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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:19:27 -0700 |
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HERCULANO + + +SEGUNDA EDIÇÃO + + + +LISBOA +EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS +AOS MARTYRES, N.^o 73 +M DCCC LX + + + + +LIVRO PRIMEIRO + +A HARPA DO CRENTE. + + + + +A SEMANA SANCTA. + + + Der Gedanke Gott weckt einen furchlerlichen Nachbar auf. Sein Name + heisst Richter. + + Schiller. + + +I. + +Tibio o sol entre as nuvens do occidente, +Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne +Vai a hora da tarde!--O oeste passa +Mudo nos troncos da alameda antiga, +Que á voz da primavera os gomos brota: +O oeste passa mudo, e cruza o atrio +Ponteagudo do templo, edificado +Por mãos duras de avós, em monumento +De uma herança de fé, que nos legaram, +A nós seus netos, homens de alto esforço, +Que nos rimos da herança, e que insultamos +A cruz e o templo e a crença de outras eras; +Nós, homens fortes, servos de tyrannos, +Que sabemos tão bem rojar seus ferros +Sem nos queixar, menosprezando a Patria +E a liberdade, e o combater por ella. + +Eu não!--eu rujo escravo; eu creio e espero +No Deus das almas generosas, puras, +E os despotas maldigo.--Entendimento +Bronco, lançado em seculo fundido +Na servidão de goso ataviada, +Creio que Deus é Deus e os homens livres! + + +II. + +Oh sim!--rude amador de antigos sonhos, +Irei pedir aos tumulos dos velhos +Religioso enthusiasmo, e canto novo +Hei-de tecer, que os homens do futuro +Entenderão; um canto escarnecido +Pelos filhos dest' epocha mesquinha, +Em que vim peregrino a ver o mundo. +E chegar a meu termo, e reclinar-me +Á branda sombra de cypreste amigo. + + +III. + +Passa o vento os do portico da igreja +Esculpidos umbraes: correndo as naves +Sussurrou, sussurrou entre as columnas +De gothico lavor: no orgam do côro +Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se. + + +IV. + +Mas porque sôa o vento?--Está deserto, +Silencioso ainda o sacro templo: +Nenhuma voz humana ainda recorda +Os hymnos do Senhor. A natureza +Foi a primeira em celebrar seu nome +Neste dia de lucto e de saudade! +Trévas da quarta feira eu vos saúdo! +Negras paredes, mudos monumentos +De todas essas orações de mágua, +De gratidão, de susto ou de esperança, +Depositadas ante vós nos dias +De fervorosa crença, a vós que enlucta +A solidão e o dó, venho eu saudar-vos. +A loucura da cruz não morreu toda +Após dezoito seculos!--Quem chore +Do soffrimento o Heroe existe ainda. +Eu chorarei--que as lagrymas são do homem-- +Pelo Amigo do povo, assassinado +Por tyrannos, e hypocritas, e turbas +Envilecidas, barbaras, e servas. + + +V. + +Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro; +Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias, +D'onde mergulhas no oceano a vista; +Tu que do trovador á mente arrojas +Quanto ha nos céus esperançoso e bello, +Quanto ha no abysmo tenebroso e triste, +Quanto ha nos mares magestoso e vago, +Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma +A harmonia celeste e o fogo e o genio, +Que dêm vida e vigor a um carme pio. + + +VI. + +A noite escura desce: o sol de todo +Nos mares se atufou. A luz dos mortos, +Dos brandões o clarão, fulgura ao longe +No cruzeiro sómente e em volta da ara: +E pelas naves começou ruído +De compassado andar. Fiéis acodem +Á morada de Deus, a ouvir queixumes +Do vate de Sião. Em breve os monges, +Suspirosas canções aos céus erguendo, +Sua voz unirão á voz desse orgam, +E os sons e os ecchos reboarão no templo. +Mudo o côro depois, neste recincto +Dentro em bem pouco reinará silencio, +O silencio dos tumulos, e as trévas +Cubrirão por esta área a luz escaça +Despedida das lampadas, que pendem +Ante os altares, bruxuleando frouxas. + +Imagem da existencia!--Em quanto passam +Os dias infantis, as paixões tuas, +Homem, qual então és, são debeis todas. +Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso +Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo +Gemido do remorso, a qual lançar-se +Vai com rouco estridor no antro da morte, +Lá, onde é tudo horror, silencio, noite. +Da vida tua instantes florescentes +Foram dous, e não mais: as cans e rugas, +Logo, rebate de teu fim te deram. +Tu foste apenas som, que, o ar ferindo, +Murmurou, esqueceu, passou no espaço. + +E a casa do Senhor ergueu-se.--O ferro +Cortou a penedia; e o canto enorme +Pulído alveja alli no espesso panno +Do muro colossal, que éra após éra, +Como onda e onda ao desdobrar na areia, +Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado. +O ulmo e o choupo no cahir rangeram +Sob o machado: a trave affeiçoou-se; +Lá no cimo pousou: restruge ao longe +De martellos fragor, e eis ergue o templo, +Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas. + +Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento +Se esvái, como da cerva a leve pista +No pó se apaga ao respirar da tarde, +Do seio dessa terra, em que és estranho, +Sair fazes as moles seculares, +Que por ti, morto, falem; dás na idéa +Eterna duração ás obras tuas. +Tua alma é immortal, e a prova a déste! + + +VII. + +Anoiteceu.--Nos claustros resoando +As pisadas dos monges ouço: eis entram; +Eis se curvaram para o chão, beijando +O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a! +Igual vos cubrirá a cinza um dia, +Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto +É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia +Mais, se do justo só a herança fòra; +Mas tambem ao malvado é dada a campa. + +E o criminoso dormirá quieto +Entre os bons sotterrado?--Oh não! Em quanto +No templo ondeiam silenciosas turbas, +Exultarão do abysmo os moradores, +Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles, +Que escarnece do Eterno, e a si se engana; +Vendo o que julga que orações apagam +Vicios e crimes, e o motejo e o riso +Dado em resposta ás lagrymas do pobre; +Vendo os que nunca ao infeliz disseram +De consolo palavra ou de esperança. +Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes +Os frios restos que separa a terra, +Um punhado de terra, a qual os ossos +Destes ha-de cubrir em tempo breve, +Como cubriu os seus; qual vai sumindo +No segredo da campa a humana raça. + + +VIII. + +Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos +Do templo na amplidão: só lá no escuro +De afumada capella o justo as preces +Ergue pio ao Senhor, as preces puras +De um coração que espera, e não mentidas +De labios de impostor, que engana os homens +Com seu meneio hypocrita, calando +Na alma lodosa da blasphemia o grito. +Então exultarão os bons, e o ímpio, +Que passou, tremerá. Emfim, de vivos, +Da voz, do respirar o som confuso +Vem confundir-se no ferver das praças, +E pela galilé só ruge o vento. + +Em trévas não ficou silenciosas +O sagrado recincto: os candieiros, +No gelado ambiente ardendo a custo, +Espalham debeis raios, que reflectem +Das pedras pela alvura; o negro mocho, +Companheiro do morto, horrido pio +Solta lá da cornija: pelas fendas +Dos sepulchros deslisa fumo espesso; +Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo +Suspirar não se ouviu?--Olhae! lá se erguem. +Sacudindo o sudario, em peso os mortos! + +Mortos, quem vos chamou? O som da tuba +Ainda do Josaphat não fere os valles. +Dormí, dormí: deixae passar as eras... + + +IX. + +Mas foi uma visão: foi como scena +D'imaginar febril. Creou-se, acaso, +Do poeta na mente, ou desvendou-lhe +A mão de Deus o íntimo ver da alma, +Que devassa a existencia mysteriosa +Do mundo dos espiritos? Quem sabe? +Dos vivos ja deserta, a igreja torva +Repovoou-se, para mim ao menos, +Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras +Leito commum na somnolencia extrema +Buscaram. O terror, que arreda o homem +Do limiar do templo ás horas mortas, +Não vem de crença van. Se fulgem astros, +Se a luz da lua estira a sombra eterna +Da cruz gigante (que campeia erguida +No vertice do timpano, ou no cimo +Do corucheu do campanario) ao longo +Dos inclinados tectos, afastae-vos! +Afastae-vos d'aqui, onde se passam +Á meia-noite insolitos mysterios; +D'aqui, onde desperta a voz do archanjo +Os dormentes da morte; onde reune +O que foi forte e o que foi fraco, o pobre +E o opulento, o orgulhoso e o humilde, +O bom e o mau, o ignorante e o sabio, +Quantos, emfim, depositar vieram +Juncto do altar o que era seu no mundo, +Um corpo nú, e corrompido e inerte. + + +X. + +E seguia a visão.--Cria ainda achar-me, +Alta noite, na igreja solitaria +Entre os mortos, que, erectos sobre as campas, +Eram ha pouco um fumo que ondeiava +Pelas fisgas do vasto pavimento. +Olhei. Do erguido tecto o panno espesso +Rareava; rareava-me ante os olhos, +Como tenue cendal; mais tenue ainda, +Como o vapor de outono em quarto d'alva, +Que se libra no espaço antes que desça +A consolar as plantas conglobado +Em matutino orvalho. O firmamento +Era profundo e amplo. Involto em gloria, +Sobre vagas de nuvens, rodeiado +Das legiões do céu, o Ancião dos dias, +O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno +Parava o tempo, a immensidade, a vida +Dos mundos a escutar. Era esta a hora +Do julgamento desses que se alçavam +Á voz de cima sobre as sepulturas? + + +XI. + +Era ainda a visão,--Do templo em meio +Do anjo da morte a espada flammejante +Crepitando bateu. Bem como insectos, +Que á flôr de pego pantanoso e triste +Se balouçavam--quando a tempestade +Veiu as azas molhar nas aguas turvas, +Que marulhando sussurraram--surgem +Volteando, zumbindo em dança douda, +E lassos, vão pousar em longas filas +Nas margens do paul, de um lado e de outro; +Tal o murmurio e a agitação incerta +Ciciava das sombras remoinhando +Ante o sopro de Deus. As melodias +Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas, +Com frémito infernal se misturavam +Em cahos de dôr e jubilo. + Dos mortos +Parava, emfim, o vortice enredado; +E os grupos vagos em distinctas turmas +Se enfileiravam de uma parte e de outra. +Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos +Ficou, unica luz, que se estirava +Desde o cruzeiro ao portico, e fería +De reflexo vermelho os largos pannos +Das paredes de marmore, bem como +Mar de sangue, onde inertes fluctuassem +De humanos vultos indecisas fórmas. + + +XII. + +E seguia a visão.--Do templo á esquerda, +Méstas as faces, inclinada a fronte, +Da noite as larvas tinham sobre o sólo +Fito o espantado olhar, e as dilatadas +Baças pupillas lhes tingia o susto. +Mas, como zona lucida de estrellas, +Nessa atmosphera crassa e afogueada +Pela espada rubente, refulgiam +Da direita os espiritos, banhado +De inenarravel placidez seu gesto. +Era inteiro o silencio, e no silencio +Uma voz resoou--Eleitos vinde!-- +Ide precítos!»--Vacillava a terra, +E ajoelhando eu me curvei tremendo. + + +XIII. + +Quando me ergui e olhei, no céu profundo +Um rastilho de luz pura e serena +Se ia embebendo nesses mares de orbes +Infinitos, perdidos no infinito, +A que chamâmos o universo. Um hymno +De saudade e de amor, quasi inaudivel +Parecia romper desde as alturas +De tempo a tempo. Vinha como involto +Nas lufadas do vento, até perder-se +Em socego mortal. + O curvo tecto +Do templo, então, se condensou de novo, +E para a terra o meu olhar volveu-se. +Da direita os espiritos radiosos +Já não estavam lá. Chispando a espaços, +Qual o ferro na incude, a espada do anjo +O mortiço rubor mandava, apenas, +D'aurora boreal quando se extingue. + + +XIV. + +Proseguia a visão.--Da esquerda ás sombras +Anciava o seio a dôr: tinham no gesto +Impressa a maldicção, que lhes seccára +Eternamente a seiva da esperança. + +Como se vê, em noite estiva e negra, +Scintillar sobre as aguas a ardentia, +D'umas frontes ás outras vagueiavam +Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos, +E ao estalar das lousas, grito immenso +Subterraneo, abafado e delirante, +Ineffavel compendio de agonias, +Misturado se ouviu com rir do inferno, +E a visão se desfez. Era ermo o templo: +E despertei do pesadelo em trevas. + + +XV. + +Era loucura ou sonho? Entre as tristezas +E os terrores e angustias, que resume +Neste dia e logar a avita crença, +Irresistivel força arrebatou-me +Da sepultura a devassar segredos, +Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra +Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»-- + +A justiça de Deus visita os mortos, +Embora a cruz da redempção proteja +A pedra tumular; embora a hostia +Do sacrificio o sacerdote eleve +Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja +Rodeiam trevas, solidão e medos, +Que a resguardam co'as asas acurvadas +Da vista do que vive, a mão do Eterno +Separa o joio do bom grão, e arroja +Para os abysmos a ruim semente. + + +XVI. + +Não!--não foi sonho vão, vago delirio +De imaginar ardente. Eu fui levado, +Galgando além do tempo, ás tardas horas, +Em que se passam scenas de mysterio, +Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra +Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»-- + +Vejo ainda o que vi: da sepultura +Ainda o halito frio me enregela +O suor do pavor na fronte; o sangue +Hesita immoto nas inertes veias; +E embora os labios murmurar não ousem, +Ainda, incessante, me repete na alma +Íntima voz:--Tremei! Do altar á sombra +Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»-- + + +XVII. + +Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto +O coração bateu. Eia, retumbem +Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos, +Que em dia de afflicção ignoto vate +Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle +O primeiro cantor que em varias córdas, +Á sombra das palmeiras da Iduméa, +Soube entoar melodioso um hymno. +Deus inspirava então os trovadores +Do seu povo querido, e a Palestina, +Rica dos meigos dons da natureza, +Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo. +Virgem o genio ainda, o estro puro +Louvava Deus sómente, á luz da aurora, +E ao esconder-se o sol entre as montanhas +De Bethoron.--Agora o genio é morto +Para o Senhor, e os cantos dissolutos +De lodoso folguedo os ares rompem, +Ou sussurram por paços de tyrannos, +Assellados de putrida lisonja, +Por preço vil, como o cantor que os tece. + + +XVIII. + +O PSALMO. + +Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chega + O seu poder immenso! +Elle abaixou os céus, desceu, calcando + Um nevoeiro denso. +Dos cherubins nas asas radiosas + Librando-se, voou; +E sobre turbilhões de rijo vento + O mundo rodeiou. +Ante o olhar do Senhor vacilla a terra, + E os mares assustados +Bramem ao longe, e os montes lançam fumo, + Da sua mão tocados. +Se pensou no Universo, ei-lo patente + Ante a face do Eterno: +Se o quiz, o firmamento os seios abre, + Abre os seios o inferno. +Dos olhos do Senhor, homem, se pódes, + Esconde-te um momento: +Vê onde encontrarás logar que fique + Da sua vista isento: +Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo, + Lá teu Deus has-de achar; +Elle te guiará, e a dextra sua + Lá te ha-de sustentar: +Desce á sombra da noite, e no seu manto + Involver-te procura... +Mas as trévas para elle não são trévas. + Nem é a noite escura. +No dia do furor, em vão buscáras + Fugir ante o Deus forte, +Quando do arco tremendo, irado, impelle + Setta em que pousa a morte. +Mas o que o teme dormirá tranquillo + No dia extremo seu, +Quando na campa se rasgar da vida + Das illusões o véu. + + +XIX. + +Calou-se o monge: sepulchral silencio +Á sua voz seguiu-se. Uma toada +De orgam rompeu do côro. Assemelhava +O suspiro saudoso, e os ais de filha, +Que chora solitaria o pae, que dorme +Seu ultimo, profundo e eterno somno. +Melodias depois soltou mais doces +O severo instrumento: e ergueu-se o canto, +O doloroso canto do propheta, +Da patria sobre o fado. Elle, que o vira, +Sentado entre ruinas, contemplando +Seu avito esplendor, seu mal presente, +A quéda lhe chorou. Lá na alta noite, +Modulando o Nebel, via-se o vate +Nos derribados porticos, abrigo +Do immundo stellio e gemedora poupa, +Extasiado--e a lua scintillando +Na sua calva fronte, onde pesavam +Annos e annos de dôr. Ao venerando +Nas encovadas faces fundos regos +Tinham aberto as lagrymas. Ao longe, +Nas margens do Kedron, a ran grasnando +Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo +Era Sião!--o vasto cemiterio +Dos fortes de Israel. Mais venturosos +Que seus irmãos, morreram pela patria; +A patria os sepultou dentro em seu seio. +Elles, em Babylonia, aos punhos ferros, +Passam de escravos miseranda vida, +Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los, +A dextra lhe vergou. Não mais no templo +A nuvem repousára, e os céus de bronze +Dos prophetas aos rogos se amostravam. +O vate de Anathot a voz soltára +Entre o povo infiel, de Eloha em nome: +Ameaças, promessas, tudo inutil; +De bronze os corações não se dobraram. +Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho +Jerusalem passou: sua grandeza +Sómente existe em derrocadas pedras. +O vate de Anathot, sobre seus restos, +Com triste canto deplorou a patria. +Hymno de morte alçou: da noite as larvas +O som lhe ouviram: squallido esqueleto, +Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos +Do portico do templo erguia um pouco, +Alvejando, a caveira.--Era-lhe allivio +Do sagrado cantor a voz suave +Desferida ao luar, triste, no meio +Da vasta solidão que o circumdava. +O propheta gemeu: não era o estro, +Ou o vívido jubilo que outr'ora +Inspirára Moysés: o sentimento +Foi sim pungente de silencio e morte, +Que da patria lhe fez sobre o cadaver +A elegia da noite erguer e o pranto +Derramar da esperança e da saudade. + + +XX. + +A LAMENTAÇÃO. + +Como assim jaz e solitaria e quèda +Esta cidade outr'ora populosa! +Qual viuva ficou e tributaria + A senhora das gentes. +Chorou durante a noite; em pranto as faces, +Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas +Ninguem a consolou: os mais queridos + Contrarios se tornaram. +Ermas as praças de Sião e as ruas, +Cobre-as a verde relva: os sacerdotes +Gemem; as virgens pallidas suspiram + Involtas na amargura. +Dos filhos de Israel nas cavas faces +Está pintada a macilenta fome; +Mendigos vão pedir, pedir a estranhos, + Um pão de infamia eivado. +O tremulo ancião, de longe, os olhos +Volve a Jerusalem, della fugindo; +Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira + Com seu nome nos labios. +Que horror!--ímpias as mães os tenros filhos +Despedaçaram: barbaras quaes tigres, +Os sanguinosos membros palpitantes + No ventre sepultaram. +Deus, compassivo olhar volve a nós tristes: +Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos, +Servos de servos em paiz estranho. + Tem dó de nossos males! +Acaso serás Tu sempre inflexivel? +Esqueceste de todo a nação tua? +O pranto dos hebreus não Te commove? + És surdo a seus lamentos? + + +XXI. + +Doce era a voz do velho: o som do Nablo +Sonoro: o céu sereno: clara a terra +Pelo brando fulgor do astro da noite: +E o propheta parou. Erguidos tinha +Os olhos para o céu, onde buscava +Um raio de esperança e de conforto: +E elle calára já, e ainda os ecchos, +Entre as ruinas sussurrando, ao longe +Íam os sons levar de seus queixumes. + + +XXII. + +Choro piedoso, o choro consagrado +Ás desditas dos seus. Honra ao propheta! +Oh margens do Jordão, paiz formoso +Que fostes e não sois, tambem suspiro +Condoído vos dou.--Assim fenecem +Imperios, reinos, solidões tornados!... +Não:--nenhum deste modo: o peregrino +Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem +A sacudiu á terra, e fez dormissem +O seu ultimo somno os filhos della-- +E elle o veio dormir pouco mais longe... +Mas se chega a Sião treme, enxergando +Seus lacerados restos. Pelas pedras, +Aqui e alli dispersas, ainda escripta +Parece ver-se uma inscripção de agouros, +Bem como aquella que aterrou um ímpio +Quando, no meio de ruidosa festa, +Blasphemava dos céus, e mão ignota +O dia extremo lhe apontou dos crimes. +A maldicção do Eterno está vibrada +Sobre Jerusalem!--Quanto é terrivel +A vingança de Deus! O Israelita, +Sem patria e sem abrigo, vagabundo, +Ódio dos homens, neste mundo arrasta +Uma existencia mais cruel que a morte, +E que vem terminar a morte e inferno. +Desgraçada nação!--Aquelle solo +Onde manava o mel, onde o carvalho, +O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo, +Tão grato á vista, em bosques misturavam; +Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham +Crescimento espontaneo entre as roseiras, +Hoje, campo de lagrymas, só cria +Humilde musgo de escalvados cerros. + + +XXIII. + +Ide vós a Mambré.--Lá, bem no meio +De um valle, outr'ora de verdura ameno, +Erguia-se um carvalho magestoso. +Debaixo de seus ramos largos dias +Abrahão repousou. Na primavera +Vinham os moços adornar-lhe o tronco +De capellas cheirosas de boninas, +E coreias gentis traçar-lhe em roda. +Nasceu com o orbe a planta veneravel, +Viu passar gerações, julgou seu dia +Final fosse o do mundo, e quando airosa +Por entre as densas nuvens se elevava, +Mandou o Nume aos aquilões rugissem, +Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco, +Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques +Serviu de pasto aos tragadores vermes. +Deus estendeu a mão:--no mesmo instante +A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros +Da Palestina os platanos frondosos +Não mais cresceram, como d'antes, bellos: +O armento, em vez de relva, achou nos prados +Sómente ingratas, espinhosas urzes. +No Golgotha plantada, a Cruz clamára +--Justiça!»--A tal clamor horrido espectro +No Moriá surgiu. Era seu nome +Assolação.--E despregando um grito, +Cahiu com longo som de um povo a campa. +Assim a herança de Judá, outr'ora +Grata ao Senhor, existe só nos ecchos +Do tempo que já foi, e que ha passado +Como hora de prazer entre desditas. +................................... + + +XXIV. + +Minha Patria onde existe? + É lá sómente! +Oh lembrança da Patria acabrunhada +Um suspiro tambem tu me has pedido; +Um suspiro arrancado aos seios d'alma +Pela offuscada gloria, e pelos crimes +Dos homens que ora são, e pelo opprobrio +Da mais illustre das nações da terra! + +A minha triste Patria era tão bella, +E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro +E o sabio e o homem bom acolá dormem, +Acolá, nos sepulchros esquecidos, +Que a seus netos infames nada contam +Da antiga honra e pudor e eternos feitos. +O escravo português agrilhoado +Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas +Os decepados troncos desse arbusto, +Por mãos delles plantado á liberdade, +E por tyrannos derribado em breve, +Quando patrias virtudes se acabaram, +Como um sonho da infancia!... + O vil escravo, +Immerso em vicios, em bruteza e infamia, +Não erguerá os macerados olhos +Para esses troncos, que destroem vermes +Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo, +Não surgirá jámais?--Não ha na terra +Coração português, que mande um brado +De maldicção atroz, que vá cravar-se +Na vigilia e no somno dos tyrannos, +E envenenar-lhes o prazer por noites +De vil prostituição, e em seus banquetes +De embriaguez lançar fel e amarguras? + +Não!--Bem como um cadaver já corrupto, +A nação se dissolve: e em seu lethargo +O povo, involto na miseria, dorme. + + +XXV. + +Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia +Terei de erguer á Patria hymno de morte, +Sobre seus mudos restos vagueiando! +Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta +Minhas preces e lagrymas:--se em breve, +Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea; +Se o anjo do exterminio ha-de risca-la +Do meio das nações, que d'entre os vivos +Risque tambem meu nome, e não me deixe +Na terra vagueiar, orpham de Patria. + + +XXVI. + +Cessou da noite a grão solemnidade +Consagrada á tristeza, e a memorandas +Recordações:--os monges se prostraram, +A face unida á pedra. A mim, a todos +Correm dos olhos lagrymas suaves +De compuncção. Atheu, entra no templo; +Não temas esse Deus, que os labios negam, +E o coração confessa. A corda do arco +Da vingança, em que a morte se debruça, +Frouxa está; Deus é bom: entra no templo. +Tu para quem a morte ou vida é fórma, +Fórma sómente de mais puro barro, +Que nada crês, e em nada esperas, olha, +Olha o conforto do christão. Se o calis +Da amargura a provar os céus lhe deram, +Elle se consolou: balsamo sancto +Piedosa fé no coração lhe verte. +--«Deus compaixão terá!--Eis seu gemido: +Porque a esperança lhe sussurra em torno: +--Aqui, ou lá... a Providencia é justa.» + +Atheu, a quem o mal fizera escravo, +Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos? +No dia da afflicção emmudeceste +Ante o espectro do mal. E a quem alçáras +O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas +Não altera por ti?--Ao ar, que some +Pela sua amplidão as queixas tuas? +Aos rochedos alpestres, que não sentem, +Nem sentir podem teu gemido inutil? +Tua dôr, teu prazer existem, passam, +Sem porvir, sem passado, e sem sentido. +Nas angustias da vida, o teu consolo +O suicidio é só, que te promette +Rica messe de goso, a paz do nada!