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diff --git a/25594-8.txt b/25594-8.txt new file mode 100644 index 0000000..f03338f --- /dev/null +++ b/25594-8.txt @@ -0,0 +1,1612 @@ +The Project Gutenberg EBook of O Engeitado, by Alberto Braga + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Engeitado + +Author: Alberto Braga + +Release Date: May 25, 2008 [EBook #25594] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ENGEITADO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + +Sala das Perolas + + + + +Sala das Perolas + +Contos Modernos + + +LISBOA +LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA +_50--Rua Augusta--52_ +M DCCC LXXX VIII + + + + +O ENGEITADO + + + + +ALBERTO BRAGA + + +O ENGEITADO. + + +LISBOA +_TYP. E STEREOTYPIA MODERNA_ +_11--Apostolos--11_ +1888 + + + + +O ENGEITADO + + +A Joaquina do Espinhal tinha ido, no fim da tarde, lavar ao rio a roupa +dos pequenos. Era no mez de dezembro. A agua corria por entre os +choupos, fria e levemente encrespada pela brisa que soprava do norte. +Joaquina do Espinhal, com as saias arregaçadas na cintura, as pernas +mettidas na agua ate ao joelho, ensaboava a roupa e batia-a com força +sobre a pedra poida e lustrosa do lavadouro. + +Da outra banda, pelo carreiro que havia á beira do rio, passou o filho +do moleiro a tanger os machos. O rapaz ia tranzido de frio, com a golla +da jaqueta apanhada para as orelhas, a assobiar alto. Assim que +reconheceu a lavadeira, parou, fincou a mão ao tronco d'uma arvore, e, +debruçando-se sobre o rio, perguntou de lá: + +--Vocemecê não tem frio? + +A Joaquina aprumou-se e respondeu: + +--Ai! és tu, Jeronymo! Frio? Quem fala n'isso? Quando a gente tem +filhos, não deita conta a nada. Onde ides? + +--Vou levar a fornada a casa do sr. doutor. + +--Pois vae com Deus, vae. + +Mas o rapaz deixou-se ficar immovel a olhar para ella. Os machos iam +tosando nas silvas. + +--Que frio!--exclamava elle todo arripiado. + +--Credo! Se eu a visse ahi de noite, diabos me levem se não deitava a +fugir com medo! + +A lavadeira ria-se. + +--Medo de quê, rapaz? + +--Sume-te!--dizia o moleiro.--De noite, só as bruxas é que veem lavar +aos rios... Adeusinho, tia Joaquina. + +--Adeus, ó Jeronymo. + +Era já noite, quando a Joaquina voltou para casa, carregada com o +alguidar da roupa molhada á cabeça. Atravessou uma bouça; e, quando ia a +transpor o portello, que dava para a estrada, estacou de repente. Tinha +ouvido uns gemidos vagos ali perto. Debaixo da lagem do portello, por +entre o tojo, alvejava alguma coisa que se movia. Cuidou ao principio +que fosse um cão; e ia a dar-lhe com a ponteira da chinella, quando os +gemidos se repetiram. + +--Elle que dianho é? + +Poisou resolutamente o alguidar no primeiro degráo do portello, +abaixou-se para examinar de perto; e, ao levantar uma ponta da trouxa, +viu uma criança recemnascida, nua, embrulhada n'um lençol velho. Tomou +logo a creança nos braços, e, achegando-a ao calor do peito, exclamava +commovida: + +--Ó meu rico filho! Que grande cadella foi a tua mãe! Que grande +desavergonhada! + +Quando entrou em casa, o marido estava com os dois pequenos sentado ao +calor da lareira. A Joaquina correu o ferrolho interior da porta, e, +chegando-se junto do homem, apresentou-lhe nos braços o engeitado. + +--Aqui tens este leitão. + +O João do Espinhal poz-se logo de pé muito espantado. A criança, livida +de frio, ao sentir o calor do lume, agitava-se no lençol, abria os olhos +e a bocca, procurando com impaciencia e avidez o leite do seio materno. + +--Meu rico anjinho!?--exclamava a Joaquina, bafejando-lhe as +mãosinhas.--Que frio e que fome que tu tens! + +Referiu ao homem como encontrára, ao voltar do rio, aquelle innocentinho +abandonado no meio do tojo. + +--Se o não topo no caminho, a criancinha a esta hora tinha morrido de +frio. + +--Mas tu que lhe queres fazer?--perguntou o marido, passado um momento +de surpresa. + +--Que lhe quero fazer!! Vou d'aqui pedir á mulher do Cosme que chegue o +peito a este innocente; e ámanhã veremos então a volta que lhe hei de +dar. + +O João, immovel e callado, com os olhos postos na labareda da lareira, +coçava a nuca. O que elle não queria era augmentar os encargos da +familia com mais um extranho. A féria de pedreiro, que recebia aos +sabbados, mal lhe chegava para o sustento da mulher e dos dois filhos; +agora, se a Joaquina teimasse em ficar com o engeitado... + +--É uma dos diabos!--pensava elle, franzindo os beiços. + +A Joaquina sahiu de casa com a criança ao collo, e voltou pouco depois, +explicando ao homem o que tinha succedido. A Josepha do Cosme tomava +conta do innocente, chegava-lhe o peito; mas queria que alguem desse +parte ao regedor, porque não estava para se metter em trabalhos. + +--Porque--dizia a mulher--o leite que tenho, graças a Deus, chega bem +para elle, sem o tirar á filha; mas, sr.ª Joaquina, é preciso que alguem +de futuro tome conta da criança... + +A Joaquina combinou com a visinha irem no dia seguinte a casa do +regedor; e depois talvez que o fidalgo da Tojeira tivesse dó do +engeitainho, e tomasse conta d'elle. E senão--insistia ella--tomo eu! +Pois! Onde houver um bocado de pão para os filhos, ha de haver uma +migalha para o innocente. + +O João ouvia isto contrariado e sisudo, mas sem replicar. Mandou deitar +os pequenos. Quando despiu a jaqueta, para se metter tambem na cama, +encostou-se á ilharga da enxerga, e voltando-se para a mulher perguntou: + +--Mas, ó mulher, e se o fidalgo o não quizer? Sim; vamos a futurar que o +fidalgo, que é teimoso com'a burro, não está por o que vocês lhe dizem? + +--Adeus!--replicou peremptoriamente a Joaquina, encolhendo os +hombros.--Ao monte não atiro eu outra vez o innocente! + +No dia seguinte, a Josepha do Cosme vestiu uma camisa velha á creanca, +embrulhou-a n'uma baeta escarlate, e com ella ao collo, foi ter com a +Joaquina. Sahiram ambas para casa do regedor. A Joaquina referiu o caso, +com grandes injurias contra a desalmada que abandonou assim o filho por +um inverno d'aquelles! O regedor, que era sugeito circunspecto e +methodico, entendia que o verdadeiro era irem d'ali a casa do abbade. + +--Primeiro que tudo, mulheres--ponderou elle--vamos a fazer d'isto uma +alma christã. Uma de vocês serve-lhe de madrinha, e então o fidalgo, se +estiver por isso, que seja o padrinho. + +Pozeram-se a caminho da residencia. + +O abbade tinha engrolado á pressa o latim da missa do dia, com grande +appetite do café quente do almoço. Ia a sair apressadamente da egreja, +quando viu entrar no adro as duas mulheres acompanhadas pelo regedor. + +--Vae torta!