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+The Project Gutenberg EBook of O Engeitado, by Alberto Braga
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: O Engeitado
+
+Author: Alberto Braga
+
+Release Date: May 25, 2008 [EBook #25594]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ENGEITADO ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+
+
+Sala das Perolas
+
+
+
+
+Sala das Perolas
+
+Contos Modernos
+
+
+LISBOA
+LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA
+_50--Rua Augusta--52_
+M DCCC LXXX VIII
+
+
+
+
+O ENGEITADO
+
+
+
+
+ALBERTO BRAGA
+
+
+O ENGEITADO.
+
+
+LISBOA
+_TYP. E STEREOTYPIA MODERNA_
+_11--Apostolos--11_
+1888
+
+
+
+
+O ENGEITADO
+
+
+A Joaquina do Espinhal tinha ido, no fim da tarde, lavar ao rio a roupa
+dos pequenos. Era no mez de dezembro. A agua corria por entre os
+choupos, fria e levemente encrespada pela brisa que soprava do norte.
+Joaquina do Espinhal, com as saias arregaçadas na cintura, as pernas
+mettidas na agua ate ao joelho, ensaboava a roupa e batia-a com força
+sobre a pedra poida e lustrosa do lavadouro.
+
+Da outra banda, pelo carreiro que havia á beira do rio, passou o filho
+do moleiro a tanger os machos. O rapaz ia tranzido de frio, com a golla
+da jaqueta apanhada para as orelhas, a assobiar alto. Assim que
+reconheceu a lavadeira, parou, fincou a mão ao tronco d'uma arvore, e,
+debruçando-se sobre o rio, perguntou de lá:
+
+--Vocemecê não tem frio?
+
+A Joaquina aprumou-se e respondeu:
+
+--Ai! és tu, Jeronymo! Frio? Quem fala n'isso? Quando a gente tem
+filhos, não deita conta a nada. Onde ides?
+
+--Vou levar a fornada a casa do sr. doutor.
+
+--Pois vae com Deus, vae.
+
+Mas o rapaz deixou-se ficar immovel a olhar para ella. Os machos iam
+tosando nas silvas.
+
+--Que frio!--exclamava elle todo arripiado.
+
+--Credo! Se eu a visse ahi de noite, diabos me levem se não deitava a
+fugir com medo!
+
+A lavadeira ria-se.
+
+--Medo de quê, rapaz?
+
+--Sume-te!--dizia o moleiro.--De noite, só as bruxas é que veem lavar
+aos rios... Adeusinho, tia Joaquina.
+
+--Adeus, ó Jeronymo.
+
+Era já noite, quando a Joaquina voltou para casa, carregada com o
+alguidar da roupa molhada á cabeça. Atravessou uma bouça; e, quando ia a
+transpor o portello, que dava para a estrada, estacou de repente. Tinha
+ouvido uns gemidos vagos ali perto. Debaixo da lagem do portello, por
+entre o tojo, alvejava alguma coisa que se movia. Cuidou ao principio
+que fosse um cão; e ia a dar-lhe com a ponteira da chinella, quando os
+gemidos se repetiram.
+
+--Elle que dianho é?
+
+Poisou resolutamente o alguidar no primeiro degráo do portello,
+abaixou-se para examinar de perto; e, ao levantar uma ponta da trouxa,
+viu uma criança recemnascida, nua, embrulhada n'um lençol velho. Tomou
+logo a creança nos braços, e, achegando-a ao calor do peito, exclamava
+commovida:
+
+--Ó meu rico filho! Que grande cadella foi a tua mãe! Que grande
+desavergonhada!
+
+Quando entrou em casa, o marido estava com os dois pequenos sentado ao
+calor da lareira. A Joaquina correu o ferrolho interior da porta, e,
+chegando-se junto do homem, apresentou-lhe nos braços o engeitado.
+
+--Aqui tens este leitão.
+
+O João do Espinhal poz-se logo de pé muito espantado. A criança, livida
+de frio, ao sentir o calor do lume, agitava-se no lençol, abria os olhos
+e a bocca, procurando com impaciencia e avidez o leite do seio materno.
+
+--Meu rico anjinho!?--exclamava a Joaquina, bafejando-lhe as
+mãosinhas.--Que frio e que fome que tu tens!
+
+Referiu ao homem como encontrára, ao voltar do rio, aquelle innocentinho
+abandonado no meio do tojo.
+
+--Se o não topo no caminho, a criancinha a esta hora tinha morrido de
+frio.
+
+--Mas tu que lhe queres fazer?--perguntou o marido, passado um momento
+de surpresa.
+
+--Que lhe quero fazer!! Vou d'aqui pedir á mulher do Cosme que chegue o
+peito a este innocente; e ámanhã veremos então a volta que lhe hei de
+dar.
+
+O João, immovel e callado, com os olhos postos na labareda da lareira,
+coçava a nuca. O que elle não queria era augmentar os encargos da
+familia com mais um extranho. A féria de pedreiro, que recebia aos
+sabbados, mal lhe chegava para o sustento da mulher e dos dois filhos;
+agora, se a Joaquina teimasse em ficar com o engeitado...
+
+--É uma dos diabos!--pensava elle, franzindo os beiços.
+
+A Joaquina sahiu de casa com a criança ao collo, e voltou pouco depois,
+explicando ao homem o que tinha succedido. A Josepha do Cosme tomava
+conta do innocente, chegava-lhe o peito; mas queria que alguem desse
+parte ao regedor, porque não estava para se metter em trabalhos.
+
+--Porque--dizia a mulher--o leite que tenho, graças a Deus, chega bem
+para elle, sem o tirar á filha; mas, sr.ª Joaquina, é preciso que alguem
+de futuro tome conta da criança...
+
+A Joaquina combinou com a visinha irem no dia seguinte a casa do
+regedor; e depois talvez que o fidalgo da Tojeira tivesse dó do
+engeitainho, e tomasse conta d'elle. E senão--insistia ella--tomo eu!
+Pois! Onde houver um bocado de pão para os filhos, ha de haver uma
+migalha para o innocente.
+
+O João ouvia isto contrariado e sisudo, mas sem replicar. Mandou deitar
+os pequenos. Quando despiu a jaqueta, para se metter tambem na cama,
+encostou-se á ilharga da enxerga, e voltando-se para a mulher perguntou:
+
+--Mas, ó mulher, e se o fidalgo o não quizer? Sim; vamos a futurar que o
+fidalgo, que é teimoso com'a burro, não está por o que vocês lhe dizem?
+
+--Adeus!--replicou peremptoriamente a Joaquina, encolhendo os
+hombros.--Ao monte não atiro eu outra vez o innocente!
+
+No dia seguinte, a Josepha do Cosme vestiu uma camisa velha á creanca,
+embrulhou-a n'uma baeta escarlate, e com ella ao collo, foi ter com a
+Joaquina. Sahiram ambas para casa do regedor. A Joaquina referiu o caso,
+com grandes injurias contra a desalmada que abandonou assim o filho por
+um inverno d'aquelles! O regedor, que era sugeito circunspecto e
+methodico, entendia que o verdadeiro era irem d'ali a casa do abbade.
+
+--Primeiro que tudo, mulheres--ponderou elle--vamos a fazer d'isto uma
+alma christã. Uma de vocês serve-lhe de madrinha, e então o fidalgo, se
+estiver por isso, que seja o padrinho.
+
+Pozeram-se a caminho da residencia.
