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diff --git a/25537-h/25537-h.htm b/25537-h/25537-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7bcd392 --- /dev/null +++ b/25537-h/25537-h.htm @@ -0,0 +1,9285 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Paisagens da China e do Japão</title> + + + <meta content="Wenceslau de Moraes" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%; text-align: center;} +.tinyl {font-size: 95%;} +.normal {font-size: 105%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic;} +.intro1 {margin-left:20%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.signature1 { +margin-right: 10%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:20%; margin-right:20%; font-style: italic;} +.quote1 {margin-left:5%;} +.quote2 {margin-left:50%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 80%; +margin-left:10%;} +.note {font-size: 75%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:30%;} +.poetry1 {margin-left:20%;} +.poetry2 {margin-left:35%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +<link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> +</head> + + +<body> + +<pre>Project Gutenberg's Paisagens da China e do Japão, by Wenceslau de Moraes + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Paisagens da China e do Japão + +Author: Wenceslau de Moraes + +Release Date: May 20, 2008 [EBook #25537] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PAISAGENS DA CHINA E DO JAPÃO *** + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)). + +</pre> + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Maio 2008) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 600px; height: 954px;" alt="" src="images/fig00.png" /><br /> + +<h2>PAISAGENS DA CHINA E DO JAPÃO</h2> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h3>WENCESLAU DE MORAES</h3> + +<br /> + +<h2>Paisagens<br /> + +da<br /> + +China e do Japão</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +LISBOA<br /> + +<span class="smallcaps">livraria editora</span><br /> + +VIUVA TAVARES CARDOSO<br /> + +<em>5, Largo de Camões, 6</em><br /> + +<br /> + +1906</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4><br /> + +</h4> + +<h4>LISBOA<br /> + +<br /> + +Typ. de Francisco Luiz Gonçalves<br /> + +80, Rua do Alecrim, 82<br /> + +<br /> + +1906</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>A Camillo Pessanha e João Vasco</h3> + +<br /> + +<div class="quote2"><em>Nos baldões da +vida bohemia, na +confusa successão dos dias e das scenas, +acontece que os factos, as coisas, os individuos, +invocados pela pobre memoria +exhausta, vão perdendo pouco a pouco +as suas qualidades intensivas, as suas +côres, os seus contornos, a sua feição +propria, emancipando-se do real, como +uma pagina de aguarella desmerece, +solta e perdida no espaço e voando com +as brisas; diluindo-se por fim n'uma +emoção generica, vaga, indifinivel,―a +saudade.―A essas duas grandes saudades, +Camillo Pessanha e João Vasco, +dedico hoje este livro.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature1"><em>Kobe, 10 de Abril de +1901.</em></div> + +<div class="signature"><span class="smallcaps"><br /> + +Wenceslau +de Moraes.</span></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c1"></a>AS BORBOLETAS</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">a +J. Moreira de Sá.</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +A lenda das borboletas.<br /> + +<br /> + +São tão lindas, as borboletas! Quem as +vê, que +não lhes queira? ahi vagabundando pelo azul dos +campos, razando as corollas frescas, amando-se, +beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas +de amantes despidas da miseria terreal, a viajarem +no infinito... São tão lindas, as borboletas!...<br /> + +<br /> + +Mas na China são talvez mais lindas do que todas. +É um deslumbramento surprehendel-as na +quietação dos bosques, voejando aos pares, que se +tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras +mysteriosas dos bambuaes, com as suas longas azas +<span class="pagenum">[2]</span>palpitantes, +lancioladas, em matizes maravilhosos, +de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos +quentes, como se as loucas vestissem cabaias +de setim, de sedas de alto preço...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, +ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, +não longe do logar que hoje se diz Shanghae. +Como fosse muito dada a estudos litterarios +e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a +ambição, +conseguiu que seus paes lhe permittissem o +disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar +a mais famosa universidade do imperio. Volveu +ao lar apóz tres annos; volveu tão pura como +fôra; da +sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não divagar +muito n'estas paginas, basta dizer a quem me +queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ella +enterrara na lama em presença d'uma sua cunhada +predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois +tirado sem uma só mancha e sem um só +farpão, +branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber +que as flôres da sua preferencia, que ella deixára +no jardim, rogando aos deus +Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, +ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, +não longe do logar que hoje se diz Shanghae. +Como fosse muito dada a estudos litterarios +e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a +ambição, +conseguiu que seus paes lhe permittissem o +disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar +a mais famosa universidade do imperio. Volveu +ao lar apóz tres annos; volveu tão pura como +fôra; da +sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não divagar +muito n'estas paginas, basta dizer a quem me +queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ella +enterrara na lama em presença d'uma sua cunhada +predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois +tirado sem uma só mancha e sem um só +farpão, +branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber +que as flôres da sua preferencia, que ella deixára +no jardim, rogando aos deuses que as conservassem +frescas como ella, assim se conservaram +durante a longa ausencia, embora, como consta, a +<span class="pagenum">[3]</span> +cunhada as fosse regando com agua quente tirada +da chaleira.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 170px; height: 431px; float: right;" alt="" src="images/fig01.png" />Durante +os tres annos de seu estudo, um companheiro, +por nome Leun-San-Pac, +intimamente se lhe afeiçoou. +Era o seu camarada inseparavel, +o seu irmão; dormindo juntos, conversando +juntos, estudando juntos, +divagando, sonhando; e o lorpa +do mocinho nunca se apercebeu +que tinha a seu lado uma +mulher.<br /> + +<br /> + +Quando soou a hora das despedidas, +cortava o coração vêr o +rapaz, lamentando o futuro isolamento, +a perda d'um amigo +como aquelle. A moça consolava-o. +A moça poisava-lhe nos +hombros as suas mãos gentis, e +exhortava-o a que se enchesse de +coragem, a que se entregasse ao +amor do estudo, té alcançar um +alto grau de sapiencia.―«E depois, dizia-lhe ella +entre soluços, e depois, se com saudade te recordares +<span class="pagenum">[4]</span> +ainda +de mim, abala, vem vêr me á minha +aldeia.»―E dava-lhe indicações +precisas do logar. +Despediram-se, entre choros.<br /> + +<br /> + +A donzella esperou, esperou, esperou,―quem +poderá descrever esse tormento? guardando da familia +o seu segredo; e o moço não apparecia. Segundo +os usos do paiz, os paes destinaram-lhe um +marido; e ella, a desolada, escrava da obediencia +filial, obediencia cega, indiscutivel, que é a base da +vida inteira moral do povo china, inclinou-se, acceitou, +sem que uma só queixa proferisse.<br /> + +<br /> + +Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, +eis que chega á aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre, +porque a desventura se lhe acerca; mas rico de +erudição, de uma alma culta, e occupando um logar +proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu +irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena +dos +seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes +que lhe são proprias, e com grinaldas de flores +na trança negra. De começo, este enigma, pouco a +pouco explicado, confunde-o, desnortea-o; mas tudo +se aclara; da amisade ao amor o salto é rapido. Oh! +elle ama-a agora, elle ama-a de todas as forças do +seu ser; e no olhar de fogo transluzem mil mysterios +de adorações e de desejos!... É tarde. +A +palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos +<span class="pagenum">[5]</span> +paes prezam mais do que tudo, a propria +honra.<br /> + +<br /> + +Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, +com a alma embebida no fel dos desesperos. +É ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta +consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida +não é eterna; que a piedade filial arrasta-a a um +consorcio que só lhe vaticina dores e prantos; mas +que as almas são livres, emigram d'uns corpos para +outros; encarnam-se n'outros seres; que elle socegue, +aguarde outra existencia, para a qual ella +lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e +toda amor. Leun-San-Pac lê, faz um bolo d'essa +carta, onde tão demoradamente poisara a mão da +sua bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala +assim na solidão o ultimo suspiro. Um pouco além, +sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos +de gala, de alegria; e pela longa estrada em ziguezague, +bordada aqui e alli de bambus e bananeiras, +doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes +theorias o monumental cortejo do noivado, caminho +do lar feliz.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 202px; float: left;" alt="" src="images/fig02.png" />O estylo de ha mil annos +é o mesmo estylo de +<span class="pagenum">[6]</span> +hoje. São os grandes balões, os estandartes, +conduzidos +por moços vestidos de vermelho. São os +enxovaes primorosos, as cabaias, a collecção dos +sapatinhos, +tudo disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. São as +colossaes peças +de doçaria, +castellos +de assucar, +dragões de assucar, +coisas +espantosas. São os porcos +assados, loiros, +deliciosos, espalmados sobre os taboleiros, com +laços de fita nos focinhos. São as orchestras +estridentes, +de flautas, de rebecas. São as creanças +ataviadas em setins, em allegorias de scenas de outros +tempos, cavalgando alimarias pachorrentas. É +finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda +ella esmaltes, fechada como um cofre, furtando á +vista dos curiosos o precioso fardo, Choc-In-Toi.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A noiva solicita do cortejo um curto desvio na +sua marcha. A noiva, antes de entrar no lar e de +<span class="pagenum">[7]</span> +ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, d'aquella +sepultura esquecida na montanha, e orar junto +dos restos do que morreu por ella. Quem lhe recusaria +tal licença? Eil-a que desce da liteira, nas +suas cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, +eil-a que beija a terra...<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 208px; float: right;" alt="" src="images/fig03.png" />A terra abre-se então, +carinhosa, mãe; a terra +traga-a, chama-a a si, chama-a para junto dos ossos +do seu querido. A comitiva pasma do milagre. +As mãos avançam a detel-a; mas só +logram colher +um pedaço do vestido, que se rasga, e é tudo... O +pedaço de seda, +de mil matizes, +transforma-se +de subito +n'uma borboleta +de mil +côres, que vôa +das mãos rudes, +e desapparece no azul, +desapparece!... É desde aquella epocha que ha borboletas +n'este mundo, tão lindas, tão cheias de +matizes!...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Eu não lhes estou contando uma mentira, meus +<span class="pagenum">[8]</span> +amigos. Ainda hoje se vê a sepultura, esboroada +pelos seculos, d'aquelles amorosos. E as esposas +desprezadas alem vão em romaria, e d'aquella terra +bemdita se suprem ás mãos cheias, e d'ella +provam, +e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. +Consta que o estranho tempero, aquella terra, +que em alguma coisa participa da essencia dos +amantes que ali jazem para sempre, tem virtude +comsigo, e é sempre efficaz em trazer ao bom caminho +os mariolas, os maridos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c2"></a>A ALFORRECA</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +<span class="smallcaps">a Henrique Carvalhosa.</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Falla a lenda japoneza.<br /> + +<br /> + +Antigamente―e quem sabe se ainda hoje!―no +seio do oceano era o reino faustuoso dos dragões. +Por longos annos, o senhor d'este reino, o +dragão real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; +e sabem só os deuses, e não nós, +quantas +noites de dissipação, em companhia de tartarugas +e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam +trovas ao som do <em>shamicen</em> e lhe iam +servindo <em>saké</em> +em ricas taças, quantas noites elle passou em travessas +intimidades amorosas!...<br /> + +<br /> + +<img style="width: 188px; height: 549px; float: left;" alt="" src="images/fig04.png" /><img style="width: 212px; height: 207px; float: left;" alt="" src="images/fig05.png" />Verdores, que passam breve. Um +bello dia, resolveu +<span class="pagenum">[10]</span> +casar-se, o bom soberano. A noiva escolhida +foi uma joven dragôasita, dezeseis annos apenas, +adoravel, digna pelos seus mil encantos de ser a +consorte feliz de tal senhor. Explendidas foram as +bodas por essa +occasião, segundo +consta: sem já +fallar na côrte intima, +toda a bicharia +aquatica, +peixes, mariscos, +molluscos, todos vieram processionalmente, +em cardumes, em bellos <em>kimonos</em> +de sedas encarnadas, offerecer +seus respeitos e presentes; e foram, +durante longos dias, estupendos regabofes, em +danças, em musicas, em +banquetes...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Mas nem os dragões escapam ás +duras provações da existencia! Ainda +bem um mez se não passára, quando a augusta +soberana +caiu doente; e taes cuidados inspirou desde +logo o seu estado, que era uma lastima observar as +trombas compungidas dos fidalgos, commentando +<span class="pagenum">[11]</span> +baixinho, em lamentações do seu officio, o triste +caso. +Reuniram-se os doutores em conferencia; fallaram +muito, discutiram muito, sem chegarem a accordo, +como sempre succede; consultaram-se abalisados +alfarrabios de therapeutica; as barbatanas incançaveis +rabiscaram um milhão de receitas milagrosas, +e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; +a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos +sabios, n'um tregeito de piedade e desengano, tiveram +de ser francos, de declarar que a sciencia―já +n'aquella epoca se enchia a bocca com <em>a +sciencia</em>―que +a sciencia nada mais podia fazer, e que um +angustioso desfecho era de esperar-se.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Do seu leito de enferma, de entre os +<em>futon</em>, as +fofas colchas de setim, agita as tremulas patinhas +a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe +estas palavras ao ouvido:―«Uma só coisa me +salvará: +arranquem o figado a um macaco vivo, e consintam +que o devore; recuperarei a saude....»―O +rei não poude reprimir um gesto de surpresa, quasi +de enfado, e todo se lhe erriçou o bigode +façanhudo:―«Um +figado de macaco! estás louca, minha +querida!...»―Ella promptamente retrucou:―«Louca, +porquê? Vossa magestade esquece por ventura, +<span class="pagenum">[12]</span><img style="width: 300px; height: 289px; float: left;" alt="" src="images/fig06.png" /> +que nós, o grande povo dos dragões, no mar +vivemos +sempre; emquanto que os macacos, muito longe +d'aqui, vivem na terra, nos bosques, entre as arvores, +nutrindo-se de fructos... No figado do mono +alguma coisa virá que participe d'esse mundo, tão +diverso, tão outro; +e essa particula +estranha, +senhor, me salvaria!...»―E +a rainha, a +quem as lagrimas +acodem, +prosegue n'um +tom reprehensivo +e lastimoso:―«Uma +insignificancia, +um nada, pedi, e esse nada vossa magestade me recusa. +Julgava merecer-lhe mais affectos. Dispa-me +d'estas pompas de soberana, não as quero; dê a +corôa a outra esposa, mais digna, mais formosa; +consinta que volva ao ninho carinhoso de meus +paes...»―A voz suffoca-se em soluços, +não pode +mais proferir uma só queixa...<br /> + +<br /> + +O rei dos dragões não queria passar, entre damas +<span class="pagenum">[13]</span> +por um dragão cruel; por demais conhecia elle +os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os +complacentemente, por systema; e sobretudo adorava +a esposa, cujas lagrimas desejaria poupar a todo o +transe. Satisfaça-se pois o capricho da rainha. Mandou +chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a<img style="width: 300px; height: 290px; float: right;" alt="" src="images/fig07.png" /> +alforreca, e disse-lhe o seguinte:―«Vou dar-te uma +espinhosa tarefa, minha velha, mas confio na tua +dedicação nunca mentida; preciso que emprehendas +uma longa viagem, que nades até junto da terra, e +alli convenças um macaco a vir comtigo a estes meus +reinos; falla-lhe, para o resolveres, da magica belleza +d'estes sitios, tão differentes dos seus, e da gentileza +d'estes meus subditos +felizes; mas o que +eu realmente quero +n'este caso, é que se +arranque o figado das +entranhas de tal mono, +e se sirva como +medicamento á tua +joven ama, que, como +de certo sabes, +se acha em perigo de +vida, a desditosa.» +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +Lá vae, oceano fóra, vento em pôpa, a +alforreca, +emissaria obediente e ufanosa do encargo. Por +aquelles tempos, a alforreca, como qualquer bicho +das aguas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, +com cabecinha, com olhinhos, com mãosinhas, +e com a competente cauda titillante; e ficava-lhe +tão bem o fato de marujo!... Lá vae, oceano +fóra, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas +braçadas a onda fria. Não tarda muito a +abeirar-se +do paiz onde vivem os macacos; por felicidade, +um alem está, um lindo mono, saltando de ramo em +ramo, dependurando-se das arvores que enraizam +nos penedos e se debruçam sobre o mar.―«Bons +dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente +para fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello +do que o seu; é elle situado alem das ondas e conhecido +pelo reino dos dragões; alli, não ha +estações, +é eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das +arvores repolhudas, constantemente amanhecem avelludados +fructos saborosos, é colhel-os, não ha outra +tarefa; para cumulo do conforto, essas creaturas +malfazejas, homens chamados, não pisam taes paragens. +Se lhe agrada vir commigo, eu serei o seu +guia; não tem mais que fazer do que saltar d'esse +tronco para cima do meu lombo...» O macaco +achou gracioso isso de ir vêr novos paizes. Vá +lá<span class="pagenum">[15]</span> +mais esta extravagancia á conta da bohemia +simiesca.―«Ao +largo, amiga!»―E lá foram os dois; +porém, +a meia travessia, pensou tardiamente o mono na +temeridade do seu feito, expondo-se assim ao arbitrio +d'um extrangeiro, e abandonando a sua patria. +Decidiu-se emfim a perguntar:―«Que pensa você +que vão fazer de mim na sua terra?»―A<img style="width: 300px; height: 285px; float: right;" alt="" src="images/fig08.png" /> alforreca +deveria agora ser discreta, +encapotar as respostas +em evasivas; mas oiçam lá +o que ella deu em troco:―«Eu +lhe digo: meu amo, +rei dos dragões, ordena +ao senhor macaco que arranque +o proprio figado, o +qual vae ser servido á nossa +soberana, hoje enferma, +e salval-a da morte.»―Então o mono, guardando +para si os commentarios que o caso suggeria, disse +cortêzmente, que era para elle uma alta honra e um +esperado prazer, o assim tornar-se util a sua magestade; +acrescentou, porem, que agora se lembrava +de ter deixado o figado dependurado n'um tronco de +arvore, aquelle mesmo castanheiro d'onde saltara +para as costas da alforreca. Continuou discursando +em linguagem fluente, de orador emerito, descendo +<span class="pagenum">[16]</span> +a explanações minuciosas; e explicou como o +figado +era uma coisa bastante pesada, embaraçosa, um +quasi alforge de peregrino, um empecilho que elle +costumava pôr de parte, durante o dia, para se entregar +mais á vontade aos seus exercicios de acrobata; +habitos de familia, já seu avô fazia o mesmo; e +concluiu, +que o melhor que tinham a fazer n'este momento, +era voltarem para trás, e na arvore encontrariam +o figado em questão.<br /> + +<br /> + +Não pôz objecções a +nadadora. Voltando á terra, +o macaco saltou ao castanheiro com uma ligeireza +nunca vista, nem mesmo entre macacos, acompanhando +o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que +traduzia o jubilo do bestunto, coisa que passou estranha +á alforreca. Procurou entre as folhas o seu +figado. Não o encontrou. Explicou então do alto, +á +alforreca, que provavelmente algum companheiro o +levára para longe, o que o obrigava a mais demoradas +pesquisas pelo bosque; no entretanto que fôsse +ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar +ancioso por vêl-a chegar antes da noite.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Assim procedeu o bicho.<br /> + +<br /> + +El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido +por tamanha ingenuidade―para não lhe chamar +<span class="pagenum">[17]</span> +coisa mais feia,―mandou logo vir da maladia +um bando dos seus mais soberbos +<em>samurais</em>, e ordenou-lhes +que malhassem no bicho á pancada, até +cançarem. +O castigo foi cumprido, e com esse vigor de +braços de villões, que miram aos applausos do +monarcha. +É esta a razão porque a alforreca, hoje em +dia, não tem pernas, nem cabeça, nem cauda, nem +barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida +a esta miseria, massa informe, um farrapo, um pedaço +de gelatina, boiando despresivelmente á mercê +do turbilhão das vagas.<br /> + +<br /> + +Com respeito á soberana, reconsiderando no disparate +do seu capricho, concluiu que o melhor que +tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se bôa; e +assim fez, com grande pasmo dos doutores.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A historia da alforreca está contada, na sua simplicidade +commovente. É veridica esta historia, como +tudo que o povo relata de memoria; creia n'ella quem +crê. Fica-se já sabendo no entretanto,―e +é isto d'um +proveitoso ensinamento,―que os japonezes tão prodigamente +propensos ao perdão para tantos pecadilhos +de alma e de costumes, castigam os patetas.<br /> + +<br /> + +Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, +<span class="pagenum">[18]</span> +no paiz do sol nascente, era inevitavel; e o caso presta-se +a interessantes commentarios, que eu vou resumir +em poucas linhas. Os japonezes―povo de +artistas―são os grandes amorosos da +creação, da +forma, da vida; ninguem como elles conhece os segredos +da ave, do insecto, do reptil, do peixe, dos +molluscos, do verme, de todos os seres da terra; a +animalidade graciosa d'esses seres, estudada com +percepções especiaes, que nos escapam, constitue +o +thema <img style="width: 300px; height: 221px; float: left;" alt="" src="images/fig09.png" />mil e mil vezes +variado, dos seus primores +de arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa +alforreca que se apresenta como unica excepção da +lei geral da gentileza da vida, e parece resumir em +si o enfado inteiro d'um dia de mau humor do Omnipotente, +devia ter deixado impressões tristes nos primeiros +japonezes +que a avistaram; +e foi preciso +arranjar logo +uma explicação +condigna do +phenomeno, e é +a que ficou descripta +n'estas linhas.<br /> + +<br /> + +É ainda interessante recordar de passagem a +<span class="pagenum">[19]</span> +approximação, pela desdita, da alforreca japoneza +com a medusa mythologica da Grecia, não merecendo +esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa +coincidencia!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3"></a>O ANNO NOVO</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +<span class="smallcaps">a Feliciano do Rozario.</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa +o anno novo. Mas não vão imaginar que seja +do anno novo de que rezam os nossos calendarios, +a commemoração; tal +commemoração, aqui, no fim +do mundo, no seio d'esta colonia nostalgica, passa +insipida, quasi sem alvoroços intimos de familia, limitada +á troca banal―<em>troca</em> sem +cedilha e com cedilha―de +algumas duzias de bilhetes de visita, com +as competentes <em>boas-festas</em> +escriptas, da pragmatica. +Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que +principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que +marca para o povo amarello as suas horas de existencia; +<span class="pagenum">[21]</span> +vamos entrar no anno XXII do reinado de +sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, +evidencea-se, domina, hoje; offusca, pela grande +maioria dos rabichos, o pallido reflexo da +civilisação +do Occidente que logrou chegar a este Macau, +a este exiguo penedo asiatico, onde Portugal +implantou a sua bandeira.<br /> + +<br /> + +Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de +alem dos bazares, o ruido da bombardada amotinadora +dos foguetes, e das mil e mil embarcações +fundeadas +no porto o clamor ovante das bategas, vibradas +pelas mãos rudes das companhas. Que irá +lá por esses bazares, a estas horas, santo Deus!... +Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre +das massas suggestiona, contamina todos. Bem +sei que não se dorme hoje; que não ha +chapéo de +côco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo +chapelinho de pellucia com laçarotes de setim e seu +competente passaro empalhado, de menina, que não +vá correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se +com os rabichos, gosar com elles. Mas está tanto +frio, e as bagas de agua zurzem-me tão desapiedadamente +<span class="pagenum">[22]</span> +os vidros das janellas... E, peor do que +isto, é o frio da alma, é a apathia enervante do +meu +espirito, é o sorriso amargo que me enruga os labios, +provocado por esse mesmo jubilo do enxame, que +aqui me retêem e me impedem de tambem ir galhofar.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 285px;" alt="" src="images/fig10.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a +d'aqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de +povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos +chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das +lanternas de papel, accendendo nas poças, pelo reflexo... +grandes labaredas ephemeras, ziguezagueando. +As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, +flôres, doces, carniças, bonecos, coisas santas, +estendem-se +<span class="pagenum">[23]</span> +pelos caminhos em prodigiosas theorias, em +coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e comprar +já, porque não tarda em romper o glorioso dia +de descanço, o unico na China em que o camponez, +o artifice, o vendilhão, todos, cruzam os braços, +não +trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um +linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo +objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em +galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e até +pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. +Que pechincha, se se apanha para a festa +um accrescimo de peculio não esperado! O china +adora o jogo―era preciso que elle adorasse alguma +coisa!―mas hoje todos jogam, todos são chinas, e +é isto um exemplo interessante da influencia suggestiva +das grandes maiorias; a mão mais circumspecta +de funccionario, a mão mais mimosa de dama +(de <em>nhônha</em>, em dialecto +vulgar d'esta colonia) avançam +sem pejo, arriscam á sorte varia umas pratinhas...<br /> + +<br /> + +Quando bate meia noite; quando, junto do altar +dos penates, se curvaram em piedosas adorações +milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram +papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; +quando em plena rua um brado de alleluia os echos +acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, +<span class="pagenum">[24]</span> +já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae +surgir +um grande dia votado inteiro ao descanço, votado +á +glorificação dos deuses, cuja magnanima +assistencia +se exalta pelas graças concedidas e pelas graças +que +vão esperar-se!....<br /> + +<br /> + +Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, +ó pobre humanidade, ó pobre familia minha, ainda +mais nos teus regosijos e nas tuas esperanças, do +que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para +este bando chinez com quem me encontro agora, +que explosão de bençãos lhe estimula a +sentimentalidade? +que altos beneficios commemora? O bando +abençoa a sua eterna existencia de miseria, a miseria +passada, a presente e a que fatalmente vae seguir-se-lhe. +Abençoa a labuta sem treguas, em busca +do punhado de arroz de cada dia; ora exercida +no lar immundo, sem sombra de conforto; ora exercida +pelos campos, nas varzeas, nas collinas, no amanho +da terra, sob a oppressão constante dos raios +do sol que escalda, ou dos frios que paralysam; ora +exercida nos barcos, que se cruzam na podridão dos +estuarios, ou pairam sobre a onda adormecida durante +as calmas torpidas, ou se desfazem no escarceo, +quando os tufões rugem em furia. O bando +abençôa +a fatalidade da sua condição social, o problema +espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser, que em +<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span> +todas as depravações, em todas as iniquidades +imaginaveis, +parece ir buscar as leis unicas por que se +rege. O bando abençôa ainda as calamidades +tremendas, +que <a href="#e1">n'estes</a> ultimos tempos, como +uma +maldição +divina, teem pairado sobre a immensa patria:―nas +provincias do sul, nos seus centros mais populosos, +é a peste, a peste negra, roubando em cada +lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a mãe, ou mesmo +todos juntos, e vestindo de lucto, de tristes roupas +alvas, os parentes, e ameaçando estabelecer-se +definitivamente, enraizar como uma arvore de peçonha, +d'onde emanará a cada instante o veneno subtil, +destruidor das turbas; e, para cumulo de infortunio +e de descredito, um visinho, um povo irmão, +o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, +morde e come pedaços do seu torrão sagrado, +envergonha-a, +offerece-a ao escarneo do mundo na +miserrima condição da sua plebe e na opulenta +infamia +dos seus nobres, desprestigiada emfim, indefeza +á cubiça das gentes, aos homens loiros da Europa, +que não tardarão em vir espezinhal-a.―Embora! +esqueçam-se hoje as miserias, vista-se o povo +em gala, chovam bençãos sobre o anno que +começa. +E amanhã, decorridas algumas horas de folgança, +recomecem, prosigam,―pouco importa!―os turvos +dias de amargura, a fatalidade da existencia no antro, +<span class="pagenum">[26]</span> +a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna, +a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, +a venda das filhas a quem mais der, os horrores +da<img style="width: 300px; height: 453px; float: left;" alt="" src="images/fig11.png" /> +prostituição, as vergastadas nas creadinhas, +as extorções dos mandarins, as torturas nos +carceres, +a morte lenta nos patibulos, a obra de destruição +das epidemias e do opio, as humilhações perante +o vencedor, as exigencias +do Occidente, +as arrogancias +dos homens loiros...<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 311px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +Para o anno novo, +tudo se prepara +com antecedencia, +em prodigiosa azafama; +é para todos +uma occupação incessante +e desusada, +durante as ultimas +semanas do anno que +vae findar. Lavam-se +os covis, lavam-se +as podres mobilias. É o pó d'um anno que se +sacode, +<span class="pagenum">[27]</span> +é a lama d'um anno que se deita fóra, +é +o piolho e é a pulga d'um anno que se afogam +na onda das barrelas; porque, durante os labores +de cada dia, nunca a idéa de limpeza preoccupou +os espiritos durante um só instante. Tudo +é providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda +typica d'estas povoações chinezas, tão +frequentemente +visitadas por todas as pragas―cholera, +peste, lepra,―embebidas no lodo dos canaes, +no ambiente das emanações dos estrumes +pachorrentamente +acogulados e dos despejos que apodrecem +pelas ruas, custa a crêr como a gentalha pollula, +e como os consorcios fructificam em ninhadas +de garotos; e parece á gente que um sopro qualquer +destruidor, de calamidade immensa, irá em breve +prostrar esses enxames, sem que deixe de pé um +só vivente nos albergues. Puro engano: as +povoações +eternizam-se. No parecer de alguns investigadores, +que taes exotismos interessam, se os miasmas +putridos convidam as epidemias a entrar e a +vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam, +estes mesmos miasmas, sobrecarregados +de vapores de ammoniaco, de exhalações corrosivas +de fermentos, se encarregam de ferir tambem +mortalmente os virus morbidos, poupando o +resto do povo. Chegamos ao facecioso paradoxo de +<span class="pagenum">[28]</span> +ser na China a immundicie o purificador por excellencia, +um como que elixir de longa vida, indispensavel +a todas as familias, feito da mais estupenda +alchimia de dejectos.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 170px; height: 377px; float: left;" alt="" src="images/fig12.png" />Conceda-se pois, por +excepção, a este bom povo +celestial, o capricho de lavar uma vez cada anno +o antro onde se abriga. Depois, +é ver a faina de collar pelas +paredes, pelas portas, pelas janellas, +papeis de bella côr escarlate, +com negras inscripções cabalisticas, +que são votos de ventura e +de riqueza, que são preces aos +deuses. E chega a occasião de se +adornarem os altares, de se irem +comprar junquilhos em flor, que +se dispõem em vasos gentis com +agua e seixos alvos, e assim vão +enfeitar os aposentos, levando o +viço e o perfume, por um dia, aos +negrumes das alcovas. No meio +do complicado rito das usanças, +algumas praticas enternecedoras, de ingenuidade +primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo +nas enormes celhas expostas pelos mercados, +onde enxames de pequeninos peixes negros, carpas +<span class="pagenum">[29]</span> +barbudas, estrebucham na gotta de agua do improvisado +captiveiro; o povo compra-as, e vae lançal-as +em seguida nas ribeiras, gosando na acção do +resgate, +por certo grata aos deuses, e que redundará +em beneficios...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c4"></a>A PRIMAVERA</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +<span class="smallcaps">a Camillo Pessanha</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 456px; float: left;" alt="" src="images/fig13.png" />Ha alguns dias, na cidade +de Kobe,―poderia +precisar o dia, e quasi a +hora, se tamanho rigorismo +me exigissem,―irrompeu +a Primavera. Irrompeu: +não ha sombra de exagero +no vocabulo. Irrompeu, +surgiu d'um pulo, fez +explosão. N'este paiz do +Sol Nascente, onde o sol, +e com elle todas as grandes +forças naturaes, são +ainda uns selvagens―se +<span class="pagenum">[31]</span> +assim posso expressar-me―uns selvagens sem freio, +sem noção das conveniencias, incapazes de se +apresentarem +de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte +qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol Nascente, +ia eu dizendo, a creação inteira apostou, parece, +em offerecer em cada dia uma surpresa, toda +ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos +nervosos, caprichos doidos, como se reunisse +em si a quinta essencia da alma das creanças +e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, +a troça, emfim, motejadora de tudo quanto +é ordem, harmonia, contemporisadora lei das +transições.<br /> + +<br /> + +Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas +d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto, +o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram +de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, +será o estio torrido, em brazas, como nem na +China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo, +vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui +um tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial +inunda as varzeas, e alem um rio transborda do +seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e +uma convulsão subterranea abala o solo...