--resmungou elle, a tiritar de frio, com as mãos entanguidas +enfiadas nos bolsos das calças. Parou no limiar; e, logo que ellas se +aproximaram:--Que temos? Perguntou com modo desabrido, batendo com ambos +os pés na soleira da porta. + +A Joaquina repetiu outra vez deante do abbade o mesmo que tinha dito ao +regedor. + +--Mas quem será a mãe?--perguntava elle, tentando descobrir nas feições +indecisas da criança uma denuncia. + +--Quem sabe lá, sr. abbade--dizia a Josepha. + +E com a dobra da mantilha resguardava dos olhares cupidos e profanos do +padre o peito alvo e apojado em que a criança mamava. + +--Mas que grande bebeda, sr. abbade!--rosnava a Joaqui\-na.--Que +grande... com licença de v. sr.ª... que grande cabra! + +O abbade replicou-lhe: + +--Não insulte as cabras, mulher; não insulte as cabras, que essas não +engeitam os filhos. + +Combinou-se ali em que as duas mulheres fossem pedir ao morgado para ser +o padrinho. + +--E se elle acceder--disse o abbade, safando-se para a +residencia--mandem-me parte, que eu baptiso-o hoje mesmo. Vivam! + +O fidalgo da Tojeira era madrugador. Andava já a passear ao sol da +varanda alpendrada da casa, quando o criado lhe veiu annunciar que a do +João do Espinhal e a do Cosme lhe queriam falar. + +--Que venham aqui. + +Entrou, á frente, a Joaquina do Espinhal, seguida da mulher do Cosme. Ao +principio, o morgado disse que não. Na sua opinião, quem faz os filhos +que os crie. Elle não estava ali para remediar as poucas vergonhas do +mundo. A Joaquina, porém, não desanimava; e, em quanto o fidalgo +passeiava ao longo da varanda, obstinado no seu proposito, a mulher +ajuntava supplica sobre supplica, e nas costas d'elle ia piscando o olho +matreiro á visinha. Instado por fortes razões humanitarias, o fidalgo +cedeu. + +--Pois bem--disse elle, parando do seu passeio.--Eu irei ser o padrinho; +mas uma de vocês que se encarregue de o criar. + +O engeitado foi baptisado ás tres horas da tarde d'esse mesmo dia. Na +sachristia o abbade, em quanto enfiava a sobrepeliz em frente do arcaz, +lamentava que se tivesse dado aquelle caso na freguezia. + +--Mas quem será o maroto do pae!--perguntava o fidalgo. + +--Quem sabe lá, sr. D. Bernardo! Nem talvez a propria mãe! Isto hoje, +meu senhor, o mundo vae todo assim! + +D. Bernardo, quando se offerecia ensejo gostava de chalacear. + +--Pois, abbade--replicou elle--pae tem a criança; salvo se ellas fazem +como as egoas de Virgilio, lembra-se? + + _.......................et saepe sine ullis_ + _Conjugiis vento gravidae (mirabile dictu!)_ + +O pequeno recebeu na pia baptismal o nome de Simão. Foi o que occorreu á +lembrança do padrinho, que tivera assim chamado outro afilhado, morto de +meningite uma semana depois de baptisado. + + * * * * * + +D. Bernardo da Cunha era um velho celibatario, egoista e avarento. +Assignava a _Nação_ e o _Bem Publico_; mas lia o _Primeiro de Janeiro_, +que lhe dava a cotação exacta dos fundos portuguezes. + +Por tradições de familia, dizia-se legitimista, com quanto na sua +consciencia os correligionarios enthusiastas e crentes não passassem +d'um _bando de visionarios_. + +Vivia retirado do contacto do mundo, entre as velhas e sombrias paredes +do seu solar; mas, á cautella, ia seguindo, dia a dia, as cambalhotas da +politica constitucional, e sobre tudo a influencia que ella exercia na +alta e baixa das inscripções. Era como um passageiro esperto d'esta +velha nau combalida e desconjuntada, que tem thesouro com que possa +salvar-se, no caso de naufragio! + +Quando acontecia que algum velho padre correligionario ia á Tojeira, e +fallava com voz pungente da immoralidade dos governos, das torpezas das +eleições, da dissolução dos costumes e da perda irreparavel do paiz, o +morgado, ouvidas as lamentações do Jeremias, encrespava nos labios um +sorriso zombeteiro, e exclamava: + +--Isto, meu caro amigo, está a acabar. É tudo uma bandalheira! + +Parecia uma phrase de Tacito, escrevendo _sine ira et studio_, a +historia da dissolução dos romanos! + +Era senhor de um morgadio avultado. Tinha uma irmã mais nova, senhora de +59 annos, professa no convento de S. Salvador, em Braga, que lhe +escrevia de longe em longe, falando-lhe muito dos seus achaques, e de +todos os santos canonisados do agiologio christão, e dos não +canonisados, inclusive o fradinho João da Neiva do Carmo. + +D. Bernardo, depois que a Joaquina e a Josepha se retiraram da egreja, +chamou de parte o abbade, e perguntou-lhe se devia dar alguma coisa á +ama do engeitado e afilhado. O abbade era de opinião que a mulher +merecia recompensa. + +--Dando-lhe dois pintos cada mez?--perguntou o fidalgo. + +--Paga v. ex.ª mui bizarramente, sr. D. Bernardo--disse o padre. + +Simão cresceu e medrou. No fim d'um anno, ensaiava os primeiros passos +ao lado da filha da Josepha. Foram desmamados ao mesmo tempo; e, d'ahi +por diante, a tigela de sopas era commum dos dois. A Josepha criou uma +grande affeição pelo pequeno. Isto causou um grande pasmo entre as +vizinhas, que estavam costumadas a ver tratar os engeitados com +desapiedado abandono das mulheres que os recebiam. + +--Não, que uma coisa assim!--diziam ellas admiradas.--O pequeno parece +filho d'ella! + +A unica differença sensivel aos olhos dos circumstantes era esta: quando +acontecia ir D. Bernardo por casa do Cosme, a mulher obrigava o Simão a +beijar a mão do fidalgo, acto respeitoso e humilde, a que não sugeitava +a filha. O pequeno olhava o padrinho com o terror instinctivo nas +crianças para com as pessoas graves, que os não amimam. Mas, afinal, o +habito quasi lhe venceu a repugnancia; e, ao cabo de dois annos, com +quanto a presença do fidalgo ainda o constrangesse e esfriasse no meio +das suas alegres brincadeiras com a Magdalena, chegava-se a elle, +humilde, e pedia-lhe a benção, balbuciante e tremulo: + +--A sua benção, meu padrinho! + +Decorreram os annos, sem alteração digna de chronica no desenvolvimento +do rapaz. Sahiu delicado de feições, de cabellos castanhos, os olhos +claros e uma pelle fina e branca, muito sensivel aos ardores do sol do +estio e aos nordestes asperos do inverno. + +Se acontecia demorar-se com Magdalena fóra de casa, pelo meio dos +campos, com a cabeça exposta ao sol, carminavam-se-lhe as faces, e +recolhia a pingar sangue pelo nariz. Á noite a Josepha, quando o +deitava, chegava-lhe vinagre ao nariz e aos pulsos; e, apalpando-lhe o +ventre, achava-lhe sempre uma pontinha de febre. Este facto +entristecia-a. + +--És um pelem, meu filho!