-- +E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso, +No limiar da morte indo assentar-te! +Alli grita uma voz no ultimo instante +Do passamento: a voz atterradora +Da consciencia é ella. E has-de escuta-la +Mau grado teu: e tremerás em sustos, +Desesperado aos céus erguendo os olhos +Irados, de través, amortecidos; +Aos céus, cujo caminho a Eternidade +Co'a vagarosa mão te vai cerrando, +Para guiar-te á solidão das dôres, +Onde maldigas teu primeiro alento, +Onde maldigas teu extremo arranco, +Onde maldigas a existencia e a morte. + + +XXVII. + +Calou tudo no templo: o céu é puro, +A tempestade ameaçadora dorme. +No espaço immenso os astros scintillantes +O Rei da creação louvam com hymnos, +Não ouvidos por nós nas profundezas +Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo, +Ante milhões de estrellas, que recamam +O firmamento, ajunctará seu canto +Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa +Mortal no meio da harmonia etherea, +No concerto da noite? Oh, no silencio, +Eu pequenino verme irei sentar-me +Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada. +Assim se apaga a lampada nocturna +Ao despontar do sol o alvor primeiro: +Por entre a escuridão deu claridade; +Mas do dia ao nascer, que já rutíla, +As torrentes de luz vertendo ao longe, +Da lampada o clarão sumiu-se, inutil, +Nesse fulgido mar, que inunda a terra. + + + + +A VOZ. + + +É tão suave ess' hora, +Em que nos foge o dia, +E em que suscita a lua +Das ondas a ardentia, + +Se em alcantis marinhos, +Nas rochas assentado, +O trovador medita +Em sonhos enleiado! + +O mar azul se encrespa +Co'a vespertina brisa, +E no casal da serra +A luz ja se divisa. + +E tudo em roda cala +Na praia sinuosa, +Salvo o som do remanso +Quebrando em furna algosa. + +Alli folga o poeta +Nos desvarios seus, +E nessa paz que o cérca +Bemdiz a mão de Deus. + +Mas despregou seu grito +A alcyone gemente, +E nuvem pequenina +Ergueu-se no occidente: + +E sóbe, e cresce, e immensa +Nos céus negra fluctua, +E o vento das procellas +Já varre a fraga nua. + +Turba-se o vasto oceano, +Com horrido clamor; +Dos vagalhões nas ribas +Expira o vão furor + +E do poeta a fronte +Cubriu véu de tristeza: +Calou, á luz do raio, +Seu hymno á natureza. + +Pela alma lhe vagava +Um negro pensamento, +Da alcyone ao gemido, +Ao sibillar do vento. + +Era blasphema idéa, +Que triumphava emfim; +Mas voz soou ignota, +Que lhe dizia assim: + + ----- + +--«Cantor, esse queixume +Da nuncia das procellas, +E as nuvens, que te roubam +Myriadas de estrellas, + +E o frémito dos euros, +E o estourar da vaga, +Na praia, que revolve, +Na rocha, onde se esmaga, + +Onde espalhava a brisa +Sussurro harmonioso, +Em quanto do ether puro +Descia o sol radioso, + +Typo da vida do homem, +É do universo a vida; +Depois do afan repouso, +Depois da paz a lida. + +Se ergueste a Deus um hymno +Em dias de amargura; +Se te amostraste grato +Nos dias de ventura, + +Seu nome não maldigas +Quando se turba o mar: +No Deus, que é pae, confia, +Do raio ao scintillar. + +Elle o mandou: a causa +Disso o universo ignora, +E mudo está. O nume, +Como o universo, adora!»-- + + ----- + +Oh sim, torva blasphemia +Não manchará seu canto! +Brama a procella embora; +Pése sobre elle o espanto; + +Que de sua harpa os hymnos +Derramará contente +Aos pés de Deus, qual oleo +Do nardo recendente. + + + + +A ARRABIDA. + + +I. + +Salve, oh valle do sul, saudoso e bello! +Salve, oh patria da paz, deserto sancto, +Onde não ruge a grande voz das turbas! +Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo +O poeta fugir, cingir-se ao ermo, +Qual ao freixo robusto a fragil hera, +E a romagem do tumulo cumprindo, +Só conhecer, ao despertar na morte, +Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo, +Que íntima voz contínuo nos promette +No transito chamado o viver do homem. + + +II. + +Suspira o vento no alamo frondoso; +As aves soltam matutino canto; +Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra +Dos alcantís na base carcomida: +Eis o ruído de ermo!--Ao longe o negro, +Insondado oceano, e o céu ceruleo +Se abraçam no horisonte.--Immensa imagem +Da eternidade e do infinito, salve! + + +III. + +Oh, como surge magestosa e bella, +Com viço da creação, a natureza +No solitario valle!--E o leve insecto +E a relva e os matos e a fragrancia pura +Das boninas da encosta estão contando +Mil saudades de Deus, que os ha lançado, +Com mão profusa, no regaço ameno +Da solidão, onde se esconde o justo. + +E lá campeiam no alto das montanhas +Os escalvados pincaros, severos, +Quaes guardadores de um logar que é sancto; +Atalaias que ao longe o mundo observam, +Cerrando até o mar o ultimo abrigo +Da crença viva, da oração piedosa, +Que se ergue a Deus de labios innocentes. + +Sobre esta scena o sol verte em torrentes +Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se +Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos +Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados +Desses thronos de fragas sobrepostas, +Que alpestres matas de medronhos vestem; +O rocío da noite á branca rosa +No seio derramou frescor suave, +E 'inda existencia lhe dará um dia. + +Formoso ermo do sul, outra vez, salve! + + +IV. + +Negro, esteril rochedo, que contrastas, +Na mudez tua, o placido sussurro +Das arvores do valle, que vecejam +Ricas d'encantos, co' a estação propicia; +Suavissimo aroma, que, manando +Das variegadas flores, derramadas +Na sinuosa encosta da montanha, +Do altar da solidão subindo aos ares, +És digno incenso ao Creador erguido; +Livres aves, vós filhas da espessura, +Que só teceis da natureza os hymnos, +O que crê, o cantor, que foi lançado, +Estranho ao mundo, no bulicio delle, +Vem saudar-vos, sentir um goso puro, +Dos homens esquecer paixões e opprobrio, +E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, +O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a. + +Comvosco eu sou maior; mais longe a mente +Pelos seios dos céus se immerge livre, +E se desprende de mortaes memorias +Na solidão solemne, onde, incessante, +Em cada pedra, em cada flor se escuta +Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa +A dextra sua em multiforme quadro. + + +V. + +Escalvado penedo, que repousas +Lá no cimo do monte, ameaçando +Ruina ao roble secular da encosta, +Que somnolento move a coma estiva +Ante a aragem do mar, foste formoso; +Já te cubriram cespedes virentes; +Mas o tempo voou, e nelle involta +A formosura tua. Despedidos +Das negras nuvens o chuveiro espesso +E o granizo, que o sólo fustigando +Tritura a tenra lanceolada relva, +Durante largos seculos, no inverno, +Dos vendavaes no dorso a ti desceram, +Qual amplexo brutal de ardor grosseiro, +Que, maculando virginal pureza, +Do pudor varre a aureola celeste, +E deixa, em vez de um seraphim na terra, +Queimada flor que devorou o raio. + + +VI. + +Cáveira da montanha, ossada immensa, +É tua campa o céu: sepulchro o valle +Um dia te será. Quando sentires +Rugir com som medonho a terra ao longe, +Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo, +Lançar á praia vagalhões cruzados; +Tremer-te a larga base, e sacudir-te +De sobre si, o fundo deste valle +Te vai servir de tumulo; e os carvalhos +Do mundo primogenitos, e os sobros, +Arrastados por ti lá da collina, +Comtigo hão-de jazer. De novo a terra +Te cubrirá o dorso sinuoso: +Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, +Do seu puro candor hão-de adornar-te; +E tu, ora medonho e nú e triste, +Ainda bello serás, vestido e alegre. + + +VII. + +Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle +Dos tumulos cahir; quando uma pedra +Os ossos me esconder, se me fôr dada, +Não mais reviverei; não mais meus olhos +Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo, +Se em turbilhões de purpura, que ondeiam +Pelo extremo dos céus sobre o occidente, +Vai provar que um Deus ha a estranhos povos +E além das ondas trémulo sumir-se; +Nem, quando, lá do cimo das montanhas, +Com torrentes de luz inunda as veigas: +Não mais verei o refulgir da lua +No irrequieto mar, na paz da noite, +Por horas em que véla o criminoso, +A quem íntima voz rouba o socego, +E em que o justo descança, ou, solitario, +Ergue ao Senhor um hymno harmonioso. + + +VIII. + +Hontem, sentado n'um penhasco, e perto +Das aguas, então quêdas, do oceano, +Eu tambem o louvei sem ser um justo: +E meditei, e a mente extasiada +Deixei correr pela amplidão das ondas. + +Como abraço materno era suave +A aragem fresca do cahir das trévas, +Emquanto, involta em gloria, a clara lua +Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas. +Tudo calado estava: o mar sómente +As harmonias da creação soltava, +Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto +Se agitava, gemendo e murmurando, +Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos +O pranto me correu sem que o sentisse, +E aos pés de Deus se derramou minha alma. + + +IX. + +Oh, que viesse o que não crê, comigo, +Á vecejante Arrabida de noite, +E se assentasse aqui sobre estas fragas, +Escutando o sussurro incerto e triste +Das movediças ramas, que povôa +De saudade e de amor nocturna brisa; +Que visse a lua, o espaço oppresso de astros, +E ouvisse o mar soando:--elle chorára, +Qual eu chorei, as lagrymas do goso, +E adorando o Senhor detestaria +De uma sciencia van seu vão orgulho. + + +X. + +É aqui neste valle, ao qual não chega +Humana voz e o tumultuar das turbas, +Onde o nada da vida sonda livre +O coração, que busca ir abrigar-se +No futuro, e debaixo do amplo manto +Da piedade de Deus: aqui serena +Vem a imagem da campa, como a imagem +Da patria ao desterrado; aqui, solemne, +Brada a montanha, memorando a morte. +Essas penhas, que, lá no alto das serras +Nuas, crestadas, solitarias dormem, +Parecem imitar da sepultura +O aspecto melancholico e o repouso +Tão desejado do que em Deus confia. +Bem semelhante á paz, que se ha sentado +Por seculos, alli, nas cordilheiras +É o silencio do adro, onde reunem +Os cyprestes e a cruz, o céu e a terra. + +Como tu vens cercado de esperança, +Para o innocente, oh placido sepulchro! +Juncto das tuas bordas pavorosas +O perverso recúa horrorisado: +Após si volve os olhos; na existencia +Deserto árido só descobre ao longe, +Onde a virtude não deixou um trilho. +Mas o justo, chegando á meta extrema, +Que separa de nós a eternidade, +Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta. +O infeliz e o feliz lá dormem ambos, +Tranquillamente: e o trovador mesquinho, +Que peregrino vagueiou na terra, +Sem encontrar um coração ardente +Que o entendesse, a patria de seus sonhos, +Ignota, por lá busca; e quando as eras +Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe +Tardios louros, que escondera a inveja, +Elle não erguerá a mão mirrada, +Para os cingir na regelada fronte. +Justiça, gloria, amor, saudade, tudo, +Ao pé da sepultura, é som perdido +De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: +O despertar um pae, que saboreia +Entre os braços da morte o extremo somno, +Já não é dado ao filial suspiro; +Em vão o amante, alli, da amada sua +De rosas sobre a c'roa debruçado, +Réga de amargo pranto as murchas flores +E a fria pedra: a pedra é sempre fria, +E para sempre as flores se murcharam. + + +XI. + +Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma, +Aspirando o futuro além da vida +E um halito dos ceus, gemer atada +Á columna do exilio, a que se chama +Em lingua vil e mentirosa o mundo. +Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho +Dos sonhos meus. A imagem do deserto +Guarda-la-hei no coração, bem juncto +Com minha fé, meu unico thesouro. + +Qual pomposo jardim de verme illustre, +Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo +Comparar-se, oh deserto? Aqui não cresce +Em vaso de alabastro a flor captiva, +Ou arvore educada por mão de homem, +Que lhe diga--és escrava» e erga um ferro +E lhe decepe os troncos. Como é livre +A vaga do oceano é livre no ermo +A bonina rasteira e o freixo altivo! +Não lhes diz--nasce aqui, ou lá não cresças» +Humana voz. Se baqueou o freixo, +Deus o mandou: se a flor pendida murcha, +É que o rocío não desceu de noite, +E da vida o Senhor lhe nega a vida. + +Céu livre, terra livre, e livre a mente, +Paz intima, e saudade, mas saudade +Que não dóe, que não mirra, e que consola, +São as riquezas do ermo, onde sorriem +Das procellas do mundo os que o deixaram. + + +XII. + +Alli naquella encosta, hontem de noite, +Alvejava por entre os medronheiros +Do solitario a habitação tranquilla: +E eu vagueei por lá. Patente estava +O pobre alvergue do eremita humilde, +Onde jazia o filho da esperança +Sob as asas de Deus, á luz dos astros, +Em leito, duro sim, não de remorsos. +Oh, com quanto socego o bom do velho +Dormia! A leve aragem lhe ondeiava +As raras cans na fronte, onde se lia +A bella historia de passados annos. +De alto choupo através passava um raio +Da lua--astro de paz, astro que chama +Os olhos para o céu, e a Deus a mente-- +E em luz pallida as faces lhe banhava: +E talvez neste raio o Pae celeste +Da patria eterna lhe enviava a imagem, +Que o sorriso dos labios lhe fugia, +Como se um sonho de ventura e gloria +Na terra de antemão o consolasse. +E eu comparei o solitario obscuro +Ao inquieto filho das cidades: +Comparei o deserto silencioso +Ao perpetuo ruido que sussurra +Pelos palacios do abastado e nobre, +Pelos paços dos reis; e condoí-me +Do cortezão suberbo, que só cura +De honras, haveres, gloria, que se compram +Com maldicções e perennal remorso. +Gloria! A sua qual é? Pelas campinas, +Cubertas de cadaveres, regadas +De negro sangue, elle segou seus louros; +Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva +Ao som do choro da viuva e do orpham; +Ou, dos sustos senhor, em seu delirio, +Os homens, seus irmãos, flagella e opprime +Lá o filho do pó se julga um nume, +Porque a terra o adorou: o desgraçado +Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros +Nunca se ha-de chegar para traga-lo +Ao banquete da morte, imaginando +Que uma lagea de marmore, que esconde +O cadaver do grande, é mais duravel +Do que esse chão sem inscripção, sem nome, +Por onde o oppresso, o misero, procura +O repouso, e se atira aos pés do throno +Do Omnipotente, a demandar justiça +Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos. + + +XIII. + +Oh cidade, cidade, que trasbordas +De vicios, de paixões, e de amarguras! +Tu lá estás, na tua pompa involta, +Suberba prostituta, alardeiando +Os theatros, e os paços, e o ruido +Das carroças dos nobres, recamadas +De ouro e prata, e os prazeres de uma vida +Tempestuosa, e o tropeiar continuo +Dos férvidos ginetes, que alevantam +O pó e o lodo cortezão das praças; +E as gerações corruptas de teus filhos +Lá se revolvem, qual montão de vermes +Sobre um cadaver putrido!--Cidade, +Branqueado sepulchro, que misturas +A opulencia, a miseria, a dôr e o goso, +Honra e infamia, pudor e impudicicia, +Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloria +Da humanidade?--O que o souber que o diga! + +Bem negra avulta aqui, na paz do valle, +A imagem desse povo, que reflue +Das moradas á rua, á praça, ao templo; +Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre, +Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; +Absurdo mixto de baixeza extrema +E de extrema ousadia; vulto enorme, +Ora aos pés de um vil despota estendido, +Ora surgindo, e arremessando ao nada +As memorias dos seculos que foram, +E depois sobre o nada adormecendo. + +Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se +Em joelhos nos atrios dos tyrannos, +Onde, entre o lampejar de armas de servos, +O servo popular adora um tigre? +Esse tigre é o idolo do povo! +Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe +O ferreo sceptro: ide folgar em roda +De cadafalsos, povoados sempre +De victimas illustres, cujo arranco +Seja como harmonia, que adormente +Em seus terrores o senhor das turbas. +Passae depois. Se a mão da Providencia +Esmigalhou a fronte á tyrannia; +Se o despota cahiu, e está deitado +No lodaçal da sua infamia, a turba +Lá vai buscar o sceptro dos terrores, +E diz--é meu»; e assenta-se na praça, +E involta em roto manto, e julga, e reina. +Se um ímpio, então, na affogueada bôcca +De volcão popular sacode um facho, +Eis o incendio que muge, e a lava sóbe, +E referve, e trasborda, e se derrama +Pelas ruas além: clamor retumba +De anarchia impudente, e o brilho de armas +Pelo escuro transluz, como um presagio +De assolação, e se amontoam vagas +Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo; +Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos +Cava fundo da Patria a sepultura. +Onde, abraçando a gloria do passado +E do futuro a ultima esperança, +As esmaga comsigo, e ri morrendo. + +Tal és, cidade, licenciosa ou serva! +Outros louvem teus paços sumptuosos, +Teu ouro, teu poder:--sentina impura +De corrupções, teus não serão meus hymnos! + + +XIV. + +Cantor da solidão, vim assentar-me +Juncto do verde cespede do valle, +E a paz de Deus do mundo me consola. + +Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo, +Um pobre conventinho. Homem piedoso +O alevantou ha seculos, passando, +Como orvalho do céu, por este sitio, +De virtudes depois tão rico e fertil. +Como um pae de seus filhos rodeado, +Pelos matos do outeiro o vão cercando +Os tugurios de humildes eremitas, +Onde o cilicio e a compuncção apagam +Da lembrança de Deus passados erros +Do peccador, que reclinou a fronte +Penitente no pó. O sacerdote +Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; +E perdoou-lhe, e consolou-o em nome +Do que expirando perdoava, o Justo +Que entre os humanos não achou piedade. + + +XV. + +Religião! do misero conforto, +Abrigo extremo de alma, que ha mirrado +O longo agonisar de uma saudade, +Da deshonra, do exilio, ou da injustiça, +Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo, +Que renovou o corrompido mundo, +E que mil povos pouco a pouco ouviram. +Nobre, plebeu, dominador, ou servo, +O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, +Da desgraça no dia ajoelharam +No limiar do solitario templo. +Ao pé desse portal, que veste o musgo, +Encontrou-os chorando o sacerdote, +Que da serra descia á meia-noite, +Pelo sino das preces convocado: +Ahi os viu ao despontar do dia, +Sob os raios do sol, ainda chorando. +Passados mezes, o burel grosseiro, +O leito de cortiça, e a fervorosa +E contínua oração foram cerrando +Nos corações dos miseros as chagas, +Que o mundo sabe abrir, mas que não cura. +Aqui, depois, qual halito suave +Da primavera, lhes correu a vida, +Até sumir-se no adro do convento, +Debaixo de uma lagea tosca e humilde, +Sem nome, nem palavra, que recorde +O que a terra abrigou no somno extremo. + +Eremiterio antigo, oh, se podesses +Dos annos que lá vão contar a historia; +Se ora, á voz do cantor, possivel fosse +Transudar desse chão, gelado e mudo, +O mudo pranto, em noites dolorosas, +Por naufragos do mundo derramado +Sobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis, +Broncas pedras, falar, o que dirieis! + +Quantos nomes mimosos da ventura, +Convertidos em fabula das gentes, +Despertariam o eccho das montanhas, +Se aos negros troncos do sobreiro antigo +Mandasse o Eterno sussurrar a historia +Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, +Para um leito formar, onde velassem +Da mágua, ou do remorso as longas noites! +Aqui veiu, talvez, buscar asylo +Um poderoso, outr'ora anjo da terra, +Despenhado nas trévas do infortunio; +Aqui gemeu, talvez, o amor trahido, +Ou pela morte convertido em cancro +De infernal desespero; aqui soaram +Do arrependido os ultimos gemidos, +Depois da vida derramada em gosos, +Depois do goso convertido em tedio. +Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra +Vestidura mortal, deixou vestigios +De seu breve passar. E isso que importa, +Se Deus o viu; se as lagrymas do triste +Elle contou, para as pagar com gloria? + + +XVI. + +Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda +Que serpeia do monte ao fundo valle, +Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, +Como um pharol de vida em mar de escolhos: +Ao christão infeliz acolhe no ermo, +E consolando-o, diz-lhe--a patria tua +É lá no céu: abraça-te comigo.» +Juncto della esses homens, que passaram +Acurvados na dôr, as mãos ergueram +Para o Deus, que perdoa, e que é conforto +Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança +Vem derramar seu coração afflicto: +É do deserto a historia a cruz e a campa; +E sobre tudo o mais pousa o silencio. + + +XVII. + +Feliz da terra, os monges não maldigas; +Do que em Deus confiou não escarneças! +Folgando segue a trilha, que ha juncado, +Para teus pés, de flores a fortuna, +E sobre a morta crença em paz descança. +Que mal te faz, que goso vae roubar-te +O que ensanguenta os pés no tojo agreste, +E sobre a fria pedra encosta a fronte? +Que mal te faz uma oração erguida, +Nas solidões, por voz sumida e frouxa, +E que, subindo aos céus, só Deus escuta? +Oh, não insultes lagrymas alheias, +E deixa a fé ao que não tem mais nada!... + +E se estes versos te contristam, rasga-os. +Teus menestreis te venderão seus hymnos, +Nos banquetes opiparos, emquanto +O negro pão repartirá comigo, +Seu trovador, o pobre anachoreta, +Que não te inveja as ditas, como as c'roas +Do prazer ao cantor eu não invejo; +Tristes coroas, sob as quaes às vezes +Está gravada uma inscripção d'infamia. + + + + +MOCIDADE E MORTE. + + +Solevantado o corpo, os olhos fitos, +As magras mãos cruzadas sobre o peito, +Vêde-o, tão moço, velador de angustias, +Pela alta noite em solitario leito. + +Por essas faces pallidas, cavadas, +Olhae, em fio as lagrymas deslisam; +E com o pulso, que apressado bate, +Do coração os éstos harmonisam. + +É que nas veias lhe circula a febre; +É que a fronte lhe alaga o suor frio; +É que lá dentro á dor, que o vai roendo, +Responde horrivel íntimo ciclo. + +Encostando na mão o rosto acceso, +Fitou os olhos humidos de pranto +Na lampada mortal alli pendente, +E lá comsigo modulou um canto. + +É um hymno de amor e de esperança? +É oração de angustia e de saudade? +Resignado na dor, saúda a morte, +Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade? + +É isso tudo, tumultuando incerto +No delírio febril daquella mente +Que, balouçada á borda do sepulchro, +Volve após si a vista longamente. + +É a poesia a murmurar-lhe na alma +Ultima nota de quebrada lyra; +É o gemido do tombar do cedro; +É triste adeus do trovador que expira. + + +DESESPERANÇA. + +«Meia-noite bateu, volvendo ao nada +Um dia mais, e caminhando eu sigo! +Vejo-te bem, oh campa mysteriosa... +Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo! + +Qual tufão, que ao passar agita o pégo. +Meu placido existir turvou a sorte. +Halito impuro de pulmões ralados +Me diz que nelles se assentou a morte. + +Em quanto mil e mil no largo mundo +Dormem em paz sorrindo, eu vélo e penso, +E julgo ouvir as preces por finados, +E ver a tumba e o fumegar do incenso. + +Se dormito um momento, acórdo em sustos; +Pulos me dá o coração no peito, +E abraço e beijo de uma vida extincta +O ultimo socio, o doloroso leito. + +De um abysmo insondado ás agras bordas +Insanavel doença me ha guiado, +E disse-me:--no fundo o esquecimento: +Desce; mas desce com andar pausado.» + +E eu lento vou descendo, e sondo as trévas: +Busco parar; parar um só instante! +Mas a cruel, travando-me da dextra, +Me faz cahir mais fundo, e grita:--ávante!» + +Porque escutar o transito das horas? +Alguma dellas trar-me-ha conforto? +Não! Esses golpes, que no bronze ferem, +São para mim como dobrar por morto. + +«Morto! morto!