<br /> + +<br /> + +O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, +soffre os choques d'esta natureza, por demais subversiva +<span class="pagenum">[32]</span> +para o seu espirito triste, meditativo e attribulado. +Offerece-se-lhe um de dois caminhos a +seguir: ou communga na vida japoneza, inicia-se nos +seus segredos intimos, ama-a nas suas modalidades, +e assim a existencia se lhe gasta, se consome rapida, +esgazeada em admirações, doidejando em vertigens; +ou se retrae, se isola, odeia a natureza que não +comprehende, odeia o exilio, vive de saudades da +patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos +clubs cosmopolitas da colonia forasteira. Não é +preciso +mais para justificar o tique de loucura, facilmente +perceptivel, da enorme maioria d'estes expatriados, +homens e mulheres, após curta residencia +no paiz japonez.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ora pois,―dada esta concisa explicação +á gente +incredula,―ha alguns dias, na cidade de Kobe, irrompeu +a Primavera.<br /> + +<br /> + +Pela noite velha, fóra chegando uma brisa como +que amorosa, acariciadora, perfumada. No silencio +das trevas, as carpas acordaram, n'um charco fronteiro +ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam +desusados ruidos, saltando fora d'agua, ardendo +em cios, endemoninhadas. Quando rompeu o dia, e +appareceu o sol, não se descreve o enlevo do bafo +<span class="pagenum">[33]</span> +morno, embalsamado, genesiaco, que enchia o espaço. +O ceu tinha azues novos; cirros de paz pairavam +nas alturas. A paizagem esverdeára; esverdeára +da herva nova, que surgia, e das arvores velhas, +que se coloriam. A nossa observação educa-se +n'este meio em especialidades de minucia, abundando +por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas, +de todas as fórmas, de todas as grandezas; +estas arvores nunca se desfolham, mas no inverno +descoloram-se, empallidecem como mulheres chloroticas, +chegam a lembrar enfermos, chegam a lembrar +coisas mortas; depois, a primavera excita-lhes +a seiva, um verde intenso assoma-lhes ás folhas, a +vida recomeça, doida, vão desabrochar flores em +fúria!...<br /> + +<br /> + +Já as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; +os negros troncos rugosos e lavrados pela +lepra dos lichens, sem uma folha sequer, cobrem-se +agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas +de mil e mil florinhas presas aos galhos por minusculos +penduculos. Vistas de longe, nos sitios onde +abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores +seccas, envolvidas pelo fumo e pelas chammas d'uma +queimada devoradora. Em breve serão os pecegueiros +a florirem. Depois as cerejeiras. Depois as +pereiras. Todas as arvores. Todas em apotheoses de +<span class="pagenum">[34]</span> +coloridos. Chalaça tudo, em todo o caso―estas arvores +não dão fructos, não dão +ameixas, não dão pecegos, +não dão cerejas, não dão +peras; ou, se os +dão, não prestam. Esgotam os ardores da seiva na +superabundancia das petalas das flores enormes, +enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem, +em meras orgias de cores, para a incrivel +hilaridade do scenario, para a supina gargalhada +primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os +mil motivos de debandada para os campos, d'estes +bons japonezes, cabaça ao hombro, +<em>musumé</em> ao lado, +alma descuidosa aberta aos esplendores.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 264px;" alt="" src="images/fig14.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +São estas florescencias paradoxaes, tão +caracteristicas +do solo nipponico, que encaminham a cada +momento o pincel indigena para requintes de matizes +<span class="pagenum">[35]</span> +que a esthetica occidental não comprehende; +ellas que inspiram aos artistas esses tão frequentes +fundos de paizagem salpicados de brancos e vermelhos, +a reminiscencia do instante em que as flores +se desfolharam e cairam do alto, n'um chuveiro de +petalas.<br /> + +<br /> + +De parceria com as arvores, são as hervas, as +plantas, os arbustos, que se vestem de folhas e se +enfeitam de flores. Já ao longo dos muros espreitam, +por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae +vicejar de musgos, fetos, de relvas, de bambus e de +humildes gramineas; e matizar-se de brancos, de +azues, de amarellos, de escarlates, de roxos, de mil +côres, de mil flores sem nome, apenas conhecidas dos +insectos, que são botanicos emeritos e sabem de +cór +e salteado onde as corollas lhes offerecem os manjares +mais capitosos. Já desabrocham os junquilhos, +as camelias. Vão desabrochar a wistaria, as azaleas, +os lirios, os iris, os narcisos, os convolvulos, as peonias, +a legião vegetal.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, +vão vêr-se ao pittoresco oiteiro de Okamoto, ou a +Suma, no dominio d'um templo famoso. Os pecegueiros +vão vêr-se a Momoyama, em Osaka, que as +<span class="pagenum">[36]</span> +florinhas côr de rosa incendeiam por curtos dias. As +cerejeiras, particularmente queridas dos japonezes, +vão vêr-se a um ou dois templos em Osaka; ou +á +formosissima collina de Arashiyama, em Kioto, marginando +a ribeira de Hozukawa, caudalosa e rumorejante; +ou, no mesmo Kioto, ao parque de Maruiyama, +onde uma só arvore, a vetusta <em>cerejeira +da noite de Guion</em>, de delicados ramos em pendor, +tem merecido os enthusiasmos e as estrophes de não +sei quantas gerações de amorosos e de poetas, que +junto d'ella poisam, dia ou noite, embevecidos no extasis +do espectaculo; ou ainda a Yoshino, o logar por excellencia +preferido, sitio montanhoso e agreste, de difficil +accesso, mas por isto mesmo frequentado pelos +grandes fanaticos da natureza em pompas; Yoshino, +com a sua sentida lenda d'um monarcha fugitivo, e +com o peregrino enlevo das suas mil―conta justa, +affirmam,―das suas mil cerejeiras, muitas vezes +macrobias, offerecendo aqui, acolá, além, n'um +valle, +sobre uma ponte, á borda d'um precipicio, as scenas +mais surprehendentes, mais arrebatadoras, parecendo +as arvores em flor, flocos de nuvens brancas +a rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o +<em>fugi</em>, vê-se em Nara, a +velha cidade classica; os +ramos trepadores enrolando-se em torno dos troncos +das chryptomerias gigantes, e os longos cachos +<span class="pagenum">[37]</span> +brancos e os longos cachos roxos pendentes ao capricho +das brisas.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 291px; height: 311px; float: left;" alt="" src="images/fig15.png" />Romarias indescriptiveis de +graça pagã, de vida +exuberante, estas romarias, reunindo se ao quadro +bello da natureza, de uma magestade commovente +e estonteadora, a kermesse hilariante do povo em +festa. Barracas embandeiradas expondo mil artigos; +poisos improvisados para a refeição frugal; os +homens +em bandos a folgarem; as creanças aos saltos, +ás gargalhadas, vestidas a primor, de sedas de mil +tons; mulheres +de todas +as condições, +graves mamans +deliciosas, +meninas +recatadas +em mimos +de flor +de estufa, petulantes +cantadeiras +das +ruas, camponezas +em +roupas escarlates, +<em>gueshas</em> em requintes de luxo e de +encantos, +<span class="pagenum">[38]</span> +ovantes como idolos, todas ellas comesticos, todas +ellas aromas, todas ellas sedas rojantes, todas ellas +mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao +recolher +da festa, a onda humana é curiosissima: cada qual +empunhando uma haste florida, cada qual com seu +embrulho para o presente de estylo aos amigos que +não foram; as mulheres commentando as scenas +em gestos e em risinhos; as creanças abarrotando +de fructas e de bolos, cançadas, somnolentas, rabujando; +os homens em galhofa, pouco firmes, com as +frontes e as palpebras encarnadas, que é como se +lhes accusa o peccadilho de terem bebido um pouco +mais do que convinha...<br /> + +<br /> + +N'esta contemplação dos scenarios está +a alma +do indigena. Eu vou reproduzir-lhes uma local, que +ha dias appareceu n'um jornal da terra, e que define +bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente +unica:―«em Himeji já se deu fé este +anno de duas +flores de cerejeira...» +<em>duas</em>, é sobretudo +delicioso!... +O homem do Occidente pensa, o japonez vê; eis a +enorme distincção que os separa. O prazer dos +olhos +é a alegre preocupação de todos; +vive-se no presente, +para gosar do momento de hoje, para sorrir ás coisas; +e pode ser que seja esta a maneira mais coherente +do ser humano prestar culto aos seus deuses, +ao Creador, que lhe impoz na terra uma missão. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +N'aquella primeira manhã primaveral, debandaram +dos bosques mais cedo, em magotes alegres, +em serenos vôos altos em busca de aventuras, chocarreando, +atirando aos ventos as suas gargalhadas +de mofa, os corvos, nos quaes tão bem encaixa, sem +eu saber porque, o nome japonez, de +<em>karuçu</em>. A pardalada +papeava amores, e safava-se resolutamente +dos povoados em demanda dos campos. Uma borboleta +amarella,―ia apostar que a primeira da +estação,―atravessou +n'um vôo o meu jardim. Sobre +cada flôr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou +vespa, ou besoiro, ou moscardo, vindos não sei como, +por feitiço, pois havia longos mezes que ninguem +lhes punha a vista em cima; e não tarda que chegue +a immensa corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, +mosquitos, tira-olhos, os pandigos do ar, todos +bulicio, côres e vida!... Pelos corregos, pelas +regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam +pela vez primeira das tocas os sapos, rouquejando; +e dois a dois, graves... mas não estou agora para +contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, +os sapos, graves, dois a dois...<br /> + +<br /> + +Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada +em aromas, pintava-se uma alegria nova, uma recrudescencia +<span class="pagenum">[40]</span> +de actividade animal. As raparigas passavam +mais lepidas, em <em>kimonos</em> alegres, +claros, descalças +sobre os sóccos pela primeira vez depois do +inverno, os seus pés muito brancos, muito mimosos, +após o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei +além, n'aquella esquina, uma +<em>musumé</em>, que +vendia ovos, e um vendilhão ambulante de cestos e +vassouras; haviam poisado no chão a sua industria, +conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade +de expressão; elle agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; +e ella, a rir, a julgar pelo brilho dos olhos +e pelo rostinho alvoroçado de desejos... dava-se-lhe, +em promessas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar +pelos campos, como os pardaes,―já não digo: +(ir vender cestos e vassouras) pelas ruas...―que +eu me engravatei cuidadamente e fui bater á porta +d'um amigo. Tratava-se d'uma festa de creanças, o +que é dizer, d'uma estopada para adultos. Effectivamente, +exhibia-se, em frente d'uma duzia de meninos +e de outra duzia de pessoas circumspectas, +um graphophone americano; graphophone, ou coisa +parecida; um <em>phone</em> qualquer em todo +o caso; que +isto de <em>phones</em>, para quem cursou +aulas de physica +<span class="pagenum">[41]</span> +ha perto de trinta annos, é de uma +complicação tal, +que nunca a gente chega, por mais que se applique, +a fallar com segurança do assumpto.<br /> + +<br /> + +Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima +impressão, que a festa me deixou. Ratice minha, sem +duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro apropriado +para o caso e dava-se corda ao instrumento... +mas a quem estou ensinando o padre-nosso!... Então, +um americano fanhoso, imbirrante, assim com +ares de bebedo e ademanes de exhibidor de saltimbancos, +a ponto de se lhe presumir a casaca no fio +e cheia de nodoas e a gravata branca em uso ha mais +de seis semanas, fallava ao publico, annunciava a +casa constructora em Nova York, e o que em seguida +iria ouvir-se. Eram cançonetas chulas, solos de flauta, +estrondos de orchestra, devaneios em viola, discursos +grotescos; e tudo aquillo, e as vozes do publico +que ria, que vociferava, que dava palmas, que pedia +<em>bis</em>, creanças berrando, +damas mal suffocando o +riso, cavalheiros atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente, +saía da caixa enfeitiçada e enchia a sala +onde me achava, como se uma multidão de patuscos, +vindos da America, vindos do inferno, a tivesse invadido +de surpresa.<br /> + +<br /> + +Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldiçoava, +n'aquella hora, estas invenções da epocha, +<span class="pagenum">[42]</span> +estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que +vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces +que passam, reminiscencias, saudades, tudo o +que é doce ao espirito... porque,―affirmo-o tanto +quanto as palavras me podem traduzir o pensamento,―porque, +no fim de contas, ficou-me uma +desconsoladora noção de desprestigio da +existencia, +e de troça ás leis do mundo, á lei da +successão dos +factos no tempo; e vi em pensamento um bando de +velhinhos alchimistas largarem as retortas, por um +momento, e virem bradar á creação, +fitando o ceu +ás gargalhadas:―«não tenhas +imposturas, sabemos +tanto, fazemos tanto como tu!...»―Já +não bastava +a photographia, esta artimanha irreverente, que vae +implicar com os ausentes, com os defuntos, com o +mundo distante, dando-nos em troca da sentida +recordação, +que guardavamos, o phantasma, em contornos, +do que fugiu dos nossos olhos. Agora é o +graphophone, que eterniza os sons, a voz dos de +longe, a voz dos que morreram. Morte, ausencia, já +não tem razão de existir nos diccionarios. Para o +caso a que me refiro, cá continua o americano imbirrante +a vomitar os seus discursos, os musicos a +tocarem, os cantores a cantarem, o publico a rir, a +chorar, a applaudir, a chalaçar. Passaram-se assim +as scenas ha dois annos, ha cinco annos, ha dez annos. +<span class="pagenum">[43]</span> +Estará a estas horas o americano morto, coisa +de alguma bebedeira mais forte, que o prostou? a +creança, que chorava, dormirá tambem n'um tumulo, +coitadita? a dama, que ria, estará doida, n'um asylo? +o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo +uma sentença? Nada importa. A machina chama-os, +reune-os, ressuscita-os, renova-os para a pandiga +d'um momento da existencia; o passado é presente; +e a machina agita-os, empurra-os para o interior das +nossas casas, para nos divertirmos á custa d'elles +mesmos...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Primavera? ia eu pensando com os meus botões. +Primavera? ri a natureza? florescem as arvores? +cantam amores os passaros? é uma realidade? Ah! +talvez não, que hoje, a um phenomeno substitue-se +quasi sempre uma industria; e espectaculos do Pae +do Ceu fôram já quasi todos supprimidos, porque +iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que +passa, regista cem descobertas, tendente cada qual +a apagar do nosso espirito a lenda do mysterio, do +incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a +machinas, a engenhos mais ou menos complicados. +Doce Primavera, que me enfeitiça? Troça. Aqui +anda machina, apostára! Quem me assegura, que +<span class="pagenum">[44]</span> +isto não foi primavera servida a meus avós ha +mais +de um seculo, gravada n'um cylindro, e impingida +depois como nova, de quando em quando, aos patetas, +que a applaudem?...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 170px; height: 291px; float: left;" alt="" src="images/fig16.png" />E a proposito da Primavera +que irrompia, duas palavras sobre +outra Primavera, que morria, +ahi pela mesma epocha.<br /> + +<br /> + +Não haverá ninguem, imagino, +que, tendo passado em +Kobe, não conheça +<em>Nunobiki</em>, +a cascata. É que o sitio, pela +sua fama merecida, é o passeio +obrigado de todos os que chegam, +embora se demorem duas +horas. Não ha conductor de carro, +guia de viajeiros, um qualquer alcoviteiro que +ande á cata de gente que desembarca dos paquetes, +que se esqueça de indicar, como primeira +diversão, a ida á queda de agua. Lá +vão todos. +Lá fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes, +depois, como residente, residente em ocios, +attrahido pelos scenarios apraziveis. Lá em riba, +muito em riba da montanha, e salpicada de espumas +<span class="pagenum">[45]</span> +e acalentada em rumorejos, na penumbra +do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos +de ramaria silvestre, era a casa de chá, a +<em>cháya</em> +tradicional, offerecendo repoiso por alguns minutos +e uma bebida ao forasteiro extasiado, sem fallar nos +sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam largamente +as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha +alguns annos, disseram-me, eram tres as raparigas, +tres irmans,―as tres graças;―mas eu conheci só +duas, tendo casado a outra com um titular europeu, +conforme ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a +Senhora Semente, e O-Haru San, a Senhora Primavera. +Como se fica presumindo, eram as japonezas +mais populares de Kobe inteiro; das quaes, +talvez não erre, acreditando que os muitos milhares +de forasteiros, que n'estes ultimos seis annos visitaram +o Japão, guardam uma reminiscencia, uma saudade... +Duas fadas dos bosques, a enfeitiçarem os +incautos? Não tanto: quando muito, duas sereias de +agua doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis, +vendendo graciosamente uma chavena de chá, +sem assucar, á moda japoneza, e dando de graça +um sorriso, tão doce, que tirava ao chá o travor +proprio, mesmo para o paladar mais exigente. Eu +preferia á Semente, a Primavera. Era mais fresca,―fresca +como o seu lindo nome,―e mais avelludado +<span class="pagenum">[46]</span> +o olhar negro, e mais esmerada nos +<em>kimonos</em> de +seda e na curva em azas de borboleta dos cabellos. +Com ella palestrava, com ella ria, ria sobretudo, +que o riso é a linguagem mais em uso n'esta terra; +e, tomando-lhe das mãos, perguntava-lhe quem fôra +o delicado, inglez, russo, coreano, hottentote, que +lhe offerecêra aquelle annel com uma saphira, que +enfiava tão bem no seu dedo côr de rosa...<br /> + +<br /> + +Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso +material o Japão anda a galope. Lembraram-se +ha pouco estes senhores de constituir uma +empreza para a distribuição da agua aos +domicilios, +em Kobe. A idea não é nova: já +Yokohama, +Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam +de instituições da mesma especie. O que +é lastima,―se +vale a pena a gente prender-se em ninharias,―é +que assim, alcançado pelo turbilhão reformador, +que vae dando cabo de todo o pittoresco +d'este povo, tenda a desapparecer o poço... o +poço +classico dos velhos tempos, com a borda circular +talhada n'uma só pedra, o alpendre gracioso +sustido por dois madeiros, os baldes suspensos das +duas pontas da corda de cairo, que enfia no tosco +gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica, +ou a um canto do jardim, ou n'uma vereda +accessivel a um bando de visinhos; e cerca as +<span class="pagenum">[47]</span> +vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da mais +graciosa e original tanoaria, de que as creadas, +meias-nuas, se vão servindo nas lavagens, demorando-as +para alongar tagarelices, proprias do sexo +e ainda mais das japonezas; eis o poço, correspondendo +a um quadro muito caracteristico da vida intima; +o poço, que os adoraveis pinceis dos mestres +da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes, +emaranhando-os na rama das trepadeiras, das +<em>asagao</em>, cujas bellas campanulas de +côres variadas +abrem com o nascer do sol e fenecem logo após...<br /> + +<br /> + +Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde +o inicio as picaretas e as enxadas para a montanha +de <em>Nunobiki</em>, onde a agua jorrava em +manancial +sem fim; e, á força de braços e de +dynamite, no +intuito de encaminhar a torrente aos reservatorios +da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo as +arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que +todo o enlevo do sitio desappareceu, a paisagem +tornou-se em ruinas. Rigorosamente fallando, a cascata +acabava de existir. A +<em>cháya</em>, tal como a gente +a conhecêra no seu rustico pittoresco, forçada +pelas +escavações a mudar de poiso, acabava de existir. +E as raparigas? logicamente, tinham de desapparecer +tambem. Com effeito, a Semente casou com +um japonez e safou-se... e faço votos para que o +<span class="pagenum">[48]</span> +seu nome lhe seja de bom agoiro, dispondo os fados +a <img style="width: 300px; height: 625px; float: left;" alt="" src="images/fig17.png" />concederem aos +conjuges uma prole feliz e +numerosa; e a Primavera +morreu; morreu, por mofina +coincidencia, quando +a outra Primavera ia renascer, +dar viço e flôres +ás arvores, não ás da cascata, +mercê da nova empreza. Morreu tisica; a sua +cascata, onde nascêra, onde +vivêra vinte annos, com +a sua eterna penumbra +crepuscular, com as suas +rochas eternamente gottejantes, +com o seu ambiente +eternamente humido, +roêra-lhe os pulmões...<br /> + +<br /> + +Pobre Primavera... +Mas não morreu talvez, +pensem bem n'isto que +lhes digo; embora ninguem +mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem +acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte... +O seu retrato já corre mundo, em photographia, +<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span> +vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho. E +nada mais possivel do que o facto de andar ganhando +cobres pelas feiras, hoje, amanhã, d'aqui a quarenta +annos, um sujeito qualquer ajoujado com um +graphophone, um <em>phone</em> qualquer +americano... Estão +imaginando a patuscada:―Cylindro apropriado; +dá-se corda... A plebe ouve pouco mais ou menos +o seguinte:―«Grande companhia de graphophones +de Nova-York e de Paris! Scena da famosa +cascata de <em>Nunobiki</em>, no +Japão!»―E a plebe continua +de ouvir: é agora o murmurio continuo, soluçante, +de agua despenhando-se de rocha em rocha; +trina um passaro vagabundo; um francez bate +as palmas, pede cerveja; um inglez pede <a href="#e2">whisky</a>; +um nipponico pede chá; a vóz da Senhora Primavera +vibra distincta, fresca, doce; Primavera desfaz-se +em desculpas, em risinhos, diz que já vae, +não tarda; mas o inglez tem pressa, renova o seu +pedido com azedume: e o instrumento é então +perfeito―oh, +maravilhas da sciencia!―que se ouve +até o ciciar d'um beijo, que é naturalmente do +francez...<br /> + +<br /> + +<div class="signature">1899.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c5"></a>NILGUYO</h3> + +<br /> + +<br /> + +<em>Mukashi</em>, +<em>mukasi</em> (nos velhos tempos, nos +velhos +tempos, como diriam estes bons japonezes, e conforme +reza a lenda, interpretada pelo Nihon no +<em>Mukashibanashi</em> +(Antigas Legendas do Japão), viveu um +homem, um simples, de indole bondosa, de quem +se poderia dizer que passára a mocidade em desejos +de matrimonio; mas como desejos e realização +d'elles são duas coisas mui differentes, attingiu o pobre +a meia idade sem ter levado a effeito essa +firma...―<em>commercial</em> +não é talvez o termo proprio,―em +todo o caso essa firma a dois parceiros, que +partilham entre si, da vida, alegrias e tristezas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[51]</span> +As alegrias d'elle consistiam principalmente em +entregar-se á pesca, pesca á linha durante os +longos +ocios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais mordentes, +ao recolher á noite a casa, derreado, cambaleando +de somno e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira +que lhe sorrisse á porta, e em +saudações o +convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que lhe +tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois +leval-o ao fogo do brazeiro. Em toda a parte, +e especialmente no Japão, estes sentimentos intimos +d'alma,―jubilos de pescador á linha e desalentos de +solteiro,―são bem justificaveis. Com effeito, para +um temperamento vagabundo e impressionavel aos +enlevos da paizagem, como se dá com todo o japonez, +quantos encantos não vão proporcionando a linha +e o anzol, induzindo-nos sem esforço a longos +passeios de bohemio, penedos e praias fóra, contornando +margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, +em face dos scenarios serenos, todos verde, +frescuras, espelhos de aguas e murmurios... e como +as horas vôam, acocorado o corpo sobre a rocha, +a mão ora affeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se +em commovente espectactiva, ora colhendo +o peixe a estrebuchar; e o espirito voando, como as +horas, alheio ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando +no reino das chimeras... Mas +á noite, após +<span class="pagenum">[52]</span> +um dia inteiro de labuta, é que o corpo se doe e falham +os joelhos; e deve então saber tão bem chegar +a gente ao lar de esteiras e papel, e vir á entrada +ajoelhar-se em cortezias a figura gentil d'uma esposinha +fresca, envolvida em sedas e perfumes, com +as mãositas rosadas em posição +submissa, as mãositas +tão habeis em córarem nas brazas as trutas +saborosas...<br /> + +<br /> + +Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a +tradição não tomou conta do nome, +achava-se pescando +segundo o seu costume, bambu em punho, e +meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo +e desolada sorte, quando... zaz! um grande safanão +na linha lhe fez logo imaginar que alguma coisa fóra +do commum viera de colher. Por pouco se lhe não +vão, linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo; +então, +com muitas manhas que são proprias da arte, poz-se +a cançar a presa, já alongando o braço +e deixando-a +debater-se a seu capricho, já aproveitando o +repoiso para traze-la á praia; até que emfim, +azado +o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe +aos pés.<br /> + +<br /> + +O peixe? o peixão!... Era uma +<em>Ninguyo</em>, uma +sereia; nem mais nem menos; face de mulher, d'uma +rara formosura, e um enorme corpo ventrudo, alongado, +escamoso, agitando barbatanas e terminando +<span class="pagenum">[53]</span> +em amplo rabo, que então desesperadamente estremecia. +Face de mulher de uma rara formosura,―disse-o +eu, e não me engano:―esse contorno doce +de oval, de <em>urizanegao</em>, de pevide de +melão, tão +querido em esthetica japoneza; os bastos cabellos +negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos +de velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, +a sereia, em contracções de angustia; chorava +certamente +pela dôr, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro +anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de +vêr-se assim arrebatada do seu meio habitual, expiando +um peccado de lambarice, indefeza, nua deante +d'um estrangeiro!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O pescador porém era d'uma indole bondosa, +como ficou notado um pouco atraz; e vae-se agora +ver como o provou. Comprehende-se, é claro, o seu +primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a +cabeça, a esbugalhar os olhos, e gaguejava não +sei +que exclamações... Podera não! +Acalmado, sacou +cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e +tomando nas mãos o estranho ser, poz-se a scismar +maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando, se +elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e +<span class="pagenum">[54]</span> +mil templos do paiz; e alinhando a sua barraca com +as outras, onde se exhibem salamandras, crocodilos, +creanças sem pés e sem mãos, +cães sabios e muitas +outras coisas, que abundantissima chuva de sapecas +lhe não cahiria em cima, quer dizer, dentro +das mangas do <em>kimono</em>!...―"Meus senhores, entrem +todos! Quem não tem cabeça, não paga +nada! +Ora aqui está uma sereia authentica..."―e já ia +estudando o discurso que faria, soberbo, dominador, +impondo-se á plebe embasbacada. Ou então, +outra ideia: se elle comesse a carne da sereia, cosinhadinha, +feita em postas... e sabem todos que a +carne da sereia tem virtude de conservar perpetuas +a vida e a juventude a quem d'ella provou... Mas +a sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a +lembrança de reter n'uma tina, em +exposição, ou +peor ainda, de levar á degolla aquelle pobre bicho, +que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia em +prantos, como se fôra uma pessoa; contemplou-o +ainda, longamente; e com um nobre gesto e decidido +esforço, atirou a sereia ás vagas, d'onde viera, +e onde mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, +após um acenar de rabo, que poderia ser um +adeus, um adeus e um agradecimento.<br /> + +<br /> + +O nosso pescador voltou á sua faina. Consta que, +n'aquelle dia memoravel, o cabaz se lhe encheu de +<span class="pagenum">[55]</span> +uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. +Á tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe +nos <img style="width: 300px; height: 293px; float: right;" alt="" src="images/fig18.png" />labios +um sorriso, +que provinha da +boa pesca que fizera, +e tambem +da boa acção que +praticara.<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 316px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +Quando pela +noite, na cosinha, +mangas do <em>kimono</em> +arregaçadas até acima dos sovacos, avental sobre +as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a +sua ceia, ouviu que de fóra, e junto á porta, uma +fallinha +mansa lhe ia dizendo:―"Dá licença! dá +licença?"...―Corre +o homem a abrir a corrediça, ainda +com a faca da cosinha, e um carapau na dextra +adunca; e á luz frouxa d'um luar de quarto minguante, +poude distinguir um vulto de mulher em +nada extraordinario, porém doce e cortez, que lhe +confessou ser uma viajante extraviada do caminho, +sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada só para +<span class="pagenum">[56]</span> +aquella noite.―«Entre depressa, menina, acode-lhe +o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui +tenho».―Então, +dando-lhe entrada, conduzindo-a ao +aposento das visitas, fel-a descançar sobre a esteira, +e junto do brazeiro, foi-lhe servido o chá +tradicional.―«Muito +obrigada.»―O homem rogou-lhe seguidamente +que esperasse pela ceia, uma ceia de +peixe por signal, que elle ia amanhar sem perda de +um minuto.―«Permitte-me que eu ganhe o direito +ao meu quinhão, ajudando-o n'essa lida?»―Disse +que +não redondamente, que nunca consentiria que os seus +hospedes trabalhassem na cosinha. Em replicas e +treplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a +vida toda, além, da banda do oceano (talvez filha de +gente embarcadiça? pescadora?) e que ella conhecia +as melhores receitas de cosinhar o peixe, no que +até muitas vezes, por passatempo, se occupava; e tanto +ella teimou,―sabem todos o que são teimas de +mulheres!―que sempre foi levando a sua ávante.<br /> + +<br /> + +O que é certo, é que nunca o pobre +solteirão se +lambera com tão deliciosas petisqueiras. Comeu a +sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a chuchar +ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que +lhe ficava, era de não lhe ser servida uma ceia egual, +todas as noites. A companheira observou então modestamente, +a meias fallas, que lhe parecia não ir +<span class="pagenum">[57]</span> +além dos seus poderes, um tal desejo; e instada a +explicar melhor a sua phrase, accrescentou que era +solteira, sem parentes, sem lar... Comprehendida +finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ella +consentir em ser a esposa do sujeito.<br /> + +<br /> + +Antes, porém, impôz as suas +condições.―«<em>Danna</em>, +meu dono, eu tenho, como disse, passado a vida +pelo mar, e não posso prescindir do meu banho de +agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me +isto?»―Elle acenou que sim.―«E jura-me +(agora vão ouvir os pudores da pequerrucha...) que +me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem +sequer espreitar-me?»―Elle jurou que sim; e deu-se +por feliz (já se ia babando pela moça, o +maganão!) +de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal +thesoiro.<br /> + +<br /> + +Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos +durante longos mezes. O peixe, o prato querido dos +nipponicos, foi sêmpre excellentemente preparado +pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O +pargo, em fatias cruas regadas com molhos excitantes, +era divino! As enguias com arroz, uma delicia! +O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas +sobre o lume, sem egual! E até uma certa caldeirada, +assim como quem diz á moda do Algarve, +era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se +<span class="pagenum">[58]</span> +anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo +volume e pelas banhas, que alguem olhava por elle +com disvelo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Mas o banho? Melhor fôra não fallarmos n'elle...<br /> + +<br /> + +Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella +passava a manhã inteira preparando-o, afinando o +appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava horas +esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre +a esteira, espelhinho em frente, e em torno os cofresinhos +mysteriosos, era a interminavel tarefa de +fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora avermelhando +os labios, ora compondo o penteado. O +esposo chegára mesmo a esta conclusão +não muito +lisongeira:―que a companheira mais queria á agua +salgada do que a elle;―mas perdoava-lhe,―outros +ha que bem menos innocentes caprichos vão perdoando...―e +nunca a sombra sequer d'um arrependimento +viera turvar a paz do seu viver.<br /> + +<br /> + +Uma bella tarde,―tarde de banho por signal―chegou +o homem a casa, e, como se diz em portuguez... +cheio de fome.―«Tardará muito para a +ceia? resmungava. Irá o banho em meio ou em +principio?» +A esposa, é claro, achava-se invisivel, e com +a portinha fechada a sete chaves; mas casas japonezas +<span class="pagenum">[59]</span> +são casas de papel, e uma fenda, um +rasgão, +convida-nos a enfiar os olhos para dentro. O caso +é que elle espreitou. Surpresa! Horror!... Não +é +uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor +dizendo―que nadava, em demoradas circumvoluções +de regalo ao longo da tina, agitando mansamente +o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho +canções do mar, canções das +praias...<br /> + +<br /> + +Pobre marido!―«Ah! canta-me assim, exclamou +elle, canta-me assim, grande mostrengo!... +Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com +peixes,―lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...―Melhor +fôra, sem duvida, que eu nunca +te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas, feito +o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar +com appetite os teus guisados, intrujona...»<br /> + +<br /> + +A porta, abriu-se então e appareceu a esposa. +Chorava, cahiam-lhe as lagrimas a punhos; chorava +mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma +resolução fatal. Fallou assim, +ajoelhando:―«<em>Danna</em>, +meu dono, foi a sua benevolencia para mim, um +dia, extrema, tirando-me das aguas, podendo fazer +da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a. +Trouxe-me aqui um dever de gratidão: julguei com +a minha presença poder amenisar a sua soledade, +servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. +<span class="pagenum">[60]</span> +A minha gratidão será eterna. No entretanto, +acabando de ver-me assim na minha forma verdadeira, +um bicho, um monstro que mette medo a toda +a gente, comprehendo que a missão que tomei +chegou ao termo. Estala-me o coração, mas pouco +importa!... <em>Danna</em>, meu dono, adeus. +Do ceu lhe +chovam bençãos...»―E correu para a +praia e desappareceu +nas ondas.<br /> + +<br /> + +Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu +para sempre uma companheira carinhosa; e, +como das nupcias com a sereia lhe resultava o dom +de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu +martyrio...<br /> + +<br /> + +A fabula, segundo observa, e com criterio, o +auctor japonez que consultei a tal respeito, offerece +duas lições de alta moral. Uma é esta: +a mulher +que pretenda conservar um bom marido, deve captival-o +pela barriga, isto é, pelo esmero do seu repasto; +parecendo averiguado que o estomago é o +orgão mais sensivel, e porventura o mais grato, do +homem, o rei da creação. A outra +lição é a seguinte: +o marido que deseje manter a harmonia do seu +lar, nunca interfira na toilette intima da consorte; +porque, isto de damas,―com sua licença,―todas +lá têem o seu rabo, ou escama, ou barbatana, +coisa emfim que melhor é não seja conhecida, em +<span class="pagenum">[61]</span> +proveito dos dois, e em conformidade com o codigo +inedito do amor, capitulo +<em>Illusões</em>, artigo... +esqueceu-me +agora o artigo, meus senhores.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">1899.