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+ <title>Paisagens da China e do Jap&atilde;o</title>
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+ <meta content="Wenceslau de Moraes" name="AUTHOR" />
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+<link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" />
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+<body>
+
+<pre>Project Gutenberg's Paisagens da China e do Jap&atilde;o, by Wenceslau de Moraes
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Paisagens da China e do Jap&atilde;o
+
+Author: Wenceslau de Moraes
+
+Release Date: May 20, 2008 [EBook #25537]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PAISAGENS DA CHINA E DO JAP&Atilde;O ***
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)).
+
+</pre>
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Maio 2008)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 600px; height: 954px;" alt="" src="images/fig00.png" /><br />
+
+<h2>PAISAGENS DA CHINA E DO JAP&Atilde;O</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h3>WENCESLAU DE MORAES</h3>
+
+<br />
+
+<h2>Paisagens<br />
+
+da<br />
+
+China e do Jap&atilde;o</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+LISBOA<br />
+
+<span class="smallcaps">livraria editora</span><br />
+
+VIUVA TAVARES CARDOSO<br />
+
+<em>5, Largo de Cam&otilde;es, 6</em><br />
+
+<br />
+
+1906</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><br />
+
+</h4>
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+<br />
+
+Typ. de Francisco Luiz Gon&ccedil;alves<br />
+
+80, Rua do Alecrim, 82<br />
+
+<br />
+
+1906</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>A Camillo Pessanha e Jo&atilde;o Vasco</h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote2"><em>Nos bald&otilde;es da
+vida bohemia, na
+confusa success&atilde;o dos dias e das scenas,
+acontece que os factos, as coisas, os individuos,
+invocados pela pobre memoria
+exhausta, v&atilde;o perdendo pouco a pouco
+as suas qualidades intensivas, as suas
+c&ocirc;res, os seus contornos, a sua fei&ccedil;&atilde;o
+propria, emancipando-se do real, como
+uma pagina de aguarella desmerece,
+solta e perdida no espa&ccedil;o e voando com
+as brisas; diluindo-se por fim n'uma
+emo&ccedil;&atilde;o generica, vaga, indifinivel,&#8213;a
+saudade.&#8213;A essas duas grandes saudades,
+Camillo Pessanha e Jo&atilde;o Vasco,
+dedico hoje este livro.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature1"><em>Kobe, 10 de Abril de
+1901.</em></div>
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps"><br />
+
+Wenceslau
+de Moraes.</span></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c1"></a>AS BORBOLETAS</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">a
+J. Moreira de S&aacute;.</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A lenda das borboletas.<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o t&atilde;o lindas, as borboletas! Quem as
+v&ecirc;, que
+n&atilde;o lhes queira? ahi vagabundando pelo azul dos
+campos, razando as corollas frescas, amando-se,
+beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas
+de amantes despidas da miseria terreal, a viajarem
+no infinito... S&atilde;o t&atilde;o lindas, as borboletas!...<br />
+
+<br />
+
+Mas na China s&atilde;o talvez mais lindas do que todas.
+&Eacute; um deslumbramento surprehendel-as na
+quieta&ccedil;&atilde;o dos bosques, voejando aos pares, que se
+tocam, que se abra&ccedil;am, e enfiando pelas sombras
+mysteriosas dos bambuaes, com as suas longas azas
+<span class="pagenum">[2]</span>palpitantes,
+lancioladas, em matizes maravilhosos,
+de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos
+quentes, como se as loucas vestissem cabaias
+de setim, de sedas de alto pre&ccedil;o...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava,
+ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang,
+n&atilde;o longe do logar que hoje se diz Shanghae.
+Como fosse muito dada a estudos litterarios
+e as escolas do seu sexo n&atilde;o lhe satisfizessem a
+ambi&ccedil;&atilde;o,
+conseguiu que seus paes lhe permittissem o
+disfar&ccedil;ar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar
+a mais famosa universidade do imperio. Volveu
+ao lar ap&oacute;z tres annos; volveu t&atilde;o pura como
+f&ocirc;ra; da
+sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para n&atilde;o divagar
+muito n'estas paginas, basta dizer a quem me
+queira ouvir, que um len&ccedil;o de seda branca, que ella
+enterrara na lama em presen&ccedil;a d'uma sua cunhada
+predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois
+tirado sem uma s&oacute; mancha e sem um s&oacute;
+farp&atilde;o,
+branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber
+que as fl&ocirc;res da sua preferencia, que ella deix&aacute;ra
+no jardim, rogando aos deus
+Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava,
+ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang,
+n&atilde;o longe do logar que hoje se diz Shanghae.
+Como fosse muito dada a estudos litterarios
+e as escolas do seu sexo n&atilde;o lhe satisfizessem a
+ambi&ccedil;&atilde;o,
+conseguiu que seus paes lhe permittissem o
+disfar&ccedil;ar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar
+a mais famosa universidade do imperio. Volveu
+ao lar ap&oacute;z tres annos; volveu t&atilde;o pura como
+f&ocirc;ra; da
+sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para n&atilde;o divagar
+muito n'estas paginas, basta dizer a quem me
+queira ouvir, que um len&ccedil;o de seda branca, que ella
+enterrara na lama em presen&ccedil;a d'uma sua cunhada
+predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois
+tirado sem uma s&oacute; mancha e sem um s&oacute;
+farp&atilde;o,
+branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber
+que as fl&ocirc;res da sua preferencia, que ella deix&aacute;ra
+no jardim, rogando aos deuses que as conservassem
+frescas como ella, assim se conservaram
+durante a longa ausencia, embora, como consta, a
+<span class="pagenum">[3]</span>
+cunhada as fosse regando com agua quente tirada
+da chaleira.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 170px; height: 431px; float: right;" alt="" src="images/fig01.png" />Durante
+os tres annos de seu estudo, um companheiro,
+por nome Leun-San-Pac,
+intimamente se lhe afei&ccedil;oou.
+Era o seu camarada inseparavel,
+o seu irm&atilde;o; dormindo juntos, conversando
+juntos, estudando juntos,
+divagando, sonhando; e o lorpa
+do mocinho nunca se apercebeu
+que tinha a seu lado uma
+mulher.<br />
+
+<br />
+
+Quando soou a hora das despedidas,
+cortava o cora&ccedil;&atilde;o v&ecirc;r o
+rapaz, lamentando o futuro isolamento,
+a perda d'um amigo
+como aquelle. A mo&ccedil;a consolava-o.
+A mo&ccedil;a poisava-lhe nos
+hombros as suas m&atilde;os gentis, e
+exhortava-o a que se enchesse de
+coragem, a que se entregasse ao
+amor do estudo, t&eacute; alcan&ccedil;ar um
+alto grau de sapiencia.&#8213;&laquo;E depois, dizia-lhe ella
+entre solu&ccedil;os, e depois, se com saudade te recordares
+<span class="pagenum">[4]</span>
+ainda
+de mim, abala, vem v&ecirc;r me &aacute; minha
+aldeia.&raquo;&#8213;E dava-lhe indica&ccedil;&otilde;es
+precisas do logar.
+Despediram-se, entre choros.<br />
+
+<br />
+
+A donzella esperou, esperou, esperou,&#8213;quem
+poder&aacute; descrever esse tormento? guardando da familia
+o seu segredo; e o mo&ccedil;o n&atilde;o apparecia. Segundo
+os usos do paiz, os paes destinaram-lhe um
+marido; e ella, a desolada, escrava da obediencia
+filial, obediencia cega, indiscutivel, que &eacute; a base da
+vida inteira moral do povo china, inclinou-se, acceitou,
+sem que uma s&oacute; queixa proferisse.<br />
+
+<br />
+
+Tres dias decorridos depois do contracto nupcial,
+eis que chega &aacute; aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre,
+porque a desventura se lhe acerca; mas rico de
+erudi&ccedil;&atilde;o, de uma alma culta, e occupando um logar
+proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu
+irm&atilde;o; mas agora sem disfarces, na gra&ccedil;a plena
+dos
+seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes
+que lhe s&atilde;o proprias, e com grinaldas de flores
+na tran&ccedil;a negra. De come&ccedil;o, este enigma, pouco a
+pouco explicado, confunde-o, desnortea-o; mas tudo
+se aclara; da amisade ao amor o salto &eacute; rapido. Oh!
+elle ama-a agora, elle ama-a de todas as for&ccedil;as do
+seu ser; e no olhar de fogo transluzem mil mysterios
+de adora&ccedil;&otilde;es e de desejos!... &Eacute; tarde.
+A
+palavra dada ao feliz noivo n&atilde;o se quebra. Os velhos
+<span class="pagenum">[5]</span>
+paes prezam mais do que tudo, a propria
+honra.<br />
+
+<br />
+
+Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco,
+com a alma embebida no fel dos desesperos.
+&Eacute; ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta
+consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida
+n&atilde;o &eacute; eterna; que a piedade filial arrasta-a a um
+consorcio que s&oacute; lhe vaticina dores e prantos; mas
+que as almas s&atilde;o livres, emigram d'uns corpos para
+outros; encarnam-se n'outros seres; que elle socegue,
+aguarde outra existencia, para a qual ella
+lhe jura ser&aacute; a sua companheira, toda fidelidade e
+toda amor. Leun-San-Pac l&ecirc;, faz um bolo d'essa
+carta, onde t&atilde;o demoradamente poisara a m&atilde;o da
+sua bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala
+assim na solid&atilde;o o ultimo suspiro. Um pouco al&eacute;m,
+sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos
+de gala, de alegria; e pela longa estrada em ziguezague,
+bordada aqui e alli de bambus e bananeiras,
+doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes
+theorias o monumental cortejo do noivado, caminho
+do lar feliz.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 202px; float: left;" alt="" src="images/fig02.png" />O estylo de ha mil annos
+&eacute; o mesmo estylo de
+<span class="pagenum">[6]</span>
+hoje. S&atilde;o os grandes bal&otilde;es, os estandartes,
+conduzidos
+por mo&ccedil;os vestidos de vermelho. S&atilde;o os
+enxovaes primorosos, as cabaias, a collec&ccedil;&atilde;o dos
+sapatinhos,
+tudo disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. S&atilde;o as
+colossaes pe&ccedil;as
+de do&ccedil;aria,
+castellos
+de assucar,
+drag&otilde;es de assucar,
+coisas
+espantosas. S&atilde;o os porcos
+assados, loiros,
+deliciosos, espalmados sobre os taboleiros, com
+la&ccedil;os de fita nos focinhos. S&atilde;o as orchestras
+estridentes,
+de flautas, de rebecas. S&atilde;o as crean&ccedil;as
+ataviadas em setins, em allegorias de scenas de outros
+tempos, cavalgando alimarias pachorrentas. &Eacute;
+finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda
+ella esmaltes, fechada como um cofre, furtando &aacute;
+vista dos curiosos o precioso fardo, Choc-In-Toi.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A noiva solicita do cortejo um curto desvio na
+sua marcha. A noiva, antes de entrar no lar e de
+<span class="pagenum">[7]</span>
+ser esposa e escrava, quer abeirar-se, al&eacute;m, d'aquella
+sepultura esquecida na montanha, e orar junto
+dos restos do que morreu por ella. Quem lhe recusaria
+tal licen&ccedil;a? Eil-a que desce da liteira, nas
+suas cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra,
+eil-a que beija a terra...<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 208px; float: right;" alt="" src="images/fig03.png" />A terra abre-se ent&atilde;o,
+carinhosa, m&atilde;e; a terra
+traga-a, chama-a a si, chama-a para junto dos ossos
+do seu querido. A comitiva pasma do milagre.
+As m&atilde;os avan&ccedil;am a detel-a; mas s&oacute;
+logram colher
+um peda&ccedil;o do vestido, que se rasga, e &eacute; tudo... O
+peda&ccedil;o de seda,
+de mil matizes,
+transforma-se
+de subito
+n'uma borboleta
+de mil
+c&ocirc;res, que v&ocirc;a
+das m&atilde;os rudes,
+e desapparece no azul,
+desapparece!... &Eacute; desde aquella epocha que ha borboletas
+n'este mundo, t&atilde;o lindas, t&atilde;o cheias de
+matizes!...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o lhes estou contando uma mentira, meus
+<span class="pagenum">[8]</span>
+amigos. Ainda hoje se v&ecirc; a sepultura, esboroada
+pelos seculos, d'aquelles amorosos. E as esposas
+desprezadas alem v&atilde;o em romaria, e d'aquella terra
+bemdita se suprem &aacute;s m&atilde;os cheias, e d'ella
+provam,
+e disfar&ccedil;ada com o arroz a ministram aos maridos.
+Consta que o estranho tempero, aquella terra,
+que em alguma coisa participa da essencia dos
+amantes que ali jazem para sempre, tem virtude
+comsigo, e &eacute; sempre efficaz em trazer ao bom caminho
+os mariolas, os maridos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c2"></a>A ALFORRECA</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+<span class="smallcaps">a Henrique Carvalhosa.</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Falla a lenda japoneza.<br />
+
+<br />
+
+Antigamente&#8213;e quem sabe se ainda hoje!&#8213;no
+seio do oceano era o reino faustuoso dos drag&otilde;es.
+Por longos annos, o senhor d'este reino, o
+drag&atilde;o real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa;
+e sabem s&oacute; os deuses, e n&atilde;o n&oacute;s,
+quantas
+noites de dissipa&ccedil;&atilde;o, em companhia de tartarugas
+e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam
+trovas ao som do <em>shamicen</em> e lhe iam
+servindo <em>sak&eacute;</em>
+em ricas ta&ccedil;as, quantas noites elle passou em travessas
+intimidades amorosas!...<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 188px; height: 549px; float: left;" alt="" src="images/fig04.png" /><img style="width: 212px; height: 207px; float: left;" alt="" src="images/fig05.png" />Verdores, que passam breve. Um
+bello dia, resolveu
+<span class="pagenum">[10]</span>
+casar-se, o bom soberano. A noiva escolhida
+foi uma joven drag&ocirc;asita, dezeseis annos apenas,
+adoravel, digna pelos seus mil encantos de ser a
+consorte feliz de tal senhor. Explendidas foram as
+bodas por essa
+occasi&atilde;o, segundo
+consta: sem j&aacute;
+fallar na c&ocirc;rte intima,
+toda a bicharia
+aquatica,
+peixes, mariscos,
+molluscos, todos vieram processionalmente,
+em cardumes, em bellos <em>kimonos</em>
+de sedas encarnadas, offerecer
+seus respeitos e presentes; e foram,
+durante longos dias, estupendos regabofes, em
+dan&ccedil;as, em musicas, em
+banquetes...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas nem os drag&otilde;es escapam &aacute;s
+duras prova&ccedil;&otilde;es da existencia! Ainda
+bem um mez se n&atilde;o pass&aacute;ra, quando a augusta
+soberana
+caiu doente; e taes cuidados inspirou desde
+logo o seu estado, que era uma lastima observar as
+trombas compungidas dos fidalgos, commentando
+<span class="pagenum">[11]</span>
+baixinho, em lamenta&ccedil;&otilde;es do seu officio, o triste
+caso.
+Reuniram-se os doutores em conferencia; fallaram
+muito, discutiram muito, sem chegarem a accordo,
+como sempre succede; consultaram-se abalisados
+alfarrabios de therapeutica; as barbatanas incan&ccedil;aveis
+rabiscaram um milh&atilde;o de receitas milagrosas,
+e todas as tisanas se serviram. Baldado intento;
+a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos
+sabios, n'um tregeito de piedade e desengano, tiveram
+de ser francos, de declarar que a sciencia&#8213;j&aacute;
+n'aquella epoca se enchia a bocca com <em>a
+sciencia</em>&#8213;que
+a sciencia nada mais podia fazer, e que um
+angustioso desfecho era de esperar-se.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do seu leito de enferma, de entre os
+<em>futon</em>, as
+fofas colchas de setim, agita as tremulas patinhas
+a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe
+estas palavras ao ouvido:&#8213;&laquo;Uma s&oacute; coisa me
+salvar&aacute;:
+arranquem o figado a um macaco vivo, e consintam
+que o devore; recuperarei a saude....&raquo;&#8213;O
+rei n&atilde;o poude reprimir um gesto de surpresa, quasi
+de enfado, e todo se lhe erri&ccedil;ou o bigode
+fa&ccedil;anhudo:&#8213;&laquo;Um
+figado de macaco! est&aacute;s louca, minha
+querida!...&raquo;&#8213;Ella promptamente retrucou:&#8213;&laquo;Louca,
+porqu&ecirc;? Vossa magestade esquece por ventura,
+<span class="pagenum">[12]</span><img style="width: 300px; height: 289px; float: left;" alt="" src="images/fig06.png" />
+que n&oacute;s, o grande povo dos drag&otilde;es, no mar
+vivemos
+sempre; emquanto que os macacos, muito longe
+d'aqui, vivem na terra, nos bosques, entre as arvores,
+nutrindo-se de fructos... No figado do mono
+alguma coisa vir&aacute; que participe d'esse mundo, t&atilde;o
+diverso, t&atilde;o outro;
+e essa particula
+estranha,
+senhor, me salvaria!...&raquo;&#8213;E
+a rainha, a
+quem as lagrimas
+acodem,
+prosegue n'um
+tom reprehensivo
+e lastimoso:&#8213;&laquo;Uma
+insignificancia,
+um nada, pedi, e esse nada vossa magestade me recusa.
+Julgava merecer-lhe mais affectos. Dispa-me
+d'estas pompas de soberana, n&atilde;o as quero; d&ecirc; a
+cor&ocirc;a a outra esposa, mais digna, mais formosa;
+consinta que volva ao ninho carinhoso de meus
+paes...&raquo;&#8213;A voz suffoca-se em solu&ccedil;os,
+n&atilde;o pode
+mais proferir uma s&oacute; queixa...<br />
+
+<br />
+
+O rei dos drag&otilde;es n&atilde;o queria passar, entre damas
+<span class="pagenum">[13]</span>
+por um drag&atilde;o cruel; por demais conhecia elle
+os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os
+complacentemente, por systema; e sobretudo adorava
+a esposa, cujas lagrimas desejaria poupar a todo o
+transe. Satisfa&ccedil;a-se pois o capricho da rainha. Mandou
+chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a<img style="width: 300px; height: 290px; float: right;" alt="" src="images/fig07.png" />
+alforreca, e disse-lhe o seguinte:&#8213;&laquo;Vou dar-te uma
+espinhosa tarefa, minha velha, mas confio na tua
+dedica&ccedil;&atilde;o nunca mentida; preciso que emprehendas
+uma longa viagem, que nades at&eacute; junto da terra, e
+alli conven&ccedil;as um macaco a vir comtigo a estes meus
+reinos; falla-lhe, para o resolveres, da magica belleza
+d'estes sitios, t&atilde;o differentes dos seus, e da gentileza
+d'estes meus subditos
+felizes; mas o que
+eu realmente quero
+n'este caso, &eacute; que se
+arranque o figado das
+entranhas de tal mono,
+e se sirva como
+medicamento &aacute; tua
+joven ama, que, como
+de certo sabes,
+se acha em perigo de
+vida, a desditosa.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+L&aacute; vae, oceano f&oacute;ra, vento em p&ocirc;pa, a
+alforreca,
+emissaria obediente e ufanosa do encargo. Por
+aquelles tempos, a alforreca, como qualquer bicho
+das aguas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos,
+com cabecinha, com olhinhos, com m&atilde;osinhas,
+e com a competente cauda titillante; e ficava-lhe
+t&atilde;o bem o fato de marujo!... L&aacute; vae, oceano
+f&oacute;ra, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas
+bra&ccedil;adas a onda fria. N&atilde;o tarda muito a
+abeirar-se
+do paiz onde vivem os macacos; por felicidade,
+um alem est&aacute;, um lindo mono, saltando de ramo em
+ramo, dependurando-se das arvores que enraizam
+nos penedos e se debru&ccedil;am sobre o mar.&#8213;&laquo;Bons
+dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente
+para fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello
+do que o seu; &eacute; elle situado alem das ondas e conhecido
+pelo reino dos drag&otilde;es; alli, n&atilde;o ha
+esta&ccedil;&otilde;es,
+&eacute; eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das
+arvores repolhudas, constantemente amanhecem avelludados
+fructos saborosos, &eacute; colhel-os, n&atilde;o ha outra
+tarefa; para cumulo do conforto, essas creaturas
+malfazejas, homens chamados, n&atilde;o pisam taes paragens.
+Se lhe agrada vir commigo, eu serei o seu
+guia; n&atilde;o tem mais que fazer do que saltar d'esse
+tronco para cima do meu lombo...&raquo; O macaco
+achou gracioso isso de ir v&ecirc;r novos paizes. V&aacute;
+l&aacute;<span class="pagenum">[15]</span>
+mais esta extravagancia &aacute; conta da bohemia
+simiesca.&#8213;&laquo;Ao
+largo, amiga!&raquo;&#8213;E l&aacute; foram os dois;
+por&eacute;m,
+a meia travessia, pensou tardiamente o mono na
+temeridade do seu feito, expondo-se assim ao arbitrio
+d'um extrangeiro, e abandonando a sua patria.
+Decidiu-se emfim a perguntar:&#8213;&laquo;Que pensa voc&ecirc;
+que v&atilde;o fazer de mim na sua terra?&raquo;&#8213;A<img style="width: 300px; height: 285px; float: right;" alt="" src="images/fig08.png" /> alforreca
+deveria agora ser discreta,
+encapotar as respostas
+em evasivas; mas oi&ccedil;am l&aacute;
+o que ella deu em troco:&#8213;&laquo;Eu
+lhe digo: meu amo,
+rei dos drag&otilde;es, ordena
+ao senhor macaco que arranque
+o proprio figado, o
+qual vae ser servido &aacute; nossa
+soberana, hoje enferma,
+e salval-a da morte.&raquo;&#8213;Ent&atilde;o o mono, guardando
+para si os commentarios que o caso suggeria, disse
+cort&ecirc;zmente, que era para elle uma alta honra e um
+esperado prazer, o assim tornar-se util a sua magestade;
+acrescentou, porem, que agora se lembrava
+de ter deixado o figado dependurado n'um tronco de
+arvore, aquelle mesmo castanheiro d'onde saltara
+para as costas da alforreca. Continuou discursando
+em linguagem fluente, de orador emerito, descendo
+<span class="pagenum">[16]</span>
+a explana&ccedil;&otilde;es minuciosas; e explicou como o
+figado
+era uma coisa bastante pesada, embara&ccedil;osa, um
+quasi alforge de peregrino, um empecilho que elle
+costumava p&ocirc;r de parte, durante o dia, para se entregar
+mais &aacute; vontade aos seus exercicios de acrobata;
+habitos de familia, j&aacute; seu av&ocirc; fazia o mesmo; e
+concluiu,
+que o melhor que tinham a fazer n'este momento,
+era voltarem para tr&aacute;s, e na arvore encontrariam
+o figado em quest&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&ocirc;z objec&ccedil;&otilde;es a
+nadadora. Voltando &aacute; terra,
+o macaco saltou ao castanheiro com uma ligeireza
+nunca vista, nem mesmo entre macacos, acompanhando
+o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que
+traduzia o jubilo do bestunto, coisa que passou estranha
+&aacute; alforreca. Procurou entre as folhas o seu
+figado. N&atilde;o o encontrou. Explicou ent&atilde;o do alto,
+&aacute;
+alforreca, que provavelmente algum companheiro o
+lev&aacute;ra para longe, o que o obrigava a mais demoradas
+pesquisas pelo bosque; no entretanto que f&ocirc;sse
+ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar
+ancioso por v&ecirc;l-a chegar antes da noite.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Assim procedeu o bicho.<br />
+
+<br />
+
+El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido
+por tamanha ingenuidade&#8213;para n&atilde;o lhe chamar
+<span class="pagenum">[17]</span>
+coisa mais feia,&#8213;mandou logo vir da maladia
+um bando dos seus mais soberbos
+<em>samurais</em>, e ordenou-lhes
+que malhassem no bicho &aacute; pancada, at&eacute;
+can&ccedil;arem.
+O castigo foi cumprido, e com esse vigor de
+bra&ccedil;os de vill&otilde;es, que miram aos applausos do
+monarcha.
+&Eacute; esta a raz&atilde;o porque a alforreca, hoje em
+dia, n&atilde;o tem pernas, nem cabe&ccedil;a, nem cauda, nem
+barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida
+a esta miseria, massa informe, um farrapo, um peda&ccedil;o
+de gelatina, boiando despresivelmente &aacute; merc&ecirc;
+do turbilh&atilde;o das vagas.<br />
+
+<br />
+
+Com respeito &aacute; soberana, reconsiderando no disparate
+do seu capricho, concluiu que o melhor que
+tinha a fazer era erguer-se da cama e p&ocirc;r-se b&ocirc;a; e
+assim fez, com grande pasmo dos doutores.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A historia da alforreca est&aacute; contada, na sua simplicidade
+commovente. &Eacute; veridica esta historia, como
+tudo que o povo relata de memoria; creia n'ella quem
+cr&ecirc;. Fica-se j&aacute; sabendo no entretanto,&#8213;e
+&eacute; isto d'um
+proveitoso ensinamento,&#8213;que os japonezes t&atilde;o prodigamente
+propensos ao perd&atilde;o para tantos pecadilhos
+de alma e de costumes, castigam os patetas.<br />
+
+<br />
+
+Diga-se francamente: esta desgra&ccedil;a da alforreca,
+<span class="pagenum">[18]</span>
+no paiz do sol nascente, era inevitavel; e o caso presta-se
+a interessantes commentarios, que eu vou resumir
+em poucas linhas. Os japonezes&#8213;povo de
+artistas&#8213;s&atilde;o os grandes amorosos da
+crea&ccedil;&atilde;o, da
+forma, da vida; ninguem como elles conhece os segredos
+da ave, do insecto, do reptil, do peixe, dos
+molluscos, do verme, de todos os seres da terra; a
+animalidade graciosa d'esses seres, estudada com
+percep&ccedil;&otilde;es especiaes, que nos escapam, constitue
+o
+thema&nbsp;<img style="width: 300px; height: 221px; float: left;" alt="" src="images/fig09.png" />mil e mil vezes
+variado, dos seus primores
+de arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa
+alforreca que se apresenta como unica excep&ccedil;&atilde;o da
+lei geral da gentileza da vida, e parece resumir em
+si o enfado inteiro d'um dia de mau humor do Omnipotente,
+devia ter deixado impress&otilde;es tristes nos primeiros
+japonezes
+que a avistaram;
+e foi preciso
+arranjar logo
+uma explica&ccedil;&atilde;o
+condigna do
+phenomeno, e &eacute;
+a que ficou descripta
+n'estas linhas.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; ainda interessante recordar de passagem a
+<span class="pagenum">[19]</span>
+approxima&ccedil;&atilde;o, pela desdita, da alforreca japoneza
+com a medusa mythologica da Grecia, n&atilde;o merecendo
+esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa
+coincidencia!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3"></a>O ANNO NOVO</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+<span class="smallcaps">a Feliciano do Rozario.</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, come&ccedil;a
+o anno novo. Mas n&atilde;o v&atilde;o imaginar que seja
+do anno novo de que rezam os nossos calendarios,
+a commemora&ccedil;&atilde;o; tal
+commemora&ccedil;&atilde;o, aqui, no fim
+do mundo, no seio d'esta colonia nostalgica, passa
+insipida, quasi sem alvoro&ccedil;os intimos de familia, limitada
+&aacute; troca banal&#8213;<em>troca</em> sem
+cedilha e com cedilha&#8213;de
+algumas duzias de bilhetes de visita, com
+as competentes <em>boas-festas</em>
+escriptas, da pragmatica.
+Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que
+principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que
+marca para o povo amarello as suas horas de existencia;
+<span class="pagenum">[21]</span>
+vamos entrar no anno XXII do reinado de
+sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se,
+evidencea-se, domina, hoje; offusca, pela grande
+maioria dos rabichos, o pallido reflexo da
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+do Occidente que logrou chegar a este Macau,
+a este exiguo penedo asiatico, onde Portugal
+implantou a sua bandeira.<br />
+
+<br />
+
+Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de
+alem dos bazares, o ruido da bombardada amotinadora
+dos foguetes, e das mil e mil embarca&ccedil;&otilde;es
+fundeadas
+no porto o clamor ovante das bategas, vibradas
+pelas m&atilde;os rudes das companhas. Que ir&aacute;
+l&aacute; por esses bazares, a estas horas, santo Deus!...
+Eu n&atilde;o me arredo do meu canto. Bem sei que a febre
+das massas suggestiona, contamina todos. Bem
+sei que n&atilde;o se dorme hoje; que n&atilde;o ha
+chap&eacute;o de
+c&ocirc;co de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo
+chapelinho de pellucia com la&ccedil;arotes de setim e seu
+competente passaro empalhado, de menina, que n&atilde;o
+v&aacute; correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se
+com os rabichos, gosar com elles. Mas est&aacute; tanto
+frio, e as bagas de agua zurzem-me t&atilde;o desapiedadamente
+<span class="pagenum">[22]</span>
+os vidros das janellas... E, peor do que
+isto, &eacute; o frio da alma, &eacute; a apathia enervante do
+meu
+espirito, &eacute; o sorriso amargo que me enruga os labios,
+provocado por esse mesmo jubilo do enxame, que
+aqui me ret&ecirc;em e me impedem de tambem ir galhofar.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 285px;" alt="" src="images/fig10.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+N&atilde;o, decididamente n&atilde;o serei da festa. Imagino-a
+d'aqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de
+povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos
+chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das
+lanternas de papel, accendendo nas po&ccedil;as, pelo reflexo...
+grandes labaredas ephemeras, ziguezagueando.
+As lojas est&atilde;o escancaradas ao publico; fructos,
+fl&ocirc;res, doces, carni&ccedil;as, bonecos, coisas santas,
+estendem-se
+<span class="pagenum">[23]</span>
+pelos caminhos em prodigiosas theorias, em
+coloridos quasi estonteantes; e &eacute; comprar, e comprar
+j&aacute;, porque n&atilde;o tarda em romper o glorioso dia
+de descan&ccedil;o, o unico na China em que o camponez,
+o artifice, o vendilh&atilde;o, todos, cruzam os bra&ccedil;os,
+n&atilde;o
+trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um
+linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo
+objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em
+galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e at&eacute;
+pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante.
+Que pechincha, se se apanha para a festa
+um accrescimo de peculio n&atilde;o esperado! O china
+adora o jogo&#8213;era preciso que elle adorasse alguma
+coisa!&#8213;mas hoje todos jogam, todos s&atilde;o chinas, e
+&eacute; isto um exemplo interessante da influencia suggestiva
+das grandes maiorias; a m&atilde;o mais circumspecta
+de funccionario, a m&atilde;o mais mimosa de dama
+(de <em>nh&ocirc;nha</em>, em dialecto
+vulgar d'esta colonia) avan&ccedil;am
+sem pejo, arriscam &aacute; sorte varia umas pratinhas...<br />
+
+<br />
+
+Quando bate meia noite; quando, junto do altar
+dos penates, se curvaram em piedosas adora&ccedil;&otilde;es
+milhares de cabe&ccedil;as agradecidas, e se queimaram
+papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos;
+quando em plena rua um brado de alleluia os echos
+acordou; dirige-se ent&atilde;o a onda humana para o lar,
+<span class="pagenum">[24]</span>
+j&aacute; mercas feitas, j&aacute; bolsas esvasiadas; e vae
+surgir
+um grande dia votado inteiro ao descan&ccedil;o, votado
+&aacute;
+glorifica&ccedil;&atilde;o dos deuses, cuja magnanima
+assistencia
+se exalta pelas gra&ccedil;as concedidas e pelas gra&ccedil;as
+que
+v&atilde;o esperar-se!....<br />
+
+<br />
+
+Mesquinha humanidade! como tu me entristeces,
+&oacute; pobre humanidade, &oacute; pobre familia minha, ainda
+mais nos teus regosijos e nas tuas esperan&ccedil;as, do
+que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para
+este bando chinez com quem me encontro agora,
+que explos&atilde;o de ben&ccedil;&atilde;os lhe estimula a
+sentimentalidade?
+que altos beneficios commemora? O bando
+aben&ccedil;oa a sua eterna existencia de miseria, a miseria
+passada, a presente e a que fatalmente vae seguir-se-lhe.
+Aben&ccedil;oa a labuta sem treguas, em busca
+do punhado de arroz de cada dia; ora exercida
+no lar immundo, sem sombra de conforto; ora exercida
+pelos campos, nas varzeas, nas collinas, no amanho
+da terra, sob a oppress&atilde;o constante dos raios
+do sol que escalda, ou dos frios que paralysam; ora
+exercida nos barcos, que se cruzam na podrid&atilde;o dos
+estuarios, ou pairam sobre a onda adormecida durante
+as calmas torpidas, ou se desfazem no escarceo,
+quando os tuf&otilde;es rugem em furia. O bando
+aben&ccedil;&ocirc;a
+a fatalidade da sua condi&ccedil;&atilde;o social, o problema
+espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser, que em
+<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span>
+todas as deprava&ccedil;&otilde;es, em todas as iniquidades
+imaginaveis,
+parece ir buscar as leis unicas por que se
+rege. O bando aben&ccedil;&ocirc;a ainda as calamidades
+tremendas,
+que <a href="#e1">n'estes</a> ultimos tempos, como
+uma
+maldi&ccedil;&atilde;o
+divina, teem pairado sobre a immensa patria:&#8213;nas
+provincias do sul, nos seus centros mais populosos,
+&eacute; a peste, a peste negra, roubando em cada
+lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a m&atilde;e, ou mesmo
+todos juntos, e vestindo de lucto, de tristes roupas
+alvas, os parentes, e amea&ccedil;ando estabelecer-se
+definitivamente, enraizar como uma arvore de pe&ccedil;onha,
+d'onde emanar&aacute; a cada instante o veneno subtil,
+destruidor das turbas; e, para cumulo de infortunio
+e de descredito, um visinho, um povo irm&atilde;o,
+o povo japonez, invade, vence e desbarata a China,
+morde e come peda&ccedil;os do seu torr&atilde;o sagrado,
+envergonha-a,
+offerece-a ao escarneo do mundo na
+miserrima condi&ccedil;&atilde;o da sua plebe e na opulenta
+infamia
+dos seus nobres, desprestigiada emfim, indefeza
+&aacute; cubi&ccedil;a das gentes, aos homens loiros da Europa,
+que n&atilde;o tardar&atilde;o em vir espezinhal-a.&#8213;Embora!
+esque&ccedil;am-se hoje as miserias, vista-se o povo
+em gala, chovam ben&ccedil;&atilde;os sobre o anno que
+come&ccedil;a.
+E amanh&atilde;, decorridas algumas horas de folgan&ccedil;a,
+recomecem, prosigam,&#8213;pouco importa!&#8213;os turvos
+dias de amargura, a fatalidade da existencia no antro,
+<span class="pagenum">[26]</span>
+a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna,
+a orgia torpe dos maridos, a escravid&atilde;o das esposas,
+a venda das filhas a quem mais der, os horrores
+da<img style="width: 300px; height: 453px; float: left;" alt="" src="images/fig11.png" />
+prostitui&ccedil;&atilde;o, as vergastadas nas creadinhas,
+as extor&ccedil;&otilde;es dos mandarins, as torturas nos
+carceres,
+a morte lenta nos patibulos, a obra de destrui&ccedil;&atilde;o
+das epidemias e do opio, as humilha&ccedil;&otilde;es perante
+o vencedor, as exigencias
+do Occidente,
+as arrogancias
+dos homens loiros...<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 311px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+Para o anno novo,
+tudo se prepara
+com antecedencia,
+em prodigiosa azafama;
+&eacute; para todos
+uma occupa&ccedil;&atilde;o incessante
+e desusada,
+durante as ultimas
+semanas do anno que
+vae findar. Lavam-se
+os covis, lavam-se
+as podres mobilias. &Eacute; o p&oacute; d'um anno que se
+sacode,
+<span class="pagenum">[27]</span>
+&eacute; a lama d'um anno que se deita f&oacute;ra,
+&eacute;
+o piolho e &eacute; a pulga d'um anno que se afogam
+na onda das barrelas; porque, durante os labores
+de cada dia, nunca a id&eacute;a de limpeza preoccupou
+os espiritos durante um s&oacute; instante. Tudo
+&eacute; providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda
+typica d'estas povoa&ccedil;&otilde;es chinezas, t&atilde;o
+frequentemente
+visitadas por todas as pragas&#8213;cholera,
+peste, lepra,&#8213;embebidas no lodo dos canaes,
+no ambiente das emana&ccedil;&otilde;es dos estrumes
+pachorrentamente
+acogulados e dos despejos que apodrecem
+pelas ruas, custa a cr&ecirc;r como a gentalha pollula,
+e como os consorcios fructificam em ninhadas
+de garotos; e parece &aacute; gente que um sopro qualquer
+destruidor, de calamidade immensa, ir&aacute; em breve
+prostrar esses enxames, sem que deixe de p&eacute; um
+s&oacute; vivente nos albergues. Puro engano: as
+povoa&ccedil;&otilde;es
+eternizam-se. No parecer de alguns investigadores,
+que taes exotismos interessam, se os miasmas
+putridos convidam as epidemias a entrar e a
+vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam,
+estes mesmos miasmas, sobrecarregados
+de vapores de ammoniaco, de exhala&ccedil;&otilde;es corrosivas
+de fermentos, se encarregam de ferir tambem
+mortalmente os virus morbidos, poupando o
+resto do povo. Chegamos ao facecioso paradoxo de
+<span class="pagenum">[28]</span>
+ser na China a immundicie o purificador por excellencia,
+um como que elixir de longa vida, indispensavel
+a todas as familias, feito da mais estupenda
+alchimia de dejectos.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 170px; height: 377px; float: left;" alt="" src="images/fig12.png" />Conceda-se pois, por
+excep&ccedil;&atilde;o, a este bom povo
+celestial, o capricho de lavar uma vez cada anno
+o antro onde se abriga. Depois,
+&eacute; ver a faina de collar pelas
+paredes, pelas portas, pelas janellas,
+papeis de bella c&ocirc;r escarlate,
+com negras inscrip&ccedil;&otilde;es cabalisticas,
+que s&atilde;o votos de ventura e
+de riqueza, que s&atilde;o preces aos
+deuses. E chega a occasi&atilde;o de se
+adornarem os altares, de se irem
+comprar junquilhos em flor, que
+se disp&otilde;em em vasos gentis com
+agua e seixos alvos, e assim v&atilde;o
+enfeitar os aposentos, levando o
+vi&ccedil;o e o perfume, por um dia, aos
+negrumes das alcovas. No meio
+do complicado rito das usan&ccedil;as,
+algumas praticas enternecedoras, de ingenuidade
+primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo
+nas enormes celhas expostas pelos mercados,
+onde enxames de pequeninos peixes negros, carpas
+<span class="pagenum">[29]</span>
+barbudas, estrebucham na gotta de agua do improvisado
+captiveiro; o povo compra-as, e vae lan&ccedil;al-as
+em seguida nas ribeiras, gosando na ac&ccedil;&atilde;o do
+resgate,
+por certo grata aos deuses, e que redundar&aacute;
+em beneficios...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c4"></a>A PRIMAVERA</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+<span class="smallcaps">a Camillo Pessanha</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 456px; float: left;" alt="" src="images/fig13.png" />Ha alguns dias, na cidade
+de Kobe,&#8213;poderia
+precisar o dia, e quasi a
+hora, se tamanho rigorismo
+me exigissem,&#8213;irrompeu
+a Primavera. Irrompeu:
+n&atilde;o ha sombra de exagero
+no vocabulo. Irrompeu,
+surgiu d'um pulo, fez
+explos&atilde;o. N'este paiz do
+Sol Nascente, onde o sol,
+e com elle todas as grandes
+for&ccedil;as naturaes, s&atilde;o
+ainda uns selvagens&#8213;se
+<span class="pagenum">[31]</span>
+assim posso expressar-me&#8213;uns selvagens sem freio,
+sem no&ccedil;&atilde;o das conveniencias, incapazes de se
+apresentarem
+de visita, de luvas e casaca, n'uma c&ocirc;rte
+qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol Nascente,
+ia eu dizendo, a crea&ccedil;&atilde;o inteira apostou, parece,
+em offerecer em cada dia uma surpresa, toda
+ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos
+nervosos, caprichos doidos, como se reunisse
+em si a quinta essencia da alma das crean&ccedil;as
+e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada,
+a tro&ccedil;a, emfim, motejadora de tudo quanto
+&eacute; ordem, harmonia, contemporisadora lei das
+transi&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas
+d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto,
+o sol rompeu em quenturas amorosas, come&ccedil;aram
+de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanh&atilde;,
+ser&aacute; o estio torrido, em brazas, como nem na
+China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo,
+v&ocirc;am as horas; cada instante &eacute; um meteoro; e aqui
+um tuf&atilde;o arranca os troncos, e alli a chuva torrencial
+inunda as varzeas, e alem um rio transborda do
+seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e
+uma convuls&atilde;o subterranea abala o solo...<br />
+
+<br />
+
+O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas,
+soffre os choques d'esta natureza, por demais subversiva
+<span class="pagenum">[32]</span>
+para o seu espirito triste, meditativo e attribulado.
