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+The Project Gutenberg EBook of O General Carlos Ribeiro, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O General Carlos Ribeiro
+ Recordações da Mocidade
+
+Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+Release Date: June 19, 2008 [EBook #25846]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+O GENERAL
+
+CARLOS RIBEIRO
+
+(Recordações da mocidade)
+
+por
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+
+
+Porto
+Livraria Civilisação
+de
+Eduardo Da Costa Santos--Editor
+
+MDCCCLXXXIV
+
+
+
+
+O GENERAL CARLOS RIBEIRO
+
+
+
+
+_A propriedade da primeira edição d'este livro pertence, no imperio do
+Brasil, aos srs. Faro & Lino, proprietarios da Livraria Contemporanea,
+moradores na rua do Ouvidor n.º 74--Rio de Janeiro._
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+O GENERAL
+
+CARLOS RIBEIRO
+
+(Recordações da mocidade)
+
+por
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+CAMILLO CASTELLO BRANCO
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+Porto
+Livraria Civilisação
+de
+Eduardo Da Costa Santos--Editor
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+MDCCCLXXXIV
+
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+
+AO VISCONDE DE BENALCANFOR
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+
+ _Meu querido Ricardo Guimarães._
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+
+_Recebe a dedicatoria d'este folheto como um cartão de despedida. Vou-me
+embora._
+
+_Naturalmente, escreverás dez linhas sinceras da minha necrologia. Dize
+que fui teu amigo trinta e seis annos; e que, á medida que eu ia lendo
+as tuas prosas progressivas e remoçadas, nunca pude imaginar que
+tivesses envelhecido._
+
+_Folgo de te não vêr ha muito tempo. Imagino que te deixo rapaz
+engrinaldando os festoens das tuas primaveras de ha trinta e seis annos
+para os offereceres aos nossos 50:000 leitores--um rico auditorio!
+Continua tu a ministrar-lhes os teus cabazes de flores, visto que, por
+impedimentos especiaes de regimen e outros estorvos complicados de
+engrenagens financeiras, não podes deitar-lhes perolas._
+
+_Adeus, Ricardo. A Chimica subterranea espera a minha alma. Vou
+mineralisar-me. Levo apenas, como saudade, uma flecha de luz reflexa do
+nosso passado, que me não deixa ir contente ao meu destino de azote,
+amoniaco e outros gazes. É a nostalgia dos teus e dos meus folhetins de
+1854. A proscripta ignominia do carroção do Torto--aquelle toiro de
+Phalaris, puxado a vaccas--que então esbatemos para a treva medieval, em
+outro paiz dar-nos-ia a celebridade immorredoura de Guesto Ansur, o
+salvador authentico das cem donzellas lusitanas tributadas ás prezas
+obscenas do khalifa. Tambem nós, visconde, salvamos centenas de
+donzellas portuenses das orgias do execravel defuncto «Manoel José
+d'Oliveira»--aquelle Mauregato coiraçado, com espaduas alcatroadas,
+musculatura de um lenho rijo e inflexo como os braços da forca, e
+articulaçoens de cobre azinhavado, onde eram contundidas as carnes
+virginaes. Se não fomos nós, quem foi que remiu das contusões e
+d'aquelle fôro ignobil as meninas portuenses, actualmente allodiaes e
+intactas, salvo seja, nos seus quadris e nas suas espaduas? Pois tens
+acaso noticia de que o Oliveira Martins, no seu livro sociologico das
+«Raças humanas e civilização primitiva», nos encadeasse nos elos do
+transformismo evolutivo do carroção em carro Ripert? Sabes que elle
+consagrasse um capitulo áquelle dolmen de castanho--a ara celta do
+sanguinario Irminsulf dos nossos ferocissimos avós? Nem uma palavra!
+«Isto faz vontade de morrer!» como disse Alexandre Herculano, muito
+menos offendido dos ingratos._
+
+_Emfim, Ricardo, esta carta, sobre ser uma confirmação, quasi posthuma,
+de fidelidade no affecto a um dos meus mais velhos amigos, deve ser-te
+não menos agradavel como exemplo consolador de que as vidas mortificadas
+tem uma compensação--é acabarem com um sorriso. N'este paiz, os
+bastardos da Fortuna prostituta, se fizeram exame de instrucção
+primaria, devem morrer com a serenidade de sabios. D'antes, havia a
+immortalidade da alma e as recompensas eternas como esteio a infelizes
+sub-lunares. Hoje em dia, aquelles dogmas, especie de _caput mortuum_,
+não amparam muita gente; mas ha coisa melhor: é a eschola primaria que
+levanta o discipulo ao nivel da felicidade do professor a tres tostões
+por dia com dez mezes de atraso. Depois, morre-se de uma anazarca de
+philosophia com uma ligeira complicação de fome. Assim se explica o
+grande furor da instrucção nacional que tu, com uma seriedade estranha
+aos nossos habitos, inspeccionas observantissimamente._
+
+_Vai, fiscalisa, evangelisa. Dilata, quanto em ti couber, as celullas
+conscientes dos hemispherios cerebraes do Alemtejo e Algarve. Dá-lhes um
+elasterio grande, expansivo, na razão inversa das retracçoens da mucosa
+do estomago, á qual não chega a tua alçada tonica. Lembra eruditamente
+aos pedagogos que ninguem se exalça ás glorias do Thabor sem ser
+arrastado pela Rua da Amargura. Dize-lhes, afinal, que a posteridade,
+mediante as suas confrarias e os seus dobres a finados, lhes dará
+brindes de missas geraes em dia de Fieis Defunctos--muito distinctos dos
+defunctos infieis. E, pelo que me diz respeito, recommenda-me tambem aos
+suffragios pios da Patria--esta querida mãe interessante, incapaz de
+tirar de difficuldades um filho vivo: mas, depois, tira-lhe a alma do
+purgatorio, sendo preciso._
+
+_T. C.--S. Miguel de Seide. 6 de dezembro de 1883._
+
+ _C. Castello Branco._
+
+
+
+
+
+Gabriel de Mortillet, professor de Anthropologia, publicou, n'este
+corrente anno (1883), o seu livro _Le préhistorique antiquité de
+l'homme_. Em mais de uma pagina o sabio professor menciona
+respeitosamente Carlos Ribeiro, o geologo portuguez, que tão
+brilhantemente fez as honras da casa lusitana aos congressistas
+estrangeiros que estiveram aqui a discutir assumptos de anthropologia e
+archeologia prehistorica.
+
+O general Carlos Ribeiro falleceu em 13 de novembro de 1882. A
+satisfação de se vêr tão culminantemente inaltecido no livro europeu de
+Mortillet não a gosou; e pena foi, porque seria essa a mais idealmente
+querida das suas recompensas. Bem sabem que os premios, os galardões
+substanciaes que n'este _reinosinho_ _de 90 leguas_, como lhe chamava
+Garrett, auferem os sabios do quilate de Carlos Ribeiro são por tal modo
+notorios e fallados que a gente, pelo commum, apenas tem noticia dos
+taes sabios quando lhes vê o retrato posthumo no _Occidente_.
+
+Estes homens trabalham em segredo como os alchimistas. Na Academia Real
+das Sciencias conversa-se, uma vez por outra, a respeito d'elles, com
+uma grande admiração do tamanho dos bocejos. Para os socios velhos a
+anthropologia apenas tem a caracteristica academica de ser palavra
+grega, e como tal a reverenceiam; mas ha d'elles que professam, muito
+pela rama, o _quantum satis_ d'umas sciencias abstruzas que assentam os
+seus laboratorios para além das fronteiras da historia. É inexacto,
+porém, que o insigne academico discursasse monologos paleontologicos
+diante dos seus confrades pouco porosos e assás impermeaveis ás
+infiltrações da sciencia nova. Não. Elle tinha socios no martyrio--o
+Ferreira Lapa, o Thomaz de Carvalho, o Bocage, o Latino Coelho, o Corvo,
+o Aguiar, os quaes, se não encontraram, como Carlos Ribeiro, vestigios
+de um ser intelligente nas camadas terciarias, seriam muito capazes de o
+achar, se o procurassem, o _Anthropopithecus_.
+
+Não se cuide que eu, com o selvagismo de um minhoto sem litteratura,
+pretendo molestar os hereditarios joanêtes da Academia. Nego. Os meus
+joanêtes de socio correspondente acham-se tambem compromettidos.
+Considero a Academia Real uma arca da sapiencia humanal, de reserva para
+a catastrophe de um diluvio de ignorancias eminentes. Respeito-a como um
+banco das nossas riquezas espirituaes, banco sem transacções, com
+accionistas todos de prenda, dando-se ares de estar sempre em
+liquidação; mas não liquida. Se não vive muito ao sol ardente que
+refunde o velho mundo, tem a vitalidade sombria do obituario. Quando um
+socio vae continuar na vida eterna o somno das suas sessoens, os
+confrades vivos gemem-lhe o elogio funebre, uma Nenia em periodos
+redondos, _ore rotundo_, na prosa da fundação do estabelecimento; em
+seguida, recolhem-se a brunir velhos adjectivos e a escovar algumas
+metaphoras de fivellas e rabicho, para a necrologia de um futuro
+confrade morto. De resto, muito mais modestos que justos juizes dos seus
+productos, os academicos, quanto ao estipendio das suas lucubraçoens,
+são mais abstemios que os anachoretas da Thebaida, e fazem livros mais
+em conta do que Santo Antão e S. Pacomio faziam balaios. Elles desdenham
+briosamente a cubiça gananciosa dos quarenta immortaes assalariados da
+Academia franceza; mas prelibam com delicias a justiça posthuma, o
+galardão do elogio funebre--esta rica moeda portugueza incorruptivel em
+que não entra a liga do oiro vil.
+
+Tornando ao _Anthropopithecus_. Toda a gente sabe o que é, na
+Prehistorica, o _Anthropopithecus_; mas eu não me dispenso de fallar
+d'este sujeito que nos precedeu ha 240:000 annos, pouco mais ou menos.
+Supponho que não serei desagradavel ás Senhoras menos lidas em
+anthropologia, para as quaes os vocabulos _pliocene_ e _miocene_, o
+_mammifero primata_, o _prognatismo_ são as jaças do limpido diamante
+da sua erudição.
+
+Mortillet, com bastante logica e com lucidissima observação mais
+convincente que a logica, affirma que o homem quartenario primitivo era
+algum tanto differente do homem actual. O craneo do nosso antepassado
+das cavernas differe consideravelmente do craneo do leitor. O illustre
+professor de anthropologia é, portanto, obrigado a concluir que os
+animaes intelligentes que petiscavam lume e lascavam pedras na época
+terciaria não eram homens na accepção geologica e paleontologica da
+palavra; mas sim animaes de outro genero, _precursores do homem_, na
+escala dos seres. A este precursor, intermedio ao anthropoide conhecido
+e ao homem actual, chamou Mortillet um _Anthropopithecus_. Claro é que
+a especie humana conhece o avô, o _anthropoide_; mas não conhece o pai.
+Orfan e posthuma, a desgraçada!
+
+Carlos Ribeiro havia descoberto nas margens do Tejo o silex lascado em
+terrenos terciarios e quartenarios, accusando um trabalho intencional e
+intelligente no animal precursor do homem. No Congresso Internacional de
+Bruxelles (1872), duvidaram, mórmente o douto Bourgeois, que nos
+exemplares expostos por Carlos Ribeiro houvesse trabalhos intencionaes
+que provassem a existencia de um individuo capaz de petiscar lume e
+lascar pedras na época terciaria. A favor do sabio portuguez apenas se
+insurgiu a opinião auctorisada de mr. Franks.
+
+Na exposição internacional de Paris (1878) o nosso geologo apresentou os
+exemplares, entre os quaes Mortillet apartou 22 com vestigios
+irrefutaveis de trabalho intelligente. Cartailhac abundou no parecer do
+seu collega e de outros especialistas.
+
+Afinal, Carlos Ribeiro triumphou desassombradamente quando os
+congressistas na obra de Monte-Redondo, em Ota, confirmaram em novos
+exemplares a sua opinião refutada em Bruxelles. Desde então, nos annaes
+da anthropologia e prehistoria foi assignalada como irrefutavel a
+existencia do Anthropopithecus em Portugal. Era o terceiro. Bourgeois
+tinha explorado um em Thenay. Em honra do inventor, esse vestigio do
+animal intelligente anterior ao homem chamou-se _Anthropopithecus
+Bourgeoisii_. Mr. Rames achára o segundo em Cantal, o qual foi chamado
+_Anthropopithecus Ramesii_. O de Portugal, descoberto por Carlos
+Ribeiro, recebeu o glorioso nome _Anthropopithecus Ribeiroii_.[1]
+
+Uma observação caturra ao sabio Mortillet: Este genitivo alatinado e
+ligeiramente macarronico, _Ribeiroii_, parece pertencer tambem á época
+terciaria, á prehistorica da lingua de Plinio, o moço. _Ribeiroii_ em
+genitivo indica o nominativo _Ribeiroius_. O extremado anthropologista
+devera ter escripto _Anthropopithecus Riberii_, ou, mais euphonico,
+_Ribeirensis_. Espero e ouso pedir aos futuros congressistas que
+adoptem esta errata, afim de que o nome glorioso do nosso concidadão não
+vá latinamente deturpado pelas edades fóra.
+
+Posto isto, a leitora naturalmente deseja saber que figura tinha o
+_Anthropopithecus_. Os sabios não satisfazem cabalmente a curiosidade
+de sua excellencia. Calculam apenas que elle era muito mais pequeno que
+o homem, attendendo á pequenez das pedras que lascava para seu uso; mas,
+a respeito do animal portuguez, a julgar pelo tamanho dos silex,
+presume-se que elle anatomicamente fosse mais encorpado que os outros.
+Isto é concludentissimo e consolativo, minhas senhoras. Mr. Abel
+Hovelacque, outro sabio, presume que aquelle nosso pai pequeno seria do
+tamanho dos actuaes macacos maiores.[2] Na verdade, os srs.
+bispo de Coimbra, conselheiro Nazareth e varios tambores-mores accentuam
+e affirmam a procedencia d'aquelle patriarcha mais avantajado no tamanho.
+
+Bastará de sciencia? Mas o que não posso, minha senhora, é esquival-a ao
+desaire de proceder de macaco. Não lhe assevero que seja de chimpanzé,
+de gorilha, de orango. A minha esvelta leitora é o typo aperfeiçoado de
+todas estas familias. Segundo o genealogico Hoeckel, vossa excellencia
+promana de um pitheco, derivado de um lemur, producto de um kanguru. É a
+primeira vertebrada, e não direi primeira «mammifera» para evitar
+equivocos. Em todo caso, exquisita arvore de geração, na verdade; mas,
+se a minha delicadeza se dóe, sciencia obriga; porque, emfim, este
+folheto é uma obra de vulgarisação, _à la portée des gens du monde_.
+Pertendo ser mais util que agradavel ás senhoras modernamente
+orientadas, as quaes, entre os flagicios acusticos dos seus pianos e o
+moinho estupidamente burguez das suas maquinas de costura, abrem um
+parenthesis á discreta biologia.
+
+E tenham muita fé, minhas senhoras; _porque as sciencias de
+observação_, diz Letourneau na _Biologia_ mais avançada, _exigem
+primeiramente de quem as quer cultivar um acto de fé_. Acto de fé!
+Tambem a sciencia positiva reclama a sua _virtude theologal_. Pelos
+modos, é precisa tanta fé para acreditar no Jehovah de Moisés e no
+Messias de S. João Evangelista, como no «Pantheismo» de Espinosa, na
+«Vontade» de Schopenhauer, e no «Inconsciente» de Von Hartmann. Por
+tanto, façam suas excellencias um acto de fé como biologas, e outro acto
+de caridade como catholicas, prestando-me a sua benevola attenção.
+
+ * * * * *
+
+Carlos Ribeiro não andou toda a vida, como Boucher de Perthes, a
+esgaravatar nas camadas do globo a certidão de idade do homem. Tambem
+elle borboleteou á flôr da terra, com as azas polvilhadas dos matizes da
+alegria juvenil, os seus devaneios.
+
+Entre os 15 e 16 annos, fingia eu que estudava chimica na Polytechnica
+do Porto. Carlos Ribeiro, n'aquelle anno, 1844, já tenente, com 30 annos
+de idade, completava mathematicas com sinceridade e aproveitamento. Era
+de estatura mediana, refeito, de espaduas fortes, rosto redondo,
+purpurino, com um pequeno bigode cortado na commissura dos labios muito
+nacarinos. Grave nas fallas, muito delicado em conselhos e attençoens
+com os cabulas; e sympathisava com a minha modesta ignorancia que elle,
+confessando a actividade funccional do meu cerebro, ingenuamente
+attribuia a eu não possuir compendio de chimica,--uma coisa bastante
+necessaria a quem se matricula. Era o _Lassaigne_--parece-me ser este o
+nome do sabio naturalista, que alguns condiscipulos generosos me
+emprestavam á porta da Academia, quando se avistava o lente, um
+ex-frade, Santa Clara, contemporaneo de Orfila, Berzelius e Liebig. Por
+que mãos sagradas andava então a chimica portugueza!
+
+Aproveito a occasião para agradecer aos que ainda vivem, se algum vive,
+a gentileza do seu emprestimo, para que eu, em honra do frade, sahisse
+crystallinamente e triumphantemente do meu acto de chimica sem a macula
+de um R.
+
+
+Já divulguei em um livro este caso á Europa culta.
+
+ * * * * *
+
+Agora, vou contar outro caso mais trovadorêsco--um episodio da vida
+amorosa do defuncto anthropologista, o general Carlos Ribeiro.
+
+
+Por aquelle tempo, uma senhora esmeradamente educada no gosto da época,
+e com uma grande distincção de formosura, abandonára em Lisboa o esposo,
+e refugiára-se no Porto com um seductor de condição baixa e bens de
+fortuna parallelos. Este casal anticanonico habitava uma casinhola
+barata na rua da Sovella, paredes-meias do quarto escolastico de Carlos
+Ribeiro. O tenente, quando regressava da aula, via na janella de
+peitoril, uma vez por outra, a sua mysteriosa e lepida visinha encaral-o
+com uma fixidez perturbadora como um envoltorio de fluidos galvanicos.