+
+O abbade tinha engrolado á pressa o latim da missa do dia, com grande
+appetite do café quente do almoço. Ia a sair apressadamente da egreja,
+quando viu entrar no adro as duas mulheres acompanhadas pelo regedor.
+
+--Vae torta!--resmungou elle, a tiritar de frio, com as mãos entanguidas
+enfiadas nos bolsos das calças. Parou no limiar; e, logo que ellas se
+aproximaram:--Que temos? Perguntou com modo desabrido, batendo com ambos
+os pés na soleira da porta.
+
+A Joaquina repetiu outra vez deante do abbade o mesmo que tinha dito ao
+regedor.
+
+--Mas quem será a mãe?--perguntava elle, tentando descobrir nas feições
+indecisas da criança uma denuncia.
+
+--Quem sabe lá, sr. abbade--dizia a Josepha.
+
+E com a dobra da mantilha resguardava dos olhares cupidos e profanos do
+padre o peito alvo e apojado em que a criança mamava.
+
+--Mas que grande bebeda, sr. abbade!--rosnava a Joaqui\-na.--Que
+grande... com licença de v. sr.ª... que grande cabra!
+
+O abbade replicou-lhe:
+
+--Não insulte as cabras, mulher; não insulte as cabras, que essas não
+engeitam os filhos.
+
+Combinou-se ali em que as duas mulheres fossem pedir ao morgado para ser
+o padrinho.
+
+--E se elle acceder--disse o abbade, safando-se para a
+residencia--mandem-me parte, que eu baptiso-o hoje mesmo. Vivam!
+
+O fidalgo da Tojeira era madrugador. Andava já a passear ao sol da
+varanda alpendrada da casa, quando o criado lhe veiu annunciar que a do
+João do Espinhal e a do Cosme lhe queriam falar.
+
+--Que venham aqui.
+
+Entrou, á frente, a Joaquina do Espinhal, seguida da mulher do Cosme. Ao
+principio, o morgado disse que não. Na sua opinião, quem faz os filhos
+que os crie. Elle não estava ali para remediar as poucas vergonhas do
+mundo. A Joaquina, porém, não desanimava; e, em quanto o fidalgo
+passeiava ao longo da varanda, obstinado no seu proposito, a mulher
+ajuntava supplica sobre supplica, e nas costas d'elle ia piscando o olho
+matreiro á visinha. Instado por fortes razões humanitarias, o fidalgo
+cedeu.
+
+--Pois bem--disse elle, parando do seu passeio.--Eu irei ser o padrinho;
+mas uma de vocês que se encarregue de o criar.
+
+O engeitado foi baptisado ás tres horas da tarde d'esse mesmo dia. Na
+sachristia o abbade, em quanto enfiava a sobrepeliz em frente do arcaz,
+lamentava que se tivesse dado aquelle caso na freguezia.
+
+--Mas quem será o maroto do pae!--perguntava o fidalgo.
+
+--Quem sabe lá, sr. D. Bernardo! Nem talvez a propria mãe! Isto hoje,
+meu senhor, o mundo vae todo assim!
+
+D. Bernardo, quando se offerecia ensejo gostava de chalacear.
+
+--Pois, abbade--replicou elle--pae tem a criança; salvo se ellas fazem
+como as egoas de Virgilio, lembra-se?
+
+ _.......................et saepe sine ullis_
+ _Conjugiis vento gravidae (mirabile dictu!)_
+
+O pequeno recebeu na pia baptismal o nome de Simão. Foi o que occorreu á
+lembrança do padrinho, que tivera assim chamado outro afilhado, morto de
+meningite uma semana depois de baptisado.
+
+ * * * * *
+
+D. Bernardo da Cunha era um velho celibatario, egoista e avarento.
+Assignava a _Nação_ e o _Bem Publico_; mas lia o _Primeiro de Janeiro_,
+que lhe dava a cotação exacta dos fundos portuguezes.
+
+Por tradições de familia, dizia-se legitimista, com quanto na sua
+consciencia os correligionarios enthusiastas e crentes não passassem
+d'um _bando de visionarios_.
+
+Vivia retirado do contacto do mundo, entre as velhas e sombrias paredes
+do seu solar; mas, á cautella, ia seguindo, dia a dia, as cambalhotas da
+politica constitucional, e sobre tudo a influencia que ella exercia na
+alta e baixa das inscripções. Era como um passageiro esperto d'esta
+velha nau combalida e desconjuntada, que tem thesouro com que possa
+salvar-se, no caso de naufragio!
+
+Quando acontecia que algum velho padre correligionario ia á Tojeira, e
+fallava com voz pungente da immoralidade dos governos, das torpezas das
+eleições, da dissolução dos costumes e da perda irreparavel do paiz, o
+morgado, ouvidas as lamentações do Jeremias, encrespava nos labios um
+sorriso zombeteiro, e exclamava:
+
+--Isto, meu caro amigo, está a acabar. É tudo uma bandalheira!
+
+Parecia uma phrase de Tacito, escrevendo _sine ira et studio_, a
+historia da dissolução dos romanos!
+
+Era senhor de um morgadio avultado. Tinha uma irmã mais nova, senhora de
+59 annos, professa no convento de S. Salvador, em Braga, que lhe
+escrevia de longe em longe, falando-lhe muito dos seus achaques, e de
+todos os santos canonisados do agiologio christão, e dos não
+canonisados, inclusive o fradinho João da Neiva do Carmo.
+
+D. Bernardo, depois que a Joaquina e a Josepha se retiraram da egreja,
+chamou de parte o abbade, e perguntou-lhe se devia dar alguma coisa á
+ama do engeitado e afilhado. O abbade era de opinião que a mulher
+merecia recompensa.
+
+--Dando-lhe dois pintos cada mez?--perguntou o fidalgo.
+
+--Paga v. ex.ª mui bizarramente, sr. D. Bernardo--disse o padre.
+
+Simão cresceu e medrou. No fim d'um anno, ensaiava os primeiros passos
+ao lado da filha da Josepha. Foram desmamados ao mesmo tempo; e, d'ahi
+por diante, a tigela de sopas era commum dos dois. A Josepha criou uma
+grande affeição pelo pequeno. Isto causou um grande pasmo entre as
+vizinhas, que estavam costumadas a ver tratar os engeitados com
+desapiedado abandono das mulheres que os recebiam.
+
+--Não, que uma coisa assim!--diziam ellas admiradas.--O pequeno parece
+filho d'ella!
+
+A unica differença sensivel aos olhos dos circumstantes era esta: quando
+acontecia ir D. Bernardo por casa do Cosme, a mulher obrigava o Simão a
+beijar a mão do fidalgo, acto respeitoso e humilde, a que não sugeitava
+a filha. O pequeno olhava o padrinho com o terror instinctivo nas
+crianças para com as pessoas graves, que os não amimam. Mas, afinal, o
+habito quasi lhe venceu a repugnancia; e, ao cabo de dois annos, com
+quanto a presença do fidalgo ainda o constrangesse e esfriasse no meio
+das suas alegres brincadeiras com a Magdalena, chegava-se a elle,
+humilde, e pedia-lhe a benção, balbuciante e tremulo:
+
+--A sua benção, meu padrinho!
+
+Decorreram os annos, sem alteração digna de chronica no desenvolvimento
+do rapaz. Sahiu delicado de feições, de cabellos castanhos, os olhos
+claros e uma pelle fina e branca, muito sensivel aos ardores do sol do
+estio e aos nordestes asperos do inverno.
