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+Project Gutenberg's Theophilo braga e a lenda do crisfal, by Delfim Guimarães
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Theophilo braga e a lenda do crisfal
+
+Author: Delfim Guimarães
+
+Release Date: May 15, 2008 [EBook #25479]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEOPHILO BRAGA E A LENDA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+
+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Maio 2008)
+
+
+
+
+Theóphilo Braga
+
+E
+
+A LENDA DO CRISFAL
+
+
+
+
+Obras de Delfim Guimarães
+
+
+PROSA:
+
+*Alma dorida*, com prefácio de Teixeira Bastos, 1 vol broch. 500 réis
+
+*A Viagem por terra do snr. João Penha*, (crítica literária) 1 folh. 100 »
+
+*O Rosquedo* (Scenas da vida de província). Esgot.^o
+
+*Ares do Minho* (Contos) 1 vol. broch. 200 réis
+
+*Bernardim Ribeiro*: O poeta Crisfal (Subsídios para a Historia da
+literatura portuguêsa) 1 vol. broch. 800 »
+
+
+EM PREPARAÇÃO:
+
+*Luis de Camões.--Diogo Bernardes.*
+
+
+VERSO:
+
+*Lisboa Negra*, 1 fol. 200 »
+
+*Confidencias*, 1 vol. broch. 400 »
+
+*Evangelho*, 1 vol. 400 »
+
+*Não! Mil vezes não!* 1 fol. 200 »
+
+*Sim! Mil vezes sim!* 1 fol. 100 »
+
+*Sonho Garretteano* Esgot.^o
+
+*A Virgem do Castelo*, (2.^a edição) 1 fol. 100 reis
+
+*Outonaes*, 1 vol. broch. 500 »
+
+
+NO PRELO:
+
+*Flores do mal* (interpretação em versos portuguêses de poesias de
+Carlos Baudelaire)
+
+
+TEATRO:
+
+*Aldeia na Côrte*, drama em 3 actos, de colaboração com D. João da
+Camara, representado no D. Amelia, 1 vol. broch. 500 réis
+
+*Juramento Sagrado*, comedia n'um acto em verso, representada no D.
+Maria II, 1 fol. 200 »
+
+
+A PUBLICAR:
+
+*Domingo de Páscoa*, peça de costumes minhotos.
+
+
+OUTROS TRABALHOS:
+
+*A Dama das Camelias*, de _Dumas, filho_ (tradução), 1 vol. broch. 200
+réis
+
+*Saudades*, (História de Menina e moça), de _Bernardim Ribeiro_, edição
+revista (vol. 29 da Colecção Horas de Leitura) 200 »
+
+*Trovas de Crisfal*, de _Bernardim Ribeiro_, edição revista 300 »
+
+*Versos portuguêses*, de _Sá de Miranda_, edição revista 500 »
+
+
+
+
+DELFIM GUIMARÃES
+
+
+Theóphilo Braga
+
+E
+
+A Lenda do Crisfal
+
+
+1909
+Livraria Editora
+GUIMARÃES & C.^a
+68, Rua de S. Roque, 70
+LISBOA
+
+
+
+
+THEÓPHILO BRAGA
+E A LENDA DO CRISFAL
+
+
+
+
+I
+
+Razão de ser d'este livro
+
+
+Quando em maio de 1908 tornamos pública a conclusão a que haviamos
+chegado de ser _Crisfal_ um pseudónimo do autor da _Menina e moça_, como
+procurámos demonstrar no volume recentemente dado á estampa: *Bernardim
+Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), tinhamos o convencimento pleno de que uma
+tal nova, divulgada pela imprensa, seria bem acolhida por quantos se
+interessam pelo estudo da nossa História literária, com excepção apenas
+do snr. dr. Theóphilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de
+Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas
+sentenças, nem vê com bons olhos que outros, que não s. ex.^a, encarem
+problemas que se prendam com a História da literatura portuguêsa.
+
+E n'este caso do _Poeta Crisfal_, mais do que em nenhum outro, o snr.
+dr. Theóphilo Braga não desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que
+teremos ocasião de apontar no decurso d'este livro.
+
+Não contavamos com o acolhimento benévolo do infatigavel escritor. Para
+fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos,
+tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforço pouco generoso
+do snr. dr. Theóphilo Braga para com a memória d'esse desventurado que
+se chamou Antero,--porque o poeta incomparavel dos _Sonetos_ ousara
+flagelar o dogmatismo scientífico do antigo camarada universitário; o
+fel que o plumitivo da *Historia da Litteratura* deixa transparecer nas
+apreciações com que, baldadamente, procura amesquinhar a figura
+gigantesca de Herculano,--porque o insigne historiador nacional jàmais
+se associou aos turibulários do filósofo comtista (sem calemburgo);--o
+desdem com que o professor de literatura apoda, soberanamente, de
+_gramático_, o distinto romanista, snr. Epiphánio Dias,--por este haver
+despedaçado, com a autoridade do seu nome, aquela invenção alegre dos
+_cantos de ledino_, em que o snr. dr. Theóphilo continua a persistir,
+apesar de tudo, com manifesta falta de sinceridade.
+
+Mas não ignorando taes precedentes, e conhecendo que o estudo que iamos
+apresentar ao público não deixaria de nos acarretar a má vontade do
+autor da _História da Litteratura Portugueza_, nem por um momento
+hesitamos em levar a bom termo o nosso trabalho, tendo em atenção tam
+sòmente que se tratava de desfazer uma lenda, estúpida como tantas
+outras lendas, que privava de parte da glória a que tinha jus o nome
+aureolado de um dos maiores poetas portuguêses, o delicado e inditoso
+Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim.
+
+Derruíamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas erguiamos a um
+pedestal mais grandioso e altívolo a figura amoravel do grande
+bucolista.
+
+A literatura portuguêsa só ganhava com a descoberta. Que, se alguma
+cousa perdesse, era sobeja compensação o que se conquistava para a
+verdade histórica...
+
+Mas a proclamação de uma tal verdade ia prejudicar um livro, ou livros,
+do snr. dr. Theóphilo Braga... Não havia dúvida. Que importava isso?
+Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da Écloga
+de _Crisfal_, não valeria a pena sacrificar uma das muitas produções do
+operoso escritor?
+
+Bernardim Ribeiro é um dos astros fulgurantes da rútila constelação que
+brilha, intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. Já conta alguns
+séculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor...
+
+Após a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu _Diario de
+Noticias_, dando conta dos nossos trabalhos de investigação, que punham
+termo á lenda de _Crisfal_, tivemos a ventura de ver que o snr. José
+Pereira Sampaio (_Bruno_) havia chegado a conclusão idêntica á nossa,
+como foi registado n'um brilhante artigo de João Grave no _Diario da
+Tarde_, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de _Bruno_,
+reproduzida no jornal citado, em que o prestigioso publicista, com a
+reconhecida autoridade do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava
+de maneira absoluta que estavamos com a verdade; que o _trovador_
+Cristovam Falcão era simples produto de uma lenda, que o criptónimo
+_Crisfal_ pertencia a Bernardim Ribeiro.
+
+Do artigo do nosso camarada João Grave, e da carta do ilustre escritor
+snr. José Sampaio, não faremos citações n'esta altura. Ambos os
+preciosos documentos se encontram integralmente exarados no nosso livro
+_Bernardim Ribeiro_. Não os desconhecem, por certo, aqueles que nos dão
+a honra da leitura d'este trabalho.
+
+Como recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga essas comunicações do _Diario de
+Noticias_, de Lisboa, e do _Diario da Tarde_, do Porto?
+
+--Passando a José Pereira Sampaio (_Bruno_), e a nós outros, um diploma
+de ignorantes!
+
+Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal _A Epoca_ a secção que o
+escritor snr. Silva Pinto tinha a seu cargo, e que n'essa data
+estampava, reproduzida do _Diario da Tarde_ do Porto, a seguinte carta
+do snr. dr. Theóphilo Braga:
+
+
+ _«Meu caro João Grave_:--Encantou-me o favor da sua carta,
+ communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho
+ amigo e luminoso critico José Sampaio sobre a apochryficidade do
+ auctor do «Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato Delfim
+ Guimarães. É sempre boa a vindicação d'uma verdade em qualquer
+ campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma
+ conquista, d'um triumpho.
+
+ Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é realidade
+ demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim
+ Guimarães, sobre a identidade de Christovam Falcão em Bernardim
+ Ribeiro. *Isso, porém, não passa d'uma miragem, por falta de
+ conhecimento dos existentes recursos historicos*[1].
+
+ Diogo do Couto falla em Christovam Falcão como celebrado auctor do
+ «Crisfal», quando narra factos praticados por seu irmão Damião de
+ Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India,
+ inventava-lhe um irmão? E tendo sido impresso o «Crisfal» sem nome
+ d'auctor, (no _pliego-suelto_ da Bibliotheca Nacional de Lisboa)
+ dava-o como auctor d'essa celebrada écloga a capricho seu? O Padre
+ Antonio Cordeiro, na «Historia Insulana», (resumo das «Saudades da
+ terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões) tambem faz as
+ mesmas referencias ao _poeta_ Christovam Falcão. E a edição de
+ Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome?
+ E Frei Bernardo de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda
+ parte do «Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D.
+ Maria Brandão, a namorada d'este poeta do «Crisfal».
+
+ Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a
+ lume os seus resultados. A vantagem é de nós todos.
+
+ Com um abraço do seu, etc.
+
+ Theophilo Braga.»
+
+
+Para o professor do Curso Superior de Letras, a conclusão a que, tanto
+_Bruno_ como nós, haviamos chegado, não passava *d'uma miragem, por
+falta de conhecimento dos existentes recursos historicos*, e esta
+sentença autoritária vinha a público quando o snr. dr. Theóphilo Braga
+ignorava em absoluto quaes os argumentos com que nós e o insigne
+publicista nosso conterráneo procurariamos fazer vingar nossas teses.
+
+Magoou-nos a impertinência, confessamos, e não resistimos a manifestar
+publicamente a impressão em nós produzida pela prosa do snr. dr.
+Theóphilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta a João
+Grave, que este distinto jornalista fez inserir no numero de 1 de junho
+do _Diario da Tarde_:
+
+
+ «_Meu prezado camarada João Grave_:--Acabo de ler, reproduzida por
+ Silva Pinto na «Epoca», a carta que o snr. dr. Theóphilo Braga
+ dirigiu ao meu caro João Grave a propósito do trabalho que preparo,
+ em que me proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente um
+ anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por
+ conseguinte a este lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a
+ Cristovam Falcão.
+
+ O nosso bom amigo e erudito escritor José Pereira
+ Sampaio--_Bruno_--, como se viu da interessante carta que estampou
+ no «Diario da Tarde», como complemento ao artigo que o meu caro
+ João Grave publicou sobre o assunto, chegara a conclusões eguaes, e
+ para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno
+ viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu
+ concurso.
+
+ Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se isto uma
+ «_miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos
+ historicos_», que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de
+ Brito.
+
+ Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de dizer no seu
+ jornal que conheço perfeitamente os _recursos históricos_ a que
+ alude o incansavel historiador da _Litteratura Portugueza_, como
+ não podia deixar de conhecer pela leitura das edições do «Bernardim
+ Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga.
+
+ Que Bruno não ignora nenhum d'esses _recursos_, estou convicto,
+ que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga
+ póde ter dúvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao
+ justificado nome literário de José Sampaio.
+
+ Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo
+ nenhum eu vou sustentar que não existiram vários _cavalheiros_ com
+ o nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem existido não
+ tomaria vulto até aos nossos dias a lenda do «Crisfal»!
+
+ Não o enfado mais.
+
+ Creia-me, com verdadeira estima,
+
+ seu amigo, adm.^{dor} e obg.^{do}
+
+ S/C. Lisboa, 29-maio/90.
+
+ Delfim Guimarães.»
+
+
+A _Bruno_ tambem não passou despercebido o _amavel_ diploma do professor
+do Curso Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu
+melindrado prova-o suficientemente a carta que dirigiu a João Grave, e
+que, confiados na benevolência do sr. José Pereira Sampaio, vamos
+trasladar das colunas do jornal _A Epoca_, que a reproduziu do _Diario
+da Tarde_:
+
+
+ «_Meu caro João Grave_:--Novamente o venho importunar, pois entendo
+ que, perante a carta, aliás tão bondosa e honrosa para mim, do dr.
+ Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar
+ em publico, ainda uma vez, que após o apparecimento do livro de
+ Delfim Guimarães, defendendo a propozição de que Christovam Falcão
+ não é mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V.
+ na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre
+ outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que
+ refutarei ahi cabalmente as asserções, na sua carta de hontem no
+ «Diario da Tarde», pelo nosso doutissimo confrade e illustre
+ publicista produzidas, mostrando então, com todo o respeito devido
+ a tão indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de
+ Delfim Guimarães) não é tal uma miragem e que, pelo contrario, o
+ ensino corrente no assumpto é que é inteiramente phantastico e
+ chimerico.
+
+ A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.
+
+ Todo seu
+
+ Porto, 27 de Maio de 1908.
+
+ José Pereira Sampaio (Bruno).»
+
+
+O snr. dr. Theóphilo Braga achou que era prudente não voltar á estacada,
+e assim deixou passar em julgado a nossa carta e aquela em que o snr.
+José Sampaio, por uma fórma categórica, visando directamente as lições
+ministradas pelo professor de literatura, declarava que o ensino
+corrente sobre Cristovam Falcão era _inteiramente phantastico e
+chimerico_.
+
+Na elaboração do livro: *Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_)
+obedecemos ao propósito de não converter o nosso trabalho n'uma
+diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a situação em que eramos
+forçados a colocar o snr. dr. Theóphilo Braga, em obediência á verdade,
+e não porque nos animasse qualquer desejo de ser desagradaveis ao
+infatigavel vulgarizador. E, procedendo assim, entendiamos cumprir um
+dever, que tinha sobeja justificação nos cabelos brancos do professor do
+Curso Superior de Letras, cuja primeira edição do seu _Bernardim
+Ribeiro_ coincidiu com o ano do nosso nascimento. Não esquecemos nunca
+que fomos educados no respeito devido á velhice.
+
+No trabalho da revisão das provas do nosso estudo, em que fomos
+auxiliados pela prestante amizade de Henrique Marques, mais de uma vez
+modificámos referências feitas ao professor que contraditavamos, e
+sempre da melhor vontade substituiamos um adjectivo, suavizavamos a
+saliência de um erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique
+Marques, com o seu apreciavel critério, nos fazia notar que uma palavra,
+uma frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr.
+dr. Theóphilo Braga.
+
+Queriamos fazer vingar uma obra de justiça; não era nosso intento
+agravar quem quer que fosse.
+
+E que não fomos descortêses, nem violentos, nem injustos, para com o
+professor que contraditavamos, prova-o o testemunho insuspeito do
+eminente publicista snr. José Caldas, que nos honrou com uma carta
+penhorantíssima, de que reproduziremos neste lugar algumas linhas:
+
+«*A delicadeza das suas referencias, com relação aos auctôres cujas
+conclusões não acceita ou impugna, é verdadeiramente modelar.*»
+
+Se houvessemos sido menos cortêses para com o snr. dr. Theóphilo Braga,
+s. ex.^a não se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a
+oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o
+professor do Curso Superior de Letras escreveu-nos a agradecer o livro,
+embora na sua carta transpareça o despeito que lhe produziu o nosso
+estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vários erros contidos
+em volumes da _Historia da Litteratura Portugueza_.
+
+Registâmos aqui essa carta do snr. dr. Theóphilo Braga, que não deixa de
+constituir um documento interessante para aqueles que seguirem com
+atenção a marcha dos acontecimentos provocados pela pendência literária
+em que estamos envolvidos.
+
+É, textualmente, como segue:
+
+
+ «Lisboa, 25 de Novembro de 1908
+
+
+ _...sr. Delfim Guimarães
+ e meu presadissimo amigo_
+
+
+ Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que
+ apresenta o seu processo para a identificação do poeta Bernardim
+ Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria
+ tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma
+ biographia de Christovam Falcão com elementos historicos
+ (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de
+ ler immediatamente o seu livro, para vêr que materiaes traria para
+ o aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a
+ justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras
+ emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp
+ Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam Falcão amou, sendo
+ ambos muito creanças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no
+ fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de
+ continuar a admittir as relações pessoaes de Christovam Falcão com
+ Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com
+ um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle
+ figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V.,
+ acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais
+ antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas
+ de Bernardim, (eliminadas as relações com Christovam Falcão), e
+ mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre,
+ influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e
+ intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa
+ historica, de Diogo do Couto, na sua _Decada VIII_, que, fallando
+ de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico:
+ «irmão de *Christovam Falcão*, aquelle que fez aquellas cantigas
+ nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido
+ pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam
+ Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Christovam
+ Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do
+ seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por
+ curiosos sem criterio litterario se repete a attribuição «_que
+ dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da
+ mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos
+ de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos
+ genealogistas. A Ecloga do Crisfal não podia ser publicada pelo seu
+ auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_
+ de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada. A
+ edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando
+ Christovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em
+ 1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do
+ _Crisfal_, que então, andava no gosto. Na edição de Lisboa vem duas
+ estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que
+ continham uma _inconfidencia_. Isto leva a explicar como Christovam
+ Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe
+ a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os
+ logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão provam mais
+ a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois
+ poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas
+ de paixão amorosa que se não confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia
+ e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em
+ situações differentes. Através de todo o hypercriticismo o livro
+ sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me
+ veio revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no
+ Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga _Alexo_
+ assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante
+ estudo, sou
+
+
+ admirador obr.^{mo} e amigo
+
+ Theophilo Braga»
+
+
+Começa a carta do snr. dr. Theóphilo Braga por um _rebuçado de ovos_: o
+tratamento de «prezadissimo amigo», que não tinha qualquer
+justificação... Isto é, tinha uma justificação única, qual era a de nos
+adoçar a bôca, para engulirmos sem relutância aquela amargosa pílula com
+que fecha a epístola de s. ex.^a, quando, com generosa magnanimidade,
+confessa que o nosso livro _revelou um trabalhador fervoroso_, que ao
+professor do Curso Superior de Letras foi _revelar a existencia de um
+exemplar da edição de Ferrara, no Porto_, e que em Lisboa _descobriu o
+texto precioso da ecloga_ *Alexo* _assignada por Sá de Miranda_.
+
+E, graças a estas _revelações-revelativas_, a que não ligavamos
+importância de maior, o historiador da *Litteratura Portugueza*
+felicitava-nos pelo nosso _importante estudo_, que, volvidas algumas
+semanas, havia de classificar de fruto de _processos á tôa_!
+
+Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr.
+dr. Theóphilo Braga.
+
+Por agora, continuemos na catalogação das peças d'este processo, para
+que os leitores julguem da justiça que nos cabe, e avaliem da
+sinceridade, da correcção, e dos processos do professor intangivel.
+
+No jornal _O Mundo_, de 3 de dezembro de 1908, na local consagrada á
+sessão da Academia das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos
+que o snr. dr. Theóphilo Braga fizera uma comunicação, que outra cousa
+não era senão um desmentido formal e gratuito ás conclusões do nosso
+livro,--mas sem a mais leve citação ao nosso obscuro nome, sem a menor
+referência ao nosso desluzido trabalho, embora aproveitando-lhe os
+subsídios. Comprehende-se: o ilustre académico não desejava contribuir
+de modo nenhum para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao
+volume sobre o _Poeta Crisfal_.
+
+Transcrevemos do _Mundo_ o periodo referente a tal comunicação...
+scientífica:
+
+
+ «...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão,
+ mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526,
+ sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao
+ passo que aquelle era já edoso; evidencia como na Ecloga
+ transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e
+ termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e
+ outros que comprovam a existencia das duas individualidades que
+ apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jàmais
+ confundir-se».
+
+
+Ante este procedimento do nosso _prezadissimo amigo_, não pudemos ficar
+silenciosos, e, como um desforço legítimo, inadiavel, apelamos para o
+snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas colunas da
+_Lucta_ a seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero
+de 4 de dezembro do seu diário:
+
+
+ _«Ex.^{mo} Snr. Dr. Brito Camacho,
+ meu prezado amigo:_
+
+
+ Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se
+ passou na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi
+ que o snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse,
+ procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro,
+ e insistindo na lenda do _poeta_ Cristovam Falcão de Sousa.
+
+ Não me admira que o original autor da «Historia da Litteratura
+ Portugueza» persista n'um erro crasso, só para não se confessar
+ vencido, porque já o caso engraçadíssimo dos _cantos de ledino_ era
+ precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do
+ Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de
+ reconhecer publicamente que errou. Está no seu direito, e ninguem
+ lh'o contesta.
+
+ Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim
+ Ribeiro, em que não torci a meu bel-prazer a verdade, nem
+ falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o dever
+ moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justiça, antes de
+ ir para o seio de uma agremiação, a que eu não pertenço, impor um
+ desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu
+ trabalho.
+
+ E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr.
+ Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto é certo que
+ s. ex.^a não desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira
+ Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.
+
+ Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de boa fé,
+ quem lhe assegura que os argumentos de Bruno não conseguirão
+ convencê-lo, já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal não
+ conseguiram?
+
+ É tempo de pôr de parte o _magister dixit_, porque, felizmente, os
+ processos crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são coisas que
+ passaram á _historia_, e que não se ressuscitam já facilmente.
+
+ Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade
+ na nossa _Lucta_ a esta minha carta, que representa o legítimo
+ desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como
+ tal tem jus a ser considerado.
+
+ Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,
+
+
+ De V. Ex.^a
+
+ amigo, admirador e obrigado
+
+ S/C, Lisboa, 3-12-908.
+
+ Delfim Guimarães.»
+
+
+Com o espírito de rectidão que todos, amigos e adversários, são
+concordes em reconhecer ao snr. dr. Brito Camacho, o brilhante
+jornalista deu acolhimento benévolo á nossa carta, acrescentando-lhe as
+seguintes linhas de saudação ao professor do Curso Superior de Letras:
+
+
+ «O nosso ilustre correligionario dr. Theóphilo Braga tem as
+ columnas d'este jornal ás suas ordens para dizer da sua justiça,
+ como quizer. Trata-se d'uma questão de facto em historia literária,
+ e não d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que
+ seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.»
+
+
+Não correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga á gentileza do director da
+_Lucta_; e até para comnosco estamos persuadidos de que, desde o momento
+em que s. ex.^a viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito
+Camacho é a alma, o pontífice da _Litteratura Portugueza_ excomungou o
+intemerato jornalista. Que o dr. Camacho nos perdôe a excomunhão que,
+involuntariamente, lhe acarretamos!
+
+Guardou silêncio o snr. dr. Theóphilo Braga durante semanas, mas não
+esteve inactivo, ao contrário do que muitos poderiam supor. Com todo o
+engenho e arte, s. ex.^a consagrou-se ao fabrico de uma peça, que não
+podemos classificar de literária, porque é a negação de todos os
+processos literários dignos de este nome, mas a que poderá caber a
+designação de produto de arte... culinária. Como _pastelão_, faria honra
+a um cozinheiro, mas cremos bem que o snr. dr. Theóphilo Braga deseja
+passar á posteridade como um discípulo fervoroso de Augusto Comte, e não
+como aprendiz ilustre da _sciência_ de Vatel.
+
+A redacção do jornal _O Dia_, seguindo a praxe dos anos anteriores,
+honrou o snr. dr. Theóphilo Braga pedindo lhe um artigo sobre o
+movimento literário português em 1908, para o numero de 31 de dezembro
+d'esse ano. Como nunca, recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga jubilosamente
+o amavel convite. Tinha ensejo para impingir... o _pastelão_. Era o
+momento oportuno para respostar á nossa carta publicada na _Lucta_, sem
+nos dar a honra de deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confissão
+de que havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro
+procedimento por parte do snr. dr. Theóphilo Braga? Não, evidentemente.
+Pois não haviamos nós,--cúmulo das audácias!--ousado protestar contra a
+comunicação do presidente da Academia de Sciencias de Portugal?!
+
+Reproduzimos do _Dia_ de 31 de dezembro do ano findo a parte do artigo
+do snr. Theóphilo Braga que diz respeito á questão literária suscitada
+pelo nosso livro:
+
+
+ «...No recente fasciculo (do Archivo historico português) ficou
+ publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria
+ de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia
+ financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o
+ _Maria Brandoa a do Crisfal_, por que o pae d'esta dama, que
+ inspirou o amor e a Ecloga de Christovão Falcão, foi o pae d'ella,
+ João Brandão Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo
+ Gomes de Figueiredo.
+
+ Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta
+ mesma inscrição: _Maria Brandoa a do Crisfal_; e nos livros dos
+ linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca
+ Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a
+ parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandões
+ Sanches, confundidos por vezes com os Brandões do Porto, com os de
+ Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve
+ em uma nota: «Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal
+ não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro,
+ e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do
+ romance _Menina e Moça_ d'aquelle auctor.» E accrescenta que o sr.
+ Delfim Guimarães empenhado na interessante averiguação o
+ consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua
+ argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.
+
+ Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu livro
+ _Bernardim Ribeiro_--_o Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido
+ da biographia do auctor da _Menina e Moça_, forçando interpretações
+ de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no
+ espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe
+ causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de
+ Christovam Falcão,--«dois poetas de temperamento semelhante, com
+ eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios
+ nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos
+ absolutamente eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um
+ unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de
+ Christovão Falcão como uma lenda estupida formada pelos
+ genealogistas, e formou o nome de _Crisfal_ indo buscar á tôa as
+ palavras _Crisma falsa_, tirando-lhes as syllabas iniciaes para
+ designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. «Fez-se então uma
+ grande luz no nosso espirito. Não se tratava de dois poetas muito
+ parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e
+ Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falcão era o
+ producto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo
+ (![2]) ao anagrama _Crisfal_.» (Op. cit., p. 10). «Alcançada a
+ convicção de que _Crisfal_ era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e
+ norteados pelo conhecimento de que nas suas producções o poeta
+ mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho
+ de raciocinio não nos foi difficil deduzir a constituição do
+ cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras
+ _Crisma_ e _Falso_.»
+
+ E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves
+ Vianna--honra a erudição portugueza,--ataca as fontes genealogicas
+ d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de
+ lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo
+ ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos
+ escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi
+ Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir:
+ «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet
+ a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome
+ litterario do verdadeiro _Crisfal_, o doce, o inimitavel e
+ inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde
+ chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga
+ de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes como o de
+ _Pantaleão_ Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o
+ casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de
+ Freitas?
+
+ Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com
+ os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180 da
+ Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de
+ Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago
+ do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um
+ manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a _Menina
+ e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e até se acham no fim
+ algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo
+ logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dic. Bibliog._)
+
+ Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de
+ Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos
+ como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para
+ destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo
+ da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia,
+ reputava de alta importancia para a historia das lettras
+ portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo
+ da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta
+ Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por
+ isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram
+ n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de
+ outra individualidade.»
+
+ No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas,
+ proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
+ inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira
+ descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em
+ que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu,
+ dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha
+ unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam
+ em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com
+ a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha
+ portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam
+ Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos,
+ corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os
+ logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a
+ distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já
+ era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa,
+ intercalava na sua prosa.»
+
+
+Esta produção peregrina do snr. Dr. Theóphilo Braga veio publicada no
+jornal _O Dia_ com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras
+em _fac-simile_, e ainda bem, para que não se pudesse ajuizar tratar-se
+de uma brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse.