--dizia-lhe no outro dia, olhan\-do o pequeno +com piedosa ternura. + +No inverno, constipava-se frequentemente. E em quanto a Magdalena, +forte, robusta, sadia, com as bochechas rosadas e luzidias como uma maçã +madura, brincava fóra, chapinando nas poças do caminho, o Simão ficava +em casa, muito enroupado, friorento, agachado a um canto junto da mãe. + +Pela volta dos oito annos, o pequeno principiou a andar muito triste. +Não queria brincar. Até então, era elle o companheiro inseparavel da +Magdalena e dos filhos da Joaquina do Espinhal. Logo que principiava a +nascer nos campos o centeio, o Simão preparava as palheiras com o visco, +collocava-as em sitio apropriado, e escondido com os amigos entre as +giestas dos vallados, espreitava d'ali que os pardaes cahissem. Jogava o +eixo e o botão com os rapazes que sahiam da escola. A Magdalena +preferia-o a todos. Não a largava nunca; e se o Simão, nas duvidas do +jogo, se pegava com alguns rapazes mais alentados, Magdalena punha-se da +banda d'elle, e arremettia valentemente. + +Mas o Simão principiou a não querer sahir. Ia a Magdalena para a rua, e +ficava elle sósinho em casa, encostado á janella, vendo a brincar de +dentro dos vidros. Andava muito pallido e murcho; e, se se encostava +sobre uma caixa, adormecia. + +--Tu tens morrinha, rapaz--dizia-lhe a Josepha assustada e +afflicta.--Tu, que te doe, menino? + +O rapaz não se queixava; mas a Josepha não tinha socego. + +Foi um dia de manhã, quando o Simão almoçava ao pé de Magdalena, que a +Josepha reparou que elle engolia o pão com esforço. Chamou-o logo junto +de si, e apalpou-lhe o pescoço. Sob a pressão dos dedos sentiu a dureza +dos ganglios enfartados por detraz das orelhas. + +--Tens humores frios, filho!--exclamou ella com uma voz +dilacerante.--Doe-te? + +As duas crianças, ao verem a cara assustada e afflictiva da mãe, +desataram ambas uma risada. + +--Não doe nada, não, minha mãe--asseverava elle. + +N'esse mesmo dia, a Josepha vestiu-lhe camisa lavada e o melhor fato, e +foi com elle a casa do padrinho. + +--A Lena não vem?--perguntava o Simão com pena de a deixar só. + +Pelo caminho, a idéa da separação aterrava-o. + +--Eu não torno a ver a Lena, minha mãe?--insistia elle, virando para a +Josepha os olhos supplicantes. + +Ao chegarem a casa de D. Bernardo, a mulher explicou o motivo da visita. + +--O pequeno sahiu enfezadito, meu senhor. Anda triste, come pouco, e +agora veja v. ex.ª + +E expunha aos olhos do fidalgo o cachaço rubro e inchado do rapaz. + +--Apalpe aqui. Vê v. ex.ª? O rapazinho padece de humores frios. + +D. Bernardo apalpou; e, ao ver ali o engeitado, com a carita muito +pallida, magro, abatido, com a tristeza melancolica das crianças doentes +o que é como um presentimento da morte, teve sincera commiseração. + +--Leve-o de meu mando ao cirurgião--disse elle.--E o que receitar, que +lh'o aviem na botica por minha conta. + +E quando a Josepha ia a sahir chamou-a atraz. + +--Olhe, mulherzinha; e precisando de mais alguma coisa appareça por +aqui. + +O cirurgião receitou ferruginosos e banhos do mar. + +Por esse tempo, recebeu D. Bernardo uma carta da irmã freira, dizendo +que o medico lhe prescrevera o uso de banhos do mar. Para não incommodar +o mano, tinha indagado no recolhimento se alguma senhora iria ás praias; +mas, infelizmente, nenhuma ia! Era uma desgraça! + +Respondeu o morgado que pedisse a mana ao sr. arcebispo licença para +sahir e iria elle acompanhal-a á Povoa de Varzim, logo que findassem as +vindimas. Accrescentava que levaria comsigo um engeitado seu afilhado, +que padecia de escrofulas. Recommendava-lhe que pedisse saude e a graça +de Deus, que trabalhos e canceiras não faltavam n'este mundo! + +No meado de outubro, por um tempo secco, mas um pouco frio dos ventos +outomniços, appareceu na Tojeira a irmã do fidalgo seguida de uma criada +velha. + +Resolveram partir na madrugada do dia seguinte para a Povoa. + +Na vespera, antes de se deitar, esteve a Josepha a apertar n'uma pequena +trouxa a roupinha do engeitado. + +--Tu porta-te bem, Simão--recommendava-lhe ella.--Olha que aquelles +fidalgos são os teus bemfeitores. Ouviste? + +O pequeno ouvia-a sem poder falar. Sentia comprimida a garganta e os +olhos embaciados de lagrimas. Passou quasi toda a noite em claro. A idéa +da separação proxima fazia o chorar copiosamente. + +Escondia a cabeça debaixo do lençol; e alli, collado á parede, chorava e +soluçava baixinho, com receio de acordar a Lena. Só muito tarde, +prostrado pela commoção, é que adormeceu. + +Rompia a luz da madrugada pelas frinchas da janella, quando a Josepha se +levantou. Chegou-se á cama do pequeno, abanou-o e acordou-o. + +--Simão, ó Simão! + +O rapaz ergueu-se atarantado. + +--Veste-te, filho. Anda, que são horas. + +O Simão saltou abaixo da cama, e principiou a vestir-se de vagar, +atordoado, sem dar tino do que fazia. + +A Josepha ajudava-o com o coração opprimido, mas fingindo não +comprehender a tortura do pequeno. + +--Não faças bulha, que acordas a Lena--recommendou ella a meia voz. + +Mas do leito da mãe, a Lena ouviu e respondeu: + +--Eu não durmo, minha mãe. + +E sentou-se na cama, para se vestir á pressa. + +Quando o pequeno estava vestido e prompto, a Josepha sobraçou a trouxa, +e disse resolutamente: + +--Vamos, filho, vamos. + +A Lena tambem queria ir. + +A mãe oppoz-se, dizendo que estava a manhã muito fria. Lena desatou a +chorar, voltada para o lado. + +Na occasião que a Josepha abriu a porta da casa para sair, o Simão ficou +um momento hesitante e ancioso. Appro\-ximou-se da Magdalena; e, com um +sorriso contrafeito, como a querer suster as lagrimas, despediu-se com +uma voz suffocada: + +--Adeus, Lena. + +A pequena não respondeu. Com as costas voltadas para elle, immovel no +meio do quarto, encolheu os hombros. + +--Adeus, Lena--repetiu elle mais alto e a chorar. + +Então a pequena, n'uma grande effusão de ternura, lan\-çando-lhe os +braços ao pescoço, beijou-o repetidas vezes: + +--Adeus, Simão. + +E quando o engeitado ia já longe, pelo atalho fóra, ao lado da mãe, +Magdalena da porta da casa seguia-o com os olhos cheios de lagrimas e +dizia-lhe baixinho adeus, acenando com a mão: + +---Adeus, Simão! Adeus! + + * * * * * + +A familia da Tojeira esteve um mez a banhos na Povoa de Varzim. Habitava +uma casa pequena na rua da Junqueira. A sr.