+
+Se acontecia demorar-se com Magdalena fóra de casa, pelo meio dos
+campos, com a cabeça exposta ao sol, carminavam-se-lhe as faces, e
+recolhia a pingar sangue pelo nariz. Á noite a Josepha, quando o
+deitava, chegava-lhe vinagre ao nariz e aos pulsos; e, apalpando-lhe o
+ventre, achava-lhe sempre uma pontinha de febre. Este facto
+entristecia-a.
+
+--És um pelem, meu filho!--dizia-lhe no outro dia, olhan\-do o pequeno
+com piedosa ternura.
+
+No inverno, constipava-se frequentemente. E em quanto a Magdalena,
+forte, robusta, sadia, com as bochechas rosadas e luzidias como uma maçã
+madura, brincava fóra, chapinando nas poças do caminho, o Simão ficava
+em casa, muito enroupado, friorento, agachado a um canto junto da mãe.
+
+Pela volta dos oito annos, o pequeno principiou a andar muito triste.
+Não queria brincar. Até então, era elle o companheiro inseparavel da
+Magdalena e dos filhos da Joaquina do Espinhal. Logo que principiava a
+nascer nos campos o centeio, o Simão preparava as palheiras com o visco,
+collocava-as em sitio apropriado, e escondido com os amigos entre as
+giestas dos vallados, espreitava d'ali que os pardaes cahissem. Jogava o
+eixo e o botão com os rapazes que sahiam da escola. A Magdalena
+preferia-o a todos. Não a largava nunca; e se o Simão, nas duvidas do
+jogo, se pegava com alguns rapazes mais alentados, Magdalena punha-se da
+banda d'elle, e arremettia valentemente.
+
+Mas o Simão principiou a não querer sahir. Ia a Magdalena para a rua, e
+ficava elle sósinho em casa, encostado á janella, vendo a brincar de
+dentro dos vidros. Andava muito pallido e murcho; e, se se encostava
+sobre uma caixa, adormecia.
+
+--Tu tens morrinha, rapaz--dizia-lhe a Josepha assustada e
+afflicta.--Tu, que te doe, menino?
+
+O rapaz não se queixava; mas a Josepha não tinha socego.
+
+Foi um dia de manhã, quando o Simão almoçava ao pé de Magdalena, que a
+Josepha reparou que elle engolia o pão com esforço. Chamou-o logo junto
+de si, e apalpou-lhe o pescoço. Sob a pressão dos dedos sentiu a dureza
+dos ganglios enfartados por detraz das orelhas.
+
+--Tens humores frios, filho!--exclamou ella com uma voz
+dilacerante.--Doe-te?
+
+As duas crianças, ao verem a cara assustada e afflictiva da mãe,
+desataram ambas uma risada.
+
+--Não doe nada, não, minha mãe--asseverava elle.
+
+N'esse mesmo dia, a Josepha vestiu-lhe camisa lavada e o melhor fato, e
+foi com elle a casa do padrinho.
+
+--A Lena não vem?--perguntava o Simão com pena de a deixar só.
+
+Pelo caminho, a idéa da separação aterrava-o.
+
+--Eu não torno a ver a Lena, minha mãe?--insistia elle, virando para a
+Josepha os olhos supplicantes.
+
+Ao chegarem a casa de D. Bernardo, a mulher explicou o motivo da visita.
+
+--O pequeno sahiu enfezadito, meu senhor. Anda triste, come pouco, e
+agora veja v. ex.ª
+
+E expunha aos olhos do fidalgo o cachaço rubro e inchado do rapaz.
+
+--Apalpe aqui. Vê v. ex.ª? O rapazinho padece de humores frios.
+
+D. Bernardo apalpou; e, ao ver ali o engeitado, com a carita muito
+pallida, magro, abatido, com a tristeza melancolica das crianças doentes
+o que é como um presentimento da morte, teve sincera commiseração.
+
+--Leve-o de meu mando ao cirurgião--disse elle.--E o que receitar, que
+lh'o aviem na botica por minha conta.
+
+E quando a Josepha ia a sahir chamou-a atraz.
+
+--Olhe, mulherzinha; e precisando de mais alguma coisa appareça por
+aqui.
+
+O cirurgião receitou ferruginosos e banhos do mar.
+
+Por esse tempo, recebeu D. Bernardo uma carta da irmã freira, dizendo
+que o medico lhe prescrevera o uso de banhos do mar. Para não incommodar
+o mano, tinha indagado no recolhimento se alguma senhora iria ás praias;
+mas, infelizmente, nenhuma ia! Era uma desgraça!
+
+Respondeu o morgado que pedisse a mana ao sr. arcebispo licença para
+sahir e iria elle acompanhal-a á Povoa de Varzim, logo que findassem as
+vindimas. Accrescentava que levaria comsigo um engeitado seu afilhado,
+que padecia de escrofulas. Recommendava-lhe que pedisse saude e a graça
+de Deus, que trabalhos e canceiras não faltavam n'este mundo!
+
+No meado de outubro, por um tempo secco, mas um pouco frio dos ventos
+outomniços, appareceu na Tojeira a irmã do fidalgo seguida de uma criada
+velha.
+
+Resolveram partir na madrugada do dia seguinte para a Povoa.
+
+Na vespera, antes de se deitar, esteve a Josepha a apertar n'uma pequena
+trouxa a roupinha do engeitado.
+
+--Tu porta-te bem, Simão--recommendava-lhe ella.--Olha que aquelles
+fidalgos são os teus bemfeitores. Ouviste?
+
+O pequeno ouvia-a sem poder falar. Sentia comprimida a garganta e os
+olhos embaciados de lagrimas. Passou quasi toda a noite em claro. A idéa
+da separação proxima fazia o chorar copiosamente.
+
+Escondia a cabeça debaixo do lençol; e alli, collado á parede, chorava e
+soluçava baixinho, com receio de acordar a Lena. Só muito tarde,
+prostrado pela commoção, é que adormeceu.
+
+Rompia a luz da madrugada pelas frinchas da janella, quando a Josepha se
+levantou. Chegou-se á cama do pequeno, abanou-o e acordou-o.
+
+--Simão, ó Simão!
+
+O rapaz ergueu-se atarantado.
+
+--Veste-te, filho. Anda, que são horas.
+
+O Simão saltou abaixo da cama, e principiou a vestir-se de vagar,
+atordoado, sem dar tino do que fazia.
+
+A Josepha ajudava-o com o coração opprimido, mas fingindo não
+comprehender a tortura do pequeno.
+
+--Não faças bulha, que acordas a Lena--recommendou ella a meia voz.
+
+Mas do leito da mãe, a Lena ouviu e respondeu:
+
+--Eu não durmo, minha mãe.
+
+E sentou-se na cama, para se vestir á pressa.
+
+Quando o pequeno estava vestido e prompto, a Josepha sobraçou a trouxa,
+e disse resolutamente:
+
+--Vamos, filho, vamos.
+
+A Lena tambem queria ir.
+
+A mãe oppoz-se, dizendo que estava a manhã muito fria. Lena desatou a
+chorar, voltada para o lado.
+
+Na occasião que a Josepha abriu a porta da casa para sair, o Simão ficou
+um momento hesitante e ancioso. Appro\-ximou-se da Magdalena; e, com um
+sorriso contrafeito, como a querer suster as lagrimas, despediu-se com
+uma voz suffocada:
+
+--Adeus, Lena.
+
+A pequena não respondeu. Com as costas voltadas para elle, immovel no
+meio do quarto, encolheu os hombros.