+Offerece-se-lhe um de dois caminhos a
+seguir: ou communga na vida japoneza, inicia-se nos
+seus segredos intimos, ama-a nas suas modalidades,
+e assim a existencia se lhe gasta, se consome rapida,
+esgazeada em admira&ccedil;&otilde;es, doidejando em vertigens;
+ou se retrae, se isola, odeia a natureza que n&atilde;o
+comprehende, odeia o exilio, vive de saudades da
+patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos
+clubs cosmopolitas da colonia forasteira. N&atilde;o &eacute;
+preciso
+mais para justificar o tique de loucura, facilmente
+perceptivel, da enorme maioria d'estes expatriados,
+homens e mulheres, ap&oacute;s curta residencia
+no paiz japonez.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ora pois,&#8213;dada esta concisa explica&ccedil;&atilde;o
+&aacute; gente
+incredula,&#8213;ha alguns dias, na cidade de Kobe, irrompeu
+a Primavera.<br />
+
+<br />
+
+Pela noite velha, f&oacute;ra chegando uma brisa como
+que amorosa, acariciadora, perfumada. No silencio
+das trevas, as carpas acordaram, n'um charco fronteiro
+ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam
+desusados ruidos, saltando fora d'agua, ardendo
+em cios, endemoninhadas. Quando rompeu o dia, e
+appareceu o sol, n&atilde;o se descreve o enlevo do bafo
+<span class="pagenum">[33]</span>
+morno, embalsamado, genesiaco, que enchia o espa&ccedil;o.
+O ceu tinha azues novos; cirros de paz pairavam
+nas alturas. A paizagem esverde&aacute;ra; esverde&aacute;ra
+da herva nova, que surgia, e das arvores velhas,
+que se coloriam. A nossa observa&ccedil;&atilde;o educa-se
+n'este meio em especialidades de minucia, abundando
+por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas,
+de todas as f&oacute;rmas, de todas as grandezas;
+estas arvores nunca se desfolham, mas no inverno
+descoloram-se, empallidecem como mulheres chloroticas,
+chegam a lembrar enfermos, chegam a lembrar
+coisas mortas; depois, a primavera excita-lhes
+a seiva, um verde intenso assoma-lhes &aacute;s folhas, a
+vida recome&ccedil;a, doida, v&atilde;o desabrochar flores em
+f&uacute;ria!...<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia;
+os negros troncos rugosos e lavrados pela
+lepra dos lichens, sem uma folha sequer, cobrem-se
+agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas
+de mil e mil florinhas presas aos galhos por minusculos
+penduculos. Vistas de longe, nos sitios onde
+abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores
+seccas, envolvidas pelo fumo e pelas chammas d'uma
+queimada devoradora. Em breve ser&atilde;o os pecegueiros
+a florirem. Depois as cerejeiras. Depois as
+pereiras. Todas as arvores. Todas em apotheoses de
+<span class="pagenum">[34]</span>
+coloridos. Chala&ccedil;a tudo, em todo o caso&#8213;estas arvores
+n&atilde;o d&atilde;o fructos, n&atilde;o d&atilde;o
+ameixas, n&atilde;o d&atilde;o pecegos,
+n&atilde;o d&atilde;o cerejas, n&atilde;o d&atilde;o
+peras; ou, se os
+d&atilde;o, n&atilde;o prestam. Esgotam os ardores da seiva na
+superabundancia das petalas das flores enormes,
+enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem,
+em meras orgias de cores, para a incrivel
+hilaridade do scenario, para a supina gargalhada
+primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os
+mil motivos de debandada para os campos, d'estes
+bons japonezes, caba&ccedil;a ao hombro,
+<em>musum&eacute;</em> ao lado,
+alma descuidosa aberta aos esplendores.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 264px;" alt="" src="images/fig14.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+S&atilde;o estas florescencias paradoxaes, t&atilde;o
+caracteristicas
+do solo nipponico, que encaminham a cada
+momento o pincel indigena para requintes de matizes
+<span class="pagenum">[35]</span>
+que a esthetica occidental n&atilde;o comprehende;
+ellas que inspiram aos artistas esses t&atilde;o frequentes
+fundos de paizagem salpicados de brancos e vermelhos,
+a reminiscencia do instante em que as flores
+se desfolharam e cairam do alto, n'um chuveiro de
+petalas.<br />
+
+<br />
+
+De parceria com as arvores, s&atilde;o as hervas, as
+plantas, os arbustos, que se vestem de folhas e se
+enfeitam de flores. J&aacute; ao longo dos muros espreitam,
+por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae
+vicejar de musgos, fetos, de relvas, de bambus e de
+humildes gramineas; e matizar-se de brancos, de
+azues, de amarellos, de escarlates, de roxos, de mil
+c&ocirc;res, de mil flores sem nome, apenas conhecidas dos
+insectos, que s&atilde;o botanicos emeritos e sabem de
+c&oacute;r
+e salteado onde as corollas lhes offerecem os manjares
+mais capitosos. J&aacute; desabrocham os junquilhos,
+as camelias. V&atilde;o desabrochar a wistaria, as azaleas,
+os lirios, os iris, os narcisos, os convolvulos, as peonias,
+a legi&atilde;o vegetal.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe,
+v&atilde;o v&ecirc;r-se ao pittoresco oiteiro de Okamoto, ou a
+Suma, no dominio d'um templo famoso. Os pecegueiros
+v&atilde;o v&ecirc;r-se a Momoyama, em Osaka, que as
+<span class="pagenum">[36]</span>
+florinhas c&ocirc;r de rosa incendeiam por curtos dias. As
+cerejeiras, particularmente queridas dos japonezes,
+v&atilde;o v&ecirc;r-se a um ou dois templos em Osaka; ou
+&aacute;
+formosissima collina de Arashiyama, em Kioto, marginando
+a ribeira de Hozukawa, caudalosa e rumorejante;
+ou, no mesmo Kioto, ao parque de Maruiyama,
+onde uma s&oacute; arvore, a vetusta <em>cerejeira
+da noite de Guion</em>, de delicados ramos em pendor,
+tem merecido os enthusiasmos e as estrophes de n&atilde;o
+sei quantas gera&ccedil;&otilde;es de amorosos e de poetas, que
+junto d'ella poisam, dia ou noite, embevecidos no extasis
+do espectaculo; ou ainda a Yoshino, o logar por excellencia
+preferido, sitio montanhoso e agreste, de difficil
+accesso, mas por isto mesmo frequentado pelos
+grandes fanaticos da natureza em pompas; Yoshino,
+com a sua sentida lenda d'um monarcha fugitivo, e
+com o peregrino enlevo das suas mil&#8213;conta justa,
+affirmam,&#8213;das suas mil cerejeiras, muitas vezes
+macrobias, offerecendo aqui, acol&aacute;, al&eacute;m, n'um
+valle,
+sobre uma ponte, &aacute; borda d'um precipicio, as scenas
+mais surprehendentes, mais arrebatadoras, parecendo
+as arvores em flor, flocos de nuvens brancas
+a rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o
+<em>fugi</em>, v&ecirc;-se em Nara, a
+velha cidade classica; os
+ramos trepadores enrolando-se em torno dos troncos
+das chryptomerias gigantes, e os longos cachos
+<span class="pagenum">[37]</span>
+brancos e os longos cachos roxos pendentes ao capricho
+das brisas.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 291px; height: 311px; float: left;" alt="" src="images/fig15.png" />Romarias indescriptiveis de
+gra&ccedil;a pag&atilde;, de vida
+exuberante, estas romarias, reunindo se ao quadro
+bello da natureza, de uma magestade commovente
+e estonteadora, a kermesse hilariante do povo em
+festa. Barracas embandeiradas expondo mil artigos;
+poisos improvisados para a refei&ccedil;&atilde;o frugal; os
+homens
+em bandos a folgarem; as crean&ccedil;as aos saltos,
+&aacute;s gargalhadas, vestidas a primor, de sedas de mil
+tons; mulheres
+de todas
+as condi&ccedil;&otilde;es,
+graves mamans
+deliciosas,
+meninas
+recatadas
+em mimos
+de flor
+de estufa, petulantes
+cantadeiras
+das
+ruas, camponezas
+em
+roupas escarlates,
+<em>gueshas</em> em requintes de luxo e de
+encantos,
+<span class="pagenum">[38]</span>
+ovantes como idolos, todas ellas comesticos, todas
+ellas aromas, todas ellas sedas rojantes, todas ellas
+mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao
+recolher
+da festa, a onda humana &eacute; curiosissima: cada qual
+empunhando uma haste florida, cada qual com seu
+embrulho para o presente de estylo aos amigos que
+n&atilde;o foram; as mulheres commentando as scenas
+em gestos e em risinhos; as crean&ccedil;as abarrotando
+de fructas e de bolos, can&ccedil;adas, somnolentas, rabujando;
+os homens em galhofa, pouco firmes, com as
+frontes e as palpebras encarnadas, que &eacute; como se
+lhes accusa o peccadilho de terem bebido um pouco
+mais do que convinha...<br />
+
+<br />
+
+N'esta contempla&ccedil;&atilde;o dos scenarios est&aacute;
+a alma
+do indigena. Eu vou reproduzir-lhes uma local, que
+ha dias appareceu n'um jornal da terra, e que define
+bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente
+unica:&#8213;&laquo;em Himeji j&aacute; se deu f&eacute; este
+anno de duas
+flores de cerejeira...&raquo;
+<em>duas</em>, &eacute; sobretudo
+delicioso!...
+O homem do Occidente pensa, o japonez v&ecirc;; eis a
+enorme distinc&ccedil;&atilde;o que os separa. O prazer dos
+olhos
+&eacute; a alegre preocupa&ccedil;&atilde;o de todos;
+vive-se no presente,
+para gosar do momento de hoje, para sorrir &aacute;s coisas;
+e pode ser que seja esta a maneira mais coherente
+do ser humano prestar culto aos seus deuses,
+ao Creador, que lhe impoz na terra uma miss&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquella primeira manh&atilde; primaveral, debandaram
+dos bosques mais cedo, em magotes alegres,
+em serenos v&ocirc;os altos em busca de aventuras, chocarreando,
+atirando aos ventos as suas gargalhadas
+de mofa, os corvos, nos quaes t&atilde;o bem encaixa, sem
+eu saber porque, o nome japonez, de
+<em>karu&ccedil;u</em>. A pardalada
+papeava amores, e safava-se resolutamente
+dos povoados em demanda dos campos. Uma borboleta
+amarella,&#8213;ia apostar que a primeira da
+esta&ccedil;&atilde;o,&#8213;atravessou
+n'um v&ocirc;o o meu jardim. Sobre
+cada fl&ocirc;r poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou
+vespa, ou besoiro, ou moscardo, vindos n&atilde;o sei como,
+por feiti&ccedil;o, pois havia longos mezes que ninguem
+lhes punha a vista em cima; e n&atilde;o tarda que chegue
+a immensa corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas,
+mosquitos, tira-olhos, os pandigos do ar, todos
+bulicio, c&ocirc;res e vida!... Pelos corregos, pelas
+regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam
+pela vez primeira das tocas os sapos, rouquejando;
+e dois a dois, graves... mas n&atilde;o estou agora para
+contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos,
+os sapos, graves, dois a dois...<br />
+
+<br />
+
+Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada
+em aromas, pintava-se uma alegria nova, uma recrudescencia
+<span class="pagenum">[40]</span>
+de actividade animal. As raparigas passavam
+mais lepidas, em <em>kimonos</em> alegres,
+claros, descal&ccedil;as
+sobre os s&oacute;ccos pela primeira vez depois do
+inverno, os seus p&eacute;s muito brancos, muito mimosos,
+ap&oacute;s o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei
+al&eacute;m, n'aquella esquina, uma
+<em>musum&eacute;</em>, que
+vendia ovos, e um vendilh&atilde;o ambulante de cestos e
+vassouras; haviam poisado no ch&atilde;o a sua industria,
+conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade
+de express&atilde;o; elle agarrava-a pelos pulsos, brutalmente;
+e ella, a rir, a julgar pelo brilho dos olhos
+e pelo rostinho alvoro&ccedil;ado de desejos... dava-se-lhe,
+em promessas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar
+pelos campos, como os pardaes,&#8213;j&aacute; n&atilde;o digo:
+(ir vender cestos e vassouras) pelas ruas...&#8213;que
+eu me engravatei cuidadamente e fui bater &aacute; porta
+d'um amigo. Tratava-se d'uma festa de crean&ccedil;as, o
+que &eacute; dizer, d'uma estopada para adultos. Effectivamente,
+exhibia-se, em frente d'uma duzia de meninos
+e de outra duzia de pessoas circumspectas,
+um graphophone americano; graphophone, ou coisa
+parecida; um <em>phone</em> qualquer em todo
+o caso; que
+isto de <em>phones</em>, para quem cursou
+aulas de physica
+<span class="pagenum">[41]</span>
+ha perto de trinta annos, &eacute; de uma
+complica&ccedil;&atilde;o tal,
+que nunca a gente chega, por mais que se applique,
+a fallar com seguran&ccedil;a do assumpto.<br />
+
+<br />
+
+Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima
+impress&atilde;o, que a festa me deixou. Ratice minha, sem
+duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro apropriado
+para o caso e dava-se corda ao instrumento...
+mas a quem estou ensinando o padre-nosso!... Ent&atilde;o,
+um americano fanhoso, imbirrante, assim com
+ares de bebedo e ademanes de exhibidor de saltimbancos,
+a ponto de se lhe presumir a casaca no fio
+e cheia de nodoas e a gravata branca em uso ha mais
+de seis semanas, fallava ao publico, annunciava a
+casa constructora em Nova York, e o que em seguida
+iria ouvir-se. Eram can&ccedil;onetas chulas, solos de flauta,
+estrondos de orchestra, devaneios em viola, discursos
+grotescos; e tudo aquillo, e as vozes do publico
+que ria, que vociferava, que dava palmas, que pedia
+<em>bis</em>, crean&ccedil;as berrando,
+damas mal suffocando o
+riso, cavalheiros atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente,
+sa&iacute;a da caixa enfeiti&ccedil;ada e enchia a sala
+onde me achava, como se uma multid&atilde;o de patuscos,
+vindos da America, vindos do inferno, a tivesse invadido
+de surpresa.<br />
+
+<br />
+
+Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldi&ccedil;oava,
+n'aquella hora, estas inven&ccedil;&otilde;es da epocha,
+<span class="pagenum">[42]</span>
+estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que
+vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces
+que passam, reminiscencias, saudades, tudo o
+que &eacute; doce ao espirito... porque,&#8213;affirmo-o tanto
+quanto as palavras me podem traduzir o pensamento,&#8213;porque,
+no fim de contas, ficou-me uma
+desconsoladora no&ccedil;&atilde;o de desprestigio da
+existencia,
+e de tro&ccedil;a &aacute;s leis do mundo, &aacute; lei da
+success&atilde;o dos
+factos no tempo; e vi em pensamento um bando de
+velhinhos alchimistas largarem as retortas, por um
+momento, e virem bradar &aacute; crea&ccedil;&atilde;o,
+fitando o ceu
+&aacute;s gargalhadas:&#8213;&laquo;n&atilde;o tenhas
+imposturas, sabemos
+tanto, fazemos tanto como tu!...&raquo;&#8213;J&aacute;
+n&atilde;o bastava
+a photographia, esta artimanha irreverente, que vae
+implicar com os ausentes, com os defuntos, com o
+mundo distante, dando-nos em troca da sentida
+recorda&ccedil;&atilde;o,
+que guardavamos, o phantasma, em contornos,
+do que fugiu dos nossos olhos. Agora &eacute; o
+graphophone, que eterniza os sons, a voz dos de
+longe, a voz dos que morreram. Morte, ausencia, j&aacute;
+n&atilde;o tem raz&atilde;o de existir nos diccionarios. Para o
+caso a que me refiro, c&aacute; continua o americano imbirrante
+a vomitar os seus discursos, os musicos a
+tocarem, os cantores a cantarem, o publico a rir, a
+chorar, a applaudir, a chala&ccedil;ar. Passaram-se assim
+as scenas ha dois annos, ha cinco annos, ha dez annos.
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Estar&aacute; a estas horas o americano morto, coisa
+de alguma bebedeira mais forte, que o prostou? a
+crean&ccedil;a, que chorava, dormir&aacute; tambem n'um tumulo,
+coitadita? a dama, que ria, estar&aacute; doida, n'um asylo?
+o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo
+uma senten&ccedil;a? Nada importa. A machina chama-os,
+reune-os, ressuscita-os, renova-os para a pandiga
+d'um momento da existencia; o passado &eacute; presente;
+e a machina agita-os, empurra-os para o interior das
+nossas casas, para nos divertirmos &aacute; custa d'elles
+mesmos...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Primavera? ia eu pensando com os meus bot&otilde;es.
+Primavera? ri a natureza? florescem as arvores?
+cantam amores os passaros? &eacute; uma realidade? Ah!
+talvez n&atilde;o, que hoje, a um phenomeno substitue-se
+quasi sempre uma industria; e espectaculos do Pae
+do Ceu f&ocirc;ram j&aacute; quasi todos supprimidos, porque
+iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que
+passa, regista cem descobertas, tendente cada qual
+a apagar do nosso espirito a lenda do mysterio, do
+incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a
+machinas, a engenhos mais ou menos complicados.
+Doce Primavera, que me enfeiti&ccedil;a? Tro&ccedil;a. Aqui
+anda machina, apost&aacute;ra! Quem me assegura, que
+<span class="pagenum">[44]</span>
+isto n&atilde;o foi primavera servida a meus av&oacute;s ha
+mais
+de um seculo, gravada n'um cylindro, e impingida
+depois como nova, de quando em quando, aos patetas,
+que a applaudem?...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 170px; height: 291px; float: left;" alt="" src="images/fig16.png" />E a proposito da Primavera
+que irrompia, duas palavras sobre
+outra Primavera, que morria,
+ahi pela mesma epocha.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o haver&aacute; ninguem, imagino,
+que, tendo passado em
+Kobe, n&atilde;o conhe&ccedil;a
+<em>Nunobiki</em>,
+a cascata. &Eacute; que o sitio, pela
+sua fama merecida, &eacute; o passeio
+obrigado de todos os que chegam,
+embora se demorem duas
+horas. N&atilde;o ha conductor de carro,
+guia de viajeiros, um qualquer alcoviteiro que
+ande &aacute; cata de gente que desembarca dos paquetes,
+que se esque&ccedil;a de indicar, como primeira
+divers&atilde;o, a ida &aacute; queda de agua. L&aacute;
+v&atilde;o todos.
+L&aacute; fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes,
+depois, como residente, residente em ocios,
+attrahido pelos scenarios apraziveis. L&aacute; em riba,
+muito em riba da montanha, e salpicada de espumas
+<span class="pagenum">[45]</span>
+e acalentada em rumorejos, na penumbra
+do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos
+de ramaria silvestre, era a casa de ch&aacute;, a
+<em>ch&aacute;ya</em>
+tradicional, offerecendo repoiso por alguns minutos
+e uma bebida ao forasteiro extasiado, sem fallar nos
+sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam largamente
+as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha
+alguns annos, disseram-me, eram tres as raparigas,
+tres irmans,&#8213;as tres gra&ccedil;as;&#8213;mas eu conheci s&oacute;
+duas, tendo casado a outra com um titular europeu,
+conforme ouvi. Eu conheci s&oacute; duas: O-Tane San, a
+Senhora Semente, e O-Haru San, a Senhora Primavera.
+Como se fica presumindo, eram as japonezas
+mais populares de Kobe inteiro; das quaes,
+talvez n&atilde;o erre, acreditando que os muitos milhares
+de forasteiros, que n'estes ultimos seis annos visitaram
+o Jap&atilde;o, guardam uma reminiscencia, uma saudade...
+Duas fadas dos bosques, a enfeiti&ccedil;arem os
+incautos? N&atilde;o tanto: quando muito, duas sereias de
+agua doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis,
+vendendo graciosamente uma chavena de ch&aacute;,
+sem assucar, &aacute; moda japoneza, e dando de gra&ccedil;a
+um sorriso, t&atilde;o doce, que tirava ao ch&aacute; o travor
+proprio, mesmo para o paladar mais exigente. Eu
+preferia &aacute; Semente, a Primavera. Era mais fresca,&#8213;fresca
+como o seu lindo nome,&#8213;e mais avelludado
+<span class="pagenum">[46]</span>
+o olhar negro, e mais esmerada nos
+<em>kimonos</em> de
+seda e na curva em azas de borboleta dos cabellos.
+Com ella palestrava, com ella ria, ria sobretudo,
+que o riso &eacute; a linguagem mais em uso n'esta terra;
+e, tomando-lhe das m&atilde;os, perguntava-lhe quem f&ocirc;ra
+o delicado, inglez, russo, coreano, hottentote, que
+lhe offerec&ecirc;ra aquelle annel com uma saphira, que
+enfiava t&atilde;o bem no seu dedo c&ocirc;r de rosa...<br />
+
+<br />
+
+Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso
+material o Jap&atilde;o anda a galope. Lembraram-se
+ha pouco estes senhores de constituir uma
+empreza para a distribui&ccedil;&atilde;o da agua aos
+domicilios,
+em Kobe. A idea n&atilde;o &eacute; nova: j&aacute;
+Yokohama,
+Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam
+de institui&ccedil;&otilde;es da mesma especie. O que
+&eacute; lastima,&#8213;se
+vale a pena a gente prender-se em ninharias,&#8213;&eacute;
+que assim, alcan&ccedil;ado pelo turbilh&atilde;o reformador,
+que vae dando cabo de todo o pittoresco
+d'este povo, tenda a desapparecer o po&ccedil;o... o
+po&ccedil;o
+classico dos velhos tempos, com a borda circular
+talhada n'uma s&oacute; pedra, o alpendre gracioso
+sustido por dois madeiros, os baldes suspensos das
+duas pontas da corda de cairo, que enfia no tosco
+gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica,
+ou a um canto do jardim, ou n'uma vereda
+accessivel a um bando de visinhos; e cerca as
+<span class="pagenum">[47]</span>
+vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da mais
+graciosa e original tanoaria, de que as creadas,
+meias-nuas, se v&atilde;o servindo nas lavagens, demorando-as
+para alongar tagarelices, proprias do sexo
+e ainda mais das japonezas; eis o po&ccedil;o, correspondendo
+a um quadro muito caracteristico da vida intima;
+o po&ccedil;o, que os adoraveis pinceis dos mestres
+da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes,
+emaranhando-os na rama das trepadeiras, das
+<em>asagao</em>, cujas bellas campanulas de
+c&ocirc;res variadas
+abrem com o nascer do sol e fenecem logo ap&oacute;s...<br />
+
+<br />
+
+Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde
+o inicio as picaretas e as enxadas para a montanha
+de <em>Nunobiki</em>, onde a agua jorrava em
+manancial
+sem fim; e, &aacute; for&ccedil;a de bra&ccedil;os e de
+dynamite, no
+intuito de encaminhar a torrente aos reservatorios
+da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo as
+arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que
+todo o enlevo do sitio desappareceu, a paisagem
+tornou-se em ruinas. Rigorosamente fallando, a cascata
+acabava de existir. A
+<em>ch&aacute;ya</em>, tal como a gente
+a conhec&ecirc;ra no seu rustico pittoresco, for&ccedil;ada
+pelas
+escava&ccedil;&otilde;es a mudar de poiso, acabava de existir.
+E as raparigas? logicamente, tinham de desapparecer
+tambem. Com effeito, a Semente casou com
+um japonez e safou-se... e fa&ccedil;o votos para que o
+<span class="pagenum">[48]</span>
+seu nome lhe seja de bom agoiro, dispondo os fados
+a&nbsp;<img style="width: 300px; height: 625px; float: left;" alt="" src="images/fig17.png" />concederem aos
+conjuges uma prole feliz e
+numerosa; e a Primavera
+morreu; morreu, por mofina
+coincidencia, quando
+a outra Primavera ia renascer,
+dar vi&ccedil;o e fl&ocirc;res
+&aacute;s arvores, n&atilde;o &aacute;s da cascata,
+merc&ecirc; da nova empreza. Morreu tisica; a sua
+cascata, onde nasc&ecirc;ra, onde
+viv&ecirc;ra vinte annos, com
+a sua eterna penumbra
+crepuscular, com as suas
+rochas eternamente gottejantes,
+com o seu ambiente
+eternamente humido,
+ro&ecirc;ra-lhe os pulm&otilde;es...<br />
+
+<br />
+
+Pobre Primavera...
+Mas n&atilde;o morreu talvez,
+pensem bem n'isto que
+lhes digo; embora ninguem
+mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem
+acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte...
+O seu retrato j&aacute; corre mundo, em photographia,
+<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span>
+vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho. E
+nada mais possivel do que o facto de andar ganhando
+cobres pelas feiras, hoje, amanh&atilde;, d'aqui a quarenta
+annos, um sujeito qualquer ajoujado com um
+graphophone, um <em>phone</em> qualquer
+americano... Est&atilde;o
+imaginando a patuscada:&#8213;Cylindro apropriado;
+d&aacute;-se corda... A plebe ouve pouco mais ou menos
+o seguinte:&#8213;&laquo;Grande companhia de graphophones
+de Nova-York e de Paris! Scena da famosa
+cascata de <em>Nunobiki</em>, no
+Jap&atilde;o!&raquo;&#8213;E a plebe continua
+de ouvir: &eacute; agora o murmurio continuo, solu&ccedil;ante,
+de agua despenhando-se de rocha em rocha;
+trina um passaro vagabundo; um francez bate
+as palmas, pede cerveja; um inglez pede <a href="#e2">whisky</a>;
+um nipponico pede ch&aacute;; a v&oacute;z da Senhora Primavera
+vibra distincta, fresca, doce; Primavera desfaz-se
+em desculpas, em risinhos, diz que j&aacute; vae,
+n&atilde;o tarda; mas o inglez tem pressa, renova o seu
+pedido com azedume: e o instrumento &eacute; ent&atilde;o
+perfeito&#8213;oh,
+maravilhas da sciencia!&#8213;que se ouve
+at&eacute; o ciciar d'um beijo, que &eacute; naturalmente do
+francez...<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">1899.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c5"></a>NILGUYO</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Mukashi</em>,
+<em>mukasi</em> (nos velhos tempos, nos
+velhos
+tempos, como diriam estes bons japonezes, e conforme
+reza a lenda, interpretada pelo Nihon no
+<em>Mukashibanashi</em>
+(Antigas Legendas do Jap&atilde;o), viveu um
+homem, um simples, de indole bondosa, de quem
+se poderia dizer que pass&aacute;ra a mocidade em desejos
+de matrimonio; mas como desejos e realiza&ccedil;&atilde;o
+d'elles s&atilde;o duas coisas mui differentes, attingiu o pobre
+a meia idade sem ter levado a effeito essa
+firma...&#8213;<em>commercial</em>
+n&atilde;o &eacute; talvez o termo proprio,&#8213;em
+todo o caso essa firma a dois parceiros, que
+partilham entre si, da vida, alegrias e tristezas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+As alegrias d'elle consistiam principalmente em
+entregar-se &aacute; pesca, pesca &aacute; linha durante os
+longos
+ocios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais mordentes,
+ao recolher &aacute; noite a casa, derreado, cambaleando
+de somno e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira
+que lhe sorrisse &aacute; porta, e em
+sauda&ccedil;&otilde;es o
+convidasse a entrar, nem m&atilde;os prestimosas que lhe
+tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois
+leval-o ao fogo do brazeiro. Em toda a parte,
+e especialmente no Jap&atilde;o, estes sentimentos intimos
+d'alma,&#8213;jubilos de pescador &aacute; linha e desalentos de
+solteiro,&#8213;s&atilde;o bem justificaveis. Com effeito, para
+um temperamento vagabundo e impressionavel aos
+enlevos da paizagem, como se d&aacute; com todo o japonez,
+quantos encantos n&atilde;o v&atilde;o proporcionando a linha
+e o anzol, induzindo-nos sem esfor&ccedil;o a longos
+passeios de bohemio, penedos e praias f&oacute;ra, contornando
+margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas,
+em face dos scenarios serenos, todos verde,
+frescuras, espelhos de aguas e murmurios... e como
+as horas v&ocirc;am, acocorado o corpo sobre a rocha,
+a m&atilde;o ora affeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se
+em commovente espectactiva, ora colhendo
+o peixe a estrebuchar; e o espirito voando, como as
+horas, alheio ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando
+no reino das chimeras... Mas
+&aacute; noite, ap&oacute;s
+<span class="pagenum">[52]</span>
+um dia inteiro de labuta, &eacute; que o corpo se doe e falham
+os joelhos; e deve ent&atilde;o saber t&atilde;o bem chegar
+a gente ao lar de esteiras e papel, e vir &aacute; entrada
+ajoelhar-se em cortezias a figura gentil d'uma esposinha
+fresca, envolvida em sedas e perfumes, com
+as m&atilde;ositas rosadas em posi&ccedil;&atilde;o
+submissa, as m&atilde;ositas
+t&atilde;o habeis em c&oacute;rarem nas brazas as trutas
+saborosas...<br />
+
+<br />
+
+Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a
+tradi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tomou conta do nome,
+achava-se pescando
+segundo o seu costume, bambu em punho, e
+meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo
+e desolada sorte, quando... zaz! um grande safan&atilde;o
+na linha lhe fez logo imaginar que alguma coisa f&oacute;ra
+do commum viera de colher. Por pouco se lhe n&atilde;o
+v&atilde;o, linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo;
+ent&atilde;o,
+com muitas manhas que s&atilde;o proprias da arte, poz-se
+a can&ccedil;ar a presa, j&aacute; alongando o bra&ccedil;o
+e deixando-a
+debater-se a seu capricho, j&aacute; aproveitando o
+repoiso para traze-la &aacute; praia; at&eacute; que emfim,
+azado
+o instante, puxou com for&ccedil;a, e veio cair-lhe o peixe
+aos p&eacute;s.<br />
+
+<br />
+
+O peixe? o peix&atilde;o!... Era uma
+<em>Ninguyo</em>, uma
+sereia; nem mais nem menos; face de mulher, d'uma
+rara formosura, e um enorme corpo ventrudo, alongado,
+escamoso, agitando barbatanas e terminando
+<span class="pagenum">[53]</span>
+em amplo rabo, que ent&atilde;o desesperadamente estremecia.
+Face de mulher de uma rara formosura,&#8213;disse-o
+eu, e n&atilde;o me engano:&#8213;esse contorno doce
+de oval, de <em>urizanegao</em>, de pevide de
+mel&atilde;o, t&atilde;o
+querido em esthetica japoneza; os bastos cabellos
+negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos
+de velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava,
+a sereia, em contrac&ccedil;&otilde;es de angustia; chorava
+certamente
+pela d&ocirc;r, pois lhe rasgava a carne o trai&ccedil;oeiro
+anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de
+v&ecirc;r-se assim arrebatada do seu meio habitual, expiando
+um peccado de lambarice, indefeza, nua deante
+d'um estrangeiro!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O pescador por&eacute;m era d'uma indole bondosa,
+como ficou notado um pouco atraz; e vae-se agora
+ver como o provou. Comprehende-se, &eacute; claro, o seu
+primeiro espanto: o homem punha as m&atilde;os sobre a
+cabe&ccedil;a, a esbugalhar os olhos, e gaguejava n&atilde;o
+sei
+que exclama&ccedil;&otilde;es... Podera n&atilde;o!
+Acalmado, sacou
+cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e
+tomando nas m&atilde;os o estranho ser, poz-se a scismar
+maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando, se
+elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e
+<span class="pagenum">[54]</span>
+mil templos do paiz; e alinhando a sua barraca com
+as outras, onde se exhibem salamandras, crocodilos,
+crean&ccedil;as sem p&eacute;s e sem m&atilde;os,
+c&atilde;es sabios e muitas
+outras coisas, que abundantissima chuva de sapecas
+lhe n&atilde;o cahiria em cima, quer dizer, dentro
+das mangas do <em>kimono</em>!...&#8213;"Meus senhores, entrem
+todos! Quem n&atilde;o tem cabe&ccedil;a, n&atilde;o paga
+nada!
+Ora aqui est&aacute; uma sereia authentica..."&#8213;e j&aacute; ia
+estudando o discurso que faria, soberbo, dominador,
+impondo-se &aacute; plebe embasbacada. Ou ent&atilde;o,
+outra ideia: se elle comesse a carne da sereia, cosinhadinha,
+feita em postas... e sabem todos que a
+carne da sereia tem virtude de conservar perpetuas
+a vida e a juventude a quem d'ella provou... Mas
+a sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a
+lembran&ccedil;a de reter n'uma tina, em
+exposi&ccedil;&atilde;o, ou
+peor ainda, de levar &aacute; degolla aquelle pobre bicho,
+que sobre as suas m&atilde;os se lamentava e desfazia em
+prantos, como se f&ocirc;ra uma pessoa; contemplou-o
+ainda, longamente; e com um nobre gesto e decidido
+esfor&ccedil;o, atirou a sereia &aacute;s vagas, d'onde viera,
+e onde mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias,
+ap&oacute;s um acenar de rabo, que poderia ser um
+adeus, um adeus e um agradecimento.<br />
+
+<br />
+
+O nosso pescador voltou &aacute; sua faina. Consta que,
+n'aquelle dia memoravel, o cabaz se lhe encheu de
+<span class="pagenum">[55]</span>
+uma espantosa quantidade de tudo que o mar d&aacute;.
+&Aacute; tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe
+nos&nbsp;<img style="width: 300px; height: 293px; float: right;" alt="" src="images/fig18.png" />labios
+um sorriso,
+que provinha da
+boa pesca que fizera,
+e tambem
+da boa ac&ccedil;&atilde;o que
+praticara.<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 316px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+Quando pela
+noite, na cosinha,
+mangas do <em>kimono</em>
+arrega&ccedil;adas at&eacute; acima dos sovacos, avental sobre
+as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a
+sua ceia, ouviu que de f&oacute;ra, e junto &aacute; porta, uma
+fallinha
+mansa lhe ia dizendo:&#8213;"D&aacute; licen&ccedil;a! d&aacute;
+licen&ccedil;a?"...&#8213;Corre
+o homem a abrir a corredi&ccedil;a, ainda
+com a faca da cosinha, e um carapau na dextra
+adunca; e &aacute; luz frouxa d'um luar de quarto minguante,
+poude distinguir um vulto de mulher em
+nada extraordinario, por&eacute;m doce e cortez, que lhe
+confessou ser uma viajante extraviada do caminho,
+sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada s&oacute; para
+<span class="pagenum">[56]</span>
+aquella noite.&#8213;&laquo;Entre depressa, menina, acode-lhe
+o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui
+tenho&raquo;.&#8213;Ent&atilde;o,
+dando-lhe entrada, conduzindo-a ao
+aposento das visitas, fel-a descan&ccedil;ar sobre a esteira,
+e junto do brazeiro, foi-lhe servido o ch&aacute;
+tradicional.&#8213;&laquo;Muito
+obrigada.&raquo;&#8213;O homem rogou-lhe seguidamente
+que esperasse pela ceia, uma ceia de
+peixe por signal, que elle ia amanhar sem perda de
+um minuto.&#8213;&laquo;Permitte-me que eu ganhe o direito
+ao meu quinh&atilde;o, ajudando-o n'essa lida?&raquo;&#8213;Disse
+que
+n&atilde;o redondamente, que nunca consentiria que os seus
+hospedes trabalhassem na cosinha. Em replicas e
+treplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a
+vida toda, al&eacute;m, da banda do oceano (talvez filha de
+gente embarcadi&ccedil;a? pescadora?) e que ella conhecia
+as melhores receitas de cosinhar o peixe, no que
+at&eacute; muitas vezes, por passatempo, se occupava; e tanto
+ella teimou,&#8213;sabem todos o que s&atilde;o teimas de
+mulheres!&#8213;que sempre foi levando a sua &aacute;vante.<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; certo, &eacute; que nunca o pobre
+solteir&atilde;o se
+lambera com t&atilde;o deliciosas petisqueiras. Comeu a
+sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a chuchar
+ainda as cabe&ccedil;as dos ruivos, que a pena que
+lhe ficava, era de n&atilde;o lhe ser servida uma ceia egual,
+todas as noites. A companheira observou ent&atilde;o modestamente,
+a meias fallas, que lhe parecia n&atilde;o ir
+<span class="pagenum">[57]</span>
+al&eacute;m dos seus poderes, um tal desejo; e instada a
+explicar melhor a sua phrase, accrescentou que era
+solteira, sem parentes, sem lar... Comprehendida
+finalmente, o remate de t&atilde;o feliz encontro foi ella
+consentir em ser a esposa do sujeito.<br />
+
+<br />
+
+Antes, por&eacute;m, imp&ocirc;z as suas
+condi&ccedil;&otilde;es.&#8213;&laquo;<em>Danna</em>,
+meu dono, eu tenho, como disse, passado a vida
+pelo mar, e n&atilde;o posso prescindir do meu banho de
+agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me
+isto?&raquo;&#8213;Elle acenou que sim.&#8213;&laquo;E jura-me
+(agora v&atilde;o ouvir os pudores da pequerrucha...) que
+me deixar&aacute; banhar em paz, sem seguir-me, e sem
+sequer espreitar-me?&raquo;&#8213;Elle jurou que sim; e deu-se
+por feliz (j&aacute; se ia babando pela mo&ccedil;a, o
+magan&atilde;o!)
+de, por t&atilde;o pouco pre&ccedil;o, ver-se possuidor de tal
+thesoiro.<br />
+
+<br />
+
+Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos
+durante longos mezes. O peixe, o prato querido dos
+nipponicos, foi s&ecirc;mpre excellentemente preparado
+pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O
+pargo, em fatias cruas regadas com molhos excitantes,
+era divino! As enguias com arroz, uma delicia!
+O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas
+sobre o lume, sem egual! E at&eacute; uma certa caldeirada,
+assim como quem diz &aacute; moda do Algarve,
+era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se
+<span class="pagenum">[58]</span>
+anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo
+volume e pelas banhas, que alguem olhava por elle
+com disvelo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o banho? Melhor f&ocirc;ra n&atilde;o fallarmos n'elle...<br />
+
+<br />
+
+Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella
+passava a manh&atilde; inteira preparando-o, afinando o
+appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava horas
+esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre
+a esteira, espelhinho em frente, e em torno os cofresinhos
+mysteriosos, era a interminavel tarefa de
+fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora avermelhando
+os labios, ora compondo o penteado. O
+esposo cheg&aacute;ra mesmo a esta conclus&atilde;o
+n&atilde;o muito
+lisongeira:&#8213;que a companheira mais queria &aacute; agua
+salgada do que a elle;&#8213;mas perdoava-lhe,&#8213;outros
+ha que bem menos innocentes caprichos v&atilde;o perdoando...&#8213;e
+nunca a sombra sequer d'um arrependimento
+viera turvar a paz do seu viver.<br />
+
+<br />
+
+Uma bella tarde,&#8213;tarde de banho por signal&#8213;chegou
+o homem a casa, e, como se diz em portuguez...
+cheio de fome.&#8213;&laquo;Tardar&aacute; muito para a
+ceia? resmungava. Ir&aacute; o banho em meio ou em
+principio?&raquo;
+A esposa, &eacute; claro, achava-se invisivel, e com
+a portinha fechada a sete chaves; mas casas japonezas
+<span class="pagenum">[59]</span>
+s&atilde;o casas de papel, e uma fenda, um
+rasg&atilde;o,
+convida-nos a enfiar os olhos para dentro. O caso
+&eacute; que elle espreitou. Surpresa! Horror!... N&atilde;o
+&eacute;
+uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor
+dizendo&#8213;que nadava, em demoradas circumvolu&ccedil;&otilde;es
+de regalo ao longo da tina, agitando mansamente
+o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho
+can&ccedil;&otilde;es do mar, can&ccedil;&otilde;es das
+praias...<br />
+
+<br />
+
+Pobre marido!&#8213;&laquo;Ah! canta-me assim, exclamou
+elle, canta-me assim, grande mostrengo!...
+Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com
+peixes,&#8213;lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...&#8213;Melhor
+f&ocirc;ra, sem duvida, que eu nunca
+te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas, feito
+o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar
+com appetite os teus guisados, intrujona...&raquo;<br />
+
+<br />
+
+A porta, abriu-se ent&atilde;o e appareceu a esposa.
