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diff --git a/25479-8.txt b/25479-8.txt new file mode 100644 index 0000000..fdd68d2 --- /dev/null +++ b/25479-8.txt @@ -0,0 +1,5347 @@ +Project Gutenberg's Theophilo braga e a lenda do crisfal, by Delfim Guimarães + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Theophilo braga e a lenda do crisfal + +Author: Delfim Guimarães + +Release Date: May 15, 2008 [EBook #25479] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEOPHILO BRAGA E A LENDA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Maio 2008) + + + + +Theóphilo Braga + +E + +A LENDA DO CRISFAL + + + + +Obras de Delfim Guimarães + + +PROSA: + +*Alma dorida*, com prefácio de Teixeira Bastos, 1 vol broch. 500 réis + +*A Viagem por terra do snr. João Penha*, (crítica literária) 1 folh. 100 » + +*O Rosquedo* (Scenas da vida de província). Esgot.^o + +*Ares do Minho* (Contos) 1 vol. broch. 200 réis + +*Bernardim Ribeiro*: O poeta Crisfal (Subsídios para a Historia da +literatura portuguêsa) 1 vol. broch. 800 » + + +EM PREPARAÇÃO: + +*Luis de Camões.--Diogo Bernardes.* + + +VERSO: + +*Lisboa Negra*, 1 fol. 200 » + +*Confidencias*, 1 vol. broch. 400 » + +*Evangelho*, 1 vol. 400 » + +*Não! Mil vezes não!* 1 fol. 200 » + +*Sim! Mil vezes sim!* 1 fol. 100 » + +*Sonho Garretteano* Esgot.^o + +*A Virgem do Castelo*, (2.^a edição) 1 fol. 100 reis + +*Outonaes*, 1 vol. broch. 500 » + + +NO PRELO: + +*Flores do mal* (interpretação em versos portuguêses de poesias de +Carlos Baudelaire) + + +TEATRO: + +*Aldeia na Côrte*, drama em 3 actos, de colaboração com D. João da +Camara, representado no D. Amelia, 1 vol. broch. 500 réis + +*Juramento Sagrado*, comedia n'um acto em verso, representada no D. +Maria II, 1 fol. 200 » + + +A PUBLICAR: + +*Domingo de Páscoa*, peça de costumes minhotos. + + +OUTROS TRABALHOS: + +*A Dama das Camelias*, de _Dumas, filho_ (tradução), 1 vol. broch. 200 +réis + +*Saudades*, (História de Menina e moça), de _Bernardim Ribeiro_, edição +revista (vol. 29 da Colecção Horas de Leitura) 200 » + +*Trovas de Crisfal*, de _Bernardim Ribeiro_, edição revista 300 » + +*Versos portuguêses*, de _Sá de Miranda_, edição revista 500 » + + + + +DELFIM GUIMARÃES + + +Theóphilo Braga + +E + +A Lenda do Crisfal + + +1909 +Livraria Editora +GUIMARÃES & C.^a +68, Rua de S. Roque, 70 +LISBOA + + + + +THEÓPHILO BRAGA +E A LENDA DO CRISFAL + + + + +I + +Razão de ser d'este livro + + +Quando em maio de 1908 tornamos pública a conclusão a que haviamos +chegado de ser _Crisfal_ um pseudónimo do autor da _Menina e moça_, como +procurámos demonstrar no volume recentemente dado á estampa: *Bernardim +Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), tinhamos o convencimento pleno de que uma +tal nova, divulgada pela imprensa, seria bem acolhida por quantos se +interessam pelo estudo da nossa História literária, com excepção apenas +do snr. dr. Theóphilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de +Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas +sentenças, nem vê com bons olhos que outros, que não s. ex.^a, encarem +problemas que se prendam com a História da literatura portuguêsa. + +E n'este caso do _Poeta Crisfal_, mais do que em nenhum outro, o snr. +dr. Theóphilo Braga não desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que +teremos ocasião de apontar no decurso d'este livro. + +Não contavamos com o acolhimento benévolo do infatigavel escritor. Para +fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos, +tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforço pouco generoso +do snr. dr. Theóphilo Braga para com a memória d'esse desventurado que +se chamou Antero,--porque o poeta incomparavel dos _Sonetos_ ousara +flagelar o dogmatismo scientífico do antigo camarada universitário; o +fel que o plumitivo da *Historia da Litteratura* deixa transparecer nas +apreciações com que, baldadamente, procura amesquinhar a figura +gigantesca de Herculano,--porque o insigne historiador nacional jàmais +se associou aos turibulários do filósofo comtista (sem calemburgo);--o +desdem com que o professor de literatura apoda, soberanamente, de +_gramático_, o distinto romanista, snr. Epiphánio Dias,--por este haver +despedaçado, com a autoridade do seu nome, aquela invenção alegre dos +_cantos de ledino_, em que o snr. dr. Theóphilo continua a persistir, +apesar de tudo, com manifesta falta de sinceridade. + +Mas não ignorando taes precedentes, e conhecendo que o estudo que iamos +apresentar ao público não deixaria de nos acarretar a má vontade do +autor da _História da Litteratura Portugueza_, nem por um momento +hesitamos em levar a bom termo o nosso trabalho, tendo em atenção tam +sòmente que se tratava de desfazer uma lenda, estúpida como tantas +outras lendas, que privava de parte da glória a que tinha jus o nome +aureolado de um dos maiores poetas portuguêses, o delicado e inditoso +Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim. + +Derruíamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas erguiamos a um +pedestal mais grandioso e altívolo a figura amoravel do grande +bucolista. + +A literatura portuguêsa só ganhava com a descoberta. Que, se alguma +cousa perdesse, era sobeja compensação o que se conquistava para a +verdade histórica... + +Mas a proclamação de uma tal verdade ia prejudicar um livro, ou livros, +do snr. dr. Theóphilo Braga... Não havia dúvida. Que importava isso? +Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da Écloga +de _Crisfal_, não valeria a pena sacrificar uma das muitas produções do +operoso escritor? + +Bernardim Ribeiro é um dos astros fulgurantes da rútila constelação que +brilha, intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. Já conta alguns +séculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor... + +Após a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu _Diario de +Noticias_, dando conta dos nossos trabalhos de investigação, que punham +termo á lenda de _Crisfal_, tivemos a ventura de ver que o snr. José +Pereira Sampaio (_Bruno_) havia chegado a conclusão idêntica á nossa, +como foi registado n'um brilhante artigo de João Grave no _Diario da +Tarde_, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de _Bruno_, +reproduzida no jornal citado, em que o prestigioso publicista, com a +reconhecida autoridade do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava +de maneira absoluta que estavamos com a verdade; que o _trovador_ +Cristovam Falcão era simples produto de uma lenda, que o criptónimo +_Crisfal_ pertencia a Bernardim Ribeiro. + +Do artigo do nosso camarada João Grave, e da carta do ilustre escritor +snr. José Sampaio, não faremos citações n'esta altura. Ambos os +preciosos documentos se encontram integralmente exarados no nosso livro +_Bernardim Ribeiro_. Não os desconhecem, por certo, aqueles que nos dão +a honra da leitura d'este trabalho. + +Como recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga essas comunicações do _Diario de +Noticias_, de Lisboa, e do _Diario da Tarde_, do Porto? + +--Passando a José Pereira Sampaio (_Bruno_), e a nós outros, um diploma +de ignorantes! + +Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal _A Epoca_ a secção que o +escritor snr. Silva Pinto tinha a seu cargo, e que n'essa data +estampava, reproduzida do _Diario da Tarde_ do Porto, a seguinte carta +do snr. dr. Theóphilo Braga: + + + _«Meu caro João Grave_:--Encantou-me o favor da sua carta, + communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho + amigo e luminoso critico José Sampaio sobre a apochryficidade do + auctor do «Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato Delfim + Guimarães. É sempre boa a vindicação d'uma verdade em qualquer + campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma + conquista, d'um triumpho. + + Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é realidade + demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim + Guimarães, sobre a identidade de Christovam Falcão em Bernardim + Ribeiro. *Isso, porém, não passa d'uma miragem, por falta de + conhecimento dos existentes recursos historicos*[1]. + + Diogo do Couto falla em Christovam Falcão como celebrado auctor do + «Crisfal», quando narra factos praticados por seu irmão Damião de + Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India, + inventava-lhe um irmão? E tendo sido impresso o «Crisfal» sem nome + d'auctor, (no _pliego-suelto_ da Bibliotheca Nacional de Lisboa) + dava-o como auctor d'essa celebrada écloga a capricho seu? O Padre + Antonio Cordeiro, na «Historia Insulana», (resumo das «Saudades da + terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões) tambem faz as + mesmas referencias ao _poeta_ Christovam Falcão. E a edição de + Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome? + E Frei Bernardo de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda + parte do «Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D. + Maria Brandão, a namorada d'este poeta do «Crisfal». + + Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a + lume os seus resultados. A vantagem é de nós todos. + + Com um abraço do seu, etc. + + Theophilo Braga.» + + +Para o professor do Curso Superior de Letras, a conclusão a que, tanto +_Bruno_ como nós, haviamos chegado, não passava *d'uma miragem, por +falta de conhecimento dos existentes recursos historicos*, e esta +sentença autoritária vinha a público quando o snr. dr. Theóphilo Braga +ignorava em absoluto quaes os argumentos com que nós e o insigne +publicista nosso conterráneo procurariamos fazer vingar nossas teses. + +Magoou-nos a impertinência, confessamos, e não resistimos a manifestar +publicamente a impressão em nós produzida pela prosa do snr. dr. +Theóphilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta a João +Grave, que este distinto jornalista fez inserir no numero de 1 de junho +do _Diario da Tarde_: + + + «_Meu prezado camarada João Grave_:--Acabo de ler, reproduzida por + Silva Pinto na «Epoca», a carta que o snr. dr. Theóphilo Braga + dirigiu ao meu caro João Grave a propósito do trabalho que preparo, + em que me proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente um + anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por + conseguinte a este lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a + Cristovam Falcão. + + O nosso bom amigo e erudito escritor José Pereira + Sampaio--_Bruno_--, como se viu da interessante carta que estampou + no «Diario da Tarde», como complemento ao artigo que o meu caro + João Grave publicou sobre o assunto, chegara a conclusões eguaes, e + para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno + viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu + concurso. + + Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se isto uma + «_miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos + historicos_», que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de + Brito. + + Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de dizer no seu + jornal que conheço perfeitamente os _recursos históricos_ a que + alude o incansavel historiador da _Litteratura Portugueza_, como + não podia deixar de conhecer pela leitura das edições do «Bernardim + Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga. + + Que Bruno não ignora nenhum d'esses _recursos_, estou convicto, + que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga + póde ter dúvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao + justificado nome literário de José Sampaio. + + Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo + nenhum eu vou sustentar que não existiram vários _cavalheiros_ com + o nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem existido não + tomaria vulto até aos nossos dias a lenda do «Crisfal»! + + Não o enfado mais. + + Creia-me, com verdadeira estima, + + seu amigo, adm.^{dor} e obg.^{do} + + S/C. Lisboa, 29-maio/90. + + Delfim Guimarães.» + + +A _Bruno_ tambem não passou despercebido o _amavel_ diploma do professor +do Curso Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu +melindrado prova-o suficientemente a carta que dirigiu a João Grave, e +que, confiados na benevolência do sr. José Pereira Sampaio, vamos +trasladar das colunas do jornal _A Epoca_, que a reproduziu do _Diario +da Tarde_: + + + «_Meu caro João Grave_:--Novamente o venho importunar, pois entendo + que, perante a carta, aliás tão bondosa e honrosa para mim, do dr. + Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar + em publico, ainda uma vez, que após o apparecimento do livro de + Delfim Guimarães, defendendo a propozição de que Christovam Falcão + não é mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V. + na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre + outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que + refutarei ahi cabalmente as asserções, na sua carta de hontem no + «Diario da Tarde», pelo nosso doutissimo confrade e illustre + publicista produzidas, mostrando então, com todo o respeito devido + a tão indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de + Delfim Guimarães) não é tal uma miragem e que, pelo contrario, o + ensino corrente no assumpto é que é inteiramente phantastico e + chimerico. + + A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento. + + Todo seu + + Porto, 27 de Maio de 1908. + + José Pereira Sampaio (Bruno).» + + +O snr. dr. Theóphilo Braga achou que era prudente não voltar á estacada, +e assim deixou passar em julgado a nossa carta e aquela em que o snr. +José Sampaio, por uma fórma categórica, visando directamente as lições +ministradas pelo professor de literatura, declarava que o ensino +corrente sobre Cristovam Falcão era _inteiramente phantastico e +chimerico_. + +Na elaboração do livro: *Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_) +obedecemos ao propósito de não converter o nosso trabalho n'uma +diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a situação em que eramos +forçados a colocar o snr. dr. Theóphilo Braga, em obediência á verdade, +e não porque nos animasse qualquer desejo de ser desagradaveis ao +infatigavel vulgarizador. E, procedendo assim, entendiamos cumprir um +dever, que tinha sobeja justificação nos cabelos brancos do professor do +Curso Superior de Letras, cuja primeira edição do seu _Bernardim +Ribeiro_ coincidiu com o ano do nosso nascimento. Não esquecemos nunca +que fomos educados no respeito devido á velhice. + +No trabalho da revisão das provas do nosso estudo, em que fomos +auxiliados pela prestante amizade de Henrique Marques, mais de uma vez +modificámos referências feitas ao professor que contraditavamos, e +sempre da melhor vontade substituiamos um adjectivo, suavizavamos a +saliência de um erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique +Marques, com o seu apreciavel critério, nos fazia notar que uma palavra, +uma frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr. +dr. Theóphilo Braga. + +Queriamos fazer vingar uma obra de justiça; não era nosso intento +agravar quem quer que fosse. + +E que não fomos descortêses, nem violentos, nem injustos, para com o +professor que contraditavamos, prova-o o testemunho insuspeito do +eminente publicista snr. José Caldas, que nos honrou com uma carta +penhorantíssima, de que reproduziremos neste lugar algumas linhas: + +«*A delicadeza das suas referencias, com relação aos auctôres cujas +conclusões não acceita ou impugna, é verdadeiramente modelar.*» + +Se houvessemos sido menos cortêses para com o snr. dr. Theóphilo Braga, +s. ex.^a não se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a +oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o +professor do Curso Superior de Letras escreveu-nos a agradecer o livro, +embora na sua carta transpareça o despeito que lhe produziu o nosso +estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vários erros contidos +em volumes da _Historia da Litteratura Portugueza_. + +Registâmos aqui essa carta do snr. dr. Theóphilo Braga, que não deixa de +constituir um documento interessante para aqueles que seguirem com +atenção a marcha dos acontecimentos provocados pela pendência literária +em que estamos envolvidos. + +É, textualmente, como segue: + + + «Lisboa, 25 de Novembro de 1908 + + + _...sr. Delfim Guimarães + e meu presadissimo amigo_ + + + Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que + apresenta o seu processo para a identificação do poeta Bernardim + Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria + tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma + biographia de Christovam Falcão com elementos historicos + (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de + ler immediatamente o seu livro, para vêr que materiaes traria para + o aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a + justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras + emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp + Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam Falcão amou, sendo + ambos muito creanças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no + fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de + continuar a admittir as relações pessoaes de Christovam Falcão com + Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com + um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle + figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V., + acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais + antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas + de Bernardim, (eliminadas as relações com Christovam Falcão), e + mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, + influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e + intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa + historica, de Diogo do Couto, na sua _Decada VIII_, que, fallando + de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: + «irmão de *Christovam Falcão*, aquelle que fez aquellas cantigas + nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido + pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam + Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Christovam + Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do + seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por + curiosos sem criterio litterario se repete a attribuição «_que + dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da + mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos + de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos + genealogistas. A Ecloga do Crisfal não podia ser publicada pelo seu + auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_ + de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada. A + edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando + Christovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em + 1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do + _Crisfal_, que então, andava no gosto. Na edição de Lisboa vem duas + estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que + continham uma _inconfidencia_. Isto leva a explicar como Christovam + Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe + a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os + logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão provam mais + a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois + poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas + de paixão amorosa que se não confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia + e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em + situações differentes. Através de todo o hypercriticismo o livro + sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me + veio revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no + Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga _Alexo_ + assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante + estudo, sou + + + admirador obr.^{mo} e amigo + + Theophilo Braga» + + +Começa a carta do snr. dr. Theóphilo Braga por um _rebuçado de ovos_: o +tratamento de «prezadissimo amigo», que não tinha qualquer +justificação... Isto é, tinha uma justificação única, qual era a de nos +adoçar a bôca, para engulirmos sem relutância aquela amargosa pílula com +que fecha a epístola de s. ex.^a, quando, com generosa magnanimidade, +confessa que o nosso livro _revelou um trabalhador fervoroso_, que ao +professor do Curso Superior de Letras foi _revelar a existencia de um +exemplar da edição de Ferrara, no Porto_, e que em Lisboa _descobriu o +texto precioso da ecloga_ *Alexo* _assignada por Sá de Miranda_. + +E, graças a estas _revelações-revelativas_, a que não ligavamos +importância de maior, o historiador da *Litteratura Portugueza* +felicitava-nos pelo nosso _importante estudo_, que, volvidas algumas +semanas, havia de classificar de fruto de _processos á tôa_! + +Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr. +dr. Theóphilo Braga. + +Por agora, continuemos na catalogação das peças d'este processo, para +que os leitores julguem da justiça que nos cabe, e avaliem da +sinceridade, da correcção, e dos processos do professor intangivel. + +No jornal _O Mundo_, de 3 de dezembro de 1908, na local consagrada á +sessão da Academia das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos +que o snr. dr. Theóphilo Braga fizera uma comunicação, que outra cousa +não era senão um desmentido formal e gratuito ás conclusões do nosso +livro,--mas sem a mais leve citação ao nosso obscuro nome, sem a menor +referência ao nosso desluzido trabalho, embora aproveitando-lhe os +subsídios. Comprehende-se: o ilustre académico não desejava contribuir +de modo nenhum para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao +volume sobre o _Poeta Crisfal_. + +Transcrevemos do _Mundo_ o periodo referente a tal comunicação... +scientífica: + + + «...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão, + mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526, + sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao + passo que aquelle era já edoso; evidencia como na Ecloga + transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e + termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e + outros que comprovam a existencia das duas individualidades que + apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jàmais + confundir-se». + + +Ante este procedimento do nosso _prezadissimo amigo_, não pudemos ficar +silenciosos, e, como um desforço legítimo, inadiavel, apelamos para o +snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas colunas da +_Lucta_ a seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero +de 4 de dezembro do seu diário: + + + _«Ex.^{mo} Snr. Dr. Brito Camacho, + meu prezado amigo:_ + + + Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se + passou na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi + que o snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse, + procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro, + e insistindo na lenda do _poeta_ Cristovam Falcão de Sousa. + + Não me admira que o original autor da «Historia da Litteratura + Portugueza» persista n'um erro crasso, só para não se confessar + vencido, porque já o caso engraçadíssimo dos _cantos de ledino_ era + precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do + Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de + reconhecer publicamente que errou. Está no seu direito, e ninguem + lh'o contesta. + + Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim + Ribeiro, em que não torci a meu bel-prazer a verdade, nem + falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o dever + moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justiça, antes de + ir para o seio de uma agremiação, a que eu não pertenço, impor um + desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu + trabalho. + + E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr. + Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto é certo que + s. ex.^a não desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira + Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu. + + Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de boa fé, + quem lhe assegura que os argumentos de Bruno não conseguirão + convencê-lo, já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal não + conseguiram? + + É tempo de pôr de parte o _magister dixit_, porque, felizmente, os + processos crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são coisas que + passaram á _historia_, e que não se ressuscitam já facilmente. + + Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade + na nossa _Lucta_ a esta minha carta, que representa o legítimo + desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como + tal tem jus a ser considerado. + + Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever, + + + De V. Ex.^a + + amigo, admirador e obrigado + + S/C, Lisboa, 3-12-908. + + Delfim Guimarães.» + + +Com o espírito de rectidão que todos, amigos e adversários, são +concordes em reconhecer ao snr. dr. Brito Camacho, o brilhante +jornalista deu acolhimento benévolo á nossa carta, acrescentando-lhe as +seguintes linhas de saudação ao professor do Curso Superior de Letras: + + + «O nosso ilustre correligionario dr. Theóphilo Braga tem as + columnas d'este jornal ás suas ordens para dizer da sua justiça, + como quizer. Trata-se d'uma questão de facto em historia literária, + e não d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que + seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.» + + +Não correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga á gentileza do director da +_Lucta_; e até para comnosco estamos persuadidos de que, desde o momento +em que s. ex.^a viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito +Camacho é a alma, o pontífice da _Litteratura Portugueza_ excomungou o +intemerato jornalista. Que o dr. Camacho nos perdôe a excomunhão que, +involuntariamente, lhe acarretamos! + +Guardou silêncio o snr. dr. Theóphilo Braga durante semanas, mas não +esteve inactivo, ao contrário do que muitos poderiam supor. Com todo o +engenho e arte, s. ex.^a consagrou-se ao fabrico de uma peça, que não +podemos classificar de literária, porque é a negação de todos os +processos literários dignos de este nome, mas a que poderá caber a +designação de produto de arte... culinária. Como _pastelão_, faria honra +a um cozinheiro, mas cremos bem que o snr. dr. Theóphilo Braga deseja +passar á posteridade como um discípulo fervoroso de Augusto Comte, e não +como aprendiz ilustre da _sciência_ de Vatel. + +A redacção do jornal _O Dia_, seguindo a praxe dos anos anteriores, +honrou o snr. dr. Theóphilo Braga pedindo lhe um artigo sobre o +movimento literário português em 1908, para o numero de 31 de dezembro +d'esse ano. Como nunca, recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga jubilosamente +o amavel convite. Tinha ensejo para impingir... o _pastelão_. Era o +momento oportuno para respostar á nossa carta publicada na _Lucta_, sem +nos dar a honra de deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confissão +de que havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro +procedimento por parte do snr. dr. Theóphilo Braga? Não, evidentemente. +Pois não haviamos nós,--cúmulo das audácias!