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+The Project Gutenberg EBook of Poesias, by Alexandre Herculano
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Poesias
+
+Author: Alexandre Herculano
+
+Release Date: June 28, 2008 [EBook #25925]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POESIAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+POESIAS
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+IMPRENSA NACIONAL
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+POESIAS
+
+POR
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+A. HERCULANO
+
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+SEGUNDA EDIÇÃO
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+LISBOA
+EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS
+AOS MARTYRES, N.^o 73
+M DCCC LX
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+LIVRO PRIMEIRO
+
+A HARPA DO CRENTE.
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+A SEMANA SANCTA.
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+
+ Der Gedanke Gott weckt einen furchlerlichen Nachbar auf. Sein Name
+ heisst Richter.
+
+ Schiller.
+
+
+I.
+
+Tibio o sol entre as nuvens do occidente,
+Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne
+Vai a hora da tarde!--O oeste passa
+Mudo nos troncos da alameda antiga,
+Que á voz da primavera os gomos brota:
+O oeste passa mudo, e cruza o atrio
+Ponteagudo do templo, edificado
+Por mãos duras de avós, em monumento
+De uma herança de fé, que nos legaram,
+A nós seus netos, homens de alto esforço,
+Que nos rimos da herança, e que insultamos
+A cruz e o templo e a crença de outras eras;
+Nós, homens fortes, servos de tyrannos,
+Que sabemos tão bem rojar seus ferros
+Sem nos queixar, menosprezando a Patria
+E a liberdade, e o combater por ella.
+
+Eu não!--eu rujo escravo; eu creio e espero
+No Deus das almas generosas, puras,
+E os despotas maldigo.--Entendimento
+Bronco, lançado em seculo fundido
+Na servidão de goso ataviada,
+Creio que Deus é Deus e os homens livres!
+
+
+II.
+
+Oh sim!--rude amador de antigos sonhos,
+Irei pedir aos tumulos dos velhos
+Religioso enthusiasmo, e canto novo
+Hei-de tecer, que os homens do futuro
+Entenderão; um canto escarnecido
+Pelos filhos dest' epocha mesquinha,
+Em que vim peregrino a ver o mundo.
+E chegar a meu termo, e reclinar-me
+Á branda sombra de cypreste amigo.
+
+
+III.
+
+Passa o vento os do portico da igreja
+Esculpidos umbraes: correndo as naves
+Sussurrou, sussurrou entre as columnas
+De gothico lavor: no orgam do côro
+Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.
+
+
+IV.
+
+Mas porque sôa o vento?--Está deserto,
+Silencioso ainda o sacro templo:
+Nenhuma voz humana ainda recorda
+Os hymnos do Senhor. A natureza
+Foi a primeira em celebrar seu nome
+Neste dia de lucto e de saudade!
+Trévas da quarta feira eu vos saúdo!
+Negras paredes, mudos monumentos
+De todas essas orações de mágua,
+De gratidão, de susto ou de esperança,
+Depositadas ante vós nos dias
+De fervorosa crença, a vós que enlucta
+A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.
+A loucura da cruz não morreu toda
+Após dezoito seculos!--Quem chore
+Do soffrimento o Heroe existe ainda.
+Eu chorarei--que as lagrymas são do homem--
+Pelo Amigo do povo, assassinado
+Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
+Envilecidas, barbaras, e servas.
+
+
+V.
+
+Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
+Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,
+D'onde mergulhas no oceano a vista;
+Tu que do trovador á mente arrojas
+Quanto ha nos céus esperançoso e bello,
+Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,
+Quanto ha nos mares magestoso e vago,
+Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma
+A harmonia celeste e o fogo e o genio,
+Que dêm vida e vigor a um carme pio.
+
+
+VI.
+
+A noite escura desce: o sol de todo
+Nos mares se atufou. A luz dos mortos,
+Dos brandões o clarão, fulgura ao longe
+No cruzeiro sómente e em volta da ara:
+E pelas naves começou ruído
+De compassado andar. Fiéis acodem
+Á morada de Deus, a ouvir queixumes
+Do vate de Sião. Em breve os monges,
+Suspirosas canções aos céus erguendo,
+Sua voz unirão á voz desse orgam,
+E os sons e os ecchos reboarão no templo.
+Mudo o côro depois, neste recincto
+Dentro em bem pouco reinará silencio,
+O silencio dos tumulos, e as trévas
+Cubrirão por esta área a luz escaça
+Despedida das lampadas, que pendem
+Ante os altares, bruxuleando frouxas.
+
+Imagem da existencia!--Em quanto passam
+Os dias infantis, as paixões tuas,
+Homem, qual então és, são debeis todas.
+Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
+Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo
+Gemido do remorso, a qual lançar-se
+Vai com rouco estridor no antro da morte,
+Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.
+Da vida tua instantes florescentes
+Foram dous, e não mais: as cans e rugas,
+Logo, rebate de teu fim te deram.
+Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,
+Murmurou, esqueceu, passou no espaço.
+
+E a casa do Senhor ergueu-se.--O ferro
+Cortou a penedia; e o canto enorme
+Pulído alveja alli no espesso panno
+Do muro colossal, que éra após éra,
+Como onda e onda ao desdobrar na areia,
+Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.
+O ulmo e o choupo no cahir rangeram
+Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
+Lá no cimo pousou: restruge ao longe
+De martellos fragor, e eis ergue o templo,
+Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.
+
+Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento
+Se esvái, como da cerva a leve pista
+No pó se apaga ao respirar da tarde,
+Do seio dessa terra, em que és estranho,
+Sair fazes as moles seculares,
+Que por ti, morto, falem; dás na idéa
+Eterna duração ás obras tuas.
+Tua alma é immortal, e a prova a déste!
+
+
+VII.
+
+Anoiteceu.--Nos claustros resoando
+As pisadas dos monges ouço: eis entram;
+Eis se curvaram para o chão, beijando
+O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!
+Igual vos cubrirá a cinza um dia,
+Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto
+É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia
+Mais, se do justo só a herança fòra;
+Mas tambem ao malvado é dada a campa.
+
+E o criminoso dormirá quieto
+Entre os bons sotterrado?--Oh não! Em quanto
+No templo ondeiam silenciosas turbas,
+Exultarão do abysmo os moradores,
+Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,
+Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
+Vendo o que julga que orações apagam
+Vicios e crimes, e o motejo e o riso
+Dado em resposta ás lagrymas do pobre;
+Vendo os que nunca ao infeliz disseram
+De consolo palavra ou de esperança.
+Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes
+Os frios restos que separa a terra,
+Um punhado de terra, a qual os ossos
+Destes ha-de cubrir em tempo breve,
+Como cubriu os seus; qual vai sumindo
+No segredo da campa a humana raça.
+
+
+VIII.
+
+Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos
+Do templo na amplidão: só lá no escuro
+De afumada capella o justo as preces
+Ergue pio ao Senhor, as preces puras
+De um coração que espera, e não mentidas
+De labios de impostor, que engana os homens
+Com seu meneio hypocrita, calando
+Na alma lodosa da blasphemia o grito.
+Então exultarão os bons, e o í­mpio,
+Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,
+Da voz, do respirar o som confuso
+Vem confundir-se no ferver das praças,
+E pela galilé só ruge o vento.
+
+Em trévas não ficou silenciosas
+O sagrado recincto: os candieiros,
+No gelado ambiente ardendo a custo,
+Espalham debeis raios, que reflectem
+Das pedras pela alvura; o negro mocho,
+Companheiro do morto, horrido pio
+Solta lá da cornija: pelas fendas
+Dos sepulchros deslisa fumo espesso;
+Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo
+Suspirar não se ouviu?--Olhae! lá se erguem.
+Sacudindo o sudario, em peso os mortos!
+
+Mortos, quem vos chamou? O som da tuba
+Ainda do Josaphat não fere os valles.
+Dormí, dormí: deixae passar as eras...
+
+
+IX.
+
+Mas foi uma visão: foi como scena
+D'imaginar febril. Creou-se, acaso,
+Do poeta na mente, ou desvendou-lhe
+A mão de Deus o íntimo ver da alma,
+Que devassa a existencia mysteriosa
+Do mundo dos espiritos? Quem sabe?
+Dos vivos ja deserta, a igreja torva
+Repovoou-se, para mim ao menos,
+Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras
+Leito commum na somnolencia extrema
+Buscaram. O terror, que arreda o homem
+Do limiar do templo ás horas mortas,
+Não vem de crença van. Se fulgem astros,
+Se a luz da lua estira a sombra eterna
+Da cruz gigante (que campeia erguida
+No vertice do timpano, ou no cimo
+Do corucheu do campanario) ao longo
+Dos inclinados tectos, afastae-vos!
+Afastae-vos d'aqui, onde se passam
+Á meia-noite insolitos mysterios;
+D'aqui, onde desperta a voz do archanjo
+Os dormentes da morte; onde reune
+O que foi forte e o que foi fraco, o pobre
+E o opulento, o orgulhoso e o humilde,
+O bom e o mau, o ignorante e o sabio,
+Quantos, emfim, depositar vieram
+Juncto do altar o que era seu no mundo,
+Um corpo nú, e corrompido e inerte.
+
+
+X.
+
+E seguia a visão.--Cria ainda achar-me,
+Alta noite, na igreja solitaria
+Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,
+Eram ha pouco um fumo que ondeiava
+Pelas fisgas do vasto pavimento.
+Olhei. Do erguido tecto o panno espesso
+Rareava; rareava-me ante os olhos,
+Como tenue cendal; mais tenue ainda,
+Como o vapor de outono em quarto d'alva,
+Que se libra no espaço antes que desça
+A consolar as plantas conglobado
+Em matutino orvalho. O firmamento
+Era profundo e amplo. Involto em gloria,
+Sobre vagas de nuvens, rodeiado
+Das legiões do céu, o Ancião dos dias,
+O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno
+Parava o tempo, a immensidade, a vida
+Dos mundos a escutar. Era esta a hora
+Do julgamento desses que se alçavam
+Á voz de cima sobre as sepulturas?
+
+
+XI.
+
+Era ainda a visão,--Do templo em meio
+Do anjo da morte a espada flammejante
+Crepitando bateu. Bem como insectos,
+Que á flôr de pego pantanoso e triste
+Se balouçavam--quando a tempestade
+Veiu as azas molhar nas aguas turvas,
+Que marulhando sussurraram--surgem
+Volteando, zumbindo em dança douda,
+E lassos, vão pousar em longas filas
+Nas margens do paul, de um lado e de outro;
+Tal o murmurio e a agitação incerta
+Ciciava das sombras remoinhando
+Ante o sopro de Deus. As melodias
+Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas,
+Com frémito infernal se misturavam
+Em cahos de dôr e jubilo.
+ Dos mortos
+Parava, emfim, o vortice enredado;
+E os grupos vagos em distinctas turmas
+Se enfileiravam de uma parte e de outra.
+Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos
+Ficou, unica luz, que se estirava
+Desde o cruzeiro ao portico, e fería
+De reflexo vermelho os largos pannos
+Das paredes de marmore, bem como
+Mar de sangue, onde inertes fluctuassem
+De humanos vultos indecisas fórmas.
+
+
+XII.
+
+E seguia a visão.--Do templo á esquerda,
+Méstas as faces, inclinada a fronte,
+Da noite as larvas tinham sobre o sólo
+Fito o espantado olhar, e as dilatadas
+Baças pupillas lhes tingia o susto.
+Mas, como zona lucida de estrellas,
+Nessa atmosphera crassa e afogueada
+Pela espada rubente, refulgiam
+Da direita os espiritos, banhado
+De inenarravel placidez seu gesto.
+Era inteiro o silencio, e no silencio
+Uma voz resoou--Eleitos vinde!--
+Ide precítos!»--Vacillava a terra,
+E ajoelhando eu me curvei tremendo.
+
+
+XIII.
+
+Quando me ergui e olhei, no céu profundo
+Um rastilho de luz pura e serena
+Se ia embebendo nesses mares de orbes
+Infinitos, perdidos no infinito,
+A que chamâmos o universo. Um hymno
+De saudade e de amor, quasi inaudivel
+Parecia romper desde as alturas
+De tempo a tempo. Vinha como involto
+Nas lufadas do vento, até perder-se
+Em socego mortal.
+ O curvo tecto
+Do templo, então, se condensou de novo,
+E para a terra o meu olhar volveu-se.
+Da direita os espiritos radiosos
+Já não estavam lá. Chispando a espaços,
+Qual o ferro na incude, a espada do anjo
+O mortiço rubor mandava, apenas,
+D'aurora boreal quando se extingue.
+
+
+XIV.
+
+Proseguia a visão.--Da esquerda ás sombras
+Anciava o seio a dôr: tinham no gesto
+Impressa a maldicção, que lhes seccára
+Eternamente a seiva da esperança.
+
+Como se vê, em noite estiva e negra,
+Scintillar sobre as aguas a ardentia,
+D'umas frontes ás outras vagueiavam
+Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos,
+E ao estalar das lousas, grito immenso
+Subterraneo, abafado e delirante,
+Ineffavel compendio de agonias,
+Misturado se ouviu com rir do inferno,
+E a visão se desfez. Era ermo o templo:
+E despertei do pesadelo em trevas.
+
+
+XV.
+
+Era loucura ou sonho? Entre as tristezas
+E os terrores e angustias, que resume
+Neste dia e logar a avi­ta crença,
+Irresisti­vel força arrebatou-me
+Da sepultura a devassar segredos,
+Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra
+Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--
+
+A justiça de Deus visita os mortos,
+Embora a cruz da redempção proteja
+A pedra tumular; embora a hostia
+Do sacrificio o sacerdote eleve
+Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja
+Rodeiam trevas, solidão e medos,
+Que a resguardam co'as asas acurvadas
+Da vista do que vive, a mão do Eterno
+Separa o joio do bom grão, e arroja
+Para os abysmos a ruim semente.
+
+
+XVI.
+
+Não!--não foi sonho vão, vago delirio
+De imaginar ardente. Eu fui levado,
+Galgando além do tempo, ás tardas horas,
+Em que se passam scenas de mysterio,
+Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra
+Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--
+
+Vejo ainda o que vi: da sepultura
+Ainda o halito frio me enregela
+O suor do pavor na fronte; o sangue
+Hesita immoto nas inertes veias;
+E embora os labios murmurar não ousem,
+Ainda, incessante, me repete na alma
+Íntima voz:--Tremei! Do altar á sombra
+Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--
+
+
+XVII.
+
+Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto
+O coração bateu. Eia, retumbem
+Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos,
+Que em dia de afflicção ignoto vate
+Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle
+O primeiro cantor que em varias córdas,
+Á sombra das palmeiras da Iduméa,
+Soube entoar melodioso um hymno.
+Deus inspirava então os trovadores
+Do seu povo querido, e a Palestina,
+Rica dos meigos dons da natureza,
+Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.
+Virgem o genio ainda, o estro puro
+Louvava Deus sómente, á luz da aurora,
+E ao esconder-se o sol entre as montanhas
+De Bethoron.--Agora o genio é morto
+Para o Senhor, e os cantos dissolutos
+De lodoso folguedo os ares rompem,
+Ou sussurram por paços de tyrannos,
+Assellados de putrida lisonja,
+Por preço vil, como o cantor que os tece.
+
+
+XVIII.
+
+O PSALMO.
+
+Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chega
+ O seu poder immenso!
+Elle abaixou os céus, desceu, calcando
+ Um nevoeiro denso.
+Dos cherubins nas asas radiosas
+ Librando-se, voou;
+E sobre turbilhões de rijo vento
+ O mundo rodeiou.
+Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,
+ E os mares assustados
+Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,
+ Da sua mão tocados.
+Se pensou no Universo, ei-lo patente
+ Ante a face do Eterno:
+Se o quiz, o firmamento os seios abre,
+ Abre os seios o inferno.
+Dos olhos do Senhor, homem, se pódes,
+ Esconde-te um momento:
+Vê onde encontrarás logar que fique
+ Da sua vista isento:
+Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo,
+ Lá teu Deus has-de achar;
+Elle te guiará, e a dextra sua
+ Lá te ha-de sustentar:
+Desce á sombra da noite, e no seu manto
+ Involver-te procura...
+Mas as trévas para elle não são trévas.
+ Nem é a noite escura.
+No dia do furor, em vão buscáras
+ Fugir ante o Deus forte,
+Quando do arco tremendo, irado, impelle
+ Setta em que pousa a morte.
+Mas o que o teme dormirá tranquillo
+ No dia extremo seu,
+Quando na campa se rasgar da vida
+ Das illusões o véu.
+
+
+XIX.
+
+Calou-se o monge: sepulchral silencio
+Á sua voz seguiu-se. Uma toada
+De orgam rompeu do côro. Assemelhava
+O suspiro saudoso, e os ais de filha,
+Que chora solitaria o pae, que dorme
+Seu ultimo, profundo e eterno somno.
+Melodias depois soltou mais doces
+O severo instrumento: e ergueu-se o canto,
+O doloroso canto do propheta,
+Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,
+Sentado entre ruinas, contemplando
+Seu avito esplendor, seu mal presente,
+A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,
+Modulando o Nebel, via-se o vate
+Nos derribados porticos, abrigo
+Do immundo stellio e gemedora poupa,
+Extasiado--e a lua scintillando
+Na sua calva fronte, onde pesavam
+Annos e annos de dôr. Ao venerando
+Nas encovadas faces fundos regos
+Tinham aberto as lagrymas. Ao longe,
+Nas margens do Kedron, a ran grasnando
+Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
+Era Sião!--o vasto cemiterio
+Dos fortes de Israel. Mais venturosos
+Que seus irmãos, morreram pela patria;
+A patria os sepultou dentro em seu seio.
+Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,
+Passam de escravos miseranda vida,
+Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,
+A dextra lhe vergou. Não mais no templo
+A nuvem repousára, e os céus de bronze
+Dos prophetas aos rogos se amostravam.
+O vate de Anathot a voz soltára
+Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
+Ameaças, promessas, tudo inutil;
+De bronze os corações não se dobraram.
+Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho
+Jerusalem passou: sua grandeza
+Sómente existe em derrocadas pedras.
+O vate de Anathot, sobre seus restos,
+Com triste canto deplorou a patria.
+Hymno de morte alçou: da noite as larvas
+O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
+Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
+Do portico do templo erguia um pouco,
+Alvejando, a caveira.--Era-lhe allivio
+Do sagrado cantor a voz suave
+Desferida ao luar, triste, no meio
+Da vasta solidão que o circumdava.
+O propheta gemeu: não era o estro,
+Ou o vívido jubilo que outr'ora
+Inspirára Moysés: o sentimento
+Foi sim pungente de silencio e morte,
+Que da patria lhe fez sobre o cadaver
+A elegia da noite erguer e o pranto
+Derramar da esperança e da saudade.
+
+
+XX.
+
+A LAMENTAÇÃO.
+
+Como assim jaz e solitaria e quèda
+Esta cidade outr'ora populosa!
+Qual viuva ficou e tributaria
+ A senhora das gentes.
+Chorou durante a noite; em pranto as faces,
+Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas
+Ninguem a consolou: os mais queridos
+ Contrarios se tornaram.
+Ermas as praças de Sião e as ruas,
+Cobre-as a verde relva: os sacerdotes
+Gemem; as virgens pallidas suspiram
+ Involtas na amargura.
+Dos filhos de Israel nas cavas faces
+Está pintada a macilenta fome;
+Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
+ Um pão de infamia eivado.
+O tremulo ancião, de longe, os olhos
+Volve a Jerusalem, della fugindo;
+Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira
+ Com seu nome nos labios.
+Que horror!--ímpias as mães os tenros filhos
+Despedaçaram: barbaras quaes tigres,
+Os sanguinosos membros palpitantes
+ No ventre sepultaram.
+Deus, compassivo olhar volve a nós tristes:
+Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,
+Servos de servos em paiz estranho.
+ Tem dó de nossos males!
+Acaso serás Tu sempre inflexivel?
+Esqueceste de todo a nação tua?
+O pranto dos hebreus não Te commove?
+ És surdo a seus lamentos?
+
+
+XXI.
+
+Doce era a voz do velho: o som do Nablo
+Sonoro: o céu sereno: clara a terra
+Pelo brando fulgor do astro da noite:
+E o propheta parou. Erguidos tinha
+Os olhos para o céu, onde buscava
+Um raio de esperança e de conforto:
+E elle calára já, e ainda os ecchos,
+Entre as ruinas sussurrando, ao longe
+Íam os sons levar de seus queixumes.
+
+
+XXII.
+
+Choro piedoso, o choro consagrado
+Ás desditas dos seus. Honra ao propheta!
+Oh margens do Jordão, paiz formoso
+Que fostes e não sois, tambem suspiro
+Condoído vos dou.--Assim fenecem
+Imperios, reinos, solidões tornados!...
+Não:--nenhum deste modo: o peregrino
+Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem
+A sacudiu á terra, e fez dormissem
+O seu ultimo somno os filhos della--
+E elle o veio dormir pouco mais longe...
+Mas se chega a Sião treme, enxergando
+Seus lacerados restos. Pelas pedras,
+Aqui e alli dispersas, ainda escripta
+Parece ver-se uma inscripção de agouros,
+Bem como aquella que aterrou um í­mpio
+Quando, no meio de ruidosa festa,
+Blasphemava dos céus, e mão ignota
+O dia extremo lhe apontou dos crimes.
+A maldicção do Eterno está vibrada
+Sobre Jerusalem!--Quanto é terri­vel
+A vingança de Deus! O Israelita,
+Sem patria e sem abrigo, vagabundo,
+Ódio dos homens, neste mundo arrasta
+Uma existencia mais cruel que a morte,
+E que vem terminar a morte e inferno.
+Desgraçada nação!--Aquelle solo
+Onde manava o mel, onde o carvalho,
+O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,
+Tão grato á vista, em bosques misturavam;
+Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
+Crescimento espontaneo entre as roseiras,
+Hoje, campo de lagrymas, só cria
+Humilde musgo de escalvados cerros.
+
+
+XXIII.
+
+Ide vós a Mambré.--Lá, bem no meio
+De um valle, outr'ora de verdura ameno,
+Erguia-se um carvalho magestoso.
+Debaixo de seus ramos largos dias
+Abrahão repousou. Na primavera
+Vinham os moços adornar-lhe o tronco
+De capellas cheirosas de boninas,
+E coreias gentis traçar-lhe em roda.
+Nasceu com o orbe a planta veneravel,
+Viu passar gerações, julgou seu dia
+Final fosse o do mundo, e quando airosa
+Por entre as densas nuvens se elevava,
+Mandou o Nume aos aquilões rugissem,
+Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
+Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques
+Serviu de pasto aos tragadores vermes.
+Deus estendeu a mão:--no mesmo instante
+A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
+Da Palestina os platanos frondosos
+Não mais cresceram, como d'antes, bellos:
+O armento, em vez de relva, achou nos prados
+Sómente ingratas, espinhosas urzes.
+No Golgotha plantada, a Cruz clamára
+--Justiça!»--A tal clamor horrido espectro
+No Moriá surgiu. Era seu nome
+Assolação.--E despregando um grito,
+Cahiu com longo som de um povo a campa.
+Assim a herança de Judá, outr'ora
+Grata ao Senhor, existe só nos ecchos
+Do tempo que já foi, e que ha passado
+Como hora de prazer entre desditas.
+...................................
+
+
+XXIV.
+
+Minha Patria onde existe?
+ É lá sómente!
+Oh lembrança da Patria acabrunhada
+Um suspiro tambem tu me has pedido;
+Um suspiro arrancado aos seios d'alma
+Pela offuscada gloria, e pelos crimes
+Dos homens que ora são, e pelo opprobrio
+Da mais illustre das nações da terra!
+
+A minha triste Patria era tão bella,
+E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
+E o sabio e o homem bom acolá dormem,
+Acolá, nos sepulchros esquecidos,
+Que a seus netos infames nada contam
+Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
+O escravo português agrilhoado
+Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas
+Os decepados troncos desse arbusto,
+Por mãos delles plantado á liberdade,
+E por tyrannos derribado em breve,
+Quando patrias virtudes se acabaram,
+Como um sonho da infancia!...
+ O vil escravo,
+Immerso em vicios, em bruteza e infamia,
+Não erguerá os macerados olhos
+Para esses troncos, que destroem vermes
+Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,
+Não surgirá jámais?--Não ha na terra
+Coração português, que mande um brado
+De maldicção atroz, que vá cravar-se
+Na vigilia e no somno dos tyrannos,
+E envenenar-lhes o prazer por noites
+De vil prostituição, e em seus banquetes
+De embriaguez lançar fel e amarguras?
+
+Não!--Bem como um cadaver já corrupto,
+A nação se dissolve: e em seu lethargo
+O povo, involto na miseria, dorme.
+
+
+XXV.
+
+Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
+Terei de erguer á Patria hymno de morte,
+Sobre seus mudos restos vagueiando!
+Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta
+Minhas preces e lagrymas:--se em breve,
+Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;
+Se o anjo do extermi­nio ha-de risca-la
+Do meio das nações, que d'entre os vivos
+Risque tambem meu nome, e não me deixe
+Na terra vagueiar, orpham de Patria.
+
+
+XXVI.
+
+Cessou da noite a grão solemnidade
+Consagrada á tristeza, e a memorandas
+Recordações:--os monges se prostraram,
+A face unida á pedra. A mim, a todos
+Correm dos olhos lagrymas suaves
+De compuncção. Atheu, entra no templo;
+Não temas esse Deus, que os labios negam,
+E o coração confessa. A corda do arco
+Da vingança, em que a morte se debruça,
+Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.
+Tu para quem a morte ou vida é fórma,
+Fórma sómente de mais puro barro,
+Que nada crês, e em nada esperas, olha,
+Olha o conforto do christão. Se o calis
+Da amargura a provar os céus lhe deram,
+Elle se consolou: balsamo sancto
+Piedosa fé no coração lhe verte.
+--«Deus compaixão terá!--Eis seu gemido:
+Porque a esperança lhe sussurra em torno:
+--Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»
+
+Atheu, a quem o mal fizera escravo,
+Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
+No dia da afflicção emmudeceste
+Ante o espectro do mal. E a quem alçáras
+O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas
+Não altera por ti?--Ao ar, que some
+Pela sua amplidão as queixas tuas?
+Aos rochedos alpestres, que não sentem,
+Nem sentir podem teu gemido inutil?
+Tua dôr, teu prazer existem, passam,
+Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
+Nas angustias da vida, o teu consolo
+O suicidio é só, que te promette
+Rica messe de goso, a paz do nada!--
+E ai de ti, se buscaste, emf­im, repouso,
+No limiar da morte indo assentar-te!
+Alli grita uma voz no ultimo instante
+Do passamento: a voz atterradora
+Da consciencia é ella. E has-de escuta-la
+Mau grado teu: e tremerás em sustos,
+Desesperado aos céus erguendo os olhos
+Irados, de través, amortecidos;
+Aos céus, cujo caminho a Eternidade
+Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
+Para guiar-te á solidão das dôres,
+Onde maldigas teu primeiro alento,
+Onde maldigas teu extremo arranco,
+Onde maldigas a existencia e a morte.
+
+
+XXVII.
+
+Calou tudo no templo: o céu é puro,
+A tempestade ameaçadora dorme.
+No espaço immenso os astros scintillantes
+O Rei da creação louvam com hymnos,
+Não ouvidos por nós nas profundezas
+Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
+Ante milhões de estrellas, que recamam
+O firmamento, ajunctará seu canto
+Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa
+Mortal no meio da harmonia etherea,
+No concerto da noite? Oh, no silencio,
+Eu pequenino verme irei sentar-me
+Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada.
+Assim se apaga a lampada nocturna
+Ao despontar do sol o alvor primeiro:
+Por entre a escuridão deu claridade;
+Mas do dia ao nascer, que já rutíla,
+As torrentes de luz vertendo ao longe,
+Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,
+Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
+
+
+
+
+A VOZ.
+
+
+É tão suave ess' hora,
+Em que nos foge o dia,
+E em que suscita a lua
+Das ondas a ardentia,
+
+Se em alcantis marinhos,
+Nas rochas assentado,
+O trovador medita
+Em sonhos enleiado!
+
+O mar azul se encrespa
+Co'a vespertina brisa,
+E no casal da serra
+A luz ja se divisa.
+
+E tudo em roda cala
+Na praia sinuosa,
+Salvo o som do remanso
+Quebrando em furna algosa.
+
+Alli folga o poeta
+Nos desvarios seus,
+E nessa paz que o cérca
+Bemdiz a mão de Deus.
+
+Mas despregou seu grito
+A alcyone gemente,
+E nuvem pequenina
+Ergueu-se no occidente:
+
+E sóbe, e cresce, e immensa
+Nos céus negra fluctua,
+E o vento das procellas
+Já varre a fraga nua.