--me clama a consciencia: +Diz-m'o este respirar rouco e profundo. +Ai! porque fremes, coração de fogo, +Dentro de um seio corrompido e immundo? + +Beber um ar diaphano e suave, +Que renovou da tarde o brando vento, +E converte-lo, no aspirar contínuo, +Em bafo apodrecido e peçonhento! + +Estender para o amigo a mão mirrada, +E elle negar a mão ao pobre amigo; +Querer uni-lo ao seio descarnado, +E elle fugir, temendo o seu perigo! + +E ver após um dia ainda cem dias, +Nús d'esperança, ferteis de amargura; +Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo, +E só, bem lá no extremo, a sepultura! + +Agora!... quando a vida me sorria: +Agora!... que meu estro se accendêra; +Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças, +Como se enlaça pelo choupo a hera, + +Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo; +Varrer-me o nome escuro esquecimento: +Não ter um eccho de louvor, que affague +Do desgraçado o humilde monumento! + +Oh tu, sêde de um nome glorioso, +Que tão fagueiros sonhos me tecias, +Fugiste, e só me resta a pobre herança +De ver a luz do sol mais alguns dias. + +Vestem-se os campos do verdor primeiro: +Já das aves canções no bosque ecchoam: +Não para mim, que só escuto attento +Funereos dobres que no templo soam! + +Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo, +Irei tão cedo repousar na terra?! +Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos; +Um louro só... e meu sepulchro cerra! + +É tão bom respirar, e a luz brilhante +Do sol oriental saudar no outeiro! +Ai, na manhan sauda-la posso ainda; +Mas será este inverno o derradeiro! + +Quando de pomos o vergel for cheio; +Quando ondeiar o trigo na planura; +Quando pender com aureo fructo a vide, +Eu tambem penderei na sepultura. + +Dos que me cercam no turbado aspecto, +Na voz que prende desusado enleio, +No pranto a furto, no fingido riso +Fatal sentença de morrer eu leio. + +Vistes vós criminoso, que hão lançado +Seus juizes nos trances da agonia, +Em oratorio estreito, onde não entra +Suavissima luz do claro dia; + +Diante a cruz, ao lado o sacerdote, +O cadafalso, o crime, o algoz na mente, +O povo tumultuando, o extremo arranco, +E céu, e inferno, e as maldicções da gente? + +Se adormece, lá surge um pesadelo, +Com os martyrios da sua alma acorde; +Desperta logo, e á terra se arremessa, +E os punhos cerra, e delirante os morde. + +Sobre as lageas do duro pavimento +De vergões e de sangue o rosto cobre. +Ergue-se e escuta com cabellos hirtos +Do sino ao longe o compassado dobre. + +Sem esperança!... + Não! Do cadafalso +Sóbe as escadas o perdão ás vezes; +Porém a mim... não me dirão:--és salvo!» +E o meu supplicio durará por mezes. + +Dizer posso:--existi: que a dor conheço! +Do goso a taça só provei por horas: +E serei teu, calado cemiterio, +Que engenho, gloria, amor, tudo devoras. + +Se o furacão rugiu, e o debil tronco +De arvore tenra espedaçou passando, +Quem se doeu de a ver jazendo em terra? +Tal é o meu destino miserando! + +Numen de sancto amor, mulher querida, +Anjo do céu, encanto da existencia, +Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te. +Por ti me salve a mão da Providencia. + +Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge! +Um beijo ardente aos labios teus voára: +E neste beijo venenoso a morte +Talvez este infeliz só te entregára! + +Se eu podesse viver... como teus dias +Cercaria de amor suave e puro! +Como te fôra placido o presente; +Quanto risonho o aspecto do futuro! + +Porém, medonho espectro ante meus olhos, +Como sombra infernal perpetuo ondeia, +Bradando-me que vai partir-se o fio +Com que da minha vida se urde a teia. + +Entregue á seducção em quanto eu durmo, +No turbilhão do mundo hei-de deixar-te! +Quem velará por ti, pomba innocente? +Quem do perjurio poderá salvar-te? + +Quando eu cerrar os olhos moribundos +Tu verterás por mim pranto saudoso; +Mas quem me diz que não virá o riso +Banhar teu rosto triste e lachrymoso? + +Ai, o extincto só herda o esquecimento! +Um novo amor te agitará o peito: +E a dura lagea cubrirá meus ossos +Frios, despidos sobre terreo leito!... + +Oh Deus, porque este calix de agonia +Até as bordas de amargor me encheste? +Se eu devia acabar na juventude, +Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste? + +Virgem do meu amor, porque perde-la? +Porque entre nós a campa ha-de assentar-se? +Tua suprema paz com goso ou dores, +Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se? + +Não haver quem me salve! e vir um dia +Em que de minha o nome ainda lhe désse! +Então, Senhor, o umbral da eternidade, +Talvez sem um queixume, transposesse. + +Mas, qual flor em botão pendida e murcha, +Sem de fragrancias perfumar a brisa, +Eu poeta, eu amante, ir esconder-me +Sob uma lousa desprezada e lisa! + +Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel? +Em te adorar que fui, senão insano?... +O teu fatal poder hoje maldigo! +O que te chama pae, mente: és tyranno. + +E se aos pés de teu throno os ais não chegam; +Se os gemidos da terra os ares somem; +Se a Providencia é crença van, mentida, +Porque geraste a intelligencia do homem? + +Porque da virgem no sorrir poseste +Sancto presagio de suprema dita, +E apontaste ao poeta a immensidade +Na ancia de gloria que em sua alma habita? + +A immensidade!... E que me importa herda-la, +Se na terra passei sem ser sentido? +Que val eterno vagueiar no espaço, +Se nosso nome se afundou no olvido? + + +O ANJO DA GUARDA. + +«Impio, silencio! A tua voz blasphema +Da noite a paz perturba. +Verme, que te rebellas +Sob a mão do Senhor, +Vês os milhões d'estrellas +De nitido fulgor, +Que, em ordenada turba, +A Deus entoam incessantes hymnos? +Quantas vezes apaga +Do livro da existencia +Um orbe a mão do Eterno! +E o bello astro que expira +Maldiz a Providencia, +Maldiz a mão que o esmaga? +Acaso pára o cantico superno? +Ou apenas suspira +O moribundo, +Que se chamava um mundo? +Quem vai pôr uma campa sobre os restos +Desse inerte planeta, +Que o destructor cometa +Incinerou na rapida passagem? +E tu, átomo obscuro, +Que varre á tarde a aragem, +Sóltas do seio impuro +Maldicção insensata, +Porque o teu Deus te evoca á eternidade? +Que é o viver? O umbral, a que um momento +O espirito, surgindo +Das solidões do nada +Á voz do Creador, se encosta, e attento +Contempla a luz e o céu; d'onde desata +Seu vôo á immensidade. +Geme acaso o passarinho +De saudade, +Quando as azas expande, e deixa o ninho +A vez primeira, a mergulhar nos ares? +Volve olhos lachrymosos +Aos mares tormentosos +O navegante, quando aproa ás plagas +Da patria suspirada? +Porque morres?! Pergunta á Providencia +Porque te fez nascer. +Qual era o teu direito a ver o mundo; +Teu jus á existencia? +Olha no outono o ulmeiro +Que o vendaval agita, +E cujas tenues folhas +Aos centos precipita. +São a folha do ulmeiro o nome e a fama, +E o amar dos humanos: +Ao nada do que foi assim se atiram +No vortice dos annos. +Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo, +Que somem mil ruídos. +E a voz da terra o que é, na voz immensa +Dos orbes reunidos? +Amor! amor terreno!... Ai, se podesses +Comprehender a amargura, +Com que te chóro, oh alma transviada! +Eu, que te amei do berço, e qual doçura +Ha no affecto que liga o anjo ao homem, +Rindo despiras esse corpo enfermo, +Para te unir a mim, para aspirares +O goso celestial de amor sem termo! +Alma triste, que mesquinha +Te debruças sobre o inferno, +Ouve o anjo, pobresinha; +Vem ao goso sempiterno. +Resigna-te e espera, e os dias de prova +Serão para o crente quaes breves instantes. +Tomar-te-hei nos braços no trance da morte, +Fendendo o infinito co' as asas radiantes. +Depois, das alturas teu terreo vestido +Sorrindo veremos na terra guardar, +E ao hymno de Hosanna nos córos celestes +A voz de um remido iremos junctar.» + + +A GRAÇA. + +Que harmonia suave +É esta, que na mente +Eu sinto murmurar, +Ora profunda e grave, +Ora meiga e cadente, +Ora que faz chorar? +Porque da morte a sombra, +Que para mim em tudo +Negra se reproduz, +Se aclara, e desassombra +Seu gesto carrancudo, +Banhada em branda luz? +Porque no coração +Não sinto pesar tanto +O ferreo pé da dor, +E o hymno da oração, +Em vez de irado canto, +Me pede íntimo ardor? + +És tu, meu anjo, cuja voz divina +Vem consolar a solidão do enfermo, +E a contemplar com placidez o ensina +De curta vida o derradeiro termo? + +Oh, sim! és tu, que na infantil idade, +Da aurora á frouxa luz, +Me dizias:--acorda, innocentinho, +Faze o signal da cruz.» +És tu, que eu via em sonhos, nesses annos +De inda puro sonhar, +Em nuvem d'ouro e purpura descendo +Co' as roupas a alvejar. +És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga, +Juncto ao bosque fremente, +Me contavas mysterios, harmonias +Dos céus, do mar dormente. +És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta +Modulavas o canto, +Que de noite, ao luar, sósinho erguia +Ao Deus tres vezes sancto. +És tu, que eu esqueci na idade ardente +Das paixões juvenis, +E que voltas a mim, sincero amigo, +Quando sou infeliz. + + Sinto a tua voz de novo, + Que me revoca a Deus: + Inspira-me a esperança, + Que te seguiu dos céus!... + + +RESIGNAÇÃO + +«No teu seio reclinado +Dormirei, Senhor, um dia, +Quando for na terra fria +Meu repouso procurar; + +Quando a lousa do sepulchro +Sohre mim tiver cahido +E este espirito affligido +Vir a tua luz brilhar! + +No teu seio, de pesares +O existir não se entretece; +Lá eterno o amor florece; +Lá florece eterna paz: + +Lá bramir juncto ao poeta +Não irão paixões e dores, +Vãos desejos, vãos temores +Do desterro em que elle jaz. + +Hora extrema, eu te saúdo! +Salve, oh trevas da jazida, +D'onde espera erguer-se á vida +Meu espirito immortal! + +Anjo bom, não me abandones +Neste trance dilatado; +Que contrito, resignado +Me acharás na hora fatal. + +E depois... Perdoa, oh anjo, +Ao amor do moribundo, +Que só deixa neste mundo +Pouco pó, muito gemer. + +Oh... depois... dize á mesquinha +Um segredo de doçura: +Que na patria o amor se apura, +Que o desterro viu nascer. + +Que é o céu a patria nossa; +Que é o mundo exilio breve; +Que o morrer é cousa leve; +Que é _principio_, não é _fim_: + +Que duas almas que se amaram +Vão lá ter nova existencia, +Confundidas n'uma essencia, +A de um novo cherubim.» + + + + +DEUS. + + +Nas horas do silencio, á meia-noite, + Eu louvarei o Eterno! +Ouçam-me a terra, e os mares rugidores, + E os abysmos do inferno. +Pela amplidão dos céus meus cantos sôem, + E a lua resplendente +Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa + O hymno do Omnipotente. + +Antes de tempo haver, quando o infinito + Media a eternidade, +E só do vacuo as solidões enchia + De Deus a immensidade, +Elle existia, em sua essencia involto, + E fóra delle o nada: + +No seio do Creador a vida do homem + Estava ainda guardada: +Ainda então do mundo os fundamentos + Na mente se escondiam +De Jehovah, e os astros fulgurantes + Nos céus não se volviam. + +Eis o Tempo, o Universo, o Movimento + Das mãos sólta o Senhor: +Surge o sol, banha a terra, e desabrocha + Sua primeira flor: +Sobre o invisivel eixo range o globo: + O vento o bosque ondeia: +Retumba ao longe o mar: da vida a força + A natureza anceia! + +Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te, + Ou cantar teu poder? +Quem dirá de Teu braço as maravilhas, + Fonte de todo o ser, +No dia da creação; quando os thesouros + Da neve amontoaste; +Quando da terra nos mais fundos valles + As aguas encerraste?! + +E eu onde estava, quando o Eterno os mundos, + Com dextra poderosa, +Fez, por lei immutavel, se librassem + Na mole ponderosa? +Onde existia então? No typo immenso + Das gerações futuras; +Na mente do meu Deus. Louvor a Elle + Na terra e nas alturas! + +Oh, quanto é grande o Rei das tempestades, + Do raio, e do trovão! +Quão grande o Deus, que manda, em secco estio, + Da tarde a viração! +Por sua Providencia nunca, embalde, + Zumbiu minimo insecto; +Nem volveu o elephante, em campo esteril, + Os olhos inquieto. +Não deu Elle á avesinha o grão da espiga, + Que ao ceifador esquece; +Do norte ao urso o sol da primavera, + Que o reanima e aquece? +Não deu Elle á gazella amplos desertos, + Ao cervo a amena selva, +Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro, + No prado ao touro a relva? +Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas, + Consolação e luz? +Acaso em vão algum desventurado + Curvou-se aos pés da cruz? +A quem não ouve Deus? Sómente ao impio + No dia da afflicção, +Quando pésa sobre elle, por seus crimes, + Do crime a punição. + +Homem, ente immortal, que és tu perante + A face do Senhor? +És a junça do bréjo, harpa quebrada + Nas mãos do trovador! +Olha o velho pinheiro, campeiando + Entre as neves alpinas: +Quem irá derribar o rei dos bosques + Do throno das collinas? +Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia + Extremo Deus mandou! +Lá correu o aquilão: fundas raizes + Aos ares lhe assoprou. +Suberbo, sem temor, saíu na margem + Do caudaloso Nilo, +O corpo monstruoso ao sol voltando, + Medonho crocodilo. +De seus dentes em roda o susto habita; + Vê-se a morte assentada +Dentro em sua garganta, se descerra + A bôca affogueada: +Qual duro arnez de intrepido guerreiro + É seu dorso escamoso; +Como os ultimos ais de um moribundo + Seu grito lamentoso: +Fumo e fogo respira quando irado; + Porém, se Deus mandou, +Qual do norte impellida a nuvem passa, + Assim elle passou! + +Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume; + Perdoa ao teu cantor! +Dignos de ti não são meus frouxos hymnos, + Mas são hymnos de amor. +Embora vís hypocritas te pintem + Qual barbaro tyranno: +Mentem, por dominar com ferreo sceptro + O vulgo cego e insano. +Quem os crê é um ímpio! Receiar-te + É maldizer-te, oh Deus; +É o throno dos despotas da terra + Ir collocar nos céus. +Eu, por mim, passarei entre os abrolhos + Dos males da existencia +Tranquillo, e sem temor, á sombra posto + Da tua Providencia. + + + + +A TEMPESTADE. + + +Sibilla o vento:--os torreões de nuvens + Pésam nos densos ares: +Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas + Pela extensão dos mares: +A immensa vaga ao longe vem correndo, + Em seu terror envolta; +E, d'entre as sombras, rapidas centelhas + A tempestade solta. +Do sol no occaso um raio derradeiro, + Que, apenas fulge, morre, +Escapa á nuvem, que, apressada e espessa, + Para apaga-lo corre. +Tal nos affaga em sonhos a esperança, + Ao despontar do dia, +Mas, no acordar, lá vem a consciencia + Dizer que ella mentia! +As ondas negro-azues se conglobaram; + Serras tornadas são, +Contra as quaes outras serras, que se arqueiam, + Bater, partir-se vão. + +Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume, + Da natureza açoite! +Tu guias os bulcões, do mar princesa, + E é teu vestido a noite! +Quando pelos pinhaes, entre o granizo, + Ao sussurrar das ramas, +Vibrando sustos, pavorosa ruges + E assolação derramas, +Quem porfiar comtigo, então, ousára + De gloria e poderio; +Tu que fazes gemer pendido o cedro, + Turbar-se o claro rio? + +Quem me dera ser tu, por balouçar-me + Das nuvens nos castellos, +E ver dos ferros meus, emfim, quebrados + Os rebatidos élos! +Eu rodeára, então, o globo inteiro; + Eu sublevára as aguas; +Eu dos volcões com raios accendêra + Amortecidas fráguas; +Do robusto carvalho e sobro antigo + Acurvaria as frontes; +Com furacões, os areiaes da Lybia + Converteria em montes; +Pelo fulgor da lua, lá do norte + No polo me assentára, +E vira prolongar-se o gelo eterno, + Que o tempo amontoára. +Alli, eu solitario, eu rei da morte, + Erguèra meu clamor, +E dissera:--sou livre, e tenho imperio; + Aqui, sou eu senhor!» + +Quem se podéra erguer, como estas vagas, + Em turbilhões incertos, +E correr, e correr, troando ao longe, + Nos liquidos desertos! +Mas entre membros de lodoso barro + A mente presa está!... +Ergue-se em vão aos céus: precipitada, + Rapido, em baixo dá. + +Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas, + Entre escarcéus erguidos, +Que eu te invoco, pedindo-te feneçam + Meus dias aborridos: +Quebra duras prisões, que a natureza + Lançou a esta alma ardente; +Que ella possa voar, por entre os orbes, + Aos pés do Omnipotente. +Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem + Desça, e estourando a esmague, +E a grossa proa, dos tufões ludibrio, + Solta, sem rumo vague! + +Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam + O somno do existir; +Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças + Nas trévas do porvir. +Doce mãe do repouso, extremo abrigo + De um coração oppresso, +Que ao ligeiro prazer, á dor cançada + Negas no seio accésso, +Não despertes, oh não! os que abominam + Teu amoroso aspeito; +Febricitantes, que se abraçam, loucos, + Com seu dorído leito! +Tu, que ao misero rís com rir tão meigo, + Calumniada morte; +Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo + Contra o furor da sorte; +Tu, que esperas ás portas dos senhores, + Do servo ao limiar, +E eterna corres, peregrina, a terra + E as solidões do mar, +Deixa, deixa sonhar ventura os homens; + Já filhos teus nasceram: +Um dia acordarão desses delirios, + Que tão gratos lhes eram. +E eu que vélo na vida, e já não sonho + Nem gloria, nem ventura; +Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes, + O calix da amargura: +Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado + De quanto ha vil no mundo, +Sanctas inspirações morrer sentindo + Do coração no fundo, +Sem achar no desterro uma harmonia + De alma, que a minha entenda, +Porque seguir, curvado ante a desgraça, + Esta espinhosa senda? + +Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa + Fragor da tempestade, +Psalmo de mortós, que retumba ao longe, + Grito da eternidade!... + +Pensamento infernal! Fugir covarde + Ante o destino iroso? +Lançar-me, envolto em maldicções celestes, + No abysmo tormentoso? +Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me + Nas lagrymas da terra; +Guardarei minha estancia atribulada, + Com meu desejo em guerra. +O fiel guardador terá seu premio, + O seu repouso, emfim, +E atalaiar o sol de um dia extremo + Virá outro após mim. +Herdarei o morrer! Como é suave + Bençam de pae querido. +Será o despertar, ver meu cadaver, + Ver o grilhão partido. + +Um consolo, entretanto, resta ainda + Ao pobre velador: +Deus lhe deixou, nas trévas da existencia, + Doce amizade e amor. +Tudo o mais é sepulchro branqueado + Por embusteira mão; +Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem + Remorso ao coração. +Passarei minha noite a luz tão meiga, + Até o amanhecer; +Até que suba á patria do repouso, + Onde não ha morrer. + + + + +O SOLDADO. + + +I. + +Veia tranquilla e pura +Do meu paterno rio, +Dos campos, que elle réga, +Mansissimo armentio. + +Rocio matutino, +Prados tão deleitosos, +Valles, que assombram selvas +De sinceiraes frondosos, + +Terra da minha infancia, +Tecto de meus maiores, +Meu breve jardimzinho, +Minhas pendidas flores, + +Harmonioso e sancto +Sino do presbyterio, +Cruzeiro venerando +Do humilde cemiterio. + +Onde os avós dormiram, +E dormirão os paes; +Onde eu talvez não durma, +Nem rese, talvez, mais, + +Eu vos saúdo! e o longo +Suspiro amargurado +Vos mando. É quanto póde +Mandar pobre soldado. + +Sobre as cavadas ondas +Dos mares procellosos, +Por vós já fiz soar +Meus cantos dolorosos. + +Na prôa resonante +Eu me assentava mudo, +E aspirava ancioso +O vento frio e agudo; + +Porque em meu sangue ardia +A febre da saudade, +Febre que só minora +Sopro de tempestade; + +Mas que se irrita, e dura +Quando é tranquillo o mar; +Quando da patria o céu +Céu puro vem lembrar; + +Quando, no extremo occaso, +A nuvem vaporosa, +Á frouxa luz da tarde, +Na côr imita a rosa; + +Quando, do sol vermelho +O disco ardente crece, +E paira sobre as aguas, +E emfim desapparece; + +Quando no mar se estende +Manto de negro dó; +Quando, ao quebrar do vento, +Noite e silencio é só; + +Quando sussurram meigas +Ondas que a nau separa, +E a rapida ardentia +Em tôrno a sombra aclara. + + +II. + +Eu já ouvi, de noite, +Entre o pinhal fechado, +Um fremito soturno +Passando o vento irado: + +Assim o murmurio +Do mar, fervendo á prôa, +Com o gemer do afflicto, +Sumido, accorde sôa: + +E o scintillar das aguas +Gera amargura e dor, +Qual lampada, que pende +No templo do Senhor, + +Lá pela madrugada, +Se o oleo lhe escaceia, +E a espaços expirando, +Affrouxa e bruxuleia. + + +III. + +Bem abundante messe +De pranto e de saudade +O foragído errante +Colhe na soledade! + +Para o que a patria perde +É o universo mudo; +Nada lhe rí na vida; +Mora o fastio em tudo; + +No meio das procellas, +Na calma do oceano, +No sopro do galerno, +Que enfuna o largo panno, + +E no entestar co' a terra +Por abrigado esteiro, +E no pousar á sombra +Do tecto do estrangeiro. + + +IV. + +E essas memorias tristes +Minha alma laceraram, +E a senda da existencia +Bem agra me tornaram: + +Porém nem sempre ferreo +Foi meu destino escuro; +Sulcou de luz um raio +As trévas do futuro. + +Do meu paiz querido +A praia ainda beijei, +E o velho e amigo cedro +No valle ainda abracei! + +Nesta alma regelada +Surgiu ainda o goso, +E um sonho lhe sorriu +Fugaz, mas amoroso. + +Oh, foi sonho da infancia +Desse momento o sonho! +Paz e esperança vinham +Ao coração tristonho. + +Mas o sonhar que monta, +Se passa, e não conforta? +Minh' alma deu em terra, +Como se fosse morta. + +Foi a esperança nuvem, +Que o vento some á tarde: +Facho de guerra acceso +Em labaredas arde! + +Do fratricidio a luva +Irmão a irmão lançara, +E o grito: _ai do vencido!_ +Nos montes retumbara. + +As armas se hão cruzado: +O pó mordeu o forte; +Cahiu: dorme tranquillo: +Deu-lhe repouso a morte. + +Ao menos, nestes campos +Sepulchro conquistou, +E o adro dos estranhos +Seus ossos não guardou. + +Elle herdará, ao menos, +Aos seus honrado nome, +Paga de curta vida +Ser-lhe-ha largo renome. + + +V. + +E a bala sibilando, +E o trom da artilharia, +E a tuba clamorosa, +Que os peitos accendia, + +E as ameaças torvas, +E os gritos de furor, +E desses, que expiravam, +Som cavo de estertor, + +E as pragas do vencido, +Do vencedor o insulto, +E a pallidez do morto, +Nú, sanguento, insepulto, + +Eram um cá'os de dores +Em convulsão horrivel, +Sonho de accesa febre, +Scena tremenda e incrivel! + +E suspirei: nos olhos +Me borbulhava o pranto, +E a dor, que trasbordava, +Pediu-me infernal canto. + +Oh, sim! maldisse o instante, +Em que buscar viera, +Por entre as tempestades, +A terra em que nascera. + +Que é, em fraternas lides, +Um canto de victoria? +É delirar maldicto; +É triumphar sem gloria. + +Maldicto era o triumpho, +Que rodeiava o horror, +Que me tingia tudo +De sanguinosa côr! + +Então olhei saudoso +Para o sonoro mar; +Da nau do vagabundo +Meigo me riu o arfar. + +De desespero um brado +Soltou, ímpio, o poeta. +Perdão! Chegára o misero +Da desventura á meta. + + +VI. + +Terra infame!--de servos aprisco, +Mais chamar-me teu filho não sei: +Desterrado, mendigo serei; +De outra terra meus ossos serão! + +Mas a escravo, que pugna por ferros, +Que herdará deshonrada memoria, +Renegando da terra sem gloria, +Nunca mais darei nome de irmão! + +Onde é livre tem patria o poeta, +Que ao exilio condemna ímpia sorte. +Sobre os plainos gelados do norte +Luz do sol tambem desce do céu; + +Tambem lá se erguem montes, e o prado +De boninas, em maio, se veste; +Tambem lá se meneia o cypreste +Sobre o corpo que á terra desceu. + +Que me importa o loureiro da encosta? +Que me importa da fonte o ruido? +Que me importa o saudoso gemido +Da rollinha sedenta de amor? + +Que me importam outeiros cubertos +Da verdura da vinha, no estio? +Que me importa o remanso do rio, +E, na calma, da selva o frescor? + +Que me importa o perfume dos campos, +Quando passa da tarde a bafagem, +Que se embebe, na sua passagem, +Na fragrancia da rosa e aleli? + +Que me importa? Pergunta insensata! +É meu berço: a minha alma está lá... +Que me importa... Esta bôca o dirá?! +Minha patria, estou louco... menti! + +Eia, servos! O ferro se cruze. +Assobie o pelouro nos ares; +Estes campos convertam-se em mares, +Onde o sangue se possa beber! + +Larga a valla! que, após a peleja, +Todos nós dormiremos unidos! +Lá vingados, e do odio esquecidos, +Paz faremos... depois do morrer! + + +VII. + +Assim, entre amarguras, +Me delirava a mente; +E o sol ia fugindo +No termo do occidente. + +E os fortes lá jaziam +Co'a face ao céu voltada; +Sorria a noite aos mortos, +Passando socegada. + +Porém, a noite delles +Não era a que passava! +Na eternidade a sua +Corria, e não findava. + +Contrarios ainda ha pouco, +Irmãos, emfim, lá eram! +O seu thesouro de odio, +Mordendo o pó, cederam. + +No limiar da morte +Assim tudo fenece: +Inimizades calam, +E até o amor esquece! + +Meus dias rodeiados +Foram de amor outr'ora; +E nem um vão suspiro +Terei, morrendo, agora, + +Nem o apertar da dextra +Ao desprender da vida, +Nem lagryma fraterna +Sobre a feral jazida! + +Meu derradeiro alento +Não colherão os meus. +Por minha alma atterrada +Quem pedirá a Deus? + +Ninguem! Aos pés o servo +Meus restos calcará, +E o riso ímpio, odiento, +Mofando soltará. + +O sino luctuoso +Não lembrará meu fim: +Preces, que o morto afagam, +Não se erguerão por mim! + +O filho dos desertos, +O lobo carniceiro, +Ha-de escutar alegre +Meu grito derradeiro! + +Oh morte, o somno teu +Só é somno mais largo; +Porém, na juventude, +É o dormi-lo amargo; + +Quando na vida nasce +Essa mimosa flor. +Como a cecem suave, +Delicioso amor; + +Quando a mente accendida +Crê na ventura e gloria; +Quando o presente é tudo, +E inda nada a memoria! + +Deixar a cara vida, +Então, é doloroso, +E o moribundo á terra +Lança um olhar saudoso. + +A taça da existencia +No fundo fézes tem; +Mas os primeiros tragos +Doces, bem doces, vem. + +E eu morrerei agora +Sem abraçar os meus, +Sem jubiloso um hymno +Alevantar aos céus? + +Morrer, morrer, que importa? +Final suspiro, ouvi-lo +Ha-de a patria. Na terra +Irei dormir tranquillo. + +Dormir? Só dorme o frio +Cadaver, que não sente; +A alma voa a abrigar-se +Aos pés do Omnipotente. + +Reclinar-me-hei á sombra +Do amplo perdão do Eterno; +Que não conheço o crime, +E erros não pune o inferno. + +E vós, entes queridos, +Entes que tanto amei, +Dando-vos liberdade +Contente acabarei. + +Por mim livres chorar +Vós podereis um dia, +E ás cinzas do soldado +Erguer memoria pia. + + + + +A VICTORIA E A PIEDADE. + + +I. + +Eu nunca fiz soar meus pobres cantos + Nos paços dos senhores! +Eu jámais consagrei hymno mentido + Da terra aos oppressores. +Mal haja o trovador que vae sentar-se + Á porta do abastado, +O qual com ouro paga a propria infamia, + Louvor que foi comprado. +Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro + Prostitue o alaúde! +Deus á poesia deu por alvo a patria, + Deu a gloria e a virtude. +Feliz ou infeliz, triste ou contente, + Livre o poeta seja, +E em hymno isento a inspiração transforme, + Que na sua alma adeja. + + +II. + +No despontar da vida, do infortunio + Murchou-me o sopro ardente; +E saudades curti em longes terras + Da minha terra ausente. +O solo do desterro, ai, quanto ingrato + É para o foragido, +Ennevoado o céu, arido o prado, + O rio adormecido! +Eu lá chorei, na idade da esperaça, + Da patria a dura sorte: +Esta alma encaneceu; e antes de tempo + Ergueu hymnos á morte: +Que a morte é para o misero risonha, + Sancta da campa a imagem... +Alli é que se afferra o porto amigo, + Depois de ardua viagem. + + +III. + +Mas quando o pranto me sulcava as faces, + Pranto de atroz saudade, +Deus escutou do vagabundo as preces, + Delle teve piedade. +«Armas!