixavam as Silvas.
+Fallavam agora dos galanteios da Figueira no ultimo
+outomno e discutiam o procedimento d'uma menina
+de Coimbra que passava a noite a fallar, a uma janella
+baixa, com um janota de Lisboa, um tal Couceiro
+d'Abreu, que se dizia de boa familia, mas que
+pelos modos não o parecia.</p>
+
+<p>Era a mais velha das Silvas que sustentava a conversa
+com o dr. Carvalho.</p>
+<span class="pagenum">[91]</span>
+
+<p>&mdash;Ella tinha desculpa, dizia. Uma rapariga nova,
+sem experiencia do mundo, não podia calcular o que
+se pensaria no meio d'aquella gente que morre por
+dizer mal e, quando não tem que dizer, inventa. Mas
+elle!... Um infame! É preciso ser muito canalha
+para jogar assim a reputação d'uma rapariga. Que
+eu não acredito... Os homens são todos assim, terminava
+suspirando, com os olhos baixos e fitos na
+ponta do guarda sol que cravava entre os seixos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que mau humor, que maldade! Parece que
+já algum homem lhe fez mal.</p>
+
+<p>&mdash;A mim?! Estão bem livres d'isso, eu lhe asseguro.
+Tenho os olhos bem abertos.</p>
+
+<p>&mdash;Ora tem os olhos abertos... Eu queria vêr!...
+Se gostasse a valer d'um rapaz...</p>
+
+<p>&mdash;Ai, nada, nada! Não sou de pieguices. Que tambem
+lhe digo: Se gostasse d'alguem, não havia de
+ter medo do que dissessem. Havia de lhe fallar onde
+melhor me parecesse. Com tanto que estivesse de
+bem com a minha consciencia...</p>
+
+<p>&mdash;Bravo, bravo! exclamava o doutor, sonhando
+aventuras. Gosto de gente assim.</p>
+
+<p>Claudio tinha-se levantado e, apoz elle, toda a
+companhia. Eram horas do almoço. Voltaram á casa
+do cantoneiro, seguindo o mesmo caminho por que
+tinham vindo.</p>
+
+<p>A mesa estava posta n'um sitio ensombrado, o
+reitor já tinha lido os seus jornaes e contava pormenores
+d'um crime praticado no Poço do Bispo ao Ricardo
+que passeiava impaciente em frente da mesa,
+olhando sempre o carreiro por onde os companheiros
+tinham desapparecido.</p>
+
+<p>Um pouco acima, encostada a uma canastra, uma
+creada adormecera.</p>
+
+<p>&mdash;Olá, seus mandriões, gritou o dr. Carvalho dirigindo-se
+ao reitor lá do outro lado do monte.</p>
+<span class="pagenum">[92]</span>
+
+<p>&mdash;Vivam, vivam, respondeu o Ricardo. Já cá tardavam.</p>
+
+<p>A mulher accordou.</p>
+
+<p>&mdash;Muito moida, tia Venancia? perguntou o reitor.</p>
+
+<p>&mdash;Sai de Albergaria ainda era noite. Já vinha ao
+pé do Hospital quando bateram tres horas, respondeu
+a pobre mulher.</p>
+
+<p>O almoço começou quasi em silencio. Todos tinham
+estranhado a madrugada e o passeio; o calor e
+a fome acabaram de os alquebrar. Sentia-se a moleza
+e o cansaço. Só o dr. Carvalho resistia, sempre
+alegre e palrador. Estava habituado a não ter horas
+para dormir nem para comer; os doentes é que mandavam.
+Estranhava a Claudio o luxo com que tratava
+os seus convivas, que não era preciso; até as taças
+para o champagne tinha mandado vir. Um copo para
+cada um era quanto bastava.</p>
+
+<p>&mdash;Principalmente para o Ricardo!... Um só e
+grande, segredava maliciosamente.</p>
+
+<p>Pouco a pouco a animação ia surgindo, na excitação
+dos vinhos e das viandas; a conversação tornava-se
+continua, entre o bulicio da baixella e o riso
+dos convidados, cada qual elogiando o prato que melhor
+lhe convinha ao paladar e todos louvando Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;É um cavalheiro, um cavalheiro, dizia Ricardo,
+o prato coberto com uma enorme fatia de fiambre e
+lançando a mão a uma farta garrafa de Collares. Eu
+cá vou andando com este, não sei que graça acham
+a essas limonadas!</p>
+
+<p>E apontava os vinhos do Rheno.</p>
+
+<p>Estavam chegados ao champagne. As rolhas voavam
+entre os gritos das Silvas que com grandes gestos
+defendiam os olhos. O dr. Maia, que ha muito se
+calara ruminando o discurso, levantou-se para beber
+á saude de Claudio.</p>
+<span class="pagenum">[93]</span>
+
+<p>Não eram palavras banaes as que queria dizer;
+pretendia fazer um discurso que impressionasse
+os ouvintes e particularmente a mais nova das Silvas
+para quem começava a olhar como uma noiva
+possivel.</p>
+
+<p>«&mdash;Minhas senhoras e meus senhores...»</p>
+
+<p>&mdash;É muito amavel, não se esquece das senhoras,
+disse sorrindo com ironia o dr. Carvalho para a Silva
+que estava ao lado d'elle; e atrevidamente chamava
+a sua attenção, batendo-lhe com a mão no joelho,
+por baixo da mesa.</p>
+
+<p>«Não era á minha humilde e obscura personalidade,
+não era a mim que sou um forasteiro n'estas
+terras e tão pobre de dotes de eloquencia, que competiria
+talvez saudar o nosso generoso amphytrião;
+mas a profunda estima e consideração que tenho pelo
+illustre doutor Claudio obrigam-me a levantar a minha
+fraca voz n'este concerto de bellezas da natureza,
+de illustrações e de formosuras que tocam o nosso
+coração...»</p>
+
+<p>&mdash;Toma, diz em segredo o Carvalho para a Silva,
+aquillo é com a mana. A menina é que não apanha
+nada. Só se fosse um beijo que eu lhe désse!</p>
+
+<p>&mdash;Não seja atrevido!</p>
+
+<p>&mdash;Não seja má. E bateu-lhe novamente com a mão
+no joelho, procurando ajuizar da perna.</p>
+
+<p>«O dr. Claudio, meus senhores, a cuja amabilidade
+devemos as boas horas que temos passado aqui e
+que jámais esquecerei, não é um homem vulgar.
+Tem seguido a evolução da sciencia e está ao par
+das modernas descobertas da sociologia. Eu que deixei
+ha pouco os bancos da universidade, não posso
+acompanhal-o nos arrojados vôos do seu estudo mas
+comprehendo a sua bella orientação positivista...»</p>
+
+<p>E continuou assim fazendo o elogio de Claudio, até
+se lhe esgotar a provisão de banalidades que tinha
+adquirido em Coimbra. Ao fim, sentou-se vaidoso,
+<span class="pagenum">[94]</span>
+procurando adivinhar a impressão que tinha deixado
+nos ouvintes.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, muito bem, sr. dr. Maia, disseram
+de differentes lados da mesa.</p>
+
+<p>A Silva disse-lhe tambem em voz branda:</p>
+
+<p>&mdash;Gostei muito de o ouvir, falla realmente muito
+bem.</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora, isso é muita bondade de
+v. ex.<sup>a</sup> Não tenho tido uso. Aqui, na comarca de Albergaria,
+o movimento é pequeno e com estes jurados
+analphabetos não vale a pena estudar.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! não esteja com modestia... eu reparei que
+todos o estavam ouvindo com muito agrado. Na provincia
+é tão raro encontrar alguem que saiba fallar...</p>
+
+<p>O reitor contava ao Ricardo dos prégadores que
+tinha ouvido. O melhor era o Alves Mendes. O que
+eu admiro, dizia, é a memoria que elle tem para
+metter aquillo tudo na cabeça!</p>
+
+<p>Claudio estava embaraçado. Não contava com o
+discurso e percebia que os convivas esperavam a
+resposta.</p>
+
+<p>Interiormente sentiu um momento de enfado que
+attribuia á impertinencia do dr. Maia, mas que de
+facto vinha do risco, que corria, de desmerecer no
+conceito de Emilia, a seus olhos supremo juiz do
+bom gosto.</p>
+
+<p>Durante alguns minutos pensou no que iria dizer;
+depois, como impellido por uma subita resolução,
+levantou-se e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço as immerecidas palavras do sr. dr.
+Maia, que por certo foram dictadas pela consideração
+que me dispensa e não pelo que realmente valho.
+Entre aquelles que me honraram acompanhando-me
+n'este passeio, não quero fazer senão uma
+unica distincção, aquella que de justiça é devida.
+Saúdo de todo o meu coração as senhoras que com
+a sua formosura, o seu espirito e a sua gentileza
+<span class="pagenum">[95]</span>
+generosamente nos déram estas tão breves horas de
+alegria!</p>
+
+<p>&mdash;Vivam, vivam! Á saude de vv. ex.<sup>as</sup>! D. Emilia...
+D. Maria.</p>
+
+<p>E todos beberam.</p>
+
+<p>Claudio bebeu tambem, olhando Emilia. Era a ella
+que se dirigia e era a admiração pela sua graça que
+o inspirára.</p>
+
+<p>&mdash;Foi pena ser tão pouco, disse o reitor para Claudio,
+sollicitando um discurso.</p>
+
+<p>&mdash;Não perderam nada. Não sou orador. Isso é
+aqui para o nosso dr. Maia.</p>
+
+<p>Os brindes não tinham fim. Cada qual bebia pelas
+pessoas das suas relações e o dr. Carvalho, que o
+calor do banquete tinha excitado, voltando-se para a
+Silva, disse-lhe quasi em segredo:</p>
+
+<p>&mdash;A ultima, a virar e a serio, por uma intenção
+particular, por uma menina que sinceramente admiro
+e estimo!</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço em nome d'ella e posso assegurar-lhe
+que é pago com muita amizade.</p>
+
+<p>&mdash;Não acredito, respondeu o Carvalho, fitando-a
+com olhos languidos.</p>
+
+<p>E, voltando se para Claudio, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;E se nos levantassemos, oh doutor? Olhe que
+estamos á meza ha duas horas e não queremos morrer
+aqui de indigestão!</p>
+
+<p>&mdash;Está dito. V. ex.<sup>as</sup> mandam.</p>
+
+<p>Novamente os convivas se espalharam nos montes,
+reconstituindo-se os primeiros grupos; o Carvalho
+e o Maia com as Silvas, Claudio com Emilia e a
+mulher do Carvalho, o reitor ao pé de Ricardo.</p>
+
+<p>Pouco se affastaram do logar do almoço; o calor,
+a madrugada, o cansaço do passeio e o pezo da digestão
+tornaram-os abatidos, molles e somnolentos.
+Só Claudio e o dr. Carvalho resistiam, movidos ambos
+por identicos motivos.</p>
+<span class="pagenum">[96]</span>
+
+<p>Ás quatro horas partiram de regresso a Albergaria.
+Houve um momento de animação aos primeiros movimentos
+da carruagem, mas em breve voltou o silencio
+proprio da fadiga.</p>
+
+<p>O Ricardo cambaleava dormindo, os olhos cerrados
+por baixo da luneta, o collete desabotoado
+mostrando a camisa enxovalhada de suor. A mulher
+do dr. Carvalho, que tinha percebido os galanteios
+do marido com a Silva, desesperada com ciumes
+queixava-se de dores de cabeça. Claudio vinha scismando.</p>
+
+<p>Porque não havia de casar-se? Que vida daria ao
+seu lar a graça e a elegancia d'uma mulher? Mas
+não era facil encontrar quem com instinctos d'artista
+se sugeitasse á vida monotona de provincia.</p>
+
+<p>Emilia crescia agora aos seus olhos e na sua
+admiração. Que rara fortuna possuil-a! E como devia
+ser infeliz, ligada a um homem grosseiro e bestial!
+Uma irrepremivel compaixão o aproximava d'ella e
+mais um laço ligava aquellas duas almas que, n'uma
+turva inconsciencia, se iam prendendo e confundindo.</p>
+
+<p>Cerca das seis horas, chegaram a Albergaria. Claudio
+conduziu cada um á sua casa e todos se apartaram
+com palavras de reconhecimento e cordealidade.</p>
+
+<p>&mdash;Queira Deus, dizia Claudio á mulher do dr.
+Carvalho, que v. ex.<sup>a</sup> não fique a dizer muito mal do
+passeio. Talvez que uns granulos de antipyrina...</p>
+
+<p>&mdash;Não, respondeu o doutor. É muito sujeita a dores
+de cabeça. Em dormindo, fica bem. Isto não vale
+nada. Quem déra que todos os dias assim fossem!...</p>
+
+<p>Claudio tornou-se inseparavel da familia de Ricardo.
+A cada passo se encontravam juntos: nos passeios,
+á tarde, pela estrada do Sobral; na egreja, á
+missa e em dias de festa; á noite, em casa do dr.
+Carvalho e pelos serões da visinhança. Na botica estranhava-se
+<span class="pagenum">[97]</span>
+a mudança de Claudio; commentava-se
+já com risos maliciosos e palavras mordazes. Só
+elle ignorava o que se dizia; feliz de tanta e tão bella
+amizade, a ella se entregava inteiramente e ingenuamente
+transformava em sentimentos puros, d'esta
+vez sem plano nem preoccupações scientificas, os
+projectos de conquistador com que dois mezes antes
+entrara em casa de Ricardo.</p>
+
+<p>Entre Claudio e Emilia fazia-se rapidamente a permuta
+de habitos e costumes que é de regra entre
+amantes; ella cedia dos seus prejuizos lisboetas para
+admirar a natureza e conformar-se com a paz provinciana,
+elle esquecia a simplicidade de Villalva, o estudo
+e os propositos de vida laboriosa, para se confundir
+nas futilidades em que imaginava bom gosto
+e arte.</p>
+
+<p>De facto, nenhum mudára; ambos passavam apenas
+por uma crise d'amor que lhes transfigurava o
+aspecto das cousas.</p>
+
+<p>Para Emilia a natureza era um adorno, como as
+flores na meza do glutão que, só cubiçando as viandas,
+se compraz todavia cercando-as de frescura e
+perfumes; nada podia dizer ao seu mesquinho espirito
+a vida gigantesca da terra, o drama eterno e
+mudo em que os elementos se combatem e amam,
+captivantes de mysterio, insondaveis na profundeza
+dos seus destinos. Nem as arvores nem as aguas
+nem as montanhas podiam ter significação aos seus
+olhos apartadas da voz do amante e dos seus doces
+olhos, as brizas do poente que á tarde varriam a
+atmosphera ardente do estio, a sombra do loureiro
+que á hora da calma a protegia, o murmurar dos regatos
+e o canto apaixonado dos rouxinoes ao luar
+eram unicamente a faustuosa decoração do theatro
+em que se lhe revelava a imagem de Claudio, mas
+valiam aos seus olhos tanto como a rutilancia dos
+<span class="pagenum">[98]</span>
+cristaes, das sedas e dos salões dourados em que o
+seu temperamento se formára.</p>
+
+<p>Por sua vez, Claudio caia n'uma illusão parallela:
+pensava que Emilia lhe revelava um mundo novo de
+elegancia e arte, lançava á conta de rudeza a simplicidade
+que em tempos, que agora lhe pareciam distantes,
+adorava na casa de seus paes, e tomava por
+alargamento e complemento da educação do seu espirito
+a frivolidade a que só o arrastava a anciedade
+de se impregnar das graças da sua amada.</p>
+
+<p>Pelo S. João acompanhou Emilia e Ricardo a Coimbra,
+a uma festa em casa d'um fidalgo, d'appelido
+Albuquerque.</p>
+
+<p>Os Albuquerques viviam n'um palacio, proximo da
+estrada da Beira; a pouco mais d'um kilometro da
+cidade, encontrava-se um largo portão de ferro rematado
+por um brazão e continuado para um e
+outro lado pela gradaria alta que circumdava a propriedade.</p>
+
+<p>De dentro trasbordava o arvoredo, os choupos,
+os platanos, as olaias, as palmeiras e as eras que
+vestiam as paredes d'uma crina frondosa; em frente
+do portão, uma alameda, bordada de buxo, que em
+leve declive conduzia, em linha recta, a uma curta e
+larga escada de pedra, de dois lanços, formando semicirculo,
+com uma grande taça de pedra ao centro
+d'onde a agua se derramava sobre um tanque em
+fios longos e scintillantes. A casa era d'um andar,
+sobre celleiros e adégas muito baixos, quasi inteiramente
+enterrados, tendo acima do sólo só as estreitas
+frestas que lhes davam luz. Entrava-se n'um largo
+vestibulo bem mobilado de escabellos em que
+destacava o vermelho e ouro do brazão que os encimava;
+á direita a larga porta d'uma capella, á esquerda
+uma extensa linha de vastissimos salões, em
+frente a entrada para o interior do palacio.</p>
+
+<p>O velho Albuquerque, fresco e esmerado na sua velhice,
+<span class="pagenum">[99]</span>
+o rosto vivo e malicioso lembrando os retratos
+de Henrique IV, com ademanes fidalgos recebia as
+senhoras no vestibulo e conduzia-as pelo braço ao
+coração da festa. Ao lado estava o filho que o ajudava
+n'essa tarefa. Fôra condiscipulo de Claudio
+e era ainda seu intimo amigo. Quando o viu, veiu
+para elle promptamente, e, n'um movimento de jubilo,
+abraçou-o.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que feliz surpreza!...</p>
+
+<p>&mdash;Tantas vezes me pediste que viesse ás tuas festas
+e tantas vezes recusei que algum dia havia de
+quebrar o encanto. É verdade que faltei ao dictado... Vim
+sem ser convidado, mas já sabia que me
+desculpavas.</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-t'o muito. Déste-me agora uma grande
+alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Tinha vontade de te vêr, creio que ha tres mezes
+que não nos avistavamos. Ultimamente tenho
+vindo pouco a Coimbra. Depois as instancias da familia
+do Almeida...</p>
+
+<p>&mdash;Escolheste bem; a companhia é excellente. Gosto
+muito da Emilia! D'uma vivacidade... Que pena
+ter casado com aquelle homem... Mas anda cá, continuou
+o filho do Albuquerque pondo as mãos na cintura
+de Claudio e olhando o attentamente, reparo agora!... Estás
+um janota! Que é da modestia e do estudo
+e d'essa austeridade d'outros tempos?</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco mais civilisado, um pouco mais civilisado... Querias-me eternamente rustico?</p>
+
+<p>&mdash;Não, quero-te assim, estás muito bem. Até me
+pareces mais bonito. Essa maluqueira de te metteres
+em casa com os livros, como n'um convento, era intoleravel!
+Ainda bem, ainda bem que estás a caminho
+da salvação! Que eu, verdade, verdade, tambem
+gosto de socego...</p>
+
+<p>E entraram ambos na sala onde os pares se levantavam
+para a primeira quadrilha, em meio da confusão
+<span class="pagenum">[100]</span>
+das sêdas e das joias, de cristaes, de moveis artisticos
+e de louças orientaes illuminadas abundantemente
+pelos candelabros de bronze que pendiam do
+tecto e pelas pratas cinzeladas que pousavam nos
+velhos contadores indianos. A casa dos Albuquerques
+tinha fama pelas suas festas, pelo luxo e pela
+alegria que tradicionalmente as caracterisavam, e
+muitos corriam ali só para admirar essa ostentação de
+opulencia.</p>
+
+<p>Claudio teve um momento de pasmo, A vida simples
+de Villalva e a vida estreita que levava em Albergaria
+não o tinham educado a passar indifferente
+pela riqueza e pelo luxo; captivavam-no pela novidade,
+pela sensualidade, pelo preconceito bebido nos
+livros materialistas de que a expansão de todos os
+appetites era salutar e humanamente digna, e, mais
+do que isso, pela sympathia com o espirito frivolo de
+Emilia.</p>
+
+<p>Todo o espectaculo que tinha diante de si lhe parecia
+admiravel; passava uma epoca, que seria breve
+na sua existencia, de cubiça mundana.</p>
+
+<p>Dentro em pouco dançava com Emilia. Ella estava
+radiante, julgava-se transportada aos salões de Lisboa.
+Uma noite de baile era a reviviscencia das melhores
+lembranças da mocidade, d'aquellas a que o
+seu espirito mais insistentemente queria. A Claudio
+apontava aquella peça da India que só tinha egual
+na collecção d'El-rei D. Fernando, os brilhantes da
+condessa de Murtede que o Leitão avaliára em sete
+contos de réis, o vestido de setim da Costa Real, de
+Miranda do Corvo, feito em Paris quando lá esteve,
+na primavera, a graça, a distincção do velho Albuquerque,
+e toda a tremulina de fogos fatuos que
+lhe passava diante dos olhos. Elle ouvia e applaudia
+com palavras de admiração, que o amor lhe segredava,
+o enthusiasmo futil de Emilia.</p>
+
+<p>Cerca da meia noite, o borburinho do baile afrouxou.
+<span class="pagenum">[101]</span>
+No meio das salas ficaram grupos de casacas
+esguias e negras, em volta das damas formaram-se
+pequenos circulos de cadeiras; os creados entravam
+com grandes taboleiros pesados de finas iguarias, o
+Albuquerque e as filhas corriam as salas offerecendo
+os calices do precioso vinho das suas terras do
+Douro.</p>
+
+<p>Comia-se alegremente e trocavam-se saudes intimas,
+com palavras banaes de convencional cortezia.</p>
+
+<p>Claudio aproximou-se de Emilia; ia beber por ella,
+pelos seus filhos e pelo seu marido, pela sua felicidade
+e alegria. Os copos tocaram os labios e dois minutos
+de silencio disseram o que os labios calaram,&mdash;o
+affecto que n'aquelles dois corações surdamente
+crescia.</p>
+
+<p>Á uma hora, já o Ricardo queria partir. Andára a
+arrastar-se pelas cadeiras, pelas portas das salas de
+dança e pelos cantos das mezas de jogo, mãos nos
+bolsos e luneta pendida sobre o nariz, até que chegasse
+a hora de se fartar: agora, replecto, a festa
+terminara para elle, queria dormir. Estava massado,
+dizia á mulher, e tinha no dia seguinte a repartição.
+Elle é que sabia o que isso era, com o mez de julho
+á porta e o semestre da contribuição predial para receber!</p>
+
+<p>Claudio accudia em favor de Emilia:</p>
+
+<p>&mdash;Seja rasoavel, dizia ao Ricardo; são tão poucas
+as occasiões que ella tem de se divertir...</p>
+
+<p>Intimamente tambem elle tinha vontade de partir;
+ao deslumbramento das primeiras horas seguia-se
+uma sensação de fadiga e enfado, uma vaga necessidade
+de recolhimento e silencio. Porque? Mysterioso
+cansaço!</p>
+
+<p>Abandonado, a um canto da sala, n'uma soberba
+cadeira de espaldar, ia seguindo com os olhos Emilia
+que valsava ligeira nos braços d'um rapaz estroina,
+todo fresco e risonho de cynismo e de saude.
+<span class="pagenum">[102]</span>
+Comparava-a com as outras raparigas e cada vez
+mais se penetrava da sua gentileza. Até no trajar lhe
+parecia vencel-as, ella que para vir ali fôra buscar
+ao seu pobre guarda-roupa as unicas sedas que lá
+havia, um vestido preto que os paes lhe déram quando
+casou e uns farrapos côr de rosa com que o enfeitára.</p>
+
+<p>Sahiram pelas tres horas da madrugada. A frescura
+da manhã, açoutando-lhe as faces, animava-os.
+Claudio e Emilia vieram conversando até Albergaria.
+Ricardo ia a dormir, oscillando com as trepidações
+da carruagem.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, dizia Claudio a Emilia, tudo isto é magnifico
+mas o socego dos nossos serões não é peior. Em
+regra, fico indifferente ás festas a que o coração é
+alheio; e n'uma multidão d'estas não póde haver intimidade.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo tem o seu logar. A mim, nada me refresca
+como um baile; fico bem oito dias, pelo menos. Dá-me
+saude.</p>
+
+<p>Claudio voltava triste. Emilia julgava-o cansado e
+elle mesmo queria attribuir a sua inquietação aos
+effeitos d'uma atmosphera viciada e da excitação do
+fumo e do movimento. Só tarde pôde conciliar o somno,
+o corpo abrazado e dorido. Não se lhe varriam dos
+olhos e dos ouvidos os rumores das vozes e da musica,
+o brilho rutilante das salas e a imagem de Emilia
+valsando distraida e fogosa nos braços dos rapazes
+galanteadores e ousados. Inconscientemente, soffria
+as primeiras dores do ciume.</p>
+
+<p>Estavamos chegados ao fim de junho. O dr. Carvalho
+aconselhava Claudio a que não deixasse de ir ás
+caldas. Só as inhalações das aguas sulphurosas podiam
+livral-o d'aquella bronchite, dizia. Era o que a
+sua experiencia lhe tinha mostrado.</p>
+
+<p>Claudio defendia-se brandamente. Estava tão bem...
+<span class="pagenum">[103]</span>
+Mas o Carvalho instava. Resolveu partir para as Caldas
+da Rainha.</p>
+
+<p>No primeiro de julho, por um sol ardentissimo,
+foi a casa de Emilia despedir-se. Ella nunca tinha
+estado nas Caldas da Rainha, mas ouvira sempre á
+gente com que convivia em Lisboa que não havia
+terra de mais gozo. Todas as noites se dansava; os
+dias passavam se em continuados jogos e merendas
+á sombra do arvoredo.</p>
+
+<p>&mdash;Embora!... respondia Claudio. Estava aqui muito
+bem.</p>
+
+<p>E olhava a varzea e os campos d'onde se desprendiam
+sussurros d'aguas que iam descendo e um alento
+de frescura, sobre os milhos tenros, mimosos, regados
+n'aquella noite.</p>
+
+<p>A voz de Emilia e a doçura da intimidade casavam-se
+com a suavidade da natureza. Teve um instante
+de desalento; sentiu derramar-se-lhe no corpo,
+como uma uncção venenosa, um torpor em que a
+vontade se aniquilava, mas, sacudindo energicamente
+a tentação, levantou-se, apertou a mão de Emilia
+com palavras d'um adeus vulgar, e saiu.</p>
+
+<p>Em casa foi abraçar a mãe. Ingenua, resignada,
+sorridente na paz da sua alma, recommendava-lhe
+que tivesse cautela, tinha muito medo de remedios.
+Não gostava de o vêr partir, ficava em cuidados,
+antes fosse para Pariz.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho sempre muito medo! dizia.</p>
+
+<p>Partiu. O movimento, a curiosidade da paysagem,
+as ininterrompidas cambiantes d'aspectos moderavam
+os movimentos de saudade e quasi lhe davam a
+illusão do esquecimento.</p>
+
+<p>Depois, ao chegar ás Caldas, a installação, a consulta
+do medico, os banhos, novas terras, nova gente,
+cousas novas, trouxeram-n'o durante dois dias
+n'uma agitação que tomava por contentamento.
+Apressou-se a escrever á mãe, ao dr. Carvalho e ao
+<span class="pagenum">[104]</span>
+Ricardo, referindo o que se passava e promettendo que
+voltaria ao fim de vinte dias, quando o tratamento
+tivesse terminado. Teria muito que contar aos serões.</p>
+
+<p>Estava na firme disposição de se associar á vida
+mundana, assistindo aos concertos, passeiando todas
+as tardes na Matta, jogando o arquinho com as damas
+e o <i>whist</i> com a gente grave que Lisboa emprestava
+por um mez, dançando e galanteiando.
+Queria tomar os conselhos de Emilia e imital-a, para
+mais merecer no seu conceito.</p>
+
+<p>A illusão foi breve. Ao fim de dois dias, com desespero
+e odio, fugia de toda a convivencia, procurava
+os cantos affastados e ermos para se concentrar
+nas suas lembranças, e opprimido, ancioso,
+como um tigre na jaula, revolvia-se na estreita cella
+que habitava n'uma hospedaria.</p>
+
+<p>A ausencia revelára-lhe o amor. Percebia agora
+até onde levianamente tinha caminhado. Dissipada
+toda a duvida, sabia,&mdash;com que amargura!&mdash;que o
+seu coração estava preso a Emilia, cuja imagem o
+acompanhava sempre, sempre, fundindo n'uma só
+ambição todos os desejos, todas as preoccupações e
+todas as necessidades.</p>
+
+<p>Que era feito das suas convicções materialistas,
+dos seus propositos de conquistador, da alegre esperança
+com que d'animo leve procurava a casa de Ricardo?
+Por que estranha inercia deixára transformar
+essa viril resolução no affecto candente que o
+consumia? Mysterioso impulso!</p>
+
+<p>Era por certo uma fraqueza. Havia de occultal-a
+firmemente, sem um minuto de desfallecimento, aos
+olhos do mundo, e ainda mesmo aos seus mais intimos
+amigos. Ás vezes tinha uma esperança e dizia
+comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;Pieguice! Tambem assim foi com a Conceição e
+hoje vejo-a passar, casada, com os filhos ao collo,
+<span class="pagenum">[105]</span>
+sem o menor desejo. Hei-de curar-me; tudo se gasta,
+tudo esmorece.</p>
+
+<p>Em pouco tempo adoecia. As saudades e a agitação
+constante em que ellas o traziam determinaram um
+aggravamento da doença que o tinha levado alli. Ao
+cair da tarde começava a febre, a noite passava-se
+em suores, e pela madrugada dormia então prostrado
+um somno povoado de pesadellos. Não queria medico;
+sabia bem qual era o seu mal.</p>
+
+<p>Uma manhã, com surpreza do creado, que sempre
+o estranhára e nunca podera comprehendel-o, pediu
+uma carruagem e correu ao caminho de ferro.</p>
+
+<p>Só a viagem bastava para lhe restaurar as forças.
+Quando á noite chegou a Albergaria, parecia-lhe que
+todos os soffrimentos tinham sido apenas um sonho
+mau.</p>
+
+<p>Não o sentiu porém assim a pobre e velha mãe
+que, recebendo-o surprehendida e alvoroçada, ao
+attentar na sua physionomia escalavrada por dez
+dias d'ausencia de Emilia, mal poude conter as lagrimas.</p>
+
+<p>Claudio mentiu-lhe. Fôra uma constipação com
+alguma febre, uma noite que se demorara na Matta.
+O medico dissera-lhe que só passados vinte dias podia
+continuar no tratamento e por isso voltára para
+casa.</p>
+
+<p>N'isto, beijou-a, intimamente pedindo n'este
+beijo, supplica muda, perdão da mentira. Ella estranhou-o
+mas, tomando o apenas como sêde dos seus
+carinhos, passou-lhe a mão no rosto, affagando-o.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha de ser nada, se Deus quizer... Parecia-me
+que o coração me adivinhava qualquer cousa,
+quando te vi sair.</p>
+
+<p>O serão prolongou-se até muito tarde, Claudio
+perguntando pelo que se passava em Albergaria e a
+mãe ouvindo o que era a vida nas Caldas.</p>
+
+<p>&mdash;Ai, Senhor! Que dinheiro se gasta n'essas cousas!
+<span class="pagenum">[106]</span>
+exclamava. E tanta pobreza por esse mundo...</p>
+
+<p>&mdash;E Emilia!?</p>
+
+<p>&mdash;Não a tinha visto, mas dissera-lhe o filho, na
+egreja, á missa, onde o tinha encontrado, que a mãe
+não saia porque andava um pouco doente.</p>
+
+<p>Claudio estremeceu. O quê?! Ella tambem!... E
+calou-se um instante, absorvido n'esse pensamento,
+entre o temor e a alegria.</p>
+
+<p>Bateu uma hora da noite. Era tempo de se deitar,
+dizia a mãe; precisava descansar, não lhe voltasse a
+febre.</p>
+
+<p>O filho beijou-lhe a mão e recolheu-se ao seu gabinete,
+a caminho do quarto em que dormia, que era
+contiguo.</p>
+
+<p>Abriu a janella para lançar os olhos sobre o jardim.
+Quantas vezes nas Caldas se lembrara com penetrante
+saudade d'elle e da sua tranquillidade, a
+que associava o vulto de Emilia! Vinha do norte uma
+densa névoa que envolvia as arvores n'uma gaze humida
+e fresca, das magnolias rolavam gottas d'agua
+caindo descompassadas sobre as folhas seccas que
+juncavam a terra, e as aguas rumorejavam sumindo-se
+nos sorvedouros que atravez da encosta as levavam
+aos ribeiros. Toda a voz humana se calava, só a natureza
+cantava o seu infindo e eterno canto.</p>
+
+<p>N'aquella frescura Claudio procurava um balsamo,
+mas a inquietação abrazava-o, embalde o peito arquejante
+se dilatava nas auras matutinas. Esperava
+um somno tranquillo. Entre as nuvens de poeira que
+o tinham acompanhado ante-gozára o repouso no seu
+leito, no silencio do seu lar e na alegria de voltar
+em poucas horas a vêr Emilia; e o silencio não lhe
+trazia repouso e a frescura não lhe abrandava esse
+fogo estranho que lhe corria nas veias!</p>
+
+<p>Mentira á sua mãe. Esse pensamento torturava-o.
+Nunca o tinha feito. Queria affastal-o, procurava motivos
+que lhe satisfizessem a consciencia. Mentira, é
+<span class="pagenum">[107]</span>
+verdade, mas que mal resultava d'ahi? Não fôra só
+para occultar o seu amor por Emilia? E a quem interessava
+esse amor senão a elle, a elle só? Debalde!
+A razão não lograva dominar a dôr que estava ali,
+como um espinho, cravada no coração, penetrando
+cada vez mais fundo. Depois, Emilia... que lhe diria,
+que pensava ella?...</p>
+
+<p>Lembrava todo o passado, os continuados passeios,
+as palestras intimas, a mutua confissão de todos os
+cuidados, de todos os bens e de todos os males da
+existencia de cada um. Muita vez se tinham referido
+á sua amizade mas nunca entre elles se fallára de
+amor.</p>
+
+<p>Para Claudio essa illusão terminára. Sabia que
+a paixão o consumia. Havia de occultar-lh'a porque
+era uma offensa á sua honra e porque, se ella a adivinhasse,
+havia de repellil-o com a sua intemerata
+virtude.</p>
+
+<p>É verdade que a mãe lhe dissera que Emilia
+tambem adoecera na sua ausencia... Mas não! Era
+impossivel! Não cabia na sua candura a sombra
+d'um pensamento criminoso. Criminoso?! Pois era
+crime o affecto entre duas almas irmãs e o desprezo
+do homem vil a que Emilia se achára ligada n'um
+momento infeliz? Convenção estupida contra que a
+natureza protesta, frageis leis humanas que a vida
+deroga a cada instante, desmentindo-as e escarnecendo-as!</p>
+
+<p>E todavia não podia libertar-se da duvida! A convicção
+não lhe empolgava o espirito. Mentira a sua
+mãe, havia de mentir-lhe todos os dias occultando-lhe
+o intimo do seu coração, fugiria de todos guardando
+o segredo de que córava, perseguido pelos
+phantasmas implacaveis da sua consciencia. A consciencia!
+Tambem o amor era crime? Que tinha elle
+com o que o mundo pensava?</p>
+
+<p>Não fôra intencionalmente que procurara aquella
+<span class="pagenum">[108]</span>
+mulher, não era seu direito,&mdash;lera-o nos livros,
+aprendera-o nos evangelhos da sciencia!&mdash;conquistar
+todos os bens que a sua força podesse alcançar?
+A vida era uma lucta. Gloria aos vencedores, vergonha
+aos vencidos! Queria a sua hora de luctador,
+queria a sua hora de triumpho, queria as palmas da
+victoria, elle que tão mal dispendera os primeiros
+annos da mocidade n'um timido recolhimento. Mas
+voltava uma onda de amargura... Não, não podia
+ser! E a honra de Emilia? e o seu nome? e os seus
+filhos? Que duvida! que angustia!...</p>
+
+<p>Altas horas, adormeceu, prostrado d'este doloroso
+meditar. O somno foi breve; pela madrugada ergueu-se
+e desceu ao jardim.</p>
+
+<p>O sol bebia os orvalhos da noite, uma branda aragem
+do norte varrera a névoa, no ceu azul corriam
+ligeiras, a perder-se no horisonte, pequenas nuvens
+alvas e leves. A natureza despertava para a vida, e
+no renascimento da luz Claudio colhia a sua parte de
+vigor.</p>
+
+<p>A inquietação da noite fôra um desfilar de phantasmas
+que iam longe, como as nuvens para que
+levantava os olhos. Talvez a febre, o cansaço da jornada...
+Em poucas horas veria Emilia. Havia de
+occultar-lhe a tempestade por que passara, transformal-a
+em pura e candida amizade.</p>
+
+<p>Fôra um erro, uma falta, ter mentido a sua mãe.
+Pezava-lhe ainda, magoava-o. Para o futuro, porém,
+não teria necessidade de a repetir porque na sua
+existencia nada haveria que precisasse occultar. Todas
+as attribulações dos ultimos dias passavam como
+um sonho mau, e ia seguindo pelas ruas do jardim
+na embriaguez do leve perfume que as ultimas rosas
+espalhavam no ar, juncando a terra, desfolhadas e
+emmurchecidas pelo estio.</p>
+
+<p>Á beira do lago pendia d'um rochedo um jasmineiro;
+sobre as aguas boiavam as suas flores singelas
+<span class="pagenum">[109]</span>
+e brancas. Debruçou-se, ajoelhado na terra e
+colheu um ramo. Era para Emilia.</p>
+
+<p>Voltou a casa contente e almoçou com a mãe. Tinha
+dormido pouco, dizia-lhe, talvez excitado da jornada,
+mas sentia se bem, com bom apetite. O dr.
+Carvalho é que o aconselhara mal;&mdash;coitado!&mdash;de
+boa fé. O que elle precisava não eram banhos das
+Caldas, era estar em casa socegado com os seus
+livros e as suas flores. Ali sim, ali é que tinha
+saude.</p>
+
+<p>A mãe applaudia: graças a Deus nunca precisara
+sair da aldeia senão para ir a Coimbra ou á Figueira,
+no S. João. Sempre assim vira fazer aos da sua condição.
+Agora é que tudo eram doenças e banhos de
+mar e remedios da botica. Muito dinheiro e pouco
+que fazer! Não sabia como essa gente governava o
+que era seu, a sair a cada instante, a casa sempre
+em mãos dos creados. Deus a livrasse de tal vida!
+Até tinha escrupulo...</p>
+
+<p>Onze horas. Claudio levantou-se. Ia vêr o dr. Carvalho,
+explicava, passaria por casa de Emilia, e depois
+viria descansar. Tinha medo do calor, estava
+muito fraco.</p>
+
+<p>Saiu e dirigiu-se a casa do dr. Carvalho.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho estava no escriptorio, de esporas,
+chicote na mão e chapeu na cabeça, ouvindo
+um cliente. Correu risonho de braços abertos para
+Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Estava agora mesmo para ir a sua casa. Fui ao
+Amial que tenho lá uma mulhersinha com uma perniciosa,&mdash;e
+bem mal,&mdash;e ia vêl-o. Então como vae,
+diga-me cá? Que foi isso? Aqui ficamos todos muito
+surprehendidos ao dizerem-nos que tinha voltado.
+Foi o Martins, quando veiu ao chá, que trouxe a noticia.
+Ainda quiz ir saber como tinha chegado mas estavam
+cá as Silvas e depois, quando ellas sairam,
+era tarde, já passava da meia noite.</p>
+<span class="pagenum">[110]</span>
+
+<p>&mdash;Isto não foi nada. Demorei-me um dia a conversar
+na Matta com o conselheiro Andrade, estava
+fresco,&mdash;ali nas Caldas ha para tarde um norte mesmo
+frio, e a bronchite aggravou-se. Tive uma febricula.
+O medico do hospital disse-me que devia suspender
+os banhos e, em vista d'isso, achei que o
+que tinha a fazer era vir-me embora. E fiz bem! Já
+esta noite dormi descansado.</p>
+
+<p>&mdash;Em todo o caso, tenha cuidado. Eu acho o ainda
+palido e um bocadinho abatido. Deixe cá vêr esse
+pulso... Está bem, mas tenha cuidado, tenha cuidado.
+Nem mesmo devia sair com este calor.</p>
+
+<p>&mdash;Não vou para longe; quero só visitar os amigos.
+D'aqui a pouco estou em casa.</p>
+
+<p>A visita foi breve, Claudio contando rapidamente
+como se passava o tempo nas Caldas e o dr. Carvalho
+referindo o que se passára em Albergaria. Tudo
+muito desanimado com a falta de Claudio; até aos
+serões pouca gente tinha apparecido. A Emilia não
+saia, andava um pouco incommodada do estomago,
+o dr. Maia estava para a Beira, elle, Claudio, nas
+Caldas, o Ricardo sempre a caminho de Coimbra; só
+as Silvas e o reitor é que se conservaram firmes.
+Quasi nem havia parceiros para o quino.</p>
+
+<p>Saindo de casa do dr. Carvalho, Claudio dirigiu-se
+á repartição de fazenda, á esquina da rua da
+Cruz.</p>
+
+<p>O seu desejo era ir immediatamente a casa de
+Emilia, mas já desconfiado, procurando evitar toda a
+suspeita, com a astucia vulgar dos namorados que a
+ninguem illude senão áquelles mesmos que a usam,
+foi primeiro procurar o Ricardo para fazer crer que o
+interesse e a amizade se estendiam a toda a familia.</p>
+
+<p>O Ricardo, mal o viu, levantou-se logo.</p>
+
+<p>&mdash;Como está v. ex.<sup>a</sup> tem passado bem? perguntou
+<span class="pagenum">[111]</span>
+muito respeitoso, afastando a cadeira com ruido
+e atirando apressado o cigarro para o escarrador.</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco incommodado; foi por isso que voltei
+mais depressa.</p>
+
+<p>E reeditou a velha historia da Matta, da bronchite
+e do medico que só ao fim de vinte dias o deixava
+continuar a tomar banhos.</p>
+
+<p>&mdash;Ora muito sinto, muito sinto, repetia Ricardo,
+procurando dar á voz uma intonação magoada.</p>
+
+<p>&mdash;E em sua casa, a sr.<sup>a</sup> D. Emilia e os pequenos
+como vão?</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado, os pequenos optimos, cada vez
+mais travessos; a Emilia é que não tem passado bem,
+com uma grande falta de appetite e muito fraca. O
+dr. Carvalho já lhe receitou uns granulos de quassina
+e de arseniato de strychnina, mas ella teimou em
+não tomar nada. Que está bem, que está bem, que
+não precisa remedios... Deus queira que não me dê
+ainda alguns trabalhos!</p>
+
+<p>&mdash;Eu hei de ir vêl-a, disse Claudio mostrando desprendimento
+mas intimamente ancioso.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, deixei-a agora mesmo a costurar na sala.
+Fui a casa beber uma cerveja, que este calor mata-me!
+Nem posso trabalhar, tem-se me atrazado o serviço!...</p>
+
+<p>Claudio aproveitou o ensejo.</p>
+
+<p>&mdash;Não quero interrompel-o por mais tempo, á noite
+conversaremos com vagar... Então, se me dá licença,
+vou ali vêr a sr.<sup>a</sup> D. Emilia... Até logo...</p>
+
+<p>&mdash;Não se incommode... dizia ainda para Ricardo
+que se dispunha a descer a escada e a acompanhal-o
+até á porta.</p>
+
+<p>Os poucos passos que medeavam entre a repartição
+de fazenda e a casa de Emilia foram para Claudio
+lentos e compassados. Dominando os movimentos,
+por um esforço da vontade, julgava dominar a anciedade
+e porventura libertar-se assim da inquietação.
+<span class="pagenum">[112]</span>
+Á porta bateu cautelosamente, o peito opprimido, suffocado
+de impaciencia. Lembrava-se da primeira vez
+que ali fôra. Tambem então estava ancioso, em alegres
+esperanças de conquista, e agora,&mdash;quanto caminho
+andado em tão breves dias!&mdash;ali estava novamente
+mas escravisado pela paixão, torturado de duvidas,
+turvado pela dôr.</p>
+
+<p>A creada desceu, como de costume, abriu, e
+d'esta vez, sem hesitações, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! o sr. dr. Claudio!... Faça favor de entrar.
+A sr.<sup>a</sup> D. Emilia está na sala!</p>
+
+<p>Claudio subiu. Entrou na sala, quando Emilia, já
+de pé, tendo ouvido a sua voz e apressando-se a deixar
+a costura, vinha ao seu encontro.</p>
+
+<p>As mãos apertaram-se n'um movimento de franca
+e irreprimida alegria; n'um momento pareciam magicamente
+dissolvidas todas as duvidas e todas as
+dores.</p>
+
+<p>Sentaram-se e a conversação começou precipitada,
+rapida. Sentiam-se ambos bem; á frescura da sala
+com as janellas semi-cerradas juntava se a frescura
+do espirito faiscante no contacto dos dois corações
+amorosos.</p>
+
+<p>Para Claudio as Caldas eram uma estação deliciosa;
+as horas passavam se ligeiras em concertos, em
+bailes, em passeios, n'uma festa continuada de graça,
+de luxo e de elegancia. Lembrara se lá muitas
+vezes de Emilia. Como ella havia de apreciar aquelles
+dias que correspondiam tão bem á delicadeza da
+sua educação! O peior fôra a constipação que não o
+tinha deixado concluir o tratamento. Seria outro anno!
+Paciencia. Tambem tinha a compensação de se
+vêr na tranquillidade da sua casa.</p>
+
+<p>Emilia estava um pouco surprehendida com a
+doença de Claudio. Só pelo jardineiro que trouxera
+o ramo de jasmins soubera do seu regresso, que o
+Ricardo, conforme velhos habitos, em casa só parava
+<span class="pagenum">[113]</span>
+para dormir e comer, pouco fallava. Mas suppozera
+que se tinha aborrecido da vida e da gente que elle
+chamava ironicamente a gente fina, e por isso voltára
+ao ninho.</p>
+
+<p>Ella, tambem, tinha passado mal, do calor, provavelmente;
+uma inapetencia e uma fraqueza que a não
+deixavam um instante. Não tinha saido de casa, nem
+uma só vez, depois que elle partira.</p>
+
+<p>N'este ponto, a conversa esmoreceu e fez-se um
+momento de silencio. Claudio fitou Emilia, viu-a pallida,
+os olhos cavados, todo o viço minado pela paixão.</p>
+
+<p>Perpassando-lhe pela mente, n'uma vertigem, a
+lembrança da torturante saudade que soffrera, arquejante
+de desejo, caiu de joelhos, e beijando-lhe as
+mãos que apertava nas suas convulsivamente:</p>
+
+<p>&mdash;Emilia! Emilia! balbuciou com a face occulta no
+regaço.</p>
+
+<p>Ella, muda de surpreza e entorpecida d'amor, mal
+tentou desembaraçar-se dos laços que a prendiam.</p>
+
+<p>De repente, Claudio levantou-se, como n'um subito
+e apavorado despertar:</p>
+
+<p>&mdash;Perdoe-me, perdoe-me pelo amor de Deus, disse
+para Emilia.</p>
+
+<p>E tremulo, desvairado, correu a esconder-se em
+casa.</p>
+<span class="pagenum">[115]</span>
+
+
+
+
+<h1>IV</h1>
+
+
+<p>Olhe, ahi vem o dr Carvalho que lhe póde
+contar alguma cousa, dizia o boticario para
+o recebedor, atirando os dados sobre a taboa
+do gamão.</p>
+
+<p>&mdash;De quê? do calor? perguntava o Carvalho
+entrando. Tem sido de morrer. Esta
+manhã tive de ir a Sarnadas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas responda lá, é verdade ou não é?</p>
+
+<p>&mdash;Respondo... mas hei-de saber primeiro
+o que me pergunta.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade que o Claudio vae todas
+as noites, á uma hora, para casa da D. Emilia emquanto
+o bebado do Ricardo está no melhor do seu
+somno?</p>
+
+<p>&mdash;Ora...</p>
+
+<p>&mdash;Ora!... Elles até já teem saido a passeiar! Ainda a
+semana passada umas mulheres, que iam ás tres horas
+da noite para a feira de Monteiros, os encontraram
+sentados lá em baixo, ao pé da fonte. Tambem
+agora só de noite... que de dia não se pára com
+calor.</p>
+<span class="pagenum">[116]</span>
+
+<p>&mdash;Eu acredito lá n'isso! Quando mesmo fosse verdade
+o que vocês querem dizer, ella ia deixar o marido,
+os filhos e a creada, e sair para fóra de casa!