+
+Turba-se o vasto oceano,
+Com horrido clamor;
+Dos vagalhões nas ribas
+Expira o vão furor
+
+E do poeta a fronte
+Cubriu véu de tristeza:
+Calou, á luz do raio,
+Seu hymno á natureza.
+
+Pela alma lhe vagava
+Um negro pensamento,
+Da alcyone ao gemido,
+Ao sibillar do vento.
+
+Era blasphema idéa,
+Que triumphava emfim;
+Mas voz soou ignota,
+Que lhe dizia assim:
+
+ -----
+
+--«Cantor, esse queixume
+Da nuncia das procellas,
+E as nuvens, que te roubam
+Myriadas de estrellas,
+
+E o frémito dos euros,
+E o estourar da vaga,
+Na praia, que revolve,
+Na rocha, onde se esmaga,
+
+Onde espalhava a brisa
+Sussurro harmonioso,
+Em quanto do ether puro
+Descia o sol radioso,
+
+Typo da vida do homem,
+É do universo a vida;
+Depois do afan repouso,
+Depois da paz a lida.
+
+Se ergueste a Deus um hymno
+Em dias de amargura;
+Se te amostraste grato
+Nos dias de ventura,
+
+Seu nome não maldigas
+Quando se turba o mar:
+No Deus, que é pae, confia,
+Do raio ao scintillar.
+
+Elle o mandou: a causa
+Disso o universo ignora,
+E mudo está. O nume,
+Como o universo, adora!»--
+
+ -----
+
+Oh sim, torva blasphemia
+Não manchará seu canto!
+Brama a procella embora;
+Pése sobre elle o espanto;
+
+Que de sua harpa os hymnos
+Derramará contente
+Aos pés de Deus, qual oleo
+Do nardo recendente.
+
+
+
+
+A ARRABIDA.
+
+
+I.
+
+Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
+Salve, oh patria da paz, deserto sancto,
+Onde não ruge a grande voz das turbas!
+Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo
+O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
+Qual ao freixo robusto a fragil hera,
+E a romagem do tumulo cumprindo,
+Só conhecer, ao despertar na morte,
+Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,
+Que íntima voz contínuo nos promette
+No transito chamado o viver do homem.
+
+
+II.
+
+Suspira o vento no alamo frondoso;
+As aves soltam matutino canto;
+Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
+Dos alcantís na base carcomida:
+Eis o ruí­do de ermo!--Ao longe o negro,
+Insondado oceano, e o céu ceruleo
+Se abraçam no horisonte.--Immensa imagem
+Da eternidade e do infinito, salve!
+
+
+III.
+
+Oh, como surge magestosa e bella,
+Com viço da creação, a natureza
+No solitario valle!--E o leve insecto
+E a relva e os matos e a fragrancia pura
+Das boninas da encosta estão contando
+Mil saudades de Deus, que os ha lançado,
+Com mão profusa, no regaço ameno
+Da solidão, onde se esconde o justo.
+
+E lá campeiam no alto das montanhas
+Os escalvados pincaros, severos,
+Quaes guardadores de um logar que é sancto;
+Atalaias que ao longe o mundo observam,
+Cerrando até o mar o ultimo abrigo
+Da crença viva, da oração piedosa,
+Que se ergue a Deus de labios innocentes.
+
+Sobre esta scena o sol verte em torrentes
+Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se
+Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos
+Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados
+Desses thronos de fragas sobrepostas,
+Que alpestres matas de medronhos vestem;
+O rocío da noite á branca rosa
+No seio derramou frescor suave,
+E 'inda existencia lhe dará um dia.
+
+Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
+
+
+IV.
+
+Negro, esteril rochedo, que contrastas,
+Na mudez tua, o placido sussurro
+Das arvores do valle, que vecejam
+Ricas d'encantos, co' a estação propicia;
+Suavissimo aroma, que, manando
+Das variegadas flores, derramadas
+Na sinuosa encosta da montanha,
+Do altar da solidão subindo aos ares,
+És digno incenso ao Creador erguido;
+Livres aves, vós filhas da espessura,
+Que só teceis da natureza os hymnos,
+O que crê, o cantor, que foi lançado,
+Estranho ao mundo, no bulicio delle,
+Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
+Dos homens esquecer paixões e opprobrio,
+E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
+O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.
+
+Comvosco eu sou maior; mais longe a mente
+Pelos seios dos céus se immerge livre,
+E se desprende de mortaes memorias
+Na solidão solemne, onde, incessante,
+Em cada pedra, em cada flor se escuta
+Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
+A dextra sua em multiforme quadro.
+
+
+V.
+
+Escalvado penedo, que repousas
+Lá no cimo do monte, ameaçando
+Rui­na ao roble secular da encosta,
+Que somnolento move a coma estiva
+Ante a aragem do mar, foste formoso;
+Já te cubriram cespedes virentes;
+Mas o tempo voou, e nelle involta
+A formosura tua. Despedidos
+Das negras nuvens o chuveiro espesso
+E o granizo, que o sólo fustigando
+Tritura a tenra lanceolada relva,
+Durante largos seculos, no inverno,
+Dos vendavaes no dorso a ti desceram,
+Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
+Que, maculando virginal pureza,
+Do pudor varre a aureola celeste,
+E deixa, em vez de um seraphim na terra,
+Queimada flor que devorou o raio.
+
+
+VI.
+
+Cáveira da montanha, ossada immensa,
+É tua campa o céu: sepulchro o valle
+Um dia te será. Quando sentires
+Rugir com som medonho a terra ao longe,
+Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,
+Lançar á praia vagalhões cruzados;
+Tremer-te a larga base, e sacudir-te
+De sobre si, o fundo deste valle
+Te vai servir de tumulo; e os carvalhos
+Do mundo primogenitos, e os sobros,
+Arrastados por ti lá da collina,
+Comtigo hão-de jazer. De novo a terra
+Te cubrirá o dorso sinuoso:
+Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
+Do seu puro candor hão-de adornar-te;
+E tu, ora medonho e nú e triste,
+Ainda bello serás, vestido e alegre.
+
+
+VII.
+
+Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
+Dos tumulos cahir; quando uma pedra
+Os ossos me esconder, se me fôr dada,
+Não mais reviverei; não mais meus olhos
+Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,
+Se em turbilhões de purpura, que ondeiam
+Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
+Vai provar que um Deus ha a estranhos povos
+E além das ondas trémulo sumir-se;
+Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
+Com torrentes de luz inunda as veigas:
+Não mais verei o refulgir da lua
+No irrequieto mar, na paz da noite,
+Por horas em que véla o criminoso,
+A quem íntima voz rouba o socego,
+E em que o justo descança, ou, solitario,
+Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.
+
+
+VIII.
+
+Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
+Das aguas, então quêdas, do oceano,
+Eu tambem o louvei sem ser um justo:
+E meditei, e a mente extasiada
+Deixei correr pela amplidão das ondas.
+
+Como abraço materno era suave
+A aragem fresca do cahir das trévas,
+Emquanto, involta em gloria, a clara lua
+Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.
+Tudo calado estava: o mar sómente
+As harmonias da creação soltava,
+Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
+Se agitava, gemendo e murmurando,
+Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos
+O pranto me correu sem que o sentisse,
+E aos pés de Deus se derramou minha alma.
+
+
+IX.
+
+Oh, que viesse o que não crê, comigo,
+Á vecejante Arrabida de noite,
+E se assentasse aqui sobre estas fragas,
+Escutando o sussurro incerto e triste
+Das movediças ramas, que povôa
+De saudade e de amor nocturna brisa;
+Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,
+E ouvisse o mar soando:--elle chorára,
+Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
+E adorando o Senhor detestaria
+De uma sciencia van seu vão orgulho.
+
+
+X.
+
+É aqui neste valle, ao qual não chega
+Humana voz e o tumultuar das turbas,
+Onde o nada da vida sonda livre
+O coração, que busca ir abrigar-se
+No futuro, e debaixo do amplo manto
+Da piedade de Deus: aqui serena
+Vem a imagem da campa, como a imagem
+Da patria ao desterrado; aqui, solemne,
+Brada a montanha, memorando a morte.
+Essas penhas, que, lá no alto das serras
+Nuas, crestadas, solitarias dormem,
+Parecem imitar da sepultura
+O aspecto melancholico e o repouso
+Tão desejado do que em Deus confia.
+Bem semelhante á paz, que se ha sentado
+Por seculos, alli, nas cordilheiras
+É o silencio do adro, onde reunem
+Os cyprestes e a cruz, o céu e a terra.
+
+Como tu vens cercado de esperança,
+Para o innocente, oh placido sepulchro!
+Juncto das tuas bordas pavorosas
+O perverso recúa horrorisado:
+Após si volve os olhos; na existencia
+Deserto árido só descobre ao longe,
+Onde a virtude não deixou um trilho.
+Mas o justo, chegando á meta extrema,
+Que separa de nós a eternidade,
+Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.
+O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
+Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
+Que peregrino vagueiou na terra,
+Sem encontrar um coração ardente
+Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
+Ignota, por lá busca; e quando as eras
+Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe
+Tardios louros, que escondera a inveja,
+Elle não erguerá a mão mirrada,
+Para os cingir na regelada fronte.
+Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,
+Ao pé da sepultura, é som perdido
+De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
+O despertar um pae, que saboreia
+Entre os braços da morte o extremo somno,
+Já não é dado ao filial suspiro;
+Em vão o amante, alli, da amada sua
+De rosas sobre a c'roa debruçado,
+Réga de amargo pranto as murchas flores
+E a fria pedra: a pedra é sempre fria,
+E para sempre as flores se murcharam.
+
+
+XI.
+
+Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,
+Aspirando o futuro além da vida
+E um halito dos ceus, gemer atada
+Á columna do exilio, a que se chama
+Em lingua vil e mentirosa o mundo.
+Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
+Dos sonhos meus. A imagem do deserto
+Guarda-la-hei no coração, bem juncto
+Com minha fé, meu unico thesouro.
+
+Qual pomposo jardim de verme illustre,
+Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
+Comparar-se, oh deserto? Aqui não cresce
+Em vaso de alabastro a flor captiva,
+Ou arvore educada por mão de homem,
+Que lhe diga--és escrava» e erga um ferro
+E lhe decepe os troncos. Como é livre
+A vaga do oceano é livre no ermo
+A bonina rasteira e o freixo altivo!
+Não lhes diz--nasce aqui, ou lá não cresças»
+Humana voz. Se baqueou o freixo,
+Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
+É que o rocío não desceu de noite,
+E da vida o Senhor lhe nega a vida.
+
+Céu livre, terra livre, e livre a mente,
+Paz intima, e saudade, mas saudade
+Que não dóe, que não mirra, e que consola,
+São as riquezas do ermo, onde sorriem
+Das procellas do mundo os que o deixaram.
+
+
+XII.
+
+Alli naquella encosta, hontem de noite,
+Alvejava por entre os medronheiros
+Do solitario a habitação tranquilla:
+E eu vagueei por lá. Patente estava
+O pobre alvergue do eremita humilde,
+Onde jazia o filho da esperança
+Sob as asas de Deus, á luz dos astros,
+Em leito, duro sim, não de remorsos.
+Oh, com quanto socego o bom do velho
+Dormia! A leve aragem lhe ondeiava
+As raras cans na fronte, onde se lia
+A bella historia de passados annos.
+De alto choupo através passava um raio
+Da lua--astro de paz, astro que chama
+Os olhos para o céu, e a Deus a mente--
+E em luz pallida as faces lhe banhava:
+E talvez neste raio o Pae celeste
+Da patria eterna lhe enviava a imagem,
+Que o sorriso dos labios lhe fugia,
+Como se um sonho de ventura e gloria
+Na terra de antemão o consolasse.
+E eu comparei o solitario obscuro
+Ao inquieto filho das cidades:
+Comparei o deserto silencioso
+Ao perpetuo rui­do que sussurra
+Pelos palacios do abastado e nobre,
+Pelos paços dos reis; e condoí-me
+Do cortezão suberbo, que só cura
+De honras, haveres, gloria, que se compram
+Com maldicções e perennal remorso.
+Gloria! A sua qual é? Pelas campinas,
+Cubertas de cadaveres, regadas
+De negro sangue, elle segou seus louros;
+Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
+Ao som do choro da viuva e do orpham;
+Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
+Os homens, seus irmãos, flagella e opprime
+Lá o filho do pó se julga um nume,
+Porque a terra o adorou: o desgraçado
+Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
+Nunca se ha-de chegar para traga-lo
+Ao banquete da morte, imaginando
+Que uma lagea de marmore, que esconde
+O cadaver do grande, é mais duravel
+Do que esse chão sem inscripção, sem nome,
+Por onde o oppresso, o misero, procura
+O repouso, e se atira aos pés do throno
+Do Omnipotente, a demandar justiça
+Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos.
+
+
+XIII.
+
+Oh cidade, cidade, que trasbordas
+De vicios, de paixões, e de amarguras!
+Tu lá estás, na tua pompa involta,
+Suberba prostituta, alardeiando
+Os theatros, e os paços, e o ruido
+Das carroças dos nobres, recamadas
+De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
+Tempestuosa, e o tropeiar continuo
+Dos férvidos ginetes, que alevantam
+O pó e o lodo cortezão das praças;
+E as gerações corruptas de teus filhos
+Lá se revolvem, qual montão de vermes
+Sobre um cadaver putrido!--Cidade,
+Branqueado sepulchro, que misturas
+A opulencia, a miseria, a dôr e o goso,
+Honra e infamia, pudor e impudicicia,
+Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloria
+Da humanidade?--O que o souber que o diga!
+
+Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
+A imagem desse povo, que reflue
+Das moradas á rua, á praça, ao templo;
+Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
+Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
+Absurdo mixto de baixeza extrema
+E de extrema ousadia; vulto enorme,
+Ora aos pés de um vil despota estendido,
+Ora surgindo, e arremessando ao nada
+As memorias dos seculos que foram,
+E depois sobre o nada adormecendo.
+
+Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
+Em joelhos nos atrios dos tyrannos,
+Onde, entre o lampejar de armas de servos,
+O servo popular adora um tigre?
+Esse tigre é o idolo do povo!
+Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe
+O ferreo sceptro: ide folgar em roda
+De cadafalsos, povoados sempre
+De victimas illustres, cujo arranco
+Seja como harmonia, que adormente
+Em seus terrores o senhor das turbas.
+Passae depois. Se a mão da Providencia
+Esmigalhou a fronte á tyrannia;
+Se o despota cahiu, e está deitado
+No lodaçal da sua infamia, a turba
+Lá vai buscar o sceptro dos terrores,
+E diz--é meu»; e assenta-se na praça,
+E involta em roto manto, e julga, e reina.
+Se um ímpio, então, na affogueada bôcca
+De volcão popular sacode um facho,
+Eis o incendio que muge, e a lava sóbe,
+E referve, e trasborda, e se derrama
+Pelas ruas além: clamor retumba
+De anarchia impudente, e o brilho de armas
+Pelo escuro transluz, como um presagio
+De assolação, e se amontoam vagas
+Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
+Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos
+Cava fundo da Patria a sepultura.
+Onde, abraçando a gloria do passado
+E do futuro a ultima esperança,
+As esmaga comsi­go, e ri morrendo.
+
+Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
+Outros louvem teus paços sumptuosos,
+Teu ouro, teu poder:--sentina impura
+De corrupções, teus não serão meus hymnos!
+
+
+XIV.
+
+Cantor da solidão, vim assentar-me
+Juncto do verde cespede do valle,
+E a paz de Deus do mundo me consola.
+
+Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
+Um pobre conventinho. Homem piedoso
+O alevantou ha seculos, passando,
+Como orvalho do céu, por este sitio,
+De virtudes depois tão rico e fertil.
+Como um pae de seus filhos rodeado,
+Pelos matos do outeiro o vão cercando
+Os tugurios de humildes eremitas,
+Onde o cilicio e a compuncção apagam
+Da lembrança de Deus passados erros
+Do peccador, que reclinou a fronte
+Penitente no pó. O sacerdote
+Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
+E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
+Do que expirando perdoava, o Justo
+Que entre os humanos não achou piedade.
+
+
+XV.
+
+Religião! do misero conforto,
+Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
+O longo agonisar de uma saudade,
+Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,
+Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo,
+Que renovou o corrompido mundo,
+E que mil povos pouco a pouco ouviram.
+Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
+O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
+Da desgraça no dia ajoelharam
+No limiar do solitario templo.
+Ao pé desse portal, que veste o musgo,
+Encontrou-os chorando o sacerdote,
+Que da serra descia á meia-noite,
+Pelo sino das preces convocado:
+Ahi os viu ao despontar do dia,
+Sob os raios do sol, ainda chorando.
+Passados mezes, o burel grosseiro,
+O leito de cortiça, e a fervorosa
+E contínua oração foram cerrando
+Nos corações dos miseros as chagas,
+Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
+Aqui, depois, qual halito suave
+Da primavera, lhes correu a vida,
+Até sumir-se no adro do convento,
+Debaixo de uma lagea tosca e humilde,
+Sem nome, nem palavra, que recorde
+O que a terra abrigou no somno extremo.
+
+Eremiterio antigo, oh, se podesses
+Dos annos que lá vão contar a historia;
+Se ora, á voz do cantor, possivel fosse
+Transudar desse chão, gelado e mudo,
+O mudo pranto, em noites dolorosas,
+Por naufragos do mundo derramado
+Sobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis,
+Broncas pedras, falar, o que dirieis!
+
+Quantos nomes mimosos da ventura,
+Convertidos em fabula das gentes,
+Despertariam o eccho das montanhas,
+Se aos negros troncos do sobreiro antigo
+Mandasse o Eterno sussurrar a historia
+Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
+Para um leito formar, onde velassem
+Da mágua, ou do remorso as longas noites!
+Aqui veiu, talvez, buscar asylo
+Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
+Despenhado nas trévas do infortunio;
+Aqui gemeu, talvez, o amor trahido,
+Ou pela morte convertido em cancro
+De infernal desespero; aqui soaram
+Do arrependido os ultimos gemidos,
+Depois da vida derramada em gosos,
+Depois do goso convertido em tedio.
+Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
+Vestidura mortal, deixou vestigios
+De seu breve passar. E isso que importa,
+Se Deus o viu; se as lagrymas do triste
+Elle contou, para as pagar com gloria?
+
+
+XVI.
+
+Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
+Que serpeia do monte ao fundo valle,
+Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
+Como um pharol de vida em mar de escolhos:
+Ao christão infeliz acolhe no ermo,
+E consolando-o, diz-lhe--a patria tua
+É lá no céu: abraça-te comigo.»
+Juncto della esses homens, que passaram
+Acurvados na dôr, as mãos ergueram
+Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
+Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança
+Vem derramar seu coração afflicto:
+É do deserto a historia a cruz e a campa;
+E sobre tudo o mais pousa o silencio.
+
+
+XVII.
+
+Feliz da terra, os monges não maldigas;
+Do que em Deus confiou não escarneças!
+Folgando segue a trilha, que ha juncado,
+Para teus pés, de flores a fortuna,
+E sobre a morta crença em paz descança.
+Que mal te faz, que goso vae roubar-te
+O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
+E sobre a fria pedra encosta a fronte?
+Que mal te faz uma oração erguida,
+Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
+E que, subindo aos céus, só Deus escuta?
+Oh, não insultes lagrymas alheias,
+E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
+
+E se estes versos te contristam, rasga-os.
+Teus menestreis te venderão seus hymnos,
+Nos banquetes opiparos, emquanto
+O negro pão repartirá comigo,
+Seu trovador, o pobre anachoreta,
+Que não te inveja as ditas, como as c'roas
+Do prazer ao cantor eu não invejo;
+Tristes coroas, sob as quaes às vezes
+Está gravada uma inscripção d'infamia.
+
+
+
+
+MOCIDADE E MORTE.
+
+
+Solevantado o corpo, os olhos fitos,
+As magras mãos cruzadas sobre o peito,
+Vêde-o, tão moço, velador de angustias,
+Pela alta noite em solitario leito.
+
+Por essas faces pallidas, cavadas,
+Olhae, em fio as lagrymas deslisam;
+E com o pulso, que apressado bate,
+Do coração os éstos harmonisam.
+
+É que nas veias lhe circula a febre;
+É que a fronte lhe alaga o suor frio;
+É que lá dentro á dor, que o vai roendo,
+Responde horrivel íntimo ciclo.
+
+Encostando na mão o rosto acceso,
+Fitou os olhos humidos de pranto
+Na lampada mortal alli pendente,
+E lá comsigo modulou um canto.
+
+É um hymno de amor e de esperança?
+É oração de angustia e de saudade?
+Resignado na dor, saúda a morte,
+Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?
+
+É isso tudo, tumultuando incerto
+No delírio febril daquella mente
+Que, balouçada á borda do sepulchro,
+Volve após si a vista longamente.
+
+É a poesia a murmurar-lhe na alma
+Ultima nota de quebrada lyra;
+É o gemido do tombar do cedro;
+É triste adeus do trovador que expira.
+
+
+DESESPERANÇA.
+
+«Meia-noite bateu, volvendo ao nada
+Um dia mais, e caminhando eu sigo!
+Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...
+Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!
+
+Qual tufão, que ao passar agita o pégo.
+Meu placido existir turvou a sorte.
+Halito impuro de pulmões ralados
+Me diz que nelles se assentou a morte.
+
+Em quanto mil e mil no largo mundo
+Dormem em paz sorrindo, eu vélo e penso,
+E julgo ouvir as preces por finados,
+E ver a tumba e o fumegar do incenso.
+
+Se dormito um momento, acórdo em sustos;
+Pulos me dá o coração no peito,
+E abraço e beijo de uma vida extincta
+O ultimo socio, o doloroso leito.
+
+De um abysmo insondado ás agras bordas
+Insanavel doença me ha guiado,
+E disse-me:--no fundo o esquecimento:
+Desce; mas desce com andar pausado.»
+
+E eu lento vou descendo, e sondo as trévas:
+Busco parar; parar um só instante!
+Mas a cruel, travando-me da dextra,
+Me faz cahir mais fundo, e grita:--ávante!»
+
+Porque escutar o transito das horas?
+Alguma dellas trar-me-ha conforto?
+Não! Esses golpes, que no bronze ferem,
+São para mim como dobrar por morto.
+
+«Morto! morto!--me clama a consciencia:
+Diz-m'o este respirar rouco e profundo.
+Ai! porque fremes, coração de fogo,
+Dentro de um seio corrompido e immundo?
+
+Beber um ar diaphano e suave,
+Que renovou da tarde o brando vento,
+E converte-lo, no aspirar contínuo,
+Em bafo apodrecido e peçonhento!
+
+Estender para o amigo a mão mirrada,
+E elle negar a mão ao pobre amigo;
+Querer uni-lo ao seio descarnado,
+E elle fugir, temendo o seu perigo!
+
+E ver após um dia ainda cem dias,
+Nús d'esperança, ferteis de amargura;
+Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo,
+E só, bem lá no extremo, a sepultura!
+
+Agora!... quando a vida me sorria:
+Agora!... que meu estro se accendêra;
+Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças,
+Como se enlaça pelo choupo a hera,
+
+Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo;
+Varrer-me o nome escuro esquecimento:
+Não ter um eccho de louvor, que affague
+Do desgraçado o humilde monumento!
+
+Oh tu, sêde de um nome glorioso,
+Que tão fagueiros sonhos me tecias,
+Fugiste, e só me resta a pobre herança
+De ver a luz do sol mais alguns dias.
+
+Vestem-se os campos do verdor primeiro:
+Já das aves canções no bosque ecchoam:
+Não para mim, que só escuto attento
+Funereos dobres que no templo soam!
+
+Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,
+Irei tão cedo repousar na terra?!
+Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;
+Um louro só... e meu sepulchro cerra!
+
+É tão bom respirar, e a luz brilhante
+Do sol oriental saudar no outeiro!
+Ai, na manhan sauda-la posso ainda;
+Mas será este inverno o derradeiro!
+
+Quando de pomos o vergel for cheio;
+Quando ondeiar o trigo na planura;
+Quando pender com aureo fructo a vide,
+Eu tambem penderei na sepultura.
+
+Dos que me cercam no turbado aspecto,
+Na voz que prende desusado enleio,
+No pranto a furto, no fingido riso
+Fatal sentença de morrer eu leio.
+
+Vistes vós criminoso, que hão lançado
+Seus juizes nos trances da agonia,
+Em oratorio estreito, onde não entra
+Suavissima luz do claro dia;
+
+Diante a cruz, ao lado o sacerdote,
+O cadafalso, o crime, o algoz na mente,
+O povo tumultuando, o extremo arranco,
+E céu, e inferno, e as maldicções da gente?
+
+Se adormece, lá surge um pesadelo,
+Com os martyrios da sua alma acorde;
+Desperta logo, e á terra se arremessa,
+E os punhos cerra, e delirante os morde.
+
+Sobre as lageas do duro pavimento
+De vergões e de sangue o rosto cobre.
+Ergue-se e escuta com cabellos hirtos
+Do sino ao longe o compassado dobre.
+
+Sem esperança!...
+ Não! Do cadafalso
+Sóbe as escadas o perdão ás vezes;
+Porém a mim... não me dirão:--és salvo!»
+E o meu supplicio durará por mezes.
+
+Dizer posso:--existi: que a dor conheço!
+Do goso a taça só provei por horas:
+E serei teu, calado cemiterio,
+Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.
+
+Se o furacão rugiu, e o debil tronco
+De arvore tenra espedaçou passando,
+Quem se doeu de a ver jazendo em terra?
+Tal é o meu destino miserando!
+
+Numen de sancto amor, mulher querida,
+Anjo do céu, encanto da existencia,
+Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te.
+Por ti me salve a mão da Providencia.
+
+Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge!
+Um beijo ardente aos labios teus voára:
+E neste beijo venenoso a morte
+Talvez este infeliz só te entregára!
+
+Se eu podesse viver... como teus dias
+Cercaria de amor suave e puro!
+Como te fôra placido o presente;
+Quanto risonho o aspecto do futuro!
+
+Porém, medonho espectro ante meus olhos,
+Como sombra infernal perpetuo ondeia,
+Bradando-me que vai partir-se o fio
+Com que da minha vida se urde a teia.
+
+Entregue á seducção em quanto eu durmo,
+No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!
+Quem velará por ti, pomba innocente?
+Quem do perjurio poderá salvar-te?
+
+Quando eu cerrar os olhos moribundos
+Tu verterás por mim pranto saudoso;
+Mas quem me diz que não virá o riso
+Banhar teu rosto triste e lachrymoso?
+
+Ai, o extincto só herda o esquecimento!
+Um novo amor te agitará o peito:
+E a dura lagea cubrirá meus ossos
+Frios, despidos sobre terreo leito!...
+
+Oh Deus, porque este calix de agonia
+Até as bordas de amargor me encheste?
+Se eu devia acabar na juventude,
+Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?
+
+Virgem do meu amor, porque perde-la?
+Porque entre nós a campa ha-de assentar-se?
+Tua suprema paz com goso ou dores,
+Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?
+
+Não haver quem me salve! e vir um dia
+Em que de minha o nome ainda lhe désse!
+Então, Senhor, o umbral da eternidade,
+Talvez sem um queixume, transposesse.
+
+Mas, qual flor em botão pendida e murcha,
+Sem de fragrancias perfumar a brisa,
+Eu poeta, eu amante, ir esconder-me
+Sob uma lousa desprezada e lisa!
+
+Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?
+Em te adorar que fui, senão insano?...
+O teu fatal poder hoje maldigo!
+O que te chama pae, mente: és tyranno.
+
+E se aos pés de teu throno os ais não chegam;
+Se os gemidos da terra os ares somem;
+Se a Providencia é crença van, mentida,
+Porque geraste a intelligencia do homem?
+
+Porque da virgem no sorrir poseste
+Sancto presagio de suprema dita,
+E apontaste ao poeta a immensidade
+Na ancia de gloria que em sua alma habita?
+
+A immensidade!... E que me importa herda-la,
+Se na terra passei sem ser sentido?
+Que val eterno vagueiar no espaço,
+Se nosso nome se afundou no olvido?
+
+
+O ANJO DA GUARDA.
+
+«I­mpio, silencio! A tua voz blasphema
+Da noite a paz perturba.
+Verme, que te rebellas
+Sob a mão do Senhor,
+Vês os milhões d'estrellas
+De nitido fulgor,
+Que, em ordenada turba,
+A Deus entoam incessantes hymnos?
+Quantas vezes apaga
+Do livro da existencia
+Um orbe a mão do Eterno!
+E o bello astro que expira
+Maldiz a Providencia,
+Maldiz a mão que o esmaga?
+Acaso pára o cantico superno?
+Ou apenas suspira
+O moribundo,
+Que se chamava um mundo?