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c6"></a>O CAVALLO BRANCO DE NANKO</h3> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">A +Carlos Campos</span></div> + +<br /> + +<br /> + +Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras +japonezas: um cavallo, que o grande artista Kanaoka +desenhára n'um biombo do templo de Ninnadji, perto +de Kioto, era uma tão bella creação, +cheia de +verdade e palpitante de vida, que todas as noites +se escapava do papel para ir galopar pelos campos +em roda, culturas fóra, devastando a esmo as sementeiras; +e o caso dava-se, claramente, com magno +espanto e raiva dos camponios, que o perseguiam +á pedrada. Estes camponios, impressionados +pelas fórmas incomparaveis do animal, persuadiram-se +por fim de que elle não podia ser outro senão o +<span class="pagenum">[63]</span> +cavallo de Kanaoka; e a persuação converteu-se um +dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as +patas do travesso, humidas ainda da lama fresca dos +<span class="pagenum">[64]</span> +caminhos. Sem mais cerimonias, arremetteram contra +a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que +nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 585px;" alt="" src="images/fig19.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre +no genero, cavallo desenhado n'uma parede interior +do palacio imperial, tinha o vezo de ir devorar +pelos jardins as flores tenras do açafrão; e +só +cessou a brincadeira quando alguem se lembrou de +retocar a obra, amarrando o patife á parede com +um pedaço de corda pintada para o effeito. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ora bem. De muitas maravilhas é sem duvida +capaz a mão inspirada d'um artista!... Esses dois +cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de tinta +e de algumas curvas humoristicas de pincel, mas +em todo o caso ungidos do sopro sublime do eximio +mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se +da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram +e felizes tempos eram. Arte creadora, arte radiosa +das epochas passadas, porque não vaes tu regendo, +ainda e sempre, os destinos de todas as coisas d'este +mundo?...<br /> + +<br /> + +N'estes dias que correm, deslavados e tristes, +<span class="pagenum">[65]</span> +mesmo no Japão, e não cessando de divagar no +mesmo +assumpto de cavallos, confesso francamente a +quem me lêr, que nada me mortifica tanto como o +espectaculo dos cavallos sagrados dos templos shintoistas. +Ora aqui estão umas cavalgaduras bem authenticas, +bem vivas, bem reaes, de carne e osso; +e que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional―mas +não são,―por certo muito invejariam +as simples creações no papel da mão de +Kanaoka. +N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens +e bichos, nasceram e vivem n'um banho perenne +de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda +a condição dos pobres brutos, que um dia +inspiraram +estas linhas melancholicas que escrevo.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 343px;" alt="" src="images/fig20.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +Se pretendo ser de certo modo comprehendido +nas divagações que vão seguir-se―e +é obvio que +pretendo,―convem que me detenha um pouco, +fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, +da palavra <em>shinto</em> (a estrada dos +deuses), é +a crença primitiva, patriarchal, das epochas remotas +no Japão; e conservada até hoje, a despeito da +grande +propaganda de Buddha que se fez e se faz, +é ainda a religião nacional, a +religião do Estado. O +shintoismo é a adoração pelo sol, pelo +Imperador +seu filho, por todas as forças da +creação, pelas divindades +protectoras, pelos genios, pelos nobres, +<span class="pagenum">[66]</span> +pelos heroes e pelos sabios. O templo de shinto é +o recinto consagrado a uma d'essas invocações. +Distingue-se +antes de tudo pelo <em>torii</em>, o grande +arco de +pedra ou de madeira avisinhando do logar, e como +que indicando o caminho ao peregrino. +<em>Torii</em> quer +dizer <em>descanço dos +passaros</em>; e assim ficamos já com +uma noção primeira e delicadissima na essencia, +aprendendo que no campo sagrado tudo é paz, tudo +é remanso, pois que até aos pardaes, +cançados +dos vôos doidos que fizeram á aventura, se +offerece +um poleiro protector onde descancem. Ao +<em>torii</em> succedem-se +<span class="pagenum">[67]</span> +o amplo portal e o vasto espaço murado; +e lá dentro, symbolos, alfaias d'uma <img style="width: 300px; height: 483px; float: left;" alt="" src="images/fig21.png" />religião +toda +de amor, são a paisagem graciosa, os jardins verdes, +os bosques frescos, as rochas musgosas, os lagos +quietos; aqui é a cisterna destinada ás +abluções +preliminares dos crentes; +alli são as monumentaes lanternas +de granito, esverdeadas +pelos annos; além o nicho +escarlate votado a Inari, raposa, +Deus do arroz, não +sei que mais, em todo o caso +coisa muito santa; depois as +construcções ligeiras, de madeira +nua, dispersas, e onde +em dias festivos as donzellas +do culto dançam ao som +de estranhos ritornellos, ou +silenciosos officiantes abençoam +as multidões, agitando +sobre as cabeças reverentes um penacho de papel +branco, emblema de pureza.<br /> + +<br /> + +Nos templos mais faustuosos, não faltará outro +accessorio: o nicho garrido, a pequenina estrebaria, +onde o cavallo sagrado mastiga eternamente a +insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do +<span class="pagenum"><a name="p68">[68]</a></span> +templo, tem o seu cavallo de estado; é justo. É +geralmente +um cavallito albino, de pello branco e olho +azul celeste, talvez porque se ligue uma certa idéa +de candura a tal enfermidade. O deus serve-se d'elle +como entende; alguem, a quem pergunto informações +do cargo, diz-me que é o <em>Ó tsukae mono</em>... +assim +como quem diz: <em>o nobre moço de +recados</em>. Admittamos +pois que faz em regra os recados do deus, +o que é já muito, e um alto mister, e por isso +é sagrado +e tem honras de santo; e em lances <a href="#e3">difficeis</a>, +mais distinctos serão ainda os seus serviços. +Ardeu +ha mezes um dos mais famosos templos do Japão, +em Yamada; não sei que coisas do culto foram depois +encontradas ao abrigo e longe do sinistro;―foi +o cavallo que as transportou para lá.―É voz +do povo que em Osaka, em dois templos de shinto, +desappareceram os cavallos quando rebentou a ultima +guerra com a China;―está-se mesmo a perceber +que as almas d'esses deuses montaram nos ginetes +para irem aos campos do inimigo, abençoar as +tropas de Nippon.―Taes casos, porém, são raros, +são +rarissimos, n'esta epocha positivista, tão escassa de +milagres; e os cavallos brancos sagrados vivem e +morrem amarrados á mangedoira, passeando uma +só vez em cada anno, no dia da festa do templo, +encorporados então triumphalmente á +procissão, que +<span class="pagenum"><a name="p69">[69]</a></span> +percorre as ruas da cidade. É o encerro absoluto, +é a constante immobilidade tediosa, sem mesmo as +furtivas escapadelas dos cavallos pintados de Kanaoka. +A palha abunda-lhes; acercam-se d'elles as +creanças e as mulheres, que os adoram, e compram +á velha, que por alli está cerca do estabulo, +montinhos +de feijões cozidos, que offerecem sobre as palmas +das mãos rosadas, aos <a href="#e4">focinhos +nostalgicos</a> dos +rocins. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Eu conheço uns poucos d'esses brutos, mas tenho +mais intimas relações com o de Nanko, um +templo aqui em Kobe, celebre, dedicado á memoria +de Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro +e patriota.<br /> + +<br /> + +No amplo santuario do templo estabeleceu-se +uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente +de noite, atractiva e frequentada por passeantes +e devotos. A vida inteira japoneza passa, +perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho +de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois +votar horas inteira +No amplo santuario do templo estabeleceu-se +uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente +de noite, atractiva e frequentada por passeantes +e devotos. A vida inteira japoneza passa, +perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho +de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois +votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante +do povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, +a noção que haja formado d'este povo, um dos +<span class="pagenum">[70]</span> +mais interessantes, e o mais sympathico talvez, do +mundo inteiro.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 290px;" alt="" src="images/fig22.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, +d'alem... Junto ao portal, condensa-se o formigueiro +humano, em centenas, em legiões de cabecinhas; a +pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo +a risos, vae-se entrando, ao som d'um +continuo ruido de sóccos e sandalias, que se arrastam +pelo lagedo resonante. Na escuridão da noite, +o recinto define-se a principio como um negrume +<span class="pagenum">[71]</span> +vago, complicado de sombras de arvoredo, cheio de +gente e de myriades de luzinhas bruxoleantes. Depois +os olhos habituam-se. Vae por ahi fóra, direitinha +ao templo, a grande rua principal, bordada de +arvores varias, lageada; pelos lados espraia-se o +labyrintho das passagens, por entre os alinhamentos +das barracas, das tendas, das quitandas, armadas +de improviso, estiradas pelo chão; e é, +á luz +frouxa das lampadas, a exposição phantastica das +côres, chispando em disparates como n'um campo +immenso de kaleidoscopo, correspondendo ás mil +industrias que se estendem... Roupas, perfumarias, +livrinhos, bocetas, charões, porcellanas, cachimbos, +ferramentas, utensilios domesticos, bolos, brinquedos, +flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japão, +se condensa, coalha em museu. Alem algumas +<em>chayas</em> +vendem refrescos; as creadinhas convidam a turba +a que se acerque. Mais longe, são os theatros populares, +um cobre por entrada:―cães sabios, athletas, +abortos, serpentes, panoramas;―ou a sala do +<em>hanashi</em>, +da palestra, onde um patusco entretem os freguezes, +contando-lhes historias. N'um espaço mais +livre, um sujeito com um graphophone, um dentista, +um inventor de remedios milagrosos, discursam, +explicam, prophetizam.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 332px;" alt="" src="images/fig23.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +O formigueiro humano ondula, alastra se, +sem +<span class="pagenum">[72]</span> +designio, +á aventura. As sociedades occidentaes nada +nos offerecem de parecido. Isto, aqui, é a +multidão, +sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como +nol a apresentam todas as grandes tribus do Oriente; +é o cardume de gente, retida na praça publica +como +o sargaço em mares tranquillos; aqui, quadro requintadamente +gentil e sorridente, inconfundivel, mas +que ainda nos recorda as agglomerações da plebe +nos templos de Cantão ou nos bazares de Aden, ou +do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando +em espirito vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos +vividos, embora fugidios, da Jerusalem biblica, +nos seus magotes de homens vestidos de tunicas +<span class="pagenum">[73]</span> +rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando +os braços nús em gestos calmos e solemnes.<br /> + +<br /> + +Querer inventariar os typos, fôra insania,―é a +massa inteira popular despreoccupada, risonha, gosando +de viver.―Passam familias,―o pae, a mãe, +um filho preso ao seio e os outros pela mão;―ranchos +de soldados e ranchos de marujos; ranchos +de raparigas; moços, alguns indo caminho do bairro +dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; +mendigos; vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos +assopram nas trombetas que compraram, ou mordem +em bolos ou em fructos. Aquella +<em>musumé</em> fresca, +vestida apenas do seu <em>kimono</em> de +verão, azul e branco, +já vae de volta; e leva dependurada das mãositas +uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes pyrilampos. +Uma velha rejubila com o vaso de bellos +lirios que mercou. É aqui em Nanko, no mercado +especial das plantas, que se revela bem o mimo +d'esta gente em jardinagem,―delicados arbustos, +havendo merecido longos disvelos de cultura, +selecção +graciosa de florescencias;―e é de ver-se o afan +na escolha, o brilho dos olhitos cubiçosos, dos grupos +em roda da exposição dos pinheirinhos, das +cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos, dos +lirios, da wisteria.―O espirito simples, o desejo +facil de contentar, a puerilidade quasi infantil, estampa-se +<span class="pagenum">[74]</span> +em todos esses rostos, e dom gentil da +mão industriosa, resalta de todos os artigos. Quem +tiver duas moedas de cobre na bolsinha―e todos +as terão,―póde comprar um objecto de arte; +compra-o +sem duvida, e no jubilo da face transparece +a alegria plena d'uma alma satisfeita. D'essa manifesta +innocencia de sentimentos, d'essa psychologia +alheia de complicações e de tormentos, deve em +rigor deprehender-se uma superioridade de raça, +uma animalidade esplendida e exhuberante, muito +distanciando-se da vibratilidade morbida das raças +exhaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se +adivinha na esbelteza dos vultos que vão passando, +na flexibilidade harmonica das curvas, no jogo pathetico +da mimica, na confiança serena com que o +pé dominador poisa no chão. Feliz povo! Feliz +povo +de hontem, de hoje, e possivelmente de amanhã... +Não é outra a conclusão sincera do +nosso exame +passageiro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No entretanto, a um canto, no estabulo garrido, +boceja o cavallo branco sagrado de Kusunoki Masashige. +Por velha sympathia, procuro-o sempre, e +passo quasi horas inteiras, a vêl-o, a namoral-o. +<span class="pagenum">[75]</span> +Quantos annos terá de sacerdocio? Dez annos? +Quinze annos?... Não lhe despertam zanga nem +prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o +olho azul mortiço, parece nada querer, nada sentir, +nada soffrer e nada desejar. É quasi de papelão, +á +força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, á +luz, ás côres, ás musicas distantes, +é insensivel. Ao +bello verde do arvoredo é insensivel; pelos modos, +não se recorda já das paizagens por onde +espinoteou... +O seu olho azul-celeste, vitreo, provavelmente +myope, relancea com a mesma apathica frieza, +as mil scenas do acaso; á gente que o +encara,―ralé +da praça publica, garotos, cavalheiros, acaso um +general, acaso um conde, acaso um inglez de nobres +pergaminhos,―vota a mesma indifferença irreverente +que ás moscas importunas que poisam, por enxames, +sem que o commovam, na mucosa descorada da sua +pobre focinheira. Só uma vez, presumo, o vi enternecido: +relinchava uma egua algures, longe sem duvida; +levemente se lhe agitaram as orelhas, como +se uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo bestunto +lhe corrêra; e pareceu-me então vêr o +seu olho azul-celeste +arrazar-se de lagrimas, pareceu-me... Ás +vezes, avança de bom grado a lingua, a ir lamber as +mãos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, +porque são aquellas mãos que costumam +offerecer-lhe, +<span class="pagenum"><a name="p76">[76]</a></span>como +obulo piedoso, os feijões cosidos +comprados á velhita que por ali anda, proximo do +estabulo...<br /> + +<br /> + +Eis todo o seu romance. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais +curioso, quizer ainda arrancar-me o segredo d'esta +minha estranha sympathia pelos cavallos sagrados +dos templos de shinto,―tanto mais estranha sympathia, +quanto é certo que não me accusa a consciencia +de jámais ter pertencido a qualquer sociedade +protectora de animaes,―aqui lhe <a href="#e5">offereço</a>, +a esse +alguem, a seguinte estupenda confidencia. No Japão, +se não erra o meu juizo, só os cavallos dos +templos +são tristes. Elles, e eu. Ha entre nós +mysteriosas +analogias; não gracejo. Após longos estudos da +propria +carcassa, acabo de concluir―imaginem o quê!...―que +tambem sou albino. Não pela anomalia congenita +da falta de pigmento corante da pelle, dos +cabellos e dos olhos, concordo; albino psychico porem―não +sei se me faço perceber...―albino na +alma dolente, na vibratilidade exangue, na apathia +da vida, após os mil baldões da sorte, e desfeita +no +<span class="pagenum">[77]</span> +ar a ultima bola de sabão das minhas illusões. Do +meu poiso, que comparo sem grande esforço ao +estabulo de<img style="width: 400px; height: 360px; float: right;" alt="" src="images/fig24.png" /> Nanko, assisto ao +contorno das scenas +e ao perpassar da turba; mas alheado de tudo, e +esquecido até das saudades da paizagem serena +onde vivi os meus primeiros annos. Alvoroços de +affectos? amores? fazem favor de me dizer para onde +fugiram essas chimeras +aladas da minha +pobre juventude?... +Quando muito, como +o cavallo de Nanko, +mas ainda mais desinteressado +do que elle, +porque me sinto naturalmente +excluido do +quinhãosito de feijões +que pode seduzil-o, quando muito, se deviso essas +<em>musumés</em>, com as suas +mãositas muito alvas, muito +mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras: aqui, +n'este meio onde me vejo, são-me ellas o emblema +dos carinhos do sexo delicado; e incutem no meu +espirito uma noção de paz possivel,―aqui, +algures, +não sei onde,―no lar da familia, quando +abençoado +pelos fados...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">1899.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c7"></a>A PRIMEIRA FORMIGA</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +<span class="smallcaps">A Sebastião Garcez.</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Á parte esta dedicatoria especial, é +ás formigas +e aos sabios―Deus não permitta que ellas, ou que +elles, tomem a mal o parallelo―que eu offereço +as revelações que vão seguir-se, nas +quaes se explica, +após longos preambulos, como é que a primeira +formiga veiu ao mundo.<br /> + +<br /> + +Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, +as terras andavam divididas pelas mãos de +muitos monarchas irrequietos, envolvidos em continuas +batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, +digno de particular ensinamento. Acontecia que uma +certa deusa do Olympo―Lei-San era o seu<img style="width: 170px; height: 351px; float: right;" alt="" src="images/fig25.png" /> nome―nunca +<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span> +em demorados +arrebiques, em meticulosas +pinturas de cutis, +das +ia dar o seu (passeio pelas nuvens, imagino) +sem se esmerar sobrancelhas e dos labios. +Pieguices do sexo, desculpaveis, +e até de certo +modo meritorias; mas o caso +motivou, certo dia, um risinho +malicioso da sua serva +mais querida, e ainda por +cima este commento pouco +respeitoso:―«A deusa <a href="#e7">tem pelos</a> +modos algum defeito +no seu rosto, e cuida de escondel-o +á força de +cosmeticos...»―Vão +lá chasquear +impunemente dos encantos +d'uma dama! e quando +ella fôr divina... É certo +que tão cheia de cholera +ficou a divindade, que vestiu a deliquente d'uma pelle +diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara +azul, ruiva a guedelha, dois dentes curvos surdindo +da bocca para fóra, e mãos e pés +disformes; e assim, +n'esse bonito estado, a escorraçou do ceu, aos +<span class="pagenum">[80]</span> +beliscões, e a enviou ao mundo em +expiação. Chamava-se +Tchong-Mou-In, a penitente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado +por innumeras derrotas, teve uma noite um sonho +radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso +um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, +mas um poço de sciencia, elle disse ao soberano, +após magnos processos de magia, que o sonho revelava +que os deuses lhe haviam destinado certa +dama por esposa, forte de genio e habilissima na +guerra, a quem mais tarde se deveria a salvação +do estado.<br /> + +<br /> + +O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta +pausa; mas não quiz mais ouvir o imperador; e +eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas +de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a +sua bella, conforme as indicações do +anãosinho. +Atravessa povoados, galga montanhas, desce valles; +vôa, não corre, sua magestade; vôa nas +azas da esperança, +pula-lhe o coração em mil anhelos; e assim +foi dar com Tchong-Mou-In.<br /> + +<br /> + +Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam +<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span> +o desapontamento do monarcha. Tremulo de +indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias; +pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas +a exercer; e d'um gesto esporeou a alimaria, no +intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o soberano +não contava que a dama, que a principio o recebera +com doces humildades de etiqueta, que a dama, +expulsa embora do ceu e do convivio dos seus deuses, +ainda d'elles auferia benevolentes protecções. A +dama, +n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando +os dentes e estendendo solemne a mão +papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia do +cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. +Gritou-lhe que havia de casar com ella, se não quizesse +alli ficar eternamente quedo; gritou-lhe que +havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu +braço de mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de +confiar altas emprezas. Emfim, para encurtar razões, +e apressar o fim da historia, direi que o imperador +desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o +asco e o medo, e tudo prometteu. Não tardou que +aquelle monstro feminino lhe <a href="#e8">entrasse</a> +pela casa, +rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias, +transportando ella propria ás costas o enxoval―dois +cabazes, uma thesoira, um espelho, um pente, +uma vassoura, uma bacia de lavar o rosto,―utensilios +<span class="pagenum">[82]</span> +que, desde então até hoje, como que +ficaram +consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo +indispensavel. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio +á convivencia da esposa, prolongando-lhe por esta +forma uma castidade fastidiosa, com que ella provavelmente, +não contava. Paciencia. Por vezes, na +fria intimidade dos salões, procurou desprestigial-a +aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia, reunidas +a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, +sobre qual das duas, em escripta, mais habil se +mostrava; e para isto se combinou contar quantos +caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo +necessario para arder de um pivete perfumado, que +alguem foi collocar sobre uma urna proxima. Do +lado da favorita, cuja cultura litteraria é primorosa, +estão o imperador (o basbaque!) e dois validos; do +lado da soberana, apostam tres lettrados, e um d'elles +é o anão. Eil-a, a amante, interessada vivamente +no +certamen, toda olhos, toda attenção, toda +adoraveis +fernesis dos seus bellos dedinhos côr de leite, que +empunham o fino pincel, e correm febrilmente sobre +o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo +<span class="pagenum">[83]</span> segredam, por +piedade, decida-se a escrever...»―A +bruta não os escuta. +(perdôe-se-me o qualificativo que me occorre), +face azul pousada +nas manapulas, dedos disformes +enfiando +pela trunfa +ruiva, olho +impassivel +e matreiro, +relanceia, aparvalhada +e immovel, +a scena, +e os espectadores. +Sobresaltam-se +os +lettrados, que adivinham, n'uma eminente surriada, +o desprestigio proprio no conceito do monarcha.―«Senhora, +Repetem se,<img style="width: 295px; height: 254px; float: right;" alt="" src="images/fig26.png" /> +multiplicam-se as instancias; até que finalmente, attendendo +a tantas supplicas, diz ella:―«Vão buscar +aos meus aposentos um pincel.»―Voam escudeiros, +volvem breve:―«Não se encontra, +Senhora!»―Ella +indica que está junto d'um armario. Os vassallos +replicam:―«Perdão, não +está; o que está é uma +vassoura...»―Então berra a +soberana:―«Pois é isso +<span class="pagenum">[84]</span> +mesmo, seus patetas!»―E tomando da vassoura, e ensopando-a +n'uma mixordia de tinta, de que mandou +encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando +o pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura +lambusou um enorme papel, d'um gesto apenas; e +por milagre,―que só assim se explica tal +portento―appareceram +nitidos, sublimes, mil e mil caracteres +da mais adoravel forma caligraphica. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a +turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo +os seus dominios. Nos ardis, um primor. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, +para um banquete de monarchas, com os quaes andavam +de guerrea porfiosa, um dos nobres apresentou +aos convivas um enorme macaco que possuia, +mono astuto nos seus modos de selvagem, e eximio +n'um jogo então em moda, semelhante ao gamão +dos nossos tempos.―«Senhora, ides jogar tres partidas +<span class="pagenum">[85]</span> +com este mono; se a ultima ganhardes, são +vossas, nossas terras; se a perderdes... +percebeis-me?»―Trava-se +o jogo em que a imperatriz não +era forte, pouco affeita a prendas de salão, e sendo +notorio que nos ceus, onde passara a juventude, o +jogo é prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha +o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong +Mou-In desfalece em intimas angustias, julga-se +perdida, quando então se lembra de invocar os deuses. +A sua divina ama, que nunca a abandonára, +despede do ceu um aviso visivel só para ella:―Toma +este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de +modo que apenas o macaco dê fé d'elle, e joga +resoluta.―Terceira +partida: o mono dando vista do +acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de +desejos; o trazeiro, onde parece residir a alma dos +macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre +o assento da cadeira; e com a dentuça arreganhada, +o olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas, +o bestunto por certo desvairado, balbucia +gritinhos repetidos―eh, eh! eh, eh!―que irritam +os convivas. A mãosita felpuda ainda vae mexendo +as pedras, por habito, por dever, mas sem +arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, +abandona-o―tão +imperativa é a lambarice n'estes figurões da +fauna +comica!―E perde a partida decisiva! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[86]</span> +Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias +um companheiro de desterro, dos raros com quem +logro palestrar:―Ora vêja você quantos macacos ha +por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na +carcella, quando não é uma commenda, astutos no +gamão e n'outras prendas varias, quasi attingindo +as alturas da audacia e do triumpho; n'um momento +fatal, uma banana qualquer, mostrada a geito, +desnortea-os, allucina-os, aniquilla-os... E que, +por +mais que façam, são macacos, embora a cauda se +não vêja, de certo occulta nas ceroulas, e ninguem +ha que possa purgal-os, expurgal-os, do sangue dos +avós... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Continuo.<br /> + +<br /> + +Uma das mais bellas façanhas que illustram a +gloriosa mulher, se mulher é, de quem me occupo, +é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta +pelas +armas, entre varios soberanos, já com enfado de +vencedores e de vencidos. Tai-Sun ia levando a melhor +nas investidas. Eis que os reis desbaratados, +unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão +irritante +situação, e muito em seu proveito, propondo +ao imperador um curioso problema.―Não nos façaes +a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada +<span class="pagenum">[87]</span> +d'um annel; notae que tem dois furos esta perola, +communicando entre si interiormente por um labyrintho +de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a +enfiada n'uma linha, juramos-vos a paz e a entrega +por inteiro de tudo que hoje é nosso.<br /> + +<br /> + +Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em +caso tão difficil!... Os conselheiros ficaram-se calados, +macambuzios, e nada aconselharam. Foi então +impingindo esta questão á esposa, elle, que a +não beijava, nem lhe queria, mas que em assumptos +escabrosos só n'ella tinha fé. Tchong-Mou-In +recolhe-se, +implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe +então do ceu uma formiga, a primeira formiga +que veiu a este mundo; e manda a verdade que se +diga que essa formiga prehistorica era um nadinha +differente das formigas contemporaneas, menos esbelta +nas formas, mais bojuda. Tchong-Mou-In comprehende +o precioso auxilio: ata uma linha a meio +corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola, +junto d'um dos seus furos, por onde se vê forçado +a enfiar, não tardando que surda pelo outro, arrastando +a competente linha atraz de si. É a gloria!...<br /> + +<br /> + +E não reparam hoje na delicadeza da formiga, +leve a cintura, como a cintura d'uma dama espartilhada? +D'antes não era assim. Consigna-se o facto +como indicando ainda ás gerações +presentes uma +<span class="pagenum">[88]</span> +maravilhosa herança atavica, a impressão do +nó com +que a linha se prendia e apertava a primeira formiga, +a formiga lendaria, a mãe de todas as formigas +que hoje passeiam sobre a terra. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 471px; float: left;" alt="" src="images/fig27.png" />Nada mais sobre o insecto. Poucas +palavras apenas +pelo que respeita á soberana. Lei-San, a sua +divina protectora, perdoou-lhe +finalmente o passado sorriso +de motejo, que valia uma +injuria; despiu-a da pelle +monstruosa que lhe dera, por +expiação do seu peccado, restituiu-lhe +a peregrina belleza +que lhe era propria... O imperador, +antes que a consorte +volvesse aos seus labores divinos, +poude vêl-a, e por longos +annos, no completo esplendor +dos seus enlevos. O +imperador, que já lhe tributava +incondicional veneração, graças aos +seus prodigios, +que tanta ventura lhe trouxeram, e prosperidade +ao imperio, poude então tambem amal-a, amal-a +<span class="pagenum">[89]</span> +apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em +tanta formosura. Imagine quem quizer como áquelles +amorosos as horas iriam correndo encantadoras, na +serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas +de marmore, e rodeado de jardins, e no afan de +festejarem aquella lua de mel, tardia embora, que +lhes apparecia no horisonte!...<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +1899.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c8"></a>OS DIABOS E OS VELHOS</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +<span class="smallcaps">A Nuno Queriol</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Falla a lenda japoneza.<br /> + +<br /> + +Era uma vez um velho, que tinha um enorme +lobinho sobre a cara, na face por signal. Certo dia, +achava-se elle na montanha, a cortar lenha―era esta +a sua humilde profissão,―quando o surprehendeu +uma terrivel tempestade, chuva a potes, ventania +desabalada, o raio faiscando nas alturas; tão terrivel, +que se viu obrigado a ficar por aquelles sitios e +a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, +era difficil problema; um grande tronco de arvore, +escavado pelos seculos, offereceu-lhe a unica guarida.<br /> + +<br /> + +No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o +<span class="pagenum">[91]</span> +velho passando tristes<img style="width: 300px; height: 588px; float: right;" alt="" src="images/fig28.png" /> horas. Alta noite, principiou a +dar razão d'um estranho vozear, longe a principio, +mas pouco a pouco +avisinhando-se-lhe―«Olá, +resmungou, tanta +gente por aqui, e eu +que contava achar-me +só?...»―E pôz-se a +espreitar, curiosamente, +sem sombra de receio.<br /> + +<br /> + +O que o velho então +viu, muito a custo, +á luz fugidia dos relampagos, +mal póde imaginar-se. +Uma numerosa +sociedade approximava-se; +mas nunca +ao velho apparecera +tão estranha sociedade +como aquella. Era +um bando immenso de +patuscos, de diabos incontestavelmente, +medonhos nos aspectos: uns, encarnados, +vestidos de <em>kimonos</em> verdes; outros, +negros, +vestidos de <em>kimonos</em> encarnados; a um +faltava +<span class="pagenum"><a name="p92">[92]</a></span> +um olho; a outros o nariz; alguns não tinham bocca. +Pozeram-se a accender uma fogueira enorme, +com palha, com folhas, com cavacos que encontraram; +e as chammas sinistramente os patentearam. +Acocorados em torno da fogueira, em duas filas, bebendo +<em>saké</em> em amigavel +reinação, pareciam mesmo +gente, os taes demonios. A vasilha ia passando á +roda, de garra em garra, entre os convivas; e tantas +voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que jâ +não tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens +assistentes ergueu-se como poude, e começou uma +cantiga, dançando ao mesmo tempo; os outros imitaram-n'o. +Era então extremamente emocionante a +vista da paizagem: a fogueira, ateada pelas rajadas +successivas, alastrava-se e subia, furiosa, até +ás nuvens, +em turbilhões de fumo e labaredas, e ia alumiando +<a href="#e9">diabolicamente</a> a scena +inteira―ramarias +de bambus e de pinheiros, profundezas de bosques, +penedos gottejantes, torrentes espumosas, e ainda a +turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas +atrozes―Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; +outros iam gravemente alçando a perna e ensaiando +minuetes; outros, immoveis, ou antes querendo assim +quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de +borrachos; e de colina em colina os echos repetiam +os torvos descantes em falsete, de mistura com +<span class="pagenum">[93]</span> +as lamentações das arvores açoitadas +pelo vento, e a +salva de artilharia dos trovões. Berrava uma vóz +esganiçada: +«Que grande reinação! mas bem quizera +vêr mais alguma novidade!...»― +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Mettido no seu +esconderijo, o rachador de lenha +passou por todos os tormentos que o espanto, o +susto e o desamparo juntos produzem no animo d'um +velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na +festa―ou não fosse elle japonez!―e tal poder teve +sobre elle a bambochata, que lhe venceu escrupulos +e temores, e o levou a esta resolução +formal.―«Matem-me +embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo +tambem ir pandigar!»―Surdindo então da +tóca, barrete enfiado até ás orelhas, +machadinha suspensa +da cintura, ei-lo a reunir-se á malta, a dar as +boas-noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora +a vez de se espantarem os demonios; mas tão comico +era o velho, no seu pobre corpinho corcovado, +avançando em meneios, e recuando após, e +virando-se +para a direita em cortezias, e voltando-se para a +esquerda em reverencias, e traçando no ar, com o +pé +descalço, estupendas parabolas coreographicas, que +<span class="pagenum">[94]</span>desataram todos em +risóta, gritando:―«Viva o +velho! +muito bem! que bem dança o velho!»―E proseguiram +depois, n'este proposito:―«Queremos que +tomes sempre parte em nossas festas, por seres mui +reinadio; mas, como póde acontecer que não +pretendas +voltar mais, vaes deixar-nos um penhor de +que acederás a este convite.»―<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 420px;" alt="" src="images/fig29.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, +extrahir-lhe o lobinho; muita gente do povo, é notorio, +<span class="pagenum">[95]</span> +considera este achaque como um valioso talisman +para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos, +braços nús, dedos palpando, lancetas e tenazes em +acção; e o velho estendido sobre o solo, um +segura-lhe +uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe +os braços, outro delicadamente ampara-lhe a +cabeça; +e sairam-se do caso com limpeza, não causando a +menor dôr ao paciente. Depois, fôram guardar o +lobinho n'um estojo.<br /> + +<br /> + +Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, +uma bella madrugada côr de rosa, e os pardaes +começaram a papear nas ramarias, desappareceu +então a malta dos demonios. O velho desceu á +sua aldeia. Entrou em casa muito contente, ainda +um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é +claro, com a sua face muito lisa, sem o minimo defeito. +O caso maravilhou com razão a companheira, +e a gente conhecida. Ia-se servindo o chá pela familia +e pelos curiosos que accorriam, sobre a esteira, +junto do brazeiro; e era uma chuva de exclamações +e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar, +nos seus detalhes surprehendentes, as peripecias +da estranha noite que passára na montanha. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[96]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ora, havia entre os visinhos presentes um outro +velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, +na face esquerda por signal. Muito calado, assim +com ares de não prestar ouvidos á palestra, ia em +mente, o finorio, retendo todas as minucias. Não +partilhando das crendices da gentalha, pelo contrario, +desejoso de vêr-se livre do tortulho, ia já +estudando +a maneira de entregar-se nas mãos de +tão +sabios curandeiros. Eil-o pois, por uma noite escura, +caminho da montanha; seguidamente, eil-o abrigado +sob o mesmo tronco de arvore, á espreita dos diabos. +Não faltaram. Começou a bambochata,―risota, +dança, vinho.―Juntou-se então aos demonios, a +medo, um outro figurão.―«Olá, +cá está de novo +o velho! voltou, e vem +dançar!»―Dançou, effectivamente, +e sem ser muito rogado; mas era um desastrado; +e tão mal desempenhou o seu papel, tão +falto de geito e de pilheria, que os demonios, +tomando-o sempre pelo conviva primitivo, zangaram-se +e disseram-lhe:―«Enganaste-nos, brejeiro! és +um grande desgeitoso; devolvemos-te o penhor que +nos deixaste e aconselhamos-te a que não pises +<span class="pagenum">[97]</span> +mais este logar.»―Um da chusma foi buscar o lobinho, +e zaz! pespegou com elle na face direita do +sujeito. Saira de casa com um, e voltou com dois, +um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento +do sujeito e a hilaridade dos visinhos. +Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas, +paralysou todo o trabalho; os velhos, as velhas, +as raparigas, os garotos, não faziam senão rir, +rir a bandeiras despregadas,―e o caso não era +para menos!―<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">1899.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c9"></a>PAU-MAN-CHEN</h3> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">A +Antonio Baldaque da Silva.</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a +<em>bater cabeça</em>, como se diz +n'este Macau; lá está elle +rezando aos seus deuses protectores. Que lhe preste! +Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez +que é, serenamente aggressivo em tudo ao europeu; +e passou a entregar-se a esta outra occupação +não +menos meritoria.<br /> + +<br /> + +Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou +pelo menos mandarim; faz o que quer. Os altares +aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do +sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, +onde +se guisa o meu jantar, se presta culto a supinas divindades. +<span class="pagenum">[99]</span> +Mysteriosos ritos. São papeis encarnados, +contendo cabalisticos dizeres; são figuras de horriveis +monstros, coloridas pelas tintas mais surprehendentes, +nas disposições<img style="width: 170px; height: 281px; float: right;" alt="" src="images/fig30.png" /> mais grotescas, despertando +quasi o riso, despertando quasi o medo, a +quem não vive em graça em tal Olympo. Alli o +cosinheiro, +em humildes genuflexões +de crente, vem depôr +suas offertas, minhas offertas, +pois sou eu que pago a +festa,―offertas de laranjas, +de doces, de chá, de porco +assado e de outras iguarias.―Alli +ardem lumes mysticos; +e frequentemente, pela +noite, como agora, se queimam +pivetes, cirios rubros, +rezinas e papeis, de tudo +emanando um fumo atróz, +que invade em torvelino a +casa toda, que chega sem +respeito ao sitio onde me encontro, e me soffoca. +Paciencia! <em>Paciencia</em> é o +unico codigo de conducta +para o aventureiro que escolheu para exilio um +canto exotico, longe, muito longe do torrão onde +nasceu, e no qual a civilisação disparatada, a +feição +<span class="pagenum">[100]</span> +propria das gentes com quem lida, hão-de fatalmente +apresentar-se, dominantes.<br /> + +<br /> + +Os deuses, com quem por assim dizer vivo em +contacto, e a cuja sublime protecção, posto que +indirectamente, +me confio, são muitos, um enxame. +É todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, +amalgamados em crendices; legiões de espiritos. +Naturalmente, ha uns mais preferidos, que +se invocam no lar com mais piedoso amor; n'este +numero, segundo informações recentes que colhi, +deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua historia +maravilhosa que me proponho narrar, como puder. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso +imperio, tem uma face branca e tem uma +face preta. Na China não ha effectivamente ninguem +que não o adore, que não lhe preste no altar +domestico, +o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo +pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do +mal, que com um olho contempla os ceus e as +grandes coisas puras, e com o outro mira +O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso +imperio, tem uma face branca e tem uma +face preta. Na China não ha effectivamente ninguem +que não o adore, que não lhe preste no altar +domestico, +o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo +pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do +mal, que com um olho contempla os ceus e as +grandes coisas puras, e com o outro mira a terra +profunda até aos antros lobregos dos demonios, +adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-Man-Chen +<span class="pagenum">[101]</span> +tem uma face branca e tem outra face +preta... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ha não sei quantos mil annos, morreu não sei +aonde, uma mulher casada. O marido, não resta +duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou +depositar o caixão n'um solitario templo. Mal +imaginava elle que a defunta seguia gravida no esquife; +e mal imaginava que o menino, que se occultava +no seu ventre, ia votado a altos destinos... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, +que começou sendo notado, com justo sobresalto +do dono da quitanda, o caso que vou expôr. +Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, +quando pela manhã se dava balanço ás +contas e ao +dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o +monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, +com a competente mancha prateada, que são nada +menos do que a moeda corrente entre as almas do +outro mundo, nas suas transacções... Era prova +clarissima +<span class="pagenum">[102]</span> +de que andava por alli coisa sobrenatural,―bruxaria, +visita de phantasmas, ou <img style="width: 170px; height: 316px; float: left;" alt="" src="images/fig31.png" />outro mysterio +parecido.―Estudou-se o caso attentamente e com +bem justificaveis ancias de terror; observaram-se os +freguezes, um por um. Chegou-se por fim á +conclusão +de que, em tal enigma, andava por certo envolvido +aquelle vulto de mulher de maneiras suspeitosas, +trazendo uma creança no regaço, e chegando-se +todas as noites ao balcão para comprar um bolo, +que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava +das mãos lividas, cadavericas, não havia nada +que dizer-se; eram excellentes; +mas quem ignora que de noite +todos os bruxedos são possiveis, +e é a luz fraca do dia que seguidamente +os desmascara?... O +patrão (os tendeiros do mundo +inteiro, e desde seculos sem conto, +são homens de raro engenho), +o patrão, certa noite, conseguiu +sem ser sentido, atar um longo +fio á ponta da cabaia da fregueza; +e quando ella se ausentou, +pôz-se a largar o fio, á medida +dos seus passos. No dia seguinte, +facilmente o finorio percorreu a linha de trajecto da +<span class="pagenum">[103]</span> +mysteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no +termo do passeio, com o caixão da defunta, de que +atraz se fez mensão. Do caso, sem detenças, +correu +a dar parte ao viuvo, de quem era conhecido.<br /> + +<br /> + +Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do +esquife, e abrem-n'o, ao pasmo de todos. Scena +extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos, +fetidos, pasto de vermes,―quem já, dos que me +lêem, poisou os olhos no espectaculo d'uma tumba +escancarada?―lá está estendida a esposa, e +lá está +um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma +existencia sobrenatural embora; mas como ninguem +d'ella cuidasse, alli ficou jazendo para sempre. As +attenções, os carinhos, convergem para o menino; +o pae estende-lhe os braços, arranca-o á +desolação +d'aquelle leito, chama-o á vida, á sociedade, ao +mundo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A lenda popular completa esta curiosa historia +pela maneira que vae vêr-se. A defunta, alli amortalhada, +alli estendida sobre as tabuas, foi mãe, não +sei por que milagre―não se discutem milagres.―O +resto explica-se melhor: o mysterio psychico da maternidade, +isso que nas mães se patenteia como uma +<span class="pagenum">[104]</span>força +immensa, sem limites no affecto, sem barreiras +nos zelos, capaz de todos os arrojos, poude aninhar-se +n'aquelle corpo <img style="width: 170px; height: 239px; float: left;" alt="" src="images/fig32.png" />inerte, e imprimir vontade +áquelle +feixe de ossos. Aos primeiros vagidos da creança, o +cadaver pôz-se a contemplar os proprios seios murchos, +pendentes, vazios de seiva, roïdos pelos bichos. +O cadaver moveu-se então, galvanisado pelo amor―qualquer +cadaver de +mãe, n'aquellas condições, +faria o mesmo;―começou +a dar pontapés +no impossivel; partiu a +murros as paredes do seu +carcere; e apertando de +encontro aos ossos o filhito, +e embrulhando-se +discretamente na mortalha, +foi a correr comprar +um bolo á venda proxima. +A creança assim foi medrando, +passando os dias +n'aquelle estranho berço. Foi por isso que ficou com +uma face branca, a que voltava para a luz e para o +ceu, e com uma face preta, a que poisava na sombra, +de encontro á terra negra. De então lhe veio o +duplo condão de conhecer o bem e de conhecer o +<span class="pagenum">[105]</span> +mal, de vêr com um olho os deuses, e com um olho +os demonios. Pelo correr dos annos, foi mandarim +de modestos logarejos, pois lhe sobrava asco pelas +riquezas, pelo fausto e<img style="width: 170px; height: 255px; float: right;" alt="" src="images/fig33.png" /> pelos altos cargos. Os nobres +senhores, o proprio imperador que muito o honrava, +tremiam do seu juizo. Lia nas consciencias e lia nos +destinos. Distinguia na turba os humildes, os bons, +os opprimidos; e tambem +os impostores, os verdugos, +os infames. Premiava as +virtudes, azorragava os vicios. +Os desmandos da côrte, +a rapina dos ministros, +os mexericos das concubinas, +fôram por elle desmascarados +e punidos. Assim +viveu por longos tempos +este grotesco e sublime figurão; +assim passou por +todo o imperio, para gloria +da China e para consolação +dos offendidos. O povo punha de parte os labores +e vinha prostrar-se em saudações á +borda das estradas, +ao vêl-o atravessar cidades e campinas, galgar +os montes e descer os valles, sempre incansavel, +seguindo a largos passos, como se fosse um +<span class="pagenum">[106]</span> +procurador atarefado com demandas. Fluctuava-lhe +ao vento a longa cabaia esfarrapada, suja de lama +e de poeira dos caminhos; a mão adunca brandia +um baculo nodoso; as pupillas chammejavam iracundas; +o corpo ossudo definia-se, na magestade +façanhuda dos gestos arrogantes, nos compridos +bigodes de asiatico, pendentes como franjas, na barba +aberta em leque, chegando-lhe á barriga, e na disformidade +do rosto pintado a duas côres, branca uma +face e outra face preta. Um bello dia safou-se d'este +mundo; mas lá anda no outro, certamente, espreitando +cá para baixo, e não largando de mão o +seu +fadario.<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">1899</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c10"></a>A CARICATURA NO +JAPÃO</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">a +Camillo Pessanha e +João +Vasco.</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Grande coisa, meus senhores, é ter engenho!.. +Eu não me gabo muito d'esta prenda, confesso-o +francamente; mas tive ha pouco azo de julgar pela +propria consciencia―mercê d'um rasgo excepcional +do meu bestunto―quanto vale uma boa idea; e +conclui que a felicidade humana seria coisa facil, se +uma impulsão sagaz do espirito fôsse guiando +sempre +os nossos passos n'este mundo. E assim fica +satisfatoriamente justificada, penso eu, a +exclamação +com que enceto estas divagações, escriptas por +uma +noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na +cidade de Kobe, no Japão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[108]</span> +Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado +pelos azedumes da existencia, gasto pela longa +fricção +das coisas e dos homens, soffrendo pela dôr do +passado, pela insipidez do presente e pelas tristes +promessas do futuro! como tu, meu pobre espirito, +cahiras na quasi insania, consciente, e por isso mesmo +mais penosa, d'aquelles para quem, por mal dos +seus peccados, a vida se vae tornando toda um immenso +enfado... Morbidez de temperamento? incompetencia +ingenita para a lucta? fadiga, após os +mil baldões da sorte? pouco importa; não vale a +pena +agora desenredar esta meada. Passava, e passo +ainda, longas horas do dia junto da minha secretaria; +é este o meu officio. Alguem, que entrasse, via-me +grave, correcto, rodeado de livros e papeis, e +até, presumo,―perdôem-me a vaidade―talvez me +atribuisse uns certos ares de sabio, em cuja mente +magnos problemas se iam sublimando. Só, bem só, +entre quatro paredes discretas, desfallecia; o olhar +vago fixava-se no nada, todo o meu ser se inutilizava, +perdia-se em abstracções, desinteressado da +realidade, de mim mesmo, morto,―porque ha para +alguns uma morte percursora d'aquella que roe na +tumba a febra e põe a nú os ossos brancos do +esqueleto.―E +vae então, um bello dia, achando-me +casualmente n'um bazar de Osaka, compro uma +<span class="pagenum">[109]</span> +figurinha de barro da deusa O Fuku-san, que colloquei +sobre a mesma secretaria referida.<br /> + +<br /> + +Ora aqui está, no fim de contas, em que consiste +o meu rasgo genial; e vou dizer porquê. O +barro é trabalhado por dedos tam amorosos de artista,―um +obscurissimo artista certamente;―a pasta +impregnou-se com tanta obediencia da feição +predominante +da alma japoneza,―naturalismo humoristico, +caricatural;―que a deusasinha patusca que +aqui tenho a meu lado, uma bugiganga de tres pollegadas +de altura, quanto muito, é toda ella uma +gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que +a tristeza, borboleta negra das trevas, foge espavorida +da minha convivencia; poiso os olhos na deusa, +e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o +homem mais divertido d'este mundo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Antes de ir mais longe na palestra, justo é que +me detenha e diga em poucas phrases quem é O Fuku-san. +Divindade popular, patrona da boa fortuna e da +alegria, representa na genesis japonica um papel de +subida importancia incontestavel. Izagani e Izanami, +os deuses iniciaes e creadores, formaram o Japão e +<span class="pagenum">[110]</span> +tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do sol, e outros +filhos, todos com maravilhosos attributos. Amaterasu +residia no ceu, alumiando a terra; delicioso +officio; mas tamanhas affrontas soffreu de um seu +irmão, o deus da lua por signal, que se amuou e +decidiu esconder-se, escolhendo para retiro uma +caverna, aonde se metteu, vedando a entrada com +uma enorme pedra; a terra, é obvio, achou-se ás +escuras de repente. Os deuses, apavorados,―o caso +não era para menos,―recolheram-se em conselho, e +resolveram o seguinte, depois de larga discussão: +fôram postar-se todos bem junto da caverna; Takadjira, +o deus de enormes braços, ficou junto da entrada, +fazendo sentinella; O Fuku-san, a mais divertida +das patuscas, poz-se a cantar modinhas; ou, +quando não cantava, tocava n'uma gaita de bambu; +ou, quando não tocava, bailava minuetes, acompanhando +a dança de mil tregeitos faceciosos. Tanta +pilheria teve a figurona, que a deusa Amaterasu, no +seu antro, começou a interessar-se na galhofa, a rir +ás furtadellas,―ou não fosse ella japoneza!―e +arredou +um pouco, para o lado, o pedregulho, alongou +um nada a cabecita para fóra, e assim se pôz a +gozar +melhor da brincadeira. Então Takadjira, n'um +relance―zás!―caiu-lhe em cima, lançou-lhe os +longos +braços ao pescoço, puxou-a para si, foi +á força +<span class="pagenum"><a name="p111">[111]</a></span> +poisal-a no seu throno... e a terra de novo continuou +a ser alumiada pelo sol!<br /> + +<br /> + +A arte popular veste a deusa O Fuku-san em +bellos trajos da côrte, dos velhos tempos, setins rojantes, +brancos e escarlates, e molda-a nos ultra-comicos +contornos d'uma japonezita enormemente +obesa, toda ella refolhos de gordura, banhas de pescoço, +de collo, de seios, de barriga, redondezas pasmosas +de quadris, e mãos e pés papudos. A cara, a +immensa caraça, de lua cheia, é um poema completo +de monstruosidade triumphal e hilariante: faces +prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; +um narizito que mal se vê, rombo, abatatado, +como que calcado para dentro, a golpes de +martello; á fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se +dois bandós de cabellos de azeviche; fôram +rapadas á navalha as sobrancelhas, segundo o uso +classico; os olhinhos piscos, matreiros e gaiatos, reluzem +pelas fendas estreitas das palpebras carnudas; +e a bocca, a boquinha, em forma de cereja, acarminada, +sorri em curvas, em prégas, em covinhas impagaveis... +Mas não ha palavras que descrevam, +nem de longe, a expressão de toda a figurinha―porque +vae alem da nossa comprehensão de occidentaes,―no +que d'ella irradia de jocosidade perenne, +de beatifico comprazimento, de vagos tiques de <a href="#e10">inconsciencia</a> +<span class="pagenum">[112]</span> +infantil, de imbecilidade, de malicia, de +perversão; um indefinivel conjuncto de não sei +que +de imminentemente pueril, satanico e grotesco, todavia +gracioso, que é no fim de contas uma das +feições mais caracteristicas e mais emocionantes +da +arte inteira japoneza. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 170px; height: 329px; float: left;" alt="" src="images/fig34.png" />Ensina-se nos livros que por +meados do nosso seculo XII, o +pintor Kakuyu, que era bonzo +buddhista, iniciou no Japão a +pintura caricatural. Pois seja assim; +concedo ao frade o merito +de ter traduzido pelo pincel, +por vez primeira, o humorismo +d'esta gente. Mas tal humorismo, +como feição moral, nasceu +com o mesmo povo, é-lhe um +fector do sentimento; e cada japonez +é, e foi, e será, um caricaturista. +Quando se estuda a +lenda indigena japoneza, no vasto +reportorio das suas fabulas, que eu penso representarem +<span class="pagenum">[113]</span> +sempre o mais remoto documento do feitio +estetico, da individualidade +psychica, d'uma qualquer +grande familia humana, depara-se na scena com +a mais curiosa fauna fallante―macacos, caranguejos, +raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios +bichos;―no apologo grego, por exemplo, os brutos +são doutores, discursam como philosophos e como +moralistas; no apologo japonez, menos profundo, +mas talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em +mascarar-se vestindo <em>kimonos</em> e +enfiando as patas +nas sandalias, faz caretas, galhofa, dança e ri, em +desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troça +a todos os ridiculos.<br /> + +<br /> + +Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, +e attingem uma feição independente, +inconfundivel, +a caricatura, como que traduzindo uma recordação +da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo, +não só na pintura, mas nas multiplices +affirmações +do engenho―esculptura, ornamentação da +porcellana, da faiança, dos charões, dos bronzes, +em +tudo.―Graças ao pincel e graças ao buril, as +rãs +decidem-se a vir tocar guitarra para a rua; os pardaes +offerecem banquetes aos seus intimos, servidos +em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de +rapozas, levando a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, +que a espera no seu lar; pelo dorso de Hotei, +<span class="pagenum">[114]</span> +deus da bondade, vão trepando os garotos, e um +mais atrevido vae poisar-se-lhe em cima da careca; +os guerreiros cobrem os rostos com mascaras de +um comico façanhudo indescriptivel. Hokusai, o +grande mestre da escola vulgar em pintura, delicia-se +em desenhar cegonhas d'um só traço repentino, +maravilhosos gatafunhos, palpitantes de +observação +e de verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, +a montanha sagrada, contorna-a vista atravez de +uma rede, que um pescador tira do mar; e atravez +de uma teia de aranha; e entre o A das pernas +nuas d'um operario tanoeiro, que do alto de uma +dorna ajusta á força de malho as aduellas; e +reflectida +no chá da taça que um esfarrapado mendigo +leva á bocca. Hokusai, em 1804, durante certa festividade +n'um templo, manda estender no solo uma +folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados +de grandeza; vem mais um barril com agua, +outro barril com tinta preta, uns oitenta litros d'ella, +e mais duas enormes vassouras e tres vassouras +mais pequenas; entra o mestre, empunha uma vassoura +embebida na tinta, traça sobre o papel curvas +gigantes; no fim de alguns minutos termina a sua +obra, que só é comprehendida quando alguns dos<img style="width: 300px; height: 476px; float: right;" alt="" src="images/fig35.png" /> +milhares dos assistentes se lembram de galgar ao +telhado do templo: a distancia e do alto, o immenso +<span class="pagenum">[115]</span> +quadro representa um admiravel busto de Daruma, +o grande apostolo buddhista. Por aquella mesma +epocha, Hokusai pintava sobre um bago de arroz +um grupo de aves, encantador, mas só distincto +com a ajuda de uma lupa.<br /> + +<br /> + +É esta caricatura, +melhor +será talvez dizer―este +humorismo, que o +japonez exerce com habilidade +unica, magistralmente, +prodigiosamente; +é por ella, é por elle, pelo +segredo dos exaggeros, +pelo arrojo da execução, +que alcança intenções flagrantes +no traço, uma +alma quasi na paizagem, +um conceito na arvore, +no ramo em flôr, no simples +contorno de um rochedo... +Na pintura japoneza, +por exemplo, um pargo, um caranguejo, uma +lagosta, o figurão zoologico mais lorpa que possa +imaginar-se, vivem na tela, isto é, accusam uma +vontade, uma intenção, um sentimento, como a +fome, como o medo, como o cio. Não se diga que +<span class="pagenum">[116]</span> +é a fiel reproducção do modelo que +dá isto,―a photographia +d'um caranguejo não palpitaria de vida;―é +pelo contrario o exaggero propositado de certas +linhas, o exercicio de uma arte mysteriosa, que +naturalmente se inspira no perfeito conhecimento +estructural e sentimental do bicho, animalizando de +certo modo o artista e humanizando o bruto, e permittindo +caprichos descommunaes que o observador +não descrimina, que o levam a exclamar, não sei +por que remotas reminiscencias <img style="width: 300px; height: 502px; float: left;" alt="" src="images/fig36.png" />ancestraes de subito +recordadas:―«aquelle linguado acha-se triste... +aquelle +camarão arde em ciumes... +aquella lombriga +está-se a rir...―»<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 310px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +O humorismo japonez +não se limita ás artes; divulga-se +nos costumes do +povo, nos seus habitos; +quando nos intromettemos +na intimidade indigena, +ainda o espectaculo de +inesperados disparates, de +<span class="pagenum">[117]</span> +requintadas extravagancias, vem ferir a nossa pupilla +e prolongar-nos o espanto. Eu não pretendo +escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente, +aponto ao acaso alguns dos que me occorrem.<br /> + +<br /> + +Pois não são disparatadas, caricaturaes, estas +mangas prodigiosamente amplas dos vestidos, e na +propria fazenda a estupenda polychromia dos matizes? +E estas peanhas de madeira, á laia de calçado, +onde se poisam os pés nús +dos japonezes? E estes +penteados enormes das mulheres, transformando-lhes +as cabeças em estupendos monumentos ambulantes? +E o <em>obi</em>, a cinta de seda que cinge +as ancas +da <em>musumé</em> em voltas +sobrepostas e rematadas n'um +laço colossal? E o costume das casadas, quando +em signal de desapêgo ás vaidades d'este mundo, se +desfeam rapando as sobrancelhas á navalha, e envernizando +de +preto a fila +dos dentinhos? +A casa +de papel, +o jardim de +Lilliput, a +vida passada +de joelhos +sobre +<span class="pagenum">[118]</span> +a esteira, a refeição servida em +taçasinhas e apprehendida +nas pontas dos pausinhos, a arte domestica +da preparação do chá e dos ramos de +flores, a dança, +a musica, a cama improvisada a um canto com duas +colchas de seda e uma boceta de charão por travesseiro, +as mil saudações trocadas entre duas pessoas +que se encontram, todos os aspectos da vida indigena +emfim, intimos, sociaes,<img style="width: 400px; height: 282px; float: right;" alt="" src="images/fig37.png" /> +brincadeira, como se o japonez tivesse vindo ao +mundo para se rir de tudo são surprezas, extravagancias, +excepções unicas, simples pretextos para em que +se occupa, e para +se rir de si primeiro do que de tudo... Chega-se sem +muita difficuldade a comprehender porque, nas +relações +de convivio de um para outro, de preferencia +á palavra, de preferencia ao gesto, uma maneira ha +mais eloquente de traduzir o pensamento:―a gargalhada!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O proprio japonez é uma caricatura. Não se +espantem da asserção os que tiverem a pachorra +de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio +deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, +formou n'um estado de alma galhofeiro esta +terra, sem systema, sem programma estudado e sem +<span class="pagenum">[119]</span> +pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos +comicos caprichos que a phantasia lhe ditava e a +mão omnipotente ia executando, ferramenta do officio +em acção, escopro ou broxa, +afeiçoando, retocando, +caricaturizando, o que do chaos ia surdindo +á flôr das aguas. Depois, concluida a obra, devia +ter soltado uma gargalhada retumbante!...<br /> + +<br /> + +<img style="width: 400px; height: 412px; float: right;" alt="" src="images/fig38.png" />Ora desde remotas eras +até hoje, pratica-se no +Japão um exercicio de lucta, um +<em>sport</em> (como se diz +agora) muito em voga, e do especial agrado d'esta +gente; é o espectaculo favorito durante determinadas +epochas do anno. Limita-se no campo um espaço com +esteiras e bambus, e ao centro dispõe-se uma pequena +elevação em forma circular; içam-se +galhardetes e bandeiras, +rufa o tambor, +e o povo afflue +por centenas de curiosos, +compra o seu +bilhete e toma poiso; +dois homens, quasi +nús, combatem corpo +a corpo, como +na arena grega, até +que um d'elles derruba +o companheiro +e é proclamado vencedor. +<span class="pagenum">[120]</span> +Estes luctadores de profissão são +escolhidos +d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e é na +provincia de Tosa que especialmente se recrutam. +Não são homens, são caricaturas de +homens, são +monstros, enormes, valendo cada um em peso e em +dimensões por seis japonezitos ordinarios. Não se +imagina, nem podem descrever-se, as caras, os carões +de taes sujeitos; são mascaras disformes, caraças +imberbes, olhinhos ferinos repuchados para +a +testa, queixada vigorosa e dentuça arreganhada, +orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e +um risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de +creança e de riso de demonio; nem ha palavras que +expliquem a amplidão dos vultos, a obesidade das +carnes, o braço roliço quasi feminino, os seios +erectos, +o enorme ventre impando, lenta a marcha e +ondulante, de urso da Siberia em liberdade. Asseguram +estudiosos que estes monstros de Tosa são +os ultimos restos, preciosos modelos vivos, da raça +prehistorica japoneza... Pode assim ser; no japonezito +de hoje, embora geralmente franzino, miudinho, +delicado, não repugna acreditar que alguma +coisa haja de commum com os luctadores de Tosa: +como que laivos de familia, a vaga semelhança com +um avô... a não querermos mais longe ainda ir +procurar-lhe affinidades, n'um remoto parentesco +<span class="pagenum">[121]</span> +com a deusa O-Fuku-san, que continua a rir-se para +mim, e eu a rir-me para ella...<br /> + +<br /> + +Relanceêmos a chusma, nos theatros, nas feiras, +nas romarias, nos<img style="width: 300px; height: 569px; float: right;" alt="" src="images/fig39.png" /> bazares? Pode dizer-se, em geral, +que o typo do japonez, da sua femea, e mais accentuadamente +ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos +anões, ou nos albinos, ou nos côxos, ou nos +corcundas, +ou nos leprosos, ou nos que têem um lobinho, ou nos +que têem o nariz roido, em todos aquelles em fim em +que um defeito, uma tara, sobresae, é caricatural +supinamente, +comico a ponto de +nos fazer morrer de rir ás gargalhadas!... +Ah, maganões! +vocês, quando nos deram as +imagens dos seus deuses, dos +seus genios do lar: uns pansudos, +como odres; outros +esqueleticos, macrabos; uns +pachorrentamente joviaes, +outros terriveis, despedindo +raios sobre a terra; vocês retrataram-se +a si mesmos, segurando +com uma das mãos +o pincel e com a outra o espelhinho +onde se viam, maganões!... +Especialisando, +<span class="pagenum">[122]</span> +da multidão das ruas, essa figurinha em miniatura +que tão irresistivelmente captiva as +attenções do estrangeiro, +toda ella matizes, perfumes, frescura, gentileza, +a figurinha da <em>musumé</em>, da +rapariga, podemos +ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura +mais travessa, a chimera humana mais deliciosa, em +que jámais olhos de viajante se poisaram!...<br /> + +<br /> + +Profundar o enygma do feitio moral da tribu é +impossivel. Apenas conhecemos vagamente que a +vida intima desliza serena e pueril, sem ralhos, sem +exasperos, em culturas de arbustos, em +contemplações +dos astros, em banhos quentes, em esmeros +junto do espelho, em brinquedos com as creanças, +em debandadas pelos campos, em libações de +chá, +em jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira, +em sonecas tranquillas debaixo do verde mosquiteiro +protector... Mas d'esta mesma gente expludem +tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos +assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios +duplos, por desespero de amor,―elle e ella cingidos +n'um derradeiro abraço;―e essa horrivel sede +de sangue, o homem transformado em fera, trucidando +tudo vivo que encontra, estado de loucura +conhecido entre os estrangeiros do Oriente pela +denominação +de <em>amock</em>, palavra malaia ou +javaneza. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A tribu parece ter sido feita de +encommenda +para o paiz exotico que lhe foi dado em patrimonio. +Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor se +comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, +com as suas delicadezas, com as suas graciosidades, +com os seus caprichos, com os seus disparates; +manifestações multiplices de um +caracter +particularissimo de origem, mas no qual a influencia +muito especial do meio laborou tambem intensamente.<br /> + +<br /> + +Comparando os aspectos normaes, comezinhos, +que se desdobram por este mundo fóra, com outros +aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com +a disposição commum das coisas, pergunto eu se o +termo―disparate,―se o termo―caricatura,―são +permittidos, julgando a obra da omnipotente +creação? +Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um +pinheiro caricatural? Se permittidos são, se ha tal +ilheo, se ha tal pinheiro, então não se pode +imaginar +coisa mais disparatada, mais caricatural, do que +este archipelago, já disparatado de nascença, +emergindo +a pique e como por encanto, do seio das aguas +mais profundas do oceano, tenue, rendilhado como +<span class="pagenum">[124]</span> +uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos +por mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido +por tremendos cyclones, invadido por vezes +pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera +geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no +abysmo, sem que por tal se espantem muito os sabios!... +Tal é o imperio do Japão.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 400px; height: 265px; float: left;" alt="" src="images/fig40.png" />A paisagem +extravagante, +inverosimil, +inacreditavel, +das porcellanas +e +charões, hoje +divulgada +em toda +a parte, é com effeito a paizagem real d'este +Japão. +Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas, +torrentes espumantes, ribeiras dormentes, +valles profundos, mares interiores salpicados de ilhas +e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosissimas, +reunido em grupos incongruentes e projectado +em fundos de ceu estupendamente coloridos, eis o +que os olhos abrangem n'um relance.<br /> + +<br /> + +Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas +<span class="pagenum">[125]</span> +especies enormes) vestem as encostas, trepam +pelas ribanceiras acima, até irem coroar os ultimos +pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus +gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão +allucinações áquelle que se aventura +em devassar o +seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de +<em>momiji</em>; +em novembro, a sua tenue folhagem digitada +passa do verde claro ao escarlate; o scenario adquire +assim deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se +a gente se achasse de repente pisando o solo de +Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre +uma pedra á flôr das aguas; germinou o pinheiro, +a rede das raizes abraça-se ao granito, e +ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido +pelos annos e pelas intemperies, reflectindo no espelho +glauco a sua eterna cabelleira de verdura; ha +arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma +estranha, celebres como heroes, que são visitadas +por uma multidão de peregrinos. As ameixieiras, as +cerejeiras, abundam; pela primavera, cobrem-se de +florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se +viu em parte alguma; mas não dão fructo, as +trapaceiras.<br /> + +<br /> + +Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. +Trepa, por onde pode, a <em>asagao</em>; e +abre á alvorada, +por curtas horas, as suas frescas campanulas, +<span class="pagenum">[126]</span> +de qualquer côr, porque as variedades não se +contam, são milhares. Desabrocha a peonia, enorme, +paradoxal. E enfileiram as chrysanthemas, a flôr nacional, +sob tendas que as abrigam do sol, podendo +lembrar cortezãs em exposição nos +bairros de prazer, +pela extravagancia das côres e dos feitios, que +recordam a confusão polychroma dos vestidos e dos +penteados das mulheres; mas que realmente se assemelham +a enormes actineas, monstros dos mares, +multiplicando-se em mil tentaculos contorcidos, brancos, +amarellos, rosados ou sanguineos.<br /> + +<br /> + +Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos +de corvos, os <em>karasu</em>, escarninhos, +voando e rindo +ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas, nunca +vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante +o ruido das cigarras, dos grilos, de outros bichos. +Noites ha, pelo estio, junto ás ribeiras, em que +uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades, +motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam +peixes de oiro, com os olhos a estoirarem, +com as caudas esfarrapadas e rojantes, como se fôssem +longos capotes de mendigos. Junto da casa de +papel toma o sol, cantarola o gallo anão, do tamanho +d'uma pomba; e á porta assoma o gato indigena, +esqueletico, rabugento, sem rabo... porque +todos os gatos no Japão nascem sem rabo; ou +<span class="pagenum">[127]</span> +é o cão que ladra, o +<em>chin</em>, verdadeira caricatura de +cão, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das +orbitas, sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado +de qualquer monstro de epochas remotas, +hoje extincto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 400px; height: 272px; float: right;" alt="" src="images/fig41.png" />De sorte +que todo +este Nippon,―arte, +povo, paizagem, +planta +e bicho,―é +uma deliciosa +mascarada. Como +fazer sentir isto a quem o não conhece, depois +de ter escripto o que escrevi, e de concluir que nada +escrevi do que me vae no pensamento? Olhem: fixem +um espelho espherico, ou cylindrico; o aspecto +das formas reflectidas é uma interminavel surpreza +hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas; +pois tal é o aspecto do Japão... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[128]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Todos sabem como a caricatura, pelo desenho +e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia +decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam +a attenção e imperam no espirito com intensidades +unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? +Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a +ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza +um defeito, aponta um ridiculo, sublinha +uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos, +passam desapercebidas ou esquecem brevemente; +o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a +estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato +d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; +amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi +relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, +uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico +(e mais do que isso) do individuo. Seja como fôr e +por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura +representa +um meio altamente poderoso de impressionar +os homens +Todos sabem como a caricatura, pelo desenho +e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia +decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam +a attenção e imperam no espirito com intensidades +unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? +Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a +ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza +um defeito, aponta um ridiculo, sublinha +uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos, +passam desapercebidas ou esquecem brevemente; +o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a +estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato +d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; +amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi +relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, +uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico +(e mais do que isso) do individuo. Seja como fôr e +por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura +representa +um meio altamente poderoso de impressionar +os homens; estude-se-lhe os effeitos, por +exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale +pela mais possante picareta demolidora das +instituições, +<span class="pagenum">[129]</span> +dos thronos e das crenças, +rasgando a estrada +nova por onde investem os partidos avançados.<br /> + +<br /> + +Estando isto assente, imaginem agora um paquete, +despejando em<img style="width: 400px; height: 283px; float: right;" alt="" src="images/fig42.png" /> qualquer caes +japonez um +bando de loiros estrangeiros. Elles todos, os lorpas, +têem nos rostos essa feição anodina das +cabeças, que +é uma das formas de belleza mais frequentes nas +raças europeas; e a julgar pelo olho azul, de porcellana, +sem +expressão, +sem alma, +póde admittir-se +que lá +dentro da +casca não +ha senão +pevides em +guisa de +miolos.<br /> + +<br /> + +Mãos rudes, vermelhas, cabelludas, pés +enormes;―estigmas +de um temperamento avesso a coisas de +arte e a todas as delicadezas do sentir.―Emparelham +pelas manifestações do gosto: vestidos todos +de alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos +amarellos e ramosinho na carcela. Como entidades +prestantes, embora talvez não prestem para nada, +<span class="pagenum"><a name="p130">[130]</a></span> +uns são sabios, outros são navegadores, outros +são +diplomatas, outros possuem manhas maravilhosas +de balcão; mas―coitados!―em todos se acoberta +o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, +nascidos da podridão da descrença, do egoismo, +da inveja, da cubiça e da misanthropia; e na +face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de +que enfermaram. Alguns dão o braço a outros +sujeitos +sem bigode, com grandes mãos <a href="#e11">vermelhas</a> +igualmente, e enormes pés calçando sapatos +amarellos; +usam bengala, collarinho alto de bretanha, +gravata, tunicas em forma de campanula, uma alcofa +á cabeça, cheia de hervas, de aves e de +fitas:―são +as damas―.<br /> + +<br /> + +Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso +e de surpreza no meio exotico entre todos, requintadamente +artistico, caricatural e sorridente, +que é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, +allucinados pela iniciação imposta, riem tambem, +e +julgam tambem sentir a graciosidade indigena e a +gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as estradas +e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas +numerosas a visitar os logares celebres, encorporam-se +nas romarias, entram nos templos e entram +nos theatros, bebem chá japonez, e até, +burlescamente +ajoelhados, engolem o arroz cosido e +<span class="pagenum">[131]</span> +deliciam-se no peixe cru que as creadinhas vão servindo.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 330px; float: right;" alt="" src="images/fig43.png" />Oh, a paisagem japoneza! Como ella +é encantadora +e fresca, estranha, paradisiaca!... e como aqui +o pensamento se dilata, n'um longo divagar sereno e +amoroso, tão distincto das +preocupações sombrias +que alem, na Europa, azedam a existencia!... Mas +não sei quê da alma +asiatica, subtilmente +motejador e sarcastico, +subtilmente intolerante, +paira aqui, emana +da coloração e da +forma das coisas, do +grito dos animaes, do +gesto e voz da gente; +não se define, mas +existe, hostilisando em +tudo o pobre intruso. +É como que uma +exhortação continua e impertinente do Buddha e +dos +deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:―«Vae-te, +volta á terra dos loiros; contempla os teus +deuses, visita os teus templos, recrea-te nos teus salões, +bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz +este solo, que não é teu, que te detesta; e onde, +<span class="pagenum">[132]</span> +para assimilares a harmonia da creação e o +sentimento +nacional, precisas de uma fluidez de espirito +e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...»―<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 410px; float: left;" alt="" src="images/fig44.png" />Cedo ou tarde, +ámanhã, em dois mezes, em dois +annos, o homem loiro enfastia-se, compenetra-se da +fatalidade dos destinos, que crearam o Japão para +os japonezes. Uns desertam, e fazem n'isso muito +bem; outros ficam. Nos que ficam, o desgosto pela +terra do exilio enraiza, alastra como uma lepra corrosiva.<br /> + +<br /> + +O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente +em odio, um odio desesperado, +sem treguas; +explicavel pela maior vibratilidade +dos nervos +no sexo, pela vida ociosa, +e tambem, e principalmente, +pelo penoso +confronto com a mulher +indigena, cujo fresco perfil +e requintado tacto femenil +são uma provocação +terrivel aos seus meritos. +A mascarada eterna +japoneza, a despreocupação, +<span class="pagenum">[133]</span> +o riso chronico, os traços +caricaturaes de +todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,―«ijin, +ijin!» estrangeiro, estrangeiro!―tudo irrita, +bellisca redunda por fim n'um +supplicio insuportavel, +que nêm respeita o lar, entrando mesmo pelas janellas +dentro como um exame de mosquitos. Triste lar, +tantas vezes!... Junto da familia do sr. Fulano, seja +qual for a sua nacionalidade e situação, contae +como +provavel um hospede permanente,―o aborrecimento.―A +embriaguez, a dissipação, a quebra fraudulenta, +o roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, +todos os desmandos de uma sociedade incongruente, +succedem-se nas pequenas colonias europeas do Japão +com uma triste frequencia, eloquentissima!...<br /> + +<br /> + +<div class="signature">1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c11"></a>DOIS CEMITERIOS JAPONEZES</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">A +V. Almeida d'Eça</span></div> + +<br /> + +<br /> + +Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e +de Anno-Bom, encontrei-me um bello dia, sem bem +saber porque, vagabundeando no cemiterio dos europeus +em Kobe, o velho. O velho, porque ha um +cemiterio novo que se estreou ha pouco tempo, e +onde até agora se reuniu coisa de meia duzia de inquilinos; +está este situado longe da cidade, n'um +declive de collina, amplo, com bellos horisontes em +redor. O velho, de acanhadas dimensões, enchera-se +de moradores em uns trinta annos de exercicio, e +foi por tal razão posto de parte.<br /> + +<br /> + +O velho cemiterio fica em plena cidade, para as +<span class="pagenum">[135]</span> +bandas de oeste e cerca dos edificios da alfandega, +quando começa um bairro sujo, de fabricas, de armazens, +que povôa uma misera ralé de carregadores +e de mendigos. Encerrado entre as altas paredes +de tijolo vermelho de enormes depositos de +mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, +com pouca luz, humido e ermo, é bem triste este +canto; até, se não me illudo, os vetustos +pinheiros +que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e +estorcimentos convulsos das ramadas, alguma coisa +da desolação que aqui impera sobre tudo.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 288px;" alt="" src="images/fig45.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[136]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, +sobre a relva do parque publico, a chusma dos caixeiros―inglezes, +americanos, allemães,―a chusma +cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, +berra, corre, esbraceja, espernea, joga o +<em>tennis</em>, +o <em>fout-ball</em>. Mais alem, pelas ruas +de trafego indigena, +presumo magna enchente, bazares em festa, +povo em barda, entre japonezes e estrangeiros. +D'estes ultimos, são especialmente as damas que +mais se alvoroçam com a proximidade do +<em>christmas +day</em>, e que afanosamente percorrem a cidade, +em carruagens, em <em>jinrikshas</em>, a +pé―a pés... e +que pés!...―enfiando pelas lojas, mercadejando +bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil +frivolidades que vão constituir os fructos d'essas +estupendas arvores de Natal, préstes a surgirem +nos salões. Pobre natal! N'estes paizes exoticos, +de ganho e de aventura, as festas particulares da +familia europea perdem em regra a sua feição de +severidade tocante e amorosa, para se transformarem +n'um simples <em>sport</em>, irritante, +massador,―fallo +por mim,―mero pretexto para ostentações, +dissipações +<span class="pagenum">[137]</span> +e mexericos, a caterva de todos os +symptomas +da morbidez do exilio. Para o povo japonez, o +impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa +principal de cada anno, a unica para muitos; religiosa, +emocionando a alma indigena, levando a +turba aos templos a dar graças aos deuses pelas +prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: +intima, de familia, preceituando o doce dever +das saudações aos parentes e aos amigos; ninguem +trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares +e a casa toda; por isto, com louvavel antecipação +se compram nos bazares os pequeninos nadas que +vão ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte +de +fazenda, e a flôr para o cabello, coisas de que +não +prescinde a mais modesta familia de lavrador ou +de operario, n'aquelle dia abençoado. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No sitio onde me encontro a quietação +é plena, +em contraste com o que palpita lá por fóra. +É positivo +que os mortos não festejam o Natal... nem +eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos +annos de bohemia, sem lar e sem familia. Pesa +aqui, no cemiterio, mais duramente por certo do +que em outro logar, a aspereza de um triste dia de +<span class="pagenum">[138]</span> +inverno, sem sol, sombrio e humido; paira no ar +uma poeira levissima de neve, que mal se vê, mas +fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando +em quando, uma rajada fresca sacode a rama dos +pinheiros, corta o silencio então um vago murmurio +de folhagem,―da folhagem sem duvida, mas que +acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos +uns com os outros, de cova para cova...―<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 402px; float: left;" alt="" src="images/fig46.png" />Vou vagueando, com passos e em +espirito. Estou +só, ou quasi só; ha pouco dei fé, por +entre as sepulturas, +de uma velha japoneza, guarda do cemiterio, +que ia apanhando do chão alguns cavacos. +Vou lendo os epitaphios, +estudando a botanica tumular +nos arbustos plantados +e nos musgos espontaneos, +lançando um +olhar condoïdo ás corôas +murchas, que aqui e ali +se encostam ao marmore +das lapidas, pobres corôas +queimadas pelo sol, rasgadas +pelo vento, roïdas +pelos vermes, polluidas +pelo pó, e em pó se desfazendo... +N'este gremio +<span class="pagenum">[139]</span> +de mortos abundam os padres e os missionarios de +todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos +dos mares do Japão, capitães, tripulantes de +barcos; +gente de negocio; e a mais uns pobres nomes +obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos +nem historia. Aqui deparo agora com um nome de +portuguez, Felisberto da Cunha, da Figueira, que +morreu com quarenta annos, e a esposa (uma japoneza) +lhe mandou erigir o mausuleo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me +em frente do monumento tumular dos marinheiros +francezes assassinados em Sakai. Lugubre +historia; e aqui, n'este Japão da grande hospitalidade +e da notoria cortezia, impressiona por estranha +e quasi inverosimil. Pois foi bem verdadeira. +Ha mais de trinta annos, por um dia de março, +uma lancha a vapor da corveta +<em>Dupleix</em> aguardava +na praia de Sakai a volta de alguns officiaes, que +haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa +casualmente um troço de tropas do Mikado, +<em>samurais</em> +da provincia de Tosa; e sem provocação, sem +um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros, +matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, +<span class="pagenum">[140]</span> +d'estes miseros camaradas (porque eu sou como +elles marinheiro), que agora contemplo.<br /> + +<br /> + +Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta +cruz; e aos lados, cinco por banda, e o aspirante á +frente, como se estivessem na tolda da corveta em +formatura, estão os onze corpos, estão as onze +lages, +aquelles desfeitos em pó seguramente, estas ennegrecidas +pelo tempo e pela lepra dos lichens resequidos... +pois não se esqueça que ha mais de +trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre +a cruz leio o seguinte:―«<em>À la +memoire des +onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai le 8 +mars 1868. Requiescant in +pace.</em>»―<em>Massacrés!</em> +massacrados! Como isto é destonante n'este solo, +no <em>Dai-Nippon</em> das paizagens amorosas +e do sorriso +perenne nos rostos dos que passam!...<br /> + +<br /> + +Vou lendo seguidamente as inscripções dos +tumulos:―«<em>Ci +git Guillon, Charles Pierre, aspirant +de 1<sup>ère</sup> classe, agé de 22 +ans. Priez pour +lui.―Ci +git Boulard, Vincent, matelot de 3<sup>ème</sup> +classe, +agé +de 21 ans. Priez pour lui.―Ci git Nonail, Jean +Mathurin, matelot de 3<sup>eme</sup> classe, agé +de 25 ans. +Priez pour lui.―Ci git Condette, François +Désire, +matelot de 3<sup>ème</sup> classe, +agé de 24 ans. Priez +pour +lui.―Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.<sup>r</sup> +m.<sup>tre</sup> de manoeuv.<sup>re</sup> de 1<sup>ere</sup> +classe, agé +de 29 ans. +<span class="pagenum">[141]</span> +Priez pour lui.―Ci git Savie, Jacques, matelot de +3<sup>eme</sup> +classe, agé 23 ans. Priez pour lui.―Ci git +Humet, Arséne Florimont, matelot +de 3<sup>eme</sup> classe, +agé de 24 ans. Priez pour lui.―Ci git Langenais, +Auguste Louis, matelot de 3<sup>eme</sup> classe, +agé de 22 +ans. Priez pour lui.―Ci git Bobes, Lazare Marie, +matelot de 3<sup>eme</sup> classe, agé de 22 +ans. Priez +pour +lui.―Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de +2<sup>e</sup> classe, agé de 26 ans. Priez pour +lui.―Ci git +Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3<sup>eme</sup> +classe, agé de 24 ans. Priez pour +lui.</em>»―A ladainha +é longa, como vêem; e bem commovedora, quando +se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illusões, +de amores, de esperanças. O mais velho do +grupo teria hoje os seus sessenta e dois annos, se +fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moços +poderiam muito bem gozar ainda agora da doce +alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro: +o aspirante vestiria provavelmente a sua farda +de capitão de mar e guerra, chapada de veneras; e +os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia +patria, em descanço, a vêrem o mar por um +oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara +cafila de soldados japonezes!...<br /> + +<br /> + +A gente póde recompôr em pensamento a scena +da praia de Sakai. Uns bellos loiros, rosados como +<span class="pagenum">[142]</span> +pecegos, robustos como jovens Hercules. Riem, +brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando +de irmãos, todos da mesma idade, tratando-se por +tu, passando de mão em mão a bolsa de tabaco, e +até de bocca para bocca o cachimbo de gesso +fumegante.―«Olha, +Jacques! Repara, Gabriel!»―E +batem palmadas nas costas uns dos outros, e +brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, +em grandes gestos rudes, para os recortes estranhos +da paisagem, para os contorcidos pinheiros que rendilham +o horisonte, para as ameixeeiras em pasmosas +florescencias, para as casinhas de madeira e de +papel, para as <em>musumés</em> em +sedas, seductoras... +exoticos, captivantes aspectos de um paiz maravilhoso, +que abre agora as suas portas á curiosidade +do mundo occidental, deslumbrando a imaginação +juvenil d'estes pobres francezes, habituados á monotonia +do azul das longas viagens fadigosas. Consta +que os garotitos de Sakai iam affluindo á praia, e +quedavam-se em volta dos marujos, bocca aberta, +espantados dos seus modos, do uniforme, das suas +feições de raça branca; e que estes +com as creanças +partilharam algum pão das suas provisões. De +repente, surde de +algures um bando petulante, irrequieto, +multicôr pelas bandeiras desfraldadas e pelas +sedas das cabaias, e reluzente pelas armas que +<span class="pagenum">[143]</span> +empunha; são <em>samurais</em> do +imperio; o<img style="width: 300px; height: 444px; float: right;" alt="" src="images/fig47.png" /> quadro é +deveras +interessante; os marujitos, surpresos e attentos, +são todos olhos... olhos que em breve se +cerram, quando os +corpos caem inertes +sobre a areia, +após uma descarga +de metralha... Ah! +barbara cafila de +soldados japonezes!...<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 315px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +No meu espirito +vagabundo, depois +da ferocissima scena +de matança, é +agora a sorte d'estes +<em>samurais</em> que +relembro, e me +commove. Commovem-me assassinos? Sim; os annos +fôram correndo sobre os factos e esfriaram os +rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com +sympathia, mesmo nos seus transes sanguinarios, +a breve lucta de resistencia que o velho Nippon feudal, +<span class="pagenum">[144]</span> +embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve +contra aquelles que vinham despertal-o do seu sonho; +e para o bando de Sakai, soldados todos, pertencendo +á nobre casta dos guerreiros, seria realmente +excepção estranha se não fulgurassem +no +seu animo, remindo-os do opprobrio, as virtudes da +casta―a extrema dedicação aos chefes, o +sacrificio +de si proprios pela patria, e o amor por essa patria +guindado á intensidade de paixão, mais alto +ainda, +aos paroxismos do delirio.―<br /> + +<br /> + +A historia plenamente nos explica o odio que a +massa dos guerreiros ia nutrindo então pelos estranhos. +O shogun, generalissimo do imperador, com +residencia em Yedo, assignára por conta propria tratados +de amisade e de commercio com a America +e com a Europa, e os estrangeiros, em Yokohama, +pisavam já afoitamente o solo japonez. O shogun +violava por este modo o dogma sagrado do imperio, +que era o isolamento absoluto, a exclusão do +homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse +pelo mundo, o goso eterno e sem partilha, deliciosamente +egoista, do paiz maravilhoso que os deuses +haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do +insolito desacato chegou até Kioto, a cidade santa, +onde vivia a côrte, em torno do Soberano, a mais +accesa colera explodiu, e todas as energias se ligaram +<span class="pagenum">[145]</span> +para humilhar o shogun e varrer para sempre +da patria os teimosos intrusos.―«Morte aos +barbaros!»―foi +o grito do soberano, da côrte, dos senhores +feudaes.―«Morte aos barbaros!»―foi o +credo que incutiram ás legiões á +pressa reunidas, +que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar, +os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até +então, estava perdido, debaixo de seus pés tremia +a +terra, rugia o vulcão politico que em breve ia esmagal-o; +mas, pela fatalidade dos tempos, as energias +e as cubiças dos intrusos haviam de vencer, de +impôr +os seus designios; e a rhetorica dos diplomatas, +prudentemente sublinhada pela metralha dos canhões, +tinha de ser ouvida. Os dias iam passando, +e o solemne decreto de exterminio não podia ser +cumprido; apenas, de quando em quando, um ou +outro <em>samurai</em> lograva decepar alguma +cabeça loira +de inglez, merecendo dos seus chefes fartos applausos +pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes +comprehenderam que a lucta era impossivel, que o +mysterio nipponico findára; e o Japão foi +descerrando +pouco a pouco as suas portas, entrando em +negociacões com os diplomatas estrangeiros, não +já +pela iniciativa incompetente do shogun, mas pela +propria iniciativa do soberano. O shogun, por inutil, +foi deposto; como se não conformasse com a vontade +<span class="pagenum">[146]</span> +imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou +para Yedo. Estes acontecimentos succediam-se +em tropel; a grande maioria da nação +não podia +aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; +a grande maioria da nação ia odiando o shogun e +repetindo o seu credo―«Morte aos barbaros!»―sem +se aperceber que a situação mudára, +que a +côrte já tratava com as potencias, e que a +aggressão +aos europeus, havia pouco meritoria, era agora +condemnada e prejudicava fortemente a marcha +da politica imperial. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando +os marinheiros francezes que encontravam, julgavam +ter cumprido um dever grato ao soberano e util para +a patria. Illudiam-se. A resposta ás energicas +reclamações +das auctoridades francezas foi a condemnação +á morte de todos os culpados, que eram vinte. +Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido +como graça o <em>hara-kiri</em>, +isto é, a morte honrosa, +devendo cada qual rasgar a propria carne a punhaladas.<br /> + +<br /> + +Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um +<span class="pagenum">[147]</span> +templo de Sakai, e em 16 de março teve logar o +supplicio. Passou-se então um espectaculo tremendo, <img style="width: 400px; height: 471px; float: left;" alt="" src="images/fig48.png" />não de tristeza, antes +uma festa de sangue, de +morte, que excede a comprehensão dos homens europeus. +Enchia o recinto +do templo a +multidão dos officiaes +do imperio, das +auctoridades francezas, +das testemunhas, +dos amigos, +dos bonzos, dos curiosos, +vistosa em +côres, em bellos uniformes, +em garbo e +fidalguia; e, um por +um, por seu turno, +veio apparecendo cada +condemnado, todo vestido de lucto, de alvas +vestes, ajoelhou no solo, curvou-se em reverencias, +saudou a multidão, recebeu solemnemente o curto +sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas entranhas, +rasgou as carnes com mão firme, tingiram-se +as vestes de escarlate, jorrou o sangue sob uma urna +proxima, a fronte crispou-se pela dôr, a côr fugiu +da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[148]</span> +Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de +vinte e cinco annos, escreveu no seu ultimo momento +de vida uma curta poesia, que era assim:―«Condemnam +me; não discuto a minha morte; +servirá ella de pretexto á justiça do +futuro, que decidirá +se, para honra da patria, devem ser expulsos +os barbaros.»―Nishimura Saheji Minamoto no +Ujiatsu, de vinte e quatro annos, escreveu o +seguinte:―«Não +me pesa o morrer, a vida passa +como o orvalho desapparece com o vento; uma +coisa me afflige:―o futuro da patria»―Ikegami +Iasakichi Fujiwara no Mitsunori, de trinta e oito +annos, escreveu o seguinte:―«É preciso alumiar +o espirito da nação; para isto abandono o corpo +ao +meu paiz;»―este, quando as entranhas lhe caíram, +fez menção de atiral-as á cara dos +francezes. +Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e +oito annos, escreveu o seguinte:―«Façamos hoje +o sacrificio da vida, com o maior respeito, pois somos +todos filhos d'este paiz dos deuses.»―Sugimoto +Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e +quatro annos, escreveu o seguinte:―«Sinto o +coração +feliz pela agonia que soffro, ao dar a vida +pela patria;» este, por um gesto respeitoso, offereceu +as entranhas aos francezes. Katsugase Saburoku +Taira no Ioshihaya, de vinte e oito annos, escreveu +<span class="pagenum">[149]</span> +o seguinte:―«Ninguem póde abalar no animo d'um +<em>samurai</em> o sentimento que tributa ao +seu senhor.»―Iamamoto +Tetsusuka Minamoto no Toshiwo, de +vinte e oito annos, escreveu o seguinte:―«Muitos +condemnam a alma do <em>samurai</em>; +pensarão de outro +modo aquelles que bem a conhecem.»―Morishita +Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove +annos, escreveu o seguinte:―«Abramos o caminho +aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.»―Kitashiro +Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta +e seis annos, escreveu o seguinte:―«Para legar o +seu nome á posteridade ha um meio: o sacrificio +da vida.»―Inada Kwannoyo Fujiwara no Norashige, +de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:―«Os +japonezes não temem de perder a vida; tambem +a cerejeira, rainha das arvores pelas suas flôres, +perde um dia essas flôres.»―Yanagase Tsuneshichi +Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, +escreveu o seguinte:―«Sacrifiquemos aqui as +nossas vidas, e mostremos aos estrangeiros o que +vale a nobre coragem japoneza.»―Contando bem, +são onze já. Parou aqui a scena, porque o +commandante +do <em>Dupleix</em>, notando já +onze mortos para +expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito, +pediu +que cessasse aquelle espectaculo assombroso. +Dos <em>samurais</em> perdoados, um +suicidou-se em breve +<span class="pagenum"><a name="p150">[150]</a></span> +trecho, dando de barato a graça pela honra de +morrer com os seus; os outros dispersaram-se; +vive um ainda hoje, presumo que em Nagoya, um +interessante velhinho, que reconta de bom grado as +peripecias d'aquelle horrivel drama.<br /> + +<br /> + +Os onze <em><a href="#e12">samurais</a> </em>foram +alli mesmo enterrados, +no cemiterio, junto ao templo. Ainda ha pouco lá +estive. O templo é um placido retiro de sombra e +de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo +vendaval quasi o desfez em pó.<br /> + +<br /> + +Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, +onde uma arvore sagrada, um enorme sagueiro, +occupa o espaço todo, lançando em volta as +suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos annos +de existencia, e reza que ha quasi quatro seculos +o shogun Nobunaga tanto se agradou d'aquella +arvore, que mandou arrancal-a e transportar para +um dos seus jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro, +e tanto se lamentava noite e dia, que não +houve remedio senão trazel-o de novo ao velho +poiso.<br /> + +<br /> + +Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As +sepulturas, apresentando a fórma de cubos de granito, +aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade +commovente; por entre as pedras, tufam e florescem +as azaleas e verdejam os musgos, e mãos piedosas +<span class="pagenum">[151]</span> +vêem depôr ramos de flôres e de +verdura. +Entre estas sepulturas contam-se as dos onze +<em>samurais</em>. +Mais adeante, as urnas de charão que serviram +ao supplicio, alinham-se n'um altar, e ainda +se distinguem manchas negras, do sangue derramado. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre +os factos e esfriaram os rancores. N'estes dois +cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem já existe sequer +o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, +as onze sepulturas evocam no espirito esse periodo +de frenesi da Europa, de curiosidade, de cubiça, +em face da morna inercia d'este canto do +mundo; e as esquadras que o devassam, que o visam +com os canhões; e os diplomatas que intrigam, +que teimam, conduzindo o finalmente, +á força, +ao convivio das nações; e, como peripecias +infimas, +quasi olvidadas e não pesando na marcha progressiva +dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns humildes +obreiros d'essa empreza... Em Sakai, as onze +sepulturas rememoram a desesperada resistencia +d'uma tribu feliz, contra aquelles que vinham arrancal-a +<span class="pagenum">[152]</span> +aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda +e a crença, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso, +já +não é permittido. Pobres mortos! +abraço com um +mesmo olhar d'alma, enternecido, as vinte e duas +campas...<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 491px;" alt="" src="images/fig49.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c12"></a>O ESPELHO DE MATSUYAMA</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">Ás +Filhas de Carlos +Campos</span></div> + +<br /> + +<br /> + +Viveu ha muito tempo no Japão um feliz casal +de gente rustica, modelo de virtudes conjugaes; eram +elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto. O povo +varreu já da memoria os nomes d'essa gente; não +admira, quando se pense que tantos seculos passaram. +Indica-se apenas o logar, <em>Matsuyama</em>, +que quer +dizer <em>Montanha dos pinheiros</em>, na +provincia de Echigo. +Esta ligeira indicação basta para que imaginemos +o scenario: serranias, pinheiraes, succedendo-se +a serranias, pinheiraes; a terra, a rocha, fôfas de +musgos, de fetos, de herva brava; covôes, precipicios, +cachoeiras, por onde a agua golfa, espuma e +<span class="pagenum">[154]</span> +rumoreja; pios de corvos e hymnos de cigarras;<img style="width: 300px; height: 518px; float: right;" alt="" src="images/fig50.png" /> +raros caminhos serpeando, calcados pelas sandalias +dos que passam; e aqui, e alem, alguma humilde +cabana de aldeões, de barro e colmo, aonde a vida +intima, após as horas de labuta, desliza em longos +repousos sobre a esteira, em simplicidades primitivas, +em face da grande paz da scena agreste, e +do azul sem fim dos largos horisontes. N'uma d'essas +cabanas vivia o casal +a que alludi.<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 314px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +Ora, aconteceu uma +vez que negocios muito +graves chamaram o +marido á faustuosa cidade, +á capital de todo +o imperio. Figure-se o +alvoroço e o reboliço +na choupana. Em coisas +de viagem, a experiencia +da esposa resumia-se +ao trilho que +seguíra raras vezes, +<span class="pagenum">[155]</span> +em duas horas de caminho, do seu lar ao logarejo +mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos, +acudiam-lhe ao espirito não sei que perigos e trabalhos, +maleficios dos genios das florestas, mil revezes +a que se ia expôr o companheiro... Por outro +lado, envaidava-se com a idéa de ser elle o primeiro +do logar que ia vêr por seus olhos a mansão da +côrte e do soberano, e contemplar as grandes maravilhas +que lá por certo havia. Ella ficava; ella tinha +a sua pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora +mordida de saudades, devia resignar-se aos deveres +do seu mister, e aos anceios d'aquella dura ausencia.<br /> + +<br /> + +E que terna que foi a despedida!... Beijos e +abraços não se deram, porque os japonezes +não dão +nem beijos nem abraços; lagrimas não correram, +porque os japonezes nunca choram; mas fôram tantas +as mesuras e tantos os sorrisos, e tam longa a +ultima palestra, elle promettendo voltar breve, ella +prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um +regalo contemplar casal tam meigo e tam feliz!...<br /> + +<br /> + +E lá foi o marido. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Passaram-se semanas e semanas; para encurtar +razões, annuncia-se agora o regresso do Passaram-se semanas +e semanas; para encurtar +razões, annuncia-se agora o regresso do sujeito. +É +<span class="pagenum">[156]</span>vêl-a +então, a cirandeira, ora<img style="width: 300px; height: 561px; float: right;" alt="" src="images/fig51.png" /> varrendo, ora +lavando +ora arrumando, dispondo a choça em festa para a +ditosa hora da chegada. É a pequenita certamente +que mais cuidados lhe merece: o +<em>kimonosinho</em> de +crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flôr +para o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo, +se põe de parte, se examina; e os dedos finos da +maman, em curvas adoraveis, saltam, vôam, aqui +alizam pregas, alli +compõem laços, +com habilidades +unicas, prodigiosas; +convem saber +que não ha mãos +mais bonitas e mais +destras do que as +mãos das japonezas, +nem mães mais +carinhosas do que +estas mamans do +Dai-Nippon. Ella +propria, a maman, +tambem cuida de +si, não se furta aos +adornos, não por +arte talvez, por instincto +<span class="pagenum">[157]</span> +do sexo; e eil-a enfiando os pés nús em +grandes +soccos novos, de charão negro e luzente, e estreando +um <em>kimono</em> catita, azul e branco. E +lá vão +ellas, as duas, certo dia, trilhos fóra, tic-tac, tic-tac, +ao encontro do homem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ai, que jubilos, ao toparem com elle são e salvo, +todo chibante, bamboleando-se no seu passo vagaroso, +para mais prolongar tam doce transe!...―«Bons +dias, senhor marido! Bons dias, senhor meu +pae!»―e os corpos agaxam-se em mesuras, e as +cabecitas vão quasi tocar o chão do campo. E como +a pequerrucha bate as palmas, e se lhe accendem os +olhitos, quando elle logo alli lhe quer vasar no regaço +a caixa de bonecos que comprára, carretas de +madeira, raposas de pellucia, uma viola, minusculos +apparelhos de cosinha e muitas outras maravilhas!... +Elle promette entreter dias inteiros, só com a +narração +do que seus olhos viram: theatros regorgitando +de <em>musumés</em>, vestidas como +deusas; principes em +comitivas resplendentes, passeando em liteiras de +charão, e o povo prostrado a adoral-os pelas ruas; +serenatas nos rios, barcos vogando a transbordarem +<span class="pagenum">[158]</span> +de mulheres e enfeitados com balões, gemem as +cordas das violas e estalejam nos ares foguetes de +mil côres; templos gigantes e enormes sinos badalando; +palacios cheios de luxo; jardins cheios de flôres; +e por toda a parte a immensa multidão, de velhos, +de rapazes, de meninos, feliz, risonha, pachorrenta; +e a immensa industria dos bazares, charões, +oiros, sedas, porcellanas, adornos sem conta nem +medida, tudo digno de ir adornar mansões de fadas, +no mundo das chimeras!...<br /> + +<br /> + +O marido passou depois ás mãositas da esposa, +tremulas de emoção, um bello cofre de madeira +branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe +isto:―«Não +me esqueci de ti, como estás vendo; trago-te +uma coisa muito linda, que tu de certo não conheces, +um espelho, um <em>kagami</em>, como lhe +chamam +na cidade.»―Ella então, abrindo o cofre, observou +a offerta; era um grande disco de metal, com o seu +cabo, tendo uma face prateada, com relevos de folhagem +de bambu e vôos de cegonhas, e a outra face +limpida e brilhante como um puro crystal.<br /> + +<br /> + +É bom saber-se que, sendo a industria do vidro +recentissima no Japão, só ha mui pouco tempo aqui +se conheceram os espelhinhos reles da industria occidental; +nos velhos tempos, os espelhos do paiz +eram metalicos, de preciosa liga e artistico trabalho, +<span class="pagenum">[159]</span> +objectos caros excluidos, do lar dos aldeões; de sorte +que é presumivel, dada a simplicidade de alma da +pobre gente rustica de então, que as bellas ignorassem +que eram bellas, por nem no espelho da agua +das ribeiras se mirarem. Mas vamos nós á +historia, +excluindo divagações que pouco interessam.<br /> + +<br /> + +Dizia o marido á companheira:―«Olha bem +para a face brilhante d'este espelho e conta-me o +que vês.»