--ousado protestar contra a +comunicação do presidente da Academia de Sciencias de Portugal?! + +Reproduzimos do _Dia_ de 31 de dezembro do ano findo a parte do artigo +do snr. Theóphilo Braga que diz respeito á questão literária suscitada +pelo nosso livro: + + + «...No recente fasciculo (do Archivo historico português) ficou + publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria + de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia + financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o + _Maria Brandoa a do Crisfal_, por que o pae d'esta dama, que + inspirou o amor e a Ecloga de Christovão Falcão, foi o pae d'ella, + João Brandão Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo + Gomes de Figueiredo. + + Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta + mesma inscrição: _Maria Brandoa a do Crisfal_; e nos livros dos + linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca + Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a + parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandões + Sanches, confundidos por vezes com os Brandões do Porto, com os de + Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve + em uma nota: «Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal + não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, + e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do + romance _Menina e Moça_ d'aquelle auctor.» E accrescenta que o sr. + Delfim Guimarães empenhado na interessante averiguação o + consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua + argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina. + + Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu livro + _Bernardim Ribeiro_--_o Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido + da biographia do auctor da _Menina e Moça_, forçando interpretações + de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no + espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe + causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de + Christovam Falcão,--«dois poetas de temperamento semelhante, com + eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios + nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos + absolutamente eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um + unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de + Christovão Falcão como uma lenda estupida formada pelos + genealogistas, e formou o nome de _Crisfal_ indo buscar á tôa as + palavras _Crisma falsa_, tirando-lhes as syllabas iniciaes para + designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. «Fez-se então uma + grande luz no nosso espirito. Não se tratava de dois poetas muito + parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e + Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falcão era o + producto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo + (![2]) ao anagrama _Crisfal_.» (Op. cit., p. 10). «Alcançada a + convicção de que _Crisfal_ era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e + norteados pelo conhecimento de que nas suas producções o poeta + mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho + de raciocinio não nos foi difficil deduzir a constituição do + cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras + _Crisma_ e _Falso_.» + + E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves + Vianna--honra a erudição portugueza,--ataca as fontes genealogicas + d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de + lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo + ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos + escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi + Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir: + «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet + a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome + litterario do verdadeiro _Crisfal_, o doce, o inimitavel e + inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde + chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga + de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes como o de + _Pantaleão_ Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o + casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de + Freitas? + + Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com + os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180 da + Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de + Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago + do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um + manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a _Menina + e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e até se acham no fim + algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo + logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dic. Bibliog._) + + Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de + Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos + como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para + destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo + da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia, + reputava de alta importancia para a historia das lettras + portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo + da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta + Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por + isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram + n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de + outra individualidade.» + + No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, + proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade + inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira + descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em + que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, + dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha + unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam + em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com + a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha + portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam + Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, + corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os + logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a + distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já + era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa, + intercalava na sua prosa.» + + +Esta produção peregrina do snr. Dr. Theóphilo Braga veio publicada no +jornal _O Dia_ com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras +em _fac-simile_, e ainda bem, para que não se pudesse ajuizar tratar-se +de uma brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse. + +Quando lemos um tal documento, a primeira impressão que se apoderou de +nós foi a de revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir +esta--um sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mágoa... + +E, sem prazer, pudemos constatar que a impressão que o snr. Dr. +Theóphilo Braga deixára nos leitores inteligentes do seu tendencioso +_Movimento Litterario_ era egual á nossa,--uma sincera mágoa. + +Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados, e +o nosso trabalho depreciado com tal rancor e má fé, que não podiamos +ficar silenciosos. + +No jornal a _Lucta_, do dia 3 de Janeiro d'este ano, como protesto, +publicamos o artigo que vamos reproduzir: + + +*Os processos... scientíficos do snr. dr. Theóphilo Braga* + +Não se dignou o sr. dr. Theóphilo Braga aceitar o oferecimento que o +distinto jornalista que dirige _A Lucta_ lhe fez em 4 de dezembro +ultimo: pondo á disposição de s. ex.^a as colunas deste diário, para que +o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua justiça em face +da carta que tive ensejo de dirigir ao meu bom amigo snr. dr. Brito +Camacho, estampada n'este jornal, motivada pelo procedimento estranhavel +seguido para comigo pelo snr. dr. Theóphilo Braga. + +Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o +professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente +silêncio, eis que o sr. dr. Theóphilo Braga, a pretexto de pôr os +leitores do _Dia_ ao corrente do movimento literário no ano findo, com +ares dogmáticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele jornal +com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as conclusões +do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro. + +Não me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do snr. dr. +Theóphilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso para o professor do +Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma vez dois dos volumes +da sua chamada edição integral da _Historia da Litteratura Portugueza_: +«Sá de Miranda» e «Bernardim Ribeiro». Isto, junto ao conhecimento que +possuo da maneira de ser do snr. dr. Theóphilo Braga, é para mim +explicação bastante do seu ressentimento, que a prosa do infatigavel +«carreador de materiaes» não consegue disfarçar. + +A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei +resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto +praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é +compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um +jornal da índole da _Lucta_. + +Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado +amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve, +algumas inexactidões flagrantes do artigo _Movimento litterario_, do +snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a _correcção_ dos +processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras. + +Referindo-se ao ultimo tomo do _Archivo Historico_, a revista dirigida +pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor +encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr. +dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a +entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é +facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria +Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de +fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta _Crisfal_. + +Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com +maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos +ardilosamente engendrados: + + + «O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata + de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam + Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é + Maria Brandão, mas sim a mesma do romance _Menina e Moça_ d'aquelle + auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na + interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em + que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o + da rotina.» + + +Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire +não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como +não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s. +ex.^a gratuitamente lhe atribue. + +Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga +interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem: + + + «O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante + averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que + servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não + apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita + não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no + pleito e continuarei com a rotina.» + + +Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara +as _bases_ em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente _as +principaes bases_, e o consciencioso investigador não declarava que taes +bases _não conseguiram demovê-lo da rotina_, mas sim que «em quanto não +aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não +transitasse sem apelação em julgado, _não lhe competia intervir no +pleito e continuava com a rotina_». + +Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia +de correcção do ilustre escritor?--Para se servir, como de um escudo +protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando, +com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que +tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a +individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do +_Archivo Historico_. + +Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na +2.^a pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o +erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho, +conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro +_Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_. + +Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a +gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado +convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo +abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova +feita transitasse em julgado--muito embora isto pese ao snr. dr. +Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr. +Gonçalves Viana, achasse que o meu livro _Bernardim Ribeiro_ fazia honra +á erudição portuguêsa. + +Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo +éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um +dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a +prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que +o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a +lendária amada do Crisfal, passara á historia... + +Foi fazer companhia aos _cantos de ledino_... + +Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo +Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos... +scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente, +intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no _Dia_. + +É como segue: + + + «...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos + oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro + capitulo, um dado importante para a biographia de *Maria Brandôa, + já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de + heroina da ecloga Crisfal*.» + + +Ás afirmações, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no _Diario +da Tarde_, do Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio +(_Bruno_), refere-se tambem o snr. dr. Theóphilo Braga da seguinte +maneira: + + + «No noticiario de outro jornal sairam afirmações absolutas, + proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade + inconsciente que afasta de todo a idéa de ironia». + + +O snr dr. Theóphilo Braga, referindo-se, com desdem, á _sinceridade +inconsciente_ de Bruno, não nos magôa sómente a nós, que votamos uma +grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras +Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das suas mais legítimas +glórias. + +Tristes processos está seguindo o snr. dr. Theóphilo Braga! + + + Delfim Guimarães + + + +O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da _Lucta_ ao +nosso artigo, nòvamente pôs o seu jornal á disposição do snr. dr. +Theóphilo Braga, para que s. ex.^a, querendo, dissesse de sua justiça. O +professor do Curso Superior de Letras não aceitou o oferecimento que +pela segunda vez lhe era feito. + +E, em verdade, que havia o autor do artigo _Movimento Litterário_ de +dizer em contestação do libelo documentado que tinhamos produzido? +Nenhuma justiça lhe assistia, e por consequência não ousou reclamar. +Recolheu-se ao silêncio,--áquele prudentíssimo silêncio que se seguiu á +publicação do notavel trabalho do Dr. Sílvio Romero sobre a _Patria +Portuguêsa_. + +No artigo que publicamos na _Lucta_, de 3 de janeiro do ano em curso, +tomámos o compromisso de tratar em livro todos os pontos tocados pelo +snr. dr. Theóphilo Braga no seu aranzel do _Dia_, com a largueza e +documentação que o assunto exige, em homenagem á memória de Bernardim +Ribeiro; pelo dever moral que nos impusemos de contribuir, quanto em +nossas mingoadas forças caiba, para que justiça seja feita, embora +tardia, a um dos mais belos temperamentos poéticos da nossa terra. + +Uma lenda é fácil de forjar, e com facilidade toma corpo e lança raizes, +obcecando muitas vezes os mais esclarecidos espíritos. + +A nossa Historia Literária está cheia de lendas e embustes, graças aos +Farias e Sousa e Bernardos de Brito. Mas a Verdade, superior a todas as +lendas, e a todas as reputações de historiadores burlões e de críticos +trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora isso leve anos, embora +decorram séculos. + +Na defeza da causa que prosseguimos, que é nobre e justa, não nos animam +quaesquer intuitos de evidenciação, não nos move qualquer mesquinho +sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos contribuir com +o nosso esforço de modestos obreiros das letras para desfazer um erro +que a ignorância engendrou, que a rotina não-te-ralesca impôs como um +dogma, e que a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Theóphilo Braga +persiste em sustentar, a torto, que não a direito, impondo-o +autocraticamente a quantos vêem no professor do Curso Superior de Letras +o pontífice máximo, ditador inviolavel e sagrado da Republica... das +letras portuguêsas. + + + + +II + +O snr. dr. Theóphilo Braga, descobrindo a verdade, e procurando +enterrá-la + + +Ao preparar os materiaes para a refundição de seu livro sobre Bernardim +Ribeiro, o snr. dr. Theóphilo Braga teve ensejo de reconhecer que a +figura do _trovador_ Cristovam Falcão era mero produto de uma lenda, mas +não teve a coragem precisa para vir a público declarar que tinha errado +ao dar á estampa o seu primeiro volume sobre os poetas bucolistas, em +que, seguindo a rotina, dera existência real ao suposto poeta, que já +havia classificado de *ultimo eco do alaúde provençal, modificado pelo +gosto hespanhol de Padron e Stuniga*.[3] + +E não querendo confessar que errara, como se semelhante facto +constituisse desdoiro ou apoucasse de qualquer fórma seus méritos, o +autor do livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ procurou, por um +processo que não nos atrevemos a chamar genial, enterrar a verdade, +sepultando-a sob um pedregulho enorme, para que ali dormisse um sono de +séculos, tantos séculos pelo menos como a lenda contava, para que, +assim, ninguem pudesse aludir ao erro em que se deixara enredar o +professor do Curso Superior de Letras. + +Como o snr. dr. Theóphilo Braga procedeu, vão os leitores conhecer, e +depois ficarão habilitados a julgar da sinceridade com que o infatigavel +escritor impugna o nosso livro sobre o poeta _Crisfal_. + +A pag. 356/7 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, na parte +respeitante a Cristovam Falcão, escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga: + + + *«O primeiro documento historico que encontramos acerca do poeta, + de um modo irrefragavel, é datado de 1517; é uma graça régia + motivada talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraçada + paixão, ou apparentemente pelos serviços de seu pae. Em um alvará + ao Almoxarife de Coimbra foi passada ordem para que dê o rendimento + d'este anno de 1517 a Christovam Falcão: 97:000 réis. Recebeu-os o + seu procurador Mestre Jorge.»* + + +Como se vê da transcrição feita, o autor declarava que o documento +invocado referia-se ao suposto poeta *de um modo irrefragavel*, isto é: +«*irrecusavelmente, incontestavelmente*.» Esse documento dizia respeito, +segundo inculcava o snr. dr. Theóphilo Braga, a _uma graça régia_, mercê +de _97$000 réis_, concedida ao suposto bardo _talvez pela sympathia que +suscitava a sua desgraçada paixão, ou apparentemente pelos serviços de +seu pae_. + +Ora fazendo taes afirmativas, autoritária e catedraticamente, o snr. dr. +Theóphilo Braga abusava da boa fé dos seus leitores, por isso que s. +ex.^a muito bem conhecia que estava deturpando a verdade, a seu +bel-prazer, que nada d'aquilo que apregoava como autêntico era +verdadeiro. + +Nem o alvará de 1517 dizia respeito ao suposto poeta, nem semelhante +alvará mencionava a verba de 97$000 réis. + +Tratava-se de uma tença de 97$734 reis (resultante de dois padrões) que +pertencia a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, e não ao +suposto poeta Cristovam Falcão de Sousa. + +Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a existência dos dois +padrões constituitivos da referida tença?--Não ignorava. E a prova de +que os não desconhecia está nas citações que s. ex.^a faz a paginas +331/2 do seu mencionado livro, atribuindo-os a quem eles diziam +respeito, isto é a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, que nada +tinha que ver com o suposto poeta, como o snr. dr. Theóphilo Braga, de +resto, muito bem estabelecia. + +Mas a existência de uma tença de 97$000 reis, pelas alturas de 1517, a +favor de Cristovão Falcão de Sousa, comprovaria de certo modo a data em +que o snr. dr. Theóphilo Braga fixou habilidosamente o nascimento do +_ultimo eco do alaúde_, e permitia ao fantasioso escritor justificar tam +rasgada mercê régia atribuindo-a á _sympathia que suscitava a sua +desgraçada paixão_. + +D'esta maneira, servindo-se de um alvará que não dizia respeito ao +suposto poeta, e alterando-lhe caprichosamente a quantia mencionada, o +snr. dr. T. Braga creava um _recurso histórico_ graças ao qual os +discípulos do professor do Curso Superior de Letras podiam aceitar que +pelas alturas do ano da graça de 1517 já existia um afamado poeta com o +nome de Cristovão Falcão, tam desventurado em seus amores que el-rei, +compadecido, lhe fizera mercê da tença, verdadeiramente principesca, de +97$000 réis! E sucedendo um _caso_ d'estes em nossos dias, ainda ha quem +ache estranho que Faria e Sousa e frei Bernardo de Brito improvisassem +(é este o termo próprio?) documentos... históricos! + +Ao publicarmos o nosso trabalho sobre Bernardim Ribeiro, não salientamos +devidamente estes pouco recomendaveis processos do snr. dr. Theóphilo +Braga, poupando, com generosidade, o nome do encanecido trabalhador, em +respeito aos seus cabelos brancos. + +E á nossa manifesta generosidade correspondeu o aclamado professor +apodando os nossos processos críticos de:--processos... á tôa! + +Que nome conceder a esses processos do snr. dr. Theóphilo Braga? + +Mas não ficaram por aqui as habilidades de que se serviu o autor da +_Historia da Litteratura Portugueza_. E chamamos-lhes _habilidades_, por +não encontrarmos á mão um termo mais anodino, mais suave, mais doce, +para definir o feito, e não por qualquer propósito agressivo. + +Existem na Torre do Tombo cartas autógrafas do suposto autor do +_Crisfal_. A simples publicação d'essas cartas constituiria um golpe +decisivo na lenda que atribuia produções de Bernardim Ribeiro a +Cristovão Falcão de Sousa, por isso que taes documentos revelam que +este, alem de iletrado, não escrevia meia dúzia de linhas sem uma +enfiada de asneiras...--«_uma acumulação de tolices_», no dizer +insuspeito de uma ilustre escritora. + +Que fez o snr. dr. Theóphilo Braga? + +Publicou essas cartas, alterando-lhe, paternalmente, a ortografia e a +gramática, e deixando assim transparecer que o autor de taes escritos +poderia muito bem ter produzido as poesias bucólicas que lhe atribuiam. + +Para que se não ajuízasse que faziamos uma afirmação gratuita ao dizer +que o snr. dr. Th. Braga publicara _emendada_ a obra... em prosa de +Cristovam Falcão, démos no volume _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal) +uma reprodução foto-zincográfica de uma das cartas do suposto poeta, e, +não desejando colocar n'uma situação pouco invejavel o professor do +Curso Superior de Letras, escrevemos, procurando desculpar o seu +procedimento: + + + «........o copista, a quem o distinto professor encarregou de + reproduzir o documento existente na Torre do Tombo, forneceu-lhe + uma reprodução _com summa deligencia emendada_, que o snr. dr. + Theóphilo, com a melhor boa fé, estampou no seu livro, e que muito + se afasta do original.»[4] + + +Nem na sua comunicação á Academia das Sciências de Portugal, nem no seu +artigo do jornal «O Dia», nem na carta que nos dirigiu, se referiu, +embora ao de leve, o snr. dr. T. Braga á carta de Cristovam Falcão de +Sousa... Compreende-se. O documento é tam esmagador, que o infatigavel +polígrafo foge d'ele como dizem que o diabo foge da cruz. + +Mas, embora isso não agrade a s. ex.^a, vamos dar aqui a reprodução +paleográfica de outra carta de Cristovam Falcão de Sousa, devendo +elucidar os leitores que o snr. dr. Theóphilo Braga já deu publicidade a +tal documento a pag. 368/70 do seu _Bernardim Ribeiro_ (edição +refundida). Mas deu-lhe publicidade: _emendando-o_... + +Como não temos a peito celebrizar o alto engenho e mais partes que +concorriam na pessoa do suposto poeta, reproduzimos a carta fielmente, +e, para desfazer algum erro de leitura ou qualquer _gralha_ que passe á +revisão, juntamos em foto-gravura o seu _fac-simile_. + +Eis a carta: + +[Figura: Reproducção foto-zincográfica da carta de Cristovam Falcão de +Sousa] + + + «Sñor. mjnha jrmã dona bracajda faleceo da ujda presemte a dez dias + deste mes pasado estando eu nesa corte [~e] serujço de v. a. onde + me foy a noua pera [~q] viese prover [~e] alg[~u]as cousas da su + alma por me ela dejxar por seu testam[~e]tejro cõ seu marido ejtor + de figuejredo. fiquou-lhe h[~u] só filho e doutro marido [~q] deste + não ouve nenh[~u] e tão Riquo [~q] me diz[~e] que foy posta a + faz[~e]da de seu pay quãdo faleceo (que eu não era no Rejno) [~e] + doze contos. fez meu pay antes [~q] eu de la partise petição a uosa + a. [~q] lhe mãdase [~e]tregar seu neto e tirar de poder de seu + padrasto. sayo lhe na petição [~q] Requerese ao Juiz dos orfãos da + uila donde ho moço está que he borba donde seu padrasto he natural + e alquajde mor pelo duque de bragança e que ele prouerja e que não + no faz[~e]do proverja [~e]tão vosa a. a qual delig[~e]cia eu tenho + fejto que Requery ao Juiz [~q] lho tjrase de poder e que fose loguo + por [~q] eu tjnha sabjdo [~q] eitor de figueiredo detremjnaua + quasar ho moço cõ sua f.^a no fim deste mes [~e] que lhe diziã que + ho moço faz quatorze anos pera ho matrimonjo ser valioso. mãdou ho + Juiz dar ujsta de meu Requerim.