ª D. Leonarda levantava-se de +madrugada, e ia para a praia, seguida da criada e do Simão. + +Nos primeiros dias, o pequeno sentiu um horror extraordinario pelo mar. + +Entrava na barraca a tremer e a chorar, pedindo a Deus que o matasse! + +A sr.ª D. Leonarda, a sós com elle, falava-lhe com aspereza e de +sobrecenho carregado. O rapazito reprimia as primeiras lagrimas, e +ouvia-a com submissão e humildade. + +--Pois o sr. D. Bernardo e eu--gritava a freira--a termos toda a +caridade por ti, e tu, ingrato, ainda choras! + +E, como Simão, com a cabecinha baixa como um réo convicto, principiasse +a soluçar, e as lagrimas lhe cahissem em fio, D. Leonarda indignada, +levantava a voz e gesticulava convulsa: + +--Tu porque choras, rapaz? Ingrato!--e, olhando sobre o hombro, +observava com ironica piedade:--Sempre has de mostrar que és filho do +peccado! + +Diante de extranhos, no grupo das senhoras que lhe falavam, a freira de +S. Salvador mudava de tom. Tinha uma voz meliflua, vagarosa, e, dando +aos olhos uma feição terna, dizia do rapaz: + +--É um engeitadinho, que o mano protege. Elle é que o não +merece!--accrescentava D. Leonarda, azedando a voz.--É muito ingrato! +Ah! nem v. ex.^as fazem idéa! Depois, quasi confidencialmente, +explicava: + +--Sempre estes desgraçados hão de mostrar que vieram a este mundo contra +a vontade de Nosso Senhor! + +Simão ouvia isto sem levantar os olhos. De volta para casa, a freira não +cessava de o reprehender. + +Um dia, na ausencia de D. Bernardo, D. Leonarda, durante o almoço, +esteve constantemente a gritar ao pequeno. Simão, sentado defronte, +ouvia-a silencioso, sorvendo o café a pequeninos golos. D. Leonarda, no +auge da sua irritação, gritou-lhe: + +--Levanta a cabeça, rapaz! Deixa o café. O rapazinho poisou logo a +chicara e o pão, engoliu com esforço o bocado que mastigava, e deixou +pender os braços. + +Não pôde comer mais. + +Os unicos momentos felizes durante o mez que esteve na Povoa eram os que +passava na varanda da casa, depois do jantar, em quanto D. Bernardo e D. +Leonarda dormiam a sesta. Na cosinha, a criada, sentada n'uma cadeira +junto da janella que deitava para uma horta, cabeceava. Simão +atravessava então o corredor em bicos de pés, e ia debruçar-se no +peitoril da varanda, distraido a ver na rua a concorrencia de banhistas. +A vista da gente da aldeia alegrava-o. Todas as raparigas da altura da +Magdalena, vistas de longe, lhe pareciam a irmã.--Se fosse!--pensava +elle. Estava uma tarde muito entretido a olhar um saltimbanco que +trabalhava no largo da fonte, quando ouviu que o chamavam da rua. Era a +Joaquina do Espinhal. O pequeno, assim que a reconheceu, sentiu o +coração pular-lhe de jubilo. A Joaquina perguntou-lhe como estava, e +deu-lhe muitas saudades da Lena. + +--Tu ainda te lembras d'ella?--perguntava a visinha. + +Elle respondia affirmativamente e ficava muito vermelho, quasi a chorar. +Pediu á Joaquina que esperasse um instante. Foi ao quarto em que dormia, +tirou d'uma gaveta a medalha do Bom Jesus, que lhe dera D. Leonarda, e +desceu com ella á rua para a enviar á irmã. + +Logo que sahiu a porta, D. Leonarda assomou á varanda. Observou de cima +o pequeno entregar á vizinha a medalha que lhe tinha dado. Teve um +accesso de indignação, e esteve para gritar, mas conteve-a a idéa do +escandalo. + +Quando a mulher se separou, a freira berrou para baixo ao Simão, que +tinha ficado parado á porta da rua: + +--Ó rapaz! Sobe! + +E mostrou-lhe tamanha indignação nos olhos arregalados, que o pequeno +subiu as escadas a tremer, e a supplicar baixinho de mãos postas: + +--Ai! minha Nossa Senhora! Valei-me, que ella mata-me! + +Apenas chegou ao patamar, D. Leonarda inquiriu com voz ameaçadora: + +--Quem te deu licença de entregares áquella mulher a medalha que te dei? + +E, como o pequeno não respondesse, applicou-lhe uma bofetada com tamanha +violencia, que o fez cambalear e cahir para traz, batendo com a cabeça +na esquina do degráo. + +--Pedaço de maroto!--rosnava a freira convulsa.--Levan\-ta-te! + +E fitava os olhos coruscantes sobre o Simão, sem reparar que elle ficára +ali, sem sentidos, estendido sobre o patamar, com um fio de sangue a +escorrer-lhe da nuca! + + * * * * * + +O engeitado esteve oito dias de cama, com assistencia de facultativo. +Havia receio de que ao abalo da queda sobreviesse uma meningite. Se se +declarasse, dizia o medico, o caso era grave e podia ser fatal! + +Ao cahir da tarde, accommettia-o uma febre intensa, que o fazia delirar. +N'essas crises, deitado de costas; com as faces affogueadas e os olhos +muito brilhantes e fixos n'um ponto vago, o doente falava e gesticulava, +proferindo repetidas vezes o nome da mãe e da Lena. D. Bernardo, sentado +ao lado, perguntava-lhe com voz carinhosa: + +--Tu que dizes? + +Simão, como se despertasse no meio d'um pezadello, voltava os olhos para +D. Bernardo, e estremecia. + +--Tu que queres, Simão?--insistia o fidalgo, apalpando-lhe a fronte +esbrazeada. + +O pequeno recuava para o fundo da cama, assustado, com os olhos +espantados e a tremer. + +--Não quero a senhora--balbuciava elle tranzido e a chorar.