+
+Quando lemos um tal documento, a primeira impressão que se apoderou de
+nós foi a de revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir
+esta--um sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mágoa...
+
+E, sem prazer, pudemos constatar que a impressão que o snr. Dr.
+Theóphilo Braga deixára nos leitores inteligentes do seu tendencioso
+_Movimento Litterario_ era egual á nossa,--uma sincera mágoa.
+
+Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados, e
+o nosso trabalho depreciado com tal rancor e má fé, que não podiamos
+ficar silenciosos.
+
+No jornal a _Lucta_, do dia 3 de Janeiro d'este ano, como protesto,
+publicamos o artigo que vamos reproduzir:
+
+
+*Os processos... scientíficos do snr. dr. Theóphilo Braga*
+
+Não se dignou o sr. dr. Theóphilo Braga aceitar o oferecimento que o
+distinto jornalista que dirige _A Lucta_ lhe fez em 4 de dezembro
+ultimo: pondo á disposição de s. ex.^a as colunas deste diário, para que
+o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua justiça em face
+da carta que tive ensejo de dirigir ao meu bom amigo snr. dr. Brito
+Camacho, estampada n'este jornal, motivada pelo procedimento estranhavel
+seguido para comigo pelo snr. dr. Theóphilo Braga.
+
+Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o
+professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente
+silêncio, eis que o sr. dr. Theóphilo Braga, a pretexto de pôr os
+leitores do _Dia_ ao corrente do movimento literário no ano findo, com
+ares dogmáticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele jornal
+com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as conclusões
+do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro.
+
+Não me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do snr. dr.
+Theóphilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso para o professor do
+Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma vez dois dos volumes
+da sua chamada edição integral da _Historia da Litteratura Portugueza_:
+«Sá de Miranda» e «Bernardim Ribeiro». Isto, junto ao conhecimento que
+possuo da maneira de ser do snr. dr. Theóphilo Braga, é para mim
+explicação bastante do seu ressentimento, que a prosa do infatigavel
+«carreador de materiaes» não consegue disfarçar.
+
+A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei
+resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto
+praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é
+compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um
+jornal da índole da _Lucta_.
+
+Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado
+amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve,
+algumas inexactidões flagrantes do artigo _Movimento litterario_, do
+snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a _correcção_ dos
+processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras.
+
+Referindo-se ao ultimo tomo do _Archivo Historico_, a revista dirigida
+pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor
+encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr.
+dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a
+entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é
+facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria
+Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de
+fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta _Crisfal_.
+
+Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com
+maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos
+ardilosamente engendrados:
+
+
+ «O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata
+ de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam
+ Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é
+ Maria Brandão, mas sim a mesma do romance _Menina e Moça_ d'aquelle
+ auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na
+ interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em
+ que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o
+ da rotina.»
+
+
+Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire
+não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como
+não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s.
+ex.^a gratuitamente lhe atribue.
+
+Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga
+interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem:
+
+
+ «O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante
+ averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que
+ servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não
+ apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita
+ não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no
+ pleito e continuarei com a rotina.»
+
+
+Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara
+as _bases_ em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente _as
+principaes bases_, e o consciencioso investigador não declarava que taes
+bases _não conseguiram demovê-lo da rotina_, mas sim que «em quanto não
+aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não
+transitasse sem apelação em julgado, _não lhe competia intervir no
+pleito e continuava com a rotina_».
+
+Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia
+de correcção do ilustre escritor?--Para se servir, como de um escudo
+protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando,
+com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que
+tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a
+individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do
+_Archivo Historico_.
+
+Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na
+2.^a pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o
+erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho,
+conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro
+_Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_.
+
+Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a
+gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado
+convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo
+abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova
+feita transitasse em julgado--muito embora isto pese ao snr. dr.
+Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr.
+Gonçalves Viana, achasse que o meu livro _Bernardim Ribeiro_ fazia honra
+á erudição portuguêsa.
+
+Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo
+éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um
+dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a
+prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que
+o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a
+lendária amada do Crisfal, passara á historia...
+
+Foi fazer companhia aos _cantos de ledino_...
+
+Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo
+Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos...
+scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente,
+intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no _Dia_.
+
+É como segue:
+
+
+ «...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos
+ oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro
+ capitulo, um dado importante para a biographia de *Maria Brandôa,
+ já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de
+ heroina da ecloga Crisfal*.»
+
+
+Ás afirmações, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no _Diario
+da Tarde_, do Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio
+(_Bruno_), refere-se tambem o snr. dr. Theóphilo Braga da seguinte
+maneira:
+
+
+ «No noticiario de outro jornal sairam afirmações absolutas,
+ proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
+ inconsciente que afasta de todo a idéa de ironia».
+
+
+O snr dr. Theóphilo Braga, referindo-se, com desdem, á _sinceridade
+inconsciente_ de Bruno, não nos magôa sómente a nós, que votamos uma
+grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras
+Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das suas mais legítimas
+glórias.
+
+Tristes processos está seguindo o snr. dr. Theóphilo Braga!
+
+
+ Delfim Guimarães
+
+
+
+O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da _Lucta_ ao
+nosso artigo, nòvamente pôs o seu jornal á disposição do snr. dr.
+Theóphilo Braga, para que s. ex.^a, querendo, dissesse de sua justiça. O
+professor do Curso Superior de Letras não aceitou o oferecimento que
+pela segunda vez lhe era feito.
+
+E, em verdade, que havia o autor do artigo _Movimento Litterário_ de
+dizer em contestação do libelo documentado que tinhamos produzido?
+Nenhuma justiça lhe assistia, e por consequência não ousou reclamar.
+Recolheu-se ao silêncio,--áquele prudentíssimo silêncio que se seguiu á
+publicação do notavel trabalho do Dr. Sílvio Romero sobre a _Patria
+Portuguêsa_.
+
+No artigo que publicamos na _Lucta_, de 3 de janeiro do ano em curso,
+tomámos o compromisso de tratar em livro todos os pontos tocados pelo
+snr. dr. Theóphilo Braga no seu aranzel do _Dia_, com a largueza e
+documentação que o assunto exige, em homenagem á memória de Bernardim
+Ribeiro; pelo dever moral que nos impusemos de contribuir, quanto em
+nossas mingoadas forças caiba, para que justiça seja feita, embora
+tardia, a um dos mais belos temperamentos poéticos da nossa terra.
+
+Uma lenda é fácil de forjar, e com facilidade toma corpo e lança raizes,
+obcecando muitas vezes os mais esclarecidos espíritos.
+
+A nossa Historia Literária está cheia de lendas e embustes, graças aos
+Farias e Sousa e Bernardos de Brito. Mas a Verdade, superior a todas as
+lendas, e a todas as reputações de historiadores burlões e de críticos
+trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora isso leve anos, embora
+decorram séculos.
+
+Na defeza da causa que prosseguimos, que é nobre e justa, não nos animam
+quaesquer intuitos de evidenciação, não nos move qualquer mesquinho
+sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos contribuir com
+o nosso esforço de modestos obreiros das letras para desfazer um erro
+que a ignorância engendrou, que a rotina não-te-ralesca impôs como um
+dogma, e que a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Theóphilo Braga
+persiste em sustentar, a torto, que não a direito, impondo-o
+autocraticamente a quantos vêem no professor do Curso Superior de Letras
+o pontífice máximo, ditador inviolavel e sagrado da Republica... das
+letras portuguêsas.
+
+
+
+
+II
+
+O snr. dr. Theóphilo Braga, descobrindo a verdade, e procurando
+enterrá-la
+
+
+Ao preparar os materiaes para a refundição de seu livro sobre Bernardim
+Ribeiro, o snr. dr. Theóphilo Braga teve ensejo de reconhecer que a
+figura do _trovador_ Cristovam Falcão era mero produto de uma lenda, mas
+não teve a coragem precisa para vir a público declarar que tinha errado
+ao dar á estampa o seu primeiro volume sobre os poetas bucolistas, em
+que, seguindo a rotina, dera existência real ao suposto poeta, que já
+havia classificado de *ultimo eco do alaúde provençal, modificado pelo
+gosto hespanhol de Padron e Stuniga*.[3]
+
+E não querendo confessar que errara, como se semelhante facto
+constituisse desdoiro ou apoucasse de qualquer fórma seus méritos, o
+autor do livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ procurou, por um
+processo que não nos atrevemos a chamar genial, enterrar a verdade,
+sepultando-a sob um pedregulho enorme, para que ali dormisse um sono de
+séculos, tantos séculos pelo menos como a lenda contava, para que,
+assim, ninguem pudesse aludir ao erro em que se deixara enredar o
+professor do Curso Superior de Letras.
+
+Como o snr. dr. Theóphilo Braga procedeu, vão os leitores conhecer, e
+depois ficarão habilitados a julgar da sinceridade com que o infatigavel
+escritor impugna o nosso livro sobre o poeta _Crisfal_.
+
+A pag. 356/7 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, na parte
+respeitante a Cristovam Falcão, escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga:
+
+
+ *«O primeiro documento historico que encontramos acerca do poeta,
+ de um modo irrefragavel, é datado de 1517; é uma graça régia
+ motivada talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraçada
+ paixão, ou apparentemente pelos serviços de seu pae. Em um alvará
+ ao Almoxarife de Coimbra foi passada ordem para que dê o rendimento
+ d'este anno de 1517 a Christovam Falcão: 97:000 réis. Recebeu-os o
+ seu procurador Mestre Jorge.»*
+
+
+Como se vê da transcrição feita, o autor declarava que o documento
+invocado referia-se ao suposto poeta *de um modo irrefragavel*, isto é:
+«*irrecusavelmente, incontestavelmente*.» Esse documento dizia respeito,
+segundo inculcava o snr. dr. Theóphilo Braga, a _uma graça régia_, mercê
+de _97$000 réis_, concedida ao suposto bardo _talvez pela sympathia que
+suscitava a sua desgraçada paixão, ou apparentemente pelos serviços de
+seu pae_.
+
+Ora fazendo taes afirmativas, autoritária e catedraticamente, o snr. dr.
+Theóphilo Braga abusava da boa fé dos seus leitores, por isso que s.
+ex.^a muito bem conhecia que estava deturpando a verdade, a seu
+bel-prazer, que nada d'aquilo que apregoava como autêntico era
+verdadeiro.
+
+Nem o alvará de 1517 dizia respeito ao suposto poeta, nem semelhante
+alvará mencionava a verba de 97$000 réis.
+
+Tratava-se de uma tença de 97$734 reis (resultante de dois padrões) que
+pertencia a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, e não ao
+suposto poeta Cristovam Falcão de Sousa.
+
+Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a existência dos dois
+padrões constituitivos da referida tença?--Não ignorava. E a prova de
+que os não desconhecia está nas citações que s. ex.^a faz a paginas
+331/2 do seu mencionado livro, atribuindo-os a quem eles diziam
+respeito, isto é a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, que nada
+tinha que ver com o suposto poeta, como o snr. dr. Theóphilo Braga, de
+resto, muito bem estabelecia.
+
+Mas a existência de uma tença de 97$000 reis, pelas alturas de 1517, a
+favor de Cristovão Falcão de Sousa, comprovaria de certo modo a data em
+que o snr. dr. Theóphilo Braga fixou habilidosamente o nascimento do
+_ultimo eco do alaúde_, e permitia ao fantasioso escritor justificar tam
+rasgada mercê régia atribuindo-a á _sympathia que suscitava a sua
+desgraçada paixão_.
+
+D'esta maneira, servindo-se de um alvará que não dizia respeito ao
+suposto poeta, e alterando-lhe caprichosamente a quantia mencionada, o
+snr. dr. T. Braga creava um _recurso histórico_ graças ao qual os
+discípulos do professor do Curso Superior de Letras podiam aceitar que
+pelas alturas do ano da graça de 1517 já existia um afamado poeta com o
+nome de Cristovão Falcão, tam desventurado em seus amores que el-rei,
+compadecido, lhe fizera mercê da tença, verdadeiramente principesca, de
+97$000 réis! E sucedendo um _caso_ d'estes em nossos dias, ainda ha quem
+ache estranho que Faria e Sousa e frei Bernardo de Brito improvisassem
+(é este o termo próprio?) documentos... históricos!
+
+Ao publicarmos o nosso trabalho sobre Bernardim Ribeiro, não salientamos
+devidamente estes pouco recomendaveis processos do snr. dr. Theóphilo
+Braga, poupando, com generosidade, o nome do encanecido trabalhador, em
+respeito aos seus cabelos brancos.
+
+E á nossa manifesta generosidade correspondeu o aclamado professor
+apodando os nossos processos críticos de:--processos... á tôa!
+
+Que nome conceder a esses processos do snr. dr. Theóphilo Braga?
+
+Mas não ficaram por aqui as habilidades de que se serviu o autor da
+_Historia da Litteratura Portugueza_. E chamamos-lhes _habilidades_, por
+não encontrarmos á mão um termo mais anodino, mais suave, mais doce,
+para definir o feito, e não por qualquer propósito agressivo.
+
+Existem na Torre do Tombo cartas autógrafas do suposto autor do
+_Crisfal_. A simples publicação d'essas cartas constituiria um golpe
+decisivo na lenda que atribuia produções de Bernardim Ribeiro a
+Cristovão Falcão de Sousa, por isso que taes documentos revelam que
+este, alem de iletrado, não escrevia meia dúzia de linhas sem uma
+enfiada de asneiras...--«_uma acumulação de tolices_», no dizer
+insuspeito de uma ilustre escritora.
+
+Que fez o snr. dr. Theóphilo Braga?
+
+Publicou essas cartas, alterando-lhe, paternalmente, a ortografia e a
+gramática, e deixando assim transparecer que o autor de taes escritos
+poderia muito bem ter produzido as poesias bucólicas que lhe atribuiam.
+
+Para que se não ajuízasse que faziamos uma afirmação gratuita ao dizer
+que o snr. dr. Th. Braga publicara _emendada_ a obra... em prosa de
+Cristovam Falcão, démos no volume _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal)
+uma reprodução foto-zincográfica de uma das cartas do suposto poeta, e,
+não desejando colocar n'uma situação pouco invejavel o professor do
+Curso Superior de Letras, escrevemos, procurando desculpar o seu
+procedimento:
+
+
+ «........o copista, a quem o distinto professor encarregou de
+ reproduzir o documento existente na Torre do Tombo, forneceu-lhe
+ uma reprodução _com summa deligencia emendada_, que o snr. dr.
+ Theóphilo, com a melhor boa fé, estampou no seu livro, e que muito
+ se afasta do original.»[4]
+
+
+Nem na sua comunicação á Academia das Sciências de Portugal, nem no seu
+artigo do jornal «O Dia», nem na carta que nos dirigiu, se referiu,
+embora ao de leve, o snr. dr. T. Braga á carta de Cristovam Falcão de
+Sousa... Compreende-se. O documento é tam esmagador, que o infatigavel
+polígrafo foge d'ele como dizem que o diabo foge da cruz.
+
+Mas, embora isso não agrade a s. ex.^a, vamos dar aqui a reprodução
+paleográfica de outra carta de Cristovam Falcão de Sousa, devendo
+elucidar os leitores que o snr. dr. Theóphilo Braga já deu publicidade a
+tal documento a pag. 368/70 do seu _Bernardim Ribeiro_ (edição
+refundida). Mas deu-lhe publicidade: _emendando-o_...
+
+Como não temos a peito celebrizar o alto engenho e mais partes que
+concorriam na pessoa do suposto poeta, reproduzimos a carta fielmente,
+e, para desfazer algum erro de leitura ou qualquer _gralha_ que passe á
+revisão, juntamos em foto-gravura o seu _fac-simile_.
+
+Eis a carta:
+
+[Figura: Reproducção foto-zincográfica da carta de Cristovam Falcão de
+Sousa]
+
+
+ «Sñor. mjnha jrmã dona bracajda faleceo da ujda presemte a dez dias
+ deste mes pasado estando eu nesa corte [~e] serujço de v. a. onde
+ me foy a noua pera [~q] viese prover [~e] alg[~u]as cousas da su
+ alma por me ela dejxar por seu testam[~e]tejro cõ seu marido ejtor
+ de figuejredo. fiquou-lhe h[~u] só filho e doutro marido [~q] deste
+ não ouve nenh[~u] e tão Riquo [~q] me diz[~e] que foy posta a
+ faz[~e]da de seu pay quãdo faleceo (que eu não era no Rejno) [~e]
+ doze contos. fez meu pay antes [~q] eu de la partise petição a uosa
+ a. [~q] lhe mãdase [~e]tregar seu neto e tirar de poder de seu
+ padrasto. sayo lhe na petição [~q] Requerese ao Juiz dos orfãos da
+ uila donde ho moço está que he borba donde seu padrasto he natural
+ e alquajde mor pelo duque de bragança e que ele prouerja e que não
+ no faz[~e]do proverja [~e]tão vosa a. a qual delig[~e]cia eu tenho
+ fejto que Requery ao Juiz [~q] lho tjrase de poder e que fose loguo
+ por [~q] eu tjnha sabjdo [~q] eitor de figueiredo detremjnaua
+ quasar ho moço cõ sua f.^a no fim deste mes [~e] que lhe diziã que
+ ho moço faz quatorze anos pera ho matrimonjo ser valioso. mãdou ho
+ Juiz dar ujsta de meu Requerim.^{to} a eitor de figueiredo e njsto
+ e [~e] ele Responder pasaram ojto dias e nestes me fizerão mujtos
+ agrauos alomgãdo me ho tempo e me fizerão perdediça h[~u]a petjção
+ dagrauo na qual agrauaua pera v. a. apresemtandoa eu [~e] audiencja
+ onde foy lida e jsto tudo por ele ser alquajde mor e ser toda a
+ ujla de seus paremtes e criados e por [~q] da li não pasão os
+ agrauos se não pera ho ouujdor do duque onde tão b[~e] me deterjão
+ pera ho moço chegar ao termo dos quatorze anos detremjney dejxar a
+ cousa neste termo e fazelo saber a v. a. pera [~q] proueja njsto
+ como lhe parecer serujço de deos e seu que mjlhor proueja [~q] pois
+ t[~e] tal faz[~e]da que v. a. ho quase cõ qu[~e] ouuer por seu
+ serujço [~q] não [~q] ho orfão seia asy Roubado. no que v. a. deue
+ loguo prouer como pay dos orfãos [~q] he quanto mais [~q] quarega
+ jsto sobre cõcj[~e]cja de v. a. por h[~u] alu.^{rá} que vosa a.
+ pasou a ejtor de figueiredo ao t[~e]po [~q] quasou cõ mjnha Jrmã
+ pelo qual tjrou a titorja a meu pay de seu neto por lha dar a ele.
+ ao qual agora ajnda se pega, como se não fose cerada a cousa por
+ morte de mjnha Jrmã. e o [~q] me parece [~q] se deue fazer he pasar
+ v. a. logo alu.^{rá} por esta quarta [~q] pode serujr de petjção,
+ [~q] polo qual mãde a h[~u] dos quoReiadores destremoz elvas ou por
+ talegre [~q] qualquer deles va a borba e tjre ho moço de poder de
+ seu padrasto e [~e]tregue sua p.^a a meu pay seu auô ou a meu jrmão
+ barnabé de sousa [~q] t[~e] faz[~e]da p.^a ho mjlhor mãter [~q]
+ biue [~e] portalegre onde ho moço t[~e] parte de sua faz[~e]da e
+ lhe he já dado por tutor desta fazemda e despois do moço tjrado
+ prouer v. a. [~e] qu[~e] seia seu tutor e seja ouujdo ejtor de
+ figuejredo das Rezomis [~q] diz ter pera [~q] ho moço quase cõ sua
+ f.^a mas jsto deuela ser amte v. a. [~q] qua não sey quãto se
+ gardara Justiça e ho aluará pode v. a. mãdar dar a demjão de sousa
+ meu irmão [~q] la amda [~q] ele ho fará vir cõ mujta delig[~e]cia
+ [~q] eu fiquo qua esperamdo p.^a ho Requerer e apresemtar. e
+ l[~e]bro mais a uosa a. [~q] mãde ao mesmo coReiador que
+ [~e]t[~e]da nas partjlhas e jmb[~e]tajro [~q] doutra manejra será
+ Roubado ho orfão e asi [~q] o t[~e]po aquaba p.^a fim deste mes e
+ eu s.^{or} neste trabalho nõ pretendo mais [~q] fazer ho [~q] deuo
+ e tenho dejxado os Requerjm.^{tos} que trago cõ v. a. [~e] mão de
+ fernão daluarez peço a v. a. que nõ perqua por ausente de ser
+ despachado. a qu[~e] deos a ujda e Real estado acrec[~e]te. de
+ portalegre sete de novembro. as Reajs mãos de v. a. bejjo. xpouão
+ falcão de sousa.»[5]
+
+ !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
+
+
+Ao leitor deixamos a faculdade de comentar a carta _primorosa_ do
+sarrafaçal engenho que durante alguns séculos gosou da fama de poeta
+insigne, em prejuizo do nome aureolado de Bernardim Ribeiro.
+
+
+
+
+III
+
+Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga
+
+
+*1*
+
+ «A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como
+ a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com
+ elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados
+ genealogicos.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+
+Não ha a menor dúvida quanto á primeira parte d'esta afirmação.
+
+Com efeito, o snr. dr. Theóphilo Braga esboçou uma biografia de
+Cristovam Falcão, e ninguem ousará contestar-lhe o mérito de haver sido
+o Plutarco do suposto trovador.
+
+Esboçando-lhe a biografia, o abalisado professor de literatura serviu-se
+de documentos autênticos... mas utilizando alguns que não diziam
+respeito ao pseudo-poeta, e sim a um outro Cristovam; e interpretando,
+modificando e adulterando outros documentos ao sabor do seu paladar, ao
+capricho da sua fantasia.
+
+No capitulo XIX do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro destrinçamos os
+documentos históricos que o snr. dr. Theóphilo Braga propositadamente
+confundiu, e restabelecemos o texto de uma das cartas de Cristovam
+Falcão de Sousa que o habil professor _emendara_, com o zelo de Plutarco
+cioso do bom nome do seu heroe... lendário.
+
+No segundo capítulo d'este livro, ficou tambem fielmente reproduzida
+outra carta de Cristovam Falcão, que o infatigavel historiador havia
+_corrigido_, como se se tratasse de um tema de algum discípulo seu.
+Mesmo quando se entrega a trabalhos de reconstituição histórica, o snr.
+dr. Theóphilo Braga não se esquece de que é professor de literatura
+portuguêsa!
+
+Depois de isto, como ousa o snr. dr. Theóphilo Braga invocar os
+documentos autênticos de que tam mau uso fez?
+
+
+*2*
+
+ «Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que materiaes
+ traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Tem graça, e não ofende!
+
+Se leu imediatamente o nosso livro, não foi para ver que novos subsídios
+forneciamos para o estudo da história da literatura portuguêsa, mas sim
+para conhecer quaes os materiaes que lhe facultariamos para o
+aperfeiçoamento do seu trabalho...
+
+Cabe n'esta altura, a talho de foice, deixar consignada certa passagem
+de uma palestra que o snr. dr. Theóphilo Braga teve com um dos seus mais
+inteligentes discípulos a propósito da publicação do nosso livro sobre
+Bernardim Ribeiro:
+
+«V. compreende... Eu sou como um mestre de obras... na construção de um
+edificio. Ha vários pedreiros... Vão-me chegando ás mãos diversas
+pedras... Aproveito aquelas que se me afiguram de feição, geitosas,
+convenientes para a minha obra, e as outras ponho as de parte, deito-as
+fóra.»
+
+E a um distinto confrade nas letras, ainda por motivo da publicação do
+nosso livro, o professor do Curso Superior de Letras teve ensejo de
+referir-se á nossa obscura pessoa, fazendo o favor de nos reconhecer
+talento, mas... _que os estudos de investigação histórica eram umas
+teclas muito dificeis, muito complicadas_...
+
+O apreciado _mestre de obras_ (segundo a frase de s. ex.^a) escusava de
+ter lido o nosso trabalho. O sub-título do livro, _O Poeta Crisfal_,
+demonstrava suficientemente ao snr. dr. Theóphilo Braga que nenhuma
+pedra de feição poderiamos proporcionar-lhe para o _aperfeiçoamento_ da
+sua obra, porque o nosso livro lhe atirava a terra com os alicerces em
+que se firmava o edificio... ou monumento erguido ao falso _Crisfal_.
+
+Foi um castelo de cartas que um sopro deitou ao chão...
+
+Oh! os estudos de investigação histórica são realmente... umas teclas
+muito complicadas!
+
+
+*3*
+
+ «Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo
+ quanto se prestasse a futuras emendas.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Não escrevemos tal no prólogo do nosso livro que o snr. dr. Theóphilo
+Braga aproveitaria d'ele _tudo quanto se prestasse a futuras emendas_.
+
+O que nós escrevemos a pag. 24 do nosso estudo sobre Bernardim é o
+período que segue:
+
+«Embora, em resultado da nossa descoberta, o snr. dr. Theóphilo Braga
+tenha de refundir mais uma vez os seus trabalhos sobre Bernardim Ribeiro
+e Sá de Miranda, estamos plenamente convencidos de que ninguem estimará
+mais do que o incansavel professor do Curso Superior de Letras a luz
+derramada sobre a figura do grande poeta bucolista, amigo de Francisco
+de Sá.»
+
+Nas linhas transcritas, o que havia da nossa parte era um cumprimento de
+cortesia,--uma gentileza, uma amabilidade, própria de quem, não tendo
+qualquer agravo do snr. dr. Theóphilo Braga, procurava colocar s. ex.^a
+em bom terreno, oferecendo lhe, por assim dizer, uma ponte, uma táboa de
+salvação, pela qual, sem quebra de linha, o escritor consagrado pudesse
+atravessar, reconhecendo, ou fingindo reconhecer, o mau terreno que
+estava pisando, e abraçando honestamente a verdade evidenciada.
+
+Era um cumprimento, repetimos; não um acto de justiça, que a ele não
+tinha jus o infátigo escritor. E da mesma natureza, no decurso do nosso
+trabalho, outras demonstrações de cortesia ficaram assinaladas,
+prestando homenagem á vida laboriosa do escritor encanecido cujos erros
+combatiamos.
+
+Mas como as amabilidades se agradecem, e os actos de justiça não são
+credores de qualquer agradecimento, aprouve ao snr. dr. Th. Braga ver
+nas nossas palavras um acto de justiça.
+
+Não lhe queremos mal por isso, pode crer o venerado professor.
+
+Cada qual segue os impulsos do seu temperamento.
+
+
+*4*
+
+ «Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre
+ D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, sendo ambos muito
+ crianças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do
+ primeiro quartel do seculo XVI.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Quando chegámos a esta altura da preciosa carta do snr. dr. Theóphilo
+Braga ficamos verdadeiramente surpreendidos, para não dizer
+boquiabertos!
+
+Lemos e tornamos a ler o período transcrito, pesamos detida e
+pacientemente cada uma das palavras que o constituem, e, ao cabo,
+alcançamos o convencimento de que uma tal afirmação constituia uma
+habilidade, um processo, uma engenhoca,--deixem chamar-lhe assim, embora
+o termo destôe, por menos académico,--a que o professor de literatura
+recorria para não confessar ter sido o nosso trabalho que o obrigava a
+aceitar o nascimento do suposto poeta no fim do primeiro quartel do
+seculo XVI.