+Bastava que um d'elles accordasse para a comprometter.</p>
+
+<p>&mdash;Vê o doutor o Claudio por aqui?!... Metteu-se na
+toca como um rato dentro do queijo. É que arranjou
+coisa melhor que a nossa companhia. E faz bem.
+Olhe que eu antes me queria com ella aos couces
+que com o nosso recebedor aos beijos. Não é peste
+nenhuma.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei... essas cousas são faceis de dizer.
+Vejo-os em minha casa todas as semanas, ainda
+não descobri n'elles signaes de namoro. Conversam,
+jogam e até ás vezes passam quasi toda a noite sem
+se aproximarem um do outro.</p>
+
+<p>&mdash;Não que elles iam mesmo namorar-se para sua
+casa! Se não fallam um com o outro é porque andam
+entendidos. Para mim é mais uma razão. Que o doutor
+deve defendel-os... Tambem nos saiu bem
+bom...</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, adeus, que estão hoje com muito má
+lingua, apressou-se o Carvalho a dizer, fugindo com
+receio de que lhe fallassem na Silva que continuava
+a seguir, com boas esperanças de conquista.</p>
+
+<p>Estavamos a este tempo em fins d'agosto, mez e
+meio depois que vimos Claudio saindo como um louco
+de casa de Emilia. De facto, retraira-se; com o
+pretexto nos seus estudos e na sua debil saude, fechara-se
+em casa e quasi ninguem o via. Entregara-se
+por completo ao drama da sua existencia.</p>
+
+<p>Aquelle dia em que de volta das Caldas tinha ido
+vêr Emilia, ficára-lhe na lembrança. Fôra a hora
+mais cruel de toda a sua vida. Recordava-o a todo o
+instante, como se trouxesse cravado no peito um
+punhal que lhe rasgava as carnes a cada movimento.</p>
+<span class="pagenum">[117]</span>
+
+<p>A mãe estranhára-lhe a pallidez vendo-o entrar.
+Não era nada, resultado da fraqueza e do calor; ia
+dormir um pouco... Fechou-se no quarto, atirando-se
+para um sofá, succumbido de pavor. O que
+fôra? Que loucura o fizera ajoelhar aos pés de Emilia?
+O que pensaria ella? Perdel-a-ia, julgando-o um
+vulgar conquistador, ou começava uma vida d'amor?
+Que fizera dos seus propositos de amisade e da energia
+com que havia de dominar toda a paixão? Por
+outro lado, pensava, ella resistira frouxamente quando
+elle lhe apertou as mãos. Era pois verdade que o
+amava?</p>
+
+<p>Um refrigerio se lhe derramava nas veias. E a
+mãe? Ai! mentira-lhe; tão cedo olvidára as torturas
+da noite! Não, não seria assim, não seria levado por
+uma hora de desvairamento. Havia de voltar a casa
+de Emilia, poderia agora abrir-lhe completamente a
+sua alma, fazer-lhe inteira confissão do seu amor,
+das suas duvidas e ella, se o amava,&mdash;era certo, era
+certo!&mdash;havia de querer, como elle, uma vida pura,
+uma vida sem macula, em que nenhum tivesse de
+córar nem perante o mundo, nem perante a propria
+consciencia.</p>
+
+<p>A consciencia! Voltava esse estranho phantasma.
+Onde, em que livros, em que systemas aprendera a
+guiar-se por esse feitiço interior, onde vira provada
+a sua existencia? Imaginação doente! Não havia
+consciencia, não havia deveres deante de dois entes
+aproximados pelos impulsos do amor que os abrazava
+e confundia. Ah! pensasse baixinho... estava
+ali sua mãe, sentia-lhe os passos, vinha talvez escutar,
+saber se dormia. Não fosse adivinhar o que
+lhe passava pelo espirito e morrer na cruz de tamanha
+dôr! Que lhe dissera ella na estreita sala de Villalva,
+pelas noites de luar, ao pé do Christo? Lembrava-se
+agora! A consciencia, a consciencia!</p>
+<span class="pagenum">[118]</span>
+
+<p>Fôra alli que se lhe revelára essa apparição que o
+vigiava implacavelmente.</p>
+
+<p>Havia de obedecer-lhe. Sentia um fremito de coragem
+que o erguia do abatimento e da duvida. Mas
+não!... Delirava.</p>
+
+<p>Não eram escrupulos que o atormentavam, era o
+receio de perder o amor de Emilia, de se ter apartado
+para sempre do seu coração, ferindo-a na sua
+virtude. A que baixeza descera!</p>
+
+<p>Não eram melhores os remorsos, a consciencia
+atribulada, que esta misera prisão á fragilidade d'uma
+mulher? Quem lhe déra libertar-se! Porque não havia
+de o fazer? Para que voltaria a casa de Emilia? Cobardia!
+Havia de a insultar e fugir? Pediria primeiro o seu
+perdão,&mdash;ai! quanto lhe seria doce! depois... talvez,
+talvez...</p>
+
+<p>E o seu espirito perdia-se n'um labyrintho e o
+coração vogava em ondas de dôr.</p>
+
+<p>N'este martyrio passou todo o dia. Ao jantar queixou-se
+á mãe. Ainda não se sentia bom. Se fosse
+estar dois dias em Villalva, poderia fazer-lhe bem a
+mudança d'ares. No dia seguinte resolveria, conforme
+fosse a noite.</p>
+
+<p>Interiormente, esta palavra fazia-o tremer. A noite!
+O que iria passar-se entre elle e Emilia? Contava
+uma a uma as horas que o aproximavam d'esse momento
+decisivo e, por mais doloroso que o imaginasse,
+apetecia-o.</p>
+
+<p>Ás oito horas batia á porta da pequena casa da
+rua da Cruz. A custo subiu a escada; o corpo mortificado
+arrastava-se pesado e lento, banhado n'um
+frio suor d'agonia.</p>
+
+<p>Mal entrou na sala, deixou-se cair sobre uma cadeira.
+Emilia estendeu-lhe a mão, silenciosa, mais
+pallida ainda do que elle a vira de manhã, com lagrimas
+de emoção a toldarem-lhe os olhos. Claudio
+olhou em volta. Estavam sós. Podia fallar.</p>
+<span class="pagenum">[119]</span>
+
+<p>&mdash;Por certo me terá julgado severamente, mas se
+quizer fazer-me a esmola de me ouvir,&mdash;é uma esmola,&mdash;ha-de
+perdoar-me.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho que lhe perdoar, interrompeu ella
+tremendo, escusa de me dizer cousa alguma, sei
+muito bem o que se passa no seu espirito... Eu é
+que sou infeliz!</p>
+
+<p>E as lagrimas desprenderam-se-lhe pelas faces.</p>
+
+<p>Fez-se uma longa pausa e a conversação continuou.</p>
+
+<p>N'esta mutua confissão em que o amor desabrochava,
+sentiam-se ambos bem; partiram-se as cadeias
+que os prendiam n'um mutismo oppressivo e
+as palavras voaram como um bando de rolas soltas
+á luz por uma alegre madrugada.</p>
+
+<p>Claudio podia contar todos os soffrimentos por que
+passára e Emilia responder-lhe, descobrindo a seu
+turno o intimo do seu peito.</p>
+
+<p>Tambem ella tinha soffrido muito ao vêr crescer
+esta affeição. Chamava-lhe assim, repugnava-lhe a
+palavra amor em que sentia mais de perto a quebra
+da fidelidade conjugal.</p>
+
+<p>O adulterio repugnava-lhe, invocava para o repellir
+o dever e a religião, sem todavia sentir a profundeza
+d'aquellas obrigações.</p>
+
+<p>Repugnava-lhe porque era feio, era de mau gosto,
+contradizia os preceitos da sua educação e não cabia
+no convencionalismo estreito que era toda a sua regra
+moral, vasia de sentimento.</p>
+
+<p>Envergonhar-se-ia de ser infiel ao marido pelas
+mesmas razões que a levavam a passar noites crueis
+procurando tirar dos seus farrapos trajos elegantes,
+para competir com a gente fina cujas relações frequentava.</p>
+
+<p>Claudio ouvia e applaudia, penetrado de admiração
+perante tão sublime virtude, ingenuamente julgando
+ter encontrado par ás suas duvidas e atribulações,
+<span class="pagenum">[120]</span>
+onde de facto só havia um fragil simulacro de
+grandeza moral.</p>
+
+<p>Esta noite, que se annunciára tormentosa, derramava
+em ambos os amantes uma tranquillidade
+profunda.</p>
+
+<p>Tudo agora ficava determinado d'uma vez para
+sempre.</p>
+
+<p>Perdoada a falta de Claudio, que se punha á conta
+do arrebatamento produzido pela presença de Emilia
+ao fim de tantos dias de saudade, quebrada toda a
+repressão dos sentimentos intimos, podia assim reconhecer
+sem remorsos o seu mutuo affecto todo
+impregnado de respeito.</p>
+
+<p>Seriam como irmãos; elle com a sua amizade trazer-lhe-ia
+lenitivo á tristeza da infelicidade conjugal,
+aconselhando-a, guiando-a e amparando-a pela presença
+d'um coração fiel, ella havia de banir a aridez
+das horas de estudo de Claudio pelas graças do seu
+espirito. A vida tornava-se perfeita.</p>
+
+<p>O encontro d'aquellas duas almas fôra um bem
+providencial para ambos, perdida uma em busca de
+carinhos, perdida outra na desventura d'um destino
+amargo.</p>
+
+<p>Duvidas, saudades, hesitações, tudo se dissipava
+nas brizas propicias do amor triumphante. O espirito
+vergou-se ao sentimento e acceitou, sem perplexidade
+nem confusão, esse flamejar de desejos, tomando-o
+por uma aurora luminosa e serena.</p>
+
+<p>Claudio entrou no seu palacio, fatigado mas alegre,
+a refazer-se n'um somno povoado de venturas. No
+dia seguinte podia dizer á sua mãe:&mdash;Graças a Deus,
+estou melhor;&mdash;e ella veria contente, como a benção
+das suas orações, a vida e o rubor voltar ao rosto do
+filho.</p>
+
+<p>Pela calma do estio as flores beberiam o viço nos
+regatos e a natureza havia de povoar-se de vozes
+<span class="pagenum">[121]</span>
+harmoniosas e clementes, cantando em côro com os
+amantes felizes.</p>
+
+<p>Era boa occasião de voltar ao estudo, satisfeitas
+as vagas aspirações sentimentaes que
+nunca deixavam de o seguir. Tinha o affecto da mãe
+e de Emilia. Que mais precisava? Devia mesmo romper
+com perniciosos habitos de ociosidade provinciana,
+gastando-se a inquirir das intrigas do soalheiro
+e expondo-se a ouvir, com a brutal liberdade da
+gente rude, allusões ás suas relações com Emilia que
+outros poderiam interpretar injustamente. Por isso
+deixára de frequentar a botica, armado para uma
+vida de pureza e de saber. Na seccura das suas
+preoccupações racionalistas infiltrava-se um desconhecido
+fermento de poesia cujos primeiros e rapidos
+movimentos lhe davam a illusão da felicidade.</p>
+
+<p>D'essa illusão partilhava Emilia, e para ella era
+completa. Rapidamente esquecera o dia em que
+Claudio voltára das Caldas; na sua leviandade mulheril,
+entregava-se sem reservas ao prazer da hora
+presente.</p>
+
+<p>Ella, tão pobre de carinhos, abandonada do marido
+que cada vez mais se entregava aos seus vicios,
+sentia como uma infinita suavidade a nova atmosphera
+de affecto que a envolvia. Já não havia dores que fossem
+unicamente suas, já não havia cuidados que não tivessem
+confidente, afflicção que não tivesse soccorro.
+A imagem de Claudio entranhava-se-lhe no coração
+como o supremo bem e sabedoria. Era bello tudo o
+que elle amava, era bom quanto elle julgava bom.
+Deixára de a tentar o ruido das festas, a vã agitação
+por que algum tempo suspirava, para esquecer as
+mágoas; a natureza e o seu silencio ou os seus mysteriosos
+murmurios diziam-lhe agora mais que todos
+os artificios que com delicia lhe deslumbravam os
+olhos.</p>
+
+<p>Para elle, ainda não chegára a hora de inteira tranquillidade.
+<span class="pagenum">[122]</span>
+Estava bem, não havia remorso que lhe
+pesasse, poderia confessar toda a sua vida. Mas não
+a confessava. Porque? Não era tão puro, tão casto o
+seu amor por Emilia? Não córava elle lembrando-se
+que algum dia pensára em fazer d'ella sua amante?
+Não estava resgatada essa affronta, que nunca communicára
+a ninguem, pelo respeito com que agora
+a idealisava, santificando-a e adorando-a como martyr?
+Embora!</p>
+
+<p>Não ousava fallar de Emilia, temia que alguem manchasse
+com ruins desconfianças este amor immaculado.
+Nem á sua mãe o confessava; na ingenuidade
+do seu pensamento condemnaria talvez o affecto
+por uma mulher casada e não poderia comprehender
+a isenção do filho.</p>
+
+<p>Por isso se calava, por isso fugia d'antigos companheiros
+com que francamente ria de amorosas
+aventuras picarescas, arrastando dentro de si, como
+um pendulo que oscilla e mortifica, esta constante
+reserva e o temor do que elle julgaria injustiça. A
+sua vida era feliz, mas apertava-se dolorosamente,
+cercada de phantasmas.</p>
+
+<p>N'este idyllio se consummiram quatro mezes.
+Claudio frequentava pouco a casa de Emilia, sempre
+perseguido d'uma vaga suspeita do naufragio da
+honra da sua amada.</p>
+
+<p>Encontrava-a em casa do dr. Carvalho uma vez
+cada semana, via-a na egreja, acompanhava-a nos
+seus breves passeios. Só de longe em longe a procurava
+na rua da Cruz, contando os dias, para que a
+frequencia se não tornasse notada da visinhança.
+Inutil cuidado; o cynismo vulgar, melhor inspirado
+do que o idealismo poetico, não se illudia sobre a
+realidade, satanicamente commentava a familiaridade
+e sorria.</p>
+
+<p>Uma tarde, nos primeiros dias de dezembro, á
+hora em que o sol ia baixando e um frio sereno e
+<span class="pagenum">[123]</span>
+humido annunciava os gelos da noite, Claudio entrava
+na villa, regressando d'um passeio a Palhares,
+com Emilia, com as Silvas, a mulher do dr. Carvalho
+e o Maia.</p>
+
+<p>Este, tendo partido um casamento rico que tentára
+na Beira, voltava-se agora com mais insistencia
+para a Silva, tanto mais que lhe haviam dito que
+ellas tinham em Monteiros um tio rico de quem seriam
+herdeiras.</p>
+
+<p>Averiguára pelo juiz que lá estava, um seu parente,
+e viera a saber que o homem era realmente rico;
+pagava uns noventa mil réis de contribuição predial,
+tinha bastante dinheiro a juro, fóra um bom mealheiro
+que guardava em casa, como grande avaro
+que era. Não constava que tivesse testamento, nem
+o faria porque isso lhe repugnava. Os unicos herdeiros
+eram as sobrinhas.</p>
+
+<p>A herança devia estar para breve. Elle contava
+setenta e quatro annos, já o anno passado tinha tido
+um antrax que o pozera ás portas da morte, e os
+medicos diziam que não podia ir longe; havia desordens
+no funccionamento dos rins, perigosas e incuraveis.</p>
+
+<p>A duvida era uma unica: este homem tinha um
+filho natural d'uma creada, mas nunca o reconhecera,
+correndo-o com uma bengala uma vez que o pequenito,
+por conselho da mãe, lhe pedira a benção
+no meio da rua.</p>
+
+<p>Pretendia que elle fosse filho d'um creado, com
+quem a rapariga tivera amores, mas, para maior
+segurança, quando o rapaz tinha quatorze annos,
+mandou-o para o Brazil. Sabia-se que elle vivia e
+que de lá soccorria a mãe, a quem o velho abandonára
+na miseria.</p>
+
+<p>O Maia, porém, não se assustava com isto; já conhecia
+alguns casos mal parados de investigação de paternidade
+illegitima que o affoitavam, quasi se
+<span class="pagenum">[124]</span>
+sentia tentado com a demanda para dar largas á sua
+actividade profissional, e conhecia o processo por
+que ordinariamente estes terminam casos.</p>
+
+<p>O rapaz não tinha dinheiro para custear o pleito e
+viria a uma conciliação, contentando-se com uns magros
+contos de reis.</p>
+
+<p>Na verdade, esse grupo que vinha estrada acima
+cantando louvores á natureza,&mdash;a tarde estava lindissima!
+não se cansavam de repetir,&mdash;cuidava apenas
+de amores.</p>
+
+<p>O Maia procurava mulher e fortuna; Claudio contemplava
+a sua Emilia; a Silva, a mais velha, que
+dizia agora que não se queria casar porque não estava
+para aturar homens,&mdash;queria a sua independencia!&mdash;a
+cada instante olhava para traz, a vêr se descobria
+o dr. Carvalho que tinha ido á Varzea visitar
+os doentes, e a mulher do Carvalho, que andava muito
+inflamada em ciumes, vinha guardando a amante
+do marido.</p>
+
+<p>Pararam na praça. Havia alli um grande ajuntamento,
+em volta d'um trapezio erguido no meio da
+calçada e tapetado em baixo com immundos farrapos.</p>
+
+<p>No trapezio estava sentado um homem magro, as
+faces cavadas, vestido d'uma desbotada malha côr
+de rosa, calçado de cothurnos brancos; em baixo, de
+pé, uma mulher, tambem vestida côr de rosa, saia
+curta, coberta de lantejoulas que se estendiam em
+arabescos pelos hombros, levantava do chão uma
+creancita magra, longos cabellos louros e olhos azues,
+e arremessava-a ao homem do trapezio. A creancita,
+voltando-se no ar, soltava um grito agudo e o homem
+recebia-a nos braços.</p>
+
+<p>Claudio voltou-se constrangido, para não presencear
+este quadro de miseria, e, ao lado d'elle, uma
+rapariga do povo, que era linda, voltou as costas
+tambem.</p>
+<span class="pagenum">[125]</span>
+
+<p>&mdash;Credo, Virgem Nossa Senhora, nem quero vêr!
+disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem não gósto, respondeu Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Quem ha-de gostar de vêr o innocentinho alli
+aos trambolhões?! Até parece que o desmancham.</p>
+
+<p>&mdash;São modos de vida. A fome tudo póde.</p>
+
+<p>&mdash;Antes pedir esmola.</p>
+
+<p>E trocaram ainda mais umas breves palavras,
+com uma subita sympathia tirada da mesma compaixão.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho não tardou a chegar, risonho e
+animado.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos para casa, disse para a Silva, antes que
+se faça noite, que lhe quero dar um ramo de violetas
+como ha muito não vê. Tenho-as lá magnificas.
+Deu-m'as o jardineiro da condessa de Albergaria.
+Uma maravilha!</p>
+
+<p>A mulher do Carvalho córou, e lá seguiram todos
+a caminho do jardim.</p>
+
+<p>Claudio acompanhou-os até á porta e voltou a casa,
+para não mais sair n'aquelle dia. Emilia ia taciturna.</p>
+
+<p>&mdash;Tão calada? perguntou Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Estou com frio.</p>
+
+<p>&mdash;Deus queira que não lhe vá fazer mal.</p>
+
+<p>E separaram-se.</p>
+
+<p>No dia seguinte, á tarde, Claudio foi á rua da Cruz
+saber de Emilia.</p>
+
+<p>Com grande surpreza, appareceu-lhe Ricardo, dizendo
+que a mulher estava muito incommodada desde
+a vespera.</p>
+
+<p>Logo ao chegar a casa, fôra atacada de vomitos;
+desde então nunca mais a tinha deixado uma violenta
+dôr de cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Até chorava, dizia o Ricardo.</p>
+
+<p>Tinha querido chamar o medico, mas ella toda se
+exaltára com a lembrança, dizendo que isso ainda
+<span class="pagenum">[126]</span>
+lhe fazia peior, que nunca se chamou um medico
+por uma dôr de cabeça e que o maior beneficio
+que lhe podiam fazer era deixal-a só, em paz e socego.</p>
+
+<p>Claudio ficou no maior desalento. Evidentemente,
+tratava-se d'uma doença grave, para que Emilia não
+fizesse o esforço de se levantar do leito e vir vel-o
+quando não podia ignorar que elle ali estava. O seu
+primeiro impulso foi instar pela assistencia d'um medico,
+mas depois, reflectindo, receiava contrarial-a e
+aggravar o mal. Resolvia esperar mais vinte e quatro
+horas que antecipadamente sabia serem de agitação.</p>
+
+<p>A noite foi afflictiva. A possibilidade da morte de
+Emilia perseguia-o como um espectro, povoando-lhe
+a escuridão de visões tenebrosas. O despontar do
+dia, porém, alliviou-o; dissipava os sonhos, parecia
+dar-lhe consciencia mais nitida da realidade. Não seria
+cousa grave! A sua imaginação é que tinha certa tendencia
+a representar-lhe o peior. Até poderia ser
+que áquella hora tudo estivesse passado! O que o
+preoccupava agora era determinar a hora de ir vêr
+Emilia.</p>
+
+<p>Preferiria a tarde para não mostrar excessivo cuidado.
+Oh! Senhor, que vida! Não ter a liberdade de
+confessar os seus sentimentos, sempre em continuados
+temores, fugindo como um criminoso... E não o
+era!</p>
+
+<p>Mas não podia esperar tanto. Sete horas da manhã!...
+Teria ainda dez horas. Impossivel. Iria depois
+de almoço. Que lhe importava o que podessem
+dizer. Ia ás occultas, porventura?...</p>
+
+<p>Era meio dia quando chegou á rua da Cruz. Á
+creada perguntou por Emilia. Estava melhor, já se
+levantára, até de manhã descera um bocadinho ao
+jardim.</p>
+
+<p>Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande
+<span class="pagenum">[127]</span>
+peso; entrou na sala que estava deserta, Emilia
+tardava e por certo já lhe tinha ouvido a voz... Era
+singular! Ella que sempre corria para elle tão pressurosa...</p>
+
+<p>Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se
+a passos lentos, compassados, parando a meio do
+corredor, para dar á creada umas ultimas ordens.
+Claudio esperava-a de pé, frenetico, movendo-se nos
+dois passos que medeavam entre a meza e o
+sofá.</p>
+
+<p>De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de
+terror. Emilia vinha para elle com aquella mesma
+pallidez caracteristica que já um dia lhe conhecera
+e em que só os seus grandes olhos ficavam
+boiando como pharoes, em braza, n'uma toalha alva
+e mate, orlada ricamente pelos mais finos cabellos.</p>
+
+<p>&mdash;O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe
+a mão. Estranho-a.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, respondeu ella pausada e desprendidamente.
+Foi apenas uma dôr de cabeça, um pouco
+mais violenta do que as que costumo ter. Antes
+fosse uma doença grave! Que faço eu n'este mundo?!...</p>
+
+<p>&mdash;Não seja injusta nem cruel com os que a estimam.
+Se soubesse o que eu tenho soffrido ha algumas
+horas...</p>
+
+<p>&mdash;Não vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria
+muita rapariga fresca e nova que o cubiçasse.
+Conheço-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos uma
+bem bonita na praça, aquella que esteve ao pé de
+nós. Não lhe pareceu?</p>
+
+<p>Claudio só então comprehendeu que Emilia ardia
+em ciume. Correu-lhe o sangue ao coração, seccaram-se-lhe
+os labios e, como uma féra precipitando-se
+sobre a preza, lançou os braços em torno da cintura
+<span class="pagenum">[128]</span>
+de Emilia, beijando-lhe as faces em convulsões
+de desejo.</p>
+
+<p>&mdash;Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se,
+endoideceu?</p>
+
+<p>&mdash;Não, não endoideci, respondeu elle tremulo e o
+rosto congestionado. A culpa é sua, unicamente sua.
+Fica assim convencida do meu amor?</p>
+
+<p>Já não era o timido que nós viramos soluçante,
+implorando perdão, por uma calma noite de julho.
+A cubiça e uma instinctiva mas plena certeza de dominio
+tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia
+obedecia, defendendo-se frouxamente com o temor
+do escandalo e da sua vergonha, inconscientemente
+dominada por um ardor de paixão que a fazia acceitar
+como boas as razões que o amante ardilosamente
+inventava para a levar a quanto lhe apetecia.</p>
+
+<p>Não valia a religião nem o dever; a culpa era do
+destino que, tendo-lhe dado um marido repellente
+e sordido, lhe deparava agora uma alma irmã da
+sua.</p>
+
+<p>Claudio voltava a casa agitado de contentamento.
+Todos os escrupulos, todas as preoccupações se baniram
+ao alento d'aquelle corpo que tivera nos braços,
+ao contacto d'aquella face cuja impressão sentia
+ainda nos labios.</p>
+
+<p>A animalidade vencia, a satisfação da carne punha
+em debandada os terrores da alma transformando-os
+em deliciosas e captivantes esperanças. Voltaria
+á rua da Cruz no dia seguinte, á mesma hora,
+quando Ricardo estivesse na repartição e os filhos na
+escola. Sequioso dos beijos de Emilia, todo se entregava
+a essa cubiça absorvente.</p>
+
+<p>Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse
+jardim que fôra e seria ainda o theatro das suas
+inquietações, esperando o bater do meio dia como
+cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o
+<span class="pagenum">[129]</span>
+freio, a orelha fita ao toque do clarim que marcará a
+partida.</p>
+
+<p>Quem lh'a déra ali, por essa tarde de dezembro em
+que o sol tão brandamente penetrava a terra passando
+entre os troncos nus das arvores desfolhadas pelo
+inverno! Iria colher violetas á sombra dos cedros e
+a meiguice dos seus beijos havia de confundir-se
+com o perfume subtil e inebriante, o amor a adejar
+na luz pallida e cariciosa.</p>
+
+<p>Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco,
+onde o respeito pela sua amada que havia de pôr no
+sacrario a que não chegariam as palpitações da concupiscencia
+impura? Sonhos vãos, vãos propositos!
+Nem d'isso já se lembrava! Varrera-lh'o da lembrança
+a chama em que todo o seu ser ardia n'uma
+transformação gloriosa.</p>
+
+<p>Com que alegria subiu á sala de Emilia!... Mas Emilia
+vinha triste, os olhos macerados, mysteriosa,
+perseguida d'um pavôr que nem o anceio de vêr o
+amante podia dissipar. Não se assustasse Claudio...
+Ricardo desconfiára, estranhára as visitas áquella
+hora, ameaçára-a. Tudo porém se poderia arranjar, ella
+lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam encontrar.
+Depois lhe contaria pausadamente como isso
+se passára; não se demorasse, saisse quanto antes.
+Que não se affligisse, ella era a mesma. E abraçaram-se.</p>
+
+<p>Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava
+hymnos de triumpho. Era sua! A certeza do amor de
+Emilia vencia todas as atribulações e resgatava todas
+as dores passadas. O ardor da paixão e a coragem
+confundiam-se n'um só fogo, impetuoso, subindo
+para os céos, á serenidade olympica do amor
+victorioso.</p>
+
+<p>Na mesma tarde d'este dia em que tivéra o primeiro
+annuncio da desconfiança de Ricardo, Claudio
+recebeu uma carta de Emilia.</p>
+<span class="pagenum">[130]</span>
+
+<p>O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe
+que viesse, ás dez horas da noite, a uma pequena capella
+abandonada que ficava junto á casa, na rua
+da Cruz, e que com ella tinha communicação interior.</p>
+
+<p>Entregaram a carta a Claudio na presença da mãe,
+no fim do jantar. Teve de mentir. Disse que era do
+prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse lá á noite.
+Estava com um ataque de gotta e não podia sair.</p>
+
+<p>&mdash;Foi-se metter na eleição da junta de parochia
+e agora ha-de querer que eu lhe dê os votos de
+Villalva!...</p>
+
+<p>Para se conformar com o que disséra á mãe, saiu
+ás oito horas. Não era verosimil ir procurar um velho,
+n'uma aldeia, ás dez horas da noite. E ainda,
+para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta
+longa a escrever, inaddiavel, que justificasse a
+permanencia em casa.</p>
+
+<p>Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa
+Nova, e voltaria torneando a villa, a entrar na rua
+que o levaria em direitura a casa de Emilia; mas,
+quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito
+horas e um quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se
+já á capella; poderiam vêl-o e comprometteria Emilia.</p>
+
+<p>Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto,
+á beira do caminho, sobre o parapeito d'um
+aqueducto, esperando.</p>
+
+<p>Accordava agora do desvario sensual em que todo o
+dia andara arrastado; a treva, a fadiga, o silencio, o
+isolamento e a immobilidade forçada despertavam-lhe
+a consciencia. Era um crime o que ia fazer? Não era;
+a paixão convencia-o da propria innocencia. A ninguem
+prejudicava, nem mesmo a Ricardo que fôra o
+primeiro a abandonar a mulher. Não a roubava aos
+filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este
+mundo é uma conquista; queria a sua parte. Mas
+<span class="pagenum">[131]</span>
+porque então este sentimento d'amargura á hora em
+que ia satisfazer-se a sua maior ambição? Mentia e
+a mentira repugnava-lhe.</p>
+
+<p>Não vira elle o que lhe acontecera com a mãe ao
+receber a carta? Mentira! Era a voz que sentia echoar
+pelos despidos cerros dos montes e pelas sombras
+do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava
+em torno. Viria alguem?... Que importava? Quem
+o sabia? Oh! não, tinha-o escripto na fronte, illuminada
+por uma luz de remorso. Fôra loucura... Porque
+não fugiu, porque não se affastou para longe a
+primeira vez que encontrara Emilia? Emilia!... Quanto
+soffreria ella tambem?!... Devia-lhe amparo, fôra
+elle que a tentara na paz da sua virtude, fôra elle
+que lhe derramara no sangue, como um veneno,
+aquella pallidez com que a vira nas horas de soffrimento
+e que se lhe gravaria nos olhos para sempre.</p>
+
+<p>Queria vêl-a, queria abraçal-a,&mdash;fortuna suprema!
+E o amor e a compaixão casavam-se na mesma
+anciedade.</p>
+
+<p>Finalmente, ás dez horas, abriu-se a porta da
+capella da rua da Cruz. Claudio não a conhecia.</p>
+
+<p>Foi preciso que Emilia o guiasse na escuridão,
+apenas cortada pela escassa luz que vinha da porta
+lateral que abria sobre os campos e dava passagem
+para um alpendre da casa de Ricardo.</p>
+
+<p>A capella estava abandonada; servia apenas de
+palheiro e arrecadação de alfaias de lavoura. Iam
+sentar-se no degrau do altar-mór, unica elevação
+que havia no pavimento lageado e raso.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem alli está um confissionario velho, disse
+Emilia, mas só tem um assento, o do padre.</p>
+
+<p>&mdash;Leva-me lá, respondeu Claudio, quero ajoelhar
+aos teus pés e pedir-te perdão das minhas faltas.</p>
+
+<p>&mdash;As suas faltas!...</p>
+<span class="pagenum">[132]</span>
+
+<p>&mdash;Suas?... Não me chames assim. Parece que
+me affastas.</p>
+
+<p>Ella sentou-se e Claudio ajoelhou. Estava tremulo
+e frio, gelado pelas longas horas de espera na estrada
+deserta e mortificado pelas angustiosas cogitações
+em que o lançavam as luctas interiores da paixão,
+as contradições do dever e do desejo, da realidade
+cynica e das aspirações ideaes. Caíra como
+prostrado, mudo de emoção, esmagado de duvidas
+em que a amargura e o contentamento se confundiam
+n'uma mesma vibração.</p>
+
+<div class="centrado"><img src="images/003.jpg" alt="Ella sentou-se e Claudio ajoelhou."></div>
+
+<p>Ella estava serena, na simplicidade do amor apartado
+das complicações d'uma consciencia intelligente
+e timida. Estava nos braços do amante, que lhe
+envolviam a cintura, ninguem o sabia, e esta ultima
+circumstancia bastava a tranquillisal-a. Não havia
+duvidas intimas; tudo se reduzia a convenções mundanas
+que, illudidas ou compridas, ficavam sempre
+igualmente satisfeitas.</p>
+
+<p>Pouco e pouco, Claudio reanimou-se no alento da
+amante. A sensibilidade vencia. E tarde, pela noite
+calada, recolhia a casa n'uma plenitude de vida e de
+contentamento que ha muito lhe era desconhecida.</p>
+
+<p>A sua existencia tornára-se completa, julgava elle
+com a fé mais firme; ia entrar n'um periodo de fecunda
+e longa tranquillidade. Considerava-se unido
+para sempre a Emilia no mais puro hymeneu, ella
+era a legitima esposa do seu corpo e da sua alma, a
+que devia fidelidade que do coração lhe votava. Quizera
+o destino, por um capricho cruel, que essa mulher
+vivesse separada d'elle, n'uma vida de privações
+e de penas, mas esse facto não enfraquecia
+nem prejudicava a união. Pelo contrario, sublimava-a,
+introduzindo-lhe elementos moraes de paciencia
+e resignação que inflamavam os amantes pela
+lucta perpetua.</p>
+<span class="pagenum">[133]</span>
+
+<p>Restava a Claudio dispôr as cousas externas conforme
+as novas condições da sua existencia.</p>
+
+<p>Para illudir a mãe, faria um pequeno gabinete,
+em baixo, ao pé do jardim, em que passaria as noites,
+sem ninguem o sentir. Iria á rua da Cruz nos dias
+em que Ricardo fosse a Coimbra, repetiria quanto
+possivel os passeios e jornadas que o affastasem de
+Albergaria,&mdash;convinha ao bom nome de Emilia, cuja
+honra se lhe afigurava immaculada,&mdash;e evitaria mesmo
+frequentar a casa do dr. Carvalho com a assiduidade
+que até então usára. Voltaria a completar os
+seus estudos que d'esta vez tinham todas as condições
+de proseguir até ao fim, satisfeito o corpo e envolvido
+o espirito n'uma atmosphera de poesia.
+Assim seria a sua vida até á hora derradeira em que
+queria morrer os olhos fitos n'essa imagem que era
+o sangue do seu sangue, a sua razão de ser.</p>
+
+<p>N'este novo caminho, em que affoitamente entrou,
+deu aos seus estudos uma nova direcção. Era necessario
+resolver o problema moral, que ha tantos mezes
+o inquietava, era necessario pôr de harmonia a
+razão e o sentimento, descobrir os motivos que haviam
+de justificar plenamente a sua existencia e banir
+todas as duvidas que o turvavam.</p>
+
+<p>Na verdade, a sciencia nada lhe dissera. As leis
+da lucta pela vida e do transformismo nunca lhe podéram
+explicar nem porque era doloroso mentir a
+sua mãe nem por que motivo havia de occultar os
+seus amores com Emilia. Conveniencias sociaes? Mas
+então os instinctos naturaes não são o melhor juiz
+dessas conveniencias e não conduzem á perfeição
+final? E, se assim não é, se ha parallelamente outras
+leis, quaes são, em que se fundam, que princípio
+as sancciona, como e em que modificam as primeiras?</p>
+
+<p>Evidentemente, a sciencia era incompleta; nada
+lhe dizia sobre aquillo que mais o interessava e mostrava-se
+<span class="pagenum">[134]</span>
+incapaz de lhe offerecer tranquillidade. Porque
+era verdade que vivia inquieto.</p>
+
+<p>Voltava-se para os livros de religião e de moral.
+Devia haver uma outra sciencia. Lia Epicteto, Marco Aurelio,
+os padres da Egreja e, entre os modernos, Renan,
+Amiel e Tolstoi. A vida seria, nas palavras d'estes,
+o desprezo do mundo e da carne, a conformidade com o
+destino, a exaltação no amor e na humildade. Os primeiros
+serão os ultimos e os ultimos serão os primeiros.
+N'este mundo, todos somos irmãos. «Irmãos, amae-vos
+uns aos outros!» As palavras do evangelista tornavam-se
+uma obsessão.</p>
+
+<p>Se assim era, que crimes eram os seus, na occiosidade,
+na traição e na mentira! Dominava-o um impulso
+de arrependimento. N'uma tragedia intima, repetia:
+Pequei! Esquecia a sciencia. O corpo e os seus
+apetites não eram uma realidade tambem? Sim, de
+certo, mas melhores seriam as privações do que a
+tortura d'aquella vida sem repouso...</p>
+
+<p>N'este drama, passou cerca de dois annos. Aos
+olhos dos estranhos, a quem os amores escandalosos,
+por muito continuados, se tornaram indifferentes,
+a tranquillidade parecia perfeita. De facto, nenhum
+obstaculo de natureza material existia.</p>
+
+<p>A mãe de Claudio não se julgava no direito de
+pôr estorvos á sua vontade, desde a morte do
+marido; nos seus inveterados habitos de servir e obedecer,
+considerava o filho o seu senhor. O Ricardo, ou
+fosse ignorancia, aliás nada provavel, dos amores
+da mulher, ou fosse um cynico interesse na amisade
+de Claudio de quem sempre esperava protecção e
+com cuja bolsa contava para os momentos difficeis,
+amiudando e prolongando as suas noites de Coimbra
+em casa da amante, acabára por deixar Emilia n'um
+desafogo que lhe permittia longas horas do mais
+repousado amor.</p>
+
+<p>Os tormentos vinham da consciencia. Claudio não
+<span class="pagenum">[135]</span>
+encontrava solução moral que importasse justificação
+plena do seu viver. A duvida e a inquietação
+eram constantes, permanentes; cavavam-lhe na alma
+abysmos de mysterio, perante os quaes a todo o
+instante tremia e se apavorava. O mais pequeno incidente
+revolvia toda essa vasa que o suffocava, um
+dia de ciumes de Emilia, a suspeita de que o tinham
+visto entrar na capella, um gesto, uma palavra de
+sua mãe, condemnando os desvarios do adulterio.</p>
+
+<p>Por outro lado, Emilia descia aos seus olhos. Saciados
+os apetites que as graças do seu corpo despertaram,
+via em plena nudez a inanidade do seu
+pensamento moral.</p>
+
+<p>Instinctivamente boa e simples, amando Claudio
+ingenuamente com o afferro caracteristico das mulheres
+apaixonadas, era todavia incapaz de se elevar
+á comprehensão das duvidas que o agitavam; e ella,
+que se sentia contente com a sua sorte, não percebia
+que o amante podesse, sem reservas, deixar de
+partilhar o seu contentamento.</p>
+
+<p>Presentiram o juizo que o publico formava das
+suas relações? Adivinhavam-n'o, e até se esforçavam
+por lhe tirar toda a apparencia de razão; mas viera
+tão cedo e em tal calor de paixão que não constituira
+mais que um passageiro desgosto com que ambos
+em breve e facilmente se conformáram. Que tinham
+os outros com a sua vida? Olhassem para si
+que teriam bem de que fallar. Que fazia o Carvalho
+sempre de braço dado com a Silva? E a outra não ia
+casar com o Maia? Uma miseria! Só por causa da
+fortuna.</p>
+
+<p>Era sabido que ella na Figueira tinha namorado
+um rapaz de Lisboa que lhe vinha fallar ao terraço,
+á uma hora da noite.</p>
+
+<p>Um dia, na primavera, exactamente tres annos
+depois que conhecera Emilia, Claudio recebeu uma
+<span class="pagenum">[136]</span>
+carta de seu amigo Jorge de Castro, annunciando-lhe
+uma proxima visita.</p>
+
+<p>Visto que elle, Claudio, se mettera a ermita, resolvia
+o Jorge ir abraçal-o; que preparasse os cavallos,
+queria visitar todas as aldeias suas conhecidas,
+que a visita não era só para elle, era tambem para
+aquelles montes de que se lembrava com saudades.</p>
+
+<p>A carta respirava uma grande alegria, denunciando
+uma natureza sã, vigorosa. Claudio leu-a com tristeza.
+Porque não havia elle de viver assim contente?...
+Scismava. Talvez o Jorge lhe revelasse o segredo
+d'aquella fortuna.</p>
+
+<p>Respondeu lhe immediatamente. Exultava. Os cavallos
+estavam promptos, tinha-os n'aquelle momento
+ligeiros como gamos, do campo de Coimbra. Traçava
+já varios passeios, em Albergaria e em Villalva
+onde lhe queria mostrar os jardins que créara no
+meio de rochedos. Promettia-lhe mais varios regalos
+da mesa provinciana, que o amigo apreciava, bons
+patos com arroz, uma preciosa vitella vinda da serra
+e vinhos da varzea de Villar que não os havia
+melhores. Que viesse quanto antes. Até precisava
+muito conversar com elle, accrescentava laconicamente.</p>
+
+<p>&mdash;Até precisava muito conversar com elle... repetiu
+Jorge, lendo a carta na presença da mulher. É
+capaz de querer casar. Que pateta! Aos vinte oito
+annos, quando tem uma fortuna boa e todos os prazeres
+ao seu alcance... Eu, se agora me visse solteiro,
+não me casava antes dos quarenta annos. É muito
+bom, mas uma prisão...</p>
+
+<p>Claudio veio esperar o amigo a S. Braz, por uma
+tarde serena, o ceu limpo e azul, os campos rebrilhando
+de reflexos multicores.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! que magnifico sol! disse Jorge ao apear-se,
+<span class="pagenum">[137]</span>
+depois de abraçar Claudio. Com um tempo assim, até os
+inimigos se podem visitar.</p>
+
+<p>E encaminharam-se para a carruagem.</p>
+
+<p>Todo o caminho se dispendeu no exame dos cavallos
+e na apreciação da paysagem. Jorge ia maravilhado.
+Que vigor, que frescura! Aquillo devia fazer
+mal... Era lethifero. Dava vontade de fechar os
+olhos e adormecer por alli, á beira dos comoros toucados
+de madre-silva e de giesta. Uma natureza assim
+desmoralisava. Por isso Claudio se quedára n'aquella
+apathia. Estava encantado. E ria, sem de longe imaginar
+a dolorosa ferida que tocava.</p>
+
+<p>Ás cinco horas da manhã do dia seguinte, Jorge
+passeiava no jardim esperando que Claudio despertasse.
+Este não tardou.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda bem! exclamou Jorge. Até é peccado dormir
+por uma manhã d'estas.</p>
+
+<p>Em volta, a vida era d'uma intensidade extrema,
+n'um turbilhão alegre e scintillante, de murmurios
+de regatos, tremulas manchas d'um sol benigno,
+gorgeios d'aves, perfumes de lilazes, de rosas e cylindras.</p>
+
+<p>&mdash;Vives aqui muito bem, disse Jorge, sentando-se
+n'um banco de pedra, á sombra dos loureiros, em
+frente d'um platano magestoso, opulentamente curvado
+sobre o tanque em cujas aguas os seus ramos
+vogavam.</p>
+
+<p>&mdash;Não tão bem como te parece!</p>
+
+<p>Contou então todo o drama da sua vida; o primeiro
+encontro com Emilia, a leviandade com que
+se lançára na sua conquista, o amor sincero e a paixão
+que d'ahi resultára, a angustia em que vivia
+n'uma vida de constante mentira, as tentações que
+tinha de pôr termo a essas torturas, o receio e a
+compaixão pela infelicidade da amante, sempre que
+se lembrava d'uma separação. No fundo, sentia-se
+torturado de arrependimento e remorsos; a sua felicidade,
+<span class="pagenum">[138]</span>
+tão cubiçada dos estranhos que o julgavam
+satisfeito e impenitente, reduzia-se a uma crudelissima
+agonia.</p>
+
+<p>Jorge desconhecia essas situações. Casára cedo,
+por casualidade, cedendo a uma inclinação natural,
+sem maior esforço da vontade. Não dizia que o casamento
+fosse bom nem mau; elle tinha-se dado bem
+e louvava a Deus por o ter feito, pois sabia d'outros
+casos semelhantes ao de Claudio e todos tinham mau
+fim.</p>
+
+<p>Lembrava: o Cabral, um companheiro da Universidade,
+apaixonou-se pela mulher d'um amigo
+e suicidou-se. O Nogueira, um bom rapaz mas um
+sceptico, começou a namorar a mulher d'um visinho,&mdash;brincadeira!&mdash;e
+a mulher toma o caso a sério,
+abandona o marido e vem metter-se-lhe em casa. E
+ahi estava o pobre desgraçado preso provavelmente
+para toda a vida. Estes eram casos recentes, mas outros
+aconteciam a cada passo. Elle fugia d'isso. Era
+quasi ridicula tanta felicidade conjugal, bem o sabia,
+mas ao menos que descanço!...</p>
+
+<p>De resto, Jorge não se atrevia a aconselhar qualquer
+resolução. O tempo a indicaria. Era sempre
+uma loucura querer substituir inteiramente o destino
+e a sorte pelas inspirações da vontade. Parecia-lhe
+até uma falta de humildade, desmedido orgulho. Demais,
+o peccado não era grande. Tinha amores com
+uma mulher casada cujo marido a deixava a cada
+momento por uma amante?... De quem era a culpa? As
+cousas do mundo não se podiam tomar todas em casos
+de consciencia. No bom senso vulgar havia muito
+de razão e justiça.</p>
+
+<p>Pensava Claudio que, se amanhã fosse á pharmacia
+e contasse aos companheiros d'outro tempo o que
+lhe succedia, alguem tomaria a serio as suas duvidas?
+Todos se ririam. Ridiculo, n'aquella comedia,
+só o Ricardo. Era a boa tradição e, quem sabe? talvez
+<span class="pagenum">[139]</span>
+a boa regra. Afinal, o amante era vencedor. Por
+conseguinte, dormisse descansado e levasse as cousas
+alegremente. O tempo, o tempo lhe diria o que tinha
+a fazer. Não havia de tardar... que aquelle viver
+aborrecia.</p>
+
+<p>Jorge voltou a Lisboa sem deixar no espirito de
+Claudio outra impressão, além da tristeza em que
+caia comparando-se com elle.</p>
+
+<p>Aquelle sim, aquelle soubera viver! Voltava a casa
+aos braços da mulher e dos filhos, a um ninho de
+caricias e de affectos de que abertamente e tranquillamente
+podia fartar-se, isento de toda a duvida, livre
+de todo o remorso.</p>
+
+<p>Porque não fizera elle o mesmo? Porque se lançára
+n'uns amores que a consciencia lhe condemnava,
+fossem quaes fossem as razões que o espirito buscasse
+para os legitimar? E porque não havia de
+emendar-se? Porque não havia de converter Emilia
+ao dever, como elle mesmo se tinha convertido? Ella
+seria então a primeira a desejar o seu casamento, a
+desejar vêl-o emendado d'uma vida de mentira, olvidando
+o passado, que pelas suas amarguras lhes serviria
+a ambos de lição, para os affastar de nova queda.
+Assim resgatariam, em longos annos de honestidade, a
+breve loucura d'algum tempo. Corajosamente, sem
+lagrimas, com a risonha serenidade da virtude, apartar-se-iam.