^{to} a eitor de figueiredo e njsto + e [~e] ele Responder pasaram ojto dias e nestes me fizerão mujtos + agrauos alomgãdo me ho tempo e me fizerão perdediça h[~u]a petjção + dagrauo na qual agrauaua pera v. a. apresemtandoa eu [~e] audiencja + onde foy lida e jsto tudo por ele ser alquajde mor e ser toda a + ujla de seus paremtes e criados e por [~q] da li não pasão os + agrauos se não pera ho ouujdor do duque onde tão b[~e] me deterjão + pera ho moço chegar ao termo dos quatorze anos detremjney dejxar a + cousa neste termo e fazelo saber a v. a. pera [~q] proueja njsto + como lhe parecer serujço de deos e seu que mjlhor proueja [~q] pois + t[~e] tal faz[~e]da que v. a. ho quase cõ qu[~e] ouuer por seu + serujço [~q] não [~q] ho orfão seia asy Roubado. no que v. a. deue + loguo prouer como pay dos orfãos [~q] he quanto mais [~q] quarega + jsto sobre cõcj[~e]cja de v. a. por h[~u] alu.^{rá} que vosa a. + pasou a ejtor de figueiredo ao t[~e]po [~q] quasou cõ mjnha Jrmã + pelo qual tjrou a titorja a meu pay de seu neto por lha dar a ele. + ao qual agora ajnda se pega, como se não fose cerada a cousa por + morte de mjnha Jrmã. e o [~q] me parece [~q] se deue fazer he pasar + v. a. logo alu.^{rá} por esta quarta [~q] pode serujr de petjção, + [~q] polo qual mãde a h[~u] dos quoReiadores destremoz elvas ou por + talegre [~q] qualquer deles va a borba e tjre ho moço de poder de + seu padrasto e [~e]tregue sua p.^a a meu pay seu auô ou a meu jrmão + barnabé de sousa [~q] t[~e] faz[~e]da p.^a ho mjlhor mãter [~q] + biue [~e] portalegre onde ho moço t[~e] parte de sua faz[~e]da e + lhe he já dado por tutor desta fazemda e despois do moço tjrado + prouer v. a. [~e] qu[~e] seia seu tutor e seja ouujdo ejtor de + figuejredo das Rezomis [~q] diz ter pera [~q] ho moço quase cõ sua + f.^a mas jsto deuela ser amte v. a. [~q] qua não sey quãto se + gardara Justiça e ho aluará pode v. a. mãdar dar a demjão de sousa + meu irmão [~q] la amda [~q] ele ho fará vir cõ mujta delig[~e]cia + [~q] eu fiquo qua esperamdo p.^a ho Requerer e apresemtar. e + l[~e]bro mais a uosa a. [~q] mãde ao mesmo coReiador que + [~e]t[~e]da nas partjlhas e jmb[~e]tajro [~q] doutra manejra será + Roubado ho orfão e asi [~q] o t[~e]po aquaba p.^a fim deste mes e + eu s.^{or} neste trabalho nõ pretendo mais [~q] fazer ho [~q] deuo + e tenho dejxado os Requerjm.^{tos} que trago cõ v. a. [~e] mão de + fernão daluarez peço a v. a. que nõ perqua por ausente de ser + despachado. a qu[~e] deos a ujda e Real estado acrec[~e]te. de + portalegre sete de novembro. as Reajs mãos de v. a. bejjo. xpouão + falcão de sousa.»[5] + + !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! + + +Ao leitor deixamos a faculdade de comentar a carta _primorosa_ do +sarrafaçal engenho que durante alguns séculos gosou da fama de poeta +insigne, em prejuizo do nome aureolado de Bernardim Ribeiro. + + + + +III + +Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga + + +*1* + + «A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como + a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com + elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados + genealogicos.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + + +Não ha a menor dúvida quanto á primeira parte d'esta afirmação. + +Com efeito, o snr. dr. Theóphilo Braga esboçou uma biografia de +Cristovam Falcão, e ninguem ousará contestar-lhe o mérito de haver sido +o Plutarco do suposto trovador. + +Esboçando-lhe a biografia, o abalisado professor de literatura serviu-se +de documentos autênticos... mas utilizando alguns que não diziam +respeito ao pseudo-poeta, e sim a um outro Cristovam; e interpretando, +modificando e adulterando outros documentos ao sabor do seu paladar, ao +capricho da sua fantasia. + +No capitulo XIX do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro destrinçamos os +documentos históricos que o snr. dr. Theóphilo Braga propositadamente +confundiu, e restabelecemos o texto de uma das cartas de Cristovam +Falcão de Sousa que o habil professor _emendara_, com o zelo de Plutarco +cioso do bom nome do seu heroe... lendário. + +No segundo capítulo d'este livro, ficou tambem fielmente reproduzida +outra carta de Cristovam Falcão, que o infatigavel historiador havia +_corrigido_, como se se tratasse de um tema de algum discípulo seu. +Mesmo quando se entrega a trabalhos de reconstituição histórica, o snr. +dr. Theóphilo Braga não se esquece de que é professor de literatura +portuguêsa! + +Depois de isto, como ousa o snr. dr. Theóphilo Braga invocar os +documentos autênticos de que tam mau uso fez? + + +*2* + + «Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que materiaes + traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Tem graça, e não ofende! + +Se leu imediatamente o nosso livro, não foi para ver que novos subsídios +forneciamos para o estudo da história da literatura portuguêsa, mas sim +para conhecer quaes os materiaes que lhe facultariamos para o +aperfeiçoamento do seu trabalho... + +Cabe n'esta altura, a talho de foice, deixar consignada certa passagem +de uma palestra que o snr. dr. Theóphilo Braga teve com um dos seus mais +inteligentes discípulos a propósito da publicação do nosso livro sobre +Bernardim Ribeiro: + +«V. compreende... Eu sou como um mestre de obras... na construção de um +edificio. Ha vários pedreiros... Vão-me chegando ás mãos diversas +pedras... Aproveito aquelas que se me afiguram de feição, geitosas, +convenientes para a minha obra, e as outras ponho as de parte, deito-as +fóra.» + +E a um distinto confrade nas letras, ainda por motivo da publicação do +nosso livro, o professor do Curso Superior de Letras teve ensejo de +referir-se á nossa obscura pessoa, fazendo o favor de nos reconhecer +talento, mas... _que os estudos de investigação histórica eram umas +teclas muito dificeis, muito complicadas_... + +O apreciado _mestre de obras_ (segundo a frase de s. ex.^a) escusava de +ter lido o nosso trabalho. O sub-título do livro, _O Poeta Crisfal_, +demonstrava suficientemente ao snr. dr. Theóphilo Braga que nenhuma +pedra de feição poderiamos proporcionar-lhe para o _aperfeiçoamento_ da +sua obra, porque o nosso livro lhe atirava a terra com os alicerces em +que se firmava o edificio... ou monumento erguido ao falso _Crisfal_. + +Foi um castelo de cartas que um sopro deitou ao chão... + +Oh! os estudos de investigação histórica são realmente... umas teclas +muito complicadas! + + +*3* + + «Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo + quanto se prestasse a futuras emendas.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Não escrevemos tal no prólogo do nosso livro que o snr. dr. Theóphilo +Braga aproveitaria d'ele _tudo quanto se prestasse a futuras emendas_. + +O que nós escrevemos a pag. 24 do nosso estudo sobre Bernardim é o +período que segue: + +«Embora, em resultado da nossa descoberta, o snr. dr. Theóphilo Braga +tenha de refundir mais uma vez os seus trabalhos sobre Bernardim Ribeiro +e Sá de Miranda, estamos plenamente convencidos de que ninguem estimará +mais do que o incansavel professor do Curso Superior de Letras a luz +derramada sobre a figura do grande poeta bucolista, amigo de Francisco +de Sá.» + +Nas linhas transcritas, o que havia da nossa parte era um cumprimento de +cortesia,--uma gentileza, uma amabilidade, própria de quem, não tendo +qualquer agravo do snr. dr. Theóphilo Braga, procurava colocar s. ex.^a +em bom terreno, oferecendo lhe, por assim dizer, uma ponte, uma táboa de +salvação, pela qual, sem quebra de linha, o escritor consagrado pudesse +atravessar, reconhecendo, ou fingindo reconhecer, o mau terreno que +estava pisando, e abraçando honestamente a verdade evidenciada. + +Era um cumprimento, repetimos; não um acto de justiça, que a ele não +tinha jus o infátigo escritor. E da mesma natureza, no decurso do nosso +trabalho, outras demonstrações de cortesia ficaram assinaladas, +prestando homenagem á vida laboriosa do escritor encanecido cujos erros +combatiamos. + +Mas como as amabilidades se agradecem, e os actos de justiça não são +credores de qualquer agradecimento, aprouve ao snr. dr. Th. Braga ver +nas nossas palavras um acto de justiça. + +Não lhe queremos mal por isso, pode crer o venerado professor. + +Cada qual segue os impulsos do seu temperamento. + + +*4* + + «Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre + D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, sendo ambos muito + crianças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do + primeiro quartel do seculo XVI.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Quando chegámos a esta altura da preciosa carta do snr. dr. Theóphilo +Braga ficamos verdadeiramente surpreendidos, para não dizer +boquiabertos! + +Lemos e tornamos a ler o período transcrito, pesamos detida e +pacientemente cada uma das palavras que o constituem, e, ao cabo, +alcançamos o convencimento de que uma tal afirmação constituia uma +habilidade, um processo, uma engenhoca,--deixem chamar-lhe assim, embora +o termo destôe, por menos académico,--a que o professor de literatura +recorria para não confessar ter sido o nosso trabalho que o obrigava a +aceitar o nascimento do suposto poeta no fim do primeiro quartel do +seculo XVI. + +Fôra pelas noticias genealogicas trazidas pelo snr. Braamcamp Freire +sobre D. Maria Brandão que o snr. dr. Theóphilo Braga, conforme nos +escrevia, se vira forçado a não insistir no nascimento do pseudo Crisfal +no ano de 1497, se não antes! + +Mas como podia isto ser, se o trabalho do ilustre escritor invocado pelo +snr. dr. Theóphilo ainda não fôra dado á estampa? + +Teria o professor do Curso Superior de Letras recebido qualquer +comunicação sobre o assunto por parte do snr. Anselmo Braamcamp +Freire?--Não, não tinha recebido, como o demonstram eloquentemente os +seguintes períodos de uma carta que em 5 de dezembro de 1908 nos +dirigiu, em resposta a uma nossa, o primoroso director do _Archivo +Historico_: + + + «Vamos agora á sua pergunta de hoje originada pela carta do dr. + Teofilo Braga. Elle não conhece nada do meu trabalho sobre a Maria + Brandoa, e faça-me a justiça de crer que, não lho tendo mostrado a + si, não o mostraria a mais ninguem. Não lho mostrei a si, porque + nas 150 paginas já impressas, de que em breve lhe mandarei um + exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos Brandões + do _Cancioneiro_ e da Feitoria de Flandres.» + + +Depois da transcrição d'estas linhas, eloquentes e insuspeitas, do snr. +Braamcamp Freire, tornam-se desnecessários de nossa parte quaesquer +comentários á afirmação sem base do snr. dr. Theóphilo Braga. + +Passemos adeante sobre este caso triste! + + +*5* + + «Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as relações + pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e + dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; + e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente + tinham de ser lidas a outra luz. V. acabando de fazer a destrinça + entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma + melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as + relações com Cristovam Falcão), e mostrando como realmente as + poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como + novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim + Ribeiro.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Pelo exposto, entende o snr. dr. Theóphilo Braga que nós lhe demos +elementos para uma melhor interpretação das éclogas de Bernardim, o que +importa implicitamente a afirmação de que não soubemos interpretá-las, +ou que erramos a exegese com que julgavamos ter corrigido as lições +ministradas pelo ilustre professor. + +Aguardemos, pacientemente, que o snr. dr. Theóphilo Braga refunda mais +uma vez o seu livro sobre Bernardim Ribeiro, para então apreciarmos as +novas interpretações que o imaginoso historiador se propõe apresentar +das éclogas de Bernardim, e ficarmos tambem conhecendo quaes os _centões +e intercalações_ de versos de Ribeiro que o novel Falcão introduziu nas +suas produções... em prosa, únicas que obrou. Obrou, no sentido de: +produziu, claro está. + + +*6* + + «Ha uma affirmativa histórica, de Diogo do Couto, na sua _Decada + VIII_, que fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como + reforço historico: «irmão de *Cristovam Falcão*, aquelle que fez + aquellas cantigas nomeadas de Crisfal...» E tambem no seculo XVI + Fructuoso (resumido pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia + insulana) diz de Cristovam Falcão: «parente do Barão velho e do + famoso poeta Cristovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das + primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e + Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se repete a + attribuição «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, ho que parece + alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa + estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se + reflectiram nos genealogistas.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +A habilidade, ou antes o processo habilidoso, ou, melhor, a tendenciosa +redacção d'estes períodos não consegue iludir ninguem... Julgou talvez o +snr. dr. Theóphilo Braga que nos desnortearia com esta subtileza de +processos... críticos. Tal não conseguiu, como terá de reconhecer no +foro íntimo da sua consciência. + +Vamos por partes: + +Foram os editores de Ferrara e Colónia que propagaram pela imprensa a +lenda de que a paternidade da carta e ecloga de Crisfal era atribuida a +Cristovam Falcão, e, fazendo-o, limitaram-se, com honestidade, a +escrever: «que dizem ser... ao que parece aludir o nome da mesma +ecloga». Ao contrário do que o snr. dr. Theóphilo Braga procura fazer +incutir, tendenciosamente, os editores citados não repetiram uma +atribuição de homens de letras do seculo XVI... + +Os homens de letras do seculo XVI é que repetiram, fazendo-a certa, a +atribuição feita com reservas pelos editores das obras de Bernardim +Ribeiro em 1554 e 1559. Aceitaram por boa, sem se darem ao trabalho de a +verificar, uma simples atoarda. + +Quem eram os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro? + +Di-lo, judiciosamente, o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que vamos +analisando: + +Eram «*curiosos sem critério literário*». + +Será a estes obscuros obreiros do século XVI que o laureado professor +quer guindar á categoria de homens de letras com foros de autoridades? + +Não, os editores de 1554 e 1559 foram realmente creaturas sem o menor +critério literário, e por isso deram alentos á lenda forjada pelo vulgo; +mas não resta a menor dúvida de que eram pessoas de bem, porque +consignaram uma _tradição vaga_, sem se atreverem a registá-la como um +facto positivo, indiscutivel, incontroverso. A cobrir a sua +responsabilidade de editores conscienciosos, lá estamparam: «que dizem +ser... ao que parece aludir.» Outros fossem eles, que asseverassem que +as duas produções, carta e écloga, pertenciam a Cristovam Falcão +incontestavelmente, irrefragavelmente! + +Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga que os editores da obra +de Bernardim Ribeiro, ao produzirem as rúbricas respeitantes ao suposto +autor do Crisfal, mencionavam apenas uma atoarda, uma vaga tradição? + +Não; o venerado professor não ignorava isso. Testemunha-o o que s. ex.^a +escreveu a paginas 21 da sua chamada edição crítica das obras de... +Cristovam Falcão: + +*«As rubricas do editor de Colonia, encerram as tradições vagas, que, +passados nove annos, ainda corriam ácerca d'aquelle infeliz namorado.»* + +Para que veio pois o snr. dr. Theóphilo Braga asseverar que _tambem nas +edições de Ferrara e de Colonia se repete a atribuição_? + +Mais diz o apreciavel escritor que «não se podem refutar por negativa» +as atribuições que Diogo do Couto e Frutuoso fizeram, repetindo _como +certo_ o que os editores das obras de Bernardim registaram _sob +reservas_. + +Não se podem refutar por negativa, não; mas podem refutar-se cabalmente, +pondo em confronto da obra poética atribuida a Cristovam Falcão a obra +em prosa que ninguem ousará disputar ao suposto trovador. + +E a admitir alguem, de reconhecida inteligência e critério, que o autor +das cartas em prosa podia ser o poeta da Carta e da Ecloga de _Crisfal_, +o mesmo equivaleria a aceitar como razoavel que Rosalino Candido pudesse +firmar as obras do snr. dr. Theóphilo Braga, e que, consequentemente, o +laureado professor de literatura fosse capaz de produzir a obra +gigantesca de Victor Hugo. + +É realmente desolador, para a fabula consagrada, que a Torre do Tombo +conserve os autógrafos de Cristovam Falcão de Sousa! + + +*7* + + «A ecloga de Crisfal não podia ser publicada pelo seu autor, nem + pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_ de antigas + relações amorosas com uma senhora que estava casada.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Esta bizarra revelação do snr. dr. Theóphilo Braga constitue, +naturalmente, uma desenfastiada brincadeira de s. ex.^a. + +Pois qual é a obra _lírica_ onde se não encontrem _inconfidências_ +semelhantes ás da ecloga de Crisfal? + +O snr. dr. Theóphilo Braga, que aos catorze anos já se entregava a +devaneios poéticos, não deixou certamente de dar publicidade a versos em +que foi decantada alguma dama unida pelos laços matrimoniaes... E +estamos convencidos de que ninguem chamou _inconfidências_ aos suspiros +poeticos do trovador açoreano. As inconfidências não servem de tema ás +locubrações dos vates; onde existe arte, no bom sentido da palavra, não +ha inconfidências, embora n'este ponto estejamos em absoluta +discordância com a doutrina exposta pelo professor do Curso Superior de +Letras. + +Em toda a obra, prosa ou verso, de Bernardim Ribeiro, vive, palpita, a +história ingénua da sua vida, o trama dos seus mal-aventurados amores +por uma dama que trocou a afeição do poeta pela de um outro zagal. Foi +um inconfidente o magoado Bernardim?--Não, foi um artista, foi um poeta +apaixonado, alma de eleição que da sua dor fez um poema, como diria +Goethe. E que adoravel e sentido poema nos legou o grande poeta +bucolista! + +Mas não vale a pena insistir mais n'este ponto. A afirmativa do snr. dr. +Theóphilo Braga constitue, naturalmente, um gracejo inofensivo de s. +ex.^a. + + +*8* + + «A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando + Cristovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em + 1547 na Carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do + _Crisfal_, que então andava no gosto.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Reproduzamos aqui o que o autor da _Historia da Litteratura Portugueza_ +escreveu a paginas 394/5 do seu volume _Bernardim Ribeiro_ (edição +refundida): + + + «N'esta folha volante não vem a _Carta_, nem as _Cantigas_ e + _Esparsas_ incluidas na edição de Colonia. Parece mais uma + vulgarisação popular, talvez uma das muitas que tornaram a Ecloga + _muy nomeada_, e de que a reprodução de 1571, feita em Lisboa + (existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que + serviu para a reprodução de 1619, em que apparecem elementos só + conhecidos pela edição de 1559. + + «A folha volante _sem data_ diverge do texto de Colonia + profundamente; basta observar as variantes entre as lições das + estrophes 51 e 52. Attribuimos a impressão das _Trovas de Crisfal_, + a 1536, quando appareceram tambem em folha volante as _Trovas de + Dois Pastores_ (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro. + + «A vinheta do Pastor com capuz e cajado no _Crisfal_ é a mesma que + serve nas _Trovas de dois Pastores_; o typo gothico corpo 12 do + titulo do folheto de 1536 é o empregado no texto do _Crisfal_. + Tambem a vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em + outra folha volante de 1536, intitulada _Tragedia de los amores de + Eneas y de la reina Dido_.» + + +Procedemos ao mesmo exame a que o snr. dr. Theóphilo Braga sujeitou o +_pliego-suelto_, e chegamos a egual conclusão. Algumas vezes nos +haviamos de encontrar em concordância de vistas com s. ex.^a. E porque o +nosso pensar sobre o assunto egualava o do ilustre professor, escrevemos +a pag. 119 do livro _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal), aludindo ao +folheto sem indicação de data nem de lugar de impressão: + +[Figura] + +«...mas reconhecendo-se, pelo confronto com outros folhetos, ser de +1536). + +«Como muito bem observou o snr. dr. Theóphilo Braga, etc.» + +Seguiu-se a transcrição do parágrafo do snr. dr. Th. Braga que atrás +reproduzimos. + +Mudou o abalisado professor de opinião quanto á data do _pliego-suelto_, +querendo agora fixar-lhe o ano de 1542, como poderia fixar-lhe o de 1552 +ou 1562, arbitrariamente. + +Se ao menos s. ex.^a tivesse a condescendência de indicar-nos quando +seguiu os _processos inductivos da crítica moderna_! Ao fixar a data de +1536 ou quando arbitrou a de 1542? + +Em folha apensa, damos uma reprodução foto-zincográfica das primeiras +páginas dos tres folhetos que levaram o snr. dr. Theóphilo Braga a fixar +a data da primeira edição conhecida das _Trovas de Crisfal_ em 1536. + +Se nos perguntarem se estamos dispostos a quebrar lanças para sustentar +a antiga opinião do historiador da _Litteratura Portugueza_, +responderemos, com toda a franqueza, negativamente. O que não podemos +admitir é que se procure agora determinar-lhe _com precisão_ a data de +1542, com o simples fundamento de que n'esse ano estava em Roma o seu +suposto autor... + +Alude o snr. dr. Theóphilo Braga ao facto de Camões empregar versos do +_Crisfal_. + +A explicação, a nosso ver, é muito simples: + +Em Faria e Sousa, o insigne fabulista, autor muito da predilecção do +snr. dr. Theóphilo, encontra-se uma afirmativa, que constitue em nosso +juizo uma das raras que merecem algum crédito, não obstante a impureza +da _fonte_. + +Referindo-se a Bernardim Ribeiro, escreveu Faria e Sousa: «poeta bien +conocido y a quien llamava su Enio el divino Camões.» + +Não desconhece isto o professor do Curso Superior de Letras, porque a +pag. 131 da primeira edição do seu _Bernardim Ribeiro_ reproduziu da +_Fuente de Aganipe_ o dizer de Faria. + +Como demonstrámos no volume sobre o _Poeta Crisfal_, Camões glosou o +magoado solau da _Menina e moça_, de Bernardim Ribeiro. + +Em uma das cartas atribuidas ao cantor dos _Lusiadas_, encontra-se uma +alusão directa ao autor das _Saudades_, indicando-lhe o nome: _Bernardim +Ribeiro_. + +Se Bernardim era o seu _Enio_, naturalíssimo é que Camões se deixasse +influenciar pelo Mestre, imitando alguns dos seus versos. + +A não ser que o snr dr. Theóphilo Braga queira concluir que, sendo +Bernardim o _Enio_ de Camões, Cristovam Falcão era o _Enio_ numero 2 do +mesmo poeta,--assim a modos de um _Enio_ barato, para trazer por casa. + +Prossigamos... + + +*9* + + «Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de + Ferrara e Colonia, por que continham uma _inconfidencia_. Isto leva + a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da + Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das + primeiras syllabas do nome.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Salvo erro, o snr. dr. Theóphilo Braga quer referir-se apenas a uma, e +não a duas estrofes. + +E á estrofe que reza: + + + Muitos pastores buscaram + mas um pastor por ser-te amigo, + e outro por ser-te enemigo, + um e outro se escusaram. + E dão-lhe logo comigo + gados que farão mil queijos; + mas como se despediam + é já mostrar que temiam + que o sabor dos teus beijos + na minha boca achariam! + + +Falava-se em _beijos_... Era uma _inconfidência_, e gravíssima, e por +isso a estrofe foi suprimida nas edições de Ferrara e de Colónia! Está +claro, e tam claro que, no dizer do snr. dr. Th. Braga, «_isto leva a +explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da +Ecloga_...» + +Ora admitindo por um momento que Cristovam Falcão houvesse sido poeta, e +tivesse a lembrança de escrever uma écloga abundante em +_inconfidências_, pespegava-lhe, sem mais nem menos, com um anagrama +deduzido das primeiras sílabas do seu nome, para que toda a gente logo o +apontasse a dedo como _inconfidente_? + +De mais a mais, como quer o snr. dr. Th. Braga na sua exegese, se o +suposto poeta empregasse os nomes verdadeiros de todas as personagens +que a écloga alvejava, isso constituiria um _apagamento_ de paternidade +muito pouco apagado... + +Todo o mistério, o discreto veu da fantasia, a cobrir a realidade dos +episódios que a écloga do _Crisfal_ menciona, equivaleria á ingenuidade +infantil d'aquela antiga adivinha: «Branco é, galinha o põe»! + +Ponha se o snr. dr. Th. Braga no lugar do pseudo-trovador, imagíne que +resolvia arquitectar uma écloga cheia de _inconfidências_, e diga-nos, +com franqueza, se, desejando apagar a paternidade de um tal feito, +assinaria a sua produção com o anagrama _Theobra_? + +Logo os seus discípulos concluiriam, triunfalmente: «Cá temos mais um +poema do Mestre!» E fosse lá s. ex.^a convencê-los de que não era tal o +autor da _inconfidência_! + + +*10* + + «Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam + mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois + poetas, repetindo-se o mestre na decadencia.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Com o respeito devido ao professor de literatura, de modo nenhum podemos +aceitar a sentença de s. ex.^a + +A _subtileza_ do snr. dr. Theóphilo Braga, proclamando que os lugares +comuns a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da +imitação de um discípulo do que á fusão dos dois poetas, é da natureza +do conhecido artifício pelo qual se póde sustentar que cinco vintens não +são um tostão, ou vice-versa! + +Admitindo que Cristovam Falcão tivesse sido um imitador de Bernardim, +como quer o abalisado professor, explica-se porventura que levasse tam +longe a sua improbidade literária, que roubasse por inteiro versos e +cantigas ao seu mestre, com a maior desfaçatez? Pois o autor da _Carta_ +e da _Eclóga de Crisfal_, a ser um imitador, não teria o bom senso +suficiente para reconhecer que, roubando versos de Bernardim, não +alcançaria renome de poeta, mas o apodo de salteador literário? + +Um imitador, por mais inexperiente e tacanho, não se aproveita dos +textos que imita de maneira a que lhe possam apontar os versos +_palmados_. Ou não será isto o que a lógica permite conjecturar? + +Como ignoramos _os processos inductivos da critica moderna_, é possivel +que estejamos em erro, e que da mesma ignorância resulte não alcançarmos +o sentido das palavras do snr. dr. Theóphilo Braga quando afirma que o +mestre (Bernardim Ribeiro) se repetiu na decadência. + +Que repetições? e que decadência? + + +*11* + + «Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de + Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas + almas, sentindo em situações differentes.