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+Project Gutenberg's Lord Palmerston: a opinião e os factos, by Carlos Testa
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Lord Palmerston: a opinião e os factos
+ um brado a pró da verdade
+
+Author: Carlos Testa
+
+Release Date: June 4, 2008 [EBook #25697]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LORD PALMERSTON ***
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+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
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+LORD PALMERSTON
+
+A OPINIÃO E OS FACTOS
+
+
+Um brado a pró da verdade
+
+Por C. T.
+
+
+LISBOA
+
+Typ. da Sociedade Typographica Franco-Portugueza
+
+6, Rua do Thesouro Velho, 6.
+
+1865
+
+
+
+
+ Infandum... jubes, novare dolorem.
+ Virg. Æn.
+
+
+Não ha nada, por bem extraordinario que pareça, para que não se deva
+estar preparado. Realizam-se factos contra todas as supposições, ou
+probabilidades moraes; e emquanto que muitas vezes se levantam
+escrupulos sobre incidentes triviaes, mas explorados em favor da
+significação que se lhes quer dar, ou do alcance moral e politico que se
+pertende ter em vista, outras vezes o olvido, a indulgencia, ou qualquer
+outro sentimento menos austero, faz com que se esqueçam acontecimentos
+graves e se absolvam factos, nada innocentes para o pundonor de uma
+nação.
+
+Occorrem estas considerações á mente de quem por um momento reflectisse
+no que se passou na camara dos srs. deputados na sessão de 20 do
+corrente, em que um membro d'aquella casa propoz duas mensagens de
+profundo sentimento pela morte de lord Palmerston, sendo uma dirigida á
+camara dos communs de Inglaterra, e outra á viuva do dito lord.
+
+Consubstanciou o proponente as suas razões, envolvendo-as no manto de
+uma eloquencia elevada, vaporosa e figurada, onde a abundancia das
+flores de estylo escondesse os espinhos do assumpto. Foram suas as
+seguintes expressões:
+
+ «O primeiro titulo e a principal virtude do finado era o de melhor
+ amigo da Inglaterra; que, onde houvesse uma liberdade moribunda ou
+ uma liberdade a nascer, lá estava elle que era ao mesmo tempo aguia,
+ medico e sacerdote. Á primeira dava conselhos e ministrava vida nova
+ com o pão eucharistico (!) de suas doutrinas. Á segunda tomava
+ d'ella nas suas garras, e a suspendia depois no ar, (_sic_) donde a
+ luz immensa de cima, e o exemplo debaixo, apontavam horisontes
+ claros do futuro, etc.
+
+ «As minhas propostas requerem uma homenagem prestada aos mais
+ sagrados direitos da humanidade, etc... essa homenagem é tambem
+ sobretudo uma divida de respeito universal que lhe devemos todos os
+ povos, e _de gratidão nacional que nós particularmente lhe devemos_,
+ etc...»
+
+Apoiado desde logo por um ex-ministro que se declarou prevenido e
+antecipado na proposta, e que assim lograva ter partilha nos applausos
+de occasião, concluiu o proponente o seu poetico discurso, appellando
+para o parlamento afim de que «_o acompanhasse nas saudades que a dor
+sincera de Portuguez lhe fazia pouzar sobre o tumulo de lord
+Palmerston_.»
+
+Se a camara approvou a proposta, respeitem-se os intentos e acatem-se as
+decisões.
+
+É licito suppôr que o enthusiasmo do momento, filho da maviosa e viçosa
+phrase do eloquente deputado, abafasse qualquer outro sentimento intimo
+na apreciação do assumpto; mas seja licito tambem avaliar á sombra da
+historia quasi contemporanea, na calma da reflexão, e longe do jardim da
+eloquencia, o conceito que deve merecer a Portugal o grande estadista,
+que, se foi (como disse o author da moção) o maior amigo da Inglaterra,
+não foi decerto em todas as épocas da sua vida politica o melhor amigo
+de Portugal.
+
+A indicação de alguns factos, suggeridos e sanccionados por documentos
+officiaes, bastará para provar esta asserção.
+
+ * * * * *
+
+Não é necessario remontar á primitiva historia do trafico de escravos,
+nem ás primeiras tentativas feitas a pró de sua abolição, para se
+reconhecer que não foi a Inglaterra a primeira nação que mostrou
+empenhar-se n'este ultimo intento. Já no começo d'este seculo algumas
+nações tinham promulgado leis n'esse sentido, quando ainda a Inglaterra
+sustentava o principio da escravidão.
+
+Não era isso para extranhar n'uma nação que durante longos annos foi a
+que mais commerciou e lucrou no trafico de escravos.
+
+A historia não se desmente e a lição dos factos não é fácil de
+contestar-se.
+
+Pelo tratado denominado de _assiento de negros_ celebrado em 26 de março
+de 1713 entre as coroas de Inglaterra e de Espanha, se estipulou «que S.
+M. Britannica nomeará pessoas que se encarreguem de introduzir nas
+colonias Espanholas das Indias occidentaes da America, durante o prazo
+de 30 annos, 144:000 negros peças d'India de ambos os sexos sendo 4:800
+em cada anno. Os «assentistas poderão empregar os navios propriedade de
+S. M. Britannica e de seus vassallos.»
+
+Pelo tratado de paz e amisade de 13 de julho do mesmo anno entre o Rei
+Catholico e a Rainha Anna da Gram-Bretanha, negociado pelo duque de
+Ossuna e marquez de Montleon por parte da Espanha, e o bispo de Bristol
+e o conde de Strafford por parte da Inglaterra, se estipulava o
+monopolio do trafico de escravos em favor d'esta; e pelo artigo 12.º
+diz-se que «o Rei Catholico dá e concede a S. M. Britannica e á
+companhia de vassallos seus para este fim formada, a faculdade para
+introduzir negros nas diversas partes chamadas de _assientos_, com
+exclusão de Espanhoes ou quaesquer outros, isto por espaço de 30 annos.»
+
+Que contraste! Já havia mais de um seculo que um frade dominico
+Espanhol, Francisco Victoria, na sua obra _de Indis_, e seu discipulo
+Domingos de Soto, no tratado _de justitia et jure_ haviam pugnado pela
+liberdade da raça humana; já os frades redemptoristas catholicos iam á
+Africa resgatar os captivos christãos, e ainda a Inglaterra em nome da
+sua soberana, e por intermedio de um bispo protestante monopolisava para
+si o trafico de escravos, antepondo á voz da consciencia, o engodo dos
+interesses que auferia d'este mercadejo de corpos endurecidos pelo
+trabalho e de almas embrutecidas pela servidão e miseria!
+
+Áquem do meiado do seculo passado as colonias Inglezas da America pediam
+repetidas vezes a abolição da escravatura, mas a influencia dos
+interesses da metropole fizeram sempre com que o parlamento e a corôa
+rejeitassem essas aspirações, e a Inglaterra proseguia a despovoar a
+Africa antepondo os interesses do ganho, a submetter-se á voz da
+humanidade.
+
+Edmund Burke, em seu notavel discurso sobre a conciliação com a America,
+reconheceu que uma das causas da animadversão para com a Inglaterra, era
+a pertinacia d'esta em recuzar-se a qualquer annuencia ás tentativas dos
+Estados para obstar ao trafico de escravos, e que uma tal persistencia,
+e o abuso do veto Real em favor da escravidão, foram uma das causas da
+separação da America do Norte.
+
+Wheaton, publicista americano affirma na sua historia do direito das
+gentes, que a escravidão que até hoje fazia parte integrante do systema
+social dos Estados do Sul da Republica dos Estados Unidos, não só fôra
+alli introduzida pela mãe patria, mas que tambem ás recuzas d'esta em
+annuir ás medidas que as assembléas provinciaes propunham para a abolir,
+é que se deve o haver-se perpetuado uma tal instituição n'aquella parte
+da America.
+
+As tentativas de Clarkson, e as de Wilbeforce em 1804, no parlamento
+Britannico, contra o trafico, ainda eram contrariadas pelo Governo da
+Gram-Bretanha, vindo sómente a ser adoptadas durante o ministerio da
+coalisão de Fox e Granville; e ás grandes luctas internacionaes
+d'aquella época, luctas que mudaram totalmente a face aos interesses
+commerciaes e coloniaes da Inglaterra, é que se deve a nova phase que a
+respeito do trafico de escravatura tomou a politica d'aquella potencia.
+
+Por todo este conjuncto de factos e circumstancias bem se deixa perceber
+que o governo Portuguez a cuja frente se achavam Manoel Passos, Sá da
+Bandeira, e Vieira de Castro (Senior) abolindo pelo decreto de 10 de
+Dezembro de 1836 o trafico da escravatura nas possessões Portuguezas,
+tinha razão sobeja para consignar no relatorio do mesmo decreto, estas
+solemnes palavras:
+
+ «O infame trafico dos negros é certamente uma nodoa indelevel na
+ historia das nações modernas, mas não fomos nós os principaes, nem
+ os unicos, nem os peiores réos. Cumplices que depois nos arguiram
+ tanto, peccaram mais e mais feiamente.»
+
+É porém sabido que novas vistas politicas e commerciaes haviam tornado
+mais modernamente a Inglaterra sofrega por abolir o trafico; convenções
+internacionaes eram n'esse sentido diligenciadas por lord Palmerston
+então ministro dos negocios estrangeiros d'aquelle paiz; e durante o
+anno de 1837 e parte de 38 se entabolaram com Portugal negociações para
+a estipulação de um tratado entre as duas corôas, sendo o negociador o
+visconde (hoje marquez) de Sá da Bandeira, ministro dos negocios
+estrangeiros, e lord Howard de Walden, representante Britannico em
+Lisboa.
+
+Ninguem se atreverá a duvidar por um momento, de quão sinceras e intimas
+são e sempre foram as convicções e o empenho do marquez de Sá da
+Bandeira em relação ao trafico de escravatura; e quando qualquer
+divergencia possa haver sobre o modo de as avaliar, nunca tal
+divergencia poderá nem levemente admittir a supposição de que elle se
+prestasse a difficultar ou estorvar qualquer justa medida tendente á
+abolição d'aquelle infame trafico. Mas eram taes as pertenções, e as
+tricas diplomaticas do Governo Britannico cujo ministro de negocios
+estrangeiros era lord Palmerston, que ainda em maio de 1839 o ministro
+dos negocios estrangeiros de Portugal, Sá da Bandeira, se via forçado a
+rebater a exigencia d'aquelle, qual era a de que Portugal aceitasse sem
+alteração nem demora, uma minuta de tratado que lhe fosse apresentada,
+contendo bases differentes das que até então tinham sido combinadas nas
+negociações entaboladas.
+
+E eram taes as bases propostas que mui dignamente procedeu o então
+visconde de Sá da Bandeira repellindo tal exigencia como altamente
+lesiva á liberdade da nação, e á independencia da corôa. Entre as
+condições propostas por lord Palmerston achavam-se nada menos do que a
+clausula da perpetuidade das estipulações do tratado--o poder dado aos
+cruzadores Britannicos para destruirem á sua vontade os navios
+Portuguezes nos mares de Africa--e a faculdade de explorar as costas dos
+dominios Portuguezes até ao ponto que importava violação de territorio.