--bradaram no desterro os fortes, + Como bradar de um só: +Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os + Indissoluvel nó. +Com seus irmãos as sacrosanctas juras, + Beijando a cruz da espada, +Repetiu o poeta:--Eia, partamos! + Ao mar!»--Partia a armada. +Pelas ondas azues correndo afoutos, + As praias demandámos +Do velho Portugal, e o balsão negro + Da guerra despregámos; +De guerra em que era infamia o ser piedoso, + Nobreza o ser cruel, +E em que o golpe mortal descia involto + Das maldicções no fel. + + +IV. + +Fanatismo brutal, odio fraterno, + De fogo céus toldados, +A fome, a peste, o mar avaro, as turbas + De innumeros soldados; +Comprar com sangue o pão, com sangue o lume + Em regelado inverno; +Eis contra o que, por dias de amargura, + Nos fez luctar o inferno. +Mas de fera victoria, emfim, colhemos + A c'roa de cypreste; +Que a fronte ao vencedor em ímpia lucta + Só essa c'roa veste. +Como ella torvo, soltarei um hymno + Depois do triumphar. +Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra + Bem triste é o acordar! +Nessa alta encosta sobranceira aos campos, + De sangue ainda impuros, +Onde o canhão troou por mais de um anno + Contra invenciveis muros, +Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me; + Pedir inspirações +Á noite queda, ao genio que me ensina + Segredos das canções. + + +V. + +Reina em silencio a lua: o mar não brame, + Os ventos nem bafejam; +Rasas co' a terra, só nocturnas aves + Em gyros mil adejam. +No plaino pardacento, juncto ao marco + Tombado, ou rota sebe, +Aqui e alli, de ossadas insepultas + O alvejar se percebe. +É que essa veiga, tão festiva outr'ora, + Da paz tranquillo imperio, +Onde ao carvalho a vide se enlaçava, + É hoje um cemiterio! + + +VI. + +Eis de esforçados mil inglorios restos, + Depois de brava lida; +De longo combater atroz memento + Em guerra fraticida. +Nenhum padrão recordará aos homens + Seus feitos derradeiros: +Nem dirá:--aqui dormem portugueses; + Aqui dormem guerreiros.» +Nenhum padrão, que peça aos que passarem + Resa fervente e pia, +E juncto ao qual entes queridos vertam + O pranto da agonia! +Nem hasteada cruz, consolo ao morto; + Nem lagea que os proteja +Do ardente sol, da noite humida e fria, + Que passa e que roreja! +Não! Lá hão-de jazer no esquecimento + De deshonrada morte, +Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos, + Não os dispersa o norte. + + +VII. + +Quem, pois, consolará gementes sombras, + Que ondeiam juncto a mim? +Quem seu perdão da Patria implorar ousa, + Seu perdão de Elohim? +Eu, o christão, o trovador do exilio, + Contrario em guerra crua, +Mas que não sei verter o fel da affronta + Sobre uma ossada nua. + + +VIII. + +Lavradores, zagaes, descem dos montes, + Deixando terras, gados, +Para as armas vestir, dos céus em nome, + Por phariseus chamados. +De um Deus de paz hypocritas ministros + Os tristes enganaram: +Foram elles, não nós, que estas cáveiras + Aos vermes consagraram. +Maldicto sejas tu, monstro do inferno, + Que do Senhor no templo, +Juncto da eterna cruz, ao crime incitas, + Dás do furor o exemplo! +Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste + Folgar de nosso mal, +E, entre as ruinas de cidade illustre, + Soltar riso infernal. +Tu, no teu coração insipiente, + Disseste:--Deus não há!» +Elle existe, malvado; e nós vencemos: + Treme; que tempo é já! + + +IX. + +Mas esses, cujos ossos espalhados + No campo da peleja +Jazem, exoram a piedade nossa; + Piedoso o livre seja! +Eu pedirei a paz dos inimigos, + Mortos como valentes, +Ao Deus nosso juiz, ao que distingue + Culpados de innocentes. + + +X. + +Perdoou, expirando, o Filho do Homem + Aos seus perseguidores: +Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes; + Perdão, oh vencedores! +Não insulteis o morto. Elle ha comprado + Bem caro o esquecimento, +Vencido adormecendo em morte ignobil, + Sem dobre ou monumento. +É tempo d'olvidar odios profundos + De guerra deploravel. +O forte é generoso, e deixa ao fraco + O ser inexoravel. +Oh, perdão para aquelle, a quem a morte + No seio agasalhou! +Elle é mudo: pedi-lo já não póde; + O dá-lo a nós deixou. +Além do limiar da eternidade + O mundo não tem réus, +O que legou á terra o pó da terra + Julgá-lo cabe a Deus. +E vós, meus companheiros, que não vistes + Nossa triste victoria, +Não precisaes do trovador o canto; + Vosso nome é da historia. + + +XI. + +Assim, foi do infeliz sobre a jazida + Que um hymno murmurei, +E, do vencido consolando a sombra, + Por vós eu perdoei. + + + + +A CRUZ MUTILADA. + + +Amo-te, oh cruz, no vertice firmada + De esplendidas igrejas; +Amo-te quando á noite, sobre a campa, + Juncto ao cypreste alvejas; +Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos, + As preces te rodeiam; +Amo-te quando em prestito festivo + As multidões te hasteiam; +Amo-te erguida no cruzeiro antigo, + No adro do presbyterio, +Ou quando o morto, impressa no ataúde, + Guias ao cemiterio; +Amo-te, oh cruz, até, quando no valle + Negrejas triste e só, +Núncia do crime, a que deveu a terra + Do assassinado o pó: + + Porém quando mais te amo, + Oh cruz do meu Senhor, + É se te encontro á tarde, + Antes de o sol se pôr, + + Na clareira da serra, + Que o arvoredo assombra, + Quando á luz que fenece + Se estira a tua sombra, + + E o dia ultimos raios + Com o luar mistura, + E o seu hymno da tarde + O pinheiral murmura. + + ----- + +E eu te encontrei, n'um alcantil agreste, +Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavas +Ao pôr do sol, e ao elevar-se a lua +Detraz do calvo cerro. A soledade +Não te pôde valer contra a mão ímpia, +Que te feriu sem dó. As linhas puras +De teu perfil, falhadas, tortuosas, +Oh mutilada cruz, falam de um crime +Sacrilego, brutal e ao ímpio inutil! +A tua sombra estampa-se no solo, +Como a sombra de antigo monumento, +Que o tempo quasi derrocou, truncada. +No pedestal musgoso, em que te ergueram +Nossos avós, eu me assentei. Ao longe, +Do presbyterio rustico mandava +O sino os simples sons pelas quebradas +Da cordilheira, annunciando o instante +Da _Ave-Maria_; da oração singela, +Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem +Se mistura nos canticos saudosos, +Que a natureza envia ao céu no extremo +Raio de sol, passando fugitivo +Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste +Liberdade e progresso, e que te paga +Com a injuria e o desprezo, e que te inveja +Até, na solidão, o esquecimento! + + ----- + +Foi da sciencia incredula o sectario, +Acaso, oh cruz da serra, o que na face +Affrontas te gravou com mão profusa? +Não! Foi o homem do povo, a quem consolo +Na miseria e na dôr constante has sido +Por bem dezoito seculos: foi esse +Por cujo amor surgias qual remorso +Nos sonhos do abastado ou do tyranno, +Bradando--_esmola!_ a um--_piedade!_ ao outro. + +Oh cruz, se desde o Golgotha não fôras +Symbolo eterno de uma crença eterna; +Se a nossa fé em ti fosse mentida, +Dos oppressos de outr'ora os livres netos +Por sua ingratidão dignos de opprobrio, +Se não te amassem, ainda assim seriam. +Mas és núncia do céu, e elles te insultam, +Esquecidos das lágrymas perennes +Por trinta gerações, que guarda a campa, +Vertidas a teus pés nos dias torvos +Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se +De que, se a paz domestica, a pureza +Do leito conjugal bruta violencia +Não vae contaminar, se a filha virgem +Do humilde camponês não é ludibrio +Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem; +Que por ti o cultor de ferteis campos +Colhe tranquillo da fadiga o premio, +Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura +Lhe diga:--é meu, e és meu! A mim deleites, +Liberdade, abundancia: a ti, escravo, +O trabalho, a miseria unido á terra, +Que o suor dessa fronte fertiliza, +Emquanto, em dia de furor ou tedio, +Não me apraz com teus restos fecunda-la.» + +Quando calada a humanidade ouvia +Este atroz blasphemar, tu te elevaste +Lá do oriente, oh cruz, involta em gloria, +E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:-- +Mentira!» E o servo alevantou os olhos, +Onde a esperança scintillava, a medo, +E viu as faces do senhor retinctas +Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista +Trépida, vaga. A cruz no céu do oriente +Da liberdade annunciára a vinda. + + ----- + +Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia +Desgastou no volver de cem combates, +Ao ver que, emfim, o seu paiz querido +Já não ousam calcar os pés d'estranhos, +Vem assentar-se á luz meiga da tarde, +Na tarde do viver, juncto do teixo +Da montanha natal. Na fronte calva, +Que o sol tostou e que enrugaram annos, +Ha um como fulgor sereno e sancto. +Da aldeia semideus, devem-lhe todos +O tecto, a liberdade, e a honra e vida. +Ao perpassar do veterano os velhos +A mão que os protegeu apertam gratos; +Com amorosa timidez os moços +Saúdam-no qual pae. Nas largas noites +Da gelada estação, sobre a lareira +Nunca lhe falta o cepo incendiado; +Sobre a mesa frugal nunca, no estio, +Refrigerante pomo. Assim do velho +Pelejador os derradeiros dias +Derivam para o tumulo suaves, +Rodeiados de affecto, e quando á terra +A mão do tempo gastador o guia, +Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze +Flores, lagrymas, bençãos, que consolem +Do defensor do fraco as cinzas frias. + +Pobre cruz! Pelejaste mil combates, +Os gigantes combates dos tyrannos, +E venceste. No solo libertado, +Que pediste? Um retiro no deserto, +Um pincaro granitico, açoutado +Pelas azas do vento e ennegrecido +Por chuvas e por soes. Para ameigar-te +Este ar humido e gelido a segure +Não foi ferir do bosque o rei. Do estio +No ardor canicular nunca disseste:-- +Dáe-me, sequer, do bravo medronheiro +O despresado fructo! O teu vestido +Era o musgo, que tece a mão do inverno, +E Deus creou para trajar as rochas. +Filha do céu, o céu era o teu tecto, +Teu escabelo o dorso da montanha. +Tempo houve em que esses braços te adórnava +C'roa viçosa de gentis boninas, +E o pedestal te rodeiavam preces. +Ficaste em breve só, e a voz humana +Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio. +Que te importava? As arvores da encosta +Curvavam-se a saudar-te, e revoando +As aves vinham circumdar-te de hymnos. +Affagava-te o raio derradeiro, +Frouxo do sol ao mergulhar nos mares, +E esperavas o tumulo. O teu tumulo +Devera ser o seio destas serras, +Quando, em génesis novo, á voz do Eterno, +Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára, +Ellas nas fauces dos volcões descessem. +Então para essa campa flores, bençãos, +Ou de saudade lagrymas vertidas, +Qual do velho soldado a lousa pede, +Não pedíras á ingrata raça humana, +Ao pé de ti no seu sudario involta. + + ----- + +Este longo esperar do dia extremo, +No esquecimento do ermo abandonada, +Foi duro de soffrer aos teus remidos, +Oh redemptora cruz. Eras, acaso, +Como um remorso e accusação perenne +No teu rochedo alpestre, onde te viam +Pousar tristonha e só? Acaso, á noite, +Quando a procella no pinhal rugia, +Criam ouvir-te a voz accusadora +Sobrelevar á voz da tempestade? +Que lhes dizias tu? De Deus falavas, +E do seu Christo, do divino martyr, +Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta +Ergueu, purificou, clamando ao servo, +No seu trance final:--Ergue-te, escravo! +És livre, como é pura a cruz da infamia. +Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes +Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo! +Abraça tua irman: segue-a sem susto +No caminho dos seculos. Da terra +Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho +Trará da tua liberdade o dia.» + +Eis porque teus irmãos te arrojam pedras, +Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te +Nos rumores da noite, a antiga historia +Recontando do Golgotha, lembrando-lhes +Que só ao Christo a liberdade devem, +E que impio o povo ser é ser infame. +Mutilado por elle, a pouco e pouco, +Tu em fragmentos tombarás do cerro, +Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanos +Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo. +Da gratidão a divida não paga +Ficará, oh tremenda accusadora, +Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo; +Sem que o remorso os corações lhes rasgue. +Do Christo o nome passará na terra. + + ----- + +Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina +Deixar de ser perenne testemunho +Da avita crença, os montes, a espessura, +O mar, a lua, o murmurar da fonte, +Da natureza as vagas harmonias, +Da cruz em nome, falarão do Verbo. + +Della no pedestal, então deserto, +Do deserto no seio, ainda o poeta +Virá, talvez, ao pôr do sol sentar-se; +E a voz da selva lhe dirá que é sancto +Este rochedo nú, e um hymno pio +A solidão lhe ensinará e a noite. + +Do cantico futuro uma toada +Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos +Da brisa do crepusculo nas azas? +É o porvir que te proclama eterna; +É a voz do poeta a saúdar-te. + + ----- + + Montanha do oriente, +Que, sobre as nuvens elevando o cume, +Divisas logo o sol, surgindo a aurora, + E que, lá no occidente, +Ultima vês seu radioso lume, +Em ti minha alma a eterna cruz adora. + + Rochedo, que descanças +No promontorio nú e solitario, +Como atalaia que o oceano explora, + Alheio ás mil mudanças +Que o mundo agitam turbulento e vario, +Em ti minha alma a eterna cruz adora. + + Sobros, robles frondentes, +Cuja sombra procura o viandante, +Fugindo ao sol a prumo que o devora, + Nesses dias ardentes +Em que o Leão nos céus passa radiante, +Em ti minha alma a eterna cruz adora. + + Oh mato variado, +De rosmaninho e murta entretecido, +De cujas tenues flores se evapora + Aroma delicado, +Quando és por leve aragem sacudido, +Em ti minha alma a eterna cruz adora. + Oh mar, que vais quebrando +Rolo após rolo pela praia fria, +E fremes som de paz consoladora, + Dormente murmurando +Na caverna maritima sombria, +Em ti minha alma a eterna cruz adora. + + Oh lua silenciosa, +Que em perpetuo volver, seguindo a terra, +Esparzes tua luz ameigadora + Pela serra formosa, +E pelos lagos que em seu seio encerra, +Em ti minha alma a eterna cruz adora. + + Debalde o servo ingrato + No pó te derribou + E os restos te insultou, + Oh veneranda cruz: + + Embora eu te não veja + Neste ermo pedestal; + És sancta, és immortal; + Tu és a minha luz! + + Nas almas generosas + Gravou-te a mão de Deus, + E, á noite, fez nos céus. + Teu vulto scintillar. + + Os raios das estrellas + Cruzam o seu fulgor; + Nas horas do furor + As vagas cruza o mar. + + Os ramos enlaçados + Do roble, choupo e til, + Cruzando em modos mil, + Se vão entretecer. + + Ferido, abre o guerreiro + Os braços, sólta um ai, + Pára, vacilla, e cáe + Para não mais se erguer. + + Cruzado aperta ao seio + A mãe o filho seu, + Que busca, mal nasceu, + Fontes da vida e amor. + + Surges, symbolo eterno + No céu, na terra e mar, + Do forte no expirar, + E do viver no alvor! + + + + +LIVRO SEGUNDO + +POESIAS VARIAS. + + + + +A PERDA D'ARZILLA. + +(1549). + + +Era noite: do céu limpo e sereno +Milhões d'estrellas trémulas pendiam, +Quaes as nocturnas lampadas d'um templo, +E as ribas ermas sussurrar se ouviam. +D'alterosa galé o negro vulto +Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve, +E lá nas serras d'Africa fronteiras +Branqueja a espaços o albornoz do alarve. + +Como tocheiros com brandões accesos, + De um féretro ao redor, +Cuja vermelha luz o horror da morte + Só faz sentir melhor, +Taes as nocturnas almenáras fulgem + Nas torres d'atalaia, +Pelos outeiros, que circumdam muros + De povoação na praia. + + ----- + + Arzilla, a guerreira. + Lá jaz na afflicção, + Que a rendeu aos mouros + Elrei dom João. + Tomar-te-ha Deus contas, + Rei fraco e prasmado, + De tão grande vilta, + De teu grão peccado. + Maldiz-te nos mares + Valente fronteiro, + Que na sé de Ceuta + Se armou cavalleiro; + Que dez aduares + Em Tanger queimou, + E em muros d'Alcacer + Dez elches matou: + Que era hoje d'Arzilla + Temido adaíl, + E a quem tu mandaste + Fugir como vil. + + ----- + + Vêde-o lá na gavia + Da negra galé, + De braços cruzados, + Immovel, em pé; + E a náu que arfa e voa + Na fremente via, + Ferindo na esteira + Fugaz ardentia; + E d'Africa as praias, + Que a ré vão fugindo, + E as vagas, que rolam, + Distantes mugindo. + Em roda o silencio: + No céu noite escura: + E o peito do triste + Confrange a amargura. + + ----- + + Do veterano as faces + O salso pranto réga: + Nos africanos montes + Saudoso os olhos préga. + Sente no seio as ancias + D'incomportavel dor, + E ás vezes range os dentes + Em trances de furor. + Um cantico á su' alma + A indignação inspira: + Vai sussurra-lo ao longe + Aura que branda espira. + + +O CANTO DO ADAÍL. + + Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla, +Alvejava do mouro o albornoz, +E corria, e corria veloz +O ginete de Bellamarim; + Quando o esculca, saído da villa +Da manhã ao primeiro fulgor, +Não podendo a atalaia transpôr, +Vinha ás portas bater de Çafim; + Quando em Tanger, a forte, se ouvia +De armaduras continuo tinir, +E nos ares se via luzir +O montante, a acha d'armas, e o criz; + Quando em Ceuta vencida se erguia +Sobre o alcacer pendão português, +Contra o qual na mesquita de Fês +A gazúa prégava o caciz: + Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa, +Que em vergeis se reclina gentil, +Pela noite fragrante d'abril +D'entre os robles sorria ao luar; + Porque, rico de presa formosa, +Já voltou nobre alcaide christão, +E inda ao longe de incendio o clarão +Tinge o céu sobre um triste aduar: + Nossa estrella era então esplendente; +Nosso nome era um som do terror; +Nossos paes conduzia o Senhor, +Qual Judá d'entre a sarça do Horeb. + Portugal, oh leão do occidente, +Tu rugias á beira do mar, +E o teu grito cá vinha troar +Temeroso no ardente Moghreb: + Era o tempo dos crentes e ousados: +Era o tempo da gloria da cruz! +Ora contam-se as páreas d'Ormuz; +Tem só nome Cochim, Calecut! + E esses muros d'Arzilla, regados +Com o sangue de martyres mil, +Ermos hoje tu deixas, rei vil, +Porque o Estreito passou Rais Dragut! + Oh valentes da India, do oceano, +Roncadores de féros no mar, +Cuja espada, porém, faiscar +Não sabe inda do mouro no arnez, + Mostrar vinde o valor sobre-humano +Neste clima de sol mirrador! +Aqui fama se compra com dor: +Facil gloria esquecei uma vez. + As galés do arrais mouro são fortes; +Sua chusma berbers do Takrur; +Como o vosso rei indio, Badur, +Não ha-de elle acabar á traição. + Uma festa de sangue e de mortes +Do occidente nas vagas tereis; +Elmos rijos aqui achareis, +Não o craneo d'inerme sultão! + Mercadores!--deixae vosso cravo, +A canella, a pimenta, o marfi; +Os vestidos de seda despí; +Ponde, em vez de collar, um gorjal. + Vella e remo soltae no mar bravo; +Vinde juncto de nós combater; +Nós que Arzilla deixámos perder, +Porque elrei... é um rei desleal. + Para nós os castellos d'avante; +Para nós a arrombada e bailéu; +Para nós pelejar ante o céu, +Que nos campos d'Arzilla nos viu: + Para nós o machado e montante; +Para vós a bombarda e arcabuz; +Para nós, ao cahir, ver a luz; +Ver a mão que estes peitos feríu; + Para nós o tombar derradeiro +Sobre o ferreo esporão das galés; +O pelouro, de sob o convés, +Cá de longe enviar... para vós! + O sudario do morto fronteiro +Alva escuma da proa será; +E em seus labios--_Arzilla!_--ouvirá +Quem ouvir sua ultima voz. + + ----- + +E elles, os fortes d'Asia, não vieram +Do cavalleiro d'Africa ao chamar; +E a náu d'elrei ao infamado Tejo + Veio aportar: +E o adaíl depôs as armas rotas, + Não no espaldar; +Que nunca o bom fronteiro viram mouros + Costas voltar. + + ----- + +E tomando o bordão de peregrino, +Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre + De dominicos, +Frades mui sanctos, que os judeus queimavam, + Porque eram ricos. +No meio desses tumulos, que encerram +Os despojos mortaes dos reis que foram, + Féretro antigo +O adaíl procurou. De um rei soldado + Era o jazigo. +Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle, +E palavras, que as lagrymas cortavam, + Lhe dirigiu: +Maldicção para alguem pedia ao morto; + Mas nada ouviu! +Então, livido o rosto, os labios brancos, +A fronte lhe pendeu sobre o ataúde + Do rei extinto. +Expirára ao dizer--_perdeu-se Arzilla!