―Ella era toda olhos, toda surpresas, +toda +extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma +mulher muito gentil, com um oval de enfeitiçar, +comuns olhinhos negros +muito doces, com uma +rubra boquinha de cubiça. Disse mais que essa mulher +não cessava de fital-a; e se ria, a mulher ria; +e se fallava, os labios da mulher acompanhavam-n'a +no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um +<em>kimono</em> azul e branco, igual ao seu, +que ella trazia... +O marido sorria-se, já com uns ares de doutor, que +da viagem lhe provinham; e foi benevolamente convencendo-a +de que essa mulher era ella mesma, e +que o espelho, por um mysterio que elle não sabia +explicar, apenas reproduzia a sua imagem, os seus +encantos proprios; lá na cidade, muitas raparigas +possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se viam +e reviam, ora compondo as voltas do cabello, ora +pintando os labios de escarlate, ora por mero passatempo +<span class="pagenum">[160]</span> +de se acharem bonitas, as garridas. A esposa +ficou então louquinha com o presente; e... +diga-se toda a verdade: cheia de orgulho de si mesma, +por se vêr tam catita, tam fresca, apetecivel. +Fôram semanas e semanas votadas a esse enlevo, +a mirar-se, a namorar-se―quem não lhe relevará +essa vaidade?―até que finalmente convenceu-se de +que um espelho era joia preciosa de mais para servir +todos os dias, alli na choça núa, na +solidão dos +bosques; assim se explica o caso de ter elle ido parar +dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com +as velhas reliquias da familia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +E vão passando os dias, os mezes e os annos. +A felicidade bafeja constantemente aquelle lar. A +grande alegria do casal é a filha, que cresce em mimos, +tornando-se a verdadeira imagem da maman, +e como ella submissa, e como ella affectuosa, e como +ella activa na labuta. Vaidades de mulher, que +tanto prejudicam no futuro as raparigas, não as tinha; +e deve aqui prestar-se inteiro applauso á previdencia +da maman, que em lembrança dos seus +caprichos de outro tempo, passageiros, nunca á +<span class="pagenum">[161]</span> +mocinha confiou o espelho, velha joia sem +uso, +esquecida na gaveta. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +E vão passando os dias, os mezes e os annos. +Muitos annos. A mãe, uma velhinha com a alvura +da neve por côr dos seus cabellos, jaz prostrada na +cama, sem forças, moribunda; a filha, junto d'ella, +multiplica-se em cuidados, anima a triste enferma.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 448px; float: right;" alt="" src="images/fig52.png" /> A custo, diz a velha:―«Sinto que morro, vae-me +fugindo a luz dos olhos. Vou deixar-te, e o nosso +velho amigo. É isto que me +pesa; cheguei a persuadir-me +de que este nosso bem +não tinha fim. Por ti, tam só +que ficas, receio muito, filha: +o mundo é um grande mar, +cheio de escolhos e de perigos...»―E +deteve-se e pôz-se +a meditar por muito tempo, +passando pela fronte os +dedos descarnados; então, +um pensamento lhe acudiu, +uma d'essas travessuras de +velha que só redundam para o bem, e proseguiu +<span class="pagenum">[162]</span> +d'esta maneira:―«Olha, tenho uma idéa: toma este +espelho, este objecto milagroso que veio de muito +longe; e jura-me que uma vez em cada dia e uma +vez em cada noite, o irás vêr. Eu te apparecerei +então, +no mesmo espelho; e assim, na minha companhia, +terás mais animo na vida, mais força nas +angustias, +mais tento com as indecisões da juventude +e com os males que te rodeem.»―E a filha jurou +isto; e a velha deixou-se morrer serenamente, resignada, +sorrindo á paizagem verde, sorrindo ao sol +festivo, que investia em faixas de ouro pela casa... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A <em>musumé</em> cumpriu +attentamente o juramento. +Por esta forma percorreu a via da existencia, tranquilla, +sempre assistida pela mãe, que nunca cessou +de apparecer-lhe, quando, nas mãos piedosas sustinha +o espelho milagroso. Não era da moribunda, +livida, prostrada em agonia, desfallecendo pouco a +pouco, a doce apparição; era a maman gentil, de +outros tempos, cheia de louçanias e sorrisos. Achava-se +com ella n'um placido convivio sem reservas, +com ella palestrava, a ella confiava os seus segredos, +os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face pura +bebia conforto e recompensas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[163]</span> +O velho algumas vezes surprehendeu a filha +com o espelho entre as mãos, sorrindo, murmurando +singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o caso; +e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a +moça lhe fez uma pergunta, por onde avaliou a chimera +amorosa com que ella ia embalando o pensamento.―«Repare, +senhor meu pae: não vê no espelho +a minha mãe?...»―O que o velho via claramente, +era a imagem da filha, que alli<img style="width: 322px; height: 230px; float: right;" alt="" src="images/fig53.png" /> tinha junto +de si em carne e osso,―e que +carne! e que osso!―palpitante +de vida e gentileza... mas julgou mais +prudente conserval-a sob o prestigio da illusão; e, +franzindo muito o rosto, de rude pergaminho, sem +que se percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e +chorava ao +mesmo tempo, +fez côro com ella, +assegurando +que sim, que via +a santa mãe, e +tam bella, e tam +fresca, como +no dia do noivado...<br /> + +<br /> + +<div class="signature">1900.</div> + +<br /> + +<h3><br /> + +</h3> + +<h3><a name="c13"></a>AMÔRES...</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">A +J. Godinho De Campos</span></div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 397px; float: left;" alt="" src="images/fig54.png" />Uma impressão de Macau.<br /> + +<br /> + +O que faria aquelle bando +de leprosos, que a policia +da colonia surprehendeu +e agarrou? O que faria +aquelle bando de leprosos, +além no meio do rio, +sobre um miseravel barco, +pela noite velha, tenO que faria aquelle bando +de leprosos, que a policia +da colonia surprehendeu +e agarrou? O que faria +aquelle bando de leprosos, +além no meio do rio, +sobre um miseravel barco, +pela noite velha, tenebrosa +e fria, ora pairando e deslisando +ao grado da corrente, +<span class="pagenum">[165]</span> +ora remando manso, de margem para margem, +em vigia?...<br /> + +<br /> + +Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos +de longe uma impressão de robustez de musculos, +de gente affeita á enxada e á vida de lavoira. +Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete +de peçonha do seu sangue; eram indiscriptiveis seres +inuteis, abjectos, quasi sem mãos, quasi sem +pés, porque os dedos lhes iam caindo podres aos +pedaços; rostos medonhos lavrados pelo mal, sem +narizes, com os beiços roidos, com as faces chagadas; +ainda mais sinistros pela infamia estampada +nas feições e nos olhares, denunciando +perversidades +de alma de infimo quilate, por certo derivadas +da suprema degradação do seu viver. Vestiam +farrapos immundos, sem fórma definida e sem côr +reconhecivel; e escondiam as frontes, talvez envergonhadas, +sob as abas enormes dos chapeus de rota, +em uso nas aldeias.<br /> + +<br /> + +Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle +paradeiro, não era admissivel esta +supposição; +nem no misero barco, onde se amontoavam +alguns trapos, se deu fé de anzoes ou de outras artes +de pescar.<br /> + +<br /> + +Mendigavam? menos possivel ainda que assim +fosse. A taes horas, dormem todos, incluindo os +<span class="pagenum">[166]</span> +mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo +aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos +das grandes lórchas juntas em magotes, desenhando-se +vagamente junto ás margens os barquitos em +cardumes, presos ás varas de bambú encravadas +no lodo. Apenas de espaço a espaço algum raro +<em>tanka</em> atravessava d'um lado para +outro, chape-chape, +remos movidos lentamente pelas mãos das +raparigas somnarentas, fartas da lida do dia,―coisa +de ir levar ao seu albergue algum retardatario, +de volta do jogo ou das orgias.―Não era dos +nocturnos viajeiros, e menos dos pobres tankareiras, +que o bando de leprosos lograria um punhado +de sapecas, que compensasse o esforço da vigilia. +Nem a sua miseria, realmente, era tal, que os levasse +a tão duros extremos. É certo que o leproso +se encontra excluido dos povoados. Em paragens +mais rusticas, matam-n'o á pedrada, se o encontram; +em Macau, porém, a brandura dos costumes +regeita em regra esta medida, tenha embora o miseravel +de viver pelos esteiros, em barcos podres, +ou sobre os lodos, escondido das gentes como um +bicho peçonhento. No entretanto, o esteiro fornece-lhe +peixes vis, e caranguejos, e molluscos, e vermes; +os cäes vadios encontram de quando em quando, +nos despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso +<span class="pagenum">[167]</span> +tambem o encontra, como elles. Na altivez da +sua pasmosa abjecção, o leproso não +vem expôr-se +ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, +acoita-se no antro, come immundicies, bebe +agua pôdre; e os fados são-lhe bastante +complacentes +em geral, para matal-os da molestia antes +que arrebentem pela fome... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando +de leprosos.<br /> + +<br /> + +Aquelles infimos párias passavam a existencia +isoladamente, cioso cada qual do seu covil, dos +seus farrapos, devorando sem partilha o que o +acaso lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, +pela visinhança dos antros, sobre a mesma +vasa que se alastra na margem fronteira á de +Macau, e a fatalidade commum estabelecia de direito +affinidades, allianças tacitas de tribu, entre +elles; mas, como não carecessem uns dos outros +para soffrerem, para odiarem a natureza creadora, +para jazerem no ninho da trapagem, para morrerem, +não se procuravam. Na imaginação +immersa +em trevas de cada um, rustica, pouco elastica, e +<span class="pagenum">[168]</span>cultivada em +ascos, em maldições, em +misanthropias +rancorosas, nunca por certo passara a phantasia +de vir insinuar-se na turba, partilhar das suas +distracções, relancear os festins, percorrer os +bazares, +invadir os templos e os theatros. <img style="width: 137px; height: 264px; float: left;" alt="" src="images/fig55.png" /><img style="width: 74px; height: 119px; float: left;" alt="" src="images/fig56.png" />Mas na torva +e lenta elaboração do pensamento, durante os +longos +dias, os longos mezes, os longos annos de isolamento +e de ocio, um desejo se fôra pouco a pouco +avolumando, definindo, convertido finalmente em +tortura, amargurando como uma dôr constante e +implacavel:―era a mulher, o desejo, a tortura da +mulher.―Prazeres do mundo não se queriam, nem +mesmo se lhes imaginavam os feitiços; era-se superior +a essa chimera. Mas, +no ambiente acariciador +da vida, em presença +das arvores fructificando, +das flores perfumadas, +dos animaes requestando-se, +os hymnos da terra, +da creação em galas, do amor +dos sexos, vinham tambem echoar +n'aquelles cerebros, electrisar +aquelles nervos; a visão da mulher, +durante as mornas monotonias +sem termo, aparecia como +<span class="pagenum">[169]</span> +um apetite crescente, como uma fome de carne; e +os miseraveis, allucinados pela obsecação de +todos +os momentos, estremeciam, erguiam-se de subito do +seu leito de trapos, arquejantes, o sangue a escaldar-lhes +as frontes, o olhar em fogo...<br /> + +<br /> + +Então, tacitamente, impôz-se a cada qual a +necessidade +de fraternisar com o seu visinho, de agremiar-se +em bando. A união faz a força. Procuraram-se, +intenderam-se. Medonhos conciliabulos se +passaram, a coberto das trevas, pelas noites longas, +sobre os lodos. Segredava-se, aventurava-se um plano, +discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a +phrase rouca golfava dos labios, eloquente, persuasiva, +os membros disformes erguiam-se na sombra +em gestos tragicos. E assim se escolheu o barco +menos podre, se nomeou a companha, o capitão, se +esperou por uma noite mais escura, azada aos seus +intentos. Assim tiveram inicio e proseguiram os estranhos +cruzeiros, á aventura. Eil-os, o bando immundo +dos gafados, á capa, pairando ou remando +a medo, de manso, de manso, silenciosamente, e +prescrutando as trevas. Se ia passando algum +<em>tanka</em>, +os ouvidos subtis e os olhos experimentados, estudavam, +presumiam, adivinhavam. Quando era chegado +o bom momento, então,―oh delirio supremo!―n'um +impeto de remadas e desejos, o barco voava, +<span class="pagenum">[170]</span> +dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as +victimas indefesas. Habeis no ataque, com as mãos +sem dedos suffocavam os gritos das mulheres, a +murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro, distinguiam +das velhas as moças, apartavam dos ossos +duros a carne fofa e tenra; e com fome de hyenas, +as boccas pestilentas comiam, devoravam com beijos +as pobres raparigas, que em vão se debatiam na +lucta tremenda d'uns instantes...<br /> + +<br /> + +Após, o barco dos leprosos seguia serenamente +a atracar á margem chineza, e elles dispersavam, +mudos, quasi felizes, indifferentes por momentos ao +prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se +novamente. No <em>tanka</em>, as +moças ficavam-se chorando, +arrepelando-se de horror, de desespero, de vergonha +por sua mofina sorte; e tanto mais mofina, +que é assim, por um beijo, segundo a voz do povo, +que a lepra se propaga, se multiplica de corpo para +corpo.<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +1900. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c14"></a>UM PINTOR DE GATOS</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">a +D. Miguel de Mello.</span><sup><a href="#1">[1]</a></sup> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 282px; height: 254px; float: right;" alt="" src="images/fig57.png" />Era uma vez, em +mui remotos tempos, +uma familia de boa +gente lavradora, vivendo +em certa aldeia +do Japão. Marido, +mulher e um +rancho de filhos; gente +pobre, é claro; e +ajunte-se que a mui ardua fadiga se dava o camponez, +para que não faltasse em cada dia, a cada uma +das vorazes boquinhas dos garotos, a tigela de arroz +<span class="pagenum">[172]</span> +do almoço e do jantar. O mais velho dos rapazes, +já aos quatorze annos, robusto quasi como um homem, +começava a ajudar o pae, nas varzeas e nos +campos, o pobre pae, a quem as forças minguavam; +e os outros, cada um conforme a sua idade, iam +fazendo tambem o que podiam; até a irman pequena,―uma +migalha de gente, coitadita!―lá ia alliviando +a atarefada mãe na lida do casebre.<br /> + +<br /> + +Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava +que prestasse; era um inutil; não que elle fôsse +falto de juizo; pelo contrario, excedia em esperteza +qualquer dos irmãos ou das irmans; mas era +enfezadito, debil de musculo; e bem cedo os paes +se convenceram de que aquelles braços tenros não +haviam nascido para a enxada.―«Faça-se d'elle um +bonzo»,―combinaram; e foi n'esta +intenção que um +bello dia decidiram leval-o ao templo do logar, e á +presença do velho sacerdote, que era como quem +diz―o prior d'aquella freguezia.―O pae fallou e +expoz a questão, em quanto que a mãe approvava +com a cabeça; o reverendo, que em breve trecho +descobrira rara sagacidade na creança, consentiu em +tomal-a por pupillo, pensando talvez intimamente +que alli o acaso lhe trazia um digno successor, quando +a hora lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.<br /> + +<br /> + +E ficou tudo resolvido. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[173]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O noviço mostrou-se, desde os primeiros dias, +submisso, intelligente e piedoso; e tambem―valha +a verdade―não lhe iam mal a rude tunica amarella +e a cabecita rapada á navalha, de preceito; mas +como não ha formosa sem senão, segundo um +proverbio +portuguez (e a philosophia dos proverbios se +applica á humanidade inteira), tinha um defeito o +rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que é +curioso: nas horas de sueto ou nas horas de estudo, +no templo, na cella, no jardim, em toda a parte +onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem +os pintava,―faça-se-lhe justiça n'este +ponto,―que +nenhum pintor até então pintou gatos melhor do +que +o fradinho. As paginas dos livros sagrados do convento, +as paredes, os biombos, os pilares, as arvores, +os rochedos,―forte mania de creança!―tudo +servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por +onde elle passava, por onde se quedasse dois minutos, +era logo a successão interminavel de desenhos, +eram as curvas caprichosas dos travessos<img style="width: 300px; height: 572px; float: left;" alt="" src="images/fig58.png" /> felinos, de +todos os tamanhos, em todas as posturas, creio que +até enjaneirados, os olhos redondos, esbrazeando as +<span class="pagenum"><a name="p174">[174]</a></span> +duas orelhas espetadas, o côtosito alçado +e +petulante +(os gatos japonezes não têem rabo), a garra +atrevida posta em guarda... Está-se a adivinhar com +que azedume o reverendo acolhia taes desmandos; +vezes sem conto reprehendeu o +<em>artista</em> (como por +ironia lhe chamava), tentando dissuadil-o d'aquella +triste balda, que nem lhe permittia estudar com +attenção +os velhos alfarrabios +do buddhismo, +de tam necessaria sciencia +ao seu santo mister. +Intento inutil: não por +maldade, por instincto, +quanto mais lhe prohibiam +a proeza, mais ia +pintando gatos o teimoso. +<a href="#e13">Até que</a> finalmente, +em certa occasião, o reverendo +perdeu de todo +a paciencia e gritou ao +moço incorregivel:―«Vae-te +embora! Foge +da minha vista!... Bom +padre, nunca serás seguramente; +serás talvez +um bom pintor.»―A +<span class="pagenum">[175]</span> +ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar +os seus poucos haveres, pôz a trouxinha ás costas, +e fez uma mesura ao padre mestre. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Eil-o na rua, escorraçado, em bem angustiosas +condições. Que fazer? Tremeu de voltar ao lar +domestico, +onde o pae, mui certamente, o puniria da +sua teimosia. Lembrou-se então que a quatro leguas +de distancia havia uma outra aldeia, com um templo +cheio de bonsos, e para lá se encaminhou, disposto +a pedir abrigo e protecção aos padres. Era +notorio que o tal templo desde alguns mezes se achava +abandonado, por n'elle ter entrado um demonio, +um espirito malfazejo, como tantos que abundavam +então pelo Japão; muitos guerreiros animosos se +tinham decidido a ir lá dentro, mas nem um só +voltou; +porem estas noticias, que iam ja apavorando +aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado +aos ouvidos do pequeno.<br /> + +<br /> + +Era já noite escura quando alcançou a aldeia; o +povo dormia nas choupanas; ao fundo da rua principal, +e sobre um dorso de collina, de entre a rama +das mattas erguia-se o templo magestoso, e uma +<span class="pagenum">[176]</span> +luz interior bruxoleava, luz de esperança para a misera +creança. Luz de esperança parecia: mas o povo +bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim manhosamente +ia attrahindo algum caminheiro solitario +em busca de poisada. Bate ao portal uma primeira +vez, bate segunda vez, bate terceira, sem que ninguem +acuda ao chamamento. Por fim percebe que +basta empurral-o para abril-o; e então, por um leve +impulso dos seus braços, achou livre o ingresso, e +assim entrou, largando dos pés nús as suas +sandalias +poeirentas.<br /> + +<br /> + +Nos aposentos interiores ardia uma lampada +com effeito; mas nem um bonzo só, de tantos que +alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido +dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu +esperal-os. O tempo ia passando, e os seus +olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar +o aspecto do sitio onde se achava. Notou com +espanto que abundava o lixo, e pelo tecto as aranhas +iam tecendo sem cerimonia as suas longas +teias; era estranho que, sendo em regra os templos, +mimos de limpeza e de cuidados, aquelle se encontrasse +em tal desleixo, como se fôsse coisa abandonada. +É que, provavelmente, aos santos bonzos +faltava o auxilio d'um acolyto, a quem, como de +praxe, cabe o dever de todas as manhãs lavar, varrer +<span class="pagenum">[177]</span> +e sacudir o pó, arte exercida no Japão com +especial +disvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento +lhe fariam, no proprio interesse da communidade.<br /> + +<br /> + +Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o +olhar n'um movel que o captiva, que é um grande +biombo que tem em sua frente, com as duas faces +brancas; passára-lhe na mente o irresistivel desejo +de encher aquellas faces de gatos, de cem gatos, +de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as +bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma +subita alegria illuminava-lhe o rosto sonhador... +Pensado e resolvido. Cerca encontrou a classica escrivaninha +japoneza,―a caixa com os pinceis, com +a gota de agua n'um deposito metalico, com o pedaço +de tinta negra e com a loisa onde esta se prepara.―Mãos +á obra. O pincel voava em curvas humoristicas; +a mãosinha inspirada corria, pullava de +alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo a +impressão propria com habilidades prodigiosas. Assim +fôram apparecendo, sobre aquella tela improvisada, +ranchos e ranchos de gatos adoraveis; e tantos +gatos desenhou, e tantas horas correram, sem +que os bonzos voltassem do passeio, que o pobre +garotito sentiu-se de repente cheio de somno e de +fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se fechou; +<span class="pagenum">[178]</span> +estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<img style="width: 95px; height: 441px; float: left;" alt="" src="images/fig59.png" /><img style="width: 205px; height: 290px; float: left;" alt="" src="images/fig60.png" />Lá pela noite velha, um +barulho inaudito, como +se uma terrivel lucta se travasse entre mysteriosos +combatentes, despertou a creança. Os gritos, os +gemidos, o ruido +dos corpos que +caiam, vinham de +perto, do aposento +visinho onde estivera; +tremiam as +paredes, o chão, a +casa toda; a pelleja +durou até á madrugada. +Como elle +soffria de pavor! +Caido sobre a esteira, +immovel, parecia coisa morta, sustendo +o proprio folego, para que a sua presença +não fôsse presentida...<br /> + +<br /> + +Já com a manhã clara e sol bem alto, +ergueu-se então, e animou-se a espreitar um +pouco para fóra, por uma fenda da parede. +<span class="pagenum">[179]</span> +Foi medonho o que viu. No chão grandes poças de +sangue se alastravam; e mesmo ao meio da casa, +jazia morta, esphacelada, uma enorme ratazana,―maior +do que uma vacca!... Mas quem matára +o monstro, se ninguem parecia ter entrado? Reparou +por acaso no biombo, onde horas antes pintára +tantos gatos; lá os viu, mas com os focinhos lambusados +de sangue e as patinhas igualmente; eram +elles que tinham dado cabo do demonio... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, +um grande artista. Ainda hoje se ademiram muitos +gatos pintados pelo seu pincel inimitavel. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O chronista de quem extrahi esta legenda, nada +conclue, como moralidade, da historia que narrou. +Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o permittem. +Em primeiro logar, pouco propenso a crêr +em coisas do diabo,<img style="width: 170px; height: 282px; float: left;" alt="" src="images/fig61.png" /> embora mesmo no Japão, +concluo que, se a rata do convento era tam grande, +é que a despensa se achava provida com um +<span class="pagenum">[180]</span> +enorme arsenal de gulodices; o que, a despeito +de tanto que se diz dos frades de outras terras, dos +frades portuguezes por exemplo, faz honra á sobridade +de habitos dos maganos, pois não consta que +jamais os presuntos e a marmellada de reserva nutrissem +uma rata lambareira até attingir igual tamanho. +Concluo ao mesmo +tempo, humilhado, confundido, +que os pintores +do meu paiz estão bem +longe do traço creador dos +pintores do Dai-Nippon. +Por ultimo (e talvez esta +final conclusão seja a mais +util), vejo que ás vezes as +nossas qualidades, de que +os outros se riem e escarnecem, +são as que mais +nos valem n'este mundo.<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">1901.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c15"></a>IMPRESSÕES +RAPIDAS</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">a +S. Peres Rodrigues.</span></div> + +<br /> + +<br /> + +Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida. +Eu seguia pelo caminho de Suwayama, na +parte mais elevada da cidade. De um lado alinham-se +as casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas +<em>chayas</em> de Kobe, +<em>Tokiwa</em> e outras, onde os japonezes +vêem folgar; do outro lado, é a rampa ingreme, +coberta de pinheiros, e sóbe a collina inculta, +em corcovas accidentadas, onde assenta um templo +notavel.<br /> + +<br /> + +Nas <em>chayas</em>, segundo o costume, havia +festa. As +corrediças de papel estavam fechadas; mas a luz +interior coava-se para fóra vivamente, desenhando +<span class="pagenum">[182]</span> +alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas; +eram os vultos d'elles, dos amigos reunidos, +certamente banqueteando-se sobre a esteira, e eram +os vultos d'ellas, das <em>gueshas</em>, que +lhes iriam vasando +o vinho nas taçasinhas de fina porcellana, e cantando +balladas ao som do <em>shamicen</em>. Musica, +cantigas, +gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um +vago sussurro de alegria.<br /> + +<br /> + +Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos +europeus, gente de distincta sociedade, a julgar +pelo esmero do trajo e da linguagem, e pelo aroma +dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando +inglez. Dois discutiam finança:―o Japão +atravessava +uma crise economica terrivel; os cofres do governo, +segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego +em marasmo; duas grandes fabricas de Osaka, +constava, suspendiam o trabalho...―Os tres outros +palestravam de politica:―primeiro foi o Transvaal, +e fez-se a conta de quantos boers haviam já +caido sob o chuveiro das balas inglezas; depois saltou-se +ao Extremo-Oriente; a Russia ameaçava o +imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais +leve, o mais futil, e era a guerra; discutiam-se as +probabilidades da victoria, presumiam-se os estragos, +o numero de victimas no primeiro embate das +esquadras...―Teriam talvez muita razão, todos os +<span class="pagenum">[183]</span> +cinco; mas ia-me parecendo aquella gente um bando +de mochos agoirentos, folgando com a ruina, dando-se +bem com o fetido dos mortos. Para elles não +nascera, imaginava eu, aquella lua esplendida, que +ia alumiando o espaço todo e espargindo sobre a +terra uma chuva de prata; nem era para elles que +os pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos +viçosos; nem para os seus pulmões que o ar +vinha oloroso de florescencias multiplices, distantes. +Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos, misanthropos, +perseguidos nos fofos leitos por cruciantes +pesadelos.<br /> + +<br /> + +N'aquelle ponto, as <em>gueshas</em> de +Suwayama entoavam +uma cantiga popular, que assim +começa:―«<em>Haru +wa, ureshiki</em>...»―cujas primeiras estrophes +se podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2">Na primavera, enlevae-vos</div> + +<div class="poetry">Nas cerejeiras em flor.<br /> + +No v'rão, folgae nas ribeiras,<br /> + +Quando se abraza em calor.</div> + +<br /> + +<div class="poetry2"> +No outono, vêde a folhagem,</div> + +<div class="poetry">Toda escarlate, voando.<br /> + +No inverno, espreite-se a neve,<br /> + +Bebendo vinho e cantando. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[184]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quando eu escrevi a <em>Primavera</em>, e a +offereci a +um delicado amigo, prometti a mim mesmo, e creio +que tambem a elle prometti, completar com pachorra +e vagar, os aspectos das estações, aos quaes o +tempo, o sol, a cor do ceu, n'este paiz deslumbrante +de scenarios, imprimem mais intensivamente, mais +emotivamente do que em outro logar, feições +differentes +e imprevistas. Por preguiça ou outras causas, +não cumpri a promessa, com o que,―valha a verdade,―nada +se perdeu que falta faça; mas, succedendo +agora que tenho de reunir em volume umas +impressões dispersas, que intitulei +<em>Paizagens</em>, pareceu-me +indispensavel, por um melindre de consciencia +litteraria, voltar ao assumpto, concluil-o. Pede-me +pressa um editor bondoso. Tomo o negocio de +empreitada; reuno as ligeiras notas soltas que encontro +em esquecidos papeis velhos.<br /> + +<br /> + +Antes assim. Impressões do acaso, apontamentos +rapidos, vão-me parecendo preferiveis a um longo +estudo que intentasse das mutações de scena que +hoje, amanhã, meus olhos relanceam; e não perco +o ensejo, por natural intuito de desculpar-me perante +<span class="pagenum">[185]</span> +quem me lêr, de traduzir aqui uma deliciosa pagina +de um livro francez, tambem sobre o Japão, escripto +ha poucos annos.―«As circumstancias concorrem +mais para a inspiração, do que todos os +esforços +do homem, e a experiencia quotidiana é a grande +instigadora das imaginações. Vêde em +litteratura: +de ordinario, tanto mais breve é um trabalho, ou, +se é extenso, tanto mais é feito de +pedaços, de fragmentos +escriptos primitivamente ao acaso dos tempos, +tanto melhor elle é; um longo livro de historia, +um longo romance, um longo tratado de philosophia +ou de moral, jamais valerão um conjuncto de memorias, +uma curta novella, um jornal intimo ou um +caderno de pensamentos, e jamais um poeta epico +alcançará o viço de vida que +dá ao improviso feliz +tamanho encanto; porventura, o homem sensato deveria +decidir-se a não publicar senão volumes de +paginas destacadas.»<br /> + +<br /> + +Pretendo ser sensato uma vez na minha vida. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Verão.<br /> + +<br /> + +Um calor de fornalha. Na Africa, na China, não +é mais suffocante. O enervamento é enorme. +Desfalece-se +de preguiça, de langor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[186]</span> +No entretanto, é no estio que o Japão +alcança a +sua genuina feição typica, pela natureza e pelo +povo, +descripta pela lenda, pintada pela arte e como os +estranhos a imaginam.<br /> + +<br /> + +A terra é toda verde. Crescem as mattas, trepa +a herva, viceja o mar de arroz nas varzeas alagadas. +Nos jardins, floresce a <em>asagao</em>, a +caprichosa +trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de +todas as cores imaginaveis, duram o espaço de uma +madrugada; nas aguas, floresce o lotus.<br /> + +<br /> + +O vestuario attinge a maior simplicidade; um +unico <em>kimono</em> de algodão +azul e branco, amarrado +na cintura, é tudo... e ás vezes nem é +tanto. O +europeu, quando ainda estranho ao meio, encara +então surpreso este Japão nu ou quasi nu, +passeando +sem cerimonia as suas pernas, os seus braços, +os seus collos, os seus seios e ainda +mais,―exposição +paradoxal de grotescos e de encantos...<br /> + +<br /> + +A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se +das suas paredes de papel, ficam o telhado e +quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a gente, +o lar, a vida intima.<br /> + +<br /> + +É a epocha das peregrinações, das +excursões +aos templos, aos logares frescos, onde ha brisas, +onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao Fujiyama, +a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de +<span class="pagenum">[187]</span> +um pinheiro, para petiscar, para folgar em companhia; +e os corpos estendem-se na relva, como repetis. +As <em>musumés</em> vão +molhar os pésitos nas areias +das praias, para colherem algas e mariscos. As ribeiras +convidam: n'umas, entre juncos, é a caça +nocturna aos pyrilampos; n'outras,―o Sunsidagawa +em Tokio, o Iodogawa em Osaka,―em noites calmas, +é a flotilha immensa dos barcos de prazer, +todos elles sanefas multicores, lanternas, balões, +galhardetes, harmonias de instrumentos, festins, rapazes, +raparigas, amores...<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 287px;" alt="" src="images/fig62.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[188]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Outono.<br /> + +<br /> + +Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica. +Estupenda coisa. Não me parece flor; antes +um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil +petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo, +em colorações indefiniveis. Alinhadas nos +jardins, +sob tendas de abrigo, as chrysanthemas lembram +mulheres, lembram-me cortezãs de Ioshiwara, quando +ellas vestem os ricos mantos polychromos, +quando ellas enfeitam os cabellos com diademas de +espavento, e vêem postar-se em filas, princezas pompejantes +do vicio, encantadoras e perversas...<br /> + +<br /> + +No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente +o verde, e cobre-se das cores mais vivas +e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo, +em cambiantes varios. A paizagem offerece então +um luxo de tintas innarravel; momentaneo, porque +as brisas vêem breve despir os troncos, e juncar de +folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada +arvore que aqui chamam <em>momiji</em>, de +graciosas folhas +digitadas, torna-se toda em purpura, como em fogo; +ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em +<span class="pagenum">[189]</span> +magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar, +arrebatado pela scena, que é sem rival em maravilhas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O inverno.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 170px; height: 316px; float: right;" alt="" src="images/fig63.png" />Mas ha inverno no Japão? +Julgo +que sim, pois gela a agua nos charcos +e ribeiros, cae profusa a neve, +alvejam no horisonte as serras, +como embrulhadas em lençoes. +No entretanto, ainda ao sol de dezembro +desabrocha a chrysanthema, +e já em janeiro as ameixeeiras, +nuas de folhas, começam a +florir. Seja pois um inverno de +flores. É certo que essa grande +desolação das longas invernias dos +climas temperados é desconhecida +em solo japonez. A paizagem é sempre alegre; o ceu +é sempre azul; os pinheiros, que são as arvores +que +mais abundam, sempre verdes. Se então se prolongam +mais as palestras em roda do brazeiro, chegando +os deditos ao calor, tomando chá, o povo não +cessa de affluir aos theatros, aos bazares, aos templos, +ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em +<span class="pagenum">[190]</span> +aos jardins; apenas, por cuidado ou garridismo, +as <em>Musumés</em> cobrem com um +manto de delicada cor +as cabecinhas petulantes, deixando vêr do rosto +apenas uma nesga da fronte e os olhos negros, humidos +de amor e de mysterio... deve ser antes +garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras +do que nunca.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 164px; height: 224px; float: left;" alt="" src="images/fig64.png" />A neve, que constitue uma +calamidade em tantas regiões, +entra aqui no rol das coisas +deleitosas. Tanto é assim, que +as mulheres, cujos nomes são +sempre mimosos como ellas, +lembrando flores ou outras gentilezas, +se apropriam do termo +com frequencia:―<em>Yuki-San</em>, a +Senhora Neve, ou com mais +cortezia, <em>Ó Yuki-San</em>, a Nobre +Senhora Neve, é nome muito +em uso. A nevada, sem que prejudique o povo na +vida e no conforto, vem branquear as serranias, os +campos e as estradas, esplendida apothéose de alvuras +e purezas; rendilha as arvores de crystalinos +ornamentos, ostentando-se como uma florescencia +immensa, uniforme, que brotasse dos restolhos, da +herva, dos bambus, dos cedros, dos pinheiros; sobre +<span class="pagenum">[191]</span> +os telhados das casas e dos templos, sobre os +dorsos das grandes raposas de granito que d'estes +se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos jardins, +demora-se em fofos floccos, que dão ás coisas +proximas, realces seductores; por onde a agua corre +e se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as, +transforma-as em recortadas estalactites, que um +raio de sol mais quente virá em breve desfazer.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 282px;" alt="" src="images/fig65.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista, +ha um termo de que agora me recordo, que +não tem, como muitos, synonimo em linguas europeas; +é <em>yukimi</em>. +<em>Yukimi</em> quer +dizer:―excursão ou +banquete preparado para ir vêr cair a neve.―Nas +<span class="pagenum">[192]</span> +<em>chayas</em>, em certos sitios +pittorescos, exemplo―as +collinas de Kioto,―combinam-se reuniões; vêem os +rapazes, vêem as <em>gueshas</em> +com as guitarras, começa +a festa ruidosa, interrompida a espaços pela +contemplação +muda do espectaculo que se offerece; no +entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua +de folhepos, ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge +de sedas que arrastassem, vestindo o solo, as +arvores, o colmo das choupanas, poisando mesmo +nos vestidos e nas mãos brancas como a neve das +moças irriquietas... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Outro assumpto: a historia da arte.