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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O General Carlos Ribeiro + Recordações da Mocidade + +Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: June 19, 2008 [EBook #25846] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + +O GENERAL + +CARLOS RIBEIRO + +(Recordações da mocidade) + +por + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + + + + +Porto +Livraria Civilisação +de +Eduardo Da Costa Santos--Editor + +MDCCCLXXXIV + + + + +O GENERAL CARLOS RIBEIRO + + + + +_A propriedade da primeira edição d'este livro pertence, no imperio do +Brasil, aos srs. Faro & Lino, proprietarios da Livraria Contemporanea, +moradores na rua do Ouvidor n.º 74--Rio de Janeiro._ + + + + +O GENERAL + +CARLOS RIBEIRO + +(Recordações da mocidade) + +por + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + + + + +Porto +Livraria Civilisação +de +Eduardo Da Costa Santos--Editor + +MDCCCLXXXIV + + + + +AO VISCONDE DE BENALCANFOR + + + + + _Meu querido Ricardo Guimarães._ + + + +_Recebe a dedicatoria d'este folheto como um cartão de despedida. Vou-me +embora._ + +_Naturalmente, escreverás dez linhas sinceras da minha necrologia. Dize +que fui teu amigo trinta e seis annos; e que, á medida que eu ia lendo +as tuas prosas progressivas e remoçadas, nunca pude imaginar que +tivesses envelhecido._ + +_Folgo de te não vêr ha muito tempo. Imagino que te deixo rapaz +engrinaldando os festoens das tuas primaveras de ha trinta e seis annos +para os offereceres aos nossos 50:000 leitores--um rico auditorio! +Continua tu a ministrar-lhes os teus cabazes de flores, visto que, por +impedimentos especiaes de regimen e outros estorvos complicados de +engrenagens financeiras, não podes deitar-lhes perolas._ + +_Adeus, Ricardo. A Chimica subterranea espera a minha alma. Vou +mineralisar-me. Levo apenas, como saudade, uma flecha de luz reflexa do +nosso passado, que me não deixa ir contente ao meu destino de azote, +amoniaco e outros gazes. É a nostalgia dos teus e dos meus folhetins de +1854. A proscripta ignominia do carroção do Torto--aquelle toiro de +Phalaris, puxado a vaccas--que então esbatemos para a treva medieval, em +outro paiz dar-nos-ia a celebridade immorredoura de Guesto Ansur, o +salvador authentico das cem donzellas lusitanas tributadas ás prezas +obscenas do khalifa. Tambem nós, visconde, salvamos centenas de +donzellas portuenses das orgias do execravel defuncto «Manoel José +d'Oliveira»--aquelle Mauregato coiraçado, com espaduas alcatroadas, +musculatura de um lenho rijo e inflexo como os braços da forca, e +articulaçoens de cobre azinhavado, onde eram contundidas as carnes +virginaes. Se não fomos nós, quem foi que remiu das contusões e +d'aquelle fôro ignobil as meninas portuenses, actualmente allodiaes e +intactas, salvo seja, nos seus quadris e nas suas espaduas? Pois tens +acaso noticia de que o Oliveira Martins, no seu livro sociologico das +«Raças humanas e civilização primitiva», nos encadeasse nos elos do +transformismo evolutivo do carroção em carro Ripert? Sabes que elle +consagrasse um capitulo áquelle dolmen de castanho--a ara celta do +sanguinario Irminsulf dos nossos ferocissimos avós? Nem uma palavra! +«Isto faz vontade de morrer!» como disse Alexandre Herculano, muito +menos offendido dos ingratos._ + +_Emfim, Ricardo, esta carta, sobre ser uma confirmação, quasi posthuma, +de fidelidade no affecto a um dos meus mais velhos amigos, deve ser-te +não menos agradavel como exemplo consolador de que as vidas mortificadas +tem uma compensação--é acabarem com um sorriso. N'este paiz, os +bastardos da Fortuna prostituta, se fizeram exame de instrucção +primaria, devem morrer com a serenidade de sabios. D'antes, havia a +immortalidade da alma e as recompensas eternas como esteio a infelizes +sub-lunares. Hoje em dia, aquelles dogmas, especie de _caput mortuum_, +não amparam muita gente; mas ha coisa melhor: é a eschola primaria que +levanta o discipulo ao nivel da felicidade do professor a tres tostões +por dia com dez mezes de atraso. Depois, morre-se de uma anazarca de +philosophia com uma ligeira complicação de fome. Assim se explica o +grande furor da instrucção nacional que tu, com uma seriedade estranha +aos nossos habitos, inspeccionas observantissimamente._ + +_Vai, fiscalisa, evangelisa. Dilata, quanto em ti couber, as celullas +conscientes dos hemispherios cerebraes do Alemtejo e Algarve. Dá-lhes um +elasterio grande, expansivo, na razão inversa das retracçoens da mucosa +do estomago, á qual não chega a tua alçada tonica. Lembra eruditamente +aos pedagogos que ninguem se exalça ás glorias do Thabor sem ser +arrastado pela Rua da Amargura. Dize-lhes, afinal, que a posteridade, +mediante as suas confrarias e os seus dobres a finados, lhes dará +brindes de missas geraes em dia de Fieis Defunctos--muito distinctos dos +defunctos infieis. E, pelo que me diz respeito, recommenda-me tambem aos +suffragios pios da Patria--esta querida mãe interessante, incapaz de +tirar de difficuldades um filho vivo: mas, depois, tira-lhe a alma do +purgatorio, sendo preciso._ + +_T. C.--S. Miguel de Seide. 6 de dezembro de 1883._ + + _C. Castello Branco._ + + + + + +Gabriel de Mortillet, professor de Anthropologia, publicou, n'este +corrente anno (1883), o seu livro _Le préhistorique antiquité de +l'homme_. Em mais de uma pagina o sabio professor menciona +respeitosamente Carlos Ribeiro, o geologo portuguez, que tão +brilhantemente fez as honras da casa lusitana aos congressistas +estrangeiros que estiveram aqui a discutir assumptos de anthropologia e +archeologia prehistorica. + +O general Carlos Ribeiro falleceu em 13 de novembro de 1882. A +satisfação de se vêr tão culminantemente inaltecido no livro europeu de +Mortillet não a gosou; e pena foi, porque seria essa a mais idealmente +querida das suas recompensas. Bem sabem que os premios, os galardões +substanciaes que n'este _reinosinho_ _de 90 leguas_, como lhe chamava +Garrett, auferem os sabios do quilate de Carlos Ribeiro são por tal modo +notorios e fallados que a gente, pelo commum, apenas tem noticia dos +taes sabios quando lhes vê o retrato posthumo no _Occidente_. + +Estes homens trabalham em segredo como os alchimistas. Na Academia Real +das Sciencias conversa-se, uma vez por outra, a respeito d'elles, com +uma grande admiração do tamanho dos bocejos. Para os socios velhos a +anthropologia apenas tem a caracteristica academica de ser palavra +grega, e como tal a reverenceiam; mas ha d'elles que professam, muito +pela rama, o _quantum satis_ d'umas sciencias abstruzas que assentam os +seus laboratorios para além das fronteiras da historia. É inexacto, +porém, que o insigne academico discursasse monologos paleontologicos +diante dos seus confrades pouco porosos e assás impermeaveis ás +infiltrações da sciencia nova. Não. Elle tinha socios no martyrio--o +Ferreira Lapa, o Thomaz de Carvalho, o Bocage, o Latino Coelho, o Corvo, +o Aguiar, os quaes, se não encontraram, como Carlos Ribeiro, vestigios +de um ser intelligente nas camadas terciarias, seriam muito capazes de o +achar, se o procurassem, o _Anthropopithecus_. + +Não se cuide que eu, com o selvagismo de um minhoto sem litteratura, +pretendo molestar os hereditarios joanêtes da Academia. Nego. Os meus +joanêtes de socio correspondente acham-se tambem compromettidos. +Considero a Academia Real uma arca da sapiencia humanal, de reserva para +a catastrophe de um diluvio de ignorancias eminentes. Respeito-a como um +banco das nossas riquezas espirituaes, banco sem transacções, com +accionistas todos de prenda, dando-se ares de estar sempre em +liquidação; mas não liquida. Se não vive muito ao sol ardente que +refunde o velho mundo, tem a vitalidade sombria do obituario. Quando um +socio vae continuar na vida eterna o somno das suas sessoens, os +confrades vivos gemem-lhe o elogio funebre, uma Nenia em periodos +redondos, _ore rotundo_, na prosa da fundação do estabelecimento; em +seguida, recolhem-se a brunir velhos adjectivos e a escovar algumas +metaphoras de fivellas e rabicho, para a necrologia de um futuro +confrade morto. De resto, muito mais modestos que justos juizes dos seus +productos, os academicos, quanto ao estipendio das suas lucubraçoens, +são mais abstemios que os anachoretas da Thebaida, e fazem livros mais +em conta do que Santo Antão e S. Pacomio faziam balaios. Elles desdenham +briosamente a cubiça gananciosa dos quarenta immortaes assalariados da +Academia franceza; mas prelibam com delicias a justiça posthuma, o +galardão do elogio funebre--esta rica moeda portugueza incorruptivel em +que não entra a liga do oiro vil. + +Tornando ao _Anthropopithecus_. Toda a gente sabe o que é, na +Prehistorica, o _Anthropopithecus_; mas eu não me dispenso de fallar +d'este sujeito que nos precedeu ha 240:000 annos, pouco mais ou menos. +Supponho que não serei desagradavel ás Senhoras menos lidas em +anthropologia, para as quaes os vocabulos _pliocene_ e _miocene_, o +_mammifero primata_, o _prognatismo_ são as jaças do limpido diamante +da sua erudição. + +Mortillet, com bastante logica e com lucidissima observação mais +convincente que a logica, affirma que o homem quartenario primitivo era +algum tanto differente do homem actual. O craneo do nosso antepassado +das cavernas differe consideravelmente do craneo do leitor. O illustre +professor de anthropologia é, portanto, obrigado a concluir que os +animaes intelligentes que petiscavam lume e lascavam pedras na época +terciaria não eram homens na accepção geologica e paleontologica da +palavra; mas sim animaes de outro genero, _precursores do homem_, na +escala dos seres. A este precursor, intermedio ao anthropoide conhecido +e ao homem actual, chamou Mortillet um _Anthropopithecus_. Claro é que +a especie humana conhece o avô, o _anthropoide_; mas não conhece o pai. +Orfan e posthuma, a desgraçada! + +Carlos Ribeiro havia descoberto nas margens do Tejo o silex lascado em +terrenos terciarios e quartenarios, accusando um trabalho intencional e +intelligente no animal precursor do homem. No Congresso Internacional de +Bruxelles (1872), duvidaram, mórmente o douto Bourgeois, que nos +exemplares expostos por Carlos Ribeiro houvesse trabalhos intencionaes +que provassem a existencia de um individuo capaz de petiscar lume e +lascar pedras na época terciaria. A favor do sabio portuguez apenas se +insurgiu a opinião auctorisada de mr. Franks. + +Na exposição internacional de Paris (1878) o nosso geologo apresentou os +exemplares, entre os quaes Mortillet apartou 22 com vestigios +irrefutaveis de trabalho intelligente. Cartailhac abundou no parecer do +seu collega e de outros especialistas. + +Afinal, Carlos Ribeiro triumphou desassombradamente quando os +congressistas na obra de Monte-Redondo, em Ota, confirmaram em novos +exemplares a sua opinião refutada em Bruxelles. Desde então, nos annaes +da anthropologia e prehistoria foi assignalada como irrefutavel a +existencia do Anthropopithecus em Portugal. Era o terceiro. Bourgeois +tinha explorado um em Thenay. Em honra do inventor, esse vestigio do +animal intelligente anterior ao homem chamou-se _Anthropopithecus +Bourgeoisii_. Mr. Rames achára o segundo em Cantal, o qual foi chamado +_Anthropopithecus Ramesii_. O de Portugal, descoberto por Carlos +Ribeiro, recebeu o glorioso nome _Anthropopithecus Ribeiroii_.[1] + +Uma observação caturra ao sabio Mortillet: Este genitivo alatinado e +ligeiramente macarronico, _Ribeiroii_, parece pertencer tambem á época +terciaria, á prehistorica da lingua de Plinio, o moço. _Ribeiroii_ em +genitivo indica o nominativo _Ribeiroius_. O extremado anthropologista +devera ter escripto _Anthropopithecus Riberii_, ou, mais euphonico, +_Ribeirensis_. Espero e ouso pedir aos futuros congressistas que +adoptem esta errata, afim de que o nome glorioso do nosso concidadão não +vá latinamente deturpado pelas edades fóra. + +Posto isto, a leitora naturalmente deseja saber que figura tinha o +_Anthropopithecus_. Os sabios não satisfazem cabalmente a curiosidade +de sua excellencia. Calculam apenas que elle era muito mais pequeno que +o homem, attendendo á pequenez das pedras que lascava para seu uso; mas, +a respeito do animal portuguez, a julgar pelo tamanho dos silex, +presume-se que elle anatomicamente fosse mais encorpado que os outros. +Isto é concludentissimo e consolativo, minhas senhoras. Mr. Abel +Hovelacque, outro sabio, presume que aquelle nosso pai pequeno seria do +tamanho dos actuaes macacos maiores.[2] Na verdade, os srs. +bispo de Coimbra, conselheiro Nazareth e varios tambores-mores accentuam +e affirmam a procedencia d'aquelle patriarcha mais avantajado no tamanho. + +Bastará de sciencia? Mas o que não posso, minha senhora, é esquival-a ao +desaire de proceder de macaco. Não lhe assevero que seja de chimpanzé, +de gorilha, de orango. A minha esvelta leitora é o typo aperfeiçoado de +todas estas familias. Segundo o genealogico Hoeckel, vossa excellencia +promana de um pitheco, derivado de um lemur, producto de um kanguru. É a +primeira vertebrada, e não direi primeira «mammifera» para evitar +equivocos. Em todo caso, exquisita arvore de geração, na verdade; mas, +se a minha delicadeza se dóe, sciencia obriga; porque, emfim, este +folheto é uma obra de vulgarisação, _à la portée des gens du monde_. +Pertendo ser mais util que agradavel ás senhoras modernamente +orientadas, as quaes, entre os flagicios acusticos dos seus pianos e o +moinho estupidamente burguez das suas maquinas de costura, abrem um +parenthesis á discreta biologia. + +E tenham muita fé, minhas senhoras; _porque as sciencias de +observação_, diz Letourneau na _Biologia_ mais avançada, _exigem +primeiramente de quem as quer cultivar um acto de fé_. Acto de fé! +Tambem a sciencia positiva reclama a sua _virtude theologal_. Pelos +modos, é precisa tanta fé para acreditar no Jehovah de Moisés e no +Messias de S. João Evangelista, como no «Pantheismo» de Espinosa, na +«Vontade» de Schopenhauer, e no «Inconsciente» de Von Hartmann. Por +tanto, façam suas excellencias um acto de fé como biologas, e outro acto +de caridade como catholicas, prestando-me a sua benevola attenção. + + * * * * * + +Carlos Ribeiro não andou toda a vida, como Boucher de Perthes, a +esgaravatar nas camadas do globo a certidão de idade do homem. Tambem +elle borboleteou á flôr da terra, com as azas polvilhadas dos matizes da +alegria juvenil, os seus devaneios. + +Entre os 15 e 16 annos, fingia eu que estudava chimica na Polytechnica +do Porto. Carlos Ribeiro, n'aquelle anno, 1844, já tenente, com 30 annos +de idade, completava mathematicas com sinceridade e aproveitamento. Era +de estatura mediana, refeito, de espaduas fortes, rosto redondo, +purpurino, com um pequeno bigode cortado na commissura dos labios muito +nacarinos. Grave nas fallas, muito delicado em conselhos e attençoens +com os cabulas; e sympathisava com a minha modesta ignorancia que elle, +confessando a actividade funccional do meu cerebro, ingenuamente +attribuia a eu não possuir compendio de chimica,--uma coisa bastante +necessaria a quem se matricula. Era o _Lassaigne_--parece-me ser este o +nome do sabio naturalista, que alguns condiscipulos generosos me +emprestavam á porta da Academia, quando se avistava o lente, um +ex-frade, Santa Clara, contemporaneo de Orfila, Berzelius e Liebig. Por +que mãos sagradas andava então a chimica portugueza! + +Aproveito a occasião para agradecer aos que ainda vivem, se algum vive, +a gentileza do seu emprestimo, para que eu, em honra do frade, sahisse +crystallinamente e triumphantemente do meu acto de chimica sem a macula +de um R. + + +Já divulguei em um livro este caso á Europa culta. + + * * * * * + +Agora, vou contar outro caso mais trovadorêsco--um episodio da vida +amorosa do defuncto anthropologista, o general Carlos Ribeiro. + + +Por aquelle tempo, uma senhora esmeradamente educada no gosto da época, +e com uma grande distincção de formosura, abandonára em Lisboa o esposo, +e refugiára-se no Porto com um seductor de condição baixa e bens de +fortuna parallelos. Este casal anticanonico habitava uma casinhola +barata na rua da Sovella, paredes-meias do quarto escolastico de Carlos +Ribeiro. O tenente, quando regressava da aula, via na janella de +peitoril, uma vez por outra, a sua mysteriosa e lepida visinha encaral-o +com uma fixidez perturbadora como um envoltorio de fluidos galvanicos. + +Certa estanqueira estabelecida na loja da casa onde se aninharam +aquelles amores clandestinos, informou-o da má vida intima dos +adventicios. Havia desavenças todas as noites, gritaria, choradeira, e +ás vezes repelloens reciprocos, a ponto d'ella cahir no sobrado. D'estas +altercaçoens nocturnas, a informadora podéra liquidar que o homem se +chamava _Bramão_, ella _Gloria_, e que tinha marido na capital. Entre +os epithetos que elle lhe desfechava, o mais accentuado e repetido era +_bebeda, grandissima bebeda_; e a estanqueira justificava a +qualificação, contando que a menina Gloria, assim que o Bramão sahia, +mandava ao armazem da Companhia fronteiro duas garrafas vasias que se +trocavam por garrafas lacradas de 800 reis.