+Quanto a vida lhes seria então suave e
+boa!</p>
+
+<p>Isto pensava, isto pensou durante alguns mezes
+sem se atrever a communical-o a Emilia. Temia a
+impressão que havia de lhe produzir a lembrança do
+abandono do amante, seu unico amparo, a sua unica
+alegria, d'ella que ninguem tinha no mundo, entregue
+ao marido que a desprezava, perdida no mais
+arido ermo de carinhos.</p>
+
+<p>O receio e a compaixão traziam-n'o em mentira;
+ia addiando, addiando sempre a hora d'uma confissão
+<span class="pagenum">[140]</span>
+que imaginava o seu dever e salvação e de que
+todavia tremia, não por elle que a tudo estava d'antemão
+resignado mas por Emilia que já então sabia
+ser moralmente fragil, inconsistente.</p>
+
+<p>Pelo S. João foram, como de costume, a Coimbra,
+a casa dos Albuquerques. Claudio ia contrariado,
+absorvido, como andava, em preoccupações moraes
+que o traziam n'um permanente desejo de recolhimento;
+mas Emilia, em rapidas fulgurações, mostrava
+ainda todo o seu antigo ardor pela futilidade elegante.</p>
+
+<p>&mdash;É mais uma occasião que tenho de te vêr de
+casaca e gravata branca, e assim é que ficas bem.
+Mas vê como te portas... Ha por lá muita menina
+bonita!</p>
+
+<p>Era a recommendação habitual, quando partiam
+para essas festas.</p>
+
+<p>D'esta vez, Emilia veiu de Coimbra preoccupada e
+distrahida, fallando a custo e evitando os olhos de
+Claudio. Este já não se illudia com taes modos e gestos;
+por muito frequentes os conhecia. Eram ciumes.
+Quantas horas afflictivas passára na capella da rua
+da Cruz para affastar essas tempestades que eram
+uma das dores com que a leviandade de Emilia sobrecarregava
+a sua atroz situação!</p>
+
+<p>Antecipadamente sabia o que seria a sua primeira
+entrevista depois do baile, toda consagrada a explicações
+e a mentiras. Mentiras? Sim, mentiras. Emilia
+tinha razão. Claudio em toda a noite não tirara os
+olhos de Laura, uma filha do velho Albuquerque,
+cheia de graça e de candura, valsando com uma travessura
+infantil.</p>
+
+<p>Seria mais um remorso, havia de mentir-lhe, havia
+de a convencer de que era sempre a victima dos
+seus zelos infundados, mas era certo que Laura lhe
+deixára uma impressão profunda, e vagamente, com
+uma tenacidade perigosa para os amores de Emilia,
+<span class="pagenum">[141]</span>
+pensava em que talvez estivesse ali a sua salvação.
+Seria um capricho dos sentidos, o encontro casual
+d'um temperamento ardente e d'uma natureza nervosa,
+uma surda concupiscencia? Talvez não. Laura
+era uma rapariga educada em ociosidade absoluta,
+sem a minima instrucção, sabendo com segurança
+apenas valsar, brincar e montar a cavallo e a Claudio,
+burguez por habito e por educação, d'uma delicadeza
+moral doentia pela aturada insistencia dos
+problemas da sua vida, repugnava uma existencia
+tão vasia e inutil.</p>
+
+<p>Qualquer cousa ignorada o atraia, porém. Tambem
+aqui o espirito e a reflexão não lograram vencer
+o sentimento.</p>
+
+<p>Ouem podia saber a verdade? Quem podia dizer-lhe
+o que se abrigava n'aquelle corpo de creança?
+Talvez um coração apaixonado, uma d'estas mulheres
+que se consomem n'um só amor.</p>
+
+<p>A imaginação representava-lhe prazeres infinitos,
+n'um lar todo illuminado por essa luz de sacrificio.
+Havia de a dominar pelo amor, havia de banir dos
+seus desejos os habitos de ociosidade. Ella seria
+bondosa, ingenuamente amoravel; não era uma rapariga
+prevenida e, quando tivesse amamentado um
+filho, quando tivesse vivido n'uma atmosphera de
+labor e de virtude, a esposa da sua alma revelar-se-ia.</p>
+
+<p>Depois, se errasse nas suas esperanças, tambem
+saberia mandar a quem não soubesse amar. A herança
+paterna, o homem sevéro e frio, accordaria.</p>
+
+<p>Mas Emilia, Emilia?... A sua falta pesava-lhe então
+n'uma fadiga e n'um desespero invenciveis; entre o
+desejo de sair d'uma vida, a seus olhos criminosa, e
+a ambição duma vida normal, cavava-se um abysmo
+innundado de lagrimas que era precioso transpôr.
+Recuava. Nunca! Pobre Emilia...</p>
+
+<p>Ás vezes, sobre o conflicto d'aspirações passava
+<span class="pagenum">[142]</span>
+uma onda de scepticismo. Laura, Emilia, o casamento,
+o adulterio... phantasias! Fugisse d'ali, fosse
+viver em Lisboa, não poupasse ao seu corpo todas
+as delicias que a fortuna lhe consentia. Mas o dever
+dominava-o, não havia modo de se libertar, n'uma
+vida facil, d'essa pesada escravidão a que desde a
+infancia fôra votado.</p>
+
+<p>Outras vezes, esquecia Emilia. Laura apparecia-lhe
+como uma visão de candura, o anjo que lhe annunciava
+a paz, e caia na tristeza da infinita saudade
+das cousas cubiçadas e impossiveis.</p>
+
+<p>Queria aquecer-se ao sol da sua ingenuidade e da
+sua fé, beber na sua simplicidade um alento purificador.
+Loucura! A felicidade fugira-lhe para sempre,
+de tudo poderia curar-se menos do remorso, a vása
+de todas as almas delicadas, a toldar-lhes o mais pequeno
+movimento. Só o dever seria a sua ambição;
+deixasse como um forte, por justo castigo da sua
+culpa, os sonhos de felicidade. Loucura ainda! Dever,
+felicidade, que estranhas vozes eram essas?</p>
+
+<p>Luctar era bom para quem tinha os favores do
+destino. Elle não; vinha batido dos erros e contrariedades
+e só na escuridão da terra encontraria repouso.</p>
+
+<p>Comprehendia agora. E pensava na doce paz do
+cemiterio e nas flores que haviam de lhe cobrir a sepultura.</p>
+
+<p>Nova loucura! O suicidio era um crime. Não lh'o
+ensinára sua mãe?!...</p>
+
+<p>Iam decorridos oito dias sem que Claudio tivesse
+voltado a casa dos Albuquerques, como costumava
+depois dos bailes, por obrigação de cortezia. O seu
+desejo de tornar a vêr Laura ficava aqui prejudicado
+pelo receio d'um novo accesso de ciumes de
+Emilia.</p>
+
+<p>Por fim, uma tarde, ou por mais animado ou por
+<span class="pagenum">[143]</span>
+indifferente e fatigado de tanto meditar, metteu-se
+na carruagem e partiu.</p>
+
+<p>A visita foi curta; pouco pôde fallar com Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Sei que tem um jardim muito bonito, disse ella.
+Se algum dia lá passar, quero pedir a meu pae que m'o
+deixe vêr.</p>
+
+<p>&mdash;Muita honra... e com o maior prazer. Mas nada
+tenho notavel; só uma collecção de rosas que não é
+má. N'este tempo, porém, póde dizer-se que não há
+rosas.</p>
+
+<p>Ficava confundido com a lembrança de Laura.
+Que mysteriosos instinctos a attraiam á sua casa e
+ás suas flores, ás cousas que elle tanto amava. Ah!
+Se Emilia o soubesse... Tremia.</p>
+
+<p>D'aquella visita voltava quasi doente, sobresaltado,
+um vaguear permanente, os olhos cavados, o
+corpo quebrado, com todos os symptomas physicos
+da paixão.</p>
+
+<p>A fadiga era extrema; com ella veio um somno
+profundo de que despertou n'uma tranquillidade que
+ha muito desconhecia.</p>
+
+<p>O que fôra? Que se passára? Porque tantas inquietações?</p>
+
+<p>A indifferença vencia. Voltaria aos braços de Emilia
+mais firme do que nunca nos seus propositos de
+eterno amor.</p>
+
+<p>Para que abandonal-a? Não era o dever que o instigava,
+não; era o egoismo, o desejo d'uma vida repousada,
+uma sêde de carinhos e de affectos.</p>
+
+<p>Ingratidão! Tão cedo esquecia o que Emilia era
+para elle...</p>
+
+<p>Voltasse aos seus livros, ao estudo e ás suas occupações
+habituaes, resignado com o destino. A felicidade
+dependia unicamente d'elle; era conformar-se
+com a natural expiação do seu erro, sacrificando
+humildemente ao bem alheio os seus sonhos de ventura.</p>
+<span class="pagenum">[144]</span>
+
+<p>Virtude e saber, tudo era orgulho; a humildade a
+sabedoria suprema. Fôra o que sua mãe lhe ensinára
+e era o que o coração n'aquelle momento lhe repetia.</p>
+
+<p>Da incerteza em que então começou a viver ficou
+testemunho no «diario» a que Claudio confiava
+as suas penas, n'um isolamento e n'uma clausura
+que as aggravavam. D'ahi tiramos os seguintes fragmentos:</p>
+
+<br>
+
+<p><i>7 d'agosto.</i> Tranquillidade, abandono. Entregue ao
+tempo e ao acaso, vejo correr os dias n'uma resignada
+desesperança. N'esta calma perpassa a imagem
+Laura e ouve-se por vezes uma dorida voz de anciedade.
+A vida é mais alguma cousa do que esta apathia
+na dôr, a vida é a pratica do bem. Até a minha
+serenidade é crime!... Não! enganei-me. As bençãos
+da resignação não desceram ao meu peito, vivo
+na tristeza das cousas desejadas e inaccessiveis. Sinto
+uma prostração das luctas vãs, não chegou ainda a
+hora da conformidade.</p>
+
+<p><i>16 d'agosto.</i> Scismo. A intensidade da aspiração
+instiga-me a romper com o passado. As fézes d'um
+amor illegitimo toldam-me a alma até ao azedume.
+Que direitos tem Emilia sobre mim? É cumplice
+d'um mesmo crime? Seja pois victima do mesmo
+resgate.</p>
+
+<p><i>17 d'agosto.</i> Esta tarde fui surprehendido pela visita
+dos Albuquerques. Vinham de passeiar, disseram,
+e desceram para vêr o meu jardim. Laura veio
+tambem. Perceberia o velho o que me passava pelo
+espirito? Desconfio. Apressa-se a não perder o ensejo
+de remendar a sua fortuna escalavrada. Nos primeiros
+instantes, esta lembrança de que era instrumento
+de especulação revoltou-me; depois, a presença de
+Laura tudo desvaneceu. A graça, a candura, a ingenuidade!
+<span class="pagenum">[145]</span>
+Só esse alento me restituiria a vida. Acompanhei-a
+colhendo flores para ella, recebeu-as com
+avidez, á partida não as quiz pousar na carruagem,
+guardou-as nas suas mãos carinhosamente. Ella tambem
+quererá prender a sua descuidada ventura á
+miseria da minha alma ensanguentada? Talvez...
+talvez a guie um mysterioso impulso de caridade!
+Sinto renascer a esperança.</p>
+
+<p>O Albuquerque pediu-me que fosse jantar com elle.
+Prometi-lhe que iria muito em breve.</p>
+
+<p><i>18 d'agosto.</i> Noite terrivel. Fui encontrar Emilia
+n'uma exaltação de loucura com a noticia da visita
+de Laura. Quando lhe annunciei que tinha promettido
+ir brevemente a casa do Albuquerque, respondeu-me
+com uma seccura brutal:</p>
+
+<p>&mdash;Vá, está livre, póde ligar-se a quem quizer.
+Nada me deve. Na minha desgraça não perdi a dignidade,
+fique sabendo! Os nossos amores terminaram
+hoje. Aborreceu-se. Era tempo... Sei muito
+bem o que me cumpre fazer; é voltar áquillo de que
+nunca deveria ter saido.</p>
+
+<p>Emudeci de surpreza perante aquella linguagem e
+aquella firmeza; a alegria de vêr terminadas as minhas
+hesitações e as minhas duvidas lança para
+longe todas as demais preoccupações. Livre emfim!...
+E sem lagrimas nem manchas de sangue,
+sem os espectros que me guardavam o somno. A
+vida é uma festa. Corramos ao prazer. Affasta quanto
+póde perturbar-te e aprende na miseria moral
+quanto vale a sã alegria do corpo repousado na satisfação
+dos seus apetites. Para traz, para traz todas
+as atribulações da consciencia; retempera-te no vigor
+d'um naturalismo ingenuo.</p>
+
+<p><i>19 d'agosto.</i> Voltei a casa de Emilia. Disse-lhe que
+queria saber quaes seriam em publico as nossas relações.</p>
+<span class="pagenum">[146]</span>
+
+<p>&mdash;Mas, evidentemente, da maior amizade, respondeu-me.
+Nem outra cousa se justifica. Não valia a
+pena ter o incommodo de vir aqui só para isso.</p>
+
+<p>Mentia; o que eu procurava era a confirmação das
+palavras do dia antecedente. Tudo acabou. Conversamos
+duas horas, com a animação que o contentamento
+intimo me dava, sem uma referencia d'amor,
+sem a mais leve tentativa de reconciliação. Quando
+parti, pareceu-me que os olhos se lhe humedeciam.
+Porque? Comprehendeu que a separação está consumada?
+Para sempre!</p>
+
+<p>Extincto todo o capricho sensual, só ligações moraes
+nos poderiam prender, e essas desvaneceram-se
+ao vêr por terra todas as illusões de emenda, de
+doçura, de resignação, que d'ella esperava para resgatar
+a nossa falta commum. Restaria a compaixão
+pela sua desventura e o receio de uma allucinação
+que, pondo-lhe termo á vida, aggravaria as minhas
+dores com o mais pesado remorso. Tudo isso passou!
+Eis-me livre e tranquillo.</p>
+
+<p><i>20 d'agosto.</i> Fui talvez cruel, abandonando Emilia
+á sua miseria. Se não fosse Laura, tel-o-ia feito? Cedi
+á virtude ou ao egoismo, a um novo apetite, ao cansaço
+do corpo saciado, ou ao arrependimento e ao
+proposito de emenda? Voltam as duvidas a rasgar-me
+o coração. Melancolia. Fraqueza. Toda a alegria se
+esvae.</p>
+
+<p>Oh! a volupia das lagrimas, o prazer de sentir o
+soffrimento dos que choram por nós! Talvez uma
+vága saudade...</p>
+
+<p><i>27 d'agosto.</i> Uma hora cruel, extrema angustia.
+Hoje recebi uma carta de Emilia, pedindo-me que
+fosse vêl-a á noite, na capella. Todo o dia fiquei
+na maior inquietação. Passeei de tarde procurando
+accalmar-me com a fadiga do corpo. A excitação
+crescia e foi na maior anciedade que ás dez horas
+cheguei á rua da Cruz.</p>
+<span class="pagenum">[147]</span>
+
+<p>Emilia fez-me sentar no velho confessionario e rojando-se
+na terra, a meus pés, suffocada pelas lagrimas,
+disse-me que me chamára porque já não podia
+soffrer mais; que sabia que eu ia partir para uma
+viagem longa, não podia crêr que tivesse acreditado
+o que n'um momento de ciume me tinha dito, tres
+annos de amôr em que tudo sacrificára por mim não
+podiam terminar com duas palavras de separação.
+N'isto, ergueu-se. Succumbido de terror, vi ressuscitar,
+deante de mim, banhada de luar, aquella pallidez
+e os olhos flamejantes em que um dia me abrazei
+ebrio d'amôr; e da humida escuridão da capella
+vieram aos meus ouvidos, como uma anathema,
+como a eterna excommunhão da paz e da virtude,
+lentamente, pausadamente, estas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me... diga-me... oiça bem!... se não
+posso contar mais com o seu amôr. Quero suicidar-me!</p>
+
+<p>Um sentimento de miseravel cobardia se apoderou
+de mim e menti, menti com firmeza, vilmente. Tudo
+era falso; nunca amára Laura, nunca pensára em
+casar-me, ia a Lisboa por breves dias para cuidar de
+cousas urgentes, o meu amor por ella não afrouxara
+um só momento, queria só castigal-a dos seus imerecidos
+ciumes. Convenceu-se e serenou. Beijei-a.
+Entre os meus labios e a sua face interpunha-se uma
+sombra que em vão procurei dissipar, a sombra da
+mentira. No fundo, bem o sei, não cessaram um instante
+as ambições de regeneração. Só o temor do
+suicidio me contém.</p>
+
+<p><i>30 d'agosto&mdash;Lisboa.</i> Vim até aqui calcando as
+supplicas mais compungentes que podem sair d'um
+coração humano. Se ouvisse sómente a compaixão
+e a piedade, voltaria atraz... Não posso mais! Morro
+esmagado entre a fraqueza e o desejo. Revolta-se o
+orgulho e ergue-me um impulso de rectidão. Rectidão
+ou crueldade? Commetti um crime e para resgatal-o
+<span class="pagenum">[148]</span>
+tenho de arriscar uma vida. Deverei permanecer
+na vergonha ou ensaguentar a virtude? Vae, não
+receies, diz-me uma voz occulta.</p>
+
+<p>As lagrimas de Emilia são uma fraqueza, o apêgo
+aos beneficios do seu crime. Não seria a tua compaixão
+uma fraqueza tambem?</p>
+
+<p>Cuidado! Pensa bem. Não é talvez a virtude que te
+guia, é a crueldade; não é o amor do bem, é a paixão
+por Laura.</p>
+
+<p><i>31 de agosto.</i> Esta manhã encontrei F... que me
+fallou dos Albuquerques. Conhece Laura, viveu muito
+com ella. É encantadora de singeleza e de bondade,
+disse-me. Passei o dia no maior contentamento.
+Todas as esperanças renascem, vibrantes de vigor.
+Esqueci que ao longe uma mulher afflicta, semi-doida,
+bebe o calice da minha culpa. Nem as lagrimas,
+nem a deshonra alheia, nem a consciencia do
+proprio aviltamento podem perturbar-me a alegria.</p>
+
+<p>Serão assim os outros homens?... Será a
+virtude um acaso e a miseria moral a lei comum?</p>
+
+<p><i>2 de setembro. Lisboa.</i> Tristeza, desalento. Impossivel
+conservar-me aqui, tenho de voltar a Albergaria.
+O que me espera? Vou luctar? Cederei abdicando
+para sempre da paz da consciencia e da felicidade
+na virtude em proveito dos caprichos e da fraqueza
+de Emilia? Hora maldita a da tentação! Tudo na minha
+vida é incerto, só o soffrimento me resta por
+companheiro. Abraça a tua cruz, é a cruz do teu
+erro!</p>
+
+<p><i>4 de setembro.</i> Voltei a casa de Emilia. Encontrei-a
+fatigada, abatida, mas ao ver-me, o rosto illuminou-se-lhe
+d'uma candida alegria. Julgava-me restituido
+ao seu amor. Quando, tentando novamente desprender-me,
+lhe declarei que só para a tranquillisar lhe
+tinha dito que nunca julguei terminado o nosso amor
+<span class="pagenum">[149]</span>
+mas que, na verdade, o tinha acreditado e estivera
+em risco de tomar compromissos com Laura, não
+teve uma palavra de resposta. Silenciosa, muda de
+espanto, na paralysia da dor, só lagrimas se moveram
+na face immovel e queda. O que se passou dentro
+em mim, não o sei; uma compaixão profunda,
+angustiada, e, mais alto do que ella, o bramar
+da consciencia e a tortura do dever. Que me resta?
+Confessar a verdade inteira, pedir o seu perdão
+e separar-nos. Deixal-a-hei pois na miseria e
+no abandono?... Nunca! Dorme, enxuga as lagrimas,
+dou-te a paz da minha consciencia e serei
+só a soffrer, soffrerei resignado, sem um lamento!</p>
+
+<br>
+
+<p>Desde esta hora, durante longos dias, todo o
+«diario» de Claudio revela uma incerteza e uma confusão
+infindas.</p>
+
+<p>O sentimento d'um dever a cumprir, a compaixão
+pela miseria de Emilia, a lembrança de Laura, cujo
+affecto sentia crescer, o cansaço d'uma vida inquieta
+e a ambição de tranquillidade, tudo o fazia
+oscillar constantemente entre os mais desencontrados
+propositos.</p>
+
+<p>Debalde o pensamento procurava guial-o; a energia
+e a vontade haviam naufragado nas ondas do
+seu coração.</p>
+
+<p>A vida arrastava-se penosamente, sem norte, sem
+rumo, desvairada, em meio de esperanças, desillusões
+e desalentos.</p>
+
+<br>
+
+<p><i>27 de novembro.</i> Um dia chuvoso, pesado, humido,
+escuro. Tres horas de leitura junto ao fogão, no
+doce goso de aprender e de pensar. Mas esta cella é
+vasia.</p>
+
+<p>Torturam-me ambições d'amor e de conforto moral.
+<span class="pagenum">[150]</span>
+Nunca o tive. A affeição illegitima que contradiz
+o dever, rasga e esphacela o coração sem o aquecer;
+é uma consumpção doentia.</p>
+
+<p>Quero o amor de Laura, o seu amor e não a sua
+piedade pelas minhas dores, quero um alento que
+me restitua á vida corajoso e são, não quero os
+balsamos com que se occulta a miseria de Lazaro.</p>
+
+<p><i>28 de novembro.</i> Não póde ser boa a caridade
+que alimenta o peccado. A minha compaixão pela
+sorte de Emilia é um novo erro. Coragem! Sê justo!</p>
+
+<p>Aproxima-se a noite, fria, escura, revolvida na
+sua treva por um vento inclemente. Succumbo; invade-me
+um suave desejo de morrer. A morte seria
+a paz, a libertação de todas as duvidas, de todas
+as hesitações, das interrogações da consciencia.
+Não!... Seria cobardia e vaidade: a cobardia de arrastar
+a minha cruz, a vaidade de ungir o meu
+cadaver com as lagrimas dos que me amaram.
+Devo viver. Quero resgatar pela virtude as offensas
+a Deus.</p>
+
+<p><i>28 de novembro.</i> A dissolução do passado torna-se
+um encargo em que só entra a razão implacavel e
+fria. Injustiça?... Não. A severidade é tambem um
+meio de ser caritativo; a minha complacencia com
+Emilia é uma falta d'amor.</p>
+
+<p><i>30 de novembro.</i> Um dia alegre, sorridente; a
+atmosphera quieta, a paysagem rutilante. Na minha
+alma, um esvoaçar de esperanças boas. Laura, Laura!...
+Toda a natureza me repete o seu nome.</p>
+
+<p><i>1 de dezembro</i>. F... veio vêr-me. É um antigo
+companheiro que se quedou no materialismo natulista.
+Durante duas horas, fallou-me de transformismo
+e de evolução, muito crente na sciencia. Emquanto
+o ouvia, erguiam-se na minha lembrança as
+illusões do passado e a tristeza caía mais pesada sobre
+o meu coração que sobre a terra as sombras da
+noite. Anciedade d'amor e de perdão. Podesse a tua
+<span class="pagenum">[151]</span>
+alma, Laura, sentir o palpitar d'esta vida dilacerada
+pela amargura e havia de protegel-a, abrigando-a na
+sua pureza!</p>
+
+<p><i>2 de dezembro.</i> Destino cruel! Quero terminar uma
+vida de mentira, mentindo áquella mesma que foi a
+minha amada. Degradação extrema. Quizera dizer
+aos que passam:&mdash;Fugi d'este ser impuro, cuspi-me
+na face e desprezai-me!</p>
+
+<p><i>14 de dezembro.</i> Emilia morreu no meu corarão;
+apenas o dever e a piedade me prendem. Sinto-o bem,
+vendo a meu lado permanentemente a imagem de
+Laura. Só por ella apeteço a vida. Egoismo, ambição
+de repartir com uma alma pura as agruras das minhas
+culpas? Talvez... Ai! Quanto a duvida me opprime!</p>
+
+<p><i>16 de dezembro.</i> Enganas-te. Não é remorso, é orgulho
+o que tu sentes; não é o amor da virtude, é o
+pejo de confessar a tua mesquinhez e fraqueza.
+Aprende a humilhar-te.</p>
+
+<p>Tempestade. O sybillar do vento desperta em mim
+sonhos de paz e de conforto domestico, as ambições
+do corpo dissipam as atribulações da alma.</p>
+
+<p><i>18 de dezembro.</i> Um immenso desgosto da vida,
+cansado de luctar em vão. A morte seria para mim
+a melhor esmola de Deus. E todavia aterra-me. Porque?
+Saudades de Laura, ambição do seu affecto.</p>
+
+<p>Chove. Gotejam mansamente as arvores e os beiraes,
+a noite vem descendo suave, humida e negra.
+Só o repouso da minha alma não vem; em vão o imploro
+da natureza propicia!</p>
+
+<p><i>20 de dezembro.</i> Indifferença, fadiga, reacção da
+intelligencia. Que te importa a miseria estranha, as
+lagrimas que espalhaste? Que te importa o passado?
+Orgulho imbecil! Vive a tua vida, conforme o teu
+destino, fabrica o teu mel ou o teu veneno, como a
+vibora nos brejos ou a abelha sobre a rosa. A natureza
+<span class="pagenum">[152]</span>
+não erra. Não tentes dominal-a. Vaidade das
+vaidades!</p>
+
+<p><i>31 de dezembro. Meia noite.</i> Atmosphera limpida
+e calma, o céu estrellado, nem a mais ligeira nuvem
+nem o estremecer d'uma folha. Interrogo os astros.
+Bom agouro? É a tranquillidade que o novo amor me
+traz?</p>
+
+<p><i>1 de janeiro.</i> Saí sósinho. Impressão de abandono,
+ao pensar nas alegrias do novo anno em volta do lar.
+Só minha pobre mãe me resta por companhia. Advinha
+talvez as minhas dores e roga a Deus que as affaste.
+Na praça encontrei um mendigo mal abrigado
+nos seus farrapos de burel. Serenamente, estendeu-me
+a mão, recebeu a esmola e seguiu o seu caminho.
+Ao longe, vejo a casa de minha irmã; no campo,
+descendo para o rio, os gados que meus sobrinhos
+guardam. O amor divino, o burel, o trabalho&mdash;suprema
+sabedoria! Por que estranha loucura os
+abandonaste, por que aberração voltaste a face á felicidade
+que tinhas deante dos teus olhos e te lançaste
+nas vagas da ambição e da vaidade?</p>
+
+<p><i>3 de janeiro.</i> Passei a manhã no jardim, cultivando
+as minhas flores. Alegria plena. Cantava, arrebatado
+no palpitar de energia que se desprendia á luz tépida
+e branda. Ao longe, distante, quasi perdido, um lugubre
+rebate de remorso, phantasmas da consciencia
+voando levados pelos balsamos a exalarem-se da
+terra que o sol beija e fecunda, castamente.</p>
+
+<br>
+
+<p>A crise terminava para Claudio n'uma inacção de
+impotencia; o ardor do sentimento e a intensidade
+da razão quebravam todas as energias da vontade.</p>
+
+<p>Os dias succediam-se eguaes na sua infinita inconstancia;
+a melancolia, o remorso, a indignação,
+a alegria, o desprendimento, confundiam-se obscuramente,
+ora no desejo de possuir o amor de Laura,
+<span class="pagenum">[153]</span>
+ora no temor do abandono de Emilia, ora n'uma viril
+resolução de emenda, ora finalmente n'um cansado
+scepticismo.</p>
+
+<p>Mas, anniquilado para toda a acção, entregára-se
+n'uma conformidade de desesperança ao seu triste
+destino.</p>
+
+<p>Virtude, felicidade, estudo, tudo se perdera! Nem
+sequer para ahi podia volver o pensamento que logo
+na memoria não surgissem lembranças crueis dos
+espinhos por onde deixára em pedaços todo o viço
+da sua mocidade.</p>
+
+<p>Uma unica imagem, uma unica, vogava nos destroços
+do naufragio, incolume, resplandecente, irradiando
+uma luz divina que penetrava a alma de beatitude,&mdash;sua
+mãe.</p>
+
+<p>Perante ella, todas as sombras se dissipavam; o
+tumulto da paixão convertia-se n'um culto singelo,
+purificador e ardente.</p>
+
+<p>Instinctivamente, habituava-se á irregularidade da
+sua vida. A consciencia parecia adormecer,&mdash;não se
+repele um drama interior,&mdash;e essa indifferença, quasi
+satisfeita, começava a conquistal-o. Habituara-se
+ao egoismo absorvente de Emilia e ao seu incorregivel
+ciume e habituara-se tambem á presença de
+Laura que sabia ser o fructo prohibido. Exteriormente,
+a sua vida era d'uma tranquillidade e d'uma
+satisfação completas; cuidava das suas terras, passeiava,
+vinha bastas vezes a Coimbra conversar com
+os amigos ou assistir aos espectaculos publicos, e até
+mesmo frequentava a capella da rua da Cruz, corajosamente,
+sem aquelle receio de que as suas visitas
+fossem sabidas, que em outro tempo tanto
+lhe pesava e que hoje punha á conta de preoccupação
+pueril.</p>
+
+<p>Pois podia alguem illudir-se sobre a natureza das
+suas relações com Emilia?! Era claro que todos as
+percebiam e advinhavam. Pasmava de que só agora
+<span class="pagenum">[154]</span>
+tivesse feito este raciocinio tão simples e tão seguro.</p>
+
+<p>Assim se consumiram cinco mezes, durante os
+quaes Claudio muitos dias visitou Emilia sem que
+em longas horas de palestra banal houvesse uma
+unica referencia ás luctas passadas. De longe em
+longe, o problema voltava á discussão, mas agora
+quasi friamente, á parte a ligeira irritação de Claudio,
+que provinha do sentimento da sua escravidão,
+e os fogosos impetos de Emilia que temia vêr fugir-lhe
+a preza.</p>
+
+<p>Claudio insistia sempre pela necessidade de pôrem
+termo a uma vida que os envergonhava; Emilia
+respondia-lhe com a obrigação em que elle estava
+de nunca a abandonar, obrigação que lhe custara, a
+ella, a perda da sua honra.</p>
+
+<p>Um dia, em fins de maio, Claudio recebeu o convite
+do filho do Albuquerque para jantar. Era no dia
+dos seus annos; festa intima para que só convidava
+Claudio, que dos velhos amigos da casa não fallava,
+eram sempre convidados.</p>
+
+<p>Claudio foi com conhecimento prévio de Emilia,
+que pouco se amedrontava já com estas visitas, convencida
+de que os amores por Laura não adeantavam.
+De resto, promettera-lhe que voltaria immediatamente,
+no fim do jantar, e ás onze horas estaria
+na capella.</p>
+
+<p>Debalde o esperou até á meia noite, hora a que,
+receiando a entrada de Ricardo, se deitara para soffrer
+uma noite de insonia, torturada de despeito e de
+ciume.</p>
+
+<p>Claudio ficára até tarde em Coimbra, bem certo do
+que na primeira entrevista o esperava, mas intimamente
+indifferente, n'esta indifferença que a frequencia
+dos arrebatamentos de Emilia e o seu indomavel
+egoismo tanto ajudára a crear.</p>
+
+<p>A noite estava tépida e serena. Depois do jantar,
+<span class="pagenum">[155]</span>
+todos os convivas sairam para o jardim e Claudio foi
+sentar-se no banco que dominava a varzea, ao lado
+de Laura, que para ali se tinha affastado pelo braço de
+uma prima sua hospede, vinda da Beira a Coimbra
+para dar lições de piano com uma mestra afamada.</p>
+
+<p>Conversaram da paizagem, das flores, dos apetites
+e prazeres de cada um, trocando entre si impressões
+e ideias que se lhes afiguravam da mais perfeita
+conformidade.</p>
+
+<p>Laura adorava a musica, dizia; estudára-a cinco
+annos em Lisboa, no collegio das irmãs de Santa
+Ignez, com uma senhora irlandeza, e continuara depois,
+tres annos, com um professor que vinha do
+Porto uma vez por semana, para a ensinar. Claudio
+admirava os primores de educação de Laura e tristemente
+se deixava levar em devaneios de ventura
+e em vagas esperanças d'um futuro feliz.</p>
+
+<p>Foi n'este scismar que voltou a Albergaria, tão
+magoado de saudade como enfadado de Emilia, que
+n'aquelle momento não representava nem um affecto
+nem um remorso; era apenas um estorvo.</p>
+
+<p>Estranhou que no dia seguinte Emilia não lhe
+mandasse o convencionado aviso para ir á capella.</p>
+
+<p>&mdash;Ou o marido saiu ou está desesperada com ciumes,
+pensava; seja como fôr, em boa hora!... Não
+sentia o menor desejo de a vêr, antecipadamente
+aborrecido das explicações que tinha de lhe
+dar.</p>
+
+<p>Não tardou porém a carta da amante. Dois dias
+depois da sua visita a Coimbra, exactamente áquella
+hora em que o silencio e a suavidade da noite mais
+lhe aggravavam a saudade dos doces momentos em
+ouvira a voz de Laura confundindo-a n'uma só delicia
+com as caricias d'uma atmosphera impregnada
+d'uma subtil sensualidade, encaminhava-se vagarosamente
+para a rua da Cruz.</p>
+<span class="pagenum">[156]</span>
+
+<p>Emilia estendeu-lhe seccamente a mão e foi sentar-se
+affastada, no degrau do altar-mór.</p>
+
+<p>&mdash;Então como estás, perguntou elle, ao fim d'uma
+ligeira pausa, tentando tomar-lhe a mão que ella distraidamente
+retirou.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, tenho passado muito bem.</p>
+
+<p>&mdash;Antehontem não pude vir porque o jantar acabou
+tarde, o Albuquerque instou comigo para me
+demorar e pareceu-me que não seria muito delicado...</p>
+
+<p>&mdash;Fez muito bem, como é proprio da sua educação.
+Nem eu mesmo o esperava.</p>
+
+<p>&mdash;Estás a dizer isso maliciosamente, e não tens
+razão. Pódes crêr que fiquei muito contrariado. Deus
+sabe o que me custou!</p>
+
+<p>&mdash;Imagino! disse ella então levantando-se e dando
+largas á sua colera. Que impostor!...</p>
+
+<p>&mdash;Não sejas injusta comigo. Magôas-me tanto...
+Se adivinhasses o mal que me fazes...</p>
+
+<p>&mdash;Muito grande! Deve soffrer muito, calculo
+bem!</p>
+
+<p>&mdash;Talvez mais do que julgas...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! sim, acredito. Tem pressa de se casar e
+quer vêr-se livre d'este trapo velho. Pois case-se!...
+Quanto mais cedo, melhor!... O meu desejo é que
+fosse já amanhã, para me vingar... para lhe vêr coberta
+essa cabeça de cornos como a mãe d'ella fez
+ao pae!</p>
+
+<p>Claudio ergueu-se raivoso; os punhos cerrados,
+o olhar dardejante, os labios e as narinas palpitantes
+de frenesi, cresceu para Emilia.</p>
+
+<p>&mdash;Veja o que faz! disse ella recuando e acobardando-se.</p>
+
+<p>Um lampejo da propria indignidade, como um relampago,
+lhe illuminou o espirito; n'um salto, transpôz
+a capella, lançou a mão á porta e saiu.</p>
+
+<p>&mdash;Canalha!... ouviu ainda.</p>
+<span class="pagenum">[157]</span>
+
+<p>E começou a fugir atravez dos campos sobre que
+poisava, quietamente, bafejando-os, o véu de humida
+gaze que se desprendia dos regatos.</p>
+
+<p>O amor, offendido no insulto a Laura, vencera onde
+a razão e a consciencia tinham sossobrado, debatendo-se
+passivamente no remorso e na duvida.</p>
+<span class="pagenum">[159]</span>
+
+
+
+
+<h1>V</h1>
+
+
+<p>D. Pedro Menezes de Tavora Abreu e Albuquerque
+era todo o nome com que nos
+actos solemnes se assignava o fidalgo que
+vivia em Coimbra, na estrada da Beira, e
+cujas relações Claudio frequentava.</p>
+
+<p>Senhor de grandes propriedades e muitos
+bens no valle de Lafões, onde era conhecido
+pelo morgado de Cercosa, reunira
+nas suas mãos, por successivas heranças
+dos seus antepassados, uma das maiores
+fortunas territoriaes que por aquellas regiões
+se conheciam.</p>
+
+<p>Em Coimbra tinha menos; mas fazia ahi maior
+assistencia porque o palacio era bello e rico, e a
+vasta quinta que o rodeava, com grandes insuas a
+morrer no rio, um ninho de frescura entre o arvoredo
+magestoso.</p>
+
+<p>Demais, tinha a convivencia de muitos lentes da
+Universidade que, tirados de condição humilde, se
+curvavam reverentes perante a nobreza, felizes de
+se acercarem d'ella.</p>
+<span class="pagenum">[160]</span>
+
+<p>Tratavam-n'o por sr. D. Pedro d'Albuquerque, e
+elle queria mais a este tratamento, que aos seus
+olhos indicava funda e genuina fidalguia, do que ao
+de sr. fidalgo ou sr. morgado que em Lafões usualmente
+lhe davam.</p>
+
+<p>Fidalgos e morgados havia muitos; que usassem o
+titulo de Dom eram raros. De portas a dentro, em
+Coimbra, esse tratamento era de obrigação e indicado
+aos creados, logo que entravam em casa.</p>
+
+<p>Uma vez que Claudio singelamente perguntára pelo
+sr. José d'Albuquerque, o filho do fidalgo, o creado
+apressou-se a corrigir:</p>
+
+<p>&mdash;O sr. D. José está a almoçar.</p>
+
+<p>D. Pedro nascera em 1825. Muito cedo, aos cinco
+annos, ficára sem o pae que tinha morrido d'uma
+catarrhal, apanhada andando á caça em Cercosa, segundo
+lhe diziam. Ficára entregue aos cuidados da
+mãe e d'um tio, filho segundo, irmão do pae, que
+em vida d'este tomára a seu cargo os cavallos e os
+cães de caça, e de nada mais se occupava. Na verdade,
+póde dizer-se que ficára unicamente entregue aos
+cuidados da mãe, senhora fidalga de origem, de maneiras
+e de costumes, caridosa e boa, mas com excessivo
+affêrro ao estreito formalismo da gente da
+sua egualha.</p>
+
+<p>Um dos motivos por que ella, á morte do marido,
+se apressára a tomar nas suas mãos toda a administração
+da casa, fôra o temor de que o seu governo
+caisse sob as ordens do cunhado.</p>
+
+<p>Temia-o e evitava-o, não por ciumes de dominio
+mas porque receiava a influencia d'elle, grosseiro e
+rude, sempre em gracejos com as raparigas do campo;
+queria affastar o filho d'essa má escola, queria,
+no seu pensar, fazer d'elle um legitimo fidalgo, de
+modos nobres e nobres sentimentos, como convinha
+á gente fina. Por isso fazia valer os seus direitos de
+<span class="pagenum">[161]</span>
+mãe e tutora, para que ninguem podesse com auctoridade
+interpôr-se entre ella e o filho.</p>
+
+<p>D. Pedro passou a mocidade, ora em Cercosa, ora
+em Coimbra, sempre acompanhado por um padre que
+a custo lhe ensinou a lêr e a escrever, porque o discipulo
+era, além de pouco intelligente, remisso na
+applicação e no estudo.</p>
+
+<p>&mdash;Esperto, esperto! dizia o padre á morgada. Mas
+muito distraido... O que elle quer é brincar, está
+sempre com o sentido no que lá vae fóra.</p>
+
+<p>Por seu lado, a mãe toda se esmerava em educar
+os modos do filho. Até aos dezaseis annos, em Coimbra,
+nunca o deixou sair que não fosse seguido
+por um creado, para não se perder em más companhias;
+tinha-o sempre a seu lado na egreja e em
+todas as suas devoções, corrigindo o mais pequeno
+gesto descompassado, se o filho se benzia com excessiva
+rapidez, se ajoelhava ou se levantava estouvadamente,
+se deixava de se curvar com reverente
+moderação e suavidade ao erguer a Deus.</p>
+
+<p>Na sala, os seus cuidados eram extremos e as lições
+completas; mandava-o entrar e sair, sentar-se,
+cumprimentar, despedir-se, indicando d'uma maneira
+precisa as palavras, as attitudes, os logares e as
+distancias que convinham a cada momento. No dia
+em que pela primeira vez viu o filho descendo a escada
+com uma dama pelo braço, a acompanhal-a á
+carruagem, lento, pausado, com toda a nobreza de
+movimentos que lhe vinha do seu corpo moço e robusto,
+teve um fremito de alegria e de triumpho. A
+sua obra estava consumada. Que fidalguia! Que gentileza!</p>
+
+<p>Com intimo pezar e grande receio, era necessario
+entregar o morgado ao tio para as lições de equitação.
+Tão má companhia... Mas d'essa penosa impressão
+cobráva allivio quando, ao entrar no palacio,
+<span class="pagenum">[162]</span>
+o tio que em casa era sempre tratado pelo sr. D.
+Joãosinho, vinha dizer-lhe enthusiasmado:</p>
+
+<p>&mdash;O rapaz dá um cavalleiro! É atrevido e firme.
+Hoje na Calçada era tudo a olhar para elle. Trazia o
+<i>Corisco</i> numa dobadoira.</p>
+
+<p>D. Pedro aproveitára as lições; exteriormente estava
+tal qual ella o desejára. Interiormente, porém,
+o caracter era o do tio e as preoccupações dominantes,
+absorventes, os cavallos e as mulheres. Muito
+novo ainda, não saia de ao pé das creadas que continuamente
+inquietava, perseguindo-as e apalpando-as.</p>
+
+<p>&mdash;Menino! Isso não se faz! Olhe que eu digo á senhora!...
+Que tal está o fedelho?... Eram as vozes
+que a cada instante corriam na cosinha e na casa
+de trabalho, por toda a parte em que elle se encontrava
+com as creadas.</p>
+
+<p>Aos creados, com quem ás vezes vinha conversar
+ás occultas da mãe, dizia sempre que havia de ter
+um cavallo grande, hespanhol, como o que vira na
+serra, aos Malafaias, de Serrazes, e uma boa mulher,
+com boa perna.</p>
+
+<p>&mdash;Isto ha-de ser bom!... commentavam os creados.
+Temos outro como o sr. D. Joãosinho! Cão de caça
+quer-se de raça!</p>
+
+<p>A mãe julgava-o uma vestal, e já elle ia longe nas
+suas aventuras, tendo começado pela mulher do jardineiro
+e proseguindo com uma costureira habitual
+da casa, quando ella, por conselho do padre, começou
+a dar ao filho liberdade de dispôr de si, do que
+elle usou com a largueza que os seus instinctos exigiam.</p>
+
+<p>A elegancia do novo morgado, que a mãe procurava,
+quasi unicamente, na sua educação, combinada
+com o fogo d'um temperamento sanguineo, deu em
+resultado o amor do luxo alliado a uma vida de continuadas
+<span class="pagenum">[163]</span>
+festas, caçadas, conquistas amorosas e
+jogo.</p>
+
+<p>Ás muitas despezas que provinham da lauta vida
+provinciana, juntaram-se em breve alguns mezes de
+inverno passados em Lisboa onde D. Pedro Albuquerque
+acabára por estabelecer residencia que lhe permittisse
+frequentar a capital com as commodidades
+de que era tão cubiçoso. A abertura das linhas ferreas
+deu o ultimo impulso a esta ruina. A cada passo
+estava a caminho de Lisboa, para assistir ao baile
+do conde de X..., para ouvir uma cantora em S.
+Carlos, ou mesmo, mais simplesmente, para se vestir
+no Keil, que a esse tempo era o alfaiate dos janotas;
+e, inversamente, a cada passo estava acarretando
+de Lisboa para Coimbra moveis de mau gosto que
+vinha misturar ás solidas mobilias de pau santo,
+herdadas de seus avós, roliços estofos armados em
+casquinha que um estofador francez, chamado Gardé,
+lhe vendia por bom preço, farrapos d'algodão arrendados
+que vinham substituir os sumptuosos cortinados
+de damasco de seda vermelha.</p>
+
+<p>Tambem trouxe um cosinheiro que, á força de
+<i>consommés</i>, <i>foie gras</i>, <i>galantines</i>, <i>mayonnaises</i> e outras
+preparações que muito confundiam e intrigavam
+os velhos fidalgos beirões que se sentavam á meza
+do morgado de Cercosa, veiu banir para a frugalidade
+dos banquetes da burguezia prospera o succulento
+pato com arroz, o cosido bem adubado com carnes
+de porco e a famosa vitella de Lafões.</p>
+
+<p>Foi á meza do Albuquerque que primeiro, em
+Coimbra, se viram gordos espargos, comprados em
+Lisboa, n'uma salchicharia franceza; houve lentes
+da Universidade que, sentindo com vexame faltar-lhes
+o seu profundo saber para usar tão exoticos petiscos,
+deixavam de os comer por hesitarem na forma
+de se servirem.</p>
+
+<p>O Albuquerque, que lhes percebia o embaraço mas
+<span class="pagenum">[164]</span>
+que por cortezia não queria dizer-lhes francamente
+como se comiam espargos, fallava alto, rolando-os
+no molho com a mão e chamando para si a attenção,
+a dar o exemplo.</p>
+
+<p>Mas apezar d'isso passaram-se mezes sem que
+os bisonhos convivas acceitassem os novos manjares.
+Os mais ousados, os que primeiro entraram
+na communhão dos usos estrangeiros, vinham depois
+para a Via latina gabar aos collegas menos elegantes
+a cosinha franceza, os espargos e as <i>galantines</i>,
+pondo um particular deleite em ostentar o conhecimento
+d'essas cousas finas perante a gente rustica
+que as ignorava.</p>
+
+<p>Entretanto, a administração dos bens andava por
+mãos de feitores e procuradores que todos enriqueciam
+e serviam a contento, se tinham a habilidade
+de arranjar dinheiro sempre que de Lisboa ou de
+Coimbra o Albuquerque o pedisse, o que bastas vezes
+fazia.</p>
+
+<p>A velha morgada, a mãe de D. Pedro, julgava ter
+cumprido a sua missão no mundo fazendo do filho
+um homem religioso, que ia á missa aos domingos e
+dias santificados e se confessava todos os annos, de
+casaca e gravata preta, e um fidalgo pela distincção
+com que se havia n'uma sala e na presença das damas.</p>
+
+<p>A sua grande preoccupação era a manilha e os
+parceiros de todas as noutes, no salão do palacio da
+estrada da Beira onde ella invariavelmente se encontrava
+no mesmo logar, distribuido mesuras e palavras
+doces aos que entravam, perguntando-lhes com o seu
+finissimo tacto pelas cousas que os interessavam, a
+este pela saude dos filhos, áquelle pelo andamento
+dos trabalhos na Universidade, e áquel'outro pelas
+colheitas das propriedades que possuia nos campos
+do Mondego e a que amiudadamente se referia, para
+dar mostras de riqueza.</p>
+<span class="pagenum">[165]</span>
+
+<p>Quando essa senhora falleceu, cerca de 1865, a
+casa do Albuquerque estava na realidade escalavrada.