+Chorava, cahiam-lhe as lagrimas a punhos; chorava
+mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma
+resolu&ccedil;&atilde;o fatal. Fallou assim,
+ajoelhando:&#8213;&laquo;<em>Danna</em>,
+meu dono, foi a sua benevolencia para mim, um
+dia, extrema, tirando-me das aguas, podendo fazer
+da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a.
+Trouxe-me aqui um dever de gratid&atilde;o: julguei com
+a minha presen&ccedil;a poder amenisar a sua soledade,
+servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa.
+<span class="pagenum">[60]</span>
+A minha gratid&atilde;o ser&aacute; eterna. No entretanto,
+acabando de ver-me assim na minha forma verdadeira,
+um bicho, um monstro que mette medo a toda
+a gente, comprehendo que a miss&atilde;o que tomei
+chegou ao termo. Estala-me o cora&ccedil;&atilde;o, mas pouco
+importa!... <em>Danna</em>, meu dono, adeus.
+Do ceu lhe
+chovam ben&ccedil;&atilde;os...&raquo;&#8213;E correu para a
+praia e desappareceu
+nas ondas.<br />
+
+<br />
+
+Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu
+para sempre uma companheira carinhosa; e,
+como das nupcias com a sereia lhe resultava o dom
+de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu
+martyrio...<br />
+
+<br />
+
+A fabula, segundo observa, e com criterio, o
+auctor japonez que consultei a tal respeito, offerece
+duas li&ccedil;&otilde;es de alta moral. Uma &eacute; esta:
+a mulher
+que pretenda conservar um bom marido, deve captival-o
+pela barriga, isto &eacute;, pelo esmero do seu repasto;
+parecendo averiguado que o estomago &eacute; o
+org&atilde;o mais sensivel, e porventura o mais grato, do
+homem, o rei da crea&ccedil;&atilde;o. A outra
+li&ccedil;&atilde;o &eacute; a seguinte:
+o marido que deseje manter a harmonia do seu
+lar, nunca interfira na toilette intima da consorte;
+porque, isto de damas,&#8213;com sua licen&ccedil;a,&#8213;todas
+l&aacute; t&ecirc;em o seu rabo, ou escama, ou barbatana,
+coisa emfim que melhor &eacute; n&atilde;o seja conhecida, em
+<span class="pagenum">[61]</span>
+proveito dos dois, e em conformidade com o codigo
+inedito do amor, capitulo
+<em>Illus&otilde;es</em>, artigo...
+esqueceu-me
+agora o artigo, meus senhores.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">1899.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c6"></a>O CAVALLO BRANCO DE NANKO</h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">A
+Carlos Campos</span></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras
+japonezas: um cavallo, que o grande artista Kanaoka
+desenh&aacute;ra n'um biombo do templo de Ninnadji, perto
+de Kioto, era uma t&atilde;o bella crea&ccedil;&atilde;o,
+cheia de
+verdade e palpitante de vida, que todas as noites
+se escapava do papel para ir galopar pelos campos
+em roda, culturas f&oacute;ra, devastando a esmo as sementeiras;
+e o caso dava-se, claramente, com magno
+espanto e raiva dos camponios, que o perseguiam
+&aacute; pedrada. Estes camponios, impressionados
+pelas f&oacute;rmas incomparaveis do animal, persuadiram-se
+por fim de que elle n&atilde;o podia ser outro sen&atilde;o o
+<span class="pagenum">[63]</span>
+cavallo de Kanaoka; e a persua&ccedil;&atilde;o converteu-se um
+dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as
+patas do travesso, humidas ainda da lama fresca dos
+<span class="pagenum">[64]</span>
+caminhos. Sem mais cerimonias, arremetteram contra
+a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que
+nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 585px;" alt="" src="images/fig19.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre
+no genero, cavallo desenhado n'uma parede interior
+do palacio imperial, tinha o vezo de ir devorar
+pelos jardins as flores tenras do a&ccedil;afr&atilde;o; e
+s&oacute;
+cessou a brincadeira quando alguem se lembrou de
+retocar a obra, amarrando o patife &aacute; parede com
+um peda&ccedil;o de corda pintada para o effeito.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ora bem. De muitas maravilhas &eacute; sem duvida
+capaz a m&atilde;o inspirada d'um artista!... Esses dois
+cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de tinta
+e de algumas curvas humoristicas de pincel, mas
+em todo o caso ungidos do sopro sublime do eximio
+mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se
+da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram
+e felizes tempos eram. Arte creadora, arte radiosa
+das epochas passadas, porque n&atilde;o vaes tu regendo,
+ainda e sempre, os destinos de todas as coisas d'este
+mundo?...<br />
+
+<br />
+
+N'estes dias que correm, deslavados e tristes,
+<span class="pagenum">[65]</span>
+mesmo no Jap&atilde;o, e n&atilde;o cessando de divagar no
+mesmo
+assumpto de cavallos, confesso francamente a
+quem me l&ecirc;r, que nada me mortifica tanto como o
+espectaculo dos cavallos sagrados dos templos shintoistas.
+Ora aqui est&atilde;o umas cavalgaduras bem authenticas,
+bem vivas, bem reaes, de carne e osso;
+e que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional&#8213;mas
+n&atilde;o s&atilde;o,&#8213;por certo muito invejariam
+as simples crea&ccedil;&otilde;es no papel da m&atilde;o de
+Kanaoka.
+N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens
+e bichos, nasceram e vivem n'um banho perenne
+de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda
+a condi&ccedil;&atilde;o dos pobres brutos, que um dia
+inspiraram
+estas linhas melancholicas que escrevo.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 343px;" alt="" src="images/fig20.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Se pretendo ser de certo modo comprehendido
+nas divaga&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o seguir-se&#8213;e
+&eacute; obvio que
+pretendo,&#8213;convem que me detenha um pouco,
+fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo,
+da palavra <em>shinto</em> (a estrada dos
+deuses), &eacute;
+a cren&ccedil;a primitiva, patriarchal, das epochas remotas
+no Jap&atilde;o; e conservada at&eacute; hoje, a despeito da
+grande
+propaganda de Buddha que se fez e se faz,
+&eacute; ainda a religi&atilde;o nacional, a
+religi&atilde;o do Estado. O
+shintoismo &eacute; a adora&ccedil;&atilde;o pelo sol, pelo
+Imperador
+seu filho, por todas as for&ccedil;as da
+crea&ccedil;&atilde;o, pelas divindades
+protectoras, pelos genios, pelos nobres,
+<span class="pagenum">[66]</span>
+pelos heroes e pelos sabios. O templo de shinto &eacute;
+o recinto consagrado a uma d'essas invoca&ccedil;&otilde;es.
+Distingue-se
+antes de tudo pelo <em>torii</em>, o grande
+arco de
+pedra ou de madeira avisinhando do logar, e como
+que indicando o caminho ao peregrino.
+<em>Torii</em> quer
+dizer <em>descan&ccedil;o dos
+passaros</em>; e assim ficamos j&aacute; com
+uma no&ccedil;&atilde;o primeira e delicadissima na essencia,
+aprendendo que no campo sagrado tudo &eacute; paz, tudo
+&eacute; remanso, pois que at&eacute; aos pardaes,
+can&ccedil;ados
+dos v&ocirc;os doidos que fizeram &aacute; aventura, se
+offerece
+um poleiro protector onde descancem. Ao
+<em>torii</em> succedem-se
+<span class="pagenum">[67]</span>
+o amplo portal e o vasto espa&ccedil;o murado;
+e l&aacute; dentro, symbolos, alfaias d'uma&nbsp;<img style="width: 300px; height: 483px; float: left;" alt="" src="images/fig21.png" />religi&atilde;o
+toda
+de amor, s&atilde;o a paisagem graciosa, os jardins verdes,
+os bosques frescos, as rochas musgosas, os lagos
+quietos; aqui &eacute; a cisterna destinada &aacute;s
+ablu&ccedil;&otilde;es
+preliminares dos crentes;
+alli s&atilde;o as monumentaes lanternas
+de granito, esverdeadas
+pelos annos; al&eacute;m o nicho
+escarlate votado a Inari, raposa,
+Deus do arroz, n&atilde;o
+sei que mais, em todo o caso
+coisa muito santa; depois as
+construc&ccedil;&otilde;es ligeiras, de madeira
+nua, dispersas, e onde
+em dias festivos as donzellas
+do culto dan&ccedil;am ao som
+de estranhos ritornellos, ou
+silenciosos officiantes aben&ccedil;oam
+as multid&otilde;es, agitando
+sobre as cabe&ccedil;as reverentes um penacho de papel
+branco, emblema de pureza.<br />
+
+<br />
+
+Nos templos mais faustuosos, n&atilde;o faltar&aacute; outro
+accessorio: o nicho garrido, a pequenina estrebaria,
+onde o cavallo sagrado mastiga eternamente a
+insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do
+<span class="pagenum"><a name="p68">[68]</a></span>
+templo, tem o seu cavallo de estado; &eacute; justo. &Eacute;
+geralmente
+um cavallito albino, de pello branco e olho
+azul celeste, talvez porque se ligue uma certa id&eacute;a
+de candura a tal enfermidade. O deus serve-se d'elle
+como entende; alguem, a quem pergunto informa&ccedil;&otilde;es
+do cargo, diz-me que &eacute; o <em>&Oacute; tsukae mono</em>...
+assim
+como quem diz: <em>o nobre mo&ccedil;o de
+recados</em>. Admittamos
+pois que faz em regra os recados do deus,
+o que &eacute; j&aacute; muito, e um alto mister, e por isso
+&eacute; sagrado
+e tem honras de santo; e em lances <a href="#e3">difficeis</a>,
+mais distinctos ser&atilde;o ainda os seus servi&ccedil;os.
+Ardeu
+ha mezes um dos mais famosos templos do Jap&atilde;o,
+em Yamada; n&atilde;o sei que coisas do culto foram depois
+encontradas ao abrigo e longe do sinistro;&#8213;foi
+o cavallo que as transportou para l&aacute;.&#8213;&Eacute; voz
+do povo que em Osaka, em dois templos de shinto,
+desappareceram os cavallos quando rebentou a ultima
+guerra com a China;&#8213;est&aacute;-se mesmo a perceber
+que as almas d'esses deuses montaram nos ginetes
+para irem aos campos do inimigo, aben&ccedil;oar as
+tropas de Nippon.&#8213;Taes casos, por&eacute;m, s&atilde;o raros,
+s&atilde;o
+rarissimos, n'esta epocha positivista, t&atilde;o escassa de
+milagres; e os cavallos brancos sagrados vivem e
+morrem amarrados &aacute; mangedoira, passeando uma
+s&oacute; vez em cada anno, no dia da festa do templo,
+encorporados ent&atilde;o triumphalmente &aacute;
+prociss&atilde;o, que
+<span class="pagenum"><a name="p69">[69]</a></span>
+percorre as ruas da cidade. &Eacute; o encerro absoluto,
+&eacute; a constante immobilidade tediosa, sem mesmo as
+furtivas escapadelas dos cavallos pintados de Kanaoka.
+A palha abunda-lhes; acercam-se d'elles as
+crean&ccedil;as e as mulheres, que os adoram, e compram
+&aacute; velha, que por alli est&aacute; cerca do estabulo,
+montinhos
+de feij&otilde;es cozidos, que offerecem sobre as palmas
+das m&atilde;os rosadas, aos <a href="#e4">focinhos
+nostalgicos</a> dos
+rocins.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eu conhe&ccedil;o uns poucos d'esses brutos, mas tenho
+mais intimas rela&ccedil;&otilde;es com o de Nanko, um
+templo aqui em Kobe, celebre, dedicado &aacute; memoria
+de Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro
+e patriota.<br />
+
+<br />
+
+No amplo santuario do templo estabeleceu-se
+uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente
+de noite, atractiva e frequentada por passeantes
+e devotos. A vida inteira japoneza passa,
+perpassa aqui; quem j&aacute; folheou os albuns de desenho
+de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois
+votar horas inteira
+No amplo santuario do templo estabeleceu-se
+uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente
+de noite, atractiva e frequentada por passeantes
+e devotos. A vida inteira japoneza passa,
+perpassa aqui; quem j&aacute; folheou os albuns de desenho
+de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois
+votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante
+do povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel,
+a no&ccedil;&atilde;o que haja formado d'este povo, um dos
+<span class="pagenum">[70]</span>
+mais interessantes, e o mais sympathico talvez, do
+mundo inteiro.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 290px;" alt="" src="images/fig22.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli,
+d'alem... Junto ao portal, condensa-se o formigueiro
+humano, em centenas, em legi&otilde;es de cabecinhas; a
+pouco e pouco, sedas ro&ccedil;ando sedas, risos correspondendo
+a risos, vae-se entrando, ao som d'um
+continuo ruido de s&oacute;ccos e sandalias, que se arrastam
+pelo lagedo resonante. Na escurid&atilde;o da noite,
+o recinto define-se a principio como um negrume
+<span class="pagenum">[71]</span>
+vago, complicado de sombras de arvoredo, cheio de
+gente e de myriades de luzinhas bruxoleantes. Depois
+os olhos habituam-se. Vae por ahi f&oacute;ra, direitinha
+ao templo, a grande rua principal, bordada de
+arvores varias, lageada; pelos lados espraia-se o
+labyrintho das passagens, por entre os alinhamentos
+das barracas, das tendas, das quitandas, armadas
+de improviso, estiradas pelo ch&atilde;o; e &eacute;,
+&aacute; luz
+frouxa das lampadas, a exposi&ccedil;&atilde;o phantastica das
+c&ocirc;res, chispando em disparates como n'um campo
+immenso de kaleidoscopo, correspondendo &aacute;s mil
+industrias que se estendem... Roupas, perfumarias,
+livrinhos, bocetas, char&otilde;es, porcellanas, cachimbos,
+ferramentas, utensilios domesticos, bolos, brinquedos,
+flores, plantas, tudo: a industria inteira do Jap&atilde;o,
+se condensa, coalha em museu. Alem algumas
+<em>chayas</em>
+vendem refrescos; as creadinhas convidam a turba
+a que se acerque. Mais longe, s&atilde;o os theatros populares,
+um cobre por entrada:&#8213;c&atilde;es sabios, athletas,
+abortos, serpentes, panoramas;&#8213;ou a sala do
+<em>hanashi</em>,
+da palestra, onde um patusco entretem os freguezes,
+contando-lhes historias. N'um espa&ccedil;o mais
+livre, um sujeito com um graphophone, um dentista,
+um inventor de remedios milagrosos, discursam,
+explicam, prophetizam.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 332px;" alt="" src="images/fig23.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+O formigueiro humano ondula, alastra se,
+sem
+<span class="pagenum">[72]</span>
+designio,
+&aacute; aventura. As sociedades occidentaes nada
+nos offerecem de parecido. Isto, aqui, &eacute; a
+multid&atilde;o,
+sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como
+nol a apresentam todas as grandes tribus do Oriente;
+&eacute; o cardume de gente, retida na pra&ccedil;a publica
+como
+o sarga&ccedil;o em mares tranquillos; aqui, quadro requintadamente
+gentil e sorridente, inconfundivel, mas
+que ainda nos recorda as agglomera&ccedil;&otilde;es da plebe
+nos templos de Cant&atilde;o ou nos bazares de Aden, ou
+do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando
+em espirito vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos
+vividos, embora fugidios, da Jerusalem biblica,
+nos seus magotes de homens vestidos de tunicas
+<span class="pagenum">[73]</span>
+rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando
+os bra&ccedil;os n&uacute;s em gestos calmos e solemnes.<br />
+
+<br />
+
+Querer inventariar os typos, f&ocirc;ra insania,&#8213;&eacute; a
+massa inteira popular despreoccupada, risonha, gosando
+de viver.&#8213;Passam familias,&#8213;o pae, a m&atilde;e,
+um filho preso ao seio e os outros pela m&atilde;o;&#8213;ranchos
+de soldados e ranchos de marujos; ranchos
+de raparigas; mo&ccedil;os, alguns indo caminho do bairro
+dos prazeres, Fukuwara, que est&aacute; perto; peregrinos;
+mendigos; vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos
+assopram nas trombetas que compraram, ou mordem
+em bolos ou em fructos. Aquella
+<em>musum&eacute;</em> fresca,
+vestida apenas do seu <em>kimono</em> de
+ver&atilde;o, azul e branco,
+j&aacute; vae de volta; e leva dependurada das m&atilde;ositas
+uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes pyrilampos.
+Uma velha rejubila com o vaso de bellos
+lirios que mercou. &Eacute; aqui em Nanko, no mercado
+especial das plantas, que se revela bem o mimo
+d'esta gente em jardinagem,&#8213;delicados arbustos,
+havendo merecido longos disvelos de cultura,
+selec&ccedil;&atilde;o
+graciosa de florescencias;&#8213;e &eacute; de ver-se o afan
+na escolha, o brilho dos olhitos cubi&ccedil;osos, dos grupos
+em roda da exposi&ccedil;&atilde;o dos pinheirinhos, das
+cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos, dos
+lirios, da wisteria.&#8213;O espirito simples, o desejo
+facil de contentar, a puerilidade quasi infantil, estampa-se
+<span class="pagenum">[74]</span>
+em todos esses rostos, e dom gentil da
+m&atilde;o industriosa, resalta de todos os artigos. Quem
+tiver duas moedas de cobre na bolsinha&#8213;e todos
+as ter&atilde;o,&#8213;p&oacute;de comprar um objecto de arte;
+compra-o
+sem duvida, e no jubilo da face transparece
+a alegria plena d'uma alma satisfeita. D'essa manifesta
+innocencia de sentimentos, d'essa psychologia
+alheia de complica&ccedil;&otilde;es e de tormentos, deve em
+rigor deprehender-se uma superioridade de ra&ccedil;a,
+uma animalidade esplendida e exhuberante, muito
+distanciando-se da vibratilidade morbida das ra&ccedil;as
+exhaustas do Ocidente; e &eacute; isto que vagamente se
+adivinha na esbelteza dos vultos que v&atilde;o passando,
+na flexibilidade harmonica das curvas, no jogo pathetico
+da mimica, na confian&ccedil;a serena com que o
+p&eacute; dominador poisa no ch&atilde;o. Feliz povo! Feliz
+povo
+de hontem, de hoje, e possivelmente de amanh&atilde;...
+N&atilde;o &eacute; outra a conclus&atilde;o sincera do
+nosso exame
+passageiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto, a um canto, no estabulo garrido,
+boceja o cavallo branco sagrado de Kusunoki Masashige.
+Por velha sympathia, procuro-o sempre, e
+passo quasi horas inteiras, a v&ecirc;l-o, a namoral-o.
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Quantos annos ter&aacute; de sacerdocio? Dez annos?
+Quinze annos?... N&atilde;o lhe despertam zanga nem
+prazer as minhas visitas repetidas. Cabe&ccedil;a baixa, o
+olho azul morti&ccedil;o, parece nada querer, nada sentir,
+nada soffrer e nada desejar. &Eacute; quasi de papel&atilde;o,
+&aacute;
+for&ccedil;a de insipidez, o garranito. Ao burburinho, &aacute;
+luz, &aacute;s c&ocirc;res, &aacute;s musicas distantes,
+&eacute; insensivel. Ao
+bello verde do arvoredo &eacute; insensivel; pelos modos,
+n&atilde;o se recorda j&aacute; das paizagens por onde
+espinoteou...
+O seu olho azul-celeste, vitreo, provavelmente
+myope, relancea com a mesma apathica frieza,
+as mil scenas do acaso; &aacute; gente que o
+encara,&#8213;ral&eacute;
+da pra&ccedil;a publica, garotos, cavalheiros, acaso um
+general, acaso um conde, acaso um inglez de nobres
+pergaminhos,&#8213;vota a mesma indifferen&ccedil;a irreverente
+que &aacute;s moscas importunas que poisam, por enxames,
+sem que o commovam, na mucosa descorada da sua
+pobre focinheira. S&oacute; uma vez, presumo, o vi enternecido:
+relinchava uma egua algures, longe sem duvida;
+levemente se lhe agitaram as orelhas, como
+se uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo bestunto
+lhe corr&ecirc;ra; e pareceu-me ent&atilde;o v&ecirc;r o
+seu olho azul-celeste
+arrazar-se de lagrimas, pareceu-me... &Aacute;s
+vezes, avan&ccedil;a de bom grado a lingua, a ir lamber as
+m&atilde;os das raparigas; por capricho talvez, e por habito,
+porque s&atilde;o aquellas m&atilde;os que costumam
+offerecer-lhe,
+<span class="pagenum"><a name="p76">[76]</a></span>como
+obulo piedoso, os feij&otilde;es cosidos
+comprados &aacute; velhita que por ali anda, proximo do
+estabulo...<br />
+
+<br />
+
+Eis todo o seu romance.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais
+curioso, quizer ainda arrancar-me o segredo d'esta
+minha estranha sympathia pelos cavallos sagrados
+dos templos de shinto,&#8213;tanto mais estranha sympathia,
+quanto &eacute; certo que n&atilde;o me accusa a consciencia
+de j&aacute;mais ter pertencido a qualquer sociedade
+protectora de animaes,&#8213;aqui lhe <a href="#e5">offere&ccedil;o</a>,
+a esse
+alguem, a seguinte estupenda confidencia. No Jap&atilde;o,
+se n&atilde;o erra o meu juizo, s&oacute; os cavallos dos
+templos
+s&atilde;o tristes. Elles, e eu. Ha entre n&oacute;s
+mysteriosas
+analogias; n&atilde;o gracejo. Ap&oacute;s longos estudos da
+propria
+carcassa, acabo de concluir&#8213;imaginem o qu&ecirc;!...&#8213;que
+tambem sou albino. N&atilde;o pela anomalia congenita
+da falta de pigmento corante da pelle, dos
+cabellos e dos olhos, concordo; albino psychico porem&#8213;n&atilde;o
+sei se me fa&ccedil;o perceber...&#8213;albino na
+alma dolente, na vibratilidade exangue, na apathia
+da vida, ap&oacute;s os mil bald&otilde;es da sorte, e desfeita
+no
+<span class="pagenum">[77]</span>
+ar a ultima bola de sab&atilde;o das minhas illus&otilde;es. Do
+meu poiso, que comparo sem grande esfor&ccedil;o ao
+estabulo de<img style="width: 400px; height: 360px; float: right;" alt="" src="images/fig24.png" /> Nanko, assisto ao
+contorno das scenas
+e ao perpassar da turba; mas alheado de tudo, e
+esquecido at&eacute; das saudades da paizagem serena
+onde vivi os meus primeiros annos. Alvoro&ccedil;os de
+affectos? amores? fazem favor de me dizer para onde
+fugiram essas chimeras
+aladas da minha
+pobre juventude?...
+Quando muito, como
+o cavallo de Nanko,
+mas ainda mais desinteressado
+do que elle,
+porque me sinto naturalmente
+excluido do
+quinh&atilde;osito de feij&otilde;es
+que pode seduzil-o, quando muito, se deviso essas
+<em>musum&eacute;s</em>, com as suas
+m&atilde;ositas muito alvas, muito
+mimosas, tenho por essas m&atilde;os, vagas ternuras: aqui,
+n'este meio onde me vejo, s&atilde;o-me ellas o emblema
+dos carinhos do sexo delicado; e incutem no meu
+espirito uma no&ccedil;&atilde;o de paz possivel,&#8213;aqui,
+algures,
+n&atilde;o sei onde,&#8213;no lar da familia, quando
+aben&ccedil;oado
+pelos fados...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">1899.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c7"></a>A PRIMEIRA FORMIGA</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+<span class="smallcaps">A Sebasti&atilde;o Garcez.</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; parte esta dedicatoria especial, &eacute;
+&aacute;s formigas
+e aos sabios&#8213;Deus n&atilde;o permitta que ellas, ou que
+elles, tomem a mal o parallelo&#8213;que eu offere&ccedil;o
+as revela&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o seguir-se, nas
+quaes se explica,
+ap&oacute;s longos preambulos, como &eacute; que a primeira
+formiga veiu ao mundo.<br />
+
+<br />
+
+Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun,
+as terras andavam divididas pelas m&atilde;os de
+muitos monarchas irrequietos, envolvidos em continuas
+batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu,
+digno de particular ensinamento. Acontecia que uma
+certa deusa do Olympo&#8213;Lei-San era o seu<img style="width: 170px; height: 351px; float: right;" alt="" src="images/fig25.png" /> nome&#8213;nunca
+<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span>
+em demorados
+arrebiques, em meticulosas
+pinturas de cutis,
+das
+ia dar o seu (passeio pelas nuvens, imagino)
+sem se esmerar sobrancelhas e dos labios.
+Pieguices do sexo, desculpaveis,
+e at&eacute; de certo
+modo meritorias; mas o caso
+motivou, certo dia, um risinho
+malicioso da sua serva
+mais querida, e ainda por
+cima este commento pouco
+respeitoso:&#8213;&laquo;A deusa <a href="#e7">tem pelos</a>
+modos algum defeito
+no seu rosto, e cuida de escondel-o
+&aacute; for&ccedil;a de
+cosmeticos...&raquo;&#8213;V&atilde;o
+l&aacute; chasquear
+impunemente dos encantos
+d'uma dama! e quando
+ella f&ocirc;r divina... &Eacute; certo
+que t&atilde;o cheia de cholera
+ficou a divindade, que vestiu a deliquente d'uma pelle
+diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara
+azul, ruiva a guedelha, dois dentes curvos surdindo
+da bocca para f&oacute;ra, e m&atilde;os e p&eacute;s
+disformes; e assim,
+n'esse bonito estado, a escorra&ccedil;ou do ceu, aos
+<span class="pagenum">[80]</span>
+belisc&otilde;es, e a enviou ao mundo em
+expia&ccedil;&atilde;o. Chamava-se
+Tchong-Mou-In, a penitente.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado
+por innumeras derrotas, teve uma noite um sonho
+radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso
+um lettrado favorito, an&atilde;o por signal e muito feio,
+mas um po&ccedil;o de sciencia, elle disse ao soberano,
+ap&oacute;s magnos processos de magia, que o sonho revelava
+que os deuses lhe haviam destinado certa
+dama por esposa, forte de genio e habilissima na
+guerra, a quem mais tarde se deveria a salva&ccedil;&atilde;o
+do estado.<br />
+
+<br />
+
+O an&atilde;o dispunha-se a proseguir, depois de curta
+pausa; mas n&atilde;o quiz mais ouvir o imperador; e
+eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas
+de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a
+sua bella, conforme as indica&ccedil;&otilde;es do
+an&atilde;osinho.
+Atravessa povoados, galga montanhas, desce valles;
+v&ocirc;a, n&atilde;o corre, sua magestade; v&ocirc;a nas
+azas da esperan&ccedil;a,
+pula-lhe o cora&ccedil;&atilde;o em mil anhelos; e assim
+foi dar com Tchong-Mou-In.<br />
+
+<br />
+
+Imagina-se a scena. N&atilde;o ha palavras que descrevam
+<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span>
+o desapontamento do monarcha. Tremulo de
+indigna&ccedil;&atilde;o, rompeu logo em iras e em blasphemias;
+pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas
+a exercer; e d'um gesto esporeou a alimaria, no
+intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o soberano
+n&atilde;o contava que a dama, que a principio o recebera
+com doces humildades de etiqueta, que a dama,
+expulsa embora do ceu e do convivio dos seus deuses,
+ainda d'elles auferia benevolentes protec&ccedil;&otilde;es. A
+dama,
+n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando
+os dentes e estendendo solemne a m&atilde;o
+papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia do
+cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios.
+Gritou-lhe que havia de casar com ella, se n&atilde;o quizesse
+alli ficar eternamente quedo; gritou-lhe que
+havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu
+bra&ccedil;o de mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de
+confiar altas emprezas. Emfim, para encurtar raz&otilde;es,
+e apressar o fim da historia, direi que o imperador
+desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o
+asco e o medo, e tudo prometteu. N&atilde;o tardou que
+aquelle monstro feminino lhe <a href="#e8">entrasse</a>
+pela casa,
+rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias,
+transportando ella propria &aacute;s costas o enxoval&#8213;dois
+cabazes, uma thesoira, um espelho, um pente,
+uma vassoura, uma bacia de lavar o rosto,&#8213;utensilios
+<span class="pagenum">[82]</span>
+que, desde ent&atilde;o at&eacute; hoje, como que
+ficaram
+consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo
+indispensavel.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio
+&aacute; convivencia da esposa, prolongando-lhe por esta
+forma uma castidade fastidiosa, com que ella provavelmente,
+n&atilde;o contava. Paciencia. Por vezes, na
+fria intimidade dos sal&otilde;es, procurou desprestigial-a
+aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia, reunidas
+a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez,
+sobre qual das duas, em escripta, mais habil se
+mostrava; e para isto se combinou contar quantos
+caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo
+necessario para arder de um pivete perfumado, que
+alguem foi collocar sobre uma urna proxima. Do
+lado da favorita, cuja cultura litteraria &eacute; primorosa,
+est&atilde;o o imperador (o basbaque!) e dois validos; do
+lado da soberana, apostam tres lettrados, e um d'elles
+&eacute; o an&atilde;o. Eil-a, a amante, interessada vivamente
+no
+certamen, toda olhos, toda atten&ccedil;&atilde;o, toda
+adoraveis
+fernesis dos seus bellos dedinhos c&ocirc;r de leite, que
+empunham o fino pincel, e correm febrilmente sobre
+o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo
+<span class="pagenum">[83]</span> segredam, por
+piedade, decida-se a escrever...&raquo;&#8213;A
+bruta n&atilde;o os escuta.
+(perd&ocirc;e-se-me o qualificativo que me occorre),
+face azul pousada
+nas manapulas, dedos disformes
+enfiando
+pela trunfa
+ruiva, olho
+impassivel
+e matreiro,
+relanceia, aparvalhada
+e immovel,
+a scena,
+e os espectadores.
+Sobresaltam-se
+os
+lettrados, que adivinham, n'uma eminente surriada,
+o desprestigio proprio no conceito do monarcha.&#8213;&laquo;Senhora,
+Repetem se,<img style="width: 295px; height: 254px; float: right;" alt="" src="images/fig26.png" />
+multiplicam-se as instancias; at&eacute; que finalmente, attendendo
+a tantas supplicas, diz ella:&#8213;&laquo;V&atilde;o buscar
+aos meus aposentos um pincel.&raquo;&#8213;Voam escudeiros,
+volvem breve:&#8213;&laquo;N&atilde;o se encontra,
+Senhora!&raquo;&#8213;Ella
+indica que est&aacute; junto d'um armario. Os vassallos
+replicam:&#8213;&laquo;Perd&atilde;o, n&atilde;o
+est&aacute;; o que est&aacute; &eacute; uma
+vassoura...&raquo;&#8213;Ent&atilde;o berra a
+soberana:&#8213;&laquo;Pois &eacute; isso
+<span class="pagenum">[84]</span>
+mesmo, seus patetas!&raquo;&#8213;E tomando da vassoura, e ensopando-a
+n'uma mixordia de tinta, de que mandou
+encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando
+o pivete ia chegando j&aacute; ao termo, com a vassoura
+lambusou um enorme papel, d'um gesto apenas; e
+por milagre,&#8213;que s&oacute; assim se explica tal
+portento&#8213;appareceram
+nitidos, sublimes, mil e mil caracteres
+da mais adoravel forma caligraphica.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a
+turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo
+os seus dominios. Nos ardis, um primor.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma vez, convidados, imperatriz e imperador,
+para um banquete de monarchas, com os quaes andavam
+de guerrea porfiosa, um dos nobres apresentou
+aos convivas um enorme macaco que possuia,
+mono astuto nos seus modos de selvagem, e eximio
+n'um jogo ent&atilde;o em moda, semelhante ao gam&atilde;o
+dos nossos tempos.&#8213;&laquo;Senhora, ides jogar tres partidas
+<span class="pagenum">[85]</span>
+com este mono; se a ultima ganhardes, s&atilde;o
+vossas, nossas terras; se a perderdes...
+percebeis-me?&raquo;&#8213;Trava-se
+o jogo em que a imperatriz n&atilde;o
+era forte, pouco affeita a prendas de sal&atilde;o, e sendo
+notorio que nos ceus, onde passara a juventude, o
+jogo &eacute; prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha
+o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong
+Mou-In desfalece em intimas angustias, julga-se
+perdida, quando ent&atilde;o se lembra de invocar os deuses.
+A sua divina ama, que nunca a abandon&aacute;ra,
+despede do ceu um aviso visivel s&oacute; para ella:&#8213;Toma
+este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de
+modo que apenas o macaco d&ecirc; f&eacute; d'elle, e joga
+resoluta.&#8213;Terceira
+partida: o mono dando vista do
+acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de
+desejos; o trazeiro, onde parece residir a alma dos
+macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre
+o assento da cadeira; e com a dentu&ccedil;a arreganhada,
+o olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas,
+o bestunto por certo desvairado, balbucia
+gritinhos repetidos&#8213;eh, eh! eh, eh!&#8213;que irritam
+os convivas. A m&atilde;osita felpuda ainda vae mexendo
+as pedras, por habito, por dever, mas sem
+arte, sem intuito; e a raz&atilde;o foge-lhe,
+abandona-o&#8213;t&atilde;o
+imperativa &eacute; a lambarice n'estes figur&otilde;es da
+fauna
+comica!&#8213;E perde a partida decisiva!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[86]</span>
+Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias
+um companheiro de desterro, dos raros com quem
+logro palestrar:&#8213;Ora v&ecirc;ja voc&ecirc; quantos macacos ha
+por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na
+carcella, quando n&atilde;o &eacute; uma commenda, astutos no
+gam&atilde;o e n'outras prendas varias, quasi attingindo
+as alturas da audacia e do triumpho; n'um momento
+fatal, uma banana qualquer, mostrada a geito,
+desnortea-os, allucina-os, aniquilla-os... E que,
+por
+mais que fa&ccedil;am, s&atilde;o macacos, embora a cauda se
+n&atilde;o v&ecirc;ja, de certo occulta nas ceroulas, e ninguem
+ha que possa purgal-os, expurgal-os, do sangue dos
+av&oacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Continuo.<br />
+
+<br />
+
+Uma das mais bellas fa&ccedil;anhas que illustram a
+gloriosa mulher, se mulher &eacute;, de quem me occupo,
+&eacute; a seguinte. Travava-se ent&atilde;o renhida a lucta
+pelas
+armas, entre varios soberanos, j&aacute; com enfado de
+vencedores e de vencidos. Tai-Sun ia levando a melhor
+nas investidas. Eis que os reis desbaratados,
+unidos em conluio, julgam ir p&ocirc;r termo a t&atilde;o
+irritante
+situa&ccedil;&atilde;o, e muito em seu proveito, propondo
+ao imperador um curioso problema.&#8213;N&atilde;o nos fa&ccedil;aes
+a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada
+<span class="pagenum">[87]</span>
+d'um annel; notae que tem dois furos esta perola,
+communicando entre si interiormente por um labyrintho
+de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a
+enfiada n'uma linha, juramos-vos a paz e a entrega
+por inteiro de tudo que hoje &eacute; nosso.<br />
+
+<br />
+
+Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em
+caso t&atilde;o difficil!... Os conselheiros ficaram-se calados,
+macambuzios, e nada aconselharam. Foi ent&atilde;o
+impingindo esta quest&atilde;o &aacute; esposa, elle, que a
+n&atilde;o beijava, nem lhe queria, mas que em assumptos
+escabrosos s&oacute; n'ella tinha f&eacute;. Tchong-Mou-In
+recolhe-se,
+implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe
+ent&atilde;o do ceu uma formiga, a primeira formiga
+que veiu a este mundo; e manda a verdade que se
+diga que essa formiga prehistorica era um nadinha
+differente das formigas contemporaneas, menos esbelta
+nas formas, mais bojuda. Tchong-Mou-In comprehende
+o precioso auxilio: ata uma linha a meio
+corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola,
+junto d'um dos seus furos, por onde se v&ecirc; for&ccedil;ado
+a enfiar, n&atilde;o tardando que surda pelo outro, arrastando
+a competente linha atraz de si. &Eacute; a gloria!...<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o reparam hoje na delicadeza da formiga,
+leve a cintura, como a cintura d'uma dama espartilhada?
+D'antes n&atilde;o era assim. Consigna-se o facto
+como indicando ainda &aacute;s gera&ccedil;&otilde;es
+presentes uma
+<span class="pagenum">[88]</span>
+maravilhosa heran&ccedil;a atavica, a impress&atilde;o do
+n&oacute; com
+que a linha se prendia e apertava a primeira formiga,
+a formiga lendaria, a m&atilde;e de todas as formigas
+que hoje passeiam sobre a terra.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 471px; float: left;" alt="" src="images/fig27.png" />Nada mais sobre o insecto. Poucas
+palavras apenas
+pelo que respeita &aacute; soberana. Lei-San, a sua
+divina protectora, perdoou-lhe
+finalmente o passado sorriso
+de motejo, que valia uma
+injuria; despiu-a da pelle
+monstruosa que lhe dera, por
+expia&ccedil;&atilde;o do seu peccado, restituiu-lhe
+a peregrina belleza
+que lhe era propria... O imperador,
+antes que a consorte
+volvesse aos seus labores divinos,
+poude v&ecirc;l-a, e por longos
+annos, no completo esplendor
+dos seus enlevos. O
+imperador, que j&aacute; lhe tributava
+incondicional venera&ccedil;&atilde;o, gra&ccedil;as aos
+seus prodigios,
+que tanta ventura lhe trouxeram, e prosperidade
+ao imperio, poude ent&atilde;o tambem amal-a, amal-a
+<span class="pagenum">[89]</span>
+apaixonadamente, embevecido em tanta gra&ccedil;a, em
+tanta formosura. Imagine quem quizer como &aacute;quelles
+amorosos as horas iriam correndo encantadoras, na
+serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas
+de marmore, e rodeado de jardins, e no afan de
+festejarem aquella lua de mel, tardia embora, que
+lhes apparecia no horisonte!...<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+1899.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c8"></a>OS DIABOS E OS VELHOS</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+<span class="smallcaps">A Nuno Queriol</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Falla a lenda japoneza.<br />
+
+<br />
+
+Era uma vez um velho, que tinha um enorme
+lobinho sobre a cara, na face por signal. Certo dia,
+achava-se elle na montanha, a cortar lenha&#8213;era esta
+a sua humilde profiss&atilde;o,&#8213;quando o surprehendeu
+uma terrivel tempestade, chuva a potes, ventania
+desabalada, o raio faiscando nas alturas; t&atilde;o terrivel,
+que se viu obrigado a ficar por aquelles sitios e
+a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta,
+era difficil problema; um grande tronco de arvore,
+escavado pelos seculos, offereceu-lhe a unica guarida.<br />
+
+<br />
+
+No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o
+<span class="pagenum">[91]</span>
+velho passando tristes<img style="width: 300px; height: 588px; float: right;" alt="" src="images/fig28.png" /> horas. Alta noite, principiou a
+dar raz&atilde;o d'um estranho vozear, longe a principio,
+mas pouco a pouco
+avisinhando-se-lhe&#8213;&laquo;Ol&aacute;,
+resmungou, tanta
+gente por aqui, e eu
+que contava achar-me
+s&oacute;?...&raquo;&#8213;E p&ocirc;z-se a
+espreitar, curiosamente,
+sem sombra de receio.<br />
+
+<br />
+
+O que o velho ent&atilde;o
+viu, muito a custo,
+&aacute; luz fugidia dos relampagos,
+mal p&oacute;de imaginar-se.
+Uma numerosa
+sociedade approximava-se;
+mas nunca
+ao velho apparecera
+t&atilde;o estranha sociedade
+como aquella. Era
+um bando immenso de
+patuscos, de diabos incontestavelmente,
+medonhos nos aspectos: uns, encarnados,
+vestidos de <em>kimonos</em> verdes; outros,
+negros,
+vestidos de <em>kimonos</em> encarnados; a um
+faltava
+<span class="pagenum"><a name="p92">[92]</a></span>
+um olho; a outros o nariz; alguns n&atilde;o tinham bocca.
+Pozeram-se a accender uma fogueira enorme,
+com palha, com folhas, com cavacos que encontraram;
+e as chammas sinistramente os patentearam.
+Acocorados em torno da fogueira, em duas filas, bebendo
+<em>sak&eacute;</em> em amigavel
+reina&ccedil;&atilde;o, pareciam mesmo
+gente, os taes demonios. A vasilha ia passando &aacute;
+roda, de garra em garra, entre os convivas; e tantas
+voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que j&acirc;
+n&atilde;o tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens
+assistentes ergueu-se como poude, e come&ccedil;ou uma
+cantiga, dan&ccedil;ando ao mesmo tempo; os outros imitaram-n'o.