--Acho que se emborracham +ambos de dois!--conjecturava a mulher dos tabacos, offerecendo a sua +opinião indecisa ao reflexivo freguez dos cigarros. + + +Uma noite, foi tamanha a gritaria, que a patrulha bateu á porta da +estanqueira perguntando que gritos eram aquelles no primeiro andar. A +mulher, na sua impaciencia de estrenoitada, respondeu azedamente que era +uma creatura com a sua pinga; que fossem os soldados á sua vida, porque +não havia remedio a dar-lhe á carraspana senão cozel-a; e que cada qual +em sua casa podia embebedar-se como quizesse e quando quizesse. Se +percebiam? perguntava colerica. E a patrulha: que sim, que a cozesse +ella e mais a visinha. E a estanqueira:--Malandros! + +Eram então triviaes no Porto estas scenas do Baixo-Imperio, dialogadas +entre o pequeno commercio e os pretorianos municipaes--os _janizaros_ +do Costa Cabral. N'aquelle tempo, tudo que era tropa chamava-se +_pretorianos_ e _janizaros_--uns pobres diabos a 30 reis por dia e +rancho de couve gallega com feijão fradinho. Depois é que expluiu o +caceteiro, pago pelos edis, a 480 reis diarios, e mais, consoante a +pressão exercida nos ossos parietaes do _patulea_. + +O tenente estava á janella a escutar o alarido, sentia uma compaixão +infinita por aquella formosa senhora; e scismava se a embriaguez seria +refugio de grandes tribulaçoens n'aquella alma que se atirava a um +charco de vinho para apagar a luz do intendimento e da memoria--perturbar +a vida afflictiva da consciencia escorreita. + +Na manhan seguinte a esta noite tempestuosa, Bramão sahiu e não voltou +mais. + +A estanqueira soube d'ahi a dias da criada de Gloria que a sua ama tinha +vendido a unica pulseira, porque o pelintra do patrão lhe não deixára +vintém; e ajuntou que ella pouco mais tinha que vender, a não ser os +vestidinhos, porque já tinha derretido as joias para sustentar o vicio +do amante, que era jogador e perdia sempre. + +A criada, aquecida pelo atríto das revelaçoens, confessou que sua ama +tomava a piella todas as tardes, quando a não apanhava tambem todas as +manhans, bemdito seja o Senhor! Que o patrão vinha de fóra levado de +todos os diabos, e entrava ás testilhas com ella, palavra puxa palavra, +e iam ás do cabo, pancada de criar bicho, e batiam de meias. A senhora, +coitadinha, antes de se emborrachar, chorava lagrimas como punhos, a +contar-lhe a sua vida. Que era filha de gente grande, e casára, contra +vontade sua, com um almofariz da casa real. A estanqueira não +comprehendia o casamento com o almofariz. Carlos Ribeiro emendou para +_almoxarife_, explicando o officio com a sua costumada bondade +illustradora. + +Como quer que fosse, a infeliz senhora embriagava-se depois que chorava +lucidamente. Era isso mesmo o que o tenente havia conjecturado com a sua +romantica intuição de 1844. + +Da piedade não é trivial a passagem para o amor; mas, se á commoção do +amor precede a do compadecimento, o caso de Carlos Ribeiro é vulgar. +Escreveu o meu amigo a D. Gloria offerecendo-lhe os seus serviços +desinteresseiros n'uma terra em que sua excellencia era hospeda, e não +tinha talvez relaçoens. A visinha respondeu-lhe com uma caligraphia +ingleza, e uma grammatica impenetravel á unha da critica mais +meticulosa. Em meio da sua prosa florida, alinhava-se o alexandrino de +Victor Hugo: + + Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe... + +O mathematico ficou mais deslumbrado com a contextura da carta do que +ficaria trinta annos depois quando achou em Ota a garantia da sua +immortalidade como homem de sciencia--o Anthropopithecus. + + +A correspondencia travou-se em phrases recheadas de versos de Hugo e +Lamartine, até que o tenente entrou sósinho, sem os poetas auxiliares, e +sómente com a sua prosa commovida, na alcova da visinha. Era uma alcova +sem pretençoens bysantinas, nem cosmeticos caros; apenas algum +_Patchouli_ nacional, e agua de Colonia, em parodia, fabricada por um +pseudo Farina, e muito almiscar, perfumaria dos gyneceus infestos á +Moral, perdição dos caixeiros de risca ao meio, e grandes absorventes de +licor de Rosa e de Van Switen. Era, em summa, a alcova atrapalhada de +uma _touriste_ que vai vagamundeando a sua vida escoteiramente, sem +reparar se ha estofos, estatuetas, bronzes e Sevres e pavilhão de +ondulaçoens setinosas, com lampejos crús de metaes esmaltados, no leito +das reles estalagens onde pernoita. + +Elle sentiu na ante-camara o fartum acidulado da baga alcoolisada dos +vinhos crassos da Companhia: era o perfume de uma adega do Roncão. Foi +uma nuvem de máos presagios no azul da sua felicidade aquelle cheiro. + +Entravam a dialogar na temperatura madrigalesca do ultimo romance de +Arlincourt, quando ella mandou servir vinho do Porto de oito tostoens +com pasteis de Santa Clara e _queques_ da Palaia. O hospede +sacrificou-se cortezmente a algumas libaçoens, pequenos goles +intercalados de perguntas e respostas, deixando o calice opalino em +meio. Ella, entretanto, n'uma exaltação theatral, defendia a these do +adulterio, com reminiscencias peoradas da _Lelia_ de George Sand; e, +como inconsciamente, na abstracção enthusiasta dos largos gestos, ia +engatando uns calices nos outros, em rapida viagem para a região do +Falstaff e da Maria Parda de Gil Vicente. Parecia mesmo uma actriz +franceza _des Variétés_, com uma forte diáthese de bambochata, que +viesse de cear no Café Tortoni com _champagne frappé_, na roda reinadia +de Roger de Bauvoir e Roqueplan. Carlos, quando a viu em afinação mais +que suspeita, sentiu borbulhar-lhe o pranto da ingenuidade; porque ella, +carminada pela ebulição do sangue, esbandalhada, e escandecida pelo que +havia sincero e logico na sua declamação, relampejava uns claroens +electricos que pegariam fogo em carne menos combustivel que a do +artilheiro; porém, a elle, faziam-no chorar as lagrimas entranhadas que +os olhos téem pejo de mostrar, e, reprezadas na alma, chegam a cegal-a +como um collyrio de acido sulphurico concentrado. Figura-se-me que estou +a escrever isto em 1844! Que imagens! que botica! + +E a dama, n'uma absorpção de visitada pelo _ecce Deus_, com o iris +acceso e a pupilla retrahida pela atropina da Companhia, não despegava +do fio das ideias, torrencialmente. Tregeitos exquisitos e sacudidos da +escóla melo-dramatica de Emile Doux. Fazia vibraçoens gloticas, cavas, +gutturaes de quem recita threnos. Arredondava phrases repolhudas, +pomposas, de dramalhão, respigadas nos _Dous Renegados_ e no _Captivo +de Fez_. Por baixo do vinho já estava o absintho do odio ao pai que a +violentára a cazar-se; mas a losna não lhe calcinava os nervos sem a +combustão inflammatoria dos extra-finos, muito sêccos, do Alto-Douro. + +Acidulada sob a influencia das suas virginaes reminiscencias de menina e +môça, etherisava-se. Ora, é regra corrente que o alcool, submettido aos +acidos, transforma-se em ether. Insignes pharmaceuticos o asseveram. +Todas as commoçoens internas são chimica. Isto, que d'antes se chamava +alma, é uma retorta de cristal da Bohemia em uns sujeitos, e de barro de +Estremoz em outros sujeitos. O grito das paixoens que desfibram e matam +é o estampido da retorta que rebenta. Agora, a differença: se a retorta +é de crystal, os estilhaços, embora embaciados de lagrimas, tem ainda +rutilaçoens que encantam a Arte. E, se a retorta é de barro, os cacos +abeberados nas lagrimas repellem a vista porque parecem lôdo. Edgard +Pöe, Alfred de Musset e Baudelaire, envenenados pelo alcool, são hostias +immoladas a um meio social responsavel--são retortas de crystal feitas +pedaços pela paixão. O Sena cospe ás margens, cada mez, dezenas de +suicidas que apenas tem vinte e quatro horas de nojosa exposição na +Morgue. São os cacos da retorta de barro dissolvidos em lama. + +Quanto a Gloria, para ser uma consummada tragica na voz e no gesto, +bastara-lhe uma regra que não se acha bastante inculcada nas prelecçoens +do Conservatorio Real das Artes scenicas, isto é: carregar-lhe no copo. + + * * * * * + +Ácerca d'este elixir vitalisador das citadas Artes scenicas--necessidade +physiologica (o copo, intenda-se, e não as _Artes_) do sangue luzitano +de origem celtibera--não sei quaes sejam as cogitaçoens actuaes do meu +Luiz Augusto Palmeirim, egregio director do Conservatorio Real. +Cumpre-lhe, todavia, estar precavido contra as anemias e opilaçoens +(opilaçoens, no sentido casto de _chloroses_) d'aquelle aviario de +roussinoes e outros passaros que regorgeiam em perpetuo abril, estofando +os seus ninhos com o pollen das flores.--_Pollen das flores_, notem a +figura que é rara n'estes tempos hostis á rhetorica. Ora pois. Que +aquelle seminario das Artes scenicas borborinhe sonoroso de +interjeiçoens tremicullosas como calefrios, arranques tragicos, +morbidezas de bemóes e sustenidos; e que, depois de um purgatorio de +rabecas e pianos,--supplicio indispensavel--rutilem, ao diante, pelas +trapeiras das aguas-furtadas do Bairro-alto as constellaçoens sidereas +das Sarah, das Nilson, das Patti, dos Rubeinstein, n'este paiz de +_Manoel Mendes Enchundia_, da _Canna-verde_, do _Passarinho +trigueiro_ e do _Fado choradinho_. Notem que o dr. Letourneau escreve +que uma ponta de vinolencia é a poesia da digestão[3]; e +tambem affirma que onde quer que se usa a bebedeira, existe uma +litteratura bachante (pag. 45). A regra em Portugal falha praticamente. +Temos a bebedeira sem a litteratura, talvez por falta de editores pouco +serios. + + * * * * * + +D. Gloria, não obstante, seria ridicula hoje em dia que a sciencia +glacial esfriou a admiração pelas mulheres de talento menos methodico, +desvairado por exorbitancias Vadias. + +N'aquelle tempo as senhoras que recendiam essencias de macassar, e +tinham sido iniciadas nas assembleias pelos parlapatoens da Restauração, +eram assim. Reinavam os _parvenus_, uns devassos broncos, algum tanto +desbastados pelo esmeril da emigração, ou sahidos das cadeias com uma +grande fome de mundo, de diabo e de carne, os trez amigos figadaes do +corpo, como explica methaphysicamente a _Cartilha da doutrina_ para uso +dos collegios de meninas. Elles tinham as fossas nazaes virgens do nitro +das granadas do Porto; mas eram destemidos fundibularios de patacos +regeitados á sege do sacrificado duque de Bragança que lhes dera patria +sem os inconvenientes da forca, e dilacerára o coração nos sobresaltos +das batalhas. Eram os bagageiros do espolio opimo com todos os +caracteres ethnicos da siganagem portugueza. Compravam conventos com +titulos azues e rebatiam a 17 p. c. os arriscados e sacratissimos +emprestimos aos _Regeneradores_ de 20 e aos _pallikares_ empennachados +da _Belfastada_. + +Os _parvenus_ inculcavam como norma da perfeição feminil a _Corinna_ +de madama de Stäel, a mesma madama em pessoa a fazer aos psycologos +philosophias, e coisas mais praticas a Benjamin Constant, como a +Récamier ao velho lubrico que fazia, da sua parte, o _Genio do +Christianismo_. Todas e todos muito devassos e eloquentes, boas e bons +para começarem os seus romancinhos ao fogão e concluil-os nas alcôvas. +Foi este o ideal da mulher que os emigrados trouxeram dos _boulevards_ +e dos hoteis _garnis_ a 2 fr. e 50 cent., com uma de-mão do verniz de +Mabille. + +Lia-se então copiosamente a obra emocional de Paul de Kock; e os +hierophantas do reino restaurado folheavam com mão diurna e nocturna a +_Republica_ de Platão, onde o grande legislador, em pleno luxo de +policiamento hellenico, preceituava que as mulheres passassem de mão em +mão. (Livro V.) Esfervilhavam por isso as Xantipas com que os Socrates +altruistas obsequiavam os Alcibiades, e floreciam as Marcias que os +virtuosos maridos Catoens emprestavam aos Hortensios. Assim como nas +lojas maçonicas muitos dos triumphadores de 34--um grupo sahido da +barbaria da idade-media--se chamavam _Catoens_ e _Socrates_, por igual +theor, no sanctuario da familia, usavam os mesmos habitos greco-romanos. +Foi por isso que, em 37, o apocalyptico autor da _Voz do Propheta_ +denominou Lisboa uma _caverna de vicios e desenfreamentos_. + +Uma franceza, amante varia de varios francezes, mad. Pauline de +Flaugergues, dava o tom em Lisboa, por esse tempo, em versos e frescor +de cutis polvilhada de bysmutho. Rodeavam-na os areopagitas do plectro e +da sintaxe, a mestrança da versejadura--Castilho, Garrett e os outros da +constellação. Esta bohemia trovista foi dada como typo de mulher +emancipada pelo talento. Teve ovaçoens das lyras primaciaes. Damas da +côrte, creadas em novenas e lausperennes, atiraram as camaldulas ás +ortigas e pegaram de fazer muitos gallicismos grammaticaes e pessoaes. +Viveu-se uma rasgada bacchanal á franceza, em que tomaram o seu quinhão +_pro rata_ as mulheres dos marquezes, as filhas dos algibebes e as +esposas dos ex-almoxarifes. É como foi. A D. Gloria era um fructo +bichoso, sorvado, de arvore que não sevou a raiz em terreno alheio mal +adubado. Era cedo ainda. Ás portuguezas faltava-lhes o _savoir-vivre_, +para se aguentarem corrompidas e elegantes. _Jam novus rerum nascitur +ordo._ Isto hoje está melhor--está como deve ser. A mulher cae; mas +sabe cahir n'este palco; e não podia ser assim ha quarenta annos. _Go +ahead!