<br /> + +<br /> + +No Japão, não ha nem houve nunca, sabios; +é +medida, penso eu, de hygiene nacional, consequencia +de antigos habitos de limpeza das creadas, que +os sacodem do solo como sacodem as teias de aranha +das paredes. No respeitante a historia, é evidente +que o officio de historiador, com a secura e +a frieza que lhe suppomos inherentes, não existe. +A historia japoneza é feita pelo povo, incluindo a +collaboração preciosa das velhas, das raparigas, +dos +garotos; emana das tradições, da lenda e da +intuição +<span class="pagenum">[193]</span> +sentimental das massas. Recorda por este facto os +evangelhos biblicos, escriptos pelos rudes discipulos +de Christo, pobres e simples pescadores alheios +ao convivio dos classicos, sem sciencia e sem arte, +mas abrazados em poesia, em crenças, em amor. +Na historia japoneza, palpita, como nas paginas da +Biblia, a alma da tribu, propensa, pela tendencia +geral da gente rustica, ao milagre, á maravilha, ao +inverosimil; convindo apenas não esquecer que o +japonez, menos idealista do que o hebreu, não vae +mui alto no mundo das chimeras, voeja terra a terra, +aprazendo-se em entretecer de graciosas +fabulações +as aventuras dos seus homens illustres. A +historia da arte, para este povo feito todo de artistas, +sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes +do seu paiz, é um dos capitulos preferidos, +por onde mais rodopia sem freio a phantasia; e +é d'este capitulo da arte que eu destaco algumas +graciosas lendas que se seguem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira +metade do nosso seculo XV, foi um grande pintor +em coisas religiosas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[194]</span> +Sendo noviço n'um templo da Kioto, Tofukuji, +conta-se que já se dava á pintura com +paixão, incorrendo +por esta fórma no desagrado do superior <img style="width: 216px; height: 162px; float: left;" alt="" src="images/fig66.png" />Daidô, que o ia +asperamente reprehendendo. Certo +dia, acabava elle de pintar um retrato de Buddha, +quando sente passos de Daidô, que se approxima +do seu poiso; rapidamente, esconde o desenho entre +os joelhos; o vulto entra na cella, esbrugando +as suas contas, resmungando; +do resplandor +do deus subito irradiam +chammas de apothéose, +que innundam +de luz a casa toda; a +falta do noviço estava +assim conhecida; +mas tambem perdoada, +pois Daidô humilhou-se a este avizo do céo, e +nunca mais atormentou o seu discipulo.<br /> + +<br /> + +Já no fim da existencia, dignou-se uma vez o +Shogun recompensal-o dos seus muitos serviços, dizendo-lhe +que pedisse o que quizesse.―De nada +careço n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo +em cada dia um <em>kimono</em> lavado para +vestir e uma +tijela com arroz; só vos supplico, senhor, que por +vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas +<span class="pagenum">[195]</span> +as cerejeiras do jardim d'este templo, para que +de futuro se não torne um logar de folia e +desacato.»―Foi-lhe +o desejo satisfeito; e em Tofukuji, +ainda até hoje, nem um só pé de +cerejeira floresce. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia +um cuco sobre o panno de um leque. Tam perfeito +era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel +que o desenhou, que em todas as vezes que alguem +abria o leque, o cuco, assim exposto á luz do dia e +á paizagem, acordava, soltava o pio habitual dos +cucos. Maravilha!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Maruyama Okio, nome moderno, pois é do seculo +XVIII, foi pintor muito celebre, a ultima gloria +talvez da escola classica, convencional, mas cheio +de amoroso realismo nas suas concepções. Um seu +cliente fizera-lhe encommenda de desenhar um urso +bravo. O consciencioso Okio<img style="width: 168px; height: 275px; float: left;" alt="" src="images/fig67.png" /> pede a certo aldeão do +seu conhecimento que o avise de quando algum +appareça pela serra; o aviso vem ligeiro, pois abundam +<span class="pagenum">[196]</span> +taes bichos no Japão, e eil o que parte, +com +a tinta, com os pinceis e com o mais de que carece. +Levado pelos campos, depara com o animal dormindo +junto a uma arvore. Mãos á obra, e em curto +espaço conclue o seu trabalho e se retira; mas dentro +em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de +a ter mostrado a um caçador de officio, em ursos +entendido, o qual lhe observou que achava bello o +quadro, mas falho de verdade +após um exame attento, +pois não traduzia a imagem +a vaga ondulação que é propria +ao arfar do corpo que +respira. O melhor da passagem +foi ter, annos corridos, +contado o aldeão ao bom +Okio que o tal urso da serra +se quedava dias e dias junto +á arvore; até que se deu fé, +entre curiosos, que o bicho +não dormia, mas se achava +alli caido morto... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[197]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio, +que um padre lhe apparecia e lhe dizia estas +palavras:―«Eu sou o defunto superior do templo +de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano +Motonoba de pintar o meu retrato, para ser collocado +no templo onde passei meus longos dias de +existencia.»―Acordando, mandou chamar o grande +artista, fez-lhe a encommenda, e soube então +que elle tivera igual visão durante a mesma +noite.<br /> + +<br /> + +O peor é que Kano não conhecera o reverendo, +nem lhe constava que existisse um só retrato para +modelo. A tarefa era ingrata. O pintor passou então +dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel +em punho e tinta preparada, immovel, perplexo, +desesperado de jamais poder realisar o seu intento. +Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu +do alto do tecto lentamente até poisar na tela, onde +teceu a sua teia, que era nada menos que o esboço +do frade a traços rapidos; Kano limitou-se a completar +a obra em seus faceis detalhes.<br /> + +<br /> + +Outra difficuldade se levanta: Kano desenhára +<span class="pagenum">[198]</span> +um retrato gigante, em uma grande tela, não reflectindo +a principio que nunca poderia conseguir que +passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando +concluido e como o <img style="width: 166px; height: 222px; float: left;" alt="" src="images/fig68.png" />problema se apresentasse +irresoluvel, +eis sopra de repente uma rajada em furia, +que deita a terra uma parede do albergue, e leva +em triumpho, pelos ares, o primoroso quadro até ao +templo de Kurama, onde até hoje +está, e os visitantes o admiram.<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 446px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +Sesshiu, um nome glorioso +entre a pleiade dos pintores do +Dai-Nippon, entrára como noviço +aos treze annos no templo +de Hofukuji. Sabe-se que, durante +a sua aprendizagem, mais se applicava á arte +do que ás praticas devotas. Uma vez, por uma +offensa d'este genero, foi posto em penitencia junto +a uma columna do templo, durante longas horas, +com as mãos atraz das costas, fortemente amarradas. +Quando o superior vinha soltal-o,―imagine-se +o espanto do sujeito!―eis que surde de junto +dos pés do pobre moço um bando de ratinhos, que +<span class="pagenum">[199]</span> +se escapam espavoridos pela casa. Qual era a +explicação +de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o +penitente, choroso e inactivo, fôra entretendo o +tempo a pintar sobre o sobrado poeirento aquelles +galantes animaes, servindo-se das proprias lagrimas +como tinta, e do dedo grande do pé nu, como pincel; +logicamente, os ratos salvavam das iras do velhote +as preciosas vidas com que o artista acabava de +dotal-os. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Esta é uma velha lenda classica da religião de +Shinto.<br /> + +<br /> + +O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto, +é dedicado á deusa Tamayeri-hime. Esta menina, +antes de dar pretexto aos fieis para ser adorada, +achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias +na guitarra, á beira do rio Seminogarva, quando +avistou boiando á tona de agua uma feicha vermelha, +encimada de lindas pennas de certa ave das +selvas. Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a +junto do seu leito. Acto continuo, succedeu a maravilha +de dar á luz um filho. Seus paes, descrentes +de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos +de innocencia que ella lhes fez, singelamente, +<span class="pagenum">[200]</span> +não acreditaram no milagre, accusando-a da falta +que mais póde envergonhar uma mulher honesta.<br /> + +<br /> + +Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae +da desolada, resolveu aclarar este mysterio. Em +tal designio, offereceu um banquete a todos os visinhos; +e quando estavam todos reunidos, dirigindo-se +ao neto, e entregando-lhe uma taça cheia de +<em>saké</em>, que é o +vinho do paiz, disse-lhe isto.―«Leva-a +a teu pae»―A creança, obedecendo, saiu para a +rua e poz-se a contemplar o céo, e ia murmurando +uma oração; de subito, transforma-se n'um raio, +que corisca, subindo ás regiões celestes, +acompanhado +pela mãe, para a qual começou assim a +glorificação. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro +indigena, que me disseram chamar-se a +<em>Cidade-Nocturna</em>, +pois só com a noite acorda, e só na noite +vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias, +de povo alegre que transita, para cair em repouso +ao alvorecer da madrugada.<br /> + +<br /> + +Áquella hora, a estranha cidade, esbrazeando +a um sol de intensidades tropicaes, do mez de Agosto, +modorrava; torpida quietação; raros vultos se +<span class="pagenum">[201]</span> +viam,―mendigos, vadios, párias da vida,―cosidos +com as nesgas de sombra dos edificios e das arvores +que ajardinam ao centro as avenidas.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 267px; height: 373px; float: right;" alt="" src="images/fig69.png" />Fixei casualmente a +attenção n'um edificio mais +pomposo, de +vastas dimensões, +todo de +madeira nova, +alto de quatro +ou cinco andares, +rodeado +de varandas, +d'onde pendiam +a arejar +ricas colchas +de seda e mantos +de matiz; +não sei que caravançará +de +mysteriosos +habitos, aquelle, +silencioso +tambem áquella +hora, mas dando de si a idéa de conter +nos seus arcanos uma legião do moradores.<br /> + +<br /> + +Ao centro d'este edificio erguia-se em triumpho +<span class="pagenum">[202]</span> +um amplo portal, de madeiras lustrosas; seguia-se-lhe +um vestibulo; depois alguns degraus de escada, +acharoados; e ao fundo, muito ao fundo, havia passadiças +cobertas de esteiras muito limpas, corrediças +entreabertas patenteando, n'uma meia penumbra, +confusos verdes de jardim.<br /> + +<br /> + +Junto ao portal, dois moços de serviço, quasi +nus, dormiam sobre um banco, como dois cães de +guarda cançados da vigilia. Notei que vultos de +mulher, de quando em quando, passavam, perpassavam, +longe, no ultimo plano; languidas, vagarosas, +com os penteados desfeitos, arrastando amplas tunicas +de seda estampadas de entrelaçamentos de +flôres. Uma d'ellas, por desenfado, avançou +té ao +portal, ergueu os braços alto, enfiou os alvos dedos +de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim, +n'aquella posição, poz-se a fitar o azul do +céo que +uma ave cruzava em vôo rapido. Gentilissima, esplendida +no vestido, miudas fórmas graciosas, da +côr do jaspe os pés descalços em habito +de humildade, +e um olhar de dezoito annos quando muito, +pueril, coando a expressão intima de um ser affeito +á passibilidade e inconsciente das coisas d'este mundo. +De dentro, uma voz de velha, azeda e imperativa, +chamou-a pelo +nome:―«<em>Mitsu-Riyo!</em>»―E +eu +fui seguindo o meu caminho, acordando de subito +<span class="pagenum">[203]</span> +para um enternecimento doloroso, que me é peculiar +em presença de certos relances da existencia, +um pequenino nada ás vezes, confuso e passageiro... +<em>Mitsu-Riyo</em> quer dizer, +litteralmente:―<em>Mel que se +offerece</em>―a quem? á turba, a toda a gente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No Japão, uma vez em cada anno é a festa das +meninas, e uma outra vez em cada anno é a festa +dos rapazes.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 270px; height: 312px; float: right;" alt="" src="images/fig70.png" />Na primeira, como +de justiça, e em attenção +ao sexo, tudo se +passa entre a familia, +de paredes a dentro; e +o profano nada logra +devassar dos jubilos +d'aquellas presumidas, +vestidinhas com mil esmeros +e attenções, em +extasis em frente do +altar que se arma em +casa em honra d'ellas, aonde se dispõe, além de +coisas +santas, a collecção de bonecas e brinquedos, a +<span class="pagenum">[204]</span> +serie em miniatura do espelho, da caixa de costura, +do brazeiro, das chavenas, da chaleira, de tudo mais +onde mais tarde os seus dedos mimosos poisarão, +no placido exercicio dos seus deveres de esposa e +mãe por sua vez.<br /> + +<br /> + +A festa dos rapazes é publica, ostensiva. É certo +que no lar se agrupam os trophéos de armas e +allegorias de guerreiros, e brinquedos condizentes +com a turbulencia innata nos garotos; mas no que +mais se empenha o cuidado da familia é n'um curioso +emblema que enfeita a cidade inteira, offerecendo +aos passeantes um estranho quadro de festa e +alegria. Cada qual que tem filhos―e quem ha que os +não tenha?―espeta a prumo ao pé da sua casa uma +vara de bambu de grande comprimento, tendo amarrado +na ponta um enorme peixe de papel, soberbamente +pintado de negro ou de vermelho, escamudo, +com ampla cauda e esbogalhados olhos; cada qual +amarra um peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme +o numero de filhos; e ha casaes tam abençoados +dos deuses e tam cumpridores do seu dever, +que amarram sete peixes, oito peixes, um cardume!...<br /> + +<br /> + +Qualquer curioso em coisas de estatistica poderia, +sobre uma eminencia da cidade, registar pelo +numero dos peixes o numero de filhos varões +<span class="pagenum">[205]</span> +n'aquelle sitio; mais ainda: os ventres benemeritos +que mais soldados dão ao exercito imperial.<br /> + +<br /> + +Ha uma lenda adoravel n'esta usança. Os peixes +figuram carpas, no Japão abundantissimas; a +carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando +a nadar contra a corrente, subindo da fóz té +ás origens; +aquelles peixes de papel, enfunados pelas +brisas fuscas que reinam em geral n'aquella epocha, +que é em maio, perfilando-se contra o vento, dão +uma perfeita imagem do phenomeno. Assim o homem, +no curso da existencia, deve adquirir a rude +teimosia de resistir, de passar para além da corrente +dos revezes, dos desalentos, das intrigas, té +alcançar o lago bonançoso da paz da consciencia e +da abastança ganhas com o seu trabalho intelligente. +A festa é ao mesmo tempo um aviso aos tenros +nipponicos de agora, ranhosos, rabujentos, dependurados +da teta maternal, ou, mais crescidos, caçando +as cigarras poisadas sobre as arvores, lambendo +doçarias e soletrando o +<em>i-ro-ha</em> pelas escolas, +mas que amanhã constituirão a massa activa e +dirigente +d'esta tribu inchada de orgulhos patrioticos, +e abrazada em ambição. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[206]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente, +hei-de ainda escrever um longo capitulo inspirado +na mulher japoneza, tal como eu a comprehendo, +ou antes, tal como a não comprehendo. Não agora. +Agora intento apenas fallar d'ella em breves phrases, +ao capricho das rapidas idéas que me occorrem.<br /> + +<br /> + +Qual é o seu destino? O enlevo do lar. Seria +pois, como quem diz, um canario cantador, gentil e +inutil, saltitante, papeando ao sol e enchendo a casa +toda de alegria, se não se devesse incluir em tal +enlevo, dois meritos ainda: o delicado instincto da +ordem, da limpeza, e um fundo de carinho maternal, +tam amoroso, que talvez não tenha egual no +mundo inteiro. De sorte que, sem missão activa +propriamente, parece vir ao mundo destinada a uma +doce passibilidade feita de cuidados e sorrisos, para +tornar feliz o esposo, e preparar para a vida um +outro homem, o seu filho. Sem iniciativa propria +no ramerrão da existencia quotidiana, simples nos +habitos, nas occupações e nos desejos, a sua +condição +mantem-lhe, e mesmo lhe exaggera, os attributos +peculiares do sexo,―delicadezas phisicas fixadas +no requinte, e um discorrer ingenuo de creança. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[207]</span> +É uma escrava do homem? É difficil dizel-o, +n'este mundo, que é todo escravidão. Sim, +será +talvez; e recorda-se este velho preceito de moral, +ainda não esquecido:―«Obedece a teu pae, mais +tarde a teu marido, mais tarde a teu filho primogenito.»―No +entretanto, bem chimericas algumas devem +ser as que supportam... pois para que lhes +servem a ellas, as +<em>musumés</em>, o sorriso +perenne dos +labios, o mimo dos gestos, das feições, do +garridismo +do seu trajo, a alma de graças que têem nas +pontas dos dedinhos, que tudo aformoseam onde +tocam, senão para trazerem submisso ao jugo dos +seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque +os homens são brutos em todo o planeta) e +folgarem como princezinhas voluntarias?... Que se +julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira, esta +Senhora Crysanthemo, esta Senhora Primavera, +não ha duvida, concluindo por este mesmo sorriso +dos labios frescos durante todo o dia―e possivelmente +toda a noite―pela alegria fervilhante dos +olhitos, pela serena ondulação da mimica, +já surprehendendo-as +nos mil misteres caseiros, já pela +rua, caminho dos bazares, dos templos, dos theatros, +dos campos floridos...<br /> + +<br /> + +É certo todavia que uma grande dissemilhança +afasta a mulher japoneza, da mulher occidental, pelo +<span class="pagenum"><a name="p208">[208]</a></span> +menos d'aquella que a importação despeja dos +paquetes +e vem pisar a terra de Nippon; a ponto, +persuado-me, que um sabio zoologo qualquer, que +descesse do planeta Marte a estas paragens, jamais +ousaria classifical-as como exemplares da mesma +fauna.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 260px; float: left;" alt="" src="images/fig71.png" />Vede esta femeasita minuscula, toda +ella pieguices +de roupas e maneiras, +fragil, sem +musculos, com mãos +e pulsos de creança, +impropria para o +esforço e para a +lucta; passa a vida +de joelhos, sobre +macias almofadas, +brincando com bonecas +como se fôssem +filhos seus, ou brincando com seus filhos como +se fôssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando +os pésitos em passos indecisos, preguiçosos, +borboleta bohemia, sem rumo e sem intento; sabe +cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate, +dedilhar no <em>shamicen</em>, +compôr ramos de flôres, +servir o chá nipponico, lêr historias de raposas +<a href="#e14">fabulosas</a> +e de macacos legendarios... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p209">[209]</a></span> +Agora comparae esta chimera humana com as +rudes viageiras que o mar aqui arroja, bravos exemplares +do feminismo em moda, <a href="#e15">fontes</a> de +musculos, +de animo atrevido, usando monoculo, bengala e +collarinho; deixam ás amas os filhos, se é que os +têem, para correrem as cidades a passos de gigante, +ou, mais velozes ainda, manejando com mão firme +a bicycleta; umas são jornalistas, outras são +missionarias, +outras são medicas, outras são sabias, +outras são coisa nenhuma. Não ha +comparação possivel +entre as duas. A europea offusca a japoneza +pelos seus meritos triumphantes. A esta, humilde e +timida, só restaria acaso uma desforra:―era entreabrir +o <em>kimono</em> de seda na parte junto ao +peito, patentear +lhe o par de maminhas brancas e roliças, +com os bicos côr de rosa macerados pelos dentinhos +do garoto que lhe brinca no collo, nu em pêlo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando +em quando amenizar a solidão do meu viver, dizia-me +ainda ha pouco coisa parecida com o seguinte, +a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu, +a bondosa), e da subsequente prolongada preguiça +<span class="pagenum">[210]</span> +litteraria em que fiquei:―«Você deu ao publico as +suas illusões; o publico espera agora as suas +desillusões.»―Não +sei ao certo o que então lhe retorqui; +mas eis o que me occorre responder-lhe, ao +escrever a ultima pagina d'este livro:<br /> + +<br /> + +Vá de barato que a gente publique as suas +illusões; +melhor fôra calar-se, todavia. Mas para as +desillusões +não ha, supponho eu, publicidade ademissivel; +soffrem-se no silencio intimo, e manda o orgulho +proprio, além de outros motivos, que a gente +as não divulgue. No entretanto, para o paiz japonez, +com o qual ia especialmente contender a gentil +observação que referi,―um nadinha maliciosa, +querendo aparentar estimulo apenas ás minhas actividades +em lethargo,―para o paiz japonez, devo +confessar que me encontro ainda no periodo do enlevo +e dos feitiços. Não ha terra, que eu +conheça,―e +tantas tenho conhecido!―mais deslumbrante +do que esta nos aspectos; não ha povo mais interessante +do que este, pelo feitio moral, pelos costumes, +pela alma artistica; não ha mulheres mais mimosas +do que estas <em>musumés</em>; e +não ha no mundo +inteiro gente mais feliz do que esta gente japoneza; +é dizer tudo. O que o tempo e a experiencia me +têem dado a conhecer, é a +convicção profunda da +incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu; +<span class="pagenum">[211]</span> +o Japão é dos japonezes e só dos +japonezes, +o europeu, como um pingo de azeite dentro de agua; +conserva-se aqui sempre isolado, não se assimilla +ao meio. Porquê? por dissemelhanças +irreconciliaveis +do sentir, da educação, dos habitos, por essa +invencivel barreira que se define em tres palavras, +a―differença de raças.<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 330px; float: right;" alt="" src="images/fig72.png" />Minha senhora: para poder assim +synthetisar-se +um sentimento como eu acabo de fazer, para adivinhar +o encanto no que nos é vedado, para dizer +que é grato o aroma de um ramalhete de flôres que +nos mostrassem dentro de uma redoma de crystal, +não é fácil tarefa; tem de elevar-se a +alma a um +extremo altruismo +estetico, paradoxal +até, não por virtude +nem sciencia, +mas derivado de +condições tristes +da vida, e quando +se é já tam pobre +em esperanças e +desejos, que o individuo +rasteja como +um pária moral, +alheio a tudo.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span>Tal +pária, n'um ponto, n'um só ponto, +é grande como +um Deus: vê o mundo do alto, parecem-lhe os homens +formigueiros, segue com a vista as formigas +nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; +em tal estado de desinteresse e independencia, +custa pouco então apontar com o dedo para a +tribu que mais bem dotada parece na partilha das +graças, dizer―é esta, o Dai-Nippon.<br /> + +<br /> + +Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, +as illusões d'este paiz... e a sua estima, e esta +não é uma illusão.<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">1901</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c16"></a>ISSUMBOSHI<sup><a href="#2">[2]</a></sup></h3> + +<h4>(CONTO JAPONEZ)</h4> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">a +A. A. Ferreira d'Almeida.</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam +na provincia de Settsu, em Naniwa, como +então se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois +sósinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente +os desejassem. Ora, a prole é a grande +preoccupação +da familia japoneza; considera-se mesmo +incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle +que a não teve, e assim se vê privado de legar o +seu +nome, e os encargos do culto devido aos ascendentes, +ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe +apenas o triste expediente da adopção de um filho +estranho, que, com a herança do appellido de familia, +assuma os encargos da supposta primogenitude. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[214]</span> +―Um filho... um filho ao menos, fôsse elle +embora um aleijado, um monstro, uma migalha de +gente, com o tamanho de um dedo por estatura... +mas um <img style="width: 290px; height: 324px; float: left;" alt="" src="images/fig73.png" />filho!...―tal o +thema constante, durante +longos annos, das mais gratas esperanças do casal +a que me referi. Quando, pelas rugas nos rostos e +pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram +que não mais lhes era dado confiar na iniciativa +propria, elevaram então o pensamento aos deuses, +como dispensadores que são de todos os milagres; +encaminhando de preferencia a sua devoção para o +glorioso Myojin, que é +a divindade venerada +no celebre templo de +Sumyoshi, a curta distancia +de Naniwa. +Quasi todas as manhãs +elles se dirigiam +em piedosa romaria, +juntos, cada qual arrimado +ao seu bordão, +pois já as pernas lhes +vergavam ao peso dos +<span class="pagenum">[215]</span> +invernos; e era então um espectaculo deveras commovente, +e supinamente grotesco ao mesmo tempo, +que fazia correr lagrimas e estalejar risadas á gente +que passava, o d'aquelles dois decrepitos, cheios de +uncção e abrazados em fé, erguendo ao +céo as +pobres mãos escarnadas, e implorando o deus para +que lhes desse um filho, fôsse elle como fôsse, +fôsse +elle uma migalha de gente, do tamanho de um dedo +por estatura!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios +annos, o deus de Sumyoshi se apiedou por fim de +tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um dia +para lhes proferir estas palavras:―«Faço-vos a +vontade, +bons caturras, haveis de ter um filho.»―Os +dois pularam de contentes, como se póde imaginar; +galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas +um do outro, voltaram para o albergue. Não tardou +muito que a velha sentisse com alvoroço os primeiros +remoques que prenunciam gravidez; e finalizados +nove mezes dava á luz uma creança, um menino...<br /> + +<br /> + +Caspité!... Mas reparem agora no ponto mais +surprehendente da aventura: o menino, lindo como +<span class="pagenum">[216]</span> +os amores, tinha a estatura de um boneco, como +esses de porcellana que se usa collocar nos jardins +liliputianos, contidos n'um vaso ou n'uma caixa, +muito do agrado da gente japoneza. O espanto dos +paes foi grande, e a decepção tambem; mas em +verdade +não havia motivo de queixa contra o deus, que +concedêra o que se lhe rogára,―um filho, com o +tamanho de um dedo por estatura.―Era assim.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 174px;" alt="" src="images/fig74.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<em>Issumboshi</em> foi o nome que deram ao +menino, isto +é, traduzindo litteralmente em portuguez: o +<em>Cavalheiro +Pollegada</em>. As chronicas não rezam se foi +amamentado a <em>biberon</em>, ou se o +mirrado seio maternal +entumeceu de subito e se offereceu solicito aos +labios do garoto. O que é facto é que Issumboshi +foi medrando em graças e em esperteza; não +porém +em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era +tal como viera a este mundo. Esta gentil disformidade +trouxe o enfado ao lar e até um certo azedume +<span class="pagenum">[217]</span> +mal contido contra as suppostas bondades do deus +de Sumyoshi. O escarneo era espontaneo nas boccas +dos visinhos; os gaiatos do sitio apraziam-se em +zombarias d'esta ordem:―«Lá está o +<em>anão</em> comendo +arroz! lá vae a <em>ervilha</em> +passear!»―Emfim, para encurtar +razões, direi apenas que chegou um momento +em que Issumboshi se tornou insupportavel a seus +paes, vergonha viva do casal, sem prestimo presente, +e sem que se lhe suppozesse utilidade possivel no +futuro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, +pôl-o fóra de casa, abandonal-o ao acaso da +fortuna. Foi chamado o menino á presença do pae, +que lhe expôz os motivos da sua +resolução, e lhe +apontou de um gesto o caminho da rua.―«Sim, +papá, partirei sem demora, retorquiu, resignado e +submisso; mas faça-me favor de dar-me antes uma +agulha d'aquellas de que a maman se serve para +coser os seus +<em>kimonos</em>.»―Perguntou o pae +para +que? e foi-lhe respondido que era para usar d'ella +como um sabre, muito proporcionado ao seu tamanho. +Depois pediu á mãe uma tigela de madeira, +d'aquellas que se empregam em servir o caldo ás +<span class="pagenum">[218]</span> +refeições, e mais um d'esses pausinhos que se +chammam +<em>hashi</em>, com o comprimento de um +palmo, substituindo +na mesa japoneza o garfo e a colher. +Perguntou a mãe para que? e foi-lhe respondido +que, para a longa viagem que ia emprehender, a tigela +seria o barco, o <em>hashi</em> seria o remo, +tudo proporcionado +ao seu tamanho.<br /> + +<br /> + +Em posse dos utensilios que alcançára da +munificencia +de seus paes, Issumboshi fez-lhe uma rasgada +reverencia e desappareceu de casa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Eil-o só, o pobre abandonado, entregue ao seu +arbitrio, dispondo como haveres de uma tigela, de +um palito e de uma agulha, collocando esta á cinta, +á laia de catana, com uma palhinha por bainha!... +Que fazer? Para onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, +o extenso rio lodoso e calmo que tem suas +origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa +Naniwa, e vae perder-se no oceano. Que fazer? Para +onde ir?―«Ir a Kyoto, pensou comsigo o anãosinho, +á capital do Imperio (então não era +Tokyo a capital), +á residencia do Soberano, aonde muitas coisas +curiosas deve haver, dignas de vêr-se...»―E +abalou. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p219">[219]</a></span> +Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, +os mil perigos affrontados por tão exiguo barco, que +uma simples casca de laranja,<img style="width: 300px; height: 264px; float: right;" alt="" src="images/fig75.png" /> boiando á tona de agua, +já punha em risco de naufragio. Issumboshi ia perguntando +aos pescadores o caminho para Kyoto; se +refrescava o vento, abrigava-se junto da estacaria das +pontesinhas que galgavam de uma margem do rio +para a outra margem; pelas noites escuras, ou quando +a fadiga o affligia, <a href="#e16">encalhava</a> +o seu barco junto +á terra, por entre a maranha +dos limos e das +plantas aquaticas; e foi +assim, com mais de +trinta dias de derrota, +que abordou uma manhã +á famosa capital do +paiz do Sol Nascente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Eil-o em terra, bamboleando-se, folgando com o +chão firme, com as palestras da turba, com o cheiro +das tabernas, como effectivamente succede aos +marinheiros após longos dias de cruzeiro, enfadados +<span class="pagenum">[220]</span> +de balanço, de isolamento, de carne salgada e de +bolacha. Issumboshi, pouco maior que um escaravelho,<img style="width: 245px; height: 242px; float: left;" alt="" src="images/fig76.png" /> +passava despercebido por entre os muitos +passeantes; assim poude furtar-se a commentarios +zombeteiros e percorrer tranquillamente as ruas da +cidade, embasbacando-se em face dos aspectos grandiosos +que aos seus olhitos sagazes se iam offerecendo. +Por fim, eil-o acercando-se da mais sumptuosa +residencia em que os mesmos olhitos jamais +tinham poisado; era alli que vivia um grande personagem, +o principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro +na côrte do soberano. Entra Issumboshi resolutamente +no amplo pateo da entrada, e informa +os serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal +dominio. Deu-se +então o comico incidente +de estar +sua alteza muito +cerca e de acudir, +á porta, attrahido +pela maviosa voz +do visitante; como +ninguem visse porém, +ia de novo +recolher-se, resmungando +que teria +<span class="pagenum">[221]</span> +jurado achar-se alli um estranho em conversas +com a gente de serviço; mas um derradeiro olhar +pesquisador revelou-lhe, quasi occulto por detraz +dos seus tamancos, que estavam junto á entrada +conforme o uso do paiz, o curioso figurão que +conhecemos.―«Oh! +exclamou, eras tu, minusculo vivente +que ainda ha pouco proferias o meu nome?»―O rapaz, +polidamente, assegurou que sim, que era elle +proprio.―«E que me queres +então?»―Issumboshi +expôz a sua procedencia, os seus titulos e as tristes +condições em que se via; e concluiu rogando que +lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu +serviço.―«Pois +sim, fica comnosco, respondeu sua alteza, +após ligeira reflexão; tu és sem +duvida, continuou, +o homem mais pequeno que tem apparecido n'este +mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras +que conheço; não quero perder o léo de +possuir +tamanha galanteria, praticando ao mesmo tempo +um acto meritorio, protegendo-te.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Embora tam infimo em grandeza, o <em>Cavalheiro +Pollegada</em> soube mostrar-se utilisavel em tudo em +que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se querido +da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto +<span class="pagenum">[222]</span> +para matar enfados, dos quaes ninguem se +livra, e menos ainda os ricos, sempre <img style="width: 300px; height: 432px; float: left;" alt="" src="images/fig77.png" />ociosos em +seus palacios de regalo. Ko-Haru, a filha do fidalgo, +a mais gentil donzella de Kyoto (que é a terra das +mulheres mais gentis de todo o Imperio), especialmente +lhe votou as suas sympathias, impondo-lhe +o dever―dulcissimo dever!―de acompanhal-a por +toda a parte onde ella fôsse, qual rato sabio que +seguisse a dona em seus passeios...<br /> + +<br /> + +Entre os dois, a formosa +<em>musumé</em> e a migalha de +gente, passaram-se então graciosas scenas, as mais +tocantes que póde imaginar-se, se imaginaveis +são... +Era um enlevo vêl-o, sempre +vestidinho de guerreiro, +a primor, com roupas de +setim que ella pelos proprios +dedos habilidosos lhe bordava, +e lhe cosia, privando +de carinhos as suas bonecas +favoritas; e Issumboshi, muito +compenetrado do seu papel +de pagem, nunca largando +o sabre da cintura, +arrogava-se uns taes ares marciaes, tão petulantes, +que +a gente morria de rir, ao +<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span> +avistal-o!... Se chovia, ou se a excursão se prolongava, +Ka-Haru tomava nas mãos alvas de neve o +seu pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo, +ou aquecendo-o ao seio. Issumboshi, é bem de crêr, +possuia, como todo o ser humano possue, um +coração, +embora reduzido ás proporções de uma +cabeça +de alfinete, mas pulsando de gratidão e de ternura. +Aquella convivencia escravisou-lhe a alma. Uma +dedicação +immensa, uns zelos infinitos, um desejo +constante de agradar á sua nobre ama, taes fôram +os sentimentos dominantes no animo do pygmeu. +A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que +aos outros mortaes eram vedadas... (oh, mysterio +psychologico de todos os namorados d'este mundo! +quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis +a +sorte de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas +de agosto, Ko-Haru se aprazia em estender-se +sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido tambem +pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos +pés nus de sua ama, como em leito de marmore +de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos labios +frescos da donzella uma petala de magnolia, em que +por distracção os dentinhos se entretinham +mordicando: +Issumboshi comeu-a; e durante um dia inteiro +não se serviu de outro alimento, assegurando +com verdade <a href="#e17">que aquelle</a> lhe +bastava... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[224]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo +de Kiyomizu-no-Kwannon (Kwannon é a deusa buddhista +da piedade), a fim de praticar as suas devoções; +como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, +de volta, quando ambos desciam o ultimo degrau +da ampla escadaria que dá accesso ao templo, dois +demonios surdiram de improviso das proximas balseiras, +horriveis de figura, herculeos, colossaes, cuidando +sem detenças de raptar a linda peregrina. +Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi +retira a espada da bainha (a agulha que +a mãe lhe dera n'outros tempos), perfila-se em frente +dos demonios e brada-lhes assim:―«Vis temerarios, +que commetteis a magna offensa de perturbar em +seus passeios piedosos a princeza Sanjó! sabei que +se um de vós, com um só dedo lhe tocar, commigo +se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, +assim este meu sabre lhe rasgará a +entranha!...»―Consta +que os diabretes se pozeram a +rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais +fallador, dignou-se responder com uma vóz de +trovão +que fez afugentar das arvores os pardaes, em +<span class="pagenum">[225]</span> +cinco leguas ao redor:―«Acalma a tua furia, infimo +insecto; não percebes acaso que a lucta contra +nós +é-te defeza? para encurtar razões e +não seres importuno, +vaes vêr o que te faço...»―Levantou-o +do solo, mui delicadamente, com as pontas dos dedos, +e enguliu-o...