+
+Apesar d'esta rejeição, não cessava comtudo o governo Portuguez de uzar
+de todos os meios ao seu alcance tendentes a conduzir a cabo o seu
+pensamento de repressão áquelle trafico. Já em fins de 1838 haviam sido
+dadas instrucções positivas ao novo governador de Angola o almirante
+Noronha, afim de fazer cumprir as disposições do decreto de 10 de
+Dezembro de 1836, emquanto aguardasse o tratado que se negociava entre
+as duas nações, mas cuja realisação só era estorvada pelas delongas
+nascidas das pertenções e insistencias de lord Palmerston; e taes e tão
+sinceras eram as vistas do governo Portuguez e do visconde de Sá da
+Bandeira, ministro dos negocios estrangeiros e da marinha e ultramar,
+que até nas instrucções que elle déra áquelle zeloso official havia
+concedido poderes taes, que lhe permittiram celebrar em Loanda uma
+convenção provisoria em 29 de maio de 1839, com o capitão Tucker
+commandante das forças navaes Britannicas nos mares de Africa,
+estabelecendo a faculdade de reciproco direito de visita e pesquiza nos
+navios suspeitos de traficarem em escravos. Esta convenção acha-se
+transcripta no _Diario do Governo_ de 4 de outubro de 1839.
+
+Os subterfugios diplomaticos, as calculadas delongas e pouca lizura por
+parte do governo Britannico no decurso das negociações com o governo
+Portuguez foram taes que motivaram a publicação de um opusculo do
+visconde de Sá da Bandeira datado de 1840, época em que havia deixado de
+ser ministro, opusculo em que se tornam bem visiveis quaes os fins que a
+Inglaterra e principalmente lord Palmerston tinham em taes manejos.
+
+Infelizmente parece que as verdades ali postas á luz do dia, jazem nas
+trevas para muitos dos que não deveriam deixar-se assim adormecer na
+noite dos factos, como se a noite podesse com sua escuridão acobertar e
+atenuar a gravidade dos golpes vibrados contra a dignidade de uma nação.
+As trevas que permittem dizer _não vi_, não podem comtudo desvanecer o
+labéo do crime, que á luz teve por testemunhas a Europa e o Mundo.
+
+Deixem fallar a voz authorisada do Sr. Visconde (hoje marquez) de Sá da
+Bandeira no precitado opusculo:
+
+ «O Governo Portuguez foi collocado no seguinte dilemma, ou aceitar
+ sem discussão o tratado proposto e imposto por lord
+ Palmerston--annuir a condições arduas para Portugal e assim
+ incorrer no desagrado da nação Portugueza; ou aliás rejeitar o
+ tratado expondo-se assim a perder a sua reputação aos olhos da
+ Gram-Bretanha e do mundo civilisado.»
+
+A prova d'este enunciado encontra-se nos discursos do proprio
+Palmerston, e no officio a elle dirigido por lord Howard de Walden em 45
+de fevereiro de 1839, no qual dizia haver informado ao visconde de Sá
+que na hypothese de que o tratado não fosse aceito, em tal caso:
+
+ «No parlamento Britannico seriam tomadas e approvadas as mais
+ rigorosas medidas contra Portugal, emquanto que os discursos alli
+ proferidos deprimindo o caracter da nação Portugueza e seu governo,
+ seriam lidos por toda a parte do mundo e ficariam sem resposta; que
+ Portugal seria denunciado como o protector do trafico de escravos,
+ e que elle visconde de Sá e seus amigos poderiam exclamar e
+ lamentar-se quanto quizessem no parlamento Portuguez, porque nada
+ do que n'este se proferisse seria lido ou ouvido fóra de Portugal.»
+
+Seria demasiado longo o relatar e acompanhar todas as phases
+diplomaticas e de politica internacional havidas durante este periodo,
+em que as administrações de que fizeram parte o visconde de Sá da
+Bandeira, e depois o barão da Ribeira de Sabrosa, se viram abarbadas com
+as insolitas pertenções, e até com os insultos grosseiros de que lord
+Palmerston se servia para fazer pressão e móssa na dignidade da nação e
+nas regalias da corôa Portugueza! Em sessão de 15 de junho de 1839, o
+Barão da Ribeira de Sabrosa, já ministro dos negocios estrangeiros,
+apresentou ao parlamento os documentos e a correspondencia diplomatica,
+provando que fôra Palmerston quem rompera as bases do tratado que se
+estava negociando.
+
+Deixemos porém essas monstruosidades, que se tornam em bagatellas, em
+vista do extraordinario procedimento e da inaudita prepotencia, com que
+lord Palmerston apresentou no parlamento Britannico em julho do mesmo
+anno um _bill_, pelo qual (como muito bem dizia o sr. visconde de Sá da
+Bandeira no seu opusculo) «realisava em discursos e em factos as ameaças
+até então feitas», _bill_ a respeito do qual a folha official do governo
+Poutuguez de 28 do mesmo mez e anno se expressava da seguinte maneira:
+
+ «Um importante facto politico começa a realisar-se contra todas as
+ probabilidades moraes. O Governo de uma nação illustre e poderosa,
+ acaba de propôr uma medida altamente offensiva do direito das
+ gentes, contra outra nação, a sua mais fiel e antiga alliada.
+ Sabemos com profunda magoa que finalmente lord Palmerston
+ apresentára no parlamento um _bill_ pelo qual a navegação
+ Portugueza fica á mercê e dependencia do mero arbitrio dos
+ cruzadores Inglezes. É um acontecimento extraordinario na Europa,
+ etc.--Em diversos logares das nossas provincias ultramarinas tem
+ sido a bandeira Portugueza afrontada por forças Inglezas. Em Bolama
+ se apresentaram elles em aberta hostilidade, etc.»
+
+O famoso _bill_ de lord Palmerston, encontra-se publicado na folha
+official do Governo Portuguez de 9 de Agosto 1839. Por alli se vê, que
+eram suas disposições concebidas n'estes termos:
+
+ «Digne-se V. M. ordenar que se decrete e seja decretado, por e com
+ conselho dos Lords espirituaes e temporaes, e dos communs ora
+ reunidos em parlamento, e pela authoridade do mesmo, que, no caso
+ que V. M. fôr servida expedir ordens aos seus cruzadores de
+ aprezarem os navios empregados no trafico de escravos a que se
+ allude n'este acto, será e seja licito para o tribunal supremo do
+ almirantado de Inglaterra, e todos os tribunaes de vice-almirantado
+ em quaesquer colonias de S. M. Britannica de além mar, o tomarem
+ conhecimento de qualquer embarcação ou embarcações e as julgarem
+ _quando naveguem debaixo de bandeira portugueza_, que forem detidas
+ ou apresadas por virtude de qualquer authoridade expedida na
+ conformidade das disposições d'este acto.
+
+ «E seja decretado que todo o navio navegando _com bandeira
+ portugueza_, ficará sujeito a aprizionamento, embargo ou
+ condemnação, por virtude de qualquer authoridade dada ou passada na
+ conformidade d'este acto.»
+
+Sobre este assumpto, ponderava a mesma folha official em seu artigo de
+fundo, o seguinte:
+
+ «Qualquer que seja a idéa que possa fazer-se da exactidão dos
+ motivos em que se funda este _singular documento_, basta a simples
+ leitura para que se reconheça que elle só podia ter logar na
+ supposição de que Portugal havia _deixado de ser nação
+ independente_.»
+
+As razões que na camara dos communs de Inglaterra se produziram em favor
+d'este _bill_, d'este _singular_ documento, eram (como dizia em seu
+opusculo o Visconde de Sá da Bandeira) de egual jaez d'aquellas, com que
+uma anterior administração de _que fizera parte o mesmo lord
+Palmerston_, annos antes e a proposito das justas reclamações de
+Portugal sobre os direitos impostos aos seus vinhos, se proclamava
+n'aquella mesma camara esta terrivel maxima politica:
+
+ «Que Portugal era muito fraco, e a Inglaterra muito forte, e que
+ por isso ella podia fazer o que julgasse mais conveniente!»
+
+Passou na camara dos communs o _bill_; mas encontrou obstaculos na
+camara dos Lords. Tão contrario á justiça e tão attentatorio elle era á
+independencia de Portugal; tão violenta era a droga da pharmacia
+politica d'aquelle _medico_, que até achou vozes authorisadas que o
+combatessem no seio d'aquella casa do parlamento Britannico. E foi a voz
+de um vulto conspicuo na moderna historia, a que mais calorosamente
+advogou a justiça de Portugal. O duque de Wellington em sessão de 1 de
+Agosto proferiu bem alto, que «Portugal havia de resistir ou perecer,
+porque se elle se sujeitasse á legislatura da Gram-Bretanha _deixaria
+logo de ser nação independente_.»
+
+Era assim que o heroe, cujo nome se achava unido aos titulos mais
+honrosos da gloria militar do seu paiz, ainda então a poupava a tão
+grande deslustre, qual o de aviltar pela força, e contra todo o direito,
+outra nação que quando fôra por elle guiada já se havia illustrado por
+famosas victorias contra um formidavel inimigo commum.
+
+O _Times_, o mais authorisado jornal inglez expressava-se a tal respeito
+pelo seguinte modo:
+
+ «O _bill_ era uma medida summamente _tyrannica_. Uma grande
+ potencia arrogava a si uma supremacia insolente sobre outra mais
+ pequena. Os lords procederam com dignidade, não querendo apoiar com
+ o seu assentimento um systema de intimidação. Acaso ousaria lord
+ Palmerston tratar a França como tratava Portugal?»
+
+O povo Portuguez sentia e manifestava a sua indignação; e como
+interprete d'este geral sentimento, o ministro dos negocios
+estrangeiros, então o barão da Ribeira da Sabrosa, dirigia em 4 de
+agosto (1839) a todas as potencias signatarias dos tratados do congresso
+de Vienna, uma nota em fórma de energico protesto, contra o que na mesma
+se qualificava de _procedimento offensivo e inaudito_ do governo
+Britannico, pelo seu ministro lord Palmerston.
+
+Quem, sendo contemporaneo d'essa época não fôr de todo desmemoriado,
+deverá não ter esquecido os pregões com que os cegos, vendilhões de
+Lisboa, annunciavam impresso o _injusto bill de lord Palmerston_. Mas
+quem diria aos cegos de então, e ao povo que indignado ouvia a noticia
+da injustiça de que era victima, que não deixaria de vir tempo em que o
+fautor de taes ultrajes teria na metempsycose de _aguia_, _medico_ e
+_sacerdote_, quem lhe celebrasse culto, carpindo lagrimas e
+_pousando-lhe saudades na campa, em nome da dor sincera de Portugal_!
+
+ * * * * *
+
+Fôra rejeitado na camara dos lords o _bill_ Palmerston, que se na
+opinião do _Times_ era uma medida _summamente tyrannica--uma supremacia
+insolente--um systema cobarde de intimidação_, pela declaração official
+do governo Portuguez era classificado como _procedimento offensivo e
+inaudito_; e segundo o voto do duque de Wellington, por elle _deixaria
+Portugal de ser nação independente_.
+
+Julgava-se pois n'esta parte concluida tão grave questão, qual a do
+_bill_, que havendo sido rejeitado, deixava de ferir a victima, embora
+não deixasse de manchar o algoz.
+
+Mas os factos que logo se seguiram, vieram mostrar que lord Palmerston,
+o maior amigo da Inglaterra, era senão o maior, pelo menos o mais
+figadal inimigo de Portugal; logo na sessão de 15 de agosto do mesmo
+anno apresentou um novo _bill_ apenas modificado na fórma, mas
+inteiramente concorde na essencia com as disposições attentatorias
+contra a independencia, pundonor e dignidade da nação Portugueza.
+
+E em quanto as folhas ministeriaes Inglezas, e principalmente o _Globe_,
+(que a opinião publica de Inglaterra affirmava estar debaixo da absoluta
+influencia de mylord) tratavam Portugal com o maior desabrimento e
+injustiça, por outra parte se preparavam novas e mais atrozes injurias
+nas casas do parlamento, contra uma nação a quem só podiam fazer taes
+aggravos mediante a mais cobarde prepotencia, e direito da força bruta.