+
+Certa estanqueira estabelecida na loja da casa onde se aninharam
+aquelles amores clandestinos, informou-o da má vida intima dos
+adventicios. Havia desavenças todas as noites, gritaria, choradeira, e
+ás vezes repelloens reciprocos, a ponto d'ella cahir no sobrado. D'estas
+altercaçoens nocturnas, a informadora podéra liquidar que o homem se
+chamava _Bramão_, ella _Gloria_, e que tinha marido na capital. Entre
+os epithetos que elle lhe desfechava, o mais accentuado e repetido era
+_bebeda, grandissima bebeda_; e a estanqueira justificava a
+qualificação, contando que a menina Gloria, assim que o Bramão sahia,
+mandava ao armazem da Companhia fronteiro duas garrafas vasias que se
+trocavam por garrafas lacradas de 800 reis.--Acho que se emborracham
+ambos de dois!--conjecturava a mulher dos tabacos, offerecendo a sua
+opinião indecisa ao reflexivo freguez dos cigarros.
+
+
+Uma noite, foi tamanha a gritaria, que a patrulha bateu á porta da
+estanqueira perguntando que gritos eram aquelles no primeiro andar. A
+mulher, na sua impaciencia de estrenoitada, respondeu azedamente que era
+uma creatura com a sua pinga; que fossem os soldados á sua vida, porque
+não havia remedio a dar-lhe á carraspana senão cozel-a; e que cada qual
+em sua casa podia embebedar-se como quizesse e quando quizesse. Se
+percebiam? perguntava colerica. E a patrulha: que sim, que a cozesse
+ella e mais a visinha. E a estanqueira:--Malandros!
+
+Eram então triviaes no Porto estas scenas do Baixo-Imperio, dialogadas
+entre o pequeno commercio e os pretorianos municipaes--os _janizaros_
+do Costa Cabral. N'aquelle tempo, tudo que era tropa chamava-se
+_pretorianos_ e _janizaros_--uns pobres diabos a 30 reis por dia e
+rancho de couve gallega com feijão fradinho. Depois é que expluiu o
+caceteiro, pago pelos edis, a 480 reis diarios, e mais, consoante a
+pressão exercida nos ossos parietaes do _patulea_.
+
+O tenente estava á janella a escutar o alarido, sentia uma compaixão
+infinita por aquella formosa senhora; e scismava se a embriaguez seria
+refugio de grandes tribulaçoens n'aquella alma que se atirava a um
+charco de vinho para apagar a luz do intendimento e da memoria--perturbar
+a vida afflictiva da consciencia escorreita.
+
+Na manhan seguinte a esta noite tempestuosa, Bramão sahiu e não voltou
+mais.
+
+A estanqueira soube d'ahi a dias da criada de Gloria que a sua ama tinha
+vendido a unica pulseira, porque o pelintra do patrão lhe não deixára
+vintém; e ajuntou que ella pouco mais tinha que vender, a não ser os
+vestidinhos, porque já tinha derretido as joias para sustentar o vicio
+do amante, que era jogador e perdia sempre.
+
+A criada, aquecida pelo atríto das revelaçoens, confessou que sua ama
+tomava a piella todas as tardes, quando a não apanhava tambem todas as
+manhans, bemdito seja o Senhor! Que o patrão vinha de fóra levado de
+todos os diabos, e entrava ás testilhas com ella, palavra puxa palavra,
+e iam ás do cabo, pancada de criar bicho, e batiam de meias. A senhora,
+coitadinha, antes de se emborrachar, chorava lagrimas como punhos, a
+contar-lhe a sua vida. Que era filha de gente grande, e casára, contra
+vontade sua, com um almofariz da casa real. A estanqueira não
+comprehendia o casamento com o almofariz. Carlos Ribeiro emendou para
+_almoxarife_, explicando o officio com a sua costumada bondade
+illustradora.
+
+Como quer que fosse, a infeliz senhora embriagava-se depois que chorava
+lucidamente. Era isso mesmo o que o tenente havia conjecturado com a sua
+romantica intuição de 1844.
+
+Da piedade não é trivial a passagem para o amor; mas, se á commoção do
+amor precede a do compadecimento, o caso de Carlos Ribeiro é vulgar.
+Escreveu o meu amigo a D. Gloria offerecendo-lhe os seus serviços
+desinteresseiros n'uma terra em que sua excellencia era hospeda, e não
+tinha talvez relaçoens. A visinha respondeu-lhe com uma caligraphia
+ingleza, e uma grammatica impenetravel á unha da critica mais
+meticulosa. Em meio da sua prosa florida, alinhava-se o alexandrino de
+Victor Hugo:
+
+ Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe...
+
+O mathematico ficou mais deslumbrado com a contextura da carta do que
+ficaria trinta annos depois quando achou em Ota a garantia da sua
+immortalidade como homem de sciencia--o Anthropopithecus.
+
+
+A correspondencia travou-se em phrases recheadas de versos de Hugo e
+Lamartine, até que o tenente entrou sósinho, sem os poetas auxiliares, e
+sómente com a sua prosa commovida, na alcova da visinha. Era uma alcova
+sem pretençoens bysantinas, nem cosmeticos caros; apenas algum
+_Patchouli_ nacional, e agua de Colonia, em parodia, fabricada por um
+pseudo Farina, e muito almiscar, perfumaria dos gyneceus infestos á
+Moral, perdição dos caixeiros de risca ao meio, e grandes absorventes de
+licor de Rosa e de Van Switen. Era, em summa, a alcova atrapalhada de
+uma _touriste_ que vai vagamundeando a sua vida escoteiramente, sem
+reparar se ha estofos, estatuetas, bronzes e Sevres e pavilhão de
+ondulaçoens setinosas, com lampejos crús de metaes esmaltados, no leito
+das reles estalagens onde pernoita.
+
+Elle sentiu na ante-camara o fartum acidulado da baga alcoolisada dos
+vinhos crassos da Companhia: era o perfume de uma adega do Roncão. Foi
+uma nuvem de máos presagios no azul da sua felicidade aquelle cheiro.
+
+Entravam a dialogar na temperatura madrigalesca do ultimo romance de
+Arlincourt, quando ella mandou servir vinho do Porto de oito tostoens
+com pasteis de Santa Clara e _queques_ da Palaia. O hospede
+sacrificou-se cortezmente a algumas libaçoens, pequenos goles
+intercalados de perguntas e respostas, deixando o calice opalino em
+meio. Ella, entretanto, n'uma exaltação theatral, defendia a these do
+adulterio, com reminiscencias peoradas da _Lelia_ de George Sand; e,
+como inconsciamente, na abstracção enthusiasta dos largos gestos, ia
+engatando uns calices nos outros, em rapida viagem para a região do
+Falstaff e da Maria Parda de Gil Vicente. Parecia mesmo uma actriz
+franceza _des Variétés_, com uma forte diáthese de bambochata, que
+viesse de cear no Café Tortoni com _champagne frappé_, na roda reinadia
+de Roger de Bauvoir e Roqueplan. Carlos, quando a viu em afinação mais
+que suspeita, sentiu borbulhar-lhe o pranto da ingenuidade; porque ella,
+carminada pela ebulição do sangue, esbandalhada, e escandecida pelo que
+havia sincero e logico na sua declamação, relampejava uns claroens
+electricos que pegariam fogo em carne menos combustivel que a do
+artilheiro; porém, a elle, faziam-no chorar as lagrimas entranhadas que
+os olhos téem pejo de mostrar, e, reprezadas na alma, chegam a cegal-a
+como um collyrio de acido sulphurico concentrado. Figura-se-me que estou
+a escrever isto em 1844! Que imagens! que botica!
+
+E a dama, n'uma absorpção de visitada pelo _ecce Deus_, com o iris
+acceso e a pupilla retrahida pela atropina da Companhia, não despegava
+do fio das ideias, torrencialmente. Tregeitos exquisitos e sacudidos da
+escóla melo-dramatica de Emile Doux. Fazia vibraçoens gloticas, cavas,
+gutturaes de quem recita threnos. Arredondava phrases repolhudas,
+pomposas, de dramalhão, respigadas nos _Dous Renegados_ e no _Captivo
+de Fez_. Por baixo do vinho já estava o absintho do odio ao pai que a
+violentára a cazar-se; mas a losna não lhe calcinava os nervos sem a
+combustão inflammatoria dos extra-finos, muito sêccos, do Alto-Douro.
+
+Acidulada sob a influencia das suas virginaes reminiscencias de menina e
+môça, etherisava-se. Ora, é regra corrente que o alcool, submettido aos
+acidos, transforma-se em ether. Insignes pharmaceuticos o asseveram.
+Todas as commoçoens internas são chimica. Isto, que d'antes se chamava
+alma, é uma retorta de cristal da Bohemia em uns sujeitos, e de barro de
+Estremoz em outros sujeitos. O grito das paixoens que desfibram e matam
+é o estampido da retorta que rebenta. Agora, a differença: se a retorta
+é de crystal, os estilhaços, embora embaciados de lagrimas, tem ainda
+rutilaçoens que encantam a Arte. E, se a retorta é de barro, os cacos
+abeberados nas lagrimas repellem a vista porque parecem lôdo. Edgard
+Pöe, Alfred de Musset e Baudelaire, envenenados pelo alcool, são hostias
+immoladas a um meio social responsavel--são retortas de crystal feitas
+pedaços pela paixão. O Sena cospe ás margens, cada mez, dezenas de
+suicidas que apenas tem vinte e quatro horas de nojosa exposição na
+Morgue. São os cacos da retorta de barro dissolvidos em lama.
+
+Quanto a Gloria, para ser uma consummada tragica na voz e no gesto,
+bastara-lhe uma regra que não se acha bastante inculcada nas prelecçoens
+do Conservatorio Real das Artes scenicas, isto é: carregar-lhe no copo.
+
+ * * * * *
+
+Ácerca d'este elixir vitalisador das citadas Artes scenicas--necessidade
+physiologica (o copo, intenda-se, e não as _Artes_) do sangue luzitano
+de origem celtibera--não sei quaes sejam as cogitaçoens actuaes do meu
+Luiz Augusto Palmeirim, egregio director do Conservatorio Real.
+Cumpre-lhe, todavia, estar precavido contra as anemias e opilaçoens
+(opilaçoens, no sentido casto de _chloroses_) d'aquelle aviario de
+roussinoes e outros passaros que regorgeiam em perpetuo abril, estofando
+os seus ninhos com o pollen das flores.--_Pollen das flores_, notem a
+figura que é rara n'estes tempos hostis á rhetorica. Ora pois. Que
+aquelle seminario das Artes scenicas borborinhe sonoroso de
+interjeiçoens tremicullosas como calefrios, arranques tragicos,
+morbidezas de bemóes e sustenidos; e que, depois de um purgatorio de
+rabecas e pianos,--supplicio indispensavel--rutilem, ao diante, pelas
+trapeiras das aguas-furtadas do Bairro-alto as constellaçoens sidereas
+das Sarah, das Nilson, das Patti, dos Rubeinstein, n'este paiz de
+_Manoel Mendes Enchundia_, da _Canna-verde_, do _Passarinho
+trigueiro_ e do _Fado choradinho_. Notem que o dr. Letourneau escreve
+que uma ponta de vinolencia é a poesia da digestão[3]; e
+tambem affirma que onde quer que se usa a bebedeira, existe uma
+litteratura bachante (pag. 45). A regra em Portugal falha praticamente.
+Temos a bebedeira sem a litteratura, talvez por falta de editores pouco
+serios.
+
+ * * * * *
+
+D. Gloria, não obstante, seria ridicula hoje em dia que a sciencia
+glacial esfriou a admiração pelas mulheres de talento menos methodico,
+desvairado por exorbitancias Vadias.
+
+N'aquelle tempo as senhoras que recendiam essencias de macassar, e
+tinham sido iniciadas nas assembleias pelos parlapatoens da Restauração,
+eram assim. Reinavam os _parvenus_, uns devassos broncos, algum tanto
+desbastados pelo esmeril da emigração, ou sahidos das cadeias com uma
+grande fome de mundo, de diabo e de carne, os trez amigos figadaes do
+corpo, como explica methaphysicamente a _Cartilha da doutrina_ para uso
+dos collegios de meninas. Elles tinham as fossas nazaes virgens do nitro
+das granadas do Porto; mas eram destemidos fundibularios de patacos
+regeitados á sege do sacrificado duque de Bragança que lhes dera patria
+sem os inconvenientes da forca, e dilacerára o coração nos sobresaltos
+das batalhas. Eram os bagageiros do espolio opimo com todos os
+caracteres ethnicos da siganagem portugueza. Compravam conventos com
+titulos azues e rebatiam a 17 p. c. os arriscados e sacratissimos
+emprestimos aos _Regeneradores_ de 20 e aos _pallikares_ empennachados
+da _Belfastada_.
+
+Os _parvenus_ inculcavam como norma da perfeição feminil a _Corinna_
+de madama de Stäel, a mesma madama em pessoa a fazer aos psycologos
+philosophias, e coisas mais praticas a Benjamin Constant, como a
+Récamier ao velho lubrico que fazia, da sua parte, o _Genio do
+Christianismo_. Todas e todos muito devassos e eloquentes, boas e bons
+para começarem os seus romancinhos ao fogão e concluil-os nas alcôvas.
+Foi este o ideal da mulher que os emigrados trouxeram dos _boulevards_
+e dos hoteis _garnis_ a 2 fr. e 50 cent., com uma de-mão do verniz de
+Mabille.
+
+Lia-se então copiosamente a obra emocional de Paul de Kock; e os
+hierophantas do reino restaurado folheavam com mão diurna e nocturna a
+_Republica_ de Platão, onde o grande legislador, em pleno luxo de
+policiamento hellenico, preceituava que as mulheres passassem de mão em
+mão. (Livro V.) Esfervilhavam por isso as Xantipas com que os Socrates
+altruistas obsequiavam os Alcibiades, e floreciam as Marcias que os
+virtuosos maridos Catoens emprestavam aos Hortensios. Assim como nas
+lojas maçonicas muitos dos triumphadores de 34--um grupo sahido da
+barbaria da idade-media--se chamavam _Catoens_ e _Socrates_, por igual
+theor, no sanctuario da familia, usavam os mesmos habitos greco-romanos.
+Foi por isso que, em 37, o apocalyptico autor da _Voz do Propheta_
+denominou Lisboa uma _caverna de vicios e desenfreamentos_.
+
+Uma franceza, amante varia de varios francezes, mad. Pauline de
+Flaugergues, dava o tom em Lisboa, por esse tempo, em versos e frescor
+de cutis polvilhada de bysmutho. Rodeavam-na os areopagitas do plectro e
+da sintaxe, a mestrança da versejadura--Castilho, Garrett e os outros da
+constellação. Esta bohemia trovista foi dada como typo de mulher
+emancipada pelo talento. Teve ovaçoens das lyras primaciaes. Damas da
+côrte, creadas em novenas e lausperennes, atiraram as camaldulas ás
+ortigas e pegaram de fazer muitos gallicismos grammaticaes e pessoaes.
+Viveu-se uma rasgada bacchanal á franceza, em que tomaram o seu quinhão
+_pro rata_ as mulheres dos marquezes, as filhas dos algibebes e as
+esposas dos ex-almoxarifes. É como foi. A D. Gloria era um fructo
+bichoso, sorvado, de arvore que não sevou a raiz em terreno alheio mal
+adubado. Era cedo ainda. Ás portuguezas faltava-lhes o _savoir-vivre_,
+para se aguentarem corrompidas e elegantes. _Jam novus rerum nascitur
+ordo._ Isto hoje está melhor--está como deve ser. A mulher cae; mas
+sabe cahir n'este palco; e não podia ser assim ha quarenta annos. _Go
+ahead!_
+
+O certo é que aquella dama foi a primeira paixão de Carlos--a primeira
+que é tão forte e pouco menos tola que a setima e a vigesima nona.
+
+ * * * * *
+
+Trez mezes volvidos, Ribeiro tinha perdido a alegria, o affecto ao
+trabalho, a convicção da sua immaculada probidade, e já luctava com as
+duras hostilidades da pobreza. Quanto a Gloria, cada dia mais formosa,
+mais fascinadora e mais crapulosa. Elle chegou a pedir-lhe em joelhos e
+de mãos erguidas que se abstivesse de beber tão destemperadamente; e
+ella, no lucido uso das suas faculdades dirigentes, respondeu que não
+podia,--que o embriagar-se era o seu suave e doce suicidio, porque
+queria morrer.
+
+
+Carlos obtivera informações de Lisboa. O pai de Gloria ainda vivia. Era
+um bom proprietario rural na comarca de Torres Vedras, tinha sido criado
+particular do snr. D. João VI, cazára com uma retreta da snr.ª D.
+Carlota Joaquina, e tinha o habito de Christo. O marido era mentecapto e
+velho. Perdera a rasão com a queda do snr. D. Miguel e do seu
+almoxarifado no Alfeite. Quanto a Bramão, um industrioso, vivia de
+apostas ao bilhar no Marrare das 7 portas e era casado com uma peccadora
+acirrante, uma trigueira de bigode que se desforrava usurariamente das
+perfidias do marido, sendo perfida para todos os amantes.
+
+Meditava Carlos em commiserar o velho cavalleiro de Christo, na
+esperança de regenerar a dignidade de Gloria com a convivencia do pai
+venerando e das irmans honestas. O velho respondera a quem lhe pediu
+compaixão para a filha que a julgava morta, e morta devia estar para
+elle; mas que não a repulsaria do seu talher, porque a desgraçada tinha
+a seu favor como desculpa o haver casado constrangida.
+
+Quando o tenente, triste pela deixar e alegre por salval-a, lhe
+communicou a resposta do pai, ella improperou-lhe a covardia de a não
+desenganar, se estava farto de atural-a, e reprovou a missão caritativa
+de a reconciliar com a familia, não tendo procuração para isso. Depois,
+trocaram-se palavras desabridas.