+Era ent&atilde;o extremamente emocionante a
+vista da paizagem: a fogueira, ateada pelas rajadas
+successivas, alastrava-se e subia, furiosa, at&eacute;
+&aacute;s nuvens,
+em turbilh&otilde;es de fumo e labaredas, e ia alumiando
+<a href="#e9">diabolicamente</a> a scena
+inteira&#8213;ramarias
+de bambus e de pinheiros, profundezas de bosques,
+penedos gottejantes, torrentes espumosas, e ainda a
+turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas
+atrozes&#8213;Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas;
+outros iam gravemente al&ccedil;ando a perna e ensaiando
+minuetes; outros, immoveis, ou antes querendo assim
+quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de
+borrachos; e de colina em colina os echos repetiam
+os torvos descantes em falsete, de mistura com
+<span class="pagenum">[93]</span>
+as lamenta&ccedil;&otilde;es das arvores a&ccedil;oitadas
+pelo vento, e a
+salva de artilharia dos trov&otilde;es. Berrava uma v&oacute;z
+esgani&ccedil;ada:
+&laquo;Que grande reina&ccedil;&atilde;o! mas bem quizera
+v&ecirc;r mais alguma novidade!...&raquo;&#8213;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mettido no seu
+esconderijo, o rachador de lenha
+passou por todos os tormentos que o espanto, o
+susto e o desamparo juntos produzem no animo d'um
+velho. Por fim, passadas horas, ia j&aacute; folgando na
+festa&#8213;ou n&atilde;o fosse elle japonez!&#8213;e tal poder teve
+sobre elle a bambochata, que lhe venceu escrupulos
+e temores, e o levou a esta resolu&ccedil;&atilde;o
+formal.&#8213;&laquo;Matem-me
+embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo
+tambem ir pandigar!&raquo;&#8213;Surdindo ent&atilde;o da
+t&oacute;ca, barrete enfiado at&eacute; &aacute;s orelhas,
+machadinha suspensa
+da cintura, ei-lo a reunir-se &aacute; malta, a dar as
+boas-noites e a ensaiar passos de dan&ccedil;a. Foi agora
+a vez de se espantarem os demonios; mas t&atilde;o comico
+era o velho, no seu pobre corpinho corcovado,
+avan&ccedil;ando em meneios, e recuando ap&oacute;s, e
+virando-se
+para a direita em cortezias, e voltando-se para a
+esquerda em reverencias, e tra&ccedil;ando no ar, com o
+p&eacute;
+descal&ccedil;o, estupendas parabolas coreographicas, que
+<span class="pagenum">[94]</span>desataram todos em
+ris&oacute;ta, gritando:&#8213;&laquo;Viva o
+velho!
+muito bem! que bem dan&ccedil;a o velho!&raquo;&#8213;E proseguiram
+depois, n'este proposito:&#8213;&laquo;Queremos que
+tomes sempre parte em nossas festas, por seres mui
+reinadio; mas, como p&oacute;de acontecer que n&atilde;o
+pretendas
+voltar mais, vaes deixar-nos um penhor de
+que aceder&aacute;s a este convite.&raquo;&#8213;<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 420px;" alt="" src="images/fig29.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta,
+extrahir-lhe o lobinho; muita gente do povo, &eacute; notorio,
+<span class="pagenum">[95]</span>
+considera este achaque como um valioso talisman
+para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos,
+bra&ccedil;os n&uacute;s, dedos palpando, lancetas e tenazes em
+ac&ccedil;&atilde;o; e o velho estendido sobre o solo, um
+segura-lhe
+uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe
+os bra&ccedil;os, outro delicadamente ampara-lhe a
+cabe&ccedil;a;
+e sairam-se do caso com limpeza, n&atilde;o causando a
+menor d&ocirc;r ao paciente. Depois, f&ocirc;ram guardar o
+lobinho n'um estojo.<br />
+
+<br />
+
+Quando, sereno j&aacute; o tempo, rompeu a madrugada,
+uma bella madrugada c&ocirc;r de rosa, e os pardaes
+come&ccedil;aram a papear nas ramarias, desappareceu
+ent&atilde;o a malta dos demonios. O velho desceu &aacute;
+sua aldeia. Entrou em casa muito contente, ainda
+um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho &eacute;
+claro, com a sua face muito lisa, sem o minimo defeito.
+O caso maravilhou com raz&atilde;o a companheira,
+e a gente conhecida. Ia-se servindo o ch&aacute; pela familia
+e pelos curiosos que accorriam, sobre a esteira,
+junto do brazeiro; e era uma chuva de exclama&ccedil;&otilde;es
+e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar,
+nos seus detalhes surprehendentes, as peripecias
+da estranha noite que pass&aacute;ra na montanha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, havia entre os visinhos presentes um outro
+velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara,
+na face esquerda por signal. Muito calado, assim
+com ares de n&atilde;o prestar ouvidos &aacute; palestra, ia em
+mente, o finorio, retendo todas as minucias. N&atilde;o
+partilhando das crendices da gentalha, pelo contrario,
+desejoso de v&ecirc;r-se livre do tortulho, ia j&aacute;
+estudando
+a maneira de entregar-se nas m&atilde;os de
+t&atilde;o
+sabios curandeiros. Eil-o pois, por uma noite escura,
+caminho da montanha; seguidamente, eil-o abrigado
+sob o mesmo tronco de arvore, &aacute; espreita dos diabos.
+N&atilde;o faltaram. Come&ccedil;ou a bambochata,&#8213;risota,
+dan&ccedil;a, vinho.&#8213;Juntou-se ent&atilde;o aos demonios, a
+medo, um outro figur&atilde;o.&#8213;&laquo;Ol&aacute;,
+c&aacute; est&aacute; de novo
+o velho! voltou, e vem
+dan&ccedil;ar!&raquo;&#8213;Dan&ccedil;ou, effectivamente,
+e sem ser muito rogado; mas era um desastrado;
+e t&atilde;o mal desempenhou o seu papel, t&atilde;o
+falto de geito e de pilheria, que os demonios,
+tomando-o sempre pelo conviva primitivo, zangaram-se
+e disseram-lhe:&#8213;&laquo;Enganaste-nos, brejeiro! &eacute;s
+um grande desgeitoso; devolvemos-te o penhor que
+nos deixaste e aconselhamos-te a que n&atilde;o pises
+<span class="pagenum">[97]</span>
+mais este logar.&raquo;&#8213;Um da chusma foi buscar o lobinho,
+e zaz! pespegou com elle na face direita do
+sujeito. Saira de casa com um, e voltou com dois,
+um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento
+do sujeito e a hilaridade dos visinhos.
+Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas,
+paralysou todo o trabalho; os velhos, as velhas,
+as raparigas, os garotos, n&atilde;o faziam sen&atilde;o rir,
+rir a bandeiras despregadas,&#8213;e o caso n&atilde;o era
+para menos!&#8213;<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">1899.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c9"></a>PAU-MAN-CHEN</h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">A
+Antonio Baldaque da Silva.</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Scena domestica. L&aacute; est&aacute; o meu cosinheiro a
+<em>bater cabe&ccedil;a</em>, como se diz
+n'este Macau; l&aacute; est&aacute; elle
+rezando aos seus deuses protectores. Que lhe preste!
+Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez
+que &eacute;, serenamente aggressivo em tudo ao europeu;
+e passou a entregar-se a esta outra occupa&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o
+menos meritoria.<br />
+
+<br />
+
+Sendo seus os aposentos inferiores, &eacute; ali rei, ou
+pelo menos mandarim; faz o que quer. Os altares
+aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do
+sobrado, sobre as mesas; e at&eacute; junto ao fog&atilde;o,
+onde
+se guisa o meu jantar, se presta culto a supinas divindades.
+<span class="pagenum">[99]</span>
+Mysteriosos ritos. S&atilde;o papeis encarnados,
+contendo cabalisticos dizeres; s&atilde;o figuras de horriveis
+monstros, coloridas pelas tintas mais surprehendentes,
+nas disposi&ccedil;&otilde;es<img style="width: 170px; height: 281px; float: right;" alt="" src="images/fig30.png" /> mais grotescas, despertando
+quasi o riso, despertando quasi o medo, a
+quem n&atilde;o vive em gra&ccedil;a em tal Olympo. Alli o
+cosinheiro,
+em humildes genuflex&otilde;es
+de crente, vem dep&ocirc;r
+suas offertas, minhas offertas,
+pois sou eu que pago a
+festa,&#8213;offertas de laranjas,
+de doces, de ch&aacute;, de porco
+assado e de outras iguarias.&#8213;Alli
+ardem lumes mysticos;
+e frequentemente, pela
+noite, como agora, se queimam
+pivetes, cirios rubros,
+rezinas e papeis, de tudo
+emanando um fumo atr&oacute;z,
+que invade em torvelino a
+casa toda, que chega sem
+respeito ao sitio onde me encontro, e me soffoca.
+Paciencia! <em>Paciencia</em> &eacute; o
+unico codigo de conducta
+para o aventureiro que escolheu para exilio um
+canto exotico, longe, muito longe do torr&atilde;o onde
+nasceu, e no qual a civilisa&ccedil;&atilde;o disparatada, a
+fei&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[100]</span>
+propria das gentes com quem lida, h&atilde;o-de fatalmente
+apresentar-se, dominantes.<br />
+
+<br />
+
+Os deuses, com quem por assim dizer vivo em
+contacto, e a cuja sublime protec&ccedil;&atilde;o, posto que
+indirectamente,
+me confio, s&atilde;o muitos, um enxame.
+&Eacute; todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo,
+amalgamados em crendices; legi&otilde;es de espiritos.
+Naturalmente, ha uns mais preferidos, que
+se invocam no lar com mais piedoso amor; n'este
+numero, segundo informa&ccedil;&otilde;es recentes que colhi,
+deve contar-se Pau-Man-Chen; e &eacute; a sua historia
+maravilhosa que me proponho narrar, como puder.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso
+imperio, tem uma face branca e tem uma
+face preta. Na China n&atilde;o ha effectivamente ninguem
+que n&atilde;o o adore, que n&atilde;o lhe preste no altar
+domestico,
+o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo
+pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do
+mal, que com um olho contempla os ceus e as
+grandes coisas puras, e com o outro mira
+O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso
+imperio, tem uma face branca e tem uma
+face preta. Na China n&atilde;o ha effectivamente ninguem
+que n&atilde;o o adore, que n&atilde;o lhe preste no altar
+domestico,
+o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo
+pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do
+mal, que com um olho contempla os ceus e as
+grandes coisas puras, e com o outro mira a terra
+profunda at&eacute; aos antros lobregos dos demonios,
+adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-Man-Chen
+<span class="pagenum">[101]</span>
+tem uma face branca e tem outra face
+preta...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha n&atilde;o sei quantos mil annos, morreu n&atilde;o sei
+aonde, uma mulher casada. O marido, n&atilde;o resta
+duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou
+depositar o caix&atilde;o n'um solitario templo. Mal
+imaginava elle que a defunta seguia gravida no esquife;
+e mal imaginava que o menino, que se occultava
+no seu ventre, ia votado a altos destinos...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio,
+que come&ccedil;ou sendo notado, com justo sobresalto
+do dono da quitanda, o caso que vou exp&ocirc;r.
+Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas,
+quando pela manh&atilde; se dava balan&ccedil;o &aacute;s
+contas e ao
+dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o
+monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos,
+com a competente mancha prateada, que s&atilde;o nada
+menos do que a moeda corrente entre as almas do
+outro mundo, nas suas transac&ccedil;&otilde;es... Era prova
+clarissima
+<span class="pagenum">[102]</span>
+de que andava por alli coisa sobrenatural,&#8213;bruxaria,
+visita de phantasmas, ou&nbsp;<img style="width: 170px; height: 316px; float: left;" alt="" src="images/fig31.png" />outro mysterio
+parecido.&#8213;Estudou-se o caso attentamente e com
+bem justificaveis ancias de terror; observaram-se os
+freguezes, um por um. Chegou-se por fim &aacute;
+conclus&atilde;o
+de que, em tal enigma, andava por certo envolvido
+aquelle vulto de mulher de maneiras suspeitosas,
+trazendo uma crean&ccedil;a no rega&ccedil;o, e chegando-se
+todas as noites ao balc&atilde;o para comprar um bolo,
+que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava
+das m&atilde;os lividas, cadavericas, n&atilde;o havia nada
+que dizer-se; eram excellentes;
+mas quem ignora que de noite
+todos os bruxedos s&atilde;o possiveis,
+e &eacute; a luz fraca do dia que seguidamente
+os desmascara?... O
+patr&atilde;o (os tendeiros do mundo
+inteiro, e desde seculos sem conto,
+s&atilde;o homens de raro engenho),
+o patr&atilde;o, certa noite, conseguiu
+sem ser sentido, atar um longo
+fio &aacute; ponta da cabaia da fregueza;
+e quando ella se ausentou,
+p&ocirc;z-se a largar o fio, &aacute; medida
+dos seus passos. No dia seguinte,
+facilmente o finorio percorreu a linha de trajecto da
+<span class="pagenum">[103]</span>
+mysteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no
+termo do passeio, com o caix&atilde;o da defunta, de que
+atraz se fez mens&atilde;o. Do caso, sem deten&ccedil;as,
+correu
+a dar parte ao viuvo, de quem era conhecido.<br />
+
+<br />
+
+Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do
+esquife, e abrem-n'o, ao pasmo de todos. Scena
+extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos,
+fetidos, pasto de vermes,&#8213;quem j&aacute;, dos que me
+l&ecirc;em, poisou os olhos no espectaculo d'uma tumba
+escancarada?&#8213;l&aacute; est&aacute; estendida a esposa, e
+l&aacute; est&aacute;
+um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma
+existencia sobrenatural embora; mas como ninguem
+d'ella cuidasse, alli ficou jazendo para sempre. As
+atten&ccedil;&otilde;es, os carinhos, convergem para o menino;
+o pae estende-lhe os bra&ccedil;os, arranca-o &aacute;
+desola&ccedil;&atilde;o
+d'aquelle leito, chama-o &aacute; vida, &aacute; sociedade, ao
+mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A lenda popular completa esta curiosa historia
+pela maneira que vae v&ecirc;r-se. A defunta, alli amortalhada,
+alli estendida sobre as tabuas, foi m&atilde;e, n&atilde;o
+sei por que milagre&#8213;n&atilde;o se discutem milagres.&#8213;O
+resto explica-se melhor: o mysterio psychico da maternidade,
+isso que nas m&atilde;es se patenteia como uma
+<span class="pagenum">[104]</span>for&ccedil;a
+immensa, sem limites no affecto, sem barreiras
+nos zelos, capaz de todos os arrojos, poude aninhar-se
+n'aquelle corpo&nbsp;<img style="width: 170px; height: 239px; float: left;" alt="" src="images/fig32.png" />inerte, e imprimir vontade
+&aacute;quelle
+feixe de ossos. Aos primeiros vagidos da crean&ccedil;a, o
+cadaver p&ocirc;z-se a contemplar os proprios seios murchos,
+pendentes, vazios de seiva, ro&iuml;dos pelos bichos.
+O cadaver moveu-se ent&atilde;o, galvanisado pelo amor&#8213;qualquer
+cadaver de
+m&atilde;e, n'aquellas condi&ccedil;&otilde;es,
+faria o mesmo;&#8213;come&ccedil;ou
+a dar pontap&eacute;s
+no impossivel; partiu a
+murros as paredes do seu
+carcere; e apertando de
+encontro aos ossos o filhito,
+e embrulhando-se
+discretamente na mortalha,
+foi a correr comprar
+um bolo &aacute; venda proxima.
+A crean&ccedil;a assim foi medrando,
+passando os dias
+n'aquelle estranho ber&ccedil;o. Foi por isso que ficou com
+uma face branca, a que voltava para a luz e para o
+ceu, e com uma face preta, a que poisava na sombra,
+de encontro &aacute; terra negra. De ent&atilde;o lhe veio o
+duplo cond&atilde;o de conhecer o bem e de conhecer o
+<span class="pagenum">[105]</span>
+mal, de v&ecirc;r com um olho os deuses, e com um olho
+os demonios. Pelo correr dos annos, foi mandarim
+de modestos logarejos, pois lhe sobrava asco pelas
+riquezas, pelo fausto e<img style="width: 170px; height: 255px; float: right;" alt="" src="images/fig33.png" /> pelos altos cargos. Os nobres
+senhores, o proprio imperador que muito o honrava,
+tremiam do seu juizo. Lia nas consciencias e lia nos
+destinos. Distinguia na turba os humildes, os bons,
+os opprimidos; e tambem
+os impostores, os verdugos,
+os infames. Premiava as
+virtudes, azorragava os vicios.
+Os desmandos da c&ocirc;rte,
+a rapina dos ministros,
+os mexericos das concubinas,
+f&ocirc;ram por elle desmascarados
+e punidos. Assim
+viveu por longos tempos
+este grotesco e sublime figur&atilde;o;
+assim passou por
+todo o imperio, para gloria
+da China e para consola&ccedil;&atilde;o
+dos offendidos. O povo punha de parte os labores
+e vinha prostrar-se em sauda&ccedil;&otilde;es &aacute;
+borda das estradas,
+ao v&ecirc;l-o atravessar cidades e campinas, galgar
+os montes e descer os valles, sempre incansavel,
+seguindo a largos passos, como se fosse um
+<span class="pagenum">[106]</span>
+procurador atarefado com demandas. Fluctuava-lhe
+ao vento a longa cabaia esfarrapada, suja de lama
+e de poeira dos caminhos; a m&atilde;o adunca brandia
+um baculo nodoso; as pupillas chammejavam iracundas;
+o corpo ossudo definia-se, na magestade
+fa&ccedil;anhuda dos gestos arrogantes, nos compridos
+bigodes de asiatico, pendentes como franjas, na barba
+aberta em leque, chegando-lhe &aacute; barriga, e na disformidade
+do rosto pintado a duas c&ocirc;res, branca uma
+face e outra face preta. Um bello dia safou-se d'este
+mundo; mas l&aacute; anda no outro, certamente, espreitando
+c&aacute; para baixo, e n&atilde;o largando de m&atilde;o o
+seu
+fadario.<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">1899</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c10"></a>A CARICATURA NO
+JAP&Atilde;O</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">a
+Camillo Pessanha e
+Jo&atilde;o
+Vasco.</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Grande coisa, meus senhores, &eacute; ter engenho!..
+Eu n&atilde;o me gabo muito d'esta prenda, confesso-o
+francamente; mas tive ha pouco azo de julgar pela
+propria consciencia&#8213;merc&ecirc; d'um rasgo excepcional
+do meu bestunto&#8213;quanto vale uma boa idea; e
+conclui que a felicidade humana seria coisa facil, se
+uma impuls&atilde;o sagaz do espirito f&ocirc;sse guiando
+sempre
+os nossos passos n'este mundo. E assim fica
+satisfatoriamente justificada, penso eu, a
+exclama&ccedil;&atilde;o
+com que enceto estas divaga&ccedil;&otilde;es, escriptas por
+uma
+noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na
+cidade de Kobe, no Jap&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[108]</span>
+Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado
+pelos azedumes da existencia, gasto pela longa
+fric&ccedil;&atilde;o
+das coisas e dos homens, soffrendo pela d&ocirc;r do
+passado, pela insipidez do presente e pelas tristes
+promessas do futuro! como tu, meu pobre espirito,
+cahiras na quasi insania, consciente, e por isso mesmo
+mais penosa, d'aquelles para quem, por mal dos
+seus peccados, a vida se vae tornando toda um immenso
+enfado... Morbidez de temperamento? incompetencia
+ingenita para a lucta? fadiga, ap&oacute;s os
+mil bald&otilde;es da sorte? pouco importa; n&atilde;o vale a
+pena
+agora desenredar esta meada. Passava, e passo
+ainda, longas horas do dia junto da minha secretaria;
+&eacute; este o meu officio. Alguem, que entrasse, via-me
+grave, correcto, rodeado de livros e papeis, e
+at&eacute;, presumo,&#8213;perd&ocirc;em-me a vaidade&#8213;talvez me
+atribuisse uns certos ares de sabio, em cuja mente
+magnos problemas se iam sublimando. S&oacute;, bem s&oacute;,
+entre quatro paredes discretas, desfallecia; o olhar
+vago fixava-se no nada, todo o meu ser se inutilizava,
+perdia-se em abstrac&ccedil;&otilde;es, desinteressado da
+realidade, de mim mesmo, morto,&#8213;porque ha para
+alguns uma morte percursora d'aquella que roe na
+tumba a febra e p&otilde;e a n&uacute; os ossos brancos do
+esqueleto.&#8213;E
+vae ent&atilde;o, um bello dia, achando-me
+casualmente n'um bazar de Osaka, compro uma
+<span class="pagenum">[109]</span>
+figurinha de barro da deusa O Fuku-san, que colloquei
+sobre a mesma secretaria referida.<br />
+
+<br />
+
+Ora aqui est&aacute;, no fim de contas, em que consiste
+o meu rasgo genial; e vou dizer porqu&ecirc;. O
+barro &eacute; trabalhado por dedos tam amorosos de artista,&#8213;um
+obscurissimo artista certamente;&#8213;a pasta
+impregnou-se com tanta obediencia da fei&ccedil;&atilde;o
+predominante
+da alma japoneza,&#8213;naturalismo humoristico,
+caricatural;&#8213;que a deusasinha patusca que
+aqui tenho a meu lado, uma bugiganga de tres pollegadas
+de altura, quanto muito, &eacute; toda ella uma
+gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que
+a tristeza, borboleta negra das trevas, foge espavorida
+da minha convivencia; poiso os olhos na deusa,
+e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o
+homem mais divertido d'este mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de ir mais longe na palestra, justo &eacute; que
+me detenha e diga em poucas phrases quem &eacute; O Fuku-san.
+Divindade popular, patrona da boa fortuna e da
+alegria, representa na genesis japonica um papel de
+subida importancia incontestavel. Izagani e Izanami,
+os deuses iniciaes e creadores, formaram o Jap&atilde;o e
+<span class="pagenum">[110]</span>
+tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do sol, e outros
+filhos, todos com maravilhosos attributos. Amaterasu
+residia no ceu, alumiando a terra; delicioso
+officio; mas tamanhas affrontas soffreu de um seu
+irm&atilde;o, o deus da lua por signal, que se amuou e
+decidiu esconder-se, escolhendo para retiro uma
+caverna, aonde se metteu, vedando a entrada com
+uma enorme pedra; a terra, &eacute; obvio, achou-se &aacute;s
+escuras de repente. Os deuses, apavorados,&#8213;o caso
+n&atilde;o era para menos,&#8213;recolheram-se em conselho, e
+resolveram o seguinte, depois de larga discuss&atilde;o:
+f&ocirc;ram postar-se todos bem junto da caverna; Takadjira,
+o deus de enormes bra&ccedil;os, ficou junto da entrada,
+fazendo sentinella; O Fuku-san, a mais divertida
+das patuscas, poz-se a cantar modinhas; ou,
+quando n&atilde;o cantava, tocava n'uma gaita de bambu;
+ou, quando n&atilde;o tocava, bailava minuetes, acompanhando
+a dan&ccedil;a de mil tregeitos faceciosos. Tanta
+pilheria teve a figurona, que a deusa Amaterasu, no
+seu antro, come&ccedil;ou a interessar-se na galhofa, a rir
+&aacute;s furtadellas,&#8213;ou n&atilde;o fosse ella japoneza!&#8213;e
+arredou
+um pouco, para o lado, o pedregulho, alongou
+um nada a cabecita para f&oacute;ra, e assim se p&ocirc;z a
+gozar
+melhor da brincadeira. Ent&atilde;o Takadjira, n'um
+relance&#8213;z&aacute;s!&#8213;caiu-lhe em cima, lan&ccedil;ou-lhe os
+longos
+bra&ccedil;os ao pesco&ccedil;o, puxou-a para si, foi
+&aacute; for&ccedil;a
+<span class="pagenum"><a name="p111">[111]</a></span>
+poisal-a no seu throno... e a terra de novo continuou
+a ser alumiada pelo sol!<br />
+
+<br />
+
+A arte popular veste a deusa O Fuku-san em
+bellos trajos da c&ocirc;rte, dos velhos tempos, setins rojantes,
+brancos e escarlates, e molda-a nos ultra-comicos
+contornos d'uma japonezita enormemente
+obesa, toda ella refolhos de gordura, banhas de pesco&ccedil;o,
+de collo, de seios, de barriga, redondezas pasmosas
+de quadris, e m&atilde;os e p&eacute;s papudos. A cara, a
+immensa cara&ccedil;a, de lua cheia, &eacute; um poema completo
+de monstruosidade triumphal e hilariante: faces
+prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos;
+um narizito que mal se v&ecirc;, rombo, abatatado,
+como que calcado para dentro, a golpes de
+martello; &aacute; fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se
+dois band&oacute;s de cabellos de azeviche; f&ocirc;ram
+rapadas &aacute; navalha as sobrancelhas, segundo o uso
+classico; os olhinhos piscos, matreiros e gaiatos, reluzem
+pelas fendas estreitas das palpebras carnudas;
+e a bocca, a boquinha, em forma de cereja, acarminada,
+sorri em curvas, em pr&eacute;gas, em covinhas impagaveis...
+Mas n&atilde;o ha palavras que descrevam,
+nem de longe, a express&atilde;o de toda a figurinha&#8213;porque
+vae alem da nossa comprehens&atilde;o de occidentaes,&#8213;no
+que d'ella irradia de jocosidade perenne,
+de beatifico comprazimento, de vagos tiques de <a href="#e10">inconsciencia</a>
+<span class="pagenum">[112]</span>
+infantil, de imbecilidade, de malicia, de
+pervers&atilde;o; um indefinivel conjuncto de n&atilde;o sei
+que
+de imminentemente pueril, satanico e grotesco, todavia
+gracioso, que &eacute; no fim de contas uma das
+fei&ccedil;&otilde;es mais caracteristicas e mais emocionantes
+da
+arte inteira japoneza.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 170px; height: 329px; float: left;" alt="" src="images/fig34.png" />Ensina-se nos livros que por
+meados do nosso seculo XII, o
+pintor Kakuyu, que era bonzo
+buddhista, iniciou no Jap&atilde;o a
+pintura caricatural. Pois seja assim;
+concedo ao frade o merito
+de ter traduzido pelo pincel,
+por vez primeira, o humorismo
+d'esta gente. Mas tal humorismo,
+como fei&ccedil;&atilde;o moral, nasceu
+com o mesmo povo, &eacute;-lhe um
+fector do sentimento; e cada japonez
+&eacute;, e foi, e ser&aacute;, um caricaturista.
+Quando se estuda a
+lenda indigena japoneza, no vasto
+reportorio das suas fabulas, que eu penso representarem
+<span class="pagenum">[113]</span>
+sempre o mais remoto documento do feitio
+estetico, da individualidade
+psychica, d'uma qualquer
+grande familia humana, depara-se na scena com
+a mais curiosa fauna fallante&#8213;macacos, caranguejos,
+raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios
+bichos;&#8213;no apologo grego, por exemplo, os brutos
+s&atilde;o doutores, discursam como philosophos e como
+moralistas; no apologo japonez, menos profundo,
+mas talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em
+mascarar-se vestindo <em>kimonos</em> e
+enfiando as patas
+nas sandalias, faz caretas, galhofa, dan&ccedil;a e ri, em
+desenvolturas caricaturaes da mais desopilante tro&ccedil;a
+a todos os ridiculos.<br />
+
+<br />
+
+Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam,
+e attingem uma fei&ccedil;&atilde;o independente,
+inconfundivel,
+a caricatura, como que traduzindo uma recorda&ccedil;&atilde;o
+da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo,
+n&atilde;o s&oacute; na pintura, mas nas multiplices
+affirma&ccedil;&otilde;es
+do engenho&#8213;esculptura, ornamenta&ccedil;&atilde;o da
+porcellana, da faian&ccedil;a, dos char&otilde;es, dos bronzes,
+em
+tudo.&#8213;Gra&ccedil;as ao pincel e gra&ccedil;as ao buril, as
+r&atilde;s
+decidem-se a vir tocar guitarra para a rua; os pardaes
+offerecem banquetes aos seus intimos, servidos
+em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de
+rapozas, levando a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz,
+que a espera no seu lar; pelo dorso de Hotei,
+<span class="pagenum">[114]</span>
+deus da bondade, v&atilde;o trepando os garotos, e um
+mais atrevido vae poisar-se-lhe em cima da careca;
+os guerreiros cobrem os rostos com mascaras de
+um comico fa&ccedil;anhudo indescriptivel. Hokusai, o
+grande mestre da escola vulgar em pintura, delicia-se
+em desenhar cegonhas d'um s&oacute; tra&ccedil;o repentino,
+maravilhosos gatafunhos, palpitantes de
+observa&ccedil;&atilde;o
+e de verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama,
+a montanha sagrada, contorna-a vista atravez de
+uma rede, que um pescador tira do mar; e atravez
+de uma teia de aranha; e entre o A das pernas
+nuas d'um operario tanoeiro, que do alto de uma
+dorna ajusta &aacute; for&ccedil;a de malho as aduellas; e
+reflectida
+no ch&aacute; da ta&ccedil;a que um esfarrapado mendigo
+leva &aacute; bocca. Hokusai, em 1804, durante certa festividade
+n'um templo, manda estender no solo uma
+folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados
+de grandeza; vem mais um barril com agua,
+outro barril com tinta preta, uns oitenta litros d'ella,
+e mais duas enormes vassouras e tres vassouras
+mais pequenas; entra o mestre, empunha uma vassoura
+embebida na tinta, tra&ccedil;a sobre o papel curvas
+gigantes; no fim de alguns minutos termina a sua
+obra, que s&oacute; &eacute; comprehendida quando alguns dos<img style="width: 300px; height: 476px; float: right;" alt="" src="images/fig35.png" />
+milhares dos assistentes se lembram de galgar ao
+telhado do templo: a distancia e do alto, o immenso
+<span class="pagenum">[115]</span>
+quadro representa um admiravel busto de Daruma,
+o grande apostolo buddhista. Por aquella mesma
+epocha, Hokusai pintava sobre um bago de arroz
+um grupo de aves, encantador, mas s&oacute; distincto
+com a ajuda de uma lupa.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; esta caricatura,
+melhor
+ser&aacute; talvez dizer&#8213;este
+humorismo, que o
+japonez exerce com habilidade
+unica, magistralmente,
+prodigiosamente;
+&eacute; por ella, &eacute; por elle, pelo
+segredo dos exaggeros,
+pelo arrojo da execu&ccedil;&atilde;o,
+que alcan&ccedil;a inten&ccedil;&otilde;es flagrantes
+no tra&ccedil;o, uma
+alma quasi na paizagem,
+um conceito na arvore,
+no ramo em fl&ocirc;r, no simples
+contorno de um rochedo...
+Na pintura japoneza,
+por exemplo, um pargo, um caranguejo, uma
+lagosta, o figur&atilde;o zoologico mais lorpa que possa
+imaginar-se, vivem na tela, isto &eacute;, accusam uma
+vontade, uma inten&ccedil;&atilde;o, um sentimento, como a
+fome, como o medo, como o cio. N&atilde;o se diga que
+<span class="pagenum">[116]</span>
+&eacute; a fiel reproduc&ccedil;&atilde;o do modelo que
+d&aacute; isto,&#8213;a photographia
+d'um caranguejo n&atilde;o palpitaria de vida;&#8213;&eacute;
+pelo contrario o exaggero propositado de certas
+linhas, o exercicio de uma arte mysteriosa, que
+naturalmente se inspira no perfeito conhecimento
+estructural e sentimental do bicho, animalizando de
+certo modo o artista e humanizando o bruto, e permittindo
+caprichos descommunaes que o observador
+n&atilde;o descrimina, que o levam a exclamar, n&atilde;o sei
+por que remotas reminiscencias&nbsp;<img style="width: 300px; height: 502px; float: left;" alt="" src="images/fig36.png" />ancestraes de subito
+recordadas:&#8213;&laquo;aquelle linguado acha-se triste...
+aquelle
+camar&atilde;o arde em ciumes...
+aquella lombriga
+est&aacute;-se a rir...&#8213;&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 310px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+O humorismo japonez
+n&atilde;o se limita &aacute;s artes; divulga-se
+nos costumes do
+povo, nos seus habitos;
+quando nos intromettemos
+na intimidade indigena,
+ainda o espectaculo de
+inesperados disparates, de
+<span class="pagenum">[117]</span>
+requintadas extravagancias, vem ferir a nossa pupilla
+e prolongar-nos o espanto. Eu n&atilde;o pretendo
+escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente,
+aponto ao acaso alguns dos que me occorrem.<br />
+
+<br />
+
+Pois n&atilde;o s&atilde;o disparatadas, caricaturaes, estas
+mangas prodigiosamente amplas dos vestidos, e na
+propria fazenda a estupenda polychromia dos matizes?
+E estas peanhas de madeira, &aacute; laia de cal&ccedil;ado,
+onde se poisam os p&eacute;s n&uacute;s
+dos japonezes? E estes
+penteados enormes das mulheres, transformando-lhes
+as cabe&ccedil;as em estupendos monumentos ambulantes?
+E o <em>obi</em>, a cinta de seda que cinge
+as ancas
+da <em>musum&eacute;</em> em voltas
+sobrepostas e rematadas n'um
+la&ccedil;o colossal? E o costume das casadas, quando
+em signal de desap&ecirc;go &aacute;s vaidades d'este mundo, se
+desfeam rapando as sobrancelhas &aacute; navalha, e envernizando
+de
+preto a fila
+dos dentinhos?
+A casa
+de papel,
+o jardim de
+Lilliput, a
+vida passada
+de joelhos
+sobre
+<span class="pagenum">[118]</span>
+a esteira, a refei&ccedil;&atilde;o servida em
+ta&ccedil;asinhas e apprehendida
+nas pontas dos pausinhos, a arte domestica
+da prepara&ccedil;&atilde;o do ch&aacute; e dos ramos de
+flores, a dan&ccedil;a,
+a musica, a cama improvisada a um canto com duas
+colchas de seda e uma boceta de char&atilde;o por travesseiro,
+as mil sauda&ccedil;&otilde;es trocadas entre duas pessoas
+que se encontram, todos os aspectos da vida indigena
+emfim, intimos, sociaes,<img style="width: 400px; height: 282px; float: right;" alt="" src="images/fig37.png" />
+brincadeira, como se o japonez tivesse vindo ao
+mundo para se rir de tudo s&atilde;o surprezas, extravagancias,
+excep&ccedil;&otilde;es unicas, simples pretextos para em que
+se occupa, e para
+se rir de si primeiro do que de tudo... Chega-se sem
+muita difficuldade a comprehender porque, nas
+rela&ccedil;&otilde;es
+de convivio de um para outro, de preferencia
+&aacute; palavra, de preferencia ao gesto, uma maneira ha
+mais eloquente de traduzir o pensamento:&#8213;a gargalhada!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O proprio japonez &eacute; uma caricatura. N&atilde;o se
+espantem da asser&ccedil;&atilde;o os que tiverem a pachorra
+de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio
+deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon,
+formou n'um estado de alma galhofeiro esta
+terra, sem systema, sem programma estudado e sem
+<span class="pagenum">[119]</span>
+pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos
+comicos caprichos que a phantasia lhe ditava e a
+m&atilde;o omnipotente ia executando, ferramenta do officio
+em ac&ccedil;&atilde;o, escopro ou broxa,
+afei&ccedil;oando, retocando,
+caricaturizando, o que do chaos ia surdindo
+&aacute; fl&ocirc;r das aguas. Depois, concluida a obra, devia
+ter soltado uma gargalhada retumbante!...<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 400px; height: 412px; float: right;" alt="" src="images/fig38.png" />Ora desde remotas eras
+at&eacute; hoje, pratica-se no
+Jap&atilde;o um exercicio de lucta, um
+<em>sport</em> (como se diz
+agora) muito em voga, e do especial agrado d'esta
+gente; &eacute; o espectaculo favorito durante determinadas
+epochas do anno. Limita-se no campo um espa&ccedil;o com
+esteiras e bambus, e ao centro disp&otilde;e-se uma pequena
+eleva&ccedil;&atilde;o em forma circular; i&ccedil;am-se
+galhardetes e bandeiras,
+rufa o tambor,
+e o povo afflue
+por centenas de curiosos,
+compra o seu
+bilhete e toma poiso;
+dois homens, quasi
+n&uacute;s, combatem corpo
+a corpo, como
+na arena grega, at&eacute;
+que um d'elles derruba
+o companheiro
+e &eacute; proclamado vencedor.
+<span class="pagenum">[120]</span>
+Estes luctadores de profiss&atilde;o s&atilde;o
+escolhidos
+d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e &eacute; na
+provincia de Tosa que especialmente se recrutam.
+N&atilde;o s&atilde;o homens, s&atilde;o caricaturas de
+homens, s&atilde;o
+monstros, enormes, valendo cada um em peso e em
+dimens&otilde;es por seis japonezitos ordinarios. N&atilde;o se
+imagina, nem podem descrever-se, as caras, os car&otilde;es
+de taes sujeitos; s&atilde;o mascaras disformes, cara&ccedil;as
+imberbes, olhinhos ferinos repuchados para
+a
+testa, queixada vigorosa e dentu&ccedil;a arreganhada,
+orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e
+um risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de
+crean&ccedil;a e de riso de demonio; nem ha palavras que
+expliquem a amplid&atilde;o dos vultos, a obesidade das
+carnes, o bra&ccedil;o roli&ccedil;o quasi feminino, os seios
+erectos,
+o enorme ventre impando, lenta a marcha e
+ondulante, de urso da Siberia em liberdade. Asseguram
+estudiosos que estes monstros de Tosa s&atilde;o
+os ultimos restos, preciosos modelos vivos, da ra&ccedil;a
+prehistorica japoneza... Pode assim ser; no japonezito
+de hoje, embora geralmente franzino, miudinho,
+delicado, n&atilde;o repugna acreditar que alguma
+coisa haja de commum com os luctadores de Tosa:
+como que laivos de familia, a vaga semelhan&ccedil;a com
+um av&ocirc;... a n&atilde;o querermos mais longe ainda ir
+procurar-lhe affinidades, n'um remoto parentesco
+<span class="pagenum">[121]</span>
+com a deusa O-Fuku-san, que continua a rir-se para
+mim, e eu a rir-me para ella...<br />
+
+<br />
+
+Relance&ecirc;mos a chusma, nos theatros, nas feiras,
+nas romarias, nos<img style="width: 300px; height: 569px; float: right;" alt="" src="images/fig39.png" /> bazares? Pode dizer-se, em geral,
+que o typo do japonez, da sua femea, e mais accentuadamente
+ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos
+an&otilde;es, ou nos albinos, ou nos c&ocirc;xos, ou nos
+corcundas,
+ou nos leprosos, ou nos que t&ecirc;em um lobinho, ou nos
+que t&ecirc;em o nariz roido, em todos aquelles em fim em
+que um defeito, uma tara, sobresae, &eacute; caricatural
+supinamente,
+comico a ponto de
+nos fazer morrer de rir &aacute;s gargalhadas!...
+Ah, magan&otilde;es!
+voc&ecirc;s, quando nos deram as
+imagens dos seus deuses, dos
+seus genios do lar: uns pansudos,
+como odres; outros
+esqueleticos, macrabos; uns
+pachorrentamente joviaes,
+outros terriveis, despedindo
+raios sobre a terra; voc&ecirc;s retrataram-se
+a si mesmos, segurando
+com uma das m&atilde;os
+o pincel e com a outra o espelhinho
+onde se viam, magan&otilde;es!...
+Especialisando,
+<span class="pagenum">[122]</span>
+da multid&atilde;o das ruas, essa figurinha em miniatura
+que t&atilde;o irresistivelmente captiva as
+atten&ccedil;&otilde;es do estrangeiro,
+toda ella matizes, perfumes, frescura, gentileza,
+a figurinha da <em>musum&eacute;</em>, da
+rapariga, podemos
+ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura
+mais travessa, a chimera humana mais deliciosa, em
+que j&aacute;mais olhos de viajante se poisaram!...<br />
+
+<br />
+
+Profundar o enygma do feitio moral da tribu &eacute;
+impossivel. Apenas conhecemos vagamente que a
+vida intima desliza serena e pueril, sem ralhos, sem
+exasperos, em culturas de arbustos, em
+contempla&ccedil;&otilde;es
+dos astros, em banhos quentes, em esmeros
+junto do espelho, em brinquedos com as crean&ccedil;as,
+em debandadas pelos campos, em liba&ccedil;&otilde;es de
+ch&aacute;,
+em jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira,
+em sonecas tranquillas debaixo do verde mosquiteiro
+protector... Mas d'esta mesma gente expludem
+tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos
+assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios
+duplos, por desespero de amor,&#8213;elle e ella cingidos
+n'um derradeiro abra&ccedil;o;&#8213;e essa horrivel sede
+de sangue, o homem transformado em fera, trucidando
+tudo vivo que encontra, estado de loucura
+conhecido entre os estrangeiros do Oriente pela
+denomina&ccedil;&atilde;o
+de <em>amock</em>, palavra malaia ou
+javaneza.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A tribu parece ter sido feita de
+encommenda
+para o paiz exotico que lhe foi dado em patrimonio.
+Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor se
+comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional,
+com as suas delicadezas, com as suas graciosidades,
+com os seus caprichos, com os seus disparates;
+manifesta&ccedil;&otilde;es multiplices de um
+caracter
+particularissimo de origem, mas no qual a influencia
+muito especial do meio laborou tambem intensamente.<br />
+
+<br />
+
+Comparando os aspectos normaes, comezinhos,
+que se desdobram por este mundo f&oacute;ra, com outros
+aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com
+a disposi&ccedil;&atilde;o commum das coisas, pergunto eu se o
+termo&#8213;disparate,&#8213;se o termo&#8213;caricatura,&#8213;s&atilde;o
+permittidos, julgando a obra da omnipotente
+crea&ccedil;&atilde;o?
+Haver&aacute;, por exemplo, um ilheo disparatado, um
+pinheiro caricatural? Se permittidos s&atilde;o, se ha tal
+ilheo, se ha tal pinheiro, ent&atilde;o n&atilde;o se pode
+imaginar
+coisa mais disparatada, mais caricatural, do que
+este archipelago, j&aacute; disparatado de nascen&ccedil;a,
+emergindo
+a pique e como por encanto, do seio das aguas
+mais profundas do oceano, tenue, rendilhado como
+<span class="pagenum">[124]</span>
+uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos
+por mysteriosas commo&ccedil;&otilde;es vulcanicas, zurzido
+por tremendos cyclones, invadido por vezes
+pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera
+geologica emfim, que pode &aacute;manh&atilde; desapparecer no
+abysmo, sem que por tal se espantem muito os sabios!...
+Tal &eacute; o imperio do Jap&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 400px; height: 265px; float: left;" alt="" src="images/fig40.png" />A paisagem
+extravagante,
+inverosimil,
+inacreditavel,
+das porcellanas
+e
+char&otilde;es, hoje
+divulgada
+em toda
+a parte, &eacute; com effeito a paizagem real d'este
+Jap&atilde;o.
+Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas,
+torrentes espumantes, ribeiras dormentes,
+valles profundos, mares interiores salpicados de ilhas
+e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosissimas,
+reunido em grupos incongruentes e projectado
+em fundos de ceu estupendamente coloridos, eis o
+que os olhos abrangem n'um relance.<br />
+
+<br />
+
+Demor&ecirc;mo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas
+<span class="pagenum">[125]</span>
+especies enormes) vestem as encostas, trepam
+pelas ribanceiras acima, at&eacute; irem coroar os ultimos
+pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus
+gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna d&atilde;o
+allucina&ccedil;&otilde;es &aacute;quelle que se aventura
+em devassar o
+seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de
+<em>momiji</em>;
+em novembro, a sua tenue folhagem digitada
+passa do verde claro ao escarlate; o scenario adquire
+assim deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se
+a gente se achasse de repente pisando o solo de
+Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre
+uma pedra &aacute; fl&ocirc;r das aguas; germinou o pinheiro,
+a rede das raizes abra&ccedil;a-se ao granito, e
+ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido
+pelos annos e pelas intemperies, reflectindo no espelho
+glauco a sua eterna cabelleira de verdura; ha
+arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma
+estranha, celebres como heroes, que s&atilde;o visitadas
+por uma multid&atilde;o de peregrinos. As ameixieiras, as
+cerejeiras, abundam; pela primavera, cobrem-se de
+florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se
+viu em parte alguma; mas n&atilde;o d&atilde;o fructo, as
+trapaceiras.<br />
+
+<br />
+
+Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida.
+Trepa, por onde pode, a <em>asagao</em>; e
+abre &aacute; alvorada,
+por curtas horas, as suas frescas campanulas,
+<span class="pagenum">[126]</span>
+de qualquer c&ocirc;r, porque as variedades n&atilde;o se
+contam, s&atilde;o milhares. Desabrocha a peonia, enorme,
+paradoxal. E enfileiram as chrysanthemas, a fl&ocirc;r nacional,
+sob tendas que as abrigam do sol, podendo
+lembrar cortez&atilde;s em exposi&ccedil;&atilde;o nos
+bairros de prazer,
+pela extravagancia das c&ocirc;res e dos feitios, que
+recordam a confus&atilde;o polychroma dos vestidos e dos
+penteados das mulheres; mas que realmente se assemelham
+a enormes actineas, monstros dos mares,
+multiplicando-se em mil tentaculos contorcidos, brancos,
+amarellos, rosados ou sanguineos.<br />
+
+<br />
+
+Agora a fauna. Pelo espa&ccedil;o, negrejam bandos
+de corvos, os <em>karasu</em>, escarninhos,
+voando e rindo
+&aacute;s gargalhadas. Enormes borboletas pretas, nunca
+vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, &eacute; incessante
+o ruido das cigarras, dos grilos, de outros bichos.
+Noites ha, pelo estio, junto &aacute;s ribeiras, em que
+uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades,
+motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam
+peixes de oiro, com os olhos a estoirarem,
+com as caudas esfarrapadas e rojantes, como se f&ocirc;ssem
+longos capotes de mendigos. Junto da casa de
+papel toma o sol, cantarola o gallo an&atilde;o, do tamanho
+d'uma pomba; e &aacute; porta assoma o gato indigena,
+esqueletico, rabugento, sem rabo... porque
+todos os gatos no Jap&atilde;o nascem sem rabo; ou
+<span class="pagenum">[127]</span>
+&eacute; o c&atilde;o que ladra, o
+<em>chin</em>, verdadeira caricatura de
+c&atilde;o, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das
+orbitas, sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado
+de qualquer monstro de epochas remotas,
+hoje extincto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 400px; height: 272px; float: right;" alt="" src="images/fig41.png" />De sorte
+que todo
+este Nippon,&#8213;arte,
+povo, paizagem,
+planta
+e bicho,&#8213;&eacute;
+uma deliciosa
+mascarada. Como
+fazer sentir isto a quem o n&atilde;o conhece, depois
+de ter escripto o que escrevi, e de concluir que nada
+escrevi do que me vae no pensamento? Olhem: fixem
+um espelho espherico, ou cylindrico; o aspecto
+das formas reflectidas &eacute; uma interminavel surpreza
+hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas;
+pois tal &eacute; o aspecto do Jap&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Todos sabem como a caricatura, pelo desenho
+e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia
+decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam
+a atten&ccedil;&atilde;o e imperam no espirito com intensidades
+unicas, alheias &aacute;s outras formas de arte. Porque?
+F&ocirc;ra difficil explical-o aqui. &Eacute; certo que a
+ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza
+um defeito, aponta um ridiculo, sublinha
+uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos,
+passam desapercebidas ou esquecem brevemente;
+o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a
+estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato
+d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos;
+amanh&atilde; nada restar&aacute; no pensamento; mas, se foi
+relanceada a caricatura, fica a summula c&aacute; dentro,
+uma reminiscencia pertinaz do tra&ccedil;o phisionomico
+(e mais do que isso) do individuo. Seja como f&ocirc;r e
+por que f&ocirc;r, &eacute; hoje indiscutivel que a caricatura
+representa
+um meio altamente poderoso de impressionar
+os homens
+Todos sabem como a caricatura, pelo desenho
+e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia
+decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam
+a atten&ccedil;&atilde;o e imperam no espirito com intensidades
+unicas, alheias &aacute;s outras formas de arte. Porque?
+F&ocirc;ra difficil explical-o aqui. &Eacute; certo que a
+ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza
+um defeito, aponta um ridiculo, sublinha
+uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos,
+passam desapercebidas ou esquecem brevemente;
+o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a
+estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato
+d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos;
+amanh&atilde; nada restar&aacute; no pensamento; mas, se foi
+relanceada a caricatura, fica a summula c&aacute; dentro,
+uma reminiscencia pertinaz do tra&ccedil;o phisionomico
+(e mais do que isso) do individuo. Seja como f&ocirc;r e
+por que f&ocirc;r, &eacute; hoje indiscutivel que a caricatura
+representa
+um meio altamente poderoso de impressionar
+os homens; estude-se-lhe os effeitos, por
+exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale
+pela mais possante picareta demolidora das
+institui&ccedil;&otilde;es,
+<span class="pagenum">[129]</span>
+dos thronos e das cren&ccedil;as,
+rasgando a estrada
+nova por onde investem os partidos avan&ccedil;ados.<br />
+
+<br />
+
+Estando isto assente, imaginem agora um paquete,
+despejando em<img style="width: 400px; height: 283px; float: right;" alt="" src="images/fig42.png" /> qualquer caes
+japonez um
+bando de loiros estrangeiros. Elles todos, os lorpas,
+t&ecirc;em nos rostos essa fei&ccedil;&atilde;o anodina das
+cabe&ccedil;as, que
+&eacute; uma das formas de belleza mais frequentes nas
+ra&ccedil;as europeas; e a julgar pelo olho azul, de porcellana,
+sem
+express&atilde;o,
+sem alma,
+p&oacute;de admittir-se
+que l&aacute;
+dentro da
+casca n&atilde;o
+ha sen&atilde;o
+pevides em
+guisa de
+miolos.<br />
+
+<br />
+
+M&atilde;os rudes, vermelhas, cabelludas, p&eacute;s
+enormes;&#8213;estigmas
+de um temperamento avesso a coisas de
+arte e a todas as delicadezas do sentir.&#8213;Emparelham
+pelas manifesta&ccedil;&otilde;es do gosto: vestidos todos
+de alvadio, c&ocirc;co no cocuruto da cabe&ccedil;a, sapatos
+amarellos e ramosinho na carcela. Como entidades
+prestantes, embora talvez n&atilde;o prestem para nada,
+<span class="pagenum"><a name="p130">[130]</a></span>
+uns s&atilde;o sabios, outros s&atilde;o navegadores, outros
+s&atilde;o
+diplomatas, outros possuem manhas maravilhosas
+de balc&atilde;o; mas&#8213;coitados!&#8213;em todos se acoberta
+o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros,
+nascidos da podrid&atilde;o da descren&ccedil;a, do egoismo,
+da inveja, da cubi&ccedil;a e da misanthropia; e na
+face e nos gestos alguma coisa j&aacute; assoma do mal de
+que enfermaram. Alguns d&atilde;o o bra&ccedil;o a outros
+sujeitos
+sem bigode, com grandes m&atilde;os <a href="#e11">vermelhas</a>
+igualmente, e enormes p&eacute;s cal&ccedil;ando sapatos
+amarellos;
+usam bengala, collarinho alto de bretanha,
+gravata, tunicas em forma de campanula, uma alcofa
+&aacute; cabe&ccedil;a, cheia de hervas, de aves e de
+fitas:&#8213;s&atilde;o
+as damas&#8213;.<br />
+
+<br />
+
+Os pobres forasteiros v&ecirc;em-se assim de improviso
+e de surpreza no meio exotico entre todos, requintadamente
+artistico, caricatural e sorridente,
+que &eacute; todo este Jap&atilde;o. Dominados pelos aspectos,
+allucinados pela inicia&ccedil;&atilde;o imposta, riem tambem,
+e
+julgam tambem sentir a graciosidade indigena e a
+gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as estradas
+e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas
+numerosas a visitar os logares celebres, encorporam-se
+nas romarias, entram nos templos e entram
+nos theatros, bebem ch&aacute; japonez, e at&eacute;,
+burlescamente
+ajoelhados, engolem o arroz cosido e
+<span class="pagenum">[131]</span>
+deliciam-se no peixe cru que as creadinhas v&atilde;o servindo.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 330px; float: right;" alt="" src="images/fig43.png" />Oh, a paisagem japoneza! Como ella
+&eacute; encantadora
+e fresca, estranha, paradisiaca!... e como aqui
+o pensamento se dilata, n'um longo divagar sereno e
+amoroso, t&atilde;o distincto das
+preocupa&ccedil;&otilde;es sombrias
+que alem, na Europa, azedam a existencia!... Mas
+n&atilde;o sei qu&ecirc; da alma
+asiatica, subtilmente
+motejador e sarcastico,
+subtilmente intolerante,
+paira aqui, emana
+da colora&ccedil;&atilde;o e da
+forma das coisas, do
+grito dos animaes, do
+gesto e voz da gente;
+n&atilde;o se define, mas
+existe, hostilisando em
+tudo o pobre intruso.
+&Eacute; como que uma
+exhorta&ccedil;&atilde;o continua e impertinente do Buddha e
+dos
+deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:&#8213;&laquo;Vae-te,
+volta &aacute; terra dos loiros; contempla os teus
+deuses, visita os teus templos, recrea-te nos teus sal&otilde;es,
+bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz
+este solo, que n&atilde;o &eacute; teu, que te detesta; e onde,
+<span class="pagenum">[132]</span>
+para assimilares a harmonia da crea&ccedil;&atilde;o e o
+sentimento
+nacional, precisas de uma fluidez de espirito
+e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...&raquo;&#8213;<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 410px; float: left;" alt="" src="images/fig44.png" />Cedo ou tarde,
+&aacute;manh&atilde;, em dois mezes, em dois
+annos, o homem loiro enfastia-se, compenetra-se da
+fatalidade dos destinos, que crearam o Jap&atilde;o para
+os japonezes. Uns desertam, e fazem n'isso muito
+bem; outros ficam. Nos que ficam, o desgosto pela
+terra do exilio enraiza, alastra como uma lepra corrosiva.<br />
+
+<br />
+
+O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente
+em odio, um odio desesperado,
+sem treguas;
+explicavel pela maior vibratilidade
+dos nervos
+no sexo, pela vida ociosa,
+e tambem, e principalmente,
+pelo penoso
+confronto com a mulher
+indigena, cujo fresco perfil
+e requintado tacto femenil
+s&atilde;o uma provoca&ccedil;&atilde;o
+terrivel aos seus meritos.
+A mascarada eterna
+japoneza, a despreocupa&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[133]</span>
+o riso chronico, os tra&ccedil;os
+caricaturaes de
+todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,&#8213;&laquo;ijin,
+ijin!&raquo; estrangeiro, estrangeiro!&#8213;tudo irrita,
+bellisca redunda por fim n'um
+supplicio insuportavel,
+que n&ecirc;m respeita o lar, entrando mesmo pelas janellas
+dentro como um exame de mosquitos. Triste lar,
+tantas vezes!... Junto da familia do sr. Fulano, seja
+qual for a sua nacionalidade e situa&ccedil;&atilde;o, contae
+como
+provavel um hospede permanente,&#8213;o aborrecimento.&#8213;A
+embriaguez, a dissipa&ccedil;&atilde;o, a quebra fraudulenta,
+o roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio,
+todos os desmandos de uma sociedade incongruente,
+succedem-se nas pequenas colonias europeas do Jap&atilde;o
+com uma triste frequencia, eloquentissima!...<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c11"></a>DOIS CEMITERIOS JAPONEZES</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">A
+V. Almeida d'E&ccedil;a</span></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e
+de Anno-Bom, encontrei-me um bello dia, sem bem
+saber porque, vagabundeando no cemiterio dos europeus
+em Kobe, o velho. O velho, porque ha um
+cemiterio novo que se estreou ha pouco tempo, e
+onde at&eacute; agora se reuniu coisa de meia duzia de inquilinos;
+est&aacute; este situado longe da cidade, n'um
+declive de collina, amplo, com bellos horisontes em
+redor. O velho, de acanhadas dimens&otilde;es, enchera-se
+de moradores em uns trinta annos de exercicio, e
+foi por tal raz&atilde;o posto de parte.<br />
+
+<br />
+
+O velho cemiterio fica em plena cidade, para as
+<span class="pagenum">[135]</span>
+bandas de oeste e cerca dos edificios da alfandega,
+quando come&ccedil;a um bairro sujo, de fabricas, de armazens,
+que pov&ocirc;a uma misera ral&eacute; de carregadores
+e de mendigos. Encerrado entre as altas paredes
+de tijolo vermelho de enormes depositos de
+mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar,
+com pouca luz, humido e ermo, &eacute; bem triste este
+canto; at&eacute;, se n&atilde;o me illudo, os vetustos
+pinheiros
+que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e
+estorcimentos convulsos das ramadas, alguma coisa
+da desola&ccedil;&atilde;o que aqui impera sobre tudo.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 288px;" alt="" src="images/fig45.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[136]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje, que &eacute; um domingo, acol&aacute;, a curtos passos,
+sobre a relva do parque publico, a chusma dos caixeiros&#8213;inglezes,
+americanos, allem&atilde;es,&#8213;a chusma
+cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu,
+berra, corre, esbraceja, espernea, joga o
+<em>tennis</em>,
+o <em>fout-ball</em>. Mais alem, pelas ruas
+de trafego indigena,
+presumo magna enchente, bazares em festa,
+povo em barda, entre japonezes e estrangeiros.
+D'estes ultimos, s&atilde;o especialmente as damas que
+mais se alvoro&ccedil;am com a proximidade do
+<em>christmas
+day</em>, e que afanosamente percorrem a cidade,
+em carruagens, em <em>jinrikshas</em>, a
+p&eacute;&#8213;a p&eacute;s... e
+que p&eacute;s!...&#8213;enfiando pelas lojas, mercadejando
+bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil
+frivolidades que v&atilde;o constituir os fructos d'essas
+estupendas arvores de Natal, pr&eacute;stes a surgirem
+nos sal&otilde;es. Pobre natal! N'estes paizes exoticos,
+de ganho e de aventura, as festas particulares da
+familia europea perdem em regra a sua fei&ccedil;&atilde;o de
+severidade tocante e amorosa, para se transformarem
+n'um simples <em>sport</em>, irritante,
+massador,&#8213;fallo
+por mim,&#8213;mero pretexto para ostenta&ccedil;&otilde;es,
+dissipa&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[137]</span>
+e mexericos, a caterva de todos os
+symptomas
+da morbidez do exilio. Para o povo japonez, o
+impulso &eacute; bem outro: o dia de anno novo &eacute; a festa
+principal de cada anno, a unica para muitos; religiosa,
+emocionando a alma indigena, levando a
+turba aos templos a dar gra&ccedil;as aos deuses pelas
+prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas:
+intima, de familia, preceituando o doce dever
+das sauda&ccedil;&otilde;es aos parentes e aos amigos; ninguem
+trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares
+e a casa toda; por isto, com louvavel antecipa&ccedil;&atilde;o
+se compram nos bazares os pequeninos nadas que
+v&atilde;o ornar o lar, e os bolos de arroz, e o c&oacute;rte
+de
+fazenda, e a fl&ocirc;r para o cabello, coisas de que
+n&atilde;o
+prescinde a mais modesta familia de lavrador ou
+de operario, n'aquelle dia aben&ccedil;oado.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No sitio onde me encontro a quieta&ccedil;&atilde;o
+&eacute; plena,
+em contraste com o que palpita l&aacute; por f&oacute;ra.
+&Eacute; positivo
+que os mortos n&atilde;o festejam o Natal... nem
+eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos
+annos de bohemia, sem lar e sem familia. Pesa
+aqui, no cemiterio, mais duramente por certo do
+que em outro logar, a aspereza de um triste dia de
+<span class="pagenum">[138]</span>
+inverno, sem sol, sombrio e humido; paira no ar
+uma poeira levissima de neve, que mal se v&ecirc;, mas
+fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando
+em quando, uma rajada fresca sacode a rama dos
+pinheiros, corta o silencio ent&atilde;o um vago murmurio
+de folhagem,&#8213;da folhagem sem duvida, mas que
+acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos
+uns com os outros, de cova para cova...&#8213;<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 402px; float: left;" alt="" src="images/fig46.png" />Vou vagueando, com passos e em
+espirito. Estou
+s&oacute;, ou quasi s&oacute;; ha pouco dei f&eacute;, por
+entre as sepulturas,
+de uma velha japoneza, guarda do cemiterio,
+que ia apanhando do ch&atilde;o alguns cavacos.
+Vou lendo os epitaphios,
+estudando a botanica tumular
+nos arbustos plantados
+e nos musgos espontaneos,
+lan&ccedil;ando um
+olhar condo&iuml;do &aacute;s cor&ocirc;as
+murchas, que aqui e ali
+se encostam ao marmore
+das lapidas, pobres cor&ocirc;as
+queimadas pelo sol, rasgadas
+pelo vento, ro&iuml;das
+pelos vermes, polluidas
+pelo p&oacute;, e em p&oacute; se desfazendo...
+N'este gremio
+<span class="pagenum">[139]</span>
+de mortos abundam os padres e os missionarios de
+todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos
+dos mares do Jap&atilde;o, capit&atilde;es, tripulantes de
+barcos;
+gente de negocio; e a mais uns pobres nomes
+obscuros de mulheres e de crean&ccedil;as, sem titulos
+nem historia. Aqui deparo agora com um nome de
+portuguez, Felisberto da Cunha, da Figueira, que
+morreu com quarenta annos, e a esposa (uma japoneza)
+lhe mandou erigir o mausuleo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me
+em frente do monumento tumular dos marinheiros
+francezes assassinados em Sakai. Lugubre
+historia; e aqui, n'este Jap&atilde;o da grande hospitalidade
+e da notoria cortezia, impressiona por estranha
+e quasi inverosimil. Pois foi bem verdadeira.
+Ha mais de trinta annos, por um dia de mar&ccedil;o,
+uma lancha a vapor da corveta
+<em>Dupleix</em> aguardava
+na praia de Sakai a volta de alguns officiaes, que
+haviam descido &aacute; terra e seguido para Osaka; passa
+casualmente um tro&ccedil;o de tropas do Mikado,
+<em>samurais</em>
+da provincia de Tosa; e sem provoca&ccedil;&atilde;o, sem
+um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros,
+matam onze. S&atilde;o os onze tumulos d'estes martyres,
+<span class="pagenum">[140]</span>
+d'estes miseros camaradas (porque eu sou como
+elles marinheiro), que agora contemplo.<br />
+
+<br />
+
+Sobre tres degraus de pedra al&ccedil;a-se uma alta
+cruz; e aos lados, cinco por banda, e o aspirante &aacute;
+frente, como se estivessem na tolda da corveta em
+formatura, est&atilde;o os onze corpos, est&atilde;o as onze
+lages,
+aquelles desfeitos em p&oacute; seguramente, estas ennegrecidas
+pelo tempo e pela lepra dos lichens resequidos...
+pois n&atilde;o se esque&ccedil;a que ha mais de
+trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre
+a cruz leio o seguinte:&#8213;&laquo;<em>&Agrave; la
+memoire des
+onze marins de Dupleix, massacr&eacute;s &agrave; Sakai le 8
+mars 1868. Requiescant in
+pace.</em>&raquo;&#8213;<em>Massacr&eacute;s!</em>
+massacrados! Como isto &eacute; destonante n'este solo,
+no <em>Dai-Nippon</em> das paizagens amorosas
+e do sorriso
+perenne nos rostos dos que passam!...<br />
+
+<br />
+
+Vou lendo seguidamente as inscrip&ccedil;&otilde;es dos
+tumulos:&#8213;&laquo;<em>Ci
+git Guillon, Charles Pierre, aspirant
+de 1<sup>&egrave;re</sup> classe, ag&eacute; de 22
+ans. Priez pour
+lui.&#8213;Ci
+git Boulard, Vincent, matelot de 3<sup>&egrave;me</sup>
+classe,
+ag&eacute;
+de 21 ans. Priez pour lui.&#8213;Ci git Nonail, Jean
+Mathurin, matelot de 3<sup>eme</sup> classe, ag&eacute;
+de 25 ans.
+Priez pour lui.&#8213;Ci git Condette, Fran&ccedil;ois
+D&eacute;sire,
+matelot de 3<sup>&egrave;me</sup> classe,
+ag&eacute; de 24 ans. Priez
+pour
+lui.&#8213;Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.<sup>r</sup>
+m.<sup>tre</sup> de manoeuv.<sup>re</sup> de 1<sup>ere</sup>
+classe, ag&eacute;
+de 29 ans.
+<span class="pagenum">[141]</span>
+Priez pour lui.&#8213;Ci git Savie, Jacques, matelot de
+3<sup>eme</sup>
+classe, ag&eacute; 23 ans. Priez pour lui.&#8213;Ci git
+Humet, Ars&eacute;ne Florimont, matelot
+de 3<sup>eme</sup> classe,
+ag&eacute; de 24 ans. Priez pour lui.&#8213;Ci git Langenais,
+Auguste Louis, matelot de 3<sup>eme</sup> classe,
+ag&eacute; de 22
+ans. Priez pour lui.&#8213;Ci git Bobes, Lazare Marie,
+matelot de 3<sup>eme</sup> classe, ag&eacute; de 22
+ans. Priez
+pour
+lui.&#8213;Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de
+2<sup>e</sup> classe, ag&eacute; de 26 ans. Priez pour
+lui.&#8213;Ci git
+Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3<sup>eme</sup>
+classe, ag&eacute; de 24 ans. Priez pour
+lui.</em>&raquo;&#8213;A ladainha
+&eacute; longa, como v&ecirc;em; e bem commovedora, quando
+se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illus&otilde;es,
+de amores, de esperan&ccedil;as. O mais velho do
+grupo teria hoje os seus sessenta e dois annos, se
+fosse vivo; de sorte que todos estes pobres mo&ccedil;os
+poderiam muito bem gozar ainda agora da doce
+alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro:
+o aspirante vestiria provavelmente a sua farda
+de capit&atilde;o de mar e guerra, chapada de veneras; e
+os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia
+patria, em descan&ccedil;o, a v&ecirc;rem o mar por um
+oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara
+cafila de soldados japonezes!...<br />
+
+<br />
+
+A gente p&oacute;de recomp&ocirc;r em pensamento a scena
+da praia de Sakai. Uns bellos loiros, rosados como
+<span class="pagenum">[142]</span>
+pecegos, robustos como jovens Hercules. Riem,
+brincam, cantam, pisando a f&ocirc;fa areia. &Eacute; um bando
+de irm&atilde;os, todos da mesma idade, tratando-se por
+tu, passando de m&atilde;o em m&atilde;o a bolsa de tabaco, e
+at&eacute; de bocca para bocca o cachimbo de gesso
+fumegante.&#8213;&laquo;Olha,
+Jacques! Repara, Gabriel!&raquo;&#8213;E
+batem palmadas nas costas uns dos outros, e
+brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando,
+em grandes gestos rudes, para os recortes estranhos
+da paisagem, para os contorcidos pinheiros que rendilham
+o horisonte, para as ameixeeiras em pasmosas
+florescencias, para as casinhas de madeira e de
+papel, para as <em>musum&eacute;s</em> em
+sedas, seductoras...
+exoticos, captivantes aspectos de um paiz maravilhoso,
+que abre agora as suas portas &aacute; curiosidade
+do mundo occidental, deslumbrando a imagina&ccedil;&atilde;o
+juvenil d'estes pobres francezes, habituados &aacute; monotonia
+do azul das longas viagens fadigosas. Consta
+que os garotitos de Sakai iam affluindo &aacute; praia, e
+quedavam-se em volta dos marujos, bocca aberta,
+espantados dos seus modos, do uniforme, das suas
+fei&ccedil;&otilde;es de ra&ccedil;a branca; e que estes
+com as crean&ccedil;as
+partilharam algum p&atilde;o das suas provis&otilde;es. De
+repente, surde de
+algures um bando petulante, irrequieto,
+multic&ocirc;r pelas bandeiras desfraldadas e pelas
+sedas das cabaias, e reluzente pelas armas que
+<span class="pagenum">[143]</span>
+empunha; s&atilde;o <em>samurais</em> do
+imperio; o<img style="width: 300px; height: 444px; float: right;" alt="" src="images/fig47.png" /> quadro &eacute;
+deveras
+interessante; os marujitos, surpresos e attentos,
+s&atilde;o todos olhos... olhos que em breve se
+cerram, quando os
+corpos caem inertes
+sobre a areia,
+ap&oacute;s uma descarga
+de metralha... Ah!
+barbara cafila de
+soldados japonezes!...<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 315px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+No meu espirito
+vagabundo, depois
+da ferocissima scena
+de matan&ccedil;a, &eacute;
+agora a sorte d'estes
+<em>samurais</em> que
+relembro, e me
+commove. Commovem-me assassinos? Sim; os annos
+f&ocirc;ram correndo sobre os factos e esfriaram os
+rancores. P&oacute;de hoje memorar-se, sem asco, com
+sympathia, mesmo nos seus transes sanguinarios,
+a breve lucta de resistencia que o velho Nippon feudal,
+<span class="pagenum">[144]</span>
+embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve
+contra aquelles que vinham despertal-o do seu sonho;
+e para o bando de Sakai, soldados todos, pertencendo
+&aacute; nobre casta dos guerreiros, seria realmente
+excep&ccedil;&atilde;o estranha se n&atilde;o fulgurassem
+no
+seu animo, remindo-os do opprobrio, as virtudes da
+casta&#8213;a extrema dedica&ccedil;&atilde;o aos chefes, o
+sacrificio
+de si proprios pela patria, e o amor por essa patria
+guindado &aacute; intensidade de paix&atilde;o, mais alto
+ainda,
+aos paroxismos do delirio.&#8213;<br />
+
+<br />
+
+A historia plenamente nos explica o odio que a
+massa dos guerreiros ia nutrindo ent&atilde;o pelos estranhos.
+O shogun, generalissimo do imperador, com
+residencia em Yedo, assign&aacute;ra por conta propria tratados
+de amisade e de commercio com a America
+e com a Europa, e os estrangeiros, em Yokohama,
+pisavam j&aacute; afoitamente o solo japonez. O shogun
+violava por este modo o dogma sagrado do imperio,
+que era o isolamento absoluto, a exclus&atilde;o do
+homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse
+pelo mundo, o goso eterno e sem partilha, deliciosamente
+egoista, do paiz maravilhoso que os deuses
+haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do
+insolito desacato chegou at&eacute; Kioto, a cidade santa,
+onde vivia a c&ocirc;rte, em torno do Soberano, a mais
+accesa colera explodiu, e todas as energias se ligaram
+<span class="pagenum">[145]</span>
+para humilhar o shogun e varrer para sempre
+da patria os teimosos intrusos.&#8213;&laquo;Morte aos
+barbaros!&raquo;&#8213;foi
+o grito do soberano, da c&ocirc;rte, dos senhores
+feudaes.&#8213;&laquo;Morte aos barbaros!&raquo;&#8213;foi o
+credo que incutiram &aacute;s legi&otilde;es &aacute;
+pressa reunidas,
+que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar,
+os estrangeiros. O shogun, supremo em mando at&eacute;
+ent&atilde;o, estava perdido, debaixo de seus p&eacute;s tremia
+a
+terra, rugia o vulc&atilde;o politico que em breve ia esmagal-o;
+mas, pela fatalidade dos tempos, as energias
+e as cubi&ccedil;as dos intrusos haviam de vencer, de
+imp&ocirc;r
+os seus designios; e a rhetorica dos diplomatas,
+prudentemente sublinhada pela metralha dos canh&otilde;es,
+tinha de ser ouvida. Os dias iam passando,
+e o solemne decreto de exterminio n&atilde;o podia ser
+cumprido; apenas, de quando em quando, um ou
+outro <em>samurai</em> lograva decepar alguma
+cabe&ccedil;a loira
+de inglez, merecendo dos seus chefes fartos applausos
+pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes
+comprehenderam que a lucta era impossivel, que o
+mysterio nipponico find&aacute;ra; e o Jap&atilde;o foi
+descerrando
+pouco a pouco as suas portas, entrando em
+negociac&otilde;es com os diplomatas estrangeiros, n&atilde;o
+j&aacute;
+pela iniciativa incompetente do shogun, mas pela
+propria iniciativa do soberano. O shogun, por inutil,
+foi deposto; como se n&atilde;o conformasse com a vontade
+<span class="pagenum">[146]</span>
+imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou
+para Yedo. Estes acontecimentos succediam-se
+em tropel; a grande maioria da na&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o podia
+aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano;
+a grande maioria da na&ccedil;&atilde;o ia odiando o shogun e
+repetindo o seu credo&#8213;&laquo;Morte aos barbaros!&raquo;&#8213;sem
+se aperceber que a situa&ccedil;&atilde;o mud&aacute;ra,
+que a
+c&ocirc;rte j&aacute; tratava com as potencias, e que a
+aggress&atilde;o
+aos europeus, havia pouco meritoria, era agora
+condemnada e prejudicava fortemente a marcha
+da politica imperial.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando
+os marinheiros francezes que encontravam, julgavam
+ter cumprido um dever grato ao soberano e util para
+a patria. Illudiam-se. A resposta &aacute;s energicas
+reclama&ccedil;&otilde;es
+das auctoridades francezas foi a condemna&ccedil;&atilde;o
+&aacute; morte de todos os culpados, que eram vinte.
+Como guerreiros, n&atilde;o bandidos, foi-lhes concedido
+como gra&ccedil;a o <em>hara-kiri</em>,
+isto &eacute;, a morte honrosa,
+devendo cada qual rasgar a propria carne a punhaladas.<br />
+
+<br />
+
+Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um
+<span class="pagenum">[147]</span>
+templo de Sakai, e em 16 de mar&ccedil;o teve logar o
+supplicio. Passou-se ent&atilde;o um espectaculo tremendo,&nbsp;<img style="width: 400px; height: 471px; float: left;" alt="" src="images/fig48.png" />n&atilde;o de tristeza, antes
+uma festa de sangue, de
+morte, que excede a comprehens&atilde;o dos homens europeus.
+Enchia o recinto
+do templo a
+multid&atilde;o dos officiaes
+do imperio, das
+auctoridades francezas,
+das testemunhas,
+dos amigos,
+dos bonzos, dos curiosos,
+vistosa em
+c&ocirc;res, em bellos uniformes,
+em garbo e
+fidalguia; e, um por
+um, por seu turno,
+veio apparecendo cada
+condemnado, todo vestido de lucto, de alvas
+vestes, ajoelhou no solo, curvou-se em reverencias,
+saudou a multid&atilde;o, recebeu solemnemente o curto
+sabre de etiqueta, cravou-o at&eacute; aos copos nas entranhas,
+rasgou as carnes com m&atilde;o firme, tingiram-se
+as vestes de escarlate, jorrou o sangue sob uma urna
+proxima, a fronte crispou-se pela d&ocirc;r, a c&ocirc;r fugiu
+da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[148]</span>
+Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de
+vinte e cinco annos, escreveu no seu ultimo momento
+de vida uma curta poesia, que era assim:&#8213;&laquo;Condemnam
+me; n&atilde;o discuto a minha morte;
+servir&aacute; ella de pretexto &aacute; justi&ccedil;a do
+futuro, que decidir&aacute;
+se, para honra da patria, devem ser expulsos
+os barbaros.&raquo;&#8213;Nishimura Saheji Minamoto no
+Ujiatsu, de vinte e quatro annos, escreveu o
+seguinte:&#8213;&laquo;N&atilde;o
+me pesa o morrer, a vida passa
+como o orvalho desapparece com o vento; uma
+coisa me afflige:&#8213;o futuro da patria&raquo;&#8213;Ikegami
+Iasakichi Fujiwara no Mitsunori, de trinta e oito
+annos, escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;&Eacute; preciso alumiar
+o espirito da na&ccedil;&atilde;o; para isto abandono o corpo
+ao
+meu paiz;&raquo;&#8213;este, quando as entranhas lhe ca&iacute;ram,
+fez men&ccedil;&atilde;o de atiral-as &aacute; cara dos
+francezes.
+Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e
+oito annos, escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;Fa&ccedil;amos hoje
+o sacrificio da vida, com o maior respeito, pois somos
+todos filhos d'este paiz dos deuses.&raquo;&#8213;Sugimoto
+Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e
+quatro annos, escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;Sinto o
+cora&ccedil;&atilde;o
+feliz pela agonia que soffro, ao dar a vida
+pela patria;&raquo; este, por um gesto respeitoso, offereceu
+as entranhas aos francezes. Katsugase Saburoku
+Taira no Ioshihaya, de vinte e oito annos, escreveu
+<span class="pagenum">[149]</span>
+o seguinte:&#8213;&laquo;Ninguem p&oacute;de abalar no animo d'um
+<em>samurai</em> o sentimento que tributa ao
+seu senhor.&raquo;&#8213;Iamamoto
+Tetsusuka Minamoto no Toshiwo, de
+vinte e oito annos, escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;Muitos
+condemnam a alma do <em>samurai</em>;
+pensar&atilde;o de outro
+modo aquelles que bem a conhecem.&raquo;&#8213;Morishita
+Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove
+annos, escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;Abramos o caminho
+aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.&raquo;&#8213;Kitashiro
+Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta
+e seis annos, escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;Para legar o
+seu nome &aacute; posteridade ha um meio: o sacrificio
+da vida.&raquo;&#8213;Inada Kwannoyo Fujiwara no Norashige,
+de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;Os
+japonezes n&atilde;o temem de perder a vida; tambem
+a cerejeira, rainha das arvores pelas suas fl&ocirc;res,
+perde um dia essas fl&ocirc;res.&raquo;&#8213;Yanagase Tsuneshichi
+Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos,
+escreveu o seguinte:&#8213;&laquo;Sacrifiquemos aqui as
+nossas vidas, e mostremos aos estrangeiros o que
+vale a nobre coragem japoneza.&raquo;&#8213;Contando bem,
+s&atilde;o onze j&aacute;. Parou aqui a scena, porque o
+commandante
+do <em>Dupleix</em>, notando j&aacute;
+onze mortos para
+expia&ccedil;&atilde;o dos onze crimes, deu-se por satisfeito,
+pediu
+que cessasse aquelle espectaculo assombroso.
+Dos <em>samurais</em> perdoados, um
+suicidou-se em breve
+<span class="pagenum"><a name="p150">[150]</a></span>
+trecho, dando de barato a gra&ccedil;a pela honra de
+morrer com os seus; os outros dispersaram-se;
+vive um ainda hoje, presumo que em Nagoya, um
+interessante velhinho, que reconta de bom grado as
+peripecias d'aquelle horrivel drama.<br />
+
+<br />
+
+Os onze <em><a href="#e12">samurais</a> </em>foram
+alli mesmo enterrados,
+no cemiterio, junto ao templo. Ainda ha pouco l&aacute;
+estive. O templo &eacute; um placido retiro de sombra e
+de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo
+vendaval quasi o desfez em p&oacute;.<br />
+
+<br />
+
+Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior,
+onde uma arvore sagrada, um enorme sagueiro,
+occupa o espa&ccedil;o todo, lan&ccedil;ando em volta as
+suas palmas verdes. A lenda d&aacute;-lhe mui longos annos
+de existencia, e reza que ha quasi quatro seculos
+o shogun Nobunaga tanto se agradou d'aquella
+arvore, que mandou arrancal-a e transportar para
+um dos seus jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro,
+e tanto se lamentava noite e dia, que n&atilde;o
+houve remedio sen&atilde;o trazel-o de novo ao velho
+poiso.<br />
+
+<br />
+
+Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As
+sepulturas, apresentando a f&oacute;rma de cubos de granito,
+aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade
+commovente; por entre as pedras, tufam e florescem
+as azaleas e verdejam os musgos, e m&atilde;os piedosas
+<span class="pagenum">[151]</span>
+v&ecirc;em dep&ocirc;r ramos de fl&ocirc;res e de
+verdura.
+Entre estas sepulturas contam-se as dos onze
+<em>samurais</em>.
+Mais adeante, as urnas de char&atilde;o que serviram
+ao supplicio, alinham-se n'um altar, e ainda
+se distinguem manchas negras, do sangue derramado.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre
+os factos e esfriaram os rancores. N'estes dois
+cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem j&aacute; existe sequer
+o p&oacute; dos ossos, existem s&oacute; legendas. Em Kobe,
+as onze sepulturas evocam no espirito esse periodo
+de frenesi da Europa, de curiosidade, de cubi&ccedil;a,
+em face da morna inercia d'este canto do
+mundo; e as esquadras que o devassam, que o visam
+com os canh&otilde;es; e os diplomatas que intrigam,
+que teimam, conduzindo o finalmente,
+&aacute; for&ccedil;a,
+ao convivio das na&ccedil;&otilde;es; e, como peripecias
+infimas,
+quasi olvidadas e n&atilde;o pesando na marcha progressiva
+dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns humildes
+obreiros d'essa empreza... Em Sakai, as onze
+sepulturas rememoram a desesperada resistencia
+d'uma tribu feliz, contra aquelles que vinham arrancal-a
+<span class="pagenum">[152]</span>
+aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda
+e a cren&ccedil;a, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso,
+j&aacute;
+n&atilde;o &eacute; permittido. Pobres mortos!