+
+Lord Brougham, orando em favor do _bill_ Palmerston, divagando entre o
+absurdo e o insulto, chegou a dizer:
+
+ «Que a Inglaterra podia dar leis a Portugal do mesmo modo que as
+ dava á Jamaica, á Dominica, e á Barbada; e que as aguas do Tejo não
+ deviam correr sem sua licença. Deixae fallar de resistencia contra
+ nós, que devemos ser considerados mais como dominadores, do que
+ amigos.»
+
+No _Diario do Governo_ de 24 de agosto (1839) se encontram publicadas
+officialmente estas expressões, proferidas n'aquella sessão, no mesmo
+parlamento, e talvez que no mesmo debate em que lord Palmerston
+declarava, que a bandeira Portugueza era uma bandeira _prostituta_.
+
+O _bill_ d'esta vez passou na camara dos lords. Mas o voto authorisado
+d'aquelle que já conhecera e ainda não esquecera os brios da nação
+Portugueza, e reconhecia quanto era ignobil o aviltal-a por meios tão
+injustos, o voto do Duque de Wellington formulado em protesto e firmado
+por mais treze pares, alli ficava como um valioso padrão que servisse de
+egide moral contra tanta prepotencia e persistente animosidade de lord
+Palmerston para com Portugal. Era esse despeito, essa animosidade quem
+dava causa a que não cessassem de ser postos em pratica por parte de
+mylord, os meios directos ou indirectos que podessem deprimir este paiz.
+Por isso o _Diario do Governo_ de 15 de setembro (1839) tinha occasião e
+motivo de transcrever o seguinte:
+
+ «O _Globe_ de 7 (é o jornal de lord Palmerston) transcrevendo o
+ protesto que o governo Portuguez fizera ante as potencias
+ signatarias dos tratados do congresso de Vienna pela violencia do
+ _bill_, explica-se da maneira mais insolita contra Portugal. A sua
+ linguagem é de tal modo violenta, que faz admiração ver até que
+ ponto o jornalista se deixou levar do impeto das paixões. O seu
+ despeito varia alternativamente entre o absurdo, a injuria, e a
+ calumnia.»
+
+Mas não se limitava lord Palmerston, essa _aguia que suspendia as
+liberdades_, esse _medico_ de receituario tão aspero que dava morte,
+esse _sacerdote_ cujo pão _eucharistico_ (!) eram taes doutrinas de
+perdição, não se limitava a ferir pela injuria e pelo aviltamento; aos
+meios moraes seguiam-se os factos materiaes; factos, que sendo feias
+pertenções em qualquer época, eram na conjunctura em que se davam, novos
+meios de violencia, empregados com refinada acrimonia contra a nação
+Portugueza.
+
+
+Com o intuito de fazer acintosa pressão sobre uma nação, a respeito da
+qual se promulgavam leis e se votava um _bill_ que importava annular-lhe
+a independencia, e sujeital-o ás condições da _Jamaica_, _Barbada_ ou
+_Dominica_, não duvidava lord Palmerston aproveitar-se de qualquer
+incidente, e barafustar qualquer pretexto que lhe fornecesse novos meios
+de embaraçar a situação politica de Portugal, complicando-lhe a sua
+posição mediante exigencias imperiosas, que importassem novas
+difficuldades.
+
+Foi por isso que lord Palmerston fez apoiar pelo representante do
+governo Inglez na côrte de Lisboa, lord Howard de Walden, as reclamações
+de um certo Jonh Milley Doyle, subdito Britannico, o qual allegando ter
+sido preso em Portugal durante a grande lucta civil, accusava o governo
+d'este paiz de lhe não haver reparado os damnos e incommodos, pelos
+quaes exigia 6:000 libras esterlinas a titulo de indemnisação, além dos
+juros pelo retardo; e havia requerido ao parlamento Britannico para lhe
+obter uma carta de marca, com que podesse aprezar navios portuguezes até
+que pelo valor d'elles se indemnisasse da somma em que avaliava as
+perdas!! Seria difficil, (dizia a folha official do governo Portuguez)
+decidir «o que tinha maior parte n'esta idéa, _se a loucura, se a
+ousadia_.»
+
+No _Diario do Governo_ de 11 de setembro se acha transcripta a nota do
+ministro Ribeira de Sabrosa em resposta á exigencia de lord Palmerston,
+o qual fazia obra pela atrevida pretenção filha da _loucura_ e _ousadia_
+de Milley Doyle, quando phantasiára seus calculos com tanta desfaçatez e
+insolencia, que só tinham rival no apoio que lhe dava um ministro da
+corôa.
+
+Não parou aqui o _sacerdocio_ nem a _medicina_ que lord Palmerston
+dispensava á nação Portugueza. Por sua ordem, lord Howard de Walden
+redobrava notas reformando aquellas reclamações. Em 9 de outubro exigia
+que o governo Portuguez nomeasse desde logo uma commissão para liquidar
+as contas e solver varias quantias, sob pena de que o governo Britannico
+a nomearia e se julgaria habilitado por obra da mesma a haver de
+Portugal o pleno pagamento.
+
+Pela nota de lord Howard de Walden, inserta no _Diario do Governo_ de 12
+de novembro, se vê que augmentavam as exigencias pecuniarias a ponto de
+se pedirem entre outras novas verbas, 100 libras esterlinas de
+indemnisação a favor de dois marinheiros da escuna _Clarence_, porque
+haviam sido prezos em Portugal por contrabando de tabaco! Augmentando
+esta crescente formula de vexame, para acobardar uma nação pelo terror e
+pelos embaraços, lord Howard de Walden enviava em 6 de novembro ao
+governo Portuguez uma nova reclamação, na qual se incluiam as contas de
+Milley Doyle, dos marinheiros do _Clarence_, e de outros subditos
+britannicos, todos contemplados á mão larga com verbas de capital e de
+juros, juntando a isto outras reclamações anteriores, e intimando
+peremptoriamente o governo Portuguez para sem mais exame nem detença
+satisfazer a somma de libras esterlinas 375:475.--17s--10d, ou réis
+1.603:504$885, com ameaça de fazer occupar as suas possessões
+ultramarinas em caso de hesitação. Nos _Diários do Governo_ de 12 e 17
+de novembro (1839) se acham publicadas as referidas notas, que deram
+causa a outra do barão da Ribeira de Sabrosa de 25 de novembro, na qual
+cedendo aos argumentos da força, não se descurava de exigir o
+cumprimento de tratados que obrigavam a Inglaterra a ceder a Portugal a
+cidade de Columbo na ilha de Ceylão.
+
+E toda esta serie de procedimentos vexatorios, não provaria mais o
+rancor de animo da parte de lord Palmerston, do que a existencia de
+qualquer plauzivel pretexto para assacar a Portugal a pêcha de remisso
+ou falto de empenho na cohibição do trafico de escravatura? De certo;
+porque se assim não fôra, não escreveria Lord H. de Walden a nota de 15
+de novembro, (_Diario_ de 21) partecipando por parte do seu governo, que
+não approvava a convenção provisoria de 29 de maio do mesmo anno
+celebrada entre o governador de Angola, e o capitão Tucker, convenção
+esta (a que já se alludiu), cujo fim era pôr estorvos ao trafico de
+escravos, e que o governo Portuguez mandára observar por portaria de 30
+de setembro. Os motivos da não approvação bazearam-se em que já _não era
+necessaria_, em consequencia das instrucções geraes que o governo
+Britannico tinha dado aos cruzadores! Estas instrucções eram a
+consummação do _bill_; já _não era necessaria_ a convenção
+internacional, por quanto pelo _bill_, lord Palmerston legislava para
+Portugal como _se fosse a Jamaica, ou a Barbada_!
+
+Lord Palmerston fizera de facto transmittir aos navios de guerra
+Britannicos as ordens n'esse sentido. O governo de uma nação poderosa,
+cheio de animosidades e de arrojo contra uma nação fraca com a qual se
+dizia em paz, havia passado a pôr em pratica as medidas que legislára
+contra todos os direitos reconhecidos, e que importavam a quebra dos
+direitos de independencia, e a morte moral d'essa nacionalidade assim
+opprimida pela força e pela prostergação de todas as praxes de direito
+internacional.
+
+Se lord Palmerston era a _aguia_, o _medico_ e o _sacerdote_ das
+liberdades, que as _suspendia no ar_ e lhes dava a vida e _pão
+eucharistico_(!!), para com Portugal dir-se-hia ser o milhafre que
+rasgava a preza--medico que apressava a morte, e sacerdote para......
+nada de blasphemias.... porque o _fermento_ de suas doutrinas ainda
+produzia seus effeitos, como se deprehende do _Diario do Governo_ de 11
+de dezembro (1839) onde, entre as noticias officiaes de Angola se
+encontram as seguintes:
+
+ «Em virtude da convenção de 29 de maio entre o almirante Noronha e
+ o capitão Tucker, entrou no Zaire o commandante Elliot do brigue
+ _Columbine_, e ahi aprezou alguns navios, talvez em contravenção do
+ decreto de 10 de dezembro de 1836; mas não encontrou motivo para
+ assim proceder com o brigue _Neptuno_ de Lisboa, e a escuna
+ _Angerona_ de Loanda, que estavam alli. Passados dias foi o
+ _Neptuno_ abordado de noite pelos escaleres, e pouco depois havendo
+ recebido algum fogo feito pelos pretos, aprezaram a _Angerona_.
+ Sahiu o _Columbine_ com os vazos aprezados, e encontrando o paquete
+ de Loanda, obrigou-o a deter-se 24 horas, e passou para elle as
+ tripulações, e á vista do mesmo paquete para testemunhar a
+ affronta, collocou-se entre as embarcações n'uma das quaes estava a
+ bandeira Portugueza, e lhes fez fogo até as metter a pique. Este
+ facto que não passa de um _attentado individual_, e que só prova o
+ brutal atrevimento de quem o praticou, é escandaloso pela _cobarde
+ injuria_ feita á bandeira Portugueza, cujo governo em desaggravo
+ não póde deixar de pedir satisfação.»
+
+N'esta sentida apreciação feita pelo jornal official do governo
+Portuguez, havia apenas um equivoco, qual era suppôr que taes factos não
+passassem de um attentado individual. Engano! Era a justiça de lord
+Palmerston executada pelos seus lictores. O capitão Elliot foi promovido
+pela _cobarde injuria_ á bandeira Portugueza, e lord Palmerston ministro
+dos negocios estrangeiros da Gram-Bretanha para tirar áquella proeza
+todo o caracter de individual, apressou-se a communicar ao governo
+Portuguez a noticia da promoção, assim como praticára a respeito do
+commandante do _Leveret_ que no porto de Moçambique abordou á força um
+navio fundeado debaixo das baterias Portuguezas, ferindo e espancando a
+seu bordo até os officiaes d'alfandega que alli se achavam em desempenho
+de seu dever!
+
+Era o remate da obra; á violencia e ao insulto era mister juntar o
+acinte e o escarneo! A _grandeza_ dos feitos não era para tão altas
+recompensas, mas parece que tal era a insaciabilidade de lord Palmerston
+em assim deprimir acintosamente a nação Portugueza, que até quiz
+promover o commandante do _Eclair_ por haver devastado o estabelecimento
+da ilha de Gallinhas na costa de Guiné, no qual feito esse official
+completou sua façanha, assassinando com um tiro de pistola a filha do
+coronel Mattos que fugia ás suas tentativas de seducção.
+
+Chovam pois sobre a campa de lord Palmerston as _saudades que a dor
+sincera dos Portuguezes deve alli pouzar, pela gratidão nacional que nós
+particularmente lhe devemos_!!