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz o snr. dr. +Theóphilo Braga na carta que, pacientemente, estamos anotando. + +É verdadeira esta afirmativa? + +--Não, não é verdadeira, e o professor do Curso Superior de Letras sabe +muito bem que o não é. + +Em 1897, ao publicar a sua edição refundida do livro _Bernardim +Ribeiro_, confrontando versos de Bernardim com os atribuidos a Cristovam +Falcão, escreveu o professor de literatura. + +«Vê-se que á medida que *a situação dos amores de Bernardim Ribeiro +seguia o mesmo desfecho dos amores de Cristovam Falcão*, os dois poetas +communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se +salvaram as poesias do auctor do _Crisfal_.»[6] + + +Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz s. ex.^a, +procurando agarrar-se a uma boia salvadora... + +Mas tanto a paixão é uma só que o snr. dr. Theóphilo Braga, na écloga em +que Bernardim se personifica sob o nome bucólico de _Persio_, viu n'essa +personagem *Cristovam Falcão*! E estamos em crer que o ilustre professor +não irá agora sentencear que a écloga primeira de Bernardim tambem foi +elaborada pelo suposto trovador... + +Pois se o snr. dr. Theóphilo Braga até concluiu que tanto Bernardim como +Cristovão Falcão sofreram as agruras do _carcere privado_! + +Como póde suceder que o distinto escritor já se não recorde do que +escreveu a pag. 76/78 da sua edição refundida do livro «Bernardim +Ribeiro», arquivemos aqui algumas das suas passagens: + + «...Não ignorava Bernardim que o namorado de Maria tambem estivera + em carcere privado: + + _Vi-me já preso_; contente + A meu mal queria bem. + + «Na Carta, que escreveu _estando preso_, e mandou áquella com quem + estava casado a furto, diz Christovam Falcão: + + Mal cuja dor se não crê + de _prisão_ e de ausencia! + ............................. + + Bem se enxerga nos meus danos + _que estou preso ha cinco annos_, + afóra os que heide estar... + + «Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro: + + Logo então começou + _Seu gado a emagrecer, + Nunca mais d'elle curou_, + Foi-se-lhe todo a perder + Com o cuidado que cobrou. + + «Em Christovam Falcão lê-se: + + Crisfal não era entam + dos bens do mundo abastado, + tanto como de cuidado, + que por curar da paixão + _não curava do seu gado_. + + «E continuando o parallelismo, por onde se vê que os dois poetas + eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais estes + traços com que Bernardim Ribeiro retrata o _Crisfal_: + + Sentava-me em um penedo + Que no meio d'agua estava; + Então alli só e quedo + A minha frauta tocava. + + «E no _Crisfal_, quasi pela mesma maneira: + + Alli sobre uma ribeira + de mui alta penedia, + + d'onde a agua d'alto caía, + dizendo d'esta maneira + estava a noite e o dia... + + «Bastam estas comparações para se reconhecer a communhão artistica + entre os dois namorados poetas.» + + +Depois de haver escrito o que acaba de ler-se, como se compreende que o +snr. dr. Theóphilo Braga venha proclamar, com a maior sem-cerimónia, que +ha _dois schemas de paixão amorosa que se não confundem_! + +Quanto a _Fauno_, nome pastoril que, em uma das éclogas, Bernardim dá ao +seu amigo, confidente e colega Francisco de Sá de Miranda, quer o snr. +dr. Theóphilo Braga que seja a personificação do próprio B. +Ribeiro,--talvez para não confessar que nós acertamos na interpretação +apresentada no _Poeta Crisfal_. + +Temos certa curiosidade em saber se na futura refundição do livro sobre +os poetas bucolistas o seu autor transferirá para Sá de Miranda o crisma +de _Persio_, na impossibilidade de continuar a ver na mesma figura os +traços de Cristovam Falcão... + +De uns versos de Francisco de Sá, imitando uma canção de Petrarca, já o +ilustre professor concluiu que o amigo de Bernardim sofrera a prisão, +por motivo de amores... É meio caminho andado para que, na fantasia de +s. ex.^a, o douto Sá de Miranda vá tomar o pouso do derreado Falcão. + +A ver vamos... como dizia o cego, e cada vez via menos! + + +*12* + + «Através de todo o hypercriticismo, o livro sobre Bernardim revela + um trabalhador fervoroso, etc.» + + _Carta do snr. dr. Th. Braga._ + + +Duas palavras apenas: + +A nosso juizo, aquele _através_ está a substituir, amavelmente, o +advérbio _apesar_... É o que julgamos depreender da sequência da frase. + +No nosso modesto e desvalioso estudo, o snr. dr. Theóphilo Braga apenas +viu _hipercriticismo_, o que de modo nenhum póde agradar ao historiador +da _Litteratura Portugueza_, que só emprega os modernos processos da +crítica scientífica,--graças aos quaes... se vê obrigado a refundir +amiude os seus trabalhos! + +Continuaremos, impenitentes, a cultivar o _hipercriticismo_, deixando ao +snr. dr. Theóphilo Braga o uso exclusivo dos seus processos, que não nos +seduzem, com toda a franqueza o dizemos. + + + + +IV + +A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal + + +No seio da sociedade scientífica e litéraria, de que é ilustre +presidente, proclamou o snr. dr. Theóphilo Braga, á porta fechada, isto +é, em reunião privativa dos sócios d'aquela Academia, que a vida amorosa +de Cristovam Falcão «_oscila entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data +moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos_». + +Cristovam Falcão de Sousa era moço fidalgo em 1527, como se demonstra +indubitavelmente pelo registo exarado n'um livro que existe no arquivo +da Torre do Tombo, registo que reproduzimos com fidelidade a paginas +168/9 do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro. + +Na sua erudita comunicação á Academia das Sciencias de Portugal, afirmou +o snr. dr. Theóphilo Braga que o suposto autor do _Crisfal_ tinha _pelo +menos 12 anos á data de 1525_... + +Não indicou o douto académico o documento ou _recurso histórico_, em que +se estribava para sentencear, sem admitir réplica, que o pseudo-trovador +tinha _pelo menos 12 anos á data de 1525_, mas é possivel que s. ex.^a +esteja munido de concludentes provas para demonstrar a justeza da sua +afirmativa, se alguem se lembrar de contestar-lhe tam peremptória +opinião. + +Se o ilustre professor não possue a tal respeito documentos bastantes, +póde dar-se o caso de alguem vir àmanhan, quando mais não seja para +fazer pirraça a s. ex.^a, declarar que Cristovam Falcão de Sousa, á data +de 1525, não era ainda nascido, ou, quando muito, teria doze mêses, e +não 12 anos... + +Mas é possivel que o snr. dr. Theóphilo Braga tenha conseguido descobrir +qualquer documento em que apoie a sua sentença. É até muito possivel! + +O importante, por agora, é verificar que o laureado académico fixou o +ano do nascimento do pseudo-poeta em 1513, poucos mêses mais, poucos +mêses menos, se a lógica não é uma cantata para adormecer meninos. + +Ora, sendo assim, vê-se que alguma cousa se ganhou com a publicação do +nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, onde a paginas 176 escrevemos: + +«*Quanto a Cristovam Falcão de Sousa, moço fidalgo em 1527, por muito +que se queira afastar a data do seu nascimento, não poderá esta ser +fixada em ano anterior a 1510. Fixando-se o seu nascimento entre os anos +de 1510 a 1515, é natural que se fique muito próximo da verdade.*» + +O snr. dr. Theóphilo Braga, em face do nosso estudo, escolheu o ano de +1513, cifra que se encontra compreendida _entre 1510 a 1515_, salvo +erro. + +Nós, porém, com inteira franqueza o dizemos, temos ainda suas dúvidas, e +após recentes pesquizas, em que vamos prosseguindo, inclinamo-nos a +ajuizar que o pseudo-_ultimo eco do alaúde_ ainda não era nascido no ano +de 1516... + +Mas, para aclarar este ponto de capital importância, aguardemos a nova +versão que o snr. dr. Theóphilo Braga tem na forja sobre os poetas +bucolistas. + +Além de ter modificado a sua antiga doutrina sobre a epoca em que +floresceu o falso _Crisfal_, na sua comunicação ao grémio literário a +cujos destinos preside, o snr. dr. Theóphilo determinou que a vida +amorosa do homenzinho oscilara *entre 1525 e 1526*,--isto é no período +ingénuo e viçoso dos doze para os treze anos, quando a suposta mulher +amada pelo Xpouão contaria, na melhor das hipóteses, as suas fagueiras e +menineiras dez primaveras... + +Mas, decorrido menos de um mês sobre a comunicação... scientífica, o +egrégio conferente emendou este seu parecer, como se verá quando +analisarmos o artigo epigrafado _Movimento litterario_. + +Segundo o extrato publicado no jornal «O Mundo», que condizia com os de +outras gazetas, o snr. dr. Theóphilo Braga «_evidenciou que na ecloga +«Crisfal» transpareciam diversas situações da vida de Cristovam +Falcão_.» + +Infelizmente, os jornaes não nos forneceram qualquer pormenor +elucidativo sobre a referida _evidenciação_, pelo que ficamos, com +verdadeiro pesar, privados de reconhecer a maneira engenhosa pela qual o +distincto professor de literatura conseguiu demonstrar, _urbi et orbi_, +que na magoada écloga de Bernardim Ribeiro transpareciam _diversas +situações da vida de Cristovam Falcão_. + +É possivel, porém, que na próxima futura refundição do seu livro sobre +os bucolistas, o snr. dr. Theóphilo Braga inclua um largo capítulo em +que trate o assunto com o devido desenvolvimento, completando o extrato +que os jornaes fizeram da sua apreciavel comunicação, com o que +preencherá uma sensivel lacuna. Oxalá assim suceda. + +Terminou o conferente a sua palestra por invocar, mais uma vez, Diogo do +Couto e Gaspar Frutuoso; e mais uma vez afirmou que as duas +individualidades (Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão de Sousa) _não +podem jàmais confundir-se_. + +Perfeitamente de acordo, n'esta parte, com o venerado professor! + +Cristovam Falcão, o iletrado autor das _Quartas_, não póde jàmais +confundir-se com Bernardim Ribeiro, o mavioso autor da _Carta_ e da +_Ecloga de Crisfal_... + +Pelo que, implicitamente, fica demonstrado que nós não temos dúvida em +adoptar uma ou outra das conclusões do presidente da Academia das +Sciencias de Portugal, apesar de todo o nosso hipercriticismo, como está +vendo o nosso _prezadíssimo amigo_! + + + + +V + +O artigo «Movimento litterário» + + +Como os leitores viram, pela reprodução que fizemos no primeiro capítulo +d'este trabalho, no artigo que publicamos nas colunas do diário «A +Lucta», sob a epigrafe: «_Os processos... scientificos do snr. dr. +Theóphilo Braga_», salientámos várias inexactidões contidas no capcioso +desarrazoado que o professor do Curso Superior de Letras estampou no +jornal «O Dia», a pretexto de dar notícia do movimento literário +português no ano de 1908. + +Não insistiremos sobre os pontos já visados, embora prestassem o flanco +a mais largas considerações, mas nem o tempo nos é sobejo nem tam pouco +desejamos abusar da benevolência dos que nos lêem, prolongando +demasiadamente este comentário desenfastiado e despretencioso ás +refutações embrogliadoras e falhas de sinceridade do snr. dr. Theóphilo +Braga. + +Sem a publicação do artigo _Movimento litterário_, aguardariamos +pacientemente a futura refundição do livro consagrado ao estudo dos +poetas bucolistas pelo egrégio professor, e só em face das novas +exegeses fantasiadas pelo snr. dr. Theóphilo Braga viriamos a público +dizer o que se nos oferecesse, defendendo, o melhor que soubessemos e +pudessemos, as conclusões que apresentámos no nosso trabalho sobre o +_Poeta Crisfal_. + +Não o quis assim o distinto escritor açoreano. Seja feita a sua vontade! + + +*1* + + «...o snr. Delfim Guimarães publicava o seu livro _Bernardim + Ribeiro--O Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido da biographia + do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a + significarem os factos que imagina.» + + _Do artigo «Movimento Litterario_.» + + +Na opinião soberana do consagrado professor, no nosso livro sobre +Bernardim Ribeiro resumimos o _já sabido_ da biografia do autor da +_Menina e moça_, e forçámos interpretações de versos a significar os +factos que imaginámos! + +Tem carradas de razão o implacavel crítico quando proclama, desdenhoso, +que nós resumimos o que já era sabido da biografia do grande poeta +bucolista. + +Resumimos quanto pudemos, exageradamente talvez, o que _já era sabido_ +da biografia de Bernardim Ribeiro, mas muito de propósito assim +procedemos, para que ninguem, em face do nosso trabalho, pudesse dizer +com justiça que fôra nosso intento fazer substituir no mercado o livro +do snr. dr. Theóphilo Braga pelo nosso. + +É certo que nos poderiamos ter conduzido pela mesma fórma adoptada pelo +consciencioso escritor ao _resumir_ no seu _Garrett_ o trabalho +desenvolvido de Gomes de Amorim, mas não quisemos seguir semelhante +conduta, muito embora pudessemos invocar, como modêlo, o exemplo que nos +fornecia o historiador da *Litteratura Portugueza*. + +Não quisemos enveredar por esse caminho, e não estamos arrependidos, +apesar do remoque com que fomos alvejados. Cada qual segue os processos +que muito bem entende, mais em harmonia com o seu temperamento ou +educação. + +Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, é um facto; mas tivemos +o cuidado de não aproveitar aquela descoberta mais que problemática que +localizou a _Quinta dos Lobos_ na _Quinta da Piedade_, em Sintra, e nem +por um momento nos passou pela cabeça perfilhar as palavras do snr. dr. +Theóphilo Braga quando vê «*a persistencia do elemento mauresco, na +paixão exaltada do poeta e no calor surprehendente da sua +linguagem*».[7] + +Não seguimos tam pouco na esteira do eminente exegeta quando s. ex.^a +pinta, ao sabor da sua fantasia rocamboliana, Bernardim Ribeiro: +«*moreno, fino e enchuto de carnes, com a perdição no olhar e a +fatalidade invencivel no amor*.»[8] + +Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, alto e bom som o +declaramos; mas alguns erros tivemos ocasião de apontar ao biógrafo +ilustre do autor da _Menina e moça_, para que os corrija, querendo, nas +futuras edições, pelo que nenhum agradecimento nos deve, seja dito. + +Que teria perdido o renome universal do Mestre em se mostrar, não +diremos mais benevolente, mas mais justo? Oh! o positivismo!... + +Mas assevera o snr. dr. Theóphilo Braga que nós *forçamos interpretações +de versos a significarem os factos que imaginamos*! + +Onde viu s. ex.^a essas interpretações forçadas? + +Tendo-as visto, por que motivo não veio indicá-las em público, para +exautoração do nosso _hipercriticismo_, para maior glória do seu +laureado nome, para mais intenso fulgor da nossa História literária? + +Forçâmos interpretações de versos! + +Se o professor de literatura estivesse de boa fé, e entendesse realmente +que nós haviamos errado a interpretação de versos de Bernardim, que lhe +competia fazer, que lhe cumpria fazer? + +--Indicar-nos onde haviamos errado, fazendo-nos ver que estavamos em +erro; e quando s. ex.^a nos convencesse da razão das suas corrigendas, +ou reprimendas, acredite o snr. dr. Theóphilo Braga que havia de ver-nos +confessar, com honestidade, sem o menor rebuço, que tinhamos errado, e +não fugiriamos a apregoar que o ilustre censor nos aplicara umas +palmatoadas merecidas. + +Mas quando mesmo (o que não está demonstrado) tivessemos incorrido em +erros ao interpretar versos de Bernardim, tinha, porventura, o snr. dr. +Theóphilo Braga a precisa autoridade para os apontar por aquela fórma +agressiva, com semelhante crueza? + +--Não tinha. S. ex.^a não póde arguir quem quer que seja de _forçar +interpretações_, porque ninguem como o professor do Curso Superior de +Letras é useiro em amoldar interpretações de versos ao sabor da sua +imaginação. + +Para que ninguem nos incrimine de injustos para com o snr. dr. Theóphilo +Braga, vamos demonstrar com exemplos colhidos em obras do Mestre algumas +_interpretações_ bizarras, que oferecemos ao critério dos que nos lêem: + +N'uma das éclogas de Bernardim Ribeiro, o poeta bucolista, referindo-se +a uma visita que lhe fez o seu amigo Sá de Miranda, escreveu a narrar o +facto: + + + ....................... + e neste mêo chegou + um pastor seu conhecido, + e que dormia cuidou. + + Franco de Sandovir era + o seu nome, e buscava + [~u]a frauta que perdera, + que elle mais que a si amava. + Este era aquelle pastor + a quem Celia muito amou, + ninfa do maior primor + que em Mondego se banhou, + e que cantava melhor. + +Veja-se como o snr. dr. Theóphilo Braga anotou estes versos: + + + «*Deve entender-se que foi o pastor, que se banhou no Mondego, e + não Celia, como pode inferir-se*.» + + _Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 49_ + + + * * * * * + + +Na écloga em que Bernardim adoptou o criptónimo _Crisfal_, descreve o +poeta a aparição da mulher amada, que vê em sonho + + + vestida de *arenoso*, + + +ou seja de amarelo, a côr simbólica do pesar ou desespero, o que +qualquer bronco namorado de aldeia sertaneja não ignora. + +Pois o snr. dr. Theóphilo, querendo fazer da mulher amada por _Crisfal_ +uma freira cisterciense, interpretou a passagem aludida pela seguinte +maneira: + + + «*Crisfal viu a sua Maria vestida de côr de arenoso, ou do habito + amarellado da Ordem cisterciense*...» + + _Obras de Christovam Falcão, p. 11_ + + +Ora o hábito da Ordem de Cister não era amarelado, mas branco! + +Não obstante, seguindo o mesmo critério, o distinto professor tambem +quis reivindicar para o suposto poeta Falcão a paternidade de uma poesia +de Bernardim Ribeiro consagrada a _uma senhora que se vestiu de +amarelo_... + + + Té aqui me pude enganar, + mas agora que podeis + trazer a *côr do pesar* + pera mim só a trazeis... + + +que o snr. dr. Theóphilo Braga comentou pelo seguinte processo +_inductivo_: + + + «*Ora o amarello só podia ser côr de pezar no caso de representar a + cúgula cisterciense; e em vista dos factos sabidos, só estava no + caso de escrever esta cantiga Christovam Falcão, e não Bernardim + Ribeiro pelo que se sabe da sua vida*.» + + _Obras de Christovam Falcão, p. 12_ + + +Mas, felizmente para a memória do poeta bucolista, a poesia em questão +foi uma das que o benemérito Garcia de Rèsende reproduziu no Cancioneiro +Geral, publicado em 1516, quando Cristovam Falcão de Sousa... ainda +andava de coeiros, se é que já pertencia ao numero dos vivos... + +Ora que distinção concederia o ilustre professor áquele dos seus +discípulos que, interrogado sobre a _côr branca_ do cavalo de Napoleão +1.^o, lhe respondesse que o sobredito imperial cavalo _branco_... era +_amarelo_? + + + * * * * * + + +Em uma das suas éclogas, o poeta-filósofo Sá de Miranda, aludindo ao +Amor, causa da desventura do seu camarada Bernardim Ribeiro, expressa-se +por esta fórma: + + + Amor burlando vá, muerto me deja; + Tiene de que por cierto; a su merced + Como de señor vine; armó la red, + Puso me en prision dura, ende me aqueja; + Cada ora mas se aleja + De mi, mucho cruel. Quien me desmiente? + Ah que lo saben todos! quien ganó + El precio de la lucha, ese perdió! + Enemigo señor que tal consiente! + + +Pois no Amor, no travesso, inconstante e cruel Cupido, o snr. dr. +Theóphilo viu nada menos que a personificação do favorito d'el-rei D. +João III, D. António de Ataíde, conde da Castanheira! + +Para que os leitores não julguem que fomos nós que interpretamos mal +quaesquer palavras do arguto exegeta, reproduzimos a sua anotação: + + + «...*aquelle retrato do inimigo senhor que tal consente, bem se + parece com o omnipotente valido o conde da Castanheira*.» + + _Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 206_ + + + * * * * * + + +Por um recente trabalho do nosso estimado camarada Hemetério Arantes +sobre Frei Agostinho da Cruz, já os leitores não ignoram que o professor +do curso Superior de Letras fez de *um gato bravo... uma cavalgadura*, e +do *Monte do Lobo... um lobo* carniceiro que devorou, chamando-lhe um +figo, a sobredita cuja cavalgadura! + +Para fechar esta exposição, referiremos ainda mais um interessante +episódio exegético da obra do Mestre: + +Em uma das poesias líricas de Luis de Camões, alude o grande poeta á +desventura que desde a infância o perseguia, como se vê dos seguintes +magoados versos: + + + Foi minha ama uma fera; que o destino + Não quis que mulher fosse a que tivesse + Tal nome para mi, nem haveria. + Assi criado fui porque bebesse + O veneno amoroso de menino... + + +de que tambem se conhece a seguinte variante: + + + Por ama tive [~u]a fera, que o destino + Não quis que melhor fosse a que tivesse + Para o que elle de mi fazer queria... + + +Em face da segunda versão, concluiu o snr. dr. Theóphilo Braga, +arguciosa e sibilinamente: + + + «*Esta versão tira todo o sentido figurado á antecedente, e d'aqui + se conclue, que Camões fora amamentado por uma alimaria, etc.*» + + _Historia de Camões, Parte II, Livro II, p. 564_ + + +Esta ideia verdadeiramente original de interpretar os versos de Camões, +dando-lhe por ama uma *alimária*, ou seja uma cavalgadura ou uma besta, +corre parelhas com a interpretação dada á _gineta_ de Frei Agostinho da +Cruz. + +Não se póde dizer que o eminente professor faça de um argueiro um +cavaleiro, mas não ha a menor dúvida de que s. ex.^a transforma um gato +bravo e uma brava ama de leite... em cavalgaduras! + +Pelo que respeita á ama de Camões, o que vale ao snr. dr. Theóphilo +Braga é o facto do nosso grande épico não poder, com facilidade, +escapulir-se do túmulo em que repousa no Panteão dos Jerónimos, _si vera +est fama_! De contrário, o _Trincafortes_ era capaz de fazer uma das +suas. + + +Parece-nos que fica suficientemente demonstrado quem é que fórça +interpretações de versos alheios a significarem aquilo que imagina... + + +*2* + + «Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela + impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro + e os de Christovam Falcão--«dois poetas de temperamento semelhante, + com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes + episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos + versos absolutamente eguaes.» + + _Do artigo «Movimento litterário»_ + + +Pela transcrição que o snr. dr. Theóphilo Braga indica, póde alguem +acreditar que foram realmente aquelas as palavras por nós empregadas no +nosso estudo. Não foram. O ilustre professor modificou a seu bel-prazer +o que nós escrevemos, que se lê a paginas 6 do nosso livro sobre +Bernardim: + + +«Muito embora o temperamento dos dois poetas fosse semelhante, mesmo +muito semelhante, e eguaes as influências e educações literárias que +houvessem recebido; embora fossem eguaes os episódios dos seus +infortunados amores, é estranho que por fórma tam absolutamente +semelhante traduzissem o seu sentir, revelassem o seu temperamento +artístico, chegando a empregar versos absolutamente eguaes! etc.». + + +Porque não reproduziu, _fielmente_, o snr. dr. Theóphilo Braga aquilo +que escrevemos? Estranha maneira de exercer a crítica... moderna! + + +*3* + + «D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? + Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falcão como uma + lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de + _Crisfal_ indo buscar á tôa ás palavras _Crisma falsa_, + tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante + Bernardim Ribeiro.» + + _Do artigo «Movimento litterário»_ + + +Afirma o snr. dr. Theóphilo Braga que consideramos a individualidade +poética de Cristovam Falcão como uma lenda estúpida formada pelos +genealogistas... Onde encontrou s. ex.^a a base em que firma a sua menos +verdadeira afirmativa? + +Vamos reproduzir o que escrevemos a paginas 9/10 do nosso livro, para +desfazer a arbitrária interpretação do venerado professor. + + + «Cotejámos então as referências de Bernardim a Francisco de Sá com + a alusão que na écloga de _Crisfal_ haviamos interpretado como + visando esse poeta, e qual não foi a nossa alegria, a nossa viva + satisfação ao reconhecer que os versos de _Crisfal_ que alvejavam + Miranda condiziam perfeitamente com as referências das éclogas de + Bernardim ao seu grande amigo e confidente! Não condiziam apenas: + completavam, aclaravam, a nosso ver, essas alusões. + + «Fez-se então uma grande luz no nosso espírito. Não se tratava de + dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. + Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ eram um ùnico poeta. O trovador + Cristovam Falcão era o produto de uma lenda nascida da + interpretação dada pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_. + + «E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, lá estavam + os dizeres alusivos á ecloga de _Crisfal_ da edição de Colónia, + revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphánio + Dias: «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, _ao que parece aludir_ + o nome da mesma écloga.» + + «_Que dizem ser_... _ao que parece aludir_... + + «Isto, a nossos olhos, era decisivo. «Os editores de 1559 das obras + de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois + viemos a apurar, tinham registado com relação á écloga uma fábula + que devia datar da primeira edição das _Trovas de Crisfal_, etc.» + + +O que nós dissemos, pois, e isso sustentâmos, é que a individualidade +poética de Cristovam Falcão nascera da errada interpretação prestada +pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_,--fábula que os editores de 1554 e 1559 +das obras de Bernardim Ribeiro tinham registado, _sob reservas_. + +Como haviamos nós de propalar terem sido os genealogistas que formaram a +lenda, se os genealogistas, depois de 1554 e 1559, é que foram buscar as +_tradições vagas_ recolhidas pelos editores de Bernardim? + +Onde estão os genealogistas anteriores ás edições de Ferrara e de +Colónia que se fizessem éco da fábula do _Crisfal_? + +Ah! malfadados _processos inductivos da crítica moderna_! + + +Diz o snr. dr. Theóphilo Braga que nós fomos buscar _á tôa_ as primeiras +sílabas das palavras _Crisma_ e _falso_ para a nosso alvedrio designarem +Bernardim Ribeiro! + +Não foi _á tôa_, como inculca o nosso acerbo censor, que conseguimos +apurar a constituição do criptónimo _Crisfal_; e que não foi á tôa +sabe-o muito bem o implacavel critico, que não deixou de ler, e que até +a reproduziu, a explicação que sobre tal facto demos: + + + «Alcançada a convicção de que _Crisfal_ era um anagrama de + Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas + produções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com + um pequeno trabalho de raciocínio não nos foi dificil deduzir a + constituição do criptograma, que era formado pelas primeiras + sílabas das palavras _Crisma_ e _Falso_.» + + +E corroborando estes dizeres do prólogo do nosso livro (p. 10), +escrevemos mais adeante (p. 82/83) ao tratar da interpretação da écloga +atribuida ao suposto _Crisfal_, Cristovam: + + + «Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta écloga das + palavras _Crisma_ e _Falso_, de que aproveitou as primeiras + sílabas, formando assim a palavra _Crisfal_. + + «Os nomes pastoris que figuram n'esta écloga, obedecendo á ideia + que fundamentou a composição, são todos êles _crismas falsos_, + sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta pôs + em scena, o que deu lugar a erradíssimas interpretações, + contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do + próprio anagrama _Crisfal_, que foi tomado como deduzido dos nomes + de Cristovam Falcão.» + + +Não foi á tôa mas seguindo uma orientação criteriosa, que alcançámos a +verdade, que nenhuma subtileza conseguirá destruir já agora. + +Outro-tanto não se póde dizer da maneira pela qual o snr. dr. Theóphilo +Braga conseguiu, por exemplo: decretar os *cantos de ledino, estampar +como documento do século XVI um apócrifo contendo versos do século +XVIII, e fazer Camões bacharel formado... em latim pela Universidade de +Coimbra*! + +Se nós, invocando esses precedentes, ousassemos retorquir que _á tôa_ +costumava proceder o escritor que contraditâmos, caía-nos em cima o +Carmo e a Trindade! + +_Á tôa!