--Ella +mata-me! Ai! eu quero a minha mãe! Ó meu padrinho, a senhora mata-me. + +E segurava com força a mão de D. Bernardo, olhando para a porta com +terror da presença da freira. + +D. Bernardo, no dia em que o pequeno foi castigado, censurára a +brutalidade da irmã. + +--Não são modos de tratar as crianças, mana--tinha elle dito. + +D. Leonarda replicou com azedume; e, quando D. Bernardo lhe pediu que se +calasse, a freira retirou-se da sala com modo altivo, resmungando pelo +corredor: + +--Eu já o presumia! Bem me quiz parecer que para afilhado, era muito +amor! + +Denunciára-se a freira! A suspeita de que o engeitado fosse filho do +irmão tinha-a sobresaltado. Nutrira sempre a esperança de ficar herdeira +universal da casa da Tojeira. Á primeira noticia da existencia do +afilhado, todos os seus calculos ambiciosos se abalaram. Teve o receio +instinctivo do mendigo, que vê concorrente á mesma porta! Recebeu o +pequeno com fingida ternura e piedade, mal podendo conter, mais tarde, o +rancor que a sua presença lhe inspirava. + +Quando reparou que elle estava desmaiado aos seus pés, a escorrer +sangue, assaltou-a um sentimento de terror, julgando que o tinha morto. +Chamou em altos brados pela criada, que appareceu no mesmo instante. O +rapaz foi transportado em braços para o leito. Ao chegar D. Bernardo a +casa, a criada referiu o que tinha succedido, desculpando a senhora da +melhor maneira que pôde. + +--Onde está a sr.ª D. Leonarda?--perguntou o morgado com ar grave e +carrancudo. + +--Está no quarto--respondeu a velha.--A senhora tambem ficou doente. +Isto abalou-a muito. + +Ao quarto dia a febre remittiu. Os receios do facultativo +desvaneceram-se. No fim de uma semana, o doente sahiu da cama para uma +cadeira da sala. + +Caminhava amparado ao braço do padrinho, muito desfallecido de forças, +pallido e tremulo. A freira via então o pequeno duas vezes por dia. +Falava-lhe sem rancor, mas visivelmente constrangida. + +Durante a enfermidade, a tal ponto D. Bernardo se affeiçoou ao afilhado, +que passava os dias sentado junto d'elle, conversando e lendo-lhe d'alto +as noticias dos jornaes. + +--Quando voltarmos para a terra--dizia-lhe elle--has de tambem aprender +a ler. Queres? + +--Quero, meu padrinho--respondia o Simão. + +Um instante depois, perguntava: + +--E a Lena? + +--A Lena tambem ha de aprender como tu. + + * * * * * + +Á noitinha, logo depois do toque das _ave-marias_, a Josepha chegava á +porta a chamar os filhos, que andavam fóra a brincar. + +--Venham estudar, que é noite. + +E accendia a candeia, que pendurava n'um gancho da parede superior a uma +meza de pinho. Sentava-se depois ao lado, com a roca mettida á cinta, a +fiar. + +Como a mestra curava mais de ensinar ás discipulas a meia e a costura, +pondo em ultimo logar a leitura e a escripta, o Simão, em poucos dias, +adiantou-se na lição á Magdaena. Por isso era elle quem, estudada a sua, +ensinava a lição á irmã. Debruçados sobre o mesmo livro, com as cabeças +chegadas uma á outra, Simão ia apontando com o dedo as syllabas que +Magdalena soletrava: + +--_Ma-ri-nha._ + +E erguia os olhos do livro, hesitante, fitando-os em Simão, que a +animava risonho. + +--Marinha--dizia a pequena. O Simão irradiava de jubilo. + +--Bem!--exclamava elle.--Agora para diante. + +Então apparecia uma palavra enorme, que era um martyrio para Magdalena. +Era ainda o Simão que a auxiliava amorosa e pacientemente, Fazendo-a +reter bem as primeiras syllabas. Diziam simultaneamente: + +--_Na-tu-ra-li-da-de._ + +E se a Magdalena dizia bem, o Simão, n'um impeto de contentamento, +tomava-lhe a cabeça entre as mãos, e beijava-a na testa. + +--Muito bem, Lena, muito bem! + +No dia seguinte, sahiam de casa juntos para a escola. Mettiam por um +atalho aberto no meio d'um pinhal. Era um caminho triste e sombrio, com +um chão humido e molle todo sulcado pelas rodas dos carros e murado +d'ambos os lados pelos taludes barrentos, onde, no inverno, escorriam as +chuvas. Acabava n'um terreno baixo desmoutado e areiento, ao qual vinham +dar as aguas d'um regueiro. Á tardinha vinha ali beber uma revoada de +pombas brancas. Mais adiante, o caminho bifurcava-se pelo meio de campos +de milho. Junto ao portão d'uma quinta murada havia um grande sobreiro, +a cujo tronco estava arrumada uma pedra tosca coberta de musgo +requeimado. Era ali que os dois pequenos tinham de se separar, mettendo +Magdalena por uma azinhaga, onde ficava a mestra-regia, e Simão por +outro lado, na direcção da escola dos rapazes. Nunca o faziam, porém, +sem se sentarem algum tempo a conversar. N'esses instantes Simão contava +á irmã os acontecimentos da Povoa de Varzim. Magdalena ouvia-o muito +attenta, com os olhos abertos, que se embaciavam de lagrimas nos lances +mais commoventes. + +--Eu perguntava sempre á mãe quando tu vinhas--dizia Magdalena, +enxugando os olhos nas costas da mão.--Não gostava de estar sem ti. Olha +Simão--pedia ella, lançando-lhe um braço sobre os hombros--agora, nunca +mais has de ir embora, não? + +--Quem sabe lá!--respondia o engeitado, incerto do futuro, muito triste, +com os olhos fitos n'um grupo de arvores, que havia defronte... + +Ás vezes, no inverno, quando um aguaceiro os surprehendia no caminho, +corriam a abrigar-se debaixo d'aquella arvore. Ficavam ambos ali, muito +achegados ao tronco, e tão esquecidos e abstractos, que nem davam tino +da chuva que escorria dos ramos--como os dois namorados vistos por +Diderot! + +Decorreram assim tres annos. + +Magdalena já costurava e bordava com tal perfeição, que era o espanto +das visinhas. Quando a Josepha mostrou uma toalha de linho bordada pela +filha, para ser offerecida ao fidalgo da Tojeira, a Joaquina do Espinhal +levantou nos braços a rapariga, beijou a na bocca e exclamou: + +--És uma rosa, Magdalena! Louvado seja Deus! Tens umas mãos, que são uma +riqueza! + +O Simão lia correntemente, escrevia com boa caligraphia, sabia as quatro +operações, e até já auxiliava o mestre. Era o decurião da aula. Os +discipulos mais venturosos eram ensinados por elle, propenso sempre á +complacencia e ao perdão, em quanto os desafortunados se viam nas mãos +do sr. mestre, um velhote estupido e rabujento, que se vingava das +horrendas miserias a que o lançavam os governos relapsos no calote, +macerando as mãosinhas tenras das crianças com estrondosas palmatoadas! + +Um domingo, na occasião em que os freguezes da missa sahiam da egreja +para o adro, o mestre-escola foi ao encontro de D. Bernardo, que vinha +da porta lateral da sachristia, e deu-lhe do afilhado as melhores +informações. Era uma grande cabeça que ali se perdia, se o deixassem +seguir a lavoura--dizia elle. O pequeno, além d'isso, era fraco e +doente; e parece que estava talhado para seguir a vida ecclesiastica. + +D. Bernardo recolheu a casa, pensando no que o mestre lhe dissera. Era +realmente preciso tratar do futuro do afilhado. Se a vocação o não +contrariasse, a vida tranquilla de sacerdote era a que mais se coadunava +com as qualidades physicas do pequeno. Passados dois dias chamou-o a +jantar comsigo. No fim, perguntou-lhe se queria ser padre. O pequeno não +respondeu. Poz-se a correr entre os dedos a dobra da toalha, com os +olhos no prato e sem proferir palavra. + +--Queres, ou não queres?