+
+A nação Portugueza, assim opprimida é escarnecida por um governo
+estranho cuja alma era Palmerston, passava por uma angustiosa crize, e
+eram amargos os dias que lhe fazia soffrer a politica acintosa d'aquelle
+ministro. Ás affrontas succediam-se affrontas, ás ameaças e á força
+deviam ceder a fraqueza e o torpor da victima. Dir-se-hia que a _aguia_
+fazia bem sentir a Portugal o gume de suas garras, que encravava até
+ferir as fibras vitaes da independencia, para ainda em seguida saciar a
+fereza sugando-lhe o sangue! O ouro do erario Portuguez hia locupletar
+aquelles que o reclamavam a seu talante, e que para o haverem, achavam
+em mylord o sustentaculo das suas pertenções, entre as quaes primavam
+aquellas do que havia aspirado á carta de marca, e ao corso maritimo! A
+victima maniatada dava o cólo ao executor d'alta injustiça; a sêde de
+ouro havia sido saciada; só então a _aguia_ encolheu as azas e repousou
+por alguns momentos da fadigosa tarefa de _suspender no ar_, mas
+ferindo, a liberdade, e com esta a nacionalidade Portugueza!
+
+Outra administração succedêra no governo Portuguez; as cartas de lei de
+3 e 17 d'outubro de 1840 authorisaram a realisação dos fundos, e o
+pagamento das reclamações; e novas negociações se hiam entabolando para
+chegar á convenção e ratificação de um tratado, pelo qual cessasse o
+estado anomalo que era a excepção mais insolita nas relações
+internacionaes. O cordeiro hia estipular com o lobo; mas o duque de
+Palmella nomeado negociador por parte do governo Portuguez poude com
+fino tacto e prudencia levar a cabo a negociação, e o tratado de 8 de
+julho de 1842 veio finalmente restabelecer as relações entre Portugal e
+a Gram-Bretanha nas bases de uma reciprocidade, que até então fôra
+completamente contrariada pela _tyrannia_ de lord Palmerston.
+
+Mas o espirito de maleficio, a sanha, e a altivez que durante tão longa
+quadra fôra o caracter mais saliente e incessante dos procedimentos
+d'aquelle estadista contra a nação Portugueza, ainda deixava ver os
+vestigios do quanto elle actuára na indole e conducta dos executores de
+seus mandados. Já o tratado de 1842 fôra ractificado entre as duas
+coroas e ainda o commodore inglez Foote entrava no porto de Loanda, para
+pôr em execução as praticas até então uzadas á sombra do attentatorio
+_bill_; mas a paciencia estava exhaurida, e felizmente houve um official
+da marinha Portugueza que soube fazer recuar a audacia d'aquelle, que
+antepunha o consuetudinario direito da força, prescripto pelo bill de
+lord Palmerston, á força do direito convencionado, e, que por ser de
+fresca data se intentava ainda postergar, pelo apego aos passados
+procedimentos.
+
+O commodore Foote com a sua fragata _Madagascar_ recuou perante a
+energica firmeza do commandante Gonçalves Cardoso, o qual, embora
+commandasse uma corveta, se mostrava decidido a vender cára qualquer
+violação de direitos que se pertendesse consummar. Era já tempo de pôr
+cobro a um estado de cousas, que para uma nação independente se tornava
+quasi peior do que o seu desapparecimento do mappa da Europa.
+
+A _aguia_ das nacionalidades estendia seus vôos por sobre outras
+regiões. Pairava sobre o Imperio Chim, e qual _medico e sacerdote_
+propinava-lhe com o veneno do opio, o confôrto da guerra.
+
+Mais tarde a Grecia via-se assoberbada pela mesma politica audaz, que
+alli hia apoiar pela ameaça com a força, e pelo bloqueio com a ruina do
+commercio Hellenico, as extravagantes reclamações do israelita David
+Pacifico.
+
+As reclamações pecuniarias á Espanha no momento em que esta se empenhava
+na guerra com Marrocos, davam nova amostra d'aquella politica, pela qual
+se estendia a mão com o sacco á primeira, emquanto se forneciam munições
+e armas á segunda.
+
+O Brasil não se subtrahia ao holocausto em que se immolavam as regalias
+de independencia das nações _não poderosas_. Medidas semelhantes ás que
+em 1839 haviam sido adoptadas contra Portugal, eram em 1845 dictadas e
+applicadas áquelle Imperio.
+
+Longo e muito longo seria o capitulo dos _items_ d'esta politica
+sobranceira e pouco escrupulosa, de que lord Palmerstron tanto abuzou,
+arrogando para si um direito, na sem ceremonia com que desdenhosamente
+legislava para estados independentes, em violação flagrante dos mais
+sagrados principios que regem a moral e a justiça das nações. Era a
+proposito de uma tal politica, que o conde de Ficquelmont, na sua
+notavel obra _lord Palmerston, l'Angleterre et le continent_, dizia em
+phrase de severa condemnação:
+
+ «Aucune forme de gouvernement ne peut donner le droit d'avoir dans
+ sa législation, des principes hostiles aux autres États. Les pays
+ libres, comme tout État quelconque, n'ont de droits que sur
+ eux-mêmes. Ils ne peuvent à aucun égard, faire l'application de
+ leurs principes aux relations des États étrangers, car la liberté
+ qui donnerait les droits sur les autres, serait une arme
+ d'oppression, que chacun aurait le droit de chercher à briser.»
+
+Na applicação feita por lord Palmerston d'esta especie de liberdade que
+se torna _uma arma de oppressão_, coube a Portugal bom quinhão na
+partilha; e por isso podem dispensar-se mais exemplos de fóra, quando
+tantos, e demais os ha de caza. São os factos que assim o asseveram.
+
+Césse porém a pungente narrativa de tantos e tão notaveis procedimentos
+do ministro de uma nação poderosa, contra outra inerme e empobrecida,
+vilipendiada pela sujeição aos caprichos illegaes de que elle soubéra e
+podéra servir-se como passatempo, em homenagem ao despeito, e ás paixões
+odientas que lhe dedicára, e tanto manifestára.
+
+Deixemos este ambiente repugnante, esta athmosphera infeccionada pelos
+miasmas lethaes cuja aspiração ainda recorda dias bem crueis para o
+pundonor da nacionalidade Portugueza.
+
+Corrâmos um véo sobre a atrocidade do capitão Keppell em Macáo, onde o
+assassinio violento de um soldado Portuguez, a violação do territorio
+regado pelo sangue de seus filhos, tudo obra de mão armada e traiçoeira,
+sendo ministro lord Palmerston, teve da parte d'este como satisfação, o
+empenho de querer negar a Portugal o direito de soberania sobre aquella
+possessão!
+
+Cubrâmos ainda o rosto, porque a bandeira das quinas foi mais de uma vez
+derribada de seu poste na ilha de Bolama, a guarnição d'esta conduzida
+prisioneira; e lord Palmerston mandou tomar posse d'aquella ilha, e
+occupa-la militarmente, fazendo sempre orelha surda aos clamores
+formulados pelas vias mais legaes.
+
+Abrevie-se este epilogo de attentados, que tantos em numero e tantos em
+magnitude elles são, que oxalá ahi podessem jazer para todo sempre
+envoltos no pó do esquecimento, como o estão no ásco da sua fealdade.
+
+_Paz aos mortos_, seria a mais resignada phraze, o mais caridoso
+epitaphio que a voz de Portuguezes se podesse esculpir sobre a campa
+d'aquelle, que em vida não foi o seu melhor amigo.
+
+Mas essa paz quem a perturba? Quem é a causa de se revolverem as cinzas
+do finado?
+
+A causa? Está no incenso que se lança agora nos thuribulos, e que se
+quer queimar em reverente homenagem á memoria d'aquelle cujos feitos,
+para serem esquecidos na paz do tumulo, carecem que seu nome não seja
+engrinaldado com o atributo de _merecedor da gratidão nacional_, nem com
+o incompativel titulo de _credor das saudades inspiradas pela dor de
+Portugal_. A causa, repita-se, está no modo parcial com que se avaliam
+os factos, não pelo que elles são, mas conforme o lado de donde vem.
+
+....... Surgem por ahi ás vezes certos zelos insoffridos a pró de
+regalias nacionaes, quando estas estão bem longe de correr perigo, ou
+soffrer desdouro. Para que é então a altivez para com o inoffensivo e
+fraco, se logo apoz se vae curvar o joelho em homenagem á memoria do
+forte, mas do forte que fez sentir o pezo da sua pressão?
+
+Preste-se muito embora a mais justa veneração a um povo, a uma
+nacionalidade, que a ella tem jus por tantos titulos valiosos; mas,
+distincção feita, não vá tão longe a reverencia á sua _politica_ altiva
+e ruim, a ponto de ser uma das victimas d'esta, quem lhe preste o culto
+na pessoa do sacerdote.
+
+A entidade moral nação, não póde prescindir do resentimento, que lhe não
+deixa medir sua indulgencia pela paixão individual de coração do homem.
+Póde o homem perdoar, mas uma nação não póde esquecer!
+
+Um quarto de seculo na vida das nações não é prazo sufficiente para
+sanar feridas que tanto sangraram, e de que restam cicatrizes; se este
+lapso de tempo apenas permitte dar tregoas ao resentimento, não é elle
+bastante para que incite a oscular a mão que vibrou os golpes, e que
+espargiu o veneno do vilipendio.
+
+É por isso que hoje, a reverencia perante o tumulo, e o silencio só
+entrecortado pelo brado de _paz aos mortos_, seria o mais adequado, e um
+ainda generoso apanagio, á memoria d'aquelle para quem ha um quarto de
+seculo, taes mensagens, qualquer que fosse a sua phrase, só poderiam ter
+a significação e o alcance que tinha nos circos da Roma pagã, o brado
+_morituri te salutant_.