_ + +O certo é que aquella dama foi a primeira paixão de Carlos--a primeira +que é tão forte e pouco menos tola que a setima e a vigesima nona. + + * * * * * + +Trez mezes volvidos, Ribeiro tinha perdido a alegria, o affecto ao +trabalho, a convicção da sua immaculada probidade, e já luctava com as +duras hostilidades da pobreza. Quanto a Gloria, cada dia mais formosa, +mais fascinadora e mais crapulosa. Elle chegou a pedir-lhe em joelhos e +de mãos erguidas que se abstivesse de beber tão destemperadamente; e +ella, no lucido uso das suas faculdades dirigentes, respondeu que não +podia,--que o embriagar-se era o seu suave e doce suicidio, porque +queria morrer. + + +Carlos obtivera informações de Lisboa. O pai de Gloria ainda vivia. Era +um bom proprietario rural na comarca de Torres Vedras, tinha sido criado +particular do snr. D. João VI, cazára com uma retreta da snr.ª D. +Carlota Joaquina, e tinha o habito de Christo. O marido era mentecapto e +velho. Perdera a rasão com a queda do snr. D. Miguel e do seu +almoxarifado no Alfeite. Quanto a Bramão, um industrioso, vivia de +apostas ao bilhar no Marrare das 7 portas e era casado com uma peccadora +acirrante, uma trigueira de bigode que se desforrava usurariamente das +perfidias do marido, sendo perfida para todos os amantes. + +Meditava Carlos em commiserar o velho cavalleiro de Christo, na +esperança de regenerar a dignidade de Gloria com a convivencia do pai +venerando e das irmans honestas. O velho respondera a quem lhe pediu +compaixão para a filha que a julgava morta, e morta devia estar para +elle; mas que não a repulsaria do seu talher, porque a desgraçada tinha +a seu favor como desculpa o haver casado constrangida. + +Quando o tenente, triste pela deixar e alegre por salval-a, lhe +communicou a resposta do pai, ella improperou-lhe a covardia de a não +desenganar, se estava farto de atural-a, e reprovou a missão caritativa +de a reconciliar com a familia, não tendo procuração para isso. Depois, +trocaram-se palavras desabridas. + + * * * * * + +No dia seguinte, D. Gloria deixou a casinha da rua da Sovella e foi para +o Bom Jesus do Monte com um dos leões d'aquelle tempo em que a cidade da +Virgem parecia ser da Venus Callipygia--uma leoneira da Hircania, onde +as epidermes roliças das donzellas de Cedofeita e as ostras da Aguia +d'Ouro eram o pastío nocturno d'aquelles dragoens, producto da +concubinagem do romantico burro de Buridan com a classica burra de +Balaão. D'esta progenie, que herdára da mãe o dom da palavra, e do pai +um amor menos indeciso ás duas maquias, evolucionou-se o _crevé_, o +estoiradinho, um phenomeno embryologico, que encaracola _bellezas_ na +testa exigua de microcephalo, incalamistra o bigode, e tem do D. Juan de +Maraña simplesmente a guitarra com que perverte familias espanholas +vigiadas pela policia medica. De resto e _au fond_, os estoiradinhos +são grupos de moleculas, agregaçoens granulosas, saturadas de marisco, +de cerveja barata da Baviera e nicotina, justificando a formula +excentrica e um tanto paradoxal de Bacon: _o vacuo de mistura com o +solido_. Protegidos pela lei geral do atomismo, agitam-se no turbilhão +universal da materia inconsciente: são «acasos da concorrencia vital», +como diria Darwin; mas não confundir _concorrencia_ com _selecção +natural_; que a natureza é mais logica e demorada nos seus +transformismos. Pela rapidez com que do _leão_ pujante de 1840 se +engendrou o _catita_ escrophuloso de 1880, é claro que a _selecção_ +foi _artificial_, estabalhoadamente, grande celeridade. A este +respeito, os curiosos orientem-se em Topinard, L'ANTROPOLOGIE, +_passim_. Cumpre notar que, no arranjo organico do estoiradinho, +collaboram 65 elementos conhecidos, diz a Sciencia. 65! que +prodigalidade! A não ser a Sciencia, quem diria que a Natureza para +construir um cretino gastou quasi cinco duzias e meia de elementos--os +mesmos que despendeu para fazer o mar, o espaço, o mundo sideral, os +cyprestaes balsamicos do Libano e os fedores humanos da Baixa; o Caneiro +de Alcantara onde os microbios fazem as suas regatas recreativamente, e +o Amazonas, a banheira do sol, espraiando-se em escamas refulgentes; o +Garrett que faiscava, como um cerebro de diamantes facetados, as +_Viagens na minha terra_, e o cerebro do outro Garrett que supurava, +como um tumor apostemado, as _Viagens a Leixões_! Com as ultimas +palavras da biologia é que a Sciencia regeita o dogma da alma, e nos +convence de que o estoiradinho, pelo que respeita á porção cinzenta do +cerebro, deixa de ser o rei da creação para retroceder, por atavismo e +sem hyperbole, á familia dos vibrioens, um quasi infusorio, e pouco mais +que proto-organismo, irresponsavel pelos seus flagrantes delictos de +brutalidade. + +Em obsequio a estes irresponsaveis é que o bispo sr. D. Antonio Ayres de +Gouvêa tanto e valorosamente impugnou a pena de morte. Todavia, o seu +victorioso repto á forca, mallogrado em Beccaria, em Lamartine e V. +Hugo, seria socialmente mais completo, se s. ex.ª tambem conseguisse +que, em vez do _menu_ pouco peitoral da strychnina municipalense, se +servissem _côtelettes de veau sauté aux truffes_ aos magros cães +vadios, inoffensivos na sua fome e na sua sêde. _Struggle for life._ +Sei essa trivialidade erudita; mas a lucta pela existencia não authorisa +que os vereadores sejam carrascos dos cães, em quanto o equilibrio dos +negocios publicos e o pagamento em dia dos 6 por cento das inscripções +lhes permittir comerem o boi. Ora--digamol-o de passagem--o boi era um +Deus entre os egypcios, o divino Apis, e entre nós é o manso e pingue +holocausto de uma bestialidade carnivora; porque nós, os europeus, +comemos os Deuses alheios em bifes, e os proprios em hostias. Sacrilega +pouca-vergonha! + + * * * * * + +Voltando ao drama e ás palpitações do leitor por um pouco suspensas, a +estanqueira contou depois que, emquanto o tenente estava na mathematica +fazendo garatujas na lousa, um esbelto rapaz, todo de preto, com um +cacetete, pantalonas á _hussard_, fazia tilintar o tinido das suas +esporas amarellas no pavimento de D. Gloria. Trabalhosa e fragil senhora! + + * * * * * + +Eu morava na rua Escura, no bairro mais pobre e lamacento do Porto, um +bêcco fetido de coirama surrada, em uma esquina que olha para a viella +dos Pellámes. Eramos dois os estudantes que occupavamos o terceiro andar +com uma retorcida varanda de páo, esmadrigada, n'um escalabro de +incendio, debruçada em ameaças sobre os transeuntes como a varanda de +Damocles, muito mais perigosa que a lendaria espada, cujo gume deve +estar muito rombo e puido da esgrima dos eruditos em Damocles. No +primeiro andar morava a proprietaria, uma adéla que nos cosinhava certas +iguarias dignas de ser expostas ao sêvo das aves de rapina no peitoril +d'aquella varanda. Quanto a ratos, era uma succursal de Montfaucon. O +segundo andar tinha escriptos desde muito, e não havia homem +desesperado, cançado da vida, que ousasse tentar o suicidio n'aquellas +ruinas minacissimas. Quem procurava casa, olhava com terror, e seguia o +seu caminho, como se ali morassem os leprosos de Xavier de Maistre. + +Disse-me a patrôa, uma noite, alegremente, que tinha alugado o segundo +andar por deseseis tostoens mensaes a uma creatura, que lhe parecia +mulher de pouco mais ou menos; e acrescentou com uma sensata +indulgencia: «Seja ella o diabo que for, o que eu quero é que me pague +adiantado; senão, minha amiguinha, viella, viella!» e apontava para a +rua com um gesto de braço e dedo perfurante como uma estocada. + +Com effeito, a devoluta varanda do segundo andar, tão destroçada como a +minha, aguardava uma Julieta adequada competentemente aos Romeus do +terceiro. + +A inquilina entrou e pagou. + +Quando eu recolhia da chimica e subia ao meu terceiro andar fazendo +gemer os degráos, olhei curiosamente para a saleta do segundo, e conheci +a Gloria da rua da Sovella. Estava muito acabada, olheiras fundas, os +angulos faciaes descarnados, os beiços roixos, calcinados pela combustão +dos licores. Na epiderme transparente já não lhe revia o rubor setineo +do sangue colorante. Sobre as saliencias malares, manchas rubras que +poderiam ser de vermelhão ordinario ou da febre ethica; os tegumentos +pareciam emplastados por uma camada de velha cêra amarellada. As +cordoveias do pescoço, muito esbagachado, com umas saliencias nodosas +como cordão de S. Francisco. + +Havia um anno que ella tinha deixado Carlos Ribeiro immerso em uma +grande commiseração, disia elle; mas eu sabia que era maior a saudade +que o dó. + +Procurei o meu amigo que havia concluido o curso e entrára na fileira. +Estava fóra do Porto em serviço. Melhor foi assim, porque a noticia que +eu lhe levava poderia magoal-o ou fazêl-o descer até ao vilipendio de a +visitar. + +Ao fim de quinze dias, disse-me a patroa que a _Aurora_--nome de guerra +que se dera D. Gloria--uma noite por outra, recolhia comsigo um +engajado. Fallava sempre com figuras decentinhas a minha patrôa. +«Engajado» era decente. Diziam então as senhoras nos bailes da +Assemblea: «Já estou engajada para a terceira polka». + +Quanto á natureza dos engajados, disse-me que eram velhos. Conhecêra o +Rapozeira, um d'oculos. que tinha loja de batinas e galoens para +esquifes, na rua Chan: outro, era amanuense da camara do bispo--ambos +muito borrachoens. E promettia pôl-a no olho da rua, se ella continuasse +a fazer-lhe troça, por noite velha, em cima da cabeça, dansando o +Sarambeque. + +O Sarambeque era da natureza bordelenga do _Hulalá_, um bailado +dissoluto, priapêsco das Ilhas Hawai. Eu nunca pude ver a assemblea da +visinha, nem o cavalheiro bestial ajoujado por tal dama ás suas +_soirées_ dansantes. Quem quer que fosse, dava, no repicado sapateio da +sua furia endiabrada de selvagem de Ceylão, oscillaçoens de terramoto ao +predio. Muitas vezes, reciei que, _verbi gratia_, desabada aquella casa +filial das orgias de Sardanapalo, eu fosse o candido bode expiatorio +sacrificado no entulho da derrocada ás iras dos deuses e da senhoria. +Depois, noite alta, havia comedorias--um aziumado de azeite rancido e +alhos, estrugidos emeticos, emanaçoens sulphydricas d'aquellas almas +latrinarias. Lamento, já agora, não ter então colhido notas para hoje me +inculcar um Petronio testemunhal e authentico d'essas ceias de +Trimalcião com iscas de figado e o rascante de Cabeceiras de Basto. + + * * * * * + +Um dia, de madrugada, acordou-me um grande berreiro nas escadas. O meu +companheiro, o bom Machado de Carção, um medico que morreu ha muitos +annos, foi examinar de perto a desordem, e contou-me que um velhote +apopletico, com ares de jarrêta provinciano, estava gritando que Aurora +lhe roubara vinte e cinco pintos da algibeira do collête, depois de o +ter embebedado com genebra. + +O roubado sahira em berros para a rua, e os calcêtas, que trabalhavam no +lagêdo arrastando os grilhoens, assobiaram-no. Aurora dava gritos de +innocente contra a calumnia, e a proprietaria intimava-lhe ordem de +despejo immediato. D'ahi a pouco, a ladra era preza pelo cabo de +policia, conduzida á regedoria e de lá para o Aljube. + +Fui para a chimica do eggresso e encontrei o tenente Ribeiro. Contei-lhe +o caso que elle me ouviu com os olhos marejados. Depois, pediu-me que +commettesse o delicto infando da vigesima quarta falta na aula, e o +ajudasse a salvar, se possivel fosse, aquella enorme desgraçada, visto +que elle não queria figurar pessoalmente. Mandou-me ao regedor; que +soubesse onde estava o roubado, e lhe restituisse os 12$000 reis para +elle não ser parte á preza. Que lhe referisse eu a sinistra vida de +Gloria para que elle, compadecido, a não mandasse ao tribunal. E que, +depois, fosse eu ao Aljube, e lhe dissesse que, se ella embarcasse no +primeiro vapor para Lisboa a procurar o amparo de seu pai, havia quem +lhe pagasse as despezas. + +Fui ao Aljube ás 3 da tarde. Lá dentro era noite. Gloria estava +innovelada a dormir sobre uma enxerga a um canto. Ella tinha sahido, +quinze dias antes, de uma enfermaria do hospital de Santo Antonio, +quando a sua visinha, mais feliz, era levada, ainda morna, em uma +padiola para o theatro anatomico. A devassidão emparceirada com a morte +mandaram aquelle esqualido presente ao escalpello da sciencia. Ah! +quantas curvas de musculatura roidas pelo hydrargiro eu retalhei para +hoje poder, como testemunha de vista, jurar que o coração é um musculo ôco! + +No soalho em que dormia Gloria, parecia que tinha choviscado lama. A +enxerga era de uma preza, cujo cão de agua, gordo e muito sujo, dormia +aconchegado dos quadris da outra. A dona do cão tinha uma cara cheia de +enygmas, acidentada de periosteos cariados, exfoliados, com barbas. +Seria uma riqueza craneologica para um Haeckel ou Topinard; mas para mim +era simplesmente uma asneira paradoxal em anatomia comparada. Nunca me +esqueceu. Lembro-me sempre da figura indelevel d'aquella mulher, quando +nego a blasphema hypothese do Deus de Moisés e do sr. padre Grainha, um +Deus que fez á sua imagem e semelhança e--o que mais é--á sua custa, um +typo humano com o perfil divino d'aquelle feitio. Contou-me que estava +ali por ter dado uns tabefes n'uma regatona de castanhas cosidas que lhe +deitava o raio do olho ao marido, o João do Corgo, um calceta que andava +a cumprir sentença de toda a vida, innocente, por ter ajudado a matar um +padre. Innocente! Como ella qualificava a iniquidade da justiça social +com seu marido que matára em collaboração um levita! Queria talvez que o +premiassem como quem mata um lobo. + +Com referencia á sua companheira, tambem a julgava innocentissima. +Contou-me que se enchera de aguardente até cahir; e logo á entrada +protestára que se havia de enforcar nas grades. Acrescentou, n'uma +irritação de quem tem soffrido injustiças exulcerantes, que a pobre da +creatura não roubára nada; que todo o dinheiro que tinha eram seis +vintens em prata que comprára d'aguardente. + +Entretanto, Gloria ressonava. + +Era um bonito exemplar de um cancro roído pelos microbios de fóra, de +parçaria com os microzimas de dentro--herança do Paraizo. Isso que ali +tresandava era um dos abcessos estercoraes que genealogicamente nos +vieram do ventre primordial de Eva, nossa matriarca. De lá nos +deriva--divina Iniquidade!