+Quem vai pôr uma campa sobre os restos
+Desse inerte planeta,
+Que o destructor cometa
+Incinerou na rapida passagem?
+E tu, átomo obscuro,
+Que varre á tarde a aragem,
+Sóltas do seio impuro
+Maldicção insensata,
+Porque o teu Deus te evoca á eternidade?
+Que é o viver? O umbral, a que um momento
+O espirito, surgindo
+Das solidões do nada
+Á voz do Creador, se encosta, e attento
+Contempla a luz e o céu; d'onde desata
+Seu vôo á immensidade.
+Geme acaso o passarinho
+De saudade,
+Quando as azas expande, e deixa o ninho
+A vez primeira, a mergulhar nos ares?
+Volve olhos lachrymosos
+Aos mares tormentosos
+O navegante, quando aproa ás plagas
+Da patria suspirada?
+Porque morres?! Pergunta á Providencia
+Porque te fez nascer.
+Qual era o teu direito a ver o mundo;
+Teu jus á existencia?
+Olha no outono o ulmeiro
+Que o vendaval agita,
+E cujas tenues folhas
+Aos centos precipita.
+São a folha do ulmeiro o nome e a fama,
+E o amar dos humanos:
+Ao nada do que foi assim se atiram
+No vortice dos annos.
+Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,
+Que somem mil ruí­dos.
+E a voz da terra o que é, na voz immensa
+Dos orbes reunidos?
+Amor! amor terreno!... Ai, se podesses
+Comprehender a amargura,
+Com que te chóro, oh alma transviada!
+Eu, que te amei do berço, e qual doçura
+Ha no affecto que liga o anjo ao homem,
+Rindo despiras esse corpo enfermo,
+Para te unir a mim, para aspirares
+O goso celestial de amor sem termo!
+Alma triste, que mesquinha
+Te debruças sobre o inferno,
+Ouve o anjo, pobresinha;
+Vem ao goso sempiterno.
+Resigna-te e espera, e os dias de prova
+Serão para o crente quaes breves instantes.
+Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,
+Fendendo o infinito co' as asas radiantes.
+Depois, das alturas teu terreo vestido
+Sorrindo veremos na terra guardar,
+E ao hymno de Hosanna nos córos celestes
+A voz de um remido iremos junctar.»
+
+
+A GRAÇA.
+
+Que harmonia suave
+É esta, que na mente
+Eu sinto murmurar,
+Ora profunda e grave,
+Ora meiga e cadente,
+Ora que faz chorar?
+Porque da morte a sombra,
+Que para mim em tudo
+Negra se reproduz,
+Se aclara, e desassombra
+Seu gesto carrancudo,
+Banhada em branda luz?
+Porque no coração
+Não sinto pesar tanto
+O ferreo pé da dor,
+E o hymno da oração,
+Em vez de irado canto,
+Me pede íntimo ardor?
+
+És tu, meu anjo, cuja voz divina
+Vem consolar a solidão do enfermo,
+E a contemplar com placidez o ensina
+De curta vida o derradeiro termo?
+
+Oh, sim! és tu, que na infantil idade,
+Da aurora á frouxa luz,
+Me dizias:--acorda, innocentinho,
+Faze o signal da cruz.»
+És tu, que eu via em sonhos, nesses annos
+De inda puro sonhar,
+Em nuvem d'ouro e purpura descendo
+Co' as roupas a alvejar.
+És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga,
+Juncto ao bosque fremente,
+Me contavas mysterios, harmonias
+Dos céus, do mar dormente.
+És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta
+Modulavas o canto,
+Que de noite, ao luar, sósinho erguia
+Ao Deus tres vezes sancto.
+És tu, que eu esqueci na idade ardente
+Das paixões juvenis,
+E que voltas a mim, sincero amigo,
+Quando sou infeliz.
+
+ Sinto a tua voz de novo,
+ Que me revoca a Deus:
+ Inspira-me a esperança,
+ Que te seguiu dos céus!...
+
+
+RESIGNAÇÃO
+
+«No teu seio reclinado
+Dormirei, Senhor, um dia,
+Quando for na terra fria
+Meu repouso procurar;
+
+Quando a lousa do sepulchro
+Sohre mim tiver cahido
+E este espirito affligido
+Vir a tua luz brilhar!
+
+No teu seio, de pesares
+O existir não se entretece;
+Lá eterno o amor florece;
+Lá florece eterna paz:
+
+Lá bramir juncto ao poeta
+Não irão paixões e dores,
+Vãos desejos, vãos temores
+Do desterro em que elle jaz.
+
+Hora extrema, eu te saúdo!
+Salve, oh trevas da jazida,
+D'onde espera erguer-se á vida
+Meu espirito immortal!
+
+Anjo bom, não me abandones
+Neste trance dilatado;
+Que contrito, resignado
+Me acharás na hora fatal.
+
+E depois... Perdoa, oh anjo,
+Ao amor do moribundo,
+Que só deixa neste mundo
+Pouco pó, muito gemer.
+
+Oh... depois... dize á mesquinha
+Um segredo de doçura:
+Que na patria o amor se apura,
+Que o desterro viu nascer.
+
+Que é o céu a patria nossa;
+Que é o mundo exilio breve;
+Que o morrer é cousa leve;
+Que é _principio_, não é _fim_:
+
+Que duas almas que se amaram
+Vão lá ter nova existencia,
+Confundidas n'uma essencia,
+A de um novo cherubim.»
+
+
+
+
+DEUS.
+
+
+Nas horas do silencio, á meia-noite,
+ Eu louvarei o Eterno!
+Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
+ E os abysmos do inferno.
+Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,
+ E a lua resplendente
+Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa
+ O hymno do Omnipotente.
+
+Antes de tempo haver, quando o infinito
+ Media a eternidade,
+E só do vacuo as solidões enchia
+ De Deus a immensidade,
+Elle existia, em sua essencia involto,
+ E fóra delle o nada:
+
+No seio do Creador a vida do homem
+ Estava ainda guardada:
+Ainda então do mundo os fundamentos
+ Na mente se escondiam
+De Jehovah, e os astros fulgurantes
+ Nos céus não se volviam.
+
+Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
+ Das mãos sólta o Senhor:
+Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
+ Sua primeira flor:
+Sobre o invisi­vel eixo range o globo:
+ O vento o bosque ondeia:
+Retumba ao longe o mar: da vida a força
+ A natureza anceia!
+
+Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
+ Ou cantar teu poder?
+Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
+ Fonte de todo o ser,
+No dia da creação; quando os thesouros
+ Da neve amontoaste;
+Quando da terra nos mais fundos valles
+ As aguas encerraste?!
+
+E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
+ Com dextra poderosa,
+Fez, por lei immutavel, se librassem
+ Na mole ponderosa?
+Onde existia então? No typo immenso
+ Das gerações futuras;
+Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
+ Na terra e nas alturas!
+
+Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
+ Do raio, e do trovão!
+Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
+ Da tarde a viração!
+Por sua Providencia nunca, embalde,
+ Zumbiu minimo insecto;
+Nem volveu o elephante, em campo esteril,
+ Os olhos inquieto.
+Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,
+ Que ao ceifador esquece;
+Do norte ao urso o sol da primavera,
+ Que o reanima e aquece?
+Não deu Elle á gazella amplos desertos,
+ Ao cervo a amena selva,
+Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,
+ No prado ao touro a relva?
+Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
+ Consolação e luz?
+Acaso em vão algum desventurado
+ Curvou-se aos pés da cruz?
+A quem não ouve Deus? Sómente ao impio
+ No dia da afflicção,
+Quando pésa sobre elle, por seus crimes,
+ Do crime a punição.
+
+Homem, ente immortal, que és tu perante
+ A face do Senhor?
+És a junça do bréjo, harpa quebrada
+ Nas mãos do trovador!
+Olha o velho pinheiro, campeiando
+ Entre as neves alpinas:
+Quem irá derribar o rei dos bosques
+ Do throno das collinas?
+Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
+ Extremo Deus mandou!
+Lá correu o aquilão: fundas raizes
+ Aos ares lhe assoprou.
+Suberbo, sem temor, saíu na margem
+ Do caudaloso Nilo,
+O corpo monstruoso ao sol voltando,
+ Medonho crocodilo.
+De seus dentes em roda o susto habita;
+ Vê-se a morte assentada
+Dentro em sua garganta, se descerra
+ A bôca affogueada:
+Qual duro arnez de intrepido guerreiro
+ É seu dorso escamoso;
+Como os ultimos ais de um moribundo
+ Seu grito lamentoso:
+Fumo e fogo respira quando irado;
+ Porém, se Deus mandou,
+Qual do norte impellida a nuvem passa,
+ Assim elle passou!
+
+Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
+ Perdoa ao teu cantor!
+Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,
+ Mas são hymnos de amor.
+Embora vís hypocritas te pintem
+ Qual barbaro tyranno:
+Mentem, por dominar com ferreo sceptro
+ O vulgo cego e insano.
+Quem os crê é um ímpio! Receiar-te
+ É maldizer-te, oh Deus;
+É o throno dos despotas da terra
+ Ir collocar nos céus.
+Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
+ Dos males da existencia
+Tranquillo, e sem temor, á sombra posto
+ Da tua Providencia.
+
+
+
+
+A TEMPESTADE.
+
+
+Sibilla o vento:--os torreões de nuvens
+ Pésam nos densos ares:
+Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
+ Pela extensão dos mares:
+A immensa vaga ao longe vem correndo,
+ Em seu terror envolta;
+E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
+ A tempestade solta.
+Do sol no occaso um raio derradeiro,
+ Que, apenas fulge, morre,
+Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,
+ Para apaga-lo corre.
+Tal nos affaga em sonhos a esperança,
+ Ao despontar do dia,
+Mas, no acordar, lá vem a consciencia
+ Dizer que ella mentia!
+As ondas negro-azues se conglobaram;
+ Serras tornadas são,
+Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,
+ Bater, partir-se vão.
+
+Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,
+ Da natureza açoite!
+Tu guias os bulcões, do mar princesa,
+ E é teu vestido a noite!
+Quando pelos pinhaes, entre o granizo,
+ Ao sussurrar das ramas,
+Vibrando sustos, pavorosa ruges
+ E assolação derramas,
+Quem porfiar comtigo, então, ousára
+ De gloria e poderio;
+Tu que fazes gemer pendido o cedro,
+ Turbar-se o claro rio?
+
+Quem me dera ser tu, por balouçar-me
+ Das nuvens nos castellos,
+E ver dos ferros meus, emfim, quebrados
+ Os rebatidos élos!
+Eu rodeára, então, o globo inteiro;
+ Eu sublevára as aguas;
+Eu dos volcões com raios accendêra
+ Amortecidas fráguas;
+Do robusto carvalho e sobro antigo
+ Acurvaria as frontes;
+Com furacões, os areiaes da Lybia
+ Converteria em montes;
+Pelo fulgor da lua, lá do norte
+ No polo me assentára,
+E vira prolongar-se o gelo eterno,
+ Que o tempo amontoára.
+Alli, eu solitario, eu rei da morte,
+ Erguèra meu clamor,
+E dissera:--sou livre, e tenho imperio;
+ Aqui, sou eu senhor!»
+
+Quem se podéra erguer, como estas vagas,
+ Em turbilhões incertos,
+E correr, e correr, troando ao longe,
+ Nos liquidos desertos!
+Mas entre membros de lodoso barro
+ A mente presa está!...
+Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
+ Rapido, em baixo dá.
+
+Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,
+ Entre escarcéus erguidos,
+Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
+ Meus dias aborridos:
+Quebra duras prisões, que a natureza
+ Lançou a esta alma ardente;
+Que ella possa voar, por entre os orbes,
+ Aos pés do Omnipotente.
+Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
+ Desça, e estourando a esmague,
+E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
+ Solta, sem rumo vague!
+
+Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
+ O somno do existir;
+Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
+ Nas trévas do porvir.
+Doce mãe do repouso, extremo abrigo
+ De um coração oppresso,
+Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
+ Negas no seio accésso,
+Não despertes, oh não! os que abominam
+ Teu amoroso aspeito;
+Febricitantes, que se abraçam, loucos,
+ Com seu dorído leito!
+Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,
+ Calumniada morte;
+Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo
+ Contra o furor da sorte;
+Tu, que esperas ás portas dos senhores,
+ Do servo ao limiar,
+E eterna corres, peregrina, a terra
+ E as solidões do mar,
+Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
+ Já filhos teus nasceram:
+Um dia acordarão desses delirios,
+ Que tão gratos lhes eram.
+E eu que vélo na vida, e já não sonho
+ Nem gloria, nem ventura;
+Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,
+ O calix da amargura:
+Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
+ De quanto ha vil no mundo,
+Sanctas inspirações morrer sentindo
+ Do coração no fundo,
+Sem achar no desterro uma harmonia
+ De alma, que a minha entenda,
+Porque seguir, curvado ante a desgraça,
+ Esta espinhosa senda?
+
+Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
+ Fragor da tempestade,
+Psalmo de mortós, que retumba ao longe,
+ Grito da eternidade!...
+
+Pensamento infernal! Fugir covarde
+ Ante o destino iroso?
+Lançar-me, envolto em maldicções celestes,
+ No abysmo tormentoso?
+Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me
+ Nas lagrymas da terra;
+Guardarei minha estancia atribulada,
+ Com meu desejo em guerra.
+O fiel guardador terá seu premio,
+ O seu repouso, emfim,
+E atalaiar o sol de um dia extremo
+ Virá outro após mim.
+Herdarei o morrer! Como é suave
+ Bençam de pae querido.
+Será o despertar, ver meu cadaver,
+ Ver o grilhão partido.
+
+Um consolo, entretanto, resta ainda
+ Ao pobre velador:
+Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
+ Doce amizade e amor.
+Tudo o mais é sepulchro branqueado
+ Por embusteira mão;
+Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
+ Remorso ao coração.
+Passarei minha noite a luz tão meiga,
+ Até o amanhecer;
+Até que suba á patria do repouso,
+ Onde não ha morrer.
+
+
+
+
+O SOLDADO.
+
+
+I.
+
+Veia tranquilla e pura
+Do meu paterno rio,
+Dos campos, que elle réga,
+Mansi­ssimo armentio.
+
+Rocio matutino,
+Prados tão deleitosos,
+Valles, que assombram selvas
+De sinceiraes frondosos,
+
+Terra da minha infancia,
+Tecto de meus maiores,
+Meu breve jardimzinho,
+Minhas pendidas flores,
+
+Harmonioso e sancto
+Sino do presbyterio,
+Cruzeiro venerando
+Do humilde cemiterio.
+
+Onde os avós dormiram,
+E dormirão os paes;
+Onde eu talvez não durma,
+Nem rese, talvez, mais,
+
+Eu vos saúdo! e o longo
+Suspiro amargurado
+Vos mando. É quanto póde
+Mandar pobre soldado.
+
+Sobre as cavadas ondas
+Dos mares procellosos,
+Por vós já fiz soar
+Meus cantos dolorosos.
+
+Na prôa resonante
+Eu me assentava mudo,
+E aspirava ancioso
+O vento frio e agudo;
+
+Porque em meu sangue ardia
+A febre da saudade,
+Febre que só minora
+Sopro de tempestade;
+
+Mas que se irrita, e dura
+Quando é tranquillo o mar;
+Quando da patria o céu
+Céu puro vem lembrar;
+
+Quando, no extremo occaso,
+A nuvem vaporosa,
+Á frouxa luz da tarde,
+Na côr imita a rosa;
+
+Quando, do sol vermelho
+O disco ardente crece,
+E paira sobre as aguas,
+E emfim desapparece;
+
+Quando no mar se estende
+Manto de negro dó;
+Quando, ao quebrar do vento,
+Noite e silencio é só;
+
+Quando sussurram meigas
+Ondas que a nau separa,
+E a rapida ardentia
+Em tôrno a sombra aclara.
+
+
+II.
+
+Eu já ouvi, de noite,
+Entre o pinhal fechado,
+Um fremito soturno
+Passando o vento irado:
+
+Assim o murmurio
+Do mar, fervendo á prôa,
+Com o gemer do afflicto,
+Sumido, accorde sôa:
+
+E o scintillar das aguas
+Gera amargura e dor,
+Qual lampada, que pende
+No templo do Senhor,
+
+Lá pela madrugada,
+Se o oleo lhe escaceia,
+E a espaços expirando,
+Affrouxa e bruxuleia.
+
+
+III.
+
+Bem abundante messe
+De pranto e de saudade
+O foragído errante
+Colhe na soledade!
+
+Para o que a patria perde
+É o universo mudo;
+Nada lhe rí na vida;
+Mora o fastio em tudo;
+
+No meio das procellas,
+Na calma do oceano,
+No sopro do galerno,
+Que enfuna o largo panno,
+
+E no entestar co' a terra
+Por abrigado esteiro,
+E no pousar á sombra
+Do tecto do estrangeiro.
+
+
+IV.
+
+E essas memorias tristes
+Minha alma laceraram,
+E a senda da existencia
+Bem agra me tornaram:
+
+Porém nem sempre ferreo
+Foi meu destino escuro;
+Sulcou de luz um raio
+As trévas do futuro.
+
+Do meu paiz querido
+A praia ainda beijei,
+E o velho e amigo cedro
+No valle ainda abracei!
+
+Nesta alma regelada
+Surgiu ainda o goso,
+E um sonho lhe sorriu
+Fugaz, mas amoroso.
+
+Oh, foi sonho da infancia
+Desse momento o sonho!
+Paz e esperança vinham
+Ao coração tristonho.
+
+Mas o sonhar que monta,
+Se passa, e não conforta?
+Minh' alma deu em terra,
+Como se fosse morta.
+
+Foi a esperança nuvem,
+Que o vento some á tarde:
+Facho de guerra acceso
+Em labaredas arde!
+
+Do fratricidio a luva
+Irmão a irmão lançara,
+E o grito: _ai do vencido!_
+Nos montes retumbara.
+
+As armas se hão cruzado:
+O pó mordeu o forte;
+Cahiu: dorme tranquillo:
+Deu-lhe repouso a morte.
+
+Ao menos, nestes campos
+Sepulchro conquistou,
+E o adro dos estranhos
+Seus ossos não guardou.
+
+Elle herdará, ao menos,
+Aos seus honrado nome,
+Paga de curta vida
+Ser-lhe-ha largo renome.
+
+
+V.
+
+E a bala sibilando,
+E o trom da artilharia,
+E a tuba clamorosa,
+Que os peitos accendia,
+
+E as ameaças torvas,
+E os gritos de furor,
+E desses, que expiravam,
+Som cavo de estertor,
+
+E as pragas do vencido,
+Do vencedor o insulto,
+E a pallidez do morto,
+Nú, sanguento, insepulto,
+
+Eram um cá'os de dores
+Em convulsão horrivel,
+Sonho de accesa febre,
+Scena tremenda e incrivel!
+
+E suspirei: nos olhos
+Me borbulhava o pranto,
+E a dor, que trasbordava,
+Pediu-me infernal canto.
+
+Oh, sim! maldisse o instante,
+Em que buscar viera,
+Por entre as tempestades,
+A terra em que nascera.
+
+Que é, em fraternas lides,
+Um canto de victoria?
+É delirar maldicto;
+É triumphar sem gloria.
+
+Maldicto era o triumpho,
+Que rodeiava o horror,
+Que me tingia tudo
+De sanguinosa côr!
+
+Então olhei saudoso
+Para o sonoro mar;
+Da nau do vagabundo
+Meigo me riu o arfar.
+
+De desespero um brado
+Soltou, ímpio, o poeta.
+Perdão! Chegára o misero
+Da desventura á meta.
+
+
+VI.
+
+Terra infame!--de servos aprisco,
+Mais chamar-me teu filho não sei:
+Desterrado, mendigo serei;
+De outra terra meus ossos serão!
+
+Mas a escravo, que pugna por ferros,
+Que herdará deshonrada memoria,
+Renegando da terra sem gloria,
+Nunca mais darei nome de irmão!
+
+Onde é livre tem patria o poeta,
+Que ao exilio condemna ímpia sorte.
+Sobre os plainos gelados do norte
+Luz do sol tambem desce do céu;
+
+Tambem lá se erguem montes, e o prado
+De boninas, em maio, se veste;
+Tambem lá se meneia o cypreste
+Sobre o corpo que á terra desceu.
+
+Que me importa o loureiro da encosta?
+Que me importa da fonte o ruido?
+Que me importa o saudoso gemido
+Da rollinha sedenta de amor?
+
+Que me importam outeiros cubertos
+Da verdura da vinha, no estio?
+Que me importa o remanso do rio,
+E, na calma, da selva o frescor?
+
+Que me importa o perfume dos campos,
+Quando passa da tarde a bafagem,
+Que se embebe, na sua passagem,
+Na fragrancia da rosa e aleli­?
+
+Que me importa? Pergunta insensata!
+É meu berço: a minha alma está lá...
+Que me importa... Esta bôca o dirá?!
+Minha patria, estou louco... menti!
+
+Eia, servos! O ferro se cruze.
+Assobie o pelouro nos ares;
+Estes campos convertam-se em mares,
+Onde o sangue se possa beber!
+
+Larga a valla! que, após a peleja,
+Todos nós dormiremos unidos!
+Lá vingados, e do odio esquecidos,
+Paz faremos... depois do morrer!
+
+
+VII.
+
+Assim, entre amarguras,
+Me delirava a mente;
+E o sol ia fugindo
+No termo do occidente.
+
+E os fortes lá jaziam
+Co'a face ao céu voltada;
+Sorria a noite aos mortos,
+Passando socegada.
+
+Porém, a noite delles
+Não era a que passava!
+Na eternidade a sua
+Corria, e não findava.
+
+Contrarios ainda ha pouco,
+Irmãos, emfim, lá eram!
+O seu thesouro de odio,
+Mordendo o pó, cederam.
+
+No limiar da morte
+Assim tudo fenece:
+Inimizades calam,
+E até o amor esquece!
+
+Meus dias rodeiados
+Foram de amor outr'ora;
+E nem um vão suspiro
+Terei, morrendo, agora,
+
+Nem o apertar da dextra
+Ao desprender da vida,
+Nem lagryma fraterna
+Sobre a feral jazida!
+
+Meu derradeiro alento
+Não colherão os meus.
+Por minha alma atterrada
+Quem pedirá a Deus?
+
+Ninguem! Aos pés o servo
+Meus restos calcará,
+E o riso ímpio, odiento,
+Mofando soltará.
+
+O sino luctuoso
+Não lembrará meu fim:
+Preces, que o morto afagam,
+Não se erguerão por mim!
+
+O filho dos desertos,
+O lobo carniceiro,
+Ha-de escutar alegre
+Meu grito derradeiro!
+
+Oh morte, o somno teu
+Só é somno mais largo;
+Porém, na juventude,
+É o dormi-lo amargo;
+
+Quando na vida nasce
+Essa mimosa flor.
+Como a cecem suave,
+Delicioso amor;
+
+Quando a mente accendida
+Crê na ventura e gloria;
+Quando o presente é tudo,
+E inda nada a memoria!
+
+Deixar a cara vida,
+Então, é doloroso,
+E o moribundo á terra
+Lança um olhar saudoso.
+
+A taça da existencia
+No fundo fézes tem;
+Mas os primeiros tragos
+Doces, bem doces, vem.
+
+E eu morrerei agora
+Sem abraçar os meus,
+Sem jubiloso um hymno
+Alevantar aos céus?
+
+Morrer, morrer, que importa?
+Final suspiro, ouvi-lo
+Ha-de a patria. Na terra
+Irei dormir tranquillo.
+
+Dormir? Só dorme o frio
+Cadaver, que não sente;
+A alma voa a abrigar-se
+Aos pés do Omnipotente.
+
+Reclinar-me-hei á sombra
+Do amplo perdão do Eterno;
+Que não conheço o crime,
+E erros não pune o inferno.
+
+E vós, entes queridos,
+Entes que tanto amei,
+Dando-vos liberdade
+Contente acabarei.
+
+Por mim livres chorar
+Vós podereis um dia,
+E ás cinzas do soldado
+Erguer memoria pia.
+
+
+
+
+A VICTORIA E A PIEDADE.
+
+
+I.
+
+Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
+ Nos paços dos senhores!
+Eu jámais consagrei hymno mentido
+ Da terra aos oppressores.
+Mal haja o trovador que vae sentar-se
+ Á porta do abastado,
+O qual com ouro paga a propria infamia,
+ Louvor que foi comprado.
+Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro
+ Prostitue o alaúde!
+Deus á poesia deu por alvo a patria,
+ Deu a gloria e a virtude.
+Feliz ou infeliz, triste ou contente,
+ Livre o poeta seja,
+E em hymno isento a inspiração transforme,
+ Que na sua alma adeja.
+
+
+II.
+
+No despontar da vida, do infortunio
+ Murchou-me o sopro ardente;
+E saudades curti em longes terras
+ Da minha terra ausente.
+O solo do desterro, ai, quanto ingrato
+ É para o foragido,
+Ennevoado o céu, arido o prado,
+ O rio adormecido!
+Eu lá chorei, na idade da esperaça,
+ Da patria a dura sorte:
+Esta alma encaneceu; e antes de tempo
+ Ergueu hymnos á morte:
+Que a morte é para o misero risonha,
+ Sancta da campa a imagem...
+Alli é que se afferra o porto amigo,
+ Depois de ardua viagem.
+
+
+III.
+
+Mas quando o pranto me sulcava as faces,
+ Pranto de atroz saudade,
+Deus escutou do vagabundo as preces,
+ Delle teve piedade.
+«Armas!--bradaram no desterro os fortes,
+ Como bradar de um só:
+Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os
+ Indissoluvel nó.
+Com seus irmãos as sacrosanctas juras,
+ Beijando a cruz da espada,
+Repetiu o poeta:--Eia, partamos!
+ Ao mar!»--Partia a armada.
+Pelas ondas azues correndo afoutos,
+ As praias demandámos
+Do velho Portugal, e o balsão negro
+ Da guerra despregámos;
+De guerra em que era infamia o ser piedoso,
+ Nobreza o ser cruel,
+E em que o golpe mortal descia involto
+ Das maldicções no fel.
+
+
+IV.
+
+Fanatismo brutal, odio fraterno,
+ De fogo céus toldados,
+A fome, a peste, o mar avaro, as turbas
+ De innumeros soldados;
+Comprar com sangue o pão, com sangue o lume
+ Em regelado inverno;
+Eis contra o que, por dias de amargura,
+ Nos fez luctar o inferno.
+Mas de fera victoria, emfim, colhemos
+ A c'roa de cypreste;
+Que a fronte ao vencedor em í­mpia lucta
+ Só essa c'roa veste.
+Como ella torvo, soltarei um hymno
+ Depois do triumphar.
+Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra
+ Bem triste é o acordar!
+Nessa alta encosta sobranceira aos campos,
+ De sangue ainda impuros,
+Onde o canhão troou por mais de um anno
+ Contra invenciveis muros,
+Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
+ Pedir inspirações
+Á noite queda, ao genio que me ensina
+ Segredos das canções.
+
+
+V.
+
+Reina em silencio a lua: o mar não brame,
+ Os ventos nem bafejam;
+Rasas co' a terra, só nocturnas aves
+ Em gyros mil adejam.
+No plaino pardacento, juncto ao marco
+ Tombado, ou rota sebe,
+Aqui e alli, de ossadas insepultas
+ O alvejar se percebe.
+É que essa veiga, tão festiva outr'ora,
+ Da paz tranquillo imperio,
+Onde ao carvalho a vide se enlaçava,
+ É hoje um cemiterio!
+
+
+VI.
+
+Eis de esforçados mil inglorios restos,
+ Depois de brava lida;
+De longo combater atroz memento
+ Em guerra fraticida.
+Nenhum padrão recordará aos homens
+ Seus feitos derradeiros:
+Nem dirá:--aqui dormem portugueses;
+ Aqui dormem guerreiros.»
+Nenhum padrão, que peça aos que passarem
+ Resa fervente e pia,
+E juncto ao qual entes queridos vertam
+ O pranto da agonia!
+Nem hasteada cruz, consolo ao morto;
+ Nem lagea que os proteja
+Do ardente sol, da noite humida e fria,
+ Que passa e que roreja!
+Não! Lá hão-de jazer no esquecimento
+ De deshonrada morte,
+Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,
+ Não os dispersa o norte.
+
+
+VII.
+
+Quem, pois, consolará gementes sombras,
+ Que ondeiam juncto a mim?
+Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
+ Seu perdão de Elohim?
+Eu, o christão, o trovador do exilio,
+ Contrario em guerra crua,
+Mas que não sei verter o fel da affronta
+ Sobre uma ossada nua.
+
+
+VIII.
+
+Lavradores, zagaes, descem dos montes,
+ Deixando terras, gados,
+Para as armas vestir, dos céus em nome,
+ Por phariseus chamados.