_... É realmente forte, e não deixa de ofender. + + +*4* + + «Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes + contidos na écloga de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes + como o de _Pantaleão_ Dias de Landim, seu avô, e a Joanna, que lhe + denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr. + Jordão de Freitas?» + + _Do artigo «Movimento litterário»._ + + +_Lenda genealógica_, chama o snr. dr. Theóphilo Braga á lenda do +_Crisfal_, como se fossem os genealogistas que a inventassem, quando s. +ex.^a muito bem sabe que estes não tiveram tal primasia... O caso está +sobejamente debatido, e por isso não vale a pena perder mais tempo com +tam ruim defunto. + +Tratemos do _Pantaleão_... + +Na eclóga de _Crisfal_, refere se Bernardim ao _Val de Pantaleão_... + +O snr. dr. Theóphilo Braga, interpretando erradamente uma passagem da +_Pedatura_ do genealogista Alão de Moraes, em que se mencionava o +casamento de uma parenta remota de Maria Brandôa com um João _Patalim_, +escreveu a pag. 344 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_: + + + «Pelo Manuscripto já citado de Alão de Moraes acha-se noticia do + aqui chamado _Val de Pantaleão_: D. Joanna, tia avó de D. Maria + Brandão, casara a primeira vez com João _Pantalião_; etc.» + + +No nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, desfizemos esse erro, +escrevendo a pag. 159: + + + «O ilustre professor equivocou-se na leitura do texto. Não se trata + de nenhum João _Pantalião_, como erradamente leu, mas sim de um + João _Patalim_, que é o que se lê no manuscrito de Alão de Moraes, + como verificámos por nossos próprios olhos.» + + +Desfeita essa interpretação, não se dá o snr. dr. Theóphilo Braga por +vencido, e vae agarrar-se a um avoengo de Maria Brandôa para justificar +a referência ao _Val de Pantaleão_... + +Quanto á _Joana_, o caso não é menos interessante... + +Vejamos o que, no seu _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ (pag. 342), +escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga em 1897: + + + «Esta Joanna, que denunciou os amores de Crisfal e Maria, era D. + Joanna Pereira, sua irmã mais velha; Maria era a mais nova, de + cinco filhos que tinha o Contador João Brandão.» + + +Foi esta mais uma _gaffe_ em que o snr. dr. Theóphilo incorreu, por +haver confiado demasiadamente nos créditos do genealogista Alão de +Moraes. + +A pag. 162 do nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, desfizemos esse erro, +escrevendo: + + + «Maria Brandão, a lendária amada do _Crisfal_, não teve nenhuma + irman! era filha única!» + + +Em face da corrigenda, o distinto escritor não se sentiu com coragem +para sentencear que Joana era irman natural de Maria Brandôa, mas +procurou arranjar (iamos a escrever _á tôa_, mas não tivemos coragem) +outra Joana, e, á primeira que encontrou á mão, chamou-a em seu auxílio. + +Dera-se o caso de o snr. Jordão de Freitas, distinto funcionário da +biblioteca da Ajuda, no louvavel empenho de auxiliar aqueles que +quisessem discutir a questão literária suscitada pelo nosso livro, +publicar no «Diario de Noticias» o resultado das suas pesquizas nos +arquivos, reproduzindo quanto julgou interessante para o estudo do +problema. + +Fez s. ex.^a menção de uma parenta de Maria Brandôa com o nome de +Joana... + +Como um naufrago, que se agarra á primeira táboa que lobriga ao alcance +da mão, o snr. dr. Theóphilo agarrou-se (no bom sentido da palavra, bem +entendido!) á sobre-dita Joana, e, radiante de contentamento, +exclamou:--«Estou salvo!» + +E, julgando-se, realmente, salvo da rascada, escreveu ufano: + + + «...a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, + como o notou o sr. Jordão de Freitas.» + + +A esse engano de alma, ledo e cego, foi arrancá-lo o snr. Jordão, +desapiedadamente na carta que, a propósito, dirigiu ao «Dia», e de que +reproduziremos a parte essencial: + + + «O sr. dr. Theóphilo Braga equivocou-se na sua referencia a Joanna + e ao que diz ter sido notado por mim. + + ................................................................. + + + ...tive unicamente em vista assentar que Joanna Brandão não era tia + avó de Maria Brandão, como erroneamente escrevera o sr. dr. + Theophilo Braga, mas sim sua prima remota. + + «Tão remota, direi agora, que era neta de um irmão (Diogo Lopes + Brandão) do 4.^o avô (Gonçalo Brandão) de Maria Brandão + (Bibliotheca Real da Ajuda, 49-XII-28, pag. 259). + + «Sendo assim, nem é presumivel que aquella chegasse a viver no + tempo de Maria Brandoa, quanto mais que andasse a pastorear com + ella, etc.»[9] + + +Veremos, depois de este insucésso, que nova Joana nos apresentará na +primeira oportunidade o distinto escritor... + +Quem sabe se a Joana do _Crisfal_ não teria sido aquela encantadora +Joaninha dos olhos verdes, que tanto enfeitiçou Garrett... Mas não; em +caso contrário o autor das _Viagens_ não deixaria de mencionar essa +circunstância! + + * * * * * + +Na estrofe de Bernardim Ribeiro, na écloga _Crisfal_, em que a amada do +poeta se refere a ter passado para o _casal da Figueira_ do _Val de +Pantaleão_, designações que a nosso ver disfarçam, sob _falsos crismas_, +os nomes verdadeiros da casa e localidade para onde se transferiu, +talvez após o casamento, a decantada _Aonia_, encontra-se, nítida, a +alusão á ultima entrevista dos namorados: + + + «Quando contigo falei + aquela ultima vez, + o choro que então chorei, + que o teu chorar me fez, + nunca o esquecerei. + Foi esta a vez derradeira, + mas começo de paixão, + passando-me eu então + pera o casal da Figueira + do Val de Pantalião.» + + +Achamos interessante reproduzir, n'esta altura, do capítulo XXVIII da +_Menina e moça_, os periodos referentes á ultima entrevista de +_Bimnarder e Aonia_ para que os leitores, com maior facilidade, possam +orientar o seu juizo, verificando a absoluta identidade entre as duas +produções de Bernardim Ribeiro: + + +«...Buscando achaque de querer lá ir pera detraz das casas, levando Enis +consigo, ouve tempo pera Aonia entrar onde elle (Bimnarder) estava então +deitado, escontra a outra parte da parede, chorando, porque não vira +Aonia ao passar, que bem se podera elle erguer. E como isto perdera, +cuidava tambem que avia de perder a tornada; porque um mal nunca lhe +viera sem outro; pelo que estava no maior pranto do mundo, antre si. + +«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que elle chorava, e +suspirava baixo, de maneira que como, naquello, se forçava a si mesmo. + +«Ella, para ver se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber +d'elle, deteve-se ainda mais; mas elle, com pensamentos muitos, que +sobrevinham ao choro, mais o acrescentava do que o diminuia. + +«Assentando-se então Aonia na borda d'aquella sua pobre cama, lhe pôs a +mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o +espirito. + +«Virando-se Bimnarder, e vendo a, tambem lhe faleceu o seu. + +«Estiveram assi ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro: +e elle, com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão, +que, em se virando Birmnarder, tomou vergonha. Levando-os assi á terra, +cobriu-se-lhe o seu fermoso rosto de uma tamalavez de côr, alem da +natural; e soía dizer meu pae (que parte d'esta historia em seu tempo se +soubera) que não parecia se não que viera aquella côr como por ajudar +ainda Aonia escontra Bimnarder, tam formosa a ella, formosa, fizera. + +«Mas, estando assi nisto elles ambos, e não estando elles ambos ali, +chegou Enis muito rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a +mandavam chamar. + +«Assi, foi forçado levantar-se Aonia, e ir se, e Bimnarder ver tudo, e +ficar. + +«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma +manga de sua camisa, e, rompendo-a, pera remedio de suas lagrimas lh'a +deu, significando, na maneira só de como lha deu, o pera que lh'a dava; +que parece que a dor grande que sentia não lh'o deixou dizer por +palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só +assi: + +--«Pesa-me, pois a minha ventura ou desaventura, não quis que eu vos +deixasse de magoar com o que eu não quisera.»-- + +«E estas palavras lhe disse já fora da porta. + +«E com ellas, e com o que sentiu ao dizer d'ellas, duas e duas, lhe +começaram as lagrimas a correr dos seus fermosos olhos, e, pelas suas +faces fermosas abaixo, lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que +Bimnarder a tanto pranto convidou quanta era a rezão d'elle, pois perdia +a vista. + +«Foi tanto o choro, que não lhe abastavam os seus olhos ás suas +lagrimas...» + + +*5* + + «Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados + com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180 + da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de + Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão;» + + _Do artigo «Movimento litterário»._ + + +É com verdadeiro pesar que vemos o encanecido trabalhador recorrer a +processos como o que ressalta da afirmação que deixamos transcrita, só +pela caturrice de não querer confessar que errou... + +O leitor desprevenido ficou julgando, certamente, por honra da firma que +subscrevia o artigo _Movimento litterario_, que na livraria do Conde de +Vimieiro tinham existido _os manuscritos conhecidos de Bernardim +Ribeiro_, que _andavam ligados com os de Christovam Falcão_... + +Pois, se tal ficou julgando, enganou-se redondamente. + +O snr. dr. Theóphilo Braga adulterou a verdade dos factos, procurando +talvez iludir-se a si proprio, pois não podemos admitir que s. ex.^a +imaginasse, por tal processo, mistificar alguem. É até possivel, +muitissimo provavel mesmo, que o ilustre escritor não pesasse +devidamente as palavras de que se serviu, e que assim incorresse, na +melhor boa fé, n'uma indesculpavel inexactidão. + +Vejamos onde o snr. dr. Theóphilo Braga foi fazer a descoberta preciosa +dos _manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro_... + +Ao n.^o 180 do catalogo da Livraria do Conde de Vimieiro, como consta do +tomo V da _Colleçam dos documentos, e memorias da Academia Real da +Historia Portugueza_. + +O distinto professor não indicou a _fonte_, certamente por lapso, mas +nós conseguimos descobri-la sem carecer do auxílio de _dunguinha_. + +Ouçamos agora a conferência do Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de +Menezes, em relação ao codice N.^o 180: + + + «Tem o volume que examinei 287 folhas, as quaes nos primeiros + numeros eram 330, porem as que lhe faltão, parecem mudadas para + outras Collecções, e sendo a letra, e papel de duzentos annos de + antiguidade, pois a folhas 122 se acabão as noticias com a morte + del Rei D. Manoel, que foi a 13 de Dezembro de 1521; se conserva + este manuscripto inteiro, e em bom estado....................... + + (Traz a divisão do livro em 5 partes e segue: + + «A segunda divisão deste livro consiste em algumas Memorias de + successos raros de Europa, como são uma carta del Rei Ludovico de + Hungria para o Emperador na ultima batalha que deu ao Turco, uma + Relação dos infelizes principios de Luthero, e outros. Seguem-se + cartas de homens celebres d'aquelle tempo pelo seu engenho, e + graça, que entre as alusões jocoserias descobrem memorias + particulares: deste genero são sete de Antonio Ribeiro Chiado, duas + de Lourenço de Caceres, e outros. As obras em prosa, e verso de + Francisco de Sá de Miranda, as de Bernardim Ribeiro, Christovão + Falcão, André Soares, Francisco de Moraes, Gil Vicente, Duarte de + Oliveira, o Barão D. Diogo Lobo, e outros Poetas antigos, servem de + verificar as varias lições das impressas, e de restituir as + manuscriptas.»[10] + + +Como se vê, por uma fórma irrefragavel, não se tratava dos manuscritos +conhecidos de Bernardim Ribeiro, como não se tratava egualmente de +manuscritos de Cristovam Falcão... + +Tratava-se de uma miscelánea manuscrita, em prosa e verso, que continha +produções de vários poetas, e, entre essas, as que se atribuiam ao +suposto _Crisfal_. A simples citação do nome de Cr. Falcão logo após o +de Bernardim não bastará para se ajuizar que no manuscrito havia cópia +das poesias que nas obras de B. Ribeiro vinham atribuidas, sob reservas, +ao suposto trovador? + +Se nós, para documentarmos o nosso livro _Bernardim Ribeiro_, tivessemos +recorrido a expedientes semelhantes, como não seriamos julgados pelo +snr. dr. Theóphilo! + + +*6* + + «tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues + examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em + que vinham a _Menina e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e + até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, do que se + faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dicc. + Bibliog._)» + + _Do artigo «Movimento litterario»._ + + +O arcediago do Barreiro, invocado pelo snr. dr. Theóphilo Braga, era o +arcediago do Barroso, cujos apontamentos manuscritos foram explorados +por Innocencio. + +Vejamos o que o benemérito bibliófilo escreveu a pag. 379 do seu +_Diccionario Bibliographico portuguez_: + + + «Nos apontamentos manuscriptos do arcediago de Barroso Jeronymo + José Rodrigues, de que já outras vezes me aproveitei n'este volume, + encontro ácerca do auctor da _Menina e moça_ o trecho que se segue: + + + «As obras de Bernaldim Ribeiro (que assim se acha escripto o seu + nome no manuscripto que lemos, e assim diz Nicolau Antonio na + _Bibl. Hispanica_, que vulgarmente era chamado) por sua muita + raridade são difficeis de encontrar, e duvidamos que se hajam + impresso todas. A _Bibl. Lus._ faz só menção da Menina e moça, ou + _Saudades de Bernardim Ribeiro_. Além das impressões que alli cita, + que são tres, faz Nicolau Antonio menção de uma, impressa em Lisboa + em 1559, em 8.^o, que em tudo tem muita semilhança com o + manuscripto, que tivemos alguns tempos em nossa mão, e que vamos + aqui extractar. O titulo em nada desmente do que traz a _Bibl. + Hisp._, e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, + de que se faz menção n'este mesmo logar de Nicolau Antonio.--O + titulo que se lê no manuscripto é: _Historia da Menina e moça, por + Bernaldim Ribeiro_. Principia: «_Menina e moça me levaram de casa + de minha may para muito longe_», e acaba: «_Com demasiada ira disse + contra a Donzela que ho aly trouxera estas palavras_». Consta de + historia em prosa, e inclue em alguns lugares poesias de gosto são + e pura linguagem, etc. E além da historia, acham-se no manuscripto + duas eclogas de que o abbade Barbosa talvez não teve noticia. Na + primeira são interlocutores Persio e Fauno; principia: «_Nas selvas + junto do mar_», e consta de trinta e quatro estancias de dez versos + cada uma.--Na segunda são interlocutores Jano e Franco, principia: + «Dizem que havia um pastor», e acaba: «Tambem tempo é tormento.» + + «De tudo o que diz aqui o arcediago de Barroso concluo, que não só + elle ignorou a existencia da moderna edição da _Menina e moça_, + feita em Lisboa no anno de 1785, mas tambem só conheceu de nome as + edições anteriores sem que lograsse ter presente algumas d'ellas, + pois que a tel-as visto, nenhuma novidade encontraria nas duas + éclogas que cita do tal manuscripto, onde pelo que se mostra + faltavam todas as outras já então impressas.» + + +Não conheceu Innocencio a edição das obras de Bernardim Ribeiro +publicada em Ferrara em 1554, porque se a houvesse conhecido logo +concluiria que o manuscrito examinado pelo arcediago de Barroso outra +cousa não era mais do que uma cópia incompleta d'essa edição. + +Ignora o, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga? + +Se o não ignora, para que veio a público com a citação incompleta da +passagem do Diccionário de Innocêncio? + +Bom serviço prestou o arcediago de Barroso trasladando o período inicial +na novela na edição de 1554, conforme o manuscrito que teve entre mãos: +«Menina e moça me levaram de casa de minha may...» + + +*7* + + «Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de + Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos + como os encontraram?» + + _Do artigo «Movimento litterario»_. + + +Chamámos ineptos aos editores das obras de Bernardim Ribeiro, e que não +erramos em nossa apreciação demonstra-o evidentemente o próprio snr. dr. +Theóphilo Braga, quando na carta que nos escreveu, referindo-se ás +edições de Ferrara e de Colónia, diz terem sido feitas _por curiosos sem +critério litterário_. + +Se esses curiosos não fossem ineptos, podia porventura o ilustre +professor negar-lhes _critério_? + +As rúbricas da edição de Colónia, em 1559, são reprodução das de 1554, +como o snr. dr. Theóphilo Braga não desconhece. + +Pertencem as rúbricas da edição de 1554 ao seu editor ou este não fez +mais do que reproduzi-las da primeira edição? + +Sem que seja conhecida a edição principe das obras de Bernardim Ribeiro, +não é possivel aclarar este ponto, mas o que ninguem póde dizer com +autoridade é que taes rúbricas: «que dizem ser... ao que parece +aludir...» pertencessem aos manuscritos do infortunado Bernardim. + +«Por terem reproduzido _esses textos_ manuscriptos como os encontraram», +escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga, procurando incutir que taes edições +foram feitas sobre os manuscritos pertencentes ao Conde de Vimieiro e +sobre o outro examinado pelo arcediago do Barroso! + +A primeira edição das obras do poeta bucolista resultou dos manuscritos +de Bernardim Ribeiro, recolhidos após a morte do apaixonado cantor de +Joana, ou no ultimo período da sua desventurada existência, e dados á +estampa por qualquer curioso sem critério literário... + +E proclamando isto, que representa a expressão do nosso sentir pessoal, +estamos convencidos de que está com a nossa opinião o snr. dr. Theóphilo +Braga, que sempre tem sustentado que as edições das obras de Bernardim +se fizeram sobre os manuscritos encontrados no seu espólio.... + +Mudará s. ex.^a de orientação? Até prova em contrário, não acreditamos. + + +*8* + + «...o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta...» + + _Do artigo «Movimento litterário»_ + + +«_Grande descoberta_», é como o snr. dr. Theóphilo Braga chama, +ironicamente, ao resultado dos nossos trabalhos... Pequena ou grande +descoberta, o facto é que està de pé, não conseguindo o abalisado +professor destrui-la. + +Compreendemos bem que isso seja pouco agradavel a s. ex.^a, que tanto se +havia empenhado em pôr um pedregulho sobre o caso do poeta _Crisfal_, +mas nós, só pelo prazer de ser agradaveis ao ilustre escritor, é que não +vamos ressuscitar o trovador Cristovam Falcão. Deixá-lo dormir em paz, +serenamente. + +Quanto a descobertas grandes, lembra-nos citar uma que _in illo tempore_ +fez o snr. dr. Theóphilo Braga... + +Dirigia o distinto poeta snr. Joaquim de Araujo uma publicação +camoneana, cujo título nos não ocorre. + +Vae se não quando recebe uma comunicação do snr. dr. Theóphilo Braga... +Uma descoberta importante... Nada menos que um parente ignorado do +grande épico Luis de Camões. + +Chamava-se o homem _Pero Camões_, segundo o ilustre professor lera, +radiante, em determinado texto... + +Pois, senhores, na volta do correio, Joaquim de Araujo prevenia +generosamente o Mestre de que este errara a leitura do texto... O _Pero +Camões_ do snr. dr. Theóphilo Braga era um simples e inofensivo *pero +camoês*! + + +*9* + + «No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, + proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade + inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia.» + + _Do artigo «Movimento litterário»_ + + +Por esta fórma pouco... _generosa_ se referiu o snr. dr. Theóphilo Braga +ás palavras de caloroso elogio com que o ilustre escritor snr. José +Pereira Sampaio, em carta publicada no «Diario da Tarde», do Porto, +valorizou com o prestígio do seu nome o fruto do nosso trabalho. + +Contra a injusta apreciação do professor do Curso Superior de Letras, já +lavrámos o nosso protesto, de amigos e admiradores de _Bruno_, no artigo +que publicámos na «Lucta» e que vae transcrito no primeiro capítulo +d'este livro. + +Quando mesmo, o que não sucede, o ilustre escritor portuense estivesse +em erro, era digna de todo o respeito a sua opinião, e não seria nunca o +snr. dr. Theóphilo Braga, com a sua consciente falta de sinceridade, +quem teria direito para o arguir pela maneira insólita por que o fez. + +Será, porventura, o _positivismo_ inimigo inconciliavel da Justiça? + + +*10* + + «A verdadeira descoberta pertence ao snr. Braancamp Freire + determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão + Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que + existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do + Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 + refere se a Christovam Falcão, com a tença de moço fidalgo leva a + deduzir que nascera em 1512.» + + _Do artigo «Movimento litterário»_ + + +Fixa o snr. dr. Theóphilo em 1530 os amores do suposto poeta com a sua +suposta amada Maria Brandôa. + +Muito bem. + +Admitindo que assim fosse, só depois de 1530 Cristovam Falcão poderia +ter produzido a _Carta_ e a _Écloga_ que lhe foram atribuidas... + +Ora como podia isto ser, em face dos _processos inductivos da critica +moderna_, tam preconizados pelo snr. dr. Theóphilo Braga? + +Ouçamos a lição autorizada do ilustre professor, que se lê a pag. 4 da +sua chamada edição das obras de Cristovam Falcão: + + + «*Se Christovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de + Miranda propagou as fórmas da poetica italiana, teria então + adoptado o verso endecasyllabo, a fórma da OUTAVA e do TERCETO, o + SONETO, e teria perdido o conceito provençalesco dos poetas que + seguiam o INFERNO DO AMOR; Falcão desconheceu esta nova poetica.*» + + +Pela mesma maneira se exprimiu o snr. dr. Theóphilo Braga na sua edição +de _Bernardim Ribeiro e os Bucolistas_. + +Repudia s. ex.^a o que com tanta clareza e precisão deixou estampado? + +Seria caso para invocar o _era, não era, andava lavrando_... + +Para o nascimento do pseudo-trovador, escolhe o snr. dr. Theóphilo +Braga, em ultima análise, a data de 1512, sem se lembrar talvez de que +por essa fórma caía em contradição consigo proprio... + +Vejamos: + +Na carta que nos dirigiu, escreveu o distincto escritor: + +«...D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, _sendo ambos muito +crianças_...» + +Ora tendo Cristovam nascido em 1512, como afirma o snr. dr. Theóphilo +Braga, e fixando-se as suas relações amorosas em 1530, como quer s. +ex.^a, tinha o mancebo quando começou a namoriscar os seus dezoito anos +seguros... + +A um rapazola de 18 anos ninguem com propriedade poderá classificar de +_muito creança_, a não ser por troça,--salvo melhor opinião. + + +*11* + + «Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Cristovão + Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, + corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim.» + + _Do artigo «Movimento litterário»_ + + +Não só corrigimos a interpretação das eclogas I e III de Bernardim +Ribeiro como todas as outras do desventurado poeta... Mas o snr. dr. +Theóphilo Braga entende em seu alto critério que só ha a corrigir as +duas que citou, e essa correcção reserva-se s. ex. fazê-la, certamente. +Aguardemos a futura refundição do livro sobre os bucolistas, para +ajuizarmos da fertilidade inventiva do ilustre professor,--_de fantasia +fertil em combinações_, no dizer autorizado da senhora D. Carolina +Michaëlis. + + +*12* + + «Os logares comuns a Cristovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a + distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já + era admirado, cujos versos, Camões, na sua carta de Africa + intercalava na sua prosa.» + + _Do artigo «Movimento litterário»_ + + +Como comentário único, permitir nos-emos endereçar algumas perguntas ao +snr. dr. Theóphilo Braga: + +Estando Bernardim Ribeiro louco no ano de 1532, como o próprio snr. dr. +Theóphilo tem sustentado, como explica o ilustre professor que no +espólio do poeta bucolista fossem encontradas as composições atribuidas +ao falso Crisfal? + +Na edição refundida do seu livro sobre os bucolistas, em 1897, o snr. +dr. Theóphilo Braga explicou o facto da seguinte maneira: + + +«...*os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este +modo que se salvaram as poesias do auctor do Crisfal.*» + + +Ora não podendo o abalisado professor continuar persistindo em que +Bernardim Ribeiro teve por amigo e confidente Cristovam Falcão de Sousa, +como poderá s. ex.^a explicar que entre os manuscritos legados por +Bernardim se encontrassem as composições do... _último eco do alaúde_? + +Para prevenir qualquer subtiliza de argumentação, é conveniente não +esquecer s. ex.