+Em Lisboa tecera uma rede de lettras passadas a
+amigos e a agiotas que lhe tinham valido em apuros
+de dinheiro, os bens de Cercosa já estavam hypothecados
+á misericordia de Vizeu, e um negociante da
+Praça Velha, em Coimbra, com quem se adeantára
+em contas, sabendo que as dividas cresciam, instava
+por uma hypotheca das melhores insuas. Nem ao
+certo se sabia a quanto montavam as dividas porque
+nunca se tinha pago um real de juros a ninguem,
+havia contractos feitos em condições leoninas e,
+quando se chegasse á liquidação, era de esperar
+que a somma se elevasse a uma quantia fabulosa.</p>
+
+<p>O tio do Albuquerque, que os annos e a gotta tinham
+privado do regabofe que fôra toda a sua vida, com o
+grosseiro bom senso que acompanhou a sua existencia
+descuidada via o estado da casa. Chamou o sobrinho,
+procurando convencel-o da conveniencia de
+se salvar pelo meio simples que lhe ia propôr.</p>
+
+<p>Era preciso casar-se, dizia-lhe; a mãe tinha fallecido,
+faltava áquella casa uma senhora que lhe désse
+o tradicional resplendor; elle, D. Pedro, estava com
+quarenta annos e era necessario que tivesse um
+herdeiro. Demais, accrescentava, em continuação do
+exordio que invocava os brios fidalgos, as dividas
+tinham crescido e se encontrasse uma noiva com
+um dote bom...</p>
+
+<p>A estas palavras, o sobrinho que se tinha conservado
+silencioso e indifferente, de perna cruzada,
+limpando pachorrentamente as unhas com um canivete,
+ergueu a cabeça ante-gozando boa maré de dinheiro
+e recrudescencia de prazeres.</p>
+
+<p>&mdash;Pois depende só de ti! apressou-se o tio a concluir
+aproveitando a impressão favoravel. Tua prima
+Maria Francisca...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! diabo! Mas ella em tempo não tinha tido
+<span class="pagenum">[166]</span>
+umas historias com um Mendonça, capitão de engenharia?</p>
+
+<p>&mdash;Não, quem sabe lá d'essas cousas?! Fallaram
+um pouco, mas isso passou. Raparigas tem sempre
+os seus namoriscos...</p>
+
+<p>&mdash;Em todo o caso...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-te de piéguices; vamos ao que importa...
+Tua prima está agora com os seus trinta annos,&mdash;e
+é uma mulher toda perfeitaça!&mdash;o pae não póde ir
+longe porque já deve ter passado os oitenta, e tu
+bem sabes o que ali está... um poço sem fundo! O
+Ornellas, do Pragal, disse-me, a ultima vez que estive
+com elle, que só em ouro o velho devia ter para
+cima de cem contos de réis.</p>
+
+<p>O sobrinho não pôz mais objecções, fizesse o tio
+como quizesse. Foi para Lisboa, a gastar por conta
+das suas novas esperanças e das heranças futuras, e
+o tio partiu para Vizeu. Em quinze dias, estava tratado
+o casamento de D. Pedro.</p>
+
+<p>Esta menina, Maria Francisca de Menezes Noronha
+e Mello, tinha em Vizeu uma historia muito sabida
+e commentada.</p>
+
+<p>Era uma mulher alta, morena, d'olhos negros,
+dentes perfeitos e longos cabellos d'azeviche, filha
+d'um fidalgo, avarento e sórdido, e d'uma creada que
+elle tivera.</p>
+
+<p>A creada fallecera quando a pequenita tinha cinco
+annos; e o velho, que tudo consentia menos que lhe
+pedissem dinheiro, deixou crescer a filha ao Deus
+dará, entre creados grosseiros que nem na sua presença
+se guardavam de toda a casta de brinquedos e
+gracejos maliciosos.</p>
+
+<p>Demais, sendo filha natural, só muito tarde os parentes
+consentiram em a receber. Ficou por isso
+sem a minima educação nem de intelligencia e sentimentos
+nem de delicadas exterioridades.</p>
+
+<p>Apesar d'isso, como era bonita e rica, não lhe
+<span class="pagenum">[167]</span>
+faltavam casamentos que todos se goravam, uns pela
+opposição do pae, que ella desde creança se habituára
+a temer pelo seu genio irrascivel, outros por capricho
+da rapariga que não olhava a fortunas nem fidalguias
+e pretendia marido que lhe satisfizesse os
+sentidos.</p>
+
+<p>Entre os pretendentes, contava-se um capitão de
+engenheiros, homem alentado e grande, de grandes
+bigodes atrevidamente levantados, jogador e conquistador
+famoso.</p>
+
+<p>Diziam que D. Maria Francisca tivera por elle profunda
+paixão e nada poupára para lh'a demonstrar,
+compromettendo o seu bom nome em longas entrevistas
+nocturnas que se tornaram sabidas na cidade.</p>
+
+<p>Mas nem por isso o casamento se realisára, porque
+o pae d'ella se oppunha e o capitão, desde que não
+presentia probabilidades de dote, preferia não crear
+obrigações e lançar mais esta á conta das aventuras
+de que tinha já larguissimo ról. A rapariga chorou,
+desgostou-se, e em breve, por despeito e desespero,
+tinha novo namoro.</p>
+
+<p>A proposta do tio, offerecendo-lhe o casamento
+com D. Pedro, vinha encontral-a na mais favoravel
+disposição de espirito. Perdida a esperança de casar
+a seu contento, mórmente depois dos infelizes amores
+com o capitão, estava com trinta annos. Que lhe
+restava?</p>
+
+<p>Ao menos, casando, seria senhora da sua casa e
+gosaria uma liberdade e independencia que muito
+apetecia. Acceitava.</p>
+
+<p>O pae acceitava tambem. Suppunha que o sobrinho
+estava ainda rico, não lhe pediria dote, morava
+longe e não o incommodaria. Era até uma economia!
+A lembrança de que ia ter menos um encargo, menos
+uma pessoa a sustentar e a vestir, trazia-o contente.</p>
+<span class="pagenum">[168]</span>
+
+<p>Verdade seja que era necessario dar-lhe alguma
+coisa... Parecia mal! Mas tinha as joias que herdára
+da irmã, algumas pratas, peças de panno de linho,
+colchas de damasco... Emfim, veria. Dinheiro
+é que não!</p>
+
+<p>O Albuquerque recebeu em Lisboa a noticia de
+que o casamento estava ajustado, o que só pela certeza
+d'uma nova fortuna a desbaratar o commovia.
+Comprou ricos presentes para a noiva, depois de
+conseguir do agiota da Praça Velha um novo emprestimo
+para o qual hypothecou as insuas, fazendo-se
+então largas contas de todos os atrazados que d'esta
+vez ficaram garantidos. Veio immediatamente a Vizeu
+prestar homenagem, que era de bom estylo, á
+futura esposa, a qual de resto conhecia muito de perto
+dos bailes e festas beirôas onde costumava encontral-a
+e onde uns leves pruridos de conquista tinham
+creado já entre os dois uma certa intimidade.</p>
+
+<p>Depois recolheu a Coimbra para presidir a uma
+ligeira reparação do seu sumptuoso palacio, que foi
+rapida, e sem mais delongas se realisou o casamento.</p>
+
+<p>Passados os primeiros e curtissimos tempos em
+que o Albuquerque julgou de bom gosto acompanhar
+a mulher em visitas e apresental-a aos seus velhos
+amigos n'um riquissimo baile, como tradicionalmente
+eram os da sua casa, voltou ao seu antigo viver,
+jogo, mulheres e bastas visitas a Lisboa. Entregava
+a administração da casa á esposa para melhor
+conquistar a sua generosidade e simultaneamente se
+desonerar de enfadonhos encargos.</p>
+
+<p>Ella, em quem dominavam os instinctos plebeus
+e uma insaciavel sede de mandar, exultava com tão
+subida investidura.</p>
+
+<p>Não se casára com outro fim; a liberdade compensava-a
+de todas as magoas presentes e passadas,
+<span class="pagenum">[169]</span>
+incluindo a indifferença do marido que tratava respeitosamente
+mas que no intimo considerava como
+um simples e pouco incommodo tributo imposto á
+sua independencia.</p>
+
+<p>Quando o velho pae de D. Maria Francisca morreu,
+o Albuquerque veio com ella a Vizeu; mas ao
+fim de poucos dias, já tristemente convencido de
+que a fortuna a herdar ficava muito áquem do que
+lhe tinham annunciado, deixou-se ganhar pelas saudades
+dos seus prazeres habituaes e apressou-se a
+voltar a Coimbra onde agora tinha uma amante, rapariga
+do povo, travessa e maliciosa, muito cubiçada
+dos estudantes, e que possuia o condão de
+despertar em D. Pedro os mais insoffridos ciumes.</p>
+
+<p>A D. Maria Francisca ficava o cuidado de liquidar
+a herança, o que realisou com uma ganancia e uma
+crueldade que recordavam bem a ascendencia paterna.</p>
+
+<p>Foi então que ella contractou um procurador e
+administrador, que havia de a acompanhar a Coimbra
+e ficar sob as suas ordens, para a coadjuvar
+n'aquella missão de morgada e senhora rica que aos
+seus olhos significava uma corôa real.</p>
+
+<p>O procurador era um padre, novo, de vinte e cinco
+annos, lindo, d'olhos azues e cabellos louros, occultando
+sob uma apparencia de doçura e placidez um
+coração apaixonado e ardente.</p>
+
+<p>Em breve D. Maria Francisca o presentiu e, n'uma
+inflammada avidez de luxuria, entregou-se sem reservas
+a um amor que realisava a melhor fortuna da
+sua vida.</p>
+
+<p>A humildade do padre, casada com um vigor juvenil,
+dava-lhe uma impressão de plenitude em que o
+contentamento do espirito coroava os regalos do
+corpo satisfeito.</p>
+
+<p>Pelo seu lado, o padre correspondia impetuosamente
+<span class="pagenum">[170]</span>
+a esse amor, concentrando todos os seus esforços
+em affastar de Coimbra D. Pedro para mais
+tranquillamente possuir a amante.</p>
+
+<p>&mdash;Vá v. ex.<sup>a</sup> para Lisboa, dizia ao morgado; não
+se prenda com os negocios da casa. Estão a meu
+cuidado; não vim aqui para outra cousa. É a minha
+obrigação.</p>
+
+<p>O Albuquerque partia e, depois de estar em Lisboa,
+o padre fazia de modo que o dinheiro nunca lhe
+faltasse para que não se tentasse a voltar a casa. O
+fidalgo escrevia ao procurador, reconhecido por tanto
+trabalho e affecto; aos seus amigos não cessava
+de o elogiar, como um modelo de dedicação, associando-lhe
+sempre o nome da mulher cujo zelo
+pelos bens e pelas commodidades do marido, dizia
+este, a obrigava a viver quasi sempre no meio
+d'aquellas inhospitas serras de Cercosa, mal servida
+por uma velha creada que trouxera de casa de seu
+pae.</p>
+
+<p>Porque era Cercosa a habitação preferida dos
+amantes. As visitas, os serões com os lentes e mais
+frequentadores do palacio da estrada da Beira, a
+creadagem basta, tudo isso perturbava em Coimbra
+as horas d'amor, e tudo isso desapparecia no silencio
+do solar de Cercosa protegido pela discrição da
+creada que já em Vizeu fôra confidente de D. Maria
+Francisca.</p>
+
+<p>Do casamento de D. Pedro nasceram, com largos
+intervallos, tres filhos; Leonor, José e Laura. Até
+aos nove annos foram educados com os velhos creados
+da casa, no abandono proprio das circumstancias
+em que se encontravam; a mãe a todo o momento
+estava em jornada com o capellão para Cercosa,
+o pae fugia para Lisboa sempre que se via
+com algum dinheiro e, quando estava em Coimbra
+ou na Beira, passava o tempo em caçadas, visitas e
+recepções, folgando continuamente, como um rapaz,
+<span class="pagenum">[171]</span>
+ora em sua casa ou nas festas visinhas, que retribuia
+com largueza. D'este modo, os filhos tornavam-se
+um estorvo, quer aos amores da fidalga, quer aos
+prazeres do morgado.</p>
+
+<p>Era preciso remover esse embaraço. Sobre isso
+conversaram amigavelmente os paes, que de resto
+sempre viviam em paz e harmonia, n'uma indifferença
+intima e exteriormente na mais estremada
+cortezia.</p>
+
+<p>Queriam para os filhos uma educação primorosa,
+diziam, como aquella que elles mesmos tinham tido,
+queriam-n'os, principalmente, educados na religião
+christã.</p>
+
+<p>Por isso resolveram mandar as filhas para o recolhimento
+das irmãs de Santa Ignez, estabelecidas em
+Lisboa, umas freiras irlandezas que a marqueza de
+Fermelã, piedosa senhora que lá ia todos os dias
+ouvir missa, lhes tinha elogiado como um modelo
+de bons costumes e fina educação.</p>
+
+<p>Durante muitos annos, no 1.<sup>o</sup> d'outubro, D. Pedro
+era certo á porta do recolhimento, que ficava
+para os lados do Campo d'Ourique, a principio só
+com Leonor, mais tarde, quando Laura chegou aos
+nove annos, com as duas filhas.</p>
+
+<p>Ele, pelo seu natural descuido e por certo pendor
+para a bondade, que facilmente o levariam a ceder
+aos rogos das filhas, consentiria em alongar as ferias;
+mas a mãe que vivia contrariadissima com a
+sua presença, por causa do capellão, punha todos os
+seus esforços em que os regulamentos collegiaes fossem
+cumpridos a rigor. Era um bom costume, dizia
+ao marido sempre que o sentia propenso a qualquer
+concessão.</p>
+
+<p>No collegio elogiavam a pontualidade das meninas
+Albuquerques; apontavam-na como exemplo aos mais
+remissos. Aquelles sim, aquelles educavam conforme
+as boas regras d'outros tempos! Os filhos lh'o
+<span class="pagenum">[172]</span>
+saberiam agradecer mais tarde. Não eram como a
+gente de Lisboa que estragava as creanças com mimo.</p>
+
+<p>Com o rapaz não se podia fazer outro tanto; o pae
+não consentia. Queria-o educado em liberdade, para
+que fosse um homem; o collegio tornal-o-ia maricas.</p>
+
+<p>O melhor seria um professor que viesse a casa
+dar-lhe lições até ao exame de instrucção primaria,
+depois havia de frequentar o lyceu para se habituar
+a tratar com os outros rapazes e por fim formar-se-ia
+em direito na Universidade.</p>
+
+<p>D. Maria Francisca acceitou e applaudiu o programma.
+Tinha pensado em que a solução era boa;
+durante o tempo lectivo o filho estava preso em Coimbra,
+deixando-lhe por conseguinte a liberdade de
+gozar a sua querida tranquillidade de Cercosa, as ferias
+do natal e da paschoa eram breves, e dos mezes
+de agosto e setembro não tinha a preoccupar-se que
+esses estavam d'antemão prejudicados pela presença
+das filhas.</p>
+
+<p>D'esta arte tudo se harmonisou, a contento dos
+regalos dos paes, até que chegaram os desoito annos
+de Leonor, a filha mais velha. Era necessario trazel-a
+para casa, apresental-a, para que se mostrasse
+em toda a sua belleza, que era grande, e tomasse os
+habitos mundanos que consideravam parte integrante,
+e a mais essencial, da sua educação. E assim se
+fez.</p>
+
+<p>No collegio, Leonor aprendera o cathecismo; só
+por isso sabia mais doutrina christã que toda a aldeia
+de Cercosa e arredores. Aprendera tambem a bordar
+a ouro, em branco e a torçal, copiava desenhos a lapis
+e a carvão, sabia francez e inglez muito bem,
+escrevia regularmente o portuguez, e ao piano tivera
+o primeiro premio, um livrinho de estampas, encadernado
+em papel côr de rosa com lettras douradas.</p>
+<span class="pagenum">[173]</span>
+
+<p>Ouvira e repetia que a caridade era a primeira
+das virtudes, o que a obrigava a não bater nas companheiras
+e não as accusar das suas faltas, sem embargo
+do intimo prazer que sentia ao reconhecer a
+sua superioridade e ao vêr-se louvada pelas suas
+mestras como a primeira. Sabia que era uma obra
+de misericordia dar agasalho aos nus, de beber a
+quem tem sede e de comer a quem tem fome, mas
+sem exercer essas virtudes ou mesmo sentil-as interiormente;
+porque no collegio não havia miserias
+nem mendigos, todos comiam á mesma meza, que
+era abundante, e dormiam em leitos macios, quentes
+e aceiados.</p>
+
+<p>Verdadeiras obrigações n'esta vida eram o modo
+de dobrar a roupa ao deitar, a maneira de pegar no
+garfo e na faca, o modo de fechar o piano, sem precipitação,
+e as lições que deviam ser bem decoradas.
+Feito isto, o elogio das mestras era certo; os
+premios publicamente distribuidos no fim do anno
+a confirmação plena de todas as satisfações da vaidade.</p>
+
+<p>Saindo do collegio, a transformação era facil; tinha
+apenas a substituir vaidade por vaidade, os cuidados
+escolares pelas preoccupações do vestuario, os
+louvores dos superiores pelo elogio da sua belleza
+feito nos requebros e galanteios.</p>
+
+<p>As instigações do instincto, auxiliadas pelos conselhos
+da mãe, não tardaram a operar rapidamente
+a mutação; dois annos depois de sair do collegio,
+com pratica d'alguns salões da capital, de S. Carlos
+e da Figueira da Foz, Leonor tinha feita a sua reputação
+de bondade, de formosura e boa educação.</p>
+
+<p>A mãe, astuta, nunca perdendo da lembrança o
+padre, anceiando pelos tempos de tranquillidade que
+com elle passava em Cercosa, espreitava o ensejo de
+casar a filha. O destino breve lhe deparou boa fortuna.
+<span class="pagenum">[174]</span>
+A victima foi o filho d'um brazileiro do Minho,
+novo e riquissimo, que do Porto veiu á Figueira ostentar
+as suas carruagens e os seus anneis e procurava
+afidalgar-se pelo casamento.</p>
+
+<p>Exultou quando o viu seguir a filha. Era a felicidade
+para ella e talvez para toda a familia, porque o
+rapaz decerto ia pagar as dividas da casa do Albuquerque
+que dia a dia se afundava vertiginosamente.
+Teve uma certa difficuldade em convencer Leonor,
+que soffria d'ambições de fidalguia, mas o
+amor do luxo tentou-a e o casamento realisou-se.</p>
+
+<p>D. Maria Francisca podia voltar mais livremente a
+Cercosa, até que Laura deixasse o collegio. Leonor
+tinha do marido tudo quanto queria e elle se julgava
+obrigado a conceder á nobreza e ao lustre que ella
+trazia ao plebeu.</p>
+
+<p>Só os calculos de resgate das dividas se desfariam
+em desillusões, porque o brazileiro, rehavendo
+para isso toda a energia d'um bom burguez, defendia-se
+tenazmente.</p>
+
+<p>Não queria saber dos negocios dos outros, tinha
+os seus capitaes muito bem collocados e não podia
+tocar-lhes.</p>
+
+<p>Á sr.<sup>a</sup> D. Leonor, como respeitosamente a tratava,
+nada faltaria, nem mesmo o titulo de condessa
+da Maia que um deputado lhe promettera e as vastissimas
+propriedades, que n'aquelles logares possuia,
+justificavam.</p>
+
+<p>José d'Albuquerque completamente convertêra em
+desenganos as esperanças dos paes. Por um capricho
+de hereditariedade, carecia absolutamente das
+qualidades que caracterisavam o temperamento dos
+paes, a vivacidade, o amor do luxo e dos prazeres.</p>
+
+<p>Era um philosopho, diziam. Levára arrastadamente
+os seu estudos, não por falta de intelligencia,
+que realmente possuia grande reflexão e bom senso,
+<span class="pagenum">[175]</span>
+mas por incuria e aversão ao que os mestres lhe ensinavam.</p>
+
+<p>A cada momento deixava os livros da aula, para
+se entregar á leitura das velhas chronicas que ha
+muito jaziam abandonadas no seu palacio e tinham
+pertencido a um seu remoto ascendente que fôra
+conego da sé de Coimbra.</p>
+
+<p>Finda a formatura na Universidade, começou a
+passar dias inteiros entre a livraria e o jardim, com
+a paixão d'um alfarrabista. Os seus unicos jogos
+eram os livros e as flores.</p>
+
+<p>Recusava todos os casamentos <i>vantajosos</i> que
+tentavam fazer-lhe com fidalgas e parentes da Beira;
+na sua indolencia, tão avêsso ao jogo, aos cavallos
+e a mulheres, que constituiam os regalos tradicionaes
+da sua casa, como indifferente á administração
+dos bens, tornára-se, com grande desgosto de D. Pedro,
+a negação do morgado que elle phantasiára continuando
+o regabofe da familia.</p>
+
+<p>D'aqui, nem D. Pedro nem a mulher esperavam
+cousa alguma, tanto mais que o filho, além das
+qualidades de espirito que tão accentuadamente manifestára,
+era d'uma teimosia invencivel, mansa, calada,
+mas infinitamente resistente. Na parcimonia,
+no desprendimento do luxo, e até mesmo no poder
+de intelligencia, fazia lembrar o avô materno, tendo
+pelos livros a soffrega cubiça que o outro tinha pelo
+dinheiro.</p>
+
+<p>Talvez por isso, por lhe recordar o pae, senão
+mesmo pela propria contradicção de caracteres, a
+mãe adorava-o; só por elle consentia em fazer
+qualquer sacrificio dos amores do padre. A mansidão
+captivava o seu genio ardente; onde quer que a
+encontrasse, acariciava-a.</p>
+
+<p>Como ultima esperança de salvar a casa, restava
+Laura. O casamento de Leonor só para ella trouxera
+riqueza, e de José todo o pensamento de especulação
+<span class="pagenum">[176]</span>
+se tinha affastado, graças á sua doce e energica resistencia.</p>
+
+<p>Laura tinha uma educação perfeitamente egual á
+da irmã. Ao tempo em que a conhecemos, contava
+vinte e quatro annos de edade e havia seis que deixára
+o collegio, continuando em casa com lições de
+piano e de pintura cujos resultados se exibiam frequentemente
+nos seus magnificos salões, como tentação
+aos noivos ricos que infelizmente não vinham.</p>
+
+<p>A fama de ruina da casa de D. Pedro era larga e
+fundada, vivia n'uma teia infinda de embaraços;
+todos fugiam de ligar o seu nome e a sua existencia
+aos vexames e vergonhas de que os Albuquerques
+estavam permanentemente ameaçados.</p>
+
+<p>Entretanto, não faltavam a Laura carinhos de educação
+nem vestidos elegantes. Devia-se aos mestres
+e á modestia, de quem periodicamente se recebiam
+cartas agridoces instando pelo pagamento,
+mas uma derradeira esperança concentrava na pobre
+rapariga todos os desvelos e para a fazer brilhar
+não havia hesitações.</p>
+
+<p>Tal era muito em breve a historia e a situação da
+familia a que Claudio pensava em unir-se, buscando
+paz á sua alma n'uma vida de dignidade, de trabalho,
+de elevação e de grandeza moral.</p>
+
+<p>Tambem, pelo seu lado, D. Pedro e a mulher o
+cubiçavam. Instigados pela mesma ambição, tacitamente
+reunidos num mesmo pensamento de interesse,
+viam ha muito em Claudio um genro que lhes
+convinha. Suppunham muito elevada a sua fortuna;
+sempre que de Albergaria vinha alguem aos seus
+jantares, não perdiam occasião de se informarem.</p>
+
+<p>&mdash;É muito bom rapaz, todos lhe diziam, e deve
+estar muito bem. Além do que elle comprou ao fidalgo,
+tem muito dinheiro; calculam-lhe para mais de
+cem contos que herdou do tio. Elle diz que não, que
+<span class="pagenum">[177]</span>
+apenas recebeu de lá uns quarenta contos, mas é
+claro que essas cousas nunca se confessam.</p>
+
+<p>Ao jantar e na palestra que precedia as partidas
+de <i>whist</i>, emquanto o creado punha sobre a meza as
+marcas e os baralhos de cartas, collocando aos cantos
+os castiçaes de prata e os cinzeiros, o velho fidalgo,
+no sofá encarnado, perna cruzada, a pôr em evidencia
+o seu pé pequenino que toda a Beira galante conhecia,
+não cessava de elogiar o amigo do seu José.</p>
+
+<p>&mdash;Uma joia de rapaz! exclamava. E de boa familia...</p>
+
+<p>O seu enthusiasmo ia ao ponto de imaginar fidalguias
+para o seu futuro genro. Não sabia ao certo... mas
+pelo nome era indubitavelmente descendente
+d'uns Souzas, muito nobres, ainda parentes do duque
+d'Aveiro, que viviam em Albergaria quando foi
+da invasão franceza.</p>
+
+<p>Os francezes queimaram-lhes o palacio; elles, desgostosos
+com isso, nunca mais lá voltaram, foram
+morar para umas herdades que possuiam no Alemtejo
+e mais tarde venderam tudo o que tinham no
+norte.</p>
+
+<p>Depois, mesmo o nome de Portugal indicava alguma
+cousa. Em Semide conhecia uma familia com
+aquelle appellido, parente dos condes de Montemór
+que, como se sabe, eram da mais antiga nobreza do
+reino.</p>
+
+<p>No fundo, o velho Albuquerque sentia uma ligeira
+contrariedade ao pensar no casamento da filha com
+Claudio. Tentando convencer os outros, procurava
+ao mesmo tempo desvanecer as sombras que lhe
+empannavam o espirito. Claudio não era, infelizmente,
+fidalgo; só por triste necessidade de ruina o acceitaria
+para marido de Laura.</p>
+
+<p>Não tardaria que isso succedesse, porque, emquanto
+os Albuquerques se davam a este novo sonho
+<span class="pagenum">[178]</span>
+de riqueza, Claudio resolvia definitivamente a
+sua situação.</p>
+
+<p>Na madrugada que se seguiu áquella noite tormentosa
+em que como doido deixára para sempre a
+capella da rua da Cruz, ainda no ardor da febre em
+que a anciedade o consumia, Claudio encontrava casualmente
+sobre a mesa um livro de Paulo Bourget,
+<i>L'Irreparable</i>. Leu e sentiu um subito despertar. Accordava,
+tinha encontrado a chave do enigma da sua
+existencia, a resolução de todas as duvidas. Recuperava
+o animo, n'esta esperança que d'antemão se
+lhe afigurava uma realidade.</p>
+
+<p>Sim, comprehendia agora o que tinha a fazer, o
+que ha muito podéra ter feito, se a fraqueza o não tivesse
+vencido.</p>
+
+<p>Era necessario, urgente, que por um acto de energia
+creasse entre elle e Emilia uma situação irreparavel
+em que lhe fosse impossivel voltar atraz; e
+essa situação não podia ser outra senão o ajuste immediato
+do seu casamento com Laura.</p>
+
+<p>Com Laura?!... Se ella o acceitasse!... Tremia, recordava
+as palavras de sympathia que tinha ouvido
+da sua bocca e, recordando-as, moderava as apprehensões
+que lhe provinham do confronto da sua
+humildade plebeia com a nobreza dos Albuquerques.</p>
+
+<p>Fosse como fosse, a hora era de acção; estava
+resolvido a lançar para longe esta cruz d'uma eterna
+hesitação.</p>
+
+<p>Ia escrever a Jorge pedindo-lhe que viesse a
+Coimbra fazer aos Albuquerques o pedido da filha.
+Elle mesmo, n'aquelle dia, iria ver Laura e,
+confessando-lhe o seu amor, propôr-lhe-ia o casamento.
+Se ella recusasse, telegrapharia a Jorge para
+que elle suspendesse a jornada e partiria para o estrangeiro
+a refazer-se de todas as dôres no repouso
+e nos prazeres.</p>
+<span class="pagenum">[179]</span>
+
+<p>De Emilia não cuidava. Fizesse o que quizesse,
+não se julgava responsavel da loucura que a accomettera
+e em que ella pretendia, com um egoismo
+cruel, reduzil-o a propriedade sua, calcando todas
+as attribulações da sua consciencia e cuspindo palavras
+de escarneo e desprezo sobre aquillo que elle
+amava. Era de mais! A taça trasbordava.</p>
+
+<p>Sentou-se e escreveu:</p>
+
+<br>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 2em;"><i>«Meu querido Jorge:</i></p>
+
+<p>Esta carta será para ti uma surpreza e espero
+que, conjunctamente, um motivo de alegria. Vae surprehender-te
+o pedido que venho fazer-te, a ti que
+me suppunhas talvez cahido na impenitencia final, e
+ha-de por certo alegrar-te saberes que, embora tarde
+e o coração rasgado pela dôr e pelo remorso, vou
+tentar uma nova vida de honestidade e de trabalho,
+procurando resgatar nos annos que porventura tenha
+deante de mim, os erros que foram o amargo fructo
+de toda a minha mocidade.</p>
+
+<p>Depois que estiveste aqui na primavera passada,
+nunca mais te fallei dos tormentos com que tenho
+vivido em continuada mortificação; julguei por um
+lado excessiva fraqueza da minha parte e, por outro,
+profanação da paz risonha do teu lar ir inquietar-te
+com lamentos que nunca deveria soltar porque eram
+unicamente a minha culpa, minha grande culpa. Mas
+a triste verdade é que ha um anno vivo n'uma constante
+lucta, procurando fazer penetrar no coração de
+Emilia a luz de Deus que nos devia guiar, a ella
+e a mim, no caminho da emenda e salvação.</p>
+
+<p>Todos os meus esforços foram vãos; todos se partiram
+e desfizeram d'encontro a um egoismo sem limites
+em que, invocando o meu amôr, procurou
+prender-me por todos os modos, com rogos e ameaças,
+já invocando os meus loucos protestos de fidelidade
+<span class="pagenum">[180]</span>
+perpetua, já soccorrendo-se das obrigações que
+me attribuia por ter manchado a sua honra e destruido
+a sua reputação.</p>
+
+<p>Não pódes calcular, meu querido Jorge, a sinceridade
+e instancia com que luctei, chamando-a ao dever,
+em nome dos filhos, da religião, da consciencia
+e do proprio amor que me jurava e de que implorava
+um acto de resignação e desprendimento, restituindo-me
+a tranquillidade d'alma sem a qual me
+julgo indigno da vida.</p>
+
+<p>Tudo foi em vão! A cegueira do peccado vendava-lhe
+todos os sentidos e não tive meio de a levantar
+d'esse abysmo de tenebroso erro em que, por infelicidade
+sua e minha, ambos nos precipitamos n'um
+momento de desvairada tentação.</p>
+
+<p>Chegou porém a hora de pôr termo á miseria e
+vergonha em que me tenho arrastado.</p>
+
+<p>Hontem, louca de ciumes, insultou-me e insultou
+pessoas a que muito quero em termos que nunca julguei
+ouvir da sua bocca e que até mesmo ignorava
+que ella conhecesse, fazendo-me passar talvez a hora
+mais indigna da minha vida. Fugi, para não a esmagar
+n'um impeto de raiva, e agora estou no firme
+proposito de estabelecer entre mim e ella qualquer cousa
+irreperavel que d'uma vez para sempre nos livre
+de consentir em prolongar, por mais um só dia que
+seja, os nossos amores.</p>
+
+<p>Ah! meu Jorge, tu nunca saberás que fortuna significa
+uma consciencia imaculada nem poderás imaginar
+o que são as penas do remorso! Como um Lazaro,
+coberto de ulceras e das mais fundamente gangrenadas,
+só peço a Deus que me proteja e conduza
+no seu infinito amor. Todas as dores do corpo, todas
+as enfermidades serão para mim melhores que o castigo
+das minhas culpas nas accusações da consciencia.</p>
+
+<p>Vou tentar libertar-me d'esses phantasmas sem
+<span class="pagenum">[181]</span>
+piedade que me perseguem e aterram, reunindo n'um
+só esforço todas as energias da razão e da vontade
+que ainda possa encontrar nos miserandos restos
+d'um corpo exausto e d'uma alma repassada de soffrimento.
+Quero casar-me.</p>
+
+<p>Conheceste como eu as irmãs do nosso bom amigo
+José d'Albuquerque; é mesmo provavel que mais
+do que eu as tenhas encontrado na sociedade que
+frequentas em Lisboa. A mais velha, a Leonor, casou
+no Porto com um rapaz muito rico; a Laura está ainda
+solteira e é no seu nome e na sua imagem angelica
+que estão hoje todas as minhas esperanças.</p>
+
+<p>Não me julgues apaixonado; vão longe esses tempos
+e devaneios, posto que a sua formosura e os seus
+dotes bem os justificassem. Procuro realisar um casamento
+longamente reflectido e meditado, á fria luz
+da razão.</p>
+
+<p>Hoje, o meu pensar transformou-se. Ha poucos
+annos a vida era para mim uma festa pagã em que
+a livre expansão de todas as forças animaes significava
+a felicidade suprema; mas a experiencia e a
+dôr ensinaram-me que concorrentemente ha leis moraes,
+derivadas de inspiração interior, a que não se
+póde impunemente faltar. Por as ter desconhecido e
+prostergado, passei pelas mortificações que só agora
+espero affastar.</p>
+
+<p>Não que a vida mystica me tente ou desconheça o
+que devo ao corpo. Pelo contrario, vejo e comprehendo
+as suas imperiosas necessidades. Mas quero
+que a existencia humana, para ser bella e nobre, se
+traduza n'um equilibrio das inspirações divinas e das
+aspirações terrenas, na harmonia da luz da consciencia
+dominando e regulando o tumultuar das paixões
+mortaes.</p>
+
+<p>Não contesto as leis da vida organica e tudo o
+que a sciencia me ensinou; pretendo apenas que,
+conjunctamente e superiormente, existem leis divinas,
+<span class="pagenum">[182]</span>
+um impulso interior que nos domina e ordena
+a pratica do bem.</p>
+
+<p>N'estas condições, dada a conclusão definitiva a
+que cheguei sobre o que a vida deva ser, pódes comprehender
+a que motivos obedeci inclinando-me a
+casar n'uma familia nobre. Laura trará ao meu casal
+a candura, a ingenuidade, a educação profundamente
+religiosa que recebeu e os encantos da vida aristocratica,
+no melhor sentido da palavra, os delicados
+instinctos artisticos que são a coroa da vida mundana
+e a cercam d'um puro deleite; eu levarei com
+o meu sangue plebeu os habitos de trabalho que
+são o brazão da gente humilde e o fundamento da
+dignidade.</p>
+
+<p>E assim viveremos na modestia que convém á
+exiguidade das minhas riquezas, na caridade que
+será para nós o premio divino, o melhor dos bens, e
+no estudo e na arte que elevam o espirito e nos arrebatam
+n'uma aurora infinda onde o sol se eleva sempre,
+espargindo serenidade e luz e jámais se afunda
+derramando a treva.</p>
+
+<p>Quizera dizer-te todo o programma de vida que
+em longos mezes de inquietação pude determinar na
+anciedade de paz e de virtude; quizera dizer-te como
+espero resgatar estes tristes annos de loucura e de
+erro.</p>
+
+<p>Mas, alem de que te escrevo extenuado pela fadiga
+d'uma noite tempestuosa que me deixou o espirito
+em desordem, a esperança de te vêr dentro em
+pouco convida-me a ser breve. Porque o que desejo
+pedir-te, e é o fim principal d'esta carta, é que sem
+perda de tempo venhas vêr-me para me ajudares
+com o teu conselho e a tua amisade e para regulares
+a minha situação com Laura e os Albuquerques,
+conforme as boas regras de cortezia em que
+és perito e de cujos preceitos me não reputo sabedor.</p>
+<span class="pagenum">[183]</span>
+
+<p>Seja qual fôr o teu juizo e opinião sobre as duvidas
+que me trazem perturbado, a tua presença será
+para mim, estou bem certo, um grande bem. Nem
+tu pódes calcular que allivio foi esta curta confissão!
+Sinto-me agora bem, parecem-me distantes as sombras
+afflictivas da noite; enche-me o coração a esperança
+e a paz. Meu Deus! Protegei-me no caminho
+da virtude e fazei que jámais d'elle torne a desviar-me!</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 5em;">Do teu</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 4em;"><i>Claudio</i>.»</p>
+
+<br>
+
+<p>N'essa mesma manhã, Claudio, levado ainda na
+impaciencia que o fizera escrever a Jorge, pediu á
+mãe, no fim do almoço, que viesse fallar-lhe ao seu
+gabinete e ambos se encaminharam para lá.</p>
+
+<p>A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos
+negros, a brilhar na face rugosa toucada de cabellos
+brancos, esperou um instante que o filho começasse.
+Claudio, tremulo e pallido, não sabia o que dizer;
+sentia sobre si o peso e o terror d'um grande crime
+a confessar perante o tribunal supremo. Foi á janella,
+voltou, dirigiu-se á mesa de trabalho, pegou
+n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente,
+e n'estes movimentos inconscientes e desconnexos
+dava pasto á sua agitação sem poder articular
+uma palavra.</p>
+
+<p>Queria confessar á mãe toda a sua vida e pedir-lhe
+perdão das suas culpas. Seria o primeiro passo
+para a regeneração e para a virtude.</p>
+
+<p>&mdash;Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha
+a perguntar, vendo o silencio do filho e
+começando a sentir certo mysterio n'esta longa
+pausa.</p>
+
+<div class="centrado"><img src="images/004.jpg" alt="&mdash;Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha a perguntar"></div>
+
+<p>&mdash;Eu queria, minha mãe... queria dizer-lhe...
+<span class="pagenum">[184]</span>
+que, se fosse da sua vontade... se fosse da sua
+vontade... já lhe tenho dado tantos desgostos...</p>
+
+<p>&mdash;Que tens tu? disse ella levantando-se ao vêr a
+angustia do filho. Senta-te, senta-te aqui, tu não estás
+bem.</p>
+
+<p>Claudio sentou se e proseguiu, olhando vagamente,
+sem se atrever a fitar a mãe:</p>
+
+<p>&mdash;Queria dizer-lhe que, se fosse da sua vontade,
+talvez me casasse...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Claudio! respondeu ella abraçando-o. Deus
+Nosso Senhor ouviu as minhas orações...</p>
+
+<p>E, nos braços um do outro, afogaram em lagrimas
+e soluços a agonia, dissipando-a. A confissão que havia
+de ser longa, encerrara-se n'estas rapidas palavras;
+o coração sentira o que os labios não souberam
+dizer.</p>
+
+<p>Não tardou a resposta de Jorge.</p>
+
+<p>«O casamento e a mortalha no ceu se talha», começava
+elle. Esse é que era o preceito antigo e authentico
+sobre casamentos. Que se deixasse Claudio
+de theorias que já uma vez lhe tinham provado mal
+e que agora mesmo não podiam prometter-lhe cousa
+alguma.</p>
+
+<p>Que tinha feito muito bem em acabar com os amores
+de Emilia, se o inquietavam, e que tambem lhe
+não dizia que deixasse de casar com Laura, se gostava
+d'ella; mas que ficasse bem certo que nem o
+primeiro caso era motivo para os exaggerados remorsos
+de que se deixára possuir nem devia pôr no
+casamento tão extraordinarias esperanças que o futuro
+não as podesse satisfazer. Conhecia muito bem
+o Albuquerque pae, que a cada passo encontrava em
+Lisboa; era um dissipador, mas um cavalheiro, excellente
+homem.</p>
+
+<p>Não conhecia egualmente a mulher que quasi nunca
+vinha a Lisboa, mas ouvira que era uma senhora
+<span class="pagenum">[185]</span>
+de muito tino e que toda se dedicára á administração
+da casa.</p>
+
+<p>Quanto á rapariga, nada lhe diria senão que era
+muito bonita, porque ninguem sabe o que está dentro
+do coração d'uma menina que ainda não conheceu
+nem póde conhecer o que seja a vida do casamento
+com todos os seus trabalhos e obrigações. O
+tempo lhe diria a sua sorte.</p>
+
+<p>Ia partir immediatamente para Albergaria; guardava
+para a sombra dos platanos, que tanto apreciava,
+a discussão de todos esses pontos que a Claudio
+pareciam tão obscuros e que para elle eram tão limpidos
+como agua da fonte.</p>
+
+<p>Em poucos dias tinha ajustado o casamento de
+Claudio com Laura. Restavam só os cuidados de ordem
+material, o enxoval da noiva e a installação da
+casa, para o que se calculou que quatro mezes seriam
+bastantes.</p>
+
+<p>Claudio deixava o palacio de Albergaria, ia viver
+em Coimbra. A mãe voltava a Villalva, separando-se
+do filho com a mágoa e a resignação que era
+propria da doçura do seu caracter mas ao mesmo
+tempo contente por ir acabar onde vivera a sua melhor
+vida, dando largas aos habitos de simplicidade,
+ao genio laborioso e á caridade constante. O filho
+promettia ir vel-a todas as semanas.</p>
+
+<p>A casa escolhida pelos noivos era na estrada da
+Beira, a pequena distancia do palacio dos Albuquerques.
+Sobre uma elevação, recolhida no meio d'uma
+pequena quinta que descia em largos taboleiros vicejantes
+de jardins, de hortas e de pomares, dominava
+todo o valle, triste nas tintas sombrias do
+olivedo que o cobria. Em frente, atravez uma pequena garganta,
+entre duas collinas, as aguas do rio e os salgueiros
+mimosos, balouçando-se, lançavam um brando
+alento de movimento e frescura sobre a morna
+placidez do valle. Aqui e além, erguiam-se os choupos,
+<span class="pagenum">[186]</span>
+corajosamente, brandindo ao vento as tenues
+folhas.</p>
+
+<p>Á festa da natureza quiz Claudio associar os primores
+da arte; aos moveis do palacio de Albergaria
+juntou o <i>bric-à-brac</i> que Jorge lhe enviou de Lisboa.</p>
+
+<p>Elle mesmo veio ajudal-o a dispôr quadros e louças,
+tapeçarias e bronzes, cogitando artificios para
+dar relevo á belleza dos objectos.</p>
+
+<p>O ninho era tentador para a mais delicada sensualidade;
+o proprio Albuquerque, que na frequencia da
+gente fina adquirira auctoridade em materia d'armador,
+exclamava contente nos serões do seu palacio,
+entre os lentes que vinham tomar-lhe o chá:</p>
+
+<p>&mdash;A casa fica linda; o rapaz tem muito gosto!...</p>
+
+<p>Quando chegou a hora de se separar da mãe,
+Claudio sentiu pela primeira vez a apprehensão
+da inanidade de todo o esforço em que com tanto
+enthusiasmo e tão boas aspirações se empenhára.</p>
+
+<p>Onde ia? Para que tanto movimento? Que buscava?
+Que valia á sua vida a riqueza e o ninho que architectára
+n'esse valle que agora lhe parecia estranho?
+Sonhára uma companheira para a sua vida... Onde
+estava? Laura? Afigurava-se-lhe uma mulher alheia.
+Desconhecia-a.</p>
+
+<p>Varrido e abandonado já o palacio de Albergaria,
+n'essa pequena sala de Villalva, só com sua mãe,
+via em torno os montes escalvados, em baixo o estreito
+campo a que déra todos os seus cuidados, ao
+longe um retalho da varzea cortada pelo rio. Tarde
+de primavera, suavidade e silencio, só cortado pela
+voz guthural do lavrador que animava o jugo! Era a
+hora de jantar, a ultima refeição que teria em commum
+com sua mãe antes de partir para essa jornada
+mysteriosa, que tão ardentemente desejára e que
+agora quasi aborrecia.</p>
+<span class="pagenum">[187]</span>
+
+<p>Ia dormir a Coimbra, na sua nova casa.</p>
+
+<p>No dia seguinte, á uma hora da tarde, era o casamento.
+Dos seus amigos e dos seus parentes só Jorge
+o acompanharia; a mãe e a irmã não consentiram,
+por timidez e acanhamento, em deixar os seus
+campos. De resto, os Albuquerques, incluindo Laura,
+mal se referiram a essa falta, muito promptos em
+acceitar todas as escusas. Intimamente temiam que
+lhes viessem manchar a festa com a sua rudeza.</p>
+
+<p>Ao fim d'essa derradeira refeição, aproximou-se
+da mãe para a abraçar pela ultima vez antes
+de se casar. A lembrança de todo o passado que
+lhe enchia o peito trasbordou em largos soluços
+e lagrimas abundantes. Choraram unidos estreitamente,
+trocando um prolongado beijo, sem articular
+uma só palavra, n'uma supplica fervorosa e muda
+de felicidade em que se confundiam mágoas, esperanças
+e um infinito affecto. Depois, Claudio, abrindo
+os braços, com um gesto de resolução, deixou a
+mãe:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus!</p>
+
+<p>&mdash;Adeus!</p>
+
+<p>Foram as unicas palavras que em voz sumida se
+ouviram; e saiu descendo o caminho, sem olhar para
+traz, dirigindo-se á carruagem que o esperava em
+baixo.</p>
+
+<p>A meia encosta, veio juntar-se-lhe, correndo e
+querendo acompanhal-o, o cão de guarda da lavoura.</p>
+
+<p>&mdash;Chama-o, chama-o, disse Claudio para um creado
+que estava perto.</p>
+
+<p>&mdash;Leão, Leão, aqui! gritou o creado.</p>
+
+<p>O cão parou hesitante e contrafeito. Por fim obedeceu.</p>
+
+<p>Claudio seguiu, juntando, no coração opprimido,
+esta caricia ás fundas dores que o trespassavam.</p>
+
+<p>A este tempo, em casa dos Albuquerques, o movimento
+<span class="pagenum">[188]</span>
+e a confusão eram completos. Rolos de tapetes,
+vasos de flores, escadas, louças, creados em
+mangas de camisa, mulheres do campo transportando
+cestos com ramos de hera e de loureiro, um ininterrompido
+cruzar de vozes dando ordens e pedindo
+objectos, tudo redemoinhava em volta de D. Pedro
+que corria de salão para salão querendo dirigir toda
+a esmerada ornamentação do palacio.</p>
+
+<p>&mdash;Olha esse lustre!... Cuidado com as cortinas!...
+Esses vasos vem ou não vem?!... Então o tapete?...
+Assim... pela direita... está bem! mais acima!</p>
+
+<p>O tiroteio não cessava, tentando cada um desembaraçar-se
+da sua tarefa n'uma desordem activa e
+alegre.</p>
+
+<p>Ao cair da noite estava tudo completo; a casa
+guarnecida de verdura e de flores, coberto o chão de
+tapetes a amortecer todos os ruidos, as vellas postas
+profusamente nos candelabros e nas serpentinas
+para se accenderem no dia seguinte.</p>
+
+<p>Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca,
+pelas cadeiras, pelas camas e pelos sofás estendiam-se
+rendas, plumas, flores e vestidos fôfos e ondeantes.
+A um canto da janella uma costureira apertava a
+cintura d'uma saia de seda que se espraiava pelo
+chão sobre um lençol de linho e que a modista mandára
+larga, errando a medida.</p>
+
+<p>Para o casamento estavam convidados alguns parentes
+da Beira e uns fidalgos de Lisboa, companheiros
+de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas e
+nos clubs.</p>
+
+<p>Começavam agora a chegar em char-à-bancs, que
+os transportavam da estação do caminho de ferro, os
+da Beira com bahús de folha envernisada, mal fechados
+e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa
+com grandes malas de couros macios, afivelladas
+com ferragens brancas e polidas como prata.</p>
+
+<p>O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os
+<span class="pagenum">[189]</span>
+aos seus quartos e mostrando-lhes em seguida
+as salas mal illuminadas, para não desmanchar
+os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento
+os elogios.</p>
+
+<p>&mdash;Um palacio, uma palacio! Estás aqui como um
+principe!</p>
+
+<p>D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo
+e recebia-as nos seus aposentos.</p>
+
+<p>Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa
+tranquillidade, os hospedes de Lisboa acantonados
+nas mezas de <i>whist</i> e as senhoras no quarto de D.
+Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua
+natural curiosidade o enxoval e as prendas de Laura,
+discutindo, apreciando e fazendo comparações
+com outros casamentos nobres a que tinham assistido.</p>
+
+<p>&mdash;Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para
+Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria
+Francisca. Creio que ha-de saber estimal-a...
+E agora hão-de dar-me licença, que são horas de
+preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje;
+se lá não vou abaixo, os creados não fazem nada.