+De um Deus de paz hypocritas ministros
+ Os tristes enganaram:
+Foram elles, não nós, que estas cáveiras
+ Aos vermes consagraram.
+Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
+ Que do Senhor no templo,
+Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,
+ Dás do furor o exemplo!
+Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste
+ Folgar de nosso mal,
+E, entre as ruinas de cidade illustre,
+ Soltar riso infernal.
+Tu, no teu coração insipiente,
+ Disseste:--Deus não há!»
+Elle existe, malvado; e nós vencemos:
+ Treme; que tempo é já!
+
+
+IX.
+
+Mas esses, cujos ossos espalhados
+ No campo da peleja
+Jazem, exoram a piedade nossa;
+ Piedoso o livre seja!
+Eu pedirei a paz dos inimigos,
+ Mortos como valentes,
+Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
+ Culpados de innocentes.
+
+
+X.
+
+Perdoou, expirando, o Filho do Homem
+ Aos seus perseguidores:
+Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;
+ Perdão, oh vencedores!
+Não insulteis o morto. Elle ha comprado
+ Bem caro o esquecimento,
+Vencido adormecendo em morte ignobil,
+ Sem dobre ou monumento.
+É tempo d'olvidar odios profundos
+ De guerra deploravel.
+O forte é generoso, e deixa ao fraco
+ O ser inexoravel.
+Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
+ No seio agasalhou!
+Elle é mudo: pedi-lo já não póde;
+ O dá-lo a nós deixou.
+Além do limiar da eternidade
+ O mundo não tem réus,
+O que legou á terra o pó da terra
+ Julgá-lo cabe a Deus.
+E vós, meus companheiros, que não vistes
+ Nossa triste victoria,
+Não precisaes do trovador o canto;
+ Vosso nome é da historia.
+
+
+XI.
+
+Assim, foi do infeliz sobre a jazida
+ Que um hymno murmurei,
+E, do vencido consolando a sombra,
+ Por vós eu perdoei.
+
+
+
+
+A CRUZ MUTILADA.
+
+
+Amo-te, oh cruz, no vertice firmada
+ De esplendidas igrejas;
+Amo-te quando á noite, sobre a campa,
+ Juncto ao cypreste alvejas;
+Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
+ As preces te rodeiam;
+Amo-te quando em prestito festivo
+ As multidões te hasteiam;
+Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
+ No adro do presbyterio,
+Ou quando o morto, impressa no ataúde,
+ Guias ao cemiterio;
+Amo-te, oh cruz, até, quando no valle
+ Negrejas triste e só,
+Núncia do crime, a que deveu a terra
+ Do assassinado o pó:
+
+ Porém quando mais te amo,
+ Oh cruz do meu Senhor,
+ É se te encontro á tarde,
+ Antes de o sol se pôr,
+
+ Na clareira da serra,
+ Que o arvoredo assombra,
+ Quando á luz que fenece
+ Se estira a tua sombra,
+
+ E o dia ultimos raios
+ Com o luar mistura,
+ E o seu hymno da tarde
+ O pinheiral murmura.
+
+ -----
+
+E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,
+Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavas
+Ao pôr do sol, e ao elevar-se a lua
+Detraz do calvo cerro. A soledade
+Não te pôde valer contra a mão ímpia,
+Que te feriu sem dó. As linhas puras
+De teu perfil, falhadas, tortuosas,
+Oh mutilada cruz, falam de um crime
+Sacrilego, brutal e ao í­mpio inutil!
+A tua sombra estampa-se no solo,
+Como a sombra de antigo monumento,
+Que o tempo quasi derrocou, truncada.
+No pedestal musgoso, em que te ergueram
+Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
+Do presbyterio rustico mandava
+O sino os simples sons pelas quebradas
+Da cordilheira, annunciando o instante
+Da _Ave-Maria_; da oração singela,
+Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem
+Se mistura nos canticos saudosos,
+Que a natureza envia ao céu no extremo
+Raio de sol, passando fugitivo
+Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
+Liberdade e progresso, e que te paga
+Com a injuria e o desprezo, e que te inveja
+Até, na solidão, o esquecimento!
+
+ -----
+
+Foi da sciencia incredula o sectario,
+Acaso, oh cruz da serra, o que na face
+Affrontas te gravou com mão profusa?
+Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
+Na miseria e na dôr constante has sido
+Por bem dezoito seculos: foi esse
+Por cujo amor surgias qual remorso
+Nos sonhos do abastado ou do tyranno,
+Bradando--_esmola!_ a um--_piedade!_ ao outro.
+
+Oh cruz, se desde o Golgotha não fôras
+Symbolo eterno de uma crença eterna;
+Se a n­ossa fé em ti fosse mentida,
+Dos oppressos de outr'ora os livres netos
+Por sua ingratidão dignos de opprobrio,
+Se não te amassem, ainda assim seriam.
+Mas és núncia do céu, e elles te insultam,
+Esquecidos das lágrymas perennes
+Por trinta gerações, que guarda a campa,
+Vertidas a teus pés nos dias torvos
+Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se
+De que, se a paz domestica, a pureza
+Do leito conjugal bruta violencia
+Não vae contaminar, se a filha virgem
+Do humilde camponês não é ludibrio
+Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;
+Que por ti o cultor de ferteis campos
+Colhe tranquillo da fadiga o premio,
+Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura
+Lhe diga:--é meu, e és meu! A mim deleites,
+Liberdade, abundancia: a ti, escravo,
+O trabalho, a miseria unido á terra,
+Que o suor dessa fronte fertiliza,
+Emquanto, em dia de furor ou tedio,
+Não me apraz com teus restos fecunda-la.»
+
+Quando calada a humanidade ouvia
+Este atroz blasphemar, tu te elevaste
+Lá do oriente, oh cruz, involta em gloria,
+E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:--
+Mentira!» E o servo alevantou os olhos,
+Onde a esperança scintillava, a medo,
+E viu as faces do senhor retinctas
+Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista
+Trépida, vaga. A cruz no céu do oriente
+Da liberdade annunciára a vinda.
+
+ -----
+
+Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia
+Desgastou no volver de cem combates,
+Ao ver que, emfim, o seu paiz querido
+Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
+Vem assentar-se á luz meiga da tarde,
+Na tarde do viver, juncto do teixo
+Da montanha natal. Na fronte calva,
+Que o sol tostou e que enrugaram annos,
+Ha um como fulgor sereno e sancto.
+Da aldeia semideus, devem-lhe todos
+O tecto, a liberdade, e a honra e vida.
+Ao perpassar do veterano os velhos
+A mão que os protegeu apertam gratos;
+Com amorosa timidez os moços
+Saúdam-no qual pae. Nas largas noites
+Da gelada estação, sobre a lareira
+Nunca lhe falta o cepo incendiado;
+Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
+Refrigerante pomo. Assim do velho
+Pelejador os derradeiros dias
+Derivam para o tumulo suaves,
+Rodeiados de affecto, e quando á terra
+A mão do tempo gastador o guia,
+Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
+Flores, lagrymas, bençãos, que consolem
+Do defensor do fraco as cinzas frias.
+
+Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
+Os gigantes combates dos tyrannos,
+E venceste. No solo libertado,
+Que pediste? Um retiro no deserto,
+Um pi­ncaro grani­tico, açoutado
+Pelas azas do vento e ennegrecido
+Por chuvas e por soes. Para ameigar-te
+Este ar humido e gelido a segure
+Não foi ferir do bosque o rei. Do estio
+No ardor canicular nunca disseste:--
+Dáe-me, sequer, do bravo medronheiro
+O despresado fruct­o! O teu vestido
+Era o musgo, que tece a mão do inverno,
+E Deus creou para trajar as rochas.
+Filha do céu, o céu era o teu tecto,
+Teu escabelo o dorso da montanha.
+Tempo houve em que esses braços te adórnava
+C'roa viçosa de gentis boninas,
+E o pedestal te rodeiavam preces.
+Ficaste em breve só, e a voz humana
+Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.
+Que te importava? As arvores da encosta
+Curvavam-se a saudar-te, e revoando
+As aves vinham circumdar-te de hymnos.
+Affagava-te o raio derradeiro,
+Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
+E esperavas o tumulo. O teu tumulo
+Devera ser o seio destas serras,
+Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,
+Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,
+Ellas nas fauces dos volcões descessem.
+Então para essa campa flores, bençãos,
+Ou de saudade lagrymas vertidas,
+Qual do velho soldado a lousa pede,
+Não pedíras á ingrata raça humana,
+Ao pé de ti no seu sudario involta.
+
+ -----
+
+Este longo esperar do dia extremo,
+No esquecimento do ermo abandonada,
+Foi duro de soffrer aos teus remidos,
+Oh redemptora cruz. Eras, acaso,
+Como um remorso e accusação perenne
+No teu rochedo alpestre, onde te viam
+Pousar tristonha e só? Acaso, á noite,
+Quando a procella no pinhal rugia,
+Criam ouvir-te a voz accusadora
+Sobrelevar á voz da tempestade?
+Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
+E do seu Christo, do divino martyr,
+Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta
+Ergueu, purificou, clamando ao servo,
+No seu trance final:--Ergue-te, escravo!
+És livre, como é pura a cruz da infamia.
+Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes
+Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!
+Abraça tua irman: segue-a sem susto
+No caminho dos seculos. Da terra
+Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho
+Trará da tua liberdade o dia.»
+
+Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
+Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te
+Nos rumores da noite, a antiga historia
+Recontando do Golgotha, lembrando-lhes
+Que só ao Christo a liberdade devem,
+E que impio o povo ser é ser infame.
+Mutilado por elle, a pouco e pouco,
+Tu em fragmentos tombarás do cerro,
+Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanos
+Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
+Da gratidão a divida não paga
+Ficará, oh tremenda accusadora,
+Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;
+Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
+Do Christo o nome passará na terra.
+
+ -----
+
+Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
+Deixar de ser perenne testemunho
+Da avita crença, os montes, a espessura,
+O mar, a lua, o murmurar da fonte,
+Da natureza as vagas harmonias,
+Da cruz em nome, falarão do Verbo.
+
+Della no pedestal, então deserto,
+Do deserto no seio, ainda o poeta
+Virá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;
+E a voz da selva lhe dirá que é sancto
+Este rochedo nú, e um hymno pio
+A solidão lhe ensinará e a noite.
+
+Do cantico futuro uma toada
+Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos
+Da brisa do crepusculo nas azas?
+É o porvir que te proclama eterna;
+É a voz do poeta a saúdar-te.
+
+ -----
+
+ Montanha do oriente,
+Que, sobre as nuvens elevando o cume,
+Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
+ E que, lá no occidente,
+Ultima vês seu radioso lume,
+Em ti minha alma a eterna cruz adora.
+
+ Rochedo, que descanças
+No promontorio nú e solitario,
+Como atalaia que o oceano explora,
+ Alheio ás mil mudanças
+Que o mundo agitam turbulento e vario,
+Em ti minha alma a eterna cruz adora.
+
+ Sobros, robles frondentes,
+Cuja sombra procura o viandante,
+Fugindo ao sol a prumo que o devora,
+ Nesses dias ardentes
+Em que o Leão nos céus passa radiante,
+Em ti minha alma a eterna cruz adora.
+
+ Oh mato variado,
+De rosmaninho e murta entretecido,
+De cujas tenues flores se evapora
+ Aroma delicado,
+Quando és por leve aragem sacudido,
+Em ti minha alma a eterna cruz adora.
+ Oh mar, que vais quebrando
+Rolo após rolo pela praia fria,
+E fremes som de paz consoladora,
+ Dormente murmurando
+Na caverna maritima sombria,
+Em ti minha alma a eterna cruz adora.
+
+ Oh lua silenciosa,
+Que em perpetuo volver, seguindo a terra,
+Esparzes tua luz ameigadora
+ Pela serra formosa,
+E pelos lagos que em seu seio encerra,
+Em ti minha alma a eterna cruz adora.
+
+ Debalde o servo ingrato
+ No pó te derribou
+ E os restos te insultou,
+ Oh veneranda cruz:
+
+ Embora eu te não veja
+ Neste ermo pedestal;
+ És sancta, és immortal;
+ Tu és a minha luz!
+
+ Nas almas generosas
+ Gravou-te a mão de Deus,
+ E, á noite, fez nos céus.
+ Teu vulto scintillar.
+
+ Os raios das estrellas
+ Cruzam o seu fulgor;
+ Nas horas do furor
+ As vagas cruza o mar.
+
+ Os ramos enlaçados
+ Do roble, choupo e til,
+ Cruzando em modos mil,
+ Se vão entretecer.
+
+ Ferido, abre o guerreiro
+ Os braços, sólta um ai,
+ Pára, vacilla, e cáe
+ Para não mais se erguer.
+
+ Cruzado aperta ao seio
+ A mãe o filho seu,
+ Que busca, mal nasceu,
+ Fontes da vida e amor.
+
+ Surges, symbolo eterno
+ No céu, na terra e mar,
+ Do forte no expirar,
+ E do viver no alvor!
+
+
+
+
+LIVRO SEGUNDO
+
+POESIAS VARIAS.
+
+
+
+
+A PERDA D'ARZILLA.
+
+(1549).
+
+
+Era noite: do céu limpo e sereno
+Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
+Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
+E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
+D'alterosa galé o negro vulto
+Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
+E lá nas serras d'Africa fronteiras
+Branqueja a espaços o albornoz do alarve.
+
+Como tocheiros com brandões accesos,
+ De um féretro ao redor,
+Cuja vermelha luz o horror da morte
+ Só faz sentir melhor,
+Taes as nocturnas almenáras fulgem
+ Nas torres d'atalaia,
+Pelos outeiros, que circumdam muros
+ De povoação na praia.
+
+ -----
+
+ Arzilla, a guerreira.
+ Lá jaz na afflicção,
+ Que a rendeu aos mouros
+ Elrei dom João.
+ Tomar-te-ha Deus contas,
+ Rei fraco e prasmado,
+ De tão grande vilta,
+ De teu grão peccado.
+ Maldiz-te nos mares
+ Valente fronteiro,
+ Que na sé de Ceuta
+ Se armou cavalleiro;
+ Que dez aduares
+ Em Tanger queimou,
+ E em muros d'Alcacer
+ Dez elches matou:
+ Que era hoje d'Arzilla
+ Temido adaí­l,
+ E a quem tu mandaste
+ Fugir como vil.
+
+ -----
+
+ Vêde-o lá na gavia
+ Da negra galé,
+ De braços cruzados,
+ Immovel, em pé;
+ E a náu que arfa e voa
+ Na fremente via,
+ Ferindo na esteira
+ Fugaz ardentia;
+ E d'Africa as praias,
+ Que a ré vão fugindo,
+ E as vagas, que rolam,
+ Distantes mugindo.
+ Em roda o silencio:
+ No céu noite escura:
+ E o peito do triste
+ Confrange a amargura.
+
+ -----
+
+ Do veterano as faces
+ O salso pranto réga:
+ Nos africanos montes
+ Saudoso os olhos préga.
+ Sente no seio as ancias
+ D'incomportavel dor,
+ E ás vezes range os dentes
+ Em trances de furor.
+ Um cantico á su' alma
+ A indignação inspira:
+ Vai sussurra-lo ao longe
+ Aura que branda espira.
+
+
+O CANTO DO ADAÍL.
+
+ Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,
+Alvejava do mouro o albornoz,
+E corria, e corria veloz
+O ginete de Bellamarim;
+ Quando o esculca, saído da villa
+Da manhã ao primeiro fulgor,
+Não podendo a atalaia transpôr,
+Vinha ás portas bater de Çafim;
+ Quando em Tanger, a forte, se ouvia
+De armaduras continuo tinir,
+E nos ares se via luzir
+O montante, a acha d'armas, e o criz;
+ Quando em Ceuta vencida se erguia
+Sobre o alcacer pendão português,
+Contra o qual na mesquita de Fês
+A gazúa prégava o caciz:
+ Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,
+Que em vergeis se reclina gentil,
+Pela noite fragrante d'abril
+D'entre os robles sorria ao luar;
+ Porque, rico de presa formosa,
+Já voltou nobre alcaide christão,
+E inda ao longe de incendio o clarão
+Tinge o céu sobre um triste aduar:
+ Nossa estrella era então esplendente;
+Nosso nome era um som do terror;
+Nossos paes conduzia o Senhor,
+Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
+ Portugal, oh leão do occidente,
+Tu rugias á beira do mar,
+E o teu grito cá vinha troar
+Temeroso no ardente Moghreb:
+ Era o tempo dos crentes e ousados:
+Era o tempo da gloria da cruz!
+Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
+Tem só nome Cochim, Calecut!
+ E esses muros d'Arzilla, regados
+Com o sangue de martyres mil,
+Ermos hoje tu deixas, rei vil,
+Porque o Estreito passou Rais Dragut!
+ Oh valentes da India, do oceano,
+Roncadores de féros no mar,
+Cuja espada, porém, faiscar
+Não sabe inda do mouro no arnez,
+ Mostrar vinde o valor sobre-humano
+Neste clima de sol mirrador!
+Aqui fama se compra com dor:
+Facil gloria esquecei uma vez.
+ As galés do arrais mouro são fortes;
+Sua chusma berbers do Takrur;
+Como o vosso rei indio, Badur,
+Não ha-de elle acabar á traição.
+ Uma festa de sangue e de mortes
+Do occidente nas vagas tereis;
+Elmos rijos aqui achareis,
+Não o craneo d'inerme sultão!
+ Mercadores!--deixae vosso cravo,
+A canella, a pimenta, o marfi;
+Os vestidos de seda despí;
+Ponde, em vez de collar, um gorjal.
+ Vella e remo soltae no mar bravo;
+Vinde juncto de nós combater;
+Nós que Arzilla deixámos perder,
+Porque elrei... é um rei desleal.
+ Para nós os castellos d'avante;
+Para nós a arrombada e bailéu;
+Para nós pelejar ante o céu,
+Que nos campos d'Arzilla nos viu:
+ Para nós o machado e montante;
+Para vós a bombarda e arcabuz;
+Para nós, ao cahir, ver a luz;
+Ver a mão que estes peitos feríu;
+ Para nós o tombar derradeiro
+Sobre o ferreo esporão das galés;
+O pelouro, de sob o convés,
+Cá de longe enviar... para vós!
+ O sudario do morto fronteiro
+Alva escuma da proa será;
+E em seus labios--_Arzilla!_--ouvirá
+Quem ouvir sua ultima voz.
+
+ -----
+
+E elles, os fortes d'Asia, não vieram
+Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
+E a náu d'elrei ao infamado Tejo
+ Veio aportar:
+E o adaíl depôs as armas rotas,
+ Não no espaldar;
+Que nunca o bom fronteiro viram mouros
+ Costas voltar.
+
+ -----
+
+E tomando o bordão de peregrino,
+Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
+ De dominicos,
+Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,
+ Porque eram ricos.
+No meio desses tumulos, que encerram
+Os despojos mortaes dos reis que foram,
+ Féretro antigo
+O adaí­l procurou. De um rei soldado
+ Era o jazigo.
+Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
+E palavras, que as lagrymas cortavam,
+ Lhe dirigiu:
+Maldicção para alguem pedia ao morto;
+ Mas nada ouviu!
+Então, livido o rosto, os labios brancos,
+A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
+ Do rei extinto.
+Expirára ao dizer--_perdeu-se Arzilla!_--
+ A Affonso Quinto.
+
+
+
+
+A ROSA.
+
+
+ Pura em sua innocencia.
+ Entre a sarça espinhosa,
+Purpurea esplende, inda botão intacto,
+ Na madrugada a rosa.
+
+ É da campina a virgem
+ A pudibunda flor;
+Em seus efluvios matutina brisa
+ Bebe o primeiro amor.
+
+ O sol inunda as veigas:
+ Calou-se o rouxinol;
+E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,
+ Desabrochou-a o sol.
+
+ O sôpro matutino
+ No seio seu pousára:
+Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,
+ Que a linda rosa amára.
+
+ Bella se ostenta um dia;
+ Saúdam-na as pastoras;
+Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;
+ Voam do goso as horas.
+
+ Lá vem chegando a noite,
+ E ella empallideceu:
+Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;
+ A rosa emmurcheceu.
+
+ Desce o tufão dos montes,
+ Os matos sacudindo;
+Desfallecida a flor desprende as folhas,
+ Que o vento vai sumindo.
+
+ Onde estará a rosa,
+ Do prado a bella filha?
+O tufão, que espalhou seus frageis restos,
+ Passou: não deixou trilha.
+
+ Da sarça a flor virente
+ Nasceu, gosou, e é morta:
+E a qual desses amantes de um momento
+ Seu fado escuro importa?
+
+ Nenhum, nenhum por ella
+ Gemeu saudoso á tarde;
+Não ha quem juncte as derramadas folhas,
+ Quem amoroso as guarde.
+
+ Só da manhan o sôpro,
+ Passando no outro dia,
+Da rosa, que adorou, quando a innocencia
+ Em seu botão sorria,
+
+ Juncto do tronco humilde
+ O curso demorando,
+Veio depositar perdão, saudade,
+ Queixoso sussurrando.
+
+ De quantas és a imagem,
+ Oh desgraçada flor!
+Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto
+ Tem murmurado o amor!
+
+
+
+
+O MENDIGO.
+
+
+I.
+
+O sol passa nos céus:--sob o carvalho,
+Por cujos troncos se pendura a vide,
+ Cego ancião,
+Mirrada dextra supplice estendendo,
+Ao passageiro, que o despreza, implora
+ Do opprobrio o pão.
+
+Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
+Involve a luz no manto impenetravel:
+ E elle chorou:
+E em seus andrajos para choça alpestre,
+Sem se queixar de Deus, tardios passos
+ Encaminhou:
+
+Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,
+Do presbyterio o sino harmonioso
+ Soar ouvia,
+Que, despedindo em roda os sons pausados,
+Convidava os fiéis a erguer as preces
+ Da Ave-Maria.
+
+Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas
+O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
+ E uma oração,
+A oração do infeliz, que Deus só ouve
+Quando o desdenha o mundo e ludibria
+ Sua afflicção.
+
+Para o velho a existencia é solitaria,
+Bem como a fonte que esgotou o estio.
+ Onde os pastores
+Vinham a saciar o manso gado;
+Onde contavam penas e prazeres
+ Dos seus amores.
+
+A alampada na igreja triste e muda
+Bruxuleava seu clarão, pendendo
+ Ante o altar-mór:
+Como o templo, o porvir era do velho
+Cheio de sustos; muda como o templo
+ Era a sua dor.
+
+Resou, resou, e os olhos se enxugaram:
+O orar fervente as lagrymas enxuga,
+ Qual prado o léste.
+Deus o inspirou; sperança é filha sua,
+Doce esperança, que os mortaes só deixa
+ Sob o cypreste.
+
+Voltou á choça, e a macilenta fome,
+Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
+ Que é quasi a terra;
+E, confiado em Deus, entre as angustias
+Do mal, menos crueis que as do remorso,
+ Os olhos cerra.
+
+
+II.
+
+Restruge o mar cavado; o vento zune
+Pelos mastros da náu; colhido o panno
+ Das vergas pende;
+Brinco das vagas, o baixel arfando
+Fluctua incerto, e dos bulcões guiado
+ Os mares fende.
+
+Correndo árvore secca avulta ao longe,
+Como alma em pena vagueiando á noite
+ Em seu fadario;
+E pelas trévas branquejando a escuma,
+Que da prôa espadana, imita as prégas
+ D'alvo sudario.
+
+Envolto no gibão amplo e felpudo,
+Rude piloto ao leme trabalhoso
+ Véla encostado;
+Que, se não mentem calculos, o porto
+Proximo está, dos lassos navegantes
+ Tão suspirado.
+
+
+III.
+
+O vento vai quebrando, e já rareiam
+Grossos montões de acastelladas nuvens:
+ Diurno alvor
+Traça no céu d'oriente um risco immenso,
+Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
+ Cerulea côr.
+
+Surge o sol radioso e inunda as vagas,
+Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
+ Mais amplo é já:
+Cava aragem ligeira a larga vela,
+E do cesto o gageiro clama:--terra!
+ Ei-la acolá!»
+
+Como deslisa o goso nos semblantes
+Por entre as rugas do terror passado!
+ Como é formosa
+Essa pallida praia, e esses rochedos,
+E lá no extremo os pincaros da serra
+ Erma e saudosa!
+
+De indicas mérces, de ouro carregada
+Aproa á terra, com celeuma alegre,
+ A náu pujante;
+E pelo verde mar do porto amigo
+Abrindo a esteira, restitue á patria
+ O navegante.
+
+
+IV.
+
+É meia noite:--os gallos pela aldeia
+Dizem que um dia mais desceu ao nada
+ E que outro vem,
+Para dar luz a dores e alegrias
+E depois nos abysmos do passado
+ Cahir tambem.
+
+E o mendigo da aldeia, o velho cego,
+Sobre o duro grabato, em choça humilde,
+ Achou a paz.
+Em sonhos via um filho: a longes terras
+A miseria o levou: mudada sorte
+ Feliz o traz.
+
+Quantas vezes presága a mente do homem
+Véla como um propheta, em quanto o somno
+ Seus membros prende;
+E como, em trevas de amargosos dias,
+No porvir uma luz, prevista em sonhos,
+ Grata se accende!
+
+
+V.
+
+Nos gonzos ferrugentos range a porta
+Do tugurio do pobre adormecido,
+ E descuidado;
+Que do mendigo o umbral patente é sempre,
+Nem carece de estar, como o do rico,
+ Aferrolhado.
+
+O bom do velho ao sobresalto acorda,
+E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,
+ E o pranto é mudo;
+Mas breve um grito e o soluçar e os beijos
+E o sonho que passou e a voz do sangue
+ Lhe dizem tudo.
+
+Não mais sob o carvalho ao velho honrado
+Esmoladora mão o peregrino
+ Estenderá:
+Meigos lhe sorrirão extremos dias,
+E as suas cinzas filial gemido
+ Consolará.
+
+
+
+
+O BOM PESCADOR.
+
+
+O sol rubro, em leito
+De nuvens descendo,
+Tremente, crescendo,
+No mar se ia a pôr.
+
+Sentado no barco,
+Que a onda embalava,
+Scismando cantava
+O bom pescador.
+
+A paz da sua alma
+No olhar exprimia,
+E a voz traduzia
+Scismar do cantor:
+
+E o canto sereno
+Levava-lho a brisa,
+Que á tarde deslisa
+Com meigo frescor.
+
+ -----
+
+«Acabem de todo
+No prado as boninas,
+E em vastas campinas
+Não surja uma flor;
+
+Dispa-se o ameeiro
+Da folha viçosa,
+E o Tejo em lodosa
+Mude esta azul côr;
+
+O vento gelado
+Só reine e as procellas;
+Das vivas estrellas
+Se apague o fulgor:
+
+O sol radioso
+Em nuvens se envolva,
+E á terra não volva
+Seu grato calor;
+
+Que do horrido inverno,
+Comtigo, oh serrana,
+Na minha choupana
+Rirei do furor!
+
+Não pensa se as veigas
+Se vestem de relva,
+Se está nua a selva
+Do lindo verdor;
+
+Nem ouve os rugidos
+Do vento inquieto
+Quem, sob o seu tecto,
+Se abriga no amor.
+
+Nasci, eduquei-me
+N'um mundo mais nobre,
+Agora sou pobre,
+Sou um pescador.
+
+Ás bordas do abysmo
+Chegou-me a ventura;
+Medí delle a altura,
+Descí sem pavor.
+
+Co'a dita se enlaça
+Humilde existencia,
+Se do homem a essencia
+O orgulho não fôr.
+
+Emquanto de paços,
+De ferteis devesas,
+Emfim, de riquezas
+Eu pude dispor,
+
+O somno tranquillo
+A mim não descia,
+Que o ferro temia
+Do vil salteador.
+
+Na minha alma, immersa
+Em noite e amargura,
+Pesava bem dura
+A mão do Senhor!
+
+Agora misturo
+Do rude oceano
+Nas vagas, ufano,
+O honrado suor;
+
+Agora sereno
+Vem dia após dia,
+E a noite sombria
+Não cerca o temor;
+
+Porque entre teus braços,
+Esposa querida,
+Me esqueço da lida
+Do mar bramidor.
+
+Da vida no sonho
+Que importa vil ouro,
+Se tu és thesouro
+Perpetuo de amor;
+
+Se ainda em teus labios,
+Oh cara consorte,
+Virá doce a morte
+Minha alma depor?
+
+Nas ribas fragosas,
+Que os ventos castigam,
+E as ondas fustigam
+Com longo fragor,
+
+Ao pé da ermidinha,
+Nesse adro tão só,
+Envoltos no pó,
+Sem goso, sem dôr,
+
+Tranquillos, obscuros,
+Privados de luz,
+Á sombra da cruz
+Do Deus Redemptor,
+
+De ti só lembrados,
+Em triste oração,
+Os restos serão
+Do teu pescador.