+
+Fôra pelas noticias genealogicas trazidas pelo snr. Braamcamp Freire
+sobre D. Maria Brandão que o snr. dr. Theóphilo Braga, conforme nos
+escrevia, se vira forçado a não insistir no nascimento do pseudo Crisfal
+no ano de 1497, se não antes!
+
+Mas como podia isto ser, se o trabalho do ilustre escritor invocado pelo
+snr. dr. Theóphilo ainda não fôra dado á estampa?
+
+Teria o professor do Curso Superior de Letras recebido qualquer
+comunicação sobre o assunto por parte do snr. Anselmo Braamcamp
+Freire?--Não, não tinha recebido, como o demonstram eloquentemente os
+seguintes períodos de uma carta que em 5 de dezembro de 1908 nos
+dirigiu, em resposta a uma nossa, o primoroso director do _Archivo
+Historico_:
+
+
+ «Vamos agora á sua pergunta de hoje originada pela carta do dr.
+ Teofilo Braga. Elle não conhece nada do meu trabalho sobre a Maria
+ Brandoa, e faça-me a justiça de crer que, não lho tendo mostrado a
+ si, não o mostraria a mais ninguem. Não lho mostrei a si, porque
+ nas 150 paginas já impressas, de que em breve lhe mandarei um
+ exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos Brandões
+ do _Cancioneiro_ e da Feitoria de Flandres.»
+
+
+Depois da transcrição d'estas linhas, eloquentes e insuspeitas, do snr.
+Braamcamp Freire, tornam-se desnecessários de nossa parte quaesquer
+comentários á afirmação sem base do snr. dr. Theóphilo Braga.
+
+Passemos adeante sobre este caso triste!
+
+
+*5*
+
+ «Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as relações
+ pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e
+ dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade;
+ e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente
+ tinham de ser lidas a outra luz. V. acabando de fazer a destrinça
+ entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma
+ melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as
+ relações com Cristovam Falcão), e mostrando como realmente as
+ poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como
+ novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim
+ Ribeiro.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Pelo exposto, entende o snr. dr. Theóphilo Braga que nós lhe demos
+elementos para uma melhor interpretação das éclogas de Bernardim, o que
+importa implicitamente a afirmação de que não soubemos interpretá-las,
+ou que erramos a exegese com que julgavamos ter corrigido as lições
+ministradas pelo ilustre professor.
+
+Aguardemos, pacientemente, que o snr. dr. Theóphilo Braga refunda mais
+uma vez o seu livro sobre Bernardim Ribeiro, para então apreciarmos as
+novas interpretações que o imaginoso historiador se propõe apresentar
+das éclogas de Bernardim, e ficarmos tambem conhecendo quaes os _centões
+e intercalações_ de versos de Ribeiro que o novel Falcão introduziu nas
+suas produções... em prosa, únicas que obrou. Obrou, no sentido de:
+produziu, claro está.
+
+
+*6*
+
+ «Ha uma affirmativa histórica, de Diogo do Couto, na sua _Decada
+ VIII_, que fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como
+ reforço historico: «irmão de *Cristovam Falcão*, aquelle que fez
+ aquellas cantigas nomeadas de Crisfal...» E tambem no seculo XVI
+ Fructuoso (resumido pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia
+ insulana) diz de Cristovam Falcão: «parente do Barão velho e do
+ famoso poeta Cristovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das
+ primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e
+ Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se repete a
+ attribuição «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, ho que parece
+ alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa
+ estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se
+ reflectiram nos genealogistas.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+A habilidade, ou antes o processo habilidoso, ou, melhor, a tendenciosa
+redacção d'estes períodos não consegue iludir ninguem... Julgou talvez o
+snr. dr. Theóphilo Braga que nos desnortearia com esta subtileza de
+processos... críticos. Tal não conseguiu, como terá de reconhecer no
+foro íntimo da sua consciência.
+
+Vamos por partes:
+
+Foram os editores de Ferrara e Colónia que propagaram pela imprensa a
+lenda de que a paternidade da carta e ecloga de Crisfal era atribuida a
+Cristovam Falcão, e, fazendo-o, limitaram-se, com honestidade, a
+escrever: «que dizem ser... ao que parece aludir o nome da mesma
+ecloga». Ao contrário do que o snr. dr. Theóphilo Braga procura fazer
+incutir, tendenciosamente, os editores citados não repetiram uma
+atribuição de homens de letras do seculo XVI...
+
+Os homens de letras do seculo XVI é que repetiram, fazendo-a certa, a
+atribuição feita com reservas pelos editores das obras de Bernardim
+Ribeiro em 1554 e 1559. Aceitaram por boa, sem se darem ao trabalho de a
+verificar, uma simples atoarda.
+
+Quem eram os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro?
+
+Di-lo, judiciosamente, o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que vamos
+analisando:
+
+Eram «*curiosos sem critério literário*».
+
+Será a estes obscuros obreiros do século XVI que o laureado professor
+quer guindar á categoria de homens de letras com foros de autoridades?
+
+Não, os editores de 1554 e 1559 foram realmente creaturas sem o menor
+critério literário, e por isso deram alentos á lenda forjada pelo vulgo;
+mas não resta a menor dúvida de que eram pessoas de bem, porque
+consignaram uma _tradição vaga_, sem se atreverem a registá-la como um
+facto positivo, indiscutivel, incontroverso. A cobrir a sua
+responsabilidade de editores conscienciosos, lá estamparam: «que dizem
+ser... ao que parece aludir.» Outros fossem eles, que asseverassem que
+as duas produções, carta e écloga, pertenciam a Cristovam Falcão
+incontestavelmente, irrefragavelmente!
+
+Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga que os editores da obra
+de Bernardim Ribeiro, ao produzirem as rúbricas respeitantes ao suposto
+autor do Crisfal, mencionavam apenas uma atoarda, uma vaga tradição?
+
+Não; o venerado professor não ignorava isso. Testemunha-o o que s. ex.^a
+escreveu a paginas 21 da sua chamada edição crítica das obras de...
+Cristovam Falcão:
+
+*«As rubricas do editor de Colonia, encerram as tradições vagas, que,
+passados nove annos, ainda corriam ácerca d'aquelle infeliz namorado.»*
+
+Para que veio pois o snr. dr. Theóphilo Braga asseverar que _tambem nas
+edições de Ferrara e de Colonia se repete a atribuição_?
+
+Mais diz o apreciavel escritor que «não se podem refutar por negativa»
+as atribuições que Diogo do Couto e Frutuoso fizeram, repetindo _como
+certo_ o que os editores das obras de Bernardim registaram _sob
+reservas_.
+
+Não se podem refutar por negativa, não; mas podem refutar-se cabalmente,
+pondo em confronto da obra poética atribuida a Cristovam Falcão a obra
+em prosa que ninguem ousará disputar ao suposto trovador.
+
+E a admitir alguem, de reconhecida inteligência e critério, que o autor
+das cartas em prosa podia ser o poeta da Carta e da Ecloga de _Crisfal_,
+o mesmo equivaleria a aceitar como razoavel que Rosalino Candido pudesse
+firmar as obras do snr. dr. Theóphilo Braga, e que, consequentemente, o
+laureado professor de literatura fosse capaz de produzir a obra
+gigantesca de Victor Hugo.
+
+É realmente desolador, para a fabula consagrada, que a Torre do Tombo
+conserve os autógrafos de Cristovam Falcão de Sousa!
+
+
+*7*
+
+ «A ecloga de Crisfal não podia ser publicada pelo seu autor, nem
+ pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_ de antigas
+ relações amorosas com uma senhora que estava casada.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Esta bizarra revelação do snr. dr. Theóphilo Braga constitue,
+naturalmente, uma desenfastiada brincadeira de s. ex.^a.
+
+Pois qual é a obra _lírica_ onde se não encontrem _inconfidências_
+semelhantes ás da ecloga de Crisfal?
+
+O snr. dr. Theóphilo Braga, que aos catorze anos já se entregava a
+devaneios poéticos, não deixou certamente de dar publicidade a versos em
+que foi decantada alguma dama unida pelos laços matrimoniaes... E
+estamos convencidos de que ninguem chamou _inconfidências_ aos suspiros
+poeticos do trovador açoreano. As inconfidências não servem de tema ás
+locubrações dos vates; onde existe arte, no bom sentido da palavra, não
+ha inconfidências, embora n'este ponto estejamos em absoluta
+discordância com a doutrina exposta pelo professor do Curso Superior de
+Letras.
+
+Em toda a obra, prosa ou verso, de Bernardim Ribeiro, vive, palpita, a
+história ingénua da sua vida, o trama dos seus mal-aventurados amores
+por uma dama que trocou a afeição do poeta pela de um outro zagal. Foi
+um inconfidente o magoado Bernardim?--Não, foi um artista, foi um poeta
+apaixonado, alma de eleição que da sua dor fez um poema, como diria
+Goethe. E que adoravel e sentido poema nos legou o grande poeta
+bucolista!
+
+Mas não vale a pena insistir mais n'este ponto. A afirmativa do snr. dr.
+Theóphilo Braga constitue, naturalmente, um gracejo inofensivo de s.
+ex.^a.
+
+
+*8*
+
+ «A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando
+ Cristovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em
+ 1547 na Carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do
+ _Crisfal_, que então andava no gosto.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Reproduzamos aqui o que o autor da _Historia da Litteratura Portugueza_
+escreveu a paginas 394/5 do seu volume _Bernardim Ribeiro_ (edição
+refundida):
+
+
+ «N'esta folha volante não vem a _Carta_, nem as _Cantigas_ e
+ _Esparsas_ incluidas na edição de Colonia. Parece mais uma
+ vulgarisação popular, talvez uma das muitas que tornaram a Ecloga
+ _muy nomeada_, e de que a reprodução de 1571, feita em Lisboa
+ (existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que
+ serviu para a reprodução de 1619, em que apparecem elementos só
+ conhecidos pela edição de 1559.
+
+ «A folha volante _sem data_ diverge do texto de Colonia
+ profundamente; basta observar as variantes entre as lições das
+ estrophes 51 e 52. Attribuimos a impressão das _Trovas de Crisfal_,
+ a 1536, quando appareceram tambem em folha volante as _Trovas de
+ Dois Pastores_ (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro.
+
+ «A vinheta do Pastor com capuz e cajado no _Crisfal_ é a mesma que
+ serve nas _Trovas de dois Pastores_; o typo gothico corpo 12 do
+ titulo do folheto de 1536 é o empregado no texto do _Crisfal_.
+ Tambem a vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em
+ outra folha volante de 1536, intitulada _Tragedia de los amores de
+ Eneas y de la reina Dido_.»
+
+
+Procedemos ao mesmo exame a que o snr. dr. Theóphilo Braga sujeitou o
+_pliego-suelto_, e chegamos a egual conclusão. Algumas vezes nos
+haviamos de encontrar em concordância de vistas com s. ex.^a. E porque o
+nosso pensar sobre o assunto egualava o do ilustre professor, escrevemos
+a pag. 119 do livro _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal), aludindo ao
+folheto sem indicação de data nem de lugar de impressão:
+
+[Figura]
+
+«...mas reconhecendo-se, pelo confronto com outros folhetos, ser de
+1536).
+
+«Como muito bem observou o snr. dr. Theóphilo Braga, etc.»
+
+Seguiu-se a transcrição do parágrafo do snr. dr. Th. Braga que atrás
+reproduzimos.
+
+Mudou o abalisado professor de opinião quanto á data do _pliego-suelto_,
+querendo agora fixar-lhe o ano de 1542, como poderia fixar-lhe o de 1552
+ou 1562, arbitrariamente.
+
+Se ao menos s. ex.^a tivesse a condescendência de indicar-nos quando
+seguiu os _processos inductivos da crítica moderna_! Ao fixar a data de
+1536 ou quando arbitrou a de 1542?
+
+Em folha apensa, damos uma reprodução foto-zincográfica das primeiras
+páginas dos tres folhetos que levaram o snr. dr. Theóphilo Braga a fixar
+a data da primeira edição conhecida das _Trovas de Crisfal_ em 1536.
+
+Se nos perguntarem se estamos dispostos a quebrar lanças para sustentar
+a antiga opinião do historiador da _Litteratura Portugueza_,
+responderemos, com toda a franqueza, negativamente. O que não podemos
+admitir é que se procure agora determinar-lhe _com precisão_ a data de
+1542, com o simples fundamento de que n'esse ano estava em Roma o seu
+suposto autor...
+
+Alude o snr. dr. Theóphilo Braga ao facto de Camões empregar versos do
+_Crisfal_.
+
+A explicação, a nosso ver, é muito simples:
+
+Em Faria e Sousa, o insigne fabulista, autor muito da predilecção do
+snr. dr. Theóphilo, encontra-se uma afirmativa, que constitue em nosso
+juizo uma das raras que merecem algum crédito, não obstante a impureza
+da _fonte_.
+
+Referindo-se a Bernardim Ribeiro, escreveu Faria e Sousa: «poeta bien
+conocido y a quien llamava su Enio el divino Camões.»
+
+Não desconhece isto o professor do Curso Superior de Letras, porque a
+pag. 131 da primeira edição do seu _Bernardim Ribeiro_ reproduziu da
+_Fuente de Aganipe_ o dizer de Faria.
+
+Como demonstrámos no volume sobre o _Poeta Crisfal_, Camões glosou o
+magoado solau da _Menina e moça_, de Bernardim Ribeiro.
+
+Em uma das cartas atribuidas ao cantor dos _Lusiadas_, encontra-se uma
+alusão directa ao autor das _Saudades_, indicando-lhe o nome: _Bernardim
+Ribeiro_.
+
+Se Bernardim era o seu _Enio_, naturalíssimo é que Camões se deixasse
+influenciar pelo Mestre, imitando alguns dos seus versos.
+
+A não ser que o snr dr. Theóphilo Braga queira concluir que, sendo
+Bernardim o _Enio_ de Camões, Cristovam Falcão era o _Enio_ numero 2 do
+mesmo poeta,--assim a modos de um _Enio_ barato, para trazer por casa.
+
+Prossigamos...
+
+
+*9*
+
+ «Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de
+ Ferrara e Colonia, por que continham uma _inconfidencia_. Isto leva
+ a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da
+ Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das
+ primeiras syllabas do nome.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Salvo erro, o snr. dr. Theóphilo Braga quer referir-se apenas a uma, e
+não a duas estrofes.
+
+E á estrofe que reza:
+
+
+ Muitos pastores buscaram
+ mas um pastor por ser-te amigo,
+ e outro por ser-te enemigo,
+ um e outro se escusaram.
+ E dão-lhe logo comigo
+ gados que farão mil queijos;
+ mas como se despediam
+ é já mostrar que temiam
+ que o sabor dos teus beijos
+ na minha boca achariam!
+
+
+Falava-se em _beijos_... Era uma _inconfidência_, e gravíssima, e por
+isso a estrofe foi suprimida nas edições de Ferrara e de Colónia! Está
+claro, e tam claro que, no dizer do snr. dr. Th. Braga, «_isto leva a
+explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da
+Ecloga_...»
+
+Ora admitindo por um momento que Cristovam Falcão houvesse sido poeta, e
+tivesse a lembrança de escrever uma écloga abundante em
+_inconfidências_, pespegava-lhe, sem mais nem menos, com um anagrama
+deduzido das primeiras sílabas do seu nome, para que toda a gente logo o
+apontasse a dedo como _inconfidente_?
+
+De mais a mais, como quer o snr. dr. Th. Braga na sua exegese, se o
+suposto poeta empregasse os nomes verdadeiros de todas as personagens
+que a écloga alvejava, isso constituiria um _apagamento_ de paternidade
+muito pouco apagado...
+
+Todo o mistério, o discreto veu da fantasia, a cobrir a realidade dos
+episódios que a écloga do _Crisfal_ menciona, equivaleria á ingenuidade
+infantil d'aquela antiga adivinha: «Branco é, galinha o põe»!
+
+Ponha se o snr. dr. Th. Braga no lugar do pseudo-trovador, imagíne que
+resolvia arquitectar uma écloga cheia de _inconfidências_, e diga-nos,
+com franqueza, se, desejando apagar a paternidade de um tal feito,
+assinaria a sua produção com o anagrama _Theobra_?
+
+Logo os seus discípulos concluiriam, triunfalmente: «Cá temos mais um
+poema do Mestre!» E fosse lá s. ex.^a convencê-los de que não era tal o
+autor da _inconfidência_!
+
+
+*10*
+
+ «Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam
+ mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois
+ poetas, repetindo-se o mestre na decadencia.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Com o respeito devido ao professor de literatura, de modo nenhum podemos
+aceitar a sentença de s. ex.^a
+
+A _subtileza_ do snr. dr. Theóphilo Braga, proclamando que os lugares
+comuns a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da
+imitação de um discípulo do que á fusão dos dois poetas, é da natureza
+do conhecido artifício pelo qual se póde sustentar que cinco vintens não
+são um tostão, ou vice-versa!
+
+Admitindo que Cristovam Falcão tivesse sido um imitador de Bernardim,
+como quer o abalisado professor, explica-se porventura que levasse tam
+longe a sua improbidade literária, que roubasse por inteiro versos e
+cantigas ao seu mestre, com a maior desfaçatez? Pois o autor da _Carta_
+e da _Eclóga de Crisfal_, a ser um imitador, não teria o bom senso
+suficiente para reconhecer que, roubando versos de Bernardim, não
+alcançaria renome de poeta, mas o apodo de salteador literário?
+
+Um imitador, por mais inexperiente e tacanho, não se aproveita dos
+textos que imita de maneira a que lhe possam apontar os versos
+_palmados_. Ou não será isto o que a lógica permite conjecturar?
+
+Como ignoramos _os processos inductivos da critica moderna_, é possivel
+que estejamos em erro, e que da mesma ignorância resulte não alcançarmos
+o sentido das palavras do snr. dr. Theóphilo Braga quando afirma que o
+mestre (Bernardim Ribeiro) se repetiu na decadência.
+
+Que repetições? e que decadência?
+
+
+*11*
+
+ «Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de
+ Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas
+ almas, sentindo em situações differentes.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz o snr. dr.
+Theóphilo Braga na carta que, pacientemente, estamos anotando.
+
+É verdadeira esta afirmativa?
+
+--Não, não é verdadeira, e o professor do Curso Superior de Letras sabe
+muito bem que o não é.
+
+Em 1897, ao publicar a sua edição refundida do livro _Bernardim
+Ribeiro_, confrontando versos de Bernardim com os atribuidos a Cristovam
+Falcão, escreveu o professor de literatura.
+
+«Vê-se que á medida que *a situação dos amores de Bernardim Ribeiro
+seguia o mesmo desfecho dos amores de Cristovam Falcão*, os dois poetas
+communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se
+salvaram as poesias do auctor do _Crisfal_.»[6]
+
+
+Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz s. ex.^a,
+procurando agarrar-se a uma boia salvadora...
+
+Mas tanto a paixão é uma só que o snr. dr. Theóphilo Braga, na écloga em
+que Bernardim se personifica sob o nome bucólico de _Persio_, viu n'essa
+personagem *Cristovam Falcão*! E estamos em crer que o ilustre professor
+não irá agora sentencear que a écloga primeira de Bernardim tambem foi
+elaborada pelo suposto trovador...
+
+Pois se o snr. dr. Theóphilo Braga até concluiu que tanto Bernardim como
+Cristovão Falcão sofreram as agruras do _carcere privado_!
+
+Como póde suceder que o distinto escritor já se não recorde do que
+escreveu a pag. 76/78 da sua edição refundida do livro «Bernardim
+Ribeiro», arquivemos aqui algumas das suas passagens:
+
+ «...Não ignorava Bernardim que o namorado de Maria tambem estivera
+ em carcere privado:
+
+ _Vi-me já preso_; contente
+ A meu mal queria bem.
+
+ «Na Carta, que escreveu _estando preso_, e mandou áquella com quem
+ estava casado a furto, diz Christovam Falcão:
+
+ Mal cuja dor se não crê
+ de _prisão_ e de ausencia!
+ .............................
+
+ Bem se enxerga nos meus danos
+ _que estou preso ha cinco annos_,
+ afóra os que heide estar...
+
+ «Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro:
+
+ Logo então começou
+ _Seu gado a emagrecer,
+ Nunca mais d'elle curou_,
+ Foi-se-lhe todo a perder
+ Com o cuidado que cobrou.
+
+ «Em Christovam Falcão lê-se:
+
+ Crisfal não era entam
+ dos bens do mundo abastado,
+ tanto como de cuidado,
+ que por curar da paixão
+ _não curava do seu gado_.
+
+ «E continuando o parallelismo, por onde se vê que os dois poetas
+ eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais estes
+ traços com que Bernardim Ribeiro retrata o _Crisfal_:
+
+ Sentava-me em um penedo
+ Que no meio d'agua estava;
+ Então alli só e quedo
+ A minha frauta tocava.
+
+ «E no _Crisfal_, quasi pela mesma maneira:
+
+ Alli sobre uma ribeira
+ de mui alta penedia,
+
+ d'onde a agua d'alto caía,
+ dizendo d'esta maneira
+ estava a noite e o dia...
+
+ «Bastam estas comparações para se reconhecer a communhão artistica
+ entre os dois namorados poetas.»
+
+
+Depois de haver escrito o que acaba de ler-se, como se compreende que o
+snr. dr. Theóphilo Braga venha proclamar, com a maior sem-cerimónia, que
+ha _dois schemas de paixão amorosa que se não confundem_!
+
+Quanto a _Fauno_, nome pastoril que, em uma das éclogas, Bernardim dá ao
+seu amigo, confidente e colega Francisco de Sá de Miranda, quer o snr.
+dr. Theóphilo Braga que seja a personificação do próprio B.
+Ribeiro,--talvez para não confessar que nós acertamos na interpretação
+apresentada no _Poeta Crisfal_.
+
+Temos certa curiosidade em saber se na futura refundição do livro sobre
+os poetas bucolistas o seu autor transferirá para Sá de Miranda o crisma
+de _Persio_, na impossibilidade de continuar a ver na mesma figura os
+traços de Cristovam Falcão...
+
+De uns versos de Francisco de Sá, imitando uma canção de Petrarca, já o
+ilustre professor concluiu que o amigo de Bernardim sofrera a prisão,
+por motivo de amores... É meio caminho andado para que, na fantasia de
+s. ex.^a, o douto Sá de Miranda vá tomar o pouso do derreado Falcão.
+
+A ver vamos... como dizia o cego, e cada vez via menos!
+
+
+*12*
+
+ «Através de todo o hypercriticismo, o livro sobre Bernardim revela
+ um trabalhador fervoroso, etc.»
+
+ _Carta do snr. dr. Th. Braga._
+
+
+Duas palavras apenas:
+
+A nosso juizo, aquele _através_ está a substituir, amavelmente, o
+advérbio _apesar_... É o que julgamos depreender da sequência da frase.
+
+No nosso modesto e desvalioso estudo, o snr. dr. Theóphilo Braga apenas
+viu _hipercriticismo_, o que de modo nenhum póde agradar ao historiador
+da _Litteratura Portugueza_, que só emprega os modernos processos da
+crítica scientífica,--graças aos quaes... se vê obrigado a refundir
+amiude os seus trabalhos!
+
+Continuaremos, impenitentes, a cultivar o _hipercriticismo_, deixando ao
+snr. dr. Theóphilo Braga o uso exclusivo dos seus processos, que não nos
+seduzem, com toda a franqueza o dizemos.
+
+
+
+
+IV
+
+A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal
+
+
+No seio da sociedade scientífica e litéraria, de que é ilustre
+presidente, proclamou o snr. dr. Theóphilo Braga, á porta fechada, isto
+é, em reunião privativa dos sócios d'aquela Academia, que a vida amorosa
+de Cristovam Falcão «_oscila entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data
+moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos_».
+
+Cristovam Falcão de Sousa era moço fidalgo em 1527, como se demonstra
+indubitavelmente pelo registo exarado n'um livro que existe no arquivo
+da Torre do Tombo, registo que reproduzimos com fidelidade a paginas
+168/9 do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro.
+
+Na sua erudita comunicação á Academia das Sciencias de Portugal, afirmou
+o snr. dr. Theóphilo Braga que o suposto autor do _Crisfal_ tinha _pelo
+menos 12 anos á data de 1525_...
+
+Não indicou o douto académico o documento ou _recurso histórico_, em que
+se estribava para sentencear, sem admitir réplica, que o pseudo-trovador
+tinha _pelo menos 12 anos á data de 1525_, mas é possivel que s. ex.^a
+esteja munido de concludentes provas para demonstrar a justeza da sua
+afirmativa, se alguem se lembrar de contestar-lhe tam peremptória
+opinião.
+
+Se o ilustre professor não possue a tal respeito documentos bastantes,
+póde dar-se o caso de alguem vir àmanhan, quando mais não seja para
+fazer pirraça a s. ex.^a, declarar que Cristovam Falcão de Sousa, á data
+de 1525, não era ainda nascido, ou, quando muito, teria doze mêses, e
+não 12 anos...
+
+Mas é possivel que o snr. dr. Theóphilo Braga tenha conseguido descobrir
+qualquer documento em que apoie a sua sentença. É até muito possivel!
+
+O importante, por agora, é verificar que o laureado académico fixou o
+ano do nascimento do pseudo-poeta em 1513, poucos mêses mais, poucos
+mêses menos, se a lógica não é uma cantata para adormecer meninos.
+
+Ora, sendo assim, vê-se que alguma cousa se ganhou com a publicação do
+nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, onde a paginas 176 escrevemos:
+
+«*Quanto a Cristovam Falcão de Sousa, moço fidalgo em 1527, por muito
+que se queira afastar a data do seu nascimento, não poderá esta ser
+fixada em ano anterior a 1510. Fixando-se o seu nascimento entre os anos
+de 1510 a 1515, é natural que se fique muito próximo da verdade.*»
+
+O snr. dr. Theóphilo Braga, em face do nosso estudo, escolheu o ano de
+1513, cifra que se encontra compreendida _entre 1510 a 1515_, salvo
+erro.
+
+Nós, porém, com inteira franqueza o dizemos, temos ainda suas dúvidas, e
+após recentes pesquizas, em que vamos prosseguindo, inclinamo-nos a
+ajuizar que o pseudo-_ultimo eco do alaúde_ ainda não era nascido no ano
+de 1516...
+
+Mas, para aclarar este ponto de capital importância, aguardemos a nova
+versão que o snr. dr. Theóphilo Braga tem na forja sobre os poetas
+bucolistas.
+
+Além de ter modificado a sua antiga doutrina sobre a epoca em que
+floresceu o falso _Crisfal_, na sua comunicação ao grémio literário a
+cujos destinos preside, o snr. dr. Theóphilo determinou que a vida
+amorosa do homenzinho oscilara *entre 1525 e 1526*,--isto é no período
+ingénuo e viçoso dos doze para os treze anos, quando a suposta mulher
+amada pelo Xpouão contaria, na melhor das hipóteses, as suas fagueiras e
+menineiras dez primaveras...
+
+Mas, decorrido menos de um mês sobre a comunicação... scientífica, o
+egrégio conferente emendou este seu parecer, como se verá quando
+analisarmos o artigo epigrafado _Movimento litterario_.
+
+Segundo o extrato publicado no jornal «O Mundo», que condizia com os de
+outras gazetas, o snr. dr. Theóphilo Braga «_evidenciou que na ecloga
+«Crisfal» transpareciam diversas situações da vida de Cristovam
+Falcão_.»