+
+Lisboa 28 novembro 1865.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Lord Palmerston: a opinião e os factos, by
+Carlos Testa
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LORD PALMERSTON ***
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+ <title>Lord Palmerston, a opinião e os factos: Um brado a pró da verdade, por Carlos Testa</title>
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+<pre>
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+Project Gutenberg's Lord Palmerston: a opinião e os factos, by Carlos Testa
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Lord Palmerston: a opinião e os factos
+ um brado a pró da verdade
+
+Author: Carlos Testa
+
+Release Date: June 4, 2008 [EBook #25697]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LORD PALMERSTON ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
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+
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+<div class="capa">
+
+<p style="font-size: 2.5em;">LORD PALMERSTON</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">A OPINIÃO E OS FACTOS</p>
+
+<hr style="width: 15%">
+
+<p>UM BRADO A PRÓ DA VERDADE</p>
+
+<p>Por C. T.</p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p>LISBOA<br>
+
+<small>TYP. DA SOCIEDADE TYPOGRAPHICA FRANCO-PORTUGUEZA</small><br>
+
+<small>6, Rua do Thesouro Velho, 6.</small><br>
+
+1865</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[3]</span>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<blockquote style="margin-left: 50%; font-size: 0.8em;">
+<p>Infandum... jubes, novare dolorem.</p>
+<p style="margin-left: 8em;"><span class="small-caps">Virg. Æn.</span></p>
+</blockquote>
+
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<div id="corpo">
+<p>Não ha nada, por bem extraordinario que pareça, para que não se deva
+estar preparado. Realizam-se factos contra todas as supposições, ou
+probabilidades moraes; e emquanto que muitas vezes se levantam
+escrupulos sobre incidentes triviaes, mas explorados em favor da
+significação que se lhes quer dar, ou do alcance moral e politico que se
+pertende ter em vista, outras vezes o olvido, a indulgencia, ou qualquer
+outro sentimento menos austero, faz com que se esqueçam acontecimentos
+graves e se absolvam factos, nada innocentes para o pundonor de uma
+nação.</p>
+
+<p>Occorrem estas considerações á mente de <span class="pagenum">[4]</span> quem por um momento
+reflectisse no que se passou na camara dos srs. deputados na sessão de
+20 do corrente, em que um membro d'aquella casa propoz duas mensagens de
+profundo sentimento pela morte de lord Palmerston, sendo uma dirigida á
+camara dos communs de Inglaterra, e outra á viuva do dito lord.</p>
+
+<p>Consubstanciou o proponente as suas razões, envolvendo-as no manto de
+uma eloquencia elevada, vaporosa e figurada, onde a abundancia das
+flores de estylo escondesse os espinhos do assumpto. Foram suas as
+seguintes expressões:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«O primeiro titulo e a principal virtude do finado era o de melhor
+amigo da Inglaterra; que, onde houvesse uma liberdade moribunda ou uma
+liberdade a nascer, lá estava elle que era ao mesmo tempo aguia, medico
+e sacerdote. Á primeira dava conselhos e ministrava vida nova com o pão
+eucharistico (!) de suas doutrinas. Á segunda tomava d'ella nas suas
+garras, e a suspendia depois no ar, (<i>sic</i>) donde a luz immensa de cima,
+e o exemplo debaixo, apontavam horisontes claros do futuro, etc.</p>
+
+<p>«As minhas propostas requerem uma homenagem prestada aos mais sagrados
+direitos da <span class="pagenum">[5]</span> humanidade, etc... essa homenagem é tambem sobretudo
+uma divida de respeito universal que lhe devemos todos os povos, e <i>de
+gratidão nacional que nós particularmente lhe devemos</i>, etc...»</p> </div>
+
+<p>Apoiado desde logo por um ex-ministro que se declarou prevenido e
+antecipado na proposta, e que assim lograva ter partilha nos applausos
+de occasião, concluiu o proponente o seu poetico discurso, appellando
+para o parlamento afim de que «<i>o acompanhasse nas saudades que a dor
+sincera de Portuguez lhe fazia pouzar sobre o tumulo de lord
+Palmerston</i>.»</p>
+
+<p>Se a camara approvou a proposta, respeitem-se os intentos e acatem-se as
+decisões.</p>
+
+<p>É licito suppôr que o enthusiasmo do momento, filho da maviosa e viçosa
+phrase do eloquente deputado, abafasse qualquer outro sentimento intimo
+na apreciação do assumpto; mas seja licito tambem avaliar á sombra da
+historia quasi contemporanea, na calma da reflexão, e longe do jardim da
+eloquencia, o conceito que deve merecer a Portugal o grande estadista,
+que, se foi (como disse o author da moção) o maior amigo da Inglaterra,
+não foi decerto em todas as épocas da sua vida politica o melhor amigo
+de Portugal.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[6]</span>A indicação de alguns factos, suggeridos e sanccionados por documentos
+officiaes, bastará para provar esta asserção.</p>
+
+<hr style="width: 15%">
+
+<p>Não é necessario remontar á primitiva historia do trafico de escravos,
+nem ás primeiras tentativas feitas a pró de sua abolição, para se
+reconhecer que não foi a Inglaterra a primeira nação que mostrou
+empenhar-se n'este ultimo intento. Já no começo d'este seculo algumas
+nações tinham promulgado leis n'esse sentido, quando ainda a Inglaterra
+sustentava o principio da escravidão.</p>
+
+<p>Não era isso para extranhar n'uma nação que durante longos annos foi a
+que mais commerciou e lucrou no trafico de escravos.</p>
+
+<p>A historia não se desmente e a lição dos factos não é fácil de
+contestar-se.</p>
+
+<p>Pelo tratado denominado de <i>assiento de negros</i> celebrado em 26 de março
+de 1713 entre as coroas de Inglaterra e de Espanha, se estipulou «que S.
+M. Britannica nomeará pessoas que se encarreguem de introduzir nas
+colonias Espanholas das Indias occidentaes da America, durante o prazo
+de 30 annos, 144:000 negros peças d'India de ambos os sexos sendo <span class="pagenum">[7]</span>
+4:800 em cada anno. Os «assentistas poderão empregar os navios
+propriedade de S. M. Britannica e de seus vassallos.»</p>
+
+<p>Pelo tratado de paz e amisade de 13 de julho do mesmo anno entre o Rei
+Catholico e a Rainha Anna da Gram-Bretanha, negociado pelo duque de
+Ossuna e marquez de Montleon por parte da Espanha, e o bispo de Bristol
+e o conde de Strafford por parte da Inglaterra, se estipulava o
+monopolio do trafico de escravos em favor d'esta; e pelo artigo 12.º
+diz-se que «o Rei Catholico dá e concede a S. M. Britannica e á
+companhia de vassallos seus para este fim formada, a faculdade para
+introduzir negros nas diversas partes chamadas de <i>assientos</i>, com
+exclusão de Espanhoes ou quaesquer outros, isto por espaço de 30 annos.»</p>
+
+<p>Que contraste! Já havia mais de um seculo que um frade dominico
+Espanhol, Francisco Victoria, na sua obra <i>de Indis</i>, e seu discipulo
+Domingos de Soto, no tratado <i>de justitia et jure</i> haviam pugnado pela
+liberdade da raça humana; já os frades redemptoristas catholicos iam á
+Africa resgatar os captivos christãos, e ainda a Inglaterra em nome da
+sua soberana, e por intermedio de um bispo protestante monopolisava para
+si o trafico de escravos, antepondo á voz da consciencia, o engodo dos
+interesses que auferia d'este mercadejo de <span class="pagenum">[8]</span> corpos endurecidos
+pelo trabalho e de almas embrutecidas pela servidão e miseria!</p>
+
+<p>Áquem do meiado do seculo passado as colonias Inglezas da America pediam
+repetidas vezes a abolição da escravatura, mas a influencia dos
+interesses da metropole fizeram sempre com que o parlamento e a corôa
+rejeitassem essas aspirações, e a Inglaterra proseguia a despovoar a
+Africa antepondo os interesses do ganho, a submetter-se á voz da
+humanidade.</p>
+
+<p>Edmund Burke, em seu notavel discurso sobre a conciliação com a America,
+reconheceu que uma das causas da animadversão para com a Inglaterra, era
+a pertinacia d'esta em recuzar-se a qualquer annuencia ás tentativas dos
+Estados para obstar ao trafico de escravos, e que uma tal persistencia,
+e o abuso do veto Real em favor da escravidão, foram uma das causas da
+separação da America do Norte.</p>
+
+<p>Wheaton, publicista americano affirma na sua historia do direito das
+gentes, que a escravidão que até hoje fazia parte integrante do systema
+social dos Estados do Sul da Republica dos Estados Unidos, não só fôra
+alli introduzida pela mãe patria, mas que tambem ás recuzas d'esta em
+annuir ás medidas que as assembléas provinciaes propunham para a abolir,
+é que se deve o haver-se perpetuado uma tal instituição n'aquella parte
+da America.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[9]</span>As tentativas de Clarkson, e as de Wilbeforce em 1804, no parlamento
+Britannico, contra o trafico, ainda eram contrariadas pelo Governo da
+Gram-Bretanha, vindo sómente a ser adoptadas durante o ministerio da
+coalisão de Fox e Granville; e ás grandes luctas internacionaes
+d'aquella época, luctas que mudaram totalmente a face aos interesses
+commerciaes e coloniaes da Inglaterra, é que se deve a nova phase que a
+respeito do trafico de escravatura tomou a politica d'aquella potencia.</p>
+
+<p>Por todo este conjuncto de factos e circumstancias bem se deixa perceber
+que o governo Portuguez a cuja frente se achavam Manoel Passos, Sá da
+Bandeira, e Vieira de Castro (Senior) abolindo pelo decreto de 10 de
+Dezembro de 1836 o trafico da escravatura nas possessões Portuguezas,
+tinha razão sobeja para consignar no relatorio do mesmo decreto, estas
+solemnes palavras:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«O infame trafico dos negros é certamente uma nodoa indelevel na
+historia das nações modernas, mas não fomos nós os principaes, nem os
+unicos, nem os peiores réos. Cumplices que depois nos arguiram tanto,
+peccaram mais e mais feiamente.»</p> </div>
+
+<p>É porém sabido que novas vistas politicas e <span class="pagenum">[10]</span> commerciaes haviam
+tornado mais modernamente a Inglaterra sofrega por abolir o trafico;
+convenções internacionaes eram n'esse sentido diligenciadas por lord
+Palmerston então ministro dos negocios estrangeiros d'aquelle paiz; e
+durante o anno de 1837 e parte de 38 se entabolaram com Portugal
+negociações para a estipulação de um tratado entre as duas corôas, sendo
+o negociador o visconde (hoje marquez) de Sá da Bandeira, ministro dos
+negocios estrangeiros, e lord Howard de Walden, representante Britannico
+em Lisboa.</p>
+
+<p>Ninguem se atreverá a duvidar por um momento, de quão sinceras e intimas
+são e sempre foram as convicções e o empenho do marquez de Sá da
+Bandeira em relação ao trafico de escravatura; e quando qualquer
+divergencia possa haver sobre o modo de as avaliar, nunca tal
+divergencia poderá nem levemente admittir a supposição de que elle se
+prestasse a difficultar ou estorvar qualquer justa medida tendente á
+abolição d'aquelle infame trafico. Mas eram taes as pertenções, e as
+tricas diplomaticas do Governo Britannico cujo ministro de negocios
+estrangeiros era lord Palmerston, que ainda em maio de 1839 o ministro
+dos negocios estrangeiros de Portugal, Sá da Bandeira, se via forçado a
+rebater a exigencia d'aquelle, qual era a de que Portugal aceitasse
+<span class="pagenum">[11]</span> sem alteração nem demora, uma minuta de tratado que lhe fosse
+apresentada, contendo bases differentes das que até então tinham sido
+combinadas nas negociações entaboladas.</p>
+
+<p>E eram taes as bases propostas que mui dignamente procedeu o então
+visconde de Sá da Bandeira repellindo tal exigencia como altamente
+lesiva á liberdade da nação, e á independencia da corôa. Entre as
+condições propostas por lord Palmerston achavam-se nada menos do que a
+clausula da perpetuidade das estipulações do tratado&mdash;o poder dado aos
+cruzadores Britannicos para destruirem á sua vontade os navios
+Portuguezes nos mares de Africa&mdash;e a faculdade de explorar as costas dos
+dominios Portuguezes até ao ponto que importava violação de territorio.</p>
+
+<p>Apesar d'esta rejeição, não cessava comtudo o governo Portuguez de uzar
+de todos os meios ao seu alcance tendentes a conduzir a cabo o seu
+pensamento de repressão áquelle trafico. Já em fins de 1838 haviam sido
+dadas instrucções positivas ao novo governador de Angola o almirante
+Noronha, afim de fazer cumprir as disposições do decreto de 10 de
+Dezembro de 1836, emquanto aguardasse o tratado que se negociava entre
+as duas nações, mas cuja realisação só era estorvada pelas delongas
+nascidas das pertenções e insistencias de lord <span class="pagenum">[12]</span> Palmerston; e
+taes e tão sinceras eram as vistas do governo Portuguez e do visconde de
+Sá da Bandeira, ministro dos negocios estrangeiros e da marinha e
+ultramar, que até nas instrucções que elle déra áquelle zeloso official
+havia concedido poderes taes, que lhe permittiram celebrar em Loanda uma
+convenção provisoria em 29 de maio de 1839, com o capitão Tucker
+commandante das forças navaes Britannicas nos mares de Africa,
+estabelecendo a faculdade de reciproco direito de visita e pesquiza nos
+navios suspeitos de traficarem em escravos. Esta convenção acha-se
+transcripta no <i>Diario do Governo</i> de 4 de outubro de 1839.</p>
+
+<p>Os subterfugios diplomaticos, as calculadas delongas e pouca lizura por
+parte do governo Britannico no decurso das negociações com o governo
+Portuguez foram taes que motivaram a publicação de um opusculo do
+visconde de Sá da Bandeira datado de 1840, época em que havia deixado de
+ser ministro, opusculo em que se tornam bem visiveis quaes os fins que a
+Inglaterra e principalmente lord Palmerston tinham em taes manejos.</p>
+
+<p>Infelizmente parece que as verdades ali postas á luz do dia, jazem nas
+trevas para muitos dos que não deveriam deixar-se assim adormecer na
+noite dos factos, como se a <span class="pagenum">[13]</span> noite podesse com sua escuridão
+acobertar e atenuar a gravidade dos golpes vibrados contra a dignidade
+de uma nação. As trevas que permittem dizer <i>não vi</i>, não podem comtudo
+desvanecer o labéo do crime, que á luz teve por testemunhas a Europa e o
+Mundo.</p>
+
+<p>Deixem fallar a voz authorisada do Sr. Visconde (hoje marquez) de Sá da
+Bandeira no precitado opusculo:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«O Governo Portuguez foi collocado no seguinte dilemma, ou aceitar sem
+discussão o tratado proposto e imposto por lord Palmerston&mdash;annuir a
+condições arduas para Portugal e assim incorrer no desagrado da nação
+Portugueza; ou aliás rejeitar o tratado expondo-se assim a perder a sua
+reputação aos olhos da Gram-Bretanha e do mundo civilisado.»</p> </div>
+
+<p>A prova d'este enunciado encontra-se nos discursos do proprio
+Palmerston, e no officio a elle dirigido por lord Howard de Walden em 45
+de fevereiro de 1839, no qual dizia haver informado ao visconde de Sá
+que na hypothese de que o tratado não fosse aceito, em tal caso:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«No parlamento Britannico seriam tomadas e approvadas as mais rigorosas
+medidas contra <span class="pagenum">[14]</span> Portugal, emquanto que os discursos alli
+proferidos deprimindo o caracter da nação Portugueza e seu governo,
+seriam lidos por toda a parte do mundo e ficariam sem resposta; que
+Portugal seria denunciado como o protector do trafico de escravos, e que
+elle visconde de Sá e seus amigos poderiam exclamar e lamentar-se quanto
+quizessem no parlamento Portuguez, porque nada do que n'este se
+proferisse seria lido ou ouvido fóra de Portugal.»</p> </div>
+
+<p>Seria demasiado longo o relatar e acompanhar todas as phases
+diplomaticas e de politica internacional havidas durante este periodo,
+em que as administrações de que fizeram parte o visconde de Sá da
+Bandeira, e depois o barão da Ribeira de Sabrosa, se viram abarbadas com
+as insolitas pertenções, e até com os insultos grosseiros de que lord
+Palmerston se servia para fazer pressão e móssa na dignidade da nação e
+nas regalias da corôa Portugueza! Em sessão de 15 de junho de 1839, o
+Barão da Ribeira de Sabrosa, já ministro dos negocios estrangeiros,
+apresentou ao parlamento os documentos e a correspondencia diplomatica,
+provando que fôra Palmerston quem rompera as bases do tratado que se
+estava negociando.</p>
+
+<p>Deixemos porém essas monstruosidades, que <span class="pagenum">[15]</span> se tornam em
+bagatellas, em vista do extraordinario procedimento e da inaudita
+prepotencia, com que lord Palmerston apresentou no parlamento Britannico
+em julho do mesmo anno um <i>bill</i>, pelo qual (como muito bem dizia o sr.