--insistiu D. Bernardo. + +--Não, senhor--respondeu o pequeno a medo. + +Desejava seguir uma vida que o não affastasse da Magdalena. O fidalgo +discordou. Ponderou com palavras carinhosas que era preciso seguir uma +carreira que o fizesse um homem de bem. Elle que o mandára á escola, não +era de certo para o deixar ficar assim, sem um modo de vida... + +--Não,--disse D. Bernardo--se não queres ser padre, ninguem te fórça. +Serás outra coisa. Mas previne a tua mãe de que para a semana has de ir +para Braga. + +O pequeno desatou a chorar. + +--Não chores--disse-lhe D. Bernardo, que se recordava das scenas da +Povoa--não chores. Vaes para um collegio de meninos como tu; e nas +ferias vae tua mãe buscar-te para vires á terra! + +A proposito, e para desanuvear o coração do afilhado, contou-lhe varias +brincadeiras do seu tempo de collegial. + + * * * * * * * * * * + +Simão foi acompanhado pela Josepha a casa do padre Barreiros, na rua da +Conega, em Braga. A mulher entregou uma carta do fidalgo da Tojeira. O +padre montou os oculos, e leu a recommendação do seu amigo e antigo +protector. + +--Muito bem--disse no fim, retirando os oculos, e dobrando a +carta.--Então, este pequeno é o afilhado do sr. D. Bernardo? + +--É, meu senhor--respondeu a Josepha. + +--E é seu filho?--perguntou o padre. + +A Josepha hesitou na resposta. Olhou para o pequeno, e disse baixinho: + +--Elle é engeitado; mas quem o criou fui eu. + +Na tarde d'esse mesmo dia o Simão entrava como alumno interno no +collegio de Jesuitas do _Campo das hortas_. + +Foi recebido carinhosamente pelo director--um homem alto, rubicundo, +vestido com uma ampla batina de clerigo. O padre Barreiros mostrou a +carta do fidalgo da Tojeira, e accrescentou: + +--O meu amigo é um dos membros mais valiosos do partido do sr. D. +Miguel! Este pequeno é seu afilhado; e, pelos modos, o sr. D. Bernardo +dedica-o aos estudos. + +Os primeiros dias foram uma nova tortura para o pobre coração do +engeitado! Andava pelos cantos da casa a chorar. A cada momento, +chegava-se ás janellas, e detinha-se a contemplar a paizagem. Faziam-lhe +inveja os homens que trabalhavam no campo. Procurava ver entre o +arvoredo o caminho por onde viera para Braga, e ia seguindo quasi +instinctivamente a estrada, que ora se perdia encoberta pela ramaria dos +carvalhos, ora surgia em retalho n'uma clareira para apparecer depois ao +longe, ondeando pela encosta acima, muito branca entre a verdura do +monte!... + +Mas ao terceiro dia, o director chamou-o ao quarto, e entregou-lhe um +pacote de livros, batendo-lhe carinhosamente na cara. Recommendou-lhe +que estudasse muito. + +--Ouviste? Para seres agradavel a Deus, Nosso Senhor, e aos teus paes. + +O Simão retirou-se vivamente commovido. A idéa de que tinha de estudar +todos aquelles livros, despertava-lhe na alma um agradavel sentimento de +orgulho! + +Nas ferias do Natal, o padre Barreiros foi buscal-o ao collegio, e +enviou-o para a terra, muito recommendado a um almocreve, que passava +perto da Tojeira. O pequeno não cabia em si de contente! Caminhava ao +lado do recoveiro, revendo com immenso prazer os sitios por onde tinha +passado mezes antes, quando viera para o collegio. Ia impaciente! A cada +passo perguntava: + +--Agora já devemos estar perto? O almocreve dizia: + +--Ainda temos muito que andar. + +E continuavam os dois pela estrada fóra, sem dizerem palavra. O +almocreve, segurando no sovaco a arreata do primeiro macho da recova, +caminhava n'um passo regular, assobiando. O Simão ia ao lado. A +perspectiva triste e melancolica da paizagem n'uma manhã fria de +dezembro tinha para elle encantos indefinidos! As arvores despidas da +folhagem, os campos sem verdura, o ceo baixo e ennevoado, toda aquella +desolação do inverno apresentava-se a elle com um aspecto risonho e +seductor! + +--Ainda temos muito caminho a andar?--tornava elle ancioso. + +O almocreve respondia: + +--Vê o menino além aquella ermida, que fica na chapada? pois em lá +chegando, já póde ver o telhado da casa do fidalgo da Tojeira. + +Era ainda uma boa meia hora de caminhada! Quando iam a dobrar uma curva +da estrada, Simão soltou um grito de alegria, e deitou a correr para a +frente. Ao longe, vinha a Lena ao lado da mãe para o esperarem no +caminho. A pequena correu tambem; e apenas se encontraram, abraçaram-se +os dois n'uma grande expansão de ternura! + +O pequeno teve umas ferias deliciosas. O padrinho tinha recebido +excellentes informações dos padres do collegio. O alumno era +intelligente, estudioso e bem comportado. + +--Se tiveres sempre juizo--recommendava-lhe D. Bernardo +satisfeito--podes ainda vir a ser um doutor! Queres? + +O Simão não respondia. Ruborisava-se todo e, olhando para Lena, que +assistia ao lado, sorriam-se os dois! + +Na vespera de voltar Simão para Braga, a Lena deu-lhe uma pequenina cruz +de metal suspensa d'uma fita verde. + +--Toma--disse, ella, pondo-lhe a fita ao pescoço.--É a cruz de Nosso +Senhor, que eu beijo sempre ao deitar. Não te esqueças de fazer o mesmo, +não, Simão? + + * * * * * + +N'esse dia, um mez depois das ferias, o director, antes de terminarem as +autos, mandou reunir na grande sala d'estudo todo o collegio. Ao lado +d'elle collocaram-se os professores e os prefeitos. O director subiu ao +estrado, e pronunciou de lá um longo discurso, falando em amor de Deus, +em humildade, em dedicação ao estudo, em obediencia a mestres, e +superiores! Os alumnos, agglomerados na vasta sala, ouviam +silenciosamente, n'uma compostura grave, com os braços cahidos ao longo +do corpo. Ia distribuir-se um premio a um estudante, que pela sua +applicação, pela sua intelligencia e pelo seu comportamento exemplar, se +tornava digno d'aquelia distincção honrosa! + +O director fez uma pausa, e em seguida proferiu com voz cheia e solemne +o nome do alumno distincto: + +--Simão Ferreira, filho de... + +E, como na registo não houvesse designação de nome dos paes, emendou: + +--Natural de S. Silvestre. + +O Simão sahiu d'entre a multidão, muito vermelho e commovido, +adiantando-se na sala com um passo