+
+Infelizmente, os jornaes não nos forneceram qualquer pormenor
+elucidativo sobre a referida _evidenciação_, pelo que ficamos, com
+verdadeiro pesar, privados de reconhecer a maneira engenhosa pela qual o
+distincto professor de literatura conseguiu demonstrar, _urbi et orbi_,
+que na magoada écloga de Bernardim Ribeiro transpareciam _diversas
+situações da vida de Cristovam Falcão_.
+
+É possivel, porém, que na próxima futura refundição do seu livro sobre
+os bucolistas, o snr. dr. Theóphilo Braga inclua um largo capítulo em
+que trate o assunto com o devido desenvolvimento, completando o extrato
+que os jornaes fizeram da sua apreciavel comunicação, com o que
+preencherá uma sensivel lacuna. Oxalá assim suceda.
+
+Terminou o conferente a sua palestra por invocar, mais uma vez, Diogo do
+Couto e Gaspar Frutuoso; e mais uma vez afirmou que as duas
+individualidades (Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão de Sousa) _não
+podem jàmais confundir-se_.
+
+Perfeitamente de acordo, n'esta parte, com o venerado professor!
+
+Cristovam Falcão, o iletrado autor das _Quartas_, não póde jàmais
+confundir-se com Bernardim Ribeiro, o mavioso autor da _Carta_ e da
+_Ecloga de Crisfal_...
+
+Pelo que, implicitamente, fica demonstrado que nós não temos dúvida em
+adoptar uma ou outra das conclusões do presidente da Academia das
+Sciencias de Portugal, apesar de todo o nosso hipercriticismo, como está
+vendo o nosso _prezadíssimo amigo_!
+
+
+
+
+V
+
+O artigo «Movimento litterário»
+
+
+Como os leitores viram, pela reprodução que fizemos no primeiro capítulo
+d'este trabalho, no artigo que publicamos nas colunas do diário «A
+Lucta», sob a epigrafe: «_Os processos... scientificos do snr. dr.
+Theóphilo Braga_», salientámos várias inexactidões contidas no capcioso
+desarrazoado que o professor do Curso Superior de Letras estampou no
+jornal «O Dia», a pretexto de dar notícia do movimento literário
+português no ano de 1908.
+
+Não insistiremos sobre os pontos já visados, embora prestassem o flanco
+a mais largas considerações, mas nem o tempo nos é sobejo nem tam pouco
+desejamos abusar da benevolência dos que nos lêem, prolongando
+demasiadamente este comentário desenfastiado e despretencioso ás
+refutações embrogliadoras e falhas de sinceridade do snr. dr. Theóphilo
+Braga.
+
+Sem a publicação do artigo _Movimento litterário_, aguardariamos
+pacientemente a futura refundição do livro consagrado ao estudo dos
+poetas bucolistas pelo egrégio professor, e só em face das novas
+exegeses fantasiadas pelo snr. dr. Theóphilo Braga viriamos a público
+dizer o que se nos oferecesse, defendendo, o melhor que soubessemos e
+pudessemos, as conclusões que apresentámos no nosso trabalho sobre o
+_Poeta Crisfal_.
+
+Não o quis assim o distinto escritor açoreano. Seja feita a sua vontade!
+
+
+*1*
+
+ «...o snr. Delfim Guimarães publicava o seu livro _Bernardim
+ Ribeiro--O Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido da biographia
+ do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a
+ significarem os factos que imagina.»
+
+ _Do artigo «Movimento Litterario_.»
+
+
+Na opinião soberana do consagrado professor, no nosso livro sobre
+Bernardim Ribeiro resumimos o _já sabido_ da biografia do autor da
+_Menina e moça_, e forçámos interpretações de versos a significar os
+factos que imaginámos!
+
+Tem carradas de razão o implacavel crítico quando proclama, desdenhoso,
+que nós resumimos o que já era sabido da biografia do grande poeta
+bucolista.
+
+Resumimos quanto pudemos, exageradamente talvez, o que _já era sabido_
+da biografia de Bernardim Ribeiro, mas muito de propósito assim
+procedemos, para que ninguem, em face do nosso trabalho, pudesse dizer
+com justiça que fôra nosso intento fazer substituir no mercado o livro
+do snr. dr. Theóphilo Braga pelo nosso.
+
+É certo que nos poderiamos ter conduzido pela mesma fórma adoptada pelo
+consciencioso escritor ao _resumir_ no seu _Garrett_ o trabalho
+desenvolvido de Gomes de Amorim, mas não quisemos seguir semelhante
+conduta, muito embora pudessemos invocar, como modêlo, o exemplo que nos
+fornecia o historiador da *Litteratura Portugueza*.
+
+Não quisemos enveredar por esse caminho, e não estamos arrependidos,
+apesar do remoque com que fomos alvejados. Cada qual segue os processos
+que muito bem entende, mais em harmonia com o seu temperamento ou
+educação.
+
+Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, é um facto; mas tivemos
+o cuidado de não aproveitar aquela descoberta mais que problemática que
+localizou a _Quinta dos Lobos_ na _Quinta da Piedade_, em Sintra, e nem
+por um momento nos passou pela cabeça perfilhar as palavras do snr. dr.
+Theóphilo Braga quando vê «*a persistencia do elemento mauresco, na
+paixão exaltada do poeta e no calor surprehendente da sua
+linguagem*».[7]
+
+Não seguimos tam pouco na esteira do eminente exegeta quando s. ex.^a
+pinta, ao sabor da sua fantasia rocamboliana, Bernardim Ribeiro:
+«*moreno, fino e enchuto de carnes, com a perdição no olhar e a
+fatalidade invencivel no amor*.»[8]
+
+Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, alto e bom som o
+declaramos; mas alguns erros tivemos ocasião de apontar ao biógrafo
+ilustre do autor da _Menina e moça_, para que os corrija, querendo, nas
+futuras edições, pelo que nenhum agradecimento nos deve, seja dito.
+
+Que teria perdido o renome universal do Mestre em se mostrar, não
+diremos mais benevolente, mas mais justo? Oh! o positivismo!...
+
+Mas assevera o snr. dr. Theóphilo Braga que nós *forçamos interpretações
+de versos a significarem os factos que imaginamos*!
+
+Onde viu s. ex.^a essas interpretações forçadas?
+
+Tendo-as visto, por que motivo não veio indicá-las em público, para
+exautoração do nosso _hipercriticismo_, para maior glória do seu
+laureado nome, para mais intenso fulgor da nossa História literária?
+
+Forçâmos interpretações de versos!
+
+Se o professor de literatura estivesse de boa fé, e entendesse realmente
+que nós haviamos errado a interpretação de versos de Bernardim, que lhe
+competia fazer, que lhe cumpria fazer?
+
+--Indicar-nos onde haviamos errado, fazendo-nos ver que estavamos em
+erro; e quando s. ex.^a nos convencesse da razão das suas corrigendas,
+ou reprimendas, acredite o snr. dr. Theóphilo Braga que havia de ver-nos
+confessar, com honestidade, sem o menor rebuço, que tinhamos errado, e
+não fugiriamos a apregoar que o ilustre censor nos aplicara umas
+palmatoadas merecidas.
+
+Mas quando mesmo (o que não está demonstrado) tivessemos incorrido em
+erros ao interpretar versos de Bernardim, tinha, porventura, o snr. dr.
+Theóphilo Braga a precisa autoridade para os apontar por aquela fórma
+agressiva, com semelhante crueza?
+
+--Não tinha. S. ex.^a não póde arguir quem quer que seja de _forçar
+interpretações_, porque ninguem como o professor do Curso Superior de
+Letras é useiro em amoldar interpretações de versos ao sabor da sua
+imaginação.
+
+Para que ninguem nos incrimine de injustos para com o snr. dr. Theóphilo
+Braga, vamos demonstrar com exemplos colhidos em obras do Mestre algumas
+_interpretações_ bizarras, que oferecemos ao critério dos que nos lêem:
+
+N'uma das éclogas de Bernardim Ribeiro, o poeta bucolista, referindo-se
+a uma visita que lhe fez o seu amigo Sá de Miranda, escreveu a narrar o
+facto:
+
+
+ .......................
+ e neste mêo chegou
+ um pastor seu conhecido,
+ e que dormia cuidou.
+
+ Franco de Sandovir era
+ o seu nome, e buscava
+ [~u]a frauta que perdera,
+ que elle mais que a si amava.
+ Este era aquelle pastor
+ a quem Celia muito amou,
+ ninfa do maior primor
+ que em Mondego se banhou,
+ e que cantava melhor.
+
+Veja-se como o snr. dr. Theóphilo Braga anotou estes versos:
+
+
+ «*Deve entender-se que foi o pastor, que se banhou no Mondego, e
+ não Celia, como pode inferir-se*.»
+
+ _Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 49_
+
+
+ * * * * *
+
+
+Na écloga em que Bernardim adoptou o criptónimo _Crisfal_, descreve o
+poeta a aparição da mulher amada, que vê em sonho
+
+
+ vestida de *arenoso*,
+
+
+ou seja de amarelo, a côr simbólica do pesar ou desespero, o que
+qualquer bronco namorado de aldeia sertaneja não ignora.
+
+Pois o snr. dr. Theóphilo, querendo fazer da mulher amada por _Crisfal_
+uma freira cisterciense, interpretou a passagem aludida pela seguinte
+maneira:
+
+
+ «*Crisfal viu a sua Maria vestida de côr de arenoso, ou do habito
+ amarellado da Ordem cisterciense*...»
+
+ _Obras de Christovam Falcão, p. 11_
+
+
+Ora o hábito da Ordem de Cister não era amarelado, mas branco!
+
+Não obstante, seguindo o mesmo critério, o distinto professor tambem
+quis reivindicar para o suposto poeta Falcão a paternidade de uma poesia
+de Bernardim Ribeiro consagrada a _uma senhora que se vestiu de
+amarelo_...
+
+
+ Té aqui me pude enganar,
+ mas agora que podeis
+ trazer a *côr do pesar*
+ pera mim só a trazeis...
+
+
+que o snr. dr. Theóphilo Braga comentou pelo seguinte processo
+_inductivo_:
+
+
+ «*Ora o amarello só podia ser côr de pezar no caso de representar a
+ cúgula cisterciense; e em vista dos factos sabidos, só estava no
+ caso de escrever esta cantiga Christovam Falcão, e não Bernardim
+ Ribeiro pelo que se sabe da sua vida*.»
+
+ _Obras de Christovam Falcão, p. 12_
+
+
+Mas, felizmente para a memória do poeta bucolista, a poesia em questão
+foi uma das que o benemérito Garcia de Rèsende reproduziu no Cancioneiro
+Geral, publicado em 1516, quando Cristovam Falcão de Sousa... ainda
+andava de coeiros, se é que já pertencia ao numero dos vivos...
+
+Ora que distinção concederia o ilustre professor áquele dos seus
+discípulos que, interrogado sobre a _côr branca_ do cavalo de Napoleão
+1.^o, lhe respondesse que o sobredito imperial cavalo _branco_... era
+_amarelo_?
+
+
+ * * * * *
+
+
+Em uma das suas éclogas, o poeta-filósofo Sá de Miranda, aludindo ao
+Amor, causa da desventura do seu camarada Bernardim Ribeiro, expressa-se
+por esta fórma:
+
+
+ Amor burlando vá, muerto me deja;
+ Tiene de que por cierto; a su merced
+ Como de señor vine; armó la red,
+ Puso me en prision dura, ende me aqueja;
+ Cada ora mas se aleja
+ De mi, mucho cruel. Quien me desmiente?
+ Ah que lo saben todos! quien ganó
+ El precio de la lucha, ese perdió!
+ Enemigo señor que tal consiente!
+
+
+Pois no Amor, no travesso, inconstante e cruel Cupido, o snr. dr.
+Theóphilo viu nada menos que a personificação do favorito d'el-rei D.
+João III, D. António de Ataíde, conde da Castanheira!
+
+Para que os leitores não julguem que fomos nós que interpretamos mal
+quaesquer palavras do arguto exegeta, reproduzimos a sua anotação:
+
+
+ «...*aquelle retrato do inimigo senhor que tal consente, bem se
+ parece com o omnipotente valido o conde da Castanheira*.»
+
+ _Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 206_
+
+
+ * * * * *
+
+
+Por um recente trabalho do nosso estimado camarada Hemetério Arantes
+sobre Frei Agostinho da Cruz, já os leitores não ignoram que o professor
+do curso Superior de Letras fez de *um gato bravo... uma cavalgadura*, e
+do *Monte do Lobo... um lobo* carniceiro que devorou, chamando-lhe um
+figo, a sobredita cuja cavalgadura!
+
+Para fechar esta exposição, referiremos ainda mais um interessante
+episódio exegético da obra do Mestre:
+
+Em uma das poesias líricas de Luis de Camões, alude o grande poeta á
+desventura que desde a infância o perseguia, como se vê dos seguintes
+magoados versos:
+
+
+ Foi minha ama uma fera; que o destino
+ Não quis que mulher fosse a que tivesse
+ Tal nome para mi, nem haveria.
+ Assi criado fui porque bebesse
+ O veneno amoroso de menino...
+
+
+de que tambem se conhece a seguinte variante:
+
+
+ Por ama tive [~u]a fera, que o destino
+ Não quis que melhor fosse a que tivesse
+ Para o que elle de mi fazer queria...
+
+
+Em face da segunda versão, concluiu o snr. dr. Theóphilo Braga,
+arguciosa e sibilinamente:
+
+
+ «*Esta versão tira todo o sentido figurado á antecedente, e d'aqui
+ se conclue, que Camões fora amamentado por uma alimaria, etc.*»
+
+ _Historia de Camões, Parte II, Livro II, p. 564_
+
+
+Esta ideia verdadeiramente original de interpretar os versos de Camões,
+dando-lhe por ama uma *alimária*, ou seja uma cavalgadura ou uma besta,
+corre parelhas com a interpretação dada á _gineta_ de Frei Agostinho da
+Cruz.
+
+Não se póde dizer que o eminente professor faça de um argueiro um
+cavaleiro, mas não ha a menor dúvida de que s. ex.^a transforma um gato
+bravo e uma brava ama de leite... em cavalgaduras!
+
+Pelo que respeita á ama de Camões, o que vale ao snr. dr. Theóphilo
+Braga é o facto do nosso grande épico não poder, com facilidade,
+escapulir-se do túmulo em que repousa no Panteão dos Jerónimos, _si vera
+est fama_! De contrário, o _Trincafortes_ era capaz de fazer uma das
+suas.
+
+
+Parece-nos que fica suficientemente demonstrado quem é que fórça
+interpretações de versos alheios a significarem aquilo que imagina...
+
+
+*2*
+
+ «Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela
+ impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro
+ e os de Christovam Falcão--«dois poetas de temperamento semelhante,
+ com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes
+ episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos
+ versos absolutamente eguaes.»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»_
+
+
+Pela transcrição que o snr. dr. Theóphilo Braga indica, póde alguem
+acreditar que foram realmente aquelas as palavras por nós empregadas no
+nosso estudo. Não foram. O ilustre professor modificou a seu bel-prazer
+o que nós escrevemos, que se lê a paginas 6 do nosso livro sobre
+Bernardim:
+
+
+«Muito embora o temperamento dos dois poetas fosse semelhante, mesmo
+muito semelhante, e eguaes as influências e educações literárias que
+houvessem recebido; embora fossem eguaes os episódios dos seus
+infortunados amores, é estranho que por fórma tam absolutamente
+semelhante traduzissem o seu sentir, revelassem o seu temperamento
+artístico, chegando a empregar versos absolutamente eguaes! etc.».
+
+
+Porque não reproduziu, _fielmente_, o snr. dr. Theóphilo Braga aquilo
+que escrevemos? Estranha maneira de exercer a crítica... moderna!
+
+
+*3*
+
+ «D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o?
+ Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falcão como uma
+ lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de
+ _Crisfal_ indo buscar á tôa ás palavras _Crisma falsa_,
+ tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante
+ Bernardim Ribeiro.»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»_
+
+
+Afirma o snr. dr. Theóphilo Braga que consideramos a individualidade
+poética de Cristovam Falcão como uma lenda estúpida formada pelos
+genealogistas... Onde encontrou s. ex.^a a base em que firma a sua menos
+verdadeira afirmativa?
+
+Vamos reproduzir o que escrevemos a paginas 9/10 do nosso livro, para
+desfazer a arbitrária interpretação do venerado professor.
+
+
+ «Cotejámos então as referências de Bernardim a Francisco de Sá com
+ a alusão que na écloga de _Crisfal_ haviamos interpretado como
+ visando esse poeta, e qual não foi a nossa alegria, a nossa viva
+ satisfação ao reconhecer que os versos de _Crisfal_ que alvejavam
+ Miranda condiziam perfeitamente com as referências das éclogas de
+ Bernardim ao seu grande amigo e confidente! Não condiziam apenas:
+ completavam, aclaravam, a nosso ver, essas alusões.
+
+ «Fez-se então uma grande luz no nosso espírito. Não se tratava de
+ dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador.
+ Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ eram um ùnico poeta. O trovador
+ Cristovam Falcão era o produto de uma lenda nascida da
+ interpretação dada pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_.
+
+ «E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, lá estavam
+ os dizeres alusivos á ecloga de _Crisfal_ da edição de Colónia,
+ revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphánio
+ Dias: «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, _ao que parece aludir_
+ o nome da mesma écloga.»
+
+ «_Que dizem ser_... _ao que parece aludir_...
+
+ «Isto, a nossos olhos, era decisivo. «Os editores de 1559 das obras
+ de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois
+ viemos a apurar, tinham registado com relação á écloga uma fábula
+ que devia datar da primeira edição das _Trovas de Crisfal_, etc.»
+
+
+O que nós dissemos, pois, e isso sustentâmos, é que a individualidade
+poética de Cristovam Falcão nascera da errada interpretação prestada
+pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_,--fábula que os editores de 1554 e 1559
+das obras de Bernardim Ribeiro tinham registado, _sob reservas_.
+
+Como haviamos nós de propalar terem sido os genealogistas que formaram a
+lenda, se os genealogistas, depois de 1554 e 1559, é que foram buscar as
+_tradições vagas_ recolhidas pelos editores de Bernardim?
+
+Onde estão os genealogistas anteriores ás edições de Ferrara e de
+Colónia que se fizessem éco da fábula do _Crisfal_?
+
+Ah! malfadados _processos inductivos da crítica moderna_!
+
+
+Diz o snr. dr. Theóphilo Braga que nós fomos buscar _á tôa_ as primeiras
+sílabas das palavras _Crisma_ e _falso_ para a nosso alvedrio designarem
+Bernardim Ribeiro!
+
+Não foi _á tôa_, como inculca o nosso acerbo censor, que conseguimos
+apurar a constituição do criptónimo _Crisfal_; e que não foi á tôa
+sabe-o muito bem o implacavel critico, que não deixou de ler, e que até
+a reproduziu, a explicação que sobre tal facto demos:
+
+
+ «Alcançada a convicção de que _Crisfal_ era um anagrama de
+ Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas
+ produções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com
+ um pequeno trabalho de raciocínio não nos foi dificil deduzir a
+ constituição do criptograma, que era formado pelas primeiras
+ sílabas das palavras _Crisma_ e _Falso_.»
+
+
+E corroborando estes dizeres do prólogo do nosso livro (p. 10),
+escrevemos mais adeante (p. 82/83) ao tratar da interpretação da écloga
+atribuida ao suposto _Crisfal_, Cristovam:
+
+
+ «Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta écloga das
+ palavras _Crisma_ e _Falso_, de que aproveitou as primeiras
+ sílabas, formando assim a palavra _Crisfal_.
+
+ «Os nomes pastoris que figuram n'esta écloga, obedecendo á ideia
+ que fundamentou a composição, são todos êles _crismas falsos_,
+ sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta pôs
+ em scena, o que deu lugar a erradíssimas interpretações,
+ contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do
+ próprio anagrama _Crisfal_, que foi tomado como deduzido dos nomes
+ de Cristovam Falcão.»
+
+
+Não foi á tôa mas seguindo uma orientação criteriosa, que alcançámos a
+verdade, que nenhuma subtileza conseguirá destruir já agora.
+
+Outro-tanto não se póde dizer da maneira pela qual o snr. dr. Theóphilo
+Braga conseguiu, por exemplo: decretar os *cantos de ledino, estampar
+como documento do século XVI um apócrifo contendo versos do século
+XVIII, e fazer Camões bacharel formado... em latim pela Universidade de
+Coimbra*!
+
+Se nós, invocando esses precedentes, ousassemos retorquir que _á tôa_
+costumava proceder o escritor que contraditâmos, caía-nos em cima o
+Carmo e a Trindade!
+
+_Á tôa!_... É realmente forte, e não deixa de ofender.
+
+
+*4*
+
+ «Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes
+ contidos na écloga de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes
+ como o de _Pantaleão_ Dias de Landim, seu avô, e a Joanna, que lhe
+ denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr.
+ Jordão de Freitas?»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»._
+
+
+_Lenda genealógica_, chama o snr. dr. Theóphilo Braga á lenda do
+_Crisfal_, como se fossem os genealogistas que a inventassem, quando s.
+ex.^a muito bem sabe que estes não tiveram tal primasia... O caso está
+sobejamente debatido, e por isso não vale a pena perder mais tempo com
+tam ruim defunto.
+
+Tratemos do _Pantaleão_...
+
+Na eclóga de _Crisfal_, refere se Bernardim ao _Val de Pantaleão_...
+
+O snr. dr. Theóphilo Braga, interpretando erradamente uma passagem da
+_Pedatura_ do genealogista Alão de Moraes, em que se mencionava o
+casamento de uma parenta remota de Maria Brandôa com um João _Patalim_,
+escreveu a pag. 344 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_:
+
+
+ «Pelo Manuscripto já citado de Alão de Moraes acha-se noticia do
+ aqui chamado _Val de Pantaleão_: D. Joanna, tia avó de D. Maria
+ Brandão, casara a primeira vez com João _Pantalião_; etc.»
+
+
+No nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, desfizemos esse erro,
+escrevendo a pag. 159:
+
+
+ «O ilustre professor equivocou-se na leitura do texto. Não se trata
+ de nenhum João _Pantalião_, como erradamente leu, mas sim de um
+ João _Patalim_, que é o que se lê no manuscrito de Alão de Moraes,
+ como verificámos por nossos próprios olhos.»
+
+
+Desfeita essa interpretação, não se dá o snr. dr. Theóphilo Braga por
+vencido, e vae agarrar-se a um avoengo de Maria Brandôa para justificar
+a referência ao _Val de Pantaleão_...
+
+Quanto á _Joana_, o caso não é menos interessante...
+
+Vejamos o que, no seu _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ (pag. 342),
+escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga em 1897:
+
+
+ «Esta Joanna, que denunciou os amores de Crisfal e Maria, era D.
+ Joanna Pereira, sua irmã mais velha; Maria era a mais nova, de
+ cinco filhos que tinha o Contador João Brandão.»
+
+
+Foi esta mais uma _gaffe_ em que o snr. dr. Theóphilo incorreu, por
+haver confiado demasiadamente nos créditos do genealogista Alão de
+Moraes.
+
+A pag. 162 do nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, desfizemos esse erro,
+escrevendo:
+
+
+ «Maria Brandão, a lendária amada do _Crisfal_, não teve nenhuma
+ irman! era filha única!»
+
+
+Em face da corrigenda, o distinto escritor não se sentiu com coragem
+para sentencear que Joana era irman natural de Maria Brandôa, mas
+procurou arranjar (iamos a escrever _á tôa_, mas não tivemos coragem)
+outra Joana, e, á primeira que encontrou á mão, chamou-a em seu auxílio.
+
+Dera-se o caso de o snr. Jordão de Freitas, distinto funcionário da
+biblioteca da Ajuda, no louvavel empenho de auxiliar aqueles que
+quisessem discutir a questão literária suscitada pelo nosso livro,
+publicar no «Diario de Noticias» o resultado das suas pesquizas nos
+arquivos, reproduzindo quanto julgou interessante para o estudo do
+problema.
+
+Fez s. ex.^a menção de uma parenta de Maria Brandôa com o nome de
+Joana...
+
+Como um naufrago, que se agarra á primeira táboa que lobriga ao alcance
+da mão, o snr. dr. Theóphilo agarrou-se (no bom sentido da palavra, bem
+entendido!) á sobre-dita Joana, e, radiante de contentamento,
+exclamou:--«Estou salvo!»
+
+E, julgando-se, realmente, salvo da rascada, escreveu ufano:
+
+
+ «...a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima,
+ como o notou o sr. Jordão de Freitas.»
+
+
+A esse engano de alma, ledo e cego, foi arrancá-lo o snr. Jordão,
+desapiedadamente na carta que, a propósito, dirigiu ao «Dia», e de que
+reproduziremos a parte essencial:
+
+
+ «O sr. dr. Theóphilo Braga equivocou-se na sua referencia a Joanna
+ e ao que diz ter sido notado por mim.
+
+ .................................................................
+
+
+ ...tive unicamente em vista assentar que Joanna Brandão não era tia
+ avó de Maria Brandão, como erroneamente escrevera o sr. dr.
+ Theophilo Braga, mas sim sua prima remota.
+
+ «Tão remota, direi agora, que era neta de um irmão (Diogo Lopes
+ Brandão) do 4.^o avô (Gonçalo Brandão) de Maria Brandão
+ (Bibliotheca Real da Ajuda, 49-XII-28, pag. 259).
+
+ «Sendo assim, nem é presumivel que aquella chegasse a viver no
+ tempo de Maria Brandoa, quanto mais que andasse a pastorear com
+ ella, etc.»[9]
+
+
+Veremos, depois de este insucésso, que nova Joana nos apresentará na
+primeira oportunidade o distinto escritor...
+
+Quem sabe se a Joana do _Crisfal_ não teria sido aquela encantadora
+Joaninha dos olhos verdes, que tanto enfeitiçou Garrett... Mas não; em
+caso contrário o autor das _Viagens_ não deixaria de mencionar essa
+circunstância!
+
+ * * * * *
+
+Na estrofe de Bernardim Ribeiro, na écloga _Crisfal_, em que a amada do
+poeta se refere a ter passado para o _casal da Figueira_ do _Val de
+Pantaleão_, designações que a nosso ver disfarçam, sob _falsos crismas_,
+os nomes verdadeiros da casa e localidade para onde se transferiu,
+talvez após o casamento, a decantada _Aonia_, encontra-se, nítida, a
+alusão á ultima entrevista dos namorados:
+
+
+ «Quando contigo falei
+ aquela ultima vez,
+ o choro que então chorei,
+ que o teu chorar me fez,
+ nunca o esquecerei.
+ Foi esta a vez derradeira,
+ mas começo de paixão,
+ passando-me eu então
+ pera o casal da Figueira
+ do Val de Pantalião.»
+
+
+Achamos interessante reproduzir, n'esta altura, do capítulo XXVIII da
+_Menina e moça_, os periodos referentes á ultima entrevista de
+_Bimnarder e Aonia_ para que os leitores, com maior facilidade, possam
+orientar o seu juizo, verificando a absoluta identidade entre as duas
+produções de Bernardim Ribeiro:
+
+
+«...Buscando achaque de querer lá ir pera detraz das casas, levando Enis
+consigo, ouve tempo pera Aonia entrar onde elle (Bimnarder) estava então
+deitado, escontra a outra parte da parede, chorando, porque não vira
+Aonia ao passar, que bem se podera elle erguer. E como isto perdera,
+cuidava tambem que avia de perder a tornada; porque um mal nunca lhe
+viera sem outro; pelo que estava no maior pranto do mundo, antre si.