+
+ * * * * *
+
+No dia seguinte, D. Gloria deixou a casinha da rua da Sovella e foi para
+o Bom Jesus do Monte com um dos leões d'aquelle tempo em que a cidade da
+Virgem parecia ser da Venus Callipygia--uma leoneira da Hircania, onde
+as epidermes roliças das donzellas de Cedofeita e as ostras da Aguia
+d'Ouro eram o pastío nocturno d'aquelles dragoens, producto da
+concubinagem do romantico burro de Buridan com a classica burra de
+Balaão. D'esta progenie, que herdára da mãe o dom da palavra, e do pai
+um amor menos indeciso ás duas maquias, evolucionou-se o _crevé_, o
+estoiradinho, um phenomeno embryologico, que encaracola _bellezas_ na
+testa exigua de microcephalo, incalamistra o bigode, e tem do D. Juan de
+Maraña simplesmente a guitarra com que perverte familias espanholas
+vigiadas pela policia medica. De resto e _au fond_, os estoiradinhos
+são grupos de moleculas, agregaçoens granulosas, saturadas de marisco,
+de cerveja barata da Baviera e nicotina, justificando a formula
+excentrica e um tanto paradoxal de Bacon: _o vacuo de mistura com o
+solido_. Protegidos pela lei geral do atomismo, agitam-se no turbilhão
+universal da materia inconsciente: são «acasos da concorrencia vital»,
+como diria Darwin; mas não confundir _concorrencia_ com _selecção
+natural_; que a natureza é mais logica e demorada nos seus
+transformismos. Pela rapidez com que do _leão_ pujante de 1840 se
+engendrou o _catita_ escrophuloso de 1880, é claro que a _selecção_
+foi _artificial_, estabalhoadamente, grande celeridade. A este
+respeito, os curiosos orientem-se em Topinard, L'ANTROPOLOGIE,
+_passim_. Cumpre notar que, no arranjo organico do estoiradinho,
+collaboram 65 elementos conhecidos, diz a Sciencia. 65! que
+prodigalidade! A não ser a Sciencia, quem diria que a Natureza para
+construir um cretino gastou quasi cinco duzias e meia de elementos--os
+mesmos que despendeu para fazer o mar, o espaço, o mundo sideral, os
+cyprestaes balsamicos do Libano e os fedores humanos da Baixa; o Caneiro
+de Alcantara onde os microbios fazem as suas regatas recreativamente, e
+o Amazonas, a banheira do sol, espraiando-se em escamas refulgentes; o
+Garrett que faiscava, como um cerebro de diamantes facetados, as
+_Viagens na minha terra_, e o cerebro do outro Garrett que supurava,
+como um tumor apostemado, as _Viagens a Leixões_! Com as ultimas
+palavras da biologia é que a Sciencia regeita o dogma da alma, e nos
+convence de que o estoiradinho, pelo que respeita á porção cinzenta do
+cerebro, deixa de ser o rei da creação para retroceder, por atavismo e
+sem hyperbole, á familia dos vibrioens, um quasi infusorio, e pouco mais
+que proto-organismo, irresponsavel pelos seus flagrantes delictos de
+brutalidade.
+
+Em obsequio a estes irresponsaveis é que o bispo sr. D. Antonio Ayres de
+Gouvêa tanto e valorosamente impugnou a pena de morte. Todavia, o seu
+victorioso repto á forca, mallogrado em Beccaria, em Lamartine e V.
+Hugo, seria socialmente mais completo, se s. ex.ª tambem conseguisse
+que, em vez do _menu_ pouco peitoral da strychnina municipalense, se
+servissem _côtelettes de veau sauté aux truffes_ aos magros cães
+vadios, inoffensivos na sua fome e na sua sêde. _Struggle for life._
+Sei essa trivialidade erudita; mas a lucta pela existencia não authorisa
+que os vereadores sejam carrascos dos cães, em quanto o equilibrio dos
+negocios publicos e o pagamento em dia dos 6 por cento das inscripções
+lhes permittir comerem o boi. Ora--digamol-o de passagem--o boi era um
+Deus entre os egypcios, o divino Apis, e entre nós é o manso e pingue
+holocausto de uma bestialidade carnivora; porque nós, os europeus,
+comemos os Deuses alheios em bifes, e os proprios em hostias. Sacrilega
+pouca-vergonha!
+
+ * * * * *
+
+Voltando ao drama e ás palpitações do leitor por um pouco suspensas, a
+estanqueira contou depois que, emquanto o tenente estava na mathematica
+fazendo garatujas na lousa, um esbelto rapaz, todo de preto, com um
+cacetete, pantalonas á _hussard_, fazia tilintar o tinido das suas
+esporas amarellas no pavimento de D. Gloria. Trabalhosa e fragil senhora!
+
+ * * * * *
+
+Eu morava na rua Escura, no bairro mais pobre e lamacento do Porto, um
+bêcco fetido de coirama surrada, em uma esquina que olha para a viella
+dos Pellámes. Eramos dois os estudantes que occupavamos o terceiro andar
+com uma retorcida varanda de páo, esmadrigada, n'um escalabro de
+incendio, debruçada em ameaças sobre os transeuntes como a varanda de
+Damocles, muito mais perigosa que a lendaria espada, cujo gume deve
+estar muito rombo e puido da esgrima dos eruditos em Damocles. No
+primeiro andar morava a proprietaria, uma adéla que nos cosinhava certas
+iguarias dignas de ser expostas ao sêvo das aves de rapina no peitoril
+d'aquella varanda. Quanto a ratos, era uma succursal de Montfaucon. O
+segundo andar tinha escriptos desde muito, e não havia homem
+desesperado, cançado da vida, que ousasse tentar o suicidio n'aquellas
+ruinas minacissimas. Quem procurava casa, olhava com terror, e seguia o
+seu caminho, como se ali morassem os leprosos de Xavier de Maistre.
+
+Disse-me a patrôa, uma noite, alegremente, que tinha alugado o segundo
+andar por deseseis tostoens mensaes a uma creatura, que lhe parecia
+mulher de pouco mais ou menos; e acrescentou com uma sensata
+indulgencia: «Seja ella o diabo que for, o que eu quero é que me pague
+adiantado; senão, minha amiguinha, viella, viella!» e apontava para a
+rua com um gesto de braço e dedo perfurante como uma estocada.
+
+Com effeito, a devoluta varanda do segundo andar, tão destroçada como a
+minha, aguardava uma Julieta adequada competentemente aos Romeus do
+terceiro.
+
+A inquilina entrou e pagou.
+
+Quando eu recolhia da chimica e subia ao meu terceiro andar fazendo
+gemer os degráos, olhei curiosamente para a saleta do segundo, e conheci
+a Gloria da rua da Sovella. Estava muito acabada, olheiras fundas, os
+angulos faciaes descarnados, os beiços roixos, calcinados pela combustão
+dos licores. Na epiderme transparente já não lhe revia o rubor setineo
+do sangue colorante. Sobre as saliencias malares, manchas rubras que
+poderiam ser de vermelhão ordinario ou da febre ethica; os tegumentos
+pareciam emplastados por uma camada de velha cêra amarellada. As
+cordoveias do pescoço, muito esbagachado, com umas saliencias nodosas
+como cordão de S. Francisco.
+
+Havia um anno que ella tinha deixado Carlos Ribeiro immerso em uma
+grande commiseração, disia elle; mas eu sabia que era maior a saudade
+que o dó.
+
+Procurei o meu amigo que havia concluido o curso e entrára na fileira.
+Estava fóra do Porto em serviço. Melhor foi assim, porque a noticia que
+eu lhe levava poderia magoal-o ou fazêl-o descer até ao vilipendio de a
+visitar.
+
+Ao fim de quinze dias, disse-me a patroa que a _Aurora_--nome de guerra
+que se dera D. Gloria--uma noite por outra, recolhia comsigo um
+engajado. Fallava sempre com figuras decentinhas a minha patrôa.
+«Engajado» era decente. Diziam então as senhoras nos bailes da
+Assemblea: «Já estou engajada para a terceira polka».
+
+Quanto á natureza dos engajados, disse-me que eram velhos. Conhecêra o
+Rapozeira, um d'oculos. que tinha loja de batinas e galoens para
+esquifes, na rua Chan: outro, era amanuense da camara do bispo--ambos
+muito borrachoens. E promettia pôl-a no olho da rua, se ella continuasse
+a fazer-lhe troça, por noite velha, em cima da cabeça, dansando o
+Sarambeque.
+
+O Sarambeque era da natureza bordelenga do _Hulalá_, um bailado
+dissoluto, priapêsco das Ilhas Hawai. Eu nunca pude ver a assemblea da
+visinha, nem o cavalheiro bestial ajoujado por tal dama ás suas
+_soirées_ dansantes. Quem quer que fosse, dava, no repicado sapateio da
+sua furia endiabrada de selvagem de Ceylão, oscillaçoens de terramoto ao
+predio. Muitas vezes, reciei que, _verbi gratia_, desabada aquella casa
+filial das orgias de Sardanapalo, eu fosse o candido bode expiatorio
+sacrificado no entulho da derrocada ás iras dos deuses e da senhoria.
+Depois, noite alta, havia comedorias--um aziumado de azeite rancido e
+alhos, estrugidos emeticos, emanaçoens sulphydricas d'aquellas almas
+latrinarias. Lamento, já agora, não ter então colhido notas para hoje me
+inculcar um Petronio testemunhal e authentico d'essas ceias de
+Trimalcião com iscas de figado e o rascante de Cabeceiras de Basto.
+
+ * * * * *
+
+Um dia, de madrugada, acordou-me um grande berreiro nas escadas. O meu
+companheiro, o bom Machado de Carção, um medico que morreu ha muitos
+annos, foi examinar de perto a desordem, e contou-me que um velhote
+apopletico, com ares de jarrêta provinciano, estava gritando que Aurora
+lhe roubara vinte e cinco pintos da algibeira do collête, depois de o
+ter embebedado com genebra.
+
+O roubado sahira em berros para a rua, e os calcêtas, que trabalhavam no
+lagêdo arrastando os grilhoens, assobiaram-no. Aurora dava gritos de
+innocente contra a calumnia, e a proprietaria intimava-lhe ordem de
+despejo immediato. D'ahi a pouco, a ladra era preza pelo cabo de
+policia, conduzida á regedoria e de lá para o Aljube.
+
+Fui para a chimica do eggresso e encontrei o tenente Ribeiro. Contei-lhe
+o caso que elle me ouviu com os olhos marejados. Depois, pediu-me que
+commettesse o delicto infando da vigesima quarta falta na aula, e o
+ajudasse a salvar, se possivel fosse, aquella enorme desgraçada, visto
+que elle não queria figurar pessoalmente. Mandou-me ao regedor; que
+soubesse onde estava o roubado, e lhe restituisse os 12$000 reis para
+elle não ser parte á preza. Que lhe referisse eu a sinistra vida de
+Gloria para que elle, compadecido, a não mandasse ao tribunal. E que,
+depois, fosse eu ao Aljube, e lhe dissesse que, se ella embarcasse no
+primeiro vapor para Lisboa a procurar o amparo de seu pai, havia quem
+lhe pagasse as despezas.
+
+Fui ao Aljube ás 3 da tarde. Lá dentro era noite. Gloria estava
+innovelada a dormir sobre uma enxerga a um canto. Ella tinha sahido,
+quinze dias antes, de uma enfermaria do hospital de Santo Antonio,
+quando a sua visinha, mais feliz, era levada, ainda morna, em uma
+padiola para o theatro anatomico. A devassidão emparceirada com a morte
+mandaram aquelle esqualido presente ao escalpello da sciencia. Ah!
+quantas curvas de musculatura roidas pelo hydrargiro eu retalhei para
+hoje poder, como testemunha de vista, jurar que o coração é um musculo ôco!
+
+No soalho em que dormia Gloria, parecia que tinha choviscado lama. A
+enxerga era de uma preza, cujo cão de agua, gordo e muito sujo, dormia
+aconchegado dos quadris da outra. A dona do cão tinha uma cara cheia de
+enygmas, acidentada de periosteos cariados, exfoliados, com barbas.
+Seria uma riqueza craneologica para um Haeckel ou Topinard; mas para mim
+era simplesmente uma asneira paradoxal em anatomia comparada. Nunca me
+esqueceu. Lembro-me sempre da figura indelevel d'aquella mulher, quando
+nego a blasphema hypothese do Deus de Moisés e do sr. padre Grainha, um
+Deus que fez á sua imagem e semelhança e--o que mais é--á sua custa, um
+typo humano com o perfil divino d'aquelle feitio. Contou-me que estava
+ali por ter dado uns tabefes n'uma regatona de castanhas cosidas que lhe
+deitava o raio do olho ao marido, o João do Corgo, um calceta que andava
+a cumprir sentença de toda a vida, innocente, por ter ajudado a matar um
+padre. Innocente! Como ella qualificava a iniquidade da justiça social
+com seu marido que matára em collaboração um levita! Queria talvez que o
+premiassem como quem mata um lobo.
+
+Com referencia á sua companheira, tambem a julgava innocentissima.
+Contou-me que se enchera de aguardente até cahir; e logo á entrada
+protestára que se havia de enforcar nas grades. Acrescentou, n'uma
+irritação de quem tem soffrido injustiças exulcerantes, que a pobre da
+creatura não roubára nada; que todo o dinheiro que tinha eram seis
+vintens em prata que comprára d'aguardente.
+
+Entretanto, Gloria ressonava.
+
+Era um bonito exemplar de um cancro roído pelos microbios de fóra, de
+parçaria com os microzimas de dentro--herança do Paraizo. Isso que ali
+tresandava era um dos abcessos estercoraes que genealogicamente nos
+vieram do ventre primordial de Eva, nossa matriarca. De lá nos
+deriva--divina Iniquidade!--esta syphilisação das almas, transmissivel e
+incuravel a despeito dos vários _Robs_ depurantes, _brevet
+d'invention_, das pharmacias do Vaticano.
+
+Em quanto ella dormia, fui a minha caza que pegava com o Aljube pelas
+trazeiras, e rebusquei no estafado colchão de Gloria os vinte e cinco
+pintos, visto que ella os não tinha em si. Lá estavam em uma bolsa de
+camurça. Fui com o dinheiro á regedoria, onde compuz o meu primeiro e
+inedito romance oral, nada auspicioso, contando á authoridade inflexa
+que a preza estava innocente, porque o queixoso, antes de se embriagar,
+escondêra o dinheiro no colchão, e não sabia depois onde o mettêra.
+O meu romance foi pateado, pelo sorriso do regedor, como
+inverosimil--desastre que depois me tem succedido com outros muitos
+romances, inspirados por intuitos menos louvaveis e mais verosimeis. Eu
+quizera salvar Gloria da imputação de ladra. Em todo caso, o
+funccionario, lavrado um auto que assignei como apresentante do roubo,
+embolsou o velho devasso, um negociante de fructa da Penajoia, que me
+queria dar um pinto de alviçaras, o qual eu regeitei com um pudor
+anachronico, arcadiano.
+
+Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das essencias das
+matas altas, vestidas do roziclér das auroras, da purpura vespertina dos
+crepusculos, de moitas de rosmaninhos, e resvalára á sargêta da rua
+Escura, fui como um archaico _Thesouro de Meninos_, cahido no
+enxurdeiro e focinhado por aquelle cerdo da Penajoia; ou, melhor
+comparado, era o nenuphar solitario, a impolluta nymphea do pantano
+portuguez de 1845.
+
+Quando voltei ao Aljube estava ella muito atordoada, n'uma bestificação,
+a queixar-se de fome, porque não comia desde a vespera, e o alcool
+causticava-lhe as mucosas. Fui á estalagem da rua de S. Sebastião, ali
+ao pé, e mandei-lhe o jantar. Comeu pouco e não quiz vinho. Pediu
+genebra que lhe não dei. Ao anoitecer, chegou um quadrilheiro com a
+ordem da soltura. Acompanhei-a ao seu segundo andar. Ella olhava muito
+pasmada para o colchão que ainda tinha parte dos intestinos de retraço
+de palha moída por fora da abertura; mas não fez alguma reflexão em voz
+alta. Propuz-lhe a sahida para Lisboa no dia seguinte, com os meios que
+o meu amigo lhe liberalisava. Fallei-lhe no perdão do pai, na sua
+regeneração--fui tocante; e ella, com uma indolencia idiota, e um
+escancarar de bocca:
+
+--Tanto se me dá como se me deu.
+
+
+A mulher que, um anno antes, citava Lamartine, Victor Hugo e Sand estava
+assim estylista: Tanto se me dá como se me deu!
+
+ * * * * *
+
+Como aquella senhora se despenhou vertiginosamente até cahir no fôjo
+immundo de uma devassidão bestialmente suja é phenomeno que só espanta
+quem não sabe logica, nem conheceu um exemplo. E quem não conhece trez
+exemplos que o dispensem de encadear os elos da logica?
+
+Eis-me na rhetorica!
+
+Eu não ignoro que esta especie de autopse em cadaver estampilhado com a
+infamia que não discutem pessoas que se prezam, é um archaismo, uma
+subjectividade obsoleta. A escola naturalista estabelece que a
+comprehensão publica está por tanta maneira salitrada d'estas podridoens
+que não carece da catechese psycologica para perceber o desabamento.
+
+Pois se intendem como foi que aquelle corpo tábido de D. Gloria chegou
+assim no enxurro ao ergastulo das ladras, queiram desculpar esse pedaço
+de estylo quartenario, que ahi fica para admiração dos archeologos, como
+se fosse um craneo dos _Paraderos_ da Patagonia.