^a que na écloga _Crisfal_ se encontram lugares comuns a +todas as éclogas de Bernardim Ribeiro e á própria novela _Menina e +moça_. + +E não esquecer egualmente que, após a publicação do nosso estudo sobre o +_Poeta Crisfal_, já o snr. dr. Theóphilo Braga foi obrigado a reconhecer +que: não podia continuar a admittir _as relações pessoaes de Cristovam +Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de +amor com um rapaz no viço da mocidade_. + +Bernardim nasceu em _1482_, é bom não olvidar tambem. + +Cristovam Falcão de Sousa nasceu em... _1512_, conforme a ultima versão +apresentada pelo articulista do _Movimento litterário_. + +Os amores de Falcão e Maria Brandôa foram fixados pelo snr. dr. +Theóphilo Braga, em ultima análise, no ano de _1530_. + +Ora na _Carta de Crisfal_, fala o poeta na prisão de amor que está +sofrendo _ha cinco anos_... Logo, ou não ha lógica, uma das composições +do suposto trovador foi elaborada pelo ano da graça de _1535_, quando +Bernardim havia já três anos que fôra ferido pela desgraça que o levou +ao hospital de Todos os Santos, onde veio a acabar seus desventurados +dias em _1552_. + +Consignado o que fica exposto, aguardemos a resposta ás perguntas atrás +formuladas, e, para fechar o capítulo, façamos nossos os seguintes +versos de Bernardim: + + + Baste o que tenho dito + pera aver, por galardão, + tres regras de vossa mão, + pera resposta das quaes + ......... fique o mais + que aqui escrever devera, + se o escrever podera. + + + + +VI + +Uma patranha genealógica + + +Seguindo a lição de vários genealogistas, démos curso, no nosso estudo +sobre Bernardim Ribeiro, á atoarda que fazia Cristovam Falcão de Sousa +descendente de certo John Falconet, cavalheiro inglês que viera para o +nosso país na comitiva da desposada d'el-rei D. João I, Filipa de +Lencastre. Antes de nós, os snrs. Epiphánio Dias e dr. Theóphilo Braga +haviam incorrido no mesmo erro. + +Publicado o nosso trabalho, honrou-nos o erudito escritor sr. Anselmo +Braamcamp Freire com o seguinte esclarecimento, que registamos com +prazer: + + + «...Julgo-me obrigado a advertil-o que publiquei um documento no + _Archivo histórico_, suficiente para destruir a petarola inventada + pelos genealogistas dos Falcões descenderem do tal Falconet. + Catorze anos antes deste chegar a Portugal já existiam Falcões, + proprietarios em Evora, e vassalos de D. Fernando (_Arch. hist._ + III, 407.) É uma minucia que não influe em nada no seu têma; mas, + repito, entendo dever meu avisál-o». + + +Não será este, certamente, o único erro em que teremos incorrido no +nosso trabalho, e de que nos penitenciâmos sem a menor relutância. + +Errar é próprio dos homens, como afirma o conhecido aforismo latino; o +que é condenavel é persistir no erro. + +Não temos a estulta vaidade de haver produzido um trabalho sem defeitos, +e de bom grado aceitaremos as correcções que nos ministrarem, e com que +o nosso critério se conforme. Somos incapazes de persistir n'um erro por +simples capricho de amor-próprio, indesculpavel em assuntos de natureza +_histórica_. + +Bem presentes conservâmos as palavras sensatíssimas do professor +bracarense Pereira Caldas: «Em _história_, ha sempre que discutir, +sempre que examinar, sempre que emendar, sempre que aditar.» + + + + +VII + +O criptónimo «Fileno» + + +No numero do jornal _O Dia_, de 15 de dezembro de 1908, consagrou-nos o +conceituado filólogo, snr. A. R. Gonçalves Viana, uma das suas +interessantes _Palestras filológicas_. + +É aquela que vamos registar, e que em seguida comentaremos: + + + «Delfim Guimarães, no seu livro recentemente publicado, e que faz + honra á erudição portuguesa, com o titulo *Bernardim Ribeiro*, e o + sub titulo *O poeta Crisfal*, aventa a idea de que o criptónimo + _Fileno_ seja o disfarce do adjectivo _felino_, latim _felinus_, + procedente do substantivo _felis_, «gato», por alusão ao apelido + _Gato_, do marido de Joana Tavares, sua apaixonada. + + «Não se pode aceitar esta origem do dito nome, porque tal adjectivo + não existia em português ao tempo do poeta. É êle modernissimo na + lingua, pois nem Bluteau o incluiu no seu *Vocabulario portuguez e + latino*, nem mesmo no próprio *Diccionario portuguez* de Morais e + Silva figura tal adjectivo atè á 3.^a edição, feita no anno de + 1823, «correcta e acrescentada.» Vê-se pois que a introdução do + vocabulo _felino_ é não só posterior, e muito, ao século XV, mas + até aos começos do XIX, e que o poeta o desconhecia portanto. + + «Assim, pois, o nome Fileno, masculino, foi talvez fabricado + conforme o femenino Filene, que os gregos usaram, e cujo radical + será o de _Filipe_, por exemplo.» + + +Em primeiro lugar agradecemos ao snr. Gonçalves Viana o cumprimento +amabilissimo com que nos penhorou, que muito bem sabemos representar uma +gentileza, que não um acto de justiça. A benevolência usada para +comnosco por s. ex.^a motivou um remoque do snr. dr. Theóphilo Braga, do +que resulta tornar se ainda maior a nossa dívida de reconhecimento para +com o sábio poliglota, o que temos a peito deixar registado nas páginas +d'este trabalho. + +Consignado isto, digamos o que se nos oferece sobre a _palestra_ +motivada pelo nosso livro: + +Coube ao snr. visconde de Sanches de Baena a interpretação do nome +_Fileno_ como criptónimo de _Felino_, em alusão a *Pero Gato*, que o +referido titular apresenta como marido de Joana (_Aonia_). + +Nós não acreditamos na existência do Pero Gato do snr. Sanches de Baena, +como com inteira franqueza deixamos exarado nas páginas do nosso +trabalho; mas não nos repugnou admitir que o criptónimo invocado +alvejasse a alusão a um animal felino. E assim escrevemos a pag. 87 do +nosso estudo sobre Bernardim: + +«O anagrama _Fileno_ oculta, provavelmente, um individuo que tinha por +nome, apelido ou alcunha o nome de um animal _felino_. Seria Pantaleão? +Seria Gato? Estamos em crer que o assunto ainda poderá ser resolvido, +como outros muitos pontos por aclarar respeitantes á vida de Bernardim.» + +E na mesma página, a propósito do nome de _Lor_, ou _Lor-Vão_, referido +nalgumas edições da écloga de _Crisfal_, escrevemos nós: + +«Desde que se apure, *com segurança*, quem fosse o marido de Joana etc.» + +O não se ter ainda apurado quem fosse o feliz rival de Bernardim, não se +nos afigura motivo para pôr de parte, por em quanto, a interpretação +enunciada pelo snr. visconde de Sanches de Baena quanto a Fileno, aceite +pelo snr. dr. Theóphilo Braga, e a que nós tambem demos curso, embora +sob reservas. + +O facto dos antigos dicionários não fazerem menção do vocábulo _felino_ +não constitue razão para que se abandone essa hipótese, que póde não ser +exacta, mas que é sem dúvida racional. Como o snr. Gonçalves Viana muito +bem sabe, desde que no latim existiam os vocabulos _felis_, _felinus_, +com o significado de _gato_, ou _respeitante a gato_, nada mais natural +do que um escritor ter introduzido, lógicamente, o termo português +_felino_. E ninguem poderá contestar que Bernardim Ribeiro tivesse +envergadura sobeja para crear essa palavra. Bacharel formado em direito, +e poeta bucolista não ignorava certamente o vocábulo latino. + +A ser exacta a maneira de ver do snr. Gonçalves Viana sobre semelhante +assunto, como poderiam justificar-se tambem os numerosos neologismos com +que Luis de Camões enriqueceu a lingoa portuguêsa? + +Hoje mesmo, após recentes trabalhos de dicionaristas distintos, quantos +vocábulos portuguêses não falta ainda registar?! + +A hipótese, porém, que o ilustre filólogo apresenta merece ser ponderada +devidamente, sendo até possivel que s. ex.^a tenha resolvido o problema +quanto ao nome do marido de Joana Tavares, que poderia muito bem ter +sido _Filipe_. + +N'um _pliego-suelto_ castelhano do século XVI, de que existe um exemplar +na secção dos _Reservados_ da Biblioteca Nacional de Lisboa, ha um +dialogo em verso entre as personagens: _Alethio_ e _Fileno_.--Aleixo e +Filipe? Talvez! + +Em fim, parafraseando o que já escrevemos: Quando se apure _com +segurança_ quem foi o marido da mulher amada por Bernardim Ribeiro, +estarà implicitamente resolvido este problema. + + + + +VIII + +In terminis + + +Não estamos sós no combate que tivemos a satisfação de iniciar em prol +da obra de Bernardim Ribeiro. + +Ao nosso lado contamos a individualidade cheia de prestígio do snr. José +Pereira Sampaio, que em breve defenderá em livro tese idêntica á nossa, +demonstrando que o Poeta Crisfal é o bucólico Bernardim. + +Se de estímulo carecessemos para prosseguir confiadamente na tarefa que +nos impusemos, seria incentivo bastante o contarmos já entre aqueles que +se confessam convencidos pelo nosso trabalho, alem de muitos outros +espìritos esclarecidos, os nomes preeminentes dos srs. Anselmo Braamcamp +Freire, José Caldas e dr. Sylvio Romero. + +Não conseguiremos nós fazer vingar em nossos dias, por uma fórma +absoluta, a obra de justiça a que metemos hombros? Não será dada essa +satisfação ao ilustre escritor snr. José Sampaio? + +--Que importa? As sementes estão lançadas, o solo não é ingrato... As +sementes hão de vingar; a verdade triunfará, alastrando, impondo-se... + +Por fim, só nos resta endereçar, muito comovidamente, um aperto de mão, +agradecido e sincero, a quantos--bons amigos, camaradas e simples +conhecidos--nos teem bafejado com palavras de elogio e incitamento por +motivo da publicação do livro que deu origem a este novo trabalho. + + + _Amadora, 16 de março de 1909_. + + + + +APRECIAÇÕES DA IMPRENSA +AO LIVRO +"Bernardim Ribeiro +(O POETA CRISFAL)" + + + + + +«Bernardim Ribeiro» +(O Poeta Crisfal) + + +Delfim Guimarães é um poeta e um contista que há muitos annos firmou +brilhantemente o seu nome. Alma delicada de poeta, é, ao mesmo tempo, um +prosador elegante e correcto que conhece a sua lingua e sabe maneja-la. +Afastado de todas as egreginhas literarias, isento de todos os +snobismos, sem perder tempo nos cenaculos dos cafés, Delfim Guimarães +tem-se destacado e destaca se entre os da sua geração, sem dever nada ao +reclamo. + +Admirador entusiastico, apaixonado, de Bernardim Ribeiro, Delfim +Guimarães apurou um facto da mais alta importancia para a historia +literaria do seu paiz:--que Christovão Falcão e Bernardim Ribeiro são +uma mesma entidade. + +É essa demonstração, consciente, documentada, que o nosso amigo vem de +fazer neste livro--_Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)_--que é digno de +ser lido por quantos querem conhecer a historia das letras patrias. + +A Delfim Guimarães, os nossos parabens pelo seu valioso trabalho. + + (Do jornal _O Mundo_, de 16 de Novembro de 1909) + + + + + +«Bernardim Ribeiro» +por Delfim Guimarães + + +É um livro de incontestavel valor, este que o sr. Delfim Guimarães acaba +de publicar, editado pela Livraria Guimarães & C.^a, da rua de S. Roque. +Fructo de um aturado e consciencioso estudo, n'elle se demonstra que +Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ representam um unico poeta, e que +_Crisfal_ é apenas um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das +palavras _Crisma_ e _Falso_, não passando, portanto, de uma lenda a +existencia do poeta Christovão Falcão. Como se vê, o assumpto d'este +livro do laborioso e intelligente escriptor é de molde a interessar +vivamente todos quantos se dedicam ao estudo da nossa litteratura +patria. + + (Do jornal _O Seculo_, de 16 de Novembro de 1909). + + + + +«Bernardim Ribeiro» +(O Poeta Crisfal) + + _Subsidios para a história da literatura portuguesa_, por Delfim + Guimarães.--Lisboa, 1908. Livraria Editora Guimarães & C.^a, 274 + pág. 800 réis. + + +É o livro sensacional da semana que hoje finda. É o desabar de uma lenda +secular. A ineptidão de uns editores quinhentistas insinuara a crença de +que as trovas de _Crisfal_ eram de _Cristovam Falcão_, cujo nome era +representado pelo anagrama, formado da primeira silaba do nome e a +primeira do apelido. + +A lenda criou raizes; e, não obstante as hesitações e dúvidas de alguns +criticos, ninguém, até hoje, contestara abertamente em publico a +personalidade poética de Cristovam Falcão. + +Mas Delfim Guimarães, estudando Bernardim Ribeiro, editorando-lhe as +_Saudades_, e confrontando os trabalhos dos bucolistas do século XVI, +chegou á convicção de que, tendo havido algumas personalidades com o +nome de Cristovam Falcão, este nome não pertencia a nenhum poéta, e as +trovas de Crisfal eram obra de Bernardim Ribeiro. + +Documentando e justificando a sua convicção, acaba êle de dar á estampa +o substancioso volume que hoje noticiamos. + +No prefácio da obra, expõi o autor, com a devida lealdade, as +circunstâncias e o processo que o levaram á absoluta rejeição da +referida lenda, e congratula-se justamente por ter agora a noticia de +que o ponderado publicista Pereira de Sampaio (Bruno), tinha já +adquirido convicção análoga, que esperava justificar em livro. + +Metodizando as provas e a documentação de que o poeta _Crisfal_ não é +outro, senão Bernardim Ribeiro, Delfim Guimarães faz minuciosamente a +biografia crítica do poeta, estuda e analisa a primeira edição das obras +de Bernardim, dá nos a história e a genealogia do suposto poeta Falcão; +e, depois, de nos dar a exegese de numerosos factos e documentos, cerra +o seu volume com a reproducção da _Carta_ e da _Écloga_ de _Crisfal_, e +de _três_ poesias mais de Bernardim Ribeiro, até agora ignoradas. + +Claro é que, de um livro de tal significado e alcance, mal se podem +formular juizos e sentenças em meia dúzia de linhas do nosso registo +bibliográfico; e temos de nos restringir a dar da obra ideia sumária, +chamando para ela a atenção, e naturalmente o apreço, de quantos se +interessam pelos mais momentosos problemas da nossa história literária. + +Mas remorder-nos-ia a consciência, se cerrássemos já a presente noticia, +sem significar a Delfim Guimarães a satisfação que nos deu o seu +melindroso e arrojado trabalho, e o encanto com que repassamos os olhos +pelo ingénuo e delicioso bucolismo dos avoengos da poesía nacional. + +Formoso livro e serviço memorável. + + + Dr. Candido de Figueiredo + + + (Do _Diario de Noticias_, de Lisboa, de 28 de novembro de 1908). + + + + +O poeta Chrisfal + + _Delfim Guimarães_: Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)--Subsidios + para a historia da literatura portuguêsa--1908--Livraria Editora + Guimarães & C.^a--68, R. de S. Roque, 70--Lisboa. + + +Ha uns espiritos fortes, solidos--e que tanto abundam n'esta nossa bôa +terra de Portugal--que hão de sentir-se escandalisados com a arrogancia +d'alguem que, contra a opinião dogmatica e ensinamento incontestado dos +grandes Sacerdotes, se abalança a demonstrar que os bucolistas Bernardim +Ribeiro e Chrisfal (pretenso anagramma de Christovam Falcão) são uma e +mesma pessoa; isto é: que o glorioso auctor da 1.^a parte da novella +pastoral «Menina e Moça» é igualmente auctor da celebre peça poetica +conhecida pelo nome da «Egloga de Chrisfal»--n'uma palavra, que o poeta +Christovam Falcão nunca existiu e que a maioria das composições poeticas +que andam com o seu nome pertencem de juro e herdade ao principe do +bucolismo entre nós, a esse surprehendente Bernardim Ribeiro, que é, em +toda a nossa litteratura, o vaso d'eleição d'onde mais trasborda o +sentimento augusto da alma portugueza. + +Mas outra raça d'espiritos não menos solidos sorrirá piedosamente (e, +n'este caso, o sorriso é uma outra fórma de nos sentirmos +escandalisados) perante a utilidade proxima ou longinqua que póde +adquirir-se d'uma descoberta d'esta ordem. + +Que importa ao bem do individuo ou da collectividade de hoje, que uns +versos repassados d'uma verdade sentimental, á força de sentida quasi +incomprehensivel,--versos, demais a mais vasados n'uma trama ingenua, +bucolica, pastoril, sejam obra d'um ou d'outro recuado quinhentista ou, +mesmo, tenham sido levados á conta d'um lendario personagem que, como +poeta, nunca tivesse existido, a não ser na phantasia d'uns novelleiros +de profissão que, com o rodar do tempo, conseguiram guindar a sua +improbidade litteraria aos pinaculos d'uma certeza irrefutavel?! + +Pois essa arrojada impiedade e esse improductivo bysantinismo--esse +magno escandalo--acaba de perpetral-os o meu velho amigo Delfim +Guimarães, poeta de verdade, infatigavel estudioso, paciente +investigador, acurado cultista em materia litteraria, com a publicação +do seu recente estudo «_Bernardim Ribeiro_ (_o poeta Chrisfal_)», cujo +apparecimento estas ligeiras notas intentam celebrar. + +O mesmo é dizer que me não sinto com forças para, pormenorisadamente, +passo a passo, ir vincando as passagens exegeticas d'este trabalho +masculo e delicado que revela, no seu auctor, uma erudição e um methodo +que eu entendo precisos n'aquelles que se propuzerem critical-o. + +Não é, pois, um artigo critico o que vou fazer; mas se uma affirmação +sincera e sentida, de valor nimiamente critico, me é permittido +accentuar desde já, eu direi: Delfim Guimarães está na verdade. +Christovam Falcão, poeta, nunca existiu. Chrisfal é um pseudonymo de +Bernardim Ribeiro. + +E isto porquê?! + +Porque todos os que se occupam de Falcão o dizem pessoa de +qualidade--pertencia á primeira fidalguia portugueza, diz o sr. dr. Th. +Braga--e, quanto ao valor do seu estro, tanto era que mereceu ser +confundido com Bernardim Ribeiro seu amigo e confidente, quando não seu +predecessor. Como se explica, pois, que um tão illustre personagem não +figure no Cancioneiro de Resende, onde aliás se encontram, com tão +assombrosa profusão, nomes que, nem pela clareza da estirpe nem pelo +fulgor do engenho, se impunham á consideração dos posteros?! + +É crivel que o erudito, o dedicadissimo collector que se chamou Garcia +de Resende--o homem, do seu tempo, que mais larga e intensamente privou +na corte dos nossos reis--não tivesse noticia d'uma individualidade tão +fortemente accentuada e tão parecida com o então e já apreciadissimo +Bernardim?! Não me parece. + +Seria qualquer despeito, qualquer d'estas pequeninas miserias que se +transmudavam em acerbos espinhos d'odio (e ao tempo e antes e depois e +sempre tão vulgares!) que levariam mesquinhamente o celebre collector do +Cancioneiro a relegar, da convivencia dos seus 351 poetas, esse illustre +Chrisfal e ao mesmo tempo (segundo o ensinamento do sr. dr. Theophilo +Braga) a recolher, como de Bernardim Ribeiro, versos de Falcão?! + +Não me parece. Gil Vicente, como é sabido, apodára cruelmente Resende, e +nem por isso deixou de figurar no Cancioneiro. + +Estes simples e, quero crel-o, contestaveis argumentos levavam-me de ha +muito, a duvidar da existencia poetica de Christovam Falcão, só muito +mais tarde posta em fóco, entre outros, por Faria e Sousa, cujos +_escrupulos_ de caracter são por demais conhecidos. + +Mas a simples argumentação sobre cancioneiros nem sempre é de colher, +como um facto recente me leva a constatar. + +Ha dois annos (outomno de 1906) appareceu nas livrarias a seguinte +publicação: _Odysséa dos Tysicos--Album de Musicas para piano e canto, +original de Raul Pereira, sobre versos de poetas portugueses?_ É obra +musical do sr. Raul Pereira que, á falta d'outra indicação, entendo +dever tambem consideral-o como collector das varias poesias que o album +encerra. + +A primeira d'estas poesias, posta em musica apparece sob um retrato com +esta epigraphe: _Guilherme Braga (1845-1874)_, e tem este titulo «_A +Jesus Crucificado_», e é como segue: + + + A Vós, correndo vou, braços sagrados + N'essa cruz sacrosanta descobertos + Que para receber-me estaes abertos + E, por não castigar-me, estaes cravados. + + A Vós, olhos divinos eclypsados + De tanto sangue e lagrimas cobertos: + Que para perdoar-me estaes despertos + E por não devassar-me estaes fechados. + + A Vós, pregados pés, por não fugir-me; + A Vós, cabeça baixa, por chamar-me; + A Vós, sangue vertido para ungir-me; + + A Vós, lado patente, quero unir-me, + A Vós, cravos preciosos, quero atar-me, + Para ficar unido, atado e firme. + + +Devo confessar que ao ler este soneto nasceram-me duvidas--muito vagas, +é certo--sobre a sua authenticidade quanto ao nome que o firmava. E como +não o encontrasse entre as poesias colligidas nas _Heras e Violetas_, +assentei, á falta de melhor solução, que se tratava de uma poesia solta, +religiosamente recolhida por pessoa intima ou admiradora convicta do +insigne e mallogrado poeta portuense. + +N'isto estava, quando o acaso d'uma busca litteraria me levou a folhear, +na Bibliotheca Publica, _O Ramalhete_, «jornal de Instrucção e Recreio» +(2.^a série, n.^o 165, 4.^o anno) e a encontrar, a paginas 112 do vol. +IV, o mesmissimo soneto, sem descrepancia d'uma unica palavra, sob esta +assás curiosa rubrica: + + +«_No momento derradeiro da vida humana, qual o estado de moribundo, nada +excita amor e conforto como a doce inspiração de abraçar um crucifixo, +unico remedio d'alma. Por este motivo fez o dr. Manuel da Nobrega o +seguinte soneto: «A Jesus Crucificado»_». + + +Portanto, teremos nós: os vindouros, que não leram o _Ramalhete_, a +attribuir a Guilherme Braga (que, segundo o sr. Raul Pereira, nasceu em +1845, embora Innocencio nos diga 1843) uns versos do dr. Manuel da +Nobrega, que vieram á estampa em 1841. + +Veiu isto a proposito da confiança absoluta a depositar nos +cancioneiros. Verdade seja que entre Garcia de Resende e o sr. Raul +Pereira (que eu não tenho a honra de conhecer), o unico elo que os +prende deve ser, se não laboro em erro, o laço musical... + +Outras razões, porém, antes do trabalho de Delfim Guimarães, me levavam +a pender para o arrocho da não existencia poetica de Christovam Falcão. +É certo que a Renascença produzira uma eclosão genial em todos os ramos +da vida sentimental, artistica e scientifica do occidente europeu, e que +nós tivemos largo quinhão nas benemerencias d'esse glorioso Sol--e tão +grande que ainda hoje d'elle vivemos. Mas é igualmente certo que, por +grande que fosse, e foi, a prodigalidade do estro que nos coube, não era +natural que dois vultos geniaes, a um tempo, surgissem tão parecidos, +tão irmãos na concepção sentimental, na realisação artistica e +até--suprema coincidencia--nos azares da vida amorosa! Delfim Guimarães +embrenha-se em trabalhos de genealogia e de exegese litteraria, +pacientemente cuidados, para nos infiltrar o convencimento que eu, sem +razões de peso e sem auctoridade para as formular, de ha muito _sentia_ +da existencia d'um só poeta na obra de Bernardim e na obra de Chrisfal. + +É, pois, para mim um livro de consolação. Por um lado, simplifica, no +meu espirito, um caso que se achava enredado nas malhas autoritarias, +embora convencionaes, de nomes respeitados; por outro, entorna, no meu +coração, o intimo, o ineffavel jubilo de ver alguem da minha estima e do +meu tempo elevar-se tanto, pelo trabalho intelligente e probo, n'uma +manifestação eloquente de força moral e espirito combativo de que tanto +carecemos. + +E esta probidade litteraria não é coisa de pouca monta ou que alguem +possa dispensar-se de a encarar com o mais profundo respeito, porque me +hei de lembrar d'aquelle supremo prefacio do _Disciple_ de Paul Bourget, +quando elle se dirige á mocidade da sua terra: _Dentro de vinte annos +tereis em vossas mãos a fortuna d'esta velha patria, nossa mãe commum. +Vós sereis a propria patria. Que tereis recolhido nas nossas obras? +Pensando n'isto, não ha homem de lettras, por mais modesto que seja, que +não deva tremer de responsabilidade_... + + + Hemeterio Arantes. + + (Do _Diario Illustrado_, de 2 de dezembro de 1908). + + + + +«Bernardim Ribeiro» +(O Poeta Crisfal) + + _Subsidios para a historia da litteratura portugueza_, por Delfim + Guimarães. 1 vol. de 278 pag. Livraria editora Guimarães & C.^a + 1908 Lisboa, typ. Libanio da Silva. + + +A velha sentença portugueza--_o seu a seu dono_ viria muito a propósito, +noticiando o apparecimento d'este livro, com que se pretende, e consegue +a nosso ver, reivindicar para o nome do grande poeta quinhentista a +autoria e a glória de differentes producções que inconscientemente +andavam attribuidas a outros. E se não fosse a bella coragem do sr. +Delfim Guimarães, nosso antigo e presado amigo, que sendo poeta muito +primoroso é tambem investigador ordenado e pacientissimo, o deploravel +engano continuar-se-ia por muito tempo, ou, peor ainda, não se +desvaneceria jámais talvez. + +Entre outras, a lenda de que existira um Christovam Falcão, pretenso +poeta de tão alto valor como Bernardim Ribeiro, e, assim, auctor tambem +de maviosos versos, principiara a correr mundo em 1554, dois annos +depois de fallecido este, e teria origem, parece, em certa nota posta +n'uma edição pouco criteriosa feita n'aquelle anno, de differentes +poesias, esparsas umas, outras logo colligidas após a morte de +Bernardim, edição onde veem de mistura com a _Historia de Menina e +Moça_, diversos motes, cantigas e églogas e entre estas, (diz a tal +nota) «_h[~u]a muy nomeada e agradavel... chamada Crisfal, que dizem ser +de Christovão Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma egloga_...» + +D'isto, e de outras investigações pacientemente realizadas pelo sr. +Guimarães resulta a presumpção de provir a dita lenda principalmente +d'aquellas vagas referencias e a allusão que o editor julgou encontrar +em o nome de Crisfal do facto de serem as duas syllabas de que elle se +compõe eguaes ás primeiras dos dois nomes *Cris*tóvam e *Fal*cão. Mas +isto, que não constitue prova e não passa de mera hypothese, teria de +cahir redondamente, quando se verificasse que esse Falcão era homem de +poucas lettras e, portanto, incapaz de produzir trabalho de tanta valia +como é a _Égloga de Crisfal_. + +E assim succederia talvez se o sr. dr. Theophilo Braga não houvesse, em +má hora, pretendido transformar a hypothese em lei, apresentando como +definitivamente adquirida para Falcão a paternidade d'aquella e de +outras poesias de altissimo valor litterario. + +Não seguiremos o sr. Delfim Guimarães na critica acerba, se bem que +correctissima, com que se refere a este erro do sr. dr. Theophilo Braga +e ainda a muitos outros. Este operoso escriptor dirá de certo da sua +justiça, não deixando, d'esta vez, mal parada a sua fama de erudito. E, +sendo como é, sempre consciencioso nos seus trabalhos de historiador +litterario, virá certamente á estacada, para explicar a razão do seu +engano. + +Muitos outros descobrimentos são indicados n'esta valorosa +reivindicação, não se mostrando possiveis mais duvidas a respeito da não +existencia de Christovam Falcão, poeta, e parecendo ao contrario +definitivamente provado que o nome de Crisfal fôra um dos muitos +pseudónymos e anagrammas adoptados por Bernardim Ribeiro nas suas obras. +Tambem graças ao indefesso trabalho do sr. Delfim Guimarães ficará +pertencendo irrevogavelmente ao poeta de _Menina e moça_ não sómente a +celebre égloga, mas ainda outras poesias attribuidas a diversos e que +veem apontadas ou reproduzidas n'este volume. + +Em compensação, porém, algumas até agora emprestadas ao bucólico poeta, +lidima gloria das lettras portuguezas, terão de passar para outros, com +o que, seja dito de passagem, a exceptuarmos o solau[11]--_Pensando-vos +estou filha_, que o sr. dr. Theophilo Braga deu, tambem levianamente, +como de Bernardim, sendo aliás de Camões, nada virá a perder o nome de +Bernardim Ribeiro--antes pelo contrario! + +N'este trabalho notavel do sr. Guimarães, obra de paciente investigação +e bem disciplinado criterio, faz-se referencia a muitos outros factos +interessantes, que nos abstêmos de contar, porque do livro apenas +pretendemos dar rapida noticia; mas todos os elogios serão poucos a quem +com coragem estréme veio inteirar a gloria de Bernardim Ribeiro que, +desventuroso poeta, de uma parte d'ella havia sido espoliado. + +Muito agradecemos a captivante offerta de um exemplar de _Bernardim +Ribeiro_, com que fomos brindados pelo auctor. + + (Da _Mala da Europa_, de Lisboa, n.