--esta syphilisação das almas, transmissivel e +incuravel a despeito dos vários _Robs_ depurantes, _brevet +d'invention_, das pharmacias do Vaticano. + +Em quanto ella dormia, fui a minha caza que pegava com o Aljube pelas +trazeiras, e rebusquei no estafado colchão de Gloria os vinte e cinco +pintos, visto que ella os não tinha em si. Lá estavam em uma bolsa de +camurça. Fui com o dinheiro á regedoria, onde compuz o meu primeiro e +inedito romance oral, nada auspicioso, contando á authoridade inflexa +que a preza estava innocente, porque o queixoso, antes de se embriagar, +escondêra o dinheiro no colchão, e não sabia depois onde o mettêra. +O meu romance foi pateado, pelo sorriso do regedor, como +inverosimil--desastre que depois me tem succedido com outros muitos +romances, inspirados por intuitos menos louvaveis e mais verosimeis. Eu +quizera salvar Gloria da imputação de ladra. Em todo caso, o +funccionario, lavrado um auto que assignei como apresentante do roubo, +embolsou o velho devasso, um negociante de fructa da Penajoia, que me +queria dar um pinto de alviçaras, o qual eu regeitei com um pudor +anachronico, arcadiano. + +Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das essencias das +matas altas, vestidas do roziclér das auroras, da purpura vespertina dos +crepusculos, de moitas de rosmaninhos, e resvalára á sargêta da rua +Escura, fui como um archaico _Thesouro de Meninos_, cahido no +enxurdeiro e focinhado por aquelle cerdo da Penajoia; ou, melhor +comparado, era o nenuphar solitario, a impolluta nymphea do pantano +portuguez de 1845. + +Quando voltei ao Aljube estava ella muito atordoada, n'uma bestificação, +a queixar-se de fome, porque não comia desde a vespera, e o alcool +causticava-lhe as mucosas. Fui á estalagem da rua de S. Sebastião, ali +ao pé, e mandei-lhe o jantar. Comeu pouco e não quiz vinho. Pediu +genebra que lhe não dei. Ao anoitecer, chegou um quadrilheiro com a +ordem da soltura. Acompanhei-a ao seu segundo andar. Ella olhava muito +pasmada para o colchão que ainda tinha parte dos intestinos de retraço +de palha moída por fora da abertura; mas não fez alguma reflexão em voz +alta. Propuz-lhe a sahida para Lisboa no dia seguinte, com os meios que +o meu amigo lhe liberalisava. Fallei-lhe no perdão do pai, na sua +regeneração--fui tocante; e ella, com uma indolencia idiota, e um +escancarar de bocca: + +--Tanto se me dá como se me deu. + + +A mulher que, um anno antes, citava Lamartine, Victor Hugo e Sand estava +assim estylista: Tanto se me dá como se me deu! + + * * * * * + +Como aquella senhora se despenhou vertiginosamente até cahir no fôjo +immundo de uma devassidão bestialmente suja é phenomeno que só espanta +quem não sabe logica, nem conheceu um exemplo. E quem não conhece trez +exemplos que o dispensem de encadear os elos da logica? + +Eis-me na rhetorica! + +Eu não ignoro que esta especie de autopse em cadaver estampilhado com a +infamia que não discutem pessoas que se prezam, é um archaismo, uma +subjectividade obsoleta. A escola naturalista estabelece que a +comprehensão publica está por tanta maneira salitrada d'estas podridoens +que não carece da catechese psycologica para perceber o desabamento. + +Pois se intendem como foi que aquelle corpo tábido de D. Gloria chegou +assim no enxurro ao ergastulo das ladras, queiram desculpar esse pedaço +de estylo quartenario, que ahi fica para admiração dos archeologos, como +se fosse um craneo dos _Paraderos_ da Patagonia. + +Consintam, porém, que eu me imagine, em 1845, na rua Escura, a +interrogar o segredo da miseria humana, DEUS, o _Motor Immovel_, assim +chamado por Aristoteles. Como cahiu na esterqueira do aljube das ladras +aquella pasta de estrume, o farrapo roixo das escareas de uma ulcera +cancerada que, uma só vez, Jesus, com os seus olhos abrasadores de fogo +divino, poderá cauterisar no peito da meretriz de Magdala? Para resgatar +uma judia formosa e dissoluta das presas aveludadas da lascivia +oriental, foi preciso um ente ultra-humano; e, para esse bom exito, +fez-se mister que o Deus--mais conhecido entre as familias pelo _Padre +Eterno_--baixasse da sua metaphysica immaterial ao anthropoide, +encorporando-se n'um gentil nazareno; aliás, talvez não fizesse +nada--palpita-me. Um Deus extreme, categoria ideal incomprehensivel, sem +mescla de homem, com uma organisação desconhecida aos biologos, não +vingaria, com todo o seu _mise en scène_ de trovoens e relampagos, +infiltrar contrição no peito d'aquella mundana, calafetado pelos beijos +dos tetrarcas, dos pretores e dos opulentos chatins da Assyria. É bem +notorio que os feios cornudos diabos do vicio, dispersos no ambiente, +muito familiares com os costumes de planetas, cometas, meteoros, etc., e +_blasés_ em trovoadas, não largam as suas victimas, ainda que a faisca +eléctrica de um corisco lhes queime aquella parte do cavallo morto a que +o anexim portuguez deita a cevada. O diabo tem a enorme força que Deus +lhe deu sobre a nossa fragilidade. Nós somos a pluminha volatil da pomba +redemoinhando vertiginosamente nas convulsoens de uma tromba terrestre. +Fez-se, por tanto, mister a humanidade gentilissima de Jesus, adoravel +na sua vida casta e na sua indulgente misericordia com as peccadoras, +para reduzir aquella á honestidade. Elle tinha escripto com o dedo na +poeira da praça a sentença absolutoria d'uma adultera. Alem d'isso, o +valoroso galileu atagantara com umas disciplinas de esparto as costas da +quasi sempre respeitavel classe commercial, que armara vitrines de modas +e confecçoens no templo. Seria ali que provavelmente a espaventosa +Magdalena, com grandes uzuras, e talvez a gis, ou á custa de meiguices +fraudulentas, comprára as suas pompas--a escarlata persica dos seus +mantos roçagantes, as meadas de pérolas de que ennastrava as suas +tranças loiras, e as essencias aromaticas com que ungira, a despeito de +Judas, os pés do mavioso acariciador das creanças innocentes, e juiz +compadecido das filhas de Jerusalem iscadas da corrupção romana. + +Creio na conversão de Maria Magdalena; porém a de sancta Maria Egypsiaca +e das trez sanctas Margaridas, uma de Cortona, outra do _Fausto_, e a +terceira de appellido _Gauthier_, essas são fallacias de agiologos e +dramaturgos. + + * * * * * + +A filha do Cavalleiro de Christo, esposa do ex-almoxarife, foi para +Lisboa, decentemente trajada, em beliche de 1.ª classe. Carlos Ribeiro +hypothecára talvez o seu soldo de seis mezes. Se me dessem a escolher, +eu preferiria ter praticado este acto a ter feito a descoberta do +_Anthropopithecus Ribeiroii_. + + * * * * * + +Em 1845, ao deixar o Porto e a chimica para ir jurar bandeiras na +bohemia de Coimbra, despedi-me de Carlos Ribeiro e nunca mais o vi. +Trinta e sete annos de separação absoluta como exordio da eternidade! + +Pois que as nossas pesquisas paleontologicas eram em mundos diversos, +nunca mais nos encontramos. Olhavamos as cumiadas de montanhas em +horisontes oppostos: elle--para o acume da Sciencia, a desvendar os +segredos do genesis; eu--para a Arte, a subjectividade esteril. O +archeologo, pelo pregão dos mestres europeus, assumiu a eminencia; +depois, morreu; mas está na posse da immortalidade. Bem boa coisa. Em +quanto eu, graças á magnanima concessão dos meus patricios lettrados, +estive toda a vida, ao sopé da montanha alcantilada, a descrever coisas +feitas pessoas por essas terras quentes dos Brasis, onde ha +fermentaçoens, e avatar e os transformismos darwinistas como em nenhuma +outra fauna. + +A este rude caboucar de um terço de seculo, devo eu--ó celestiaes +bebedeiras de gloria!--a exultação atordoante de me ver, aqui ha dias, +conceituado em certa gazeta da capital como _romancista conhecido_. +Li-o em lettra redonda e resisti á apoplexia do jubilo. «Romancista» +_tout court_ era já uma apotheose hyperbolica; porém, de mais a mais +«conhecido», isso transcende os extasis de uma idolatria catholica, que +me colloca na jerarchia litterata de S. Cypriano, de Sancto Athanazio e +d'outros Sanctos Padres romancistas mystagogos maiores da marca. Mas, +visto que assim o querem, este culto pagão muito me penhora. Pois bem! +Quando um plumitivo arrojado, sovando aos pés os conspiradores do +silencio, trepa até não ser de todo desconhecido no Chiado--5.ª essencia +de Babylonia com perfumes de Marrocos--esse petulante genio não +transporá as fronteiras da modestia, se almejar as doidas delicias de +ouvir, um bello dia, nomear a sua pessoa conhecida no não menos +conhecido Poço do Borratem. + +Pois é verdade: eu, como novellista, descobri mais anthropoides do que +elle como geologo. Mas faz pena que eu não procurasse ensejo de pedir +aos setenta annos do general as recordaçoens do tenente. + +Quanto a Gloria que, por uma inconsciente zombaria de si mesma, ao +atufar-se na noite caliginosa da miseria e da infamia anonyma, se +chamára _Aurora_, se isto fosse um romance, pode ser que eu, n'esta +idade provecta, ainda tivesse explosoens de fantasia rara para fazêl-a +morrer de alcoolismo, no catre do hospital, para onde a levaram +esfragalhada, mordida pelos cães vadios, apupada pelos gaiatos, sovada +pelos pontapés da guarda-municipal, espumando gromos de sangue nos +ultimos vómitos da aguardente. + +Mas eu não sei como, nem quando ella morreu; nem sei se é viva e se está +na quinta dos seus avoengos restaurando com capilés e agua de Lourdes o +estomago e os erros da sua mocidade. + + * * * * * + +Este episodio da mocidade do douto general, se eu o contasse ha trinta +annos, teria os recortes, os matizes e filigranas idealistas da poesia +que ainda n'essa epoca de transição enfeitava as suas dissecçoens +nauzeabundas das paixoens animaes. Todo analysta da vida e da morte +vestia umas luvas brancas quando expunha sobre a sua banca de trabalho +uma peça anatomica, um coração para descoser, e sahia com as luvas sem +nodoa. Era isso um grande mal. O romantismo poetico inflorava as +putrefaçoens com côres e subtilezas taes de pétalas e aromas que, em vez +da repulsão pelo podre, punha nas cabeças azoadas as vertigens dos +abysmos. Essa perversa missão da Poesia soffreu o exterminio de todos os +flagellos que estão ao alcance desinfectante e hygienico da Sciencia. +Pouquissimos e esporadicos são já os poetas no termo genuino de +«deturpadores da realidade». Os que ainda rimam deteriorando a verdade +experimental com embustes methaphysicos são uns atavismos que fazem +lembrar, na sociedade actual, as aberraçoens genesicas que remontam o +homem á torpeza selvagem da Australia e á civilisação refinada da Roma +de Juvenal, e da Grecia de Anacreonte. Essa chaga insanavel da besta +humana esvurmará sempre a sua peçonha já em brochuras, já nas partes da +policia por ultrages á veneranda Moral--uma velhinha tão trôpega que, +assim que lhe embarram, cáe no asphalto, e entra a gritar pelo habil +Antunes e por outros habeis que não ganhariam a sua vida officialmente +gloriosa, se a Moral fosse mais acatada e menos atacada. O leitor, se é +uma especie de habil Antunes da vernaculidade, seja indulgente com este +jogo de vocabulos que tambem é um ataque desmoralisado á lingua. + +Quanto ao poeta scientifico, genial, racionalista, concluida que seja a +sua obra de sapa e a ultima batalha dada aos deuses, esse tem de +desapparecer como inutil, e ridiculo como um archaismo. Ainda hontem, na +França, Eugène Véron, no seu livro de ESTHETICA, escreveu que _tout le +monde, sauf les idiots, est poète_. A condicional _sauf_, poderia +excluir muitos poetas nossos conhecidos; mas Véron inverteu +paralogicamente a excepção em regra. Elle, se fosse um digno interprete +da Sciencia implacavel, deveria ter escripto: _Ninguem é poeta, excepto +os idiotas._ + +FIM. + + + [1] Bibliothéque des sciences contemporaines. _Le préhistorique + antiquité de l'homme_, par Gabriel de Mortillet. Paris, 1883, pag. 105. + + [2] Obra citada, pag. 106. + + [3] _La Sociologie_, pag. 44. Paris, 1880. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O General Carlos Ribeiro, by +Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO *** + +***** This file should be named 25846-8.txt or 25846-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/8/4/25846/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/25846-8.zip b/25846-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..028f649 --- /dev/null +++ b/25846-8.zip diff --git a/25846-h.zip b/25846-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..77283b7 --- /dev/null +++ b/25846-h.zip diff --git a/25846-h/25846-h.htm b/25846-h/25846-h.htm new file mode 100644 index 0000000..bcd43e4 --- /dev/null +++ b/25846-h/25846-h.htm @@ -0,0 +1,1721 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>O General Carlos Ribeiro, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="AUTHOR" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + font-style: normal; + } + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2 { text-align: center;} + a {text-decoration: none;} + sup {font-size: 0.8em;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + .centrado {text-align: center;} + #corpo p.direita {text-align: right;} + #corpo p.centrado {text-align: center;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + sup {font-size: 0.8em;} + blockquote {font-size: 0.8em;} + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O General Carlos Ribeiro, by +Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O General Carlos Ribeiro + Recordações da Mocidade + +Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: June 19, 2008 [EBook #25846] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<div class="capa"> + +<p style="font-size: 2em;">O GENERAL</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">CARLOS RIBEIRO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">(RECORDAÇÕES DA MOCIDADE)</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p style="font-size: 0.8em;"> +PORTO +<br> +LIVRARIA CIVILISAÇÃO +<br> +DE +<br> +EDUARDO DA COSTA +SANTOS—EDITOR<br> +MDCCCLXXXIV</p> +</div> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h2>O GENERAL CARLOS RIBEIRO</h2> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p><i>A propriedade da primeira edição d'este livro +pertence, no imperio do Brasil, aos srs. Faro & Lino, +proprietarios da Livraria Contemporanea, moradores na rua do +Ouvidor n.º 74—Rio de Janeiro.</i></p> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<div class="centrado"> + +<p style="font-size: 2em;">O GENERAL</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">CARLOS RIBEIRO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">(RECORDAÇÕES DA MOCIDADE)</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p style="font-size: 0.8em;"> +PORTO +<br> +LIVRARIA CIVILISAÇÃO +<br> +DE +<br> +EDUARDO DA COSTA +SANTOS—EDITOR<br> +MDCCCLXXXIV</p> +</div> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h2>AO VISCONDE DE BENALCANFOR</h2> +<br> +<br> +<br> +<br> +<div id="corpo"> +<p class="direita"><i><span class="pagenum"><a name="pag7" id="pag7">[7]</a></span>Meu querido Ricardo +Guimarães.</i></p> + + +<p><i>Recebe a dedicatoria d'este folheto como um cartão de +despedida. Vou-me embora.</i></p> + +<p><i>Naturalmente, escreverás dez linhas sinceras da minha +necrologia. Dize que fui teu amigo trinta e seis annos; e que, +á medida que eu ia lendo as tuas prosas progressivas e +remoçadas, nunca pude imaginar que tivesses +envelhecido.</i></p> + +<p><i>Folgo de te não vêr ha muito tempo. Imagino que +te deixo rapaz engrinaldando os festoens das tuas primaveras de ha +trinta e seis annos para os offereceres aos nossos 50:000 +leitores—um rico auditorio! Continua tu a ministrar-lhes os teus +cabazes de flores, visto que, por impedimentos especiaes de regimen +e outros estorvos complicados de engrenagens financeiras, +não podes deitar-lhes perolas.