+
+Consintam, porém, que eu me imagine, em 1845, na rua Escura, a
+interrogar o segredo da miseria humana, DEUS, o _Motor Immovel_, assim
+chamado por Aristoteles. Como cahiu na esterqueira do aljube das ladras
+aquella pasta de estrume, o farrapo roixo das escareas de uma ulcera
+cancerada que, uma só vez, Jesus, com os seus olhos abrasadores de fogo
+divino, poderá cauterisar no peito da meretriz de Magdala? Para resgatar
+uma judia formosa e dissoluta das presas aveludadas da lascivia
+oriental, foi preciso um ente ultra-humano; e, para esse bom exito,
+fez-se mister que o Deus--mais conhecido entre as familias pelo _Padre
+Eterno_--baixasse da sua metaphysica immaterial ao anthropoide,
+encorporando-se n'um gentil nazareno; aliás, talvez não fizesse
+nada--palpita-me. Um Deus extreme, categoria ideal incomprehensivel, sem
+mescla de homem, com uma organisação desconhecida aos biologos, não
+vingaria, com todo o seu _mise en scène_ de trovoens e relampagos,
+infiltrar contrição no peito d'aquella mundana, calafetado pelos beijos
+dos tetrarcas, dos pretores e dos opulentos chatins da Assyria. É bem
+notorio que os feios cornudos diabos do vicio, dispersos no ambiente,
+muito familiares com os costumes de planetas, cometas, meteoros, etc., e
+_blasés_ em trovoadas, não largam as suas victimas, ainda que a faisca
+eléctrica de um corisco lhes queime aquella parte do cavallo morto a que
+o anexim portuguez deita a cevada. O diabo tem a enorme força que Deus
+lhe deu sobre a nossa fragilidade. Nós somos a pluminha volatil da pomba
+redemoinhando vertiginosamente nas convulsoens de uma tromba terrestre.
+Fez-se, por tanto, mister a humanidade gentilissima de Jesus, adoravel
+na sua vida casta e na sua indulgente misericordia com as peccadoras,
+para reduzir aquella á honestidade. Elle tinha escripto com o dedo na
+poeira da praça a sentença absolutoria d'uma adultera. Alem d'isso, o
+valoroso galileu atagantara com umas disciplinas de esparto as costas da
+quasi sempre respeitavel classe commercial, que armara vitrines de modas
+e confecçoens no templo. Seria ali que provavelmente a espaventosa
+Magdalena, com grandes uzuras, e talvez a gis, ou á custa de meiguices
+fraudulentas, comprára as suas pompas--a escarlata persica dos seus
+mantos roçagantes, as meadas de pérolas de que ennastrava as suas
+tranças loiras, e as essencias aromaticas com que ungira, a despeito de
+Judas, os pés do mavioso acariciador das creanças innocentes, e juiz
+compadecido das filhas de Jerusalem iscadas da corrupção romana.
+
+Creio na conversão de Maria Magdalena; porém a de sancta Maria Egypsiaca
+e das trez sanctas Margaridas, uma de Cortona, outra do _Fausto_, e a
+terceira de appellido _Gauthier_, essas são fallacias de agiologos e
+dramaturgos.
+
+ * * * * *
+
+A filha do Cavalleiro de Christo, esposa do ex-almoxarife, foi para
+Lisboa, decentemente trajada, em beliche de 1.ª classe. Carlos Ribeiro
+hypothecára talvez o seu soldo de seis mezes. Se me dessem a escolher,
+eu preferiria ter praticado este acto a ter feito a descoberta do
+_Anthropopithecus Ribeiroii_.
+
+ * * * * *
+
+Em 1845, ao deixar o Porto e a chimica para ir jurar bandeiras na
+bohemia de Coimbra, despedi-me de Carlos Ribeiro e nunca mais o vi.
+Trinta e sete annos de separação absoluta como exordio da eternidade!
+
+Pois que as nossas pesquisas paleontologicas eram em mundos diversos,
+nunca mais nos encontramos. Olhavamos as cumiadas de montanhas em
+horisontes oppostos: elle--para o acume da Sciencia, a desvendar os
+segredos do genesis; eu--para a Arte, a subjectividade esteril. O
+archeologo, pelo pregão dos mestres europeus, assumiu a eminencia;
+depois, morreu; mas está na posse da immortalidade. Bem boa coisa. Em
+quanto eu, graças á magnanima concessão dos meus patricios lettrados,
+estive toda a vida, ao sopé da montanha alcantilada, a descrever coisas
+feitas pessoas por essas terras quentes dos Brasis, onde ha
+fermentaçoens, e avatar e os transformismos darwinistas como em nenhuma
+outra fauna.
+
+A este rude caboucar de um terço de seculo, devo eu--ó celestiaes
+bebedeiras de gloria!--a exultação atordoante de me ver, aqui ha dias,
+conceituado em certa gazeta da capital como _romancista conhecido_.
+Li-o em lettra redonda e resisti á apoplexia do jubilo. «Romancista»
+_tout court_ era já uma apotheose hyperbolica; porém, de mais a mais
+«conhecido», isso transcende os extasis de uma idolatria catholica, que
+me colloca na jerarchia litterata de S. Cypriano, de Sancto Athanazio e
+d'outros Sanctos Padres romancistas mystagogos maiores da marca. Mas,
+visto que assim o querem, este culto pagão muito me penhora. Pois bem!
+Quando um plumitivo arrojado, sovando aos pés os conspiradores do
+silencio, trepa até não ser de todo desconhecido no Chiado--5.ª essencia
+de Babylonia com perfumes de Marrocos--esse petulante genio não
+transporá as fronteiras da modestia, se almejar as doidas delicias de
+ouvir, um bello dia, nomear a sua pessoa conhecida no não menos
+conhecido Poço do Borratem.
+
+Pois é verdade: eu, como novellista, descobri mais anthropoides do que
+elle como geologo. Mas faz pena que eu não procurasse ensejo de pedir
+aos setenta annos do general as recordaçoens do tenente.
+
+Quanto a Gloria que, por uma inconsciente zombaria de si mesma, ao
+atufar-se na noite caliginosa da miseria e da infamia anonyma, se
+chamára _Aurora_, se isto fosse um romance, pode ser que eu, n'esta
+idade provecta, ainda tivesse explosoens de fantasia rara para fazêl-a
+morrer de alcoolismo, no catre do hospital, para onde a levaram
+esfragalhada, mordida pelos cães vadios, apupada pelos gaiatos, sovada
+pelos pontapés da guarda-municipal, espumando gromos de sangue nos
+ultimos vómitos da aguardente.
+
+Mas eu não sei como, nem quando ella morreu; nem sei se é viva e se está
+na quinta dos seus avoengos restaurando com capilés e agua de Lourdes o
+estomago e os erros da sua mocidade.
+
+ * * * * *
+
+Este episodio da mocidade do douto general, se eu o contasse ha trinta
+annos, teria os recortes, os matizes e filigranas idealistas da poesia
+que ainda n'essa epoca de transição enfeitava as suas dissecçoens
+nauzeabundas das paixoens animaes. Todo analysta da vida e da morte
+vestia umas luvas brancas quando expunha sobre a sua banca de trabalho
+uma peça anatomica, um coração para descoser, e sahia com as luvas sem
+nodoa. Era isso um grande mal. O romantismo poetico inflorava as
+putrefaçoens com côres e subtilezas taes de pétalas e aromas que, em vez
+da repulsão pelo podre, punha nas cabeças azoadas as vertigens dos
+abysmos. Essa perversa missão da Poesia soffreu o exterminio de todos os
+flagellos que estão ao alcance desinfectante e hygienico da Sciencia.
+Pouquissimos e esporadicos são já os poetas no termo genuino de
+«deturpadores da realidade». Os que ainda rimam deteriorando a verdade
+experimental com embustes methaphysicos são uns atavismos que fazem
+lembrar, na sociedade actual, as aberraçoens genesicas que remontam o
+homem á torpeza selvagem da Australia e á civilisação refinada da Roma
+de Juvenal, e da Grecia de Anacreonte. Essa chaga insanavel da besta
+humana esvurmará sempre a sua peçonha já em brochuras, já nas partes da
+policia por ultrages á veneranda Moral--uma velhinha tão trôpega que,
+assim que lhe embarram, cáe no asphalto, e entra a gritar pelo habil
+Antunes e por outros habeis que não ganhariam a sua vida officialmente
+gloriosa, se a Moral fosse mais acatada e menos atacada. O leitor, se é
+uma especie de habil Antunes da vernaculidade, seja indulgente com este
+jogo de vocabulos que tambem é um ataque desmoralisado á lingua.
+
+Quanto ao poeta scientifico, genial, racionalista, concluida que seja a
+sua obra de sapa e a ultima batalha dada aos deuses, esse tem de
+desapparecer como inutil, e ridiculo como um archaismo. Ainda hontem, na
+França, Eugène Véron, no seu livro de ESTHETICA, escreveu que _tout le
+monde, sauf les idiots, est poète_. A condicional _sauf_, poderia
+excluir muitos poetas nossos conhecidos; mas Véron inverteu
+paralogicamente a excepção em regra. Elle, se fosse um digno interprete
+da Sciencia implacavel, deveria ter escripto: _Ninguem é poeta, excepto
+os idiotas._
+
+FIM.
+
+
+ [1] Bibliothéque des sciences contemporaines. _Le préhistorique
+ antiquité de l'homme_, par Gabriel de Mortillet. Paris, 1883, pag. 105.
+
+ [2] Obra citada, pag. 106.
+
+ [3] _La Sociologie_, pag. 44. Paris, 1880.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O General Carlos Ribeiro, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO ***
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+people in all walks of life.
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+ sup {font-size: 0.8em;}
+ blockquote {font-size: 0.8em;}
+ .small-caps {
+ font-variant: small-caps;
+ }
+ </style>
+</head>
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O General Carlos Ribeiro, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O General Carlos Ribeiro
+ Recordações da Mocidade
+
+Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+Release Date: June 19, 2008 [EBook #25846]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
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+
+
+
+</pre>
+
+<div class="capa">
+
+<p style="font-size: 2em;">O GENERAL</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">CARLOS RIBEIRO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">(RECORDA&Ccedil;&Otilde;ES DA MOCIDADE)</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p style="font-size: 0.8em;">
+PORTO
+<br>
+LIVRARIA CIVILISA&Ccedil;&Atilde;O
+<br>
+DE
+<br>
+EDUARDO DA COSTA
+SANTOS&mdash;EDITOR<br>
+MDCCCLXXXIV</p>
+</div>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h2>O GENERAL CARLOS RIBEIRO</h2>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p><i>A propriedade da primeira edi&ccedil;&atilde;o d'este livro
+pertence, no imperio do Brasil, aos srs. Faro &amp; Lino,
+proprietarios da Livraria Contemporanea, moradores na rua do
+Ouvidor n.&ordm; 74&mdash;Rio de Janeiro.</i></p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<div class="centrado">
+
+<p style="font-size: 2em;">O GENERAL</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">CARLOS RIBEIRO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">(RECORDA&Ccedil;&Otilde;ES DA MOCIDADE)</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p style="font-size: 0.8em;">
+PORTO
+<br>
+LIVRARIA CIVILISA&Ccedil;&Atilde;O
+<br>
+DE
+<br>
+EDUARDO DA COSTA
+SANTOS&mdash;EDITOR<br>
+MDCCCLXXXIV</p>
+</div>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h2>AO VISCONDE DE BENALCANFOR</h2>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<div id="corpo">
+<p class="direita"><i><span class="pagenum"><a name="pag7" id="pag7">[7]</a></span>Meu querido Ricardo
+Guimar&atilde;es.</i></p>
+
+
+<p><i>Recebe a dedicatoria d'este folheto como um cart&atilde;o de
+despedida. Vou-me embora.</i></p>
+
+<p><i>Naturalmente, escrever&aacute;s dez linhas sinceras da minha
+necrologia. Dize que fui teu amigo trinta e seis annos; e que,
+&aacute; medida que eu ia lendo as tuas prosas progressivas e
+remo&ccedil;adas, nunca pude imaginar que tivesses
+envelhecido.</i></p>
+
+<p><i>Folgo de te n&atilde;o v&ecirc;r ha muito tempo. Imagino que
+te deixo rapaz engrinaldando os festoens das tuas primaveras de ha
+trinta e seis annos para os offereceres aos nossos 50:000
+leitores&mdash;um rico auditorio! Continua tu a ministrar-lhes os teus
+cabazes de flores, visto que, por impedimentos especiaes de regimen
+e outros estorvos complicados de engrenagens financeiras,
+n&atilde;o podes deitar-lhes perolas.</i></p>
+
+<p><i>Adeus, Ricardo. A Chimica subterranea espera a minha alma.
+Vou mineralisar-me. Levo apenas, como saudade, uma flecha de luz
+reflexa do nosso passado, que me n&atilde;o deixa ir contente ao
+meu destino de azote, amoniaco e outros gazes. <span class="pagenum"><a name="pag8" id="pag8">[8]</a></span>&Eacute; a nostalgia dos teus e dos meus folhetins de 1854.
+A proscripta ignominia do carro&ccedil;&atilde;o do Torto&mdash;aquelle
+toiro de Phalaris, puxado a vaccas&mdash;que ent&atilde;o esbatemos para
+a treva medieval, em outro paiz dar-nos-ia a celebridade
+immorredoura de Guesto Ansur, o salvador authentico das cem
+donzellas lusitanas tributadas &aacute;s prezas obscenas do
+khalifa. Tambem n&oacute;s, visconde, salvamos centenas de
+donzellas portuenses das orgias do execravel defuncto &laquo;Manoel
+Jos&eacute; d'Oliveira&raquo;&mdash;aquelle Mauregato coira&ccedil;ado,
+com espaduas alcatroadas, musculatura de um lenho rijo e inflexo
+como os bra&ccedil;os da forca, e articula&ccedil;oens de cobre
+azinhavado, onde eram contundidas as carnes virginaes. Se
+n&atilde;o fomos n&oacute;s, quem foi que remiu das
+contus&otilde;es e d'aquelle f&ocirc;ro ignobil as meninas
+portuenses, actualmente allodiaes e intactas, salvo seja, nos seus
+quadris e nas suas espaduas? Pois tens acaso noticia de que o
+Oliveira Martins, no seu livro sociologico das &laquo;Ra&ccedil;as
+humanas e civiliza&ccedil;&atilde;o primitiva&raquo;, nos
+encadeasse <span class="pagenum"><a name="pag9" id="pag9">[9]</a></span>nos elos do transformismo evolutivo do
+carro&ccedil;&atilde;o em carro Ripert? Sabes que elle consagrasse
+um capitulo &aacute;quelle dolmen de castanho&mdash;a ara celta do
+sanguinario Irminsulf dos nossos ferocissimos av&oacute;s? Nem uma
+palavra! &laquo;Isto faz vontade de morrer!&raquo; como disse
+Alexandre Herculano, muito menos offendido dos ingratos.</i></p>
+
+<p><i>Emfim, Ricardo, esta carta, sobre ser uma
+confirma&ccedil;&atilde;o, quasi posthuma, de fidelidade no affecto
+a um dos meus mais velhos amigos, deve ser-te n&atilde;o menos
+agradavel como exemplo consolador de que as vidas mortificadas tem
+uma compensa&ccedil;&atilde;o&mdash;&eacute; acabarem com um sorriso.
+N'este paiz, os bastardos da Fortuna prostituta, se fizeram exame
+de instruc&ccedil;&atilde;o primaria, devem morrer com a serenidade
+de sabios. D'antes, havia a immortalidade da alma e as recompensas
+eternas como esteio a infelizes sub-lunares. Hoje em dia, aquelles
+dogmas, especie de</i> caput mortuum<i>, n&atilde;o amparam muita
+gente; mas ha coisa melhor: &eacute; a eschola primaria que levanta
+o discipulo <span class="pagenum"><a name="pag10" id="pag10">[10]</a></span>ao nivel da felicidade do professor a
+tres tost&otilde;es por dia com dez mezes de atraso. Depois,
+morre-se de uma anazarca de philosophia com uma ligeira
+complica&ccedil;&atilde;o de fome. Assim se explica o grande furor
+da instruc&ccedil;&atilde;o nacional que tu, com uma seriedade
+estranha aos nossos habitos, inspeccionas
+observantissimamente.</i></p>
+
+<p><i>Vai, fiscalisa, evangelisa. Dilata, quanto em ti couber, as
+celullas conscientes dos hemispherios cerebraes do Alemtejo e
+Algarve. D&aacute;-lhes um elasterio grande, expansivo, na
+raz&atilde;o inversa das retrac&ccedil;oens da mucosa do estomago,
+&aacute; qual n&atilde;o chega a tua al&ccedil;ada tonica. Lembra
+eruditamente aos pedagogos que ninguem se exal&ccedil;a &aacute;s
+glorias do Thabor sem ser arrastado pela Rua da Amargura.
+Dize-lhes, afinal, que a posteridade, mediante as suas confrarias e
+os seus dobres a finados, lhes dar&aacute; brindes de missas geraes
+em dia de Fieis Defunctos&mdash;muito distinctos dos defunctos infieis.