+
+--Adeus, Lena--repetiu elle mais alto e a chorar.
+
+Então a pequena, n'uma grande effusão de ternura, lan\-çando-lhe os
+braços ao pescoço, beijou-o repetidas vezes:
+
+--Adeus, Simão.
+
+E quando o engeitado ia já longe, pelo atalho fóra, ao lado da mãe,
+Magdalena da porta da casa seguia-o com os olhos cheios de lagrimas e
+dizia-lhe baixinho adeus, acenando com a mão:
+
+---Adeus, Simão! Adeus!
+
+ * * * * *
+
+A familia da Tojeira esteve um mez a banhos na Povoa de Varzim. Habitava
+uma casa pequena na rua da Junqueira. A sr.ª D. Leonarda levantava-se de
+madrugada, e ia para a praia, seguida da criada e do Simão.
+
+Nos primeiros dias, o pequeno sentiu um horror extraordinario pelo mar.
+
+Entrava na barraca a tremer e a chorar, pedindo a Deus que o matasse!
+
+A sr.ª D. Leonarda, a sós com elle, falava-lhe com aspereza e de
+sobrecenho carregado. O rapazito reprimia as primeiras lagrimas, e
+ouvia-a com submissão e humildade.
+
+--Pois o sr. D. Bernardo e eu--gritava a freira--a termos toda a
+caridade por ti, e tu, ingrato, ainda choras!
+
+E, como Simão, com a cabecinha baixa como um réo convicto, principiasse
+a soluçar, e as lagrimas lhe cahissem em fio, D. Leonarda indignada,
+levantava a voz e gesticulava convulsa:
+
+--Tu porque choras, rapaz? Ingrato!--e, olhando sobre o hombro,
+observava com ironica piedade:--Sempre has de mostrar que és filho do
+peccado!
+
+Diante de extranhos, no grupo das senhoras que lhe falavam, a freira de
+S. Salvador mudava de tom. Tinha uma voz meliflua, vagarosa, e, dando
+aos olhos uma feição terna, dizia do rapaz:
+
+--É um engeitadinho, que o mano protege. Elle é que o não
+merece!--accrescentava D. Leonarda, azedando a voz.--É muito ingrato!
+Ah! nem v. ex.^as fazem idéa! Depois, quasi confidencialmente,
+explicava:
+
+--Sempre estes desgraçados hão de mostrar que vieram a este mundo contra
+a vontade de Nosso Senhor!
+
+Simão ouvia isto sem levantar os olhos. De volta para casa, a freira não
+cessava de o reprehender.
+
+Um dia, na ausencia de D. Bernardo, D. Leonarda, durante o almoço,
+esteve constantemente a gritar ao pequeno. Simão, sentado defronte,
+ouvia-a silencioso, sorvendo o café a pequeninos golos. D. Leonarda, no
+auge da sua irritação, gritou-lhe:
+
+--Levanta a cabeça, rapaz! Deixa o café. O rapazinho poisou logo a
+chicara e o pão, engoliu com esforço o bocado que mastigava, e deixou
+pender os braços.
+
+Não pôde comer mais.
+
+Os unicos momentos felizes durante o mez que esteve na Povoa eram os que
+passava na varanda da casa, depois do jantar, em quanto D. Bernardo e D.
+Leonarda dormiam a sesta. Na cosinha, a criada, sentada n'uma cadeira
+junto da janella que deitava para uma horta, cabeceava. Simão
+atravessava então o corredor em bicos de pés, e ia debruçar-se no
+peitoril da varanda, distraido a ver na rua a concorrencia de banhistas.
+A vista da gente da aldeia alegrava-o. Todas as raparigas da altura da
+Magdalena, vistas de longe, lhe pareciam a irmã.--Se fosse!--pensava
+elle. Estava uma tarde muito entretido a olhar um saltimbanco que
+trabalhava no largo da fonte, quando ouviu que o chamavam da rua. Era a
+Joaquina do Espinhal. O pequeno, assim que a reconheceu, sentiu o
+coração pular-lhe de jubilo. A Joaquina perguntou-lhe como estava, e
+deu-lhe muitas saudades da Lena.
+
+--Tu ainda te lembras d'ella?--perguntava a visinha.
+
+Elle respondia affirmativamente e ficava muito vermelho, quasi a chorar.
+Pediu á Joaquina que esperasse um instante. Foi ao quarto em que dormia,
+tirou d'uma gaveta a medalha do Bom Jesus, que lhe dera D. Leonarda, e
+desceu com ella á rua para a enviar á irmã.
+
+Logo que sahiu a porta, D. Leonarda assomou á varanda. Observou de cima
+o pequeno entregar á vizinha a medalha que lhe tinha dado. Teve um
+accesso de indignação, e esteve para gritar, mas conteve-a a idéa do
+escandalo.
+
+Quando a mulher se separou, a freira berrou para baixo ao Simão, que
+tinha ficado parado á porta da rua:
+
+--Ó rapaz! Sobe!
+
+E mostrou-lhe tamanha indignação nos olhos arregalados, que o pequeno
+subiu as escadas a tremer, e a supplicar baixinho de mãos postas:
+
+--Ai! minha Nossa Senhora! Valei-me, que ella mata-me!
+
+Apenas chegou ao patamar, D. Leonarda inquiriu com voz ameaçadora:
+
+--Quem te deu licença de entregares áquella mulher a medalha que te dei?
+
+E, como o pequeno não respondesse, applicou-lhe uma bofetada com tamanha
+violencia, que o fez cambalear e cahir para traz, batendo com a cabeça
+na esquina do degráo.
+
+--Pedaço de maroto!--rosnava a freira convulsa.--Levan\-ta-te!
+
+E fitava os olhos coruscantes sobre o Simão, sem reparar que elle ficára
+ali, sem sentidos, estendido sobre o patamar, com um fio de sangue a
+escorrer-lhe da nuca!
+
+ * * * * *
+
+O engeitado esteve oito dias de cama, com assistencia de facultativo.
+Havia receio de que ao abalo da queda sobreviesse uma meningite. Se se
+declarasse, dizia o medico, o caso era grave e podia ser fatal!
+
+Ao cahir da tarde, accommettia-o uma febre intensa, que o fazia delirar.
+N'essas crises, deitado de costas; com as faces affogueadas e os olhos
+muito brilhantes e fixos n'um ponto vago, o doente falava e gesticulava,
+proferindo repetidas vezes o nome da mãe e da Lena. D. Bernardo, sentado
+ao lado, perguntava-lhe com voz carinhosa:
+
+--Tu que dizes?
+
+Simão, como se despertasse no meio d'um pezadello, voltava os olhos para
+D. Bernardo, e estremecia.
+
+--Tu que queres, Simão?--insistia o fidalgo, apalpando-lhe a fronte
+esbrazeada.
+
+O pequeno recuava para o fundo da cama, assustado, com os olhos
+espantados e a tremer.
+
+--Não quero a senhora--balbuciava elle tranzido e a chorar.--Ella
+mata-me! Ai! eu quero a minha mãe! Ó meu padrinho, a senhora mata-me.
+
+E segurava com força a mão de D. Bernardo, olhando para a porta com
+terror da presença da freira.
+
+D. Bernardo, no dia em que o pequeno foi castigado, censurára a
+brutalidade da irmã.
+
+--Não são modos de tratar as crianças, mana--tinha elle dito.