+abra&ccedil;o com um
+mesmo olhar d'alma, enternecido, as vinte e duas
+campas...<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 491px;" alt="" src="images/fig49.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c12"></a>O ESPELHO DE MATSUYAMA</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">&Aacute;s
+Filhas de Carlos
+Campos</span></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Viveu ha muito tempo no Jap&atilde;o um feliz casal
+de gente rustica, modelo de virtudes conjugaes; eram
+elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto. O povo
+varreu j&aacute; da memoria os nomes d'essa gente; n&atilde;o
+admira, quando se pense que tantos seculos passaram.
+Indica-se apenas o logar, <em>Matsuyama</em>,
+que quer
+dizer <em>Montanha dos pinheiros</em>, na
+provincia de Echigo.
+Esta ligeira indica&ccedil;&atilde;o basta para que imaginemos
+o scenario: serranias, pinheiraes, succedendo-se
+a serranias, pinheiraes; a terra, a rocha, f&ocirc;fas de
+musgos, de fetos, de herva brava; cov&ocirc;es, precipicios,
+cachoeiras, por onde a agua golfa, espuma e
+<span class="pagenum">[154]</span>
+rumoreja; pios de corvos e hymnos de cigarras;<img style="width: 300px; height: 518px; float: right;" alt="" src="images/fig50.png" />
+raros caminhos serpeando, calcados pelas sandalias
+dos que passam; e aqui, e alem, alguma humilde
+cabana de alde&otilde;es, de barro e colmo, aonde a vida
+intima, ap&oacute;s as horas de labuta, desliza em longos
+repousos sobre a esteira, em simplicidades primitivas,
+em face da grande paz da scena agreste, e
+do azul sem fim dos largos horisontes. N'uma d'essas
+cabanas vivia o casal
+a que alludi.<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 314px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+Ora, aconteceu uma
+vez que negocios muito
+graves chamaram o
+marido &aacute; faustuosa cidade,
+&aacute; capital de todo
+o imperio. Figure-se o
+alvoro&ccedil;o e o reboli&ccedil;o
+na choupana. Em coisas
+de viagem, a experiencia
+da esposa resumia-se
+ao trilho que
+segu&iacute;ra raras vezes,
+<span class="pagenum">[155]</span>
+em duas horas de caminho, do seu lar ao logarejo
+mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos,
+acudiam-lhe ao espirito n&atilde;o sei que perigos e trabalhos,
+maleficios dos genios das florestas, mil revezes
+a que se ia exp&ocirc;r o companheiro... Por outro
+lado, envaidava-se com a id&eacute;a de ser elle o primeiro
+do logar que ia v&ecirc;r por seus olhos a mans&atilde;o da
+c&ocirc;rte e do soberano, e contemplar as grandes maravilhas
+que l&aacute; por certo havia. Ella ficava; ella tinha
+a sua pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora
+mordida de saudades, devia resignar-se aos deveres
+do seu mister, e aos anceios d'aquella dura ausencia.<br />
+
+<br />
+
+E que terna que foi a despedida!... Beijos e
+abra&ccedil;os n&atilde;o se deram, porque os japonezes
+n&atilde;o d&atilde;o
+nem beijos nem abra&ccedil;os; lagrimas n&atilde;o correram,
+porque os japonezes nunca choram; mas f&ocirc;ram tantas
+as mesuras e tantos os sorrisos, e tam longa a
+ultima palestra, elle promettendo voltar breve, ella
+prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um
+regalo contemplar casal tam meigo e tam feliz!...<br />
+
+<br />
+
+E l&aacute; foi o marido.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Passaram-se semanas e semanas; para encurtar
+raz&otilde;es, annuncia-se agora o regresso do Passaram-se semanas
+e semanas; para encurtar
+raz&otilde;es, annuncia-se agora o regresso do sujeito.
+&Eacute;
+<span class="pagenum">[156]</span>v&ecirc;l-a
+ent&atilde;o, a cirandeira, ora<img style="width: 300px; height: 561px; float: right;" alt="" src="images/fig51.png" /> varrendo, ora
+lavando
+ora arrumando, dispondo a cho&ccedil;a em festa para a
+ditosa hora da chegada. &Eacute; a pequenita certamente
+que mais cuidados lhe merece: o
+<em>kimonosinho</em> de
+crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a fl&ocirc;r
+para o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo,
+se p&otilde;e de parte, se examina; e os dedos finos da
+maman, em curvas adoraveis, saltam, v&ocirc;am, aqui
+alizam pregas, alli
+comp&otilde;em la&ccedil;os,
+com habilidades
+unicas, prodigiosas;
+convem saber
+que n&atilde;o ha m&atilde;os
+mais bonitas e mais
+destras do que as
+m&atilde;os das japonezas,
+nem m&atilde;es mais
+carinhosas do que
+estas mamans do
+Dai-Nippon. Ella
+propria, a maman,
+tambem cuida de
+si, n&atilde;o se furta aos
+adornos, n&atilde;o por
+arte talvez, por instincto
+<span class="pagenum">[157]</span>
+do sexo; e eil-a enfiando os p&eacute;s n&uacute;s em
+grandes
+soccos novos, de char&atilde;o negro e luzente, e estreando
+um <em>kimono</em> catita, azul e branco. E
+l&aacute; v&atilde;o
+ellas, as duas, certo dia, trilhos f&oacute;ra, tic-tac, tic-tac,
+ao encontro do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ai, que jubilos, ao toparem com elle s&atilde;o e salvo,
+todo chibante, bamboleando-se no seu passo vagaroso,
+para mais prolongar tam doce transe!...&#8213;&laquo;Bons
+dias, senhor marido! Bons dias, senhor meu
+pae!&raquo;&#8213;e os corpos agaxam-se em mesuras, e as
+cabecitas v&atilde;o quasi tocar o ch&atilde;o do campo. E como
+a pequerrucha bate as palmas, e se lhe accendem os
+olhitos, quando elle logo alli lhe quer vasar no rega&ccedil;o
+a caixa de bonecos que compr&aacute;ra, carretas de
+madeira, raposas de pellucia, uma viola, minusculos
+apparelhos de cosinha e muitas outras maravilhas!...
+Elle promette entreter dias inteiros, s&oacute; com a
+narra&ccedil;&atilde;o
+do que seus olhos viram: theatros regorgitando
+de <em>musum&eacute;s</em>, vestidas como
+deusas; principes em
+comitivas resplendentes, passeando em liteiras de
+char&atilde;o, e o povo prostrado a adoral-os pelas ruas;
+serenatas nos rios, barcos vogando a transbordarem
+<span class="pagenum">[158]</span>
+de mulheres e enfeitados com bal&otilde;es, gemem as
+cordas das violas e estalejam nos ares foguetes de
+mil c&ocirc;res; templos gigantes e enormes sinos badalando;
+palacios cheios de luxo; jardins cheios de fl&ocirc;res;
+e por toda a parte a immensa multid&atilde;o, de velhos,
+de rapazes, de meninos, feliz, risonha, pachorrenta;
+e a immensa industria dos bazares, char&otilde;es,
+oiros, sedas, porcellanas, adornos sem conta nem
+medida, tudo digno de ir adornar mans&otilde;es de fadas,
+no mundo das chimeras!...<br />
+
+<br />
+
+O marido passou depois &aacute;s m&atilde;ositas da esposa,
+tremulas de emo&ccedil;&atilde;o, um bello cofre de madeira
+branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe
+isto:&#8213;&laquo;N&atilde;o
+me esqueci de ti, como est&aacute;s vendo; trago-te
+uma coisa muito linda, que tu de certo n&atilde;o conheces,
+um espelho, um <em>kagami</em>, como lhe
+chamam
+na cidade.&raquo;&#8213;Ella ent&atilde;o, abrindo o cofre, observou
+a offerta; era um grande disco de metal, com o seu
+cabo, tendo uma face prateada, com relevos de folhagem
+de bambu e v&ocirc;os de cegonhas, e a outra face
+limpida e brilhante como um puro crystal.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; bom saber-se que, sendo a industria do vidro
+recentissima no Jap&atilde;o, s&oacute; ha mui pouco tempo aqui
+se conheceram os espelhinhos reles da industria occidental;
+nos velhos tempos, os espelhos do paiz
+eram metalicos, de preciosa liga e artistico trabalho,
+<span class="pagenum">[159]</span>
+objectos caros excluidos, do lar dos alde&otilde;es; de sorte
+que &eacute; presumivel, dada a simplicidade de alma da
+pobre gente rustica de ent&atilde;o, que as bellas ignorassem
+que eram bellas, por nem no espelho da agua
+das ribeiras se mirarem. Mas vamos n&oacute;s &aacute;
+historia,
+excluindo divaga&ccedil;&otilde;es que pouco interessam.<br />
+
+<br />
+
+Dizia o marido &aacute; companheira:&#8213;&laquo;Olha bem
+para a face brilhante d'este espelho e conta-me o
+que v&ecirc;s.&raquo;&#8213;Ella era toda olhos, toda surpresas,
+toda
+extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma
+mulher muito gentil, com um oval de enfeiti&ccedil;ar,
+comuns olhinhos negros
+muito doces, com uma
+rubra boquinha de cubi&ccedil;a. Disse mais que essa mulher
+n&atilde;o cessava de fital-a; e se ria, a mulher ria;
+e se fallava, os labios da mulher acompanhavam-n'a
+no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um
+<em>kimono</em> azul e branco, igual ao seu,
+que ella trazia...
+O marido sorria-se, j&aacute; com uns ares de doutor, que
+da viagem lhe provinham; e foi benevolamente convencendo-a
+de que essa mulher era ella mesma, e
+que o espelho, por um mysterio que elle n&atilde;o sabia
+explicar, apenas reproduzia a sua imagem, os seus
+encantos proprios; l&aacute; na cidade, muitas raparigas
+possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se viam
+e reviam, ora compondo as voltas do cabello, ora
+pintando os labios de escarlate, ora por mero passatempo
+<span class="pagenum">[160]</span>
+de se acharem bonitas, as garridas. A esposa
+ficou ent&atilde;o louquinha com o presente; e...
+diga-se toda a verdade: cheia de orgulho de si mesma,
+por se v&ecirc;r tam catita, tam fresca, apetecivel.
+F&ocirc;ram semanas e semanas votadas a esse enlevo,
+a mirar-se, a namorar-se&#8213;quem n&atilde;o lhe relevar&aacute;
+essa vaidade?&#8213;at&eacute; que finalmente convenceu-se de
+que um espelho era joia preciosa de mais para servir
+todos os dias, alli na cho&ccedil;a n&uacute;a, na
+solid&atilde;o dos
+bosques; assim se explica o caso de ter elle ido parar
+dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com
+as velhas reliquias da familia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E v&atilde;o passando os dias, os mezes e os annos.
+A felicidade bafeja constantemente aquelle lar. A
+grande alegria do casal &eacute; a filha, que cresce em mimos,
+tornando-se a verdadeira imagem da maman,
+e como ella submissa, e como ella affectuosa, e como
+ella activa na labuta. Vaidades de mulher, que
+tanto prejudicam no futuro as raparigas, n&atilde;o as tinha;
+e deve aqui prestar-se inteiro applauso &aacute; previdencia
+da maman, que em lembran&ccedil;a dos seus
+caprichos de outro tempo, passageiros, nunca &aacute;
+<span class="pagenum">[161]</span>
+mocinha confiou o espelho, velha joia sem
+uso,
+esquecida na gaveta.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E v&atilde;o passando os dias, os mezes e os annos.
+Muitos annos. A m&atilde;e, uma velhinha com a alvura
+da neve por c&ocirc;r dos seus cabellos, jaz prostrada na
+cama, sem for&ccedil;as, moribunda; a filha, junto d'ella,
+multiplica-se em cuidados, anima a triste enferma.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 448px; float: right;" alt="" src="images/fig52.png" />&nbsp;A custo, diz a velha:&#8213;&laquo;Sinto que morro, vae-me
+fugindo a luz dos olhos. Vou deixar-te, e o nosso
+velho amigo. &Eacute; isto que me
+pesa; cheguei a persuadir-me
+de que este nosso bem
+n&atilde;o tinha fim. Por ti, tam s&oacute;
+que ficas, receio muito, filha:
+o mundo &eacute; um grande mar,
+cheio de escolhos e de perigos...&raquo;&#8213;E
+deteve-se e p&ocirc;z-se
+a meditar por muito tempo,
+passando pela fronte os
+dedos descarnados; ent&atilde;o,
+um pensamento lhe acudiu,
+uma d'essas travessuras de
+velha que s&oacute; redundam para o bem, e proseguiu
+<span class="pagenum">[162]</span>
+d'esta maneira:&#8213;&laquo;Olha, tenho uma id&eacute;a: toma este
+espelho, este objecto milagroso que veio de muito
+longe; e jura-me que uma vez em cada dia e uma
+vez em cada noite, o ir&aacute;s v&ecirc;r. Eu te apparecerei
+ent&atilde;o,
+no mesmo espelho; e assim, na minha companhia,
+ter&aacute;s mais animo na vida, mais for&ccedil;a nas
+angustias,
+mais tento com as indecis&otilde;es da juventude
+e com os males que te rodeem.&raquo;&#8213;E a filha jurou
+isto; e a velha deixou-se morrer serenamente, resignada,
+sorrindo &aacute; paizagem verde, sorrindo ao sol
+festivo, que investia em faixas de ouro pela casa...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>musum&eacute;</em> cumpriu
+attentamente o juramento.
+Por esta forma percorreu a via da existencia, tranquilla,
+sempre assistida pela m&atilde;e, que nunca cessou
+de apparecer-lhe, quando, nas m&atilde;os piedosas sustinha
+o espelho milagroso. N&atilde;o era da moribunda,
+livida, prostrada em agonia, desfallecendo pouco a
+pouco, a doce appari&ccedil;&atilde;o; era a maman gentil, de
+outros tempos, cheia de lou&ccedil;anias e sorrisos. Achava-se
+com ella n'um placido convivio sem reservas,
+com ella palestrava, a ella confiava os seus segredos,
+os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face pura
+bebia conforto e recompensas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[163]</span>
+O velho algumas vezes surprehendeu a filha
+com o espelho entre as m&atilde;os, sorrindo, murmurando
+singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o caso;
+e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a
+mo&ccedil;a lhe fez uma pergunta, por onde avaliou a chimera
+amorosa com que ella ia embalando o pensamento.&#8213;&laquo;Repare,
+senhor meu pae: n&atilde;o v&ecirc; no espelho
+a minha m&atilde;e?...&raquo;&#8213;O que o velho via claramente,
+era a imagem da filha, que alli<img style="width: 322px; height: 230px; float: right;" alt="" src="images/fig53.png" /> tinha junto
+de si em carne e osso,&#8213;e que
+carne! e que osso!&#8213;palpitante
+de vida e gentileza... mas julgou mais
+prudente conserval-a sob o prestigio da illus&atilde;o; e,
+franzindo muito o rosto, de rude pergaminho, sem
+que se percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e
+chorava ao
+mesmo tempo,
+fez c&ocirc;ro com ella,
+assegurando
+que sim, que via
+a santa m&atilde;e, e
+tam bella, e tam
+fresca, como
+no dia do noivado...<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">1900.</div>
+
+<br />
+
+<h3><br />
+
+</h3>
+
+<h3><a name="c13"></a>AM&Ocirc;RES...</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">A
+J. Godinho De Campos</span></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 397px; float: left;" alt="" src="images/fig54.png" />Uma impress&atilde;o de Macau.<br />
+
+<br />
+
+O que faria aquelle bando
+de leprosos, que a policia
+da colonia surprehendeu
+e agarrou? O que faria
+aquelle bando de leprosos,
+al&eacute;m no meio do rio,
+sobre um miseravel barco,
+pela noite velha, tenO que faria aquelle bando
+de leprosos, que a policia
+da colonia surprehendeu
+e agarrou? O que faria
+aquelle bando de leprosos,
+al&eacute;m no meio do rio,
+sobre um miseravel barco,
+pela noite velha, tenebrosa
+e fria, ora pairando e deslisando
+ao grado da corrente,
+<span class="pagenum">[165]</span>
+ora remando manso, de margem para margem,
+em vigia?...<br />
+
+<br />
+
+Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos
+de longe uma impress&atilde;o de robustez de musculos,
+de gente affeita &aacute; enxada e &aacute; vida de lavoira.
+Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete
+de pe&ccedil;onha do seu sangue; eram indiscriptiveis seres
+inuteis, abjectos, quasi sem m&atilde;os, quasi sem
+p&eacute;s, porque os dedos lhes iam caindo podres aos
+peda&ccedil;os; rostos medonhos lavrados pelo mal, sem
+narizes, com os bei&ccedil;os roidos, com as faces chagadas;
+ainda mais sinistros pela infamia estampada
+nas fei&ccedil;&otilde;es e nos olhares, denunciando
+perversidades
+de alma de infimo quilate, por certo derivadas
+da suprema degrada&ccedil;&atilde;o do seu viver. Vestiam
+farrapos immundos, sem f&oacute;rma definida e sem c&ocirc;r
+reconhecivel; e escondiam as frontes, talvez envergonhadas,
+sob as abas enormes dos chapeus de rota,
+em uso nas aldeias.<br />
+
+<br />
+
+Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle
+paradeiro, n&atilde;o era admissivel esta
+supposi&ccedil;&atilde;o;
+nem no misero barco, onde se amontoavam
+alguns trapos, se deu f&eacute; de anzoes ou de outras artes
+de pescar.<br />
+
+<br />
+
+Mendigavam? menos possivel ainda que assim
+fosse. A taes horas, dormem todos, incluindo os
+<span class="pagenum">[166]</span>
+mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo
+aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos
+das grandes l&oacute;rchas juntas em magotes, desenhando-se
+vagamente junto &aacute;s margens os barquitos em
+cardumes, presos &aacute;s varas de bamb&uacute; encravadas
+no lodo. Apenas de espa&ccedil;o a espa&ccedil;o algum raro
+<em>tanka</em> atravessava d'um lado para
+outro, chape-chape,
+remos movidos lentamente pelas m&atilde;os das
+raparigas somnarentas, fartas da lida do dia,&#8213;coisa
+de ir levar ao seu albergue algum retardatario,
+de volta do jogo ou das orgias.&#8213;N&atilde;o era dos
+nocturnos viajeiros, e menos dos pobres tankareiras,
+que o bando de leprosos lograria um punhado
+de sapecas, que compensasse o esfor&ccedil;o da vigilia.
+Nem a sua miseria, realmente, era tal, que os levasse
+a t&atilde;o duros extremos. &Eacute; certo que o leproso
+se encontra excluido dos povoados. Em paragens
+mais rusticas, matam-n'o &aacute; pedrada, se o encontram;
+em Macau, por&eacute;m, a brandura dos costumes
+regeita em regra esta medida, tenha embora o miseravel
+de viver pelos esteiros, em barcos podres,
+ou sobre os lodos, escondido das gentes como um
+bicho pe&ccedil;onhento. No entretanto, o esteiro fornece-lhe
+peixes vis, e caranguejos, e molluscos, e vermes;
+os c&auml;es vadios encontram de quando em quando,
+nos despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso
+<span class="pagenum">[167]</span>
+tambem o encontra, como elles. Na altivez da
+sua pasmosa abjec&ccedil;&atilde;o, o leproso n&atilde;o
+vem exp&ocirc;r-se
+ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem,
+acoita-se no antro, come immundicies, bebe
+agua p&ocirc;dre; e os fados s&atilde;o-lhe bastante
+complacentes
+em geral, para matal-os da molestia antes
+que arrebentem pela fome...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando
+de leprosos.<br />
+
+<br />
+
+Aquelles infimos p&aacute;rias passavam a existencia
+isoladamente, cioso cada qual do seu covil, dos
+seus farrapos, devorando sem partilha o que o
+acaso lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente,
+pela visinhan&ccedil;a dos antros, sobre a mesma
+vasa que se alastra na margem fronteira &aacute; de
+Macau, e a fatalidade commum estabelecia de direito
+affinidades, allian&ccedil;as tacitas de tribu, entre
+elles; mas, como n&atilde;o carecessem uns dos outros
+para soffrerem, para odiarem a natureza creadora,
+para jazerem no ninho da trapagem, para morrerem,
+n&atilde;o se procuravam. Na imagina&ccedil;&atilde;o
+immersa
+em trevas de cada um, rustica, pouco elastica, e
+<span class="pagenum">[168]</span>cultivada em
+ascos, em maldi&ccedil;&otilde;es, em
+misanthropias
+rancorosas, nunca por certo passara a phantasia
+de vir insinuar-se na turba, partilhar das suas
+distrac&ccedil;&otilde;es, relancear os festins, percorrer os
+bazares,
+invadir os templos e os theatros.&nbsp;<img style="width: 137px; height: 264px; float: left;" alt="" src="images/fig55.png" /><img style="width: 74px; height: 119px; float: left;" alt="" src="images/fig56.png" />Mas na torva
+e lenta elabora&ccedil;&atilde;o do pensamento, durante os
+longos
+dias, os longos mezes, os longos annos de isolamento
+e de ocio, um desejo se f&ocirc;ra pouco a pouco
+avolumando, definindo, convertido finalmente em
+tortura, amargurando como uma d&ocirc;r constante e
+implacavel:&#8213;era a mulher, o desejo, a tortura da
+mulher.&#8213;Prazeres do mundo n&atilde;o se queriam, nem
+mesmo se lhes imaginavam os feiti&ccedil;os; era-se superior
+a essa chimera. Mas,
+no ambiente acariciador
+da vida, em presen&ccedil;a
+das arvores fructificando,
+das flores perfumadas,
+dos animaes requestando-se,
+os hymnos da terra,
+da crea&ccedil;&atilde;o em galas, do amor
+dos sexos, vinham tambem echoar
+n'aquelles cerebros, electrisar
+aquelles nervos; a vis&atilde;o da mulher,
+durante as mornas monotonias
+sem termo, aparecia como
+<span class="pagenum">[169]</span>
+um apetite crescente, como uma fome de carne; e
+os miseraveis, allucinados pela obseca&ccedil;&atilde;o de
+todos
+os momentos, estremeciam, erguiam-se de subito do
+seu leito de trapos, arquejantes, o sangue a escaldar-lhes
+as frontes, o olhar em fogo...<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, tacitamente, imp&ocirc;z-se a cada qual a
+necessidade
+de fraternisar com o seu visinho, de agremiar-se
+em bando. A uni&atilde;o faz a for&ccedil;a. Procuraram-se,
+intenderam-se. Medonhos conciliabulos se
+passaram, a coberto das trevas, pelas noites longas,
+sobre os lodos. Segredava-se, aventurava-se um plano,
+discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a
+phrase rouca golfava dos labios, eloquente, persuasiva,
+os membros disformes erguiam-se na sombra
+em gestos tragicos. E assim se escolheu o barco
+menos podre, se nomeou a companha, o capit&atilde;o, se
+esperou por uma noite mais escura, azada aos seus
+intentos. Assim tiveram inicio e proseguiram os estranhos
+cruzeiros, &aacute; aventura. Eil-os, o bando immundo
+dos gafados, &aacute; capa, pairando ou remando
+a medo, de manso, de manso, silenciosamente, e
+prescrutando as trevas. Se ia passando algum
+<em>tanka</em>,
+os ouvidos subtis e os olhos experimentados, estudavam,
+presumiam, adivinhavam. Quando era chegado
+o bom momento, ent&atilde;o,&#8213;oh delirio supremo!&#8213;n'um
+impeto de remadas e desejos, o barco voava,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as
+victimas indefesas. Habeis no ataque, com as m&atilde;os
+sem dedos suffocavam os gritos das mulheres, a
+murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro, distinguiam
+das velhas as mo&ccedil;as, apartavam dos ossos
+duros a carne fofa e tenra; e com fome de hyenas,
+as boccas pestilentas comiam, devoravam com beijos
+as pobres raparigas, que em v&atilde;o se debatiam na
+lucta tremenda d'uns instantes...<br />
+
+<br />
+
+Ap&oacute;s, o barco dos leprosos seguia serenamente
+a atracar &aacute; margem chineza, e elles dispersavam,
+mudos, quasi felizes, indifferentes por momentos ao
+prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se
+novamente. No <em>tanka</em>, as
+mo&ccedil;as ficavam-se chorando,
+arrepelando-se de horror, de desespero, de vergonha
+por sua mofina sorte; e tanto mais mofina,
+que &eacute; assim, por um beijo, segundo a voz do povo,
+que a lepra se propaga, se multiplica de corpo para
+corpo.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+1900.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c14"></a>UM PINTOR DE GATOS</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">a
+D. Miguel de Mello.</span><sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 282px; height: 254px; float: right;" alt="" src="images/fig57.png" />Era uma vez, em
+mui remotos tempos,
+uma familia de boa
+gente lavradora, vivendo
+em certa aldeia
+do Jap&atilde;o. Marido,
+mulher e um
+rancho de filhos; gente
+pobre, &eacute; claro; e
+ajunte-se que a mui ardua fadiga se dava o camponez,
+para que n&atilde;o faltasse em cada dia, a cada uma
+das vorazes boquinhas dos garotos, a tigela de arroz
+<span class="pagenum">[172]</span>
+do almo&ccedil;o e do jantar. O mais velho dos rapazes,
+j&aacute; aos quatorze annos, robusto quasi como um homem,
+come&ccedil;ava a ajudar o pae, nas varzeas e nos
+campos, o pobre pae, a quem as for&ccedil;as minguavam;
+e os outros, cada um conforme a sua idade, iam
+fazendo tambem o que podiam; at&eacute; a irman pequena,&#8213;uma
+migalha de gente, coitadita!&#8213;l&aacute; ia alliviando
+a atarefada m&atilde;e na lida do casebre.<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; o mais novo dos rapazes em nada se empregava
+que prestasse; era um inutil; n&atilde;o que elle f&ocirc;sse
+falto de juizo; pelo contrario, excedia em esperteza
+qualquer dos irm&atilde;os ou das irmans; mas era
+enfezadito, debil de musculo; e bem cedo os paes
+se convenceram de que aquelles bra&ccedil;os tenros n&atilde;o
+haviam nascido para a enxada.&#8213;&laquo;Fa&ccedil;a-se d'elle um
+bonzo&raquo;,&#8213;combinaram; e foi n'esta
+inten&ccedil;&atilde;o que um
+bello dia decidiram leval-o ao templo do logar, e &aacute;
+presen&ccedil;a do velho sacerdote, que era como quem
+diz&#8213;o prior d'aquella freguezia.&#8213;O pae fallou e
+expoz a quest&atilde;o, em quanto que a m&atilde;e approvava
+com a cabe&ccedil;a; o reverendo, que em breve trecho
+descobrira rara sagacidade na crean&ccedil;a, consentiu em
+tomal-a por pupillo, pensando talvez intimamente
+que alli o acaso lhe trazia um digno successor, quando
+a hora lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.<br />
+
+<br />
+
+E ficou tudo resolvido.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[173]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O novi&ccedil;o mostrou-se, desde os primeiros dias,
+submisso, intelligente e piedoso; e tambem&#8213;valha
+a verdade&#8213;n&atilde;o lhe iam mal a rude tunica amarella
+e a cabecita rapada &aacute; navalha, de preceito; mas
+como n&atilde;o ha formosa sem sen&atilde;o, segundo um
+proverbio
+portuguez (e a philosophia dos proverbios se
+applica &aacute; humanidade inteira), tinha um defeito o
+rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que &eacute;
+curioso: nas horas de sueto ou nas horas de estudo,
+no templo, na cella, no jardim, em toda a parte
+onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e t&atilde;o bem
+os pintava,&#8213;fa&ccedil;a-se-lhe justi&ccedil;a n'este
+ponto,&#8213;que
+nenhum pintor at&eacute; ent&atilde;o pintou gatos melhor do
+que
+o fradinho. As paginas dos livros sagrados do convento,
+as paredes, os biombos, os pilares, as arvores,
+os rochedos,&#8213;forte mania de crean&ccedil;a!&#8213;tudo
+servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por
+onde elle passava, por onde se quedasse dois minutos,
+era logo a success&atilde;o interminavel de desenhos,
+eram as curvas caprichosas dos travessos<img style="width: 300px; height: 572px; float: left;" alt="" src="images/fig58.png" /> felinos, de
+todos os tamanhos, em todas as posturas, creio que
+at&eacute; enjaneirados, os olhos redondos, esbrazeando as
+<span class="pagenum"><a name="p174">[174]</a></span>
+duas orelhas espetadas, o c&ocirc;tosito al&ccedil;ado
+e
+petulante
+(os gatos japonezes n&atilde;o t&ecirc;em rabo), a garra
+atrevida posta em guarda... Est&aacute;-se a adivinhar com
+que azedume o reverendo acolhia taes desmandos;
+vezes sem conto reprehendeu o
+<em>artista</em> (como por
+ironia lhe chamava), tentando dissuadil-o d'aquella
+triste balda, que nem lhe permittia estudar com
+atten&ccedil;&atilde;o
+os velhos alfarrabios
+do buddhismo,
+de tam necessaria sciencia
+ao seu santo mister.
+Intento inutil: n&atilde;o por
+maldade, por instincto,
+quanto mais lhe prohibiam
+a proeza, mais ia
+pintando gatos o teimoso.
+<a href="#e13">At&eacute; que</a> finalmente,
+em certa occasi&atilde;o, o reverendo
+perdeu de todo
+a paciencia e gritou ao
+mo&ccedil;o incorregivel:&#8213;&laquo;Vae-te
+embora! Foge
+da minha vista!... Bom
+padre, nunca ser&aacute;s seguramente;
+ser&aacute;s talvez
+um bom pintor.&raquo;&#8213;A
+<span class="pagenum">[175]</span>
+ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar
+os seus poucos haveres, p&ocirc;z a trouxinha &aacute;s costas,
+e fez uma mesura ao padre mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eil-o na rua, escorra&ccedil;ado, em bem angustiosas
+condi&ccedil;&otilde;es. Que fazer? Tremeu de voltar ao lar
+domestico,
+onde o pae, mui certamente, o puniria da
+sua teimosia. Lembrou-se ent&atilde;o que a quatro leguas
+de distancia havia uma outra aldeia, com um templo
+cheio de bonsos, e para l&aacute; se encaminhou, disposto
+a pedir abrigo e protec&ccedil;&atilde;o aos padres. Era
+notorio que o tal templo desde alguns mezes se achava
+abandonado, por n'elle ter entrado um demonio,
+um espirito malfazejo, como tantos que abundavam
+ent&atilde;o pelo Jap&atilde;o; muitos guerreiros animosos se
+tinham decidido a ir l&aacute; dentro, mas nem um s&oacute;
+voltou;
+porem estas noticias, que iam ja apavorando
+aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado
+aos ouvidos do pequeno.<br />
+
+<br />
+
+Era j&aacute; noite escura quando alcan&ccedil;ou a aldeia; o
+povo dormia nas choupanas; ao fundo da rua principal,
+e sobre um dorso de collina, de entre a rama
+das mattas erguia-se o templo magestoso, e uma
+<span class="pagenum">[176]</span>
+luz interior bruxoleava, luz de esperan&ccedil;a para a misera
+crean&ccedil;a. Luz de esperan&ccedil;a parecia: mas o povo
+bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim manhosamente
+ia attrahindo algum caminheiro solitario
+em busca de poisada. Bate ao portal uma primeira
+vez, bate segunda vez, bate terceira, sem que ninguem
+acuda ao chamamento. Por fim percebe que
+basta empurral-o para abril-o; e ent&atilde;o, por um leve
+impulso dos seus bra&ccedil;os, achou livre o ingresso, e
+assim entrou, largando dos p&eacute;s n&uacute;s as suas
+sandalias
+poeirentas.<br />
+
+<br />
+
+Nos aposentos interiores ardia uma lampada
+com effeito; mas nem um bonzo s&oacute;, de tantos que
+alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido
+dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu
+esperal-os. O tempo ia passando, e os seus
+olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar
+o aspecto do sitio onde se achava. Notou com
+espanto que abundava o lixo, e pelo tecto as aranhas
+iam tecendo sem cerimonia as suas longas
+teias; era estranho que, sendo em regra os templos,
+mimos de limpeza e de cuidados, aquelle se encontrasse
+em tal desleixo, como se f&ocirc;sse coisa abandonada.
+&Eacute; que, provavelmente, aos santos bonzos
+faltava o auxilio d'um acolyto, a quem, como de
+praxe, cabe o dever de todas as manh&atilde;s lavar, varrer
+<span class="pagenum">[177]</span>
+e sacudir o p&oacute;, arte exercida no Jap&atilde;o com
+especial
+disvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento
+lhe fariam, no proprio interesse da communidade.<br />
+
+<br />
+
+Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o
+olhar n'um movel que o captiva, que &eacute; um grande
+biombo que tem em sua frente, com as duas faces
+brancas; pass&aacute;ra-lhe na mente o irresistivel desejo
+de encher aquellas faces de gatos, de cem gatos,
+de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as
+bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma
+subita alegria illuminava-lhe o rosto sonhador...
+Pensado e resolvido. Cerca encontrou a classica escrivaninha
+japoneza,&#8213;a caixa com os pinceis, com
+a gota de agua n'um deposito metalico, com o peda&ccedil;o
+de tinta negra e com a loisa onde esta se prepara.&#8213;M&atilde;os
+&aacute; obra. O pincel voava em curvas humoristicas;
+a m&atilde;osinha inspirada corria, pullava de
+alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo a
+impress&atilde;o propria com habilidades prodigiosas. Assim
+f&ocirc;ram apparecendo, sobre aquella tela improvisada,
+ranchos e ranchos de gatos adoraveis; e tantos
+gatos desenhou, e tantas horas correram, sem
+que os bonzos voltassem do passeio, que o pobre
+garotito sentiu-se de repente cheio de somno e de
+fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se fechou;
+<span class="pagenum">[178]</span>
+estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 95px; height: 441px; float: left;" alt="" src="images/fig59.png" /><img style="width: 205px; height: 290px; float: left;" alt="" src="images/fig60.png" />L&aacute; pela noite velha, um
+barulho inaudito, como
+se uma terrivel lucta se travasse entre mysteriosos
+combatentes, despertou a crean&ccedil;a. Os gritos, os
+gemidos, o ruido
+dos corpos que
+caiam, vinham de
+perto, do aposento
+visinho onde estivera;
+tremiam as
+paredes, o ch&atilde;o, a
+casa toda; a pelleja
+durou at&eacute; &aacute; madrugada.
+Como elle
+soffria de pavor!
+Caido sobre a esteira,
+immovel, parecia coisa morta, sustendo
+o proprio folego, para que a sua presen&ccedil;a
+n&atilde;o f&ocirc;sse presentida...<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; com a manh&atilde; clara e sol bem alto,
+ergueu-se ent&atilde;o, e animou-se a espreitar um
+pouco para f&oacute;ra, por uma fenda da parede.
+<span class="pagenum">[179]</span>
+Foi medonho o que viu. No ch&atilde;o grandes po&ccedil;as de
+sangue se alastravam; e mesmo ao meio da casa,
+jazia morta, esphacelada, uma enorme ratazana,&#8213;maior
+do que uma vacca!... Mas quem mat&aacute;ra
+o monstro, se ninguem parecia ter entrado? Reparou
+por acaso no biombo, onde horas antes pint&aacute;ra
+tantos gatos; l&aacute; os viu, mas com os focinhos lambusados
+de sangue e as patinhas igualmente; eram
+elles que tinham dado cabo do demonio...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O mocinho tornou-se, com o correr do tempo,
+um grande artista. Ainda hoje se ademiram muitos
+gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O chronista de quem extrahi esta legenda, nada
+conclue, como moralidade, da historia que narrou.
+Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o permittem.
+Em primeiro logar, pouco propenso a cr&ecirc;r
+em coisas do diabo,<img style="width: 170px; height: 282px; float: left;" alt="" src="images/fig61.png" /> embora mesmo no Jap&atilde;o,
+concluo que, se a rata do convento era tam grande,
+&eacute; que a despensa se achava provida com um
+<span class="pagenum">[180]</span>
+enorme arsenal de gulodices; o que, a despeito
+de tanto que se diz dos frades de outras terras, dos
+frades portuguezes por exemplo, faz honra &aacute; sobridade
+de habitos dos maganos, pois n&atilde;o consta que
+jamais os presuntos e a marmellada de reserva nutrissem
+uma rata lambareira at&eacute; attingir igual tamanho.
+Concluo ao mesmo
+tempo, humilhado, confundido,
+que os pintores
+do meu paiz est&atilde;o bem
+longe do tra&ccedil;o creador dos
+pintores do Dai-Nippon.
+Por ultimo (e talvez esta
+final conclus&atilde;o seja a mais
+util), vejo que &aacute;s vezes as
+nossas qualidades, de que
+os outros se riem e escarnecem,
+s&atilde;o as que mais
+nos valem n'este mundo.<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">1901.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c15"></a>IMPRESS&Otilde;ES
+RAPIDAS</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">a
+S. Peres Rodrigues.</span></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida.
+Eu seguia pelo caminho de Suwayama, na
+parte mais elevada da cidade. De um lado alinham-se
+as casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas
+<em>chayas</em> de Kobe,
+<em>Tokiwa</em> e outras, onde os japonezes
+v&ecirc;em folgar; do outro lado, &eacute; a rampa ingreme,
+coberta de pinheiros, e s&oacute;be a collina inculta,
+em corcovas accidentadas, onde assenta um templo
+notavel.<br />
+
+<br />
+
+Nas <em>chayas</em>, segundo o costume, havia
+festa. As
+corredi&ccedil;as de papel estavam fechadas; mas a luz
+interior coava-se para f&oacute;ra vivamente, desenhando
+<span class="pagenum">[182]</span>
+alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas;
+eram os vultos d'elles, dos amigos reunidos,
+certamente banqueteando-se sobre a esteira, e eram
+os vultos d'ellas, das <em>gueshas</em>, que
+lhes iriam vasando
+o vinho nas ta&ccedil;asinhas de fina porcellana, e cantando
+balladas ao som do <em>shamicen</em>. Musica,
+cantigas,
+gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um
+vago sussurro de alegria.<br />
+
+<br />
+
+Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos
+europeus, gente de distincta sociedade, a julgar
+pelo esmero do trajo e da linguagem, e pelo aroma
+dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando
+inglez. Dois discutiam finan&ccedil;a:&#8213;o Jap&atilde;o
+atravessava
+uma crise economica terrivel; os cofres do governo,
+segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego
+em marasmo; duas grandes fabricas de Osaka,
+constava, suspendiam o trabalho...&#8213;Os tres outros
+palestravam de politica:&#8213;primeiro foi o Transvaal,
+e fez-se a conta de quantos boers haviam j&aacute;
+caido sob o chuveiro das balas inglezas; depois saltou-se
+ao Extremo-Oriente; a Russia amea&ccedil;ava o
+imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais
+leve, o mais futil, e era a guerra; discutiam-se as
+probabilidades da victoria, presumiam-se os estragos,
+o numero de victimas no primeiro embate das
+esquadras...&#8213;Teriam talvez muita raz&atilde;o, todos os
+<span class="pagenum">[183]</span>
+cinco; mas ia-me parecendo aquella gente um bando
+de mochos agoirentos, folgando com a ruina, dando-se
+bem com o fetido dos mortos. Para elles n&atilde;o
+nascera, imaginava eu, aquella lua esplendida, que
+ia alumiando o espa&ccedil;o todo e espargindo sobre a
+terra uma chuva de prata; nem era para elles que
+os pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos
+vi&ccedil;osos; nem para os seus pulm&otilde;es que o ar
+vinha oloroso de florescencias multiplices, distantes.
+Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos, misanthropos,
+perseguidos nos fofos leitos por cruciantes
+pesadelos.<br />
+
+<br />
+
+N'aquelle ponto, as <em>gueshas</em> de
+Suwayama entoavam
+uma cantiga popular, que assim
+come&ccedil;a:&#8213;&laquo;<em>Haru
+wa, ureshiki</em>...&raquo;&#8213;cujas primeiras estrophes
+se podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry2">Na primavera, enlevae-vos</div>
+
+<div class="poetry">Nas cerejeiras em flor.<br />
+
+No v'r&atilde;o, folgae nas ribeiras,<br />
+
+Quando se abraza em calor.</div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry2">
+No outono, v&ecirc;de a folhagem,</div>
+
+<div class="poetry">Toda escarlate, voando.<br />
+
+No inverno, espreite-se a neve,<br />
+
+Bebendo vinho e cantando.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[184]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando eu escrevi a <em>Primavera</em>, e a
+offereci a
+um delicado amigo, prometti a mim mesmo, e creio
+que tambem a elle prometti, completar com pachorra
+e vagar, os aspectos das esta&ccedil;&otilde;es, aos quaes o
+tempo, o sol, a cor do ceu, n'este paiz deslumbrante
+de scenarios, imprimem mais intensivamente, mais
+emotivamente do que em outro logar, fei&ccedil;&otilde;es
+differentes
+e imprevistas. Por pregui&ccedil;a ou outras causas,
+n&atilde;o cumpri a promessa, com o que,&#8213;valha a verdade,&#8213;nada
+se perdeu que falta fa&ccedil;a; mas, succedendo
+agora que tenho de reunir em volume umas
+impress&otilde;es dispersas, que intitulei
+<em>Paizagens</em>, pareceu-me
+indispensavel, por um melindre de consciencia
+litteraria, voltar ao assumpto, concluil-o. Pede-me
+pressa um editor bondoso. Tomo o negocio de
+empreitada; reuno as ligeiras notas soltas que encontro
+em esquecidos papeis velhos.<br />
+
+<br />
+
+Antes assim. Impress&otilde;es do acaso, apontamentos
+rapidos, v&atilde;o-me parecendo preferiveis a um longo
+estudo que intentasse das muta&ccedil;&otilde;es de scena que
+hoje, amanh&atilde;, meus olhos relanceam; e n&atilde;o perco
+o ensejo, por natural intuito de desculpar-me perante
+<span class="pagenum">[185]</span>
+quem me l&ecirc;r, de traduzir aqui uma deliciosa pagina
+de um livro francez, tambem sobre o Jap&atilde;o, escripto
+ha poucos annos.&#8213;&laquo;As circumstancias concorrem
+mais para a inspira&ccedil;&atilde;o, do que todos os
+esfor&ccedil;os
+do homem, e a experiencia quotidiana &eacute; a grande
+instigadora das imagina&ccedil;&otilde;es. V&ecirc;de em
+litteratura:
+de ordinario, tanto mais breve &eacute; um trabalho, ou,
+se &eacute; extenso, tanto mais &eacute; feito de
+peda&ccedil;os, de fragmentos
+escriptos primitivamente ao acaso dos tempos,
+tanto melhor elle &eacute;; um longo livro de historia,
+um longo romance, um longo tratado de philosophia
+ou de moral, jamais valer&atilde;o um conjuncto de memorias,
+uma curta novella, um jornal intimo ou um
+caderno de pensamentos, e jamais um poeta epico
+alcan&ccedil;ar&aacute; o vi&ccedil;o de vida que
+d&aacute; ao improviso feliz
+tamanho encanto; porventura, o homem sensato deveria
+decidir-se a n&atilde;o publicar sen&atilde;o volumes de
+paginas destacadas.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Pretendo ser sensato uma vez na minha vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ver&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Um calor de fornalha. Na Africa, na China, n&atilde;o
+&eacute; mais suffocante. O enervamento &eacute; enorme.
+Desfalece-se
+de pregui&ccedil;a, de langor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[186]</span>
+No entretanto, &eacute; no estio que o Jap&atilde;o
+alcan&ccedil;a a
+sua genuina fei&ccedil;&atilde;o typica, pela natureza e pelo
+povo,
+descripta pela lenda, pintada pela arte e como os
+estranhos a imaginam.<br />
+
+<br />
+
+A terra &eacute; toda verde. Crescem as mattas, trepa
+a herva, viceja o mar de arroz nas varzeas alagadas.
+Nos jardins, floresce a <em>asagao</em>, a
+caprichosa
+trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de
+todas as cores imaginaveis, duram o espa&ccedil;o de uma
+madrugada; nas aguas, floresce o lotus.<br />
+
+<br />
+
+O vestuario attinge a maior simplicidade; um
+unico <em>kimono</em> de algod&atilde;o
+azul e branco, amarrado
+na cintura, &eacute; tudo... e &aacute;s vezes nem &eacute;
+tanto. O
+europeu, quando ainda estranho ao meio, encara
+ent&atilde;o surpreso este Jap&atilde;o nu ou quasi nu,
+passeando
+sem cerimonia as suas pernas, os seus bra&ccedil;os,
+os seus collos, os seus seios e ainda
+mais,&#8213;exposi&ccedil;&atilde;o
+paradoxal de grotescos e de encantos...<br />
+
+<br />
+
+A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se
+das suas paredes de papel, ficam o telhado e
+quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a gente,
+o lar, a vida intima.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a epocha das peregrina&ccedil;&otilde;es, das
+excurs&otilde;es
+aos templos, aos logares frescos, onde ha brisas,
+onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao Fujiyama,
+a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de
+<span class="pagenum">[187]</span>
+um pinheiro, para petiscar, para folgar em companhia;
+e os corpos estendem-se na relva, como repetis.
+As <em>musum&eacute;s</em> v&atilde;o
+molhar os p&eacute;sitos nas areias
+das praias, para colherem algas e mariscos. As ribeiras
+convidam: n'umas, entre juncos, &eacute; a ca&ccedil;a
+nocturna aos pyrilampos; n'outras,&#8213;o Sunsidagawa
+em Tokio, o Iodogawa em Osaka,&#8213;em noites calmas,
+&eacute; a flotilha immensa dos barcos de prazer,
+todos elles sanefas multicores, lanternas, bal&otilde;es,
+galhardetes, harmonias de instrumentos, festins, rapazes,
+raparigas, amores...<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 287px;" alt="" src="images/fig62.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[188]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Outono.<br />
+
+<br />
+
+Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica.
+Estupenda coisa. N&atilde;o me parece flor; antes
+um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil
+petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo,
+em colora&ccedil;&otilde;es indefiniveis. Alinhadas nos
+jardins,
+sob tendas de abrigo, as chrysanthemas lembram
+mulheres, lembram-me cortez&atilde;s de Ioshiwara, quando
+ellas vestem os ricos mantos polychromos,
+quando ellas enfeitam os cabellos com diademas de
+espavento, e v&ecirc;em postar-se em filas, princezas pompejantes
+do vicio, encantadoras e perversas...<br />
+
+<br />
+
+No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente
+o verde, e cobre-se das cores mais vivas
+e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo,
+em cambiantes varios. A paizagem offerece ent&atilde;o
+um luxo de tintas innarravel; momentaneo, porque
+as brisas v&ecirc;em breve despir os troncos, e juncar de
+folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada
+arvore que aqui chamam <em>momiji</em>, de
+graciosas folhas
+digitadas, torna-se toda em purpura, como em fogo;
+ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em
+<span class="pagenum">[189]</span>
+magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar,
+arrebatado pela scena, que &eacute; sem rival em maravilhas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O inverno.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 170px; height: 316px; float: right;" alt="" src="images/fig63.png" />Mas ha inverno no Jap&atilde;o?
+Julgo
+que sim, pois gela a agua nos charcos
+e ribeiros, cae profusa a neve,
+alvejam no horisonte as serras,
+como embrulhadas em len&ccedil;oes.
+No entretanto, ainda ao sol de dezembro
+desabrocha a chrysanthema,
+e j&aacute; em janeiro as ameixeeiras,
+nuas de folhas, come&ccedil;am a
+florir. Seja pois um inverno de
+flores. &Eacute; certo que essa grande
+desola&ccedil;&atilde;o das longas invernias dos
+climas temperados &eacute; desconhecida
+em solo japonez. A paizagem &eacute; sempre alegre; o ceu
+&eacute; sempre azul; os pinheiros, que s&atilde;o as arvores
+que
+mais abundam, sempre verdes. Se ent&atilde;o se prolongam
+mais as palestras em roda do brazeiro, chegando
+os deditos ao calor, tomando ch&aacute;, o povo n&atilde;o
+cessa de affluir aos theatros, aos bazares, aos templos,
+ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo, em
+<span class="pagenum">[190]</span>
+aos jardins; apenas, por cuidado ou garridismo,
+as <em>Musum&eacute;s</em> cobrem com um
+manto de delicada cor
+as cabecinhas petulantes, deixando v&ecirc;r do rosto
+apenas uma nesga da fronte e os olhos negros, humidos
+de amor e de mysterio... deve ser antes
+garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras
+do que nunca.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 164px; height: 224px; float: left;" alt="" src="images/fig64.png" />A neve, que constitue uma
+calamidade em tantas regi&otilde;es,
+entra aqui no rol das coisas
+deleitosas. Tanto &eacute; assim, que
+as mulheres, cujos nomes s&atilde;o
+sempre mimosos como ellas,
+lembrando flores ou outras gentilezas,
+se apropriam do termo
+com frequencia:&#8213;<em>Yuki-San</em>, a
+Senhora Neve, ou com mais
+cortezia, <em>&Oacute; Yuki-San</em>, a Nobre
+Senhora Neve, &eacute; nome muito
+em uso. A nevada, sem que prejudique o povo na
+vida e no conforto, vem branquear as serranias, os
+campos e as estradas, esplendida apoth&eacute;ose de alvuras
+e purezas; rendilha as arvores de crystalinos
+ornamentos, ostentando-se como uma florescencia
+immensa, uniforme, que brotasse dos restolhos, da
+herva, dos bambus, dos cedros, dos pinheiros; sobre
+<span class="pagenum">[191]</span>
+os telhados das casas e dos templos, sobre os
+dorsos das grandes raposas de granito que d'estes
+se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos jardins,
+demora-se em fofos floccos, que d&atilde;o &aacute;s coisas
+proximas, realces seductores; por onde a agua corre
+e se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as,
+transforma-as em recortadas estalactites, que um
+raio de sol mais quente vir&aacute; em breve desfazer.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 282px;" alt="" src="images/fig65.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista,
+ha um termo de que agora me recordo, que
+n&atilde;o tem, como muitos, synonimo em linguas europeas;
+&eacute; <em>yukimi</em>.
+<em>Yukimi</em> quer
+dizer:&#8213;excurs&atilde;o ou
+banquete preparado para ir v&ecirc;r cair a neve.&#8213;Nas
+<span class="pagenum">[192]</span>
+<em>chayas</em>, em certos sitios
+pittorescos, exemplo&#8213;as
+collinas de Kioto,&#8213;combinam-se reuni&otilde;es; v&ecirc;em os
+rapazes, v&ecirc;em as <em>gueshas</em>
+com as guitarras, come&ccedil;a
+a festa ruidosa, interrompida a espa&ccedil;os pela
+contempla&ccedil;&atilde;o
+muda do espectaculo que se offerece; no
+entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua
+de folhepos, ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge
+de sedas que arrastassem, vestindo o solo, as
+arvores, o colmo das choupanas, poisando mesmo
+nos vestidos e nas m&atilde;os brancas como a neve das
+mo&ccedil;as irriquietas...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Outro assumpto: a historia da arte.<br />
+
+<br />
+
+No Jap&atilde;o, n&atilde;o ha nem houve nunca, sabios;
+&eacute;
+medida, penso eu, de hygiene nacional, consequencia
+de antigos habitos de limpeza das creadas, que
+os sacodem do solo como sacodem as teias de aranha
+das paredes. No respeitante a historia, &eacute; evidente
+que o officio de historiador, com a secura e
+a frieza que lhe suppomos inherentes, n&atilde;o existe.
+A historia japoneza &eacute; feita pelo povo, incluindo a
+collabora&ccedil;&atilde;o preciosa das velhas, das raparigas,
+dos
+garotos; emana das tradi&ccedil;&otilde;es, da lenda e da
+intui&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[193]</span>
+sentimental das massas. Recorda por este facto os
+evangelhos biblicos, escriptos pelos rudes discipulos
+de Christo, pobres e simples pescadores alheios
+ao convivio dos classicos, sem sciencia e sem arte,
+mas abrazados em poesia, em cren&ccedil;as, em amor.
+Na historia japoneza, palpita, como nas paginas da
+Biblia, a alma da tribu, propensa, pela tendencia
+geral da gente rustica, ao milagre, &aacute; maravilha, ao
+inverosimil; convindo apenas n&atilde;o esquecer que o
+japonez, menos idealista do que o hebreu, n&atilde;o vae
+mui alto no mundo das chimeras, voeja terra a terra,
+aprazendo-se em entretecer de graciosas
+fabula&ccedil;&otilde;es
+as aventuras dos seus homens illustres. A
+historia da arte, para este povo feito todo de artistas,
+sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes
+do seu paiz, &eacute; um dos capitulos preferidos,
+por onde mais rodopia sem freio a phantasia; e
+&eacute; d'este capitulo da arte que eu destaco algumas
+graciosas lendas que se seguem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira
+metade do nosso seculo XV, foi um grande pintor
+em coisas religiosas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>
+Sendo novi&ccedil;o n'um templo da Kioto, Tofukuji,
+conta-se que j&aacute; se dava &aacute; pintura com
+paix&atilde;o, incorrendo
+por esta f&oacute;rma no desagrado do superior&nbsp;<img style="width: 216px; height: 162px; float: left;" alt="" src="images/fig66.png" />Daid&ocirc;, que o ia
+asperamente reprehendendo. Certo
+dia, acabava elle de pintar um retrato de Buddha,
+quando sente passos de Daid&ocirc;, que se approxima
+do seu poiso; rapidamente, esconde o desenho entre
+os joelhos; o vulto entra na cella, esbrugando
+as suas contas, resmungando;
+do resplandor
+do deus subito irradiam
+chammas de apoth&eacute;ose,
+que innundam
+de luz a casa toda; a
+falta do novi&ccedil;o estava
+assim conhecida;
+mas tambem perdoada,
+pois Daid&ocirc; humilhou-se a este avizo do c&eacute;o, e
+nunca mais atormentou o seu discipulo.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; no fim da existencia, dignou-se uma vez o
+Shogun recompensal-o dos seus muitos servi&ccedil;os, dizendo-lhe
+que pedisse o que quizesse.&#8213;De nada
+care&ccedil;o n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo
+em cada dia um <em>kimono</em> lavado para
+vestir e uma
+tijela com arroz; s&oacute; vos supplico, senhor, que por
+vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas
+<span class="pagenum">[195]</span>
+as cerejeiras do jardim d'este templo, para que
+de futuro se n&atilde;o torne um logar de folia e
+desacato.&raquo;&#8213;Foi-lhe
+o desejo satisfeito; e em Tofukuji,
+ainda at&eacute; hoje, nem um s&oacute; p&eacute; de
+cerejeira floresce.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia
+um cuco sobre o panno de um leque. Tam perfeito
+era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel
+que o desenhou, que em todas as vezes que alguem
+abria o leque, o cuco, assim exposto &aacute; luz do dia e
+&aacute; paizagem, acordava, soltava o pio habitual dos
+cucos. Maravilha!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Maruyama Okio, nome moderno, pois &eacute; do seculo
+XVIII, foi pintor muito celebre, a ultima gloria
+talvez da escola classica, convencional, mas cheio
+de amoroso realismo nas suas concep&ccedil;&otilde;es. Um seu
+cliente fizera-lhe encommenda de desenhar um urso
+bravo. O consciencioso Okio<img style="width: 168px; height: 275px; float: left;" alt="" src="images/fig67.png" /> pede a certo alde&atilde;o do
+seu conhecimento que o avise de quando algum
+appare&ccedil;a pela serra; o aviso vem ligeiro, pois abundam
+<span class="pagenum">[196]</span>
+taes bichos no Jap&atilde;o, e eil o que parte,
+com
+a tinta, com os pinceis e com o mais de que carece.
+Levado pelos campos, depara com o animal dormindo
+junto a uma arvore. M&atilde;os &aacute; obra, e em curto
+espa&ccedil;o conclue o seu trabalho e se retira; mas dentro
+em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de
+a ter mostrado a um ca&ccedil;ador de officio, em ursos
+entendido, o qual lhe observou que achava bello o
+quadro, mas falho de verdade
+ap&oacute;s um exame attento,
+pois n&atilde;o traduzia a imagem
+a vaga ondula&ccedil;&atilde;o que &eacute; propria
+ao arfar do corpo que
+respira. O melhor da passagem
+foi ter, annos corridos,
+contado o alde&atilde;o ao bom
+Okio que o tal urso da serra
+se quedava dias e dias junto
+&aacute; arvore; at&eacute; que se deu f&eacute;,
+entre curiosos, que o bicho
+n&atilde;o dormia, mas se achava
+alli caido morto...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[197]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio,
+que um padre lhe apparecia e lhe dizia estas
+palavras:&#8213;&laquo;Eu sou o defunto superior do templo
+de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano
+Motonoba de pintar o meu retrato, para ser collocado
+no templo onde passei meus longos dias de
+existencia.&raquo;&#8213;Acordando, mandou chamar o grande
+artista, fez-lhe a encommenda, e soube ent&atilde;o
+que elle tivera igual vis&atilde;o durante a mesma
+noite.<br />
+
+<br />
+
+O peor &eacute; que Kano n&atilde;o conhecera o reverendo,
+nem lhe constava que existisse um s&oacute; retrato para
+modelo. A tarefa era ingrata. O pintor passou ent&atilde;o
+dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel
+em punho e tinta preparada, immovel, perplexo,
+desesperado de jamais poder realisar o seu intento.
+Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu
+do alto do tecto lentamente at&eacute; poisar na tela, onde
+teceu a sua teia, que era nada menos que o esbo&ccedil;o
+do frade a tra&ccedil;os rapidos; Kano limitou-se a completar
+a obra em seus faceis detalhes.<br />
+
+<br />
+
+Outra difficuldade se levanta: Kano desenh&aacute;ra
+<span class="pagenum">[198]</span>
+um retrato gigante, em uma grande tela, n&atilde;o reflectindo
+a principio que nunca poderia conseguir que
+passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando
+concluido e como o&nbsp;<img style="width: 166px; height: 222px; float: left;" alt="" src="images/fig68.png" />problema se apresentasse
+irresoluvel,
+eis sopra de repente uma rajada em furia,
+que deita a terra uma parede do albergue, e leva
+em triumpho, pelos ares, o primoroso quadro at&eacute; ao
+templo de Kurama, onde at&eacute; hoje
+est&aacute;, e os visitantes o admiram.<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 446px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+Sesshiu, um nome glorioso
+entre a pleiade dos pintores do
+Dai-Nippon, entr&aacute;ra como novi&ccedil;o
+aos treze annos no templo
+de Hofukuji. Sabe-se que, durante
+a sua aprendizagem, mais se applicava &aacute; arte
+do que &aacute;s praticas devotas. Uma vez, por uma
+offensa d'este genero, foi posto em penitencia junto
+a uma columna do templo, durante longas horas,
+com as m&atilde;os atraz das costas, fortemente amarradas.
+Quando o superior vinha soltal-o,&#8213;imagine-se
+o espanto do sujeito!&#8213;eis que surde de junto
+dos p&eacute;s do pobre mo&ccedil;o um bando de ratinhos, que
+<span class="pagenum">[199]</span>
+se escapam espavoridos pela casa. Qual era a
+explica&ccedil;&atilde;o
+de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o
+penitente, choroso e inactivo, f&ocirc;ra entretendo o
+tempo a pintar sobre o sobrado poeirento aquelles
+galantes animaes, servindo-se das proprias lagrimas
+como tinta, e do dedo grande do p&eacute; nu, como pincel;
+logicamente, os ratos salvavam das iras do velhote
+as preciosas vidas com que o artista acabava de
+dotal-os.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta &eacute; uma velha lenda classica da religi&atilde;o de
+Shinto.<br />
+
+<br />
+
+O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto,
+&eacute; dedicado &aacute; deusa Tamayeri-hime. Esta menina,
+antes de dar pretexto aos fieis para ser adorada,
+achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias
+na guitarra, &aacute; beira do rio Seminogarva, quando
+avistou boiando &aacute; tona de agua uma feicha vermelha,
+encimada de lindas pennas de certa ave das
+selvas. Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a
+junto do seu leito. Acto continuo, succedeu a maravilha
+de dar &aacute; luz um filho. Seus paes, descrentes
+de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos
+de innocencia que ella lhes fez, singelamente,
+<span class="pagenum">[200]</span>
+n&atilde;o acreditaram no milagre, accusando-a da falta
+que mais p&oacute;de envergonhar uma mulher honesta.<br />
+
+<br />
+
+Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae
+da desolada, resolveu aclarar este mysterio. Em
+tal designio, offereceu um banquete a todos os visinhos;
+e quando estavam todos reunidos, dirigindo-se
+ao neto, e entregando-lhe uma ta&ccedil;a cheia de
+<em>sak&eacute;</em>, que &eacute; o
+vinho do paiz, disse-lhe isto.&#8213;&laquo;Leva-a
+a teu pae&raquo;&#8213;A crean&ccedil;a, obedecendo, saiu para a
+rua e poz-se a contemplar o c&eacute;o, e ia murmurando
+uma ora&ccedil;&atilde;o; de subito, transforma-se n'um raio,
+que corisca, subindo &aacute;s regi&otilde;es celestes,
+acompanhado
+pela m&atilde;e, para a qual come&ccedil;ou assim a
+glorifica&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro
+indigena, que me disseram chamar-se a
+<em>Cidade-Nocturna</em>,
+pois s&oacute; com a noite acorda, e s&oacute; na noite
+vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias,
+de povo alegre que transita, para cair em repouso
+ao alvorecer da madrugada.<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;quella hora, a estranha cidade, esbrazeando
+a um sol de intensidades tropicaes, do mez de Agosto,
+modorrava; torpida quieta&ccedil;&atilde;o; raros vultos se
+<span class="pagenum">[201]</span>
+viam,&#8213;mendigos, vadios, p&aacute;rias da vida,&#8213;cosidos
+com as nesgas de sombra dos edificios e das arvores
+que ajardinam ao centro as avenidas.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 267px; height: 373px; float: right;" alt="" src="images/fig69.png" />Fixei casualmente a
+atten&ccedil;&atilde;o n'um edificio mais
+pomposo, de
+vastas dimens&otilde;es,
+todo de
+madeira nova,
+alto de quatro
+ou cinco andares,
+rodeado
+de varandas,
+d'onde pendiam
+a arejar
+ricas colchas
+de seda e mantos
+de matiz;
+n&atilde;o sei que caravan&ccedil;ar&aacute;
+de
+mysteriosos
+habitos, aquelle,
+silencioso
+tambem &aacute;quella
+hora, mas dando de si a id&eacute;a de conter
+nos seus arcanos uma legi&atilde;o do moradores.<br />
+
+<br />
+
+Ao centro d'este edificio erguia-se em triumpho
+<span class="pagenum">[202]</span>
+um amplo portal, de madeiras lustrosas; seguia-se-lhe
+um vestibulo; depois alguns degraus de escada,
+acharoados; e ao fundo, muito ao fundo, havia passadi&ccedil;as
+cobertas de esteiras muito limpas, corredi&ccedil;as
+entreabertas patenteando, n'uma meia penumbra,
+confusos verdes de jardim.<br />
+
+<br />
+
+Junto ao portal, dois mo&ccedil;os de servi&ccedil;o, quasi
+nus, dormiam sobre um banco, como dois c&atilde;es de
+guarda can&ccedil;ados da vigilia. Notei que vultos de
+mulher, de quando em quando, passavam, perpassavam,
+longe, no ultimo plano; languidas, vagarosas,
+com os penteados desfeitos, arrastando amplas tunicas
+de seda estampadas de entrela&ccedil;amentos de
+fl&ocirc;res. Uma d'ellas, por desenfado, avan&ccedil;ou
+t&eacute; ao
+portal, ergueu os bra&ccedil;os alto, enfiou os alvos dedos
+de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim,
+n'aquella posi&ccedil;&atilde;o, poz-se a fitar o azul do
+c&eacute;o que
+uma ave cruzava em v&ocirc;o rapido. Gentilissima, esplendida
+no vestido, miudas f&oacute;rmas graciosas, da
+c&ocirc;r do jaspe os p&eacute;s descal&ccedil;os em habito
+de humildade,
+e um olhar de dezoito annos quando muito,
+pueril, coando a express&atilde;o intima de um ser affeito
+&aacute; passibilidade e inconsciente das coisas d'este mundo.
+De dentro, uma voz de velha, azeda e imperativa,
+chamou-a pelo
+nome:&#8213;&laquo;<em>Mitsu-Riyo!</em>&raquo;&#8213;E
+eu
+fui seguindo o meu caminho, acordando de subito
+<span class="pagenum">[203]</span>
+para um enternecimento doloroso, que me &eacute; peculiar
+em presen&ccedil;a de certos relances da existencia,
+um pequenino nada &aacute;s vezes, confuso e passageiro...
+<em>Mitsu-Riyo</em> quer dizer,
+litteralmente:&#8213;<em>Mel que se
+offerece</em>&#8213;a quem? &aacute; turba, a toda a gente.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No Jap&atilde;o, uma vez em cada anno &eacute; a festa das
+meninas, e uma outra vez em cada anno &eacute; a festa
+dos rapazes.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 270px; height: 312px; float: right;" alt="" src="images/fig70.png" />Na primeira, como
+de justi&ccedil;a, e em atten&ccedil;&atilde;o
+ao sexo, tudo se
+passa entre a familia,
+de paredes a dentro; e
+o profano nada logra
+devassar dos jubilos
+d'aquellas presumidas,
+vestidinhas com mil esmeros
+e atten&ccedil;&otilde;es, em
+extasis em frente do
+altar que se arma em
+casa em honra d'ellas, aonde se disp&otilde;e, al&eacute;m de
+coisas
+santas, a collec&ccedil;&atilde;o de bonecas e brinquedos, a
+<span class="pagenum">[204]</span>
+serie em miniatura do espelho, da caixa de costura,
+do brazeiro, das chavenas, da chaleira, de tudo mais
+onde mais tarde os seus dedos mimosos poisar&atilde;o,
+no placido exercicio dos seus deveres de esposa e
+m&atilde;e por sua vez.<br />
+
+<br />
+
+A festa dos rapazes &eacute; publica, ostensiva. &Eacute; certo
+que no lar se agrupam os troph&eacute;os de armas e
+allegorias de guerreiros, e brinquedos condizentes
+com a turbulencia innata nos garotos; mas no que
+mais se empenha o cuidado da familia &eacute; n'um curioso
+emblema que enfeita a cidade inteira, offerecendo
+aos passeantes um estranho quadro de festa e
+alegria. Cada qual que tem filhos&#8213;e quem ha que os
+n&atilde;o tenha?&#8213;espeta a prumo ao p&eacute; da sua casa uma
+vara de bambu de grande comprimento, tendo amarrado
+na ponta um enorme peixe de papel, soberbamente
+pintado de negro ou de vermelho, escamudo,
+com ampla cauda e esbogalhados olhos; cada qual
+amarra um peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme
+o numero de filhos; e ha casaes tam aben&ccedil;oados
+dos deuses e tam cumpridores do seu dever,
+que amarram sete peixes, oito peixes, um cardume!...<br />
+
+<br />
+
+Qualquer curioso em coisas de estatistica poderia,
+sobre uma eminencia da cidade, registar pelo
+numero dos peixes o numero de filhos var&otilde;es
+<span class="pagenum">[205]</span>
+n'aquelle sitio; mais ainda: os ventres benemeritos
+que mais soldados d&atilde;o ao exercito imperial.<br />
+
+<br />
+
+Ha uma lenda adoravel n'esta usan&ccedil;a. Os peixes
+figuram carpas, no Jap&atilde;o abundantissimas; a
+carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando
+a nadar contra a corrente, subindo da f&oacute;z t&eacute;
+&aacute;s origens;
+aquelles peixes de papel, enfunados pelas
+brisas fuscas que reinam em geral n'aquella epocha,
+que &eacute; em maio, perfilando-se contra o vento, d&atilde;o
+uma perfeita imagem do phenomeno. Assim o homem,
+no curso da existencia, deve adquirir a rude
+teimosia de resistir, de passar para al&eacute;m da corrente
+dos revezes, dos desalentos, das intrigas, t&eacute;
+alcan&ccedil;ar o lago bonan&ccedil;oso da paz da consciencia e
+da abastan&ccedil;a ganhas com o seu trabalho intelligente.
+A festa &eacute; ao mesmo tempo um aviso aos tenros
+nipponicos de agora, ranhosos, rabujentos, dependurados
+da teta maternal, ou, mais crescidos, ca&ccedil;ando
+as cigarras poisadas sobre as arvores, lambendo
+do&ccedil;arias e soletrando o
+<em>i-ro-ha</em> pelas escolas,
+mas que amanh&atilde; constituir&atilde;o a massa activa e
+dirigente
+d'esta tribu inchada de orgulhos patrioticos,
+e abrazada em ambi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[206]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente,
+hei-de ainda escrever um longo capitulo inspirado
+na mulher japoneza, tal como eu a comprehendo,
+ou antes, tal como a n&atilde;o comprehendo. N&atilde;o agora.
+Agora intento apenas fallar d'ella em breves phrases,
+ao capricho das rapidas id&eacute;as que me occorrem.<br />
+
+<br />
+
+Qual &eacute; o seu destino? O enlevo do lar. Seria
+pois, como quem diz, um canario cantador, gentil e
+inutil, saltitante, papeando ao sol e enchendo a casa
+toda de alegria, se n&atilde;o se devesse incluir em tal
+enlevo, dois meritos ainda: o delicado instincto da
+ordem, da limpeza, e um fundo de carinho maternal,
+tam amoroso, que talvez n&atilde;o tenha egual no
+mundo inteiro. De sorte que, sem miss&atilde;o activa
+propriamente, parece vir ao mundo destinada a uma
+doce passibilidade feita de cuidados e sorrisos, para
+tornar feliz o esposo, e preparar para a vida um
+outro homem, o seu filho. Sem iniciativa propria
+no ramerr&atilde;o da existencia quotidiana, simples nos
+habitos, nas occupa&ccedil;&otilde;es e nos desejos, a sua
+condi&ccedil;&atilde;o
+mantem-lhe, e mesmo lhe exaggera, os attributos
+peculiares do sexo,&#8213;delicadezas phisicas fixadas
+no requinte, e um discorrer ingenuo de crean&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[207]</span>
+&Eacute; uma escrava do homem? &Eacute; difficil dizel-o,
+n'este mundo, que &eacute; todo escravid&atilde;o. Sim,
+ser&aacute;
+talvez; e recorda-se este velho preceito de moral,
+ainda n&atilde;o esquecido:&#8213;&laquo;Obedece a teu pae, mais
+tarde a teu marido, mais tarde a teu filho primogenito.&raquo;&#8213;No
+entretanto, bem chimericas algumas devem
+ser as que supportam... pois para que lhes
+servem a ellas, as
+<em>musum&eacute;s</em>, o sorriso
+perenne dos
+labios, o mimo dos gestos, das fei&ccedil;&otilde;es, do
+garridismo
+do seu trajo, a alma de gra&ccedil;as que t&ecirc;em nas
+pontas dos dedinhos, que tudo aformoseam onde
+tocam, sen&atilde;o para trazerem submisso ao jugo dos
+seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque
+os homens s&atilde;o brutos em todo o planeta) e
+folgarem como princezinhas voluntarias?... Que se
+julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira, esta
+Senhora Crysanthemo, esta Senhora Primavera,
+n&atilde;o ha duvida, concluindo por este mesmo sorriso
+dos labios frescos durante todo o dia&#8213;e possivelmente
+toda a noite&#8213;pela alegria fervilhante dos
+olhitos, pela serena ondula&ccedil;&atilde;o da mimica,
+j&aacute; surprehendendo-as
+nos mil misteres caseiros, j&aacute; pela
+rua, caminho dos bazares, dos templos, dos theatros,
+dos campos floridos...<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; certo todavia que uma grande dissemilhan&ccedil;a
+afasta a mulher japoneza, da mulher occidental, pelo
+<span class="pagenum"><a name="p208">[208]</a></span>
+menos d'aquella que a importa&ccedil;&atilde;o despeja dos
+paquetes
+e vem pisar a terra de Nippon; a ponto,
+persuado-me, que um sabio zoologo qualquer, que
+descesse do planeta Marte a estas paragens, jamais
+ousaria classifical-as como exemplares da mesma
+fauna.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 260px; float: left;" alt="" src="images/fig71.png" />Vede esta femeasita minuscula, toda
+ella pieguices
+de roupas e maneiras,
+fragil, sem
+musculos, com m&atilde;os
+e pulsos de crean&ccedil;a,
+impropria para o
+esfor&ccedil;o e para a
+lucta; passa a vida
+de joelhos, sobre
+macias almofadas,
+brincando com bonecas
+como se f&ocirc;ssem
+filhos seus, ou brincando com seus filhos como
+se f&ocirc;ssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando
+os p&eacute;sitos em passos indecisos, pregui&ccedil;osos,
+borboleta bohemia, sem rumo e sem intento; sabe
+cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate,
+dedilhar no <em>shamicen</em>,
+comp&ocirc;r ramos de fl&ocirc;res,
+servir o ch&aacute; nipponico, l&ecirc;r historias de raposas
+<a href="#e14">fabulosas</a>
+e de macacos legendarios...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p209">[209]</a></span>
+Agora comparae esta chimera humana com as
+rudes viageiras que o mar aqui arroja, bravos exemplares
+do feminismo em moda, <a href="#e15">fontes</a> de
+musculos,
+de animo atrevido, usando monoculo, bengala e
+collarinho; deixam &aacute;s amas os filhos, se &eacute; que os
+t&ecirc;em, para correrem as cidades a passos de gigante,
+ou, mais velozes ainda, manejando com m&atilde;o firme
+a bicycleta; umas s&atilde;o jornalistas, outras s&atilde;o
+missionarias,
+outras s&atilde;o medicas, outras s&atilde;o sabias,
+outras s&atilde;o coisa nenhuma. N&atilde;o ha
+compara&ccedil;&atilde;o possivel
+entre as duas. A europea offusca a japoneza
+pelos seus meritos triumphantes. A esta, humilde e
+timida, s&oacute; restaria acaso uma desforra:&#8213;era entreabrir
+o <em>kimono</em> de seda na parte junto ao
+peito, patentear
+lhe o par de maminhas brancas e roli&ccedil;as,
+com os bicos c&ocirc;r de rosa macerados pelos dentinhos
+do garoto que lhe brinca no collo, nu em p&ecirc;lo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando
+em quando amenizar a solid&atilde;o do meu viver, dizia-me
+ainda ha pouco coisa parecida com o seguinte,
+a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu,
+a bondosa), e da subsequente prolongada pregui&ccedil;a
+<span class="pagenum">[210]</span>
+litteraria em que fiquei:&#8213;&laquo;Voc&ecirc; deu ao publico as
+suas illus&otilde;es; o publico espera agora as suas
+desillus&otilde;es.&raquo;&#8213;N&atilde;o
+sei ao certo o que ent&atilde;o lhe retorqui;
+mas eis o que me occorre responder-lhe, ao
+escrever a ultima pagina d'este livro:<br />
+
+<br />
+
+V&aacute; de barato que a gente publique as suas
+illus&otilde;es;
+melhor f&ocirc;ra calar-se, todavia. Mas para as
+desillus&otilde;es
+n&atilde;o ha, supponho eu, publicidade ademissivel;
+soffrem-se no silencio intimo, e manda o orgulho
+proprio, al&eacute;m de outros motivos, que a gente
+as n&atilde;o divulgue. No entretanto, para o paiz japonez,
+com o qual ia especialmente contender a gentil
+observa&ccedil;&atilde;o que referi,&#8213;um nadinha maliciosa,
+querendo aparentar estimulo apenas &aacute;s minhas actividades
+em lethargo,&#8213;para o paiz japonez, devo
+confessar que me encontro ainda no periodo do enlevo
+e dos feiti&ccedil;os. N&atilde;o ha terra, que eu
+conhe&ccedil;a,&#8213;e
+tantas tenho conhecido!&#8213;mais deslumbrante
+do que esta nos aspectos; n&atilde;o ha povo mais interessante
+do que este, pelo feitio moral, pelos costumes,
+pela alma artistica; n&atilde;o ha mulheres mais mimosas
+do que estas <em>musum&eacute;s</em>; e
+n&atilde;o ha no mundo
+inteiro gente mais feliz do que esta gente japoneza;
+&eacute; dizer tudo. O que o tempo e a experiencia me
+t&ecirc;em dado a conhecer, &eacute; a
+convic&ccedil;&atilde;o profunda da
+incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu;
+<span class="pagenum">[211]</span>
+o Jap&atilde;o &eacute; dos japonezes e s&oacute; dos
+japonezes,
+o europeu, como um pingo de azeite dentro de agua;
+conserva-se aqui sempre isolado, n&atilde;o se assimilla
+ao meio. Porqu&ecirc;? por dissemelhan&ccedil;as
+irreconciliaveis
+do sentir, da educa&ccedil;&atilde;o, dos habitos, por essa
+invencivel barreira que se define em tres palavras,
+a&#8213;differen&ccedil;a de ra&ccedil;as.<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 330px; float: right;" alt="" src="images/fig72.png" />Minha senhora: para poder assim
+synthetisar-se
+um sentimento como eu acabo de fazer, para adivinhar
+o encanto no que nos &eacute; vedado, para dizer
+que &eacute; grato o aroma de um ramalhete de fl&ocirc;res que
+nos mostrassem dentro de uma redoma de crystal,
+n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil tarefa; tem de elevar-se a
+alma a um
+extremo altruismo
+estetico, paradoxal
+at&eacute;, n&atilde;o por virtude
+nem sciencia,
+mas derivado de
+condi&ccedil;&otilde;es tristes
+da vida, e quando
+se &eacute; j&aacute; tam pobre
+em esperan&ccedil;as e
+desejos, que o individuo
+rasteja como
+um p&aacute;ria moral,
+alheio a tudo.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>Tal
+p&aacute;ria, n'um ponto, n'um s&oacute; ponto,
+&eacute; grande como
+um Deus: v&ecirc; o mundo do alto, parecem-lhe os homens
+formigueiros, segue com a vista as formigas
+nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres;
+em tal estado de desinteresse e independencia,
+custa pouco ent&atilde;o apontar com o dedo para a
+tribu que mais bem dotada parece na partilha das
+gra&ccedil;as, dizer&#8213;&eacute; esta, o Dai-Nippon.<br />
+
+<br />
+
+Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa,
+as illus&otilde;es d'este paiz... e a sua estima, e esta
+n&atilde;o &eacute; uma illus&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">1901</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c16"></a>ISSUMBOSHI<sup><a href="#2">[2]</a></sup></h3>
+
+<h4>(CONTO JAPONEZ)</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">a
+A. A. Ferreira d'Almeida.</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam
+na provincia de Settsu, em Naniwa, como
+ent&atilde;o se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois
+s&oacute;sinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente
+os desejassem. Ora, a prole &eacute; a grande
+preoccupa&ccedil;&atilde;o
+da familia japoneza; considera-se mesmo
+incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle
+que a n&atilde;o teve, e assim se v&ecirc; privado de legar o
+seu
+nome, e os encargos do culto devido aos ascendentes,
+ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe
+apenas o triste expediente da adop&ccedil;&atilde;o de um filho
+estranho, que, com a heran&ccedil;a do appellido de familia,
+assuma os encargos da supposta primogenitude.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[214]</span>
+&#8213;Um filho... um filho ao menos, f&ocirc;sse elle
+embora um aleijado, um monstro, uma migalha de
+gente, com o tamanho de um dedo por estatura...
+mas um&nbsp;<img style="width: 290px; height: 324px; float: left;" alt="" src="images/fig73.png" />filho!...&#8213;tal o
+thema constante, durante
+longos annos, das mais gratas esperan&ccedil;as do casal
+a que me referi. Quando, pelas rugas nos rostos e
+pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram
+que n&atilde;o mais lhes era dado confiar na iniciativa
+propria, elevaram ent&atilde;o o pensamento aos deuses,
+como dispensadores que s&atilde;o de todos os milagres;
+encaminhando de preferencia a sua devo&ccedil;&atilde;o para o
+glorioso Myojin, que &eacute;
+a divindade venerada
+no celebre templo de
+Sumyoshi, a curta distancia
+de Naniwa.