+E, pelo que me diz respeito, recommenda-me tambem aos suffragios
+<span class="pagenum"><a name="pag11" id="pag11">[11]</a></span>pios da Patria&mdash;esta querida m&atilde;e
+interessante, incapaz de tirar de difficuldades um filho vivo: mas,
+depois, tira-lhe a alma do purgatorio, sendo preciso.</i></p>
+
+<br>
+
+<p><i>T. C.&mdash;S. Miguel de Seide. 6 de dezembro de 1883.</i></p>
+<br>
+
+<p class="direita"><i>C. Castello Branco.</i></p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p><i><span class="pagenum"><a name="pag13" id="pag13">[13]</a></span></i>Gabriel de Mortillet, professor de
+Anthropologia, publicou, n'este corrente anno (1883), o seu livro
+<i>Le pr&eacute;historique antiquit&eacute; de l'homme</i>. Em mais
+de uma pagina o sabio professor menciona respeitosamente Carlos
+Ribeiro, o geologo portuguez, que t&atilde;o brilhantemente fez as
+honras da casa lusitana aos congressistas estrangeiros que
+estiveram aqui a discutir assumptos de anthropologia e archeologia
+prehistorica.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag14" id="pag14">[14]</a></span>O general Carlos Ribeiro falleceu em 13 de
+novembro de 1882. A satisfa&ccedil;&atilde;o de se v&ecirc;r
+t&atilde;o culminantemente inaltecido no livro europeu de Mortillet
+n&atilde;o a gosou; e pena foi, porque seria essa a mais idealmente
+querida das suas recompensas. Bem sabem que os premios, os
+galard&otilde;es substanciaes que n'este <i>reinosinho</i> <i>de 90
+leguas</i>, como lhe chamava Garrett, auferem os sabios do quilate
+de Carlos Ribeiro s&atilde;o por tal modo notorios e fallados que a
+gente, pelo commum, apenas tem noticia dos taes sabios quando lhes
+v&ecirc; o retrato posthumo no <i>Occidente</i>.</p>
+
+<p>Estes homens trabalham em segredo como os alchimistas. Na
+Academia Real das Sciencias conversa-se, uma vez por outra, a
+respeito d'elles, com uma grande admira&ccedil;&atilde;o do tamanho
+dos bocejos. Para os socios velhos a anthropologia apenas tem a
+caracteristica academica de ser palavra grega, e como tal a
+reverenceiam; mas ha d'elles que professam, muito pela rama, o
+<i>quantum satis</i> d'umas <span class="pagenum"><a name="pag15" id="pag15">[15]</a></span>sciencias abstruzas
+que assentam os seus laboratorios para al&eacute;m das fronteiras
+da historia. &Eacute; inexacto, por&eacute;m, que o insigne
+academico discursasse monologos paleontologicos diante dos seus
+confrades pouco porosos e ass&aacute;s impermeaveis &aacute;s
+infiltra&ccedil;&otilde;es da sciencia nova. N&atilde;o. Elle tinha
+socios no martyrio&mdash;o Ferreira Lapa, o Thomaz de Carvalho, o
+Bocage, o Latino Coelho, o Corvo, o Aguiar, os quaes, se n&atilde;o
+encontraram, como Carlos Ribeiro, vestigios de um ser intelligente
+nas camadas terciarias, seriam muito capazes de o achar, se o
+procurassem, o <i>Anthropopithecus</i>.</p>
+
+<p>N&atilde;o se cuide que eu, com o selvagismo de um minhoto sem
+litteratura, pretendo molestar os hereditarios joan&ecirc;tes da
+Academia. Nego. Os meus joan&ecirc;tes de socio correspondente
+acham-se tambem compromettidos. Considero a Academia Real uma arca
+da sapiencia humanal, de reserva para a catastrophe de um diluvio
+de ignorancias <span class="pagenum"><a name="pag16" id="pag16">[16]</a></span>eminentes. Respeito-a como um banco
+das nossas riquezas espirituaes, banco sem
+transac&ccedil;&otilde;es, com accionistas todos de prenda,
+dando-se ares de estar sempre em liquida&ccedil;&atilde;o; mas
+n&atilde;o liquida. Se n&atilde;o vive muito ao sol ardente que
+refunde o velho mundo, tem a vitalidade sombria do obituario.
+Quando um socio vae continuar na vida eterna o somno das suas
+sessoens, os confrades vivos gemem-lhe o elogio funebre, uma Nenia
+em periodos redondos, <i>ore rotundo</i>, na prosa da
+funda&ccedil;&atilde;o do estabelecimento; em seguida, recolhem-se
+a brunir velhos adjectivos e a escovar algumas metaphoras de
+fivellas e rabicho, para a necrologia de um futuro confrade morto.
+De resto, muito mais modestos que justos juizes dos seus productos,
+os academicos, quanto ao estipendio das suas lucubra&ccedil;oens,
+s&atilde;o mais abstemios que os anachoretas da Thebaida, e fazem
+livros mais em conta do que Santo Ant&atilde;o e S. Pacomio faziam
+balaios. Elles desdenham briosamente <span class="pagenum"><a name="pag17" id="pag17">[17]</a></span>a
+cubi&ccedil;a gananciosa dos quarenta immortaes assalariados da
+Academia franceza; mas prelibam com delicias a justi&ccedil;a
+posthuma, o galard&atilde;o do elogio funebre&mdash;esta rica moeda
+portugueza incorruptivel em que n&atilde;o entra a liga do oiro
+vil.</p>
+
+<p>Tornando ao <i>Anthropopithecus</i>. Toda a gente sabe o que
+&eacute;, na Prehistorica, o <i>Anthropopithecus</i>; mas eu
+n&atilde;o me dispenso de fallar d'este sujeito que nos precedeu ha
+240:000 annos, pouco mais ou menos. Supponho que n&atilde;o serei
+desagradavel &aacute;s Senhoras menos lidas em anthropologia, para
+as quaes os vocabulos <i>pliocene</i> e <i>miocene</i>, o
+<i>mammifero primata</i>, o <i>prognatismo</i> s&atilde;o as
+ja&ccedil;as do limpido diamante da sua erudi&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Mortillet, com bastante logica e com lucidissima
+observa&ccedil;&atilde;o mais convincente que a logica, affirma que
+o homem quartenario primitivo era algum tanto differente do homem
+actual. O craneo do nosso antepassado das cavernas differe
+consideravelmente do craneo <span class="pagenum"><a name="pag18" id="pag18">[18]</a></span>do leitor. O illustre
+professor de anthropologia &eacute;, portanto, obrigado a concluir
+que os animaes intelligentes que petiscavam lume e lascavam pedras
+na &eacute;poca terciaria n&atilde;o eram homens na
+accep&ccedil;&atilde;o geologica e paleontologica da palavra; mas
+sim animaes de outro genero, <i>precursores do homem</i>, na escala
+dos seres. A este precursor, intermedio ao anthropoide conhecido e
+ao homem actual, chamou Mortillet um <i>Anthropopithecus</i>. Claro
+&eacute; que a especie humana conhece o av&ocirc;, o
+<i>anthropoide</i>; mas n&atilde;o conhece o pai. Orfan e posthuma,
+a desgra&ccedil;ada!</p>
+
+<p>Carlos Ribeiro havia descoberto nas margens do Tejo o silex
+lascado em terrenos terciarios e quartenarios, accusando um
+trabalho intencional e intelligente no animal precursor do homem.
+No Congresso Internacional de Bruxelles (1872), duvidaram,
+m&oacute;rmente o douto Bourgeois, que nos exemplares expostos por
+Carlos Ribeiro houvesse trabalhos intencionaes que provassem a
+existencia <span class="pagenum"><a name="pag19" id="pag19">[19]</a></span>de um individuo capaz de petiscar lume
+e lascar pedras na &eacute;poca terciaria. A favor do sabio
+portuguez apenas se insurgiu a opini&atilde;o auctorisada de mr.
+Franks.</p>
+
+<p>Na exposi&ccedil;&atilde;o internacional de Paris (1878) o nosso
+geologo apresentou os exemplares, entre os quaes Mortillet apartou
+22 com vestigios irrefutaveis de trabalho intelligente. Cartailhac
+abundou no parecer do seu collega e de outros especialistas.</p>
+
+<p>Afinal, Carlos Ribeiro triumphou desassombradamente quando os
+congressistas na obra de Monte-Redondo, em Ota, confirmaram em
+novos exemplares a sua opini&atilde;o refutada em Bruxelles. Desde
+ent&atilde;o, nos annaes da anthropologia e prehistoria foi
+assignalada como irrefutavel a existencia do Anthropopithecus em
+Portugal. Era o terceiro. Bourgeois tinha explorado um em Thenay.
+Em honra do inventor, esse vestigio do animal intelligente anterior
+ao homem chamou-se <i>Anthropopithecus Bourgeoisii</i>. Mr. Rames
+<span class="pagenum"><a name="pag20" id="pag20">[20]</a></span>ach&aacute;ra o segundo em Cantal, o qual foi
+chamado <i>Anthropopithecus Ramesii</i>. O de Portugal, descoberto
+por Carlos Ribeiro, recebeu o glorioso nome <i>Anthropopithecus
+Ribeiroii</i>.<a name="tex2html1" href="#foot372" id=
+"tex2html1"><sup>1</sup></a></p>
+
+<p>Uma observa&ccedil;&atilde;o caturra ao sabio Mortillet: Este
+genitivo alatinado e ligeiramente macarronico, <i>Ribeiroii</i>,
+parece pertencer tambem &aacute; &eacute;poca terciaria, &aacute;
+prehistorica da lingua de Plinio, o mo&ccedil;o. <i>Ribeiroii</i>
+em genitivo indica o nominativo <i>Ribeiroius</i>. O extremado
+anthropologista devera ter escripto <i>Anthropopithecus
+Riberii</i>, ou, mais euphonico, <i>Ribeirensis</i>. Espero e ouso
+pedir aos futuros congressistas que adoptem esta errata, afim de
+que o nome glorioso do nosso concidad&atilde;o n&atilde;o v&aacute;
+latinamente deturpado pelas edades f&oacute;ra.</p>
+
+<p>Posto isto, a leitora naturalmente deseja saber que figura tinha
+o <i>Anthropopithecus</i>. Os <span class="pagenum"><a name="pag21" id="pag21">[21]</a></span>sabios n&atilde;o
+satisfazem cabalmente a curiosidade de sua excellencia. Calculam
+apenas que elle era muito mais pequeno que o homem, attendendo
+&aacute; pequenez das pedras que lascava para seu uso; mas, a
+respeito do animal portuguez, a julgar pelo tamanho dos silex,
+presume-se que elle anatomicamente fosse mais encorpado que os
+outros. Isto &eacute; concludentissimo e consolativo, minhas
+senhoras. Mr. Abel Hovelacque, outro sabio, presume que aquelle
+nosso pai pequeno seria do tamanho dos actuaes macacos
+maiores.<a name="tex2html2" href="#foot182" id=
+"tex2html2"><sup>2</sup></a> Na
+verdade, os srs. bispo de Coimbra, conselheiro Nazareth e varios
+tambores-mores accentuam e affirmam a procedencia d'aquelle
+patriarcha mais avantajado no tamanho.</p>
+
+<p>Bastar&aacute; de sciencia? Mas o que n&atilde;o posso, minha
+senhora, &eacute; esquival-a ao desaire de proceder de macaco.
+N&atilde;o lhe assevero que seja de chimpanz&eacute;, de gorilha,
+de orango. <span class="pagenum"><a name="pag22" id="pag22">[22]</a></span>A minha esvelta leitora &eacute; o typo
+aperfei&ccedil;oado de todas estas familias. Segundo o genealogico
+Hoeckel, vossa excellencia promana de um pitheco, derivado de um
+lemur, producto de um kanguru. &Eacute; a primeira vertebrada, e
+n&atilde;o direi primeira &laquo;mammifera&raquo; para evitar
+equivocos. Em todo caso, exquisita arvore de gera&ccedil;&atilde;o,
+na verdade; mas, se a minha delicadeza se d&oacute;e, sciencia
+obriga; porque, emfim, este folheto &eacute; uma obra de
+vulgarisa&ccedil;&atilde;o, <i>&agrave; la port&eacute;e des gens
+du monde</i>. Pertendo ser mais util que agradavel &aacute;s
+senhoras modernamente orientadas, as quaes, entre os flagicios
+acusticos dos seus pianos e o moinho estupidamente burguez das suas
+maquinas de costura, abrem um parenthesis &aacute; discreta
+biologia.</p>
+
+<p>E tenham muita f&eacute;, minhas senhoras; <i>porque as
+sciencias de observa&ccedil;&atilde;o</i>, diz Letourneau na
+<i>Biologia</i> mais avan&ccedil;ada, <i>exigem primeiramente de
+quem as quer cultivar um acto de f&eacute;</i>. Acto de f&eacute;!
+Tambem a sciencia positiva reclama a sua <i>virtude theologal</i>.
+Pelos modos, <span class="pagenum"><a name="pag23" id="pag23">[23]</a></span>&eacute; precisa tanta f&eacute; para
+acreditar no Jehovah de Mois&eacute;s e no Messias de S.
+Jo&atilde;o Evangelista, como no &laquo;Pantheismo&raquo; de
+Espinosa, na &laquo;Vontade&raquo; de Schopenhauer, e no
+&laquo;Inconsciente&raquo; de Von Hartmann. Por tanto, fa&ccedil;am
+suas excellencias um acto de f&eacute; como biologas, e outro acto
+de caridade como catholicas, prestando-me a sua benevola
+atten&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Carlos Ribeiro n&atilde;o andou toda a vida, como Boucher de
+Perthes, a esgaravatar nas camadas do globo a certid&atilde;o de
+idade do homem. Tambem elle borboleteou &aacute; fl&ocirc;r da
+terra, com as azas polvilhadas dos matizes da alegria juvenil, os
+seus devaneios.</p>
+
+<p>Entre os 15 e 16 annos, fingia eu que estudava chimica na
+Polytechnica do Porto. Carlos Ribeiro, n'aquelle anno, 1844,
+j&aacute; tenente, com 30 annos de idade, completava <span class="pagenum"><a name="pag24" id="pag24">[24]</a></span>mathematicas com sinceridade e aproveitamento. Era de
+estatura mediana, refeito, de espaduas fortes, rosto redondo,
+purpurino, com um pequeno bigode cortado na commissura dos labios
+muito nacarinos. Grave nas fallas, muito delicado em conselhos e
+atten&ccedil;oens com os cabulas; e sympathisava com a minha
+modesta ignorancia que elle, confessando a actividade funccional do
+meu cerebro, ingenuamente attribuia a eu n&atilde;o possuir
+compendio de chimica,&mdash;uma coisa bastante necessaria a quem se
+matricula. Era o <i>Lassaigne</i>&mdash;parece-me ser este o nome do
+sabio naturalista, que alguns condiscipulos generosos me
+emprestavam &aacute; porta da Academia, quando se avistava o lente,
+um ex-frade, Santa Clara, contemporaneo de Orfila, Berzelius e
+Liebig. Por que m&atilde;os sagradas andava ent&atilde;o a chimica
+portugueza!</p>
+
+<p>Aproveito a occasi&atilde;o para agradecer aos que ainda vivem,
+se algum vive, a gentileza do seu emprestimo, para que eu, em honra
+<span class="pagenum"><a name="pag25" id="pag25">[25]</a></span>do frade, sahisse crystallinamente e
+triumphantemente do meu acto de chimica sem a macula de um R.</p>
+
+<br>
+
+<p>J&aacute; divulguei em um livro este caso &aacute; Europa
+culta.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Agora, vou contar outro caso mais trovador&ecirc;sco&mdash;um
+episodio da vida amorosa do defuncto anthropologista, o general
+Carlos Ribeiro.</p>
+
+<br>
+
+<p>Por aquelle tempo, uma senhora esmeradamente educada no gosto da
+&eacute;poca, e com uma grande distinc&ccedil;&atilde;o de
+formosura, abandon&aacute;ra em Lisboa o esposo, e
+refugi&aacute;ra-se no Porto com um seductor de
+condi&ccedil;&atilde;o baixa e bens de fortuna parallelos. Este
+casal anticanonico habitava uma casinhola barata na <span class="pagenum"><a name="pag26" id="pag26">[26]</a></span>rua da Sovella, paredes-meias do quarto escolastico de
+Carlos Ribeiro. O tenente, quando regressava da aula, via na
+janella de peitoril, uma vez por outra, a sua mysteriosa e lepida
+visinha encaral-o com uma fixidez perturbadora como um envoltorio
+de fluidos galvanicos.</p>
+
+<p>Certa estanqueira estabelecida na loja da casa onde se aninharam
+aquelles amores clandestinos, informou-o da m&aacute; vida intima
+dos adventicios. Havia desaven&ccedil;as todas as noites, gritaria,
+choradeira, e &aacute;s vezes repelloens reciprocos, a ponto d'ella
+cahir no sobrado. D'estas alterca&ccedil;oens nocturnas, a
+informadora pod&eacute;ra liquidar que o homem se chamava
+<i>Bram&atilde;o</i>, ella <i>Gloria</i>, e que tinha marido na
+capital. Entre os epithetos que elle lhe desfechava, o mais
+accentuado e repetido era <i>bebeda, grandissima bebeda</i>; e a
+estanqueira justificava a qualifica&ccedil;&atilde;o, contando que
+a menina Gloria, assim que o Bram&atilde;o sahia, mandava ao
+armazem da Companhia <span class="pagenum"><a name="pag27" id="pag27">[27]</a></span>fronteiro duas garrafas
+vasias que se trocavam por garrafas lacradas de 800 reis.&mdash;Acho que
+se emborracham ambos de dois!&mdash;conjecturava a mulher dos tabacos,
+offerecendo a sua opini&atilde;o indecisa ao reflexivo freguez dos
+cigarros.</p>
+
+<br>
+
+<p>Uma noite, foi tamanha a gritaria, que a patrulha bateu &aacute;
+porta da estanqueira perguntando que gritos eram aquelles no
+primeiro andar. A mulher, na sua impaciencia de estrenoitada,
+respondeu azedamente que era uma creatura com a sua pinga; que
+fossem os soldados &aacute; sua vida, porque n&atilde;o havia
+remedio a dar-lhe &aacute; carraspana sen&atilde;o cozel-a; e que
+cada qual em sua casa podia embebedar-se como quizesse e quando
+quizesse. Se percebiam? perguntava colerica. E a patrulha: que sim,
+que a cozesse ella e mais a visinha. E a
+estanqueira:&mdash;Malandros!</p>
+
+<p>Eram ent&atilde;o triviaes no Porto estas scenas do
+Baixo-Imperio, dialogadas entre o pequeno <span class="pagenum"><a name="pag28" id="pag28">[28]</a></span>commercio e os pretorianos municipaes&mdash;os <i>janizaros</i>
+do Costa Cabral. N'aquelle tempo, tudo que era tropa chamava-se
+<i>pretorianos</i> e <i>janizaros</i>&mdash;uns pobres diabos a 30 reis
+por dia e rancho de couve gallega com feij&atilde;o fradinho.
+Depois &eacute; que expluiu o caceteiro, pago pelos edis, a 480
+reis diarios, e mais, consoante a press&atilde;o exercida nos ossos
+parietaes do <i>patulea</i>.</p>
+
+<p>O tenente estava &aacute; janella a escutar o alarido, sentia
+uma compaix&atilde;o infinita por aquella formosa senhora; e
+scismava se a embriaguez seria refugio de grandes
+tribula&ccedil;oens n'aquella alma que se atirava a um charco de
+vinho para apagar a luz do intendimento e da memoria&mdash;perturbar a
+vida afflictiva da consciencia escorreita.</p>
+
+<p>Na manhan seguinte a esta noite tempestuosa, Bram&atilde;o sahiu
+e n&atilde;o voltou mais.</p>
+
+<p>A estanqueira soube d'ahi a dias da criada de Gloria que a sua
+ama tinha vendido a unica pulseira, porque o pelintra do
+patr&atilde;o <span class="pagenum"><a name="pag29" id="pag29">[29]</a></span>lhe n&atilde;o deix&aacute;ra
+vint&eacute;m; e ajuntou que ella pouco mais tinha que vender, a
+n&atilde;o ser os vestidinhos, porque j&aacute; tinha derretido as
+joias para sustentar o vicio do amante, que era jogador e perdia
+sempre.</p>
+
+<p>A criada, aquecida pelo atr&iacute;to das revela&ccedil;oens,
+confessou que sua ama tomava a piella todas as tardes, quando a
+n&atilde;o apanhava tambem todas as manhans, bemdito seja o Senhor!