+
+D. Leonarda replicou com azedume; e, quando D. Bernardo lhe pediu que se
+calasse, a freira retirou-se da sala com modo altivo, resmungando pelo
+corredor:
+
+--Eu já o presumia! Bem me quiz parecer que para afilhado, era muito
+amor!
+
+Denunciára-se a freira! A suspeita de que o engeitado fosse filho do
+irmão tinha-a sobresaltado. Nutrira sempre a esperança de ficar herdeira
+universal da casa da Tojeira. Á primeira noticia da existencia do
+afilhado, todos os seus calculos ambiciosos se abalaram. Teve o receio
+instinctivo do mendigo, que vê concorrente á mesma porta! Recebeu o
+pequeno com fingida ternura e piedade, mal podendo conter, mais tarde, o
+rancor que a sua presença lhe inspirava.
+
+Quando reparou que elle estava desmaiado aos seus pés, a escorrer
+sangue, assaltou-a um sentimento de terror, julgando que o tinha morto.
+Chamou em altos brados pela criada, que appareceu no mesmo instante. O
+rapaz foi transportado em braços para o leito. Ao chegar D. Bernardo a
+casa, a criada referiu o que tinha succedido, desculpando a senhora da
+melhor maneira que pôde.
+
+--Onde está a sr.ª D. Leonarda?--perguntou o morgado com ar grave e
+carrancudo.
+
+--Está no quarto--respondeu a velha.--A senhora tambem ficou doente.
+Isto abalou-a muito.
+
+Ao quarto dia a febre remittiu. Os receios do facultativo
+desvaneceram-se. No fim de uma semana, o doente sahiu da cama para uma
+cadeira da sala.
+
+Caminhava amparado ao braço do padrinho, muito desfallecido de forças,
+pallido e tremulo. A freira via então o pequeno duas vezes por dia.
+Falava-lhe sem rancor, mas visivelmente constrangida.
+
+Durante a enfermidade, a tal ponto D. Bernardo se affeiçoou ao afilhado,
+que passava os dias sentado junto d'elle, conversando e lendo-lhe d'alto
+as noticias dos jornaes.
+
+--Quando voltarmos para a terra--dizia-lhe elle--has de tambem aprender
+a ler. Queres?
+
+--Quero, meu padrinho--respondia o Simão.
+
+Um instante depois, perguntava:
+
+--E a Lena?
+
+--A Lena tambem ha de aprender como tu.
+
+ * * * * *
+
+Á noitinha, logo depois do toque das _ave-marias_, a Josepha chegava á
+porta a chamar os filhos, que andavam fóra a brincar.
+
+--Venham estudar, que é noite.
+
+E accendia a candeia, que pendurava n'um gancho da parede superior a uma
+meza de pinho. Sentava-se depois ao lado, com a roca mettida á cinta, a
+fiar.
+
+Como a mestra curava mais de ensinar ás discipulas a meia e a costura,
+pondo em ultimo logar a leitura e a escripta, o Simão, em poucos dias,
+adiantou-se na lição á Magdaena. Por isso era elle quem, estudada a sua,
+ensinava a lição á irmã. Debruçados sobre o mesmo livro, com as cabeças
+chegadas uma á outra, Simão ia apontando com o dedo as syllabas que
+Magdalena soletrava:
+
+--_Ma-ri-nha._
+
+E erguia os olhos do livro, hesitante, fitando-os em Simão, que a
+animava risonho.
+
+--Marinha--dizia a pequena. O Simão irradiava de jubilo.
+
+--Bem!--exclamava elle.--Agora para diante.
+
+Então apparecia uma palavra enorme, que era um martyrio para Magdalena.
+Era ainda o Simão que a auxiliava amorosa e pacientemente, Fazendo-a
+reter bem as primeiras syllabas. Diziam simultaneamente:
+
+--_Na-tu-ra-li-da-de._
+
+E se a Magdalena dizia bem, o Simão, n'um impeto de contentamento,
+tomava-lhe a cabeça entre as mãos, e beijava-a na testa.
+
+--Muito bem, Lena, muito bem!
+
+No dia seguinte, sahiam de casa juntos para a escola. Mettiam por um
+atalho aberto no meio d'um pinhal. Era um caminho triste e sombrio, com
+um chão humido e molle todo sulcado pelas rodas dos carros e murado
+d'ambos os lados pelos taludes barrentos, onde, no inverno, escorriam as
+chuvas. Acabava n'um terreno baixo desmoutado e areiento, ao qual vinham
+dar as aguas d'um regueiro. Á tardinha vinha ali beber uma revoada de
+pombas brancas. Mais adiante, o caminho bifurcava-se pelo meio de campos
+de milho. Junto ao portão d'uma quinta murada havia um grande sobreiro,
+a cujo tronco estava arrumada uma pedra tosca coberta de musgo
+requeimado. Era ali que os dois pequenos tinham de se separar, mettendo
+Magdalena por uma azinhaga, onde ficava a mestra-regia, e Simão por
+outro lado, na direcção da escola dos rapazes. Nunca o faziam, porém,
+sem se sentarem algum tempo a conversar. N'esses instantes Simão contava
+á irmã os acontecimentos da Povoa de Varzim. Magdalena ouvia-o muito
+attenta, com os olhos abertos, que se embaciavam de lagrimas nos lances
+mais commoventes.
+
+--Eu perguntava sempre á mãe quando tu vinhas--dizia Magdalena,
+enxugando os olhos nas costas da mão.--Não gostava de estar sem ti. Olha
+Simão--pedia ella, lançando-lhe um braço sobre os hombros--agora, nunca
+mais has de ir embora, não?
+
+--Quem sabe lá!--respondia o engeitado, incerto do futuro, muito triste,
+com os olhos fitos n'um grupo de arvores, que havia defronte...
+
+Ás vezes, no inverno, quando um aguaceiro os surprehendia no caminho,
+corriam a abrigar-se debaixo d'aquella arvore. Ficavam ambos ali, muito
+achegados ao tronco, e tão esquecidos e abstractos, que nem davam tino
+da chuva que escorria dos ramos--como os dois namorados vistos por
+Diderot!
+
+Decorreram assim tres annos.
+
+Magdalena já costurava e bordava com tal perfeição, que era o espanto
+das visinhas. Quando a Josepha mostrou uma toalha de linho bordada pela
+filha, para ser offerecida ao fidalgo da Tojeira, a Joaquina do Espinhal
+levantou nos braços a rapariga, beijou a na bocca e exclamou:
+
+--És uma rosa, Magdalena! Louvado seja Deus! Tens umas mãos, que são uma
+riqueza!
+
+O Simão lia correntemente, escrevia com boa caligraphia, sabia as quatro
+operações, e até já auxiliava o mestre. Era o decurião da aula. Os
+discipulos mais venturosos eram ensinados por elle, propenso sempre á
+complacencia e ao perdão, em quanto os desafortunados se viam nas mãos
+do sr. mestre, um velhote estupido e rabujento, que se vingava das
+horrendas miserias a que o lançavam os governos relapsos no calote,
+macerando as mãosinhas tenras das crianças com estrondosas palmatoadas!
+
+Um domingo, na occasião em que os freguezes da missa sahiam da egreja
+para o adro, o mestre-escola foi ao encontro de D. Bernardo, que vinha
+da porta lateral da sachristia, e deu-lhe do afilhado as melhores
+informações. Era uma grande cabeça que ali se perdia, se o deixassem
+seguir a lavoura--dizia elle. O pequeno, além d'isso, era fraco e
+doente; e parece que estava talhado para seguir a vida ecclesiastica.