+
+«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que elle chorava, e
+suspirava baixo, de maneira que como, naquello, se forçava a si mesmo.
+
+«Ella, para ver se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber
+d'elle, deteve-se ainda mais; mas elle, com pensamentos muitos, que
+sobrevinham ao choro, mais o acrescentava do que o diminuia.
+
+«Assentando-se então Aonia na borda d'aquella sua pobre cama, lhe pôs a
+mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o
+espirito.
+
+«Virando-se Bimnarder, e vendo a, tambem lhe faleceu o seu.
+
+«Estiveram assi ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro:
+e elle, com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão,
+que, em se virando Birmnarder, tomou vergonha. Levando-os assi á terra,
+cobriu-se-lhe o seu fermoso rosto de uma tamalavez de côr, alem da
+natural; e soía dizer meu pae (que parte d'esta historia em seu tempo se
+soubera) que não parecia se não que viera aquella côr como por ajudar
+ainda Aonia escontra Bimnarder, tam formosa a ella, formosa, fizera.
+
+«Mas, estando assi nisto elles ambos, e não estando elles ambos ali,
+chegou Enis muito rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a
+mandavam chamar.
+
+«Assi, foi forçado levantar-se Aonia, e ir se, e Bimnarder ver tudo, e
+ficar.
+
+«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma
+manga de sua camisa, e, rompendo-a, pera remedio de suas lagrimas lh'a
+deu, significando, na maneira só de como lha deu, o pera que lh'a dava;
+que parece que a dor grande que sentia não lh'o deixou dizer por
+palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só
+assi:
+
+--«Pesa-me, pois a minha ventura ou desaventura, não quis que eu vos
+deixasse de magoar com o que eu não quisera.»--
+
+«E estas palavras lhe disse já fora da porta.
+
+«E com ellas, e com o que sentiu ao dizer d'ellas, duas e duas, lhe
+começaram as lagrimas a correr dos seus fermosos olhos, e, pelas suas
+faces fermosas abaixo, lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que
+Bimnarder a tanto pranto convidou quanta era a rezão d'elle, pois perdia
+a vista.
+
+«Foi tanto o choro, que não lhe abastavam os seus olhos ás suas
+lagrimas...»
+
+
+*5*
+
+ «Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados
+ com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180
+ da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de
+ Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão;»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»._
+
+
+É com verdadeiro pesar que vemos o encanecido trabalhador recorrer a
+processos como o que ressalta da afirmação que deixamos transcrita, só
+pela caturrice de não querer confessar que errou...
+
+O leitor desprevenido ficou julgando, certamente, por honra da firma que
+subscrevia o artigo _Movimento litterario_, que na livraria do Conde de
+Vimieiro tinham existido _os manuscritos conhecidos de Bernardim
+Ribeiro_, que _andavam ligados com os de Christovam Falcão_...
+
+Pois, se tal ficou julgando, enganou-se redondamente.
+
+O snr. dr. Theóphilo Braga adulterou a verdade dos factos, procurando
+talvez iludir-se a si proprio, pois não podemos admitir que s. ex.^a
+imaginasse, por tal processo, mistificar alguem. É até possivel,
+muitissimo provavel mesmo, que o ilustre escritor não pesasse
+devidamente as palavras de que se serviu, e que assim incorresse, na
+melhor boa fé, n'uma indesculpavel inexactidão.
+
+Vejamos onde o snr. dr. Theóphilo Braga foi fazer a descoberta preciosa
+dos _manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro_...
+
+Ao n.^o 180 do catalogo da Livraria do Conde de Vimieiro, como consta do
+tomo V da _Colleçam dos documentos, e memorias da Academia Real da
+Historia Portugueza_.
+
+O distinto professor não indicou a _fonte_, certamente por lapso, mas
+nós conseguimos descobri-la sem carecer do auxílio de _dunguinha_.
+
+Ouçamos agora a conferência do Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de
+Menezes, em relação ao codice N.^o 180:
+
+
+ «Tem o volume que examinei 287 folhas, as quaes nos primeiros
+ numeros eram 330, porem as que lhe faltão, parecem mudadas para
+ outras Collecções, e sendo a letra, e papel de duzentos annos de
+ antiguidade, pois a folhas 122 se acabão as noticias com a morte
+ del Rei D. Manoel, que foi a 13 de Dezembro de 1521; se conserva
+ este manuscripto inteiro, e em bom estado.......................
+
+ (Traz a divisão do livro em 5 partes e segue:
+
+ «A segunda divisão deste livro consiste em algumas Memorias de
+ successos raros de Europa, como são uma carta del Rei Ludovico de
+ Hungria para o Emperador na ultima batalha que deu ao Turco, uma
+ Relação dos infelizes principios de Luthero, e outros. Seguem-se
+ cartas de homens celebres d'aquelle tempo pelo seu engenho, e
+ graça, que entre as alusões jocoserias descobrem memorias
+ particulares: deste genero são sete de Antonio Ribeiro Chiado, duas
+ de Lourenço de Caceres, e outros. As obras em prosa, e verso de
+ Francisco de Sá de Miranda, as de Bernardim Ribeiro, Christovão
+ Falcão, André Soares, Francisco de Moraes, Gil Vicente, Duarte de
+ Oliveira, o Barão D. Diogo Lobo, e outros Poetas antigos, servem de
+ verificar as varias lições das impressas, e de restituir as
+ manuscriptas.»[10]
+
+
+Como se vê, por uma fórma irrefragavel, não se tratava dos manuscritos
+conhecidos de Bernardim Ribeiro, como não se tratava egualmente de
+manuscritos de Cristovam Falcão...
+
+Tratava-se de uma miscelánea manuscrita, em prosa e verso, que continha
+produções de vários poetas, e, entre essas, as que se atribuiam ao
+suposto _Crisfal_. A simples citação do nome de Cr. Falcão logo após o
+de Bernardim não bastará para se ajuizar que no manuscrito havia cópia
+das poesias que nas obras de B. Ribeiro vinham atribuidas, sob reservas,
+ao suposto trovador?
+
+Se nós, para documentarmos o nosso livro _Bernardim Ribeiro_, tivessemos
+recorrido a expedientes semelhantes, como não seriamos julgados pelo
+snr. dr. Theóphilo!
+
+
+*6*
+
+ «tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues
+ examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em
+ que vinham a _Menina e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e
+ até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, do que se
+ faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dicc.
+ Bibliog._)»
+
+ _Do artigo «Movimento litterario»._
+
+
+O arcediago do Barreiro, invocado pelo snr. dr. Theóphilo Braga, era o
+arcediago do Barroso, cujos apontamentos manuscritos foram explorados
+por Innocencio.
+
+Vejamos o que o benemérito bibliófilo escreveu a pag. 379 do seu
+_Diccionario Bibliographico portuguez_:
+
+
+ «Nos apontamentos manuscriptos do arcediago de Barroso Jeronymo
+ José Rodrigues, de que já outras vezes me aproveitei n'este volume,
+ encontro ácerca do auctor da _Menina e moça_ o trecho que se segue:
+
+
+ «As obras de Bernaldim Ribeiro (que assim se acha escripto o seu
+ nome no manuscripto que lemos, e assim diz Nicolau Antonio na
+ _Bibl. Hispanica_, que vulgarmente era chamado) por sua muita
+ raridade são difficeis de encontrar, e duvidamos que se hajam
+ impresso todas. A _Bibl. Lus._ faz só menção da Menina e moça, ou
+ _Saudades de Bernardim Ribeiro_. Além das impressões que alli cita,
+ que são tres, faz Nicolau Antonio menção de uma, impressa em Lisboa
+ em 1559, em 8.^o, que em tudo tem muita semilhança com o
+ manuscripto, que tivemos alguns tempos em nossa mão, e que vamos
+ aqui extractar. O titulo em nada desmente do que traz a _Bibl.
+ Hisp._, e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão,
+ de que se faz menção n'este mesmo logar de Nicolau Antonio.--O
+ titulo que se lê no manuscripto é: _Historia da Menina e moça, por
+ Bernaldim Ribeiro_. Principia: «_Menina e moça me levaram de casa
+ de minha may para muito longe_», e acaba: «_Com demasiada ira disse
+ contra a Donzela que ho aly trouxera estas palavras_». Consta de
+ historia em prosa, e inclue em alguns lugares poesias de gosto são
+ e pura linguagem, etc. E além da historia, acham-se no manuscripto
+ duas eclogas de que o abbade Barbosa talvez não teve noticia. Na
+ primeira são interlocutores Persio e Fauno; principia: «_Nas selvas
+ junto do mar_», e consta de trinta e quatro estancias de dez versos
+ cada uma.--Na segunda são interlocutores Jano e Franco, principia:
+ «Dizem que havia um pastor», e acaba: «Tambem tempo é tormento.»
+
+ «De tudo o que diz aqui o arcediago de Barroso concluo, que não só
+ elle ignorou a existencia da moderna edição da _Menina e moça_,
+ feita em Lisboa no anno de 1785, mas tambem só conheceu de nome as
+ edições anteriores sem que lograsse ter presente algumas d'ellas,
+ pois que a tel-as visto, nenhuma novidade encontraria nas duas
+ éclogas que cita do tal manuscripto, onde pelo que se mostra
+ faltavam todas as outras já então impressas.»
+
+
+Não conheceu Innocencio a edição das obras de Bernardim Ribeiro
+publicada em Ferrara em 1554, porque se a houvesse conhecido logo
+concluiria que o manuscrito examinado pelo arcediago de Barroso outra
+cousa não era mais do que uma cópia incompleta d'essa edição.
+
+Ignora o, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga?
+
+Se o não ignora, para que veio a público com a citação incompleta da
+passagem do Diccionário de Innocêncio?
+
+Bom serviço prestou o arcediago de Barroso trasladando o período inicial
+na novela na edição de 1554, conforme o manuscrito que teve entre mãos:
+«Menina e moça me levaram de casa de minha may...»
+
+
+*7*
+
+ «Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de
+ Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos
+ como os encontraram?»
+
+ _Do artigo «Movimento litterario»_.
+
+
+Chamámos ineptos aos editores das obras de Bernardim Ribeiro, e que não
+erramos em nossa apreciação demonstra-o evidentemente o próprio snr. dr.
+Theóphilo Braga, quando na carta que nos escreveu, referindo-se ás
+edições de Ferrara e de Colónia, diz terem sido feitas _por curiosos sem
+critério litterário_.
+
+Se esses curiosos não fossem ineptos, podia porventura o ilustre
+professor negar-lhes _critério_?
+
+As rúbricas da edição de Colónia, em 1559, são reprodução das de 1554,
+como o snr. dr. Theóphilo Braga não desconhece.
+
+Pertencem as rúbricas da edição de 1554 ao seu editor ou este não fez
+mais do que reproduzi-las da primeira edição?
+
+Sem que seja conhecida a edição principe das obras de Bernardim Ribeiro,
+não é possivel aclarar este ponto, mas o que ninguem póde dizer com
+autoridade é que taes rúbricas: «que dizem ser... ao que parece
+aludir...» pertencessem aos manuscritos do infortunado Bernardim.
+
+«Por terem reproduzido _esses textos_ manuscriptos como os encontraram»,
+escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga, procurando incutir que taes edições
+foram feitas sobre os manuscritos pertencentes ao Conde de Vimieiro e
+sobre o outro examinado pelo arcediago do Barroso!
+
+A primeira edição das obras do poeta bucolista resultou dos manuscritos
+de Bernardim Ribeiro, recolhidos após a morte do apaixonado cantor de
+Joana, ou no ultimo período da sua desventurada existência, e dados á
+estampa por qualquer curioso sem critério literário...
+
+E proclamando isto, que representa a expressão do nosso sentir pessoal,
+estamos convencidos de que está com a nossa opinião o snr. dr. Theóphilo
+Braga, que sempre tem sustentado que as edições das obras de Bernardim
+se fizeram sobre os manuscritos encontrados no seu espólio....
+
+Mudará s. ex.^a de orientação? Até prova em contrário, não acreditamos.
+
+
+*8*
+
+ «...o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta...»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»_
+
+
+«_Grande descoberta_», é como o snr. dr. Theóphilo Braga chama,
+ironicamente, ao resultado dos nossos trabalhos... Pequena ou grande
+descoberta, o facto é que està de pé, não conseguindo o abalisado
+professor destrui-la.
+
+Compreendemos bem que isso seja pouco agradavel a s. ex.^a, que tanto se
+havia empenhado em pôr um pedregulho sobre o caso do poeta _Crisfal_,
+mas nós, só pelo prazer de ser agradaveis ao ilustre escritor, é que não
+vamos ressuscitar o trovador Cristovam Falcão. Deixá-lo dormir em paz,
+serenamente.
+
+Quanto a descobertas grandes, lembra-nos citar uma que _in illo tempore_
+fez o snr. dr. Theóphilo Braga...
+
+Dirigia o distinto poeta snr. Joaquim de Araujo uma publicação
+camoneana, cujo título nos não ocorre.
+
+Vae se não quando recebe uma comunicação do snr. dr. Theóphilo Braga...
+Uma descoberta importante... Nada menos que um parente ignorado do
+grande épico Luis de Camões.
+
+Chamava-se o homem _Pero Camões_, segundo o ilustre professor lera,
+radiante, em determinado texto...
+
+Pois, senhores, na volta do correio, Joaquim de Araujo prevenia
+generosamente o Mestre de que este errara a leitura do texto... O _Pero
+Camões_ do snr. dr. Theóphilo Braga era um simples e inofensivo *pero
+camoês*!
+
+
+*9*
+
+ «No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas,
+ proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
+ inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia.»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»_
+
+
+Por esta fórma pouco... _generosa_ se referiu o snr. dr. Theóphilo Braga
+ás palavras de caloroso elogio com que o ilustre escritor snr. José
+Pereira Sampaio, em carta publicada no «Diario da Tarde», do Porto,
+valorizou com o prestígio do seu nome o fruto do nosso trabalho.
+
+Contra a injusta apreciação do professor do Curso Superior de Letras, já
+lavrámos o nosso protesto, de amigos e admiradores de _Bruno_, no artigo
+que publicámos na «Lucta» e que vae transcrito no primeiro capítulo
+d'este livro.
+
+Quando mesmo, o que não sucede, o ilustre escritor portuense estivesse
+em erro, era digna de todo o respeito a sua opinião, e não seria nunca o
+snr. dr. Theóphilo Braga, com a sua consciente falta de sinceridade,
+quem teria direito para o arguir pela maneira insólita por que o fez.
+
+Será, porventura, o _positivismo_ inimigo inconciliavel da Justiça?
+
+
+*10*
+
+ «A verdadeira descoberta pertence ao snr. Braancamp Freire
+ determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão
+ Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que
+ existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do
+ Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527
+ refere se a Christovam Falcão, com a tença de moço fidalgo leva a
+ deduzir que nascera em 1512.»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»_
+
+
+Fixa o snr. dr. Theóphilo em 1530 os amores do suposto poeta com a sua
+suposta amada Maria Brandôa.
+
+Muito bem.
+
+Admitindo que assim fosse, só depois de 1530 Cristovam Falcão poderia
+ter produzido a _Carta_ e a _Écloga_ que lhe foram atribuidas...
+
+Ora como podia isto ser, em face dos _processos inductivos da critica
+moderna_, tam preconizados pelo snr. dr. Theóphilo Braga?
+
+Ouçamos a lição autorizada do ilustre professor, que se lê a pag. 4 da
+sua chamada edição das obras de Cristovam Falcão:
+
+
+ «*Se Christovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de
+ Miranda propagou as fórmas da poetica italiana, teria então
+ adoptado o verso endecasyllabo, a fórma da OUTAVA e do TERCETO, o
+ SONETO, e teria perdido o conceito provençalesco dos poetas que
+ seguiam o INFERNO DO AMOR; Falcão desconheceu esta nova poetica.*»
+
+
+Pela mesma maneira se exprimiu o snr. dr. Theóphilo Braga na sua edição
+de _Bernardim Ribeiro e os Bucolistas_.
+
+Repudia s. ex.^a o que com tanta clareza e precisão deixou estampado?
+
+Seria caso para invocar o _era, não era, andava lavrando_...
+
+Para o nascimento do pseudo-trovador, escolhe o snr. dr. Theóphilo
+Braga, em ultima análise, a data de 1512, sem se lembrar talvez de que
+por essa fórma caía em contradição consigo proprio...
+
+Vejamos:
+
+Na carta que nos dirigiu, escreveu o distincto escritor:
+
+«...D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, _sendo ambos muito
+crianças_...»
+
+Ora tendo Cristovam nascido em 1512, como afirma o snr. dr. Theóphilo
+Braga, e fixando-se as suas relações amorosas em 1530, como quer s.
+ex.^a, tinha o mancebo quando começou a namoriscar os seus dezoito anos
+seguros...
+
+A um rapazola de 18 anos ninguem com propriedade poderá classificar de
+_muito creança_, a não ser por troça,--salvo melhor opinião.
+
+
+*11*
+
+ «Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Cristovão
+ Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos,
+ corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim.»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»_
+
+
+Não só corrigimos a interpretação das eclogas I e III de Bernardim
+Ribeiro como todas as outras do desventurado poeta... Mas o snr. dr.
+Theóphilo Braga entende em seu alto critério que só ha a corrigir as
+duas que citou, e essa correcção reserva-se s. ex. fazê-la, certamente.
+Aguardemos a futura refundição do livro sobre os bucolistas, para
+ajuizarmos da fertilidade inventiva do ilustre professor,--_de fantasia
+fertil em combinações_, no dizer autorizado da senhora D. Carolina
+Michaëlis.
+
+
+*12*
+
+ «Os logares comuns a Cristovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a
+ distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já
+ era admirado, cujos versos, Camões, na sua carta de Africa
+ intercalava na sua prosa.»
+
+ _Do artigo «Movimento litterário»_
+
+
+Como comentário único, permitir nos-emos endereçar algumas perguntas ao
+snr. dr. Theóphilo Braga:
+
+Estando Bernardim Ribeiro louco no ano de 1532, como o próprio snr. dr.
+Theóphilo tem sustentado, como explica o ilustre professor que no
+espólio do poeta bucolista fossem encontradas as composições atribuidas
+ao falso Crisfal?
+
+Na edição refundida do seu livro sobre os bucolistas, em 1897, o snr.
+dr. Theóphilo Braga explicou o facto da seguinte maneira:
+
+
+«...*os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este
+modo que se salvaram as poesias do auctor do Crisfal.*»
+
+
+Ora não podendo o abalisado professor continuar persistindo em que
+Bernardim Ribeiro teve por amigo e confidente Cristovam Falcão de Sousa,
+como poderá s. ex.^a explicar que entre os manuscritos legados por
+Bernardim se encontrassem as composições do... _último eco do alaúde_?
+
+Para prevenir qualquer subtiliza de argumentação, é conveniente não
+esquecer s. ex.^a que na écloga _Crisfal_ se encontram lugares comuns a
+todas as éclogas de Bernardim Ribeiro e á própria novela _Menina e
+moça_.
+
+E não esquecer egualmente que, após a publicação do nosso estudo sobre o
+_Poeta Crisfal_, já o snr. dr. Theóphilo Braga foi obrigado a reconhecer
+que: não podia continuar a admittir _as relações pessoaes de Cristovam
+Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de
+amor com um rapaz no viço da mocidade_.
+
+Bernardim nasceu em _1482_, é bom não olvidar tambem.
+
+Cristovam Falcão de Sousa nasceu em... _1512_, conforme a ultima versão
+apresentada pelo articulista do _Movimento litterário_.
+
+Os amores de Falcão e Maria Brandôa foram fixados pelo snr. dr.
+Theóphilo Braga, em ultima análise, no ano de _1530_.
+
+Ora na _Carta de Crisfal_, fala o poeta na prisão de amor que está
+sofrendo _ha cinco anos_... Logo, ou não ha lógica, uma das composições
+do suposto trovador foi elaborada pelo ano da graça de _1535_, quando
+Bernardim havia já três anos que fôra ferido pela desgraça que o levou
+ao hospital de Todos os Santos, onde veio a acabar seus desventurados
+dias em _1552_.
+
+Consignado o que fica exposto, aguardemos a resposta ás perguntas atrás
+formuladas, e, para fechar o capítulo, façamos nossos os seguintes
+versos de Bernardim:
+
+
+ Baste o que tenho dito
+ pera aver, por galardão,
+ tres regras de vossa mão,
+ pera resposta das quaes
+ ......... fique o mais
+ que aqui escrever devera,
+ se o escrever podera.
+
+
+
+
+VI
+
+Uma patranha genealógica
+
+
+Seguindo a lição de vários genealogistas, démos curso, no nosso estudo
+sobre Bernardim Ribeiro, á atoarda que fazia Cristovam Falcão de Sousa
+descendente de certo John Falconet, cavalheiro inglês que viera para o
+nosso país na comitiva da desposada d'el-rei D. João I, Filipa de
+Lencastre. Antes de nós, os snrs. Epiphánio Dias e dr. Theóphilo Braga
+haviam incorrido no mesmo erro.
+
+Publicado o nosso trabalho, honrou-nos o erudito escritor sr. Anselmo
+Braamcamp Freire com o seguinte esclarecimento, que registamos com
+prazer:
+
+
+ «...Julgo-me obrigado a advertil-o que publiquei um documento no
+ _Archivo histórico_, suficiente para destruir a petarola inventada
+ pelos genealogistas dos Falcões descenderem do tal Falconet.
+ Catorze anos antes deste chegar a Portugal já existiam Falcões,
+ proprietarios em Evora, e vassalos de D. Fernando (_Arch. hist._
+ III, 407.) É uma minucia que não influe em nada no seu têma; mas,
+ repito, entendo dever meu avisál-o».
+
+
+Não será este, certamente, o único erro em que teremos incorrido no
+nosso trabalho, e de que nos penitenciâmos sem a menor relutância.
+
+Errar é próprio dos homens, como afirma o conhecido aforismo latino; o
+que é condenavel é persistir no erro.
+
+Não temos a estulta vaidade de haver produzido um trabalho sem defeitos,
+e de bom grado aceitaremos as correcções que nos ministrarem, e com que
+o nosso critério se conforme. Somos incapazes de persistir n'um erro por
+simples capricho de amor-próprio, indesculpavel em assuntos de natureza
+_histórica_.
+
+Bem presentes conservâmos as palavras sensatíssimas do professor
+bracarense Pereira Caldas: «Em _história_, ha sempre que discutir,
+sempre que examinar, sempre que emendar, sempre que aditar.»
+
+
+
+
+VII
+
+O criptónimo «Fileno»
+
+
+No numero do jornal _O Dia_, de 15 de dezembro de 1908, consagrou-nos o
+conceituado filólogo, snr. A. R. Gonçalves Viana, uma das suas
+interessantes _Palestras filológicas_.
+
+É aquela que vamos registar, e que em seguida comentaremos:
+
+
+ «Delfim Guimarães, no seu livro recentemente publicado, e que faz
+ honra á erudição portuguesa, com o titulo *Bernardim Ribeiro*, e o
+ sub titulo *O poeta Crisfal*, aventa a idea de que o criptónimo
+ _Fileno_ seja o disfarce do adjectivo _felino_, latim _felinus_,
+ procedente do substantivo _felis_, «gato», por alusão ao apelido
+ _Gato_, do marido de Joana Tavares, sua apaixonada.
+
+ «Não se pode aceitar esta origem do dito nome, porque tal adjectivo
+ não existia em português ao tempo do poeta. É êle modernissimo na
+ lingua, pois nem Bluteau o incluiu no seu *Vocabulario portuguez e
+ latino*, nem mesmo no próprio *Diccionario portuguez* de Morais e
+ Silva figura tal adjectivo atè á 3.^a edição, feita no anno de
+ 1823, «correcta e acrescentada.» Vê-se pois que a introdução do
+ vocabulo _felino_ é não só posterior, e muito, ao século XV, mas
+ até aos começos do XIX, e que o poeta o desconhecia portanto.
+
+ «Assim, pois, o nome Fileno, masculino, foi talvez fabricado
+ conforme o femenino Filene, que os gregos usaram, e cujo radical
+ será o de _Filipe_, por exemplo.»
+
+
+Em primeiro lugar agradecemos ao snr. Gonçalves Viana o cumprimento
+amabilissimo com que nos penhorou, que muito bem sabemos representar uma
+gentileza, que não um acto de justiça. A benevolência usada para
+comnosco por s. ex.^a motivou um remoque do snr. dr. Theóphilo Braga, do
+que resulta tornar se ainda maior a nossa dívida de reconhecimento para
+com o sábio poliglota, o que temos a peito deixar registado nas páginas
+d'este trabalho.
+
+Consignado isto, digamos o que se nos oferece sobre a _palestra_
+motivada pelo nosso livro:
+
+Coube ao snr. visconde de Sanches de Baena a interpretação do nome
+_Fileno_ como criptónimo de _Felino_, em alusão a *Pero Gato*, que o
+referido titular apresenta como marido de Joana (_Aonia_).
+
+Nós não acreditamos na existência do Pero Gato do snr. Sanches de Baena,
+como com inteira franqueza deixamos exarado nas páginas do nosso
+trabalho; mas não nos repugnou admitir que o criptónimo invocado
+alvejasse a alusão a um animal felino. E assim escrevemos a pag. 87 do
+nosso estudo sobre Bernardim:
+
+«O anagrama _Fileno_ oculta, provavelmente, um individuo que tinha por
+nome, apelido ou alcunha o nome de um animal _felino_. Seria Pantaleão?
+Seria Gato? Estamos em crer que o assunto ainda poderá ser resolvido,
+como outros muitos pontos por aclarar respeitantes á vida de Bernardim.»
+
+E na mesma página, a propósito do nome de _Lor_, ou _Lor-Vão_, referido
+nalgumas edições da écloga de _Crisfal_, escrevemos nós:
+
+«Desde que se apure, *com segurança*, quem fosse o marido de Joana etc.»
+
+O não se ter ainda apurado quem fosse o feliz rival de Bernardim, não se
+nos afigura motivo para pôr de parte, por em quanto, a interpretação
+enunciada pelo snr. visconde de Sanches de Baena quanto a Fileno, aceite
+pelo snr. dr. Theóphilo Braga, e a que nós tambem demos curso, embora
+sob reservas.
+
+O facto dos antigos dicionários não fazerem menção do vocábulo _felino_
+não constitue razão para que se abandone essa hipótese, que póde não ser
+exacta, mas que é sem dúvida racional. Como o snr. Gonçalves Viana muito
+bem sabe, desde que no latim existiam os vocabulos _felis_, _felinus_,
+com o significado de _gato_, ou _respeitante a gato_, nada mais natural
+do que um escritor ter introduzido, lógicamente, o termo português
+_felino_. E ninguem poderá contestar que Bernardim Ribeiro tivesse
+envergadura sobeja para crear essa palavra. Bacharel formado em direito,
+e poeta bucolista não ignorava certamente o vocábulo latino.
+
+A ser exacta a maneira de ver do snr. Gonçalves Viana sobre semelhante
+assunto, como poderiam justificar-se tambem os numerosos neologismos com
+que Luis de Camões enriqueceu a lingoa portuguêsa?
+
+Hoje mesmo, após recentes trabalhos de dicionaristas distintos, quantos
+vocábulos portuguêses não falta ainda registar?!