+Que o patr&atilde;o vinha de f&oacute;ra levado de todos os diabos,
+e entrava &aacute;s testilhas com ella, palavra puxa palavra, e iam
+&aacute;s do cabo, pancada de criar bicho, e batiam de meias. A
+senhora, coitadinha, antes de se emborrachar, chorava lagrimas como
+punhos, a contar-lhe a sua vida. Que era filha de gente grande, e
+cas&aacute;ra, contra vontade sua, com um almofariz da casa real. A
+estanqueira n&atilde;o comprehendia o casamento com o almofariz.
+Carlos Ribeiro emendou para <i>almoxarife</i>, explicando o officio
+com a sua costumada bondade illustradora.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag30" id="pag30">[30]</a></span>Como quer que fosse, a infeliz senhora
+embriagava-se depois que chorava lucidamente. Era isso mesmo o que
+o tenente havia conjecturado com a sua romantica
+intui&ccedil;&atilde;o de 1844.</p>
+
+<p>Da piedade n&atilde;o &eacute; trivial a passagem para o amor;
+mas, se &aacute; commo&ccedil;&atilde;o do amor precede a do
+compadecimento, o caso de Carlos Ribeiro &eacute; vulgar. Escreveu
+o meu amigo a D. Gloria offerecendo-lhe os seus servi&ccedil;os
+desinteresseiros n'uma terra em que sua excellencia era hospeda, e
+n&atilde;o tinha talvez rela&ccedil;oens. A visinha respondeu-lhe
+com uma caligraphia ingleza, e uma grammatica impenetravel &aacute;
+unha da critica mais meticulosa. Em meio da sua prosa florida,
+alinhava-se o alexandrino de Victor Hugo:</p>
+
+<blockquote>
+Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe...
+</blockquote>
+
+<p>O mathematico ficou mais deslumbrado com a contextura da carta do
+que ficaria <span class="pagenum"><a name="pag31" id="pag31">[31]</a></span>trinta annos depois quando achou em
+Ota a garantia da sua immortalidade como homem de sciencia&mdash;o
+Anthropopithecus.</p>
+
+<br>
+
+<p>A correspondencia travou-se em phrases recheadas de versos de
+Hugo e Lamartine, at&eacute; que o tenente entrou s&oacute;sinho,
+sem os poetas auxiliares, e s&oacute;mente com a sua prosa
+commovida, na alcova da visinha. Era uma alcova sem
+preten&ccedil;oens bysantinas, nem cosmeticos caros; apenas algum
+<i>Patchouli</i> nacional, e agua de Colonia, em parodia, fabricada
+por um pseudo Farina, e muito almiscar, perfumaria dos gyneceus
+infestos &aacute; Moral, perdi&ccedil;&atilde;o dos caixeiros de
+risca ao meio, e grandes absorventes de licor de Rosa e de Van
+Switen. Era, em summa, a alcova atrapalhada de uma <i>touriste</i>
+que vai vagamundeando a sua vida escoteiramente, sem reparar se ha
+estofos, estatuetas, bronzes e Sevres e pavilh&atilde;o de
+ondula&ccedil;oens setinosas, com lampejos <span class="pagenum"><a name="pag32" id="pag32">[32]</a></span>cr&uacute;s de metaes esmaltados, no leito das reles
+estalagens onde pernoita.</p>
+
+<p>Elle sentiu na ante-camara o fartum acidulado da baga
+alcoolisada dos vinhos crassos da Companhia: era o perfume de uma
+adega do Ronc&atilde;o. Foi uma nuvem de m&aacute;os presagios no
+azul da sua felicidade aquelle cheiro.</p>
+
+<p>Entravam a dialogar na temperatura madrigalesca do ultimo
+romance de Arlincourt, quando ella mandou servir vinho do Porto de
+oito tostoens com pasteis de Santa Clara e <i>queques</i> da
+Palaia. O hospede sacrificou-se cortezmente a algumas
+liba&ccedil;oens, pequenos goles intercalados de perguntas e
+respostas, deixando o calice opalino em meio. Ella, entretanto,
+n'uma exalta&ccedil;&atilde;o theatral, defendia a these do
+adulterio, com reminiscencias peoradas da <i>Lelia</i> de George
+Sand; e, como inconsciamente, na abstrac&ccedil;&atilde;o
+enthusiasta dos largos gestos, ia engatando uns calices nos outros,
+em rapida viagem para a regi&atilde;o do <span class="pagenum"><a name="pag33" id="pag33">[33]</a></span>Falstaff
+e da Maria Parda de Gil Vicente. Parecia mesmo uma actriz franceza
+<i>des Vari&eacute;t&eacute;s</i>, com uma forte di&aacute;these de
+bambochata, que viesse de cear no Caf&eacute; Tortoni com
+<i>champagne frapp&eacute;</i>, na roda reinadia de Roger de
+Bauvoir e Roqueplan. Carlos, quando a viu em afina&ccedil;&atilde;o
+mais que suspeita, sentiu borbulhar-lhe o pranto da ingenuidade;
+porque ella, carminada pela ebuli&ccedil;&atilde;o do sangue,
+esbandalhada, e escandecida pelo que havia sincero e logico na sua
+declama&ccedil;&atilde;o, relampejava uns claroens electricos que
+pegariam fogo em carne menos combustivel que a do artilheiro;
+por&eacute;m, a elle, faziam-no chorar as lagrimas entranhadas que
+os olhos t&eacute;em pejo de mostrar, e, reprezadas na alma, chegam
+a cegal-a como um collyrio de acido sulphurico concentrado.
+Figura-se-me que estou a escrever isto em 1844! Que imagens! que
+botica!</p>
+
+<p>E a dama, n'uma absorp&ccedil;&atilde;o de visitada pelo <i>ecce
+Deus</i>, com o iris acceso e a pupilla retrahida pela atropina da
+Companhia, n&atilde;o <span class="pagenum"><a name="pag34" id="pag34">[34]</a></span>despegava do fio das ideias,
+torrencialmente. Tregeitos exquisitos e sacudidos da esc&oacute;la
+melo-dramatica de Emile Doux. Fazia vibra&ccedil;oens gloticas,
+cavas, gutturaes de quem recita threnos. Arredondava phrases
+repolhudas, pomposas, de dramalh&atilde;o, respigadas nos <i>Dous
+Renegados</i> e no <i>Captivo de Fez</i>. Por baixo do vinho
+j&aacute; estava o absintho do odio ao pai que a violent&aacute;ra
+a cazar-se; mas a losna n&atilde;o lhe calcinava os nervos sem a
+combust&atilde;o inflammatoria dos extra-finos, muito s&ecirc;ccos,
+do Alto-Douro.</p>
+
+<p>Acidulada sob a influencia das suas virginaes reminiscencias de
+menina e m&ocirc;&ccedil;a, etherisava-se. Ora, &eacute; regra
+corrente que o alcool, submettido aos acidos, transforma-se em
+ether. Insignes pharmaceuticos o asseveram. Todas as
+commo&ccedil;oens internas s&atilde;o chimica. Isto, que d'antes se
+chamava alma, &eacute; uma retorta de cristal da Bohemia em uns
+sujeitos, e de barro de Estremoz em outros sujeitos. O grito das
+paixoens que desfibram <span class="pagenum"><a name="pag35" id="pag35">[35]</a></span>e matam &eacute; o
+estampido da retorta que rebenta. Agora, a differen&ccedil;a: se a
+retorta &eacute; de crystal, os estilha&ccedil;os, embora
+embaciados de lagrimas, tem ainda rutila&ccedil;oens que encantam a
+Arte. E, se a retorta &eacute; de barro, os cacos abeberados nas
+lagrimas repellem a vista porque parecem l&ocirc;do. Edgard
+P&ouml;e, Alfred de Musset e Baudelaire, envenenados pelo alcool,
+s&atilde;o hostias immoladas a um meio social
+responsavel&mdash;s&atilde;o retortas de crystal feitas peda&ccedil;os
+pela paix&atilde;o. O Sena cospe &aacute;s margens, cada mez,
+dezenas de suicidas que apenas tem vinte e quatro horas de nojosa
+exposi&ccedil;&atilde;o na Morgue. S&atilde;o os cacos da retorta
+de barro dissolvidos em lama.</p>
+
+<p>Quanto a Gloria, para ser uma consummada tragica na voz e no
+gesto, bastara-lhe uma regra que n&atilde;o se acha bastante
+inculcada nas prelec&ccedil;oens do Conservatorio Real das Artes
+scenicas, isto &eacute;: carregar-lhe no copo.</p>
+
+<span class="pagenum"><a name="pag36" id="pag36">[36]</a></span><p class="centrado">*</p>
+
+<p>&Aacute;cerca d'este elixir vitalisador das citadas Artes
+scenicas&mdash;necessidade physiologica (o copo, intenda-se, e
+n&atilde;o as <i>Artes</i>) do sangue luzitano de origem
+celtibera&mdash;n&atilde;o sei quaes sejam as cogita&ccedil;oens actuaes
+do meu Luiz Augusto Palmeirim, egregio director do Conservatorio
+Real. Cumpre-lhe, todavia, estar precavido contra as anemias e
+opila&ccedil;oens (opila&ccedil;oens, no sentido casto de
+<i>chloroses</i>) d'aquelle aviario de roussinoes e outros passaros
+que regorgeiam em perpetuo abril, estofando os seus ninhos com o
+pollen das flores.&mdash;<i>Pollen das flores</i>, notem a figura que
+&eacute; rara n'estes tempos hostis &aacute; rhetorica. Ora pois.
+Que aquelle seminario das Artes scenicas borborinhe sonoroso de
+interjei&ccedil;oens tremicullosas como calefrios, arranques
+tragicos, morbidezas de bem&oacute;es e sustenidos; e que, <span class="pagenum"><a name="pag37" id="pag37">[37]</a></span>depois de um purgatorio de rabecas e pianos,&mdash;supplicio
+indispensavel&mdash;rutilem, ao diante, pelas trapeiras das
+aguas-furtadas do Bairro-alto as constella&ccedil;oens sidereas das
+Sarah, das Nilson, das Patti, dos Rubeinstein, n'este paiz de
+<i>Manoel Mendes Enchundia</i>, da <i>Canna-verde</i>, do
+<i>Passarinho trigueiro</i> e do <i>Fado choradinho</i>. Notem que
+o dr. Letourneau escreve que uma ponta de vinolencia &eacute; a
+poesia da digest&atilde;o<a name="tex2html3" href="#foot373" id=
+"tex2html3"><sup>3</sup></a>; e tambem
+affirma que onde quer que se usa a bebedeira, existe uma
+litteratura bachante (pag. 45). A regra em Portugal falha
+praticamente. Temos a bebedeira sem a litteratura, talvez por falta
+de editores pouco serios.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>D. Gloria, n&atilde;o obstante, seria ridicula hoje em dia que a
+sciencia glacial esfriou a admira&ccedil;&atilde;o <span class="pagenum"><a name="pag38" id="pag38">[38]</a></span>pelas mulheres de talento menos methodico, desvairado por
+exorbitancias Vadias.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo as senhoras que recendiam essencias de macassar,
+e tinham sido iniciadas nas assembleias pelos parlapatoens da
+Restaura&ccedil;&atilde;o, eram assim. Reinavam os <i>parvenus</i>,
+uns devassos broncos, algum tanto desbastados pelo esmeril da
+emigra&ccedil;&atilde;o, ou sahidos das cadeias com uma grande fome
+de mundo, de diabo e de carne, os trez amigos figadaes do corpo,
+como explica methaphysicamente a <i>Cartilha da doutrina</i> para
+uso dos collegios de meninas. Elles tinham as fossas nazaes virgens
+do nitro das granadas do Porto; mas eram destemidos fundibularios
+de patacos regeitados &aacute; sege do sacrificado duque de
+Bragan&ccedil;a que lhes dera patria sem os inconvenientes da
+forca, e dilacer&aacute;ra o cora&ccedil;&atilde;o nos sobresaltos
+das batalhas. Eram os bagageiros do espolio opimo com todos os
+caracteres ethnicos da siganagem portugueza. Compravam conventos
+com titulos <span class="pagenum"><a name="pag39" id="pag39">[39]</a></span>azues e rebatiam a 17 p. c. os
+arriscados e sacratissimos emprestimos aos <i>Regeneradores</i> de
+20 e aos <i>pallikares</i> empennachados da <i>Belfastada</i>.</p>
+
+<p>Os <i>parvenus</i> inculcavam como norma da
+perfei&ccedil;&atilde;o feminil a <i>Corinna</i> de madama de
+St&auml;el, a mesma madama em pessoa a fazer aos psycologos
+philosophias, e coisas mais praticas a Benjamin Constant, como a
+R&eacute;camier ao velho lubrico que fazia, da sua parte, o
+<i>Genio do Christianismo</i>. Todas e todos muito devassos e
+eloquentes, boas e bons para come&ccedil;arem os seus romancinhos
+ao fog&atilde;o e concluil-os nas alc&ocirc;vas. Foi este o ideal
+da mulher que os emigrados trouxeram dos <i>boulevards</i> e dos
+hoteis <i>garnis</i> a 2 fr. e 50 cent., com uma de-m&atilde;o do
+verniz de Mabille.</p>
+
+<p>Lia-se ent&atilde;o copiosamente a obra emocional de Paul de
+Kock; e os hierophantas do reino restaurado folheavam com
+m&atilde;o diurna e nocturna a <i>Republica</i> de Plat&atilde;o,
+onde o grande legislador, em pleno luxo de policiamento <span class="pagenum"><a name="pag40" id="pag40">[40]</a></span>hellenico, preceituava que as mulheres passassem de
+m&atilde;o em m&atilde;o. (Livro V.) Esfervilhavam por isso as
+Xantipas com que os Socrates altruistas obsequiavam os Alcibiades,
+e floreciam as Marcias que os virtuosos maridos Catoens emprestavam
+aos Hortensios. Assim como nas lojas ma&ccedil;onicas muitos dos
+triumphadores de 34&mdash;um grupo sahido da barbaria da idade-media&mdash;se
+chamavam <i>Catoens</i> e <i>Socrates</i>, por igual theor, no
+sanctuario da familia, usavam os mesmos habitos greco-romanos. Foi
+por isso que, em 37, o apocalyptico autor da <i>Voz do Propheta</i>
+denominou Lisboa uma <i>caverna de vicios e
+desenfreamentos</i>.</p>
+
+<p>Uma franceza, amante varia de varios francezes, mad. Pauline de
+Flaugergues, dava o tom em Lisboa, por esse tempo, em versos e
+frescor de cutis polvilhada de bysmutho. Rodeavam-na os areopagitas
+do plectro e da sintaxe, a mestran&ccedil;a da
+versejadura&mdash;Castilho, Garrett e os outros da
+constella&ccedil;&atilde;o. <span class="pagenum"><a name="pag41" id="pag41">[41]</a></span>Esta bohemia trovista
+foi dada como typo de mulher emancipada pelo talento. Teve
+ova&ccedil;oens das lyras primaciaes. Damas da c&ocirc;rte, creadas
+em novenas e lausperennes, atiraram as camaldulas &aacute;s ortigas
+e pegaram de fazer muitos gallicismos grammaticaes e pessoaes.
+Viveu-se uma rasgada bacchanal &aacute; franceza, em que tomaram o
+seu quinh&atilde;o <i>pro rata</i> as mulheres dos marquezes, as
+filhas dos algibebes e as esposas dos ex-almoxarifes. &Eacute; como
+foi. A D. Gloria era um fructo bichoso, sorvado, de arvore que
+n&atilde;o sevou a raiz em terreno alheio mal adubado. Era cedo
+ainda. &Aacute;s portuguezas faltava-lhes o <i>savoir-vivre</i>,
+para se aguentarem corrompidas e elegantes. <i>Jam novus rerum
+nascitur ordo.</i> Isto hoje est&aacute; melhor&mdash;est&aacute; como
+deve ser. A mulher cae; mas sabe cahir n'este palco; e n&atilde;o
+podia ser assim ha quarenta annos. <i>Go ahead!</i></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag42" id="pag42">[42]</a></span>O certo &eacute; que aquella dama foi a
+primeira paix&atilde;o de Carlos&mdash;a primeira que &eacute;
+t&atilde;o forte e pouco menos tola que a setima e a vigesima
+nona.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Trez mezes volvidos, Ribeiro tinha perdido a alegria, o affecto
+ao trabalho, a convic&ccedil;&atilde;o da sua immaculada probidade,
+e j&aacute; luctava com as duras hostilidades da pobreza. Quanto a
+Gloria, cada dia mais formosa, mais fascinadora e mais crapulosa.
+Elle chegou a pedir-lhe em joelhos e de m&atilde;os erguidas que se
+abstivesse de beber t&atilde;o destemperadamente; e ella, no lucido
+uso das suas faculdades dirigentes, respondeu que n&atilde;o
+podia,&mdash;que o embriagar-se era o seu suave e doce suicidio, porque
+queria morrer.</p>
+
+<br>
+
+<p>Carlos obtivera informa&ccedil;&otilde;es de Lisboa. O pai de
+Gloria ainda vivia. Era um bom <span class="pagenum"><a name="pag43" id="pag43">[43]</a></span>proprietario rural
+na comarca de Torres Vedras, tinha sido criado particular do snr.
+D. Jo&atilde;o VI, caz&aacute;ra com uma retreta da snr.&ordf; D.
+Carlota Joaquina, e tinha o habito de Christo. O marido era
+mentecapto e velho. Perdera a ras&atilde;o com a queda do snr. D.