+
+
+
+
+TRISTEZAS DO DESTERRO.
+
+(FRAGMENTOS).
+
+
+ Erit tristis et moeretis.
+ Isaias.
+
+
+I.
+
+Terra cara da patria, eu te hei saudado
+D'entre as dores do exilio. Pelas ondas
+Do irrequieto mar mandei-te o choro
+Da saudade longi­nqua. Sobre as aguas,
+Que de Albion nas ribas escabrosas
+Vem marulhando branqueiar de escuma
+A negra rocha em promontorio erguido,
+D'onde o insulano audaz contempla o immenso
+Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos
+Não sentida uma lagryma fugiu-me,
+E devorou-a o mar. A vaga incerta,
+Que róla livre, peregrina eterna,
+Mais que os homens piedosa, irá depo-la,
+Minha terra natal, nas praias tuas.
+Essa lagryma acceita: é quanto póde
+Do desterro enviar-te um pobre filho.
+
+No silencio da noite, em sólo estranho,
+Patria minha gentil, em ti pensando,
+Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
+Neste céu achatado, tristemente
+Com luz mortiça e pallida, não ricos
+De inspiração e amor, quaes lá refulgem.
+Pela sombra ameni­ssima, que chama
+Do affastado oriente o sol no occaso,
+No teu profundo céu has-de tu vê-los:
+Do desterrado filho os votos levam:
+Acceita-os delles, desgraçada patria!
+
+Já se acercava o tenebroso inverno;
+Vinha fugindo a rapida andorinha,
+Para um abrigo te ir pedir, oh patria,
+Em cujos valles nunca alveja a neve:
+Juncto de mim passou: em suas azas
+Tambem mandei o filial suspiro.
+
+Pelo dorso das vagas rugidoras
+Eu corri de além mar para estas plagas.
+Pelas antenas, em nublada noite,
+Ouvi o vento sul que assobiava,
+E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:
+Seu rijo sopro refrescou-me as veias.
+.....................................
+
+
+II.
+
+Que ferreo coração esquece a terra,
+Que lhe escutou os infantís vagidos,
+E lhe bebeu as lagrymas primeiras,
+Preludio a tantas que no curto espaço
+Da vida ha-de verter? Quem, nunca, esquece
+O tecto paternal, embora adeje
+Ao redor delle o medo de tyrannos?
+Quem não deseja misturar, na morte,
+Com a gleba nativa o pó de extincto,
+E murmurar seu ultimo suspiro
+Alli, onde primeiro a luz diurna
+O allumiou na rapida passagem
+Entre o nada e o morrer, chamada a vida?
+Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo,
+Um sonho mau, de que se acorda em trévas,
+Na valla dos cadaveres, em meio
+Da unica herança que pertence ao homem,
+Um sudario e o perpetuo esquecimento.
+A infancia é dormir placido: inquieta
+A mocidade é, já; mas entre dores
+Vem o amar e esperar, e a crença ardente,
+E affectos sanctos consolar quem dorme:
+Pouco a pouco, porém, sobre a jazida
+Do sonhador, do mal se assenta o anjo,
+E as imagens ridentes da ventura
+Co' as negras asas dispersando ao longe,
+Com duro pé o coração lhe opprime.
+Oh, no grabato meu bem cedo esse anjo
+Veio assentar-se, e o juvenil enleio
+De affectos puros em dormir sereno
+Affugentou de mim. Vagueei nos mares;
+Peregrinei na terra: em toda a parte
+O pé maldicto me esmagou o peito,
+E da patria a saudade, em sonho triste,
+Immovel, do viver me tece a noite.
+..................................
+
+
+III.
+
+Solidão, solidão, quem diz que existes
+Onde não soa tumultuar das turbas
+Mentiu-te a essencia! Solidão e morte
+São uma idéa só; um pensamento
+Doloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle,
+Onde haja o sol da minha patria, e a brisa
+Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,
+E a larangeira em flor, e as harmonias
+Que a natureza em vozes mil murmura
+Na terra em que eu nasci, embora falte
+No concerto immortal a voz humana,
+Que um ermo assim povoará meus dias.
+Mas aqui!... Que me importa o murmurio
+Dos que passam? Que vale essa campina
+Humida e verde, e no gelado pégo
+Raio do sol que se refrange turvo?
+É o desterro solidão e morte
+Para o poeta: embora estranha lingua
+Lhe revele o pensar, o intimo verbo
+Que em ar vibrado traduziram labios,
+Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selva
+Não tem para lhe dar um pensamento
+De poesia e de amor?
+ Não! Tudo é pallido,
+Tudo é morto e sósinho e silencioso
+Como um sepulchro e um cemiterio!
+ E ainda
+Campas e adros inspiram, quando hi dormem
+Nossos irmãos e paes, porque tem lagrymas
+Que desopprimem a alma; tem memorias,
+Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurram
+Preces, que alli vamos guardar, qual guarda
+O avaro em ferreo cofre os seus thesouros,
+Para os contar hoje, ámanhan e sempre
+Emquanto vivo for.
+ E cá? O engenho
+Nem crê, nem sente bafejar-lhe um canto
+O crepusculo, a lua, a aragem fresca,
+O arrebol da manhan, ou céu sereno
+Por noite escura recamado de astros.
+
+Harpa meridional, porque, no extremo
+Da terra patria, o trovador errante
+Não deixaste partir só com seus males?
+Porque vieste, oh filha do occidente,
+Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas
+De céu septentrional? Tu, pobresinha,
+Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,
+Sem haver mão que te vibrasse as cordas,
+Jazesses esquecida, ainda soáras
+Com incerta harmonia. Ás horas meigas
+Em que o dia se esvai, placida a brisa,
+Que espira do oceano e encrespa as vagas,
+Passaria por ti, e te agitára,
+E murmuráras som que respondera
+Trémulo, fraco, á flauta dos pastores
+Sussurrando suave entre as quebradas
+Da montanha selvosa. E aqui? És muda;
+És muda, que essas cordas carcomiu-t'as
+Este ar gelido e turvo, e qual o engenho
+De teu dono, no viço da existencia,
+Envelheceu, envelheceste, oh harpa!
+...................................
+
+
+IV.
+
+Berço do meu nascer, sólo querido,
+Onde crescí e amei e fui ditoso,
+Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
+Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!
+
+Quando, aterrado ante o minaz aspecto
+Do anjo de Deus, tremente vagueiava
+Nosso primeiro pae em volta do Éden,
+Não lhe tecia tanto de amarguras
+A vida o duro affan com que trocava
+Pelo pão o suor co' a avara terra;
+Não era tanto o traspassar-lhe os membros
+O hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'os
+O sol estivo, e o magoar, errante,
+Os pés feridos nos tojaes bravios
+Pelas sendas que abria em ermos valles,
+Como as saudades de passados tempos,
+Dessa infancia viril, em que surgira,
+Para viver e amar, do barro inerte;
+Não o pungia tanto o mal presente
+Como a recordação dos claros dias
+De innocencia e de paz que alli vivêra.
+A primavera eterna, as auras puras,
+O murmurar do arroio, o canto da ave,
+O frémito do bosque, o grato aroma
+E o vistoso matiz do ameno prado,
+O lago quedo a reflectir a lua,
+As montanhas tão ricas de mysterios,
+De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;
+Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos
+Vingadora a memoria inexoravel.
+Por entre a bruma da estação chuvosa
+Passavam-lhe de abril perfumes, galas;
+Sob estuoso sol vinha a saudade
+Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio
+E o ramalhar dos platanos copados.
+Por tenebrosas noites de procella,
+Quando a torrente e o vendaval bramiam,
+Cria d'entre o fragor ouvir romperem
+Os matutinos canticos das aves,
+E ver no pégo reflectir-se a lua.
+Longe, assim, do seu berço, o criminoso
+Com dura punição remia o crime:
+Mas para o consolar na senda agreste,
+Em cujo termo o esperava a morte,
+O severo juiz deixára ao triste
+De uma esposa querida o seio casto,
+Onde aspirar o amor, olhos que o pranto
+Misturassem co'o seu. Perdendo a patria
+Perdia encantos só de natureza
+Formosa e juvenil. As harmonias
+Dos corações, os misticos affectos
+Não lhe truncou a espada flammejante
+Do cherubim ao repelli-lo do Éden:
+Para elle a patria renasceu no exilio.
+
+Eu, prófugo como elle, o Éden nativo
+Perdí; e perdí mais. Despedaçados
+Os affectos de irmão, de amante, e filho
+Restam-me na alma qual buída frecha,
+Que no peito ao cravar-se estala e deixa,
+Cahindo, o ferro na ferida occulto.
+...................................
+
+
+V.
+
+Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria
+Me reflecte, alta noite, a tua imagem
+Por entre um véu de involuntario pranto!
+
+Quão triste cogitar em mim desperta
+A imagem cara! Á noite, o bom do velho
+As bençams paternaes de Deus co' as bençams
+Sobre minha cabeça derramava,
+E ao começar o dia; e ellas desciam
+A um coração exempto de remorsos
+Onde encontravam filial piedade.
+E agora? É-lhe mysterio o meu destino.
+Qual o seu para mim o exilio occulta.
+Saciado, talvez, de dor e affrontas
+Dorme já sob a campa o somno eterno?
+Suas trémulas mãos não mais lançar-me
+Virão a bençam da piedade? O extremo
+Arranco seu não roçará meus labios?
+Ah, se um dia raiar para o proscripto
+O suspirado alvor do sol da patria,
+E se entre nós de um í­mpio as mãos ergueram
+A barreira da morte, ai delle, ai delle!
+E tambem, ai de mim!........................
+...................... Mas se 'inda um filho
+Houver digno de o ser, eu criminoso
+Terei quem me deplore; mãos que plantem
+No adro deserto onde jazer maldicto
+Um cypreste, uma flor, e quem deponha
+Aos pés do throno do juiz supremo
+Por mim, uma oração fervente e pia.
+...................................
+
+
+VI.
+
+Arvores, flores, que eu amava tanto,
+Como viveis sem mim? Nas longas vias,
+Que vou seguindo peregrino e pobre,
+Sob este rude céu, entre o ruído
+Dos odiosos folgares do sicambro,
+Do monotono som da lingua sua,
+Pelas horas da tarde, em varzea extensa,
+E ás bordas do ribeiro que murmura,
+Diviso ás vezes, em distancia, um bosque
+De arvoredo onde bate o sol cadente,
+E vem-me á idéa o laranjal viçoso
+E os perfumes de abril que elle derrama,
+E as brancas flores e os dourados fructos,
+E illudo-me: essa varzea é do meu rio,
+Esse bosque o pomar da minha terra.
+Aproximo-me; o sonho de um momento
+Então se troca em acordar bem triste,
+Como surge e se esvai por entre as nevoas
+Vulto indeciso nos cantares d'Ossian.
+É uniforme e torva esta verdura,
+Acre o cheiro que exhala este arvoredo,
+Mal-assombrado o rio, humido o valle,
+Frio do sol o raio derradeiro
+Espirando neste ar denso e pesado,
+Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,
+E rouba aos olhos horisonte immenso.
+
+Ai, pobres flores que eu amava tanto,
+Por certo não viveis! O sol pendeu-vos
+Mirradas folhas para o chão fervente:
+Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,
+E morrestes. Morrestes sobre a terra,
+Que por cuidados meus vos educára.
+E eu? Talvez nestes campos estrangeiros
+Minha existencia o fogo da desdita
+Faça pender, murchar, ir-se mirrando
+Sem que torne a ver mais esses que amava,
+Sem que torne a abraçar a arvore annosa,
+Que se pendura sobre a limpha clara
+Lá no meu Portugal, onde a frescura
+Da ribeira perenne, da floresta
+Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida!
+..........................................
+
+
+VII
+
+Eu já vi n'uma ilha arremessada
+Ás solidões do mar, entre os dous mundos,
+Vestigios de volcões que hão sido extinctos
+Em não-sabidos seculos. Scintillam,
+Aqui e alli, nos areientos plainos,
+Onde espinhosas sarças só vegetam,
+Restos informes de metaes fundidos
+Pelas chammas do abysmo, entre affumadas
+Pedras que em parte amarellece o enxofre,
+Que a lava em rios dispersou, deixando
+Só delle a côr em lascas arrancadas
+Das entranhas dos montes penhascosos.
+A natureza é morta em todo o espaço
+Que ella correu, no dia em que, rugindo,
+Da cratéra fervente, á voz do Eterno,
+Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,
+A engoliu e passou, qual sumiria
+De soçobrada nau celeuma inutil.
+Tal é meu coração. Bem como a lava
+É o desterro ao trovador. Meus olhos
+Hão-de esquecer as lagrymas; que a seiva
+Do vivido sentir vai-se queimando
+Ao suão mirrador de atroz saudade,
+Que excede tudo em dor; excede a de orpham,
+De viuva, de mãe que sobre o berço
+Vê jazer morto o pallido filhinho.
+E porquê? Porque ahi ha inclinar-se
+Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se
+Com suspiros e prantos desses restos,
+Que vão quedos dormir em adro antigo,
+Onde os avós já dormem; onde ha patria,
+Ha fami­lia, ha irmãos.--Cá, tudo é ermo,
+E a dor está no coração do prófugo
+Como um cadaver hirto quando espera
+De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
+A dor aqui é gelida, immutavel;
+Pousa em labios alheios que sorriem,
+E até em sorrir nosso; está sentada
+Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
+Embebida na enxerga do repouso,
+Entranhada no pão que nos esmolam,
+Enroscada, qual cobra peçonhenta,
+No nodoso bordão do peregrino,
+E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.
+
+E depois, o morrer em leito alheio;
+Despedir-se de um sol que não é esse,
+Que, na infancia, nos fez florir os prados,
+Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;
+Volver em torno os olhos moribundos
+E não ver uma lagryma; inclinar-se
+E não achar um seio feminino,
+Ou de esposa ou de mãe, onde repouse
+A fronte accesa por ardente febre;
+E pensar entre as ancias derradeiras,
+Que será terra estranha a que nos trague;
+Que será til do norte o que proteja
+Nosso humilde moimento, a verde gleba,
+Onde de pinho a cruz por dous invernos
+Apenas luctará co'a negra nuvem
+Do esquecimento eterno, unica herança
+Do que expirou no exilio!
+ Amarguradas
+São taes cogitações para o que sente
+No seio em ondas trasbordar-lhe a vida.
+Quaes, porém, não virão ao pobre velho,
+Que, arrancado das bordas do seu tumulo,
+Foi por cima dos mares arrojado
+Para juncto do umbral de um cemiterio,
+Onde não achará paternos ossos,
+Para ao pé delles se deitar morrendo?!
+......................................
+
+
+VIII.
+
+Quando nos luz o sol no céu da patria,
+Embora sobre nós verta a desdita
+Torrentes de amargura, ha um consolo:
+É o altar e a oração. Ao desterrado
+Nem sequer isso resta. O templo alheio
+É como ermo de Deus; como que param
+Nesse craneo de marmore arqueado
+Do gigante edificio as tristes preces
+Em lingua estranha proferidas. Gelidas
+E duras são do pavimento as lageas
+Para quem sabe certo não o escutam
+Mortos que muito amou; que nesse tecto
+Vai bater frouxa uma oração discorde
+Entre mil orações.
+ «É falso! É impio!--
+A razão o dirá--De Deus o templo
+É o mundo. No cimo das montanhas
+O nome do Senhor sussurra em sopro
+Do vento que passou rasgando as asas
+Pelo cardo bravio; a gloria delle
+Di-la o rolo do mar correndo á praia;
+É o seu hymno o canto da avesinha
+No salgueiro que pende e se balouça
+Sobre o arroio do valle, e é do regato
+O murmurinho o cantico nocturno
+Mandado pela terra silenciosa
+Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos
+Que pelos céus harmoniosos gyram.
+Esses montões de cinzeladas pedras
+De columnas e torres, que se elevam
+Como as mãos junctas de quem resa, apenas
+São um memento da oração, um marco
+Posto no ermo da vida, que nos lembre
+Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,
+Que é senhor e que é rei, que é pae e entende
+O vento, o mar, os astros, a avesinha,
+O sussurrar do arroio humilde, e as preces
+De milhões d'orbes em milhões de li­nguas.»
+
+Ao brado da razão só não se dobra
+O coração do desterrado!
+ Embora
+Sob as asas do amor abrigue o Eterno
+Homens, nações e o mundo: o amor por elle
+Nasce, cresce, vigora-se enredado
+Com os beijos de mãe, com sorrir meigo
+De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
+O pôr do sol da nossa terra, o choupo
+Da nossa fonte, o mar que manso geme,
+Nosso amigo da infancia, em praia amiga.
+
+Quando isso tudo se converte em sombra,
+Que em confuso passado apenas surge
+Qual fumo tenuissimo ou phantasma
+Á meia-noite visto, á luz da lua,
+Ao longe entre arvoredo: quando o sopro
+Da tempestade assobiou nas trévas
+Pela antena da nau do vagabundo;
+Quando a dor sua em olhos de ente vivo
+Não achou uma lagryma piedosa,
+E nos seus proprios são vergonha as lagrymas,
+Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,
+Não sobre seio que as esconda e enchugue,
+Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
+Sem as sentir; então o soffrimento,
+Filho de longo padecer, converte
+O coração do desditoso em marmore,
+Onde nunca penetra um puro affecto,
+Onde o nome de Deus soçobra e morre
+Entre o bramir de maldicções e pragas.
+
+Oh, do desterro o mal supremo é este!
+É o seccar-se o coração; mirrar-se
+Como a sarça do monte em fins d'estio;
+É o descrer, e o blasphemar do Eterno.
+Se aos céus levanta o desgraçado os olhos,
+É que primeiro os pôs lá no futuro,
+E, bem que tenue luz, um fulgorzinho
+Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro:
+Mas quando se ergue um muro intransitavel
+Entre nós e a ventura; quando ao longe
+Pelos campos da vida é tudo pallido
+E perece a esperança, então a mente
+Recúa com horror, e dando em terra,
+Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,
+.........................................
+
+
+
+
+O MOSTEIRO DESERTO.
+
+
+I.
+
+No mosteiro vai fundo o silencio;
+Um silencio que gera terror;
+Só nos tectos, que banha o luar,
+Sólta o mocho seu pio de horror:
+
+Só o vento que gyra nos pateos,
+E se engolfa na escada ogival,
+Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,
+Que ladeiam normando portal.
+
+Meia noite. E na crasta deserta
+Não reboam os ecchos do sino,
+Que, vagando, murmuram nas cellas:--
+São as horas do officio divino.»
+
+Meia noite! Bem como na torre
+Voz de bronze dormente parece,
+Tal o monge, na dura jazida,
+Priguiçoso do templo se esquece.
+
+Monge, o brado nocturno do sino
+Ao resar não te chama, é verdade;
+Mas talvez já no topo do côro
+Somnolento te espera o abbade.
+
+ -----
+
+Nada quebra o remanso da noite
+Pelas gothicas, vastas arcadas:
+Nem de quicios ranger vagaroso,
+Nem murmúrio de lentas passadas.
+
+«Está só o mosteiro?--
+ Este grito
+Repetiram-no os ecchos inteiro;
+E, bem como em resposta á pergunta,
+Retumbou:
+ --Está só o mosteiro!»
+
+ -----
+
+ Pouco ha inda, na alta noite
+ Passava no espaço a lua,
+ Dos ulmos a cima ondeava
+ Negra, qual ora fluctua:
+
+ Mas tenebroso silencio
+ Não ía, como ora vai:
+ Bradava o sino da torre
+ Aos monges dizendo:--orae.»
+
+ E pelos vidros córados
+ Reverberava fulgor;
+ De passos no longo claustro
+ Soava tenue rumor.
+
+ Depois, lá dentro na igreja,
+ Em côro alterno rompia
+ O canto lento dos monges,
+ Que ás vozes do orgam se unia:
+
+ -----
+
+Porém, como se ao sopro do archanjo
+A trombeta final retumbasse,
+E da vida o tumulto na terra
+Ao terrivel signal expirasse,
+
+Assim do orgam calou a harmonia,
+E dos córos os hymnos calaram,
+E os fulgores das lampadas frouxos
+Das vidraças não mais transudaram.
+
+
+II.
+
+É que o filho dos ermos, renegando
+ Das tradições antigas,
+Desceu a pelejar na ardente arena
+ Das facções inimigas.
+Amar, soffrer, orar era a existencia
+ Que lhe talhára a sorte;
+Enxugar muitas lagrymas na terra,
+ E repousar na morte;
+Realisar té onde é dado ao homem
+ Esse typo ideal,
+Que nos legou o Salvador, tomando
+ Nossa veste mortal.
+
+ -----
+
+E não o quiz. Sacrilego, do pobre
+ A herança, que a piedade
+Confiára ao ministro de uma crença
+ Que é toda caridade,
+Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,
+ No altar impio da guerra,
+E, abrindo o manto, sacudiu irado
+ A assolação á terra.
+
+ -----
+
+ De noite no bosque,
+ Na gandra deserta,
+ No viso do monte,
+ Do valle na aberta,
+
+ Á luz das estrellas
+ As armas fulgiam,
+ E ouviam-se ao longe
+ Corceis que nitriam:
+
+ Horrendo propheta
+ O abutre passava,
+ E sobre as encostas
+ Calado pairava:
+
+ Depois, na alvorada,
+ Com gritos sem fim
+ Saudava do sangue
+ Vizinho o festim.
+
+ -----
+
+ E á voz das trombetas,
+ Ao trom dos canhões,
+ Ao som das passadas
+ De vinte esquadrões;
+
+ E em meio do fogo,
+ Do fumo alvacento,
+ Em rolos ondeando
+ Nas asas do vento,
+
+ De agudas baionetas
+ A renque brilhante
+ Tremente avançava,
+ Ao brado de--ávante!»
+
+ E ao baço ruí­do
+ Dos leves ginetes,
+ No plaino calcando
+ Da relva os tapetes,
+
+ Os ferros cruzados
+ Luctavam tinindo,
+ Peões, cavalleiros
+ De involta ruindo,
+
+ E a ferrea granada
+ Nos ares zumbia,
+ E aos seios das alas
+ Qual raio descia.
+
+ E aos ares, revolta,
+ A terra espirrava,
+ E o globo encendido
+ Um pouco se alçava,
+
+ E prenhe de estragos,
+ Com fero estampido,
+ Mandava mil golpes,
+ Em rachas partido.
+
+ -----
+
+ E as horas passavam
+ Em scenas de morte;
+ E o abutre mirava
+ Os trances do forte.
+
+ -----
+
+Na garganta da serra ou sobre o outeiro,
+Pelo pinhal da encosta ou na campina,
+Nesse dia de atroz carnificina,
+Negros uns vultos vagueiar se viam:
+A cruz do Salvador na esquerda erguida,
+Na dextra o ferro, preces blasphemando,
+«Não perdoeis a um só!--feros bradando,
+Entre as fileiras rapidos corriam:
+ E era o monge que bradava,
+ E era o monge que corria,
+ E era o monge que, blasphemo,
+ Preces vans a Deus fazia;
+ Vans que, á tarde, nesse plaino
+ No sangue d'irmãos retincto,
+ Só restava o moribundo,
+ O cadaver só do extincto.
+ E por gandras e por montes,
+ Aterrados, perseguidos,
+ Em desordenada fuga
+ Retiravam-se os vencidos.
+ E os vencidos eram esses
+ Que a esperança da victoria
+ Arrastára, miserandos,
+ A uma guerra i­mpia, sem gloria!
+Lá dos gritos de raiva baldada
+Restrugia o confuso clamor,
+E o gemido do mau desgraçado
+Na alma oppressa gerava terror.
+
+ -----
+
+Cáia em pó o mosteiro; e maldicto
+O que ergue-lo outra vez intentar,
+Se não treme ante as nuas cáveiras,
+Que insepultas verá branquejar!
+
+
+III.
+
+Surge a luz da alvorada. Podessem
+Dessas campas geladas que vejo
+Os bons monges dos tempos antigos
+Surgir vivos á voz de um desejo!
+
+E que ao longo das vastas arcadas
+Se escutassem seus passos serenos,
+Como se ouve o tranquillo regato
+Sussurrar nestes campos amenos!
+
+Quem então não curvára ante o velho?
+Quem a bençam da mão descarnada,
+Como a bençam do céu, não pedíra
+Da virtude ao poder confiada?
+
+Quem ousára soltar no deserto
+Estridente clangor da trombeta,
+E fazer scintillar pela noite
+A cruel decisiva baioneta?
+
+Quem ousára o sorriso do insulto
+Juncto ao negro edificio soltar,
+E com goso, na mente, por terra
+Suas grimpas jazendo pintar?
+
+Mas ha muito que os bons se finaram;
+Mas ha muito que ás dores fugiram,
+E depois, nesses velhos sepulchros
+Quantos maus inquietos dormiram!
+
+Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes
+Pereceram: ninguem o dirá.
+O que o sabe os julgou; e do abysmo
+Nem um ai o cantor tirará.
+
+Mas, oh harpa, transmitte as saudades
+Do que foi em legado ao porvir,
+E o presente, que em breve ha-de o olvido
+Com o seu amplo manto cubrir.
+
+Contarão as canções do poeta
+Tão-sómente do claustro o segredo.
+Vai a hera vestir estas pedras:
+Cahirá este annoso arvoredo.
+
+Sim, virá a segure insensata
+Da montanha o senhor derribar!
+Rei deste ermo, que os curos insultas,
+Tu serás o ludibrio do mar.
+
+Bem antigo é teu cepo. Tu viste
+O mosteiro da encosta crescer;
+Viste o colmo do humilde retiro
+Em arcadas, em torres volver.
+
+Tambem nasce o regato na origem
+Pobre e puro: cem valles passou;
+Vai já rico, mas turvo e suberbo;
+Que a torrente desceu e o turbou.
+
+ -----
+
+Como esta aura suave suspira
+Pelos bosques, e as ramas meneia!
+Como a limpha murmura na fonte,
+Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.
+
+Cala, oh ave! Que importam teus cantos?
+Quem vens tu saúdar, cantor do ermo?
+É aos mortos? Aos gosos mais puros
+Pôs-lhe a lousa, na terra, já termo.
+
+Tua voz costumava o eremita
+Nos bons tempos folgando sentir:
+Era imagem do céu, que entre as dores
+Do desterro lhe vinha sorrir.
+
+Mas depois affligiu o malvado
+Da avesinha innocente a cantiga;
+Tal os olhos affeitos a trévas
+A cerrar-se luz subita obriga.
+
+Nunca ao i­mpio na dor deu consolo
+Meigo som de cadente gorgeio.
+Que harpa eolia lhe adoça o azedume
+De que seu coração está cheio?
+
+Ai do mau, cuja vida travada
+Vai de sustos mandados do céu!
+Nunca o sol a acorda-lo tranquillo
+Em seu brilho dos montes desceu.
+
+Mas duas vezes ai delle, se na alma
+Não lhe soa uma voz pavorosa,
+Que o atterre, quando o ermo o rodêa,
+Ao passar da procella ruidosa!
+
+
+IV.
+
+É tão doce esta vaga saudade,
+Na soidão das montanhas colhida,
+Para quem entre mil tempestades
+Transitou pelos campos da vida!
+
+Foge a luz: é sol-posto: na aldeia
+Dá o sino esse triplo signal,
+Com que o espirito, erguendo-se a Deus,
+Diz ao dia seu ultimo val;
+
+E o pastor, que o rebanho guiava
+Á malhada, descendo do outeiro,
+Parou lá, e ajoelhou descuberto
+Juncto ao velho sósinho pinheiro.
+
+Gloria a Deus! A oração do crepusculo
+Pelo tronco elevado se ergueu.
+E a guia-la ante o throno do Eterno
+Sancto archanjo das preces desceu.
+
+Ao piedoso pastor no chão duro
+Brando a noite o repouso trará
+E por certo em seu leito da morte
+Mais tranquillo inda o somno será.
+
+ -----
+
+A estas horas, talvez, nos combates
+Um atheu expirante caíu:
+Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias!
+O seu grito final já se ouviu!
+
+A luz foge-lhe aos olhos: a espada
+Apertou: ainda a tenta esgrimir:
+Não a sente: conhece que morre,
+Sem, comtudo, deixar de existir.
+
+Não o crê: abre os olhos a custo:
+Nada o ceu, que se enluta, lhe diz:
+Fecha-os breve; e no extremo soluço
+Pensa e existe, e a existencia maldiz.