+Uns estupidos!...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das
+meninas recemchegadas.</p>
+
+<p>E seguia D. Maria Francisca para a sala de jantar.</p>
+
+<p>Claudio veio tambem, mas demorou-se pouco. Tinha
+umas ultimas cousas a regular na sua nova casa. Laura
+não procurou prendel-o, absorvida como estava pelos
+cuidados dos seus vestidos novos e de se mostrar
+bella e fidalga no dia que lhe diziam ser o maior da
+sua vida.</p>
+
+<p>O casamento foi á uma hora da tarde, na capella
+do palacio.</p>
+
+<p>Desde o meio dia havia um incessante rodar de
+<span class="pagenum">[190]</span>
+carruagens, que entravam o largo portão de ferro
+coroado pelo brazão dos Albuquerques e iam parar em
+frente dos degráus do palacio alcatifados e ladeados
+de vasos com hortensias.</p>
+
+<p>Os cocheiros, na almofada, voltavam-se para traz,
+recebiam ordem de regressar á noite, esperavam
+que o creado da casa, fardado de verde e branco,
+batesse a portinhola, e saiam dentro das suas librés
+de emprestimo, mal ajustadas, conduzindo os cavallos
+magros, cobertos de arreios baços, em que só
+brilhavam as ferragens amarellas, excepcionalmente
+polidas, para aquelle dia, tentando honrar os creditos
+da cocheira.</p>
+
+<p>Nas salas, as casacas negras e brunidas entre vestidos
+de seda, muitas rendas, algumas joias, e um
+rumor de vozes abafadas na timidez de indiscrição e
+no respeito da solemnidade. Só os convidados de
+Lisboa destacavam por fallarem alto, trazerem casacas
+usadas e macias, amoldando-se bem ao corpo,
+e sapatos com visiveis signaes de terem servido
+muitas vezes; passeavam e conversavam livremente
+com damas e cavalheiros, e os da terra olhavam-n'os
+estudando elegancia, confrontando-se com elles e
+procurando aprender aquella maneira tão facil de dar
+o nó na gravata que muito cubiçavam.</p>
+
+<p>O Albuquerque entrou sorridente, com Laura
+pelo braço; Claudio deu por sua vez o braço a D.
+Maria Francisca. Juntos os convidados aos pares,
+cada cavalheiro dando o braço á sua dama, poz-se o
+cortejo a caminho da capella, saindo a porta principal
+e atravessando pelo jardim. Na rua, o povo apinhava-se
+nas grades que vedavam a quinta, espreitando
+por entre as arvores.</p>
+
+<p>&mdash;Tão linda! Parece um anjo... exclamavam, confundindo
+em vágas remeniscencias a noiva e as
+creanças que viam nas procissões com grandes azas
+<span class="pagenum">[191]</span>
+de pennas brancas e vestidos estrellados de lantejoulas.</p>
+
+<p>A cerimonia na capella foi breve; dentro d'uma
+hora o cortejo regressava ao palacio. Houvera lagrimas
+ao verem os paes abraçar a filha, mas a missa
+em seguida ao casamento e os gracejos com que os
+mais alegres commentavam a situação tinham desvanecido
+essas sombras passageiras; quando sairam
+da capella, todos vinham risonhos.</p>
+
+<p>O <i>lunch</i> era ás tres horas; no breve intervallo que
+medeava entre o casamento e a refeição, os convidados
+dispersaram-se em grupos pelas salas e pelos
+jardins, n'aquella molleza que é caracteristica da gula
+esperando a hora de saciar-se.</p>
+
+<p>Geralmente discutia-se a grandeza e o viver dos
+Albuquerques. Os commentarios divergiam.</p>
+
+<p>Entre dois parentes de Vizeu sentados á sombra
+d'uma olaia, podia surprehender-se o seguinte dialogo:</p>
+
+<p>&mdash;É uma grande casa! Vê tu que riqueza ahi está
+e que gente aqui vem!</p>
+
+<p>&mdash;Já foi melhor. Deve muito.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa lá! Tem uma grande casa... Só em Cercosa
+recebe ainda para cima de cem moios de milho, fóra
+o trigo, o centeio, o vinho e o azeite.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... mas que importa isso? Á Misericordia
+deve perto de trinta contos e disse-me outro
+dia o Nunes, que é lá o cartorario, que tem mais de
+quatro annos de juro em atrazo e é uma cruz para
+lhe apanhar um vintem. Só quando estão ameaçados
+de qualquer penhora é que se mexem. Olha
+que ha mais de quarenta annos que este homem não
+faz senão gastar dinheiro!...</p>
+
+<p>&mdash;Mas a casa é muito grande, tem muitos recursos.
+Quanto não vale isto aqui? e os bens de Pombal?</p>
+
+<p>&mdash;Está tudo hypothecado ao Credito Predial e
+<span class="pagenum">[192]</span>
+quem lá vae é alma que caiu no inferno. Não se sae
+de lá mais. Lembra-te do que aconteceu ao marquez
+de Cannaes. Foi tudo! Ficaram sem nada!</p>
+
+<p>&mdash;Mas agora tem os genros para o ajudarem...</p>
+
+<p>&mdash;Só se fôr isso!... Este rapaz dizem que tem
+boa casa.</p>
+
+<p>Mais adeante, dois lentes de direito, passeiando
+de braço dado á beira do lago, commentavam differentemente,
+em tom malicioso.</p>
+
+<p>&mdash;Hein!? Que sorte! Dá cabo da fortuna dos paes,
+refresca com o casamento, arruina-se outra vez, e
+agora casa as filhas ricas.</p>
+
+<p>&mdash;Elle merece-o, que nos tem dado muito boas
+festas. Não ha ninguem para receber como este homem.
+Nasceu para isto!... Acabou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não podem ir longe... Já por ahi ha procurações
+para penhora, vindas de Lisboa, sem
+conta.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu admiro é como este rapaz aqui veiu
+cair. Foi meu condiscipulo e era o avêsso de todas
+estas cousas. Retraído, muito modesto...</p>
+
+<p>&mdash;Então?! Está rico, quiz afidalgar-se...</p>
+
+<p>&mdash;Não, não é este homem d'isso. Gostou da rapariga,
+os paes haviam de lh'a metter á cara, e caiu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois olhe que, se elle é como você diz, não me
+parece que vá lá muito bem. Esta gente gosta de
+gastar e de luxar.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não! A Laura é muito boa menina!</p>
+
+<p>&mdash;Boa!... Historias! As meninas são todas boas,
+mas, quando se habituam a viver á larga, não ha
+quem as ature. Isto de fidalgos é muito boa gente
+para gozarmos com elles; de portas a dentro o
+caso é outro.</p>
+
+<p>Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor,
+que tanto contrariava os seus habitos, e enfadado.
+As suas preoccupações andavam muito longe da alegria
+<span class="pagenum">[193]</span>
+em que a excitação das viandas e o calor dos vinhos
+lançavam os convidados.</p>
+
+<p>Ás nove horas da noite dançava-se e ria-se desprendida
+e folgadamente; toda a frieza solemne se
+tinha partido ao contacto do sangue escandecido. Só
+Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura,
+supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente
+dominado d'uma religiosa tristeza, meditando
+na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o coração
+tumido de angustias passadas e de esperanças
+futuras.</p>
+
+<p>Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu
+dever de assistencia e saiu com Laura para a sua
+nova casa. Os convidados acompanharam-n'os até ao
+portão do jardim, a musica deixou de se ouvir por
+um momento, as salas ficaram desertas, repetiram-se
+os abraços e as lagrimas que de manhã se tinham
+visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa
+proseguiu redobrando de animação.</p>
+
+<p>Os primeiros dias passados na pequena casa da
+estrada da Beira foram para Claudio d'uma infinita
+doçura. Do governo da casa não havia a cuidar;
+D. Maria Francisca mandára com a filha uma velha
+creada da sua confiança, para tudo dirigir e regular
+sem que a paz e felicidade dos noivos fosse perturbada.</p>
+
+<p>Longas horas no jardim entre flores, pequenos
+passeios a pé pelos caminhos menos frequentados,
+colhendo plantas e admirando a natureza, passeios
+de carruagem pelas margens do rio, e o serões em
+casa dos Albuquerques, ora jogando, ora conversando:
+n'isto se consumiam os dias.</p>
+
+<p>Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos
+da sensualidade e da indolencia como um premio de
+virtude, pensando quanto o amor era bello na consciencia
+tranquilla pela satisfação das convenções do
+mundo, e comparando o presente com esse passado
+<span class="pagenum">[194]</span>
+que a ventura d'agora mais carregava de crimes e
+remorsos.</p>
+
+<p>Emprehendia a educação do espirito de Laura,
+admirando com pasmo e veneração a sua ingenuidade
+e louvando a Deus por lhe ter concedido tão precioso
+bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque
+era simples.</p>
+
+<p>Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade
+com a candura, tomando por singeleza d'alma,
+prompta a desabrochar em sentimento christão, o que
+era apenas estreiteza de intelligencia e de coração,
+Claudio communicava-lhe todos os seus planos de
+vida.</p>
+
+<p>Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente
+alheia a toda a profundeza de pensamento;
+elle ficava contente, tomando esse silencio por um
+tacito assentimento e interpretando a mudez como
+uma forte e serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia
+n'uma mulher superior.</p>
+
+<p>Foram a Villalva. Laura pouco disse á mãe de
+Claudio. A unica coisa que lhe permitiu uns momentos
+de conversação foram as imagens do oratorio
+e particularmente uma imagem da Senhora do
+Carmo. Havia uma outra egual no collegio, em Lisboa,
+e tinha com ella muita devoção. A velhita louvou
+intimamente os sentimentos religiosos da sua
+nova filha e repetia:</p>
+
+<p>&mdash;Assim é bom, assim é bom... É o que n'esta
+vida me tem valido e ajudado nas minhas afflicções.</p>
+
+<p>Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a
+sua situação. Instinctivamente affastava uma
+ociosa confissão de desejos e aspirações tão carinhosamente
+sentidas que nenhumas palavras saberiam
+traduzil-as.</p>
+
+<p>Perguntava pelas cousas da casa e referia o que
+<span class="pagenum">[195]</span>
+na ausencia de Claudio se tinha passado. Que visse
+elle o que precisaria em Coimbra, que já começava a
+haver alguma hortaliça no Serrado de Baixo e o
+azeite que tinha levado talvez não fosse do melhor.</p>
+
+<p>Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda,
+era preciso experimentar o vinho que havia de precisar
+de trasfega, e o José, o creado, não tinha geito
+nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir lá passar
+um dia para vêr todas essas coisas, mesmo porque
+o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe tinha dito que
+precisava fallar com elle por causa dos fóros de Sernadas.
+Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias.
+Partiu, com grande allivio de Laura a quem as attenções
+do marido pela mãe começavam a enfadar e
+que se sentia estranha áquella atmosphera. Não lhe
+queria bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educação,
+por temperamento e inclinação hereditaria
+estava realmente destinada a ignoral-a perpetuamente.</p>
+
+<p>Em vão Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria
+o campo em que tantas horas tinha trabalhado,
+as arvores e as flôres que plantára por suas mãos.
+Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente
+a occultava nos salões do pae, para não dar
+ensejo ao riso das antigas amigas, que lhe mordia a
+vaidade, amesquinhando o marido.</p>
+
+<p>Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento
+do mavioso casal da estrada da Beira foi subitamente
+perturbado por um incidente doloroso.</p>
+
+<p>Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou
+aos gemidos de Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens, minha filha, que tens?... perguntou
+ancioso.</p>
+
+<p>Ella continuava gemendo, sem responder, e elle
+insistia em tom afflictivo:</p>
+<span class="pagenum">[196]</span>
+
+<p>&mdash;Dize, dize-me, minha filha, por quem és...
+Que tens tu?</p>
+
+<p>Por fim, cedendo aos rogos do marido, respondeu
+arrastadamente.</p>
+
+<p>&mdash;Ai! meu Deus!... Ha uma hora que não durmo.
+Não posso parar com dores n'um dente, d'este lado...
+E indicava com a mão.</p>
+
+<p>&mdash;Se tu fosses ao dentista pedir o elixir...</p>
+
+<p>&mdash;A esta hora?! perguntou Claudio surprehendido.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... sim... não posso esperar.</p>
+
+<p>N'um instante, Claudio estava na estrada, correndo
+ladeira abaixo, a caminho da cidade. Ao pé
+de Laura ficára a creada que se offerecia, suavisando
+a voz, para aquecer uma pinguinha d'agua, segundo
+ella dizia. Talvez um chásinho...</p>
+
+<p>Laura nem lhe respondia, conforme os seus habitos
+de menina mimosa.</p>
+
+<p>Entretanto Claudio batia á porta do dentista que
+veio á janella, ás escuras, a resmungar com somno.
+A estas horas!... É preciso ter muito pouco respeito
+pelo socego d'uma pessoa! Bem tolo é quem os
+atura.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é que está ahi? gritou de cima.</p>
+
+<p>&mdash;O dr. Claudio...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! é v. ex.<sup>a</sup>. Eu vou abrir, respondeu apressadamente
+o dentista, moderando a impaciencia e
+esforçando-se por sorrir perante o freguez rico.</p>
+
+<p>&mdash;Então?!... perguntou mal abriu a porta. Faça v.
+ex.<sup>a</sup> o favor de subir.</p>
+
+<p>&mdash;Minha mulher está com uma dôr de dentes e eu
+vinha pedir-lhe aquelle elixir...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não! Eu dou-lh'o já...</p>
+
+<p>E dirigiu-se a uma estante.</p>
+
+<p>&mdash;Queira desculpar.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! É a nossa obrigação, não me falle
+v. ex.<sup>a</sup> n'isso... Se a dôr não abrandar á primeira
+<span class="pagenum">[197]</span>
+applicação, renova o algodão no fim de meia
+hora...</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei, eu sei, respondia Claudio, apressando-se
+a descer a escada. Infelizmente já o tenho usado...
+Muito obrigado, sim? E desculpe...</p>
+
+<p>&mdash;Não ha de quê. Sempre ás ordens de v. ex.<sup>a</sup>.</p>
+
+<p>Claudio entrou em casa offegante. Correu ao quarto
+da mulher que, logo que o sentiu, se sentou no
+leito.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui está! exclamou elle risonho de contentamento
+por vêr satisfeita a vontade de Laura.</p>
+
+<p>Com difficuldade applicou-se o remedio, porque
+mal se percebia uma sombra de carie no dente, e
+Laura adormeceu rapidamente n'um somno tranquillo.</p>
+
+<p>Excitado pela inquietação e pelo movimento, o
+marido ficou passeiando na sala. Só tarde, pelas sete
+horas, a fadiga o dominou e adormeceu sobre um
+sofá, para não entrar no quarto e perturbar com os
+seus passos o somno da mulher.</p>
+
+<p>Ás nove horas despertou, sentindo vozes e passos
+estranhos. O que seria? Ergueu-se sobresaltado. Laura
+estaria peor?</p>
+
+<p>A creada velha, logo pela madrugada, mandára dizer
+á creada de quarto de D. Maria Francisca que
+prevenisse a sua senhora de que a menina tinha
+passado muito mal a noite. D. Maria Francisca soubera
+a noticia quando ás oito horas pediu o primeiro
+almoço e apressou-se a vir a casa da filha.</p>
+
+<p>Mal penteada e mal vestida, com uns sapatos lassos
+e a góla do casaco desapertada deixando vêr o
+collo que as rugas começavam a sulcar, D. Maria
+Francisca, espavorida, perguntou subitamente ao
+genro:</p>
+
+<p>&mdash;Então que foi, que foi?!...</p>
+
+<p>&mdash;Uma dôr de dentes... Felizmente pude applicar-lhe
+o elixir...</p>
+<span class="pagenum">[198]</span>
+
+<p>&mdash;E agora como está?</p>
+
+<p>&mdash;Deixei-a a dormir...</p>
+
+<p>&mdash;Sósinha!... Que imprudencia!...</p>
+
+<p>&mdash;É que estava tão socegada que eu não quiz
+aproximar-me d'ella com receio de a accordar.</p>
+
+<p>Entraram no quarto.</p>
+
+<p>Laura tinha dormido excellentemente depois do
+tratamento; nem sequer apresentava no rosto vestigios
+de ter soffrido o quer que fosse. Acercaram-se
+do leito pé ante pé e a mãe, em voz dorida, perguntou
+á filha, que não levantava a cabeça do travesseiro:</p>
+
+<p>&mdash;Estás melhor, minha filhinha?</p>
+
+<p>&mdash;Parece que agora estou melhor, mas passei
+muito mal a noite. Ai, que dôres, Santo Deus!</p>
+
+<p>&mdash;O Alexander bem te disse, replicou a mãe em
+tom de mágoa e reprehensão, que esse dente precisava
+tratamento. Tu não quizeste e ahi tens as consequencias!
+Agora o remedio é voltar lá.</p>
+
+<p>&mdash;A Lisboa?! perguntou Claudio com certa vivacidade
+e espanto.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, e quanto antes. Devem ir hoje mesmo antes
+que a dôr volte. É um soffrimento horroroso,
+horroroso!...</p>
+
+<p>&mdash;Mas talvez aqui mesmo...</p>
+
+<p>&mdash;Ai, pelo amor de Deus, não! Uns brutinhos!...</p>
+
+<p>&mdash;É que o dentista foi tão amavel comigo que
+póde escandalisar-se...</p>
+
+<p>&mdash;Não tenha medo. Ha-de fazer-lhe boa conta.</p>
+
+<p>E voltando-se para a filha, a cortar a discussão
+que lhe parecia ociosa:</p>
+
+<p>&mdash;Apósto que ainda não tomaste nada? perguntou.</p>
+
+<p>&mdash;Não m'o trouxeram... respondeu Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Com estas cousas é que é necessario ter muito
+cuidado, disse D. Maria Francisca, voltando-se enfadada
+para Claudio e poisando o dedo sobre o botão
+da campainha.</p>
+<span class="pagenum">[199]</span>
+
+<p>Appareceu a creada.</p>
+
+<p>&mdash;Então são quasi dez horas e esta menina sem
+ter tomado o leite!?... exclamou irritada.</p>
+
+<p>&mdash;Oh, minha senhora, começou a creada a explicar,
+ainda agora deram nove horas no relogio lá de
+dentro e eu até vinha saber...</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias.
+Traga o leite, traga o leite. E não fique lá quatro
+horas, conforme o seu costume, ouviu?... Isto quem
+as atura...</p>
+
+<p>&mdash;Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez
+umas bolachas de araruta... Deves estar tão
+fraca!...</p>
+
+<p>&mdash;Não, mamã, não; não me falle em comer. Sabe
+Deus o que me custa o tomar leite!</p>
+
+<p>O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam
+para não incommodar a doente que durante todo este
+tempo não tivera uma palavra de gratidão pelos seus
+cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um
+somno profundo, a refazer-se da interrupção da noite.</p>
+
+<p>Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa,
+apezar da ligeira opposição de Claudio que viu assim
+desmanchados todos os seus planos de tranquillidade
+e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. Não quizesse
+elle tomar a responsabilidade d'uma cousa
+d'essas.</p>
+
+<p>Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa,
+os corredores atulhados de malas e os guarda-roupas
+desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam duas
+grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses,
+os theatros, os bailes, as visitas, os passeios,
+a chuva, o sol, o frio, a humidade e o calor.
+As bagagens de Claudio tambem não eram pequenas.
+Laura temia um pouco a apresentação do marido
+aos parentes elegantes da capital e vigiava e
+com particular cuidado que nada lhe faltasse; gravatas,
+calçado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas,
+<span class="pagenum">[200]</span>
+chapéus, tudo ia combinado ponto por ponto para
+que não discrepasse das leis vigentes do janotismo.</p>
+
+<p>Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura
+foram d'uma completa felicidade. Á parte as breves
+horas que dedicaram ao dentista, todo o tempo se
+dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentação
+de Claudio á numerosa parentela fidalga. O
+marido agradava; no trajar e nos modos não destoava
+dos usos e costumes correntes e essa conformidade
+com a banalidade consagrada deixava Laura
+radiante de jubilo e vaidade.</p>
+
+<p>Não succedia outro tanto a Claudio que, regressando
+a Coimbra e pensando no caminho percorrido,
+via com mágoa quanto os factos divergiam das aspirações,
+quanto a realidade se distanciava dos sonhos.</p>
+
+<p>No fundo, inconscientemente, a esposa que elle
+desenhára no seu espirito e nas suas ambições era a
+imagem de sua mãe, a honestidade, o trabalho, a resignação
+e a caridade distillados dia a dia, gota a
+gota, marcando todos os passos e todos os movimentos
+da vida; o que o casamento lhe offerecia eram
+vaidades e impaciencias, occultando um egoismo
+sem limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo
+e inconsciente.</p>
+
+<p>Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir
+a correr procurar-lhe remedio para uma passageira
+dôr de dentes e comparava a com a serenidade que
+sua mãe mostrava nas dores physicas e moraes;
+lembrava-se da simplicidade de Villalva e comparava-a
+com a vida de infinitas necessidades a que entre
+gente fina se deixava arrastar.</p>
+
+<p>D'esse confronto saia com umas vagas aprehensões
+de ter errado na maneira de realisar as suas
+aspirações moraes, mas breve esses temores se dissipavam.
+A candura de Laura venceria as fraquezas
+<span class="pagenum">[201]</span>
+da educação. Era só o tempo necessario para a revelar
+e vêr desabrochar na sua consciencia as flores de
+suave perfume que lá dormiam em botão. A esperança
+reanimava-o.</p>
+
+<p>Tardava, porém, essa almejada quietação na virtude.
+As futilidades absorventes succediam-se; a existencia
+consumia-se inutilmente. Laura não dispensava
+a companhia de Claudio a todas as refeições, em
+todos os passeios e nos serões passados em casa dos
+paes, prolongados serões em que a moleza dos estomagos
+replectos se espreguiçava pelas flexuosas cadeiras
+Luiz XV. Por amor, dizia ella, não queria desamparal-o
+um instante.</p>
+
+<p>O certo era que a vida de Claudio se subordinára
+inteiramente á da mulher; todo o trabalho se reduzia
+a servil-a nos seus prazeres e nas suas necessidades,
+empregado a todo o instante nos mais frivolos
+misteres, em procurar um lenço que esquecera algures
+ou em transmittir ordens aos creados. Já em
+casa dos Albuquerques se dizia que a filha encontrára
+um excellente marido.</p>
+
+<p>Aos primeiros incommodos da gravidez esta situação
+aggravou-se. Laura passava mal, constantemente
+enfadada, com um fastio permanente, ora no leito,
+ora recostada n'uma ottomana dos seus aposentos.</p>
+
+<p>A presença de Claudio era então reclamada como
+um dever; não podia abandonar a esposa, cumpria-lhe
+servil-a em todos os seus caprichos como bom
+enfermeiro. Nos peiores dias, nem sequer lhe era
+permittido sair ao jardim; ficava em casa, inventando
+jogos para a distrair, a ella que com tudo se contrariava
+e aborrecia.</p>
+
+<p>Uma vez, porém, teve a tentação de se affastar para
+seu prazer. Os jornaes annunciavam a chegada a
+Coimbra d'uma pianista notavel, Sophia Menther,
+que vinha dar um concerto, um unico. Claudio leu a
+noticia á mulher e perguntou:</p>
+<span class="pagenum">[202]</span>
+
+<p>&mdash;Queres lá ir?</p>
+
+<p>&mdash;Deus me livre! respondeu ella irritadamente e
+accentuando a inconveniencia da pergunta. Estou lá
+em estado de cousa nenhuma! Como queres tu que
+eu me vista?</p>
+
+<p>&mdash;Gostava muito de lá ir. Ha tanto tempo que não
+apparece por cá quem se possa ouvir...</p>
+
+<p>&mdash;Mas vae tu...</p>
+
+<p>&mdash;Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...</p>
+
+<p>Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual
+fastio, mas sem molestia alguma. Claudio não se
+conteve; foi ao concerto. Receiando os seus amuos,
+explicou que era só por uma ou duas horas quando
+muito, que o desculpasse. Tinha muita vontade de
+ouvir a pianista; precisava mesmo de se instruir.</p>
+
+<p>Laura nada respondeu, contendo o seu despeito.
+Claudio saiu na persuasão de que a tinha deixado
+convencida e de que ella generosamente acquiescera
+aos seus desejos.</p>
+
+<p>A pianista era notabilissima. Claudio não teve coragem
+de deixar o theatro até ao fim do concerto.
+Sentia-se enlevado nas visões tragicas de Beethoven,
+nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.</p>
+
+<p>Era uma embriaguez para os seus nervos doentes,
+ainda magoados das mortificações moraes, uma agitação
+sádia e capitosa.</p>
+
+<p>Recolheu a casa contente, sentindo em si uma
+vibração que o erguia da prostração morbida em que
+os azares do seu destino continuamente o traziam.
+Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se
+do seu leito cautelosamente.</p>
+
+<p>Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas
+um lenço a indicar as muitas lagrimas que tinha
+<span class="pagenum">[203]</span>
+chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e nem
+se moveu nem disse uma palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens, perguntou Claudio ancioso, que
+tens?</p>
+
+<p>Não respondia; todas as instancias e todos os carinhos
+eram vãos, baldada toda a mágua afflicta com
+que era interrogada. Uma convulsão de choro foi a
+sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.</p>
+
+<p>Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicações
+dos modos de indifferença e aborrecimento com que
+a mulher o tratou durante todo o dia que se seguiu
+á noite do concerto. Por demais tinha aprendido com
+Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava
+apenas no seu triste destino, d'esta vez sem poder
+fugir a uma ponta de azedume que se lhe cravava no
+coração.</p>
+
+<p>Não era senhor de si, não podia dispôr de duas
+horas para seu prazer e sua instrucção, para repousar,
+avigorando-os, os membros fatigados? Toda a
+obrigação se reduzia a servir Laura, os seus habitos
+e os seus caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava
+como uma perniciosa ociosidade? Esquecia
+as aspirações de virtude que o tinham levado ao casamento;
+o egoismo, calcado pelo dominio absorvente
+da mulher, revoltava-se em nome de direitos soberanos
+e infiltrava-lhe no peito um mau fermento.
+Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe
+pelo pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.</p>
+
+<p>Ao menos, lá, tinha o socego do seu palacio, a liberdade,
+a independencia, os carinhos protectores
+da mãe para lhe suavisar a cruz a que o prendera o
+amor de Emilia.</p>
+
+<p>Aqui, nem isso; só, a todo o momento em face de
+uma mulher que constantemente o magoava com
+uma crueldade que a seccura do seu coração ignorava,
+todos os caminhos estavam vedados, o carcere
+<span class="pagenum">[204]</span>
+era perfeito, o soffrimento sem esperança de remissão
+que não viésse d'aquella mesma que era a causa
+da sua dôr. Vinham, por instantes, alentos de energia
+e fé, clarões que varriam estas sombras.</p>
+
+<p>Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que
+o seu dominio se traduzia acariciando aquelle
+que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio
+recuperáva animo. Não! errava; as exigencias da
+esposa eram as exigencias do dever. Precisava banir
+da alma os derradeiros impulsos do egoismo, abdicar
+de toda a liberdade, viver só e unicamente para
+a sua familia. Que lhe importava o resto?</p>
+
+<p>Prazeres da intelligencia e do espirito, alegrias
+do corpo expandindo-se ao contacto da natureza,
+tudo eram vaidade de que lhe cumpria despojar-se
+perante a imagem hirta e sombria que a consciencia
+lhe apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade
+a palavra dever. Era necessario viver
+para a sua familia: essa era a obrigação por excellencia
+para cumprir a qual se casára e a que espontaneamente
+havia de consagrar-se, tendo posto termo
+a um passado criminoso que não voltaria. Acceitasse
+pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos
+egoistas.</p>
+
+<p>Claudio promettêra a sua mãe ir vêl-a todas as semanas.
+Essas visitas, á proporção que o caracter de
+Laura se revelava, começavam a tornar-se um problema
+inquietador.</p>
+
+<p>Para Claudio eram a maior das alegrias; a presença
+da mãe e das serras de Villalva eram para o
+seu coração um magico lenitivo que apagava todas
+as dores sem o minimo esforço da razão e do pensamento.</p>
+
+<p>Perante ellas sorria, como se bebesse, por um
+filtro mysterioso, a mocidade e a frescura. Não o
+comprehendia Laura e por isso sentia, com um vago
+ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer
+<span class="pagenum">[205]</span>
+cousa que lhe pertencia, os constantes cuidados
+do marido pelo que se passava em Villalva, a
+alegria e a impaciencia com que esperava o dia
+de lá ir, as pequeninas necessidades que inventava
+para servirem de pretexto a mais frequentes
+visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e
+bom.</p>
+
+<p>Antecipadamente discutia-se o dia da visita; já
+não era sem receio que Claudio se aventurava a
+lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se contrariava.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos amanhã?</p>
+
+<p>&mdash;Amanhã, não. Temos que acompanhar á estação
+as Mendonças que vão para o Porto e vieram
+despedir-se.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! é verdade!... Depois de amanhã...</p>
+
+<p>&mdash;Depois de amanhã tambem não. Disse-me hontem
+a mulher do dr. Ramos que queria vêr o nosso
+jardim e talvez cá viesse.</p>
+
+<p>&mdash;No outro dia... mas faz-se tão tarde... E não
+sei o que por lá vae...</p>
+
+<p>&mdash;O melhor é não te prenderes comigo. Vaes sósinho.</p>
+
+<p>Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam
+invariavelmente todas as semanas. Mal passava
+o domingo, era necessario começar a preparar o
+terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar
+a irritação de Laura.</p>
+
+<p>O problema não tinha solução; estava destinado
+a manter-se indefinidamente nos termos em que o
+punham a contradicção do affecto de Claudio e da
+indifferença de Laura. Ou Laura acompanhasse o
+marido ou ficasse em Coimbra, essa visita era sempre
+toldada por inquietações.</p>
+
+<p>A presença de Laura importava um retraimento
+de expansões que por completo prejudicavam toda a
+alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a apressar-se
+<span class="pagenum">[206]</span>
+no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a
+alegria com a suspeita do descontentamento da esposa.
+Temia o mutismo em que se traduziam os seus
+frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro
+que lhe embargava toda a felicidade.</p>
+
+<p>Só a mãe de Claudio ignorava quanto essas visitas
+custavam, porque o filho, para lhe poupar a tranquillidade
+dos seus ultimos annos, apparecia-lhe sempre
+sorridente de ventura, d'uma ventura que só pelo
+amor da mae se lhe mostrava na face mas que no
+intimo suspeitava que jámais seria o seu quinhão
+n'este mundo.</p>
+
+<p>Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao
+transpôr a estreita porta do casal de Villalva, para
+que as trevas do coração jámais se derramassem na
+luminosa paz d'essa velhinha que nas suas orações
+não cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com
+as suas bençãos. Mas, voltadas as costas a esse sanctuario,
+logo a tristeza involvia Claudio como n'uma
+lugubre mortalha.</p>
+
+<p>Á casa da estrada da Beira corriam os mendigos,
+attraidos pela fama de gente rica recentemente casada,
+esperando generosidades proprias de quem
+tem fé na recompensa divina.</p>
+
+<p>Raro batiam á porta principal. Contornavam a
+casa e, segundo o seu velho costume, procuravam a
+porta de serviço, onde tinham probabilidades de encontrar
+alguem que os attendesse. Para isso passavam
+em frente das largas janellas da sala de jantar,
+vestidas de flores e trepadeiras a emoldurar o fulgor
+das pratas e as cores mimosas das louças
+da India, que se viam dentro, cobrindo as paredes
+em extensas prateleiras. Quando sentiam vozes na
+sala, começavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas
+melopêas.</p>
+
+<p>Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia
+os mendigos cuja miseria e immundicie repugnava á
+<span class="pagenum">[207]</span>
+sua esmerada elegancia; apressava-se a despedil-os
+recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes
+concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido
+de os vêr sair.</p>
+
+<p>Claudio tentava moderar essas impaciencias com
+palavras de sympathia pelos pobres, esperando despertar
+iguaes sentimentos no coração da mulher e
+associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava
+uma indifferença inabalavel.</p>
+
+<p>Essa indifferença havia de transformar-se um dia
+n'uma explosão de maldade em que deviam naufragar
+todas as esperanças de conversão.</p>
+
+<p>Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante
+que as sombras do arvoredo moderavam com uma
+vibração de frescura e os lilazes e as roseiras embalsamavam
+espargindo perfumes, Claudio almoçava
+com Laura, quando um mendigo entrou a cavallo
+n'um burro, um par de muletas cruzadas sobre o albardão
+esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo
+attrito constante dos apparelhos que jámais deixava,
+ou pastasse pela beira dos caminhos ou conduzisse o
+seu miserando cavalleiro. O burro entrou, parou em
+baixo das janellas e, emquanto o mendigo começava
+rezando, elle, com esforço, estendendo os labios,
+procurava alcançar os ramos d'uma acacia que
+tinha em frente.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! é de mais!... exclamou nervosamente Laura
+dirigindo-se ao marido e apontando o mendigo. É
+preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo não
+se póde parar n'esta casa!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-os lá! Coitados! Precisam e não percebem
+mais...</p>
+
+<p>&mdash;Qual precisam! Precisam menos do que nós.
+Que trabalhem! O que elles são é uns vadios, a viver
+a custa dos outros. Afinal morrem e estão ahi a
+cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Isso são casos rarissimos. Lá apparece um que
+<span class="pagenum">[208]</span>
+pôde fazer um mealheiro, mas a quasi totalidade
+d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir
+serão os menos infelizes. Deus sabe o que soffrerão
+os que ficam por esses casaes!... Nós é que deviamos
+procural-os.</p>
+
+<p>&mdash;Não faltava mais nada!... Ainda em cima de nos
+incommodarem a toda a hora e a todo o instante...</p>
+
+<p>&mdash;Incommodar, não. Não gosto de te ouvir dizer
+isso. Temos obrigação de os ajudar. Até são bonitos!... Nos
+seus andrajos, nas suas rugas cavadas,
+n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas
+intimos de miseria physica e de miseria moral,
+quantas dores, quantos desejos calcados, quanta esperança
+enganada!</p>
+
+<p>&mdash;E os que andam ahi pelas tabernas e pedem
+para ir beber, tambem te parecem muito bonitos?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo é miseria. Que importa que venha das
+enfermidades do corpo ou das enfermidades da alma?
+Não podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: Dá a
+quem te pede.</p>
+
+<p>&mdash;As phantasias que tu quizeres... disse Laura córando
+de colera e querendo terminar; eu é que não
+estou para aturar isto. Tenho cá os meus pobres que
+sei que são necessitados e não quero saber dos outros.
+D'aqui a pouco não ha gente decente que possa
+vir a esta casa. Sempre tudo entulhado com pobres.
+Deus sabe as doenças e a porcaria que elles trazem.
+Ainda queres agora que ponham os burros a pastar
+no jardim!... Eu é que não estou para aturar isto!... Para
+me consumir basta o que aturo aos brutinhos
+dos creados.</p>
+
+<p>Claudio calou-se, não se atrevendo a insistir perante
+a irritação de Laura, e ficou scismando, com
+infinita mágoa, no caracter rebelde da esposa. Enganára-se?
+Essa educação religiosa das irmãs de Santa
+Ignez, em que tanto se fiára, seria unicamente uma
+série de formulas occultando a inanidade de sentimento?
+<span class="pagenum">[209]</span>
+As devoções bastas, as orações, as missas,
+as confissões, os escrupulos em faltar aos preceitos
+ecclesiasticos nos dias de abstinencia seriam um habito,
+ainda uma singular especie de vaidade, a vaidade
+religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e
+uma implacavel sede de commodidades? A ingenuidade,
+a candura de Laura seria apenas a inexperiencia
+d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o esforço
+e de toda a contrariedade, só para ostentar a
+gentileza da sua figura?</p>
+
+<p>Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava
+todas as suspeitas ruins com a vara magica do
+amor e da esperança. Não; Laura era um anjo. Só a
+impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava
+a imaginação de pavores. Toda esta irritabilidade
+que simulava estreiteza ou perversão moral,
+todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a
+uma simples commodidade da mulher, d'uma passividade
+completa, tudo isso eram apenas o resultado
+necessario d'um mau estado physiologico, d'enfadonhos
+incommodos de gravidez. Mas, terminados elles,
+quando Laura fosse mãe, a generosidade, os carinhos
+e a caridade haviam de desabrochar na sua
+alma e a vida seria então para Claudio o eden que
+nas attribulações do erro sonhára e se propozera conquistar.
+Esperasse; a sua hora chegaria.</p>
+
+<p>E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre,
+perante o dominio da esposa, dos seus mais pequenos
+desejos e das suas ambições mais nobres,
+tomando por motivos de bom quilate as razões que
+para desvanecer suspeitas amargas lhe eram suggeridas
+por um amor ainda flamejante, e porventura
+por um ardor de sensualidade que não attingira ainda
+a sua inevitavel e satanica consumpção.</p>
+
+<p>Para alliviar o enfado de Laura, começaram a reunir-se
+á noite em casa de Claudio os antigos frequentadores
+do palacio dos Albuquerques. Vieram as classicas
+<span class="pagenum">[210]</span>
+mezas de jogo com os seus castiçaes de prata,
+os cinzeiros e o panno verde, accenderam-se as vélas
+do piano para ouvir as walsas e as marchas em
+que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua
+educação, entre a assistencia circularam os taboleiros
+com bolos e chicaras de chá levados nos braços
+hirtos dos creados, em bom aprumo, envergando
+a casaca bem assente.</p>
+
+<p>Laura sentia então um suave contentamento que
+lhe dava uma expressão de felicidade; via ali uma
+reproducção fiel do viver de seus paes, toda a sua
+vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha
+dizer que os seus serões já tinham fama de elegantes
+na cidade.</p>
+
+<p>Na meza, porém, é que punha os seus maiores cuidados.
+O arranjo das flores, a combinação do jantar,
+o serviço, o modo de pôr e tirar os pratos, a maneira
+de servir os vinhos, tudo isso era objecto de longas
+reflexões e consequentes recommendações severas
+aos creados. Se havia algum convidado, o que
+bastas vezes succedia, os cuidados redobravam e
+não deixava de perguntar ao marido pela sua impressão.</p>
+
+<p>&mdash;Que te pareceu?</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, respondia invariavelmente Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Dizes-me sempre isso!... Não me ajudas em
+cousa alguma!...</p>
+
+<p>A frivolidade invadira-lhe a casa com todo o seu
+cortejo de fainas ociosas e estereis trabalhos em
+que a vida se dissipa sem o minimo valor moral.
+Todos os sonhos de caridade, de trabalho, de honestidade,
+de modestia e de affastamento das cousas
+mundanas esvaiam-se deante das mesquinhas exigencias
+de Laura a quem parecia ter cedido completamente.</p>
+
+<p>Não cedera, apenas esperava. Todas as ambições
+<span class="pagenum">[211]</span>
+geradas na cruz do remorso permaneciam vivazes,
+bem arreigadas no fundo da sua alma, esperando a
+hora de saciar-se. Cedia levado pela convicção de
+que era seu dever dar tranquillidade á esposa proxima
+a ser mãe, sacrificando-se n'esta abdicação ao
+culto da maternidade, mas intimamente contando os
+dias que o separavam da hora da redempção. Nem
+poderia esquecer os propositos com que se casára:
+lá estavam a lembrar-lh'os as visitas a Villalva, que
+Laura supportava com mal dissimulado aborrecimento.</p>
+
+<p>D'ahi voltava sempre com uma tristeza inquieta
+que o tornava silencioso e distrahido. Porventura a
+sua vida teria naufragado sem remedio? O dever que
+impozera á sua vontade como norma de existencia e
+satisfação da consciencia havia de curvar-se á fragilidade
+d'uma mulher?</p>
+
+<p>A duvida voltava a apossar-se do seu espirito, mas
+o desalento era breve, terminando sempre em uma
+cega confiança na transformação de Laura. Toda a
+sua fundamental frivolidade lhe parecia então uma
+transitoria meninice, e, resignado, esperava ancioso
+as dôres que, fazendo a mãe, accenderiam na sua
+alma as fachos do amor divino.</p>
+
+<p>Quando viu approximar-se esse momento, exultou.
+Era a libertação de toda a agitação vazia em que
+consumira quasi um anno. Laura aprenderia nos labios
+côr de rosa do filho a piedade e o sacrificio.
+Não mais coraria de desespero quando os mendigos
+lhe calcassem o jardim; havia de preferir á banalidade
+fastidiosa dos seus serões entre os convivas o
+silencio da alcova singela compassadamente cortado
+pelo embalar da berço. Só estranhava o borburinho
+que lhe ia em casa e as andadas de D. Maria
+Francisca, já interrogando o medico, já segredando
+com a parteira.</p>
+<span class="pagenum">[212]</span>
+
+<p>&mdash;Olhe, doutor, parece que agora sentiu umas picadas
+mais para o lado esquerdo... Que me diz?</p>
+
+<p>&mdash;Isso não significa nada, minha senhora.</p>
+
+<p>E ia ao pé da filha, a dizer-lhe que não era nada,
+tinha respondido o medico.</p>
+
+<p>Voltava instantes depois.</p>
+
+<p>&mdash;Oh, doutor, não acha que isto vae a demorar-se.
+Se a examinasse... O dr. Xavier, um indio que
+estudou lá fóra, disse-me que em Paris...</p>
+
+<p>&mdash;Ora, Paris!... Em Paris, respondeu o doutor que
+era um rude e singelo descrente de medicinas, em
+Paris as mulheres teem filhos como em Portugal.
+Até devem ter menos que a população diminue.</p>
+
+<p>&mdash;Tem uns modos este doutor... ia dizer D. Maria
+Francisca á parteira. Já estou arrependida de não
+ter mandado vir de Lisboa o dr. Xavier. Sempre
+é outra cousa!...</p>
+
+<p>&mdash;Oh, sr.<sup>a</sup> D. Amelia (era o nome da parteira) talvez
+seja melhor passar outra vez as mãos pelo sublimado.
+Esteve agora ahi a mexer nesses vestidos e
+o dr. Xavier disse-me que era preciso muito cuidado.
+O sublimado sempre! Para a mais pequenina
+cousa!...</p>
+
+<p>&mdash;Deixe lá, minha senhora! Tenho assistido a
+muita mulher. Isto com a ajuda de Deus Nosso Senhor...</p>
+
+<p>&mdash;Oh, doutor, voltava D. Maria Francisca a perguntar
+ao medico, as dores parece que são tão distantes...</p>
+
+<p>&mdash;Não se afflija v. ex.<sup>a</sup>, ellas apertarão.</p>
+
+<p>&mdash;Que homem, que modos estes! E dizem que é
+bom medico! Ai, Senhor, tomára já isto passado!</p>
+
+<p>Claudio olhava este espectaculo surprehendido,
+vagueando pelas salas e pelos corredores. O que?!
+Pois o nascimento era este vil receio da morte e esta
+ridicula fé nas cousas que hão-de salvar o corpo?
+Não havia uma religião que libertasse de tantos e
+<span class="pagenum">[213]</span>
+tão mesquinhos cuidados elevando a alma em extasis
+divinos? Não era toda a maternidade, desde o parto e
+o berço até á formação completa do homem, o modo
+providencial de pagarmos a divida d'amor e de carinhos
+que a existencia de cada individuo significa?
+E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar
+do corpo e de passageiras dôres que a resignação,
+tirada da consciencia d'uma missão sublime, curaria
+melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspirações
+da sua alma vinham bater contra a mais extrema
+pobreza moral; o desgosto perturbava a piedade
+que a afflicção da esposa lhe despertava.</p>
+
+<p>No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo.
+Fez se um silencio d'anciedade. Os gritos repetiram-se,
+lancinantes, e, após uns curtos momentos,
+os vagidos d'uma creança pozeram a casa em alvoroço.</p>
+
+<p>&mdash;Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos
+parabens! É um rapaz!... Adeus que não tenho
+aqui que fazer. Muito socego é que a doente precisa.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio
+acompanhando o medico até á porta.</p>
+
+<p>O medico saiu e Claudio correu apressado ao
+quarto de Laura. Queria vêr a sua physionomia illuminada
+de contentamento, queria vêr os primeiros
+clarões d'essa aurora. Era que a sua alma havia de
+expandir-se nas auras d'uma vida nova.</p>
+
+<p>Entrou cautelosamente, pé ante pé.</p>
+
+<p>&mdash;Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca,
+que estava sentada á cabeceira da cama de
+Laura. Venha vêr o seu morgado. Muito gordinho e
+lindo como um anjo!</p>
+
+<p>Claudio aproximou-se da creança, tumefacta e
+vermelha, apertada em faixas brancas, mas logo a
+deixou para se dirigir a Laura.</p>
+
+<p>Beijou a mulher timidamente, humildemente, com
+<span class="pagenum">[214]</span>
+uma uncção religiosa. Não era o corpo enfermo que
+os seus labios tocavam, era a imagem em que a graça
+de Deus incarnára.</p>
+
+<p>&mdash;Como te sentes? murmurou.</p>
+
+<p>Ella entreabriu os olhos e, n'uma contracção de
+repugnancia e odio, respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Ai, meu Deus! Que horror!</p>
+
+<p>E os olhos cerraram-se novamente. Não houve
+uma palavra para o filho, nem um gesto de ternura,
+nem o mais leve movimento que não significasse um
+fastio mortal.</p>
+
+<p>Claudio ficou de pé, immovel, esperando ainda
+d'aquella massa inerte envolvida em finissimo linho
+uma vibração que viesse confirmar as suas esperanças
+de tantos mezes.</p>
+
+<p>Só uma gélida mudez lhe respondia. Saiu do
+quarto de Laura esmagado de desalento.</p>
+
+<p>Embora! No seu espirito procurava razão para justificar
+o estado moral de Laura e continuar a esperança
+que até alli tinha mantido.</p>
+
+<p>Era uma reacção natural do corpo fatigado pela
+dôr physica, mas, quando a saude voltasse, com ella
+viriam os affectos de mãe e o ardor de sentimento
+em que todos os sacrificios são recebidos, na alma
+ávida de amor, como favores do destino.</p>
+
+<p>Todavia, pensava, que singular perversão a do
+genero humano! Não acontecia o mesmo com os
+animaes. N'elles, o instincto materno dominava todas
+as dores e tanto era o zelo que, nos primeiros tempos
+immediatamente ao parto, a aproximação das mães
+era perigosa; havia uma resurreição de instinctos
+bravios a proteger os recemnascidos.</p>
+
+<p>Porque não seria assim para as mulheres? Que
+degeneração de sentimento as podia levar a abandonar
+os filhos logo ao nascer, friamente, sem um grito
+do coração offendido? Não, não podia ser assim.</p>
+
+<p>Laura soffria apenas uma crise passageira; em
+<span class="pagenum">[215]</span>
+breves dias havia de operar-se a transformação milagrosa
+do ser frivolo e egoista na esposa e mãe profundamente
+generosa, consagrada com uma intima
+felicidade, á existencia alheia.</p>
+
+<p>Essa transformação porém não vinha. Deccorriam
+os dias, as forças voltavam, e Laura continuamente se
+lamentava. Não podia dormir uma hora descançada!
+dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada
+a entrar-lhe no quarto a cada instante, para que
+désse de mamar á creança!</p>
+
+<p>D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia
+animalidade da sua robustez comprazia-se nas suavissimas
+caricias da amamentação; o calor das creanças
+junto aos seios em que pousavam as pequeninas
+mãos, comprimindo-os ligeiramente, fôra sempre para
+ella um instinctivo prazer, desprendido de quaesquer
+razões moraes. Para a filha, porém, era differente. A
+filha fôra e continuava a ser um objecto de luxo que
+queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por
+isso, ouvindo os queixumes de Laura, invariavelmente
+lhe dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Toma uma ama! Tu não queres crer que és muito
+fraca...</p>
+
+<p>&mdash;Mas o Claudio tem dito sempre que não quer...</p>
+
+<p>&mdash;Lá vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer
+o que o medico lhe disser. Pensas que os maridos
+gostam muito de vêr as mulheres magras e velhas
+antes de tempo?</p>
+
+<p>Interrogaram o medico, na presença de Claudio.
+O medico respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos
+é conforme a vontade de cada um. Quando se tem
+n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas forças,
+e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...</p>
+
+<p>&mdash;O que eu não comprehendo, interrompeu Claudio
+que a conversação contrariava extremamente, é
+<span class="pagenum">[216]</span>
+como uma mulher tem forças para crear um filho no
+ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo
+sadio e forte, e não não tem forças para em seguida
+o amamentar durante um anno. Muita gente devia
+morrer entre os pobres que não tivessem para pagar
+a quem lhe creasse os filhos!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar
+porque creei os meus... Quem não tem outro
+remedio, ou seja forte ou fraca, cria os filhos; mas
+quem é fraca, tem meios e teima em os criar faz
+muito mal. Nem mesmo ás creanças é util. Pois se
+ellas podem ter um leite bom para que hão de estar
+a mamar um leite fraco? Não é verdade, doutor?</p>
+
+<p>&mdash;Até certo ponto... respondeu o medico. Mas
+lá isso, diga-se com franqueza, não sei o que é o
+cuidado das mães! As creanças parece que medram
+só com o calôr da cama. Por melhores que sejam as
+amas, sempre são madrastas.</p>
+
+<p>Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava
+pela vinda d'uma ama. Era uma necessidade. Só se
+Claudio tinha muito gosto em vêr a mulher tisica!...</p>
+
+<p>Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama.
+Não houve razões, nem instancias, nem um confessado
+desgosto e pezar que pozessem barreiras ao egoismo
+de Laura e a levassem a ceder aos desejos do
+marido. E Claudio via com espanto, que em breve se
+transformaria em aversão, o filho entregue a braços
+estranhos.</p>
+
+<p>Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria
+Francisca veiu discutil-o com a filha e por deferencia
+que ella julgava um requinte de delicadeza,
+quiz ouvir tambem Claudio. Já tinha combinado com
+Laura o caracter da festa e o numero dos convidados,
+baptisado ás cinco horas da tarde, jantar em
+seguida e depois uma pequena reunião dos intimos.
+Preferiria um grande baile, mas a casa não o comportava
+<span class="pagenum">[217]</span>
+e a disposição dos moveis não era adequada á
+dança. Fica assim uma reunião mais escolhida, concluia
+ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da
+casa, escusamos de convidar os gebos que não sabem
+vestir uma casaca e não vêm ahi senão para
+comer.</p>
+
+<p>Claudio não concordava; não queria festa alguma.
+O baptisado, dizia, é um sacramento e deve ser
+dado com a placidez e o recolhimento de quem tem
+consciencia do que faz. Não foi instituido para patuscadas.</p>
+
+<p>&mdash;Ora que idéas!... respondia a sogra. Haviam de
+julgar que cairam em miseria ou que tem muito pouco
+gosto em ter um filho. Nada, nada, deixemo-nos
+de excentricidades, vamos andando assim, que foi
+sempre o costume cá de casa. Que diria o Claudio se
+visse o baptisado do José?!... Durante oito dias tivemos
+em casa vinte e sete hospedes! O conde de Palhares,
+que veiu cá de propósito, disse-me que os
+bailes do Farrobo não tinham mais grandeza.</p>
+
+<p>&mdash;Coitado, murmurava, dirigindo-se á Laura, é
+muito bom rapaz mas ha de ressentir-se sempre d'aquella
+vida na aldeia.</p>
+
+<p>&mdash;Se a mamã soubesse o desgosto que tenho com
+isso...</p>
+
+<p>A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.</p>
+
+<p>Tomando por singela obediencia as complacencias
+com que até então Claudio se tinha sujeitado aos habitos
+e vicios da mulher, D. Maria Francisca, que as
+ausencias do marido e a docilidade do capellão tinham
+convencido de que todo o dominio lhe pertencia,
+começava agora a mandar em casa da filha como
+em sua propria. Por isso, passando de leve sobre as
+observações do genro, dispoz tudo para o baptisado
+conforme o desejava.</p>
+
+<p>Claudio começava a viver sob uma impressão de
+<span class="pagenum">[218]</span>
+pavor que crescia á maneira que via perderem-se
+todas as suas esperanças. A cada instante se refugiava
+no seu gabinete, procurando o silencio e o isolamento
+em que poderia encontrar-se só e bem de
+frente com a tristeza da sua vida.</p>
+
+<p>Quando chegou o dia do baptisado, sentia-se mais
+do que nunca opprimido. Quasi não fallava; respondia
+por monosyllabos, se o interrogavam.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. dr. Claudio, dizia um velho lente de theologia
+para D. Maria Francisca, vê-se mesmo que está
+doido de felicidade! Não diz uma palavra, vae todo
+entregue ao pensamento no filho.</p>
+
+<p>Na egreja, porém, a imagem do Christo e a magestade
+do templo, juntando-se á febre do seu espirito,
+produziram-lhe um momento de oração ardente.
+Com uma supplica instante, fervorosa, acompanhava
+as palavras do padre, dirigindo se a um deus desconhecido
+que não via com os olhos do rosto mas que
+sentia na alma dominando o mundo. Intimamente
+repetia com o sacerdote: <i>Omnem coecitatem cordis
+ab eo expelle</i>, varre-lhe do coração toda a cegueira,
+<i>disrumpe omnes laqeos Satanae</i>, quebra-lhe todos
+os laços com Satanaz, <i>aperi ei Dominé januam pietatis
+tuae</i>, abre-lhe, Senhor, a porta da tua piedade,
+<i>accipe lampadam ardentem et irreprehensibilem</i>,
+recebe a lampada ardente e irreprehensivel, <i>custodi
+baptismum tuum</i>, guarda o teu baptismo, <i>serva dei
+mandata</i>, obedece aos mandamentos de Deus, <i>ud
+habeas vitam aeternam</i>, para que tenhas a vida
+eterna. <i>Vade in pace et Dominus sit tecum</i>, vae em
+paz e o Senhor seja comtigo.</p>
+
+<p>A estas ultimas palavras os olhos toldaram-se-lhe
+de lagrimas. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!
+repetia interiormente.</p>
+
+<p>A dôr das amarguras do passado e a ambição da
+felicidade do filho confundiam-se n'um mesmo anceio.
+<span class="pagenum">[219]</span>
+A consagração a Deus era plena, irrompia-lhe
+do coração. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!</p>
+
+<p>&mdash;E fique-se por aqui, dizia-lhe D. Maria Francisca
+ao entrar em casa, emquanto atravessavam o jardim.
+A Laura é muito fraquinha. Depois não sei o
+que é... Por mais cuidados que se tenha, os partos
+envelhecem muito. Lembra-se de vêr minha prima
+Luiza? Casou ha cinco annos, como sabe, e tem tres
+filhos. Via-a outro dia em Cercosa. Está uma velha!
+Não faz ideia. Fique-se por aqui, fique-se por aqui,
+que está muito bem. Demais, um rapaz!...</p>
+
+<p>Claudio ouvia sem responder, pasmado do despejo
+da sogra. Sabia que havia muito quem assim pensasse,
+nunca imaginára que alguem se atrevesse a
+aconselhar-lh'o.</p>
+
+<p>A sua regra era a do Evangelho: Crescei e multiplicai-vos.
+Crescei e multiplicai-vos para o trabalho
+e para a virtude, para que a verdade se derrame no
+mundo, para que a caridade e o amor cresçam alargando-se
+as relações na humanidade.</p>
+
+<p>O seu desejo era ter muitos filhos, julgava que essa
+seria uma das condições do resgate das suas faltas
+passadas; formando para o bem numerosas almas
+christãs, havia de compensar os seus erros. A intervenção
+da sogra surprehendera-o e por isso se calára;
+mas, passado esse primeiro momento de surpreza,
+revoltava-se.</p>
+
+<p>D. Maria Francisca, porém, é que não desanimava,
+posto que pelo silencio do genro ficasse suspeitando de
+que elle não acceitava o conselho. Á noite, conversando
+n'um pequeno grupo em que se encontravam
+Laura e Claudio, julgou conveniente repetir a instancia
+mas d'esta vez levando-a por outra via.</p>
+
+<p>&mdash;Hoje, dizia para a sua velha amiga D. Maria do
+Amaral, já não ha nem póde haver casas nobres.
+Vem as partilhas e não ha fortuna que lhes resista.
+A abolição dos morgados acabou com toda a fidalguia
+<span class="pagenum">[220]</span>
+que fazia tanto bem. Desgraçado de quem tem mais
+do que um filho!</p>
+
+<p>&mdash;Pois o meu desejo é ter vinte, apressou-se Claudio
+a responder bruscamente, não tentando dissimular
+a sua irritação Que trabalhem! Foi assim que
+fizeram meus paes. Deus me livre de gente vadia!</p>
+
+<p>Laura córou e D. Maria Francisca respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Crédo! Que ideias! Nem parecem d'um rapaz
+fino como Claudio!...</p>
+
+<p>A conversação ia visivelmente azedar-se e D. Maria
+do Amaral, com o fino tacto que adquirira na sua
+vida de mundanismo fidalgo, accudiu a interrompel a:</p>
+
+<p>&mdash;Olha que o sr. Soares não tira os olhos de nós,
+disse para D. Maria Francisca. Está á nossa espera
+para a manilha; lá entende que por ser dia de
+festa não ha-de ficar sem partida.</p>
+
+<p>E todos se levantaram.</p>
+
+<p>&mdash;O meu Claudio, veiu dizer Laura ao marido
+quando mais tarde se recolhiam aos seus aposentos,
+foi hoje muito mau. Não gosto de o vêr assim. Fico
+muito zangada.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Ora, porquê?!...</p>
+
+<p>&mdash;Talvez tu tambem não queiras ter mais filhos?...</p>
+
+<p>&mdash;Ai, decerto que não! Um vá. Mais do que um,
+Deus me livre! Só o que eu soffri!...</p>
+
+<p>&mdash;É a boa educação religiosa que vos dão n'esses
+collegios de beatas.</p>
+
+<p>&mdash;Tomara-me eu lá! São umas santas...</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem te prende.</p>
+
+<p>&mdash;Bom. Deixemo-nos de discussões que não estou
+para me inquietar.</p>
+
+<p>&mdash;É melhor, é. Mesmo a unica cousa de que deves
+cuidar é de não te inquietares. Fazes bem. Has-de
+<span class="pagenum">[221]</span>
+tirar-lhe bom proveito! exclamou já ao cerrar a
+porta e dirigindo-se ao seu gabinete.</p>
+
+<p>Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro
+paredes da sua cella asphyxiavam-n'o. Desceu ao
+jardim e passeiou até á madrugada, meditando no
+drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe
+sem attenuantes, as phantasiosas esperanças que
+por alguns mezes alimentára com uma tristeza resignada
+voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar
+da metralha. Não queria ter mais filhos! Este
+pensamento obececava-o. Era a extrema perversão,
+o repudio completo de todas as leis naturaes, a cobardia
+e o egoismo, calcando e reprimindo toda a
+expansão da vida ingenua, um misero e constante
+terror, substituindo a alegria intensa do peito que
+canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam
+nas manhãs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A
+maternidade não transformára Laura; pelo contrario,
+revelava-lhe o caracter. O amor de sacrificio não
+viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava,
+tornando-se indomavel.</p>
+
+<p>Durante dois dias, Claudio só trocou com a mulher
+as palavras indispensaveis; taciturno, nada fazia já
+para lhe occultar o seu desgosto que era profundo.
+Intimamente, mantinha talvez ainda uma derradeira
+esperança, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua
+paz e alegria o que por instincto e instigação da
+consciencia não tinha podido alcançar. Laura porém
+conservava-se inteiramente estranha ao que se passava
+no espirito do marido; julgava-se offendida
+com o seu silencio. Pois não era uma santa, um
+anjo, como tantas vezes ouvira aos que a cercavam?!</p>
+
+<p>A sua vaidade não lhe deixava um instante de hesitação.
+Claudio não podia ter d'ella o menor aggravo.
+Tudo o que elle fazia caia sob uma condemnação formal,
+completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por
+<span class="pagenum">[222]</span>
+elle esse sacrificio. O filho não era para ella uma dadiva
+de Deus para melhor cumprir o seu destino no
+mundo; tinha sido uma tortura supportada por uma
+victima da sensualidade e do capricho d'um homem.
+A obliteração do senso moral consumara-se n'essa
+creatura a que a educação formalista, dando-lhe a apparencia
+externa, os modos, as palavras e os gestos da
+bondade, no intimo creára uma plena seccura
+de coração. Sem as luctas da vida em que se fórma
+e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o
+esforço e toda a situação que não lhe lisongeasse sem
+reservas os seus desejos.</p>
+
+<p>Entre Claudio e Laura começou uma verdadeira
+lucta, surda, sem explosões retumbantes, mas continuada
+e persistente, manifestando a cada momento
+uma divergencia de caracteres que, não logrando
+fundir-se, mutuamente tentavam dominar-se. Os
+creados, as visitas, o filho, os passeios, de tudo se
+tirava motivo para discussão que invariavelmente
+terminava por accentuar uma incompatibilidade de
+pensamento profunda.</p>
+
+<p>Claudio queria os creados tratados como familiares,
+bondosamente, sempre propenso a excusar-lhes
+os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e odiava-os
+cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira,
+por uma fita que uma creada trazia mal posta, porque
+se demoravam em accudir ao seu chamado. Não
+havia mez em que algum não fosse substituido.</p>
+
+<p>&mdash;Antes um pedaço de brôa, diziam, e o seu socego
+do que os regalos dos fidalgos. E iam-se embora,
+maldizendo da casa.</p>
+
+<p>&mdash;São do nosso sangue, dizia Claudio á mulher
+admoestando a; tem as mesmas tentações de descanso
+e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo afêrro
+aos seus habitos. É preciso tratal-os com caridade.
+São elles que nos servem, é sobre elles que lançamos
+<span class="pagenum">[223]</span>
+todos os trabalhos pesados que não podemos
+ou nos repugna fazer.</p>
+
+<p>&mdash;Pois governa-os tu! Eu é que não estou para
+isso. Se te incommoda ouvir os meus ralhos, tambem
+a mim me incommoda atural-os. O que elles
+são todos, concluia, enfurecendo-se, é uns demonios
+que não servem senão para me inquietar.</p>
+
+<p>A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera
+uma furia raivosa contra os creados, ficara de lembrança
+a Claudio.</p>
+
+<p>Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia
+com todo o rigor que a egreja aconselha, tendo-se
+previamente informado com o confessor sobre as horas,
+quantidade e especie de refeição a que devia
+sujeitar-se, para alcançar todos os beneficios que
+d'ahi podessem provir-lhe.</p>
+
+<p>Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente
+vestida de negro, levando nas mãos um
+livro rico, presente do casamento que uma sua parente
+beata expressamente encommendára em Paris
+e onde vinha traduzido para francez o evangelho. Na
+egreja foi sentar-se proximo do pulpito, n'um banco
+que um conego, antigo frequentador do palacio do
+Albuquerque, se apressou a mandar-lhe offerecer pelo
+sachristão, mal a viu. Depois seguiu com grande recolhimento
+toda a cerimonia, lendo, a cabeça inclinada
+sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em
+longe para olhar a cruz e o altar.</p>
+
+<p>Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar
+o magro alimento que lhe era permittido, mas ás
+quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para ir
+vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao
+anoitecer, logo seguida de immediato regresso á sé,
+para assistir ao officio de trevas e ao sermão da paixão.
+Tinha pressa, para não perder o logar que o
+conego promettera reservar-lhe.</p>
+
+<p>Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando
+<span class="pagenum">[224]</span>
+graciosamente o livro sobre os joelhos para se
+entregar a essa delicia, e ouviu por fim o sermão.
+Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia
+pouco para a faculdade de theologia, terminando
+o discurso e procurando motivos de emoção, clamava
+no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar
+o Christo morto na pobreza e no abandono,
+Laura, sentindo um fremito mais de temor que de
+piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas
+lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente
+acompanhando a onda de povo que se dirigia
+á porta da egreja e entrou na carruagem.</p>
+
+<p>&mdash;Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é
+tão descuidado... Nunca se lembra de trazer os escalfadores.</p>
+
+<p>Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia
+noite. Ao entrarem em casa, encontraram um silencio
+profundo e Laura dizia ao marido, já levemente
+irritada:</p>
+
+<p>&mdash;Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem
+sabia que eu tinha saido e jejuei todo o dia.
+Que desmaselo!</p>
+
+<p>Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a
+porta do quarto, quando n'um movimento de surpreza,
+estacou.</p>
+
+<p>A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma
+cadeira e adormecera.</p>
+
+<p>Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais
+amargo lhe tornar o despertar, e n'um accesso de
+colera indiscriptivel começou a bater-lhe e a injurial-a.</p>
+
+<p>&mdash;Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora
+aqui?! gritava. O meu regalo era pôl-a immediatamente
+no meio da rua.</p>
+
+<p>Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica
+palavra.</p>
+<span class="pagenum">[225]</span>
+
+<p>&mdash;E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que
+homem este!</p>
+
+<p>Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura
+acabava de receber? pensava Claudio. Era este o
+modo por que commemorava os soffrimentos de Christo?
+A surpreza turvava-o inteiramente e, como de
+costume, a imaginação espraiava-se buscando illusões,
+para retardar ainda por mais algum tempo a
+convicção de que a sua vida estava unida á mais
+cruel aridez do coração em que os seus sonhos de
+piedade christã tinham de se dissipar.</p>
+
+<p>O filho era um acrescento ás vaidades de Laura.
+Entravam na sala as visitantes e logo a ama o preparava
+com rendas e fitas de seda para vir apresental-o.
+Choviam então as exclamações. Ai! Mas que
+belleza! Um mimo! Um apetite! E que gordinho!...</p>
+
+<p>&mdash;É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais
+lisongeiras. É o retrato do avô.</p>
+
+<p>Laura passava então momentos felizes. Não era o
+filho seu producto e propriedade, não vinham os
+elogios cair directamente sobre ella, juntando-se aos
+que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?</p>
+
+<p>A satisfação da vaidade continuava-se agora sob
+uma nova fórma e, despedidas as visitas, voltava
+risonha a contar a Claudio o que haviam dito a condessa
+dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham
+um encanto, uma belleza!...</p>
+
+<p>O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe
+o desprezo que por ella começava a ter,
+lembrando-se da indifferença com que abandonára o
+filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o
+para que os seus chóros não a importunassem
+e principalmente do seu receio louco de ter novos
+filhos.</p>
+
+<p>Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados
+e os braços doridos das longas vigilias a amamentar
+<span class="pagenum">[226]</span>
+os filhos, com a imbecilidade risonha e paramentada
+que tinha deante de si; a convicção do naufragio
+das suas aspirações arreigava-se-lhe no espirito.
+Nem já o filho lhe podia reanimar esperanças
+O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..</p>
+
+<p>Laura continuava sempre estranha ao que se passava
+no pensamento de Claudio.</p>
+
+<p>A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio
+e posse a que a tinham habituado os mimos dos
+paes, emquanto solteira, e que vira confirmados
+pela submissa obediencia com que o marido se curvára
+a todos os seus appetites durante os tempos de
+gravidez. Queria saber todos os seus passos, queria
+que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade
+de sair sem previamente lhe dizer onde ia e para
+que. Era um passeio em que procurava concentrar-se
+algumas horas na reflexão sobre a sua malograda
+existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse,
+que ella iria tambem. Eram negocios que tinha
+a tratar? Escusava de sair e de a deixar só, tudo
+se regularia por meio de cartas; e punham-se os
+creados em movimento. O amor em Laura não era o
+ardor de sacrificar-se á vida d'alguem, de viver para
+outrem, era a paixão de possuir e conservar só para
+si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades.
+Por isso dizia que tinha muito amor ao
+marido e ao filho, e tomou por ingratidão o descontentamento
+de Claudio, que percebia sem poder explical-o.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O
+que eu lhe ouvi e o que agora vejo!...</p>
+
+<p>Succederam-se longos mezes sem que a situação
+se modificasse apparentemente, porque no fundo ia-se
+cavando a extincção de todo o affecto conjugal.
+Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas
+constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos
+e entre duas maneiras de conceber a vida, o
+<span class="pagenum">[227]</span>
+egoismo que se occulta em convenções de religião
+e de bondade, e a virtude que rudemente, por um
+trabalho assiduo, procura servir o proximo.</p>
+
+<p>Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não
+tinha uma hora sua, para os seus prazeres, para os
+seus estudos ou para o seu trabalho; a sua existencia
+estava completamente absorvida pelas exigencias
+de Laura, pelas suas recepções, pelas suas visitas,
+pelos cuidados e deligencias que lhe impunha, continuadamente
+a caminho da pharmacia ou do consultorio,
+se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço
+ou se o filho se mostrava impertinente.</p>
+
+<p>O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando
+uma vida de benedictino, affagada pelos carinhos
+vigilantes da esposa, essa cella em que, lendo e pensando,
+havia de alcançar o conhecimento da verdade,
+que toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar
+a existencia, estava hoje convertido n'uma simples
+sala onde cada dia, em trajes bem talhados por
+alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados
+que vinham festejar os annos das pessoas
+de familia&mdash;os pretextos de festas multiplicavam-se,&mdash;ou
+pacientemente esperava Laura que, sem se
+dar pressa, rematava a <i>toilette</i> para passeiar de carruagem,
+ou se consumia em qualquer outro frivolo
+mistér.</p>
+
+<p>Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a
+quatro contos de réis de renda que Claudio possuía
+e que em Albergaria lhe permittiam uma vida lauta,
+sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de
+Laura eram insufficientes para os seus habitos e costumes
+fidalgos. Era preciso um cocheiro e um trintanario,
+um jardineiro, um escudeiro, um hortelão,
+uma creada para o serviço de Laura, uma outra para
+a cosinha, uma outra para ajudante da cosinheira,
+mais outra para o serviço das roupas, mais outra
+para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de
+<span class="pagenum">[228]</span>
+recoveiros, de engommadeiras e as innumeras gentes
+que frequentavam a cosinha da pequena casa da
+estrada da Beira.</p>
+
+<p>Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido
+quatro contos de réis além dos seus rendimentos.
+Era a ruina. Queixava-se a Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Tu bem sabes que não se póde viver com menos!
+respondia ella com vivacidade. Só se queres
+que eu lave a roupa e faça a cosinha...</p>
+
+<p>&mdash;Não, mas tudo tem limites.</p>
+
+<p>&mdash;Tem muita graça essas economias! Quem não
+quer gastar, não se casa. Ou então casasses em Villalva,
+com alguma rapariga de pé descalço. Não viesses
+procurar uma pessoa fina.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez não tivesse sido infeliz...</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa
+de meus paes muito bem, não me faltava lá nada.
+Escusava de me vir metter n'este inferno.</p>
+
+<p>Claudio calava-se perante os modos irritados da
+mulher. Por triste experiencia sabia que não lograria
+convencel-a, e fugia de violencias inuteis. Interiormente,
+porém, o desengano consumava-se e o
+desprezo crescia, illuminado de rapidos clarões de
+revolta.</p>
+
+<p>Começava agora a manifestar-se d'uma maneira
+bem patente a sêde de libertar-se do jugo. Entrava
+n'um periodo de desespero. Os momentos de tranquillidade
+em que o espirito se lhe desanuviava e a
+alegria parecia voltar, e que d'ordinario eram os que
+passava conversando com antigos companheiros, já
+não significavam esperança; eram apenas o natural
+repouso das cogitações em que a sua infelicidade se
+revolvia, reacção do pensamento fatigado de tristeza
+e buscando espontaneamente uma atmosphera sã.</p>
+
+<p>Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que
+não podia esperar de Laura outra cousa que não
+fosse a futil existencia que até alli tinha levado; a
+<span class="pagenum">[229]</span>
+educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade
+sem limites venciam todas as tentativas de conversão
+que o marido tinha tentado, emquanto o habito
+de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava
+insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.</p>
+
+<p>&mdash;Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar
+na bengala e pôr o chapéu na cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Passeiar e tratar umas cousas na baixa.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu preciso sair tambem...</p>
+
+<p>&mdash;Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.</p>
+
+<p>&mdash;Bons costumes! E muito delicados...</p>
+
+<p>Claudio não respondia; continuava o seu caminho.
+Não tinha negocios alguns a tratar; o que queria era
+libertar-se d'aquelle ambiente que o suffocava, distrair-se
+em extensos passeios á beira do rio, na
+contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis
+mimosos ou encontrando quem lhe fallasse de coisas
+ociosas que eram para o coração dorido um rapido
+refrigerio.</p>
+
+<p>Bem sabia que por cada vez que desobedecia a
+Laura teria alguns dias de despeitado mutismo, mas
+a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos haviam-n'o
+tornado indifferente a essa arma que a mulher
+usára com proveito nos tempos em que elle esperava
+vencel-a e conquistal-a pela doçura e pela
+paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava
+Laura ao proprio desespero, que era apenas o
+castigo da ruindade dos seus sentimentos.</p>
+
+<p>Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar
+as peiores noticias de Villalva. A mãe mandava-o
+chamar; tivéra um novo ataque de paralysia
+e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha
+muito esperava essa má nova. Via o declinar da sua
+velhinha, como lhe chamava, que já por duas vezes
+fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o
+proprio medico não lhe tinha occultado que era provavel
+<span class="pagenum">[230]</span>
+que se repetissem e que constituiam, uma
+ameaça grave.</p>
+
+<p>Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe
+pela derradeira vez. Laura quiz acompanhal-o, não
+porque sentisse o menor respeito pela sogra, de cuja
+rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia
+de santo e de grande, mas porque julgava ser
+proprio de gente fina acompanhar o marido em occasião
+tão difficil. Elle, porém, instou e foi só; talvez
+exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria
+noticias e depois se resolveria como fosse melhor.
+A verdade era que queria vêr-se sósinho com a mãe e
+affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo
+aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na
+saudade d'aquella que fôra a maior affeição da sua
+vida.</p>
+
+<p>Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira
+d'alli toda a noite, dizia, nem sairia emquanto
+Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe, acrescentava,
+que o estado da doente era muito grave.</p>
+
+<p>&mdash;Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde
+ir longe. É a sorte que a todos nos espera, e o dr.
+Claudio, como homem intelligente que é, deve ter
+coragem para se conformar com o destino.</p>
+
+<p>Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso
+do doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Posso fallar-lhe, não posso?</p>
+
+<p>&mdash;Póde... Ella por emquanto está ainda bem.
+Mas não convém conversar muito. Sempre excita...</p>
+
+<p>Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada,
+os olhos semi-cerrados, unicamente acompanhada
+pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.</p>
+
+<p>A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o
+lenço ao rosto a occultar as lagrimas que lhe rebentaram
+n'uma contracção afflictiva. Depois, dominando-se,
+chamou baixinho:</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe, minha mãe?</p>
+<span class="pagenum">[231]</span>
+
+<p>&mdash;O que é? respondeu a velhinha abrindo os
+olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Está aqui o Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com
+a mão esquerda, que o braço direito estava completamente
+paralytico. Estou muito mal... É tempo de
+dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que
+cá viesses hoje...</p>
+
+<p>Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras
+tardavam e a voz embaraçava-se.</p>
+
+<p>&mdash;Está assim, disse a irmã de Claudio. Falla quando
+a chamam, diz meia duzia de palavras e depois
+fica outra vez n'esta somnolencia. Já não se lembra
+de que foi ella que te mandou chamar.</p>
+
+<p>Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo
+da meia noite, a velhinha moveu-se no leito.
+Claudio perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;O que tem? Quer alguma cousa?</p>
+
+<p>&mdash;Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.</p>
+
+<p>A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se
+da mãe, a observal-a. Pareceu-lhe alterada
+a face; para vêr melhor, desvendou a luz que estava
+sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno
+bahú de coiro, antiga herança da casa em que o pae
+guardava os titulos das suas propriedades.</p>
+
+<p>&mdash;Luiza, Luiza! gritou chamando a irmã.</p>
+
+<p>O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e
+Claudio, ancioso, sem articular uma palavra, apenas
+poude apontar para elle.</p>
+
+<p>Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em
+breves momentos, jazia inerte aquelle corpo que os
+animára com o seu alento e que lhes legava a eterna
+luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.</p>
+
+<p>Houve certo rumor em toda a casa, dos creados
+que saiam a levar ordens para o enterro, a prevenir
+<span class="pagenum">[232]</span>
+o parocho e os armadores. Depois, pelas duas horas,
+tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam
+o corpo da mãe, pallida e serena, vestida de
+negro, coroada de cabellos brancos, sobre o leito,
+mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam
+o crucifixo, em cima da commoda, convertida em
+altar.</p>
+
+<p>Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos
+que vinham com palavras de sentimento, e muitos
+com lagrimas, offerecer os seus serviços. Dirigiam-se
+a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao
+sair, entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto
+do cadaver.</p>
+
+<p>Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia.
+Claudio abraçou-os, soluçando n'uma crise de lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Vae vel-a, disse para a mulher.</p>
+
+<p>Na confusão do seu espirito perpassou a esperança
+d'um milagre. A mãe havia de converter a esposa;
+dos tristes despojos d'aquella que fôra uma santa
+emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade
+e o amor.</p>
+
+<p>Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente
+de Albergaria que correu a Villalva. O enterro foi
+á tarde. Quando chegou a noite, voltou a paz. Tudo
+parecia dormir.</p>
+
+<p>No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha
+pressa de restituir a mulher á sua casa e ás suas
+commodidades. Sabia que ella não podia estar contente
+ali, servida por creados rusticos, e a sua presença
+perturbava-o.</p>
+
+<p>Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu
+espirito era completa, tudo o que conscientemente
+sentia era uma fadiga extrema. Voltava a Coimbra,
+lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á
+irmã e partiu.</p>
+
+<p>Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá
+<span class="pagenum">[233]</span>
+tinha chegado, succediam-se sem interrupção as visitas
+de gente fina que vinha trazer-lhe consolações
+banaes, em palavras que no correr do dia ouvia innumeras
+vezes.</p>
+
+<p>Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava
+tratar de partilhas e regular os seus negocios,
+mas a verdade é que queria estar só com as suas
+saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria
+concentrar-se na meditação, tentar descobrir e
+vêr claro o estado da sua alma. Contrariedades, esperanças,
+desillusões e uma infinita saudade batiam-n'o
+sem cessar como o lebreiro persegue a caça.
+Fugiria? Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se
+mais uma temerosa batalha.</p>
+<span class="pagenum">[235]</span>
+
+
+
+
+<h1>VI</h1>
+
+
+<p>Villalva! O silencio e a paz no contacto
+da natureza, a absorpção no seu caudaloso
+palpitar, o arrebatamento nas
+suas emanações purificantes! Perante a
+cintura de montanhas que lhe cerravam
+o horisonte, lançando os olhos pelo valle
+em que os casaes dormiam escondidos
+no arvoredo ou debruçados á beira dos
+campos vicejantes, Claudio sentia uma
+vaga aspiração, um desejo obscuro cortado
+de saudades traduzindo-se n'um
+pullular de interrogações que opprimiam.
+Onde estava? Por que agrestes caminhos tinha
+andado? Onde ia? O que queria?</p>
+
+<p>Só, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros
+risos e as suas primeiras lagrimas, perante o vulto
+sagrado da mãe, agora sempre presente aos seus
+olhos, resurgindo reanimado, para não mais morrer,
+na exaltação d'uma immarcessivel lembrança, reconstituia
+a sua existencia, recordando factos, buscando
+<span class="pagenum">[236]</span>
+ainda, com uma tenacidade de naufrago, esperanças
+de salvação.</p>
+
+<p>O desengano esmagava-o; já não podia ter duvidas
+sobre a situação a que chegára, a historia da sua
+vida era um livro aberto em que não ficava o mais
+breve enigma nem a mais passageira obscuridade.
+Recordava os annos da infancia e mocidade, o respeito
+pelo trabalho e pela humildade de que seus
+paes lhe haviam dado lição profunda no exemplo
+ininterrompido, via como depois surgira a tentação
+accendida pelas fascinações da sciencia materialista
+e pelas perversões da riqueza, e sentia ainda com
+angustia a tortura em que o lançára o tormentoso
+desvairamento do adulterio.</p>
+
+<p>Casára-se para se salvar. Não desenganado ainda
+sobre a significação moral da vida elegante, confundindo
+o luxo e a arte, a delicadeza do espirito e os
+cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia
+fidalga sonhando a alliança d'uma simplicidade
+christã com os requintes artisticos e os gozos e as
+commodidades da gente fina.</p>
+
+<p>Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido
+dolorosamente e profundamente. Encontrara um
+egoismo sem limites, occultando-se em palavras doces
+e sorrisos convencionaes, onde esperava uma
+alma aberta á sympathia, ao amor e ao sacrificio;
+encontrára uma inconsciente crueldade onde phantasiára
+uma perenne bondade e denguices sentimentaes
+no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora
+tudo estava perdido, sem remedio.</p>
+
+<p>Quando fôra dos amores de Emilia, era livre, senhor
+de recomeçar a sua vida; ligado pelo casamento
+seria arrastado na sua desgraça sem remissão.
+Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura,
+os continuados motivos de desgosto que ella lhe dava
+e que por constantes definiam a sua vida normal; os
+ralhos e a odienta brutalidade com os creados, a
+<span class="pagenum">[237]</span>
+aversão aos pobres e aos mendigos, o horror da procreação
+e essa avidez feroz com que reclamava o
+marido só para os seus prazeres, para os seus vicios
+e para as suas futilidades fidalgas, não lhe permittindo
+um momento de liberdade, não lhe concedendo,
+n'uma hora de bondoso desprendimento, que vivesse
+para si, para os seus trabalhos, para o seu repouso,
+ou, mais singelamente ainda, para as suas
+meditações.</p>
+
+<p>Na verdade, não tivera com Laura um só acto de
+violencia, não podia dizer quando começára esse
+sentimento indefinido que o fazia temer a sua presença
+e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por
+isso a dissolução era menos completa; infiltrára-se-lhe
+na alma, subtilmente, impregnando-a dia a dia
+mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do
+fél que trasbordava jorrando um sombrio desespero.</p>
+
+<p>Como supportára até então essa cruz, porque não
+fugira ha mais tempo do logar em que um tormento
+incessante o perseguia? Não tinham sido as esperanças
+de emenda da parte de Laura que o tinham
+contido. Essas perdera-as por completo quando o filho
+nascera; a mesquinhez da sua alma revelára-se
+então sem rebuço, deixando-lhe no espirito uma
+arreigada convicção que, de resto, os factos quotidianos
+confirmavam tenazmente.</p>
+
+<p>Rememorando as mortificações que soffria, persuadia-se,
+n'um exame da propria consciencia, que
+só por amor de sua velha mãe occultára a sua desgraça
+tentando deixar-lhe sempre a impressão de
+que vivia feliz. Sim, só por ella bebera corajosamente
+esse calix sem trepidar, sem uma apparente contracção,
+para que a tristeza não perturbasse a sua
+velhice e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade
+de quem louva a Deus por ter abençoado
+de felicidade a sua próle.</p>
+<span class="pagenum">[238]</span>
+
+<p>Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo laço
+que o ligava á terra! Aquelles cyprestes que além
+oscilavam ao vento junto á egreja, tinham agora
+para Claudio uma fascinação estranha. Os seus olhos
+não se desprendiam d'esse pedaço de terra, interrogadores,
+fitando os tumulos, buscando a revelação
+do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua
+mãe, o seu grande affecto? Dormia já para sempre.
+Para Laura, sua esposa? Era alheia ao seu coração
+e, ámanhã, quando o tivessem lançado ali ao pé de
+sua mãe, havia de cobrir-se de crépes finos, e correria,
+em carruagem, a fazer mesuras lacrimosas
+por casa dos parentes fidalgos, e bateria nos creados
+quando errassem e em accessos de ira expulsaria os
+mendigos do jardim.</p>
+
+<p>Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante
+a imagem d'essa dôr mentirosa, ávida da vida,
+d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do mundo
+crescia no seu coração. Viveria para o filho? Nada
+podia esperar d'elle. Havia de crescer ao sabor dos
+caprichos da mãe. Já uma atmosphera de louvores e
+constante lisonja começava a tornal-o enfadonho e
+falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de
+regalos, a perversão mostrar se-ia completa. Melhor
+seria livrar a tempo os seus olhos d'essa imagem em
+que veria incessantemente a miseria do seu destino.
+Viver para os estranhos, para os desconhecidos,
+para uma vida de caridade, enxugando lagrimas,
+agasalhando os indigentes, levando consolo aos desventurados?
+Era tarde! Toda a energia estava extincta,
+consumida na propria desventura. Viver para
+os prazeres do corpo, lançando para longe todas as
+preoccupações moraes, despindo-se affoitamente
+d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando
+a casa da estrada da Beira sob a impertinente
+insolencia da mulher, sentira os impetos d'uma reacção
+naturalista que o vigor dos annos atiçava mas
+<span class="pagenum">[239]</span>
+de todas as tentações logo accordava pela lembrança
+dos tormentos passados em Albergaria da Serra
+nos tristes annos dos amores de Emilia e pela perseguição
+de invenciveis espectros da consciencia em
+que as aspirações de virtude se confundiam com a
+imagem da sua mãe, no intimo sempre presente.</p>
+
+<p>Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano,
+privada de todas as alegrias que ambicionára,
+continuamente retalhada de dôres? Tivesse a coragem
+de anniquillar os restos inuteis do seu corpo.
+Para que servia n'este mundo? O pão que o alimentava
+queimava-lhe os labios como um roubo ao trabalho
+dos que eram sãos, vivendo no amor, e o suicidio
+não seria um crime nem uma deserção, era
+uma obra de caridade livrando a humanidade d'um
+ser enfermo e esteril, era um acto de justiça, reconhecendo
+e castigando o desvairamento da sua existencia
+perdida em sonhos vãos e agora sacrificada á
+frivolidade d'uma mulher. Uma pesada sombra lhe
+escurecia então o pensamento e olhava esse abysmo
+eternamente mysterioso como o mar calmo em que
+precisava lançar-se para seu repouso, para sua gloria,
+para sua redempção.</p>
+
+<p>N'esta febre havia porém remissões. Pela manhã,
+desde que fallecera a mãe de Claudio, a casa de
+Villalva era invariavelmente visitada pelos devedores,
+pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella
+dependiam.</p>
+
+<p>Vinham regular as suas contas, pedir perdão das
+dividas em atrazo ou que lhes esperassem pelo pagamento
+das rendas caidas, saber se poderiam contar
+com as terras, o que seria de futuro, a quem
+pertenceriam.</p>
+
+<p>Era gente rude, vestida de burel, mostrando no
+peito uma camisa grosseira, de grandes e toscas botifarras,
+muitas vezes descalça, tendo deixado á
+entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres
+<span class="pagenum">[240]</span>
+vinham tambem; por homenagem ao novo senhor
+traziam-lhe aves que iam levar a cosinha, em
+pequenas cestas.</p>
+
+<p>&mdash;Ai, Senhor! Está no ceu, era uma santa; diziam
+gemendo para que Claudio ouvisse e se compadecesse
+da sua pobreza.</p>
+
+<p>Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios,
+começavam a falar dos seus males, este dos
+gados que lhe morreram, aquelle das doenças que
+houvera em casa, est'outro das más colheitas e dos
+maus preços. Terminavam pedindo alguma cousa.
+Por alma da senhora sua mãe... rematavam.</p>
+
+<p>Claudio, a essa invocação, que bem sabia ser banal,
+não tinha coragem de resistir. Era no seu espirito
+uma instantanea resurreição de qualquer cousa
+sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.</p>
+
+<p>De resto, as horas que passava com os arrendatarios,
+com os devedores e com os creados que vinham
+receber ordens e dar contas das suas obrigações,
+eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os
+comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples.
+As riquezas do mundo encerravam-se em algumas
+medidas de pão guardadas na arca, em meia duzia
+de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto
+o rebanho vae traçando o pasto, e tecido
+nos serões de inverno á minguada luz d'uma candeia.</p>
+
+<p>Moral, problemas da alma não existem. «Tu comerás
+o pão com o suor do teu rosto», é tudo, um
+evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o sustento
+que ella nunca recusa ao teu suor, não contes
+os teus passos, nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha
+sempre, para ti, para os filhos, para os visinhos,
+para os viandantes que passam no caminho; não
+penses para que nem para quem, os necessitados
+<span class="pagenum">[241]</span>
+te virão buscar o pão, como nas horas de miseria tu
+irás tambem viver do trabalho alheio.</p>
+
+<p>A suprema lição era-lhe dada por aquelles que esmolavam
+e nada pretendiam ensinar. De tanto estudo
+e ambição, de todas as suas cogitações e de todos
+os seus loucos anceios de perfeição, recebia alli
+correctivo.</p>
+
+<p>Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera
+n'essa noite em que, creança ainda, pela primeira
+vez deixára Villalva para ir buscar riqueza e
+saber que tão cedo se converteriam em infortunio,
+e a ideia da morte voltava como a unica redempção.</p>
+
+<p>Laura escrevia-lhe longas cartas. Que não sabia
+que crimes eram os seus para que assim fosse abandonada,
+que todos a estimavam e adoravam, menos
+elle; que só á inconstancia dos homens podia attribuil-o
+pois ella, se por alguma cousa peccava, era
+pelo muito amor que lhe tinha. O que diriam, perguntava,
+todas aquellas pessoas com quem convivia
+ao saber que Claudio desertara a sua casa quasi
+completamente? Por certo haviam de o condemnar.</p>
+
+<p>No fundo, essas cartas eram apenas a confirmação
+do que Claudio por demais conhecia, a vaidade
+da mulher, a crença nos seus merecimentos alimentada
+pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma
+vontade insaciavel, absorvente, de ser senhora de
+todas as acções do marido.</p>
+
+<p>Não mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um
+objecto que era seu, para seu uso e regalo e não
+para viver para elle, sacrificando-se. Confirmando a
+sua infelicidade, lançavam-n'o em novos impetos de
+desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar
+das suas cogitações podesse surgir.</p>
+
+<p>Uma tarde, como estivesse só, desceu abaixo, ao
+campo em que empregára tantos cuidados quando
+<span class="pagenum">[242]</span>
+habitava em Albergaria. Custava-lhe vêl-o; tinha
+caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes
+dos amores de Emilia em que julgára ter alcançado
+a felicidade. Com que risonha esperança alli se
+sentára em mornos crepusculos do estio e em que
+desvairada agonia alli chorára as lagrimas da sua
+culpa!</p>
+
+<p>Apezar d'isso, aquelle pedaço de terra atraia-o. No
+seu proprio abandono havia uma belleza consoladora;
+os jacinthos que brotavam entre a herva, as roseiras
+que se perdiam nos ramos das larangeiras,
+todo esse desalinho da natureza a que era estranha
+a mão do homem, cantava a vida ingenua e simples
+em emanações de viço e de frescura.</p>
+
+<p>Estavamos em fins de fevereiro. Pela manhã chovêra
+e o campo brilhava todo aljofrado de gottas de
+agua.</p>
+
+<p>Claudio abriu a cancella embaraçada nas trepadeiras
+que a enleiavam e olhou procurando um
+carreiro enxuto. Não havia; as hervas ruins cobriam
+todos os caminhos.</p>
+
+<p>Quasi a seus pés, descobriu uma violeta. Abaixou-se
+para a colher. Reparou então que eram muitas estendendo-se
+pela beira do caminho, rompendo por
+meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra
+das acelgas.</p>
+
+<p>Instinctivamente, começou a limpar o chão das
+plantas parasitas, primeiro devagarinho, com medo
+de se sujar e de se picar nas ortigas, depois affoitamente,
+sentindo um prazer estranho em afundar os
+dedos na terra. As violetas iam surgindo e, assim
+libertas, pareciam grandes e bastas.</p>
+
+<p>Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim
+não podia mais, todo o corpo mortificado pela posição
+em que estivéra, abaixado. Levantou-se, contemplou
+com alegria os poucos palmos de terra que tinha
+limpo, e, para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados,
+<span class="pagenum">[243]</span>
+enlameando-se, sem receio, procurando as
+plantas que tinham resistido ao abandono.</p>
+
+<p>No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho,
+á tarde, depois de ter recebido os clientes. Antes de
+sair, voltou a vêr as violetas. Abaixou-se novamente,
+teve tentações de continuar, mas não podia mais,
+os membros entorpecidos.</p>
+
+<p>&mdash;Amanhã! amanhã! pensava subindo a encosta.</p>
+
+<p>Aquelles momentos tinham sido porém uma revelação.
+Apetecia-os com frenesi.</p>
+
+<p>Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao
+campo. Trazia a ferramenta, o sacho, a thesoura e a
+navalha, para poder repousar d'um em outro trabalho.
+Voltou ás violetas. Não podia abaixar-se, o corpo
+dorido ainda do exercido da vespera. Começou a
+sachar um alegrete, mas o serviço ia mal feito, deixava
+escapar algumas hervas e a terra ficava aos montes,
+mal arrasada. Despiu o casaco; o sol começava
+a apertar pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras,
+mas a mão tremia-lhe, o córte era incerto,
+mal rematado.</p>
+
+<p>Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada
+pelos vendavaes do inverno. Que infelicidade a sua!
+Quanto desejava, tudo lhe era vedado. Não poder
+trabalhar alli desde o romper do dia até á noite!...
+Seria a salvação. Affluiam as lembranças da mocidade,
+o prazer de cuidar das suas flores que a mãe
+vinha colher para pôr aos pés do crucifixo. Porque
+não tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo
+ainda, as forças voltariam com o uso.</p>
+
+<p>Cada dia começou então a ter para Claudio os seus
+momentos de prazer. As violetas expandiam-se agradecendo
+os carinhos de quem lhes déra espaço e sol,
+as roseiras mostravam purpureos e tumidos botões e
+já da cylindra se erguiam suavissimos perfumes.
+Era uma festa interminavel que recrudescia a cada
+<span class="pagenum">[244]</span>
+instante em novas vibrações de vida, coroando e
+abençoando o esforço humano.</p>
+
+<p>Claudio sentia-se alegre junto da nova companheira
+da sua vida, a natureza, e tenazmente procurava
+vencer e sujeitar o corpo debil ao seu grande amor.</p>
+
+<p>No dia em que pela primeira vez lançou mão da
+enxada, passou-se na sua alma um grande drama,
+uma lucta gigante entre o destino e a esperança.
+Ergueu a enxada ao ar, deixou-a cair, guiando-a, e
+cravou-a no sólo. Depois, firmando-se, recuou o corpo
+e voltou a leiva cortada cerce, rompendo a terra
+de cuja escuridão se desprendia um alento de fertilidade,
+como uma promessa. Ergueu novamente a enxada,
+cravou-a, recuou e voltou uma outra leiva.
+Triumphava! De repente, porém, cairam os braços e
+um suor de fadiga se lhe derramou em todo o corpo.