+
+A hipótese, porém, que o ilustre filólogo apresenta merece ser ponderada
+devidamente, sendo até possivel que s. ex.^a tenha resolvido o problema
+quanto ao nome do marido de Joana Tavares, que poderia muito bem ter
+sido _Filipe_.
+
+N'um _pliego-suelto_ castelhano do século XVI, de que existe um exemplar
+na secção dos _Reservados_ da Biblioteca Nacional de Lisboa, ha um
+dialogo em verso entre as personagens: _Alethio_ e _Fileno_.--Aleixo e
+Filipe? Talvez!
+
+Em fim, parafraseando o que já escrevemos: Quando se apure _com
+segurança_ quem foi o marido da mulher amada por Bernardim Ribeiro,
+estarà implicitamente resolvido este problema.
+
+
+
+
+VIII
+
+In terminis
+
+
+Não estamos sós no combate que tivemos a satisfação de iniciar em prol
+da obra de Bernardim Ribeiro.
+
+Ao nosso lado contamos a individualidade cheia de prestígio do snr. José
+Pereira Sampaio, que em breve defenderá em livro tese idêntica á nossa,
+demonstrando que o Poeta Crisfal é o bucólico Bernardim.
+
+Se de estímulo carecessemos para prosseguir confiadamente na tarefa que
+nos impusemos, seria incentivo bastante o contarmos já entre aqueles que
+se confessam convencidos pelo nosso trabalho, alem de muitos outros
+espìritos esclarecidos, os nomes preeminentes dos srs. Anselmo Braamcamp
+Freire, José Caldas e dr. Sylvio Romero.
+
+Não conseguiremos nós fazer vingar em nossos dias, por uma fórma
+absoluta, a obra de justiça a que metemos hombros? Não será dada essa
+satisfação ao ilustre escritor snr. José Sampaio?
+
+--Que importa? As sementes estão lançadas, o solo não é ingrato... As
+sementes hão de vingar; a verdade triunfará, alastrando, impondo-se...
+
+Por fim, só nos resta endereçar, muito comovidamente, um aperto de mão,
+agradecido e sincero, a quantos--bons amigos, camaradas e simples
+conhecidos--nos teem bafejado com palavras de elogio e incitamento por
+motivo da publicação do livro que deu origem a este novo trabalho.
+
+
+ _Amadora, 16 de março de 1909_.
+
+
+
+
+APRECIAÇÕES DA IMPRENSA
+AO LIVRO
+"Bernardim Ribeiro
+(O POETA CRISFAL)"
+
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+(O Poeta Crisfal)
+
+
+Delfim Guimarães é um poeta e um contista que há muitos annos firmou
+brilhantemente o seu nome. Alma delicada de poeta, é, ao mesmo tempo, um
+prosador elegante e correcto que conhece a sua lingua e sabe maneja-la.
+Afastado de todas as egreginhas literarias, isento de todos os
+snobismos, sem perder tempo nos cenaculos dos cafés, Delfim Guimarães
+tem-se destacado e destaca se entre os da sua geração, sem dever nada ao
+reclamo.
+
+Admirador entusiastico, apaixonado, de Bernardim Ribeiro, Delfim
+Guimarães apurou um facto da mais alta importancia para a historia
+literaria do seu paiz:--que Christovão Falcão e Bernardim Ribeiro são
+uma mesma entidade.
+
+É essa demonstração, consciente, documentada, que o nosso amigo vem de
+fazer neste livro--_Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)_--que é digno de
+ser lido por quantos querem conhecer a historia das letras patrias.
+
+A Delfim Guimarães, os nossos parabens pelo seu valioso trabalho.
+
+ (Do jornal _O Mundo_, de 16 de Novembro de 1909)
+
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+por Delfim Guimarães
+
+
+É um livro de incontestavel valor, este que o sr. Delfim Guimarães acaba
+de publicar, editado pela Livraria Guimarães & C.^a, da rua de S. Roque.
+Fructo de um aturado e consciencioso estudo, n'elle se demonstra que
+Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ representam um unico poeta, e que
+_Crisfal_ é apenas um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das
+palavras _Crisma_ e _Falso_, não passando, portanto, de uma lenda a
+existencia do poeta Christovão Falcão. Como se vê, o assumpto d'este
+livro do laborioso e intelligente escriptor é de molde a interessar
+vivamente todos quantos se dedicam ao estudo da nossa litteratura
+patria.
+
+ (Do jornal _O Seculo_, de 16 de Novembro de 1909).
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+(O Poeta Crisfal)
+
+ _Subsidios para a história da literatura portuguesa_, por Delfim
+ Guimarães.--Lisboa, 1908. Livraria Editora Guimarães & C.^a, 274
+ pág. 800 réis.
+
+
+É o livro sensacional da semana que hoje finda. É o desabar de uma lenda
+secular. A ineptidão de uns editores quinhentistas insinuara a crença de
+que as trovas de _Crisfal_ eram de _Cristovam Falcão_, cujo nome era
+representado pelo anagrama, formado da primeira silaba do nome e a
+primeira do apelido.
+
+A lenda criou raizes; e, não obstante as hesitações e dúvidas de alguns
+criticos, ninguém, até hoje, contestara abertamente em publico a
+personalidade poética de Cristovam Falcão.
+
+Mas Delfim Guimarães, estudando Bernardim Ribeiro, editorando-lhe as
+_Saudades_, e confrontando os trabalhos dos bucolistas do século XVI,
+chegou á convicção de que, tendo havido algumas personalidades com o
+nome de Cristovam Falcão, este nome não pertencia a nenhum poéta, e as
+trovas de Crisfal eram obra de Bernardim Ribeiro.
+
+Documentando e justificando a sua convicção, acaba êle de dar á estampa
+o substancioso volume que hoje noticiamos.
+
+No prefácio da obra, expõi o autor, com a devida lealdade, as
+circunstâncias e o processo que o levaram á absoluta rejeição da
+referida lenda, e congratula-se justamente por ter agora a noticia de
+que o ponderado publicista Pereira de Sampaio (Bruno), tinha já
+adquirido convicção análoga, que esperava justificar em livro.
+
+Metodizando as provas e a documentação de que o poeta _Crisfal_ não é
+outro, senão Bernardim Ribeiro, Delfim Guimarães faz minuciosamente a
+biografia crítica do poeta, estuda e analisa a primeira edição das obras
+de Bernardim, dá nos a história e a genealogia do suposto poeta Falcão;
+e, depois, de nos dar a exegese de numerosos factos e documentos, cerra
+o seu volume com a reproducção da _Carta_ e da _Écloga_ de _Crisfal_, e
+de _três_ poesias mais de Bernardim Ribeiro, até agora ignoradas.
+
+Claro é que, de um livro de tal significado e alcance, mal se podem
+formular juizos e sentenças em meia dúzia de linhas do nosso registo
+bibliográfico; e temos de nos restringir a dar da obra ideia sumária,
+chamando para ela a atenção, e naturalmente o apreço, de quantos se
+interessam pelos mais momentosos problemas da nossa história literária.
+
+Mas remorder-nos-ia a consciência, se cerrássemos já a presente noticia,
+sem significar a Delfim Guimarães a satisfação que nos deu o seu
+melindroso e arrojado trabalho, e o encanto com que repassamos os olhos
+pelo ingénuo e delicioso bucolismo dos avoengos da poesía nacional.
+
+Formoso livro e serviço memorável.
+
+
+ Dr. Candido de Figueiredo
+
+
+ (Do _Diario de Noticias_, de Lisboa, de 28 de novembro de 1908).
+
+
+
+
+O poeta Chrisfal
+
+ _Delfim Guimarães_: Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)--Subsidios
+ para a historia da literatura portuguêsa--1908--Livraria Editora
+ Guimarães & C.^a--68, R. de S. Roque, 70--Lisboa.
+
+
+Ha uns espiritos fortes, solidos--e que tanto abundam n'esta nossa bôa
+terra de Portugal--que hão de sentir-se escandalisados com a arrogancia
+d'alguem que, contra a opinião dogmatica e ensinamento incontestado dos
+grandes Sacerdotes, se abalança a demonstrar que os bucolistas Bernardim
+Ribeiro e Chrisfal (pretenso anagramma de Christovam Falcão) são uma e
+mesma pessoa; isto é: que o glorioso auctor da 1.^a parte da novella
+pastoral «Menina e Moça» é igualmente auctor da celebre peça poetica
+conhecida pelo nome da «Egloga de Chrisfal»--n'uma palavra, que o poeta
+Christovam Falcão nunca existiu e que a maioria das composições poeticas
+que andam com o seu nome pertencem de juro e herdade ao principe do
+bucolismo entre nós, a esse surprehendente Bernardim Ribeiro, que é, em
+toda a nossa litteratura, o vaso d'eleição d'onde mais trasborda o
+sentimento augusto da alma portugueza.
+
+Mas outra raça d'espiritos não menos solidos sorrirá piedosamente (e,
+n'este caso, o sorriso é uma outra fórma de nos sentirmos
+escandalisados) perante a utilidade proxima ou longinqua que póde
+adquirir-se d'uma descoberta d'esta ordem.
+
+Que importa ao bem do individuo ou da collectividade de hoje, que uns
+versos repassados d'uma verdade sentimental, á força de sentida quasi
+incomprehensivel,--versos, demais a mais vasados n'uma trama ingenua,
+bucolica, pastoril, sejam obra d'um ou d'outro recuado quinhentista ou,
+mesmo, tenham sido levados á conta d'um lendario personagem que, como
+poeta, nunca tivesse existido, a não ser na phantasia d'uns novelleiros
+de profissão que, com o rodar do tempo, conseguiram guindar a sua
+improbidade litteraria aos pinaculos d'uma certeza irrefutavel?!
+
+Pois essa arrojada impiedade e esse improductivo bysantinismo--esse
+magno escandalo--acaba de perpetral-os o meu velho amigo Delfim
+Guimarães, poeta de verdade, infatigavel estudioso, paciente
+investigador, acurado cultista em materia litteraria, com a publicação
+do seu recente estudo «_Bernardim Ribeiro_ (_o poeta Chrisfal_)», cujo
+apparecimento estas ligeiras notas intentam celebrar.
+
+O mesmo é dizer que me não sinto com forças para, pormenorisadamente,
+passo a passo, ir vincando as passagens exegeticas d'este trabalho
+masculo e delicado que revela, no seu auctor, uma erudição e um methodo
+que eu entendo precisos n'aquelles que se propuzerem critical-o.
+
+Não é, pois, um artigo critico o que vou fazer; mas se uma affirmação
+sincera e sentida, de valor nimiamente critico, me é permittido
+accentuar desde já, eu direi: Delfim Guimarães está na verdade.
+Christovam Falcão, poeta, nunca existiu. Chrisfal é um pseudonymo de
+Bernardim Ribeiro.
+
+E isto porquê?!
+
+Porque todos os que se occupam de Falcão o dizem pessoa de
+qualidade--pertencia á primeira fidalguia portugueza, diz o sr. dr. Th.
+Braga--e, quanto ao valor do seu estro, tanto era que mereceu ser
+confundido com Bernardim Ribeiro seu amigo e confidente, quando não seu
+predecessor. Como se explica, pois, que um tão illustre personagem não
+figure no Cancioneiro de Resende, onde aliás se encontram, com tão
+assombrosa profusão, nomes que, nem pela clareza da estirpe nem pelo
+fulgor do engenho, se impunham á consideração dos posteros?!
+
+É crivel que o erudito, o dedicadissimo collector que se chamou Garcia
+de Resende--o homem, do seu tempo, que mais larga e intensamente privou
+na corte dos nossos reis--não tivesse noticia d'uma individualidade tão
+fortemente accentuada e tão parecida com o então e já apreciadissimo
+Bernardim?! Não me parece.
+
+Seria qualquer despeito, qualquer d'estas pequeninas miserias que se
+transmudavam em acerbos espinhos d'odio (e ao tempo e antes e depois e
+sempre tão vulgares!) que levariam mesquinhamente o celebre collector do
+Cancioneiro a relegar, da convivencia dos seus 351 poetas, esse illustre
+Chrisfal e ao mesmo tempo (segundo o ensinamento do sr. dr. Theophilo
+Braga) a recolher, como de Bernardim Ribeiro, versos de Falcão?!
+
+Não me parece. Gil Vicente, como é sabido, apodára cruelmente Resende, e
+nem por isso deixou de figurar no Cancioneiro.
+
+Estes simples e, quero crel-o, contestaveis argumentos levavam-me de ha
+muito, a duvidar da existencia poetica de Christovam Falcão, só muito
+mais tarde posta em fóco, entre outros, por Faria e Sousa, cujos
+_escrupulos_ de caracter são por demais conhecidos.
+
+Mas a simples argumentação sobre cancioneiros nem sempre é de colher,
+como um facto recente me leva a constatar.
+
+Ha dois annos (outomno de 1906) appareceu nas livrarias a seguinte
+publicação: _Odysséa dos Tysicos--Album de Musicas para piano e canto,
+original de Raul Pereira, sobre versos de poetas portugueses?_ É obra
+musical do sr. Raul Pereira que, á falta d'outra indicação, entendo
+dever tambem consideral-o como collector das varias poesias que o album
+encerra.
+
+A primeira d'estas poesias, posta em musica apparece sob um retrato com
+esta epigraphe: _Guilherme Braga (1845-1874)_, e tem este titulo «_A
+Jesus Crucificado_», e é como segue:
+
+
+ A Vós, correndo vou, braços sagrados
+ N'essa cruz sacrosanta descobertos
+ Que para receber-me estaes abertos
+ E, por não castigar-me, estaes cravados.
+
+ A Vós, olhos divinos eclypsados
+ De tanto sangue e lagrimas cobertos:
+ Que para perdoar-me estaes despertos
+ E por não devassar-me estaes fechados.
+
+ A Vós, pregados pés, por não fugir-me;
+ A Vós, cabeça baixa, por chamar-me;
+ A Vós, sangue vertido para ungir-me;
+
+ A Vós, lado patente, quero unir-me,
+ A Vós, cravos preciosos, quero atar-me,
+ Para ficar unido, atado e firme.
+
+
+Devo confessar que ao ler este soneto nasceram-me duvidas--muito vagas,
+é certo--sobre a sua authenticidade quanto ao nome que o firmava. E como
+não o encontrasse entre as poesias colligidas nas _Heras e Violetas_,
+assentei, á falta de melhor solução, que se tratava de uma poesia solta,
+religiosamente recolhida por pessoa intima ou admiradora convicta do
+insigne e mallogrado poeta portuense.
+
+N'isto estava, quando o acaso d'uma busca litteraria me levou a folhear,
+na Bibliotheca Publica, _O Ramalhete_, «jornal de Instrucção e Recreio»
+(2.^a série, n.^o 165, 4.^o anno) e a encontrar, a paginas 112 do vol.
+IV, o mesmissimo soneto, sem descrepancia d'uma unica palavra, sob esta
+assás curiosa rubrica:
+
+
+«_No momento derradeiro da vida humana, qual o estado de moribundo, nada
+excita amor e conforto como a doce inspiração de abraçar um crucifixo,
+unico remedio d'alma. Por este motivo fez o dr. Manuel da Nobrega o
+seguinte soneto: «A Jesus Crucificado»_».
+
+
+Portanto, teremos nós: os vindouros, que não leram o _Ramalhete_, a
+attribuir a Guilherme Braga (que, segundo o sr. Raul Pereira, nasceu em
+1845, embora Innocencio nos diga 1843) uns versos do dr. Manuel da
+Nobrega, que vieram á estampa em 1841.
+
+Veiu isto a proposito da confiança absoluta a depositar nos
+cancioneiros. Verdade seja que entre Garcia de Resende e o sr. Raul
+Pereira (que eu não tenho a honra de conhecer), o unico elo que os
+prende deve ser, se não laboro em erro, o laço musical...
+
+Outras razões, porém, antes do trabalho de Delfim Guimarães, me levavam
+a pender para o arrocho da não existencia poetica de Christovam Falcão.
+É certo que a Renascença produzira uma eclosão genial em todos os ramos
+da vida sentimental, artistica e scientifica do occidente europeu, e que
+nós tivemos largo quinhão nas benemerencias d'esse glorioso Sol--e tão
+grande que ainda hoje d'elle vivemos. Mas é igualmente certo que, por
+grande que fosse, e foi, a prodigalidade do estro que nos coube, não era
+natural que dois vultos geniaes, a um tempo, surgissem tão parecidos,
+tão irmãos na concepção sentimental, na realisação artistica e
+até--suprema coincidencia--nos azares da vida amorosa! Delfim Guimarães
+embrenha-se em trabalhos de genealogia e de exegese litteraria,
+pacientemente cuidados, para nos infiltrar o convencimento que eu, sem
+razões de peso e sem auctoridade para as formular, de ha muito _sentia_
+da existencia d'um só poeta na obra de Bernardim e na obra de Chrisfal.
+
+É, pois, para mim um livro de consolação. Por um lado, simplifica, no
+meu espirito, um caso que se achava enredado nas malhas autoritarias,
+embora convencionaes, de nomes respeitados; por outro, entorna, no meu
+coração, o intimo, o ineffavel jubilo de ver alguem da minha estima e do
+meu tempo elevar-se tanto, pelo trabalho intelligente e probo, n'uma
+manifestação eloquente de força moral e espirito combativo de que tanto
+carecemos.
+
+E esta probidade litteraria não é coisa de pouca monta ou que alguem
+possa dispensar-se de a encarar com o mais profundo respeito, porque me
+hei de lembrar d'aquelle supremo prefacio do _Disciple_ de Paul Bourget,
+quando elle se dirige á mocidade da sua terra: _Dentro de vinte annos
+tereis em vossas mãos a fortuna d'esta velha patria, nossa mãe commum.
+Vós sereis a propria patria. Que tereis recolhido nas nossas obras?
+Pensando n'isto, não ha homem de lettras, por mais modesto que seja, que
+não deva tremer de responsabilidade_...
+
+
+ Hemeterio Arantes.
+
+ (Do _Diario Illustrado_, de 2 de dezembro de 1908).
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+(O Poeta Crisfal)
+
+ _Subsidios para a historia da litteratura portugueza_, por Delfim
+ Guimarães. 1 vol. de 278 pag. Livraria editora Guimarães & C.^a
+ 1908 Lisboa, typ. Libanio da Silva.
+
+
+A velha sentença portugueza--_o seu a seu dono_ viria muito a propósito,
+noticiando o apparecimento d'este livro, com que se pretende, e consegue
+a nosso ver, reivindicar para o nome do grande poeta quinhentista a
+autoria e a glória de differentes producções que inconscientemente
+andavam attribuidas a outros. E se não fosse a bella coragem do sr.
+Delfim Guimarães, nosso antigo e presado amigo, que sendo poeta muito
+primoroso é tambem investigador ordenado e pacientissimo, o deploravel
+engano continuar-se-ia por muito tempo, ou, peor ainda, não se
+desvaneceria jámais talvez.
+
+Entre outras, a lenda de que existira um Christovam Falcão, pretenso
+poeta de tão alto valor como Bernardim Ribeiro, e, assim, auctor tambem
+de maviosos versos, principiara a correr mundo em 1554, dois annos
+depois de fallecido este, e teria origem, parece, em certa nota posta
+n'uma edição pouco criteriosa feita n'aquelle anno, de differentes
+poesias, esparsas umas, outras logo colligidas após a morte de
+Bernardim, edição onde veem de mistura com a _Historia de Menina e
+Moça_, diversos motes, cantigas e églogas e entre estas, (diz a tal
+nota) «_h[~u]a muy nomeada e agradavel... chamada Crisfal, que dizem ser
+de Christovão Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma egloga_...»
+
+D'isto, e de outras investigações pacientemente realizadas pelo sr.
+Guimarães resulta a presumpção de provir a dita lenda principalmente
+d'aquellas vagas referencias e a allusão que o editor julgou encontrar
+em o nome de Crisfal do facto de serem as duas syllabas de que elle se
+compõe eguaes ás primeiras dos dois nomes *Cris*tóvam e *Fal*cão. Mas
+isto, que não constitue prova e não passa de mera hypothese, teria de
+cahir redondamente, quando se verificasse que esse Falcão era homem de
+poucas lettras e, portanto, incapaz de produzir trabalho de tanta valia
+como é a _Égloga de Crisfal_.
+
+E assim succederia talvez se o sr. dr. Theophilo Braga não houvesse, em
+má hora, pretendido transformar a hypothese em lei, apresentando como
+definitivamente adquirida para Falcão a paternidade d'aquella e de
+outras poesias de altissimo valor litterario.
+
+Não seguiremos o sr. Delfim Guimarães na critica acerba, se bem que
+correctissima, com que se refere a este erro do sr. dr. Theophilo Braga
+e ainda a muitos outros. Este operoso escriptor dirá de certo da sua
+justiça, não deixando, d'esta vez, mal parada a sua fama de erudito. E,
+sendo como é, sempre consciencioso nos seus trabalhos de historiador
+litterario, virá certamente á estacada, para explicar a razão do seu
+engano.
+
+Muitos outros descobrimentos são indicados n'esta valorosa
+reivindicação, não se mostrando possiveis mais duvidas a respeito da não
+existencia de Christovam Falcão, poeta, e parecendo ao contrario
+definitivamente provado que o nome de Crisfal fôra um dos muitos
+pseudónymos e anagrammas adoptados por Bernardim Ribeiro nas suas obras.
+Tambem graças ao indefesso trabalho do sr. Delfim Guimarães ficará
+pertencendo irrevogavelmente ao poeta de _Menina e moça_ não sómente a
+celebre égloga, mas ainda outras poesias attribuidas a diversos e que
+veem apontadas ou reproduzidas n'este volume.
+
+Em compensação, porém, algumas até agora emprestadas ao bucólico poeta,
+lidima gloria das lettras portuguezas, terão de passar para outros, com
+o que, seja dito de passagem, a exceptuarmos o solau[11]--_Pensando-vos
+estou filha_, que o sr. dr. Theophilo Braga deu, tambem levianamente,
+como de Bernardim, sendo aliás de Camões, nada virá a perder o nome de
+Bernardim Ribeiro--antes pelo contrario!
+
+N'este trabalho notavel do sr. Guimarães, obra de paciente investigação
+e bem disciplinado criterio, faz-se referencia a muitos outros factos
+interessantes, que nos abstêmos de contar, porque do livro apenas
+pretendemos dar rapida noticia; mas todos os elogios serão poucos a quem
+com coragem estréme veio inteirar a gloria de Bernardim Ribeiro que,
+desventuroso poeta, de uma parte d'ella havia sido espoliado.
+
+Muito agradecemos a captivante offerta de um exemplar de _Bernardim
+Ribeiro_, com que fomos brindados pelo auctor.
+
+ (Da _Mala da Europa_, de Lisboa, n.^o 669, de 6 de dezembro de 1908).
+
+
+
+
+Ainda Chrisfal
+
+
+Longe estava de ver tão depressa e amplamente confirmada a minha
+asserção de que o trabalho de Delfim Guimarães «_Bernardim Ribeiro (o
+Poeta Crisfal)_» era, para mim, um «livro de consolação», quando o
+_Diario de Noticias_ de 3 do corrente, sob a epigraphe «_Academia de
+Sciencias de Portugal_» me trouxe esse verdadeiro manjar (para lhe não
+chamar capitoso petisco...) espiritual á minha insaciavel fome de
+aprender.
+
+É como segue a passagem, que me interessa da local jornalistica em
+questão:
+
+
+«_Em seguida_ (o sr. dr. Theophilo Braga) _realisa uma communicação
+sobre Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão mostrando como a vida
+amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1565, senão n'aquella data moço
+fidalgo, e tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já idoso;
+evidencia como na Égloga transparecem diversas situações da vida de
+Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto,
+Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas
+individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida,
+não podem jámais confundir-se_».
+
+
+Eu imagino estar vendo estas palavras cahir do labio venerando, sobre a
+douta assembleia, como outras tantas perolas que, depois de serem ali
+devidamente apreciadas, resvalaram cá p'ra fóra, para o monturo anonymo,
+offerecidas em repasto magnifico aos cerdos iconoclastas.
+
+Bacorejemos, pois, as preciosas gemmas...
+
+Diz o Mestre que a _vida amorosa_ de Christovam Falcão oscilla entre
+1525 e 1565, sem ficarmos sabendo se a sua _vida poetica_ tambem oscilla
+dentro do mesmo periodo, isto é: se a actividade _amorosa_ e a
+actividade _poetica_ de Chrisfal se confundem, caminham a par-e-passo ou
+se, pelo contrario, é o amoroso que precede o vate, se este antecede o
+namorado.
+
+Eu, por mim, se alguma coisa entendo n'esta complicada psycologia, estou
+em dizer que, em geral, as duas actividades se confundem, são
+isochronas, e, segundo este criterio, Falcão só poetou com exito desde
+1525.
+
+Não póde elle, pois, ter figurado no Cancioneiro de Resende, que tem a
+data de 1516, como o sr. dr. Theophilo Braga pretendia até ha uma duzia
+d'annos atraz--opinião que depois modificou no seu trabalho, sobre
+Bernardim Ribeiro, que veio á estampa em 1897.
+
+Mas o Mestre, em 1897, deixou de lhe dar entrada no Cancioneiro pela
+subtil razão de que Chrisfal não poetára nos Serões da côrte por
+pertencer ao _ramo pobre_ dos Falcões. Lembrança exegetica que nos leva
+a concluir que todos os poetas do Cancioneiro poetaram nos ditos serões
+e demais a mais com a escarcella bem provida d'aureos recursos--embora
+muitas e muitas poesias d'aquella grandiosa collecção resvalem da
+casuistica amorosa, que é a caracteristica da poetica palaciana, para a
+lucta dos interesses em que se revela a necessidade do vil metal.
+
+Mas agora que o insigne Professor colloca a vida amorosa de Falcão entre
+1525 e 1565, pergunto eu: permanece este argumento para a sua exclusão
+do Cancioneiro ou teremos de assentar que Chrisfal n'elle não figurou
+pela simples razão de, em 1516, andar ainda com coeiros?
+
+Naturalmente teremos de optar por esta ultima versão e, portanto, pôr de
+banda a sua amisade e apregoadas confidencias com o auctor das
+_Saudades_.
+
+Fica de vez assente, pois, que Christovam Falcão não foi poeta do Seculo
+XV.
+
+Proponho-me agora provar, _currente calamo_ (como não pode deixar de ser
+tratando-se d'alguem que se não familiarisou com _os processos
+inductivos da critica moderna_... ) que Christovam Falcão tambem não foi
+poeta do Seculo XVI, como agora pretende o sr. dr. Theophilo Braga.
+
+E isto porquê?!
+
+Porque eu posso duvidar (ainda que me apodem de irreverente pedantismo)
+das, por vezes, arrojadas conclusões chronologicas do insigne Professor.
+Mais anno menos anno, mais seculo menos seculo são, para os grandes
+Generalisadores, coisas d'uma importancia mediocre. Outro tanto me não
+succede, quando a generalisação visa um assumpto basilar na essencia, no
+modo de ser do facto scientifico.
+
+E é este o caso. Cristovam Falcão foi poeta entre 1525 e 1565?!
+
+Ouçamos o sr. dr. Theophilo Braga:
+
+
+ «Se Cristovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de Miranda
+ propagou as formas da poetica italiana, teria então adoptado o verso
+ endecasyllabo, e a fórma da _outava_, do _terceto_, e trocaria pelo
+ _soneto_ o conceite provençalesco dos que ainda seguiam o typo do
+ Inferno de Amor (_Bern. Rib. e os Bucolistas_, pag. 141)».