hesitante. O director fel-o subir ao +estrado; e, collocando a mão sobre a cabeça do pequeno, proferiu ainda +uma breve allocução laudatoria, e entregou-lhe um livro encadernado em +marroquim azul com letras doiradas no frontispicio. Os professores +bateram palmas, abraçaram o estudante; e Simão atravessou por entre os +condiscipulos no meio d'uma saudação enthusiastica! + +Á tarde, quando estava no recreio, um criado veiu chamal-o para ir á +presença do sr. director. Ao entrar na sala, Simão viu ao lado do +director o padre Barreiros. Tinham ambos um ar sombrio e pesado. O +director, logo que o pequeno entrou, disse-lhe pausadamente, pondo-lhe +uma mão no hombro: + +--Meu filho! O sr. padre Barreiros acaba de me annunciar a morte do teu +padrinho... + +O Simão fez-se pallido, e volveu para o padre os olhos marejados de +lagrimas. + +--Morreu hontem de repente--disse o padre Barreiros. + +--Por isso--continuou o director--vaes-te vestir para ires com o sr. +padre Barreiros. Não sei se voltarás para o collegio, meu filho. Se não +vieres, lembra-te sempre dos teus amigos, e continua a ser obediente e +trabalhador. + +O pequeno tinha o presentimento vago de que na sua vida aquelle +acontecimento funesto devia ser de alta importancia. Ficou meio +atordoado, como se viesse de assistir a uma catastrophe! + +Que iriam fazer d'elle, sem o auxilio do seu padrinho? + +Esteve dois dias mettido em casa do padre Barreiros. Ao cabo d'esse +tempo, o padre disse-lhe, durante o jantar, que o sr. D. Bernardo tinha +morrido repentinamente, sem deixar testamento. + +Simão mal comprehendia o alcance d'aquella revelação; mas, pelo modo +como o padre falava, pareceu-lhe que era de gravidade o caso. + +--Procurei a mana no convento--proseguiu o padre Bar\-reiros--e +perguntei-lhe se queria continuar a proteger-te. Disse-me que o não +fazia, por ora, sem saber o valor da sua casa. Ahi tens tu, Simão, como +estão as coisas! Por isso, entendo que deves procurar outro modo de +vida. Tens hoje treze annos, sabes ler, escrever e contar, um bocado de +francez e de latim. Deves seguir o commercio para, em pouco tempo, +poderes proteger a mãe que te criou, que ha de carecer do teu amparo. +Queres? + +De todas as considerações feitas pelo padre, Simão concluiu apenas que +estava desamparado, e que era preciso trabalhar! Disse que sim, que +fizesse o sr. padre Barreiros o que entendesse. + +No dia immediato, o padre Barreiros foi procurar um sobrinho +estabelecido com loja de ferragens na _Fonte da Corcova_, e +offereceu-lhe o pequeno. O ferragista annuiu; mas declarou logo que o +facto do rapaz ter andado no collegio «era o diabo»! Elle preferia os +que sahiam das aldeias, sujeitos a toda a casta de trabalhos. Emfim, uma +vez que o tio queria... + +Simão entrou para a loja ao anoitecer. O patrão falou-lhe com ar +carrancudo, tratando-o por tu, e dando-lhe a entender que, se o recebia, +era por ser do agrado do tio. Simão não respondeu. + +O tratamento grosseiro e aspero do patrão e do caixeiro mais velho da +loja, a rudeza do trabalho, as condições pessimas do quarto em que +dormia, sem luz, com pouco ar, entre quatro paredes humidas e pegajosas, +a lida continua desde o amanhecer ate á noite, transformaram em pouco +tempo o pobre rapaz, como se o minasse uma doença grave. Tinha perdido a +côr sadia e a vontade de comer. Dormia mal, sobresaltado por aquella +subita mudança nos habitos da sua vida! O patrão obrigava-o a trabalhos +pesados; e, quando o via fraquejar sob o pezo das grandes cargas de +ferragem, gritava-lhe:--Anda, avia-te! Quem não póde, arreia! Não sei de +que te serve a comida! + +E outras brutalidades, que melindravam e aviltavam o pequeno. + +De uma vez, chamou-o para pesar n'uma grande balança, que havia ao fundo +da loja, n'um armazem escuro e frio, umas canastras de fechaduras. +Simão, com o suor a escorrer-lhe na testa, segurava a cesta d'um lado, o +patrão do outro, e, a um impulso simultaneo, collocavam-n'a sobre o +prato da balança. Á terceira carga, o pequeno não pôde mais, e deixou +cahir das mãos a canastra. O patrão deu um salto, e applicou-lhe dois +pontapés valentes, dados com a biqueira do tamanco. Simão principiou a +chorar. + +--Mexe-te--berrava o ferragista--mexe-te, ou levas outros! + +Na madrugada do dia seguinte, quando o caixeiro o foi acordar para ir +para a loja, Simão queixou-se d'uma forte dôr de cabeça, e pediu-lhe que +o deixassem ficar na cama. Logo que o patrão appareceu, o caixeiro +disse-lhe que o rapaz estava doente. + +--Eu lá vou!--rosnou ameaçador o ferragista; e entrou no quarto do +rapaz, ordenando que se levantasse immedia\-tamente.--Eu tiro-te o mimo, +meu menino!--dizia elle ao pequeno.--O que tu tens é ronha, grande +mandrião! + +Simão ergueu-se a tremer de frio. Vestiu-se á pressa, e desceu para a +loja, adiante das ameaças e injurias do patrão. Passado um instante, +vendo que o caixeiro se tinha ausentado, levantou a porta do mostrador, +e fugiu para a rua. O patrão, que o avistara do fundo do armazem, saltou +fóra, e veiu agarral-o por uma orelha no _Campo da vinha_. Quando se viu +preso, Simão julgou-se perdido. Foi levado para casa, perseguido de +successivos pontapés. Umas mulheres que passavam, pararam na rua, ao ver +a furia do homem, e compadecidas do rapazinho, que, a cada momento se +voltava para traz, pedindo perdão com as mãos postas: + +--Perdôe ao rapazinho--imploravam ellas segurando o +ferragista.--Perdôe-lhe por esta vez. sr. José. + +O ferragista, porém, era implacavel. + +Chegado a casa, subiu com o rapaz a uma sala do andar superior, fel-o +despir a jaqueta e as calças, pegou n'um junco, e gritou-lhe pallido e +tremulo de raiva: + +--Ajoelhe-se, e peça perdão! + +Simão cahiu de joelhos no sobrado, e ergueu as mãos. + +--Agora--disse o ferragista--vamos ao correctivo. + +E, com o junco vibrado com toda a força, principiou a vergastar as +costas do rapaz. Simão retrahia-se d'encontro á parede, clamando por +soccorro. O patrão enfurecia-se mais aos brados do padecente, e, cego de +indignação, quasi sem respirar, n'um impeto convulso de fera, saltou +sobre o rapaz a bater-lhe com tanta violencia, que o fez cahir no chão, +soltando gritos afflictivos, com as costas retalhadas e a escorrer em +sangue! + +O patrão cançado e offegante abriu então a porta da sala, e sahiu. + +Simão, quando se viu só, ergueu-se d'um impeto, desceu á pressa as +escadas, e saltou para a rua a gritar. Ao dar meia duzia de passos, +cahiu extenuado sobre o lagedo do passeio. + +Reuniu-se muita gente em volta d'elle. As mulheres, em grande alarido, +davam _morras!