+Miguel e do seu almoxarifado no Alfeite. Quanto a Bram&atilde;o, um
+industrioso, vivia de apostas ao bilhar no Marrare das 7 portas e
+era casado com uma peccadora acirrante, uma trigueira de bigode que
+se desforrava usurariamente das perfidias do marido, sendo perfida
+para todos os amantes.</p>
+
+<p>Meditava Carlos em commiserar o velho cavalleiro de Christo, na
+esperan&ccedil;a de regenerar a dignidade de Gloria com a
+convivencia do pai venerando e das irmans honestas. O velho
+respondera a quem lhe pediu compaix&atilde;o para a filha que a
+julgava morta, e morta devia estar para elle; mas que n&atilde;o a
+repulsaria do seu talher, porque a desgra&ccedil;ada <span class="pagenum"><a name="pag44" id="pag44">[44]</a></span>tinha a seu favor como desculpa o haver casado
+constrangida.</p>
+
+<p>Quando o tenente, triste pela deixar e alegre por salval-a, lhe
+communicou a resposta do pai, ella improperou-lhe a covardia de a
+n&atilde;o desenganar, se estava farto de atural-a, e reprovou a
+miss&atilde;o caritativa de a reconciliar com a familia, n&atilde;o
+tendo procura&ccedil;&atilde;o para isso. Depois, trocaram-se
+palavras desabridas.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>No dia seguinte, D. Gloria deixou a casinha da rua da Sovella e
+foi para o Bom Jesus do Monte com um dos le&otilde;es d'aquelle
+tempo em que a cidade da Virgem parecia ser da Venus
+Callipygia&mdash;uma leoneira da Hircania, onde as epidermes
+roli&ccedil;as das donzellas de Cedofeita e as ostras da Aguia
+d'Ouro eram o past&iacute;o nocturno d'aquelles <span class="pagenum"><a name="pag45" id="pag45">[45]</a></span>dragoens, producto da concubinagem do romantico burro de
+Buridan com a classica burra de Bala&atilde;o. D'esta progenie, que
+herd&aacute;ra da m&atilde;e o dom da palavra, e do pai um amor
+menos indeciso &aacute;s duas maquias, evolucionou-se o
+<i>crev&eacute;</i>, o estoiradinho, um phenomeno embryologico, que
+encaracola <i>bellezas</i> na testa exigua de microcephalo,
+incalamistra o bigode, e tem do D. Juan de Mara&ntilde;a
+simplesmente a guitarra com que perverte familias espanholas
+vigiadas pela policia medica. De resto e <i>au fond</i>, os
+estoiradinhos s&atilde;o grupos de moleculas, agrega&ccedil;oens
+granulosas, saturadas de marisco, de cerveja barata da Baviera e
+nicotina, justificando a formula excentrica e um tanto paradoxal de
+Bacon: <i>o vacuo de mistura com o solido</i>. Protegidos pela lei
+geral do atomismo, agitam-se no turbilh&atilde;o universal da
+materia inconsciente: s&atilde;o &laquo;acasos da concorrencia
+vital&raquo;, como diria Darwin; mas n&atilde;o confundir
+<i>concorrencia</i> com <i>selec&ccedil;&atilde;o natural</i>; que
+a natureza &eacute; mais logica <span class="pagenum"><a name="pag46" id="pag46">[46]</a></span>e demorada nos
+seus transformismos. Pela rapidez com que do <i>le&atilde;o</i>
+pujante de 1840 se engendrou o <i>catita</i> escrophuloso de 1880,
+&eacute; claro que a <i>selec&ccedil;&atilde;o</i> foi
+<i>artificial</i>, estabalhoadamente, grande celeridade. A este
+respeito, os curiosos orientem-se em Topinard,
+<span class="small-caps">L'Antropologie</span>, <i>passim</i>. Cumpre
+notar que, no arranjo organico do estoiradinho, collaboram 65
+elementos conhecidos, diz a Sciencia. 65! que prodigalidade! A
+n&atilde;o ser a Sciencia, quem diria que a Natureza para construir
+um cretino gastou quasi cinco duzias e meia de elementos&mdash;os mesmos
+que despendeu para fazer o mar, o espa&ccedil;o, o mundo sideral,
+os cyprestaes balsamicos do Libano e os fedores humanos da Baixa; o
+Caneiro de Alcantara onde os microbios fazem as suas regatas
+recreativamente, e o Amazonas, a banheira do sol, espraiando-se em
+escamas refulgentes; o Garrett que faiscava, como um cerebro de
+diamantes facetados, as <i>Viagens na minha terra</i>, e o cerebro
+<span class="pagenum"><a name="pag47" id="pag47">[47]</a></span>do outro Garrett que supurava, como um tumor
+apostemado, as <i>Viagens a Leix&otilde;es</i>! Com as ultimas
+palavras da biologia &eacute; que a Sciencia regeita o dogma da
+alma, e nos convence de que o estoiradinho, pelo que respeita
+&aacute; por&ccedil;&atilde;o cinzenta do cerebro, deixa de ser o
+rei da crea&ccedil;&atilde;o para retroceder, por atavismo e sem
+hyperbole, &aacute; familia dos vibrioens, um quasi infusorio, e
+pouco mais que proto-organismo, irresponsavel pelos seus flagrantes
+delictos de brutalidade.</p>
+
+<p>Em obsequio a estes irresponsaveis &eacute; que o bispo sr. D.
+Antonio Ayres de Gouv&ecirc;a tanto e valorosamente impugnou a pena
+de morte. Todavia, o seu victorioso repto &aacute; forca,
+mallogrado em Beccaria, em Lamartine e V. Hugo, seria socialmente
+mais completo, se s. ex.&ordf; tambem conseguisse que, em vez do
+<i>menu</i> pouco peitoral da strychnina municipalense, se
+servissem <i>c&ocirc;telettes de veau saut&eacute; aux truffes</i>
+aos magros c&atilde;es vadios, inoffensivos na sua fome e na sua
+s&ecirc;de. <i>Struggle <span class="pagenum"><a name="pag48" id="pag48">[48]</a></span>for life.</i> Sei essa
+trivialidade erudita; mas a lucta pela existencia n&atilde;o
+authorisa que os vereadores sejam carrascos dos c&atilde;es, em
+quanto o equilibrio dos negocios publicos e o pagamento em dia dos
+6 por cento das inscrip&ccedil;&otilde;es lhes permittir comerem o
+boi. Ora&mdash;digamol-o de passagem&mdash;o boi era um Deus entre os
+egypcios, o divino Apis, e entre n&oacute;s &eacute; o manso e
+pingue holocausto de uma bestialidade carnivora; porque n&oacute;s,
+os europeus, comemos os Deuses alheios em bifes, e os proprios em
+hostias. Sacrilega pouca-vergonha!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Voltando ao drama e &aacute;s palpita&ccedil;&otilde;es do
+leitor por um pouco suspensas, a estanqueira contou depois que,
+emquanto o tenente estava na mathematica fazendo garatujas na
+lousa, um esbelto rapaz, todo de preto, com um cacetete, pantalonas
+&aacute; <i>hussard</i>, fazia tilintar <span class="pagenum"><a name="pag49" id="pag49">[49]</a></span>o tinido
+das suas esporas amarellas no pavimento de D. Gloria. Trabalhosa e
+fragil senhora!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+
+<p>Eu morava na rua Escura, no bairro mais pobre e lamacento do
+Porto, um b&ecirc;cco fetido de coirama surrada, em uma esquina que
+olha para a viella dos Pell&aacute;mes. Eramos dois os estudantes
+que occupavamos o terceiro andar com uma retorcida varanda de
+p&aacute;o, esmadrigada, n'um escalabro de incendio,
+debru&ccedil;ada em amea&ccedil;as sobre os transeuntes como a
+varanda de Damocles, muito mais perigosa que a lendaria espada,
+cujo gume deve estar muito rombo e puido da esgrima dos eruditos em
+Damocles. No primeiro andar morava a proprietaria, uma ad&eacute;la
+que nos cosinhava certas iguarias dignas de ser expostas ao
+s&ecirc;vo das aves de rapina no peitoril d'aquella varanda. Quanto
+a ratos, <span class="pagenum"><a name="pag50" id="pag50">[50]</a></span>era uma succursal de Montfaucon. O
+segundo andar tinha escriptos desde muito, e n&atilde;o havia homem
+desesperado, can&ccedil;ado da vida, que ousasse tentar o suicidio
+n'aquellas ruinas minacissimas. Quem procurava casa, olhava com
+terror, e seguia o seu caminho, como se ali morassem os leprosos de
+Xavier de Maistre.</p>
+
+<p>Disse-me a patr&ocirc;a, uma noite, alegremente, que tinha
+alugado o segundo andar por deseseis tostoens mensaes a uma
+creatura, que lhe parecia mulher de pouco mais ou menos; e
+acrescentou com uma sensata indulgencia: &laquo;Seja ella o diabo
+que for, o que eu quero &eacute; que me pague adiantado;
+sen&atilde;o, minha amiguinha, viella, viella!&raquo; e apontava
+para a rua com um gesto de bra&ccedil;o e dedo perfurante como uma
+estocada.</p>
+
+<p>Com effeito, a devoluta varanda do segundo andar, t&atilde;o
+destro&ccedil;ada como a minha, aguardava uma Julieta adequada
+competentemente aos Romeus do terceiro.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag51" id="pag51">[51]</a></span>A inquilina entrou e pagou.</p>
+
+<p>Quando eu recolhia da chimica e subia ao meu terceiro andar
+fazendo gemer os degr&aacute;os, olhei curiosamente para a saleta
+do segundo, e conheci a Gloria da rua da Sovella. Estava muito
+acabada, olheiras fundas, os angulos faciaes descarnados, os
+bei&ccedil;os roixos, calcinados pela combust&atilde;o dos licores.
+Na epiderme transparente j&aacute; n&atilde;o lhe revia o rubor
+setineo do sangue colorante. Sobre as saliencias malares, manchas
+rubras que poderiam ser de vermelh&atilde;o ordinario ou da febre
+ethica; os tegumentos pareciam emplastados por uma camada de velha
+c&ecirc;ra amarellada. As cordoveias do pesco&ccedil;o, muito
+esbagachado, com umas saliencias nodosas como cord&atilde;o de S.
+Francisco.</p>
+
+<p>Havia um anno que ella tinha deixado Carlos Ribeiro immerso em
+uma grande commisera&ccedil;&atilde;o, disia elle; mas eu sabia que
+era maior a saudade que o d&oacute;.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag52" id="pag52">[52]</a></span>Procurei o meu amigo que havia concluido o
+curso e entr&aacute;ra na fileira. Estava f&oacute;ra do Porto em
+servi&ccedil;o. Melhor foi assim, porque a noticia que eu lhe
+levava poderia magoal-o ou faz&ecirc;l-o descer at&eacute; ao
+vilipendio de a visitar.</p>
+
+<p>Ao fim de quinze dias, disse-me a patroa que a
+<i>Aurora</i>&mdash;nome de guerra que se dera D. Gloria&mdash;uma noite por
+outra, recolhia comsigo um engajado. Fallava sempre com figuras
+decentinhas a minha patr&ocirc;a. &laquo;Engajado&raquo; era
+decente. Diziam ent&atilde;o as senhoras nos bailes da Assemblea:
+&laquo;J&aacute; estou engajada para a terceira polka&raquo;.</p>
+
+<p>Quanto &aacute; natureza dos engajados, disse-me que eram
+velhos. Conhec&ecirc;ra o Rapozeira, um d'oculos, que tinha loja de
+batinas e galoens para esquifes, na rua Chan: outro, era amanuense
+da camara do bispo&mdash;ambos muito borrachoens. E promettia
+p&ocirc;l-a no olho da rua, se ella continuasse a fazer-lhe
+tro&ccedil;a, por noite velha, em cima da cabe&ccedil;a, dansando o
+Sarambeque.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag53" id="pag53">[53]</a></span>O Sarambeque era da natureza bordelenga do
+<i>Hulal&aacute;</i>, um bailado dissoluto, priap&ecirc;sco das
+Ilhas Hawai. Eu nunca pude ver a assemblea da visinha, nem o
+cavalheiro bestial ajoujado por tal dama &aacute;s suas
+<i>soir&eacute;es</i> dansantes. Quem quer que fosse, dava, no
+repicado sapateio da sua furia endiabrada de selvagem de
+Ceyl&atilde;o, oscilla&ccedil;oens de terramoto ao predio. Muitas
+vezes, reciei que, <i>verbi gratia</i>, desabada aquella casa
+filial das orgias de Sardanapalo, eu fosse o candido bode
+expiatorio sacrificado no entulho da derrocada &aacute;s iras dos
+deuses e da senhoria. Depois, noite alta, havia comedorias&mdash;um
+aziumado de azeite rancido e alhos, estrugidos emeticos,
+emana&ccedil;oens sulphydricas d'aquellas almas latrinarias.
+Lamento, j&aacute; agora, n&atilde;o ter ent&atilde;o colhido notas
+para hoje me inculcar um Petronio testemunhal e authentico d'essas
+ceias de Trimalci&atilde;o com iscas de figado e o rascante de
+Cabeceiras de Basto.</p>
+
+<span class="pagenum"><a name="pag54" id="pag54">[54]</a></span><p class="centrado">*</p>
+
+<p>Um dia, de madrugada, acordou-me um grande berreiro nas escadas.
+O meu companheiro, o bom Machado de Car&ccedil;&atilde;o, um medico
+que morreu ha muitos annos, foi examinar de perto a desordem, e
+contou-me que um velhote apopletico, com ares de jarr&ecirc;ta
+provinciano, estava gritando que Aurora lhe roubara vinte e cinco
+pintos da algibeira do coll&ecirc;te, depois de o ter embebedado
+com genebra.</p>
+
+<p>O roubado sahira em berros para a rua, e os calc&ecirc;tas, que
+trabalhavam no lag&ecirc;do arrastando os grilhoens, assobiaram-no.
+Aurora dava gritos de innocente contra a calumnia, e a proprietaria
+intimava-lhe ordem de despejo immediato. D'ahi a pouco, a ladra era
+preza pelo cabo de policia, conduzida &aacute; regedoria e de
+l&aacute; para o Aljube.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag55" id="pag55">[55]</a></span>Fui para a chimica do eggresso e encontrei o
+tenente Ribeiro. Contei-lhe o caso que elle me ouviu com os olhos
+marejados. Depois, pediu-me que commettesse o delicto infando da
+vigesima quarta falta na aula, e o ajudasse a salvar, se possivel
+fosse, aquella enorme desgra&ccedil;ada, visto que elle n&atilde;o
+queria figurar pessoalmente. Mandou-me ao regedor; que soubesse
+onde estava o roubado, e lhe restituisse os 12$000 reis para elle
+n&atilde;o ser parte &aacute; preza. Que lhe referisse eu a
+sinistra vida de Gloria para que elle, compadecido, a n&atilde;o
+mandasse ao tribunal. E que, depois, fosse eu ao Aljube, e lhe
+dissesse que, se ella embarcasse no primeiro vapor para Lisboa a
+procurar o amparo de seu pai, havia quem lhe pagasse as
+despezas.</p>
+
+<p>Fui ao Aljube &aacute;s 3 da tarde. L&aacute; dentro era noite.
+Gloria estava innovelada a dormir sobre uma enxerga a um canto.
+Ella tinha sahido, quinze dias antes, de uma enfermaria do hospital
+de Santo Antonio, quando a <span class="pagenum"><a name="pag56" id="pag56">[56]</a></span>sua visinha, mais
+feliz, era levada, ainda morna, em uma padiola para o theatro
+anatomico. A devassid&atilde;o emparceirada com a morte mandaram
+aquelle esqualido presente ao escalpello da sciencia. Ah! quantas
+curvas de musculatura roidas pelo hydrargiro eu retalhei para hoje
+poder, como testemunha de vista, jurar que o cora&ccedil;&atilde;o
+&eacute; um musculo &ocirc;co!</p>
+
+<p>No soalho em que dormia Gloria, parecia que tinha choviscado
+lama. A enxerga era de uma preza, cujo c&atilde;o de agua, gordo e
+muito sujo, dormia aconchegado dos quadris da outra. A dona do
+c&atilde;o tinha uma cara cheia de enygmas, acidentada de
+periosteos cariados, exfoliados, com barbas. Seria uma riqueza
+craneologica para um Haeckel ou Topinard; mas para mim era
+simplesmente uma asneira paradoxal em anatomia comparada. Nunca me
+esqueceu. Lembro-me sempre da figura indelevel d'aquella mulher,
+quando nego a blasphema hypothese do Deus de <span class="pagenum"><a name="pag57" id="pag57">[57]</a></span>Mois&eacute;s e do sr. padre Grainha, um Deus que fez
+&aacute; sua imagem e semelhan&ccedil;a e&mdash;o que mais
+&eacute;&mdash;&aacute; sua custa, um typo humano com o perfil divino
+d'aquelle feitio. Contou-me que estava ali por ter dado uns tabefes
+n'uma regatona de castanhas cosidas que lhe deitava o raio do olho
+ao marido, o Jo&atilde;o do Corgo, um calceta que andava a cumprir
+senten&ccedil;a de toda a vida, innocente, por ter ajudado a matar
+um padre. Innocente! Como ella qualificava a iniquidade da
+justi&ccedil;a social com seu marido que mat&aacute;ra em
+collabora&ccedil;&atilde;o um levita! Queria talvez que o
+premiassem como quem mata um lobo.</p>
+
+<p>Com referencia &aacute; sua companheira, tambem a julgava
+innocentissima. Contou-me que se enchera de aguardente at&eacute;
+cahir; e logo &aacute; entrada protest&aacute;ra que se havia de
+enforcar nas grades. Acrescentou, n'uma irrita&ccedil;&atilde;o de
+quem tem soffrido injusti&ccedil;as exulcerantes, que a pobre da
+creatura n&atilde;o roub&aacute;ra nada; que todo o dinheiro que
+tinha <span class="pagenum"><a name="pag58" id="pag58">[58]</a></span>eram seis vintens em prata que
+compr&aacute;ra d'aguardente.</p>
+
+<p>Entretanto, Gloria ressonava.</p>
+
+<p>Era um bonito exemplar de um cancro ro&iacute;do pelos microbios
+de f&oacute;ra, de par&ccedil;aria com os microzimas de
+dentro&mdash;heran&ccedil;a do Paraizo. Isso que ali tresandava era um
+dos abcessos estercoraes que genealogicamente nos vieram do ventre
+primordial de Eva, nossa matriarca. De l&aacute; nos deriva&mdash;divina
+Iniquidade!&mdash;esta syphilisa&ccedil;&atilde;o das almas,
+transmissivel e incuravel a despeito dos v&aacute;rios <i>Robs</i>
+depurantes, <i>brevet d'invention</i>, das pharmacias do
+Vaticano.</p>
+
+<p>Em quanto ella dormia, fui a minha caza que pegava com o Aljube
+pelas trazeiras, e rebusquei no estafado colch&atilde;o de Gloria
+os vinte e cinco pintos, visto que ella os n&atilde;o tinha em si.