+Quasi todas as manh&atilde;s
+elles se dirigiam
+em piedosa romaria,
+juntos, cada qual arrimado
+ao seu bord&atilde;o,
+pois j&aacute; as pernas lhes
+vergavam ao peso dos
+<span class="pagenum">[215]</span>
+invernos; e era ent&atilde;o um espectaculo deveras commovente,
+e supinamente grotesco ao mesmo tempo,
+que fazia correr lagrimas e estalejar risadas &aacute; gente
+que passava, o d'aquelles dois decrepitos, cheios de
+unc&ccedil;&atilde;o e abrazados em f&eacute;, erguendo ao
+c&eacute;o as
+pobres m&atilde;os escarnadas, e implorando o deus para
+que lhes desse um filho, f&ocirc;sse elle como f&ocirc;sse,
+f&ocirc;sse
+elle uma migalha de gente, do tamanho de um dedo
+por estatura!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios
+annos, o deus de Sumyoshi se apiedou por fim de
+tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um dia
+para lhes proferir estas palavras:&#8213;&laquo;Fa&ccedil;o-vos a
+vontade,
+bons caturras, haveis de ter um filho.&raquo;&#8213;Os
+dois pularam de contentes, como se p&oacute;de imaginar;
+galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas
+um do outro, voltaram para o albergue. N&atilde;o tardou
+muito que a velha sentisse com alvoro&ccedil;o os primeiros
+remoques que prenunciam gravidez; e finalizados
+nove mezes dava &aacute; luz uma crean&ccedil;a, um menino...<br />
+
+<br />
+
+Caspit&eacute;!... Mas reparem agora no ponto mais
+surprehendente da aventura: o menino, lindo como
+<span class="pagenum">[216]</span>
+os amores, tinha a estatura de um boneco, como
+esses de porcellana que se usa collocar nos jardins
+liliputianos, contidos n'um vaso ou n'uma caixa,
+muito do agrado da gente japoneza. O espanto dos
+paes foi grande, e a decep&ccedil;&atilde;o tambem; mas em
+verdade
+n&atilde;o havia motivo de queixa contra o deus, que
+conced&ecirc;ra o que se lhe rog&aacute;ra,&#8213;um filho, com o
+tamanho de um dedo por estatura.&#8213;Era assim.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 174px;" alt="" src="images/fig74.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<em>Issumboshi</em> foi o nome que deram ao
+menino, isto
+&eacute;, traduzindo litteralmente em portuguez: o
+<em>Cavalheiro
+Pollegada</em>. As chronicas n&atilde;o rezam se foi
+amamentado a <em>biberon</em>, ou se o
+mirrado seio maternal
+entumeceu de subito e se offereceu solicito aos
+labios do garoto. O que &eacute; facto &eacute; que Issumboshi
+foi medrando em gra&ccedil;as e em esperteza; n&atilde;o
+por&eacute;m
+em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era
+tal como viera a este mundo. Esta gentil disformidade
+trouxe o enfado ao lar e at&eacute; um certo azedume
+<span class="pagenum">[217]</span>
+mal contido contra as suppostas bondades do deus
+de Sumyoshi. O escarneo era espontaneo nas boccas
+dos visinhos; os gaiatos do sitio apraziam-se em
+zombarias d'esta ordem:&#8213;&laquo;L&aacute; est&aacute; o
+<em>an&atilde;o</em> comendo
+arroz! l&aacute; vae a <em>ervilha</em>
+passear!&raquo;&#8213;Emfim, para encurtar
+raz&otilde;es, direi apenas que chegou um momento
+em que Issumboshi se tornou insupportavel a seus
+paes, vergonha viva do casal, sem prestimo presente,
+e sem que se lhe suppozesse utilidade possivel no
+futuro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse,
+p&ocirc;l-o f&oacute;ra de casa, abandonal-o ao acaso da
+fortuna. Foi chamado o menino &aacute; presen&ccedil;a do pae,
+que lhe exp&ocirc;z os motivos da sua
+resolu&ccedil;&atilde;o, e lhe
+apontou de um gesto o caminho da rua.&#8213;&laquo;Sim,
+pap&aacute;, partirei sem demora, retorquiu, resignado e
+submisso; mas fa&ccedil;a-me favor de dar-me antes uma
+agulha d'aquellas de que a maman se serve para
+coser os seus
+<em>kimonos</em>.&raquo;&#8213;Perguntou o pae
+para
+que? e foi-lhe respondido que era para usar d'ella
+como um sabre, muito proporcionado ao seu tamanho.
+Depois pediu &aacute; m&atilde;e uma tigela de madeira,
+d'aquellas que se empregam em servir o caldo &aacute;s
+<span class="pagenum">[218]</span>
+refei&ccedil;&otilde;es, e mais um d'esses pausinhos que se
+chammam
+<em>hashi</em>, com o comprimento de um
+palmo, substituindo
+na mesa japoneza o garfo e a colher.
+Perguntou a m&atilde;e para que? e foi-lhe respondido
+que, para a longa viagem que ia emprehender, a tigela
+seria o barco, o <em>hashi</em> seria o remo,
+tudo proporcionado
+ao seu tamanho.<br />
+
+<br />
+
+Em posse dos utensilios que alcan&ccedil;&aacute;ra da
+munificencia
+de seus paes, Issumboshi fez-lhe uma rasgada
+reverencia e desappareceu de casa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eil-o s&oacute;, o pobre abandonado, entregue ao seu
+arbitrio, dispondo como haveres de uma tigela, de
+um palito e de uma agulha, collocando esta &aacute; cinta,
+&aacute; laia de catana, com uma palhinha por bainha!...
+Que fazer? Para onde ir?... Corria cerca o Iodogawa,
+o extenso rio lodoso e calmo que tem suas
+origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa
+Naniwa, e vae perder-se no oceano. Que fazer? Para
+onde ir?&#8213;&laquo;Ir a Kyoto, pensou comsigo o an&atilde;osinho,
+&aacute; capital do Imperio (ent&atilde;o n&atilde;o era
+Tokyo a capital),
+&aacute; residencia do Soberano, aonde muitas coisas
+curiosas deve haver, dignas de v&ecirc;r-se...&raquo;&#8213;E
+abalou.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p219">[219]</a></span>
+Seria impossivel relatar as peripecias da viagem,
+os mil perigos affrontados por t&atilde;o exiguo barco, que
+uma simples casca de laranja,<img style="width: 300px; height: 264px; float: right;" alt="" src="images/fig75.png" /> boiando &aacute; tona de agua,
+j&aacute; punha em risco de naufragio. Issumboshi ia perguntando
+aos pescadores o caminho para Kyoto; se
+refrescava o vento, abrigava-se junto da estacaria das
+pontesinhas que galgavam de uma margem do rio
+para a outra margem; pelas noites escuras, ou quando
+a fadiga o affligia, <a href="#e16">encalhava</a>
+o seu barco junto
+&aacute; terra, por entre a maranha
+dos limos e das
+plantas aquaticas; e foi
+assim, com mais de
+trinta dias de derrota,
+que abordou uma manh&atilde;
+&aacute; famosa capital do
+paiz do Sol Nascente.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eil-o em terra, bamboleando-se, folgando com o
+ch&atilde;o firme, com as palestras da turba, com o cheiro
+das tabernas, como effectivamente succede aos
+marinheiros ap&oacute;s longos dias de cruzeiro, enfadados
+<span class="pagenum">[220]</span>
+de balan&ccedil;o, de isolamento, de carne salgada e de
+bolacha. Issumboshi, pouco maior que um escaravelho,<img style="width: 245px; height: 242px; float: left;" alt="" src="images/fig76.png" />
+passava despercebido por entre os muitos
+passeantes; assim poude furtar-se a commentarios
+zombeteiros e percorrer tranquillamente as ruas da
+cidade, embasbacando-se em face dos aspectos grandiosos
+que aos seus olhitos sagazes se iam offerecendo.
+Por fim, eil-o acercando-se da mais sumptuosa
+residencia em que os mesmos olhitos jamais
+tinham poisado; era alli que vivia um grande personagem,
+o principe Sanjo-no-Saish&oacute;, primeiro ministro
+na c&ocirc;rte do soberano. Entra Issumboshi resolutamente
+no amplo pateo da entrada, e informa
+os servi&ccedil;aes de que pretende fallar ao senhor de tal
+dominio. Deu-se
+ent&atilde;o o comico incidente
+de estar
+sua alteza muito
+cerca e de acudir,
+&aacute; porta, attrahido
+pela maviosa voz
+do visitante; como
+ninguem visse por&eacute;m,
+ia de novo
+recolher-se, resmungando
+que teria
+<span class="pagenum">[221]</span>
+jurado achar-se alli um estranho em conversas
+com a gente de servi&ccedil;o; mas um derradeiro olhar
+pesquisador revelou-lhe, quasi occulto por detraz
+dos seus tamancos, que estavam junto &aacute; entrada
+conforme o uso do paiz, o curioso figur&atilde;o que
+conhecemos.&#8213;&laquo;Oh!
+exclamou, eras tu, minusculo vivente
+que ainda ha pouco proferias o meu nome?&raquo;&#8213;O rapaz,
+polidamente, assegurou que sim, que era elle
+proprio.&#8213;&laquo;E que me queres
+ent&atilde;o?&raquo;&#8213;Issumboshi
+exp&ocirc;z a sua procedencia, os seus titulos e as tristes
+condi&ccedil;&otilde;es em que se via; e concluiu rogando que
+lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu
+servi&ccedil;o.&#8213;&laquo;Pois
+sim, fica comnosco, respondeu sua alteza,
+ap&oacute;s ligeira reflex&atilde;o; tu &eacute;s sem
+duvida, continuou,
+o homem mais pequeno que tem apparecido n'este
+mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras
+que conhe&ccedil;o; n&atilde;o quero perder o l&eacute;o de
+possuir
+tamanha galanteria, praticando ao mesmo tempo
+um acto meritorio, protegendo-te.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Embora tam infimo em grandeza, o <em>Cavalheiro
+Pollegada</em> soube mostrar-se utilisavel em tudo em
+que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se querido
+da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto
+<span class="pagenum">[222]</span>
+para matar enfados, dos quaes ninguem se
+livra, e menos ainda os ricos, sempre&nbsp;<img style="width: 300px; height: 432px; float: left;" alt="" src="images/fig77.png" />ociosos em
+seus palacios de regalo. Ko-Haru, a filha do fidalgo,
+a mais gentil donzella de Kyoto (que &eacute; a terra das
+mulheres mais gentis de todo o Imperio), especialmente
+lhe votou as suas sympathias, impondo-lhe
+o dever&#8213;dulcissimo dever!&#8213;de acompanhal-a por
+toda a parte onde ella f&ocirc;sse, qual rato sabio que
+seguisse a dona em seus passeios...<br />
+
+<br />
+
+Entre os dois, a formosa
+<em>musum&eacute;</em> e a migalha de
+gente, passaram-se ent&atilde;o graciosas scenas, as mais
+tocantes que p&oacute;de imaginar-se, se imaginaveis
+s&atilde;o...
+Era um enlevo v&ecirc;l-o, sempre
+vestidinho de guerreiro,
+a primor, com roupas de
+setim que ella pelos proprios
+dedos habilidosos lhe bordava,
+e lhe cosia, privando
+de carinhos as suas bonecas
+favoritas; e Issumboshi, muito
+compenetrado do seu papel
+de pagem, nunca largando
+o sabre da cintura,
+arrogava-se uns taes ares marciaes, t&atilde;o petulantes,
+que
+a gente morria de rir, ao
+<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span>
+avistal-o!... Se chovia, ou se a excurs&atilde;o se prolongava,
+Ka-Haru tomava nas m&atilde;os alvas de neve o
+seu pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo,
+ou aquecendo-o ao seio. Issumboshi, &eacute; bem de cr&ecirc;r,
+possuia, como todo o ser humano possue, um
+cora&ccedil;&atilde;o,
+embora reduzido &aacute;s propor&ccedil;&otilde;es de uma
+cabe&ccedil;a
+de alfinete, mas pulsando de gratid&atilde;o e de ternura.
+Aquella convivencia escravisou-lhe a alma. Uma
+dedica&ccedil;&atilde;o
+immensa, uns zelos infinitos, um desejo
+constante de agradar &aacute; sua nobre ama, taes f&ocirc;ram
+os sentimentos dominantes no animo do pygmeu.
+A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que
+aos outros mortaes eram vedadas... (oh, mysterio
+psychologico de todos os namorados d'este mundo!
+quantos de v&oacute;s, que l&ecirc;des estas linhas, invejareis
+a
+sorte de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas
+de agosto, Ko-Haru se aprazia em estender-se
+sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido tambem
+pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos
+p&eacute;s nus de sua ama, como em leito de marmore
+de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos labios
+frescos da donzella uma petala de magnolia, em que
+por distrac&ccedil;&atilde;o os dentinhos se entretinham
+mordicando:
+Issumboshi comeu-a; e durante um dia inteiro
+n&atilde;o se serviu de outro alimento, assegurando
+com verdade <a href="#e17">que aquelle</a> lhe
+bastava...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo
+de Kiyomizu-no-Kwannon (Kwannon &eacute; a deusa buddhista
+da piedade), a fim de praticar as suas devo&ccedil;&otilde;es;
+como sempre, o an&atilde;o acompanhava-a. Ora,
+de volta, quando ambos desciam o ultimo degrau
+da ampla escadaria que d&aacute; accesso ao templo, dois
+demonios surdiram de improviso das proximas balseiras,
+horriveis de figura, herculeos, colossaes, cuidando
+sem deten&ccedil;as de raptar a linda peregrina.
+Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi
+retira a espada da bainha (a agulha que
+a m&atilde;e lhe dera n'outros tempos), perfila-se em frente
+dos demonios e brada-lhes assim:&#8213;&laquo;Vis temerarios,
+que commetteis a magna offensa de perturbar em
+seus passeios piedosos a princeza Sanj&oacute;! sabei que
+se um de v&oacute;s, com um s&oacute; dedo lhe tocar, commigo
+se ha de haver! e, t&atilde;o certo como ser eu Issumboshi,
+assim este meu sabre lhe rasgar&aacute; a
+entranha!...&raquo;&#8213;Consta
+que os diabretes se pozeram a
+rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais
+fallador, dignou-se responder com uma v&oacute;z de
+trov&atilde;o
+que fez afugentar das arvores os pardaes, em
+<span class="pagenum">[225]</span>
+cinco leguas ao redor:&#8213;&laquo;Acalma a tua furia, infimo
+insecto; n&atilde;o percebes acaso que a lucta contra
+n&oacute;s
+&eacute;-te defeza? para encurtar raz&otilde;es e
+n&atilde;o seres importuno,
+vaes v&ecirc;r o que te fa&ccedil;o...&raquo;&#8213;Levantou-o
+do solo, mui delicadamente, com as pontas dos dedos,
+e enguliu-o...<br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 300px; height: 322px; float: right;" alt="" src="images/fig78.png" />Pareceu a Ko-Haru
+fugir-lhe a ultima
+esperan&ccedil;a de
+salvar-se. Illudia-se.
+Em plenas trevas, escorregando
+pela guela
+babujenta do monstro,
+e penetrando na
+enorme rotunda da
+barriga, o an&atilde;osinho
+empunhou o sabre a
+duas m&atilde;os e foi espica&ccedil;ando ao acaso, para a
+frente,
+para a direita, para a esquerda, o ventre, a fressura,
+os intestinos; o diabo sentiu-se de repente incommodado,
+soffreu ancias atrozes, vomitou o jantar e
+Issumboshi de novo appareceu &aacute; luz do dia. O outro
+monstro tentou em seguida igual ardil, devorando
+o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe para o
+nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recome&ccedil;ou
+esgrimindo, a ponto de produzir tal comich&atilde;o,
+<span class="pagenum">[226]</span>
+que o diabo espirrou, salvando-se o inimigo pelos
+ares. Foi ent&atilde;o que os demonios se encheram de
+pavor, convencidos de que tinham em frente de si
+um ente extraordinario, posto que de t&atilde;o desprezivel
+apparencia; e deitaram a fugir...<br />
+
+<br />
+
+Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a
+desolada dama, convence-a da ausencia do perigo e
+faz-lhe v&ecirc;r que s&atilde;o horas de seguir para palacio,
+onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru
+vae partir; antes por&eacute;m testemunha ao pagem
+a sua muita gratid&atilde;o, promettendo contar &aacute;
+familia
+o succedido, para que chovam justas recompensas
+sobre o seu donodado salvador.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia,
+Ko-Haru encontra no caminho um utensilio alli abandonado,
+o pequenino martello milagroso de que os
+demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido
+pelos monstros na ancia de safarem-se.
+Tomou-o pressurosa. Perguntou o companheiro o
+que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que
+bastava brandil-o para a gente realisar os seus desejos,
+e que elle proprio, se algum desejo tinha, lh'o
+<span class="pagenum"><a name="p227">[227]</a></span>
+dissesse, que logo lhe seria satisfeito, Issumboshi
+berrou, no auge da commo&ccedil;&atilde;o e da
+esperan&ccedil;a:&#8213;&laquo;Altura!
+Altura! Altura&raquo;&#8213;Ko-Haru n&atilde;o percebeu o
+que elle queria. Elle ent&atilde;o, mais prolixo, explicou
+que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho,
+tornar-se um homem como todos os homens
+d'este mundo. O milagre, a um gesto da
+<em>musum&eacute;</em>,<img style="width: 265px; height: 234px; float: right;" alt="" src="images/fig79.png" />
+realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as
+regulares propor&ccedil;&otilde;es de um guapo
+mocet&atilde;o; ao lado
+da princeza, quem se pozesse a v&ecirc;r aquelle par, diria-os
+feitos um
+para o outro, de
+encommenda...<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 344px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+Chegaram <a href="#e18">ao
+palacio</a>. A admira&ccedil;&atilde;o
+foi grande;
+mas n&atilde;o sei
+o que mais commentarios
+mereceu, se as peripecias da princeza,
+rematadas com t&atilde;o feliz epilogo, se o milagre do
+martello na pessoa de Issumboshi. Logo alli se lhe
+mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu
+<span class="pagenum">[228]</span>
+do seu nobre protector mil recompensas, mais
+tarde do soberano mui fartas honrarias, subindo aos
+mais altos cargos publicos; mas a mais doce recompensa
+que aqui se lhe p&oacute;de assignalar foi tornar-se
+o esposo querido de Ko-Haru, que elle amava, do
+fundo da alma, desde o primeiro dia que lhe foi dado
+contemplal-a...<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">Kobe, mar&ccedil;o de 1902.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c17"></a>O PESCADOR URASHIMA</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">a
+Joaquim Costa</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da
+costa do Jap&atilde;o, Urashima, um mo&ccedil;o pescador.
+D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhan&ccedil;a:&#8213;que
+tinha um cora&ccedil;&atilde;o propenso ao bem, e que
+em destreza ninguem o igualava, tratando-se de
+artes de linhas e de anzoes;&#8213;nada mais, mas j&aacute;
+n&atilde;o era pequeno o elogio.<br />
+
+<br />
+
+Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, s&oacute;sinho
+no seu barco. E que pescou Urashima d'essa feita?
+Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma
+enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a
+cabecita rugosa, denunciando assim a grande vetustez;
+<span class="pagenum">[230]</span>
+&eacute; notorio que as tartarugas vivem muito;
+vivem
+mil annos, no Jap&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao
+pobre pescador, pouco mimoso de acepipes; jantar,
+ceia e almo&ccedil;o, e mais ainda, f&oacute;ra os lucros que a
+casca lhe trouxesse; mas o mo&ccedil;o poz-se a scismar
+na crueldade que ia&nbsp;<img style="width: 215px; height: 266px; float: left;" alt="" src="images/fig80.png" />commetter, roubando assim
+talvez longos seculos de vida &aacute;quelle bruto, fadado
+pela sorte ao goso da existencia, durante
+gera&ccedil;&otilde;es
+e gera&ccedil;&otilde;es da tribu humana; e lembrou-se da
+m&atilde;e,
+da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser
+caritativo com os brutos indefezos... &Eacute; certo que
+as m&atilde;os abandonaram a presa, n'um largo gesto de
+bondade; e a tartaruga,
+volvendo &aacute; agua sem
+se fazer rogada, lepida
+mergulhou no azul e se
+safou das vistas.<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 399px; height: 31px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div class="break">
+ <hr /></div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+Fazia ent&atilde;o tanto
+calor!... Era um d'esses
+dias abrazadores de
+agosto, embebidos de
+<span class="pagenum">[231]</span>
+paz, de luz, de torpidos affluvios. Al&eacute;m, a aldeia
+quedava-se na s&eacute;sta, amodorrava, jazia em aniquilamento
+absoluto; apenas, sobre as arvores, cantavam
+as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se
+nos campos a faina da lavoira; nas cho&ccedil;as
+escancaradas, patenteavam-se os corpos n&uacute;s,
+estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em
+suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem
+pelos ardores d'aquella hora, largou das m&atilde;os os
+remos e as linhas, encostou-se &aacute; bancada e adormeceu.<br />
+
+<br />
+
+No entretanto, eis que surge das aguas um vulto
+feminino, encantador. O episodio, que a tradi&ccedil;&atilde;o
+do povo foi retendo at&eacute; aos nossos dias, p&oacute;de
+agora
+reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do
+esquife, poisa esse vulto, essa fada adoravel de feiti&ccedil;os,
+envolta em roupas carmezins, solto o cabello
+&aacute;s brisas e cor&ocirc;ada a fronte com o diadema de
+oiro,
+que &eacute; apanagio das princezas; estende o bra&ccedil;o de
+neve para o adormecido, toca-lhe na fronte com as
+pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas
+palavras:&#8213;&laquo;Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou
+contar-te quem eu sou; sou a filha do deus do oceano
+immenso, habito com meu pae o palacio do drag&atilde;o,
+no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco
+colheste e restituiste &aacute; liberdade, era eu propria;
+<span class="pagenum">[232]</span>
+meu pae impoz-me um tal disfarce, para que assim
+podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem
+e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa,
+se me queres; mil annos viveremos sempre juntos,
+sempre jovens, sempre felizes, no palacio do drag&atilde;o,
+sob o azul das aguas...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+L&aacute; seguem os dois pelo mar f&oacute;ra. Urashima empunha
+a esparrela da p&ocirc;pa, maneja-a com denodo,
+d&aacute;-lhe&#8213;podera n&atilde;o!&#8213;for&ccedil;as herculeas
+a ancia de
+chegar; a princeza poisa no outro remo as m&atilde;os
+franzinas, e vae sorrindo ao companheiro. E v&atilde;o
+remando, e v&atilde;o remando, sem que a fadiga os aquebrante,
+at&eacute; que finalmente o barco alcan&ccedil;a o porto
+desejado, e j&aacute; de longe o palacio se desenha, em
+arcarias, em grimpas, em mirantes recortados.<br />
+
+<br />
+
+Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia
+ous&aacute;ra imaginar tantos primores!... As paredes
+do palacio s&atilde;o de renda de coral; as arvores
+do jardim t&ecirc;em por folhas, esmeraldas, e fructificam
+em perolas e rubis; as escamas dos peixes s&atilde;o de
+prata, os olhos de diamantes, as caudas dos drag&otilde;es,
+de oiro lavrado...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+Ent&atilde;o, toda a bicharia do oceano acode &aacute; praia,
+vestindo <em>kimonos</em> de cerimonia, e vem
+saudar os
+noivos viajantes. Ap&oacute;s os cumprimentos e os discursos
+laudatorios que prescreve a etiqueta em casos
+taes, a princeza, seguida do cortejo, entra em
+palacio; gorazes e toninhas seguram-lhe a cauda do
+vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa
+limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus p&eacute;sinhos
+deliciosos; descan&ccedil;a n'um sal&atilde;o que mais lhe
+apraz, pela delicia dos adornos e pela paizagem
+que se avista, e a seu lado offerece um logar ao
+companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas,
+os drag&otilde;es, a turba em fim dos escravos jubilosos,
+corre a prostrar-se em frente da princeza; e de
+joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, come&ccedil;a
+servindo em ta&ccedil;as preciosas o branco arroz cosido,
+os lic&ocirc;res, os fructos, os manjares.<br />
+
+<br />
+
+Urashima extasia-se diante do que &eacute; seu, bem
+seu, pois que &eacute; de sua esposa. Durante tres annos
+assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem
+enfados, sem nuvens de tristeza no c&eacute;o dos seus
+amores; ora na paz da esteira, no enlevo das m&atilde;os
+que se entrela&ccedil;am, dos olhos humidos que se fitam,
+das palavras em segredo que se trocam, das almas
+enamoradas que se d&atilde;o; ora perscrutando os mysterios
+do oceano, em excurs&otilde;es pachorrentas pelas
+<span class="pagenum">[234]</span>
+florestas das algas viajantes, por onde a vida aquatica,
+de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas
+que a ninguem &eacute; dado conhecer; ora em
+longos passeios pelos jardins, onde as arvores n&atilde;o
+cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando
+ao pendor das perolas e rubis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tres annos decorridos. Um dia por&eacute;m Urashima
+acerca-se da esposa e diz-lhe pouco mais ou menos
+o seguinte:&#8213;que a adora e se sente ditoso, mas
+cresce-lhe o desejo de ir v&ecirc;r a sua aldeia, o velho
+pae, a doce m&atilde;e, os irm&atilde;os, os antigos
+companheiros
+de trabalho; e promette voltar ap&oacute;s curta
+visita.&#8213;Ent&atilde;o,
+pela primeira vez sem duvida, uma ligeira
+nuvem de tristeza, um vago presentimento angustioso,
+turvaram o olhar sereno da princeza.&#8213;&laquo;Vae,
+diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora
+bem me pese, pois imagino que vaes exp&ocirc;r-te
+a grandes riscos; leva comtigo este pequeno cofre,
+que alguma coisa cont&eacute;m que te pertence; sirva-te
+elle de lembran&ccedil;a de quem muito te quer; mas nunca
+o abrir&aacute;s, pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca
+mais voltarias a esta mans&atilde;o do nosso amor...&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E partiu, e abordou o solo patrio...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p235">[235]</a></span>
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que quer que era de bem estranho se pass&aacute;ra <a href="#e19">durante</a> a ausencia de Urashima. Aonde
+estava a sua
+aldeia? aonde se erguia a cabana de seus <img style="width: 293px; height: 264px; float: left;" alt="" src="images/fig81.png" /><img style="width: 107px; height: 184px; float: left;" alt="" src="images/fig82.png" />paes?
+A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos,
+os mesmos cerros sobrepondo-se, alli lhe appareciam,
+bem taes como os deix&aacute;ra, na fria impassibilidade
+das coisas immutaveis; mas os povoados
+offereciam outro aspecto, os campos outro amanho;
+mas as arvores, que lhe haviam dado abrigo e sombra,
+e de que t&atilde;o bem se recordava, erguiam apenas
+troncos seccos, algumas, porque outras j&aacute; nem
+mesmo existiam,
+e outras
+arvores medravam
+<span class="pagenum">[236]</span>
+n'outros sitios, projectando outras sombras,
+fructificando em outros fructos. Aonde f&ocirc;ra a sua
+aldeia, surgia agora um pinheiral. Reconheceu o
+mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e ainda
+agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante,
+como dantes; mas agora deserto, faltando o grupo
+galhofeiro das <em>musum&eacute;s</em>
+que tinham por costume ir
+alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans,
+<em>kimonos</em> arrega&ccedil;ados,
+pernas n&uacute;as, bra&ccedil;os n&uacute;s, lidando,
+palestrando e rindo umas com as outras.<br />
+
+<br />
+
+Ao longo do areal iam ent&atilde;o seguindo dois sujeitos.
+Urashima alcan&ccedil;a-os e interpella-os:&#8213;&laquo;Bons
+dias; fazem favor de me dizer onde &eacute; agora a casa
+da familia de Urashima?&raquo;&#8213;Pensaram, consultaram-se,
+co&ccedil;aram a cabe&ccedil;a, buscando
+recordar-se.&#8213;&laquo;Urashima,
+Urashima... Urashima, o pescador? tem
+gra&ccedil;a tal pergunta: ha j&aacute; quatrocentos annos pelo
+menos, como contam, se afogou elle quando pescava
+no seu barco, pois nunca mais appareceu; o
+seu pae, a sua m&atilde;e, os seus irm&atilde;os, os filhos dos
+seus irm&atilde;os, dormem todos al&eacute;m no cemiterio, ha
+muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes
+de nossos av&oacute;s serem nascidos, nem o p&oacute; d'ella
+sequer existe por aqui...&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, como um relampago que acode subitamente
+pela noite, a illuminar a estrada, uma id&eacute;a
+<span class="pagenum">[237]</span>
+acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a
+allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido &aacute;
+patria, poisando os p&eacute;s descal&ccedil;os no areal da sua
+querida aldeia, relanceando as curvas da paizagem
+em que por tantos annos a vista se poisara, e a
+recorda&ccedil;&atilde;o
+lhe grav&aacute;ra para sempre na memoria.
+O palacio do deus do mar, no abysmo das ondas,
+com as suas paredes de renda de coral, com os
+seus pomares de folhas de esmeraldas e fructos de
+perolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas
+e olhos de brilhantes, e os seus drag&otilde;es de
+caudas de oiro fino, n&atilde;o pertencia &aacute; terra, era
+do
+mundo dos prodigios, regia-se pelas leis do encantamento;
+um dia, dos seus dias, valia por muitos
+annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima
+o suppozesse, seculos sobre seculos haviam
+passado sobre a terra, matando, destruindo, transformando,
+arrastando as coisas e os individuos &aacute;
+fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao p&oacute;, ao
+nada, surgindo das ruinas outros aspectos e outros
+seres...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade;
+e o disparate anachronico da situa&ccedil;&atilde;o em que
+<span class="pagenum">[238]</span>
+se via, incutiu-lhe no animo n&atilde;o sei que horrivel
+oppress&atilde;o de angustia e de pavor. Patria? sim, a
+mesma areia inerte e os mesmos monstros de granito;
+mais nada. Aldeia, amigos, aspectos familiares
+da sua mocidade, nada havia; outras aldeias,
+outros aspectos, outra gente, e para esta o nome de
+Urashima entrava j&aacute; na lenda. Em nada o captivava
+aquella terra. O anceio de fugir, de volver ao esplendor
+do seu palacio, acudiu-lhe ent&atilde;o, dominador;
+e a imagem das mil gra&ccedil;as da princeza multiplicava-lhe
+o desejo de abandonar para sempre o solo onde
+nascera. Lan&ccedil;ou um olhar de adeus ao cemiterio,
+esse no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais
+povoado de freguezes; e ia partir, deixar em paz a
+aldeia morta...<br />
+
+<br />
+
+Antes por&eacute;m lembrou-se de abrir o cofre que
+recebera da princeza. Porque? Talvez leviandade,
+talvez mofino s&eacute;stro, que tantas vezes guia o homem
+a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto,
+que continha nada menos do que a essencia dos
+longos annos corridos, e ao mesmo tempo descontados
+na existencia de Urashima, escapou-se e pairou
+no espa&ccedil;o uma ligeira nuvem esbranqui&ccedil;ada.
+Chamado &aacute; raz&atilde;o, ao sentimento da desobediencia
+em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima
+correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe
+<span class="pagenum">[239]</span>
+que parasse. Era tarde. De prompto, as
+proprias for&ccedil;as lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu;
+a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu
+justo logar nas paginas do tempo, fazia-o galgar de
+um pulo a grande barreira que o afastava dos seus
+contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em
+corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos,
+a barba, branquejaram como linho, sulcou-se
+o rosto em rugas, estalou a pelle do corpo, os ossos
+romperam para f&oacute;ra, as costas dobraram-se n'um
+arco, viu-se como um macrobio n&atilde;o sei quantas
+vezes secular, como um esqueleto em f&eacute;rias, fugido
+do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu,
+caiu, desfez-se em p&oacute;, desfez-se em nada...<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>INDICE</h3>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">Pag.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>As Borboletas</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">1</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A Alforreca</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">9</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O Anno novo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">20</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A Primavera</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">30</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Nilguyo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">50</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O Cavallo Branco de
+Nanko</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c6">62</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A primeira formiga</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c7">78</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Os Diabos e os
+velhos</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c8">90</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pan-Man-Chen</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c9">98</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A Caricatura no
+Jap&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c10">107</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dois Cemiterios
+Japonezes</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c11">134</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O Espelho de
+Matsuyama</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c12">153</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Am&ocirc;res</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c13">164</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Um pintor de gatos</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c14">171</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Impress&otilde;es
+rapidas</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c15">181</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Issumboshi</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c16">213</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O Pescador Urashima</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c17">229</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO<br />
+
+5, Largo de Cam&otilde;es, 6&#8213;Lisboa</h4>
+
+<hr />
+<hr />
+<h4>Ultimas publica&ccedil;&otilde;es:</h4>
+
+<br />
+
+O TIO JO&Atilde;O GIL Chronica d'aldeia por <em>Barros
+Lobo</em> (Francisco)
+1 volume, 800 r&eacute;is<br />
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+O CONDE DE S. PAULO Romance original, por <em>Mauricia
+C. de Figueiredo</em>, 1 vol., 800 rs.<br />
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+NA RUSSIA Aspectos da guerra e da revolu&ccedil;&atilde;o.
+Narrativa historica
+e anecdotica por <em>Eduardo de Noronha</em>,
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+<em>J. H.
+Rosny</em> por <em>Candido de
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+ANNA DE CASTRO OSORIO</h4>
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+Fonseca</em>,
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+<h4>JOAQUIM DE ARAUJO</h4>
+
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+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<a name="1"></a><sup>[1]</sup> Official
+da marinha morto em 25 de outubro de 1902.
+Vivia, quando o auctor lhe consagrava este capitulo.<br />
+
+<br />
+
+<a name="2"></a><sup>[2]</sup> Os
+desenhos que illustram este conto s&atilde;o
+originaes do
+proprio W. de Moraes.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui
+encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<em><br />
+
+<br />
+
+</em>
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 68px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 125px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 127px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e1"></a><a href="#p25">#p&aacute;g.
+25</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">n'estas</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">n'estes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e2"></a><a href="#p49">#p&aacute;g.
+49</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">whisyk</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">whisky</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e3"></a><a href="#p68">#p&aacute;g.
+68</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">difflceis</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">difficeis</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e4"></a><a href="#p69">#p&aacute;g.
+69</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">focinho
+snostalgicos</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">focinhos
+nostalgicos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e5"></a><a href="#p76">#p&aacute;g.
+76</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">offereco</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">offere&ccedil;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e7"></a><a href="#p79">#p&aacute;g.
+79</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">tempelos</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">tem
+pelos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e8"></a><a href="#p81">#p&aacute;g.
+81</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">entrasae</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">entrasse</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e9"></a><a href="#p92">#p&aacute;g.
+92</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">diabolidamente</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">diabolicamente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e10"></a><a href="#p111">#p&aacute;g.
+111</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">niconsciencia</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">inconsciencia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e11"></a><a href="#p130">#p&aacute;g.
+130</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">vermelha
+s</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">vermelhas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e12"></a><a href="#p150">#p&aacute;g.
+150</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;"><em>sumarais</em></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;"><em>samurais</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e13"></a><a href="#p174">#p&aacute;g.
+174</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">At
+que</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">At&eacute;
+que</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e14"></a><a href="#p208">#p&aacute;g.
+208</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">fabulossa</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">fabulosas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e15"></a><a href="#p209">#p&aacute;g.
+209</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">?ontes</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">fontes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e16"></a><a href="#p219">#p&aacute;g.
+219</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">encahlava</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">encalhava</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e17"></a><a href="#p223">#p&aacute;g.
+223</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">queaquelle</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">que
+aquelle</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e18"></a><a href="#p227">#p&aacute;g.
+227</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">a
+palacio</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">ao
+palacio</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 68px;"><a name="e19"></a><a href="#p235">#p&aacute;g.
+235</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 125px;">rante</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 11px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 127px;">durante</td>
+
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+<pre><br /><br />End of the Project Gutenberg EBook of Paisagens da China e do Jap&atilde;o, by Wenceslau de Moraes<br />*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PAISAGENS DA CHINA E DO JAP&Atilde;O ***<br />***** This file should be named 25537-h.htm or 25537-h.zip *****<br />This and all associated files of various formats will be found in:<br />http://www.gutenberg.org/2/5/5/3/25537/<br />Produced by Rita Farinha and the Online Distributed<br />Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was<br />produced from images generously made available by National<br />Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)<br />Updated editions will replace the previous one--the old editions<br />will be renamed.<br />Creating the works from public domain print editions means that no<br />one owns a United States copyright in these works, so the Foundation<br />(and you!) can copy and distribute it in the United States without<br />permission and without paying copyright royalties. Special rules,<br />set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to<br />copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to<br />protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project<br />Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you<br />charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you<br />do not charge anything for copies of this eBook, complying with the<br />rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose<br />such as creation of derivative works, reports, performances and<br />research. They may be modified and printed and given away--you may do<br />practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is<br />subject to the trademark license, especially commercial<br />redistribution.<br />*** START: FULL LICENSE ***<br />THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE<br />PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK<br />To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free<br />distribution of electronic works, by using or distributing this work<br />(or any other work associated in any way with the phrase "Project<br />Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project<br />Gutenberg-tm License (available with this file or online at<br />http://gutenberg.org/license).<br />Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm<br />electronic works<br />1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm<br />electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to<br />and accept all the terms of this license and intellectual property<br />(trademark/copyright) agreement. 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However, if you provide access to or<br />distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than<br />"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version<br />posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),<br />you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a<br />copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon<br />request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other<br />form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm<br />License as specified in paragraph 1.E.1.<br /><br />1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,<br />performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works<br />unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.<br /><br />1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing<br />access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided<br />that<br /><br />- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from<br /> the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method<br /> you already use to calculate your applicable taxes. The fee is<br /> owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he<br /> has agreed to donate royalties under this paragraph to the<br /> Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments<br /> must be paid within 60 days following each date on which you<br /> prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax<br /> returns. Royalty payments should be clearly marked as such and<br /> sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the<br /> address specified in Section 4, "Information about donations to<br /> the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."<br /><br />- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies<br /> you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he<br /> does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm<br /> License. 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Contact the<br />Foundation as set forth in Section 3 below.<br /><br />1.F.<br /><br />1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable<br />effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread<br />public domain works in creating the Project Gutenberg-tm<br />collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic<br />works, and the medium on which they may be stored, may contain<br />"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or<br />corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual<br />property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a<br />computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by<br />your equipment.<br /><br />1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right<br />of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project<br />Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project<br />Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project<br />Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all<br />liability to you for damages, costs and expenses, including legal<br />fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT<br />LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE<br />PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE<br />TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE<br />LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR<br />INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH<br />DAMAGE.<br /><br />1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a<br />defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can<br />receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a<br />written explanation to the person you received the work from. If you<br />received the work on a physical medium, you must return the medium with<br />your written explanation. The person or entity that provided you with<br />the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a<br />refund. If you received the work electronically, the person or entity<br />providing it to you may choose to give you a second opportunity to<br />receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy<br />is also defective, you may demand a refund in writing without further<br />opportunities to fix the problem.<br /><br />1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth<br />in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER<br />WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO<br />WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.<br /><br />1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied<br />warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.<br />If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the<br />law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be<br />interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by<br />the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any<br />provision of this agreement shall not void the remaining provisions.<br /><br />1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the<br />trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone<br />providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance<br />with this agreement, and any volunteers associated with the production,<br />promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,<br />harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,<br />that arise directly or indirectly from any of the following which you do<br />or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm<br />work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any<br />Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.<br /><br /><br />Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm<br /><br />Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of<br />electronic works in formats readable by the widest variety of computers<br />including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists<br />because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from<br />people in all walks of life.<br /><br />Volunteers and financial support to provide volunteers with the<br />assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's<br />goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will<br />remain freely available for generations to come. In 2001, the Project<br />Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure<br />and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.<br />To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation<br />and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4<br />and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.<br /><br /><br />Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive<br />Foundation<br /><br />The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit<br />501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the<br />state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal<br />Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification<br />number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at<br />http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg<br />Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent<br />permitted by U.S. federal laws and your state's laws.<br /><br />The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.<br />Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered<br />throughout numerous locations. Its business office is located at<br />809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email<br />business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact<br />information can be found at the Foundation's web site and official<br />page at http://pglaf.org<br /><br />For additional contact information:<br /> Dr. Gregory B. Newby<br /> Chief Executive and Director<br /> gbnewby@pglaf.org<br /><br /><br />Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg<br />Literary Archive Foundation<br /><br />Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide<br />spread public support and donations to carry out its mission of<br />increasing the number of public domain and licensed works that can be<br />freely distributed in machine readable form accessible by the widest<br />array of equipment including outdated equipment. Many small donations<br />($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt<br />status with the IRS.<br /><br />The Foundation is committed to complying with the laws regulating<br />charities and charitable donations in all 50 states of the United<br />States. Compliance requirements are not uniform and it takes a<br />considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up<br />with these requirements. We do not solicit donations in locations<br />where we have not received written confirmation of compliance. To<br />SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any<br />particular state visit http://pglaf.org<br /><br />While we cannot and do not solicit contributions from states where we<br />have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition<br />against accepting unsolicited donations from donors in such states who<br />approach us with offers to donate.<br /><br />International donations are gratefully accepted, but we cannot make<br />any statements concerning tax treatment of donations received from<br />outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.<br /><br />Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation<br />methods and addresses. Donations are accepted in a number of other<br />ways including checks, online payments and credit card donations.<br />To donate, please visit: http://pglaf.org/donate<br /><br /><br />Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic<br />works.<br /><br />Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm<br />concept of a library of electronic works that could be freely shared<br />with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project<br />Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.<br /><br /><br />Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed<br />editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.<br />unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily<br />keep eBooks in compliance with any particular paper edition.<br /><br /><br />Most people start at our Web site which has the main PG search facility:<br /><br /> http://www.gutenberg.org<br /><br />This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,<br />including how to make donations to the Project Gutenberg Literary<br />Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to<br />subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.<br /><br /><br /></pre>
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