+Não podia! O esforço era superior ás suas forças;
+uma reacção violenta quasi o prostrava. Encostou se
+á enxada e duas gottas de suor, rolando-lhe pela
+fronte, foram beijar a terra. Mysterioso hymeneu!</p>
+
+<p>N'aquelle beijo consumava-se um eterno amor. A
+esperança, succedendo ao desalento, reanimaria o
+corpo enfermo e d'aquella união, fecunda e casta,
+sem peccado, brotariam fructos abundantes para matar
+a fome aos miseros famintos e para restituirem
+á vida a alma angustiada.</p>
+
+<p>Dentro em breve, poderia trabalhar quatro a cinco
+horas no seu campo, vencendo pelo exercicio e pela
+perseverança a debilidade physica, affrontando as
+instancias dos servos, que se julgavam humilhados
+vendo regeitados os seus serviços, e desprezando risos
+equivocos dos visinhos que entre si discutiam se
+Claudio era um avaro, se um louco.</p>
+
+<p>&mdash;É aquelle mesmo genio do pae, diziam uns.
+Muito agarrado!</p>
+
+<p>&mdash;Qual genio! diziam outros. Foi uma mania que
+lhe deu. Elle não faz aquillo para poupar. Parece até
+<span class="pagenum">[245]</span>
+que se importa pouco com o que é seu. Tem perdoado
+as dividas todas e traz as rendas de rastos.</p>
+
+<p>Para preencher o muito tempo que lhe sobrava do
+trabalho n'aquella estreita lavoura, Claudio tomára á
+sua conta alguns serviços de casa mais ligeiros. Era
+elle que olhava pelo penso das aves e dos gados que
+breve aprenderam a conhecel-o e a festejal-o na sua
+caracteristica e descompassada alegria, abeirando-se
+do seu senhor com as caricias de gratidão que elle
+recebia com avidez, elle que era tão pobre d'essas
+dadivas.</p>
+
+<p>Mas não podera banir ainda todas as horas de
+angustia; a fadiga e os novos prazeres d'esta existencia
+nas graças da natureza não tinham vencido
+inteiramente as tristezas da meditação. Ás vezes
+voltavam os zumbidos demoniacos do desespero e
+com elles a prostração do espirito. Não, não havia
+modo de se libertar e desprender do passado! A sua
+vida estava finda, precisava ter a coragem de comprehender
+e esperar com resignação o esphacelamento
+d'esse involucro que se lhe afigurava desprezivel
+e que era o seu corpo.</p>
+
+<p>De longe em longe, vinha a Coimbra. Não tinha
+animo para um rompimento formal; a dissolução dos
+antigos vinculos ia lenta, com bastas interrupções,
+prendia-se em conveniencias que não conseguira
+combater victoriosamente, e com os estranhos mostrava
+cuidar da administração da casa e estar preso
+em Villalva por interesses temporaes.</p>
+
+<p>Laura recebia-o com um azedume que não procurava
+encobrir, mitigado de contentamento por ter
+ensejo de mostrar quanto se sentia aggravada pelas
+ausencias e pelo viver do marido. Na sua impenitente
+vaidade, julgava se perfeita; attribuia o affastamento
+de Claudio a sentimentos brutaes e ruins.</p>
+
+<p>Já a mãe deixava entrevêr nas suas conversações
+<span class="pagenum">[246]</span>
+entre os intimos a infelicidade da filha e não perdia
+occasião de repetir:</p>
+
+<p>&mdash;Coitadinha! Quasi sempre só... Meu genro tem
+aquelles gostos extravagantes. Só está bem entre
+brutinhos.</p>
+
+<p>Claudio comprehendia o que se passava em volta
+de si; pouco fallava, cortando sempre abruptamente
+qualquer tentativa de explicação sobre o seu viver.</p>
+
+<p>Antecipadamente sabia, por experiencia, que nem
+a mulher lograria fazel-o mudar de rumo nem elle
+conseguiria emendar o insubmisso caracter da mulher,
+formado para o egoismo e para a vaidade n'uma
+atmosphera de inconsciente perversão. Por isso se
+tornára taciturno. Quando por acaso se encontrava
+nos serões do palacio da estrada da Beira, apressava-se
+a tomar logar a uma meza de jogo onde o dispensassem
+de conversar e não o perseguissem com
+indiscretas e enfadonhas interrogações sobre os seus
+passos e os seus actos.</p>
+
+<p>Logo que podia, ao minimo pretexto, corria a
+Villalva, lançando fóra com desprezo o casaco que o
+embaraçava de trabalhar e a gravata que tinha por
+um farrapo inutil e significativo; mal vestido e mal
+calçado, começava a visitar os gados e as plantas,
+retemperando-se no silencio d'aquellas montanhas;
+e este regresso ao ninho, como lhe chamava, deixava-lhe
+invariavelmente nas primeiras horas a impressão
+d'uma felicidade reconquistada e segura.
+Accordava-o uma vibração salutar, emanada d'esses
+milhões de vidas, mudas para o coração arido, eloquentes
+para os que palpitam na mesma onda.</p>
+
+<p>Em frente da casa de Claudio morava um velho
+que fôra creado de seus paes. Juntara um escasso
+mealheiro á custa d'uma economia inflexivel, casára
+com a visinha que possuia aquelle albergue em que
+habitavam, e com isso e com as terras que o seu
+<span class="pagenum">[247]</span>
+antigo senhor lhe déra de renda tinha prosperado
+em certa independencia.</p>
+
+<p>Do seu casamento houvera muitos filhos, mas uns
+tinham ido para o Brazil, outros trabalhavam em
+Lisboa, outros tinham-se casado, outros morrido, e
+em casa, a este tempo, tinha só um rapaz de quatorze
+annos que o ajudava na lavoura e uma filha de
+vinte annos, e de nome Maria, que no labutar domestico
+auxiliava a mãe alquebrada pelos partos,
+pela creação dos filhos, por quarenta annos de ininterrompidas
+fadigas.</p>
+
+<p>Claudio olhava aquelle casal como um templo em
+que se guardava pura a felicidade e a virtude. Era
+aquillo que elle hoje desejaria para si, se podesse recomeçar
+a sua vida;&mdash;ter tirado da terra com o suor
+do seu rosto o pão de cada dia e ter dado ao mundo
+uma numerosa próle de gente honesta e sã.</p>
+
+<p>Muitas vezes, ao recolher, quedava-se longas horas
+a conversar com o visinho, interrogando-o com
+uma curiosidade insaciavel, como começára, d'onde
+viera para alli, como conseguira crear os filhos. O
+velho contava singelamente; parecia sentir prazer
+em rememorar o passado. Para comprar os primeiros
+gados ainda pedira dinheiro ao pae de Claudio, que
+o do mealheiro não chegava.</p>
+
+<p>&mdash;Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narração,
+tinha aquelle genio... Para os desmazelados
+era todo imperioso, mas para quem lhe andasse direitinho
+era bom, gostava de os ajudar. A mim,
+era elle mesmo que ás vezes me dizia: Porque não
+compras mais uma junta de bezerros? Tens ahi tanto
+pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o
+alli, áquella arca da sala onde a sr.<sup>a</sup> sua mãe,
+Deus lhe perdoe, guardava as arrecadas e o cordão.
+Devo-lhe muito. E cá a minha serva de Deus tambem
+me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam.
+O Julio morreu mais cedo, era um rapagão!
+<span class="pagenum">[248]</span>
+tinha já sete annos. Veio-lhe esta doença, aqui á
+garganta, não sei como lhe chamam, e ficou suffocado.
+Mettia dó. Mas emfim... Deus Nosso Senhor assim
+o quiz.</p>
+
+<p>Entretanto a rapariga passava levando para a ceia
+a hortaliça lavada na ribeira; accendia a candeia, e
+começava a cortal-a num alguidar, sobre a meza.
+A mãe conchegava o lume á panella de barro, negra,
+em que a agua já fervia.</p>
+
+<p>Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adoração
+em que se envolvia a tristeza da sua vida desbaratada.</p>
+
+<p>Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse
+já alto e a fadiga o prostrasse, procurando a sombra,
+sentou-se junto a uma oliveira, ao pé da cancella,
+enxugando o suor.</p>
+
+<p>Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado,
+descalça, o pé comprido e magro, erguendo os
+braços a amparar o açafate que trazia á cabeça, cruzado
+no peito o lenço branco de ramagens vermelhas.</p>
+
+<p>&mdash;Dá Deus nozes a quem não tem dentes! disse
+ella avistando Claudio. Isso até é peccado andar assim
+a cançar-se sem precisão...</p>
+
+<p>Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia á
+rapariga, embaraçado, como desculpando-se, attentou
+na sua belleza.</p>
+
+<p>Era alta, nervosa, olhos garços, cabellos louros, e
+assim de pé, sorrindo, os braços erguidos, lembrava
+uma estatua antiga, d'estas em que cristalisa o ideal
+feminino d'um povo inteiro.</p>
+
+<p>&mdash;Que linda me pareces! exclamou depois de ter
+procurado justificar-se das suas fadigas que Maria
+tanto estranhava.</p>
+
+<div class="centrado"><img src="images/005.jpg" alt="&mdash;Que linda me pareces!"></div>
+
+<p>&mdash;Eu! Linda!...</p>
+
+<p>E riu-se.</p>
+
+<p>&mdash;Mal diria que havias de ser bonita quando estava
+<span class="pagenum">[249]</span>
+em Albergaria e vinha aqui ás tardes. Ainda
+me lembro bem!... A maior parte das vezes encontrava-te
+a guardares as ovelhas com o cesto da meia no
+braço e o fio d'algodão preso no hombro. Agora estás
+uma moçoila que os rapazes hão-de cubiçar.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não se quer d'isso, respondeu ella lisongeada
+e ao mesmo tempo envergonhada com o elogio,
+contorcendo-se timidamente.</p>
+
+<p>E seguiu ladeira acima.</p>
+
+<p>D'ahi em deante, Claudio começou a prender-se á
+rapariga. Prolongava a conversa, á noite, com o pae
+d'ella para a vêr risonha e deligente a cuidar da
+casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a á
+cancella do seu campo. Não trocavam palavras de
+amor; elle interrogando-a sobre o seu viver, sobre
+as suas ambições e os seus prazeres, procurando penetrar
+a sua alma, ella respondendo laconica, com
+um inalteravel sorriso em que revelava meigamente
+a sua sympathia.</p>
+
+<p>Claudio, reflectindo na attracção que sentia por
+Maria, tentava convencer-se, a poder de logica, de
+que não tinha tomado novos amores. Era um
+symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava
+a suprema sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a
+com um fervor intimo, agradecendo-lhe a revelação
+d'esse mundo de paz e de felicidade. Não passaria
+d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia;
+queria coroar pela castidade esse novo culto.</p>
+
+<p>Maria tinha um campo proximo áquelle em que
+Claudio trabalhava e onde elle, na impaciencia de a
+vêr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde a
+conversa alongou-se e, já proximo da noite, passou
+na estrada um rapaz ligeiro e agil, com um vigor de
+mocidade que ao primeiro olhar se mostrava. Ella,
+vendo-o, disse para Claudio:</p>
+
+<p>&mdash;São horas. Vou-me até casa.</p>
+<span class="pagenum">[250]</span>
+
+<p>E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao
+lado.</p>
+
+<p>Claudio abaixou-se tambem para a ajudar.</p>
+
+<p>&mdash;Oh, Maria! Isso é que são creados!... Muito
+boa noite, sr. doutor, gritou de longe o rapaz alegremente.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é este rapaz? disse Claudio com certa anciedade,
+parecendo-lhe na frouxa luz do crepusculo
+que um ligeiro rubor se derramava nas faces da rapariga.</p>
+
+<p>&mdash;Então não sabe?... Elle conhece-o. Deu-lhe as
+boas noites.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não sei quem é. Não me lembra de o ter
+visto.</p>
+
+<p>&mdash;Já lá tem ido a casa. É o filho do tio Antonio
+da Azinhaga. Móra lá mesmo.</p>
+
+<p>Claudio estremeceu. Passava-lhe uma suspeita no
+espirito. Áquella hora... fazendo caminho por ali..
+o modo como se dirigiu a Maria... Adivinhava! Era
+o seu namorado!</p>
+
+<p>&mdash;Elle gosta de ti?! perguntou apressadamente.</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim, respondeu Maria serenamente.
+Pelo menos assim o diz.</p>
+
+<p>&mdash;E tu gostas d'elle?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei... Quando ouço essas coisas, parece-me
+que não são comigo. Nunca acredito no que me
+dizem.</p>
+
+<p>A conversa não continuou. Claudio, confundido,
+despediu-se de Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Vou ainda dar um passeio, disse. O luar está
+tão lindo!...</p>
+
+<p>Desceu a tomar a estrada que seguia á beira da
+varzea ladeada de oliveiras. A lua subia n'uma serenidade
+divina, espargindo docemente a sua luz, e
+do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina
+pousava, erguia-se uma tranquillidade augusta em
+que se sentia a terra latejante de vida. Claudio parou,
+<span class="pagenum">[251]</span>
+voltado para o nascente, ouvindo na contemplação
+as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava.
+Era certo, era certo! As aves que arrulhavam na
+rama dos pinheiros, o musgo que rastejava pelos
+troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato
+polia, as aguas que desciam pressurosas, todos n'um
+côro unisono cantavam louvores ao seu destino. Só
+elle estava proscripto da alegria, pela propria loucura!</p>
+
+<p>Sentou-se á beira do caminho, a cabeça pendida,
+amparada entre as mãos, n'uma agonia de tristeza.</p>
+
+<p>D'onde lhe vinha essa dôr que tanto contradizia a
+natureza feliz? Bem o sabia; o seu coração já
+não se illudia. Uma oppressão de inveja e de ciume,&mdash;eis
+o segredo de tanta mágoa. Maria tinha o seu
+namorado. Corára quando o avistou e quiz logo voltar
+a casa. Amava-o, era indubitavel. Em poucos
+mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam
+de celebrar na madrugada a sua união e elle havia
+de ouvil-os annunciando-lhe a sua desgraça. Que
+importava?! Não fizera voto de castidade? Não era
+Maria uma simples imagem perante a qual ajoelhava
+na adoração da simplicidade? Tivesse animo, desprendesse-se
+por uma vez das ambições terrenas,
+elevasse a sua alma ás regiões de eterna beatitude.</p>
+
+<p>Embora! Repetia as palavras do Evangelho: «O
+espirito é prompto mas a carne é fraca», e não conseguia
+libertar-se da propria fraqueza, reconhecendo-a
+e condemnando-a na sua consciencia. Todos os
+raciocinios eram impotentes para dominar a dôr. A
+lembrança de que estavam terminadas as horas em
+que a voz de Maria, como um canto de feiticeira, lhe
+fazia esquecer toda a desgraça da sua vida, esmagava-o.
+Iam roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.</p>
+<span class="pagenum">[252]</span>
+
+<p>A noite foi de agitação. Aos primeiros alvores da
+manhã, por que anciava, ergueu-se e de casa começou
+a espreitar a saida de Maria. Não tardou que ella
+apparecesse á porta, com um cesto de roupa á cabeça.
+Ia á ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos
+para a casa de Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitará o meu
+tormento?</p>
+
+<p>E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por
+atalhos, a cortar-lhe o caminho. Chegou abaixo, proximo
+do rio, e começou a subir a encosta. Em breve
+a encontrava.</p>
+
+<p>&mdash;Bom dia, minha rola!</p>
+
+<p>&mdash;Que madrugada!... Quando saí, olhei lá para
+casa e vi tudo socegado. Pensei que ainda estivesse
+a dormir.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não dormi bem. Dize-me uma coisa, perguntou
+abruptamente: Quando é o teu casamento?</p>
+
+<p>&mdash;Para a semana dos nove dias.</p>
+
+<p>&mdash;Mas aquelle rapaz que hontem passou por nós,
+quer casar comtigo...</p>
+
+<p>&mdash;Quer... mas eu por emquanto é que não quero
+casar-me. Já lh'o disse.</p>
+
+<p>Para Claudio estas palavras foram um completo
+allivio.</p>
+
+<p>Restituiam-lhe Maria, restituiam-lh'a pelo menos
+para a sua admiração, para na sua singeleza reanimar
+a alma enferma de cogitações e contrariedades.
+Agradeceu-lh'o com um olhar, sem se atrever a uma
+confissão em que temia manchar a candidez dos seus
+sentimentos, e voltou a casa alegre e repousado, cantando,
+a cuidar dos gados.</p>
+
+<p>Continuava o idyllio, as palestras com Maria e o
+trabalho na lavoura. Sentia-se vigoroso e forte; nenhumas
+fadigas o alquebravam. Pela madrugada estava
+a pé, distribuindo o penso aos gados. Almoçava
+um pedaço de brôa com um ligeiro condimento e vinha
+<span class="pagenum">[253]</span>
+para o campo. Não havia já serviço de que não
+fosse capaz; tudo estava em o saber distribuir e alternar.
+Prendia-se á terra com um amor febril, talvez
+n'uma vaga ambição de igualar Maria e por isso
+melhor a merecer. A rapariga estranhava todos os
+devaneios de Claudio, perguntava-lhe se não era
+melhor viver na riqueza, mas sorria perante as razões
+que elle lhe dava e que despertavam no seu
+coração um impulso de meiga sympathia.</p>
+
+<p>Um dia, Claudio veiu para o trabalho sem ainda
+ter visto Maria. Algumas vezes isso lhe acontecia
+mas sempre o deixava aprehensivo e triste; então, o
+trabalho caminhava lento, os braços a custo podiam
+com a enxada. Era mal sem remedio; a mãe de Maria
+é que distribuia o serviço e nem sempre podia saber
+antecipadamente em que se consumiria a manhã.</p>
+
+<p>Como era dia de mercado, suppoz que tivesse saido
+mais cedo e resignou-se com a lembrança de a
+vêr no regresso. Embalde porém a esperou. Maria
+não veiu, em todo o dia não poude encontral-a. Ficava
+inquieto. O que seria? Doença? Teria partido
+para fóra da aldeia? O espirito perdia-se-lhe em conjecturas.
+Pensava em parar á tarde a conversar com
+o pae, como fazia muitas vezes, mas o velho veiu a
+casa de Claudio para vêr umas vitellas que este mandára
+vir de Miranda e por ali se quedou, no pateo,
+até á hora da ceia.</p>
+
+<p>Desfeita esta ultima esperança, a inquietação redobrou.
+Para a acalmar, saiu n'um longo passeio,
+subindo pelos atalhos da serra. Queria muito áquella
+aspera nudez dos montes, que infundia na sua alma
+sentimentos de força e tenacidade na vida ingrata,
+sujeita ao açoite de todas as intemperies, despida de
+todo o viço e de toda a doçura.</p>
+
+<p>A noite ia adeantada, já ha muito tinham batido
+as dez horas. Desceu á aldeia.</p>
+
+<p>Quando avistou a casa de Maria, pareceu-lhe descobrir
+<span class="pagenum">[254]</span>
+um vulto debruçado no muro da eira que era
+junto á rua. Aproximando-se, a sua suspeita confirmava-se.
+Era ella. Que felicidade! Todas as inquietações
+iam cessar.</p>
+
+<p>&mdash;Boa noite, Maria. Que fazes aqui?</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi meu pae dizer que o tinha visto sair, deixei-o
+adormecer e agora estava á sua espera. Quero
+muito fallar-lhe.</p>
+
+<p>Na sua voz percebia-se a perturbação interior.
+Claudio sentiu um fremito de terror.</p>
+
+<p>&mdash;O que foi?! perguntou confundido.</p>
+
+<p>Maria contou-lhe então que tinham dito á mãe que
+elle a namorava, que todas as manhãs a esperava á
+porta do campo. A mãe reprehendera-a e prohibira-lhe
+que lhe tornasse a fallar, a não ser em casa ou
+quando outras pessoas estivessem presentes. Ameaçara-a
+de o dizer ao pae, que nada sabia ainda, e de
+a mandar servir para longe, se continuasse.</p>
+
+<p>&mdash;Esqueça-se de mim, esqueça-se de mim, foi o
+singelo pedido com que respondeu a todos os rogos
+e protestos apaixonados de Claudio que a deixou
+assegurando-lhe que ia voltar a Coimbra e que havia
+de procurar esquecel-a. Bem sabia que não poderia
+fazel-o, que isso não dependia da sua vontade, mas
+queria deixal-a tranquilla, sentindo-se feliz pelo sacrificio.</p>
+
+<p>Interiormente, quasi estava contente. Estes amores
+que terminavam sem macula engrandeciam-se
+aos seus olhos por este facto: a abdicação de todos
+os seus desejos em proveito da felicidade de Maria
+coroava d'uma maneira gloriosa o culto que lhe consagrára.</p>
+
+<p>Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza,
+n'um amor sublimado. Iria a Coimbra, soffreria a
+tortura de viver ali durante um ou dois mezes e,
+quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se
+de Maria. De longe, silenciosamente, faria
+<span class="pagenum">[255]</span>
+sua a alegria da sua amada onde a encontrasse, ou
+cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo
+a roupa sobre as lageas do rio, á sombra dos salgueiros.</p>
+
+<p>Partiu pela manhã, recommendando repetidas vezes
+aos creados os gados, as aves e as plantas. Iam
+sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a
+saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas
+flores que careciam de regas mais frequentes, a
+hora a que convinha levar o gado ao pasto.</p>
+
+<p>Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros
+da sua vida. Aquelles sim, aquelles nunca lhe
+mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas, prosperando
+e prodigalisando os fructos, derramando em
+torno a abundancia e a belleza.</p>
+
+<p>Foi a pé, seguindo os caminhos menos frequentados.
+Procurava bastas vezes vencer pelo movimento
+e pelo cansaço a agitação do espirito; por experiencia
+sabia quanto o silencio e a contemplação da
+natureza lhe eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam
+communicar-lhe uma parcella da sua serenidade.</p>
+
+<p>Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto
+com grande estranheza. Não que elle tivesse deixado
+completamente de lá ir mas, sempre que o fazia,
+a sua vinda era previamente conhecida pelo facto
+de mandar ir a carruagem a Villalva... D'ordinario,
+demorava-se um ou dois dias dando solução aos
+negocios da casa e entregando pontualmente á mulher
+todos os rendimentos. Ficára assente pelo simples
+uso, sem qualquer declaração formal, que os
+rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura,
+que d'elles dispunha como queria, e para elle só
+reservaria os bens de Villalva.</p>
+
+<p>De resto, Claudio supportava este encargo de visitar
+e administrar a casa sem maior contrariedade
+apparente. Transpondo o portão da estrada da Beira
+<span class="pagenum">[256]</span>
+era outro; envergava os trajos da gente da cidade e
+com elles rehavia antigos habitos de polidez e de
+delicadeza mundana. Ás vezes, parecia mesmo contente;
+a certeza de que dentro em pouco voltaria ao
+seu casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe
+tolerar resignadamente, porventura bondosamente,
+os costumes que no intimo condemnava e aborrecia.
+Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando
+alguem tinha a indiscrição de lhe perguntar pelas
+suas lavouras, respondia com um laconismo que
+cortava todo o seguimento da conversa.</p>
+
+<p>Na sua ausencia, porém, o seu viver era muito
+discutido. Em geral, julgavam-n'o um maniaco. Laura
+e D. Maria Francisca tinham-n'o por um homem
+brutal, destituido de todo o sentimento de bondade;
+o abandono da mulher e do filho, que aliás viviam
+na abundancia e no luxo, pareciam-lhes um crime.
+Só D. Pedro o desculpava; sempre respeitára muito a
+liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe
+respeitassem a sua.</p>
+
+<p>&mdash;Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois.
+Está no seu direito! E tu, dizia para a mulher, não
+gostas de trazer plumas no chapéu e de jogar o
+<i>whist</i>? É a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado
+sempre muito bom rapaz... Traz ahi a Laura com
+todas as commodidades e ainda fallam d'elle!</p>
+
+<p>A vida desregrada e a estreiteza de espirito não
+tinham pervertido o coração do fidalgo. Incapaz de
+uma bondade activa, conservava um constante pendor
+á indulgencia e tinha, como homem enfastiado
+do mundanismo, certa attracção para os caracteres
+que se desviavam dos typos consagrados. Por isso
+estimava o genro e o defendia.</p>
+
+<p>Levava o seu affecto até ao ponto de o visitar em
+Villalva, quando nas caçadas se encaminhava para
+esses lados.</p>
+
+<p>Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros
+<span class="pagenum">[257]</span>
+que se estiravam na sala, offegantes, a lingua
+pendente e humida, ostentando a dentadura recurva
+e eburnea.</p>
+
+<p>Claudio recebia-o com sincero contentamento e
+affagava a matilha cujas proezas D. Pedro logo começava
+a narrar.</p>
+
+<p>D. Maria Francisca escandalisava-se com essas
+visitas que destoavam da sua attitude reservada com
+Claudio. Se por acaso acontecia que o marido dormisse
+em Villalva, para alongar a caçada, ás vezes mesmo
+em companhia dos seus hospedes beirões, não
+deixava de o reprehender, escarnecendo.</p>
+
+<p>&mdash;Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a
+esses palacios! Ha-de-se lá dormir muito bem e com
+muita limpeza!</p>
+
+<p>&mdash;Olé se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos
+assomos da mulher. O Manoel de Vasconcellos ainda
+agora me escreveu de Lisboa a chorar pela ceia que
+Claudio nos tinha dado. E tem razão! Aquelle lombo
+de porco, assado no espeto, alli á lareira, nunca
+mais esquece.</p>
+
+<p>No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra
+foi á noite a casa dos sogros.</p>
+
+<p>A sua presença despertou grande curiosidade entre
+os convivas, que eram muitos. Todos o rodeavam,
+e muitos, estranhando a sua magreza, perguntavam
+se tinha passado mal ou soffrido qualquer
+doença.</p>
+
+<p>&mdash;Não, tenho passado excellentemente, magnifico,
+mesmo muito vigoroso, respondia Claudio.</p>
+
+<p>Na verdade, estava magro, os olhos encovados,
+as faces enrugadas. Illudia-se tomando por vigor a
+excitação em que o trabalho physico e a intensidade
+das impressões moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.</p>
+
+<p>&mdash;Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam
+insistindo os que o cercavam.</p>
+<span class="pagenum">[258]</span>
+
+<p>&mdash;Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou
+alguem. Que diz o doutor?</p>
+
+<p>Este doutor era um medico que ha pouco tinha
+tomado capello em medicina e se preparava para
+lente da Universidade.</p>
+
+<p>Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes
+sobre doenças nervosas, escriptos em francez,
+julgava-se senhor de toda a sciencia e deixava perceber,
+sem abertamente o declarar, para não crear
+antipathias que lhe prejudicassem a entrada na Universidade,
+que os lentes nada sabiam. Elle é que estava
+ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o
+consultassem, tomando a consulta como reconhecimento
+dos seus talentos, e fallava pausadamente, cathedraticamente.</p>
+
+<p>&mdash;Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor,
+hoje a sciencia tem feito grandes progressos
+que, digamos de passagem, são quasi completamente
+ignorados em Portugal. Infelizmente, entre nós,
+estuda-se muito pouco; com excepção de meia duzia
+de homens de verdadeiro talento e de saber, no
+geral cura-se por uns processos rotineiros de que a
+medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenças
+nervosas conhece-se muito pouco... mesmo
+muito pouco! Quando ultimamente defendi theses,
+tive occasião de ouvir as criticas mais extravagantes.
+Convenci-me de que a materia era perfeita novidade
+para os meus collegas. N'um caso, por exemplo,
+como este do dr. Claudio, o que a sciencia aconselha
+é não só o exame de todo o organismo mas particularmente
+a observação das manifestações nervosas.
+É cousa que demanda um grande tacto... um
+grandis...simo tacto! Qualquer medico que o visse,
+naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes.
+Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se
+por ella. Seria um erro! O dr. Claudio diz-nos que
+se sente vigoroso e está ao mesmo tempo com apparencias
+<span class="pagenum">[259]</span>
+de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio
+entre a força organica e a actividade nervosa,
+que é necessario combater. Uma vida tranquilla e
+particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo
+da quietação é o que hoje se recommenda
+n'estes casos. O mar em caso algum; a sua agitação
+é communicativa. Eu creio que o dr. Claudio ganharia
+muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.</p>
+
+<p>&mdash;Não digo que não, meu caro doutor, respondeu
+Claudio disfarçando mal um sorriso, mas nem sempre
+se pódem tomar remedios... tão energicos. São,
+ainda que mal lhe pareça, depauperantes em alto
+grau. Da algibeira, é claro.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... mas nas circunstancias de v. ex.<sup>a</sup> isso
+não é motivo.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não digo que rejeite por completo o tratamento,
+mas tomo-o em dóse mais moderada. Uma
+digressão pelo Minho será o bastante.</p>
+
+<p>&mdash;Mas creia v. ex.<sup>a</sup> que isso não lhe dá resultado.
+O que tem desacreditado muitas vezes a therapeutica
+moderna é deixarem de a seguir com todo o rigor
+que a sciencia aconselha.</p>
+
+<p>Claudio ria-se da presumpção do medico e ia aproveitando
+o conselho, porque lhe convinha. Já antes
+tinha pensado que a permanencia em Coimbra não
+podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de
+Laura, de que nem o abandono do marido a curara,
+os serões em casa dos Albuquerques, toda a rede de
+impostura, de mentira e de futilidade que é o caracter
+da vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o.
+Precisava fugir d'alli.</p>
+
+<p>Seguiria pelo Minho quasi até á fronteira e d'ahi,
+por Montalegre e Chaves, desceria ao Douro para o
+atravessar e passar á provincia da Beira Alta d'onde
+voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens
+haviam de o ajudar a vencer a inquietação em que o
+amor o trazia.</p>
+<span class="pagenum">[260]</span>
+
+<p>Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva
+inteiramente de posse da sua vontade que empregaria
+com firmeza em evitar quanto podesse levantar
+a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria.
+Ia pôr-se a caminho.</p>
+
+<p>Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e
+fria. Vinha rompendo o dia. No rio a nevoa e as
+aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas
+dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam
+e retemperavam como deuses pagãos, em ondas claras.</p>
+
+<p>Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilhão
+da vida ingenua, era o fructo prohibido dos
+seus anceios, uma recordação amarga.</p>
+
+<p>Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas
+e pelos valles estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas
+pela alvorada que se espraiava empallidecendo
+o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as
+cupulas dominando e protegendo os tectos negros
+que, afundando-se pelas quebradas, rastejavam em
+torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora magestosos,
+ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas
+lagrimas, quanta tortura e miseria despertavam
+com a manhã d'aquella massa obscura! Um sentimento
+de piedade lhe apertou o coração, e logo o remorso
+começou a perseguil-o implacavelmente. Tambem
+elle era criminoso, tambem elle semeiara lagrimas,
+tambem elle ateiara com os seus desvarios o
+fogo das paixões que alimentam a miseria!</p>
+
+<p>Porque saira de Villalva, porque não ficára ali
+como seus paes modesto e ignorado? Talvez... talvez...
+Uma suspeita lhe passava pelo espirito... Talvez
+então vivesse contente com Maria, no seu casal
+abençoado e fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade
+ignorada que só em sonhos sentira!</p>
+
+<p>Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle
+ahi regressaria. Levava comsigo a saudade da vida
+<span class="pagenum">[261]</span>
+que jámais o abandonaria e que agora
+se personificara poeticamente na lembrança de Maria.</p>
+
+<p>Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante.
+Ficára-lhe d'aquellas terras uma boa recordação. A
+belleza das mulheres, altas, d'um raro concerto de
+majestade e de graça nos seus trajos esguios, a payzagem
+viçosa e ampla, em que a luz se attenua e
+pulverisa sobre as aguas extensas e na atmosphera
+humida, os costumes, a liberdade sem altivez do
+povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava
+a voltar a Aveiro.</p>
+
+<p>Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade.
+Dava-lhe agora uma impressão de silencio, de
+calma, de desolação que provocava a tristeza. O movimento
+nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas,
+com os seus ruidos caracteristos, muito poucas.
+Enganára-se; não era aquillo que tinha na memoria.</p>
+
+<p>Pela manhã percorreu os caes. Saiam os barcos
+levando os pescadores para a ria e os marnotos para
+as salinas; a jarra da agua, o cesto com o almoço e
+o gabão era toda a sua bagagem. Deixavam a casita
+onde se abrigava o lar e o berço, e deixavam a guardal-a
+a companheira da sua vida; voltariam á tarde,
+a trazer-lhe generosos o pão que haviam ganho durante
+o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos
+do mar e aos ardores d'um abrazado estio. Tambem
+assim era em Villalva, tambem áquella hora
+Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e
+pela serra aspera.</p>
+
+<p>A saudade dominava-o. Não era a cidade que estava
+deserta, era o animo que faltava ao seu coração.
+Os olhos recusavam-se a vêr o que se passava
+em torno, constantemente voltados para uma imagem
+interior.</p>
+
+<p>Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da
+<span class="pagenum">[262]</span>
+viagem. Seria inutil. Ia proseguir, mas adivinhára já
+o que o esperava. Toda a terra lhe parecia arida e
+silenciosa; em toda ella só poderia prender-se ao que
+lhe recordasse a existencia de Maria.</p>
+
+<p>Uma tarde, em Vizella, do crepusculo já adeantado,
+aos primeiros reverberos das estrellas, passeiava
+á beira do rio e, como se sentisse fatigado, encostou-se
+sobre um rochedo e adormeceu. Um vento
+agreste batia as cumiadas dos montes, açoitando as
+arvores que se curvavam desgrenhadas, mas no
+valle os amieiros apenas se balouçavam mollemente
+nas brizas humidas que corriam sobre as aguas.
+Claudio aproveitava o favôr da natureza e no torpor
+que precedia o somno fixava os olhos com gratidão
+n'este espectaculo de feliz remanso.</p>
+
+<p>Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se
+ás palpitações da natureza. O rio transfomára-se
+em alvas nuvens que pousavam sobre o seu leito
+apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como
+uma apparição, em meio d'um nimbo de claridade
+vermelha e candente, uma cosinha pobre e uma rapariga
+curvada sobre a lareira ateando o lume que
+se erguia em labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se
+as lufadas do vento mordendo as cearas que
+ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil
+cubiçava o calor vivificante que irradiava do facho
+luminoso.</p>
+
+<p>Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos
+Casaes quando ha muitos annos vinha com Emilia
+de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das
+suas ambições, da sua felicidade, da tempestade que
+o cercava. Corre-se a aquecer-se ao fogo redemptor
+da simplicidade que a imaginação sobrexcitada lhe
+mostrava n'um quadro tentador.</p>
+
+<p>O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para
+que ir mais longe? Em vão! em vão!... Mais uma vez
+<span class="pagenum">[263]</span>
+repetia estas palavras com que tão dolorosamente
+terminara tanta illusão da sua vida.</p>
+
+<p>Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de
+ausencia, vencido pela saudade. Vinha na persuasão
+de que o trabalho na lavoura e a simples presença
+de Maria o curariam de todo o mal. Não precisava
+de fallar-lhe, não precisava d'essas arrastadas conversas
+á beira da estrada que os estranhos viram
+com suspeição. Não estava ella divinisada no culto
+que o seu coração lhe consagrava? Uma adoração
+muda e casta bastaria a satisfazel-o.</p>
+
+<p>A jornada para Coimbra foi rapida. Ás pessoas de
+familia disse que se apressara a voltar porque se
+sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia muito
+que fazer. Para evitar explicações que o contrariavam,
+seguiu immediatamente para Villalva onde chegou
+noite cerrada.</p>
+
+<p>Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres,
+dando-lhe conta do estado dos gados, das sementeiras,
+de tudo o que succedera n'aquella pacifica
+solidão. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou
+os estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.</p>
+
+<p>Dominando a impaciencia de tornar a vêr Maria,
+julgava-se victorioso e começava a sentir, penetrado
+de delicias, a realisação dos seus sonhos de castidade.</p>
+
+<p>Já tarde, abeirou-se da janella e contemplou a
+aldeia recolhida no valle apertado. Tudo dormia.
+Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em inquietações
+d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura
+tel-o-ia esquecido?... Fixava os astros, escutava
+as auras da noite procurando o segredo da sua
+vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de
+fadiga.</p>
+
+<p>&mdash;Amanhã, amanhã!...</p>
+
+<p>N'esta risonha esperança adormecia tambem.</p>
+<span class="pagenum">[264]</span>
+
+<p>Pela madrugada desceu ao campo. Não tardou que
+Maria apparecesse tangendo o burro que conduzia a
+moenda. Ao vêl-a sentiu como uma vertigem em que
+o sangue lhe corria ao coração. Ella sorria de alegria.
+Em poucas palavras ajustaram encontrar-se á
+noite, muito tarde, junto ao muro da eira, quando
+ninguem os visse.</p>
+
+<p>Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento
+e um vigor desusados. Estranhava as suas
+forças. Como acontecia que, depois de tanto tempo
+de repouso, não sentisse a menor fadiga? Na excitação
+em que o deixava a certeza do amor de Maria,
+illudia-se; tomava como um triumpho do seu corpo
+o que era apenas uma passageira febre.</p>
+
+<p>Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em
+casa; fazia-o frequentes vezes para acalmar a inquietação
+do espirito.</p>
+
+<p>Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao
+muro. Sentiu-se um ligeiro bulicio de folhas seccas.
+Era ella que se aproximava pisando descalça a caruma
+que cobria a eira.</p>
+
+<p>Claudio começou então a contar o que soffrera na
+jornada, como os dias lhe pareciam longos, como
+em toda a parte via a imagem de Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei viver sem ti. Sou tão infeliz que preciso
+da tua voz para me dar animo.</p>
+
+<p>Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura
+e não podesse avaliar na physionomia a impressão
+das suas palavras, perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;E tu? tambem tinhas saudades minhas?</p>
+
+<p>&mdash;Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.</p>
+
+<p>O incendio estava lançado. Vieram as confissões
+d'affecto em serões prolongados pela noite calma, as
+caricias, as tentações e os impetos d'amor. Essa
+castidade no contacto da natureza e na adoração das
+cousas simples que Claudio sonhára, doente do affastamento
+<span class="pagenum">[265]</span>
+e da saudade de Maria, voava desfeita como
+todas as bastas illusões da sua vida.</p>
+
+<p>A simplicidade é vigorosa e sadia, e o vigor é naturalista.
+A luz do sol e toda a terra cantam o amor
+fecundo.</p>
+
+<p>Esse mesmo frenesi com que Claudio revolvia
+o solo lançando-lhe a semente, era uma forma de
+fecundação, a anciedade de crear e multiplicar as
+formas e a vida, um agitar de seiva que se confundia
+com o desejo da sua amada.</p>
+
+<p>Uma noite adormeceu no regaço da sua amada;
+ella, cariciosamente, consentiu-o. Dormiu um somno
+breve, povoado de enlevos amorosos e acordou n'um
+arrebatamento de paixão em que toda a pureza angelica
+cedeu ao sangue encandecido.</p>
+
+<p>Não se passou muito tempo sem que Maria apparecesse
+com o rosto desbotado, os olhos cavados, toda
+alquebrada d'uma desconhecida molleza. Adoecia das
+primeiras perturbações de gravidez.</p>
+
+<p>Chorando, confessou á mãe a sua desgraça.</p>
+
+<p>&mdash;Que fizeste, que fizeste?! exclamava a mãe chorando
+tambem. Que vergonha a nossa!</p>
+
+<p>Claudio sentia-se contente, realisada toda a sua
+ambição. Estava finalmente livre de todas as convenções
+com que tinha rompido, inconscientemente,
+levado pelo amor de Maria, e d'esse amor ia ter filhos
+que elle saberia guardar das tentações mundanas,
+guiando-os a uma existencia de simplicidade.
+D'esta vez a felicidade era segura e certa.</p>
+
+<p>Uma cousa, porém, preoccupava os amantes. A
+gravidez de Maria adeantava-se, já na aldeia todos a
+suspeitavam com ditos e remoques que a rapariga
+presentia e soffria resignadamente porque era a vontade
+d'elle, de Claudio. Tarde ou cedo, o pae teria
+de o saber tambem, mais cedo do que tarde, que o
+tempo urgia.</p>
+<span class="pagenum">[266]</span>
+
+<p>Combinou-se que a mãe lh'o annunciaria e assim
+se fez.</p>
+
+<p>Elle ouviu em silencio, suffocado pela colera, e,
+nas primeiras palavras que poude articular, disse
+apenas:</p>
+
+<p>&mdash;Tira-me já de casa esse esterco! Se a torno a
+vêr, esmago-a!</p>
+
+<p>E saiu tremulo, afogueado em ira.</p>
+
+<p>&mdash;Claudio, Claudio!... pensava no doido caminhar
+em que a dôr o levava. Se fosse outro... matava-o!
+Matava-o, sim! Mas elle, o filho do meu protector...</p>
+
+<p>Vinham-lhe á lembrança todas as esmolas que tinha
+recebido da casa de Claudio; não ousava revoltar-se.</p>
+
+<p>Sentou-se sobre um muro baixo, ao lado da estrada.
+Sentia não sei quê a cravar-se-lhe na cabeça,
+do lado esquerdo.</p>
+
+<p>Os labios humedeciam-se de espuma. Pouco e
+pouco o corpo inclinou-se para a frente, e caiu,
+perdidos os sentidos, ferindo o rosto nas pedras agudas
+do chão.</p>
+
+<p>Trouxeram-n'o para casa em braços, semi-morto,
+e foram á villa chamar o dr. Carvalho. O velho tinha
+sido acommettido d'uma congestão cerebral.</p>
+
+<p>&mdash;Muito mal, muito mal, por milagre escaparia,
+dissera o medico meneando a cabeça.</p>
+
+<p>Por acaso, Claudio estava no jardim, olhando o
+pôr do sol, quando os visinhos trouxeram o corpo do
+pae de Maria. Sabia que n'aquelle dia elle havia de
+ter conhecimento da gravidez da filha e, adivinhando
+immediatamente o que se passava, correu a esconder-se
+em casa antes que se aproximassem e o vissem.</p>
+
+<p>Os braços pendidos, o olhar desvairado, deixou-se
+cair sobre o escabello da sala, immovel de assombro.
+D'esta vez era certo o crime! Fôra elle, fôra elle que
+o assassinára levando-lhe a deshonra ao lar! E não
+<span class="pagenum">[267]</span>
+morria tambem!... Pasmava da propria frieza e indifferença.
+Olhava o seu corpo, os seus braços, as
+suas mãos, o seu peito como duvidando da sua existencia.
+Respirava, vivia, era o mesmo, elle, agora
+assassino, que n'aquelle logar, n'aquella sala ajoelhára
+erguendo a Deus as suas primeiras orações e
+se prostrára perante o cadaver da mãe pedindo á
+sua alma inspiração e conselho! Não, não podia ser!
+Era outro, era outro!...</p>
+
+<p>O assombro crescia e a repugnancia por esse novo
+homem redobrava.</p>
+
+<p>Levantou-se, pé ante pé, e foi á porta espreitar se
+havia alguem no pateo. Ninguem! Provavelmente tinham
+corrido todos a casa do velho. Aproveitou o
+ensejo e fugiu a perder-se nos montes, pelos caminhos
+desertos, escondido, ao abrigo dos muros que
+vedavam os campos.</p>
+
+<p>Esperou a noite que caiu serena, sem luar, estrellada
+e profunda. Ia descer á aldeia. Para quê? Não
+era melhor seguir errante, em penitencia, expirando
+o seu crime, a esmolar por terras ignoradas e a servir
+desconhecidos, descalço, miseravel, rojando-se
+humildemente?</p>
+
+<p>Maria, Maria!...</p>
+
+<p>O amor vencia todas as dôres e ainda n'aquella
+angustia os braços estendiam-se a procural-a.</p>
+
+<p>Desceu, e começou a vaguear em volta da eira de
+Maria. Tudo dormia n'um grande silencio e apenas
+por uma fresta se percebia um reflexo de luz.</p>
+
+<p>Tinha fome. Voltou a casa a pedir a ceia.</p>
+
+<p>&mdash;Ai que desgraça aquella do pobre tio Manoel!
+exclamou a velha creada ao vêl-o.</p>
+
+<p>&mdash;Já sei, já sei, apressou-se Claudio a interromper
+com firmeza. Venho agora de lá. Muitos annos,
+muitos annos... Coitado!</p>
+
+<p>&mdash;Deus Nosso Senhor o salve que ainda faz falta
+áquella pobre gente...</p>
+<span class="pagenum">[268]</span>
+
+<p>&mdash;Hoje sim, hoje já me deixa mais contente, dizia
+a creada alguns momentos depois levantando da
+meza os pratos vasios e estranhando a voracidade
+com que Claudio tinha comido.</p>
+
+<p>&mdash;O passeio foi larguito, replicou elle como que
+explicando.</p>
+
+<p>Levantou-se e tornou a sair. Queria vêr Maria. O
+que seria d'ella?</p>
+
+<p>Dirigiu-se ao logar em que costumava fallar-lhe e
+no ponto em que o muro era mais baixo saltou para
+dentro da eira. Esperou. Não vinha ninguem. Não
+se lembrava ella de que Claudio estava alli ou não
+queria tornar a vêl-o? Um suor de afflicção lhe cobria
+o corpo e o receio da condemnação de Maria
+vencia o remorso do crime.</p>
+
+<p>Impaciente, atravessou a eira e foi collar o ouvido
+a uma pequena fresta que dava luz á cosinha. Silencio!
+Ninguem se movia.</p>
+
+<p>Recuou. Reflectia agora na sua imprudencia. Podia
+ter apparecido alguem e aquelles passos occultos
+seriam a confissão do seu crime. Coragem! Porque
+não iria antes francamente saber do seu visinho?
+Era natural. Demais, já dissera á creada que tinha lá
+ido e precisava que não o encontrassem em mentira.</p>
+
+<p>Saltou novamente o muro. Sem hesitar, como possuido
+d'uma resolução serena e inabalavel, subiu os
+degraus da casa de Maria, lançou a mão á aldraba
+da porta e, cauteloso, abriu-a suavemente.</p>
+
+<p>Foi Maria que veio vêr quem entrava, assomando
+á porta que communicava a sala com o interior. Parou
+um instante surprehendida. Na escuridão só
+cortada pela languida claridade que vinha da pequena
+lampada ardendo aos pés d'um crucifixo, a
+sua physionomia mostrava a mais profunda mortificação.
+Ia queixar-se, ia perguntar a Claudio porque só
+agora vinha e a abandonára. Mas elle, adeantando-se,
+<span class="pagenum">[269]</span>
+apertou-lhe freneticamente as mãos e o peito agitado
+pelos soluços, sem proferir uma só palavra, fitou-a,
+deixando correr as lagrimas.</p>
+
+<p>Com um instincto seguro, Maria comprehendeu o
+que se passava na alma de Claudio e transformando
+em piedade os queixumes que trasbordavam do seu
+coração:</p>
+
+<p>&mdash;Não chore, não chore, disse consolando-o. Foi
+a minha sorte, foi a minha sorte! Foi Deus que assim
+o quiz.</p>
+
+<p>As lagrimas de Claudio redobravam, mas agora
+de gratidão pelo amor de Maria. Era ella, a victima,
+que vinha consolar o criminoso! Dominava-o uma
+impressão de espanto.</p>
+
+<p>Encontrava ali, n'aquelle pobre tugurio, o que
+fora a maior ambição da sua vida, o amor. N'um
+lampejo, em meio da vertigem de sentimentos que
+lhe dilacerava o peito, lembrou-se de Laura e comprehendeu
+toda a grandeza de Maria. Para Laura,
+amar era possuir, era guardar zelosamente uma fonte
+de gosos; para Maria, amar era servir, era sacrificar-se
+e consumir se protegendo uma vida estranha
+e abdicando de toda a dôr e de todo o prazer da propria
+existencia. Não podia furtar-se a um secreto
+contentamento descobrindo em plena consciencia o
+thesouro de que estava senhor. Negra aberração!