+L&aacute; estavam em uma bolsa de camur&ccedil;a. Fui com o
+dinheiro &aacute; regedoria, onde compuz o meu primeiro e inedito
+romance oral, nada auspicioso, contando &aacute; authoridade
+<span class="pagenum"><a name="pag59" id="pag59">[59]</a></span>inflexa que a preza estava innocente, porque o
+queixoso, antes de se embriagar, escond&ecirc;ra o dinheiro no
+colch&atilde;o, e n&atilde;o sabia depois onde o mett&ecirc;ra. O
+meu romance foi pateado, pelo sorriso do regedor, como
+inverosimil&mdash;desastre que depois me tem succedido com outros muitos
+romances, inspirados por intuitos menos louvaveis e mais
+verosimeis. Eu quizera salvar Gloria da imputa&ccedil;&atilde;o de
+ladra. Em todo caso, o funccionario, lavrado um auto que assignei
+como apresentante do roubo, embolsou o velho devasso, um negociante
+de fructa da Penajoia, que me queria dar um pinto de
+alvi&ccedil;aras, o qual eu regeitei com um pudor anachronico,
+arcadiano.</p>
+
+<p>Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das
+essencias das matas altas, vestidas do rozicl&eacute;r das auroras,
+da purpura vespertina dos crepusculos, de moitas de rosmaninhos, e
+resval&aacute;ra &aacute; sarg&ecirc;ta da rua Escura, fui como um
+archaico <i>Thesouro <span class="pagenum"><a name="pag60" id="pag60">[60]</a></span>de Meninos</i>, cahido no
+enxurdeiro e focinhado por aquelle cerdo da Penajoia; ou, melhor
+comparado, era o nenuphar solitario, a impolluta nymphea do pantano
+portuguez de 1845.</p>
+
+<p>Quando voltei ao Aljube estava ella muito atordoada, n'uma
+bestifica&ccedil;&atilde;o, a queixar-se de fome, porque n&atilde;o
+comia desde a vespera, e o alcool causticava-lhe as mucosas. Fui
+&aacute; estalagem da rua de S. Sebasti&atilde;o, ali ao p&eacute;,
+e mandei-lhe o jantar. Comeu pouco e n&atilde;o quiz vinho. Pediu
+genebra que lhe n&atilde;o dei. Ao anoitecer, chegou um
+quadrilheiro com a ordem da soltura. Acompanhei-a ao seu segundo
+andar. Ella olhava muito pasmada para o colch&atilde;o que ainda
+tinha parte dos intestinos de retra&ccedil;o de palha mo&iacute;da
+por fora da abertura; mas n&atilde;o fez alguma reflex&atilde;o em
+voz alta. Propuz-lhe a sahida para Lisboa no dia seguinte, com os
+meios que o meu amigo lhe liberalisava. Fallei-lhe no perd&atilde;o
+do pai, na sua regenera&ccedil;&atilde;o&mdash;fui tocante; e ella, com
+<span class="pagenum"><a name="pag61" id="pag61">[61]</a></span>uma indolencia idiota, e um escancarar de
+bocca:</p>
+
+<p>&mdash;Tanto se me d&aacute; como se me deu.</p>
+
+<br>
+
+<p>A mulher que, um anno antes, citava Lamartine, Victor Hugo e
+Sand estava assim estylista: Tanto se me d&aacute; como se me
+deu!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+
+<p>Como aquella senhora se despenhou vertiginosamente at&eacute;
+cahir no f&ocirc;jo immundo de uma devassid&atilde;o bestialmente
+suja &eacute; phenomeno que s&oacute; espanta quem n&atilde;o sabe
+logica, nem conheceu um exemplo. E quem n&atilde;o conhece trez
+exemplos que o dispensem de encadear os elos da logica?</p>
+
+<p>Eis-me na rhetorica!</p>
+
+<p>Eu n&atilde;o ignoro que esta especie de autopse em cadaver
+estampilhado com a infamia que n&atilde;o discutem pessoas que se
+prezam, &eacute; um <span class="pagenum"><a name="pag62" id="pag62">[62]</a></span>archaismo, uma subjectividade
+obsoleta. A escola naturalista estabelece que a comprehens&atilde;o
+publica est&aacute; por tanta maneira salitrada d'estas podridoens
+que n&atilde;o carece da catechese psycologica para perceber o
+desabamento.</p>
+
+<p>Pois se intendem como foi que aquelle corpo t&aacute;bido de D.
+Gloria chegou assim no enxurro ao ergastulo das ladras, queiram
+desculpar esse peda&ccedil;o de estylo quartenario, que ahi fica
+para admira&ccedil;&atilde;o dos archeologos, como se fosse um
+craneo dos <i>Paraderos</i> da Patagonia.</p>
+
+<p>Consintam, por&eacute;m, que eu me imagine, em 1845, na rua
+Escura, a interrogar o segredo da miseria humana,
+<span class="small-caps">Deus</span>, o <i>Motor Immovel</i>, assim chamado por
+Aristoteles. Como cahiu na esterqueira do aljube das ladras aquella
+pasta de estrume, o farrapo roixo das escareas de uma ulcera
+cancerada que, uma s&oacute; vez, Jesus, com os seus olhos
+abrasadores de fogo divino, poder&aacute; cauterisar no peito
+<span class="pagenum"><a name="pag63" id="pag63">[63]</a></span>da meretriz de Magdala? Para resgatar uma judia
+formosa e dissoluta das presas aveludadas da lascivia oriental, foi
+preciso um ente ultra-humano; e, para esse bom exito, fez-se mister
+que o Deus&mdash;mais conhecido entre as familias pelo <i>Padre
+Eterno</i>&mdash;baixasse da sua metaphysica immaterial ao anthropoide,
+encorporando-se n'um gentil nazareno; ali&aacute;s, talvez
+n&atilde;o fizesse nada&mdash;palpita-me. Um Deus extreme, categoria
+ideal incomprehensivel, sem mescla de homem, com uma
+organisa&ccedil;&atilde;o desconhecida aos biologos, n&atilde;o
+vingaria, com todo o seu <i>mise en sc&egrave;ne</i> de trovoens e
+relampagos, infiltrar contri&ccedil;&atilde;o no peito d'aquella
+mundana, calafetado pelos beijos dos tetrarcas, dos pretores e dos
+opulentos chatins da Assyria. &Eacute; bem notorio que os feios
+cornudos diabos do vicio, dispersos no ambiente, muito familiares
+com os costumes de planetas, cometas, meteoros, etc., e
+<i>blas&eacute;s</i> em trovoadas, n&atilde;o largam as suas
+victimas, ainda que a faisca el&eacute;ctrica de um <span class="pagenum"><a name="pag64" id="pag64">[64]</a></span>corisco lhes queime aquella parte do cavallo morto a que o
+anexim portuguez deita a cevada. O diabo tem a enorme for&ccedil;a
+que Deus lhe deu sobre a nossa fragilidade. N&oacute;s somos a
+pluminha volatil da pomba redemoinhando vertiginosamente nas
+convulsoens de uma tromba terrestre. Fez-se, por tanto, mister a
+humanidade gentilissima de Jesus, adoravel na sua vida casta e na
+sua indulgente misericordia com as peccadoras, para reduzir aquella
+&aacute; honestidade. Elle tinha escripto com o dedo na poeira da
+pra&ccedil;a a senten&ccedil;a absolutoria d'uma adultera. Alem
+d'isso, o valoroso galileu atagantara com umas disciplinas de
+esparto as costas da quasi sempre respeitavel classe commercial,
+que armara vitrines de modas e confec&ccedil;oens no templo. Seria
+ali que provavelmente a espaventosa Magdalena, com grandes uzuras,
+e talvez a gis, ou &aacute; custa de meiguices fraudulentas,
+compr&aacute;ra as suas pompas&mdash;a escarlata persica dos seus mantos
+ro&ccedil;agantes, as meadas <span class="pagenum"><a name="pag65" id="pag65">[65]</a></span>de p&eacute;rolas de
+que ennastrava as suas tran&ccedil;as loiras, e as essencias
+aromaticas com que ungira, a despeito de Judas, os p&eacute;s do
+mavioso acariciador das crean&ccedil;as innocentes, e juiz
+compadecido das filhas de Jerusalem iscadas da
+corrup&ccedil;&atilde;o romana.</p>
+
+<p>Creio na convers&atilde;o de Maria Magdalena; por&eacute;m a de
+sancta Maria Egypsiaca e das trez sanctas Margaridas, uma de
+Cortona, outra do <i>Fausto</i>, e a terceira de appellido
+<i>Gauthier</i>, essas s&atilde;o fallacias de agiologos e
+dramaturgos.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+
+<p>A filha do Cavalleiro de Christo, esposa do ex-almoxarife, foi
+para Lisboa, decentemente trajada, em beliche de 1.&ordf; classe.
+Carlos Ribeiro hypothec&aacute;ra talvez o seu soldo de seis mezes.
+Se me dessem a escolher, eu preferiria ter praticado este acto a
+ter feito a descoberta do <i>Anthropopithecus Ribeiroii</i>.
+
+<span class="pagenum"><a name="pag66" id="pag66">[66]</a></span><p class="centrado">*</p>
+
+<p>Em 1845, ao deixar o Porto e a chimica para ir jurar bandeiras
+na bohemia de Coimbra, despedi-me de Carlos Ribeiro e nunca mais o
+vi. Trinta e sete annos de separa&ccedil;&atilde;o absoluta como
+exordio da eternidade!</p>
+
+<p>Pois que as nossas pesquisas paleontologicas eram em mundos
+diversos, nunca mais nos encontramos. Olhavamos as cumiadas de
+montanhas em horisontes oppostos: elle&mdash;para o acume da Sciencia, a
+desvendar os segredos do genesis; eu&mdash;para a Arte, a subjectividade
+esteril. O archeologo, pelo preg&atilde;o dos mestres europeus,
+assumiu a eminencia; depois, morreu; mas est&aacute; na posse da
+immortalidade. Bem boa coisa. Em quanto eu, gra&ccedil;as &aacute;
+magnanima concess&atilde;o dos meus patricios lettrados, estive
+toda a vida, ao sop&eacute; <span class="pagenum"><a name="pag67" id="pag67">[67]</a></span> da montanha
+alcantilada, a descrever coisas feitas pessoas por essas terras
+quentes dos Brasis, onde ha fermenta&ccedil;oens, e avatar e os
+transformismos darwinistas como em nenhuma outra fauna.</p>
+
+<p>A este rude caboucar de um ter&ccedil;o de seculo, devo
+eu&mdash;&oacute; celestiaes bebedeiras de gloria!&mdash;a
+exulta&ccedil;&atilde;o atordoante de me ver, aqui ha dias,
+conceituado em certa gazeta da capital como <i>romancista
+conhecido</i>. Li-o em lettra redonda e resisti &aacute; apoplexia
+do jubilo. &laquo;Romancista&raquo; <i>tout court</i> era j&aacute;
+uma apotheose hyperbolica; por&eacute;m, de mais a mais
+&laquo;conhecido&raquo;, isso transcende os extasis de uma
+idolatria catholica, que me colloca na jerarchia litterata de S.
+Cypriano, de Sancto Athanazio e d'outros Sanctos Padres romancistas
+mystagogos maiores da marca. Mas, visto que assim o querem, este
+culto pag&atilde;o muito me penhora. Pois bem! Quando um plumitivo
+arrojado, sovando aos p&eacute;s os conspiradores do silencio,
+trepa at&eacute; n&atilde;o ser de <span class="pagenum"><a name="pag68" id="pag68">[68]</a></span>todo
+desconhecido no Chiado&mdash;5.&ordf; essencia de Babylonia com perfumes
+de Marrocos&mdash;esse petulante genio n&atilde;o transpor&aacute; as
+fronteiras da modestia, se almejar as doidas delicias de ouvir, um
+bello dia, nomear a sua pessoa conhecida no n&atilde;o menos
+conhecido Po&ccedil;o do Borratem.</p>
+
+<p>Pois &eacute; verdade: eu, como novellista, descobri mais
+anthropoides do que elle como geologo. Mas faz pena que eu
+n&atilde;o procurasse ensejo de pedir aos setenta annos do general
+as recorda&ccedil;oens do tenente.</p>
+
+<p>Quanto a Gloria que, por uma inconsciente zombaria de si mesma,
+ao atufar-se na noite caliginosa da miseria e da infamia anonyma,
+se cham&aacute;ra <i>Aurora</i>, se isto fosse um romance, pode ser
+que eu, n'esta idade provecta, ainda tivesse explosoens de fantasia
+rara para faz&ecirc;l-a morrer de alcoolismo, no catre do hospital,
+para onde a levaram esfragalhada, mordida pelos c&atilde;es vadios,
+apupada pelos gaiatos, sovada pelos pontap&eacute;s da
+guarda-municipal, <span class="pagenum"><a name="pag69" id="pag69">[69]</a></span>espumando gromos de sangue nos
+ultimos v&oacute;mitos da aguardente.</p>
+
+<p>Mas eu n&atilde;o sei como, nem quando ella morreu; nem sei se
+&eacute; viva e se est&aacute; na quinta dos seus avoengos
+restaurando com capil&eacute;s e agua de Lourdes o estomago e os
+erros da sua mocidade.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Este episodio da mocidade do douto general, se eu o contasse ha
+trinta annos, teria os recortes, os matizes e filigranas idealistas
+da poesia que ainda n'essa epoca de transi&ccedil;&atilde;o
+enfeitava as suas dissec&ccedil;oens nauzeabundas das paixoens
+animaes. Todo analysta da vida e da morte vestia umas luvas brancas
+quando expunha sobre a sua banca de trabalho uma pe&ccedil;a
+anatomica, um cora&ccedil;&atilde;o para descoser, e sahia com as
+luvas sem nodoa. Era isso um grande mal. O romantismo <span class="pagenum"><a name="pag70" id="pag70">[70]</a></span>poetico inflorava as putrefa&ccedil;oens com c&ocirc;res e
+subtilezas taes de p&eacute;talas e aromas que, em vez da
+repuls&atilde;o pelo podre, punha nas cabe&ccedil;as azoadas as
+vertigens dos abysmos. Essa perversa miss&atilde;o da Poesia
+soffreu o exterminio de todos os flagellos que est&atilde;o ao
+alcance desinfectante e hygienico da Sciencia. Pouquissimos e
+esporadicos s&atilde;o j&aacute; os poetas no termo genuino de
+&laquo;deturpadores da realidade&raquo;. Os que ainda rimam
+deteriorando a verdade experimental com embustes methaphysicos
+s&atilde;o uns atavismos que fazem lembrar, na sociedade actual, as
+aberra&ccedil;oens genesicas que remontam o homem &aacute; torpeza
+selvagem da Australia e &aacute; civilisa&ccedil;&atilde;o refinada
+da Roma de Juvenal, e da Grecia de Anacreonte. Essa chaga insanavel
+da besta humana esvurmar&aacute; sempre a sua pe&ccedil;onha
+j&aacute; em brochuras, j&aacute; nas partes da policia por
+ultrages &aacute; veneranda Moral&mdash;uma velhinha t&atilde;o
+tr&ocirc;pega que, assim que lhe embarram, c&aacute;e no asphalto,
+e entra a gritar pelo habil <span class="pagenum"><a name="pag71" id="pag71">[71]</a></span>Antunes e por outros
+habeis que n&atilde;o ganhariam a sua vida officialmente gloriosa,
+se a Moral fosse mais acatada e menos atacada. O leitor, se
+&eacute; uma especie de habil Antunes da vernaculidade, seja
+indulgente com este jogo de vocabulos que tambem &eacute; um ataque
+desmoralisado &aacute; lingua.</p>
+
+<p>Quanto ao poeta scientifico, genial, racionalista, concluida que
+seja a sua obra de sapa e a ultima batalha dada aos deuses, esse
+tem de desapparecer como inutil, e ridiculo como um archaismo.
+Ainda hontem, na Fran&ccedil;a, Eug&egrave;ne V&eacute;ron, no seu
+livro de <span class="small-caps">ESTHETICA</span>, escreveu que <i>tout le monde,
+sauf les idiots, est po&egrave;te</i>. A condicional <i>sauf</i>,
+poderia excluir muitos poetas nossos conhecidos; mas V&eacute;ron
+inverteu paralogicamente a excep&ccedil;&atilde;o em regra. Elle,
+se fosse um digno interprete da Sciencia implacavel, deveria ter
+escripto: <i>Ninguem &eacute; poeta, excepto os idiotas.</i></p>
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot372" id="foot372"></a><a href=
+"#tex2html1"><sup>1</sup></a> Biblioth&eacute;que des sciences contemporaines. <i>Le
+pr&eacute;historique antiquit&eacute; de l'homme</i>, par Gabriel
+de Mortillet. Paris, 1883, pag. 105.</p>
+
+<p><a name="foot182" id="foot182"></a><a href=
+"#tex2html2"><sup>2</sup></a> Obra citada, pag. 106.</p>
+
+<p><a name="foot373" id="foot373"></a><a href=
+"#tex2html3"><sup>3</sup></a> <i>La Sociologie</i>, pag. 44. Paris, 1880.</p>
+</div>
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+<pre>
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+End of the Project Gutenberg EBook of O General Carlos Ribeiro, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
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+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO ***
+
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+
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+
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+
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+
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+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
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