^o 669, de 6 de dezembro de 1908). + + + + +Ainda Chrisfal + + +Longe estava de ver tão depressa e amplamente confirmada a minha +asserção de que o trabalho de Delfim Guimarães «_Bernardim Ribeiro (o +Poeta Crisfal)_» era, para mim, um «livro de consolação», quando o +_Diario de Noticias_ de 3 do corrente, sob a epigraphe «_Academia de +Sciencias de Portugal_» me trouxe esse verdadeiro manjar (para lhe não +chamar capitoso petisco...) espiritual á minha insaciavel fome de +aprender. + +É como segue a passagem, que me interessa da local jornalistica em +questão: + + +«_Em seguida_ (o sr. dr. Theophilo Braga) _realisa uma communicação +sobre Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão mostrando como a vida +amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1565, senão n'aquella data moço +fidalgo, e tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já idoso; +evidencia como na Égloga transparecem diversas situações da vida de +Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, +Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas +individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida, +não podem jámais confundir-se_». + + +Eu imagino estar vendo estas palavras cahir do labio venerando, sobre a +douta assembleia, como outras tantas perolas que, depois de serem ali +devidamente apreciadas, resvalaram cá p'ra fóra, para o monturo anonymo, +offerecidas em repasto magnifico aos cerdos iconoclastas. + +Bacorejemos, pois, as preciosas gemmas... + +Diz o Mestre que a _vida amorosa_ de Christovam Falcão oscilla entre +1525 e 1565, sem ficarmos sabendo se a sua _vida poetica_ tambem oscilla +dentro do mesmo periodo, isto é: se a actividade _amorosa_ e a +actividade _poetica_ de Chrisfal se confundem, caminham a par-e-passo ou +se, pelo contrario, é o amoroso que precede o vate, se este antecede o +namorado. + +Eu, por mim, se alguma coisa entendo n'esta complicada psycologia, estou +em dizer que, em geral, as duas actividades se confundem, são +isochronas, e, segundo este criterio, Falcão só poetou com exito desde +1525. + +Não póde elle, pois, ter figurado no Cancioneiro de Resende, que tem a +data de 1516, como o sr. dr. Theophilo Braga pretendia até ha uma duzia +d'annos atraz--opinião que depois modificou no seu trabalho, sobre +Bernardim Ribeiro, que veio á estampa em 1897. + +Mas o Mestre, em 1897, deixou de lhe dar entrada no Cancioneiro pela +subtil razão de que Chrisfal não poetára nos Serões da côrte por +pertencer ao _ramo pobre_ dos Falcões. Lembrança exegetica que nos leva +a concluir que todos os poetas do Cancioneiro poetaram nos ditos serões +e demais a mais com a escarcella bem provida d'aureos recursos--embora +muitas e muitas poesias d'aquella grandiosa collecção resvalem da +casuistica amorosa, que é a caracteristica da poetica palaciana, para a +lucta dos interesses em que se revela a necessidade do vil metal. + +Mas agora que o insigne Professor colloca a vida amorosa de Falcão entre +1525 e 1565, pergunto eu: permanece este argumento para a sua exclusão +do Cancioneiro ou teremos de assentar que Chrisfal n'elle não figurou +pela simples razão de, em 1516, andar ainda com coeiros? + +Naturalmente teremos de optar por esta ultima versão e, portanto, pôr de +banda a sua amisade e apregoadas confidencias com o auctor das +_Saudades_. + +Fica de vez assente, pois, que Christovam Falcão não foi poeta do Seculo +XV. + +Proponho-me agora provar, _currente calamo_ (como não pode deixar de ser +tratando-se d'alguem que se não familiarisou com _os processos +inductivos da critica moderna_... ) que Christovam Falcão tambem não foi +poeta do Seculo XVI, como agora pretende o sr. dr. Theophilo Braga. + +E isto porquê?! + +Porque eu posso duvidar (ainda que me apodem de irreverente pedantismo) +das, por vezes, arrojadas conclusões chronologicas do insigne Professor. +Mais anno menos anno, mais seculo menos seculo são, para os grandes +Generalisadores, coisas d'uma importancia mediocre. Outro tanto me não +succede, quando a generalisação visa um assumpto basilar na essencia, no +modo de ser do facto scientifico. + +E é este o caso. Cristovam Falcão foi poeta entre 1525 e 1565?! + +Ouçamos o sr. dr. Theophilo Braga: + + + «Se Cristovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de Miranda + propagou as formas da poetica italiana, teria então adoptado o verso + endecasyllabo, e a fórma da _outava_, do _terceto_, e trocaria pelo + _soneto_ o conceite provençalesco dos que ainda seguiam o typo do + Inferno de Amor (_Bern. Rib. e os Bucolistas_, pag. 141)». + + +Na edição refundida do seu Bernardim Ribeiro, publicada em 1897, esta +affirmação cathegorica permanece igual ou identica, como, aliás, não +podia deixar de ser. + +Demos de barato que se possa ter opinião diversa da do insigne lente do +Curso Superior de Lettras, o que ninguem póde é contrariar a _realidade +historica_, porque, como é sabido, contra factos não ha argumentos. + +E esta _realidade_ diz-nos que, depois de Sá de Miranda, não houve um +uníco poeta que não tivesse experimentado as formas petrarchinas e o +verso heroico. + +Houve um dr. Antonio Ferreira que nunca em sua vida fez um verso de +_medida velha_; houve muitos, e entre elles o proprio iniciador da +poetica italiana, que não desdenharam a redondilha e os velhos +agrupamentos metricos. De quem poetasse _exclusivamente_ pelos antigos +processos... não consta. + +Logo, a não ser que rasguemos a _logica_ do Mestre e a _verdade_ da +Historia, Christovam Falcão não encontra cadeira onde se sente, nem na +vasta saleta da poesia palaciana, nem no refulgente salão do Seculo de +Quinhentos! + + * * * * * + +Uma passagem do meu ultimo artigo teve o condão d'excitar duas +communicaçôes que amavelmente me foram endereçadas. + +A primeira, d'um amigo, que me escreve: «Sobre o soneto attribuido a +Guilherme Braga, devo dizer-lhe que o auctor do mesmo não é o dr. Manuel +da Nobrega, mas sim outro poeta.» + +Claramente, corri logo a casa d'este amigo que me aconselhou uma +intervista com o insigne bibliophilo e bibliographo sr. Annibal +Fernandes Thomaz, o que, para mim, foi d'um prazer espiritual, como, de +ha muito, me não era dado gosar. + +Annibal Fernandes Thomaz é pessoa familiar a todos que n'este paiz se +occupam de livros e--coisa rara!--a todos sorri, a todos mette no +coração e em todos tem um admirador dos seus vastissimos conhecimentos +e, o que é mais, um amigo devotado das suas grandes qualidades. + +Disse-lhe ao que ia; mas, como da nossa conferencia resulta uma resposta +á segunda communicação que recebi, é bem que n'este momento aqui fique +exarada essa communicação. + +Trata-se d'um bilhete-postal anonymo, e, se quebro a minha velha praxe e +o bom-conselho de todos de lançar para os papeis inuteis esta ordem de +documentos, é porque se trata d'um assumpto litterario e o meu +correspondente, por qualquer razão se não querer fazer conhecido, o que +muito me contraria. Diz assim: + +«O soneto que v. reproduziu no _Diario Illustrado_ tem mais de dois +seculos. Bastava o estylo para o denunciar seiscentista; mas a prova +positiva está em a Nova Floresta, terceiro tomo, tit. V, apopht. LIV. +Permitta-se a um obscuro padre dizer mais. Com essa ancianidade de taes +versos toma nova força o contra argumento de v. sobre o silencio dos +cancioneiros a respeito de Crisfal. Na margem do soneto pag. 207, da +edição da _Nova Floresta_ de 1759 (4.^a impressão que tenho á vista) lê +se o nome do autor assim: _Do Doutor Manuel da Nobrega_. Quem fez um tal +soneto, tão seriamente engenhoso, apesar do gongorismo, e tão bem +metrificado, havia de ter mais poesias: e sendo _doutor_, não era um +desconhecido. Que temos d'elle na _Fenix Renascida_? Quem o conhece? +Alguns annos ha, o soneto reproduzido anónimo em muitos livros devotos, +foi publicado em o _Novo Mensageiro do Coração de Jesus_ (revista +piedosa mas de muita litteratura) com a indicação, que a minha memoria +aproveitou agora, da _Nova Floresta_, e com uma nota que dizia ser o +nome do Dr. M. Nobrega desconhecido dos bibliographos.» + +Vamos agora, rapidamente, ao resultado das pesquizas com Fernandes +Thomaz. + +O soneto _A vós, correndo vou, braços sagrados_ encontra-se a fechar uma +dedicatoria a «Jesus Christo Senhor Nosso Crucificado» d'um curiosissimo +livro de 1734 intitulado «_Anacephaleosis medico theologica, moral e +politica_, etc., etc.», obra d'um tal Bernardo Pereyra, medico do +partido da villa do Sardoal. + +O meu primeiro correspondente, que conhecia o livro, attribuiu +facilmente a Pereira a autoria do soneto, por não reparar nas palavras +que precedem a sua reproducção, e que dizem: + +«...e finalmente como se consegue a gloria que é a melhor conclusão que +se tira depois de sahir da Universidade do mundo para as Escollas do +Céo; mas será bem, meu amoroso Jesus, _que antes de tudo diga com hum +devoto_ que hoje para renacer do estado da culpa ao da graça, que de vós +espero, para seguir o caminho por onde não vá precipitado, mas antes com +a vossa direcção fortalecido! + +«_A vós correndo vou, braços sagrados_, etc., etc.» + +Mas (e vae isto em resposta ao anonymo correspondente) tanto Barbosa, na +sua _Bibliotheca_, como Innocencio, no _Diccionario_, citam Manuel da +Nobrega, como auctor do _Epicedio inconsolavel á morte do Ser. Principe +de Portugal D. Theodosio que falleceu em 15 de maio de 1653_ e como +collaborador nas _Memorias funebres de D. Maria de Athayde_ fallecida em +22 de agosto de 1649. + +É livro muito interessante estas «_Memorias funebres sentidas pelos +engenhos portugueses na morte da Senhora D. Maria de Athayde_». N'ellas +se encontram poesias em portuguez, francez, hespanhol, italiano, latim, +assignadas pelos nomes dos poetas mais illustres do tempo e, para não +citar outros, bastará lembrar os de Soror Violante do Céo e D. Francisco +Manuel de Mello. + +Ao que parece tratava-se d'uma extremada formosura _doublée_ (como hoje +se diz) d'uma alma de eleição. _O Doutor Manuel de Nobrega_ concorre a +este florilegio poetico com um soneto e uma egloga. O soneto: + +_Aquelle bello Sol, que amanhecia_, não desmerece, antes tem grandes +ares de familia com o que tem sido causa d'esta palestra... algo pesada. + +Não quero, porém, terminal-a sem exarar o meu parecer de que o Soneto, +embora _culterano_, tem tão pouco de _gongorico_ que Guilherme Braga, ou +qualquer outro grande poeta de hoje, não desdenharia assignal-o, se essa +fosse _a sua corda_. + + + Hemeterio Arantes. + + (Do _Diario Illustrado_, de Lisboa, de 9 de dezembro de 1908). + + + + + +«Bernardim Ribeiro» +(O Poeta Crisfal) + + Subsidios para a Historia da literatura portuguesa, por Delfim + Guimarães. 1908--Liv. ed. Guimarães & C.^a Lisboa--8.^o, 274 pag. + + Delfim Guimarães, Bibliographia: Prosa: _Alma Dorida_, com prefacio + de Teixeira Bastos, _O Rosquedo_ (scenas do Minho), _Ares do Minho_ + (contos).--Critica litteraria: _A viagem por terra do sr. João + Penha_.--Verso: _Lisboa negra_, _Confidencias_, _Evangelho_, _Não! + mil vezes não!_, _Sim! mil vezes sim!_, _Sonho Garretteano_, _A + Virgem do Castello_ e _Outonaes_.--Theatro:--_Aldeia na Côrte_, de + collaboração com D. João da Camara. (3 actos--Th. D. Amelia), + _Juramento sagrado_ (1 acto, verso.--Th. D. Maria). Traduziu a + _Dama das Camelias_, de Dumas, filho; reviu e publicou as + _Saudades_ de Bernardim Ribeiro e as _Trovas de Crisfal_, do mesmo + auctor. Fundou e dirige a Bibliotheca Classica Popular. Collaborou + longo tempo na _Mala da Europa_, _Provincia_, _O Lima_, _Chronica_, + _etc._ Varias obras de Delfim Guimarães teem já 2.^a edição, + estando algumas outras exgotadas. + + +Desde longos tempos até este anno 1908 da era de Xpõ, como escreviam os +nossos velhotes, tudo era suppor que, ahi por alturas de mil quinhentos +e tal da mesma era do Senhor, viveu, floresceu, e ninguem mais soube +d'elle, certo _Crisfal_, poeta e namorado, que toda a gente indicava +como sendo Christovão Falcão, um Christovão Falcão que se sabe agora +escrever como um carreiro e ter mais erros de orthographia do que +cabellos tinha na cabeça... se a Historia não provar que elle era +careca. Indicava se Christovão Falcão tacteando. Para manter a suspeição +havia só o corresponder o pseudonymo _Cris fal_ ás primeiras sylabas do +nome do supposto poeta. Longo tempo a mentira prevaleceu e longo tempo +os doutos acceitaram de boamente a patranha, uns supplementando-a com +fabulações _á priori_, outros asseverando que tal era porque era e «por +ser verdade passavam a presente que assignavam». + +Caminhava tudo em doce paz quando Delfim Guimarães, publicando o livro +de que nos occupamos, desfez a lenda, tombou os castellos e pôz a cousa +nos devidos termos. Mas vamos ao que importa. + +«De como e porquê Delfim Guimarães achou que _Crisfal_ não passou de um +pseudonymo de Bernardim Ribeiro e de cousas varias que ao deante se +verão», é um capitulo que, n'esta critica, deve interessar o leitor, +agora que já sabe que tal _Crisfal_ nunca existiu. + +Delfim Guimarães é um estudioso e um devotado. Manuseia os classicos com +a mesma curiosidade com que aguarda o ultimo livro de Anatole France ou +o novo romance de Octave Mirbeau. + +Ha tempo, dirigindo uma collecção, publicou as _Saudades_ do nosso +Bernardim, auctor que, por sua natural tristura e dulçorosidade, desde +menino e moço mais o prendia e captivava. Tudo estaria bem até aqui se, +mente cogitativa e emprehendedora, não scismasse em publicar uma +Bibliotheca de Classicos animado pelo exito das _Saudades_. Uma +Bibliotheca de vulgarisação, destinada a mostrar á alma do vulgo o +escrinio das melhores joias dos nossos antepassados. + +Anteriormente uma natural curiosidade o levara a estudar os poetas que +se apontavam como maiores amigos de Bernardim: Sá de Miranda e +_Crisfal_, o celebrado Christovam Falcão que hoje deve ás musas a +celebreira que por seculos desfructou,--elephante que conseguiu passar +por canario, o animal. + +A extraordinaria semelhança de _Crisfal_ a Bernardim, os mesmos +lamentos, a mesma situação amorosa, os mesmos queixumes; a ausencia +absoluta de noticias e referencias na obra de Sá de Miranda e Bernardim +ao poeta coevo e imitador, tudo isto deu a Delfim Guimarães a certeza de +que _Crisfal_ e Bernardim era o mesmo, só, e altissimo poeta. Além +d'isto nenhum documento da epocha autorisava a pôr a carapuça _Crisfal_ +em cabeça de Christovam Falcão. O mesmo editor de Bernardim, edição de +1554, onde se acha incorporada a «Egloga chamada Crisfal» escreve, +referindo-se-lhe: «_que dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece +alludir ho nome da mesma Egloga». + +Estudado o contemporaneo Christovão Falcão, vê-se que elle era pouco +menos de bronco e não poderia ser nunca o auctor da _Egloga_. Adquirida +a certeza, que era _Crisfal_? E logo, deductivo, Delfim Guimarães achou +a chave. É _crisma falso_, pois que na Egloga se move a mesma +passionalidade de Bernardim com supositicios nomes--falsos crismas. + +O livro do escriptor é ilustrado com um fac-simile de uma carta do +pretenso Christovam Falcão e acompanhado de uma arvore genealogica dos +Falcões. De uma logica cerrada e inteligente, preciosamente documentado, +é um trabalho collosal que dará echoantissimo nome ao seu auctor. E +enquanto se não perder na memoria das gerações o nome do bardo amoroso, +o triste Bernardim, o nome de Delfim Guimarães não se desacorrentará da +gloria de ter focado com intensa luz um tão curioso e deturpado caso da +litteratura portugueza. + +Lá fóra esta obra faria não só a gloria mas o nome de um trabalhador. As +Academias levar-lhe-hiam o seu _fauteuil_ estofado, e os editores +disputariam a honra de lhe pagar. + +Cá dá desgostos, nada mais. + +O illustre publicista José Sampaio (Bruno) chegára ás mesmas conclusões. +Anselmo Braamcamp Freire vae publicar um trabalho curiosissimo sobre +Maria Brandão; José Caldas é da opinião de que se achou a verdade. Quem +resta? Carolina Michaelis, cuja opinião importa saber, e Theophilo +Braga, que discorda. + +As impugnações que Delfim Guimarães fez aos livros de Theophilo estão em +aberto. E Delfim veio com este seu trabalho não só elliminar um +Christovam da litteratura e uma Maria das muitas Marias enamoradas, mas +fazer luz sobre uma poesia de Camões falsamente attribuida a Bernardim +Ribeiro, e documentar que _sómente_ Sá de Miranda foi o introductor da +Escola Italiana em Portugal. Bernardim Ribeiro foi o introductor mas das +novas eglogas vergilianas. + +Raro talento, muito estudo, aturada analyse, observação profunda e um +grande serviço prestado á litteratura, eis como julgamos o livro +_Bernardim Ribeiro_. Com ares impugnativos veio o sr. Jordão A. de +Freitas no _Diario de Noticias_ carretar materiaes para o rude e +esforçado prelio a travar-se. Não crêmos que o haja. Theophilo Braga, +porém, que tem estado silencioso, dirá de sua justiça. O trabalho de +Delfim Guimarães é probo e consciencioso. Merece o applauso +incondicional de todos, e que rejubile a litteratura que ainda tem +artistas que, fructo de seu labor, lhe dão tão bellas obras. + + + Albino Forjaz de Sampayo. + + (Do jornal _A Lucta_, de Lisboa, de 16 de dezembro de 1908). + + + + + +«Bernardim Ribeiro» +por Delfim Guimarães + + +A obra que Delfim Guimarães acaba de publicar é o producto d'um lucido +criterio aliado a uma habil quanto meticulosa investigação. Sem ser um +erudito nem rebuscador d'archivos, Delfim Guimarães, antes de encetar +quaesquer pesquizas, teve a maravilhosa intuição--ou elle não fosse um +poeta--de que os admiraveis versos do _Crisfal_, desirmanados no +decorrer do tempo da obra litteraria de Bernardim, constituiam com o +poetico romance de _Menina e Moça_, reflexos d'um mesmo espirito, +vibrações d'um unico coração. + +É que o illustre critico interpretára com verdadeiro sentimento o genio +do infortunado poeta, levando a tal ponto a sua predilecção por elle, +que com as _Saudades_ abrira essa galeria de publicações classicas +portuguezas em edições populares vulgarisadas, cujo inicio no nosso meio +litterario a Delfim Guimarães se deve. + +Toda aquella paixão do enternecido bucolista das _Saudades_, a fluidez +incomparavel d'essa linguagem que é na sua simplicidade uma mimica +d'alma e tem a harmonia d'um fio d'agua gorgolejante, tudo isso,--o +sentimento, que é a vida na obra d'arte, Delfim Guimarães foi encontrar +nas composições erradamente attribuidas a Cristovam Falcão. + +Obtida a prova subjectiva de que o poeta das _Saudades_ era o trovador +do _Crisfal_--na realidade um criptogramma formado pelas primeiras +syllabas das palavras _crisma_ e _falso_--o distincto escriptor encetou +a investigação historica do que para elle fôra um presentimento e pelo +estudo feito sobre os documentos da epoca, seu confronto e +interpretação, conseguiu destruir n'uma argumentação irrefutavel e cheia +de brilho, a lenda feita tradição e cimentada pelo mais auctorisado +critico da nossa litteratura, que o trovador do _Crisfal_ nunca poderia +ter sido Cristovam Falcão. + +A carta d'este moço fidalgo a D. João III, que Delfim Guimarães +transcreve na integra e que na edição de Theophilo Braga apparecera +deturpada, é inquestionavelmente a prova mais evidente--e outras não +houvesse com relação a datas--de que nunca o espirito trivial que +alinhavou aquelles periodos--se é que ali os ha--idealisaria a +enternecida ecloga do _Crisfal_, que é ainda, a alguns seculos de +distancia, n'esta epocha em que a arte possue riquissimos processos de +technica e a linguagem tanto ganhou em expressão emocional,--uma soberba +joia litteraria. + +Nesta obra, tão cheia de revelações, começa o auctor por fixar em bases +positivas as _étapes_ da infortunada vida de Bernardim, desde o seu +nascimento no Alemtejo em 1482 até á sua morte no Hospital de Todos os +Santos, de Lisboa, em 1552, submerso nas trevas horriveis da loucura. +Depois com o esboço dos seus amores da adolescencia e paixão tragica que +votou a Joanna Tavares, que foi a mais intensa affeição de Bernardim e a +inspiradora do seu triste trovar, entra-se nos capitulos da exegese, +sendo todo o livro uma refutação completa das idéas correntes sobre a +problematica personagem do trovador do _Crisfal_. Nêle se visionam +muitos pontos de vista até então desconhecidos e se estabelecem novas +pistas para norteamento dos estudiosos, as quaes, certamente, muito +contribuirão para que todo o interessante enigma literario se desvele em +absoluto. + +Nas suas curiosas investigações, fez Delfim Guimarães preciosos achados +que denotam uma grande subtileza nas suas faculdades de critico, como a +da poesia de Camões, erradamente atribuida a Bernardim, que se acha no +cancioneiro de Luis Franco, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, +tão interessantemente descoberta, e o das tres poesias constantes d'um +_pliego-suelto_ de 1656, da mesma Biblioteca, que o distincto escriptor +filia com boas razões no estro de Bernardim. + +Mercê da linguagem castiça, tão saborosamente portugueza, de que o +auctor se serve, assim identificada com o thema historico versado, a +obra é por si só, e independente da maneira de vêr do auctor, o trabalho +honesto de um escritôr que é ao mesmo tempo um artista, n'essa evocação, +d'um tão forte relevo, das saudosas edades em que os poetas amavam mais +sinceramente e eram menos complicados, a arte não sendo como hoje um +_métier_ lucrativo, mas a manifestação espontanea d'um espirito no vôo +errante da inspiração. + +Fecha o livro um curioso estudo sobre a vida de Cristovam Falcão e sua +genealogia, certamente o mais completo até agora. + +Felicitamos Delfim Guimarães pelo seu valioso trabalho que vem deslocar +cómodos preconceitos arreigados e abrir novos horizontes aos que se +interessam--que são todos os portuguezes--pelo estudo da litteratura +portugueza no periodo aureo d'esta nacionalidade. + + (Do jornal _O Dia_, de Lisboa, de 9 de janeiro de 1909.) + + + + +«Bernardim Ribeiro» +(O Poeta Crisfal) + + +É esta obra que perpetuará o nome do seu auctor, se bem que Delfim +Guimarães em precedentes trabalhos litterarios tenha já adduzido sobejas +provas para que lhe possâmos reconhecer um elevado grau de +intelligencia. + +Com a publicação do volume cujo titulo encima esta noticia, o serviço +prestado por Delfim Guimarães á historia da litteratura patria está +sendo louvado tão extraordinariamente a ponto do sr. Albino Forjaz de +Sampaio, primoroso chronista da _Lucta_, não ter duvida em afirmar que +no Estrangeiro tal publicação franquearia ao seu auctor as portas d'uma +Academia. + +O livro apresentado é o producto d'uma ardua tarefa em que pacientes +faculdades de investigação, alliadas a uma singular vivacidade, removem +com cauteloso tino os escabrosos obstaculos que tão ingrato estudo +frequentemente depára. Por isso é que, sem receio de contradicta, nos +afoutamos a asseverar que em Portugal ninguem melhor do que Delfim +Guimarães conhece o periodo da historia litteraria a que o mesmo +assumpto directamente respeita. E nem isso pode causar surpreza ao +leitor illustrado, uma vez que a arrojada affirmativa do illustre +publicista, que é por signal a _negação_ da existencia de Christovam +Falcão, como trovador quinhentista, demandava um minucioso exame +analytico a todos os documentos litterarios de então; e nisso só a mais +escrupulosa cautella conjugada com uma aguda perspicacia, como já +deixamos dito, poderia lograr o exito desejado. + +Os materiaes que Delfim Guimarães colligiu para invalidar a +personalidade litteraria de Christovam Falcão, deixa-os elle dispersos +nos varios capitulos do seu livro, os quaes sobrepostos uns aos outros, +á medida que se vai avançando na leitura, introduzem em qualquer +espirito a certeza da these que o auctor se propoz comprovar. + +De envolta com os persuasivos esclarecimentos allegados em prol do seu +proposito, o auctor rectifica raciocinios errados e affirmações +insustentaveis de Theophilo Braga, se bem que o sabor acre d'essas +frequentes correcções seja attenuado ou neutralisado quasi pelas +assucaradas referencias ao passado de tão incançavel trabalhador. + +Pelo volume a que estamos alludindo vê-se que a obra de Bernardim +Ribeiro chegou para fazer a reputação de dous homens, vindo o nome de +Christovam Falcão usurpar em seu proveito algumas das produções +d'aquelle mavioso lyrico, e sendo, portanto, a sua memoria um nefasto +saprophyta que do merito alheio foi vivendo durante um longo periodo de +tempo. A duplicidade desapparece agora com as aturadas canceiras de +Delfim Guimarães que assim reivindica para o grande corypheu do +bucolismo em Portugal todos os fructos do seu prodigioso talento, +corrigindo um erro em que os bibliophilos laboraram durante seculos. +D'aqui resalta--e é esse um dos evidentes intuitos do auctor do livro em +questão--o desenho da verdadeira figura de Bernardim Ribeiro, com as +proporções proprias da sua gigantesca estatura litteraria, em cima do +seu elevado pedestal de gloria, pedestal a que algumas pedras foram +subtrahidas para sobre ellas figurar o ficticio vulto trovadoresco de +Christovam Falcão. + +Em Portugal abundam os devotados enthusiastas de Camões e Camillo, +apparecendo agora um ardente propugnador d'outro nome tambem illustre, a +legitima-lo como uma das maiores glorias litterarias de que se pode +ufanar um povo. Esse nome é Bernardim Ribeiro e entrelaçado n'elle +apparecerá d'oravante o de Delfim Guimarães, que acaba de restituir a +obra do immortal bucolista á sua primitiva integridade. + + + Antonio Ferreira + + (Do _Commercio do Lima_, de Ponte do Lima, de 9 de Janeiro de 1909). + + + + +«Bernardim Ribeiro» + + +Com este titulo e o sub-titulo de _O Poeta Crisfal_, tambem o distincto +escriptor a cujo nome, já tão merecidamente aureolado, fica feita +referencia na rubrica anterior, publicou recentemente um interessante +volume, apodado por esse proprio auctor de _subsidios para a historia da +litteratura portugueza_, e que não é nem mais nem menos do que a +demonstração a nosso vêr evidentissima, digam os _mestres_ pilhados em +deturpação o que quizerem, de que Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ são uma +e a mesma pessoa, não sendo _Crisfal_ pseudonimo de Christovão Falcão, +mas sim um composto das primeiras sylabas das palavras _Crisma falso_, +de que Bernardim Ribeiro fez uso. Percorrendo se, com olhos de ver, e +com vontade de acertar com a demonstração explanada por Delfim +Guimarães, todas as 200 e tantas paginas do volume em questão, +adquire-se o convencimento de que ficaram por terra, uma a uma, «as +pedras basilares com que o nome consagrado do sr. dr. Theóphilo Braga +ergueu o monumento, aparentemente solido, que offertou ás lettras +patrias, fazendo quase real, palpavel, uma miragem secular»--que dava +_Crisfal_ como sendo Christovão Falcão, quando este não pertence senão +ao dominio da lenda, sendo uma perfeita mystificação a sua pretendida +existencia de litterato. + +O trabalho de verdadeiro erudito, que representa o livro de Delfim +Guimarães, assignala de um modo inconfundivel o seu alto valor de +estudioso, de investigador benemerito e de operoso trabalhador das +nossas lettras. Felicitando-o cordealmente por esta nova prova das suas +excepcionaes qualidades, cumprimos apenas um dever. + + + A. B. + + (Do _Jornal das Colonias_, de Lisboa, de 13 janeiro de 1909). + + + + +«Bernardim Ribeiro» + + +Temos retardado a noticia do apparecimento d'este livro notavel do +illustre poeta e prosador, sr. Delfim Guimarães, porque quizemos +consagrar á sua leitura algumas horas socegadas, afim de poder estudar +convenientemente o problema litterario que em suas paginas se debate. + +Esta obra é o resultado de longas e aturadas investigações e de um +estudo conscienciosissimo, não só da obra de Bernardim Ribeiro, mas +ainda da obra de todos os poetas, apontados como seus amigos e +companheiros. + +Cotejando os versos do iniciador do lirismo portuguez com os que se +attribuem a Cristovão Falcão, o sr. Delfim Guimarães facilmente +reconheceu que, embora pudésse admittir-se que a educação litteraria dos +dois poetas tivesse sido a mesma, não era possivel que as suas +tendencias esteticas fossem por tal maneira similhantes, que os seus +versos chegassem a confundir-se. Um d'elles teria sido seguramente o +imitador do outro. + +Continuando nas suas indagações, e apreciando demoradamente a obra +supposta contemporanea de Cristovão Falcão, notou ainda o sr. Delfim +Guimarães que era frequente Sá de Miranda referir-se a Bernardim Ribeiro +nas suas obras poeticas, havendo tambem allusões repetidas, nos versos +d'este poeta, ao seu amigo e confidente. Ao auctor do _Crisfal_ não +notou a mais leve referencia. + +N'aquelle bello poema havia allusões que alvejavam claramente Sá de +Miranda, e foi do estudo attento d'essas allusões, que perfeitamente +condiziam com as referencias das éclogas de Bernardim Ribeiro ao seu +amigo, que resultou chegar aquelle illustre escriptor a conclusões +inteiramente satisfatorias. + +A analise de varios documentos de caracter historico e juridico produziu +no espirito do sr. Delfim Guimarães a convicção de que a personalidade +litteraria de Cristovão Falcão não existiu, sendo a obra que se lhe +attribue toda do autor das _Saudades_. + +Houve, é certo, um Cristovão Falcão de Sousa, que foi moço fidalgo em +1527 e capitão da fortaleza de Arguim em 1545, mas este personagem, na +opinião de Delfim Guimarães, era incapaz de escrever a mais +insignificante das quadras de Bernardim Ribeiro. + +Como se vê, é realmente muito notavel este livro, que os eruditos e +todos os que se interessam pelo movimento litterario portuguez, +certamente deverão apreciar pela intensa luz que projecta sobre um dos +principaes capitulos da historia da poesia nacional. + +(Do jornal _O Primeiro de Janeiro_, do Porto, de 20 de janeiro de 1909). + + + + + +«Bernardim Ribeiro» +por Delfim Guimarães + + +Não pode um povo viver sem ideal e esse ideal ha de ser como a flôr que +firma as raizes no terreno proprio das suas tradições. O futuro ha de +ser explicado pelo passado em que potencialmente está contido. + +Assim, comprehende-se quanta importancia tem para a vida intellectual e +artistica d'um povo o conhecimento de tudo quanto se refere á evolução +litteraria dos generos e ás condições mesologicas em que os seus grandes +prosadores e poetas produziram monumentos de dura. + +É por isso que lá fóra se não considera trabalho inutil todo aquelle que +consiste em escavar no passado, com paciencia e com intelligencia, para +d'elle desenterrar uma ideia, uma verdade, a correcção d'uma data, a +explicação de um texto obscuro. + +É sobre este trabalho á primeira vista inglorio que philosophos e +historiadores edificam as largas syntheses, cuja necessidade é +redundancia encarecer para a comprehensão da psychologia d'um povo. + +Entre nós, modernamente, nada ou quasi nada se tem feito n'esse sentido. +Os nossos manuaes de litteratura repetem cegamente o que estava dito e +feito, antes da descoberta dos modernos processos de critica e +interpretação do passado. + +Apenas o sr. Theophilo Braga com louvavel tenacidade se tem consagrado á +especialidade, nem sempre sendo feliz, não só pela sua tendencia a tudo +systhematisar, forçando os factos para os encaixar nas suas concepções +aprioristicas, mas tambem pela vastidão do assumpto que é impossivel ser +abrangido pelo trabalho de um homem só, principalmente quando não teve +quem lhe preparasse o terreno. + +Estas considerações accodem-nos a proposito do livro de Delfim +Guimarães--BERNARDIM RIBEIRO--que representa incontestavelmente o +acontecimento mais importante em historia litteraria do nosso tempo. + +O facto, que é já do dominio publico, é este: Christovão Falcão, que +passava por auctor da ecloga «Crisfal», uma das joias da nossa +litteratura, foi na realidade um mediocre fidalgo, incapaz de produzir +aquella obra prima. O auctor d'esta foi, effectivamente, Bernardim +Ribeiro, o meigo poeta das «Saudades» que serviu de modelo e estimulo a +Luiz de Camões. + +O livro de Delfim Guimarães, que é um modelo de investigação paciente e +de critica leal não deixa duvidas a tal respeito. Seria descabido aqui +repetir os argumentos que por ora ninguem desfez em que o auctor +fundamenta a sua sensacional descoberta. + +Limitamo-nos simplesmente a consignar que se Delfim Guimarães revelou +uma extraordinaria sagacidade estabelecendo «a priori» a identidade de +Bernardim Ribeiro e do auctor de «Crisfal», a fórma cheia de probidade +por que procurou «a posteriori» justificar a sua opinião honra não +sómente as suas faculdades de investigador, mas tambem o seu caracter. + +Quer nos parecer que, depois d'este precioso livro, a ninguem é licito +alimentar duvidas a tal respeito. E se se perde para o quadro dos nossos +poetas um nome, fica enriquecido e aureolado com gloria nova, mas que +lhe pertencia o doce e encantador namorado da «Menina e Moça». + +A Delfim Guimarães os nossos parabens e, com elles, os nossos +agradecimentos. + + (Do _Jornal de Noticias_, do Porto, de 8 de fevereiro de 1909). + + + + + +Divagações + +I + + +Só agora,--ainda que me não creiam--, só agora acaba de morrer, neste +anno da graça de 1909, um dos grandes bucolicos da época de ouro dos +escriptores quinhentistas! + +Esse macrobio das letras, Mathusalem portuguez, de nome e de nação, era, +sem mais nem menos, Chistovam Falcão de Sousa, que, embora quatro vezes +secular, me parece, indefinidamente vivo continuaria se não o tivessem +acaso assassinado... + +Companheiro, amigo e confidente de Bernardim Ribeiro, houvera entre os +dois, segundo Theophilo Braga, a infeliz conformidade de uma sorte +infeliz; pois, ao passo que aquelle se desperdiçava por amores, tambem +este por amores se perdia... + +As celebradas «Trovas de Chrisfal» collocavam a figura de Maria Brandão, +«com a casta graciosidade de uma virgem de Cimabue, dentro de paisagens +que pareciam ter os traços do pincel de Giotto»; e toda a tradição +popular, já assignalada pelo chronista Diogo do Couto, era unanime em +considerar esse nome de «Chrisfal» como formado das duas primeiras +syllabas do prenome e appellido de Christovam Falcão. De outra parte, o +poema das «Saudades», ou a «Menina e moça», de Bernardim Ribeiro, +lembrava a desventurada paixão do poeta pelo typo feminil de Joanna +Tavares, que elle disfarçava com o pseudonymo pastoril de «Aonia». + +Tão notavel se afigurava a individualidade literaria de «Chrisfal» que, +para a illustre romanista D. Carolina Michaëlis, elle teria sido o +creador do genero bucolico em Portugal, e Bernardim apenas o seu +immediato imitador; mas, tambem, a semelhança entre elles era tal que, +conforme a judiciosa observação do professor Simões Dias, «as obras de +um podiam passar como feitas pelo outro.» + +E assim se devia entender e ensinar nas escolas, até que um novo +escriptor lusitano, o sr. Delfim Guimarães, nos apparecesse com um +trabalho recente e valioso, onde a toda luz demonstra, com grande +escandalo dos mestres, que Christovam Falcão é, sem menos nem mais, o +mesmo Bernardim Ribeiro, que adoptara nas «Trovas» o chris (ma) fal (so) +de Chrisfal». E a «Maria» de taes versos tambem constituia, a seu turno, +mais um cryptonymo de amor... + +Por certo que existiu Christovam Falcão, e existiu naquelles mesmos +annos, mas o sr. Delfim Guimarães prova que semelhante personagem era um +ignorantaço de marca. + +--Arranque-se-lhe, por conseguinte, e para sempre, o rutilante diadema +de poeta com que lhe cingiram a cabeça romantica... Puramente emprestada +era a luz que o sobredourava na historia,--luz que lhe não provinha do +merito, senão antes da phantasia dos criticos. + +Em todo o caso, e emquanto houver a memoria dos homens, viverá o seu +«renome», attribuido apenas á felicidade do «nome»... + +Se elle, como escriptor, morreu, ha de ser, comtudo, evocado nas obras +de erudição, ao menos, quiçá, como testemunho de quanto podem os enganos +e a tardia justiça dos homens. + +O trabalho consciencioso do sr. Delfim Guimarães honra a sua fina +argucia, e nos leva a confiar no indefectivel juizo da historia cuja +precaria relatividade é razão sobeja para nos empenharmos contra os +«tortos» iniquos de que nos faça réos a precipitação ou a desidia. A +averiguação do que pertence a cada um não transcende as raias da +judicatura terrestre; e, para os que esperam na vida futura, parece que, +perante o seu tribunal supremo, com jurisdicção apenas sobre o bem e o +mal, não se levarão os problemas de preeminencia literaria, nem +scientifica... + +Á posteridade é que compete extremar as glorias de cada autor; sendo +que, muitas vezes, a injustiça ou a ignorancia dos coevos, não impedem +que as gralhas sejam finalmente despojadas do atavio das pennas do +pavão. + +Recordando o padre Manuel Bernardes o costume romano de ser punido, com +o venablo e a nota de infamia, o legionario fanfarrão que enchia a boca +de mentirosas façanhas, accrescenta que, se houvera de andar semelhante +correição pelos ostentadores de engenho, muitos funccionarios exigiria a +devida e cabal applicação da pena, que, na velha organisação militar, +era privativa dos «tribunos». Verifica-se, porém, que, com o correr dos +tempos, nunca faltam «tribunos» da milicia literaria, para o castigo dos +soldados, «que blasonam falsas valentias», ou para que se desmascarem os +miseraveis impostores da sciencia. Se até os reis, desde Homero, e, como +dizia Camões, + + + «Dão os premios, de Ajace merecídos, + Á lingua vã de Ulysses fraudulenta» + + +vêm mais tarde os divinos aedos, que, no tribunal dos pósteros, +pleiteiam e ganham a causa dos que foram injustamente aggravados. + +Não permitte, afinal, o criterio dos competentes, que um simples +erudito, como Ptolomeu, usurpe, inappellavelmente, a fama devida ao +saber mathematico de Hipparcho. + +Este não é precisamente o caso de Christovam Falcão de Sousa, que não +póde responder pelo erro dos que lhe enfiaram na modesta fronte uma +corôa gloriosa de poeta. Elle, se vivo fôra, repugnaria acceitar o que a +outrem pertencia de direito; pois, se os elogios que não merecemos, nos +deprimem, em vez de exaltar-nos, o protesto da nossa consciencia não +deve tardar quando aquillo que nos dão representa o resultado de uma +espoliação alheia. + +Reproduzindo a carta que ainda se encontra na Torre do Tombo, o sr. +Delfim Guimarães apurou, e deixou de manifesto, que o suposto trovador +tinha apenas a instrucção rudimentar dos moços fidalgos do seu tempo. + +Se «idiotas», na accepção archaica de--«sem letras», eram, como sabemos, +os barões da edade media, que até disso mesmo se ufanavam, a ponto +de--«o condestavel Duguesclin nunca ter querido sujeitar-se á +doutrinação de um mestre», nem ainda na aurora da Renascença pareceu +melhor a cultura de certos homens, apesar de illustres. + +Francisco Pizarro, logar-tenente de Sua Alteza, cavalleiro da ordem de +Santiago e conquistador do Perú, ouviu ler, deante do Grande Concelho +dos nobres de Hespanha, a minuta do decreto que o fazia senhor de todas +terras descobertas e por descobrir;--e, como, na expressão de Heredia, +não pudesse assignar o protocollo, + + + «Fit sa croix, déclarant ne savoir pas écrire, + Mais d'un ton si autain que nul ne put en rire.» + + +Á vista de tal exemplo, não ha extranhar, no gentil-homem Christavam +Falcão, nem as faltas de grammatica, nem as de orthographia, patentes em +sua carta a el-rei, conforme o documento que ainda se conserva na Torre +do Tombo... Mas essas faltas e a rudeza geral do estilo são bastantes +para que não mais o tenhamos na conta de um emulo do suave e +melancholico Bernardim Ribeiro, autor incontestavel das «Trovas de +Chrisfal», depois de tantos argumentos sagazmente colhidos de uma +profunda analyse psychologica e linguistica. + +Um dos mais fortes indicios (aliás não aproveitado pelo sr. Delfim +Guimarães) consiste na estrophe 77, das «Trovas», com o começo, em +prosa, do poema das «Saudades»: + + + Por ti me vi desterrada + em estas estranhas terras + de donde eu fui criada, + e, por ti, antre estas serras, + em vida, são sepullada: + onde, a se me perderem + a frol dos annos se vão; + ora julga se é rezão + das minhas lagrimas serem + menos daquestas que são! + + +Ha aqui uma clara allusão ao mesmo facto referido no trecho: + + +«Menina e moça me levaram de casa de meu pae para longes terras; qual +fosse então a causa daquella minha levada, era pequena, não na soube.» + + +O sr. Delfim Guimarães deixa agora envolta em trevas a personalidade de +Christovam Falcão; mas o raio de luz que deste se afasta, só serve de +augmentar a gloria de Bernardim Bibeiro, cujo peregrino talento até hoje +scintillava repartido pela auréola de dois nomes de poeta... + + + Silvio de Almeida. + +(Do jornal _O Estado de S. Paulo_, de S. Paulo, Brasil, de 29 de março +de 1909). + + + + +Divagações + +II + + +Que extranha e mal debuxada figura não era a desse Christovam Falcão, a +quem, de principio, a gente ignara, depois editores sem critica, e, por +fim, os mesmos autorisados mestres, attribuiram a paternidade das +«Trovas de Crisfal», sem outro algum motivo que só este, aliás, deveras +pueril: conjugarem-se na palavra «Crisfal» as duas primeiras syllabas de +«Christovam» e de «Falcão»! + +Unicamente, pois, a sorte de seu «nome» lhe grangeára o dilatado +«renome» de quatro seculos, cheios de uma admiração que tanto (segundo o +costume) tinha de enthusiastica, quanto mais era infundada e gratuita. + +Aos phantasistas nada, certo, importava que jamais fosse o ideal +trovador, nem uma vez, referido no volumoso in-folio do «Cancioneiro» de +«Rezende», em cujo indice se catalógam até as mediocridades pulhas +daquelle tempo. Nem cuidaram tampouco que a sua unica pretendida obra +lyrica (não sem causa deparada entre os papéis, que foram, de Bernardim +Ribeiro)--versava o mesmo assumpto predilecto deste ultimo, reflectia o +mesmo gosto da paisagem, era fundida nos moldes do mesmo estilo, vinha +molhada pelas lagrimas da mesma dorida commoção! + +A todos que tenham olhos de ver, demonstra agora o sr. Delfim Guimarães, +com miudezas de analyse, que certos passos das «Trovas», ou reproduzem +heptasyllabos das pastoraes ribeirescas, ou correspondem a phrases +similares do romancete das «Saudades». + +Deixando, porém, de lado dezenas de significativas coincidencias +esparsas, como entre o verso da egloga 4.^a: + + + «Coitado, não sei que diga, + + +e o da estrophe 21 de «Crisfal»: + + + «Mas, triste, não sei que digo»; + + +eu apenas aqui darei o que não expoz o novél escriptor portuguez, ou +aquillo que elle só levemente adduziu. + +Já na carta prefacial das «Trovas», cujo tom dagua chorosa nos suggere o +«memento» do «Cancioneiro», os versos: + + + «Cuidai quanto nos quisemos, + e não vos possa mudar + dizer que vos podem dar + outrem que tenha mais que eu», + + +perfeitamente combinam com a 1.^a egloga: + + + «Veio ahi outro pastor ter: + com o que prometteu ou deu + se deixou delle vencer», + + +e com a «Menina e moça»: + +--«...succedeu, no castello, um filho de um cavalleiro muito valído e +rico nesta terra, que por meio de vizinhos desejou Aonia por mulher»; + +--«...bem lhe pareceu que se não descontentaria Aonia do esposo, porque +era bem aposto cavalleiro e dos bens do mundo abastado». + +Note-se, mais, que a locução--«dos bens do mundo abastado», tambem +inserta na 2.^a bucolica, reapparece na 5.^a estrophe de «Crisfal», cujo +introito (conforme com as eglogas 1.^a, 2.^a e 5.^a) faz das «selvas +junto do mar» o delicioso theatro dos amores dos dois zagaes. + +A descripção desse local (de Sintra e de seu Val de Lobos), apenas +esboçada no começo das «Trovas», melhor se delineia da estrophe 55 em +deante: + + + «Vão alli grandes montanhas + de alguns valles abertas, + todas de soutos cubertas, + aos naturaes extranhas, + mas á saudade certas. + ....................... + Cuberta era a fonte + de tam fresco arvoredo, + que não sei como o conte, + muito quieto e mui quedo, + por ser antre monte e monte. + ............................. + Ao pé de um castanheiro + me pus, triste, assentado, + ouvindo o tom de um ribeiro. + Meus olhos e eu passámos + alli a noite em amores. + ............................. + Naqueste tempo corrompe + a ave que chamam leal + o silencio do seu mal, + que é quando a alva rompe + e ao dia faz signal». + + +Depois disso, abram o livro da «Menina e moça», e façam-me o favor de +ler: + +«Neste «monte mais alto de todos» (que eu vim buscar pela suavidade de +outros que nelle achei) passava eu a minha vida como podia; ora em me ir +«pelos fundos valles que os cingem dearredor», ora em me pôr do mais +alto delles olhar a terra como ia acabar ao mar; e depois o mar como se +estendia logo após ella, pera acabar onde ninguem o visse». + +--«E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte) +determinei ir-me pera o pé deste monte, «que d'arvoredos grandes e +verdes ervas e deleitosas sombras» é cheio, «por onde corre um pequeno +ribeiro» de agua de todo o anno, que nas noites caladas, o rogido delle +faz no mais alto deste monte um «saudoso tom, que muitas vezes me tolhe +o sono». + +--«Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo +que por cima da agua se estendia, «veio pousar um rouxinol». + +Para completar a symetria e a belleza idyllica da pintura, nem faltou a +esse quadro o vultinho animado da mesma «ave leal» de que nos. falavam +as «Trovas». + +Quanto ao par apaixonado, a referencia da 2.^a estrophe de «Crisfal»: + + + «Sendo de pouca edade, + não se ver tanto sentiam + que o dia que se não viam, + se via na saudade + o que se ambos queriam». + + +ligada á da 77: + + + «a frol dos annos se vão», + + +e á da 84: + + + «Quando vos dei a vontade, + inda vós ereis menina, + e eu de pouca edade», + + +em nada discrepa da do capitulo 18 das «Saudades» de Bernardim: + + +--«...a senhora Aonia, que ainda então era donzella d'antre treze ou +quatorze annos...»; + +--«...a barba um pouco espessa e um pouco crescida, que a elle traz, +parece que é aquella a primeira ainda...» + + +Em relação ao poeta, a 2.^a egloga positivamente declara que contava os +seus vinte e um de edade quando se fez «servidor» de Aonia. + +Mas dos parentes desta a interesseira má vontade, que «Crisfal» +vehemente assignala, assentou de lhe curar o coração doente de mulher +pelo processo sedativo de um apartamento para «longes terras» (expressão +egual da estrophe 7.^a e do 1.^o capitulo da «Menina e Moça»). + +Ainda na 2.^a egloga, Bernardim, que com os italianos aprendera o +reavidado uso das allegorias de Vergilio, se manifesta como um pastor +nascido «antre Tejo e Odiana»; e muito é para notar que nas «Trovas» +tambem exista o mesmo verso (6.^o da 30.^a estrophe). + +Attingido o pegureiro (na 2.^a bucolica) do encantamento de amor, + + + «logo então começou + seu gado a emagrecer: + nunca mais delle curou.» + + +E «Crisfal», outrosim (como réza a 5.^a estrophe), + + + «...por curar da paixão, + não curava do seu gado». + + +O mesmo pensamento se exprimiu, pois, aqui, sómente com tal ou qual +superioridade artistica, que não é a injusta superioridade de Christovam +Falcão sobre Bernardim Ribeiro, senão antes a deste sobre si proprio, no +progressivo burilamento da fórma impeccavel.--Mas o artista, como que +apostado em exceder-se cada vez mais, só achou a sua melhor expressão +esthetica quando depois insistiu, na estrophe 22: + + + «descuido matou meu gado, + cuidado matou a mim». + + +A antithese (que tira de duas idéas oppostas a scintillação do choque de +duas pedras) constitue quasi sempre o ultimo resultado de uma longa +elaboração mental. + +Ha, na melancholia das «Saudades», um topico onde o seu autor diz que, +já de affeito ás dores, parecia viver nellas. E tal conceito assume, na +10.^a estrophe das «Trovas», uma formulação mais abstracta e geral: + + + «O longo uso dos danos + se converte em natureza». + + +A hypothese de «Crisfal» ser Christovam Falcão exigiria, portanto, que +delle fosse, tambem, um simples reflector o nosso, aliás original, +Bernardim Ribeiro; ou isso, ou, então, plagiario o outro... + +Gemeos intellectuaes, e ainda irmãos no infortunio de seus affectos, +nunca se houvera visto, sequer em dois relogios, uma tão completa +concordancia! + +Mas, dentre o suffocante accumulo de provas contrarias, uma, sobretudo, +victoriosamente resalta da egloga «Alejo» de Sá de Miranda, o +«philosopho» amigo e confidente do «ternissimo» Bernardim Ribeiro. + +Alli diz o Miranda, disfarçado sob o cryptonymo de «Antonio»: + + + «Vine por Ribero ver, + como otras vezes solia.» + + +Pois bem: Esse mesmo «Antonio» apparece na estrophe 32 de «Crisfal», que +delle assevera: + + + «Aqueste é o pastor + que aqui vêo buscar-me.» + + +De semelhante parallelismo não ha concluir senão que «Ribero» e +«Crisfal» representam um só e mesmo «pastor», o que vale dizer «poeta», +na linguagem allegorica do bucolismo. + +Demais: + +Os versos que se acham em «Alejo»: + + + «Io sonava que me via + entre unas cerradas breñas; + de una parte i de otra peñas, + do nunca el sol descobria», + + +traduzem no castelhano os da estrophe 7.^a das «Trovas»: + + +«esconderam-me antre serras, +onde o sol nunca era visto,» + + +Ora, se (a paginas 188 de sua obra refundida sobre Sá de Miranda) +reconhece Theophilo Braga, como todos, em «Alejo», uma segunda figura de +Bernardim, deverá reconhecer ainda que «Crisfal», sendo «Alejo», é +Bernardim tambem. + + +A gloria do sr. Delfim Guimarães foi de haver apanhado a verdade, que +tão fóra andava da corrente unanime do parecer dos mestres. + +Mas, já das muitas adhesões que elle conquistou, licito me seja destacar +o voto preponderante da senhora dona Carolina Michaëlis de +Vasconcellos,[12] como primeira autoridade--que ella o é--da moderna +philologia portugueza. + +Tambem, no Brasil, Sylvio Romero entende que estão reivindicados, de uma +vez, os direitos de Bernardim Ribeiro «a essa bella parte da sua obra +que a lenda lhe andava a tirar estupidamente»... + + + Silvio de Almeida. + +(Do jornal _O Estado de S. Paulo_, de S. Paulo, Brasil de 5 de Abril de +1909). + + + + +Indice + + +Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal + + + +I. Razão de ser d'este livro 5 + +II. O snr. dr. Theóphilo Braga descobrindo a verdade, e procurando +enterrá-la 29 + +III. Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga 37 + +IV. A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal 59 + +V. O artigo «Movimento litterário» 63 + +VI. Uma patranha genealógica 97 + +VII. O criptónimo «Fileno» 99 + +VIII. In terminis 103 + + + * * * * * + +Apreciações da imprensa ao livro: + + +«Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)» + + +Do jornal «_O Mundo_», de Lisboa 107 + +» » «_O Seculo_», » » 109 + +» » «_Diario de Noticias_», de Lisboa,--artigo do snr. dr. Candido de +Figueiredo 111 + +» » «_Diario Illustrado_», de Lisboa,--artigos +do snr. Hemetério Arantes 113 e 125 + +» » «_A Mala da Europa_», de Lisboa 121 + +» » «_A Lucta_,» de Lisboa,--artigo do snr. Albino Forjaz de Sampayo 133 + +» » «_O Dia_», de Lisboa 139 + +» » «_O Commercio de Lima_», de Ponte do Lima--artigo do snr. dr. +Antonio Ferreira 143 + +» «_Jornal das Colonias_», de Lisboa,--artigo de A. B. 147 + +» jornal «_O Primeiro de Janeiro_», do Porto 149 + +» «_Jornal de Noticias_», do Porto 151 + +» jornal «_O Estado de S. Paulo_», de S. Paulo, Brasil,--artigos do snr. +Sílvio de Almeida 155 + + + + + +*Notas:* + +[1] O _normando_ é nosso. + +[2] Este _ponto de admiração_ pertence exclusivamente ao snr. dr. +Theóphilo Braga. + +[3] T. Braga.--_Obras de Christovam Falcão_, Porto, 1871--pag. 4. + +[4] _Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_, pag. 180. + +[5] Torre do Tombo--Gaveta 20--maço 5--n.^o 10. + +[6] Bernardim Ribeiro e o Bucolismo, pag. 63-64. + +[7] _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, pag. 19. + +[8] _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, pag. 19. + +[9] Carta do snr. Jordão de Freitas no jornal «O Dia» em 2 de janeiro de +1909. + +[10] Conferencia de 8 de Junho de 1725 pelo Conde da Ericeira, na +Colleçam dos documentos e memorias da Academia Real da Historia +Portugueza. + +[11] Aliás, as glosas ao solau. + + _Nota de D. G._ + +[12] Reproduzindo integralmente o artigo do nosso ilustre confrade +brasileiro, cabe-nos o dever de declarar que a insigne romanista, +senhora D. Carolina Michaëlis, que nós saibamos, ainda não manifestou a +sua opinião. + + _Nota de D. G._ + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 12| auxilados | auxiliados | + |#pág. 28| impondo-a | impondo-o* | + |#pág. 29| Pedron | Padron* | + |#pág. 32| paternalmente | paternalmente,* | + |#pág. 38| primeiro | segundo* | + |#pág. 85| com o | como | + |#pág. 90| empenhada | empenhado | + |#pág. 94| com todas | como todas* | + |#pág. 95| Falção | Falcão* | + |#pág. 102| portuguesês | portuguêses | + |#pág. 107| Chistovão | Christovão | + +----------+---------------------+----------------------+ + + +* correcções feitas com base na errata do próprio livro. + +As figuras da página 34 e da página 49 estão ilegíveis, motivo pelo qual +não foram adicionadas. Fica no entanto a sua indicação. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Theophilo braga e a lenda do crisfal, by +Delfim Guimarães + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEOPHILO BRAGA E A LENDA *** + +***** This file should be named 25479-8.txt or 25479-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/4/7/25479/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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