+
+D. Bernardo recolheu a casa, pensando no que o mestre lhe dissera. Era
+realmente preciso tratar do futuro do afilhado. Se a vocação o não
+contrariasse, a vida tranquilla de sacerdote era a que mais se coadunava
+com as qualidades physicas do pequeno. Passados dois dias chamou-o a
+jantar comsigo. No fim, perguntou-lhe se queria ser padre. O pequeno não
+respondeu. Poz-se a correr entre os dedos a dobra da toalha, com os
+olhos no prato e sem proferir palavra.
+
+--Queres, ou não queres?--insistiu D. Bernardo.
+
+--Não, senhor--respondeu o pequeno a medo.
+
+Desejava seguir uma vida que o não affastasse da Magdalena. O fidalgo
+discordou. Ponderou com palavras carinhosas que era preciso seguir uma
+carreira que o fizesse um homem de bem. Elle que o mandára á escola, não
+era de certo para o deixar ficar assim, sem um modo de vida...
+
+--Não,--disse D. Bernardo--se não queres ser padre, ninguem te fórça.
+Serás outra coisa. Mas previne a tua mãe de que para a semana has de ir
+para Braga.
+
+O pequeno desatou a chorar.
+
+--Não chores--disse-lhe D. Bernardo, que se recordava das scenas da
+Povoa--não chores. Vaes para um collegio de meninos como tu; e nas
+ferias vae tua mãe buscar-te para vires á terra!
+
+A proposito, e para desanuvear o coração do afilhado, contou-lhe varias
+brincadeiras do seu tempo de collegial.
+
+ * * * * * * * * * *
+
+Simão foi acompanhado pela Josepha a casa do padre Barreiros, na rua da
+Conega, em Braga. A mulher entregou uma carta do fidalgo da Tojeira. O
+padre montou os oculos, e leu a recommendação do seu amigo e antigo
+protector.
+
+--Muito bem--disse no fim, retirando os oculos, e dobrando a
+carta.--Então, este pequeno é o afilhado do sr. D. Bernardo?
+
+--É, meu senhor--respondeu a Josepha.
+
+--E é seu filho?--perguntou o padre.
+
+A Josepha hesitou na resposta. Olhou para o pequeno, e disse baixinho:
+
+--Elle é engeitado; mas quem o criou fui eu.
+
+Na tarde d'esse mesmo dia o Simão entrava como alumno interno no
+collegio de Jesuitas do _Campo das hortas_.
+
+Foi recebido carinhosamente pelo director--um homem alto, rubicundo,
+vestido com uma ampla batina de clerigo. O padre Barreiros mostrou a
+carta do fidalgo da Tojeira, e accrescentou:
+
+--O meu amigo é um dos membros mais valiosos do partido do sr. D.
+Miguel! Este pequeno é seu afilhado; e, pelos modos, o sr. D. Bernardo
+dedica-o aos estudos.
+
+Os primeiros dias foram uma nova tortura para o pobre coração do
+engeitado! Andava pelos cantos da casa a chorar. A cada momento,
+chegava-se ás janellas, e detinha-se a contemplar a paizagem. Faziam-lhe
+inveja os homens que trabalhavam no campo. Procurava ver entre o
+arvoredo o caminho por onde viera para Braga, e ia seguindo quasi
+instinctivamente a estrada, que ora se perdia encoberta pela ramaria dos
+carvalhos, ora surgia em retalho n'uma clareira para apparecer depois ao
+longe, ondeando pela encosta acima, muito branca entre a verdura do
+monte!...
+
+Mas ao terceiro dia, o director chamou-o ao quarto, e entregou-lhe um
+pacote de livros, batendo-lhe carinhosamente na cara. Recommendou-lhe
+que estudasse muito.
+
+--Ouviste? Para seres agradavel a Deus, Nosso Senhor, e aos teus paes.
+
+O Simão retirou-se vivamente commovido. A idéa de que tinha de estudar
+todos aquelles livros, despertava-lhe na alma um agradavel sentimento de
+orgulho!
+
+Nas ferias do Natal, o padre Barreiros foi buscal-o ao collegio, e
+enviou-o para a terra, muito recommendado a um almocreve, que passava
+perto da Tojeira. O pequeno não cabia em si de contente! Caminhava ao
+lado do recoveiro, revendo com immenso prazer os sitios por onde tinha
+passado mezes antes, quando viera para o collegio. Ia impaciente! A cada
+passo perguntava:
+
+--Agora já devemos estar perto? O almocreve dizia:
+
+--Ainda temos muito que andar.
+
+E continuavam os dois pela estrada fóra, sem dizerem palavra. O
+almocreve, segurando no sovaco a arreata do primeiro macho da recova,
+caminhava n'um passo regular, assobiando. O Simão ia ao lado. A
+perspectiva triste e melancolica da paizagem n'uma manhã fria de
+dezembro tinha para elle encantos indefinidos! As arvores despidas da
+folhagem, os campos sem verdura, o ceo baixo e ennevoado, toda aquella
+desolação do inverno apresentava-se a elle com um aspecto risonho e
+seductor!
+
+--Ainda temos muito caminho a andar?--tornava elle ancioso.
+
+O almocreve respondia:
+
+--Vê o menino além aquella ermida, que fica na chapada? pois em lá
+chegando, já póde ver o telhado da casa do fidalgo da Tojeira.
+
+Era ainda uma boa meia hora de caminhada! Quando iam a dobrar uma curva
+da estrada, Simão soltou um grito de alegria, e deitou a correr para a
+frente. Ao longe, vinha a Lena ao lado da mãe para o esperarem no
+caminho. A pequena correu tambem; e apenas se encontraram, abraçaram-se
+os dois n'uma grande expansão de ternura!
+
+O pequeno teve umas ferias deliciosas. O padrinho tinha recebido
+excellentes informações dos padres do collegio. O alumno era
+intelligente, estudioso e bem comportado.
+
+--Se tiveres sempre juizo--recommendava-lhe D. Bernardo
+satisfeito--podes ainda vir a ser um doutor! Queres?
+
+O Simão não respondia. Ruborisava-se todo e, olhando para Lena, que
+assistia ao lado, sorriam-se os dois!
+
+Na vespera de voltar Simão para Braga, a Lena deu-lhe uma pequenina cruz
+de metal suspensa d'uma fita verde.
+
+--Toma--disse, ella, pondo-lhe a fita ao pescoço.--É a cruz de Nosso
+Senhor, que eu beijo sempre ao deitar. Não te esqueças de fazer o mesmo,
+não, Simão?
+
+ * * * * *
+
+N'esse dia, um mez depois das ferias, o director, antes de terminarem as
+autos, mandou reunir na grande sala d'estudo todo o collegio. Ao lado
+d'elle collocaram-se os professores e os prefeitos. O director subiu ao
+estrado, e pronunciou de lá um longo discurso, falando em amor de Deus,
+em humildade, em dedicação ao estudo, em obediencia a mestres, e
+superiores! Os alumnos, agglomerados na vasta sala, ouviam
+silenciosamente, n'uma compostura grave, com os braços cahidos ao longo
+do corpo. Ia distribuir-se um premio a um estudante, que pela sua
+applicação, pela sua intelligencia e pelo seu comportamento exemplar, se
+tornava digno d'aquelia distincção honrosa!
+
+O director fez uma pausa, e em seguida proferiu com voz cheia e solemne
+o nome do alumno distincto:
+
+--Simão Ferreira, filho de...