+
+
+Na edição refundida do seu Bernardim Ribeiro, publicada em 1897, esta
+affirmação cathegorica permanece igual ou identica, como, aliás, não
+podia deixar de ser.
+
+Demos de barato que se possa ter opinião diversa da do insigne lente do
+Curso Superior de Lettras, o que ninguem póde é contrariar a _realidade
+historica_, porque, como é sabido, contra factos não ha argumentos.
+
+E esta _realidade_ diz-nos que, depois de Sá de Miranda, não houve um
+uníco poeta que não tivesse experimentado as formas petrarchinas e o
+verso heroico.
+
+Houve um dr. Antonio Ferreira que nunca em sua vida fez um verso de
+_medida velha_; houve muitos, e entre elles o proprio iniciador da
+poetica italiana, que não desdenharam a redondilha e os velhos
+agrupamentos metricos. De quem poetasse _exclusivamente_ pelos antigos
+processos... não consta.
+
+Logo, a não ser que rasguemos a _logica_ do Mestre e a _verdade_ da
+Historia, Christovam Falcão não encontra cadeira onde se sente, nem na
+vasta saleta da poesia palaciana, nem no refulgente salão do Seculo de
+Quinhentos!
+
+ * * * * *
+
+Uma passagem do meu ultimo artigo teve o condão d'excitar duas
+communicaçôes que amavelmente me foram endereçadas.
+
+A primeira, d'um amigo, que me escreve: «Sobre o soneto attribuido a
+Guilherme Braga, devo dizer-lhe que o auctor do mesmo não é o dr. Manuel
+da Nobrega, mas sim outro poeta.»
+
+Claramente, corri logo a casa d'este amigo que me aconselhou uma
+intervista com o insigne bibliophilo e bibliographo sr. Annibal
+Fernandes Thomaz, o que, para mim, foi d'um prazer espiritual, como, de
+ha muito, me não era dado gosar.
+
+Annibal Fernandes Thomaz é pessoa familiar a todos que n'este paiz se
+occupam de livros e--coisa rara!--a todos sorri, a todos mette no
+coração e em todos tem um admirador dos seus vastissimos conhecimentos
+e, o que é mais, um amigo devotado das suas grandes qualidades.
+
+Disse-lhe ao que ia; mas, como da nossa conferencia resulta uma resposta
+á segunda communicação que recebi, é bem que n'este momento aqui fique
+exarada essa communicação.
+
+Trata-se d'um bilhete-postal anonymo, e, se quebro a minha velha praxe e
+o bom-conselho de todos de lançar para os papeis inuteis esta ordem de
+documentos, é porque se trata d'um assumpto litterario e o meu
+correspondente, por qualquer razão se não querer fazer conhecido, o que
+muito me contraria. Diz assim:
+
+«O soneto que v. reproduziu no _Diario Illustrado_ tem mais de dois
+seculos. Bastava o estylo para o denunciar seiscentista; mas a prova
+positiva está em a Nova Floresta, terceiro tomo, tit. V, apopht. LIV.
+Permitta-se a um obscuro padre dizer mais. Com essa ancianidade de taes
+versos toma nova força o contra argumento de v. sobre o silencio dos
+cancioneiros a respeito de Crisfal. Na margem do soneto pag. 207, da
+edição da _Nova Floresta_ de 1759 (4.^a impressão que tenho á vista) lê
+se o nome do autor assim: _Do Doutor Manuel da Nobrega_. Quem fez um tal
+soneto, tão seriamente engenhoso, apesar do gongorismo, e tão bem
+metrificado, havia de ter mais poesias: e sendo _doutor_, não era um
+desconhecido. Que temos d'elle na _Fenix Renascida_? Quem o conhece?
+Alguns annos ha, o soneto reproduzido anónimo em muitos livros devotos,
+foi publicado em o _Novo Mensageiro do Coração de Jesus_ (revista
+piedosa mas de muita litteratura) com a indicação, que a minha memoria
+aproveitou agora, da _Nova Floresta_, e com uma nota que dizia ser o
+nome do Dr. M. Nobrega desconhecido dos bibliographos.»
+
+Vamos agora, rapidamente, ao resultado das pesquizas com Fernandes
+Thomaz.
+
+O soneto _A vós, correndo vou, braços sagrados_ encontra-se a fechar uma
+dedicatoria a «Jesus Christo Senhor Nosso Crucificado» d'um curiosissimo
+livro de 1734 intitulado «_Anacephaleosis medico theologica, moral e
+politica_, etc., etc.», obra d'um tal Bernardo Pereyra, medico do
+partido da villa do Sardoal.
+
+O meu primeiro correspondente, que conhecia o livro, attribuiu
+facilmente a Pereira a autoria do soneto, por não reparar nas palavras
+que precedem a sua reproducção, e que dizem:
+
+«...e finalmente como se consegue a gloria que é a melhor conclusão que
+se tira depois de sahir da Universidade do mundo para as Escollas do
+Céo; mas será bem, meu amoroso Jesus, _que antes de tudo diga com hum
+devoto_ que hoje para renacer do estado da culpa ao da graça, que de vós
+espero, para seguir o caminho por onde não vá precipitado, mas antes com
+a vossa direcção fortalecido!
+
+«_A vós correndo vou, braços sagrados_, etc., etc.»
+
+Mas (e vae isto em resposta ao anonymo correspondente) tanto Barbosa, na
+sua _Bibliotheca_, como Innocencio, no _Diccionario_, citam Manuel da
+Nobrega, como auctor do _Epicedio inconsolavel á morte do Ser. Principe
+de Portugal D. Theodosio que falleceu em 15 de maio de 1653_ e como
+collaborador nas _Memorias funebres de D. Maria de Athayde_ fallecida em
+22 de agosto de 1649.
+
+É livro muito interessante estas «_Memorias funebres sentidas pelos
+engenhos portugueses na morte da Senhora D. Maria de Athayde_». N'ellas
+se encontram poesias em portuguez, francez, hespanhol, italiano, latim,
+assignadas pelos nomes dos poetas mais illustres do tempo e, para não
+citar outros, bastará lembrar os de Soror Violante do Céo e D. Francisco
+Manuel de Mello.
+
+Ao que parece tratava-se d'uma extremada formosura _doublée_ (como hoje
+se diz) d'uma alma de eleição. _O Doutor Manuel de Nobrega_ concorre a
+este florilegio poetico com um soneto e uma egloga. O soneto:
+
+_Aquelle bello Sol, que amanhecia_, não desmerece, antes tem grandes
+ares de familia com o que tem sido causa d'esta palestra... algo pesada.
+
+Não quero, porém, terminal-a sem exarar o meu parecer de que o Soneto,
+embora _culterano_, tem tão pouco de _gongorico_ que Guilherme Braga, ou
+qualquer outro grande poeta de hoje, não desdenharia assignal-o, se essa
+fosse _a sua corda_.
+
+
+ Hemeterio Arantes.
+
+ (Do _Diario Illustrado_, de Lisboa, de 9 de dezembro de 1908).
+
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+(O Poeta Crisfal)
+
+ Subsidios para a Historia da literatura portuguesa, por Delfim
+ Guimarães. 1908--Liv. ed. Guimarães & C.^a Lisboa--8.^o, 274 pag.
+
+ Delfim Guimarães, Bibliographia: Prosa: _Alma Dorida_, com prefacio
+ de Teixeira Bastos, _O Rosquedo_ (scenas do Minho), _Ares do Minho_
+ (contos).--Critica litteraria: _A viagem por terra do sr. João
+ Penha_.--Verso: _Lisboa negra_, _Confidencias_, _Evangelho_, _Não!
+ mil vezes não!_, _Sim! mil vezes sim!_, _Sonho Garretteano_, _A
+ Virgem do Castello_ e _Outonaes_.--Theatro:--_Aldeia na Côrte_, de
+ collaboração com D. João da Camara. (3 actos--Th. D. Amelia),
+ _Juramento sagrado_ (1 acto, verso.--Th. D. Maria). Traduziu a
+ _Dama das Camelias_, de Dumas, filho; reviu e publicou as
+ _Saudades_ de Bernardim Ribeiro e as _Trovas de Crisfal_, do mesmo
+ auctor. Fundou e dirige a Bibliotheca Classica Popular. Collaborou
+ longo tempo na _Mala da Europa_, _Provincia_, _O Lima_, _Chronica_,
+ _etc._ Varias obras de Delfim Guimarães teem já 2.^a edição,
+ estando algumas outras exgotadas.
+
+
+Desde longos tempos até este anno 1908 da era de Xpõ, como escreviam os
+nossos velhotes, tudo era suppor que, ahi por alturas de mil quinhentos
+e tal da mesma era do Senhor, viveu, floresceu, e ninguem mais soube
+d'elle, certo _Crisfal_, poeta e namorado, que toda a gente indicava
+como sendo Christovão Falcão, um Christovão Falcão que se sabe agora
+escrever como um carreiro e ter mais erros de orthographia do que
+cabellos tinha na cabeça... se a Historia não provar que elle era
+careca. Indicava se Christovão Falcão tacteando. Para manter a suspeição
+havia só o corresponder o pseudonymo _Cris fal_ ás primeiras sylabas do
+nome do supposto poeta. Longo tempo a mentira prevaleceu e longo tempo
+os doutos acceitaram de boamente a patranha, uns supplementando-a com
+fabulações _á priori_, outros asseverando que tal era porque era e «por
+ser verdade passavam a presente que assignavam».
+
+Caminhava tudo em doce paz quando Delfim Guimarães, publicando o livro
+de que nos occupamos, desfez a lenda, tombou os castellos e pôz a cousa
+nos devidos termos. Mas vamos ao que importa.
+
+«De como e porquê Delfim Guimarães achou que _Crisfal_ não passou de um
+pseudonymo de Bernardim Ribeiro e de cousas varias que ao deante se
+verão», é um capitulo que, n'esta critica, deve interessar o leitor,
+agora que já sabe que tal _Crisfal_ nunca existiu.
+
+Delfim Guimarães é um estudioso e um devotado. Manuseia os classicos com
+a mesma curiosidade com que aguarda o ultimo livro de Anatole France ou
+o novo romance de Octave Mirbeau.
+
+Ha tempo, dirigindo uma collecção, publicou as _Saudades_ do nosso
+Bernardim, auctor que, por sua natural tristura e dulçorosidade, desde
+menino e moço mais o prendia e captivava. Tudo estaria bem até aqui se,
+mente cogitativa e emprehendedora, não scismasse em publicar uma
+Bibliotheca de Classicos animado pelo exito das _Saudades_. Uma
+Bibliotheca de vulgarisação, destinada a mostrar á alma do vulgo o
+escrinio das melhores joias dos nossos antepassados.
+
+Anteriormente uma natural curiosidade o levara a estudar os poetas que
+se apontavam como maiores amigos de Bernardim: Sá de Miranda e
+_Crisfal_, o celebrado Christovam Falcão que hoje deve ás musas a
+celebreira que por seculos desfructou,--elephante que conseguiu passar
+por canario, o animal.
+
+A extraordinaria semelhança de _Crisfal_ a Bernardim, os mesmos
+lamentos, a mesma situação amorosa, os mesmos queixumes; a ausencia
+absoluta de noticias e referencias na obra de Sá de Miranda e Bernardim
+ao poeta coevo e imitador, tudo isto deu a Delfim Guimarães a certeza de
+que _Crisfal_ e Bernardim era o mesmo, só, e altissimo poeta. Além
+d'isto nenhum documento da epocha autorisava a pôr a carapuça _Crisfal_
+em cabeça de Christovam Falcão. O mesmo editor de Bernardim, edição de
+1554, onde se acha incorporada a «Egloga chamada Crisfal» escreve,
+referindo-se-lhe: «_que dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece
+alludir ho nome da mesma Egloga».
+
+Estudado o contemporaneo Christovão Falcão, vê-se que elle era pouco
+menos de bronco e não poderia ser nunca o auctor da _Egloga_. Adquirida
+a certeza, que era _Crisfal_? E logo, deductivo, Delfim Guimarães achou
+a chave. É _crisma falso_, pois que na Egloga se move a mesma
+passionalidade de Bernardim com supositicios nomes--falsos crismas.
+
+O livro do escriptor é ilustrado com um fac-simile de uma carta do
+pretenso Christovam Falcão e acompanhado de uma arvore genealogica dos
+Falcões. De uma logica cerrada e inteligente, preciosamente documentado,
+é um trabalho collosal que dará echoantissimo nome ao seu auctor. E
+enquanto se não perder na memoria das gerações o nome do bardo amoroso,
+o triste Bernardim, o nome de Delfim Guimarães não se desacorrentará da
+gloria de ter focado com intensa luz um tão curioso e deturpado caso da
+litteratura portugueza.
+
+Lá fóra esta obra faria não só a gloria mas o nome de um trabalhador. As
+Academias levar-lhe-hiam o seu _fauteuil_ estofado, e os editores
+disputariam a honra de lhe pagar.
+
+Cá dá desgostos, nada mais.
+
+O illustre publicista José Sampaio (Bruno) chegára ás mesmas conclusões.
+Anselmo Braamcamp Freire vae publicar um trabalho curiosissimo sobre
+Maria Brandão; José Caldas é da opinião de que se achou a verdade. Quem
+resta? Carolina Michaelis, cuja opinião importa saber, e Theophilo
+Braga, que discorda.
+
+As impugnações que Delfim Guimarães fez aos livros de Theophilo estão em
+aberto. E Delfim veio com este seu trabalho não só elliminar um
+Christovam da litteratura e uma Maria das muitas Marias enamoradas, mas
+fazer luz sobre uma poesia de Camões falsamente attribuida a Bernardim
+Ribeiro, e documentar que _sómente_ Sá de Miranda foi o introductor da
+Escola Italiana em Portugal. Bernardim Ribeiro foi o introductor mas das
+novas eglogas vergilianas.
+
+Raro talento, muito estudo, aturada analyse, observação profunda e um
+grande serviço prestado á litteratura, eis como julgamos o livro
+_Bernardim Ribeiro_. Com ares impugnativos veio o sr. Jordão A. de
+Freitas no _Diario de Noticias_ carretar materiaes para o rude e
+esforçado prelio a travar-se. Não crêmos que o haja. Theophilo Braga,
+porém, que tem estado silencioso, dirá de sua justiça. O trabalho de
+Delfim Guimarães é probo e consciencioso. Merece o applauso
+incondicional de todos, e que rejubile a litteratura que ainda tem
+artistas que, fructo de seu labor, lhe dão tão bellas obras.
+
+
+ Albino Forjaz de Sampayo.
+
+ (Do jornal _A Lucta_, de Lisboa, de 16 de dezembro de 1908).
+
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+por Delfim Guimarães
+
+
+A obra que Delfim Guimarães acaba de publicar é o producto d'um lucido
+criterio aliado a uma habil quanto meticulosa investigação. Sem ser um
+erudito nem rebuscador d'archivos, Delfim Guimarães, antes de encetar
+quaesquer pesquizas, teve a maravilhosa intuição--ou elle não fosse um
+poeta--de que os admiraveis versos do _Crisfal_, desirmanados no
+decorrer do tempo da obra litteraria de Bernardim, constituiam com o
+poetico romance de _Menina e Moça_, reflexos d'um mesmo espirito,
+vibrações d'um unico coração.
+
+É que o illustre critico interpretára com verdadeiro sentimento o genio
+do infortunado poeta, levando a tal ponto a sua predilecção por elle,
+que com as _Saudades_ abrira essa galeria de publicações classicas
+portuguezas em edições populares vulgarisadas, cujo inicio no nosso meio
+litterario a Delfim Guimarães se deve.
+
+Toda aquella paixão do enternecido bucolista das _Saudades_, a fluidez
+incomparavel d'essa linguagem que é na sua simplicidade uma mimica
+d'alma e tem a harmonia d'um fio d'agua gorgolejante, tudo isso,--o
+sentimento, que é a vida na obra d'arte, Delfim Guimarães foi encontrar
+nas composições erradamente attribuidas a Cristovam Falcão.
+
+Obtida a prova subjectiva de que o poeta das _Saudades_ era o trovador
+do _Crisfal_--na realidade um criptogramma formado pelas primeiras
+syllabas das palavras _crisma_ e _falso_--o distincto escriptor encetou
+a investigação historica do que para elle fôra um presentimento e pelo
+estudo feito sobre os documentos da epoca, seu confronto e
+interpretação, conseguiu destruir n'uma argumentação irrefutavel e cheia
+de brilho, a lenda feita tradição e cimentada pelo mais auctorisado
+critico da nossa litteratura, que o trovador do _Crisfal_ nunca poderia
+ter sido Cristovam Falcão.
+
+A carta d'este moço fidalgo a D. João III, que Delfim Guimarães
+transcreve na integra e que na edição de Theophilo Braga apparecera
+deturpada, é inquestionavelmente a prova mais evidente--e outras não
+houvesse com relação a datas--de que nunca o espirito trivial que
+alinhavou aquelles periodos--se é que ali os ha--idealisaria a
+enternecida ecloga do _Crisfal_, que é ainda, a alguns seculos de
+distancia, n'esta epocha em que a arte possue riquissimos processos de
+technica e a linguagem tanto ganhou em expressão emocional,--uma soberba
+joia litteraria.
+
+Nesta obra, tão cheia de revelações, começa o auctor por fixar em bases
+positivas as _étapes_ da infortunada vida de Bernardim, desde o seu
+nascimento no Alemtejo em 1482 até á sua morte no Hospital de Todos os
+Santos, de Lisboa, em 1552, submerso nas trevas horriveis da loucura.
+Depois com o esboço dos seus amores da adolescencia e paixão tragica que
+votou a Joanna Tavares, que foi a mais intensa affeição de Bernardim e a
+inspiradora do seu triste trovar, entra-se nos capitulos da exegese,
+sendo todo o livro uma refutação completa das idéas correntes sobre a
+problematica personagem do trovador do _Crisfal_. Nêle se visionam
+muitos pontos de vista até então desconhecidos e se estabelecem novas
+pistas para norteamento dos estudiosos, as quaes, certamente, muito
+contribuirão para que todo o interessante enigma literario se desvele em
+absoluto.
+
+Nas suas curiosas investigações, fez Delfim Guimarães preciosos achados
+que denotam uma grande subtileza nas suas faculdades de critico, como a
+da poesia de Camões, erradamente atribuida a Bernardim, que se acha no
+cancioneiro de Luis Franco, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa,
+tão interessantemente descoberta, e o das tres poesias constantes d'um
+_pliego-suelto_ de 1656, da mesma Biblioteca, que o distincto escriptor
+filia com boas razões no estro de Bernardim.
+
+Mercê da linguagem castiça, tão saborosamente portugueza, de que o
+auctor se serve, assim identificada com o thema historico versado, a
+obra é por si só, e independente da maneira de vêr do auctor, o trabalho
+honesto de um escritôr que é ao mesmo tempo um artista, n'essa evocação,
+d'um tão forte relevo, das saudosas edades em que os poetas amavam mais
+sinceramente e eram menos complicados, a arte não sendo como hoje um
+_métier_ lucrativo, mas a manifestação espontanea d'um espirito no vôo
+errante da inspiração.
+
+Fecha o livro um curioso estudo sobre a vida de Cristovam Falcão e sua
+genealogia, certamente o mais completo até agora.
+
+Felicitamos Delfim Guimarães pelo seu valioso trabalho que vem deslocar
+cómodos preconceitos arreigados e abrir novos horizontes aos que se
+interessam--que são todos os portuguezes--pelo estudo da litteratura
+portugueza no periodo aureo d'esta nacionalidade.
+
+ (Do jornal _O Dia_, de Lisboa, de 9 de janeiro de 1909.)
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+(O Poeta Crisfal)
+
+
+É esta obra que perpetuará o nome do seu auctor, se bem que Delfim
+Guimarães em precedentes trabalhos litterarios tenha já adduzido sobejas
+provas para que lhe possâmos reconhecer um elevado grau de
+intelligencia.
+
+Com a publicação do volume cujo titulo encima esta noticia, o serviço
+prestado por Delfim Guimarães á historia da litteratura patria está
+sendo louvado tão extraordinariamente a ponto do sr. Albino Forjaz de
+Sampaio, primoroso chronista da _Lucta_, não ter duvida em afirmar que
+no Estrangeiro tal publicação franquearia ao seu auctor as portas d'uma
+Academia.
+
+O livro apresentado é o producto d'uma ardua tarefa em que pacientes
+faculdades de investigação, alliadas a uma singular vivacidade, removem
+com cauteloso tino os escabrosos obstaculos que tão ingrato estudo
+frequentemente depára. Por isso é que, sem receio de contradicta, nos
+afoutamos a asseverar que em Portugal ninguem melhor do que Delfim
+Guimarães conhece o periodo da historia litteraria a que o mesmo
+assumpto directamente respeita. E nem isso pode causar surpreza ao
+leitor illustrado, uma vez que a arrojada affirmativa do illustre
+publicista, que é por signal a _negação_ da existencia de Christovam
+Falcão, como trovador quinhentista, demandava um minucioso exame
+analytico a todos os documentos litterarios de então; e nisso só a mais
+escrupulosa cautella conjugada com uma aguda perspicacia, como já
+deixamos dito, poderia lograr o exito desejado.
+
+Os materiaes que Delfim Guimarães colligiu para invalidar a
+personalidade litteraria de Christovam Falcão, deixa-os elle dispersos
+nos varios capitulos do seu livro, os quaes sobrepostos uns aos outros,
+á medida que se vai avançando na leitura, introduzem em qualquer
+espirito a certeza da these que o auctor se propoz comprovar.
+
+De envolta com os persuasivos esclarecimentos allegados em prol do seu
+proposito, o auctor rectifica raciocinios errados e affirmações
+insustentaveis de Theophilo Braga, se bem que o sabor acre d'essas
+frequentes correcções seja attenuado ou neutralisado quasi pelas
+assucaradas referencias ao passado de tão incançavel trabalhador.
+
+Pelo volume a que estamos alludindo vê-se que a obra de Bernardim
+Ribeiro chegou para fazer a reputação de dous homens, vindo o nome de
+Christovam Falcão usurpar em seu proveito algumas das produções
+d'aquelle mavioso lyrico, e sendo, portanto, a sua memoria um nefasto
+saprophyta que do merito alheio foi vivendo durante um longo periodo de
+tempo. A duplicidade desapparece agora com as aturadas canceiras de
+Delfim Guimarães que assim reivindica para o grande corypheu do
+bucolismo em Portugal todos os fructos do seu prodigioso talento,
+corrigindo um erro em que os bibliophilos laboraram durante seculos.
+D'aqui resalta--e é esse um dos evidentes intuitos do auctor do livro em
+questão--o desenho da verdadeira figura de Bernardim Ribeiro, com as
+proporções proprias da sua gigantesca estatura litteraria, em cima do
+seu elevado pedestal de gloria, pedestal a que algumas pedras foram
+subtrahidas para sobre ellas figurar o ficticio vulto trovadoresco de
+Christovam Falcão.
+
+Em Portugal abundam os devotados enthusiastas de Camões e Camillo,
+apparecendo agora um ardente propugnador d'outro nome tambem illustre, a
+legitima-lo como uma das maiores glorias litterarias de que se pode
+ufanar um povo. Esse nome é Bernardim Ribeiro e entrelaçado n'elle
+apparecerá d'oravante o de Delfim Guimarães, que acaba de restituir a
+obra do immortal bucolista á sua primitiva integridade.
+
+
+ Antonio Ferreira
+
+ (Do _Commercio do Lima_, de Ponte do Lima, de 9 de Janeiro de 1909).
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+
+
+Com este titulo e o sub-titulo de _O Poeta Crisfal_, tambem o distincto
+escriptor a cujo nome, já tão merecidamente aureolado, fica feita
+referencia na rubrica anterior, publicou recentemente um interessante
+volume, apodado por esse proprio auctor de _subsidios para a historia da
+litteratura portugueza_, e que não é nem mais nem menos do que a
+demonstração a nosso vêr evidentissima, digam os _mestres_ pilhados em
+deturpação o que quizerem, de que Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ são uma
+e a mesma pessoa, não sendo _Crisfal_ pseudonimo de Christovão Falcão,
+mas sim um composto das primeiras sylabas das palavras _Crisma falso_,
+de que Bernardim Ribeiro fez uso. Percorrendo se, com olhos de ver, e
+com vontade de acertar com a demonstração explanada por Delfim
+Guimarães, todas as 200 e tantas paginas do volume em questão,
+adquire-se o convencimento de que ficaram por terra, uma a uma, «as
+pedras basilares com que o nome consagrado do sr. dr. Theóphilo Braga
+ergueu o monumento, aparentemente solido, que offertou ás lettras
+patrias, fazendo quase real, palpavel, uma miragem secular»--que dava
+_Crisfal_ como sendo Christovão Falcão, quando este não pertence senão
+ao dominio da lenda, sendo uma perfeita mystificação a sua pretendida
+existencia de litterato.
+
+O trabalho de verdadeiro erudito, que representa o livro de Delfim
+Guimarães, assignala de um modo inconfundivel o seu alto valor de
+estudioso, de investigador benemerito e de operoso trabalhador das
+nossas lettras. Felicitando-o cordealmente por esta nova prova das suas
+excepcionaes qualidades, cumprimos apenas um dever.
+
+
+ A. B.
+
+ (Do _Jornal das Colonias_, de Lisboa, de 13 janeiro de 1909).
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+
+
+Temos retardado a noticia do apparecimento d'este livro notavel do
+illustre poeta e prosador, sr. Delfim Guimarães, porque quizemos
+consagrar á sua leitura algumas horas socegadas, afim de poder estudar
+convenientemente o problema litterario que em suas paginas se debate.
+
+Esta obra é o resultado de longas e aturadas investigações e de um
+estudo conscienciosissimo, não só da obra de Bernardim Ribeiro, mas
+ainda da obra de todos os poetas, apontados como seus amigos e
+companheiros.
+
+Cotejando os versos do iniciador do lirismo portuguez com os que se
+attribuem a Cristovão Falcão, o sr. Delfim Guimarães facilmente
+reconheceu que, embora pudésse admittir-se que a educação litteraria dos
+dois poetas tivesse sido a mesma, não era possivel que as suas
+tendencias esteticas fossem por tal maneira similhantes, que os seus
+versos chegassem a confundir-se. Um d'elles teria sido seguramente o
+imitador do outro.
+
+Continuando nas suas indagações, e apreciando demoradamente a obra
+supposta contemporanea de Cristovão Falcão, notou ainda o sr. Delfim
+Guimarães que era frequente Sá de Miranda referir-se a Bernardim Ribeiro
+nas suas obras poeticas, havendo tambem allusões repetidas, nos versos
+d'este poeta, ao seu amigo e confidente. Ao auctor do _Crisfal_ não
+notou a mais leve referencia.
+
+N'aquelle bello poema havia allusões que alvejavam claramente Sá de
+Miranda, e foi do estudo attento d'essas allusões, que perfeitamente
+condiziam com as referencias das éclogas de Bernardim Ribeiro ao seu
+amigo, que resultou chegar aquelle illustre escriptor a conclusões
+inteiramente satisfatorias.
+
+A analise de varios documentos de caracter historico e juridico produziu
+no espirito do sr. Delfim Guimarães a convicção de que a personalidade
+litteraria de Cristovão Falcão não existiu, sendo a obra que se lhe
+attribue toda do autor das _Saudades_.