<br /> + +<br /> + +<img style="width: 300px; height: 322px; float: right;" alt="" src="images/fig78.png" />Pareceu a Ko-Haru +fugir-lhe a ultima +esperança de +salvar-se. Illudia-se. +Em plenas trevas, escorregando +pela guela +babujenta do monstro, +e penetrando na +enorme rotunda da +barriga, o anãosinho +empunhou o sabre a +duas mãos e foi espicaçando ao acaso, para a +frente, +para a direita, para a esquerda, o ventre, a fressura, +os intestinos; o diabo sentiu-se de repente incommodado, +soffreu ancias atrozes, vomitou o jantar e +Issumboshi de novo appareceu á luz do dia. O outro +monstro tentou em seguida igual ardil, devorando +o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe para o +nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou +esgrimindo, a ponto de produzir tal comichão, +<span class="pagenum">[226]</span> +que o diabo espirrou, salvando-se o inimigo pelos +ares. Foi então que os demonios se encheram de +pavor, convencidos de que tinham em frente de si +um ente extraordinario, posto que de tão desprezivel +apparencia; e deitaram a fugir...<br /> + +<br /> + +Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a +desolada dama, convence-a da ausencia do perigo e +faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio, +onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru +vae partir; antes porém testemunha ao pagem +a sua muita gratidão, promettendo contar á +familia +o succedido, para que chovam justas recompensas +sobre o seu donodado salvador. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, +Ko-Haru encontra no caminho um utensilio alli abandonado, +o pequenino martello milagroso de que os +demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido +pelos monstros na ancia de safarem-se. +Tomou-o pressurosa. Perguntou o companheiro o +que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que +bastava brandil-o para a gente realisar os seus desejos, +e que elle proprio, se algum desejo tinha, lh'o +<span class="pagenum"><a name="p227">[227]</a></span> +dissesse, que logo lhe seria satisfeito, Issumboshi +berrou, no auge da commoção e da +esperança:―«Altura! +Altura! Altura»―Ko-Haru não percebeu o +que elle queria. Elle então, mais prolixo, explicou +que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho, +tornar-se um homem como todos os homens +d'este mundo. O milagre, a um gesto da +<em>musumé</em>,<img style="width: 265px; height: 234px; float: right;" alt="" src="images/fig79.png" /> +realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as +regulares proporções de um guapo +mocetão; ao lado +da princeza, quem se pozesse a vêr aquelle par, diria-os +feitos um +para o outro, de +encommenda...<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 344px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +Chegaram <a href="#e18">ao +palacio</a>. A admiração +foi grande; +mas não sei +o que mais commentarios +mereceu, se as peripecias da princeza, +rematadas com tão feliz epilogo, se o milagre do +martello na pessoa de Issumboshi. Logo alli se lhe +mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu +<span class="pagenum">[228]</span> +do seu nobre protector mil recompensas, mais +tarde do soberano mui fartas honrarias, subindo aos +mais altos cargos publicos; mas a mais doce recompensa +que aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se +o esposo querido de Ko-Haru, que elle amava, do +fundo da alma, desde o primeiro dia que lhe foi dado +contemplal-a...<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">Kobe, março de 1902.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c17"></a>O PESCADOR URASHIMA</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">a +Joaquim Costa</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da +costa do Japão, Urashima, um moço pescador. +D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:―que +tinha um coração propenso ao bem, e que +em destreza ninguem o igualava, tratando-se de +artes de linhas e de anzoes;―nada mais, mas já +não era pequeno o elogio.<br /> + +<br /> + +Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho +no seu barco. E que pescou Urashima d'essa feita? +Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma +enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a +cabecita rugosa, denunciando assim a grande vetustez; +<span class="pagenum">[230]</span> +é notorio que as tartarugas vivem muito; +vivem +mil annos, no Japão.<br /> + +<br /> + +Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao +pobre pescador, pouco mimoso de acepipes; jantar, +ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros que a +casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar +na crueldade que ia <img style="width: 215px; height: 266px; float: left;" alt="" src="images/fig80.png" />commetter, roubando assim +talvez longos seculos de vida áquelle bruto, fadado +pela sorte ao goso da existencia, durante +gerações +e gerações da tribu humana; e lembrou-se da +mãe, +da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser +caritativo com os brutos indefezos... É certo que +as mãos abandonaram a presa, n'um largo gesto de +bondade; e a tartaruga, +volvendo á agua sem +se fazer rogada, lepida +mergulhou no azul e se +safou das vistas.<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 399px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div class="break"> + <hr /></div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +Fazia então tanto +calor!... Era um d'esses +dias abrazadores de +agosto, embebidos de +<span class="pagenum">[231]</span> +paz, de luz, de torpidos affluvios. Além, a aldeia +quedava-se na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento +absoluto; apenas, sobre as arvores, cantavam +as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se +nos campos a faina da lavoira; nas choças +escancaradas, patenteavam-se os corpos nús, +estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em +suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem +pelos ardores d'aquella hora, largou das mãos os +remos e as linhas, encostou-se á bancada e adormeceu.<br /> + +<br /> + +No entretanto, eis que surge das aguas um vulto +feminino, encantador. O episodio, que a tradição +do povo foi retendo até aos nossos dias, póde +agora +reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do +esquife, poisa esse vulto, essa fada adoravel de feitiços, +envolta em roupas carmezins, solto o cabello +ás brisas e corôada a fronte com o diadema de +oiro, +que é apanagio das princezas; estende o braço de +neve para o adormecido, toca-lhe na fronte com as +pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas +palavras:―«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou +contar-te quem eu sou; sou a filha do deus do oceano +immenso, habito com meu pae o palacio do dragão, +no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco +colheste e restituiste á liberdade, era eu propria; +<span class="pagenum">[232]</span> +meu pae impoz-me um tal disfarce, para que assim +podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem +e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, +se me queres; mil annos viveremos sempre juntos, +sempre jovens, sempre felizes, no palacio do dragão, +sob o azul das aguas...» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha +a esparrela da pôpa, maneja-a com denodo, +dá-lhe―podera não!―forças herculeas +a ancia de +chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos +franzinas, e vae sorrindo ao companheiro. E vão +remando, e vão remando, sem que a fadiga os aquebrante, +até que finalmente o barco alcança o porto +desejado, e já de longe o palacio se desenha, em +arcarias, em grimpas, em mirantes recortados.<br /> + +<br /> + +Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia +ousára imaginar tantos primores!... As paredes +do palacio são de renda de coral; as arvores +do jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam +em perolas e rubis; as escamas dos peixes são de +prata, os olhos de diamantes, as caudas dos dragões, +de oiro lavrado... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[233]</span> +Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, +vestindo <em>kimonos</em> de cerimonia, e vem +saudar os +noivos viajantes. Após os cumprimentos e os discursos +laudatorios que prescreve a etiqueta em casos +taes, a princeza, seguida do cortejo, entra em +palacio; gorazes e toninhas seguram-lhe a cauda do +vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa +limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos +deliciosos; descança n'um salão que mais lhe +apraz, pela delicia dos adornos e pela paizagem +que se avista, e a seu lado offerece um logar ao +companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, +os dragões, a turba em fim dos escravos jubilosos, +corre a prostrar-se em frente da princeza; e de +joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, começa +servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, +os licôres, os fructos, os manjares.<br /> + +<br /> + +Urashima extasia-se diante do que é seu, bem +seu, pois que é de sua esposa. Durante tres annos +assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem +enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus +amores; ora na paz da esteira, no enlevo das mãos +que se entrelaçam, dos olhos humidos que se fitam, +das palavras em segredo que se trocam, das almas +enamoradas que se dão; ora perscrutando os mysterios +do oceano, em excursões pachorrentas pelas +<span class="pagenum">[234]</span> +florestas das algas viajantes, por onde a vida aquatica, +de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas +que a ninguem é dado conhecer; ora em +longos passeios pelos jardins, onde as arvores não +cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando +ao pendor das perolas e rubis. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima +acerca-se da esposa e diz-lhe pouco mais ou menos +o seguinte:―que a adora e se sente ditoso, mas +cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho +pae, a doce mãe, os irmãos, os antigos +companheiros +de trabalho; e promette voltar após curta +visita.―Então, +pela primeira vez sem duvida, uma ligeira +nuvem de tristeza, um vago presentimento angustioso, +turvaram o olhar sereno da princeza.―«Vae, +diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora +bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te +a grandes riscos; leva comtigo este pequeno cofre, +que alguma coisa contém que te pertence; sirva-te +elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca +o abrirás, pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca +mais voltarias a esta mansão do nosso amor...»<br /> + +<br /> + +E partiu, e abordou o solo patrio... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p235">[235]</a></span> +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O que quer que era de bem estranho se passára <a href="#e19">durante</a> a ausencia de Urashima. Aonde +estava a sua +aldeia? aonde se erguia a cabana de seus <img style="width: 293px; height: 264px; float: left;" alt="" src="images/fig81.png" /><img style="width: 107px; height: 184px; float: left;" alt="" src="images/fig82.png" />paes? +A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, +os mesmos cerros sobrepondo-se, alli lhe appareciam, +bem taes como os deixára, na fria impassibilidade +das coisas immutaveis; mas os povoados +offereciam outro aspecto, os campos outro amanho; +mas as arvores, que lhe haviam dado abrigo e sombra, +e de que tão bem se recordava, erguiam apenas +troncos seccos, algumas, porque outras já nem +mesmo existiam, +e outras +arvores medravam +<span class="pagenum">[236]</span> +n'outros sitios, projectando outras sombras, +fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua +aldeia, surgia agora um pinheiral. Reconheceu o +mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e ainda +agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, +como dantes; mas agora deserto, faltando o grupo +galhofeiro das <em>musumés</em> +que tinham por costume ir +alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans, +<em>kimonos</em> arregaçados, +pernas núas, braços nús, lidando, +palestrando e rindo umas com as outras.<br /> + +<br /> + +Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. +Urashima alcança-os e interpella-os:―«Bons +dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa +da familia de Urashima?»―Pensaram, consultaram-se, +coçaram a cabeça, buscando +recordar-se.―«Urashima, +Urashima... Urashima, o pescador? tem +graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo +menos, como contam, se afogou elle quando pescava +no seu barco, pois nunca mais appareceu; o +seu pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos +seus irmãos, dormem todos além no cemiterio, ha +muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes +de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella +sequer existe por aqui...»<br /> + +<br /> + +Então, como um relampago que acode subitamente +pela noite, a illuminar a estrada, uma idéa +<span class="pagenum">[237]</span> +acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a +allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á +patria, poisando os pés descalços no areal da sua +querida aldeia, relanceando as curvas da paizagem +em que por tantos annos a vista se poisara, e a +recordação +lhe gravára para sempre na memoria. +O palacio do deus do mar, no abysmo das ondas, +com as suas paredes de renda de coral, com os +seus pomares de folhas de esmeraldas e fructos de +perolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas +e olhos de brilhantes, e os seus dragões de +caudas de oiro fino, não pertencia á terra, era +do +mundo dos prodigios, regia-se pelas leis do encantamento; +um dia, dos seus dias, valia por muitos +annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima +o suppozesse, seculos sobre seculos haviam +passado sobre a terra, matando, destruindo, transformando, +arrastando as coisas e os individuos á +fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao +nada, surgindo das ruinas outros aspectos e outros +seres... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; +e o disparate anachronico da situação em que +<span class="pagenum">[238]</span> +se via, incutiu-lhe no animo não sei que horrivel +oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a +mesma areia inerte e os mesmos monstros de granito; +mais nada. Aldeia, amigos, aspectos familiares +da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, +outros aspectos, outra gente, e para esta o nome de +Urashima entrava já na lenda. Em nada o captivava +aquella terra. O anceio de fugir, de volver ao esplendor +do seu palacio, acudiu-lhe então, dominador; +e a imagem das mil graças da princeza multiplicava-lhe +o desejo de abandonar para sempre o solo onde +nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, +esse no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais +povoado de freguezes; e ia partir, deixar em paz a +aldeia morta...<br /> + +<br /> + +Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que +recebera da princeza. Porque? Talvez leviandade, +talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o homem +a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, +que continha nada menos do que a essencia dos +longos annos corridos, e ao mesmo tempo descontados +na existencia de Urashima, escapou-se e pairou +no espaço uma ligeira nuvem esbranquiçada. +Chamado á razão, ao sentimento da desobediencia +em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima +correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe +<span class="pagenum">[239]</span> +que parasse. Era tarde. De prompto, as +proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; +a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu +justo logar nas paginas do tempo, fazia-o galgar de +um pulo a grande barreira que o afastava dos seus +contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em +corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos, +a barba, branquejaram como linho, sulcou-se +o rosto em rugas, estalou a pelle do corpo, os ossos +romperam para fóra, as costas dobraram-se n'um +arco, viu-se como um macrobio não sei quantas +vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido +do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, +caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada...<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>INDICE</h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">Pag.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>As Borboletas</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c1">1</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A Alforreca</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c2">9</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O Anno novo</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c3">20</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A Primavera</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c4">30</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Nilguyo</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">50</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O Cavallo Branco de +Nanko</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c6">62</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A primeira formiga</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c7">78</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Os Diabos e os +velhos</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c8">90</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Pan-Man-Chen</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c9">98</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A Caricatura no +Japão</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c10">107</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Dois Cemiterios +Japonezes</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c11">134</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O Espelho de +Matsuyama</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c12">153</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Amôres</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c13">164</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Um pintor de gatos</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c14">171</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Impressões +rapidas</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c15">181</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Issumboshi</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c16">213</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O Pescador Urashima</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c17">229</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO<br /> + +5, Largo de Camões, 6―Lisboa</h4> + +<hr /> +<hr /> +<h4>Ultimas publicações:</h4> + +<br /> + +O TIO JOÃO GIL Chronica d'aldeia por <em>Barros +Lobo</em> (Francisco) +1 volume, 800 réis<br /> + +<br /> + +O CONDE DE S. PAULO Romance original, por <em>Mauricia +C. de Figueiredo</em>, 1 vol., 800 rs.<br /> + +<br /> + +NA RUSSIA Aspectos da guerra e da revolução. +Narrativa historica +e anecdotica por <em>Eduardo de Noronha</em>, +1 vol. +com 107 gravuras, 800 rs.<br /> + +<br /> + +OS BRAVOS DO MINDELLO romance historico, por <em>Faustino +da Fonseca</em>. 1 vol., 600 rs.<br /> + +<br /> + +O ANNO PARLAMENTAR―1905―A sessão―A questão +dos tabacos, por <em>João +Costa</em>, 1 +volume, 800 rs.<br /> + +<br /> + +A RUA DO OIRO romance lisboeta, por <em>Alfredo +Mesquita</em>, 1 +volume, 600 rs.<br /> + +<br /> + +POSTA-RESTANTE Cartas a toda a gente, por +<em>João Chagas</em>, +1 volume, 600 rs.<br /> + +<br /> + +NO BRASIL uma epopéa maritima, romance historico da +actualidade. +illustrado com cincoenta photogravuras, +por <em>Eduardo de Noronha</em>. 1 vol, 800 +rs.<br /> + +<br /> + +VAMIRÉ romance dos tempos primitivos, traduzido de +<em>J. H. +Rosny</em> por <em>Candido de +Figueiredo</em>, 1 vol, 300 rs.<br /> + +<h4>A +ANNA DE CASTRO OSORIO</h4> + +<br /> + +ÁS MULHERES PORTUGUESAS 1 volume, 600 rs.<br /> + +<br /> + +ANECDOTAS DE REIS, PRINCIPES e outras personagens +extrangeiras. +Extraidas compiladas e prefaciadas por <em>Faustino da +Fonseca</em>, +1 volume, 500 rs.<br /> + +<h4>JOAQUIM DE ARAUJO</h4> + +<br /> + +O "FREI LUIZ DE SOUZA" de +<em>Garrett</em>. Notas, com um +prefacio de <em>T. Braga</em>, 1 vol. +illustrado, 400 rs.<br /> + +<br /> + +TERRA VIRGEM Romance original por <em>Cesar +Porto</em>, 1 volume +800 rs.<br /> + +<h4>ALBERTO CAMPOS</h4> + +<br /> + +O LIVRO DE UM JORNALISTA Sciencia, politica, moral, +religião, coordenação e +notas de <em>Zuzarte de +Mendonça</em>. 1 volume, 500 rs.<br /> + +<br /> + +AS ALEGRES CANÇÕES DO NORTE por +<em>Alberto Pimentel</em>, +1 v., 600 rs.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<a name="1"></a><sup>[1]</sup> Official +da marinha morto em 25 de outubro de 1902. +Vivia, quando o auctor lhe consagrava este capitulo.<br /> + +<br /> + +<a name="2"></a><sup>[2]</sup> Os +desenhos que illustram este conto são +originaes do +proprio W. de Moraes.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui +encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<em><br /> + +<br /> + +</em> +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 68px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 125px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 127px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e1"></a><a href="#p25">#pág. +25</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">n'estas</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">n'estes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e2"></a><a href="#p49">#pág. +49</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">whisyk</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">whisky</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e3"></a><a href="#p68">#pág. +68</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">difflceis</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">difficeis</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e4"></a><a href="#p69">#pág. +69</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">focinho +snostalgicos</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">focinhos +nostalgicos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e5"></a><a href="#p76">#pág. +76</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">offereco</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">offereço</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e7"></a><a href="#p79">#pág. +79</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">tempelos</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">tem +pelos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e8"></a><a href="#p81">#pág. +81</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">entrasae</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">entrasse</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e9"></a><a href="#p92">#pág. +92</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">diabolidamente</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">diabolicamente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e10"></a><a href="#p111">#pág. +111</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">niconsciencia</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">inconsciencia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e11"></a><a href="#p130">#pág. +130</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">vermelha +s</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">vermelhas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e12"></a><a href="#p150">#pág. +150</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;"><em>sumarais</em></td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;"><em>samurais</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e13"></a><a href="#p174">#pág. +174</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">At +que</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">Até +que</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e14"></a><a href="#p208">#pág. +208</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">fabulossa</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">fabulosas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e15"></a><a href="#p209">#pág. +209</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">?ontes</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">fontes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e16"></a><a href="#p219">#pág. +219</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">encahlava</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">encalhava</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e17"></a><a href="#p223">#pág. +223</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">queaquelle</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">que +aquelle</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e18"></a><a href="#p227">#pág. +227</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">a +palacio</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">ao +palacio</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e19"></a><a href="#p235">#pág. +235</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 125px;">rante</td> + + <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 127px;">durante</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +As figuras podem não estar no sítio original.<br /> + +Algumas foram movidas para que os parágrafos não +fossem cortados.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + +<pre><br /><br />End of the Project Gutenberg EBook of Paisagens da China e do Japão, by Wenceslau de Moraes<br />*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PAISAGENS DA CHINA E DO JAPÃO ***<br />***** This file should be named 25537-h.htm or 25537-h.zip *****<br />This and all associated files of various formats will be found in:<br />http://www.gutenberg.org/2/5/5/3/25537/<br />Produced by Rita Farinha and the Online Distributed<br />Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was<br />produced from images generously made available by National<br />Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)<br />Updated editions will replace the previous one--the old editions<br />will be renamed.<br />Creating the works from public domain print editions means that no<br />one owns a United States copyright in these works, so the Foundation<br />(and you!) can copy and distribute it in the United States without<br />permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is<br />subject to the trademark license, especially commercial<br />redistribution.<br />*** START: FULL LICENSE ***<br />THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE<br />PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK<br />To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free<br />distribution of electronic works, by using or distributing this work<br />(or any other work associated in any way with the phrase "Project<br />Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project<br />Gutenberg-tm License (available with this file or online at<br />http://gutenberg.org/license).<br />Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm<br />electronic works<br />1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm<br />electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to<br />and accept all the terms of this license and intellectual property<br />(trademark/copyright) agreement. 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You may charge a reasonable fee for copies of or providing<br />access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided<br />that<br /><br />- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from<br /> the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method<br /> you already use to calculate your applicable taxes. The fee is<br /> owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he<br /> has agreed to donate royalties under this paragraph to the<br /> Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments<br /> must be paid within 60 days following each date on which you<br /> prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax<br /> returns. Royalty payments should be clearly marked as such and<br /> sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the<br /> address specified in Section 4, "Information about donations to<br /> the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."<br /><br />- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies<br /> you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he<br /> does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm<br /> License. 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Contact the<br />Foundation as set forth in Section 3 below.<br /><br />1.F.<br /><br />1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable<br />effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread<br />public domain works in creating the Project Gutenberg-tm<br />collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic<br />works, and the medium on which they may be stored, may contain<br />"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or<br />corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual<br />property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a<br />computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by<br />your equipment.<br /><br />1.F.2. 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LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a<br />defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can<br />receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a<br />written explanation to the person you received the work from. If you<br />received the work on a physical medium, you must return the medium with<br />your written explanation. The person or entity that provided you with<br />the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a<br />refund. If you received the work electronically, the person or entity<br />providing it to you may choose to give you a second opportunity to<br />receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy<br />is also defective, you may demand a refund in writing without further<br />opportunities to fix the problem.<br /><br />1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth<br />in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER<br />WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO<br />WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.<br /><br />1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied<br />warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.<br />If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the<br />law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be<br />interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by<br />the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any<br />provision of this agreement shall not void the remaining provisions.<br /><br />1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the<br />trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone<br />providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance<br />with this agreement, and any volunteers associated with the production,<br />promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,<br />harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,<br />that arise directly or indirectly from any of the following which you do<br />or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm<br />work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any<br />Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.<br /><br /><br />Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm<br /><br />Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of<br />electronic works in formats readable by the widest variety of computers<br />including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists<br />because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from<br />people in all walks of life.<br /><br />Volunteers and financial support to provide volunteers with the<br />assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's<br />goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will<br />remain freely available for generations to come. In 2001, the Project<br />Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure<br />and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.<br />To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation<br />and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4<br />and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.<br /><br /><br />Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive<br />Foundation<br /><br />The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit<br />501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the<br />state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal<br />Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification<br />number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at<br />http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg<br />Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent<br />permitted by U.S. federal laws and your state's laws.<br /><br />The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.<br />Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered<br />throughout numerous locations. Its business office is located at<br />809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email<br />business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact<br />information can be found at the Foundation's web site and official<br />page at http://pglaf.org<br /><br />For additional contact information:<br /> Dr. Gregory B. Newby<br /> Chief Executive and Director<br /> gbnewby@pglaf.org<br /><br /><br />Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg<br />Literary Archive Foundation<br /><br />Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide<br />spread public support and donations to carry out its mission of<br />increasing the number of public domain and licensed works that can be<br />freely distributed in machine readable form accessible by the widest<br />array of equipment including outdated equipment. Many small donations<br />($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt<br />status with the IRS.<br /><br />The Foundation is committed to complying with the laws regulating<br />charities and charitable donations in all 50 states of the United<br />States. Compliance requirements are not uniform and it takes a<br />considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up<br />with these requirements. We do not solicit donations in locations<br />where we have not received written confirmation of compliance. To<br />SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any<br />particular state visit http://pglaf.org<br /><br />While we cannot and do not solicit contributions from states where we<br />have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition<br />against accepting unsolicited donations from donors in such states who<br />approach us with offers to donate.<br /><br />International donations are gratefully accepted, but we cannot make<br />any statements concerning tax treatment of donations received from<br />outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.<br /><br />Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation<br />methods and addresses. Donations are accepted in a number of other<br />ways including checks, online payments and credit card donations.<br />To donate, please visit: http://pglaf.org/donate<br /><br /><br />Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic<br />works.<br /><br />Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm<br />concept of a library of electronic works that could be freely shared<br />with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project<br />Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.<br /><br /><br />Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed<br />editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.<br />unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily<br />keep eBooks in compliance with any particular paper edition.<br /><br /><br />Most people start at our Web site which has the main PG search facility:<br /><br /> http://www.gutenberg.org<br /><br />This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,<br />including how to make donations to the Project Gutenberg Literary<br />Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to<br />subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.<br /><br /><br /></pre> + +</body> +</html> |