+
+E o atheu, que era grande na terra,
+Uma campa terá magestosa;
+E ao pastor naquelle adro da aldeia
+Cubrirá uma gleba relvosa.
+
+ -----
+
+Como o atheu e o pastor, nas batalhas
+Mil e mil sem alento caíram;
+Mil e mil, que em seu sangue este solo,
+Nas fraternas discordias, tingiram!
+
+Essas scenas de pranto e de lucto
+Quem as trouxe a esta terra querida?
+Foi o monge, que em animos rudes
+Instillou o furor fratricida.
+
+Que pediamos nós? Ver abrir-se
+Ante nós da familia o larario,
+E dormir juncto aos ossos paternos
+Somno extremo n'um pobre sudario:
+
+Sim, poder, ao mandar-nos a morte
+Nossos corpos aos vermes ceder,
+Ao sol bello, e tão bello, da infancia
+Com saudade, inda os olhos volver.
+
+Respondeu-nos da balla o sibilo;
+Respondeu-nos o brado da guerra!
+Combatemos. Pertencem na patria
+A qualquer sete palmos de terra.
+
+Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da lucta
+Sabe Deus qual a sorte será:
+Mas á sombra do teixo da infancia
+O proscripto infeliz dormirá.
+
+ -----
+
+Cáis em pó o mosteiro; e maldicto
+O que ergue-lo outra vez intentar,
+Se não treme ante as núas caveiras,
+Que insepultas verá branquejar!
+
+
+
+
+A VOLTA DO PROSCRIPTO.
+
+
+I.
+
+ Já suave a sorte dura
+ Mostra a face ao desterrado:
+ Porque surge ainda a amargura
+ Em seu rosto carregado?
+
+ Vento amigo ao patrio solo
+ Pelo mar guia o proscripto,
+ E um sorriso de sonsolo
+ Não lhe luz no rosto afflicto?
+
+ Corta a proa o mar fremente;
+ O cantor lá se assentou
+ E sua torva e altiva frente
+ Sobre a dextra reclinou.
+
+ Vem-lhe idéa após idéa,
+ Já tristonha, já serena;
+ Que no gesto lhe vaguêa
+ Ora o goso, logo a pena.
+
+ Coração affeito á mágoa
+ Da esperança desconfia:
+ Desalenta, e em viva frágoa,
+ É-lhe negra a noite, e o dia.
+
+ Mas se, emfim, lhe tece a sorte
+ Á existencia um aureo fio,
+ E vencendo o mar e a morte
+ O conduz ao patrio rio,
+
+ A que mais agora aspira
+ O mancebo trovador?
+ É por gloria que suspira?
+ Não lhe ri propicio o amor?
+
+ Não vê perto a terra cara,
+ Que chorou de dor absorto,
+ E nos braços dos que amára
+ Não terá paz e conforto?
+
+ Mas silencio!--A fronte erguendo,
+ Elle os olhos poz nos ceuz,
+ E a canção da alma rompendo
+ Sussurrou nos labios seus.
+
+II.
+
+«Rasga as ondas do pégo indomado
+Leve barca: já freme o galerno:
+Susta as iras o rabido hynverno:
+Torna á patria infeliz trovador.
+
+Como bate no seio ancioso
+Coração que opprimiu a amargura,
+Quando meiga sorrí a ventura,
+Quando volve esperança de amor!
+
+Esperança, e sómente esperança
+Cabe áquelle que os mares correu,
+Quem lhe diz que 'inda não o esqueceu
+A donzella por quem suspirou?
+
+Quem lhe diz não irá n'outros laços
+Venturosa encontra-la e infiel,
+E que a voz do remorso cruel
+Para a ingrata tremenda soou?
+
+Quem lhe diz não irá murchas rosas
+Tão-sómente encontrar sobre a lousa,
+Onde a amada tranquilla repousa,
+onde vá juncto della expirar?
+
+Esperança, e sómente esperança
+Cabe áquelle que os mares correu:
+Ella só resta áquelle que o ceu
+Longos dias de dor fez passar
+
+Eu traguei estes dias de lucto;
+Encarei muitas vezes a morte;
+Pude o louro colhêr dado ao forte:
+Tambem myrto de amor colherei?
+
+Ou o arbusto que outr'ora plantára,
+Que por mim cultivado crescêra,
+Que entre angustias jámais me esquecêra
+Esquecido por ella acharei?
+
+Como além desse cabo, que esconde
+Verdes aguas do meu patrio Tejo,
+A alma levam saudade e desejo!
+Como atraz a compelle o terror!
+
+Ledo o nauta saúda a guarída
+Aonde incolume o vento o ha guiado,
+E alegrou esse olhar carregado
+Com que insulta do mar o furor.
+
+Feliz nauta, em teu seio tranquillo
+Pulsa em paz coração baixo e rude;
+Fado amigo negou-te o alaúde:
+Deu-m'o a mim:--para prantos m'o deu.
+
+Nunca, pois, surgirá uma aurora
+Em que nelle resoe a alegria,
+E em que o triste, que a dor opprimia,
+Erga um hymno de jubilo ao céu?
+
+Nunca rir-me propicia a ventura
+Sobre a terra verão estes olhos?
+Será sempre cuberto de abrolhos
+Agro trilho que á morte conduz?
+
+Ou nas trévas da minha existencia
+Surgirá inda um dia radioso,
+Como, ás vezes, em céu tenebroso
+Rompe o sol com torrentes de luz?»
+
+
+III.
+
+ Já no porto a leve barca
+ Longa esteira desdobrou,
+ E ao clarão final do dia
+ Ferreo dente ao mar lançou.
+
+ Eis as plagas da saudade;
+ Eis a terra de seus sonhos;
+ Eis os gestos tão lembrados;
+ Eis os campos tão risonhos!
+
+ Eis da infancia o tecto amigo;
+ Eis a fonte que murmura;
+ Eis o céu puro da patria;
+ Eis o dia da ventura!...
+
+
+IV.
+
+Foi o cantor feliz?--Em breves dias
+Viu-se cruzar errante incertos mares.
+Sob o tecto paterno anciada noite
+Elle passou; e o somno socegado
+Não lhe cerrou os olhos lachrymosos.
+Conta-se que o seu amor fôra trahido,
+E que mirrado achou de amor o myrto,
+Que deixára viçoso, e que saudára
+Desde além do oceano em seu deli­rio.
+Sobre a proa outra vez indo assentar-se,
+Não entoou um hymno de alegria.
+Com ar sinistro e torvo e os labios mudos
+Correu co' a vista as ondas inquietas,
+E, porventura, a idéa que as passára
+Nas asas da esperança, e que a esperança
+Tinha expirado ao limiar do goso,
+Mais lhe turbou a fronte carregada.
+O misero sorriu-se. Em tal sorriso
+O passado e o futuro estava impresso,
+E da sua alma a dolorosa noite.
+
+
+V.
+
+Não mais o trovador no lar da infancia
+Repousará talvez: talvez sua harpa
+Durma pendente em solitario tronco
+Do pinheiro bravio, onde a desfaça
+O sôpro do aquilão. Ao desditoso
+Sonho de gloria e amor tinha emballado;
+Mas foi sonho, e passou, e uma existencia
+Nua d'encantos despregou-se ante elle.
+Quem o consolará?--De fogo essa alma
+Consolo não terá, nem quer consolo.
+A maldicção de Deus vestiu-lhe a vida
+De padecer e lagrymas. Ignoto
+Será ao mundo que surgiu na terra
+O genio de um cantor, bem como planta
+Morta apenas saída á flor do solo,
+Ou como a aragem da manhan, que passa
+Antes de o sol nascer, em dia estivo.
+
+E que importa essa gloria ao dono della?
+Esse fructo do Asphaltite que encerra
+Senão cinza em involucro formoso?
+Que é o eccho de um nome, que não soa
+Senão sobre o sepulchro do que impresso
+Na fronte o trouxe, em meio de amarguras,
+Por vezes de ignominias?
+ «Vive, oh triste,
+Esquecido do mundo, e esquece o mundo!
+Nas solidões profundas da tua alma,
+Vazia das paixões que a assassinaram,
+Some os cantos que della transudavam
+Para correr n'um seculo sem vida,
+Sem virtude e sem fé, e em que desabam
+As crenças todas do passado, e é sonho
+A constancia e o amor.»
+ Palavras estas
+Extremas foram do proscripto. Longe,
+Em praia estranha abandonando a barca,
+Qual o seu fado foi ninguem mais soube.
+
+
+
+
+N'UM ALBUM.
+
+
+Quando o Senhor envia
+O trovador ao mundo,
+Faz devorar a essa alma
+Fel amargoso e immundo;
+
+Porque lhe diz:--Poeta,
+Vai conhecer a terra;
+Prova dos seus deleites;
+Prova do mal que encerra.
+
+Desses e deste esgota
+As taças muitas vezes,
+Embora de uma e d'outra
+Aches no fundo fézes:
+
+E quando bem souberes
+Que tudo é sonho vão;
+Que é nada a dor e o goso,
+Sólta o teu hymno então.»
+
+E o pobre desterrado
+Vem seu mister cumprir.
+Nasce: homens e universo,
+Tudo lhe vê sorrir;
+
+E o seu balbuciar
+Um canto é d'innocencia:
+Mas outro foi seu fado;
+Guia-o a providencia.
+
+É cherubim precíto
+Qu' inda entrevê o céu,
+Mas através da vida,
+Mas através de um véu.
+
+Em turbilhão d'affectos,
+Seu íntimo viver
+Rapido lhe devora
+Sperança, amor e crer.
+
+Do goso nos deli­rios
+Debalde busca o amor;
+Saudade melancholica
+Pede debalde á dor.
+
+Depois, desanimado,
+Pára a pensar em si,
+Acha no seio um ermo,
+E tristemente ri.
+
+É desde aquelle instante
+De um acordar atroz,
+Que ao condemnado lembra
+Do que o mandou a voz.
+
+Então entende e cumpre
+Seu barbaro destino;
+Então é que elle aprende
+A modular um hymno.
+
+Virgem, ao que assim passa
+Por meio do existir,
+Calcando os frios restos
+Do crer e do sentir,
+
+Não peças te revele
+Sua alma na poesia,
+E dê aos pensamentos
+O encanto da harmonia;
+
+Porque lá, nesse abysmo,
+Não resta uma illusão:
+Só ha perpetua noite,
+E injuria e maldicção.
+
+Não entenderas, virgem
+Ainda innocente e pura,
+O canto que surgira
+Dessa alma gasta e escura.
+
+Deixa-o seguir seu norte,
+Cumprir missão cruel;
+Deixa-o verter o escarneo;
+Deixa-o verter o fel;
+
+Deixa-o cuspir em faces
+Onde não ha pudor,
+E ao mundo, ebrio de si,
+Rindo ensinar a dor.
+
+As sanctas harmonias
+De cantico innocente
+Sabe-as o alvor do dia
+Quando rompe do oriente;
+
+Murmura-as o regato;
+Vibra-as o rouxinol;
+Vem no zumbir do insecto,
+No prado, ao pôr do sol;
+
+Vivem no puro affecto
+Da filial piedade,
+Nos sonhos e esperanças
+Da juvenil idade.
+
+Esta poesia é tua:
+Eu já a ouvi e amei;
+Mas hoje nem a entendo,
+Nem repeti-la sei.
+
+Assim, meu nome só
+Escreverei aqui;
+Som vão, intelligivel
+Apenas para ti;
+
+Extincto candelabro
+Do templo do Senhor,
+Que por algumas horas
+Deu luz, teve calor;
+
+Lenda de sepultura,
+Que fala em gloria e vida,
+E esconde ossada infecta
+Dos vermes corroída;
+
+Pinheiro solitario,
+Que o raio fulminou,
+E que gemeu tombando,
+E não mais murmurou.
+*/
+
+
+
+
+A FELICIDADE.
+
+
+Era bello esse tempo da vida,
+Em que esta harpa falava de amores:
+Era bello quando o estro accendiam
+Em minha alma da guerra os terrores.
+
+Nesse tempo o balouço das vagas
+Me era grato, qual berço da infancia;
+E o sibillo da bala harmonia
+Semelhante á de flauta em distancia.
+
+Eu corri pelos campos da gloria,
+D'entre o sangue colhendo uma palma,
+Para um dia a depor aos pés dessa
+Que reinou largo tempo nesta alma.
+
+Mas qual ha coração de donzella,
+Que responda a um suspiro de amor,
+Quando vibra nas cordas sonoras
+Do alaúde de pobre cantor?
+
+Triste o dom do poeta!--No seio
+Tem volcão que as entranhas lhe accende;
+E a mulher que vestiu de seus sonhos
+Nem sequer um olhar lhe compr'hende!
+
+E trahido, e passado de angustias,
+Ao amor este peito cerrara,
+E, quebrada, no tronco do cedro
+A minha harpa infeliz pendurara.
+
+Um véu negro cubriu-me a existencia,
+Que gelada, que inutil corria;
+Meu engenho tornou-se um mysterio
+Que ninguem neste mundo entendia.
+
+E embrenhei-me por entre os deleites;
+Mas tocando-o, fugia-me o goso;
+Se o colhia, durava um momento;
+Após vinha o remorso amargoso.
+
+Esqueci-me do Deus que adorara;
+O prestigio da gloria passou;
+E a minha alma, vazia de affectos,
+No limiar do porvir se assentou:
+
+Meus pulmões arquejaram com ancia,
+Buscando ar na amplidão do futuro,
+E sómente encontraram, por trévas,
+De sepulchros um halito impuro.
+
+Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;
+Eu te achei, oh milagre de amor!
+Outra vez vibrará um suspiro
+No alaúde do pobre cantor.
+
+Eras tu, eras tu que eu sonhava;
+Eras tu quem eu já adorei,
+Quando aos pés de mulher enganosa
+Meu alento em canções derramei.
+
+Se na terra este amor de poeta
+Coração ha que o possa pagar,
+Serás tu, virgem pura dos campos,
+Quem virá a minha harpa acordar
+
+Como a luz duvidosa da tarde,
+Quando o sol leva ao mar mais um dia,
+Reverbera poesia e saudade
+Na alma immensa de um rei da harmonia;
+
+Tal poesia e saudade em torrentes
+No teu meigo sorrir eu aspiro,
+E no olhar que me lanças a furto,
+E no encanto de um mudo suspiro,
+
+Para mim és tu hoje o universo:
+Soa em vão o bulicio do mundo;
+Que este existe sómente onde existes:
+Tudo o mais é um ermo profundo.
+
+No silencio do amor, da ventura,
+Adorando-te, oh filha dos céus,
+Eu direi ao Senhor:--tu m'a déste:
+Em ti creio por ella, oh meu Deus!»
+
+
+
+
+OS INFANTES EM CEUTA.
+
+DRAMA LYRICO EM UM ACTO.
+
+(1415)
+
+
+_O infante D. Duarte._
+_O Infante D. Pedro._
+_O Infante D. Henrique._
+_Gulnar_, filha do wali de Ceuta.
+_Lobna_, escrava.
+_Haleva_, escrava.
+_Um pagem._
+_Um sobrerolda._
+_Côro de cavalleiros portugueses._
+_Côro de cavalleiros mouros._
+_Côro de escravas, e de eunuchos negros._
+
+
+
+SCENA I.
+
+
+ Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses.
+ D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D.
+ Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os
+ cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado
+ falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o
+ principe.
+
+
+D. DUARTE.
+
+Eia pois, cavalleiros! Breve os mares
+Cruzaremos de novo além do Estreito!
+Os inimigos timidos refogem
+Da conquistada Ceuta.
+Pelas campinas pallidas, ao longe,
+Das altas torres espraiando os olhos,
+Não se vê alvejar lá no horisonte
+Um albornoz mourisco.
+Folgue o que volta á patria enriquecido
+Pela ganhada gloria: folgue aquelle
+A quem coube o desterro entre estes muros,
+Por conservar erguida
+Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias
+O estandarte real: morrendo, é martyr:
+Seu nome eterno viverá na historia.
+Folgae, meus cavalleiros!
+
+
+CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.
+
+Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,
+Para o velho homem d'armas d'elrei,
+Que ha trinta annos nos diz:--combatei!»
+Sem jámais a armadura largar!
+
+Sob o forro do elmo pulido
+Nossa fronte, senhor, se enrugou,
+E estes peitos robustos quebrou
+Dos arnezes conti­nuo pesar!
+
+ Bem vinda a hora
+ Em que voltemos,
+ E emfim saudemos
+ O nosso lar;
+ Em que possamos
+ No patrio rio
+ O sol do estio
+ Ver scintillar;
+ E, dos sinceiros
+ Entre a espessura,
+ Da guerra dura
+ Ir repousar!
+
+
+CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.
+
+ Parti vós, cavalleiros:
+ A Portugal tornae;
+ E o nosso nome ás bellas
+ Donzellas
+ Lembrae!
+ Dizei-lhes que, se ás lides
+ Votámos peito e braços,
+ Por ellas suspiramos,
+ E amamos
+ Seus laços;
+ E que destes labios
+ Palavra amorosa
+ Por moura formosa
+ Jámais sairá.
+ Opprobrio e vergonha
+ Ao que as esquecer!
+ Infamia ao que arder
+ Por filha d'Allah!
+
+
+ D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio
+ dos cavalleiros.
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+Infamia, dizeis vós?
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente
+ da scena.
+
+
+
+ Por Deus, calae-vos!
+Ignoram vosso amor esses guerreiros.
+Da patria elles falavam:
+Não a trahir juravam.
+E vós? Vós que sois filhos
+D'elrei de Portugal; vós, cavalleiros,
+Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,
+Vosso nome manchastes
+Com um affecto ignobil...
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+Que ousaes dizer, senhor!
+
+
+D. DUARTE.
+
+Sim, ignobil affecto! Amor gerado
+Entre rios de sangue, ao lampejarem
+Cruzados ferros, no aduar mourisco
+Á viva força entrado.
+Conduziu-vos, dissestes-me, o combate
+A suberbo palacio. Alto repouso
+Era de morte ahi: seus defensores
+Tinha-os o ferro português ceifado,
+Duas mouras formosas,
+Vencidas do terror, na fuga anciosas,
+Cahindo a vossos pés pediram vida,
+Liberdade, honra, e vós...
+
+
+D. PEDRO.
+
+ Assegurámos-lhes
+Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos
+D'elrei de Portugal, e cavalleiros!
+Era o nosso dever.
+
+
+D. DUARTE.
+
+ E era-o cederdes
+A um amor insensato; o prometterdes
+Pelas nocturnas trévas conduzi-las
+Ás naus que vão partir?
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+Será rouba-las
+Á falsa crença do koran...
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Com vehemencia.
+
+
+ E a infamia
+Lhes gravareis depois nas frontes puras?
+Isso é torpe! Isso é vil!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Senhor infante!
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Com ardor.
+
+
+Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alva
+A armada partirá.
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+
+ Com inquietação.
+
+
+ Zombaes?
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Ouvi-me!
+É o mandado d'elrei...
+
+
+ Dirigindo-se aos cavalleiros.
+
+
+ Meus velhos guerreiros,
+ As armas tomae,
+ E á praia fremente
+ Os passos guiae;
+ Que as náus já fluctuam:
+ Não tarda o partir.
+ Nos mares a aurora
+ Veremos surgir.
+
+
+CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.
+
+
+ Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.
+
+
+ Virgem! Esperança!
+ Estrella do mar,
+ Ouvi nosso orar;
+ Mandae-nos bonança!
+ Salvae-nos, salvae-nos!
+ E á patria levae-nos!
+
+
+ Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.
+
+
+ Á patria levae-nos!...
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Guerreiros novéis
+ As armas vestí,
+ E os muros de Ceuta
+ De lanças cubrí­.
+ Bandeira da serpe,
+ Bandeira d'elrei,
+ No alcacer, nas torres
+ Guardae, ou morrei!
+
+
+CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.
+
+
+ Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.
+
+
+ Contentes saudamos
+ Os dias de guerra:
+ Ser dignos da terra
+ Da infancia juramos.
+ O braço não treme!...
+ O peito não teme!...
+
+
+ Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:
+
+
+ O peito não teme!...
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Restam bem poucas horas:
+ Salvos estaes infantes!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Sabe um amor immenso
+ Horas fazer de instantes.
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Que!? Ousarieis 'inda?...
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Nós ousaremos tudo!
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Não! Filial piedade
+ Vos servirá d'escudo!
+
+
+ Com gesto supplicante.
+
+
+ Pela memoria sancta
+ De nossa mãe querida,
+ Que na feral jazida
+ Tal crime assombrará,
+ Afugentae qual sonho
+ Esse insensato amor,
+ Que o odio, que o furor
+ Do céu accenderá!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Mas deste amor profundo
+ Quem nos libertará?
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Vêde quem sois, e o mundo
+ Como vos julgará!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Duas formosas almas
+ Por nós a fé ganhou.
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Antes por vós o sangue
+ De Aviz se deshonrou.
+
+
+UM PAGEM.
+
+
+ Entrando apressado.
+
+
+Principe, elrei vos chama.
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Ide; eu vos sigo.
+
+
+ Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe,
+ D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.
+
+
+Oh meu Pedro, oh meu Henrique,
+Louco intento abandonaes?!
+Não passar de Ceuta as portas
+Hoje, aqui, vós me juraes?!
+
+
+ Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro
+
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+Senhor, do sceptro herdeiro,
+Vossos irmãos mandaes...
+De Ceuta as ferreas portas
+Não cruzaremos mais!
+
+
+D. DUARTE.
+
+Basta-me tal promessa!
+Só mentem desleaes.
+
+
+
+
+SCENA II.
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+
+ Olhando para o principe que sáe, e sorrindo.
+
+
+A promessa ha-de cumprir-se!
+Nobre infante, vae seguro!
+
+
+D. PEDRO.
+
+
+ Com hesitação.
+
+
+Mas de Ceuta o erguido muro
+Como além, hoje, transpôr?...
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+
+ Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.
+
+
+Vedes vós, lá em baixo, esse vulto
+Amplo e negro da torre de Fez,
+Que inda ha pouco o mais forte pavez
+Do vencido muslim se ostentou?
+
+
+D. PEDRO.
+
+Vejo; e lembram-me as portas robustas
+Que a acha d'armas a custo desfez;
+E que nesse momento se fez
+Um silencio que instantes durou...
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+E parámos; e ouvimos ao longe
+Tinir d'armas, correr de corceis,
+E o confuso bradar d'infiéis,
+Restrugindo os seus gritos de dor...
+
+
+D. PEDRO.
+
+Subterraneo caminho os salvava
+Das espadas dos nossos fiéis,
+Quando inuteis alfanges, broqueis
+Lhes tornára profundo terror...
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+O que ao mouro no trance tremendo
+De destino cruento remiu,
+Esta noite, a quem nunca mentiu
+De mentir uma vez salvará.
+
+
+D. PEDRO.
+
+
+ Com grande jubilo.
+
+
+Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!
+Outras portas o amor nos abriu;
+Nossa estrella dos céus nos sorriu;
+O caminho, o caminho é por lá!
+
+
+D. HENRIQUE E D. PEDRO.
+
+ Noite placida e formosa,
+ Noite grata a um vivo affecto,
+ Para nós no torvo aspecto
+ Te deslisa almo prazer!
+
+ Bella noite silenciosa,
+ Sê propicia ao nosso intento;
+ Com teu véu cobre o momento
+ Do partir e do volver!
+
+
+
+
+SCENA III.
+
+
+ Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de
+ Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto.
+ No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro
+ de donzellas arabes cantando ao som de harpas.
+
+
+CÔRO.
+
+ Dorme, dorme desgraçada!
+ Dorme, filha do wali!
+ Possa o somno sobre ti
+ O consolo derramar.
+
+ Quando dormes é teu gesto
+ Brando e meigo qual de huri;
+ Mas vingança nelle ri
+ Ferozmente ao despertar.
+
+
+GULNAR.
+
+
+ Erguendo-se lentamente.
+
+
+Oh, como é doce o som de vossas harpas,
+Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes
+Um pouco minha dor. Senti correrem
+Destes olhos as lagrymas... Ai! breve,
+Repentino terror veio enxuga-las.
+Meu pae... Que diz Levi?
+
+
+CÔRO.
+
+ Oh Deus!
+
+
+GULNAR.
+
+ Entendo:
+Não tenho que esperar?..
+
+
+CÔRO.
+
+ Delira. Golfa o sangue
+ Da profunda ferida,
+ Por onde foge a vida
+ Do inerte corpo exangue.
+
+
+GULNAR.
+
+
+ Com gesto ameaçador, e erguendo-se.
+
+
+ Oh, basta! Inulto,
+Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho
+Não dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura!
+Lobna e Haleva onde estão?
+
+
+
+
+SCENA IV.
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+
+ Entrando apressadamente assustadas.
+
+
+LOBNA.
+
+ Eis-nos, princesa!
+Os espias voltaram: tumultuando
+Na marinha de Ceuta homens, ginetes,
+Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,
+Proas á terra: o esquife após o esquife
+Entre a praia e as galés cruzando as ondas;
+Tudo do amir christão mostra a partida.
+
+
+GULNAR.
+
+O tigre português volta ao seu antro!
+Mas Ceuta...
+
+
+ Com amargura.
+
+
+ Profanada e serva és Ceuta!
+O que te amou qual pae jaz moribundo
+No seu leito de dor. Foi por salvar-te
+Pérola rica do Moghreb. Inutil
+O sangue se verteu! Oh, sem vingança
+Não ficaremos nós: nós ambas orphans,
+Eu desterrada e tu escrava. O nobre
+Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora
+Não veja mais a luz. Mas trema o fero
+Amir de Portugal! Gulnar, a filha
+Do vencido wali, ha-de vinga-lo.
+Lobna e Haleva esta noite...
+
+
+HALEVA.
+
+
+ Hesitando.
+
+
+ E quem vos disse
+Que elles hão-de voltar?..
+
+
+GULNAR.
+
+ O juramento:
+O juramento seu!.. Já não sois servas,
+Bellas filhas do Caucaso; sois socias
+Da implacavel Gulnar. A vós a gloria
+De tornar mais cruel su' hora extrema.
+Quanto ardente paixão tem de ternura
+Quantas fascinações ha no amor virgem:
+Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,
+O pranto, o resistir tem de deli­rio;
+Tudo, tudo empregae! Raio de morte,
+Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.
+
+
+ Erguendo as mãos.
+
+
+ Escuta, emfim, meu pranto,
+ Dos impios vencedor:
+ Manda, propheta sancto,
+ O anjo exterminador.
+
+ Chore a roubada prole
+ O português amir:
+ Que o sangue me console
+ Antes de o sol surgir.
+
+ Cercae-os vós de goso:
+ Sintam que é bom viver:
+ Será mais horroroso
+ Meu brado:--Ide morrer!»
+
+ Vem, oh terrivel hora,
+ Hora do meu folgar,
+ Hora em que vingadora
+ Triumphará Gulnar.
+
+
+ Dirigindo-se ao côro.
+
+
+ Ide; patente
+Do alcacer seja o ádito: silencio
+Profundo reine em toda a parte: os gritos
+Dos moribundos só... hão-de quebra-lo!
+Vingança a Bensalá.
+
+
+CÔRO.
+
+ Vingança á patria!
+
+
+GULNAR.
+
+
+ A Haleva e Lobna com gesto terrivel.
+
+
+Em breve me vereis!...
+
+
+
+
+SCENA V.
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+
+ Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois
+ correm a lançar-se nos braços uma da outra.
+
+
+HALEVA.
+
+ Ai, como foi mesquinha
+ A nossa escura sorte!
+ Porque a terrivel morte
+ Os tristes conduzir?
+
+
+LOBNA.
+
+ Oh, se Gulnar os víra,
+ De sangue inda banhados,
+ Vencidos, humilhados,
+ A nossos pés cahir!
+
+
+HALEVA.
+
+ Que lhes valêra? Sangue,
+ Sangue só quer a hyena:
+ A cólera a aliena:
+ Não póde perdoar!
+
+
+LOBNA.
+
+ Haleva, minha Haleva,
+ De susto eu titubeio:
+ Tu imagina o meio
+ De as victimas salvar.
+
+
+HALEVA.
+
+ Miseras! Só nos resta,
+ Em festa sanguinosa,
+ Sob a traidora rosa
+ O aspide esconder.
+
+
+LOBNA.
+
+ Que importa a pobre escrava
+ De susto e de amor trema?
+ Embora chore e gema,
+ Cumpre-lhe obedecer.
+
+
+HALEVA E LOBNA.
+
+ Sólta o suave canto
+ Captivo rouxinol,
+ Quando o nascente sol
+ Derrama seu fulgor;
+
+ E as aves vem, correndo,
+ Pousar no umbroso til,
+ Onde com arte vil
+ As prende o caçador.