</i></p> + +<p><i>Adeus, Ricardo. A Chimica subterranea espera a minha alma. +Vou mineralisar-me. Levo apenas, como saudade, uma flecha de luz +reflexa do nosso passado, que me não deixa ir contente ao +meu destino de azote, amoniaco e outros gazes. <span class="pagenum"><a name="pag8" id="pag8">[8]</a></span>É a nostalgia dos teus e dos meus folhetins de 1854. +A proscripta ignominia do carroção do Torto—aquelle +toiro de Phalaris, puxado a vaccas—que então esbatemos para +a treva medieval, em outro paiz dar-nos-ia a celebridade +immorredoura de Guesto Ansur, o salvador authentico das cem +donzellas lusitanas tributadas ás prezas obscenas do +khalifa. Tambem nós, visconde, salvamos centenas de +donzellas portuenses das orgias do execravel defuncto «Manoel +José d'Oliveira»—aquelle Mauregato coiraçado, +com espaduas alcatroadas, musculatura de um lenho rijo e inflexo +como os braços da forca, e articulaçoens de cobre +azinhavado, onde eram contundidas as carnes virginaes. Se +não fomos nós, quem foi que remiu das +contusões e d'aquelle fôro ignobil as meninas +portuenses, actualmente allodiaes e intactas, salvo seja, nos seus +quadris e nas suas espaduas? Pois tens acaso noticia de que o +Oliveira Martins, no seu livro sociologico das «Raças +humanas e civilização primitiva», nos +encadeasse <span class="pagenum"><a name="pag9" id="pag9">[9]</a></span>nos elos do transformismo evolutivo do +carroção em carro Ripert? Sabes que elle consagrasse +um capitulo áquelle dolmen de castanho—a ara celta do +sanguinario Irminsulf dos nossos ferocissimos avós? Nem uma +palavra! «Isto faz vontade de morrer!» como disse +Alexandre Herculano, muito menos offendido dos ingratos.</i></p> + +<p><i>Emfim, Ricardo, esta carta, sobre ser uma +confirmação, quasi posthuma, de fidelidade no affecto +a um dos meus mais velhos amigos, deve ser-te não menos +agradavel como exemplo consolador de que as vidas mortificadas tem +uma compensação—é acabarem com um sorriso. +N'este paiz, os bastardos da Fortuna prostituta, se fizeram exame +de instrucção primaria, devem morrer com a serenidade +de sabios. D'antes, havia a immortalidade da alma e as recompensas +eternas como esteio a infelizes sub-lunares. Hoje em dia, aquelles +dogmas, especie de</i> caput mortuum<i>, não amparam muita +gente; mas ha coisa melhor: é a eschola primaria que levanta +o discipulo <span class="pagenum"><a name="pag10" id="pag10">[10]</a></span>ao nivel da felicidade do professor a +tres tostões por dia com dez mezes de atraso. Depois, +morre-se de uma anazarca de philosophia com uma ligeira +complicação de fome. Assim se explica o grande furor +da instrucção nacional que tu, com uma seriedade +estranha aos nossos habitos, inspeccionas +observantissimamente.</i></p> + +<p><i>Vai, fiscalisa, evangelisa. Dilata, quanto em ti couber, as +celullas conscientes dos hemispherios cerebraes do Alemtejo e +Algarve. Dá-lhes um elasterio grande, expansivo, na +razão inversa das retracçoens da mucosa do estomago, +á qual não chega a tua alçada tonica. Lembra +eruditamente aos pedagogos que ninguem se exalça ás +glorias do Thabor sem ser arrastado pela Rua da Amargura. +Dize-lhes, afinal, que a posteridade, mediante as suas confrarias e +os seus dobres a finados, lhes dará brindes de missas geraes +em dia de Fieis Defunctos—muito distinctos dos defunctos infieis. +E, pelo que me diz respeito, recommenda-me tambem aos suffragios +<span class="pagenum"><a name="pag11" id="pag11">[11]</a></span>pios da Patria—esta querida mãe +interessante, incapaz de tirar de difficuldades um filho vivo: mas, +depois, tira-lhe a alma do purgatorio, sendo preciso.</i></p> + +<br> + +<p><i>T. C.—S. Miguel de Seide. 6 de dezembro de 1883.</i></p> +<br> + +<p class="direita"><i>C. Castello Branco.</i></p> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p><i><span class="pagenum"><a name="pag13" id="pag13">[13]</a></span></i>Gabriel de Mortillet, professor de +Anthropologia, publicou, n'este corrente anno (1883), o seu livro +<i>Le préhistorique antiquité de l'homme</i>. Em mais +de uma pagina o sabio professor menciona respeitosamente Carlos +Ribeiro, o geologo portuguez, que tão brilhantemente fez as +honras da casa lusitana aos congressistas estrangeiros que +estiveram aqui a discutir assumptos de anthropologia e archeologia +prehistorica.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag14" id="pag14">[14]</a></span>O general Carlos Ribeiro falleceu em 13 de +novembro de 1882. A satisfação de se vêr +tão culminantemente inaltecido no livro europeu de Mortillet +não a gosou; e pena foi, porque seria essa a mais idealmente +querida das suas recompensas. Bem sabem que os premios, os +galardões substanciaes que n'este <i>reinosinho</i> <i>de 90 +leguas</i>, como lhe chamava Garrett, auferem os sabios do quilate +de Carlos Ribeiro são por tal modo notorios e fallados que a +gente, pelo commum, apenas tem noticia dos taes sabios quando lhes +vê o retrato posthumo no <i>Occidente</i>.</p> + +<p>Estes homens trabalham em segredo como os alchimistas. Na +Academia Real das Sciencias conversa-se, uma vez por outra, a +respeito d'elles, com uma grande admiração do tamanho +dos bocejos. Para os socios velhos a anthropologia apenas tem a +caracteristica academica de ser palavra grega, e como tal a +reverenceiam; mas ha d'elles que professam, muito pela rama, o +<i>quantum satis</i> d'umas <span class="pagenum"><a name="pag15" id="pag15">[15]</a></span>sciencias abstruzas +que assentam os seus laboratorios para além das fronteiras +da historia. É inexacto, porém, que o insigne +academico discursasse monologos paleontologicos diante dos seus +confrades pouco porosos e assás impermeaveis ás +infiltrações da sciencia nova. Não. Elle tinha +socios no martyrio—o Ferreira Lapa, o Thomaz de Carvalho, o +Bocage, o Latino Coelho, o Corvo, o Aguiar, os quaes, se não +encontraram, como Carlos Ribeiro, vestigios de um ser intelligente +nas camadas terciarias, seriam muito capazes de o achar, se o +procurassem, o <i>Anthropopithecus</i>.</p> + +<p>Não se cuide que eu, com o selvagismo de um minhoto sem +litteratura, pretendo molestar os hereditarios joanêtes da +Academia. Nego. Os meus joanêtes de socio correspondente +acham-se tambem compromettidos. Considero a Academia Real uma arca +da sapiencia humanal, de reserva para a catastrophe de um diluvio +de ignorancias <span class="pagenum"><a name="pag16" id="pag16">[16]</a></span>eminentes. Respeito-a como um banco +das nossas riquezas espirituaes, banco sem +transacções, com accionistas todos de prenda, +dando-se ares de estar sempre em liquidação; mas +não liquida. Se não vive muito ao sol ardente que +refunde o velho mundo, tem a vitalidade sombria do obituario. +Quando um socio vae continuar na vida eterna o somno das suas +sessoens, os confrades vivos gemem-lhe o elogio funebre, uma Nenia +em periodos redondos, <i>ore rotundo</i>, na prosa da +fundação do estabelecimento; em seguida, recolhem-se +a brunir velhos adjectivos e a escovar algumas metaphoras de +fivellas e rabicho, para a necrologia de um futuro confrade morto. +De resto, muito mais modestos que justos juizes dos seus productos, +os academicos, quanto ao estipendio das suas lucubraçoens, +são mais abstemios que os anachoretas da Thebaida, e fazem +livros mais em conta do que Santo Antão e S. Pacomio faziam +balaios. Elles desdenham briosamente <span class="pagenum"><a name="pag17" id="pag17">[17]</a></span>a +cubiça gananciosa dos quarenta immortaes assalariados da +Academia franceza; mas prelibam com delicias a justiça +posthuma, o galardão do elogio funebre—esta rica moeda +portugueza incorruptivel em que não entra a liga do oiro +vil.</p> + +<p>Tornando ao <i>Anthropopithecus</i>. Toda a gente sabe o que +é, na Prehistorica, o <i>Anthropopithecus</i>; mas eu +não me dispenso de fallar d'este sujeito que nos precedeu ha +240:000 annos, pouco mais ou menos. Supponho que não serei +desagradavel ás Senhoras menos lidas em anthropologia, para +as quaes os vocabulos <i>pliocene</i> e <i>miocene</i>, o +<i>mammifero primata</i>, o <i>prognatismo</i> são as +jaças do limpido diamante da sua erudição.</p> + +<p>Mortillet, com bastante logica e com lucidissima +observação mais convincente que a logica, affirma que +o homem quartenario primitivo era algum tanto differente do homem +actual. O craneo do nosso antepassado das cavernas differe +consideravelmente do craneo <span class="pagenum"><a name="pag18" id="pag18">[18]</a></span>do leitor. O illustre +professor de anthropologia é, portanto, obrigado a concluir +que os animaes intelligentes que petiscavam lume e lascavam pedras +na época terciaria não eram homens na +accepção geologica e paleontologica da palavra; mas +sim animaes de outro genero, <i>precursores do homem</i>, na escala +dos seres. A este precursor, intermedio ao anthropoide conhecido e +ao homem actual, chamou Mortillet um <i>Anthropopithecus</i>. Claro +é que a especie humana conhece o avô, o +<i>anthropoide</i>; mas não conhece o pai. Orfan e posthuma, +a desgraçada!</p> + +<p>Carlos Ribeiro havia descoberto nas margens do Tejo o silex +lascado em terrenos terciarios e quartenarios, accusando um +trabalho intencional e intelligente no animal precursor do homem. +No Congresso Internacional de Bruxelles (1872), duvidaram, +mórmente o douto Bourgeois, que nos exemplares expostos por +Carlos Ribeiro houvesse trabalhos intencionaes que provassem a +existencia <span class="pagenum"><a name="pag19" id="pag19">[19]</a></span>de um individuo capaz de petiscar lume +e lascar pedras na época terciaria. A favor do sabio +portuguez apenas se insurgiu a opinião auctorisada de mr. +Franks.</p> + +<p>Na exposição internacional de Paris (1878) o nosso +geologo apresentou os exemplares, entre os quaes Mortillet apartou +22 com vestigios irrefutaveis de trabalho intelligente. Cartailhac +abundou no parecer do seu collega e de outros especialistas.</p> + +<p>Afinal, Carlos Ribeiro triumphou desassombradamente quando os +congressistas na obra de Monte-Redondo, em Ota, confirmaram em +novos exemplares a sua opinião refutada em Bruxelles. Desde +então, nos annaes da anthropologia e prehistoria foi +assignalada como irrefutavel a existencia do Anthropopithecus em +Portugal. Era o terceiro. Bourgeois tinha explorado um em Thenay. +Em honra do inventor, esse vestigio do animal intelligente anterior +ao homem chamou-se <i>Anthropopithecus Bourgeoisii</i>. Mr. Rames +<span class="pagenum"><a name="pag20" id="pag20">[20]</a></span>achára o segundo em Cantal, o qual foi +chamado <i>Anthropopithecus Ramesii</i>. O de Portugal, descoberto +por Carlos Ribeiro, recebeu o glorioso nome <i>Anthropopithecus +Ribeiroii</i>.<a name="tex2html1" href="#foot372" id= +"tex2html1"><sup>1</sup></a></p> + +<p>Uma observação caturra ao sabio Mortillet: Este +genitivo alatinado e ligeiramente macarronico, <i>Ribeiroii</i>, +parece pertencer tambem á época terciaria, á +prehistorica da lingua de Plinio, o moço. <i>Ribeiroii</i> +em genitivo indica o nominativo <i>Ribeiroius</i>. O extremado +anthropologista devera ter escripto <i>Anthropopithecus +Riberii</i>, ou, mais euphonico, <i>Ribeirensis</i>. Espero e ouso +pedir aos futuros congressistas que adoptem esta errata, afim de +que o nome glorioso do nosso concidadão não vá +latinamente deturpado pelas edades fóra.</p> + +<p>Posto isto, a leitora naturalmente deseja saber que figura tinha +o <i>Anthropopithecus</i>. Os <span class="pagenum"><a name="pag21" id="pag21">[21]</a></span>sabios não +satisfazem cabalmente a curiosidade de sua excellencia. Calculam +apenas que elle era muito mais pequeno que o homem, attendendo +á pequenez das pedras que lascava para seu uso; mas, a +respeito do animal portuguez, a julgar pelo tamanho dos silex, +presume-se que elle anatomicamente fosse mais encorpado que os +outros. Isto é concludentissimo e consolativo, minhas +senhoras. Mr. Abel Hovelacque, outro sabio, presume que aquelle +nosso pai pequeno seria do tamanho dos actuaes macacos +maiores.<a name="tex2html2" href="#foot182" id= +"tex2html2"><sup>2</sup></a> Na +verdade, os srs. bispo de Coimbra, conselheiro Nazareth e varios +tambores-mores accentuam e affirmam a procedencia d'aquelle +patriarcha mais avantajado no tamanho.</p> + +<p>Bastará de sciencia? Mas o que não posso, minha +senhora, é esquival-a ao desaire de proceder de macaco. +Não lhe assevero que seja de chimpanzé, de gorilha, +de orango. <span class="pagenum"><a name="pag22" id="pag22">[22]</a></span>A minha esvelta leitora é o typo +aperfeiçoado de todas estas familias. Segundo o genealogico +Hoeckel, vossa excellencia promana de um pitheco, derivado de um +lemur, producto de um kanguru. É a primeira vertebrada, e +não direi primeira «mammifera» para evitar +equivocos. Em todo caso, exquisita arvore de geração, +na verdade; mas, se a minha delicadeza se dóe, sciencia +obriga; porque, emfim, este folheto é uma obra de +vulgarisação, <i>à la portée des gens +du monde</i>. Pertendo ser mais util que agradavel ás +senhoras modernamente orientadas, as quaes, entre os flagicios +acusticos dos seus pianos e o moinho estupidamente burguez das suas +maquinas de costura, abrem um parenthesis á discreta +biologia.</p> + +<p>E tenham muita fé, minhas senhoras; <i>porque as +sciencias de observação</i>, diz Letourneau na +<i>Biologia</i> mais avançada, <i>exigem primeiramente de +quem as quer cultivar um acto de fé</i>. Acto de fé! +Tambem a sciencia positiva reclama a sua <i>virtude theologal</i>. +Pelos modos, <span class="pagenum"><a name="pag23" id="pag23">[23]</a></span>é precisa tanta fé para +acreditar no Jehovah de Moisés e no Messias de S. +João Evangelista, como no «Pantheismo» de +Espinosa, na «Vontade» de Schopenhauer, e no +«Inconsciente» de Von Hartmann. Por tanto, façam +suas excellencias um acto de fé como biologas, e outro acto +de caridade como catholicas, prestando-me a sua benevola +attenção.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Carlos Ribeiro não andou toda a vida, como Boucher de +Perthes, a esgaravatar nas camadas do globo a certidão de +idade do homem. Tambem elle borboleteou á flôr da +terra, com as azas polvilhadas dos matizes da alegria juvenil, os +seus devaneios.</p> + +<p>Entre os 15 e 16 annos, fingia eu que estudava chimica na +Polytechnica do Porto. Carlos Ribeiro, n'aquelle anno, 1844, +já tenente, com 30 annos de idade, completava <span class="pagenum"><a name="pag24" id="pag24">[24]</a></span>mathematicas com sinceridade e aproveitamento. Era de +estatura mediana, refeito, de espaduas fortes, rosto redondo, +purpurino, com um pequeno bigode cortado na commissura dos labios +muito nacarinos. Grave nas fallas, muito delicado em conselhos e +attençoens com os cabulas; e sympathisava com a minha +modesta ignorancia que elle, confessando a actividade funccional do +meu cerebro, ingenuamente attribuia a eu não possuir +compendio de chimica,—uma coisa bastante necessaria a quem se +matricula. Era o <i>Lassaigne</i>—parece-me ser este o nome do +sabio naturalista, que alguns condiscipulos generosos me +emprestavam á porta da Academia, quando se avistava o lente, +um ex-frade, Santa Clara, contemporaneo de Orfila, Berzelius e +Liebig. Por que mãos sagradas andava então a chimica +portugueza!</p> + +<p>Aproveito a occasião para agradecer aos que ainda vivem, +se algum vive, a gentileza do seu emprestimo, para que eu, em honra +<span class="pagenum"><a name="pag25" id="pag25">[25]</a></span>do frade, sahisse crystallinamente e +triumphantemente do meu acto de chimica sem a macula de um R.</p> + +<br> + +<p>Já divulguei em um livro este caso á Europa +culta.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Agora, vou contar outro caso mais trovadorêsco—um +episodio da vida amorosa do defuncto anthropologista, o general +Carlos Ribeiro.