+visconde de Sá da Bandeira no seu opusculo) «realisava em discursos e em
+factos as ameaças até então feitas», <i>bill</i> a respeito do qual a folha
+official do governo Poutuguez de 28 do mesmo mez e anno se expressava da
+seguinte maneira:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«Um importante facto politico começa a realisar-se contra todas as
+probabilidades moraes. O Governo de uma nação illustre e poderosa, acaba
+de propôr uma medida altamente offensiva do direito das gentes, contra
+outra nação, a sua mais fiel e antiga alliada. Sabemos com profunda
+magoa que finalmente lord Palmerston apresentára no parlamento um <i>bill</i>
+pelo qual a navegação Portugueza fica á mercê e dependencia do mero
+arbitrio dos cruzadores Inglezes. É um acontecimento extraordinario na
+Europa, etc.&mdash;Em diversos logares das nossas provincias ultramarinas tem
+sido a bandeira Portugueza afrontada por forças Inglezas. Em Bolama se
+apresentaram elles em aberta hostilidade, etc.»</p> </div> <span class="pagenum">[16]</span>
+
+<p>O famoso <i>bill</i> de lord Palmerston, encontra-se publicado na folha
+official do Governo Portuguez de 9 de Agosto 1839. Por alli se vê, que
+eram suas disposições concebidas n'estes termos:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«Digne-se V. M. ordenar que se decrete e seja decretado, por e com
+conselho dos Lords espirituaes e temporaes, e dos communs ora reunidos
+em parlamento, e pela authoridade do mesmo, que, no caso que V. M. fôr
+servida expedir ordens aos seus cruzadores de aprezarem os navios
+empregados no trafico de escravos a que se allude n'este acto, será e
+seja licito para o tribunal supremo do almirantado de Inglaterra, e
+todos os tribunaes de vice-almirantado em quaesquer colonias de S. M.
+Britannica de além mar, o tomarem conhecimento de qualquer embarcação ou
+embarcações e as julgarem <i>quando naveguem debaixo de bandeira
+portugueza</i>, que forem detidas ou apresadas por virtude de qualquer
+authoridade expedida na conformidade das disposições d'este acto.</p> </div>
+
+<div class="quote"> <p>«E seja decretado que todo o navio navegando <i>com bandeira portugueza</i>,
+ficará sujeito a aprizionamento, embargo ou condemnação, <span class="pagenum">[17]</span> por
+virtude de qualquer authoridade dada ou passada na conformidade d'este
+acto.»</p> </div>
+
+<p>Sobre este assumpto, ponderava a mesma folha official em seu artigo de
+fundo, o seguinte:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«Qualquer que seja a idéa que possa fazer-se da exactidão dos motivos
+em que se funda este <i>singular documento</i>, basta a simples leitura para
+que se reconheça que elle só podia ter logar na supposição de que
+Portugal havia <i>deixado de ser nação independente</i>.»</p> </div>
+
+<p>As razões que na camara dos communs de Inglaterra se produziram em favor
+d'este <i>bill</i>, d'este <i>singular</i> documento, eram (como dizia em seu
+opusculo o Visconde de Sá da Bandeira) de egual jaez d'aquellas, com que
+uma anterior administração de <i>que fizera parte o mesmo lord
+Palmerston</i>, annos antes e a proposito das justas reclamações de
+Portugal sobre os direitos impostos aos seus vinhos, se proclamava
+n'aquella mesma camara esta terrivel maxima politica:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«Que Portugal era muito fraco, e a Inglaterra <span class="pagenum">[18]</span> muito forte, e
+que por isso ella podia fazer o que julgasse mais conveniente!»</p> </div>
+
+<p>Passou na camara dos communs o <i>bill</i>; mas encontrou obstaculos na
+camara dos Lords. Tão contrario á justiça e tão attentatorio elle era á
+independencia de Portugal; tão violenta era a droga da pharmacia
+politica d'aquelle <i>medico</i>, que até achou vozes authorisadas que o
+combatessem no seio d'aquella casa do parlamento Britannico. E foi a voz
+de um vulto conspicuo na moderna historia, a que mais calorosamente
+advogou a justiça de Portugal. O duque de Wellington em sessão de 1 de
+Agosto proferiu bem alto, que «Portugal havia de resistir ou perecer,
+porque se elle se sujeitasse á legislatura da Gram-Bretanha <i>deixaria
+logo de ser nação independente</i>.»</p>
+
+<p>Era assim que o heroe, cujo nome se achava unido aos titulos mais
+honrosos da gloria militar do seu paiz, ainda então a poupava a tão
+grande deslustre, qual o de aviltar pela força, e contra todo o direito,
+outra nação que quando fôra por elle guiada já se havia illustrado por
+famosas victorias contra um formidavel inimigo commum.</p>
+
+<p>O <i>Times</i>, o mais authorisado jornal inglez expressava-se a tal respeito
+pelo seguinte modo:</p> <span class="pagenum">[19]</span>
+
+<div class="quote"> <p>«O <i>bill</i> era uma medida summamente <i>tyrannica</i>. Uma grande potencia
+arrogava a si uma supremacia insolente sobre outra mais pequena. Os
+lords procederam com dignidade, não querendo apoiar com o seu
+assentimento um systema de intimidação. Acaso ousaria lord Palmerston
+tratar a França como tratava Portugal?»</p> </div>
+
+<p>O povo Portuguez sentia e manifestava a sua indignação; e como
+interprete d'este geral sentimento, o ministro dos negocios
+estrangeiros, então o barão da Ribeira da Sabrosa, dirigia em 4 de
+agosto (1839) a todas as potencias signatarias dos tratados do congresso
+de Vienna, uma nota em fórma de energico protesto, contra o que na mesma
+se qualificava de <i>procedimento offensivo e inaudito</i> do governo
+Britannico, pelo seu ministro lord Palmerston.</p>
+
+<p>Quem, sendo contemporaneo d'essa época não fôr de todo desmemoriado,
+deverá não ter esquecido os pregões com que os cegos, vendilhões de
+Lisboa, annunciavam impresso o <i>injusto bill de lord Palmerston</i>. Mas
+quem diria aos cegos de então, e ao povo que indignado ouvia a noticia
+da injustiça de que era victima, que não deixaria de vir tempo em que o
+fautor de taes ultrajes teria na metempsycose de <i>aguia</i>, <i>medico</i> e
+<i>sacerdote</i>, quem lhe celebrasse <span class="pagenum">[20]</span> culto, carpindo lagrimas e
+<i>pousando-lhe saudades na campa, em nome da dor sincera de Portugal</i>!</p>
+
+<hr style="width: 15%">
+
+<p>Fôra rejeitado na camara dos lords o <i>bill</i> Palmerston, que se na
+opinião do <i>Times</i> era uma medida <i>summamente tyrannica&mdash;uma supremacia
+insolente&mdash;um systema cobarde de intimidação</i>, pela declaração official
+do governo Portuguez era classificado como <i>procedimento offensivo e
+inaudito</i>; e segundo o voto do duque de Wellington, por elle <i>deixaria
+Portugal de ser nação independente</i>.</p>
+
+<p>Julgava-se pois n'esta parte concluida tão grave questão, qual a do
+<i>bill</i>, que havendo sido rejeitado, deixava de ferir a victima, embora
+não deixasse de manchar o algoz.</p>
+
+<p>Mas os factos que logo se seguiram, vieram mostrar que lord Palmerston,
+o maior amigo da Inglaterra, era senão o maior, pelo menos o mais
+figadal inimigo de Portugal; logo na sessão de 15 de agosto do mesmo
+anno apresentou um novo <i>bill</i> apenas modificado na fórma, mas
+inteiramente concorde na essencia com as disposições attentatorias
+contra a independencia, pundonor e dignidade da nação Portugueza.</p>
+
+<p>E em quanto as folhas ministeriaes Inglezas, <span class="pagenum">[21]</span> e principalmente o
+<i>Globe</i>, (que a opinião publica de Inglaterra affirmava estar debaixo da
+absoluta influencia de mylord) tratavam Portugal com o maior
+desabrimento e injustiça, por outra parte se preparavam novas e mais
+atrozes injurias nas casas do parlamento, contra uma nação a quem só
+podiam fazer taes aggravos mediante a mais cobarde prepotencia, e
+direito da força bruta.</p>
+
+<p>Lord Brougham, orando em favor do <i>bill</i> Palmerston, divagando entre o
+absurdo e o insulto, chegou a dizer:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«Que a Inglaterra podia dar leis a Portugal do mesmo modo que as dava á
+Jamaica, á Dominica, e á Barbada; e que as aguas do Tejo não deviam
+correr sem sua licença. Deixae fallar de resistencia contra nós, que