+pensava, sentindo-se aviltado. Tambem á hora do
+crime tinha alegrias! Oh, ainda uma vez, mysterio
+amargo!...</p>
+
+<p>O medico voltou de manhã e achou que o doente
+estava melhor. Já ouvia e já se lhe divisavam ligeiros
+movimentos.</p>
+
+<p>&mdash;Temos homem! disse voltando-se para a familia,
+quando o examinava, curvado sobre o leito. Com
+setenta e sete annos! É preciso ser rijo.</p>
+
+<p>Claudio, ancioso por se informar do estado do pae
+de Maria, espreitára desde o alvorecer a vinda do
+<span class="pagenum">[270]</span>
+dr. Carvalho. Vira-o entrar em casa d'ella e veiu
+para o jardim, a limpar as hervas d'uns vasos de
+flores que estavam pousados sobre o muro sobranceiro
+á rua.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho, ao sair, immediatamente deu com
+os olhos n'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Ora isso é que é madrugar, disse chamando a
+attenção de Claudio.</p>
+
+<p>&mdash;Suba, suba, respondeu Claudio, mostrando-se
+risonho e despreoceupado. Então já não quer nada
+com esta casa?</p>
+
+<p>O dr. subiu.</p>
+
+<p>&mdash;Como encontrou o doente? perguntou Claudio.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho explicou então em termos da sua
+arte, para mostrar saber, que o velho tinha grandes
+melhoras. Recuperára os sentidos, percebiam-se já
+alguns movimentos, e quando em tão poucas horas se
+apresentavam symptomas d'aquella importancia,
+d'ordinario a salvação era certa. Não dizia que tornasse
+a ser homem para o trabalho, mas esperava
+pól-o a pé. Ainda ha pouco tivera, em Aradas, o
+Gusmão n'aquelle mesmo estado. A mesma cousa,
+exactamente a mesma cousa! Viera o dr. Madail, que
+é lá muito de casa de seus sogros e que se tem por
+um chavão, dizia, e foi de parecer que não merecia
+a pena tratal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, meu amigo, tomei conta do homem e já
+corre a casa toda, encostado a uma bengala!</p>
+
+<p>&mdash;Deus queira que o mesmo lhe aconteça aqui,
+respondeu Claudio.</p>
+
+<p>Interiormente sentindo grande allivio com as palavras
+do medico, para não revelar uma insistencia
+que poderia tornar-se suspeita, mudando rapidamente
+de conversa, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;E por Albergaria que ha de novo?</p>
+
+<p>&mdash;A mesma paz podre. O dr. não quer nada comnosco.
+<span class="pagenum">[271]</span>
+Tem razão e... bom gosto. Está por aqui
+muito entretido, respondeu o Carvalho atrevida e
+maliciosamente, batendo com a mão no hombro de
+Claudio e sorrindo-se.</p>
+
+<p>Claudio percebeu a allusão. Tremendo da conversa,
+apressou-se a cortal-a.</p>
+
+<p>&mdash;Venha cá, quero mostrar-lhe em que me entretenho.
+Venha vêr os meus mirandezes. Estou contentissimo.
+Comem admiravelmente, são rijos no
+trabalho e conservam a carne d'uma fórma espantosa.</p>
+
+<p>Proseguiu alguns instantes a fallar dos bois, n'uma
+apertada continuidade, para que o medico não podesse
+rehaver a palavra e reatar a conversa que tinha
+tentado encetar. Sabia até que ponto ia n'essa
+materia a ousadia do dr. Carvalho, temia que elle
+viesse perguntar-lhe pelos amores de Maria, que
+eram já sabidos na villa, e não queria profanal-os
+com os commentarios de concupiscencia que por
+certo não faltariam. Por isso foi d'uma rara loquacidade
+emquanto não viu sair o seu terrivel hospede.</p>
+
+<p>As previsões do medico realisavam-se. O velho
+continuou a melhorar; ao fim d'um mez, embora
+d'uma extraordinaria irritabilidade e com perrices
+infantis que revelavam a debilidade cerebral de que
+jámais se curaria, parecia ter rehavido a razão. Não
+podia porém mover-se; a perna e o braço esquerdos
+estavam inteiramente paralyticos, e por tal motivo
+se conservava no leito.</p>
+
+<p>Do passado devia ter boa memoria. Havia um manifesto
+proposito em nunca proferir o nome da filha.
+Maria deixou de lhe apparecer mal elle recuperou a
+vista, por se conhecer que a sua presença o impacientava,
+e elle rehavendo a sua antiga firmeza de
+caracter, nem uma só vez perguntou mais por ella.</p>
+
+<p>N'estas circumstancias, passados os dias de desvairamento
+<span class="pagenum">[272]</span>
+em que o desastre o lançou, Claudio, reflectindo,
+resolveu trazer Maria para casa. Já que a
+tinha privado, por sua culpa, da protecção paterna,
+devia-lhe o amparo que a sua desgraça exigia.</p>
+
+<p>Demais, o seu amor não affrouxára, antes se radicára,
+n'essas horas tragicas. A sorridente resignação
+de Maria, o piedoso carinho com que reprimira
+as proprias lagrimas para enxugar as de Claudio,
+elevaram-n'a na sua adoração e circumdavam a sua
+figura d'uma auréola de bondade simples que perpetuamente
+havia de a illuminar. A inteira posse d'essa
+creatura angelica compensava-o de muita amargura.
+Apesar de tão recentes motivos de profunda
+dôr, não podia furtar-se a uma intima alegria.</p>
+
+<p>Em breve, tinha mais um filho. Quando elle nasceu,
+pareceu-lhe que a sua vida e a sua felicidade
+d'esta vez se completavam na realisação de todas as
+suas ambições. Olhava o berço encanastrado, coberto
+com um grosseiro retalho da manta que Maria
+fiára emquanto no monte guardava as ovelhas. Comparava-o
+com o outro que deixára na estrada da
+Beira, a espumar de rendas finas, compradas caras
+e vindas de longe, urdidas por mãos desconhecidas.</p>
+
+<p>Sentia ali duas almas differentes: via n'uma a
+sensualidade estreme, uma caricia dos olhos e de
+todo o corpo, via na outra uma historia de singeleza
+e de trabalho, os placidos dias guiando o gado pelas
+serras, as mãos tisnadas ao sol, lançando o fuso e
+distendendo a lã.</p>
+
+<p>Atravez de mil angustias, que fortuna lhe concedia
+o destino, que horas de paz e de poesia lhe promettia
+aquelle berço emballado pelos mesmos cantares
+que ouvira na sua infancia! Era feliz. Um sentimento
+de gratidão lhe penetrava docemente o
+peito.</p>
+<span class="pagenum">[273]</span>
+
+<p>Assim terminava o primeiro acto d'este idyllio
+dramatico.</p>
+
+<p>Em Coimbra, todos estes factos foram sabidos e
+commentados com rancor por D. Maria Francisca e
+pela filha, com simples curiosidade pelos frequentadores
+habituaes do palacio da estrada da Beira que,
+emquanto esperavam o chá, debatiam o caso em voz
+discreta agrupando-se nos cantos mais afastados da
+sala.</p>
+
+<p>Interiormente indifferentes, no seu egoismo satisfeito
+com os ordenados pagos em dia e as digestões
+abundantes e tranquillas que os encaminhavam á
+obesidade, procuravam gestos de mágoa para successivamente
+exclamarem:</p>
+
+<p>&mdash;Que pena! que pena! Um rapaz tão intelligente
+e que podia viver tão bem... casado com uma menina
+de tão boa educação...</p>
+
+<p>Os de melhor consciencia, alguns lentes que porventura
+se lembravam das suas concupiscentes ousadias
+com as creadas, accrescentavam indulgentemente:</p>
+
+<p>&mdash;Fraquezas! Todos as têm... Afinal tudo isso lhe
+ha-de passar e elle hade voltar á mulher e aos filhos.</p>
+
+<p>Laura ficou apopletica de colera quando soube
+pela mãe as circumstancias em que o marido se encontrava.
+A sua inflexivel vaidade soffria um profundissimo
+golpe com a demonstração quasi publica
+de ficar preterida por uma mulher do povo.</p>
+
+<p>&mdash;Não quero ser d'esse homem nem mais um instante!
+Vou mandar chamar o dr. Moraes para me
+tratar da separação. É demais!... Com uma mulher
+de pé descalço! Até me mette nojo! Que me ponha
+para cá o que é meu...</p>
+
+<p>Ao ouvir estas palavras, D. Maria Francisca pensou
+que Laura tinha casado com separação de bens,
+e, reflectindo em que o divorcio poderia trazer-lhe
+<span class="pagenum">[274]</span>
+grande prejuizo, apressou-se a aconselhar com insistencia:</p>
+
+<p>&mdash;Oh, filhinha, isso não, isso não! Que escandalo!
+Deus nos livre. O que diria esta gente? Eram capazes
+de inventar que tu tinhas feito algum mal. Não
+te impacientes, não te impacientes! Até te faz mal.
+Já estás com umas rosetas na cara que são de fraqueza.
+Vae tomar alguma cousa. Anda, anda minha
+filhinha!</p>
+
+<p>&mdash;Ai, Senhor!... exclamáva já no corredor dando o
+braço a Laura e encaminhando-se á sala de jantar.</p>
+
+<p>Depois de muito discutir, venceu a opinião e a astucia
+de D. Maria Francisca; poz-se inteiramente de
+parte a ideia de uma separação judicial. Esperavam
+que por bons conselhos levariam Claudio a abandonar
+Villalva e a voltar á companhia de Laura. Para
+isso iam dizer a José d'Albuquerque que escrevesse
+ao cunhado pedindo-lhe que não désse mais desgostos
+á mulher, que tão virtuosa tinha sido, e mostrando-lhe
+como a sua vida era censurada até pelos proprios
+amigos, segundo diziam.</p>
+
+<p>Procuraram-n'o e, como de costume, foram encontral-o
+entre os seus alfarrabios.</p>
+
+<p>Ficou muito contrariado com a presença da mãe
+e da irmã que iam interromper-lhe a leitura d'uns
+documentos do tempo de el-rei D. Diniz, em que um
+erudito julgára ter feito descobertas preciosas, das
+quaes a mais importante consistia em se provar que
+o motivo principal que determinou a sementeira do
+pinhal de Leiria foram os amores do rei com uma mulher
+do Porto de Móz, de baixa estirpe, mas com quem
+o rei vivia em intimidade e, dizia o cartapacio, «eram
+os jogos e fallas entre elles tão a miude, misturados
+com beijos e abraços e outros desenfadamentos de
+similhante preço, que fazia a alguem ter deshonesta
+<span class="pagenum">[275]</span>
+suspeita da sua virgindade ser por elle minguada.»</p>
+
+<p>Sobre este ponto trazia José d'Albuquerque grande
+correspondencia, estando prestes a demonstrar
+triumphantemente que os documentos eram de nenhum
+valor e que o texto citado não passava d'uma
+calumniosa e malevola interposição d'um compilador
+sem escrupulo do seculo XVI, cujo nome e naturalidade
+já tinha descoberto. Faltava-lhe saber ao certo
+a data do nascimento, mas tambem para isso levava
+adiantado o trabalho.</p>
+
+<p>Apesar de ser perturbado nas suas cogitações,
+unica cousa que no mundo amava com afferro, ouviu
+pacientemente a catilinaria da mãe contra o
+cunhado. Queria ella que o filho lhe escrevesse
+ameaçando-o de cortar com elle todas as relações,
+se não voltasse immediatamente á casa de Coimbra.</p>
+
+<p>&mdash;Tens obrigação de olhar pela honra de tua irmã,
+já que teu pae não trata senão de se divertir, dizia
+ella dogmaticamente. Não deves consentir que o marido
+a deixe para ahi como um trapo sujo e ande
+por lá mettido com um reles estafermo que o que
+quer é viver á custa d'elle. Eu já conheço bem o
+que é essa gente!... Tudo uma canalha! Uma canalha!...</p>
+
+<p>&mdash;Escusam de estar para ahi com todo esse aranzel
+que eu não me metto n'isso, respondeu pachorrentamente
+José d'Albuquerque. O Claudio é de
+maior edade ha muitos annos, não me deve favores
+nenhuns, e eu não tenho o minimo direito a reprehendel-o.
+Demais, eu sei lá como essas cousas
+são?!... Muito mexerico, muita intriga... Quem
+as armou que as desarme!</p>
+
+<p>Não obstante esta primeira attitude de resistencia,
+D. Maria Francisca que conhecia a fraqueza do filho,
+lamentou-se com voz lacrimoniosa de que tinha
+<span class="pagenum">[276]</span>
+creado tres filhos e ninguem a ajudava, insistiu, e
+conseguiu por fim que elle lhe promettesse escrever
+a Jorge de Castro para que este por sua vez escrevesse
+a Claudio e procurasse trazel-o á companhia
+da esposa legitima.</p>
+
+<p>De facto, escreveu, mas em termos inteiramente
+despreoccupados «O Claudio», dizia a Jorge, «com
+aquelle genio romantico que nós sempre lhe conhecemos,
+metteu-se em Villalva a cuidar dos rouxinoes e
+das flores e parece, segundo dizem, que arranjou lá
+uma amante de que já tem um pequenito. Minha
+mãe e Laura andam em braza com a noticia e querem
+muito que tu lhe escrevas, aconselhando-o a
+deixar aquella vida. Duvido muito que o leves a
+mudar, que elle com apparencia de indifferente é
+muito teimoso, mas, se lhes quizeres fazer a vontade,
+e tambem para me livrares d'esta continua cegarrega,
+dize-lhe d'ahi alguma cousa.» Depois, passava
+a fallar longamente das suas investigações.
+«Tem-me dado bom trabalho», continuava, «o tal
+sr. Castanheira d'Almeida que, com uma petulancia
+sem precedentes, se lembrou de fazer sobre a vida
+d'el-rei D. Diniz as mais estupidas affirmações. É
+claro que não era cousa que se sustentasse cinco
+minutos, mas é preciso não deixar correr estes erros,
+convém destruil-os pela raiz, e por isso...
+etc.» N'este tom escreveu duas folhas de papel.</p>
+
+<p>Jorge, porém, que, por inclinação natural e pelas
+circumstancias particulares d'uma vida feliz, se habituára
+a considerar a familia uma cousa sagrada,
+ficou muito impressionado com a noticia, parecendo-lhe
+que Claudio praticára a maior das loucuras e
+renunciára para sempre a toda a felicidade, lançando-se
+n'um mar de inquietações infinitas.</p>
+
+<p>Sem mais tardar e com grande anciedade pela situação
+do amigo, que se lhe afigurava cruel, escreveu-lhe
+palavras de conselho paternal todas impregnadas
+<span class="pagenum">[277]</span>
+de carinho, de mágoa e de esperança. Procurava
+convencel-o, mostrando-lhe que a familia era o
+verdadeiro fundamento de toda a ordem moral na
+sociedade e relembrando-lhe as ideias com que a organisara;
+invocava os seus sentimentos de rectidão
+e de lealdade para exigir a fidelidade conjugal, ponderando
+a gravidade da offensa feita á esposa que a
+fraqueza propria do seu sexo e a impossibilidade de
+se desaggravar dignamente collocava em condições
+de obrigar todo o caracter nobre a respeital-a; e finalmente,
+n'uma curta confrontação da paz d'uma
+união legitima com os continuados vexames e a mentira
+d'uma ligação irregular, em que nem sequer os
+filhos lhe podiam dar o nome de pae sem recordarem
+a falta e a vergonha da mãe, pedia a Claudio
+que no proprio interesse da sua tranquillidade pozesse
+termo áquella vida tão contraria a uma salutar
+moralidade.</p>
+
+<p>Claudio leu esta carta n'uma oppressão de magoa
+e compungimento. A condemnação do seu viver pelo
+maior dos seus amigos parecia-lhe quebrar um dos
+laços mais fortes que o prendiam ao mundo; alargava
+a devastação que ha muito se vinha alastrando
+em volta do seu coração. Mas, passada essa primeira
+dôr, sempre presente aos seus olhos a humildade
+simples de Maria, recobrou animo n'essa imagem e
+escreveu:</p>
+
+<br>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 2em;">Meu querido Jorge:</p>
+
+<p>Um mau fado presidiu ao meu destino e affastou
+de mim toda a alegria. A tua carta é o ultimo grito
+d'essa correria de dôres que ha muitos annos me
+persegue e que quasi me tem vencido.</p>
+
+<p>Esperava-a, antecipadamente sabia que havias de
+condemnar o meu viver presente; por isso mesmo
+tenho addiado até hoje uma confissão que só novas
+<span class="pagenum">[278]</span>
+magoas me podia trazer. Mas faça-se a tua vontade.
+Aqui me tens a ouvir-te submisso, d'essa submissão
+que será o derradeiro estado da minha alma, que
+não sei bem se é desengano de toda a ventura, indifferença
+pelas causas da terra ou consciencia e reconhecimento
+da propria fraqueza, abandono de toda
+a energia aos impulsos d'uma fatalidade cega.</p>
+
+<p>Ouve-me, porém, ainda algumas palavras antes
+de me excluires da tua estima. Não é defeza, é confissão;
+não é a voz do orgulho que repelle a condemnação,
+é o queixume do culpado que a acceita
+sem revolta.</p>
+
+<p>Sim! é verdade. Deixei uma mulher que tinha tomado
+por esposa legitima, segundo todas as convenções
+sociaes, deixei-a, deixei o filho que ella me
+tinha dado e a casa que com ella habitava, e vim
+esconder-me nas serras em que vi a luz, entre gente
+inculta, ligado pelo amor a uma rapariga do campo,
+tentando partilhar a sua humildade e a rudeza que
+tomei pela maior virtude e pela felicidade suprema.
+Abandonei a familia que tinha estabelecido, abandonando-lhe
+quasi todos os meus bens e riquezas, deixando-a
+n'uma vida de ociosidade, de abundancia e
+de prazeres, abandonei o luxo e uma existencia que
+me era odiosa, e fugi a acoitar-me nas caricias silenciosas
+da natureza e na protecção carinhosa d'uma
+mulher que me ama servindo-me.</p>
+
+<p>Este é o meu crime, que por certo aos teus olhos
+parecerá uma vileza sem nome, imperdoavel.</p>
+
+<p>Talvez não tão grande como a tua imaginação a
+representa! Talvez aos errores da minha desventura
+correspondam as alucinações da tua felicidade!...</p>
+
+<p>Queres que o respeito da familia seja o alicerce
+de toda a ordem moral na sociedade e tambem eu
+outra cousa não pretendo. Se a familia é a união de
+dois seres ligados por sentimentos congeneres de
+<span class="pagenum">[279]</span>
+trabalho, de consagração das suas forças á educação
+d'uma nova geração, de auxilio mutuo e mutua
+submissão, de renuncia aos prazeres da carne, de
+caridade e amparo para todos os desvalidos, não ha
+por certo melhor força para manter a ordem e a
+belleza moral na humanidade. Se a familia é a união
+de dois seres ligados pelas mesmas aspirações de
+riqueza, de tranquillidade e de socego egoistas, de
+comodidade e de luxo, de meza lauta e de ninho
+tepido e macio, com os filhos entregues a mãos mercenarias
+desde o berço até que a escola os entrega
+á sociedade, poderá ser uma inutilidade para os estranhos,
+mas, quando se tem a fortuna de possuir
+todas essas cousas apetecidas, é, para os seus favorecidos,
+um manso e ininterrompido regabofe. Se a familia
+é porém o encarceramento, sob o mesmo tecto e
+em volta do mesmo lar, de dois seres guiados por
+aspirações oppostas e nenhum d'elles disposto a
+ceder das suas ambições, em permanente conflicto,
+consumindo n'esses dissentimentos toda a energia
+que deveriam consagrar ao cumprimento da sua
+missão social, então não sei o que a familia signifique,
+além d'uma enorme e torpe mentira quando
+esta discordia se abriga sob formulas e exterioridades
+d'um falso respeito.</p>
+
+<p>O que eu ainda não pude saber ao certo é o que
+venha a ser, como principio de moralidade, essa tão
+famosa fidelidade conjugal. É o concubinato legal em
+que a mulher gravida e a mulher que amamenta se
+prostituem e aviltam, ás mãos do que tem o nome
+de esposo, confundindo no mesmo leito a mãe e a
+amante? Mas isso é sem duvida a maior aberração
+das leis naturaes, uma especie de immoralidade desconhecida
+dos animaes inferiores que todos, sem
+evangelhos doutrinados, respeitam a femêa prenhe
+e são repellidos raivosamente pela que guarda e
+aquece os filhos. É essa outra especie de concubinato
+<span class="pagenum">[280]</span>
+em que cautelosamente se evita a procreação
+para que os prazeres e a belleza do corpo não soffram
+quebra ou interrupção e para fugir aos encargos
+sociaes que do matrimonio resultam? N'este
+caso, significa a degradação pela cobardia moral e
+pelos desregramentos da concupiscencia que se arvora
+em virtude e que a sociedade acceita como
+joia de bom quilate.</p>
+
+<p>Só como inicio de perfeita castidade poderei julgar
+a fidelidade conjugal um valor moral; só como
+principio de abstinencia e de completa annulação
+das tentações da carne poderá aos meus olhos tornar-se
+digna de ser considerada por aquelles que um
+anceio de vida superior domina. D'outro modo, confunde-se
+nas labaredas da luxuria que todas fascinam
+e matam igualmente. Que a prostituição se dê
+dentro ou fóra dos limites do codigo civil, pouco importa;
+será sempre a sujeição deprimente da alma
+aos incitamentos impuros da sensualidade.</p>
+
+<p>Pensa um momento; porventura convencer-te-ás
+de que os meus erros não são tão grandes como pretende
+mostrar-t'os a tua felicidade que não é, como
+toda a felicidade, o resultado do teu esforço mas a
+concorrencia de elementos fortuitos.</p>
+
+<p>O meu crime foi procurar soffregamente a virtude
+e tentar a sujeição da minha vida á realisação d'um
+destino consciente, em logar de acceitar humildemente
+os azares da propria fortuna. Nas minhas aspirações
+de santidade houve talvez um orgulho sem
+medida de que a providencia me castigou transformando-as
+em corôa de espinhos.</p>
+
+<p>Que sonho mau, que instigação satanica me levou
+um dia a descer estas escarpas para ir procurar na
+riqueza e na sciencia a felicidade que deixava na
+vida simples? Porque não fiquei aqui, como meus
+paes, na paz laboriosa d'uma existencia ignorada e
+singela?</p>
+<span class="pagenum">[281]</span>
+
+<p>Quiz rehaver essa ventura perdida, magoado
+das infinitas asperezas do longo caminho por que
+me trouxeram a sensualidade e a curiosidade de saber,
+mas, ai de mim! era tarde, e chego ao porto
+tão ensanguentado que jámais as minhas feridas poderão
+cicatrizar, jámais poderão estancar as chagas
+em que o animo se me esvae.</p>
+
+<p>Não póde a razão e a vontade resgatar o que uma
+vez ao coração foi roubado. Debalde o pensamento,
+em rodeios sem fim, tentára restituir-me a tranquilidade.</p>
+
+<p>Não penses pois em ressuscitar o Lazaro; deixa
+que elle espere no abandono a hora abençoada de
+voltar á terra, a esse pó em que todos os crimes e
+todas as virtudes se dissolvem e apagam para brotarem
+resgatados n'uma fecundidade infinita.</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 5em;">Teu</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 4em;"><i>Claudio.</i></p>
+
+<br>
+
+<p>Apezar da serenidade apparente que Claudio revelava,
+era certo que a carta de Jorge lhe deixára uma
+profunda impressão de mágoa. Todo o passado se
+dissolvia. Mulher, filho, amigos, tudo se transformava
+em sombras de que se affastára a vida que só no
+coração residia; desligados do seu affecto, morriam
+para os seus olhos perante os quaes passavam como
+espectros d'uma apagada existencia. Não fôra elle
+que errára? Não significava esse isolamento que elle
+tinha deixado o bom caminho, aquelle em que as
+almas cantam uma alegria sem peccado? Voltavam
+suspeitas, duvidas cruciantes.</p>
+
+<p>Todavia, exteriormente, a vida de Claudio parecia
+ter caido na mais absoluta calma. Na aldeia já ia
+esquecido o escandalo e o povo acceitava sem murmurio
+os amores de Maria; a caridade, a modestia e
+<span class="pagenum">[282]</span>
+a singeleza que continuavam a ser os espiritos bons
+do casal de Claudio varreram rapidamente a repugnancia
+que ao maior numero inspirava a sua desregrada
+paixão, substituindo essa passageira aversão
+pelo mais carinhoso respeito.</p>
+
+<p>O pae de Maria ficára entrevado, mal se arrastava
+da cama para o quintal, a aquecer-se ao sol ou a visitar
+os gados, tentando ainda relembrar a antiga
+vigilancia e uma febre de trabalho que a doença não
+pudera anniquilar inteiramente; mas a familia, com
+a peculiar resignação que a gente rude põe na acceitação
+das cousas sem remedio, perdoára a Maria a
+sua falta e frequentava-lhe a casa e as relações como
+a do visinho a que mais queria.</p>
+
+<p>A vida ainda tinha alegrias para Claudio. Brotavam,
+como flores silvestres disseminadas pelas montanhas
+aridas, das aguas que se escoavam espumantes
+na azenha ou se perdiam mudas beijando as tumidas
+raizes do arvoredo, dos cantares das lavadeiras
+que erguiam os braços robustos batendo turgidos
+linhos sobre as pedras da ribeira, dos zumbidos
+das abelhas fartando-se na madresilva dos comoros,
+do sol espargindo-se nos orvalhos com que a noite
+mansamente cobrira os campos; brotavam do palpitar
+da natureza em que todo o movimento é sem
+peccado, e brotavam ainda do coração de Maria em
+que a simplicidade e o amor fulguravam, protegendo
+em um nimbo de pureza sadia o espirito decrepito e
+enfermo de Claudio.</p>
+
+<p>Muitas vezes, quando o trabalho apertava ou quando
+o calor era muito, Claudio descia de manhã ao
+campo e só voltava a casa ao pôr de sol. Maria trazia-lhe
+o jantar ao meio dia, o caldo, a broa e o conducto.</p>
+
+<p>Procuravam uma sombra a que se acolhessem; a
+refeição fazia-se n'um recolhido silencio que era
+<span class="pagenum">[283]</span>
+como uma prece perante a magestade olympica da
+natureza.</p>
+
+<p>Depois vinham as sestas, cerrando os olhos na
+contemplação das flores que se abriam ao sol exalando
+aromas n'uma mysteriosa fecundidade.</p>
+
+<p>Uma tarde, por um dia de julho, Maria veio, como
+de costume, trazer o jantar a Claudio, o cesto á cabeça
+coberto d'uma toalha alva e grosseira; nos
+braços o pequenito, repousada a fronte sobre o hombro
+da mãe, no abandono em que o somno o vencia.</p>
+
+<p>Chegando ao campo, foi poisar a creança sobre
+o chale, debaixo d'uma oliveira, proximo d'um
+muro, abrigando-a do vento e do sol que abrazava,
+caindo das serras.</p>
+
+<p>Claudio sentou-se ao lado, sobre uma pedra, e
+Maria sentou-se tambem, em frente d'elle, no chão,
+desapertando o lenço e mostrando o cólo, agora
+exuberante no primeiro despertar da maternidade.</p>
+
+<p>Estavam calados, n'um d'aquelles silencios que
+eram frequentes e em que perpassava uma palpitação
+d'amor e de ventura.</p>
+
+<p>A creança tinha uma belleza angelica, os olhos
+cerrados, os finos cabellos loiros desalinhados, o
+sangue agitado pelo calor da atmosphera e os labios
+humidos, levemente entreabertos, como segredando
+palavras ignoradas d'uma doçura divina.</p>
+
+<p>O pae attentou na mãe e no filho. Sentindo desprender-se
+d'aquelles peitos impenetraveis á corrupção
+um refrigerio que instantaneamente corria
+as feridas do seu coração, libertando-o de dôres perguntou
+a Maria:</p>
+
+<p>&mdash;Gostavas de ter muitos filhos?</p>
+
+<p>&mdash;Filhos!... respondeu ella rindo surprehendia
+da estranheza da pergunta. Cada um tem os que
+Deus dá!...</p>
+
+<p>Claudio calou-se novamente, dominado de respeito.
+<span class="pagenum">[284]</span>
+Era a voz da virtude ingenua que chegára aos seus
+ouvidos, da coragem na acceitação da condição humana,
+da religião no amor sem limites, na conformidade
+do destino.</p>
+
+<p>N'aquella rapariga humilde, pobre e rude, encontrava
+o que nem o saber nem a razão tinham podido
+conceder-lhe.</p>
+
+<p>Ai! Era bem certo!... A felicidade havia de nascer
+do coração em jorros cristalinos como a agua
+que rebenta entre os rochedos.</p>
+
+<p>Tentar subjugal-a sob os impulsos da intelligencia
+era profanal-a. A candura maculada jámais recupera
+a alvura.</p>
+
+<p>N'este labor continuado, em que o amor da terra
+o absorvia, havia ainda para Claudio horas de repouso
+e de ocio, já por simples fadiga, já porque
+o trabalho tinha tambem as suas pausas naturaes.</p>
+
+<p>Vinham então a leitura, a meditação e as longas
+caminhadas pelas veredas desertas, pelas cristas
+despidas dos montes ou pelos valles apertados, entre
+o arvoredo cerrado.</p>
+
+<p>Procurava, avidamente, em interrogações infinitas,
+conquistar para si um retalho d'essa paz augusta
+em que toda a natureza se envolvia. Escutava, na
+doce luz do crepusculo, o brandir compassado da
+Ave Maria em que sentia murmurios de orações,
+supplicas e louvores de gratidão erguendo-se da
+aldeia e confundindo se n'uma só prece, em mystica
+união, com o repouso que a noite vinha derramando.</p>
+
+<p>Queria lançar a sua alma n'essa fornalha ardente
+d'amor e de fé, purifical-a no contacto das almas
+simples, mas sempre sentia o tumultuar d'um passado
+que o despertava dos sonhos bons para o torturar
+nas angustias da consciencia.</p>
+
+<p>Temia as noites tenebrosas do inverno e os dias
+<span class="pagenum">[285]</span>
+pesados e humidos que o obrigavam a enclausurar-se
+na estreita sala de Villalva. Renasciam phantasmas
+que julgára dissipados, visões sombrias que a
+luz do sol e os carinhos humildes de Maria pareciam
+ter varrido para sempre.</p>
+
+<p>Começava a desfiar esse rosario das suas amarguras;
+um infinito desalento se apossava do seu espirito,
+prostando-o de desesperança, convencendo-o
+da infelicidade sem remedio.</p>
+
+<p>Porque não casára com a Conceição e passára de
+animo leve sobre as suas lagrimas? Porque abandonára
+Emilia á miseria que elle mesmo por suas mãos
+tinha aggravado? Porque deixára Laura que elle espontaneamente
+fôra buscar tal qual era, com todos
+os seus prejuizos? E Maria,&mdash;pobre Maria!&mdash;para
+que a juntára á sua desgraça, roubando-a ao amor
+sadio do seu namorado? Egoismo, ciumes, aspirações
+impuras que tinham perdido a sua alma, lançando-a
+nas chammas do remorso.</p>
+
+<p>Revoltava-se contra a miseria do corpo que com
+seus doidos anceios o tinham transviado do caminho
+de caridade e de sacrificio em que, imolando as
+suas ambições, teria encontrado a paz da consciencia.</p>
+
+<p>Tentava desprender-se d'esse pesado involucro
+carnal com frequentes jejuns e esforçando-se por
+ser casto. Por momentos, quando as minguadas forças
+physicas pareciam dar ao espirito uma liberdade
+que o enlevava em delicias, tinha a illusão de que
+chegára a hora de renascer n'uma vida de pureza e
+resgatar o passado, santificando-se pelo offerecimento
+a Deus de toda a sua existencia, calcando como
+reptis venenosos os ardores dos sentidos.</p>
+
+<p>Essa illusão pouco durava. Rebrilhava o sol, punha
+a enxada ao hombro e, revolvendo a terra, communicava-se-lhe
+essa gigantesca vibração de fecundidade
+que é a propria vida de todo o universo.
+<span class="pagenum">[286]</span>
+Crear, reproduzir a sua força e o seu sangue nos
+seus filhos, nas flôres e nos fructos que regára com
+o suor do seu rosto, era nas horas de culto naturalista
+o novo deus a que sacrificava. E, abandonando-se
+a esse movimento, outras bençãos, as bençãos
+do amor terreno triumphante, se lhe espargiam sobre
+a fronte e lhe infiltravam um vigor desconhecido.</p>
+
+<p>N'esta lucta, porém, consumia-se; as suas forças
+decaiam rapidamente. Ás vezes dominava-o um
+abatimento, uma prostração em que sentia proximo
+o seu fim. Então convencia-se que aquillo que tomára
+por um rejuvenescimento não era mais do que
+uma desesperada excitação em que inteiramente e
+para sempre ia anniquilar-se.</p>
+
+<p>Em um d'esses dias, pouco tempo depois de Maria
+lhe ter dado o segundo filho, recolheu tarde. Maria
+já por mais d'uma vez viera á porta, olhando o caminho
+a vêr se o descobria, quando elle entrou.</p>
+
+<p>Vinha contente, risonho, como que alliviado das
+suas preoccupações sombrias.</p>
+
+<p>&mdash;Vim tarde. Estavas com cuidado?... Tem paciencia.
+Foi-me preciso...</p>
+
+<p>&mdash;Não, logo me lembrei que andasse a passeiar
+ou tivesse tido alguma coisa que fazer, mas nunca
+se fica em descanço. Ás vezes, onde menos se espera
+estão trabalhos.</p>
+
+<p>&mdash;Tive de ir a Albergaria. Toma, guarda isto bem
+guardado. É o teu pão e dos nossos filhos, se eu
+faltar, disse elle, entregando-lhe um papel azulado
+com grandes manchas de lacre.</p>
+
+<p>Era o seu testamento em que lhe entregava, por
+sua morte, os bens de Villalva.</p>
+
+<p>&mdash;Para que é isso? respondeu ella recuando com
+uma anciedade triste. Deus Nosso Senhor hade levar-me
+primeiro.</p>
+<span class="pagenum">[287]</span>
+
+<p>&mdash;Não, não... guarda, replicou Claudio com firmeza.</p>
+
+<p>A rapariga então, obedecendo, recebeu o papel e,
+os olhos rasos de lagrimas, beijou as mãos de Claudio.</p>
+
+<p>Quizéra insistir na recusa, sentia uma commoção
+que a turvava, mas era a sua vontade, a vontade
+d'elle, e amal-o era obedecer-lhe, era servil-o.</p>
+
+<p>Sentaram-se á mesa. Não se ouviu nem mais uma
+palavra sobre o testamento, e a ceia começou. Claudio
+estava alegre, perguntando pelos filhos, pelos gados,
+pelo que em casa se fizera n'aquella tarde, fallando
+dos trigaes que vira na varzea e que promettiam
+uma boa colheita.</p>
+
+<p>No dia seguinte, voltou ao trabalho, continuando
+na sua pacifica faina. O trabalho era a sua alegria,
+não ficavam horas nem para recriminações nem para
+idyllios.</p>
+
+<p>Em todo o tempo que Claudio viveu com Maria, só
+houve um momento que lembrasse as horas de paixão
+que antigamente o crucificavam.</p>
+
+<p>Uma manhã, Claudio veio a casa almoçar. Como o
+orvalho no campo fosse muito e trouxesse os tamancos
+enlameados, deixou-os á porta e entrou descalço.
+Maria estava em pé, no meio da sala. Parecia procurar
+vêr, atravez a janella, qualquer coisa que se passava
+fóra, mas occultando-se ao mesmo tempo para
+não ser vista. Era o pae d'ella que em frente, encostado
+ás muletas, se arrastava no estreito carreiro do
+seu quintal, vendo as ervilhas que se prendiam na
+sêbe grosseira.</p>
+
+<p>Claudio poude aproximar-se sem ella o sentir.
+Comprehendeu rapidamente toda a amargura que
+lançára n'aquelle coração, dilacerado de remorsos.</p>
+
+<p>&mdash;Perdoa-me, perdoa-me, disse-lhe apertando-a
+nos braços e beijando-a na fronte.</p>
+<span class="pagenum">[288]</span>
+
+<p>E fugiu, sem voltar o rosto, deixando-a a soluçar,
+banhada em pranto.</p>
+
+<p>Durante quatro annos, viveu assim; apparentemente
+tranquillo na paz da vida do campo, interiormente
+minado de duvidas que por vezes a consciencia
+lhe apresentava como espectros. Maria era sempre
+a mesma que fôra na hora em que a conhecera,
+humilde, laboriosa, singelamente amoravel. Mas Claudio,
+possuindo-a, via n'ella, repassado de contricção,
+a imagem da felicidade perdida. Era tarde para a
+merecer; as lembranças do passado perseguiam-n'o
+implacaveis, já não havia alegria que não fosse cortada
+d'um travor de arrependimento.</p>
+
+<p>As forças decaiam sempre. Não tinha doença alguma;
+sentia uma depressão de vigor que todos os
+dias se accentuava, uma velhice precoce que caminhava
+incessantemente.</p>
+
+<p>Em maio, um dia tardou a erguer-se. Foram procural-o.
+Parecia dormir, mas, como o somno se prolongasse
+excessivamente, accordaram-n'o.</p>
+
+<p>&mdash;O que tem? perguntou-lhe Maria. Não quer hoje
+levantar-se?</p>
+
+<p>&mdash;Não é nada, respondeu elle, fitando-a mansamente
+e procurando saccudir a somnolencia que o
+dominava. Estou muito constipado, tenho o peito
+muito opprimido. Creio que foi do vento que hontem
+apanhei lá em baixo. Isto com agasalho cura-se.</p>
+
+<p>&mdash;Mas é melhor chamar o medico. Quer?</p>
+
+<p>&mdash;Para mim não era preciso. Mas se tu ficas
+assim mais descansada, manda-lhe dizer que venha
+cá.</p>
+
+<p>Maria saiu e Claudio immediatamente caiu n'um
+somno pesado, a respiração frequente e anciada.</p>
+
+<p>O dr. Carvalho veiu cerca do meio dia. O doente
+até então não cessára de dormir. Apenas accordava
+quando o chamavam, e logo cerrava os olhos,
+continuando em torpor.</p>
+<span class="pagenum">[289]</span>
+
+<p>&mdash;Está muito doente! disse o dr. para Maria. Eu
+vou á villa e volto já para lhe pôr um caustico. Tenho
+medo que não lhe façam isso em termos.</p>
+
+<p>E saiu a entrar na carruagem que o levou á pharmacia.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! disse o boticario, vendo-o apear-se ligeiro,
+vem hoje muito atarefado!</p>
+
+<p>&mdash;Quero um caustico para o dr. Claudio que está
+muito mal.</p>
+
+<p>&mdash;Sim!?... Então com quê? perguntou o boticario
+abrindo um armario envidraçado e tirando um grande
+frasco com um rotulo em lettras d'oiro.</p>
+
+<p>&mdash;Tem uma pneumonia. E o pulso... Que desconcerto!...</p>
+
+<p>&mdash;Se aquelle organismo não estivesse tão depauperado,
+continuou o dr., sangrava-o, mas assim...
+não me atrevo.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei o que será... não sei o que será, repetia
+inquieto. Olhe, deixe-me vêr uma folha de papel
+que sempre quero avisar a familia. Que elles não se
+importam mas, se não vierem, não ha de ser por
+minha culpa.</p>
+
+<p>E sentou-se a escrever, pedindo ao boticario que
+mandasse a carta para Coimbra, no correio da tarde.</p>
+
+<p>A applicação dos medicamentos não deu resultado.
+A pneumonia seguiu os seus tramites.</p>
+
+<p>Claudio conhecia mal o seu estado. Ás vezes chamava
+as pessoas de casa, levado por uma vaga saudade,
+procurando combater o somno que o ia dominando
+e luctando por despertar a consciencia! Tinha
+então palavras carinhosas, principalmente para Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Estou a dar-te tanto trabalho... Tem paciencia,
+tem paciencia, sim?</p>
+
+<p>Esses momentos eram, porém, cada vez mais raros.</p>
+
+<p>Ao terceiro dia, já noite adeantada, perguntou por
+<span class="pagenum">[290]</span>
+um velho creado que fôra de sua mãe e se chamava
+Luiz.</p>
+
+<p>O creado veiu sem demora, mas entretanto Claudio
+adormecia novamente.</p>
+
+<p>&mdash;Está aqui o Luiz, está aqui o Luiz, disse Maria
+tentando despertal-o.</p>
+
+<p>O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da
+cama e inclinava sobre o doente o craneo calvo, orlado
+de raros e longos cabellos brancos. Claudio entreabriu
+os olhos, quiz afagal-o, levantou ligeiramente
+o braço, e a mão rolou pela cabeça do velho, caindo
+novamente, quasi inerte, sobre o leito.</p>
+
+<div class="centrado"><img src="images/006.jpg" alt="O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da cama"></div>
+
+<p>Foi o seu ultimo movimento consciente. Depois
+não se sentiu mais que um estertoroso arfar.</p>
+
+<p>Pela manhã, abriram a janella, cuidando que a
+frescura do ar alliviaria a agonia. A luz do sol foi bater
+no leito e cercou o moribundo d'um esplendor de
+gloria entre o perfume da madresilva e o canto das
+aves que alegremente cantavam a eterna alleluia
+dos seus amores. Distante, ouvia o balido do rebanho
+que o pastor levava a beber no regato. Era
+uma festa de canticos angelicos.</p>
+
+<p>De repente, a respiração pareceu baixar docemente.
+Houve no quarto um murmurio de lagrimas e de
+soluços; instinctivamente todos ajoelharam, e alguem
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Acabou.</p>
+
+<p>Maria levantou-se, inclinou-se sobre o cadaver,
+cerrou-lhe os olhos e, soluçando, abraçou-o.</p>
+
+<p>Algumas horas depois chegava Jorge.</p>
+
+<p>No alvoroço que em casa de Laura produzira a
+carta do dr. Carvalho, tinha resolvido D. Maria Francisca,
+porque o marido estava para a Beira, pedir a
+Jorge que viesse vêr o amigo.</p>
+
+<p>Ainda se lembrou de aconselhar á filha que fosse
+a Villalva. Parecia-lhe elegante, de bom effeito no
+<span class="pagenum">[291]</span>
+publico, esta reconciliação á hora da morte. Mas a
+filha revoltou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Isso nunca!... Não é pelas offensas que elle
+me fez, é porque a minha dignidade não me permitte
+entrar ali n'aquella casa e pôr-me a par com
+uma mulher réles...</p>
+
+<p>&mdash;Bem, bem, não te exaltes, filhinha. Eu cuidarei
+de tudo, rematou D. Maria Francisca.</p>
+
+<p>Foi então que telegraphou a Jorge.</p>
+
+<p>Este veiu immediatamente, por Coimbra, para saber
+os desejos dos Albuquerques.</p>
+
+<p>Laura desmaiou mal o viu, e a mãe levou-a em
+braços para o quarto, voltando á sala alguns minutos
+depois.</p>
+
+<p>&mdash;Coitadinha! Muito tem soffrido! Eu nem sei como
+ella póde...</p>
+
+<p>Mas logo, sem poder conter-se, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Eu o que receio é que haja algum testamento
+e elle tenha passado tudo para as mãos d'essa mulher
+que lá tem!... O meu querido Jorge verá. Se
+não houver nada, peço-lhe que tome conta de tudo
+e, se houver, faça então como entender. Elle está
+muito mal, segundo o que o dr. Carvalho me diz,
+até talvez a estas horas tenha morrido... O que lhe
+peço tambem é que me mande um proprio, a cavallo,
+para se tratar do enterro logo que elle falleça.</p>
+
+<p>Com estas instrucções partiu para Villalva onde
+foi encontrar o amigo, morto, sobre o leito, já lavado
+e vestido pelas mãos de Maria e do creado
+Luiz.</p>
+
+<p>Não se atreveu a entrar sem pedir que o annunciassem
+a Maria. Ella veiu recebel-o á sala.</p>
+
+<p>Jorge não teve coragem de articular uma palavra,
+tão grande era a commoção em que todo este drama o
+lançava.</p>
+
+<p>Foi Maria que singelamente resolveu a situação,
+<span class="pagenum">[292]</span>
+dizendo-lhe magoadamente e reprimindo as lagrimas:</p>
+
+<p>&mdash;Então o senhor era o amigo d'elle?!... Ai! Que
+pena não ter vindo mais cedo!... Fallava tanto no
+Jorge quando delirava... Parecia que lhe queria dizer
+alguma cousa...</p>
+
+<p>Immediatamente, como prescrutando n'um breve
+esforço o que significava ali a presença de Jorge,
+entre as lagrimas que já não podia mais conter, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Vem buscal-o, não é verdade?... E elle que
+tanto queria ficar ali ao pé da mãe!...</p>
+
+<p>Pela manhã veiu um carro funerario, com penachos
+negros, a balouçarem-se no macadam, sobre
+o qual pozeram o caixão que continha o cadaver
+de Claudio. Maria viu-o affastar-se, de joelhos,
+orando ao pé da janella e pedindo, não a Deus
+que o tivesse junto de si porque no seu espirito
+não podia haver duvida sobre a salvação de Claudio,
+mas a Claudio que junto de Deus a protegesse
+e amparasse com o seu auxilio. O carro desappareceu
+entre as ramagens dos choupos que orlavam
+a estrada; ella voltou os olhos para os cyprestes
+do cemiterio, como querendo instinctivamente prender-lhes
+qualquer cousa que lhes roubavam, e
+ergueu-se a dar o peito ao filho que se movia no
+berço.</p>
+
+<p>Levaram o corpo de Claudio para a egreja de Santa
+Cruz e pozeram-n'o sobre um catafalco rodeado
+de tochas accesas e muitas velas em serpentinas de
+prata. Cobriram-n'o de corôas feitas de pannos tingidos,
+em fórma de flores, e aos pés do caixão, do
+meio d'esse montão informe de enfeites, pendia uma
+fita preta com grandes lettras douradas, dizendo:</p>
+
+<p style="text-align: center;"><i>Eterna saudade da sua Laura.</i></p>
+<span class="pagenum">[293]</span>
+
+<p>Em seguida aos responsos, pôz-se tudo a caminho
+do cemiterio. Um lente da Universidade dizia na
+carruagem para o juiz que o acompanhava:</p>
+
+<p>&mdash;Vão mais de quarenta trens! Este Albuquerque
+tem ainda uma grande influencia!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não tem! respondia o juiz. O genro, se
+não fosse tolo, podia ter feito uma linda figura. Ainda
+nas ultimas eleições se lembraram de o eleger deputado
+por Vizeu. Quem sabe?... Talvez ainda agora
+vivesse!...</p>
+
+<p>Passados tres dias, n'aquelle campo em que Claudio
+costumava trabalhar, uma creança brincava á sombra
+das oliveiras. Ao lado, uma mulher, vestida de
+negro, ceifava o azevem. Era Maria.</p>
+
+<p>Á mesma hora, em Coimbra, rodavam as carruagens
+a caminho do palacio dos Albuquerques. Ali,
+trocavam-se palavras doces em meio das paredes
+despidas dos seus adornos. Laura e a mãe discutiram
+longamente, maduramente, quantos vestidos
+havia a fazer, e resolveram mandar vir da capital
+uma modista em voga.</p>
+
+<p>&mdash;Porque, dizia D. Maria Francisca, sempre é lucto
+de mais d'um anno!... Aqui fazem-te lá alguma cousa
+em termos?! Não has-de andar todo esse tempo com
+vestidos desageitados. Depois, vem a Figueira e precisas
+ter com que te apresentes. Tu bem sabes como
+aquella gente de Lisboa repara...</p>
+</div>
+
+
+<p style="text-align: center;">FIM</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Transviado, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRANSVIADO ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
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+
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+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>