</p> + +<br> + +<p>Por aquelle tempo, uma senhora esmeradamente educada no gosto da +época, e com uma grande distincção de +formosura, abandonára em Lisboa o esposo, e +refugiára-se no Porto com um seductor de +condição baixa e bens de fortuna parallelos. Este +casal anticanonico habitava uma casinhola barata na <span class="pagenum"><a name="pag26" id="pag26">[26]</a></span>rua da Sovella, paredes-meias do quarto escolastico de +Carlos Ribeiro. O tenente, quando regressava da aula, via na +janella de peitoril, uma vez por outra, a sua mysteriosa e lepida +visinha encaral-o com uma fixidez perturbadora como um envoltorio +de fluidos galvanicos.</p> + +<p>Certa estanqueira estabelecida na loja da casa onde se aninharam +aquelles amores clandestinos, informou-o da má vida intima +dos adventicios. Havia desavenças todas as noites, gritaria, +choradeira, e ás vezes repelloens reciprocos, a ponto d'ella +cahir no sobrado. D'estas altercaçoens nocturnas, a +informadora podéra liquidar que o homem se chamava +<i>Bramão</i>, ella <i>Gloria</i>, e que tinha marido na +capital. Entre os epithetos que elle lhe desfechava, o mais +accentuado e repetido era <i>bebeda, grandissima bebeda</i>; e a +estanqueira justificava a qualificação, contando que +a menina Gloria, assim que o Bramão sahia, mandava ao +armazem da Companhia <span class="pagenum"><a name="pag27" id="pag27">[27]</a></span>fronteiro duas garrafas +vasias que se trocavam por garrafas lacradas de 800 reis.—Acho que +se emborracham ambos de dois!—conjecturava a mulher dos tabacos, +offerecendo a sua opinião indecisa ao reflexivo freguez dos +cigarros.</p> + +<br> + +<p>Uma noite, foi tamanha a gritaria, que a patrulha bateu á +porta da estanqueira perguntando que gritos eram aquelles no +primeiro andar. A mulher, na sua impaciencia de estrenoitada, +respondeu azedamente que era uma creatura com a sua pinga; que +fossem os soldados á sua vida, porque não havia +remedio a dar-lhe á carraspana senão cozel-a; e que +cada qual em sua casa podia embebedar-se como quizesse e quando +quizesse. Se percebiam? perguntava colerica. E a patrulha: que sim, +que a cozesse ella e mais a visinha. E a +estanqueira:—Malandros!</p> + +<p>Eram então triviaes no Porto estas scenas do +Baixo-Imperio, dialogadas entre o pequeno <span class="pagenum"><a name="pag28" id="pag28">[28]</a></span>commercio e os pretorianos municipaes—os <i>janizaros</i> +do Costa Cabral. N'aquelle tempo, tudo que era tropa chamava-se +<i>pretorianos</i> e <i>janizaros</i>—uns pobres diabos a 30 reis +por dia e rancho de couve gallega com feijão fradinho. +Depois é que expluiu o caceteiro, pago pelos edis, a 480 +reis diarios, e mais, consoante a pressão exercida nos ossos +parietaes do <i>patulea</i>.</p> + +<p>O tenente estava á janella a escutar o alarido, sentia +uma compaixão infinita por aquella formosa senhora; e +scismava se a embriaguez seria refugio de grandes +tribulaçoens n'aquella alma que se atirava a um charco de +vinho para apagar a luz do intendimento e da memoria—perturbar a +vida afflictiva da consciencia escorreita.</p> + +<p>Na manhan seguinte a esta noite tempestuosa, Bramão sahiu +e não voltou mais.</p> + +<p>A estanqueira soube d'ahi a dias da criada de Gloria que a sua +ama tinha vendido a unica pulseira, porque o pelintra do +patrão <span class="pagenum"><a name="pag29" id="pag29">[29]</a></span>lhe não deixára +vintém; e ajuntou que ella pouco mais tinha que vender, a +não ser os vestidinhos, porque já tinha derretido as +joias para sustentar o vicio do amante, que era jogador e perdia +sempre.</p> + +<p>A criada, aquecida pelo atríto das revelaçoens, +confessou que sua ama tomava a piella todas as tardes, quando a +não apanhava tambem todas as manhans, bemdito seja o Senhor! +Que o patrão vinha de fóra levado de todos os diabos, +e entrava ás testilhas com ella, palavra puxa palavra, e iam +ás do cabo, pancada de criar bicho, e batiam de meias. A +senhora, coitadinha, antes de se emborrachar, chorava lagrimas como +punhos, a contar-lhe a sua vida. Que era filha de gente grande, e +casára, contra vontade sua, com um almofariz da casa real. A +estanqueira não comprehendia o casamento com o almofariz. +Carlos Ribeiro emendou para <i>almoxarife</i>, explicando o officio +com a sua costumada bondade illustradora.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag30" id="pag30">[30]</a></span>Como quer que fosse, a infeliz senhora +embriagava-se depois que chorava lucidamente. Era isso mesmo o que +o tenente havia conjecturado com a sua romantica +intuição de 1844.</p> + +<p>Da piedade não é trivial a passagem para o amor; +mas, se á commoção do amor precede a do +compadecimento, o caso de Carlos Ribeiro é vulgar. Escreveu +o meu amigo a D. Gloria offerecendo-lhe os seus serviços +desinteresseiros n'uma terra em que sua excellencia era hospeda, e +não tinha talvez relaçoens. A visinha respondeu-lhe +com uma caligraphia ingleza, e uma grammatica impenetravel á +unha da critica mais meticulosa. Em meio da sua prosa florida, +alinhava-se o alexandrino de Victor Hugo:</p> + +<blockquote> +Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe... +</blockquote> + +<p>O mathematico ficou mais deslumbrado com a contextura da carta do +que ficaria <span class="pagenum"><a name="pag31" id="pag31">[31]</a></span>trinta annos depois quando achou em +Ota a garantia da sua immortalidade como homem de sciencia—o +Anthropopithecus.</p> + +<br> + +<p>A correspondencia travou-se em phrases recheadas de versos de +Hugo e Lamartine, até que o tenente entrou sósinho, +sem os poetas auxiliares, e sómente com a sua prosa +commovida, na alcova da visinha. Era uma alcova sem +pretençoens bysantinas, nem cosmeticos caros; apenas algum +<i>Patchouli</i> nacional, e agua de Colonia, em parodia, fabricada +por um pseudo Farina, e muito almiscar, perfumaria dos gyneceus +infestos á Moral, perdição dos caixeiros de +risca ao meio, e grandes absorventes de licor de Rosa e de Van +Switen. Era, em summa, a alcova atrapalhada de uma <i>touriste</i> +que vai vagamundeando a sua vida escoteiramente, sem reparar se ha +estofos, estatuetas, bronzes e Sevres e pavilhão de +ondulaçoens setinosas, com lampejos <span class="pagenum"><a name="pag32" id="pag32">[32]</a></span>crús de metaes esmaltados, no leito das reles +estalagens onde pernoita.</p> + +<p>Elle sentiu na ante-camara o fartum acidulado da baga +alcoolisada dos vinhos crassos da Companhia: era o perfume de uma +adega do Roncão. Foi uma nuvem de máos presagios no +azul da sua felicidade aquelle cheiro.</p> + +<p>Entravam a dialogar na temperatura madrigalesca do ultimo +romance de Arlincourt, quando ella mandou servir vinho do Porto de +oito tostoens com pasteis de Santa Clara e <i>queques</i> da +Palaia. O hospede sacrificou-se cortezmente a algumas +libaçoens, pequenos goles intercalados de perguntas e +respostas, deixando o calice opalino em meio. Ella, entretanto, +n'uma exaltação theatral, defendia a these do +adulterio, com reminiscencias peoradas da <i>Lelia</i> de George +Sand; e, como inconsciamente, na abstracção +enthusiasta dos largos gestos, ia engatando uns calices nos outros, +em rapida viagem para a região do <span class="pagenum"><a name="pag33" id="pag33">[33]</a></span>Falstaff +e da Maria Parda de Gil Vicente. Parecia mesmo uma actriz franceza +<i>des Variétés</i>, com uma forte diáthese de +bambochata, que viesse de cear no Café Tortoni com +<i>champagne frappé</i>, na roda reinadia de Roger de +Bauvoir e Roqueplan. Carlos, quando a viu em afinação +mais que suspeita, sentiu borbulhar-lhe o pranto da ingenuidade; +porque ella, carminada pela ebulição do sangue, +esbandalhada, e escandecida pelo que havia sincero e logico na sua +declamação, relampejava uns claroens electricos que +pegariam fogo em carne menos combustivel que a do artilheiro; +porém, a elle, faziam-no chorar as lagrimas entranhadas que +os olhos téem pejo de mostrar, e, reprezadas na alma, chegam +a cegal-a como um collyrio de acido sulphurico concentrado. +Figura-se-me que estou a escrever isto em 1844! Que imagens! que +botica!</p> + +<p>E a dama, n'uma absorpção de visitada pelo <i>ecce +Deus</i>, com o iris acceso e a pupilla retrahida pela atropina da +Companhia, não <span class="pagenum"><a name="pag34" id="pag34">[34]</a></span>despegava do fio das ideias, +torrencialmente. Tregeitos exquisitos e sacudidos da escóla +melo-dramatica de Emile Doux. Fazia vibraçoens gloticas, +cavas, gutturaes de quem recita threnos. Arredondava phrases +repolhudas, pomposas, de dramalhão, respigadas nos <i>Dous +Renegados</i> e no <i>Captivo de Fez</i>. Por baixo do vinho +já estava o absintho do odio ao pai que a violentára +a cazar-se; mas a losna não lhe calcinava os nervos sem a +combustão inflammatoria dos extra-finos, muito sêccos, +do Alto-Douro.</p> + +<p>Acidulada sob a influencia das suas virginaes reminiscencias de +menina e môça, etherisava-se. Ora, é regra +corrente que o alcool, submettido aos acidos, transforma-se em +ether. Insignes pharmaceuticos o asseveram. Todas as +commoçoens internas são chimica. Isto, que d'antes se +chamava alma, é uma retorta de cristal da Bohemia em uns +sujeitos, e de barro de Estremoz em outros sujeitos. O grito das +paixoens que desfibram <span class="pagenum"><a name="pag35" id="pag35">[35]</a></span>e matam é o +estampido da retorta que rebenta. Agora, a differença: se a +retorta é de crystal, os estilhaços, embora +embaciados de lagrimas, tem ainda rutilaçoens que encantam a +Arte. E, se a retorta é de barro, os cacos abeberados nas +lagrimas repellem a vista porque parecem lôdo. Edgard +Pöe, Alfred de Musset e Baudelaire, envenenados pelo alcool, +são hostias immoladas a um meio social +responsavel—são retortas de crystal feitas pedaços +pela paixão. O Sena cospe ás margens, cada mez, +dezenas de suicidas que apenas tem vinte e quatro horas de nojosa +exposição na Morgue. São os cacos da retorta +de barro dissolvidos em lama.</p> + +<p>Quanto a Gloria, para ser uma consummada tragica na voz e no +gesto, bastara-lhe uma regra que não se acha bastante +inculcada nas prelecçoens do Conservatorio Real das Artes +scenicas, isto é: carregar-lhe no copo.</p> + +<span class="pagenum"><a name="pag36" id="pag36">[36]</a></span><p class="centrado">*</p> + +<p>Ácerca d'este elixir vitalisador das citadas Artes +scenicas—necessidade physiologica (o copo, intenda-se, e +não as <i>Artes</i>) do sangue luzitano de origem +celtibera—não sei quaes sejam as cogitaçoens actuaes +do meu Luiz Augusto Palmeirim, egregio director do Conservatorio +Real. Cumpre-lhe, todavia, estar precavido contra as anemias e +opilaçoens (opilaçoens, no sentido casto de +<i>chloroses</i>) d'aquelle aviario de roussinoes e outros passaros +que regorgeiam em perpetuo abril, estofando os seus ninhos com o +pollen das flores.—<i>Pollen das flores</i>, notem a figura que +é rara n'estes tempos hostis á rhetorica. Ora pois. +Que aquelle seminario das Artes scenicas borborinhe sonoroso de +interjeiçoens tremicullosas como calefrios, arranques +tragicos, morbidezas de bemóes e sustenidos; e que, <span class="pagenum"><a name="pag37" id="pag37">[37]</a></span>depois de um purgatorio de rabecas e pianos,—supplicio +indispensavel—rutilem, ao diante, pelas trapeiras das +aguas-furtadas do Bairro-alto as constellaçoens sidereas das +Sarah, das Nilson, das Patti, dos Rubeinstein, n'este paiz de +<i>Manoel Mendes Enchundia</i>, da <i>Canna-verde</i>, do +<i>Passarinho trigueiro</i> e do <i>Fado choradinho</i>. Notem que +o dr. Letourneau escreve que uma ponta de vinolencia é a +poesia da digestão<a name="tex2html3" href="#foot373" id= +"tex2html3"><sup>3</sup></a>; e tambem +affirma que onde quer que se usa a bebedeira, existe uma +litteratura bachante (pag. 45). A regra em Portugal falha +praticamente. Temos a bebedeira sem a litteratura, talvez por falta +de editores pouco serios.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>D. Gloria, não obstante, seria ridicula hoje em dia que a +sciencia glacial esfriou a admiração <span class="pagenum"><a name="pag38" id="pag38">[38]</a></span>pelas mulheres de talento menos methodico, desvairado por +exorbitancias Vadias.</p> + +<p>N'aquelle tempo as senhoras que recendiam essencias de macassar, +e tinham sido iniciadas nas assembleias pelos parlapatoens da +Restauração, eram assim. Reinavam os <i>parvenus</i>, +uns devassos broncos, algum tanto desbastados pelo esmeril da +emigração, ou sahidos das cadeias com uma grande fome +de mundo, de diabo e de carne, os trez amigos figadaes do corpo, +como explica methaphysicamente a <i>Cartilha da doutrina</i> para +uso dos collegios de meninas. Elles tinham as fossas nazaes virgens +do nitro das granadas do Porto; mas eram destemidos fundibularios +de patacos regeitados á sege do sacrificado duque de +Bragança que lhes dera patria sem os inconvenientes da +forca, e dilacerára o coração nos sobresaltos +das batalhas. Eram os bagageiros do espolio opimo com todos os +caracteres ethnicos da siganagem portugueza. Compravam conventos +com titulos <span class="pagenum"><a name="pag39" id="pag39">[39]</a></span>azues e rebatiam a 17 p. c. os +arriscados e sacratissimos emprestimos aos <i>Regeneradores</i> de +20 e aos <i>pallikares</i> empennachados da <i>Belfastada</i>.</p> + +<p>Os <i>parvenus</i> inculcavam como norma da +perfeição feminil a <i>Corinna</i> de madama de +Stäel, a mesma madama em pessoa a fazer aos psycologos +philosophias, e coisas mais praticas a Benjamin Constant, como a +Récamier ao velho lubrico que fazia, da sua parte, o +<i>Genio do Christianismo</i>. Todas e todos muito devassos e +eloquentes, boas e bons para começarem os seus romancinhos +ao fogão e concluil-os nas alcôvas. Foi este o ideal +da mulher que os emigrados trouxeram dos <i>boulevards</i> e dos +hoteis <i>garnis</i> a 2 fr. e 50 cent., com uma de-mão do +verniz de Mabille.</p> + +<p>Lia-se então copiosamente a obra emocional de Paul de +Kock; e os hierophantas do reino restaurado folheavam com +mão diurna e nocturna a <i>Republica</i> de Platão, +onde o grande legislador, em pleno luxo de policiamento <span class="pagenum"><a name="pag40" id="pag40">[40]</a></span>hellenico, preceituava que as mulheres passassem de +mão em mão. (Livro V.) Esfervilhavam por isso as +Xantipas com que os Socrates altruistas obsequiavam os Alcibiades, +e floreciam as Marcias que os virtuosos maridos Catoens emprestavam +aos Hortensios. Assim como nas lojas maçonicas muitos dos +triumphadores de 34—um grupo sahido da barbaria da idade-media—se +chamavam <i>Catoens</i> e <i>Socrates</i>, por igual theor, no +sanctuario da familia, usavam os mesmos habitos greco-romanos. Foi +por isso que, em 37, o apocalyptico autor da <i>Voz do Propheta</i> +denominou Lisboa uma <i>caverna de vicios e +desenfreamentos</i>.