_ contra o malfeitor. + +Alguns homens tentaram levantar do chão o pequeno; mas as mulheres +oppozeram-se. Uma d'ellas retirou um lençol d'uma trouxa que levava á +cabeça, e embrulhou n'elle o rapazito. + +--Matem este patife!--gritavam as mulheres raivosas, com as lagrimas a +saltarem-lhes dos olhos.--Matem! + +A multidão crescia. Logo que constou no mercado, quasi todas as +vendedeiras acudiram a ver. O Simão ia já levado nos braços d'uma, com a +cabeça pendente no hombro d'ella, quando d'entre o povo, que seguia +atraz, se ouviu este grito dilacerante: + +--Ai! que elle é o meu filho! + +E uma pobre mulher da aldeia correu para elle afflicta com os braços +abertos. Era a Josepha, que, n'esse dia, tinha vindo a Braga. Andava a +mercar na feira umas camisolas, que ia levar ao filho. Ao ouvir os +clamores do mulherio, adiantou-se para ver. Pobre mulher! + +Tomou ella o Simão nos braços; e, perdida pela afflicção, caminhava á +toa, sem destino, lamentando que lhe tinham matado o filho do seu +coração. + +--Leve-o ao hospital--disseram as mulheres que a acompanhavam. + +Atravessaram as ruas, seguidas da multidão, que ia engrossando de cada +vez vez mais, ate ao largo dos Remedios. Chegadas ao hospital de S. +Marcos, a Josepha entrou só, subindo as escadas a chorar. O facultativo +fez deitar o pequeno, observou-lhe as contusões do corpo, e disse: + +--O homem que fez isto deve ser preso! + +O pequeno só cobrou os sentidos, quando lhe applicaram as compressas de +arnica sobre os vergões. Principiou a gemer, e a chamar pela mãe. + +--Eu estou aqui, Simão--dizia a Josepha debruçando-se sobre elle.--Não +chores, meu filho. + +--Eu morro, minha mãe--dizia o pequeno, segurando-lhe as mãos, e +levantando para ella os olhos supplicantes e cheios de lagrimas. + +O povo, que acompanhou o Simão ao hospital, desandou em grande turba +para casa do ferragista. Ali, ajuntou-se a um magote, que estava já +estacionado á porta. O patrão tinha desapparecido da loja. Ao canto do +balcão, o caixeiro, muito assustado pelo aspecto ameaçador da gente, não +se mexia. + +--Morra o patife!--gritou uma mulher. + +--Morra! repetiram as outras. + +E a multidão cresceu sobre a loja. + +Foi precisa a intervenção da auctoridade, reclamada pelos visinhos do +ferragista. + +O administrador appareceu seguido do escrivão e de alguns policias, e +ordenou ao povo que se dispersasse. + +--Não sahimos, sem que o malvado seja preso--berrou um operario face a +face ao administrador. + +O agente da auctoridade entrou na loja. Passado pouco tempo a policia +foi reforçada pela cavallaria, que conseguiu dispersar o ajuntamento. E, +logo em seguida, o ferragista, pallido, a tremer, olhando assustado para +os dois lados da rua, atravessou-a a correr, entre policias, para dar +entrada na cadeia! + + * * * * * + +No outro dia de manhã, o medico do hospital mandou collocar o biombo em +volta da cama do Simão. + +--Está a manifestar-se a congestão--explicou elle baixo á enfermeira. + +Os outros doentes da enfermaria, quando viram o medico falar +confidencialmente, olharam uns para os outros, desconfiados, com um ar +abatido e triste. Ao longo de toda a sala havia um grande silencio, +percursor do silencio frio da morte. Os serventes do hospital +atravessavam por entre as filas das camas em bicos de pés. + +Ás nove horas, a enfermeira acendeu as velas de cêra de dois tocheiros, +que ladeavam a imagem do Senhor crucificado, ao fundo da sala. Em +seguida aproximou-se do leito do Simão. Estava deitado de costas, com os +olhos fixos já meio embaciados... Respirava com oppressão; e a bocca +entre-aberta formava-lhe um traço escuro na pallidez cadaverica do +rosto. + +--Quer alguma coisa?--disse-lhe a enfermeira ao ouvido. + +--A minha mãe?--perguntou baixo o moribundo. + +--Ainda não veiu. + +Houve uma grande pausa. + +--Quando ella vier--pediu o Simão com uma voz debil--se eu tiver +morrido, dê-lhe a cruz que tenho ao pescoço; sim? + +Parou um instante para respirar, e accrescentou: + +--É para a Lena. + +A enfermeira tentou animal-o, dizendo-lhe que elle havia de melhorar. + +Simão fez um leve sorriso de descrença, e respondeu: + +--Eu bem sei que morro... Ouvi o medico dizel-o ha pouco... Ai! já me +falta o ar! Oh! minha mãe! + +Quando a Josepha chegou á porta do hospital, o sino da capella começava +a tocar a agonia! + +A enfermeira esperou-a no patamar, e disse-lhe que o filho estava a +morrer. Havia então na sala um silencio lugubre! Alguns enfermos, +sentados no leito, murmuravam orações, com as mãos postas em supplica. +Ouvia-se, de quando em quando, um gemido que partia do biombo. + +A Josepha foi direita á cama do Simão. Estava a expirar! Ainda +reconheceu a mãe; porque, fixando n'ella os olhos quasi apagados, +procurou com anciedade a Lena. Como a não visse, rebentaram-lhe duas +grossas lagrimas, e murmurou baixinho: + +--Adeus! + +E estremeceu todo, exhalando o ultimo alento n'uma aspiração tremula, +como um suspiro de alivio! + + +Coimbra, fevereiro de 1884. + + +Á +VENDA +NA +Livraria de Antonio Maria PEREIRA +50--Rua Augusta--52 +LISBOA + +_Amores á beira-mar_, conto por Alberto Braga, 200 réis. + +_Ás mães e ás filhas_, contos de Caïel, 2.ª edição, +500 réis. + +_O mysterio da estrada de Cintra_, romance de +Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, 2.ª edição, 600 réis. + +_Rei ou impostor?_, romance historico por José +de Torres, 500 réis. + +_Digressões e novellas_, por Bulhão Pato, 600 réis. + +_Romance d'um rapaz pobre_, por Octavio Feuillet, +traducção de Camillo Castello Branco. Esplendida edição illustrada, +em grande formato, magnifico papel, soberbas gravuras, capa em chromo, +etc. 1 vol. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Engeitado, by Alberto Braga + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ENGEITADO *** + +***** This file should be named 25594-8.txt or 25594-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/5/9/25594/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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