+
+Houve, é certo, um Cristovão Falcão de Sousa, que foi moço fidalgo em
+1527 e capitão da fortaleza de Arguim em 1545, mas este personagem, na
+opinião de Delfim Guimarães, era incapaz de escrever a mais
+insignificante das quadras de Bernardim Ribeiro.
+
+Como se vê, é realmente muito notavel este livro, que os eruditos e
+todos os que se interessam pelo movimento litterario portuguez,
+certamente deverão apreciar pela intensa luz que projecta sobre um dos
+principaes capitulos da historia da poesia nacional.
+
+(Do jornal _O Primeiro de Janeiro_, do Porto, de 20 de janeiro de 1909).
+
+
+
+
+
+«Bernardim Ribeiro»
+por Delfim Guimarães
+
+
+Não pode um povo viver sem ideal e esse ideal ha de ser como a flôr que
+firma as raizes no terreno proprio das suas tradições. O futuro ha de
+ser explicado pelo passado em que potencialmente está contido.
+
+Assim, comprehende-se quanta importancia tem para a vida intellectual e
+artistica d'um povo o conhecimento de tudo quanto se refere á evolução
+litteraria dos generos e ás condições mesologicas em que os seus grandes
+prosadores e poetas produziram monumentos de dura.
+
+É por isso que lá fóra se não considera trabalho inutil todo aquelle que
+consiste em escavar no passado, com paciencia e com intelligencia, para
+d'elle desenterrar uma ideia, uma verdade, a correcção d'uma data, a
+explicação de um texto obscuro.
+
+É sobre este trabalho á primeira vista inglorio que philosophos e
+historiadores edificam as largas syntheses, cuja necessidade é
+redundancia encarecer para a comprehensão da psychologia d'um povo.
+
+Entre nós, modernamente, nada ou quasi nada se tem feito n'esse sentido.
+Os nossos manuaes de litteratura repetem cegamente o que estava dito e
+feito, antes da descoberta dos modernos processos de critica e
+interpretação do passado.
+
+Apenas o sr. Theophilo Braga com louvavel tenacidade se tem consagrado á
+especialidade, nem sempre sendo feliz, não só pela sua tendencia a tudo
+systhematisar, forçando os factos para os encaixar nas suas concepções
+aprioristicas, mas tambem pela vastidão do assumpto que é impossivel ser
+abrangido pelo trabalho de um homem só, principalmente quando não teve
+quem lhe preparasse o terreno.
+
+Estas considerações accodem-nos a proposito do livro de Delfim
+Guimarães--BERNARDIM RIBEIRO--que representa incontestavelmente o
+acontecimento mais importante em historia litteraria do nosso tempo.
+
+O facto, que é já do dominio publico, é este: Christovão Falcão, que
+passava por auctor da ecloga «Crisfal», uma das joias da nossa
+litteratura, foi na realidade um mediocre fidalgo, incapaz de produzir
+aquella obra prima. O auctor d'esta foi, effectivamente, Bernardim
+Ribeiro, o meigo poeta das «Saudades» que serviu de modelo e estimulo a
+Luiz de Camões.
+
+O livro de Delfim Guimarães, que é um modelo de investigação paciente e
+de critica leal não deixa duvidas a tal respeito. Seria descabido aqui
+repetir os argumentos que por ora ninguem desfez em que o auctor
+fundamenta a sua sensacional descoberta.
+
+Limitamo-nos simplesmente a consignar que se Delfim Guimarães revelou
+uma extraordinaria sagacidade estabelecendo «a priori» a identidade de
+Bernardim Ribeiro e do auctor de «Crisfal», a fórma cheia de probidade
+por que procurou «a posteriori» justificar a sua opinião honra não
+sómente as suas faculdades de investigador, mas tambem o seu caracter.
+
+Quer nos parecer que, depois d'este precioso livro, a ninguem é licito
+alimentar duvidas a tal respeito. E se se perde para o quadro dos nossos
+poetas um nome, fica enriquecido e aureolado com gloria nova, mas que
+lhe pertencia o doce e encantador namorado da «Menina e Moça».
+
+A Delfim Guimarães os nossos parabens e, com elles, os nossos
+agradecimentos.
+
+ (Do _Jornal de Noticias_, do Porto, de 8 de fevereiro de 1909).
+
+
+
+
+
+Divagações
+
+I
+
+
+Só agora,--ainda que me não creiam--, só agora acaba de morrer, neste
+anno da graça de 1909, um dos grandes bucolicos da época de ouro dos
+escriptores quinhentistas!
+
+Esse macrobio das letras, Mathusalem portuguez, de nome e de nação, era,
+sem mais nem menos, Chistovam Falcão de Sousa, que, embora quatro vezes
+secular, me parece, indefinidamente vivo continuaria se não o tivessem
+acaso assassinado...
+
+Companheiro, amigo e confidente de Bernardim Ribeiro, houvera entre os
+dois, segundo Theophilo Braga, a infeliz conformidade de uma sorte
+infeliz; pois, ao passo que aquelle se desperdiçava por amores, tambem
+este por amores se perdia...
+
+As celebradas «Trovas de Chrisfal» collocavam a figura de Maria Brandão,
+«com a casta graciosidade de uma virgem de Cimabue, dentro de paisagens
+que pareciam ter os traços do pincel de Giotto»; e toda a tradição
+popular, já assignalada pelo chronista Diogo do Couto, era unanime em
+considerar esse nome de «Chrisfal» como formado das duas primeiras
+syllabas do prenome e appellido de Christovam Falcão. De outra parte, o
+poema das «Saudades», ou a «Menina e moça», de Bernardim Ribeiro,
+lembrava a desventurada paixão do poeta pelo typo feminil de Joanna
+Tavares, que elle disfarçava com o pseudonymo pastoril de «Aonia».
+
+Tão notavel se afigurava a individualidade literaria de «Chrisfal» que,
+para a illustre romanista D. Carolina Michaëlis, elle teria sido o
+creador do genero bucolico em Portugal, e Bernardim apenas o seu
+immediato imitador; mas, tambem, a semelhança entre elles era tal que,
+conforme a judiciosa observação do professor Simões Dias, «as obras de
+um podiam passar como feitas pelo outro.»
+
+E assim se devia entender e ensinar nas escolas, até que um novo
+escriptor lusitano, o sr. Delfim Guimarães, nos apparecesse com um
+trabalho recente e valioso, onde a toda luz demonstra, com grande
+escandalo dos mestres, que Christovam Falcão é, sem menos nem mais, o
+mesmo Bernardim Ribeiro, que adoptara nas «Trovas» o chris (ma) fal (so)
+de Chrisfal». E a «Maria» de taes versos tambem constituia, a seu turno,
+mais um cryptonymo de amor...
+
+Por certo que existiu Christovam Falcão, e existiu naquelles mesmos
+annos, mas o sr. Delfim Guimarães prova que semelhante personagem era um
+ignorantaço de marca.
+
+--Arranque-se-lhe, por conseguinte, e para sempre, o rutilante diadema
+de poeta com que lhe cingiram a cabeça romantica... Puramente emprestada
+era a luz que o sobredourava na historia,--luz que lhe não provinha do
+merito, senão antes da phantasia dos criticos.
+
+Em todo o caso, e emquanto houver a memoria dos homens, viverá o seu
+«renome», attribuido apenas á felicidade do «nome»...
+
+Se elle, como escriptor, morreu, ha de ser, comtudo, evocado nas obras
+de erudição, ao menos, quiçá, como testemunho de quanto podem os enganos
+e a tardia justiça dos homens.
+
+O trabalho consciencioso do sr. Delfim Guimarães honra a sua fina
+argucia, e nos leva a confiar no indefectivel juizo da historia cuja
+precaria relatividade é razão sobeja para nos empenharmos contra os
+«tortos» iniquos de que nos faça réos a precipitação ou a desidia. A
+averiguação do que pertence a cada um não transcende as raias da
+judicatura terrestre; e, para os que esperam na vida futura, parece que,
+perante o seu tribunal supremo, com jurisdicção apenas sobre o bem e o
+mal, não se levarão os problemas de preeminencia literaria, nem
+scientifica...
+
+Á posteridade é que compete extremar as glorias de cada autor; sendo
+que, muitas vezes, a injustiça ou a ignorancia dos coevos, não impedem
+que as gralhas sejam finalmente despojadas do atavio das pennas do
+pavão.
+
+Recordando o padre Manuel Bernardes o costume romano de ser punido, com
+o venablo e a nota de infamia, o legionario fanfarrão que enchia a boca
+de mentirosas façanhas, accrescenta que, se houvera de andar semelhante
+correição pelos ostentadores de engenho, muitos funccionarios exigiria a
+devida e cabal applicação da pena, que, na velha organisação militar,
+era privativa dos «tribunos». Verifica-se, porém, que, com o correr dos
+tempos, nunca faltam «tribunos» da milicia literaria, para o castigo dos
+soldados, «que blasonam falsas valentias», ou para que se desmascarem os
+miseraveis impostores da sciencia. Se até os reis, desde Homero, e, como
+dizia Camões,
+
+
+ «Dão os premios, de Ajace merecídos,
+ Á lingua vã de Ulysses fraudulenta»
+
+
+vêm mais tarde os divinos aedos, que, no tribunal dos pósteros,
+pleiteiam e ganham a causa dos que foram injustamente aggravados.
+
+Não permitte, afinal, o criterio dos competentes, que um simples
+erudito, como Ptolomeu, usurpe, inappellavelmente, a fama devida ao
+saber mathematico de Hipparcho.
+
+Este não é precisamente o caso de Christovam Falcão de Sousa, que não
+póde responder pelo erro dos que lhe enfiaram na modesta fronte uma
+corôa gloriosa de poeta. Elle, se vivo fôra, repugnaria acceitar o que a
+outrem pertencia de direito; pois, se os elogios que não merecemos, nos
+deprimem, em vez de exaltar-nos, o protesto da nossa consciencia não
+deve tardar quando aquillo que nos dão representa o resultado de uma
+espoliação alheia.
+
+Reproduzindo a carta que ainda se encontra na Torre do Tombo, o sr.
+Delfim Guimarães apurou, e deixou de manifesto, que o suposto trovador
+tinha apenas a instrucção rudimentar dos moços fidalgos do seu tempo.
+
+Se «idiotas», na accepção archaica de--«sem letras», eram, como sabemos,
+os barões da edade media, que até disso mesmo se ufanavam, a ponto
+de--«o condestavel Duguesclin nunca ter querido sujeitar-se á
+doutrinação de um mestre», nem ainda na aurora da Renascença pareceu
+melhor a cultura de certos homens, apesar de illustres.
+
+Francisco Pizarro, logar-tenente de Sua Alteza, cavalleiro da ordem de
+Santiago e conquistador do Perú, ouviu ler, deante do Grande Concelho
+dos nobres de Hespanha, a minuta do decreto que o fazia senhor de todas
+terras descobertas e por descobrir;--e, como, na expressão de Heredia,
+não pudesse assignar o protocollo,
+
+
+ «Fit sa croix, déclarant ne savoir pas écrire,
+ Mais d'un ton si autain que nul ne put en rire.»
+
+
+Á vista de tal exemplo, não ha extranhar, no gentil-homem Christavam
+Falcão, nem as faltas de grammatica, nem as de orthographia, patentes em
+sua carta a el-rei, conforme o documento que ainda se conserva na Torre
+do Tombo... Mas essas faltas e a rudeza geral do estilo são bastantes
+para que não mais o tenhamos na conta de um emulo do suave e
+melancholico Bernardim Ribeiro, autor incontestavel das «Trovas de
+Chrisfal», depois de tantos argumentos sagazmente colhidos de uma
+profunda analyse psychologica e linguistica.
+
+Um dos mais fortes indicios (aliás não aproveitado pelo sr. Delfim
+Guimarães) consiste na estrophe 77, das «Trovas», com o começo, em
+prosa, do poema das «Saudades»:
+
+
+ Por ti me vi desterrada
+ em estas estranhas terras
+ de donde eu fui criada,
+ e, por ti, antre estas serras,
+ em vida, são sepullada:
+ onde, a se me perderem
+ a frol dos annos se vão;
+ ora julga se é rezão
+ das minhas lagrimas serem
+ menos daquestas que são!
+
+
+Ha aqui uma clara allusão ao mesmo facto referido no trecho:
+
+
+«Menina e moça me levaram de casa de meu pae para longes terras; qual
+fosse então a causa daquella minha levada, era pequena, não na soube.»
+
+
+O sr. Delfim Guimarães deixa agora envolta em trevas a personalidade de
+Christovam Falcão; mas o raio de luz que deste se afasta, só serve de
+augmentar a gloria de Bernardim Bibeiro, cujo peregrino talento até hoje
+scintillava repartido pela auréola de dois nomes de poeta...
+
+
+ Silvio de Almeida.
+
+(Do jornal _O Estado de S. Paulo_, de S. Paulo, Brasil, de 29 de março
+de 1909).
+
+
+
+
+Divagações
+
+II
+
+
+Que extranha e mal debuxada figura não era a desse Christovam Falcão, a
+quem, de principio, a gente ignara, depois editores sem critica, e, por
+fim, os mesmos autorisados mestres, attribuiram a paternidade das
+«Trovas de Crisfal», sem outro algum motivo que só este, aliás, deveras
+pueril: conjugarem-se na palavra «Crisfal» as duas primeiras syllabas de
+«Christovam» e de «Falcão»!
+
+Unicamente, pois, a sorte de seu «nome» lhe grangeára o dilatado
+«renome» de quatro seculos, cheios de uma admiração que tanto (segundo o
+costume) tinha de enthusiastica, quanto mais era infundada e gratuita.
+
+Aos phantasistas nada, certo, importava que jamais fosse o ideal
+trovador, nem uma vez, referido no volumoso in-folio do «Cancioneiro» de
+«Rezende», em cujo indice se catalógam até as mediocridades pulhas
+daquelle tempo. Nem cuidaram tampouco que a sua unica pretendida obra
+lyrica (não sem causa deparada entre os papéis, que foram, de Bernardim
+Ribeiro)--versava o mesmo assumpto predilecto deste ultimo, reflectia o
+mesmo gosto da paisagem, era fundida nos moldes do mesmo estilo, vinha
+molhada pelas lagrimas da mesma dorida commoção!
+
+A todos que tenham olhos de ver, demonstra agora o sr. Delfim Guimarães,
+com miudezas de analyse, que certos passos das «Trovas», ou reproduzem
+heptasyllabos das pastoraes ribeirescas, ou correspondem a phrases
+similares do romancete das «Saudades».
+
+Deixando, porém, de lado dezenas de significativas coincidencias
+esparsas, como entre o verso da egloga 4.^a:
+
+
+ «Coitado, não sei que diga,
+
+
+e o da estrophe 21 de «Crisfal»:
+
+
+ «Mas, triste, não sei que digo»;
+
+
+eu apenas aqui darei o que não expoz o novél escriptor portuguez, ou
+aquillo que elle só levemente adduziu.
+
+Já na carta prefacial das «Trovas», cujo tom dagua chorosa nos suggere o
+«memento» do «Cancioneiro», os versos:
+
+
+ «Cuidai quanto nos quisemos,
+ e não vos possa mudar
+ dizer que vos podem dar
+ outrem que tenha mais que eu»,
+
+
+perfeitamente combinam com a 1.^a egloga:
+
+
+ «Veio ahi outro pastor ter:
+ com o que prometteu ou deu
+ se deixou delle vencer»,
+
+
+e com a «Menina e moça»:
+
+--«...succedeu, no castello, um filho de um cavalleiro muito valído e
+rico nesta terra, que por meio de vizinhos desejou Aonia por mulher»;
+
+--«...bem lhe pareceu que se não descontentaria Aonia do esposo, porque
+era bem aposto cavalleiro e dos bens do mundo abastado».
+
+Note-se, mais, que a locução--«dos bens do mundo abastado», tambem
+inserta na 2.^a bucolica, reapparece na 5.^a estrophe de «Crisfal», cujo
+introito (conforme com as eglogas 1.^a, 2.^a e 5.^a) faz das «selvas
+junto do mar» o delicioso theatro dos amores dos dois zagaes.
+
+A descripção desse local (de Sintra e de seu Val de Lobos), apenas
+esboçada no começo das «Trovas», melhor se delineia da estrophe 55 em
+deante:
+
+
+ «Vão alli grandes montanhas
+ de alguns valles abertas,
+ todas de soutos cubertas,
+ aos naturaes extranhas,
+ mas á saudade certas.
+ .......................
+ Cuberta era a fonte
+ de tam fresco arvoredo,
+ que não sei como o conte,
+ muito quieto e mui quedo,
+ por ser antre monte e monte.
+ .............................
+ Ao pé de um castanheiro
+ me pus, triste, assentado,
+ ouvindo o tom de um ribeiro.
+ Meus olhos e eu passámos
+ alli a noite em amores.
+ .............................
+ Naqueste tempo corrompe
+ a ave que chamam leal
+ o silencio do seu mal,
+ que é quando a alva rompe
+ e ao dia faz signal».
+
+
+Depois disso, abram o livro da «Menina e moça», e façam-me o favor de
+ler:
+
+«Neste «monte mais alto de todos» (que eu vim buscar pela suavidade de
+outros que nelle achei) passava eu a minha vida como podia; ora em me ir
+«pelos fundos valles que os cingem dearredor», ora em me pôr do mais
+alto delles olhar a terra como ia acabar ao mar; e depois o mar como se
+estendia logo após ella, pera acabar onde ninguem o visse».
+
+--«E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte)
+determinei ir-me pera o pé deste monte, «que d'arvoredos grandes e
+verdes ervas e deleitosas sombras» é cheio, «por onde corre um pequeno
+ribeiro» de agua de todo o anno, que nas noites caladas, o rogido delle
+faz no mais alto deste monte um «saudoso tom, que muitas vezes me tolhe
+o sono».
+
+--«Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo
+que por cima da agua se estendia, «veio pousar um rouxinol».
+
+Para completar a symetria e a belleza idyllica da pintura, nem faltou a
+esse quadro o vultinho animado da mesma «ave leal» de que nos. falavam
+as «Trovas».
+
+Quanto ao par apaixonado, a referencia da 2.^a estrophe de «Crisfal»:
+
+
+ «Sendo de pouca edade,
+ não se ver tanto sentiam
+ que o dia que se não viam,
+ se via na saudade
+ o que se ambos queriam».
+
+
+ligada á da 77:
+
+
+ «a frol dos annos se vão»,
+
+
+e á da 84:
+
+
+ «Quando vos dei a vontade,
+ inda vós ereis menina,
+ e eu de pouca edade»,
+
+
+em nada discrepa da do capitulo 18 das «Saudades» de Bernardim:
+
+
+--«...a senhora Aonia, que ainda então era donzella d'antre treze ou
+quatorze annos...»;
+
+--«...a barba um pouco espessa e um pouco crescida, que a elle traz,
+parece que é aquella a primeira ainda...»
+
+
+Em relação ao poeta, a 2.^a egloga positivamente declara que contava os
+seus vinte e um de edade quando se fez «servidor» de Aonia.
+
+Mas dos parentes desta a interesseira má vontade, que «Crisfal»
+vehemente assignala, assentou de lhe curar o coração doente de mulher
+pelo processo sedativo de um apartamento para «longes terras» (expressão
+egual da estrophe 7.^a e do 1.^o capitulo da «Menina e Moça»).
+
+Ainda na 2.^a egloga, Bernardim, que com os italianos aprendera o
+reavidado uso das allegorias de Vergilio, se manifesta como um pastor
+nascido «antre Tejo e Odiana»; e muito é para notar que nas «Trovas»
+tambem exista o mesmo verso (6.^o da 30.^a estrophe).
+
+Attingido o pegureiro (na 2.^a bucolica) do encantamento de amor,
+
+
+ «logo então começou
+ seu gado a emagrecer:
+ nunca mais delle curou.»
+
+
+E «Crisfal», outrosim (como réza a 5.^a estrophe),
+
+
+ «...por curar da paixão,
+ não curava do seu gado».
+
+
+O mesmo pensamento se exprimiu, pois, aqui, sómente com tal ou qual
+superioridade artistica, que não é a injusta superioridade de Christovam
+Falcão sobre Bernardim Ribeiro, senão antes a deste sobre si proprio, no
+progressivo burilamento da fórma impeccavel.--Mas o artista, como que
+apostado em exceder-se cada vez mais, só achou a sua melhor expressão
+esthetica quando depois insistiu, na estrophe 22:
+
+
+ «descuido matou meu gado,
+ cuidado matou a mim».
+
+
+A antithese (que tira de duas idéas oppostas a scintillação do choque de
+duas pedras) constitue quasi sempre o ultimo resultado de uma longa
+elaboração mental.
+
+Ha, na melancholia das «Saudades», um topico onde o seu autor diz que,
+já de affeito ás dores, parecia viver nellas. E tal conceito assume, na
+10.^a estrophe das «Trovas», uma formulação mais abstracta e geral:
+
+
+ «O longo uso dos danos
+ se converte em natureza».
+
+
+A hypothese de «Crisfal» ser Christovam Falcão exigiria, portanto, que
+delle fosse, tambem, um simples reflector o nosso, aliás original,
+Bernardim Ribeiro; ou isso, ou, então, plagiario o outro...
+
+Gemeos intellectuaes, e ainda irmãos no infortunio de seus affectos,
+nunca se houvera visto, sequer em dois relogios, uma tão completa
+concordancia!
+
+Mas, dentre o suffocante accumulo de provas contrarias, uma, sobretudo,
+victoriosamente resalta da egloga «Alejo» de Sá de Miranda, o
+«philosopho» amigo e confidente do «ternissimo» Bernardim Ribeiro.
+
+Alli diz o Miranda, disfarçado sob o cryptonymo de «Antonio»:
+
+
+ «Vine por Ribero ver,
+ como otras vezes solia.»
+
+
+Pois bem: Esse mesmo «Antonio» apparece na estrophe 32 de «Crisfal», que
+delle assevera:
+
+
+ «Aqueste é o pastor
+ que aqui vêo buscar-me.»
+
+
+De semelhante parallelismo não ha concluir senão que «Ribero» e
+«Crisfal» representam um só e mesmo «pastor», o que vale dizer «poeta»,
+na linguagem allegorica do bucolismo.
+
+Demais:
+
+Os versos que se acham em «Alejo»:
+
+
+ «Io sonava que me via
+ entre unas cerradas breñas;
+ de una parte i de otra peñas,
+ do nunca el sol descobria»,
+
+
+traduzem no castelhano os da estrophe 7.^a das «Trovas»:
+
+
+«esconderam-me antre serras,
+onde o sol nunca era visto,»
+
+
+Ora, se (a paginas 188 de sua obra refundida sobre Sá de Miranda)
+reconhece Theophilo Braga, como todos, em «Alejo», uma segunda figura de
+Bernardim, deverá reconhecer ainda que «Crisfal», sendo «Alejo», é
+Bernardim tambem.
+
+
+A gloria do sr. Delfim Guimarães foi de haver apanhado a verdade, que
+tão fóra andava da corrente unanime do parecer dos mestres.
+
+Mas, já das muitas adhesões que elle conquistou, licito me seja destacar
+o voto preponderante da senhora dona Carolina Michaëlis de
+Vasconcellos,[12] como primeira autoridade--que ella o é--da moderna
+philologia portugueza.
+
+Tambem, no Brasil, Sylvio Romero entende que estão reivindicados, de uma
+vez, os direitos de Bernardim Ribeiro «a essa bella parte da sua obra
+que a lenda lhe andava a tirar estupidamente»...
+
+
+ Silvio de Almeida.
+
+(Do jornal _O Estado de S. Paulo_, de S. Paulo, Brasil de 5 de Abril de
+1909).
+
+
+
+
+Indice
+
+
+Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal
+
+
+
+I. Razão de ser d'este livro 5
+
+II. O snr. dr. Theóphilo Braga descobrindo a verdade, e procurando
+enterrá-la 29
+
+III. Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga 37
+
+IV. A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal 59
+
+V. O artigo «Movimento litterário» 63
+
+VI. Uma patranha genealógica 97
+
+VII. O criptónimo «Fileno» 99
+
+VIII. In terminis 103
+
+
+ * * * * *
+
+Apreciações da imprensa ao livro:
+
+
+«Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)»
+
+
+Do jornal «_O Mundo_», de Lisboa 107
+
+» » «_O Seculo_», » » 109
+
+» » «_Diario de Noticias_», de Lisboa,--artigo do snr. dr. Candido de
+Figueiredo 111
+
+» » «_Diario Illustrado_», de Lisboa,--artigos
+do snr. Hemetério Arantes 113 e 125
+
+» » «_A Mala da Europa_», de Lisboa 121
+
+» » «_A Lucta_,» de Lisboa,--artigo do snr. Albino Forjaz de Sampayo 133
+
+» » «_O Dia_», de Lisboa 139
+
+» » «_O Commercio de Lima_», de Ponte do Lima--artigo do snr. dr.
+Antonio Ferreira 143
+
+» «_Jornal das Colonias_», de Lisboa,--artigo de A. B. 147
+
+» jornal «_O Primeiro de Janeiro_», do Porto 149
+
+» «_Jornal de Noticias_», do Porto 151
+
+» jornal «_O Estado de S. Paulo_», de S. Paulo, Brasil,--artigos do snr.
+Sílvio de Almeida 155
+
+
+
+
+
+*Notas:*
+
+[1] O _normando_ é nosso.
+
+[2] Este _ponto de admiração_ pertence exclusivamente ao snr. dr.
+Theóphilo Braga.
+
+[3] T. Braga.--_Obras de Christovam Falcão_, Porto, 1871--pag. 4.
+
+[4] _Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_, pag. 180.
+
+[5] Torre do Tombo--Gaveta 20--maço 5--n.^o 10.
+
+[6] Bernardim Ribeiro e o Bucolismo, pag. 63-64.
+
+[7] _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, pag. 19.
+
+[8] _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, pag. 19.
+
+[9] Carta do snr. Jordão de Freitas no jornal «O Dia» em 2 de janeiro de
+1909.
+
+[10] Conferencia de 8 de Junho de 1725 pelo Conde da Ericeira, na
+Colleçam dos documentos e memorias da Academia Real da Historia
+Portugueza.
+
+[11] Aliás, as glosas ao solau.
+
+ _Nota de D. G._
+
+[12] Reproduzindo integralmente o artigo do nosso ilustre confrade
+brasileiro, cabe-nos o dever de declarar que a insigne romanista,
+senhora D. Carolina Michaëlis, que nós saibamos, ainda não manifestou a
+sua opinião.
+
+ _Nota de D. G._
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 12| auxilados | auxiliados |
+ |#pág. 28| impondo-a | impondo-o* |
+ |#pág. 29| Pedron | Padron* |
+ |#pág. 32| paternalmente | paternalmente,* |
+ |#pág. 38| primeiro | segundo* |
+ |#pág. 85| com o | como |
+ |#pág. 90| empenhada | empenhado |
+ |#pág. 94| com todas | como todas* |
+ |#pág. 95| Falção | Falcão* |
+ |#pág. 102| portuguesês | portuguêses |
+ |#pág. 107| Chistovão | Christovão |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+As figuras da página 34 e da página 49 estão ilegíveis, motivo pelo qual
+não foram adicionadas. Fica no entanto a sua indicação.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Theophilo braga e a lenda do crisfal, by
+Delfim Guimarães
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEOPHILO BRAGA E A LENDA ***
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
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+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
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+License as specified in paragraph 1.E.1.
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+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
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+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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