+
+ O canto da avesinha
+ Foi nosso amor fatal!
+ E elles... destino igual
+ Lhes reservou o amor!
+
+
+
+
+SCENA VI.
+
+
+ Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se
+ alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha
+ das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da
+ torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena,
+ onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano
+ inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte
+ inscripção:==_Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy
+ eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415
+ annos._==É noite.
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.
+
+
+ Viste-los vós?...
+
+
+SOBREROLDA.
+
+ Jura-lo
+ Posso. Dous cavalleiros:
+ Negras armas: cavallo
+ Negro ambos. Ligeiros
+ Voam... Ouví!...
+
+
+ D. Duarte chega ás ameias escutando.
+
+
+ Ao largo
+ Ainda soa o tropel.
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Áparte com afflição e despeito.
+
+
+ Oh pensamento amargo!
+ Oh receiar cruel!
+
+
+ Ao sobrerolda.
+
+
+ E os homens d'armas?
+
+
+SOBREROLDA.
+
+ Velam:
+ Não falta um só.
+
+
+ Escutando para a campanha.
+
+
+ Dir-se-hia,
+ Ao seu correr, que anhelam
+ Voltar antes do dia.
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Não mais...
+
+
+ Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.
+
+
+ Para a barreira
+Cem lanças o adail
+Conduza: da dianteira
+Todos; que valem mil!
+E eu lá serei em breve:
+E elles hão-de seguir-me.
+Sabe-lo elrei não deve.
+Ai do que ousar trahir-me!
+
+
+ O sobrerolda sai.
+
+
+Sob o seu gesto candido
+O engano se escondia!
+Era uma idéa perfida
+Que na alma lhes surgia,
+Quando de Ceuta as portas
+Juravam não transpôr!
+Creram que a noite lobrega
+Seu crime esconderia!
+Perante o céu, oh miseros,
+Que importa a noite, o dia,
+Se de ira se ha turbado
+A face do Senhor?
+
+
+ Pausa: com terror.
+
+
+ Mas se a suprema cólera
+ Terrivel já descesse!...
+ Se, em vez do goso vívido,
+ A morte os acolhesse!...
+
+
+ Erguendo as mãos.
+
+
+ Meu Deus perdoa aos tristes;
+ Cede á fraterna dor!
+
+ Oh minha mãe, da placida
+ Morada da ventura,
+ Guia-me os passos tremulos
+ Por esta noite escura,
+ Para salvar teus filhos,
+ Filhos de tanto amor!
+
+
+
+
+SCENA VII.
+
+
+ A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas
+ arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna
+ e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam
+ os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da
+ esquerda.
+
+
+LOBNA.
+
+No seu rapido gyro foge a noite
+Ligeira e socegada:
+Fulgor da madrugada
+Em poucas horas subirá d'oriente.
+Não poderam voltar!... Respiro...
+
+
+HALEVA.
+
+
+ Aproximando-se da gelosia.
+
+
+ Escuta!
+Ouviste um silvo agudo?
+É o signal!...
+
+
+LOBNA.
+
+ Eu tremo...
+Porém não... Quedo é tudo;
+Salvo um ruído sussurrando ao perto,
+De almogavar talvez...
+
+
+HALEVA.
+
+ De dous ginetes
+O tropeiar parece... Elles!... São elles!
+Sobre trajos de ferro espadas tinem!
+Não ha que duvidar...
+
+
+LOBNA.
+
+ Oh! desfalleço!
+
+
+ Ouve-se um sibillo já perto.
+
+
+HALEVA.
+
+Ei-lo o triste signal, signal de morte!
+Á sua esquiva sorte
+Não poderão fugir! Meu Deus!
+
+
+LOBNA.
+
+ Patente
+Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos
+Suspeitassem de nós!
+
+
+HALEVA.
+
+ Ei-los! Silencio!
+
+
+
+
+SCENA VIII.
+
+
+ D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que
+ recuam aterradas.
+
+
+D. PEDRO.
+
+ Lobna!
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+ Haleva!
+
+
+D. PEDRO.
+
+ O juramento
+ O momento é de cumprir!
+ De partir não tarda a hora:
+ Ha-de a aurora
+ Refulgir-nos juncto ao mar.
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+ Sobre os rapidos corceis
+ Nós fieis vos guiaremos
+ Aonde achemos mil delicias
+ Nas caricias
+ De que amor nos vai cercar!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Vinde! a noite nos protege:
+ Dorme tudo pela aldeia;
+ E este braço não receia,
+ Quando cumpre, o pelejar.
+
+ Vinde ser enlevo d'almas,
+ Sob um céu meigo e sereno;
+ Que nunca ha-de o sarraceno
+ Como nós saber amar!
+
+
+LOBNA.
+
+
+ Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.
+
+
+ Fugí breve, oh desgraçados,
+ Que cercados sois da morte!
+ Queira a sorte que um momento
+ Seu intento
+ A cumprir tarde Gulnar!
+
+
+HALEVA.
+
+ De ninguem serdes sentidos,
+ Já perdidos, ainda creis!
+ Mal sabeis vos esperava
+ Quem velava
+ Para em vós um pae vingar!
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+ Triste umbral haveis cruzado,
+ Do wali ultimo abrigo,
+ Que no extremo do perigo
+ Jaz a ponto d'expirar.
+
+ Por seu sangue a feroz filha,
+ Que essas portas franqueiou,
+ Vingativa aos céus jurou
+ Vosso sangue derramar.
+
+
+D. PEDRO.
+
+ A perfidía em recompensa
+ Só achou o nosso ardor?!
+ Desleaes! Porque o furor
+ De mulher cruel servir?
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+ Porque a vida nos pedieis,
+ No olhar terno amor pedindo,
+ Quando os golpes retinindo
+ Era livre inda o fugir?
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Porque em noite deliciosa
+ De deli­rios seductores,
+ Generosos vencedores
+ Só pensaveis em trahir?!
+
+
+LOBNA.
+
+ Uma idéa tenebrosa
+ De Gulnar surgiu na mente
+ Nessa noite, em que estridente
+ Veiu a espada aqui luzir:
+
+
+HALEVA.
+
+ «Ide:--disse-nos--sois bellas:
+ Fascinae os nazarenos,
+ Talvez possa assim, ao menos,
+ Da vingança a senda abrir!»
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+ A leôa do deserto
+ Entre as cervas se escondia:
+ Seu aceno constrangia
+ Pobre escrava a amor fingir.
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+
+ Com vivacidade e despeito.
+
+
+ Era pois um falso affecto?!...
+
+
+LOBNA.
+
+ Foi-o só um breve instante...
+
+
+HALEVA.
+
+ Hoje puro, hoje constante
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+ Far-nos-ha por vós morrer.
+
+
+D. PEDRO.
+
+
+ Pondo a mão sobre o punho da espada.
+
+
+ Que ella venha, pois, e a cerquem
+ Seus escravos traiçoeiros!
+ Portugueses, cavalleiros
+ Somos nós: ha-de tremer!
+
+
+D. HENRIQUE.
+
+ Sabe o forte nos combates
+ Se este braço é prompto e duro;
+ O covarde, que no escuro
+ Fere só, o ha-de saber!
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+
+ { Oh, fugi; que ainda é tempo,
+ { Antes de ella aqui volver!
+ {
+ 4 { D. PEDRO E D. HENRIQUE
+ {
+ { Partiremos! Dentro em breve
+ { Nos vereis aqui volver!
+
+
+ O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela
+ gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que
+ vão a sair, param e escutam.
+
+
+CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, _fóra_.
+
+Gloria ao sancto propheta que aos impios
+A cerviz insolente vergou,
+E do amir português crueis filhos
+Do muslim ao punhal entregou!
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+ Bateu funerea hora...
+ Morreu nossa esperança!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Resta-nos a vingança...
+ Sangue por sangue... Embora!
+
+
+
+
+SCENA IX.
+
+
+ Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão
+ collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita,
+ encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.
+
+
+GULNAR.
+
+
+ A Lobna e Haleva.
+
+
+ Fugir?!... É tarde, infames!
+ Vós me trahieis, vís!
+ Tremei! Gulnar velava...
+ E eu sou vosso juiz!
+
+
+ Aos infantes.
+
+
+ Deponde inuteis ferros,
+ De Ceuta vencedores!
+ Lá fóra meus guerreiros...
+
+
+ Apontando para os eunuchos.
+
+
+ Alli meus vingadores.
+
+
+LOBNA. HALEVA.
+
+ -------------^-------------
+
+«Ide trahi-los-- Para trahi-los
+I­mpia,disseste... Nos escolheste!..
+Mui facil creste Se nos venceste
+Fingir amor. Foi por temor.
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+ Morrer com elles
+ É grata pena...
+ Feroz hyena,
+ Temos-te horror.
+
+
+D. PEDRO. D. HENRIQUE.
+
+ -------------^-------------
+
+Aos teus escravos, Os teus escravos
+Mulher infida, Com mortal lida
+Mais larga vida A nossa vida
+Deixa gosar! Tem de comprar!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Que nunca o susto
+ Nos fez no p'rigo
+ O ferro amigo
+ Abandonar.
+
+
+ Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.
+
+
+GULNAR.
+
+ Da louca audacia,
+ Da van affronta
+ Vingança prompta
+ Gulnar vai ter.
+
+
+ O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.
+
+
+ Mas qual ruí­do
+ Confuso soa?
+ Porque reboa
+ Voz do adail?!...
+
+
+ Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.
+
+
+ Hussein!.. O ferro
+ Retine!.. Gritos!
+ Gemer d'afflictos!
+ Sons de anafil!..
+
+
+ Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar
+ fica suspensa.
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Que escuto?! Lá bradaram:
+ --São Jorge! Ávante, ávante!»
+ Oh jubiloso instante!
+ Restruge o pelejar.
+
+
+GULNAR.
+
+
+ Acenando aos eunuchos.
+
+
+ Morram os i­mpios! Morram!
+ Servos, rasgae seu peito.
+ Sintam, emfi­m, o effeito
+ Dos odios de Gulnar.
+
+
+ Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos
+ apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das
+ donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de
+ assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros
+ fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem
+ por entre os eunuchos e os dous infantes.
+
+
+
+
+
+SCENA X E ULTIMA.
+
+
+ Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros:
+ côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena,
+ e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar,
+ recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva
+ refugiam-se juncto dos infantes.
+
+
+CÔRO DE DONZELLAS.
+
+ Que horri­vel espectaculo!
+ Por toda a parte a morte...
+
+
+CÔRO DE GUER. MOUROS. CÔRO DE CAVALLEIROS.
+
+ ---------------^---------------
+
+Ferros inuteis, ide-vos: Cede o agareno timido:
+Cumpra-se a nossa sorte! Honra ao valor do forte!
+
+
+Depondo os alfanges no chão. Brandindo as armas.
+
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e
+ correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.
+
+
+ Vivos ainda, e incólumes!
+ Graças te dou, Senhor!
+ Laços de um impio amor
+ Vinha-lhes eu partir...
+ E a morte ia-os ferir!..
+ Graças, oh meu Senhor!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+
+ Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.
+
+
+ Foste enganado, e salvas-nos!..
+ Perdoa, nobre infante!
+ Foi de delirio instante,
+ Que ao erro nos levou.
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+ Agita ancioso o seio
+ Insolito pulsar;
+ Mas d'horrido receio
+ Não é este agitar!
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Abraçando successivamente os irmãos.
+
+
+Pedro, Henrique, sois salvos! Invenci­vel
+A espada portuguesa,
+Mais uma vez, terrivel,
+A barbara fereza
+Dos infiéis domou.
+O perfido punhal,
+Da vingança guiado, em vão se alçou...
+
+
+GULNAR.
+
+
+ Adiantando-se.
+
+
+Vencestes, nazarenos!
+Folgae na vossa gloria...
+Seguí facil victoria.
+Puní­-me! Eis-me captiva...
+Do vosso amir na prole
+Vingar meu pae eu quiz...
+Pensando-o era feliz:
+Agora infeliz sou.
+Morrer é a esperança,
+Que o fado me deixou.
+
+
+CÔRO DE CAVALLEIROS.
+
+
+ Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.
+
+
+Pune, oh principe, infames traidores:
+Lava a affronta do sangue real!
+Dos covardes, em trance fatal,
+Tinja as faces da morte o pallor!
+
+
+CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.
+
+
+ Com gesto supplicante.
+
+
+Por piedade, dos teus seguidores
+Não escutes o voto lethal!
+Generoso, o seu odio infernal,
+Por piedade, não ouças, senhor!
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Aos cavalleiros.
+
+
+Silencio!
+
+
+ Aos mouros.
+
+
+ Livres sois.
+
+
+ Aos cavalleiros.
+
+
+ Nunca aos vencidos
+Sangue pediu meu pae. Eu serei digno
+Filho do vosso rei.
+
+
+ A Gulnar.
+
+
+ Mulher, és livre.
+
+
+GULNAR.
+
+ Tua clemencia hypocrita,
+ Tyranno, vem mui tarde!
+ Pensas apagar, barbaro,
+ Fogo que immortal arde?!
+
+ Dá-me Ceuta, a miserrima:
+ Torna-me um pae que expira:
+ Foge das praias d'Africa
+ Serva, que mal respira!
+
+ Foras assim magnanimo:
+ Grata Gulnar te fora:
+ Sem isso, um favor unico,
+ Prompto morrer te implora!
+
+
+CÔRO DE MOUROS E DONZELLAS. CÔRO DE CAVALLEIROS.
+
+ ---------------^---------------
+
+Turba-te a dor e a cólera, Da perfida a van cólera
+Filha de Bensalá: Inutil brame já:
+A tua raiva indomita Do seu cruel proposito
+É van e inutil já! Ella nos vingará.
+
+
+ Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz
+ baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte
+ mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.
+
+
+D. DUARTE.
+
+
+ Tomando pela mão as duas escravas.
+
+
+ Não!... Innocentes victimas
+ D'impios não deveis ser!
+ O vosso amor ingenuo
+ Cumpre-vos esquecer;
+ Mas a vingança barbara
+ Não vos entregarei.
+ A Portugal seguindo-nos
+
+
+ Olhando para os infantes com aspecto severo.
+
+
+ Eu vos protegerei!
+
+
+LOBNA E HALEVA.
+
+ Só ir nos concede
+ O fado inhumano
+ Além do oceano
+ De amor expirar!
+
+
+D. PEDRO E D. HENRIQUE.
+
+ Nest'hora solemne
+ Do peito no arcano
+ Nosso amor insano
+ Juramos calar.
+
+
+D. DUARTE.
+
+ Da nossa clemencia
+ Aprenda o africano
+ A ser nobre e humano,
+ E o que é perdoar.
+
+
+GULNAR.
+
+ Do meu odio immenso
+ Cruel desengano!..
+ Feroz lusitano
+ Se ri de Gulnar!
+
+
+CÔRO DE CAVALLEIROS.
+
+ Risquemos da mente
+ O perfido engano;
+ Que o principe humano
+ É bello imitar.
+
+
+CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.
+
+ A nobre clemencia
+ Do heroe lusitano
+ Áquem do oceano
+ Sempre ha-de lembrar.
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+
+LIVRO TERCEIRO
+
+VERSÕES.
+
+
+
+
+O SECCAR DAS FOLHAS.
+
+(_Millevoye_).
+
+
+Das ruinas destes bosques
+O outomno alastrou o chão:
+A selva perdeu seus mimos;
+Os rouxinoes mudos são.
+
+No bosque, amigo da infancia,
+Triste um joven vagueiava;
+Na sua aurora a doença
+Para o sepulchro o inclinava.
+
+«Adeus floresta querida!
+Vestes lucto por meu fim?
+Como te cai folha e folha
+A morte me segue assim.
+
+Intima voz, que revela
+Seu fado extremo aos mortaes,
+Me diz:--vês cahir as folhas?
+São essas só: não ha mais!
+
+Sobre esta pallida fronte
+O torvo cypreste ondeia,
+Como o que, pharol de mortos,
+Sobre campas se meneia.
+
+Antes da vide na encosta,
+Antes da relva no prado,
+Os dias da juventude
+Terão para mim murchado!
+
+Minha linda primavera
+Qual a van sombra passou!
+Eu morro: o euro gelado
+Da vida a seiva mirrou.
+
+Cáe, oh passageira folha;
+Vem esta senda cobrir;
+Esconde ao pranto materno
+Logar onde vou dormir.
+
+Mas se vier minha amante,
+Involta em véu luctuoso,
+Ao pôr do sol, na lameda,
+Dar-me um suspiro saudoso,
+
+Com o teu leve rugido
+Desperta, oh, desperta o morto;
+Que assim sua sombra tenha
+Ainda allivio e conforto!»
+
+Disse: afastou-se, e não volve:
+Ultima folha cahiu:
+Era o signal: seu sepulchro
+Sob o carvalho se abriu.
+
+Mas sua amante não veio:
+E só do valle o pastor
+Quebrou com som de passadas
+Repouso do trovador.
+
+
+
+
+A NOIVA DO SEPULCHRO.
+
+(_Imitado do inglez_).
+
+
+I.
+
+Juncto da raia d'Hespanha,
+ Em monte calvo e deserto,
+ Vê-se um vulto negro ao longe,
+ Castello é, vendo-se ao perto:
+Mas castello derribado,
+ De bons tempos, de outras eras,
+ Hoje abrigo escuro e triste
+ De reptis e bravas feras.
+Foram formosos e fortes
+ Esses muros derrocados,
+ Por onde trepam as heras;
+ Que cingem bastos silvados.
+A voz delrei nelle tinha
+ Nobre alcaide dom Sueiro;
+ Nobre por sua linhagem,
+ Nobre por bom cavalleiro.
+Noivados, torneios, festas,
+ Ninguem sem elle fazia:
+ Ninguem, sem o convidar,
+ Ajustava montaria;
+Que nunca da sua bésta
+ Viróte partiu em vão;
+ Como nunca os justadores
+ O viram perder o arção.
+Mulher, que elle muito amara,
+ Lh'a roubara a sepultura;
+ Mas por este golpe o alcaide
+ Não mostrou grande tristura.
+Até corria entre o povo
+ Um mysterio de maldade...
+ Suppunham uns ser mentira;
+ Criam outros ser verdade.
+Mas o que? Cubria a terra
+ Esse caso mysterioso;
+ E só o povo sabía
+ Ser viuvo o que era esposo.
+
+
+II.
+
+Cedo se ergue dom Sueiro;
+ Cavalga no seu cavallo,
+ E para caçada alegre
+ Passa áquem do extremo vallo.
+Por essas margens do Lima,
+ Debaixo de puro céu,
+ O nobre senhor alcaide
+ Á rédea solta correu.
+Veredas segue torcidas,
+ Até descubrir o outeiro,
+ Que revestem pela encosta
+ O zimbro, a urze e o pinheiro.
+Soam sonoras buzinas,
+ Ri do dia o lindo alvor,
+ E no meio da paizagem
+ Uma brilha e outra flor.
+Dom Sueiro o seu cavallo
+ Incita com ferrea espora;
+ Que no logar aprazado
+ Deve estar dentro de um' hora.
+Nada lhe põe embaraço;
+ Nem resonantes ribeiros,
+ Nem as chans apaúladas,
+ Nem escarpados outeiros.
+Mas ao sair da floresta,
+ Ainda perto do rio,
+ Viu ir formosa donzella
+ Buscando do ermo o desvio.
+Celestes são seus meneios:
+ Não mortal, anjo parece:
+ Da sua tez a brancura
+ Alva açucena escurece.
+O seu corcel dom Sueiro
+ Fez parar. Já se esquecera
+ Da caçada; e que no monte
+ Em breve estar promettera.
+--Dizei-me vós, oh donzella,
+ Quem sois, que nunca vos vi;
+ Que por minha alma vos juro
+ Sois já senhora de mi.»
+Resposta nenhuma teve,
+ Que ella não lhe respondia,
+ E, sempre guiando ao valle,
+ A curva senda seguia.
+--Não me fugireis assim:
+ Bofé que não fugireis!
+ Um momento, um só momento,
+ Dom Sueiro escutareis!»
+Disse: desmonta, e persegue-a,
+ Nos braços para a estreitar;
+ Mas ella furta-lhe o corpo,
+ E elle abraça o subtil ar.
+--Dizei-me vós, oh donzella,
+ Pela vossa alma dizei,
+ De que procede tal susto,
+ Que a meu pesar vos causei?
+Que, pelos céus o asseguro,
+ É verdadeiro este amor.
+ Não me fujaes, bella dama:
+ Não ha de que ter pavor.
+De esposo, se vós quereis,
+ Dar-vos-hei, contente, a mão:
+ Sereis dona de um castello,
+ Dona do meu coração.»
+--Dom Sueiro, oh dom Sueiro--
+ Tornou a dama formosa--
+ Eu sei quem és, qual teu nome,
+ E eu seria tua esposa:
+Mas como crer nos teus dictos,
+ Dictos de homem fraudulento?
+ Conheço tuas perfidias,
+ E qual é teu vil intento.
+Dês que morreu dona Dulce,
+ A tua infeliz mulher,
+ A linda Elvira roubaste
+ Para teu ludibrio ser.
+Com promessas refalsadas
+ Enganaste uma innocente.
+ Quem crerá juras de um ímpio,
+ Que só jura quando mente?
+Ella te creu, desditosa!
+ Porém não te creio eu:
+ Nem, qual de Elvira o destino,
+ Será o destino meu.
+E como soffrera, esposa
+ Tua sendo, uma rival?
+ Folgáras tu nos meus zelos;
+ Folgáras della no mal?
+Ousáras tu, dom Sueiro,
+ A pobre Elvira expulsar,
+ E dias de angustia e pejo,
+ Misera, vê-la tragar?--
+«Oh, voto a Christo, que sim!--
+ O nobre alcaide atalhou:
+ E desfazer-se de Elvira,
+ Com mil pragas, protestou.
+--Mas dizei vós, dama linda,
+ Quem sois? quem são vossos paes?
+ Que eu vos direi de mim tudo,
+ Se tudo me perguntaes.--
+«Nunca!--tornou a donzella:--
+ Quem eu sou não te direi.
+ Nada te devo por ora:
+ Quando dever pagarei.
+Mas pódes estar seguro,
+ Que, bem que nobre senhor.
+ Não é que o meu o teu sangue
+ Sangue de maior primor.--
+«Pois sim, querida, pois sim!--
+ Dom Sueiro proseguia;
+ E algum signal de ternura
+ Á bella dama pedia.
+«Não, oh não, meu cavalleiro!
+ Quando a mim te vir ligado
+ Tua serei; que antes disso
+ Fôra horroroso peccado.--
+«Porém dizei-me, oh donzella,
+ Onde vos hei-de encontrar?
+ Que, pela cruz, ahi juro
+ Nossas nupcias celebrar.--
+«Oh, que não será de dia;
+ Que mal de nós julgarão!--
+ Tornou a dama--e os praguentos
+ Certo de mim se rirão.
+É pela noite que eu voto;
+ De noite no cemiterio,
+ Quando soar doze vezes
+ O sino do presbyterio.
+Sob o teixo solitario,
+ Onde ninguem nos não veja;
+ E aonde nunca chegar-se
+ Quem passar ousado seja.--
+«Vivam meus lindos amores!--
+ Interrompeu dom Sueiro:--
+ Sob o teixo, á meia noite?...
+ Veremos quem vae primeiro.--
+«Sim!--volveu ella--a ess' hora.
+ Nenhuma fôra melhor;
+ Porém, da tua palavra
+ Que me darás em penhor?--
+«Minha paixão em seguro
+ Do que promettí te dou:
+ Nunca promessas mentidas
+ Fez quem devéras amou.
+Curvando o joelho, eu juro
+ Teus grilhões sempre rojar:
+ Meu corpo e alma são teus;
+ E o tempo o ha-de provar.--
+«Basta!--a donzella lhe disse.--
+ Dom Sueiro, sou contente.
+ São meus teu corpo e tu' alma:
+ Meus serão eternamente.--
+Dicto isto, ao longo do rio
+ Ligeira a senda seguiu,
+ E elle aos outros caçadores
+ Alegre se reuniu.
+
+
+III.
+
+Já da larga montaria
+ O folguedo se acabava,
+ E dom Sueiro ao castello,
+ Ao seu castello voltava.
+Arde-lhe na alma o desejo
+ Com as imagens do goso,
+ E róe-lhe idéa damnada
+ O coração criminoso.
+Infeliz e linda Elvira,
+ Nos dias da juventude,
+ Perdera nos braços delle
+ Flor de innocencia e virtude.
+Mas gosos faceis não duram;
+ Breve após o tedio chega:
+ Elvira é já enfadonha:
+ Novo amor o alcaide cega.
+Cumpre de si afasta-la:
+ O caso difficil é:
+ Ajunctará crime a crime?
+ Elle outro meio não vê.
+Emfim decidiu-se: a morte
+ Em aurea taça lhe deu.
+ Nobre senhor, folgar pódes,
+ Teu crime a terra escondeu!
+Era noite: e dom Sueiro
+ Para o adro ermo partia.
+ Logar, horas ou remorsos,
+ Nada terror lhe infundia.
+Brilha a lua em seu crescente:
+ Passa a noite silenciosa;
+ E só lhe quebra o socego
+ O mocho e a fonte ruidosa.
+Ao cabo o adro elle avista:
+ No meio o teixo lhe avulta:
+ Não deu meia noite ainda;
+ A dama ainda se occulta.
+Mas troa o sino! Uma!... Duas!...
+ Contou; contou: mais dez são:
+ E uma donzella, de branco,
+ Surge da lua ao clarão,
+E está debaixo do teixo.
+ Para lá o alcaide corre.
+ Não enganou seus desejos
+ Essa por quem elle morre.
+Porém que é isto? Recúa?
+ Para trás a face vira?
+ Sim; que não era a donzella,
+ Mas o phantasma de Elvira.
+«Maldicto!--clamou o espectro--
+ Pune a traição o traidor.
+ Negro o sepulchro te espera.
+ De teu mal és só o auctor.
+Pensa, monstro, emquanto é tempo;
+ Que não tardará teu fim.
+ Teu nome apagou-se. Agora,
+ Recorda-te bem de mim!--
+Não disse mais; e esvaeceu-se.
+ Dom Sueiro, espavorido,
+ Fugiu: sem volver os olhos,
+ Sem parar, sempre ha corrido.
+Brilha a lua em seu crescente:
+ Passa a noite silenciosa;
+ E só lhe quebra o socego
+ O mocho e a fonte ruidosa.
+Á porta do seu castello
+ Já dom Sueiro chegava.
+ Alli, vestida de branco,
+ Do bosque a donzella estava.
+«Mal-hajas tu, cavalleiro:--
+ Apenas o viu lhe disse:--
+ O ter de mulheres medo
+ É signalada pequice.
+Fui eu que fiz de phantasma:
+ Teu valor conhecer quiz.
+ Tremer como tu tremeste
+ É só proprio de homens vís.--
+As faces do nobre alcaide
+ De vermelho se tingiram;
+ Mas voltou logo a ternura;
+ Passados sustos fugiram.
+«Vinde a meus braços, querida!
+ Vinde: não vos detenhaes,
+ Digna de ser minha esposa
+ Só vós sois, e ninguem mais.
+Neste sitio, hoje vos juro
+ Amor firme e puro e ardente:
+ Em corpo e alma sou vosso;
+ Sê-lo-hei eternamente.»--
+«Em corpo e alma!?--ella clama,
+ Com uma voz sepulchral.--
+ Certo será graciosa
+ Nossa união conjugal!»
+Então, qual bravo terçol,
+ Que em sua presa poz mira,
+ Ao mesquinho dom Sueiro,
+ Abrindo os braços, se atira.
+«Arredo! Filha do inferno!--
+ Grita o alcaide.--Isto o que é?»
+ Ai!... olhou... É dona Dulce,
+ Não a donzella, quem vê.
+Com os braços descarnados
+ Ella o collo lhe estreitou,
+ E os labios apodrecidos
+ Aos labios delle chegou.
+Mortal halito de serpe
+ Seu halito assemelhava:
+ Sua figura era horrivel:
+ Tocada apenas gelava.
+«Deixa-te agora de medos:--
+ Disse o espectro a dom Sueiro.--
+ Que é da audacia que mostravas,
+ Audacia de cavalleiro?
+Tremes?... De quê, assassino?
+ Antes devêras tremer,
+ Quando envenenaste Elvira,
+ E a tua pobre mulher.
+Meu amor e meus encantos
+ Pouco tempo te prenderam:
+ Em mim do sepulchro os vermes
+ Por tua mão se pasceram.
+Depois, a amar-me tornando,
+ Repetiste um crime horrivel...
+ Teu amor é frouxo sempre;
+ Teu odio sempre terrivel!