+devemos ser considerados mais como dominadores, do que amigos.»</p> </div>
+
+<p>No <i>Diario do Governo</i> de 24 de agosto (1839) se encontram publicadas
+officialmente estas expressões, proferidas n'aquella sessão, no mesmo
+parlamento, e talvez que no mesmo debate em que lord Palmerston
+declarava, que a bandeira Portugueza era uma bandeira <i>prostituta</i>.</p>
+
+<p>O <i>bill</i> d'esta vez passou na camara dos lords. Mas o voto authorisado
+d'aquelle que já conhecera <span class="pagenum">[22]</span> e ainda não esquecera os brios da
+nação Portugueza, e reconhecia quanto era ignobil o aviltal-a por meios
+tão injustos, o voto do Duque de Wellington formulado em protesto e
+firmado por mais treze pares, alli ficava como um valioso padrão que
+servisse de egide moral contra tanta prepotencia e persistente
+animosidade de lord Palmerston para com Portugal. Era esse despeito,
+essa animosidade quem dava causa a que não cessassem de ser postos em
+pratica por parte de mylord, os meios directos ou indirectos que
+podessem deprimir este paiz. Por isso o <i>Diario do Governo</i> de 15 de
+setembro (1839) tinha occasião e motivo de transcrever o seguinte:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«O <i>Globe</i> de 7 (é o jornal de lord Palmerston) transcrevendo o
+protesto que o governo Portuguez fizera ante as potencias signatarias
+dos tratados do congresso de Vienna pela violencia do <i>bill</i>, explica-se
+da maneira mais insolita contra Portugal. A sua linguagem é de tal modo
+violenta, que faz admiração ver até que ponto o jornalista se deixou
+levar do impeto das paixões. O seu despeito varia alternativamente entre
+o absurdo, a injuria, e a calumnia.»</p> </div>
+
+<p>Mas não se limitava lord Palmerston, essa <span class="pagenum">[23]</span> <i>aguia que suspendia
+as liberdades</i>, esse <i>medico</i> de receituario tão aspero que dava morte,
+esse <i>sacerdote</i> cujo pão <i>eucharistico</i> (!) eram taes doutrinas de
+perdição, não se limitava a ferir pela injuria e pelo aviltamento; aos
+meios moraes seguiam-se os factos materiaes; factos, que sendo feias
+pertenções em qualquer época, eram na conjunctura em que se davam, novos
+meios de violencia, empregados com refinada acrimonia contra a nação
+Portugueza.</p>
+
+<br>
+
+<p>Com o intuito de fazer acintosa pressão sobre uma nação, a respeito da
+qual se promulgavam leis e se votava um <i>bill</i> que importava annular-lhe
+a independencia, e sujeital-o ás condições da <i>Jamaica</i>, <i>Barbada</i> ou
+<i>Dominica</i>, não duvidava lord Palmerston aproveitar-se de qualquer
+incidente, e barafustar qualquer pretexto que lhe fornecesse novos meios
+de embaraçar a situação politica de Portugal, complicando-lhe a sua
+posição mediante exigencias imperiosas, que importassem novas
+difficuldades.</p>
+
+<p>Foi por isso que lord Palmerston fez apoiar pelo representante do
+governo Inglez na côrte de Lisboa, lord Howard de Walden, as reclamações
+de um certo Jonh Milley Doyle, subdito Britannico, o qual allegando ter
+sido preso em Portugal durante a grande lucta civil, accusava <span class="pagenum">[24]</span> o
+governo d'este paiz de lhe não haver reparado os damnos e incommodos,
+pelos quaes exigia 6:000 libras esterlinas a titulo de indemnisação,
+além dos juros pelo retardo; e havia requerido ao parlamento Britannico
+para lhe obter uma carta de marca, com que podesse aprezar navios
+portuguezes até que pelo valor d'elles se indemnisasse da somma em que
+avaliava as perdas!! Seria difficil, (dizia a folha official do governo
+Portuguez) decidir «o que tinha maior parte n'esta idéa, <i>se a loucura,
+se a ousadia</i>.»</p>
+
+<p>No <i>Diario do Governo</i> de 11 de setembro se acha transcripta a nota do
+ministro Ribeira de Sabrosa em resposta á exigencia de lord Palmerston,
+o qual fazia obra pela atrevida pretenção filha da <i>loucura</i> e <i>ousadia</i>
+de Milley Doyle, quando phantasiára seus calculos com tanta desfaçatez e
+insolencia, que só tinham rival no apoio que lhe dava um ministro da
+corôa.</p>
+
+<p>Não parou aqui o <i>sacerdocio</i> nem a <i>medicina</i> que lord Palmerston
+dispensava á nação Portugueza. Por sua ordem, lord Howard de Walden
+redobrava notas reformando aquellas reclamações. Em 9 de outubro exigia
+que o governo Portuguez nomeasse desde logo uma commissão para liquidar
+as contas e solver varias quantias, sob pena de que o governo Britannico
+a nomearia e se julgaria habilitado <span class="pagenum">[25]</span> por obra da mesma a haver de
+Portugal o pleno pagamento.</p>
+
+<p>Pela nota de lord Howard de Walden, inserta no <i>Diario do Governo</i> de 12
+de novembro, se vê que augmentavam as exigencias pecuniarias a ponto de
+se pedirem entre outras novas verbas, 100 libras esterlinas de
+indemnisação a favor de dois marinheiros da escuna <i>Clarence</i>, porque
+haviam sido prezos em Portugal por contrabando de tabaco! Augmentando
+esta crescente formula de vexame, para acobardar uma nação pelo terror e
+pelos embaraços, lord Howard de Walden enviava em 6 de novembro ao
+governo Portuguez uma nova reclamação, na qual se incluiam as contas de
+Milley Doyle, dos marinheiros do <i>Clarence</i>, e de outros subditos
+britannicos, todos contemplados á mão larga com verbas de capital e de
+juros, juntando a isto outras reclamações anteriores, e intimando
+peremptoriamente o governo Portuguez para sem mais exame nem detença
+satisfazer a somma de libras esterlinas 375:475.&mdash;17<sup>s</sup>&mdash;10<sup>d</sup>, ou réis
+1.603:504$885, com ameaça de fazer occupar as suas possessões
+ultramarinas em caso de hesitação. Nos <i>Diários do Governo</i> de 12 e 17
+de novembro (1839) se acham publicadas as referidas notas, que deram
+causa a outra do barão da Ribeira de Sabrosa de 25 de novembro, na qual
+cedendo <span class="pagenum">[26]</span> aos argumentos da força, não se descurava de exigir o
+cumprimento de tratados que obrigavam a Inglaterra a ceder a Portugal a
+cidade de Columbo na ilha de Ceylão.</p>
+
+<p>E toda esta serie de procedimentos vexatorios, não provaria mais o
+rancor de animo da parte de lord Palmerston, do que a existencia de
+qualquer plauzivel pretexto para assacar a Portugal a pêcha de remisso
+ou falto de empenho na cohibição do trafico de escravatura? De certo;
+porque se assim não fôra, não escreveria Lord H. de Walden a nota de 15
+de novembro, (<i>Diario</i> de 21) partecipando por parte do seu governo, que
+não approvava a convenção provisoria de 29 de maio do mesmo anno
+celebrada entre o governador de Angola, e o capitão Tucker, convenção
+esta (a que já se alludiu), cujo fim era pôr estorvos ao trafico de
+escravos, e que o governo Portuguez mandára observar por portaria de 30
+de setembro. Os motivos da não approvação bazearam-se em que já <i>não era
+necessaria</i>, em consequencia das instrucções geraes que o governo
+Britannico tinha dado aos cruzadores! Estas instrucções eram a
+consummação do <i>bill</i>; já <i>não era necessaria</i> a convenção
+internacional, por quanto pelo <i>bill</i>, lord Palmerston legislava para
+Portugal como <i>se fosse a Jamaica, ou a Barbada</i>!</p> <span class="pagenum">[27]</span>
+
+<p>Lord Palmerston fizera de facto transmittir aos navios de guerra
+Britannicos as ordens n'esse sentido. O governo de uma nação poderosa,
+cheio de animosidades e de arrojo contra uma nação fraca com a qual se
+dizia em paz, havia passado a pôr em pratica as medidas que legislára
+contra todos os direitos reconhecidos, e que importavam a quebra dos
+direitos de independencia, e a morte moral d'essa nacionalidade assim
+opprimida pela força e pela prostergação de todas as praxes de direito
+internacional.</p>
+
+<p>Se lord Palmerston era a <i>aguia</i>, o <i>medico</i> e o <i>sacerdote</i> das
+liberdades, que as <i>suspendia no ar</i> e lhes dava a vida e <i>pão
+eucharistico</i>(!!), para com Portugal dir-se-hia ser o milhafre que
+rasgava a preza&mdash;medico que apressava a morte, e sacerdote para......