+
+E, como na registo não houvesse designação de nome dos paes, emendou:
+
+--Natural de S. Silvestre.
+
+O Simão sahiu d'entre a multidão, muito vermelho e commovido,
+adiantando-se na sala com um passo hesitante. O director fel-o subir ao
+estrado; e, collocando a mão sobre a cabeça do pequeno, proferiu ainda
+uma breve allocução laudatoria, e entregou-lhe um livro encadernado em
+marroquim azul com letras doiradas no frontispicio. Os professores
+bateram palmas, abraçaram o estudante; e Simão atravessou por entre os
+condiscipulos no meio d'uma saudação enthusiastica!
+
+Á tarde, quando estava no recreio, um criado veiu chamal-o para ir á
+presença do sr. director. Ao entrar na sala, Simão viu ao lado do
+director o padre Barreiros. Tinham ambos um ar sombrio e pesado. O
+director, logo que o pequeno entrou, disse-lhe pausadamente, pondo-lhe
+uma mão no hombro:
+
+--Meu filho! O sr. padre Barreiros acaba de me annunciar a morte do teu
+padrinho...
+
+O Simão fez-se pallido, e volveu para o padre os olhos marejados de
+lagrimas.
+
+--Morreu hontem de repente--disse o padre Barreiros.
+
+--Por isso--continuou o director--vaes-te vestir para ires com o sr.
+padre Barreiros. Não sei se voltarás para o collegio, meu filho. Se não
+vieres, lembra-te sempre dos teus amigos, e continua a ser obediente e
+trabalhador.
+
+O pequeno tinha o presentimento vago de que na sua vida aquelle
+acontecimento funesto devia ser de alta importancia. Ficou meio
+atordoado, como se viesse de assistir a uma catastrophe!
+
+Que iriam fazer d'elle, sem o auxilio do seu padrinho?
+
+Esteve dois dias mettido em casa do padre Barreiros. Ao cabo d'esse
+tempo, o padre disse-lhe, durante o jantar, que o sr. D. Bernardo tinha
+morrido repentinamente, sem deixar testamento.
+
+Simão mal comprehendia o alcance d'aquella revelação; mas, pelo modo
+como o padre falava, pareceu-lhe que era de gravidade o caso.
+
+--Procurei a mana no convento--proseguiu o padre Bar\-reiros--e
+perguntei-lhe se queria continuar a proteger-te. Disse-me que o não
+fazia, por ora, sem saber o valor da sua casa. Ahi tens tu, Simão, como
+estão as coisas! Por isso, entendo que deves procurar outro modo de
+vida. Tens hoje treze annos, sabes ler, escrever e contar, um bocado de
+francez e de latim. Deves seguir o commercio para, em pouco tempo,
+poderes proteger a mãe que te criou, que ha de carecer do teu amparo.
+Queres?
+
+De todas as considerações feitas pelo padre, Simão concluiu apenas que
+estava desamparado, e que era preciso trabalhar! Disse que sim, que
+fizesse o sr. padre Barreiros o que entendesse.
+
+No dia immediato, o padre Barreiros foi procurar um sobrinho
+estabelecido com loja de ferragens na _Fonte da Corcova_, e
+offereceu-lhe o pequeno. O ferragista annuiu; mas declarou logo que o
+facto do rapaz ter andado no collegio «era o diabo»! Elle preferia os
+que sahiam das aldeias, sujeitos a toda a casta de trabalhos. Emfim, uma
+vez que o tio queria...
+
+Simão entrou para a loja ao anoitecer. O patrão falou-lhe com ar
+carrancudo, tratando-o por tu, e dando-lhe a entender que, se o recebia,
+era por ser do agrado do tio. Simão não respondeu.
+
+O tratamento grosseiro e aspero do patrão e do caixeiro mais velho da
+loja, a rudeza do trabalho, as condições pessimas do quarto em que
+dormia, sem luz, com pouco ar, entre quatro paredes humidas e pegajosas,
+a lida continua desde o amanhecer ate á noite, transformaram em pouco
+tempo o pobre rapaz, como se o minasse uma doença grave. Tinha perdido a
+côr sadia e a vontade de comer. Dormia mal, sobresaltado por aquella
+subita mudança nos habitos da sua vida! O patrão obrigava-o a trabalhos
+pesados; e, quando o via fraquejar sob o pezo das grandes cargas de
+ferragem, gritava-lhe:--Anda, avia-te! Quem não póde, arreia! Não sei de
+que te serve a comida!
+
+E outras brutalidades, que melindravam e aviltavam o pequeno.
+
+De uma vez, chamou-o para pesar n'uma grande balança, que havia ao fundo
+da loja, n'um armazem escuro e frio, umas canastras de fechaduras.
+Simão, com o suor a escorrer-lhe na testa, segurava a cesta d'um lado, o
+patrão do outro, e, a um impulso simultaneo, collocavam-n'a sobre o
+prato da balança. Á terceira carga, o pequeno não pôde mais, e deixou
+cahir das mãos a canastra. O patrão deu um salto, e applicou-lhe dois
+pontapés valentes, dados com a biqueira do tamanco. Simão principiou a
+chorar.
+
+--Mexe-te--berrava o ferragista--mexe-te, ou levas outros!
+
+Na madrugada do dia seguinte, quando o caixeiro o foi acordar para ir
+para a loja, Simão queixou-se d'uma forte dôr de cabeça, e pediu-lhe que
+o deixassem ficar na cama. Logo que o patrão appareceu, o caixeiro
+disse-lhe que o rapaz estava doente.
+
+--Eu lá vou!--rosnou ameaçador o ferragista; e entrou no quarto do
+rapaz, ordenando que se levantasse immedia\-tamente.--Eu tiro-te o mimo,
+meu menino!--dizia elle ao pequeno.--O que tu tens é ronha, grande
+mandrião!
+
+Simão ergueu-se a tremer de frio. Vestiu-se á pressa, e desceu para a
+loja, adiante das ameaças e injurias do patrão. Passado um instante,
+vendo que o caixeiro se tinha ausentado, levantou a porta do mostrador,
+e fugiu para a rua. O patrão, que o avistara do fundo do armazem, saltou
+fóra, e veiu agarral-o por uma orelha no _Campo da vinha_. Quando se viu
+preso, Simão julgou-se perdido. Foi levado para casa, perseguido de
+successivos pontapés. Umas mulheres que passavam, pararam na rua, ao ver
+a furia do homem, e compadecidas do rapazinho, que, a cada momento se
+voltava para traz, pedindo perdão com as mãos postas:
+
+--Perdôe ao rapazinho--imploravam ellas segurando o
+ferragista.--Perdôe-lhe por esta vez. sr. José.
+
+O ferragista, porém, era implacavel.
+
+Chegado a casa, subiu com o rapaz a uma sala do andar superior, fel-o
+despir a jaqueta e as calças, pegou n'um junco, e gritou-lhe pallido e
+tremulo de raiva:
+
+--Ajoelhe-se, e peça perdão!
+
+Simão cahiu de joelhos no sobrado, e ergueu as mãos.
+
+--Agora--disse o ferragista--vamos ao correctivo.
+
+E, com o junco vibrado com toda a força, principiou a vergastar as
+costas do rapaz. Simão retrahia-se d'encontro á parede, clamando por
+soccorro. O patrão enfurecia-se mais aos brados do padecente, e, cego de
+indignação, quasi sem respirar, n'um impeto convulso de fera, saltou
+sobre o rapaz a bater-lhe com tanta violencia, que o fez cahir no chão,
+soltando gritos afflictivos, com as costas retalhadas e a escorrer em
+sangue!