</p> + +<p>Uma franceza, amante varia de varios francezes, mad. Pauline de +Flaugergues, dava o tom em Lisboa, por esse tempo, em versos e +frescor de cutis polvilhada de bysmutho. Rodeavam-na os areopagitas +do plectro e da sintaxe, a mestrança da +versejadura—Castilho, Garrett e os outros da +constellação. <span class="pagenum"><a name="pag41" id="pag41">[41]</a></span>Esta bohemia trovista +foi dada como typo de mulher emancipada pelo talento. Teve +ovaçoens das lyras primaciaes. Damas da côrte, creadas +em novenas e lausperennes, atiraram as camaldulas ás ortigas +e pegaram de fazer muitos gallicismos grammaticaes e pessoaes. +Viveu-se uma rasgada bacchanal á franceza, em que tomaram o +seu quinhão <i>pro rata</i> as mulheres dos marquezes, as +filhas dos algibebes e as esposas dos ex-almoxarifes. É como +foi. A D. Gloria era um fructo bichoso, sorvado, de arvore que +não sevou a raiz em terreno alheio mal adubado. Era cedo +ainda. Ás portuguezas faltava-lhes o <i>savoir-vivre</i>, +para se aguentarem corrompidas e elegantes. <i>Jam novus rerum +nascitur ordo.</i> Isto hoje está melhor—está como +deve ser. A mulher cae; mas sabe cahir n'este palco; e não +podia ser assim ha quarenta annos. <i>Go ahead!</i></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag42" id="pag42">[42]</a></span>O certo é que aquella dama foi a +primeira paixão de Carlos—a primeira que é +tão forte e pouco menos tola que a setima e a vigesima +nona.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Trez mezes volvidos, Ribeiro tinha perdido a alegria, o affecto +ao trabalho, a convicção da sua immaculada probidade, +e já luctava com as duras hostilidades da pobreza. Quanto a +Gloria, cada dia mais formosa, mais fascinadora e mais crapulosa. +Elle chegou a pedir-lhe em joelhos e de mãos erguidas que se +abstivesse de beber tão destemperadamente; e ella, no lucido +uso das suas faculdades dirigentes, respondeu que não +podia,—que o embriagar-se era o seu suave e doce suicidio, porque +queria morrer.</p> + +<br> + +<p>Carlos obtivera informações de Lisboa. O pai de +Gloria ainda vivia. Era um bom <span class="pagenum"><a name="pag43" id="pag43">[43]</a></span>proprietario rural +na comarca de Torres Vedras, tinha sido criado particular do snr. +D. João VI, cazára com uma retreta da snr.ª D. +Carlota Joaquina, e tinha o habito de Christo. O marido era +mentecapto e velho. Perdera a rasão com a queda do snr. D. +Miguel e do seu almoxarifado no Alfeite. Quanto a Bramão, um +industrioso, vivia de apostas ao bilhar no Marrare das 7 portas e +era casado com uma peccadora acirrante, uma trigueira de bigode que +se desforrava usurariamente das perfidias do marido, sendo perfida +para todos os amantes.</p> + +<p>Meditava Carlos em commiserar o velho cavalleiro de Christo, na +esperança de regenerar a dignidade de Gloria com a +convivencia do pai venerando e das irmans honestas. O velho +respondera a quem lhe pediu compaixão para a filha que a +julgava morta, e morta devia estar para elle; mas que não a +repulsaria do seu talher, porque a desgraçada <span class="pagenum"><a name="pag44" id="pag44">[44]</a></span>tinha a seu favor como desculpa o haver casado +constrangida.</p> + +<p>Quando o tenente, triste pela deixar e alegre por salval-a, lhe +communicou a resposta do pai, ella improperou-lhe a covardia de a +não desenganar, se estava farto de atural-a, e reprovou a +missão caritativa de a reconciliar com a familia, não +tendo procuração para isso. Depois, trocaram-se +palavras desabridas.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>No dia seguinte, D. Gloria deixou a casinha da rua da Sovella e +foi para o Bom Jesus do Monte com um dos leões d'aquelle +tempo em que a cidade da Virgem parecia ser da Venus +Callipygia—uma leoneira da Hircania, onde as epidermes +roliças das donzellas de Cedofeita e as ostras da Aguia +d'Ouro eram o pastío nocturno d'aquelles <span class="pagenum"><a name="pag45" id="pag45">[45]</a></span>dragoens, producto da concubinagem do romantico burro de +Buridan com a classica burra de Balaão. D'esta progenie, que +herdára da mãe o dom da palavra, e do pai um amor +menos indeciso ás duas maquias, evolucionou-se o +<i>crevé</i>, o estoiradinho, um phenomeno embryologico, que +encaracola <i>bellezas</i> na testa exigua de microcephalo, +incalamistra o bigode, e tem do D. Juan de Maraña +simplesmente a guitarra com que perverte familias espanholas +vigiadas pela policia medica. De resto e <i>au fond</i>, os +estoiradinhos são grupos de moleculas, agregaçoens +granulosas, saturadas de marisco, de cerveja barata da Baviera e +nicotina, justificando a formula excentrica e um tanto paradoxal de +Bacon: <i>o vacuo de mistura com o solido</i>. Protegidos pela lei +geral do atomismo, agitam-se no turbilhão universal da +materia inconsciente: são «acasos da concorrencia +vital», como diria Darwin; mas não confundir +<i>concorrencia</i> com <i>selecção natural</i>; que +a natureza é mais logica <span class="pagenum"><a name="pag46" id="pag46">[46]</a></span>e demorada nos +seus transformismos. Pela rapidez com que do <i>leão</i> +pujante de 1840 se engendrou o <i>catita</i> escrophuloso de 1880, +é claro que a <i>selecção</i> foi +<i>artificial</i>, estabalhoadamente, grande celeridade. A este +respeito, os curiosos orientem-se em Topinard, +<span class="small-caps">L'Antropologie</span>, <i>passim</i>. Cumpre +notar que, no arranjo organico do estoiradinho, collaboram 65 +elementos conhecidos, diz a Sciencia. 65! que prodigalidade! A +não ser a Sciencia, quem diria que a Natureza para construir +um cretino gastou quasi cinco duzias e meia de elementos—os mesmos +que despendeu para fazer o mar, o espaço, o mundo sideral, +os cyprestaes balsamicos do Libano e os fedores humanos da Baixa; o +Caneiro de Alcantara onde os microbios fazem as suas regatas +recreativamente, e o Amazonas, a banheira do sol, espraiando-se em +escamas refulgentes; o Garrett que faiscava, como um cerebro de +diamantes facetados, as <i>Viagens na minha terra</i>, e o cerebro +<span class="pagenum"><a name="pag47" id="pag47">[47]</a></span>do outro Garrett que supurava, como um tumor +apostemado, as <i>Viagens a Leixões</i>! Com as ultimas +palavras da biologia é que a Sciencia regeita o dogma da +alma, e nos convence de que o estoiradinho, pelo que respeita +á porção cinzenta do cerebro, deixa de ser o +rei da creação para retroceder, por atavismo e sem +hyperbole, á familia dos vibrioens, um quasi infusorio, e +pouco mais que proto-organismo, irresponsavel pelos seus flagrantes +delictos de brutalidade.</p> + +<p>Em obsequio a estes irresponsaveis é que o bispo sr. D. +Antonio Ayres de Gouvêa tanto e valorosamente impugnou a pena +de morte. Todavia, o seu victorioso repto á forca, +mallogrado em Beccaria, em Lamartine e V. Hugo, seria socialmente +mais completo, se s. ex.ª tambem conseguisse que, em vez do +<i>menu</i> pouco peitoral da strychnina municipalense, se +servissem <i>côtelettes de veau sauté aux truffes</i> +aos magros cães vadios, inoffensivos na sua fome e na sua +sêde. <i>Struggle <span class="pagenum"><a name="pag48" id="pag48">[48]</a></span>for life.</i> Sei essa +trivialidade erudita; mas a lucta pela existencia não +authorisa que os vereadores sejam carrascos dos cães, em +quanto o equilibrio dos negocios publicos e o pagamento em dia dos +6 por cento das inscripções lhes permittir comerem o +boi. Ora—digamol-o de passagem—o boi era um Deus entre os +egypcios, o divino Apis, e entre nós é o manso e +pingue holocausto de uma bestialidade carnivora; porque nós, +os europeus, comemos os Deuses alheios em bifes, e os proprios em +hostias. Sacrilega pouca-vergonha!</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Voltando ao drama e ás palpitações do +leitor por um pouco suspensas, a estanqueira contou depois que, +emquanto o tenente estava na mathematica fazendo garatujas na +lousa, um esbelto rapaz, todo de preto, com um cacetete, pantalonas +á <i>hussard</i>, fazia tilintar <span class="pagenum"><a name="pag49" id="pag49">[49]</a></span>o tinido +das suas esporas amarellas no pavimento de D. Gloria. Trabalhosa e +fragil senhora!</p> + +<p class="centrado">*</p> + + +<p>Eu morava na rua Escura, no bairro mais pobre e lamacento do +Porto, um bêcco fetido de coirama surrada, em uma esquina que +olha para a viella dos Pellámes. Eramos dois os estudantes +que occupavamos o terceiro andar com uma retorcida varanda de +páo, esmadrigada, n'um escalabro de incendio, +debruçada em ameaças sobre os transeuntes como a +varanda de Damocles, muito mais perigosa que a lendaria espada, +cujo gume deve estar muito rombo e puido da esgrima dos eruditos em +Damocles. No primeiro andar morava a proprietaria, uma adéla +que nos cosinhava certas iguarias dignas de ser expostas ao +sêvo das aves de rapina no peitoril d'aquella varanda. Quanto +a ratos, <span class="pagenum"><a name="pag50" id="pag50">[50]</a></span>era uma succursal de Montfaucon. O +segundo andar tinha escriptos desde muito, e não havia homem +desesperado, cançado da vida, que ousasse tentar o suicidio +n'aquellas ruinas minacissimas. Quem procurava casa, olhava com +terror, e seguia o seu caminho, como se ali morassem os leprosos de +Xavier de Maistre.</p> + +<p>Disse-me a patrôa, uma noite, alegremente, que tinha +alugado o segundo andar por deseseis tostoens mensaes a uma +creatura, que lhe parecia mulher de pouco mais ou menos; e +acrescentou com uma sensata indulgencia: «Seja ella o diabo +que for, o que eu quero é que me pague adiantado; +senão, minha amiguinha, viella, viella!» e apontava +para a rua com um gesto de braço e dedo perfurante como uma +estocada.</p> + +<p>Com effeito, a devoluta varanda do segundo andar, tão +destroçada como a minha, aguardava uma Julieta adequada +competentemente aos Romeus do terceiro.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag51" id="pag51">[51]</a></span>A inquilina entrou e pagou.</p> + +<p>Quando eu recolhia da chimica e subia ao meu terceiro andar +fazendo gemer os degráos, olhei curiosamente para a saleta +do segundo, e conheci a Gloria da rua da Sovella. Estava muito +acabada, olheiras fundas, os angulos faciaes descarnados, os +beiços roixos, calcinados pela combustão dos licores. +Na epiderme transparente já não lhe revia o rubor +setineo do sangue colorante. Sobre as saliencias malares, manchas +rubras que poderiam ser de vermelhão ordinario ou da febre +ethica; os tegumentos pareciam emplastados por uma camada de velha +cêra amarellada. As cordoveias do pescoço, muito +esbagachado, com umas saliencias nodosas como cordão de S. +Francisco.</p> + +<p>Havia um anno que ella tinha deixado Carlos Ribeiro immerso em +uma grande commiseração, disia elle; mas eu sabia que +era maior a saudade que o dó.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag52" id="pag52">[52]</a></span>Procurei o meu amigo que havia concluido o +curso e entrára na fileira. Estava fóra do Porto em +serviço. Melhor foi assim, porque a noticia que eu lhe +levava poderia magoal-o ou fazêl-o descer até ao +vilipendio de a visitar.</p> + +<p>Ao fim de quinze dias, disse-me a patroa que a +<i>Aurora</i>—nome de guerra que se dera D. Gloria—uma noite por +outra, recolhia comsigo um engajado. Fallava sempre com figuras +decentinhas a minha patrôa. «Engajado» era +decente. Diziam então as senhoras nos bailes da Assemblea: +«Já estou engajada para a terceira polka».</p> + +<p>Quanto á natureza dos engajados, disse-me que eram +velhos. Conhecêra o Rapozeira, um d'oculos, que tinha loja de +batinas e galoens para esquifes, na rua Chan: outro, era amanuense +da camara do bispo—ambos muito borrachoens. E promettia +pôl-a no olho da rua, se ella continuasse a fazer-lhe +troça, por noite velha, em cima da cabeça, dansando o +Sarambeque.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag53" id="pag53">[53]</a></span>O Sarambeque era da natureza bordelenga do +<i>Hulalá</i>, um bailado dissoluto, priapêsco das +Ilhas Hawai. Eu nunca pude ver a assemblea da visinha, nem o +cavalheiro bestial ajoujado por tal dama ás suas +<i>soirées</i> dansantes. Quem quer que fosse, dava, no +repicado sapateio da sua furia endiabrada de selvagem de +Ceylão, oscillaçoens de terramoto ao predio. Muitas +vezes, reciei que, <i>verbi gratia</i>, desabada aquella casa +filial das orgias de Sardanapalo, eu fosse o candido bode +expiatorio sacrificado no entulho da derrocada ás iras dos +deuses e da senhoria. Depois, noite alta, havia comedorias—um +aziumado de azeite rancido e alhos, estrugidos emeticos, +emanaçoens sulphydricas d'aquellas almas latrinarias. +Lamento, já agora, não ter então colhido notas +para hoje me inculcar um Petronio testemunhal e authentico d'essas +ceias de Trimalcião com iscas de figado e o rascante de +Cabeceiras de Basto.</p> + +<span class="pagenum"><a name="pag54" id="pag54">[54]</a></span><p class="centrado">*</p> + +<p>Um dia, de madrugada, acordou-me um grande berreiro nas escadas. +O meu companheiro, o bom Machado de Carção, um medico +que morreu ha muitos annos, foi examinar de perto a desordem, e +contou-me que um velhote apopletico, com ares de jarrêta +provinciano, estava gritando que Aurora lhe roubara vinte e cinco +pintos da algibeira do collête, depois de o ter embebedado +com genebra.</p> + +<p>O roubado sahira em berros para a rua, e os calcêtas, que +trabalhavam no lagêdo arrastando os grilhoens, assobiaram-no. +Aurora dava gritos de innocente contra a calumnia, e a proprietaria +intimava-lhe ordem de despejo immediato. D'ahi a pouco, a ladra era +preza pelo cabo de policia, conduzida á regedoria e de +lá para o Aljube.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag55" id="pag55">[55]</a></span>Fui para a chimica do eggresso e encontrei o +tenente Ribeiro. Contei-lhe o caso que elle me ouviu com os olhos +marejados. Depois, pediu-me que commettesse o delicto infando da +vigesima quarta falta na aula, e o ajudasse a salvar, se possivel +fosse, aquella enorme desgraçada, visto que elle não +queria figurar pessoalmente. Mandou-me ao regedor; que soubesse +onde estava o roubado, e lhe restituisse os 12$000 reis para elle +não ser parte á preza. Que lhe referisse eu a +sinistra vida de Gloria para que elle, compadecido, a não +mandasse ao tribunal. E que, depois, fosse eu ao Aljube, e lhe +dissesse que, se ella embarcasse no primeiro vapor para Lisboa a +procurar o amparo de seu pai, havia quem lhe pagasse as +despezas.</p> + +<p>Fui ao Aljube ás 3 da tarde. Lá dentro era noite. +Gloria estava innovelada a dormir sobre uma enxerga a um canto. +Ella tinha sahido, quinze dias antes, de uma enfermaria do hospital +de Santo Antonio, quando a <span class="pagenum"><a name="pag56" id="pag56">[56]</a></span>sua visinha, mais +feliz, era levada, ainda morna, em uma padiola para o theatro +anatomico. A devassidão emparceirada com a morte mandaram +aquelle esqualido presente ao escalpello da sciencia. Ah! quantas +curvas de musculatura roidas pelo hydrargiro eu retalhei para hoje +poder, como testemunha de vista, jurar que o coração +é um musculo ôco!