_-- + A Affonso Quinto. + + + + +A ROSA. + + + Pura em sua innocencia. + Entre a sarça espinhosa, +Purpurea esplende, inda botão intacto, + Na madrugada a rosa. + + É da campina a virgem + A pudibunda flor; +Em seus efluvios matutina brisa + Bebe o primeiro amor. + + O sol inunda as veigas: + Calou-se o rouxinol; +E a flor, ebria de gloria, á luz fervente, + Desabrochou-a o sol. + + O sôpro matutino + No seio seu pousára: +Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa, + Que a linda rosa amára. + + Bella se ostenta um dia; + Saúdam-na as pastoras; +Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves; + Voam do goso as horas. + + Lá vem chegando a noite, + E ella empallideceu: +Incessante prazer mirrou-lhe a seiva; + A rosa emmurcheceu. + + Desce o tufão dos montes, + Os matos sacudindo; +Desfallecida a flor desprende as folhas, + Que o vento vai sumindo. + + Onde estará a rosa, + Do prado a bella filha? +O tufão, que espalhou seus frageis restos, + Passou: não deixou trilha. + + Da sarça a flor virente + Nasceu, gosou, e é morta: +E a qual desses amantes de um momento + Seu fado escuro importa? + + Nenhum, nenhum por ella + Gemeu saudoso á tarde; +Não ha quem juncte as derramadas folhas, + Quem amoroso as guarde. + + Só da manhan o sôpro, + Passando no outro dia, +Da rosa, que adorou, quando a innocencia + Em seu botão sorria, + + Juncto do tronco humilde + O curso demorando, +Veio depositar perdão, saudade, + Queixoso sussurrando. + + De quantas és a imagem, + Oh desgraçada flor! +Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto + Tem murmurado o amor! + + + + +O MENDIGO. + + +I. + +O sol passa nos céus:--sob o carvalho, +Por cujos troncos se pendura a vide, + Cego ancião, +Mirrada dextra supplice estendendo, +Ao passageiro, que o despreza, implora + Do opprobrio o pão. + +Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite +Involve a luz no manto impenetravel: + E elle chorou: +E em seus andrajos para choça alpestre, +Sem se queixar de Deus, tardios passos + Encaminhou: + +Mas antes que chegasse ao pobre alvergue, +Do presbyterio o sino harmonioso + Soar ouvia, +Que, despedindo em roda os sons pausados, +Convidava os fiéis a erguer as preces + Da Ave-Maria. + +Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas +O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos + E uma oração, +A oração do infeliz, que Deus só ouve +Quando o desdenha o mundo e ludibria + Sua afflicção. + +Para o velho a existencia é solitaria, +Bem como a fonte que esgotou o estio. + Onde os pastores +Vinham a saciar o manso gado; +Onde contavam penas e prazeres + Dos seus amores. + +A alampada na igreja triste e muda +Bruxuleava seu clarão, pendendo + Ante o altar-mór: +Como o templo, o porvir era do velho +Cheio de sustos; muda como o templo + Era a sua dor. + +Resou, resou, e os olhos se enxugaram: +O orar fervente as lagrymas enxuga, + Qual prado o léste. +Deus o inspirou; sperança é filha sua, +Doce esperança, que os mortaes só deixa + Sob o cypreste. + +Voltou á choça, e a macilenta fome, +Sem gemer, supportou sobre o seu leito, + Que é quasi a terra; +E, confiado em Deus, entre as angustias +Do mal, menos crueis que as do remorso, + Os olhos cerra. + + +II. + +Restruge o mar cavado; o vento zune +Pelos mastros da náu; colhido o panno + Das vergas pende; +Brinco das vagas, o baixel arfando +Fluctua incerto, e dos bulcões guiado + Os mares fende. + +Correndo árvore secca avulta ao longe, +Como alma em pena vagueiando á noite + Em seu fadario; +E pelas trévas branquejando a escuma, +Que da prôa espadana, imita as prégas + D'alvo sudario. + +Envolto no gibão amplo e felpudo, +Rude piloto ao leme trabalhoso + Véla encostado; +Que, se não mentem calculos, o porto +Proximo está, dos lassos navegantes + Tão suspirado. + + +III. + +O vento vai quebrando, e já rareiam +Grossos montões de acastelladas nuvens: + Diurno alvor +Traça no céu d'oriente um risco immenso, +Que reflecte no mar, que veste, ao largo, + Cerulea côr. + +Surge o sol radioso e inunda as vagas, +Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte + Mais amplo é já: +Cava aragem ligeira a larga vela, +E do cesto o gageiro clama:--terra! + Ei-la acolá!» + +Como deslisa o goso nos semblantes +Por entre as rugas do terror passado! + Como é formosa +Essa pallida praia, e esses rochedos, +E lá no extremo os pincaros da serra + Erma e saudosa! + +De indicas mérces, de ouro carregada +Aproa á terra, com celeuma alegre, + A náu pujante; +E pelo verde mar do porto amigo +Abrindo a esteira, restitue á patria + O navegante. + + +IV. + +É meia noite:--os gallos pela aldeia +Dizem que um dia mais desceu ao nada + E que outro vem, +Para dar luz a dores e alegrias +E depois nos abysmos do passado + Cahir tambem. + +E o mendigo da aldeia, o velho cego, +Sobre o duro grabato, em choça humilde, + Achou a paz. +Em sonhos via um filho: a longes terras +A miseria o levou: mudada sorte + Feliz o traz. + +Quantas vezes presága a mente do homem +Véla como um propheta, em quanto o somno + Seus membros prende; +E como, em trevas de amargosos dias, +No porvir uma luz, prevista em sonhos, + Grata se accende! + + +V. + +Nos gonzos ferrugentos range a porta +Do tugurio do pobre adormecido, + E descuidado; +Que do mendigo o umbral patente é sempre, +Nem carece de estar, como o do rico, + Aferrolhado. + +O bom do velho ao sobresalto acorda, +E as lagrymas de alguem banham-lhe a face, + E o pranto é mudo; +Mas breve um grito e o soluçar e os beijos +E o sonho que passou e a voz do sangue + Lhe dizem tudo. + +Não mais sob o carvalho ao velho honrado +Esmoladora mão o peregrino + Estenderá: +Meigos lhe sorrirão extremos dias, +E as suas cinzas filial gemido + Consolará. + + + + +O BOM PESCADOR. + + +O sol rubro, em leito +De nuvens descendo, +Tremente, crescendo, +No mar se ia a pôr. + +Sentado no barco, +Que a onda embalava, +Scismando cantava +O bom pescador. + +A paz da sua alma +No olhar exprimia, +E a voz traduzia +Scismar do cantor: + +E o canto sereno +Levava-lho a brisa, +Que á tarde deslisa +Com meigo frescor. + + ----- + +«Acabem de todo +No prado as boninas, +E em vastas campinas +Não surja uma flor; + +Dispa-se o ameeiro +Da folha viçosa, +E o Tejo em lodosa +Mude esta azul côr; + +O vento gelado +Só reine e as procellas; +Das vivas estrellas +Se apague o fulgor: + +O sol radioso +Em nuvens se envolva, +E á terra não volva +Seu grato calor; + +Que do horrido inverno, +Comtigo, oh serrana, +Na minha choupana +Rirei do furor! + +Não pensa se as veigas +Se vestem de relva, +Se está nua a selva +Do lindo verdor; + +Nem ouve os rugidos +Do vento inquieto +Quem, sob o seu tecto, +Se abriga no amor. + +Nasci, eduquei-me +N'um mundo mais nobre, +Agora sou pobre, +Sou um pescador. + +Ás bordas do abysmo +Chegou-me a ventura; +Medí delle a altura, +Descí sem pavor. + +Co'a dita se enlaça +Humilde existencia, +Se do homem a essencia +O orgulho não fôr. + +Emquanto de paços, +De ferteis devesas, +Emfim, de riquezas +Eu pude dispor, + +O somno tranquillo +A mim não descia, +Que o ferro temia +Do vil salteador. + +Na minha alma, immersa +Em noite e amargura, +Pesava bem dura +A mão do Senhor! + +Agora misturo +Do rude oceano +Nas vagas, ufano, +O honrado suor; + +Agora sereno +Vem dia após dia, +E a noite sombria +Não cerca o temor; + +Porque entre teus braços, +Esposa querida, +Me esqueço da lida +Do mar bramidor. + +Da vida no sonho +Que importa vil ouro, +Se tu és thesouro +Perpetuo de amor; + +Se ainda em teus labios, +Oh cara consorte, +Virá doce a morte +Minha alma depor? + +Nas ribas fragosas, +Que os ventos castigam, +E as ondas fustigam +Com longo fragor, + +Ao pé da ermidinha, +Nesse adro tão só, +Envoltos no pó, +Sem goso, sem dôr, + +Tranquillos, obscuros, +Privados de luz, +Á sombra da cruz +Do Deus Redemptor, + +De ti só lembrados, +Em triste oração, +Os restos serão +Do teu pescador. + + + + +TRISTEZAS DO DESTERRO. + +(FRAGMENTOS). + + + Erit tristis et moeretis. + Isaias. + + +I. + +Terra cara da patria, eu te hei saudado +D'entre as dores do exilio. Pelas ondas +Do irrequieto mar mandei-te o choro +Da saudade longinqua. Sobre as aguas, +Que de Albion nas ribas escabrosas +Vem marulhando branqueiar de escuma +A negra rocha em promontorio erguido, +D'onde o insulano audaz contempla o immenso +Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos +Não sentida uma lagryma fugiu-me, +E devorou-a o mar. A vaga incerta, +Que róla livre, peregrina eterna, +Mais que os homens piedosa, irá depo-la, +Minha terra natal, nas praias tuas. +Essa lagryma acceita: é quanto póde +Do desterro enviar-te um pobre filho. + +No silencio da noite, em sólo estranho, +Patria minha gentil, em ti pensando, +Para os astros de Deus olhei: fulgiam, +Neste céu achatado, tristemente +Com luz mortiça e pallida, não ricos +De inspiração e amor, quaes lá refulgem. +Pela sombra amenissima, que chama +Do affastado oriente o sol no occaso, +No teu profundo céu has-de tu vê-los: +Do desterrado filho os votos levam: +Acceita-os delles, desgraçada patria! + +Já se acercava o tenebroso inverno; +Vinha fugindo a rapida andorinha, +Para um abrigo te ir pedir, oh patria, +Em cujos valles nunca alveja a neve: +Juncto de mim passou: em suas azas +Tambem mandei o filial suspiro. + +Pelo dorso das vagas rugidoras +Eu corri de além mar para estas plagas. +Pelas antenas, em nublada noite, +Ouvi o vento sul que assobiava, +E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha: +Seu rijo sopro refrescou-me as veias. +..................................... + + +II. + +Que ferreo coração esquece a terra, +Que lhe escutou os infantís vagidos, +E lhe bebeu as lagrymas primeiras, +Preludio a tantas que no curto espaço +Da vida ha-de verter? Quem, nunca, esquece +O tecto paternal, embora adeje +Ao redor delle o medo de tyrannos? +Quem não deseja misturar, na morte, +Com a gleba nativa o pó de extincto, +E murmurar seu ultimo suspiro +Alli, onde primeiro a luz diurna +O allumiou na rapida passagem +Entre o nada e o morrer, chamada a vida? +Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo, +Um sonho mau, de que se acorda em trévas, +Na valla dos cadaveres, em meio +Da unica herança que pertence ao homem, +Um sudario e o perpetuo esquecimento. +A infancia é dormir placido: inquieta +A mocidade é, já; mas entre dores +Vem o amar e esperar, e a crença ardente, +E affectos sanctos consolar quem dorme: +Pouco a pouco, porém, sobre a jazida +Do sonhador, do mal se assenta o anjo, +E as imagens ridentes da ventura +Co' as negras asas dispersando ao longe, +Com duro pé o coração lhe opprime. +Oh, no grabato meu bem cedo esse anjo +Veio assentar-se, e o juvenil enleio +De affectos puros em dormir sereno +Affugentou de mim. Vagueei nos mares; +Peregrinei na terra: em toda a parte +O pé maldicto me esmagou o peito, +E da patria a saudade, em sonho triste, +Immovel, do viver me tece a noite. +.................................. + + +III. + +Solidão, solidão, quem diz que existes +Onde não soa tumultuar das turbas +Mentiu-te a essencia! Solidão e morte +São uma idéa só; um pensamento +Doloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle, +Onde haja o sol da minha patria, e a brisa +Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro, +E a larangeira em flor, e as harmonias +Que a natureza em vozes mil murmura +Na terra em que eu nasci, embora falte +No concerto immortal a voz humana, +Que um ermo assim povoará meus dias. +Mas aqui!... Que me importa o murmurio +Dos que passam? Que vale essa campina +Humida e verde, e no gelado pégo +Raio do sol que se refrange turvo? +É o desterro solidão e morte +Para o poeta: embora estranha lingua +Lhe revele o pensar, o intimo verbo +Que em ar vibrado traduziram labios, +Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selva +Não tem para lhe dar um pensamento +De poesia e de amor? + Não! Tudo é pallido, +Tudo é morto e sósinho e silencioso +Como um sepulchro e um cemiterio! + E ainda +Campas e adros inspiram, quando hi dormem +Nossos irmãos e paes, porque tem lagrymas +Que desopprimem a alma; tem memorias, +Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurram +Preces, que alli vamos guardar, qual guarda +O avaro em ferreo cofre os seus thesouros, +Para os contar hoje, ámanhan e sempre +Emquanto vivo for. + E cá? O engenho +Nem crê, nem sente bafejar-lhe um canto +O crepusculo, a lua, a aragem fresca, +O arrebol da manhan, ou céu sereno +Por noite escura recamado de astros. + +Harpa meridional, porque, no extremo +Da terra patria, o trovador errante +Não deixaste partir só com seus males? +Porque vieste, oh filha do occidente, +Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas +De céu septentrional? Tu, pobresinha, +Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro, +Sem haver mão que te vibrasse as cordas, +Jazesses esquecida, ainda soáras +Com incerta harmonia. Ás horas meigas +Em que o dia se esvai, placida a brisa, +Que espira do oceano e encrespa as vagas, +Passaria por ti, e te agitára, +E murmuráras som que respondera +Trémulo, fraco, á flauta dos pastores +Sussurrando suave entre as quebradas +Da montanha selvosa. E aqui? És muda; +És muda, que essas cordas carcomiu-t'as +Este ar gelido e turvo, e qual o engenho +De teu dono, no viço da existencia, +Envelheceu, envelheceste, oh harpa! +................................... + + +IV. + +Berço do meu nascer, sólo querido, +Onde crescí e amei e fui ditoso, +Onde a luz, onde o céu riem tão meigos, +Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te! + +Quando, aterrado ante o minaz aspecto +Do anjo de Deus, tremente vagueiava +Nosso primeiro pae em volta do Éden, +Não lhe tecia tanto de amarguras +A vida o duro affan com que trocava +Pelo pão o suor co' a avara terra; +Não era tanto o traspassar-lhe os membros +O hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'os +O sol estivo, e o magoar, errante, +Os pés feridos nos tojaes bravios +Pelas sendas que abria em ermos valles, +Como as saudades de passados tempos, +Dessa infancia viril, em que surgira, +Para viver e amar, do barro inerte; +Não o pungia tanto o mal presente +Como a recordação dos claros dias +De innocencia e de paz que alli vivêra. +A primavera eterna, as auras puras, +O murmurar do arroio, o canto da ave, +O frémito do bosque, o grato aroma +E o vistoso matiz do ameno prado, +O lago quedo a reflectir a lua, +As montanhas tão ricas de mysterios, +De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas; +Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos +Vingadora a memoria inexoravel. +Por entre a bruma da estação chuvosa +Passavam-lhe de abril perfumes, galas; +Sob estuoso sol vinha a saudade +Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio +E o ramalhar dos platanos copados. +Por tenebrosas noites de procella, +Quando a torrente e o vendaval bramiam, +Cria d'entre o fragor ouvir romperem +Os matutinos canticos das aves, +E ver no pégo reflectir-se a lua. +Longe, assim, do seu berço, o criminoso +Com dura punição remia o crime: +Mas para o consolar na senda agreste, +Em cujo termo o esperava a morte, +O severo juiz deixára ao triste +De uma esposa querida o seio casto, +Onde aspirar o amor, olhos que o pranto +Misturassem co'o seu. Perdendo a patria +Perdia encantos só de natureza +Formosa e juvenil. As harmonias +Dos corações, os misticos affectos +Não lhe truncou a espada flammejante +Do cherubim ao repelli-lo do Éden: +Para elle a patria renasceu no exilio. + +Eu, prófugo como elle, o Éden nativo +Perdí; e perdí mais. Despedaçados +Os affectos de irmão, de amante, e filho +Restam-me na alma qual buída frecha, +Que no peito ao cravar-se estala e deixa, +Cahindo, o ferro na ferida occulto. +................................... + + +V. + +Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria +Me reflecte, alta noite, a tua imagem +Por entre um véu de involuntario pranto! + +Quão triste cogitar em mim desperta +A imagem cara! Á noite, o bom do velho +As bençams paternaes de Deus co' as bençams +Sobre minha cabeça derramava, +E ao começar o dia; e ellas desciam +A um coração exempto de remorsos +Onde encontravam filial piedade. +E agora? É-lhe mysterio o meu destino. +Qual o seu para mim o exilio occulta. +Saciado, talvez, de dor e affrontas +Dorme já sob a campa o somno eterno? +Suas trémulas mãos não mais lançar-me +Virão a bençam da piedade? O extremo +Arranco seu não roçará meus labios? +Ah, se um dia raiar para o proscripto +O suspirado alvor do sol da patria, +E se entre nós de um ímpio as mãos ergueram +A barreira da morte, ai delle, ai delle! +E tambem, ai de mim!........................ +...................... Mas se 'inda um filho +Houver digno de o ser, eu criminoso +Terei quem me deplore; mãos que plantem +No adro deserto onde jazer maldicto +Um cypreste, uma flor, e quem deponha +Aos pés do throno do juiz supremo +Por mim, uma oração fervente e pia. +................................... + + +VI. + +Arvores, flores, que eu amava tanto, +Como viveis sem mim? Nas longas vias, +Que vou seguindo peregrino e pobre, +Sob este rude céu, entre o ruído +Dos odiosos folgares do sicambro, +Do monotono som da lingua sua, +Pelas horas da tarde, em varzea extensa, +E ás bordas do ribeiro que murmura, +Diviso ás vezes, em distancia, um bosque +De arvoredo onde bate o sol cadente, +E vem-me á idéa o laranjal viçoso +E os perfumes de abril que elle derrama, +E as brancas flores e os dourados fructos, +E illudo-me: essa varzea é do meu rio, +Esse bosque o pomar da minha terra. +Aproximo-me; o sonho de um momento +Então se troca em acordar bem triste, +Como surge e se esvai por entre as nevoas +Vulto indeciso nos cantares d'Ossian. +É uniforme e torva esta verdura, +Acre o cheiro que exhala este arvoredo, +Mal-assombrado o rio, humido o valle, +Frio do sol o raio derradeiro +Espirando neste ar denso e pesado, +Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso, +E rouba aos olhos horisonte immenso. + +Ai, pobres flores que eu amava tanto, +Por certo não viveis! O sol pendeu-vos +Mirradas folhas para o chão fervente: +Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva, +E morrestes. Morrestes sobre a terra, +Que por cuidados meus vos educára. +E eu? Talvez nestes campos estrangeiros +Minha existencia o fogo da desdita +Faça pender, murchar, ir-se mirrando +Sem que torne a ver mais esses que amava, +Sem que torne a abraçar a arvore annosa, +Que se pendura sobre a limpha clara +Lá no meu Portugal, onde a frescura +Da ribeira perenne, da floresta +Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida! +.......................................... + + +VII + +Eu já vi n'uma ilha arremessada +Ás solidões do mar, entre os dous mundos, +Vestigios de volcões que hão sido extinctos +Em não-sabidos seculos. Scintillam, +Aqui e alli, nos areientos plainos, +Onde espinhosas sarças só vegetam, +Restos informes de metaes fundidos +Pelas chammas do abysmo, entre affumadas +Pedras que em parte amarellece o enxofre, +Que a lava em rios dispersou, deixando +Só delle a côr em lascas arrancadas +Das entranhas dos montes penhascosos. +A natureza é morta em todo o espaço +Que ella correu, no dia em que, rugindo, +Da cratéra fervente, á voz do Eterno, +Desceu ao mar turbado, e elle, escumando, +A engoliu e passou, qual sumiria +De soçobrada nau celeuma inutil. +Tal é meu coração. Bem como a lava +É o desterro ao trovador. Meus olhos +Hão-de esquecer as lagrymas; que a seiva +Do vivido sentir vai-se queimando +Ao suão mirrador de atroz saudade, +Que excede tudo em dor; excede a de orpham, +De viuva, de mãe que sobre o berço +Vê jazer morto o pallido filhinho. +E porquê? Porque ahi ha inclinar-se +Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se +Com suspiros e prantos desses restos, +Que vão quedos dormir em adro antigo, +Onde os avós já dormem; onde ha patria, +Ha familia, ha irmãos.--Cá, tudo é ermo, +E a dor está no coração do prófugo +Como um cadaver hirto quando espera +De noite, em leito nú, que á tumba o desçam. +A dor aqui é gelida, immutavel; +Pousa em labios alheios que sorriem, +E até em sorrir nosso; está sentada +Ao pé do umbral do tecto que nos cobre, +Embebida na enxerga do repouso, +Entranhada no pão que nos esmolam, +Enroscada, qual cobra peçonhenta, +No nodoso bordão do peregrino, +E em toda a parte e em todo o tempo é nossa. + +E depois, o morrer em leito alheio; +Despedir-se de um sol que não é esse, +Que, na infancia, nos fez florir os prados, +Que nos crestou, na infancia, as faces virgens; +Volver em torno os olhos moribundos +E não ver uma lagryma; inclinar-se +E não achar um seio feminino, +Ou de esposa ou de mãe, onde repouse +A fronte accesa por ardente febre; +E pensar entre as ancias derradeiras, +Que será terra estranha a que nos trague; +Que será til do norte o que proteja +Nosso humilde moimento, a verde gleba, +Onde de pinho a cruz por dous invernos +Apenas luctará co'a negra nuvem +Do esquecimento eterno, unica herança +Do que expirou no exilio! + Amarguradas +São taes cogitações para o que sente +No seio em ondas trasbordar-lhe a vida. +Quaes, porém, não virão ao pobre velho, +Que, arrancado das bordas do seu tumulo, +Foi por cima dos mares arrojado +Para juncto do umbral de um cemiterio, +Onde não achará paternos ossos, +Para ao pé delles se deitar morrendo?! +...................................... + + +VIII. + +Quando nos luz o sol no céu da patria, +Embora sobre nós verta a desdita +Torrentes de amargura, ha um consolo: +É o altar e a oração. Ao desterrado +Nem sequer isso resta. O templo alheio +É como ermo de Deus; como que param +Nesse craneo de marmore arqueado +Do gigante edificio as tristes preces +Em lingua estranha proferidas. Gelidas +E duras são do pavimento as lageas +Para quem sabe certo não o escutam +Mortos que muito amou; que nesse tecto +Vai bater frouxa uma oração discorde +Entre mil orações. + «É falso! É impio!-- +A razão o dirá--De Deus o templo +É o mundo. No cimo das montanhas +O nome do Senhor sussurra em sopro +Do vento que passou rasgando as asas +Pelo cardo bravio; a gloria delle +Di-la o rolo do mar correndo á praia; +É o seu hymno o canto da avesinha +No salgueiro que pende e se balouça +Sobre o arroio do valle, e é do regato +O murmurinho o cantico nocturno +Mandado pela terra silenciosa +Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos +Que pelos céus harmoniosos gyram. +Esses montões de cinzeladas pedras +De columnas e torres, que se elevam +Como as mãos junctas de quem resa, apenas +São um memento da oração, um marco +Posto no ermo da vida, que nos lembre +Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle, +Que é senhor e que é rei, que é pae e entende +O vento, o mar, os astros, a avesinha, +O sussurrar do arroio humilde, e as preces +De milhões d'orbes em milhões de linguas.» + +Ao brado da razão só não se dobra +O coração do desterrado! + Embora +Sob as asas do amor abrigue o Eterno +Homens, nações e o mundo: o amor por elle +Nasce, cresce, vigora-se enredado +Com os beijos de mãe, com sorrir meigo +De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde, +O pôr do sol da nossa terra, o choupo +Da nossa fonte, o mar que manso geme, +Nosso amigo da infancia, em praia amiga. + +Quando isso tudo se converte em sombra, +Que em confuso passado apenas surge +Qual fumo tenuissimo ou phantasma +Á meia-noite visto, á luz da lua, +Ao longe entre arvoredo: quando o sopro +Da tempestade assobiou nas trévas +Pela antena da nau do vagabundo; +Quando a dor sua em olhos de ente vivo +Não achou uma lagryma piedosa, +E nos seus proprios são vergonha as lagrymas, +Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam, +Não sobre seio que as esconda e enchugue, +Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa +Sem as sentir; então o soffrimento, +Filho de longo padecer, converte +O coração do desditoso em marmore, +Onde nunca penetra um puro affecto, +Onde o nome de Deus soçobra e morre +Entre o bramir de maldicções e pragas. + +Oh, do desterro o mal supremo é este! +É o seccar-se o coração; mirrar-se +Como a sarça do monte em fins d'estio; +É o descrer, e o blasphemar do Eterno. +Se aos céus levanta o desgraçado os olhos, +É que primeiro os pôs lá no futuro, +E, bem que tenue luz, um fulgorzinho +Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro: +Mas quando se ergue um muro intransitavel +Entre nós e a ventura; quando ao longe +Pelos campos da vida é tudo pallido +E perece a esperança, então a mente +Recúa com horror, e dando em terra, +Maldiz-se a si e a providencia e o mundo, +......................................... + + + + +O MOSTEIRO DESERTO. + + +I. + +No mosteiro vai fundo o silencio; +Um silencio que gera terror; +Só nos tectos, que banha o luar, +Sólta o mocho seu pio de horror: + +Só o vento que gyra nos pateos, +E se engolfa na escada ogival, +Ramalhar vem nas folhas dos ulmos, +Que ladeiam normando portal. + +Meia noite. E na crasta deserta +Não reboam os ecchos do sino, +Que, vagando, murmuram nas cellas:-- +São as horas do officio divino.» + +Meia noite! Bem como na torre +Voz de bronze dormente parece, +Tal o monge, na dura jazida, +Priguiçoso do templo se esquece. + +Monge, o brado nocturno do sino +Ao resar não te chama, é verdade; +Mas talvez já no topo do côro +Somnolento te espera o abbade. + + ----- + +Nada quebra o remanso da noite +Pelas gothicas, vastas arcadas: +Nem de quicios ranger vagaroso, +Nem murmúrio de lentas passadas. + +«Está só o mosteiro?-- + Este grito +Repetiram-no os ecchos inteiro; +E, bem como em resposta á pergunta, +Retumbou: + --Está só o mosteiro!» + + ----- + + Pouco ha inda, na alta noite + Passava no espaço a lua, + Dos ulmos a cima ondeava + Negra, qual ora fluctua: + + Mas tenebroso silencio + Não ía, como ora vai: + Bradava o sino da torre + Aos monges dizendo:--orae.» + + E pelos vidros córados + Reverberava fulgor; + De passos no longo claustro + Soava tenue rumor. + + Depois, lá dentro na igreja, + Em côro alterno rompia + O canto lento dos monges, + Que ás vozes do orgam se unia: + + ----- + +Porém, como se ao sopro do archanjo +A trombeta final retumbasse, +E da vida o tumulto na terra +Ao terrivel signal expirasse, + +Assim do orgam calou a harmonia, +E dos córos os hymnos calaram, +E os fulgores das lampadas frouxos +Das vidraças não mais transudaram. + + +II. + +É que o filho dos ermos, renegando + Das tradições antigas, +Desceu a pelejar na ardente arena + Das facções inimigas. +Amar, soffrer, orar era a existencia + Que lhe talhára a sorte; +Enxugar muitas lagrymas na terra, + E repousar na morte; +Realisar té onde é dado ao homem + Esse typo ideal, +Que nos legou o Salvador, tomando + Nossa veste mortal. + + ----- + +E não o quiz. Sacrilego, do pobre + A herança, que a piedade +Confiára ao ministro de uma crença + Que é toda caridade, +Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos, + No altar impio da guerra, +E, abrindo o manto, sacudiu irado + A assolação á terra. + + ----- + + De noite no bosque, + Na gandra deserta, + No viso do monte, + Do valle na aberta, + + Á luz das estrellas + As armas fulgiam, + E ouviam-se ao longe + Corceis que nitriam: + + Horrendo propheta + O abutre passava, + E sobre as encostas + Calado pairava: + + Depois, na alvorada, + Com gritos sem fim + Saudava do sangue + Vizinho o festim. + + ----- + + E á voz das trombetas, + Ao trom dos canhões, + Ao som das passadas + De vinte esquadrões; + + E em meio do fogo, + Do fumo alvacento, + Em rolos ondeando + Nas asas do vento, + + De agudas baionetas + A renque brilhante + Tremente avançava, + Ao brado de--ávante!» + + E ao baço ruído + Dos leves ginetes, + No plaino calcando + Da relva os tapetes, + + Os ferros cruzados + Luctavam tinindo, + Peões, cavalleiros + De involta ruindo, + + E a ferrea granada + Nos ares zumbia, + E aos seios das alas + Qual raio descia. + + E aos ares, revolta, + A terra espirrava, + E o globo encendido + Um pouco se alçava, + + E prenhe de estragos, + Com fero estampido, + Mandava mil golpes, + Em rachas partido. + + ----- + + E as horas passavam + Em scenas de morte; + E o abutre mirava + Os trances do forte. + + ----- + +Na garganta da serra ou sobre o outeiro, +Pelo pinhal da encosta ou na campina, +Nesse dia de atroz carnificina, +Negros uns vultos vagueiar se viam: +A cruz do Salvador na esquerda erguida, +Na dextra o ferro, preces blasphemando, +«Não perdoeis a um só!