+
+O patrão cançado e offegante abriu então a porta da sala, e sahiu.
+
+Simão, quando se viu só, ergueu-se d'um impeto, desceu á pressa as
+escadas, e saltou para a rua a gritar. Ao dar meia duzia de passos,
+cahiu extenuado sobre o lagedo do passeio.
+
+Reuniu-se muita gente em volta d'elle. As mulheres, em grande alarido,
+davam _morras!_ contra o malfeitor.
+
+Alguns homens tentaram levantar do chão o pequeno; mas as mulheres
+oppozeram-se. Uma d'ellas retirou um lençol d'uma trouxa que levava á
+cabeça, e embrulhou n'elle o rapazito.
+
+--Matem este patife!--gritavam as mulheres raivosas, com as lagrimas a
+saltarem-lhes dos olhos.--Matem!
+
+A multidão crescia. Logo que constou no mercado, quasi todas as
+vendedeiras acudiram a ver. O Simão ia já levado nos braços d'uma, com a
+cabeça pendente no hombro d'ella, quando d'entre o povo, que seguia
+atraz, se ouviu este grito dilacerante:
+
+--Ai! que elle é o meu filho!
+
+E uma pobre mulher da aldeia correu para elle afflicta com os braços
+abertos. Era a Josepha, que, n'esse dia, tinha vindo a Braga. Andava a
+mercar na feira umas camisolas, que ia levar ao filho. Ao ouvir os
+clamores do mulherio, adiantou-se para ver. Pobre mulher!
+
+Tomou ella o Simão nos braços; e, perdida pela afflicção, caminhava á
+toa, sem destino, lamentando que lhe tinham matado o filho do seu
+coração.
+
+--Leve-o ao hospital--disseram as mulheres que a acompanhavam.
+
+Atravessaram as ruas, seguidas da multidão, que ia engrossando de cada
+vez vez mais, ate ao largo dos Remedios. Chegadas ao hospital de S.
+Marcos, a Josepha entrou só, subindo as escadas a chorar. O facultativo
+fez deitar o pequeno, observou-lhe as contusões do corpo, e disse:
+
+--O homem que fez isto deve ser preso!
+
+O pequeno só cobrou os sentidos, quando lhe applicaram as compressas de
+arnica sobre os vergões. Principiou a gemer, e a chamar pela mãe.
+
+--Eu estou aqui, Simão--dizia a Josepha debruçando-se sobre elle.--Não
+chores, meu filho.
+
+--Eu morro, minha mãe--dizia o pequeno, segurando-lhe as mãos, e
+levantando para ella os olhos supplicantes e cheios de lagrimas.
+
+O povo, que acompanhou o Simão ao hospital, desandou em grande turba
+para casa do ferragista. Ali, ajuntou-se a um magote, que estava já
+estacionado á porta. O patrão tinha desapparecido da loja. Ao canto do
+balcão, o caixeiro, muito assustado pelo aspecto ameaçador da gente, não
+se mexia.
+
+--Morra o patife!--gritou uma mulher.
+
+--Morra! repetiram as outras.
+
+E a multidão cresceu sobre a loja.
+
+Foi precisa a intervenção da auctoridade, reclamada pelos visinhos do
+ferragista.
+
+O administrador appareceu seguido do escrivão e de alguns policias, e
+ordenou ao povo que se dispersasse.
+
+--Não sahimos, sem que o malvado seja preso--berrou um operario face a
+face ao administrador.
+
+O agente da auctoridade entrou na loja. Passado pouco tempo a policia
+foi reforçada pela cavallaria, que conseguiu dispersar o ajuntamento. E,
+logo em seguida, o ferragista, pallido, a tremer, olhando assustado para
+os dois lados da rua, atravessou-a a correr, entre policias, para dar
+entrada na cadeia!
+
+ * * * * *
+
+No outro dia de manhã, o medico do hospital mandou collocar o biombo em
+volta da cama do Simão.
+
+--Está a manifestar-se a congestão--explicou elle baixo á enfermeira.
+
+Os outros doentes da enfermaria, quando viram o medico falar
+confidencialmente, olharam uns para os outros, desconfiados, com um ar
+abatido e triste. Ao longo de toda a sala havia um grande silencio,
+percursor do silencio frio da morte. Os serventes do hospital
+atravessavam por entre as filas das camas em bicos de pés.
+
+Ás nove horas, a enfermeira acendeu as velas de cêra de dois tocheiros,
+que ladeavam a imagem do Senhor crucificado, ao fundo da sala. Em
+seguida aproximou-se do leito do Simão. Estava deitado de costas, com os
+olhos fixos já meio embaciados... Respirava com oppressão; e a bocca
+entre-aberta formava-lhe um traço escuro na pallidez cadaverica do
+rosto.
+
+--Quer alguma coisa?--disse-lhe a enfermeira ao ouvido.
+
+--A minha mãe?--perguntou baixo o moribundo.
+
+--Ainda não veiu.
+
+Houve uma grande pausa.
+
+--Quando ella vier--pediu o Simão com uma voz debil--se eu tiver
+morrido, dê-lhe a cruz que tenho ao pescoço; sim?
+
+Parou um instante para respirar, e accrescentou:
+
+--É para a Lena.
+
+A enfermeira tentou animal-o, dizendo-lhe que elle havia de melhorar.
+
+Simão fez um leve sorriso de descrença, e respondeu:
+
+--Eu bem sei que morro... Ouvi o medico dizel-o ha pouco... Ai! já me
+falta o ar! Oh! minha mãe!
+
+Quando a Josepha chegou á porta do hospital, o sino da capella começava
+a tocar a agonia!
+
+A enfermeira esperou-a no patamar, e disse-lhe que o filho estava a
+morrer. Havia então na sala um silencio lugubre! Alguns enfermos,
+sentados no leito, murmuravam orações, com as mãos postas em supplica.
+Ouvia-se, de quando em quando, um gemido que partia do biombo.
+
+A Josepha foi direita á cama do Simão. Estava a expirar! Ainda
+reconheceu a mãe; porque, fixando n'ella os olhos quasi apagados,
+procurou com anciedade a Lena. Como a não visse, rebentaram-lhe duas
+grossas lagrimas, e murmurou baixinho:
+
+--Adeus!
+
+E estremeceu todo, exhalando o ultimo alento n'uma aspiração tremula,
+como um suspiro de alivio!
+
+
+Coimbra, fevereiro de 1884.
+
+
+VENDA
+NA
+Livraria de Antonio Maria PEREIRA
+50--Rua Augusta--52
+LISBOA
+
+_Amores á beira-mar_, conto por Alberto Braga, 200 réis.
+
+_Ás mães e ás filhas_, contos de Caïel, 2.ª edição,
+500 réis.
+
+_O mysterio da estrada de Cintra_, romance de
+Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, 2.ª edição, 600 réis.
+
+_Rei ou impostor?_, romance historico por José
+de Torres, 500 réis.
+
+_Digressões e novellas_, por Bulhão Pato, 600 réis.
+
+_Romance d'um rapaz pobre_, por Octavio Feuillet,
+traducção de Camillo Castello Branco. Esplendida edição illustrada,
+em grande formato, magnifico papel, soberbas gravuras, capa em chromo,
+etc. 1 vol.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Engeitado, by Alberto Braga
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ENGEITADO ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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