</p> + +<p>No soalho em que dormia Gloria, parecia que tinha choviscado +lama. A enxerga era de uma preza, cujo cão de agua, gordo e +muito sujo, dormia aconchegado dos quadris da outra. A dona do +cão tinha uma cara cheia de enygmas, acidentada de +periosteos cariados, exfoliados, com barbas. Seria uma riqueza +craneologica para um Haeckel ou Topinard; mas para mim era +simplesmente uma asneira paradoxal em anatomia comparada. Nunca me +esqueceu. Lembro-me sempre da figura indelevel d'aquella mulher, +quando nego a blasphema hypothese do Deus de <span class="pagenum"><a name="pag57" id="pag57">[57]</a></span>Moisés e do sr. padre Grainha, um Deus que fez +á sua imagem e semelhança e—o que mais +é—á sua custa, um typo humano com o perfil divino +d'aquelle feitio. Contou-me que estava ali por ter dado uns tabefes +n'uma regatona de castanhas cosidas que lhe deitava o raio do olho +ao marido, o João do Corgo, um calceta que andava a cumprir +sentença de toda a vida, innocente, por ter ajudado a matar +um padre. Innocente! Como ella qualificava a iniquidade da +justiça social com seu marido que matára em +collaboração um levita! Queria talvez que o +premiassem como quem mata um lobo.</p> + +<p>Com referencia á sua companheira, tambem a julgava +innocentissima. Contou-me que se enchera de aguardente até +cahir; e logo á entrada protestára que se havia de +enforcar nas grades. Acrescentou, n'uma irritação de +quem tem soffrido injustiças exulcerantes, que a pobre da +creatura não roubára nada; que todo o dinheiro que +tinha <span class="pagenum"><a name="pag58" id="pag58">[58]</a></span>eram seis vintens em prata que +comprára d'aguardente.</p> + +<p>Entretanto, Gloria ressonava.</p> + +<p>Era um bonito exemplar de um cancro roído pelos microbios +de fóra, de parçaria com os microzimas de +dentro—herança do Paraizo. Isso que ali tresandava era um +dos abcessos estercoraes que genealogicamente nos vieram do ventre +primordial de Eva, nossa matriarca. De lá nos deriva—divina +Iniquidade!—esta syphilisação das almas, +transmissivel e incuravel a despeito dos vários <i>Robs</i> +depurantes, <i>brevet d'invention</i>, das pharmacias do +Vaticano.</p> + +<p>Em quanto ella dormia, fui a minha caza que pegava com o Aljube +pelas trazeiras, e rebusquei no estafado colchão de Gloria +os vinte e cinco pintos, visto que ella os não tinha em si. +Lá estavam em uma bolsa de camurça. Fui com o +dinheiro á regedoria, onde compuz o meu primeiro e inedito +romance oral, nada auspicioso, contando á authoridade +<span class="pagenum"><a name="pag59" id="pag59">[59]</a></span>inflexa que a preza estava innocente, porque o +queixoso, antes de se embriagar, escondêra o dinheiro no +colchão, e não sabia depois onde o mettêra. O +meu romance foi pateado, pelo sorriso do regedor, como +inverosimil—desastre que depois me tem succedido com outros muitos +romances, inspirados por intuitos menos louvaveis e mais +verosimeis. Eu quizera salvar Gloria da imputação de +ladra. Em todo caso, o funccionario, lavrado um auto que assignei +como apresentante do roubo, embolsou o velho devasso, um negociante +de fructa da Penajoia, que me queria dar um pinto de +alviçaras, o qual eu regeitei com um pudor anachronico, +arcadiano.</p> + +<p>Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das +essencias das matas altas, vestidas do roziclér das auroras, +da purpura vespertina dos crepusculos, de moitas de rosmaninhos, e +resvalára á sargêta da rua Escura, fui como um +archaico <i>Thesouro <span class="pagenum"><a name="pag60" id="pag60">[60]</a></span>de Meninos</i>, cahido no +enxurdeiro e focinhado por aquelle cerdo da Penajoia; ou, melhor +comparado, era o nenuphar solitario, a impolluta nymphea do pantano +portuguez de 1845.</p> + +<p>Quando voltei ao Aljube estava ella muito atordoada, n'uma +bestificação, a queixar-se de fome, porque não +comia desde a vespera, e o alcool causticava-lhe as mucosas. Fui +á estalagem da rua de S. Sebastião, ali ao pé, +e mandei-lhe o jantar. Comeu pouco e não quiz vinho. Pediu +genebra que lhe não dei. Ao anoitecer, chegou um +quadrilheiro com a ordem da soltura. Acompanhei-a ao seu segundo +andar. Ella olhava muito pasmada para o colchão que ainda +tinha parte dos intestinos de retraço de palha moída +por fora da abertura; mas não fez alguma reflexão em +voz alta. Propuz-lhe a sahida para Lisboa no dia seguinte, com os +meios que o meu amigo lhe liberalisava. Fallei-lhe no perdão +do pai, na sua regeneração—fui tocante; e ella, com +<span class="pagenum"><a name="pag61" id="pag61">[61]</a></span>uma indolencia idiota, e um escancarar de +bocca:</p> + +<p>—Tanto se me dá como se me deu.</p> + +<br> + +<p>A mulher que, um anno antes, citava Lamartine, Victor Hugo e +Sand estava assim estylista: Tanto se me dá como se me +deu!</p> + +<p class="centrado">*</p> + + +<p>Como aquella senhora se despenhou vertiginosamente até +cahir no fôjo immundo de uma devassidão bestialmente +suja é phenomeno que só espanta quem não sabe +logica, nem conheceu um exemplo. E quem não conhece trez +exemplos que o dispensem de encadear os elos da logica?</p> + +<p>Eis-me na rhetorica!</p> + +<p>Eu não ignoro que esta especie de autopse em cadaver +estampilhado com a infamia que não discutem pessoas que se +prezam, é um <span class="pagenum"><a name="pag62" id="pag62">[62]</a></span>archaismo, uma subjectividade +obsoleta. A escola naturalista estabelece que a comprehensão +publica está por tanta maneira salitrada d'estas podridoens +que não carece da catechese psycologica para perceber o +desabamento.</p> + +<p>Pois se intendem como foi que aquelle corpo tábido de D. +Gloria chegou assim no enxurro ao ergastulo das ladras, queiram +desculpar esse pedaço de estylo quartenario, que ahi fica +para admiração dos archeologos, como se fosse um +craneo dos <i>Paraderos</i> da Patagonia.</p> + +<p>Consintam, porém, que eu me imagine, em 1845, na rua +Escura, a interrogar o segredo da miseria humana, +<span class="small-caps">Deus</span>, o <i>Motor Immovel</i>, assim chamado por +Aristoteles. Como cahiu na esterqueira do aljube das ladras aquella +pasta de estrume, o farrapo roixo das escareas de uma ulcera +cancerada que, uma só vez, Jesus, com os seus olhos +abrasadores de fogo divino, poderá cauterisar no peito +<span class="pagenum"><a name="pag63" id="pag63">[63]</a></span>da meretriz de Magdala? Para resgatar uma judia +formosa e dissoluta das presas aveludadas da lascivia oriental, foi +preciso um ente ultra-humano; e, para esse bom exito, fez-se mister +que o Deus—mais conhecido entre as familias pelo <i>Padre +Eterno</i>—baixasse da sua metaphysica immaterial ao anthropoide, +encorporando-se n'um gentil nazareno; aliás, talvez +não fizesse nada—palpita-me. Um Deus extreme, categoria +ideal incomprehensivel, sem mescla de homem, com uma +organisação desconhecida aos biologos, não +vingaria, com todo o seu <i>mise en scène</i> de trovoens e +relampagos, infiltrar contrição no peito d'aquella +mundana, calafetado pelos beijos dos tetrarcas, dos pretores e dos +opulentos chatins da Assyria. É bem notorio que os feios +cornudos diabos do vicio, dispersos no ambiente, muito familiares +com os costumes de planetas, cometas, meteoros, etc., e +<i>blasés</i> em trovoadas, não largam as suas +victimas, ainda que a faisca eléctrica de um <span class="pagenum"><a name="pag64" id="pag64">[64]</a></span>corisco lhes queime aquella parte do cavallo morto a que o +anexim portuguez deita a cevada. O diabo tem a enorme força +que Deus lhe deu sobre a nossa fragilidade. Nós somos a +pluminha volatil da pomba redemoinhando vertiginosamente nas +convulsoens de uma tromba terrestre. Fez-se, por tanto, mister a +humanidade gentilissima de Jesus, adoravel na sua vida casta e na +sua indulgente misericordia com as peccadoras, para reduzir aquella +á honestidade. Elle tinha escripto com o dedo na poeira da +praça a sentença absolutoria d'uma adultera. Alem +d'isso, o valoroso galileu atagantara com umas disciplinas de +esparto as costas da quasi sempre respeitavel classe commercial, +que armara vitrines de modas e confecçoens no templo. Seria +ali que provavelmente a espaventosa Magdalena, com grandes uzuras, +e talvez a gis, ou á custa de meiguices fraudulentas, +comprára as suas pompas—a escarlata persica dos seus mantos +roçagantes, as meadas <span class="pagenum"><a name="pag65" id="pag65">[65]</a></span>de pérolas de +que ennastrava as suas tranças loiras, e as essencias +aromaticas com que ungira, a despeito de Judas, os pés do +mavioso acariciador das creanças innocentes, e juiz +compadecido das filhas de Jerusalem iscadas da +corrupção romana.</p> + +<p>Creio na conversão de Maria Magdalena; porém a de +sancta Maria Egypsiaca e das trez sanctas Margaridas, uma de +Cortona, outra do <i>Fausto</i>, e a terceira de appellido +<i>Gauthier</i>, essas são fallacias de agiologos e +dramaturgos.</p> + +<p class="centrado">*</p> + + +<p>A filha do Cavalleiro de Christo, esposa do ex-almoxarife, foi +para Lisboa, decentemente trajada, em beliche de 1.ª classe. +Carlos Ribeiro hypothecára talvez o seu soldo de seis mezes. +Se me dessem a escolher, eu preferiria ter praticado este acto a +ter feito a descoberta do <i>Anthropopithecus Ribeiroii</i>. + +<span class="pagenum"><a name="pag66" id="pag66">[66]</a></span><p class="centrado">*</p> + +<p>Em 1845, ao deixar o Porto e a chimica para ir jurar bandeiras +na bohemia de Coimbra, despedi-me de Carlos Ribeiro e nunca mais o +vi. Trinta e sete annos de separação absoluta como +exordio da eternidade!</p> + +<p>Pois que as nossas pesquisas paleontologicas eram em mundos +diversos, nunca mais nos encontramos. Olhavamos as cumiadas de +montanhas em horisontes oppostos: elle—para o acume da Sciencia, a +desvendar os segredos do genesis; eu—para a Arte, a subjectividade +esteril. O archeologo, pelo pregão dos mestres europeus, +assumiu a eminencia; depois, morreu; mas está na posse da +immortalidade. Bem boa coisa. Em quanto eu, graças á +magnanima concessão dos meus patricios lettrados, estive +toda a vida, ao sopé <span class="pagenum"><a name="pag67" id="pag67">[67]</a></span> da montanha +alcantilada, a descrever coisas feitas pessoas por essas terras +quentes dos Brasis, onde ha fermentaçoens, e avatar e os +transformismos darwinistas como em nenhuma outra fauna.</p> + +<p>A este rude caboucar de um terço de seculo, devo +eu—ó celestiaes bebedeiras de gloria!—a +exultação atordoante de me ver, aqui ha dias, +conceituado em certa gazeta da capital como <i>romancista +conhecido</i>. Li-o em lettra redonda e resisti á apoplexia +do jubilo. «Romancista» <i>tout court</i> era já +uma apotheose hyperbolica; porém, de mais a mais +«conhecido», isso transcende os extasis de uma +idolatria catholica, que me colloca na jerarchia litterata de S. +Cypriano, de Sancto Athanazio e d'outros Sanctos Padres romancistas +mystagogos maiores da marca. Mas, visto que assim o querem, este +culto pagão muito me penhora. Pois bem! Quando um plumitivo +arrojado, sovando aos pés os conspiradores do silencio, +trepa até não ser de <span class="pagenum"><a name="pag68" id="pag68">[68]</a></span>todo +desconhecido no Chiado—5.ª essencia de Babylonia com perfumes +de Marrocos—esse petulante genio não transporá as +fronteiras da modestia, se almejar as doidas delicias de ouvir, um +bello dia, nomear a sua pessoa conhecida no não menos +conhecido Poço do Borratem.</p> + +<p>Pois é verdade: eu, como novellista, descobri mais +anthropoides do que elle como geologo. Mas faz pena que eu +não procurasse ensejo de pedir aos setenta annos do general +as recordaçoens do tenente.</p> + +<p>Quanto a Gloria que, por uma inconsciente zombaria de si mesma, +ao atufar-se na noite caliginosa da miseria e da infamia anonyma, +se chamára <i>Aurora</i>, se isto fosse um romance, pode ser +que eu, n'esta idade provecta, ainda tivesse explosoens de fantasia +rara para fazêl-a morrer de alcoolismo, no catre do hospital, +para onde a levaram esfragalhada, mordida pelos cães vadios, +apupada pelos gaiatos, sovada pelos pontapés da +guarda-municipal, <span class="pagenum"><a name="pag69" id="pag69">[69]</a></span>espumando gromos de sangue nos +ultimos vómitos da aguardente.</p> + +<p>Mas eu não sei como, nem quando ella morreu; nem sei se +é viva e se está na quinta dos seus avoengos +restaurando com capilés e agua de Lourdes o estomago e os +erros da sua mocidade.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Este episodio da mocidade do douto general, se eu o contasse ha +trinta annos, teria os recortes, os matizes e filigranas idealistas +da poesia que ainda n'essa epoca de transição +enfeitava as suas dissecçoens nauzeabundas das paixoens +animaes. Todo analysta da vida e da morte vestia umas luvas brancas +quando expunha sobre a sua banca de trabalho uma peça +anatomica, um coração para descoser, e sahia com as +luvas sem nodoa. Era isso um grande mal. O romantismo <span class="pagenum"><a name="pag70" id="pag70">[70]</a></span>poetico inflorava as putrefaçoens com côres e +subtilezas taes de pétalas e aromas que, em vez da +repulsão pelo podre, punha nas cabeças azoadas as +vertigens dos abysmos. Essa perversa missão da Poesia +soffreu o exterminio de todos os flagellos que estão ao +alcance desinfectante e hygienico da Sciencia. Pouquissimos e +esporadicos são já os poetas no termo genuino de +«deturpadores da realidade». Os que ainda rimam +deteriorando a verdade experimental com embustes methaphysicos +são uns atavismos que fazem lembrar, na sociedade actual, as +aberraçoens genesicas que remontam o homem á torpeza +selvagem da Australia e á civilisação refinada +da Roma de Juvenal, e da Grecia de Anacreonte. Essa chaga insanavel +da besta humana esvurmará sempre a sua peçonha +já em brochuras, já nas partes da policia por +ultrages á veneranda Moral—uma velhinha tão +trôpega que, assim que lhe embarram, cáe no asphalto, +e entra a gritar pelo habil <span class="pagenum"><a name="pag71" id="pag71">[71]</a></span>Antunes e por outros +habeis que não ganhariam a sua vida officialmente gloriosa, +se a Moral fosse mais acatada e menos atacada. O leitor, se +é uma especie de habil Antunes da vernaculidade, seja +indulgente com este jogo de vocabulos que tambem é um ataque +desmoralisado á lingua.</p> + +<p>Quanto ao poeta scientifico, genial, racionalista, concluida que +seja a sua obra de sapa e a ultima batalha dada aos deuses, esse +tem de desapparecer como inutil, e ridiculo como um archaismo. +Ainda hontem, na França, Eugène Véron, no seu +livro de <span class="small-caps">ESTHETICA</span>, escreveu que <i>tout le monde, +sauf les idiots, est poète</i>. A condicional <i>sauf</i>, +poderia excluir muitos poetas nossos conhecidos; mas Véron +inverteu paralogicamente a excepção em regra. Elle, +se fosse um digno interprete da Sciencia implacavel, deveria ter +escripto: <i>Ninguem é poeta, excepto os idiotas.</i></p> + +<p class="centrado">FIM.</p> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot372" id="foot372"></a><a href= +"#tex2html1"><sup>1</sup></a> Bibliothéque des sciences contemporaines. <i>Le +préhistorique antiquité de l'homme</i>, par Gabriel +de Mortillet. Paris, 1883, pag. 105.</p> + +<p><a name="foot182" id="foot182"></a><a href= +"#tex2html2"><sup>2</sup></a> Obra citada, pag. 106.</p> + +<p><a name="foot373" id="foot373"></a><a href= +"#tex2html3"><sup>3</sup></a> <i>La Sociologie</i>, pag. 44. Paris, 1880.</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O General Carlos Ribeiro, by +Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O GENERAL CARLOS RIBEIRO *** + +***** This file should be named 25846-h.htm or 25846-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/8/4/25846/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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