+Mas agora, odiada ou grata,
+ Não sairei de teu lado:
+ Nada quebra no outro mundo
+ Dos mortos negro noivado.
+Alma e corpo me cedeste:
+ O corpo aqui dormirá:
+ Porém tua alma comigo
+ Mais longe se acolherá!»
+Não lhe respondeu o alcaide,
+ Que a morte empallidecera,
+ E, ao som de arranco profundo,
+ No chão, extincto, batera.
+Mas contam 'inda os pastores,
+ Que á meia-noite vagueia
+ Nas margens do ameno Lima,
+ Que murmurando serpeia;
+E que, gritando e gemendo,
+ O seguem duas figuras,
+ Ambas com brancos vestidos
+ E tisnadas cataduras.
+
+
+
+
+O CANTO DO COSSACO.
+
+(_Béranger_).
+
+
+Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo!
+Chama-te em altos sons tuba do norte.
+Prestes no saque, intrepido nas brigas,
+Dá, guiado por mim, asas á morte.
+
+Os teus jaezes não arreia o ouro;
+Mas de meus feitos o terás em paga.
+Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
+E os reis e os povos com teus pés esmaga.
+
+Tuas rédeas me entrega a paz que foge.
+Ei-los por terra os europeus baluartes!
+Meus aureos sonhos realisa agora;
+Terás repouso na mansão das artes.
+
+Volve a terceira vez ao Sena inquieto,
+Que te lavou sangrento, e a sede apaga.
+Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
+E os reis e os povos com teus pés esmaga.
+
+Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram,
+Entre o choro de mi­seros humanos:
+--Cossacos, vinde ser de nós senhores!
+Servos seremos, por ficar tyrannos.»
+
+E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes;
+Que eu hei tomado minha lança e adaga.
+Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
+E os reis e os povos com teus pés esmaga.
+
+De um enorme gigante vi o espectro
+Nosso campo correr co' a vista ardente;
+E, gritando:--meu reino outra vez surge!»--
+Mostrar com a acha d'armas o occidente.
+
+A sombra era immortal do rei dos Hunos;
+D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga.
+Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
+E os reis e os povos com teus pés esmaga.
+
+De que serve seu brilho á velha Europa?
+Que lhe presta o saber para salvar-se?
+Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la,
+Debaixo de teus pés vão levantar-se.
+
+Templos, palacios, leis, memorias, usos,
+Na correria extrema, e pisa e estraga.
+Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
+E os reis e os povos com teus pés esmaga.
+
+
+
+
+O CAÇADOR FEROZ.
+
+(_Burger_).
+
+
+Sua buzina tocára
+ O conde, altivo senhor:
+ «De pé, de cavallo, álerta!--
+ Disse; e monta o corredor.
+O nobre animal relincha:
+ Pula e parte; e a turba após.
+ Ei-los vão! Quem era o conde?
+ Era o _caçador feroz_.
+Por estevaes e por sarças,
+ Por campinas cultivadas,
+ Voam rapidos. Resoam
+ Motejos, gritos, risadas.
+O sol que vinha rompendo
+ Em luz as veigas banhava,
+ E do zimborio do templo
+ O lanternim scintillava.
+«_Tlim, tlão!_--convocando á missa,
+ Tangia o sagrado sino;
+ E involto nos sons de um orgam,
+ Do côro se ouvia o hymno.
+Duas sendas lá se cruzam;
+ E a turba chegára lá.
+ Da direita um cavalleiro,
+ E outro da esquerda está.
+Nedio ginete, qual neve
+ Alvo, guiava o primeiro;
+ O segundo, á rédea solta,
+ Esporeava um fouveiro.
+Quem taes cavalleiros eram
+ Creio certo adivinha-lo,
+ Bem que ainda com certeza
+ Não me atreva a declara-lo.
+Da direita ao cavalleiro
+ Fulgia o rosto formoso;
+ Porém no olhar do da esquerda
+ Fulgor havia horroroso.
+«Bem vindos sois, cavalleiros;
+ Bem vindos á montaria!
+ Qual prazer, no céu, na terra,
+ Ao nosso se igualaria!--
+Assim disse o conde, e rija
+ Palmada na côxa deu.
+ Atirando pelos ares
+ A grande altura o chapeu.
+«O som da tua buzina--
+ Tornou logo o da direita--
+ Nem aos canticos do côro
+ Nem do sino ao som se ageita.
+Ruim caçada te espera!
+ Atrás te cumpre voltar.
+ Contra ti a ira celeste
+ Não queiras desafiar.»
+«Nobre conde monteae--
+ Prestes o outro atalhou--
+ Que importa a bulha do côro,
+ E se o sino badalou?
+Deixae ao povo o seu medo:
+ Que para a relé foi feito.
+ Não são palavras sandías
+ Das que merecem respeito.--
+«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,
+ Um heroe és quanto a mim.
+ Só padre-nossos empecem
+ A algum caçador ruim!
+Que tem missas, que tem resas
+ Com o montear, sandeu?
+ Se medo queres metter-me,
+ Falhou o calculo teu.--
+Disse o conde. Ávante correm:
+ Vão por campinas e outeiros.
+ Sempre da direita e esquerda
+ Estão os dous cavalleiros.
+Eis, lá em distancia, um cervo
+ Branco transpõe a assomada,
+ Tendo de pontas galhosas
+ A erguida fronte adornada.
+Então o conde a buzina
+ Com mais alento assoprou,
+ E tudo, a pé, a cavallo,
+ Com mais rapidez voou.
+Ora dos que por diante,
+ Ora dos que de trás vão,
+ Um ou outro rebentado
+ Fica no meio do chão.
+E o conde:--Cahem? No inferno
+ Baqueiar podesseis vós!
+ Os que desalentam fiquem:
+ Sem elles bem vamos nós.--
+N'uma seara guarida,
+ Fugindo, o cervo buscou:
+ O pobre dono do campo,
+ Triste, ao conde se chegou:
+«Meu bom senhor--clamou elle--
+ Compaixão, meu bom senhor!
+ Ah, poupae mesquinhos fructos
+ De um abundante suor.--
+Da direita o cavalleiro
+ O conde amoestou então:
+ Cortezes eram seus dictos,
+ Cortezes e de razão:
+Mas, atiçando-o o da esquerda
+ Á maldade perpetrar,
+ Desprezou o da direita
+ Para o maldicto o enredar.
+«Fóra cão!--ao camponez
+ Grita o conde esbravejando--
+ Quando não, com mil diabos,
+ Soltar-te a matilha mando.
+Álerta, socios! O açoute
+ Pelas orelhas chegae-lhe;
+ E que sou fiel ás juras
+ Dessa maneira provae-lhe.»
+Dicto e feito. O conde salta
+ Por cima os vallos fronteiros;
+ E atrás delle, estrepitando,
+ Homens, cavallos, balseiros.
+O tropel, com grita horrenda,
+ Pisa e destroe a seara;
+ Que ninguem do lavrador
+ Dorido choro escutára.
+Pelo estridor acossado,
+ Que já bem perto sentia,
+ O cervo os crueis intentos,
+ Veloz fugindo, illudia.
+Através de montes, valles,
+ Perseguido e não tomado,
+ Manhoso se foi metter
+ Entre um rebanho de gado.
+Entrando do campo ao bosque,
+ Saindo do bosque ao claro,
+ Seguiram-no os cães, e em breve
+ Lhe acharam da pista o faro.
+Cheio de angustia o pastor,
+ Por seu rebanho temendo,
+ Por terra se arremessou
+ Aos pés do conde, tremendo.
+--Deixae meu pobre rebanho;
+ Senhor, tende dó de mi:
+ De muitas tristes viuvas
+ O gado retouça aqui.
+Cada qual das pobrezinhas
+ Tem das rezes uma só:
+ Eis toda a sua riqueza:
+ Senhor, tende dellas dó.»
+Da direita o cavalleiro
+ O conde amoestou então:
+ Cortezes eram seus dictos,
+ Cortezes e de razão:
+Mas a maldade do conde
+ Sempre atiçava o da esquerda,
+ E elle, o bom ludibriando,
+ Corria á ultima perda.
+«Cão! A mim oppôr-te queres?
+ As contas vou-te eu fazer.
+ Quem me déra entre essas vaccas
+ Comtigo as taes velhas ver;
+Que seria o mais suave
+ Prazer do coração meu
+ Montear-vos, mais que fosse
+ Pelas campinas do céu.
+Álerta, socios, ávante!
+ Cães, avança! csê! perdido!--
+ E os cães no que acham mais perto
+ Saltam com fero latido.
+O pegureiro por terra
+ Cái em seu sangue banhado,
+ E sanguento o gado fica
+ Todo alli atassalhado.
+Á morte escapou a custo
+ O veado, que fugia
+ Cada vez menos ligeiro,
+ N'uma floresta sombria.
+Cuberto de escuma e sangue,
+ Perdida a respiração,
+ Do bosque em meio salvou-se
+ No alvergue de um ermitão.
+Segue-o o tropel incançavel:
+ Estala o açoute incessante:
+ Soam buzinas; retinem
+ Os gritos de--abóca! ávante!»
+O solitario piedoso
+ Da cabana então saíu,
+ E ao conde, com brando gesto,
+ Taes palavras dirigiu:
+--Senhor, deixa teus intentos,
+ E o sacro asylo venera:
+ A creatura ao céu se queixa;
+ Delle teu castigo espera.
+Aos bons avisos, oh conde,
+ Cede pela ultima vez;
+ Quando não, na perdição,
+ Certo, abysmado te vês.»
+Cuidadoso o da direita
+ Ao conde correu então:
+ Cortezes eram seus dictos,
+ Cortezes e de razão.
+Mas o da esquerda atiçando
+ Nelle o animo damnado,
+ Do bom apesar do aviso,
+ Ai, do mau foi enganado!
+«Perdição?! Disso me rio,
+ Não cuideis que eu tenha susto.
+ No terceiro céu que fôra
+ Me escapára o cervo a custo.
+Que me importa a ira divina?
+ Vae-te prégar ao deserto.
+ Teus sermões a montaria
+ Não farão falhar, por certo.--
+Assim disse o conde. O açoute
+ Sacode; as buzinas soam.
+ «Csê! abóca!..--Ui! de diante
+ Homens e cabana voam.
+De trás corceis, homens fogem:
+ Sons e gritos de caçada
+ Se esvaecem de repente
+ Da morte na paz gelada.
+Pávido o conde olha em roda:
+ Tóca a buzina... não soa:
+ Grita... em vão: nada ouve: o açoute
+ Vibra: mas no ar não toa.
+Para um e para outro lado
+ O seu cavallo esporeia...
+ Nem para trás voltar póde,
+ Nem àvante se meneia.
+Então escurece emtorno:
+ Cada vez mais de ennegrece:
+ Qual sepulchro fica: ao longe
+ Bramir triste o mar parece.
+Lá troa voz de trovão!
+ Que era o que dizia a voz?
+ Era a sentença do conde,
+ Sentença medonha e atroz.
+«Genio infernal, atrevido
+ Contra Deus, homens e feras!
+ Das creaturas os gemidos
+ Resoaram nas espheras.
+Tuas maldades e insultos
+ Alto pedem punição,
+ Onde da vingança o facho
+ Ondeia erguido clarão.
+Malvado, foge; que os monstros
+ Do inferno te vão seguir,
+ Para que sejas exemplo
+ Aos tyrannos do porvir!»
+Qual d'aurora boreal,
+ Flavo pallido fulgor
+ Tingiu então na floresta
+ Das folhas a verde côr.
+Immovel, pasmado, mudo,
+ Gelado o conde ficou;
+ Trépida angustia dos ossos
+ Á medulla lhe chegou.
+Frio susto pela frente
+ Contra elle arroja o terror:
+ Pelas costas o persegue
+ O trovão atroador.
+O susto o gela; o céu ruge...
+ Da terra vai-se elevando
+ Negra agigantada mão,
+ Ora abrindo, ora fechando.
+Pelos cabellos da fronte,
+ Ai, quer o conde prender!..
+ Elle atrás o rosto volta;
+ Nem mais o pôde volver.
+Em roda chammeja a terra
+ Verde, azul, vermelho fogo:
+ Delle um mar rodeia o conde:
+ Surge o inferno em peso logo.
+Lá dos abysmos profundos
+ Sáem mil mastins raivosos,
+ Que, pelo averno açodados,
+ Se tornam mais furiosos.
+Toma alento o conde, e foge:
+ Por montes, por campos vai,
+ Do seio arrancando a espaços
+ Do espanto terrivel ai:
+Mas por todo o largo mundo
+ Atrás delle ruge o inferno,
+ De dia do orbe no centro,
+ De noite no ar superno.
+Ficou-lhe a face voltada,
+ Por mais que ávante corresse,
+ Sem que dos horridos monstros
+ Os olhos tirar podesse.
+Eis como a caçada foi
+ Do tropel desenfreiado,
+ A qual até nossos dias
+ Tão constante tem passado,
+Que, muitas vezes, durante
+ As horas da noite escura,
+ Ainda ao dissoluto causa
+ Do medo o horror e amargura
+De bastantes caçadores
+ Podia a boca dize-lo,
+ Se antes não lhes conviesse
+ Calado comsigo te-lo.
+
+
+
+
+O CÃO DO LOUVRE.
+
+(_Delavigne_).
+
+
+Tu que passas, descobre-te! Alli dorme
+ O forte que morreu.
+Dá ao martyr do Louvre algumas flores;
+ Dá pão ao seu lebreu.
+Da batalha era o dia. O canhão troa:
+E o livre corre á morte, e juncto delle
+ O seu cão vai:
+A mesma bala ambos feriu: o martyr
+Não deploreis: o amigo seu que vive
+ Só pranteai!
+Tristonho, sobre o forte elle se inclina,
+Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda
+ Põe-se a latir;
+E do seu companheiro no combate
+Sobre o cadaver sanguinoso o pranto
+ Deixa cahir.
+Essa gleba guardando onde repousam
+As cinzas dos heroes, nada o consola
+ No seu gemer;
+E ao que o ameiga triste repellindo,
+«Oh, que não és meu dono!--o cão parece
+ Tentar dizer.
+Quando sobre as grinaldas de perpetuas
+O matutino alvor da aurora o orvalho
+ Faz scintillar,
+Os olhos abre vívidos, e pula
+Para affagar seu dono, que elle pensa
+ Ha-de voltar!
+Quando da noite a viração as c'roas
+Fez ranger sobre a cruz do monumento,
+ Desanimou:
+Elle quizera que seu dono o ouvisse;
+E ladra e uiva; mas o adeus de á noite
+ Lá lhe faltou!
+O inverno chega, e a neve, com violencia,
+Cái, e branqueia, e esconde esse gelado
+ Leito de morte:
+Ei-lo que sólta um lugubre gemido,
+E busca, alli deitando-se, ampara-lo
+ Do frio norte.
+Antes que os membros lhe entorpeça o somno,
+Mil tentativas para erguer a campa
+ Inuteis faz:
+Depois comsigo diz, como hontem disse,
+--Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.»
+ E dorme em paz.
+Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras,
+E seu dono entre as balas encontradas
+ Cahir ferido:
+E ouve-o que o chama com sibillo usado;
+E ergue-se e corre após uma van sombra,
+ Dando um bramido.
+É alli que elle espera horas e horas,
+E saudoso murmura: alli pranteia,
+ E morrerá.
+O seu nome qual é? Todos o ignoram.
+O que o sabía, o dono seu querido,
+ Nunca o dirá!..
+Tu que passas, descobre-te! Além dorme
+ O forte que morreu.
+Dá ao martyr do Louvre algumas flores,
+ E esmola ao seu lebreu.
+
+
+
+
+LEONOR.
+
+(_Burger_).
+
+
+Ralada de ruins sonhos
+ Já desperta está Leonor,
+ E 'inda agora os céus d'oriente
+ Da manhan tingiu o alvor.
+«Guilherme, és morto?--ella exclama--
+ Ou trahiste a pobre amante?
+ Se vives, porque retardas
+ De te eu ver feliz instante?»
+Nas tropas de Friderico
+ Tempo havia que partíra
+ Para a batalha de Praga,
+ E cartas delle quem vira?
+Mas a imperatriz e o rei[1],
+ De guerras, emfim, cansados,
+ Depondo os animos feros,
+ De paz faziam tractados.
+Já aos seus lares tornavam
+ Ambas as hostes folgando.
+ Cingem frentes ramos verdes;
+ Vem atabales rufando.
+E por montes e por valles
+ Velhos e moços chegavam,
+ Dando brados de alegria,
+ A encontrar os que voltavam.
+«Boa vinda! Adeus!--diziam
+ As filhas, noivas, e esposas.
+ E Leonor? Nenhum dos vindos
+ Lhe faz caricias saudosas.
+Por Guilherme ella pergunta;
+ Por qual estrada viria.
+ Vão trabalho; vans perguntas:
+ Novas delle quem sabia?
+Não o vê. Passaram todos...
+ Em furioso devaneio,
+ Ei-la arranca as negras tranças;
+ Fere crua o lindo seio.
+Sua mãe, correndo a ella:
+ «Valha-me Deus!--lhe bradou.--
+ Minha filha, pois que é isso?!»
+ E entre os braços a apertou.
+«Minha mãe, perdeu-se tudo!
+ O mundo, tudo perdi:
+ De nada Deus se condoe...
+ Oh dor, oh pobre de mi!--
+«Ai! Jesus venha á minha alma!
+ Filha, um padre-nosso resa.
+ Deus é pae: sempre nos ouve:
+ Nunca a humana dor despreza.--
+«Minha mãe, inutil crença!
+ Que bens me tem feito Deus?
+ Padre-nossos!.. padre-nossos!..
+ Que importam resas aos céus?--
+«Ai! Jesus venha á minha alma!
+ Pois não é quem resa ouvido?
+ Busca da igreja o consolo
+ Verás teu pesar vencido.--
+«Mãe, oh mãe, esta amargura
+ Nenhum sacramento adoça:
+ Não sei nenhum sacramento,
+ Que aos mortos dar vida possa.--
+«Filha, quem sabe se, ingrato,
+ Elle ás promessas faltou;
+ E lá na remota Hungria
+ Novo amor o captivou?
+Se, mudavel, te abandona,
+ Do crime o premio terá:
+ Do ultimo trance na angustia
+ O remorso o punirá.--
+«Morreu-me, oh mãe, a esperança.
+ Perdido... tudo é perdido!
+ Morrer, tambem, só me resta.
+ Nunca eu houvera nascido!
+Foge, oh sol resplandecente!
+ Manda a noite e os seus terrores...
+ Deus, oh Deus, que nunca escutas
+ O gemer de humanas dores.--
+«Meu Senhor! A desditosa
+ Não pensa o que a lingua exprime.
+ Não julgues a filha tua:
+ Nem te lembres do seu crime.
+Vans paixões esquece, oh filha:
+ Cogita no goso eterno,
+ No sangue que te remiu,
+ E nos tormentos do inferno.--
+«O que é goso eterno, oh mãe,
+ E o inferno em que consiste?
+ Com Guilherme ha goso eterno,
+ Sem Guilherme o inferno existe.
+Sem elle, que a luz fugindo,
+ Se troque em nocturno horror;
+ Sem elle, no céu, na terra
+ Só conheço acerba dor!»
+Assim no sangue e na mente
+ Furia insana lhe fervia:
+ Cruel chamando ao Senhor,
+ Mil blasphemias repetia.
+Desde o sol brilhar no oriente
+ Até que o céu se estrellava,
+ As mãos, louca, retorcia,
+ O brando seio pisava.
+
+ -----
+
+Porém ouçamos!.. A terra
+ Pisa um cavallo lá fóra!..
+ E pelos degraus da escada
+ Tinem sons d'espada e espóra...
+Ouçamos! Batem na argola
+ Pancadas que mal feriram...
+ E através das portas, claro,
+ Estas palavras se ouviram:
+«Oh lá, querida, abre a porta.
+ Dormes? Estás acordada?
+ Folgas em riso? Pranteias?
+ De mim és 'inda lembrada?--
+«Guilherme, tu?! Na alta noite?
+ Tenho velado e gemido.
+ Quanto padeci!.. Mas, d'onde
+ Até 'qui tens tu corrido?!--
+«Nós montamos á meia-noite
+ Só. Vim tarde, mas ligeiro,
+ Desde a Bohemia, e comigo
+ Levar-te-hei, por derradeiro.--
+«Oh meu querido Guilherme,
+ Vem depressa: aqui te abriga
+ Entre meus braços; que o vento
+ Do bosque as crinas fustiga.--
+«Rugir o deixa nos matos.
+ Sibilla? Sibille embora!
+ Não paro... que o meu ginete
+ Escarva o chão... tine a espóra...
+Nosso leito nupcial
+ Dista cem milhas d'aqui.
+ Sobraça as roupas... vem... salta
+ No murzelo, atrás de mi.--
+«Além cem milhas, me queres
+ Hoje ao thalamo guiar?
+ Ouve... o relogio ainda soa:
+ Doze vezes fere o ar.--
+«Olha em roda! A lua é clara:
+ Nós e os mortos bem corremos.
+ Aposto eu que n'um instante
+ Ao leito nupcial iremos?--
+«Mas dize-me, onde é que habitas?
+ Como é o leito do noivado?--
+ «Longe, quedo, fresco, breve:
+ De oito taboas é formado.--
+«Para dous?--«Para nós ambos.
+ Sobraça as roupas: vem cá.
+ Os convidados esperam:
+ O quarto patente está.--
+Sobraçada a roupa, a bella
+ Para o ginete saltou,
+ E ao seu leal cavalleiro
+ Co' as alvas mãos se enlaçou.
+Ei-los vão! Soa a corrida.
+ Ei-los vão, á fula-fula!
+ Ginete e guerreiro arquejam:
+ A faisca, a pedra pula.
+Ui, como, á direita, á esquerda,
+ Ante seus olhos se escoam
+ Prado e selva, e do galope
+ Sob a ponte os sons ecchoam!
+«Tremes, cara? A lua é pura.
+ Depressa o morto andar usa.
+ Tens medo de mortos?--«Não.
+ Mas delles falar se escusa.--
+«Que sons e cantos são estes?
+ O corvo alli remoinha!
+ Sons de sino? Hymnos de morte?
+ É morto que se avizinha!--
+Era de feito um saimento,
+ Que andas e esquife levava:
+ Aos silvos de cobra em pégo
+ Seu canto se assemelhava.
+«Um enterro á meia-noite,
+ Com psalmos e com lamento,
+ E eu a minha noiva levo
+ Ao sarau do casamento?
+Vinde, sacristão e o côro,
+ O ephitalamio entoai-nos;
+ Vinde, abbade, e antes que entremos
+ No leito, a bençam lançai-nos.--
+Cala o som e o canto: a tumba
+ Some-se: finda o clamor
+ A seu mando; e o tropel voa
+ Na pista do corredor.
+Sempre mais alto a corrida
+ Soa. Vão á fula-fula.
+ Ginete e guerreiro arquejam:
+ A faisca, a pedra pula.
+Como á dextra e esquerda fogem
+ Montes, bosques, matagaes!
+ Como á dextra e esquerda fogem
+ Cidades, villas, casaes!
+«Tremes, cara? A lua é pura.
+ Depressa o morto usa andar.
+ Temes os mortos, querida?--
+ «Ai, deixa-os lá repousar!--
+«Olha! Ao redor de uma forca
+ Dançar em tropel não vês
+ Aereos corpos, que alvejam
+ Da luz da lua através?
+Oh lé, birbantes, aqui!
+ Birbantes, acompanhai-me!
+ Vinde. A dança do noivado
+ Juncto do leito dançai-me.--
+E os vultos vem após logo,
+ Ruído immenso fazendo,
+ Como o furacão nas folhas
+ Seccas do vergel rangendo.
+E resoando a corrida
+ Ei-los vão, á fula-fula.
+ Ginete e guerreiro arquejam:
+ A faisca, a pedra pula.
+Para trás fugir parece
+ Quanto o luar allumia;
+ Para trás suas estrellas
+ Sumir o céu parecia.
+«Tremes, cara? A lua é pura.
+ Depressa o morto andar usa.
+ Temes os mortos, querida?--
+ «Ai, delles falar se escusa!--
+«Murzelo, o gallo ouvír creio!
+ Breve a areia ha-de correr...
+ Murzelo, avia-te, voa;
+ Que sinto o ar do amanhecer!
+Nossa jornada está finda:
+ Ao leito nupcial chegámos:
+ Ligeiro os mortos caminham:
+ A méta final tocámos.--
+D'uma porta ás grades ferreas
+ Á rédea solta chegaram,
+ E de fragil vara ao toque
+ Ferrolho e chave saltaram.
+Fugiram piando as aves:
+ A corrida, emfim, parára
+ Sobre campas. Os moimentos
+ Alvejam; que a noite é clara.
+Peça após peça, ao guerreiro
+ Cáe a armadura lustrosa
+ Em negro pó impalpavel,
+ Qual de isca fuliginosa.
+Sua cabeça era um craneo
+ Branco-pallido, escarnado:
+ Nas mãos tem fouce e ampulheta,
+ Triste adorno de finado.
+Alça-se e arqueja o ginete:
+ I­gneas fai­scas lançou,
+ E debaixo de seus pés
+ Abriu-se a terra, e o tragou.
+Dos covaes surgem phantasmas:
+ Feio urrar os ares corta:
+ Bate incerto o coração
+ Da donzella semimorta.
+Ao redor danças de espectros
+ Em remoinho passavam:
+ Canto de medonhas vozes
+ Era o canto que cantavam:
+«Aflliges-te? Oh, tem paciencia!
+ Não fosses com Deus audaz.
+ Teu corpo pertence á terra:
+ Á tua alma o céu dê paz.--
+
+[1] Maria-Theresa d'Austria e Friderico de Prussia.
+
+
+
+
+A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.
+
+(_Lamartine_).
+
+
+ Tu cujas azas tremulas
+ O meu olhar tornava;
+ Cujo trinado harmonico
+ Meus dias alegrava,
+ Ai, já não ouves!--Chamo-te,
+ E é vão este chamar!
+ Chegou a estação gelida;
+ Foi para te matar.
+
+Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos,
+ Companheira leal
+ Tu me foste, avesinha;
+Meiga entre as meigas, desprezando os campos,
+Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha
+ No movel cannavial.
+
+A ti, affeita a mim, affiz-me em breve.
+ Meu unico recreio
+ Era brincar comtigo.
+Ao veres-me encerrar no pobre alvergue
+Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo
+ Volvia em brando enleio.
+
+Meu amor te suppria a liberdade;
+ Meus passos traduzias,
+ Meu gesto, meu falar;
+Repetias-me o nome em teus modilhos;
+ Punhas-te a chilrear
+ Quando sorrir me vias.
+
+Oh, que par! Que viver sereno e sancto!
+ Estavamos tão bem!
+ Nosso parco alimento
+Com a ponta da agulha eu mourejava,
+E dizia scismando:--o meu sustento
+ É o delle tambem.»
+Sementes varias dava-te co' a alpista,
+ E, qual ramalhetinho
+ Feito na orla do prado,
+Á 'splendida gaiola atar me vias,
+Para debique teu, de herva um punhado,
+
+ De alface um tenro olhinho....
+ Se ao menos fosse licito
+ Saberes que pranteio!..
+ Ai, foi em dia identico,
+ Que teu adejar veio
+ Fazer brilhar o jubilo
+ Neste triste aposento,
+ Onde em saudosa magua,
+ Sósinha te lamento!
+
+
+
+
+INDICE.
+
+LIVRO I
+
+A HARPA DO CRENTE
+
+
+ PAG.
+A Semana Sancta. 3
+A Voz. 35
+A Arrabida. 41
+Mocidade e Morte. 63
+Deus. 81
+A Tempestade. 87
+O Soldado. 95
+A Victoria e a Piedade. 111
+A Cruz mutilada. 121
+
+
+
+LIVRO II
+
+POESIAS VARIAS.
+
+
+A Perda d'Arzilla. 137
+A Rosa. 147
+O Mendigo. 151
+O Bom Pescador. 159
+Tristezas do Desterro. 165
+O Mosteiro deserto. 185
+A Volta do Proscripto. 201
+N'um Album. 211
+A Felicidade. 217
+Os Infantes em Ceuta. 221
+
+
+
+
+LIVRO III
+
+VERSÕES
+
+
+O Seccar das Folhas. 273
+A Noiva do Sepulchro. 277
+O Canto do Cossaco. 293
+O Caçador feroz. 297
+O Cão do Louvre. 311
+Leonor. 315
+A Costureira e o Pintasilgo morto. 327
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Poesias, by Alexandre Herculano
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POESIAS ***
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
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