--feros bradando, +Entre as fileiras rapidos corriam: + E era o monge que bradava, + E era o monge que corria, + E era o monge que, blasphemo, + Preces vans a Deus fazia; + Vans que, á tarde, nesse plaino + No sangue d'irmãos retincto, + Só restava o moribundo, + O cadaver só do extincto. + E por gandras e por montes, + Aterrados, perseguidos, + Em desordenada fuga + Retiravam-se os vencidos. + E os vencidos eram esses + Que a esperança da victoria + Arrastára, miserandos, + A uma guerra impia, sem gloria! +Lá dos gritos de raiva baldada +Restrugia o confuso clamor, +E o gemido do mau desgraçado +Na alma oppressa gerava terror. + + ----- + +Cáia em pó o mosteiro; e maldicto +O que ergue-lo outra vez intentar, +Se não treme ante as nuas cáveiras, +Que insepultas verá branquejar! + + +III. + +Surge a luz da alvorada. Podessem +Dessas campas geladas que vejo +Os bons monges dos tempos antigos +Surgir vivos á voz de um desejo! + +E que ao longo das vastas arcadas +Se escutassem seus passos serenos, +Como se ouve o tranquillo regato +Sussurrar nestes campos amenos! + +Quem então não curvára ante o velho? +Quem a bençam da mão descarnada, +Como a bençam do céu, não pedíra +Da virtude ao poder confiada? + +Quem ousára soltar no deserto +Estridente clangor da trombeta, +E fazer scintillar pela noite +A cruel decisiva baioneta? + +Quem ousára o sorriso do insulto +Juncto ao negro edificio soltar, +E com goso, na mente, por terra +Suas grimpas jazendo pintar? + +Mas ha muito que os bons se finaram; +Mas ha muito que ás dores fugiram, +E depois, nesses velhos sepulchros +Quantos maus inquietos dormiram! + +Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes +Pereceram: ninguem o dirá. +O que o sabe os julgou; e do abysmo +Nem um ai o cantor tirará. + +Mas, oh harpa, transmitte as saudades +Do que foi em legado ao porvir, +E o presente, que em breve ha-de o olvido +Com o seu amplo manto cubrir. + +Contarão as canções do poeta +Tão-sómente do claustro o segredo. +Vai a hera vestir estas pedras: +Cahirá este annoso arvoredo. + +Sim, virá a segure insensata +Da montanha o senhor derribar! +Rei deste ermo, que os curos insultas, +Tu serás o ludibrio do mar. + +Bem antigo é teu cepo. Tu viste +O mosteiro da encosta crescer; +Viste o colmo do humilde retiro +Em arcadas, em torres volver. + +Tambem nasce o regato na origem +Pobre e puro: cem valles passou; +Vai já rico, mas turvo e suberbo; +Que a torrente desceu e o turbou. + + ----- + +Como esta aura suave suspira +Pelos bosques, e as ramas meneia! +Como a limpha murmura na fonte, +Sobre a qual pende o merlo e gorgeia. + +Cala, oh ave! Que importam teus cantos? +Quem vens tu saúdar, cantor do ermo? +É aos mortos? Aos gosos mais puros +Pôs-lhe a lousa, na terra, já termo. + +Tua voz costumava o eremita +Nos bons tempos folgando sentir: +Era imagem do céu, que entre as dores +Do desterro lhe vinha sorrir. + +Mas depois affligiu o malvado +Da avesinha innocente a cantiga; +Tal os olhos affeitos a trévas +A cerrar-se luz subita obriga. + +Nunca ao impio na dor deu consolo +Meigo som de cadente gorgeio. +Que harpa eolia lhe adoça o azedume +De que seu coração está cheio? + +Ai do mau, cuja vida travada +Vai de sustos mandados do céu! +Nunca o sol a acorda-lo tranquillo +Em seu brilho dos montes desceu. + +Mas duas vezes ai delle, se na alma +Não lhe soa uma voz pavorosa, +Que o atterre, quando o ermo o rodêa, +Ao passar da procella ruidosa! + + +IV. + +É tão doce esta vaga saudade, +Na soidão das montanhas colhida, +Para quem entre mil tempestades +Transitou pelos campos da vida! + +Foge a luz: é sol-posto: na aldeia +Dá o sino esse triplo signal, +Com que o espirito, erguendo-se a Deus, +Diz ao dia seu ultimo val; + +E o pastor, que o rebanho guiava +Á malhada, descendo do outeiro, +Parou lá, e ajoelhou descuberto +Juncto ao velho sósinho pinheiro. + +Gloria a Deus! A oração do crepusculo +Pelo tronco elevado se ergueu. +E a guia-la ante o throno do Eterno +Sancto archanjo das preces desceu. + +Ao piedoso pastor no chão duro +Brando a noite o repouso trará +E por certo em seu leito da morte +Mais tranquillo inda o somno será. + + ----- + +A estas horas, talvez, nos combates +Um atheu expirante caíu: +Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias! +O seu grito final já se ouviu! + +A luz foge-lhe aos olhos: a espada +Apertou: ainda a tenta esgrimir: +Não a sente: conhece que morre, +Sem, comtudo, deixar de existir. + +Não o crê: abre os olhos a custo: +Nada o ceu, que se enluta, lhe diz: +Fecha-os breve; e no extremo soluço +Pensa e existe, e a existencia maldiz. + +E o atheu, que era grande na terra, +Uma campa terá magestosa; +E ao pastor naquelle adro da aldeia +Cubrirá uma gleba relvosa. + + ----- + +Como o atheu e o pastor, nas batalhas +Mil e mil sem alento caíram; +Mil e mil, que em seu sangue este solo, +Nas fraternas discordias, tingiram! + +Essas scenas de pranto e de lucto +Quem as trouxe a esta terra querida? +Foi o monge, que em animos rudes +Instillou o furor fratricida. + +Que pediamos nós? Ver abrir-se +Ante nós da familia o larario, +E dormir juncto aos ossos paternos +Somno extremo n'um pobre sudario: + +Sim, poder, ao mandar-nos a morte +Nossos corpos aos vermes ceder, +Ao sol bello, e tão bello, da infancia +Com saudade, inda os olhos volver. + +Respondeu-nos da balla o sibilo; +Respondeu-nos o brado da guerra! +Combatemos. Pertencem na patria +A qualquer sete palmos de terra. + +Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da lucta +Sabe Deus qual a sorte será: +Mas á sombra do teixo da infancia +O proscripto infeliz dormirá. + + ----- + +Cáis em pó o mosteiro; e maldicto +O que ergue-lo outra vez intentar, +Se não treme ante as núas caveiras, +Que insepultas verá branquejar! + + + + +A VOLTA DO PROSCRIPTO. + + +I. + + Já suave a sorte dura + Mostra a face ao desterrado: + Porque surge ainda a amargura + Em seu rosto carregado? + + Vento amigo ao patrio solo + Pelo mar guia o proscripto, + E um sorriso de sonsolo + Não lhe luz no rosto afflicto? + + Corta a proa o mar fremente; + O cantor lá se assentou + E sua torva e altiva frente + Sobre a dextra reclinou. + + Vem-lhe idéa após idéa, + Já tristonha, já serena; + Que no gesto lhe vaguêa + Ora o goso, logo a pena. + + Coração affeito á mágoa + Da esperança desconfia: + Desalenta, e em viva frágoa, + É-lhe negra a noite, e o dia. + + Mas se, emfim, lhe tece a sorte + Á existencia um aureo fio, + E vencendo o mar e a morte + O conduz ao patrio rio, + + A que mais agora aspira + O mancebo trovador? + É por gloria que suspira? + Não lhe ri propicio o amor? + + Não vê perto a terra cara, + Que chorou de dor absorto, + E nos braços dos que amára + Não terá paz e conforto? + + Mas silencio!--A fronte erguendo, + Elle os olhos poz nos ceuz, + E a canção da alma rompendo + Sussurrou nos labios seus. + +II. + +«Rasga as ondas do pégo indomado +Leve barca: já freme o galerno: +Susta as iras o rabido hynverno: +Torna á patria infeliz trovador. + +Como bate no seio ancioso +Coração que opprimiu a amargura, +Quando meiga sorrí a ventura, +Quando volve esperança de amor! + +Esperança, e sómente esperança +Cabe áquelle que os mares correu, +Quem lhe diz que 'inda não o esqueceu +A donzella por quem suspirou? + +Quem lhe diz não irá n'outros laços +Venturosa encontra-la e infiel, +E que a voz do remorso cruel +Para a ingrata tremenda soou? + +Quem lhe diz não irá murchas rosas +Tão-sómente encontrar sobre a lousa, +Onde a amada tranquilla repousa, +onde vá juncto della expirar? + +Esperança, e sómente esperança +Cabe áquelle que os mares correu: +Ella só resta áquelle que o ceu +Longos dias de dor fez passar + +Eu traguei estes dias de lucto; +Encarei muitas vezes a morte; +Pude o louro colhêr dado ao forte: +Tambem myrto de amor colherei? + +Ou o arbusto que outr'ora plantára, +Que por mim cultivado crescêra, +Que entre angustias jámais me esquecêra +Esquecido por ella acharei? + +Como além desse cabo, que esconde +Verdes aguas do meu patrio Tejo, +A alma levam saudade e desejo! +Como atraz a compelle o terror! + +Ledo o nauta saúda a guarída +Aonde incolume o vento o ha guiado, +E alegrou esse olhar carregado +Com que insulta do mar o furor. + +Feliz nauta, em teu seio tranquillo +Pulsa em paz coração baixo e rude; +Fado amigo negou-te o alaúde: +Deu-m'o a mim:--para prantos m'o deu. + +Nunca, pois, surgirá uma aurora +Em que nelle resoe a alegria, +E em que o triste, que a dor opprimia, +Erga um hymno de jubilo ao céu? + +Nunca rir-me propicia a ventura +Sobre a terra verão estes olhos? +Será sempre cuberto de abrolhos +Agro trilho que á morte conduz? + +Ou nas trévas da minha existencia +Surgirá inda um dia radioso, +Como, ás vezes, em céu tenebroso +Rompe o sol com torrentes de luz?» + + +III. + + Já no porto a leve barca + Longa esteira desdobrou, + E ao clarão final do dia + Ferreo dente ao mar lançou. + + Eis as plagas da saudade; + Eis a terra de seus sonhos; + Eis os gestos tão lembrados; + Eis os campos tão risonhos! + + Eis da infancia o tecto amigo; + Eis a fonte que murmura; + Eis o céu puro da patria; + Eis o dia da ventura!... + + +IV. + +Foi o cantor feliz?--Em breves dias +Viu-se cruzar errante incertos mares. +Sob o tecto paterno anciada noite +Elle passou; e o somno socegado +Não lhe cerrou os olhos lachrymosos. +Conta-se que o seu amor fôra trahido, +E que mirrado achou de amor o myrto, +Que deixára viçoso, e que saudára +Desde além do oceano em seu delirio. +Sobre a proa outra vez indo assentar-se, +Não entoou um hymno de alegria. +Com ar sinistro e torvo e os labios mudos +Correu co' a vista as ondas inquietas, +E, porventura, a idéa que as passára +Nas asas da esperança, e que a esperança +Tinha expirado ao limiar do goso, +Mais lhe turbou a fronte carregada. +O misero sorriu-se. Em tal sorriso +O passado e o futuro estava impresso, +E da sua alma a dolorosa noite. + + +V. + +Não mais o trovador no lar da infancia +Repousará talvez: talvez sua harpa +Durma pendente em solitario tronco +Do pinheiro bravio, onde a desfaça +O sôpro do aquilão. Ao desditoso +Sonho de gloria e amor tinha emballado; +Mas foi sonho, e passou, e uma existencia +Nua d'encantos despregou-se ante elle. +Quem o consolará?--De fogo essa alma +Consolo não terá, nem quer consolo. +A maldicção de Deus vestiu-lhe a vida +De padecer e lagrymas. Ignoto +Será ao mundo que surgiu na terra +O genio de um cantor, bem como planta +Morta apenas saída á flor do solo, +Ou como a aragem da manhan, que passa +Antes de o sol nascer, em dia estivo. + +E que importa essa gloria ao dono della? +Esse fructo do Asphaltite que encerra +Senão cinza em involucro formoso? +Que é o eccho de um nome, que não soa +Senão sobre o sepulchro do que impresso +Na fronte o trouxe, em meio de amarguras, +Por vezes de ignominias? + «Vive, oh triste, +Esquecido do mundo, e esquece o mundo! +Nas solidões profundas da tua alma, +Vazia das paixões que a assassinaram, +Some os cantos que della transudavam +Para correr n'um seculo sem vida, +Sem virtude e sem fé, e em que desabam +As crenças todas do passado, e é sonho +A constancia e o amor.» + Palavras estas +Extremas foram do proscripto. Longe, +Em praia estranha abandonando a barca, +Qual o seu fado foi ninguem mais soube. + + + + +N'UM ALBUM. + + +Quando o Senhor envia +O trovador ao mundo, +Faz devorar a essa alma +Fel amargoso e immundo; + +Porque lhe diz:--Poeta, +Vai conhecer a terra; +Prova dos seus deleites; +Prova do mal que encerra. + +Desses e deste esgota +As taças muitas vezes, +Embora de uma e d'outra +Aches no fundo fézes: + +E quando bem souberes +Que tudo é sonho vão; +Que é nada a dor e o goso, +Sólta o teu hymno então.» + +E o pobre desterrado +Vem seu mister cumprir. +Nasce: homens e universo, +Tudo lhe vê sorrir; + +E o seu balbuciar +Um canto é d'innocencia: +Mas outro foi seu fado; +Guia-o a providencia. + +É cherubim precíto +Qu' inda entrevê o céu, +Mas através da vida, +Mas através de um véu. + +Em turbilhão d'affectos, +Seu íntimo viver +Rapido lhe devora +Sperança, amor e crer. + +Do goso nos delirios +Debalde busca o amor; +Saudade melancholica +Pede debalde á dor. + +Depois, desanimado, +Pára a pensar em si, +Acha no seio um ermo, +E tristemente ri. + +É desde aquelle instante +De um acordar atroz, +Que ao condemnado lembra +Do que o mandou a voz. + +Então entende e cumpre +Seu barbaro destino; +Então é que elle aprende +A modular um hymno. + +Virgem, ao que assim passa +Por meio do existir, +Calcando os frios restos +Do crer e do sentir, + +Não peças te revele +Sua alma na poesia, +E dê aos pensamentos +O encanto da harmonia; + +Porque lá, nesse abysmo, +Não resta uma illusão: +Só ha perpetua noite, +E injuria e maldicção. + +Não entenderas, virgem +Ainda innocente e pura, +O canto que surgira +Dessa alma gasta e escura. + +Deixa-o seguir seu norte, +Cumprir missão cruel; +Deixa-o verter o escarneo; +Deixa-o verter o fel; + +Deixa-o cuspir em faces +Onde não ha pudor, +E ao mundo, ebrio de si, +Rindo ensinar a dor. + +As sanctas harmonias +De cantico innocente +Sabe-as o alvor do dia +Quando rompe do oriente; + +Murmura-as o regato; +Vibra-as o rouxinol; +Vem no zumbir do insecto, +No prado, ao pôr do sol; + +Vivem no puro affecto +Da filial piedade, +Nos sonhos e esperanças +Da juvenil idade. + +Esta poesia é tua: +Eu já a ouvi e amei; +Mas hoje nem a entendo, +Nem repeti-la sei. + +Assim, meu nome só +Escreverei aqui; +Som vão, intelligivel +Apenas para ti; + +Extincto candelabro +Do templo do Senhor, +Que por algumas horas +Deu luz, teve calor; + +Lenda de sepultura, +Que fala em gloria e vida, +E esconde ossada infecta +Dos vermes corroída; + +Pinheiro solitario, +Que o raio fulminou, +E que gemeu tombando, +E não mais murmurou. +*/ + + + + +A FELICIDADE. + + +Era bello esse tempo da vida, +Em que esta harpa falava de amores: +Era bello quando o estro accendiam +Em minha alma da guerra os terrores. + +Nesse tempo o balouço das vagas +Me era grato, qual berço da infancia; +E o sibillo da bala harmonia +Semelhante á de flauta em distancia. + +Eu corri pelos campos da gloria, +D'entre o sangue colhendo uma palma, +Para um dia a depor aos pés dessa +Que reinou largo tempo nesta alma. + +Mas qual ha coração de donzella, +Que responda a um suspiro de amor, +Quando vibra nas cordas sonoras +Do alaúde de pobre cantor? + +Triste o dom do poeta!--No seio +Tem volcão que as entranhas lhe accende; +E a mulher que vestiu de seus sonhos +Nem sequer um olhar lhe compr'hende! + +E trahido, e passado de angustias, +Ao amor este peito cerrara, +E, quebrada, no tronco do cedro +A minha harpa infeliz pendurara. + +Um véu negro cubriu-me a existencia, +Que gelada, que inutil corria; +Meu engenho tornou-se um mysterio +Que ninguem neste mundo entendia. + +E embrenhei-me por entre os deleites; +Mas tocando-o, fugia-me o goso; +Se o colhia, durava um momento; +Após vinha o remorso amargoso. + +Esqueci-me do Deus que adorara; +O prestigio da gloria passou; +E a minha alma, vazia de affectos, +No limiar do porvir se assentou: + +Meus pulmões arquejaram com ancia, +Buscando ar na amplidão do futuro, +E sómente encontraram, por trévas, +De sepulchros um halito impuro. + +Mas, emfim, eu te achei, meu consolo; +Eu te achei, oh milagre de amor! +Outra vez vibrará um suspiro +No alaúde do pobre cantor. + +Eras tu, eras tu que eu sonhava; +Eras tu quem eu já adorei, +Quando aos pés de mulher enganosa +Meu alento em canções derramei. + +Se na terra este amor de poeta +Coração ha que o possa pagar, +Serás tu, virgem pura dos campos, +Quem virá a minha harpa acordar + +Como a luz duvidosa da tarde, +Quando o sol leva ao mar mais um dia, +Reverbera poesia e saudade +Na alma immensa de um rei da harmonia; + +Tal poesia e saudade em torrentes +No teu meigo sorrir eu aspiro, +E no olhar que me lanças a furto, +E no encanto de um mudo suspiro, + +Para mim és tu hoje o universo: +Soa em vão o bulicio do mundo; +Que este existe sómente onde existes: +Tudo o mais é um ermo profundo. + +No silencio do amor, da ventura, +Adorando-te, oh filha dos céus, +Eu direi ao Senhor:--tu m'a déste: +Em ti creio por ella, oh meu Deus!» + + + + +OS INFANTES EM CEUTA. + +DRAMA LYRICO EM UM ACTO. + +(1415) + + +_O infante D. Duarte._ +_O Infante D. Pedro._ +_O Infante D. Henrique._ +_Gulnar_, filha do wali de Ceuta. +_Lobna_, escrava. +_Haleva_, escrava. +_Um pagem._ +_Um sobrerolda._ +_Côro de cavalleiros portugueses._ +_Côro de cavalleiros mouros._ +_Côro de escravas, e de eunuchos negros._ + + + +SCENA I. + + + Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. + D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. + Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os + cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado + falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o + principe. + + +D. DUARTE. + +Eia pois, cavalleiros! Breve os mares +Cruzaremos de novo além do Estreito! +Os inimigos timidos refogem +Da conquistada Ceuta. +Pelas campinas pallidas, ao longe, +Das altas torres espraiando os olhos, +Não se vê alvejar lá no horisonte +Um albornoz mourisco. +Folgue o que volta á patria enriquecido +Pela ganhada gloria: folgue aquelle +A quem coube o desterro entre estes muros, +Por conservar erguida +Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias +O estandarte real: morrendo, é martyr: +Seu nome eterno viverá na historia. +Folgae, meus cavalleiros! + + +CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS. + +Oh, bem vinda, bem vinda essa nova, +Para o velho homem d'armas d'elrei, +Que ha trinta annos nos diz:--combatei!» +Sem jámais a armadura largar! + +Sob o forro do elmo pulido +Nossa fronte, senhor, se enrugou, +E estes peitos robustos quebrou +Dos arnezes continuo pesar! + + Bem vinda a hora + Em que voltemos, + E emfim saudemos + O nosso lar; + Em que possamos + No patrio rio + O sol do estio + Ver scintillar; + E, dos sinceiros + Entre a espessura, + Da guerra dura + Ir repousar! + + +CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS. + + Parti vós, cavalleiros: + A Portugal tornae; + E o nosso nome ás bellas + Donzellas + Lembrae! + Dizei-lhes que, se ás lides + Votámos peito e braços, + Por ellas suspiramos, + E amamos + Seus laços; + E que destes labios + Palavra amorosa + Por moura formosa + Jámais sairá. + Opprobrio e vergonha + Ao que as esquecer! + Infamia ao que arder + Por filha d'Allah! + + + D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio + dos cavalleiros. + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + +Infamia, dizeis vós? + + +D. DUARTE. + + + Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente + da scena. + + + + Por Deus, calae-vos! +Ignoram vosso amor esses guerreiros. +Da patria elles falavam: +Não a trahir juravam. +E vós? Vós que sois filhos +D'elrei de Portugal; vós, cavalleiros, +Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes, +Vosso nome manchastes +Com um affecto ignobil... + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + +Que ousaes dizer, senhor! + + +D. DUARTE. + +Sim, ignobil affecto! Amor gerado +Entre rios de sangue, ao lampejarem +Cruzados ferros, no aduar mourisco +Á viva força entrado. +Conduziu-vos, dissestes-me, o combate +A suberbo palacio. Alto repouso +Era de morte ahi: seus defensores +Tinha-os o ferro português ceifado, +Duas mouras formosas, +Vencidas do terror, na fuga anciosas, +Cahindo a vossos pés pediram vida, +Liberdade, honra, e vós... + + +D. PEDRO. + + Assegurámos-lhes +Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos +D'elrei de Portugal, e cavalleiros! +Era o nosso dever. + + +D. DUARTE. + + E era-o cederdes +A um amor insensato; o prometterdes +Pelas nocturnas trévas conduzi-las +Ás naus que vão partir? + + +D. HENRIQUE. + +Será rouba-las +Á falsa crença do koran... + + +D. DUARTE. + + + Com vehemencia. + + + E a infamia +Lhes gravareis depois nas frontes puras? +Isso é torpe! Isso é vil! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Senhor infante! + + +D. DUARTE. + + + Com ardor. + + +Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alva +A armada partirá. + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + + Com inquietação. + + + Zombaes? + + +D. DUARTE. + + Ouvi-me! +É o mandado d'elrei... + + + Dirigindo-se aos cavalleiros. + + + Meus velhos guerreiros, + As armas tomae, + E á praia fremente + Os passos guiae; + Que as náus já fluctuam: + Não tarda o partir. + Nos mares a aurora + Veremos surgir. + + +CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS. + + + Ajoelhando e estendendo os braços para o céu. + + + Virgem! Esperança! + Estrella do mar, + Ouvi nosso orar; + Mandae-nos bonança! + Salvae-nos, salvae-nos! + E á patria levae-nos! + + + Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe. + + + Á patria levae-nos!... + + +D. DUARTE. + + Guerreiros novéis + As armas vestí, + E os muros de Ceuta + De lanças cubrí. + Bandeira da serpe, + Bandeira d'elrei, + No alcacer, nas torres + Guardae, ou morrei! + + +CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS. + + + Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras. + + + Contentes saudamos + Os dias de guerra: + Ser dignos da terra + Da infancia juramos. + O braço não treme!... + O peito não teme!... + + + Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra: + + + O peito não teme!... + + +D. DUARTE. + + Restam bem poucas horas: + Salvos estaes infantes! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Sabe um amor immenso + Horas fazer de instantes. + + +D. DUARTE. + + Que!? Ousarieis 'inda?... + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Nós ousaremos tudo! + + +D. DUARTE. + + Não! Filial piedade + Vos servirá d'escudo! + + + Com gesto supplicante. + + + Pela memoria sancta + De nossa mãe querida, + Que na feral jazida + Tal crime assombrará, + Afugentae qual sonho + Esse insensato amor, + Que o odio, que o furor + Do céu accenderá! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Mas deste amor profundo + Quem nos libertará? + + +D. DUARTE. + + Vêde quem sois, e o mundo + Como vos julgará! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Duas formosas almas + Por nós a fé ganhou. + + +D. DUARTE. + + Antes por vós o sangue + De Aviz se deshonrou. + + +UM PAGEM. + + + Entrando apressado. + + +Principe, elrei vos chama. + + +D. DUARTE. + + Ide; eu vos sigo. + + + Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe, + D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena. + + +Oh meu Pedro, oh meu Henrique, +Louco intento abandonaes?! +Não passar de Ceuta as portas +Hoje, aqui, vós me juraes?! + + + Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro + + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + +Senhor, do sceptro herdeiro, +Vossos irmãos mandaes... +De Ceuta as ferreas portas +Não cruzaremos mais! + + +D. DUARTE. + +Basta-me tal promessa! +Só mentem desleaes. + + + + +SCENA II. + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + +D. HENRIQUE. + + + Olhando para o principe que sáe, e sorrindo. + + +A promessa ha-de cumprir-se! +Nobre infante, vae seguro! + + +D. PEDRO. + + + Com hesitação. + + +Mas de Ceuta o erguido muro +Como além, hoje, transpôr?... + + +D. HENRIQUE. + + + Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra. + + +Vedes vós, lá em baixo, esse vulto +Amplo e negro da torre de Fez, +Que inda ha pouco o mais forte pavez +Do vencido muslim se ostentou? + + +D. PEDRO. + +Vejo; e lembram-me as portas robustas +Que a acha d'armas a custo desfez; +E que nesse momento se fez +Um silencio que instantes durou... + + +D. HENRIQUE. + +E parámos; e ouvimos ao longe +Tinir d'armas, correr de corceis, +E o confuso bradar d'infiéis, +Restrugindo os seus gritos de dor... + + +D. PEDRO. + +Subterraneo caminho os salvava +Das espadas dos nossos fiéis, +Quando inuteis alfanges, broqueis +Lhes tornára profundo terror... + + +D. HENRIQUE. + +O que ao mouro no trance tremendo +De destino cruento remiu, +Esta noite, a quem nunca mentiu +De mentir uma vez salvará. + + +D. PEDRO. + + + Com grande jubilo. + + +Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta! +Outras portas o amor nos abriu; +Nossa estrella dos céus nos sorriu; +O caminho, o caminho é por lá! + + +D. HENRIQUE E D. PEDRO. + + Noite placida e formosa, + Noite grata a um vivo affecto, + Para nós no torvo aspecto + Te deslisa almo prazer! + + Bella noite silenciosa, + Sê propicia ao nosso intento; + Com teu véu cobre o momento + Do partir e do volver! + + + + +SCENA III. + + + Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de + Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto. + No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro + de donzellas arabes cantando ao som de harpas. + + +CÔRO. + + Dorme, dorme desgraçada! + Dorme, filha do wali! + Possa o somno sobre ti + O consolo derramar. + + Quando dormes é teu gesto + Brando e meigo qual de huri; + Mas vingança nelle ri + Ferozmente ao despertar. + + +GULNAR. + + + Erguendo-se lentamente. + + +Oh, como é doce o som de vossas harpas, +Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes +Um pouco minha dor. Senti correrem +Destes olhos as lagrymas... Ai! breve, +Repentino terror veio enxuga-las. +Meu pae... Que diz Levi? + + +CÔRO. + + Oh Deus! + + +GULNAR. + + Entendo: +Não tenho que esperar?.. + + +CÔRO. + + Delira. Golfa o sangue + Da profunda ferida, + Por onde foge a vida + Do inerte corpo exangue. + + +GULNAR. + + + Com gesto ameaçador, e erguendo-se. + + + Oh, basta! Inulto, +Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho +Não dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura! +Lobna e Haleva onde estão? + + + + +SCENA IV. + +LOBNA E HALEVA. + + + Entrando apressadamente assustadas. + + +LOBNA. + + Eis-nos, princesa! +Os espias voltaram: tumultuando +Na marinha de Ceuta homens, ginetes, +Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas, +Proas á terra: o esquife após o esquife +Entre a praia e as galés cruzando as ondas; +Tudo do amir christão mostra a partida. + + +GULNAR. + +O tigre português volta ao seu antro! +Mas Ceuta... + + + Com amargura. + + + Profanada e serva és Ceuta! +O que te amou qual pae jaz moribundo +No seu leito de dor. Foi por salvar-te +Pérola rica do Moghreb. Inutil +O sangue se verteu! Oh, sem vingança +Não ficaremos nós: nós ambas orphans, +Eu desterrada e tu escrava. O nobre +Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora +Não veja mais a luz. Mas trema o fero +Amir de Portugal! Gulnar, a filha +Do vencido wali, ha-de vinga-lo. +Lobna e Haleva esta noite... + + +HALEVA. + + + Hesitando. + + + E quem vos disse +Que elles hão-de voltar?.. + + +GULNAR. + + O juramento: +O juramento seu!.. Já não sois servas, +Bellas filhas do Caucaso; sois socias +Da implacavel Gulnar. A vós a gloria +De tornar mais cruel su' hora extrema. +Quanto ardente paixão tem de ternura +Quantas fascinações ha no amor virgem: +Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas, +O pranto, o resistir tem de delirio; +Tudo, tudo empregae! Raio de morte, +Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno. + + + Erguendo as mãos. + + + Escuta, emfim, meu pranto, + Dos impios vencedor: + Manda, propheta sancto, + O anjo exterminador. + + Chore a roubada prole + O português amir: + Que o sangue me console + Antes de o sol surgir. + + Cercae-os vós de goso: + Sintam que é bom viver: + Será mais horroroso + Meu brado:--Ide morrer!» + + Vem, oh terrivel hora, + Hora do meu folgar, + Hora em que vingadora + Triumphará Gulnar. + + + Dirigindo-se ao côro. + + + Ide; patente +Do alcacer seja o ádito: silencio +Profundo reine em toda a parte: os gritos +Dos moribundos só... hão-de quebra-lo! +Vingança a Bensalá. + + +CÔRO. + + Vingança á patria! + + +GULNAR. + + + A Haleva e Lobna com gesto terrivel. + + +Em breve me vereis!... + + + + +SCENA V. + +LOBNA E HALEVA. + + + Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois + correm a lançar-se nos braços uma da outra. + + +HALEVA. + + Ai, como foi mesquinha + A nossa escura sorte! + Porque a terrivel morte + Os tristes conduzir? + + +LOBNA. + + Oh, se Gulnar os víra, + De sangue inda banhados, + Vencidos, humilhados, + A nossos pés cahir! + + +HALEVA. + + Que lhes valêra? Sangue, + Sangue só quer a hyena: + A cólera a aliena: + Não póde perdoar! + + +LOBNA. + + Haleva, minha Haleva, + De susto eu titubeio: + Tu imagina o meio + De as victimas salvar. + + +HALEVA. + + Miseras! Só nos resta, + Em festa sanguinosa, + Sob a traidora rosa + O aspide esconder. + + +LOBNA. + + Que importa a pobre escrava + De susto e de amor trema? + Embora chore e gema, + Cumpre-lhe obedecer. + + +HALEVA E LOBNA. + + Sólta o suave canto + Captivo rouxinol, + Quando o nascente sol + Derrama seu fulgor; + + E as aves vem, correndo, + Pousar no umbroso til, + Onde com arte vil + As prende o caçador. + + O canto da avesinha + Foi nosso amor fatal! + E elles... destino igual + Lhes reservou o amor! + + + + +SCENA VI. + + + Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se + alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha + das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da + torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena, + onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano + inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte + inscripção:==_Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy + eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415 + annos._==É noite. + + +D. DUARTE. + + + Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados. + + + Viste-los vós?... + + +SOBREROLDA. + + Jura-lo + Posso. Dous cavalleiros: + Negras armas: cavallo + Negro ambos. Ligeiros + Voam... Ouví!... + + + D. Duarte chega ás ameias escutando. + + + Ao largo + Ainda soa o tropel. + + +D. DUARTE. + + + Áparte com afflição e despeito. + + + Oh pensamento amargo! + Oh receiar cruel! + + + Ao sobrerolda. + + + E os homens d'armas? + + +SOBREROLDA. + + Velam: + Não falta um só. + + + Escutando para a campanha. + + + Dir-se-hia, + Ao seu correr, que anhelam + Voltar antes do dia. + + +D. DUARTE. + + Não mais... + + + Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo. + + + Para a barreira +Cem lanças o adail +Conduza: da dianteira +Todos; que valem mil! +E eu lá serei em breve: +E elles hão-de seguir-me. +Sabe-lo elrei não deve. +Ai do que ousar trahir-me! + + + O sobrerolda sai. + + +Sob o seu gesto candido +O engano se escondia! +Era uma idéa perfida +Que na alma lhes surgia, +Quando de Ceuta as portas +Juravam não transpôr! +Creram que a noite lobrega +Seu crime esconderia! +Perante o céu, oh miseros, +Que importa a noite, o dia, +Se de ira se ha turbado +A face do Senhor? + + + Pausa: com terror. + + + Mas se a suprema cólera + Terrivel já descesse!... + Se, em vez do goso vívido, + A morte os acolhesse!... + + + Erguendo as mãos. + + + Meu Deus perdoa aos tristes; + Cede á fraterna dor! + + Oh minha mãe, da placida + Morada da ventura, + Guia-me os passos tremulos + Por esta noite escura, + Para salvar teus filhos, + Filhos de tanto amor! + + + + +SCENA VII. + + + A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas + arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna + e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam + os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da + esquerda. + + +LOBNA. + +No seu rapido gyro foge a noite +Ligeira e socegada: +Fulgor da madrugada +Em poucas horas subirá d'oriente. +Não poderam voltar!... Respiro... + + +HALEVA. + + + Aproximando-se da gelosia. + + + Escuta! +Ouviste um silvo agudo? +É o signal!... + + +LOBNA. + + Eu tremo... +Porém não... Quedo é tudo; +Salvo um ruído sussurrando ao perto, +De almogavar talvez... + + +HALEVA. + + De dous ginetes +O tropeiar parece... Elles!... São elles! +Sobre trajos de ferro espadas tinem! +Não ha que duvidar... + + +LOBNA. + + Oh! desfalleço! + + + Ouve-se um sibillo já perto. + + +HALEVA. + +Ei-lo o triste signal, signal de morte! +Á sua esquiva sorte +Não poderão fugir! Meu Deus! + + +LOBNA. + + Patente +Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos +Suspeitassem de nós! + + +HALEVA. + + Ei-los! Silencio! + + + + +SCENA VIII. + + + D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que + recuam aterradas. + + +D. PEDRO. + + Lobna! + + +D. HENRIQUE. + + Haleva! + + +D. PEDRO. + + O juramento + O momento é de cumprir! + De partir não tarda a hora: + Ha-de a aurora + Refulgir-nos juncto ao mar. + + +D. HENRIQUE. + + Sobre os rapidos corceis + Nós fieis vos guiaremos + Aonde achemos mil delicias + Nas caricias + De que amor nos vai cercar! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Vinde! a noite nos protege: + Dorme tudo pela aldeia; + E este braço não receia, + Quando cumpre, o pelejar. + + Vinde ser enlevo d'almas, + Sob um céu meigo e sereno; + Que nunca ha-de o sarraceno + Como nós saber amar! + + +LOBNA. + + + Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia. + + + Fugí breve, oh desgraçados, + Que cercados sois da morte! + Queira a sorte que um momento + Seu intento + A cumprir tarde Gulnar! + + +HALEVA. + + De ninguem serdes sentidos, + Já perdidos, ainda creis! + Mal sabeis vos esperava + Quem velava + Para em vós um pae vingar! + + +LOBNA E HALEVA. + + Triste umbral haveis cruzado, + Do wali ultimo abrigo, + Que no extremo do perigo + Jaz a ponto d'expirar. + + Por seu sangue a feroz filha, + Que essas portas franqueiou, + Vingativa aos céus jurou + Vosso sangue derramar. + + +D. PEDRO. + + A perfidía em recompensa + Só achou o nosso ardor?! + Desleaes! Porque o furor + De mulher cruel servir? + + +D. HENRIQUE. + + Porque a vida nos pedieis, + No olhar terno amor pedindo, + Quando os golpes retinindo + Era livre inda o fugir? + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Porque em noite deliciosa + De delirios seductores, + Generosos vencedores + Só pensaveis em trahir?! + + +LOBNA. + + Uma idéa tenebrosa + De Gulnar surgiu na mente + Nessa noite, em que estridente + Veiu a espada aqui luzir: + + +HALEVA. + + «Ide:--disse-nos--sois bellas: + Fascinae os nazarenos, + Talvez possa assim, ao menos, + Da vingança a senda abrir!» + + +LOBNA E HALEVA. + + A leôa do deserto + Entre as cervas se escondia: + Seu aceno constrangia + Pobre escrava a amor fingir. + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + + Com vivacidade e despeito. + + + Era pois um falso affecto?!... + + +LOBNA. + + Foi-o só um breve instante... + + +HALEVA. + + Hoje puro, hoje constante + + +LOBNA E HALEVA. + + Far-nos-ha por vós morrer. + + +D. PEDRO. + + + Pondo a mão sobre o punho da espada. + + + Que ella venha, pois, e a cerquem + Seus escravos traiçoeiros! + Portugueses, cavalleiros + Somos nós: ha-de tremer! + + +D. HENRIQUE. + + Sabe o forte nos combates + Se este braço é prompto e duro; + O covarde, que no escuro + Fere só, o ha-de saber! + + +LOBNA E HALEVA. + + + { Oh, fugi; que ainda é tempo, + { Antes de ella aqui volver! + { + 4 { D. PEDRO E D. HENRIQUE + { + { Partiremos! Dentro em breve + { Nos vereis aqui volver! + + + O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela + gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que + vão a sair, param e escutam. + + +CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, _fóra_. + +Gloria ao sancto propheta que aos impios +A cerviz insolente vergou, +E do amir português crueis filhos +Do muslim ao punhal entregou! + + +LOBNA E HALEVA. + + Bateu funerea hora... + Morreu nossa esperança! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Resta-nos a vingança... + Sangue por sangue... Embora! + + + + +SCENA IX. + + + Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão + collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita, + encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes. + + +GULNAR. + + + A Lobna e Haleva. + + + Fugir?!... É tarde, infames! + Vós me trahieis, vís! + Tremei! Gulnar velava... + E eu sou vosso juiz! + + + Aos infantes. + + + Deponde inuteis ferros, + De Ceuta vencedores! + Lá fóra meus guerreiros... + + + Apontando para os eunuchos. + + + Alli meus vingadores. + + +LOBNA. HALEVA. + + -------------^------------- + +«Ide trahi-los-- Para trahi-los +Impia,disseste... Nos escolheste!.. +Mui facil creste Se nos venceste +Fingir amor. Foi por temor. + + +LOBNA E HALEVA. + + Morrer com elles + É grata pena... + Feroz hyena, + Temos-te horror. + + +D. PEDRO. D. HENRIQUE. + + -------------^------------- + +Aos teus escravos, Os teus escravos +Mulher infida, Com mortal lida +Mais larga vida A nossa vida +Deixa gosar! Tem de comprar! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Que nunca o susto + Nos fez no p'rigo + O ferro amigo + Abandonar. + + + Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado. + + +GULNAR. + + Da louca audacia, + Da van affronta + Vingança prompta + Gulnar vai ter. + + + O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos. + + + Mas qual ruído + Confuso soa? + Porque reboa + Voz do adail?!... + + + Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda. + + + Hussein!.. O ferro + Retine!.. Gritos! + Gemer d'afflictos! + Sons de anafil!.. + + + Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar + fica suspensa. + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Que escuto?! Lá bradaram: + --São Jorge! Ávante, ávante!» + Oh jubiloso instante! + Restruge o pelejar. + + +GULNAR. + + + Acenando aos eunuchos. + + + Morram os impios! Morram! + Servos, rasgae seu peito. + Sintam, emfim, o effeito + Dos odios de Gulnar. + + + Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos + apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das + donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de + assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros + fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem + por entre os eunuchos e os dous infantes. + + + + + +SCENA X E ULTIMA. + + + Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros: + côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena, + e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar, + recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva + refugiam-se juncto dos infantes. + + +CÔRO DE DONZELLAS. + + Que horrivel espectaculo! + Por toda a parte a morte... + + +CÔRO DE GUER. MOUROS. CÔRO DE CAVALLEIROS. + + ---------------^--------------- + +Ferros inuteis, ide-vos: Cede o agareno timido: +Cumpra-se a nossa sorte! Honra ao valor do forte! + + +Depondo os alfanges no chão. Brandindo as armas. + + + +D. DUARTE. + + + Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e + correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu. + + + Vivos ainda, e incólumes! + Graças te dou, Senhor! + Laços de um impio amor + Vinha-lhes eu partir... + E a morte ia-os ferir!.. + Graças, oh meu Senhor! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + + Curvando o joelho aos pés de D. Duarte. + + + Foste enganado, e salvas-nos!.. + Perdoa, nobre infante! + Foi de delirio instante, + Que ao erro nos levou. + + +LOBNA E HALEVA. + + Agita ancioso o seio + Insolito pulsar; + Mas d'horrido receio + Não é este agitar! + + +D. DUARTE. + + + Abraçando successivamente os irmãos. + + +Pedro, Henrique, sois salvos! Invencivel +A espada portuguesa, +Mais uma vez, terrivel, +A barbara fereza +Dos infiéis domou. +O perfido punhal, +Da vingança guiado, em vão se alçou... + + +GULNAR. + + + Adiantando-se. + + +Vencestes, nazarenos! +Folgae na vossa gloria... +Seguí facil victoria. +Puní-me! Eis-me captiva... +Do vosso amir na prole +Vingar meu pae eu quiz... +Pensando-o era feliz: +Agora infeliz sou. +Morrer é a esperança, +Que o fado me deixou. + + +CÔRO DE CAVALLEIROS. + + + Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas. + + +Pune, oh principe, infames traidores: +Lava a affronta do sangue real! +Dos covardes, em trance fatal, +Tinja as faces da morte o pallor! + + +CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS. + + + Com gesto supplicante. + + +Por piedade, dos teus seguidores +Não escutes o voto lethal! +Generoso, o seu odio infernal, +Por piedade, não ouças, senhor! + + +D. DUARTE. + + + Aos cavalleiros. + + +Silencio! + + + Aos mouros. + + + Livres sois. + + + Aos cavalleiros. + + + Nunca aos vencidos +Sangue pediu meu pae. Eu serei digno +Filho do vosso rei. + + + A Gulnar. + + + Mulher, és livre. + + +GULNAR. + + Tua clemencia hypocrita, + Tyranno, vem mui tarde! + Pensas apagar, barbaro, + Fogo que immortal arde?! + + Dá-me Ceuta, a miserrima: + Torna-me um pae que expira: + Foge das praias d'Africa + Serva, que mal respira! + + Foras assim magnanimo: + Grata Gulnar te fora: + Sem isso, um favor unico, + Prompto morrer te implora! + + +CÔRO DE MOUROS E DONZELLAS. CÔRO DE CAVALLEIROS. + + ---------------^--------------- + +Turba-te a dor e a cólera, Da perfida a van cólera +Filha de Bensalá: Inutil brame já: +A tua raiva indomita Do seu cruel proposito +É van e inutil já! Ella nos vingará. + + + Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz + baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte + mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas. + + +D. DUARTE. + + + Tomando pela mão as duas escravas. + + + Não!... Innocentes victimas + D'impios não deveis ser! + O vosso amor ingenuo + Cumpre-vos esquecer; + Mas a vingança barbara + Não vos entregarei. + A Portugal seguindo-nos + + + Olhando para os infantes com aspecto severo. + + + Eu vos protegerei! + + +LOBNA E HALEVA. + + Só ir nos concede + O fado inhumano + Além do oceano + De amor expirar! + + +D. PEDRO E D. HENRIQUE. + + Nest'hora solemne + Do peito no arcano + Nosso amor insano + Juramos calar. + + +D. DUARTE. + + Da nossa clemencia + Aprenda o africano + A ser nobre e humano, + E o que é perdoar. + + +GULNAR. + + Do meu odio immenso + Cruel desengano!.. + Feroz lusitano + Se ri de Gulnar! + + +CÔRO DE CAVALLEIROS. + + Risquemos da mente + O perfido engano; + Que o principe humano + É bello imitar. + + +CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS. + + A nobre clemencia + Do heroe lusitano + Áquem do oceano + Sempre ha-de lembrar. + + + + +LIVRO TERCEIRO + +VERSÕES. + + + + +O SECCAR DAS FOLHAS. + +(_Millevoye_). + + +Das ruinas destes bosques +O outomno alastrou o chão: +A selva perdeu seus mimos; +Os rouxinoes mudos são. + +No bosque, amigo da infancia, +Triste um joven vagueiava; +Na sua aurora a doença +Para o sepulchro o inclinava. + +«Adeus floresta querida! +Vestes lucto por meu fim? +Como te cai folha e folha +A morte me segue assim. + +Intima voz, que revela +Seu fado extremo aos mortaes, +Me diz:--vês cahir as folhas? +São essas só: não ha mais! + +Sobre esta pallida fronte +O torvo cypreste ondeia, +Como o que, pharol de mortos, +Sobre campas se meneia. + +Antes da vide na encosta, +Antes da relva no prado, +Os dias da juventude +Terão para mim murchado! + +Minha linda primavera +Qual a van sombra passou! +Eu morro: o euro gelado +Da vida a seiva mirrou. + +Cáe, oh passageira folha; +Vem esta senda cobrir; +Esconde ao pranto materno +Logar onde vou dormir. + +Mas se vier minha amante, +Involta em véu luctuoso, +Ao pôr do sol, na lameda, +Dar-me um suspiro saudoso, + +Com o teu leve rugido +Desperta, oh, desperta o morto; +Que assim sua sombra tenha +Ainda allivio e conforto!» + +Disse: afastou-se, e não volve: +Ultima folha cahiu: +Era o signal: seu sepulchro +Sob o carvalho se abriu. + +Mas sua amante não veio: +E só do valle o pastor +Quebrou com som de passadas +Repouso do trovador. + + + + +A NOIVA DO SEPULCHRO. + +(_Imitado do inglez_). + + +I. + +Juncto da raia d'Hespanha, + Em monte calvo e deserto, + Vê-se um vulto negro ao longe, + Castello é, vendo-se ao perto: +Mas castello derribado, + De bons tempos, de outras eras, + Hoje abrigo escuro e triste + De reptis e bravas feras. +Foram formosos e fortes + Esses muros derrocados, + Por onde trepam as heras; + Que cingem bastos silvados. +A voz delrei nelle tinha + Nobre alcaide dom Sueiro; + Nobre por sua linhagem, + Nobre por bom cavalleiro. +Noivados, torneios, festas, + Ninguem sem elle fazia: + Ninguem, sem o convidar, + Ajustava montaria; +Que nunca da sua bésta + Viróte partiu em vão; + Como nunca os justadores + O viram perder o arção. +Mulher, que elle muito amara, + Lh'a roubara a sepultura; + Mas por este golpe o alcaide + Não mostrou grande tristura. +Até corria entre o povo + Um mysterio de maldade... + Suppunham uns ser mentira; + Criam outros ser verdade. +Mas o que? Cubria a terra + Esse caso mysterioso; + E só o povo sabía + Ser viuvo o que era esposo. + + +II. + +Cedo se ergue dom Sueiro; + Cavalga no seu cavallo, + E para caçada alegre + Passa áquem do extremo vallo. +Por essas margens do Lima, + Debaixo de puro céu, + O nobre senhor alcaide + Á rédea solta correu. +Veredas segue torcidas, + Até descubrir o outeiro, + Que revestem pela encosta + O zimbro, a urze e o pinheiro. +Soam sonoras buzinas, + Ri do dia o lindo alvor, + E no meio da paizagem + Uma brilha e outra flor. +Dom Sueiro o seu cavallo + Incita com ferrea espora; + Que no logar aprazado + Deve estar dentro de um' hora. +Nada lhe põe embaraço; + Nem resonantes ribeiros, + Nem as chans apaúladas, + Nem escarpados outeiros. +Mas ao sair da floresta, + Ainda perto do rio, + Viu ir formosa donzella + Buscando do ermo o desvio. +Celestes são seus meneios: + Não mortal, anjo parece: + Da sua tez a brancura + Alva açucena escurece. +O seu corcel dom Sueiro + Fez parar. Já se esquecera + Da caçada; e que no monte + Em breve estar promettera. +--Dizei-me vós, oh donzella, + Quem sois, que nunca vos vi; + Que por minha alma vos juro + Sois já senhora de mi.» +Resposta nenhuma teve, + Que ella não lhe respondia, + E, sempre guiando ao valle, + A curva senda seguia. +--Não me fugireis assim: + Bofé que não fugireis! + Um momento, um só momento, + Dom Sueiro escutareis!» +Disse: desmonta, e persegue-a, + Nos braços para a estreitar; + Mas ella furta-lhe o corpo, + E elle abraça o subtil ar. +--Dizei-me vós, oh donzella, + Pela vossa alma dizei, + De que procede tal susto, + Que a meu pesar vos causei? +Que, pelos céus o asseguro, + É verdadeiro este amor. + Não me fujaes, bella dama: + Não ha de que ter pavor. +De esposo, se vós quereis, + Dar-vos-hei, contente, a mão: + Sereis dona de um castello, + Dona do meu coração.» +--Dom Sueiro, oh dom Sueiro-- + Tornou a dama formosa-- + Eu sei quem és, qual teu nome, + E eu seria tua esposa: +Mas como crer nos teus dictos, + Dictos de homem fraudulento? + Conheço tuas perfidias, + E qual é teu vil intento. +Dês que morreu dona Dulce, + A tua infeliz mulher, + A linda Elvira roubaste + Para teu ludibrio ser. +Com promessas refalsadas + Enganaste uma innocente. + Quem crerá juras de um ímpio, + Que só jura quando mente? +Ella te creu, desditosa! + Porém não te creio eu: + Nem, qual de Elvira o destino, + Será o destino meu. +E como soffrera, esposa + Tua sendo, uma rival? + Folgáras tu nos meus zelos; + Folgáras della no mal? +Ousáras tu, dom Sueiro, + A pobre Elvira expulsar, + E dias de angustia e pejo, + Misera, vê-la tragar?-- +«Oh, voto a Christo, que sim!-- + O nobre alcaide atalhou: + E desfazer-se de Elvira, + Com mil pragas, protestou. +--Mas dizei vós, dama linda, + Quem sois? quem são vossos paes? + Que eu vos direi de mim tudo, + Se tudo me perguntaes.-- +«Nunca!--tornou a donzella:-- + Quem eu sou não te direi. + Nada te devo por ora: + Quando dever pagarei. +Mas pódes estar seguro, + Que, bem que nobre senhor. + Não é que o meu o teu sangue + Sangue de maior primor.-- +«Pois sim, querida, pois sim!-- + Dom Sueiro proseguia; + E algum signal de ternura + Á bella dama pedia. +«Não, oh não, meu cavalleiro! + Quando a mim te vir ligado + Tua serei; que antes disso + Fôra horroroso peccado.-- +«Porém dizei-me, oh donzella, + Onde vos hei-de encontrar? + Que, pela cruz, ahi juro + Nossas nupcias celebrar.-- +«Oh, que não será de dia; + Que mal de nós julgarão!-- + Tornou a dama--e os praguentos + Certo de mim se rirão. +É pela noite que eu voto; + De noite no cemiterio, + Quando soar doze vezes + O sino do presbyterio. +Sob o teixo solitario, + Onde ninguem nos não veja; + E aonde nunca chegar-se + Quem passar ousado seja.-- +«Vivam meus lindos amores!-- + Interrompeu dom Sueiro:-- + Sob o teixo, á meia noite?... + Veremos quem vae primeiro.-- +«Sim!--volveu ella--a ess' hora. + Nenhuma fôra melhor; + Porém, da tua palavra + Que me darás em penhor?-- +«Minha paixão em seguro + Do que promettí te dou: + Nunca promessas mentidas + Fez quem devéras amou. +Curvando o joelho, eu juro + Teus grilhões sempre rojar: + Meu corpo e alma são teus; + E o tempo o ha-de provar.-- +«Basta!--a donzella lhe disse.-- + Dom Sueiro, sou contente. + São meus teu corpo e tu' alma: + Meus serão eternamente.-- +Dicto isto, ao longo do rio + Ligeira a senda seguiu, + E elle aos outros caçadores + Alegre se reuniu. + + +III. + +Já da larga montaria + O folguedo se acabava, + E dom Sueiro ao castello, + Ao seu castello voltava. +Arde-lhe na alma o desejo + Com as imagens do goso, + E róe-lhe idéa damnada + O coração criminoso. +Infeliz e linda Elvira, + Nos dias da juventude, + Perdera nos braços delle + Flor de innocencia e virtude. +Mas gosos faceis não duram; + Breve após o tedio chega: + Elvira é já enfadonha: + Novo amor o alcaide cega. +Cumpre de si afasta-la: + O caso difficil é: + Ajunctará crime a crime? + Elle outro meio não vê. +Emfim decidiu-se: a morte + Em aurea taça lhe deu. + Nobre senhor, folgar pódes, + Teu crime a terra escondeu! +Era noite: e dom Sueiro + Para o adro ermo partia. + Logar, horas ou remorsos, + Nada terror lhe infundia. +Brilha a lua em seu crescente: + Passa a noite silenciosa; + E só lhe quebra o socego + O mocho e a fonte ruidosa. +Ao cabo o adro elle avista: + No meio o teixo lhe avulta: + Não deu meia noite ainda; + A dama ainda se occulta. +Mas troa o sino! Uma!... Duas!... + Contou; contou: mais dez são: + E uma donzella, de branco, + Surge da lua ao clarão, +E está debaixo do teixo. + Para lá o alcaide corre. + Não enganou seus desejos + Essa por quem elle morre. +Porém que é isto? Recúa? + Para trás a face vira? + Sim; que não era a donzella, + Mas o phantasma de Elvira. +«Maldicto!