+nada de blasphemias.... porque o <i>fermento</i> de suas doutrinas ainda
+produzia seus effeitos, como se deprehende do <i>Diario do Governo</i> de 11
+de dezembro (1839) onde, entre as noticias officiaes de Angola se
+encontram as seguintes:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«Em virtude da convenção de 29 de maio entre o almirante Noronha e o
+capitão Tucker, entrou no Zaire o commandante Elliot do brigue
+<i>Columbine</i>, e ahi aprezou alguns navios, talvez em contravenção do
+<span class="pagenum">[28]</span> decreto de 10 de dezembro de 1836; mas não encontrou motivo para
+assim proceder com o brigue <i>Neptuno</i> de Lisboa, e a escuna <i>Angerona</i>
+de Loanda, que estavam alli. Passados dias foi o <i>Neptuno</i> abordado de
+noite pelos escaleres, e pouco depois havendo recebido algum fogo feito
+pelos pretos, aprezaram a <i>Angerona</i>. Sahiu o <i>Columbine</i> com os vazos
+aprezados, e encontrando o paquete de Loanda, obrigou-o a deter-se 24
+horas, e passou para elle as tripulações, e á vista do mesmo paquete
+para testemunhar a affronta, collocou-se entre as embarcações n'uma das
+quaes estava a bandeira Portugueza, e lhes fez fogo até as metter a
+pique. Este facto que não passa de um <i>attentado individual</i>, e que só
+prova o brutal atrevimento de quem o praticou, é escandaloso pela
+<i>cobarde injuria</i> feita á bandeira Portugueza, cujo governo em
+desaggravo não póde deixar de pedir satisfação.»</p> </div>
+
+<p>N'esta sentida apreciação feita pelo jornal official do governo
+Portuguez, havia apenas um equivoco, qual era suppôr que taes factos não
+passassem de um attentado individual. Engano! Era a justiça de lord
+Palmerston executada pelos seus lictores. O capitão Elliot <span class="pagenum">[29]</span> foi
+promovido pela <i>cobarde injuria</i> á bandeira Portugueza, e lord
+Palmerston ministro dos negocios estrangeiros da Gram-Bretanha para
+tirar áquella proeza todo o caracter de individual, apressou-se a
+communicar ao governo Portuguez a noticia da promoção, assim como
+praticára a respeito do commandante do <i>Leveret</i> que no porto de
+Moçambique abordou á força um navio fundeado debaixo das baterias
+Portuguezas, ferindo e espancando a seu bordo até os officiaes
+d'alfandega que alli se achavam em desempenho de seu dever!</p>
+
+<p>Era o remate da obra; á violencia e ao insulto era mister juntar o
+acinte e o escarneo! A <i>grandeza</i> dos feitos não era para tão altas
+recompensas, mas parece que tal era a insaciabilidade de lord Palmerston
+em assim deprimir acintosamente a nação Portugueza, que até quiz
+promover o commandante do <i>Eclair</i> por haver devastado o estabelecimento
+da ilha de Gallinhas na costa de Guiné, no qual feito esse official
+completou sua façanha, assassinando com um tiro de pistola a filha do
+coronel Mattos que fugia ás suas tentativas de seducção.</p>
+
+<p>Chovam pois sobre a campa de lord Palmerston as <i>saudades que a dor
+sincera dos Portuguezes deve alli pouzar, pela gratidão nacional que nós
+particularmente lhe devemos</i>!!</p> <span class="pagenum">[30]</span>
+
+<p>A nação Portugueza, assim opprimida é escarnecida por um governo
+estranho cuja alma era Palmerston, passava por uma angustiosa crize, e
+eram amargos os dias que lhe fazia soffrer a politica acintosa d'aquelle
+ministro. Ás affrontas succediam-se affrontas, ás ameaças e á força
+deviam ceder a fraqueza e o torpor da victima. Dir-se-hia que a <i>aguia</i>
+fazia bem sentir a Portugal o gume de suas garras, que encravava até
+ferir as fibras vitaes da independencia, para ainda em seguida saciar a
+fereza sugando-lhe o sangue! O ouro do erario Portuguez hia locupletar
+aquelles que o reclamavam a seu talante, e que para o haverem, achavam
+em mylord o sustentaculo das suas pertenções, entre as quaes primavam
+aquellas do que havia aspirado á carta de marca, e ao corso maritimo! A
+victima maniatada dava o cólo ao executor d'alta injustiça; a sêde de
+ouro havia sido saciada; só então a <i>aguia</i> encolheu as azas e repousou
+por alguns momentos da fadigosa tarefa de <i>suspender no ar</i>, mas
+ferindo, a liberdade, e com esta a nacionalidade Portugueza!</p>
+
+<p>Outra administração succedêra no governo Portuguez; as cartas de lei de
+3 e 17 d'outubro de 1840 authorisaram a realisação dos fundos, e o
+pagamento das reclamações; e novas negociações se hiam entabolando para
+chegar <span class="pagenum">[31]</span> á convenção e ratificação de um tratado, pelo qual
+cessasse o estado anomalo que era a excepção mais insolita nas relações
+internacionaes. O cordeiro hia estipular com o lobo; mas o duque de
+Palmella nomeado negociador por parte do governo Portuguez poude com
+fino tacto e prudencia levar a cabo a negociação, e o tratado de 8 de
+julho de 1842 veio finalmente restabelecer as relações entre Portugal e
+a Gram-Bretanha nas bases de uma reciprocidade, que até então fôra
+completamente contrariada pela <i>tyrannia</i> de lord Palmerston.</p>
+
+<p>Mas o espirito de maleficio, a sanha, e a altivez que durante tão longa
+quadra fôra o caracter mais saliente e incessante dos procedimentos
+d'aquelle estadista contra a nação Portugueza, ainda deixava ver os
+vestigios do quanto elle actuára na indole e conducta dos executores de
+seus mandados. Já o tratado de 1842 fôra ractificado entre as duas
+coroas e ainda o commodore inglez Foote entrava no porto de Loanda, para
+pôr em execução as praticas até então uzadas á sombra do attentatorio
+<i>bill</i>; mas a paciencia estava exhaurida, e felizmente houve um official
+da marinha Portugueza que soube fazer recuar a audacia d'aquelle, que
+antepunha o consuetudinario direito da força, prescripto pelo bill <span class="pagenum">[32]</span> de lord Palmerston, á força do direito convencionado, e, que por ser
+de fresca data se intentava ainda postergar, pelo apego aos passados
+procedimentos.</p>
+
+<p>O commodore Foote com a sua fragata <i>Madagascar</i> recuou perante a
+energica firmeza do commandante Gonçalves Cardoso, o qual, embora
+commandasse uma corveta, se mostrava decidido a vender cára qualquer
+violação de direitos que se pertendesse consummar. Era já tempo de pôr
+cobro a um estado de cousas, que para uma nação independente se tornava
+quasi peior do que o seu desapparecimento do mappa da Europa.</p>
+
+<p>A <i>aguia</i> das nacionalidades estendia seus vôos por sobre outras
+regiões. Pairava sobre o Imperio Chim, e qual <i>medico e sacerdote</i>
+propinava-lhe com o veneno do opio, o confôrto da guerra.</p>
+
+<p>Mais tarde a Grecia via-se assoberbada pela mesma politica audaz, que
+alli hia apoiar pela ameaça com a força, e pelo bloqueio com a ruina do
+commercio Hellenico, as extravagantes reclamações do israelita David
+Pacifico.</p>
+
+<p>As reclamações pecuniarias á Espanha no momento em que esta se empenhava
+na guerra com Marrocos, davam nova amostra d'aquella politica, pela qual
+se estendia a mão com o sacco á primeira, emquanto se forneciam munições
+e armas á segunda.</p> <span class="pagenum">[33]</span>
+
+<p>O Brasil não se subtrahia ao holocausto em que se immolavam as regalias
+de independencia das nações <i>não poderosas</i>. Medidas semelhantes ás que
+em 1839 haviam sido adoptadas contra Portugal, eram em 1845 dictadas e
+applicadas áquelle Imperio.</p>
+
+<p>Longo e muito longo seria o capitulo dos <i>items</i> d'esta politica
+sobranceira e pouco escrupulosa, de que lord Palmerstron tanto abuzou,
+arrogando para si um direito, na sem ceremonia com que desdenhosamente
+legislava para estados independentes, em violação flagrante dos mais
+sagrados principios que regem a moral e a justiça das nações. Era a
+proposito de uma tal politica, que o conde de Ficquelmont, na sua
+notavel obra <i>lord Palmerston, l'Angleterre et le continent</i>, dizia em
+phrase de severa condemnação:</p>
+
+<div class="quote"> <p>«Aucune forme de gouvernement ne peut donner le droit d'avoir dans sa
+législation, des principes hostiles aux autres États. Les pays libres,
+comme tout État quelconque, n'ont de droits que sur eux-mêmes. Ils ne
+peuvent à aucun égard, faire l'application de leurs principes aux
+relations des États étrangers, car la liberté qui donnerait les droits
+sur les autres, serait une arme d'oppression, que chacun aurait le droit
+de chercher à briser.»</p> </div> <span class="pagenum">[34]</span>
+
+<p>Na applicação feita por lord Palmerston d'esta especie de liberdade que
+se torna <i>uma arma de oppressão</i>, coube a Portugal bom quinhão na
+partilha; e por isso podem dispensar-se mais exemplos de fóra, quando
+tantos, e demais os ha de caza. São os factos que assim o asseveram.</p>
+
+<p>Césse porém a pungente narrativa de tantos e tão notaveis procedimentos
+do ministro de uma nação poderosa, contra outra inerme e empobrecida,
+vilipendiada pela sujeição aos caprichos illegaes de que elle soubéra e
+podéra servir-se como passatempo, em homenagem ao despeito, e ás paixões
+odientas que lhe dedicára, e tanto manifestára.</p>
+
+<p>Deixemos este ambiente repugnante, esta athmosphera infeccionada pelos
+miasmas lethaes cuja aspiração ainda recorda dias bem crueis para o
+pundonor da nacionalidade Portugueza.</p>
+
+<p>Corrâmos um véo sobre a atrocidade do capitão Keppell em Macáo, onde o
+assassinio violento de um soldado Portuguez, a violação do territorio
+regado pelo sangue de seus filhos, tudo obra de mão armada e traiçoeira,
+sendo ministro lord Palmerston, teve da parte d'este como satisfação, o
+empenho de querer negar a Portugal o direito de soberania sobre aquella
+possessão!</p> <span class="pagenum">[35]</span>
+
+<p>Cubrâmos ainda o rosto, porque a bandeira das quinas foi mais de uma vez
+derribada de seu poste na ilha de Bolama, a guarnição d'esta conduzida
+prisioneira; e lord Palmerston mandou tomar posse d'aquella ilha, e
+occupa-la militarmente, fazendo sempre orelha surda aos clamores
+formulados pelas vias mais legaes.</p>
+
+<p>Abrevie-se este epilogo de attentados, que tantos em numero e tantos em
+magnitude elles são, que oxalá ahi podessem jazer para todo sempre
+envoltos no pó do esquecimento, como o estão no ásco da sua fealdade.</p>
+
+<p><i>Paz aos mortos</i>, seria a mais resignada phraze, o mais caridoso
+epitaphio que a voz de Portuguezes se podesse esculpir sobre a campa
+d'aquelle, que em vida não foi o seu melhor amigo.</p>
+
+<p>Mas essa paz quem a perturba? Quem é a causa de se revolverem as cinzas
+do finado?</p>
+
+<p>A causa? Está no incenso que se lança agora nos thuribulos, e que se
+quer queimar em reverente homenagem á memoria d'aquelle cujos feitos,
+para serem esquecidos na paz do tumulo, carecem que seu nome não seja
+engrinaldado com o atributo de <i>merecedor da gratidão nacional</i>, nem com
+o incompativel titulo de <i>credor das saudades inspiradas pela dor de
+Portugal</i>. A causa, repita-se, está no modo parcial com que se avaliam
+os factos, não pelo <span class="pagenum">[36]</span> que elles são, mas conforme o lado de donde
+vem.</p>
+
+<p>....... Surgem por ahi ás vezes certos zelos insoffridos a pró de
+regalias nacionaes, quando estas estão bem longe de correr perigo, ou
+soffrer desdouro. Para que é então a altivez para com o inoffensivo e
+fraco, se logo apoz se vae curvar o joelho em homenagem á memoria do
+forte, mas do forte que fez sentir o pezo da sua pressão?</p>
+
+<p>Preste-se muito embora a mais justa veneração a um povo, a uma
+nacionalidade, que a ella tem jus por tantos titulos valiosos; mas,
+distincção feita, não vá tão longe a reverencia á sua <i>politica</i> altiva
+e ruim, a ponto de ser uma das victimas d'esta, quem lhe preste o culto
+na pessoa do sacerdote.</p>
+
+<p>A entidade moral nação, não póde prescindir do resentimento, que lhe não
+deixa medir sua indulgencia pela paixão individual de coração do homem.
+Póde o homem perdoar, mas uma nação não póde esquecer!</p>
+
+<p>Um quarto de seculo na vida das nações não é prazo sufficiente para
+sanar feridas que tanto sangraram, e de que restam cicatrizes; se este
+lapso de tempo apenas permitte dar tregoas ao resentimento, não é elle
+bastante para que incite a oscular a mão que vibrou os golpes, e que
+espargiu o veneno do vilipendio.</p> <span class="pagenum">[37]</span>
+
+<p>É por isso que hoje, a reverencia perante o tumulo, e o silencio só
+entrecortado pelo brado de <i>paz aos mortos</i>, seria o mais adequado, e um
+ainda generoso apanagio, á memoria d'aquelle para quem ha um quarto de
+seculo, taes mensagens, qualquer que fosse a sua phrase, só poderiam ter
+a significação e o alcance que tinha nos circos da Roma pagã, o brado
+<i>morituri te salutant</i>.</p>
+
+<p>Lisboa 28 novembro 1865.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Lord Palmerston: a opinião e os factos, by
+Carlos Testa
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LORD PALMERSTON ***
+
+***** This file should be named 25697-h.htm or 25697-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
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+produced from scanned images of public domain material
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+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+works. See paragraph 1.E below.
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
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+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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