--clamou o espectro-- + Pune a traição o traidor. + Negro o sepulchro te espera. + De teu mal és só o auctor. +Pensa, monstro, emquanto é tempo; + Que não tardará teu fim. + Teu nome apagou-se. Agora, + Recorda-te bem de mim!-- +Não disse mais; e esvaeceu-se. + Dom Sueiro, espavorido, + Fugiu: sem volver os olhos, + Sem parar, sempre ha corrido. +Brilha a lua em seu crescente: + Passa a noite silenciosa; + E só lhe quebra o socego + O mocho e a fonte ruidosa. +Á porta do seu castello + Já dom Sueiro chegava. + Alli, vestida de branco, + Do bosque a donzella estava. +«Mal-hajas tu, cavalleiro:-- + Apenas o viu lhe disse:-- + O ter de mulheres medo + É signalada pequice. +Fui eu que fiz de phantasma: + Teu valor conhecer quiz. + Tremer como tu tremeste + É só proprio de homens vís.-- +As faces do nobre alcaide + De vermelho se tingiram; + Mas voltou logo a ternura; + Passados sustos fugiram. +«Vinde a meus braços, querida! + Vinde: não vos detenhaes, + Digna de ser minha esposa + Só vós sois, e ninguem mais. +Neste sitio, hoje vos juro + Amor firme e puro e ardente: + Em corpo e alma sou vosso; + Sê-lo-hei eternamente.»-- +«Em corpo e alma!?--ella clama, + Com uma voz sepulchral.-- + Certo será graciosa + Nossa união conjugal!» +Então, qual bravo terçol, + Que em sua presa poz mira, + Ao mesquinho dom Sueiro, + Abrindo os braços, se atira. +«Arredo! Filha do inferno!-- + Grita o alcaide.--Isto o que é?» + Ai!... olhou... É dona Dulce, + Não a donzella, quem vê. +Com os braços descarnados + Ella o collo lhe estreitou, + E os labios apodrecidos + Aos labios delle chegou. +Mortal halito de serpe + Seu halito assemelhava: + Sua figura era horrivel: + Tocada apenas gelava. +«Deixa-te agora de medos:-- + Disse o espectro a dom Sueiro.-- + Que é da audacia que mostravas, + Audacia de cavalleiro? +Tremes?... De quê, assassino? + Antes devêras tremer, + Quando envenenaste Elvira, + E a tua pobre mulher. +Meu amor e meus encantos + Pouco tempo te prenderam: + Em mim do sepulchro os vermes + Por tua mão se pasceram. +Depois, a amar-me tornando, + Repetiste um crime horrivel... + Teu amor é frouxo sempre; + Teu odio sempre terrivel! +Mas agora, odiada ou grata, + Não sairei de teu lado: + Nada quebra no outro mundo + Dos mortos negro noivado. +Alma e corpo me cedeste: + O corpo aqui dormirá: + Porém tua alma comigo + Mais longe se acolherá!» +Não lhe respondeu o alcaide, + Que a morte empallidecera, + E, ao som de arranco profundo, + No chão, extincto, batera. +Mas contam 'inda os pastores, + Que á meia-noite vagueia + Nas margens do ameno Lima, + Que murmurando serpeia; +E que, gritando e gemendo, + O seguem duas figuras, + Ambas com brancos vestidos + E tisnadas cataduras. + + + + +O CANTO DO COSSACO. + +(_Béranger_). + + +Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo! +Chama-te em altos sons tuba do norte. +Prestes no saque, intrepido nas brigas, +Dá, guiado por mim, asas á morte. + +Os teus jaezes não arreia o ouro; +Mas de meus feitos o terás em paga. +Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, +E os reis e os povos com teus pés esmaga. + +Tuas rédeas me entrega a paz que foge. +Ei-los por terra os europeus baluartes! +Meus aureos sonhos realisa agora; +Terás repouso na mansão das artes. + +Volve a terceira vez ao Sena inquieto, +Que te lavou sangrento, e a sede apaga. +Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, +E os reis e os povos com teus pés esmaga. + +Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram, +Entre o choro de miseros humanos: +--Cossacos, vinde ser de nós senhores! +Servos seremos, por ficar tyrannos.» + +E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes; +Que eu hei tomado minha lança e adaga. +Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, +E os reis e os povos com teus pés esmaga. + +De um enorme gigante vi o espectro +Nosso campo correr co' a vista ardente; +E, gritando:--meu reino outra vez surge!»-- +Mostrar com a acha d'armas o occidente. + +A sombra era immortal do rei dos Hunos; +D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga. +Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, +E os reis e os povos com teus pés esmaga. + +De que serve seu brilho á velha Europa? +Que lhe presta o saber para salvar-se? +Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la, +Debaixo de teus pés vão levantar-se. + +Templos, palacios, leis, memorias, usos, +Na correria extrema, e pisa e estraga. +Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, +E os reis e os povos com teus pés esmaga. + + + + +O CAÇADOR FEROZ. + +(_Burger_). + + +Sua buzina tocára + O conde, altivo senhor: + «De pé, de cavallo, álerta!-- + Disse; e monta o corredor. +O nobre animal relincha: + Pula e parte; e a turba após. + Ei-los vão! Quem era o conde? + Era o _caçador feroz_. +Por estevaes e por sarças, + Por campinas cultivadas, + Voam rapidos. Resoam + Motejos, gritos, risadas. +O sol que vinha rompendo + Em luz as veigas banhava, + E do zimborio do templo + O lanternim scintillava. +«_Tlim, tlão!_--convocando á missa, + Tangia o sagrado sino; + E involto nos sons de um orgam, + Do côro se ouvia o hymno. +Duas sendas lá se cruzam; + E a turba chegára lá. + Da direita um cavalleiro, + E outro da esquerda está. +Nedio ginete, qual neve + Alvo, guiava o primeiro; + O segundo, á rédea solta, + Esporeava um fouveiro. +Quem taes cavalleiros eram + Creio certo adivinha-lo, + Bem que ainda com certeza + Não me atreva a declara-lo. +Da direita ao cavalleiro + Fulgia o rosto formoso; + Porém no olhar do da esquerda + Fulgor havia horroroso. +«Bem vindos sois, cavalleiros; + Bem vindos á montaria! + Qual prazer, no céu, na terra, + Ao nosso se igualaria!-- +Assim disse o conde, e rija + Palmada na côxa deu. + Atirando pelos ares + A grande altura o chapeu. +«O som da tua buzina-- + Tornou logo o da direita-- + Nem aos canticos do côro + Nem do sino ao som se ageita. +Ruim caçada te espera! + Atrás te cumpre voltar. + Contra ti a ira celeste + Não queiras desafiar.» +«Nobre conde monteae-- + Prestes o outro atalhou-- + Que importa a bulha do côro, + E se o sino badalou? +Deixae ao povo o seu medo: + Que para a relé foi feito. + Não são palavras sandías + Das que merecem respeito.-- +«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda, + Um heroe és quanto a mim. + Só padre-nossos empecem + A algum caçador ruim! +Que tem missas, que tem resas + Com o montear, sandeu? + Se medo queres metter-me, + Falhou o calculo teu.-- +Disse o conde. Ávante correm: + Vão por campinas e outeiros. + Sempre da direita e esquerda + Estão os dous cavalleiros. +Eis, lá em distancia, um cervo + Branco transpõe a assomada, + Tendo de pontas galhosas + A erguida fronte adornada. +Então o conde a buzina + Com mais alento assoprou, + E tudo, a pé, a cavallo, + Com mais rapidez voou. +Ora dos que por diante, + Ora dos que de trás vão, + Um ou outro rebentado + Fica no meio do chão. +E o conde:--Cahem? No inferno + Baqueiar podesseis vós! + Os que desalentam fiquem: + Sem elles bem vamos nós.-- +N'uma seara guarida, + Fugindo, o cervo buscou: + O pobre dono do campo, + Triste, ao conde se chegou: +«Meu bom senhor--clamou elle-- + Compaixão, meu bom senhor! + Ah, poupae mesquinhos fructos + De um abundante suor.-- +Da direita o cavalleiro + O conde amoestou então: + Cortezes eram seus dictos, + Cortezes e de razão: +Mas, atiçando-o o da esquerda + Á maldade perpetrar, + Desprezou o da direita + Para o maldicto o enredar. +«Fóra cão!--ao camponez + Grita o conde esbravejando-- + Quando não, com mil diabos, + Soltar-te a matilha mando. +Álerta, socios! O açoute + Pelas orelhas chegae-lhe; + E que sou fiel ás juras + Dessa maneira provae-lhe.» +Dicto e feito. O conde salta + Por cima os vallos fronteiros; + E atrás delle, estrepitando, + Homens, cavallos, balseiros. +O tropel, com grita horrenda, + Pisa e destroe a seara; + Que ninguem do lavrador + Dorido choro escutára. +Pelo estridor acossado, + Que já bem perto sentia, + O cervo os crueis intentos, + Veloz fugindo, illudia. +Através de montes, valles, + Perseguido e não tomado, + Manhoso se foi metter + Entre um rebanho de gado. +Entrando do campo ao bosque, + Saindo do bosque ao claro, + Seguiram-no os cães, e em breve + Lhe acharam da pista o faro. +Cheio de angustia o pastor, + Por seu rebanho temendo, + Por terra se arremessou + Aos pés do conde, tremendo. +--Deixae meu pobre rebanho; + Senhor, tende dó de mi: + De muitas tristes viuvas + O gado retouça aqui. +Cada qual das pobrezinhas + Tem das rezes uma só: + Eis toda a sua riqueza: + Senhor, tende dellas dó.» +Da direita o cavalleiro + O conde amoestou então: + Cortezes eram seus dictos, + Cortezes e de razão: +Mas a maldade do conde + Sempre atiçava o da esquerda, + E elle, o bom ludibriando, + Corria á ultima perda. +«Cão! A mim oppôr-te queres? + As contas vou-te eu fazer. + Quem me déra entre essas vaccas + Comtigo as taes velhas ver; +Que seria o mais suave + Prazer do coração meu + Montear-vos, mais que fosse + Pelas campinas do céu. +Álerta, socios, ávante! + Cães, avança! csê! perdido!-- + E os cães no que acham mais perto + Saltam com fero latido. +O pegureiro por terra + Cái em seu sangue banhado, + E sanguento o gado fica + Todo alli atassalhado. +Á morte escapou a custo + O veado, que fugia + Cada vez menos ligeiro, + N'uma floresta sombria. +Cuberto de escuma e sangue, + Perdida a respiração, + Do bosque em meio salvou-se + No alvergue de um ermitão. +Segue-o o tropel incançavel: + Estala o açoute incessante: + Soam buzinas; retinem + Os gritos de--abóca! ávante!» +O solitario piedoso + Da cabana então saíu, + E ao conde, com brando gesto, + Taes palavras dirigiu: +--Senhor, deixa teus intentos, + E o sacro asylo venera: + A creatura ao céu se queixa; + Delle teu castigo espera. +Aos bons avisos, oh conde, + Cede pela ultima vez; + Quando não, na perdição, + Certo, abysmado te vês.» +Cuidadoso o da direita + Ao conde correu então: + Cortezes eram seus dictos, + Cortezes e de razão. +Mas o da esquerda atiçando + Nelle o animo damnado, + Do bom apesar do aviso, + Ai, do mau foi enganado! +«Perdição?! Disso me rio, + Não cuideis que eu tenha susto. + No terceiro céu que fôra + Me escapára o cervo a custo. +Que me importa a ira divina? + Vae-te prégar ao deserto. + Teus sermões a montaria + Não farão falhar, por certo.-- +Assim disse o conde. O açoute + Sacode; as buzinas soam. + «Csê! abóca!..--Ui! de diante + Homens e cabana voam. +De trás corceis, homens fogem: + Sons e gritos de caçada + Se esvaecem de repente + Da morte na paz gelada. +Pávido o conde olha em roda: + Tóca a buzina... não soa: + Grita... em vão: nada ouve: o açoute + Vibra: mas no ar não toa. +Para um e para outro lado + O seu cavallo esporeia... + Nem para trás voltar póde, + Nem àvante se meneia. +Então escurece emtorno: + Cada vez mais de ennegrece: + Qual sepulchro fica: ao longe + Bramir triste o mar parece. +Lá troa voz de trovão! + Que era o que dizia a voz? + Era a sentença do conde, + Sentença medonha e atroz. +«Genio infernal, atrevido + Contra Deus, homens e feras! + Das creaturas os gemidos + Resoaram nas espheras. +Tuas maldades e insultos + Alto pedem punição, + Onde da vingança o facho + Ondeia erguido clarão. +Malvado, foge; que os monstros + Do inferno te vão seguir, + Para que sejas exemplo + Aos tyrannos do porvir!» +Qual d'aurora boreal, + Flavo pallido fulgor + Tingiu então na floresta + Das folhas a verde côr. +Immovel, pasmado, mudo, + Gelado o conde ficou; + Trépida angustia dos ossos + Á medulla lhe chegou. +Frio susto pela frente + Contra elle arroja o terror: + Pelas costas o persegue + O trovão atroador. +O susto o gela; o céu ruge... + Da terra vai-se elevando + Negra agigantada mão, + Ora abrindo, ora fechando. +Pelos cabellos da fronte, + Ai, quer o conde prender!.. + Elle atrás o rosto volta; + Nem mais o pôde volver. +Em roda chammeja a terra + Verde, azul, vermelho fogo: + Delle um mar rodeia o conde: + Surge o inferno em peso logo. +Lá dos abysmos profundos + Sáem mil mastins raivosos, + Que, pelo averno açodados, + Se tornam mais furiosos. +Toma alento o conde, e foge: + Por montes, por campos vai, + Do seio arrancando a espaços + Do espanto terrivel ai: +Mas por todo o largo mundo + Atrás delle ruge o inferno, + De dia do orbe no centro, + De noite no ar superno. +Ficou-lhe a face voltada, + Por mais que ávante corresse, + Sem que dos horridos monstros + Os olhos tirar podesse. +Eis como a caçada foi + Do tropel desenfreiado, + A qual até nossos dias + Tão constante tem passado, +Que, muitas vezes, durante + As horas da noite escura, + Ainda ao dissoluto causa + Do medo o horror e amargura +De bastantes caçadores + Podia a boca dize-lo, + Se antes não lhes conviesse + Calado comsigo te-lo. + + + + +O CÃO DO LOUVRE. + +(_Delavigne_). + + +Tu que passas, descobre-te! Alli dorme + O forte que morreu. +Dá ao martyr do Louvre algumas flores; + Dá pão ao seu lebreu. +Da batalha era o dia. O canhão troa: +E o livre corre á morte, e juncto delle + O seu cão vai: +A mesma bala ambos feriu: o martyr +Não deploreis: o amigo seu que vive + Só pranteai! +Tristonho, sobre o forte elle se inclina, +Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda + Põe-se a latir; +E do seu companheiro no combate +Sobre o cadaver sanguinoso o pranto + Deixa cahir. +Essa gleba guardando onde repousam +As cinzas dos heroes, nada o consola + No seu gemer; +E ao que o ameiga triste repellindo, +«Oh, que não és meu dono!--o cão parece + Tentar dizer. +Quando sobre as grinaldas de perpetuas +O matutino alvor da aurora o orvalho + Faz scintillar, +Os olhos abre vívidos, e pula +Para affagar seu dono, que elle pensa + Ha-de voltar! +Quando da noite a viração as c'roas +Fez ranger sobre a cruz do monumento, + Desanimou: +Elle quizera que seu dono o ouvisse; +E ladra e uiva; mas o adeus de á noite + Lá lhe faltou! +O inverno chega, e a neve, com violencia, +Cái, e branqueia, e esconde esse gelado + Leito de morte: +Ei-lo que sólta um lugubre gemido, +E busca, alli deitando-se, ampara-lo + Do frio norte. +Antes que os membros lhe entorpeça o somno, +Mil tentativas para erguer a campa + Inuteis faz: +Depois comsigo diz, como hontem disse, +--Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.» + E dorme em paz. +Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras, +E seu dono entre as balas encontradas + Cahir ferido: +E ouve-o que o chama com sibillo usado; +E ergue-se e corre após uma van sombra, + Dando um bramido. +É alli que elle espera horas e horas, +E saudoso murmura: alli pranteia, + E morrerá. +O seu nome qual é? Todos o ignoram. +O que o sabía, o dono seu querido, + Nunca o dirá!.. +Tu que passas, descobre-te! Além dorme + O forte que morreu. +Dá ao martyr do Louvre algumas flores, + E esmola ao seu lebreu. + + + + +LEONOR. + +(_Burger_). + + +Ralada de ruins sonhos + Já desperta está Leonor, + E 'inda agora os céus d'oriente + Da manhan tingiu o alvor. +«Guilherme, és morto?--ella exclama-- + Ou trahiste a pobre amante? + Se vives, porque retardas + De te eu ver feliz instante?» +Nas tropas de Friderico + Tempo havia que partíra + Para a batalha de Praga, + E cartas delle quem vira? +Mas a imperatriz e o rei[1], + De guerras, emfim, cansados, + Depondo os animos feros, + De paz faziam tractados. +Já aos seus lares tornavam + Ambas as hostes folgando. + Cingem frentes ramos verdes; + Vem atabales rufando. +E por montes e por valles + Velhos e moços chegavam, + Dando brados de alegria, + A encontrar os que voltavam. +«Boa vinda! Adeus!--diziam + As filhas, noivas, e esposas. + E Leonor? Nenhum dos vindos + Lhe faz caricias saudosas. +Por Guilherme ella pergunta; + Por qual estrada viria. + Vão trabalho; vans perguntas: + Novas delle quem sabia? +Não o vê. Passaram todos... + Em furioso devaneio, + Ei-la arranca as negras tranças; + Fere crua o lindo seio. +Sua mãe, correndo a ella: + «Valha-me Deus!--lhe bradou.-- + Minha filha, pois que é isso?!» + E entre os braços a apertou. +«Minha mãe, perdeu-se tudo! + O mundo, tudo perdi: + De nada Deus se condoe... + Oh dor, oh pobre de mi!-- +«Ai! Jesus venha á minha alma! + Filha, um padre-nosso resa. + Deus é pae: sempre nos ouve: + Nunca a humana dor despreza.-- +«Minha mãe, inutil crença! + Que bens me tem feito Deus? + Padre-nossos!.. padre-nossos!.. + Que importam resas aos céus?-- +«Ai! Jesus venha á minha alma! + Pois não é quem resa ouvido? + Busca da igreja o consolo + Verás teu pesar vencido.-- +«Mãe, oh mãe, esta amargura + Nenhum sacramento adoça: + Não sei nenhum sacramento, + Que aos mortos dar vida possa.-- +«Filha, quem sabe se, ingrato, + Elle ás promessas faltou; + E lá na remota Hungria + Novo amor o captivou? +Se, mudavel, te abandona, + Do crime o premio terá: + Do ultimo trance na angustia + O remorso o punirá.-- +«Morreu-me, oh mãe, a esperança. + Perdido... tudo é perdido! + Morrer, tambem, só me resta. + Nunca eu houvera nascido! +Foge, oh sol resplandecente! + Manda a noite e os seus terrores... + Deus, oh Deus, que nunca escutas + O gemer de humanas dores.-- +«Meu Senhor! A desditosa + Não pensa o que a lingua exprime. + Não julgues a filha tua: + Nem te lembres do seu crime. +Vans paixões esquece, oh filha: + Cogita no goso eterno, + No sangue que te remiu, + E nos tormentos do inferno.-- +«O que é goso eterno, oh mãe, + E o inferno em que consiste? + Com Guilherme ha goso eterno, + Sem Guilherme o inferno existe. +Sem elle, que a luz fugindo, + Se troque em nocturno horror; + Sem elle, no céu, na terra + Só conheço acerba dor!» +Assim no sangue e na mente + Furia insana lhe fervia: + Cruel chamando ao Senhor, + Mil blasphemias repetia. +Desde o sol brilhar no oriente + Até que o céu se estrellava, + As mãos, louca, retorcia, + O brando seio pisava. + + ----- + +Porém ouçamos!.. A terra + Pisa um cavallo lá fóra!.. + E pelos degraus da escada + Tinem sons d'espada e espóra... +Ouçamos! Batem na argola + Pancadas que mal feriram... + E através das portas, claro, + Estas palavras se ouviram: +«Oh lá, querida, abre a porta. + Dormes? Estás acordada? + Folgas em riso? Pranteias? + De mim és 'inda lembrada?-- +«Guilherme, tu?! Na alta noite? + Tenho velado e gemido. + Quanto padeci!.. Mas, d'onde + Até 'qui tens tu corrido?!-- +«Nós montamos á meia-noite + Só. Vim tarde, mas ligeiro, + Desde a Bohemia, e comigo + Levar-te-hei, por derradeiro.-- +«Oh meu querido Guilherme, + Vem depressa: aqui te abriga + Entre meus braços; que o vento + Do bosque as crinas fustiga.-- +«Rugir o deixa nos matos. + Sibilla? Sibille embora! + Não paro... que o meu ginete + Escarva o chão... tine a espóra... +Nosso leito nupcial + Dista cem milhas d'aqui. + Sobraça as roupas... vem... salta + No murzelo, atrás de mi.-- +«Além cem milhas, me queres + Hoje ao thalamo guiar? + Ouve... o relogio ainda soa: + Doze vezes fere o ar.-- +«Olha em roda! A lua é clara: + Nós e os mortos bem corremos. + Aposto eu que n'um instante + Ao leito nupcial iremos?-- +«Mas dize-me, onde é que habitas? + Como é o leito do noivado?-- + «Longe, quedo, fresco, breve: + De oito taboas é formado.-- +«Para dous?--«Para nós ambos. + Sobraça as roupas: vem cá. + Os convidados esperam: + O quarto patente está.-- +Sobraçada a roupa, a bella + Para o ginete saltou, + E ao seu leal cavalleiro + Co' as alvas mãos se enlaçou. +Ei-los vão! Soa a corrida. + Ei-los vão, á fula-fula! + Ginete e guerreiro arquejam: + A faisca, a pedra pula. +Ui, como, á direita, á esquerda, + Ante seus olhos se escoam + Prado e selva, e do galope + Sob a ponte os sons ecchoam! +«Tremes, cara? A lua é pura. + Depressa o morto andar usa. + Tens medo de mortos?--«Não. + Mas delles falar se escusa.-- +«Que sons e cantos são estes? + O corvo alli remoinha! + Sons de sino? Hymnos de morte? + É morto que se avizinha!-- +Era de feito um saimento, + Que andas e esquife levava: + Aos silvos de cobra em pégo + Seu canto se assemelhava. +«Um enterro á meia-noite, + Com psalmos e com lamento, + E eu a minha noiva levo + Ao sarau do casamento? +Vinde, sacristão e o côro, + O ephitalamio entoai-nos; + Vinde, abbade, e antes que entremos + No leito, a bençam lançai-nos.-- +Cala o som e o canto: a tumba + Some-se: finda o clamor + A seu mando; e o tropel voa + Na pista do corredor. +Sempre mais alto a corrida + Soa. Vão á fula-fula. + Ginete e guerreiro arquejam: + A faisca, a pedra pula. +Como á dextra e esquerda fogem + Montes, bosques, matagaes! + Como á dextra e esquerda fogem + Cidades, villas, casaes! +«Tremes, cara? A lua é pura. + Depressa o morto usa andar. + Temes os mortos, querida?-- + «Ai, deixa-os lá repousar!-- +«Olha! Ao redor de uma forca + Dançar em tropel não vês + Aereos corpos, que alvejam + Da luz da lua através? +Oh lé, birbantes, aqui! + Birbantes, acompanhai-me! + Vinde. A dança do noivado + Juncto do leito dançai-me.-- +E os vultos vem após logo, + Ruído immenso fazendo, + Como o furacão nas folhas + Seccas do vergel rangendo. +E resoando a corrida + Ei-los vão, á fula-fula. + Ginete e guerreiro arquejam: + A faisca, a pedra pula. +Para trás fugir parece + Quanto o luar allumia; + Para trás suas estrellas + Sumir o céu parecia. +«Tremes, cara? A lua é pura. + Depressa o morto andar usa. + Temes os mortos, querida?-- + «Ai, delles falar se escusa!-- +«Murzelo, o gallo ouvír creio! + Breve a areia ha-de correr... + Murzelo, avia-te, voa; + Que sinto o ar do amanhecer! +Nossa jornada está finda: + Ao leito nupcial chegámos: + Ligeiro os mortos caminham: + A méta final tocámos.-- +D'uma porta ás grades ferreas + Á rédea solta chegaram, + E de fragil vara ao toque + Ferrolho e chave saltaram. +Fugiram piando as aves: + A corrida, emfim, parára + Sobre campas. Os moimentos + Alvejam; que a noite é clara. +Peça após peça, ao guerreiro + Cáe a armadura lustrosa + Em negro pó impalpavel, + Qual de isca fuliginosa. +Sua cabeça era um craneo + Branco-pallido, escarnado: + Nas mãos tem fouce e ampulheta, + Triste adorno de finado. +Alça-se e arqueja o ginete: + Igneas faiscas lançou, + E debaixo de seus pés + Abriu-se a terra, e o tragou. +Dos covaes surgem phantasmas: + Feio urrar os ares corta: + Bate incerto o coração + Da donzella semimorta. +Ao redor danças de espectros + Em remoinho passavam: + Canto de medonhas vozes + Era o canto que cantavam: +«Aflliges-te? Oh, tem paciencia! + Não fosses com Deus audaz. + Teu corpo pertence á terra: + Á tua alma o céu dê paz.-- + +[1] Maria-Theresa d'Austria e Friderico de Prussia. + + + + +A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO. + +(_Lamartine_). + + + Tu cujas azas tremulas + O meu olhar tornava; + Cujo trinado harmonico + Meus dias alegrava, + Ai, já não ouves!--Chamo-te, + E é vão este chamar! + Chegou a estação gelida; + Foi para te matar. + +Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos, + Companheira leal + Tu me foste, avesinha; +Meiga entre as meigas, desprezando os campos, +Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha + No movel cannavial. + +A ti, affeita a mim, affiz-me em breve. + Meu unico recreio + Era brincar comtigo. +Ao veres-me encerrar no pobre alvergue +Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo + Volvia em brando enleio. + +Meu amor te suppria a liberdade; + Meus passos traduzias, + Meu gesto, meu falar; +Repetias-me o nome em teus modilhos; + Punhas-te a chilrear + Quando sorrir me vias. + +Oh, que par! Que viver sereno e sancto! + Estavamos tão bem! + Nosso parco alimento +Com a ponta da agulha eu mourejava, +E dizia scismando:--o meu sustento + É o delle tambem.» +Sementes varias dava-te co' a alpista, + E, qual ramalhetinho + Feito na orla do prado, +Á 'splendida gaiola atar me vias, +Para debique teu, de herva um punhado, + + De alface um tenro olhinho.... + Se ao menos fosse licito + Saberes que pranteio!.. + Ai, foi em dia identico, + Que teu adejar veio + Fazer brilhar o jubilo + Neste triste aposento, + Onde em saudosa magua, + Sósinha te lamento! + + + + +INDICE. + +LIVRO I + +A HARPA DO CRENTE + + + PAG. +A Semana Sancta. 3 +A Voz. 35 +A Arrabida. 41 +Mocidade e Morte. 63 +Deus. 81 +A Tempestade. 87 +O Soldado. 95 +A Victoria e a Piedade. 111 +A Cruz mutilada. 121 + + + +LIVRO II + +POESIAS VARIAS. + + +A Perda d'Arzilla. 137 +A Rosa. 147 +O Mendigo. 151 +O Bom Pescador. 159 +Tristezas do Desterro. 165 +O Mosteiro deserto. 185 +A Volta do Proscripto. 201 +N'um Album. 211 +A Felicidade. 217 +Os Infantes em Ceuta. 221 + + + + +LIVRO III + +VERSÕES + + +O Seccar das Folhas. 273 +A Noiva do Sepulchro. 277 +O Canto do Cossaco. 293 +O Caçador feroz. 297 +O Cão do Louvre. 311 +Leonor. 315 +A Costureira e o Pintasilgo morto. 327 + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Poesias, by Alexandre Herculano + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POESIAS *** + +***** This file should be named 25925-8.txt or 25925-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/9/2/25925/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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